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-The Project Gutenberg EBook of O Primo Bazilio, by José Maria Eça de Queirós
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
-almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org
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-
-Title: O Primo Bazilio
- Episodio Domestico
-
-Author: José Maria Eça de Queirós
-
-Release Date: June 13, 2013 [EBook #42942]
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-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMO BAZILIO ***
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-
-Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brandão Simões
-and the Online Distributed Proofreading Team at
-http://www.pgdp.net (This file was produced from images
-generously made available by National Library of Portugal
-(Biblioteca Nacional de Portugal).)
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- *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste
- texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso
- de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
- deste livro encontrará a lista de erros corrigidos.
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- Rita Farinha (Junho 2013)
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-O PRIMO BAZILIO
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-PORTO: TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA
-Rua da Cancella Velha, 70
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-[Figura: Assinatura]
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-EÇA DE QUEIROZ
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-O PRIMO BAZILIO
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-EPISODIO DOMESTICO
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-SEGUNDA EDIÇÃO, REVISTA
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-[Figura]
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-LIVRARIA INTERNACIONAL
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-DE
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-ERNESTO CHARDRON
-Porto
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-EUGENIO CHARDRON
-Braga
-
-1878
-
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-
-Porto: 1878--Typ. do A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62
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-
-O PRIMO BAZILIO
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-
-I
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-
-Tinham dado onze horas no _cuco_ da sala de jantar. Jorge fechou o
-volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na
-velha _voltaire_ de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse:
-
---Tu não te vaes vestir, Luiza?
-
---Logo.
-
-Ficára sentada á mesa, a lêr _o Diario de Noticias_, no seu roupão de
-manhã de fazenda preta, bordado a _soutache_, com largos botões de
-madreperola; o cabello louro um pouco desmanchado, com um tom secco do
-calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina,
-de perfil bonito; a sua pelle tinha a brancura tenra e lactea das
-louras: com o cotovêlo encostado á mesa acariciava a orelha, e, no
-movimento lento e suave dos seus dedos, dous anneis de rubis miudinhos
-davam scintillações escarlates.
-
-Tinham acabado d'almoçar.
-
-A sala esteirada, alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a
-branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um
-domingo: fazia um grande calor; as duas janellas estavam cerradas, mas
-sentia-se fóra o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda;
-havia o silencio recolhido e somnolento de manhã de missa; uma vaga
-_quebreira_ amollentava, trazia desejos de séstas, ou de sombras fôfas
-debaixo d'arvoredos, no campo, ao pé d'agua; nas duas gaiolas, entre
-as bambinellas de cretone azulado, os canarios dormiam; um zumbido
-monotono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das
-chavenas sobre o assucar mal derretido, enchia toda a sala d'um rumor
-dormente.
-
-Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa
-de chita, sem collete, o jaquetão de flanella azul aberto, os olhos
-no tecto, pôz-se a pensar na sua jornada ao Alemtejo. Era engenheiro
-de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Evora, mais
-para o sul até S. Domingos; e aquella jornada, em julho, contrariava-o
-como uma interrupção, affligia-o como uma injustiça. Que massada
-por um verão d'aquelles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto d'um
-cavallo d'aluguel, por esses descampados do Alemtejo que não acabam
-nunca, cobertos d'um rastolho escuro, abafados n'um sol baço, onde os
-moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo
-cozido, ouvindo em redor, na escuridão da noite torrida, grunhir as
-varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janellas, passar
-no ar o bafo quente das queimadas! E só!
-
-Tinha estado até então no ministerio, em commissão. Era a primeira vez
-que se separava de Luiza; e perdia-se já em saudades d'aquella salinha,
-que elle mesmo ajudára a forrar de papel novo nas vesperas do seu
-casamento, e onde, depois das felicidades da noite, os seus almoços se
-prolongavam em tão suaves preguiças!
-
-E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se
-demorando, com uma ternura, n'aquelles moveis intimos, que eram do
-tempo da mamã: o velho guarda-louça envidraçado, com as pratas muito
-tratadas a gesso-cré, resplandecendo decorativamente; o velho painel a
-oleo, tão querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam,
-n'um fundo lascado, os tons avermelhados de cobre d'um bojo de
-cassarola e os rosados desbotados d'um mólho de rabanetes! Defronte, na
-outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido á moda de 1830,
-tinha a physionomia redonda, o olho luzidio, o beiço sensual; e sobre a
-sua casaca abotoada reluzia a commenda de Nossa Senhora da Conceição.
-Fôra um antigo empregado do ministerio da fazenda, muito divertido,
-grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mamã affirmava-lhe
-«que o retrato só lhe faltava fallar». Vivera sempre n'aquella casa com
-sua mãi. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz afilado,
-muito apprehensiva; bebia ao jantar agua quente; e ao voltar um dia do
-lausperenne da Graça, morrera de repente, sem um ai!
-
-Physicamente Jorge nunca se parecera com ella. Fôra sempre robusto,
-d'habitos viris. Tinha os dentes admiraveis de seu pai, os seus hombros
-fortes.
-
-De sua mãi herdára a placidez, o genio manso. Quando era estudante
-na Polytechnica, ás 8 horas recolhia-se, accendia o seu candieiro
-de latão, abria os seus compendios. Não frequentava botequins, nem
-fazia noitadas. Só duas vezes por semana, regularmente, ia vêr uma
-rapariguita costureira, a Euphrasia, que vivia ao Borratem, e nos dias
-em que o Brazileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia
-Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era engeitada,
-e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado d'uma
-pontinha de febre. Jorge achava-a _romanesca_, e censurava-lh'o. Elle,
-nunca fôra sentimental: os seus condiscipulos, que liam Alfred de
-Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe
-_proseirão, burguez_: Jorge ria; não lhe faltava um botão nas camisas,
-era muito escarolado, admirava Luiz Figuier, Bastiat e Castilho, tinha
-horror a dividas, e sentia-se feliz.
-
-Quando sua mãi morreu, porém, começou a achar-se só: era no inverno,
-e o seu quarto nas trazeiras da casa, ao sul, um pouco desamparado,
-recebia as rajadas do vento na sua prolongação uivada e triste;
-sobretudo á noite, quando estava debruçado sobre o compendio, os pés no
-capacho, vinham-lhe melancolias languidas; estirava os braços, com o
-peito cheio d'um desejo; quereria enlaçar uma cinta fina e dôce, ouvir
-na casa o frou-frou d'um vestido! Decidiu casar. Conheceu Luiza, no
-verão, á noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabellos louros,
-pela sua maneira d'andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No
-inverno seguinte foi despachado, e casou. Sebastião, o seu intimo, o
-bom Sebastião, o Sebastiarrão, tinha dito, com uma oscillação grave da
-cabeça, esfregando vagarosamente as mãos:
-
---Casou no ar! casou um bocado no ar!
-
-Mas Luiza, a Luizinha, sahiu muito boa dona de casa: tinha cuidados
-muito sympathicos nos seus arranjos; era aceada, alegre como um
-passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das caricias do macho:
-e aquelle serzinho louro e meigo veio dar á sua casa um encanto serio.
-
---É um anjinho cheio de dignidade!--dizia então Sebastião, o bom
-Sebastião, com a sua voz profunda de _basso_.
-
-Estavam casados havia tres annos. Que bom que tinha sido! Elle proprio
-melhorára; achava-se mais intelligente, mais alegre... E recordando
-aquella existencia facil e dôce, soprava o fumo do charuto, a perna
-traçada, a alma dilatada, sentindo-se tão bem na vida como no seu
-jaquetão de flanella!
-
---Ah!--fez Luiza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo.
-
---Que é?
-
---É o primo Bazilio que chega!
-
-E leu alto, logo:
-
-«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordeus, o snr. Bazilio
-de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. S. exc.^a que, como é
-sabido, tinha partido para o Brazil, onde se diz reconstituira a sua
-fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o
-começo do anno passado. A sua volta á capital é um verdadeiro jubilo
-para os amigos de s. exc.^a que são numerosos».
-
---E são!--disse Luiza, muito convencida.
-
---Estimo, coitado!--fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma
-da mão.--E vem com fortuna, hein?
-
---Parece.
-
-Olhou os annuncios, bebeu um gole de chá, levantou-se, foi abrir uma
-das portadas da janella.
-
---Oh Jorge, que calor que lá vai fóra, santo Deus!--Batia as palpebras
-sob a radiação da luz crua e branca.
-
-A sala, nas trazeiras da casa, dava para um terreno vago, cercado d'um
-taboado baixo, cheio d'hervas altas e d'uma vegetação d'acaso; aqui,
-alli, n'aquella verdura crestada do verão, largas pedras faiscavam,
-batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada
-no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem immovel, que, na
-brancura da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para além eram as
-trazeiras d'outras casas, com varandas, roupas seccando em cannas,
-muros brancos de quintaes, arvores esguias. Uma vaga poeira embaciava,
-tornava espesso o ar luminoso.
-
---Cahem os passaros!--disse ella cerrando a janella.--Olha tu pelo
-Alemtejo, agora!
-
-Veio encostar-se á _voltaire_ de Jorge, passou-lhe lentamente a
-mão sobre o cabello preto e annelado. Jorge olhou-a, triste já da
-separação: os dous primeiros botões do seu roupão estavam desapertados;
-via-se o começo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da
-camisa: muito castamente Jorge abotoou-lh'os.
-
---E os meus colletes brancos?--disse.
-
---Devem estar promptos.
-
-Para se certificar chamou Juliana.
-
-Houve um ruido domingueiro de saias engommadas, Juliana entrou,
-arranjando nervosamente o collar e o broche. Devia ter quarenta
-annos, era muitissimo magra. As feições, miudas, espremidas, tinham a
-amarellidão de tons baços das doenças de coração. Os olhos grandes,
-encovados, rolavam n'uma inquietação, n'uma curiosidade, raiados de
-sangue, entre palpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de
-retroz imitando tranças, que lhe fazia a cabeça enorme. Tinha um _tic_
-nas azas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda,
-tufado pela gomma das saias--mostrava um pé pequeno, bonito, muito
-apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz.
-
-Os colletes não estavam promptos, disse com uma voz muito lisboeta, não
-tivera tempo de os metter em gomma.
-
---Tanto lhe recommendei, Juliana!--disse Luiza.--Bem, vá. Veja como se
-arranja! Os colletes hão-de ficar á noite na mala!
-
-E apenas ella sahiu:
-
---Estou a tomar odio a esta creatura, Jorge!
-
-Ha dous mezes que a tinha em casa, e não se podera acostumar á sua
-fealdade, aos seus tregeitos, á maneira aflautada de dizer _chapieu_,
-_tisoiras_, de arrastar um pouco os _rr_, ao ruido dos seus tacões que
-tinham laminasinhas de metal: ao domingo, a cuia, o pretencioso do pé,
-as luvas de pellica preta arripiavam-lhe os nervos.
-
---Que antipathica!
-
-Jorge ria:
-
---Coitada, é uma pobre de Christo!--E depois que engommadeira
-admiravel! No ministerio examinavam com espanto os seus peitilhos!--O
-Julião diz bem, eu não ando engommado, ando esmaltado! Não é
-sympathica, não, mas é aceada, é apropositada...
-
-E levantando-se, com as mãos nos bolsos das suas largas calças de
-flanella:
-
---E, emfim, minha filha, a maneira como ella se portou na doença da tia
-Virginia... Foi um anjo para ella!--Repetiu com solemnidade:--De dia,
-de noite, foi um anjo para ella! Estamos-lhe em divida, minha filha!--E
-começou a enrolar um cigarro, com a physionomia muito séria.
-
-Luiza, calada, fazia saltar com a pontinha da chinella a orla do
-roupão; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida,
-poz-se a dizer:
-
---Mas emfim, se eu embirro com ella, não me importa, posso bem mandal-a
-embora.
-
-Jorge parou, e raspando um phosphoro na sola do sapato:
-
---Se eu consentir, minha rica. É que é uma questão de gratidão, para
-mim!
-
-Ficaram calados. O _cuco_ cantou meio dia.
-
---Bem, vou á vida--disse Jorge. Chegou-se ao pé d'ella, tomou-lhe a
-cabeça entre as mãos.
-
---Viborasinha!--murmurou, fitando-a muito meigamente.
-
-Ella riu. Ergueu para elle os seus magnificos olhos castanhos,
-luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, poz-lhe sobre as palpebras
-dous beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice:
-
---Queres alguma cousa de fóra, amor?
-
-Que não viesse muito tarde.
-
-Ia deixar uns bilhetes, ia n'uma tipoia, era um pulo...
-
-E sahiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barytono:
-
- Dio del oro,
- Del mondo signor.
- La la ra, la ra.
-
-Luiza espreguiçou-se. Que sécca ter de se ir vestir! Desejaria estar
-n'uma banheira de marmore côr de rosa, em agua tepida, perfumada,
-e adormecer! Ou n'uma rede de sêda, com as janellas cerradas,
-embalar-se, ouvindo musica! Sacudiu a chinellinha: esteve a olhar
-muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias
-azues, pensando n'uma infinidade de cousinhas:--em meias de sêda que
-queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em tres
-guardanapos que a lavadeira perdera...
-
-Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço, foi buscar
-ao aparador por detraz d'uma compota um livro um pouco enxovalhado,
-veio estender-se na _voltaire_, quasi deitada, e, com o gesto
-acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a lêr, toda
-interessada.
-
-Era a _Dama das Camelias_. Lia muitos romances; tinha uma assignatura,
-na Baixa, ao mez. Em solteira, aos 18 annos, enthusiasmára-se por
-Walter-Scott e pela Escocia; desejára então viver n'um d'aquelles
-castellos escocezes, que teem sobre as ogivas os brazões da _clan_,
-mobilados com arcas gothicas e tropheus d'armas, forrados de largas
-tapecerias, onde estão bordadas legendas heroicas, que o vento do
-lago agita e faz viver: e amára Ervandálo, Morton e Ivanhoé, ternos
-e graves, tendo sobre o gorro a penna d'aguia, presa ao lado pelo
-cardo d'Escocia d'esmeraldas e diamantes. Mas agora era o _moderno_
-que a captivava, Paris, as suas mobilias, as suas sentimentalidades.
-Ria-se dos trovadores, exaltára-se por Mr. de Camors; e os homens
-ideaes appareciam-lhe de gravata branca, nas hombreiras das salas de
-baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras
-sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier: o
-seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia ennevoada: via-a alta e magra,
-com o seu longo chale de cachemira, os olhos negros cheios da avidez da
-paixão e dos ardores da tisica; nos nomes mesmo do livro--Julia Duprat,
-Armando, Prudencia, achava o sabor poetico d'uma vida intensamente
-amorosa; e todo aquelle destino se agitava, como n'uma musica triste,
-com ceias, noites delirantes, afflicções de dinheiro, e dias de
-melancolia no fundo d'um coupé, quando nas avenidas do Bois, sob um céo
-pardo e elegante, silenciosamente cahem as primeiras neves.
-
---Até logo, Zizi--gritou Jorge do corredor, ao sahir.
-
---Olha!
-
-Elle veio, com a bengala debaixo do braço, apertando as luvas.
-
---Não appareças muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns bolos do
-Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. Vê se passas pela madame
-François que me mande o chapéo. Escuta.
-
---Que mais, bom Deus?
-
---Ah! não! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances...
-Mas está fechado!
-
-
-
-Foi com duas lagrimas a tremer-lhe nas palpebras que acabou as paginas
-da _Dama das Camelias_. E estendida na _voltaire_, com o livro cahido
-no regaço, fazendo recuar a pellicula das unhas, pôz-se a cantar
-baixinho, com ternura, a aria final da _Traviata_:
-
- Addio, del passato...
-
-Lembrou-lhe de repente a noticia do jornal, a chegada do primo
-Bazilio...
-
-Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios.--Fôra
-o seu primeiro namoro, o primo Bazilio! Tinha ella então 18 annos!
-Ninguem o sabia, nem Jorge, nem Sebastião...
-
-De resto fôra uma criancice: ella mesmo, ás vezes, ria, recordando
-as pieguices ternas d'então, certas lagrimas exageradas! Devia estar
-mudado o primo Bazilio. Lembrava-se bem d'elle--alto, delgado, um
-ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e
-um geito de metter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar
-o dinheiro e as chaves! _Aquillo_ começára em Cintra, por grandes
-partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio João de Brito,
-em Collares. Bazilio tinha chegado então d'Inglaterra: vinha muito
-_bife_, usava gravatas escarlates passadas n'um annel d'ouro, fatos
-de flanella branca, espantava Cintra! Era na sala de baixo pintada a
-oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma grande porta envidraçada
-abria para o jardim, sobre tres degraus de pedra. Em roda do repuxo
-havia romanzeiras, onde elle apanhava flôres escarlates. A folhagem
-verde-escura e polida dos arbustos de camelias fazia ruasinhas
-sombrias; pedaços de sol faiscavam, tremiam na agua do tanque; duas
-rôlas, n'uma gaiola de vime, arrulhavam dôcemente;--e, no silencio
-aldeão da quinta, o ruido secco das bolas de bilhar tinha um tom
-aristocratico.
-
-Depois, vieram todos os episodios classicos dos amores lisboetas
-passados em Cintra: os passeios em Sitiaes ao luar, devagar,
-sobre a relva pallida, com grandes descanços calados no Penedo da
-Saudade, vendo o valle, as arêas ao longe, cheias d'uma luz saudosa,
-idealisadora e branca; as séstas quentes, nas sombras da Penha Verde,
-ouvindo o rumor fresco e gottejante das aguas que vão de pedra em
-pedra; as tardes na varzea de Collares, remando n'um velho bote, sobre
-a agua escura da sombra dos freixos,--e que risadas quando iam encalhar
-nas hervagens altas, e o seu chapéo de palha se prendia aos ramos
-baixos dos choupos!
-
-Sempre gostára muito de Cintra! Logo ao entrar os arvoredos escuros e
-murmurosos do Ramalhão lhe davam uma melancolia feliz!
-
-Tinham muita liberdade, ella e o primo Bazilio. A mamã, coitadinha,
-toda scismatica, com rheumatismo, egoista, deixava-os, sorria,
-dormitava: Bazilio era rico, então, chamava-lhe tia Jójó, trazia-lhe
-cartuchos de dôce...
-
-Veio o inverno, e aquelle amor foi-se abrigar na velha sala forrada
-de papel _sangue-de-boi_ da rua da Magdalena. Que bons serões alli! A
-mamã resonava baixo, com os pés embrulhados n'uma manta, o volume da
-_Bibliotheca das Damas_ cahido sobre o regaço. E elles, muito chegados,
-muito felizes no sophá! O _sophá_! Quantas recordações! Era estreito e
-baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro, bordada por
-ella, amores perfeitos amarellos e roxos sobre um fundo negro. Um dia
-veio o _final_. João de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito,
-falliu. A casa d'Almada, a quinta de Collares foram vendidas.
-
-Bazilio estava pobre, partiu para o Brazil. Que saudades! Passou
-os primeiros dias sentada no sophá querido, soluçando baixo, com a
-photographia d'elle entre as mãos. Vieram então os sobresaltos das
-cartas esperadas, os recados impacientes ao escriptorio da Companhia,
-quando os paquetes tardavam...
-
-Passou um anno. Uma manhã, depois d'um grande silencio de Bazilio,
-recebeu da Bahia uma longa carta, que começava: «Tenho pensado muito e
-entendo que devemos considerar a nossa inclinação como uma criancice...»
-
-Desmaiou logo. Bazilio affectava muita dôr em duas laudas cheias
-d'explicações: que estava ainda pobre; que teria de luctar muito antes
-de ter para dous; o clima era horrivel; não a queria sacrificar, pobre
-anjo; chamava-lhe minha «pomba» e assignava o seu nome todo, com uma
-firma complicada.
-
-Viveu triste durante mezes. Era no inverno; e sentada á janella, por
-dentro dos vidros, com o seu bordado de lã, julgava-se desilludida,
-pensava no convento, seguindo com um olhar melancolico os guarda-chuvas
-gottejantes que passavam sob as cordas d'agua; ou sentando-se ao piano,
-ao anoitecer, cantava Soares de Passos:
-
- Ai! adeus, acabaram-se os dias
- Que ditoso vivi a teu lado...
-
-ou o final da _Traviata_, ou o fado do Vimioso, muito triste, que elle
-lhe ensinára.
-
-Mas então o catarrho da mamã aggravou-se; vieram os sustos, as noites
-veladas. Na convalescença foram para Bellas: ligou-se alli muito com
-as Cardosos, duas irmãs magras, estouvadas e esguias, sempre colladas
-uma á outra, com um passinho trotado e secco, como um casal de galgos.
-O que riam, Jesus! O que fallavam dos homens! Um tenente de artilheria
-tinha-se apaixonado por ella. Era vesgo, mandou-lhe uns versos, _Ao
-Lyrio de Bellas_:
-
- Sobre a encosta da collina
- Cresce o lyrio virginal...
-
-Foi um tempo muito alegre, cheio de consolações.
-
-Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas côres. E um
-dia, tendo achado n'uma gaveta uma photographia que logo ao principio
-Bazilio lhe mandára da Bahia, de calça branca e chapéo _panamá_,
-fitou-a, encolhendo os hombros:
-
---E o que eu me ralei por esta figura! Que tôla!
-
-Tinham passado tres annos quando conheceu Jorge. Ao principio não lhe
-agradou. Não gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a
-primeira barba, fina, rente, muito macia de certo; começou a admirar
-os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao pé d'elle como
-uma fraqueza, uma dependencia e uma quebreira, uma vontade d'adormecer
-encostada ao seu hombro, e de ficar assim muitos annos, confortavel,
-sem receio de nada. Que sensação quando elle lhe disse: Vamos casar,
-hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios,
-sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu! Fez-se escarlate. Jorge
-tinha-lhe tomado a mão: ella sentia o calor d'aquella palma larga
-penetral-a, tomar posse d'ella: disse que _sim_, ficou como idiota,
-e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se dôcemente os seus
-seios. Estava noiva, emfim! Que alegria, que descanço para a mamã!
-
-Casaram ás oito horas, n'uma manhã de nevoeiro. Foi necessario
-accender luz para lhe pôr a corôa e o véo de tulle. Todo aquelle dia
-lhe apparecia como ennevoado, sem contornos, á maneira d'um sonho
-antigo--onde destacava a cara balofa e amarellada do padre, e a figura
-medonha d'uma velha, que estendia a mão adunca, com uma sofreguidão
-colerica, empurrando, rogando pragas, quando, á porta da igreja,
-Jorge commovido distribuia patacos. Os sapatos de setim apertavam-na.
-Sentira-se enjoada da madrugada, fôra necessario fazer-lhe chá verde
-muito forte. E tão cançada á noite n'aquella casa nova, depois de
-desfazer os seus bahus!--Quando Jorge apagou a véla, com um sopro
-tremulo, SS luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos olhos.
-
-Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre: pôz-se a
-adoral-o. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas
-cousas, mexia-lhe no cabello, na roupa, nas pistolas, nos papeis.
-Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho
-n'elle. Jorge envolvia-a em delicadezas d'amante, ajoelhava-se
-aos seus pés, era muito _dengueiro_. E sempre de bom humor, com
-muita graça: mas nas cousas da sua profissão ou do seu brio tinha
-severidades exageradas, e punha então nas palavras, nos modos uma
-solemnidade carrancuda. Uma amiga d'ella romanesca, que via em tudo
-dramas, tinha-lhe dito: é homem para te dar uma punhalada. Ella que
-não conhecia ainda então o temperamento placido de Jorge acreditou,
-e isso mesmo creou uma exaltação no seu amor por elle. Era o seu
-_tudo_,--a sua força, o seu fim, o seu destino, a sua religião, o
-seu homem!--Pôz-se a pensar, o que teria succedido se tivesse casado
-com o primo Basilio. Que desgraça, hein! Onde estaria? Perdia-se em
-supposições d'outros destinos, que se desenrolavam, como pannos de
-theatro: via-se no Brazil, entre coqueiros, embalada n'uma rede,
-cercada de negrinhos, vendo voar papagaios!
-
---Está alli a snr.^a D. Leopoldina--veio dizer Juliana.
-
-Luiza ergueu-se surprehendida.
-
---Hein? A snr.^a D. Leopoldina? Para que mandou entrar?
-
-Poz-se a abotoar á pressa o roupão. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Elle
-que lhe tinha dito tantas vezes «que a não queria em casa!» Mas se já
-estava na sala, agora, coitada!
-
---Está bom, diga-lhe que já vou.
-
-Era a sua intima amiga. Tinham sido visinhas, em solteiras, na rua
-da Magdalena, e estudado no mesmo collegio, á Patriarchal, na Rita
-Pessoa, a côxa. Leopoldina era a filha unica do visconde de Quebraes,
-o devasso, o cachetico, que fôra pagem de D. Miguel. Tinha feito
-um casamento infeliz com um João Noronha, empregado da alfandega.
-Chamavam-lhe a «Quebraes»; chamavam-lhe tambem a «Pão e queijo».
-
-Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vicios. Jorge odiava-a.
-E dissera muitas vezes a Luiza: Tudo, menos a Leopoldina!
-
-
-
-Leopoldina tinha então vinte e sete annos. Não era alta, mas passava
-por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos
-muito collados, com uma justeza que accusava, modelava o corpo como uma
-pellica, sem largueza de roda, apanhados atraz. Dizia-se d'ella, com
-os olhos em alvo: é uma estatua, é uma Venus! Tinha hombros de modêlo,
-d'uma redondeza descahida e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo
-através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas bellas metades
-de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes
-de cintura faziam voltar os olhares accesos dos homens. A cara era um
-pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na
-pelle, muito fina, d'um trigueiro quente e córado, havia signaesinhos
-desvanecidos d'antigas bexigas. A sua belleza eram os olhos, d'uma
-negrura intensa, afogados n'um fluido, muito _quebrados_, com grandes
-pestanas.
-
-Luiza veio para ella com os braços abertos, beijaram-se muito. E
-Leopoldina, sentada no sophá, enrolando devagarinho a sêda clara
-do guarda-sol, começou a queixar-se: Tinha estado adoentada, muito
-seccada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ella feito?
-Achava-a mais gorda.
-
-Como era um pouco curta de vista, para se affirmar piscava ligeiramente
-os olhos, descerrando os beiços gordinhos, d'um vermelho calido.
-
---A felicidade dá tudo, até boas côres!--disse, sorrindo.
-
-O que a trazia era perguntar-lhe a morada da franceza que lhe fazia os
-chapéos. E ha tanto tempo que a não via, já tinha saudades, tambem!
-
---Mas não imaginas! Que calor! Venho morta.
-
-E deixou-se cahir sobre a almofada do sophá, encalmada, com um sorriso
-aberto, mostrando os dentes brancos e grandes.
-
-Luiza disse-lhe a morada da franceza, gabou-lh'a; era barateira e
-tinha bom gosto. Como a sala estava escura foi entre-abrir um pouco
-as portadas da janella. Os estofos das cadeiras e as bambinellas eram
-de reps verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens
-tinham o mesmo tom, e n'aquella decoração sombria destacavam muito--as
-molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a _Medea_ de Delacroix e
-a _Martyr_ de Delaroche), as encadernações escarlates dos dois vastos
-volumes do Dante de G. Doré, e entre as janellas o oval d'um espelho
-onde se reflectia um napolitano de _biscuit_ que, na console, dançava a
-_tarantella_.
-
-Por cima do sophá pendia o retrato da mãi de Jorge, a oleo. Estava
-sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete
-espartilhado e secco: uma das mãos, d'um livido morto, pousava nos
-joelhos sobrecarregada d'anneis; a outra perdia-se entre as rendas
-muito trabalhadas d'um mantelete de setim; e aquella figura longa,
-macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre uma
-cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando
-vêr para além céos azulados e redondezas d'arvoredos.
-
---E teu marido?--perguntou Luiza, vindo sentar-se muito junto de
-Leopoldina.
-
---Como sempre. Pouco divertido--respondeu, rindo. E, com um ar serio, a
-testa um pouco franzida:--Sabes que acabei com o Mendonça?
-
-Luiza fez-se ligeiramente vermelha.
-
---Sim?
-
-Leopoldina deu logo detalhes.
-
-Era muito indiscreta, fallava muito de si, das suas sensações, da
-sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luiza; e na
-sua necessidade de fazer confidencias, de gozar a admiração d'ella,
-descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões d'elles, as maneiras
-d'amar, os _tics_, a roupa, com grandes exagerações! Aquillo era
-sempre muito picante, cochichado ao canto d'um sophá, entre risinhos:
-Luiza costumava escutar, toda interessada, as maçãs do rosto um pouco
-envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava tão
-curioso!
-
---D'esta vez é que bem posso dizer que me enganei, minha rica
-filha!--exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente.
-
-Luiza riu.
-
---Tu enganas-te quasi sempre!
-
-Era verdade! Era infeliz!
-
---Que queres tu? De cada vez imagino que é uma paixão, e de cada vez me
-sahe uma massada!
-
-E picando o tapete com a ponta da sombrinha:
-
---Mas se um dia acerto!
-
---Vê se acertas--disse Luiza.--Já é tempo!
-
-Ás vezes na sua consciencia achava Leopoldina «indecente»; mas tinha
-um fraco por ella: sempre admirára muito a belleza do seu corpo, que
-quasi lhe inspirava uma attracção physica. Depois desculpava-a: era tão
-infeliz com o marido! Ia atraz da Paixão, coitada! E aquella grande
-palavra, faiscante e mysteriosa, d'onde a felicidade escorre como a
-agua d'uma taça muito cheia, satisfazia Luiza como uma justificação
-sufficiente: quasi lhe parecia uma heroina; e olhava-a com espanto como
-se consideram os que chegam d'alguma viagem maravilhosa e difficil,
-d'episodios excitantes. Só não gostava de certo cheiro de tabaco
-misturado de _feno_, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava.
-
---E que fez elle, o Mendonça?
-
-Leopoldina encolheu os hombros, com um grande tedio:
-
---Escreveu-me uma carta muito tôla, que a final bem considerado era
-melhor que acabasse tudo, porque não estava para se metter em camisa
-d'onze varas! Que imbecil! Até devo ter aqui a carta.
-
-Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha,
-chaves, uma caixinha de pó de arroz; mas encontrou apenas um programma
-do _Price_.
-
-Fallou então do circo.--Uma semsaboria. O melhor era um rapaz que
-trabalhava no trapezio. Lindo rapaz, bem feito, uma perfeição!
-
-E de repente:
-
---Então teu primo Bazilio chega?
-
---Assim li hoje no _Diario de Noticias_. Fiquei pasmada!
-
---Ah! outra cousa que te queria perguntar antes que me esqueça. Com que
-guarneceste tu aquelle teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer
-um assim.
-
-Tinha-o guarnecido d'azul tambem, um azul mais escuro.--Vem vêr. Vem cá
-dentro.
-
-Entraram no quarto. Luiza foi descerrar a janella, abrir o
-guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com _cretones_
-d'um azul pallido. Tinha um tapete barato, de fundo branco, com
-desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janellas,
-sob um docel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre
-as bambinellas, em mesas redondas de pé de gallo, plantas espessas,
-Begonias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e
-forte, em vasos de barro vermelho vidrado.
-
-Aquelles arranjos confortaveis lembraram de certo a Leopoldina
-felicidades tranquillas. Pôz-se a dizer devagar, olhando em roda:
-
---E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hein? Fazes bem, filha,
-tu é que fazes bem!
-
-Foi defronte do toucador, applicar pó d'arroz no pescoço, nas faces:
-
---Tu é que fazes bem!--repetia--Mas vá lá uma mulher prender-se a um
-homem como o meu!
-
-Sentou-se na _causeuse_ com um ar muito abandonado; vieram as queixas
-habituaes sobre seu marido: era tão grosseiro! era tão egoista!
-
---Acreditarás que ha tempos para cá, se não estou em casa ás quatro
-horas, não espera, põe-se á mesa, janta, deixa-me os restos! E depois
-desleixado, enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras... O quarto
-d'elle--nós temos dous quartos, como tu sabes--é um chiqueiro!
-
-Luiza disse com severidade:
-
---Que horror! A culpa tambem é tua.
-
---Minha!--e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos, mais
-negros.--Não me faltava mais nada senão occupar-me do quarto do homem!
-
-Ah! era muito desgraçada, era a mulher mais desgraçada que havia no
-mundo!
-
---Nem ciumes tem, o bruto!
-
-Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o collar e o broche:
-
---A senhora sempre quer que engomme os colletes todos?
-
---Todos, já lhe disse. Hão-de ficar á noite na mala antes de se ir
-deitar.
-
---Que mala? Quem parte?--perguntou Leopoldina.
-
---O Jorge. Vai ás minas, ao Alemtejo.
-
---Então estás só, posso vir vêr-te! Ainda bem!
-
-E sentou-se logo ao pé d'ella, com um olhar que se fizera dôce.
-
---É que tenho tanto que te contar! Se tu soubesses, filha!
-
---O quê? Outra paixão?--fez Luiza rindo.
-
-A face de Leopoldina tornou-se grave.
-
-Não era p'ra rir. Estava de todo! Era por isso até que tinha vindo.
-Sentira-se tão só em casa, tão nervosa!--Vou até Luiza, vou palrar um
-bocado!
-
-E com a voz mais baixa, quasi solemne:
-
---D'esta vez é serio, Luiza!--Deu os detalhes. Era um rapaz alto,
-louro, lindo! E que talento! É poeta!--Dizia a palavra com devoção,
-prolongando o som das syllabas.--É poeta!
-
-Desapertou devagar dous botões do corpete, tirou do seio um papel
-dobrado. Eram versos.
-
-E muito chegada para Luiza, com as narinas dilatadas pela delicia da
-sensação, leu baixo, com orgulho, com pompa:
-
-
-A TI
-
- _Pharol da Guia, 5 de junho._
-
- Quando scismo á hora do poente
- Sobre os rochedos onde brame o mar...
-
-Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplações
-em que a via a ella, Leopoldina, _visão radiosa que deslisas leve_,
-nas aguas dormentes, nas vermelhidões do occaso, na brancura das
-espumas. Era uma composição delambida, d'um sentimentalismo reles, com
-um ar tisico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E terminando
-dizia-lhe, que não era «nos esplendores das salas» ou nos «bailes
-febricitantes» que gostava de a vêr: era alli, n'aquelles rochedos,
-
- Onde todos os dias ao sol posto
- Eu vejo adormecer o mar gigante.
-
---Que bonito, hein!
-
-Ficaram caladas, com uma commoçãosinha.
-
-Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente:
-
---Pharol da Guia, 5 de junho!
-
-Mas o relogio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo,
-atarantada, metteu o poema no seio.
-
-Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro, punha-se á mesa.
-Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a cousa mais
-estupida!
-
---Adeus. Até breve, não?--E agora que Jorge ia para fóra, havia de vir
-muito.--Adeus. Então a franceza, rua do Ouro, por cima do estanque?
-
-Luiza foi com ella até ao patamar. Leopoldina já no fundo da escada,
-ainda parou, gritou:
-
---Sempre te parece que guarneça o vestido d'azul, hein?
-
-Luiza debruçou-se sobre o corrimão:
-
---Eu assim fiz, é o melhor...
-
---Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque.
-
---Sim. Rua do Ouro. Adeus.--E com um gritinho:--Porta á direita, Madame
-François.
-
-
-
-Jorge voltou ás cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala
-a um canto:
-
---Já sei que tiveste cá uma visita.
-
-Luiza voltou-se, um pouco córada. Estava diante do toucador já
-penteada, com um vestido de linho branco, guarnecido de rendas.
-
-Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandára-a entrar...
-Ficára mais contrariada! Era por causa da _adresse_ da franceza dos
-chapéos. Tinha-se demorado dez minutos.--Quem te disse?
-
---Foi a Juliana: que a snr.^a D. Leopoldina tinha estado toda a tarde.
-
---Toda a tarde! que tolice, esteve dez minutos, se tanto!
-
-Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se á janella, pôz-se a sacudir
-as duras folhas d'uma Begonia malhada d'um vermelho doente, com uma
-baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo occupado em conchegar
-um botão d'Amarilis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um
-pequenino coração assustado.
-
-Luiza ia passando o seu medalhão d'ouro n'uma longa fita de velludo
-preto: tinha uma tremura nas mãos, estava vermelha.
-
---O calor tem-lhes feito mal--disse.
-
-Jorge não respondeu. Assobiou mais alto, foi á outra janella, bateu
-com os dedos nas folhas elasticas d'uma Makoama de tons verdes e
-sanguineos, e, alargando impacientemente o collarinho como um homem
-suffocado:
-
---Ouve lá, é necessario que deixes por uma vez de receber essa
-creatura. É necessario acabar por uma vez!
-
-Luiza fez-se escarlate.
-
---É por causa de ti! é por causa dos visinhos! é por causa da decencia!
-
---Mas foi a Juliana...--balbuciou Luiza.
-
---Mandasse-l'a sahir outra vez. Que estavas fóra! que estavas na China!
-que estavas doente!
-
-Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braços:
-
---Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. É a Quebraes! É a
-_Pão e queijo_! É uma vergonha!
-
-Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de
-bigode cahido, que escrevia comedias para o Gymnasio! O Santos Madeira,
-o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um _gingão_
-desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar n'uma enorme
-boquilha! O Pedro Camara, o bonito! O Mendonça dos callos! _Tutti
-quanti!_
-
-E encolhendo os hombros, exasperado:
-
---Como se eu não percebesse que ella esteve aqui! Só pelo cheiro! Este
-horrivel cheiro de feno! Vossês foram creadas juntas, etc., tudo isso
-é muito bom. Has-de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a!
-Corro-a!
-
-Parou um momento, e commovido:
-
---Ora, vamos, Luiza, confessa. Tenho ou não razão?
-
-Luiza punha os brincos, ao espelho, atarantada:
-
---Tens--disse.
-
---Ah! bem!
-
-E sahiu, furioso.
-
-Luiza ficou immovel. Uma lagrimasinha redonda, clara, rolava-lhe pela
-aza do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquella Juliana! Aquella
-bisbilhoteira! De má! Para fazer sizania!
-
-Veio-lhe então uma colera. Foi ao quarto dos engommados, atirou com a
-porta:
-
---Para que foi vossê dizer quem esteve ou quem deixou d'estar?
-
-Juliana, muito surprehendida, pousou o ferro:
-
---Pensei que não era segredo, minha senhora.
-
---Está claro que não! Tola! quem lhe diz que era segredo? E para que
-mandou entrar? Não lhe tenho dito muitas vezes que não recebo a snr.^a
-D. Leopoldina?
-
---A senhora nunca me disse nada--replicou, toda offendida, cheia de
-verdade.
-
---Mente! Cale-se!
-
-Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi
-encostar-se á vidraça.
-
-O sol desapparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde
-sem vento: pelas casas, de uma edificação velha, escuras, estavam
-abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha
-planta miseravel, manjaricão ou cravo; ouvia-se, no teclado melancolico
-d'um piano, a _Oração de uma virgem_, tocada por alguma menina, no
-sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janella, defronte, as quatro
-filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabellos muito riçados,
-as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a
-rua, para o ar, para as janellas visinhas, cochichando se viam passar
-um homem--ou debruçadas, com uma attenção idiota, faziam pingar saliva
-sobre as pedras da calçada.
-
-Jorge tinha razão, coitado! pensava Luiza. Mas, tambem, que podia ella
-fazer? Já não ia a casa de Leopoldina, tirára o seu retrato do album
-da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnancia de Jorge,
-tinham chorado ambas, até! Coitada! Só a recebia de longe a longe, uma
-raridade, um momento! E emfim, depois d'ella estar na sala, não a havia
-d'ir empurrar pela escada abaixo!
-
-Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, appareceu
-então ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz;
-parou, poz-se a voltear a manivella, levantando em redor, para as
-janellas, um sorriso triste de dentes brancos, e a _Casta Diva_! com
-uma sonoridade metallica e secca, muito tremida, espalhou-se pela rua.
-
-Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de mathematica, veio
-encostar logo aos caixilhos estreitos da janella a sua vasta face
-trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada
-aberta d'um segundo andar, debruçou-se a figura do Cunha Rosado, magro
-e chupado, com um boné de borla, o aspecto desconsolado do doente
-d'intestinos, conchegando com as mãos transparentes o robe-de-chambre
-ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se entre as bambinellas
-de caça.
-
-Na rua, a estanqueira chegou-se á porta, vestida de luto, estendendo
-o seu carão viuvo, os braços cruzados sobre o chale tingido de preto,
-esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo,
-veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabello esguedelhado
-em repas seccas, a cara oleosa e enfarruscada, com tres pequenos meio
-nús, quasi negros, chorões e hirsutos, que se lhe penduravam da saia
-de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se até ao
-meio da rua; a pala de verniz do seu boné de pano preto nunca se
-erguia de cima dos olhos; escondia sempre as mãos, como para ser mais
-reservado, por traz das costas, debaixo das abas do seu casaco de
-cotim branco; o calcanhar sujo da meia sahia-lhe para fóra da chinella
-bordada a missanga; e fazia roncar o seu pigarro chronico de um modo
-despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado das cousas publicas
-enfurecia-o. Assobiava frequentemente a _Maria da Fonte_; e mostrava-se
-nas suas palavras, nas suas attitudes, um patriota exasperado.
-
-O homem do realejo tirou o seu largo chapéo desabado e, tocando sempre,
-ia-o estendendo em redor para as janellas, com um olhar necessitado.
-As Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraça. A carvoeira
-deu-lhe uma moeda de cobre; mas interrogou-o; quiz de certo saber de
-que paiz era, por que estradas tinha vindo, e quantas peças tinha o
-instrumento.
-
-Gente endomingada começava a recolher, com um ar derreado do longo
-passeio, as botas empoeiradas: mulheres de chale, vindas das hortas,
-traziam ao collo as crianças adormecidas da caminhada e do calor:
-velhos placidos, de calça branca, o chapéo na mão, gozavam a frescura,
-dando um giro no bairro: pelas janellas, bocejava-se: o céo tomava
-uma côr azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a
-distancia o fim d'alguma festa d'igreja: e o domingo terminava, com uma
-serenidade cançada e triste.
-
---Luiza--disse a voz de Jorge.
-
-Ella voltou-se, com um vago--hein?
-
---Vamos jantar, filha; são sete horas.
-
-No meio do quarto, tomou-a pela cinta, e fallando-lhe baixo, junto á
-face:
-
---Tu zangaste-te ha bocado?
-
---Não! Tu tens razão. Conheço que tens razão.
-
---Ah!--fez elle com um tom victorioso, muito satisfeito.--Está claro,
-
- Quem melhor conselheiro e bom amigo
- Que o marido que a alma m'escolheu?
-
-E com uma ternura grave:
-
---Minha querida filha, esta nossa casinha é tão honesta, que é uma dôr
-d'alma vêr entrar essa mulher aqui, com o cheiro do _feno_, do cigarro,
-e do resto!... _Mà, di questo no parlaremo più, o donna mia!_ Á sopa!
-
-
-
-
-II
-
-
-Aos domingos á noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma
-_cavaqueira_, na sala, em redor do velho candieiro de porcelana côr de
-rosa. Vinham apenas os intimos. «O Engenheiro», como se dizia na rua,
-vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era
-um pouco _á estudante_. Luiza fazia crochet, Jorge cachimbava.
-
-O primeiro a chegar era Julião Zuzarte, um parente muito afastado de
-Jorge, e seu antigo condiscipulo nos primeiros annos da Polytechnica.
-Era um homem secco e nervoso, com lunetas azues, os cabellos compridos
-cahidos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escóla. Muito
-intelligente, estudava desesperadamente, mas, como elle dizia, era
-um _tumba_. Aos trinta annos, pobre, com dividas, sem clientella,
-começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares
-de doze vintens, do seu paletot coçado d'alamares; e entalado na
-sua vida mesquinha, via os outros, os mediocres, os superficiaes,
-_furar_, subir, installar-se á larga na prosperidade! «Falta de
-_chance_», dizia. Podia ter aceitado um partido da camara n'uma villa
-da provincia, com pulso livre, ter uma casa _sua_, a _sua_ creação no
-quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita fé nas suas faculdades,
-na sua sciencia, e não se queria ir enterrar n'uma terriola adormecida
-e lugubre, com tres ruas onde os porcos fossam. Toda a provincia o
-aterrava; via-se lá obscuro, jogando a manilha na Assembléa, morrendo
-de cachexia. Por isso não «arredava pé»; e esperava, com a tenacidade
-do plebeu sofrego, uma clientella rica, uma cadeira na Escóla, um
-coupé para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do
-seu direito a estas felicidades, e como ellas tardavam a chegar ia-se
-tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se
-prolongavam mais os seus silencios hostis, roendo as unhas: e, nos dias
-melhores, não cessava de ter ditos sêccos, _tiradas_ azedadas--em que a
-sua voz desagradavel cahia como um gume gelado.
-
-Luiza não gostava d'elle; achava-lhe um _ar nordeste_, detestava o seu
-tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calças curtas que
-mostravam o elastico roto das botas. Mas disfarçava, sorria-lhe, porque
-Jorge admirava-o, dizia sempre d'elle: Tem muito espirito! tem muito
-talento! grande homem!
-
-Como vinha mais cedo ia á sala de jantar, tomava a sua chavena de café;
-e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para as
-_toilettes_ frescas de Luiza. Aquelle parente, um _mediocre_, que
-vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no
-ministerio, com alguns contos de reis em inscripções--parecia-lhe uma
-injustiça e pezava-lhe como uma humilhação. Mas affectava estimal-o; ia
-sempre ás noites, aos domingos; escondia então as suas preoccupações,
-cavaqueava, tinha pilherias,--mettendo a cada momento os dedos pelos
-seus cabellos compridos, seccos e cheios de caspa.
-
-Ás nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha
-logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado.
-Tinha cincoenta annos, era muito nutrida, e, como soffria de dyspepsia
-e de gazes, áquella hora não se podia espartilhar e as suas fórmas
-transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabellos
-levemente annelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, d'uma alvura
-baça e molle de freira; nos olhos papudos, com a pelle já engelhada em
-redor, luzia uma pupilla negra e humida, muito mobil; e aos cantos da
-bocca uns pellos de buço pareciam traços leves e circumflexos d'uma
-penna muito fina. Fôra a intima amiga da mãi de Luiza, e tomára aquelle
-habito de vir vêr a _pequena_ aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas
-de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da
-Encarnação.
-
-Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luiza,
-perguntava-lhe baixo, com inquietação:
-
---Vem?
-
---O conselheiro? Vem.
-
-Luiza sabia-o. Porque o conselheiro, o conselheiro Accacio, nunca
-vinha aos _chás de D. Luiza_, como elle dizia, sem ter ido na vespera
-ao ministerio das obras publicas procurar Jorge, declarar-lhe com
-gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura:
-
---Jorge, meu amigo, ámanhã lá irei pedir a sua boa esposa a minha
-chavena de chá.
-
-Ordinariamente acrescentava:
-
---E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro,
-os meus respeitos a s. exc.^a Os meus respeitos a esse formoso talento!
-
-E sahia, pisando com solemnidade os corredores enxovalhados.
-
-Havia cinco annos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se
-um pouco com aquella _chamma_. Luiza dizia: Ora! é uma caturrice
-d'ella! Viam-na córada e nutrida, e não suspeitavam que aquelle
-sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silencio,
-a ia devastando como uma doença e desmoralisando como um vicio. Todos
-os seus ardores até ahi tinham sido inutilisados. Amára um official de
-lanceiros que morrêra, e apenas conservava o seu daguerreotypo. Depois
-apaixonára-se muito occultamente por um rapaz padeiro, da visinhança,
-e vira-o casar. Dera-se então toda a um cão, o _Bilro_; uma criada
-despedida deu-lhe por vingança rolha cozida; o _Bilro_ rebentou, e
-tinha-o agora empalhado na sala de jantar. A pessoa do conselheiro
-viera de repente, um dia, pegar fogo áquelles desejos, sobrepostos
-como combustiveis antigos. Accacio tornára-se a sua _mania_: admirava
-a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua
-eloquencia, achava-o n'uma «linda posição». O conselheiro era a sua
-ambição e o seu vicio! Havia sobretudo n'elle uma belleza, cuja
-contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva.
-Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos
-homens, e aquelle appetite insatisfeito inflammára-se com a idade.
-Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda,
-polida, brilhante ás luzes, uma transpiração anciosa humedecia-lhe
-as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, avida
-de lhe deitar as mãos, palpal-a, sentir-lhe as fórmas, amassal-a,
-penetrar-se d'ella! Mas disfarçava, punha-se a fallar alto com um
-sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gottejava-lhe nas
-rôscas anafadas do pescoço. Ia para casa rezar estações, impunha-se
-penitencias de muitas corôas á Virgem; mas apenas as orações findavam,
-começava o temperamento a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade
-tinha agora pesadêlos lascivos, e as melancolias do hysterismo velho!
-A indifferença do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum
-suspiro, nenhuma revelação amorosa o commovia! Era para com ella
-glacial e polido. Tinham-se ás vezes encontrado a sós, á parte, no
-vão favoravel d'uma janella, no isolamento mal alumiado d'um canto
-do sophá,--mas apenas ella fazia uma demonstração sentimental, elle
-erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico. Um dia ella
-julgára perceber que, por traz das suas lunetas escuras, o conselheiro
-lhe deitava de revés um olhar apreciador para a abundancia do seio;
-fôra mais clara, mais urgente, fallára em _paixão_, disse-lhe baixo:
-Accacio!... Mas elle com um gesto gelou-a--e de pé, grave:
-
---Minha senhora,
-
- As neves que na fronte se accumulam
- Terminam por cahir no coração...
-
-É inutil, minha senhora!
-
-O martyrio de D. Felicidade era muito occulto, muito disfarçado;
-ninguem o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento,
-ignoravam-lhe as torturas do desejo. E um dia Luiza ficou attonita,
-sentindo D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão humida, e
-dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro:
-
---Que regalo d'homem!
-
-Fallava-se n'essa noite do Alemtejo, d'Evora e das suas riquezas, da
-capella dos ossos, quando o conselheiro entrou com o paletot no braço.
-Foi-o dobrar solicitamente n'uma cadeira a um canto, e no seu passo
-aprumado e official, veio apertar as mãos ambas de Luiza, dizendo-lhe
-com uma voz sonora, de _papo_:
-
---Minha boa snr.^a D. Luiza, de perfeita saude, não? O nosso Jorge
-tinha-m'o dito. Ainda bem! Ainda bem!
-
-Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado n'um
-collarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até á
-calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabellos
-que d'uma orelha á outra lhe faziam collar por traz da nuca--e aquelle
-preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho á calva; mas não
-tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, cahido aos cantos da bocca.
-Era muito pallido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha
-no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do craneo.
-
-Fôra, outr'ora, director geral do ministerio do reino, e sempre que
-dizia--El-rei! erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram
-medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviaes; não dizia
-_vomitar_, fazia um gesto indicativo e empregava _restituir_. Dizia
-sempre «o nosso Garrett, o nosso Herculano». Citava muito. Era author.
-E sem familia, n'um terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado
-com a criada, occupava-se d'economia politica: tinha composto os
-Elementos genericos da sciencia da riqueza e sua distribuição, _segundo
-os melhores authores_, e como sub-titulo: _Leituras do serão!_ Havia
-apenas mezes publicára a Relação de todos os ministros d'estado desde
-o grande marquez de pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente
-averiguadas de seus nascimentos e obitos.
-
---Já esteve no Alemtejo, conselheiro?--perguntou-lhe Luiza.
-
---Nunca, minha senhora--e curvou-se.--Nunca! E tenho pena! sempre
-desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira
-ordem.
-
-Tomou uma pitada d'uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e
-acrescentou com pompa:
-
---De resto, paiz de grande riqueza suina!
-
---Ó Jorge, averigua quanto é o partido da camara em Evora--disse Julião
-do canto do sophá.
-
-O conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa:
-
---Devem ser seiscentos mil reis, snr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o
-nos meus apontamentos. Porquê, snr. Zuzarte, quer deixar Lisboa?
-
---Talvez!...
-
-Todos desapprovaram.
-
---Ah! Lisboa sempre é Lisboa!--suspirou D. Felicidade.
-
---Cidade de marmore e de granito, na phrase sublime do nosso grande
-historiador!--disse solemnemente o conselheiro.
-
-E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados.
-
-D. Felicidade disse então:
-
---Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem á mão de Deus Padre, era o
-conselheiro!
-
-O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ella, um pouco curvado,
-replicou:
-
---Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta d'alma!
-
---O conselheiro--lembrou Jorge--nasceu na rua de S. José.
-
---Numero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada áquella em que
-viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo!
-
-Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Accacio fôra o seu
-intimo. Eram visinhos. Accacio tocava então rebeca, e, como Geraldo
-tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo á Philarmonica da rua de
-S. José. Depois Accacio, quando entrou nas repartições do Estado, por
-escrupulo e por dignidade, abandonou a rebeca, os sentimentos ternos,
-os serões joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo á estatistica. Mas
-conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquella
-amizade vigilante; fôra padrinho do seu casamento, vinha vêl-o todos os
-domingos, e, no dia de seus annos, mandava-lhe pontualmente, com uma
-carta de felicitações, uma lampreia d'ovos.
-
---Aqui nasci--repetiu, desdobrando o seu bello lenço de sêda da
-India--e aqui conto morrer.
-
-E assoou-se discretamente.
-
---Isso ainda vem longe, conselheiro!
-
-Elle disse, com uma melancolia grave:
-
---Não me arreceio d'_ella_, meu Jorge. Até já fiz construir, sem
-vacillar, no Alto de S. João, a minha ultima morada. Modesta, mas
-decente. É ao entrar, no arruamento á direita, n'um lugar abrigado, ao
-pé da choça dos Verissimos amigos.
-
---E já compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?--perguntou Julião, do
-canto, ironico.
-
---Não o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios.
-Se os meus amigos, os meus patricios entenderem que eu fiz alguns
-serviços, teem outros meios para os commemorar; lá teem a imprensa,
-o communicado, o necrologio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero
-apenas sobre a lapide lisa, em letras negras, o meu nome--com a minha
-designação de conselheiro--a data do meu nascimento e a data do meu
-obito.
-
-E com um tom demorado, de reflexão:
-
---Não me opponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores:
-_Orai por elle!_
-
-Houve um silencio commovido, e á porta uma voz fina, disse:
-
---Dão licença?
-
---Oh Ernestinho!--exclamou Jorge.
-
-Com um passo miudinho e rapido, Ernestinho veio abraçal-o pela cintura:
-
---Eu soube que tu que partias, primo Jorge... Como está, prima Luiza?
-
-Era primo de Jorge. Pequenino, lymphatico, os seus membros franzinos,
-ainda quasi tenros, davam-lhe um aspecto debil de collegial; o buço,
-delgado, empastado em cêra-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas
-afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos
-amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com
-grandes laços de fita; sobre o collete branco, a cadêa do relogio
-sustentava um medalhão enorme, d'ouro, com fructos e flôres esmaltadas
-em relevo. Vivia com uma actrizita do Gymnasio, uma magra, côr de
-melão, com o cabello muito riçado, o ar tisico,--e escrevia para o
-theatro. Tinha traducções, dous originaes n'um acto, uma comedia em
-_calembourgs_. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra
-consideravel, um drama em cinco actos, a _Honra e Paixão_. Era a sua
-estreia séria. E desde então, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos
-inchados de manuscriptos, com localistas, com actores, muito prodigo
-de cafés e de _cognacs_, o chapéo ao lado, descórado, e dizendo a
-todos: Esta vida, mata-me! Escrevia todavia por paixão entranhada pela
-Arte--porque era empregado na alfandega, com bom vencimento, e tinha
-quinhentos mil reis de renda das suas inscripções. A Arte mesmo, dizia,
-obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da _Honra e Paixão_
-mandára fazer, á sua custa, botas de verniz para o _galan_, botas de
-verniz para o _pai-nobre_! O seu nome de familia era Ledesma.
-
-Deram-lhe um lugar, e Luiza notou logo, pousando o bordado, que estava
-abatido! Queixou-se então das suas fadigas: os ensaios arrazavam-no,
-tinha turras com o empresario: na vespera, vira-se forçado a refazer
-todo o final d'um acto! todo!
-
---E tudo isto--acrescentou muito exaltado--porque é um pelintra, um
-parvo, e quer que se passe n'uma sala, o acto que se passava n'um
-abysmo!
-
---N'um quê?--perguntou surprehendida D. Felicidade.
-
-O conselheiro, muito cortez, explicou:
-
---N'um abysmo, D. Felicidade, n'um despenhadeiro. Tambem se diz, em bom
-vernaculo, um _vortice_.--Citou: _N'um espumoso vortice se arroja..._
-
---N'um abysmo?--perguntaram.--Porquê?
-
-O conselheiro quiz conhecer o _lance_.
-
-Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo:--Era uma mulher
-casada. Em Cintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de
-Monte-Redondo. O marido arruinado, devia cem contos de reis ao jogo!
-Estava deshonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruinas
-acastelladas, onde habita o conde, deixa cahir o véo, conta-lhe a
-catastrophe. O conde lança o seu manto aos hombros, parte, chega no
-momento em que os beleguins vão levar o homem.--É uma scena muito
-commovente, dizia, é de noite, ao luar!--O conde desembuça-se, atira
-uma bolsa d'ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos,
-abutres!...
-
---Bello final!--murmurou o conselheiro.
-
---Emfim--acrescentou Ernesto, resumindo--aqui ha um enredo complicado:
-o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre,
-arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a esposa.
-
---Como?--perguntaram.
-
---Atira-a ao abysmo. É no quinto acto. O conde vê, corre, atira-se
-tambem. O marido cruza os braços, e dá uma gargalhada infernal. Foi
-assim que eu imaginei a cousa!
-
-Calou-se, offegante: e, abanando-se com o lenço, rolava em redor os
-seus olhos langorosos, prateados como os d'um peixe morto.
-
---É uma obra de cunho, embatem-se grandes paixões!--disse o
-conselheiro, passando as mãos sobre a calva.--Os meus parabens, snr.
-Ledesma!
-
---Mas que quer o empresario?--perguntou Julião, que escutára de pé,
-attonito--que quer elle? Quer o abysmo n'um primeiro andar, mobilado
-pelo Gardé?
-
-Ernestinho voltou-se, muito affectuosamente:
-
---Não, snr. Zuzarte,--a sua voz era quasi meiga--quer o desfecho n'uma
-sala. De modo que eu--e fazia um gesto resignado--a gente tem de
-condescender, tive d'escrever outro final. Passei a noite em claro.
-Tomei tres chavenas de café!...
-
-O conselheiro acudiu, com a mão espalmada:
-
---Cuidado, snr. Ledesma, cuidado! Prudencia com esses excitantes! Por
-quem é, prudencia!
-
---A mim não me faz mal, snr. conselheiro--disse sorrindo.--Escrevi-o em
-tres horas! Venho de lh'o mostrar agora. Até o tenho aqui...
-
---Leia, snr. Ernesto, leia!--exclamou logo D. Felicidade.
-
-Que lêsse! que lêsse! porque não lia?
-
-Era uma massada!... Era um rascunho!... Emfim, como queriam!... E
-radiante desdobrou, no silencio, uma grande folha de papel azul pautado.
-
---Eu peço desculpa. Isto é um borrão. A cousa não está ainda com todos
-os FF e RR.--Fez então voz theatral:--Agatha!... É a mulher; isto aqui
-é a scena com o marido, o marido já sabe tudo...
-
-
-AGATHA (cahindo de joelhos nos pés de Julio)
-
-«Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que vêr, com esses
-desprezos, o coração rasgado fibra a fibra!»
-
-
-JULIO
-
-«E não me rasgaste tu tambem o coração? Tiveste tu piedade? Não.
-Retalhaste-m'o! Meu Deus, eu que a julgava pura, n'essas horas em que
-arrebatados...»
-
-O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chavenas. Era
-Juliana, d'avental branco, com o chá.
-
---Que pena!--exclamou Luiza.--Depois do chá se lê. Depois do chá.
-
-Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso:
-
---Não vale a pena, prima Luiza!
-
---Ora essa! É lindo!--affirmou D. Felicidade.
-
-Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoutos d'Oeiras,
-os bolos do Cócó.
-
---Aqui tem o seu chá fraco, conselheiro--dizia Luiza.--Sirva-se,
-Julião. As torradas ao snr. Julião! Mais assucar! Quem quer? Uma
-torrada, conselheiro?
-
---Estou amplamente servido, minha prezada senhora--replicou,
-curvando-se.
-
-E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o dialogo opulento.
-
-Mas, perguntaram, o que quer o empresario mais agora? Já tem a sala...
-
-Ernestinho, de pé, excitado, com um bolo d'ovos na ponta dos dedos,
-explicou:
-
---O que o empresario quer é que o marido lhe perdôe...
-
-Foi um espanto:
-
---Ora essa! É extraordinario! Porque?
-
---Então!--exclamou Ernestinho, encolhendo os hombros,--diz que o
-publico que não gosta! Que não são cousas cá para o nosso paiz.
-
---A fallar a verdade--disse o conselheiro--a fallar a verdade, snr.
-Ledesma, o nosso publico não é geralmente affecto a scenas de sangue.
-
---Mas não ha sangue, snr. conselheiro!--protestava Ernestinho,
-erguendo-se sobre os bicos dos sapatos--mas não ha sangue! É com um
-tiro. É com um tiro pelas costas, snr. conselheiro!
-
-Luiza fez a D. Felicidade--_pst!_ e, n'um áparte, com um sorriso:
-
---D'esses bolinhos d'ovos. São muito frescos!
-
-Ella respondeu, com uma voz lamentosa:
-
---Ai, filha, não!
-
-E indicou o estomago, compungidamente.
-
-No entanto o conselheiro aconselhava a Ernestinho a clemencia:
-tinha-lhe posto a mão no hombro paternalmente, e com uma voz persuasiva:
-
---Dá mais alegria á peça, snr. Ledesma. O espectador sahe mais
-alliviado! Deixe sahir o espectador alliviado!
