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You may copy it, give it away or -re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included -with this eBook or online at www.gutenberg.org - - -Title: O Primo Bazilio - Episodio Domestico - -Author: José Maria Eça de Queirós - -Release Date: June 13, 2013 [EBook #42942] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMO BAZILIO *** - - - - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões -and the Online Distributed Proofreading Team at -http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal).) - - - - - - *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste - texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso - de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final - deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. - - Rita Farinha (Junho 2013) - - - - -O PRIMO BAZILIO - - - - -PORTO: TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA -Rua da Cancella Velha, 70 - - - - -[Figura: Assinatura] - - - - -EÇA DE QUEIROZ - - -O PRIMO BAZILIO - -EPISODIO DOMESTICO - - -SEGUNDA EDIÇÃO, REVISTA - - -[Figura] - - -LIVRARIA INTERNACIONAL - -DE - -ERNESTO CHARDRON -Porto - -EUGENIO CHARDRON -Braga - -1878 - - - - -Porto: 1878--Typ. do A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62 - - - - -O PRIMO BAZILIO - - - - -I - - -Tinham dado onze horas no _cuco_ da sala de jantar. Jorge fechou o -volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na -velha _voltaire_ de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse: - ---Tu não te vaes vestir, Luiza? - ---Logo. - -Ficára sentada á mesa, a lêr _o Diario de Noticias_, no seu roupão de -manhã de fazenda preta, bordado a _soutache_, com largos botões de -madreperola; o cabello louro um pouco desmanchado, com um tom secco do -calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, -de perfil bonito; a sua pelle tinha a brancura tenra e lactea das -louras: com o cotovêlo encostado á mesa acariciava a orelha, e, no -movimento lento e suave dos seus dedos, dous anneis de rubis miudinhos -davam scintillações escarlates. - -Tinham acabado d'almoçar. - -A sala esteirada, alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a -branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um -domingo: fazia um grande calor; as duas janellas estavam cerradas, mas -sentia-se fóra o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; -havia o silencio recolhido e somnolento de manhã de missa; uma vaga -_quebreira_ amollentava, trazia desejos de séstas, ou de sombras fôfas -debaixo d'arvoredos, no campo, ao pé d'agua; nas duas gaiolas, entre -as bambinellas de cretone azulado, os canarios dormiam; um zumbido -monotono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das -chavenas sobre o assucar mal derretido, enchia toda a sala d'um rumor -dormente. - -Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa -de chita, sem collete, o jaquetão de flanella azul aberto, os olhos -no tecto, pôz-se a pensar na sua jornada ao Alemtejo. Era engenheiro -de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Evora, mais -para o sul até S. Domingos; e aquella jornada, em julho, contrariava-o -como uma interrupção, affligia-o como uma injustiça. Que massada -por um verão d'aquelles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto d'um -cavallo d'aluguel, por esses descampados do Alemtejo que não acabam -nunca, cobertos d'um rastolho escuro, abafados n'um sol baço, onde os -moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo -cozido, ouvindo em redor, na escuridão da noite torrida, grunhir as -varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janellas, passar -no ar o bafo quente das queimadas! E só! - -Tinha estado até então no ministerio, em commissão. Era a primeira vez -que se separava de Luiza; e perdia-se já em saudades d'aquella salinha, -que elle mesmo ajudára a forrar de papel novo nas vesperas do seu -casamento, e onde, depois das felicidades da noite, os seus almoços se -prolongavam em tão suaves preguiças! - -E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se -demorando, com uma ternura, n'aquelles moveis intimos, que eram do -tempo da mamã: o velho guarda-louça envidraçado, com as pratas muito -tratadas a gesso-cré, resplandecendo decorativamente; o velho painel a -oleo, tão querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam, -n'um fundo lascado, os tons avermelhados de cobre d'um bojo de -cassarola e os rosados desbotados d'um mólho de rabanetes! Defronte, na -outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido á moda de 1830, -tinha a physionomia redonda, o olho luzidio, o beiço sensual; e sobre a -sua casaca abotoada reluzia a commenda de Nossa Senhora da Conceição. -Fôra um antigo empregado do ministerio da fazenda, muito divertido, -grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mamã affirmava-lhe -«que o retrato só lhe faltava fallar». Vivera sempre n'aquella casa com -sua mãi. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz afilado, -muito apprehensiva; bebia ao jantar agua quente; e ao voltar um dia do -lausperenne da Graça, morrera de repente, sem um ai! - -Physicamente Jorge nunca se parecera com ella. Fôra sempre robusto, -d'habitos viris. Tinha os dentes admiraveis de seu pai, os seus hombros -fortes. - -De sua mãi herdára a placidez, o genio manso. Quando era estudante -na Polytechnica, ás 8 horas recolhia-se, accendia o seu candieiro -de latão, abria os seus compendios. Não frequentava botequins, nem -fazia noitadas. Só duas vezes por semana, regularmente, ia vêr uma -rapariguita costureira, a Euphrasia, que vivia ao Borratem, e nos dias -em que o Brazileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia -Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era engeitada, -e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado d'uma -pontinha de febre. Jorge achava-a _romanesca_, e censurava-lh'o. Elle, -nunca fôra sentimental: os seus condiscipulos, que liam Alfred de -Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe -_proseirão, burguez_: Jorge ria; não lhe faltava um botão nas camisas, -era muito escarolado, admirava Luiz Figuier, Bastiat e Castilho, tinha -horror a dividas, e sentia-se feliz. - -Quando sua mãi morreu, porém, começou a achar-se só: era no inverno, -e o seu quarto nas trazeiras da casa, ao sul, um pouco desamparado, -recebia as rajadas do vento na sua prolongação uivada e triste; -sobretudo á noite, quando estava debruçado sobre o compendio, os pés no -capacho, vinham-lhe melancolias languidas; estirava os braços, com o -peito cheio d'um desejo; quereria enlaçar uma cinta fina e dôce, ouvir -na casa o frou-frou d'um vestido! Decidiu casar. Conheceu Luiza, no -verão, á noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabellos louros, -pela sua maneira d'andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No -inverno seguinte foi despachado, e casou. Sebastião, o seu intimo, o -bom Sebastião, o Sebastiarrão, tinha dito, com uma oscillação grave da -cabeça, esfregando vagarosamente as mãos: - ---Casou no ar! casou um bocado no ar! - -Mas Luiza, a Luizinha, sahiu muito boa dona de casa: tinha cuidados -muito sympathicos nos seus arranjos; era aceada, alegre como um -passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das caricias do macho: -e aquelle serzinho louro e meigo veio dar á sua casa um encanto serio. - ---É um anjinho cheio de dignidade!--dizia então Sebastião, o bom -Sebastião, com a sua voz profunda de _basso_. - -Estavam casados havia tres annos. Que bom que tinha sido! Elle proprio -melhorára; achava-se mais intelligente, mais alegre... E recordando -aquella existencia facil e dôce, soprava o fumo do charuto, a perna -traçada, a alma dilatada, sentindo-se tão bem na vida como no seu -jaquetão de flanella! - ---Ah!--fez Luiza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo. - ---Que é? - ---É o primo Bazilio que chega! - -E leu alto, logo: - -«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordeus, o snr. Bazilio -de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. S. exc.^a que, como é -sabido, tinha partido para o Brazil, onde se diz reconstituira a sua -fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o -começo do anno passado. A sua volta á capital é um verdadeiro jubilo -para os amigos de s. exc.^a que são numerosos». - ---E são!--disse Luiza, muito convencida. - ---Estimo, coitado!--fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma -da mão.--E vem com fortuna, hein? - ---Parece. - -Olhou os annuncios, bebeu um gole de chá, levantou-se, foi abrir uma -das portadas da janella. - ---Oh Jorge, que calor que lá vai fóra, santo Deus!--Batia as palpebras -sob a radiação da luz crua e branca. - -A sala, nas trazeiras da casa, dava para um terreno vago, cercado d'um -taboado baixo, cheio d'hervas altas e d'uma vegetação d'acaso; aqui, -alli, n'aquella verdura crestada do verão, largas pedras faiscavam, -batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada -no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem immovel, que, na -brancura da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para além eram as -trazeiras d'outras casas, com varandas, roupas seccando em cannas, -muros brancos de quintaes, arvores esguias. Uma vaga poeira embaciava, -tornava espesso o ar luminoso. - ---Cahem os passaros!--disse ella cerrando a janella.--Olha tu pelo -Alemtejo, agora! - -Veio encostar-se á _voltaire_ de Jorge, passou-lhe lentamente a -mão sobre o cabello preto e annelado. Jorge olhou-a, triste já da -separação: os dous primeiros botões do seu roupão estavam desapertados; -via-se o começo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da -camisa: muito castamente Jorge abotoou-lh'os. - ---E os meus colletes brancos?--disse. - ---Devem estar promptos. - -Para se certificar chamou Juliana. - -Houve um ruido domingueiro de saias engommadas, Juliana entrou, -arranjando nervosamente o collar e o broche. Devia ter quarenta -annos, era muitissimo magra. As feições, miudas, espremidas, tinham a -amarellidão de tons baços das doenças de coração. Os olhos grandes, -encovados, rolavam n'uma inquietação, n'uma curiosidade, raiados de -sangue, entre palpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de -retroz imitando tranças, que lhe fazia a cabeça enorme. Tinha um _tic_ -nas azas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda, -tufado pela gomma das saias--mostrava um pé pequeno, bonito, muito -apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz. - -Os colletes não estavam promptos, disse com uma voz muito lisboeta, não -tivera tempo de os metter em gomma. - ---Tanto lhe recommendei, Juliana!--disse Luiza.--Bem, vá. Veja como se -arranja! Os colletes hão-de ficar á noite na mala! - -E apenas ella sahiu: - ---Estou a tomar odio a esta creatura, Jorge! - -Ha dous mezes que a tinha em casa, e não se podera acostumar á sua -fealdade, aos seus tregeitos, á maneira aflautada de dizer _chapieu_, -_tisoiras_, de arrastar um pouco os _rr_, ao ruido dos seus tacões que -tinham laminasinhas de metal: ao domingo, a cuia, o pretencioso do pé, -as luvas de pellica preta arripiavam-lhe os nervos. - ---Que antipathica! - -Jorge ria: - ---Coitada, é uma pobre de Christo!--E depois que engommadeira -admiravel! No ministerio examinavam com espanto os seus peitilhos!--O -Julião diz bem, eu não ando engommado, ando esmaltado! Não é -sympathica, não, mas é aceada, é apropositada... - -E levantando-se, com as mãos nos bolsos das suas largas calças de -flanella: - ---E, emfim, minha filha, a maneira como ella se portou na doença da tia -Virginia... Foi um anjo para ella!--Repetiu com solemnidade:--De dia, -de noite, foi um anjo para ella! Estamos-lhe em divida, minha filha!--E -começou a enrolar um cigarro, com a physionomia muito séria. - -Luiza, calada, fazia saltar com a pontinha da chinella a orla do -roupão; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, -poz-se a dizer: - ---Mas emfim, se eu embirro com ella, não me importa, posso bem mandal-a -embora. - -Jorge parou, e raspando um phosphoro na sola do sapato: - ---Se eu consentir, minha rica. É que é uma questão de gratidão, para -mim! - -Ficaram calados. O _cuco_ cantou meio dia. - ---Bem, vou á vida--disse Jorge. Chegou-se ao pé d'ella, tomou-lhe a -cabeça entre as mãos. - ---Viborasinha!--murmurou, fitando-a muito meigamente. - -Ella riu. Ergueu para elle os seus magnificos olhos castanhos, -luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, poz-lhe sobre as palpebras -dous beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice: - ---Queres alguma cousa de fóra, amor? - -Que não viesse muito tarde. - -Ia deixar uns bilhetes, ia n'uma tipoia, era um pulo... - -E sahiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barytono: - - Dio del oro, - Del mondo signor. - La la ra, la ra. - -Luiza espreguiçou-se. Que sécca ter de se ir vestir! Desejaria estar -n'uma banheira de marmore côr de rosa, em agua tepida, perfumada, -e adormecer! Ou n'uma rede de sêda, com as janellas cerradas, -embalar-se, ouvindo musica! Sacudiu a chinellinha: esteve a olhar -muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias -azues, pensando n'uma infinidade de cousinhas:--em meias de sêda que -queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em tres -guardanapos que a lavadeira perdera... - -Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço, foi buscar -ao aparador por detraz d'uma compota um livro um pouco enxovalhado, -veio estender-se na _voltaire_, quasi deitada, e, com o gesto -acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a lêr, toda -interessada. - -Era a _Dama das Camelias_. Lia muitos romances; tinha uma assignatura, -na Baixa, ao mez. Em solteira, aos 18 annos, enthusiasmára-se por -Walter-Scott e pela Escocia; desejára então viver n'um d'aquelles -castellos escocezes, que teem sobre as ogivas os brazões da _clan_, -mobilados com arcas gothicas e tropheus d'armas, forrados de largas -tapecerias, onde estão bordadas legendas heroicas, que o vento do -lago agita e faz viver: e amára Ervandálo, Morton e Ivanhoé, ternos -e graves, tendo sobre o gorro a penna d'aguia, presa ao lado pelo -cardo d'Escocia d'esmeraldas e diamantes. Mas agora era o _moderno_ -que a captivava, Paris, as suas mobilias, as suas sentimentalidades. -Ria-se dos trovadores, exaltára-se por Mr. de Camors; e os homens -ideaes appareciam-lhe de gravata branca, nas hombreiras das salas de -baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras -sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier: o -seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia ennevoada: via-a alta e magra, -com o seu longo chale de cachemira, os olhos negros cheios da avidez da -paixão e dos ardores da tisica; nos nomes mesmo do livro--Julia Duprat, -Armando, Prudencia, achava o sabor poetico d'uma vida intensamente -amorosa; e todo aquelle destino se agitava, como n'uma musica triste, -com ceias, noites delirantes, afflicções de dinheiro, e dias de -melancolia no fundo d'um coupé, quando nas avenidas do Bois, sob um céo -pardo e elegante, silenciosamente cahem as primeiras neves. - ---Até logo, Zizi--gritou Jorge do corredor, ao sahir. - ---Olha! - -Elle veio, com a bengala debaixo do braço, apertando as luvas. - ---Não appareças muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns bolos do -Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. Vê se passas pela madame -François que me mande o chapéo. Escuta. - ---Que mais, bom Deus? - ---Ah! não! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances... -Mas está fechado! - - - -Foi com duas lagrimas a tremer-lhe nas palpebras que acabou as paginas -da _Dama das Camelias_. E estendida na _voltaire_, com o livro cahido -no regaço, fazendo recuar a pellicula das unhas, pôz-se a cantar -baixinho, com ternura, a aria final da _Traviata_: - - Addio, del passato... - -Lembrou-lhe de repente a noticia do jornal, a chegada do primo -Bazilio... - -Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios.--Fôra -o seu primeiro namoro, o primo Bazilio! Tinha ella então 18 annos! -Ninguem o sabia, nem Jorge, nem Sebastião... - -De resto fôra uma criancice: ella mesmo, ás vezes, ria, recordando -as pieguices ternas d'então, certas lagrimas exageradas! Devia estar -mudado o primo Bazilio. Lembrava-se bem d'elle--alto, delgado, um -ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e -um geito de metter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar -o dinheiro e as chaves! _Aquillo_ começára em Cintra, por grandes -partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio João de Brito, -em Collares. Bazilio tinha chegado então d'Inglaterra: vinha muito -_bife_, usava gravatas escarlates passadas n'um annel d'ouro, fatos -de flanella branca, espantava Cintra! Era na sala de baixo pintada a -oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma grande porta envidraçada -abria para o jardim, sobre tres degraus de pedra. Em roda do repuxo -havia romanzeiras, onde elle apanhava flôres escarlates. A folhagem -verde-escura e polida dos arbustos de camelias fazia ruasinhas -sombrias; pedaços de sol faiscavam, tremiam na agua do tanque; duas -rôlas, n'uma gaiola de vime, arrulhavam dôcemente;--e, no silencio -aldeão da quinta, o ruido secco das bolas de bilhar tinha um tom -aristocratico. - -Depois, vieram todos os episodios classicos dos amores lisboetas -passados em Cintra: os passeios em Sitiaes ao luar, devagar, -sobre a relva pallida, com grandes descanços calados no Penedo da -Saudade, vendo o valle, as arêas ao longe, cheias d'uma luz saudosa, -idealisadora e branca; as séstas quentes, nas sombras da Penha Verde, -ouvindo o rumor fresco e gottejante das aguas que vão de pedra em -pedra; as tardes na varzea de Collares, remando n'um velho bote, sobre -a agua escura da sombra dos freixos,--e que risadas quando iam encalhar -nas hervagens altas, e o seu chapéo de palha se prendia aos ramos -baixos dos choupos! - -Sempre gostára muito de Cintra! Logo ao entrar os arvoredos escuros e -murmurosos do Ramalhão lhe davam uma melancolia feliz! - -Tinham muita liberdade, ella e o primo Bazilio. A mamã, coitadinha, -toda scismatica, com rheumatismo, egoista, deixava-os, sorria, -dormitava: Bazilio era rico, então, chamava-lhe tia Jójó, trazia-lhe -cartuchos de dôce... - -Veio o inverno, e aquelle amor foi-se abrigar na velha sala forrada -de papel _sangue-de-boi_ da rua da Magdalena. Que bons serões alli! A -mamã resonava baixo, com os pés embrulhados n'uma manta, o volume da -_Bibliotheca das Damas_ cahido sobre o regaço. E elles, muito chegados, -muito felizes no sophá! O _sophá_! Quantas recordações! Era estreito e -baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro, bordada por -ella, amores perfeitos amarellos e roxos sobre um fundo negro. Um dia -veio o _final_. João de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito, -falliu. A casa d'Almada, a quinta de Collares foram vendidas. - -Bazilio estava pobre, partiu para o Brazil. Que saudades! Passou -os primeiros dias sentada no sophá querido, soluçando baixo, com a -photographia d'elle entre as mãos. Vieram então os sobresaltos das -cartas esperadas, os recados impacientes ao escriptorio da Companhia, -quando os paquetes tardavam... - -Passou um anno. Uma manhã, depois d'um grande silencio de Bazilio, -recebeu da Bahia uma longa carta, que começava: «Tenho pensado muito e -entendo que devemos considerar a nossa inclinação como uma criancice...» - -Desmaiou logo. Bazilio affectava muita dôr em duas laudas cheias -d'explicações: que estava ainda pobre; que teria de luctar muito antes -de ter para dous; o clima era horrivel; não a queria sacrificar, pobre -anjo; chamava-lhe minha «pomba» e assignava o seu nome todo, com uma -firma complicada. - -Viveu triste durante mezes. Era no inverno; e sentada á janella, por -dentro dos vidros, com o seu bordado de lã, julgava-se desilludida, -pensava no convento, seguindo com um olhar melancolico os guarda-chuvas -gottejantes que passavam sob as cordas d'agua; ou sentando-se ao piano, -ao anoitecer, cantava Soares de Passos: - - Ai! adeus, acabaram-se os dias - Que ditoso vivi a teu lado... - -ou o final da _Traviata_, ou o fado do Vimioso, muito triste, que elle -lhe ensinára. - -Mas então o catarrho da mamã aggravou-se; vieram os sustos, as noites -veladas. Na convalescença foram para Bellas: ligou-se alli muito com -as Cardosos, duas irmãs magras, estouvadas e esguias, sempre colladas -uma á outra, com um passinho trotado e secco, como um casal de galgos. -O que riam, Jesus! O que fallavam dos homens! Um tenente de artilheria -tinha-se apaixonado por ella. Era vesgo, mandou-lhe uns versos, _Ao -Lyrio de Bellas_: - - Sobre a encosta da collina - Cresce o lyrio virginal... - -Foi um tempo muito alegre, cheio de consolações. - -Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas côres. E um -dia, tendo achado n'uma gaveta uma photographia que logo ao principio -Bazilio lhe mandára da Bahia, de calça branca e chapéo _panamá_, -fitou-a, encolhendo os hombros: - ---E o que eu me ralei por esta figura! Que tôla! - -Tinham passado tres annos quando conheceu Jorge. Ao principio não lhe -agradou. Não gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a -primeira barba, fina, rente, muito macia de certo; começou a admirar -os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao pé d'elle como -uma fraqueza, uma dependencia e uma quebreira, uma vontade d'adormecer -encostada ao seu hombro, e de ficar assim muitos annos, confortavel, -sem receio de nada. Que sensação quando elle lhe disse: Vamos casar, -hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios, -sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu! Fez-se escarlate. Jorge -tinha-lhe tomado a mão: ella sentia o calor d'aquella palma larga -penetral-a, tomar posse d'ella: disse que _sim_, ficou como idiota, -e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se dôcemente os seus -seios. Estava noiva, emfim! Que alegria, que descanço para a mamã! - -Casaram ás oito horas, n'uma manhã de nevoeiro. Foi necessario -accender luz para lhe pôr a corôa e o véo de tulle. Todo aquelle dia -lhe apparecia como ennevoado, sem contornos, á maneira d'um sonho -antigo--onde destacava a cara balofa e amarellada do padre, e a figura -medonha d'uma velha, que estendia a mão adunca, com uma sofreguidão -colerica, empurrando, rogando pragas, quando, á porta da igreja, -Jorge commovido distribuia patacos. Os sapatos de setim apertavam-na. -Sentira-se enjoada da madrugada, fôra necessario fazer-lhe chá verde -muito forte. E tão cançada á noite n'aquella casa nova, depois de -desfazer os seus bahus!--Quando Jorge apagou a véla, com um sopro -tremulo, SS luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos olhos. - -Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre: pôz-se a -adoral-o. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas -cousas, mexia-lhe no cabello, na roupa, nas pistolas, nos papeis. -Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho -n'elle. Jorge envolvia-a em delicadezas d'amante, ajoelhava-se -aos seus pés, era muito _dengueiro_. E sempre de bom humor, com -muita graça: mas nas cousas da sua profissão ou do seu brio tinha -severidades exageradas, e punha então nas palavras, nos modos uma -solemnidade carrancuda. Uma amiga d'ella romanesca, que via em tudo -dramas, tinha-lhe dito: é homem para te dar uma punhalada. Ella que -não conhecia ainda então o temperamento placido de Jorge acreditou, -e isso mesmo creou uma exaltação no seu amor por elle. Era o seu -_tudo_,--a sua força, o seu fim, o seu destino, a sua religião, o -seu homem!--Pôz-se a pensar, o que teria succedido se tivesse casado -com o primo Basilio. Que desgraça, hein! Onde estaria? Perdia-se em -supposições d'outros destinos, que se desenrolavam, como pannos de -theatro: via-se no Brazil, entre coqueiros, embalada n'uma rede, -cercada de negrinhos, vendo voar papagaios! - ---Está alli a snr.^a D. Leopoldina--veio dizer Juliana. - -Luiza ergueu-se surprehendida. - ---Hein? A snr.^a D. Leopoldina? Para que mandou entrar? - -Poz-se a abotoar á pressa o roupão. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Elle -que lhe tinha dito tantas vezes «que a não queria em casa!» Mas se já -estava na sala, agora, coitada! - ---Está bom, diga-lhe que já vou. - -Era a sua intima amiga. Tinham sido visinhas, em solteiras, na rua -da Magdalena, e estudado no mesmo collegio, á Patriarchal, na Rita -Pessoa, a côxa. Leopoldina era a filha unica do visconde de Quebraes, -o devasso, o cachetico, que fôra pagem de D. Miguel. Tinha feito -um casamento infeliz com um João Noronha, empregado da alfandega. -Chamavam-lhe a «Quebraes»; chamavam-lhe tambem a «Pão e queijo». - -Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vicios. Jorge odiava-a. -E dissera muitas vezes a Luiza: Tudo, menos a Leopoldina! - - - -Leopoldina tinha então vinte e sete annos. Não era alta, mas passava -por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos -muito collados, com uma justeza que accusava, modelava o corpo como uma -pellica, sem largueza de roda, apanhados atraz. Dizia-se d'ella, com -os olhos em alvo: é uma estatua, é uma Venus! Tinha hombros de modêlo, -d'uma redondeza descahida e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo -através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas bellas metades -de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes -de cintura faziam voltar os olhares accesos dos homens. A cara era um -pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na -pelle, muito fina, d'um trigueiro quente e córado, havia signaesinhos -desvanecidos d'antigas bexigas. A sua belleza eram os olhos, d'uma -negrura intensa, afogados n'um fluido, muito _quebrados_, com grandes -pestanas. - -Luiza veio para ella com os braços abertos, beijaram-se muito. E -Leopoldina, sentada no sophá, enrolando devagarinho a sêda clara -do guarda-sol, começou a queixar-se: Tinha estado adoentada, muito -seccada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ella feito? -Achava-a mais gorda. - -Como era um pouco curta de vista, para se affirmar piscava ligeiramente -os olhos, descerrando os beiços gordinhos, d'um vermelho calido. - ---A felicidade dá tudo, até boas côres!--disse, sorrindo. - -O que a trazia era perguntar-lhe a morada da franceza que lhe fazia os -chapéos. E ha tanto tempo que a não via, já tinha saudades, tambem! - ---Mas não imaginas! Que calor! Venho morta. - -E deixou-se cahir sobre a almofada do sophá, encalmada, com um sorriso -aberto, mostrando os dentes brancos e grandes. - -Luiza disse-lhe a morada da franceza, gabou-lh'a; era barateira e -tinha bom gosto. Como a sala estava escura foi entre-abrir um pouco -as portadas da janella. Os estofos das cadeiras e as bambinellas eram -de reps verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens -tinham o mesmo tom, e n'aquella decoração sombria destacavam muito--as -molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a _Medea_ de Delacroix e -a _Martyr_ de Delaroche), as encadernações escarlates dos dois vastos -volumes do Dante de G. Doré, e entre as janellas o oval d'um espelho -onde se reflectia um napolitano de _biscuit_ que, na console, dançava a -_tarantella_. - -Por cima do sophá pendia o retrato da mãi de Jorge, a oleo. Estava -sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete -espartilhado e secco: uma das mãos, d'um livido morto, pousava nos -joelhos sobrecarregada d'anneis; a outra perdia-se entre as rendas -muito trabalhadas d'um mantelete de setim; e aquella figura longa, -macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre uma -cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando -vêr para além céos azulados e redondezas d'arvoredos. - ---E teu marido?--perguntou Luiza, vindo sentar-se muito junto de -Leopoldina. - ---Como sempre. Pouco divertido--respondeu, rindo. E, com um ar serio, a -testa um pouco franzida:--Sabes que acabei com o Mendonça? - -Luiza fez-se ligeiramente vermelha. - ---Sim? - -Leopoldina deu logo detalhes. - -Era muito indiscreta, fallava muito de si, das suas sensações, da -sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luiza; e na -sua necessidade de fazer confidencias, de gozar a admiração d'ella, -descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões d'elles, as maneiras -d'amar, os _tics_, a roupa, com grandes exagerações! Aquillo era -sempre muito picante, cochichado ao canto d'um sophá, entre risinhos: -Luiza costumava escutar, toda interessada, as maçãs do rosto um pouco -envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava tão -curioso! - ---D'esta vez é que bem posso dizer que me enganei, minha rica -filha!--exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente. - -Luiza riu. - ---Tu enganas-te quasi sempre! - -Era verdade! Era infeliz! - ---Que queres tu? De cada vez imagino que é uma paixão, e de cada vez me -sahe uma massada! - -E picando o tapete com a ponta da sombrinha: - ---Mas se um dia acerto! - ---Vê se acertas--disse Luiza.--Já é tempo! - -Ás vezes na sua consciencia achava Leopoldina «indecente»; mas tinha -um fraco por ella: sempre admirára muito a belleza do seu corpo, que -quasi lhe inspirava uma attracção physica. Depois desculpava-a: era tão -infeliz com o marido! Ia atraz da Paixão, coitada! E aquella grande -palavra, faiscante e mysteriosa, d'onde a felicidade escorre como a -agua d'uma taça muito cheia, satisfazia Luiza como uma justificação -sufficiente: quasi lhe parecia uma heroina; e olhava-a com espanto como -se consideram os que chegam d'alguma viagem maravilhosa e difficil, -d'episodios excitantes. Só não gostava de certo cheiro de tabaco -misturado de _feno_, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava. - ---E que fez elle, o Mendonça? - -Leopoldina encolheu os hombros, com um grande tedio: - ---Escreveu-me uma carta muito tôla, que a final bem considerado era -melhor que acabasse tudo, porque não estava para se metter em camisa -d'onze varas! Que imbecil! Até devo ter aqui a carta. - -Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha, -chaves, uma caixinha de pó de arroz; mas encontrou apenas um programma -do _Price_. - -Fallou então do circo.--Uma semsaboria. O melhor era um rapaz que -trabalhava no trapezio. Lindo rapaz, bem feito, uma perfeição! - -E de repente: - ---Então teu primo Bazilio chega? - ---Assim li hoje no _Diario de Noticias_. Fiquei pasmada! - ---Ah! outra cousa que te queria perguntar antes que me esqueça. Com que -guarneceste tu aquelle teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer -um assim. - -Tinha-o guarnecido d'azul tambem, um azul mais escuro.--Vem vêr. Vem cá -dentro. - -Entraram no quarto. Luiza foi descerrar a janella, abrir o -guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com _cretones_ -d'um azul pallido. Tinha um tapete barato, de fundo branco, com -desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janellas, -sob um docel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre -as bambinellas, em mesas redondas de pé de gallo, plantas espessas, -Begonias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e -forte, em vasos de barro vermelho vidrado. - -Aquelles arranjos confortaveis lembraram de certo a Leopoldina -felicidades tranquillas. Pôz-se a dizer devagar, olhando em roda: - ---E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hein? Fazes bem, filha, -tu é que fazes bem! - -Foi defronte do toucador, applicar pó d'arroz no pescoço, nas faces: - ---Tu é que fazes bem!--repetia--Mas vá lá uma mulher prender-se a um -homem como o meu! - -Sentou-se na _causeuse_ com um ar muito abandonado; vieram as queixas -habituaes sobre seu marido: era tão grosseiro! era tão egoista! - ---Acreditarás que ha tempos para cá, se não estou em casa ás quatro -horas, não espera, põe-se á mesa, janta, deixa-me os restos! E depois -desleixado, enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras... O quarto -d'elle--nós temos dous quartos, como tu sabes--é um chiqueiro! - -Luiza disse com severidade: - ---Que horror! A culpa tambem é tua. - ---Minha!--e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos, mais -negros.--Não me faltava mais nada senão occupar-me do quarto do homem! - -Ah! era muito desgraçada, era a mulher mais desgraçada que havia no -mundo! - ---Nem ciumes tem, o bruto! - -Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o collar e o broche: - ---A senhora sempre quer que engomme os colletes todos? - ---Todos, já lhe disse. Hão-de ficar á noite na mala antes de se ir -deitar. - ---Que mala? Quem parte?--perguntou Leopoldina. - ---O Jorge. Vai ás minas, ao Alemtejo. - ---Então estás só, posso vir vêr-te! Ainda bem! - -E sentou-se logo ao pé d'ella, com um olhar que se fizera dôce. - ---É que tenho tanto que te contar! Se tu soubesses, filha! - ---O quê? Outra paixão?--fez Luiza rindo. - -A face de Leopoldina tornou-se grave. - -Não era p'ra rir. Estava de todo! Era por isso até que tinha vindo. -Sentira-se tão só em casa, tão nervosa!--Vou até Luiza, vou palrar um -bocado! - -E com a voz mais baixa, quasi solemne: - ---D'esta vez é serio, Luiza!--Deu os detalhes. Era um rapaz alto, -louro, lindo! E que talento! É poeta!--Dizia a palavra com devoção, -prolongando o som das syllabas.--É poeta! - -Desapertou devagar dous botões do corpete, tirou do seio um papel -dobrado. Eram versos. - -E muito chegada para Luiza, com as narinas dilatadas pela delicia da -sensação, leu baixo, com orgulho, com pompa: - - -A TI - - _Pharol da Guia, 5 de junho._ - - Quando scismo á hora do poente - Sobre os rochedos onde brame o mar... - -Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplações -em que a via a ella, Leopoldina, _visão radiosa que deslisas leve_, -nas aguas dormentes, nas vermelhidões do occaso, na brancura das -espumas. Era uma composição delambida, d'um sentimentalismo reles, com -um ar tisico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E terminando -dizia-lhe, que não era «nos esplendores das salas» ou nos «bailes -febricitantes» que gostava de a vêr: era alli, n'aquelles rochedos, - - Onde todos os dias ao sol posto - Eu vejo adormecer o mar gigante. - ---Que bonito, hein! - -Ficaram caladas, com uma commoçãosinha. - -Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente: - ---Pharol da Guia, 5 de junho! - -Mas o relogio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo, -atarantada, metteu o poema no seio. - -Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro, punha-se á mesa. -Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a cousa mais -estupida! - ---Adeus. Até breve, não?--E agora que Jorge ia para fóra, havia de vir -muito.--Adeus. Então a franceza, rua do Ouro, por cima do estanque? - -Luiza foi com ella até ao patamar. Leopoldina já no fundo da escada, -ainda parou, gritou: - ---Sempre te parece que guarneça o vestido d'azul, hein? - -Luiza debruçou-se sobre o corrimão: - ---Eu assim fiz, é o melhor... - ---Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque. - ---Sim. Rua do Ouro. Adeus.--E com um gritinho:--Porta á direita, Madame -François. - - - -Jorge voltou ás cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala -a um canto: - ---Já sei que tiveste cá uma visita. - -Luiza voltou-se, um pouco córada. Estava diante do toucador já -penteada, com um vestido de linho branco, guarnecido de rendas. - -Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandára-a entrar... -Ficára mais contrariada! Era por causa da _adresse_ da franceza dos -chapéos. Tinha-se demorado dez minutos.--Quem te disse? - ---Foi a Juliana: que a snr.^a D. Leopoldina tinha estado toda a tarde. - ---Toda a tarde! que tolice, esteve dez minutos, se tanto! - -Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se á janella, pôz-se a sacudir -as duras folhas d'uma Begonia malhada d'um vermelho doente, com uma -baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo occupado em conchegar -um botão d'Amarilis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um -pequenino coração assustado. - -Luiza ia passando o seu medalhão d'ouro n'uma longa fita de velludo -preto: tinha uma tremura nas mãos, estava vermelha. - ---O calor tem-lhes feito mal--disse. - -Jorge não respondeu. Assobiou mais alto, foi á outra janella, bateu -com os dedos nas folhas elasticas d'uma Makoama de tons verdes e -sanguineos, e, alargando impacientemente o collarinho como um homem -suffocado: - ---Ouve lá, é necessario que deixes por uma vez de receber essa -creatura. É necessario acabar por uma vez! - -Luiza fez-se escarlate. - ---É por causa de ti! é por causa dos visinhos! é por causa da decencia! - ---Mas foi a Juliana...--balbuciou Luiza. - ---Mandasse-l'a sahir outra vez. Que estavas fóra! que estavas na China! -que estavas doente! - -Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braços: - ---Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. É a Quebraes! É a -_Pão e queijo_! É uma vergonha! - -Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de -bigode cahido, que escrevia comedias para o Gymnasio! O Santos Madeira, -o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um _gingão_ -desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar n'uma enorme -boquilha! O Pedro Camara, o bonito! O Mendonça dos callos! _Tutti -quanti!_ - -E encolhendo os hombros, exasperado: - ---Como se eu não percebesse que ella esteve aqui! Só pelo cheiro! Este -horrivel cheiro de feno! Vossês foram creadas juntas, etc., tudo isso -é muito bom. Has-de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a! -Corro-a! - -Parou um momento, e commovido: - ---Ora, vamos, Luiza, confessa. Tenho ou não razão? - -Luiza punha os brincos, ao espelho, atarantada: - ---Tens--disse. - ---Ah! bem! - -E sahiu, furioso. - -Luiza ficou immovel. Uma lagrimasinha redonda, clara, rolava-lhe pela -aza do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquella Juliana! Aquella -bisbilhoteira! De má! Para fazer sizania! - -Veio-lhe então uma colera. Foi ao quarto dos engommados, atirou com a -porta: - ---Para que foi vossê dizer quem esteve ou quem deixou d'estar? - -Juliana, muito surprehendida, pousou o ferro: - ---Pensei que não era segredo, minha senhora. - ---Está claro que não! Tola! quem lhe diz que era segredo? E para que -mandou entrar? Não lhe tenho dito muitas vezes que não recebo a snr.^a -D. Leopoldina? - ---A senhora nunca me disse nada--replicou, toda offendida, cheia de -verdade. - ---Mente! Cale-se! - -Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi -encostar-se á vidraça. - -O sol desapparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde -sem vento: pelas casas, de uma edificação velha, escuras, estavam -abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha -planta miseravel, manjaricão ou cravo; ouvia-se, no teclado melancolico -d'um piano, a _Oração de uma virgem_, tocada por alguma menina, no -sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janella, defronte, as quatro -filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabellos muito riçados, -as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a -rua, para o ar, para as janellas visinhas, cochichando se viam passar -um homem--ou debruçadas, com uma attenção idiota, faziam pingar saliva -sobre as pedras da calçada. - -Jorge tinha razão, coitado! pensava Luiza. Mas, tambem, que podia ella -fazer? Já não ia a casa de Leopoldina, tirára o seu retrato do album -da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnancia de Jorge, -tinham chorado ambas, até! Coitada! Só a recebia de longe a longe, uma -raridade, um momento! E emfim, depois d'ella estar na sala, não a havia -d'ir empurrar pela escada abaixo! - -Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, appareceu -então ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; -parou, poz-se a voltear a manivella, levantando em redor, para as -janellas, um sorriso triste de dentes brancos, e a _Casta Diva_! com -uma sonoridade metallica e secca, muito tremida, espalhou-se pela rua. - -Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de mathematica, veio -encostar logo aos caixilhos estreitos da janella a sua vasta face -trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada -aberta d'um segundo andar, debruçou-se a figura do Cunha Rosado, magro -e chupado, com um boné de borla, o aspecto desconsolado do doente -d'intestinos, conchegando com as mãos transparentes o robe-de-chambre -ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se entre as bambinellas -de caça. - -Na rua, a estanqueira chegou-se á porta, vestida de luto, estendendo -o seu carão viuvo, os braços cruzados sobre o chale tingido de preto, -esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo, -veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabello esguedelhado -em repas seccas, a cara oleosa e enfarruscada, com tres pequenos meio -nús, quasi negros, chorões e hirsutos, que se lhe penduravam da saia -de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se até ao -meio da rua; a pala de verniz do seu boné de pano preto nunca se -erguia de cima dos olhos; escondia sempre as mãos, como para ser mais -reservado, por traz das costas, debaixo das abas do seu casaco de -cotim branco; o calcanhar sujo da meia sahia-lhe para fóra da chinella -bordada a missanga; e fazia roncar o seu pigarro chronico de um modo -despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado das cousas publicas -enfurecia-o. Assobiava frequentemente a _Maria da Fonte_; e mostrava-se -nas suas palavras, nas suas attitudes, um patriota exasperado. - -O homem do realejo tirou o seu largo chapéo desabado e, tocando sempre, -ia-o estendendo em redor para as janellas, com um olhar necessitado. -As Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraça. A carvoeira -deu-lhe uma moeda de cobre; mas interrogou-o; quiz de certo saber de -que paiz era, por que estradas tinha vindo, e quantas peças tinha o -instrumento. - -Gente endomingada começava a recolher, com um ar derreado do longo -passeio, as botas empoeiradas: mulheres de chale, vindas das hortas, -traziam ao collo as crianças adormecidas da caminhada e do calor: -velhos placidos, de calça branca, o chapéo na mão, gozavam a frescura, -dando um giro no bairro: pelas janellas, bocejava-se: o céo tomava -uma côr azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a -distancia o fim d'alguma festa d'igreja: e o domingo terminava, com uma -serenidade cançada e triste. - ---Luiza--disse a voz de Jorge. - -Ella voltou-se, com um vago--hein? - ---Vamos jantar, filha; são sete horas. - -No meio do quarto, tomou-a pela cinta, e fallando-lhe baixo, junto á -face: - ---Tu zangaste-te ha bocado? - ---Não! Tu tens razão. Conheço que tens razão. - ---Ah!--fez elle com um tom victorioso, muito satisfeito.--Está claro, - - Quem melhor conselheiro e bom amigo - Que o marido que a alma m'escolheu? - -E com uma ternura grave: - ---Minha querida filha, esta nossa casinha é tão honesta, que é uma dôr -d'alma vêr entrar essa mulher aqui, com o cheiro do _feno_, do cigarro, -e do resto!... _Mà, di questo no parlaremo più, o donna mia!_ Á sopa! - - - - -II - - -Aos domingos á noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma -_cavaqueira_, na sala, em redor do velho candieiro de porcelana côr de -rosa. Vinham apenas os intimos. «O Engenheiro», como se dizia na rua, -vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era -um pouco _á estudante_. Luiza fazia crochet, Jorge cachimbava. - -O primeiro a chegar era Julião Zuzarte, um parente muito afastado de -Jorge, e seu antigo condiscipulo nos primeiros annos da Polytechnica. -Era um homem secco e nervoso, com lunetas azues, os cabellos compridos -cahidos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escóla. Muito -intelligente, estudava desesperadamente, mas, como elle dizia, era -um _tumba_. Aos trinta annos, pobre, com dividas, sem clientella, -começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares -de doze vintens, do seu paletot coçado d'alamares; e entalado na -sua vida mesquinha, via os outros, os mediocres, os superficiaes, -_furar_, subir, installar-se á larga na prosperidade! «Falta de -_chance_», dizia. Podia ter aceitado um partido da camara n'uma villa -da provincia, com pulso livre, ter uma casa _sua_, a _sua_ creação no -quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita fé nas suas faculdades, -na sua sciencia, e não se queria ir enterrar n'uma terriola adormecida -e lugubre, com tres ruas onde os porcos fossam. Toda a provincia o -aterrava; via-se lá obscuro, jogando a manilha na Assembléa, morrendo -de cachexia. Por isso não «arredava pé»; e esperava, com a tenacidade -do plebeu sofrego, uma clientella rica, uma cadeira na Escóla, um -coupé para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do -seu direito a estas felicidades, e como ellas tardavam a chegar ia-se -tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se -prolongavam mais os seus silencios hostis, roendo as unhas: e, nos dias -melhores, não cessava de ter ditos sêccos, _tiradas_ azedadas--em que a -sua voz desagradavel cahia como um gume gelado. - -Luiza não gostava d'elle; achava-lhe um _ar nordeste_, detestava o seu -tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calças curtas que -mostravam o elastico roto das botas. Mas disfarçava, sorria-lhe, porque -Jorge admirava-o, dizia sempre d'elle: Tem muito espirito! tem muito -talento! grande homem! - -Como vinha mais cedo ia á sala de jantar, tomava a sua chavena de café; -e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para as -_toilettes_ frescas de Luiza. Aquelle parente, um _mediocre_, que -vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no -ministerio, com alguns contos de reis em inscripções--parecia-lhe uma -injustiça e pezava-lhe como uma humilhação. Mas affectava estimal-o; ia -sempre ás noites, aos domingos; escondia então as suas preoccupações, -cavaqueava, tinha pilherias,--mettendo a cada momento os dedos pelos -seus cabellos compridos, seccos e cheios de caspa. - -Ás nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha -logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado. -Tinha cincoenta annos, era muito nutrida, e, como soffria de dyspepsia -e de gazes, áquella hora não se podia espartilhar e as suas fórmas -transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabellos -levemente annelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, d'uma alvura -baça e molle de freira; nos olhos papudos, com a pelle já engelhada em -redor, luzia uma pupilla negra e humida, muito mobil; e aos cantos da -bocca uns pellos de buço pareciam traços leves e circumflexos d'uma -penna muito fina. Fôra a intima amiga da mãi de Luiza, e tomára aquelle -habito de vir vêr a _pequena_ aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas -de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da -Encarnação. - -Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luiza, -perguntava-lhe baixo, com inquietação: - ---Vem? - ---O conselheiro? Vem. - -Luiza sabia-o. Porque o conselheiro, o conselheiro Accacio, nunca -vinha aos _chás de D. Luiza_, como elle dizia, sem ter ido na vespera -ao ministerio das obras publicas procurar Jorge, declarar-lhe com -gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura: - ---Jorge, meu amigo, ámanhã lá irei pedir a sua boa esposa a minha -chavena de chá. - -Ordinariamente acrescentava: - ---E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro, -os meus respeitos a s. exc.^a Os meus respeitos a esse formoso talento! - -E sahia, pisando com solemnidade os corredores enxovalhados. - -Havia cinco annos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se -um pouco com aquella _chamma_. Luiza dizia: Ora! é uma caturrice -d'ella! Viam-na córada e nutrida, e não suspeitavam que aquelle -sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silencio, -a ia devastando como uma doença e desmoralisando como um vicio. Todos -os seus ardores até ahi tinham sido inutilisados. Amára um official de -lanceiros que morrêra, e apenas conservava o seu daguerreotypo. Depois -apaixonára-se muito occultamente por um rapaz padeiro, da visinhança, -e vira-o casar. Dera-se então toda a um cão, o _Bilro_; uma criada -despedida deu-lhe por vingança rolha cozida; o _Bilro_ rebentou, e -tinha-o agora empalhado na sala de jantar. A pessoa do conselheiro -viera de repente, um dia, pegar fogo áquelles desejos, sobrepostos -como combustiveis antigos. Accacio tornára-se a sua _mania_: admirava -a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua -eloquencia, achava-o n'uma «linda posição». O conselheiro era a sua -ambição e o seu vicio! Havia sobretudo n'elle uma belleza, cuja -contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva. -Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos -homens, e aquelle appetite insatisfeito inflammára-se com a idade. -Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda, -polida, brilhante ás luzes, uma transpiração anciosa humedecia-lhe -as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, avida -de lhe deitar as mãos, palpal-a, sentir-lhe as fórmas, amassal-a, -penetrar-se d'ella! Mas disfarçava, punha-se a fallar alto com um -sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gottejava-lhe nas -rôscas anafadas do pescoço. Ia para casa rezar estações, impunha-se -penitencias de muitas corôas á Virgem; mas apenas as orações findavam, -começava o temperamento a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade -tinha agora pesadêlos lascivos, e as melancolias do hysterismo velho! -A indifferença do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum -suspiro, nenhuma revelação amorosa o commovia! Era para com ella -glacial e polido. Tinham-se ás vezes encontrado a sós, á parte, no -vão favoravel d'uma janella, no isolamento mal alumiado d'um canto -do sophá,--mas apenas ella fazia uma demonstração sentimental, elle -erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico. Um dia ella -julgára perceber que, por traz das suas lunetas escuras, o conselheiro -lhe deitava de revés um olhar apreciador para a abundancia do seio; -fôra mais clara, mais urgente, fallára em _paixão_, disse-lhe baixo: -Accacio!... Mas elle com um gesto gelou-a--e de pé, grave: - ---Minha senhora, - - As neves que na fronte se accumulam - Terminam por cahir no coração... - -É inutil, minha senhora! - -O martyrio de D. Felicidade era muito occulto, muito disfarçado; -ninguem o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, -ignoravam-lhe as torturas do desejo. E um dia Luiza ficou attonita, -sentindo D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão humida, e -dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro: - ---Que regalo d'homem! - -Fallava-se n'essa noite do Alemtejo, d'Evora e das suas riquezas, da -capella dos ossos, quando o conselheiro entrou com o paletot no braço. -Foi-o dobrar solicitamente n'uma cadeira a um canto, e no seu passo -aprumado e official, veio apertar as mãos ambas de Luiza, dizendo-lhe -com uma voz sonora, de _papo_: - ---Minha boa snr.^a D. Luiza, de perfeita saude, não? O nosso Jorge -tinha-m'o dito. Ainda bem! Ainda bem! - -Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado n'um -collarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até á -calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabellos -que d'uma orelha á outra lhe faziam collar por traz da nuca--e aquelle -preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho á calva; mas não -tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, cahido aos cantos da bocca. -Era muito pallido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha -no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do craneo. - -Fôra, outr'ora, director geral do ministerio do reino, e sempre que -dizia--El-rei! erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram -medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviaes; não dizia -_vomitar_, fazia um gesto indicativo e empregava _restituir_. Dizia -sempre «o nosso Garrett, o nosso Herculano». Citava muito. Era author. -E sem familia, n'um terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado -com a criada, occupava-se d'economia politica: tinha composto os -Elementos genericos da sciencia da riqueza e sua distribuição, _segundo -os melhores authores_, e como sub-titulo: _Leituras do serão!_ Havia -apenas mezes publicára a Relação de todos os ministros d'estado desde -o grande marquez de pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente -averiguadas de seus nascimentos e obitos. - ---Já esteve no Alemtejo, conselheiro?--perguntou-lhe Luiza. - ---Nunca, minha senhora--e curvou-se.--Nunca! E tenho pena! sempre -desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira -ordem. - -Tomou uma pitada d'uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e -acrescentou com pompa: - ---De resto, paiz de grande riqueza suina! - ---Ó Jorge, averigua quanto é o partido da camara em Evora--disse Julião -do canto do sophá. - -O conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa: - ---Devem ser seiscentos mil reis, snr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o -nos meus apontamentos. Porquê, snr. Zuzarte, quer deixar Lisboa? - ---Talvez!... - -Todos desapprovaram. - ---Ah! Lisboa sempre é Lisboa!--suspirou D. Felicidade. - ---Cidade de marmore e de granito, na phrase sublime do nosso grande -historiador!--disse solemnemente o conselheiro. - -E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados. - -D. Felicidade disse então: - ---Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem á mão de Deus Padre, era o -conselheiro! - -O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ella, um pouco curvado, -replicou: - ---Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta d'alma! - ---O conselheiro--lembrou Jorge--nasceu na rua de S. José. - ---Numero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada áquella em que -viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo! - -Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Accacio fôra o seu -intimo. Eram visinhos. Accacio tocava então rebeca, e, como Geraldo -tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo á Philarmonica da rua de -S. José. Depois Accacio, quando entrou nas repartições do Estado, por -escrupulo e por dignidade, abandonou a rebeca, os sentimentos ternos, -os serões joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo á estatistica. Mas -conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquella -amizade vigilante; fôra padrinho do seu casamento, vinha vêl-o todos os -domingos, e, no dia de seus annos, mandava-lhe pontualmente, com uma -carta de felicitações, uma lampreia d'ovos. - ---Aqui nasci--repetiu, desdobrando o seu bello lenço de sêda da -India--e aqui conto morrer. - -E assoou-se discretamente. - ---Isso ainda vem longe, conselheiro! - -Elle disse, com uma melancolia grave: - ---Não me arreceio d'_ella_, meu Jorge. Até já fiz construir, sem -vacillar, no Alto de S. João, a minha ultima morada. Modesta, mas -decente. É ao entrar, no arruamento á direita, n'um lugar abrigado, ao -pé da choça dos Verissimos amigos. - ---E já compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?--perguntou Julião, do -canto, ironico. - ---Não o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. -Se os meus amigos, os meus patricios entenderem que eu fiz alguns -serviços, teem outros meios para os commemorar; lá teem a imprensa, -o communicado, o necrologio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero -apenas sobre a lapide lisa, em letras negras, o meu nome--com a minha -designação de conselheiro--a data do meu nascimento e a data do meu -obito. - -E com um tom demorado, de reflexão: - ---Não me opponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: -_Orai por elle!_ - -Houve um silencio commovido, e á porta uma voz fina, disse: - ---Dão licença? - ---Oh Ernestinho!--exclamou Jorge. - -Com um passo miudinho e rapido, Ernestinho veio abraçal-o pela cintura: - ---Eu soube que tu que partias, primo Jorge... Como está, prima Luiza? - -Era primo de Jorge. Pequenino, lymphatico, os seus membros franzinos, -ainda quasi tenros, davam-lhe um aspecto debil de collegial; o buço, -delgado, empastado em cêra-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas -afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos -amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com -grandes laços de fita; sobre o collete branco, a cadêa do relogio -sustentava um medalhão enorme, d'ouro, com fructos e flôres esmaltadas -em relevo. Vivia com uma actrizita do Gymnasio, uma magra, côr de -melão, com o cabello muito riçado, o ar tisico,--e escrevia para o -theatro. Tinha traducções, dous originaes n'um acto, uma comedia em -_calembourgs_. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra -consideravel, um drama em cinco actos, a _Honra e Paixão_. Era a sua -estreia séria. E desde então, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos -inchados de manuscriptos, com localistas, com actores, muito prodigo -de cafés e de _cognacs_, o chapéo ao lado, descórado, e dizendo a -todos: Esta vida, mata-me! Escrevia todavia por paixão entranhada pela -Arte--porque era empregado na alfandega, com bom vencimento, e tinha -quinhentos mil reis de renda das suas inscripções. A Arte mesmo, dizia, -obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da _Honra e Paixão_ -mandára fazer, á sua custa, botas de verniz para o _galan_, botas de -verniz para o _pai-nobre_! O seu nome de familia era Ledesma. - -Deram-lhe um lugar, e Luiza notou logo, pousando o bordado, que estava -abatido! Queixou-se então das suas fadigas: os ensaios arrazavam-no, -tinha turras com o empresario: na vespera, vira-se forçado a refazer -todo o final d'um acto! todo! - ---E tudo isto--acrescentou muito exaltado--porque é um pelintra, um -parvo, e quer que se passe n'uma sala, o acto que se passava n'um -abysmo! - ---N'um quê?--perguntou surprehendida D. Felicidade. - -O conselheiro, muito cortez, explicou: - ---N'um abysmo, D. Felicidade, n'um despenhadeiro. Tambem se diz, em bom -vernaculo, um _vortice_.--Citou: _N'um espumoso vortice se arroja..._ - ---N'um abysmo?--perguntaram.--Porquê? - -O conselheiro quiz conhecer o _lance_. - -Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo:--Era uma mulher -casada. Em Cintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de -Monte-Redondo. O marido arruinado, devia cem contos de reis ao jogo! -Estava deshonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruinas -acastelladas, onde habita o conde, deixa cahir o véo, conta-lhe a -catastrophe. O conde lança o seu manto aos hombros, parte, chega no -momento em que os beleguins vão levar o homem.--É uma scena muito -commovente, dizia, é de noite, ao luar!--O conde desembuça-se, atira -uma bolsa d'ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos, -abutres!... - ---Bello final!--murmurou o conselheiro. - ---Emfim--acrescentou Ernesto, resumindo--aqui ha um enredo complicado: -o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre, -arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a esposa. - ---Como?--perguntaram. - ---Atira-a ao abysmo. É no quinto acto. O conde vê, corre, atira-se -tambem. O marido cruza os braços, e dá uma gargalhada infernal. Foi -assim que eu imaginei a cousa! - -Calou-se, offegante: e, abanando-se com o lenço, rolava em redor os -seus olhos langorosos, prateados como os d'um peixe morto. - ---É uma obra de cunho, embatem-se grandes paixões!--disse o -conselheiro, passando as mãos sobre a calva.--Os meus parabens, snr. -Ledesma! - ---Mas que quer o empresario?--perguntou Julião, que escutára de pé, -attonito--que quer elle? Quer o abysmo n'um primeiro andar, mobilado -pelo Gardé? - -Ernestinho voltou-se, muito affectuosamente: - ---Não, snr. Zuzarte,--a sua voz era quasi meiga--quer o desfecho n'uma -sala. De modo que eu--e fazia um gesto resignado--a gente tem de -condescender, tive d'escrever outro final. Passei a noite em claro. -Tomei tres chavenas de café!... - -O conselheiro acudiu, com a mão espalmada: - ---Cuidado, snr. Ledesma, cuidado! Prudencia com esses excitantes! Por -quem é, prudencia! - ---A mim não me faz mal, snr. conselheiro--disse sorrindo.--Escrevi-o em -tres horas! Venho de lh'o mostrar agora. Até o tenho aqui... - ---Leia, snr. Ernesto, leia!--exclamou logo D. Felicidade. - -Que lêsse! que lêsse! porque não lia? - -Era uma massada!... Era um rascunho!... Emfim, como queriam!... E -radiante desdobrou, no silencio, uma grande folha de papel azul pautado. - ---Eu peço desculpa. Isto é um borrão. A cousa não está ainda com todos -os FF e RR.--Fez então voz theatral:--Agatha!... É a mulher; isto aqui -é a scena com o marido, o marido já sabe tudo... - - -AGATHA (cahindo de joelhos nos pés de Julio) - -«Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que vêr, com esses -desprezos, o coração rasgado fibra a fibra!» - - -JULIO - -«E não me rasgaste tu tambem o coração? Tiveste tu piedade? Não. -Retalhaste-m'o! Meu Deus, eu que a julgava pura, n'essas horas em que -arrebatados...» - -O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chavenas. Era -Juliana, d'avental branco, com o chá. - ---Que pena!--exclamou Luiza.--Depois do chá se lê. Depois do chá. - -Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso: - ---Não vale a pena, prima Luiza! - ---Ora essa! É lindo!--affirmou D. Felicidade. - -Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoutos d'Oeiras, -os bolos do Cócó. - ---Aqui tem o seu chá fraco, conselheiro--dizia Luiza.--Sirva-se, -Julião. As torradas ao snr. Julião! Mais assucar! Quem quer? Uma -torrada, conselheiro? - ---Estou amplamente servido, minha prezada senhora--replicou, -curvando-se. - -E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o dialogo opulento. - -Mas, perguntaram, o que quer o empresario mais agora? Já tem a sala... - -Ernestinho, de pé, excitado, com um bolo d'ovos na ponta dos dedos, -explicou: - ---O que o empresario quer é que o marido lhe perdôe... - -Foi um espanto: - ---Ora essa! É extraordinario! Porque? - ---Então!--exclamou Ernestinho, encolhendo os hombros,--diz que o -publico que não gosta! Que não são cousas cá para o nosso paiz. - ---A fallar a verdade--disse o conselheiro--a fallar a verdade, snr. -Ledesma, o nosso publico não é geralmente affecto a scenas de sangue. - ---Mas não ha sangue, snr. conselheiro!--protestava Ernestinho, -erguendo-se sobre os bicos dos sapatos--mas não ha sangue! É com um -tiro. É com um tiro pelas costas, snr. conselheiro! - -Luiza fez a D. Felicidade--_pst!_ e, n'um áparte, com um sorriso: - ---D'esses bolinhos d'ovos. São muito frescos! - -Ella respondeu, com uma voz lamentosa: - ---Ai, filha, não! - -E indicou o estomago, compungidamente. - -No entanto o conselheiro aconselhava a Ernestinho a clemencia: -tinha-lhe posto a mão no hombro paternalmente, e com uma voz persuasiva: - ---Dá mais alegria á peça, snr. Ledesma. O espectador sahe mais -alliviado! Deixe sahir o espectador alliviado! - ---Mais um bolinho, conselheiro? - ---Estou repleto, minha prezada senhora. - -E, então, invocou a opinião de Jorge. Não lhe parecia que o bom Ernesto -devia perdoar? - ---Eu, conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente -pela morte! E exijo que a mates, Ernestinho! - -D. Felicidade acudiu, toda bondosa: - ---Deixe fallar, snr. Ledesma. Está a brincar. E elle então que é um -coração d'anjo! - ---Está enganada, D. Felicidade--disse Jorge, de pé, diante -d'ella.--Fallo serio e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela -morte. No abysmo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir -que, n'um caso d'esses, um primo meu, uma pessoa da minha familia, -do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um -principio de familia. Mata-a quanto antes! - ---Aqui tem um lapis, snr. Ledesma--gritou Julião, estendendo-lhe uma -lapiseira. - -O conselheiro, então, interveio, grave: - ---Não--disse--não creio que o nosso Jorge falle serio. É muito -instruido para ter idéas tão... - -Hesitou, procurou o adjectivo. Juliana poz-se-lhe diante com uma -bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente, sob um vasto -guarda-sol erriçado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu: - ---...Tão anti-civilisadoras. - ---Pois está enganado, conselheiro, tenho-as--affirmou Jorge.--São as -minhas idéas. E aqui tem, se em lugar de se tratar d'um final d'acto, -fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: sabes, -encontrei minha mulher... - ---Oh Jorge!--disseram, reprehensivamente. - ---...Bem, supponhamos, se elle m'o viesse dizer, eu respondia-lhe o -mesmo. Dou a minha palavra d'honra, que lhe respondia o mesmo: mata-a! - -Protestaram. Chamaram-lhe _tigre_, _Othello_, _Barba-Azul_. Elle ria, -enchendo muito socegadamente o seu cachimbo. - -Luiza bordava, calada: a luz do candieiro, abatida pelo _abat-jour_, -dava aos seus cabellos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua -testa branca como sobre um marfim muito polido. - ---Que dizes tu a isto?--disse-lhe D. Felicidade. - -Ella ergueu o rosto, risonha, encolheu os hombros... - -E o conselheiro logo: - ---A snr.^a D. Luiza diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mães de -familia: - - Impurezas do mundo não me roçam - Nem a fimbria da tunica sequer. - ---Ora muito boas noites--disse, á porta, uma voz grossa. - -Voltaram-se. - -Ó Sebastião! Ó snr. Sebastião! ó Sebastiarrão! - -Era elle, Sebastião, o grande Sebastião, o Sebastiarrão, Sebastião -_tronco d'arvore_,--o intimo, o camarada, o _inseparavel_ de Jorge, -desde o latim, na aula de frei Liborio, aos Paulistas. - -Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapéo molle -desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente, os seus cabellos -castanhos e finos. Tinha a pelle muito branca, a barba alourada e curta. - -Veio sentar-se ao pé de Luiza. - ---Então d'onde vem? d'onde vem? - -Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da -pipa. - -O seu rosto, em plena luz, tinha uma expressão honesta, simples, -aberta: os olhos pequenos, azues d'um azul claro, d'uma suavidade -séria, adoçavam-se muito quando sorria: e os beiços escarlates, sem -pelliculas seccas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saudavel -e habitos castos. Fallava devagar, baixo, como se tivesse medo de -se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua chavena, e -remexendo o assucar com a colhér direita, os olhos ainda a rir, um -sorriso bom: - ---A pipa tem muita graça. Muita graça! - -Sorveu um gole de chá e depois d'um momento: - ---E tu, maroto, sempre partes ámanhã? Não ha umas tentaçõesinhas d'ir -por ahi fóra com elle, minha cara amiga? - -Luiza sorriu. Tomára ella! Quem dera! Mas era uma jornada tão -incommoda! Depois a casa não podia ficar só, não havia que fiar em -criados... - ---Está claro, está claro--disse elle. - -Jorge, então, que abrira a porta do escriptorio, chamou-o: - ---Ó Sebastião! Fazes favor? - -Elle foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado: as abas do -seu casaco mal feito tinham um comprimento ecclesiastico. - -Entraram para o escriptorio. - -Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraçada, tendo -em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, d'uma bacchante -em delirio. A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fôra de seu -avô, estava ao pé da janella: uma collecção empilhada de _Diarios do -Governo_, branquejava a um canto: por cima da cadeira de marroquim -escuro, pendia, n'um caixilho preto, uma larga photographia de Jorge: e -sobre o quadro, duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo, -coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar. - ---Sabes quem esteve ahi de tarde?--disse logo Jorge, accendendo o -cachimbo--Aquella desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein? - ---E entrou?--perguntou Sebastião, baixo, correndo por dentro o pesado -reposteiro de fazenda listrada. - ---Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quiz! A Leopoldina, -a _Pão e queijo_! - -E arremessando o phosphoro violentamente: - ---Quando penso que aquella desavergonhada vem a minha casa! Uma -creatura que tem mais amantes que camisas, que anda pelo Dá-fundo em -troças, que passeava nos bailes, este anno, de dominó, com um tenor! A -mulher do Zagallão, um devasso que falsificou uma letra! - -E quasi ao ouvido de Sebastião: - ---Uma mulher que dormiu com o Mendonça dos callos! Aquelle sebento do -Mendonça dos callos! - -Teve um gesto furioso, exclamou: - ---E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraça minha mulher, -respira o meu ar!... Palavra d'honra, Sebastião, se a pilho--procurou -mentalmente, com o olhar acceso, um castigo sufficiente--dou-lhe -açoutes! - -Sebastião disse devagar: - ---E o peor é a visinhança. - ---Está claro que é!--exclamou Jorge.--Toda essa gente ahi pela rua -abaixo sabe quem ella é! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios. É a -_Pão e queijo_! Todo o mundo conhece a _Pão e queijo_. - ---Má visinhança--disse Sebastião. - ---De tremer. - -Mas então! estava acostumado á casa, era sua, tinha-a arranjado, era -uma economia... - ---Senão! Não parava aqui um dia! - -Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavallados uns nos outros! -Uma visinhança a postos, avida de mexericos! Qualquer bagatella, o -trotar d'uma tipoia, e apparecia por traz de cada vidro um par d'olhos -repolhudos a cocar! E era logo um badalar de linguas por ahi abaixo, e -conciliabulos, e opiniões formadas! fulano é indecente, fulana é bebeda! - ---É o diabo!--disse Sebastião. - ---A Luiza é um anjo, coitada--dizia Jorge, passeando pela saleta--mas -tem cousas em que é criança! Não vê o mal. É muito boa, deixa-se ir. -Com este caso da Leopoldina, por exemplo; foram creadas de pequenas, -eram amigas, não tem coragem agora para a pôr fóra. É acanhamento, é -bondade. Elle comprehende-se! Mas emfim as leis da vida tem as suas -exigencias!... - -E depois d'uma pausa: - ---Por isso, Sebastião, em quanto eu estiver fóra, se te constar que a -Leopoldina vem por cá, avisa a Luiza! Porque ella é assim: esquece-se, -não reflexiona. É necessario alguem que a advirta, que lhe diga:--Alto -lá, isso não póde ser! Que então cahe logo em si, e é a primeira!... -Vens por ahi, fazes-lhe companhia, fazes-lhe musica, e se vires que a -Leopoldina apparece ao largo, tu logo:--Minha rica senhora, cuidado, -olhe que isso não! Que ella, sentindo-se apoiada, tem decisão. Senão, -acanha-se, deixa-a vir. Soffre com isso, mas não tem coragem de lhe -dizer: Não te quero vêr, vai-te! Não tem coragem p'ra nada: começam -as mãos a tremer-lhe, a seccar-se-lhe a bocca... É mulher, é muito -mulher!... Não te esqueças, hein, Sebastião? - ---Então havia de me esquecer, homem? - -Sentiram então o piano na sala, e a voz de Luiza ergueu-se, fresca e -clara, cantando a _Mandolinata_: - - Amici, la notte é bella, - La luna va spontari... - ---Fica tão só, coitada!...--disse Jorge. - -Deu alguns passos pelo escriptorio, fumando, com a cabeça baixa: - ---Todo o casal bem organisado, Sebastião, deve ter dous filhos! Deve -ter pelo menos um!... - -Sebastião coçou a barba em silencio--e a voz de Luiza, elevando-se com -um certo esforço aspero, nos _altos_ da melodia : - - Di cà, di là, per la cità - Andiami a transnottari... - -Era uma tristeza secreta de Jorge--não ter um filho! Desejava-o tanto! -Ainda em solteiro, nas vesperas do casamento, já sonhava aquella -felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as -suas perninhas vermelhas, cheias de rôscas, e os cabellos annelados, -finos como fios de sêda; ou rapaz forte, entrando da escóla com os -livros, alegre e d'olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos -mestres: ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido -branco, as duas tranças cahidas, vindo pousar as mãos nos seus cabellos -já grisalhos... - -Vinha-lhe, ás vezes, um medo de morrer sem ter tido aquella felicidade -completadora! - -Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava, depois, no piano -Luiza recomeçou a _Mandolinata_, com um _brio_ jovial. - -A porta do escriptorio abriu-se, Julião entrou: - ---Que estão vossês aqui a conspirar? Vou-me safar, que é tarde! Até -á volta, meu velho, hein? Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vêr -campos, mas... - -E sorriu com amargura.--_Addio! Addio!_ - -Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçal-o outra vez. Se quizesse -alguma cousa do Alemtejo!... - -Julião carregou o chapéo na cabeça: - ---Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dous! - ---Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem! - -Embrulhou-lh'a n'um _Diario de Noticias_; Julião metteu-a debaixo do -braço, e descendo os degraus: - ---Cuidado com as sezões, e descobre uma mina d'ouro! - -Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, -torcia as guias do bigodinho, e Luiza começava uma valsa de Strauss--o -_Danubio Azul_. - -Jorge disse, rindo, estendendo os braços: - ---Uma valsa, D. Felicidade? - -Ella voltou-se, com um sorriso. E porque não? Em nova era fallada! -Citou logo a valsa que dançára com o sr. D. Fernando, no tempo da -Regencia, nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa época: _A -Perola d'Ophir_. - -Estava sentada ao pé do conselheiro, no sophá. E como retomando um -dialogo mais querido--continuou, baixo para elle, com uma voz meiga: - ---Pois creia, acho-o com optimas côres. - -O conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço de sêda da India. - ---Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade? - ---Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de -gazes... Estou outra! - ---Deus o queira, minha senhora, Deus o queira--disse o conselheiro, -esfregando lentamente as mãos. - -Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôz-se a dizer: - ---Espero que esse interesse seja verdadeiro... - -Córou. O corpete flaccido do vestido de sêda preta enchia-se-lhe com o -arfar do peito. - -O conselheiro recahiu lentamente no sophá,--e com as mãos nos joelhos: - ---D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero... - -Ella levantou para elle seus olhos pisados, d'onde sahiam revelações de -paixão e supplicas de felicidade: - ---E eu, conselheiro!... - -Deu um grande suspiro, pôz o leque sobre o rosto. - -O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabeça alta, as mãos atraz -das costas, foi ao piano, perguntou a Luiza curvando-se: - ---É alguma canção do Tyrol, D. Luiza? - ---Uma valsa de Strauss--murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de pés, ao -ouvido. - ---Ah! Muita fama! Grande author! - -Tirou então o relogio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns -apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solemnidade: - ---Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alemtejo! O clima é -nocivo, a estação traiçoeira! - -E apertou-o nos braços com uma pressão commovida. - -D. Felicidade punha a sua manta de renda negra. - ---Já, D. Felicidade?--disse Luiza. - -Ella explicou-lhe, ao ouvido: - ---Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas bajes e tenho -estado!... E aquelle homem, aquelle gêlo! O snr. Ernesto vem para os -meus sitios, hein? - ---Como um fuso, minha senhora! - -Tinha vestido o seu paletot d'alpaca clara, fumava chupando, com as -faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma Venus se torcia -sobre o dorso d'um leão domado. - ---Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hein? Adeus. Quando fôr a -_Honra e Paixão_ cá mando um camarote á prima Luiza. Adeus! Saudinha! - -Iam a sahir. Mas o conselheiro, á porta, voltando-se subitamente, com -as abas do paletot deitadas para traz, a mão pomposamente apoiada no -castão de prata da bengala que representava uma cabeça de mouro, disse, -com gravidade: - ---Esquecia-me, Jorge! Tanto em Evora, como em Beja, visite os -governadores civis! E eu lhe digo porquê: deve-lh'o como primeiros -funccionarios do districto, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas -peregrinações scientificas! - -E curvando-se profundamente: - ---_Al rivedere_, como se diz em Italia. - - - -Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco Luiza foi abrir -as janellas; a noite estava quente e immovel, de luar. - -Sebastião pozera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o -teclado. - -Tocava admiravelmente, com uma comprehensão muito fina da musica. -Outr'ora, compozera mesmo uma _Meditação_, duas _Valsas_, -uma _Ballada_: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de -reminiscencias, sem estylo.--Da cachimonia não me sahe nada--costumava -elle dizer com bonhomia, batendo na testa, sorrindo--mas lá com os -dedos!... - -Pôz-se a tocar um _Nocturno_ de Choppin. Jorge sentára-se no sophá ao -pé de Luiza. - ---Já tens prompto o teu farnelzinho!--disse-lhe ella. - ---Bastam umas bolachas, filha. O que quero é o cantil com _cognac_. - ---E não te esqueças de mandar um telegramma logo que chegues! - ---Pudera! - ---Tu d'aqui a quinze dias, vens! - ---Talvez... - -Ella teve um gesto amuado. - ---Ah, bem! Se não vieres, vou ter comtigo! A culpa é tua. - -E olhando em redor: - ---Que só que vou ficar! - -Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste: - ---Pst, Sebastião! A _malaguenha_, faz favor? - -Sebastião começou a tocar a _malaguenha_. Aquella melodia calida, muito -arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Malaga, ou em Granada, -não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrellinhas luzem; a noite é -quente, o ar cheira bem; por baixo d'um lampeão suspenso a um ramo, um -cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as -mulheres com os seus corpetes de velludilho encarnado batem as mãos -em cadencia: e ao largo dorme uma Andaluzia de romance e de zarzuela, -quente e sensual, onde tudo são braços brancos que se abrem para o -amor, capas romanticas que roçam as paredes, sombrias viellas onde luz -o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem -Santissima cantando as horas... - ---Muito bem, Sebastião! Gracias! - -Elle sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o -seu chapéo desabado: - ---Então ámanhã ás sete? Cá estou, e vou-te acompanhar até ao Barreiro. - -Bom Sebastião! - -Foram debruçar-se na varanda para o vêr sahir. A noite fazia um -silencio alto, d'uma melancolia placida; o gaz dos candieiros parecia -mortiço; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca, -tinha um tom quente e dôce; a luz punha nas fachadas brancas claridades -vivas, e nas pedras da calçada faiscações vidradas; uma clara-boia -reluzia, a distancia, como uma velha lamina de prata; nada se movia; e -instinctivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua -branca, muito séria. - ---Que linda noite! - -A porta bateu, e Sebastião de baixo, na sombra: - ---Dá vontade de passear, hein? - ---Linda! - -Ficaram á varanda preguiçosamente, olhando, detidos pela -tranquillidade, pela luz. Puzeram-se a fallar baixo da jornada. Áquella -hora onde estaria elle? Já em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando -monotonamente sobre um chão de tijolo. Mas voltaria breve; esperava -fazer um bom negocio com o Paco, o hespanhol das minas de Portel, -trazer talvez alguns centos de mil reis, e teriam então a doçura do -mez de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Bussaco, -trepar aos altos, beber a agua fresca das rochas, sob a espessura -humida das folhagens: irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na -arêa, no bom ar cheio d'azote, vendo o mar unido, d'um azul metallico -e faiscante, o mar do verão, com algum fumo de paquete que passa para -o Sul ao longe muito adelgaçado. Faziam outros planos com os hombros -muito chegados: uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E -Jorge disse: - ---Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só! - -Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia Carlos Eduardo. E -via-o no seu berço dormindo, ou no collo, nú, agarrando com a mãosinha -o dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento -d'um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o braço pela cinta -de Jorge. Um dia seria, teria um filho de certo! E não comprehendia -o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um -sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, -da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e côr de rosa. E a vida -apparecia-lhe infindavel, d'uma doçura igual, atravessada do mesmo -enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os -cobria. - ---A que horas quer a senhora que a venha acordar?--disse a voz secca de -Juliana. - -Luiza voltou-se: - ---Ás sete, já lhe disse ha pouco, creatura. - -Fecharam a janella. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaçava. -Era bom agouro! - -Jorge prendeu-a nos braços: - ---Vai ficar sem o seu maridinho, hein?--disse tristemente. - -Ela deixou pesar o corpo sobre as mãos d'elle cruzadas, olhou-o com um -longo olhar que se ennevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoço -com o gesto lento, harmonioso e solemne dos braços, pousou-lhe na bocca -um beijo grave e profundo. Um vago soluço levantou-lhe o peito. - ---Jorge! Querido!--murmurou. - - - - -III - - -Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, -Luiza vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, não -havia de gostar, não! Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se -tanto! De manhã, ainda tinha os arranjos, a costura, a _toilette_, -algum romance... Mas de tarde! - -Á hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, a solidão parecia -alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o _seu_ toque da -campainha, os seus passos no corredor!... - -Ao crepusculo, ao vêr cahir o dia, entristecia-se sem razão, cahia -n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes, -as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob os -seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços molles. -O que pensava em tolices então! E á noite, só, na larga cama franceza, -sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites -de viuvez. - -Não estava acostumada, não podia estar só. Até se lembrára de chamar a -tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos -era _alguem_: mas receou aborrecer-se mais ao pé da sua longa figura de -viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga -sobre um nariz d'aguia. - -N'aquella manhã pensára em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar, -rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e -saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma -redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado de vêasinhas finas; e -os seus braços redondinhos, um pouco vermelhos no cotovêlo, descobriam -por baixo, quando se erguiam prendendo as tranças, fiosinhos louros, -frisando e fazendo ninho. - -A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no -quarto um cheiro agudo de vinagre de _toilette_: os transparentes de -linho branco descidos davam uma luz baça, com tons de leite. - -Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa! -Que o que tinha graça era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no -Tabaquinho, um dia, ás tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e -encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao pescoço! E á tardinha, -pelo braço d'elle, ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco, -ir vêr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito. -Os homens vinham ás portas das lojas. Quem seria? É de Lisboa. É a do -Engenheiro.--E diante do toucador, apertando o corpete do vestido, -sorria áquellas imaginações, e ao seu rosto, no espelho. - -A porta do quarto rangeu devagarinho. - ---Que é? - -A voz de Juliana, plangente, disse: - ---A senhora dá licença que eu vá logo ao medico? - ---Vá, mas não se demore. Puxe-me essa saia atraz. Mais. O que é que -vossê tem? - ---Enjôos, minha senhora, peso no coração. Passei a noite em claro. - -Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia -um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos -velhos. - ---Pois sim, vá--disse Luiza.--Mas arranje tudo antes. E não se demore, -hein ? - -Juliana subiu logo á cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas -de sacada para as trazeiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do -fogão. - ---Diz que sim, snr.^a Joanna--disse á cozinheira--que podia ir. Vou-me -vestir. Ella tambem está quasi prompta. Fica vossemecê com a casa por -sua! - -A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir, -estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos não -deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um portal -largo,--a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o -Pedro, o seu amante. A pobre Joanna «babava-se» por ele. Era um -rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de -familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico -seduzia-a com uma violencia abrazada. Como não podia sahir á semana, -mettia-o em casa, pela porta de traz, quando estava só; estendia então -na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se -percebiam os paus de um veado. - -Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como -azeviche, todo lustroso do oleo de amendoas dôces. Tinha a testa curta -de plebêa teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o -olhar mais negro. - ---Ai!--suspirou Juliana.--A snr.^a Joanna é que a leva! - -A rapariga ficou escarlate. - -Mas Juliana acudiu logo: - ---Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem! - -Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia d'ella: Joanna -dava-lhe caldinhos ás horas de debilidade, ou, quando ella estava mais -adoentada, fazia-lhe um bife ás escondidas da senhora. Juliana tinha -um grande medo de «cair em fraqueza», e a cada momento precisava tomar -a «sustancia». De certo, como feia e solteirona detestava aquelle -«escandalo do carpinteiro»; mas protegia-o, porque elle valia muitos -regalos aos seus fracos de gulosa. - ---Fosse eu!--repetiu--dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a -ter escrupulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vêem uma pessoa a -morrer, e é como fosse um cão. - -E com um risinho amargo: - ---Diz que me não demorasse no medico. É como quem diz, cura-te depressa -ou espicha depressa! - -Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo: - ---Todas o mesmo, uma récua! - -Desceu, começou a varrer o corredor.--Toda a noite estivera doente: o -quarto no sotão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de -tijolo cozido, dava-lhe enjôos, faltas d'ar, desde o começo do verão: -na vespera até vomitára! E já levantada ás seis horas, não descançára, -limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o -estomago embrulhado!--Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais, -atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão. - ---A snr.^a D. Luiza está em casa? - -Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe -pareceu «estrangeirado». Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno -levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos -resplandecia. - ---A senhora vai sahir--disse ela olhando-o muito.--Faz favor de dizer -quem é? - -O individuo sorriu. - ---Diga-lhe que é um sujeito para um negocio. Um negocio de minas. - -Luiza, diante do toucador, já de chapéo, mettia n'uma casa do corpete -dous botões de rosa de chá. - ---Um negocio!--disse muito surprehendida--Deve ser algum recado para o -snr. Jorge, de certo! Mande entrar. Que especie de homem é? - ---Um janota! - -Luiza desceu o véo branco, calçou devagar as luvas de _peau de suède_ -claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e -abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez _ah!_ toda escarlate. -Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio. - - - -Houve um _shake-hands_ demorado, um pouco tremulo. Estavam ambos -calados:--ella com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; elle -fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas -vieram logo, muito precipitadamente:--Quando tinha elle chegado? Se -sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella? - -Chegára na vespera no paquete de Bordeus. Perguntára no ministerio: -disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a _adresse_... - ---Como tu estás mudada, Santo Deus! - ---Velha? - ---Bonita! - ---Ora! - -E elle, que tinha feito? Demorava-se? - -Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Elle -no sophá muito languidamente; ella ao pé, pousada de leve á beira d'uma -poltrona, toda nervosa. - -Tinha deixado o _degredo_--disse elle.--Viera respirar um pouco á -velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. -O ultimo anno passára-o em Paris. Vinha de lá, d'aquella aldeola de -Paris!--Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre -o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz. - -Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello -preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno -tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, a -mesma doçura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de -perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas -bordadas nas suas meias de sêda. A Bahia não o vulgarisára. Voltava -mais interessante! - ---Mas tu, conta-me de ti--dizia elle com um sorriso, inclinado para -ela.--És feliz, tens um pequerrucho... - ---Não--exclamou Luiza rindo.--Não tenho! Quem te disse? - ---Tinham-me dito. E teu marido demora-se? - ---Tres, quatro semanas, creio. - -Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se logo para a vir vêr mais -vezes, palrar um momento, pela manhã... - ---Pudera não! És o unico parente, que tenho, agora... - -Era verdade!... E a conversação tomou uma intimidade melancolica: -fallaram da mãi de Luiza, a _tia Jójó_, como lhe chamava Bazilio. Luiza -contou a sua morte, muito dôce, na poltrona, sem um ai... - ---Onde está sepultada?--perguntou Bazilio com uma voz grave; e -acrescentou, puxando o punho da camisa de chita:--Está no nosso jazigo? - ---Está. - ---Hei-de ir lá. Pobre tia Jójó! - -Houve um silencio. - ---Mas tu ias sahir!--disse Bazilio de repente, querendo erguer-se. - ---Não!--exclamou--Não! Estava aborrecida, não tinha nada que fazer. Ia -tomar ar. Não saio, já. - -Elle ainda disse: - ---Não te prendas... - ---Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento. - -Tirou logo o chapéo; n'aquelle movimento os braços erguidos repuxaram o -corpete justo, as fórmas do seio accusaram-se suavemente. - -Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalçar as luvas: - ---Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas... -Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu... - -Ella riu-se. - ---De certo que não... - -Bazilio disse então, lentamente, fitando o chão: - ---Ah! Outros tempos! - -E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira idéa, mal chegára, tinha -sido tomar uma tipoia e ir lá: queria vêr a quinta; ainda existiria o -balouço debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramanchão de rosinhas -brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?... - -Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre -a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de -vidro; e a velha casa morgada fôra reconstruida e mobilada pelo Gardé. - ---A nossa pobre sala de bilhar, côr d'oca, com grinaldas de -rosas!--disse Bazilio; e fitando-a:--Lembras-te das nossas partidas de -bilhar? - -Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos -para elle, disse, sorrindo: - ---Eramos duas crianças! - -Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete: -parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida: - ---Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo! - -Ella via a sua cabeça bem feita, descahida n'aquella melancolia -das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos -brancos--que lhe dera a separação. Sentia tambem uma vaga saudade -encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, como para -dissipar na luz viva e forte aquella perturbação. Perguntou-lhe então -pelas viagens, por Paris, por Constantinopla. - -Fôra sempre o seu desejo viajar--dizia--ir ao Oriente. Quereria andar -em caravanas, balouçada no dorso dos camêlos; e não teria medo, nem do -deserto, nem das feras... - ---Estás muito valente!--disse Bazilio.--Tu eras uma maricas, tinhas -medo de tudo... Até da adega, na casa do papá, em Almada! - -Ella córou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterranea -que dava arripios! A candêa d'azeite pendurada na parede alumiava com -uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de têas d'aranha, -e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia alli ás vezes, pelos -cantos, beijos furtados... - -Quiz saber então o que tinha feito em Jerusalém, se era bonito. - -Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo Sepulchro; depois -d'almoço montava a cavallo... Não se estava mal no hotel, inglezas -bonitas... Tinha algumas intimidades illustres... - -Fallava d'ellas, devagar, traçando a perna: o seu amigo o patriarcha -de Jerusalém, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas -o melhor do dia era de tarde--dizia--no Jardim das Oliveiras, vendo -defronte as muralhas do templo de Salomão, ao pé a aldêa escura de -Bethania onde Martha fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando -immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco, -fumando tranquillamente o seu cachimbo! - -Se tinha corrido perigos? - -De certo. Uma tempestade de arêa no deserto de Petra! Horrivel! Mas -que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua -_toilette_:--uma manta de pelle de camêlo ás listras vermelhas e -pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de Bagdad, e a lança comprida -dos Beduinos. - ---Devia-te ficar bem! - ---Muito bem. Tenho photographias. - -Prometteu dar-lhe uma, e acrescentou: - ---Sabes que te trago presentes? - ---Trazes?