-
---Mais um bolinho, conselheiro?
-
---Estou repleto, minha prezada senhora.
-
-E, então, invocou a opinião de Jorge. Não lhe parecia que o bom Ernesto
-devia perdoar?
-
---Eu, conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente
-pela morte! E exijo que a mates, Ernestinho!
-
-D. Felicidade acudiu, toda bondosa:
-
---Deixe fallar, snr. Ledesma. Está a brincar. E elle então que é um
-coração d'anjo!
-
---Está enganada, D. Felicidade--disse Jorge, de pé, diante
-d'ella.--Fallo serio e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela
-morte. No abysmo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir
-que, n'um caso d'esses, um primo meu, uma pessoa da minha familia,
-do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um
-principio de familia. Mata-a quanto antes!
-
---Aqui tem um lapis, snr. Ledesma--gritou Julião, estendendo-lhe uma
-lapiseira.
-
-O conselheiro, então, interveio, grave:
-
---Não--disse--não creio que o nosso Jorge falle serio. É muito
-instruido para ter idéas tão...
-
-Hesitou, procurou o adjectivo. Juliana poz-se-lhe diante com uma
-bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente, sob um vasto
-guarda-sol erriçado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu:
-
---...Tão anti-civilisadoras.
-
---Pois está enganado, conselheiro, tenho-as--affirmou Jorge.--São as
-minhas idéas. E aqui tem, se em lugar de se tratar d'um final d'acto,
-fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: sabes,
-encontrei minha mulher...
-
---Oh Jorge!--disseram, reprehensivamente.
-
---...Bem, supponhamos, se elle m'o viesse dizer, eu respondia-lhe o
-mesmo. Dou a minha palavra d'honra, que lhe respondia o mesmo: mata-a!
-
-Protestaram. Chamaram-lhe _tigre_, _Othello_, _Barba-Azul_. Elle ria,
-enchendo muito socegadamente o seu cachimbo.
-
-Luiza bordava, calada: a luz do candieiro, abatida pelo _abat-jour_,
-dava aos seus cabellos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua
-testa branca como sobre um marfim muito polido.
-
---Que dizes tu a isto?--disse-lhe D. Felicidade.
-
-Ella ergueu o rosto, risonha, encolheu os hombros...
-
-E o conselheiro logo:
-
---A snr.^a D. Luiza diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mães de
-familia:
-
- Impurezas do mundo não me roçam
- Nem a fimbria da tunica sequer.
-
---Ora muito boas noites--disse, á porta, uma voz grossa.
-
-Voltaram-se.
-
-Ó Sebastião! Ó snr. Sebastião! ó Sebastiarrão!
-
-Era elle, Sebastião, o grande Sebastião, o Sebastiarrão, Sebastião
-_tronco d'arvore_,--o intimo, o camarada, o _inseparavel_ de Jorge,
-desde o latim, na aula de frei Liborio, aos Paulistas.
-
-Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapéo molle
-desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente, os seus cabellos
-castanhos e finos. Tinha a pelle muito branca, a barba alourada e curta.
-
-Veio sentar-se ao pé de Luiza.
-
---Então d'onde vem? d'onde vem?
-
-Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da
-pipa.
-
-O seu rosto, em plena luz, tinha uma expressão honesta, simples,
-aberta: os olhos pequenos, azues d'um azul claro, d'uma suavidade
-séria, adoçavam-se muito quando sorria: e os beiços escarlates, sem
-pelliculas seccas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saudavel
-e habitos castos. Fallava devagar, baixo, como se tivesse medo de
-se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua chavena, e
-remexendo o assucar com a colhér direita, os olhos ainda a rir, um
-sorriso bom:
-
---A pipa tem muita graça. Muita graça!
-
-Sorveu um gole de chá e depois d'um momento:
-
---E tu, maroto, sempre partes ámanhã? Não ha umas tentaçõesinhas d'ir
-por ahi fóra com elle, minha cara amiga?
-
-Luiza sorriu. Tomára ella! Quem dera! Mas era uma jornada tão
-incommoda! Depois a casa não podia ficar só, não havia que fiar em
-criados...
-
---Está claro, está claro--disse elle.
-
-Jorge, então, que abrira a porta do escriptorio, chamou-o:
-
---Ó Sebastião! Fazes favor?
-
-Elle foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado: as abas do
-seu casaco mal feito tinham um comprimento ecclesiastico.
-
-Entraram para o escriptorio.
-
-Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraçada, tendo
-em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, d'uma bacchante
-em delirio. A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fôra de seu
-avô, estava ao pé da janella: uma collecção empilhada de _Diarios do
-Governo_, branquejava a um canto: por cima da cadeira de marroquim
-escuro, pendia, n'um caixilho preto, uma larga photographia de Jorge: e
-sobre o quadro, duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo,
-coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar.
-
---Sabes quem esteve ahi de tarde?--disse logo Jorge, accendendo o
-cachimbo--Aquella desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein?
-
---E entrou?--perguntou Sebastião, baixo, correndo por dentro o pesado
-reposteiro de fazenda listrada.
-
---Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quiz! A Leopoldina,
-a _Pão e queijo_!
-
-E arremessando o phosphoro violentamente:
-
---Quando penso que aquella desavergonhada vem a minha casa! Uma
-creatura que tem mais amantes que camisas, que anda pelo Dá-fundo em
-troças, que passeava nos bailes, este anno, de dominó, com um tenor! A
-mulher do Zagallão, um devasso que falsificou uma letra!
-
-E quasi ao ouvido de Sebastião:
-
---Uma mulher que dormiu com o Mendonça dos callos! Aquelle sebento do
-Mendonça dos callos!
-
-Teve um gesto furioso, exclamou:
-
---E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraça minha mulher,
-respira o meu ar!... Palavra d'honra, Sebastião, se a pilho--procurou
-mentalmente, com o olhar acceso, um castigo sufficiente--dou-lhe
-açoutes!
-
-Sebastião disse devagar:
-
---E o peor é a visinhança.
-
---Está claro que é!--exclamou Jorge.--Toda essa gente ahi pela rua
-abaixo sabe quem ella é! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios. É a
-_Pão e queijo_! Todo o mundo conhece a _Pão e queijo_.
-
---Má visinhança--disse Sebastião.
-
---De tremer.
-
-Mas então! estava acostumado á casa, era sua, tinha-a arranjado, era
-uma economia...
-
---Senão! Não parava aqui um dia!
-
-Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavallados uns nos outros!
-Uma visinhança a postos, avida de mexericos! Qualquer bagatella, o
-trotar d'uma tipoia, e apparecia por traz de cada vidro um par d'olhos
-repolhudos a cocar! E era logo um badalar de linguas por ahi abaixo, e
-conciliabulos, e opiniões formadas! fulano é indecente, fulana é bebeda!
-
---É o diabo!--disse Sebastião.
-
---A Luiza é um anjo, coitada--dizia Jorge, passeando pela saleta--mas
-tem cousas em que é criança! Não vê o mal. É muito boa, deixa-se ir.
-Com este caso da Leopoldina, por exemplo; foram creadas de pequenas,
-eram amigas, não tem coragem agora para a pôr fóra. É acanhamento, é
-bondade. Elle comprehende-se! Mas emfim as leis da vida tem as suas
-exigencias!...
-
-E depois d'uma pausa:
-
---Por isso, Sebastião, em quanto eu estiver fóra, se te constar que a
-Leopoldina vem por cá, avisa a Luiza! Porque ella é assim: esquece-se,
-não reflexiona. É necessario alguem que a advirta, que lhe diga:--Alto
-lá, isso não póde ser! Que então cahe logo em si, e é a primeira!...
-Vens por ahi, fazes-lhe companhia, fazes-lhe musica, e se vires que a
-Leopoldina apparece ao largo, tu logo:--Minha rica senhora, cuidado,
-olhe que isso não! Que ella, sentindo-se apoiada, tem decisão. Senão,
-acanha-se, deixa-a vir. Soffre com isso, mas não tem coragem de lhe
-dizer: Não te quero vêr, vai-te! Não tem coragem p'ra nada: começam
-as mãos a tremer-lhe, a seccar-se-lhe a bocca... É mulher, é muito
-mulher!... Não te esqueças, hein, Sebastião?
-
---Então havia de me esquecer, homem?
-
-Sentiram então o piano na sala, e a voz de Luiza ergueu-se, fresca e
-clara, cantando a _Mandolinata_:
-
- Amici, la notte é bella,
- La luna va spontari...
-
---Fica tão só, coitada!...--disse Jorge.
-
-Deu alguns passos pelo escriptorio, fumando, com a cabeça baixa:
-
---Todo o casal bem organisado, Sebastião, deve ter dous filhos! Deve
-ter pelo menos um!...
-
-Sebastião coçou a barba em silencio--e a voz de Luiza, elevando-se com
-um certo esforço aspero, nos _altos_ da melodia :
-
- Di cà, di là, per la cità
- Andiami a transnottari...
-
-Era uma tristeza secreta de Jorge--não ter um filho! Desejava-o tanto!
-Ainda em solteiro, nas vesperas do casamento, já sonhava aquella
-felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as
-suas perninhas vermelhas, cheias de rôscas, e os cabellos annelados,
-finos como fios de sêda; ou rapaz forte, entrando da escóla com os
-livros, alegre e d'olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos
-mestres: ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido
-branco, as duas tranças cahidas, vindo pousar as mãos nos seus cabellos
-já grisalhos...
-
-Vinha-lhe, ás vezes, um medo de morrer sem ter tido aquella felicidade
-completadora!
-
-Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava, depois, no piano
-Luiza recomeçou a _Mandolinata_, com um _brio_ jovial.
-
-A porta do escriptorio abriu-se, Julião entrou:
-
---Que estão vossês aqui a conspirar? Vou-me safar, que é tarde! Até
-á volta, meu velho, hein? Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vêr
-campos, mas...
-
-E sorriu com amargura.--_Addio! Addio!_
-
-Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçal-o outra vez. Se quizesse
-alguma cousa do Alemtejo!...
-
-Julião carregou o chapéo na cabeça:
-
---Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dous!
-
---Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem!
-
-Embrulhou-lh'a n'um _Diario de Noticias_; Julião metteu-a debaixo do
-braço, e descendo os degraus:
-
---Cuidado com as sezões, e descobre uma mina d'ouro!
-
-Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano,
-torcia as guias do bigodinho, e Luiza começava uma valsa de Strauss--o
-_Danubio Azul_.
-
-Jorge disse, rindo, estendendo os braços:
-
---Uma valsa, D. Felicidade?
-
-Ella voltou-se, com um sorriso. E porque não? Em nova era fallada!
-Citou logo a valsa que dançára com o sr. D. Fernando, no tempo da
-Regencia, nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa época: _A
-Perola d'Ophir_.
-
-Estava sentada ao pé do conselheiro, no sophá. E como retomando um
-dialogo mais querido--continuou, baixo para elle, com uma voz meiga:
-
---Pois creia, acho-o com optimas côres.
-
-O conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço de sêda da India.
-
---Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade?
-
---Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de
-gazes... Estou outra!
-
---Deus o queira, minha senhora, Deus o queira--disse o conselheiro,
-esfregando lentamente as mãos.
-
-Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôz-se a dizer:
-
---Espero que esse interesse seja verdadeiro...
-
-Córou. O corpete flaccido do vestido de sêda preta enchia-se-lhe com o
-arfar do peito.
-
-O conselheiro recahiu lentamente no sophá,--e com as mãos nos joelhos:
-
---D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero...
-
-Ella levantou para elle seus olhos pisados, d'onde sahiam revelações de
-paixão e supplicas de felicidade:
-
---E eu, conselheiro!...
-
-Deu um grande suspiro, pôz o leque sobre o rosto.
-
-O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabeça alta, as mãos atraz
-das costas, foi ao piano, perguntou a Luiza curvando-se:
-
---É alguma canção do Tyrol, D. Luiza?
-
---Uma valsa de Strauss--murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de pés, ao
-ouvido.
-
---Ah! Muita fama! Grande author!
-
-Tirou então o relogio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns
-apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solemnidade:
-
---Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alemtejo! O clima é
-nocivo, a estação traiçoeira!
-
-E apertou-o nos braços com uma pressão commovida.
-
-D. Felicidade punha a sua manta de renda negra.
-
---Já, D. Felicidade?--disse Luiza.
-
-Ella explicou-lhe, ao ouvido:
-
---Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas bajes e tenho
-estado!... E aquelle homem, aquelle gêlo! O snr. Ernesto vem para os
-meus sitios, hein?
-
---Como um fuso, minha senhora!
-
-Tinha vestido o seu paletot d'alpaca clara, fumava chupando, com as
-faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma Venus se torcia
-sobre o dorso d'um leão domado.
-
---Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hein? Adeus. Quando fôr a
-_Honra e Paixão_ cá mando um camarote á prima Luiza. Adeus! Saudinha!
-
-Iam a sahir. Mas o conselheiro, á porta, voltando-se subitamente, com
-as abas do paletot deitadas para traz, a mão pomposamente apoiada no
-castão de prata da bengala que representava uma cabeça de mouro, disse,
-com gravidade:
-
---Esquecia-me, Jorge! Tanto em Evora, como em Beja, visite os
-governadores civis! E eu lhe digo porquê: deve-lh'o como primeiros
-funccionarios do districto, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas
-peregrinações scientificas!
-
-E curvando-se profundamente:
-
---_Al rivedere_, como se diz em Italia.
-
-
-
-Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco Luiza foi abrir
-as janellas; a noite estava quente e immovel, de luar.
-
-Sebastião pozera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o
-teclado.
-
-Tocava admiravelmente, com uma comprehensão muito fina da musica.
-Outr'ora, compozera mesmo uma _Meditação_, duas _Valsas_,
-uma _Ballada_: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de
-reminiscencias, sem estylo.--Da cachimonia não me sahe nada--costumava
-elle dizer com bonhomia, batendo na testa, sorrindo--mas lá com os
-dedos!...
-
-Pôz-se a tocar um _Nocturno_ de Choppin. Jorge sentára-se no sophá ao
-pé de Luiza.
-
---Já tens prompto o teu farnelzinho!--disse-lhe ella.
-
---Bastam umas bolachas, filha. O que quero é o cantil com _cognac_.
-
---E não te esqueças de mandar um telegramma logo que chegues!
-
---Pudera!
-
---Tu d'aqui a quinze dias, vens!
-
---Talvez...
-
-Ella teve um gesto amuado.
-
---Ah, bem! Se não vieres, vou ter comtigo! A culpa é tua.
-
-E olhando em redor:
-
---Que só que vou ficar!
-
-Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste:
-
---Pst, Sebastião! A _malaguenha_, faz favor?
-
-Sebastião começou a tocar a _malaguenha_. Aquella melodia calida, muito
-arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Malaga, ou em Granada,
-não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrellinhas luzem; a noite é
-quente, o ar cheira bem; por baixo d'um lampeão suspenso a um ramo, um
-cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as
-mulheres com os seus corpetes de velludilho encarnado batem as mãos
-em cadencia: e ao largo dorme uma Andaluzia de romance e de zarzuela,
-quente e sensual, onde tudo são braços brancos que se abrem para o
-amor, capas romanticas que roçam as paredes, sombrias viellas onde luz
-o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem
-Santissima cantando as horas...
-
---Muito bem, Sebastião! Gracias!
-
-Elle sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o
-seu chapéo desabado:
-
---Então ámanhã ás sete? Cá estou, e vou-te acompanhar até ao Barreiro.
-
-Bom Sebastião!
-
-Foram debruçar-se na varanda para o vêr sahir. A noite fazia um
-silencio alto, d'uma melancolia placida; o gaz dos candieiros parecia
-mortiço; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca,
-tinha um tom quente e dôce; a luz punha nas fachadas brancas claridades
-vivas, e nas pedras da calçada faiscações vidradas; uma clara-boia
-reluzia, a distancia, como uma velha lamina de prata; nada se movia; e
-instinctivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua
-branca, muito séria.
-
---Que linda noite!
-
-A porta bateu, e Sebastião de baixo, na sombra:
-
---Dá vontade de passear, hein?
-
---Linda!
-
-Ficaram á varanda preguiçosamente, olhando, detidos pela
-tranquillidade, pela luz. Puzeram-se a fallar baixo da jornada. Áquella
-hora onde estaria elle? Já em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando
-monotonamente sobre um chão de tijolo. Mas voltaria breve; esperava
-fazer um bom negocio com o Paco, o hespanhol das minas de Portel,
-trazer talvez alguns centos de mil reis, e teriam então a doçura do
-mez de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Bussaco,
-trepar aos altos, beber a agua fresca das rochas, sob a espessura
-humida das folhagens: irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na
-arêa, no bom ar cheio d'azote, vendo o mar unido, d'um azul metallico
-e faiscante, o mar do verão, com algum fumo de paquete que passa para
-o Sul ao longe muito adelgaçado. Faziam outros planos com os hombros
-muito chegados: uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E
-Jorge disse:
-
---Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só!
-
-Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia Carlos Eduardo. E
-via-o no seu berço dormindo, ou no collo, nú, agarrando com a mãosinha
-o dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento
-d'um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o braço pela cinta
-de Jorge. Um dia seria, teria um filho de certo! E não comprehendia
-o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um
-sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito,
-da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e côr de rosa. E a vida
-apparecia-lhe infindavel, d'uma doçura igual, atravessada do mesmo
-enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os
-cobria.
-
---A que horas quer a senhora que a venha acordar?--disse a voz secca de
-Juliana.
-
-Luiza voltou-se:
-
---Ás sete, já lhe disse ha pouco, creatura.
-
-Fecharam a janella. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaçava.
-Era bom agouro!
-
-Jorge prendeu-a nos braços:
-
---Vai ficar sem o seu maridinho, hein?--disse tristemente.
-
-Ela deixou pesar o corpo sobre as mãos d'elle cruzadas, olhou-o com um
-longo olhar que se ennevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoço
-com o gesto lento, harmonioso e solemne dos braços, pousou-lhe na bocca
-um beijo grave e profundo. Um vago soluço levantou-lhe o peito.
-
---Jorge! Querido!--murmurou.
-
-
-
-
-III
-
-
-Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira,
-Luiza vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, não
-havia de gostar, não! Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se
-tanto! De manhã, ainda tinha os arranjos, a costura, a _toilette_,
-algum romance... Mas de tarde!
-
-Á hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, a solidão parecia
-alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o _seu_ toque da
-campainha, os seus passos no corredor!...
-
-Ao crepusculo, ao vêr cahir o dia, entristecia-se sem razão, cahia
-n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes,
-as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob os
-seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços molles.
-O que pensava em tolices então! E á noite, só, na larga cama franceza,
-sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites
-de viuvez.
-
-Não estava acostumada, não podia estar só. Até se lembrára de chamar a
-tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos
-era _alguem_: mas receou aborrecer-se mais ao pé da sua longa figura de
-viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga
-sobre um nariz d'aguia.
-
-N'aquella manhã pensára em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar,
-rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e
-saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma
-redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado de vêasinhas finas; e
-os seus braços redondinhos, um pouco vermelhos no cotovêlo, descobriam
-por baixo, quando se erguiam prendendo as tranças, fiosinhos louros,
-frisando e fazendo ninho.
-
-A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no
-quarto um cheiro agudo de vinagre de _toilette_: os transparentes de
-linho branco descidos davam uma luz baça, com tons de leite.
-
-Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa!
-Que o que tinha graça era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no
-Tabaquinho, um dia, ás tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e
-encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao pescoço! E á tardinha,
-pelo braço d'elle, ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco,
-ir vêr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito.
-Os homens vinham ás portas das lojas. Quem seria? É de Lisboa. É a do
-Engenheiro.--E diante do toucador, apertando o corpete do vestido,
-sorria áquellas imaginações, e ao seu rosto, no espelho.
-
-A porta do quarto rangeu devagarinho.
-
---Que é?
-
-A voz de Juliana, plangente, disse:
-
---A senhora dá licença que eu vá logo ao medico?
-
---Vá, mas não se demore. Puxe-me essa saia atraz. Mais. O que é que
-vossê tem?
-
---Enjôos, minha senhora, peso no coração. Passei a noite em claro.
-
-Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia
-um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos
-velhos.
-
---Pois sim, vá--disse Luiza.--Mas arranje tudo antes. E não se demore,
-hein ?
-
-Juliana subiu logo á cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas
-de sacada para as trazeiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do
-fogão.
-
---Diz que sim, snr.^a Joanna--disse á cozinheira--que podia ir. Vou-me
-vestir. Ella tambem está quasi prompta. Fica vossemecê com a casa por
-sua!
-
-A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir,
-estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos não
-deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um portal
-largo,--a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o
-Pedro, o seu amante. A pobre Joanna «babava-se» por ele. Era um
-rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de
-familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico
-seduzia-a com uma violencia abrazada. Como não podia sahir á semana,
-mettia-o em casa, pela porta de traz, quando estava só; estendia então
-na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se
-percebiam os paus de um veado.
-
-Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como
-azeviche, todo lustroso do oleo de amendoas dôces. Tinha a testa curta
-de plebêa teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o
-olhar mais negro.
-
---Ai!--suspirou Juliana.--A snr.^a Joanna é que a leva!
-
-A rapariga ficou escarlate.
-
-Mas Juliana acudiu logo:
-
---Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem!
-
-Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia d'ella: Joanna
-dava-lhe caldinhos ás horas de debilidade, ou, quando ella estava mais
-adoentada, fazia-lhe um bife ás escondidas da senhora. Juliana tinha
-um grande medo de «cair em fraqueza», e a cada momento precisava tomar
-a «sustancia». De certo, como feia e solteirona detestava aquelle
-«escandalo do carpinteiro»; mas protegia-o, porque elle valia muitos
-regalos aos seus fracos de gulosa.
-
---Fosse eu!--repetiu--dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a
-ter escrupulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vêem uma pessoa a
-morrer, e é como fosse um cão.
-
-E com um risinho amargo:
-
---Diz que me não demorasse no medico. É como quem diz, cura-te depressa
-ou espicha depressa!
-
-Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo:
-
---Todas o mesmo, uma récua!
-
-Desceu, começou a varrer o corredor.--Toda a noite estivera doente: o
-quarto no sotão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de
-tijolo cozido, dava-lhe enjôos, faltas d'ar, desde o começo do verão:
-na vespera até vomitára! E já levantada ás seis horas, não descançára,
-limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o
-estomago embrulhado!--Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais,
-atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão.
-
---A snr.^a D. Luiza está em casa?
-
-Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe
-pareceu «estrangeirado». Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno
-levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos
-resplandecia.
-
---A senhora vai sahir--disse ela olhando-o muito.--Faz favor de dizer
-quem é?
-
-O individuo sorriu.
-
---Diga-lhe que é um sujeito para um negocio. Um negocio de minas.
-
-Luiza, diante do toucador, já de chapéo, mettia n'uma casa do corpete
-dous botões de rosa de chá.
-
---Um negocio!--disse muito surprehendida--Deve ser algum recado para o
-snr. Jorge, de certo! Mande entrar. Que especie de homem é?
-
---Um janota!
-
-Luiza desceu o véo branco, calçou devagar as luvas de _peau de suède_
-claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e
-abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez _ah!_ toda escarlate.
-Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio.
-
-
-
-Houve um _shake-hands_ demorado, um pouco tremulo. Estavam ambos
-calados:--ella com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; elle
-fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas
-vieram logo, muito precipitadamente:--Quando tinha elle chegado? Se
-sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella?
-
-Chegára na vespera no paquete de Bordeus. Perguntára no ministerio:
-disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a _adresse_...
-
---Como tu estás mudada, Santo Deus!
-
---Velha?
-
---Bonita!
-
---Ora!
-
-E elle, que tinha feito? Demorava-se?
-
-Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Elle
-no sophá muito languidamente; ella ao pé, pousada de leve á beira d'uma
-poltrona, toda nervosa.
-
-Tinha deixado o _degredo_--disse elle.--Viera respirar um pouco á
-velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma.
-O ultimo anno passára-o em Paris. Vinha de lá, d'aquella aldeola de
-Paris!--Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre
-o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz.
-
-Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello
-preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno
-tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, a
-mesma doçura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de
-perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas
-bordadas nas suas meias de sêda. A Bahia não o vulgarisára. Voltava
-mais interessante!
-
---Mas tu, conta-me de ti--dizia elle com um sorriso, inclinado para
-ela.--És feliz, tens um pequerrucho...
-
---Não--exclamou Luiza rindo.--Não tenho! Quem te disse?
-
---Tinham-me dito. E teu marido demora-se?
-
---Tres, quatro semanas, creio.
-
-Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se logo para a vir vêr mais
-vezes, palrar um momento, pela manhã...
-
---Pudera não! És o unico parente, que tenho, agora...
-
-Era verdade!... E a conversação tomou uma intimidade melancolica:
-fallaram da mãi de Luiza, a _tia Jójó_, como lhe chamava Bazilio. Luiza
-contou a sua morte, muito dôce, na poltrona, sem um ai...
-
---Onde está sepultada?--perguntou Bazilio com uma voz grave; e
-acrescentou, puxando o punho da camisa de chita:--Está no nosso jazigo?
-
---Está.
-
---Hei-de ir lá. Pobre tia Jójó!
-
-Houve um silencio.
-
---Mas tu ias sahir!--disse Bazilio de repente, querendo erguer-se.
-
---Não!--exclamou--Não! Estava aborrecida, não tinha nada que fazer. Ia
-tomar ar. Não saio, já.
-
-Elle ainda disse:
-
---Não te prendas...
-
---Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento.
-
-Tirou logo o chapéo; n'aquelle movimento os braços erguidos repuxaram o
-corpete justo, as fórmas do seio accusaram-se suavemente.
-
-Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalçar as luvas:
-
---Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas...
-Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu...
-
-Ella riu-se.
-
---De certo que não...
-
-Bazilio disse então, lentamente, fitando o chão:
-
---Ah! Outros tempos!
-
-E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira idéa, mal chegára, tinha
-sido tomar uma tipoia e ir lá: queria vêr a quinta; ainda existiria o
-balouço debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramanchão de rosinhas
-brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?...
-
-Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre
-a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de
-vidro; e a velha casa morgada fôra reconstruida e mobilada pelo Gardé.
-
---A nossa pobre sala de bilhar, côr d'oca, com grinaldas de
-rosas!--disse Bazilio; e fitando-a:--Lembras-te das nossas partidas de
-bilhar?
-
-Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos
-para elle, disse, sorrindo:
-
---Eramos duas crianças!
-
-Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete:
-parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida:
-
---Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo!
-
-Ella via a sua cabeça bem feita, descahida n'aquella melancolia
-das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos
-brancos--que lhe dera a separação. Sentia tambem uma vaga saudade
-encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, como para
-dissipar na luz viva e forte aquella perturbação. Perguntou-lhe então
-pelas viagens, por Paris, por Constantinopla.
-
-Fôra sempre o seu desejo viajar--dizia--ir ao Oriente. Quereria andar
-em caravanas, balouçada no dorso dos camêlos; e não teria medo, nem do
-deserto, nem das feras...
-
---Estás muito valente!--disse Bazilio.--Tu eras uma maricas, tinhas
-medo de tudo... Até da adega, na casa do papá, em Almada!
-
-Ella córou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterranea
-que dava arripios! A candêa d'azeite pendurada na parede alumiava com
-uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de têas d'aranha,
-e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia alli ás vezes, pelos
-cantos, beijos furtados...
-
-Quiz saber então o que tinha feito em Jerusalém, se era bonito.
-
-Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo Sepulchro; depois
-d'almoço montava a cavallo... Não se estava mal no hotel, inglezas
-bonitas... Tinha algumas intimidades illustres...
-
-Fallava d'ellas, devagar, traçando a perna: o seu amigo o patriarcha
-de Jerusalém, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas
-o melhor do dia era de tarde--dizia--no Jardim das Oliveiras, vendo
-defronte as muralhas do templo de Salomão, ao pé a aldêa escura de
-Bethania onde Martha fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando
-immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco,
-fumando tranquillamente o seu cachimbo!
-
-Se tinha corrido perigos?
-
-De certo. Uma tempestade de arêa no deserto de Petra! Horrivel! Mas
-que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua
-_toilette_:--uma manta de pelle de camêlo ás listras vermelhas e
-pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de Bagdad, e a lança comprida
-dos Beduinos.
-
---Devia-te ficar bem!
-
---Muito bem. Tenho photographias.
-
-Prometteu dar-lhe uma, e acrescentou:
-
---Sabes que te trago presentes?
-
---Trazes?--E os seus olhos brilhavam.
-
-O melhor era um rosario...
-
---Um rosario?
-
---Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha de Jerusalém sobre
-o tumulo de Christo, depois pelo papa...
-
-Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito aceado, já todo
-branquinho, vestido de branco, muito amavel!
-
---Tu d'antes não eras muito devota--disse.
-
---Não, não sou muito caturra n'essas cousas--respondeu rindo.
-
---Lembras-te da capella de nossa casa em Almada?
-
-Tinham passado alli lindas tardes! Ao pé da velha capella morgada
-havia um adro todo cheio de altas hervas floridas,--e as papoulas,
-quando vinha a aragem, agitavam-se como azas vermelhas de borboletas
-pousadas...
-
---E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica?
-
---Não fallemos no que lá vai!
-
-Em que queria ella então que elle fallasse? Era a sua mocidade, o
-melhor que tivera na vida...
-
-Ella sorriu, perguntou:
-
---E no Brazil?
-
-Um horror! Até fizera a côrte a uma mulata.
-
---E porque te não casaste?...
-
-Estava a mangar! Uma mulata!
-
---E de resto--acrescentou com a voz d'um arrependimento
-triste--já que me não casei quando devia,--encolheu os hombros
-melancolicamente--acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro.
-
-Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio.
-
---E qual é o outro presente, então, além do rosario?
-
---Ah! Luvas. Luvas de verão, de _peau de suède_, de oito botões. Luvas
-decentes. Vossês aqui usam umas luvitas de dous botões, a vêr-se o
-punho, um horror!
-
-De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se
-vestiam peor! Era atroz! Não dizia por ella; até aquelle vestido tinha
-_chic_, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em
-Paris! Que deliciosas, que frescas as _toilettes_ d'aquelle verão!
-Oh! mas em Paris!... Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegára
-ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer!--Só em Paris se
-come--resumiu.
-
-Luiza voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço
-por uma fita de velludo preto.
-
---E estiveste então um anno em Paris?
-
-Um anno divino. Tinha um _appartamento_ lindissimo, que pertencera a
-lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos...
-
-E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos:
-
---Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais confortavel possivel!...
-Dize cá, tens algum retrato n'esse medalhão?
-
---O retrato de meu marido.
-
---Ah! deixa vêr!
-
-Luiza abriu o medalhão. Elle debruçou-se; tinha o rosto quasi sobre o
-peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos.
-
---Muito bem, muito bem!--fez Bazilio.
-
-Ficaram calados.
-
---Que calor que está!--disse Luiza.--Abafa-se, hein!
-
-Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O sol deixára a varanda.
-Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinellas.
-
---É o calor do Brazil--disse elle.--Sabes que estás mais crescida?
-
-Luiza estava de pé. O olhar de Bazilio corria-lhe as linhas do corpo; e
-com a voz muito intima, os cotovêlos sobre os joelhos, o rosto erguido
-para ella:
-
---Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te viria vêr?
-
---Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. És o meu unico
-parente... O que tenho pena é que meu marido não esteja...
-
---Eu--acudiu Bazilio--foi justamente por elle não estar...
-
-Luiza fez-se escarlate. Bazilio emendou logo, um pouco corado tambem:
-
---Quero dizer... talvez elle saiba que houve entre nós...
-
-Ella interrompeu:
-
---Tolices! Eramos duas crianças. Onde isso vai!
-
---Eu tinha vinte e sete annos--observou elle, curvando-se.
-
-Ficaram calados, um pouco embaraçados. Bazilio cofiava o bigode,
-olhando vagamente em redor.
-
---Estás muito bem installada aqui--disse.
-
-Não estava mal... A casa era pequena, mas muito commoda. Pertencia-lhes.
-
---Ah! estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta d'ouro?
-
-E indicava o retrato por cima do sophá.
-
---A mãi de meu marido.
-
---Ah! vive ainda?
-
---Morreu.
-
---É o que uma sogra póde fazer de mais amavel...
-
-Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguçados,
-e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapéo.
-
---Já? Onde estás?
-
---No Hotel Central. E até quando?
-
---Até quando quizeres. Não disseste que vinhas ámanhã com o rosario?
-
-Elle tomou-lhe a mão, curvou-se:
-
---Já se não póde dar um beijo na mão d'uma velha prima?
-
---Porque não?
-
-Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com uma pressão dôce.
-
---Adeus!--disse.
-
-E á porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se:
-
---Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo,
-como se vai isto passar?
-
---Isto quê? Vêrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu?
-
-Elle hesitou, sorriu:
-
---Imaginei que não eras tão boa rapariga. Adeus. Ámanhã, hein?
-
-No fundo da escada accendeu o charuto, devagar.
-
---Que bonita que ella está!--pensou.
-
-E arremessando o phosphoro, com força:
-
---E eu, pedaço d'asno, que estava quasi decidido a não a vir vêr!
-Está de appetite! Está muito melhor! E sósinha em casa, aborrecidinha
-talvez!...
-
-Ao pé da Patriarchal fez parar um _coupé_ vazio; e estendido, com o
-chapéo nos joelhos, em quanto a parelha esfalfada trotava:
-
---E tem-me o ar de ser muito aceada, cousa rara na terra! As mãos muito
-bem tratadas! O pé muito bonito!
-
-Revia a pequenez do pé, poz-se a fazer por elle o desenho mental de
-outras bellezas, despindo-a, querendo adivinhal-a... A amante que
-deixára em Paris era muito alta e magra, d'uma elegancia de tisica;
-quando se decotava viam-se as saliencias das suas primeiras costellas.
-E as fórmas redondinhas de Luiza decidiram-no:
-
---A ella!--exclamou com appetite:--A ella, como S. Thiago aos mouros!
-
-
-
-Luiza, quando o sentiu em baixo fechar a porta da rua, entrou no
-quarto, atirou o chapéo para a _causeuse,_ e foi-se logo vêr ao
-espelho. Que felicidade estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em
-roupão, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de pós
-de arroz. Foi á janella, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda
-nas casas fronteiras. Sentia-se cançada. Áquellas horas, Leopoldina
-estava a jantar já, de certo... Pensou em escrever a Jorge «para
-matar o tempo», mas veio-lhe uma preguiça; estava tanto calor! Depois
-não tinha que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar diante do
-espelho, olhando-se muito, gostando de se vêr branca, acariciando a
-finura da pelle, com bocejos languidos d'um cansaço feliz.--Havia
-sete annos que não via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, mais
-queimado, mas ia-lhe bem!
-
-E depois de jantar ficou junto á janella, estendida na _voltaire_, com
-um livro esquecido no regaço. O vento cahira, e o ar, de um azul forte
-nas alturas, estava immovel; a poeira grossa pousára, a tarde tinha
-uma transparencia calma de luz; passaros chilreavam na figueira brava;
-da serralheria proxima sahia o martellar continuo e sonoro de folhas
-de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de côr
-de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas.
-Depois tudo se cobriu de uma sombra diffusa, calada e quente, com uma
-estrellinha muita viva que luzia e tremia. E Luiza deixára-se ficar na
-_voltaire_ esquecida, absorvida, sem pedir luz.
-
---Que vida interessante a do primo Bazilio!--pensava.--O que elle tinha
-visto! Se ella podesse tambem fazer as suas malas, partir, admirar
-aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes!
-Como desejaria visitar os paizes que conhecia dos romances--a Escocia e
-os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palacios tragicos; aportar
-ás bahias, onde um mar luminoso e faiscante morre na arêa fulva; e das
-cabanas dos pescadores, de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vêr
-azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris
-sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria de certo; eram pobres; Jorge era
-caseiro, tão lisboeta!
-
-Como seria o patriarcha de Jerusalém? Imaginava-o de longas barbas
-brancas, recamado d'ouro, entre instrumentações solemnes e rolos de
-incenso! E a princeza de La Tour d'Auvergne? Devia ser bella, de uma
-estatura real, vivia cercada de pagens, namorára-se de Bazilio.--A
-noite escurecia, outras estrellas luziam.--Mas de que servia viajar,
-enjoar nos paquetes, bocejar nos wagons, e, n'uma diligencia muita
-sacudida, cabecear de somno pela serra nas madrugadas frias? Não era
-melhor viver n'um bom conforto, com um marido terno, uma casinha
-abrigada, colxões macios, uma noite de theatro ás vezes, e um bom
-almoço nas manhãs claras quando os canarios chalram? Era o que ella
-tinha. Era bem feliz! Então veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria
-abraçal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o fumando o seu
-cachimbo no escriptorio, com o seu jaquetão de velludo. Tinha tudo,
-elle, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era bello, com uns
-olhos magnificos, terno, fiel. Não gostaria de um marido com uma vida
-sedentaria e caturra: mas a profissão de Jorge era interessante; descia
-aos poços tenebrosos das minas, um dia aperrára as pistolas contra
-uma malta revoltada; era valente, tinha talento! Involuntariamente,
-porém, o primo Bazilio fazendo fluctuar o seu _burnous_ branco pelas
-planicies da Terra Santa; ou em Paris, direito na almofada, governando
-tranquillamente os seus cavallos inquietos--davam-lhe a idéa d'uma
-outra existencia mais poetica, mais propria para os episodios do
-sentimento.
-
-Do céo estrellado cahia uma luz diffusa: janellas alumiadas sobresahiam
-ao longe, abertas á noite abafada: vôos de morcegos passavam diante da
-vidraça.
-
---A senhora não quer luz?--perguntou á porta a voz fatigada de Juliana.
-
---Ponha-a no quarto.
-
-Desceu. Bocejava muito, sentia-se quebrada.
-
---É trovoada--pensou.
-
-Foi á sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da _Lucia_, da
-_Somnambula_, o _Fado_; e parando, os dedos pousados de leve sobre
-o teclado, poz-se a pensar que Bazilio devia vir no dia seguinte:
-vestiria o roupão novo de _foulard_ côr de castanho! Recomeçou o
-_Fado_, mas os olhos cerravam-se-lhe.
-
-Foi para o quarto.
-
-Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinellas, com
-um casabeque pelos hombros, encolhida e lugubre. Aquella figura com um
-ar de enfermaria irritou Luiza:
-
---Credo, mulher! Vossê parece a imagem da morte!
-
-Juliana não respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa,
-sobre a commoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos:
-
---A senhora não precisa mais nada, não?
-
---Vá-se, mulher, vá!
-
-
-
-Juliana foi buscar o candieiro de petroleo, subiu ao quarto. Dormia em
-cima, no sotão, ao pé da cozinheira.
-
---Pareço-te a imagem da morte!--resmungava, furiosa.
-
-O quarto era baixo, muito estreito, com o tecto de madeira inclinado;
-o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado
-como um forno; havia sempre á noite um cheiro requentado de tijolo
-escandecido. Dormia n'um leito de ferro, sobre um colxão de palha
-molle coberto d'uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os
-seus _bentinhos_ e a rêde enxovalhada que punha na cabeça; ao pé tinha
-preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa
-fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova
-de cabello ennegrecida e despellada, um pente d'osso, as garrafas de
-remedio, uma velha pregadeira de setim amarello, e, embrulhada n'um
-jornal, a _cuia_ de retroz dos domingos. E o unico adorno das paredes
-sujas, riscadas da cabeça de phosphoros,--era uma lithographia de Nossa
-Senhora das Dôres por cima da cama, e um daguerreotypo onde se percebia
-vagamente, no reflexo espelhado da lamina, os bigodes encerados e as
-divisas de um sargento.
-
---A senhora já se deitou, snr.^a Juliana?--perguntou a cozinheira do
-quarto pegado, d'onde sahia uma barra de luz viva cortando a escuridão
-do corredor.
-
---Já se deitou, snr.^a Joanna, já. Está hoje com os azeites. Falta-lhe
-o homem!
-
-Joanna, ás voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. Não podia
-dormir! Abafava-se! Ouf!
-
---Ai! e aqui!--exclamou Juliana.
-
-Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calçou
-as chinellas de tapete, e foi ao quarto de Joanna. Mas não entrou,
-ficou á porta; era _criada de dentro_, evitava familiaridades. Tinha
-tirado a _cuia_, e com um lenço preto e amarello amarrado na cabeça, o
-seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do craneo;
-a camisa decotada descobria as claviculas descarnadas; a saia curta
-mostrava as canellas muito brancas, muito seccas. E com o casabeque
-pelos hombros, coçando devagarinho os cotovêlos agudos:
-
---Diga-me cá, snr.^a Joanna--disse com a voz discreta--aquelle sujeito
-demorou-se muito? Reparou?
-
---Tinha sahido n'aquelle instantinho, quando vossemecê entrou. Ouf!
-
-Encalmada, quasi descoberta, com as pernas muito abertas, Joanna
-coçava-se furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos á minhota
-que lhe descobria os peitos. Não podia parar com os persevejos! O raio
-do quarto tinha ninhos! Até sentia o estomago embrulhado.
-
---Ai! é um inferno!--disse com lastima Juliana.--Eu só adormeço com
-dia. Mas ainda eu agora reparo... Vossemecê tem S. Pedro á cabeceira. É
-devoção?
-
---É o santo do meu rapaz--disse a outra. Sentou-se na cama. Ouf! E
-então tinha estado toda a noite com uma sêde!...
-
-Saltou para o chão, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi
-ao jarro, pôl-o á bocca, bebeu uma tarraçada. A camisa justa, feita de
-pouca fazenda, mostrava as fórmas rijas e valentes.
-
---Pois eu fui ao medico--disse Juliana. E com um grande suspiro:--Ai!
-isto só Deus, snr.^a Joanna! Isto só Deus!
-
-Mas porque se não resolvia a snr.^a Juliana a ir á mulher de virtude?
-Era a saude certa. Morava ao Poço dos Negros; tinha orações e unguentos
-para tudo. Levava meia moeda pelo _preparo_...
-
---Que isso são humores, snr.^a Juliana. O que vossemecê tem, são
-humores.
-
-Juliana tinha dado dous passos para dentro do quarto. Quando se tratava
-de doenças, de remedios, tornava-se mais familiar.
-
---Eu já me tenho lembrado... eu já me tenho lembrado de ir á mulher.
-Mas, meia moeda!
-
-E ficou a olhar, tristemente, reflectindo.
-
---É o que eu tenho junto para umas botinas de gaspia!
-
-Eram o seu vicio, as botinas! Arruinava-se com ellas: tinha-as de
-duraque com ponteiras de verniz, de cordovão com laço, de pellica
-com pespontos de côr, embrulhadas em papeis de sêda, na arca,
-fechadas--guardadas para os domingos!
-
-Joanna censurou-a.
-
---Ai! eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os
-arrebiques!
-
-Queixou-se tambem da sua miseria. Tinha pedido á senhora um mez
-adiantado! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo
-gosto da que trazia, a desfazerem-se!
-
---Mas, então!--suspirou--O meu rapaz precisou um dinheiro...
-
---Vossemecê tambem, snr.^a Joanna, deixa-se cardar pelo homem!
-
-Joanna sorriu.
-
---Ainda que eu tivesse de roer ossos, snr.^a Juliana, a ultima migalha
-havia de ser p'ra elle!
-
-Juliana teve um risinho secco, e com a voz arrastada:
-
---Vale lá a pena!
-
-Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse d'aquelle amor, pelas
-suas delicias. Repetiu, contrafeita:
-
---Vale lá a pena! Perfeito rapaz--continuou--o que veio hoje vêr a
-senhora! Melhor que o homem!
-
-E depois d'uma pausa:
-
---Então esteve mais de duas horas?
-
---Tinha sahido quando vossemecê entrou.
-
-Mas o candieiro de petroleo apagava-se, com um cheiro fetido e uma
-fumarada negra.
-
---Boa noite, snr.^a Joanna. Ainda vou rezar a minha corôa.
-
---Ó snr.^a Juliana!--disse a outra d'entre os lençoes--Se vossemecê
-quer rezar tres salvè-rainhas pela saude do meu rapaz que tem estado
-adoentado, eu cá lhe rezava tres pelas melhoras do peito.
-
---Pois sim, snr.^a Joanna!
-
-Mas reflectindo:
-
---Olhe. Eu do peito vou melhor; dê-m'as antes p'ra allivio das dôres de
-cabeça. A Santa Engracia!
-
---Como vossemecê quizer, snr.^a Juliana.
-
---Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe ahi um cheiro! Credo!
-
-Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor molle continuo cahia
-do forro; começou a faltar-lhe o ar: tornou a abrir o postigo, mas o
-bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a; e era assim todas as
-noites, desde o começo do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam
-de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto
-peor. Nunca!
-
-A cozinheira começou a resonar ao lado. E acordada, ás voltas, com
-afflicções no coração, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma
-amargura maior!
-
-
-
-Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mãi
-fôra engommadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito,
-a quem chamavam na visinhança--_o fidalgo_, a quem sua mãi chamava--o
-snr. D. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no verão, no inverno
-de manhã, para a saleta onde sua mãi engommava, e alli estava horas
-sentado no poial da janella que dava para um quintalejo, fumando
-cachimbo, cofiando em silencio um enorme bigode preto. Como o poial era
-de pedra, punha-lhe em cima, com muito methodo, uma almofada de vento,
-que elle mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena
-de velludo castanho e chapéo alto branco. Ás seis horas levantava-se,
-esvaziava a almofada, estava um bocado a esticar as calças para cima,
-e sahia, com a sua grossa bengala de cana da India debaixo do braço,
-gingando da cinta. Ella e sua mãi iam então jantar na mesinha de pinho
-da cozinha debaixo d'um postigo, diante do qual se balouçavam, de verão
-e d'inverno, galhos magros d'uma arvore triste.
-
-Á noite o snr. D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua mãi
-fazia-lhe chá e torradas, servia-o, toda enlevada n'elle. Muitas vezes
-Juliana a vira chorar de ciumes.
-
-Um dia uma visinha má, a quem ella não quizera ajudar a lavar a roupa,
-enfureceu-se, e atirando-lhe injurias dos degraus da porta,--gritou-lhe
-que sua mãi era uma desavergonhada, e que seu pai estava na Africa por
-ter morto o _Rei de Copas_!
-
-Pouco tempo depois foi servir. Sua mãi morreu d'ahi a mezes, com uma
-doença d'utero. Juliana só uma vez tornou a vêr o snr. D. Augusto,--uma
-tarde, com uma opa rôxa, lugubre, na procissão de Passos!
-
-Servia, havia vintes annos. Como ella dizia, mudava de amos, mas não
-mudava de sorte. Vinte annos a dormir em cacifros, a levantar-se
-de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a soffrer
-os repellões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer
-despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se
-quando voltava a saude!... Era de mais! Tinha agora dias em que só de
-vêr o balde das aguas sujas e o ferro d'engommar se lhe embrulhava o
-estomago. Nunca se acostumára a servir. Desde rapariga a sua ambição
-fôra ter um negociosito, uma tabacaria, uma loja de capellista ou de
-quinquilherias, dispôr, governar, ser patrôa: mas, apesar d'economias
-mesquinhas e de calculos sôfregos, o mais que conseguira juntar foram
-sete moedas ao fim d'annos: tinha então adoecido; com o horror do
-hospital fôra tratar-se para casa d'uma parenta; e o dinheiro, ai!
-derretera-se! No dia em que se trocou a ultima libra, chorou horas com
-a cabeça debaixo da roupa.
-
-Ficou sempre adoentada desde então, perdeu toda a esperança de se
-estabelecer. Teria de servir até ser velha, sempre, d'amo em amo! Essa
-certeza dava-lhe uma desconsolação constante. Começou a azedar-se.
-
-E depois não tinha _geito_, não sabia tirar partido das casas: via
-companheiras divertir-se, visinhar, janellar, bisbilhotar, sahir aos
-domingos ás hortas e aos retiros, levar o dia cantando, e quando as
-patrôas iam ao theatro, abrir a porta aos derriços--e patuscar pelos
-quartos! Ella não. Sempre fôra embezerrada. Fazia a sua obrigação,
-comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando não passeava,
-encostava-se a uma janella, com o lenço sobre o peitoril para não
-roçar as mangas, e alli estava immovel, a olhar, com o seu broche de
-filigrana e a cuia dos dias santos! Outras companheiras eram muito das
-amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fóra as historias
-da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e p'ra dentro e p'ra fóra,
-muito confidentes,--muito presenteadas tambem! Ella não podia. Era
-_minha senhora isto! minha senhora aquillo!_ E cada uma no seu lugar!
-Era genio.
-
-Desde que servia, apenas entrava n'uma casa sentia logo, n'um relance,
-a hostilidade, a malquerença: a senhora fallava-lhe com seccura, de
-longe; as crianças tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam
-chalrando, calavam-se, mal a sua figura esguia apparecia; punham-lhe
-alcunhas--_a isca sêcca_, _a fava torrada_, _o saca-rolhas_;
-imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos
-cantos; e só tinha encontrado alguma sympathia nos gallegos taciturnos,
-cheios d'uma saudade morrinhenta, que veem de manhã quando ainda os
-quartos estão escuros, com as suas grossas passadas, encher os barris,
-engraxar o calçado.
-
-Lentamente, começou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste;
-tinha respostadas, questões com as companheiras; não se havia de deixar
-pôr o pé no pescoço!
-
-As antipathias que a cercavam faziam-na assanhada, como um circulo
-d'espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhe
-ennodoar a pelle; e se lhe ralhavam, a sua colera rompia em rajadas.
-Começou a ser despedida. N'um só anno esteve em tres casas. Sahia com
-escandalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas
-pallidas, todas nervosas...
-
-A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Victoria, disse-lhe:
-
---Tu acabas por não ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do pão!
-
-O pão! Aquella palavra que é o terror, o sonho, a difficuldade do pobre
-assustou-a. Era fina, e dominou-se. Começou a fazer-se «uma pobre
-mulher», com affectações de zelo, um ar de soffrer tudo, os olhos
-no chão. Mas roia-se por dentro: veio-lhe a inquietação nervosa dos
-musculos da face, o _tic_ de franzir o nariz: a pelle esverdeou-se-lhe
-de bilis.
-
-A necessidade de se constranger trouxe-lhe o habito d'odiar: odiou
-sobretudo as patrôas, com um odio irracional e pueril. Tivera-as ricas,
-com palacetes, e pobres, mulheres d'empregados, velhas e raparigas,
-colericas e pacientes;--odiava-as a todas, sem differença. É patrôa
-e basta! Pela mais simples palavra, pelo acto mais trivial! Se as
-via sentadas:--Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as via
-sahir:--Vai-te, a negra cá fica no buraco! Cada riso d'ellas era uma
-offensa á sua tristeza doentia; cada vestido novo uma affronta ao seu
-velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos
-e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham
-um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o
-dia em voz de falsete a _Carta adorada_! Com que gosto trazia a conta
-retardada d'um credor impaciente, quando presentia embaraços na casa!
-«Este papel!--gritava com uma voz estridente--diz que não se vai embora
-sem uma resposta!» Todos os lutos a deleitavam,--e sob o chale preto,
-que lhe tinham comprado, tinha palpitações de regosijo. Tinha visto
-morrer criancinhas, e nem a afflicção das mães a commovera; encolhia os
-hombros: «Vai d'alli, vai fazer outro. Cabras!»
-
-As boas palavras mesmo, as condescendencias eram perdidas com ella,
-como gotas d'agua lançadas no fogo. Resumia as patrôas na mesma
-palavra--_uma récua_! E detestava as boas pelos vexames que soffrera
-das más. A ama era para ella o Inimigo, o Tyranno. Tinha visto morrer
-duas,--e de cada vez sentira, sem saber porquê, um vago allivio, como
-se uma porção do vasto peso, que a suffocava na vida, se tivesse
-desprendido e evaporado!
-
-Sempre fôra invejosa; com a idade aquelle sentimento exagerou-se de
-um modo aspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos
-comiam, a roupa branca que vestiam. As noites de _soirée_, de theatro,
-exasperavam-na. Quando havia passeios projectados, se chovia de
-repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapéo,
-olhando por dentro da vidraça com um tedio infeliz, deliciava-a,
-fazia-a loquaz:
-
---Ai minha senhora! É um temporal desfeito! É a cantaros, está para
-todo o dia! Olha o ferro!
-
-E muito curiosa: era facil encontral-a, de repente, cosida por detraz
-de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguçado. Qualquer carta
-que vinha era revirada, cheirada... Remexia subtilmente em todas as
-gavetas abertas, vasculhava em todos os papeis atirados. Tinha um modo
-de andar ligeiro e surprehendedor. Examinava as visitas. Andava á busca
-de um _segredo_, de um _bom segredo_! Se lhe cahia um nas mãos!
-
-Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de
-petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho
-avermelhado seguia avidamente as porções cortadas á mesa; e qualquer
-bom appetite que repetia exasperava-a, como uma diminuição da sua
-parte. De comer sempre os restos ganhára o ar aguado,--o seu cabello
-tomára tons seccos, côr de rato. Era lambareira: gostava de vinho;
-em certos dias comprava uma garrafa de oitenta reis, e bebia-a só,
-fechada, repimpada, com estalos da lingua, a orla do vestido um pouco
-erguida, revendo-se no pé.
-
-E nunca tivera um homem, era virgem. Fôra sempre feia, ninguem a
-tentára: e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, não se
-offerecera, como vira muitas, claramente. O unico homem que a olhára
-com desejo tinha sido um criado de cavalhariça, atarracado e immundo,
-de aspecto facinora: a sua magreza, a sua _cuia_, o seu ar domingueiro
-tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de _bull-dog_. Causára-lhe
-horror,--mas vaidade. E o primeiro homem por quem ella sentira, um
-criado bonito e alourado, rira-se d'ella, pozera-lhe o nome da _Isca
-sêcca_! Não contou mais com os homens, por despeito, por desconfiança
-de si mesma. As rebelliões da natureza, suffocava-as; eram _fogachos,
-flatos_. Passavam. Mas faziam-na mais secca; e a falta d'aquella grande
-consolação aggravava a miseria da sua vida.
-
-Um dia teve, emfim, uma grande esperança. Entrára para o serviço
-da snr.^a D. Virginia Lemos, uma viuva rica, tia de Jorge, muito
-doente, quasi a morrer com um catarrho de bexiga. A tia Victoria, a
-inculcadeira, preveniu-a:
-
---Tu trata a velha, apaparica-a, que ella o que quer é uma enfermeira
-que a soffra. É rica, não é nada apegada ao dinheiro, é capaz de te
-deixar uma independencia!
-
-Durante um anno Juliana, roída de ambição, foi a enfermeira da velha.
-Que zelos! que mimos!
-
-Virginia era muito rabugenta, a idéa de morrer enfurecia-a; quanto mais
-ella ralhava com a sua voz guttural, mais Juliana se fazia serviçal. A
-velha, por fim, estava enternecida: gabava-a ás pessoas que a vinham
-vêr, chamava-lhe a sua _providencia_. Tinha-a recommendado muito a
-Jorge.
-
---Não ha outra! não ha outra!--exclamava.
-
---Pois apanhaste!--dizia-lhe a tia Victoria.--Pelo menos deixa-te o teu
-conto de reis.
-
-Um conto de reis! Juliana, de noite, em quanto a velha gemia no seu
-antigo leito de pau santo, via o conto de reis á claridade morbida que
-dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotavel e prodigioso.
-Que faria com o dinheiro? E, á cabeceira da doente, com um cobertor
-pelos hombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de
-capellista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um
-conto de reis era um dote, poderia casar, teria um homem!
-
-Estavam acabadas as canceiras. Ia jantar, emfim, o _seu_ jantar!
-Mandar, emfim, a _sua_ criada! A _sua_ criada! Via-se a chamal-a,
-a dizer-lhe, de cima para baixo:--Faça, vá, despeje, sáia!--Tinha
-contracções no estomago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe
-andassem direitas! Desmazelos, más respostas, não havia de soffrer a
-criadas!--E, impellida por aquellas imaginações, arrastava subtilmente
-as chinellas pelo quarto, fallando só.--Não, desmazelos, não havia de
-soffrer! Mantel-as bem, de certo, porque quem trabalha precisa metter
-p'ra dentro! Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! lá isso, haviam de
-lhe andar direitas...--A velha tinha então um gemido mais afflicto.
-
---É agora!--pensava--Morre!
-
-E o seu olhar ancioso ia logo para a gaveta da commoda, onde estava
-de certo o dinheiro, os papeis. Mas não! a velha queria beber, ou
-voltar-se...
-
---Como se sente?--perguntava Juliana, com uma voz plangente.
-
---Melhor, Juliana, melhor--murmurava.
-
-Suppunha-se sempre melhor.
-
---Mas a senhora tem estado desinquieta!--dizia Juliana, despeitada da
-melhora.
-
---Não--suspirava--dormi bem!
-
---Isso não tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite
-a gemer!
-
-Queria argumentar com ella, convencel-a que estava peor! Convencer-se a
-si mesma que o allivio era ephemero, que ia morrer depressa! E todas as
-manhãs seguia o dr. Pinto até á porta, com os braços cruzados, a face
-triste:
-
---Então, snr. doutor, não ha esperança?
-
---Está por dias!
-
-Queria saber os dias: dous? cinco?
-
---Sim, snr.^a Juliana--dizia o velho, calçando as suas luvas
-pretas--uns dias, sete, oito.
-
---Oito dias!
-
-E como a felicidade se aproximava, já tinha de olho tres pares de
-botinas que vira na vidraça do Manoel Lourenço!
-
-A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento!
-
-Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados d'ella com a tia
-Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para
-criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar.
-
-Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, começava a queixar-se
-mais do coração. Vinha desilludida de tudo, tinha ás vezes vontade de
-morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus _ais_. Luiza achava-a
-funebre.
-
-Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge não consentiu,
-estava em divida com ella, dizia. Mas Luiza não podia disfarçar a
-sua antipathia;--e Juliana começou a detestal-a: poz-lhe logo um
-nome:--a _piorrinha_! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores:
-renovava-se a mobilia da sala! A tia Virginia deixára tres contos de
-reis a Jorge,--e ella, ella que durante um anno fôra a enfermeira,
-humilde como um cão e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo,
-tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das
-canceiras! Julgava-se vagamente roubada. Começou a odiar a casa.
-
-Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia n'um cubiculo abafado; ao
-jantar não lhe davam vinho, nem sobremesa; o serviço dos engommados
-era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, e era um
-trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha:
-achava despropositada aquella mania de se pôrem a chafurdar todos os
-dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca
-vira semelhante desproposito! A unica vantagem--dizia ella á tia
-Victoria--era não haver pequenos; tinha horror a crianças! Além d'isso
-achava que o bairro era saudavel; e como tinha a cozinheira «na mão»,
-não é verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato
-melhor de vez em quando! Por isso ficava; senão, não era ella!
-
-Fazia no entanto o seu serviço, ninguem tinha nada que lhe dizer. O
-olho aberto sempre e o ouvido á escuta, já se vê! E como perdera a
-esperança de se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economisar:
-por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e
-satisfazia o seu vicio,--trazer o pé catita. O pé era o seu orgulho, a
-sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino.
-
---Como poucos--dizia ella--não vai outro ao Passeio!
-
-E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito
-para fóra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico,
-e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de
-sêda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, immovel, feliz,--a
-mostrar, a expôr o pé!
-
-
-
-
-IV
-
-
-Pelas tres horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para
-uma cadeira, derreada. Não se tinha nas pernas de debilidade! Desde as
-duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta
-na vespera até deixára cinza de tabaco por cima das mesas! A negra é
-que as pagava. E que calor! Era de derreter! Ouf!
-
---O caldinho ha-de estar prompto, hein!--disse, adocicando a
-voz.--Tira-m'o, snr.^a Joanna, faz favor?
-
---Vossemecê hoje está com outra cara--notou a cozinheira.
-
---Ai! sinto-me outra, snr.^a Joanna! Pois olhe que adormeci com dia. Já
-luzia o dia!
-
---E eu!--Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma côr de fogo a
-passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na bocca do estomago,
-como quem pisava uvas n'um lagar!
-
---Enfartamento--disse sentenciosamente Juliana, e repetiu:
-
---Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me não sinto tão bem!
-
-Sorria com os seus dentes amarellados. O caldo que Joanna deitava na
-malga branca, com um vapor cheiroso, cheio de hortaliça, dava-lhe uma
-alegria gulosa. Estendeu os pés, recostou-se, feliz, na boa sensação
-da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janellas
-abertas.
-
-O sol retirára-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro,
-plantas pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor: sobre
-uma táboa a um canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um pé
-de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteirão: esfregões
-seccavam n'uma corda: e para além alargava-se o azul vivo como um
-metal candente, as arvores dos quintaes tinham tons ardentes do sol,
-os telhados pardos com as suas vegetações esguias coziam no calor, e
-pedaços de paredes caiadas despediam uma rebrilhação dura.
-
---Está de appetite, snr.^a Joanna, está de appetite!--dizia Juliana,
-remexendo o caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de pé, com os
-braços cruzados sobre o seu peito abundante, regosijava-se:
-
---O que se quer é que esteja a gosto.
-
---Está a preceito.
-
-Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras.--E a campainha da
-porta que já tinha tocado, tornou a tilintar discretamente.
-
-Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente entravam: ouvia-se ferver
-a panella no fogão, e fóra o martellar incessante da forja: ás vezes o
-arrulhar triste de duas rôlas que viviam na varanda, n'uma gaiola de
-vime, punha na tarde abrazada uma sensação de suavidade.
-
-A campainha retilintou, sacudida com impaciencia.
-
---Com a cabeça, burro!--disse Juliana.
-
-Riram. Joanna fôra sentar-se á janella, n'uma cadeira baixa; estendia
-os seus grossos pés, calçados de chinellas de ourêlo; coçava-se
-devagarinho no sovaco, toda repousada.
-
-A campainha retiniu violentamente.
-
---Fóra, besta!--rosnou Juliana, muito tranquilla.
-
-Mas a voz irritada de Luiza chamou de baixo:
-
---Juliana!
-
---Que nem uma pessoa póde tomar a sustancia socegada! Raio de casa!
-Irra!
-
---Juliana!--gritou Luiza.
-
-A cozinheira voltou-se, já assustada:
-
---A senhora zanga-se, snr.^a Juliana.
-
---Que a leve o diabo!
-
-Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu furiosa.
-
---Vossê não ouve, mulher? Estão a bater ha uma hora!
-
-Juliana arregalou os olhos espantada: Luiza tinha vestido o roupão novo
-de _foulard_ côr de castanho, com pintinhas amarellas!
-
---Temos novidade! Temol-a grossa!--pensou Juliana pelo corredor.
-
-A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao
-peito, um embrulho debaixo do braço, estava o _sujeito do negocio das
-minas_!
-
---Aquelle sujeito de hontem!--veio dizer, toda pasmada.
-
---Mande entrar...
-
---Viva!--pensou.
-
-Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de
-jubilo:
-
---Está cá o peralta de hontem! Está cá outra vez! Traz um
-embrulho!--Que lhe parece, snr.^a Joanna? Que lhe parece?
-
---Visitas...--disse a cozinheira.
-
-Juliana teve um risinho secco. Sentou-se, acabou o seu caldo, á pressa.
-
-Joanna indifferente cantarolava pela cozinha; o arrulhar das rôlas
-continuava langoroso e debil.
-
---Pois, senhores, isto vai rico!--disse Juliana.
-
-Esteve um momento a limpar os dentes com a lingua, o olhar fixo,
-reflectindo. Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Luiza: o seu
-olhar esquadrinhador avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas
-da dispensa: podia subir, beber um trago de bom vinho, engulir dous
-ladrilhos de marmelada... Mas possuia-a uma curiosidade urgente, e, em
-bicos de pés, foi agachar-se á porta que dava para a sala, espreitou. O
-reposteiro estava corrido por dentro: podia apenas sentir a voz grossa
-e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor, á outra porta, ao
-pé da escada; poz o olho á fechadura, collou o ouvido á frincha. O
-reposteiro dentro estava tambem cerrado.
-
---Os diabos calafetaram-se!--pensou.
-
-Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma
-vidraça. Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Luiza sobresahiu, em
-seguida um silencio; e as vozes recomeçaram n'um tom sereno e continuo.
-De repente o sujeito ergueu a falla, e entre as palavras que dizia, de
-pé de certo, passeando, Juliana ouviu claramente: _Tu, foste tu!_
-
---Oh que bebeda!
-
-Um tlim-tlim timido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era
-Sebastião, muito vermelho do sol, com as botas cheias de pó.
-
---Está?--perguntou, limpando a testa suada.
-
---Está com uma visita, snr. Sebastião!
-
-E cerrando a porta sobre si, mais baixo:
-
---Um rapaz novo que já cá esteve hontem, um janota! Quer que vá dizer?
-
---Não, não, obrigado, adeus.
-
-Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se á porta, a
-orelha contra a madeira, as mãos atraz das costas: mas a conversação,
-sem saliencia de vozes, tinha um rumor tranquillo e indistincto. Subiu
-á cozinha.
-
---Tratam-se por tu!--exclamou.--Tratam-se por tu, snr.^a Joanna!
-
-E muita excitada:
-
---Isto vai á vela! Caspitè! assim é que eu gosto d'ellas!
-
-O sujeito sahiu ás cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a
-porta, veio a correr; viu Luiza no patamar, debruçada no corrimão,
-dizendo para baixo, com muita intimidade:
-
---Bem, não falto. Adeus.
-
-Ficou então tomada d'uma curiosidade que a alterava como uma febre.
-Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luiza com
-olhares de lado. Mas Luiza, com um roupão de linho mais velho, parecia
-serena, muito indifferente.
-
---Que sonsa!
-
-Aquella naturalidade despertava a sua bisbilhotice.
-
---Eu hei-de-t'apanhar, desavergonhada!--calculava.
-
-Afigurou-se-lhe que Luiza tinha os olhos um pouco pisados! Estudava-lhe
-as posições, os tons de voz. Viu-a repetir o assado,--pensou logo:
-
---Abriu-lhe o appetite!
-
-E quando Luiza ao fim do jantar se estendeu na _voltaire_ com um ar
-quebrado:
-
---Ficou derreada.
-
-Luiza que nunca tomava café, quiz n'essa tarde «meia chavena, mas
-forte, muito forte».
-
---Quer café!--veio ella dizer á cozinheira, toda excitada.--Tudo á
-grande! E do forte. Quer do forte! Ora o diabo!
-
-Estava furiosa.
-
---Todas o mesmo! Uma récua de cabras!
-
-
-
-Ao outro dia era domingo. Logo pela manhã cedo, quando Juliana ia
-para a missa, Luiza chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta
-para levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado;--e a
-curiosidade de Juliana accendeu-se logo diante d'aquelle sobrescripto
-fechado e lacrado com o sinete de Luiza, um L gothico dentro d'uma
-corôa de rosas.
-
---Tem resposta?
-
---Tem.
-
-Quando voltou ás dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Luiza quiz
-saber se havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um
-chapéo de palha escuro, que ella estivera a enfeitar com duas rosas de
-musgo.
-
-Fazia um bocadinho de vento, mas p'ra a tarde abrandava, de certo. E
-pensou logo:--Temos passeata, vai ter com o gajo!
-
-Mas durante todo o dia, Luiza em roupão não sahiu do seu quarto ou
-da sala, ora estendida na _causeuse_ lendo aos bocados, ora batendo
-distrahidamente no piano pedaços de valsas. Jantou ás quatro horas. A
-cozinheira sahiu, e Juliana pôz-se a passar a sua tarde á janella da
-sala de jantar. Tinha o vestido novo, as salas muito rijas de gomma, a
-cuia dos dias santos--e pousava solemnemente os cotovêlos n'um lenço,
-estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os passaros chilreavam
-na figueira brava. Dos dous lados do tabique que cercava o terreno
-vago, agachavam-se os tectos escuros das duas ruasitas parallelas:
-eram casas pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre
-ou de garibaldi, os cabellos muito oleosos, faziam meia á janella,
-fallando aos homens, cantarolando com um tedio triste. Do outro lado do
-terreno, verduras de quintaes, muros brancos davam áquelle sitio um ar
-adormecido de villa pacata. Quasi ninguem passava. Havia um silencio
-fatigado; e só ás vezes o som distante d'um realejo, que tocava a
-_Norma_ ou a _Lucia_, punha uma melancolia na tarde.--E Juliana alli
-estava immovel, até que os tons quentes da tarde empallideciam, e os
-morcegos começavam a voar.
-
-Pelas oito horas entrou no quarto de Luiza,--ficou pasmada de a vêr
-vestida toda de preto, de chapéo! Tinha accendido as serpentinas na
-parede, os castiçaes no toucador; e sentada á beira da _causeuse_
-calçava as luvas devagar, com a face muito séria, um pouco esbatida de
-pó d'arroz, o olhar cheio de brilho.
-
---O vento abrandou?--disse.
-
---Está a noite muito bonita, minha senhora.
-
-Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou á porta. Era D.
-Felicidade, muito encalmada. Abafára todo o dia! E á noite nem uma
-aragem! Até tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que n'um
-coupé, credo, morria-se!
-
-Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? onde
-iriam? D. Felicidade, amplamente sentada, de chapéo, tagarellava: uma
-indigestão que tivera na vespera com umas bajes; a cozinheira que a
-tinha querido «comer» em quatro vintens; uma visita que lhe fizera a
-condessa de Arruella...
-
-Emfim, Luiza, disse, baixando o seu véo branco:
-
---Vamos, filha. Faz-se tarde.
-
-Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que proposito, irem duas
-mulheres sós por ahi fóra, n'uma tipoia! E se uma criada então se
-demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bebedas!
-
-Foi á cozinha desabafar com a Joanna. Mas a rapariga estirada n'uma
-cadeira, dormitava.
-
-Fôra com o seu Pedro ao Alto de S. João. E toda a tarde tinham passeado
-no cemiterio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os
-epitaphios, beijocando-se nos recantos que os chorões escureciam, e
-regalando-se do ar dos cyprestes e das relvas dos mortos. Voltaram por
-casa da Serena, entraram a beberricar um quartilho no Espregueira...
-Tarde cheia! e estava derreada da soalheira, do pó, da admiração de
-tanto tumulo rico, do homem, e da pinguita de vinho.
-
-O que ia, era refastelar-se para a cama!
-
---Credo, snr.^a Joanna, vossemecê está-se a fazer uma dorminhôca! Olha
-que mulher! Com pouco arrêa! Cruzes!
-
-Desceu ao quarto de Luiza, apagou as luzes, abriu as janellas, arrastou
-a poltrona para a varanda,--e, repimpada, os braços cruzados, pôz-se a
-passar a noite.
-
-O estanque ainda não se fechára, e a sua luzita lugubre como a
-estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra miuda da rua; as
-janellas ao pé estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se
-dentro serões melancolicos; n'outras, onde havia vultos immoveis,
-luzia ás vezes a ponta d'um cigarro; aqui, além tossia-se; e o moço do
-padeiro, no silencio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra.
-
-Juliana pozera um vestido de chita claro; dous sujeitos que estavam
-á porta do estanque riam, erguiam de vez em quando os olhos para a
-janella, para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, então, gozou!
-Tomavam-na de certo pela senhora, pela do Engenheiro; faziam-lhe
-«olho», diziam brejeirices... Um tinha calça branca e chapéo alto, eram
-janotas... E com os pés muito estendidos, os braços cruzados, a cabeça
-de lado, saboreava, longamente, aquella consideração.
-
-Passos fortes que subiam a rua, pararam á porta; a campainha retiniu de
-leve.
-
---Quem é?--perguntou muito impaciente.
-
---Está?--disse a voz grossa de Sebastião.
-
---Sahiu com a D. Felicidade, foram de carruagem.
-
---Ah!--fez elle.
-
-E acrescentou:
-
---Muito bonita noite!
-
---D'appetite, snr. Sebastião! d'appetite!--exclamou alto.
-
-E quando o viu descer a rua, gritou, affectadamente:
-
---Recados a Joanna! Não se esqueça!--mostrando-se intima, madama, com
-olho terno para os homens.
-
-
-
-Áquella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao Passeio.
-
-Era beneficio; já de fóra se sentia o _brouhaha_ lento e monotono, e
-via-se uma nevoa alta de poeira, amarellada e luminosa.
-
-Entraram. Logo ao pé do tanque encontraram Bazilio. Fez-se muito
-surprehendido, exclamou:
-
---Que feliz acaso!
-
-Luiza corou, apresentou-o a D. Felicidade.
-
-A excellente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se d'elle, mas se
-não lhe dissessem talvez o não conhecesse! Estava muito mudado!
-
---Os trabalhos, minha senhora...--disse Bazilio curvando-se.
-
-E acrescentou rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque:
-
---E a velhice! Sobretudo a velhice!
-
-Na agua escura e suja as luzes do gaz torciam-se até uma grande
-profundidade. As folhagens em redor estavam immoveis, no ar parado,
-com tons d'um verde livido e artificial. Entre os dous longos renques
-parallelos d'arvores mesquinhas, entremeadas de candieiros de gaz,
-apertava-se, n'um empoeiramento de macadam, uma multidão compacta e
-escura; e através do rumor grosso, as saliencias metallicas da musica
-faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa.
-
-Tinham ficado parados, conversando.
-
-Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! que enchente!
-
-E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças côr de
-flôr d'alecrim, fumando ceremoniosamente os charutos do dia santo; um
-aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas
-de cabello riçado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos
-das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um ecclesiastico
-côr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e lunetas defumadas; uma
-hespanhola com dous metros de saia branca muita rija, fazendo ruge-ruge
-na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão e bengalão,
-de chapéo na nuca, o olho avinhado; e Bazilio ria muito de dous
-pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado--vestidos
-d'azul claro, a cinta ligada n'uma facha escarlate, barretinas de
-lanceiro, botas á hungara, cretinos e somnambulos.
-
-Um sujeito alto então passou rente d'elles, e voltando-se, revirou para
-Luiza dous grandes olhos langorosos e prateados: tinha uma pera longa
-e aguçada; trazia o collete decotado mostrando um bello peitilho, e
-fumava por urna boquilha enorme que representava um zuavo.
-
-Luiza quiz-se sentar.
-
-Um garoto de blusa, sujo como um esfregão, correu a arranjar cadeiras;
-e acommodaram-se ao pé d'uma familia acabrunhada e taciturna.
-
---Que fizeste tu hoje, Bazilio?--perguntou Luiza.
-
-Tinha ido aos touros.
-
---E que tal? Gostaste?
-
---Uma semsaboria. Se não fosse pelo trambolhão do Peixinho tinha-se
-morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavalleiros infelizes, nenhuma
-sorte! Touros em Hespanha! Isso sim!
-
-D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz,
-quando estivera de visita em Elvas á tia Francisca de Noronha, e ia
-desmaiando. O sangue, as tripas dos cavallos... Pouh! É muito cruel!
-
-Bazilio disse, com um sorriso:
-
---Que faria se visse os combates de gallos, minha senhora!
-
-D. Felicidade tinha ouvido contar,--mas achava todos esses
-divertimentos barbaros, contra a religião.
-
-E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda:
-
---P'ra mim não ha nada como uma boa noite de theatro! Nada!
-
---Mas aqui representam tão mal!--replicou Bazilio com uma voz
-desolada.--Tão mal, minha rica senhora!
-
-D. Felicidade não respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado
-d'um brilho humido, saudava desesperadamente com a mão:
-
---Não me viu--disse desconsolada.
-
---Era o conselheiro?--perguntou Luiza.
-
---Não. Era a condessa d'Alviella. Não me viu! Vai muito á Encarnação,
-sou muito d'ella. É um anjo! Não me viu. Ia com o sogro.
-
-Bazilio não tirava os olhos de Luiza. Sob o véo branco, á luz falsa
-do gaz, no ar ennevoado da poeira, o seu rosto tinha uma fórma alva
-e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expressão
-apaixonada; os cabellinhos louros, frisados, tornando a testa
-mais pequena, davam-lhe uma graça ameninada e amorosa; e as luvas
-_gris-perle_ faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante
-das mãos, que ella pousára no regaço, sustentando o leque, com uma fofa
-renda branca em torno dos seus pulsos finos.
-
---E tu, que fizeste hoje?--perguntou-lhe Bazilio.
-
-Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a lêr.
-
-Tambem elle passára a manhã deitado no sophá a lêr a _Mulher de fogo_
-de Belot. Tinha lido, ella?
-
---Não, que é?
-
---É um romance, uma novidade.
-
-E acrescentou sorrindo:
-
---Talvez um pouco picante; não t'o aconselho!
-
-D. Felicidade andava a lêr o _Rocambole_. Tanto lh'o tinham apregoado!
-Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar,
-porque tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigestão.
-
---Soffre?--perguntou Bazilio, com um interesse bem educado.
-
-D. Felicidade contou logo a sua dyspepsia. Bazilio aconselhou-lhe o
-uso do gelo.--De resto felicitava-a, porque as doenças d'estomago,
-ultimamente, tinham muito _chic_. Interessou-se pela d'ella, pediu
-pormenores.
-
-D. Felicidade prodigalisou-os; e, fallando, via-se-lhe crescer no
-olhar, na voz a sua sympathia por Bazilio. Havia de usar o gelo!
-
---Com o vinho, já se sabe?
-
---Com o vinho, minha senhora!
-
---E olha que talvez!--exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no
-braço de Luiza, já esperançada.
-
-Luiza sorriu, ia responder--mas viu o sujeito pallido da pera longa que
-fitava n'ella os seus olhos langorosos, com obstinação. Voltou o rosto
-importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pera.
-
-Luiza sentia-se molle; o movimento rumoroso e monotono, a noite calida,
-a accumulação da gente, a sensação de verdura em redor davam ao seu
-corpo de mulher caseira um torpor agradavel, um bem estar d'inercia,
-envolviam-na n'uma doçura emolliente de banho morno. Olhava com um vago
-sorriso, o olhar frouxo; quasi tinha preguiça de mexer as mãos, d'abrir
-o leque.
-
-Bazilio notou o seu silencio.--Tinha somno?
-
-D. Felicidade sorriu com finura.
-
---Ora, vê-se sem o seu maridinho! Desde que o não tem está esta mona
-que se vê.
-
-Luiza respondeu, olhando Bazilio instinctivamente:
-
---Que tolice! Até estes dias tenho andado bem alegre!
-
-Mas D. Felicidade insistia:
-
---Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraçãosinho está no Alemtejo!
-
-Luiza disse, com impaciencia:
-
---Não has-de querer que me ponha aos pulos e ás gargalhadas no Passeio.
-
---Está bem, não te enfureças!--exclamou D. Felicidade. E para
-Bazilio:--Que geniosinho, hein!
-
-Bazilio pôz-se a rir.
-
---A prima Luiza antigamente era uma vibora. Agora não sei...
-
-D. Felicidade acudiu:
-
---É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não, lá isso, é uma pomba.
-
-E envolvia-a n'um olhar maternal.
-
-Mas a familia taciturna ergueu-se, sem ruido,--e as meninas adiante, os
-paes atraz, afastaram-se lugubremente, succumbidos.
-
-Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao pé de Luiza,--e vendo
-D. Felicidade a olhar distrahida:
-
---Estive para te ir vêr de manhã--disse baixinho a Luiza.
-
-Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferença:
-
---E porque não foste? Tinhamos feito musica. Fizeste mal. Devias ter
-ido...
-
-D. Felicidade quiz então saber as horas. Começava a enfastiar-se.
-Tinha esperado encontrar o conselheiro: por elle, para lhe parecer
-bem, fizera o sacrificio de se apertar; Accacio não vinha, os gazes
-começavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella ausencia augmentava-lhe
-a tortura da digestão. Na sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a
-multidão que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada.
-
-Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruido de
-cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do _Fausto_.
-Aquillo reanimou-a. Era um _pot-pourri_ da opera,--e não havia musica
-de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o snr.
-Bazilio?
-
-Bazilio disse, com uma intenção, voltando-se para Luiza:
-
---Não sei, minha senhora, depende...
-
-Luiza olhava, calada. A multidão crescera. Nas ruas lateraes mais
-espaçosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das arvores, os
-acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado. Toda a
-burguezia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor
-formado pela filas cerradas das cadeiras do asylo: e alli se movia
-entalada, com a lentidão espessa d'uma massa mal derretida, arrastando
-os pés, raspando o macadam, n'um amarfanhamento plebeu, a garganta
-secca, os braços molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente,
-para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor
-grosso, sem alegria e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que
-agrada ás raças mandrionas: no meio da abundancia das luzes e das
-festividades da musica, um tedio morno circulava, penetrava como uma
-nevoa: a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e
-nos rostos que passavam sob os candieiros, nas zonas mais directas de
-luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimentos de dia santo.
-
-Defronte as casas da rua Occidental tinham na sua fachada o reflexo
-claro das luzes do Passeio; algumas janellas estavam abertas; as
-cortinas de fazenda escura destacavam sobre a claridade interior dos
-candieiros. Luiza sentia como uma saudade de outras noites de verão, de
-serões recolhidos. Onde? Não se lembrava. O movimento então retrahia-a;
-e encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre, o sujeito da
-pera longa. Debaixo do véo sentia a poeira arder-lhe nos olhos: em
-redor d'ella gente bocejava.
-
-D. Felicidade propoz uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar;
-as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de
-faces a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam de um modo
-fixo e cançado, n'um abatimento de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou
-Bazilio, e como era difficil andar lembrou--«que se fossem d'aquella
-semsaboria».
-
-Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes, D. Felicidade,
-deixando-se quasi cahir n'um banco sob a folhagem d'um chorão, exclamou
-afflicta:
-
---Ai filha! Estou que arrebento!
-
-Passava a mão no estomago, tinha a face envelhecida.
-
---E o conselheiro, que me dizes? Olha que já é pouca sorte! Hoje que eu
-vim ao Passeio...
-
-Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso:
-
---É muito sympathico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo.
-Que elles conhecem-se, filha!
-
-Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o portão. Era melhor tomarem
-um trem.
-
-Bazilio achava preferivel subirem a pé até ao largo do Loreto. A noite
-estava tão agradavel! E o andar fazia bem á snr.^a D. Felicidade!
-
-Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve; mas D. Felicidade
-receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do café
-abertas, viam-se sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro
-individuo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de
-morango.
-
-No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos, gente immovel
-parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos
-passavam, com o chapéo na mão, abanando-se, o collete desabotoado; a
-cada canto se apregoava agua fresca «do Arsenal»; em torno do largo,
-carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céo abafava,--e na
-noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha o tom baço e
-pallido de uma vela de estearina colossal e apagada.
-
-Bazilio, ao pé de Luiza, ia calado. Que horror de cidade!--pensava--Que
-tristeza! E lembrava-lhe Paris, de verão: subia, á noite, no seu
-phaeton, os Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem,
-sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem
-em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos
-e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balançadas nas molas
-macias; o ar em redor tem uma doçura avelludada, e os castanheiros
-espalham um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos, saltam
-as claridades violentas dos cafés cantantes, cheios do _brouhaha_
-das multidões alegres, dos _brios_ impulsivos das orchestras; os
-restaurantes flammejam; ha uma intensidade de vida amorosa e feliz;
-e, para além, sahe das janellas dos palacetes, através dos _stores_
-de sêda, a luz sobria e velada das existencias ricas. Ah! se lá
-estivesse!--Mas ao passar junto dos candieiros olhava de lado para
-Luiza: o seu perfil fino sob o véo branco tinha uma grande doçura; o
-vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma
-lassidão que lhe quebrava a linha da cinta de um modo languido e
-promettedor.
-
-Veio-lhe uma certa idéa, começou a dizer: Que pena que não houvesse
-em toda a Lisboa um restaurante, onde se podesse ir tomar uma aza de
-perdiz e beber uma garrafa de _champagne frappée_!
-
-Luiza não respondeu. Devia ser delicioso--pensava.--Mas D. Felicidade
-exclamou:
-
---Perdiz, a esta hora!
-
---Perdiz ou outra qualquer cousa.
-
---Fosse o que fosse, era para estourar! Credo!
-
-Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros davam uma luz mortiça: as
-altas casas dos dous lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra;
-e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruido, sinistra e
-subtil.
-
-Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de
-loteria; a sua voz aguda e chorosa promettia a fortuna, muitos contos
-de reis. D. Felicidade ainda parou, com uma tentação... Mas uma troça
-de rapazes bebedos que descia de chapéo na nuca, fallando alto, aos
-tropeções, assustou muito as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo
-contra Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente o braço,
-quiz-se metter n'uma carruagem; e até ao Loreto foi explicando o seu
-medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem
-largar o braço de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao lado das grades
-da praça de Camões, um cocheiro lançou logo a sua caleche descoberta,
-de pé na almofada, apanhando confusamente as rédeas, com grandes
-chicotadas na parelha, muito excitado, gritando:
-
---Prompto, meu amo, prompto!
-
-Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem então passou,
-rondou,--e Luiza desesperada reconheceu os olhos acarneirados do
-sujeito da pera.
-
-Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou para vêr Bazilio
-immovel no largo, com o seu chapéo na mão: depois accommodou-se, pôz
-os pésinhos no outro assento e balançada pelo trote largo viu passar,
-calada, as casas apagadas da rua de S. Roque, as arvores de S. Pedro
-de Alcantara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins
-adormecidos da Patriarchal. A noite estava immovel, de um calor molle:
-e desejava, sem saber porque, rolar assim sempre, infinitamente, entre
-ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino,
-sem cuidados, para alguma cousa de feliz que não distinguia bem! Um
-grupo defronte da Escóla ia tocando o _Fado do Vimioso_; aquelles sons
-entraram-lhe na alma como um vento dôce, que fazia agitar brandamente
-muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo.
-
---Um suspirosinho que vai para o Alemtejo--disse D. Felicidade,
-tocando-lhe o braço.
-
-Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto. Davam onze horas quando
-entrou em casa.
-
-Juliana veio alumiar.--O chá estava prompto, quando a senhora
-quizesse...
-
-Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupão branco, muito fatigada,
-estendeu-se na _voltaire_; sentia vir-lhe uma somnolencia, a cabeça
-pendia-lhe, cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com o chá!
-Chamou-a. Onde estava? credo!
-
-Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luiza. E ahi tomando o
-vestido, as saias engommadas que ella despira e atirára para cima da
-_causeuse_, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa
-idéa, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente,
-com uma pontinha de suor e de agua de colonia. Quando a sentiu
-chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo.--Fôra abaixo dar uma
-arrumadella. Era o chá? Estava prompto...
-
-E entrando com as torradas:
-
---Veio ahi o snr. Sebastião, haviam de ser nove horas...
-
---Que lhe disse?
-
---Que a senhora tinha sahido com a snr.^a D. Felicidade. Como não
-sabia, não disse para onde.
-
-E acrescentou:
-
---Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastião... Esteve a conversar
-mais de meia hora!...
-
-
-
-Luiza recebeu, na manhã seguinte, da parte de Sebastião, um ramo de
-rosas, magenta-escuro, magnificas. Cultivava-as elle na quinta de
-Almada, e chamavam-se rosas _D. Sebastião_. Mandou-as pôr nos vasos da
-sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e suffocante:
-
---Olhe--disse a Juliana--abra as janellas.
-
---Bem--pensou Juliana--temos cá o melro.
-
-O _melro_ veio com effeito ás tres horas. Luiza estava na sala, ao
-piano.
-
---Está alli o sujeito do costume--foi dizer Juliana.
-
-Luiza voltou-se corada, escandalisada da expressão:
-
---Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar.
-
-E chamando-a:
-
---Ouça, se vier o snr. Sebastião, ou alguem, que entre.
-
-Era o primo! O _sujeito_, as suas visitas perderam de repente para ella
-todo o interesse picante. A sua malicia cheia, enfunada até ahi, cahiu,
-engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo!
-
-Subiu á cozinha, devagar,--lograda.
-
---Temos grande novidade, snr.^a Joanna! O tal peralta é primo. Diz que
-é o primo Bazilio.
-
-E com um risinho:
-
---É o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo á ultima hora! O diabo tem
-graça!
-
---Então que havia de o homem ser senão parente?--observou Joanna.
-
-Juliana não respondeu. Quiz saber se estava o ferro prompto, que tinha
-uma carga de roupa para passar! E sentou-se á janella, esperando. O céo
-baixo e pardo pesava, carregado de electricidade; ás vezes uma aragem
-subita e fina punha nas folhagens dos quintaes um arripio tremulo.
-
---É o primo!--reflectia ella.--E só vem então quando o marido se vai.
-Boa! E fica-se toda no ar quando elle sahe, e é roupa branca e mais
-roupa branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e
-olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia!
-
-Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia alli muito
-«para vêr e para escutar». E o ferro, estava prompto?
-
-Mas a campainha, em baixo, tocou.
-
---Boa! isto agora é um fadario! Estamos na casa do despacho!
-
-Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um livro debaixo do braço:
-
---Faz favor d'entrar, snr. Julião! A senhora está com o primo, mas diz
-que mandasse entrar!
-
-Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza.
-
---Está aqui o snr. Julião--disse com satisfação.
-
-Luiza apresentou os dous homens.
-
-Bazilio ergueu-se do sophá languidamente, e, n'um relance, percorreu
-Julião desde a cabelleira desleixada até ás botas mal engraxadas, com
-um olhar quasi horrorisado.
-
---Que pulha!--pensou.
-
-Luiza, muito fina, percebeu, e córou, envergonhada de Julião.
-
-Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano
-preto mal feito--que idéa daria a Bazilio das relações, dos amigos
-da casa! Sentia já o seu _chic_ diminuido. E instinctivamente, a sua
-physionomia tornou-se muito reservada,--como se semelhante visita a
-surprehendesse! semelhante _toilette_ a indignasse!
-
-Julião percebeu o constrangimento d'ella, disse, já embaraçado,
-ageitando a luneta:
-
---Passei por aqui por acaso, entrei a saber se ha algumas noticias de
-Jorge...
-
---Obrigada. Sim, tem escripto. Está bem...
-
-Bazilio, recostado no sophá, como um parente intimo, examinava a
-sua meia de sêda bordada de estrellinhas escarlates, e cofiava
-indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo minimo,--onde
-brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira e um rubi.
-
-A affectação da attitude, o reluzir das joias irritaram Julião.
-
-Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus direitos, disse:
-
---Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho
-estado muito occupado...
-
-Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade:
-
---Eu tambem não me tenho achado bem. Não tenho recebido ninguem,--a não
-ser meu primo, naturalmente!
-
-Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpreza, d'indignação,
-ficou a balançar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a
-calça era curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas.
-
-Houve um silencio difficil.
-
---Bonitas rosas!--disse emfim Bazilio, preguiçosamente.
-
---Muito bonitas!--respondeu Luiza.
-
-Estava agora compadecida de Julião, procurava uma palavra; disse-lhe
-emfim muito precipitadamente:
-
---E que calor! É de morrer! Tem havido muitas doenças?
-
---Colerinas--respondeu Julião.--Por causa das frutas. Doenças de ventre.
-
-Luiza baixou os olhos. Bazilio então começou a fallar da viscondessinha
-d'Azeias: tinha-a achado acabada; e que era feito da irmã, da grande?
-
-Aquella conversação sobre fidalgas que elle não conhecia isolava mais
-Julião: sentia o suor humedecer-lhe o pescoço; procurava um dito, uma
-ironia, uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu grosso livro
-de capa amarella.
-
---É algum romance?--perguntou-lhe Luiza.
-
---Não. É o tratado do dr. Lee sobre doenças d'utero.
-
-Luiza fez-se escarlate: Julião tambem, furioso da palavra que lhe
-escapára. E Bazilio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D.
-Raphaela Grijó, que costumava ir á rua da Magdalena, que usava luneta,
-e tinha um cunhado gago...
-
---Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado.
-
---Com o gago?
-
---Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem.
-
---Que conversação, em familia! E a D. Eugenia, a de Braga?
-
-Julião, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta secca:
-
---Estou com pressa, não me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os
-meus recados, hein?
-
-Abaixou bruscamente a cabeça a Bazilio. Mas não achava o chapéo,
-tinha rolado para debaixo d'uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro,
-topou violentamente contra a porta fechada, e sahiu emfim
-desesperado, desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o luxo, a
-vida,--transbordando agora d'ironias, de ditos, de réplicas. Devia-os
-ter achatado, o asno e a tola... E não lhe acudira nada!
-
-Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio pôz-se de pé, e
-cruzando os braços:
-
---Quem é este pulha?
-
-Luiza córou muito, balbuciou:
-
---É um rapaz medico...
-
---É uma creatura impossivel, é uma especie d'estudante!
-
---Coitado, não tem muitos meios...
-
-Mas não era necessario ter meios para escovar o casaco e limpar a
-caspa! Não devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu
-marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!...
-
-Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar
-o dinheiro e as chaves.
-
---São frescos os amigos da casa!...--continuou.--Que diabo! tu não
-foste educada assim. Nunca tiveste gente d'este genero na rua da
-Magdalena.
-
-Não tivera: e pareceu-lhe que as ligações do casamento lhe tinham
-trazido um pouco o plebeismo das convivencias. Mas um respeito pelas
-opiniões, pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer:
-
---Diz que tem muito talento...
-
---Era melhor que tivesse botas.
-
-Luiza, por cobardia, concordou.
-
---Tambem o acho exquisito!--disse.
-
---Horrivel, minha filha!
-
-Aquella palavra fez-lhe bater o coração. Era assim que elle lhe
-chamava, outr'ora! Houve um momento de silencio:--e a campainha da
-porta retiniu fortemente.
-
-Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião! Bazilio achal-o-hia
-ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer:
-
---O snr. conselheiro. Mando entrar?
-
---De certo--exclamou.
-
-E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas do casaco d'alpaca
-deitadas para traz, a calça branca muito engommada cahindo sobre
-sapatos de entrada abaixo, de laço.
-
-Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse logo, respeitoso:
-
---Já sabia que v. exc.^a tinha chegado, vi-o nas interessantes noticias
-do nosso _high-life_. E do nosso Jorge?
-
-Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito...
-
-Bazilio, mais amavel, deixou cahir:
-
---Eu realmente não tenho a menor idéa do que se possa fazer em Beja.
-Deve ser horroroso!
-
-O conselheiro, passando sobre o bigode a sua mão branca onde destacava
-o annel d'armas, observou:
-
---É todavia a capital do districto!
-
-Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do
-reino!--E Bazilio puxava, todo recostado, o punho da camisa.--Morria-se
-positivamente de pasmaceira!
-
-Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio, pôz-se a rir:
-
---Não digas isso diante do conselheiro. É um grande admirador de Lisboa.
-
-Accacio curvou-se:
-
---Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora.
-
-E com muita bonhomia:
-
---Conheço porém que não é para comparar aos Parizes, ás Londres, ás
-Madrids...
-
---De certo--fez Luiza.
-
-E o conselheiro continuou com pompa:
-
---Lisboa porém tem bellezas sem igual! A entrada, ao que me dizem
-(eu nunca entrei a barra), é um panorama grandioso, rival das
-Constantinoplas e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um
-Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!...
-
-Luiza, receando citações ou apreciações litterarias, interrompeu-o,
-perguntou-lhe o que tinha feito? Tinham estado domingo no Passeio, ella
-e D. Felicidade, tinham esperado vêl-o, e nada!
-
-Nunca ia ao Passeio, ao domingo--declarou.--Reconhecia que era muito
-agradavel, mas a multidão entontecia-o. Tinha notado,--e a sua voz
-tomou o tom espaçado d'uma revelação,--tinha notado que muita gente,
-n'um local, causa vertigens aos homens d'estudo. De resto queixou-se da
-sua saude e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e
-usando as aguas de Vichy.
-
---Pódes fumar--disse Luiza de repente, sorrindo, a Bazilio.--Queres
-lume?
-
-Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda ligeira, feliz. Tinha um
-vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabellos
-pareciam mais louros, a sua pelle mais fina.
-
-Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado:
-
---O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!...
-
-O conselheiro reflectiu e respondeu:
-
---Não serei tão severo, snr. Brito!--Mas parecia-lhe que com
-effeito antigamente era uma diversão mais agradavel.--Em primeiro
-lugar--exclamou com muita convicção, endireitando-se--nada, mas
-nada, absolutamente nada póde substituir a charanga da Armada!--Além
-d'isso havia a questão dos preços... Ah! tinha estudado muito o
-assumpto! Os preços diminutos favoreciam a agglomeração das classes
-subalternas... Que longe do seu pensamento lançar desdouro n'essa parte
-da população... As suas idéas liberaes eram bem conhecidas.--Appéllo
-para a snr.^a D. Luiza!--disse.--Mas emfim, sempre era mais agradavel
-encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio.
-Talvez não acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas!
-N'esses dias, sim, ia vêr por fóra das grades. Não por economia! De
-certo não. Não era rico, mas podia fazer face a essa contribuição
-diminuta. Mas é que receava os accidentes! É que os receava muito!
-Contou a historia d'um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana
-de foguete furára o craneo.--E além d'isso nada mais facil que cahir
-uma fagulha accesa na cara, n'um paletot novo...--É conveniente ter
-prudencia--resumiu, compenetrado, limpando os beiços com o lenço de
-sêda da India muito enrolado.
-
-Fallaram então da estação: muita gente fôra para Cintra: de resto,
-Lisboa no verão era tão seccante!... E o conselheiro declarou que
-Lisboa só era imponente, verdadeiramente imponente, quando estavam
-abertas as camaras e S. Carlos!
-
---Que estavas tu a tocar quando eu entrei?--perguntou Bazilio.
-
-O conselheiro acudiu logo:
-
---Se estavam fazendo musica, por quem são... Sou um velho assignante de
-S. Carlos, ha dezoito annos...
-
-Bazilio interrompeu-o:
-
---Toca?
-
---Toquei. Não o occulto. Em rapaz fui dado á flauta.
-
-E acrescentou, com um gesto benevolo:
-
---Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luiza?
-
---Não! Uma musica muito conhecida, já antiga: a _Filha do Pescador_, de
-Meyerbeer! Tenho a letra traduzida.
-
-Tinha cerrado as vidraças, sentára-se ao piano.
-
---O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade, conselheiro?
-
---O nosso Sebastião--disse o conselheiro com authoridade--é um rival
-dos Thalbergs e dos Litz. Conhece o nosso Sebastião?--perguntou a
-Bazilio.
-
---Não, não conheço.
-
---Uma perola!
-
-Bazilio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode.
-
---Tu ainda cantas?--perguntou-lhe Luiza, sorrindo.
-
---Quando estou só.
-
-Mas o conselheiro pediu-lhe logo um «trecho». Bazilio ria. Tinha medo
-d'escandalisar um velho assignante de S. Carlos...
-
-O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente:
-
---Coragem, snr. Brito, coragem!
-
-Luiza então preludiou.
-
-E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barytono; as suas
-notas altas faziam a sala sonora. O conselheiro, direito na poltrona,
-escutava concentrado; a sua testa, franzida n'um vinco, parecia
-curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas
-destacavam, com reflexos escuros, n'aquella physionomia de calvo, que o
-calor tornava mais pallida.
-
-Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira phrase, tão larga, da
-canção:
-
- Igual ao mar sombrio
- Meu coração profundo...
-
-Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira a letra no _Almanach das
-Senhoras_. Luiza pela sua propria mão a tinha copiado nas entrelinhas
-da musica. E Bazilio debruçado sobre o papel sempre torcendo as pontas
-do bigode:
-
- Tem tempestades, coleras,
- Mas perolas no fundo!
-
-Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica--ou a espaços, com
-um movimento rapido, erguiam-se para Bazilio. Quando, na nota final,
-prolongada como a reclamação d'um amor supplicante, Bazilio soltou a
-voz d'um modo appellativo:
-
- Vem! vem
- Pousar, ó dôce amada,
- Teu peito contra o meu...
-
-os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significação de tanto desejo,
-que o peito de Luiza arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado.
-
-O conselheiro bateu as palmas.
-
---Uma voz admiravel!--exclamava--Uma voz admiravel!
-
-Bazilio dizia-se envergonhado.
-
---Não, senhor, não, senhor!--protestou Accacio, levantando-se.--Um
-excellente orgão! Direi, o melhor orgão da nossa sociedade!
-
-Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, então ia dizer-lhes uma
-modinha brazileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter
-preludiado uma melodia muito balançada, d'um embalado tropical, cantou:
-
- Sou negrinha, mas meu peito
- Sente mais que um peito branco.
-
-E interrompendo-se:
-
---Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti.
-
-Era a historia d'uma «negrinha» nascida na roça, e que contava, com
-lyrismos d'almanach, a sua paixão por um feitor branco.
-
-Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina bahiana; e a sua
-voz tinha uma preciosidade comica, quando dizia o _ritornello_ choroso:
-
- E a negra p'ra os mares
- Seus olhos alonga;
- No alto coqueiro
- Cantava a araponga.
-
-O conselheiro achou «delicioso»; e, de pé na sala, lamentou a proposito
-da cantiga a condição dos escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil
-que os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisação era
-a civilisação! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita
-confiança no imperador...
-
---Monarcha de rara illustração...--acrescentou respeitosamente.
-
-Foi buscar o seu chapéo, e collando-lhe as abas ao peito, curvando-se,
-jurou que--havia muito tempo não tinha passado uma manhã tão completa.
-De resto para elle nada havia como a boa conversação e a boa musica...
-
---Onde está v. exc.^a alojado, snr. Brito?
-
-Pelo amor de Deus! Que não se incommodasse! Estava no Hotel Central.
-
-Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu
-dever--declarou.--Cumpril-o-hia! Elle era uma pessoa inutil, a snr.^a
-D. Luiza bem o sabia.--Mas se necessitar alguma cousa, uma informação,
-uma apresentação nas regiões officiaes, licença para visitar algum
-estabelecimento publico, creia que me tem ás suas ordens!
-
-E conservando na sua mão a mão de Bazilio:
-
---Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro. O modesto tugurio
-d'um ermita.
-
-Tornou a curvar-se diante de Luiza:
-
---E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela
-prosperidade dos seus emprehendimentos. Por quem é! Criado de v. exc.^a!
-
-E direito, grave, sahiu.
-
---Este ao menos é limpo--resmungou Bazilio, com o charuto ao canto da
-bocca.
-
-Sentára-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luiza
-aproximou-se:
-
---Canta alguma cousa, Bazilio!
-
-Bazilio pôz-se então a olhar muito para ella.
-
-Luiza córou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do
-vestido, entrevia-se a brancura macia e lactea do collo e dos braços;
-e nos seus olhos, na côr quente do rosto havia uma animação e como uma
-vitalidade amorosa.
-
-Bazilio disse-lhe, baixo:
-
---Estás hoje nos teus dias felizes, Luiza.
-
-O olhar d'elle, tão avido, perturbava-a; insistiu:
-
---Canta alguma cousa.
-
-O seu seio arfava.
-
---Canta tu--murmurou Bazilio.
-
-E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco humidas, um
-pouco tremulas, uniram-se.
-
-A campainha, fóra, tocou. Luiza desprendeu a mão bruscamente.
-
---É alguem--disse agitada.
-
-Vozes baixas fallavam á cancella.
-
-Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado, foi buscar o chapéo.
-
---Vaes-te?--exclamou ella toda desconsolada.
-
---Pudera! Não posso estar só comtigo um momento!
-
-A cancella fechou-se com ruido.
-
---Não é ninguem, foi-se--disse Luiza.
-
-Estavam de pé, no meio da sala.
-
---Não te vás! Bazilio!
-
-Os seus olhos profundos tinham uma supplicação dôce. Bazilio pousou o
-chapéo sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.
-
---E para que queres tu estar só commigo?--disse ella.--Que tem que
-venha gente?--E arrependeu-se logo d'aquellas palavras.
-
-Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os
-hombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos
-cabellos, vorazmente.
-
-Ella soltou-se a tremer, escarlate.
-
---Perdôa-me--exclamou elle logo, com um impeto apaixonado.--Perdôa-me.
-Foi sem pensar. Mas é porque te adoro, Luiza!
-
-Tomou-lhe as mãos com dominio, quasi com direito.
-
---Não. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a vêr estou
-doudo por ti, como d'antes, a mesma cousa. Nunca deixei de me morrer
-por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te vêr rica,
-feliz. Não te podia levar para o Brazil. Era matar-te, meu amor! Tu
-imaginas lá o que aquillo é! Foi por isso que te escrevi aquella carta,
-mas o que eu soffri, as lagrimas que chorei!
-
-Luiza escutava-o immovel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquella
-voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a,
-vencia-a; as mãos de Bazilio penetravam com o seu calor febril a
-substancia das suas; e, tomada d'uma lassidão, sentia-se como adormecer.
-
---Falla, responde!--disse elle anciosamente, sacudindo-lhe as mãos,
-procurando o seu olhar avidamente.
-
---Que queres que te diga?--murmurou ella.
-
-A sua voz tinha um tom abstracto, mal acordado.
-
-E desprendendo-se devagar, voltando o rosto:
-
---Fallemos n'outras cousas!
-
-Elle balbuciava com os braços estendidos:
-
---Luiza! Luiza!
-
---Não, Bazilio, não!
-
-E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentação, com a molleza d'uma
-caricia.
-
-Elle então não hesitou, prendeu-a nos braços.
-
-Luiza ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados--e Bazilio,
-pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para traz,
-beijou-lhe as palpebras devagar, a face, os labios depois muito
-profundamente; os beiços d'ella entreabriram-se, os seus joelhos
-dobraram-se.
-
-Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado,
-afastou o rosto, exclamou afflicta:
-
---Deixa-me, deixa-me!
-
-Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as
-mãos abertas pela testa, pelos cabellos:
-
---Oh meu Deus! É horrivel!--murmurou.--Deixa-me! É horrivel!
-
-Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luiza recuava, dizia:
-
---Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me!
-
-Elle então tranquillisou-a com a voz subitamente serena e humilde. Não
-percebia. Porque se zangava? Que tinha um beijo? Elle não pedia mais.
-Que tinha ella imaginado, então? Adorava-a, de certo, mas puramente.
-
---Juro-t'o!--disse com força, batendo no peito.
-
-Fel-a sentar no sophá, sentou-se ao pé d'ella. Fallou-lhe muito
-sensatamente:--Via as circumstancias, e resignar-se-hia. Seria como uma
-amizade d'irmãos, nada mais.
-
-Ella escutava-o, esquecida.
-
-De certo, dizia elle, aquella paixão era uma tortura immensa. Mas
-era forte, dominar-se-hia. Só queria vir vêl-a, fallar-lhe. Seria um
-sentimento ideal.--E os seus olhos devoravam-na.
-
-Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôz-lhe um beijo cheio na palma. Ella
-estremeceu, ergueu-se logo:
-
---Não! Vai-te!
-
---Bem, adeus.
-
-Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a
-sêda do chapéo:
-
---Bem, adeus--repetiu melancolicamente.
-
---Adeus.
-
-Bazilio disse então com muita ternura:
-
---Estás zangada?
-
---Não!
-
---Escuta--murmurou, adiantando-se.
-
-Luiza bateu com o pé.
-
---Oh que homem! Deixa-me! Ámanhã. Adeus. Vai-te! Ámanhã!
-
---Ámanhã!--disse elle, baixinho.
-
-E sahiu rapidamente.
-
-Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho
-ficou surprehendida: nunca se vira tão linda! Deu alguns passos calada.
-
-Juliana arrumava roupa branca n'um gavetão do guarda-vestidos.
-
---Quem tocou ha bocado?--perguntou Luiza.
-
---Foi o snr. Sebastião. Não quiz entrar; disse que voltava.
-
-
-
-Tinha dito, com effeito, «que voltava». Mas começava quasi a
-envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontral-a sempre «com
-uma visita»!
-
-Logo no primeiro dia ficára muito surprehendido quando Juliana lhe
-disse: «Está com um sujeito! Um rapaz novo que já cá esteve hontem!»
-Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum empregado
-da secretaria ou algum proprietario de minas, o filho do Alonso,
-talvez, um negocio de Jorge de certo...
-
-Depois no domingo, á noite, trazia-lhe a partitura de _Romeu e
-Julieta_, de Gounod, que ella desejava tanto ouvir, e quando Juliana
-lhe disse da varanda «que tinha sahido com D. Felicidade de carruagem»,
-ficou muito embaraçado com o grosso volume debaixo do braço, coçando
-devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do enthusiasmo de D.
-Felicidade pelo theatro de D. Maria. Mas irem sós, n'aquelle calor de
-julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria.
-
-O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e além, n'algum camarote,
-uma familia feia perfilava-se, com cabellos negrissimos carregados de
-postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo: na platéa, á
-larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam
-com um ar encalmado e farto, limpando a espaços, com lenços de sêda,
-o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava olhos
-negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente;
-bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarella,
-um velhote condecorado fallava a uma magrita de cabellos riçados, sem
-cessar, com o tom diluido de uma agua gordurosa e morna que escorre.
-
-Sebastião sahiu. Onde estariam? Soube-o na manhã seguinte.--Descia
-o Moinho de Vento, e um visinho, o Netto, que subia curvado sob o
-seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o
-bruscamente, para lhe dizer:
-
---Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi hontem á noite no Passeio a D. Luiza
-com um rapaz que eu conheço. Mas d'onde conheço eu aquella cara? Quem
-diabo é?
-
-Sebastião encolheu os hombros.
-
---Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheço-o. N'outro
-dia vi-o entrar para lá. Vossê não sabe?
-
-Não sabia.
-
---Eu conheço aquella cara. Tenho estado a vêr se me recordo...--Passava
-a mão pela testa.--Eu conheço aquella cara! Elle é de Lisboa. De Lisboa
-é elle!
-
-E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol:
-
---E que ha de novo, Sebastião?
-
-Tambem não sabia.
-
---Nem eu!
-
-E bocejando muito:
-
---Isto está uma pasmaceira, homem!
-
-N'essa tarde, ás quatro horas, Sebastião voltou a casa de Luiza. Estava
-com «o sujeito!» Ficou então preoccupado. De certo era algum negocio de
-Jorge; porque não comprehendia que ella fallasse, sentisse, vivesse,
-que não fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge.
-Mas devia ser grave então--para reclamar visitas, encontros, tantas
-relações. Tinham pois interesses importantes que elle não conhecia! E
-aquillo parecia-lhe uma ingratidão, e como uma diminuição d'amizade.
-
-A tia Joanna tinha-o achado «macambusio».
-
-Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bazilio, o Bazilio
-de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido
-veio inquietal-o.
-
-Sebastião não conhecia Bazilio pessoalmente, mas sabia a chronica da
-sua mocidade. Não havia n'ella certamente, nem escandalo excepcional,
-nem romance pungente. Bazilio tinha sido apenas um _pandigo_ e, como
-tal, passára methodicamente por todos os episodios classicos da
-estroinice lisboeta:--partidas de monte até de madrugada com ricaços
-do Alemtejo; uma tipoia despedaçada n'um sabbado de touros; ceias
-repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas
-_pégas_ applaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau
-e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra; sôcos bem jogados á
-face attonita d'um policia; e uma profusão de gemas d'ovos nas glorias
-do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam na sua historia,
-além das Lolas e das Carmens usuaes, eram a Pistelli, uma dançarina
-allemã cujas pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha
-d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que se separára de seu marido
-depois de o ter chicotado, e que se vestia d'homem para bater ella
-mesmo em trem de praça do Rocio ao Dá-fundo. Mas isto bastava para
-que Sebastião o achasse um _debochado_, um _perdido_; ouvira que elle
-tinha ido para o Brazil para fugir aos credores; que enriquecera por
-acaso, n'uma especulação, no Paraguay; que mesmo na Bahia, com a corda
-na garganta, nunca fôra um trabalhador; e suppunha que a posse da
-fortuna para elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E este
-homem agora vinha vêr a Luizinha todos os dias, estava horas e horas,
-seguia-a ao Passeio...
-
-Para que?... Era claro, para a desinquietar!
-
-Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolação
-d'estas idéas, quando uma voz encatarrhoada disse com respeito:
-
---Ó snr. Sebastião!
-
-Era o Paula dos moveis.
-
---Viva, snr. João.
-
-O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro de saliva, e com
-as mãos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom
-grave:
-
---Ó snr. Sebastião, ha doença cá por casa do snr. Engenheiro?
-
-Sebastião todo surprehendido:
-
---Não. Porque?
-
-O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou:
-
---É que tenho visto entrar para cá todos os dias um sujeito. Imaginei
-que fosse o medico.
-
-E puxando o escarro:
-
---D'esses novos da hom[oe]opathia!
-
-Sebastião tinha córado.
-
---Nada--disse.--É o primo de D. Luiza.
-
---Ah!--fez o Paula.--Pois pensei... Queira desculpar, snr. Sebastião.
-
-E curvou-se, respeitosamente.
-
---Já temos fallatorio!--foi pensando Sebastião.
-
-E entrou em casa, descontente.
-
-Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de construcção antiga, com
-quintal.
-
-Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em inscripções, terras de
-lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada,--o Rozegal. As
-duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira, era
-uma preta de S. Thomé já do tempo da mamã. A tia Joanna, a governanta,
-servia-o havia trinta e cinco annos; chamava ainda a Sebastião o
-«menino»; tinha já as tontices d'uma criança, e recebia sempre os
-respeitos d'uma avó. Era do Porto, do _Poârto_, como ella dizia,
-porque nunca perdera o seu accento minhôto. Os amigos de Sebastião
-chamavam-lhe uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com um sorriso
-muito bondoso; tinha os cabellos alvos como uma estriga, atados no
-alto n'um rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um
-vasto lenço branco muito aceado, traçado sobre o peito. E todo o dia
-passarinhava pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar
-os mólhos de chaves, resmungando proverbios, tomando rapé de uma caixa
-redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pensil
-do Porto.
-
-Em toda a casa havia um tom caturra e dôce: na sala de visitas, quasi
-sempre fechada, o vasto canapé, as poltronas tinham o ar empertigado
-do tempo do snr. D. José I, e os estofos de damasco vermelho desbotado
-lembravam a pompa d'uma côrte decrepita; das paredes da casa de jantar
-pendiam as primeiras gravuras das batalhas de Napoleão, onde se vê
-invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo branco, para o qual galopa
-desenfreadamente do primeiro plano um hussard, brandido um sabre.
-Sebastião dormia os seus somnos de sete horas, sem sonhos, n'uma velha
-barra de pau preto torneado; e n'uma saleta escura, sobre uma commoda
-de fecharias de metal amarello, conservava-se, havia annos, o padroeiro
-da casa, S. Sebastião--que se torcia, cravado de settas, nas cordas que
-o atavam ao tronco, á luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna,
-sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro.
-
-A casa condizia com o dono. Sebastião tinha um genio antiquado. Era
-solitario e acanhado. Já no latim lhe chamavam o _pelludo_; punham-lhe
-rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastião, que tinha a
-força d'um gymnasta, offerecia a resignação d'um martyr.
-
-Foi sempre reprovado nos primeiros exames do lyceu. Era intelligente,
-mas uma pergunta, o reluzir dos oculos d'um professor, a grande lousa
-negra immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face inchada e
-rubra, a coçar os joelhos, o olhar vazio.
-
-Sua mãi, que era da aldêa e que fôra padeira, muito vaidosa agora das
-suas inscripções, da sua quinta, da sua mobilia de damasco, sempre
-vestida de sêda, carregada d'anneis, costumava dizer:
-
---Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir a criança com estudos!
-Deixa lá, deixa lá!
-
-A inclinação de Sebastião era pela musica. Sua mãi, por conselhos da
-mãi de Jorge, sua visinha e sua intima, tomou-lhe um mestre de piano;
-logo desde as primeiras lições, a que ella assistia com enfeites de
-velludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Achilles Bentes,
-d'oculos redondos e cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz
-nasal:
-
---Minha rica senhora! o seu menino é um genio! É um genio! Ha-de ser um
-Rossini! É puxar por elle! É puxar por elle!
-
-Mas era justamente o que ella não queria, era puxar por elle,
-coitadinho! Por isso não foi um Rossini. E todavia o velho Bentes
-continuava a dizer, por habito:
-
---Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini!
-
-Sómente em lugar de o gritar, brandindo papeis de musica, murmurava-o,
-com bocejos enormes de leão enfastiado.
-
-Já então os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastião, eram intimos.
-Jorge mais vivo, mais inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar,
-Sebastião era sempre o _cavallo_ nas imitações da diligencia, o
-_vencido_ nas guerras. Era Sebastião que carregava os pesos, que
-offerecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia todo o pão,
-deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre
-igual, sem amúos, tornou-se na vida d'ambos um interesse essencial e
-permanente.
-
-Quando a mãi de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos;
-habitariam a casa de Sebastião, mais larga e que tinha quintal; Jorge
-queria comprar um cavallo; mas conheceu Luiza no Passeio, e d'ahi a
-dous mezes passava quasi todo o seu dia na rua da Magdalena.
-
-Todo aquelle plano jovial da _Sociedade Sebastião e
-Jorge_--chamavam-lhe assim, rindo--desabou, como um castello de cartas.
-Sebastião teve um grande pezar.
-
-E era elle, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a
-Luiza, sem espinhos, com cuidados devotos embrulhados n'um papel de
-sêda. Era elle que tratava dos arranjos do «ninho», ia apressar os
-estofadores, discutir preços de roupas, vigiar o trabalho dos homens
-que pregavam os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos
-papeis do casamento!
-
-E á noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar
-com um sorriso as expansões felizes de Jorge, que passeava pelo quarto
-até ás duas horas da noite em mangas de camisa, namorado, loquaz,
-brandindo o cachimbo!
-
-Depois do casamento Sebastião sentiu-se muito só. Foi a Portel visitar
-um tio, um velho exquisito, com um olhar de doudo, que passava a
-existencia combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o _Eurico_.
-Quando voltou, passado um mez, Jorge disse-lhe radioso:
-
---E sabes, hein? Isto agora é que é a tua casa! Aqui é que tu vives!
-
-Mas nunca obteve de Sebastião que fosse a sua casa com uma inteira
-intimidade. Sebastião batia á porta, timidamente. Corava diante de
-Luiza; o antigo _pelludo_ de latim reapparecia. Jorge luctára para que
-elle cruzasse sem ceremonia as pernas, fumasse cachimbo diante d'ella,
-não lhe dissesse a todo o momento:--V. exc.^a, v. exc.^a--meio erguido
-na cadeira.
-
-Nunca vinha jantar senão arrastado. Quando Jorge não estava, as suas
-visitas eram curtas, cheias de silencio. Julgava-se gebo, tinha medo de
-massar!
-
-N'essa tarde, quando elle foi para a sala de jantar, a tia Joanna
-veio-lhe perguntar pela Luizinha.
-
-Adorava-a, achava-a um _anjinho_, uma _açucena_.
-
---Como está ella? viu-a?
-
-Sebastião corou, não quiz dizer, como na vespera, «que estava gente,
-que não tinha entrado»; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as
-orelhas do _Trajano_, o seu velho perdigueiro:
-
---Está boa, tia Joanna, está boa. Então como ha-de d'estar? Está optima!
-
-
-
-Áquella hora Luiza recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com
-muitas queixas sobre o calor, sobre as más estalagens, historias sobre
-o extraordinario parente de Sebastião,--saudades e mil beijos...
-
-Não a esperava, e aquella folha de papel cheia d'uma letra miudinha,
-que lhe fazia reapparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar,
-a sua ternura, deu-lhe uma sensação quasi dolorosa. Toda a vergonha
-dos seus desfallecimentos cobardes, sob os beijos de Bazilio, veio
-abrazar-lhe as faces. Que horror deixar-se abraçar, apertar! No
-sophá o que elle lhe dissera, com que olhos a devorára!... Recordava
-tudo,--a sua attitude, o calor das suas mãos, a tremura da sua voz... E
-machinalmente, pouco e pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordações,
-abandonando-se-lhe, até ficar perdida na deliciosa lassidão que ellas
-lhe davam, com o olhar languido, os braços frouxos. Mas a idéa de
-Jorge vinha então outra vez fustigal-a como uma chicotada. Erguia-se
-bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de
-chorar...
-
---Ah! não! é horroroso, é horroroso!--dizia só, fallando alto.--É
-necessario acabar!
-
-Resolveu não receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe que não voltasse,
-que partisse! Meditava mesmo as palavras; seria sêcca e fria, não diria
-_meu querido primo_, mas simplesmente _primo Bazilio_.
-
-E que faria elle, quando recebesse a carta? Choraria, coitado!
-
-Imaginava-o só, no seu quarto d'hotel, infeliz e pallido; e d'aqui,
-pelos declives da sensibilidade, passava á recordação da sua pessoa, da
-sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante, e a memoria
-demorava-se n'aquellas lembranças com uma sensação de felicidade, como
-a mão se esquece acariciando a plumagem dôce d'um passaro raro. Sacudia
-a cabeça com impaciencia, como se aquellas imaginações fossem os
-ferrões d'insectos importunos: esforçava-se por pensar só em Jorge; mas
-as idéas más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber
-o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar
-Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que
-era!--E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida
-indignação contra Jorge, contra Bazilio, contra os sentimentos, contra
-os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a não
-seccassem, Santo Deus!
-
-Depois de jantar, á janella da sala, ficou a relêr a carta de Jorge.
-Pôz-se a recordar de proposito tudo o que a encantava n'elle, do
-seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns
-de honra, outros de sentimento, para o amar, para o respeitar. Tudo
-era por elle estar fóra, na provincia! Se elle alli estivesse ao pé
-d'ella! Mas tão longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra
-sua vontade, a certeza d'aquella ausencia dava-lhe uma sensação
-de liberdade; a idéa de se poder mover á vontade nos desejos, nas
-curiosidades, enchia-lhe o peito d'um contentamente largo, como uma
-lufada de independencia.
-
-Mas emfim, vamos, de que lhe servia estar livre, só?--E de repente tudo
-o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe apparecia n'uma perspectiva
-longa que fulgurava: aquillo era como uma porta, subitamente aberta e
-fechada, que deixa entrever, n'um relance, alguma cousa de indefinido,
-de maravilhoso, que palpita e faisca.--Oh! estava douda, de certo!
-
-Escureceu. Foi para a sala, abriu a janella; a noite estava quente e
-espessa, com um ar d'electricidade e de trovoada. Respirava mal, olhava
-para o céo, desejando alguma cousa fortemente, sem saber o quê.
-
-O moço do padeiro em baixo, como sempre, tocava o fado; aquelles sons
-banaes entravam-lhe agora na alma, com a brandura d'um bafo quente e a
-melancolia de um gemido.
-
-Encostou a cabeça á mão com uma lassidão. Mil pensamentosinhos
-corriam-lhe no cerebro como os pontos de luz que correm n'um papel que
-se queimou; lembrava-lhe sua mãi, o chapéo novo que lhe mandára madame
-François, o tempo que faria em Cintra, a doçura das noites quentes sob
-a escuridão das ramagens...
-
-Fechou a janella, espreguiçou-se; e sentada na _causeuse_, no seu
-quarto, ficou alli, n'uma immobilidade, pensando em Jorge, em lhe
-escrever, em lhe pedir que viesse. Mas bem depressa aquelle scismar
-começou a quebrar-se a cada momento como uma tela que se esgaça em
-rasgões largos, e por traz apparecia logo com uma intensidade luminosa
-e forte a idéa do primo Bazilio.
-
-As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro;
-a melancolia da separação dera-lhe cabellos brancos. Tinha soffrido
-por ella!--dissera.--E no fim onde estava o mal? Elle jurára-lhe que
-aquelle amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris,
-o pobre rapaz, assim lh'o jurára, para a vêr, uma semana, quinze dias.
-E havia de dizer-lhe:--Não voltes, vai-te?
-
---Quando a senhora quizer o chá...--disse da porta do quarto Juliana.
-
-Luiza deu um suspiro alto como acordando. Não; que trouxesse a
-lamparina, mais tarde.