--E os seus olhos brilhavam. - -O melhor era um rosario... - ---Um rosario? - ---Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha de Jerusalém sobre -o tumulo de Christo, depois pelo papa... - -Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito aceado, já todo -branquinho, vestido de branco, muito amavel! - ---Tu d'antes não eras muito devota--disse. - ---Não, não sou muito caturra n'essas cousas--respondeu rindo. - ---Lembras-te da capella de nossa casa em Almada? - -Tinham passado alli lindas tardes! Ao pé da velha capella morgada -havia um adro todo cheio de altas hervas floridas,--e as papoulas, -quando vinha a aragem, agitavam-se como azas vermelhas de borboletas -pousadas... - ---E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica? - ---Não fallemos no que lá vai! - -Em que queria ella então que elle fallasse? Era a sua mocidade, o -melhor que tivera na vida... - -Ella sorriu, perguntou: - ---E no Brazil? - -Um horror! Até fizera a côrte a uma mulata. - ---E porque te não casaste?... - -Estava a mangar! Uma mulata! - ---E de resto--acrescentou com a voz d'um arrependimento -triste--já que me não casei quando devia,--encolheu os hombros -melancolicamente--acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro. - -Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio. - ---E qual é o outro presente, então, além do rosario? - ---Ah! Luvas. Luvas de verão, de _peau de suède_, de oito botões. Luvas -decentes. Vossês aqui usam umas luvitas de dous botões, a vêr-se o -punho, um horror! - -De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se -vestiam peor! Era atroz! Não dizia por ella; até aquelle vestido tinha -_chic_, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em -Paris! Que deliciosas, que frescas as _toilettes_ d'aquelle verão! -Oh! mas em Paris!... Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegára -ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer!--Só em Paris se -come--resumiu. - -Luiza voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço -por uma fita de velludo preto. - ---E estiveste então um anno em Paris? - -Um anno divino. Tinha um _appartamento_ lindissimo, que pertencera a -lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos... - -E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos: - ---Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais confortavel possivel!... -Dize cá, tens algum retrato n'esse medalhão? - ---O retrato de meu marido. - ---Ah! deixa vêr! - -Luiza abriu o medalhão. Elle debruçou-se; tinha o rosto quasi sobre o -peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos. - ---Muito bem, muito bem!--fez Bazilio. - -Ficaram calados. - ---Que calor que está!--disse Luiza.--Abafa-se, hein! - -Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O sol deixára a varanda. -Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinellas. - ---É o calor do Brazil--disse elle.--Sabes que estás mais crescida? - -Luiza estava de pé. O olhar de Bazilio corria-lhe as linhas do corpo; e -com a voz muito intima, os cotovêlos sobre os joelhos, o rosto erguido -para ella: - ---Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te viria vêr? - ---Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. És o meu unico -parente... O que tenho pena é que meu marido não esteja... - ---Eu--acudiu Bazilio--foi justamente por elle não estar... - -Luiza fez-se escarlate. Bazilio emendou logo, um pouco corado tambem: - ---Quero dizer... talvez elle saiba que houve entre nós... - -Ella interrompeu: - ---Tolices! Eramos duas crianças. Onde isso vai! - ---Eu tinha vinte e sete annos--observou elle, curvando-se. - -Ficaram calados, um pouco embaraçados. Bazilio cofiava o bigode, -olhando vagamente em redor. - ---Estás muito bem installada aqui--disse. - -Não estava mal... A casa era pequena, mas muito commoda. Pertencia-lhes. - ---Ah! estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta d'ouro? - -E indicava o retrato por cima do sophá. - ---A mãi de meu marido. - ---Ah! vive ainda? - ---Morreu. - ---É o que uma sogra póde fazer de mais amavel... - -Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguçados, -e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapéo. - ---Já? Onde estás? - ---No Hotel Central. E até quando? - ---Até quando quizeres. Não disseste que vinhas ámanhã com o rosario? - -Elle tomou-lhe a mão, curvou-se: - ---Já se não póde dar um beijo na mão d'uma velha prima? - ---Porque não? - -Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com uma pressão dôce. - ---Adeus!--disse. - -E á porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se: - ---Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, -como se vai isto passar? - ---Isto quê? Vêrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu? - -Elle hesitou, sorriu: - ---Imaginei que não eras tão boa rapariga. Adeus. Ámanhã, hein? - -No fundo da escada accendeu o charuto, devagar. - ---Que bonita que ella está!--pensou. - -E arremessando o phosphoro, com força: - ---E eu, pedaço d'asno, que estava quasi decidido a não a vir vêr! -Está de appetite! Está muito melhor! E sósinha em casa, aborrecidinha -talvez!... - -Ao pé da Patriarchal fez parar um _coupé_ vazio; e estendido, com o -chapéo nos joelhos, em quanto a parelha esfalfada trotava: - ---E tem-me o ar de ser muito aceada, cousa rara na terra! As mãos muito -bem tratadas! O pé muito bonito! - -Revia a pequenez do pé, poz-se a fazer por elle o desenho mental de -outras bellezas, despindo-a, querendo adivinhal-a... A amante que -deixára em Paris era muito alta e magra, d'uma elegancia de tisica; -quando se decotava viam-se as saliencias das suas primeiras costellas. -E as fórmas redondinhas de Luiza decidiram-no: - ---A ella!--exclamou com appetite:--A ella, como S. Thiago aos mouros! - - - -Luiza, quando o sentiu em baixo fechar a porta da rua, entrou no -quarto, atirou o chapéo para a _causeuse,_ e foi-se logo vêr ao -espelho. Que felicidade estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em -roupão, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de pós -de arroz. Foi á janella, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda -nas casas fronteiras. Sentia-se cançada. Áquellas horas, Leopoldina -estava a jantar já, de certo... Pensou em escrever a Jorge «para -matar o tempo», mas veio-lhe uma preguiça; estava tanto calor! Depois -não tinha que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar diante do -espelho, olhando-se muito, gostando de se vêr branca, acariciando a -finura da pelle, com bocejos languidos d'um cansaço feliz.--Havia -sete annos que não via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, mais -queimado, mas ia-lhe bem! - -E depois de jantar ficou junto á janella, estendida na _voltaire_, com -um livro esquecido no regaço. O vento cahira, e o ar, de um azul forte -nas alturas, estava immovel; a poeira grossa pousára, a tarde tinha -uma transparencia calma de luz; passaros chilreavam na figueira brava; -da serralheria proxima sahia o martellar continuo e sonoro de folhas -de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de côr -de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas. -Depois tudo se cobriu de uma sombra diffusa, calada e quente, com uma -estrellinha muita viva que luzia e tremia. E Luiza deixára-se ficar na -_voltaire_ esquecida, absorvida, sem pedir luz. - ---Que vida interessante a do primo Bazilio!--pensava.--O que elle tinha -visto! Se ella podesse tambem fazer as suas malas, partir, admirar -aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! -Como desejaria visitar os paizes que conhecia dos romances--a Escocia e -os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palacios tragicos; aportar -ás bahias, onde um mar luminoso e faiscante morre na arêa fulva; e das -cabanas dos pescadores, de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vêr -azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris -sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria de certo; eram pobres; Jorge era -caseiro, tão lisboeta! - -Como seria o patriarcha de Jerusalém? Imaginava-o de longas barbas -brancas, recamado d'ouro, entre instrumentações solemnes e rolos de -incenso! E a princeza de La Tour d'Auvergne? Devia ser bella, de uma -estatura real, vivia cercada de pagens, namorára-se de Bazilio.--A -noite escurecia, outras estrellas luziam.--Mas de que servia viajar, -enjoar nos paquetes, bocejar nos wagons, e, n'uma diligencia muita -sacudida, cabecear de somno pela serra nas madrugadas frias? Não era -melhor viver n'um bom conforto, com um marido terno, uma casinha -abrigada, colxões macios, uma noite de theatro ás vezes, e um bom -almoço nas manhãs claras quando os canarios chalram? Era o que ella -tinha. Era bem feliz! Então veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria -abraçal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o fumando o seu -cachimbo no escriptorio, com o seu jaquetão de velludo. Tinha tudo, -elle, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era bello, com uns -olhos magnificos, terno, fiel. Não gostaria de um marido com uma vida -sedentaria e caturra: mas a profissão de Jorge era interessante; descia -aos poços tenebrosos das minas, um dia aperrára as pistolas contra -uma malta revoltada; era valente, tinha talento! Involuntariamente, -porém, o primo Bazilio fazendo fluctuar o seu _burnous_ branco pelas -planicies da Terra Santa; ou em Paris, direito na almofada, governando -tranquillamente os seus cavallos inquietos--davam-lhe a idéa d'uma -outra existencia mais poetica, mais propria para os episodios do -sentimento. - -Do céo estrellado cahia uma luz diffusa: janellas alumiadas sobresahiam -ao longe, abertas á noite abafada: vôos de morcegos passavam diante da -vidraça. - ---A senhora não quer luz?--perguntou á porta a voz fatigada de Juliana. - ---Ponha-a no quarto. - -Desceu. Bocejava muito, sentia-se quebrada. - ---É trovoada--pensou. - -Foi á sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da _Lucia_, da -_Somnambula_, o _Fado_; e parando, os dedos pousados de leve sobre -o teclado, poz-se a pensar que Bazilio devia vir no dia seguinte: -vestiria o roupão novo de _foulard_ côr de castanho! Recomeçou o -_Fado_, mas os olhos cerravam-se-lhe. - -Foi para o quarto. - -Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinellas, com -um casabeque pelos hombros, encolhida e lugubre. Aquella figura com um -ar de enfermaria irritou Luiza: - ---Credo, mulher! Vossê parece a imagem da morte! - -Juliana não respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa, -sobre a commoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos: - ---A senhora não precisa mais nada, não? - ---Vá-se, mulher, vá! - - - -Juliana foi buscar o candieiro de petroleo, subiu ao quarto. Dormia em -cima, no sotão, ao pé da cozinheira. - ---Pareço-te a imagem da morte!--resmungava, furiosa. - -O quarto era baixo, muito estreito, com o tecto de madeira inclinado; -o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado -como um forno; havia sempre á noite um cheiro requentado de tijolo -escandecido. Dormia n'um leito de ferro, sobre um colxão de palha -molle coberto d'uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os -seus _bentinhos_ e a rêde enxovalhada que punha na cabeça; ao pé tinha -preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa -fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova -de cabello ennegrecida e despellada, um pente d'osso, as garrafas de -remedio, uma velha pregadeira de setim amarello, e, embrulhada n'um -jornal, a _cuia_ de retroz dos domingos. E o unico adorno das paredes -sujas, riscadas da cabeça de phosphoros,--era uma lithographia de Nossa -Senhora das Dôres por cima da cama, e um daguerreotypo onde se percebia -vagamente, no reflexo espelhado da lamina, os bigodes encerados e as -divisas de um sargento. - ---A senhora já se deitou, snr.^a Juliana?--perguntou a cozinheira do -quarto pegado, d'onde sahia uma barra de luz viva cortando a escuridão -do corredor. - ---Já se deitou, snr.^a Joanna, já. Está hoje com os azeites. Falta-lhe -o homem! - -Joanna, ás voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. Não podia -dormir! Abafava-se! Ouf! - ---Ai! e aqui!--exclamou Juliana. - -Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calçou -as chinellas de tapete, e foi ao quarto de Joanna. Mas não entrou, -ficou á porta; era _criada de dentro_, evitava familiaridades. Tinha -tirado a _cuia_, e com um lenço preto e amarello amarrado na cabeça, o -seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do craneo; -a camisa decotada descobria as claviculas descarnadas; a saia curta -mostrava as canellas muito brancas, muito seccas. E com o casabeque -pelos hombros, coçando devagarinho os cotovêlos agudos: - ---Diga-me cá, snr.^a Joanna--disse com a voz discreta--aquelle sujeito -demorou-se muito? Reparou? - ---Tinha sahido n'aquelle instantinho, quando vossemecê entrou. Ouf! - -Encalmada, quasi descoberta, com as pernas muito abertas, Joanna -coçava-se furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos á minhota -que lhe descobria os peitos. Não podia parar com os persevejos! O raio -do quarto tinha ninhos! Até sentia o estomago embrulhado. - ---Ai! é um inferno!--disse com lastima Juliana.--Eu só adormeço com -dia. Mas ainda eu agora reparo... Vossemecê tem S. Pedro á cabeceira. É -devoção? - ---É o santo do meu rapaz--disse a outra. Sentou-se na cama. Ouf! E -então tinha estado toda a noite com uma sêde!... - -Saltou para o chão, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi -ao jarro, pôl-o á bocca, bebeu uma tarraçada. A camisa justa, feita de -pouca fazenda, mostrava as fórmas rijas e valentes. - ---Pois eu fui ao medico--disse Juliana. E com um grande suspiro:--Ai! -isto só Deus, snr.^a Joanna! Isto só Deus! - -Mas porque se não resolvia a snr.^a Juliana a ir á mulher de virtude? -Era a saude certa. Morava ao Poço dos Negros; tinha orações e unguentos -para tudo. Levava meia moeda pelo _preparo_... - ---Que isso são humores, snr.^a Juliana. O que vossemecê tem, são -humores. - -Juliana tinha dado dous passos para dentro do quarto. Quando se tratava -de doenças, de remedios, tornava-se mais familiar. - ---Eu já me tenho lembrado... eu já me tenho lembrado de ir á mulher. -Mas, meia moeda! - -E ficou a olhar, tristemente, reflectindo. - ---É o que eu tenho junto para umas botinas de gaspia! - -Eram o seu vicio, as botinas! Arruinava-se com ellas: tinha-as de -duraque com ponteiras de verniz, de cordovão com laço, de pellica -com pespontos de côr, embrulhadas em papeis de sêda, na arca, -fechadas--guardadas para os domingos! - -Joanna censurou-a. - ---Ai! eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os -arrebiques! - -Queixou-se tambem da sua miseria. Tinha pedido á senhora um mez -adiantado! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo -gosto da que trazia, a desfazerem-se! - ---Mas, então!--suspirou--O meu rapaz precisou um dinheiro... - ---Vossemecê tambem, snr.^a Joanna, deixa-se cardar pelo homem! - -Joanna sorriu. - ---Ainda que eu tivesse de roer ossos, snr.^a Juliana, a ultima migalha -havia de ser p'ra elle! - -Juliana teve um risinho secco, e com a voz arrastada: - ---Vale lá a pena! - -Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse d'aquelle amor, pelas -suas delicias. Repetiu, contrafeita: - ---Vale lá a pena! Perfeito rapaz--continuou--o que veio hoje vêr a -senhora! Melhor que o homem! - -E depois d'uma pausa: - ---Então esteve mais de duas horas? - ---Tinha sahido quando vossemecê entrou. - -Mas o candieiro de petroleo apagava-se, com um cheiro fetido e uma -fumarada negra. - ---Boa noite, snr.^a Joanna. Ainda vou rezar a minha corôa. - ---Ó snr.^a Juliana!--disse a outra d'entre os lençoes--Se vossemecê -quer rezar tres salvè-rainhas pela saude do meu rapaz que tem estado -adoentado, eu cá lhe rezava tres pelas melhoras do peito. - ---Pois sim, snr.^a Joanna! - -Mas reflectindo: - ---Olhe. Eu do peito vou melhor; dê-m'as antes p'ra allivio das dôres de -cabeça. A Santa Engracia! - ---Como vossemecê quizer, snr.^a Juliana. - ---Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe ahi um cheiro! Credo! - -Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor molle continuo cahia -do forro; começou a faltar-lhe o ar: tornou a abrir o postigo, mas o -bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a; e era assim todas as -noites, desde o começo do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam -de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto -peor. Nunca! - -A cozinheira começou a resonar ao lado. E acordada, ás voltas, com -afflicções no coração, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma -amargura maior! - - - -Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mãi -fôra engommadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito, -a quem chamavam na visinhança--_o fidalgo_, a quem sua mãi chamava--o -snr. D. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no verão, no inverno -de manhã, para a saleta onde sua mãi engommava, e alli estava horas -sentado no poial da janella que dava para um quintalejo, fumando -cachimbo, cofiando em silencio um enorme bigode preto. Como o poial era -de pedra, punha-lhe em cima, com muito methodo, uma almofada de vento, -que elle mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena -de velludo castanho e chapéo alto branco. Ás seis horas levantava-se, -esvaziava a almofada, estava um bocado a esticar as calças para cima, -e sahia, com a sua grossa bengala de cana da India debaixo do braço, -gingando da cinta. Ella e sua mãi iam então jantar na mesinha de pinho -da cozinha debaixo d'um postigo, diante do qual se balouçavam, de verão -e d'inverno, galhos magros d'uma arvore triste. - -Á noite o snr. D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua mãi -fazia-lhe chá e torradas, servia-o, toda enlevada n'elle. Muitas vezes -Juliana a vira chorar de ciumes. - -Um dia uma visinha má, a quem ella não quizera ajudar a lavar a roupa, -enfureceu-se, e atirando-lhe injurias dos degraus da porta,--gritou-lhe -que sua mãi era uma desavergonhada, e que seu pai estava na Africa por -ter morto o _Rei de Copas_! - -Pouco tempo depois foi servir. Sua mãi morreu d'ahi a mezes, com uma -doença d'utero. Juliana só uma vez tornou a vêr o snr. D. Augusto,--uma -tarde, com uma opa rôxa, lugubre, na procissão de Passos! - -Servia, havia vintes annos. Como ella dizia, mudava de amos, mas não -mudava de sorte. Vinte annos a dormir em cacifros, a levantar-se -de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a soffrer -os repellões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer -despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se -quando voltava a saude!... Era de mais! Tinha agora dias em que só de -vêr o balde das aguas sujas e o ferro d'engommar se lhe embrulhava o -estomago. Nunca se acostumára a servir. Desde rapariga a sua ambição -fôra ter um negociosito, uma tabacaria, uma loja de capellista ou de -quinquilherias, dispôr, governar, ser patrôa: mas, apesar d'economias -mesquinhas e de calculos sôfregos, o mais que conseguira juntar foram -sete moedas ao fim d'annos: tinha então adoecido; com o horror do -hospital fôra tratar-se para casa d'uma parenta; e o dinheiro, ai! -derretera-se! No dia em que se trocou a ultima libra, chorou horas com -a cabeça debaixo da roupa. - -Ficou sempre adoentada desde então, perdeu toda a esperança de se -estabelecer. Teria de servir até ser velha, sempre, d'amo em amo! Essa -certeza dava-lhe uma desconsolação constante. Começou a azedar-se. - -E depois não tinha _geito_, não sabia tirar partido das casas: via -companheiras divertir-se, visinhar, janellar, bisbilhotar, sahir aos -domingos ás hortas e aos retiros, levar o dia cantando, e quando as -patrôas iam ao theatro, abrir a porta aos derriços--e patuscar pelos -quartos! Ella não. Sempre fôra embezerrada. Fazia a sua obrigação, -comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando não passeava, -encostava-se a uma janella, com o lenço sobre o peitoril para não -roçar as mangas, e alli estava immovel, a olhar, com o seu broche de -filigrana e a cuia dos dias santos! Outras companheiras eram muito das -amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fóra as historias -da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e p'ra dentro e p'ra fóra, -muito confidentes,--muito presenteadas tambem! Ella não podia. Era -_minha senhora isto! minha senhora aquillo!_ E cada uma no seu lugar! -Era genio. - -Desde que servia, apenas entrava n'uma casa sentia logo, n'um relance, -a hostilidade, a malquerença: a senhora fallava-lhe com seccura, de -longe; as crianças tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam -chalrando, calavam-se, mal a sua figura esguia apparecia; punham-lhe -alcunhas--_a isca sêcca_, _a fava torrada_, _o saca-rolhas_; -imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos -cantos; e só tinha encontrado alguma sympathia nos gallegos taciturnos, -cheios d'uma saudade morrinhenta, que veem de manhã quando ainda os -quartos estão escuros, com as suas grossas passadas, encher os barris, -engraxar o calçado. - -Lentamente, começou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste; -tinha respostadas, questões com as companheiras; não se havia de deixar -pôr o pé no pescoço! - -As antipathias que a cercavam faziam-na assanhada, como um circulo -d'espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhe -ennodoar a pelle; e se lhe ralhavam, a sua colera rompia em rajadas. -Começou a ser despedida. N'um só anno esteve em tres casas. Sahia com -escandalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas -pallidas, todas nervosas... - -A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Victoria, disse-lhe: - ---Tu acabas por não ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do pão! - -O pão! Aquella palavra que é o terror, o sonho, a difficuldade do pobre -assustou-a. Era fina, e dominou-se. Começou a fazer-se «uma pobre -mulher», com affectações de zelo, um ar de soffrer tudo, os olhos -no chão. Mas roia-se por dentro: veio-lhe a inquietação nervosa dos -musculos da face, o _tic_ de franzir o nariz: a pelle esverdeou-se-lhe -de bilis. - -A necessidade de se constranger trouxe-lhe o habito d'odiar: odiou -sobretudo as patrôas, com um odio irracional e pueril. Tivera-as ricas, -com palacetes, e pobres, mulheres d'empregados, velhas e raparigas, -colericas e pacientes;--odiava-as a todas, sem differença. É patrôa -e basta! Pela mais simples palavra, pelo acto mais trivial! Se as -via sentadas:--Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as via -sahir:--Vai-te, a negra cá fica no buraco! Cada riso d'ellas era uma -offensa á sua tristeza doentia; cada vestido novo uma affronta ao seu -velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos -e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham -um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o -dia em voz de falsete a _Carta adorada_! Com que gosto trazia a conta -retardada d'um credor impaciente, quando presentia embaraços na casa! -«Este papel!--gritava com uma voz estridente--diz que não se vai embora -sem uma resposta!» Todos os lutos a deleitavam,--e sob o chale preto, -que lhe tinham comprado, tinha palpitações de regosijo. Tinha visto -morrer criancinhas, e nem a afflicção das mães a commovera; encolhia os -hombros: «Vai d'alli, vai fazer outro. Cabras!» - -As boas palavras mesmo, as condescendencias eram perdidas com ella, -como gotas d'agua lançadas no fogo. Resumia as patrôas na mesma -palavra--_uma récua_! E detestava as boas pelos vexames que soffrera -das más. A ama era para ella o Inimigo, o Tyranno. Tinha visto morrer -duas,--e de cada vez sentira, sem saber porquê, um vago allivio, como -se uma porção do vasto peso, que a suffocava na vida, se tivesse -desprendido e evaporado! - -Sempre fôra invejosa; com a idade aquelle sentimento exagerou-se de -um modo aspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos -comiam, a roupa branca que vestiam. As noites de _soirée_, de theatro, -exasperavam-na. Quando havia passeios projectados, se chovia de -repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapéo, -olhando por dentro da vidraça com um tedio infeliz, deliciava-a, -fazia-a loquaz: - ---Ai minha senhora! É um temporal desfeito! É a cantaros, está para -todo o dia! Olha o ferro! - -E muito curiosa: era facil encontral-a, de repente, cosida por detraz -de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguçado. Qualquer carta -que vinha era revirada, cheirada... Remexia subtilmente em todas as -gavetas abertas, vasculhava em todos os papeis atirados. Tinha um modo -de andar ligeiro e surprehendedor. Examinava as visitas. Andava á busca -de um _segredo_, de um _bom segredo_! Se lhe cahia um nas mãos! - -Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de -petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho -avermelhado seguia avidamente as porções cortadas á mesa; e qualquer -bom appetite que repetia exasperava-a, como uma diminuição da sua -parte. De comer sempre os restos ganhára o ar aguado,--o seu cabello -tomára tons seccos, côr de rato. Era lambareira: gostava de vinho; -em certos dias comprava uma garrafa de oitenta reis, e bebia-a só, -fechada, repimpada, com estalos da lingua, a orla do vestido um pouco -erguida, revendo-se no pé. - -E nunca tivera um homem, era virgem. Fôra sempre feia, ninguem a -tentára: e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, não se -offerecera, como vira muitas, claramente. O unico homem que a olhára -com desejo tinha sido um criado de cavalhariça, atarracado e immundo, -de aspecto facinora: a sua magreza, a sua _cuia_, o seu ar domingueiro -tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de _bull-dog_. Causára-lhe -horror,--mas vaidade. E o primeiro homem por quem ella sentira, um -criado bonito e alourado, rira-se d'ella, pozera-lhe o nome da _Isca -sêcca_! Não contou mais com os homens, por despeito, por desconfiança -de si mesma. As rebelliões da natureza, suffocava-as; eram _fogachos, -flatos_. Passavam. Mas faziam-na mais secca; e a falta d'aquella grande -consolação aggravava a miseria da sua vida. - -Um dia teve, emfim, uma grande esperança. Entrára para o serviço -da snr.^a D. Virginia Lemos, uma viuva rica, tia de Jorge, muito -doente, quasi a morrer com um catarrho de bexiga. A tia Victoria, a -inculcadeira, preveniu-a: - ---Tu trata a velha, apaparica-a, que ella o que quer é uma enfermeira -que a soffra. É rica, não é nada apegada ao dinheiro, é capaz de te -deixar uma independencia! - -Durante um anno Juliana, roída de ambição, foi a enfermeira da velha. -Que zelos! que mimos! - -Virginia era muito rabugenta, a idéa de morrer enfurecia-a; quanto mais -ella ralhava com a sua voz guttural, mais Juliana se fazia serviçal. A -velha, por fim, estava enternecida: gabava-a ás pessoas que a vinham -vêr, chamava-lhe a sua _providencia_. Tinha-a recommendado muito a -Jorge. - ---Não ha outra! não ha outra!--exclamava. - ---Pois apanhaste!--dizia-lhe a tia Victoria.--Pelo menos deixa-te o teu -conto de reis. - -Um conto de reis! Juliana, de noite, em quanto a velha gemia no seu -antigo leito de pau santo, via o conto de reis á claridade morbida que -dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotavel e prodigioso. -Que faria com o dinheiro? E, á cabeceira da doente, com um cobertor -pelos hombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de -capellista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um -conto de reis era um dote, poderia casar, teria um homem! - -Estavam acabadas as canceiras. Ia jantar, emfim, o _seu_ jantar! -Mandar, emfim, a _sua_ criada! A _sua_ criada! Via-se a chamal-a, -a dizer-lhe, de cima para baixo:--Faça, vá, despeje, sáia!--Tinha -contracções no estomago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe -andassem direitas! Desmazelos, más respostas, não havia de soffrer a -criadas!--E, impellida por aquellas imaginações, arrastava subtilmente -as chinellas pelo quarto, fallando só.--Não, desmazelos, não havia de -soffrer! Mantel-as bem, de certo, porque quem trabalha precisa metter -p'ra dentro! Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! lá isso, haviam de -lhe andar direitas...--A velha tinha então um gemido mais afflicto. - ---É agora!--pensava--Morre! - -E o seu olhar ancioso ia logo para a gaveta da commoda, onde estava -de certo o dinheiro, os papeis. Mas não! a velha queria beber, ou -voltar-se... - ---Como se sente?--perguntava Juliana, com uma voz plangente. - ---Melhor, Juliana, melhor--murmurava. - -Suppunha-se sempre melhor. - ---Mas a senhora tem estado desinquieta!--dizia Juliana, despeitada da -melhora. - ---Não--suspirava--dormi bem! - ---Isso não tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite -a gemer! - -Queria argumentar com ella, convencel-a que estava peor! Convencer-se a -si mesma que o allivio era ephemero, que ia morrer depressa! E todas as -manhãs seguia o dr. Pinto até á porta, com os braços cruzados, a face -triste: - ---Então, snr. doutor, não ha esperança? - ---Está por dias! - -Queria saber os dias: dous? cinco? - ---Sim, snr.^a Juliana--dizia o velho, calçando as suas luvas -pretas--uns dias, sete, oito. - ---Oito dias! - -E como a felicidade se aproximava, já tinha de olho tres pares de -botinas que vira na vidraça do Manoel Lourenço! - -A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento! - -Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados d'ella com a tia -Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para -criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar. - -Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, começava a queixar-se -mais do coração. Vinha desilludida de tudo, tinha ás vezes vontade de -morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus _ais_. Luiza achava-a -funebre. - -Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge não consentiu, -estava em divida com ella, dizia. Mas Luiza não podia disfarçar a -sua antipathia;--e Juliana começou a detestal-a: poz-lhe logo um -nome:--a _piorrinha_! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores: -renovava-se a mobilia da sala! A tia Virginia deixára tres contos de -reis a Jorge,--e ella, ella que durante um anno fôra a enfermeira, -humilde como um cão e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo, -tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das -canceiras! Julgava-se vagamente roubada. Começou a odiar a casa. - -Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia n'um cubiculo abafado; ao -jantar não lhe davam vinho, nem sobremesa; o serviço dos engommados -era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, e era um -trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha: -achava despropositada aquella mania de se pôrem a chafurdar todos os -dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca -vira semelhante desproposito! A unica vantagem--dizia ella á tia -Victoria--era não haver pequenos; tinha horror a crianças! Além d'isso -achava que o bairro era saudavel; e como tinha a cozinheira «na mão», -não é verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato -melhor de vez em quando! Por isso ficava; senão, não era ella! - -Fazia no entanto o seu serviço, ninguem tinha nada que lhe dizer. O -olho aberto sempre e o ouvido á escuta, já se vê! E como perdera a -esperança de se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economisar: -por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e -satisfazia o seu vicio,--trazer o pé catita. O pé era o seu orgulho, a -sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino. - ---Como poucos--dizia ella--não vai outro ao Passeio! - -E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito -para fóra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico, -e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de -sêda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, immovel, feliz,--a -mostrar, a expôr o pé! - - - - -IV - - -Pelas tres horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para -uma cadeira, derreada. Não se tinha nas pernas de debilidade! Desde as -duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta -na vespera até deixára cinza de tabaco por cima das mesas! A negra é -que as pagava. E que calor! Era de derreter! Ouf! - ---O caldinho ha-de estar prompto, hein!--disse, adocicando a -voz.--Tira-m'o, snr.^a Joanna, faz favor? - ---Vossemecê hoje está com outra cara--notou a cozinheira. - ---Ai! sinto-me outra, snr.^a Joanna! Pois olhe que adormeci com dia. Já -luzia o dia! - ---E eu!--Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma côr de fogo a -passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na bocca do estomago, -como quem pisava uvas n'um lagar! - ---Enfartamento--disse sentenciosamente Juliana, e repetiu: - ---Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me não sinto tão bem! - -Sorria com os seus dentes amarellados. O caldo que Joanna deitava na -malga branca, com um vapor cheiroso, cheio de hortaliça, dava-lhe uma -alegria gulosa. Estendeu os pés, recostou-se, feliz, na boa sensação -da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janellas -abertas. - -O sol retirára-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, -plantas pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor: sobre -uma táboa a um canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um pé -de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteirão: esfregões -seccavam n'uma corda: e para além alargava-se o azul vivo como um -metal candente, as arvores dos quintaes tinham tons ardentes do sol, -os telhados pardos com as suas vegetações esguias coziam no calor, e -pedaços de paredes caiadas despediam uma rebrilhação dura. - ---Está de appetite, snr.^a Joanna, está de appetite!--dizia Juliana, -remexendo o caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de pé, com os -braços cruzados sobre o seu peito abundante, regosijava-se: - ---O que se quer é que esteja a gosto. - ---Está a preceito. - -Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras.--E a campainha da -porta que já tinha tocado, tornou a tilintar discretamente. - -Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente entravam: ouvia-se ferver -a panella no fogão, e fóra o martellar incessante da forja: ás vezes o -arrulhar triste de duas rôlas que viviam na varanda, n'uma gaiola de -vime, punha na tarde abrazada uma sensação de suavidade. - -A campainha retilintou, sacudida com impaciencia. - ---Com a cabeça, burro!--disse Juliana. - -Riram. Joanna fôra sentar-se á janella, n'uma cadeira baixa; estendia -os seus grossos pés, calçados de chinellas de ourêlo; coçava-se -devagarinho no sovaco, toda repousada. - -A campainha retiniu violentamente. - ---Fóra, besta!--rosnou Juliana, muito tranquilla. - -Mas a voz irritada de Luiza chamou de baixo: - ---Juliana! - ---Que nem uma pessoa póde tomar a sustancia socegada! Raio de casa! -Irra! - ---Juliana!--gritou Luiza. - -A cozinheira voltou-se, já assustada: - ---A senhora zanga-se, snr.^a Juliana. - ---Que a leve o diabo! - -Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu furiosa. - ---Vossê não ouve, mulher? Estão a bater ha uma hora! - -Juliana arregalou os olhos espantada: Luiza tinha vestido o roupão novo -de _foulard_ côr de castanho, com pintinhas amarellas! - ---Temos novidade! Temol-a grossa!--pensou Juliana pelo corredor. - -A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao -peito, um embrulho debaixo do braço, estava o _sujeito do negocio das -minas_! - ---Aquelle sujeito de hontem!--veio dizer, toda pasmada. - ---Mande entrar... - ---Viva!--pensou. - -Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de -jubilo: - ---Está cá o peralta de hontem! Está cá outra vez! Traz um -embrulho!--Que lhe parece, snr.^a Joanna? Que lhe parece? - ---Visitas...--disse a cozinheira. - -Juliana teve um risinho secco. Sentou-se, acabou o seu caldo, á pressa. - -Joanna indifferente cantarolava pela cozinha; o arrulhar das rôlas -continuava langoroso e debil. - ---Pois, senhores, isto vai rico!--disse Juliana. - -Esteve um momento a limpar os dentes com a lingua, o olhar fixo, -reflectindo. Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Luiza: o seu -olhar esquadrinhador avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas -da dispensa: podia subir, beber um trago de bom vinho, engulir dous -ladrilhos de marmelada... Mas possuia-a uma curiosidade urgente, e, em -bicos de pés, foi agachar-se á porta que dava para a sala, espreitou. O -reposteiro estava corrido por dentro: podia apenas sentir a voz grossa -e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor, á outra porta, ao -pé da escada; poz o olho á fechadura, collou o ouvido á frincha. O -reposteiro dentro estava tambem cerrado. - ---Os diabos calafetaram-se!--pensou. - -Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma -vidraça. Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Luiza sobresahiu, em -seguida um silencio; e as vozes recomeçaram n'um tom sereno e continuo. -De repente o sujeito ergueu a falla, e entre as palavras que dizia, de -pé de certo, passeando, Juliana ouviu claramente: _Tu, foste tu!_ - ---Oh que bebeda! - -Um tlim-tlim timido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era -Sebastião, muito vermelho do sol, com as botas cheias de pó. - ---Está?--perguntou, limpando a testa suada. - ---Está com uma visita, snr. Sebastião! - -E cerrando a porta sobre si, mais baixo: - ---Um rapaz novo que já cá esteve hontem, um janota! Quer que vá dizer? - ---Não, não, obrigado, adeus. - -Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se á porta, a -orelha contra a madeira, as mãos atraz das costas: mas a conversação, -sem saliencia de vozes, tinha um rumor tranquillo e indistincto. Subiu -á cozinha. - ---Tratam-se por tu!--exclamou.--Tratam-se por tu, snr.^a Joanna! - -E muita excitada: - ---Isto vai á vela! Caspitè! assim é que eu gosto d'ellas! - -O sujeito sahiu ás cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a -porta, veio a correr; viu Luiza no patamar, debruçada no corrimão, -dizendo para baixo, com muita intimidade: - ---Bem, não falto. Adeus. - -Ficou então tomada d'uma curiosidade que a alterava como uma febre. -Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luiza com -olhares de lado. Mas Luiza, com um roupão de linho mais velho, parecia -serena, muito indifferente. - ---Que sonsa! - -Aquella naturalidade despertava a sua bisbilhotice. - ---Eu hei-de-t'apanhar, desavergonhada!--calculava. - -Afigurou-se-lhe que Luiza tinha os olhos um pouco pisados! Estudava-lhe -as posições, os tons de voz. Viu-a repetir o assado,--pensou logo: - ---Abriu-lhe o appetite! - -E quando Luiza ao fim do jantar se estendeu na _voltaire_ com um ar -quebrado: - ---Ficou derreada. - -Luiza que nunca tomava café, quiz n'essa tarde «meia chavena, mas -forte, muito forte». - ---Quer café!--veio ella dizer á cozinheira, toda excitada.--Tudo á -grande! E do forte. Quer do forte! Ora o diabo! - -Estava furiosa. - ---Todas o mesmo! Uma récua de cabras! - - - -Ao outro dia era domingo. Logo pela manhã cedo, quando Juliana ia -para a missa, Luiza chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta -para levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado;--e a -curiosidade de Juliana accendeu-se logo diante d'aquelle sobrescripto -fechado e lacrado com o sinete de Luiza, um L gothico dentro d'uma -corôa de rosas. - ---Tem resposta? - ---Tem. - -Quando voltou ás dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Luiza quiz -saber se havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um -chapéo de palha escuro, que ella estivera a enfeitar com duas rosas de -musgo. - -Fazia um bocadinho de vento, mas p'ra a tarde abrandava, de certo. E -pensou logo:--Temos passeata, vai ter com o gajo! - -Mas durante todo o dia, Luiza em roupão não sahiu do seu quarto ou -da sala, ora estendida na _causeuse_ lendo aos bocados, ora batendo -distrahidamente no piano pedaços de valsas. Jantou ás quatro horas. A -cozinheira sahiu, e Juliana pôz-se a passar a sua tarde á janella da -sala de jantar. Tinha o vestido novo, as salas muito rijas de gomma, a -cuia dos dias santos--e pousava solemnemente os cotovêlos n'um lenço, -estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os passaros chilreavam -na figueira brava. Dos dous lados do tabique que cercava o terreno -vago, agachavam-se os tectos escuros das duas ruasitas parallelas: -eram casas pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre -ou de garibaldi, os cabellos muito oleosos, faziam meia á janella, -fallando aos homens, cantarolando com um tedio triste. Do outro lado do -terreno, verduras de quintaes, muros brancos davam áquelle sitio um ar -adormecido de villa pacata. Quasi ninguem passava. Havia um silencio -fatigado; e só ás vezes o som distante d'um realejo, que tocava a -_Norma_ ou a _Lucia_, punha uma melancolia na tarde.--E Juliana alli -estava immovel, até que os tons quentes da tarde empallideciam, e os -morcegos começavam a voar. - -Pelas oito horas entrou no quarto de Luiza,--ficou pasmada de a vêr -vestida toda de preto, de chapéo! Tinha accendido as serpentinas na -parede, os castiçaes no toucador; e sentada á beira da _causeuse_ -calçava as luvas devagar, com a face muito séria, um pouco esbatida de -pó d'arroz, o olhar cheio de brilho. - ---O vento abrandou?--disse. - ---Está a noite muito bonita, minha senhora. - -Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou á porta. Era D. -Felicidade, muito encalmada. Abafára todo o dia! E á noite nem uma -aragem! Até tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que n'um -coupé, credo, morria-se! - -Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? onde -iriam? D. Felicidade, amplamente sentada, de chapéo, tagarellava: uma -indigestão que tivera na vespera com umas bajes; a cozinheira que a -tinha querido «comer» em quatro vintens; uma visita que lhe fizera a -condessa de Arruella... - -Emfim, Luiza, disse, baixando o seu véo branco: - ---Vamos, filha. Faz-se tarde. - -Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que proposito, irem duas -mulheres sós por ahi fóra, n'uma tipoia! E se uma criada então se -demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bebedas! - -Foi á cozinha desabafar com a Joanna. Mas a rapariga estirada n'uma -cadeira, dormitava. - -Fôra com o seu Pedro ao Alto de S. João. E toda a tarde tinham passeado -no cemiterio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os -epitaphios, beijocando-se nos recantos que os chorões escureciam, e -regalando-se do ar dos cyprestes e das relvas dos mortos. Voltaram por -casa da Serena, entraram a beberricar um quartilho no Espregueira... -Tarde cheia! e estava derreada da soalheira, do pó, da admiração de -tanto tumulo rico, do homem, e da pinguita de vinho. - -O que ia, era refastelar-se para a cama! - ---Credo, snr.^a Joanna, vossemecê está-se a fazer uma dorminhôca! Olha -que mulher! Com pouco arrêa! Cruzes! - -Desceu ao quarto de Luiza, apagou as luzes, abriu as janellas, arrastou -a poltrona para a varanda,--e, repimpada, os braços cruzados, pôz-se a -passar a noite. - -O estanque ainda não se fechára, e a sua luzita lugubre como a -estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra miuda da rua; as -janellas ao pé estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se -dentro serões melancolicos; n'outras, onde havia vultos immoveis, -luzia ás vezes a ponta d'um cigarro; aqui, além tossia-se; e o moço do -padeiro, no silencio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra. - -Juliana pozera um vestido de chita claro; dous sujeitos que estavam -á porta do estanque riam, erguiam de vez em quando os olhos para a -janella, para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, então, gozou! -Tomavam-na de certo pela senhora, pela do Engenheiro; faziam-lhe -«olho», diziam brejeirices... Um tinha calça branca e chapéo alto, eram -janotas... E com os pés muito estendidos, os braços cruzados, a cabeça -de lado, saboreava, longamente, aquella consideração. - -Passos fortes que subiam a rua, pararam á porta; a campainha retiniu de -leve. - ---Quem é?--perguntou muito impaciente. - ---Está?--disse a voz grossa de Sebastião. - ---Sahiu com a D. Felicidade, foram de carruagem. - ---Ah!--fez elle. - -E acrescentou: - ---Muito bonita noite! - ---D'appetite, snr. Sebastião! d'appetite!--exclamou alto. - -E quando o viu descer a rua, gritou, affectadamente: - ---Recados a Joanna! Não se esqueça!--mostrando-se intima, madama, com -olho terno para os homens. - - - -Áquella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao Passeio. - -Era beneficio; já de fóra se sentia o _brouhaha_ lento e monotono, e -via-se uma nevoa alta de poeira, amarellada e luminosa. - -Entraram. Logo ao pé do tanque encontraram Bazilio. Fez-se muito -surprehendido, exclamou: - ---Que feliz acaso! - -Luiza corou, apresentou-o a D. Felicidade. - -A excellente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se d'elle, mas se -não lhe dissessem talvez o não conhecesse! Estava muito mudado! - ---Os trabalhos, minha senhora...--disse Bazilio curvando-se. - -E acrescentou rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque: - ---E a velhice! Sobretudo a velhice! - -Na agua escura e suja as luzes do gaz torciam-se até uma grande -profundidade. As folhagens em redor estavam immoveis, no ar parado, -com tons d'um verde livido e artificial. Entre os dous longos renques -parallelos d'arvores mesquinhas, entremeadas de candieiros de gaz, -apertava-se, n'um empoeiramento de macadam, uma multidão compacta e -escura; e através do rumor grosso, as saliencias metallicas da musica -faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa. - -Tinham ficado parados, conversando. - -Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! que enchente! - -E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças côr de -flôr d'alecrim, fumando ceremoniosamente os charutos do dia santo; um -aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas -de cabello riçado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos -das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um ecclesiastico -côr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e lunetas defumadas; uma -hespanhola com dous metros de saia branca muita rija, fazendo ruge-ruge -na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão e bengalão, -de chapéo na nuca, o olho avinhado; e Bazilio ria muito de dous -pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado--vestidos -d'azul claro, a cinta ligada n'uma facha escarlate, barretinas de -lanceiro, botas á hungara, cretinos e somnambulos. - -Um sujeito alto então passou rente d'elles, e voltando-se, revirou para -Luiza dous grandes olhos langorosos e prateados: tinha uma pera longa -e aguçada; trazia o collete decotado mostrando um bello peitilho, e -fumava por urna boquilha enorme que representava um zuavo. - -Luiza quiz-se sentar. - -Um garoto de blusa, sujo como um esfregão, correu a arranjar cadeiras; -e acommodaram-se ao pé d'uma familia acabrunhada e taciturna. - ---Que fizeste tu hoje, Bazilio?--perguntou Luiza. - -Tinha ido aos touros. - ---E que tal? Gostaste? - ---Uma semsaboria. Se não fosse pelo trambolhão do Peixinho tinha-se -morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavalleiros infelizes, nenhuma -sorte! Touros em Hespanha! Isso sim! - -D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz, -quando estivera de visita em Elvas á tia Francisca de Noronha, e ia -desmaiando. O sangue, as tripas dos cavallos... Pouh! É muito cruel! - -Bazilio disse, com um sorriso: - ---Que faria se visse os combates de gallos, minha senhora! - -D. Felicidade tinha ouvido contar,--mas achava todos esses -divertimentos barbaros, contra a religião. - -E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda: - ---P'ra mim não ha nada como uma boa noite de theatro! Nada! - ---Mas aqui representam tão mal!--replicou Bazilio com uma voz -desolada.--Tão mal, minha rica senhora! - -D. Felicidade não respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado -d'um brilho humido, saudava desesperadamente com a mão: - ---Não me viu--disse desconsolada. - ---Era o conselheiro?--perguntou Luiza. - ---Não. Era a condessa d'Alviella. Não me viu! Vai muito á Encarnação, -sou muito d'ella. É um anjo! Não me viu. Ia com o sogro. - -Bazilio não tirava os olhos de Luiza. Sob o véo branco, á luz falsa -do gaz, no ar ennevoado da poeira, o seu rosto tinha uma fórma alva -e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expressão -apaixonada; os cabellinhos louros, frisados, tornando a testa -mais pequena, davam-lhe uma graça ameninada e amorosa; e as luvas -_gris-perle_ faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante -das mãos, que ella pousára no regaço, sustentando o leque, com uma fofa -renda branca em torno dos seus pulsos finos. - ---E tu, que fizeste hoje?--perguntou-lhe Bazilio. - -Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a lêr. - -Tambem elle passára a manhã deitado no sophá a lêr a _Mulher de fogo_ -de Belot. Tinha lido, ella? - ---Não, que é? - ---É um romance, uma novidade. - -E acrescentou sorrindo: - ---Talvez um pouco picante; não t'o aconselho! - -D. Felicidade andava a lêr o _Rocambole_. Tanto lh'o tinham apregoado! -Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar, -porque tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigestão. - ---Soffre?--perguntou Bazilio, com um interesse bem educado. - -D. Felicidade contou logo a sua dyspepsia. Bazilio aconselhou-lhe o -uso do gelo.--De resto felicitava-a, porque as doenças d'estomago, -ultimamente, tinham muito _chic_. Interessou-se pela d'ella, pediu -pormenores. - -D. Felicidade prodigalisou-os; e, fallando, via-se-lhe crescer no -olhar, na voz a sua sympathia por Bazilio. Havia de usar o gelo! - ---Com o vinho, já se sabe? - ---Com o vinho, minha senhora! - ---E olha que talvez!--exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no -braço de Luiza, já esperançada. - -Luiza sorriu, ia responder--mas viu o sujeito pallido da pera longa que -fitava n'ella os seus olhos langorosos, com obstinação. Voltou o rosto -importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pera. - -Luiza sentia-se molle; o movimento rumoroso e monotono, a noite calida, -a accumulação da gente, a sensação de verdura em redor davam ao seu -corpo de mulher caseira um torpor agradavel, um bem estar d'inercia, -envolviam-na n'uma doçura emolliente de banho morno. Olhava com um vago -sorriso, o olhar frouxo; quasi tinha preguiça de mexer as mãos, d'abrir -o leque. - -Bazilio notou o seu silencio.--Tinha somno? - -D. Felicidade sorriu com finura. - ---Ora, vê-se sem o seu maridinho! Desde que o não tem está esta mona -que se vê. - -Luiza respondeu, olhando Bazilio instinctivamente: - ---Que tolice! Até estes dias tenho andado bem alegre! - -Mas D. Felicidade insistia: - ---Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraçãosinho está no Alemtejo! - -Luiza disse, com impaciencia: - ---Não has-de querer que me ponha aos pulos e ás gargalhadas no Passeio. - ---Está bem, não te enfureças!--exclamou D. Felicidade. E para -Bazilio:--Que geniosinho, hein! - -Bazilio pôz-se a rir. - ---A prima Luiza antigamente era uma vibora. Agora não sei... - -D. Felicidade acudiu: - ---É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não, lá isso, é uma pomba. - -E envolvia-a n'um olhar maternal. - -Mas a familia taciturna ergueu-se, sem ruido,--e as meninas adiante, os -paes atraz, afastaram-se lugubremente, succumbidos. - -Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao pé de Luiza,--e vendo -D. Felicidade a olhar distrahida: - ---Estive para te ir vêr de manhã--disse baixinho a Luiza. - -Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferença: - ---E porque não foste? Tinhamos feito musica. Fizeste mal. Devias ter -ido... - -D. Felicidade quiz então saber as horas. Começava a enfastiar-se. -Tinha esperado encontrar o conselheiro: por elle, para lhe parecer -bem, fizera o sacrificio de se apertar; Accacio não vinha, os gazes -começavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella ausencia augmentava-lhe -a tortura da digestão. Na sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a -multidão que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada. - -Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruido de -cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do _Fausto_. -Aquillo reanimou-a. Era um _pot-pourri_ da opera,--e não havia musica -de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o snr. -Bazilio? - -Bazilio disse, com uma intenção, voltando-se para Luiza: - ---Não sei, minha senhora, depende... - -Luiza olhava, calada. A multidão crescera. Nas ruas lateraes mais -espaçosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das arvores, os -acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado. Toda a -burguezia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor -formado pela filas cerradas das cadeiras do asylo: e alli se movia -entalada, com a lentidão espessa d'uma massa mal derretida, arrastando -os pés, raspando o macadam, n'um amarfanhamento plebeu, a garganta -secca, os braços molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente, -para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor -grosso, sem alegria e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que -agrada ás raças mandrionas: no meio da abundancia das luzes e das -festividades da musica, um tedio morno circulava, penetrava como uma -nevoa: a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e -nos rostos que passavam sob os candieiros, nas zonas mais directas de -luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimentos de dia santo. - -Defronte as casas da rua Occidental tinham na sua fachada o reflexo -claro das luzes do Passeio; algumas janellas estavam abertas; as -cortinas de fazenda escura destacavam sobre a claridade interior dos -candieiros. Luiza sentia como uma saudade de outras noites de verão, de -serões recolhidos. Onde? Não se lembrava. O movimento então retrahia-a; -e encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre, o sujeito da -pera longa. Debaixo do véo sentia a poeira arder-lhe nos olhos: em -redor d'ella gente bocejava. - -D. Felicidade propoz uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar; -as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de -faces a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam de um modo -fixo e cançado, n'um abatimento de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou -Bazilio, e como era difficil andar lembrou--«que se fossem d'aquella -semsaboria». - -Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, -deixando-se quasi cahir n'um banco sob a folhagem d'um chorão, exclamou -afflicta: - ---Ai filha! Estou que arrebento! - -Passava a mão no estomago, tinha a face envelhecida. - ---E o conselheiro, que me dizes? Olha que já é pouca sorte! Hoje que eu -vim ao Passeio... - -Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso: - ---É muito sympathico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo. -Que elles conhecem-se, filha! - -Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o portão. Era melhor tomarem -um trem. - -Bazilio achava preferivel subirem a pé até ao largo do Loreto. A noite -estava tão agradavel! E o andar fazia bem á snr.^a D. Felicidade! - -Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve; mas D. Felicidade -receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do café -abertas, viam-se sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro -individuo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de -morango. - -No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos, gente immovel -parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos -passavam, com o chapéo na mão, abanando-se, o collete desabotoado; a -cada canto se apregoava agua fresca «do Arsenal»; em torno do largo, -carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céo abafava,--e na -noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha o tom baço e -pallido de uma vela de estearina colossal e apagada. - -Bazilio, ao pé de Luiza, ia calado. Que horror de cidade!--pensava--Que -tristeza! E lembrava-lhe Paris, de verão: subia, á noite, no seu -phaeton, os Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem, -sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem -em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos -e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balançadas nas molas -macias; o ar em redor tem uma doçura avelludada, e os castanheiros -espalham um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos, saltam -as claridades violentas dos cafés cantantes, cheios do _brouhaha_ -das multidões alegres, dos _brios_ impulsivos das orchestras; os -restaurantes flammejam; ha uma intensidade de vida amorosa e feliz; -e, para além, sahe das janellas dos palacetes, através dos _stores_ -de sêda, a luz sobria e velada das existencias ricas. Ah! se lá -estivesse!--Mas ao passar junto dos candieiros olhava de lado para -Luiza: o seu perfil fino sob o véo branco tinha uma grande doçura; o -vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma -lassidão que lhe quebrava a linha da cinta de um modo languido e -promettedor. - -Veio-lhe uma certa idéa, começou a dizer: Que pena que não houvesse -em toda a Lisboa um restaurante, onde se podesse ir tomar uma aza de -perdiz e beber uma garrafa de _champagne frappée_! - -Luiza não respondeu. Devia ser delicioso--pensava.--Mas D. Felicidade -exclamou: - ---Perdiz, a esta hora! - ---Perdiz ou outra qualquer cousa. - ---Fosse o que fosse, era para estourar! Credo! - -Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros davam uma luz mortiça: as -altas casas dos dous lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; -e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruido, sinistra e -subtil. - -Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de -loteria; a sua voz aguda e chorosa promettia a fortuna, muitos contos -de reis. D. Felicidade ainda parou, com uma tentação... Mas uma troça -de rapazes bebedos que descia de chapéo na nuca, fallando alto, aos -tropeções, assustou muito as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo -contra Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente o braço, -quiz-se metter n'uma carruagem; e até ao Loreto foi explicando o seu -medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem -largar o braço de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao lado das grades -da praça de Camões, um cocheiro lançou logo a sua caleche descoberta, -de pé na almofada, apanhando confusamente as rédeas, com grandes -chicotadas na parelha, muito excitado, gritando: - ---Prompto, meu amo, prompto! - -Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem então passou, -rondou,--e Luiza desesperada reconheceu os olhos acarneirados do -sujeito da pera. - -Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou para vêr Bazilio -immovel no largo, com o seu chapéo na mão: depois accommodou-se, pôz -os pésinhos no outro assento e balançada pelo trote largo viu passar, -calada, as casas apagadas da rua de S. Roque, as arvores de S. Pedro -de Alcantara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins -adormecidos da Patriarchal. A noite estava immovel, de um calor molle: -e desejava, sem saber porque, rolar assim sempre, infinitamente, entre -ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino, -sem cuidados, para alguma cousa de feliz que não distinguia bem! Um -grupo defronte da Escóla ia tocando o _Fado do Vimioso_; aquelles sons -entraram-lhe na alma como um vento dôce, que fazia agitar brandamente -muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo. - ---Um suspirosinho que vai para o Alemtejo--disse D. Felicidade, -tocando-lhe o braço. - -Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto. Davam onze horas quando -entrou em casa. - -Juliana veio alumiar.--O chá estava prompto, quando a senhora -quizesse... - -Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupão branco, muito fatigada, -estendeu-se na _voltaire_; sentia vir-lhe uma somnolencia, a cabeça -pendia-lhe, cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com o chá! -Chamou-a. Onde estava? credo! - -Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luiza. E ahi tomando o -vestido, as saias engommadas que ella despira e atirára para cima da -_causeuse_, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa -idéa, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente, -com uma pontinha de suor e de agua de colonia. Quando a sentiu -chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo.--Fôra abaixo dar uma -arrumadella. Era o chá? Estava prompto... - -E entrando com as torradas: - ---Veio ahi o snr. Sebastião, haviam de ser nove horas... - ---Que lhe disse? - ---Que a senhora tinha sahido com a snr.^a D. Felicidade. Como não -sabia, não disse para onde. - -E acrescentou: - ---Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastião... Esteve a conversar -mais de meia hora!... - - - -Luiza recebeu, na manhã seguinte, da parte de Sebastião, um ramo de -rosas, magenta-escuro, magnificas. Cultivava-as elle na quinta de -Almada, e chamavam-se rosas _D. Sebastião_. Mandou-as pôr nos vasos da -sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e suffocante: - ---Olhe--disse a Juliana--abra as janellas. - ---Bem--pensou Juliana--temos cá o melro. - -O _melro_ veio com effeito ás tres horas. Luiza estava na sala, ao -piano. - ---Está alli o sujeito do costume--foi dizer Juliana. - -Luiza voltou-se corada, escandalisada da expressão: - ---Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar. - -E chamando-a: - ---Ouça, se vier o snr. Sebastião, ou alguem, que entre. - -Era o primo! O _sujeito_, as suas visitas perderam de repente para ella -todo o interesse picante. A sua malicia cheia, enfunada até ahi, cahiu, -engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo! - -Subiu á cozinha, devagar,--lograda. - ---Temos grande novidade, snr.^a Joanna! O tal peralta é primo. Diz que -é o primo Bazilio. - -E com um risinho: - ---É o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo á ultima hora! O diabo tem -graça! - ---Então que havia de o homem ser senão parente?--observou Joanna. - -Juliana não respondeu. Quiz saber se estava o ferro prompto, que tinha -uma carga de roupa para passar! E sentou-se á janella, esperando. O céo -baixo e pardo pesava, carregado de electricidade; ás vezes uma aragem -subita e fina punha nas folhagens dos quintaes um arripio tremulo. - ---É o primo!--reflectia ella.--E só vem então quando o marido se vai. -Boa! E fica-se toda no ar quando elle sahe, e é roupa branca e mais -roupa branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e -olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia! - -Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia alli muito -«para vêr e para escutar». E o ferro, estava prompto? - -Mas a campainha, em baixo, tocou. - ---Boa! isto agora é um fadario! Estamos na casa do despacho! - -Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um livro debaixo do braço: - ---Faz favor d'entrar, snr. Julião! A senhora está com o primo, mas diz -que mandasse entrar! - -Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza. - ---Está aqui o snr. Julião--disse com satisfação. - -Luiza apresentou os dous homens. - -Bazilio ergueu-se do sophá languidamente, e, n'um relance, percorreu -Julião desde a cabelleira desleixada até ás botas mal engraxadas, com -um olhar quasi horrorisado. - ---Que pulha!--pensou. - -Luiza, muito fina, percebeu, e córou, envergonhada de Julião. - -Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano -preto mal feito--que idéa daria a Bazilio das relações, dos amigos -da casa! Sentia já o seu _chic_ diminuido. E instinctivamente, a sua -physionomia tornou-se muito reservada,--como se semelhante visita a -surprehendesse! semelhante _toilette_ a indignasse! - -Julião percebeu o constrangimento d'ella, disse, já embaraçado, -ageitando a luneta: - ---Passei por aqui por acaso, entrei a saber se ha algumas noticias de -Jorge... - ---Obrigada. Sim, tem escripto. Está bem... - -Bazilio, recostado no sophá, como um parente intimo, examinava a -sua meia de sêda bordada de estrellinhas escarlates, e cofiava -indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo minimo,--onde -brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira e um rubi. - -A affectação da attitude, o reluzir das joias irritaram Julião. - -Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus direitos, disse: - ---Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho -estado muito occupado... - -Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade: - ---Eu tambem não me tenho achado bem. Não tenho recebido ninguem,--a não -ser meu primo, naturalmente! - -Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpreza, d'indignação, -ficou a balançar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a -calça era curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas. - -Houve um silencio difficil. - ---Bonitas rosas!--disse emfim Bazilio, preguiçosamente. - ---Muito bonitas!--respondeu Luiza. - -Estava agora compadecida de Julião, procurava uma palavra; disse-lhe -emfim muito precipitadamente: - ---E que calor! É de morrer! Tem havido muitas doenças? - ---Colerinas--respondeu Julião.--Por causa das frutas. Doenças de ventre. - -Luiza baixou os olhos. Bazilio então começou a fallar da viscondessinha -d'Azeias: tinha-a achado acabada; e que era feito da irmã, da grande? - -Aquella conversação sobre fidalgas que elle não conhecia isolava mais -Julião: sentia o suor humedecer-lhe o pescoço; procurava um dito, uma -ironia, uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu grosso livro -de capa amarella. - ---É algum romance?--perguntou-lhe Luiza. - ---Não. É o tratado do dr. Lee sobre doenças d'utero. - -Luiza fez-se escarlate: Julião tambem, furioso da palavra que lhe -escapára. E Bazilio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D. -Raphaela Grijó, que costumava ir á rua da Magdalena, que usava luneta, -e tinha um cunhado gago... - ---Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado. - ---Com o gago? - ---Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem. - ---Que conversação, em familia! E a D. Eugenia, a de Braga? - -Julião, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta secca: - ---Estou com pressa, não me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os -meus recados, hein? - -Abaixou bruscamente a cabeça a Bazilio. Mas não achava o chapéo, -tinha rolado para debaixo d'uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, -topou violentamente contra a porta fechada, e sahiu emfim -desesperado, desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o luxo, a -vida,--transbordando agora d'ironias, de ditos, de réplicas. Devia-os -ter achatado, o asno e a tola... E não lhe acudira nada! - -Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio pôz-se de pé, e -cruzando os braços: - ---Quem é este pulha? - -Luiza córou muito, balbuciou: - ---É um rapaz medico... - ---É uma creatura impossivel, é uma especie d'estudante! - ---Coitado, não tem muitos meios... - -Mas não era necessario ter meios para escovar o casaco e limpar a -caspa! Não devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu -marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!... - -Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar -o dinheiro e as chaves. - ---São frescos os amigos da casa!...--continuou.--Que diabo! tu não -foste educada assim. Nunca tiveste gente d'este genero na rua da -Magdalena. - -Não tivera: e pareceu-lhe que as ligações do casamento lhe tinham -trazido um pouco o plebeismo das convivencias. Mas um respeito pelas -opiniões, pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer: - ---Diz que tem muito talento... - ---Era melhor que tivesse botas. - -Luiza, por cobardia, concordou. - ---Tambem o acho exquisito!--disse. - ---Horrivel, minha filha! - -Aquella palavra fez-lhe bater o coração. Era assim que elle lhe -chamava, outr'ora! Houve um momento de silencio:--e a campainha da -porta retiniu fortemente. - -Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião! Bazilio achal-o-hia -ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer: - ---O snr. conselheiro. Mando entrar? - ---De certo--exclamou. - -E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas do casaco d'alpaca -deitadas para traz, a calça branca muito engommada cahindo sobre -sapatos de entrada abaixo, de laço. - -Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse logo, respeitoso: - ---Já sabia que v. exc.^a tinha chegado, vi-o nas interessantes noticias -do nosso _high-life_. E do nosso Jorge? - -Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito... - -Bazilio, mais amavel, deixou cahir: - ---Eu realmente não tenho a menor idéa do que se possa fazer em Beja. -Deve ser horroroso! - -O conselheiro, passando sobre o bigode a sua mão branca onde destacava -o annel d'armas, observou: - ---É todavia a capital do districto! - -Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do -reino!--E Bazilio puxava, todo recostado, o punho da camisa.--Morria-se -positivamente de pasmaceira! - -Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio, pôz-se a rir: - ---Não digas isso diante do conselheiro. É um grande admirador de Lisboa. - -Accacio curvou-se: - ---Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora. - -E com muita bonhomia: - ---Conheço porém que não é para comparar aos Parizes, ás Londres, ás -Madrids... - ---De certo--fez Luiza. - -E o conselheiro continuou com pompa: - ---Lisboa porém tem bellezas sem igual! A entrada, ao que me dizem -(eu nunca entrei a barra), é um panorama grandioso, rival das -Constantinoplas e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um -Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!... - -Luiza, receando citações ou apreciações litterarias, interrompeu-o, -perguntou-lhe o que tinha feito? Tinham estado domingo no Passeio, ella -e D. Felicidade, tinham esperado vêl-o, e nada! - -Nunca ia ao Passeio, ao domingo--declarou.--Reconhecia que era muito -agradavel, mas a multidão entontecia-o. Tinha notado,--e a sua voz -tomou o tom espaçado d'uma revelação,--tinha notado que muita gente, -n'um local, causa vertigens aos homens d'estudo. De resto queixou-se da -sua saude e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e -usando as aguas de Vichy. - ---Pódes fumar--disse Luiza de repente, sorrindo, a Bazilio.--Queres -lume? - -Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda ligeira, feliz. Tinha um -vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabellos -pareciam mais louros, a sua pelle mais fina. - -Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado: - ---O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!... - -O conselheiro reflectiu e respondeu: - ---Não serei tão severo, snr. Brito!--Mas parecia-lhe que com -effeito antigamente era uma diversão mais agradavel.--Em primeiro -lugar--exclamou com muita convicção, endireitando-se--nada, mas -nada, absolutamente nada póde substituir a charanga da Armada!--Além -d'isso havia a questão dos preços... Ah! tinha estudado muito o -assumpto! Os preços diminutos favoreciam a agglomeração das classes -subalternas... Que longe do seu pensamento lançar desdouro n'essa parte -da população... As suas idéas liberaes eram bem conhecidas.--Appéllo -para a snr.^a D. Luiza!--disse.--Mas emfim, sempre era mais agradavel -encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio. -Talvez não acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas! -N'esses dias, sim, ia vêr por fóra das grades. Não por economia! De -certo não. Não era rico, mas podia fazer face a essa contribuição -diminuta. Mas é que receava os accidentes! É que os receava muito! -Contou a historia d'um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana -de foguete furára o craneo.--E além d'isso nada mais facil que cahir -uma fagulha accesa na cara, n'um paletot novo...--É conveniente ter -prudencia--resumiu, compenetrado, limpando os beiços com o lenço de -sêda da India muito enrolado. - -Fallaram então da estação: muita gente fôra para Cintra: de resto, -Lisboa no verão era tão seccante!... E o conselheiro declarou que -Lisboa só era imponente, verdadeiramente imponente, quando estavam -abertas as camaras e S. Carlos! - ---Que estavas tu a tocar quando eu entrei?--perguntou Bazilio. - -O conselheiro acudiu logo: - ---Se estavam fazendo musica, por quem são... Sou um velho assignante de -S. Carlos, ha dezoito annos... - -Bazilio interrompeu-o: - ---Toca? - ---Toquei. Não o occulto. Em rapaz fui dado á flauta. - -E acrescentou, com um gesto benevolo: - ---Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luiza? - ---Não! Uma musica muito conhecida, já antiga: a _Filha do Pescador_, de -Meyerbeer! Tenho a letra traduzida. - -Tinha cerrado as vidraças, sentára-se ao piano. - ---O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade, conselheiro? - ---O nosso Sebastião--disse o conselheiro com authoridade--é um rival -dos Thalbergs e dos Litz. Conhece o nosso Sebastião?--perguntou a -Bazilio. - ---Não, não conheço. - ---Uma perola! - -Bazilio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode. - ---Tu ainda cantas?--perguntou-lhe Luiza, sorrindo. - ---Quando estou só. - -Mas o conselheiro pediu-lhe logo um «trecho». Bazilio ria. Tinha medo -d'escandalisar um velho assignante de S. Carlos... - -O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente: - ---Coragem, snr. Brito, coragem! - -Luiza então preludiou. - -E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barytono; as suas -notas altas faziam a sala sonora. O conselheiro, direito na poltrona, -escutava concentrado; a sua testa, franzida n'um vinco, parecia -curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas -destacavam, com reflexos escuros, n'aquella physionomia de calvo, que o -calor tornava mais pallida. - -Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira phrase, tão larga, da -canção: - - Igual ao mar sombrio - Meu coração profundo... - -Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira a letra no _Almanach das -Senhoras_. Luiza pela sua propria mão a tinha copiado nas entrelinhas -da musica. E Bazilio debruçado sobre o papel sempre torcendo as pontas -do bigode: - - Tem tempestades, coleras, - Mas perolas no fundo! - -Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica--ou a espaços, com -um movimento rapido, erguiam-se para Bazilio. Quando, na nota final, -prolongada como a reclamação d'um amor supplicante, Bazilio soltou a -voz d'um modo appellativo: - - Vem! vem - Pousar, ó dôce amada, - Teu peito contra o meu... - -os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significação de tanto desejo, -que o peito de Luiza arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado. - -O conselheiro bateu as palmas. - ---Uma voz admiravel!--exclamava--Uma voz admiravel! - -Bazilio dizia-se envergonhado. - ---Não, senhor, não, senhor!--protestou Accacio, levantando-se.--Um -excellente orgão! Direi, o melhor orgão da nossa sociedade! - -Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, então ia dizer-lhes uma -modinha brazileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter -preludiado uma melodia muito balançada, d'um embalado tropical, cantou: - - Sou negrinha, mas meu peito - Sente mais que um peito branco. - -E interrompendo-se: - ---Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti. - -Era a historia d'uma «negrinha» nascida na roça, e que contava, com -lyrismos d'almanach, a sua paixão por um feitor branco. - -Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina bahiana; e a sua -voz tinha uma preciosidade comica, quando dizia o _ritornello_ choroso: - - E a negra p'ra os mares - Seus olhos alonga; - No alto coqueiro - Cantava a araponga. - -O conselheiro achou «delicioso»; e, de pé na sala, lamentou a proposito -da cantiga a condição dos escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil -que os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisação era -a civilisação! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita -confiança no imperador... - ---Monarcha de rara illustração...--acrescentou respeitosamente. - -Foi buscar o seu chapéo, e collando-lhe as abas ao peito, curvando-se, -jurou que--havia muito tempo não tinha passado uma manhã tão completa. -De resto para elle nada havia como a boa conversação e a boa musica... - ---Onde está v. exc.^a alojado, snr. Brito? - -Pelo amor de Deus! Que não se incommodasse! Estava no Hotel Central. - -Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu -dever--declarou.--Cumpril-o-hia! Elle era uma pessoa inutil, a snr.^a -D. Luiza bem o sabia.--Mas se necessitar alguma cousa, uma informação, -uma apresentação nas regiões officiaes, licença para visitar algum -estabelecimento publico, creia que me tem ás suas ordens! - -E conservando na sua mão a mão de Bazilio: - ---Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro. O modesto tugurio -d'um ermita. - -Tornou a curvar-se diante de Luiza: - ---E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela -prosperidade dos seus emprehendimentos. Por quem é! Criado de v. exc.^a! - -E direito, grave, sahiu. - ---Este ao menos é limpo--resmungou Bazilio, com o charuto ao canto da -bocca. - -Sentára-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luiza -aproximou-se: - ---Canta alguma cousa, Bazilio! - -Bazilio pôz-se então a olhar muito para ella. - -Luiza córou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do -vestido, entrevia-se a brancura macia e lactea do collo e dos braços; -e nos seus olhos, na côr quente do rosto havia uma animação e como uma -vitalidade amorosa. - -Bazilio disse-lhe, baixo: - ---Estás hoje nos teus dias felizes, Luiza. - -O olhar d'elle, tão avido, perturbava-a; insistiu: - ---Canta alguma cousa. - -O seu seio arfava. - ---Canta tu--murmurou Bazilio. - -E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco humidas, um -pouco tremulas, uniram-se. - -A campainha, fóra, tocou. Luiza desprendeu a mão bruscamente. - ---É alguem--disse agitada. - -Vozes baixas fallavam á cancella. - -Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado, foi buscar o chapéo. - ---Vaes-te?--exclamou ella toda desconsolada. - ---Pudera! Não posso estar só comtigo um momento! - -A cancella fechou-se com ruido. - ---Não é ninguem, foi-se--disse Luiza. - -Estavam de pé, no meio da sala. - ---Não te vás! Bazilio! - -Os seus olhos profundos tinham uma supplicação dôce. Bazilio pousou o -chapéo sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso. - ---E para que queres tu estar só commigo?--disse ella.--Que tem que -venha gente?--E arrependeu-se logo d'aquellas palavras. - -Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os -hombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos -cabellos, vorazmente. - -Ella soltou-se a tremer, escarlate. - ---Perdôa-me--exclamou elle logo, com um impeto apaixonado.--Perdôa-me. -Foi sem pensar. Mas é porque te adoro, Luiza! - -Tomou-lhe as mãos com dominio, quasi com direito. - ---Não. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a vêr estou -doudo por ti, como d'antes, a mesma cousa. Nunca deixei de me morrer -por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te vêr rica, -feliz. Não te podia levar para o Brazil. Era matar-te, meu amor! Tu -imaginas lá o que aquillo é! Foi por isso que te escrevi aquella carta, -mas o que eu soffri, as lagrimas que chorei! - -Luiza escutava-o immovel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquella -voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, -vencia-a; as mãos de Bazilio penetravam com o seu calor febril a -substancia das suas; e, tomada d'uma lassidão, sentia-se como adormecer. - ---Falla, responde!--disse elle anciosamente, sacudindo-lhe as mãos, -procurando o seu olhar avidamente. - ---Que queres que te diga?--murmurou ella. - -A sua voz tinha um tom abstracto, mal acordado. - -E desprendendo-se devagar, voltando o rosto: - ---Fallemos n'outras cousas! - -Elle balbuciava com os braços estendidos: - ---Luiza! Luiza! - ---Não, Bazilio, não! - -E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentação, com a molleza d'uma -caricia. - -Elle então não hesitou, prendeu-a nos braços. - -Luiza ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados--e Bazilio, -pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para traz, -beijou-lhe as palpebras devagar, a face, os labios depois muito -profundamente; os beiços d'ella entreabriram-se, os seus joelhos -dobraram-se. - -Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, -afastou o rosto, exclamou afflicta: - ---Deixa-me, deixa-me! - -Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as -mãos abertas pela testa, pelos cabellos: - ---Oh meu Deus! É horrivel!--murmurou.--Deixa-me! É horrivel! - -Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luiza recuava, dizia: - ---Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me! - -Elle então tranquillisou-a com a voz subitamente serena e humilde. Não -percebia. Porque se zangava? Que tinha um beijo? Elle não pedia mais. -Que tinha ella imaginado, então? Adorava-a, de certo, mas puramente. - ---Juro-t'o!--disse com força, batendo no peito. - -Fel-a sentar no sophá, sentou-se ao pé d'ella. Fallou-lhe muito -sensatamente:--Via as circumstancias, e resignar-se-hia. Seria como uma -amizade d'irmãos, nada mais. - -Ella escutava-o, esquecida. - -De certo, dizia elle, aquella paixão era uma tortura immensa. Mas -era forte, dominar-se-hia. Só queria vir vêl-a, fallar-lhe. Seria um -sentimento ideal.--E os seus olhos devoravam-na. - -Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôz-lhe um beijo cheio na palma. Ella -estremeceu, ergueu-se logo: - ---Não! Vai-te! - ---Bem, adeus. - -Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a -sêda do chapéo: - ---Bem, adeus--repetiu melancolicamente. - ---Adeus. - -Bazilio disse então com muita ternura: - ---Estás zangada? - ---Não! - ---Escuta--murmurou, adiantando-se. - -Luiza bateu com o pé. - ---Oh que homem! Deixa-me! Ámanhã. Adeus. Vai-te! Ámanhã! - ---Ámanhã!--disse elle, baixinho. - -E sahiu rapidamente. - -Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho -ficou surprehendida: nunca se vira tão linda! Deu alguns passos calada. - -Juliana arrumava roupa branca n'um gavetão do guarda-vestidos. - ---Quem tocou ha bocado?--perguntou Luiza. - ---Foi o snr. Sebastião. Não quiz entrar; disse que voltava. - - - -Tinha dito, com effeito, «que voltava». Mas começava quasi a -envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontral-a sempre «com -uma visita»! - -Logo no primeiro dia ficára muito surprehendido quando Juliana lhe -disse: «Está com um sujeito! Um rapaz novo que já cá esteve hontem!» -Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum empregado -da secretaria ou algum proprietario de minas, o filho do Alonso, -talvez, um negocio de Jorge de certo... - -Depois no domingo, á noite, trazia-lhe a partitura de _Romeu e -Julieta_, de Gounod, que ella desejava tanto ouvir, e quando Juliana -lhe disse da varanda «que tinha sahido com D. Felicidade de carruagem», -ficou muito embaraçado com o grosso volume debaixo do braço, coçando -devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do enthusiasmo de D. -Felicidade pelo theatro de D. Maria. Mas irem sós, n'aquelle calor de -julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria. - -O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e além, n'algum camarote, -uma familia feia perfilava-se, com cabellos negrissimos carregados de -postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo: na platéa, á -larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam -com um ar encalmado e farto, limpando a espaços, com lenços de sêda, -o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava olhos -negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; -bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarella, -um velhote condecorado fallava a uma magrita de cabellos riçados, sem -cessar, com o tom diluido de uma agua gordurosa e morna que escorre. - -Sebastião sahiu. Onde estariam? Soube-o na manhã seguinte.--Descia -o Moinho de Vento, e um visinho, o Netto, que subia curvado sob o -seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o -bruscamente, para lhe dizer: - ---Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi hontem á noite no Passeio a D. Luiza -com um rapaz que eu conheço. Mas d'onde conheço eu aquella cara? Quem -diabo é? - -Sebastião encolheu os hombros. - ---Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheço-o. N'outro -dia vi-o entrar para lá. Vossê não sabe? - -Não sabia. - ---Eu conheço aquella cara. Tenho estado a vêr se me recordo...--Passava -a mão pela testa.--Eu conheço aquella cara! Elle é de Lisboa. De Lisboa -é elle! - -E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol: - ---E que ha de novo, Sebastião? - -Tambem não sabia. - ---Nem eu! - -E bocejando muito: - ---Isto está uma pasmaceira, homem! - -N'essa tarde, ás quatro horas, Sebastião voltou a casa de Luiza. Estava -com «o sujeito!» Ficou então preoccupado. De certo era algum negocio de -Jorge; porque não comprehendia que ella fallasse, sentisse, vivesse, -que não fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge. -Mas devia ser grave então--para reclamar visitas, encontros, tantas -relações. Tinham pois interesses importantes que elle não conhecia! E -aquillo parecia-lhe uma ingratidão, e como uma diminuição d'amizade. - -A tia Joanna tinha-o achado «macambusio». - -Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bazilio, o Bazilio -de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido -veio inquietal-o. - -Sebastião não conhecia Bazilio pessoalmente, mas sabia a chronica da -sua mocidade. Não havia n'ella certamente, nem escandalo excepcional, -nem romance pungente. Bazilio tinha sido apenas um _pandigo_ e, como -tal, passára methodicamente por todos os episodios classicos da -estroinice lisboeta:--partidas de monte até de madrugada com ricaços -do Alemtejo; uma tipoia despedaçada n'um sabbado de touros; ceias -repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas -_pégas_ applaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau -e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra; sôcos bem jogados á -face attonita d'um policia; e uma profusão de gemas d'ovos nas glorias -do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam na sua historia, -além das Lolas e das Carmens usuaes, eram a Pistelli, uma dançarina -allemã cujas pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha -d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que se separára de seu marido -depois de o ter chicotado, e que se vestia d'homem para bater ella -mesmo em trem de praça do Rocio ao Dá-fundo. Mas isto bastava para -que Sebastião o achasse um _debochado_, um _perdido_; ouvira que elle -tinha ido para o Brazil para fugir aos credores; que enriquecera por -acaso, n'uma especulação, no Paraguay; que mesmo na Bahia, com a corda -na garganta, nunca fôra um trabalhador; e suppunha que a posse da -fortuna para elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E este -homem agora vinha vêr a Luizinha todos os dias, estava horas e horas, -seguia-a ao Passeio... - -Para que?... Era claro, para a desinquietar! - -Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolação -d'estas idéas, quando uma voz encatarrhoada disse com respeito: - ---Ó snr. Sebastião! - -Era o Paula dos moveis. - ---Viva, snr. João. - -O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro de saliva, e com -as mãos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom -grave: - ---Ó snr. Sebastião, ha doença cá por casa do snr. Engenheiro? - -Sebastião todo surprehendido: - ---Não. Porque? - -O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou: - ---É que tenho visto entrar para cá todos os dias um sujeito. Imaginei -que fosse o medico. - -E puxando o escarro: - ---D'esses novos da hom[oe]opathia! - -Sebastião tinha córado. - ---Nada--disse.--É o primo de D. Luiza. - ---Ah!--fez o Paula.--Pois pensei... Queira desculpar, snr. Sebastião. - -E curvou-se, respeitosamente. - ---Já temos fallatorio!--foi pensando Sebastião. - -E entrou em casa, descontente. - -Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de construcção antiga, com -quintal. - -Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em inscripções, terras de -lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada,--o Rozegal. As -duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira, era -uma preta de S. Thomé já do tempo da mamã. A tia Joanna, a governanta, -servia-o havia trinta e cinco annos; chamava ainda a Sebastião o -«menino»; tinha já as tontices d'uma criança, e recebia sempre os -respeitos d'uma avó. Era do Porto, do _Poârto_, como ella dizia, -porque nunca perdera o seu accento minhôto. Os amigos de Sebastião -chamavam-lhe uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com um sorriso -muito bondoso; tinha os cabellos alvos como uma estriga, atados no -alto n'um rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um -vasto lenço branco muito aceado, traçado sobre o peito. E todo o dia -passarinhava pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar -os mólhos de chaves, resmungando proverbios, tomando rapé de uma caixa -redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pensil -do Porto. - -Em toda a casa havia um tom caturra e dôce: na sala de visitas, quasi -sempre fechada, o vasto canapé, as poltronas tinham o ar empertigado -do tempo do snr. D. José I, e os estofos de damasco vermelho desbotado -lembravam a pompa d'uma côrte decrepita; das paredes da casa de jantar -pendiam as primeiras gravuras das batalhas de Napoleão, onde se vê -invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo branco, para o qual galopa -desenfreadamente do primeiro plano um hussard, brandido um sabre. -Sebastião dormia os seus somnos de sete horas, sem sonhos, n'uma velha -barra de pau preto torneado; e n'uma saleta escura, sobre uma commoda -de fecharias de metal amarello, conservava-se, havia annos, o padroeiro -da casa, S. Sebastião--que se torcia, cravado de settas, nas cordas que -o atavam ao tronco, á luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna, -sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro. - -A casa condizia com o dono. Sebastião tinha um genio antiquado. Era -solitario e acanhado. Já no latim lhe chamavam o _pelludo_; punham-lhe -rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastião, que tinha a -força d'um gymnasta, offerecia a resignação d'um martyr. - -Foi sempre reprovado nos primeiros exames do lyceu. Era intelligente, -mas uma pergunta, o reluzir dos oculos d'um professor, a grande lousa -negra immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face inchada e -rubra, a coçar os joelhos, o olhar vazio. - -Sua mãi, que era da aldêa e que fôra padeira, muito vaidosa agora das -suas inscripções, da sua quinta, da sua mobilia de damasco, sempre -vestida de sêda, carregada d'anneis, costumava dizer: - ---Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir a criança com estudos! -Deixa lá, deixa lá! - -A inclinação de Sebastião era pela musica. Sua mãi, por conselhos da -mãi de Jorge, sua visinha e sua intima, tomou-lhe um mestre de piano; -logo desde as primeiras lições, a que ella assistia com enfeites de -velludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Achilles Bentes, -d'oculos redondos e cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz -nasal: - ---Minha rica senhora! o seu menino é um genio! É um genio! Ha-de ser um -Rossini! É puxar por elle! É puxar por elle! - -Mas era justamente o que ella não queria, era puxar por elle, -coitadinho! Por isso não foi um Rossini. E todavia o velho Bentes -continuava a dizer, por habito: - ---Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini! - -Sómente em lugar de o gritar, brandindo papeis de musica, murmurava-o, -com bocejos enormes de leão enfastiado. - -Já então os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastião, eram intimos. -Jorge mais vivo, mais inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar, -Sebastião era sempre o _cavallo_ nas imitações da diligencia, o -_vencido_ nas guerras. Era Sebastião que carregava os pesos, que -offerecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia todo o pão, -deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre -igual, sem amúos, tornou-se na vida d'ambos um interesse essencial e -permanente. - -Quando a mãi de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos; -habitariam a casa de Sebastião, mais larga e que tinha quintal; Jorge -queria comprar um cavallo; mas conheceu Luiza no Passeio, e d'ahi a -dous mezes passava quasi todo o seu dia na rua da Magdalena. - -Todo aquelle plano jovial da _Sociedade Sebastião e -Jorge_--chamavam-lhe assim, rindo--desabou, como um castello de cartas. -Sebastião teve um grande pezar. - -E era elle, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a -Luiza, sem espinhos, com cuidados devotos embrulhados n'um papel de -sêda. Era elle que tratava dos arranjos do «ninho», ia apressar os -estofadores, discutir preços de roupas, vigiar o trabalho dos homens -que pregavam os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos -papeis do casamento! - -E á noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar -com um sorriso as expansões felizes de Jorge, que passeava pelo quarto -até ás duas horas da noite em mangas de camisa, namorado, loquaz, -brandindo o cachimbo! - -Depois do casamento Sebastião sentiu-se muito só. Foi a Portel visitar -um tio, um velho exquisito, com um olhar de doudo, que passava a -existencia combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o _Eurico_. -Quando voltou, passado um mez, Jorge disse-lhe radioso: - ---E sabes, hein? Isto agora é que é a tua casa! Aqui é que tu vives! - -Mas nunca obteve de Sebastião que fosse a sua casa com uma inteira -intimidade. Sebastião batia á porta, timidamente. Corava diante de -Luiza; o antigo _pelludo_ de latim reapparecia. Jorge luctára para que -elle cruzasse sem ceremonia as pernas, fumasse cachimbo diante d'ella, -não lhe dissesse a todo o momento:--V. exc.