-
-Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu chá, á cozinha. O lume ia-se
-apagando, o candieiro de petroleo estendia nos cobres dos tachos
-reflexos avermelhados.
-
---Hoje houve cousa, snr.^a Joanna--disse Juliana sentando-se.--Está
-toda no ar! E é cada suspiro! Alli houve-a e grossa.
-
-Joanna, do outro lado, com os cotovêlos na mesa e a face sobre os
-punhos, pestanejava de somno.
-
---A snr.^a Juliana, tambem, deita tudo para o mal--disse.
-
---É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna!
-
-Calou-se, cheirou o assucar; era um dos seus despeitos; gostava d'elle
-bem refinado--e aquelle assucar mascavado e grosso, que punha no chá um
-gosto de formigas, exasperava-a.
-
---Este é peor que o do mez passado! Para uma pobre de Christo tudo é
-bom!--rosnou muito amargamente.
-
-E depois d'uma pausa repetiu:
-
---É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna!
-
-A cozinheira disse preguiçosamente:
-
---Cada um sabe de si...
-
---E Deus de todos--suspirou Juliana.
-
-E ficaram caladas.
-
-Luiza tocou a campainha em baixo.
-
---Que teremos nós agora? Está com as cocegas!
-
-Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada:
-
---Quer mais agua! Olha a mania, pôr-se agora a chafurdar á meia noite!
-Sempre a gente as vê...
-
-Foi encher o regador, e em quanto a agua da torneira cantava no fundo
-de lata:
-
---E diz que lhe faça ámanhã ao almoço um bocado de presunto frito, do
-salgado. Quer picantes!
-
-E com muito escarneo:
-
---Sempre a gente vê cousas! Quer picantes!
-
-Á meia noite a casa estava adormecida e apagada. Fóra, o céo
-ennegrecera mais; relampejou, e um trovão secco estalou, rolou.
-
-Luiza abriu os olhos estremunhada; começára a cahir uma chuva grossa
-e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento
-escutando as goteiras que cantavam sobre o lagedo; a alcova abafava,
-descobriu-se; o somno tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga
-claridade que vinha de fóra da lamparina, seguia o tic-tac do relogio.
-Espreguiçou-se, e uma certa idéa, uma certa visão foi-se formando
-no seu cerebro, completando-se, tão nitida, quasi tão visivel, que
-se revirou na cama devagar, estirou os braços, lançou-os em roda do
-travesseiro, adiantando os beiços seccos--para beijar uns cabellos
-negros onde reluziam fios brancos.
-
-
-
-Sebastião tinha dormido mal. Acordou ás seis horas e desceu ao quintal
-em chinellas. Uma porta envidraçada da sala de jantar abria para um
-terraçosinho, largo apenas para tres cadeiras de ferro pintado e
-alguns vasos de cravos; d'alli, quatro degraus de pedra desciam para
-o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de
-flôres, saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros, um poço
-e um tanque debaixo d'uma parreirita, e arvores; terminava por outro
-terraço assombreado d'uma tilia, com um parapeito para uma rua baixa
-e solitaria; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um
-sitio recolhido, d'uma paz aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada,
-ia para alli fumar o seu cigarro.
-
-Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céo
-arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas
-velhas e, aqui e além, uma nuvemzinha algodoada, mollemente enrolada,
-côr de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a agua do tanque uma
-crystallinidade fria; passaros chilreavam de leve, com vôos rapidos.
-
-Sebastião estava debruçado para a rua, quando a ponteira d'uma bengala,
-passos vagarosos cortaram o silencio fresco. Era um visinho de Jorge,
-o Cunha Rosado, o doente d'intestinos; arrastava-se, curvado, abafado
-n'um cachenez e n'um paletot côr de pinhão, com a barba grisalha
-desmazelada, a crescer.
-
---Já a pé, visinho!--disse Sebastião.
-
-O outro parou, ergueu a cabeça lentamente.
-
---Oh Sebastião!--disse com uma voz plangente--Ando a passear os meus
-leites, homem!
-
---A pé?
-
---Ao principio ia na burrita até fóra de portas, mas diz que me fazia
-bem o passeiosito a pé...
-
-Encolheu os hombros com um gesto triste de duvida, de desconsolação.
-
---E como vai isso?--perguntou Sebastião, muito debruçado para a rua,
-com affecto.
-
-O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos:
-
---A desfazer-se!
-
-Sebastião tossiu, embaraçado, sem achar uma consolação.
-
-Mas o doente, com as duas mãos apoiadas á bengala, uma subita radiação
-d'interesse no olhar amortecido:
-
---Ó Sebastião, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias
-entrar para casa do Jorge, é o Bazilio de Brito, pois não é? O primo da
-mulher? o filho do João de Brito?
-
---É, sim, porque?
-
-O Cunha fez: _Ah! ah!_ com uma grande satisfação.
-
---Bem dizia eu!--exclamou.--Bem dizia eu! E aquella teimosa que não!
-que não!...
-
-E então explicou com uma tagarellice subita, e cansaços de voz:
-
---O meu quarto é para a rua, e todos os dias, como eu estou quasi
-sempre pela janella para espairecer... tenho visto aquelle rapaz, a
-modo estrangeirado, entrar para lá... todos os dias! Este é o Bazilio
-de Brito! disse eu. Mas minha mulher que não! que não!... Que diabo,
-homem! Eu tinha quasi a certeza... Não conheço eu outra cousa!... Até
-elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu sei essa historia na
-ponta dos dedos... Morava ella na rua da Magdalena!...
-
-Sebastião disse vagamente:
-
---Pois é, é o Brito...
-
---Bem dizia eu!
-
-Ficou um momento immovel, fitando o chão, e refazendo uma voz dolente:
-
---Pois, vou-me arrastando até casa.
-
-Suspirou. E arregalando os olhos:
-
---Quem me dera a sua saude, Sebastião!
-
-E dizendo adeus, com um gesto da mão calçada de luva de casimira
-escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o braço ao
-ventre, o seu largo paletot côr de pinhão.
-
-Sebastião entrou preoccupado. Todo o mundo começava a reparar, hein!
-Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas,
-tres horas! Uma visinhança tão chegada, tão maligna!...
-
-Ao começo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar Luiza; mas sem saber
-porque, sentia um grande acanhamento; como que receava encontral-a
-differente ou com outra expressão... E subia a rua devagar, sob o seu
-guarda-sol, hesitando, quando um coupé que descia a trote largo veio
-parar á porta de Luiza.
-
-Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto,
-com um bigode levantado, trazia uma flôr no peito; devia ser o primo
-Bazilio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as
-pernas, pôz-se a enrolar o cigarro.
-
-Ao ruido do trem o Paula postou-se logo á porta, de boné carregado, as
-mãos enterradas no bolso, com olhares de revés: a carvoeira defronte,
-immunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um
-pasmo lôrpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente
-a vidraça. Então o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante de
-sol, entrou no estanque; d'ahi a um momento appareceu á porta, com a
-estanqueira, de carão viuvo; e cochichavam, cravavam olhares perfidos
-nas varandas de Luiza, no coupé! O Paula, d'alli, arrastando as
-chinellas de tapete, foi segredar com a carvoeira, provocou-lhe uma
-risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi emfim estacar á sua
-porta entre um retrato de D. João VI e duas velhas cadeiras de couro,
-assobiando com jubilo. No silencio da rua ouvia-se n'um piano, a
-compasso de estudo, a _Oração d'uma virgem_.
-
-Sebastião ao passar olhou machinalmente para as janellas de Luiza.
-
---Rico calor, snr. Sebastião!--observou o Paula curvando-se--É um
-regalo estar á fresca!
-
-
-
-Luiza e Bazilio estavam muito tranquillos, muito felizes na sala, com
-as portadas meio cerradas, n'uma penumbra dôce. Luiza tinha apparecido
-de roupão branco, muito fresca, com um bom cheiro de agua d'alfazema.
-
---Eu venho assim mesmo--disse ella.--Não faço ceremonias.
-
-Mas assim é que ella estava linda! Assim é que a queria
-sempre!--exclamava Bazilio muito contente, como se aquelle roupão de
-manhã fosse já uma promessa da sua nudez.
-
-Vinha muito tranquillo, affectava um tom de parente. Não a inquietou
-com palavras vehementes, nem com gestos desejosos: fallou-lhe do calor,
-d'uma _zarzuela_ que vira na vespera, de velhos amigos que encontrára,
-e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ella.
-
-O que? Que estavam longe, n'uma terra distante, que devia ser a Italia,
-tantas as estatuas que havia nas praças, tantas as fontes sonoras
-que cantavam nas bacias de marmore; era n'um jardim antigo, sobre um
-terraço classico; flôres raras transbordavam de vasos florentinos;
-pousando sobre as balaustradas esculpidas, pavões abriam as caudas; e
-ella arrastava devagar sobre as lages quadradas a cauda longa do seu
-vestido de velludo azul. De resto, dizia, era um terraço como o de S.
-Donato, a _villa_ do principe Demidoff,--porque lembrava sempre as suas
-intimidades illustres, e não se descuidava de fazer reluzir a gloria
-das suas viagens.
-
-E ella, tinha sonhado?
-
-Luiza córou.--Não, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a
-trovoada, elle?
-
---Estava a cear no Gremio, quando trovejou.
-
---Costumas cear?
-
-Elle teve um sorriso infeliz.--Cear! se se podia chamar cear ir ao
-Gremio rilhar um bife corneo e tragar um Collares peçonhento!
-
-E fitando-a:
-
---Por tua causa, ingrata!
-
-Por sua causa?
-
---Por quem, então? Porque vim eu a Lisboa? Porque deixei Paris?
-
---Por causa dos teus negocios...
-
-Elle encarou-a severamente:
-
---Obrigado--disse, curvando-se até ao chão.
-
-E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu
-charuto.
-
-Veio sentar-se bruscamente ao pé d'ella.--Não, realmente era injusta.
-Se estava em Lisboa, era por ella. Só por ella!
-
-Fez uma voz meiga, perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho
-d'amor muito pequenino, assim...--Mostrava o comprimento da unha.
-
-Riram.
-
---Assim, talvez.
-
-E o peito de Luiza arfava.
-
-Elle então examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as e aconselhou-lhe o
-verniz que usam as _cocottes_, que lhes dá um lustre polido; ia-se
-apossando da sua mão, pôz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o
-dedo minimo, jurou que era muito dôce; arranjou-lhe com um contacto
-muito timido uns fios de cabello que se tinham soltado,--e, disse,
-tinha um pedido a fazer-lhe!
-
-Olhava-a com uma supplicação.
-
---Que é?
-
---É que venhas commigo ao campo. Deve estar lindo no campo!
-
-Ella não respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas molles do roupão.
-
---É muito simples--acrescentou elle.--Tu vaes-me encontrar a qualquer
-parte, longe d'aqui, está claro. Eu estou á espera de ti com uma
-carruagem, tu saltas para dentro e _fouette_, _cocher_!
-
-Luiza hesitava.
-
---Não digas que não.
-
---Mas onde?
-
---Onde tu quizeres. A Paço d'Arcos, a Loires, a Queluz. Dize que sim.
-
-A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhára.
-
---Que tem? É um passeio d'amigos, d'irmãos.
-
---Não! isso não!
-
-Bazilio zangou-se, chamou-lhe _beata_. Quiz sahir. Ella veio tirar-lhe
-o chapéo da mão, muito meiga, quasi vencida.
-
---Talvez, veremos--dizia.
-
---Dize que sim!--insistia.--Sê boa rapariga!
-
---Pois sim, ámanhã veremos, ámanhã fallaremos.
-
-Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bazilio não fallou no passeio,
-nem no campo. Não fallou tambem do seu amor, nem dos seus desejos.
-Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de
-Belot, _A mulher de fogo_. E sentando-se ao piano, disse-lhe canções de
-_café concerto_, muito picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das
-cantoras; fel-a rir.
-
-Depois fallou muito de Paris, contou-lhe a moderna chronica amorosa,
-anecdotas, paixões _chics_. Tudo se passava com duquezas, princezas,
-d'um modo dramatico e sensibilisador, ás vezes jovial, sempre cheio de
-delicias. E, de todas as mulheres de que fallava, dizia recostando-se:
-Era uma mulher distinctissima, tinha naturalmente o seu amante...
-
-O adulterio apparecia assim um dever aristocratico. De resto a virtude
-parecia ser, pelo que elle contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou
-a occupação reles d'um temperamento burguez...
-
-E quando sahiu, disse, como recordando-se:
-
---Sabes que estou com minhas idéas de partir?...
-
-Ella perguntou, um pouco descorada:
-
---Porque?
-
-Bazilio disse, muito indifferente:
-
---Que diabo faço eu aqui?...
-
-Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se:
-
---Adeus, meu amor...
-
-E sahiu.
-
-Quando n'essa tarde Luiza entrou na sala de jantar, levava os olhos
-vermelhos.
-
-Foi ella no dia seguinte que fallou do campo. Queixou-se do contínuo
-calor, da _sécca_ de Lisboa. Como devia estar lindo em Cintra!
-
---És tu que não queres--acudiu elle. --Podiamos fazer um passeio
-adoravel.
-
-Mas tinha medo, podiam vêr...
-
---O quê! N'um coupé fechado? Com os _stores_ descidos?
-
-Mas então era peor que estar n'uma sala, era abafar n'uma bocêta!
-
-Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir ás _Alegrias_, á quinta d'um amigo
-d'elle que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros, era ao pé dos
-Olivaes, era lindo! Bellas ruas de loureiros, sombras adoraveis. Podiam
-levar gelo, champagne...
-
---Vem!--disse bruscamente, tomando-lhe as mãos.
-
-Ella córou.--Talvez. No domingo veria.
-
-Bazilio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se,
-humedeceram-se. Ella sentiu-se muito perturbada; desprendeu as mãos;
-foi abrir as vidraças ambas, dar á sala uma claridade larga como
-uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao pé do piano, receando a
-penumbra, o sophá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse
-alguma cousa, porque já temia as palavras, tanto como os silencios!
-Bazilio cantou a _Medjé_, a melodia de Gounod, tão sensual e
-perturbadora. Aquellas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos
-d'uma noite electrica. E quando Bazilio sahiu, ficou sentada, quebrada,
-como depois d'um excesso.
-
-
-Sebastião tinha estado nos ultimos tres dias em Almada, na quinta do
-Rozegal, onde trazia obras. Voltára na segunda-feira cedo, e, pelas
-dez horas, sentado no poial da janella de jantar que abria para o
-terraçosinho, esperava o seu almoço, brincando com o _Rolim_--o seu
-gato, amigo e confidente da illustre Vicencia, nedio como um prelado,
-ingrato como um tyranno.
-
-A manhã começava a aquecer; o quintal estava já cheio de sol; na agua
-do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e tremulas faiscavam.
-Nas duas gaiolas os canarios cantavam estridentemente.
-
-A tia Joanna, que andava a arranjar a mesa do almoço muito calada,
-poz-se então a dizer com a sua vozinha arrastada e minhôta:
-
---Ora esteve ahi hontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratorios,
-com umas tontices!...
-
---A respeito de quê, tia Joanna?--perguntou Sebastião.
-
---A respeito d'um rapaz, que diz que vai agora todos os dias a casa da
-Luizinha.
-
-Sebastião ergueu-se logo:
-
---Que disse ella, tia Joanna?
-
-A velha assentava a toalha devagar com a sua mão gorducha espalmada:
-
---Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem não seria? Diz que é um
-perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem... No
-sabbado que estivera até quasi á noitinha. E cantou-se na sala, diz que
-uma voz que nem no theatro...
-
-Sebastião interrompeu-a, impaciente:
-
---É o primo, tia Joanna. Então quem havia de ser? É o primo que chegou
-do Brazil.
-
-A tia Joanna teve um bom sorriso.
-
---Eu logo vi que era cousa de parente. Pois diz que é um perfeito
-rapaz! E todo janota!
-
-E sahindo para a cozinha, devagar:
-
---Eu logo vi que era parente, logo disse!...
-
-Sebastião almoçou inquieto. Positivamente a visinhança já se punha a
-mexericar, a commentar! Estava-se a armar um escandalo!--E, assustado,
-decidiu-se logo a ir consultar Julião.
-
-Descia a rua de S. Roque para casa d'elle, quando o viu, que subia
-devagar pela sombra, com um rolo de papel debaixo do braço, uma calça
-branca enxovalhada, o ar suado.
-
---Ia a tua casa, homem!--disse Sebastião logo.
-
-Julião estranhou a excitação desusada da sua voz.
-
-Havia alguma novidade? Que era?
-
---Uma do diabo!--exclamou, baixo, Sebastião.
-
-Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça, por traz d'elles,
-emprateleirava-se uma exposição de garrafas de malvasia com os seus
-letreiros muito coloridos, transparencias avermelhadas de gelatinas,
-amarellidões enjoativas de dôces d'ovos, e quéques d'um castanho escuro
-tendo espetados cravos tristes de papel branco ou côr de rosa. Velhas
-natas lividas amollentavam-se no ôco dos folhados; ladrilhos grossos de
-marmelada esbeiçavam-se ao calor; as empadinhas de marisco agglomeravam
-as suas crôstas resequidas. E no centro, muito proeminente n'uma
-travessa, enroscava-se uma lampreia d'ovos medonha e bojuda, com o
-ventre d'um amarello ascoroso, o dorso malhado d'arabescos d'assucar, a
-bocca escancarada: na sua cabeça grossa esbogalhavam-se dous horriveis
-olhos de chocolate; os seus dentes d'amendoa ferravam-se n'uma
-tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam.
-
---Vamos alli para o café--disse Julião.--Aqui na rua arde-se!
-
---Tenho estado apoquentado--ia dizendo Sebastião.--Muito apoquentado!
-Quero fallar-te.
-
-No café o papel azul ferrete e as meias portas fechadas abatiam a
-aspera intensidade da luz, davam uma frescura calada.
-
-Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito
-caiadas brilhavam com uma radiação faiscante. Por traz do balcão, onde
-reluziam garrafas de crystal, um criado de jaquetão, estremunhado
-e esguedelhado, cabeceava de somno. Um passaro chilreava dentro;
-sentia-se o bater espaçado das bolas do bilhar através d'uma porta de
-baeta verde; ás vezes o pregão de um cangalheiro na rua sobresahia,
-e--todos estes sons, por momentos, se perdiam no ruido forte do descer
-d'um trem travado.
-
-Defronte d'elles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas
-melenas grisalhas collavam-se a um craneo amarellado; o bigode tinha
-tons queimados do cigarro; e das noitadas ficára-lhe uma vermelhidão
-inflammada nas palpebras. De vez em quando erguia preguiçosamente a
-cabeça, atirava para o chão areado um jacto escuro de saliva, dava uma
-sacudidella triste ao jornal e tornava a fital-o com um olhar infeliz.
-Quando os dous entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente
-a cabeça.
-
---Mas o que é então?--perguntou logo Julião.
-
-Sebastião chegou-se mais para elle:
-
---É por causa lá da nossa gente. Por causa do primo--disse baixo.
-
-E acrescentou:
-
---Tu vistel-o, hein?
-
-A lembrança repentina da sua humilhação na sala de Luiza trouxe um
-rubor ás faces de Julião. Mas muito orgulhoso, disse seccamente:
-
---Vi.
-
---E então?
-
---Pareceu-me um asno!--exclamou, não se contendo.
-
---E um extravagante--disse com terror Sebastião--Não te pareceu, hein?
-
---Pareceu-me um asno--repetiu.--Umas maneiras, uma affectação, um
-alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridiculas de
-mulher...
-
-E com um certo sorriso azedado:
-
---Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas--disse, apontando
-para os botins mal engraxados--tenho muita honra n'ellas, são de quem
-trabalha...
-
-Porque publicamente costumava gloriar-se d'uma pobreza, que intimamente
-não cessava de o humilhar.
-
-E remexendo devagar a sua carapinhada:
-
---Uma besta!--resumiu.
-
---Tu sabes que elle foi namoro da Luiza?--disse Sebastião, baixo, como
-assustado da gravidade da confidencia.
-
-E respondendo logo ao olhar surprehendido de Julião:
-
---Sim. Ninguem o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o ha pouco, ha mezes. Foi.
-Estiveram para casar. Depois o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de
-lá escreveu a romper o casamento.
-
-Julião sorriu, e encostando a cabeça á parede:
-
---Mas isso é o enredo da _Eugenia Grandet_, Sebastião! Estás-me a
-contar o romance de Balzac! Isso é a _Eugenia Grandet_!
-
-Sebastião fitou-o espantado.
-
---Ora! não se póde fallar serio comtigo. Dou-te a minha palavra
-d'honra--acrescentou vivamente.
-
---Vá, Sebastião, vá, dize.
-
-Houve um silencio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do
-tecto sujo do fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mão
-sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rêpas. No bilhar vozes
-altercavam.
-
-Sebastião então, como tomado d'uma resolução, disse bruscamente:
-
---E agora vai lá todos os dias, não sahe de lá!
-
-Julião afastou-se na banqueta e encarou-o:
-
---Tu queres-me dar a entender alguma cousa, Sebastião?
-
-E com uma vivacidade quasi jovial:
-
---O primo atira-se?
-
-Aquella palavra escandalisou Sebastião.
-
---Ó Julião!--E severamente:--Com essas cousas não se brinca!
-
-Julião encolheu os hombros.
-
---Mas está claro que se atira!--exclamou.--És de bom tempo ainda! Está
-claro que sim! Namorou-a solteira, agora quel-a casada!
-
---Falla baixo--acudiu Sebastião.
-
-Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recahido na sua leitura
-funebre.
-
-Julião baixou a voz:
-
---Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Bazilio tem razão; quer o
-prazer sem a responsabilidade!
-
-E quasi ao ouvido d'elle:
-
---É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu não imaginas que
-influencia isto tem no sentimento!
-
-Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilherias vinham-lhe com
-abundancia:
-
---Ha um marido que a veste, que a calça, que a alimenta, que a engomma,
-que a vela se está doente, que a atura se ella está nervosa, que tem
-todos os encargos, todos os tedios, todos os filhos, todos, todos os
-que vierem, sabes a lei... Por consequencia o primo não tem mais que
-chegar, bater ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa á
-custa do marido, e...
-
-Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfação, enrolando
-deliciosamente o cigarro, regosijando-se no escandalo.
-
---É optimo!--acrescentou.--Todos os primos raciocinam assim. Bazilio
-é primo, logo... Sabes o syllogismo, Sebastião! Sabes o syllogismo,
-menino!--gritou, dando-lhe uma palmada na perna.
-
---É o diabo--murmurou Sebastião cabisbaixo.
-
-Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando:
-
---Mas tu suppões que uma rapariga de bem...
-
---Eu não supponho nada!--acudiu Julião.
-
---Falla baixo, homem!
-
---Eu não supponho nada--repetiu Julião baixinho.--Eu affirmo o que elle
-faz. Agora ella...
-
-E acrescentou com seccura:
-
---Como é uma rapariga honesta...
-
---Se é!--exclamou Sebastião, batendo uma punhada na pedra da mesa.
-
---Prompto!--cantou arrastadamente o moço.
-
-O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia
-ao balcão bocejando, e que os dous continuavam a remexer a sua
-carapinhada, encostou os cotovêlos á mesa, salivou para longe, e
-puxando o jornal deixou-lhe cahir em cima um olhar desolado.
-
-Sebastião disse, então, com tristeza:
-
---A questão não é por ella. A questão é pela visinhança.
-
-Ficaram um momento calados. A altercação de vozes no bilhar crescia.
-
---Mas--disse Julião, como sahindo d'uma reflexão--a visinhança? Como a
-visinhança?
-
---Sim, homem! Vêem entrar para lá o rapaz. Vem de tipoia, faz um
-escandalo na rua. Já se falla. Já vieram com mexericos á tia Joanna.
-Ha dias encontrei o Netto que reparou. O Cunha tambem. O homem dos
-trastes, em baixo, não se faz nada que elle não dê fé: são umas linguas
-de tremer. Ha dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem
-para entrar, e foram logo conciliabulos na rua, olhadellas para a
-janella, o diabo! Vai lá todos os dias. Sabem que o Jorge está no
-Alemtejo... Está duas e tres horas. É muito serio, é muito serio!
-
---Mas ella então é tola!
-
---Não vê o mal...
-
-Julião encolheu os hombros, duvidando.
-
-Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem herculeo, de bigode
-negro, muito escarlate, sahiu bruscamente, e parando, segurando a porta
-aberta, gritou para dentro:
-
---E fique sabendo que havia d'encontrar homem!
-
-Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade.
-
-O sujeito herculeo atirou a porta, furioso; atravessou o café
-resfolegando, apopletico; um rapaz chupado, de jaquetão de inverno e
-calça branca, seguia-o, com um ar gingado.
-
---O que eu devia fazer--exclamava o agigantado, brandindo o punho--era
-quebrar a cara áquelle pulha!
-
-O rapaz chupado, dizia, com doçura e servilismo, bamboleando-se:
-
---Questões não servem para nada, sô Corrêa!
-
---É que sou muito prudente--berrou o herculeo.--É que me lembro que
-tenho mulher e filhos! Senão bebia-lhe o sangue!
-
-E sahindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua.
-
-O criado muito pallido, tremia dentro do balcão; e o sujeito calvo, que
-erguera a cabeça, teve um sorriso de tedio, e retomou tristemente o
-jornal.
-
-Sebastião, então, disse reflectindo:
-
---Não te parece que seria bom avisal-a?
-
-Julião encolheu os hombros, soltou uma baforada de fumo.
-
---Dize alguma cousa!--implorou Sebastião--Tu não ias fallar-lhe, hein?
-
---Eu?--exclamou Julião com um aspecto que repellia a idéa.--Eu! Estás
-doudo!
-
---Mas que te parece, emfim?
-
-E a voz de Sebastião tinha quasi uma afflicção.
-
-Julião hesitou:
-
---Vai, se queres. Dize-lhe que se tem reparado... Emfim, eu não sei,
-meu amigo!
-
-E pôz-se a chupar o seu cigarro.
-
-Aquelle mutismo affectou Sebastião. Disse com desconsolação:
-
---Homem, vim-te pedir um conselho...
-
---Mas que diabo queres tu?--E a voz de Julião irritava-se.--A culpa é
-d'ella. É d'ella!--insistiu, vendo o olhar de Sebastião.--É uma mulher
-de vinte e cinco annos, casada ha quatro, deve saber que se não recebe
-todos os dias um peralvilho, n'uma rua pequena, com a visinhança a
-postos! Se o faz, é porque lhe agrada.
-
---Ó Julião!--disse muito severamente Sebastião.
-
-E dominando-se, com a voz commovida:
-
---Não tens razão, não tens razão!
-
-Calou-se muito magoado.
-
-Julião levantou-se.
-
---Amigo Sebastião, eu digo o que penso, tu fazes o que entendes.
-
-Chamou o criado.
-
---Deixa--disse Sebastião precipitadamente, pagando.
-
-Iam sahir. Mas então o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se
-para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastião um papel
-enxovalhado.
-
-Sebastião, surprehendido, leu alto, machinalmente:
-
-«O abaixo assignado, antigo empregado da nação, reduzido á miseria...»
-
---Fui intimo amigo do nobre duque de Saldanha!--gemeu chorosamente, com
-uma rouquidão, o sujeito calvo.
-
-Sebastião córou, comprimentou, metteu-lhe na mão duas placas de cinco
-tostões, discretamente.
-
-O sujeito dobrou profundamente o espinhaço, e declamou com uma voz cava:
-
---Mil agradecimentos a v. exc.^a, snr. conde!
-
-
-
-
-V
-
-
-A manhã estava abrazadora. Um pouco depois do meio dia, Joanna,
-estirada n'uma velha cadeira de vime da ilha da Madeira que havia na
-cozinha, dormitava a sésta. Como madrugava muito, áquella hora da calma
-vinha-lhe sempre uma quebreira.
-
-As janellas estavam cerradas ao sol faiscante; as panellas no lume
-faziam um _ron-ron_ dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia
-amodorroada no amollecimento do calor torrido, quando Juliana entrou
-como uma rajada, atirou para o chão, furiosa, uma braçada de roupa
-suja, e gritou:
-
---Raios me partam se não ha um escandalo n'esta casa que vai tudo raso!
-
-Joanna deu um salto estremunhada.
-
---Quem quer as cousas em ordem olha por ellas!--berrava a outra com
-os olhos injectados.--Não é estar todo o dia na sala a palrar com as
-visitas!
-
-A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, já assustada.
-
---Que foi, snr.^a Juliana, que foi?
-
---Está com a mosca! Tem o sangue a ferver! Sangrias! sangrias! Tem
-peguilhado por tudo! Não estou para a aturar, não estou!
-
-E batia o pé com phrenesi.
-
---Mas que foi? que foi?
-
---Diz que os collarinhos tinham pouca gomma, pôz-se a despropositar!
-Estou farta de a aturar! Estou farta! Estou até aqui!--bradava, puxando
-a pelle engelhada da garganta.--Pois que me não faça sahir de mim! Que
-me vou, e pespego-lhe na cara por quê! Desde que aqui temos homem e
-pouca vergonha, boas noites!... Quem quizer que se metta em alhadas...
-
---Ó snr.^a Juliana, pelo amor de Deus! Jesus!--E a Joanna apertava a
-cabeça nas mãos.--Ai, se a senhora ouve!
-
---Que ouça, digo-lh'o na cara! Estou farta! estou farta!
-
-Mas, de repente, fez-se branca como a cal, cahiu sobre a cadeira de
-vime com as duas mãos contra o coração, os olhos em alvo.
-
---Snr.^a Juliana!--gritou Joanna--Snr.^a Juliana! Falle!
-
-Borrifou-a d'agua; sacudia-a, anciosamente.
-
---Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos valha! Está melhor? Falle!
-
-Juliana deu um suspiro longo, d'allivio, cerrou as palpebras. E
-arquejava devagarinho, muito prostrada.
-
---Como se sente? Quer um caldinho? É fraqueza, ha-de ser fraqueza...
-
---Foi a pontada--murmurou Juliana.
-
-Ai! aquelles phrenesis matavam-na!--dizia a cozinheira, remexendo-lhe
-o caldo, muito pallida tambem.--A gente tinha d'aturar os amos! Que
-tomasse a sustancia, que socegasse!...
-
-N'aquelle momento Luiza abriu a porta. Vinha em collete e saia branca.
-
-Que barulho era aquelle?
-
---A snr.^a Juliana que lhe tinha dado uma cousa, quasi desmaiára...
-
---Foi a pontada--balbuciou Juliana.
-
-E erguendo-se, com um esforço:
-
---Se a senhora não precisa nada, vou ao medico...
-
---Vá, vá!--disse Luiza logo. E desceu.
-
-Juliana pôz-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joanna
-consolava-a baixo:--Tambem, a snr.^a Juliana arrenegava-se por
-qualquer cousa. E quando a gente tem pouca saude não ha nada peor que
-emphrenesiar-se...
-
---É que não imagina!--e abafava a voz arregalando os olhos--Tem estado
-de não se poder aturar! Está-se a vestir que nem para uma partida!
-Amarfanhou uns poucos de collares, atirou-os para o chão, que eu
-engommava que era uma porcaria, que não servia para nada... Ai! Estou
-farta!--repetia--Estou farta!
-
---É ter paciencia! Todos tem a sua cruz!
-
-Juliana teve um sorriso livido, ergueu-se com um grande _ai!_,
-escabichou os dentes, apanhou a roupa suja, e subiu ao sotão.
-
-D'ahi a pouco, de luvas pretas, muito amarella, sahiu.
-
-Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, parou indecisa. Até
-ao medico era um estirão!... E estava, que lhe tremiam as pernas!...
-Mas tambem, largar tres tostões para trem!...
-
---Pst, pst!--fez do lado uma voz dôce.
-
-Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu
-sorriso desconsolado.
-
-Que era feito da snr.^a Juliana? a dar o seu passeio, hein?
-
-Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo d'osso.--De muito gosto--disse.--E
-como ia de saude?
-
-Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao medico...
-
-Mas a estanqueira não tinha fé nos medicos. Era dinheiro deitado á
-rua... Citou a doença do seu homem, os gastos, um _rôr_ de moedas. E
-para que? para o vêr penar e morrer como se nada fosse! Era um dinheiro
-que sempre chorava!
-
-E suspirou. Emfim, fosse feita a vontade de Deus! E lá por casa do snr.
-Engenheiro?
-
---Tudo sem novidade.
-
---Ó snr.^a Juliana, quem é aquelle rapaz que vai agora por lá todos os
-dias?
-
-Juliana respondeu logo:
-
---É o primo da senhora.
-
---Dão-se muito!...
-
---Parece.
-
-Tossiu, e com um comprimentosinho:
-
---Pois, muito boas tardes, snr.^a Helena.
-
-E foi resmungando:
-
---Ora, fica-te a chuchar no dedo, lêsma!
-
-Juliana detestava a visinhança; sabia que a escarneciam, que a
-imitavam, que lhe chamavam a _tripa velha_!...--Pois tambem d'ella
-não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham de
-carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar
-guardadinho, lá dentro.--Para uma occasião!--pensava com rancor,
-sacudindo os quadris.
-
-A estanqueira ficou á porta, despeitada. E o Paula dos moveis, que as
-vira conversar, veio logo, deslisando subtilmente nas suas chinellas de
-tapete:
-
---Então a _tripa velha_ escorregou-se?
-
---Ai! não se lhe tira nada!
-
-O Paula enterrou as mãos nos bolsos, com tedio:
-
---Aquillo, a do Engenheiro besunta-lhe as mãos... É ella quem leva a
-cartinha, quem abre a portita de noite...
-
---Tanto não direi! Credo!
-
-O Paula fitou-a com superioridade:
-
---A snr.^a Helena está ahi ao seu balcão... Mas eu é que as conheço,
-as mulheres da alta sociedade! Conheço-as nas pontas dos dedos. É uma
-cambada!
-
-Citou logo nomes, alguns illustres; tinham amantes innumeraveis: até
-trintanarios! Algumas fumavam, outras _entortavam-se_. E peor! E peor!
-
---E passeiam por ahi, muito repimpadas de carrinho, á barba da gente de
-bem!
-
---Falta de religião!--suspirou a estanqueira.
-
-O Paula encolheu os hombros:
-
---A religião é que é, snr.^a Helena! C'os padres é que é!
-
-E agitando furioso o punho fechado:
-
---C'os padres é uma _choldra_ viva!
-
---Credo, snr. Paula, que até lhe fica mal!...
-
-E o carão amarellado da estanqueira tinha uma severidade de devota
-offendida.
-
---Ora, historias, snr.^a Helena!--exclamou o homem com desprezo.
-
-E bruscamente:
-
---Porque é que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um desaforo
-lá dentro!
-
---Oh snr. Paula! oh snr. Paula!--balbuciava a Helena, recuando,
-encolhendo-se.
-
-Mas o Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas.
-
---Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterraneo ter c'os
-frades. E era vinhaça e mais vinhaça. E batiam o fandango em camisa!
-Anda isso por ahi em todos os livros.
-
-E erguendo-se nas chinellas:
-
---E os jesuitas, se vamos a isso! Sim! diga!
-
-Mas recuou, e levando a mão á pala do boné:
-
---Um criado da senhora--disse com respeito.
-
-Era Luiza que passava, vestida de preto, o véo descido. Ficaram
-calados, a olhal-a.
-
---Que ella é muito bonita!--murmurou a estanqueira, com admiração.
-
-O Paula franziu a testa.
-
---Não é mau bocado...--disse. E acrescentou, com desdem:--P'ra quem
-gosta d'aquillo!...
-
-Houve um silencio. E o Paula rosnou:
-
---Não são as saias que me levam o tempo, nem d'isto!...
-
-E bateu no bolso do collete, fazendo tilintar dinheiro.
-
-Tossiu, pigarreou, e ainda aspero:
-
---Venha de lá um pataco de Xabregas.
-
-Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus
-olhos arregalaram-se indignados; n'uma das janellas de cima na casa do
-Engenheiro, tinha avistado, por entre as vidraças abertas, a figura
-enfesada do Pedro, o carpinteiro.
-
-Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os braços:
-
---E agora que a patrôa vai á vida, lá está o rapazola a entender-se com
-a criada!
-
-Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna:
-
---Aquella casa vai-se tornando um prostibulo!
-
---Um quê, snr. Paula?
-
---Um prostibulo, snr.^a Helena! É como se dissesse um alcouce!
-
-E, com passos escandalisados, o patriota afastou-se.
-
-
-Luiza ia emfim ao campo com Bazilio. Consentira na vespera, declarando
-logo «que era só um passeio de meia hora, de carruagem, sem se
-apearem». Bazilio ainda insistiu, fallando em «sombras d'alamedas,
-uma merendinha, relvas...» Mas ella recusou, muito teimosa, rindo,
-dizendo:--Nada de relvas!...
-
-E tinham combinado encontrar-se na praça da Alegria. Chegou tarde, já
-depois das duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre o
-rosto, toda assustada.
-
-Bazilio esperava, fumando, n'um coupé, á esquina, debaixo d'uma
-arvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Luiza entrou fechando
-atrapalhadamente a sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo,
-esgaçou-se no rufo de sêda; e achou-se ao lado d'elle, muito nervosa,
-offegante, com o rosto abrazado, murmurando:
-
---Que tolice, que tolice esta!
-
-Mal podia fallar. O coupé partiu logo a trote. O cocheiro era o
-Pintéos, um batedor.
-
---Tão cançada, coitadinha!--disse-lhe Bazilio muito meigo.
-
-Levantou-lhe o véo; estava suada; os seus largos olhos brilhavam da
-excitação, da pressa, do medo...
-
---Que calor, Bazilio!
-
-Quiz descer um dos vidros do coupé.
-
-Não, isso não! Podiam vêl-os! Quando passassem as portas...
-
---Para onde vamos nós?
-
-E espreitava, levantando o _store_.
-
---Vamos para o lado do Lumiar, é o melhor sitio. Não queres?
-
-Encolheu os hombros. Que lhe importava? Ia socegando: tinha tirado o
-véo e as luvas: sorria, abanando-se com o lenço, d'onde sahia um aroma
-fresco.
-
-Bazilio prendeu-lhe o pulso, pôz-lhe muitos beijos longos, delicados,
-na pelle fina, azulada de veiasinhas.
-
---Tu prometteste ter juizo!--fez ella com um sorriso calido, olhando-o
-de lado.
-
-Ora! mas um beijo, no braço! Que mal havia? Tambem era necessario não
-ser beata!
-
-E olhava-a avidamente.
-
-Os velhos _stores_ do coupé corridos eram de sêda vermelha, e a luz que
-os atravessava envolvia-a n'um tom igual, côr de rosa e quente. Os seus
-beiços tinham um escarlate molhado, a lisura sã d'uma petala de rosa; e
-ao canto do olho um ponto de luz movia-se n'um fluido dôce.
-
-Não se conteve, passou-lhe os dedos um pouco tremulos nas fontes, nos
-cabellos, com uma caricia fugitiva e assustada; e com a voz humilde:
-
---Nem um beijo na face, um só?
-
---Um só?...--fez ella.
-
-Pousou-lh'o delicadamente ao pé da orelha. Mas aquelle contacto
-exasperou-lhe o desejo brutalmente; teve um som de voz soluçado;
-agarrou-a com sofreguidão, e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoço,
-pela face, pelo chapéo...
-
---Não! não!--balbuciava ella, resistindo.--Quero descer! Dize que pare!
-
-Batia nos vidros; esforçava-se por correr um, desesperada, magoando os
-dedos na dura corrêa suja.
-
-Bazilio pôz-se a supplicar, que lhe perdoasse! Que doudice, zangar-se
-por um beijo! Se ella estava tão linda!... Fazia-o doudo. Mas jurava ir
-quieto, muito quieto...
-
-A carruagem, ao pé das portas, rolava sacudida na calçada miuda; nas
-terras, aos lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam immoveis
-na luz branca; e sobre a herva crestada o sol batia duramente n'uma
-fulguração continua.
-
-Bazilio tinha descido um dos vidros; o _store_ corrido palpitava
-brandamente; pôz-se então a fallar-lhe ternamente de si, do seu
-amor, dos seus planos. Estava resolvido a vir estabelecer-se em
-Lisboa--dizia.--Não tencionava casar-se; amava-a e não comprehendia
-nada melhor do que viver ao pé d'ella, sempre. Dizia-se desilludido,
-enfastiado. Que mais lhe podia offerecer a vida? Tinha tido as
-sensações dos amores ephemeros, as aventuras das longas viagens.
-Ajuntára alguma cousa de seu,--e sentia-se velho.
-
-Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mãos:
-
---Não é verdade que estou velho?
-
---Não muito--e os seus olhos humedeciam-se.
-
-Ah! estava! estava! O que lhe appetecia agora era viver para ella,
-vir descançar nas doçuras da sua intimidade. Ella era a sua unica
-familia.--Fazia-se muito _parente_.--A familia no fim de tudo é o que
-ha de melhor ainda. Não te incommoda que eu fume?
-
-E acrescentou, raspando o phosphoro:
-
---O que ha de bom na vida é uma affeição profunda como a nossa. Não
-é verdade? Contento-me com pouco, de resto. Vêr-te todos os dias,
-conversar muito, saber que me estimas...--Por dentro do campo, ó
-Pintéos!--gritou com força pela portinhola.
-
-O coupé entrou a passo no Campo Grande. Bazilio ergueu os _stores_; um
-ar mais vivo penetrou. O sol cahia sobre o arvoredo, traspassando-o
-d'uma luz faiscante, formando no chão poeirento e branco sombras
-quentes de ramagens. Tudo tinha em redor um aspecto resequido e
-exhausto. Na terra gretada, a herva curta, crestada, fazia tons
-cinzentos. Na estrada, ao lado, arrastava-se uma poeira amarellada.
-Saloios passavam, amodorroados sobre o albardão, bamboleando as pernas,
-abrigados sob os vastos guarda-soes escarlates; e a luz que vinha de
-um céo azul ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiação crua
-as paredes muito caiadas, as aguas d'algum balde esquecido ás portas,
-todas as brancuras de pedras.
-
-E Bazilio continuava:
-
---Vendo tudo o que tenho lá fóra, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em
-Buenos-Ayres, talvez... Não te agrada? Dize...
-
-Ella calava-se; aquellas palavras, as promessas, a que a voz d'elle
-metallica e velada dava um vigor mais amoroso, iam-na perturbando como
-a inebriação d'um licôr forte. O seu seio arfava.
-
-Bazilio baixou a voz, disse:
-
---Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz, parece-me tudo tão
-bom!...
-
---Se isso fosse verdade!--suspirou ella, encostando-se para o fundo do
-coupé.
-
-Bazilio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que sim! Ia pôr a sua
-fortuna em inscripções. Começou a dar-lhe provas: já fallára a um
-procurador; citou-lhe o nome, um sêcco, de nariz agudo...
-
-E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes:
-
---E se fosse verdade, dize, que fazias?
-
---Nem eu sei--murmurou ella.
-
-Iam entrando no Lumiar, e por prudencia desceram os _stores_. Ella
-afastou um, e, espreitando, via fóra passar rapidamente, ao lado do
-trem, arvores empoeiradas; um muro de quinta d'uma côr de rosa sujo;
-fachadas de casas mesquinhas; um omnibus desatrellado; mulheres
-sentadas ao portal, á sombra, catando os filhos; e um sujeito vestido
-de branco, de chapéo de palha, que estacou, arregalou os olhos para as
-cortinas fechadas do coupé. E ia desejando habitar alli n'uma quinta,
-longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das
-janellas, parreiras sobre pilares de pedra, pés de roseiras, ruasinhas
-amaveis sob arvores entrelaçadas, um tanque debaixo d'uma tilia, onde
-de manhã as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, palrando. E ao
-escurecer, ella e elle, um pouco quebrados das felicidades da sésta,
-iriam pelos campos, ouvindo calados, sob o céo que se estrella, o
-coaxar triste das rãs.
-
-Cerrou os olhos. O movimento muito lançado do coupé, o calor, a
-presença d'elle, o contacto da sua mão, do seu joelho, amolleciam-na.
-Sentia um desejo a alargar-se dentro do peito.
-
---Em que vaes tu a pensar?--perguntou-lhe elle baixo, muito terno.
-
-Luiza fez-se vermelha. Não respondeu. Tinha medo de fallar, de lhe
-dizer...
-
-Bazilio tomou-lhe a mão devagarinbo, com respeito, com cuidado, como
-uma cousa preciosa e santa; e beijou-lh'a de leve, com a servilidade
-d'um negro e a unção d'um devoto. Aquella caricia tão humilde, tão
-tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se; deixou-se cahir para
-o canto do coupé, rompeu a chorar...
-
-Que era? Que tinha? Prendera-a nos braços, beijava-a, dizia-lhe
-palavras loucas.
-
---Queres que fujamos?
-
-As suas lagrimasinhas redondas e luminosas, rolando devagarinho sobre
-aquella face mimosa, enterneciam-no, e davam aos seus desejos uma
-vibração quasi dolorosa.
-
---Foge commigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo!
-
-Ella soluçou, murmurou muito doridamente:
-
---Não digas tolices.
-
-Elle calou-se; pôz a mão sobre os olhos com uma attitude melancolica,
-pensando:--Estou a dizer tolices, não ha que vêr!
-
-Luiza limpava as lagrimas, assoando-se devagarinho.
-
---É nervoso--disse.--É nervoso. Voltamos, sim? Não me sinto bem. Dize
-que volte.
-
-Bazilio mandou «bater» para Lisboa.
-
-Ella queixava-se de um ameaço d'enxaqueca. Elle tinha-lhe tomado a mão,
-repetia-lhe as mesmas ternuras: chamava-lhe «sua pomba», «seu ideal». E
-pensava baixo:--Estás cahida!
-
-Pararam na praça da Alegria. Luiza espreitou, saltou depressa, dizendo:
-
---Ámanhã, não faltes, hein?
-
-Abriu o guarda-solinho, carregou-o sobre o rosto, subiu rapidamente
-para a Patriarchal.
-
-Bazilio então desceu os vidros, e respirou com satisfação. Accendeu
-outro charuto, estendeu as pernas, gritou:
-
---Ao Gremio, ó Pintéos!
-
-Na sala de leitura, o seu amigo o visconde Reynaldo, que havia annos
-vivia em Londres, e muito em Paris tambem, lia o _Times_ languidamente,
-enterrado n'uma poltrona. Tinham vindo ambos de Paris, com promessa
-de voltarem juntos por Madrid. Mas o calor desolava Reynaldo; achava
-a temperatura de Lisboa _reles_; trazia lunetas defumadas; e andava
-saturado de perfumes, por causa «do cheiro ignobil de Portugal». Apenas
-viu Bazilio deixou escorregar o _Times_ no tapete, e com os braços
-molles, a voz desfallecida:
-
---E então essa questão da prima, vai ou não vai? Isto está horrivel,
-menino! Eu morro! Preciso o Norte! Preciso a Escocia! Vamos embora!
-Acaba com essa prima. Viola-a. Se ella te resiste, mata-a!
-
-Bazilio, que se estendera n'uma poltrona, disse, estirando muito os
-braços:
-
---Oh! Está cahidinha!
-
---Pois avia-te, menino, avia-te!
-
-Apanhou moribundamente o _Times_, bocejou, pediu soda--soda ingleza!
-
-«Não havia», veio dizer o criado. Reynaldo fitou Bazilio com espanto,
-com terror, e murmurou soturnamente:
-
---Que abjecção de paiz!
-
-
-Quando Luiza entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe logo á porta:
-
---O snr. Sebastião está na sala. Tem estado um _rôr_ de tempo á
-espera... Já cá estava quando eu cheguei.
-
-Tinha vindo com effeito havia meia hora. Quando a Joanna lhe veio
-abrir, muito encarnada, com o ar estremunhado, e resmungou «que a
-senhora estava para fóra», Sebastião ia logo descer, com o allivio
-delicioso d'uma difficuldade adiada. Mas reagiu, retesou a vontade,
-entrou, pôz-se a esperar... Na vespera tinha decidido fallar-lhe,
-avisal-a que aquellas visitas do primo, tão repetidas, com espalhafato,
-n'uma rua maligna, podiam compromettel-a... Era o diabo, dizer-lh'o!...
-Mas era um dever! Por ella, pelo marido, pelo respeito da casa!
-Era forçoso acautelal-a!... E não se sentia acanhado. Perante as
-reclamações do dever, vinham-lhe as energias da decisão. O coração
-batia-lhe um pouco, sim, e estava pallido... Mas, que diabo, havia de
-lh'o dizer!...
-
-E passeando pela sala com as mãos nos bolsos, ia arranjando as suas
-phrases, procurando-as muito delicadas, bem amigas...
-
-Mas a campainha retiniu, um _frou-frou_ de vestido roçou o corredor,--e
-a sua coragem engelhou-se como um balão furado. Foi-se logo sentar ao
-piano, pôz-se a bater vivamente no teclado. Quando Luiza entrou, sem
-chapéo, descalçando as luvas, ergueu-se, disse embaraçado:
-
---Tenho estado aqui a trautear um bocado... Estava á espera... Então
-d'onde vem?
-
-Ella sentou-se, cançada. Vinha da modista--disse. Fazia um calor!
-Porque não tinha entrado as outras vezes? Não estava com visitas de
-ceremonia! Era familia, era seu primo que viera de fóra.
-
---Está bom, seu primo?
-
---Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se muito em Lisboa, coitado!
-Ora, quem vive lá fóra!
-
-Sebastião repetiu, esfregando devagar os joelhos:
-
---Está claro, quem vive lá fóra!
-
---E Jorge, tem-lhe escripto?--perguntou Luiza.
-
---Recebi carta hontem.
-
-Tambem ella. Fallaram de Jorge, dos tedios da jornada, do que contava
-do phantastico parente de Sebastião, da demora provavel...
-
---Faz-nos uma falta, aquelle maroto!--disse Sebastião.
-
-Luiza tossiu. Estava um pouco pallida, agora. Passava ás vezes a mão
-pela testa, cerrando os olhos.
-
-Sebastião de repente, teve uma decisão:
-
---Pois eu vinha, minha rica amiga...--começou.
-
-Mas viu-a ao canto do sophá, com a cabeça baixa, a mão sobre os olhos.
-
---Que tem? Está incommodada?
-
---É a enxaqueca que me veio de repente. Já tinha tido ameaços na rua. E
-com uma força!
-
-Sebastião tomou logo o chapéo:
-
---E eu a massal-a! É necessario alguma cousa? Quer que vá chamar o
-medico?
-
---Não! Vou-me deitar um momento, passa logo.
-
-Que não apanhasse ar, ao menos, recommendava elle. Talvez sinapismos
-ou rodellas de limão nas fontes... E em todo o caso, se não estivesse
-melhor que o mandasse chamar...
-
---Isto passa! E appareça, Sebastião! Não se esconda...
-
-Sebastião desceu, respirou largamente; e pensava:--Eu não me atrevo,
-santo Deus!... Mas á porta, ao levantar os olhos, viu no fundo escuro
-da loja de carvão o vulto enorme da carvoeira, de chambre branco,
-estendendo o olhar, cocando; por cima, tres das Azevedos, entre as
-velhas cortinas de cassa, juntavam as suas cabecinhas riçadas n'algum
-conciliabulo maligno: por traz dos vidros a criada do doutor costurava,
-com olhares de lado, a cada momento, que lambiam a rua; e ao lado, na
-loja de moveis, sentiam-se as expectorações do patriota.
-
---Não passa um gato que esta gente não dê fé!--pensou Sebastião.--E que
-linguas! Que linguas! Devo fazel-o, ainda que estoure! Se ella ámanhã
-está melhor, digo-lhe tudo!
-
-
-Estava com effeito já boa, ás nove horas, no dia seguinte, quando
-Juliana a foi acordar, com «uma cartinha da snr.^a D. Leopoldina».
-
-A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita muito trigueira, de
-buço e olho vesgo, esperava na sala de jantar. Era amiga de Juliana,
-beijocavam-se muito, diziam-se sempre finezas. E depois de ter guardado
-a resposta de Luiza n'um cabazinho que trazia no braço, traçou o chale,
-e muito risonha:
-
---Então que ha por cá de novo, snr.^a Juliana?
-
---Tudo velho, snr.^a Justina.
-
-E mais baixo:
-
---O primo da senhora, agora; vem todos os dias. Perfeito rapaz!
-
-Tossiram ambas, baixinho, com malicia.
-
---E por lá, snr.^a Justina, quem vai por lá?
-
-Justina fez um aceno de desprezo.
-
---Um rapazola, um estudante. Fraca cousa!...
-
---Sempre pinga!--disse Juliana com um risinho.
-
-A outra exclamou:
-
---Olha quem! o pelintra! Nem cheta!
-
-E erguendo o olhar com saudade:
-
---Ai, como o Gama não ha! Quando era do tempo do Gama, isso sim! Nunca
-ia que me não désse os seus dez tostões, ás vezes meia libra. Ai,
-devo dizel-o, foi elle que me ajudou para o meu vestido de sêda! Este
-agora!... é um fedelho. Eu nem sei como a senhora supporta aquillo! E
-amarellado, enfesado! Aquillo póde prestar para nada!
-
-Juliana disse então:
-
---Pois olhe, snr.^a Justina, eu agora é que começo a considerar: é onde
-se está bem, é em casas em que ha pôdres! Encontrei hontem a Agostinha,
-a que está em casa do commendador, ao Rato... Pois senhor, não se
-imagina. É tudo o que se póde! Tudo! Annel, vestido de sêda, sombrinha,
-chapéo! E de roupa branca diz que é um enxoval. E tudo o Couceiro,
-o que está com a ama. E pelas festas sua moeda. Diz que é um homem
-rasgado. Ella tambem, verdade seja, tem um trabalhão: fal-o entrar pelo
-jardim, e para o fazer sahir tem d'esperar...
-
---Ah, lá não!--acudiu a Justina.--Lá é pela escada.
-
-Riram baixinho, saboreando o escandalo.
-
---Genios...--disse Juliana.
-
---Ai, lá isso, o nosso tem estomago--affirmou Justina.--Encontra-os na
-escada, e tanto se lhe dá!...
-
-E muito affectuosamente, arranjando o chale:
-
---E adeusinho, que se faz tarde, snr.^a Juliana. Ella vem hoje cá
-jantar, a senhora. Estive toda a manhã a engommar uma saia; desde as
-sete!
-
---Tambem eu por cá--disse Juliana.--Ellas é o que tem; quando ha amante
-sempre ha mais que engommar.
-
---Deitam mais roupa branca, deitam--observou a Justina.
-
---As que deitam!--exclamou Juliana, com desprezo.
-
-Mas Luiza tocou a campainha dentro.
-
---Adeus, snr.^a Juliana--disse logo a outra, ageitando o chapéo.
-
---Adeus, snr.^a Justina.
-
-Foi acompanhal-a ao patamar. Beijocaram-se. Juliana voltou muito
-apressada ao quarto de Luiza; estava já a pé, vestindo-se, muito
-alegre, cantarolando.
-
-O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta:
-
-
-«Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te pedir de jantar, mas não
-posso ir antes das seis. Convem-te?»
-
-
-Ficou muito contente. Havia semanas que a não via... O que iam rir,
-palrar! E Bazilio devia vir ás duas. Era um dia divertido, bem
-preenchido...
-
-Foi logo á cozinha dar as suas ordens para o jantar. Quando descia,
-o criadito de Sebastião tocava a campainha, com um ramo de rosas, «a
-saber se a senhora estava melhor».
-
---Que sim, que sim!--gritou logo Luiza.--E para o tranquillisar, para
-que elle não viesse:--Que estava boa, que até talvez sahisse...
-
-As rosas, sim, é que vinham a proposito. Foi ella mesma pôl-as nos
-vasos, cantarolando sempre, o olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida
-que se tornava interessante, cheia de incidentes...
-
-E ás duas horas, vestida, veio para a sala, pôz-se ao piano a estudar a
-_Medjé_ de Gounod, que Bazilio trouxera, e que a encantava agora muito,
-com os seus accentos suspirados e calidos.
-
-Ás duas e meia, porém, começou a estar impaciente; os dedos
-embrulhavam-se-lhe no teclado.--Já devia ter vindo, Bazilio!--pensava.
-
-Foi abrir as janellas, debruçar-se para a rua; mas a criada do doutor,
-que costurava por dentro dos vidros, ergueu logo olhos tão sofregos
-que Luiza fechou rapidamente as vidraças. Veio recomeçar a melodia, já
-nervosa.
-
-Uma carruagem rolou. Ergueu-se agitada, batia-lhe o coração. A
-carruagem passou...
-
-Tres horas já! O calor parecia-lhe maior, insupportavel; sentia-se
-afogueada, foi cobrir-se de pó d'arroz. Se Bazilio estivesse doente! E
-n'um quarto d'hotel! Só, com criados desleixados! Mas não, ter-lhe-hia
-escripto n'esse caso!... Não viera, não se importára! Que grosseiro,
-que egoista!
-
-Era bem tola em se affligir. Melhor! Mas, abafava-se, positivamente!
-Foi buscar um leque, e as suas mãos enraivecidas sacudiram n'um
-phrenesi a gaveta, que não se abriu logo, um pouca perra. Pois bem, não
-o tornaria a receber! E acabava tudo!
-
-E o seu grande amor, de repente, como um fumo que uma rajada dissipa,
-desappareceu! Sentiu um allivio, um grande desejo de tranquillidade.
-Era absurdo, realmente, com um marido como Jorge, pensar n'outro homem,
-um leviano, um estroina!...
-
-Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperação, correu ao escriptorio de
-Jorge, agarrou uma folha de papel, escreveu á pressa:
-
-
- «Querido Bazilio.
-
-
-«Porque não vens? Estás doente? Se soubesses os tormentos por que me
-fazes passar...»
-
-
-A campainha retiniu. Era elle! Amarrotou o bilhete, metteu-o no bolso
-do vestido, ficou esperando, palpitante. Passos d'homem pisaram o
-tapete da sala. Entrou, com o olhar faiscante... Era Sebastião.
-
-Sebastião, um pouco pallido, que lhe apertou muito as mãos. Estava
-melhor? Tinha dormido bem?
-
-Sim, obrigada, estava melhor. Sentára-se no sophá, muito vermelha. Mal
-sabia que dizer.
-
-Repetiu com um sorriso vago:--Estou muito melhor!--E pensava:--Não me
-deixa agora a casa, este massador!
-
---Então, não sahiu?--perguntou Sebastião, sentado na poltrona, com o
-chapéo desabado nas mãos.
-
-Não, estava um pouco fatigada ainda.
-
-Sebastião passou devagar a mão pelos cabellos, e com uma voz que o
-embaraço engrossava:
-
---Tambem agora tem sempre companhia pela manhã...
-
---Sim, meu primo Bazilio tem apparecido. Ha tanto tempo que nos não
-viamos! Fomos creados de pequenos, quasi... Tenho-o visto quasi todos
-os dias.
-
-Sebastião fez logo rolar um pouco a poltrona, e curvando-se, baixando a
-voz:
-
---Eu mesmo tinha vindo para lhe fallar a esse respeito...
-
-Luiza abriu um olhar surprehendido.
-
---A respeito de quê?
-
---É que se repara... A visinhança é a peor cousa que ha, minha rica
-amiga. Repara em tudo. Já se tem fallado. A criada do lente, o Paula.
-Até já vieram á tia Joanna. E como o Jorge não está... O Netto tambem
-reparou. Como não sabem o parentesco... E como vem todos os dias...
-
-Luiza ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado:
-
---Então eu não posso receber os meus parentes sem ser
-insultada?--exclamou.
-
-Sebastião levantou-se tambem. Aquella colera subita n'ella, uma pessoa
-tão dôce, atarantou-o como um trovão que estala n'um céo claro de verão.
-
-Pôz-se a dizer, quasi anciosamente:
-
---Oh minha rica senhora! mas repare, eu não digo... É por causa da
-visinhança!...
-
---Mas que póde dizer a visinhança?
-
-A sua voz tinha uma vibração aguda. E batendo com as mãos,
-apertando-as, exaltada:
-
---Isto é curioso! Tenho um parente unico, com quem fui creada, que não
-vejo ha uns poucos d'annos, vem-me fazer tres ou quatro visitas, está
-um momento, e já querem deitar maldade!
-
-Fallava convencida, esquecendo as palavras de Bazilio, os beijos, o
-_coupé_...
-
-Sebastião, acabrunhado, enrolava o chapéo nas mãos tremulas. E com uma
-voz abafada:
-
---Eu tinha-me parecido prudente avisar; o Julião tambem...
-
---O Julião!--exclamou ella.--Mas que tem o Julião com isso? Com que
-direito se mettem no que se passa em minha casa? O Julião!
-
-A intervenção, as decisões de Julião pareciam-lhe um acrescimo
-d'affronta. Cahiu n'uma cadeira, com as mãos contra o peito, os olhos
-no tecto.
-
---Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! se elle aqui estivesse, Santo Deus!
-
-Sebastião balbuciou aniquilado:
-
---Era para seu bem...
-
---Mas que mal me póde succeder?
-
-E erguendo-se, indo d'um movel a outro, n'uma excitação:
-
---É o meu unico parente. Fomos creados ambos, brincavamos juntos. Em
-casa da mamã, na rua da Magdalena, estava lá sempre. Ia lá jantar todos
-os dias. É como se fossemos irmãos. Em pequena trazia-me ao collo...
-
-E amontoava detalhes d'aquella fraternidade, exagerando uns, inventando
-outros ao acaso, na improvisação da colera.
-
---Vem aqui--acrescentava--está um bocado, fazemos musica, elle toca
-admiravelmente, fuma um charuto, vai-se...
-
-Instinctivamente justificava-se.
-
-Sebastião estava sem idéa, sem resolução. Parecia-lhe aquella uma outra
-Luiza, differente, que o assustava; e quasi curvava os hombros sob a
-estridencia da sua voz, que nunca conhecera tão forte, vibrando n'uma
-loquacidade trapalhona.
-
-Erguendo-se emfim, disse com uma dignidade melancolica:
-
---Eu entendi que era o meu dever, minha senhora.
-
-Fez-se um silencio grave. Aquelle tom sobrio, quasi severo, obrigou-a a
-córar um pouco dos seus espalhafatos: baixou os olhos: disse embaraçada:
-
---Perdôe, Sebastião! Mas realmente!... Não, acredite, juro-lhe,
-estou-lhe muito obrigada em me avisar. Fez muito bem, Sebastião!
-
-Elle exclamou logo, vivamente:
-
---Para evitar qualquer calumnia d'essas linguas damnadas! Pois não é
-verdade?
-
-Justificou então a sua intervenção, com muita amizade: ás vezes por uma
-palavra, arma-se uma intriga, e quando uma pessoa está prevenida...
-
---De certo, Sebastião!--repetiu ella.--Fez perfeitamente bem em me
-avisar. De certo!...
-
-Tinha-se sentado; o olhar reluzia-lhe febrilmente; e a cada momento
-limpava com o lenço os cantos seccos da bocca.
-
---Mas que hei-de eu fazer, Sebastião! Diga!
-
-Elle commovia-se agora de a vêr assim ceder, aconselhar-se; quasi
-lamentava vir, com a gravidade das suas advertencias, perturbar a
-alegria das suas intimidades. Disse:
-
---Está claro que deve vêr seu primo, recebel-o... Mas emfim, sempre
-é bom uma certa reserva, com esta visinhança! Eu se fosse a si
-contava-lhe... explicava-lhe...
-
---Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastião?
-
---Repararam. Quem seria? quem não seria? Que vinha, que estava, o diabo!
-
-Luiza ergueu-se impetuosamente:
-
---Eu bem tenho dito a Jorge! Tantas vezes lh'o tenho dito! Isto é
-uma rua impossivel! Não se mexe um dedo que não espreitem, que não
-cochichem!
-
---Não teem que fazer...
-
-Houve um silencio. Luiza passeava pela sala, com a cabeça baixa, a
-testa franzida; e parando, olhando quasi anciosamente para Sebastião:
-
---O Jorge se soubesse é que tinha um desgosto! Santo Deus!
-
---Escusa de saber!--exclamou logo Sebastião.--Isto fica entre nós!
-
---Para o não affligir, não é verdade?--acudiu ella.
-
---Está claro! Isto fica entre nós.
-
-E Sebastião estendendo-lhe a mão, quasi humildemente:
-
---Então não está zangada commigo, hein?
-
---Eu, Sebastião! Que tolice!
-
---Bem, bem. Acredite!--e espalmou a mão sobre o peito--eu entendi que
-era o meu dever. Porque emfim, a minha rica amiga não sabia nada...
-
---Estava bem longe!...
-
---De certo. Bem, adeus. Não a quero massar mais.--E com uma voz
-profunda, commovida:--Cá estou ás ordens, hein!
-
---Adeus, Sebastião... Mas que gente! Por vêr entrar o pobre rapaz tres
-ou quatro vezes!...
-
---Uma canalha, uma canalha!--disse Sebastião, arregalando os olhos.
-
-E sahiu.
-
-Apenas elle fechou a porta:
-
---Que desafôro!--exclamou Luiza--Isto só a mim!
-
-Porque a intervenção de Sebastião, no fundo, irritava-a mais que os
-mexericos da visinhança! A sua vida, as suas visitas, o interior da
-sua casa era discutido, resolvido por Sebastião, por Julião, por
-_tutti quanti_! Aos vinte e cinco annos tinha mentores! Não estava má!
-E porque, Santo Deus? Porque seu primo, o seu unico parente, vinha
-vel-a!...
-
-Mas então, de repente, emmudecia interiormente. Lembravam-lhe os
-olhares de Bazilio, as suas palavras exaltadas, aquelles beijos, o
-passeio ao Lumiar. A sua alma corava baixo, mas o seu despeito seguia
-declamando alto:--de certo, havia um sentimento, mas era honesto,
-ideal, todo platonico!... Nunca seria _outra cousa_! Podia ter lá
-dentro, no fundo, uma fraqueza... Mas seria sempre uma mulher de bem,
-fiel, só d'um!...
-
-E esta certeza irritava-a então contra os «palratorios» da rua! Que de
-resto era lá possivel, que só por verem entrar Bazilio, quatro ou cinco
-vezes, ás duas horas da tarde, começassem logo a murmurar, a cortar na
-pelle?... Sebastião era um caturra, com terrores d'ermitão! E que idéa,
-ir consultar Julião! Julião! Era elle, de certo, que o instigára a vir
-prégar, assustal-a, humilhal-a!... Porque? Azedume, inveja! Porque
-Bazilio tinha belleza, _toilette_, maneiras, dinheiro!... Se tinha!
-
-As qualidades de Bazilio appareciam-lhe então magnificas e abundantes
-como os attributos d'um deus. E estava apaixonado por ella! E queria
-vir viver junto d'ella! O amor d'aquelle homem, que tinha esgotado
-tantas sensações, abandonado de certo tantas mulheres, parecia-lhe como
-a affirmação gloriosa da sua belleza e da irresistibilidade da sua
-seducção.
-
-A alegria que lhe dava aquelle culto trazia-lhe o receio de o perder.
-Não o queria vêr diminuido; queria-o sempre presente, crescendo,
-balouçando sem cessar, diante d'ella, o murmurio languido das ternuras
-humildes! Podia lá separar-se de Bazilio! Mas se a visinhança, as
-relações começavam a commentar, a cochichar... Jorge podia saber!...
-Áquella supposição o coração arrefecia-lhe...--Sebastião tinha razão,
-no fundo, era evidente!
-
-N'uma rua pequena, com doze casas, vir todos os dias, aquelle
-lindo rapaz, tão elegante, agora que seu marido não estava... Era
-terrivel!--Que havia de fazer, Santo Deus!...
-
-A campainha retiniu com força; Lepoldina entrou.
-
-Vinha furiosa com o cocheiro: que imaginasse ella, hein! Tinha parado
-ao Correio, e o homem queria duas corridas. Uma canalha assim!...
-
---E que calor, ouf!--Atirou a sombrinha, as luvas; agitou as mãos no ar
-para descer o sangue, dar-lhes pallidez; e diante do toucador, compondo
-ligeiramente os frisados do cabello, com uma côr na pelle, muito
-espartilhada, admiravel no seu corpete couraçado:
-
---Que tens tu, filha? Estás toda no ar!
-
-Nada. Tinha-se zangado com as criadas...
-
---Ai! estão insupportaveis!--Contou as exigencias da Justina, os seus
-desmazelos.--E muito agradecida ainda que ella se me não vá! Quando a
-gente depende d'ellas!...--E pondo pó d'arroz no rosto, com uma voz
-lenta:--Lá o meu senhor foi para o Campo Grande. Eu estive para ir
-jantar fóra com...--Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Luiza, mais
-baixo, com um tom alegre, muito sincero:--Mas olha, a fallar a verdade,
-nem sabia onde, nem tinha dinheiro... Que elle coitado com a sua mezada
-mal lhe chega. Disse commigo: nada, vou vêr a Luiza. Tambem os homens
-sempre, sempre, seccam!...--Que tens tu para jantar? Não fizeste
-ceremonia, hein?
-
-E com uma idéa subita:
-
---Tens tu bacalhau?
-
-Devia haver, talvez. Que extravagancia! Porque?
-
---Ai!--exclamou--Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido
-detesta o bacalhau! aquelle animal! Eu é a minha paixão. Com azeite e
-alho!--Mas calou-se, contrariada.--Diabo!
-
---O que?
-
---É que hoje não posso comer alho...
-
-E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do ramo de Sebastião,
-pôl-a n'uma casa do corpete. Desejava ter uma sala assim,--pensava,
-olhando em redor. Queria-a de reps azul, com dous grandes espelhos, um
-lustre de gaz, e o seu retrato a oleo de corpo inteiro, decotada, ao
-pé d'um rico vaso de flôres... Sentou-se ao piano, bateu rijamente o
-teclado, tocou motivos do _Barba Azul_.
-
-E vendo Luiza entrar:
-
---Mandaste arranjar o bacalhau?
-
---Mandei.
-
---Assado?
-
---Sim.
-
---Gracias!--E atirou, com a sua voz mordente, a sua canção querida da
-_Gran-Duqueza_:
-
- Ouvi dizer que meu avô de vinho,
- Era um tal amador...
-
-Mas Luiza achava aquella musica «espalhafatona»; queria alguma cousa
-triste, dôce... O fado! que tocasse o fado!...
-
-Leopoldina exclamou logo:
-
---Ai, o fado novo! Tu não ouviste? É lindo! Os versos são divinos!
-
-Preludiou, cantando com um balouçar languido da cabeça, o olhar erguido
-e turvo:
-
- O rapaz que eu hontem vi
- Era moreno e bem feito...
-
---Tu não sabes isto, Luiza? Oh filha! É o ultimo! É de chorar!
-
-Recomeçou, com o tom muito quebrado. Era a historia rimada d'um amor
-infeliz. Fallava-se nas «raivas do ciume, nas rochas de Cascaes, nas
-noites de luar, nos suspiros da saudade», todo o palavriado morbido do
-sentimentalismo lisboeta. Leopoldina dava tons dolentes á voz, revirava
-um olhar expirante; uma quadra sobre tudo enternecia-a; repetiu-a com
-paixão:
-
- Vejo-o nas nuvens do céo,
- Nas ondas do mar sem fim,
- E por mais longe que esteja
- Sinto-o sempre ao pé de mim.
-
---Lindo!--suspirava Luiza.
-
-E Leopoldina terminava com _ais_! em que a sua voz se arrastava n'uma
-extensão desafinada.
-
-Luiza, de pé junto do piano, sentia o cheiro do _feno_ que ella usava;
-o fado, os versos entristeciam-na um pouco; e com o olhar saudoso
-seguia sobre o teclado os dedos ageis e magros de Leopoldina, onde
-reluziam as pedras dos anneis que lhe tinha dado o Gama.
-
-Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a sua cuia nova. Estava o
-jantar na mesa!
-
-Leopoldina declarou que vinha a cahir de fome! E a sala de jantar com
-as vidraças abertas, as verduras dos terrenos vagos defronte, um azul
-d'horisonte onde se algodoavam nuvemzinhas muito brancas--alegrou-a:
-a sala de jantar d'ella tirava-lhe até o appetite, era uma tristeza,
-deitava para o saguão!
-
-Pôz-se a depenicar bagos d'uvas, a trincar bocadinhos de conserva--e
-reparando no retrato do pai de Jorge, desdobrando o guardanapo:
-
---Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara de pandigo!...
-
-E ha que tempos que não jantavam juntas! Desde quando?
-
---Desde o meu primeiro anno de casada--lembrou Luiza.
-
-Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se muito n'esse tempo;
-Jorge deixava-as ir ás lojas ambas, aos confeiteiros, á Graça...
-A lembrança d'aquella camaradagem levou-a ás recordações mais
-distantes do collegio. Tinha visto, havia dias, a Rita Pessoa, com o
-sobrinho.--Lembras-te d'elle?
-
---O _Espinafre_?
-
-_Espinafre_ ou não era no collegio o homem, o ideal, o heroe; todas lhe
-escreviam bilhetes, desenhavam-lhe corações d'onde sahia uma fogueira,
-mettiam-lhe no boné muito sebento ramos de flôres de papel... E quando
-a Michaela foi apanhada, no cacifro dos bahús, a devoral-o de beijos!...
-
-Luiza disse:
-
---Que horror!
-
---Não que a Michaela era douda!
-
-Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem que a espancava. Estava
-cheia de filhos...
-
---Isto é um valle de lagrimas!--resumiu Leopoldina, recostando-se.
-
-Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na
-ponta do garfo, provava, deixava, punha-se a comer côdeas de pão que
-barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordações do collegio! Que
-bom tempo!
-
---Lembraste quando estivemos de mal?
-
-Luiza não se lembrava...
-
---Por tu teres dado um beijo na Thereza, que era o meu
-_sentimento_--disse Leopoldina.
-
-Pozeram-se a fallar dos _sentimentos_. Leopoldina tivera quatro; a
-mais bonita era a Joanninha, a Freitas. Que olhos! E que bem feita!
-Tinha-lhe feito a côrte um mez!...
-
---Tolices!--disse Luiza córando um pouco.
-
---Tolices! Porque?
-
-Ai! era sempre com saudade que fallava dos _sentimentos_. Tinham sido
-as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciumes! Que
-delirio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os
-bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida!
-
---Nunca--exclamou--nunca, depois de mulher, senti por um homem o que
-senti pela Joanninha!... Pois pódes crêr...
-
-Um olhar de Luiza deteve-a.--A Juliana!... Diabo! tinha-se esquecido!
-Constrangia-as muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura de peito
-chato, o tic-tac metallico dos tacões.
-
---E que foi feito da Joanninha?--perguntou Luiza.
-
-Morrêra tisica--e a voz de Leopoldina fez-se saudosa. Uma doença bem
-triste, não era? Mas não lhe tinha medo, ella! Batia no seio, bem
-formado:
-
---Isto é rijo, isto é são!
-
-Juliana sahiu, e Luiza observou logo:
-
---Vê no que fallas, filha! Tem cuidado!
-
-Leopoldina curvou-se:
-
---Ah! a respeitabilidade da casa! Tens razão!--murmurou.
-
-E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação!
-
---Bravo! Está soberbo!
-
-Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco tostado,
-abrindo em lascas.
-
---Tu verás--dizia ella.--Não te tentas? Fazes mal!
-
-Teve então um movimento decidido de bravura, disse:
-
---Traga-me um alho, snr.^a Juliana! Traga-me um bom alho!
-
-E apenas ella sahiu:
-
---Eu vou ter logo com o Fernando, mas não me importa!...--Ah! Obrigada,
-snr.^a Juliana! Não ha nada como o alho!...
-
-Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau d'um fio
-molle d'azeite, com gravidade.--Divino!--exclamou.--Tornou a encher o
-copo, achava aquillo «uma pandiga».
-
---Mas que tens tu?
-
-Luiza com effeito parecia preoccupada. Tinha suspirado baixo. Duas
-vezes, endireitando-se na cadeira, dissera a Juliana, inquieta:
-
---Parece que tocaram a campainha, vá vêr.
-
-Não era ninguem.
-
---Quem havia de ser? Não esperas teu marido, de certo.
-
---Ah! não!
-
-E então Leopoldina, com os olhos no prato, partindo devagar, muito
-attenta, lascasinhas de bacalhau:
-
---E teu primo veio vêr-te?
-
-Luiza fez-se vermelha.
-
---Sim, tem vindo. Tem vindo varias vezes.
-
---Ah!
-
-E depois d'um silencio:
-
---Ainda está bonito?
-
---Não está feio...
-
---Ah!
-
-Luiza apressou-se a perguntar se tinha encommendado o vestido de
-xadrezinho? Não. E começaram a fallar de _toilettes_, fazendas,
-lojas, e preços... Depois, de conhecidas, d'outras senhoras, de
-boatos--perdendo-se n'uma conversa de mulheres sós, miudinha e
-divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens.
-
-Viera o assado. Leopoldina já ia tendo uma côr quente nas faces. Pediu
-a Juliana que lhe fosse buscar o leque;--e recostada, abanando-se,
-declarou que se sentia como um principe! E ia beberricando golinhos de
-vinho. Que boa idéa, jantarem juntas!...
-
-Apenas Juliana dispôz os pratos de fruta, Luiza disse-lhe logo: «que
-chamaria para o café, que podia ir». Foi ella mesmo fechar a porta da
-sala, correr o reposteiro de cretone:
-
---Estamos á vontade, agora! Faço-me velha só d'olhar para esta
-creatura! Estou morta pela vêr pelas costas.
-
---Mas porque a não pões na rua?
-
-Era Jorge que não queria, senão...
-
-Leopoldina protestou. Boa! os maridos não deviam ter vontade!... Era o
-que faltava!...
-
---E o teu, então?--disse Luiza, rindo.
-
---Obrigada!--exclamou Leopoldina.--Um homem que faz quarto á parte!
-
-De resto detestava os homens que se occupam de criadas, de roes,
-d'azeites e vinagres...
-
---Que lá o meu cavalheiro até pesa a carne!--Sorriu, com odio.--Tambem
-é o que vale, senão!... Eu só d'ir á cozinha me dão enjôos...
-
-Quiz deitar vinho, mas a garrafa estava vazia.
-
-Luiza acudiu:
-
---Queres tu champagne?--Tinha-o muito bom, que o mandava a Jorge um
-hespanhol, um proprietario de minas.
-
-Foi ella mesmo buscar a garrafa, desembrulhou-a do seu papel azul;--e
-com risinhos, sustos, fizeram estalar a rolha. A espuma encantou-as:
-olhavam os copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina gabou-se
-de saber abrir muito bem o champagne; fallava vagamente de cêas
-passadas...
-
---Em terça-feira gorda, ha dous annos!...
-
-E toda recostada na cadeira, com um sorriso calido, as azas do nariz
-dilatadas, a pupilla humida, olhava com sensualidade os globulosinhos
-vivos que subiam, sem cessar, no copo esguio.
-
---Se fosse rica, bebia sempre champagne--disse.
-
-Luiza não: ambicionava um coupé; e queria viajar, ir a Paris, a
-Sevilha, a Roma... Mas os desejos de Leopoldina eram mais vastos:
-invejava uma larga vida, com carruagens, camarotes d'assignatura, uma
-casa em Cintra, cêas, bailes, _toilettes_, jogo... Porque gostava do
-_monte_--dizia--fazia-lhe bater o coração. E estava convencida que
-havia de adorar a roleta.
-
---Ah!--exclamou--Os homens são bem mais felizes que nós! Eu nasci para
-homem! O que eu faria!
-
-Levantou-se, foi-se deixar cahir muito languidamente na _voltaire_, ao
-pé da janella. A tarde descia serenamente; por traz das casas, para lá
-dos terrenos vagos, nuvens arredondavam-se, amarelladas, orladas de
-côres sanguineas ou de tons alaranjados.
-
-E voltando-lhe a mesma idéa d'acção, d'independencia:
-
---Um homem póde fazer tudo! Nada lhe fica mal! Póde viajar, correr
-aventuras... Sabes tu, fumava agora um cigarrito...
-
-O peor é que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia tão mal!...
-
---É um convento, isto!--murmurou Leopoldina.--Não tens má prisão, minha
-filha!
-
-Luiza não respondeu; tinha encostado a cabeça á mão: e com o olhar
-vago, como continuando alguma idéa:
-
---São tolices, no fim, andar, viajar! A unica cousa n'este mundo é a
-gente estar na sua casa, com o seu homem, um filho ou dous...
-
-Leopoldina deu um salto na _voltaire_. Filhos! Credo, que nem fallasse
-em semelhante cousa! Todos os dias dava graças a Deus em os não ter!
-
---Que horror!--exclamou com convicção.--O incommodo todo o tempo que se
-está!... as despezas! os trabalhos, as doenças! Deus me livre! É uma
-prisão! E depois quando crescem, dão fé de tudo, palram, vão dizer...
-Uma mulher com filhos está inutil para tudo, está atada de pés e mãos!
-Não ha prazer na vida. É estar alli a atural-os... Credo! Eu? Que Deus
-não me castigue, mas se tivesse essa desgraça parece-me que ia ter com
-a velha da travessa da Palha!
-
---Que velha?--perguntou Luiza.
-
-Leopoldina explicou. Luiza achava uma «infamia». A outra encolheu os
-hombros, acrescentou:
-
---E depois, minha rica, é que uma mulher estraga-se: não ha belleza de
-corpo que resista. Perde-se o melhor. Quando se é como a tua amiga, a
-D. Felicidade, emfim!... Mas quando se é direitinha e arranjadinha!...
-Nada, minha rica! Embaraços não faltam!
-
-Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu giro da tarde, veio
-tocar o final da _Traviata_; ia escurecendo; já as verduras dos
-quintaes tinham uma igual côr parda; e as casas para além esbatiam-se
-na sombra.
-
-A _Traviata_ lembrou a Luiza a _Dama das Camelias_: fallaram do
-romance: recordaram episodios...
-
---Que paixão que eu tive por Armando em rapariga!--disse Leopoldina.
-
---E eu foi por d'Artagnan--exclamou ingenuamente Luiza.
-
-Riram muito.
-
---Começamos cedo--observou Leopoldina.--Dá-me uma gotinha mais.
-
-Bebeu, pousou o calix--e encolhendo os hombros:
-
---Oh! Começamos cedo? Começam todas! Aos treze annos já a gente vai na
-sua quarta paixão. Todas são mulheres, todas sentem o mesmo!--E batendo
-o compasso com o pé, cantou, no tom do fado:
-
- O amor é uma doença
- Que costuma andar no ar;
- Só d'ir á janella, ás vezes
- S'apanha a febre d'amar!
-
-Estou hoje com uma telha!--E espreguiçando-se muito languidamente:--No
-fim de contas é o que ha de melhor n'este mundo: o resto é uma
-semsaboria! Não é verdade? Dize, tu! Não é verdade?
-
-Luiza murmurou:
-
---Se é!--E acrescentou logo:--Creio eu!
-
-Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a:
-
---Crê ella! Pobre innocentinha! Vejam o anjinho!
-
-Foi-se encostar á janella; ficou a olhar pelos vidros o descer do
-crepusculo; de repente pôz-se a dizer devagar:
-
---Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Christo a privar-se, a
-passar uma vida de coruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre,
-um ar, uma soalheira, e boas noites, vai-se para o Alto de S. João! Tó
-rola!
-
-A sala agora estava um pouco escura.
-
---Pois não te parece?--perguntou ella.
-
-Aquella conversa embaraçava Luiza: sentia-se córar; mas o crepusculo,
-as palavras de Leopoldina davam-lhe como o enfraquecimento d'uma
-tentação. Declarou todavia _immoral_ semelhante idéa.
-
---Immoral, porque?
-
-Luiza fallou vagamente nos _deveres_, na _religião_. Mas os _deveres_
-irritavam Leopoldina. Se havia uma cousa que a fizesse sahir de
-si--dizia--era ouvir fallar em deveres!...
-
---Deveres? Para com quem? Para um maroto como meu marido?
-
-Calou-se, e passeando pela sala excitada:
-
---E em quanto a religião, historias! A mim me dizia o padre Estevão, o
-de luneta, que tem os dentes bonitos, que me dava todas as absolvições,
-se eu fosse com elle a Carriche!
-
---Ah, os padres...--murmurou Luiza.
-
---Os padres quê? São a religião! Nunca vi outra. Deus, esse, minha
-rica, está longe, não se occupa do que fazem as mulheres.
-
-Luiza achava horrivel «aquelle modo de pensar». A felicidade, a
-verdadeira, segundo ella, era ser honesta...
-
---E a bisca em familia!--resmungou Leopoldina, com odio.
-
-Luiza disse, animada:
-
---Pois olha que com as tuas paixões, umas atraz das outras...
-
-Leopoldina estacou:
-
---O que?
-
---Não te podem fazer feliz!
-
---Está claro que não!--exclamou a outra.--Mas...--procurou a
-palavra; não a quiz empregar de certo; disse apenas com um tom
-secco:--Divertem-me!
-
-Calaram-se. Luiza pediu o café.
-
-Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; d'ahi a pouco foram para a
-sala.
-
---Sabes quem me fallou hontem de ti?--disse Leopoldina, indo
-estender-se no divan.
-
---Quem?
-
---O Castro.
-
---Que Castro?
-
---O d'oculos, o banqueiro.
-
---Ah!
-
---Muito apaixonado por ti sempre.
-
-Luiza riu.
-
---Doudo, palavra!--affirmou Leopoldina.
-
-A sala estava ás escuras, com as janellas abertas; a rua esbatia-se
-n'um crepusculo pardo: um ar languido e dôce amaciava a noite.
-
-Leopoldina esteve um momento calada; mas o champagne, a meia
-obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar
-confidenciasinhas. Estirou-se mais no divan, n'uma attitude toda
-abandonada; pôz-se a fallar «d'elle». Era ainda o Fernando, o poeta.
-Adorava-o.
-
---Se tu soubesses!--murmurava com um ar de extase.--É um amor de rapaz!
-
-A sua voz velada tinha inflexões d'uma ternura calida. Luiza sentia-lhe
-o halito e o calor do corpo, quasi deitada tambem, enervada; a sua
-respiração alta tinha por vezes um tom suspirado: e a certos detalhes
-mais picantes de Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como
-de cocegas... Mas passos fortes de botas de taxas subiram a rua, e no
-candieiro defronte o gaz saltou com um jacto vivo. Uma branda claridade
-pallida penetrou na sala.
-
-Leopoldina ergueu-se logo.--Tinha d'ir já, já, ao accender do gaz.
-Estava á espera, o pobre rapaz! Entrou no quarto, mesmo ás escuras, a
-pôr o chapéo, buscar a sombrinha.--Tinha-lhe promettido, coitado, não
-podia faltar. Mas realmente embirrava d'ir só. Era tão longe! Se a
-Juliana podesse vir acompanhal-a...
-
---Vai, sim, filha!--disse Luiza.
-
-Ergueu-se preguiçosamente com um grande _ai!_ foi abrir a porta, e deu
-de cara com Juliana, na sombra do corredor.
-
---Credo, mulher, que susto!
-
---Vinha saber se queriam luz...
-
---Não. Vá pôr um chale para acompanhar a snr.^a D. Leopoldina! Depressa!
-
-Juliana foi correndo.
-
---E quando appareces tu, Leopoldina?--perguntou Luiza.
-
-Logo que podesse. Para a semana estava com idéas d'ir ao Porto vêr a
-tia Figueiredo, passar quinze dias na Foz...
-
-A porta abriu-se.
-
---Quando a senhora quizer...--disse Juliana.
-
-Fizeram grandes _adeuses_, beijaram-se muito. Luiza disse rindo ao
-ouvido de Leopoldina:--Sê feliz!
-
-Ficou só. Fechou as janellas, accendeu as velas, começou a passear pela
-sala, esfregando devagar as mãos. E, sem querer, não podia desprender a
-idéa de Leopoldina que ia vêr o seu amante! O seu amante!...
-
-Seguia-a mentalmente:--caminhava depressa de certo fallando com
-Juliana; chegava; subia a escada, nervosa; atirava com a porta--e que
-delicioso, que avido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. Tambem
-ella amava--e _um_ mais bello, mais fascinante. Porque não tinha vindo?
-
-Sentou-se ao piano preguiçosamente; pôz-se a cantar baixo, triste, o
-fado de Leopoldina:
-
- E por mais longe que esteja
- Vejo-o sempre ao pé de mim!...
-
-Mas um sentimento de solidão, d'abandono, veio impaciental-a. Que
-sécca, estar alli tão sósinha! Aquella noite calida, bella e dôce,
-attrahia-a, chamava-a para fóra, para passeios sentimentaes, ou para
-contemplações do céo, n'um banco de jardim, com as mãos entrelaçadas.
-Que vida estupida, a d'ella! Oh! aquelle Jorge! Que idéa ir para o
-Alemtejo!
-
-As conversas de Leopoldina e a lembrança das suas felicidades
-voltavam-lhe a cada momento; uma pontinha de champagne agitava-se-lhe
-no sangue. O relogio do quarto começou lentamente a dar nove horas--e
-de repente a campainha retiniu.
-
-Teve um sobresalto: não podia ser ainda Juliana! Poz-se a escutar,
-assustada. Vozes fallavam á cancella.
-
---Minha senhora--veio dizer Joanna baixo--é o primo da senhora que diz
-que se vem despedir...
-
-Abafou um grito, balbuciou:
-
---Que entre!
-
-Os seus olhos dilatados cravavam-se febrilmente na porta. O reposteiro
-franziu-se, Bazilio entrou, pallido, com um sorriso fixo.
-
---Tu partes!--exclamou ella surdamente, precipitando-se para elle.
-
---Não!--E prendeu-a nos braços.--Não! Imaginei que me não recebias a
-esta hora, e tomei este pretexto.
-
-Apertou-a contra si, beijou-a; ella deixava, toda abandonada; os seus
-labios prendiam-se aos d'elle. Bazilio deitou um olhar rapido, em
-redor, pela sala, e foi-a levando abraçada, murmurando: Meu amor! minha
-filha! Mesmo tropeçou na pelle de tigre, estendida ao pé do divan.
-
---Adoro-te!
-
---Que susto que tive!--suspirou Luiza.
-
---Tiveste?
-
-Ella não respondeu; ia perdendo a percepção nitida das cousas;
-sentia-se como adormecer; balbuciou: Jesus! não! não! Os seus olhos
-cerraram-se.
-
-
-Quando a campainha retiniu fortemente ás dez horas, Luiza, havia
-momentos, sentára-se á beira do divan. Mal teve força de dizer a
-Bazilio:
-
---Ha-de ser a Juliana, tinha ido fóra...
-
-Bazilio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi accender um
-charuto. Para quebrar o silencio sentou-se ao piano, tocou alguns
-compassos ao acaso, e, erguendo um pouco a voz, começou a cantarolar a
-aria do 3.^o acto do _Fausto_:
-
- Al pallido chiarore
- Del astri d'oro...
-
-Luiza, através das ultimas vibrações dos seus nervos, ia entrando
-na realidade; os seus joelhos tremiam. E então, ouvindo aquella
-melodia, uma recordação foi-se formando no seu espirito, ainda
-estremunhado:--era uma noite, havia annos, em S. Carlos, n'um camarote
-com Jorge; uma luz electrica dava ao jardim, no palco, um tom livido
-de luar legendario; e n'uma altitude extatica e suspirante o tenor
-invocava as estrellas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: Que lindo!
-E o seu olhar devorava-a. Era no segundo mez do seu casamento. Ella
-estava com um vestido azul-escuro. E á volta, na carruagem, Jorge,
-passando-lhe a mão pela cinta, repetia:
-
- Al pallido chiarore
- Del astri d'oro...
-
-E apertava-a contra si...
-
-Ficára immovel á beira do divan, quasi a escorregar, os braços frouxos,
-o olhar fixo, a face envelhecida, o cabello desmanchado. Bazilio então
-veio sentar-se devagarinho junto d'ella.--Em que estava a pensar?
-
---Nada.
-
-Elle passou-lhe o braço pela cinta, começou a dizer que havia de
-procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais á vontade; não
-era mesmo prudente alli em casa d'ella...
-
-E fallando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo
-do charuto.
-
---Não te parece que vir eu aqui, todos os dias, póde ser reparado?
-
-Luiza ergueu-se bruscamente, lembrára-lhe Sebastião!... E com uma voz
-um pouco desvairada:
-
---Já é tão tarde!--disse.
-
---Tens razão.
-
-Foi buscar o chapéo em bicos de pés, veio beijal-a muito, sahiu.
-
---Luiza sentiu-o accender um phosphoro, fechar devagarinho a cancella.
-
-Estava só; pôz-se a olhar em roda, como idiota. O silencio da sala
-parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chamma avermelhada. Piscava os
-olhos, tinha a bocca sêcca. Uma das almofadas do divan estava cahida,
-apanhou-a.
-
-E com um ar somnambulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol. E
-já vinha com a lamparina, estava a arranjal-a...
-
-Tinha tirado a cuia; subiu á cozinha quasi a correr. A Joanna, que
-estivera dormitando, espreguiçava-se com bocejos enormes.
-
-Juliana pôz-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe;
-tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um
-sorriso para Joanna:
-
---E então a que horas veio o primo da senhora?
-
---Veio logo que vossemecê sahiu, estavam a dar as nove.
-
---Ah!
-
-Desceu com a lamparina; e sentindo Luiza na alcova despir-se:
-
---A senhora não quer chá?--perguntou, com muito interesse.
-
---Não.
-
-Foi á sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Pôz-se
-a olhar em redor, devagar, andando com um passo subtil... De repente
-agachou-se, anciosamente: ao pé do divan uma cousa reluzia. Era uma
-travessa de Luiza, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar
-no quarto em pontas de pés, pousou-a no toucador, entre os rôlos de
-cabello.
-
---Quem anda ahi?--perguntou da alcova a voz somnolenta de Luiza.
-
---Sou eu, minha senhora, sou eu, estive a fechar a sala. Muito boas
-noites, minha senhora!
-
-
-Áquella hora Bazilio entrava no Gremio. Procurou pelas salas. Estavam
-quasi desertas. Dous sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados
-em attitudes lugubres, ruminavam os jornaes: aqui, além, junto a
-mesinhas redondas, pessoas de calça branca mastigavam torradas com uma
-satisfação placida; as janellas estavam fechadas, a noite quente, e o
-calor molle do gaz abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo,
-de repente, sahiu o ruido irritado de uma altercação; trocavam-se
-injurias, gritava-se:--Mente! O asno é vossê!
-
-Bazilio estacou, escutando. Mas, subitamente, fez-se um grande
-silencio; uma das vozes disse com brandura:
-
---Paus!
-
-A outra respondeu com benevolencia:
-
---É o que devia ter feito ha pouco.
-
-E immediatamente a questão rebentou de novo, estridente. Praguejavam,
-diziam obscenidades.
-
-Bazilio foi ao bilhar. O visconde Reynaldo, de pé, apoiado ao taco,
-seguia com uma immobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas
-viu Bazilio, veio para elle rapidamente, e muito interessado:
-
---Então?
-
---Agora mesmo--disse Bazilio mordendo o charuto.
-
---Emfim, hein?--exclamou Reynaldo, arregalando os olhos, com uma grande
-alegria.
-
---Emfim!
-
---Ainda bem, menino! Ainda bem!
-
-Batia-lhe no hombro, commovido.
-
-Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma
-perna no ar, para dar com mais segurança o _effeito_, dizia com a voz
-constrangida pela attitude:
-
---Estimo, estimo, porque essa cousa começava a arrastar...
-
-Tac! Falhou a carambola.
-
---Não dou meia!--murmurou com rancor.
-
-E chegando-se a Bazilio, a dar giz no taco:
-
---Ouve cá...
-
-Fallou-lhe ao ouvido.
-
---Como um anjo, menino!--suspirou Bazilio.
-
-
-
-
-VI
-
-
-Foi Juliana que na manhã seguinte veio acordar Luiza, dizendo á porta
-da alcova com a voz abafada, em confidencia:
-
---Minha senhora! Minha senhora! É um criado com esta carta, diz que vem
-do hótel.
-
-Foi abrir uma das janellas, em bicos de pés; e voltando á alcova com
-uma cautela mysteriosa:
-
---E está á espera da resposta, está á porta.
-
-Luiza, estremunhada, abriu o largo enveloppe azul com um
-monogramma--dous BB, um purpura, outro ouro, sob uma corôa de conde.
-
---Bem, não tem resposta.
-
-Não tem resposta--foi dizer Juliana ao criado, que esperava encostado
-ao corrimão, fumando um grande charuto, e cofiando as suiças pretas.
-
---Não tem resposta? Bem, muito bom dia.--Levou o dedo seccamente á aba
-do «côco», e desceu, gingando.
-
-Perfeito homem! foi pensando Juliana, pela escada da cozinha.
-
---Quem bateu, snr.^a Juliana?--perguntou-lhe logo a cozinheira.
-
-Juliana resmungou:
-
---Ninguem, um recado da modista.
-
-Desde pela manhã a Joanna achava-lhe o «ar exquisito». Sentira-a desde
-as sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidraças da sala
-de jantar, arrumar as louças no aparador. E com uma azafama! Ouvira-a
-cantar a _Carta adorada_, ao mesmo tempo que os canarios, nas varandas
-abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu
-café á cozinha não palestrou como de costume; parecia preoccupada e
-ausente.
-
-Joanna até lhe perguntou:
-
---Sente-se peor, snr.^a Juliana?
-
---Eu? Graças a Deus, nunca me senti tão bem.
-
---Como a vejo tão calada...
-
---A malucar cá por dentro... A gente nem sempre está para grulhar.
-
-Apesar de serem nove horas não quizera acordar a senhora. Deixal-a
-descançar, coitada--disse. Foi em pontas de pés encher devagarinho a
-bacia grande do banho, no quarto; para não fazer ruido, sacudiu no
-corredor as saias, o vestido da vespera: e os seus olhos brilharam
-avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era
-o bilhete que Luiza escrevera a Bazilio: «Porque não vens?... Se
-soubesses o que me fazes soffrer!...» Teve-o um momento na mão,
-mordendo o beiço, o olhar fixo n'um calculo agudo; por fim tornou a
-mettel-o na algibeira de Luiza, dobrou o vestido, foi estendel-o com
-muito cuidado na _causeuse_.
-
-Enfim, mais tarde, sentindo o _cuco_ dar horas, decidiu-se a ir dizer a
-Luiza, com uma voz meiga:
-
---São dez e meia, minha senhora!
-
-Luiza, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Bazilio: «Não
-pudera--escrevia ele--estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava.
-Mal dormira! Erguera-se de manhã muito cêdo para lhe jurar que estava
-louco, e que punha a sua vida aos pés d'ella.» Compozera aquella prosa
-na vespera, no Gremio, ás tres horas, depois de alguns _robbers_
-d'_whist_, um bife, dous copos de cerveja e uma leitura preguiçosa da
-_Illustração_. E terminava, exclamando:--«Que outros desejem a fortuna,
-a gloria, as honras, eu desejo-te a ti! Só a ti, minha pomba, porque
-tu és o unico laço que me prende á vida, e se ámanhã perdesse o teu
-amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existencia
-inutil!»--Pedira mais cerveja, e levára a carta para a fechar em casa,
-n'um enveloppe com o seu monogramma, «porque sempre fazia mais effeito».
-
-E Luiza tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a
-primeira vez que lhe escreviam aquellas sentimentalidades, e o seu
-orgulho dilatava-se ao calor amoroso que sahia d'ellas, como um corpo
-resequido que se estira n'um banho tepido: sentia um acrescimo de
-estima par si mesma, e parecia-lhe que entrava emfim n'uma existencia
-superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto
-differente, cada passo conduzia a um extase, e a alma se cobria d'um
-luxo radioso de sensações!
-
-Ergueu-se d'um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os
-transparentes da janella... Que linda manhã! Era um d'aquelles dias
-do fim d'agosto em que o estio faz uma pausa; ha prematuramente, no
-calor e na luz, uma certa tranquillidade outonal; o sol cahe largo,
-resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular,
-e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais
-livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento molle da
-calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha
-dormido a noite d'um somno são, continuo, e todas as agitações, as
-impaciencias dos dias passados pareciam ter-se dissipado n'aquelle
-repouso. Foi-se vêr ao espelho; achou a pelle mais clara, mais fresca,
-e um enternecimento humido no olhar;--seria verdade então o que dizia
-Leopoldina, que «não havia como uma maldadesinha para fazer a gente
-bonita?» Tinha um amante, ella!
-
-E immovel no meio do quarto, os braços cruzados, o olhar fixo, repetia:
-Tenho um amante! Recordava a sala na vespera, a chamma aguçada das
-velas, e certos silencios extraordinarios em que lhe parecia que a
-vida parára, em quanto os olhos do retrato da mãi de Jorge, negros na
-face amarella, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura.
-Mas Juliana entrou com um taboleiro de roupa passada. Eram horas de se
-vestir...
-
-Que requintes teve n'essa manhã! Perfumou a agua com um cheiro de
-_Lubin_, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava
-por ser rica! Queria as bretanhas e as hollandas mais caras, as
-mobilias mais apparatosas, grossas joias inglezas, um coupé forrado
-de setim... Porque nos temperamentos sensiveis as alegrias do coração
-tendem a completar-se com as sensualidades do luxo: o primeiro erro
-que se installa n'uma alma até ahi defendida, facilita logo aos outros
-entradas tortuosas;--assim, um ladrão que se introduz n'uma casa vai
-abrindo subtilmente as portas á sua quadrilha esfomeada.
-
-Subiu para o almoço, muito fresca, com o cabello em duas tranças, um
-roupão branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janellas, «porque
-apesar de não estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais
-frescura!» E, vendo que lhe esquecera o lenço, correu a buscar-lhe um,
-que perfumou com agua de colonia. Servia-a com ternura. Viu-a comer
-muitos figos:
-
---Não lhe vão fazer mal, minha senhora!--exclamou quasi lacrimosamente.
-
-Andava em redor d'ella com um sorriso servil, sem ruido: ou defronte da
-mesa, com os braços cruzados, parecia admiral-a com orgulho, como um
-sêr precioso e querido, todo seu, a _sua ama!_ O seu olhar esbugalhado
-apossava-se d'ella.
-
-E dizia consigo:
-
---Grande cabra! Grande bebeda!
-
-Luiza, depois de almoço, veio para o quarto estender-se na _causeuse_,
-com o seu _Diario de Noticias_. Mas não podia lêr. As recordações
-da vespera redemoinhavam-lhe n'alma a cada momento, como as folhas
-que um vento d'outono levanta a espaços d'um chão tranquillo: certas
-palavras d'elle, certos impetos, toda a sua maneira d'amar... E ficava
-immovel, o olhar afogado n'um fluido, sentindo aquellas reminiscencias
-vibrarem-lhe muito tempo, dôcemente, nos nervos da memoria. Todavia a
-lembrança de Jorge não a deixava; tivera-a sempre no espirito, desde
-a vespera; não a assustava, nem a torturava; estava alli, immovel mas
-presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era como se elle
-tivesse morrido, ou estivesse tão longe que não podesse voltar, ou a
-tivesse abandonado! Ela mesmo se espantava de se sentir tão tranquilla.
-E todavia impacientava-a ter constantemente aquella idéa no espirito,
-impassivel, com uma obstinação espectral; punha-se instinctivamente a
-accumular as justificações: Não fôra culpa sua. Não abrira os braços a
-Bazilio voluntariamente!... Tinha sido uma _fatalidade_: fôra o calor
-da hora, o crepusculo, uma pontinha de vinho talvez... Estava douda,
-de certo. E repetia comsigo as attenuações tradicionaes: não era a
-primeira que enganára seu marido; e muitas era apenas por vicio, ella
-fôra por paixão... Quantas mulheres viviam n'um amor illegitimo e eram
-illustres, admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E elle amava-a
-tanto!... Seria tão fiel, tão discreto! As suas palavras eram tão
-captivantes, os seus beijos tão estonteadores!... E emfim que lhe havia
-de fazer agora? _Já agora_!...
-
-E resolveu ir responder-lhe. Foi ao escriptorio. Logo ao entrar o seu
-olhar deu com a photographia de Jorge--a cabeça de tamanho natural,--no
-seu caixilho envernizado de preto. Uma commoção comprimiu-lhe o
-coração; ficou como _tolhida_--como uma pessoa encalmada de ter
-corrido, que entra na frieza d'um subterraneo; e examinava o seu
-cabello frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas espadas
-encruzadas que reluziam por cima. Se elle soubesse matava-a!... Fez-se
-muito pallida. Olhava vagamente em redor o casaco de velludo de
-trabalho dependurado n'um prego, a manta em que elle embrulhava os pés
-dobrada a um lado, as grandes folhas de papel de desenho na outra mesa
-ao fundo, e o pótesinho do tabaco, e a caixa das pistolas!... Matava-a
-de certo!
-
-Aquelle quarto estava tão penetrado da personalidade de Jorge, que lhe
-parecia que elle ia voltar, entrar d'ahi a bocado... Se elle viesse
-de repente!... Havia tres dias que não recebia carta--e quando ella
-estivesse alli a escrever ao seu amante, n'um momento o _outro_ podia
-apparecer e apanhal-a!... Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro
-só chegava ás cinco horas; e depois elle dizia na ultima carta que
-ainda se demorava um mez, talvez mais...
-
-Sentou-se, escolheu uma folha de papel, começou a escrever, na sua
-letra um pouco gorda:
-
-
- «_Meu adorado Bazilio_.
-
-
-Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um _palpite_ de que
-elle vinha, ia entrar... Era melhor não se pôr a escrever, talvez!...
-Ergueu-se, foi á sala devagar, sentou-se no divan; e, como se o
-contacto d'aquelle largo sophá e o ardor das recordações que elle lhe
-trazia da vespera lhe tivesse dado a coragem das acções amorosas e
-culpadas, voltou muito decidida ao escriptorio, escreveu rapidamente:
-
-
-«Não imaginas com que alegria recebi esta manhã a tua carta...»
-
-
-A penna velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudil-a, como
-lhe tremia um pouco a mão, um borrão negro cahiu no papel. Ficou
-toda contrariada, pareceu-lhe aquillo um _mau agouro_. Hesitou um
-momento,--e coçando a cabeça, com os cotovêlos sobre a mesa, sentia
-Juliana varrer fóra o patamar, cantarolando a _Carta adorada_. Emfim,
-impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos miudos--e
-atirou-os para um caixão de pau envernizado com duas argolas de metal,
-que estava ao canto junto á mesa, onde Jorge deitava os rascunhos
-velhos e os papeis inuteis: chamavam-lhe o _sarcophago_; Juliana, de
-certo, descuidára-se de o esvaziar no lixo, porque transbordava de
-papelada.
-
-Escolheu outra folha, recomeçou:
-
-
- «_Meu adorado Bazilio_.
-
-«Não imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manhã, ao
-acordar. Cobri-a de beijos...»
-
-
-Mas o reposteiro franziu-se n'uma prega molle, a voz de Juliana disse
-discretamente:
-
---Está alli a costureira, minha senhora.
-
-Luiza, sobresaltada, tinha tapado a folha de papel com a mão.
-
---Que espere.
-
-E continuou:
-
-
-«...Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que alli
-estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em tão pouco tempo te
-apossaste do meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de te amar.
-Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu
-desejo a tua estima, mas é que nunca deixei de te amar e ao tornar
-a vêr-te, depois d'aquella estupida viagem para tão longe, não fui
-superior ao sentimento que me impellia para ti, meu adorado Bazilio.
-Era mais forte que eu, meu Bazilio. Hontem, quando aquella maldita
-criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Bazilio, fiquei
-como morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te! E se tu
-me tivesses pedido a vida dava-t'a, porque te amo, que eu mesma, me
-estranho... Mas para que foi aquella mentira, e para que vieste tu?
-Mau! tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas não posso, meu
-adorado Bazilio! É superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou
-tua, que te pertenço corpo e alma, parece-me que te amo mais, se é
-possivel...»
-
-
---Onde está ella? Onde está ella?--disse uma voz na sala.
-
-Luiza ergueu-se, com um salto, livida. Era Jorge! Amarrotou
-convulsivamente a carta, quiz escondel-a no bolso,--o roupão não tinha
-bolso! E desvairada, sem reflexão, arremessou-a para o _sarcophago_.
-Ficou de pé, esperando, as duas mãos apoiadas á mesa, a vida suspensa.
-
-O reposteiro ergueu-se,--e reconheceu logo o chapéo de velludo azul de
-D. Felicidade.
-
---Aqui mettida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu,
-filha, estás como a cal...
-
-Luiza deixou-se cahir no _fauteuil_, branca e fria, disse com um
-sorriso cançado:
-
---Estava a escrever, deu-me uma tontura...
-
---Ai! Tonturas, eu!--acudiu logo D. Felicidade--É uma desgraça, a cada
-momento a agarrar-me aos moveis, até tenho medo d'andar só. Falta de
-purgas!
-
---Vamos para o quarto!--disse logo Luiza.--Estamos melhor no quarto.
-
-Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe.
-
-Atravessaram a sala: Juliana começava a arrumar. Luiza, ao passar, viu
-na pedra da _console_, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza: era
-da vespera, do charuto d'_elle_! Sacudiu-a--e ao erguer os olhos, ficou
-pasmada de se vêr tão pallida.
-
-A costureira vestida de preto, com um chapéo de fitas rôxas, esperava
-sentada á beira da _causeuse_, com um olhar infeliz e o seu embrulho
-nos joelhos; vinha provar o corpete d'um vestido composto; assentou,
-pregou, alinhavou, fallando baixo, com uma humildade triste e uma
-tossinha sêcca ; e apenas ella sahiu, de leve, com o seu andar de
-sombra, o chale tinto muito cingido ás omoplatas magras,--D. Felicidade
-começou logo a fallar d'_elle_, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no
-Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera fallar! Fizera-lhe uma
-cortezia muito sêcca, por demais, e tic-tic por alli fóra, que se diria
-que ia fugido! Que te parece? Ai! aquellas indifferenças matavam-na. E
-não as comprehendia, não, realmente não as comprehendia...
-
---Porque emfim--exclamava--eu bem me conheço, não sou nenhuma criança,
-mas tambem não sou nenhum caco! Pois não é verdade?
-
---Certamente--disse Luiza distrahida. Lembrava-lhe a carta.
-
---Olha que aqui onde me vês com os meus quarenta, decotada, ainda
-valho! O que são hombros e collo é do melhor!
-
-Luiza ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu:
-
---Do melhor! Tomaram-no muitas novas!
-
---Creio bem--concordou Luiza, sorrindo vagamente.
-
---E elle tambem não é nenhum rapazinho novo...
-
---Não...
-
---Mas muito bem conservado!--E os olhos luziam-lhe--Para fazer ainda
-uma mulher muito feliz!
-
---Muito...
-
---Um homem d'appetecer!--suspirou D. Felicidade.
-
-E Luiza, então:
-
---Tu esperas um instantinho! Vou lá dentro e volto já.
-
---Vai, filha, vai.
-
-Luiza correu ao escriptorio, direita ao _sarcophago_. Estava vazio! E a
-carta d'ella, Santo Deus!
-
-Chamou logo Juliana, aterrada.
-
---Vossê despejou o caixão dos papeis?
-
---Despejei, sim, minha senhora--respondeu muito tranquillamente.
-
-E com interesse:
-
---Porquê, perdeu-se algum papel?
-
-Luiza fazia-se pallida.
-
---Foi um papel que eu atirei para o caixão. Onde o despejou vossê?
-
---No barril do lixo, como é costume, minha senhora; imaginei que nada
-servia...
-
---Ah! deixe vêr!
-
-Subiu rapidamente á cozinha.
-
-Juliana, atraz, ia dizendo:
-
---Ora esta! Pois ainda não ha cinco minutos! O caixão estava mais
-cheio... Andei a dar uma arrumadella no escriptorio... Valha-me Deus,
-se a senhora tem dito...
-
-Mas o barril do lixo estava vazio. Joanna tinha-o ido despejar abaixo
-n'aquelle instantinho; e vendo a inquietação de Luiza:
-
---Porquê, perdeu-se alguma cousa?
-
---Um papel--disse Luiza, que olhava em redor, pelo chão, muito branca.
-
---Elle iam uns poucos de papeis, minha senhora--disse a rapariga--eu
-deitei tudo ao despejo.
-
---Podia ter ficado algum cahido por fóra, snr.^a Joanna--lembrou
-timidamente Juliana.
-
---Vá vêr, vá vêr, Joanna--acudiu Luiza com uma esperança.
-
-Juliana parecia afflicta:
-
---Jesus, Senhor! Eu podia lá adivinhar! Mas para que não disse a
-senhora...?
-
---Bem, bem, a culpa não é sua, mulher...
-
---Credo, que até se me está a embrulhar o estomago... E é cousa de
-importancia, minha senhora?
-
---Não, é uma conta...
-
---Valha-me Deus!...
-
-Joanna voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Luiza agarrou-o,
-leu:--«... o diametro do primeiro poço de exploração...»
-
---Não, não é isto!--exclamou toda contrariada.
-
---Então foi p'ra baixo p'ra o cano, minha senhora, não está mais nada.
-
---Viu bem?
-
---Esquadrinhei tudo...
-
-E Juliana continuava, desolada:
-
---Antes queria perder dez tostões! Uma assim! Eu, minha senhora, podia
-lá adivinhar...
-
---Bem, bem!--murmurou Luiza descendo.
-
-Mas estava assustada, sentia mesmo uma suspeita indefinida...
-Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na vespera a Bazilio, e que
-mettera, todo amarrotado, no bolso do vestido... Entrou no quarto,
-agitada.
-
-D. Felicidade tirára o chapéo, acommodára-se na _causeuse_.
-
---Tu desculpas, hein?--fez Luiza.
-
---Anda, filha, anda! Que é?
-
---Perdi uma conta--respondeu.
-
-Foi ao guarda-vestidos, achou logo o bilhete na algibeira... Aquillo
-serenou-a. A carta tinha ido para o lixo de certo. Mas que imprudencia!
-
---Bem, acabou-se!--disse, sentando-se resignada.
-
-E D. Felicidade immediatamente, baixando a voz muito confidencialmente:
-
---Ora eu vinha-te fallar n'uma cousa. Mas vê lá! Olha que é segredo.
-
-Luiza ficou logo sobresaltada.
-
---Tu sabes--continuou D. Felicidade, devagar, com pausas--que a minha
-criada, a Josepha, está para casar com o gallego... O homem é de ao pé
-de Tuy, e diz que na terra d'elle ha uma mulher que tem uma virtude
-para fazer casamentos que é uma cousa milagrosa... Diz que é o mais que
-ha... Em deitando a sorte a um homem,--o homem entra-lhe uma tal paixão
-que se arranja logo o casamento, e é a maior felicidade.
-
-Luiza tranquillisada, sorriu.
-
---Escuta--acudiu D. Felicidade--não te ponhas já com as tuas cousas...
-
-No seu tom grave havia um respeito supersticioso.
-
---Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas,
-outros que não faziam caso d'ellas, maridos que tinham amigas, emfim
-toda a sorte de ingratidão... Em a mulher deitando o encanto, os homens
-começam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e estão pelo
-beiço... A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo...
-
---De deitar uma sorte ao Conselheiro!--exclamou Luiza.
-
---Que te parece?
-
-Luiza deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quasi se escandalisou.
-Contou outros casos: um fidalgo que deshonrára uma lavadeira; um
-homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma _bebeda_...
-Em todos a _sorte_ operára d'um modo fulminante, produzindo um amor
-subito e fogoso pela pessoa desprezada. Appareciam logo rendidos, se
-estavam perto; se estavam longe, voltavam, avidos, a pé, a cavallo,
-na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e
-humildes como escravos acorrentados...
-
---Mas o gallego--continuava ella muito excitada--diz que para ir á
-terra, fallar á mulher, levar o retrato do Conselheiro, é necessario o
-retrato d'elle, o meu, é necessario o meu, ir fallar, voltar--quer sete
-moedas!...
-
---Oh D. Felicidade!--fez Luiza reprehensivamente.
-
---Não me digas, não venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos...
-
-E erguendo-se:
-
---Mas são sete moedas! Sete moedas!--exclamou, arregalando os olhos.
-
-Juliana appareceu á porta, e muito baixinho, com um sorriso:
-
---A senhora faz favor?
-
-Chamou-a para o corredor, em segredo:
-
---Esta carta. Que vem do hótel.
-
-Luiza fez-se escarlate.
-
---Credo, mulher! não é necessario fazer mysterios!
-
-Mas não entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lapis,
-escripta á pressa:
-
-
-«Meu amor--dizia Bazilio--por um feliz acaso descobri o que
-precisavamos, um ninho discreto para nos vêrmos...» E indicava a rua, o
-numero, os signaes, o caminho mais perto. «... Quando vens, meu amor?
-Vem ámanhã. Baptisei a casa com o nome de _Paraiso_: para mim, minha
-adorada, é com effeito o paraiso. Eu espero-te lá desde o meio dia:
-logo que te aviste, desço.»
-
-
-Aquella precipitação amorosa em arranjar o _ninho_--provando uma paixão
-impaciente, toda occupada d'ella--produziu-lhe uma dilatação dôce
-do orgulho; ao mesmo tempo que aquelle _Paraiso_ secreto, como n'um
-romance, lhe dava a esperança de felicidades excepcionaes; e todas as
-suas inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente
-sob uma sensação calida, como flocos de nevoa sob o sol que se levanta.
-
-Voltou ao quarto, com o olhar risonho.
-
---Que te parece, hein?--perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua idéa
-occupava tyrannicamente.
-
---O que?
-
---Achas que mande o homem a Tuy?
-
-Luiza encolheu os hombros; veio-lhe um tedio de taes enredos de
-bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga
-romantica achava repugnante aquelle sentimentalismo senil.
-
---Tolices!--disse com muito desdem.
-
---Oh filha! não me digas, não me digas!--acudiu desolada D. Felicidade.
-
---Bem, então manda, manda!--fez Luiza, já impaciente.
-
---Mas são sete moedas!--exclamou D. Felicidade, quasi chorosa.
-
-Luiza poz-se a rir.
-
---Por um marido? Acho barato...
-
---E se a sorte falha?
-
---Então é caro!
-
-D. Felicidade deu um grande _ai!_ Estava muito infeliz, n'aquella
-hesitação entre os impulsos da concupiscencia e as prudencias da
-economia. Luiza teve pena d'ella, e, tirando um vestido do guarda-roupa:
-
---Deixa lá, filha! Não hão-de ser necessarias bruxarias!...
-
-D. Felicidade ergueu os olhos ao céo.
-
---Vaes sahir?--perguntou melancolicamente.
-
---Não.
-
-D. Felicidade propoz-lhe então que viesse com ella á Encarnação.
-Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um furunculo! E viam a armação
-da igreja para a festa, estreava-se o frontal novo, um primor!
-
---E estou tambem com vontade de ir rezar uma estaçãosinha, para
-alliviar cá por dentro--ajuntou, suspirando.
-
-Luiza aceitou. Appetecia-lhe ir vêr altares alumiados, ouvir o ciciar
-de rezas no côro, como se os requintes devotos dissessem bem com as
-suas disposições sentimentaes. Começou a vestir-se depressa.
-
---Como tu estás gorda, filha!--exclamou D. Felicidade admirada,
-vendo-lhe os hombros, o collo.
-
-Luiza diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente,
-contente das suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a
-pelle branca e fina.
-
---Redondinha--disse, namorando-se.
-
---Redondinha? Vaes-te a fazer uma bola!
-
-E acrescentou, tristemente:
-
---Tambem com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos,
-sem cuidados...
-
---Vamos lá, minha rica--disse Luiza--que as tristezas não te tem feito
-emmagrecer...
-
---Pois sim, pois sim! Mas...--e parecia desolada, como curvada sob as
-suas proprias ruinas--cá por dentro é uma desgraça, estomago, figado...
-
---Se a mulher de Tuy faz o milagre, põe tudo isso como novo!
-
-D. Felicidade sorriu, com uma duvida desconsolada.
-
---Sabes que tenho um chapéo lindo?--exclamou de repente Luiza--Não
-viste? Lindo!
-
-Foi logo buscal-o ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de
-myosotis.
-
---Que te parece?
-
---É um primor!
-
-Luiza mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas
-azues.
-
---Dá frescura--fez D. Felicidade.
-
---Não é verdade?
-
-Pôl-o com muito cuidado, toda séria. Ficava-lhe bem! Bazilio se a visse
-havia de gostar, pensou. Era bem possivel que o encontrassem...
-
-Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante: achava tão delicioso
-viver, sahir, ir á Encarnação, pensar no seu amante!... E toda no ar,
-procurava pelo quarto as chavinhas do toucador.
-
-Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia vêr! Sahiu
-correndo, tontinha, cantarolando:
-
- Amici, la notte è bella...
- La ra la la...
-
-Quasi topou com Juliana, que varria o corredor.
-
---Não deixe de engommar a saia bordada para ámanhã, Juliana!
-
---Sim, minha senhora. Está em gomma!
-
-E seguindo-a com um olhar feroz:
-
---Canta, piorrinha, canta, cabrasinha, canta, bebedasinha!...
-
-E ella mesma, tomada subitamente d'um jubilo agudo, atirou vassouradas
-rapidas, soltando na sua voz rachada:
-
- Além d'ámanhã termina a campanha,
- P-o-o-or aqui se diz...
- Se tal fôr verdade, se não fôr patranha...
-
-E com um espremido emphatico:
-
- Se-e-rei bem feliz!
-
-Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastião e Julião passeavam
-em S. Pedro de Alcantara.
-
-Sebastião estivera contando a sua «scena» com Luiza, e como desde então
-a sua estima por ella crescera. Ao principio escabreára-se, sim...
-
---Mas teve razão! Assim de surpreza, ouvir uma d'aquellas! E eu levei a
-cousa mal, fui muito á bruta...
-
-Depois, coitadinha, concordára logo, mostrára-se muito desgostosa, toda
-zelosa do seu pudor, pedira-lhe conselhos... Até tinha as lagrimas nos
-olhos.
-
---Eu disse-lhe logo que o melhor era fallar ao primo, dizer o que se
-passava... Que te parece?
-
---Sim--disse vagamente Julião.
-
-Tinha-o escutado distrahido, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto
-terreo cavava-se, com uma côr mais biliosa.
-
---Então achas que fiz bem, hein?
-
-E depois d'uma pausa:
-
---Que ella é uma senhora de bem ás direitas! Ás direitas, Julião!
-
-Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar
-de trovoada: grossas nuvens pesadas e pardas iam-se accumulando,
-ennegrecendo para o lado da Graça por traz das collinas: um vento
-rasteiro passava por vezes, pondo um arripio nas folhas das arvores.
-
---De maneira que agora estou descançado--resumiu Sebastião.--Não te
-parece?
-
-Julião encolheu os hombros com um sorriso triste:
-
---Quem me dera os teus cuidados, homem!--disse.
-
-E fallou então com amargura nas suas preoccupações.--Havia uma semana
-que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escóla,
-e preparava-se para elle. Era a sua taboa de salvação, dizia: se
-apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientella podia vir, e a
-fortuna... E, que diabo, sempre era estar de dentro!... Mas a certeza
-da sua superioridade não o tranquillisava--porque emfim em Portugal,
-não é verdade? n'estas questões a sciencia, o estudo, o talento são
-uma historia, o principal são os padrinhos! Elle não os tinha--e o seu
-concorrente, um semsaborão, era sobrinho d'um director geral, tinha
-parentes na camara, era um colosso! Por isso elle trabalhava a valer,
-mas parecia-lhe indispensavel metter tambem as suas cunhas! Mas quem?
-
---Tu não conheces ninguem, Sebastião?...
-
-Sebastião lembrava-se d'um primo seu, deputado pelo Alemtejo, um
-gordo, da maioria, um pouco fanhoso. Se Julião queria, fallava-lhe...
-Mas sempre ouvira dizer que a Escóla não era gente de empenhos e de
-intriga... De resto tinham o conselheiro Accacio...