^a, v. exc.^a--meio erguido -na cadeira. - -Nunca vinha jantar senão arrastado. Quando Jorge não estava, as suas -visitas eram curtas, cheias de silencio. Julgava-se gebo, tinha medo de -massar! - -N'essa tarde, quando elle foi para a sala de jantar, a tia Joanna -veio-lhe perguntar pela Luizinha. - -Adorava-a, achava-a um _anjinho_, uma _açucena_. - ---Como está ella? viu-a? - -Sebastião corou, não quiz dizer, como na vespera, «que estava gente, -que não tinha entrado»; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as -orelhas do _Trajano_, o seu velho perdigueiro: - ---Está boa, tia Joanna, está boa. Então como ha-de d'estar? Está optima! - - - -Áquella hora Luiza recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com -muitas queixas sobre o calor, sobre as más estalagens, historias sobre -o extraordinario parente de Sebastião,--saudades e mil beijos... - -Não a esperava, e aquella folha de papel cheia d'uma letra miudinha, -que lhe fazia reapparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar, -a sua ternura, deu-lhe uma sensação quasi dolorosa. Toda a vergonha -dos seus desfallecimentos cobardes, sob os beijos de Bazilio, veio -abrazar-lhe as faces. Que horror deixar-se abraçar, apertar! No -sophá o que elle lhe dissera, com que olhos a devorára!... Recordava -tudo,--a sua attitude, o calor das suas mãos, a tremura da sua voz... E -machinalmente, pouco e pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordações, -abandonando-se-lhe, até ficar perdida na deliciosa lassidão que ellas -lhe davam, com o olhar languido, os braços frouxos. Mas a idéa de -Jorge vinha então outra vez fustigal-a como uma chicotada. Erguia-se -bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de -chorar... - ---Ah! não! é horroroso, é horroroso!--dizia só, fallando alto.--É -necessario acabar! - -Resolveu não receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe que não voltasse, -que partisse! Meditava mesmo as palavras; seria sêcca e fria, não diria -_meu querido primo_, mas simplesmente _primo Bazilio_. - -E que faria elle, quando recebesse a carta? Choraria, coitado! - -Imaginava-o só, no seu quarto d'hotel, infeliz e pallido; e d'aqui, -pelos declives da sensibilidade, passava á recordação da sua pessoa, da -sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante, e a memoria -demorava-se n'aquellas lembranças com uma sensação de felicidade, como -a mão se esquece acariciando a plumagem dôce d'um passaro raro. Sacudia -a cabeça com impaciencia, como se aquellas imaginações fossem os -ferrões d'insectos importunos: esforçava-se por pensar só em Jorge; mas -as idéas más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber -o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar -Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que -era!--E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida -indignação contra Jorge, contra Bazilio, contra os sentimentos, contra -os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a não -seccassem, Santo Deus! - -Depois de jantar, á janella da sala, ficou a relêr a carta de Jorge. -Pôz-se a recordar de proposito tudo o que a encantava n'elle, do -seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns -de honra, outros de sentimento, para o amar, para o respeitar. Tudo -era por elle estar fóra, na provincia! Se elle alli estivesse ao pé -d'ella! Mas tão longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra -sua vontade, a certeza d'aquella ausencia dava-lhe uma sensação -de liberdade; a idéa de se poder mover á vontade nos desejos, nas -curiosidades, enchia-lhe o peito d'um contentamente largo, como uma -lufada de independencia. - -Mas emfim, vamos, de que lhe servia estar livre, só?--E de repente tudo -o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe apparecia n'uma perspectiva -longa que fulgurava: aquillo era como uma porta, subitamente aberta e -fechada, que deixa entrever, n'um relance, alguma cousa de indefinido, -de maravilhoso, que palpita e faisca.--Oh! estava douda, de certo! - -Escureceu. Foi para a sala, abriu a janella; a noite estava quente e -espessa, com um ar d'electricidade e de trovoada. Respirava mal, olhava -para o céo, desejando alguma cousa fortemente, sem saber o quê. - -O moço do padeiro em baixo, como sempre, tocava o fado; aquelles sons -banaes entravam-lhe agora na alma, com a brandura d'um bafo quente e a -melancolia de um gemido. - -Encostou a cabeça á mão com uma lassidão. Mil pensamentosinhos -corriam-lhe no cerebro como os pontos de luz que correm n'um papel que -se queimou; lembrava-lhe sua mãi, o chapéo novo que lhe mandára madame -François, o tempo que faria em Cintra, a doçura das noites quentes sob -a escuridão das ramagens... - -Fechou a janella, espreguiçou-se; e sentada na _causeuse_, no seu -quarto, ficou alli, n'uma immobilidade, pensando em Jorge, em lhe -escrever, em lhe pedir que viesse. Mas bem depressa aquelle scismar -começou a quebrar-se a cada momento como uma tela que se esgaça em -rasgões largos, e por traz apparecia logo com uma intensidade luminosa -e forte a idéa do primo Bazilio. - -As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro; -a melancolia da separação dera-lhe cabellos brancos. Tinha soffrido -por ella!--dissera.--E no fim onde estava o mal? Elle jurára-lhe que -aquelle amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris, -o pobre rapaz, assim lh'o jurára, para a vêr, uma semana, quinze dias. -E havia de dizer-lhe:--Não voltes, vai-te? - ---Quando a senhora quizer o chá...--disse da porta do quarto Juliana. - -Luiza deu um suspiro alto como acordando. Não; que trouxesse a -lamparina, mais tarde. - -Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu chá, á cozinha. O lume ia-se -apagando, o candieiro de petroleo estendia nos cobres dos tachos -reflexos avermelhados. - ---Hoje houve cousa, snr.^a Joanna--disse Juliana sentando-se.--Está -toda no ar! E é cada suspiro! Alli houve-a e grossa. - -Joanna, do outro lado, com os cotovêlos na mesa e a face sobre os -punhos, pestanejava de somno. - ---A snr.^a Juliana, tambem, deita tudo para o mal--disse. - ---É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna! - -Calou-se, cheirou o assucar; era um dos seus despeitos; gostava d'elle -bem refinado--e aquelle assucar mascavado e grosso, que punha no chá um -gosto de formigas, exasperava-a. - ---Este é peor que o do mez passado! Para uma pobre de Christo tudo é -bom!--rosnou muito amargamente. - -E depois d'uma pausa repetiu: - ---É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna! - -A cozinheira disse preguiçosamente: - ---Cada um sabe de si... - ---E Deus de todos--suspirou Juliana. - -E ficaram caladas. - -Luiza tocou a campainha em baixo. - ---Que teremos nós agora? Está com as cocegas! - -Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada: - ---Quer mais agua! Olha a mania, pôr-se agora a chafurdar á meia noite! -Sempre a gente as vê... - -Foi encher o regador, e em quanto a agua da torneira cantava no fundo -de lata: - ---E diz que lhe faça ámanhã ao almoço um bocado de presunto frito, do -salgado. Quer picantes! - -E com muito escarneo: - ---Sempre a gente vê cousas! Quer picantes! - -Á meia noite a casa estava adormecida e apagada. Fóra, o céo -ennegrecera mais; relampejou, e um trovão secco estalou, rolou. - -Luiza abriu os olhos estremunhada; começára a cahir uma chuva grossa -e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento -escutando as goteiras que cantavam sobre o lagedo; a alcova abafava, -descobriu-se; o somno tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga -claridade que vinha de fóra da lamparina, seguia o tic-tac do relogio. -Espreguiçou-se, e uma certa idéa, uma certa visão foi-se formando -no seu cerebro, completando-se, tão nitida, quasi tão visivel, que -se revirou na cama devagar, estirou os braços, lançou-os em roda do -travesseiro, adiantando os beiços seccos--para beijar uns cabellos -negros onde reluziam fios brancos. - - - -Sebastião tinha dormido mal. Acordou ás seis horas e desceu ao quintal -em chinellas. Uma porta envidraçada da sala de jantar abria para um -terraçosinho, largo apenas para tres cadeiras de ferro pintado e -alguns vasos de cravos; d'alli, quatro degraus de pedra desciam para -o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de -flôres, saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros, um poço -e um tanque debaixo d'uma parreirita, e arvores; terminava por outro -terraço assombreado d'uma tilia, com um parapeito para uma rua baixa -e solitaria; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um -sitio recolhido, d'uma paz aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada, -ia para alli fumar o seu cigarro. - -Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céo -arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas -velhas e, aqui e além, uma nuvemzinha algodoada, mollemente enrolada, -côr de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a agua do tanque uma -crystallinidade fria; passaros chilreavam de leve, com vôos rapidos. - -Sebastião estava debruçado para a rua, quando a ponteira d'uma bengala, -passos vagarosos cortaram o silencio fresco. Era um visinho de Jorge, -o Cunha Rosado, o doente d'intestinos; arrastava-se, curvado, abafado -n'um cachenez e n'um paletot côr de pinhão, com a barba grisalha -desmazelada, a crescer. - ---Já a pé, visinho!--disse Sebastião. - -O outro parou, ergueu a cabeça lentamente. - ---Oh Sebastião!--disse com uma voz plangente--Ando a passear os meus -leites, homem! - ---A pé? - ---Ao principio ia na burrita até fóra de portas, mas diz que me fazia -bem o passeiosito a pé... - -Encolheu os hombros com um gesto triste de duvida, de desconsolação. - ---E como vai isso?--perguntou Sebastião, muito debruçado para a rua, -com affecto. - -O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos: - ---A desfazer-se! - -Sebastião tossiu, embaraçado, sem achar uma consolação. - -Mas o doente, com as duas mãos apoiadas á bengala, uma subita radiação -d'interesse no olhar amortecido: - ---Ó Sebastião, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias -entrar para casa do Jorge, é o Bazilio de Brito, pois não é? O primo da -mulher? o filho do João de Brito? - ---É, sim, porque? - -O Cunha fez: _Ah! ah!_ com uma grande satisfação. - ---Bem dizia eu!--exclamou.--Bem dizia eu! E aquella teimosa que não! -que não!... - -E então explicou com uma tagarellice subita, e cansaços de voz: - ---O meu quarto é para a rua, e todos os dias, como eu estou quasi -sempre pela janella para espairecer... tenho visto aquelle rapaz, a -modo estrangeirado, entrar para lá... todos os dias! Este é o Bazilio -de Brito! disse eu. Mas minha mulher que não! que não!... Que diabo, -homem! Eu tinha quasi a certeza... Não conheço eu outra cousa!... Até -elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu sei essa historia na -ponta dos dedos... Morava ella na rua da Magdalena!... - -Sebastião disse vagamente: - ---Pois é, é o Brito... - ---Bem dizia eu! - -Ficou um momento immovel, fitando o chão, e refazendo uma voz dolente: - ---Pois, vou-me arrastando até casa. - -Suspirou. E arregalando os olhos: - ---Quem me dera a sua saude, Sebastião! - -E dizendo adeus, com um gesto da mão calçada de luva de casimira -escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o braço ao -ventre, o seu largo paletot côr de pinhão. - -Sebastião entrou preoccupado. Todo o mundo começava a reparar, hein! -Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas, -tres horas! Uma visinhança tão chegada, tão maligna!... - -Ao começo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar Luiza; mas sem saber -porque, sentia um grande acanhamento; como que receava encontral-a -differente ou com outra expressão... E subia a rua devagar, sob o seu -guarda-sol, hesitando, quando um coupé que descia a trote largo veio -parar á porta de Luiza. - -Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto, -com um bigode levantado, trazia uma flôr no peito; devia ser o primo -Bazilio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as -pernas, pôz-se a enrolar o cigarro. - -Ao ruido do trem o Paula postou-se logo á porta, de boné carregado, as -mãos enterradas no bolso, com olhares de revés: a carvoeira defronte, -immunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um -pasmo lôrpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente -a vidraça. Então o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante de -sol, entrou no estanque; d'ahi a um momento appareceu á porta, com a -estanqueira, de carão viuvo; e cochichavam, cravavam olhares perfidos -nas varandas de Luiza, no coupé! O Paula, d'alli, arrastando as -chinellas de tapete, foi segredar com a carvoeira, provocou-lhe uma -risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi emfim estacar á sua -porta entre um retrato de D. João VI e duas velhas cadeiras de couro, -assobiando com jubilo. No silencio da rua ouvia-se n'um piano, a -compasso de estudo, a _Oração d'uma virgem_. - -Sebastião ao passar olhou machinalmente para as janellas de Luiza. - ---Rico calor, snr. Sebastião!--observou o Paula curvando-se--É um -regalo estar á fresca! - - - -Luiza e Bazilio estavam muito tranquillos, muito felizes na sala, com -as portadas meio cerradas, n'uma penumbra dôce. Luiza tinha apparecido -de roupão branco, muito fresca, com um bom cheiro de agua d'alfazema. - ---Eu venho assim mesmo--disse ella.--Não faço ceremonias. - -Mas assim é que ella estava linda! Assim é que a queria -sempre!--exclamava Bazilio muito contente, como se aquelle roupão de -manhã fosse já uma promessa da sua nudez. - -Vinha muito tranquillo, affectava um tom de parente. Não a inquietou -com palavras vehementes, nem com gestos desejosos: fallou-lhe do calor, -d'uma _zarzuela_ que vira na vespera, de velhos amigos que encontrára, -e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ella. - -O que? Que estavam longe, n'uma terra distante, que devia ser a Italia, -tantas as estatuas que havia nas praças, tantas as fontes sonoras -que cantavam nas bacias de marmore; era n'um jardim antigo, sobre um -terraço classico; flôres raras transbordavam de vasos florentinos; -pousando sobre as balaustradas esculpidas, pavões abriam as caudas; e -ella arrastava devagar sobre as lages quadradas a cauda longa do seu -vestido de velludo azul. De resto, dizia, era um terraço como o de S. -Donato, a _villa_ do principe Demidoff,--porque lembrava sempre as suas -intimidades illustres, e não se descuidava de fazer reluzir a gloria -das suas viagens. - -E ella, tinha sonhado? - -Luiza córou.--Não, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a -trovoada, elle? - ---Estava a cear no Gremio, quando trovejou. - ---Costumas cear? - -Elle teve um sorriso infeliz.--Cear! se se podia chamar cear ir ao -Gremio rilhar um bife corneo e tragar um Collares peçonhento! - -E fitando-a: - ---Por tua causa, ingrata! - -Por sua causa? - ---Por quem, então? Porque vim eu a Lisboa? Porque deixei Paris? - ---Por causa dos teus negocios... - -Elle encarou-a severamente: - ---Obrigado--disse, curvando-se até ao chão. - -E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu -charuto. - -Veio sentar-se bruscamente ao pé d'ella.--Não, realmente era injusta. -Se estava em Lisboa, era por ella. Só por ella! - -Fez uma voz meiga, perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho -d'amor muito pequenino, assim...--Mostrava o comprimento da unha. - -Riram. - ---Assim, talvez. - -E o peito de Luiza arfava. - -Elle então examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as e aconselhou-lhe o -verniz que usam as _cocottes_, que lhes dá um lustre polido; ia-se -apossando da sua mão, pôz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o -dedo minimo, jurou que era muito dôce; arranjou-lhe com um contacto -muito timido uns fios de cabello que se tinham soltado,--e, disse, -tinha um pedido a fazer-lhe! - -Olhava-a com uma supplicação. - ---Que é? - ---É que venhas commigo ao campo. Deve estar lindo no campo! - -Ella não respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas molles do roupão. - ---É muito simples--acrescentou elle.--Tu vaes-me encontrar a qualquer -parte, longe d'aqui, está claro. Eu estou á espera de ti com uma -carruagem, tu saltas para dentro e _fouette_, _cocher_! - -Luiza hesitava. - ---Não digas que não. - ---Mas onde? - ---Onde tu quizeres. A Paço d'Arcos, a Loires, a Queluz. Dize que sim. - -A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhára. - ---Que tem? É um passeio d'amigos, d'irmãos. - ---Não! isso não! - -Bazilio zangou-se, chamou-lhe _beata_. Quiz sahir. Ella veio tirar-lhe -o chapéo da mão, muito meiga, quasi vencida. - ---Talvez, veremos--dizia. - ---Dize que sim!--insistia.--Sê boa rapariga! - ---Pois sim, ámanhã veremos, ámanhã fallaremos. - -Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bazilio não fallou no passeio, -nem no campo. Não fallou tambem do seu amor, nem dos seus desejos. -Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de -Belot, _A mulher de fogo_. E sentando-se ao piano, disse-lhe canções de -_café concerto_, muito picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das -cantoras; fel-a rir. - -Depois fallou muito de Paris, contou-lhe a moderna chronica amorosa, -anecdotas, paixões _chics_. Tudo se passava com duquezas, princezas, -d'um modo dramatico e sensibilisador, ás vezes jovial, sempre cheio de -delicias. E, de todas as mulheres de que fallava, dizia recostando-se: -Era uma mulher distinctissima, tinha naturalmente o seu amante... - -O adulterio apparecia assim um dever aristocratico. De resto a virtude -parecia ser, pelo que elle contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou -a occupação reles d'um temperamento burguez... - -E quando sahiu, disse, como recordando-se: - ---Sabes que estou com minhas idéas de partir?... - -Ella perguntou, um pouco descorada: - ---Porque? - -Bazilio disse, muito indifferente: - ---Que diabo faço eu aqui?... - -Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se: - ---Adeus, meu amor... - -E sahiu. - -Quando n'essa tarde Luiza entrou na sala de jantar, levava os olhos -vermelhos. - -Foi ella no dia seguinte que fallou do campo. Queixou-se do contínuo -calor, da _sécca_ de Lisboa. Como devia estar lindo em Cintra! - ---És tu que não queres--acudiu elle. --Podiamos fazer um passeio -adoravel. - -Mas tinha medo, podiam vêr... - ---O quê! N'um coupé fechado? Com os _stores_ descidos? - -Mas então era peor que estar n'uma sala, era abafar n'uma bocêta! - -Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir ás _Alegrias_, á quinta d'um amigo -d'elle que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros, era ao pé dos -Olivaes, era lindo! Bellas ruas de loureiros, sombras adoraveis. Podiam -levar gelo, champagne... - ---Vem!--disse bruscamente, tomando-lhe as mãos. - -Ella córou.--Talvez. No domingo veria. - -Bazilio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, -humedeceram-se. Ella sentiu-se muito perturbada; desprendeu as mãos; -foi abrir as vidraças ambas, dar á sala uma claridade larga como -uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao pé do piano, receando a -penumbra, o sophá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse -alguma cousa, porque já temia as palavras, tanto como os silencios! -Bazilio cantou a _Medjé_, a melodia de Gounod, tão sensual e -perturbadora. Aquellas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos -d'uma noite electrica. E quando Bazilio sahiu, ficou sentada, quebrada, -como depois d'um excesso. - - -Sebastião tinha estado nos ultimos tres dias em Almada, na quinta do -Rozegal, onde trazia obras. Voltára na segunda-feira cedo, e, pelas -dez horas, sentado no poial da janella de jantar que abria para o -terraçosinho, esperava o seu almoço, brincando com o _Rolim_--o seu -gato, amigo e confidente da illustre Vicencia, nedio como um prelado, -ingrato como um tyranno. - -A manhã começava a aquecer; o quintal estava já cheio de sol; na agua -do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e tremulas faiscavam. -Nas duas gaiolas os canarios cantavam estridentemente. - -A tia Joanna, que andava a arranjar a mesa do almoço muito calada, -poz-se então a dizer com a sua vozinha arrastada e minhôta: - ---Ora esteve ahi hontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratorios, -com umas tontices!... - ---A respeito de quê, tia Joanna?--perguntou Sebastião. - ---A respeito d'um rapaz, que diz que vai agora todos os dias a casa da -Luizinha. - -Sebastião ergueu-se logo: - ---Que disse ella, tia Joanna? - -A velha assentava a toalha devagar com a sua mão gorducha espalmada: - ---Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem não seria? Diz que é um -perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem... No -sabbado que estivera até quasi á noitinha. E cantou-se na sala, diz que -uma voz que nem no theatro... - -Sebastião interrompeu-a, impaciente: - ---É o primo, tia Joanna. Então quem havia de ser? É o primo que chegou -do Brazil. - -A tia Joanna teve um bom sorriso. - ---Eu logo vi que era cousa de parente. Pois diz que é um perfeito -rapaz! E todo janota! - -E sahindo para a cozinha, devagar: - ---Eu logo vi que era parente, logo disse!... - -Sebastião almoçou inquieto. Positivamente a visinhança já se punha a -mexericar, a commentar! Estava-se a armar um escandalo!--E, assustado, -decidiu-se logo a ir consultar Julião. - -Descia a rua de S. Roque para casa d'elle, quando o viu, que subia -devagar pela sombra, com um rolo de papel debaixo do braço, uma calça -branca enxovalhada, o ar suado. - ---Ia a tua casa, homem!--disse Sebastião logo. - -Julião estranhou a excitação desusada da sua voz. - -Havia alguma novidade? Que era? - ---Uma do diabo!--exclamou, baixo, Sebastião. - -Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça, por traz d'elles, -emprateleirava-se uma exposição de garrafas de malvasia com os seus -letreiros muito coloridos, transparencias avermelhadas de gelatinas, -amarellidões enjoativas de dôces d'ovos, e quéques d'um castanho escuro -tendo espetados cravos tristes de papel branco ou côr de rosa. Velhas -natas lividas amollentavam-se no ôco dos folhados; ladrilhos grossos de -marmelada esbeiçavam-se ao calor; as empadinhas de marisco agglomeravam -as suas crôstas resequidas. E no centro, muito proeminente n'uma -travessa, enroscava-se uma lampreia d'ovos medonha e bojuda, com o -ventre d'um amarello ascoroso, o dorso malhado d'arabescos d'assucar, a -bocca escancarada: na sua cabeça grossa esbogalhavam-se dous horriveis -olhos de chocolate; os seus dentes d'amendoa ferravam-se n'uma -tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam. - ---Vamos alli para o café--disse Julião.--Aqui na rua arde-se! - ---Tenho estado apoquentado--ia dizendo Sebastião.--Muito apoquentado! -Quero fallar-te. - -No café o papel azul ferrete e as meias portas fechadas abatiam a -aspera intensidade da luz, davam uma frescura calada. - -Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito -caiadas brilhavam com uma radiação faiscante. Por traz do balcão, onde -reluziam garrafas de crystal, um criado de jaquetão, estremunhado -e esguedelhado, cabeceava de somno. Um passaro chilreava dentro; -sentia-se o bater espaçado das bolas do bilhar através d'uma porta de -baeta verde; ás vezes o pregão de um cangalheiro na rua sobresahia, -e--todos estes sons, por momentos, se perdiam no ruido forte do descer -d'um trem travado. - -Defronte d'elles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas -melenas grisalhas collavam-se a um craneo amarellado; o bigode tinha -tons queimados do cigarro; e das noitadas ficára-lhe uma vermelhidão -inflammada nas palpebras. De vez em quando erguia preguiçosamente a -cabeça, atirava para o chão areado um jacto escuro de saliva, dava uma -sacudidella triste ao jornal e tornava a fital-o com um olhar infeliz. -Quando os dous entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente -a cabeça. - ---Mas o que é então?--perguntou logo Julião. - -Sebastião chegou-se mais para elle: - ---É por causa lá da nossa gente. Por causa do primo--disse baixo. - -E acrescentou: - ---Tu vistel-o, hein? - -A lembrança repentina da sua humilhação na sala de Luiza trouxe um -rubor ás faces de Julião. Mas muito orgulhoso, disse seccamente: - ---Vi. - ---E então? - ---Pareceu-me um asno!--exclamou, não se contendo. - ---E um extravagante--disse com terror Sebastião--Não te pareceu, hein? - ---Pareceu-me um asno--repetiu.--Umas maneiras, uma affectação, um -alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridiculas de -mulher... - -E com um certo sorriso azedado: - ---Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas--disse, apontando -para os botins mal engraxados--tenho muita honra n'ellas, são de quem -trabalha... - -Porque publicamente costumava gloriar-se d'uma pobreza, que intimamente -não cessava de o humilhar. - -E remexendo devagar a sua carapinhada: - ---Uma besta!--resumiu. - ---Tu sabes que elle foi namoro da Luiza?--disse Sebastião, baixo, como -assustado da gravidade da confidencia. - -E respondendo logo ao olhar surprehendido de Julião: - ---Sim. Ninguem o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o ha pouco, ha mezes. Foi. -Estiveram para casar. Depois o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de -lá escreveu a romper o casamento. - -Julião sorriu, e encostando a cabeça á parede: - ---Mas isso é o enredo da _Eugenia Grandet_, Sebastião! Estás-me a -contar o romance de Balzac! Isso é a _Eugenia Grandet_! - -Sebastião fitou-o espantado. - ---Ora! não se póde fallar serio comtigo. Dou-te a minha palavra -d'honra--acrescentou vivamente. - ---Vá, Sebastião, vá, dize. - -Houve um silencio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do -tecto sujo do fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mão -sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rêpas. No bilhar vozes -altercavam. - -Sebastião então, como tomado d'uma resolução, disse bruscamente: - ---E agora vai lá todos os dias, não sahe de lá! - -Julião afastou-se na banqueta e encarou-o: - ---Tu queres-me dar a entender alguma cousa, Sebastião? - -E com uma vivacidade quasi jovial: - ---O primo atira-se? - -Aquella palavra escandalisou Sebastião. - ---Ó Julião!--E severamente:--Com essas cousas não se brinca! - -Julião encolheu os hombros. - ---Mas está claro que se atira!--exclamou.--És de bom tempo ainda! Está -claro que sim! Namorou-a solteira, agora quel-a casada! - ---Falla baixo--acudiu Sebastião. - -Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recahido na sua leitura -funebre. - -Julião baixou a voz: - ---Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Bazilio tem razão; quer o -prazer sem a responsabilidade! - -E quasi ao ouvido d'elle: - ---É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu não imaginas que -influencia isto tem no sentimento! - -Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilherias vinham-lhe com -abundancia: - ---Ha um marido que a veste, que a calça, que a alimenta, que a engomma, -que a vela se está doente, que a atura se ella está nervosa, que tem -todos os encargos, todos os tedios, todos os filhos, todos, todos os -que vierem, sabes a lei... Por consequencia o primo não tem mais que -chegar, bater ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa á -custa do marido, e... - -Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfação, enrolando -deliciosamente o cigarro, regosijando-se no escandalo. - ---É optimo!--acrescentou.--Todos os primos raciocinam assim. Bazilio -é primo, logo... Sabes o syllogismo, Sebastião! Sabes o syllogismo, -menino!--gritou, dando-lhe uma palmada na perna. - ---É o diabo--murmurou Sebastião cabisbaixo. - -Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando: - ---Mas tu suppões que uma rapariga de bem... - ---Eu não supponho nada!--acudiu Julião. - ---Falla baixo, homem! - ---Eu não supponho nada--repetiu Julião baixinho.--Eu affirmo o que elle -faz. Agora ella... - -E acrescentou com seccura: - ---Como é uma rapariga honesta... - ---Se é!--exclamou Sebastião, batendo uma punhada na pedra da mesa. - ---Prompto!--cantou arrastadamente o moço. - -O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia -ao balcão bocejando, e que os dous continuavam a remexer a sua -carapinhada, encostou os cotovêlos á mesa, salivou para longe, e -puxando o jornal deixou-lhe cahir em cima um olhar desolado. - -Sebastião disse, então, com tristeza: - ---A questão não é por ella. A questão é pela visinhança. - -Ficaram um momento calados. A altercação de vozes no bilhar crescia. - ---Mas--disse Julião, como sahindo d'uma reflexão--a visinhança? Como a -visinhança? - ---Sim, homem! Vêem entrar para lá o rapaz. Vem de tipoia, faz um -escandalo na rua. Já se falla. Já vieram com mexericos á tia Joanna. -Ha dias encontrei o Netto que reparou. O Cunha tambem. O homem dos -trastes, em baixo, não se faz nada que elle não dê fé: são umas linguas -de tremer. Ha dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem -para entrar, e foram logo conciliabulos na rua, olhadellas para a -janella, o diabo! Vai lá todos os dias. Sabem que o Jorge está no -Alemtejo... Está duas e tres horas. É muito serio, é muito serio! - ---Mas ella então é tola! - ---Não vê o mal... - -Julião encolheu os hombros, duvidando. - -Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem herculeo, de bigode -negro, muito escarlate, sahiu bruscamente, e parando, segurando a porta -aberta, gritou para dentro: - ---E fique sabendo que havia d'encontrar homem! - -Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade. - -O sujeito herculeo atirou a porta, furioso; atravessou o café -resfolegando, apopletico; um rapaz chupado, de jaquetão de inverno e -calça branca, seguia-o, com um ar gingado. - ---O que eu devia fazer--exclamava o agigantado, brandindo o punho--era -quebrar a cara áquelle pulha! - -O rapaz chupado, dizia, com doçura e servilismo, bamboleando-se: - ---Questões não servem para nada, sô Corrêa! - ---É que sou muito prudente--berrou o herculeo.--É que me lembro que -tenho mulher e filhos! Senão bebia-lhe o sangue! - -E sahindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua. - -O criado muito pallido, tremia dentro do balcão; e o sujeito calvo, que -erguera a cabeça, teve um sorriso de tedio, e retomou tristemente o -jornal. - -Sebastião, então, disse reflectindo: - ---Não te parece que seria bom avisal-a? - -Julião encolheu os hombros, soltou uma baforada de fumo. - ---Dize alguma cousa!--implorou Sebastião--Tu não ias fallar-lhe, hein? - ---Eu?--exclamou Julião com um aspecto que repellia a idéa.--Eu! Estás -doudo! - ---Mas que te parece, emfim? - -E a voz de Sebastião tinha quasi uma afflicção. - -Julião hesitou: - ---Vai, se queres. Dize-lhe que se tem reparado... Emfim, eu não sei, -meu amigo! - -E pôz-se a chupar o seu cigarro. - -Aquelle mutismo affectou Sebastião. Disse com desconsolação: - ---Homem, vim-te pedir um conselho... - ---Mas que diabo queres tu?--E a voz de Julião irritava-se.--A culpa é -d'ella. É d'ella!--insistiu, vendo o olhar de Sebastião.--É uma mulher -de vinte e cinco annos, casada ha quatro, deve saber que se não recebe -todos os dias um peralvilho, n'uma rua pequena, com a visinhança a -postos! Se o faz, é porque lhe agrada. - ---Ó Julião!--disse muito severamente Sebastião. - -E dominando-se, com a voz commovida: - ---Não tens razão, não tens razão! - -Calou-se muito magoado. - -Julião levantou-se. - ---Amigo Sebastião, eu digo o que penso, tu fazes o que entendes. - -Chamou o criado. - ---Deixa--disse Sebastião precipitadamente, pagando. - -Iam sahir. Mas então o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se -para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastião um papel -enxovalhado. - -Sebastião, surprehendido, leu alto, machinalmente: - -«O abaixo assignado, antigo empregado da nação, reduzido á miseria...» - ---Fui intimo amigo do nobre duque de Saldanha!--gemeu chorosamente, com -uma rouquidão, o sujeito calvo. - -Sebastião córou, comprimentou, metteu-lhe na mão duas placas de cinco -tostões, discretamente. - -O sujeito dobrou profundamente o espinhaço, e declamou com uma voz cava: - ---Mil agradecimentos a v. exc.^a, snr. conde! - - - - -V - - -A manhã estava abrazadora. Um pouco depois do meio dia, Joanna, -estirada n'uma velha cadeira de vime da ilha da Madeira que havia na -cozinha, dormitava a sésta. Como madrugava muito, áquella hora da calma -vinha-lhe sempre uma quebreira. - -As janellas estavam cerradas ao sol faiscante; as panellas no lume -faziam um _ron-ron_ dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia -amodorroada no amollecimento do calor torrido, quando Juliana entrou -como uma rajada, atirou para o chão, furiosa, uma braçada de roupa -suja, e gritou: - ---Raios me partam se não ha um escandalo n'esta casa que vai tudo raso! - -Joanna deu um salto estremunhada. - ---Quem quer as cousas em ordem olha por ellas!--berrava a outra com -os olhos injectados.--Não é estar todo o dia na sala a palrar com as -visitas! - -A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, já assustada. - ---Que foi, snr.^a Juliana, que foi? - ---Está com a mosca! Tem o sangue a ferver! Sangrias! sangrias! Tem -peguilhado por tudo! Não estou para a aturar, não estou! - -E batia o pé com phrenesi. - ---Mas que foi? que foi? - ---Diz que os collarinhos tinham pouca gomma, pôz-se a despropositar! -Estou farta de a aturar! Estou farta! Estou até aqui!--bradava, puxando -a pelle engelhada da garganta.--Pois que me não faça sahir de mim! Que -me vou, e pespego-lhe na cara por quê! Desde que aqui temos homem e -pouca vergonha, boas noites!... Quem quizer que se metta em alhadas... - ---Ó snr.^a Juliana, pelo amor de Deus! Jesus!--E a Joanna apertava a -cabeça nas mãos.--Ai, se a senhora ouve! - ---Que ouça, digo-lh'o na cara! Estou farta! estou farta! - -Mas, de repente, fez-se branca como a cal, cahiu sobre a cadeira de -vime com as duas mãos contra o coração, os olhos em alvo. - ---Snr.^a Juliana!--gritou Joanna--Snr.^a Juliana! Falle! - -Borrifou-a d'agua; sacudia-a, anciosamente. - ---Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos valha! Está melhor? Falle! - -Juliana deu um suspiro longo, d'allivio, cerrou as palpebras. E -arquejava devagarinho, muito prostrada. - ---Como se sente? Quer um caldinho? É fraqueza, ha-de ser fraqueza... - ---Foi a pontada--murmurou Juliana. - -Ai! aquelles phrenesis matavam-na!--dizia a cozinheira, remexendo-lhe -o caldo, muito pallida tambem.--A gente tinha d'aturar os amos! Que -tomasse a sustancia, que socegasse!... - -N'aquelle momento Luiza abriu a porta. Vinha em collete e saia branca. - -Que barulho era aquelle? - ---A snr.^a Juliana que lhe tinha dado uma cousa, quasi desmaiára... - ---Foi a pontada--balbuciou Juliana. - -E erguendo-se, com um esforço: - ---Se a senhora não precisa nada, vou ao medico... - ---Vá, vá!--disse Luiza logo. E desceu. - -Juliana pôz-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joanna -consolava-a baixo:--Tambem, a snr.^a Juliana arrenegava-se por -qualquer cousa. E quando a gente tem pouca saude não ha nada peor que -emphrenesiar-se... - ---É que não imagina!--e abafava a voz arregalando os olhos--Tem estado -de não se poder aturar! Está-se a vestir que nem para uma partida! -Amarfanhou uns poucos de collares, atirou-os para o chão, que eu -engommava que era uma porcaria, que não servia para nada... Ai! Estou -farta!--repetia--Estou farta! - ---É ter paciencia! Todos tem a sua cruz! - -Juliana teve um sorriso livido, ergueu-se com um grande _ai!_, -escabichou os dentes, apanhou a roupa suja, e subiu ao sotão. - -D'ahi a pouco, de luvas pretas, muito amarella, sahiu. - -Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, parou indecisa. Até -ao medico era um estirão!... E estava, que lhe tremiam as pernas!... -Mas tambem, largar tres tostões para trem!... - ---Pst, pst!--fez do lado uma voz dôce. - -Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu -sorriso desconsolado. - -Que era feito da snr.^a Juliana? a dar o seu passeio, hein? - -Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo d'osso.--De muito gosto--disse.--E -como ia de saude? - -Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao medico... - -Mas a estanqueira não tinha fé nos medicos. Era dinheiro deitado á -rua... Citou a doença do seu homem, os gastos, um _rôr_ de moedas. E -para que? para o vêr penar e morrer como se nada fosse! Era um dinheiro -que sempre chorava! - -E suspirou. Emfim, fosse feita a vontade de Deus! E lá por casa do snr. -Engenheiro? - ---Tudo sem novidade. - ---Ó snr.^a Juliana, quem é aquelle rapaz que vai agora por lá todos os -dias? - -Juliana respondeu logo: - ---É o primo da senhora. - ---Dão-se muito!... - ---Parece. - -Tossiu, e com um comprimentosinho: - ---Pois, muito boas tardes, snr.^a Helena. - -E foi resmungando: - ---Ora, fica-te a chuchar no dedo, lêsma! - -Juliana detestava a visinhança; sabia que a escarneciam, que a -imitavam, que lhe chamavam a _tripa velha_!...--Pois tambem d'ella -não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham de -carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar -guardadinho, lá dentro.--Para uma occasião!--pensava com rancor, -sacudindo os quadris. - -A estanqueira ficou á porta, despeitada. E o Paula dos moveis, que as -vira conversar, veio logo, deslisando subtilmente nas suas chinellas de -tapete: - ---Então a _tripa velha_ escorregou-se? - ---Ai! não se lhe tira nada! - -O Paula enterrou as mãos nos bolsos, com tedio: - ---Aquillo, a do Engenheiro besunta-lhe as mãos... É ella quem leva a -cartinha, quem abre a portita de noite... - ---Tanto não direi! Credo! - -O Paula fitou-a com superioridade: - ---A snr.^a Helena está ahi ao seu balcão... Mas eu é que as conheço, -as mulheres da alta sociedade! Conheço-as nas pontas dos dedos. É uma -cambada! - -Citou logo nomes, alguns illustres; tinham amantes innumeraveis: até -trintanarios! Algumas fumavam, outras _entortavam-se_. E peor! E peor! - ---E passeiam por ahi, muito repimpadas de carrinho, á barba da gente de -bem! - ---Falta de religião!--suspirou a estanqueira. - -O Paula encolheu os hombros: - ---A religião é que é, snr.^a Helena! C'os padres é que é! - -E agitando furioso o punho fechado: - ---C'os padres é uma _choldra_ viva! - ---Credo, snr. Paula, que até lhe fica mal!... - -E o carão amarellado da estanqueira tinha uma severidade de devota -offendida. - ---Ora, historias, snr.^a Helena!--exclamou o homem com desprezo. - -E bruscamente: - ---Porque é que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um desaforo -lá dentro! - ---Oh snr. Paula! oh snr. Paula!--balbuciava a Helena, recuando, -encolhendo-se. - -Mas o Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas. - ---Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterraneo ter c'os -frades. E era vinhaça e mais vinhaça. E batiam o fandango em camisa! -Anda isso por ahi em todos os livros. - -E erguendo-se nas chinellas: - ---E os jesuitas, se vamos a isso! Sim! diga! - -Mas recuou, e levando a mão á pala do boné: - ---Um criado da senhora--disse com respeito. - -Era Luiza que passava, vestida de preto, o véo descido. Ficaram -calados, a olhal-a. - ---Que ella é muito bonita!--murmurou a estanqueira, com admiração. - -O Paula franziu a testa. - ---Não é mau bocado...--disse. E acrescentou, com desdem:--P'ra quem -gosta d'aquillo!... - -Houve um silencio. E o Paula rosnou: - ---Não são as saias que me levam o tempo, nem d'isto!... - -E bateu no bolso do collete, fazendo tilintar dinheiro. - -Tossiu, pigarreou, e ainda aspero: - ---Venha de lá um pataco de Xabregas. - -Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus -olhos arregalaram-se indignados; n'uma das janellas de cima na casa do -Engenheiro, tinha avistado, por entre as vidraças abertas, a figura -enfesada do Pedro, o carpinteiro. - -Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os braços: - ---E agora que a patrôa vai á vida, lá está o rapazola a entender-se com -a criada! - -Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna: - ---Aquella casa vai-se tornando um prostibulo! - ---Um quê, snr. Paula? - ---Um prostibulo, snr.^a Helena! É como se dissesse um alcouce! - -E, com passos escandalisados, o patriota afastou-se. - - -Luiza ia emfim ao campo com Bazilio. Consentira na vespera, declarando -logo «que era só um passeio de meia hora, de carruagem, sem se -apearem». Bazilio ainda insistiu, fallando em «sombras d'alamedas, -uma merendinha, relvas...» Mas ella recusou, muito teimosa, rindo, -dizendo:--Nada de relvas!... - -E tinham combinado encontrar-se na praça da Alegria. Chegou tarde, já -depois das duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre o -rosto, toda assustada. - -Bazilio esperava, fumando, n'um coupé, á esquina, debaixo d'uma -arvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Luiza entrou fechando -atrapalhadamente a sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, -esgaçou-se no rufo de sêda; e achou-se ao lado d'elle, muito nervosa, -offegante, com o rosto abrazado, murmurando: - ---Que tolice, que tolice esta! - -Mal podia fallar. O coupé partiu logo a trote. O cocheiro era o -Pintéos, um batedor. - ---Tão cançada, coitadinha!--disse-lhe Bazilio muito meigo. - -Levantou-lhe o véo; estava suada; os seus largos olhos brilhavam da -excitação, da pressa, do medo... - ---Que calor, Bazilio! - -Quiz descer um dos vidros do coupé. - -Não, isso não! Podiam vêl-os! Quando passassem as portas... - ---Para onde vamos nós? - -E espreitava, levantando o _store_. - ---Vamos para o lado do Lumiar, é o melhor sitio. Não queres? - -Encolheu os hombros. Que lhe importava? Ia socegando: tinha tirado o -véo e as luvas: sorria, abanando-se com o lenço, d'onde sahia um aroma -fresco. - -Bazilio prendeu-lhe o pulso, pôz-lhe muitos beijos longos, delicados, -na pelle fina, azulada de veiasinhas. - ---Tu prometteste ter juizo!--fez ella com um sorriso calido, olhando-o -de lado. - -Ora! mas um beijo, no braço! Que mal havia? Tambem era necessario não -ser beata! - -E olhava-a avidamente. - -Os velhos _stores_ do coupé corridos eram de sêda vermelha, e a luz que -os atravessava envolvia-a n'um tom igual, côr de rosa e quente. Os seus -beiços tinham um escarlate molhado, a lisura sã d'uma petala de rosa; e -ao canto do olho um ponto de luz movia-se n'um fluido dôce. - -Não se conteve, passou-lhe os dedos um pouco tremulos nas fontes, nos -cabellos, com uma caricia fugitiva e assustada; e com a voz humilde: - ---Nem um beijo na face, um só? - ---Um só?...--fez ella. - -Pousou-lh'o delicadamente ao pé da orelha. Mas aquelle contacto -exasperou-lhe o desejo brutalmente; teve um som de voz soluçado; -agarrou-a com sofreguidão, e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoço, -pela face, pelo chapéo... - ---Não! não!--balbuciava ella, resistindo.--Quero descer! Dize que pare! - -Batia nos vidros; esforçava-se por correr um, desesperada, magoando os -dedos na dura corrêa suja. - -Bazilio pôz-se a supplicar, que lhe perdoasse! Que doudice, zangar-se -por um beijo! Se ella estava tão linda!... Fazia-o doudo. Mas jurava ir -quieto, muito quieto... - -A carruagem, ao pé das portas, rolava sacudida na calçada miuda; nas -terras, aos lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam immoveis -na luz branca; e sobre a herva crestada o sol batia duramente n'uma -fulguração continua. - -Bazilio tinha descido um dos vidros; o _store_ corrido palpitava -brandamente; pôz-se então a fallar-lhe ternamente de si, do seu -amor, dos seus planos. Estava resolvido a vir estabelecer-se em -Lisboa--dizia.--Não tencionava casar-se; amava-a e não comprehendia -nada melhor do que viver ao pé d'ella, sempre. Dizia-se desilludido, -enfastiado. Que mais lhe podia offerecer a vida? Tinha tido as -sensações dos amores ephemeros, as aventuras das longas viagens. -Ajuntára alguma cousa de seu,--e sentia-se velho. - -Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mãos: - ---Não é verdade que estou velho? - ---Não muito--e os seus olhos humedeciam-se. - -Ah! estava! estava! O que lhe appetecia agora era viver para ella, -vir descançar nas doçuras da sua intimidade. Ella era a sua unica -familia.--Fazia-se muito _parente_.--A familia no fim de tudo é o que -ha de melhor ainda. Não te incommoda que eu fume? - -E acrescentou, raspando o phosphoro: - ---O que ha de bom na vida é uma affeição profunda como a nossa. Não -é verdade? Contento-me com pouco, de resto. Vêr-te todos os dias, -conversar muito, saber que me estimas...--Por dentro do campo, ó -Pintéos!--gritou com força pela portinhola. - -O coupé entrou a passo no Campo Grande. Bazilio ergueu os _stores_; um -ar mais vivo penetrou. O sol cahia sobre o arvoredo, traspassando-o -d'uma luz faiscante, formando no chão poeirento e branco sombras -quentes de ramagens. Tudo tinha em redor um aspecto resequido e -exhausto. Na terra gretada, a herva curta, crestada, fazia tons -cinzentos. Na estrada, ao lado, arrastava-se uma poeira amarellada. -Saloios passavam, amodorroados sobre o albardão, bamboleando as pernas, -abrigados sob os vastos guarda-soes escarlates; e a luz que vinha de -um céo azul ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiação crua -as paredes muito caiadas, as aguas d'algum balde esquecido ás portas, -todas as brancuras de pedras. - -E Bazilio continuava: - ---Vendo tudo o que tenho lá fóra, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em -Buenos-Ayres, talvez... Não te agrada? Dize... - -Ella calava-se; aquellas palavras, as promessas, a que a voz d'elle -metallica e velada dava um vigor mais amoroso, iam-na perturbando como -a inebriação d'um licôr forte. O seu seio arfava. - -Bazilio baixou a voz, disse: - ---Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz, parece-me tudo tão -bom!... - ---Se isso fosse verdade!--suspirou ella, encostando-se para o fundo do -coupé. - -Bazilio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que sim! Ia pôr a sua -fortuna em inscripções. Começou a dar-lhe provas: já fallára a um -procurador; citou-lhe o nome, um sêcco, de nariz agudo... - -E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes: - ---E se fosse verdade, dize, que fazias? - ---Nem eu sei--murmurou ella. - -Iam entrando no Lumiar, e por prudencia desceram os _stores_. Ella -afastou um, e, espreitando, via fóra passar rapidamente, ao lado do -trem, arvores empoeiradas; um muro de quinta d'uma côr de rosa sujo; -fachadas de casas mesquinhas; um omnibus desatrellado; mulheres -sentadas ao portal, á sombra, catando os filhos; e um sujeito vestido -de branco, de chapéo de palha, que estacou, arregalou os olhos para as -cortinas fechadas do coupé. E ia desejando habitar alli n'uma quinta, -longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das -janellas, parreiras sobre pilares de pedra, pés de roseiras, ruasinhas -amaveis sob arvores entrelaçadas, um tanque debaixo d'uma tilia, onde -de manhã as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, palrando. E ao -escurecer, ella e elle, um pouco quebrados das felicidades da sésta, -iriam pelos campos, ouvindo calados, sob o céo que se estrella, o -coaxar triste das rãs. - -Cerrou os olhos. O movimento muito lançado do coupé, o calor, a -presença d'elle, o contacto da sua mão, do seu joelho, amolleciam-na. -Sentia um desejo a alargar-se dentro do peito. - ---Em que vaes tu a pensar?--perguntou-lhe elle baixo, muito terno. - -Luiza fez-se vermelha. Não respondeu. Tinha medo de fallar, de lhe -dizer... - -Bazilio tomou-lhe a mão devagarinbo, com respeito, com cuidado, como -uma cousa preciosa e santa; e beijou-lh'a de leve, com a servilidade -d'um negro e a unção d'um devoto. Aquella caricia tão humilde, tão -tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se; deixou-se cahir para -o canto do coupé, rompeu a chorar... - -Que era? Que tinha? Prendera-a nos braços, beijava-a, dizia-lhe -palavras loucas. - ---Queres que fujamos? - -As suas lagrimasinhas redondas e luminosas, rolando devagarinho sobre -aquella face mimosa, enterneciam-no, e davam aos seus desejos uma -vibração quasi dolorosa. - ---Foge commigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo! - -Ella soluçou, murmurou muito doridamente: - ---Não digas tolices. - -Elle calou-se; pôz a mão sobre os olhos com uma attitude melancolica, -pensando:--Estou a dizer tolices, não ha que vêr! - -Luiza limpava as lagrimas, assoando-se devagarinho. - ---É nervoso--disse.--É nervoso. Voltamos, sim? Não me sinto bem. Dize -que volte. - -Bazilio mandou «bater» para Lisboa. - -Ella queixava-se de um ameaço d'enxaqueca. Elle tinha-lhe tomado a mão, -repetia-lhe as mesmas ternuras: chamava-lhe «sua pomba», «seu ideal». E -pensava baixo:--Estás cahida! - -Pararam na praça da Alegria. Luiza espreitou, saltou depressa, dizendo: - ---Ámanhã, não faltes, hein? - -Abriu o guarda-solinho, carregou-o sobre o rosto, subiu rapidamente -para a Patriarchal. - -Bazilio então desceu os vidros, e respirou com satisfação. Accendeu -outro charuto, estendeu as pernas, gritou: - ---Ao Gremio, ó Pintéos! - -Na sala de leitura, o seu amigo o visconde Reynaldo, que havia annos -vivia em Londres, e muito em Paris tambem, lia o _Times_ languidamente, -enterrado n'uma poltrona. Tinham vindo ambos de Paris, com promessa -de voltarem juntos por Madrid. Mas o calor desolava Reynaldo; achava -a temperatura de Lisboa _reles_; trazia lunetas defumadas; e andava -saturado de perfumes, por causa «do cheiro ignobil de Portugal». Apenas -viu Bazilio deixou escorregar o _Times_ no tapete, e com os braços -molles, a voz desfallecida: - ---E então essa questão da prima, vai ou não vai? Isto está horrivel, -menino! Eu morro! Preciso o Norte! Preciso a Escocia! Vamos embora! -Acaba com essa prima. Viola-a. Se ella te resiste, mata-a! - -Bazilio, que se estendera n'uma poltrona, disse, estirando muito os -braços: - ---Oh! Está cahidinha! - ---Pois avia-te, menino, avia-te! - -Apanhou moribundamente o _Times_, bocejou, pediu soda--soda ingleza! - -«Não havia», veio dizer o criado. Reynaldo fitou Bazilio com espanto, -com terror, e murmurou soturnamente: - ---Que abjecção de paiz! - - -Quando Luiza entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe logo á porta: - ---O snr. Sebastião está na sala. Tem estado um _rôr_ de tempo á -espera... Já cá estava quando eu cheguei. - -Tinha vindo com effeito havia meia hora. Quando a Joanna lhe veio -abrir, muito encarnada, com o ar estremunhado, e resmungou «que a -senhora estava para fóra», Sebastião ia logo descer, com o allivio -delicioso d'uma difficuldade adiada. Mas reagiu, retesou a vontade, -entrou, pôz-se a esperar... Na vespera tinha decidido fallar-lhe, -avisal-a que aquellas visitas do primo, tão repetidas, com espalhafato, -n'uma rua maligna, podiam compromettel-a... Era o diabo, dizer-lh'o!... -Mas era um dever! Por ella, pelo marido, pelo respeito da casa! -Era forçoso acautelal-a!... E não se sentia acanhado. Perante as -reclamações do dever, vinham-lhe as energias da decisão. O coração -batia-lhe um pouco, sim, e estava pallido... Mas, que diabo, havia de -lh'o dizer!... - -E passeando pela sala com as mãos nos bolsos, ia arranjando as suas -phrases, procurando-as muito delicadas, bem amigas... - -Mas a campainha retiniu, um _frou-frou_ de vestido roçou o corredor,--e -a sua coragem engelhou-se como um balão furado. Foi-se logo sentar ao -piano, pôz-se a bater vivamente no teclado. Quando Luiza entrou, sem -chapéo, descalçando as luvas, ergueu-se, disse embaraçado: - ---Tenho estado aqui a trautear um bocado... Estava á espera... Então -d'onde vem? - -Ella sentou-se, cançada. Vinha da modista--disse. Fazia um calor! -Porque não tinha entrado as outras vezes? Não estava com visitas de -ceremonia! Era familia, era seu primo que viera de fóra. - ---Está bom, seu primo? - ---Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se muito em Lisboa, coitado! -Ora, quem vive lá fóra! - -Sebastião repetiu, esfregando devagar os joelhos: - ---Está claro, quem vive lá fóra! - ---E Jorge, tem-lhe escripto?--perguntou Luiza. - ---Recebi carta hontem. - -Tambem ella. Fallaram de Jorge, dos tedios da jornada, do que contava -do phantastico parente de Sebastião, da demora provavel... - ---Faz-nos uma falta, aquelle maroto!--disse Sebastião. - -Luiza tossiu. Estava um pouco pallida, agora. Passava ás vezes a mão -pela testa, cerrando os olhos. - -Sebastião de repente, teve uma decisão: - ---Pois eu vinha, minha rica amiga...--começou. - -Mas viu-a ao canto do sophá, com a cabeça baixa, a mão sobre os olhos. - ---Que tem? Está incommodada? - ---É a enxaqueca que me veio de repente. Já tinha tido ameaços na rua. E -com uma força! - -Sebastião tomou logo o chapéo: - ---E eu a massal-a! É necessario alguma cousa? Quer que vá chamar o -medico? - ---Não! Vou-me deitar um momento, passa logo. - -Que não apanhasse ar, ao menos, recommendava elle. Talvez sinapismos -ou rodellas de limão nas fontes... E em todo o caso, se não estivesse -melhor que o mandasse chamar... - ---Isto passa! E appareça, Sebastião! Não se esconda... - -Sebastião desceu, respirou largamente; e pensava:--Eu não me atrevo, -santo Deus!... Mas á porta, ao levantar os olhos, viu no fundo escuro -da loja de carvão o vulto enorme da carvoeira, de chambre branco, -estendendo o olhar, cocando; por cima, tres das Azevedos, entre as -velhas cortinas de cassa, juntavam as suas cabecinhas riçadas n'algum -conciliabulo maligno: por traz dos vidros a criada do doutor costurava, -com olhares de lado, a cada momento, que lambiam a rua; e ao lado, na -loja de moveis, sentiam-se as expectorações do patriota. - ---Não passa um gato que esta gente não dê fé!--pensou Sebastião.--E que -linguas! Que linguas! Devo fazel-o, ainda que estoure! Se ella ámanhã -está melhor, digo-lhe tudo! - - -Estava com effeito já boa, ás nove horas, no dia seguinte, quando -Juliana a foi acordar, com «uma cartinha da snr.^a D. Leopoldina». - -A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita muito trigueira, de -buço e olho vesgo, esperava na sala de jantar. Era amiga de Juliana, -beijocavam-se muito, diziam-se sempre finezas. E depois de ter guardado -a resposta de Luiza n'um cabazinho que trazia no braço, traçou o chale, -e muito risonha: - ---Então que ha por cá de novo, snr.^a Juliana? - ---Tudo velho, snr.^a Justina. - -E mais baixo: - ---O primo da senhora, agora; vem todos os dias. Perfeito rapaz! - -Tossiram ambas, baixinho, com malicia. - ---E por lá, snr.^a Justina, quem vai por lá? - -Justina fez um aceno de desprezo. - ---Um rapazola, um estudante. Fraca cousa!... - ---Sempre pinga!--disse Juliana com um risinho. - -A outra exclamou: - ---Olha quem! o pelintra! Nem cheta! - -E erguendo o olhar com saudade: - ---Ai, como o Gama não ha! Quando era do tempo do Gama, isso sim! Nunca -ia que me não désse os seus dez tostões, ás vezes meia libra. Ai, -devo dizel-o, foi elle que me ajudou para o meu vestido de sêda! Este -agora!... é um fedelho. Eu nem sei como a senhora supporta aquillo! E -amarellado, enfesado! Aquillo póde prestar para nada! - -Juliana disse então: - ---Pois olhe, snr.^a Justina, eu agora é que começo a considerar: é onde -se está bem, é em casas em que ha pôdres! Encontrei hontem a Agostinha, -a que está em casa do commendador, ao Rato... Pois senhor, não se -imagina. É tudo o que se póde! Tudo! Annel, vestido de sêda, sombrinha, -chapéo! E de roupa branca diz que é um enxoval. E tudo o Couceiro, -o que está com a ama. E pelas festas sua moeda. Diz que é um homem -rasgado. Ella tambem, verdade seja, tem um trabalhão: fal-o entrar pelo -jardim, e para o fazer sahir tem d'esperar... - ---Ah, lá não!--acudiu a Justina.--Lá é pela escada. - -Riram baixinho, saboreando o escandalo. - ---Genios...--disse Juliana. - ---Ai, lá isso, o nosso tem estomago--affirmou Justina.--Encontra-os na -escada, e tanto se lhe dá!... - -E muito affectuosamente, arranjando o chale: - ---E adeusinho, que se faz tarde, snr.^a Juliana. Ella vem hoje cá -jantar, a senhora. Estive toda a manhã a engommar uma saia; desde as -sete! - ---Tambem eu por cá--disse Juliana.--Ellas é o que tem; quando ha amante -sempre ha mais que engommar. - ---Deitam mais roupa branca, deitam--observou a Justina. - ---As que deitam!--exclamou Juliana, com desprezo. - -Mas Luiza tocou a campainha dentro. - ---Adeus, snr.^a Juliana--disse logo a outra, ageitando o chapéo. - ---Adeus, snr.^a Justina. - -Foi acompanhal-a ao patamar. Beijocaram-se. Juliana voltou muito -apressada ao quarto de Luiza; estava já a pé, vestindo-se, muito -alegre, cantarolando. - -O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta: - - -«Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te pedir de jantar, mas não -posso ir antes das seis. Convem-te?» - - -Ficou muito contente. Havia semanas que a não via... O que iam rir, -palrar! E Bazilio devia vir ás duas. Era um dia divertido, bem -preenchido... - -Foi logo á cozinha dar as suas ordens para o jantar. Quando descia, -o criadito de Sebastião tocava a campainha, com um ramo de rosas, «a -saber se a senhora estava melhor». - ---Que sim, que sim!--gritou logo Luiza.--E para o tranquillisar, para -que elle não viesse:--Que estava boa, que até talvez sahisse... - -As rosas, sim, é que vinham a proposito. Foi ella mesma pôl-as nos -vasos, cantarolando sempre, o olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida -que se tornava interessante, cheia de incidentes... - -E ás duas horas, vestida, veio para a sala, pôz-se ao piano a estudar a -_Medjé_ de Gounod, que Bazilio trouxera, e que a encantava agora muito, -com os seus accentos suspirados e calidos. - -Ás duas e meia, porém, começou a estar impaciente; os dedos -embrulhavam-se-lhe no teclado.--Já devia ter vindo, Bazilio!--pensava. - -Foi abrir as janellas, debruçar-se para a rua; mas a criada do doutor, -que costurava por dentro dos vidros, ergueu logo olhos tão sofregos -que Luiza fechou rapidamente as vidraças. Veio recomeçar a melodia, já -nervosa. - -Uma carruagem rolou. Ergueu-se agitada, batia-lhe o coração. A -carruagem passou... - -Tres horas já! O calor parecia-lhe maior, insupportavel; sentia-se -afogueada, foi cobrir-se de pó d'arroz. Se Bazilio estivesse doente! E -n'um quarto d'hotel! Só, com criados desleixados! Mas não, ter-lhe-hia -escripto n'esse caso!... Não viera, não se importára! Que grosseiro, -que egoista! - -Era bem tola em se affligir. Melhor! Mas, abafava-se, positivamente! -Foi buscar um leque, e as suas mãos enraivecidas sacudiram n'um -phrenesi a gaveta, que não se abriu logo, um pouca perra. Pois bem, não -o tornaria a receber! E acabava tudo! - -E o seu grande amor, de repente, como um fumo que uma rajada dissipa, -desappareceu! Sentiu um allivio, um grande desejo de tranquillidade. -Era absurdo, realmente, com um marido como Jorge, pensar n'outro homem, -um leviano, um estroina!... - -Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperação, correu ao escriptorio de -Jorge, agarrou uma folha de papel, escreveu á pressa: - - - «Querido Bazilio. - - -«Porque não vens? Estás doente? Se soubesses os tormentos por que me -fazes passar...» - - -A campainha retiniu. Era elle! Amarrotou o bilhete, metteu-o no bolso -do vestido, ficou esperando, palpitante. Passos d'homem pisaram o -tapete da sala. Entrou, com o olhar faiscante... Era Sebastião. - -Sebastião, um pouco pallido, que lhe apertou muito as mãos. Estava -melhor? Tinha dormido bem? - -Sim, obrigada, estava melhor. Sentára-se no sophá, muito vermelha. Mal -sabia que dizer. - -Repetiu com um sorriso vago:--Estou muito melhor!--E pensava:--Não me -deixa agora a casa, este massador! - ---Então, não sahiu?--perguntou Sebastião, sentado na poltrona, com o -chapéo desabado nas mãos. - -Não, estava um pouco fatigada ainda. - -Sebastião passou devagar a mão pelos cabellos, e com uma voz que o -embaraço engrossava: - ---Tambem agora tem sempre companhia pela manhã... - ---Sim, meu primo Bazilio tem apparecido. Ha tanto tempo que nos não -viamos! Fomos creados de pequenos, quasi... Tenho-o visto quasi todos -os dias. - -Sebastião fez logo rolar um pouco a poltrona, e curvando-se, baixando a -voz: - ---Eu mesmo tinha vindo para lhe fallar a esse respeito... - -Luiza abriu um olhar surprehendido. - ---A respeito de quê? - ---É que se repara... A visinhança é a peor cousa que ha, minha rica -amiga. Repara em tudo. Já se tem fallado. A criada do lente, o Paula. -Até já vieram á tia Joanna. E como o Jorge não está... O Netto tambem -reparou. Como não sabem o parentesco... E como vem todos os dias... - -Luiza ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado: - ---Então eu não posso receber os meus parentes sem ser -insultada?--exclamou. - -Sebastião levantou-se tambem. Aquella colera subita n'ella, uma pessoa -tão dôce, atarantou-o como um trovão que estala n'um céo claro de verão. - -Pôz-se a dizer, quasi anciosamente: - ---Oh minha rica senhora! mas repare, eu não digo... É por causa da -visinhança!... - ---Mas que póde dizer a visinhança? - -A sua voz tinha uma vibração aguda. E batendo com as mãos, -apertando-as, exaltada: - ---Isto é curioso! Tenho um parente unico, com quem fui creada, que não -vejo ha uns poucos d'annos, vem-me fazer tres ou quatro visitas, está -um momento, e já querem deitar maldade! - -Fallava convencida, esquecendo as palavras de Bazilio, os beijos, o -_coupé_... - -Sebastião, acabrunhado, enrolava o chapéo nas mãos tremulas. E com uma -voz abafada: - ---Eu tinha-me parecido prudente avisar; o Julião tambem... - ---O Julião!--exclamou ella.--Mas que tem o Julião com isso? Com que -direito se mettem no que se passa em minha casa? O Julião! - -A intervenção, as decisões de Julião pareciam-lhe um acrescimo -d'affronta. Cahiu n'uma cadeira, com as mãos contra o peito, os olhos -no tecto. - ---Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! se elle aqui estivesse, Santo Deus! - -Sebastião balbuciou aniquilado: - ---Era para seu bem... - ---Mas que mal me póde succeder? - -E erguendo-se, indo d'um movel a outro, n'uma excitação: - ---É o meu unico parente. Fomos creados ambos, brincavamos juntos. Em -casa da mamã, na rua da Magdalena, estava lá sempre. Ia lá jantar todos -os dias. É como se fossemos irmãos. Em pequena trazia-me ao collo... - -E amontoava detalhes d'aquella fraternidade, exagerando uns, inventando -outros ao acaso, na improvisação da colera. - ---Vem aqui--acrescentava--está um bocado, fazemos musica, elle toca -admiravelmente, fuma um charuto, vai-se... - -Instinctivamente justificava-se. - -Sebastião estava sem idéa, sem resolução. Parecia-lhe aquella uma outra -Luiza, differente, que o assustava; e quasi curvava os hombros sob a -estridencia da sua voz, que nunca conhecera tão forte, vibrando n'uma -loquacidade trapalhona. - -Erguendo-se emfim, disse com uma dignidade melancolica: - ---Eu entendi que era o meu dever, minha senhora. - -Fez-se um silencio grave. Aquelle tom sobrio, quasi severo, obrigou-a a -córar um pouco dos seus espalhafatos: baixou os olhos: disse embaraçada: - ---Perdôe, Sebastião! Mas realmente!... Não, acredite, juro-lhe, -estou-lhe muito obrigada em me avisar. Fez muito bem, Sebastião! - -Elle exclamou logo, vivamente: - ---Para evitar qualquer calumnia d'essas linguas damnadas! Pois não é -verdade? - -Justificou então a sua intervenção, com muita amizade: ás vezes por uma -palavra, arma-se uma intriga, e quando uma pessoa está prevenida... - ---De certo, Sebastião!--repetiu ella.--Fez perfeitamente bem em me -avisar. De certo!... - -Tinha-se sentado; o olhar reluzia-lhe febrilmente; e a cada momento -limpava com o lenço os cantos seccos da bocca. - ---Mas que hei-de eu fazer, Sebastião! Diga! - -Elle commovia-se agora de a vêr assim ceder, aconselhar-se; quasi -lamentava vir, com a gravidade das suas advertencias, perturbar a -alegria das suas intimidades. Disse: - ---Está claro que deve vêr seu primo, recebel-o... Mas emfim, sempre -é bom uma certa reserva, com esta visinhança! Eu se fosse a si -contava-lhe... explicava-lhe... - ---Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastião? - ---Repararam. Quem seria? quem não seria? Que vinha, que estava, o diabo! - -Luiza ergueu-se impetuosamente: - ---Eu bem tenho dito a Jorge! Tantas vezes lh'o tenho dito! Isto é -uma rua impossivel! Não se mexe um dedo que não espreitem, que não -cochichem! - ---Não teem que fazer... - -Houve um silencio. Luiza passeava pela sala, com a cabeça baixa, a -testa franzida; e parando, olhando quasi anciosamente para Sebastião: - ---O Jorge se soubesse é que tinha um desgosto! Santo Deus! - ---Escusa de saber!--exclamou logo Sebastião.--Isto fica entre nós! - ---Para o não affligir, não é verdade?--acudiu ella. - ---Está claro! Isto fica entre nós. - -E Sebastião estendendo-lhe a mão, quasi humildemente: - ---Então não está zangada commigo, hein? - ---Eu, Sebastião! Que tolice! - ---Bem, bem. Acredite!--e espalmou a mão sobre o peito--eu entendi que -era o meu dever. Porque emfim, a minha rica amiga não sabia nada... - ---Estava bem longe!... - ---De certo. Bem, adeus. Não a quero massar mais.--E com uma voz -profunda, commovida:--Cá estou ás ordens, hein! - ---Adeus, Sebastião... Mas que gente! Por vêr entrar o pobre rapaz tres -ou quatro vezes!... - ---Uma canalha, uma canalha!--disse Sebastião, arregalando os olhos. - -E sahiu. - -Apenas elle fechou a porta: - ---Que desafôro!--exclamou Luiza--Isto só a mim! - -Porque a intervenção de Sebastião, no fundo, irritava-a mais que os -mexericos da visinhança! A sua vida, as suas visitas, o interior da -sua casa era discutido, resolvido por Sebastião, por Julião, por -_tutti quanti_! Aos vinte e cinco annos tinha mentores! Não estava má! -E porque, Santo Deus? Porque seu primo, o seu unico parente, vinha -vel-a!... - -Mas então, de repente, emmudecia interiormente. Lembravam-lhe os -olhares de Bazilio, as suas palavras exaltadas, aquelles beijos, o -passeio ao Lumiar. A sua alma corava baixo, mas o seu despeito seguia -declamando alto:--de certo, havia um sentimento, mas era honesto, -ideal, todo platonico!... Nunca seria _outra cousa_! Podia ter lá -dentro, no fundo, uma fraqueza... Mas seria sempre uma mulher de bem, -fiel, só d'um!... - -E esta certeza irritava-a então contra os «palratorios» da rua! Que de -resto era lá possivel, que só por verem entrar Bazilio, quatro ou cinco -vezes, ás duas horas da tarde, começassem logo a murmurar, a cortar na -pelle?... Sebastião era um caturra, com terrores d'ermitão! E que idéa, -ir consultar Julião! Julião! Era elle, de certo, que o instigára a vir -prégar, assustal-a, humilhal-a!... Porque? Azedume, inveja! Porque -Bazilio tinha belleza, _toilette_, maneiras, dinheiro!... Se tinha! - -As qualidades de Bazilio appareciam-lhe então magnificas e abundantes -como os attributos d'um deus. E estava apaixonado por ella! E queria -vir viver junto d'ella! O amor d'aquelle homem, que tinha esgotado -tantas sensações, abandonado de certo tantas mulheres, parecia-lhe como -a affirmação gloriosa da sua belleza e da irresistibilidade da sua -seducção. - -A alegria que lhe dava aquelle culto trazia-lhe o receio de o perder. -Não o queria vêr diminuido; queria-o sempre presente, crescendo, -balouçando sem cessar, diante d'ella, o murmurio languido das ternuras -humildes! Podia lá separar-se de Bazilio! Mas se a visinhança, as -relações começavam a commentar, a cochichar... Jorge podia saber!... -Áquella supposição o coração arrefecia-lhe...--Sebastião tinha razão, -no fundo, era evidente! - -N'uma rua pequena, com doze casas, vir todos os dias, aquelle -lindo rapaz, tão elegante, agora que seu marido não estava... Era -terrivel!--Que havia de fazer, Santo Deus!... - -A campainha retiniu com força; Lepoldina entrou. - -Vinha furiosa com o cocheiro: que imaginasse ella, hein! Tinha parado -ao Correio, e o homem queria duas corridas. Uma canalha assim!... - ---E que calor, ouf!--Atirou a sombrinha, as luvas; agitou as mãos no ar -para descer o sangue, dar-lhes pallidez; e diante do toucador, compondo -ligeiramente os frisados do cabello, com uma côr na pelle, muito -espartilhada, admiravel no seu corpete couraçado: - ---Que tens tu, filha? Estás toda no ar! - -Nada. Tinha-se zangado com as criadas... - ---Ai! estão insupportaveis!--Contou as exigencias da Justina, os seus -desmazelos.--E muito agradecida ainda que ella se me não vá! Quando a -gente depende d'ellas!...--E pondo pó d'arroz no rosto, com uma voz -lenta:--Lá o meu senhor foi para o Campo Grande. Eu estive para ir -jantar fóra com...--Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Luiza, mais -baixo, com um tom alegre, muito sincero:--Mas olha, a fallar a verdade, -nem sabia onde, nem tinha dinheiro... Que elle coitado com a sua mezada -mal lhe chega. Disse commigo: nada, vou vêr a Luiza. Tambem os homens -sempre, sempre, seccam!...--Que tens tu para jantar? Não fizeste -ceremonia, hein? - -E com uma idéa subita: - ---Tens tu bacalhau? - -Devia haver, talvez. Que extravagancia! Porque? - ---Ai!--exclamou--Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido -detesta o bacalhau! aquelle animal! Eu é a minha paixão. Com azeite e -alho!--Mas calou-se, contrariada.--Diabo! - ---O que? - ---É que hoje não posso comer alho... - -E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do ramo de Sebastião, -pôl-a n'uma casa do corpete. Desejava ter uma sala assim,--pensava, -olhando em redor. Queria-a de reps azul, com dous grandes espelhos, um -lustre de gaz, e o seu retrato a oleo de corpo inteiro, decotada, ao -pé d'um rico vaso de flôres... Sentou-se ao piano, bateu rijamente o -teclado, tocou motivos do _Barba Azul_. - -E vendo Luiza entrar: - ---Mandaste arranjar o bacalhau? - ---Mandei. - ---Assado? - ---Sim. - ---Gracias!--E atirou, com a sua voz mordente, a sua canção querida da -_Gran-Duqueza_: - - Ouvi dizer que meu avô de vinho, - Era um tal amador... - -Mas Luiza achava aquella musica «espalhafatona»; queria alguma cousa -triste, dôce... O fado! que tocasse o fado!... - -Leopoldina exclamou logo: - ---Ai, o fado novo! Tu não ouviste? É lindo! Os versos são divinos! - -Preludiou, cantando com um balouçar languido da cabeça, o olhar erguido -e turvo: - - O rapaz que eu hontem vi - Era moreno e bem feito... - ---Tu não sabes isto, Luiza? Oh filha! É o ultimo! É de chorar! - -Recomeçou, com o tom muito quebrado. Era a historia rimada d'um amor -infeliz. Fallava-se nas «raivas do ciume, nas rochas de Cascaes, nas -noites de luar, nos suspiros da saudade», todo o palavriado morbido do -sentimentalismo lisboeta. Leopoldina dava tons dolentes á voz, revirava -um olhar expirante; uma quadra sobre tudo enternecia-a; repetiu-a com -paixão: - - Vejo-o nas nuvens do céo, - Nas ondas do mar sem fim, - E por mais longe que esteja - Sinto-o sempre ao pé de mim. - ---Lindo!--suspirava Luiza. - -E Leopoldina terminava com _ais_! em que a sua voz se arrastava n'uma -extensão desafinada. - -Luiza, de pé junto do piano, sentia o cheiro do _feno_ que ella usava; -o fado, os versos entristeciam-na um pouco; e com o olhar saudoso -seguia sobre o teclado os dedos ageis e magros de Leopoldina, onde -reluziam as pedras dos anneis que lhe tinha dado o Gama. - -Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a sua cuia nova. Estava o -jantar na mesa! - -Leopoldina declarou que vinha a cahir de fome! E a sala de jantar com -as vidraças abertas, as verduras dos terrenos vagos defronte, um azul -d'horisonte onde se algodoavam nuvemzinhas muito brancas--alegrou-a: -a sala de jantar d'ella tirava-lhe até o appetite, era uma tristeza, -deitava para o saguão! - -Pôz-se a depenicar bagos d'uvas, a trincar bocadinhos de conserva--e -reparando no retrato do pai de Jorge, desdobrando o guardanapo: - ---Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara de pandigo!... - -E ha que tempos que não jantavam juntas! Desde quando? - ---Desde o meu primeiro anno de casada--lembrou Luiza. - -Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se muito n'esse tempo; -Jorge deixava-as ir ás lojas ambas, aos confeiteiros, á Graça... -A lembrança d'aquella camaradagem levou-a ás recordações mais -distantes do collegio. Tinha visto, havia dias, a Rita Pessoa, com o -sobrinho.--Lembras-te d'elle? - ---O _Espinafre_? - -_Espinafre_ ou não era no collegio o homem, o ideal, o heroe; todas lhe -escreviam bilhetes, desenhavam-lhe corações d'onde sahia uma fogueira, -mettiam-lhe no boné muito sebento ramos de flôres de papel... E quando -a Michaela foi apanhada, no cacifro dos bahús, a devoral-o de beijos!... - -Luiza disse: - ---Que horror! - ---Não que a Michaela era douda! - -Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem que a espancava. Estava -cheia de filhos... - ---Isto é um valle de lagrimas!--resumiu Leopoldina, recostando-se. - -Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na -ponta do garfo, provava, deixava, punha-se a comer côdeas de pão que -barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordações do collegio! Que -bom tempo! - ---Lembraste quando estivemos de mal? - -Luiza não se lembrava... - ---Por tu teres dado um beijo na Thereza, que era o meu -_sentimento_--disse Leopoldina. - -Pozeram-se a fallar dos _sentimentos_. Leopoldina tivera quatro; a -mais bonita era a Joanninha, a Freitas. Que olhos! E que bem feita! -Tinha-lhe feito a côrte um mez!... - ---Tolices!--disse Luiza córando um pouco. - ---Tolices! Porque? - -Ai! era sempre com saudade que fallava dos _sentimentos_. Tinham sido -as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciumes! Que -delirio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os -bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida! - ---Nunca--exclamou--nunca, depois de mulher, senti por um homem o que -senti pela Joanninha!... Pois pódes crêr... - -Um olhar de Luiza deteve-a.--A Juliana!... Diabo! tinha-se esquecido! -Constrangia-as muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura de peito -chato, o tic-tac metallico dos tacões. - ---E que foi feito da Joanninha?--perguntou Luiza. - -Morrêra tisica--e a voz de Leopoldina fez-se saudosa. Uma doença bem -triste, não era? Mas não lhe tinha medo, ella! Batia no seio, bem -formado: - ---Isto é rijo, isto é são! - -Juliana sahiu, e Luiza observou logo: - ---Vê no que fallas, filha! Tem cuidado! - -Leopoldina curvou-se: - ---Ah! a respeitabilidade da casa! Tens razão!--murmurou. - -E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação! - ---Bravo! Está soberbo! - -Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco tostado, -abrindo em lascas. - ---Tu verás--dizia ella.--Não te tentas? Fazes mal! - -Teve então um movimento decidido de bravura, disse: - ---Traga-me um alho, snr.^a Juliana! Traga-me um bom alho! - -E apenas ella sahiu: - ---Eu vou ter logo com o Fernando, mas não me importa!...--Ah! Obrigada, -snr.^a Juliana! Não ha nada como o alho!... - -Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau d'um fio -molle d'azeite, com gravidade.--Divino!--exclamou.--Tornou a encher o -copo, achava aquillo «uma pandiga». - ---Mas que tens tu? - -Luiza com effeito parecia preoccupada. Tinha suspirado baixo. Duas -vezes, endireitando-se na cadeira, dissera a Juliana, inquieta: - ---Parece que tocaram a campainha, vá vêr. - -Não era ninguem. - ---Quem havia de ser? Não esperas teu marido, de certo. - ---Ah! não! - -E então Leopoldina, com os olhos no prato, partindo devagar, muito -attenta, lascasinhas de bacalhau: - ---E teu primo veio vêr-te? - -Luiza fez-se vermelha. - ---Sim, tem vindo. Tem vindo varias vezes. - ---Ah! - -E depois d'um silencio: - ---Ainda está bonito? - ---Não está feio... - ---Ah! - -Luiza apressou-se a perguntar se tinha encommendado o vestido de -xadrezinho? Não. E começaram a fallar de _toilettes_, fazendas, -lojas, e preços... Depois, de conhecidas, d'outras senhoras, de -boatos--perdendo-se n'uma conversa de mulheres sós, miudinha e -divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens. - -Viera o assado. Leopoldina já ia tendo uma côr quente nas faces. Pediu -a Juliana que lhe fosse buscar o leque;--e recostada, abanando-se, -declarou que se sentia como um principe! E ia beberricando golinhos de -vinho. Que boa idéa, jantarem juntas!... - -Apenas Juliana dispôz os pratos de fruta, Luiza disse-lhe logo: «que -chamaria para o café, que podia ir». Foi ella mesmo fechar a porta da -sala, correr o reposteiro de cretone: - ---Estamos á vontade, agora! Faço-me velha só d'olhar para esta -creatura! Estou morta pela vêr pelas costas. - ---Mas porque a não pões na rua? - -Era Jorge que não queria, senão... - -Leopoldina protestou. Boa! os maridos não deviam ter vontade!... Era o -que faltava!... - ---E o teu, então?--disse Luiza, rindo. - ---Obrigada!--exclamou Leopoldina.--Um homem que faz quarto á parte! - -De resto detestava os homens que se occupam de criadas, de roes, -d'azeites e vinagres... - ---Que lá o meu cavalheiro até pesa a carne!--Sorriu, com odio.--Tambem -é o que vale, senão!... Eu só d'ir á cozinha me dão enjôos... - -Quiz deitar vinho, mas a garrafa estava vazia. - -Luiza acudiu: - ---Queres tu champagne?--Tinha-o muito bom, que o mandava a Jorge um -hespanhol, um proprietario de minas. - -Foi ella mesmo buscar a garrafa, desembrulhou-a do seu papel azul;--e -com risinhos, sustos, fizeram estalar a rolha. A espuma encantou-as: -olhavam os copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina gabou-se -de saber abrir muito bem o champagne; fallava vagamente de cêas -passadas... - ---Em terça-feira gorda, ha dous annos!... - -E toda recostada na cadeira, com um sorriso calido, as azas do nariz -dilatadas, a pupilla humida, olhava com sensualidade os globulosinhos -vivos que subiam, sem cessar, no copo esguio. - ---Se fosse rica, bebia sempre champagne--disse. - -Luiza não: ambicionava um coupé; e queria viajar, ir a Paris, a -Sevilha, a Roma... Mas os desejos de Leopoldina eram mais vastos: -invejava uma larga vida, com carruagens, camarotes d'assignatura, uma -casa em Cintra, cêas, bailes, _toilettes_, jogo... Porque gostava do -_monte_--dizia--fazia-lhe bater o coração. E estava convencida que -havia de adorar a roleta. - ---Ah!--exclamou--Os homens são bem mais felizes que nós! Eu nasci para -homem! O que eu faria! - -Levantou-se, foi-se deixar cahir muito languidamente na _voltaire_, ao -pé da janella. A tarde descia serenamente; por traz das casas, para lá -dos terrenos vagos, nuvens arredondavam-se, amarelladas, orladas de -côres sanguineas ou de tons alaranjados. - -E voltando-lhe a mesma idéa d'acção, d'independencia: - ---Um homem póde fazer tudo! Nada lhe fica mal! Póde viajar, correr -aventuras... Sabes tu, fumava agora um cigarrito... - -O peor é que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia tão mal!... - ---É um convento, isto!--murmurou Leopoldina.--Não tens má prisão, minha -filha! - -Luiza não respondeu; tinha encostado a cabeça á mão: e com o olhar -vago, como continuando alguma idéa: - ---São tolices, no fim, andar, viajar! A unica cousa n'este mundo é a -gente estar na sua casa, com o seu homem, um filho ou dous... - -Leopoldina deu um salto na _voltaire_. Filhos! Credo, que nem fallasse -em semelhante cousa! Todos os dias dava graças a Deus em os não ter! - ---Que horror!--exclamou com convicção.--O incommodo todo o tempo que se -está!... as despezas! os trabalhos, as doenças! Deus me livre! É uma -prisão! E depois quando crescem, dão fé de tudo, palram, vão dizer... -Uma mulher com filhos está inutil para tudo, está atada de pés e mãos! -Não ha prazer na vida. É estar alli a atural-os... Credo! Eu? Que Deus -não me castigue, mas se tivesse essa desgraça parece-me que ia ter com -a velha da travessa da Palha! - ---Que velha?--perguntou Luiza. - -Leopoldina explicou. Luiza achava uma «infamia». A outra encolheu os -hombros, acrescentou: - ---E depois, minha rica, é que uma mulher estraga-se: não ha belleza de -corpo que resista. Perde-se o melhor. Quando se é como a tua amiga, a -D. Felicidade, emfim!... Mas quando se é direitinha e arranjadinha!... -Nada, minha rica! Embaraços não faltam! - -Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu giro da tarde, veio -tocar o final da _Traviata_; ia escurecendo; já as verduras dos -quintaes tinham uma igual côr parda; e as casas para além esbatiam-se -na sombra. - -A _Traviata_ lembrou a Luiza a _Dama das Camelias_: fallaram do -romance: recordaram episodios... - ---Que paixão que eu tive por Armando em rapariga!--disse Leopoldina. - ---E eu foi por d'Artagnan--exclamou ingenuamente Luiza. - -Riram muito. - ---Começamos cedo--observou Leopoldina.--Dá-me uma gotinha mais. - -Bebeu, pousou o calix--e encolhendo os hombros: - ---Oh! Começamos cedo? Começam todas! Aos treze annos já a gente vai na -sua quarta paixão. Todas são mulheres, todas sentem o mesmo!--E batendo -o compasso com o pé, cantou, no tom do fado: - - O amor é uma doença - Que costuma andar no ar; - Só d'ir á janella, ás vezes - S'apanha a febre d'amar! - -Estou hoje com uma telha!--E espreguiçando-se muito languidamente:--No -fim de contas é o que ha de melhor n'este mundo: o resto é uma -semsaboria! Não é verdade? Dize, tu! Não é verdade? - -Luiza murmurou: - ---Se é!--E acrescentou logo:--Creio eu! - -Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a: - ---Crê ella! Pobre innocentinha! Vejam o anjinho! - -Foi-se encostar á janella; ficou a olhar pelos vidros o descer do -crepusculo; de repente pôz-se a dizer devagar: - ---Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Christo a privar-se, a -passar uma vida de coruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre, -um ar, uma soalheira, e boas noites, vai-se para o Alto de S. João! Tó -rola! - -A sala agora estava um pouco escura. - ---Pois não te parece?--perguntou ella. - -Aquella conversa embaraçava Luiza: sentia-se córar; mas o crepusculo, -as palavras de Leopoldina davam-lhe como o enfraquecimento d'uma -tentação. Declarou todavia _immoral_ semelhante idéa. - ---Immoral, porque? - -Luiza fallou vagamente nos _deveres_, na _religião_. Mas os _deveres_ -irritavam Leopoldina. Se havia uma cousa que a fizesse sahir de -si--dizia--era ouvir fallar em deveres!... - ---Deveres? Para com quem? Para um maroto como meu marido? - -Calou-se, e passeando pela sala excitada: - ---E em quanto a religião, historias! A mim me dizia o padre Estevão, o -de luneta, que tem os dentes bonitos, que me dava todas as absolvições, -se eu fosse com elle a Carriche! - ---Ah, os padres...--murmurou Luiza. - ---Os padres quê? São a religião! Nunca vi outra. Deus, esse, minha -rica, está longe, não se occupa do que fazem as mulheres. - -Luiza achava horrivel «aquelle modo de pensar». A felicidade, a -verdadeira, segundo ella, era ser honesta... - ---E a bisca em familia!--resmungou Leopoldina, com odio. - -Luiza disse, animada: - ---Pois olha que com as tuas paixões, umas atraz das outras... - -Leopoldina estacou: - ---O que? - ---Não te podem fazer feliz! - ---Está claro que não!--exclamou a outra.--Mas...--procurou a -palavra; não a quiz empregar de certo; disse apenas com um tom -secco:--Divertem-me! - -Calaram-se. Luiza pediu o café. - -Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; d'ahi a pouco foram para a -sala. - ---Sabes quem me fallou hontem de ti?--disse Leopoldina, indo -estender-se no divan. - ---Quem? - ---O Castro. - ---Que Castro? - ---O d'oculos, o banqueiro. - ---Ah! - ---Muito apaixonado por ti sempre. - -Luiza riu. - ---Doudo, palavra!--affirmou Leopoldina. - -A sala estava ás escuras, com as janellas abertas; a rua esbatia-se -n'um crepusculo pardo: um ar languido e dôce amaciava a noite. - -Leopoldina esteve um momento calada; mas o champagne, a meia -obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar -confidenciasinhas. Estirou-se mais no divan, n'uma attitude toda -abandonada; pôz-se a fallar «d'elle». Era ainda o Fernando, o poeta. -Adorava-o. - ---Se tu soubesses!--murmurava com um ar de extase.--É um amor de rapaz! - -A sua voz velada tinha inflexões d'uma ternura calida. Luiza sentia-lhe -o halito e o calor do corpo, quasi deitada tambem, enervada; a sua -respiração alta tinha por vezes um tom suspirado: e a certos detalhes -mais picantes de Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como -de cocegas... Mas passos fortes de botas de taxas subiram a rua, e no -candieiro defronte o gaz saltou com um jacto vivo. Uma branda claridade -pallida penetrou na sala. - -Leopoldina ergueu-se logo.--Tinha d'ir já, já, ao accender do gaz. -Estava á espera, o pobre rapaz! Entrou no quarto, mesmo ás escuras, a -pôr o chapéo, buscar a sombrinha.--Tinha-lhe promettido, coitado, não -podia faltar. Mas realmente embirrava d'ir só. Era tão longe! Se a -Juliana podesse vir acompanhal-a... - ---Vai, sim, filha!--disse Luiza. - -Ergueu-se preguiçosamente com um grande _ai!_ foi abrir a porta, e deu -de cara com Juliana, na sombra do corredor. - ---Credo, mulher, que susto! - ---Vinha saber se queriam luz... - ---Não. Vá pôr um chale para acompanhar a snr.^a D. Leopoldina! Depressa! - -Juliana foi correndo. - ---E quando appareces tu, Leopoldina?--perguntou Luiza. - -Logo que podesse. Para a semana estava com idéas d'ir ao Porto vêr a -tia Figueiredo, passar quinze dias na Foz... - -A porta abriu-se. - ---Quando a senhora quizer...--disse Juliana. - -Fizeram grandes _adeuses_, beijaram-se muito. Luiza disse rindo ao -ouvido de Leopoldina:--Sê feliz! - -Ficou só. Fechou as janellas, accendeu as velas, começou a passear pela -sala, esfregando devagar as mãos. E, sem querer, não podia desprender a -idéa de Leopoldina que ia vêr o seu amante! O seu amante!... - -Seguia-a mentalmente:--caminhava depressa de certo fallando com -Juliana; chegava; subia a escada, nervosa; atirava com a porta--e que -delicioso, que avido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. Tambem -ella amava--e _um_ mais bello, mais fascinante. Porque não tinha vindo? - -Sentou-se ao piano preguiçosamente; pôz-se a cantar baixo, triste, o -fado de Leopoldina: - - E por mais longe que esteja - Vejo-o sempre ao pé de mim!... - -Mas um sentimento de solidão, d'abandono, veio impaciental-a. Que -sécca, estar alli tão sósinha! Aquella noite calida, bella e dôce, -attrahia-a, chamava-a para fóra, para passeios sentimentaes, ou para -contemplações do céo, n'um banco de jardim, com as mãos entrelaçadas. -Que vida estupida, a d'ella! Oh! aquelle Jorge! Que idéa ir para o -Alemtejo! - -As conversas de Leopoldina e a lembrança das suas felicidades -voltavam-lhe a cada momento; uma pontinha de champagne agitava-se-lhe -no sangue. O relogio do quarto começou lentamente a dar nove horas--e -de repente a campainha retiniu. - -Teve um sobresalto: não podia ser ainda Juliana! Poz-se a escutar, -assustada. Vozes fallavam á cancella. - ---Minha senhora--veio dizer Joanna baixo--é o primo da senhora que diz -que se vem despedir... - -Abafou um grito, balbuciou: - ---Que entre! - -Os seus olhos dilatados cravavam-se febrilmente na porta. O reposteiro -franziu-se, Bazilio entrou, pallido, com um sorriso fixo. - ---Tu partes!--exclamou ella surdamente, precipitando-se para elle. - ---Não!--E prendeu-a nos braços.--Não! Imaginei que me não recebias a -esta hora, e tomei este pretexto. - -Apertou-a contra si, beijou-a; ella deixava, toda abandonada; os seus -labios prendiam-se aos d'elle. Bazilio deitou um olhar rapido, em -redor, pela sala, e foi-a levando abraçada, murmurando: Meu amor! minha -filha! Mesmo tropeçou na pelle de tigre, estendida ao pé do divan. - ---Adoro-te! - ---Que susto que tive!--suspirou Luiza. - ---Tiveste? - -Ella não respondeu; ia perdendo a percepção nitida das cousas; -sentia-se como adormecer; balbuciou: Jesus! não! não! Os seus olhos -cerraram-se. - - -Quando a campainha retiniu fortemente ás dez horas, Luiza, havia -momentos, sentára-se á beira do divan. Mal teve força de dizer a -Bazilio: - ---Ha-de ser a Juliana, tinha ido fóra... - -Bazilio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi accender um -charuto. Para quebrar o silencio sentou-se ao piano, tocou alguns -compassos ao acaso, e, erguendo um pouco a voz, começou a cantarolar a -aria do 3.^o acto do _Fausto_: - - Al pallido chiarore - Del astri d'oro... - -Luiza, através das ultimas vibrações dos seus nervos, ia entrando -na realidade; os seus joelhos tremiam. E então, ouvindo aquella -melodia, uma recordação foi-se formando no seu espirito, ainda -estremunhado:--era uma noite, havia annos, em S. Carlos, n'um camarote -com Jorge; uma luz electrica dava ao jardim, no palco, um tom livido -de luar legendario; e n'uma altitude extatica e suspirante o tenor -invocava as estrellas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: Que lindo! -E o seu olhar devorava-a. Era no segundo mez do seu casamento. Ella -estava com um vestido azul-escuro. E á volta, na carruagem, Jorge, -passando-lhe a mão pela cinta, repetia: - - Al pallido chiarore - Del astri d'oro... - -E apertava-a contra si... - -Ficára immovel á beira do divan, quasi a escorregar, os braços frouxos, -o olhar fixo, a face envelhecida, o cabello desmanchado. Bazilio então -veio sentar-se devagarinho junto d'ella.--Em que estava a pensar? - ---Nada. - -Elle passou-lhe o braço pela cinta, começou a dizer que havia de -procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais á vontade; não -era mesmo prudente alli em casa d'ella... - -E fallando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo -do charuto. - ---Não te parece que vir eu aqui, todos os dias, póde ser reparado? - -Luiza ergueu-se bruscamente, lembrára-lhe Sebastião!... E com uma voz -um pouco desvairada: - ---Já é tão tarde!--disse. - ---Tens razão. - -Foi buscar o chapéo em bicos de pés, veio beijal-a muito, sahiu. - ---Luiza sentiu-o accender um phosphoro, fechar devagarinho a cancella. - -Estava só; pôz-se a olhar em roda, como idiota. O silencio da sala -parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chamma avermelhada. Piscava os -olhos, tinha a bocca sêcca. Uma das almofadas do divan estava cahida, -apanhou-a. - -E com um ar somnambulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol. E -já vinha com a lamparina, estava a arranjal-a... - -Tinha tirado a cuia; subiu á cozinha quasi a correr. A Joanna, que -estivera dormitando, espreguiçava-se com bocejos enormes. - -Juliana pôz-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe; -tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um -sorriso para Joanna: - ---E então a que horas veio o primo da senhora? - ---Veio logo que vossemecê sahiu, estavam a dar as nove. - ---Ah! - -Desceu com a lamparina; e sentindo Luiza na alcova despir-se: - ---A senhora não quer chá?--perguntou, com muito interesse. - ---Não. - -Foi á sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Pôz-se -a olhar em redor, devagar, andando com um passo subtil... De repente -agachou-se, anciosamente: ao pé do divan uma cousa reluzia. Era uma -travessa de Luiza, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar -no quarto em pontas de pés, pousou-a no toucador, entre os rôlos de -cabello. - ---Quem anda ahi?--perguntou da alcova a voz somnolenta de Luiza. - ---Sou eu, minha senhora, sou eu, estive a fechar a sala. Muito boas -noites, minha senhora! - - -Áquella hora Bazilio entrava no Gremio. Procurou pelas salas. Estavam -quasi desertas. Dous sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados -em attitudes lugubres, ruminavam os jornaes: aqui, além, junto a -mesinhas redondas, pessoas de calça branca mastigavam torradas com uma -satisfação placida; as janellas estavam fechadas, a noite quente, e o -calor molle do gaz abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo, -de repente, sahiu o ruido irritado de uma altercação; trocavam-se -injurias, gritava-se:--Mente! O asno é vossê! - -Bazilio estacou, escutando. Mas, subitamente, fez-se um grande -silencio; uma das vozes disse com brandura: - ---Paus! - -A outra respondeu com benevolencia: - ---É o que devia ter feito ha pouco. - -E immediatamente a questão rebentou de novo, estridente. Praguejavam, -diziam obscenidades. - -Bazilio foi ao bilhar. O visconde Reynaldo, de pé, apoiado ao taco, -seguia com uma immobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas -viu Bazilio, veio para elle rapidamente, e muito interessado: - ---Então? - ---Agora mesmo--disse Bazilio mordendo o charuto. - ---Emfim, hein?--exclamou Reynaldo, arregalando os olhos, com uma grande -alegria. - ---Emfim! - ---Ainda bem, menino! Ainda bem! - -Batia-lhe no hombro, commovido. - -Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma -perna no ar, para dar com mais segurança o _effeito_, dizia com a voz -constrangida pela attitude: - ---Estimo, estimo, porque essa cousa começava a arrastar... - -Tac! Falhou a carambola. - ---Não dou meia!--murmurou com rancor. - -E chegando-se a Bazilio, a dar giz no taco: - ---Ouve cá... - -Fallou-lhe ao ouvido. - ---Como um anjo, menino!--suspirou Bazilio. - - - - -VI - - -Foi Juliana que na manhã seguinte veio acordar Luiza, dizendo á porta -da alcova com a voz abafada, em confidencia: - ---Minha senhora! Minha senhora! É um criado com esta carta, diz que vem -do hótel. - -Foi abrir uma das janellas, em bicos de pés; e voltando á alcova com -uma cautela mysteriosa: - ---E está á espera da resposta, está á porta. - -Luiza, estremunhada, abriu o largo enveloppe azul com um -monogramma--dous BB, um purpura, outro ouro, sob uma corôa de conde. - ---Bem, não tem resposta. - -Não tem resposta--foi dizer Juliana ao criado, que esperava encostado -ao corrimão, fumando um grande charuto, e cofiando as suiças pretas. - ---Não tem resposta? Bem, muito bom dia.--Levou o dedo seccamente á aba -do «côco», e desceu, gingando. - -Perfeito homem! foi pensando Juliana, pela escada da cozinha. - ---Quem bateu, snr.^a Juliana?--perguntou-lhe logo a cozinheira. - -Juliana resmungou: - ---Ninguem, um recado da modista. - -Desde pela manhã a Joanna achava-lhe o «ar exquisito». Sentira-a desde -as sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidraças da sala -de jantar, arrumar as louças no aparador. E com uma azafama! Ouvira-a -cantar a _Carta adorada_, ao mesmo tempo que os canarios, nas varandas -abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu -café á cozinha não palestrou como de costume; parecia preoccupada e -ausente. - -Joanna até lhe perguntou: - ---Sente-se peor, snr.^a Juliana? - ---Eu? Graças a Deus, nunca me senti tão bem. - ---Como a vejo tão calada... - ---A malucar cá por dentro... A gente nem sempre está para grulhar. - -Apesar de serem nove horas não quizera acordar a senhora. Deixal-a -descançar, coitada--disse. Foi em pontas de pés encher devagarinho a -bacia grande do banho, no quarto; para não fazer ruido, sacudiu no -corredor as saias, o vestido da vespera: e os seus olhos brilharam -avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era -o bilhete que Luiza escrevera a Bazilio: «Porque não vens?... Se -soubesses o que me fazes soffrer!...» Teve-o um momento na mão, -mordendo o beiço, o olhar fixo n'um calculo agudo; por fim tornou a -mettel-o na algibeira de Luiza, dobrou o vestido, foi estendel-o com -muito cuidado na _causeuse_. - -Enfim, mais tarde, sentindo o _cuco_ dar horas, decidiu-se a ir dizer a -Luiza, com uma voz meiga: - ---São dez e meia, minha senhora! - -Luiza, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Bazilio: «Não -pudera--escrevia ele--estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava. -Mal dormira! Erguera-se de manhã muito cêdo para lhe jurar que estava -louco, e que punha a sua vida aos pés d'ella.» Compozera aquella prosa -na vespera, no Gremio, ás tres horas, depois de alguns _robbers_ -d'_whist_, um bife, dous copos de cerveja e uma leitura preguiçosa da -_Illustração_. E terminava, exclamando:--«Que outros desejem a fortuna, -a gloria, as honras, eu desejo-te a ti! Só a ti, minha pomba, porque -tu és o unico laço que me prende á vida, e se ámanhã perdesse o teu -amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existencia -inutil!»--Pedira mais cerveja, e levára a carta para a fechar em casa, -n'um enveloppe com o seu monogramma, «porque sempre fazia mais effeito». - -E Luiza tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a -primeira vez que lhe escreviam aquellas sentimentalidades, e o seu -orgulho dilatava-se ao calor amoroso que sahia d'ellas, como um corpo -resequido que se estira n'um banho tepido: sentia um acrescimo de -estima par si mesma, e parecia-lhe que entrava emfim n'uma existencia -superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto -differente, cada passo conduzia a um extase, e a alma se cobria d'um -luxo radioso de sensações! - -Ergueu-se d'um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os -transparentes da janella... Que linda manhã! Era um d'aquelles dias -do fim d'agosto em que o estio faz uma pausa; ha prematuramente, no -calor e na luz, uma certa tranquillidade outonal; o sol cahe largo, -resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, -e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais -livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento molle da -calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha -dormido a noite d'um somno são, continuo, e todas as agitações, as -impaciencias dos dias passados pareciam ter-se dissipado n'aquelle -repouso. Foi-se vêr ao espelho; achou a pelle mais clara, mais fresca, -e um enternecimento humido no olhar;--seria verdade então o que dizia -Leopoldina, que «não havia como uma maldadesinha para fazer a gente -bonita?» Tinha um amante, ella! - -E immovel no meio do quarto, os braços cruzados, o olhar fixo, repetia: -Tenho um amante! Recordava a sala na vespera, a chamma aguçada das -velas, e certos silencios extraordinarios em que lhe parecia que a -vida parára, em quanto os olhos do retrato da mãi de Jorge, negros na -face amarella, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura. -Mas Juliana entrou com um taboleiro de roupa passada. Eram horas de se -vestir... - -Que requintes teve n'essa manhã! Perfumou a agua com um cheiro de -_Lubin_, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava -por ser rica! Queria as bretanhas e as hollandas mais caras, as -mobilias mais apparatosas, grossas joias inglezas, um coupé forrado -de setim... Porque nos temperamentos sensiveis as alegrias do coração -tendem a completar-se com as sensualidades do luxo: o primeiro erro -que se installa n'uma alma até ahi defendida, facilita logo aos outros -entradas tortuosas;--assim, um ladrão que se introduz n'uma casa vai -abrindo subtilmente as portas á sua quadrilha esfomeada. - -Subiu para o almoço, muito fresca, com o cabello em duas tranças, um -roupão branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janellas, «porque -apesar de não estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais -frescura!» E, vendo que lhe esquecera o lenço, correu a buscar-lhe um, -que perfumou com agua de colonia. Servia-a com ternura. Viu-a comer -muitos figos: - ---Não lhe vão fazer mal, minha senhora!--exclamou quasi lacrimosamente. - -Andava em redor d'ella com um sorriso servil, sem ruido: ou defronte da -mesa, com os braços cruzados, parecia admiral-a com orgulho, como um -sêr precioso e querido, todo seu, a _sua ama!_ O seu olhar esbugalhado -apossava-se d'ella. - -E dizia consigo: - ---Grande cabra! Grande bebeda! - -Luiza, depois de almoço, veio para o quarto estender-se na _causeuse_, -com o seu _Diario de Noticias_. Mas não podia lêr. As recordações -da vespera redemoinhavam-lhe n'alma a cada momento, como as folhas -que um vento d'outono levanta a espaços d'um chão tranquillo: certas -palavras d'elle, certos impetos, toda a sua maneira d'amar... E ficava -immovel, o olhar afogado n'um fluido, sentindo aquellas reminiscencias -vibrarem-lhe muito tempo, dôcemente, nos nervos da memoria. Todavia a -lembrança de Jorge não a deixava; tivera-a sempre no espirito, desde -a vespera; não a assustava, nem a torturava; estava alli, immovel mas -presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era como se elle -tivesse morrido, ou estivesse tão longe que não podesse voltar, ou a -tivesse abandonado! Ela mesmo se espantava de se sentir tão tranquilla. -E todavia impacientava-a ter constantemente aquella idéa no espirito, -impassivel, com uma obstinação espectral; punha-se instinctivamente a -accumular as justificações: Não fôra culpa sua. Não abrira os braços a -Bazilio voluntariamente!... Tinha sido uma _fatalidade_: fôra o calor -da hora, o crepusculo, uma pontinha de vinho talvez... Estava douda, -de certo. E repetia comsigo as attenuações tradicionaes: não era a -primeira que enganára seu marido; e muitas era apenas por vicio, ella -fôra por paixão... Quantas mulheres viviam n'um amor illegitimo e eram -illustres, admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E elle amava-a -tanto!... Seria tão fiel, tão discreto! As suas palavras eram tão -captivantes, os seus beijos tão estonteadores!... E emfim que lhe havia -de fazer agora? _Já agora_!... - -E resolveu ir responder-lhe. Foi ao escriptorio. Logo ao entrar o seu -olhar deu com a photographia de Jorge--a cabeça de tamanho natural,--no -seu caixilho envernizado de preto. Uma commoção comprimiu-lhe o -coração; ficou como _tolhida_--como uma pessoa encalmada de ter -corrido, que entra na frieza d'um subterraneo; e examinava o seu -cabello frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas espadas -encruzadas que reluziam por cima. Se elle soubesse matava-a!... Fez-se -muito pallida. Olhava vagamente em redor o casaco de velludo de -trabalho dependurado n'um prego, a manta em que elle embrulhava os pés -dobrada a um lado, as grandes folhas de papel de desenho na outra mesa -ao fundo, e o pótesinho do tabaco, e a caixa das pistolas!... Matava-a -de certo! - -Aquelle quarto estava tão penetrado da personalidade de Jorge, que lhe -parecia que elle ia voltar, entrar d'ahi a bocado... Se elle viesse -de repente!... Havia tres dias que não recebia carta--e quando ella -estivesse alli a escrever ao seu amante, n'um momento o _outro_ podia -apparecer e apanhal-a!... Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro -só chegava ás cinco horas; e depois elle dizia na ultima carta que -ainda se demorava um mez, talvez mais... - -Sentou-se, escolheu uma folha de papel, começou a escrever, na sua -letra um pouco gorda: - - - «_Meu adorado Bazilio_. - - -Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um _palpite_ de que -elle vinha, ia entrar... Era melhor não se pôr a escrever, talvez!... -Ergueu-se, foi á sala devagar, sentou-se no divan; e, como se o -contacto d'aquelle largo sophá e o ardor das recordações que elle lhe -trazia da vespera lhe tivesse dado a coragem das acções amorosas e -culpadas, voltou muito decidida ao escriptorio, escreveu rapidamente: - - -«Não imaginas com que alegria recebi esta manhã a tua carta...» - - -A penna velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudil-a, como -lhe tremia um pouco a mão, um borrão negro cahiu no papel. Ficou -toda contrariada, pareceu-lhe aquillo um _mau agouro_. Hesitou um -momento,--e coçando a cabeça, com os cotovêlos sobre a mesa, sentia -Juliana varrer fóra o patamar, cantarolando a _Carta adorada_. Emfim, -impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos miudos--e -atirou-os para um caixão de pau envernizado com duas argolas de metal, -que estava ao canto junto á mesa, onde Jorge deitava os rascunhos -velhos e os papeis inuteis: chamavam-lhe o _sarcophago_; Juliana, de -certo, descuidára-se de o esvaziar no lixo, porque transbordava de -papelada. - -Escolheu outra folha, recomeçou: - - - «_Meu adorado Bazilio_. - -«Não imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manhã, ao -acordar. Cobri-a de beijos...» - - -Mas o reposteiro franziu-se n'uma prega molle, a voz de Juliana disse -discretamente: - ---Está alli a costureira, minha senhora. - -Luiza, sobresaltada, tinha tapado a folha de papel com a mão. - ---Que espere. - -E continuou: - - -«...Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que alli -estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em tão pouco tempo te -apossaste do meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de te amar. -Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu -desejo a tua estima, mas é que nunca deixei de te amar e ao tornar -a vêr-te, depois d'aquella estupida viagem para tão longe, não fui -superior ao sentimento que me impellia para ti, meu adorado Bazilio. -Era mais forte que eu, meu Bazilio. Hontem, quando aquella maldita -criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Bazilio, fiquei -como morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te! E se tu -me tivesses pedido a vida dava-t'a, porque te amo, que eu mesma, me -estranho... Mas para que foi aquella mentira, e para que vieste tu? -Mau! tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas não posso, meu -adorado Bazilio! É superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou -tua, que te pertenço corpo e alma, parece-me que te amo mais, se é -possivel...» - - ---Onde está ella? Onde está ella?--disse uma voz na sala. - -Luiza ergueu-se, com um salto, livida. Era Jorge! Amarrotou -convulsivamente a carta, quiz escondel-a no bolso,--o roupão não tinha -bolso! E desvairada, sem reflexão, arremessou-a para o _sarcophago_. -Ficou de pé, esperando, as duas mãos apoiadas á mesa, a vida suspensa. - -O reposteiro ergueu-se,--e reconheceu logo o chapéo de velludo azul de -D. Felicidade. - ---Aqui mettida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu, -filha, estás como a cal... - -Luiza deixou-se cahir no _fauteuil_, branca e fria, disse com um -sorriso cançado: - ---Estava a escrever, deu-me uma tontura... - ---Ai! Tonturas, eu!--acudiu logo D. Felicidade--É uma desgraça, a cada -momento a agarrar-me aos moveis, até tenho medo d'andar só. Falta de -purgas! - ---Vamos para o quarto!--disse logo Luiza.--Estamos melhor no quarto. - -Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe. - -Atravessaram a sala: Juliana começava a arrumar. Luiza, ao passar, viu -na pedra da _console_, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza: era -da vespera, do charuto d'_elle_! Sacudiu-a--e ao erguer os olhos, ficou -pasmada de se vêr tão pallida. - -A costureira vestida de preto, com um chapéo de fitas rôxas, esperava -sentada á beira da _causeuse_, com um olhar infeliz e o seu embrulho -nos joelhos; vinha provar o corpete d'um vestido composto; assentou, -pregou, alinhavou, fallando baixo, com uma humildade triste e uma -tossinha sêcca ; e apenas ella sahiu, de leve, com o seu andar de -sombra, o chale tinto muito cingido ás omoplatas magras,--D. Felicidade -começou logo a fallar d'_elle_, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no -Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera fallar! Fizera-lhe uma -cortezia muito sêcca, por demais, e tic-tic por alli fóra, que se diria -que ia fugido! Que te parece? Ai! aquellas indifferenças matavam-na. E -não as comprehendia, não, realmente não as comprehendia... - ---Porque emfim--exclamava--eu bem me conheço, não sou nenhuma criança, -mas tambem não sou nenhum caco! Pois não é verdade? - ---Certamente--disse Luiza distrahida. Lembrava-lhe a carta. - ---Olha que aqui onde me vês com os meus quarenta, decotada, ainda -valho! O que são hombros e collo é do melhor! - -Luiza ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu: - ---Do melhor! Tomaram-no muitas novas! - ---Creio bem--concordou Luiza, sorrindo vagamente. - ---E elle tambem não é nenhum rapazinho novo... - ---Não... - ---Mas muito bem conservado!--E os olhos luziam-lhe--Para fazer ainda -uma mulher muito feliz! - ---Muito... - ---Um homem d'appetecer!--suspirou D. Felicidade. - -E Luiza, então: - ---Tu esperas um instantinho! Vou lá dentro e volto já. - ---Vai, filha, vai. - -Luiza correu ao escriptorio, direita ao _sarcophago_. Estava vazio! E a -carta d'ella, Santo Deus! - -Chamou logo Juliana, aterrada. - ---Vossê despejou o caixão dos papeis? - ---Despejei, sim, minha senhora--respondeu muito tranquillamente. - -E com interesse: - ---Porquê, perdeu-se algum papel? - -Luiza fazia-se pallida. - ---Foi um papel que eu atirei para o caixão. Onde o despejou vossê? - ---No barril do lixo, como é costume, minha senhora; imaginei que nada -servia... - ---Ah! deixe vêr! - -Subiu rapidamente á cozinha. - -Juliana, atraz, ia dizendo: - ---Ora esta! Pois ainda não ha cinco minutos! O caixão estava mais -cheio... Andei a dar uma arrumadella no escriptorio... Valha-me Deus, -se a senhora tem dito... - -Mas o barril do lixo estava vazio. Joanna tinha-o ido despejar abaixo -n'aquelle instantinho; e vendo a inquietação de Luiza: - ---Porquê, perdeu-se alguma cousa? - ---Um papel--disse Luiza, que olhava em redor, pelo chão, muito branca. - ---Elle iam uns poucos de papeis, minha senhora--disse a rapariga--eu -deitei tudo ao despejo. - ---Podia ter ficado algum cahido por fóra, snr.^a Joanna--lembrou -timidamente Juliana. - ---Vá vêr, vá vêr, Joanna--acudiu Luiza com uma esperança. - -Juliana parecia afflicta: - ---Jesus, Senhor! Eu podia lá adivinhar! Mas para que não disse a -senhora...? - ---Bem, bem, a culpa não é sua, mulher... - ---Credo, que até se me está a embrulhar o estomago... E é cousa de -importancia, minha senhora? - ---Não, é uma conta... - ---Valha-me Deus!... - -Joanna voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Luiza agarrou-o, -leu:--«... o diametro do primeiro poço de exploração...» - ---Não, não é isto!--exclamou toda contrariada. - ---Então foi p'ra baixo p'ra o cano, minha senhora, não está mais nada. - ---Viu bem? - ---Esquadrinhei tudo... - -E Juliana continuava, desolada: - ---Antes queria perder dez tostões! Uma assim! Eu, minha senhora, podia -lá adivinhar... - ---Bem, bem!--murmurou Luiza descendo. - -Mas estava assustada, sentia mesmo uma suspeita indefinida... -Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na vespera a Bazilio, e que -mettera, todo amarrotado, no bolso do vestido... Entrou no quarto, -agitada. - -D. Felicidade tirára o chapéo, acommodára-se na _causeuse_. - ---Tu desculpas, hein?--fez Luiza. - ---Anda, filha, anda! Que é? - ---Perdi uma conta--respondeu. - -Foi ao guarda-vestidos, achou logo o bilhete na algibeira... Aquillo -serenou-a. A carta tinha ido para o lixo de certo. Mas que imprudencia! - ---Bem, acabou-se!--disse, sentando-se resignada. - -E D. Felicidade immediatamente, baixando a voz muito confidencialmente: - ---Ora eu vinha-te fallar n'uma cousa. Mas vê lá! Olha que é segredo. - -Luiza ficou logo sobresaltada. - ---Tu sabes--continuou D. Felicidade, devagar, com pausas--que a minha -criada, a Josepha, está para casar com o gallego... O homem é de ao pé -de Tuy, e diz que na terra d'elle ha uma mulher que tem uma virtude -para fazer casamentos que é uma cousa milagrosa... Diz que é o mais que -ha... Em deitando a sorte a um homem,--o homem entra-lhe uma tal paixão -que se arranja logo o casamento, e é a maior felicidade. - -Luiza tranquillisada, sorriu. - ---Escuta--acudiu D. Felicidade--não te ponhas já com as tuas cousas... - -No seu tom grave havia um respeito supersticioso. - ---Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas, -outros que não faziam caso d'ellas, maridos que tinham amigas, emfim -toda a sorte de ingratidão... Em a mulher deitando o encanto, os homens -começam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e estão pelo -beiço... A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo... - ---De deitar uma sorte ao Conselheiro!--exclamou Luiza. - ---Que te parece? - -Luiza deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quasi se escandalisou. -Contou outros casos: um fidalgo que deshonrára uma lavadeira; um -homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma _bebeda_... -Em todos a _sorte_ operára d'um modo fulminante, produzindo um amor -subito e fogoso pela pessoa desprezada. Appareciam logo rendidos, se -estavam perto; se estavam longe, voltavam, avidos, a pé, a cavallo, -na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e -humildes como escravos acorrentados... - ---Mas o gallego--continuava ella muito excitada--diz que para ir á -terra, fallar á mulher, levar o retrato do Conselheiro, é necessario o -retrato d'elle, o meu, é necessario o meu, ir fallar, voltar--quer sete -moedas!... - ---Oh D. Felicidade!--fez Luiza reprehensivamente. - ---Não me digas, não venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos... - -E erguendo-se: - ---Mas são sete moedas! Sete moedas!--exclamou, arregalando os olhos. - -Juliana appareceu á porta, e muito baixinho, com um sorriso: - ---A senhora faz favor? - -Chamou-a para o corredor, em segredo: - ---Esta carta. Que vem do hótel. - -Luiza fez-se escarlate. - ---Credo, mulher! não é necessario fazer mysterios! - -Mas não entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lapis, -escripta á pressa: - - -«Meu amor--dizia Bazilio--por um feliz acaso descobri o que -precisavamos, um ninho discreto para nos vêrmos...» E indicava a rua, o -numero, os signaes, o caminho mais perto. «... Quando vens, meu amor? -Vem ámanhã. Baptisei a casa com o nome de _Paraiso_: para mim, minha -adorada, é com effeito o paraiso. Eu espero-te lá desde o meio dia: -logo que te aviste, desço.» - - -Aquella precipitação amorosa em arranjar o _ninho_--provando uma paixão -impaciente, toda occupada d'ella--produziu-lhe uma dilatação dôce -do orgulho; ao mesmo tempo que aquelle _Paraiso_ secreto, como n'um -romance, lhe dava a esperança de felicidades excepcionaes; e todas as -suas inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente -sob uma sensação calida, como flocos de nevoa sob o sol que se levanta. - -Voltou ao quarto, com o olhar risonho. - ---Que te parece, hein?--perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua idéa -occupava tyrannicamente. - ---O que? - ---Achas que mande o homem a Tuy? - -Luiza encolheu os hombros; veio-lhe um tedio de taes enredos de -bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga -romantica achava repugnante aquelle sentimentalismo senil. - ---Tolices!--disse com muito desdem. - ---Oh filha! não me digas, não me digas!--acudiu desolada D. Felicidade. - ---Bem, então manda, manda!--fez Luiza, já impaciente. - ---Mas são sete moedas!--exclamou D. Felicidade, quasi chorosa. - -Luiza poz-se a rir. - ---Por um marido? Acho barato... - ---E se a sorte falha? - ---Então é caro! - -D. Felicidade deu um grande _ai!_ Estava muito infeliz, n'aquella -hesitação entre os impulsos da concupiscencia e as prudencias da -economia. Luiza teve pena d'ella, e, tirando um vestido do guarda-roupa: - ---Deixa lá, filha! Não hão-de ser necessarias bruxarias!... - -D. Felicidade ergueu os olhos ao céo. - ---Vaes sahir?--perguntou melancolicamente. - ---Não. - -D. Felicidade propoz-lhe então que viesse com ella á Encarnação. -Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um furunculo! E viam a armação -da igreja para a festa, estreava-se o frontal novo, um primor! - ---E estou tambem com vontade de ir rezar uma estaçãosinha, para -alliviar cá por dentro--ajuntou, suspirando. - -Luiza aceitou. Appetecia-lhe ir vêr altares alumiados, ouvir o ciciar -de rezas no côro, como se os requintes devotos dissessem bem com as -suas disposições sentimentaes. Começou a vestir-se depressa. - ---Como tu estás gorda, filha!--exclamou D. Felicidade admirada, -vendo-lhe os hombros, o collo. - -Luiza diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente, -contente das suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a -pelle branca e fina. - ---Redondinha--disse, namorando-se. - ---Redondinha? Vaes-te a fazer uma bola! - -E acrescentou, tristemente: - ---Tambem com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos, -sem cuidados... - ---Vamos lá, minha rica--disse Luiza--que as tristezas não te tem feito -emmagrecer... - ---Pois sim, pois sim! Mas...--e parecia desolada, como curvada sob as -suas proprias ruinas--cá por dentro é uma desgraça, estomago, figado... - ---Se a mulher de Tuy faz o milagre, põe tudo isso como novo! - -D. Felicidade sorriu, com uma duvida desconsolada. - ---Sabes que tenho um chapéo lindo?--exclamou de repente Luiza--Não -viste? Lindo! - -Foi logo buscal-o ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de -myosotis. - ---Que te parece? - ---É um primor! - -Luiza mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas -azues. - ---Dá frescura--fez D. Felicidade. - ---Não é verdade? - -Pôl-o com muito cuidado, toda séria. Ficava-lhe bem! Bazilio se a visse -havia de gostar, pensou. Era bem possivel que o encontrassem... - -Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante: achava tão delicioso -viver, sahir, ir á Encarnação, pensar no seu amante!... E toda no ar, -procurava pelo quarto as chavinhas do toucador. - -Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia vêr! Sahiu -correndo, tontinha, cantarolando: - - Amici, la notte è bella... - La ra la la... - -Quasi topou com Juliana, que varria o corredor. - ---Não deixe de engommar a saia bordada para ámanhã, Juliana! - ---Sim, minha senhora. Está em gomma! - -E seguindo-a com um olhar feroz: - ---Canta, piorrinha, canta, cabrasinha, canta, bebedasinha!... - -E ella mesma, tomada subitamente d'um jubilo agudo, atirou vassouradas -rapidas, soltando na sua voz rachada: - - Além d'ámanhã termina a campanha, - P-o-o-or aqui se diz... - Se tal fôr verdade, se não fôr patranha... - -E com um espremido emphatico: - - Se-e-rei bem feliz! - -Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastião e Julião passeavam -em S. Pedro de Alcantara. - -Sebastião estivera contando a sua «scena» com Luiza, e como desde então -a sua estima por ella crescera. Ao principio escabreára-se, sim... - ---Mas teve razão! Assim de surpreza, ouvir uma d'aquellas! E eu levei a -cousa mal, fui muito á bruta... - -Depois, coitadinha, concordára logo, mostrára-se muito desgostosa, toda -zelosa do seu pudor, pedira-lhe conselhos... Até tinha as lagrimas nos -olhos. - ---Eu disse-lhe logo que o melhor era fallar ao primo, dizer o que se -passava... Que te parece? - ---Sim--disse vagamente Julião. - -Tinha-o escutado distrahido, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto -terreo cavava-se, com uma côr mais biliosa. - ---Então achas que fiz bem, hein? - -E depois d'uma pausa: - ---Que ella é uma senhora de bem ás direitas! Ás direitas, Julião! - -Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar -de trovoada: grossas nuvens pesadas e pardas iam-se accumulando, -ennegrecendo para o lado da Graça por traz das collinas: um vento -rasteiro passava por vezes, pondo um arripio nas folhas das arvores. - ---De maneira que agora estou descançado--resumiu Sebastião.--Não te -parece? - -Julião encolheu os hombros com um sorriso triste: - ---Quem me dera os teus cuidados, homem!--disse. - -E fallou então com amargura nas suas preoccupações.--Havia uma semana -que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escóla, -e preparava-se para elle. Era a sua taboa de salvação, dizia: se -apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientella podia vir, e a -fortuna... E, que diabo, sempre era estar de dentro!... Mas a certeza -da sua superioridade não o tranquillisava--porque emfim em Portugal, -não é verdade? n'estas questões a sciencia, o estudo, o talento são -uma historia, o principal são os padrinhos! Elle não os tinha--e o seu -concorrente, um semsaborão, era sobrinho d'um director geral, tinha -parentes na camara, era um colosso! Por isso elle trabalhava a valer, -mas parecia-lhe indispensavel metter tambem as suas cunhas! Mas quem? - ---Tu não conheces ninguem, Sebastião?... - -Sebastião lembrava-se d'um primo seu, deputado pelo Alemtejo, um -gordo, da maioria, um pouco fanhoso. Se Julião queria, fallava-lhe... -Mas sempre ouvira dizer que a Escóla não era gente de empenhos e de -intriga... De resto tinham o conselheiro Accacio... - ---Uma besta!--fez Julião--Um parlapatão! Quem faz lá caso d'aquillo? -O teu primo, hein! O teu primo parece-me bom! É necessario alguem que -falle, que trabalhe...--Porque acreditava muito nas influencias dos -empenhos, no dominio dos «personagens», nas docilidades da fortuna -quando dirigida pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado -d'ameaça:--Que eu hei-de-lhes mostrar o que é saber as cousas, -Sebastião! - -Ia explicar-lhe o assumpto da these, mas Sebastião interrompeu-o: - ---Ella ahi vem. - ---Quem? - ---A Luiza. - -Passava com effeito, por fóra do Passeio, toda vestida de preto, -só.--Respondeu á cortezia dos dous homens com um sorriso, _adeusinhos_ -da mão, um pouco corada. - -E Sebastião immovel, seguindo-a devotamente com os olhos: - ---Se aquillo não respira mesmo honestidade! Vai ás lojas... Santa -rapariga! - - -Ia encontrar Bazilio no _Paraiso_ pela primeira vez. E estava muito -nervosa: não pudera dominar, desde pela manhã, um medo indefinido que -lhe fizera pôr um véo muito espêsso, e bater o coração ao encontrar -Sebastião. Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, multipla, -impellia-a, com um estremecimentosinho de prazer.--Ia, emfim, ter -ella propria aquella aventura que lêra tantas vezes nos romances -amorosos! Era uma fórma nova do amor que ia experimentar, sensações -excepcionaes! Havia tudo--a casinha mysteriosa, o segredo illegitimo, -todas as palpitações do perigo! Porque o apparato impressionava-a mais -que o sentimento; e a _casa_ em si interessava-a, attrahia-a mais que -Bazilio! Como seria? Era para os lados d'Arroios, adiante do largo de -Santa Barbara: lembrava-se vagamente que havia alli uma correnteza de -casas velhas... Desejaria antes que fosse no campo, n'uma quinta, com -arvoredos murmurosos e relvas fôfas; passeariam então, com as mãos -enlaçadas, n'um silencio poetico; e depois o som d'agua que cahe nas -bacias de pedra daria um rhythmo languido aos somnos amorosos... Mas -era n'um terceiro andar,--quem sabe como seria dentro? Lembrava-lhe um -romance de Paulo Féval em que o heroe, poeta e duque, fórra de setins e -tapeçarias o interior d'uma choça; encontra alli a sua amante; os que -passam, vendo aquelle casebre arruinado, dão um pensamento compassivo -á miseria que de certo o habita--em quanto dentro, muito secretamente, -as flôres se esfolham nos vasos de Sèvres e os pés nús pisam Gobelins -veneraveis! Conhecia o gosto de Bazilio,--e o _Paraiso_ de certo era -como no romance de Paulo Féval. - -Mas no largo de Camões reparou que o sujeito de pera comprida, o do -Passeio, a vinha seguindo, com uma obstinação de gallo; tomou logo -um coupé. E ao descer o Chiado, sentia uma sensação deliciosa em ser -assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava com certo -desdem os que passavam, no movimento da vida trivial--em quanto ella ia -para uma hora tão romanesca da vida amorosa! Todavia á maneira que se -aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contracção d'acanhamento, como um -plebeu que tem de subir, entre alarbadeiros solemnes, a escadaria d'um -palacio. Imaginava Bazilio esperando-a estendido n'um divan de sêda: e -quasi receava que a sua simplicidade burgueza, pouco experiente, não -achasse palavras bastante finas ou caricias bastante exaltadas. Elle -devia ter conhecido mulheres tão bellas, tão ricas, tão educadas no -amor! Desejava chegar n'um coupé seu, com rendas de centos de mil reis, -e ditos tão espirituosos como um livro... - -A carruagem parou ao pé d'uma casa amarellada, com uma portinha -pequena. Logo á entrada um cheiro molle e salobre enojou-a. A escada, -de degraus gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes onde a -cal cahia, e a humidade fizera nodoas. No patamar da sobre-loja, uma -janella com um gradeadosinho d'arame, parda do pó accumulado, coberta -de teias d'aranha, coava a luz suja do saguão. E por traz d'uma -portinha, ao lado, sentia-se o ranger d'um berço, o chorar doloroso -d'uma criança. - -Mas Bazilio desceu logo, com o charuto na bocca, dizendo baixo: - ---Tão tarde! sóbe! Pensei que não vinhas. O que foi? - -A escada era tão esguia, que não podiam subir juntos. E Bazilio, -caminhando adiante, d'esguelha: - ---Estou aqui desde a uma hora, filha! imaginei que te tinhas esquecido -da rua... - -Empurrou uma cancella, fêl-a entrar n'um quarto pequeno, forrado de -papel ás listras azues e brancas. - -Luiza viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarellada, -feita de remendos juntos de chitas differentes: e os lençoes -grossos, d'um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente -entreabertos... - -Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada. E os seus olhos, muito -abertos, iam-se fixando--nos riscos ignobeis da cabeça dos phosphoros, -ao pé da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nodoa de tinta -entornada; nas bambinellas da janella, d'uma fazenda vermelha, onde -se viam passagens; n'uma lithographia, onde uma figura, coberta d'uma -tunica azul fluctuante, espalhava flôres voando... Sobre tudo uma larga -photographia, por cima do velho canapé de palhinha, fascinava-a: era um -individuo atarracado, d'aspecto hilare e alvar, com a barba em collar, -o feitio d'um piloto ao domingo: sentado, de calças brancas, com as -pernas muito afastadas, pousava uma das mãos sobre um joelho, e a outra -muito estendida assentava sobre uma columna truncada: e por baixo do -caixilho, como sobre a pedra d'um tumulo, pendia d'um prego de cabeça -amarella, uma corôa de perpetuas! - ---Foi o que se pôde arranjar--disse-lhe Bazilio.--E foi um acaso: é -muito retirado, é muito discreto... Não é muito luxuoso... - ---Não--fez ella, baixo.--Levantou-se, foi á janella, ergueu uma ponta -da cortininha de cassa fixada á vidraça: defronte eram casas pobres: um -sapateiro grisalho, batia a sola a uma porta; á entrada d'uma lojita -balouçava-se um ramo de carqueja ao pé d'um maço de cigarros pendente -d'um barbante; e, a uma janella, uma rapariga esguedelhada embalava -tristemente no collo uma criança doente que tinha crostas grossas de -chagas na sua cabecinha côr de melão. - -Luiza mordia os beiços, sentia-se entristecer. Então nós de dedos -bateram discretamente á porta. Ella assustou-se, desceu rapidamente o -véo. Bazilio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de _ss_ mellifluos, -ciciou baixo. Luiza ouviu vagamente: Socegadinhos, suas chavesinhas... - ---Bem, bem!--disse Bazilio apressado, batendo com a porta. - ---Quem é? - ---É a patrôa. - -O céo pozera-se a ennegrecer; já a espaços grossas gôtas de chuva se -esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais -melancolico. - ---Como descobriste tu isto?--perguntou Luiza, triste. - ---Inculcaram-m'o. - -Outra gente, então, tinha vindo alli, «amado» alli? pensou ella. E a -cama pareceu-lhe repugnante. - ---Tira o chapéo--disse Bazilio, quasi impaciente--estás-me a fazer -afflicção com esse chapéo na cabeça. - -Ella soltou devagar o elastico que o prendia, foi pôl-o no canapé de -palhinha, desconsoladamente. - -Bazilio tomou-lhe as mãos, e attrahindo-a, sentando-se na cama: - ---Estás tão linda!--Beijou-lhe o pescoço, encostou a cabeça ao peito -d'ella. E com a vista muito quebrada: - ---O que eu sonhei comtigo esta noite! - -Mas, de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E -immediatamente bateram á porta, com pressa. - ---Que é?--bradou Bazilio furioso. - -A voz cheia de _ss_ explicou que esquecera um cobertor na varanda que -estava a seccar. Se se encharcasse, que perdição!... - ---Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me!--berrou Bazilio. - ---Dá-lhe o cobertor... - ---Que a leve o diabo! - -E Luiza, sentindo um arripio de frio nos seus hombros nús, -abandonava-se com uma vaga resignação, entre os joelhos de -Bazilio--vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto. - -Assim um _yacht_ que apparelhou nobremente para uma viagem romanesca -vai encalhar, ao partir, nos lodaçaes do rio baixo; e o mestre -aventureiro que sonhava com os incensos e os almiscares das florestas -aromaticas, immovel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros -dos esgotos. - - -Apenas Luiza começou a sahir todos os dias, Juliana pensou logo: Bem, -vai ter com o _gajo_! - -E a sua attitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de -baixeza que corria a abrir a porta, alvoroçada, quando Luiza voltava -ás cinco horas. E que zelo! Que exactidões! Um botão que faltasse, uma -fita que se extraviava, e eram «mil perdões, minha senhora», «desculpe -por esta vez», muitas lamentações humildes. Interessava-se com devoção -pela saude d'ella, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar... - -Todavia, desde as idas ao _Paraiso_, o seu trabalho augmentára: todos -os dias agora tinha d'engommar; muitas vezes era preciso ensaboar á -noite collares, rendinhas, punhos, n'uma bacia de latão, até ás onze -horas. Ás seis da manhã, mais cedo, já estava com o «ferro ás voltas». -E não se queixava, até dizia a Joanna: - ---Ai! é um regalo vêr assim uma senhora aceada!... Que as ha! credo! -Não, não é por dizer, mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora -tenho saude, o trabalho não me assusta! - -Não tornára a resmungar da «patrôa». Affirmava mesmo á Joanna -repetidamente: - ---A senhora! ai, é uma santa! Muito boa d'aturar... Não a ha melhor! - -O seu rosto perdera alguma cousa do tom bilioso, da contracção amarga. -Ás vezes, ao jantar ou á noite, costurando calada ao pé de Joanna, á -luz do petroleo, vinham-lhe sorrisos subitos, o olhar clareava-se-lhe -n'uma dilatação jovial. - ---A snr.^a Juliana tem o ar de quem está a pensar em cousas boas... - ---A malucar cá por dentro, snr.^a Joanna!--respondia com satisfação. - -Parecia perder a inveja; ouviu mesmo fallar com tranquillidade do -vestido de sêda que estreou n'um dia de festa, em setembro, a Gertrudes -do doutor. Disse apenas: - ---Tambem um dia hei-de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista! - -Já outras vezes revelára por palavras vagas a idéa d'uma abundancia -proxima. Joanna até lhe dissera: - ---A snr.^a Juliana espera alguma herança? - ---Talvez!--respondeu seccamente. - -E cada dia detestava mais Luiza. Quando pela manhã a via arrebicar-se, -perfumar-se com agua de colonia, mirar-se ao toucador cantarolando, -sahia do quarto porque lhe vinham venetas d'odio, tinha medo -d'estourar! Odiava-a pelas _toilettes_, pelo ar alegre, pela roupa -branca, pelo _homem_ que ia vêr, por todos os seus regalos de senhora. -«A cabra!» Quando ella sahia ia espreitar, vêl-a subir a rua, e -fechando a vidraça com um risinho rancoroso: - ---Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia ha-de chegar! Oh se -ha-de! - -Luiza com effeito divertia-se. Sahia todos os dias ás duas horas. Na -rua já se dizia que «a do Engenheiro tinha agora o seu S. Miguel». - -Apenas ella dobrava a esquina o conciliabulo juntava-se logo a -cochichar. Tinham a certeza que se ia encontrar com o «peralta». Onde -seria?--era a grande curiosidade da carvoeira. - ---No hótel--murmurava o Paula.--Que nos hóteis é escandalo bravio. Ou -talvez--acrescentava com tedio--n'alguma d'essas possilgas da baixa! - -A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era tão apropositada! - ---Vacca solta lambe-se toda, snr.^a Helena!--rosnava o Paula.--São -todas o mesmo! - ---Menos isso!--protestava a estanqueira--Que eu sempre fui uma mulher -honesta! - -E ella?--reclamava a carvoeira--ninguem tinha que lhe dizer! - ---Fallo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sêdas! É -uma cambada. Eu é que o sei!--E acrescentava gravemente:--No povo ha -mais moralidade. O povo é outra raça!--E com as mãos enterradas nos -bolsos, as pernas muito abertas, ficava absorto, com a cabeça baixa, -o olhar cravado no chão.--Se é!--murmurava--Se é!--Como se estivesse -positivamente achando as pedrinhas da calçada menos numerosas que as -virtudes do povo! - - -Sebastião, que tinha estado na quinta d'Almada quasi duas semanas, -ficou aterrado quando, ao voltar, a Joanna lhe deu as grandes -«novidades»: que a Luizinha agora sahia todos os dias ás duas horas, -que o primo não voltára; a Gertrudes é que lh'o dissera; não se fallava -na rua n'outra cousa... - ---Então a pobre senhora nem sequer póde ir ás lojas, aos seus -arranjos!--exclamou Sebastião.--A Gertrudes é uma desavergonhada, e -nem sei como a tia Joanna consente que ella ponha aqui os pés. Vir com -esses mexericos!... - ---Cruzes! Olha o destempero!--replicou muito escandalisada a tia -Joanna.--Oh menino, realmente... A pobre mulher disse o que ouviu na -rua! Que ella até a defende, até ella é que a defende! Até se esteve -a queixar que se falla! que se falla! Boa!--E a tia Joanna sahiu, -resmungando:--Olha o destempero, credo! - -Sebastião chamou-a, aplacou-a: - ---Mas quem falla, tia Joanna? - ---Quem?--E muito emphaticamente:--Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua! - -Sebastião ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ella agora se -punha a sahir todos os dias, uma senhora, que quando estava Jorge não -sahia do buraco! A visinhança que murmurára das visitas do outro, -naturalmente começava a commentar as sahidas d'ella! Estava-se a -desacreditar! E elle não podia fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra -«scena»? Não podia. - -Procurou-a. Não lhe queria de certo tocar em nada, ia só vêl-a. Não -estava. Voltou d'ahi a dous dias. Juliana veio-lhe dizer á cancella, -com o seu sorriso amarellado: «Foi-se agora mesmo, ha um instantinho. -Ainda a apanha á Patriarchal». Emfim, um dia encontrou-a ao principio -da rua de S. Roque. Luiza pareceu muito contente em o vêr:--Porque se -tinha demorado tanto em Almada? Que deserção! - -Trazia carpinteiros, era necessario vigiar as obras. E ella? - ---Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho -estado muito só. Nem Julião, nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade -é que tem apparecido ás vezes de fugida. Está agora sempre mettida na -Encarnação... Isto gente devota!--E riu. - -Então aonde ia? - -A umas comprasitas, á modista depois...--E appareça agora, Sebastião, -hein? - ---Hei-d'apparecer. - ---Á noite. Estou tão só! Tenho tocado muito, é o que me vale é o piano! - -N'essa mesma tarde Sebastião recebeu uma carta de Jorge. «Tens visto a -Luiza? Estive quasi com cuidado, porque estive mais de cinco dias sem -carta d'ella. De resto está preguiçosa como uma freira; quando escreve -são quatro linhas porque está o correio a partir. Vai dizer ao correio -que espere, que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar só, que -todos a abandonaram, que tem vivido como n'um deserto. Vê se lhe vaes -fazer companhia, coitada, etc.» - -No dia seguinte ao anoitecer foi a casa d'ella. Appareceu-lhe muito -vermelha, com os olhos estremunhados, de roupão branco. Tinha chegado -muito cançada de fóra, tinha-lhe dado o somno depois de jantar, -adormecera sobre a _causeuse_... Que havia de novo? E bocejava. - -Fallaram das obras d'Almada, do Conselheiro, de Julião; e ficaram -calados. Havia um constrangimento. - -Luiza então accendeu as velas no piano, mostrou-lhe a nova musica -que estudava, a _Medjé_ de Gounod; mas havia uma passagem em que se -embrulhava sempre; pediu a Sebastião que a tocasse, e junto do piano, -batendo o compasso com o pé, acompanhava baixo a melodia, a que a -execução de Sebastião dava um encanto penetrante. Quiz tentar depois, -mas enganou-se, zangou-se, atirou a musica para o lado, veio sentar-se -no sophá, dizendo: - ---Quasi nunca tóco! Estão-se-me a enferrujar os dedos!... - -Sebastião não se atrevia a perguntar pelo primo Bazilio. Luiza não lhe -pronunciou sequer o nome. E Sebastião, vendo n'aquella reserva uma -diminuição de confiança ou um resto persistente de despeito, disse que -tinha d'ir á Associação Geral d'Agricultura, e sahiu muito desconsolado. - -Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietação differente. Ás -vezes era a tia Joanna que lhe dizia á tarde: «A Luizinha lá sahiu hoje -outra vez! Por este calor, até póde apanhar alguma! Credo!» Outras era -o conciliabulo dos visinhos, que avistava de longe, e que de certo -«estavam a cortar na pelle da pobre senhora»! - -Parecia-lhe tudo aquillo exactamente a _aria da Calumnia_ no _Barbeiro -de Sevilha_: a calumnia ao principio leve como o fremito das azas d'um -passaro, subindo n'um crescendo aterrador até estalar como um trovão! - -Dava agora voltas para não passar na rua, diante do Paula e da -estanqueira: tinha vergonha d'elles! Encontrára o Teixeira Azevedo, que -lhe perguntára: - ---Então o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz fica por lá! - -E aquella observação trivial aterrou-o. - -Emfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julião. Encontrou-o no -seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinellas, enxovalhado e -esguedelhado, rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de café ao -pé, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarro; -ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia -livros abertos;--e um cheiro relentado sahia do desmazêlo das cousas. -A janella de peitoril dava para o saguão, d'onde vinha o cantar -estridente d'uma criada, e o ruido areado do esfregar de tachos. - -Julião, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiçou-se, enrolou um -cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde as sete!... Hein? Era -bonito! Para que soubesse o snr. Sebastião! - ---De resto chegaste a proposito. Estava para mandar a tua casa... Devia -receber ahi um dinheiro e não veio. Dá cá uma libra. - -E immediatamente começou a fallar da these. A cousa sahia! - -Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitação paternal, e, muito -satisfeito, na abundancia de confiança que dá a excitação do trabalho, -com grandes passadas pelo quarto: - ---Hei-de-lhes mostrar que ainda ha portuguezes em Portugal, Sebastião! -Hei-de-os deixar de bocca aberta! Tu verás! - -Sentou-se, pôz-se a numerar as folhas escriptas, assobiando. Sebastião, -então, com timidez, quasi vexado de perturbar com as suas preoccupações -domesticas aquelles interesses scientificos, disse baixo: - ---Pois eu vim-te fallar por causa lá da nossa gente... - -Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de barba desleixada, e olhar -um pouco doudo, entrou; era um estudante da Escóla, amigo de Julião; -e quasi immediatamente os dous recomeçaram uma discussão que tinham -travado de manhã, e que fôra interrompida ás onze horas, quando o rapaz -d'olhar doudo descêra a almoçar á Aurea. - ---Não, menino!--exclamava o estudante exaltado.--Estou na minha! A -medicina é uma meia sciencia, a physiologia é outra meia sciencia! São -sciencias conjecturaes, porque nos escapa a base, conhecer o principio -da vida! - -E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe: - ---Que sabemos nós do principio da vida? - -Sebastião, humilhado, baixou os olhos. - -Mas Julião indignava-se: - ---Estás desmoralisado pela doutrina vitalista, miseravel! Trovejou -contra o Vitalismo, que declarou «contrario ao espirito scientifico». -Uma theoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos -não são as mesmas que governam os corpos vivos--é uma heresia -grotesca!--exclamava.--E Bichat que a proclama é uma besta! - -O estudante, fóra de si, bradou--que chamar a Bichat uma besta era -simplesmente d'um alarve. - -Mas Julião desprezou a injuria, e continuou, exaltado nas suas idéas: - ---Que nos importa a nós o principio da vida? Importa-me tanto como -a primeira camisa que vesti! O principio da vida é como outro -qualquer principio: um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente! -Não podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, as origens, os -fins, mysterios! São causas primarias com que não temos nada a fazer, -nada! Podemos batalhar seculos, que não avançamos uma pollegada. O -physiologista, o chimico, não tem nada com os principios das cousas; -o que lhes importa são os phenomenos! Ora os phenomenos e as suas -causas immediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto -rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos--n'uma pedra, como n'um -desembargador! E a physiologia e a medicina são sciencias tão exactas -como a chimica! Isto já vem de Descartes! - -Travaram então um berreiro sobre Descartes. E immediatamente, sem que -Sebastião attonito tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se -sobre a idéa de Deus. - -O estudante parecia necessitar Deus para explicar o universo. Mas -Julião atacava Deus com cólera: chamava-lhe «uma hypothese safada», -«uma velha caturrice do partido miguelista»! E começaram a assaltar-se -sobre a questão social, como dous gallos inimigos. - -O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre -a mesa, o principio da authoridade! Julião berrava pela «anarchia -individual»! E depois de citarem com furia Proudhon, Bastiat, Jouffroy -romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridencia da -voz, censurou violentamente ao estudante--as suas inscripções a seis -por cento, o ridiculo de ser filho d'um corretor de fundos, e o bife de -proprietario que vinha de comer na Aurea! - -Olharam-se, então, com rancor. - -Mas d'ahi a momentos o estudante deixou cahir com desdem algumas -palavras sobre Claude Bernard, e a questão recomeçou, furiosa. - -Sebastião tomou o chapéo. - ---Adeus--disse baixo. - ---Adeus, Sebastião, adeus--disse promptamente Julião. - -Acompanhou-o ao patamar. - ---E quando quizeres que eu falle a meu primo...--murmurou Sebastião. - ---Pois sim, veremos, eu pensarei--disse Julião com indifferença, como -se o orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o terror da injustiça. - -Sebastião foi descendo as escadas, pensando: Não se lhe póde fallar em -nada, agora! - -De repente veio-lhe uma idéa: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se -com ella! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era -uma mulher d'idade, intima de Luiza; tinha mais authoridade, mais -habilidade mesmo... - -Decidiu-se logo, tomou um trem, foi á rua de S. Bento. - -A criada de D. Felicidade appareceu-lhe, desolada, e lacrimosa: - ---Pois não sabe? - ---Não. - ---Ai! até admira! - ---Mas o que? - ---A senhora! Uma desgraça assim! Torceu um pé na Encarnação, deu uma -quéda. Tem estado muito mal, muito mal. - ---Aqui? - ---Na Encarnação. Nem pôde sahir. Está com a snr.^a D. Anna Silveira. -Uma desgraça assim! E está n'um phrenesi! - ---Mas quando foi? - ---Antes d'hontem á noite. - -Sebastião saltou para o trem, mandou «bater» para casa de Luiza. - -A D. Felicidade, doente, na Encarnação! Mas então Luiza podia bem sahir -todos os dias! Ia vêl-a, fazer-lhe companhia, tratar d'ella!... - -A visinhança não tinha que rosnar! Ia vêr a pobre doente!... - -Eram duas horas quando a parelha estacou á porta de Luiza. Encontrou-a, -que descia a escada, vestida de preto, de luva _gris perle_, com um véo -negro. - ---Ah! suba, Sebastião, suba! Quer subir? - -Parára, nos degraus, com uma côrzinha no rosto, um pouco embaraçada. - ---Não, obrigado. Vinha dizer-lhe... Não sabe? A D. Felicidade... - ---O quê? - ---Torceu um pé. Está mal. - ---Que me diz? - -Sebastião deu os pormenores. - ---Vou já lá. - ---Deve ir. Eu não posso ir, não entram homens. Coitada! Diz que -está mal.--Acompanhou-a até á esquina da rua, offereceu-lhe mesmo -a tipoia:--E muitos recados, que tenho pena de a não vêr!... Pobre -senhora! E diz que está n'um phrenesi! - -Viu-a afastar-se para a Patriarchal, e, admirando a graça da sua -figura, esfregava as mãos satisfeito. - -Estavam justificadas, santificadas mesmo aquellas passeatas todos -os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessario -que todos soubessem, o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as -Azevedos, todos, de modo que quando a vissem de manhã, subir a rua, -dissessem:--Lá vai fazer companhia á doente! Santa senhora! - -O Paula estava á porta da loja--e Sebastião com uma idéa subita, -entrou. Estava-se estimando de se sentir tão fecundo em expedientes, -tão habil! - -Deitou um pouco o chapéo para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o -painel que representava D. João VI: - ---Quanto quer vossemecê por isto, ó snr. Paula? - -O Paula ficou surprehendido: - ---O snr. Sebastião está a brincar? - -Sebastião exclamou: - ---A brincar?--Fallava muito sério! queria uns quadros para a sala -d'entrada, em Almada: mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre -um papel escuro.--Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem! - ---Desculpe, snr. Sebastião... Pois n'esse caso ha por ahi alguns -paineis a calhar. - ---Este D. João VI agrada-me. Quanto custa isto? - -O Paula disse, sem hesitar: - ---Sete mil e duzentos. Mas é obra de mestre. - -Era uma téla desbotada de tom defumado, onde uns restos de face -avermelhada, com uma cabelleira em cachos, sobresahiam vagamente sobre -um fundo sombrio. Um vermelhão baço indicava o velludo de uma casaca -de côrte: a pança saliente e ostentosa enchia um collete esverdeado. E -a parte mais conservada da téla era, ao lado sobre um coxim, a corôa -real--que o artista trabalhára com uma minuciosidade enthusiasta, ou -por preoccupação d'idiota, ou por adulação de cortezão. - -Sebastião achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preço escripto por -traz, n'uma tirinha de papel; espanejou a téla com amor; indicou as -bellezas, fallou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores de -moveis, «que tinham a consciencia nas palmilhas»; jurou que o retrato -pertencera ao paço de Queluz, e ia atacar as questões publicas--quando -Sebastião disse resumindo: - ---Bem, pois mande-m'o logo, fico com elle. E mande a conta. - ---Leva uma rica obra! - -Sebastião agora olhava em redor. Queria fallar do «pé torcido de D. -Felicidade», e procurava uma transição. Examinou umas jarras da India, -um tremó; e avistando uma poltrona de doente: - ---Aquillo é que era bom para a D. Felicidade!--exclamou logo--aquella -cadeira! Boa cadeira! - -O Paula arregalou os olhos. - ---Para a D. Felicidade Noronha--repetiu Sebastião.--Para estar -deitada... Pois não sabia, homem? Partiu um pé, tem estado muito mal. - ---A D. Felicidade, a amiga _de cá_?--e indicou com o pollegar a casa do -Engenheiro. - ---Sim, homem! Quebrou um pé na Encarnação. Até lá ficou. A D. Luiza vai -para lá fazer-lhe companhia todos os dias. Agora ia ella para lá... - ---Ah!--fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa:--Mas eu ainda a -vi entrar _para cá_ ha-de haver oito dias. - ---Foi antes d'hontem.--Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando -muito umas gravuras:--De resto a D. Luiza já ia todos os dias á -Encarnação, mas era para vêr a Silveira, a D. Anna Silveira, que esteve -mal. Coitada, ha tres semanas que tem passado uma vida d'enfermeira. -Não sahe da Encarnação! E agora é a D. Felicidade. Não é má massada! - ---Pois não sabia, não sabia--murmurava o Paula, com as mãos enterradas -nos bolsos. - ---Mande-me o D. João VI, hein? - ---Ás ordens, snr. Sebastião. - -Sebastião foi para casa. Subiu á sala; e atirando o chapéo -para o sophá: Bem, pensou, agora ao menos estão salvas as -apparencias!--Passeou algum tempo com a cabeça baixa; sentia-se triste; -porque o ter conseguido, por um acaso, justificar aquelles passeios -para com a visinhança, fazia-lhe parecer mais cruel a idéa de que os -não podia justificar para comsigo. Os commentarios dos visinhos iam -findar por algum tempo, mas _os seus_?... Queria achal-os falsos, -pueris, injustos: e, contra sua vontade, o seu bom senso e a sua -rectidão estavam sempre a revolvel-os baixo. Emfim, tinha feito o que -devia! E com um gesto triste, fallando só, no silencio da sala: - ---O resto é com a sua consciencia! - -N'essa tarde, na rua, sabia-se já que a D. Felicidade de Noronha -torcera um pé na Encarnação, (outros diziam quebrára uma perna), e -que a D. Luiza não lhe sahia da cabeceira... O Paula declarára com -authoridade: - ---É de boa rapariga, é de muito boa rapariga! - -A Gertrudes do doutor foi logo, á noitinha, perguntar á tia Joanna, -«se era verdade da perna quebrada». A tia Joanna corrigiu: era o pé, -torcera o pé! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao chá, que a D. -Felicidade déra uma queda que ficára em pedaços.--Foi na Encarnação, -acrescentou. Diz que anda tudo lá n'uma roda viva. A Luizinha até lá -tem dormido... - ---Pieguices de beatas!--rosnou com tedio o doutor. - -Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, d'ahi a dias, o Teixeira Azevedo -(que apenas comprimentava Luiza), tendo-a encontrado na rua de S. -Roque, parou, e com uma cortezia profunda: - ---Desculpe vossencia. Como vai a sua doente? - ---Melhor, agradecida. - ---Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por -este calor á Encarnação... - -Luiza corou. - ---Coitada! Não lhe falta companhia, mas... - ---É de muita caridade, minha senhora--exclamou com emphase--Tenho-o -dito por toda a parte. É de muita caridade. Um criado de vossencia! - -E afastou-se commovido. - - -Luiza fôra logo, com effeito, vêr D. Felicidade. Tinha uma luxação -simples; e deitada nos quartos da Silveira, com o pé em compressas -d'arnica, cheia de terror de «perder a perna», passava o dia rodeada -d'amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do Recolhimento, e -debicando petiscos. - -Apenas alguem entrava para a vêr, redobrava d'exclamações e de queixas; -vinha logo a historia miuda, incidentada, prolixa da «desgraça»: ia a -descer, a pôr o pé no degrau; escorregára; sentiu que ia a cahir; ainda -se sustentou, e pôde dizer: Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a -dôr não foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre! - -Todas as senhoras concordavam «que era realmente um milagre». -Olhavam-na compungidas, e iam ao côro alternadamente prostrar-se, e -pedir aos santos especiaes o allivio da Noronha! - -A primeira visita de Luiza foi para D. Felicidade uma consolação, -«deu-lhe melhoras»; porque se ralava de estar alli de cama, sem saber -noticias d'_elle_, sem poder fallar d'_elle_! - -E nos dias seguintes, apenas ficava só no quarto com Luiza, chamava-a -logo para a cabeceira, e n'um murmurio mysterioso: Tinha-o visto? -Sabia d'_elle_?--A sua afflicção era que o Conselheiro não soubesse -que ella estava doente, e não lhe podesse dar aquelles pensamentos -compassivos--a que o seu pé tinha direito, e que seriam um conforto -para o seu coração! Mas Luiza não _o_ vira--e D. Felicidade, remexendo -a chásada, exhalava suspiros agudos. - -Ás duas horas Luiza sahia da Encarnação--e ia tomar um trem ao Rocio: -para não parar á porta do _Paraiso_ com espalhafato de tipoia, -apeava-se ao largo de Santa Barbara; e fazendo-se pequenina, cosida com -a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso -de prazer. - -Bazilio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa: para não se -enfastiar, só, tinha trazido para o _Paraiso_ uma garrafa de cognac, -assucar, limões--e com a porta entreaberta fumava, fazendo _grogs_ -frios. O tempo arrastava-se, via a todo o momento as horas, e sem -querer ia escutando, notando todos os ruidos intimos da familia da -proprietaria que vivia nos quartos interiores: a rabuje d'uma criança, -uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente uma cadellinha que -começava a ladrar furiosa. Bazilio achava aquillo burguez e reles, -impacientava-se. Mas um _frou-frou_ de vestido roçava a escada--e os -tedios d'elle, bem como os receios d'ella, dissipavam-se logo no calor -dos primeiros beijos. Luiza vinha sempre com pressa; queria estar -em casa ás cinco horas, «e era um estirão depois!» Entrava um pouco -suada, e Bazilio gostava da transpiraçãosinha tepida que havia nos seus -hombros nús. - ---E teu marido?--perguntava elle.--Quando vem? - ---Não falla em nada.--Ou então:--Não recebi carta, não sei nada. - -Parecia ser aquella a preoccupação de Bazilio, na alegria egoista da -posse recente. Tinha então caricias muito extaticas; ajoelhava-se aos -pés d'ella; fazia voz de criança: - ---Lili não ama Bibi... - -Ella ria, meio despida, com um riso cantado e libertino. - ---Lili adora Bibi!... É douda por Bibi! - -E queria saber se pensava n'ella, o que tinha feito na vespera. Fôra ao -Gremio, jogára uns _robbers_, viera para casa cedo, sonhára com ella... - ---Vivo para ti, meu amor, acredita! - -E deixava-lhe cahir a cabeça no regaço, como sob uma felicidade -excessiva. - -Outras vezes, mais serio, dava-lhe certos conselhos de gôsto, de -_toilette_: pedira-lhe que não trouxesse postiços no cabello, que não -usasse botinhas de elastico. - -Luiza admirava muito a sua experiencia do luxo; obedecia-lhe, -amoldava-se ás suas idéas:--até affectar, sem o sentir, um desdem pela -gente virtuosa, para imitar as suas opiniões libertinas. - -E lentamente, vendo aquella docilidade, Bazilio não se dava ao -incommodo de se constranger; usava d'ella, _como se a pagasse_! -Acontecera uma manhã escrever-lhe duas palavras a lapis que «não podia -ir ao _Paraiso_», sem outras explicações! Uma occasião mesmo não foi, -sem a avisar--e Luiza achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou -pela fechadura, esperou palpitante--e voltou muito desconsolada, -quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar. - -Não aceitava o menor incommodo, nem para lhe causar um contentamento. -Luiza tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos a sua -casa, passar a noite: viria Sebastião, o Conselheiro, D. Felicidade -quando estivesse melhor: era uma alegria para ella, e depois dava ás -suas relações um ar mais parente, mais legitimo. - -Mas Bazilio pulou: - ---O quê! ir cabecear de somno com quatro caturras... Ah! não!... - ---Mas conversa-se, faz-se musica... - ---_Merci!_ Conheço-a, a musica das _soirées_ de Lisboa! A valsa do -_Beijo_ e o _Trovador_. Safa! - -Depois duas ou tres vezes fallára de Jorge com desdem. Aquillo -offendera-a. - -Ultimamente mesmo, quando ella entrava no _Paraiso_, já não tinha a -delicadeza amorosa de se levantar alvoroçado: sentava-se apenas na -cama, e tirando preguiçosamente o charuto da bocca: - ---Ora viva a minha flôr!--dizia. - -E um ar de superioridade quando lhe fallava! Um modo de encolher os -hombros, de exclamar:--Tu não percebes nada d'isso! Chegava a ter -palavras cruas, gestos brutaes. E Luiza começou a desconfiar que -Bazilio não a estimava,--apenas a desejava! - -Ao principio chorou. Resolveu explicar-se com elle, romper se fosse -necessario. Mas adiou, não se atrevia: a figura de Bazilio, a sua voz, -o seu olhar dominavam-na; e accendendo-lhe a paixão tiravam-lhe a -coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida então que -o adorava: o que lhe dava tanta exaltação no _desejo_, se não era a -grandeza do _sentimento_?... Gozava tanto, é porque o amava muito!... -E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se n'este -raciocinio subtil. - -Elle tinha ás vezes uma seccura aspera de maneiras, era verdade; certos -tons de indifferença, era certo... Mas n'outros momentos, quantas -denguices, que tremuras na voz, que phrenesi nas caricias!... Amava-a -tambem, não havia duvida. Aquella certeza era a sua justificação. E -como era o Amor que os produzia, não se envergonhava dos alvoroços -voluptuosos com que ia todas as manhãs ao _Paraiso_! - -Duas ou tres vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia -tambem apressada o Moinho de Vento. - ---D'onde vinha vossê?--perguntára-lhe em casa. - ---Do medico, minha senhora, fui ao medico. - -Queixava-se de pontadas, palpitações, faltas d'ar. - ---Flatos! flatos! - - -Com effeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manhã; depois -apenas Luiza, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito -espartilhada no seu vestido de merino, de chapéo e sombrinha, vinha -dizer a Joanna: - ---Até logo, vou ao medico. - ---Até logo, snr.^a Juliana--dizia a cozinheira radiante. - -E ia logo fazer signal ao carpinteiro. - -Juliana descia por S. Pedro de Alcantara, e tomando para o largo do -Carmo ia á ruasita, defronte do quartel. Alli morava n'um terceiro -andar a sua intima amiga, a tia Victoria. - -Era uma velha que fôra inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancella, -n'uma placa de metal, com letras negras: «Victoria Soares, -inculcadeira.» Mas nos ultimos annos a sua industria tornou-se mais -complicada, muito tortuosa. - -Exercia-a n'uma saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes -do tecto encardido, alumiada por duas tristes janellas de peito. Um -vasto sophá occupava quasi a parede do fundo: fôra de certo de reps -verde, mas o estofo coçado, comido, remendado, tinha agora, sob largas -nodoas, uma vaga côr parda; as molas partidas, rangiam com estalidos -melancolicos; a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavára, dormia todo -o dia um gato; e um dos lados da madeira queimada revelava que fôra -salvo d'um incendio. Sobre o sophá pendia a lithographia do senhor D. -Pedro IV. Entre as duas janellas havia uma commoda alta; e em cima, -entre um Santo Antonio e um cofre feito de buzios, um macaquinho -empalhado, com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho d'arvore. -Ao entrar via-se logo, junto da janella fronteira á porta, a uma mesa -coberta de oleado, um dorso magro e curvado, e um barretinho de sêda -com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouvêa, o escripturario! - -O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido--em que se sentia -a cavalhariça, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas -matronas de capote e lenço, face gordalhufa e buço; cocheiros com -o cabello acamado, muito lustroso de oleo, e blusa de riscadinho: -pesados gallegos côr de greda, de passadas retumbantes e fórmas lôrpas: -criadinhas de dentro, amarelladas, de olheiras, sombrinha de cabo -d'osso, e as luvas de pellica com passagens nas pontas dos dedos. - -Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o saguão,--por -cuja portinha verde se viam ás vezes desapparecer dorsos respeitaveis -de proprietarios, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos. - -Em certas occasiões, aos sabbados, juntavam-se cinco, seis pessoas: -velhas fallavam baixo, com gestos mysteriosos: uma altercação mal -abafada roncava no patamar: rapariguitas de repente desatavam a -chorar; e, impassivel, o snr. Gouvêa escrevinhava os seus registos, -arremessando para o lado jactos melancolicos de saliva. - -A tia Victoria, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido -rôxo,--ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro, -tirando a cada momento da algibeira rebuçados de avenca para o catarrho. - -A tia Victoria era uma grande utilidade, tornára-se um centro! A -criadagem reles, mesmo a criadagem fina, tinha alli para tudo o -seu _despacho_. Emprestava dinheiro aos desempregados; guardava -as economias dos poupados; fazia escrever pelo snr. Gouvêa as -correspondencias amorosas ou domesticas dos que não tinham ido á -escóla; vendia vestidos em segunda mão; alugava casacas; aconselhava -collocações, recebia confidencias, dirigia intrigas, entendia de -partos. Nenhum criado era inculcado por ella; mas, arranjados ou -despedidos, nunca deixavam de subir, descer as escadas da tia Victoria. -Tinha além d'isso muitas relações, infinitas condescendencias: -celibatarios maduros iam entender-se com ella, para o confortosinho -d'uma sopeira gordita e nova: era ella quem inculcava as serventes ás -mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: a -tia Victoria tem mais manhas que cabellos! - -Mas, ultimamente, apesar dos seus «afazeres», apenas Juliana -entrava--levava-a para o quarto nas trazeiras, fechava a porta, e -«havia para meia hora»! - -E Juliana sahia sempre vermelha, os olhos accesos, feliz! Voltava -depressa para casa; e mal entrava: - ---A senhora ainda não voltou, snr.^a Joanna? - ---Ainda não. - ---Está na Encarnação. Coitada! não tem má cruz, ir aturar a velha! -E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ella muito bem! -Espairecer! - -Joanna era de certo espessa e obtusa; além d'isso a paixão animal pelo -rapazola emparvecia-a. Todavia, percebera que a snr.^a Juliana andava -«muito derretida pela senhora»: disse-lh'o mesmo um dia: - ---Vossemecê agora, snr.^a Juliana, parece mais na bola da senhora! - ---Na bola? - ---Sim, quero dizer, mais aquella, mais... - ---Mais apegada á senhora? - ---Mais apegada. - ---Sempre o estive. Mas então! ás vezes a gente tem os seus repentes... -Que olhe, snr.^a Joanna, não se acha melhor que aqui. Senhora de muito -bom genio, nada de exquisitices, nenhumas prisões... Ai, é dar louvores -ao céo de estarmos n'este descanço. - ---E é! - -A casa com effeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranquilla: -Luiza sahia todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava; -a sua antipathia por Juliana parecia dissipada, considerava-a uma -pobre de Christo! Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus -passeios, ruminava. Joanna, muito livre, muito só em casa, regalava-se -com o carpinteiro. Não vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnação, -inundava-se d'arnica. Sebastião fôra para Almada vigiar as obras. O -Conselheiro partira para Cintra, «dar umas ferias ao espirito, tinha -elle dito a Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden». O snr. -Julião, «o doutor», como dizia a Joanna, trabalhava a sua these. As -horas eram muito regulares, havia sempre um silencio pacato. Juliana, -um dia, na cozinha, impressionada por aquelle recolhimento satisfeito -de toda a casa, exclamou para Joanna: - ---Não se póde estar melhor! A barca vai n'um mar de rosas! - -E acrescentou, com uma risadinha: - ---E eu ao leme! - - - - -VII - - -Por esse tempo, uma manhã que Luiza ia para o _Paraiso_, viu de repente -sahir d'um portal, um pouco adiante do largo de Santa Barbara, a figura -azafamada d'Ernestinho. - ---Por aqui, prima Luiza!--exclamou elle logo muito surprehendido.--Por -estes bairros! Que faz por aqui? Grande milagre! - -Vinha vermelho, trazia as bandas do casaco d'alpaca todas deitadas para -traz, e agitava com excitação um rolo grosso de papeis. - -Luiza ficou um pouco embaraçada; disse que viera fazer uma visita a uma -amiga.--Oh! elle não conhecia, tinha chegado do Porto... - ---Ah, bem! bem! E que é feito, como tem passado? Quando vem o -Jorge?--Desculpou-se logo de a não ter ido vêr; mas é que não tinha uma -migalha livre! De manhã a alfandega, á noite os ensaios... - ---Então sempre vai?--perguntou Luiza. - ---Vai. - -E enthusiasmado: - ---E como vai! Um primor! Mas que trabalhão, que trabalhão!--Agora vinha -elle de casa do actor Pinto, que fazia o papel de amante, de conde de -Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finaes do terceiro -acto: _Maldição, a sorte funesta esmaga-me! Pois bem, arcarei braço a -braço com a sorte. Á lucta!_ Era uma maravilha! Vinha tambem de lhe dar -parte que alterára o monologo do segundo acto. O empresario achava-o -longo... - ---Então continúa a implicar, o empresario? - -Ernestinho fez uma visagem d'hesitação. - ---Implica um bocado...--E com um rosto radioso:--Mas está delirante! -Estão todos delirantes! Hontem me dizia elle: «Lesminha»... É o nome -que me dão por pandiga. Tem graça, não é verdade? Dizia-me elle: -«Lesminha, na primeira representação cahe ahi Lisboa em peso! Vossê -enterra-os a todos!» É bom homem! E agora vou-me a casa do Bastos, o -folhetinista da _Verdade_. Não conhece? - -Luiza não se lembrava bem. - ---O Bastos, o da _Verdade_!--insistia elle. - -E vendo que Luiza parecia alheia ao nome, ao individuo: - ---Ora não conhece outra cousa!--Ia descrever-lhe as feições, citar-lhes -as obras... - -Mas Luiza, impaciente, para findar: - ---Ah! sim, lembro-me agora. Perfeitamente... Bem sei! - ---Pois é verdade, vou a casa d'elle.--Tomou um tom compenetrado:--Somos -muito amigos, é muito bom rapaz, e tem um pequerrucho lindo!...--E -apertando-lhe muito a mão:--Adeusinho, prima Luiza, que não posso -perder um momento. Quer que a vá acompanhar? - ---Não, é aqui perto. - ---Adeus, recados ao Jorge! - -Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atraz -d'ella. - ---Ah! esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei? - -Luiza abriu muito os olhos. - ---Á condessa, á heroina!--exclamou Ernestinho. - ---Ah! - ---Sim, o marido perdôa-lhe, obtem uma embaixada, e vão viver no -estrangeiro. É mais natural... - ---De certo!--disse vagamente Luiza. - ---E a peça acaba, dizendo o amante, o conde de Monte Redondo: _E -eu irei para a solidão morrer d'esta paixão funesta!_ É de muito -effeito!--Esteve um momento a olhal-a, e bruscamente:--Adeus, prima -Luiza, recadinhos ao Jorge! - -E abalou. - -Luiza entrou no _Paraiso_ muito contrariada. Contou o encontro a -Bazilio. Ernestinho era tão tolo! Podia mais tarde fallar n'aquillo, -citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto... - -E tirando o véo, o chapéo: - ---Não, realmente é imprudente vir assim tantas vezes. Era melhor não -vir tanto. Póde-se saber... - -Bazilio encolheu os hombros, contrariado: - ---Se queres não venhas. - -Luiza olhou-o um momento, e curvando-se profundamente: - ---Obrigada! - -Ia a pôr o chapéo, mas elle veio prender-lhe as mãos, abraçou-a, -murmurando: - ---Pois tu fallas em não vir! E eu, então? Eu que estou em Lisboa por -tua causa... - ---Não, realmente dizes ás vezes cousas... tens certos modos... - -Bazilio abafou-lhe as palavras com beijos. - ---Ta, ta, ta! Nada de questões! Perdôa. Estás tão linda... - -Luiza, ao voltar para casa, veio a reflectir n'aquella «scena». -Não--pensava--já não era a primeira vez que elle mostrava um -desprendimento muito secco por ella, pela sua reputação, pela sua -saude! Queria-a alli todos os dias, egoistamente. Que as más linguas -fallassem, que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para -que?... Porque emfim, saltava aos olhos, elle amava-a menos... As suas -palavras, os seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!... Já não -tinha aquelles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda n'uma -caricia palpitante, nem aquella abundancia de sensação que o fazia -cahir de joelhos com as mãos tremulas como as d'um velho!... Já se -não arremessava para ella, mal ella apparecia á porta, como sobre uma -presa estremecida!... Já não havia aquellas conversas pueris, cheias de -risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam, depois -da hora ardente e physica, quando ella ficava n'uma lassitude dôce, com -o sangue fresco, a cabeça deitada sobre os braços nús!--Agora! trocado -o ultimo beijo, accendia o charuto, como n'um restaurante ao fim do -jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatorio dar -uma penteadella no cabello com um pentesinho d'algibeira! (O que ella -odiava o pentesinho!) Ás vezes até olhava o relogio!... E em quanto -ella se arranjava não vinha, como nos primeiros tempos, ajudal-a, -pôr-lhe o collarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta d'ella, -despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus hombros antes que -o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros,--ou sentado, com um ar -macambuzio, bamboleava a perna! - -E depois positivamente não a respeitava, não a considerava... Tratava-a -por cima do hombro, como uma burguezinha, pouco educada e estreita, -que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a -cabeça alta, fallando no «espirito de madame de tal», nas _toilettes_ -da «condessa de tal»! Como se ella fosse estupida, e os seus vestidos -fossem trapos! Ah, era seccante! E parecia, Deus me perdôe, parecia que -lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir... Immediatamente -lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge, -para quem ella era de certo a mais linda, a mais elegante, a mais -intelligente, a mais captivante!... E já pensava um pouco que -sacrificára a sua tranquillidade tão feliz a um amor bem incerto! - -Emfim, um dia que o viu mais distrahido, mais frio, explicou-se -abertamente com elle. Direita, sentada no canapé de palhinha, fallou -com bom senso, devagar, com um ar digno e preparado: «Que percebia bem -que elle se aborrecia, que o seu grande amor tinha passado, que era por -tanto humilhante para ella verem-se n'essas condições, e que julgava -mais digno acabarem...» - -Bazilio olhava-a, surprehendido da sua solemnidade; sentia um estudo, -uma affectação n'aquellas phrases; disse muito tranquillamente, -sorrindo: - ---Trazias isso decorado! - -Luiza ergueu-se bruscamente, encarou-o, teve um movimento desdenhoso -dos labios. - ---Tu estás douda, Luiza? - ---Estou farta! Faço todos os sacrificios por ti, venho aqui todos os -dias, comprometto-me, e para que? Para te vêr muito indifferente, muito -seccado... - ---Mas, meu amor... - -Ella teve um sorriso d'escarneo. - ---_Meu amor!_ Oh! são ridiculos esses fingimentos! - -Bazilio impacientou-se. - ---Já isso cá me faltava, essa scena!--exclamou impetuosamente. E -cruzando os braços diante d'ella:--Mas que queres tu? Queres que te -ame como no theatro, em S. Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre -diabo ama naturalmente, como todo o mundo, com o seu coração, mas -não tem gestos de tenor, aqui d'el-rei que é frio, que se aborrece, -é ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos, que -declame, que revire os olhos, que faça juras, outras tolices?... - ---São tolices que tu fazias... - ---Ao principio!--respondeu elle brutalmente.--Já nos conhecemos muito -para isso, minha rica. - -E havia apenas cinco semanas! - ---Adeus!--disse Luiza. - ---Bem. Vaes zangada? - -Ella respondeu, com os olhos baixos, calçando nervosamente as luvas: - ---Não. - -Bazilio pôz-se diante da porta, e estendendo os braços: - ---Mas sê razoavel, minha querida. Uma ligação como a nossa não é o -duetto do _Fausto_. Eu amo-te; tu, creio, gostas de mim; fazemos os -sacrificios necessarios, encontramo-nos, somos felizes... Que diabo -queres tu mais? Porque te queixas? - -Ella respondeu com um sorriso ironico e triste: - ---Não me queixo. Tens razão. - ---Mas não vás zangada, então. - ---Não... - ---Palavrinha? - ---Sim... - -Bazilio tomou-lhe as mãos. - ---Dê então um beijinho em Bibi... - -Luiza beijou-o de leve na face. - ---Na boquinha, na boquinha!--E ameaçando-a com o dedo, fitando-a -muito:--Ah geniosinho! Tens bem o sangue do snr. Antonio de Brito, -nosso extremoso tio, que arrepellava as criadas pelos cabellos!--E -sacudindo-lhe o queixo:--E vens ámanhã? - -Luiza hesitou um momento: - ---Venho. - -Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio -logo dizer-lhe, muito quisilada: que a Joanna tinha sahido ás quatro -horas, não tinha voltado, o jantar estava por acabar... - ---Onde foi? - -Juliana encolheu os hombros com um sorrisinho. - -Luiza percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor... Teve um gesto -de piedade desdenhosa. - ---Ha-de lucrar muito com isso. Boa tôla!--disse. - -Juliana olhou-a espantada. - ---Está bebeda!--pensou. - ---Bem, que se lhe ha-de fazer?--exclamou Luiza.--Esperarei... - -E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito: - ---Que egoista, que grosseiro, que infame! E é por um homem assim que -uma mulher se perde! É estupido! - -Como elle supplicava, se fazia pequenino, humilde ao principio! O que -são os amores dos homens! Como teem a fadiga facil! - -E immediatamente lhe veio a idéa de Jorge! _Esse_ não! Vivia com -ella havia tres annos--e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo, -dedicado. Mas o _outro_! Que indigno! _Já a conhecia muito!_ Ah! estava -bem certa agora, nunca a amára, elle! Quizera-a por vaidade, por -capricho, por distracção, para ter uma mulher em Lisboa! É o que era! -Mas amor? Qual! - -E ella mesmo, por fim? Amava-o, ella? Concentrou-se, interrogou-se... -Imaginou casos, circumstancias: se elle a quizesse levar para longe, -para França, iria? Não! Se por um acaso, por uma desgraça enviuvasse, -antevia alguma felicidade casando com elle? Não! - -Mas então!... E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e -se admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o -seu coração vazio. O que a levára então para elle?... Nem ella sabia; -não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e morbida de ter um -amante, mil vaidadesinhas inflammadas, um certo desejo physico... E -sentira-a por ventura, essa felicidade, que dão os amores illegitimos, -de que tanto se falla nos romances e nas operas, que faz esquecer -tudo na vida, affrontar a morte, quasi fazel-a amar? Nunca! Todo o -prazer que sentira ao principio, que lhe parecera ser o amor--vinha -da novidade, do saborzinho delicioso de comer a maçã prohibida, das -condições do mysterio do _Paraiso_, d'outras circumstancias talvez, que -nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro! - -Mas que sentia d'extraordinario _agora_? Bom Deus, começava a estar -menos commovida ao pé do seu amante, do que ao pé de seu marido! Um -beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia tres annos! -Nunca se seccára ao pé de Jorge, nunca! E seccava-se positivamente ao -pé de Bazilio! Bazilio, no fim, o que se tornára para ella? era como -um marido pouco amado, que ia amar fóra de casa! Mas então, valia a -pena?... - -Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque emfim, ella e -Bazilio estavam nas condições melhores para obterem uma felicidade -excepcional: eram novos, cercava-os o mysterio, excitava-os a -difficuldade... Porque era então que quasi bocejavam? É que o amor -é essencialmente perecivel, e na hora em que nasce começa a morrer. -Só os começos são bons. Ha então um delirio, um enthusiasmo, um -bocadinho do céo. Mas depois!... Seria pois necessario estar sempre a -_começar_, para poder sempre sentir?... Era o que fazia Leopoldina. E -apparecia-lhe então nitidamente a explicação d'aquella existencia de -Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana, -abandonando-o como um limão espremido, e renovando assim constantemente -a flôr da sensação!--E, pela logica tortuosa dos amores illegitimos, o -seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo! - -Logo no dia seguinte pôz-se a dizer comsigo que era bem longe o -_Paraiso_! Que massada, por aquelle calor, vestir-se, sahir! Mandou -saber de D. Felicidade por Juliana, e ficou em casa, de roupão branco, -preguiçosa, saboreando a sua preguiça. - -N'essa tarde recebeu uma carta de Jorge: «que ainda se demorava, mas -que a sua viuvez começava a pezar-lhe. Quando se veria emfim na sua -casinha, na sua alcovinha?...» - -Ficou muito commovida. Um sentimento de vergonha, de remorso, uma -compaixão terna por Jorge, tão bom, coitado! um indefinido desejo de o -vêr e de o beijar, a recordação de felicidades passadas perturbaram-na -até ás profundidades do seu sêr. Foi logo responder-lhe, jurando-lhe -«que tambem já estava farta de estar só, que viesse, que era estupida -semelhante separação...» E era sincera n'aquelle momento. - -Tinha fechado o enveloppe, quando Juliana lhe veio trazer «uma carta -do hotel». Bazilio mostrava-se desesperado: «...Como não vieste, vejo -que estás zangada; mas é de certo o teu orgulho, não o teu amor que te -domina: não imaginas o que senti quando vi que não vinhas hoje. Esperei -até ás cinco horas; que supplicio! Fui talvez secco, mas tu tambem -estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante -do outro, e esquecer todo o despeito no mesmo amor... Vem ámanhã. -Adoro-te tanto! Que outra prova queres, que esta que te dou d'abandonar -os meus interesses, as minhas relações, os meus gostos, e enterrar-me -aqui em Lisboa, etc.» - -Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de -querer. Aquillo era verdade. Porque estava elle em Lisboa? Por ella. -Mas se reconhecia agora,--que o não amava, ou tão pouco! E depois -era vil trahir assim Jorge, tão bom, tão amoroso, vivendo todo para -ella. Mas se Bazilio realmente estivesse tão apaixonado!... As suas -idéas redemoinhavam, como folhas d'outono, violentadas por ventos -contradictorios. Desejava estar tranquilla, «que a não perseguissem». -Para que voltára aquelle homem? Jesus! que havia de fazer? Tinha os -seus pensamentos, os seus sentimentos n'uma dolorosa trapalhada. - -E na manhã seguinte estava na mesma hesitação. Iria, não iria? O -calor fóra, a poeirada da rua faziam-lhe appetecer mais a casa! -Mas que desapontamento, o do pobre rapaz tambem! Atirou ao ar uma -moeda de cinco tostões. Era cunho, devia ir. Vestiu-se, sem vontade, -seccada,--tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que -dão as expansões da reconciliação... - -Mas que surpreza! esperava encontral-o humilde e de joelhos, achou-o -com a testa franzida e muito aspero. - ---Luiza, parece incrivel, porque não vieste hontem? - -Na vespera, Bazilio, quando viu que ella faltava, teve um grande -despeito e um medo maior; a sua concupiscencia receou perder aquelle -lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalisou-se de vêr -libertar-se aquella escravasinha docil. Resolveu portanto, a todo o -custo, «chamal-a ao rego». Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a -attrahir, decidiu ser severo para a castigar.--E acrescentou: - ---É uma criancice ridicula. Porque não vieste? - -Aquelle modo enraiveceu-a: - ---Porque não quiz. - -Mas emendou logo: - ---Não pude. - ---Ah! é essa a maneira por que respondes á minha carta, Luiza? - ---E tu, é esse o modo com que me recebes? - -Olharam-se um momento, detestando-se. - ---Bem, queres uma questão? És como as outras. - ---Que outras? - -E toda escandalisada: - ---Ah! é de mais! Adeus! - -Ia sahir. - ---Vaes-te, Luiza? - ---Vou. É melhor acabarmos por uma vez... - -Elle segurou o fecho da porta rapidamente. - ---Fallas serio, Luiza? - ---De certo. Estou farta! - ---Bem. Adeus. - -Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente. - -Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula: - ---Então, é para sempre? Nunca mais? - -Luiza parou, branca. Aquella triste palavra _nunca mais_ deu-lhe uma -saudade, uma commoção. Rompeu a chorar. - -As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão -fragil, tão desamparada!... - -Bazilio cahiu-lhe aos pés: tinha tambem os olhos humidos. - ---Se tu me deixares, morro! - -Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, longo, penetrante. A -excitação dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixão; -e foi uma manhã deliciosa. - -Ella prendia-o nos braços nús, pallida como cêra, balbuciava: - ---Não me deixas nunca, não? - ---Juro-t'o! Nunca, meu amor! - -Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma idéa de certo -acudiu-lhes--porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou: - ---Se podesses aqui passar a noite! - -Ella disse aterrada, quasi supplicante: - ---Oh! não me tentes, não me tentes... - -Bazilio suspirou, disse: - ---Não, é uma tolice. Vai. - -Luiza começou a arranjar-se, á pressa. E de repente, parando, com um -sorriso: - ---Sabes tu uma cousa? - ---O que, meu amor? - ---Estou a cahir com fome! Não almocei nada, estou a cahir! - -Elle ficou desolado: - ---Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse... - ---Que horas são, filho? - -Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado: - ---Sete! - ---Ai, Santo Deus! - -Punha o chapéo, o véo, atrapalhadamente: - ---Que tarde! Jesus! Que tarde! - ---E ámanhã, quando? - ---Á uma. - ---Com certeza? - ---Com certeza. - -Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a ao fundo da -escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos: - ---Que me fizeste tu? Desde hontem que estou doudo! - -Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama. - ---Que é aquillo? - -Elle sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destampando o -cesto, com uma cortezia grave: - ---Provisões, festins, bacchanaes! Não dirás depois que tens fome! - -Era um _lunch_. Havia sandwichs, um _pâté de foie gras_, fruta, uma -garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo. - ---É brilhante!--disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer. - ---Foi o que se pôde arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em -si! - -Pôz o cesto no chão, e vindo para ella com os braços abertos: - ---E tu pensaste em mim, meu amor? - -Os olhos d'ella responderam--e a pressão apaixonada dos seus braços. - -Ás tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo -sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquillo parecia a -Luiza muito estroina, adoravel--e ria de sensualidade, fazendo tilintar -os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de _champagne_. -Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, em -beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia com gula; e eram -adoraveis os seus braços nús movendo-se por cima dos pratos. - -Nunca achára Bazilio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito -conchegado para aquellas intimidades da paixão; quasi julgava possivel -viver alli, n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor -permanente, e _lunchs_ ás tres horas... Tinham as pieguices classicas: -mettiam-se bocadinhos na bocca; ella ria com os seus dentinhos brancos; -bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos,--e elle quiz-lhe -ensinar então a verdadeira maneira de beber _champagne_. Talvez ella -não soubesse! - ---Como é?--perguntou Luiza erguendo o copo. - ---Não é com o copo! Horror! Ninguem que se preza bebe _champagne_ por -um copo. O copo é bom para o Collares... - -Tomou um gole de _champagne_, e n'um beijo passou-o para a bocca -d'ella. Luiza riu muito, achou «divino», quiz beber mais assim. Ia-se -fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe. - -Tinham tirado os pratos da cama; e sentada á beira do leito, os seus -pésinhos calçados n'uma meia côr de rosa pendiam, agitavam-se, em -quanto um pouco dobrada sobre si, os cotovêlos sobre o regaço, a -cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça languida d'uma -pomba fatigada. - -Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma burguezinha podia ter -tanto _chic_, tanta _queda_? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pésinhos entre -as mãos, beijou-lh'os; depois, dizendo muito mal das ligas «tão feias, -com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então -fez-lhe baixinho um pedido. Ella córou, sorriu, dizia: não! não!--E -quando sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate, -murmurou reprehensivamente: - ---Oh Bazilio! - -Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinára-lhe uma sensação nova: -tinha-a na mão! - -Só ás seis horas se desprendeu dos seus braços. Luiza fez-lhe jurar -que havia de pensar n'ella toda a noite:--não queria que elle sahisse; -tinha ciumes do Gremio, do ar, de tudo! E já no patamar voltava, -beijava-o, louca, repetia: - ---E ámanhã mais cedo, sim? para estarmos todo o dia. - ---Não vaes vêr a D. Felicidade? - ---Que me importa a D. Felicidade! Não me importa ninguem! Quero-te a -ti! só a ti! - ---Ao meio dia? - ---Ao meio dia! - - -Quanto lhe pezou á noite a solidão do seu quarto! Tinha uma impaciencia -que a impellia a prolongar a excitação da tarde, agitar-se. Ainda quiz -lêr, mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas accesas sobre -o toucador pareciam-lhe lugubres; foi vêr a noite,--estava tepida e -serena. Chamou Juliana: - ---Vá pôr um chale, vamos a casa da snr.^a D. Leopoldina. - -Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois d'uma grande -demora, esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada: - ---A senhora foi p'ra o Porto! - ---P'ra o Porto! - -Sim. Demorava-se quinze dias. - -Luiza ficou muito desconsolada. Mas não queria voltar, o seu quarto -solitario aterrava-a. - ---Vamos um bocado até alli abaixo, Juliana. A noite está tão bonita! - ---Rica, minha senhora! - -Foram pela rua de S. Roque. E como guiados pelas duas linhas de pontos -de gaz, que desciam a rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo -foram logo para o _Hotel Central_. - -Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir surprehendel-o de -repente, atirar-se-lhe aos braços, vêr as suas malas... Aquella idéa -fazia-a arfar. Entraram na praça de Camões. Gente passeava devagar; sob -a sombra mais escura que faziam as arvores cochichava-se pelos bancos; -bebia-se agua fresca; claridades cruas de vidraças, de portas de lojas -destacavam em redor no tom escuro da noite: e no rumor lento das ruas -em redor, sobresahiam as vozes agudas dos vendedores de jornaes. - -Então um sujeito com um chapéo de palha passou tão rente d'ella, tão -intencionalmente que Luiza teve medo.--Era melhor voltarem--disse. - -Mas ao meio da rua de S. Roque o chapéo de palha reappareceu, roçou -quasi o hombro de Luiza; dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella. - -Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas batia vivamente a lage -do passeio; de repente, ao pé de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapéo -de palha sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe junto ao -pescoço: - ---Aonde mora, ó menina? - -Agarrou aterrada o braço de Juliana. - -A voz repetiu: - ---Não se agaste, menina, aonde mora? - ---Seu malcriado!--rugiu Juliana. - -O chapéo de palha immediatamente desappareceu entre as arvores. - -Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade de chorar; deixou-se -cahir na _causeuse_, esfalfada, infeliz. Que imprudencia, pôr-se -a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava douda, -desconhecia-se. Que dia aquelle! E recordava-o desde pela manhã: o -_lunch_, o _champagne_ bebido pelos beijos de Bazilio, os seus delirios -libertinos, que vergonha! e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser -tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe -Jorge no Alemtejo trabalhando por ella, pensando n'ella... Escondeu o -rosto entre as mãos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se. - - -Mas na manhã seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga -vergonha de todas as suas «tolices» da vespera, e como a sensação -indefinida, palpite ou presentimento, de que não devia ir ao _Paraiso_. -O seu desejo, porém, que a impellia para lá vivamente, forneceu-lhe -logo razões: era desapontar Bazilio, a não ir hoje não devia voltar, e -então romper... Além d'isso a manhã muito linda attrahia para a rua: -chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma -frescura lavada e dôce. - -E ás onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do -conselheiro Accacio que subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol -fechado, a cabeça alta. - -Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente: - ---Que encontro verdadeiramente feliz!... - ---Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o vêem! - ---E v. exc.^a, minha senhora? Vejo-a com excellente aspecto! - -Passou-lhe á esquerda com um movimento solemne, pôz-se a caminhar ao -lado d'ella. - ---Permitte-me de certo que a acompanhe na sua excursão? - ---De certo, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe -ralhar... - ---Estive em Cintra, minha querida senhora.--E parando:--Não sabia? O -_Diario de Noticias_ especificou-o! - ---Mas depois de vir de Cintra? - -Elle acudiu: - ---Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo! Inteiramente absorvido -na compilação de certos documentos que me eram indispensaveis para o -meu livro...--E depois d'uma pausa:--Cujo nome não ignora, creio. - -Luiza não se recordava inteiramente. O Conselheiro então expôz o -titulo, os fins, alguns nomes de capitulos, a utilidade da obra: era -a DESCRIPÇÃO PITORESCA DAS PRINCIPAES CIDADES DE PORTUGAL E SEUS MAIS -FAMOSOS ESTABELECIMENTOS. - ---É um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei com um exemplo: V. -exc.^a quer ir a Bragança: sem o meu livro é muito natural (direi, é -certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o meu -livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe um fundo muito -solido d'instrucção, e tem ao mesmo tempo o prazer. - -Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu véo branco. - ---Está hoje muito agradavel!