-
---Uma besta!--fez Julião--Um parlapatão! Quem faz lá caso d'aquillo?
-O teu primo, hein! O teu primo parece-me bom! É necessario alguem que
-falle, que trabalhe...--Porque acreditava muito nas influencias dos
-empenhos, no dominio dos «personagens», nas docilidades da fortuna
-quando dirigida pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado
-d'ameaça:--Que eu hei-de-lhes mostrar o que é saber as cousas,
-Sebastião!
-
-Ia explicar-lhe o assumpto da these, mas Sebastião interrompeu-o:
-
---Ella ahi vem.
-
---Quem?
-
---A Luiza.
-
-Passava com effeito, por fóra do Passeio, toda vestida de preto,
-só.--Respondeu á cortezia dos dous homens com um sorriso, _adeusinhos_
-da mão, um pouco corada.
-
-E Sebastião immovel, seguindo-a devotamente com os olhos:
-
---Se aquillo não respira mesmo honestidade! Vai ás lojas... Santa
-rapariga!
-
-
-Ia encontrar Bazilio no _Paraiso_ pela primeira vez. E estava muito
-nervosa: não pudera dominar, desde pela manhã, um medo indefinido que
-lhe fizera pôr um véo muito espêsso, e bater o coração ao encontrar
-Sebastião. Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, multipla,
-impellia-a, com um estremecimentosinho de prazer.--Ia, emfim, ter
-ella propria aquella aventura que lêra tantas vezes nos romances
-amorosos! Era uma fórma nova do amor que ia experimentar, sensações
-excepcionaes! Havia tudo--a casinha mysteriosa, o segredo illegitimo,
-todas as palpitações do perigo! Porque o apparato impressionava-a mais
-que o sentimento; e a _casa_ em si interessava-a, attrahia-a mais que
-Bazilio! Como seria? Era para os lados d'Arroios, adiante do largo de
-Santa Barbara: lembrava-se vagamente que havia alli uma correnteza de
-casas velhas... Desejaria antes que fosse no campo, n'uma quinta, com
-arvoredos murmurosos e relvas fôfas; passeariam então, com as mãos
-enlaçadas, n'um silencio poetico; e depois o som d'agua que cahe nas
-bacias de pedra daria um rhythmo languido aos somnos amorosos... Mas
-era n'um terceiro andar,--quem sabe como seria dentro? Lembrava-lhe um
-romance de Paulo Féval em que o heroe, poeta e duque, fórra de setins e
-tapeçarias o interior d'uma choça; encontra alli a sua amante; os que
-passam, vendo aquelle casebre arruinado, dão um pensamento compassivo
-á miseria que de certo o habita--em quanto dentro, muito secretamente,
-as flôres se esfolham nos vasos de Sèvres e os pés nús pisam Gobelins
-veneraveis! Conhecia o gosto de Bazilio,--e o _Paraiso_ de certo era
-como no romance de Paulo Féval.
-
-Mas no largo de Camões reparou que o sujeito de pera comprida, o do
-Passeio, a vinha seguindo, com uma obstinação de gallo; tomou logo
-um coupé. E ao descer o Chiado, sentia uma sensação deliciosa em ser
-assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava com certo
-desdem os que passavam, no movimento da vida trivial--em quanto ella ia
-para uma hora tão romanesca da vida amorosa! Todavia á maneira que se
-aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contracção d'acanhamento, como um
-plebeu que tem de subir, entre alarbadeiros solemnes, a escadaria d'um
-palacio. Imaginava Bazilio esperando-a estendido n'um divan de sêda: e
-quasi receava que a sua simplicidade burgueza, pouco experiente, não
-achasse palavras bastante finas ou caricias bastante exaltadas. Elle
-devia ter conhecido mulheres tão bellas, tão ricas, tão educadas no
-amor! Desejava chegar n'um coupé seu, com rendas de centos de mil reis,
-e ditos tão espirituosos como um livro...
-
-A carruagem parou ao pé d'uma casa amarellada, com uma portinha
-pequena. Logo á entrada um cheiro molle e salobre enojou-a. A escada,
-de degraus gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes onde a
-cal cahia, e a humidade fizera nodoas. No patamar da sobre-loja, uma
-janella com um gradeadosinho d'arame, parda do pó accumulado, coberta
-de teias d'aranha, coava a luz suja do saguão. E por traz d'uma
-portinha, ao lado, sentia-se o ranger d'um berço, o chorar doloroso
-d'uma criança.
-
-Mas Bazilio desceu logo, com o charuto na bocca, dizendo baixo:
-
---Tão tarde! sóbe! Pensei que não vinhas. O que foi?
-
-A escada era tão esguia, que não podiam subir juntos. E Bazilio,
-caminhando adiante, d'esguelha:
-
---Estou aqui desde a uma hora, filha! imaginei que te tinhas esquecido
-da rua...
-
-Empurrou uma cancella, fêl-a entrar n'um quarto pequeno, forrado de
-papel ás listras azues e brancas.
-
-Luiza viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarellada,
-feita de remendos juntos de chitas differentes: e os lençoes
-grossos, d'um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente
-entreabertos...
-
-Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada. E os seus olhos, muito
-abertos, iam-se fixando--nos riscos ignobeis da cabeça dos phosphoros,
-ao pé da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nodoa de tinta
-entornada; nas bambinellas da janella, d'uma fazenda vermelha, onde
-se viam passagens; n'uma lithographia, onde uma figura, coberta d'uma
-tunica azul fluctuante, espalhava flôres voando... Sobre tudo uma larga
-photographia, por cima do velho canapé de palhinha, fascinava-a: era um
-individuo atarracado, d'aspecto hilare e alvar, com a barba em collar,
-o feitio d'um piloto ao domingo: sentado, de calças brancas, com as
-pernas muito afastadas, pousava uma das mãos sobre um joelho, e a outra
-muito estendida assentava sobre uma columna truncada: e por baixo do
-caixilho, como sobre a pedra d'um tumulo, pendia d'um prego de cabeça
-amarella, uma corôa de perpetuas!
-
---Foi o que se pôde arranjar--disse-lhe Bazilio.--E foi um acaso: é
-muito retirado, é muito discreto... Não é muito luxuoso...
-
---Não--fez ella, baixo.--Levantou-se, foi á janella, ergueu uma ponta
-da cortininha de cassa fixada á vidraça: defronte eram casas pobres: um
-sapateiro grisalho, batia a sola a uma porta; á entrada d'uma lojita
-balouçava-se um ramo de carqueja ao pé d'um maço de cigarros pendente
-d'um barbante; e, a uma janella, uma rapariga esguedelhada embalava
-tristemente no collo uma criança doente que tinha crostas grossas de
-chagas na sua cabecinha côr de melão.
-
-Luiza mordia os beiços, sentia-se entristecer. Então nós de dedos
-bateram discretamente á porta. Ella assustou-se, desceu rapidamente o
-véo. Bazilio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de _ss_ mellifluos,
-ciciou baixo. Luiza ouviu vagamente: Socegadinhos, suas chavesinhas...
-
---Bem, bem!--disse Bazilio apressado, batendo com a porta.
-
---Quem é?
-
---É a patrôa.
-
-O céo pozera-se a ennegrecer; já a espaços grossas gôtas de chuva se
-esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais
-melancolico.
-
---Como descobriste tu isto?--perguntou Luiza, triste.
-
---Inculcaram-m'o.
-
-Outra gente, então, tinha vindo alli, «amado» alli? pensou ella. E a
-cama pareceu-lhe repugnante.
-
---Tira o chapéo--disse Bazilio, quasi impaciente--estás-me a fazer
-afflicção com esse chapéo na cabeça.
-
-Ella soltou devagar o elastico que o prendia, foi pôl-o no canapé de
-palhinha, desconsoladamente.
-
-Bazilio tomou-lhe as mãos, e attrahindo-a, sentando-se na cama:
-
---Estás tão linda!--Beijou-lhe o pescoço, encostou a cabeça ao peito
-d'ella. E com a vista muito quebrada:
-
---O que eu sonhei comtigo esta noite!
-
-Mas, de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E
-immediatamente bateram á porta, com pressa.
-
---Que é?--bradou Bazilio furioso.
-
-A voz cheia de _ss_ explicou que esquecera um cobertor na varanda que
-estava a seccar. Se se encharcasse, que perdição!...
-
---Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me!--berrou Bazilio.
-
---Dá-lhe o cobertor...
-
---Que a leve o diabo!
-
-E Luiza, sentindo um arripio de frio nos seus hombros nús,
-abandonava-se com uma vaga resignação, entre os joelhos de
-Bazilio--vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto.
-
-Assim um _yacht_ que apparelhou nobremente para uma viagem romanesca
-vai encalhar, ao partir, nos lodaçaes do rio baixo; e o mestre
-aventureiro que sonhava com os incensos e os almiscares das florestas
-aromaticas, immovel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros
-dos esgotos.
-
-
-Apenas Luiza começou a sahir todos os dias, Juliana pensou logo: Bem,
-vai ter com o _gajo_!
-
-E a sua attitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de
-baixeza que corria a abrir a porta, alvoroçada, quando Luiza voltava
-ás cinco horas. E que zelo! Que exactidões! Um botão que faltasse, uma
-fita que se extraviava, e eram «mil perdões, minha senhora», «desculpe
-por esta vez», muitas lamentações humildes. Interessava-se com devoção
-pela saude d'ella, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar...
-
-Todavia, desde as idas ao _Paraiso_, o seu trabalho augmentára: todos
-os dias agora tinha d'engommar; muitas vezes era preciso ensaboar á
-noite collares, rendinhas, punhos, n'uma bacia de latão, até ás onze
-horas. Ás seis da manhã, mais cedo, já estava com o «ferro ás voltas».
-E não se queixava, até dizia a Joanna:
-
---Ai! é um regalo vêr assim uma senhora aceada!... Que as ha! credo!
-Não, não é por dizer, mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora
-tenho saude, o trabalho não me assusta!
-
-Não tornára a resmungar da «patrôa». Affirmava mesmo á Joanna
-repetidamente:
-
---A senhora! ai, é uma santa! Muito boa d'aturar... Não a ha melhor!
-
-O seu rosto perdera alguma cousa do tom bilioso, da contracção amarga.
-Ás vezes, ao jantar ou á noite, costurando calada ao pé de Joanna, á
-luz do petroleo, vinham-lhe sorrisos subitos, o olhar clareava-se-lhe
-n'uma dilatação jovial.
-
---A snr.^a Juliana tem o ar de quem está a pensar em cousas boas...
-
---A malucar cá por dentro, snr.^a Joanna!--respondia com satisfação.
-
-Parecia perder a inveja; ouviu mesmo fallar com tranquillidade do
-vestido de sêda que estreou n'um dia de festa, em setembro, a Gertrudes
-do doutor. Disse apenas:
-
---Tambem um dia hei-de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista!
-
-Já outras vezes revelára por palavras vagas a idéa d'uma abundancia
-proxima. Joanna até lhe dissera:
-
---A snr.^a Juliana espera alguma herança?
-
---Talvez!--respondeu seccamente.
-
-E cada dia detestava mais Luiza. Quando pela manhã a via arrebicar-se,
-perfumar-se com agua de colonia, mirar-se ao toucador cantarolando,
-sahia do quarto porque lhe vinham venetas d'odio, tinha medo
-d'estourar! Odiava-a pelas _toilettes_, pelo ar alegre, pela roupa
-branca, pelo _homem_ que ia vêr, por todos os seus regalos de senhora.
-«A cabra!» Quando ella sahia ia espreitar, vêl-a subir a rua, e
-fechando a vidraça com um risinho rancoroso:
-
---Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia ha-de chegar! Oh se
-ha-de!
-
-Luiza com effeito divertia-se. Sahia todos os dias ás duas horas. Na
-rua já se dizia que «a do Engenheiro tinha agora o seu S. Miguel».
-
-Apenas ella dobrava a esquina o conciliabulo juntava-se logo a
-cochichar. Tinham a certeza que se ia encontrar com o «peralta». Onde
-seria?--era a grande curiosidade da carvoeira.
-
---No hótel--murmurava o Paula.--Que nos hóteis é escandalo bravio. Ou
-talvez--acrescentava com tedio--n'alguma d'essas possilgas da baixa!
-
-A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era tão apropositada!
-
---Vacca solta lambe-se toda, snr.^a Helena!--rosnava o Paula.--São
-todas o mesmo!
-
---Menos isso!--protestava a estanqueira--Que eu sempre fui uma mulher
-honesta!
-
-E ella?--reclamava a carvoeira--ninguem tinha que lhe dizer!
-
---Fallo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sêdas! É
-uma cambada. Eu é que o sei!--E acrescentava gravemente:--No povo ha
-mais moralidade. O povo é outra raça!--E com as mãos enterradas nos
-bolsos, as pernas muito abertas, ficava absorto, com a cabeça baixa,
-o olhar cravado no chão.--Se é!--murmurava--Se é!--Como se estivesse
-positivamente achando as pedrinhas da calçada menos numerosas que as
-virtudes do povo!
-
-
-Sebastião, que tinha estado na quinta d'Almada quasi duas semanas,
-ficou aterrado quando, ao voltar, a Joanna lhe deu as grandes
-«novidades»: que a Luizinha agora sahia todos os dias ás duas horas,
-que o primo não voltára; a Gertrudes é que lh'o dissera; não se fallava
-na rua n'outra cousa...
-
---Então a pobre senhora nem sequer póde ir ás lojas, aos seus
-arranjos!--exclamou Sebastião.--A Gertrudes é uma desavergonhada, e
-nem sei como a tia Joanna consente que ella ponha aqui os pés. Vir com
-esses mexericos!...
-
---Cruzes! Olha o destempero!--replicou muito escandalisada a tia
-Joanna.--Oh menino, realmente... A pobre mulher disse o que ouviu na
-rua! Que ella até a defende, até ella é que a defende! Até se esteve
-a queixar que se falla! que se falla! Boa!--E a tia Joanna sahiu,
-resmungando:--Olha o destempero, credo!
-
-Sebastião chamou-a, aplacou-a:
-
---Mas quem falla, tia Joanna?
-
---Quem?--E muito emphaticamente:--Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua!
-
-Sebastião ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ella agora se
-punha a sahir todos os dias, uma senhora, que quando estava Jorge não
-sahia do buraco! A visinhança que murmurára das visitas do outro,
-naturalmente começava a commentar as sahidas d'ella! Estava-se a
-desacreditar! E elle não podia fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra
-«scena»? Não podia.
-
-Procurou-a. Não lhe queria de certo tocar em nada, ia só vêl-a. Não
-estava. Voltou d'ahi a dous dias. Juliana veio-lhe dizer á cancella,
-com o seu sorriso amarellado: «Foi-se agora mesmo, ha um instantinho.
-Ainda a apanha á Patriarchal». Emfim, um dia encontrou-a ao principio
-da rua de S. Roque. Luiza pareceu muito contente em o vêr:--Porque se
-tinha demorado tanto em Almada? Que deserção!
-
-Trazia carpinteiros, era necessario vigiar as obras. E ella?
-
---Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho
-estado muito só. Nem Julião, nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade
-é que tem apparecido ás vezes de fugida. Está agora sempre mettida na
-Encarnação... Isto gente devota!--E riu.
-
-Então aonde ia?
-
-A umas comprasitas, á modista depois...--E appareça agora, Sebastião,
-hein?
-
---Hei-d'apparecer.
-
---Á noite. Estou tão só! Tenho tocado muito, é o que me vale é o piano!
-
-N'essa mesma tarde Sebastião recebeu uma carta de Jorge. «Tens visto a
-Luiza? Estive quasi com cuidado, porque estive mais de cinco dias sem
-carta d'ella. De resto está preguiçosa como uma freira; quando escreve
-são quatro linhas porque está o correio a partir. Vai dizer ao correio
-que espere, que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar só, que
-todos a abandonaram, que tem vivido como n'um deserto. Vê se lhe vaes
-fazer companhia, coitada, etc.»
-
-No dia seguinte ao anoitecer foi a casa d'ella. Appareceu-lhe muito
-vermelha, com os olhos estremunhados, de roupão branco. Tinha chegado
-muito cançada de fóra, tinha-lhe dado o somno depois de jantar,
-adormecera sobre a _causeuse_... Que havia de novo? E bocejava.
-
-Fallaram das obras d'Almada, do Conselheiro, de Julião; e ficaram
-calados. Havia um constrangimento.
-
-Luiza então accendeu as velas no piano, mostrou-lhe a nova musica
-que estudava, a _Medjé_ de Gounod; mas havia uma passagem em que se
-embrulhava sempre; pediu a Sebastião que a tocasse, e junto do piano,
-batendo o compasso com o pé, acompanhava baixo a melodia, a que a
-execução de Sebastião dava um encanto penetrante. Quiz tentar depois,
-mas enganou-se, zangou-se, atirou a musica para o lado, veio sentar-se
-no sophá, dizendo:
-
---Quasi nunca tóco! Estão-se-me a enferrujar os dedos!...
-
-Sebastião não se atrevia a perguntar pelo primo Bazilio. Luiza não lhe
-pronunciou sequer o nome. E Sebastião, vendo n'aquella reserva uma
-diminuição de confiança ou um resto persistente de despeito, disse que
-tinha d'ir á Associação Geral d'Agricultura, e sahiu muito desconsolado.
-
-Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietação differente. Ás
-vezes era a tia Joanna que lhe dizia á tarde: «A Luizinha lá sahiu hoje
-outra vez! Por este calor, até póde apanhar alguma! Credo!» Outras era
-o conciliabulo dos visinhos, que avistava de longe, e que de certo
-«estavam a cortar na pelle da pobre senhora»!
-
-Parecia-lhe tudo aquillo exactamente a _aria da Calumnia_ no _Barbeiro
-de Sevilha_: a calumnia ao principio leve como o fremito das azas d'um
-passaro, subindo n'um crescendo aterrador até estalar como um trovão!
-
-Dava agora voltas para não passar na rua, diante do Paula e da
-estanqueira: tinha vergonha d'elles! Encontrára o Teixeira Azevedo, que
-lhe perguntára:
-
---Então o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz fica por lá!
-
-E aquella observação trivial aterrou-o.
-
-Emfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julião. Encontrou-o no
-seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinellas, enxovalhado e
-esguedelhado, rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de café ao
-pé, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarro;
-ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia
-livros abertos;--e um cheiro relentado sahia do desmazêlo das cousas.
-A janella de peitoril dava para o saguão, d'onde vinha o cantar
-estridente d'uma criada, e o ruido areado do esfregar de tachos.
-
-Julião, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiçou-se, enrolou um
-cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde as sete!... Hein? Era
-bonito! Para que soubesse o snr. Sebastião!
-
---De resto chegaste a proposito. Estava para mandar a tua casa... Devia
-receber ahi um dinheiro e não veio. Dá cá uma libra.
-
-E immediatamente começou a fallar da these. A cousa sahia!
-
-Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitação paternal, e, muito
-satisfeito, na abundancia de confiança que dá a excitação do trabalho,
-com grandes passadas pelo quarto:
-
---Hei-de-lhes mostrar que ainda ha portuguezes em Portugal, Sebastião!
-Hei-de-os deixar de bocca aberta! Tu verás!
-
-Sentou-se, pôz-se a numerar as folhas escriptas, assobiando. Sebastião,
-então, com timidez, quasi vexado de perturbar com as suas preoccupações
-domesticas aquelles interesses scientificos, disse baixo:
-
---Pois eu vim-te fallar por causa lá da nossa gente...
-
-Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de barba desleixada, e olhar
-um pouco doudo, entrou; era um estudante da Escóla, amigo de Julião;
-e quasi immediatamente os dous recomeçaram uma discussão que tinham
-travado de manhã, e que fôra interrompida ás onze horas, quando o rapaz
-d'olhar doudo descêra a almoçar á Aurea.
-
---Não, menino!--exclamava o estudante exaltado.--Estou na minha! A
-medicina é uma meia sciencia, a physiologia é outra meia sciencia! São
-sciencias conjecturaes, porque nos escapa a base, conhecer o principio
-da vida!
-
-E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe:
-
---Que sabemos nós do principio da vida?
-
-Sebastião, humilhado, baixou os olhos.
-
-Mas Julião indignava-se:
-
---Estás desmoralisado pela doutrina vitalista, miseravel! Trovejou
-contra o Vitalismo, que declarou «contrario ao espirito scientifico».
-Uma theoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos
-não são as mesmas que governam os corpos vivos--é uma heresia
-grotesca!--exclamava.--E Bichat que a proclama é uma besta!
-
-O estudante, fóra de si, bradou--que chamar a Bichat uma besta era
-simplesmente d'um alarve.
-
-Mas Julião desprezou a injuria, e continuou, exaltado nas suas idéas:
-
---Que nos importa a nós o principio da vida? Importa-me tanto como
-a primeira camisa que vesti! O principio da vida é como outro
-qualquer principio: um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente!
-Não podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, as origens, os
-fins, mysterios! São causas primarias com que não temos nada a fazer,
-nada! Podemos batalhar seculos, que não avançamos uma pollegada. O
-physiologista, o chimico, não tem nada com os principios das cousas;
-o que lhes importa são os phenomenos! Ora os phenomenos e as suas
-causas immediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto
-rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos--n'uma pedra, como n'um
-desembargador! E a physiologia e a medicina são sciencias tão exactas
-como a chimica! Isto já vem de Descartes!
-
-Travaram então um berreiro sobre Descartes. E immediatamente, sem que
-Sebastião attonito tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se
-sobre a idéa de Deus.
-
-O estudante parecia necessitar Deus para explicar o universo. Mas
-Julião atacava Deus com cólera: chamava-lhe «uma hypothese safada»,
-«uma velha caturrice do partido miguelista»! E começaram a assaltar-se
-sobre a questão social, como dous gallos inimigos.
-
-O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre
-a mesa, o principio da authoridade! Julião berrava pela «anarchia
-individual»! E depois de citarem com furia Proudhon, Bastiat, Jouffroy
-romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridencia da
-voz, censurou violentamente ao estudante--as suas inscripções a seis
-por cento, o ridiculo de ser filho d'um corretor de fundos, e o bife de
-proprietario que vinha de comer na Aurea!
-
-Olharam-se, então, com rancor.
-
-Mas d'ahi a momentos o estudante deixou cahir com desdem algumas
-palavras sobre Claude Bernard, e a questão recomeçou, furiosa.
-
-Sebastião tomou o chapéo.
-
---Adeus--disse baixo.
-
---Adeus, Sebastião, adeus--disse promptamente Julião.
-
-Acompanhou-o ao patamar.
-
---E quando quizeres que eu falle a meu primo...--murmurou Sebastião.
-
---Pois sim, veremos, eu pensarei--disse Julião com indifferença, como
-se o orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o terror da injustiça.
-
-Sebastião foi descendo as escadas, pensando: Não se lhe póde fallar em
-nada, agora!
-
-De repente veio-lhe uma idéa: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se
-com ella! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era
-uma mulher d'idade, intima de Luiza; tinha mais authoridade, mais
-habilidade mesmo...
-
-Decidiu-se logo, tomou um trem, foi á rua de S. Bento.
-
-A criada de D. Felicidade appareceu-lhe, desolada, e lacrimosa:
-
---Pois não sabe?
-
---Não.
-
---Ai! até admira!
-
---Mas o que?
-
---A senhora! Uma desgraça assim! Torceu um pé na Encarnação, deu uma
-quéda. Tem estado muito mal, muito mal.
-
---Aqui?
-
---Na Encarnação. Nem pôde sahir. Está com a snr.^a D. Anna Silveira.
-Uma desgraça assim! E está n'um phrenesi!
-
---Mas quando foi?
-
---Antes d'hontem á noite.
-
-Sebastião saltou para o trem, mandou «bater» para casa de Luiza.
-
-A D. Felicidade, doente, na Encarnação! Mas então Luiza podia bem sahir
-todos os dias! Ia vêl-a, fazer-lhe companhia, tratar d'ella!...
-
-A visinhança não tinha que rosnar! Ia vêr a pobre doente!...
-
-Eram duas horas quando a parelha estacou á porta de Luiza. Encontrou-a,
-que descia a escada, vestida de preto, de luva _gris perle_, com um véo
-negro.
-
---Ah! suba, Sebastião, suba! Quer subir?
-
-Parára, nos degraus, com uma côrzinha no rosto, um pouco embaraçada.
-
---Não, obrigado. Vinha dizer-lhe... Não sabe? A D. Felicidade...
-
---O quê?
-
---Torceu um pé. Está mal.
-
---Que me diz?
-
-Sebastião deu os pormenores.
-
---Vou já lá.
-
---Deve ir. Eu não posso ir, não entram homens. Coitada! Diz que
-está mal.--Acompanhou-a até á esquina da rua, offereceu-lhe mesmo
-a tipoia:--E muitos recados, que tenho pena de a não vêr!... Pobre
-senhora! E diz que está n'um phrenesi!
-
-Viu-a afastar-se para a Patriarchal, e, admirando a graça da sua
-figura, esfregava as mãos satisfeito.
-
-Estavam justificadas, santificadas mesmo aquellas passeatas todos
-os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessario
-que todos soubessem, o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as
-Azevedos, todos, de modo que quando a vissem de manhã, subir a rua,
-dissessem:--Lá vai fazer companhia á doente! Santa senhora!
-
-O Paula estava á porta da loja--e Sebastião com uma idéa subita,
-entrou. Estava-se estimando de se sentir tão fecundo em expedientes,
-tão habil!
-
-Deitou um pouco o chapéo para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o
-painel que representava D. João VI:
-
---Quanto quer vossemecê por isto, ó snr. Paula?
-
-O Paula ficou surprehendido:
-
---O snr. Sebastião está a brincar?
-
-Sebastião exclamou:
-
---A brincar?--Fallava muito sério! queria uns quadros para a sala
-d'entrada, em Almada: mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre
-um papel escuro.--Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem!
-
---Desculpe, snr. Sebastião... Pois n'esse caso ha por ahi alguns
-paineis a calhar.
-
---Este D. João VI agrada-me. Quanto custa isto?
-
-O Paula disse, sem hesitar:
-
---Sete mil e duzentos. Mas é obra de mestre.
-
-Era uma téla desbotada de tom defumado, onde uns restos de face
-avermelhada, com uma cabelleira em cachos, sobresahiam vagamente sobre
-um fundo sombrio. Um vermelhão baço indicava o velludo de uma casaca
-de côrte: a pança saliente e ostentosa enchia um collete esverdeado. E
-a parte mais conservada da téla era, ao lado sobre um coxim, a corôa
-real--que o artista trabalhára com uma minuciosidade enthusiasta, ou
-por preoccupação d'idiota, ou por adulação de cortezão.
-
-Sebastião achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preço escripto por
-traz, n'uma tirinha de papel; espanejou a téla com amor; indicou as
-bellezas, fallou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores de
-moveis, «que tinham a consciencia nas palmilhas»; jurou que o retrato
-pertencera ao paço de Queluz, e ia atacar as questões publicas--quando
-Sebastião disse resumindo:
-
---Bem, pois mande-m'o logo, fico com elle. E mande a conta.
-
---Leva uma rica obra!
-
-Sebastião agora olhava em redor. Queria fallar do «pé torcido de D.
-Felicidade», e procurava uma transição. Examinou umas jarras da India,
-um tremó; e avistando uma poltrona de doente:
-
---Aquillo é que era bom para a D. Felicidade!--exclamou logo--aquella
-cadeira! Boa cadeira!
-
-O Paula arregalou os olhos.
-
---Para a D. Felicidade Noronha--repetiu Sebastião.--Para estar
-deitada... Pois não sabia, homem? Partiu um pé, tem estado muito mal.
-
---A D. Felicidade, a amiga _de cá_?--e indicou com o pollegar a casa do
-Engenheiro.
-
---Sim, homem! Quebrou um pé na Encarnação. Até lá ficou. A D. Luiza vai
-para lá fazer-lhe companhia todos os dias. Agora ia ella para lá...
-
---Ah!--fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa:--Mas eu ainda a
-vi entrar _para cá_ ha-de haver oito dias.
-
---Foi antes d'hontem.--Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando
-muito umas gravuras:--De resto a D. Luiza já ia todos os dias á
-Encarnação, mas era para vêr a Silveira, a D. Anna Silveira, que esteve
-mal. Coitada, ha tres semanas que tem passado uma vida d'enfermeira.
-Não sahe da Encarnação! E agora é a D. Felicidade. Não é má massada!
-
---Pois não sabia, não sabia--murmurava o Paula, com as mãos enterradas
-nos bolsos.
-
---Mande-me o D. João VI, hein?
-
---Ás ordens, snr. Sebastião.
-
-Sebastião foi para casa. Subiu á sala; e atirando o chapéo
-para o sophá: Bem, pensou, agora ao menos estão salvas as
-apparencias!--Passeou algum tempo com a cabeça baixa; sentia-se triste;
-porque o ter conseguido, por um acaso, justificar aquelles passeios
-para com a visinhança, fazia-lhe parecer mais cruel a idéa de que os
-não podia justificar para comsigo. Os commentarios dos visinhos iam
-findar por algum tempo, mas _os seus_?... Queria achal-os falsos,
-pueris, injustos: e, contra sua vontade, o seu bom senso e a sua
-rectidão estavam sempre a revolvel-os baixo. Emfim, tinha feito o que
-devia! E com um gesto triste, fallando só, no silencio da sala:
-
---O resto é com a sua consciencia!
-
-N'essa tarde, na rua, sabia-se já que a D. Felicidade de Noronha
-torcera um pé na Encarnação, (outros diziam quebrára uma perna), e
-que a D. Luiza não lhe sahia da cabeceira... O Paula declarára com
-authoridade:
-
---É de boa rapariga, é de muito boa rapariga!
-
-A Gertrudes do doutor foi logo, á noitinha, perguntar á tia Joanna,
-«se era verdade da perna quebrada». A tia Joanna corrigiu: era o pé,
-torcera o pé! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao chá, que a D.
-Felicidade déra uma queda que ficára em pedaços.--Foi na Encarnação,
-acrescentou. Diz que anda tudo lá n'uma roda viva. A Luizinha até lá
-tem dormido...
-
---Pieguices de beatas!--rosnou com tedio o doutor.
-
-Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, d'ahi a dias, o Teixeira Azevedo
-(que apenas comprimentava Luiza), tendo-a encontrado na rua de S.
-Roque, parou, e com uma cortezia profunda:
-
---Desculpe vossencia. Como vai a sua doente?
-
---Melhor, agradecida.
-
---Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por
-este calor á Encarnação...
-
-Luiza corou.
-
---Coitada! Não lhe falta companhia, mas...
-
---É de muita caridade, minha senhora--exclamou com emphase--Tenho-o
-dito por toda a parte. É de muita caridade. Um criado de vossencia!
-
-E afastou-se commovido.
-
-
-Luiza fôra logo, com effeito, vêr D. Felicidade. Tinha uma luxação
-simples; e deitada nos quartos da Silveira, com o pé em compressas
-d'arnica, cheia de terror de «perder a perna», passava o dia rodeada
-d'amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do Recolhimento, e
-debicando petiscos.
-
-Apenas alguem entrava para a vêr, redobrava d'exclamações e de queixas;
-vinha logo a historia miuda, incidentada, prolixa da «desgraça»: ia a
-descer, a pôr o pé no degrau; escorregára; sentiu que ia a cahir; ainda
-se sustentou, e pôde dizer: Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a
-dôr não foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre!
-
-Todas as senhoras concordavam «que era realmente um milagre».
-Olhavam-na compungidas, e iam ao côro alternadamente prostrar-se, e
-pedir aos santos especiaes o allivio da Noronha!
-
-A primeira visita de Luiza foi para D. Felicidade uma consolação,
-«deu-lhe melhoras»; porque se ralava de estar alli de cama, sem saber
-noticias d'_elle_, sem poder fallar d'_elle_!
-
-E nos dias seguintes, apenas ficava só no quarto com Luiza, chamava-a
-logo para a cabeceira, e n'um murmurio mysterioso: Tinha-o visto?
-Sabia d'_elle_?--A sua afflicção era que o Conselheiro não soubesse
-que ella estava doente, e não lhe podesse dar aquelles pensamentos
-compassivos--a que o seu pé tinha direito, e que seriam um conforto
-para o seu coração! Mas Luiza não _o_ vira--e D. Felicidade, remexendo
-a chásada, exhalava suspiros agudos.
-
-Ás duas horas Luiza sahia da Encarnação--e ia tomar um trem ao Rocio:
-para não parar á porta do _Paraiso_ com espalhafato de tipoia,
-apeava-se ao largo de Santa Barbara; e fazendo-se pequenina, cosida com
-a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso
-de prazer.
-
-Bazilio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa: para não se
-enfastiar, só, tinha trazido para o _Paraiso_ uma garrafa de cognac,
-assucar, limões--e com a porta entreaberta fumava, fazendo _grogs_
-frios. O tempo arrastava-se, via a todo o momento as horas, e sem
-querer ia escutando, notando todos os ruidos intimos da familia da
-proprietaria que vivia nos quartos interiores: a rabuje d'uma criança,
-uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente uma cadellinha que
-começava a ladrar furiosa. Bazilio achava aquillo burguez e reles,
-impacientava-se. Mas um _frou-frou_ de vestido roçava a escada--e os
-tedios d'elle, bem como os receios d'ella, dissipavam-se logo no calor
-dos primeiros beijos. Luiza vinha sempre com pressa; queria estar
-em casa ás cinco horas, «e era um estirão depois!» Entrava um pouco
-suada, e Bazilio gostava da transpiraçãosinha tepida que havia nos seus
-hombros nús.
-
---E teu marido?--perguntava elle.--Quando vem?
-
---Não falla em nada.--Ou então:--Não recebi carta, não sei nada.
-
-Parecia ser aquella a preoccupação de Bazilio, na alegria egoista da
-posse recente. Tinha então caricias muito extaticas; ajoelhava-se aos
-pés d'ella; fazia voz de criança:
-
---Lili não ama Bibi...
-
-Ella ria, meio despida, com um riso cantado e libertino.
-
---Lili adora Bibi!... É douda por Bibi!
-
-E queria saber se pensava n'ella, o que tinha feito na vespera. Fôra ao
-Gremio, jogára uns _robbers_, viera para casa cedo, sonhára com ella...
-
---Vivo para ti, meu amor, acredita!
-
-E deixava-lhe cahir a cabeça no regaço, como sob uma felicidade
-excessiva.
-
-Outras vezes, mais serio, dava-lhe certos conselhos de gôsto, de
-_toilette_: pedira-lhe que não trouxesse postiços no cabello, que não
-usasse botinhas de elastico.
-
-Luiza admirava muito a sua experiencia do luxo; obedecia-lhe,
-amoldava-se ás suas idéas:--até affectar, sem o sentir, um desdem pela
-gente virtuosa, para imitar as suas opiniões libertinas.
-
-E lentamente, vendo aquella docilidade, Bazilio não se dava ao
-incommodo de se constranger; usava d'ella, _como se a pagasse_!
-Acontecera uma manhã escrever-lhe duas palavras a lapis que «não podia
-ir ao _Paraiso_», sem outras explicações! Uma occasião mesmo não foi,
-sem a avisar--e Luiza achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou
-pela fechadura, esperou palpitante--e voltou muito desconsolada,
-quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar.
-
-Não aceitava o menor incommodo, nem para lhe causar um contentamento.
-Luiza tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos a sua
-casa, passar a noite: viria Sebastião, o Conselheiro, D. Felicidade
-quando estivesse melhor: era uma alegria para ella, e depois dava ás
-suas relações um ar mais parente, mais legitimo.
-
-Mas Bazilio pulou:
-
---O quê! ir cabecear de somno com quatro caturras... Ah! não!...
-
---Mas conversa-se, faz-se musica...
-
---_Merci!_ Conheço-a, a musica das _soirées_ de Lisboa! A valsa do
-_Beijo_ e o _Trovador_. Safa!
-
-Depois duas ou tres vezes fallára de Jorge com desdem. Aquillo
-offendera-a.
-
-Ultimamente mesmo, quando ella entrava no _Paraiso_, já não tinha a
-delicadeza amorosa de se levantar alvoroçado: sentava-se apenas na
-cama, e tirando preguiçosamente o charuto da bocca:
-
---Ora viva a minha flôr!--dizia.
-
-E um ar de superioridade quando lhe fallava! Um modo de encolher os
-hombros, de exclamar:--Tu não percebes nada d'isso! Chegava a ter
-palavras cruas, gestos brutaes. E Luiza começou a desconfiar que
-Bazilio não a estimava,--apenas a desejava!
-
-Ao principio chorou. Resolveu explicar-se com elle, romper se fosse
-necessario. Mas adiou, não se atrevia: a figura de Bazilio, a sua voz,
-o seu olhar dominavam-na; e accendendo-lhe a paixão tiravam-lhe a
-coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida então que
-o adorava: o que lhe dava tanta exaltação no _desejo_, se não era a
-grandeza do _sentimento_?... Gozava tanto, é porque o amava muito!...
-E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se n'este
-raciocinio subtil.
-
-Elle tinha ás vezes uma seccura aspera de maneiras, era verdade; certos
-tons de indifferença, era certo... Mas n'outros momentos, quantas
-denguices, que tremuras na voz, que phrenesi nas caricias!... Amava-a
-tambem, não havia duvida. Aquella certeza era a sua justificação. E
-como era o Amor que os produzia, não se envergonhava dos alvoroços
-voluptuosos com que ia todas as manhãs ao _Paraiso_!
-
-Duas ou tres vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia
-tambem apressada o Moinho de Vento.
-
---D'onde vinha vossê?--perguntára-lhe em casa.
-
---Do medico, minha senhora, fui ao medico.
-
-Queixava-se de pontadas, palpitações, faltas d'ar.
-
---Flatos! flatos!
-
-
-Com effeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manhã; depois
-apenas Luiza, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito
-espartilhada no seu vestido de merino, de chapéo e sombrinha, vinha
-dizer a Joanna:
-
---Até logo, vou ao medico.
-
---Até logo, snr.^a Juliana--dizia a cozinheira radiante.
-
-E ia logo fazer signal ao carpinteiro.
-
-Juliana descia por S. Pedro de Alcantara, e tomando para o largo do
-Carmo ia á ruasita, defronte do quartel. Alli morava n'um terceiro
-andar a sua intima amiga, a tia Victoria.
-
-Era uma velha que fôra inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancella,
-n'uma placa de metal, com letras negras: «Victoria Soares,
-inculcadeira.» Mas nos ultimos annos a sua industria tornou-se mais
-complicada, muito tortuosa.
-
-Exercia-a n'uma saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes
-do tecto encardido, alumiada por duas tristes janellas de peito. Um
-vasto sophá occupava quasi a parede do fundo: fôra de certo de reps
-verde, mas o estofo coçado, comido, remendado, tinha agora, sob largas
-nodoas, uma vaga côr parda; as molas partidas, rangiam com estalidos
-melancolicos; a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavára, dormia todo
-o dia um gato; e um dos lados da madeira queimada revelava que fôra
-salvo d'um incendio. Sobre o sophá pendia a lithographia do senhor D.
-Pedro IV. Entre as duas janellas havia uma commoda alta; e em cima,
-entre um Santo Antonio e um cofre feito de buzios, um macaquinho
-empalhado, com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho d'arvore.
-Ao entrar via-se logo, junto da janella fronteira á porta, a uma mesa
-coberta de oleado, um dorso magro e curvado, e um barretinho de sêda
-com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouvêa, o escripturario!
-
-O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido--em que se sentia
-a cavalhariça, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas
-matronas de capote e lenço, face gordalhufa e buço; cocheiros com
-o cabello acamado, muito lustroso de oleo, e blusa de riscadinho:
-pesados gallegos côr de greda, de passadas retumbantes e fórmas lôrpas:
-criadinhas de dentro, amarelladas, de olheiras, sombrinha de cabo
-d'osso, e as luvas de pellica com passagens nas pontas dos dedos.
-
-Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o saguão,--por
-cuja portinha verde se viam ás vezes desapparecer dorsos respeitaveis
-de proprietarios, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos.
-
-Em certas occasiões, aos sabbados, juntavam-se cinco, seis pessoas:
-velhas fallavam baixo, com gestos mysteriosos: uma altercação mal
-abafada roncava no patamar: rapariguitas de repente desatavam a
-chorar; e, impassivel, o snr. Gouvêa escrevinhava os seus registos,
-arremessando para o lado jactos melancolicos de saliva.
-
-A tia Victoria, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido
-rôxo,--ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro,
-tirando a cada momento da algibeira rebuçados de avenca para o catarrho.
-
-A tia Victoria era uma grande utilidade, tornára-se um centro! A
-criadagem reles, mesmo a criadagem fina, tinha alli para tudo o
-seu _despacho_. Emprestava dinheiro aos desempregados; guardava
-as economias dos poupados; fazia escrever pelo snr. Gouvêa as
-correspondencias amorosas ou domesticas dos que não tinham ido á
-escóla; vendia vestidos em segunda mão; alugava casacas; aconselhava
-collocações, recebia confidencias, dirigia intrigas, entendia de
-partos. Nenhum criado era inculcado por ella; mas, arranjados ou
-despedidos, nunca deixavam de subir, descer as escadas da tia Victoria.
-Tinha além d'isso muitas relações, infinitas condescendencias:
-celibatarios maduros iam entender-se com ella, para o confortosinho
-d'uma sopeira gordita e nova: era ella quem inculcava as serventes ás
-mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: a
-tia Victoria tem mais manhas que cabellos!
-
-Mas, ultimamente, apesar dos seus «afazeres», apenas Juliana
-entrava--levava-a para o quarto nas trazeiras, fechava a porta, e
-«havia para meia hora»!
-
-E Juliana sahia sempre vermelha, os olhos accesos, feliz! Voltava
-depressa para casa; e mal entrava:
-
---A senhora ainda não voltou, snr.^a Joanna?
-
---Ainda não.
-
---Está na Encarnação. Coitada! não tem má cruz, ir aturar a velha!
-E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ella muito bem!
-Espairecer!
-
-Joanna era de certo espessa e obtusa; além d'isso a paixão animal pelo
-rapazola emparvecia-a. Todavia, percebera que a snr.^a Juliana andava
-«muito derretida pela senhora»: disse-lh'o mesmo um dia:
-
---Vossemecê agora, snr.^a Juliana, parece mais na bola da senhora!
-
---Na bola?
-
---Sim, quero dizer, mais aquella, mais...
-
---Mais apegada á senhora?
-
---Mais apegada.
-
---Sempre o estive. Mas então! ás vezes a gente tem os seus repentes...
-Que olhe, snr.^a Joanna, não se acha melhor que aqui. Senhora de muito
-bom genio, nada de exquisitices, nenhumas prisões... Ai, é dar louvores
-ao céo de estarmos n'este descanço.
-
---E é!
-
-A casa com effeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranquilla:
-Luiza sahia todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava;
-a sua antipathia por Juliana parecia dissipada, considerava-a uma
-pobre de Christo! Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus
-passeios, ruminava. Joanna, muito livre, muito só em casa, regalava-se
-com o carpinteiro. Não vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnação,
-inundava-se d'arnica. Sebastião fôra para Almada vigiar as obras. O
-Conselheiro partira para Cintra, «dar umas ferias ao espirito, tinha
-elle dito a Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden». O snr.
-Julião, «o doutor», como dizia a Joanna, trabalhava a sua these. As
-horas eram muito regulares, havia sempre um silencio pacato. Juliana,
-um dia, na cozinha, impressionada por aquelle recolhimento satisfeito
-de toda a casa, exclamou para Joanna:
-
---Não se póde estar melhor! A barca vai n'um mar de rosas!
-
-E acrescentou, com uma risadinha:
-
---E eu ao leme!
-
-
-
-
-VII
-
-
-Por esse tempo, uma manhã que Luiza ia para o _Paraiso_, viu de repente
-sahir d'um portal, um pouco adiante do largo de Santa Barbara, a figura
-azafamada d'Ernestinho.
-
---Por aqui, prima Luiza!--exclamou elle logo muito surprehendido.--Por
-estes bairros! Que faz por aqui? Grande milagre!
-
-Vinha vermelho, trazia as bandas do casaco d'alpaca todas deitadas para
-traz, e agitava com excitação um rolo grosso de papeis.
-
-Luiza ficou um pouco embaraçada; disse que viera fazer uma visita a uma
-amiga.--Oh! elle não conhecia, tinha chegado do Porto...
-
---Ah, bem! bem! E que é feito, como tem passado? Quando vem o
-Jorge?--Desculpou-se logo de a não ter ido vêr; mas é que não tinha uma
-migalha livre! De manhã a alfandega, á noite os ensaios...
-
---Então sempre vai?--perguntou Luiza.
-
---Vai.
-
-E enthusiasmado:
-
---E como vai! Um primor! Mas que trabalhão, que trabalhão!--Agora vinha
-elle de casa do actor Pinto, que fazia o papel de amante, de conde de
-Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finaes do terceiro
-acto: _Maldição, a sorte funesta esmaga-me! Pois bem, arcarei braço a
-braço com a sorte. Á lucta!_ Era uma maravilha! Vinha tambem de lhe dar
-parte que alterára o monologo do segundo acto. O empresario achava-o
-longo...
-
---Então continúa a implicar, o empresario?
-
-Ernestinho fez uma visagem d'hesitação.
-
---Implica um bocado...--E com um rosto radioso:--Mas está delirante!
-Estão todos delirantes! Hontem me dizia elle: «Lesminha»... É o nome
-que me dão por pandiga. Tem graça, não é verdade? Dizia-me elle:
-«Lesminha, na primeira representação cahe ahi Lisboa em peso! Vossê
-enterra-os a todos!» É bom homem! E agora vou-me a casa do Bastos, o
-folhetinista da _Verdade_. Não conhece?
-
-Luiza não se lembrava bem.
-
---O Bastos, o da _Verdade_!--insistia elle.
-
-E vendo que Luiza parecia alheia ao nome, ao individuo:
-
---Ora não conhece outra cousa!--Ia descrever-lhe as feições, citar-lhes
-as obras...
-
-Mas Luiza, impaciente, para findar:
-
---Ah! sim, lembro-me agora. Perfeitamente... Bem sei!
-
---Pois é verdade, vou a casa d'elle.--Tomou um tom compenetrado:--Somos
-muito amigos, é muito bom rapaz, e tem um pequerrucho lindo!...--E
-apertando-lhe muito a mão:--Adeusinho, prima Luiza, que não posso
-perder um momento. Quer que a vá acompanhar?
-
---Não, é aqui perto.
-
---Adeus, recados ao Jorge!
-
-Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atraz
-d'ella.
-
---Ah! esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei?
-
-Luiza abriu muito os olhos.
-
---Á condessa, á heroina!--exclamou Ernestinho.
-
---Ah!
-
---Sim, o marido perdôa-lhe, obtem uma embaixada, e vão viver no
-estrangeiro. É mais natural...
-
---De certo!--disse vagamente Luiza.
-
---E a peça acaba, dizendo o amante, o conde de Monte Redondo: _E
-eu irei para a solidão morrer d'esta paixão funesta!_ É de muito
-effeito!--Esteve um momento a olhal-a, e bruscamente:--Adeus, prima
-Luiza, recadinhos ao Jorge!
-
-E abalou.
-
-Luiza entrou no _Paraiso_ muito contrariada. Contou o encontro a
-Bazilio. Ernestinho era tão tolo! Podia mais tarde fallar n'aquillo,
-citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto...
-
-E tirando o véo, o chapéo:
-
---Não, realmente é imprudente vir assim tantas vezes. Era melhor não
-vir tanto. Póde-se saber...
-
-Bazilio encolheu os hombros, contrariado:
-
---Se queres não venhas.
-
-Luiza olhou-o um momento, e curvando-se profundamente:
-
---Obrigada!
-
-Ia a pôr o chapéo, mas elle veio prender-lhe as mãos, abraçou-a,
-murmurando:
-
---Pois tu fallas em não vir! E eu, então? Eu que estou em Lisboa por
-tua causa...
-
---Não, realmente dizes ás vezes cousas... tens certos modos...
-
-Bazilio abafou-lhe as palavras com beijos.
-
---Ta, ta, ta! Nada de questões! Perdôa. Estás tão linda...
-
-Luiza, ao voltar para casa, veio a reflectir n'aquella «scena».
-Não--pensava--já não era a primeira vez que elle mostrava um
-desprendimento muito secco por ella, pela sua reputação, pela sua
-saude! Queria-a alli todos os dias, egoistamente. Que as más linguas
-fallassem, que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para
-que?... Porque emfim, saltava aos olhos, elle amava-a menos... As suas
-palavras, os seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!... Já não
-tinha aquelles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda n'uma
-caricia palpitante, nem aquella abundancia de sensação que o fazia
-cahir de joelhos com as mãos tremulas como as d'um velho!... Já se
-não arremessava para ella, mal ella apparecia á porta, como sobre uma
-presa estremecida!... Já não havia aquellas conversas pueris, cheias de
-risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam, depois
-da hora ardente e physica, quando ella ficava n'uma lassitude dôce, com
-o sangue fresco, a cabeça deitada sobre os braços nús!--Agora! trocado
-o ultimo beijo, accendia o charuto, como n'um restaurante ao fim do
-jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatorio dar
-uma penteadella no cabello com um pentesinho d'algibeira! (O que ella
-odiava o pentesinho!) Ás vezes até olhava o relogio!... E em quanto
-ella se arranjava não vinha, como nos primeiros tempos, ajudal-a,
-pôr-lhe o collarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta d'ella,
-despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus hombros antes que
-o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros,--ou sentado, com um ar
-macambuzio, bamboleava a perna!
-
-E depois positivamente não a respeitava, não a considerava... Tratava-a
-por cima do hombro, como uma burguezinha, pouco educada e estreita,
-que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a
-cabeça alta, fallando no «espirito de madame de tal», nas _toilettes_
-da «condessa de tal»! Como se ella fosse estupida, e os seus vestidos
-fossem trapos! Ah, era seccante! E parecia, Deus me perdôe, parecia que
-lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir... Immediatamente
-lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge,
-para quem ella era de certo a mais linda, a mais elegante, a mais
-intelligente, a mais captivante!... E já pensava um pouco que
-sacrificára a sua tranquillidade tão feliz a um amor bem incerto!
-
-Emfim, um dia que o viu mais distrahido, mais frio, explicou-se
-abertamente com elle. Direita, sentada no canapé de palhinha, fallou
-com bom senso, devagar, com um ar digno e preparado: «Que percebia bem
-que elle se aborrecia, que o seu grande amor tinha passado, que era por
-tanto humilhante para ella verem-se n'essas condições, e que julgava
-mais digno acabarem...»
-
-Bazilio olhava-a, surprehendido da sua solemnidade; sentia um estudo,
-uma affectação n'aquellas phrases; disse muito tranquillamente,
-sorrindo:
-
---Trazias isso decorado!
-
-Luiza ergueu-se bruscamente, encarou-o, teve um movimento desdenhoso
-dos labios.
-
---Tu estás douda, Luiza?
-
---Estou farta! Faço todos os sacrificios por ti, venho aqui todos os
-dias, comprometto-me, e para que? Para te vêr muito indifferente, muito
-seccado...
-
---Mas, meu amor...
-
-Ella teve um sorriso d'escarneo.
-
---_Meu amor!_ Oh! são ridiculos esses fingimentos!
-
-Bazilio impacientou-se.
-
---Já isso cá me faltava, essa scena!--exclamou impetuosamente. E
-cruzando os braços diante d'ella:--Mas que queres tu? Queres que te
-ame como no theatro, em S. Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre
-diabo ama naturalmente, como todo o mundo, com o seu coração, mas
-não tem gestos de tenor, aqui d'el-rei que é frio, que se aborrece,
-é ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos, que
-declame, que revire os olhos, que faça juras, outras tolices?...
-
---São tolices que tu fazias...
-
---Ao principio!--respondeu elle brutalmente.--Já nos conhecemos muito
-para isso, minha rica.
-
-E havia apenas cinco semanas!
-
---Adeus!--disse Luiza.
-
---Bem. Vaes zangada?
-
-Ella respondeu, com os olhos baixos, calçando nervosamente as luvas:
-
---Não.
-
-Bazilio pôz-se diante da porta, e estendendo os braços:
-
---Mas sê razoavel, minha querida. Uma ligação como a nossa não é o
-duetto do _Fausto_. Eu amo-te; tu, creio, gostas de mim; fazemos os
-sacrificios necessarios, encontramo-nos, somos felizes... Que diabo
-queres tu mais? Porque te queixas?
-
-Ella respondeu com um sorriso ironico e triste:
-
---Não me queixo. Tens razão.
-
---Mas não vás zangada, então.
-
---Não...
-
---Palavrinha?
-
---Sim...
-
-Bazilio tomou-lhe as mãos.
-
---Dê então um beijinho em Bibi...
-
-Luiza beijou-o de leve na face.
-
---Na boquinha, na boquinha!--E ameaçando-a com o dedo, fitando-a
-muito:--Ah geniosinho! Tens bem o sangue do snr. Antonio de Brito,
-nosso extremoso tio, que arrepellava as criadas pelos cabellos!--E
-sacudindo-lhe o queixo:--E vens ámanhã?
-
-Luiza hesitou um momento:
-
---Venho.
-
-Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio
-logo dizer-lhe, muito quisilada: que a Joanna tinha sahido ás quatro
-horas, não tinha voltado, o jantar estava por acabar...
-
---Onde foi?
-
-Juliana encolheu os hombros com um sorrisinho.
-
-Luiza percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor... Teve um gesto
-de piedade desdenhosa.
-
---Ha-de lucrar muito com isso. Boa tôla!--disse.
-
-Juliana olhou-a espantada.
-
---Está bebeda!--pensou.
-
---Bem, que se lhe ha-de fazer?--exclamou Luiza.--Esperarei...
-
-E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito:
-
---Que egoista, que grosseiro, que infame! E é por um homem assim que
-uma mulher se perde! É estupido!
-
-Como elle supplicava, se fazia pequenino, humilde ao principio! O que
-são os amores dos homens! Como teem a fadiga facil!
-
-E immediatamente lhe veio a idéa de Jorge! _Esse_ não! Vivia com
-ella havia tres annos--e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo,
-dedicado. Mas o _outro_! Que indigno! _Já a conhecia muito!_ Ah! estava
-bem certa agora, nunca a amára, elle! Quizera-a por vaidade, por
-capricho, por distracção, para ter uma mulher em Lisboa! É o que era!
-Mas amor? Qual!
-
-E ella mesmo, por fim? Amava-o, ella? Concentrou-se, interrogou-se...
-Imaginou casos, circumstancias: se elle a quizesse levar para longe,
-para França, iria? Não! Se por um acaso, por uma desgraça enviuvasse,
-antevia alguma felicidade casando com elle? Não!
-
-Mas então!... E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e
-se admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o
-seu coração vazio. O que a levára então para elle?... Nem ella sabia;
-não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e morbida de ter um
-amante, mil vaidadesinhas inflammadas, um certo desejo physico... E
-sentira-a por ventura, essa felicidade, que dão os amores illegitimos,
-de que tanto se falla nos romances e nas operas, que faz esquecer
-tudo na vida, affrontar a morte, quasi fazel-a amar? Nunca! Todo o
-prazer que sentira ao principio, que lhe parecera ser o amor--vinha
-da novidade, do saborzinho delicioso de comer a maçã prohibida, das
-condições do mysterio do _Paraiso_, d'outras circumstancias talvez, que
-nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro!
-
-Mas que sentia d'extraordinario _agora_? Bom Deus, começava a estar
-menos commovida ao pé do seu amante, do que ao pé de seu marido! Um
-beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia tres annos!
-Nunca se seccára ao pé de Jorge, nunca! E seccava-se positivamente ao
-pé de Bazilio! Bazilio, no fim, o que se tornára para ella? era como
-um marido pouco amado, que ia amar fóra de casa! Mas então, valia a
-pena?...
-
-Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque emfim, ella e
-Bazilio estavam nas condições melhores para obterem uma felicidade
-excepcional: eram novos, cercava-os o mysterio, excitava-os a
-difficuldade... Porque era então que quasi bocejavam? É que o amor
-é essencialmente perecivel, e na hora em que nasce começa a morrer.
-Só os começos são bons. Ha então um delirio, um enthusiasmo, um
-bocadinho do céo. Mas depois!... Seria pois necessario estar sempre a
-_começar_, para poder sempre sentir?... Era o que fazia Leopoldina. E
-apparecia-lhe então nitidamente a explicação d'aquella existencia de
-Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana,
-abandonando-o como um limão espremido, e renovando assim constantemente
-a flôr da sensação!--E, pela logica tortuosa dos amores illegitimos, o
-seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo!
-
-Logo no dia seguinte pôz-se a dizer comsigo que era bem longe o
-_Paraiso_! Que massada, por aquelle calor, vestir-se, sahir! Mandou
-saber de D. Felicidade por Juliana, e ficou em casa, de roupão branco,
-preguiçosa, saboreando a sua preguiça.
-
-N'essa tarde recebeu uma carta de Jorge: «que ainda se demorava, mas
-que a sua viuvez começava a pezar-lhe. Quando se veria emfim na sua
-casinha, na sua alcovinha?...»
-
-Ficou muito commovida. Um sentimento de vergonha, de remorso, uma
-compaixão terna por Jorge, tão bom, coitado! um indefinido desejo de o
-vêr e de o beijar, a recordação de felicidades passadas perturbaram-na
-até ás profundidades do seu sêr. Foi logo responder-lhe, jurando-lhe
-«que tambem já estava farta de estar só, que viesse, que era estupida
-semelhante separação...» E era sincera n'aquelle momento.
-
-Tinha fechado o enveloppe, quando Juliana lhe veio trazer «uma carta
-do hotel». Bazilio mostrava-se desesperado: «...Como não vieste, vejo
-que estás zangada; mas é de certo o teu orgulho, não o teu amor que te
-domina: não imaginas o que senti quando vi que não vinhas hoje. Esperei
-até ás cinco horas; que supplicio! Fui talvez secco, mas tu tambem
-estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante
-do outro, e esquecer todo o despeito no mesmo amor... Vem ámanhã.
-Adoro-te tanto! Que outra prova queres, que esta que te dou d'abandonar
-os meus interesses, as minhas relações, os meus gostos, e enterrar-me
-aqui em Lisboa, etc.»
-
-Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de
-querer. Aquillo era verdade. Porque estava elle em Lisboa? Por ella.
-Mas se reconhecia agora,--que o não amava, ou tão pouco! E depois
-era vil trahir assim Jorge, tão bom, tão amoroso, vivendo todo para
-ella. Mas se Bazilio realmente estivesse tão apaixonado!... As suas
-idéas redemoinhavam, como folhas d'outono, violentadas por ventos
-contradictorios. Desejava estar tranquilla, «que a não perseguissem».
-Para que voltára aquelle homem? Jesus! que havia de fazer? Tinha os
-seus pensamentos, os seus sentimentos n'uma dolorosa trapalhada.
-
-E na manhã seguinte estava na mesma hesitação. Iria, não iria? O
-calor fóra, a poeirada da rua faziam-lhe appetecer mais a casa!
-Mas que desapontamento, o do pobre rapaz tambem! Atirou ao ar uma
-moeda de cinco tostões. Era cunho, devia ir. Vestiu-se, sem vontade,
-seccada,--tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que
-dão as expansões da reconciliação...
-
-Mas que surpreza! esperava encontral-o humilde e de joelhos, achou-o
-com a testa franzida e muito aspero.
-
---Luiza, parece incrivel, porque não vieste hontem?
-
-Na vespera, Bazilio, quando viu que ella faltava, teve um grande
-despeito e um medo maior; a sua concupiscencia receou perder aquelle
-lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalisou-se de vêr
-libertar-se aquella escravasinha docil. Resolveu portanto, a todo o
-custo, «chamal-a ao rego». Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a
-attrahir, decidiu ser severo para a castigar.--E acrescentou:
-
---É uma criancice ridicula. Porque não vieste?
-
-Aquelle modo enraiveceu-a:
-
---Porque não quiz.
-
-Mas emendou logo:
-
---Não pude.
-
---Ah! é essa a maneira por que respondes á minha carta, Luiza?
-
---E tu, é esse o modo com que me recebes?
-
-Olharam-se um momento, detestando-se.
-
---Bem, queres uma questão? És como as outras.
-
---Que outras?
-
-E toda escandalisada:
-
---Ah! é de mais! Adeus!
-
-Ia sahir.
-
---Vaes-te, Luiza?
-
---Vou. É melhor acabarmos por uma vez...
-
-Elle segurou o fecho da porta rapidamente.
-
---Fallas serio, Luiza?
-
---De certo. Estou farta!
-
---Bem. Adeus.
-
-Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente.
-
-Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula:
-
---Então, é para sempre? Nunca mais?
-
-Luiza parou, branca. Aquella triste palavra _nunca mais_ deu-lhe uma
-saudade, uma commoção. Rompeu a chorar.
-
-As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão
-fragil, tão desamparada!...
-
-Bazilio cahiu-lhe aos pés: tinha tambem os olhos humidos.
-
---Se tu me deixares, morro!
-
-Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, longo, penetrante. A
-excitação dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixão;
-e foi uma manhã deliciosa.
-
-Ella prendia-o nos braços nús, pallida como cêra, balbuciava:
-
---Não me deixas nunca, não?
-
---Juro-t'o! Nunca, meu amor!
-
-Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma idéa de certo
-acudiu-lhes--porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou:
-
---Se podesses aqui passar a noite!
-
-Ella disse aterrada, quasi supplicante:
-
---Oh! não me tentes, não me tentes...
-
-Bazilio suspirou, disse:
-
---Não, é uma tolice. Vai.
-
-Luiza começou a arranjar-se, á pressa. E de repente, parando, com um
-sorriso:
-
---Sabes tu uma cousa?
-
---O que, meu amor?
-
---Estou a cahir com fome! Não almocei nada, estou a cahir!
-
-Elle ficou desolado:
-
---Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse...
-
---Que horas são, filho?
-
-Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado:
-
---Sete!
-
---Ai, Santo Deus!