--disse ella. - ---Agradabilissimo! Um dia creador! - ---Que bom fresco aqui! - -Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar dôce circulava entre as -arvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira -humidade; e, apesar do sol vivo, o céo azul parecia leve e muito remoto. - -O Conselheiro então fallou do estio; tinha sido torrido! na sua sala -de jantar tinha havido 48 graus á sombra! 48 graus!--E com bonhomia, -querendo logo desculpar a sala d'aquella exageração canicular:--Mas é -que está exposta ao sul! façamos essa justiça! Está muito exposta ao -sul. Hoje porém está verdadeiramente restaurador. - -Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. Luiza hesitava. -E o Conselheiro puxando o relogio, fitando-o de longe, declarou logo -que ainda não era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um relogio -inglez.--Muito preferiveis aos suissos!--acrescentou com ar profundo. - -Cobardemente, por inercia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro, -Luiza foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De -resto--pensava--tinha tempo, tomaria um trem... - -Foram encostar-se ás grades. Através dos varões viam, descendo n'um -declive, telhados escuros, intervallos de pateos, cantos de muro com -uma ou outra magra verdura de quintal resequido; depois, no fundo do -valle, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, -onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada. Do lado de lá -erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental, recebendo -uma luz forte que fazia faiscar as vidraças: por traz iam-se elevando -no mesmo plano terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros -sombrios, a cantaria da Encarnação de um amarello triste, outras -construcções separadas, até ao alto da Graça coberta d'edificios -ecclesiasticos, com renques de janellinhas conventuaes e torres -d'igrejas, muito brancas sobre o azul: e a Penha de França, mais para -além, punha em relevo o vivo do muro caiado, d'onde sobresahia uma tira -verde-negra d'arvoredo. Á direita, sobre o monte pellado, o castello -assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a linha muito quebrada -de telhados, d'esquinas de casas da Mouraria e d'Alfama descia com -angulos bruscos até ás duas pesadas torres da Sé, d'um aspecto abbacial -e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz: duas velas -brancas passavam devagar: e na outra banda, á base de uma collina baixa -que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias d'uma -povoaçãosinha d'um branco de cré luzidio. Da cidade um rumor grosso e -lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos -carros de bois, a vibração metallica das carretas que levam ferraria, e -algum grito agudo de pregão. - ---Grande panorama!--disse o Conselheiro com emphase.--E encetou logo o -elogio da cidade. Era uma das mais bellas da Europa, de certo, e como -entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na immenso. Fôra -outr'ora um grande emporio, e era uma pena que a canalisação fosse tão -má, e a edilidade tão negligente! - ---Isto devia estar na mão dos inglezes, minha rica senhora!--exclamou. - -Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica. Jurou que «era -uma maneira de dizer». Queria a independencia do seu paiz; morreria por -ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!... Só nós, -minha senhora!--E acrescentou com uma voz respeitosa:--E Deus! - ---Que bonito está o rio!--disse Luiza. - -Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo: - ---O Tejo! - -Quiz então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas -brancas, amarellas, esvoaçavam; um gotejar d'agua fazia no tanque um -rhythmosinho de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava; sobre -a cabeça dos bustos de marmore, que se elevam d'entre os maciços e as -moitas de dhalias, passaros pousavam. - -Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava com as grades tão -altas... - ---Por causa dos suicidios!--acudiu logo o Conselheiro.--E -todavia, segundo a sua opinião, os suicidios em Lisboa diminuiam -consideravelmente; attribuia isso á maneira severa e muito louvavel -como a imprensa os condemnava... - ---Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força! - ---Se fossemos andando...?--lembrou Luiza. - -O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flôr, reteve-lhe -vivamente o braço: - ---Ah, minha rica senhora, por quem é! os regulamentos são muito -explicitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos!--E acrescentou:--O -exemplo deve vir de cima. - -Foram subindo, e Luiza pensava:--Vai para casa, larga-me ao Loreto. - -Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma confeitaria: era meia hora -depois do meio dia! Já Bazilio esperava! - -Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, -esperando. - ---Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro! - ---Já agora quero acompanhal-a, se v. exc.^a m'o permitte. De certo não -sou indiscreto? - ---Ora essa! De modo nenhum. - -Uma carruagem da Companhia passava, seguida d'um correio a trote. - -O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou profundamente o chapéo. - ---É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um signal de -dentro.--Começou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar; -vastissimo talento, uma linguagem muito castigada!--E ia de certo -fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para os Martyres, -erguendo um pouco o vestido por causa d'uns restos de lama. Parou á -porta da igreja, e sorrindo: - ---Vou aqui fazer uma devoçãosinha. Não o quero fazer esperar. Adeus, -Conselheiro, appareça.--Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão. - ---Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que não se demora -muito. Esperarei, não tenho pressa.--E com respeito:--Muito louvavel -esse zelo! - -Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do côro, -calculando:--Demoro-me aqui, elle cança-se d'esperar e vai-se! Por -cima reluziam vagamente os pingentes de crystal dos lustres. Havia -uma luz velada, igual, um pouco fôsca. E as architecturas caiadas, -a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas lateraes de pedra -davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da -capella, os frontaes rôxos dos pulpitos, ao fundo dous reposteiros d'um -rôxo mais escuro, e sob o docel côr de violeta os ouros do Throno. Um -silencio fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz de -joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava o chão com uma rodilha, -discretamente: dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de chales -tingidos, curvavam-se, aqui e além, diante d'um altar: e um velho, de -jaqueta de saragoça, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas n'uma -molopéa lugubre; via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos -sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero. - -Luiza subiu ao altar-mór. Bazilio impacientava-se, de certo, pobre -rapaz! Perguntou então, timidamente, as horas a um sacristão que -passava. O homem ergueu a sua face côr de cidra para uma janela na -cupula, e olhando Luiza de lado: - ---Vai indo p'ra as duas. - -Para as duas! Era capaz de não esperar, Bazilio! Veio-lhe um receio -de perder a sua manhã amorosa, um desejo aspero de se achar no -_Paraiso_ nos braços d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens -trespassadas d'espadas, os Christos chagados,--cheia de impaciencias -voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de -Bazilio!... Mas demorou-se, queria «fatigar o Conselheiro, deixal-o -ir». Quando pensou que elle teria partido, sahiu devagarinho.--Viu-o -logo á porta, direito, com as mãos atraz das costas, lendo a pauta dos -jurados. - -Começou immediatamente a louvar a sua devoção. Não entrára porque não -quizera perturbar o seu recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de -religião era a causa de toda a immoralidade que grassava... - ---E além d'isso é de boa educação. V. exc.^a ha-de reparar que toda a -nobreza cumpre... - -Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com -aquella linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, -curvou-se para ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo: - ---Está um dia apreciavel! - -E offereceu-lhe bolos á porta do Baltreschi. Luiza recusou. - ---Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas. - -A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia d'um zumbido; apesar -de não fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha -vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar, -infeliz, como somnambula, cheia da necessidade de chorar. - -Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois -d'hesitar pediu gravatas de _foulard_ a um caixeiro louro e jovial. - ---Brancas? de côr? de riscas? com pintinhas? - ---Sim, verei, sortidas. - -Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e -olhava em roda vagamente, pallida... O caixeiro perguntou-lhe se estava -incommodada: offereceu-lhe agua, qualquer cousa... - -Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria. Sahiu. O Conselheiro, -muito solicito, promptificou-se a acompanhal-a a uma boa pharmacia -tomar agua de flôr de laranja... Desciam então a rua Nova do Carmo, -e o Conselheiro ia affirmando que o caixeiro fôra muito polido: não -se admirava, porque no commercio havia filhos de boas familias: citou -exemplos. - -Mas vendo-a calada: - ---Ainda soffre? - ---Não, estou bem. - ---Temos dado um delicioso passeio! - -Foram ao comprido do Rocio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no -em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a -rua do Ouro. Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma idéa, -uma occasião, um acontecimento--e o Conselheiro, grave a seu lado, -dissertava. A vista do theatro de D. Maria levára-o para as questões -da arte dramatica: tinha achado que a peça do Ernestinho era talvez -demasiado forte. De resto só gostava de comedias. Não que se não -enthusiasmasse com as bellezas d'um _Frei Luiz de Sousa_! mas a sua -saude não lhe permittia as agitações fortes. Assim por exemplo... - -Mas Luiza tivera uma idéa, e immediatamente: - ---Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente. - -O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe a mão, -com a voz rapida: - ---Adeus, appareça, hein?--E precipitou-se para o portal do Vitry. - -Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados: -parou, arquejando: esperou: desceu devagar, espreitou á porta... A -figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das -secretarias. - -Chamou um trem. - ---A quanto puder!--exclamou. - -A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha do _Paraiso_. Figuras -pasmadas appareceram á janella. Subiu, palpitante. A porta estava -fechada--e logo a cancella do lado abriu-se, e a voz dôce da patrôa -segredou: - ---Já sahiu. Ha-de haver meia hora. - -Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo -do coupé, rompeu n'um chôro hysterico. Correu os _stores_ para se -esconder; arrancou o véo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias -inesperadas, Então veio-lhe um desejo phrenetico de vêr Bazilio! Bateu -nos vidros desesperadamente, gritou: - ---Ao Hotel Central! - -Porque estava n'um d'aquelles momentos em que os temperamentos -sensiveis teem impulsos indomaveis; ha uma delicia colerica em -espedaçar os deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente -o mal com estremecimentos de sensualidade! - -A parelha estacou, resvalando á porta do hotel. «O snr. Bazilio de -Brito não estava, o snr. visconde Reynaldo, sim». - ---Bem, para casa, para onde eu disse! - -O cocheiro bateu. E Luiza, sacudida por uma irritabilidade febril, -insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que -lh'os fizera conhecer, a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe -uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe -viesse á cabeça!... - -Á porta não tinha troco para o cocheiro. Espere!--disse, subindo -furiosa--Eu lhe mandarei pagar! - ---Que bicha!--pensou o cocheiro. - -Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a tão vermelha, tão -excitada. - -Luiza foi direita ao quarto: o _cuco_ cantava tres horas. Estava tudo -desarrumado; vasos de plantas no chão, o toucador coberto com um lençol -velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço amarrado na -cabeça, varria tranquillamente, cantarolando. - ---Então vossê ainda não arrumou o quarto!--gritou Luiza. - -Juliana estremeceu áquella colera inesperada. - ---Estava agora, minha senhora! - ---Que estava agora vejo eu!--rompeu Luiza.--São tres horas da tarde e -ainda o quarto n'este estado! - -Tinha atirado o chapéo, a sombrinha. - ---Como a senhora costuma vir sempre mais tarde...--disse Juliana. - -E seus beiços faziam-se brancos. - ---Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem vossê com isso? A -sua obrigação é arrumar logo que eu me levante. E não querendo, rua, -fazem-se-lhe as contas! - -Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os olhos injectados: - ---Olhe, sabe que mais? não estou para a aturar! - -E arremessou violentamente a vassoura. - ---Sáia!--berrou Luiza--Sáia immediatamente! Nem mais um momento em casa! - -Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas no peito, a -voz rouca: - ---Hei-de sahir se eu quizer! Se eu quizer! - ---Joanna!--bradou Luiza. - -Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguem! Mas Juliana -descomposta, com o punho no ar, toda a tremer: - ---A senhora não me faça sahir de mim! A senhora não me faça perder a -cabeça!--E com a voz estrangulada através dos dentes cerrados:--Olhe -que nem todos os papeis foram p'ra o lixo! - -Luiza recuou, gritou: - ---Que diz vossê? - ---Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu -aqui!--E bateu na algibeira, ferozmente. - -Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados, e cahiu no chão, -junto á _causeuse_, desmaiada. - - - - -VIII - - -A primeira impressão, mal acordada, de Luiza foi que duas figuras, -que não conhecia, estavam debruçadas sobre ella. Uma, a mais forte, -afastou-se; o som frio d'um frasco de vidro, pousado sobre o marmore do -toucador, despertou-a. Sentiu então uma voz dizer abafadamente: - ---Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente, snr.^a Juliana? - ---De repente. - ---Eu vi-a entrar tão afogueada... - -Passos subtis pisaram o tapete, a voz de Joanna perguntou-lhe junto do -rosto: - ---Está melhor, minha senhora? - -Abriu os olhos, a percepção nitida das cousas foi-lhe voltando; estava -estendida na _causeuse_, tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no -quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovêlo, devagar, -com um olhar errante, vago: - ---E a outra?... - ---A snr.^a Juliana? Foi-se deitar. Tambem se não achava bem. Foi de vêr -a senhora, coitada... Está melhorzinha? - -Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe -parecia oscillar brandamente: - ---Póde ir, Joanna, póde ir--disse. - ---A senhora não precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem... - -Luiza, só, pôz-se a olhar em roda, espantada. Estava já tudo arrumado, -as janellas cerradas. Uma luva ficára cahida no chão: ergueu-se, ainda -tropega, foi apanhal-a, esteve a esticar-lhe os dedos machinalmente, -como somnambula, pôl-a na gaveta do toucador. Alisou o cabello; -achava-se mudada, com _outra_ expressão como se fosse _outra_; e o -silencio do quarto impressionava-a, como extraordinario. - ---Minha senhora--disse a voz timida de Joanna. - ---Que é? - ---É o cocheiro. - -Luiza voltou-se, sem comprehender: - ---Que cocheiro? - ---Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha troco, que o mandou -esperar... - ---Ah! - -E como a uma luz de gaz que salta subitamente e alumia uma decoração, -viu, n'um relance, toda a «sua desgraça»! - -Ficou tão tremula que mal podia abrir a gavetinha da commoda: - ---Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido...--balbuciava. - -Deu o dinheiro a Joanna; e vindo cahir sobre a _causeuse_: - ---Estou perdida!--murmurou, apertando as mãos na cabeça. - -Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espirito, com a -intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, -o espanto dos seus amigos, a indignação d'uns, o escarneo dos outros; -e estas imagens cahindo com ruido na sua alma, como combustiveis n'uma -fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror. - -Que lhe restava?--Fugir com Bazilio! - -Aquella idéa, a primeira, a unica, apossou-se d'ella impetuosamente, -trespassou-a--como a agua d'uma inundação que subitamente alaga um -campo. - -Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no -seu _appartamento_ da rua Saint Florentin! Pois bem, iria! Não levaria -malas, poria no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa branca, as -joias da mamã... E os criados? a casa? Deixaria uma carta a Sebastião -para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de -riscadinho azul--ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia longe, -n'outras cidades... - ---Se a senhora quer vir jantar...--disse Joanna á porta do quarto. - -Tinha posto um avental branco, e acrescentou: - ---A snr.^a Juliana está deitada, diz que está com a dôr, não póde -servir á mesa. - ---Já vou. - -Tomou apenas uma colhér de sopa, bebeu um grande gole d'agua; e -erguendo-se: - ---Que tem ella? - ---Diz que é uma dôr muito forte no coração. - -Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, então! E com uma -esperança perversa: - ---Vá vêr, Joanna, vá vêr como está! - -Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dôr! Iria logo ao -quarto d'ella rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E não teria -medo do silencio da morte, nem da lividez do cadaver... - ---Está mais descançada, minha senhora--veio dizer a Joanna--diz que -logo que se levanta. Então a senhora não come mais nada? Credo! - ---Não. - -E entrou para o quarto, pensando:--de que serve estar a imaginar -cousas? Só me resta fugir. - -Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não pôde acertar com outras -palavras além do começo, no alto, n'uma letra muito trémula: _Meu -amigo!_ - -Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ella não voltasse, nem -á tarde, nem á noite--as criadas, a _outra_, a infame! iriam logo a -Sebastião. Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria algum -accidente, correria á Encarnação, depois á policia, esperaria n'uma -angustia até de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanças -de a vêr chegar, decepções aterradas,--até que telegrapharia a Jorge! -E a essa hora de certo, ella, encolhida no canto do wagon, rolaria, ao -ruido offegante da machina, para um destino novo!... - -Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraça! -O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro -paredes, passada a examinar roes de cozinha e a fazer _crochet_, e -partir com um homem novo e amado, ir para Paris! para Paris! viver nas -consolações do luxo, em alcovas de sêda, com um camarote na Opera!... -Era bem tola em se affligir! Quasi fôra uma felicidade aquelle -«desastre»! Sem elle nunca teria tido a coragem de se desembaraçar da -sua vida burgueza; mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria -sempre uma timidez maior para a reter! - -E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria só d'um homem; -não teria de amar em casa e amar fóra de casa! - -Veio-lhe mesmo a idéa de ir ter immediatamente com Bazilio, «acabar com -aquillo por uma vez». Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas -escuras, a noite, e os bebedos... - -Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu lenços, alguma roupa -branca, o estojo das unhas, o rosario que lhe dera Bazilio, pós -d'arroz, algumas joias que tinham pertencido á mamã... Quiz levar as -cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um cofre de sandalo, -no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as no regaço; abriu uma, d'onde -cahiu uma florzinha sêcca; outra que tinha, na dobra, a photographia -de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que não estavam completas! Tinha -_sete_: _cinco_ bilhetes curtos, e _duas_ cartas--a primeira que elle -lhe escrevêra, tão terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as... -Faltava, com effeito, a _primeira_, e _dous_ bilhetes! Tinha-lh'as -roubado, tambem!... Ergueu-se livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva -de subir ao sotão, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!... -Que lhe importava, por fim!--E deixou-se cahir na _causeuse_, -aniquilada--Que ella tivesse uma, duas, todas--era a mesma desgraça! - -E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o -chapéo, um chale-manta... - -O _cuco_ cantou dez horas. Entrou então na alcova; pôz o castiçal -sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de -fustão branco. Era a ultima vez que alli dormia! Fôra ella que bordára -aquella coberta de _crochet_ no primeiro anno de casada: não havia uma -malha que não correspondesse a uma alegria. Jorge ás vezes vinha vêl-a -trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou fallava-lhe -baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodão grosso! Alli dormira -com elle tres annos: o seu lugar era de lá, do lado da parede... Fôra -n'aquella cama que ella estivera doente, com a pneumonia. Durante -semanas elle não se deitára--a velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a -dar-lhe os caldos, os remedios, com toda a sorte de palavras dôces -que lhe faziam tão bem!... Fallava-lhe como a criancinha pequena: -dizia-lhe: «isso vai passar, ámanhã estás boa, vamos passear». Mas o -seu olhar ancioso estava marejado de lagrimas! Ou então pedia-lhe: -«Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!...» E ella -queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que -voltava, lhe refrescava o sangue! - -Nos primeiros dias da convalescença era elle que a vestia; ajoelhava-se -para lhe calçar os sapatos, embrulhava-a no roupão, vinha estendel-a na -_causeuse_, sentava-se ao pé d'ella a lêr-lhe romances, desenhar-lhe -paizagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda d'elle, -não tinha mais ninguem no mundo para a tratar, para soffrer, chorar -por ella--senão elle! Adormecia sempre com as mãos nas suas, porque -a doença deixára-lhe um vago medo dos pesadêlos da febre; e o pobre -Jorge, para a não acordar, alli ficava com a mão presa, horas, sem se -mover. Deitava-se vestido n'um colxãosito ao pé d'ella. Muitas vezes, -acordando de noite, o tinha visto a limpar as lagrimas; d'alegria, de -certo, porque ella então estava salva! o medico, o bom dr. Caminha, -tinha-o dito: «Está livre de perigo, agora é refazer esse corpinho». E -Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mãos do -velho,--tinha-as coberto de beijos! - -E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse! Quando ao entrar -alli na alcova--visse os dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe, -com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua. Que horror! E -elle alli estaria, n'aquella casa só, chorando, abraçado a Sebastião. -Quantas memorias d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas -chinellinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a d'elle! -Dormiria alli _só_! Já não teria ninguem para o acordar de manhã com um -beijinho, passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe: _é tarde, Jorge!_ -Tudo acabára para ambos. Nunca mais!--Rompeu a chorar, de bruços sobre -a cama... - -Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com Joanna. Ergueu-se -aterrada. Viria ter com ella, aquella infame? Os passos achinellados -afastaram-se devagar, e Joanna entrou com o rol e com a lamparina. - ---A snr.^a Juliana--disse--levantou-se um momento, mas diz que ainda -está mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora não precisa mais nada? - ---Não--disse da alcova. - -Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente. - - -Juliana em cima não dormia. A dôr passára-lhe--e agitava-se sobre o -enxergão, «com o diabo da espertina»! como tantas outras noites, nas -ultimas semanas. Porque desde que apanhára a carta no _sarcophago_ -vivia n'uma febre; mas a alegria era tão aguda, a esperança tão larga -que a sustentavam, lhe davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado -d'ella! Desde que Bazilio começára a vir a casa, tivera logo um -palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado emfim a sua vez! -A primeira satisfação fôra n'aquella noite em que achára, depois -de Bazilio sahir ás dez horas, a travéssinha de Luiza cahida ao pé -do sophá. Mas que explosão de felicidade, quando, depois de tanta -espionagem, de tanta canceira, apanhou emfim a carta no _sarcophago_! -Correu ao sotão, leu-a avidamente, e quando viu a importancia da -«cousa» arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, arremessou a sua alma -perversa para as alturas, bradando em si, n'um triumpho: - ---Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus! - -E que havia de fazer _áquillo_?--foi então a sua inquietação. Ora -pensava em a vender a Luiza por uma forte somma... mas onde tinha ella -o dinheiro? Não; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaças -de a publicar, extorquir-lhe _um rôr_ de libras por meio d'outra -pessoa, já se vê, e ella á capa! E em certos dias em que a figura, as -_toilettes_, as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe venetas -de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lêr o papel, pôl-a mais rasa -que a lama, vingar-se da «cabra»! - -Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo «que para -a armadilha ser completa era necessario uma carta do janota». Começára -então o lento trabalho de lh'a apanhar! Fôra preciso muita finura, -muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cêra, paciencia -de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a -lido com a tia Victoria--que rira, rira!... Sobre tudo o bilhete em -que Bazilio lhe dizia: «Hoje não posso ir, mas espero-te ámanhã ás -duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste á outra, -trazel-a no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o -peitinho perfumado!...» A tia Victoria, suffocada, quil-a mostrar á sua -velha amiga, a Pêdra, a Pêdra gorda, que estava na saleta. - -A Pêdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal -cheios, tinham sacudidellas furiosas de hilaridade. E com as mãos nas -ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone: - ---Essa é das boas, tia Victoria! Essa é de mestre. Não, isso merece ir -para os papeis! Ai os bebedos! Raios do diabo! - -A tia Victoria, então, disse muito seriamente a Juliana: - ---Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso já pódes fallar d'alto. -É esperar a occasião. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a -fartar para ella não desconfiar, e o olho álerta. Tens o rato seguro, -deixa-o dar ao rabo! - -E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito -comsigo--aquelle gozo de a ter «na mão», a Luizinha, a senhora, a -patroa, a _piorrinha_! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, -comer bem--e pensava com uma voluptuosidade felina: Anda, folga, folga, -que eu cá t'a tenho armada! Aquillo dava-lhe um orgulho perverso. -Sentia-se vagamente _senhora da casa_. Tinha alli fechada na mão a -felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patrões! Que desforra! - -E o futuro estava certo! _Aquillo_ era dinheiro, o pão da velhice. Ah! -tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma _Salvè-rainha_ de -graças a Nossa Senhora, mãi dos homens! - -Mas agora, depois d'aquella _scena_ com Luiza--não podia ficar de -braços cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sahir de casa, -pôr-se em campo, fazer _alguma cousa_. O que? A tia Victoria é que -havia de dizer... - -Logo pela manhã ás sete horas, sem tomar o seu café, sem fallar a -Joanna, desceu devagar, sahiu. - -A tia Victoria não estava em casa. Gente na saleta esperava. O snr. -Gouvêa, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, -dobrado, cuspilhando o seu catarrho. Juliana deu os _bons dias_ em -redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua sombrinha nos joelhos. - -Conversava-se: e uma mulher de trinta annos, picada das bexigas, que -estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana, -continuou, voltada para uma gordita com um chale de quadrados vermelhos: - ---Pois não imagina, snr.^a Anna, não faz idéa! É uma desgraça! É todas -as noites como um carro. Ás vezes até acordo com o barulho que elle faz -a fallar só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais medo, é que -o demonio adormeça com a luz e haja um fogo. Ah! é de todo! - ---Quem?--perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanario, -que fallava de pé a um criado alto, de suiças e gravata branca -enxovalhada. - ---O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça! - ---Piteireiro, hein?--disse o rapazola, enrolando o cigarro. - ---Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar no quarto, que é um -cheiro... A mãi, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser -posto fóra do emprego. Ai! não estou nada contente, nada contente! - ---Pois olhe que por lá tambem ha desgosto grande--disse, baixando a -voz, a do chale de quadrados. - -Os dous homens aproximaram-se. - ---O senhor--continuou ella com gestos aterrados--é um desafôro com a -cunhada!... A senhora sabe, e aquillo são questões de dia e de noite! -As duas irmãs andam n'uma bulha pegada. O homem toma as dôres da -rapariga, a mulher põe-se aos gritos... Ai! aquillo vem a acabar mal! - ---E então se a gente tem lá o seu descuido--disse o da gravata branca -com indignação--é aqui d'el-rei, e d'aqui e d'alli! - ---Lá a sua gente é socegada, snr. João--observou a picada das bexigas. - ---É boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas, -apanham o seu vestidito, a sua placa... Mas os velhotes é uma santa -gente, a verdade é a verdade! E come-se bem! - -E voltando-se para o trintanario, batendo-lhe no hombro, com uma voz -que o admirava e que o invejava: - ---Mas isto sim! Isto é que é leval-a! - -O rapazola sorriu com satisfação: - ---Ora! são mais as vozes do que as nozes! - ---Vá lá, mostra lá--disse o da gravata branca tocando-lhe com o -cotovêlo--mostra lá! - -O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaçando a -blusa, tirou do bolso do collete de riscadinho um relogio d'ouro. - ---Muito bonito! Rica prenda!--disseram as duas mulheres. - ---Suor do meu rosto--fez elle, acariciando o queixo. - -O da gravata branca indignou-se: - ---Ora seu marôto!--E baixo para as raparigas:--Suor do seu rosto, -hein!--É o seraphim da patrôa, uma senhora da alta que aquillo são tudo -sêdas, muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitissimo boa -mulher, recebe d'estas lembranças, um relogio d'um par de moedas--e -ainda falla! - -O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira: - ---E se quizer agora, ha-de largar a corrente! - ---Ha-de-lhe custar muito!--exclamou o da gravata branca.--Uma gente que -tem ahi pela baixa correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros -é d'ella! - ---Mas muito agarrada!--disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o -cigarro ao canto da bocca:--Estou com ella ha dous mezes, e ainda se -não desabotoou senão com o relogio e tres libras em ouro!... Que eu, -como quem diz, um dia passo-lhe o pé!--E cofiando o cabello para a -testa:--Não faltam mulheres! e das que tem _Dom_! - -Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com o chale no braço; e -vendo Juliana: - ---Olá! por cá! Tive que dar umas voltas, estou na rua desde as seis. -Bons dias, snr.^a Theodosia; bons dias, Anna. Viva, temos por cá o -alfenim! Entra cá p'ra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, é -um instante! - -Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão: - ---E então, que ha de novo? - -Juliana pôz-se a contar longamente a _scena_ da vespera, o desmaio... - ---Pois minha rica--disse a tia Victoria--o que está feito, está feito; -não ha tempo a perder; é mãos á obra! Tu vaes ao Brito, ao hótel, e -entendes-te com elle. - -Juliana recusou-se logo: não se atrevia, tinha medo... - -A tia Victoria reflectiu, coçando o ouvido; foi dentro, cochichou com o -tio Gouvêa, e voltando, fechando a porta do quarto: - ---Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas? - -Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim -escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Victoria com -desconfiança. - ---Tens medo de largar os papeis, creatura?--exclamou offendida a -velha.--Arranja-te tu, então arranja-te tu... - -Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!... - ---A pessoa--disse a tia Victoria--vai ámanhã á noite fallar com o -Brito, e pede-lhe um conto de reis! - -Juliana teve um deslumbramento. Um conto de reis! A tia Victoria estava -a brincar! - ---Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quasi não tinha mal -nenhum, pagou uma pessoa que bate ahi o Chiado de carruagem--ainda -hontem a vi com uma pequerrucha que tem--pagou trezentos mil reis. E em -bellas notas. Pagou-os o janota, já se sabe, foi o janota que pagou. Se -fosse outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um man-rôtas, cahe logo... - -Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, tremula: - ---Oh tia Victoria, dava-lhe um córte de sêda. - ---Azul! até já te digo a côr! - ---Mas o Brito é homem muito teso, tia Victoria, se lhe tira as cartas, -se lhe faz alguma! - -A tia Victoria fitou-a, com desdem: - ---Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu mando lá algum tolo? Nem as -cartas vão, o que vai é uma copia! Olha quem! O melro que lá ha-de ir! - -E depois de reflectir um momento: - ---Tu vai-te para casa... - ---Não, lá isso não volto... - ---Tambem tens razão. Até vêr em que param as modas, vem cá dormir. -Jantas cá hoje; tenho uma rica pescada... - ---Mas não haverá perigo, tia Victoria, se o Brito vai á policia... - -A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada: - ---Olha, vai-te, que me estás a emphrenesiar! Policia! Qual policia! -Essas cousas levam-se lá á policia... Deixa a cousa commigo! Adeus--e -ás quatro para jantar, hein! - -Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de reis! _Era o conto de -reis_ que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe -vinha agora cahir na mão, com um tlin-tlin de libras e um _frou-frou_ -de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas -differentes, todas maravilhosas: um mostrador de capellista onda ella -venderia! um marido ao seu lado, ás horas da cêa! pares de botinas das -boas, das _chics_. Onde poria o dinheiro? No Banco? Não; no fundo da -arca--para estar mais seguro, mais á mão! - -Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de rebuçados, e foi-se -sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando -já a sua vida rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um -proprietario pacifico e rubicundo--que se afastou escandalisado! - -Áquella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente na cama:--É -hoje!--foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel -contrahiram-lhe o coração. Começou depois a vestir-se, muito nervosa -com a idéa de vêr Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, não -almoçar, sahir pé ante pé ás onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel, -quando a voz de Joanna disse á porta do quarto: - ---A senhora faz favor? - -Começou logo a contar, muito espantada, que a snr.^a Juliana tinha -sahido de manhã, ainda não voltára, estava tudo por arrumar... - ---Bem, arranje-me o almoço, eu já vou...--Que allivio para ella! - -Calculou logo que Juliana deixára a casa. Para que? Para lhe armar -alguma, de certo! O melhor era sahir immediatamente... Podia esperar -Bazilio no _Paraiso_. - -Foi á sala de jantar, bebeu um gole de chá, de pé, á pressa. - ---A snr.^a Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?--veio dizer Joanna -assombrada. - -Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente: - ---Depois se saberá... - -Era hora e meia, foi pôr o chapéo. O coração batia-lhe alto, e -apesar do terror de vêr entrar Juliana, não se decidia a sahir; -sentou-se mesmo, com o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou -emfim.--Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa de subtil e de forte -a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar: o seu roupão -estava cahido aos pés da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete -felpudo...--Que desgraça! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos -pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao album, -tirou a photographia de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de -marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, sahiu, atirou com a -porta, desceu a escada correndo. - -Á Patriarchal passava um _coupé de praça_. Tomou-o, mandou-o ir ao -_Hotel Central_. - -O snr. Brito sahira logo de manhã cedo, disse o porteiro muito -azafamado. De certo algum paquete chegára, porque entravam bagagens, -fortes malas cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; -passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouço -do mar, fallavam, chamavam. Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um -desejo de viagens, do ruido nocturno das _gares_ á claridade do gaz, da -agitação alegre das partidas nas manhãs frescas, sobre o tombadilho dos -paquetes! - -Deu ao cocheiro a adresse do _Paraiso_. E á maneira que o trem -trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, -se esbatiam, se dissipavam n'um horisonte abandonado. Á porta d'um -livreiro julgou entrevêr Julião; debruçou-se pela portinhola, -precipitadamente; não o avistou, teve pena: ia-se sem vêr um amigo da -casa! Todos agora, Julião, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe -pareciam adoraveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que -repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastião, tão bom! -Nunca mais lhe ouviria tocar a sua _Malaguenha_! - -Ao fim da rua do Ouro o _coupé_ parou n'um embaraço de carroças, -e Luiza viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos oculos, o -banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que «tinha uma paixão por ella»: -um rapazito rôto offerecia-lhe cautelas; e o Castro nedio, com os dous -pollegares nas algibeiras do collete branco, dizia graças ao rapaz, com -um desdem ricaço, dardejando olhadellas sobre Luiza, através dos seus -oculos d'ouro. Ella, pelo canto do olho, observava-o: tinha uma paixão -por ella, aquelle homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre -pançudo, a perninha curta. A lembrança de Bazilio atravessou-a, a sua -linda figura!...--e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o vêr. - -O trem partiu emfim. O Rocio reluzia ao sol; do Americano, parado á -esquina, gente descia apressada, de calças brancas, vestidos leves, -vinda de Belem, de Pedrouços; pregões cantavam.--Todos alli ficavam nas -suas familias, nas suas felicidades, só ella partia! - -Na rua Occidental, viu vir a D. Camilla--uma senhora casada com um -velho, illustre pelos seus amantes. Parecia gravida; e adiantava-se -devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo -arredondado, passeando um marmanjosinho de jaqueta côr de pinhão, -uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de -lavradeira, empurrava um carrinho de mão onde um bébé se babava. E -a Camilla, feliz, vinha tranquillamente pela rua expondo as suas -fecundidades adulteras! Era muito festejada, ninguem dizia mal d'ella; -era rica, dava _soirées_...--O que é o mundo!--pensava Luiza. - -O trem parou á porta do _Paraiso_, era meio dia. A portinha em cima -estava fechada: e a patrôa appareceu logo, ciciando que «sentia -muitissimo, mas só o senhor é que tinha a chavesinha, se a senhora -quizesse descançar...» N'este momento outra carruagem chegou, e Bazilio -appareceu galgando os degraus. - ---Até que emfim!--exclamou abrindo a porta.--Porque não vieste -hontem?... - ---Ah! se tu soubesses... - -E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos n'elle: - ---Bazilio, sabes, estou perdida! - ---Que ha? - -Luiza atirára o sacco de marroquim para o canapé, e, d'um folego, -contou-lhe a historia da carta apanhada nos papeis, as d'elle roubadas, -a _scena_ no quarto...--O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu -disseste que podias, tens-l'o dito muitas vezes. Estou prompta. Trouxe -aquelle sacco, com o necessario, lenços, luvas... hein? - -Bazilio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as -chaves, seguia attonito os seus gestos, as suas palavras. - ---Isso só a ti!--exclamou.--Que douda! Que mulher!--E muito -excitado:--Isso é lá questão de fugir? Que estás tu a fallar em fugir? -É uma questão de dinheiro. O que ella quer é dinheiro. É vêr quanto -quer, e pagar-se-lhe! - ---Não, não!--fez Luiza--Não posso ficar!--Tinha uma afflicção na voz. -A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo: a todo o tempo -podia fallar, Jorge saber: estava perdida, não tinha coragem de voltar -para casa!--Não sinto um momento de descanço, em quanto estiver em -Lisboa. Partimos hoje, sim? Se não pódes, ámanhã. Eu vou para algum -hotel, aonde ninguem saiba, escondo-me esta noite. Mas, ámanhã vamos. -Se elle sabe, mata-me, Bazilio! Sim, dize que sim!--Agarrára-se a elle, -procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos d'elle. - -Bazilio desprendeu-se brandamente: - ---Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Póde lá pensar-se em fugir! -Era um escandalo atroz, eramos apanhados de certo, com a policia, com -os telegraphos! É impossivel! Fugir é bom nos romances! E depois, minha -filha, não é um caso para isso! É uma simples questão de dinheiro... - -Luiza fazia-se branca, ouvindo-o. - ---E além d'isso--continuou Bazilio, muito agitado, pelo quarto--eu -não estou preparado, nem tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada -para toda a vida, sem remedio, Luiza. Uma mulher que foge, deixa de -ser a snr.^a D. Fulana, é a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma -concubina! Eu tenho de certo de ir ao Brazil, onde has-de tu ficar? -Queres ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te á febre amarella? -E se teu marido nos persegue se formos detidos na fronteira? Achas -bonito voltar entre dous policias, e ir passar um anno ao Limoeiro? O -teu caso é simplicissimo. Entendes-te com essa creatura, dá-se-lhe um -par de libras, que é o que ella quer, e ficas em tua casa, socegada, -respeitada como d'antes--sómente mais acautelada! Aqui está! - -Aquellas palavras cahiam sobre os planos de Luiza, como machadadas que -derrubam arvores. Ás vezes a verdade que ellas continham atravessava-a -irresistivelmente, viva como um relampago, desagradavel como um gume -frio. Mas via n'aquella recusa uma ingratidão, um abandono. Depois -de se ter installado, pela imaginação, n'uma segurança feliz, longe, -em Paris--parecia-lhe intoleravel ter de voltar para casa, de cabeça -baixa, soffrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que -entrevira n'aquelle outro destino, agora que lhe fugiam d'entre as -mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis! E depois de que -servia resgatar a carta a dinheiro? A creatura saberia o seu segredo! -E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquelle perigo a -rondar! - -Ficára calada, como perdida n'uma reflexão vaga; e de repente erguendo -a cabeça, com um olhar brilhante: - ---Então, dize!... - ---Mas estou-te a dizer, filha... - ---Não queres? - ---Não!--exclamou Bazilio com força.--Se tu estás douda, não estou eu! - ---Oh! pobre de mim, pobre de mim! - -Deixou-se cahir no sophá, tapou o rosto com as mãos. Soluços baixos -sacudiam-lhe o peito. - -Bazilio sentou-se ao pé d'ella. Aquellas lagrimas mortificavam-no, e -impacientavam-no. - ---Mas, santo nome de Deus, escuta-me! - -Ella voltou para elle os olhos que reluziam sob o pranto: - ---Para que dizias então, tantas vezes, que seriamos tão felizes, que se -eu quizesse... - -Bazilio ergueu-se bruscamente: - ---Pois tu pensaste em fugir, em te metter commigo n'um wagon, vir para -Paris, viver commigo, ser a minha amante? - ---Sahi de casa p'ra sempre, ahi está o que eu fiz! - ---Mas vaes voltar p'ra casa!--exclamou elle, quasi com colera.--Por que -havias de tu fugir? por amor? então deviamos ter partido ha um mez, não -ha razão agora para irmos. Para que, então? Para evitar um escandalo? -com um escandalo maior, não é verdade? um escandalo irreparavel, -medonho! Estou-te a fallar como um amigo, Luiza!--Tomou-lhe as mãos, -com muita ternura:--Tu imaginas que eu não seria feliz em ir viver -comtigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiencia. O -escandalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu imaginas que a -mulher vai-se pôr a fallar? O seu interesse é safar-se, desapparecer; -sabe perfeitamente o que fez, que te roubou, que usou de chaves falsas. -A questão é pagar-lhe. - -Ella disse, com uma voz lenta: - ---E o dinheiro, onde o tenho eu? - ---Está claro que o dinheiro tenho-o eu!--E depois de uma pausa:--Não -muito, estou mesmo um pouco atrapalhado, mas emfim...--Hesitou, -disse:--se a creatura quizer duzentos mil reis, dão-se-lhe! - ---E se não quizer? - ---Que ha-de ella querer, então? Se roubou a carta é para a vender! Não -é para guardar um autographo teu! - -Vinham-lhe palavras duras, passeava pelo quarto exasperado. Que -pretensão querer vir com elle para Paris, embaraçar-lhe para sempre -a sua vida! E que despeza tão tola, dar um 'rôr de libras a uma -ladra! Depois aquelle incidente, a carta de namoro roubada nos papeis -sujos, a criada, a chave falsa do gavetão dos vestidos--parecia-lhe -soberanamente burguez, um pouco pulha. E parando, para acabar: - ---Emfim oferece-lhe trezentos mil reis, se quizeres. Mas pelo amor -de Deus, não faças outra; não estou para pagar as tuas distracções a -trezentos mil reis cada uma! - -Luiza fez-se livida, como se elle lhe tivesse cuspido no rosto. - ---Se é uma questão de dinheiro, eu o pagarei, Bazilio! - -Não sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia... -Não o aceitaria d'elle! - -Bazilio encolheu os hombros: - ---Estás-te a dar ares, onde o tens tu? - ---Que te importa?--exclamou. - -Bazilio coçou a cabeça, desesperado. E tomando-lhe as mãos, com uma -impaciencia reprimida: - ---Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... Tu não tens -dinheiro. - -Ella interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o braço: - ---Pois sim, mas falla tu a essa mulher, falla-lhe tu, arranja tudo. Eu -não a quero tornar a vêr. Se a vejo, morro, acredita. Falla-lhe tu! - -Bazilio recuou vivamente, e batendo com o pé: - ---Estás douda, mulher! Se eu lhe fallo, então pede tudo, então pede-me -a pelle! Isso é comtigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te! - ---Nem isso me fazes? - -Bazilio não se conteve: - ---Não! c'os diabos, não! - ---Adeus! - ---Tu estás fóra de ti, Luiza! - ---Não. A culpa é minha--dizia, descendo o véo com as mãos tremulas--eu -é que devo arranjar tudo! - -E abriu a porta. Bazilio correu a ella, prendeu-a por um braço. - ---Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? não podemos romper assim! -Escuta... - ---Fujamos então, salva-me de todo!--gritou ella, abraçando-o -anciosamente. - ---Caramba! Se te estou a dizer que não é possivel! - -Ella atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O coupé esperava-a. - ---Para o Rocio--disse. - -E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar -convulsivamente. - - -Bazilio sahiu do _Paraiso_ muito agitado. As pretensões de Luiza, os -seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no -tanto, que tinha quasi vontade de não voltar ao _Paraiso_, calar-se, e -_deixar correr o marfim_! Mas tinha pena d'ella, coitada! E depois, sem -a amar appetecia-a: era tão bem feita, tão amorosa, as revelações do -vicio davam-lhe um delirio tão adoravel! Um conchegosinho tão picante -em quanto estivesse em Lisboa... Maldita complicação! Ao entrar no -hotel, disse ao seu criado: - ---Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que vá ao meu quarto. - -Estava alojado no segundo andar, com janellas para o rio. Bebeu um -calix de cognac, e estirou-se no sophá. Ao pé, na jardineira, tinha o -seu _buvard_ com um largo monogramma em prata sob a corôa de conde, -caixas de charutos, os seus livros--_Mademoiselle Giraud ma femme_, -_La vierge de Mabille_, _Ces Frippones! Memoires secrètes d'une femme -de chambre_, _Le chien d'arrêt_, _Manuel du chasseur_, numeros do -_Figaro_, a photographia de Luiza, e a photographia d'um cavallo. - -E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a -«situação»! Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris, com -aquelle trambolhosinho! Trazer uma pessoa, havia sete annos, a sua -vida tão arranjadinha, e patatrás! embrulhar tudo, porque á menina -lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! -No fim, toda aquella aventura desde o começo fôra um erro! Tinha sido -uma idéa de burguez inflammado ir desinquietar a prima da Patriarchal. -Viera a Lisboa para os seus negocios, era tratal-os, aturar o calor -e o _b[oe]uf à la mode_ do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar -a patria ao inferno!... Mas não idiota! Os seus negocios tinham-se -concluido,--e elle, burro, ficára alli a torrar em Lisboa, a gastar uma -fortuna em tipoias para o largo de Santa Barbara, para quê? Para uma -d'aquellas! Antes ter trazido a Alphonsine! - -Que, verdade, verdade, em quanto estivesse em Lisboa o romance era -agradavel, muito excitante; porque era muito completo! Havia o -adulteriosinho, o incestosinho. Mas aquelle episodio agora estragava -tudo! Não, realmente, o mais razoavel era safar-se! - -A sua fortuna tinha sido feita com negocio de borracha, no alto -Paraguay; a grandeza da especulação trouxera a formação d'uma -companhia, com capitaes brazileiros; mas Bazilio e alguns engenheiros -francezes queriam resgatar as acções brazileiras, «que eram um -_empecilho_», formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negocio -um movimento mais ousado. Bazilio partira para Lisboa entender-se com -alguns brazileiros, e comprára as acções habilmente. A prolongação -d'aquelle incidente amoroso tornava-se uma perturbação na sua vida -pratica... E, agora que a aventura tomava um aspecto seccante, convinha -passar o pé! - -A porta abriu-se e o visconde Reynaldo entrou--afogueado, de lunetas -azues, furioso. - -Vinha de Bemfica! Morto, absolutamente morto com aquelle calor, d'um -paiz de negros. Tivera a estupida idéa de ir visitar uma tia--que o -fizera logo membro d'uma associação para não sei que diabo de que -creche, e que lhe prégára moral! Tambem que idéa de collegial--ir -visitar a tia! Porque realmente, se havia uma cousa que lhe causasse -repugnancia, eram as ternuras de familia! - ---E tu, que queres tu? Eu vou-me metter n'um banho até ao jantar! - ---Sabes o que me succede?--disse Bazilio, erguendo-se. - ---O quê? - ---Imagina. O caso mais estupido. - ---O marido apanhou-te? - ---Não, a criada! - ---_Shocking!_--exclamou Reynaldo com nôjo. - -Bazilio contou miudamente «o caso». E cruzando os braços diante d'elle: - ---E agora? - ---Agora é safar-te! - -E levantou-se. - ---Onde vaes tu? - ---Vou ao banho. - -Que esperasse, que diabo, queria fallar com elle... - ---Não posso!--exclamou Reynaldo com um egoismo phrenetico.--Vem tu cá -abaixo! Posso perfeitamente conversar na agua! - -Sahiu, berrando por William, o seu criado inglez. - -Quando Bazilio desceu aos banhos, Reynaldo estirado com voluptuosidade -na tina, d'onde sahia um forte cheiro d'agua de Lubin, exclamou, -deleitando-se no seu conforto: - ---Então cartinha apanhada nos papeis sujos! - ---Não, Reynaldo, mas francamente estou embaraçado; que achas tu que eu -faça? - ---As malas, menino! - -E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro: - ---Ahi está o que é fazer amor ás primas da Patriarchal Queimada! - ---Oh!--fez Bazilio, impaciente. - ---Oh quê?--E, coberto de flocos d'espuma, com as mãos apoiadas ao -rebordo de marmore da tina:--Pois tu achas isso decente, uma mulher -que toma a cozinheira por confidente, que lhe está na mão, que perde a -carta nos papeis sujos, que chora, que pede duzentos mil reis, que se -quer safar--isso é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu -mesmo disseste, usa meias de tear! - ---Meu rico, é uma mulher deliciosa! - -O outro encolheu os hombros, descrente. - -Bazilio deu logo provas: descreveu bellezas do corpo de Luiza; citou -episodios lascivos. - -O tecto e os tabiques envernizados de branco reflectiam a luz, com tons -macios de leite; a exhalação da agua tepida augmentava o calor morno; e -um cheiro fresco de sabão e agua de Lubin adoçava o ar. - ---Bem! estás pelo beiço--resumiu Reynaldo com tedio, estirando-se. - -Bazilio teve um movimento d'hombros, que repellia aquella supposição -grotesca. - ---Mas dize, então, queres ficar-lhe agarrado ás saias ou queres -desembaraçar-te d'ella? Mas a verdade, venha a verdade! - ---Eu--disse logo Bazilio, chegando-se á tina, baixo--se me podesse -desembaraçar decentemente... - ---Oh desgraçado! tens uma occasião divina! Ella sahiu como uma bicha, -dizes tu. Bem; escreve-lhe uma carta, «que vendo que ella deseja -romper, não a queres importunar, e partes». Os teus negocios estão -concluidos, não é verdade? Escusas de negar, o Lapierre disse-me que -sim. Bem, então sê decente: manda fazer as malas, e livra-te da sarna! - -E tomando a esponja, deixava cahir grandes golpes d'agua pela cabeça, -pelos hombros, soprando, regalado na frescura aromatica. - ---Mas tambem--disse Bazilio--deixal-a agora n'aquella atrapalhação com -a criada! No fim é minha prima... - -Reynaldo agitou os braços, com hilaridade. - ---Esse espirito de familia é optimo! Vai lá, idiota, dize-lhe que és -obrigado a partir, os teus negocios, etc., e mette-lhe umas poucas de -notas na mão. - ---É brutal... - ---É caro! - -Bazilio disse então: - ---Olha que tambem é uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela -criada... - -Reynaldo estirou-se mais, e disse com jubilo: - ---Estão a estas horas a esgadanharem-se uma á outra! - -Recostou-se, n'uma beatitude: quiz saber as horas; declarou que estava -confortavel, que se sentia feliz! Com tanto que o John se não tivesse -esquecido de _frapper_ o champagne! - -Bazilio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luiza de reps verde, -a figura horrivel de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com -effeito a ralhar, a descompôr-se? Que _pulhice_ que era tudo aquillo! -Positivamente devia partir. - ---Mas que pretexto lhe hei-de eu dar para sahir de Lisboa? - ---Um telegramma! Não ha nada como um telegramma! Telegrapha já ao teu -homem em Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que é, que te -mande logo este despacho: «Parta, negocios maus, etc.» É o melhor! - ---Vou fazel-o--disse Bazilio erguendo-se, muito decidido. - ---E partimos ámanhã?--gritou Reynaldo. - ---Ámanhã. - ---Por Madrid? - ---Por Madrid. - ---_Salero!_--Pôz-se de pé, na tina, enthusiasmado, a escorrer, e -com movimentos aduncos de magricella saltou para fóra, embrulhou-se -no roupão turco. O seu criado William entrou logo, subtilmente, -ajoelhou-se, tomou-lhe um pé entre as mãos, seccou-lh'o com precauções, -pôz-se respeitosamente a calçar-lhe a meia de sêda preta com -ferradurinhas bordadas. - - -Na manhã seguinte, um pouco antes do meio dia, Joanna veio bater -discretamente á porta do quarto de Luiza, e com a voz baixa--desde o -desmaio fallava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente: - ---Está alli o primo da senhora. - -Luiza ficou surprehendida. Estava ainda de _robe de chambre_, e tinha -os olhos vermelhos de chorar; pôz n'um instante um pouco de pó d'arroz, -alisou o cabello, entrou na sala. - -Bazilio, vestido de claro, sentára-se melancolicamente no môcho do -piano. Trazia um ar grave, e, sem transição, começou a dizer:--que -apesar d'ella se ter zangado na vespera, elle considerava ainda tudo -«como d'antes». Viera porque n'aquelle momento não se podiam separar -sem algumas explicações, sobretudo sem resolver definitivamente o caso -da carta... E com um gesto triste, como contendo lagrimas: - ---Porque eu vejo-me forçado a sahir de Lisboa, minha querida! - -Luiza, sem olhar para elle, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso. -Bazilio acrescentou logo: - ---Por pouco tempo, naturalmente, tres semanas ou um mez... Mas enfim -tenho de partir... Se fossem só os meus interesses!--Encolheu os -hombros com desdem.--Mas são interesses d'outros... E aqui está o que -eu recebi esta manhã. - -Estendeu-lhe um telegramma. Ella conservou-o um momento, sem o abrir; a -sua mão fazia tremer o papel. - ---Lê, peço-te que leias! - ---Para que?--fez ella. - -Mas leu baixo: «Venha, graves complicações. Presença absolutamente -necessaria. Parta já.» - -Dobrou o papel, entregou-lh'o. - ---E partes, hein? - ---É forçoso. - ---Quando? - ---Esta noite. - -Luiza ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mão: - ---Bem, adeus. - -Bazilio murmurou: - ---És cruel, Luiza!... Não importa! Em todo o caso ha um negocio que é -necessario terminar. Fallaste á mulher? - ---Está tudo arranjado--respondeu ella, franzindo a testa. - -Bazilio tomou-lhe a mão, e quasi com solemnidade: - ---Minha filha, eu sei que és muito orgulhosa, mas peço-te que digas a -verdade. Eu não te quero deixar em difficuldades. Fallaste-lhe? - -Ella retirou a mão, e com uma impaciencia crescente: - ---Arranjou-se tudo, arranjou-se tudo!... - -Bazilio parecia muito embaraçado, estava mesmo um pouco pallido: emfim, -tirando uma carteira da algibeira, começou: - ---Em todo o caso é possivel, é natural (nós não sabemos com quem -lidamos), é natural que haja outras exigencias...--Abriu a carteira, -tomou um sobrescripto pequenino e cheio. - -Luiza seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Bazilio. - ---Por isso, para te poderes entender melhor com ella, sempre me parece -bom deixar-te algum dinheiro. - ---Tu estás doudo?--exclamou ella. - ---Mas... - ---Tu queres-me dar dinheiro?--A sua voz tremia. - ---Mas emfim... - ---Adeus!--E ia sahir da sala, indignada. - ---Luiza, pelo amor de Deus! Tu não me comprehendeste... - -Ella parou, disse precipitadamente, como impaciente por acabar: - ---Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas não, não é necessario. Estou -nervosa, é o que é... Não prolonguemos mais isto... Adeus... - ---Mas sabes que volto, dentro de tres semanas... - ---Bem, então nos veremos... - -Elle attrahiu-a, deu-lhe um beijo na bocca, encontrou os seus labios -passivos e inertes. - -Aquella frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito; -disse-lhe baixo, pondo muita paixão na voz: - ---Nem um beijo me queres dar? - -Nos olhos de Luiza passou um ligeiro clarão; beijou-o rapidamente, e -recuando: - ---Adeus. - -Bazilio esteve um momento a olhal-a, teve como um leve suspiro: - ---Adeus!--E da porta, voltando-se, com melancolia:--Escreve-me ao -menos. Sabes a minha morada. Rue Saint Florentin, 22. - -Luiza chegou-se á janella. Viu-o accender o charuto na rua, fallar ao -cocheiro, saltar para o coupé, fechar com força a portinhola, sem um -olhar para as janellas! - -O trem rolou. Era o n.^o 10... Nunca mais o veria! Tinham palpitado -no mesmo amor, tinham commettido a mesma culpa.--Elle partia alegre, -levando as recordações romanescas da aventura: ella ficava, nas -amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo! - -Veio-lhe um sentimento pungente de solidão e de abandono. Estava só, e -a vida apparecia-lhe como uma vasta planicie desconhecida, coberta da -densa noite, erriçada de perigos! - -Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cahir no sophá: viu ao pé o -sacco de marroquim, que preparára na vespera para fugir: abriu-o, -pôz-se a tirar lentamente os lenços, uma camisinha bordada,--encontrou -a photographia de Jorge! Ficou com ella na mão, contemplando o seu -olhar leal, o seu sorriso bom.--Não, não estava no mundo só! Tinha-o -a elle! Amava-a aquelle, nunca a trahiria, nunca a abandonaria!--E -collando os beiços ao retrato, humedecendo-o de beijos convulsivos, -atirou-se de bruços, lavada em lagrimas, dizendo:--Perdôa-me, Jorge, -meu Jorge, meu querido Jorge, Jorge da minha alma! - - -Depois de jantar Joanna veio dizer-lhe timidamente: - ---A senhora não lhe parece que seria bom ir saber da snr.^a Juliana? - ---Mas onde quer vossê ir saber?--perguntou Luiza. - ---Ella ás vezes vai a casa d'uma amiga, uma inculcadeira, para os -lados do Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas tambem -não mandar recado desde hontem pela manhã... Cousa assim! Eu podia ir -saber... - ---Pois bem, vá, vá. - -Aquella desapparição brusca inquietava tambem Luiza. Onde estava, -que fazia? Parecia-lhe que alguma cousa se tramava em segredo, -longe d'ella, que viria de repente estalar-lhe sobre a cabeça, -terrivelmente... - -Anoiteceu. Accendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim só -em casa: e, passeando pelo quarto, pensava que áquella hora Bazilio -em Santa Apolonia comprava alegremente o seu bilhete, installava-se -no wagon, accendia o charuto, e d'ahi a pouco, a machina arquejando -leval-o-hia para sempre! Porque não acreditava «na demora de tres -semanas, um mez»! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar -sentia que alguma cousa dentro em si se partia com aquella separação, e -sangrava dolorosamente! - -Eram quasi nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou -que seria Joanna de volta, foi abrir com um castiçal,--e recuou vendo -Juliana, amarella, muita alterada. - ---A senhora faz favor de me dar uma palavra? - -Entrou no quarto atraz de Luiza, e immediatamente rompeu, gritando, -furiosa: - ---Então a senhora imagina que isto ha-de ficar assim? A senhora imagina -que por seu amante se safar, isto ha-de ficar assim? - ---Que é, mulher?--fez Luiza, petrificada. - ---Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto ha-de ficar -em nada?--berrou. - ---Oh mulher, pelo amor de Deus!... - -A sua voz tinha tanta angustia que Juliana calou-se. - -Mas depois de um momento, mais baixo: - ---A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma cousa -era! Queria pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou cançada -de trabalhar, e quero o meu descanço. Não ia fazer escandalo, o que -desejava é que elle me ajudasse... Mandei ao hótel esta tarde... O -primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivaes, -para o inferno! E o criado ia á noite com as malas. Mas a senhora -pensa que me logram?--E retomada pela sua colera, batendo com o punho -furiosamente na mesa:--Raios me partam, se não houver uma desgraça -n'esta casa, que ha-de ser fallada em Portugal! - ---Quanto quer vossê pelas cartas, sua ladra?--disse Luiza, erguendo-se -direita, diante d'ella. - -Juliana ficou um momento interdicta. - ---A senhora ou me dá seiscentos mil reis, ou eu não largo os -papeis!--respondeu, empertigando-se. - ---Seiscentos mil reis! Onde quer vossê que eu vá buscar seiscentos mil -reis? - ---Ao inferno!--gritou Juliana.--Ou me dá seiscentos mil reis, ou tão -certo como eu estar aqui, o seu marido ha-de lêr as cartas! - -Luiza deixou-se cahir n'uma cadeira, aniquilada. - ---Que fiz eu para isto, meu Deus, que fiz para isto? - -Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente. - ---A senhora diz bem, sou uma ladra, é verdade, apanhei a carta no -cisco, tirei as outras do gavetão. É verdade! E foi para isto, para -m'as pagarem!--E traçando, destraçando o chale, n'uma excitação -phrenetica:--Não que a minha vez havia de chegar! Tenho soffrido muito, -estou farta! Vá buscar o dinheiro onde quizer. Nem cinco reis de menos! -Tenho passado annos e annos a ralar-me! P'ra ganhar meia moeda por mez, -estafo-me a trabalhar, de madrugada até á noite, em quanto a senhora -está de panria! É que eu levanto-me ás seis horas da manhã--e é logo -engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora está muito regalada em -valle de lençoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez que me ergo -com o dia, p'ra metter em gomma, passar, engommar! A senhora suja, -suja, quer ir vêr quem lhe parece, apparecer-lhe com tafularias por -baixo, e cá está a negra, com a pontada no coração, a matar-se, com o -ferro na mão! E a senhora, são passeios, tipoias, boas sêdas, tudo o -que lhe appetece--e a negra? A negra a esfalfar-se! - -Luiza, quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob aquella colera -como um passaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma -violencia da sua voz. E as lembranças das fadigas, das humilhações, -vinham atear-lhe a raiva, como achas n'uma fogueira. - ---Pois que lhe parece?--exclamava.--Não que eu cômo os restos e a -senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma -gota de vinho, quem m'o dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao -meu quarto? É uma enxovia! A persevejada é tanta que tenho de dormir -quasi vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de -desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! -A criada é o animal. Trabalha se pódes, senão rua, para o hospital. -Mas chegou-me a minha vez--e dava palmadas no peito, fulgurante de -vingança.--Quem manda agora, sou eu! - -Luiza soluçava baixo. - ---A senhora chora! tambem eu tenho chorado muita lagrima! Ai! eu não -lhe quero mal, minha senhora, certamente que não! Que se divirta, que -goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. O que eu quero é o meu -dinheiro aqui escarrado, ou o papel ha-de ser fallado! Ainda este tecto -me rache, se eu não fôr mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos, -á visinhança toda, que ha-de andar arrastada pelas ruas da amargura! - -Calou-se, exhausta; e com a voz entrecortada de cansaços: - ---Mas dê-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui -tem os papeis, e o que lá vai, lá vai, e até lhe levo outras. Mas o -meu dinheiro p'ra aqui! E tambem lhe digo, que morta seja eu n'este -instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta bocca -se torna a abrir!--E deu uma palmada na bocca. - -Luiza erguera-se devagar, muito branca: - ---Pois bem--disse, quasi n'um murmurio--eu lhe arranjarei o dinheiro. -Espere uns dias. - -Fez-se um silencio--que depois do ruido parecia muito profundo, e tudo -no quarto como que se tornára mais immovel. Apenas o relogio batia o -seu _tic-tac_, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma -luz avermelhada, e direita. - -Juliana tomou a sombrinha, traçou o chale, e depois de fitar Luiza um -momento: - ---Bem, minha senhora--disse, muito secca. - -Voltou as costas, sahiu. - -Luiza sentiu-a bater a cancella com força. - ---Que expiação, Santo Deus!--exclamou, cahindo n'uma cadeira, banhada -de novo em lagrimas. - -Eram quasi dez horas quando Joanna voltou. - ---Não pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira ninguem sabe -d'ella. - ---Bem, traga a lamparina. - -E Joanna ao despir-se no seu quarto, rosnava comsigo: - ---A mulher tem arranjo, está mettida por ahi com algum sucio! - - -Que noite para Luiza! A cada momento acordava n'um sobresalto, abria -os olhos na penumbra do quarto, e cahia-lhe logo na alma, como uma -punhalada, aquelle cuidado pungente: Que havia de fazer? Como havia -d'arranjar dinheiro? Seiscentos mil reis! As suas joias valiam talvez -duzentos mil reis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas -era o mesmo! - -A noite estava quente, e na sua inquietação a roupa escorregára, apenas -lhe restava o lençol sobre o corpo. Ás vezes a fadiga readormecia-a -d'um somno superficial, cortado de sonhos muitos vivos. Via montões -de libras reluzirem vagamente, maços de notas agitarem-se brandamente -no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras começavam a -rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um chão liso, e as notas -desappareciam, voando muito leves com um fremito de azas ironicas. Ou -então era alguem que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e -começava a tirar do chapéo, a deixar-lhe cahir no regaço libras, moedas -de cinco mil reis, peças, muitas, muitas, profusamente: não conhecia o -homem: tinha um chinó vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que -lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar -por Juliana, a correr atraz d'ella, por um corredor que não findava, e -que começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que era como uma fenda -por onde ella se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando -sempre contra si o montão de libras que lhe punha frialdades de metal -sobre a pelle núa do peito. Acordava assustada: e o contraste da sua -miseria real com aquellas riquezas do sonho era como um acrescimo de -amargura. Quem lhe poderia valer?--Sebastião! Sebastião era rico, era -bom. Mas mandal-o chamar, e dizer-lhe ella, ella Luiza, mulher de -Jorge:--Empreste-me seiscentos mil reis.--Para quê, minha senhora? -E podia lá responder: para resgatar umas cartas que escrevi ao meu -amante. Era lá possivel! Não, estava perdida. Restava-lhe ir para um -convento. - -A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto: -atirou a touca, os seus longos cabellos soltaram-se, prendeu-os ao -acaso com um gancho; e de costas, com a cabeça sobre os braços nús, -pensava amargamente no romance de todo aquelle verão,--a chegada de -Bazilio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao _Paraiso_... - -Onde iria elle, aquelle infame? Dormindo tranquillamente nas almofadas -do wagon! - -E ella alli, na agonia! - -Atirou o lençol, abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura -da roupa, adormeceu quando a madrugada rompia. - -Acordou tarde, succumbida. Mas logo na sala de jantar a belleza da -manhã gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela -janella aberta; os canarios faziam um concerto; da forja ao pé sahia um -martellar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas.--Aquella -alegria das cousas deu-lhe como uma coragem inesperada. Não se havia de -abandonar a uma desesperança inerte... Que diabo! Devia luctar! - -Vieram-lhe esperanças, então. Sebastião era bom, Leopoldina tinha -expedientes, havia outras possibilidades, o acaso mesmo: e tudo isto -podia, em definitiva, formar seiscentos mil reis, salval-a! Juliana -desappareceria, Jorge voltaria!--E, alvoraçada, via perspectivas de -felicidades possiveis reluzirem, no futuro, deliciosamente. - -Ao meio dia veio o criadito de Sebastião: o senhor tinha chegado -d'Almada, desejava saber como a senhora estava. - -Correu ella mesma á porta; que pedia ao snr. Sebastião, que viesse logo -que podesse! - -Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastião... No fim era o -que lhe restava: contar ella tudo a Sebastião, ou que a outra contasse -tudo a seu marido. Impossivel hesitar! E depois podia attenuar, dizer -que fôra só uma correspondencia platonica... A partida de Bazilio, -além d'isso, fazia d'aquelle erro um facto passado, quasi antigo... E -Sebastião era tão amigo d'ella! - -Veio, era uma hora. Luiza que estava no quarto sentiu-o entrar, e só -o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, -quasi um terror. Parecia-lhe agora muito difficil, terrivel de dizer... -Preparára phrases, explicações, uma historia de galanteio, de cartas -trocadas; e estava com a mão no fecho da porta, a tremer. Tinha medo -d'elle! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciencia lhe -désse mau humor, entrou. - -Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno: nunca o seu olhar lhe parecera -tão recto, e a sua barba tão séria! - ---Então que é? precisa alguma cousa?--perguntou-lhe elle depois das -primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo. - -Luiza teve uma cobardia indominavel, respondeu logo: - ---É por causa de Jorge! - ---Aposto que não lhe tem escripto? - ---Não. - ---Esteve muito tempo sem me escrever tambem.--E rindo:--Mas hoje recebi -duas cartas por atacado. - -Procurou-as entre outros papeis que tirou da algibeira. Luiza fôra -sentar-se no sophá; olhava-o com o coração aos pulos, e as suas unhas -impacientes raspavam devagarinho o estôfo. - ---É verdade--dizia Sebastião, revolvendo o maço de papeis.--Recebi -duas, falla em voltar, diz que está muito seccado...--E estendendo uma -carta a Luiza:--Póde vêr. - -Luiza desdobrára-a, e começava a lêr; mas Sebastião, estendendo a mão -precipitadamente: - ---Perdão, não é essa! - ---Não, deixe vêr... - ---Não diz nada, são negocios... - ---Não, quero vêr! - -Sebastião, sentado á beira da cadeira, coçava a barba, olhando-a, muito -contrariado. E Luiza de repente, franzindo a testa: - ---O quê?--A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpreza -irritada.--Realmente!... - ---São tolices, são tolices!--murmurava Sebastião, muito vermelho. - -Luiza pôz-se então a lêr alto, devagar: - -«Saberás, amigo Sebastião, que fiz aqui uma conquista. Não é o que se -póde chamar uma princeza, porque é nem mais nem menos que a mulher -do estanqueiro. Parece estar abrazada no mais impuro fogo, por este -seu criado. Deus me perdôe, mas desconfio até que me leva apenas um -vintem pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno -Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!»--Que -graça!--murmurou Luiza, furiosa.--«Receio muito que se repita commigo -o caso biblico da mulher de Putiphar. Acredita que ha um certo merito -em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como é, é lindissima. E -tenho medo que succeda algum fracasso á minha pobre virtude...» - -Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastião com um olhar terrivel. - ---São brincadeiras!--balbuciou elle. - -Ella seguiu, lendo: «Olha se a Luiza soubesse d'esta aventura! De -resto, o meu successo não pára aqui: a mulher do delegado faz-me um -olho dos diabos! É de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece que mora -para Belem, conheces? e dá-se ares de morrer de tedio, na tristeza -provinciana da localidade. Deu uma _soirée_ em minha honra, e em minha -honra, creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo»--Luiza fez-se -escarlate--«e uma queda do diabo...» - ---Está doudo!--exclamou ella.--«E aqui tens o teu amigo feito um D. -Juan do Alemtejo, e deixando um rasto de chammas sentimentaes por essa -provincia fóra! O Pimentel recommenda-se...» - -Luiza ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando -a carta a Sebastião: - ---Muito bem, diverte-se!--disse com uma voz sibilante. - ---São lá cousas que se tomem a serio! Não deve tomar a serio... - ---Eu!--exclamou ella.--Acho muito natural até! - -Sentou-se, começou, com volubilidade, a fallar d'outras cousas, de D. -Felicidade, de Julião... - ---Trabalha muito agora para o concurso--disse Sebastião.--Quem não -tenho visto é o Conselheiro. - ---Mas, quem é essa gente Gamacho, de Belem? - -Sebastião encolheu os hombros--e com um ar quasi reprehensivo: - ---Ora realmente tomou a serio... - -Luiza interrompeu-o: - ---Ah! sabe? Meu primo Bazilio partiu. - -Sebastião teve um alvoroço d'alegria. - ---Sim? - ---Foi para Paris, não creio que volte.--E depois d'uma pausa, parecendo -ter esquecido Jorge, e a carta:--Só em Paris está bem... Estava no -ar p'ra partir.--Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do -vestido:--Precisava casar, aquelle rapaz. - ---P'ra assentar--disse Sebastião. - -Mas Luiza não acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de -cavallos, d'aventuras, podesse dar um bom marido. - -Sebastião era d'opinião que ás vezes socegavam, e eram homens de -familia... - ---Teem mais experiencia--disse. - ---Mas um fundo leviano--observou ella. - -E depois d'estas palavras vagas calaram-se com embaraço. - ---Eu a fallar a verdade--disse então Luiza--estimei que meu primo -partisse... Como tinha havido essas tolices na visinhança... -Ultimamente mesmo quasi que o não vi. Esteve ahi hontem, veio -despedir-se, fiquei surprehendida... - -Estava tornando impossivel a historia d'um galanteio platonico, cartas -trocadas--mas um sentimento mais forte que ella impellia-a a attenuar, -distanciar as suas relações com Bazilio. Acrescentou mesmo: - ---Eu sou amiga d'elle, mas somos muito differentes... Bazilio é -egoista, pouco affeiçoado... De resto a nossa intimidade nunca foi -grande... - -Calou-se bruscamente, sentiu que «se enterrava». - -Sebastião lembráva-se ouvir-lhe dizer «que tinham sido creados ambos de -pequenos»; mas emfim aquella maneira de fallar do primo, parecia-lhe -a prova maior de que «não houvera nada». Quasi se queria mal pelas -duvidas, que tivera, tão injustas!... - ---E volta?--perguntou. - ---Não me disse, mas não creio. Em se pilhando em Paris! - -E com a idéa da carta, de repente: - ---Então o Sebastião é confidente de Jorge? - -Elle riu: - ---Oh minha senhora! pois acredita... - ---E a mim quando me escreve, que se aborrece, que está só, que não -supporta o Alemtejo...--Mas vendo Sebastião olhar o relogio:--O que, -já? É cedo. - -Tinha d'estar na baixa antes das tres, disse elle. - -Luiza quiz retel-o. Não sabia para quê--porque a cada momento sentia -a sua resolução diminuir, desapparecer como a agua d'um rio que se -absorve no seu leito. Pôz-se a fallar-lhe das obras d'Almada. - -Sebastião começára-as pensando que duzentos ou trezentos mil reis -fariam as restaurações necessarias: mas depois umas cousas tinham -trazido outras--e, dizia, está-se-me tornando um sorvedouro! - -Luiza riu, forçadamente. - ---Ora, quando se é proprietario e rico!... - ---Isso sim! Parece que não é nada: mas uma pintura n'uma porta, uma -janella nova, uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e -lá se vão oitocentos mil reis... Emfim!... - -Levantou-se, e despedindo-se: - ---Eu espero que aquelle vadio se não demore muito... - ---Se a estanqueira der licença... - -Ficou a passear na sala, nervosa, com aquella idéa. Deixar-se namorar -pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!... De certo, -tinha confiança n'elle, mas os homens!... De repente representou-se-lhe -a estanqueira prendendo-o nos braços detraz do balcão, ou Jorge -beijando, n'alguma entrevista, de noite, o collo bonito da mulher -do delegado!... E tumultuosamente appareceram-lhe todas as razões -que provavam irrecusavelmente a traição de Jorge: estava ha dous -mezes fóra! sentia-se cançado da sua viuvez! encontrava uma mulher -bonita! tomava aquillo como um prazer passageiro, sem importancia!... -Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e offendida, «que -viesse immediatamente, ou que partia ella!»--Entrou no quarto, muito -excitada. A photographia de Jorge, que ella tirára na vespera do sacco -de marroquim, ficára no toucador. Pôz-se a olhal-a: não admirava que o -namorassem, era bonito, era amavel... Veio-lhe uma onda de ciume, que -lhe obscureceu o olhar: se elle a enganasse, se tivesse a certeza da -«mais pequena cousa»--separava-se, recolhia-se a um convento, morria de -certo, matava-o!... - ---Minha senhora--veio dizer Joanna--é um gallego com esta carta. Está á -espera da resposta. - -Que espanto! Era de Juliana! - -Escripta em papel pautado, n'uma letra medonha, erriçada de erros -d'orthographia, dizia: - - - - - «Minha senhora. - -«Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve attribuir tanto á -minha desgraça como á falta de saude, o que ás vezes faz que se tenham -genios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e faça o serviço -como d'antes--ao qual creio que a senhora não póde oppôr-se, terei -muito gosto em ser agradavel na certeza que nunca mais se fallará em -tal até que a senhora queira, e cumpra o que prometteu. Prometto fazer -o meu serviço, e desejo que a senhora esteja por isto pois que é para -bem de todos. Pois que foi genio e naturalmente todos teem os seus -repentes, e com isto não canço mais e sou - - «Serva muito obediente - - «a criada - - «_Juliana Couceiro Tavira_.» - - -Ficou com a carta na mão, sem resolução. A sua primeira vontade foi -dizer--não! Tornar a recebel-a, vêl-a, com a sua face horrivel, a cuia -enorme! Saber que ella tinha no bolso a sua carta, a sua deshonra, -e chamal-a, pedir-lhe agua, a lamparina, ser servida por ella! Não! -Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a creatura, Deus sabe o -que faria! Estava nas mãos d'ella, devia passar por tudo. Era o seu -castigo... Hesitou ainda um momento: - ---Que sim, que venha, é a resposta. - - -Juliana veio com effeito ás oito horas. Subiu pé ante pé para o -sotão, poz o fato de casa e as chinellas, e desceu para o quarto -dos engommados, onde Joanna sentada n'um tapete costurava, á luz do -petroleo. - -Joanna, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: Onde estivera? -o que tinha acontecido? porque não déra noticias?--Juliana contou que -fôra a uma visita a uma amiga, á calçada do Marquez d'Abrantes, e que -de repente lhe dera um flato, e a dôr... Não quiz mandar dizer, porque -imaginára que poderia vir. Mas qual! estivera dia e meio de cama... - -Quiz saber então o que tinha feito a senhora, se sahira, quem -estivera... - ---A senhora tem andado a modo incommodada--disse Joanna. - ---É do tempo--observou Juliana.--Tinha trazido a sua costura, e ambas -caladas continuaram o serão. - -Ás dez horas Luiza ouviu bater devagarinho á porta do quarto. Era -_ella_, de certo! - ---Entre... - -A voz de Juliana disse muito naturalmente: - ---Está o chá na mesa. - -Mas Luiza não se decidia a ir á sala, com medo, horror de a vêr! Deu -voltas no quarto, demorou-se; foi emfim, toda tremula. Juliana vinha -justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito, -disse: - ---Quer que vá pôr a lamparina, minha senhora? - -Luiza fez que _sim_ com a cabeça, sem a olhar. - -Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto -a cama, cerrado as portas, quasi em pontas de pés: - ---A senhora não precisa mais nada?--perguntou. - ---Não. - ---Muito boa noite, minha senhora. - -E não houve outra palavra mais. - ---Parece um sonho!--pensava Luiza, ao despir-se melancolicamente.--Esta -creatura, com as minhas cartas, installada em minha casa para me -torturar, para me roubar!--Como se achava ella, Luiza, n'aquella -situação? Nem sabia. As cousas tinham vindo tão bruscamente, com a -precipitação furiosa d'uma borrasca, que estala! Não tivera tempo de -raciocinar, de se defender: fôra embrulhada: e alli estava, quasi sem -«dar fé», na sua casa sob a dominação da sua criada! Ah! se tivesse -fallado a Sebastião! Tinha agora o dinheiro, de certo, notas, ouro... -Com que phrenesi lh'o arremessaria, a expulsaria, e a arca, e os -trapos, e a cuia!...--Jurou a si propria fallar a Sebastião, dizer -tudo! Iria mesmo a casa d'elle, para o impressionar mais! - -D'ahi a pouco, quebrada da agitação do dia, adormecera--e sonhava que -um estranho passaro negro lhe entrára no quarto, fazendo uma ventania, -com as suas azas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao -escriptorio, gritando: Jorge! Mas não via nem livros, nem estante, -nem mesa:--havia uma armação reles de loja de tabaco, e por traz do -balcão, Jorge acariciava sobre os joelhos uma bella mulher de fórmas -robustas, em camisa d'estopa, que perguntava com uma voz desfallecida -de voluptuosidade e os olhos afogados em paixão:--Brejeiros ou de -Xabregas?--Fugia então de casa indignada, e, através de successos -confusos, via-se ao lado de Bazilio, n'uma rua sem fim, onde os -palacios tinham fachadas de cathedraes, e as carruagens rolavam -ricamente com uma pompa de cortejo. Contava soluçando a Bazilio a -traição de Jorge. E Bazilio, saltitando em volta d'ella com requebros -de palhaço, repenicava uma viola, e cantava: - - Escrevi uma carta a Cupido - A mandar-lhe perguntar - Se um coração offendido - Tem obrigação de amar! - ---Não tem!--gania a voz d'Ernestinho, brandindo triumphante um rolo de -papel.--E tudo se obscurecia de repente nos largos vôos circulares que -fazia Juliana com as suas azas de morcego. - - - - -IX - - -Juliana voltára para casa de Luiza por conselhos da tia Victoria. - ---Olha, minha rica, tinha-lhe ella dito, não ha que vêr, o passaro -fugiu-nos! Suspira, bem pódes suspirar que o dinheiro grosso foi-se! -Quem podia lá adivinhar que o homem desarvorava! Não, lá isso pódes -tirar d'ahi o sentido! Que d'ella escusas d'esperar nem cheta... - ---Tambem me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Victoria! - -A velha encolheu os hombros: - ---Não lucras nada com isso. Ou que elles se desquitem, ou que elle -lhe parta os ossos, ou que a mande para um convento--tu não ganhas -nada. E se se acommodarem, mais ficas a chuchar no dedo, porque nem -tens a consolação de fazeres a sizania. E isto é se as cousas correrem -pelo melhor, porque pódes muito bem ficar mas é em lençoes de vinagre -com alguma carga de pau que elles te mandem dar.--E vendo um gesto -espantado de Juliana:--Já não era o primeiro caso, minha rica, já não -era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita cousa, e nem tudo -vem nos jornaes! - -Positivamente o que ella tinha a fazer era voltar para a casa. Porque -emfim o que restava de tudo aquillo? O medo de D. Luiza: esse é que -lá estava sempre a dar-lhe por dentro a colica: d'esse é que era -necessario tirar partido... - ---Tu voltas para lá--dizia--á espera que ella cumpra o que prometteu. -Se te dá o dinheiro, bem... Senão tem-l'a em todo o caso na mão, estás -de dentro da praça, sabes o que se passa, pódes-lhe apanhar muita -cousa... - -Mas Juliana hesitava.--Era difficil viverem debaixo das mesmas telhas -sem haver uma questão por dá cá aquella palha. - ---Não te diz uma palavra, tu verás... - ---Mas tenho medo... - ---De que?--exclamava a tia Victoria. Ella não era mulher para a -envenenar, não é verdade? Então? Quem a nada se arriscava nada -ganhava.--Isto é se queres--acrescentou--senão trata de te arranjar -n'outra parte, e deita as cartas para o fundo da arca. Que diabo! Tu -vaes vêr, se não te convém, safas-te... - -Juliana decidiu ir, «a vêr». - -E reconheceu logo, que «aquella finoria da tia Victoria tinha carradas -de razão». - -Luiza, com effeito, parecia resignada. Sebastião tinha ido para Almada, -outra vez. Mas como estava decidida, apenas elle voltasse, a ir a casa -d'elle uma manhã, atirar-se-lhe ao pés, contar-lhe _tudo_, _tudo_, -supportava Juliana, reflectindo:--É apenas por dias!--Por isso não lhe -disse uma palavra. Para que? O que tinha a fazer era pagar-lhe e pôl-a -fóra, não é verdade? Em quanto o não podesse fazer, era aguentar e -calar. Até que Sebastião voltasse... - -No entretanto evitava vêl-a. Nunca a chamava. Não sahia da alcova de -manhã, sem a ter sentido fóra no quarto encher o banho, sacudir os -vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervallos não -levantava os olhos das paginas. E durante todo o dia conservava-se no -quarto com a porta fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge--ás -vezes tambem em Bazilio com odio, desejando a volta de Sebastião, e -preparando a sua historia. - -Juliana, uma manhã, encontrou Luiza no corredor trazendo para o quarto -o regador cheio d'agua. - ---Oh minha senhora! porque não chamou?--exclamou, quasi escandalisada. - ---Não tem duvida--disse Luiza. - -Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta: - ---Oh minha senhora!--disse muito offendida--isto assim não póde -continuar. A senhora parece que tem medo de me vêr, credo! Eu -voltei para fazer o meu serviço como d'antes... Verdade, verdade, -naturalmente, sempre espero que a senhora faça o que prometteu... E -lá largar as cartas não largo, sem ter seguro o pão da velhice. Mas -o que se passou foi um repente de genio, e já pedi perdão á senhora. -Quero fazer o meu serviço... Agora se a senhora não quer, então saio, -e--acrescentou com uma voz secca--talvez seja peor para todos!... - -Luiza, muito perturbada, balbuciou: - ---Mas... - ---Não, minha senhora--cortou Juliana severamente--aqui a criada sou eu. - -E sahiu, empertigada. - -Tanta audacia aterrou Luiza. Aquella ladra era capaz de tudo! - -Então, para a não irritar começou, d'ahi por diante, a chamal-a, a -dizer:--Traga isto, traga aquillo,--sem a olhar. - -Mas Juliana fazia-se tão serviçal, era tão calada, que Luiza pouco a -pouco, dia a dia, com o seu caracter mobil, inconsistente, cheio _de -deixar-se ir_, principiou a perder o sentimento pungente d'aquella -difficuldade. E no fim de tres semanas «as cousas tinham entrado nos -seus eixos»--dizia Juliana. - -Luiza já gritava por ella do quarto, já a mandava a recados fóra: -Juliana chegava a ter ás vezes migalhas de conversação:--Está um calor -de morrer... A lavadeira tarda...--Um dia arriscou esta phrase mais -intima:--Encontrei a criada da snr.^a D. Leopoldina. - -Luiza perguntou: - ---Ainda está para o Porto? - ---Ainda se demora um mez, minha senhora... - -De resto havia na casa um aspecto muito tranquillo, e Luiza, depois -de tantas agitações, abandonava-se com gozo á satisfação d'aquelle -descanço. Ia ás vezes vêr D. Felicidade á Encarnação, que já se -levantava. E esperava sempre Sebastião, mas sem impaciencia, quasi -contente por vêr adiado o momento terrivel de lhe dizer: escrevi a um -homem, Sebastião! - -Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro. - -Uma tarde Luiza ficára mais tempo á janella da sala de jantar; deixára -cahir o livro no regaço, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que -d'algum quintal visinho viera pousar sobre o tabique do terreno vago. -Pensava vagamente em Bazilio, no _Paraiso_... Sentiu passos, era -Juliana. - ---Que é? - -A mulher cerrára a porta, e vindo junto d'ella, baixo: - ---Então a senhora ainda não decidiu nada? - -Luiza sentiu como uma pancada no estomago. - ---Ainda não pude arranjar nada... - -Juliana esteve um momento a olhar para o chão: - ---Bem--murmurou, por fim. - -E Luiza ouviu-a, no corredor, dizer alto: - ---Isto quando o senhor voltar é que são os ajustes de contas! - - -Quando Jorge voltasse! Immediatamente no seu espirito, que se tinha -pouco a pouco serenado, todos os sustos, as angustias estremeceram -de novo áquella ameaça--assim uma rajada subita põe em convulsão um -arvoredo. Devia, pois, fazer _alguma cousa_ antes que elle chegasse! -Justamente Jorge escrevera-lhe, que «não se demoraria, que a avisaria -pelo telegrapho...» Desejava, agora, que do ministerio o mandassem -fazer uma viagem mais longe, pela Hespanha ou pela Africa; que alguma -catastrophe, sem lhe fazer mal, o retardasse mezes!... - -Que faria elle, se soubesse! Matal-a-hia? Lembravam-lhe as suas -palavras muito sérias, n'aquella noite, quando Ernestinho contára o -final do seu drama... Mettel-a-hia n'uma carruagem, leval-a-hia a um -convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruido funerario de -ferrolhos, olhos lugubres estudal-a curiosamente... - -O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a idéa nitida do seu -marido; imaginava um _outro_ Jorge sanguinario e vingativo, esquecendo -o seu caracter bom, tão pouco melodramatico. Um dia foi ao escriptorio, -tomou a caixa das pistolas, fechou-a n'um bahú de roupa velha, e -escondeu a chave!... - -Uma idéa amparava-a: era que apenas Sebastião viesse d'Almada, estava -salva; e apesar d'aquella agonia miuda de todos os momentos, quasi -receava saber _que elle tivesse chegado_,--tanto a confissão da verdade -lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, então, que lhe veio -uma lembrança--escrever a Bazilio. O terror permanente amollecera-lhe -o orgulho, como a lenta infiltração da agua faz a uma parede; e todos -os dias começou a achar uma razão, _mais uma_, para se dirigir «áquelle -infame»: fôra seu amante, já sabia todo o caso das cartas, era o seu -unico parente... E não teria de «dizer» a Sebastião! Já ás vezes -pensára que não aceitar dinheiro de Bazilio fôra uma «fanfarronada -bem tola»! Um dia emfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco -confusa, pedia-lhe _seiscentos mil reis_. Foi ella mesmo leval-a ao -correio, sobrecarregando-a de estampilhas. - -N'essa tarde, por acaso, Sebastião, que chegára d'Almada, veio vêl-a. -Recebeu-o com alegria, feliz _por não ter de lhe contar_... Fallou da -volta de Jorge; alludiu mesmo ao primo Bazilio, á «pouca vergonha da -visinhança...» - ---Não--disse--é a primeira cousa que hei-de contar ao Jorge. - -Porque se considerava salva, agora! E todos os dias seguia a carta, -no seu caminho para França, como se a sua mesma vida fosse dentro -d'aquelle sobrescripto entregue ao acaso dos trens e á confusão das -viagens! Chegára a Madrid, depois a Bayonna, depois a Paris! Um -carteiro corria a entregal-a na rua Saint Florentin. Bazilio abria-a -tremendo, enchia um sobrescripto de notas, muitas, que cobria de -beijos, e o enveloppe, trazendo a sua salvação e o seu descanço, -começava a rolar para baixo, pela França e pela Navarra, soprando como -um monstro e apressando-se como um proprio. - -No dia em que a resposta _devia_ chegar, levantou-se mais cedo, -agitada, com o ouvido pregado na porta, esperando o toque do carteiro. -Via-se já a expulsar Juliana, a soluçar de alegria!... Mas ás dez e -meia começou a estar nervosa: ás onze chamou Joanna, «que fosse saber -se o carteiro passára». - ---Diz que sim, minha senhora, que já passou. - ---Canalha!--murmurou, pensando em Bazilio. - -Talvez, todavia, não tivesse respondido no mesmo dia! Esperou ainda, -mas desconsolada, já sem fé. Nada! Nem na outra manhã, nem nas -seguintes! O infame! - -Veio-lhe então a idéa da loteria--porque insensivelmente a esperança -tornára-se-lhe necessaria. A primeira vez que sahiu comprou umas poucas -de cautelas. Apesar de não ser religiosa nem supersticiosa, metteu-as -debaixo da peanha d'um S. Vicente de Paula que tinha sobre a commoda, -na alcova. _Não se perdia nada!