-
-Punha o chapéo, o véo, atrapalhadamente:
-
---Que tarde! Jesus! Que tarde!
-
---E ámanhã, quando?
-
---Á uma.
-
---Com certeza?
-
---Com certeza.
-
-Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a ao fundo da
-escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos:
-
---Que me fizeste tu? Desde hontem que estou doudo!
-
-Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama.
-
---Que é aquillo?
-
-Elle sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destampando o
-cesto, com uma cortezia grave:
-
---Provisões, festins, bacchanaes! Não dirás depois que tens fome!
-
-Era um _lunch_. Havia sandwichs, um _pâté de foie gras_, fruta, uma
-garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo.
-
---É brilhante!--disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer.
-
---Foi o que se pôde arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em
-si!
-
-Pôz o cesto no chão, e vindo para ella com os braços abertos:
-
---E tu pensaste em mim, meu amor?
-
-Os olhos d'ella responderam--e a pressão apaixonada dos seus braços.
-
-Ás tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo
-sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquillo parecia a
-Luiza muito estroina, adoravel--e ria de sensualidade, fazendo tilintar
-os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de _champagne_.
-Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, em
-beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia com gula; e eram
-adoraveis os seus braços nús movendo-se por cima dos pratos.
-
-Nunca achára Bazilio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito
-conchegado para aquellas intimidades da paixão; quasi julgava possivel
-viver alli, n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor
-permanente, e _lunchs_ ás tres horas... Tinham as pieguices classicas:
-mettiam-se bocadinhos na bocca; ella ria com os seus dentinhos brancos;
-bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos,--e elle quiz-lhe
-ensinar então a verdadeira maneira de beber _champagne_. Talvez ella
-não soubesse!
-
---Como é?--perguntou Luiza erguendo o copo.
-
---Não é com o copo! Horror! Ninguem que se preza bebe _champagne_ por
-um copo. O copo é bom para o Collares...
-
-Tomou um gole de _champagne_, e n'um beijo passou-o para a bocca
-d'ella. Luiza riu muito, achou «divino», quiz beber mais assim. Ia-se
-fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe.
-
-Tinham tirado os pratos da cama; e sentada á beira do leito, os seus
-pésinhos calçados n'uma meia côr de rosa pendiam, agitavam-se, em
-quanto um pouco dobrada sobre si, os cotovêlos sobre o regaço, a
-cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça languida d'uma
-pomba fatigada.
-
-Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma burguezinha podia ter
-tanto _chic_, tanta _queda_? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pésinhos entre
-as mãos, beijou-lh'os; depois, dizendo muito mal das ligas «tão feias,
-com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então
-fez-lhe baixinho um pedido. Ella córou, sorriu, dizia: não! não!--E
-quando sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate,
-murmurou reprehensivamente:
-
---Oh Bazilio!
-
-Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinára-lhe uma sensação nova:
-tinha-a na mão!
-
-Só ás seis horas se desprendeu dos seus braços. Luiza fez-lhe jurar
-que havia de pensar n'ella toda a noite:--não queria que elle sahisse;
-tinha ciumes do Gremio, do ar, de tudo! E já no patamar voltava,
-beijava-o, louca, repetia:
-
---E ámanhã mais cedo, sim? para estarmos todo o dia.
-
---Não vaes vêr a D. Felicidade?
-
---Que me importa a D. Felicidade! Não me importa ninguem! Quero-te a
-ti! só a ti!
-
---Ao meio dia?
-
---Ao meio dia!
-
-
-Quanto lhe pezou á noite a solidão do seu quarto! Tinha uma impaciencia
-que a impellia a prolongar a excitação da tarde, agitar-se. Ainda quiz
-lêr, mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas accesas sobre
-o toucador pareciam-lhe lugubres; foi vêr a noite,--estava tepida e
-serena. Chamou Juliana:
-
---Vá pôr um chale, vamos a casa da snr.^a D. Leopoldina.
-
-Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois d'uma grande
-demora, esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada:
-
---A senhora foi p'ra o Porto!
-
---P'ra o Porto!
-
-Sim. Demorava-se quinze dias.
-
-Luiza ficou muito desconsolada. Mas não queria voltar, o seu quarto
-solitario aterrava-a.
-
---Vamos um bocado até alli abaixo, Juliana. A noite está tão bonita!
-
---Rica, minha senhora!
-
-Foram pela rua de S. Roque. E como guiados pelas duas linhas de pontos
-de gaz, que desciam a rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo
-foram logo para o _Hotel Central_.
-
-Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir surprehendel-o de
-repente, atirar-se-lhe aos braços, vêr as suas malas... Aquella idéa
-fazia-a arfar. Entraram na praça de Camões. Gente passeava devagar; sob
-a sombra mais escura que faziam as arvores cochichava-se pelos bancos;
-bebia-se agua fresca; claridades cruas de vidraças, de portas de lojas
-destacavam em redor no tom escuro da noite: e no rumor lento das ruas
-em redor, sobresahiam as vozes agudas dos vendedores de jornaes.
-
-Então um sujeito com um chapéo de palha passou tão rente d'ella, tão
-intencionalmente que Luiza teve medo.--Era melhor voltarem--disse.
-
-Mas ao meio da rua de S. Roque o chapéo de palha reappareceu, roçou
-quasi o hombro de Luiza; dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella.
-
-Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas batia vivamente a lage
-do passeio; de repente, ao pé de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapéo
-de palha sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe junto ao
-pescoço:
-
---Aonde mora, ó menina?
-
-Agarrou aterrada o braço de Juliana.
-
-A voz repetiu:
-
---Não se agaste, menina, aonde mora?
-
---Seu malcriado!--rugiu Juliana.
-
-O chapéo de palha immediatamente desappareceu entre as arvores.
-
-Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade de chorar; deixou-se
-cahir na _causeuse_, esfalfada, infeliz. Que imprudencia, pôr-se
-a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava douda,
-desconhecia-se. Que dia aquelle! E recordava-o desde pela manhã: o
-_lunch_, o _champagne_ bebido pelos beijos de Bazilio, os seus delirios
-libertinos, que vergonha! e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser
-tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe
-Jorge no Alemtejo trabalhando por ella, pensando n'ella... Escondeu o
-rosto entre as mãos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se.
-
-
-Mas na manhã seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga
-vergonha de todas as suas «tolices» da vespera, e como a sensação
-indefinida, palpite ou presentimento, de que não devia ir ao _Paraiso_.
-O seu desejo, porém, que a impellia para lá vivamente, forneceu-lhe
-logo razões: era desapontar Bazilio, a não ir hoje não devia voltar, e
-então romper... Além d'isso a manhã muito linda attrahia para a rua:
-chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma
-frescura lavada e dôce.
-
-E ás onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do
-conselheiro Accacio que subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol
-fechado, a cabeça alta.
-
-Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente:
-
---Que encontro verdadeiramente feliz!...
-
---Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o vêem!
-
---E v. exc.^a, minha senhora? Vejo-a com excellente aspecto!
-
-Passou-lhe á esquerda com um movimento solemne, pôz-se a caminhar ao
-lado d'ella.
-
---Permitte-me de certo que a acompanhe na sua excursão?
-
---De certo, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe
-ralhar...
-
---Estive em Cintra, minha querida senhora.--E parando:--Não sabia? O
-_Diario de Noticias_ especificou-o!
-
---Mas depois de vir de Cintra?
-
-Elle acudiu:
-
---Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo! Inteiramente absorvido
-na compilação de certos documentos que me eram indispensaveis para o
-meu livro...--E depois d'uma pausa:--Cujo nome não ignora, creio.
-
-Luiza não se recordava inteiramente. O Conselheiro então expôz o
-titulo, os fins, alguns nomes de capitulos, a utilidade da obra: era
-a DESCRIPÇÃO PITORESCA DAS PRINCIPAES CIDADES DE PORTUGAL E SEUS MAIS
-FAMOSOS ESTABELECIMENTOS.
-
---É um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei com um exemplo: V.
-exc.^a quer ir a Bragança: sem o meu livro é muito natural (direi, é
-certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o meu
-livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe um fundo muito
-solido d'instrucção, e tem ao mesmo tempo o prazer.
-
-Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu véo branco.
-
---Está hoje muito agradavel!--disse ella.
-
---Agradabilissimo! Um dia creador!
-
---Que bom fresco aqui!
-
-Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar dôce circulava entre as
-arvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira
-humidade; e, apesar do sol vivo, o céo azul parecia leve e muito remoto.
-
-O Conselheiro então fallou do estio; tinha sido torrido! na sua sala
-de jantar tinha havido 48 graus á sombra! 48 graus!--E com bonhomia,
-querendo logo desculpar a sala d'aquella exageração canicular:--Mas é
-que está exposta ao sul! façamos essa justiça! Está muito exposta ao
-sul. Hoje porém está verdadeiramente restaurador.
-
-Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. Luiza hesitava.
-E o Conselheiro puxando o relogio, fitando-o de longe, declarou logo
-que ainda não era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um relogio
-inglez.--Muito preferiveis aos suissos!--acrescentou com ar profundo.
-
-Cobardemente, por inercia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro,
-Luiza foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De
-resto--pensava--tinha tempo, tomaria um trem...
-
-Foram encostar-se ás grades. Através dos varões viam, descendo n'um
-declive, telhados escuros, intervallos de pateos, cantos de muro com
-uma ou outra magra verdura de quintal resequido; depois, no fundo do
-valle, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga,
-onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada. Do lado de lá
-erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental, recebendo
-uma luz forte que fazia faiscar as vidraças: por traz iam-se elevando
-no mesmo plano terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros
-sombrios, a cantaria da Encarnação de um amarello triste, outras
-construcções separadas, até ao alto da Graça coberta d'edificios
-ecclesiasticos, com renques de janellinhas conventuaes e torres
-d'igrejas, muito brancas sobre o azul: e a Penha de França, mais para
-além, punha em relevo o vivo do muro caiado, d'onde sobresahia uma tira
-verde-negra d'arvoredo. Á direita, sobre o monte pellado, o castello
-assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a linha muito quebrada
-de telhados, d'esquinas de casas da Mouraria e d'Alfama descia com
-angulos bruscos até ás duas pesadas torres da Sé, d'um aspecto abbacial
-e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz: duas velas
-brancas passavam devagar: e na outra banda, á base de uma collina baixa
-que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias d'uma
-povoaçãosinha d'um branco de cré luzidio. Da cidade um rumor grosso e
-lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos
-carros de bois, a vibração metallica das carretas que levam ferraria, e
-algum grito agudo de pregão.
-
---Grande panorama!--disse o Conselheiro com emphase.--E encetou logo o
-elogio da cidade. Era uma das mais bellas da Europa, de certo, e como
-entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na immenso. Fôra
-outr'ora um grande emporio, e era uma pena que a canalisação fosse tão
-má, e a edilidade tão negligente!
-
---Isto devia estar na mão dos inglezes, minha rica senhora!--exclamou.
-
-Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica. Jurou que «era
-uma maneira de dizer». Queria a independencia do seu paiz; morreria por
-ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!... Só nós,
-minha senhora!--E acrescentou com uma voz respeitosa:--E Deus!
-
---Que bonito está o rio!--disse Luiza.
-
-Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo:
-
---O Tejo!
-
-Quiz então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas
-brancas, amarellas, esvoaçavam; um gotejar d'agua fazia no tanque um
-rhythmosinho de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava; sobre
-a cabeça dos bustos de marmore, que se elevam d'entre os maciços e as
-moitas de dhalias, passaros pousavam.
-
-Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava com as grades tão
-altas...
-
---Por causa dos suicidios!--acudiu logo o Conselheiro.--E
-todavia, segundo a sua opinião, os suicidios em Lisboa diminuiam
-consideravelmente; attribuia isso á maneira severa e muito louvavel
-como a imprensa os condemnava...
-
---Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força!
-
---Se fossemos andando...?--lembrou Luiza.
-
-O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flôr, reteve-lhe
-vivamente o braço:
-
---Ah, minha rica senhora, por quem é! os regulamentos são muito
-explicitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos!--E acrescentou:--O
-exemplo deve vir de cima.
-
-Foram subindo, e Luiza pensava:--Vai para casa, larga-me ao Loreto.
-
-Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma confeitaria: era meia hora
-depois do meio dia! Já Bazilio esperava!
-
-Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo,
-esperando.
-
---Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro!
-
---Já agora quero acompanhal-a, se v. exc.^a m'o permitte. De certo não
-sou indiscreto?
-
---Ora essa! De modo nenhum.
-
-Uma carruagem da Companhia passava, seguida d'um correio a trote.
-
-O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou profundamente o chapéo.
-
---É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um signal de
-dentro.--Começou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar;
-vastissimo talento, uma linguagem muito castigada!--E ia de certo
-fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para os Martyres,
-erguendo um pouco o vestido por causa d'uns restos de lama. Parou á
-porta da igreja, e sorrindo:
-
---Vou aqui fazer uma devoçãosinha. Não o quero fazer esperar. Adeus,
-Conselheiro, appareça.--Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão.
-
---Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que não se demora
-muito. Esperarei, não tenho pressa.--E com respeito:--Muito louvavel
-esse zelo!
-
-Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do côro,
-calculando:--Demoro-me aqui, elle cança-se d'esperar e vai-se! Por
-cima reluziam vagamente os pingentes de crystal dos lustres. Havia
-uma luz velada, igual, um pouco fôsca. E as architecturas caiadas,
-a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas lateraes de pedra
-davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da
-capella, os frontaes rôxos dos pulpitos, ao fundo dous reposteiros d'um
-rôxo mais escuro, e sob o docel côr de violeta os ouros do Throno. Um
-silencio fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz de
-joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava o chão com uma rodilha,
-discretamente: dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de chales
-tingidos, curvavam-se, aqui e além, diante d'um altar: e um velho, de
-jaqueta de saragoça, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas n'uma
-molopéa lugubre; via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos
-sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero.
-
-Luiza subiu ao altar-mór. Bazilio impacientava-se, de certo, pobre
-rapaz! Perguntou então, timidamente, as horas a um sacristão que
-passava. O homem ergueu a sua face côr de cidra para uma janela na
-cupula, e olhando Luiza de lado:
-
---Vai indo p'ra as duas.
-
-Para as duas! Era capaz de não esperar, Bazilio! Veio-lhe um receio
-de perder a sua manhã amorosa, um desejo aspero de se achar no
-_Paraiso_ nos braços d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens
-trespassadas d'espadas, os Christos chagados,--cheia de impaciencias
-voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de
-Bazilio!... Mas demorou-se, queria «fatigar o Conselheiro, deixal-o
-ir». Quando pensou que elle teria partido, sahiu devagarinho.--Viu-o
-logo á porta, direito, com as mãos atraz das costas, lendo a pauta dos
-jurados.
-
-Começou immediatamente a louvar a sua devoção. Não entrára porque não
-quizera perturbar o seu recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de
-religião era a causa de toda a immoralidade que grassava...
-
---E além d'isso é de boa educação. V. exc.^a ha-de reparar que toda a
-nobreza cumpre...
-
-Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com
-aquella linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo,
-curvou-se para ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo:
-
---Está um dia apreciavel!
-
-E offereceu-lhe bolos á porta do Baltreschi. Luiza recusou.
-
---Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas.
-
-A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia d'um zumbido; apesar
-de não fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha
-vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar,
-infeliz, como somnambula, cheia da necessidade de chorar.
-
-Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois
-d'hesitar pediu gravatas de _foulard_ a um caixeiro louro e jovial.
-
---Brancas? de côr? de riscas? com pintinhas?
-
---Sim, verei, sortidas.
-
-Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e
-olhava em roda vagamente, pallida... O caixeiro perguntou-lhe se estava
-incommodada: offereceu-lhe agua, qualquer cousa...
-
-Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria. Sahiu. O Conselheiro,
-muito solicito, promptificou-se a acompanhal-a a uma boa pharmacia
-tomar agua de flôr de laranja... Desciam então a rua Nova do Carmo,
-e o Conselheiro ia affirmando que o caixeiro fôra muito polido: não
-se admirava, porque no commercio havia filhos de boas familias: citou
-exemplos.
-
-Mas vendo-a calada:
-
---Ainda soffre?
-
---Não, estou bem.
-
---Temos dado um delicioso passeio!
-
-Foram ao comprido do Rocio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no
-em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a
-rua do Ouro. Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma idéa,
-uma occasião, um acontecimento--e o Conselheiro, grave a seu lado,
-dissertava. A vista do theatro de D. Maria levára-o para as questões
-da arte dramatica: tinha achado que a peça do Ernestinho era talvez
-demasiado forte. De resto só gostava de comedias. Não que se não
-enthusiasmasse com as bellezas d'um _Frei Luiz de Sousa_! mas a sua
-saude não lhe permittia as agitações fortes. Assim por exemplo...
-
-Mas Luiza tivera uma idéa, e immediatamente:
-
---Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente.
-
-O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe a mão,
-com a voz rapida:
-
---Adeus, appareça, hein?--E precipitou-se para o portal do Vitry.
-
-Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados:
-parou, arquejando: esperou: desceu devagar, espreitou á porta... A
-figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das
-secretarias.
-
-Chamou um trem.
-
---A quanto puder!--exclamou.
-
-A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha do _Paraiso_. Figuras
-pasmadas appareceram á janella. Subiu, palpitante. A porta estava
-fechada--e logo a cancella do lado abriu-se, e a voz dôce da patrôa
-segredou:
-
---Já sahiu. Ha-de haver meia hora.
-
-Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo
-do coupé, rompeu n'um chôro hysterico. Correu os _stores_ para se
-esconder; arrancou o véo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias
-inesperadas, Então veio-lhe um desejo phrenetico de vêr Bazilio! Bateu
-nos vidros desesperadamente, gritou:
-
---Ao Hotel Central!
-
-Porque estava n'um d'aquelles momentos em que os temperamentos
-sensiveis teem impulsos indomaveis; ha uma delicia colerica em
-espedaçar os deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente
-o mal com estremecimentos de sensualidade!
-
-A parelha estacou, resvalando á porta do hotel. «O snr. Bazilio de
-Brito não estava, o snr. visconde Reynaldo, sim».
-
---Bem, para casa, para onde eu disse!
-
-O cocheiro bateu. E Luiza, sacudida por uma irritabilidade febril,
-insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que
-lh'os fizera conhecer, a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe
-uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe
-viesse á cabeça!...
-
-Á porta não tinha troco para o cocheiro. Espere!--disse, subindo
-furiosa--Eu lhe mandarei pagar!
-
---Que bicha!--pensou o cocheiro.
-
-Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a tão vermelha, tão
-excitada.
-
-Luiza foi direita ao quarto: o _cuco_ cantava tres horas. Estava tudo
-desarrumado; vasos de plantas no chão, o toucador coberto com um lençol
-velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço amarrado na
-cabeça, varria tranquillamente, cantarolando.
-
---Então vossê ainda não arrumou o quarto!--gritou Luiza.
-
-Juliana estremeceu áquella colera inesperada.
-
---Estava agora, minha senhora!
-
---Que estava agora vejo eu!--rompeu Luiza.--São tres horas da tarde e
-ainda o quarto n'este estado!
-
-Tinha atirado o chapéo, a sombrinha.
-
---Como a senhora costuma vir sempre mais tarde...--disse Juliana.
-
-E seus beiços faziam-se brancos.
-
---Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem vossê com isso? A
-sua obrigação é arrumar logo que eu me levante. E não querendo, rua,
-fazem-se-lhe as contas!
-
-Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os olhos injectados:
-
---Olhe, sabe que mais? não estou para a aturar!
-
-E arremessou violentamente a vassoura.
-
---Sáia!--berrou Luiza--Sáia immediatamente! Nem mais um momento em casa!
-
-Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas no peito, a
-voz rouca:
-
---Hei-de sahir se eu quizer! Se eu quizer!
-
---Joanna!--bradou Luiza.
-
-Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguem! Mas Juliana
-descomposta, com o punho no ar, toda a tremer:
-
---A senhora não me faça sahir de mim! A senhora não me faça perder a
-cabeça!--E com a voz estrangulada através dos dentes cerrados:--Olhe
-que nem todos os papeis foram p'ra o lixo!
-
-Luiza recuou, gritou:
-
---Que diz vossê?
-
---Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu
-aqui!--E bateu na algibeira, ferozmente.
-
-Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados, e cahiu no chão,
-junto á _causeuse_, desmaiada.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-A primeira impressão, mal acordada, de Luiza foi que duas figuras,
-que não conhecia, estavam debruçadas sobre ella. Uma, a mais forte,
-afastou-se; o som frio d'um frasco de vidro, pousado sobre o marmore do
-toucador, despertou-a. Sentiu então uma voz dizer abafadamente:
-
---Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente, snr.^a Juliana?
-
---De repente.
-
---Eu vi-a entrar tão afogueada...
-
-Passos subtis pisaram o tapete, a voz de Joanna perguntou-lhe junto do
-rosto:
-
---Está melhor, minha senhora?
-
-Abriu os olhos, a percepção nitida das cousas foi-lhe voltando; estava
-estendida na _causeuse_, tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no
-quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovêlo, devagar,
-com um olhar errante, vago:
-
---E a outra?...
-
---A snr.^a Juliana? Foi-se deitar. Tambem se não achava bem. Foi de vêr
-a senhora, coitada... Está melhorzinha?
-
-Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe
-parecia oscillar brandamente:
-
---Póde ir, Joanna, póde ir--disse.
-
---A senhora não precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem...
-
-Luiza, só, pôz-se a olhar em roda, espantada. Estava já tudo arrumado,
-as janellas cerradas. Uma luva ficára cahida no chão: ergueu-se, ainda
-tropega, foi apanhal-a, esteve a esticar-lhe os dedos machinalmente,
-como somnambula, pôl-a na gaveta do toucador. Alisou o cabello;
-achava-se mudada, com _outra_ expressão como se fosse _outra_; e o
-silencio do quarto impressionava-a, como extraordinario.
-
---Minha senhora--disse a voz timida de Joanna.
-
---Que é?
-
---É o cocheiro.
-
-Luiza voltou-se, sem comprehender:
-
---Que cocheiro?
-
---Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha troco, que o mandou
-esperar...
-
---Ah!
-
-E como a uma luz de gaz que salta subitamente e alumia uma decoração,
-viu, n'um relance, toda a «sua desgraça»!
-
-Ficou tão tremula que mal podia abrir a gavetinha da commoda:
-
---Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido...--balbuciava.
-
-Deu o dinheiro a Joanna; e vindo cahir sobre a _causeuse_:
-
---Estou perdida!--murmurou, apertando as mãos na cabeça.
-
-Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espirito, com a
-intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge,
-o espanto dos seus amigos, a indignação d'uns, o escarneo dos outros;
-e estas imagens cahindo com ruido na sua alma, como combustiveis n'uma
-fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror.
-
-Que lhe restava?--Fugir com Bazilio!
-
-Aquella idéa, a primeira, a unica, apossou-se d'ella impetuosamente,
-trespassou-a--como a agua d'uma inundação que subitamente alaga um
-campo.
-
-Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no
-seu _appartamento_ da rua Saint Florentin! Pois bem, iria! Não levaria
-malas, poria no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa branca, as
-joias da mamã... E os criados? a casa? Deixaria uma carta a Sebastião
-para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de
-riscadinho azul--ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia longe,
-n'outras cidades...
-
---Se a senhora quer vir jantar...--disse Joanna á porta do quarto.
-
-Tinha posto um avental branco, e acrescentou:
-
---A snr.^a Juliana está deitada, diz que está com a dôr, não póde
-servir á mesa.
-
---Já vou.
-
-Tomou apenas uma colhér de sopa, bebeu um grande gole d'agua; e
-erguendo-se:
-
---Que tem ella?
-
---Diz que é uma dôr muito forte no coração.
-
-Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, então! E com uma
-esperança perversa:
-
---Vá vêr, Joanna, vá vêr como está!
-
-Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dôr! Iria logo ao
-quarto d'ella rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E não teria
-medo do silencio da morte, nem da lividez do cadaver...
-
---Está mais descançada, minha senhora--veio dizer a Joanna--diz que
-logo que se levanta. Então a senhora não come mais nada? Credo!
-
---Não.
-
-E entrou para o quarto, pensando:--de que serve estar a imaginar
-cousas? Só me resta fugir.
-
-Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não pôde acertar com outras
-palavras além do começo, no alto, n'uma letra muito trémula: _Meu
-amigo!_
-
-Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ella não voltasse, nem
-á tarde, nem á noite--as criadas, a _outra_, a infame! iriam logo a
-Sebastião. Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria algum
-accidente, correria á Encarnação, depois á policia, esperaria n'uma
-angustia até de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanças
-de a vêr chegar, decepções aterradas,--até que telegrapharia a Jorge!
-E a essa hora de certo, ella, encolhida no canto do wagon, rolaria, ao
-ruido offegante da machina, para um destino novo!...
-
-Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraça!
-O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro
-paredes, passada a examinar roes de cozinha e a fazer _crochet_, e
-partir com um homem novo e amado, ir para Paris! para Paris! viver nas
-consolações do luxo, em alcovas de sêda, com um camarote na Opera!...
-Era bem tola em se affligir! Quasi fôra uma felicidade aquelle
-«desastre»! Sem elle nunca teria tido a coragem de se desembaraçar da
-sua vida burgueza; mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria
-sempre uma timidez maior para a reter!
-
-E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria só d'um homem;
-não teria de amar em casa e amar fóra de casa!
-
-Veio-lhe mesmo a idéa de ir ter immediatamente com Bazilio, «acabar com
-aquillo por uma vez». Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas
-escuras, a noite, e os bebedos...
-
-Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu lenços, alguma roupa
-branca, o estojo das unhas, o rosario que lhe dera Bazilio, pós
-d'arroz, algumas joias que tinham pertencido á mamã... Quiz levar as
-cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um cofre de sandalo,
-no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as no regaço; abriu uma, d'onde
-cahiu uma florzinha sêcca; outra que tinha, na dobra, a photographia
-de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que não estavam completas! Tinha
-_sete_: _cinco_ bilhetes curtos, e _duas_ cartas--a primeira que elle
-lhe escrevêra, tão terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as...
-Faltava, com effeito, a _primeira_, e _dous_ bilhetes! Tinha-lh'as
-roubado, tambem!... Ergueu-se livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva
-de subir ao sotão, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!...
-Que lhe importava, por fim!--E deixou-se cahir na _causeuse_,
-aniquilada--Que ella tivesse uma, duas, todas--era a mesma desgraça!
-
-E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o
-chapéo, um chale-manta...
-
-O _cuco_ cantou dez horas. Entrou então na alcova; pôz o castiçal
-sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de
-fustão branco. Era a ultima vez que alli dormia! Fôra ella que bordára
-aquella coberta de _crochet_ no primeiro anno de casada: não havia uma
-malha que não correspondesse a uma alegria. Jorge ás vezes vinha vêl-a
-trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou fallava-lhe
-baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodão grosso! Alli dormira
-com elle tres annos: o seu lugar era de lá, do lado da parede... Fôra
-n'aquella cama que ella estivera doente, com a pneumonia. Durante
-semanas elle não se deitára--a velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a
-dar-lhe os caldos, os remedios, com toda a sorte de palavras dôces
-que lhe faziam tão bem!... Fallava-lhe como a criancinha pequena:
-dizia-lhe: «isso vai passar, ámanhã estás boa, vamos passear». Mas o
-seu olhar ancioso estava marejado de lagrimas! Ou então pedia-lhe:
-«Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!...» E ella
-queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que
-voltava, lhe refrescava o sangue!
-
-Nos primeiros dias da convalescença era elle que a vestia; ajoelhava-se
-para lhe calçar os sapatos, embrulhava-a no roupão, vinha estendel-a na
-_causeuse_, sentava-se ao pé d'ella a lêr-lhe romances, desenhar-lhe
-paizagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda d'elle,
-não tinha mais ninguem no mundo para a tratar, para soffrer, chorar
-por ella--senão elle! Adormecia sempre com as mãos nas suas, porque
-a doença deixára-lhe um vago medo dos pesadêlos da febre; e o pobre
-Jorge, para a não acordar, alli ficava com a mão presa, horas, sem se
-mover. Deitava-se vestido n'um colxãosito ao pé d'ella. Muitas vezes,
-acordando de noite, o tinha visto a limpar as lagrimas; d'alegria, de
-certo, porque ella então estava salva! o medico, o bom dr. Caminha,
-tinha-o dito: «Está livre de perigo, agora é refazer esse corpinho». E
-Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mãos do
-velho,--tinha-as coberto de beijos!
-
-E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse! Quando ao entrar
-alli na alcova--visse os dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe,
-com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua. Que horror! E
-elle alli estaria, n'aquella casa só, chorando, abraçado a Sebastião.
-Quantas memorias d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas
-chinellinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a d'elle!
-Dormiria alli _só_! Já não teria ninguem para o acordar de manhã com um
-beijinho, passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe: _é tarde, Jorge!_
-Tudo acabára para ambos. Nunca mais!--Rompeu a chorar, de bruços sobre
-a cama...
-
-Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com Joanna. Ergueu-se
-aterrada. Viria ter com ella, aquella infame? Os passos achinellados
-afastaram-se devagar, e Joanna entrou com o rol e com a lamparina.
-
---A snr.^a Juliana--disse--levantou-se um momento, mas diz que ainda
-está mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora não precisa mais nada?
-
---Não--disse da alcova.
-
-Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente.
-
-
-Juliana em cima não dormia. A dôr passára-lhe--e agitava-se sobre o
-enxergão, «com o diabo da espertina»! como tantas outras noites, nas
-ultimas semanas. Porque desde que apanhára a carta no _sarcophago_
-vivia n'uma febre; mas a alegria era tão aguda, a esperança tão larga
-que a sustentavam, lhe davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado
-d'ella! Desde que Bazilio começára a vir a casa, tivera logo um
-palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado emfim a sua vez!
-A primeira satisfação fôra n'aquella noite em que achára, depois
-de Bazilio sahir ás dez horas, a travéssinha de Luiza cahida ao pé
-do sophá. Mas que explosão de felicidade, quando, depois de tanta
-espionagem, de tanta canceira, apanhou emfim a carta no _sarcophago_!
-Correu ao sotão, leu-a avidamente, e quando viu a importancia da
-«cousa» arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, arremessou a sua alma
-perversa para as alturas, bradando em si, n'um triumpho:
-
---Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus!
-
-E que havia de fazer _áquillo_?--foi então a sua inquietação. Ora
-pensava em a vender a Luiza por uma forte somma... mas onde tinha ella
-o dinheiro? Não; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaças
-de a publicar, extorquir-lhe _um rôr_ de libras por meio d'outra
-pessoa, já se vê, e ella á capa! E em certos dias em que a figura, as
-_toilettes_, as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe venetas
-de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lêr o papel, pôl-a mais rasa
-que a lama, vingar-se da «cabra»!
-
-Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo «que para
-a armadilha ser completa era necessario uma carta do janota». Começára
-então o lento trabalho de lh'a apanhar! Fôra preciso muita finura,
-muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cêra, paciencia
-de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a
-lido com a tia Victoria--que rira, rira!... Sobre tudo o bilhete em
-que Bazilio lhe dizia: «Hoje não posso ir, mas espero-te ámanhã ás
-duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste á outra,
-trazel-a no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o
-peitinho perfumado!...» A tia Victoria, suffocada, quil-a mostrar á sua
-velha amiga, a Pêdra, a Pêdra gorda, que estava na saleta.
-
-A Pêdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal
-cheios, tinham sacudidellas furiosas de hilaridade. E com as mãos nas
-ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone:
-
---Essa é das boas, tia Victoria! Essa é de mestre. Não, isso merece ir
-para os papeis! Ai os bebedos! Raios do diabo!
-
-A tia Victoria, então, disse muito seriamente a Juliana:
-
---Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso já pódes fallar d'alto.
-É esperar a occasião. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a
-fartar para ella não desconfiar, e o olho álerta. Tens o rato seguro,
-deixa-o dar ao rabo!
-
-E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito
-comsigo--aquelle gozo de a ter «na mão», a Luizinha, a senhora, a
-patroa, a _piorrinha_! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar,
-comer bem--e pensava com uma voluptuosidade felina: Anda, folga, folga,
-que eu cá t'a tenho armada! Aquillo dava-lhe um orgulho perverso.
-Sentia-se vagamente _senhora da casa_. Tinha alli fechada na mão a
-felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patrões! Que desforra!
-
-E o futuro estava certo! _Aquillo_ era dinheiro, o pão da velhice. Ah!
-tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma _Salvè-rainha_ de
-graças a Nossa Senhora, mãi dos homens!
-
-Mas agora, depois d'aquella _scena_ com Luiza--não podia ficar de
-braços cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sahir de casa,
-pôr-se em campo, fazer _alguma cousa_. O que? A tia Victoria é que
-havia de dizer...
-
-Logo pela manhã ás sete horas, sem tomar o seu café, sem fallar a
-Joanna, desceu devagar, sahiu.
-
-A tia Victoria não estava em casa. Gente na saleta esperava. O snr.
-Gouvêa, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava,
-dobrado, cuspilhando o seu catarrho. Juliana deu os _bons dias_ em
-redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua sombrinha nos joelhos.
-
-Conversava-se: e uma mulher de trinta annos, picada das bexigas, que
-estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana,
-continuou, voltada para uma gordita com um chale de quadrados vermelhos:
-
---Pois não imagina, snr.^a Anna, não faz idéa! É uma desgraça! É todas
-as noites como um carro. Ás vezes até acordo com o barulho que elle faz
-a fallar só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais medo, é que
-o demonio adormeça com a luz e haja um fogo. Ah! é de todo!
-
---Quem?--perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanario,
-que fallava de pé a um criado alto, de suiças e gravata branca
-enxovalhada.
-
---O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça!
-
---Piteireiro, hein?--disse o rapazola, enrolando o cigarro.
-
---Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar no quarto, que é um
-cheiro... A mãi, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser
-posto fóra do emprego. Ai! não estou nada contente, nada contente!
-
---Pois olhe que por lá tambem ha desgosto grande--disse, baixando a
-voz, a do chale de quadrados.
-
-Os dous homens aproximaram-se.
-
---O senhor--continuou ella com gestos aterrados--é um desafôro com a
-cunhada!... A senhora sabe, e aquillo são questões de dia e de noite!
-As duas irmãs andam n'uma bulha pegada. O homem toma as dôres da
-rapariga, a mulher põe-se aos gritos... Ai! aquillo vem a acabar mal!
-
---E então se a gente tem lá o seu descuido--disse o da gravata branca
-com indignação--é aqui d'el-rei, e d'aqui e d'alli!
-
---Lá a sua gente é socegada, snr. João--observou a picada das bexigas.
-
---É boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas,
-apanham o seu vestidito, a sua placa... Mas os velhotes é uma santa
-gente, a verdade é a verdade! E come-se bem!
-
-E voltando-se para o trintanario, batendo-lhe no hombro, com uma voz
-que o admirava e que o invejava:
-
---Mas isto sim! Isto é que é leval-a!
-
-O rapazola sorriu com satisfação:
-
---Ora! são mais as vozes do que as nozes!
-
---Vá lá, mostra lá--disse o da gravata branca tocando-lhe com o
-cotovêlo--mostra lá!
-
-O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaçando a
-blusa, tirou do bolso do collete de riscadinho um relogio d'ouro.
-
---Muito bonito! Rica prenda!--disseram as duas mulheres.
-
---Suor do meu rosto--fez elle, acariciando o queixo.
-
-O da gravata branca indignou-se:
-
---Ora seu marôto!--E baixo para as raparigas:--Suor do seu rosto,
-hein!--É o seraphim da patrôa, uma senhora da alta que aquillo são tudo
-sêdas, muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitissimo boa
-mulher, recebe d'estas lembranças, um relogio d'um par de moedas--e
-ainda falla!
-
-O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira:
-
---E se quizer agora, ha-de largar a corrente!
-
---Ha-de-lhe custar muito!--exclamou o da gravata branca.--Uma gente que
-tem ahi pela baixa correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros
-é d'ella!
-
---Mas muito agarrada!--disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o
-cigarro ao canto da bocca:--Estou com ella ha dous mezes, e ainda se
-não desabotoou senão com o relogio e tres libras em ouro!... Que eu,
-como quem diz, um dia passo-lhe o pé!--E cofiando o cabello para a
-testa:--Não faltam mulheres! e das que tem _Dom_!
-
-Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com o chale no braço; e
-vendo Juliana:
-
---Olá! por cá! Tive que dar umas voltas, estou na rua desde as seis.
-Bons dias, snr.^a Theodosia; bons dias, Anna. Viva, temos por cá o
-alfenim! Entra cá p'ra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, é
-um instante!
-
-Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão:
-
---E então, que ha de novo?
-
-Juliana pôz-se a contar longamente a _scena_ da vespera, o desmaio...
-
---Pois minha rica--disse a tia Victoria--o que está feito, está feito;
-não ha tempo a perder; é mãos á obra! Tu vaes ao Brito, ao hótel, e
-entendes-te com elle.
-
-Juliana recusou-se logo: não se atrevia, tinha medo...
-
-A tia Victoria reflectiu, coçando o ouvido; foi dentro, cochichou com o
-tio Gouvêa, e voltando, fechando a porta do quarto:
-
---Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas?
-
-Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim
-escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Victoria com
-desconfiança.
-
---Tens medo de largar os papeis, creatura?--exclamou offendida a
-velha.--Arranja-te tu, então arranja-te tu...
-
-Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!...
-
---A pessoa--disse a tia Victoria--vai ámanhã á noite fallar com o
-Brito, e pede-lhe um conto de reis!
-
-Juliana teve um deslumbramento. Um conto de reis! A tia Victoria estava
-a brincar!
-
---Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quasi não tinha mal
-nenhum, pagou uma pessoa que bate ahi o Chiado de carruagem--ainda
-hontem a vi com uma pequerrucha que tem--pagou trezentos mil reis. E em
-bellas notas. Pagou-os o janota, já se sabe, foi o janota que pagou. Se
-fosse outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um man-rôtas, cahe logo...
-
-Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, tremula:
-
---Oh tia Victoria, dava-lhe um córte de sêda.
-
---Azul! até já te digo a côr!
-
---Mas o Brito é homem muito teso, tia Victoria, se lhe tira as cartas,
-se lhe faz alguma!
-
-A tia Victoria fitou-a, com desdem:
-
---Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu mando lá algum tolo? Nem as
-cartas vão, o que vai é uma copia! Olha quem! O melro que lá ha-de ir!
-
-E depois de reflectir um momento:
-
---Tu vai-te para casa...
-
---Não, lá isso não volto...
-
---Tambem tens razão. Até vêr em que param as modas, vem cá dormir.
-Jantas cá hoje; tenho uma rica pescada...
-
---Mas não haverá perigo, tia Victoria, se o Brito vai á policia...
-
-A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada:
-
---Olha, vai-te, que me estás a emphrenesiar! Policia! Qual policia!
-Essas cousas levam-se lá á policia... Deixa a cousa commigo! Adeus--e
-ás quatro para jantar, hein!
-
-Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de reis! _Era o conto de
-reis_ que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe
-vinha agora cahir na mão, com um tlin-tlin de libras e um _frou-frou_
-de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas
-differentes, todas maravilhosas: um mostrador de capellista onda ella
-venderia! um marido ao seu lado, ás horas da cêa! pares de botinas das
-boas, das _chics_. Onde poria o dinheiro? No Banco? Não; no fundo da
-arca--para estar mais seguro, mais á mão!
-
-Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de rebuçados, e foi-se
-sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando
-já a sua vida rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um
-proprietario pacifico e rubicundo--que se afastou escandalisado!
-
-Áquella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente na cama:--É
-hoje!--foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel
-contrahiram-lhe o coração. Começou depois a vestir-se, muito nervosa
-com a idéa de vêr Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, não
-almoçar, sahir pé ante pé ás onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel,
-quando a voz de Joanna disse á porta do quarto:
-
---A senhora faz favor?
-
-Começou logo a contar, muito espantada, que a snr.^a Juliana tinha
-sahido de manhã, ainda não voltára, estava tudo por arrumar...
-
---Bem, arranje-me o almoço, eu já vou...--Que allivio para ella!
-
-Calculou logo que Juliana deixára a casa. Para que? Para lhe armar
-alguma, de certo! O melhor era sahir immediatamente... Podia esperar
-Bazilio no _Paraiso_.
-
-Foi á sala de jantar, bebeu um gole de chá, de pé, á pressa.
-
---A snr.^a Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?--veio dizer Joanna
-assombrada.
-
-Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente:
-
---Depois se saberá...
-
-Era hora e meia, foi pôr o chapéo. O coração batia-lhe alto, e
-apesar do terror de vêr entrar Juliana, não se decidia a sahir;
-sentou-se mesmo, com o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou
-emfim.--Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa de subtil e de forte
-a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar: o seu roupão
-estava cahido aos pés da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete
-felpudo...--Que desgraça! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos
-pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao album,
-tirou a photographia de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de
-marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, sahiu, atirou com a
-porta, desceu a escada correndo.
-
-Á Patriarchal passava um _coupé de praça_. Tomou-o, mandou-o ir ao
-_Hotel Central_.
-
-O snr. Brito sahira logo de manhã cedo, disse o porteiro muito
-azafamado. De certo algum paquete chegára, porque entravam bagagens,
-fortes malas cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de ferro;
-passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouço
-do mar, fallavam, chamavam. Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um
-desejo de viagens, do ruido nocturno das _gares_ á claridade do gaz, da
-agitação alegre das partidas nas manhãs frescas, sobre o tombadilho dos
-paquetes!
-
-Deu ao cocheiro a adresse do _Paraiso_. E á maneira que o trem
-trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa,
-se esbatiam, se dissipavam n'um horisonte abandonado. Á porta d'um
-livreiro julgou entrevêr Julião; debruçou-se pela portinhola,
-precipitadamente; não o avistou, teve pena: ia-se sem vêr um amigo da
-casa! Todos agora, Julião, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe
-pareciam adoraveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que
-repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastião, tão bom!
-Nunca mais lhe ouviria tocar a sua _Malaguenha_!
-
-Ao fim da rua do Ouro o _coupé_ parou n'um embaraço de carroças,
-e Luiza viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos oculos, o
-banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que «tinha uma paixão por ella»:
-um rapazito rôto offerecia-lhe cautelas; e o Castro nedio, com os dous
-pollegares nas algibeiras do collete branco, dizia graças ao rapaz, com
-um desdem ricaço, dardejando olhadellas sobre Luiza, através dos seus
-oculos d'ouro. Ella, pelo canto do olho, observava-o: tinha uma paixão
-por ella, aquelle homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre
-pançudo, a perninha curta. A lembrança de Bazilio atravessou-a, a sua
-linda figura!...--e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o vêr.
-
-O trem partiu emfim. O Rocio reluzia ao sol; do Americano, parado á
-esquina, gente descia apressada, de calças brancas, vestidos leves,
-vinda de Belem, de Pedrouços; pregões cantavam.--Todos alli ficavam nas
-suas familias, nas suas felicidades, só ella partia!
-
-Na rua Occidental, viu vir a D. Camilla--uma senhora casada com um
-velho, illustre pelos seus amantes. Parecia gravida; e adiantava-se
-devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo
-arredondado, passeando um marmanjosinho de jaqueta côr de pinhão,
-uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de
-lavradeira, empurrava um carrinho de mão onde um bébé se babava. E
-a Camilla, feliz, vinha tranquillamente pela rua expondo as suas
-fecundidades adulteras! Era muito festejada, ninguem dizia mal d'ella;
-era rica, dava _soirées_...--O que é o mundo!--pensava Luiza.
-
-O trem parou á porta do _Paraiso_, era meio dia. A portinha em cima
-estava fechada: e a patrôa appareceu logo, ciciando que «sentia
-muitissimo, mas só o senhor é que tinha a chavesinha, se a senhora
-quizesse descançar...» N'este momento outra carruagem chegou, e Bazilio
-appareceu galgando os degraus.
-
---Até que emfim!--exclamou abrindo a porta.--Porque não vieste
-hontem?...
-
---Ah! se tu soubesses...
-
-E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos n'elle:
-
---Bazilio, sabes, estou perdida!
-
---Que ha?
-
-Luiza atirára o sacco de marroquim para o canapé, e, d'um folego,
-contou-lhe a historia da carta apanhada nos papeis, as d'elle roubadas,
-a _scena_ no quarto...--O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu
-disseste que podias, tens-l'o dito muitas vezes. Estou prompta. Trouxe
-aquelle sacco, com o necessario, lenços, luvas... hein?
-
-Bazilio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as
-chaves, seguia attonito os seus gestos, as suas palavras.
-
---Isso só a ti!--exclamou.--Que douda! Que mulher!--E muito
-excitado:--Isso é lá questão de fugir? Que estás tu a fallar em fugir?
-É uma questão de dinheiro. O que ella quer é dinheiro. É vêr quanto
-quer, e pagar-se-lhe!
-
---Não, não!--fez Luiza--Não posso ficar!--Tinha uma afflicção na voz.
-A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo: a todo o tempo
-podia fallar, Jorge saber: estava perdida, não tinha coragem de voltar
-para casa!--Não sinto um momento de descanço, em quanto estiver em
-Lisboa. Partimos hoje, sim? Se não pódes, ámanhã. Eu vou para algum
-hotel, aonde ninguem saiba, escondo-me esta noite. Mas, ámanhã vamos.
-Se elle sabe, mata-me, Bazilio! Sim, dize que sim!--Agarrára-se a elle,
-procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos d'elle.
-
-Bazilio desprendeu-se brandamente:
-
---Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Póde lá pensar-se em fugir!
-Era um escandalo atroz, eramos apanhados de certo, com a policia, com
-os telegraphos! É impossivel! Fugir é bom nos romances! E depois, minha
-filha, não é um caso para isso! É uma simples questão de dinheiro...
-
-Luiza fazia-se branca, ouvindo-o.
-
---E além d'isso--continuou Bazilio, muito agitado, pelo quarto--eu
-não estou preparado, nem tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada
-para toda a vida, sem remedio, Luiza. Uma mulher que foge, deixa de
-ser a snr.^a D. Fulana, é a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma
-concubina! Eu tenho de certo de ir ao Brazil, onde has-de tu ficar?
-Queres ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te á febre amarella?
-E se teu marido nos persegue se formos detidos na fronteira? Achas
-bonito voltar entre dous policias, e ir passar um anno ao Limoeiro? O
-teu caso é simplicissimo. Entendes-te com essa creatura, dá-se-lhe um
-par de libras, que é o que ella quer, e ficas em tua casa, socegada,
-respeitada como d'antes--sómente mais acautelada! Aqui está!
-
-Aquellas palavras cahiam sobre os planos de Luiza, como machadadas que
-derrubam arvores. Ás vezes a verdade que ellas continham atravessava-a
-irresistivelmente, viva como um relampago, desagradavel como um gume
-frio. Mas via n'aquella recusa uma ingratidão, um abandono. Depois
-de se ter installado, pela imaginação, n'uma segurança feliz, longe,
-em Paris--parecia-lhe intoleravel ter de voltar para casa, de cabeça
-baixa, soffrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que
-entrevira n'aquelle outro destino, agora que lhe fugiam d'entre as
-mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis! E depois de que
-servia resgatar a carta a dinheiro? A creatura saberia o seu segredo!
-E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquelle perigo a
-rondar!
-
-Ficára calada, como perdida n'uma reflexão vaga; e de repente erguendo
-a cabeça, com um olhar brilhante:
-
---Então, dize!...
-
---Mas estou-te a dizer, filha...
-
---Não queres?
-
---Não!--exclamou Bazilio com força.--Se tu estás douda, não estou eu!
-
---Oh! pobre de mim, pobre de mim!
-
-Deixou-se cahir no sophá, tapou o rosto com as mãos. Soluços baixos
-sacudiam-lhe o peito.
-
-Bazilio sentou-se ao pé d'ella. Aquellas lagrimas mortificavam-no, e
-impacientavam-no.
-
---Mas, santo nome de Deus, escuta-me!
-
-Ella voltou para elle os olhos que reluziam sob o pranto:
-
---Para que dizias então, tantas vezes, que seriamos tão felizes, que se
-eu quizesse...
-
-Bazilio ergueu-se bruscamente:
-
---Pois tu pensaste em fugir, em te metter commigo n'um wagon, vir para
-Paris, viver commigo, ser a minha amante?
-
---Sahi de casa p'ra sempre, ahi está o que eu fiz!
-
---Mas vaes voltar p'ra casa!--exclamou elle, quasi com colera.--Por que
-havias de tu fugir? por amor? então deviamos ter partido ha um mez, não
-ha razão agora para irmos. Para que, então? Para evitar um escandalo?
-com um escandalo maior, não é verdade? um escandalo irreparavel,
-medonho! Estou-te a fallar como um amigo, Luiza!--Tomou-lhe as mãos,
-com muita ternura:--Tu imaginas que eu não seria feliz em ir viver
-comtigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiencia. O
-escandalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu imaginas que a
-mulher vai-se pôr a fallar? O seu interesse é safar-se, desapparecer;
-sabe perfeitamente o que fez, que te roubou, que usou de chaves falsas.
-A questão é pagar-lhe.
-
-Ella disse, com uma voz lenta:
-
---E o dinheiro, onde o tenho eu?
-
---Está claro que o dinheiro tenho-o eu!--E depois de uma pausa:--Não
-muito, estou mesmo um pouco atrapalhado, mas emfim...--Hesitou,
-disse:--se a creatura quizer duzentos mil reis, dão-se-lhe!
-
---E se não quizer?
-
---Que ha-de ella querer, então? Se roubou a carta é para a vender! Não
-é para guardar um autographo teu!
-
-Vinham-lhe palavras duras, passeava pelo quarto exasperado. Que
-pretensão querer vir com elle para Paris, embaraçar-lhe para sempre
-a sua vida! E que despeza tão tola, dar um 'rôr de libras a uma
-ladra! Depois aquelle incidente, a carta de namoro roubada nos papeis
-sujos, a criada, a chave falsa do gavetão dos vestidos--parecia-lhe
-soberanamente burguez, um pouco pulha. E parando, para acabar:
-
---Emfim oferece-lhe trezentos mil reis, se quizeres. Mas pelo amor
-de Deus, não faças outra; não estou para pagar as tuas distracções a
-trezentos mil reis cada uma!
-
-Luiza fez-se livida, como se elle lhe tivesse cuspido no rosto.
-
---Se é uma questão de dinheiro, eu o pagarei, Bazilio!
-
-Não sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia...
-Não o aceitaria d'elle!
-
-Bazilio encolheu os hombros:
-
---Estás-te a dar ares, onde o tens tu?
-
---Que te importa?--exclamou.
-
-Bazilio coçou a cabeça, desesperado. E tomando-lhe as mãos, com uma
-impaciencia reprimida:
-
---Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... Tu não tens
-dinheiro.
-
-Ella interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o braço:
-
---Pois sim, mas falla tu a essa mulher, falla-lhe tu, arranja tudo. Eu
-não a quero tornar a vêr. Se a vejo, morro, acredita. Falla-lhe tu!
-
-Bazilio recuou vivamente, e batendo com o pé:
-
---Estás douda, mulher! Se eu lhe fallo, então pede tudo, então pede-me
-a pelle! Isso é comtigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te!
-
---Nem isso me fazes?
-
-Bazilio não se conteve:
-
---Não! c'os diabos, não!
-
---Adeus!
-
---Tu estás fóra de ti, Luiza!
-
---Não. A culpa é minha--dizia, descendo o véo com as mãos tremulas--eu
-é que devo arranjar tudo!
-
-E abriu a porta. Bazilio correu a ella, prendeu-a por um braço.
-
---Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? não podemos romper assim!
-Escuta...
-
---Fujamos então, salva-me de todo!--gritou ella, abraçando-o
-anciosamente.
-
---Caramba! Se te estou a dizer que não é possivel!
-
-Ella atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O coupé esperava-a.
-
---Para o Rocio--disse.
-
-E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar
-convulsivamente.
-
-
-Bazilio sahiu do _Paraiso_ muito agitado. As pretensões de Luiza, os
-seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no
-tanto, que tinha quasi vontade de não voltar ao _Paraiso_, calar-se, e
-_deixar correr o marfim_! Mas tinha pena d'ella, coitada! E depois, sem
-a amar appetecia-a: era tão bem feita, tão amorosa, as revelações do
-vicio davam-lhe um delirio tão adoravel! Um conchegosinho tão picante
-em quanto estivesse em Lisboa... Maldita complicação! Ao entrar no
-hotel, disse ao seu criado:
-
---Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que vá ao meu quarto.
-
-Estava alojado no segundo andar, com janellas para o rio. Bebeu um
-calix de cognac, e estirou-se no sophá. Ao pé, na jardineira, tinha o
-seu _buvard_ com um largo monogramma em prata sob a corôa de conde,
-caixas de charutos, os seus livros--_Mademoiselle Giraud ma femme_,
-_La vierge de Mabille_, _Ces Frippones! Memoires secrètes d'une femme
-de chambre_, _Le chien d'arrêt_, _Manuel du chasseur_, numeros do
-_Figaro_, a photographia de Luiza, e a photographia d'um cavallo.
-
-E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a
-«situação»! Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris, com
-aquelle trambolhosinho! Trazer uma pessoa, havia sete annos, a sua
-vida tão arranjadinha, e patatrás! embrulhar tudo, porque á menina
-lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro!
-No fim, toda aquella aventura desde o começo fôra um erro! Tinha sido
-uma idéa de burguez inflammado ir desinquietar a prima da Patriarchal.
-Viera a Lisboa para os seus negocios, era tratal-os, aturar o calor
-e o _b[oe]uf à la mode_ do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar
-a patria ao inferno!... Mas não idiota! Os seus negocios tinham-se
-concluido,--e elle, burro, ficára alli a torrar em Lisboa, a gastar uma
-fortuna em tipoias para o largo de Santa Barbara, para quê? Para uma
-d'aquellas! Antes ter trazido a Alphonsine!
-
-Que, verdade, verdade, em quanto estivesse em Lisboa o romance era
-agradavel, muito excitante; porque era muito completo! Havia o
-adulteriosinho, o incestosinho. Mas aquelle episodio agora estragava
-tudo! Não, realmente, o mais razoavel era safar-se!
-
-A sua fortuna tinha sido feita com negocio de borracha, no alto
-Paraguay; a grandeza da especulação trouxera a formação d'uma
-companhia, com capitaes brazileiros; mas Bazilio e alguns engenheiros
-francezes queriam resgatar as acções brazileiras, «que eram um
-_empecilho_», formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negocio
-um movimento mais ousado. Bazilio partira para Lisboa entender-se com
-alguns brazileiros, e comprára as acções habilmente. A prolongação
-d'aquelle incidente amoroso tornava-se uma perturbação na sua vida
-pratica... E, agora que a aventura tomava um aspecto seccante, convinha
-passar o pé!
-
-A porta abriu-se e o visconde Reynaldo entrou--afogueado, de lunetas
-azues, furioso.
-
-Vinha de Bemfica! Morto, absolutamente morto com aquelle calor, d'um
-paiz de negros. Tivera a estupida idéa de ir visitar uma tia--que o
-fizera logo membro d'uma associação para não sei que diabo de que
-creche, e que lhe prégára moral! Tambem que idéa de collegial--ir
-visitar a tia! Porque realmente, se havia uma cousa que lhe causasse
-repugnancia, eram as ternuras de familia!
-
---E tu, que queres tu? Eu vou-me metter n'um banho até ao jantar!
-
---Sabes o que me succede?--disse Bazilio, erguendo-se.
-
---O quê?
-
---Imagina. O caso mais estupido.
-
---O marido apanhou-te?
-
---Não, a criada!
-
---_Shocking!_--exclamou Reynaldo com nôjo.
-
-Bazilio contou miudamente «o caso». E cruzando os braços diante d'elle:
-
---E agora?
-
---Agora é safar-te!
-
-E levantou-se.
-
---Onde vaes tu?
-
---Vou ao banho.
-
-Que esperasse, que diabo, queria fallar com elle...
-
---Não posso!--exclamou Reynaldo com um egoismo phrenetico.--Vem tu cá
-abaixo! Posso perfeitamente conversar na agua!
-
-Sahiu, berrando por William, o seu criado inglez.
-
-Quando Bazilio desceu aos banhos, Reynaldo estirado com voluptuosidade
-na tina, d'onde sahia um forte cheiro d'agua de Lubin, exclamou,
-deleitando-se no seu conforto:
-
---Então cartinha apanhada nos papeis sujos!
-
---Não, Reynaldo, mas francamente estou embaraçado; que achas tu que eu
-faça?
-
---As malas, menino!
-
-E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro:
-
---Ahi está o que é fazer amor ás primas da Patriarchal Queimada!
-
---Oh!--fez Bazilio, impaciente.
-
---Oh quê?--E, coberto de flocos d'espuma, com as mãos apoiadas ao
-rebordo de marmore da tina:--Pois tu achas isso decente, uma mulher
-que toma a cozinheira por confidente, que lhe está na mão, que perde a
-carta nos papeis sujos, que chora, que pede duzentos mil reis, que se
-quer safar--isso é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu
-mesmo disseste, usa meias de tear!
-
---Meu rico, é uma mulher deliciosa!
-
-O outro encolheu os hombros, descrente.
-
-Bazilio deu logo provas: descreveu bellezas do corpo de Luiza; citou
-episodios lascivos.
-
-O tecto e os tabiques envernizados de branco reflectiam a luz, com tons
-macios de leite; a exhalação da agua tepida augmentava o calor morno; e
-um cheiro fresco de sabão e agua de Lubin adoçava o ar.
-
---Bem! estás pelo beiço--resumiu Reynaldo com tedio, estirando-se.
-
-Bazilio teve um movimento d'hombros, que repellia aquella supposição
-grotesca.
-
---Mas dize, então, queres ficar-lhe agarrado ás saias ou queres
-desembaraçar-te d'ella? Mas a verdade, venha a verdade!
-
---Eu--disse logo Bazilio, chegando-se á tina, baixo--se me podesse
-desembaraçar decentemente...
-
---Oh desgraçado! tens uma occasião divina! Ella sahiu como uma bicha,
-dizes tu. Bem; escreve-lhe uma carta, «que vendo que ella deseja
-romper, não a queres importunar, e partes». Os teus negocios estão
-concluidos, não é verdade? Escusas de negar, o Lapierre disse-me que
-sim. Bem, então sê decente: manda fazer as malas, e livra-te da sarna!
-
-E tomando a esponja, deixava cahir grandes golpes d'agua pela cabeça,
-pelos hombros, soprando, regalado na frescura aromatica.
-
---Mas tambem--disse Bazilio--deixal-a agora n'aquella atrapalhação com
-a criada! No fim é minha prima...
-
-Reynaldo agitou os braços, com hilaridade.
-
---Esse espirito de familia é optimo! Vai lá, idiota, dize-lhe que és
-obrigado a partir, os teus negocios, etc., e mette-lhe umas poucas de
-notas na mão.
-
---É brutal...
-
---É caro!
-
-Bazilio disse então:
-
---Olha que tambem é uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela
-criada...
-
-Reynaldo estirou-se mais, e disse com jubilo:
-
---Estão a estas horas a esgadanharem-se uma á outra!
-
-Recostou-se, n'uma beatitude: quiz saber as horas; declarou que estava
-confortavel, que se sentia feliz! Com tanto que o John se não tivesse
-esquecido de _frapper_ o champagne!
-
-Bazilio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luiza de reps verde,
-a figura horrivel de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com
-effeito a ralhar, a descompôr-se? Que _pulhice_ que era tudo aquillo!
-Positivamente devia partir.
-
---Mas que pretexto lhe hei-de eu dar para sahir de Lisboa?
-
---Um telegramma! Não ha nada como um telegramma! Telegrapha já ao teu
-homem em Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que é, que te
-mande logo este despacho: «Parta, negocios maus, etc.» É o melhor!
-
---Vou fazel-o--disse Bazilio erguendo-se, muito decidido.
-
---E partimos ámanhã?--gritou Reynaldo.
-
---Ámanhã.
-
---Por Madrid?
-
---Por Madrid.
-
---_Salero!_--Pôz-se de pé, na tina, enthusiasmado, a escorrer, e
-com movimentos aduncos de magricella saltou para fóra, embrulhou-se
-no roupão turco. O seu criado William entrou logo, subtilmente,
-ajoelhou-se, tomou-lhe um pé entre as mãos, seccou-lh'o com precauções,
-pôz-se respeitosamente a calçar-lhe a meia de sêda preta com
-ferradurinhas bordadas.
-
-
-Na manhã seguinte, um pouco antes do meio dia, Joanna veio bater
-discretamente á porta do quarto de Luiza, e com a voz baixa--desde o
-desmaio fallava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente:
-
---Está alli o primo da senhora.
-
-Luiza ficou surprehendida. Estava ainda de _robe de chambre_, e tinha
-os olhos vermelhos de chorar; pôz n'um instante um pouco de pó d'arroz,
-alisou o cabello, entrou na sala.
-
-Bazilio, vestido de claro, sentára-se melancolicamente no môcho do
-piano. Trazia um ar grave, e, sem transição, começou a dizer:--que
-apesar d'ella se ter zangado na vespera, elle considerava ainda tudo
-«como d'antes». Viera porque n'aquelle momento não se podiam separar
-sem algumas explicações, sobretudo sem resolver definitivamente o caso
-da carta... E com um gesto triste, como contendo lagrimas:
-
---Porque eu vejo-me forçado a sahir de Lisboa, minha querida!
-
-Luiza, sem olhar para elle, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso.
-Bazilio acrescentou logo:
-
---Por pouco tempo, naturalmente, tres semanas ou um mez... Mas enfim
-tenho de partir... Se fossem só os meus interesses!--Encolheu os
-hombros com desdem.--Mas são interesses d'outros... E aqui está o que
-eu recebi esta manhã.
-
-Estendeu-lhe um telegramma. Ella conservou-o um momento, sem o abrir; a
-sua mão fazia tremer o papel.
-
---Lê, peço-te que leias!