_ Examinava-as todos os dias, sommava os -algarismos a vêr se davam _nove_, _noves fóra_, _nada_, ou um numero -par--que é de bom agouro! E aquelle contacto diario com a imagem do -santo levando-a a pensar de certo na protecção inesperada do céo, fez -uma promessa de cincoenta missas se as cautelas fossem premiadas!... - -Sahiram brancas--e então desesperou de tudo; abandonou-se a uma inacção -em que sentia quasi uma voluptuosidade, passando dias sem se importar, -quasi sem se vestir, desejando morrer, devorando nos jornaes todos os -casos de suicidios, de fallencias, de desgraças--consolando-se com a -idéa de que nem só ella soffria, e que a vida em redor, na cidade, -fervilhava de afflicções. - -Ás vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de medo. Decidia-se então -de novo a «abrir-se» com Sebastião; depois pensava que seria melhor -escrever-lhe; mas não achava as palavras, não conseguia arranjar uma -historia racional; vinha-lhe uma cobardia; e recahia na sua inercia, -pensando: «ámanhã, ámanhã...» - -Quando, só, no seu quarto, se chegava por acaso á janella, punha-se -a imaginar o que «diria a visinhança, quando se soubesse»! -Condemnal-a-hiam? Lamental-a-hiam? Diriam--«Que desavergonhada»? -Diriam--«Coitadinha»? E por dentro da vidraça seguia, com um olhar -quasi aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o embasbacamento obeso -da carvoeira, as Azevedos por traz das bambinellas de cassa! Como elles -todos gritariam:--«Bem diziamos nós! Bem diziamos nós!» Que desgraça! -Ou então via de repente Jorge, terrivel, fóra de si, com as _cartas_ na -mão; e encolhia-se como se já estivesse sob a colera dos seus punhos -fechados. - -Mas o que a torturava mais era a tranquillidade de -Juliana--espanejando, cantarolando, servindo-a ao jantar d'avental -branco. Que tencionava ella? Que preparava ella? Ás vezes vinha-lhe uma -onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, de certo atirar-se-lhe-hia -ao pescoço, para a esganar, arrancar-lhe a carta! Mas pobre d'ella, era -«uma mosquinha»! - -Justamente, n'uma d'essas manhãs, Juliana entrou no quarto--com o -vestido de sêda preto no braço. Estendeu-o na _causeuse_, e mostrou -a Luiza, na saia, ao pé do ultimo folho, um rasgão largo que parecia -feito com um prego; vinha saber se a senhora queria que o mandasse á -costureira. - -Luiza lembrava-se bem, rasgára-o uma manhã no _Paraiso_ a brincar com -Bazilio! - ---Isto é facil d'arranjar--dizia Juliana, passando de leve a mão -espalmada sobre a sêda, com a lentidão d'uma caricia. - -Luiza examinava-o, hesitando: - ---Elle tambem já não está novo... Olhe, guarde-o p'ra vossê! - -Juliana estremeceu, fez-se vermelha: - ---Oh minha senhora!--exclamou--Muito agradecida! É um rico -presente. Muito agradecida, minha senhora! Realmente...--E a voz -perturbava-se-lhe. - -Tomou-o nos braços, com cuidado, correu logo á cozinha. E Luiza, que a -seguira pé ante pé, ouviu-a dizer toda excitada: - ---É um rico presente, é o que ha de melhor. E novo! Uma rica -sêda!--Fazia arrastar a cauda pelo chão, com um _frou-frou_. Sempre o -invejára: e tinha-o agora, era o _seu_ vestido de sêda!--É de muito boa -senhora, snr.^a Joanna, é d'um anjo! - -Luiza voltou ao quarto, toda alvoroçada; era como uma pessoa perdida de -noite, n'um descampado--que de repente, ao longe, vê reluzir um clarão -de vidraça! Estava salva! Era presenteal-a, era fartal-a! Começou logo -a pensar no que lhe podia dar mais, pouco a pouco: o vestido rôxo, -roupas brancas, o roupão velho, uma pulseira! - - -D'ahi a dous dias--era um domingo--recebeu um telegramma de Jorge: -«Parto ámanhã do Carregado. Chego pelo comboio do Porto ás 6.» Que -sobresalto! Voltava, emfim! - -Era nova, era amorosa--e no primeiro momento todos os sustos, as -inquietações desappareceram sob uma sensação d'amor e de desejo, que a -inundou. Viria de madrugada, encontral-a-hia deitada,--e já pensava na -delicia do seu primeiro beijo!... - -Foi-se vêr ao espelho: estava um pouco magra, talvez, com a physionomia -um pouco fatigada... E a imagem de Jorge apparecia-lhe então muito -nitidamente, mais queimado do sol, com os seus olhos ternos, o cabello -tão annelado! Que estranha cousa! Nunca lhe appetecêra tanto vêl-o. Foi -logo occupar-se d'elle: o escriptorio estaria bem arranjado? Quereria -um banho morno, seria necessario aquecer a agua na tina grande!... E ia -e vinha, cantarolando, com um brilho exaltado nos olhos. - -Mas a voz de Juliana, de repente no corredor, fêl-a estremecer. Que -faria ella, a mulher? Ao menos que a deixasse n'aquelles primeiros -dias gozar a volta de Jorge, tranquillamente!... Veio-lhe uma audacia, -chamou-a. - -Juliana entrou, com o vestido de sêda novo, movendo-se cuidadosamente: - ---Quer alguma cousa, minha senhora? - ---O snr. Jorge volta amanhã...--disse Luiza. - -E suspendeu-se; o coração batia-lhe fortemente. - ---Ah!--fez Juliana.--Bem, minha senhora. - -E ia sahir. - ---Juliana!--fez Luiza, com a voz alterada. - -A outra voltou-se, surprehendida. - -E Luiza batendo com as mãos, n'um movimento supplicante: - ---Mas vossê ao menos n'estes primeiros dias... Eu hei-de arranjar, -esteja certa!... - -Juliana acudiu logo: - ---Oh minha senhora! Eu não quero dar desgostos a ninguem. O que eu -quero é um bocadinho de pão para a velhice. Da minha bocca não ha-de -vir mal a ninguem. O que peço á senhora é que se fôr da sua vontade e -me quizer ir ajudando... - ---Lá isso, sim... O que vossê quizer... - ---Pois póde estar certa que esta bocca...--E fechou os labios com os -dedos. - -Que alegria para Luiza! Tinha uns dias, umas semanas, emfim, sem -tormentos, com o _seu_ Jorge! Abandonou-se então toda á deliciosa -impaciencia de o vêr. Era singular--mas parecia-lhe que o amava -mais!...--E depois pensaria, veria, daria outros presentes a Juliana, -poderia pouco a pouco preparar Sebastião... Quasi se sentia feliz. - -De tarde Juliana veio dizer-lhe, muito risonha; - ---A snr.^a Joanna sahiu, que era hoje o seu dia, mas eu tinha tanta -precisão de sahir, tambem! se a senhora lhe não custasse ficar só... - ---Não! Fico, que tem? Vá, vá! - -E, d'ahi a pouco, sentiu-a bater os tacões no corredor, fechar com -ruido a cancella. - -Então de repente uma idéa deslumbrou-a, como a fulguração d'um -relampago:--ir ao quarto d'ella, rebuscar-lhe a arca, roubar-lhe as -cartas! - -Viu-a da janella dobrar a esquina. Subiu logo ao sotão, devagar, -escutando, com o coração aos saltos. A porta do quarto de Juliana -estava aberta; vinha de lá um cheiro de mofo, de rato e de roupa -enxovalhada que a enjoou; pelo postigo entrava uma luz triste, de -tarde escura; e por baixo, encostada á parede, ficava a arca! Mas -estava fechada! De certo! Desceu correndo, veio buscar o seu mólho -de chaves... Sentia uma vergonha,--mas se achasse as cartas! Aquella -esperança dava-lhe todos os atrevimentos, como um vinho alcoolico. -Começou a experimentar as chaves; a mão tremia-lhe; de repente a -lingueta, com um estalinho secco, cedeu! Ergueu a tampa, estavam alli, -talvez! E então, com cautela, muito femininamente, poz-se a tirar as -cousas uma por uma, pondo-as em cima do colxão:--o vestido de merino; -um leque com figuras douradas, embrulhado em papel de sêda; velhas -fitas rôxas e azues, passadas a ferro; uma pregadeira de setim côr -de rosa, com um coração bordado a matiz: dous frasquinhos de cheiro, -intactos, tendo collados ao vidro raminhos de rosas de papel recortado; -tres pares de botinas embrulhadas em jornaes; a roupa branca, d'onde -se exhalava um cheiro de madeira e de folhas de maçã camoeza. Entre -duas camisas estava um maço de cartas atadas com um nastro... Nenhuma -era d'ella! Nem de Bazilio! Eram d'uma letra d'aldêa, inintelligivel e -amarellada! Que raiva! E ficou a olhar para a arca vazia, de pé, com os -braços tristemente cahidos. - -Uma sombra de repente passou diante do postigo. Estremeceu, aterrada. -Era um gato, que com passos leves, vadiava pelo telhado.--Tornou a -repôr tudo com as mesmas dobras, fechou a arca, ia a sahir,--mas -lembrou-se de procurar na gaveta da mesa e debaixo do travesseiro. -Nada! Impacientou-se então; não se queria ir sem ter gasto toda a -esperança; desmanchou a roupa da cama, remexeu a palha amollentada do -enxergão, sacudiu as velhas botinas, esgaravatou os cantos... Nada! -Nada! - -Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpreza! Era D. -Felicidade. - ---És tu! Como estás tu? Entra. - -Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. Sahira na vespera da -Encarnação: o pé ás vezes ainda lhe fazia mal: mas graças a Deus estava -escapa! E que lhe agradecesse, era a sua primeira visita! - -Entraram no quarto. Escurecia, Luiza accendeu as velas. - ---E como me achas tu, hein?--perguntou D. Felicidade, pondo-se diante -d'ella. - ---Um bocadito mais pallida. - -Ai! tinha soffrido muito! Ergueu a saia, mostrou o pé calçado n'um -sapato largo, obrigou Luiza a apalpal-o... Que uma consolação lhe -restava: é que toda a Lisboa a fôra vêr! Graças a Deus! Toda a Lisboa, -o que ha de melhor em Lisboa! - ---E tu esta semana--acrescentou--nem appareceste! Pois olha que te -cortaram na pelle... - ---Não pude, filha. O Jorge chega ámanhã, sabias? - ---Ah sua brejeira! Viva! Está esse coraçãosinho aos pulos!--E disse-lhe -um segredinho. - -Riram muito. - ---Pois eu--continuou D. Felicidade sentando-se--arranjei-te hoje a -partida. Encontrei esta manhã o Conselheiro, que me disse que vinha. -Encontrei-o aos Martyres! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que -sahi! E um bocado adiante dou com o Julião: diz que tambem vinha!...--E -com uma voz desfallecida: - ---Sabes? tomava uma colherinha de dôce... - - -Foi Luiza que abriu a porta ao Conselheiro e a Julião, que se tinham -encontrado na escada, dizendo-lhes a rir: - ---Hoje sou eu o guarda-portão! - -D. Felicidade, na sala, para disfarçar a perturbação que lhe deu o -espectaculo amado da pessoa d'Accacio, começou, fallando muito, a -censural-a «por deixar assim sahir no mesmo dia as duas criadas...» - ---E se te achares incommodada, filha, se te dér alguma cousa? - -Luiza riu. Não era affecta a fanicos... - -Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse: - ---Tem continuado a soffrer dos dentes, D. Luiza? - -Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia!--exclamou logo D. -Felicidade. Julião declarou que raras vezes vira uma dentição tão -perfeita. - -O Conselheiro apressou-se a citar: - - Em labios de coral, perolas finas... - -E acrescentou: - ---É verdade, mas a ultima vez que tive a honra d'estar com D. Luiza, -viu-se tão repentinamente afflicta com um dente, que teve d'ir a correr -chumbal-o ao Vitry! - -Luiza fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a -Joanna, ia abrir... - ---É verdade--continuou o Conselheiro--tinhamos feito um delicioso -passeio, quando de repente D. Luiza empallidece, e parece que a dôr era -tão urgente, que se precipitou para a escada do dentista, como louca... - -A proposito de dôres, D. Felicidade, que estava anciosa por interessar, -commover o Conselheiro, começou a historia do seu pé: disse a queda, -o milagre de não ter morrido, as visitas assiduas de condessas e -viscondessas, o susto em toda a Encarnação, os cuidados do bom dr. -Caminha... - ---Ai! soffri muito!--suspirou, com os olhos no Conselheiro, para -provocar uma palavra sympathica. - -Accacio, então, disse com authoridade: - ---É sempre um erro, ao descer uma escada ingreme, não procurar o apoio -do corrimão. - ---Mas podia ter morrido!--exclamou ella. E voltando-se para -Julião:--Pois não é verdade? - ---N'este mundo morre-se por qualquer cousa--disse elle enterrado n'uma -poltrona, fumando voluptuosamente. Elle mesmo estivera n'aquella tarde -para ser atropellado por um trem: destinára o domingo para se dar _um -feriado_, e fizera um grande passeio pela circumvallação...--Ha mais -d'um mez vivo no meu cubiculo, como um frade benedictino na livraria do -seu convento!--acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza -do cigarro sobre o tapete. - -O Conselheiro quiz saber então o assumpto da these: de certo muito -momentoso!... E apenas Julião lhe disse: «Sobre physiologia, snr. -Conselheiro», Accacio observou logo, com uma voz profunda: - ---Ah! physiologia! Deve ser então de grande magnitude! E presta-se mais -ao estylo ameno. - -Queixou-se, tambem, de «vergar ao peso dos seus trabalhos -litterarios...» - ---Esperemos todavia, snr. Zuzarte, que não sejam infructiferas as -nossas vigilias! - ---As suas, snr. Conselheiro, as suas!--E com interesse:--Quando nos dá -o seu novo trabalho? Ha sofreguidão em o vêr! - ---Ha alguma sofreguidão--concordou o Conselheiro com seriedade.--Ha -dias me dizia o snr. ministro da justiça (esse robustissimo talento), -ha dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: Dê-nos depressa o seu -livro, Accacio, estamos precisados de luz, de muita luz! Foi assim que -elle disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: Snr. ministro, -não serei eu que a negue ao meu paiz, quando o meu paiz a necessitar! - ---Muito bem, muito bem, Conselheiro! - ---E--acrescentou--dir-lhes-hei, aqui em familia, que o nosso ministro -do reino me deixou entrevêr n'um futuro não remoto, a commenda de S. -Thiago! - ---Já lh'a deviam ter dado, Conselheiro!--exclamou Julião, -divertindo-se.--Mas n'este desgraçado paiz... Já a devia ter ao peito, -Conselheiro! - ---Ha que tempos!--exclamou com força D. Felicidade. - ---Obrigado, obrigado!--balbuciou o Conselheiro, rubro. E na expansão do -seu jubilo offereceu com uma familiaridade agradecida, a sua caixa de -rapé a Julião. - ---Tomarei para espirrar--disse elle. - -Sentia-se n'aquella tarde n'uma disposição benevola: o trabalho e as -altas esperanças que elle lhe dava tinham de certo dissipado o seu -azedume: parecia até ter esquecido a sua humilhação, quando encontrára -alli, n'aquella sala, o primo Bazilio, porque apenas Luiza entrou, -perguntou-lhe por elle. - ---Partiu para Paris, não sabiam? ha que tempos! - -D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Bazilio. Tinha -ido deixar bilhetes de visita a ambos--o que encantára D. Felicidade, -e ensoberbecera o Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo!--exclamava -ella. E Accacio affirmou com authoridade: - ---E uma voz de barytono, digna de S. Carlos. - ---E muito elegante!--disse D. Felicidade. - ---Um _gentleman_!--resumiu o Conselheiro. - -Julião, calado, bambaleava a perna. Agora, áquelles elogios, o seu -despeito renascia; lembrava a seccura cortante de Luiza, n'aquella -manhã, as _poses_ do outro. Não resistiu a dizer: - ---Um pouco sobrecarregado nas joias e nos bordados das meias. De resto -é moda no Brazil, creio... - -Luiza córou; teve-lhe odio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de -Bazilio. - -D. Felicidade então, perguntou por Sebastião: não o via havia um -seculo; e lamentava, porque era uma pessoa que lhe dava saude, só vêl-a. - ---É uma grande alma--disse com emphase o Conselheiro.--Todavia -censurava-o um pouco por não se occupar, não se tornar util ao seu -paiz.--Porque emfim--declarou--o piano é uma bonita habilidade, mas não -dá uma posição na sociedade.--Citou então Ernestinho, que, posto que -dando-se á arte dramatica, era todavia (e a sua voz tornou-se grave), -segundo todas as informações, um excellente empregado aduaneiro... - -Que fazia elle, Ernestinho?--perguntaram. - -Julião tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a _Honra e Paixão_ ia d'ahi -a duas semanas, já se estavam a imprimir os cartazes, e na rua dos -Condes já lhe não chamavam senão o _Dumas filho portuguez_! E o pobre -rapaz crê-se realmente um _Dumas filho_! - ---Não conheço esse author--disse com gravidade o Conselheiro--posto que -me pareça, pelo nome, ser filho do escriptor que se tornou famoso pelos -_Tres Mosqueteiros_ e outras obras de imaginação!... Mas, de resto, -o nosso Ledesma é um esmerado cultor da arte dos Corneilles! Não lhe -parece, D. Luiza? - ---Sim--disse ella com um sorriso vago. - -Parecia preoccupada. Fôra já duas vezes ao relogio do quarto vêr as -horas: quasi dez, e Juliana sem voltar! Quem havia de servir o chá? -Ella mesmo foi pôr as chavenas no taboleiro, armar o paliteiro. Quando -voltou á sala notou um silencio enfastiado...--Queriam que fosse -tocar?--perguntou. - -Mas D. Felicidade que olhava, ao pé de Julião, as gravuras do Dante, -illustrado por G. Doré, que elle folheava, com o volume sobre os -joelhos, exclamou, de repente: - ---Ai que bonito! que é? Muito bonito! Viste, Luiza? - -Luiza aproximou-se. - ---É um caso d'amor infeliz, snr.^a D. Felicidade--disse Julião.--É -a historia triste de Paulo e Francesca de Rimini.--E explicando o -desenho:--Aquella senhora sentada é Francesca: este moço de guedelha, -ajoelhado aos pés d'ella, e que a abraça, é seu cunhado, e, lamento ter -de o dizer, seu amante. E aquelle barbaças, que lá ao fundo levanta o -reposteiro e saca da espada, é o marido que vem, e zás!--E fez o gesto -de enterrar o ferro. - ---Safa!--fez D. Felicidade, arripiada--E aquelle livro cahido o que é? -Estavam a lêr?... - -Julião disse discretamente: - ---Sim... Tinham começado por lêr, mas depois... - - Quel giorno più no vi leggiomi avante, - -o que quer dizer:--_E nós não lemos mais em todo o dia!_ - ---Pozeram-se a derriçar--disse D. Felicidade com um sorriso. - ---Peor, minha rica senhora, peor! Porque segundo a mesma confissão de -Francesca, este moço, o da guedelha, o cunhado, - - La bocca me bacciò tutto tremante, - -o que significa:--_A bocca me beijou tremendo todo_... - ---Ah!--fez D. Felicidade, com um olhar rapido para o Conselheiro.--É -uma novella? - ---É o Dante, D. Felicidade--acudiu com severidade o Conselheiro--um -poema epico classificado entre os melhores. Inferior, porém, ao nosso -Camões! Mas rival do famoso Milton! - ---Que n'essas historias estrangeiras os maridos matam sempre as -mulheres!--exclamou ella. E voltando-se para o Conselheiro:--Pois não é -verdade? - ---Sim. D. Felicidade, repetem-se lá fóra com frequencia essas -tragedias domesticas. O desenfreamento das paixões é maior. Mas entre -nós, digamol-o com orgulho, o lar é muito respeitado. Assim eu, por -exemplo, em todas as minhas relações em Lisboa, que são numerosas, -graças a Deus, não conheço senão esposas modêlos.--E com um sorriso -cortezão:--De que é de certo a flôr a dona da casa! - -D. Felicidade revirou os olhos para Luiza que estava encostada á -cadeira d'ella, e batendo-lhe no braço: - ---Isto é uma joia!--disse com amor. - ---E de resto--acudiu o Conselheiro--o nosso Jorge merece-o. Porque, -como diz o poeta: - - Seu coração é nobre, e a fronte altiva - Revela-lhe da alma a pura essencia. - -Aquella conversação impacientava Luiza. Ia sentar-se ao piano, quando -D. Felicidade exclamou:--Dize cá, então não se toma hoje chá n'esta -casa? - -Luiza foi outra vez á cozinha. Disse a Joanna que viesse ella mesma -com o chá.--E d'ahi a pouco Joanna, d'avental branco, vermelha, muito -atarantada, entrou com o taboleiro. - ---E a Juliana?--perguntou logo D. Felicidade. - ---Sahiu, coitada--explicou Luiza--tem andado doente... - ---E anda-te então por fóra até estas horas?... Boa! Até desacredita uma -casa... - -O Conselheiro tambem achava imprudente: - ---Porque emfim as tentações são grandes n'uma capital, minha senhora! - -Julião exclamou, rindo: - ---Não, se aquella é tentada, descreio para sempre e totalmente, dos -meus contemporaneos. - ---Oh snr. Zuzarte!--acudiu o Conselheiro, quasi severamente--referia-me -a outras tentações: entrar, por exemplo, n'uma loja de bebidas, -appetecer-lhe ir ao Circo e desleixar os seus deveres... - -Mas D. Felicidade não podia soffrer a Juliana: achava-lhe cara de -Judas, tinha ar de ser capaz de tudo... - -Luiza defendeu-a: era muito serviçal, muito boa engommadeira, muito -honesta... - ---E anda-te pela rua até ás onze da noite!... Credo! Fosse commigo! - ---E creio--observou o Conselheiro--que tem uma doença mortal. Não é -verdade, snr. Zuzarte? - ---Mortal. Um aneurisma--respondeu Julião, sem levantar os olhos do -Dante. - ---Ainda para mais!--exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz:--Tu -o que deves fazer é descartar-te d'ella! Uma criada com uma doença -d'essas! Que até lhe póde arrebentar a vir dar um copo d'agua á gente. -Cruzes! - -O Conselheiro apoiava: - ---E ás vezes, que embaraços com a authoridade! - -Julião fechou o Dante, e disse: - ---Eu tem-me esquecido d'avisar o Jorge; mas um dia a creatura cahe-lhes -redonda no chão.--E sorveu um gole de chá. - -Luiza estava afflicta. Parecia-lhe que uma nova complicação se formava -para a torturar... Pôz-se a dizer que era tão difficil arranjar -criadas... - -Lá isso era, concordaram. - -Fallaram de criados, das suas exigencias. Estavam cada vez mais -atrevidos! E em se lhes dando confiança! E que immoralidade!... - ---Muitas vezes é culpa das amas--disse D. Felicidade.--Fazem das -criadas confidentes, e isto, em ellas apanhando um segredo, tornam-se -as donas da casa... - -As mãos tremulas de Luiza faziam-lhe tilintar a chavena. Disse, com uma -voz affectadamente risonha: - ---E o Conselheiro, que tal de criados? - -Accacio tossiu: - ---Bem. Tenho uma pessoa respeitavel, com bom paladar, muito escrupulosa -em contas... - ---E que não é feia--acudiu Julião.--Assim me pareceu uma vez que fui á -rua do Ferregial... - -Uma vermelhidão espalhára-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade -fitava-o anciosamente, com a pupilla chammejante. Accacio, então, disse -com severidade: - ---Nunca reparo para a physionomia dos subalternos, snr. Zuzarte. - -Julião ergueu-se e enterrando as mãos nos bolsos, jovialmente: - ---Foi um grande erro abolir a escravatura!... - ---E o principio da liberdade?--acudiu logo o Conselheiro--E o principio -da liberdade? Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a -liberdade é um bem maior. - -Alargou-se então em considerações; fulminou os horrores do trafico, -lançou suspeitas sobre a philantropia dos inglezes, foi severo com os -plantadores da Nova-Orleans, contou o caso da _Charles et Georges_: -dirigia-se exclusivamente a Julião, que fumava, cabisbaixo. - -D. Felicidade fôra-se sentar ao pé de Luiza, e muito inquieta, -fallando-lhe ao ouvido: - ---Tu conheces a criada do Conselheiro? - ---Não. - -Será bonita? - -Luiza encolheu os hombros. - ---Não sei que me diz o coração, Luiza! Estou a abafar! - -E em quanto Accacio, de pé, perorava para Julião, D. Felicidade ia -murmurando a Luiza as queixas da sua paixão. - -Que allivio para Luiza quando elles sahiram! O que ella soffrera, lá -por dentro, toda aquella noite! Que massadores, que idiotas!--E a outra -sem vir! Oh que vida a sua! - -Foi á cozinha dizer a Joanna: - ---Espere pela Juliana, tenha paciencia. Que ella não póde tardar; -aquillo a mulher achou-se peor! - -Mas já passava de meia noite, já Luiza estava deitada, quando a -campainha tocou de leve; depois mais forte; emfim, com impaciencia. - -A rapariga adormeceu, pensou Luiza. Saltou da cama, subiu descalça -á cozinha. Joanna, estirada para cima da mesa, resonava ao pé do -candieiro de petroleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fêl-a pôr -de pé, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu d'ahi a -pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer com satisfação: - ---Já está tudo acommodado, hein? Pois eu estive no theatro. Muito -bonito! Do melhor, snr.^a Joanna, do melhor! - -Luiza adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto -agitou-a.--Estava n'um theatro immenso, dourado como uma igreja. -Era uma gala: joias faiscavam sobre seios mimosos, condecorações -reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei triste e moço, -immovel n'uma attitude rigida e hieratica, sustentava na mão a esphera -armillar, e o seu manto de velludo escuro, constellado de pedrarias -como um firmamento, espalhava-se em redor em pregas d'esculptura, -fazendo tropeçar a multidão dos cortezãos vestidos como valetes de paus. - -Ella estava no palco; era actriz; debutava no drama d'Ernestinho: e -toda nervosa via diante de si na vasta platéa susurrante, fileiras de -olhos negros e accesos, cravados n'ella com furor: no meio a calva -do Conselheiro, d'uma redondeza nevada e nobre, sobresahia, rodeada -como uma flôr d'um vôo amoroso d'abelhas. No palco oscillava a vasta -decoração d'uma floresta; ella notava sobretudo, á esquerda, um -carvalho secular, d'uma arrogancia heroica--cujo tronco tinha a vaga -configuração d'uma physionomia, e se parecia com Sebastião. - -Mas o contra-regra bateu as palmas: era esguio, parecia-se com D. -Quixote, trazia oculos redondos com aros de lata, brandia _o Jornal do -Commercio_ torcido em saca-rolhas, e gania: salta a scenasinha de amor! -salta-me essa maravilha! Então a orchestra, onde os olhos dos musicos -reluziam como granadas e as suas cabelleiras se erriçavam como montões -d'estopa, tocou com uma lentidão melancolica o fado de Leopoldina; e -uma voz aspera e canalha cantava em falsete: - - Vejo-o nas nuvens da tarde, - Nas ondas do mar sem fim, - E por mais longe que esteja - Sinto-o sempre ao pé de mim. - -Luiza achava-se nos braços de Bazilio que a enlaçavam, a queimavam: -toda desfallecida, sentia-se perder, fundir-se n'um elemento quente -como o sol e dôce como o mel: gozava prodigiosamente: mas, por entre os -seus soluços, sentia-se envergonhada, porque Bazilio repetia no palco, -sem pudor, os delirios libertinos do _Paraiso_! Como consentia ella? - -O theatro n'uma acclamação immensa bradava: Bravo! Bis! bis! Lenços aos -milhares esvoaçavam como borboletas brancas n'um campo de trevo: os -braços nús das mulheres lançavam com um gesto ondeado ramos de violetas -dobradas: o rei erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou -como um _bouquet_ a sua esphera armillar: e o Conselheiro logo, n'um -phrenesi, para seguir os exemplos de Sua Magestade, desaparafusando -rapidamente a calva, atirou-lh'a, com um berro de dôr e de gloria! O -contraregra gania:--Agradeçam! Agradeçam! Ella curvava-se, os seus -cabellos de Magdalena rojavam pelo tablado: e Bazilio, a seu lado, -seguia com olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com a -graça d'um toureiro e a destreza d'um _clown_! - -Subitamente, porém, todo o theatro teve um _ah_! d'espanto. -Fez-se um silencio ancioso e tragico; e todos os olhos, milhares -d'olhos attonitos se fitavam no pano de fundo, onde um caramanchão -arqueava a sua estructura toda estrellada de rosinhas brancas. -Ella voltou-se tambem como magnetisada, e viu Jorge, Jorge que se -adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mão; e -a lamina reluzia--menos que os olhos d'elle! Aproximou-se da rampa e -curvando-se, disse com uma voz graciosa: - ---Real magestade, senhor infante, snr. governador civil, minhas -senhoras, e meus senhores--agora é commigo! Reparem n'este trabalhinho! - -Caminhou então para ella com passos marmoreos que faziam oscillar o -tablado; agarrou-lhe os cabellos, como um mólho d'herva que se quer -arrancar; curvou-lhe a cabeça para traz; ergueu d'um modo classico o -punhal; fez a pontaria ao seio esquerdo: e balançando o corpo, piscando -o olho, cravou-lhe o ferro! - ---Muito bonito!--disse uma voz--Rico trabalho! - -Era Bazilio que fizera entrar nobremente na platéa o seu phaeton! -Direito na almofada, com o chapéo ao lado, uma rosa na sobrecasaca, -continha com a mão negligente a inquietação soberba dos seus cavallos -inglezes; e ao seu lado, sentado como um trintanario coberto das -suas vestes sacerdotaes, vinha o patriarcha de Jerusalém!--Mas Jorge -arrancára o punhal todo escarlate; as gotas de sangue corriam até á -ponta, coalhavam; cahiam depois com um som crystallino, punham-se a -rolar pelo tablado como continhas de vidro vermelho. Ella deitára-se, -expirante, sob o carvalho que se parecia com Sebastião: então, como -a terra era dura, a arvore estendeu por baixo d'ella as suas raizes, -macias como coxins de pennas; como o sol a mordia, a arvore desdobrou -sobre ella as suas ramagens, como os panos d'uma tenda: e das folhas -deixava-lhe escorrer sobre os labios gotas de vinho da Madeira! Ella -via no entanto com terror o seu sangue sahir da ferida, vermelho e -forte, correr, alastrar-se, fazendo poças aqui, ribeirinhos tortuosos -além. E ouvia a platéa berrar: - ---O author! Fóra o author! - -Ernestinho, muito frisado, pallido, appareceu; agradecia soluçando; e, -ás cortezias, saltava aqui, acolá--para não sujar no sangue da prima -Luiza os seus sapatinhos de verniz... - -Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente:--Ólá, como vai -isso?--Parecia-lhe de Jorge. D'onde vinha? Do céo? da platéa? do -corredor? Um ruido forte, como d'uma mala que se deixa cahir, -acordou-a. Sentou-se na cama. - ---Bem, deixe ahi--disse a voz de Jorge. - -Saltou em camisa. Elle entrava. E ficaram enlaçados, n'um longo abraço, -os beiços collados, sem uma palavra. O relogio do quarto dava sete -horas. - - - - -X - - -N'esse dia pela uma hora Jorge e Luiza acabavam d'almoçar, como na -vespera da partida d'elle. Mas agora não pesava a faiscante inclemencia -da calma, as janellas estavam abertas ao sol amavel d'outubro; já -passavam no ar certas frescuras outonaes; havia uma pallidez meiga -na luz; á tardinha já «sabiam bem» os paletots; e tons amarellados -começavam a envelhecer as verduras. - ---Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho!--disse Jorge, -estirando-se na _voltaire_. - -Estivera contando a Luiza a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro, -e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos d'um bello relatorio; -creára amigos n'aquella boa gente do Alemtejo; estavam acabadas as -soalheiras, as cavalgadas pelos montados, os quartos d'hospedaria; e -alli estava emfim na sua casinha. E como na vespera da sua partida, -soprava o fumo do cigarro, cofiando com delicias o bigode,--porque -tinha cortado a barba! Fôra a grande admiração de Luiza, quando o viu. -Elle explicára, com humilhação e melancolia, que tivera um furunculo no -queixo, com o calor... - ---Mas que bem te fica!--tinha ella dito--que bem que te fica! - -Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de louça da China, muito -antigos, com mandarins bojudos, de tunicas esmaltadas, suspensos -magestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em -casa d'umas velhas miguelistas, em Mertola. Luiza dispunha-os muito -decorativamente nas prateleiras do guarda-louça: e em bicos de pés, -com a larga cauda do seu roupão estendida por traz, a massa loura do -cabello pesado, um pouco desmanchado sobre as costas--parecia a Jorge -mais esbelta, mais irresistivel, e nunca a sua cinta fina lhe attrahira -tanto os braços. - ---A ultima vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo, -lembras-te? - ---Lembro--disse Luiza sem se voltar, collocando muito delicadamente um -prato. - ---E é verdade--perguntou Jorge de repente--teu primo? Vistel-o? Veio -vêr-te? - -O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos. - ---Sim, veio--disse Luiza, depois d'um silencio--esteve ahi umas poucas -de vezes. Demorou-se pouco... - -Abaixou-se, abriu o gavetão do guarda-louça, esteve a remexer nas -colheres de prata: ergueu-se, emfim, voltou-se com um sorriso, -vermelha, sacudindo as mãos: - ---Prompto! - -E foi sentar-se nos joelhos de Jorge. - ---Como te fica bem!--dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, d'um -modo ardente. Quando se atirára aos seus braços n'aquella madrugada, -sentira como abrir-se-lhe o coração, e um amor repentino revolver-lh'o -deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o -servir, de o apertar nos braços até lhe fazer mal, de lhe obedecer com -humildade; era uma sensação multipla, de uma doçura infinita, que a -traspassára até ás profundidades do seu sêr. E passando-lhe um braço -pelo pescoço, murmurava com um movimento d'uma adulação quasi lasciva: - ---Estás contente? Sentes-te bom? Dize! - -Nunca lhe parecera tão bonito, tão bom; a sua pessoa depois d'aquella -separação dava-lhe as admirações, os enlevos d'uma paixão nova. - ---É o snr. Sebastião--veio dizer Juliana toda risonha para Jorge. - -Jorge deu um pulo, afastou Luiza bruscamente, atirou-se pelo corredor -gritando: - ---Aos meus braços! aos meus braços, scelerado! - - -D'ahi a dias, uma manhã que Jorge sahira para o ministerio, Juliana -entrou no quarto de Luiza, e fechando a porta devagarinho, com uma voz -muito amavel: - ---Eu desejava fallar á senhora n'uma cousa. - -E começou a dizer,--que o seu quarto em cima no sotão era peor que -uma enxovia; que não podia lá continuar; o calor, o mau cheiro, os -persevejos, a falta d'ar, e no inverno a humidade, matavam-na! Emfim, -desejava mudar p'ra baixo, p'ra o quarto dos bahus. - -O _quarto dos bahus_ tinha uma janella nas trazeiras; era alto e -espaçoso; guardavam-se alli os oleados de Jorge, as suas malas, os -paletots velhos, e veneraveis bahus do tempo da avó, de couro vermelho -com pregos amarellos. - ---Ficava alli como no céo, minha senhora! - -E... aonde se haviam de pôr os bahus? - ---No meu quarto, em cima.--E com um risinho:--Os bahus não são gente, -não soffrem... - -Luiza disse um pouco embaraçada: - ---Bem, eu verei, eu fallarei ao snr. Jorge. - ---Conto com a senhora. - -Mas apenas n'essa tarde Luiza explicou a Jorge «a ambição da pobre de -Christo», elle deu um salto: - ---O quê? Mudar os bahus? Está douda! - -Luiza então insistiu: era o sonho da pobre creatura desde que viera -para a casa! Enterneceu-o. Não, elle não imaginava, ninguem imaginava -o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava, os ratos -passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fôra lá -ha dias, e ia tombando para o lado... - ---Santo Deus! Mas isso é o que minha avó contava das enxovias -d'Almeida! Muda-a, muda-a depressa, filha!... Porei os meus ricos bahus -no sotão. - -Quando Juliana soube o _favor_: - ---Ai, minha senhora, é a vida que me dá! Deus lh'o pague! Que eu não -tinha saude para viver n'um cacifro d'aquelles. - -Ultimamente queixava-se mais: andava amarella, trazia os beiços -um pouco arroxeados; tinha dias d'uma tristeza negra, ou d'uma -irritabilidade morbida: os pés nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos -cuidados, muitos cuidados!... - -Foi por isso que d'ahi a dous dias veio pedir a Luiza, «se fazia o -favor d'ir ao quarto dos bahus». E lá, mostrando-lhe o soalho velho e -carunchoso: - ---Isto não póde ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira -senão, não vale a pena mudar. Eu se tivesse dinheiro não importunava a -senhora, mas... - ---Bem, bem, eu arranjarei--disse Luiza com uma voz paciente. - -E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manhã em que os -esteireiros a pregavam Jorge veio perguntar attonito a Luiza o que era -aquillo, «rolos d'esteira no corredor»? - -Ella pôz-se a rir, pousou-lhe as mãos sobre os hombros: - ---Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o -soalho estava podre. Até a queria pagar, e que eu lh'a descontasse -nas soldadas. Ora por uma ridicularia...--E com um gesto -compassivo:--Tambem são creaturas de Deus, não são escravas, filho! - ---Magnifico! E que não tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudança -foi essa, tu que a não podias vêr? - ---Coitada!--fez Luiza--reconheci que era boa mulher. E como estive -tão só, dei-me mais com ella. Não tinha com quem fallar, fez-me muita -companhia. Até quando estive doente... - ---Estiveste doente?--exclamou Jorge espantado. - ---Oh! tres dias, só--acudiu ella--uma constipação. Pois olha que dia e -noite não se tirou d'ao pé de mim. - -Luiza ficou logo com receio que Jorge fallasse _na doença_, e Juliana -desprevenida negasse; por isso, n'essa tarde, ao escurecer, chamou-a ao -quarto: - ---Eu disse ao snr. Jorge que vossê me tinha feito muito boa companhia -n'uma doença...--E o seu rosto abrazava-se de vergonha. - -Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade: - ---Fico entendida, minha senhora! Póde estar socegada! - -Com effeito Jorge, ao outro dia, depois do café, voltou-se para -Juliana, e com bondade: - ---Parece que vossê fez boa companhia á snr.^a D. Luiza. - ---Fiz o meu dever--exclamou, curvando-se com a mão no peito. - ---Bem, bem--fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sahir da sala meteu-lhe -na mão meia libra. - ---Palerma!--rosnou ella. - -Foi n'essa semana que começou a queixar-se a Luiza, «que a roupa e os -vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam...» Estava-se-lhe a estragar -tudo! Se ella tivesse dinheiro, não vinha com aquelles pedidos á -senhora, mas... Emfim uma manhã declarou terminantemente que precisava -uma commoda. - -Luiza sentiu uma raiva accender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos -do bordado: - ---Uma meia commoda? - ---Se a senhora quer fazer o favor, então uma commoda inteira... - ---Mas vossê tem pouca roupa--disse Luiza. Começava a installar-se na -humilhação e já regateava as condescendencias. - ---Tenho, sim, minha senhora--replicou Juliana--mas vou agora -completar-me! - -A commoda foi comprada em segredo, e introduzida occultamente. Que dia -de felicidade para Juliana! Não se fartava de lhe saborear o cheiro -da madeira nova! Passava a mão, com a tremura d'uma caricia, sobre -o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de sêda, _e -começou a completar-se_! - - -Foram semanas d'amargura para Luiza. - -Juliana entrava no quarto todas as manhãs, muito comprimenteira, -começava a arrumar, e de repente com uma voz lamentosa: - ---Ai! estou tão falta de camisas! se a senhora me podesse ajudar... - -Luiza ia ás suas gavetas cheias, cheirosas, e começava melancolicamente -a pôr á parte as peças mais usadas. Adorava a sua roupa branca: tinha -tudo ás duzias, com lindas marcas, _sachets_ para perfumar; e aquellas -dadivas dilaceravam-n'a como mutilações! Juliana por fim já pedia com -seccura, com direito: - ---Que bonita que é esta camisinha!--dizia simplesmente.--A senhora não -a quer; não? - ---Leve, leve!--dizia Luiza sorrindo, por orgulho, para não se mostrar -violentada. - -E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira, -inchada d'alegria, com o candieiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa, -desfazendo as duas letras de Luiza, marcando regaladamente as suas, a -linha vermelha, enormes--_J. C. T.,_--Juliana Couceiro Tavira! - -Mas emfim cessou, porque, como ella dizia, «de roupa branca estava como -um ovo». - ---Agora, se a senhora me quizer ajudar com alguma cousa para sahir... - -E Luiza começou a _vestil-a_. - -Deu-lhe um vestido roxo de sêda, um casaco de casimira preta, -com bordados a _soutache_. E receando que Jorge estranhasse as -generosidades, transformava-as para elle as não reconhecer: mandou -tingir de castanho o vestido, ella mesmo por sua mão pôz uma guarnição -de velludo no casaco. Trabalhava para ella, agora!--Como acabaria tudo -aquillo, Santo Deus? - -Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo: - ---Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos. - -D. Felicidade, á noite, tambem notou: - ---Que _chic_! Nem uma criada do paço! - ---Coitada! cousas que ella aproveita... - -Prosperava, com effeito! Não punha na cama senão lençoes de linho. -Reclamára colxões novos, um tapete para os pés da cama, felpudo! Os -_sachets_ que perfumavam a roupa de Luiza iam passando para a dobra -das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janella, apanhadas com -velhas fitas de sêda azul; e sobre a commoda dous vasos da Vista Alegre -dourados! Emfim um dia santo, em lugar da _cuia_ de retroz, appareceu -com um _chignon_ de cabello! - -Joanna pasmava d'aquellas tafularias. Attribuia-as á bondade da -senhora, e resentia-se de ser «esquecida». Um dia mesmo, que Juliana -estreára uma sombrinha, disse diante de Luiza, com uma voz de despeito: - ---Para umas tudo, para outras nada!... - -Luiza riu, acudiu: - ---Tolices! Eu sou a mesma p'ra todas. - -Mas reflectiu: Joanna podia ter desconfianças tambem, ter ouvido -_alguma cousa_ a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar -contente e amiga, deu-lhe dous lenços de sêda, depois dous mil reis -para um vestido; e d'ahi por diante nunca lhe recusou licença para -sahir á noitinha _a casa d'uma tia_... - -A Joanna ia por toda a parte fallando da «senhora, que era um anjo». -Na rua, de resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do -«quarto novo», dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com -indignação, «que alli positivamente havia marosca». Mas Juliana uma -tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas. - ---Ora! dizem que tenho isto e aquillo. Não é tanto! Tenho as minhas -commodidades. Mas tambem a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia -e de noite, sem arredar pé... Por mais que façam não me pagam, que -arruinei a minha saude! - -Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a familia -agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta! - -E, pouco a pouco, a casa do «Engenheiro» teve para os criados da -visinhança a vaga seducção d'um paraiso: dizia-se que as soldadas -eram enormes, havia vinho á discrição, recebiam-se presentes todas as -semanas, ceava-se todas as noites caldo do gallinha! Cada um invejava -aquella «pechincha». Pela inculcadeira, a fama da «casa do Engenheiro» -alargou-se. Creou-se uma legenda. - -Jorge, attonito, recebia todos os dias cartas de pessoas offerecendo-se -para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros, -governantas, cocheiros, guarda-portões, ajudantes de cozinha... Citavam -as casas titulares de que tinham sahido; pediam audiencia; suspeitando -certas cousas uma bonita criada de quarto juntou a sua photographia; um -cozinheiro trouxe uma carta d'empenho do director geral do ministerio. - ---Estranho caso!--dizia Jorge, pasmado--disputam-se a honra de me -servir! Imaginarão que me sahiu a sorte grande? - -Mas não dava muita attenção áquella singularidade. Vivia então muito -occupado: andava escrevendo o seu relatorio; e todos os dias sahia ao -meio dia, voltava ás seis, com rolos de papeis, mappas, brochuras, -fatigado, berrando pelo jantar, radiante. - -Contou o _caso_, todavia, rindo, um domingo á noite. O Conselheiro -observou logo: - ---Com o bom genio da D. Luiza, com o seu, Jorge, n'este bairro -saudavel, n'uma casa sem escandalos, sem questões de familia, toda -virtude, é natural que a criadagem menos favorecida aspire a uma -posição tão agradavel. - ---Somos os amos ideaes!--disse Jorge, batendo muito alegre no hombro de -Luiza. - -A casa, com effeito, tornava-se «agradavel». Juliana exigira que o -jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como -era boa cozinheira vigiava os fogões, provava, ensinava pratos á Joanna. - ---Esta Joanna é uma revelação--dizia Jorge--vê-se-lhe crescer o -talento!... - -Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pelle, -colxões macios, saboreava a vida: o seu temperamento adoçára-se -n'aquellas abundancias; depois, bem aconselhada pela tia Victoria, -fazia o seu serviço com um zelo minucioso e habil. Os vestidos de Luiza -andavam cuidados como reliquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham -resplandecido tanto! O sol d'outubro alegrava a casa, muito aceada, -d'uma pacatez d'abbadia. Até o gato engordava. - - -E no meio d'aquella prosperidade--Luiza definhava-se. Até onde iria a -tyrannia de Juliana? era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a -por vezes com um olhar tão intensamente rancoroso, que receava que ella -se voltasse subitamente, como ferida pelas costas. E via-a satisfeita, -cantarolando a _Carta adorada_, dormindo em colxões tão bons como os -seus, pavoneando-se na _sua_ roupa, reinando na _sua_ casa! Era justo, -justos céos? - -Ás vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braços, blasphemava, -debatia-se na sua desgraça, como nas malhas d'uma rêde; mas, não -encontrando nenhuma solução, recahia n'uma melancolia aspera--em que o -seu genio se pervertia. Seguia com satisfação a amarellidão crescente -das feições de Juliana; tinha esperanças no aneurisma: não rebentaria -um dia, o demonio? - -E diante de Jorge tinha de a elogiar! - -A vida pesava-lhe. Apenas elle pela manhã sahia e fechava a cancella, -logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma, -devagar, como grandes véos espessos que se abatem lugubremente; não -se vestia então até ás quatro, cinco horas, e com o roupão solto, em -chinellas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto. -Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir metter-se -n'um convento! A sua sensibilidade muito exaltada impellil-a-hia de -certo a alguma resolução melodramatica,--se a não retivesse, com a -força d'uma seducção permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava -agora, immensamente! Amava-o com cuidados de mãi, com impetos de -concubina... Tinha ciumes de tudo, até do ministerio, até do relatorio! -Ia interrompêl-o a cada momento, tirar-lhe a penna da mão, reclamar -o seu olhar, a sua voz; e os passos d'elle no corredor davam-lhe o -alvoroço dos amores illegitimos... - -De resto ella mesma se esforçava por desenvolver aquella paixão, -achando n'ella a compensação ineffavel das suas humilhações. Como -lhe viera _aquillo_? Porque sempre o amára, de certo, reconhecia-o -agora,--mas não tanto, não tão exclusivamente! Nem ella sabia. -Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente n'aquella violencia amorosa -pouca dignidade conjugal: suspeitava que o que tinha era apenas um -_capricho_. Um capricho por seu marido! Não lhe parecia rigorosamente -casto... Que lhe importava, de resto? Aquillo fazia-a feliz, -prodigiosamente. Fosse o que fosse era delicioso! - -Ao principio a idéa do _outro_ pairava constantemente sobre este amor, -pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas -pouco a pouco esquecêra-o tanto, o _outro_--que a sua recordação, -quando por acaso voltava, não dava mais amargor á nova paixão, que um -torrão de sal póde dar ás aguas d'uma torrente. Que feliz que seria--se -não fosse a _infame_! - - -Era a _infame_ que se sentia feliz! Ás vezes só no seu quarto, punha-se -a olhar em redor com um riso d'avaro: desdobrava, batia os vestidos de -sêda: punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, extatica; -e debruçada sobre as gavetas abertas da commoda contava, recontava a -roupa branca, acariciando-a com o olhar de posse satisfeita. Como a da -_Piorrinha_!--murmurava, afogada em jubilo. - ---Ai! estou muito bem!--dizia ella á tia Victoria. - ---Que duvida que estás! A carta não te rendeu um conto de reis, mas -olha que te trouxe um par de regalos. E é que ha-de ser uma pingadeira: -ha-de ser a boa peça de linho, o bom adereço, boas moedas... E ainda -muito obrigada por cima. Carda-a, filha, carda-a! - -Mas já havia pouco que _cardar_. E lentamente Juliana começou a pensar, -que agora o que devia era _gozar_. Se tinha bons colxões--para que se -havia de levantar cêdo? Se tinha bons vestidos--porque não havia d'ir -espairecer para a rua? Toca a tirar partido! - -Uma manhã que estava mais frio deixou-se ficar na cama até ás nove -horas, com as janellas entreabertas, um bom raio de sol na esteira. -Depois explicou seccamente, que tinha estado com a dôr. D'ahi a dous -dias Joanna, ás dez horas, veio dizer baixo a Luiza: - ---A snr.^a Juliana ainda está na cama, está tudo por arrumar. - -Luiza ficou aterrada. O quê? Teria de soffrer os seus desmazelos, como -soffrera as suas exigencias? - -Foi ao quarto d'ella: - ---Então vossê levanta-se a estas horas? - ---Foi o que me recommendou o medico--replicou muito insolente. - -E d'ahi por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de -servir ao almoço. Luiza pediu logo a Joanna que fizesse «o serviço por -ella»: era por pouco tempo, a pobre creatura andava tão adoentada! -E para acommodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda d'um -vestido. - -Juliana depois, sem pedir licença, começou a sahir. Quando voltava -tarde, para o jantar, não se desculpava! - -Um dia Luiza não se conteve, disse-lhe, vendo-a passar no corredor a -calçar as luvas pretas: - ---Vossê vai sahir? - -Ella respondeu, muito atrevidamente: - ---É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é minha obrigação.--E -abalou, batendo os tacões. - -Ora, não lhe faltava mais senão estar a constranger-se por causa da -_Piorrinha_! - -Joanna começava a resmungar: «passa a sua vida na rua a snr.^a Juliana, -e eu é que aguento...» - ---Se vossê estivesse doente, tambem ninguem lhe ia á mão--acudia Luiza, -afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe -mesmo vinho e sobremesa. - -Havia agora um desperdicio na casa. Os roes cresciam. Luiza andava -succumbida.--Como acabaria tudo aquillo? - -Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves. - -Para sahir mais cedo fazia apenas o «essencial». Era Luiza que acabava -d'encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoço, que -levava para o sotão roupa suja que ficava pelos cantos... - -Um dia Jorge que entrára ás quatro horas, viu por acaso a cama por -fazer. Luiza apressou-se a dizer que «Juliana sahira, mandára-a ella á -modista». - -D'ahi a dias, eram seis horas, ainda não tinha voltado para servir ao -jantar. «Tinha ido á modista...» explicou Luiza. - ---Mas se a Juliana é unicamente para ir á modista, então toma-se outra -criada para fazer o serviço da casa--disse elle. - -Áquellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, duas lagrimas -rolaram-lhe pela face. - -Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luiza não se dominou, rompeu -n'um choro nervoso, hysterico. - ---Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?... - -Ella não podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de -_toillette_, beijou-a muito. - -Só quando o choro acalmou é que ella pôde dizer, com uma voz soluçada: - ---Fallaste-me tão seccamente, e eu estou tão nervosa... - -Elle riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas--mas ficou -inquieto. - -Já então lhe notára certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma -irritabilidade nervosa... Que seria? - -Para que Jorge não tornasse a surprehender os desleixos, Luiza começou -a completar todas as manhãs os arranjos. Juliana percebeu logo; e -muito tranquillamente decidiu-se a «deixar-lhe de cada vez mais com -que se entreter». Ora não varria, depois não fazia a cama; emfim uma -manhã não vasou as aguas sujas. Luiza foi espreitar no corredor que -Joanna não descesse, não a visse, e fez ella mesma os despejos! Quando -veio ensaboar as mãos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava -morrer!... A que tinha chegado!... - -D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a -varrer a sala. - ---Que eu o faça--exclamou--que tenho só uma criada, mas tu!... - -A Juliana tinha tanto que engommar... - ---Ai! não lhe tires serviço do corpo, que não t'o agradece. E ainda se -ri por cima! Se a pões em maus costumes!... Que aguente, que aguente! - -Luiza sorriu, disse: - ---Ora, por uma vez na vida! - - -A sua tristeza augmentava cada dia. - -Refugiava-se então no amor de Jorge como na sua unica consolação. A -noite trazia-lhe a sua desforra: Juliana a essa hora dormia; não via a -sua cara medonha; não a receava; não tinha de a elogiar; não trabalhava -por ella! Era _ella mesma_, era Luiza, como d'antes! Estava na sua -alcova com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir, -conversar, ter até appetite! E trazia com effeito ás vezes marmelada e -pão para o quarto--para fazer uma cêasinha! - -Jorge estranhava-a. «Tu de noite és outra», dizia. Chamava-lhe -_ave nocturna_. Ella ria em saia branca pelo quarto, com os braços -nús, o collo nú, o cabello n'um rolo; e passarinhava, cantarolava, -chalrava--até que Jorge lhe dizia: - ---Passa da uma hora, filha! - -Despia-se então rapidamente, cahia-lhe nos braços. - -Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manhã, tudo lhe -parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com -repugnancia--entrando no seu dia como n'uma prisão. - -Perdêra agora toda a esperança de se libertar! Ás vezes ainda lhe -vinha, como um relampago, a vontade «de contar tudo a Sebastião, tudo». -Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraçar Jorge, rirem ambos, -e irem fumar o seu cachimbo, e elle tão cheio sempre d'admiração por -ella, parecia-lhe mais facil sahir p'ra a rua, pedir dinheiro ao -primeiro homem que encontrasse--que ir a Sebastião, ao intimo de Jorge, -ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a -criada roubou-m'a! Não, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias, -e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! Ás vezes reflectia, -pensava:--Mas com que conto eu?--Não sabia. Com o acaso, com a morte -de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que -vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma cousa de indefinido e de -tenebroso onde se afundaria! - -Por esse tempo Jorge começou a queixar-se que as suas camisas andavam -mal engommadas. A Juliana positivamente «perdia a mão». Um dia mesmo -zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada: - ---Isto não se póde vestir, está indecente! - -Juliana fez-se amarella, cravou em Luiza um olhar chammejante; mas, com -os beiços tremulos, desculpou-se: «a gomma era má, fôra já trocal-a», -etc. - -Apenas, porém, Jorge sahiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a -porta e poz-se a gritar--que a senhora sujava _um rôr_ de roupa, o -senhor _um rôr_ de camisas, que se não tivesse alguem que a ajudasse -não podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brazil! - ---E não estou para aturar o genio de seu marido, percebe a senhora? Se -quer é arranjar quem me ajude. - -Luiza disse simplesmente: - ---Eu a ajudarei. - -Tinha agora uma resignação muda, sombria, aceitava tudo! - -Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio -dizer--que se a senhora passasse, ella engommava. Senão, não! - -Estava um dia adoravel, Luiza tencionava sahir... Pôz um roupão, e, sem -uma palavra, foi buscar o ferro. - -Joanna ficou attonita. - ---Então a senhora vai engommar? - ---Ha uma carga, e a Juliana só não póde aviar tudo, coitada! - -Installou-se no quarto dos engommados,--e estava laboriosamente -passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana appareceu, de chapéo. - ---Vossê vai sahir?--exclamou Luiza. - ---É o que eu vinha dizer á senhora. Não posso deixar de sahir.--E -abotoava as luvas pretas. - ---Mas as camisas, quem as engomma? - ---Eu vou sahir--disse a outra seccamente. - ---Mas, com os diabos, quem engomma as camisas? - ---Engomme-as a senhora! Olha a sarna! - ---Infame!--gritou Luiza. Atirou o ferro para o chão, sahiu -impetuosamente. - -Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluços. Pôz-se logo a tirar o -chapéo e as luvas, assustada. D'ahi a um momento ouviu a cancella da -rua bater com força. Veio ao quarto, viu o roupão de Luiza arremessado, -a chapelleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se á policia? Procurar -o marido? C'os diabos! Fôra estupida, com o genio! Arrumou depressa -o quarto, foi-se pôr a engommar, com o ouvido á escuta, muito -arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impellisse -a fazer algum desproposito, quem perdia? Ella, que teria de sahir da -casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posição! Safa! - - -Luiza sahira, como louca. Na rua da Escóla um coupé passava, vazio: -atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. -Leopoldina devia ter voltado do Porto, queria vêl-a, precisava d'ella, -sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe uma idéa, um meio de se -vingar! Porque a vontade de se libertar d'aquella tyrannia--era agora -menor que o desejo de se vingar d'aquellas humilhações. Vinham-lhe -idéas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um -prazer delicioso em a vêr torcer-se com vomitos dilacerantes, uivando -d'agonia, largando a alma! - -Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito -tempo do puxão da sua mão febril. - -A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor: - ---É a snr.^a D. Luiza, minha senhora, é a snr.^a D. Luiza! - -E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate de grande cauda, -correu estendendo os braços: - ---És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me agora! Entra cá p'ra o -quarto. Está tudo desarranjado, mas não importa. Mas que é isto, que é -isto? - -Abriu as janellas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de -vinagre de _toilette_; a Justina tirava á pressa uma bacia de latão, -com agua ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira -tinham ficado da vespera os rolos de cabello, o collete, uma chavena -com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o -transparente, dizendo: - ---Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!... - -Mas vendo o rosto perturbado de Luiza, os seus olhos vermelhos de -lagrimas: - ---Que é? Que tens tu? Que succedeu? - ---Um horror, Leopoldina!--exclamou, apertando as mãos. - -A outra foi fechar a porta, rapidamente. - ---Então? - -Mas Luiza chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada. - ---A Juliana apanhou-me umas cartas!--disse emfim por entre -soluços.--Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me -martyrisado... Quero que me digas, vê se te lembras... Estou como -douda. Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso!--E as lagrimas -redobravam. - ---E as tuas joias? - ---Valem duzentos mil reis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer? - -Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os -braços: - ---Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, dá vinte libras!... - -Luiza murmurava, limpando os olhos: - ---Que expiação esta, Santo Deus, que expiação! - ---Que diz a carta? - ---Horrores! Estava douda... É uma minha, duas d'elle. - ---De teu primo? - -Luiza disse «sim», com a cabeça, lentamente. - ---E elle? - ---Não sei! Está em França, nunca me respondeu. - ---Pulha! Como t'as apanhou, a mulher? - -Luiza contou rapidamente a historia do sarcophago, e do cofre. - ---Mas tu tambem, Luiza, atirar uma carta d'essas! Oh mulher, isso é -medonho! - -E Leopoldina pôz-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do -roupão escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam -procurar um meio, um expediente... Murmurava: - ---A questão é de dinheiro... - -Luiza, prostrada no sophá, repetia: - ---A questão é de dinheiro! - -Então Leopoldina, parando bruscamente diante d'ella: - ---Eu sei quem te dava o dinheiro!... - ---Quem? - ---Um homem. - -Luiza ergueu-se, espantada: - ---Quem? - ---O Castro. - ---O d'oculos? - ---O d'oculos. - -Luiza fez-se muito córada: - ---Oh Leopoldina!--murmurou. E depois d'um silencio, rapidamente: - ---Quem t'o disse? - ---Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que -te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais d'uma vez. - ---Que horror!--exclamou Luiza subitamente indignada.--E tu propões-me -semelhante cousa?--O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, -dardejava de colera. Ir com um homem por dinheiro!--Tirou o chapéo, -violentamente, com as mãos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e -com passos rapidos pelo quarto:--Antes fugir, ir para um convento, ser -criada, apanhar a lama das ruas! - ---Não te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te -emprestasse o dinheiro, desinteressadamente... - ---Acreditas tu? - -Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa, fazia girar os anneis nos -dedos. - ---E quando fosse outra cousa?--exclamou de repente--Era um conto de -reis, eram dous, estavas salva, estavas feliz! - -Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas palavras--dos seus -proprios pensamentos, talvez! - ---É indecente! É horrivel!--dizia. - -Ficaram caladas. - ---Ah! fosse eu!...--disse Leopoldina. - ---Que fazias? - ---Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro! - ---Isso és tu!--exclamou Luiza, arrebatadamente. - -Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó d'arroz. - -Mas Luiza atirou-lhe os braços ao pescoço: - ---Perdôa-me, perdôa-me! estou douda, não sei o que digo!... - -Começaram ambas a chorar, muito nervosas. - ---Tu zangaste-te!--dizia Leopoldina cortada de soluços.--Mas é p'ra -teu bem. É o que me parece melhor. Se eu podesse dava-te o dinheiro... -Fazia tudo. Acredita! - -E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime: - ---Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinhal-o ámanhã! - -Nós de dedos bateram á porta. - ---Quem é? - ---Eu--disse uma voz rouca. - ---É meu marido. O animal ainda hoje não despegou de casa... Não posso -abrir. Logo. - -Luiza limpava os olhos, á pressa, punha o chapéo. - ---Quando voltas?--perguntou Leopoldina. - ---Quando puder, senão escrevo-te. - ---Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar... - -Luiza agarrou-lhe o braço: - ---E d'isto, nem palavra. - ---Douda! - - -Sahiu. Foi subindo devagar até ao largo de S. Roque. A porta da igreja -da Misericordia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho -d'armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo -d'entrar. Não sabia para quê; mas parecia-lhe que depois da excitação -apaixonada em que vibrára, o fresco silencio da igreja a calmaria. -E depois sentia-se tão infeliz que se lembrou de Deus! necessitava -alguma cousa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar -ao pé d'um altar, persignou-se, rezou o _Padre-Nosso_, depois a _Salve -Rainha_. Mas aquellas orações, que ella recitava em pequena, não a -consolavam; sentia que eram sons inertes que não iam mais alto no -caminho do céo que a sua mesma respiração; não as comprehendia bem, -nem se applicavam ao seu _caso_: Deus por ellas, nunca poderia saber o -que ella pedia, alli, prostrada na afflicção. Quereria fallar a Deus, -abrir-se toda a elle: mas com que linguagem? Com as palavras triviaes, -como se fallasse a Leopoldina? Iriam as suas confidencias tão longe, -que o alcançassem? Estaria elle tão perto, que a ouvisse? E ficou -ajoelhada, os braços molles, as mãos cruzadas no regaço, olhando as -velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha -rosada e redonda d'um menino Jesus! - -Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella não dirigia, que se -formava e se movia no seu cerebro, como a fluctuação d'um fumo que se -eleva. Pensava no tempo tão distante, em que, por melancolia e por -sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda a mamã vivia -então; e ella, com o coração quebrado--quando o _outro_, Bazilio, lhe -escrevera, rompendo--procurava dissipar a sua tristeza nas consolações -da devoção. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, fôra por esse tempo -professar a França: e ella ás vezes lembrava-se de partir tambem, -ser irmã de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou -viver na paz d'uma cella mystica! Que differente a sua vida teria -sido--d'esta agora tão alvoroçada de cólera, e tão carregada de -peccado!... Onde estaria? Longe, n'algum mosteiro antigo, entre -arvoredos escuros, n'um valle solitario e contemplativo: na Escocia, -talvez, paiz que ella sempre amára desde as suas leituras de Walter -Scott. Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe, -n'alguma velha abbadia saxonia. Em redor os montes cobertos d'abetos, -esbatidos nas nevoas, isolam aquelles retiros n'uma paz funeraria: n'um -céo saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som -festivo quebra a meiga taciturnidade das cousas: revoadas de corvos -cortam á tarde o ar n'um vôo triangular. Alli viveria entre as monjas -d'alta estatura e olhar celtico, filhas de duques normandos, ou de -lords de _clans_ convertidos a Roma: leria livros dôces e cheios das -cousas do céo: sentada na estreita janella da sua cella, veria passar -nas mattas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas -escutaria o som distante da _bagpipe_, que vai tristemente tocando o -pastor que vem dos valles de Callendar: e todo o ar estaria cheio do -murmurio choroso e gottejante dos fios d'agua, que por entre as relvas -escuras cahem de rocha em rocha! - -Ou então seria outra existencia mais regalada, no convento pacato d'uma -boa provincia portugueza. Alli os tectos são baixos; as paredes caiadas -faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no -vivo ar azul; em roda, nos campos d'oliveiras que dão azeite para o -convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pateo lageado d'uma -pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a -ferradura: matronas cochicham ao pé da roda; um carro chia na estrada -empoeirada e branca; gallos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras -gordinhas, d'olho negro, chalram nos frescos corredores. - -Alli viveria, engordando, com uma quebrasinha de somno á hora do côro, -bebendo copinhos de licôr de rosa no quarto da madre-escrivã, copiando -receitas de dôces com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as -andorinhas cantar á beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita, -com a pitada nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da bocca da madre -abbadessa a historia edificante da sua santa morte... - -Um sacristão, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de -passaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram. -Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste. - -Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz supplicante -e baixa: - ---A senhora por quem é perdôe, que depois estava douda! Estava com -a cabeça perdida, não tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais -afflicta... - -Luiza não respondeu, entrou na sala. Sebastião que vinha jantar, tocava -a serenata de D. Juan--e apenas ella appareceu: - ---D'onde vem, tão pallida? - ---Debilidade, Sebastião, venho da igreja... - -Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na mão: - ---Da igreja!--exclamou--Que horror! - - - - -XII - - -Foi por esse tempo que, n'um sabbado, o Diario do Governo publicou a -nomeação do conselheiro Accacio ao _grau de cavalleiro da ordem de S. -Thiago_, attendendo aos seus grandes merecimentos litterarios, ás obras -publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes... - -Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram, -felicitando-o com alarido; o Conselheiro, depois de os abraçar um por -um, n'uma pressão nervosa e commovida, cahiu no sophá, exhausto, e -murmurou: - ---Não o esperava tão cedo da real munificencia! Não o esperava tão -cedo!--E acrescentou, pondo a mão espalmada sobre o peito:--Direi como -o philosopho: Esta condecoração é o melhor dia da minha vida! - -E convidou logo Jorge, Sebastião e Julião para um jantar na -quinta-feira, «um modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugurio, -para festejarem a regia graça». - ---Ás cinco e meia, meus bons amigos! - -Na quinta-feira, os tres, que se tinham encontrado na Casa Havaneza, -eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfregão, na -sala do Conselheiro. Um vasto canapé de damasco amarello occupava a -parede do fundo, tendo aos pés um tapete onde um chileno roxo caçava ao -laço um bufalo côr de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons -côr de carne, e cheia de corpos nús cobertos de capacetes, representava -o valente Achilles arrastando Heitor em torno dos muros de Troya. Um -piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta verde, enchia -o intervallo das duas janellas. Sobre uma mesa de jogo, entre dous -castiçaes de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o -objecto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de musica de -18 peças! - -O Conselheiro recebeu-os, com o _habito_ de S. Thiago sobre a lapella -do _frac_ preto. Havia outro sujeito na sala, o snr. Alves Coutinho. -Era picado das bexigas, tinha a cabeça muito enterrada nos hombros; -quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode -pellado arreganhava-se logo por habito, n'um sorriso alvar que mostrava -uma bocca medonha cheia de dentes pôdres; fallava pouco, esfregava -sempre as mãos, concordava em tudo; havia n'elle o ar d'um deboche -banal, e d'um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministerio do -reino, illustre pela sua boa letra. - -D'ahi a pouco entrou a figura conhecida do Savedra, redactor do -_Seculo_. A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto -reluzia de brilhantina; as lunetas d'ouro accentuavam o seu tom -official: trazia ainda no queixo o pó d'arroz, que lhe pozera momentos -antes o barbeiro; e a mão, que escrevia tanta banalidade e tanta -mentira, vinha aperreada n'uma luva nova, côr de gema d'ovo! - ---Estamos todos!--disse com jubilo o Conselheiro. E -curvando-se:--Bemvindos, meus amigos! Estamos talvez mais á vontade -no meu quarto de estudo! Por aqui. Ha um degrau, cuidado! Eis o meu -_Sanctus Sanctorum_! - -N'uma saleta muito espanejada a que as cortinas de cassa, a luz de -duas janellas de peitoril, e o papel claro davam um aspecto alvadio, -estava a larga escrivaninha de trabalho, com um tinteiro de prata, os -lapis muito aparados, as regoas bem dispostas. Via-se o sinete d'armas -do Conselheiro, pousado sobre a _Carta Constitucional_ ricamente -encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a _carta regia_ que o -nomeára Conselheiro; defronte uma lithographia d'El-Rei; e sobre uma -mesa, era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhães, -tendo no alto da cabeça uma corôa de perpetuas--que ao mesmo tempo o -glorificava e o chorava. - -Julião pozera-se logo a examinar a livraria. - ---Prezo-me de ter os authores mais illustres, amigo Zuzarte!--disse com -orgulho o Conselheiro. - -Mostrou-lhe a _Historia do consulado e do imperio_, as obras de -Delille, o _Diccionario da conversação_, a ediçãosinha bojuda da -_Encyclopedia Roret_, o _Parnaso lusitano_. Fallou dos seus trabalhos; -e acrescentou que, vendo alli reunidas pessoas de tão subida -illustração, desejaria muito lêr-lhes algumas das provas que estava -revendo do seu novo livro--_Descripção das principaes cidades do reino -e seus estabelecimentos_, para ouvir a opinião d'elles, desassombrada e -severa! - ---Se não acham massada... - ---Prazer, Conselheiro! prazer! - -Escolheu então «como mais propria para dar idéa da importancia do -trabalho» a pagina relativa a Coimbra. Assoou-se, collocou-se no meio -da saleta, de pé, com as folhas na mão, e, com uma voz cheia, gestos -pausados, leu: - -«--...Reclinada mollemente na sua verdejante collina, como odalisca -em seus aposentos, está a sabia Coimbra, a Lusa Athenas. Beija-lhe os -pés, segredando-lhe d'amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no -bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus -melancolicos trilos. Quando vos aproximaes pela estrada de Lisboa, -onde outr'ora uma bem organisada _mala-posta_ fazia o serviço que o -progresso hoje encarregou á fumegante locomotiva, vêdel-a branquejando, -coroada do edificio imponente da Universidade, asylo da sabedoria. Lá -campêa a torre com o sino, que em sua folgazã linguagem a mocidade -estudiosa chama _a cabra_. Para além logo uma copada arvore vos attrahe -as vistas: é a celebrada _arvore dos Dorias_, que dilata seus seculares -ramos no jardim d'um dos membros d'esta respeitavel familia. E avistaes -logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus innocentes -recreios, os briosos moços, esperança da patria, ou requebrando -galanteios com as ternas camponezas que passam reflorindo de mocidade e -frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais arduos de seus -bem elaborados compendios...» - ---Está a sôpa na mesa--veio dizer uma criada, de avental branco, muito -nutrida. - ---Muito bem, Conselheiro, muito bem!--disse logo o Savedra do _Seculo_, -erguendo-se.--É admiravel! - -Declarou para os lados com authoridade: «que o estylo era digno d'um -Rebello ou d'um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em -Portugal d'uma obra daquelle quilate...» E pensava baixo: «Grandissima -cavalgadura!...» O que era a sua apreciação generica de todas as obras -contemporaneas--exceptuando os seus artigos no _Seculo_. - ---Que lhe pareceu, meu bom amigo?--perguntou baixo o Conselheiro -a Julião, passando-lhe a mão sobre o hombro.--Mas uma opinião -desaffrontada, meu Zuzarte! - ---Snr. Conselheiro--disse Julião com uma voz profunda--tenho-lhe -inveja!--E as suas lunetas escuras fixavam-se com uma preoccupação -crescente n'um chale-manta pardo, que a um canto cobria -cuidadosamente, a julgar pelas saliencias, altas pilhas de livros. Que -seria?--Tenho-lhe inveja!--repetiu--E outra cousa, Conselheiro, não se -me dava de lavar as mãos. - -Accacio levou-o logo ao seu quarto, e retirou-se discretamente. Julião, -sempre curioso, observou, surprehendido, duas grandes lithographias -aos lados da cama--um _Ecce Homo_! e a _Virgem das sete Dôres_. O -quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu então a gavetinha -da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado -das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e -teve a consolação de verificar,--que havia sobre o travesseiro duas -fronhasinhas chegadas d'um modo conjugal e terno! - -Apenas elle sahiu do quarto, limpando as unhas com o lenço, o -Conselheiro conduziu-os á sala de jantar, dizendo, jovialmente: - ---Não esperem o festim de Lucullo: é apenas o modesto passadio d'um -humilde philosopho! - -Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundancia das travessas -de dôce; havia _creme_ crestado a ferro d'engomar, um prato _d'ovos -queimados_, aletria com as iniciaes do Conselheiro desenhadas a canella. - ---É um grande dia para Sebastião!--disse Jorge. - -O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastião, esfregando as mãos, com -um riso na face amarella: - ---É cá dos meus, hein? Gosta do bello dôce! Tambem me péllo, tambem me -péllo!... - -Houve então um silencio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa -muito quente, agitavam os longos canudos brancos e molles do macarrão. - -O Conselheiro disse: - ---Não sei se gostarão da sopa. Eu adoro o macarrão! - ---Gosta do macarrão?--acudiu o Alves. - ---Muito, meu Alves. Lembra-me a Italia!--E acrescentou:--Paiz que -sempre desejei vêr. Dizem-me que as suas ruinas são de primeira ordem. -Póde ir trazendo o cozido, snr.^a Philomena...--Mas detendo-a, com um -gesto grave:--Perdão, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? É um -pargo. - -Houve uma hesitação, Jorge disse: - ---O cozido talvez. - -E o Conselheiro com affecto: - ---O nosso Jorge opina pelo cozido. - ---Tambem estou pela sua!--exclamou o Alves Coutinho, voltado para -Jorge, com o olho afogado em reconhecimento:--O cozidinho! - -E o Conselheiro que julgava do seu dever dar á conversação nobreza e -interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa: - ---Dizem-me que é muito liberal a constituição da Italia! - -Liberal! Segundo Julião, se a Italia fosse liberal, devia ter ha muito -expulso a coronhadas o papa, o sacro collegio, e a sociedade de Jesus! - -O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolencia do amigo Zuzarte para -o «chefe da Igreja». - ---Não--explicou--que eu seja um sectario do _Syllabus_. Não que eu -queira vêr os jesuitas enthronisados no seio da familia! Mas--e a sua -voz tornou-se profunda--o respeitavel prisioneiro do Vaticano é o -vigario de Christo! Meu Sebastião, sirva o arroz! - -Não havia que estranhar aquellas opiniões catholicas do Conselheiro, -ia observando Julião, porque tinha duas imagens de santos pendentes á -cabeceira da cama... - -A calva d'Accacio fez-se rubra. O Savedra do _Seculo_ exclamou com a -bocca cheia: - ---Não o sabia carola, Conselheiro! - -Accacio, afflicto, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e -acudiu: - ---Eu peço ao meu Savedra que não tire d'esse facto illações erradas. -Os meus principios são bem conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço -votos pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou liberal. -Creio em Deus. Mas reconheço que a religião é um freio... - ---Para os que o precisam--interrompeu Julião. - -Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdicto respondeu, -devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio: - ---Não o precisamos nós de certo, que somos as classes illustradas. Mas -precisa-o a massa do povo, snr. Zuzarte. Senão veriamos augmentar a -estatistica dos crimes. - -E o Savedra do _Seculo_, erguendo as sobrancelhas, com a physionomia -muito séria: - ---Pois olhe que diz uma grandissima verdade.--Repetiu a maxima, -modificando-a:--A religião é um bridão!--Fazia com o gesto o esforço de -conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava. - -O Conselheiro continuava, explicando: - ---Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas lithographias ou -gravuras, allusivas ao mysterio da Paixão, tem o seu lugar n'um quarto -de cama, e inspiram de certo modo sentimentos christãos. Não é verdade, -meu Jorge? - -Mas o Savedra interrompeu ruidosamente, com a face accesa n'uma -jovialidade libertina: - ---Eu, n'um quarto de dormir, as unicas pinturas que admitto são uma -bella nympha núa, ou uma bacchante desenfreada! - ---Isso, isso!--bradou o Alves Coutinho. A bocca dilatava-se-lhe -n'uma admiração sensual.--Este Savedra! Este Savedra!--E baixo para -Sebastião:--Tem um talento! Tem um talento! - -O Conselheiro voltou-se para Julião, e puxando o guardanapo para o -estomago: - ---Espero que não sejam esses os paineis immoraes, que se vêem no seu -gabinete d'estudo. - -Julião emendou: - ---No meu cubiculo. Ah! não, Conselheiro! Tenho apenas duas -lithographias--uma é um homem sem pelle para representar o systema -arterial, o outro é o mesmo individuo igualmente sem pelle para se vêr -o systema nervoso. - -O Conselheiro teve com a sua mão branca um vago gesto enojado, e -exprimiu a opinião--que na medicina, aliás uma grande sciencia! havia -cousas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos theatros -anatomicos, os estudantes d'idéas mais avançadas levavam o seu desprezo -pela moral até atirarem uns aos outros, brincando, pedaços de membros -humanos, pés, coxas, narizes... - ---Mas é como quem mexe em terra, Conselheiro!--disse Julião, enchendo o -copo--é materia inerte! - ---E a alma, snr. Zuzarte?...--exclamou o Conselheiro. Fez um gesto -de vaga reticencia; e julgando tel-o aniquilado com aquella palavra -suprema, abriu para Sebastião um sorriso cortez e protector: - ---E que diz o nosso bondoso Sebastião? - ---Estou a ouvir, snr. Conselheiro. - ---Não dê ouvidos a estas doutrinas!--Com o garfo mostrava a figura -biliosa de Julião.--Mantenha a sua alma pura. São perniciosas. Que o -nosso Jorge (o que é de lamentar n'um homem estabelecido e empregado do -Estado) tambem vai um pouco para estas exagerações materialistas! - -Jorge riu; affirmou que _sim_, que tinha essa honra... - ---Então o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de -mathematica, acredite que ha almas que vivem no céo, com azinhas -brancas, tunicas azues, e tocando instrumentos? - -O Conselheiro acudiu: - ---Não, instrumentos não!--E como appellando para todos:--Não creio que -tivesse fallado em instrumentos. Os instrumentos são uma exageração. -São, podemos dizel-o, tacticas do partido reaccionario... - -Ia fulminar a doutrina ultramontana--mas a snr.^a Philomena -collocou-lhe diante a travessa com a perna de vitella assada. -Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solemnidade, -foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como na -applicação d'uma funcção grave. Então Julião, pousando os cotovêlos -sobre a mesa, e escabichando os dentes com a unha, perguntou: - ---E o ministerio, cahe ou não cahe? - -Sebastião ouvira dizer no vapor d'Almada, de tarde, que «a situação -estava firme». - -Mas o Savedra esvaziou o copo, limpou os beiços e declarou que em duas -semanas «estavam em terra». Nem aquelle escandalo podia continuar! Não -tinham a mais pequena idéa de governo. Nem a mais leve! Assim, por -exemplo, elle...--E metteu as mãos nos bolsos, firmando-se nas costas -da cadeira--Elle tinha-os apoiado, não é verdade? E com lealdade. -Porque era leal! Sempre o fôra em politica! Pois bem, não lhe tinham -despachado o primo recebedor d'Aljustrel, tendo-lh'o promettido! e nem -lhe tinham dado uma satisfação. Assim não era possivel fazer politica! -Era uma collecção de idiotas! - -Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe dessem de novo a sua -commissão no ministerio; e elle o que queria era estar quieto ao seu -cantinho... - -O Alves Coutinho calava-se, com prudencia, engulindo buchas de pão. - ---Eu que caiam, ou que fiquem--disse Julião--que venham estes, ou que -venham aquelles... Obrigado, Conselheiro--e recebeu o seu prato de -vitella--...é-me inteiramente indifferente. É tudo a mesma podridão! O -paiz inspirava-lhe nojo; de cima a baixo era uma _choldra_: e esperava -breve que, pela logica das cousas, uma revolução varresse a porcaria... - ---Uma revolução!--fez o Alves Coutinho, assustado, com olhares -inquietos para os lados, coçando nervosamente o queixo. - -O Conselheiro sentára-se, e disse, então: - ---Eu não quero entrar em discussões politicas, só servem para dividir -as familias mais unidas, mas só lhe lembrarei, snr. Zuzarte, uma cousa, -os excessos da Communa... - -Julião recostou-se, e com uma voz muito tranquilla: - ---Mas onde está o mal, snr. Conselheiro, se fuzilarmos alguns -banqueiros, alguns padres, alguns proprietarios obesos, e alguns -marquezes cacheticos! Era uma limpezasinha!...--E fazia o gesto d'afiar -a faca. - -O Conselheiro sorriu, cortezmente; tomava como um gracejo aquella -sahida sanguinaria. - -O Savedra porém interpoz-se, com authoridade: - ---Eu no fundo sou republicano... - ---E eu--disse Jorge. - ---E eu--fez o Alves Coutinho, já inquieto.--Contem-me a mim tambem! - ---Mas--continuou o Savedra--sou-o em principio. Porque o principio é -bello, o principio é ideal! Mas a pratica? Sim, a pratica?--E voltava -para todos os lados a sua face balofa. - ---Sim, na pratica!--exclamava o Alves Coutinho, em echo admirativo. - ---A pratica é impossivel!--declarou o Savedra. E encheu a bocca de -vitella. - -O Conselheiro então resumiu: - ---A verdade é esta: o paiz está sinceramente abraçado á familia real... -Não acha, meu bom Sebastião?--Dirigia-se a elle, como proprietario e -possuidor d'inscripções. - -Sebastião, interpellado, córou, declarou que não entendia nada de -politica; havia todavia factos que o affligiam; parecia-lhe que os -operarios eram mal pagos; a miseria crescia; os cigarreiros, por -exemplo, tinham apenas de nove a onze vintens por dia, e, com familia, -era triste... - ---É uma infamia--disse Julião, encolhendo os hombros. - ---E ha poucas escólas...--observou timidamente Sebastião. - ---É uma torpeza!--insistiu Julião. - -O Savedra calava-se, occupado com o alimento; tinha desabotoado -a fivela do collete; espalhava-se-lhe no rosto gordo uma côr -d'enfartação, e sorria vagamente, inchado. - ---E os idiotas de S. Bento?...--exclamou Julião. - -Mas o Conselheiro interrompeu-o: - ---Meus bons amigos, fallemos d'outra cousa. É mais digno de portuguezes -e de subditos fieis. - -E voltando-se logo para Jorge, quiz saber como ficára a interessante D. -Luiza? - -Estava um pouco adoentada havia dias--disse Jorge.--Mas não era nada, -mudança d'estação, um bocadito d'anemia... - -O Savedra pousando o copo, e comprimentando: - ---Tive o prazer de a vêr passar este verão quasi todas as manhãs por -minha casa--disse.--Ia para os lados d'Arroios. Ás vezes de trem, ás -vezes a pé... - -Jorge pareceu um pouco surprehendido; mas o Conselheiro ia dizendo -quanto lhe pezava não ter o prazer de a vêr partilhar d'aquelle modesto -repasto; como celibatario porém... não tendo uma esposa para fazer as -honras... - ---E é o que eu admiro, Conselheiro--observou Julião--é que tendo uma -casa tão confortavel, não se tenha casado, não se tenha dado o conchego -d'uma senhora... - -Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado. - ---São graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades -d'um chefe de familia--considerou elle. - -Mas emfim--disseram--é o estado mais natural. E depois, que diabo, ás -vezes havia de se sentir só! E n'uma doença! Sem contar a alegria que -dão os filhos!... - -O Conselheiro objectou: «os annos, as neves da fronte...» - -Tambem ninguem lhe dizia que fosse casar com uma rapariga de quinze -annos! Não, era arriscado. Mas com uma pessoa de certa idade que -tivesse attractivos, cuidados de interior... Era mesmo moral. - ---Porque emfim, Conselheiro, a natureza, é a natureza!--disse Julião -com malicia. - ---Ha muito, meu amigo, que se apagou dentro em mim o fogo das paixões. - -Ora qual! era um fogo que nunca se extinguia! Que diabo! era -impossivel que o Conselheiro, apesar dos seus cincoenta e cinco, fosse -indifferente a uns bellos olhos pretos, a umas fórmasinhas redondas!... - -O Conselheiro córava. E o Savedra declarou, com um circumloquio -pudico--que nenhuma idade se eximia á influencia de Venus. Toda a -questão é nos gostos--disse:--aos quinze annos gosta-se d'uma matrona -cheia, aos cincoenta d'um fructosinho tenro... Pois não é verdade, -amigo Alves? - -O Alves arregalou os olhos concupiscentes, e fez estalar a lingua. - -E o Savedra continuou: - ---Eu, a minha primeira paixão foi uma visinha, mulher d'um capitão de -navios, mãi de seis filhos, e que não cabia por aquella porta. Pois -senhores, fiz-lhe versos, e a excellente creatura ensinou-me um par de -cousas agradaveis... Deve-se começar cedo, não é verdade?--E voltou-se -para Sebastião. - -Quizeram então saber as opiniões de Sebastião--que se fez escarlate. - -Por fim, muito solicitado, disse com timidez: - ---Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estimal-a toda a -vida... - -Aquellas palavras simples produziram um curto silencio. Mas o Savedra, -reclinando-se, classificou uma tal opinião de «burgueza»; o casamento -era um fardo; não havia nada como a variedade... - -E Julião expôz dogmaticamente: - ---O casamento é uma formula administrativa, que ha-de um dia -acabar...--De resto, segundo elle, a femea era um ente subalterno; o -homem deveria aproximar-se d'ella em certas épocas do anno (como fazem -os animaes, que comprehendem estas cousas melhor que nós), fecundal-a, -e afastar-se com tedio. - -Aquella opinião escandalisou a todos, sobretudo o Conselheiro que a -achou «d'um materialismo repugnante». - ---Essas femeas para quem é tão severo, snr. Zuzarte--exclamava -elle--essas femeas são nossas mães, nossas carinhosas irmãs, a esposa -do Chefe do Estado, as damas illustres da nobreza... - ---São o melhor bocadinho d'este valle de lagrimas--interrompeu com -fatuidade o Savedra, dando palmadinhas sobre o estomago. Dissertou -então sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito pé; -não havia nada como um pésinho catita! E a todas preferia a mulher -hespanhola! - -O Alves votava pelas francezas: citava algumas do Café Concerto, -creaturas de fazer perder a cabeça!...--E injectavam-se-lhe os olhos. - -O Savedra disse com um trejeito hostil: - ---Sim, para um bocado de can-can... Para o can-can não ha como as -francezas... Mas muito chupistas! - -O Conselheiro affirmou ageitando as lunetas: - ---Viajantes instruidos teem-me afiançado que as inglezas são notaveis -mães de familia... - ---Mas frias como esta madeira--disse o Savedra, batendo no -mesa.--Mulheres de gêlo!--E reclamava hespanholas! Queria fogo! Queria -_salero_! Tinha o olho brilhante do vinho; a comida accendia-lhe o -sentimento! - ---Uma bella _gaditana_, hein, amigo Alves? - -Mas em presença dos dôces que a snr.^a Philomena dispôz sobre a mesa, -o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastião, -discutia gulodices. Indicava as especialidades: Para os folhados, o -Cócó! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o largo de S. -Domingos! Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os -olhos: - ---Porque--dizia--o docinho e a mulherzinha é o que me toca cá por -dentro a alma. - -Era: todo o tempo que não dedicava ao serviço do Estado, dividia-o, com -solicitude, entre as confeitarias e os lupanares. - -Savedra e Julião discutiam a imprensa. O redactor do _Seculo_ gabava a -profissão de jornalista--quando a gente, já sabe, tem alguma cousa de -seu; mais tarde ou mais cedo apanha-se um nicho, não é verdade? Depois -as entradas nos theatros, a influencia nas cantoras. Sempre se é um -bocado temido... - -E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da -convivencia, dizia a Jorge: - ---Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre -amigos, todos de reconhecida illustração, discutir as questões mais -importantes, e vêr travada uma conversação erudita?... Parecem -excellentes os ovos. - -A snr.^a Philomena, então, com solemnidade, veio collocar-lhe ao pé uma -garrafa de champagne. - -O Savedra pediu logo para a abrir, porque o fazia com muito _chic_. -E apenas a rolha saltou, e, no silencio que creou a ceremonia, se -encheram os copos, o Savedra, que ficára de pé, disse: - ---Conselheiro! - -Accacio curvou-se, pallido. - ---Conselheiro, é com o maior prazer que bebo, que todos bebemos, á -saude d'um homem, que--e arremessando o braço, deu um puxão ao punho -da camisa com eloquencia--pela sua respeitabilidade, a sua posição, os -seus vastos conhecimentos, é um dos vultos d'este paiz. Á sua saude, -Conselheiro! - ---Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro! - -Beberam com ruido. Accacio, depois de limpar os beiços, passou a mão -tremula pela calva, levantou-se commovido, e começou: - ---Meus bons amigos! Eu não me preparei para esta circumstancia. Se o -soubesse d'antemão, teria tomado algumas notas. Não tenho a verbosidade -dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lagrimas me vão embargar a -voz... - -Fallou então de si, com modestia: reconhecia, quando via na capital -tão illustres parlamentares, oradores tão sublimes, tão consummados -estylistas, reconhecia que era um Zero!--E com a mão erguida formava -no ar, pela junção do pollegar e do indicador, um 0: um _zero_! -Proclamou o seu amor á patria: que ámanhã as instituições ou a familia -real precisassem d'elle--e o seu corpo, a sua penna, o seu modesto -peculio, tudo offerecia de bom grado! Quereria derramar todo o seu -sangue pelo throno!--E, prolixo, citou o _Eurico_, as instituições da -Belgica, Bocage e passagens dos seus prologos. Honrou-se de pretencer á -Sociedade Primeiro de Dezembro...--N'esse dia memoravel--exclamou--eu -mesmo illumino as minhas janellas, sem o luxo dos grandes -estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera! - -E terminou dizendo:--Não esqueçamos, meus amigos, como portuguezes, de -fazer votos pelo illustrado monarcha, que deu ás neves da minha fronte, -antes de descerem ao tumulo, a consolação de se poderem revestir com -o honroso habito de S. Thiago! Meus amigos, á familia real!--e ergueu -o copo--á familia modêlo, que sentada ao leme do Estado, dirige, -cercada dos grandes vultos da nossa politica, dirige...--Procurou -o fecho; havia um silencio ancioso--dirige...--Através das lunetas -negras, os seus olhos cravavam-se, á busca da inspiração, na -travessa d'aletria--dirige...--Coçou a calva, afflicto; mas um -sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrára a phrase; e estendendo o -braço:--...dirige a barca da governação publica com inveja das nações -visinhas! Á familia real! - ---Á familia real!--disseram com respeito. - -O café foi servido na sala. As velas d'estearina punham uma luz -triste n'aquella habitação fria; o Conselheiro foi dar corda á caixa -de musica; e, ao som do côro nupcial da _Lucia_, offereceu em redor -charutos. - ---E a snr.^a Adelaide póde trazer os licôres--disse á Philomena. - -Viram então apparecer uma bella mulher de trinta annos, muito branca, -de olhos negros, e fórmas ricas, com um vestido de merino azul, -trazendo n'uma bandeja de prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa -de cognac e o frasco de curaçáo. - ---Boa moça!--rosnou com o rosto acceso o Alves Coutinho. - -Julião quasi lhe tapou a bocca com a mão. E fallando-lhe ao ouvido, -olhando o Conselheiro, recitou: - - Não ouses, temerario, erguer teus olhos - Para a mulher de Cesar! - -E em quanto se bebia o curaçáo, Julião pé ante pé dirigiu-se ao -escriptorio, e foi erguer a ponta do chale-manta pardo que tanto o -preoccupava; eram rumas de livros brochados, atadas com guitas,--as -obras do Conselheiro, intactas! - -Quando Jorge entrou, ás onze horas, Luiza já deitada lia, esperando-o. - -Quiz saber do jantar do Conselheiro. - -Excellente, contou Jorge, começando a despir-se. Gabou muito os vinhos. -Tinha havido _speechs_... E de repente: - ---É verdade, onde ias tu a Arroios? - -Luiza passou devagar as mãos sobre o rosto para lhe cobrir a alteração. -Disse bocejando ligeiramente: - ---A Arroios? - ---Sim. O Savedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que -te via passar todos os dias para lá, de trem e a pé. - ---Ah!--fez Luiza, depois de tossir--ia vêr a Guedes, uma rapariga que -andou commigo no collegio, que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes! - ---Silva Guedes!...--disse Jorge reflectindo--Imaginei que estava -secretario geral em Cabo-Verde! - ---Não sei. Estiveram ahi um mez no verão. Moravam a Arroios. Ella -estava doente, coitada: eu ia lá ás vezes. Mandava-me pedir para ir lá. -Põe essa luz fóra, está-me a fazer impressão. - -Queixou-se então que toda a tarde estivera exquisita. Sentia-se fraca, -e com uma pontinha de febre... - - -E nos dias seguintes não se achou melhor. Queixava-se ainda vagamente -de peso na cabeça, mal estar... Uma manhã mesmo ficou de cama. Jorge -não sahiu, inquieto, querendo já mandar chamar Julião. Mas Luiza -insistiu que «não era nada, um bocadito de fraqueza, talvez...» - -Foi tambem a opinião de Juliana, em cima na cozinha. - ---Que aquella senhora é fraca; alli ha cousa do peito--disse com -importancia. - -Joanna que estava debruçada sobre o fogão, acudiu logo: - ---O que ella é, é uma santa!... - -Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho: - ---A snr.^a Joanna diz isso como se as outras fossem uma peste. - ---Que outras? - ---Eu, vossemecê, a mais gente... - -Joanna sempre remexendo nas panellas sem se voltar: - ---Olhe, outra não encontra vossemessê, snr.^a Juliana! Uma senhora que -lhe deixa fazer tudo o que quer, e faz ella mesma o serviço! N'outra -dia andava a despejar as aguas. É uma santa! - -Aquelle tom hostil de Joanna exasperou-a; mas conteve-se; apesar da -sua _posição_ na casa, dependia d'ella para os caldinhos, os bifes, -os petiscos; tinha diante d'ella a vaga timidez respeitosa das -constituições franzinas pelos corpos possantes; pôz-se a dizer com uma -voz tortuosa, ambigua: - ---Ora!--são genios! Gosta d'arrumar. Ah, lá isso deve-se dizer, é -senhora de muita ordem. Mas gosta, gosta de trabalhar. Ás vezes -basta-lhe vêr um bocadinho de pó, agarra logo no espanador... É genio. -Tenho visto outras assim...--E punha a cabeça de lado, franzindo os -beiços. - ---O que ella é, é uma santa--repetiu a Joanna. - ---É genio! Está sempre n'uma labutação. Eu nunca sáio sem deixar tudo -n'um brinco. Pois senhores, nunca está satisfeita. Até n'outro dia, lá -em baixo a passar a roupa... Eu ia a sahir, pois tirei logo o chapéo, -e não consenti... Olhe, quer que lhe diga? falta de cuidados, não ter -filhos... Que ella não lhe falta nada... - -Calou-se, remirou o pé, e com satisfação: - ---Nem a mim--disse reclinando-se na cadeira. - -A Joanna pôz-se a cantarolar. Não queria «questões». Mas ultimamente -achava «tudo aquillo muito fóra dos eixos», a Juliana sempre na rua, ou -mettida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando tudo -ao Deus dará, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emmagrecer! Não, -alli havia cousa! Mas o seu Pedro que ella consultára, disse-lhe com -finura, retorcendo o buço:--Ellas lá se entendem! Trata tu de gozar, -e não te importes com a vida dos outros. A casa é boa, toca a tirar -partido! - -Mas Joanna sentia «lá por dentro» a crescer-lhe uma embirração pela -snr.^a Juliana. Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto, -pelas passeatas todo o dia, pelos modos de madama; não se recusava a -fazer-lhe o serviço, porque isso lhe rendia presentinhos da senhora; -mas, quê, tinha-lhe birra! O que a consolava era a idéa de que um -piparote desfazia aquella magricella! e ia tirando partido da casa, -tambem. O Pedro tinha razão... - -Juliana com effeito, agora, não se constrangia. Depois da «scena da -roupa», assustára-se, porque, emfim, o escandalo podia-lhe fazer -perder a _posição_; durante alguns dias não sahiu, foi cuidadosa: mas -quando viu Luiza resignar-se, abandonou-se logo, quasi com fervor, -ás satisfações da preguiça e ás alegriasinhas da vingança. Passeava, -costurava fechada no seu quarto, e a _Piorrinha_ que se arranjasse! -Diante de Jorge ainda se continha: temia-o. Mas apenas elle sahia! Que -desforra! Ás vezes estava varrendo ou arrumando--e, mal o sentia fechar -a cancella, atirava o ferro, a vassoura, punha-se a «panriar». Lá -estava a _Piorrinha_, para acabar! - -Luiza, no entanto, passava peor: tinha de repente, sem razão, febres -ephemeras; emmagrecia, e as suas melancolias torturavam Jorge. - -Ella explicava tudo pelo _nervoso_. - ---Que será, Sebastião?--era a pergunta incessante de Jorge. E -lembrava-se com terror que a mãi de Luiza morrera d'uma doença de -coração! - -Na rua, pela cozinheira, pela tia Joanna, sabia-se que a do Engenheiro -«ia mal». A tia Joanna jurava que era a solitaria. Porque emfim, -uma pessoa a quem não faltava nada, com um marido que era um anjo, -uma boa casa, todos os seus commodos--e a esmorecer, a esmorecer... -Era a bicha! Não podia ser senão a bicha! E todos os dias lembrava -a Sebastião que se devia mandar chamar o homem de Villa Nova de -Famalicão, que tinha o remedio «para a bicha». - -O Paula explicava d'outro modo. - ---Alli anda cousa de cabeça--dizia, franzindo a testa, com o ar -profundo.--Sabe o que ella tem, snr.^a Helena? É muita dóse de novellas -n'aquella cachimonia. Eu vejo-o de pela manhã até á noite de livro na -mão. Põe-se a lêr romances e mais romances... Ahi teem o resultado: -arrazada! - -Um dia Luiza de repente, sem razão, desmaiou; e quando voltou a si -ficou muito fraca, com o pulso sumido, os olhos cavados. Jorge foi logo -buscar Julião: encontrou-o muito agitado, porque o concurso era para o -dia seguinte, e «sentia cólicas». - -Durante todo o caminho não deixou de fallar excitadamente da sua -these, do escandalo dos patrocinatos, do barulho que faria se fossem -injustos,--arrependido agora de não ter «mettido mais cunhas»! - -Depois de ter examinado Luiza veio dizer, furioso, a Jorge: - ---Não tem nada! E vaes-me buscar p'ra isto! Tem anemia, o que todos -temos. Que passeie, que se distráia. Distracções e ferro, muito -ferro... E agua fria, agua fria p'ra cima d'aquella espinha! - -Como eram cinco horas, convidou-se para jantar, deblaterando toda a -tarde contra o paiz, amaldiçoando a carreira medica, injuriando o seu -concorrente, e fumando com desespero os charutos de Jorge. - -Luiza tomava o ferro, mas recusava as distracções; fatigava-a -vestir-se, aborrecia-lhe ir ao theatro... Depois, logo que viu Jorge -preoccupar-se do seu estado, quiz affectar força, alegria, bom humor; e -aquelle esforço abatia-a, extraordinariamente. - ---Vamos para o campo, queres tu?--dizia-lhe Jorge desolado, vendo-a -esmorecida. - -Ella, receando complicações possiveis, não aceitava; não se sentia -bastante forte, dizia: onde estava mais confortavel que em casa? Depois -as despezas, os incommodos... - -Uma manhã, que Jorge voltára a casa inesperadamente, encontrou-a -em _robe-de-chambre_, com um lenço amarrado na cabeça, varrendo, -lugubremente. - -Ficou á porta attonito: - ---Que andas tu a fazer? andas a varrer? - -Ella córou muito, atirou logo a vassoura, veio abraçal-o. - ---Não tinha que fazer... Deu-me a mania da limpeza... Estava -aborrecida, além d'isso faz-me bem, é um exercicio. - -Jorge, á noite, contou a Sebastião aquella «tolice, de se andar a -esfalfar...» - ---Uma pessoa que está tão fraca, minha senhora...--observou -reprehensivamente Sebastião. - -Mas não! dizia ella, achava-se bem melhor! Até agora andava muito -melhor... - -Todavia, quasi não fallou n'essa noite, curvada sobre o seu _crochet_, -um pouco pallida: e os seus olhos ás vezes erguiam-se com uma fadiga -triste, sorrindo silenciosamente, d'um modo desconsolado. - -Pediu a Sebastião que tocasse algum cousa do _Requiem_ de Mozart. -Achava tão lindo! Gostava que lh'o cantassem na igreja quando ella -morresse... - -Jorge zangou-se. Que mania de fallar em cousas ridiculas! - ---Mas então, não é possivel que eu morra?... - ---Pois bem, morre e deixa-nos em paz!--exclamou elle furioso. - ---Que bom marido!--dizia ella sorrindo a Sebastião.--Deixou cahir -o _crochet_ no regaço, pediu-lhe então os _Dezeseis compassos da -Africana_. Escutava, com a cabeça apoiada á mão: aquelles sons -entravam-lhe na alma com a doçura de vozes mysticas que a chamavam; -parecia-lhe que ia levada por ellas, se desprendia de tudo o que era -terrestre e agitado, se achava n'uma praia deserta, junto ao mar -triste, sob um frio luar--e alli, puro espirito, livre das miserias -carnaes, rolava nas ondulações do ar, tremia nos raios luminosos, -passava sobre as urzes nos sopros salgados... - -A melancolica attitude do seu corpo abatido enfureceu Jorge: - ---Ó Sebastião, fazes-me favor de tocar o fandango, o Barba Azul, -o Pirolito, o diabo? Senão, se querem melancolia, eu começo com o -canto-chão! - -E cantou, com um tom funebre: - - _Dies ir[ae], dies illa - Solvunt s[ae]cula in favilla!..._ - -Luiza riu-se: - ---Que doudo! Nem póde a gente estar triste... - ---Póde!--exclamou Jorge.--Mas então venha a bella tristeza, venha a -tristeza completa.--E com uma voz medonha entoou o _Bemdito_! - ---Os visinhos hão-de dizer que estamos doudos, Jorge--acudiu ella. - ---É justamente o que nós estamos!--E entrou no escriptorio, atirando -com a porta. - -Sebastião bateu alguns compassos, e voltando-se para ella, baixo: - ---Então que idéas são essas? Que melancolia é essa? - -Luiza ergueu os olhos para elle; viu a sua face boa e amiga, cheia de -sympathia; ia talvez dizer-lhe tudo n'uma explosão de dôr, mas Jorge -sahia do escriptorio. Sorriu, encolheu os hombros, retomou devagar o -seu _crochet_. - - -No domingo seguinte, á noite, conversava-se na sala. Julião contára o -seu concurso. Em resumo, estava contente: tinha fallado duas horas bem, -com precisão, com lucidez. - -O dr. Figueiredo dissera-lhe que «devia ter amenisado um bocado mais...» - ---Litteratos!--fazia Julião, encolhendo os hombros, com desprezo.--Não -podem fallar cinco minutos sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as -«flôres da primavera» e «o facho da civilisação»! - ---O portuguez tem a mania da rhetorica...--disse Jorge. - -N'este momento Juliana entrou na sala, com uma carta. - ---Oh! é do Conselheiro! - -Ficaram inquietos. Mas Accacio apenas se desculpava de «não poder vir, -como promettera na vespera, partilhar do excellente chá de D. Luiza. -Um trabalho urgente retinha-o á banca do dever. Pedia lembranças aos -nossos Sebastião e Julião, e affectuosos respeitos á interessante D. -Felicidade». - -Uma onda de sangue abrazou o rosto da excellente senhora. Ficou a -arfar, toda alterada; mudou duas vezes de cadeira, foi tocar no teclado -com um dedo a _Perola d'Ophir_; e emfim, não se dominando, pediu baixo -a Luiza «que fossem para o quarto, tinha um segredo...» - -Apenas entraram, fechando a porta da sala: - ---Que me dizes á carta d'elle? - ---Os meus parabens--disse Luiza, rindo. - ---É o milagre!--exclamou D. Felicidade--já é o milagre a fazer-se!--E -mais baixo:--Mandei o homem! O que eu te disse, o gallego! - -Luiza não comprehendia. - ---O homem a Tuy, á mulher de virtude! Levou o meu retrato e o d'elle. -Partiu ha uma semana: a mulher naturalmente já começou a enterrar-lhe -as agulhas no coração... - ---Que agulhas?--perguntou Luiza attonita. - -Estavam de pé, junto ao toucador. E D. Felicidade com uma voz -mysteriosa: - ---A mulher faz um coração de cera, colla-o ao retrato do Conselheiro, -e durante uma semana á meia noite crava-lhe uma agulha benta com o -preparo que ella tem, e faz as orações... - ---E déste o dinheiro ao homem? - ---Oito moedas. - ---Oh D. Felicidade! - ---Ai! não me digas. Que já vês! Que mudança! D'aqui a uns dias, -baba-se! Ai! Nossa Senhora da Alegria o permitta. Nossa Senhora o -permitta! Que aquelle homem traz-me douda. De noite, é cada sonho! Até -ando em peccado mortal! e são suores! Mudo de camisa tres e quatro -vezes! - -E ia-se olhando ao espelho: queria convencer-se que as bellezas da sua -pessoa ajudariam as agulhas da bruxa: alisou o cabello. - ---Não me achas mais magra? - ---Não. - ---Ai estou, filha, estou!--E mostrou o corpete lasso. - -Já fazia planos. Iria passar a _lua de mel_ a Cintra... Os olhos -afogavam-se-lhe n'um fluido lubrico. - ---Nossa Senhora da Alegria o permitta. Tenho-lhe duas velas accesas, de -dia e de noite... - -Mas de repente a voz afflicta de Joanna bradou da escada da cozinha: - ---Minha senhora! Minha senhora, acuda! - -Luiza correu, Jorge tambem, que ouvira na sala o grito. Juliana estava -estendida no soalho da cozinha, desmaiada! - ---Deu-lhe de repente, deu-lhe de repente!--exclamava Joanna, muito -branca, a tremer.--Tombou p'ra o lado de repente... - -Julião tranquillisou-os logo: era uma syncope, simples. -Transportaram-na para a cama. Julião fez-lhe esfregar violentamente -com uma flanella quente as extremidades,--e, mesmo antes que Joanna -atarantada, em cabello, corresse á botica por um antispasmodico, -Juliana voltava a si, muito fraca. Quando desceram á sala, Julião -disse, enrolando o cigarro: - ---Não vale nada. São muito frequentes, estas syncopes, nas doenças -de coração. Esta é simples. Mas é o diabo, ás vezes tem um caracter -apopletico, e vem a paralysia; pouco duradoura, sim, porque a -effusão de sangue no cerebro é muito pequena, mas emfim, sempre -desagradavel.--E accendendo o cigarro:--Esta mulher um dia morre-lhes -em casa. - -Jorge, preoccupado, passeava pela sala com as mãos nos bolsos. - ---Sempre o tenho dito--acudiu D. Felicidade, baixando a voz, -assustada.--Sempre o tenho dito. É desfazerem-se d'ella. - ---Além d'isso o tratamento é incompativel com o serviço--disse -Julião.--Emfim, mesmo a engommar roupa se póde tomar digitalis ou -quinino; mas é que o verdadeiro tratamento é o repouso, é a absoluta -exclusão da fadiga. Que ella um dia se zangue ou que tenha uma manhã de -canceira, e póde ir-se! - ---E vai adiantada a doença?--perguntou Jorge. - ---Pelo que ella diz já tem a difficuldade asthmatica, oppressões, uma -dôr aguda na região cardiaca, flatulencia, humidade nas extremidades--o -diabo! - ---Olha que espiga!--murmurou Jorge, olhando em roda. - ---É pôl-a na rua!--resumiu D. Felicidade. - -Quando ficaram sós, ás onze horas, Jorge disse logo a Luiza: - ---Que te parece esta, hein? É necessario descartarmo-nos da creatura. -Não quero que me morra em casa! - -Ella, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos, começou a -dizer, que não se podia mandar tambem a pobre creatura morrer p'ra a -rua... Lembrou vagamente o que ella tinha feito pela tia Virginia... Ia -collocando devagar as suas palavras com a cautela com que se pousa o pé -n'um terreno traiçoeiro.--Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que -ella fosse viver algures... - -Jorge, depois d'um silencio, respondeu: - ---Não tenho duvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se vá, que se -arranje! - -Dez ou doze libras!--pensou Luiza com um sorriso infeliz.--E á beira -do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida -saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas -pela afflicção, e os seus olhos fatigados pelas lagrimas... - - -Porque, emfim, a _crise_ tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir -a creatura, ella não podia, sem provocar um espanto e uma explicação, -dizer a Jorge: não quero que ella sáia, quero que ella aqui morra! E -Juliana vendo-se expulsa, desesperada, doente, percebendo que Luiza não -a defendia, não a reclamava,--vingar-se-hia! Que havia de fazer? - -Ergueu-se ao outro dia n'uma grande agitação. Juliana muito fatigada, -ainda estava na cama. E em quanto Joanna punha a mesa, Luiza sentada na -_voltaire_, á janella da sala de jantar, lia machinalmente o _Diario -de Noticias_, quasi sem comprehender, quando uma noticia, no alto da -pagina, lhe deu um sobresalto: «Parte além d'ámanhã para França o -nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da firma Castro Miranda & -C.^a S. exc.^a retira-se dos negocios da praça, e vai estabelecer-se -definitivamente em França, perto de Bordeus, onde comprou ultimamente -uma valiosa propriedade.» - -O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ella quizesse! dizia -Leopoldina. Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro -momento, aquelle recurso infame, vinha-lhe a seu pezar como uma -desconsolação de o vêr desapparecer! Porque nunca mais voltaria a -Portugal, o Castro!... E de repente uma idéa atravessou-a, que a fez -vibrar toda, erguer-se direita, muito pallida.--Se na vespera da -partida d'elle, Santo Deus! se na vespera ella consentisse!... Oh! era -horrivel! Nem pensar em tal!... - -Mas pensou--e sentia-se toda fraca contra uma tentação crescente, que -se lhe enroscava na alma com caricias persuasivas. É que então estava -salva! Dava seiscentos mil reis a Juliana! E o demonio iria morrer para -longe! - -E elle, o homem, tomaria o paquete! Não teria de córar diante d'elle; -o seu segredo ia para o estrangeiro, tão perdido como se fosse para o -tumulo!--E, além d'isso, se o Castro tinha uma paixão por ella, era bem -possivel que lhe emprestasse, sem condições!... - -Bom Deus! No dia seguinte podia ter alli na algibeira do seu roupão as -notas, o ouro... Porque não?--Porque não? E vinha-lhe um desejo ancioso -de se libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martyrios... - -Voltou ao quarto. Pôz-se a remexer no toucador, olhando de lado Jorge -que se vestia... A presença d'elle deu-lhe logo um remorso; ir pedir -a um homem dinheiro, consentir nos seus olhares lascivos, nas suas -palavras intencionaes!... Que horror!--Mas já subtilisava. Era por -Jorge, era por elle! Era para lhe poupar o desgosto de _saber_! Era -para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, sem reservas... - -Durante todo o almoço esteve calada. O rosto sympathico de Jorge -enternecia-a; o _outro_ parecia-lhe medonho, odiava-o já!... - -Quando Jorge sahiu ficou muito nervosa. Ia á janella; o sol parecia-lhe -adoravel, a rua attrahia-a.--Porque não? Porque não? - -A voz de Juliana, muito aspera, fallou então nas escadas da cozinha; e -aquelle cantado odioso decidiu-a bruscamente. - -Vestiu-se com cuidado: era mulher, quiz parecer bonita.--E chegou toda -esbaforida a casa de Leopoldina, quando dava meio dia a S. Roque. - -Encontrou-a vestida, esperando o almoço. E tirando immediamente o -chapéo, installando-se no sophá, explicou muito claramente a Leopoldina -a sua resolução. Queria o dinheiro do Castro. Emprestado ou dado, -queria o dinheiro!... Estava n'uma afflicção, devia valer-se de -tudo!... Jorge queria despedir a mulher... Tinha medo d'uma vingança -d'ella... Queria dinheiro, alli estava! - ---Mas assim de repente, filha!--disse Leopoldina, pasmada do seu olhar -decidido. - ---O Castro vai-se ámanhã. Vai para Bordeus, para o inferno! É -necessario fazer alguma cousa, já! - -Leopoldina lembrou escrever-lhe. - ---O que quizeres... Eu aqui estou! - -A outra sentou-se devagar á mesa, escolheu uma folha de papel, e, com o -dedinho no ar, a cabeça de lado, começou a escrevinhar. - -Luiza passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora uma resolução teimosa, -que a presença de Leopoldina fortificava! Divertia-se, aquella, -dançava, ia ao campo, gozava, vivia, sem ter como ella uma tortura a -minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! não voltaria para casa sem levar -na algibeira em boas libras o resgate, a salvação! Ainda que tivesse -de ser vil como as do Bairro Alto! Estava farta das humilhações, dos -sustos, das noites cortadas de pesadêlos!... Queria saborear a vida, -que diabo! o seu amor, o seu jantar, sem cuidados, com o coração -contente! - ---Vê lá--disse Leopoldina, lendo: - - - «Meu caro amigo. - -«Desejo absolutamente fallar-lhe. É um negocio grave. Venha logo que -possa. Talvez me agradeça. Espero-o até ás tres horas, o mais tardar. - -«Com toda a estima - - Sua amiga - - _Leopoldina_». - - ---Que te parece? - ---Horrivel! Mas está bem... Está muito bem! Risca-lhe o _talvez me -agradeça_. É melhor. - -Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, n'um trem. - ---E agora vou almoçar, que me não tenho nas pernas. - -A sala de jantar dava para um saguão estreito. As paredes estavam -cobertas d'uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes -semelhavam collinas, e linhas azues ferretes representavam lagos. Um -armario, no angulo da parede, servia de guarda-louça. As cadeiras de -palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e na toalha havia -nodoas do café da vespera. - ---D'uma cousa pódes tu ter a certeza--dizia Leopoldina, bebendo -grandes goles de chá--é que o Castro é um homem p'ra um segredo!... -Se te emprestar o dinheiro, que empresta, d'aquella bocca não sahe -uma palavra. Lá n'isso é perfeito... Olha que foi o amante da Videira -annos! e nem ao Mendonça, que é o seu intimo, disse uma palavra. Nem -uma allusão! É um poço. - ---Que Videira?--perguntou Luiza. - ---Uma alta, de nariz grande, que tem um _landau_. - ---Mas passa por uma mulher tão séria... - ---Já tu vês!--E com um risinho:--Ai ellas passam, passam. Lá passar, -passam. A questão é conhecer-lhes os pôdres, minha fidalga! - -E barrando de manteiga grandes fatias de pão, pôz-se a fallar -complacentemente dos escandalos de Lisboa, a desdobrar o _sudario_: -citava nomes, especialidades, as que depois de terem «feito o diabo», -gastam, n'uma devoção tardia, o resto d'uma velha sensibilidade; que -é por onde ellas acabam, algumas é pelas sacristias! As que, cançadas -de certo d'uma virtude monotona, preparam habilmente o seu «fracasso» -n'uma estação em Cintra ou em Cascaes. E as meninas solteiras! Muito -pequerrucho por essas amas, dos arredores tem o direito de lhes -chamar _mamã_! Outras mais prudentes, receando os resultados do amor, -refugiam-se nas precauções da libertinagem... Sem contar as senhoras -que em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito -supplementar!--Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas -tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que -ella perdera, e manobravam com habilidade, onde ella, a tola, tivera só -a sinceridade! E em quanto ellas conservavam as suas relações, convites -para _soirées_, a estima da côrte,--ella perdera tudo, era apenas a -Quebraes!... - -Aquella conversação enervava Luiza; n'uma tal generalidade do vicio -parecia-lhe que o seu caso, como um edificio n'um nevoeiro, perdia o -seu relevo cruel, se esbatia; e sentindo-o tão pouco visivel quasi o -julgava já justificado. - -Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquelle sentimento d'uma -forte immoralidade geral, onde as resistencias, os orgulhos se -amollecem, se enlanguecem,--como os musculos n'uma estufa fortemente -saturada de exhalações mornas. - ---Este mundo é uma historia--disse Leopoldina erguendo-se e -espreguiçando-se. - ---E teu marido onde está?--perguntou Luiza no corredor. - -Fôra p'ra o Porto. Estavam á vontade, podiam commetter crimes! - -E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canapé, com o cigarrinho -_laferme_ na bocca, começou tambem a queixar-se. - -Andava aborrecida ha tempos; enfastiava-se, achava tudo seccante; -queria alguma cousa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos -os poros do seu corpo... - ---E o Fernando, então?--disse distrahidamente Luiza, que a cada momento -se aproximava da janella. - ---Um idiota!--respondeu Leopoldina com um movimento d'hombros, cheio de -saciedade e de desprezo. - -Não, realmente tinha vontade d'outra cousa, não sabia bem de quê! -Ás vezes lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braços com um -tedio molle). Eram tão semsaborões todos os homens que conhecia! tão -corriqueiros todos os prazeres que encontrára! Queria uma outra vida, -forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar--ser mulher d'um -salteador, andar no mar, n'um navio pirata... Em quanto ao Fernando, -o amado Fernando dava-lhe nauseas! E outro que viesse seria o mesmo. -Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus! - -E, depois d'escancarar a bocca, n'um bocejo de fera engaiolada: - ---Aborreço-me! Aborreço-me!... Oh céos! - -Ficaram um momento caladas. - ---Mas, que se lhe ha-de dizer, a esse homem?--perguntou de repente -Luiza. - -Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a voz muito preguiçosa: - ---Diz-se-lhe que se precisa um conto de reis, ou seiscentos mil reis... -Que se lhe ha-de então dizer? Que se lhe paga. - ---Como? - -Leopoldina disse, deitada, com os olhos no tecto: - ---Em affecto. - ---Oh! és horrivel!--exclamou Luiza, exasperada.--Vês-me aqui -desgraçada, meia douda, dizes que és minha amiga, e estás a rir, a -escarnecer...--A sua voz tremia, quasi chorava. - ---Mas tambem que pergunta tão tola! Como se lhe ha-de pagar?... Tu não -sabes? - -Olharam-se um momento. - ---Não, eu vou-me embora, Leopoldina!--exclamou Luiza. - ---Não sejas criança! - -Um trem parou na rua. A Justina appareceu. Não encontrára o snr. Castro -em casa, estava no escriptorio. Fôra lá, disse que vinha immediatamente. - -Mas Luiza, muito pallida, tinha o chapéo na mão. - ---Não--disse Leopoldina, quasi escandalisada--tu agora não me deixas -aqui com o homem! Que lhe hei-de eu dizer? - ---É horrivel!--murmurou Luiza com uma lagrima nas palpebras, deixando -cahir os braços, solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha, -muito infeliz! - ---É como quem toma oleo de ricino--disse a outra com um gesto cynico. -E acrescentou, vendo o horror de Luiza:--Que diabo! onde é que está a -deshonra, em pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede... - -N'aquelle momento outra carruagem, a largo trote, parou. - ---Entra tu primeiro! falla-lhe tu primeiro!--supplicou Luiza, erguendo -as mãos para ella. - -A campainha retiniu. Luiza muito tremula, muito branca, olhava para -todos os lados com um olhar muito aberto, de susto, d'ancia, como -procurando uma idéa, uma resolução ou um recanto para se esconder! -Botas d'homem rangeram na esteira da sala ao lado. Leopoldina então -disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar as palavras na alma, uma -a uma: - ---Lembra-te que d'aqui a uma hora pódes estar salva, com as tuas cartas -na algibeira, feliz, livre! - -Luiza pôz-se de pé com uma decisão brusca. Foi pôr pós d'arroz, alisou -o cabello,--e entraram na - -Ao vêr Luiza, o Castro teve um movimento surprehendido. Curvou-se, com -os pés pequeninos muito juntos, inclinando a cabeça grossa, onde os -cabellos muito finos alourados já rareavam. - -Sobre o seu ventresinho redondo, que a perna curta fazia parecer quasi -pansudo, o medalhão do relogio pousava com opulencia. Trazia na mão -um chicote, cujo cabo de prata representava uma Venus retorcendo os -braços. A pelle tinha um rubor prospero; o bigode farto, terminava em -pontas agudas, empastadas em cera mostacha, d'um aspecto napoleonico. -E os seus oculos de ouro tinham um ar authoritario, bancario, amigo da -Ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto. - -Com que! Era necessario mandal-o chamar, para que se lhe pozesse a -vista em cima,--começou logo Leopoldina. E depois de o apresentar a -Luiza «sua intima, sua amiga de collegio»: - ---Que tem feito, porque não tem apparecido? - -O Castro repoltreou-se n'uma cadeira de braços, e batendo com o chicote -nas botas, desculpou-se com os preparativos da partida... - ---Sempre é verdade? Deixa-nos? - -O Castro curvou-se: - ---Além d'amanhã. No _Orenoque_. - ---Então d'esta vez os jornaes não mentiram. E com demora? - ---_Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum._ - -Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem tão estimado, que se podia -divertir tanto!--Pois não é verdade?--disse voltando-se para Luiza, -para a tirar do seu silencio embaraçado. - ---Com certeza--murmurou ella. - -Estava sentada á beira da cadeira, como assustada, prompta a fugir. E -os olhares do Castro, insistentes por traz dos reflexos dos oculos, -incommodavam-na. - -Leopoldina reclinára-se no sophá e ameaçando-o com o dedo erguido: - ---Ah! Ahi n'essa ida p'ra França anda historia de saias! - -Elle negou frouxamente, com um sorriso fatuo. - -Mas Leopoldina não achava as francezas bonitas--o que era é que tinham -muito _chic_, muita animação... - -O Castro declarou-as adoraveis. Sobretudo para a estroinice! Ah! -conhecia-as bem! Emfim, lá como mães de familia não dizia. Mas para uma -cêa, para um bocado de _can-can_ não havia outras...--Affirmava-o com -convicção, pois, como os burguezes «da sua roda», avaliava doze milhões -de francezas por seis prostitutas de Café Concerto,--que tinha pago -caro e enfastiado immenso! - -Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe _estroina_! - -Elle sorria, deliciando-se, afiando as pontas do bigode: - ---Calumnias, calumnias...--murmurava. - -E Leopoldina voltando-se para Luiza: - ---Comprou uma quinta magnifica em Bordeus, um palacio!... - ---Uma choupana, uma choupana... - ---E naturalmente vai dar festas magnificas!... - ---Modestos chás, modestos chás...--dizia, repoltreando-se. - -E riam ambos d'um modo muito affectado. - -O Castro curvou-se então para Luiza: - ---Tive o gosto de vêr v. exc.^a ha tempos, na rua do Ouro... - ---Creio que tambem me lembro--respondeu ella. - -E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se mais á beira do sophá, -e depois de sorrir: - ---Pois eu mandei-o chamar porque temos uma cousa a dizer-lhe. - -Castro inclinou-se. O seu olhar não deixava Luiza, percorria-a com -atrevimento, palpava-a. - ---Aqui está o que é. Eu vou direita ás cousas, sem preambulos.--E teve -outro risinho.--Aqui a minha amiga está n'um grande apuro, e precisa um -conto de reis. - -Luiza acudiu com a voz quasi sumida: - ---Seiscentos mil reis... - ---Isso não importa--disse Leopoldina com uma indifferença -opulenta--estamos a fallar com um millionario! A questão é esta: quer o -meu amigo fazer o favor? - -O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e com uma voz arrastada, -ambigua: - ---Certamente, certamente... - -Leopoldina ergueu-se logo: - ---Bem. Eu tenho alli no quarto a costureira á espera. Deixo-os fallar -do negocio. - -E á porta do quarto, voltando-se para o Castro, ameaçando-o com o dedo, -a voz muito alegre: - ---Que o juro seja pequeno, hein? - -E sahiu, rindo. - -O Castro disse logo a Luiza, curvando-se: - ---Pois minha senhora, eu... - ---A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou n'uma grande afflicção de -dinheiro. E dirijo-me a si... São seiscentos mil reis... Procurarei -pagar, o mais depressa... - ---Oh minha senhora!--fez o Castro com um gesto generoso. Começou então -a dizer, que comprehendia perfeitamente, todo o mundo tinha os seus -embaraços... Lamentava que a não tivesse conhecido ha mais tempo... -Sempre tivera uma grande sympathia por ella... Uma grande sympathia!... - -Luiza calava-se, com os olhos baixos. Elle foi pousar o chicote na -jardineira, veio sentar-se no sophá junto d'ella. Vendo o seu ar -embaraçado, pediu-lhe que não se affligisse. Valia lá a pena por -questões de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir uma senhora -nova, tão interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir a elle. -Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam, -eram indiscretos...--E fallando tinha-lhe tomado a mão; o contacto -d'aquella pelle appetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o -respirar alto; Luiza, toda constrangida, nem retirára a mão; e Castro -abrazado--com uma verbosidade um pouco rouca, promettia _tudo_, _tudo -o que ella quizesse_!... Os seus olhinhos arregalados devoravam-lhe o -pescoço muito branco. - ---Seiscentos mil reis..., o que quizer!... - ---E quando?--disse Luiza muito perturbada. - -Elle via-lhe o seio arfar--e sob a irrupção d'um desejo brutal: - ---Já! - -Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quasi lhe mordeu a -face. - -Luiza ergueu-se com o salto d'uma mola d'aço. - -Mas o Castro escorregára sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe -sofregamente os vestidos: - ---Dou-lhe o que quizer, mas sente-se! Ha annos que tenho uma paixão -por si. Escute!--Os seus braços tremulos subiam; envolviam-na, e o que -sentia das suas fórmas inflammava-o. - -Luiza, sem ruido, repellia-lhe as mãos, recusava-se. - ---O que quizer! Mas ouça!--balbuciava elle puxando-a violentamente para -si. A concupiscencia brutal dava-lhe uma respiração de touro. - -Então, com um puxão desesperado ás saias, ella soltou-se, e recuando -afflicta: - ---Deixe-me! Deixe-me! - -O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes cerrados, os braços -abertos, rompeu para ella. - -Diante d'aquella luxuria bestial, Luiza, indignada, agarrou -instinctivamente de sobre a jardineira o chicote e deu-lhe uma forte -chicotada na mão. - -A dôr, a raiva, o desejo enfureceram-no. - ---Seu diabo!--rosnou, rangendo os dentes. - -Ia-se arremessar. Mas Luiza então, erguendo o braço, revolvida por -uma cólera phrenetica, atirou-lhe chicotadas rapidamente pelos -braços, pelos hombros--muito pallida, muito séria, com uma crueldade -a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma alegria de desforra em fustigar -aquella carne gorda. - -O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, com os braços diante da -cara, recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candieiro de -porcelana oscillou, desequilibrou-se, rolou no chão, com estilhaços de -louça, e uma nodoa escura d'azeite alastrou-se na esteira. - ---Ahi está! Vê?--disse Luiza toda a tremer, apertando ainda -convulsivamente o chicote. - -Leopoldina ao barulho correu, do quarto. - ---Que foi? Que foi? - ---Nada, estavamos a brincar--disse Luiza. - -Atirou o chicote para o chão, sahiu da sala. - -O Castro, livido de raiva, tinha agarrado o chapéo; e fixando -terrivelmente Leopoldina: - ---Agradecido! Conte commigo quando quizer! - ---Mas que foi? Que foi? - ---Até á vista!--rugiu o Castro.--E indo apanhar o chicote, sacudindo-o -ameaçadoramente para o quarto, onde Luiza entrára: - ---Grande bebeda!--murmurou com rancor. - -E sahiu, atirando com as portas. - -Leopoldina, attonita, veio encontrar Luiza no quarto a pôr o chapéo, -com as mãos ainda tremulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita. - ---Chegou-me cá uma cousa, e enchi-lhe a cara de chicotadas--disse ella. - -Leopoldina esteve um momento a olhal-a petrificada. - ---Bateste-lhe?...--E de repente desatou a rir, convulsivamente.--O -Castro d'oculos, o Castro coberto de chicotadas! O Castro a levar -uma coça!--Atirou-se para cima da _chaise-longue_, rolou-se; -suffocava.--Até já tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... Vir a uma -casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil reis e ser corrido a -chicote!... Com o seu proprio chicote!... Oh! era para estourar!... - ---O peor foi o candieiro--disse Luiza. - -Leopoldina ergueu-se, de salto. - ---E o azeite! Ai que agouro!--Correu á sala. Luiza veio encontral-a -diante da nodoa escura, com os braços cruzados, como se visse, toda -pallida, catastrophes avisinharem-se.--Que agouro, Santo Deus! - ---Deita-lhe sal depressa. - ---Faz bem? - ---Quebra o agouro. - -Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a nodoa: - ---Ai! Nossa Senhora permitta que não haja nada mau! Mas que caso este, -que caso este! E agora, filha? - -Luiza encolheu os hombros. - ---Eu sei cá! Soffrer!... - - - - -XIII - - -N'essa semana, uma manhã, Jorge, que se não recordava que era dia de -gala, encontrou a secretaria fechada, e voltou para casa ao meio dia. -Joanna á porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancella -em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto, -surprehendeu Juliana commodamente deitada na _chaise-longue_, lendo -tranquillamente o jornal. - -Ergueu-se, muita vermelha, mal o viu, balbuciou: - ---Peço desculpa, tinha-me dado uma palpitação tão forte... - ---Que se pôz a lêr o jornal, hein?...--disse Jorge, apertando -instinctivamente o castão da bengala.--Onde está a senhora? - ---Deve estar p'ra a sala de jantar--disse Juliana, que se pôz logo a -varrer, muito apressada. - -Jorge não encontrou Luiza na sala de jantar; foi dar com ella no quarto -dos engommados, despenteada, em roupão de manhã, passando roupa, muito -applicada e muito desconsolada. - ---Tu estás a engommar?--exclamou. - -Luiza córou um pouco, pousou o ferro.--A Juliana estava adoentada, -juntára-se uma carga de roupa... - ---Dize-me cá, quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora? - -A sua voz era tão aspera, que Luiza fez-se pallida, murmurou: - ---Que queres tu dizer? - ---Quero dizer que te venho encontrar a ti a engommar, e que a encontrei -a ella lá em baixo muito repimpada na tua cadeira, a lêr o jornal. - -Luiza, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, começou a -remexer, a desdobrar, a sacudir com a mão tremula... - ---Tu não pódes fazer idéa do que aqui vai por fazer--ia dizendo.--É -a limpeza, são os engommados, é um servição. A pobre de Christo tem -estado doente... - ---Pois se está doente que vá p'ra o hospital! - ---Não, tambem não tens razão! - -Aquella insistencia em defender a outra, que se repoltreava em baixo na -sua _chaise-longue_, exasperou-o: - ---Dize cá, tu dependes d'ella? Havia de dizer que tens medo d'ella! - ---Ah! se estás com esse genio!--fez Luiza com os beiços tremulos, uma -lagrima já nas palpebras. - -Mas Jorge continuava, muito zangado: - ---Não, essas condescendencias hão-de acabar por uma vez! Vêr aquelle -estafermo, com os pés p'ra cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se -nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendel-a, a fazer-lhe o -serviço, ah! não! É necessario acabar com isso. Sempre desculpas! -sempre desculpas! Se não póde que arreie. Que vá p'ra o hospital, que -vá p'ra o inferno! - -Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluçando. - ---Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras? - -Ella não respondia, n'um grande pranto. - ---Porque choras, filha?--perguntou elle, com uma impaciencia commovida, -chegando-se a ella. - ---Para que me fallas tu assim?--dizia, toda soluçante, limpando os -olhos.--Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau genio p'ra mim! O -que me sabes dizer são cousas desagradaveis. - ---Cousas desagradaveis! Minha filha, eu disse-te lá nada -desagradavel!--E abraçou-a, ternamente. - -Mas ella desprendeu-se, e com a voz cortada de soluços: - ---Então é algum crime estar a engommar? Por que trabalho, por que trato -das minhas cousas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A -mulher tem estado doente! Em quanto se não arranja outra, é necessario -fazer as cousas... Mas tu fallas, fallas! P'ra me affligir!... - ---Estás a dizer tolices, filha. Não estás em ti. Eu o que não quero é -que te cances! - ---P'ra que dizes então que tenho medo d'ella?--E as lagrimas -recomeçavam.--Medo de quê? Porque hei-de eu ter medo d'ella? Que -desproposito! - ---Pois bem, não digo. Não se falla mais na creatura. Mas não -chores... Vá, acabou-se!--Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a -dôcemente:--Vá, deixa o ferro agora. Vem! Que criança que tu és! - - -Por bondade, por consideração com os nervos de Luiza, Jorge durante -alguns dias não fallou «na creatura». Mas pensava n'ella; e aquelle -estafermo, com os pés para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as -madracices que lhe percebera, os confortos do quarto que vira na noite -em que ella desmaiára, aquella bondade ridicula de Luiza!... Achava -aquillo estranho, irritante!... Como estava fóra de casa todo o dia, e -diante d'ella Juliana só tinha sorrisos para Luiza, muitas attitudes -de affecto, imaginava que ella se soubera insinuar, e, pelas pequenas -intimidades de ama a criada, se tornára necessaria e estimada. Isso -augmentava a sua antipathia. E não a disfarçava. - -Luiza vendo-o ás vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia! -Mas o que a torturava era a maneira que Jorge adoptára de fallar -d'ella com uma veneração ironica; chamava-lhe _a illustre D. Juliana, -a minha ama e senhora_! Se faltava um guardanapo ou um copo, fingia-se -espantado: «Como! a D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa tão perfeita!» -Tinha gracejos que gelavam Luiza. - ---A que sabia o filtro que ella te deu? Era bom? - -Luiza agora, diante d'elle, já nem se atrevia a fallar a Juliana com um -modo natural; temia os sorrisos malignos, os ápartes:--«Anda, atira-lhe -um beijo, conhece-se na cara que estás com a vontade de lh'o atirar!» -E, receando as suspeitas d'elle, querendo mostrar-se _independente_, -começou na sua presença, a fallar a Juliana com uma dureza brusca, -muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava á voz inflexões d'um -rancor postiço. - -Juliana, muito fina, tinha percebido _tudo_, e supportava, calada. - -Queria evitar toda a questão que a perturbasse no seu conchego. -Sentia-se agora muito mal, e nas noites em que não podia dormir com -afflicções asthmaticas, punha-se a pensar com terror--se fosse expulsa -d'aquella casa, para onde iria? Para o hospital! - -Tinha por isso medo de Jorge. - ---Elle está morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de -mim--dizia ella á tia Victoria--mas não lhe hei-de dar esse gosto, ao -boi manso! - -E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomeçar a fazer todo o -serviço, com zelo, apparentemente; e todavia ás vezes não podia, -vencida pela doença; tinha «flatos» que a faziam cahir n'uma cadeira, -arquejando, com as mãos no coração. Mas reagia. Uma occasião mesmo -vendo Luiza a passar um espanejador pelos _consoles_ da sala, zangou-se: - ---A senhora faz favor de se não metter no meu serviço? Eu ainda posso! -Ainda não estou na cova! - -Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava -sopinhas, croquettes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e -vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de gallinha á noite. - ---Com o meu corpo o pago--dizia ella a Joanna--que trabalho como uma -negra! Arrazo-me! - -Um dia, porém, que Jorge se irritára mais com a figura amarellada de -Juliana, e que estava nervoso, ao achar á noite o jarro vazio e o -lavatorio sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente: - ---Não estou para aturar estes desleixos! Irra!--gritou. - -Luiza veio logo, inquieta, desculpar Juliana. - -Jorge mordeu o beiço, curvou-se profundamente, e com a voz um pouco -tremula: - ---Perdão! esquecia-me que a pessoa de Juliana é sagrada! eu mesmo vou -buscar agua! - -Luiza então zangou-se: se havia de estar sempre com aquelles remoques, -era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ella amava -de paixão a Juliana? Se a conservava é porque era uma boa criada. Mas -se ella se tornava a causa de maus humores, de questões, se elle lhe -ganhára tamanho odio, bem, então que se fosse! Era uma sécca aquella -ironia constante... - -Jorge não respondeu. - -E durante a noite Luiza, sem dormir, pensava que aquillo não podia -durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tyranna, e ouvir a todo -o momento ditinhos, allusões, ah, não! era de mais! Bastava! Elle -começava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ella mesma -chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que -mostrasse as cartas, acabou-se! Se elle a mettesse n'um convento, -se separasse d'ella, bem! Soffreria, morreria! Tudo, menos aquelle -martyrio reles, ás picadinhas, medonho e grotesco! - ---Que tens tu?--perguntou Jorge, meio a dormir, sentindo-a inquieta. - ---Espertina. - ---Coitada! Conta cento e cincoenta p'ra traz!--E voltou-se, -enrolando-se commodamente na roupa. - - -Ao outro dia Jorge levantára-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, -o hespanhol das minas, e jantar com elle no Gibraltar. Depois de -vestido foi á sala de jantar--eram dez horas--e voltou a dizer a Luiza, -com uma cortezia profunda, espaçando as palavras:--que não estava a -mesa posta! que as chavenas do chá da vespera estavam ainda por lavar! -e que a snr.^a D. Juliana, a illustre snr.^a D. Juliana, tinha sahido, -a seu passeio! - ---Eu disse-lhe hontem á noite que me fosse ao sapateiro...--começou -Luiza, que vestia o seu roupão. - ---Ah, perdão!--interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.--Esquecia-me -outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdão! - -Luiza acudiu logo: - ---Não. Tens razão. Tu verás! É preciso pôr um côbro... - -Subiu logo á cozinha, desesperada: - ---Vossê porque não pôz a mesa, Joanna, se a outra sahiu? - -Mas a rapariga não ouvira sahir a snr.^a Juliana! Imaginára que estava -p'ra baixo, p'ra a sala! Como ella agora é que queria fazer tudo!... - -Quando Joanna trouxe o almoço d'ahi a pouco Jorge veio sentar-se á -mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes -com um sorriso mudo para ir buscar uma colhér, o assucareiro. Luiza -via-lhe os musculos da face contrahidos: mal podia comer, atarantada; -a chavena, quando a erguia, tremia-lhe na mão; com os olhos baixos -espreitava Jorge ás furtadellas, e o seu silencio torturava-a. - ---Tu fallaste hontem que ias jantar fóra hoje... - ---Vou--disse seccamente. E acrescentou:--Graças a Deus! - ---Estás de bom humor!...--murmurou ella. - ---Como vês! - -Luiza fez-se pallida, pousou o talher: tomou o jornal para disfarçar -uma lagrimasinha que lhe tremia na palpebra; mas as letras -confundiam-se, sentia pular o coração. De repente a campainha tocou. -Era a outra, de certo! - -Jorge, que se ia erguer, disse logo: - ---Ha-de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras... - -E ficou de pé, junto á mesa, aguçando devagar um palito. - -Luiza, a tremer, levantou-se tambem: - ---Eu vou-lhe fallar... - -Jorge reteve-a pelo braço, e tranquillamente: - ---Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!... - -Luiza recahiu na cadeira, muito pallida. - -Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge aguçava tranquillamente -o seu palito. - -Luiza então voltou-se para elle, e batendo as mãos, afflicta: - ---Não lhe digas nada!... - -Elle fixou-a, assombrado: - ---Porque? - -Juliana n'este momento abriu o reposteiro. - ---Então que desaforo é este, sahir e deixar tudo por -arrumar?--disse-lhe Luiza logo, erguendo-se. - -Juliana, que vinha sorrindo, estacou á porta, petrificada: apesar da -sua amarellidão, uma vaga côr de sangue espalhou-se-lhe nas feições. - ---Não lhe torne a acontecer semelhante cousa, ouviu? A sua obrigação -é estar em casa pela manhã...--Mas o olhar de Juliana, que se cravava -n'ella terrivelmente, emmudeceu-a. Agarrou no bule com as mãos -tremulas.--Deite agua n'este bule, vá. - -Juliana não se mexeu. - ---Vossê não ouviu?--berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada á -mesa, que fez saltar a louça. - ---Jorge!--gritou Luiza, agarrando-lhe no braço. - -Mas Juliana fugira da sala, correndo. - ---E logo, na rua!--exclamou Jorge.--Faze-lhe as contas, e que se vá. -Ah! estou farto! Nem mais um dia! Se a torno a vêr, desfaço-a! Até que -emfim! Chegou-me a minha vez! - -Foi buscar o paletot, muito excitado, e antes de sahir, voltando á sala: - ---E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora mais! Ha quinze dias -que a trago aqui atravessada. P'ra a rua! - - -Luiza veio para o quarto quasi sem se poder suster. Estava perdida! -estava perdida! Uma multidão d'idéas, todas extremas e insensatas, -redemoinhava no seu cerebro como um montão de folhas seccas n'uma -ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de -não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas -que Juliana lhe entregava, lendo: _Meu adorado Bazilio!_ Então uma -cobardia immensa amolleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana. Ia -supplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martyrisasse!... -E Jorge depois? Diria que a Juliana chorára, se atirára de joelhos! -Mentiria, cobril-o-hia de beijos... Era nova, era bonita, era -ardente--convencel-o-hia! - -Juliana não estava no quarto. Subiu á cozinha; estava lá, sentada, -com os olhos chammejantes, os braços nervosamente cruzados, n'uma -raiva muda. Apenas viu Luiza, deu um salto sobre os calcanhares, e -mostrando-lhe o punho, berrou: - ---Olhe que a primeira vez que vossê me torna a fallar como hoje, vai -aqui tudo raso n'esta casa! - ---Cale-se, sua infame!--gritou Luiza. - ---Vossê manda-me calar, sua p...!--E Juliana disse a palavra. - -Mas a Joanna correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez -cahir, com um gemido, sobre os joelhos. - ---Mulher!--bradou Luiza, arremessando-se sobre a Joanna, agarrando-a -pelos braços. - -Juliana, assombrada, fugiu. - ---Ó Joanna! ó mulher! que desgraça, que escandalo!--exclamava Luiza com -as mãos apertadas na cabeça. - ---Racho-a!--dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como -brazas--racho-a! - -Luiza andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pallida como -a cal, repetindo, toda a tremer: - ---O que vossê foi fazer, mulher! o que vossê foi fazer! - -A Joanna ainda toda revolvida de sua colera, com o rosto manchado de -vermelho, remexia furiosamente as panellas. - ---E se ella me diz uma palavra, acabo-a, aquella bebeda! Acabo-a! - -Luiza desceu ao quarto. No corredor sahiu-lhe Juliana, com a cuia á -banda, as dedadas escarlates na face, medonha. - ---Ou aquella desavergonhada vai já p'ra a rua--gritou ella--ou eu -vou-me pôr lá em baixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe -tudo!... - ---Pois mostre, faça o que quizer!--disse Luiza, passando, sem a olhar. - -Fôra uma desesperação, um odio que a tinham decidido. Mais valia acabar -por uma vez!... - -Sentia então como um allivio doloroso, em vêr o fim do seu longo -martyrio! Havia mezes que elle durava. E pensando em tudo o que -tinha feito e que tinha soffrido, as infamias em que chafurdára e as -humilhações a que descera, vinha-lhe um tedio de si mesma, um nojo -immenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espesinhado; que -n'ella nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em -si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo -que foi pisado por uma multidão, sobre a lama. Não valia a pena -luctar por uma vida tão vil. O convento seria já uma purificação, a -morte uma purificação maior...--E onde estava elle, o homem que a -desgraçára? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando, -governando os seus cavallos, dormindo com outras! E ella morria alli, -estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, -nem uma palavra de resposta; nem a julgára digna do meio tostão da -estampilha! O que elle lhe dizia pelas terras da Polvora acima, -n'aquelle _coupé_:--Dar-lhe-hia toda a sua vida, viveria á sombra das -suas saias! O infame! Já tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! -Em quanto ella fôra a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra -um lindo collo--então bem, prompto! Mas teve uma difficuldade, chorou, -soffreu--ah! não, isso não! És um bello animal que me dás um grande -prazer--perfeitamente, tudo o que quizeres: mas tornas-te uma creatura -dolorida que precisa consolações, talvez uns poucos de centos de mil -reis--então boas noites, cá vou no paquete! Oh que estupida que é a -vida! Ainda bem que a deixava! - -Foi-se encostar á janella. Estava um dia muito azul, muito dôce. O -sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes -brancas, sobre a calçada. E havia no ar uma suavidade avelludada. -O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se á porta do estanque. -Então, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. Todos eram -felizes n'aquella manhã de rosas, só ella soffria, pobre d'ella! E -ficou a olhar, como esquecida n'uma vaga saudade, com uma lagrima -na palpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a -esquina,--e d'ahi a pouco voltar com um gallego, velho e pesado, que -trazia o seu sacco ao hombro. - -Ia-se embora!--pensou Luiza.--Mandava pôr fóra os bahus! E depois? -Remettia as cartas a Jorge, ou entregava-lh'as ella mesma, no portal! -Santo Deus!--E parecia-lhe vêr Jorge apparecer no quarto, livido, com -as cartas na mão!... - -Veio-lhe um terror allucinado: não queria perder o seu marido, o seu -Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se d'ella a revolta -da femea contra a viuvez: aos vinte e cinco annos ir murchar para um -convento! Não, c'os diabos! - -Foi direita ao quarto de Juliana. - ---Vem vêr se lhe levo alguma cousa?--gritou logo a outra furiosa. - -Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo chão botinas -embrulhadas em jornaes velhos. - ---E ainda cá me ficam quatro camisas, dous pares de calcinhas, tres -pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica ahi o rol. E quero as -minhas contas!... - ---Escute, Juliana, não se vá.--Mas a voz desappareceu-lhe, as lagrimas -saltaram-lhe dos olhos. - -Juliana poz-se a olhar para ella d'alto, triumphando, com uma botina de -duraque em cada mão. - ---É mandar aquella desavergonhada embora, e está tudo acabado!--E com -uma voz aguda, batendo as solas das botinas:--Fica tudo como d'antes, -na paz do Senhor! - -Uma alegria extraordinaria accendia-lhe o olhar. Vingava-se! fazia-a -chorar! expulsava a _outra_! e não perdia os seus commodos! - ---É pôr a bebeda na rua! É pôl-a na rua! - -Luiza curvou os hombros, foi á cozinha devagar; os degraus da escada -pareciam-lhe immensos, infindaveis. Deixou-se cahir n'um banco, e -limpando os olhos: - ---Joanna, venha cá, escute, vossê não póde continuar na casa... - -A rapariga ficou a olhar para ella, espantada. - ---O que a Juliana disse foi n'um repente... Tem estado a chorar, a -arrepender-se. É a criada mais antiga. O senhor estima-a muito... - ---Então a senhora manda-me embora? Então a senhora manda-me embora? - -Luiza insistiu, baixo, envergonhada: - ---Foi um repente, tem estado a pedir perdão... - ---Eu foi para defender a senhora!--exclamou a rapariga, abrindo os -braços, afflicta. - -Luiza sentiu-se indigna; e impaciente, para acabar: - ---Bem, Joanna, não estejamos com mais. Eu é que sou a dona da casa... -Vou-lhe fazer as contas. - ---Olha que pago este!--gritou Joanna, então, desesperada. E com uma -resolução, batendo o pé:--Pois o senhor é que ha-de dizer! Eu vou dizer -tudo ao senhor! Hei-de-lhe contar tudo o que se passou! A senhora não -tem razão!... - -Luiza olhava-a, estupida. Agora era aquella! Era d'aquella rapariga, -teimosa na sua justiça, que vinha o desastre! Era de mais! Veio-lhe um -terror sobrenatural, como um espanto da consciencia, e apertando as -fontes nas mãos abertas: - ---Que expiação! Que expiação, Santo Deus! - -De repente, como desvairada, agarrou Joanna pelos braços, e -fallando-lhe junto do rosto: - ---Joanna, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não diga nada. Despeça-se -vossê!--E perdendo inteiramente todo o respeito proprio, cahiu de -joelhos, diante da cozinheira, soluçando:--Pelas cinco chagas de -Christo, vá, Joanna, minha rica Joanna, vá. Peço-lhe eu, Joanna! Pelo -amor de Deus! - -A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente. - ---Vou, sim, minha senhora!... vou, sim, minha rica senhora! - ---Sim, Joanna, sim. Eu dou-lhe alguma cousa. Vossê bem vê... Não -chore... Espere... - -Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas -economias, voltou, galgando os degraus, metteu-lh'as na mão, -dizendo-lhe baixo: - ---Faça uma trouxa, eu ámanhã lhe mandarei o bahu. - ---Sim, minha senhora--soluçava a rapariga, babada de dôr--sim, minha -rica senhora! - -Luiza veio deixar-se cahir de bruços sobre a sua _chaise-longue_, n'um -choro convulsivo tambem, desejando a morte, pedindo, n'um terror, -piedade a Deus! - -Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente á porta: - ---Então em que ficamos? - ---A Joanna vai-se. Que quer mais? - ---Que sáia já!--disse a outra imperiosamente.--Que o jantar o faço eu. -Por hoje, já se vê! - -As lagrimas de Luiza seccavam-se, de raiva. - ---E a senhora agora ouça! - -O tom de Juliana era tão insultante, que Luiza ergueu-se, como ferida. - -E Juliana, ameaçando-a, d'alto, com o dedo erguido: - ---E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lh'as cantarei!... - -E voltou as costas, batendo os tacões. - - -Luiza olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; -mas tudo estava immovel e correcto; nem uma prega das cortinas se -movera, e os dous pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam -pretenciosamente. - -Então tirou o roupão violentamente, passou um vestido sem apertar o -corpete, vestiu por cima um casaco largo d'inverno, atirou o chapéo -para a cabeça despenteada, sahiu, desceu a rua tropeçando nas saias, -quasi a correr. - -O Paula saltou para o meio da rua para a seguir: viu-a parar á porta de -Sebastião, e veio dizer á estanqueira: - ---Em casa do Engenheiro ha novidade! - -E ficou plantado á porta com os olhos cravados para as janellas -abertas, onde as bambinellas de reps verde cahiam com as suas pregas -immoveis. - ---O snr. Sebastião?--perguntava Luiza á rapariguita sardenta, que -correra a abrir a porta. - -E ia entrando pelo corredor. - ---Na sala--disse a pequena. - -Luiza subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta, e -correndo para elle, apertando as mãos contra o peito, n'uma voz -angustiosa e sumida: - ---Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-m'a. Estou -perdida! - -Elle ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto -manchado, o chapéo mal posto, a afflicção do olhar: - ---Que é? Que é? - ---Escrevi a meu primo--repetiu, com os olhos cravados n'elle, -anciosamente--a mulher apanhou-me a carta... Estou perdida! - -Fez-se muito pallida, os olhos cerraram-se-lhe. - -Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sophá de damasco -amarello. E ficou de pé, mais descórado que ella, com as mãos nos -bolsos do seu jaquetão azul, immovel, estupido. - -De repente correu fóra, trouxe um copo d'agua, borrifou-lhe o rosto ao -acaso. Ella abriu os olhos, as suas mãos errantes apalparam em redor, -fitou-o espantada, e deixando-se cahir sobre o braço do canapé, com o -rosto escondido nas mãos, rompeu n'um choro hysterico. - -O seu chapéo cahira. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as -flôres, pôl-o sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos -pés debruçar-se junto d'ella: - ---Então! então!--murmurava. E as suas mãos tocando-lhe de leve o braço, -tremiam como folhas. - -Quiz dar-lhe agua para a socegar: ella recusou com a mão, endireitou-se -devagar no sophá, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluços. - ---Desculpe, Sebastião, desculpe--dizia.--Bebeu então um gole d'agua, -ficou com as mãos no regaço, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas -silenciosas cahiam sem cessar. - -Sebastião foi fechar a porta--e vindo ao pé d'ella, com muita doçura: - ---Mas então? Que foi? - -Ella ergueu para elle a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam -febrilmente; olhou-o um momento, e deixando pender a cabeça, toda -humilhada: - ---Uma desgraça, Sebastião, uma vergonha!--murmurou. - ---Não se afflija! Não se afflija! - -Sentou-se ao pé d'ella, e baixo, com solemnidade: - ---Tudo o que eu puder, tudo o que fôr necessario, aqui me tem! - ---Oh Sebastião!...--exclamou n'um impulso de reconhecimento humilde; -e acrescentou:--Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho -soffrido, Sebastião! - -Esteve um momento com os olhos cravados no chão; e agarrando-lhe -o braço de repente, com força, as palavras romperam abundantes e -precipitadas, como os borbulhões d'uma agua comprimida que rebenta. - ---Apanhou-me a carta, não sei como, por um descuido meu! Ao principio -pediu-me seiscentos mil reis. Depois começou a martyrisar-me... Tive -de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus -lençoes, dos finos. Era a dona da casa. O serviço quem o faz sou -eu!... Ameaça-me todos os dias, é um monstro. Tudo tem sido baldado, -boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois não é -verdade? Ella bem via... O que eu tenho soffrido! Dizem que estou mais -magra, até o Sebastião reparou. A minha vida é um inferno. Se Jorge -soubesse!... Aquella infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho -como uma negra. Logo pela manhã a limpar e varrer. Ás vezes tenho de -lavar as chicaras do almoço. Tenha piedade de mim, Sebastião, por quem -é, Sebastião! coitada de mim, não tenho ninguem n'este mundo. - -E chorava, com as mãos sobre o rosto. - -Sebastião, calado, mordia o beiço; duas lagrimas rolavam-lhe tambem -pela face, sobre a barba. E levantando-se, devagar: - ---Mas Santo nome de Deus, minha senhora! porque me não disse ha mais -tempo? - ---Ó Sebastião, podia lá! Uma vez estive para lh'o dizer... Mas não -pude, não pude! - ---Fez mal!... - ---Esta manhã o Jorge quiz pôl-a fóra. Embirra com ella, percebe os -desmazelos. Mas não desconfia de nada, Sebastião!...--E desviou os -olhos, muito escarlate.--Escarnecia-me ás vezes por eu parecer tão -apaixonada por ella... Mas esta manhã zangou-se, mandou-a embora. -Apenas elle sahiu, veio como uma furia, insultou-me... - ---Santo Deus!--murmurava Sebastião assombrado, com a mão sobre a testa. - ---Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que faço os despejos!... - ---Mas merece a morte, essa infame!--exclamou batendo com o pé no chão. - -Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mãos nos bolsos, -os seus largos hombros curvados. Voltou sentar-se ao pé d'ella, e -tocando-lhe timidamente no braço, muito baixo: - ---É necessario tirar-lhe as cartas... - ---Mas como? - -Sebastião coçava a barba, a testa. - ---Ha-de-se arranjar--disse, por fim. - -Ella agarrou-lhe a mão: - ---Oh Sebastião, se fizesse isso! - ---Ha-de-se arranjar. - -Esteve um momento calculando--e com o seu tom grave: - ---Eu vou-me entender com ella... É necessario que ella esteja só em -casa... Podiam ir ao theatro, esta noite. - -Levantou-se lentamente, foi buscar o _Jornal do Commercio_, sobre a -mesa, olhou os annuncios: - ---Podiam ir a S. Carlos, que acaba mais tarde... É o _Fausto_... Podiam -ir vêr o _Fausto_... - ---Podiamos ir vêr o _Fausto_--repetiu Luiza, suspirando. - -E então, muito chegados, ao canto do sophá, Sebastião foi-lhe dizendo -um plano, em palavras baixas, que ella devorava, anciosa. - -Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao theatro... -Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao _Hotel -Gibraltar_... E a Joanna? A Joanna deixára a casa. Bem. Ás nove horas, -então, Juliana estaria só. - ---Vê como tudo se arranja?--disse elle, sorrindo. - -Era verdade... Mas daria a mulher as cartas? - -Sebastião tornou a coçar a barba, a testa: - ---Ha-de dar--disse. - -Luiza olhava-o quasi com ternura: parecia-lhe vêr na sua face honesta, -uma alta belleza moral. E de pé diante d'elle, com uma melancolia na -voz: - ---E vai fazer isso por mim, Sebastião, por mim, que fui tão má mulher... - -Sebastião córou, respondeu encolhendo os hombros: - ---Não ha más mulheres, minha rica senhora, ha maus homens, é o que ha! - -E acrescentou logo: - ---Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hein?... Uma frisasinha ao -pé do palco... - -Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapéo, descia o véo com -pequeninos soluços tristes, que voltavam a espaços. - -No corredor encontraram a tia Joanna com os braços abertos; beijou -muito Luiza; aquella visita era um milagre! E que bonita que estava! -era a flôr do bairro! - ---Está bom, tia Joanna, está bom--disse Sebastião, afastando-a -brandamente. - -Ora que não fosse mettediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora, -tambem ella agora a queria um bocadinho! Assim é que elle devia ter uma -mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma açucena! - -Luiza corava, embaraçada. - -E o snr. Jorge? que era feito d'elle? Ninguem o via. E a D. Felicidade? - ---Está bom, basta, tia Joanna!--fez Sebastião impaciente. - ---Olha o sofrego!... Ninguem lhe come a menina!... Cruzes!... - -Luiza sorriu; lembrou-se então de repente que não tinha por quem mandar -os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel. - -Sebastião fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: que escrevesse, -elle os mandaria: escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a penna--mais -prompto, mais delicado desde que a sabia infeliz. Luiza fez o bilhete -para Jorge; e, como apesar das suas afflicções, se lembrou com terror -de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou n'um _P. -S._, no bilhete para ella: «o melhor é vires de preto, e não fazeres -grande _toilette_. Nada de decotes nem de côres claras.» - - -Quando entrou em casa, viu um gallego sahindo com a trouxasita de -Joanna. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das -escadas da cozinha dizia para cima, ameaçadoramente: - ---Torne eu a apanhal-a, que não me sahe viva das mãos, sua bebeda! - ---Bufa! bufa!--gritou de cima Juliana--mas vai-te indo para o olho da -rua! - -Luiza escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma -praça! Uma taberna! - ---Se eu t'apanho!--rosnava a Joanna descendo. - ---Rua! rua, sua porca!--gania a Juliana. - -Luiza então chamou a rapariga: - ---Joanna, não procure casa, venha por aqui além d'amanhã--disse-lhe -baixo. - -Juliana em cima cantava a _Carta adorada_, com um jubilo estridente. - -E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, «que estava o -jantar na mesa». - -Luiza não respondeu. Esperou que ella subisse á cozinha, correu á sala -de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se -no quarto;--e alli _jantou_, a um canto da jardineira. - -Ás seis horas um trem parou á porta. Devia ser Sebastião! Foi ella -mesma abrir, em bicos de pés. Era elle, animado, vermelho, com o chapéo -na mão: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito... - ---E isto... - -Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas. - ---Oh Sebastião!--murmurou ella, com um reconhecimento commovido. - ---E carruagem, tem? - ---Não - ---Eu cá mando. Ás oito, hein? - -E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o com o olhar que se -humedecia. Foi á janella do quarto vêl-o sahir.--Que homem! pensava. E -cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia tambem um prazer -dôce na protecção d'elle, nos seus cuidados. - -Nós de dedos bateram á porta do quarto: - ---Então a senhora não quer jantar?--disse a voz impaciente de Juliana, -de fóra. - ---Não. - ---Mais fica! - - -D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla, -vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço d'esmeraldas. - ---Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber?--disse logo, -muito alegre, a excellente senhora. - -Um capricho!--O Jorge tinha jantado fóra, ella sentira-se tão só!... -Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. Não pudera resistir... Tinham de o -ir buscar pelo _Hotel Gibraltar_. - ---Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... -E estive p'ra não vir--disse, sentando-se, com pancadinhas muito -satisfeitas nas pregas do vestido.--Apertar-me depois de jantar! -Felizmente, não tinha comido quasi nada! - -Quiz então saber o que ia. O _Fausto_? Ainda bem! De que lado era a -frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois -estava mais longe d'aquella noitada de theatro!...--E erguendo-se -passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós, -ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia. - -Uma carruagem parou á porta. - ---O trem!--disse, toda risonha. - -Luiza calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração -batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada? -perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? o lenço? - ---Ai! o meu ramo!--exclamou Luiza. - -Juliana ficou espantada quando a viu vestida _p'ra theatro_. Foi -alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente: - ---Não tem mesmo vergonha n'aquella cara!--rosnou. - -O trem já rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos -vidros: - ---Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! Não posso ir sem leque! -Pare, cocheiro! - ---Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!--fez Luiza impaciente. - -Aquellas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade; -felizmente, como ella dizia, arrotava! Graças a Deus, louvada seja -Nossa Senhora, que podia arrotar! - -Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se -gesticulava, destacavam ás portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza; -os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir -de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos -criados. D. Felicidade com a sua face jubilosa á portinhola, gozava a -claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma satisfação -que viu o guarda-portão do _Gibraltar_, de calções vermelhos, vir com o -boné na mão, á portinhola. - -Perguntaram por Jorge. - -E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos -derramavam uma luz dôce. D. Felicidade, muito curiosa da «vida -d'hotel», reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa; -depois n'uma senhora que lhe pareceu «estabanada», e que descia, -vestida de _soirée_, mostrando o pé calçado n'um sapato redondo de -setim branco: e sorria de vêr sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando -para dentro olhares gulosos. - ---Estão a arder por saber quem somos. - -Luiza calada apertava nas mãos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no -alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito -magrissimo, de chapéo ao lado, as mãos nos bolsos d'umas calças muito -estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam, -gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge, -fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no hombro, -obrigou-o muito sériamente a aceitar outro charuto,--e pondo o chapéo -mais ao lado foi conversar com o guarda-portão. - -Jorge correu á portinhola do trem, rindo: - ---Então que extravagancia é esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o -divorcio! - -Parecia muito jovial. Sómente tinha pena de não estar vestido... -Ficaria atraz no camarote.--E para as não amarrotar subiu para a -almofada. - - - - -XV - - -Passava das oito horas quando o trem parou em S. Carlos. Um gaiato, -que tossia muito, com o casaco pregado sobre o peito por um alfinete, -precipitou-se a abrir a portinhola; e D. Felicidade sorria de -contentamento, sentindo a cauda do vestido de sêda arrastar sobre o -tapete esfiado do corredor das frisas. - -O pano já estava levantado. Era á luz diminuida da rampa, a decoração -classica d'uma cella d'alchimista; embrulhado n'um roupão monastico, -com uma abundancia hirsuta de barbas grisalhas, tremuras senis, Fausto -cantava, desilludido das sciencias, pousando sobre o coração a mão -onde reluzia um brilhante. Um cheiro vago de gaz extravasado errava -subtilmente. Aqui e além tosses expectoravam. Havia ainda pouca gente. -Entrava-se. - -Na frisa, para se collocarem, D. Felicidade e Luiza cochichavam, com -gestosinhos de recusa, olhares supplicantes: - ---Oh D. Felicidade, por quem é! - ---Se estou aqui muito bem... - ---Não consinto... - -Emfim D. Felicidade sentou-se no lugar superior alteando o peito. Luiza -ficára atraz calçando as luvas; em quanto Jorge arrumava os agasalhos, -furioso com o chapéo que já duas vezes rolára. - ---Tem banquinho, D. Felicidade? - ---Obrigada, cá o sinto.--E remexeu os pés.--Que pena não se vêr a -familia real! - -Nos camarotes d'assignantes iam apparecendo os altos penteados -medonhos, enchumaçados de postiços; peitilhos de camisas branquejavam. -Sujeitos entravam para as cadeiras devagar, com um ar gasto e intimo, -compondo o cabello. Conversava-se baixo. Ao fundo da platéa havia um -rumor desinquieto entre moços de jaquetão; e á entrada, sob a tribuna, -viam-se, n'um apparato militar, correames polidos de municipaes, bonés -carregados de policias; e reluzindo á luz, punhos de sabres. - -Mas na orchestra correram fortes estremecimentos metallicos, dando um -pavor sobrenatural; Fausto tremia como um arbusto ao vento; um ruido -de folhas de lata, fortemente sacudidas, estalou; e Mephistopheles -ergueu-se ao fundo, escarlate, lançando a perna com um ar charlatão, -as duas sobrancelhas arrebitadas, uma barbilha insolente, _un bel -cavalier_; e em quanto a sua voz poderosa saudava o Doutor, as duas -plumas vermelhas do gorro oscillavam sem cessar d'um modo fanfarrão. - -Luiza chegára-se para a frente; ao ruido da cadeira, cabeças na platéa -voltaram-se, languidamente; pareceu de certo bonita, examinaram-na; -ella, embaraçada, pôz-se a olhar para o palco muito séria:--por traz -de véos sobrepostos que se levantavam, n'uma affectação de visão, -Margarida appareceu fiando o linho, toda vestida de branco; a luz -electrica, envolvendo-a n'um tom crú, fazia-a parecer de gesso muito -caiado; e D. Felicidade achou-a tão linda que a comparou a uma santa! - -A visão desappareceu n'um tremulo de rebecas. E depois d'uma aria, -Fausto, que ficára immovel ao fundo do palco, debateu-se um momento -dentro da tunica e das barbas, e emergiu joven, gordinho, vestido de -côr de lilaz, coberto de pôs d'arroz, compondo o frisado do cabello. As -luzes da rampa subiram: uma instrumentação alegre e expansiva resoou: -Mephistopheles, apossando-se d'elle, arrastou-o sofrego através da -decoração. E o pano desceu rapidamente. - -As platéas ergueram-se com um rumor grosso e lento. D. Felicidade um -pouco affrontada abanava-se. Examinaram então as familias, algumas -_toilettes_; e sorrindo concordaram que estava «do mais fino». - -Nos camarotes conversava-se sobriamente; ás vezes uma joia brilhava, -ou a luz punha tons lustrosos d'aza de corvo nos cabellos pretos onde -alvejavam camelias ou reluzia o aro de metal d'um pente; os vidros -redondos dos binoculos moviam-se devagar, picados de pontos luminosos. - -Na platéa, nas bancadas clareadas, sujeitos quasi deitados namoravam -com languidez; ou de pé, taciturnos, acariciavam as luvas; velhos -_dilettanti_, de lenço de sêda, tomavam rapé, caturravam; e D. -Felicidade interessava-se por duas hespanholas de verde, que na -superior immobilisavam, n'uma affectação casta, os seus corpos de -lupanar. - -Um collega de Jorge magrinho e janota entrou então no camarote: parecia -animado, e perguntou logo se não sabiam o grande escandalo? Não. E o -engenheiro, com gestos vivos das suas mãosinhas calçadas n'umas luvas -esverdeadas, contou que a mulher do Palma, o deputado, sabiam, tinha -fugido!... - ---P'ra o estrangeiro? - ---Qual!--E a voz do engenheiro tinha agudos triumphantes.--Ahi é que -estava o bonito. P'ra casa d'um hespanhol que morava defronte!... Era -divino! De resto--e a sua voz tornou-se grave--estava enthusiasmado com -o baixo! - -E depois de ter sorrido, olhado pelo binoculo, ficou calado, extenuado -do que dissera, batendo apenas de vez em quando no joelho de Jorge, com -um _Sim, senhor!_ familiar, ou um _Então que é feito?_ amigavel. - -Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro sahiu, em bicos de -pés. E o pano ergueu-se devagar na alegria da kermesse, cheia de uma -luz branca e dura. Casas acastelladas branquejavam no pano de fundo, -n'alguma collina do Rheno amiga das vinhas. Escarranchado sobre uma -pipa, o barrigudo e folgazão rei Cambrinus ria enormemente, erguendo, -na sua attitude de taboleta gothica, a vasta caneca emblematica da -cerveja germanica. E estudantes, judeus, reitres e donzellas, nas suas -côres vivas de paninho, moviam-se d'um modo automatico e somnambulo, -aos compassos largos da instrumentação festiva. - -A walsa então desenrolou-se languidamente, como um fio de melodia, -em espiraes suaves que ondeavam e fugiam: Luiza seguia os pésinhos -das dançarinas, as pernas musculosas volteando no tablado; e as saias -tufadas e curtas faziam como o girar multiplicado e reproduzido de -vagos discos de cambraia. - ---Que bonito!--murmurava ella, com uma felicidade no rosto. - ---D'appetite--affirmava D. Felicidade, revirando os olhos. - -Certas agudezas delicadas dos flautins enterneciam Luiza; e a casa, -Juliana, as suas miserias, tudo lhe parecia recuado, no fundo d'uma -noite esquecida. - -Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos, e logo, com gestos -aduncos e rapaces, cantou o _Dio del oro_. A sua voz arremessada -affirmava, n'um tom brutal, o poder do dinheiro; nas massas da -instrumentação passavam sonoridades claras e tilintantes d'um remexer -sofrego de thesouros; e as notas altas finaes cahiam, d'um modo curto e -secco, como martelladas triumphantes cunhando o divino ouro! - -Luiza então viu D. Felicidade perturbar-se; e seguindo o seu olhar -negro, subitamente avivado, descobriu na geral a calva polida do -conselheiro Accacio,--que comprimentava, promettendo generosamente, com -a mão espalmada, a sua visita proxima. - -Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as immediatamente por terem -escolhido aquella noite: a opera era das melhores e estava gente muito -fina. Lamentou ter perdido o primeiro acto;--ainda que não gostasse -extremamente da musica, apreciava-o por ser muito philosophico. E, -tomando da mão de Luiza o binoculo, explicou os camarotes, disse os -titulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados, apontou os -litteratos.--Ah! conhecia bem S. Carlos! Havia dezoito annos! - -D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro sentia que não podessem -vêr o camarote real: a rainha, como sempre, estava adoravel. - -Sim? Como estava? - ---De velludo. Não sabia se rôxo, se azul escuro. Affirmar-se-hia, e -viria dizer... - -Mas quando o pano subiu, ficou sentado por traz de Luiza começando -logo a explicar--que aquella (Siebel, colhendo flôres no jardim de -Margarida) posto que segunda dama, ganhava quinhentos mil reis por -mez... - ---Mas apesar d'estes ordenadões morrem quasi sempre na miseria--disse -com reprovação.--Vicios, cêas, orgias, cavalgadas... - -A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida entrou devagar, -desfolhando o malmequer da legenda, caracterisada de virgem, com -as duas longas tranças louras. Scismava, fallava só, amava: a dôce -creatura sente em volta de si o ar pesado, e quereria bem que sua mãi -voltasse! - -Os olhos de Luiza encheram-se então de melancolia, com a saudosa -ballada do rei de Thule; aquella melodia dava-lhe a vaga sensação d'um -pallido paiz d'amores espirituaes, banhado de luares frios, longe, -no Norte, junto a um mar gemente--ou de tristezas aristocraticas, -scismadas n'um terraço, sob a sombra d'um parque... - -Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo: - ---Agora é que é! Reparem. Agora é o ponto capital. - -De joelhos, diante do cofre das joias, a dama requebrava-se, -garganteando; apertava nas mãos o collar, extasiada; punha os brincos -com denguices delirantes; e da sua bocca muito aberta sahia um canto -trinado, d'uma crystallinidade aguda--entre o vago susurro da admiração -burgueza. - -O Conselheiro disse discretamente: - ---Bravo! Bravo! - -E, excitado, dissertou: aquillo era o melhor da opera! Era alli que se -via a força das cantoras... - -D. Felicidade quasi tinha medo que lhe estalasse alguma cousa na -garganta. Preoccupava-se tambem com as joias. Seriam falsas? Seriam -d'ella? - ---É p'ra a tentar, não é verdade? - ---É um drama allemão--disse-lhe baixo o Conselheiro. - -Mas Mephistopheles ia arrastando a boa Martha; Fausto e Margarida -perdiam-se nas sombras cumplices do jardim aphrodisiaco,--e o -Conselheiro observou que todo aquelle acto era um pouco fresco. - -D. Felicidade murmurou-lhe--entre reprehensiva e extatica: - ---Quantas scenas não terá tido assim, maganão! - -O Conselheiro fitou-a, indignado: - ---O quê, minha senhora! levar a deshonra ao seio d'uma familia! - -Luiza fez-lhe _chut_, sorrindo. Interessava-se agora. Tinha escurecido; -uma facha de luz electrica enchia o jardim d'um vago luar azulado, onde -os maciços arredondados se recortavam em pastas escuras; e Fausto e -Margarida enlaçados, quasi desfallecidos, soltavam d'um modo expirante -o seu duetto: uma sensualidade delicada e moderna, com elances -d'um requinte devoto, arrastava-se na orchestra gemente; o tenor -esforçava-se, agarrando o peito, com um geito morbido dos quadris, o -olhar anuviado: e desprendendo-se da languida arcada dos violoncellos, -o canto subia para as estrellas... - - Al pallido chiarore - Dei astri d'oro. - -Mas o coração de Luiza batia precipitadamente; vira-se de repente -sentada no divan, na sua sala, ainda tomada dos soluços do adulterio, -e Bazilio, com o charuto ao canto da bocca, batia distrahido no piano -aquella aria--_Al pallido chiarore dei astri d'oro_. D'essa noite tinha -vindo toda a sua miseria!--e subitamente, como longos véos funebres -que descem e abafam, as recordações de Juliana, da casa, de Sebastião, -vieram escurecer-lhe a alma. - -Olhou o relogio. Eram dez horas. Que se passaria? - ---Estás incommodada?--perguntou-lhe Jorge. - ---Um pouco. - -Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade, ao rebordo da sua -janellinha. Fausto corre. Enlaçam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e -o roncar dos rebecões--o pano desceu, pondo uma reticencia pudica... - -D. Felicidade, abrazada, quiz agua. Jorge apressou-se: queria bolos? -neve? A excellente senhora hesitou; o _chic_ da neve attrahia-a, mas -cohibiu-se com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao pé de -Luiza, e ficou a olhar, vagamente cançada; havia um susurro lento; -bocejava-se discretamente; e o fumo dos cigarros, entrando, de fóra, -fazia uma nevoa apenas perceptivel que enchia a sala, ia prender-se -ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes. Quando Jorge sahiu o -Conselheiro acompanhou-o: ia acima tomar o seu copo de gelatina... - ---É a minha cêa em dia de S. Carlos--disse. - -Voltou d'ahi a pouco, limpando os beiços ao lenço de sêda, ter com -Jorge que fumava no pequeno patamar junto á entrada das cadeiras: - ---Veja isto, Conselheiro--disse-lhe logo Jorge, indignado, mostrando a -parede--que escandalo! - -Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre a parede caiada, enormes -figuras obscenas: e alguem, prudente e amigo da clareza, ajuntára por -baixo as designações sexuaes com uma boa letra cursiva. - -E Jorge, revoltado: - ---E passam por aqui senhoras! Vêem, lêem! Isto só em Portugal!... - -O Conselheiro disse: - ---A autoridade devia intervir de certo...--Acrescentou com -bonhomia:--São rapazes, com o charuto. Apreciam muito esta -distracção...--E sorrindo, recordando-se:--Uma occasião mesmo, o conde -de Villa Rica, que tem graça, muita graça, insistiu commigo, dando-me o -charuto, para que eu fizesse um desenho...--E mais baixo:--Eu dei-lhe -uma lição severa. Tomei o charuto... - ---E fumou-o? - ---Escrevi. - ---Uma obscenidade? - -O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade: - ---Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppõe...?--E acalmando-se:--Não, -tomei o charuto e escrevi com mão firme: HONRA AO MERITO! - -Mas a campainha retiniu, entraram no camarote. Luiza incommodada -não quiz sentar-se á frente. E o Conselheiro, grave, tomou o seu -lugar--defronte de D. Felicidade. Foi para a nutrida senhora um momento -feliz, de um gozo requintado. Estavam _ambos_, alli, como noivos! O -seu peito abundante arfava: via-se a sahirem, mais tarde, de braço -dado, entrarem n'um _coupé_ estreito, pararem á porta da casa conjugal, -pisarem o tapete da alcova... Tinha um suor á raiz dos cabellos--e -vendo o Conselheiro sorrir-lhe, amavel, com a sua calva toda luzidia ao -gaz, sentia um reconhecimento apaixonado pela mulher de virtude que, -áquella hora, no fundo da Galliza, estava cravando agulhas n'um coração -de cera!... - -Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se sobre o -chapéo, sahiu impetuosamente. Olharam-se inquietos. D. Felicidade -empallideceu: seria alguma dôr? Santo Deus! Já murmurava baixo uma reza. - -Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz triumphante: - ---D'azul escuro! - -Abriram grandes olhos, sem comprehender. - ---Sua magestade a rainha! Tinha promettido verifical-o, cumpri-o! - -E sentou-se com solemnidade, dizendo a Luiza: - ---Lamento que se esconda n'esse recanto, D. Luiza! Na sua idade! Na -flôr dos annos! Quando tudo na vida é côr de rosa! - -Ella sorriu. Estava agora muito sobresaltada. A cada momento olhava -o relogio. Sentia-se doente: os pés arrefeciam-lhe, uma vaga febre -fazia-lhe a cabeça pesada. O seu pensamento estava na casa, em Juliana, -em Sebastião, cortado de palpites, de esperanças, de terrores... E via, -sem comprehender, a multidão de soldados vestidos de côres mipartidas, -com armas obsoletas, que marchavam, paravam n'uma cadencia affectada, -erguendo uma poeira subtil no tablado mal regado. Um côro vigoroso -resoava: era a marcha arrogante e festiva dos reitres allemães, -celebrando a alegria das excursões victoriosas pelos paizes do vinho, -e a posse das bolsas mercenarias cheias de sonoros rixdales! E os -seus olhos seguiam um barbaças corpulento, que, por cima dos gorros -quadrados dos bésteiros, balançava monotonamente um largo quadrado de -paninho--a bandeira do Santo Imperio, negra, vermelha e d'ouro! - -Mas então ergueu-se um rumor no fundo da platéa. Vozes duras -altercavam. Ordem! ordem! dizia-se. Localistas na superior pozeram-se -rapidamente em bicos de pés na palhinha das cadeiras. Quatro policias -e dous municipaes appareceram á porta do fundo; e depois d'uma troça, -de risadas, foram levando um moço livido, que cambaleava,--e o lado -esquerdo do seu jaquetão de pellucia estava todo vomitado! - -Mas fez-se logo silencio: o pano de fundo oscillava um pouco, -acotovellado pela sahida festiva dos reitres e dos populares; e no -palco deserto, tendo á direita um portico oscillante de cathedral e á -esquerda a portinha triste d'uma casa burgueza, Valentim, com uma longa -pera, á beira da rampa, beijava sofregamente uma medalha:--mas Luiza -não o escutava. Pensava com o coração confrangido: que fará a esta hora -Sebastião? - - -Sebastião, ás nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do -gaz dentro dos candieiros, dirigia-se devagar a casa d'um commissario -de policia, seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma velha servente, -engelhada como uma maçã raineta, levou-o ao quarto escolastico, «onde -o snr. commissario estava a cozer uma grande constipação»: encontrou-o -com um gabão pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, tomando -_grogs_ quentes, e lendo o _Homem dos tres calções_. Apenas Sebastião -entrou tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e erguendo para elle -os olhos pequeninos, chorosos do defluxo, exclamou: - ---Estou com um diabo d'uma constipação ha tres dias, que me não quer -largar...--E rosnou algumas pragas, passando a mão magra e nodosa sobre -uma face trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho -dava ferocidade. - -Sebastião lamentou-o muito: não admirava com a estação que ia!... -Aconselhou-lhe agua sulfurica com leite fervido. - ---Eu, se isto não despega--disse o commissario -rancorosamente--atiro-lhe ámanhã p'ra dentro com meia garrafa de -genebra; e se não fôr por bem, ha-de ir á força... E que ha de novo? - -Sebastião tossiu, queixou-se d'andar tambem adoentado, e chegando a -cadeira para ao pé do primo Vicente, pondo-lhe a mão sobre o joelho: - ---Ó Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra me acompanhar cá p'ra -uma cousa, só p'ra metter medo, só p'ra fazer que uma pessoa restitua o -que tirou, tu davas ordem, hein? - ---Ordem p'ra quê?--perguntou lentamente o Vicente com a cabeça baixa, -os olhinhos avermelhados em Sebastião. - ---Ordem p'ra me acompanhar, p'ra se mostrar. É só p'ra se mostrar. É um -caso exquisito... P'ra metter medo... Tu sabes que eu não sou capaz... -É p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escandalo... - ---Roupas? Dinheiro? - -E o commissario cofiava reflectidamente o bigode com os seus longos -dedos magros, muito queimados do cigarro. - -Sebastião hesitou: - ---Sim. Roupas, cousas... É p'ra não haver escandalo... Tu percebes... - -O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o: - ---Um policia p'ra se mostrar... - -Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa: - ---Não é cousa de politica? - ---Não!--fez Sebastião. - -O commissario embrulhou mais os pés no cobertor, rolou em redor os -olhos, ferozmente: - ---Nem toca com gente grauda? - ---Qual! - ---Um policia p'ra se mostrar...--ruminava o Vicente.--Tu és um homem de -bem... Dá cá aquella pasta de cima da commoda. - -Tirou um papel pautado, examinou-o, acavallando a luneta no nariz, -meditou com a mão em garra sobre a testa: - ---O Mendes... Serve-te o Mendes? - -Sebastião, que não conhecia o Mendes, acudiu logo: - ---Sim, quem quizeres. É só p'ra se mostrar... - ---O Mendes. É um homemzarrão. É serio, foi da Guarda. - -Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas -vezes; cortou os _tt_, seccou-a á chaminé do candieiro; e dobrando-a -com solemnidade: - ---Á segunda divisão! - ---Obrigado, Vicente. É um grande favor... Obrigado. E agasalha-te, -homem! E não te esqueça: agua sulfurica da pharmacia Azevedo na rua de -S. Roque: meia chavena de leite fervido... E obrigado. Não queres nada, -hein? - ---Não. Dá uma placa ao Mendes. É serio, foi da Guarda! - -E acavallando as lunetas retomou o _Homem dos tres calções_. - -Sebastião d'ahi a meia hora, seguido do robusto Mendes, que marchava -militarmente, com os braços um pouco arqueados, encaminhava-se -para casa de Jorge. Não tinha ainda um plano definido. Calculava -naturalmente que Juliana vendo, áquella hora da noite, o policia com o -seu terçado, se aterraria, imaginaria logo a Boa Hora, o Limoeiro, a -costa d'Africa, entregaria as cartas, pediria misericordia! E depois? -Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para o Brazil, ou dar-lhe -quinhentos mil reis para ella se estabelecer longe, na provincia... -Veria. O essencial era aterral-a! - - -Juliana, com effeito, depois d'abrir a porta, apenas viu subir, atraz -de Sebastião, o policia, fez-se muito amarella, exclamou: - ---Credo! Que temos nós? - -Estava embrulhada n'um chale preto, e o candieiro de petroleo, que ella -erguia, prolongava na parede a sombra disforme da cuia. - ---Ó snr.^a Juliana, faça favor d'accender luz na sala--disse Sebastião, -tranquillamente. - -Ella fixava no policia um olhar faiscante e inquieto. - ---Ó senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores não estão em casa. Eu se -soubesse nem tinha aberto... Ha alguma novidade? Olha o proposito! - ---Não é nada--disse Sebastião, abrindo a porta da sala--tudo em paz! - -Elle mesmo accendeu com um phosphoro uma vela na serpentina--que fez -sahir vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a -pallida face do retrato da mãi de Jorge, um reflexo de espelho. - ---Ó snr. Mendes, sente-se, sente-se! - -O Mendes collocou-se á beira da cadeira com a mão na cinta, o terçado -entre os joelhos, muito soturno. - ---Esta é que é a pessoa--disse Sebastião, indicando Juliana, que ficára -á porta da sala, attonita. - -A mulher recuou, livida: - ---Ó snr. Sebastião, que brincadeira é esta? - ---Não é nada, não é nada... - -Tomou-lhe o candieiro da mão, e tocando-lhe no braço: - ---Vamos lá dentro á sala de jantar. - ---Mas que é? É alguma cousa commigo? Credo! E esta! Olha que -desconchavo! - -Sebastião fechou a porta da sala de jantar, pousou o candieiro sobre -a mesa, onde havia ainda um prato com codeas de queijo, e um fundo de -vinho n'um copo, deu alguns passos, fazendo estalar nervosamente os -dedos, e parando bruscamente diante de Juliana: - ---Dê cá umas cartas que roubou á senhora... - -Juliana teve um movimento para correr á janella, gritar. - -Sebastião agarrou-lhe o braço, e fazendo-a sentar com força sobre uma -cadeira: - ---Escusa d'ir á janella gritar, a policia já está dentro de casa. Dê cá -as cartas, ou p'ra a enxovia! - -Juliana entreviu n'um relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo -do rancho, a enxerga nas lages frias... - ---Mas que fiz eu?--balbuciava--que fiz eu? - ---Roubou as cartas. Dê-as p'ra cá, avie-se. - -Juliana sentada á beira da cadeira, apertando desesperadamente as mãos, -rosnava por entre os dentes cerrados: - ---A bebeda! A bebeda! - -Sebastião, impaciente, pôz a mão no fecho da porta. - ---Espere, seu diabo!--gritou ella, erguendo-se com um salto. Fixou-o -rancorosamente, desabotoou o corpete, enterrou a mão no peito, tirou -uma carteirinha. Mas de repente batendo com o pé, n'um phrenesi: - ---Não! não! não! - ---Diabos me levem se vossê não fôr dormir á enxovia!--Entre-abriu a -porta.--Ó snr. Mendes! - ---Ahi tem!--gritou ella atirando-lhe a carteira. E brandindo para elle -os punhos:--Raios te partam, malvado! - -Sebastião apanhou a carteira. Havia tres cartas: uma muito dobrada era -de Luiza; leu a primeira linha: _Meu adorado Bazilio_; e muito pallido -guardou logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu então a porta: -a possante figura do Mendes estava na sombra. - ---Está tudo arranjado, snr. Mendes,--a voz tremia-lhe um pouco--não lhe -quero tomar mais tempo. - -O homem fez uma continencia, calado: quando Sebastião, no patamar, lhe -resvalou na mão uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse, -com uma voz pegajosa: - ---E para o que quizer, o sessenta e quatro, o Mendes, que foi da -Guarda. Não se incommode v. s.^a Ás ordens de v. s.^a Minha mulher -e filhos agradecem. Não se incommode v. s.^a O sessenta e quatro, o -Mendes, que foi da Guarda! - -Sebastião fechou a cancella, voltou á sala de jantar. Juliana ficára -n'uma cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente: - ---A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi vossê que arranjou a armadilha! -Tambem vossê dormiu com ella!... - -Sebastião, muito branco, dominava-se. - ---Vá pôr o chapéo, mulher. O snr. Jorge despediu-a. Ámanhã mandará -buscar os bahus... - ---Mas o homem ha-de saber tudo!--berrou ella.--Este tecto me rache -se eu não lhe disser tudo tim-tim por tim-tim. Tudo! As cartas que -recebia, onde ia vêr o homem. Deitava-se com ella na sala, até os -pentes lhe cahiam na balburdia. Até a cozinheira lhes sentia o alarido! - ---Cale-se!--bradou Sebastião com uma punhada na mesa, que fez tremer -toda a louça no aparador, e esvoaçar os canarios. E com a voz toda -tremula, os beiços brancos:--A policia tem o seu nome, sua ladra! Á -menor palavra que vossê diga vai para o Limoeiro, e pela barra fóra. -Vossê não roubou só as cartas; roubou roupas, camisas, lençoes, -vestidos...--Juliana ia fallar, gritar.--Bem sei--continuou elle -violentamente--deu-lh'os ella, mas á força, porque vossê a ameaçava. -Vossê arrancou-lhe tudo. É roubo. É d'Africa!--E o que é dizer ao snr. -Jorge, póde ir dizer. Vá. Veja se elle a acredita. Diga! São algumas -bengaladas que leva por esses hombros, ladra! - -Ella rangia os dentes. Estava apanhada! _Elles_ tinham tudo por si, a -policia, a Boa-Hora, a cadêa, a Africa!... E ella--nada! - -Todo o seu odio contra a _Piorrinha_ fez explosão. Chamou-lhe os nomes -mais obscenos. Inventou infamias. - ---É que nem as do Bairro-Alto! E eu--gritava--sou uma mulher de bem, -nunca um homem se pôde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve raio -nenhum que me visse a côr da pelle. E a bebeda!...--Tinha arremessado o -chale, alargou anciosamente o collar do vestido.--Era um desaforo por -essa casa! E o que eu passei com a bruxa da tia! É o pago que me dão! -Os diabos me levem se eu não fôr para os jornaes. Vi-a eu abraçada ao -janota, como uma cabra! - -Sebastião a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por -aquelles pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus -olhos devoravam-lhe as palavras. Quando ella se calou arquejante: - ---Vá, ponha o chapéo, e p'ra a rua! - -Juliana então allucinada de raiva, com os olhos sahidos das orbitas, -veio para elle, e cuspiu-lhe na cara! - -Mas de repente a bocca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para -traz, levou com ancia as mãos ambas ao coração, e cahiu para o lado, -com um som molle, como um fardo de roupa. - -Sebastião abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma escuma rôxa -apparecia-lhe aos cantos da bocca. - -Agarrou no chapéo, desceu as escadas, correu até á Patriarchal. Um -_coupé_ vazio passava; atirou-se para dentro, mandou a «todo o que -dér», para casa de Julião; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo em -chinellas, sem collarinho. - ---É caso de morte, é a Juliana--balbuciava muito pallido. - -E pelo caminho, entre o ruido das rodas e o tilintar dos caixilhos, -contava confusamente que entrára em casa de Luiza, que achára Juliana -muito despeitada por ter sido despedida, e que a fallar, a esbracejar, -de repente, tombára p'ra o lado! - ---Foi o coração. Estava p'ra dias--disse Julião, chupando a ponta do -cigarro. - -Pararam. Mas Sebastião desorientado, ao sahir, fechára a porta! E -dentro só a morta! O cocheiro offereceu a sua gazua, que serviu. - ---Então nem se vai a uma passeadinha ao Dáfundo, meus fidalgos?--disse -o homem, mettendo a gorgeta na algibeira. - -Mas vendo-os atirar com a porta: - ---Tambem não é gente d'isso--rosnou com desprezo, batendo a parelha. - -Entraram. - -No pequeno pateo o silencio da casa pareceu a Sebastião pavoroso. -Subia, aterrado, os degraus, que se afiguravam infindaveis; e, com -fortes pancadas do coração, esperava ainda que ella estivesse apenas -adormecida n'um desmaio simples, ou já de pé, pallida e respirando! - -Não. Lá estava como a deixára, estendida na esteira, com os braços -abertos, os dedos retorcidos como garras. A convulsão das pernas -arregaçára-lhe as saias, viam-se as suas canellas magras com meias -de riscadinho côr de rosa e as chinellas de tapete; o candieiro de -petroleo, que Sebastião esquecera ao pé sobre uma cadeira, punha tons -lividos na testa, nas faces rigidas; a bocca torcida fazia um sombra; -e os olhos medonhamente abertos, immobilisados na agonia repentina, -tinham uma vaga nevoa, como cobertos d'uma têa d'aranha diaphana. Em -redor tudo parecia mais immovel, d'um hirto morto. Vagos reflexos -de prata reluziam no aparador; e o tic-tac do _cuco_ palpitava sem -descontinuar. - ---Julião apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mãos, disse: - ---Está morta com todas as regras. É necessario tiral-a d'aqui. Onde é o -quarto? - -Sebastião, pallido, fez signal com o dedo que era por cima. - ---Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candieiro.--E como Sebastião não se -movia:--Tens medo?--perguntou rindo. - -Escarneceu-o: que diabo, era materia inerte, era como quem agarrava uma -boneca! Sebastião, com um suor á raiz dos cabellos, levantou o cadaver -por debaixo dos braços, começou a arrastal-o, devagar. Julião adiante -erguia o candieiro; e por fanfarronada cantou os primeiros compassos da -marcha do _Fausto_. Mas Sebastião escandalisou-se, e com uma voz que -tremia: - ---Largo tudo, e vou-me... - ---Respeitarei os nervos da menina!--disse Julião curvando-se. - -Continuaram calados. Aquelle corpo magro parecia a Sebastião d'um -peso de chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinellas do cadaver -soltou-se, rolou. E Sebastião sentia aterrado alguma cousa que lhe -batia contra os joelhos; era a cuia cahida, suspensa por um atilho. - -Estenderam-na na cama; Julião, dizendo que se deviam seguir as -tradições,--pôz-lhe os braços em cruz e fechou-lhe os olhos. - -Esteve um momento a olhal-a: - ---Feia besta!--murmurou, estendendo-lhe sobre o rosto uma toalha -enxovalhada. - -Ao sahir examinou, admirado, o quarto: - ---Estava mais bem alojada que eu, o estafermo! - -Fechou a porta, deu volta á chave: - ---_Requiescat in pace_--disse. - -E desceram, calados. - -Ao entrar na sala, Sebastião, muito pallido, pôz a mão no hombro de -Julião: - ---Então achas que foi o aneurisma? - ---Foi. Enfureceu-se, estourou. É dos livros... - ---Se não se tivesse zangado hoje... - ---Estourava ámanhã. Estava nas ultimas... Deixa em paz a creatura. Está -começando a esta hora a apodrecer, não a perturbemos. - -Declarou então, esfregando as mãos com frio, que «comia alguma cousa». -Achou no armario um pedaço de vitella fria, uma garrafa meia de -Collares. Installou-se e, com a bocca cheia, deitando o vinho d'alto: - ---Então sabes a novidade, Sebastião? - ---Não. - ---O meu concorrente foi despachado! - -Sebastião murmurou: - ---Que ferro! - ---Era previsto--disse Julião com um grande gesto.--Eu ia fazer um -escandalo, mas...--e teve um risinho--amansaram-me! Estou n'um posto -medico, deram-me um posto medico! Atiraram-me um osso! - ---Sim?--fez Sebastião.--Homem, ainda bem, parabens. E agora? - ---Agora, roel-o! - -De resto, tinham-lhe promettido a primeira vagatura. O posto medico não -era mau... Em definitiva, a situação melhorára... - ---Mas mesquinha, mesquinha! Não sáio do atoleiro... - -Estava farto de medicina, disse depois d'um silencio. Era um bêco -sem sahida. Devia-se ter feito advogado, politico, intrigante. Tinha -nascido p'ra isso! - -Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mão, a voz -cortante, expoz um plano de ambição:--O paiz está a preceito para um -intrigante com vontade! Esta gente toda está velha, cheia de doenças, -de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis! tudo isto está pôdre -por dentro e por fóra! o velho mundo constitucional vai a cahir aos -pedaços... Necessitam-se homens! - -E plantando-se diante de Sebastião: - ---Este paiz, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com -_expedientes_. Quando vier a revolução contra os _expedientes_, o paiz -ha-de procurar quem tenha os _principios_. Mas quem tem ahi principios? -Quem tem ahi quatro principios? Ninguem; teem dividas, vicios secretos, -dentes postiços; mas principios, nem meio! Por consequencia se houver -tres patuscos que se dêem ao trabalho de estabelecer meia duzia de -principios sérios, racionaes, modernos, positivos, o paiz tem se atirar -de joelhos, e supplicar-lhes: Senhores, fazei-me a honra insigne de -me pôr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um d'estes. Nasci p'ra -isso! E secca-me a idéa de que em quanto outros idiotas, mais astutos -e mais previdentes, hão-de estar no poleiro a reluzir ao sol, _al -hermoso sol português_, como se diz nas zarzuelas, eu hei-de estar a -receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas d'algum -desembargador caduco. - -Sebastião calado pensava na outra, morta em cima. - ---Estupido paiz, estupida vida!--rosnou Julião. - -Mas uma carruagem entrou na rua, parou á porta. - ---Chegam os principes!--disse Julião. Desceram logo. - -Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastião, abrindo a porta, -bruscamente: - ---Houve cá grande novidade! - ---Fogo?--gritou Jorge voltando-se aterrado. - ---A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma--disse a voz de Julião da -sombra da porta. - ---Oh c'os diabos!--E Jorge atarantado procurava á pressa na algibeira -troco para o cocheiro. - ---Ai, eu já não entro!--exclamou logo D. Felicidade, mostrando á -portinhola a sua larga face envolvida n'uma manta branca.--Eu já não -entro! - ---Nem eu!--fez Luiza, toda tremula. - ---Mas para onde queres que vamos, filha?--exclamou Jorge. - -Sebastião lembrou que podiam ir para casa d'elle. Tinha o quarto da -mamã, era só pôr lençoes na cama. - ---Vamos, sim! Vamos, Jorge! É o melhor!--supplicou Luiza. - -Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao vêr -aquelle grupo junto á lanterna do trem, parou. E Jorge emfim, instado, -muito contrariado, consentiu. - ---Diabo da mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar, -D. Felicidade... - ---E a mim, que estou em chinellas!--acudiu Julião. - -D. Felicidade lembrou então, como christã, que era necessario alguem, -para velar a morta... - ---Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade!--exclamou Julião, entrando -logo para a carruagem, batendo com a portinhola. - -Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religião! ao menos pôr -duas velas, mandar chamar um padre!... - ---Largue, cocheiro!--berrou Julião, impaciente. - -A carruagem deu a volta. E D. Felicidade á portinhola, apesar de Julião -que a puxava pelos vestidos, gritava: - ---É um peccado mortal! É uma irreverencia! Ao menos duas velas! - -O trem partiu a trote. - -Luiza agora tinha escrupulos: realmente podia-se mandar chamar alguem... - -Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, áquella hora? Que beatice! Estava -morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez -camara ardente tambem? Queria ella ir velal-a?... - ---Então, Jorge, então!...--murmurava Sebastião. - ---Não, é de mais! É vontade de crear embaraços, que diabo! - -Luiza baixava a cabeça: e, em quanto Jorge, praguejando, ficou atraz a -fechar a porta da casa, ella foi descendo a rua pelo braço de Sebastião. - ---Estourou de raiva--disse-lhe elle baixinho. - -Toda a rua Jorge resmungou. Que idéa, irem dormir agora fóra de casa! -Realmente era levar muito longe as mariquices...! - -Até que Luiza lhe disse, quasi chorando: - ---Vê se me queres torturar mais, e fazer-me mais doente, Jorge! - -Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastião, para a socegar, -propoz que viesse a tia Vicencia, a preta, velar a Juliana. - ---Era talvez melhor--murmurou Luiza. - -Chegaram á porta de Sebastião. O _frou-frou_ do vestido de sêda de -Luiza, áquella hora, na sua casa, dava uma commoção a Sebastião: a mão -tremia-lhe ao accender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicencia -para fazer chá; tirou elle mesmo os lençoes dos bahús, apressado, feliz -d'aquella hospitalidade. Quando voltou á sala, Luiza estava só, muito -pallida, ao canto do sophá. - ---Jorge?--perguntou elle. - ---Foi ao seu escriptorio, Sebastião, escrever ao parocho para -o enterro...--E com os olhos brilhantes, n'uma voz sumida e -assustada:--Então? - -Sebastião tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ella agarrou-a -sofregamente--e com um movimento brusco, tomou-lhe a mão, e beijou-lh'a. - -Mas Jorge entrava, sorrindo. - ---Então agora está mais descançada, a menina? - ---Inteiramente--disse ella, com um suspiro de allivio. - -Foram tomar chá. Sebastião contou a Jorge, corando um pouco, a -maneira como entrára em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fôra -despedida, e fallando, exaltando-se, zás, de repente, cahira para o -lado morta... - -E acrescentou: - ---Coitada! - -Luiza via-o mentir, olhando-o com adoração. - ---E a Joanna?--perguntou Jorge, de repente. - -Luiza, sem se perturbar, respondeu: - ---Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licença p'ra ir vêr uma tia -que está muito mal, p'ra os lados de Bellas... Diz que volta ámanhã... -Mais uma gota de chá, Sebastião... - -Esqueceram-se depois de mandar a Vicencia--e ninguem velou a morta. - - - - -XVI - - -Luiza passou a noite ás voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou -assustado da frequencia do seu pulso e do calor secco da pelle. - -Elle mesmo, muito nervoso, não pudera dormir. - -O quarto, onde se não accendera luz havia muito, tinha uma frialdade -deshabitada: na parede, junto ao tecto, havia manchas de humidade: e -a cama antiga de columnas torneadas sem cortinados, o velho tremó do -seculo passado com o seu espelho embaciado davam, á luz bruxuleante -da lamparina, um sentimento triste de convivencias extinctas. O -achar-se alli com sua mulher, n'uma cama alheia, trazia-lhe, sem saber -porque, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua vida uma -alteração brusca--e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a -sua existencia, desde essa noite, começaria a correr entre aspectos -differentes. O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraça, e uivava -encanado na rua. - -Pela manhã, Luiza não se pôde levantar. - -Julião, chamado á pressa, tranquillisou-os: - ---É uma febresita nervosa. Quer socego, não vale nada. Foi o medosinho -d'hontem, hein? - ---Sonhei toda a noite com ella--disse Luiza.--Que tinha resuscitado... -Que horror! - ---Ah! póde estar socegada... E já a aviaram, a mulher? - ---O Sebastião lá anda com a massada--disse Jorge.--E eu vou dar uma -vista d'olhos. - -Na rua já se sabia a morte da _tripa-velha_. - -A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas, -com os olhos avermelhados da paixão da aguardente, era conhecida -da snr.^a Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, á porta do -estanque: - ---Muito que fazer agora, snr.^a Margarida, hein? - ---Bastante, bastante, snr.^a Helena--disse a amortalhadeira com a voz -um pouco rouca.--No inverno sempre ha mais obra. Mas tudo gente velha, -com os frios. Nem um corpinho bonito p'ra vestir... - -A snr.^a Margarida tinha predilecções artisticas. Gostava d'um bonito -corpo de dezoito annos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar, -enfeitar... Entrouxava á má cara a gente velha. Mas com as raparigas -novas esmerava-se: acatitava as pregas da mortalha; calculava o _chic_ -d'uma flôr, d'um laço; trabalhava com os requintes ajanotados d'uma -modista do sepulchro. - -A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana, -os favores dos patrões, as tafularias d'ella, os luxos do quarto -tapetado... A snr.^a Margarida dizia-se «banzada». E para quem iria -agora tudo aquillo?--perguntavam.--A _tripa-velha_ não tinha parentes... - ---Era uma riqueza p'ra a minha Antoninha!--disse a amortalhadeira, -traçando o chale com tristeza. - ---Como vai ella, a pequena?... - ---Aquillo vai mal, snr.^a Helena. Aquella cabeça douda!--E exhalando -a sua dôr com loquacidade:--Deixar o brazileiro que a trazia nas -palminhas... E por quem? Por aquelle desalmado, que lhe come tudo, -que já lhe arranjou um filho, e que a derrêa com pau... Mas então, as -raparigas são assim... Vão atraz do palmo de cara... Que elle é bonito -rapaz! Mas um bebedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca, snr.^a -Helena.--E entrou na casa compungidamente. - -O padre já chegára tambem. Estava na sala com Sebastião, que conhecia -d'Almada, e fallava de lavoura, d'enxertos, das regas, n'uma voz -grossa--passando, com um gesto lento da sua mão cabelluda, o lenço -enrolado por debaixo do nariz. As janellas em toda a casa estavam -abertas ao sol muito dôce. Os canarios chilreavam. - ---E estava ha muito tempo na casa, a defunta?--perguntou o padre, a -Jorge que passeava pela sala, fumando. - ---Ha quasi um anno. - -O padre desdobrou lentamente o lenço, e sacudindo-o, antes de se assoar: - ---A sua senhora ha-de sentir muito... É um tributo universal!... - -E assoou-se, com estrondo. - -A Joanna, então, de chale e lenço, appareceu, em bicos de pés. Soubera -pelos visinhos que a Juliana «arrebentára», que os senhores estavam em -casa do snr. Sebastião. Vinha de lá. Luiz mandára-a entrar no quarto. -Quando a viu doente, a sua rica senhora, lagrimejou muito. Luiza -disse-lhe--«que agora estava tudo como d'antes, podia voltar...» - ---E ouça, Joanna, se o snr. Jorge lhe perguntar... que esteve em -Bellas, com a tia... - -A rapariga fôra logo buscar a trouxa e vinha installar-se--um pouco -assustada da morte em casa. - -D'ahi a pouco o Paula bateu discretamente á porta. - -Alli vinha offerecer-se para o que fosse necessario n'aquelle transe! E -tirando e pondo rapidamente o boné, raspando o pé, dizia com a sua voz -catarrhosa: - ---Lamento a desgraça, lamento a desgraça! Todos somos mortaes... - ---Bem, bem, snr. Paula, não é necessario nada--disse Jorge.--Obrigado! - -E fechou bruscamente a cancella. - -Estava impaciente por se desembaraçar «d'aquella estopada»: e mesmo -como o enfastiavam as martelladas espaçadas dos homens pregando o -caixão, em cima, chamou a Joanna: - ---Diga a essa gente que se avie. Não vamos ficar aqui toda a vida! - -A Joanna foi logo dizer que o senhor estava n'um phrenesi! Tinha-se -feito já intima da snr.^a Margarida. A amortalhadeira fôra mesmo com -ella á cozinha para tomar uma «sustanciasinha». Como o lume estava -apagado, contentou-se com sopas de pão em vinho. - ---Sopinha de burro--dizia, fazendo estalar a lingua. - -Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira bicho mais feio. Um corpo -de sardinha secca! E pondo um olhar complacente nas bellas fórmas -de Joanna:--A menina, não. A menina tem-me o ar de ter muito bom -corpo...--E parecia calcular como talharia a mortalha para aquellas -linhas robustas. - -Joanna disse escandalisada: - ---Longe vá o agouro, cruzes! - -A outra sorriu; faltavam-lhe dous dentes: e aflautando a voz: - ---Tem-me passado pela mão muita gente fina, minha menina. Mais uma -gotinha de vinho, faz favor? É do Cartaxo, não? é muito avelludado! -rica gota! - -Emfim, com grande satisfação de Jorge, ás quatro horas os homens -desceram o caixão. A visinhança estava pelas portas. O Paula mesmo, por -fanfarronada, disse com dous dedos adeus ao esquife, murmurando: - ---Boa viagem! - -Jorge em cima, ao sahir, perguntou a Joanna: - ---E vossê não tem medo de ficar aqui só? - ---Eu não, meu senhor. Quem vai não volta! - -Tinha medo, com effeito; mas preparava-se a passar a noite com o Pedro, -e batia-lhe o coração de alegria de «terem a casa por sua» até de -manhã, e de se poderem rolar amorosamente, como fidalgos, por cima do -divan da sala. - -Jorge voltou com Sebastião para casa, e apenas entrou no quarto, onde -Luiza estava deitada: - ---Tudo prompto--disse, esfregando as mãos.--Lá vai para o Alto de S. -João, devidamente acondicionada. _Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum!_ - -A tia Joanna, que estava á cabeceira de Luiza, acudiu: - ---Ai, quem lá vai, lá vai... Mas boa mulher, não era ella! - ---Era um bom estafermo--disse Jorge.--Esperemos que a esta hora esteja -a ferver na caldeira de Pero Botelho. Não é verdade, tia Joanna? - ---Jorge!--fez Luiza reprehensivamente. E julgou dever rezar-lhe baixo -dous padre-nossos por alma. - -Foi tudo o que a terra deu na sua morte áquella que ia rolando a essa -hora, ao trote de duas velhas eguas, para a valla dos pobres, e que -fôra na vida Juliana Couceiro Tavira! - - -No dia seguinte Luiza estava melhor: fallaram mesmo, com grande -desconsolação da tia Joanna, em voltar para casa. Sebastião não dizia -nada, mas quasi desejava secretamente que uma convalescença a retivesse -alli semanas indefinidas. Ella parecia tão agradecida! Tinha olhares -tão reconhecidos, que só elle comprehendia! E era tão feliz tendo-a -alli e a Jorge na sua casa! Conferenciava com a tia Vicencia sobre o -jantar; andava pelos corredores e pela sala, com respeito, quasi em -bicos de pés, como se a presença d'ella santificasse a casa; enchia -os vasos de camelias e de violetas; sorria beatamente ao vêr Jorge, á -sobremesa, saborear e gabar o seu velho cognac; sentia alguma cousa -de bom acalental-o como um manto acolchoado e macio; e já pensava que -quando ella partisse tudo lhe pareceria mais frio, e com uma tristeza -de ruina! - -Mas d'ahi a dous dias voltaram para casa. - -Luiza ficou muito agradada com a criada nova. Fôra Sebastião que a -arranjára. Era uma rapariguita aceadinha e branca, com grandes olhos -bonitos e pasmados, um ar amoravel: chamava-se Marianna; e foi logo -correndo dizer a Joanna «que morria pela senhora! tinha uma carinha -d'anjo! que linda que era!» - -Jorge logo n'essa manhã mandou os dous bahus de Juliana á tia Victoria. - -Luiza, quando elle sahiu á tardinha, fechou-se no quarto, com a -carteirinha de Juliana, correu os transparentes por precaução, accendeu -uma vela, e queimou as cartas. As mãos tremiam-lhe; e via, com os -olhos marejados de lagrimas, a sua vergonha, a sua escravidão irem-se, -dissiparem-se n'um fumo alvadio! Respirou completamente! Emfim! E fôra -Sebastião, aquelle querido Sebastião! - -Foi então á sala, á cozinha, vêr a casa: tudo lhe pareceu novo, a sua -vida cheia de doçura: abriu todas as janellas; experimentou o piano; -rasgou mesmo em pedaços, por superstição, a musica da _Médjé_, que lhe -dera Bazilio; conversou muito com a Marianna; e saboreando o seu caldo -de gallinha de convalescente, com a face alumiada da felicidade: - ---Que bem que vou passar agora!--pensava. - -Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu, -deitou-lhe os braços ao pescoço, e com a cabeça no hombro d'elle: - ---Estou tão contente hoje! E se tu soubesses, é tão boa rapariga a -Marianna! - - -Mas n'essa noite a febre voltou. Julião, de manhã, achou-a peor. - ---Crescimentos...--disse descontente. - -Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou -toda surprehendida de vêr Luiza doente; e debruçando-se sobre ella, -disse-lhe logo ao ouvido: - ---Tenho que te contar! - -Apenas Jorge e Julião sahiram, desabafou, sentada aos pés da cama,--com -uma voz ora baixa pela gravidade da confidencia, ora aguda pelo impeto -da indignação: - -Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandára a -Tuy, o grande ladrão, tinha escripto á Gertrudes, á criada, que não -estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude mudára de -povoação; que elle não queria saber mais d'esse negocio e que até o -achava exquisito; que offerecia o seu prestimo em Tuy,--tudo isto n'uma -boa letra d'escrevente publico, n'um portuguez horrivel,--e do dinheiro -nem palavra! - ---Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu se não fosse pela vergonha, -ia direita á policia... Ai! os gallegos p'ra mim acabaram! Por isso o -Conselheiro não se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca lançou a -sorte!...--Porque se já não acreditava na honestidade dos gallegos, não -perdera a fé no poder das bruxas. - -Que ella não era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe -onde estaria agora a mulher! Ai, era d'endoudecer!... Que te parece, -hein? - -Luiza encolheu os hombros: muito abafada na roupa, as faces escarlates, -cerravam-se-lhe os olhos n'uma somnolencia pesada: D. Felicidade -aconselhou-lhe vagamente um «suadouro», suspirando; e como Luiza não -lhe podia dar consolações, sahiu para ir á Encarnação desabafar com a -Silveira. - -N'essa madrugada Luiza peorou. A febre recrudecera. Jorge, inquieto, -vestiu-se á pressa, ás nove horas da manhã, foi buscar Julião. Descia a -escada rapidamente, abotoando ainda o paletot, quando o carteiro subia, -tossindo o seu catarrho. - ---Cartas?--perguntou Jorge. - ---Uma p'ra a senhora--disse o homem.--Ha-de ser p'ra a senhora... - -Jorge olhou o enveloppe: tinha o nome de Luiza, vinha de França. - ---De quem diabo é isto?--pensou. Metteu-a no bolso do paletot, e sahiu. - -D'ahi a meia hora voltava com Julião, n'um trem. - -Luiza dormitava, amodorrada. - ---É preciso cautela... Vamos a vêr...--murmurou Julião, coçando devagar -a cabeça, em quanto do outro lado do leito Jorge o olhava anciosamente. - -Receitou e ficou para almoçar com Jorge. Estava um dia frio e pardo. -A Marianna, abafada n'um casabeque, servia, com os dedos vermelhos, -inchados de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se toda a -nevoa do ar se lhe fosse lentamente depositando e condensando n'alma. - -A que se podia attribuir semelhante febre? dizia, muito desconsolado. -Tão extraordinario! Havia seis dias, ora melhor, ora peor... - ---Estas febres veem por tudo--replicou Julião, partindo tranquillamente -uma torrada.--Ás vezes por uma corrente d'ar ás vezes por um desgosto. -Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que -esteve p'ra fallir, e que viveu, coitado, durante dous mezes em -torturas. Ha duas semanas, por um golpe de fortuna,--a velhaca ás vezes -tem d'estes caprichos,--arranjou todos os seus negocios, viu-se livre. -Pois senhor, desde então tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com -symptomas disparatados... O que é? É que a excitação nervosa abateu, e -a felicidade trouxe-lhe uma revolução no sangue. Póde muito bem dar á -casca. Faz então a fallencia geral, a grande, aquella em que o crédor é -implacavel, saca á vista, e... _per omnia s[ae]cula!_ - -Ergueu-se, e accendendo o cigarro: - ---Em todo o caso um repouso absoluto. É necessario ter-lhe o espirito -em algodão em rama. Nada de palestra, nada de phrases, e se tiver sêde, -limonada. Até logo! - -E sahiu, calçando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia -ao Posto Medico. - -Jorge voltou á alcova: Luiza ainda dormitava. Marianna sentada ao pé -n'uma cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, não tirava de -Luiza os seus grandes olhos vagamente espantados. - ---Tem estado muito inquieta--murmurou. - -Jorge apalpou a mão de Luiza que ardia, conchegou-lhe a roupa. Beijou-a -devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janella, defronte da -alcova.--E passeando no escriptorio, voltavam-lhe as palavras de -Julião: são febres que veem por um desgosto! Pensava na historia do -negociante, recordava aquelle estado de abatimento e de fraqueza de -Luiza que o preoccupára tanto, ultimamente, tão inexplicavel! Ora, -tolices! Desgosto de quê? Em casa de Sebastião estivera tão animada! -Nem a morte da outra lhe fizera abalo!--De resto acreditava pouco nas -_febres de desgosto_! Julião tinha uma medicina litteraria. Pensou -mesmo que seria mais prudente chamar o velho dr. Caminha... - -Ao metter a mão no bolso, então, os seus dedos encontraram uma -carta; era a que o carteiro lhe dera, de manhã, para Luiza. Tornou a -examinal-a com curiosidade; o sobrescripto era banal, como os que ha -nos cafés ou nos restaurantes; não conhecia a letra; era d'homem, vinha -de França... Atravessou-o um desejo rapido de a abrir. Mas conteve-se, -atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar um cigarro. - -Voltou á alcova. Luiza permanecia na sua modorra: a manga do chambre -arregaçada descobria o braço mimoso, com a sua pennugem loura; a -face escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente, no -adormecimento das palpebras finas; um annel do cabello cahira-lhe -sobre a testa, e pareceu a Jorge adoravel e tocante com aquella côr, -a expressão da febre. Pensou, sem saber porque, que outros a deveriam -achar linda, desejal-a, dizer-lh'o, se podessem... Para que lhe -escreviam de França, quem? - -Voltou ao escriptorio, mas aquella carta sobre a mesa irritava-o: quiz -lêr um livro, atirou-o logo impaciente; e poz-se a passear, torcendo -muito nervoso o forro das algibeiras. - -Agarrou então a carta, quiz vêr, através do papel delgado do enveloppe; -os seus dedos, mesmo irresistivelmente, começaram a rasgar um angulo do -sobrescripto. Ah! Não era delicado aquillo!... Mas a curiosidade, que -governava o seu cerebro, suggeriu-lhe toda a sorte de raciocinios, com -uma tentação persuasiva:--Ella estava doente, e podia ter alguma cousa -urgente; se fosse uma herança? depois ella não tinha segredos, e então -em França! Os seus escrupulos eram pueris! Dir-lhe-hia que a abrira -por engano. E se a carta contivesse o segredo d'aquelle desgosto, do -_desgosto_ das theorias de Julião!... Devia abril-a então para a curar -melhor! - -Sem querer achou-se com a carta desdobrada na mão. N'um relanço -avido devorou-a. Mas não comprehendeu bem; as letras embrulhavam-se; -chegou-se á janella, releu devagar: - - - «Minha querida Luiza. - -«Seria longo explicar-te, como só antes d'hontem em Nice--d'onde -cheguei esta madrugada a Paris--recebi a tua carta, que pelos carimbos -vejo que percorreu toda a Europa atraz de mim. Como já lá vão dous -mezes e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com a mulher, -e que não precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres, manda -um telegramma e tens-l'o ahi em dous dias. Vejo pela tua carta que não -acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negocios. És -bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como tu dizes, -_todas as illusões sobre o amor_, porque foi realmente quando sahi de -Lisboa que percebi quanto te amava, e não ha dia, acredita, em que me -não lembre do _Paraiso_. Que boas manhãs! Passaste por lá por acaso -alguma outra vez? Lembras-te do nosso _lunch_? Não tenho tempo para -mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero vêr-te, porque sem ti -Lisboa é para mim um desterro. - -«Um longo beijo do - - «Teu do C. - - «_Bazilio_». - - -Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em quatro dobras, atirou-o -para cima da mesa, disse alto: - ---Sim, senhor! bonito! - -Encheu o cachimbo de tabaco machinalmente, com os olhos vagos, os -beiços a tremer: deu alguns passos incertos pelo escriptorio:--de -repente arremessou o cachimbo que despedaçou um vidro da janella, bateu -com as mãos desvairado, e atirando-se de bruços para cima da mesa, -rompeu a chorar, rolando a cabeça entre os braços, mordendo as mangas, -batendo com os pés, louco! - -Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com ella á alcova de Luiza. -Mas a lembrança das palavras de Julião immobilisou-o: que esteja -socegada, nada de phrases, nenhuma excitação! Fechou a carta n'uma -gaveta, metteu a chave na algibeira. E de pé, a tremer, com os olhos -raiados de sangue, sentia idéas insensatas alumiarem-lhe bruscamente -o cerebro, como relampagos n'uma tormenta--matal-a, sahir de casa, -abandonal-a, fazer saltar os miolos... - -A Marianna bateu ligeiramente á porta, disse-lhe que a senhora o -chamava. - -Uma onda de sangue subiu-lhe á cabeça; fitava Marianna, estupido, -batendo as palpebras: - ---Já vou--disse com a voz rouca. - -Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto -manchado, envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou -o cabello: e ao entrar na alcova, ao vêl-a, com os seus grandes olhos -dilatados onde a febre reluzia, teve de se agarrar á barra do leito, -porque sentiu, em redor, as paredes oscillarem como lonas ao vento. - -Mas sorriu-lhe: - ---Como estás? - ---Mal--murmurou ella debilmente. - -Chamou-o para ao pé de si com um gesto muito fatigado. - -Elle veio, sentou-se sem a olhar. - ---Que tens?--disse ella chegando o rosto para elle.--Não te -afflijas.--E tomou a mão que elle pousára á beira do leito. - -Jorge, com um repellão secco, sacudiu a mão d'ella, ergueu-se -bruscamente com os dentes cerrados; sentia uma colera brutal; -ia-se, com medo de si, de um crime, quando ouviu a voz de Luiza, -arrastando-se, n'uma lamentação: - ---Porque, Jorge? Que tens?... - -Voltou-se; viu-a meia erguida com os olhos abertos para elle, uma -angustia no rosto; e duas lagrimas cahiam-lhe, silenciosamente. - -Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mãos, aos soluços. - ---Que é isto?--exclamou a voz de Julião á porta da alcova. - -Jorge, muito pallido, ergueu-se devagar. - -Julião levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente os braços diante -d'elle: - ---Tu estás doudo? Pois tu sabes que ella está n'um estado d'aquelles, e -vaes-te pôr a fazer-lhe scenas de lagrimas? - ---Não me pude conter... - ---Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um lado, e tu a dar-lh'a -por outro? Estás doudo! - -Estava realmente indignado. Interessava-se por Luiza como doente. -Desejava muito cural-a; e sentia uma satisfação em exercer o dominio -de pessoa necessaria n'aquella casa, onde as suas visitas tinham tido -sempre uma attitude dependente; mesmo agora ao sahir, não se esquecia -de offerecer negligentemente um charuto a Jorge. - - -Jorge foi heroico durante toda essa tarde. Não podia estar muito -tempo na alcova de Luiza, a desesperação trazia-o n'um movimento -contradictorio; mas ia lá a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe -a roupa com as mãos tremulas; e como ella dormitava, ficava immovel a -olhal-a feição por feição, com uma curiosidade dolorosa e immoral, com -para lhe surprehender no rosto vestigios de beijos alheios, esperando -ouvir-lhe n'algum sonho da febre murmurar um nome ou uma data; e -amava-a mais desde que a suppunha infiel, mas d'um outro amor, carnal e -perverso. Depois ia-se fechar no escriptorio, e movia-se alli entre as -paredes estreitas, como um animal n'uma jaula. Releu a carta infinitas -vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem -cessar: Como tinha sido? Onde era o _Paraiso_? Havia uma cama? Que -vestido levava ella? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava? - -Foi relêr todas as cartas que ella lhe escrevêra para o Alemtejo, -procurando descobrir nas palavras symptomas de frieza, a data -da traição! Tinha-lhe odio então, voltavam-lhe ao cerebro idéas -homicidas--esganal-a, dar-lhe chloroformio, fazer-lhe beber laudano! -E depois immovel, encostado á janella, ficava esquecido n'um scismar -espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, certos passeios que -déra com ella, palavras que ella dissera... - -Ás vezes pensava--seria a carta uma _mistificação_? Algum inimigo -d'elle podia tel-a escripto, remettido para França. Ou talvez Bazilio -tivesse _outra_ Luiza em Lisboa, e por engano ao sobrescriptar o -enveloppe tivesse escripto o nome da prima; e a alegria momentanea -que lhe davam aquellas phantasias fazia-lhe parecer a realidade mais -cruel. Mas como fôra? como fôra? Se podesse saber a verdade! Tinha a -certeza que socegaria, então! Arrancaria de certo do seu peito aquelle -amor como um parasita immundo; apenas ella melhorasse, leval-a-hia a um -convento, e elle iria morrer longe, n'Africa, ou algures... Mas quem -saberia?... Juliana! - -Era ella que sabia! De certo! E todas as condescendencias d'ella por -Juliana, os moveis, o quarto, as roupas, comprehendeu tudo! Era a pagar -a cumplicidade! Era a sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E -estava na valla, morta, sem poder fallar, a maldita! - -Sebastião, como costumava, veio á noitinha. Não havia ainda luzes, e, -apenas elle entrou, Jorge chamou-o ao escriptorio, calado, accendeu uma -vela, tirou a carta da gaveta. - ---Lê isto. - -Sebastião ficára assombrado ao vêr o rosto de Jorge. Olhava a carta -fechada, e tremia. Apenas viu a assignatura, uma pallidez d'agonia -cobriu-lhe o rosto. Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibração onde -elle se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar, pousou a carta sobre -a mesa, sem uma palavra. - -Jorge disse então: - ---Sebastião, isto p'ra mim é a morte. Sebastião, tu sabes alguma cousa. -Tu vinhas aqui. Tu sabes. Dize-me a verdade! - -Sebastião abriu devagar os braços e respondeu: - ---Que te hei-de eu dizer? Não sei nada! - -Jorge agarrou-lhe as mãos, sacudiu-lh'as, e procurando o seu olhar -anciosamente: - ---Sebastião, pela nossa amizade, pela alma de tua mãi, por tantos annos -que temos passado juntos, Sebastião, dize-me a verdade!... - ---Não sei nada. Que hei-de eu saber? - ---Mentes! - -Sebastião disse apenas: - ---Podem-te ouvir, homem! - -Houve um silencio: Jorge apertava as fontes nas mãos, com passadas pelo -escriptorio, que faziam vibrar o soalho; e de repente pondo-se diante -de Sebastião, quasi supplicante: - ---Mas dize-me ao menos o que fazia ella! Sahia? Vinha aqui alguem? - -Sebastião respondeu devagar, os olhos fixos na luz: - ---Vinha o primo ás vezes, ao principio. Quando a D. Felicidade esteve -doente, ella ia vêl-a... O primo depois partiu... Não sei mais nada. - -Jorge esteve um momento a olhar Sebastião, com uma fixidez abstracta. - ---Mas que lhe fiz eu, Sebastião? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que lhe fiz -eu p'ra isto? Eu, que a adorava, áquella mulher! - -Rompeu a chorar. - -Sebastião ficára de pé junto á mesa, estupido, aniquilado. - ---Foi talvez uma brincadeira, apenas...--murmurou. - ---E o que diz a carta?--gritou Jorge, voltando-se n'uma colera, -sacudindo o papel.--Este _Paraiso_! _As boas manhãs_ lá passadas! É uma -infame!... - ---Está doente, Jorge--disse apenas Sebastião. - -Jorge não respondeu. Passeou calado algum tempo. Sebastião, immovel, -fatigava a vista contra a chamma da luz. Jorge então fechou a carta na -gaveta, e tomando o castiçal com um tom de lassidão lugubre e resignado: - ---Queres vir tomar chá, Sebastião? - -E não tornaram mais a fallar na carta. - - -N'essa noite Jorge dormiu profundamente. Ao outro dia o seu rosto -estava impassivel, d'uma serenidade livida. - -Foi d'ahi por diante o enfermeiro de Luiza. - -A doença, depois d'uma marcha incerta durante tres dias, definiu-se: -eram crescimentos; enfraquecia muito, mas Julião estava tranquillo. - -Jorge passava os seus dias ao pé d'ella. D. Felicidade vinha -ordinariamente pelas manhãs: sentava-se aos pés da cama, e ficava -calada, com uma face envelhecida; aquella esperança na mulher de Tuy -tão subitamente destruida abalára-a como um velho edificio a que se -tira subitamente um pilar; ia-se tornando ruina; e só se animava quando -o Conselheiro apparecia pelas tres horas a saber da «nossa formosa -enferma». Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um tom -profundo, conservando o chapéo na mão, sem querer entrar na alcova, por -pudor: - ---A saude é um bem que só apreciamos quando nos foge! - -Ou: - ---A doença serve para aquilatarmos os amigos. - -E terminava sempre: - ---Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo reflorirão nas faces de sua -virtuosa esposa!... - -De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergão sobre o chão; mas apenas -cerrava os olhos uma ou duas horas. O resto da noite procurava lêr: -começava um romance, mas nunca ia além das primeiras linhas; esquecia -o livro, e com a cabeça entre as mãos punha-se a pensar: era sempre a -mesma idéa--_como_ tinha sido? Conseguira reconstruir aproximadamente, -com logica, certos factos; via bem Bazilio chegando, vindo visital-a, -desejando-a, mandando-lhe ramos, perseguindo-a, indo-a vêr aqui e -além, escrevendo-lhe; mas depois? Viera já a comprehender que o -dinheiro era para Juliana. A creatura tivera alguma exigencia: tinha-os -surprehendido? possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstrucção -dolorosa, falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se -arremessava sofregamente. Então começava a recordar os ultimos mezes -desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrára amante, e que -ardor punha nas suas caricias... Para que o enganára então? - -Uma noite, com precauções de ladrão, rebuscou todas as gavetas d'ella, -esquadrinhou os vestidos, até as dobras da roupa branca, as caixas de -collares, de rendas; viu bem o cofre de sandalo; estava vazio; nem o -pó d'uma flôr secca! Ás vezes punha-se a fitar os moveis no quarto, -na sala, a sondal-os como se quizesse descobrir n'elles os vestigios -do adulterio. Ter-se-hiam sentado alli? Elle teria ajoelhado aos -pés d'ella, acolá, sobre o tapete? Sobretudo o divan tão largo, tão -commodo, desesperava-o; tomou-lhe odio. Veio a detestar mesmo a casa, -como se os tectos que os tinham coberto, os soalhos que os tinham -sustentado tivessem uma cumplicidade consciente. Mas o que o torturava -sobretudo eram aquellas palavras--o _Paraiso_, _as boas manhãs_... - -Luiza então já dormia tranquillamente. Ao fim de uma semana os -crescimentos desappareceram. Mas estava muito fraca: no dia em que -pela primeira vez se levantou, desmaiou duas vezes: era necessario -vestil-a, trazel-a amparada para a _chaise-longue_: e não dispensava -Jorge, queria-o alli, ao pé, com exigencias de criança! Parecia receber -a vida dos seus olhos, a saude do contacto das suas mãos. Fazia-lhe -lêr o jornal pela manhã, e vir escrever para ao pé d'ella. Elle -obedecia, e mesmo aquellas instancias eram para a sua dôr como caricias -consoladoras. É porque o amava de certo! - -Sentia então, machinalmente, abertas de felicidade. Surprehendia-se -a dizer-lhe ternuras, a rir com ella, esquecido, como d'antes! -E, estendida na _chaise-longue_, Luiza, contente, percorria -antigos volumes da _Illustração franceza_, que lhe mandára o -Conselheiro,--«onde», segundo elle lhe dissera, «podia, ao mesmo -tempo que se divertia com os desenhos, adquirir noções uteis sobre -importantes acontecimentos historicos»; ou, com a cabeça reclinada, -saboreava a felicidade de melhorar, de estar livre das tyrannias da -_outra_, das amarguras do _passado_. - -Uma das suas alegrias era vêr entrar a Marianna com o seu jantarzinho -disposto n'um guardanapo sobre o taboleiro; tinha appetite, saboreava -muito o calix de vinho do Porto, que Julião recommendára; quando Jorge -não estava, fazia longas conversações com Marianna, palrando baixo, -consolada, e lambendo colherinhas de gelatina. - -Ás vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia planos. Dizia-os depois -a Jorge: iria estar duas semanas no campo, para ganhar forças; á volta -começaria a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras da sala; -porque queria occupar-se muito da casa, viver recolhida; elle não -voltaria ao Alemtejo, não sahiria de Lisboa, não é verdade? E a sua -vida seria d'ahi por diante d'uma doçura continua e facil. - -Mas Luiza ás vezes achava-o «macambusio». Que tinha? Elle explicava -pela fadiga, pelas noites mal dormidas... Se adoecesse, ao menos, -dizia ella, que fosse quando ella estivesse forte para o tratar, para -o velar!... Mas não adoeceria, não? E fazia-o sentar ao pé de si, -passava-lhe a mão pelos cabellos, com o olhar quebrado, porque com as -forças que renasciam vinham os impulsos do seu temperamento amoroso. -Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraçado! - -Luiza, só comsigo, tinha outras resoluções. Não tornaria a vêr -Leopoldina, e frequentaria as igrejas. Sahia da doença com uma vaga -sentimentalidade devota. Durante a febre, em certos pesadêlos de -que lhe ficára uma indistincta idéa aterrada, vira-se ás vezes n'um -lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo os braços, do meio -de chammas escarlates: fórmas negras giravam com espetos em braza, um -rugido d'agonia subia para a mudez do céo: e já lhe tocavam o peito -linguas de fogueiras, quando alguma cousa de dôce e d'ineffavel de -repente a refrescava; eram as azas d'um anjo luminoso e sereno, que a -tomava nos braços; e ella sentia-se elevar, apoiando a cabeça contra -o seio divino, que a penetrava d'uma felicidade sobrenatural; via as -estrellas de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensação deixára-lhe -como uma recordação saudosa do céo. E aspirava a ella, nas debilidades -da convalescença, esperando ganhal-a pela pontualidade á missa, e pela -repetição de corôas á Virgem. - -Emfim uma manhã veio á sala, e abriu pela primeira vez o piano; Jorge, -á janella, olhava para a rua--quando ella o chamou, e sorrindo: - ---Estou a detestar, ha tempos, aquelle divan--disse.--Podia-se tirar, -não te parece? - -Jorge sentiu uma pancada no coração: não pôde responder logo; disse, -emfim, com esforço: - ---Sim, parece... - ---Estou com vontade de o tirar--disse ella sahindo da sala, arrastando -tranquillamente a longa cauda do seu roupão. - -Jorge não pôde destacar os olhos do divan. Veio mesmo sentar-se n'elle; -passava a mão sobre o estofo ás listras; e sentia um prazer doloroso em -verificar _que fôra alli_! - -Principiára a vir-lhe agora uma especie de resignação sombria; quando -a ouvia gozar tanto as melhoras, fallar com felicidade de futuros -tranquillos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ella -tinha-se arrependido de certo, amava-o: para que havia de crear a -sangue frio uma infelicidade perpetua? Mas quando a via com os seus -movimentos languidos estender-se na _chaise-longue_, ou ao despir-se -mostrar a brancura do seu collo--e pensava que aquelles braços -tinham enlaçado outro homem, aquella bocca gemido de amor n'uma cama -alheia--vinha-lhe uma onda de cólera bruta, precisava sahir para a não -esganar! - -Para explicar os seus maus humores, os seus silencios, começou a -queixar-se, a dizer-se doente. E as solicitudes d'ella, então, as -interrogações mudas do seu olhar inquieto faziam-o mais infeliz--por se -sentir amado, agora que se sabia trahido! - -Um domingo emfim Julião deu licença a Luiza para se deitar mais tarde, -e fazer á noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos vel-a na -sala, ainda um pouco pallida e fraca,--mas, como disse o Conselheiro, -restituida aos deveres domesticos e aos prazeres da sociedade! - -Julião que veio ás nove horas achou-a _como nova_. E abrindo os braços, -no meio da sala: - ---E que me dizem á novidade?--exclamou--A peça do Ernesto teve um -triumpho!... - -Assim tinham lido nos jornaes. O _Diario de Noticias_ dizia mesmo que -o «author chamado ao proscenio, no meio do mais vivo enthusiasmo, -recebera uma formosa corôa de louros». Luiza declarou logo que queria -ir vêr! - ---Mais tarde, D. Luiza, mais tarde--acudiu com prudencia o -Conselheiro.--Por ora é conveniente evitar toda a commoção forte. As -lagrimas que não deixaria de derramar, conheço o seu bom coração, -podiam produzir uma recahida. Não é verdade, amigo Julião? - ---De certo, Conselheiro, de certo. Eu tambem quero ir. Quero -convencer-me por meus olhos... - -Mas o ruido d'uma carruagem, lançada a trote largo, que parou á porta, -interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente. - ---Aposto que é o author!--exclamou elle. - -E quasi immediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, -precipitou-se na sala: ergueram-se com ruido, abraçaram-no: mil -parabens! mil parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras: - ---Bem vindo o festejado author! Bem vindo! - -Ernesto suffocava de jubilo. Tinha um sorriso immobilisado; as azas -do nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o -peito alto, enfunado d'orgulho; e movia a cabeça, sem cessar, como n'um -agradecimento instinctivo a multidões applaudidoras. - ---Aqui estou! aqui estou!--disse. - -Sentou-se offegante; e, com um modo amavel de Deus-bom-rapaz, declarou -que os ultimos ensaios de apuro não lhe tinham deixado um momento para -vir vêr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante de seu, -mas devia voltar ás dez horas para o theatro: até nem mandára a tipoia -embora... - -Contou então largamente o triumpho. Ao principio tivera «grandes -colicas». Todos as tinham, os mais acostumados, os mais illustres! Mas -apenas o Campos disse o monologo do primeiro acto--e como o disse! -haviam de vêr, uma cousa sublime!--os applausos romperam. Tinha -agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo author, salvas de -palmas... Elle viera ao palco, arrastado; não queria, mas obrigaram-no, -a Jesuina por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delirio! O -Savedra do _Seculo_ tinha-lhe dito: o amigo é o nosso Shakspeare! O -Bastos da _Verdade_ tinha affirmado: és o nosso Scribe! Houve uma cêa. -E tinham-lhe dado uma corôa. - ---E serve-lhe?--acudiu Julião. - ---Perfeitamente; um bocadinho larga... - -O Conselheiro disse com authoridade: - ---Os grandes authores, o famigerado Tasso, o nosso Camões são sempre -representados com as suas respectivas corôas. - ---É o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma--acudiu Julião, erguendo-se e -batendo-lhe no hombro--é que se faça retratar de corôa!... - -Riram. - -E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu lenço perfumado: - ---O snr. Zuzarte não dispensa o seu epigrammasinho... - ---É a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos dos generaes -victoriosos, em Roma, havia um bobo no prestito! - ---Eu não sei!--disse Luiza muito risonha--É uma honra p'ra a familia!... - -Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a -corôa, como se tivesse direito a usal-a... - -E Ernestinho voltando-se logo para elle: - ---Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei á esposa... - ---Como Christo... - ---Como Christo--confirmou Ernestinho, com satisfação. - -D. Felicidade approvou logo: - ---Fez muito bem! Até é mais moral! - ---O Jorge é que queria que eu désse cabo d'ella--disse Ernestinho, -rindo tolamente.--Não se lembra, n'aquella noite... - ---Sim, sim--fez Jorge, rindo tambem, nervosamente. - ---O nosso Jorge--disse com solemnidade o Conselheiro--não podia -conservar idéas tão extremas. E de certo a reflexão, a experiencia da -vida... - ---Mudei, Conselheiro, mudei--interrompeu Jorge. - -E entrou bruscamente no escriptorio. - -Sebastião, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava ás escuras. - ---Aquelles idiotas não se calarão? Não se irão?--disse elle -abafadamente, agarrando o braço de Sebastião. - ---Socega! - ---Oh Sebastião! Sebastião!--E sua voz tremia, com lagrimas. - -Mas Luiza, da sala, gritou: - ---Que conspiração é essa ahi dentro ás escuras? - -Sebastião appareceu logo, dizendo: - ---Nada, nada. Estavamos lá dentro...--E acrescentou baixo:--O Jorge -está fatigado. Está adoentado, coitado! - -Notaram, quando elle voltou--que tinha com effeito o ar exquisito. - ---Não, realmente não me sinto bom, estou incommodado! - ---E a debil D. Luiza precisa o repouso do seu leito--disse o -Conselheiro erguendo-se. - -Ernestinho que não se podia demorar, offereceu logo ao Conselheiro e a -Julião--«a sua carruagem, que era um caleche, se iam para a baixa...» - ---Que honra--exclamou Julião olhando Accacio--irmos na tipoia do Grande -Homem! - -E em quanto D. Felicidade se agasalhava, os tres desceram. - -No meio da escada Julião parou, e cruzando os braços: - ---Ora aqui vou eu entre os representantes dos dous grandes movimentos -de Portugal desde 1820. A Litteratura--e comprimentou Ernestinho--e o -Constitucionalismo!--e curvou-se para o Conselheiro. - -Os dous riram, lisongeados. - ---E o amigo Zuzarte? - ---Eu?--E baixando a voz:--Até ha dias um revolucionario terrivel. Mas -agora... - ---O quê? - ---Um amigo da ordem--gritou com jubilo. - -E desceram, contentes de si e do seu paiz, para se metterem na tipoia -do Grande Homem! - - - - -XVII - - -Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde não tinha apparecido nos -ultimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença dos conhecidos -ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que _todo o mundo sabia_; nos -olhares mais naturaes via uma intenção maligna, e nos apertos de mão -mais sinceros uma ironica pressão de pezames; as carruagens mesmo que -passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao _rendez-vous_, -e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do _Paraiso_. Voltou -mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao -entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a _Mandolinata_! - -Estava-se a vestir. - ---Como estás tu?--perguntou, pondo a um canto a sua bengala. - ---Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda... - -Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno. - ---E tu?--perguntou-lhe ella. - ---P'ra aqui ando--disse tão desconsoladamente que Luiza pousou o pente, -e com os cabellos soltos veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito -carinhosa: - ---Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te tanto ha dias! Não és -o mesmo! Ás vezes estás com uma cara de réo... Que é? Dize. - -E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados. - -Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á «sua mulherzinha». - ---Dize. Que tens? - -Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta: - ---Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, pódes ouvir... Luiza! vivo -n'um inferno ha duas semanas. Não posso mais... Tu estás boa, não é -verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade! - -E estendeu-lhe a carta de Bazilio. - ---O que é?--fez ella muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mão. - -Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a. -Fixou Jorge um momento d'um modo desvairado, estendeu os braços sem -poder fallar, levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso como se se -sentisse ferida, e oscillando, com um grito rouco, cahiu sobre os -joelhos, ficou estirada no tapete. - -Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que -Joanna corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto -ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os -espartilhos da senhora. - -Sebastião veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar; -apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella: - ---Luiza, ouve, falla! Não, não tem duvida. Mas falla. Dize, que tens? - -Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos -sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião. - -Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca como cera, as mãos -pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas -faces. - -Um trem parou. Julião appareceu esbaforido. - ---Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal!--disse Jorge. - -Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra vez. Julião -fallou-lhe, tomando-lhe o pulso. - ---Não, não, ninguem!--murmurou ella, retirando a mão. Repetiu com -impaciencia:--Não, vão-se, não quero...--As suas lagrimas redobravam. -E como elles sahiam da alcova para a não excitar contrariando-a, -ouviram-na chamar:--Jorge! - -Elle ajoelhou-se ao pé da cama, e fallando-lhe junto do rosto: - ---Que tens tu? Não se falla mais em tal. Acabou-se. Não estejas doente. -Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, não me importa. Não quero saber, -não. - -E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mão na bocca: - ---Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não soffras! Dize -que estás boa! Que tens? Vamos ámanhã para o campo, e esquece-se tudo. -Foi uma cousa que passou... - -Ella disse apenas com a voz sumida: - ---Oh! Jorge! Jorge! - ---Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes? - ---Aqui--disse ella, e levava as mãos á cabeça.--Dóe-me! - -Elle ergueu-se para chamar Julião, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e -devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto, -estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio -de perdão. - ---Oh! minha pobre cabeça!--gritou ella. - -As fontes latejavam-lhe, e uma côr ardente, sêcca, esbrazeava-lhe o -rosto. - -Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os; recommendou um -socego immovel e sinapismos de mostarda aos pés,--até que elle voltasse. - -Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de -sustos, suspirando ás vezes. - -Eram então quatro horas; cahia uma chuva miudinha, ennevoada; a alcova -tinha uma luz lugubre. - ---Não ha-de ser nada...--dizia Sebastião. - -Luiza agitava-se no leito, apertando as mãos na cabeça, torturada pela -dôr crescente, cheia de sêde. - -Marianna acabava d'arrumar em pontas de pés, vagamente assombrada -d'aquella casa, onde só vira desgosto e doença: mas só o pousar subtil -dos seus passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas sobre o -craneo. - -Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto d'ella -inquietou-o. Accendeu um phosphoro, aproximou-lh'o do rosto; e aquella -luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a -cabeça. - -Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico. Conservava-se muito -quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dôres penetrantes -que a dilaceravam. Só de vez em quando sorria para Jorge com uma -expressão d'afflicção serena e muda. - -Julião fez logo pôr tres travesseiros, para lhe conservar a cabeça -alta. Fóra cahia o crepusculo humido. Andavam em bicos de pés, com -cuidado; e mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o _tic-tac_ -monotono. Ella começava agora a murmurar sons cançados, e a voltar-se -com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia d'um -modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas n'um longo -sinapismo; mas não o sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a -lingua tornára-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo. - -Julião fez logo applicar na cabeça compressas d'agua fria. Mas o -delirio exacerbava-se. - -Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento--onde os nomes -de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois -debatia-se, esgaçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se, os seus -olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupilla se sumia. - -Socegava mais; dava risadinhas d'uma doçura idiota; tinha gestos -lentos sobre o lençol, que aconchegavam e acariciavam, como n'um -gozo tepido: depois começava a respirar anciosamente, vinham-lhe -expressões torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros e -nos colxões, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se então a apertar a -cabeça phreneticamente, pedia que lh'a abrissem, que a tinha cheia de -pedras, que tivessem piedade d'ella!--e fios de lagrimas corriam-lhe -pelo rosto. Não sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os pés nús -ao vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre -adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe com toda a sorte de -palavras consoladoras e supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o -conhecesse; mas de repente ella desesperava-se, gritava pela carta, -maldizia Juliana--ou então dizia palavras d'amor, enumerava sommas de -dinheiro... Jorge temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julião, -ás criadas: tinha um suor á raiz dos cabellos--e quando ella, um -momento, julgando-se no _Paraiso_ e nas exaltações do adulterio, chamou -Bazilio, pediu _champagne_, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da -alcova allucinado, foi para a sala ás escuras, atirou-se para o divan a -soluçar, arrepellou-se, blasphemou. - ---Está em perigo?--perguntou Sebastião. - ---Está--disse Julião.--Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas -malditas febres cerebraes... - -Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado, -esguedelhado. - -E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para fóra: - ---Ouve lá, é necessario cortar-lhe o cabello, e rapar-lhe a cabeça. - -Jorge olhou-o com um ar estupido: - ---O cabello?--E agarrando-lhe os braços:--Não, Julião, não, hein? -Póde-se fazer outra cousa. Tu deves saber. O cabello não! Não! Isso -não, pelo amor de Deus! Ella não está em perigo. P'ra quê? - -Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia a acção da agua! - ---Ámanhã, se fôr necessario. Ámanhã! Espera até ámanhã... Obrigado, -Julião, obrigado! - -Julião consentiu, contrariado. Fazia então humedecer constantemente -as compressas da cabeça, e como Marianna tremula, desgeitosa, molhava -muito o travesseiro, foi Sebastião que se collocou á cabeceira da cama, -toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, d'onde a agua gotejava -lentamente; tinham jarros fóra da varanda, na sala, para dar á agua uma -frialdade gelada. O delirio alta noite acalmára um pouco. Mas o seu -olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas -um ponto negro. - -Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos, olhava -para ella: lembravam-lhe vagamente outras noites de doença assim, -quando ella tivera a pneumonia: e melhorára! Até ficára mais linda, -com tons de pallidez que lhe adoçavam a expressão! Iriam para o campo -quando ella convalescesse: alugaria uma casinha: voltaria á noite no -omnibus, e vêl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um -vestido claro, na tarde suave!... Mas ella gemia, elle erguia os olhos -sobresaltado: e não lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia -dissipando, desapparecendo n'aquelle ar de febre que enchia a alcova, -no silencio morbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço -sacudia-o, e recahia na sua immobilidade. - -Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma chamma alta e direita, -extinguiam-se. - -Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os -caixilhos da vidraça. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. -Não chovia; a calçada seccava. O ar tinha uma vaga côr d'aço. Tudo -dormia: e uma toalha, esquecida á janella das Azevedos, agitava-se ao -vento frio, silenciosamente. - -Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma voz extincta: sentia -muito vagamente os sinapismos, mas a dôr de cabeça não cessava. -Começou a agitar-se--e o delirio d'ahi a pouco voltou. Julião, então, -determinou que se lhe rapasse o cabello. - -Sebastião foi acordar um barbeiro na rua da Escóla--que veio logo, com -um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo começou -a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas, as tesouras, -devagar, com as mãos molles da gordura das pomadas. - -Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que grandes pedaços -mutilados da sua felicidade cahiam com aquellas lindas tranças, -destruidas ás tesouradas; e com a cabeça nas mãos recordava certos -penteados que ella usava, noites em que os seus cabellos se tinham -desmanchado nas alegrias da paixão, tons com que brilhavam á luz... -Voltou ao quarto, attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o -ruido secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma caixa de -sabão, estava um velho pincel de barba, entre flocos d'espuma... Chamou -Sebastião baixo: - ---Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo lento! É de mais. Que -ande depressa! - -Foi á sala de jantar, errou pela casa: a manhã fria clareava; -erguera-se vento, que ia levando, aos pedaços, nuvens d'um tom alvadio. - -Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a -mesma lentidão molle; e tomando o seu chapéo desabado, sahiu em bicos -de pés, murmurando n'um tom funerario: - ---Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que não seja nada... - -O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:--e Luiza cahiu n'uma -somnolencia prostrada com gemidos fracos, que sahiam de seus labios -como a lamentação interior da vida vencida. - -Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava chamar o doutor -Caminha. Era um medico velho que tratára sua mãi, e que curára Luiza da -pneumonia, no segundo anno de casada. Jorge conservára uma admiração -agradecida por aquella reputação antiquada; e agora a sua esperança -voltava-se sofregamente para elle, anciando pela sua presença como pela -apparição d'um santo. - -Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião desceu correndo, -para ir a casa do dr. Caminha. - -Luiza, que sahira um momento do seu torpôr, sentiu-os fallar baixo. A -sua voz extincta chamou Jorge: - ---Cortaram-me o cabello...--murmurou tristemente. - ---É para te fazer bem--disse-lhe Jorge, quasi tão agonisante como -ella.--Cresce logo. Até te vem melhor... - -Ella não respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos -dos olhos. - -Devia ser a sua ultima sensação: a prostração comatosa ia-a -immobilisando, apenas a sua cabeça rolava n'um movimento dôce e -vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansaço triste; -a pelle empallidecia como um vidro de janella, por traz do qual -lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruidos da rua que começavam não -a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodão. - -Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada quando a viu -tão mal: e ella que a vinha buscar para irem á Encarnação, talvez ás -lojas! Tirou logo o chapéo, installou-se; fez arranjar a alcova, tirar -as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compôr a cama--«porque -não havia peor p'ra um doente que desarranjo no quarto»: e muito -corajosamente animava Jorge. - -Uma carruagem parou á porta. Era o doutor Caminha, emfim!... Entrou -atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se -muito do frio;--e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que -pôz dentro do chapéo methodicamente, adiantou-se para a alcova com um -passo cadenciado, acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito -colladas ao craneo pela escova. - -Julião e elle ficaram sós na alcova. - -No quarto os outros esperavam calados, ao pé de Jorge, pallido como -cêra, com os olhos vermelhos como carvões. - ---Vai-se-lhe pôr um caustico na nuca--veio dizer Julião. - -Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, que se pozera a -calçar tranquillamente as suas luvas de casimira, dizendo: - ---Vamos a vêr com o caustico. Não está bem... Mas ha ainda peor. E eu -volto, meu amigo, eu volto. - -O caustico foi inutil. Não o sentia, immovel e branca, com as feições -crispadas; e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como -vibrações fugitivas. - ---Está perdida--disse Julião baixo a Sebastião. - -D. Felicidade ficou muito aterrada, fallou logo nos sacramentos. - ---P'ra quê?--resmungou Julião impaciente. - -Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos, que era um peccado -mortal; e chamando Jorge para o vão da janella, toda tremula: - ---Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos... - -Elle murmurava como assombrado: - ---Os sacramentos! - -Julião chegou-se bruscamente, e quasi zangado: - ---Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra quê? Ella nem ouve, nem -comprehende, nem sente. É necessario deitar-lhe outro caustico, talvez -ventosas, e é o que é! Isso é que são os sacramentos! - -Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, começou a chorar. -Esqueciam Deus, e em Deus é que está o remedio!--dizia, assoando-se com -estrondo. - ---Pelo que Deus faz por mim...--exclamou Jorge, sahindo do seu torpôr. -E batendo as mãos, como revoltado por uma injustiça:--Porque realmente, -que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!... - -Julião ordenára outro caustico. Havia agora na casa um movimento -allucinado. Joanna entrava de repente com um caldo inutil que ninguem -pedira, os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluçava pelos -cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para -rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o -doutor Barral. - -E Luiza no entanto estava immovel; uma côr macilenta ia-lhe dando ás -faces tons cavados e rigidos. - -Julião extenuado pediu um calix de vinho, uma fatia de pão. -Lembraram-se então que desde a vespera não tinham comido, e foram á -sala de jantar onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu uma sopa, -e ovos. Mas não achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava -rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na -borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha. - -Depois d'um momento pousou devagarinho a colhér, desceu ao quarto. -Marianna estava sentada aos pés do leito: Jorge disse-lhe que fosse -servir os senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de joelhos, -tomou uma das mãos de Luiza, chamou-a baixo; depois mais forte: - ---Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas assim, faze por -melhorar. Não me deixes n'este mundo, não tenho mais ninguem! -Perdôa-me. Dize que sim. Faze signal que sim ao menos. Não me ouve, meu -Deus! - -E olhava-a anciosamente. Ella não se movia. - -Ergueu então os braços ao ar n'uma desesperação allucinada. - ---Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!--E arremessava a -sua alma para as alturas:--Ouve, meu Deus! Escuta-me! Sê bom! - -Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! -Mas tudo lhe pareceu mais immovel. A face livida cavava-se; o lenço que -lhe envolvia a cabeça desarranjára-se, via-se o craneo rapado, d'uma -côr ligeiramente amarellada. Pôz-lhe então a mão na testa, hesitando, -com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu para -fóra do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando -pausadamente as luvas. - ---Doutor! Está morta! Veja. Não falla, está fria... - ---Então! Então!--disse elle--Nada de barulho, nada de barulho! - -Tomou o pulso de Luiza, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibração -expirante d'uma corda. - -Julião veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas eram -inuteis. - ---Já as não sente--disse o doutor, sacudindo o tabaco dos dedos. - ---Se se lhe désse um copo de cognac?...--lembrou de repente Julião. E -vendo o olhar espantado do doutor:--Ás vezes estes symptomas de coma -não querem dizer que o cerebro esteja desorganisado: podem ser apenas -a inacção da força nervosa exhausta. Se a morte é irremediavel não -se perde nada; se é apenas uma depressão do systema nervoso, póde-se -salvar... - -O doutor Caminha, com o beiço descahido, oscillava incredulamente a -cabeça: - ---Theorias!--murmurou. - ---Nos hospitaes inglezes...--começou Julião. - -O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo. - ---Mas se o doutor lêsse...--insistiu Julião. - ---Não leio nada!--disse o doutor Caminha com força--tenho lido de mais! -Os livros são os doentes...--E curvando-se, com ironia:--Mas se o meu -talentoso collega quer fazer a experiencia... - ---Um copo de cognac ou d'aguardente!--pediu Julião á porta. - -E o doutor Caminha sentou-se commodamente «para gozar o fracasso do -talentoso collega». - -Levantaram Luiza; Julião fez-lhe engulir o cognac; quando a deitaram -ficou na mesma immobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o -relogio, viu as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim o -doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das -extremidades; e indo buscar silenciosamente o chapéo começou a calçar -as luvas. - -Jorge foi com elle até á porta: - ---Então, doutor?--disse, agarrando com uma força desvairada o braço. - ---Fez-se o que se pôde--disse o velho, encolhendo os hombros. - -Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas -vagarosas nos degraus cahiam-lhe com uma percussão medonha no coração. -Debruçou-se no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os -olhos; Jorge pôz as mãos para elle, com uma anciedade humilde: - ---Então não é possivel mais nada? - -O doutor fez um gesto vago, indicou o céo. - -Jorge voltou para o quarto, encostando-se ás paredes. Entrou na alcova, -atirou-se de joelhos aos pés da cama, e alli ficou com a cabeça entre -as mãos n'um soluçar baixo e continuo. - -Luiza morria: os seus braços tão bonitos, que ella costumava acariciar -diante do espelho, estavam já paralysados; os seus olhos, a que a -paixão dera chammas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se como sob -a camada ligeira d'uma pulverisação muito fina. - -D. Felicidade e Marianna tinham accendido uma lamparina a uma gravura -de Nossa Senhora das Dôres, e de joelhos rezavam. - -O crepusculo triste descia, parecia trazer um silencio funerario. - -A campainha, então, tocou discretamente; e d'ahi a momentos appareceu a -figura do Conselheiro Accacio. D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as -suas lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente: - ---Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe! - -Explicou «que encontrára por acaso o bom doutor Caminha, que lhe -contára a fatal occorrencia»! Mas muito discretamente não quiz -entrar na alcova. Sentou-se n'uma cadeira, collocou melancolicamente -o cotovêlo sobre o joelho, a testa sobre a mão, dizendo baixo a D. -Felicidade: - ---Continue as suas orações. Deus é imperscrutavel em seus decretos. - -Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de Luiza; olhou então -Sebastião, fez-lhe o gesto d'alguma cousa que vôa e desapparece... -Aproximaram-se de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face -enterrada no leito: - ---Jorge--disse baixinho Sebastião. - -Elle levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabellos nos olhos, -as olheiras escuras. - ---Vá, vem--disse Julião. E vendo o espanto do seu olhar:--Não, não está -morta, está n'aquella somnolencia... Mas vem. - -Elle ergueu-se, dizendo com mansidão: - ---Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado. - -Sahiu da alcova. - -O Conselheiro levantou-se, foi abraçal-o com solemnidade: - ---Aqui estou, meu Jorge! - ---Obrigado, Conselheiro, obrigado. - -Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam preoccupar-se -com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as -pontas, e viu os cabellos de Luiza. Ficou a olhal-os, erguendo-os, -passando-os d'uma das mãos para outra, e disse com os beiços a tremer: - ---Fazia tanto gosto n'elles, coitadinha! - -Tornou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe o braço, queria-o -afastar do leito. Elle debatia-se dôcemente; e, como uma vela ardia -sobre a mesinha ao pé da cabeceira, disse, mostrando-a: - ---Talvez a incommode a luz... - -Julião respondeu commovido: - ---Já não a vê, Jorge! - -Elle soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se sobre ella; tomou-lhe -a cabeça entre as mãos com cuidado para a não magoar, esteve a olhal-a -um momento; depois pousou-lhe sobre os labios frios um beijo, outro, -outro, e murmurava: - ---Adeus! Adeus! - -Endireitou-se, abriu os braços, cahiu no chão. - -Todos correram. Levaram-no para a _chaise-longue_. - -E em quanto D. Felicidade n'um pranto afflicto fechava os olhos de -Luiza, o Conselheiro, com o chapéo sempre na mão, cruzava os braços, e -oscillando a sua calva respeitavel, dizia a Sebastião: - ---Que profundo desgosto de familia! - - - - -XVIII - - -Depois do enterro de Luiza, Jorge despediu as criadas, foi para casa de -Sebastião. - -N'essa noite pelas nove horas o Conselheiro Accacio, muito abafado, -descia o Moinho de Vento, quando encontrou Julião, que vinha de vêr um -doente na rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando de Luiza, do -enterro, da afflicção de Jorge. - ---Pobre rapaz! Aquillo é que é soffrer!--disse Julião compadecido. - ---Era uma esposa modêlo!...--murmurou o Conselheiro. - -De resto, disse, vinha justamente de casa do bom Sebastião, mas não -podéra vêr o seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia -profundamente. - -E acrescentou: - ---Ultimamente lia eu que aos grandes golpes succedem sempre somnos -prolongados. Assim, por exemplo, Napoleão depois de Waterloo, depois do -grande desastre de Waterloo! - -E passado um momento, continuou: - ---É verdade. Fui vêr o nosso Sebastião... Fui mostrar-lhe...--E -interrompendo-se, parando:--Porque eu entendi que era o meu dever -dedicar um tributo á memoria da infeliz senhora. Era o meu dever, e não -me eximi a elle! E estimo tel-o encontrado, porque quero saber a sua -opinião conscienciosa e desassombrada. - -Julião tossiu, e perguntou: - ---É um necrologio? - ---É um necrologio. - -E o Conselheiro, apesar de «não achar proprio, na sua posição, o entrar -em cafés publicos», lembrou a Julião que poderiam descançar um momento -no Tavares, se não estivesse muita gente, e elle poderia lêr-lhe «a -producção». - -Espreitaram. - -Estavam apenas, a uma mesa, dous velhos calados defronte dos seus -cafés, com os chapéos na cabeça, apoiados a bengalas de cana da India. -O moço dormitava ao fundo. Uma luz crua e intensa enchia a sala -estreita. - ---Ha um silencio propicio--disse o Conselheiro. - -Offereceu um café a Julião; e tirando então do bolso uma folha de papel -pautado, murmurou:--Infeliz senhora!--Inclinou-se para Julião, e leu: - - -NECROLOGIO - -Á MEMORIA DA SNR.^a D. LUIZA MENDONÇA DE BRITO CARVALHO - - - Rosa d'amor, rosa purpurea e bella, - Quem entre os goivos te esfolhou na campa? - - ---É do immortal Garrett!--E continuou com uma voz lenta e lugubre: - -«... Mais um anjo que subiu ao céo! Mais uma flôr pendida na tenra -haste que o vendaval da morte, em sua inclemente furia, arremessou mal -desabrochada para as trevas do tumulo...» - -Olhou Julião para solicitar a sua admiração, e vendo-o curvado a -remexer o seu café, proseguiu com entonações mais funerarias: - ---«Detende-vos, e olhai a terra fria! Alli jaz a casta esposa tão cedo -arrancada ás caricias do seu talentoso conjuge. Alli sossobrou, como -baixel no escarcéo da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã -natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu -lar! Por que soluçaes?» - ---Um café, ó Antonio!--bradou a voz rouca de um sujeito grosso, de -jaquetão, que se sentou ao pé, pondo com ruido a bengala sobre a mesa e -deitando o chapéo para o cachaço. - -O Conselheiro olhou-o de lado, com rancor. E baixando a voz: - ---«...Não soluceis! Que o anjo se não pertence á terra pertence ao -céo!...» - ---O sô Guedes esteve já por ahi?--perguntou a voz rouca. - -O criado disse de traz do balcão, limpando com uma rodilha as travessas -de metal: - ---Ainda não, snr. D. José! - ---«...Alli--continuou o Conselheiro--seu espirito, librando-se nas -candidas azas, entôa louvores ao Eterno! E não cessa de pedir ao -Omnipotente mercês e favores para derramar sobre a cabeça do dilecto -esposo, que um dia, não duvideis, a encontrará nas regiões celestes, -patria das almas de tão subido quilate...»--E a voz do Conselheiro -aflautava-se para indicar aquella ascensão paradisiaca. - ---E hontem á noite esteve cá, o sô Guedes?--insistiu o sujeito de -jaquetão com os cotovêlos sobre a mesa, fumando como uma chaminé. - ---Esteve tarde. Lá pelas duas horas. - -O Conselheiro sacudiu o papel com um desespero mudo: por traz dos -vidros da luneta escura fusilavam-lhe nos olhos os despeitos homicidas -de author interrompido. Mas proseguiu: - ---«...E vós, ó almas sensiveis, vertei as lagrimas, mas vertendo-as, -não percaes de vista que o homem deve curvar-se aos decretos da -Providencia...» - -E interrompendo-se: - ---Isto é para dar coragem ao nosso pobre Jorge!--Continuou:--«...da -Providencia. Deus conta mais um anjo, e a sua alma brilha pura...» - ---Esteve com a pequena, o sô Guedes?--fez o sujeito, quebrando no -marmore da mesa a cinza do charuto. - -O Conselheiro suspendeu-se pallido de raiva: - ---Deve ser pessoa da mais baixa extracção--rosnou com odio. - -E o criado erguendo a vozinha fina detraz do balcão: - ---Nada, não; tem vindo agora com uma hespanhola d'ahi de cima da rua. -Uma magrinha, com o cabello riçado, uma capa vermelha... - ---A Lola!--acudiu o outro com satisfação. E espreguiçou-se com -voluptuosidade á recordação da Lola. - -O Conselheiro agora apressava-se: - -«... E de resto, o que é a vida? Uma rapida passagem sobre o orbe, e um -vão sonho de que acordamos no seio do Deus dos Exercitos, de que todos -somos indignos vassallos». - -E com esta phrase monarchica o Conselheiro terminou. - ---Que lhe parece, com franqueza? - -Julião sorveu o fundo da chavena, e collocando-a devagar no pires, -lambendo os beiços: - ---É para imprimir? - ---Na _Voz Popular_, com tarjeta preta. - -Julião coçou convulsivamente a caspa, e erguendo-se: - ---Está muito bom. Muito bom, Conselheiro! - -E Accacio procurando o troco para o moço: - ---Creio que está digno d'ella, e de mim! - -E sahiram calados. - -A noite estava muito escura: erguera-se um nordeste frio: gotas de -chuva tinham cahido. Ao Loreto, Julião parou subitamente; e exclamou: - ---Ai esquecia-me! Sabe a novidade, Conselheiro? A D. Felicidade -recolhe-se á Encarnação. - ---Ah! - ---Disse-m'o agora. Eu fui justamente vêl-a antes de ir vêr um doente á -rua da Rosa. Estava com uma febresita. Cousa de nada... A commoção; o -susto! E deu-me parte: recolhe-se ámanhã á Encarnação. - -O Conselheiro disse: - ---Sempre conheci n'aquella senhora idéas retrogradas. É o resultado das -manobras jesuiticas, meu amigo!--E ajuntou com a melancolia do liberal -descontente:--A reacção levanta a cabeça! - -Julião tomou familiarmente o braço do Conselheiro, e sorrindo: - ---Qual reacção! É por sua causa, ingrato... - -O Conselheiro estacou: - ---Que quer o meu nobre amigo insinuar? - ---Sim, homem! Não sei como diabo descobriu uma cousa grave... - ---O que? Acredite... - ---O que eu tambem descobri, seu maganão! Que o Conselheiro tem duas -travesseirinhas na cama, tendo só uma cabeça... Disse-m'o ella!--E -rindo muito, dizendo-lhe _adeus_! _adeus!_ desceu rapidamente a rua do -Alecrim. O Conselheiro ficou immovel, no largo, de braços cruzados, -como petrificado.--Que infeliz senhora! Que funesta paixão!--murmurou -emfim. E acariciou o bigode, com satisfação. - -Como tinha de passar a limpo o _Necrologio_ apressou-se a entrar -em casa. Abancou com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as -responsabilidades de prosador distrahiram-no das preoccupações -d'homem; e até às onze horas a sua bella letra cursiva e burocratica -desenrolou-se nobremente sobre uma larga folha de papel inglez, no -silencio do seu _Sanctus Sanctorum_. Terminava quando a porta rangeu, -e a Adelaide, com um chale forte pelos hombros, veio dizer, n'uma voz -constipada: - ---Então hoje não se faz néné? - ---Não tardo, minha Adelaide, não tardo! - -E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe então que o final não era -commovente: queria terminar por uma exclamação dolorosa, prolongada -como um _ai!_ Meditou, com os cotovêlos sobre a mesa, a cabeça entre os -dedos muito abertos: Adelaide então, chegando-se devagar, passou-lhe a -mão pela calva: aquelle dôce roçar amoroso fez de certo saltar a idéa -como uma faisca, porque tomou rapidamente a penna, e acrescentou: - ---«Chorai! Chorai! Em quanto a mim, a dôr suffoca-me!» - -Esfregou as mãos com orgulho. Repetiu alto n'um tom plangente: - ---«Chorai, Chorai, em quanto a mim, a dôr suffoca-me!»--E passando o -braço concupiscente pela cinta da Adelaide, exclamou: - ---Está de fazer sensação, minha Adelaide! - -Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fôra bem preenchido e digno: da -manhã certificára-se com regosijo no _Diario do Governo_, que a familia -real «passava sem novidade»; cumprira o dever d'amigo, acompanhando -Luiza aos Prazeres n'uma carruagem da Companhia; a alta das inscripções -assegurava-lhe a paz da sua patria; compozera uma prosa notavel; -a sua Adelaide amava-o! E de certo se deliciou na certeza d'estas -felicidades, que contrastavam tanto com as imagens sepulchraes que a -sua penna revolvera, porque Adelaide ouviu-o murmurar: - ---A vida é um bem inestimavel!--E acrescentar como bom -cidadão:--Sobretudo n'esta era de grande prosperidade publica! - -E entrou no quarto com a cabeça erecta, o peito cheio, os passos -firmes, erguendo alto o castiçal. - -A sua Adelaide seguia-o, bocejando; estava cançada da constipação -e--de uma hora de ternuras, que tivera á tardinha, com o louro e meigo -Arnaldo, caixeiro da _Loja da America_. - - -Áquella hora dous homens desciam d'uma carruagem á porta do Hotel -Central: um trazia uma _ulster_ de xadrez, o outro uma longa pelliça. -Um omnibus quasi ao mesmo tempo parou, carregado de bagagens. - -Um criado allemão, que conversava em baixo com o porteiro, -reconheceu-os logo, e tirando o côco: - ---Oh snr. D. Bazilio! Oh snr. visconde! - -O visconde Reynaldo, que batia os pés nas lages, rosnou de dentro da -sua pelliça: - ---É verdade, aqui estamos outra vez na possilga! - -Mas áquella hora? - ---A que horas queria vossê que chegassemos? Ás horas da tabella, -talvez! Doze horas d'atrazo, essa bagatella! Em Portugal é quasi nada... - ---Houve algum transtorno?--perguntava o criado com solicitude, -seguindo-os pela escada. - -E Reynaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor: - ---O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! -Abjecto paiz!...--E desabafava a sua cólera com o criado: tel-a-hia -desabafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bilis:--Ha -um anno que a minha oração é esta: Meu Deus, manda-lhe outra vez o -terromoto! Pois todos os dias leio os telegrammas a vêr se o terromoto -chegou... e nada! Algum ministro que cahe, ou algum barão que surge. -E de terremoto nada! O Omnipotente faz ouvidos de mercador ás minhas -preces... Protege o paiz! Tão bom é um como outro!--E sorria, vagamente -reconhecido a uma nação, cujos defeitos lhe forneciam tantas pilherias. - -Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou--que não havia -senão um salão e uma alcova com duas camas, no terceiro andar--a cólera -de Reynaldo não conheceu restricções: - ---Então havemos de dormir no mesmo quarto? Vossê pensa que o snr. D. -Bazilio é meu amante, seu devasso? Está tudo cheio? Mas quem diabo -se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente o que me -espanta!--E encolhendo os hombros com rancôr.--É o clima, é o clima -que os attrahe! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima -pestifero. Não ha nada mais reles de que um bom clima!... - -E não cessou d'invectivar o seu paiz, em quanto o criado á pressa, -sorrindo servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um -frango frio e Bourgogne. - -Reynaldo vinha vender a ultima propriedade, e acompanhára Bazilio que -voltava a terminar «o seccante negocio da borracha». E não cessava de -rosnar soturnamente de dentro da pelliça: - ---Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro! - -Bazilio não respondia. Desde que chegára a Santa Apolonia, recordações -do _Paraiso_, da casa de Luiza, de todo aquelle romance do verão -passado, começavam a voltar, a attrahil-o, com um encanto picante. Fôra -encostar-se á vidraça. Uma lua fria, livida, corria agora entre grossas -nuvens côr de chumbo: ás vezes uma grande malha luminosa cahia sobre a -agua, faiscava: depois tudo escurecia: vagas mastreações desenhavam-se -na obscuridade diffusa: e algum fanal de navio tremeluzia friamente. - ---Que fará ella a esta hora?--pensava Bazilio.--Naturalmente, -deitava-se... Mal sabia que elle estava alli, n'um quarto do Hotel -Central... - -Cearam. - -Bazilio levou a garrafinha de cognac para a cabeceira da cama: e com a -cara coberta de pó d'arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos -sobre o peito, muito estendido, soprando o fumo do charuto, gozava uma -lassidão confortavel. - ---E ámanhã estou-te d'aqui a vêr--disse Reynaldo.--Vaes-te logo metter -com a prima! - -Bazilio sorriu, o seu olhar errou um pouco pelo tecto; certas -recordações das bellezas d'ella, do seu temperamento amoroso, -trouxeram-lhe uma vaga voluptuosidade: espreguiçou-se.--Que -diabo!--disse--é uma linda rapariga! Vale immenso a pena!--Bebeu mais -um calice de cognac, e d'ahi a pouco dormia profundamente. Era meia -noite. - -Áquella hora Jorge acordava, e sentado n'uma cadeira, immovel, com -soluços cançados que ainda o sacudiam, pensava n'ella. Sebastião, no -seu quarto, chorava baixo. Julião, no Posto Medico, estendido n'um -sophá, lia a _Revista dos Dous Mundos_. Leopoldina dançava n'uma -_soirée_ da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria as -nuvens e agitava o gaz dos candieiros ia fazer ramalhar tristemente uma -arvore sobre a sepultura de Luiza. - - -D'ahi a dous dias pela manhã Bazilio, no Rocio, procurava, com o olhar -em redor, um _coupé_ decente. Mas o Pintéos, avistando-o de longe, -lançou logo a parelha. Cá está o Pintéos, meu amo! Parecia encantado de -tornar a vêr o snr. D. Bazilinho, e apenas elle lhe disse: - ---Lá acima, á Patriarchal, ó Pintéos! - ---A casa da senhora? Prompto, meu amo.--E endireitando-se na almofada, -bateu. - -Quando a tipoia parou á porta de Jorge--o Paula sahiu para a rua, a -estanqueira correu de dentro do balcão, a criada do doutor debruçou-se -logo na janella. E immoveis arregalavam os olhos. - -Bazilio tocára a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o -charuto, tornou a puxar o cordão com força. - ---As janellas estão trancadas, meu amo--disse o Pintéos. - -Bazilio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a -casa tinha um aspecto mudo. - -Bazilio dirigiu-se ao Paula: - ---Os senhores que alli moram, estão p'ra fóra? - ---Já não moram--disse o Paula soturnamente, passando a mão sobre o -bigode. - -Bazilio fixou-o, surprehendido d'aquella entonação funebre. - ---Onde vivem agora então? - -O Paula escarrou, e cravando em Bazilio um olhar desolado: - ---V. s.^a é o parente? - -Bazilio disse sorrindo: - ---Sou o parente, sou. - ---Então não sabe? - ---O quê, homem de Deus? - -O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabeça: - ---Pois sinto dizer-lh'o. A senhora morreu. - ---Que senhora?--perguntou Bazilio. E fez-se muito branco. - ---A senhora! A senhora D. Luiza, a mulher do snr. Carvalho, o -Engenheiro... E o snr. Jorge está em casa do snr. Sebastião. Alli ao -fim da rua. Se v. s.^a lá quer ir... - ---Não!--fez Bazilio com um gesto rapido da mão. Os beiços tremiam-lhe -um pouco.--Mas que foi? - ---Uma febre! Rapou-a em dous dias! - -Bazilio dirigiu-se ao _coupé_ devagar, com a cabeça baixa. Olhou mais -uma vez para a casa; fechou com força a portinhola. O Pintéos _bateu_ -p'ra a Baixa. - -O Paula então aproximou-se do estanque: - ---Não lhe fez muita móssa! Fidalgos! Canalha!--murmurou. - -A estanqueira disse lamentosamente: - ---Pois eu não sou parenta, e todas as noites lhe rezo dous padre-nossos -por alma... - ---E eu!--suspirou a carvoeira. - ---Ha-de-lhe isso servir de muito!--rosnou o Paula, afastando-se. - -Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquellas mortes na rua -traziam-no desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres! -e todas as noites lia a _Nação_ que lhe emprestava o Azevedo, -repastando-se com rancor d'artigos devotos, que o exasperavam, o -impelliam para o atheismo; e o descontentamento das cousas publicas -inclinava-o para a communa. Como elle dizia, achava tudo uma _porcaria_. - -Foi de certo sob este sentimento que, voltando á porta do estanque, -disse ás visinhas com um ar lugubre: - ---Sabem o que isto é? Sabem o que tudo isto é?--Fazia um gesto que -abrangia o universo. Fitou-as d'um modo irado, e rosnou esta palavra -suprema: - ---Um monte d'estrume! - - -Ao descer a rua do Alecrim, Bazilio viu o visconde Reynaldo á porta do -hotel _Street_. Mandou parar o Pintéos, e saltando do _coupé_: - ---Sabes? - ---O quê? - ---Minha prima morreu. - -O visconde Reynaldo murmurou polidamente: - ---Coitada!... - -E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro. O dia estava -glorioso; um friosinho subtil errava; no ar luminoso, leve, trespassado -de sol, as casas, os galhos das arvores, os mastros das faluas, as -mastreações dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os sons -sobresahiam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um -metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam a -côr do leite; e ao fundo as collinas faziam na pulverisação da luz uma -sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam. - -E os dous passeando devagar, iam fallando de Luiza. - -O visconde Reynaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que -se tinha deixado morrer por um tempo tão lindo!--Mas em resumo, sempre -achára aquella ligação absurda... - -Porque emfim fossem francos: que tinha ella? Não queria dizer mal «da -pobre senhora que estava n'aquelle horror dos Prazeres», mas a verdade -é que não era uma amante _chic_; andava em tipoias de praça; usava -meias de tear; casára com um reles individuo de secretaria; vivia numa -casinhola, não possuia relações decentes; jogava naturalmente o quino, -e andava por casa de sepatos d'ourello; não tinha espirito, não tinha -_toilette_... que diabo! Era um trambolho! - ---Para um ou dous meses que eu estivesse em Lisboa...--resmungou -Bazilio com a cabeça baixa. - ---Sim, p'ra isso talvez. Como hygiene!--disse Reynaldo com desdem. - -E continuaram calados, devagar. Riram-se muito d'um sujeito que passava -governando atarantadamente dous cavallos pretos:--Que phaeton! Que -arreios! Que estylo! Só em Lisboa!... - -Ao fundo do Aterro voltaram; e o visconde Reynaldo passando os dedos -pelas suiças: - ---De modo que estás sem mulher... - -Bazilio teve um sorriso resignado. E, depois d'um silencio, dando um -forte raspão no chão com a bengala: - ---Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine! - -E foram tomar Xerez á _Taverna Ingleza_. - - - Setembro 1876--Setembro 1877. - - -FIM - - - - -Lista de erros corrigidos - - -Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: - - - +----------+-------------------------+---------------------------+ - | | Original | Correcção | - +----------+-------------------------+---------------------------+ - |#pág. 84 | Luzia | Luiza | - |#pág. 130 | arrebitanto | arrebitando | - |#pág. 155 | com ha-de d'estar? | como ha-de d'estar? | - |#pág. 190 | pé dos portas | pé das portas | - |#pág. 194 | enternciam-no | enterneciam-no | - |#pág. 209 | Lepoldina | Leopoldina | - |#pág. 215 | lacas | lascas | - |#pág. 263 | concialibulo | conciliabulo | - |#pág. 267 | Luzinha | Luizinha | - |#pág. 316 | dsesperadamente | desesperadamente | - |#pág. 328 | eperança | esperança | - |#pág. 333 | batendo-lho | batendo-lhe | - |#pág. 337 | de de pé | de pé | - |#pág. 404 | Leolpodina | Leopoldina | - |#pág. 404 | prodigiosomente | prodigiosamente | - |#pág. 425 | Sabastião | Sebastião | - |#pág. 427 | engmomados | engommados | - |#pág. 430 | Leolpodina | Leopoldina | - |#pág. 456 | apparer | apparecer | - |#pág. 457 | Julão | Julião | - |#pág. 457 | ao ouvindo | ao ouvido | - |#pág. 472 | cousá | cousa | - |#pág. 477 | as palavra | as palavras | - |#pág. 482 | quizessse | quizesse | - |#pág. 494 | voltou dizer | voltou a dizer | - |#pág. 507 | apaixonado | apaixonada | - |#pág. 512 | d'aqulla | d'aquella | - |#pág. 521 | susurrro | susurro | - |#pág. 558 | illsuões | illusões | - +----------+-------------------------+---------------------------+ - -Não existem os capítulo XI e XIV nesta obra: -Não havendo interrupção na paginação respeitámos a ordem da obra original. - -A página 525 surge no original como 425. Corrigimos para 525 para manter -a ordem (após verificação que não se tratava de uma página fora de sítio). - - - - - -End of Project Gutenberg's O Primo Bazilio, by José Maria Eça de Queirós - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMO BAZILIO *** - -***** This file should be named 42942-8.txt or 42942-8.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/4/2/9/4/42942/ - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões -and the Online Distributed Proofreading Team at -http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal).) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions -will be renamed. - -Creating the works from public domain print editions means that no -one owns a United States copyright in these works, so the Foundation -(and you!) can copy and distribute it in the United States without -permission and without paying copyright royalties. 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Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. 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