-
---Para que?--fez ella.
-
-Mas leu baixo: «Venha, graves complicações. Presença absolutamente
-necessaria. Parta já.»
-
-Dobrou o papel, entregou-lh'o.
-
---E partes, hein?
-
---É forçoso.
-
---Quando?
-
---Esta noite.
-
-Luiza ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mão:
-
---Bem, adeus.
-
-Bazilio murmurou:
-
---És cruel, Luiza!... Não importa! Em todo o caso ha um negocio que é
-necessario terminar. Fallaste á mulher?
-
---Está tudo arranjado--respondeu ella, franzindo a testa.
-
-Bazilio tomou-lhe a mão, e quasi com solemnidade:
-
---Minha filha, eu sei que és muito orgulhosa, mas peço-te que digas a
-verdade. Eu não te quero deixar em difficuldades. Fallaste-lhe?
-
-Ella retirou a mão, e com uma impaciencia crescente:
-
---Arranjou-se tudo, arranjou-se tudo!...
-
-Bazilio parecia muito embaraçado, estava mesmo um pouco pallido: emfim,
-tirando uma carteira da algibeira, começou:
-
---Em todo o caso é possivel, é natural (nós não sabemos com quem
-lidamos), é natural que haja outras exigencias...--Abriu a carteira,
-tomou um sobrescripto pequenino e cheio.
-
-Luiza seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Bazilio.
-
---Por isso, para te poderes entender melhor com ella, sempre me parece
-bom deixar-te algum dinheiro.
-
---Tu estás doudo?--exclamou ella.
-
---Mas...
-
---Tu queres-me dar dinheiro?--A sua voz tremia.
-
---Mas emfim...
-
---Adeus!--E ia sahir da sala, indignada.
-
---Luiza, pelo amor de Deus! Tu não me comprehendeste...
-
-Ella parou, disse precipitadamente, como impaciente por acabar:
-
---Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas não, não é necessario. Estou
-nervosa, é o que é... Não prolonguemos mais isto... Adeus...
-
---Mas sabes que volto, dentro de tres semanas...
-
---Bem, então nos veremos...
-
-Elle attrahiu-a, deu-lhe um beijo na bocca, encontrou os seus labios
-passivos e inertes.
-
-Aquella frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito;
-disse-lhe baixo, pondo muita paixão na voz:
-
---Nem um beijo me queres dar?
-
-Nos olhos de Luiza passou um ligeiro clarão; beijou-o rapidamente, e
-recuando:
-
---Adeus.
-
-Bazilio esteve um momento a olhal-a, teve como um leve suspiro:
-
---Adeus!--E da porta, voltando-se, com melancolia:--Escreve-me ao
-menos. Sabes a minha morada. Rue Saint Florentin, 22.
-
-Luiza chegou-se á janella. Viu-o accender o charuto na rua, fallar ao
-cocheiro, saltar para o coupé, fechar com força a portinhola, sem um
-olhar para as janellas!
-
-O trem rolou. Era o n.^o 10... Nunca mais o veria! Tinham palpitado
-no mesmo amor, tinham commettido a mesma culpa.--Elle partia alegre,
-levando as recordações romanescas da aventura: ella ficava, nas
-amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo!
-
-Veio-lhe um sentimento pungente de solidão e de abandono. Estava só, e
-a vida apparecia-lhe como uma vasta planicie desconhecida, coberta da
-densa noite, erriçada de perigos!
-
-Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cahir no sophá: viu ao pé o
-sacco de marroquim, que preparára na vespera para fugir: abriu-o,
-pôz-se a tirar lentamente os lenços, uma camisinha bordada,--encontrou
-a photographia de Jorge! Ficou com ella na mão, contemplando o seu
-olhar leal, o seu sorriso bom.--Não, não estava no mundo só! Tinha-o
-a elle! Amava-a aquelle, nunca a trahiria, nunca a abandonaria!--E
-collando os beiços ao retrato, humedecendo-o de beijos convulsivos,
-atirou-se de bruços, lavada em lagrimas, dizendo:--Perdôa-me, Jorge,
-meu Jorge, meu querido Jorge, Jorge da minha alma!
-
-
-Depois de jantar Joanna veio dizer-lhe timidamente:
-
---A senhora não lhe parece que seria bom ir saber da snr.^a Juliana?
-
---Mas onde quer vossê ir saber?--perguntou Luiza.
-
---Ella ás vezes vai a casa d'uma amiga, uma inculcadeira, para os
-lados do Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas tambem
-não mandar recado desde hontem pela manhã... Cousa assim! Eu podia ir
-saber...
-
---Pois bem, vá, vá.
-
-Aquella desapparição brusca inquietava tambem Luiza. Onde estava,
-que fazia? Parecia-lhe que alguma cousa se tramava em segredo,
-longe d'ella, que viria de repente estalar-lhe sobre a cabeça,
-terrivelmente...
-
-Anoiteceu. Accendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim só
-em casa: e, passeando pelo quarto, pensava que áquella hora Bazilio
-em Santa Apolonia comprava alegremente o seu bilhete, installava-se
-no wagon, accendia o charuto, e d'ahi a pouco, a machina arquejando
-leval-o-hia para sempre! Porque não acreditava «na demora de tres
-semanas, um mez»! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar
-sentia que alguma cousa dentro em si se partia com aquella separação, e
-sangrava dolorosamente!
-
-Eram quasi nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou
-que seria Joanna de volta, foi abrir com um castiçal,--e recuou vendo
-Juliana, amarella, muita alterada.
-
---A senhora faz favor de me dar uma palavra?
-
-Entrou no quarto atraz de Luiza, e immediatamente rompeu, gritando,
-furiosa:
-
---Então a senhora imagina que isto ha-de ficar assim? A senhora imagina
-que por seu amante se safar, isto ha-de ficar assim?
-
---Que é, mulher?--fez Luiza, petrificada.
-
---Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto ha-de ficar
-em nada?--berrou.
-
---Oh mulher, pelo amor de Deus!...
-
-A sua voz tinha tanta angustia que Juliana calou-se.
-
-Mas depois de um momento, mais baixo:
-
---A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma cousa
-era! Queria pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou cançada
-de trabalhar, e quero o meu descanço. Não ia fazer escandalo, o que
-desejava é que elle me ajudasse... Mandei ao hótel esta tarde... O
-primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivaes,
-para o inferno! E o criado ia á noite com as malas. Mas a senhora
-pensa que me logram?--E retomada pela sua colera, batendo com o punho
-furiosamente na mesa:--Raios me partam, se não houver uma desgraça
-n'esta casa, que ha-de ser fallada em Portugal!
-
---Quanto quer vossê pelas cartas, sua ladra?--disse Luiza, erguendo-se
-direita, diante d'ella.
-
-Juliana ficou um momento interdicta.
-
---A senhora ou me dá seiscentos mil reis, ou eu não largo os
-papeis!--respondeu, empertigando-se.
-
---Seiscentos mil reis! Onde quer vossê que eu vá buscar seiscentos mil
-reis?
-
---Ao inferno!--gritou Juliana.--Ou me dá seiscentos mil reis, ou tão
-certo como eu estar aqui, o seu marido ha-de lêr as cartas!
-
-Luiza deixou-se cahir n'uma cadeira, aniquilada.
-
---Que fiz eu para isto, meu Deus, que fiz para isto?
-
-Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente.
-
---A senhora diz bem, sou uma ladra, é verdade, apanhei a carta no
-cisco, tirei as outras do gavetão. É verdade! E foi para isto, para
-m'as pagarem!--E traçando, destraçando o chale, n'uma excitação
-phrenetica:--Não que a minha vez havia de chegar! Tenho soffrido muito,
-estou farta! Vá buscar o dinheiro onde quizer. Nem cinco reis de menos!
-Tenho passado annos e annos a ralar-me! P'ra ganhar meia moeda por mez,
-estafo-me a trabalhar, de madrugada até á noite, em quanto a senhora
-está de panria! É que eu levanto-me ás seis horas da manhã--e é logo
-engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora está muito regalada em
-valle de lençoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez que me ergo
-com o dia, p'ra metter em gomma, passar, engommar! A senhora suja,
-suja, quer ir vêr quem lhe parece, apparecer-lhe com tafularias por
-baixo, e cá está a negra, com a pontada no coração, a matar-se, com o
-ferro na mão! E a senhora, são passeios, tipoias, boas sêdas, tudo o
-que lhe appetece--e a negra? A negra a esfalfar-se!
-
-Luiza, quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob aquella colera
-como um passaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma
-violencia da sua voz. E as lembranças das fadigas, das humilhações,
-vinham atear-lhe a raiva, como achas n'uma fogueira.
-
---Pois que lhe parece?--exclamava.--Não que eu cômo os restos e a
-senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma
-gota de vinho, quem m'o dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao
-meu quarto? É uma enxovia! A persevejada é tanta que tenho de dormir
-quasi vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de
-desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada!
-A criada é o animal. Trabalha se pódes, senão rua, para o hospital.
-Mas chegou-me a minha vez--e dava palmadas no peito, fulgurante de
-vingança.--Quem manda agora, sou eu!
-
-Luiza soluçava baixo.
-
---A senhora chora! tambem eu tenho chorado muita lagrima! Ai! eu não
-lhe quero mal, minha senhora, certamente que não! Que se divirta, que
-goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. O que eu quero é o meu
-dinheiro aqui escarrado, ou o papel ha-de ser fallado! Ainda este tecto
-me rache, se eu não fôr mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos,
-á visinhança toda, que ha-de andar arrastada pelas ruas da amargura!
-
-Calou-se, exhausta; e com a voz entrecortada de cansaços:
-
---Mas dê-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui
-tem os papeis, e o que lá vai, lá vai, e até lhe levo outras. Mas o
-meu dinheiro p'ra aqui! E tambem lhe digo, que morta seja eu n'este
-instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta bocca
-se torna a abrir!--E deu uma palmada na bocca.
-
-Luiza erguera-se devagar, muito branca:
-
---Pois bem--disse, quasi n'um murmurio--eu lhe arranjarei o dinheiro.
-Espere uns dias.
-
-Fez-se um silencio--que depois do ruido parecia muito profundo, e tudo
-no quarto como que se tornára mais immovel. Apenas o relogio batia o
-seu _tic-tac_, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma
-luz avermelhada, e direita.
-
-Juliana tomou a sombrinha, traçou o chale, e depois de fitar Luiza um
-momento:
-
---Bem, minha senhora--disse, muito secca.
-
-Voltou as costas, sahiu.
-
-Luiza sentiu-a bater a cancella com força.
-
---Que expiação, Santo Deus!--exclamou, cahindo n'uma cadeira, banhada
-de novo em lagrimas.
-
-Eram quasi dez horas quando Joanna voltou.
-
---Não pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira ninguem sabe
-d'ella.
-
---Bem, traga a lamparina.
-
-E Joanna ao despir-se no seu quarto, rosnava comsigo:
-
---A mulher tem arranjo, está mettida por ahi com algum sucio!
-
-
-Que noite para Luiza! A cada momento acordava n'um sobresalto, abria
-os olhos na penumbra do quarto, e cahia-lhe logo na alma, como uma
-punhalada, aquelle cuidado pungente: Que havia de fazer? Como havia
-d'arranjar dinheiro? Seiscentos mil reis! As suas joias valiam talvez
-duzentos mil reis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas
-era o mesmo!
-
-A noite estava quente, e na sua inquietação a roupa escorregára, apenas
-lhe restava o lençol sobre o corpo. Ás vezes a fadiga readormecia-a
-d'um somno superficial, cortado de sonhos muitos vivos. Via montões
-de libras reluzirem vagamente, maços de notas agitarem-se brandamente
-no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras começavam a
-rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um chão liso, e as notas
-desappareciam, voando muito leves com um fremito de azas ironicas. Ou
-então era alguem que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e
-começava a tirar do chapéo, a deixar-lhe cahir no regaço libras, moedas
-de cinco mil reis, peças, muitas, muitas, profusamente: não conhecia o
-homem: tinha um chinó vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que
-lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar
-por Juliana, a correr atraz d'ella, por um corredor que não findava, e
-que começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que era como uma fenda
-por onde ella se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando
-sempre contra si o montão de libras que lhe punha frialdades de metal
-sobre a pelle núa do peito. Acordava assustada: e o contraste da sua
-miseria real com aquellas riquezas do sonho era como um acrescimo de
-amargura. Quem lhe poderia valer?--Sebastião! Sebastião era rico, era
-bom. Mas mandal-o chamar, e dizer-lhe ella, ella Luiza, mulher de
-Jorge:--Empreste-me seiscentos mil reis.--Para quê, minha senhora?
-E podia lá responder: para resgatar umas cartas que escrevi ao meu
-amante. Era lá possivel! Não, estava perdida. Restava-lhe ir para um
-convento.
-
-A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto:
-atirou a touca, os seus longos cabellos soltaram-se, prendeu-os ao
-acaso com um gancho; e de costas, com a cabeça sobre os braços nús,
-pensava amargamente no romance de todo aquelle verão,--a chegada de
-Bazilio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao _Paraiso_...
-
-Onde iria elle, aquelle infame? Dormindo tranquillamente nas almofadas
-do wagon!
-
-E ella alli, na agonia!
-
-Atirou o lençol, abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura
-da roupa, adormeceu quando a madrugada rompia.
-
-Acordou tarde, succumbida. Mas logo na sala de jantar a belleza da
-manhã gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela
-janella aberta; os canarios faziam um concerto; da forja ao pé sahia um
-martellar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas.--Aquella
-alegria das cousas deu-lhe como uma coragem inesperada. Não se havia de
-abandonar a uma desesperança inerte... Que diabo! Devia luctar!
-
-Vieram-lhe esperanças, então. Sebastião era bom, Leopoldina tinha
-expedientes, havia outras possibilidades, o acaso mesmo: e tudo isto
-podia, em definitiva, formar seiscentos mil reis, salval-a! Juliana
-desappareceria, Jorge voltaria!--E, alvoraçada, via perspectivas de
-felicidades possiveis reluzirem, no futuro, deliciosamente.
-
-Ao meio dia veio o criadito de Sebastião: o senhor tinha chegado
-d'Almada, desejava saber como a senhora estava.
-
-Correu ella mesma á porta; que pedia ao snr. Sebastião, que viesse logo
-que podesse!
-
-Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastião... No fim era o
-que lhe restava: contar ella tudo a Sebastião, ou que a outra contasse
-tudo a seu marido. Impossivel hesitar! E depois podia attenuar, dizer
-que fôra só uma correspondencia platonica... A partida de Bazilio,
-além d'isso, fazia d'aquelle erro um facto passado, quasi antigo... E
-Sebastião era tão amigo d'ella!
-
-Veio, era uma hora. Luiza que estava no quarto sentiu-o entrar, e só
-o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez,
-quasi um terror. Parecia-lhe agora muito difficil, terrivel de dizer...
-Preparára phrases, explicações, uma historia de galanteio, de cartas
-trocadas; e estava com a mão no fecho da porta, a tremer. Tinha medo
-d'elle! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciencia lhe
-désse mau humor, entrou.
-
-Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno: nunca o seu olhar lhe parecera
-tão recto, e a sua barba tão séria!
-
---Então que é? precisa alguma cousa?--perguntou-lhe elle depois das
-primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo.
-
-Luiza teve uma cobardia indominavel, respondeu logo:
-
---É por causa de Jorge!
-
---Aposto que não lhe tem escripto?
-
---Não.
-
---Esteve muito tempo sem me escrever tambem.--E rindo:--Mas hoje recebi
-duas cartas por atacado.
-
-Procurou-as entre outros papeis que tirou da algibeira. Luiza fôra
-sentar-se no sophá; olhava-o com o coração aos pulos, e as suas unhas
-impacientes raspavam devagarinho o estôfo.
-
---É verdade--dizia Sebastião, revolvendo o maço de papeis.--Recebi
-duas, falla em voltar, diz que está muito seccado...--E estendendo uma
-carta a Luiza:--Póde vêr.
-
-Luiza desdobrára-a, e começava a lêr; mas Sebastião, estendendo a mão
-precipitadamente:
-
---Perdão, não é essa!
-
---Não, deixe vêr...
-
---Não diz nada, são negocios...
-
---Não, quero vêr!
-
-Sebastião, sentado á beira da cadeira, coçava a barba, olhando-a, muito
-contrariado. E Luiza de repente, franzindo a testa:
-
---O quê?--A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpreza
-irritada.--Realmente!...
-
---São tolices, são tolices!--murmurava Sebastião, muito vermelho.
-
-Luiza pôz-se então a lêr alto, devagar:
-
-«Saberás, amigo Sebastião, que fiz aqui uma conquista. Não é o que se
-póde chamar uma princeza, porque é nem mais nem menos que a mulher
-do estanqueiro. Parece estar abrazada no mais impuro fogo, por este
-seu criado. Deus me perdôe, mas desconfio até que me leva apenas um
-vintem pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno
-Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!»--Que
-graça!--murmurou Luiza, furiosa.--«Receio muito que se repita commigo
-o caso biblico da mulher de Putiphar. Acredita que ha um certo merito
-em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como é, é lindissima. E
-tenho medo que succeda algum fracasso á minha pobre virtude...»
-
-Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastião com um olhar terrivel.
-
---São brincadeiras!--balbuciou elle.
-
-Ella seguiu, lendo: «Olha se a Luiza soubesse d'esta aventura! De
-resto, o meu successo não pára aqui: a mulher do delegado faz-me um
-olho dos diabos! É de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece que mora
-para Belem, conheces? e dá-se ares de morrer de tedio, na tristeza
-provinciana da localidade. Deu uma _soirée_ em minha honra, e em minha
-honra, creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo»--Luiza fez-se
-escarlate--«e uma queda do diabo...»
-
---Está doudo!--exclamou ella.--«E aqui tens o teu amigo feito um D.
-Juan do Alemtejo, e deixando um rasto de chammas sentimentaes por essa
-provincia fóra! O Pimentel recommenda-se...»
-
-Luiza ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando
-a carta a Sebastião:
-
---Muito bem, diverte-se!--disse com uma voz sibilante.
-
---São lá cousas que se tomem a serio! Não deve tomar a serio...
-
---Eu!--exclamou ella.--Acho muito natural até!
-
-Sentou-se, começou, com volubilidade, a fallar d'outras cousas, de D.
-Felicidade, de Julião...
-
---Trabalha muito agora para o concurso--disse Sebastião.--Quem não
-tenho visto é o Conselheiro.
-
---Mas, quem é essa gente Gamacho, de Belem?
-
-Sebastião encolheu os hombros--e com um ar quasi reprehensivo:
-
---Ora realmente tomou a serio...
-
-Luiza interrompeu-o:
-
---Ah! sabe? Meu primo Bazilio partiu.
-
-Sebastião teve um alvoroço d'alegria.
-
---Sim?
-
---Foi para Paris, não creio que volte.--E depois d'uma pausa, parecendo
-ter esquecido Jorge, e a carta:--Só em Paris está bem... Estava no
-ar p'ra partir.--Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do
-vestido:--Precisava casar, aquelle rapaz.
-
---P'ra assentar--disse Sebastião.
-
-Mas Luiza não acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de
-cavallos, d'aventuras, podesse dar um bom marido.
-
-Sebastião era d'opinião que ás vezes socegavam, e eram homens de
-familia...
-
---Teem mais experiencia--disse.
-
---Mas um fundo leviano--observou ella.
-
-E depois d'estas palavras vagas calaram-se com embaraço.
-
---Eu a fallar a verdade--disse então Luiza--estimei que meu primo
-partisse... Como tinha havido essas tolices na visinhança...
-Ultimamente mesmo quasi que o não vi. Esteve ahi hontem, veio
-despedir-se, fiquei surprehendida...
-
-Estava tornando impossivel a historia d'um galanteio platonico, cartas
-trocadas--mas um sentimento mais forte que ella impellia-a a attenuar,
-distanciar as suas relações com Bazilio. Acrescentou mesmo:
-
---Eu sou amiga d'elle, mas somos muito differentes... Bazilio é
-egoista, pouco affeiçoado... De resto a nossa intimidade nunca foi
-grande...
-
-Calou-se bruscamente, sentiu que «se enterrava».
-
-Sebastião lembráva-se ouvir-lhe dizer «que tinham sido creados ambos de
-pequenos»; mas emfim aquella maneira de fallar do primo, parecia-lhe
-a prova maior de que «não houvera nada». Quasi se queria mal pelas
-duvidas, que tivera, tão injustas!...
-
---E volta?--perguntou.
-
---Não me disse, mas não creio. Em se pilhando em Paris!
-
-E com a idéa da carta, de repente:
-
---Então o Sebastião é confidente de Jorge?
-
-Elle riu:
-
---Oh minha senhora! pois acredita...
-
---E a mim quando me escreve, que se aborrece, que está só, que não
-supporta o Alemtejo...--Mas vendo Sebastião olhar o relogio:--O que,
-já? É cedo.
-
-Tinha d'estar na baixa antes das tres, disse elle.
-
-Luiza quiz retel-o. Não sabia para quê--porque a cada momento sentia
-a sua resolução diminuir, desapparecer como a agua d'um rio que se
-absorve no seu leito. Pôz-se a fallar-lhe das obras d'Almada.
-
-Sebastião começára-as pensando que duzentos ou trezentos mil reis
-fariam as restaurações necessarias: mas depois umas cousas tinham
-trazido outras--e, dizia, está-se-me tornando um sorvedouro!
-
-Luiza riu, forçadamente.
-
---Ora, quando se é proprietario e rico!...
-
---Isso sim! Parece que não é nada: mas uma pintura n'uma porta, uma
-janella nova, uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e
-lá se vão oitocentos mil reis... Emfim!...
-
-Levantou-se, e despedindo-se:
-
---Eu espero que aquelle vadio se não demore muito...
-
---Se a estanqueira der licença...
-
-Ficou a passear na sala, nervosa, com aquella idéa. Deixar-se namorar
-pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!... De certo,
-tinha confiança n'elle, mas os homens!... De repente representou-se-lhe
-a estanqueira prendendo-o nos braços detraz do balcão, ou Jorge
-beijando, n'alguma entrevista, de noite, o collo bonito da mulher
-do delegado!... E tumultuosamente appareceram-lhe todas as razões
-que provavam irrecusavelmente a traição de Jorge: estava ha dous
-mezes fóra! sentia-se cançado da sua viuvez! encontrava uma mulher
-bonita! tomava aquillo como um prazer passageiro, sem importancia!...
-Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e offendida, «que
-viesse immediatamente, ou que partia ella!»--Entrou no quarto, muito
-excitada. A photographia de Jorge, que ella tirára na vespera do sacco
-de marroquim, ficára no toucador. Pôz-se a olhal-a: não admirava que o
-namorassem, era bonito, era amavel... Veio-lhe uma onda de ciume, que
-lhe obscureceu o olhar: se elle a enganasse, se tivesse a certeza da
-«mais pequena cousa»--separava-se, recolhia-se a um convento, morria de
-certo, matava-o!...
-
---Minha senhora--veio dizer Joanna--é um gallego com esta carta. Está á
-espera da resposta.
-
-Que espanto! Era de Juliana!
-
-Escripta em papel pautado, n'uma letra medonha, erriçada de erros
-d'orthographia, dizia:
-
-
-
-
- «Minha senhora.
-
-«Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve attribuir tanto á
-minha desgraça como á falta de saude, o que ás vezes faz que se tenham
-genios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e faça o serviço
-como d'antes--ao qual creio que a senhora não póde oppôr-se, terei
-muito gosto em ser agradavel na certeza que nunca mais se fallará em
-tal até que a senhora queira, e cumpra o que prometteu. Prometto fazer
-o meu serviço, e desejo que a senhora esteja por isto pois que é para
-bem de todos. Pois que foi genio e naturalmente todos teem os seus
-repentes, e com isto não canço mais e sou
-
- «Serva muito obediente
-
- «a criada
-
- «_Juliana Couceiro Tavira_.»
-
-
-Ficou com a carta na mão, sem resolução. A sua primeira vontade foi
-dizer--não! Tornar a recebel-a, vêl-a, com a sua face horrivel, a cuia
-enorme! Saber que ella tinha no bolso a sua carta, a sua deshonra,
-e chamal-a, pedir-lhe agua, a lamparina, ser servida por ella! Não!
-Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a creatura, Deus sabe o
-que faria! Estava nas mãos d'ella, devia passar por tudo. Era o seu
-castigo... Hesitou ainda um momento:
-
---Que sim, que venha, é a resposta.
-
-
-Juliana veio com effeito ás oito horas. Subiu pé ante pé para o
-sotão, poz o fato de casa e as chinellas, e desceu para o quarto
-dos engommados, onde Joanna sentada n'um tapete costurava, á luz do
-petroleo.
-
-Joanna, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: Onde estivera?
-o que tinha acontecido? porque não déra noticias?--Juliana contou que
-fôra a uma visita a uma amiga, á calçada do Marquez d'Abrantes, e que
-de repente lhe dera um flato, e a dôr... Não quiz mandar dizer, porque
-imaginára que poderia vir. Mas qual! estivera dia e meio de cama...
-
-Quiz saber então o que tinha feito a senhora, se sahira, quem
-estivera...
-
---A senhora tem andado a modo incommodada--disse Joanna.
-
---É do tempo--observou Juliana.--Tinha trazido a sua costura, e ambas
-caladas continuaram o serão.
-
-Ás dez horas Luiza ouviu bater devagarinho á porta do quarto. Era
-_ella_, de certo!
-
---Entre...
-
-A voz de Juliana disse muito naturalmente:
-
---Está o chá na mesa.
-
-Mas Luiza não se decidia a ir á sala, com medo, horror de a vêr! Deu
-voltas no quarto, demorou-se; foi emfim, toda tremula. Juliana vinha
-justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito,
-disse:
-
---Quer que vá pôr a lamparina, minha senhora?
-
-Luiza fez que _sim_ com a cabeça, sem a olhar.
-
-Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto
-a cama, cerrado as portas, quasi em pontas de pés:
-
---A senhora não precisa mais nada?--perguntou.
-
---Não.
-
---Muito boa noite, minha senhora.
-
-E não houve outra palavra mais.
-
---Parece um sonho!--pensava Luiza, ao despir-se melancolicamente.--Esta
-creatura, com as minhas cartas, installada em minha casa para me
-torturar, para me roubar!--Como se achava ella, Luiza, n'aquella
-situação? Nem sabia. As cousas tinham vindo tão bruscamente, com a
-precipitação furiosa d'uma borrasca, que estala! Não tivera tempo de
-raciocinar, de se defender: fôra embrulhada: e alli estava, quasi sem
-«dar fé», na sua casa sob a dominação da sua criada! Ah! se tivesse
-fallado a Sebastião! Tinha agora o dinheiro, de certo, notas, ouro...
-Com que phrenesi lh'o arremessaria, a expulsaria, e a arca, e os
-trapos, e a cuia!...--Jurou a si propria fallar a Sebastião, dizer
-tudo! Iria mesmo a casa d'elle, para o impressionar mais!
-
-D'ahi a pouco, quebrada da agitação do dia, adormecera--e sonhava que
-um estranho passaro negro lhe entrára no quarto, fazendo uma ventania,
-com as suas azas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao
-escriptorio, gritando: Jorge! Mas não via nem livros, nem estante,
-nem mesa:--havia uma armação reles de loja de tabaco, e por traz do
-balcão, Jorge acariciava sobre os joelhos uma bella mulher de fórmas
-robustas, em camisa d'estopa, que perguntava com uma voz desfallecida
-de voluptuosidade e os olhos afogados em paixão:--Brejeiros ou de
-Xabregas?--Fugia então de casa indignada, e, através de successos
-confusos, via-se ao lado de Bazilio, n'uma rua sem fim, onde os
-palacios tinham fachadas de cathedraes, e as carruagens rolavam
-ricamente com uma pompa de cortejo. Contava soluçando a Bazilio a
-traição de Jorge. E Bazilio, saltitando em volta d'ella com requebros
-de palhaço, repenicava uma viola, e cantava:
-
- Escrevi uma carta a Cupido
- A mandar-lhe perguntar
- Se um coração offendido
- Tem obrigação de amar!
-
---Não tem!--gania a voz d'Ernestinho, brandindo triumphante um rolo de
-papel.--E tudo se obscurecia de repente nos largos vôos circulares que
-fazia Juliana com as suas azas de morcego.
-
-
-
-
-IX
-
-
-Juliana voltára para casa de Luiza por conselhos da tia Victoria.
-
---Olha, minha rica, tinha-lhe ella dito, não ha que vêr, o passaro
-fugiu-nos! Suspira, bem pódes suspirar que o dinheiro grosso foi-se!
-Quem podia lá adivinhar que o homem desarvorava! Não, lá isso pódes
-tirar d'ahi o sentido! Que d'ella escusas d'esperar nem cheta...
-
---Tambem me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Victoria!
-
-A velha encolheu os hombros:
-
---Não lucras nada com isso. Ou que elles se desquitem, ou que elle
-lhe parta os ossos, ou que a mande para um convento--tu não ganhas
-nada. E se se acommodarem, mais ficas a chuchar no dedo, porque nem
-tens a consolação de fazeres a sizania. E isto é se as cousas correrem
-pelo melhor, porque pódes muito bem ficar mas é em lençoes de vinagre
-com alguma carga de pau que elles te mandem dar.--E vendo um gesto
-espantado de Juliana:--Já não era o primeiro caso, minha rica, já não
-era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita cousa, e nem tudo
-vem nos jornaes!
-
-Positivamente o que ella tinha a fazer era voltar para a casa. Porque
-emfim o que restava de tudo aquillo? O medo de D. Luiza: esse é que
-lá estava sempre a dar-lhe por dentro a colica: d'esse é que era
-necessario tirar partido...
-
---Tu voltas para lá--dizia--á espera que ella cumpra o que prometteu.
-Se te dá o dinheiro, bem... Senão tem-l'a em todo o caso na mão, estás
-de dentro da praça, sabes o que se passa, pódes-lhe apanhar muita
-cousa...
-
-Mas Juliana hesitava.--Era difficil viverem debaixo das mesmas telhas
-sem haver uma questão por dá cá aquella palha.
-
---Não te diz uma palavra, tu verás...
-
---Mas tenho medo...
-
---De que?--exclamava a tia Victoria. Ella não era mulher para a
-envenenar, não é verdade? Então? Quem a nada se arriscava nada
-ganhava.--Isto é se queres--acrescentou--senão trata de te arranjar
-n'outra parte, e deita as cartas para o fundo da arca. Que diabo! Tu
-vaes vêr, se não te convém, safas-te...
-
-Juliana decidiu ir, «a vêr».
-
-E reconheceu logo, que «aquella finoria da tia Victoria tinha carradas
-de razão».
-
-Luiza, com effeito, parecia resignada. Sebastião tinha ido para Almada,
-outra vez. Mas como estava decidida, apenas elle voltasse, a ir a casa
-d'elle uma manhã, atirar-se-lhe ao pés, contar-lhe _tudo_, _tudo_,
-supportava Juliana, reflectindo:--É apenas por dias!--Por isso não lhe
-disse uma palavra. Para que? O que tinha a fazer era pagar-lhe e pôl-a
-fóra, não é verdade? Em quanto o não podesse fazer, era aguentar e
-calar. Até que Sebastião voltasse...
-
-No entretanto evitava vêl-a. Nunca a chamava. Não sahia da alcova de
-manhã, sem a ter sentido fóra no quarto encher o banho, sacudir os
-vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervallos não
-levantava os olhos das paginas. E durante todo o dia conservava-se no
-quarto com a porta fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge--ás
-vezes tambem em Bazilio com odio, desejando a volta de Sebastião, e
-preparando a sua historia.
-
-Juliana, uma manhã, encontrou Luiza no corredor trazendo para o quarto
-o regador cheio d'agua.
-
---Oh minha senhora! porque não chamou?--exclamou, quasi escandalisada.
-
---Não tem duvida--disse Luiza.
-
-Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta:
-
---Oh minha senhora!--disse muito offendida--isto assim não póde
-continuar. A senhora parece que tem medo de me vêr, credo! Eu
-voltei para fazer o meu serviço como d'antes... Verdade, verdade,
-naturalmente, sempre espero que a senhora faça o que prometteu... E
-lá largar as cartas não largo, sem ter seguro o pão da velhice. Mas
-o que se passou foi um repente de genio, e já pedi perdão á senhora.
-Quero fazer o meu serviço... Agora se a senhora não quer, então saio,
-e--acrescentou com uma voz secca--talvez seja peor para todos!...
-
-Luiza, muito perturbada, balbuciou:
-
---Mas...
-
---Não, minha senhora--cortou Juliana severamente--aqui a criada sou eu.
-
-E sahiu, empertigada.
-
-Tanta audacia aterrou Luiza. Aquella ladra era capaz de tudo!
-
-Então, para a não irritar começou, d'ahi por diante, a chamal-a, a
-dizer:--Traga isto, traga aquillo,--sem a olhar.
-
-Mas Juliana fazia-se tão serviçal, era tão calada, que Luiza pouco a
-pouco, dia a dia, com o seu caracter mobil, inconsistente, cheio _de
-deixar-se ir_, principiou a perder o sentimento pungente d'aquella
-difficuldade. E no fim de tres semanas «as cousas tinham entrado nos
-seus eixos»--dizia Juliana.
-
-Luiza já gritava por ella do quarto, já a mandava a recados fóra:
-Juliana chegava a ter ás vezes migalhas de conversação:--Está um calor
-de morrer... A lavadeira tarda...--Um dia arriscou esta phrase mais
-intima:--Encontrei a criada da snr.^a D. Leopoldina.
-
-Luiza perguntou:
-
---Ainda está para o Porto?
-
---Ainda se demora um mez, minha senhora...
-
-De resto havia na casa um aspecto muito tranquillo, e Luiza, depois
-de tantas agitações, abandonava-se com gozo á satisfação d'aquelle
-descanço. Ia ás vezes vêr D. Felicidade á Encarnação, que já se
-levantava. E esperava sempre Sebastião, mas sem impaciencia, quasi
-contente por vêr adiado o momento terrivel de lhe dizer: escrevi a um
-homem, Sebastião!
-
-Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro.
-
-Uma tarde Luiza ficára mais tempo á janella da sala de jantar; deixára
-cahir o livro no regaço, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que
-d'algum quintal visinho viera pousar sobre o tabique do terreno vago.
-Pensava vagamente em Bazilio, no _Paraiso_... Sentiu passos, era
-Juliana.
-
---Que é?
-
-A mulher cerrára a porta, e vindo junto d'ella, baixo:
-
---Então a senhora ainda não decidiu nada?
-
-Luiza sentiu como uma pancada no estomago.
-
---Ainda não pude arranjar nada...
-
-Juliana esteve um momento a olhar para o chão:
-
---Bem--murmurou, por fim.
-
-E Luiza ouviu-a, no corredor, dizer alto:
-
---Isto quando o senhor voltar é que são os ajustes de contas!
-
-
-Quando Jorge voltasse! Immediatamente no seu espirito, que se tinha
-pouco a pouco serenado, todos os sustos, as angustias estremeceram
-de novo áquella ameaça--assim uma rajada subita põe em convulsão um
-arvoredo. Devia, pois, fazer _alguma cousa_ antes que elle chegasse!
-Justamente Jorge escrevera-lhe, que «não se demoraria, que a avisaria
-pelo telegrapho...» Desejava, agora, que do ministerio o mandassem
-fazer uma viagem mais longe, pela Hespanha ou pela Africa; que alguma
-catastrophe, sem lhe fazer mal, o retardasse mezes!...
-
-Que faria elle, se soubesse! Matal-a-hia? Lembravam-lhe as suas
-palavras muito sérias, n'aquella noite, quando Ernestinho contára o
-final do seu drama... Mettel-a-hia n'uma carruagem, leval-a-hia a um
-convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruido funerario de
-ferrolhos, olhos lugubres estudal-a curiosamente...
-
-O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a idéa nitida do seu
-marido; imaginava um _outro_ Jorge sanguinario e vingativo, esquecendo
-o seu caracter bom, tão pouco melodramatico. Um dia foi ao escriptorio,
-tomou a caixa das pistolas, fechou-a n'um bahú de roupa velha, e
-escondeu a chave!...
-
-Uma idéa amparava-a: era que apenas Sebastião viesse d'Almada, estava
-salva; e apesar d'aquella agonia miuda de todos os momentos, quasi
-receava saber _que elle tivesse chegado_,--tanto a confissão da verdade
-lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, então, que lhe veio
-uma lembrança--escrever a Bazilio. O terror permanente amollecera-lhe
-o orgulho, como a lenta infiltração da agua faz a uma parede; e todos
-os dias começou a achar uma razão, _mais uma_, para se dirigir «áquelle
-infame»: fôra seu amante, já sabia todo o caso das cartas, era o seu
-unico parente... E não teria de «dizer» a Sebastião! Já ás vezes
-pensára que não aceitar dinheiro de Bazilio fôra uma «fanfarronada
-bem tola»! Um dia emfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco
-confusa, pedia-lhe _seiscentos mil reis_. Foi ella mesmo leval-a ao
-correio, sobrecarregando-a de estampilhas.
-
-N'essa tarde, por acaso, Sebastião, que chegára d'Almada, veio vêl-a.
-Recebeu-o com alegria, feliz _por não ter de lhe contar_... Fallou da
-volta de Jorge; alludiu mesmo ao primo Bazilio, á «pouca vergonha da
-visinhança...»
-
---Não--disse--é a primeira cousa que hei-de contar ao Jorge.
-
-Porque se considerava salva, agora! E todos os dias seguia a carta,
-no seu caminho para França, como se a sua mesma vida fosse dentro
-d'aquelle sobrescripto entregue ao acaso dos trens e á confusão das
-viagens! Chegára a Madrid, depois a Bayonna, depois a Paris! Um
-carteiro corria a entregal-a na rua Saint Florentin. Bazilio abria-a
-tremendo, enchia um sobrescripto de notas, muitas, que cobria de
-beijos, e o enveloppe, trazendo a sua salvação e o seu descanço,
-começava a rolar para baixo, pela França e pela Navarra, soprando como
-um monstro e apressando-se como um proprio.
-
-No dia em que a resposta _devia_ chegar, levantou-se mais cedo,
-agitada, com o ouvido pregado na porta, esperando o toque do carteiro.
-Via-se já a expulsar Juliana, a soluçar de alegria!... Mas ás dez e
-meia começou a estar nervosa: ás onze chamou Joanna, «que fosse saber
-se o carteiro passára».
-
---Diz que sim, minha senhora, que já passou.
-
---Canalha!--murmurou, pensando em Bazilio.
-
-Talvez, todavia, não tivesse respondido no mesmo dia! Esperou ainda,
-mas desconsolada, já sem fé. Nada! Nem na outra manhã, nem nas
-seguintes! O infame!
-
-Veio-lhe então a idéa da loteria--porque insensivelmente a esperança
-tornára-se-lhe necessaria. A primeira vez que sahiu comprou umas poucas
-de cautelas. Apesar de não ser religiosa nem supersticiosa, metteu-as
-debaixo da peanha d'um S. Vicente de Paula que tinha sobre a commoda,
-na alcova. _Não se perdia nada!_ Examinava-as todos os dias, sommava os
-algarismos a vêr se davam _nove_, _noves fóra_, _nada_, ou um numero
-par--que é de bom agouro! E aquelle contacto diario com a imagem do
-santo levando-a a pensar de certo na protecção inesperada do céo, fez
-uma promessa de cincoenta missas se as cautelas fossem premiadas!...
-
-Sahiram brancas--e então desesperou de tudo; abandonou-se a uma inacção
-em que sentia quasi uma voluptuosidade, passando dias sem se importar,
-quasi sem se vestir, desejando morrer, devorando nos jornaes todos os
-casos de suicidios, de fallencias, de desgraças--consolando-se com a
-idéa de que nem só ella soffria, e que a vida em redor, na cidade,
-fervilhava de afflicções.
-
-Ás vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de medo. Decidia-se então
-de novo a «abrir-se» com Sebastião; depois pensava que seria melhor
-escrever-lhe; mas não achava as palavras, não conseguia arranjar uma
-historia racional; vinha-lhe uma cobardia; e recahia na sua inercia,
-pensando: «ámanhã, ámanhã...»
-
-Quando, só, no seu quarto, se chegava por acaso á janella, punha-se
-a imaginar o que «diria a visinhança, quando se soubesse»!
-Condemnal-a-hiam? Lamental-a-hiam? Diriam--«Que desavergonhada»?
-Diriam--«Coitadinha»? E por dentro da vidraça seguia, com um olhar
-quasi aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o embasbacamento obeso
-da carvoeira, as Azevedos por traz das bambinellas de cassa! Como elles
-todos gritariam:--«Bem diziamos nós! Bem diziamos nós!» Que desgraça!
-Ou então via de repente Jorge, terrivel, fóra de si, com as _cartas_ na
-mão; e encolhia-se como se já estivesse sob a colera dos seus punhos
-fechados.
-
-Mas o que a torturava mais era a tranquillidade de
-Juliana--espanejando, cantarolando, servindo-a ao jantar d'avental
-branco. Que tencionava ella? Que preparava ella? Ás vezes vinha-lhe uma
-onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, de certo atirar-se-lhe-hia
-ao pescoço, para a esganar, arrancar-lhe a carta! Mas pobre d'ella, era
-«uma mosquinha»!
-
-Justamente, n'uma d'essas manhãs, Juliana entrou no quarto--com o
-vestido de sêda preto no braço. Estendeu-o na _causeuse_, e mostrou
-a Luiza, na saia, ao pé do ultimo folho, um rasgão largo que parecia
-feito com um prego; vinha saber se a senhora queria que o mandasse á
-costureira.
-
-Luiza lembrava-se bem, rasgára-o uma manhã no _Paraiso_ a brincar com
-Bazilio!
-
---Isto é facil d'arranjar--dizia Juliana, passando de leve a mão
-espalmada sobre a sêda, com a lentidão d'uma caricia.
-
-Luiza examinava-o, hesitando:
-
---Elle tambem já não está novo... Olhe, guarde-o p'ra vossê!
-
-Juliana estremeceu, fez-se vermelha:
-
---Oh minha senhora!--exclamou--Muito agradecida! É um rico
-presente. Muito agradecida, minha senhora! Realmente...--E a voz
-perturbava-se-lhe.
-
-Tomou-o nos braços, com cuidado, correu logo á cozinha. E Luiza, que a
-seguira pé ante pé, ouviu-a dizer toda excitada:
-
---É um rico presente, é o que ha de melhor. E novo! Uma rica
-sêda!--Fazia arrastar a cauda pelo chão, com um _frou-frou_. Sempre o
-invejára: e tinha-o agora, era o _seu_ vestido de sêda!--É de muito boa
-senhora, snr.^a Joanna, é d'um anjo!
-
-Luiza voltou ao quarto, toda alvoroçada; era como uma pessoa perdida de
-noite, n'um descampado--que de repente, ao longe, vê reluzir um clarão
-de vidraça! Estava salva! Era presenteal-a, era fartal-a! Começou logo
-a pensar no que lhe podia dar mais, pouco a pouco: o vestido rôxo,
-roupas brancas, o roupão velho, uma pulseira!
-
-
-D'ahi a dous dias--era um domingo--recebeu um telegramma de Jorge:
-«Parto ámanhã do Carregado. Chego pelo comboio do Porto ás 6.» Que
-sobresalto! Voltava, emfim!
-
-Era nova, era amorosa--e no primeiro momento todos os sustos, as
-inquietações desappareceram sob uma sensação d'amor e de desejo, que a
-inundou. Viria de madrugada, encontral-a-hia deitada,--e já pensava na
-delicia do seu primeiro beijo!...
-
-Foi-se vêr ao espelho: estava um pouco magra, talvez, com a physionomia
-um pouco fatigada... E a imagem de Jorge apparecia-lhe então muito
-nitidamente, mais queimado do sol, com os seus olhos ternos, o cabello
-tão annelado! Que estranha cousa! Nunca lhe appetecêra tanto vêl-o. Foi
-logo occupar-se d'elle: o escriptorio estaria bem arranjado? Quereria
-um banho morno, seria necessario aquecer a agua na tina grande!... E ia
-e vinha, cantarolando, com um brilho exaltado nos olhos.
-
-Mas a voz de Juliana, de repente no corredor, fêl-a estremecer. Que
-faria ella, a mulher? Ao menos que a deixasse n'aquelles primeiros
-dias gozar a volta de Jorge, tranquillamente!... Veio-lhe uma audacia,
-chamou-a.
-
-Juliana entrou, com o vestido de sêda novo, movendo-se cuidadosamente:
-
---Quer alguma cousa, minha senhora?
-
---O snr. Jorge volta amanhã...--disse Luiza.
-
-E suspendeu-se; o coração batia-lhe fortemente.
-
---Ah!--fez Juliana.--Bem, minha senhora.
-
-E ia sahir.
-
---Juliana!--fez Luiza, com a voz alterada.
-
-A outra voltou-se, surprehendida.
-
-E Luiza batendo com as mãos, n'um movimento supplicante:
-
---Mas vossê ao menos n'estes primeiros dias... Eu hei-de arranjar,
-esteja certa!...
-
-Juliana acudiu logo:
-
---Oh minha senhora! Eu não quero dar desgostos a ninguem. O que eu
-quero é um bocadinho de pão para a velhice. Da minha bocca não ha-de
-vir mal a ninguem. O que peço á senhora é que se fôr da sua vontade e
-me quizer ir ajudando...
-
---Lá isso, sim... O que vossê quizer...
-
---Pois póde estar certa que esta bocca...--E fechou os labios com os
-dedos.
-
-Que alegria para Luiza! Tinha uns dias, umas semanas, emfim, sem
-tormentos, com o _seu_ Jorge! Abandonou-se então toda á deliciosa
-impaciencia de o vêr. Era singular--mas parecia-lhe que o amava
-mais!...--E depois pensaria, veria, daria outros presentes a Juliana,
-poderia pouco a pouco preparar Sebastião... Quasi se sentia feliz.
-
-De tarde Juliana veio dizer-lhe, muito risonha;
-
---A snr.^a Joanna sahiu, que era hoje o seu dia, mas eu tinha tanta
-precisão de sahir, tambem! se a senhora lhe não custasse ficar só...
-
---Não! Fico, que tem? Vá, vá!
-
-E, d'ahi a pouco, sentiu-a bater os tacões no corredor, fechar com
-ruido a cancella.
-
-Então de repente uma idéa deslumbrou-a, como a fulguração d'um
-relampago:--ir ao quarto d'ella, rebuscar-lhe a arca, roubar-lhe as
-cartas!
-
-Viu-a da janella dobrar a esquina. Subiu logo ao sotão, devagar,
-escutando, com o coração aos saltos. A porta do quarto de Juliana
-estava aberta; vinha de lá um cheiro de mofo, de rato e de roupa
-enxovalhada que a enjoou; pelo postigo entrava uma luz triste, de
-tarde escura; e por baixo, encostada á parede, ficava a arca! Mas
-estava fechada! De certo! Desceu correndo, veio buscar o seu mólho
-de chaves... Sentia uma vergonha,--mas se achasse as cartas! Aquella
-esperança dava-lhe todos os atrevimentos, como um vinho alcoolico.
-Começou a experimentar as chaves; a mão tremia-lhe; de repente a
-lingueta, com um estalinho secco, cedeu! Ergueu a tampa, estavam alli,
-talvez! E então, com cautela, muito femininamente, poz-se a tirar as
-cousas uma por uma, pondo-as em cima do colxão:--o vestido de merino;
-um leque com figuras douradas, embrulhado em papel de sêda; velhas
-fitas rôxas e azues, passadas a ferro; uma pregadeira de setim côr
-de rosa, com um coração bordado a matiz: dous frasquinhos de cheiro,
-intactos, tendo collados ao vidro raminhos de rosas de papel recortado;
-tres pares de botinas embrulhadas em jornaes; a roupa branca, d'onde
-se exhalava um cheiro de madeira e de folhas de maçã camoeza. Entre
-duas camisas estava um maço de cartas atadas com um nastro... Nenhuma
-era d'ella! Nem de Bazilio! Eram d'uma letra d'aldêa, inintelligivel e
-amarellada! Que raiva! E ficou a olhar para a arca vazia, de pé, com os
-braços tristemente cahidos.
-
-Uma sombra de repente passou diante do postigo. Estremeceu, aterrada.
-Era um gato, que com passos leves, vadiava pelo telhado.--Tornou a
-repôr tudo com as mesmas dobras, fechou a arca, ia a sahir,--mas
-lembrou-se de procurar na gaveta da mesa e debaixo do travesseiro.
-Nada! Impacientou-se então; não se queria ir sem ter gasto toda a
-esperança; desmanchou a roupa da cama, remexeu a palha amollentada do
-enxergão, sacudiu as velhas botinas, esgaravatou os cantos... Nada!
-Nada!
-
-Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpreza! Era D.
-Felicidade.
-
---És tu! Como estás tu? Entra.
-
-Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. Sahira na vespera da
-Encarnação: o pé ás vezes ainda lhe fazia mal: mas graças a Deus estava
-escapa! E que lhe agradecesse, era a sua primeira visita!
-
-Entraram no quarto. Escurecia, Luiza accendeu as velas.
-
---E como me achas tu, hein?--perguntou D. Felicidade, pondo-se diante
-d'ella.
-
---Um bocadito mais pallida.
-
-Ai! tinha soffrido muito! Ergueu a saia, mostrou o pé calçado n'um
-sapato largo, obrigou Luiza a apalpal-o... Que uma consolação lhe
-restava: é que toda a Lisboa a fôra vêr! Graças a Deus! Toda a Lisboa,
-o que ha de melhor em Lisboa!
-
---E tu esta semana--acrescentou--nem appareceste! Pois olha que te
-cortaram na pelle...
-
---Não pude, filha. O Jorge chega ámanhã, sabias?
-
---Ah sua brejeira! Viva! Está esse coraçãosinho aos pulos!--E disse-lhe
-um segredinho.
-
-Riram muito.
-
---Pois eu--continuou D. Felicidade sentando-se--arranjei-te hoje a
-partida. Encontrei esta manhã o Conselheiro, que me disse que vinha.
-Encontrei-o aos Martyres! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que
-sahi! E um bocado adiante dou com o Julião: diz que tambem vinha!...--E
-com uma voz desfallecida:
-
---Sabes? tomava uma colherinha de dôce...
-
-
-Foi Luiza que abriu a porta ao Conselheiro e a Julião, que se tinham
-encontrado na escada, dizendo-lhes a rir:
-
---Hoje sou eu o guarda-portão!
-
-D. Felicidade, na sala, para disfarçar a perturbação que lhe deu o
-espectaculo amado da pessoa d'Accacio, começou, fallando muito, a
-censural-a «por deixar assim sahir no mesmo dia as duas criadas...»
-
---E se te achares incommodada, filha, se te dér alguma cousa?
-
-Luiza riu. Não era affecta a fanicos...
-
-Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse:
-
---Tem continuado a soffrer dos dentes, D. Luiza?
-
-Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia!--exclamou logo D.
-Felicidade. Julião declarou que raras vezes vira uma dentição tão
-perfeita.
-
-O Conselheiro apressou-se a citar:
-
- Em labios de coral, perolas finas...
-
-E acrescentou:
-
---É verdade, mas a ultima vez que tive a honra d'estar com D. Luiza,
-viu-se tão repentinamente afflicta com um dente, que teve d'ir a correr
-chumbal-o ao Vitry!
-
-Luiza fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a
-Joanna, ia abrir...
-
---É verdade--continuou o Conselheiro--tinhamos feito um delicioso
-passeio, quando de repente D. Luiza empallidece, e parece que a dôr era
-tão urgente, que se precipitou para a escada do dentista, como louca...
-
-A proposito de dôres, D. Felicidade, que estava anciosa por interessar,
-commover o Conselheiro, começou a historia do seu pé: disse a queda,
-o milagre de não ter morrido, as visitas assiduas de condessas e
-viscondessas, o susto em toda a Encarnação, os cuidados do bom dr.
-Caminha...
-
---Ai! soffri muito!--suspirou, com os olhos no Conselheiro, para
-provocar uma palavra sympathica.
-
-Accacio, então, disse com authoridade:
-
---É sempre um erro, ao descer uma escada ingreme, não procurar o apoio
-do corrimão.
-
---Mas podia ter morrido!--exclamou ella. E voltando-se para
-Julião:--Pois não é verdade?
-
---N'este mundo morre-se por qualquer cousa--disse elle enterrado n'uma
-poltrona, fumando voluptuosamente. Elle mesmo estivera n'aquella tarde
-para ser atropellado por um trem: destinára o domingo para se dar _um
-feriado_, e fizera um grande passeio pela circumvallação...--Ha mais
-d'um mez vivo no meu cubiculo, como um frade benedictino na livraria do
-seu convento!--acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza
-do cigarro sobre o tapete.
-
-O Conselheiro quiz saber então o assumpto da these: de certo muito
-momentoso!... E apenas Julião lhe disse: «Sobre physiologia, snr.
-Conselheiro», Accacio observou logo, com uma voz profunda:
-
---Ah! physiologia! Deve ser então de grande magnitude! E presta-se mais
-ao estylo ameno.
-
-Queixou-se, tambem, de «vergar ao peso dos seus trabalhos
-litterarios...»
-
---Esperemos todavia, snr. Zuzarte, que não sejam infructiferas as
-nossas vigilias!
-
---As suas, snr. Conselheiro, as suas!--E com interesse:--Quando nos dá
-o seu novo trabalho? Ha sofreguidão em o vêr!
-
---Ha alguma sofreguidão--concordou o Conselheiro com seriedade.--Ha
-dias me dizia o snr. ministro da justiça (esse robustissimo talento),
-ha dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: Dê-nos depressa o seu
-livro, Accacio, estamos precisados de luz, de muita luz! Foi assim que
-elle disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: Snr. ministro,
-não serei eu que a negue ao meu paiz, quando o meu paiz a necessitar!
-
---Muito bem, muito bem, Conselheiro!
-
---E--acrescentou--dir-lhes-hei, aqui em familia, que o nosso ministro
-do reino me deixou entrevêr n'um futuro não remoto, a commenda de S.
-Thiago!
-
---Já lh'a deviam ter dado, Conselheiro!--exclamou Julião,
-divertindo-se.--Mas n'este desgraçado paiz... Já a devia ter ao peito,
-Conselheiro!
-
---Ha que tempos!--exclamou com força D. Felicidade.
-
---Obrigado, obrigado!--balbuciou o Conselheiro, rubro. E na expansão do
-seu jubilo offereceu com uma familiaridade agradecida, a sua caixa de
-rapé a Julião.
-
---Tomarei para espirrar--disse elle.
-
-Sentia-se n'aquella tarde n'uma disposição benevola: o trabalho e as
-altas esperanças que elle lhe dava tinham de certo dissipado o seu
-azedume: parecia até ter esquecido a sua humilhação, quando encontrára
-alli, n'aquella sala, o primo Bazilio, porque apenas Luiza entrou,
-perguntou-lhe por elle.
-
---Partiu para Paris, não sabiam? ha que tempos!
-
-D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Bazilio. Tinha
-ido deixar bilhetes de visita a ambos--o que encantára D. Felicidade,
-e ensoberbecera o Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo!--exclamava
-ella. E Accacio affirmou com authoridade:
-
---E uma voz de barytono, digna de S. Carlos.
-
---E muito elegante!--disse D. Felicidade.
-
---Um _gentleman_!--resumiu o Conselheiro.
-
-Julião, calado, bambaleava a perna. Agora, áquelles elogios, o seu
-despeito renascia; lembrava a seccura cortante de Luiza, n'aquella
-manhã, as _poses_ do outro. Não resistiu a dizer:
-
---Um pouco sobrecarregado nas joias e nos bordados das meias. De resto
-é moda no Brazil, creio...
-
-Luiza córou; teve-lhe odio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de
-Bazilio.
-
-D. Felicidade então, perguntou por Sebastião: não o via havia um
-seculo; e lamentava, porque era uma pessoa que lhe dava saude, só vêl-a.
-
---É uma grande alma--disse com emphase o Conselheiro.--Todavia
-censurava-o um pouco por não se occupar, não se tornar util ao seu
-paiz.--Porque emfim--declarou--o piano é uma bonita habilidade, mas não
-dá uma posição na sociedade.--Citou então Ernestinho, que, posto que
-dando-se á arte dramatica, era todavia (e a sua voz tornou-se grave),
-segundo todas as informações, um excellente empregado aduaneiro...
-
-Que fazia elle, Ernestinho?--perguntaram.
-
-Julião tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a _Honra e Paixão_ ia d'ahi
-a duas semanas, já se estavam a imprimir os cartazes, e na rua dos
-Condes já lhe não chamavam senão o _Dumas filho portuguez_! E o pobre
-rapaz crê-se realmente um _Dumas filho_!
-
---Não conheço esse author--disse com gravidade o Conselheiro--posto que
-me pareça, pelo nome, ser filho do escriptor que se tornou famoso pelos
-_Tres Mosqueteiros_ e outras obras de imaginação!... Mas, de resto,
-o nosso Ledesma é um esmerado cultor da arte dos Corneilles! Não lhe
-parece, D. Luiza?
-
---Sim--disse ella com um sorriso vago.
-
-Parecia preoccupada. Fôra já duas vezes ao relogio do quarto vêr as
-horas: quasi dez, e Juliana sem voltar! Quem havia de servir o chá?
-Ella mesmo foi pôr as chavenas no taboleiro, armar o paliteiro. Quando
-voltou á sala notou um silencio enfastiado...--Queriam que fosse
-tocar?--perguntou.
-
-Mas D. Felicidade que olhava, ao pé de Julião, as gravuras do Dante,
-illustrado por G. Doré, que elle folheava, com o volume sobre os
-joelhos, exclamou, de repente:
-
---Ai que bonito! que é? Muito bonito! Viste, Luiza?
-
-Luiza aproximou-se.
-
---É um caso d'amor infeliz, snr.^a D. Felicidade--disse Julião.--É
-a historia triste de Paulo e Francesca de Rimini.--E explicando o
-desenho:--Aquella senhora sentada é Francesca: este moço de guedelha,
-ajoelhado aos pés d'ella, e que a abraça, é seu cunhado, e, lamento ter
-de o dizer, seu amante. E aquelle barbaças, que lá ao fundo levanta o
-reposteiro e saca da espada, é o marido que vem, e zás!--E fez o gesto
-de enterrar o ferro.
-
---Safa!--fez D. Felicidade, arripiada--E aquelle livro cahido o que é?
-Estavam a lêr?...
-
-Julião disse discretamente:
-
---Sim... Tinham começado por lêr, mas depois...
-
- Quel giorno più no vi leggiomi avante,
-
-o que quer dizer:--_E nós não lemos mais em todo o dia!_
-
---Pozeram-se a derriçar--disse D. Felicidade com um sorriso.
-
---Peor, minha rica senhora, peor! Porque segundo a mesma confissão de
-Francesca, este moço, o da guedelha, o cunhado,
-
- La bocca me bacciò tutto tremante,
-
-o que significa:--_A bocca me beijou tremendo todo_...
-
---Ah!--fez D. Felicidade, com um olhar rapido para o Conselheiro.--É
-uma novella?
-
---É o Dante, D. Felicidade--acudiu com severidade o Conselheiro--um
-poema epico classificado entre os melhores. Inferior, porém, ao nosso
-Camões! Mas rival do famoso Milton!
-
---Que n'essas historias estrangeiras os maridos matam sempre as
-mulheres!--exclamou ella. E voltando-se para o Conselheiro:--Pois não é
-verdade?
-
---Sim. D. Felicidade, repetem-se lá fóra com frequencia essas
-tragedias domesticas. O desenfreamento das paixões é maior. Mas entre
-nós, digamol-o com orgulho, o lar é muito respeitado. Assim eu, por
-exemplo, em todas as minhas relações em Lisboa, que são numerosas,
-graças a Deus, não conheço senão esposas modêlos.--E com um sorriso
-cortezão:--De que é de certo a flôr a dona da casa!
-
-D. Felicidade revirou os olhos para Luiza que estava encostada á
-cadeira d'ella, e batendo-lhe no braço:
-
---Isto é uma joia!--disse com amor.
-
---E de resto--acudiu o Conselheiro--o nosso Jorge merece-o. Porque,
-como diz o poeta:
-
- Seu coração é nobre, e a fronte altiva
- Revela-lhe da alma a pura essencia.
-
-Aquella conversação impacientava Luiza. Ia sentar-se ao piano, quando
-D. Felicidade exclamou:--Dize cá, então não se toma hoje chá n'esta
-casa?
-
-Luiza foi outra vez á cozinha. Disse a Joanna que viesse ella mesma
-com o chá.--E d'ahi a pouco Joanna, d'avental branco, vermelha, muito
-atarantada, entrou com o taboleiro.
-
---E a Juliana?--perguntou logo D. Felicidade.
-
---Sahiu, coitada--explicou Luiza--tem andado doente...
-
---E anda-te então por fóra até estas horas?... Boa! Até desacredita uma
-casa...
-
-O Conselheiro tambem achava imprudente:
-
---Porque emfim as tentações são grandes n'uma capital, minha senhora!
-
-Julião exclamou, rindo:
-
---Não, se aquella é tentada, descreio para sempre e totalmente, dos
-meus contemporaneos.
-
---Oh snr. Zuzarte!--acudiu o Conselheiro, quasi severamente--referia-me
-a outras tentações: entrar, por exemplo, n'uma loja de bebidas,
-appetecer-lhe ir ao Circo e desleixar os seus deveres...
-
-Mas D. Felicidade não podia soffrer a Juliana: achava-lhe cara de
-Judas, tinha ar de ser capaz de tudo...
-
-Luiza defendeu-a: era muito serviçal, muito boa engommadeira, muito
-honesta...
-
---E anda-te pela rua até ás onze da noite!... Credo! Fosse commigo!
-
---E creio--observou o Conselheiro--que tem uma doença mortal. Não é
-verdade, snr. Zuzarte?
-
---Mortal. Um aneurisma--respondeu Julião, sem levantar os olhos do
-Dante.
-
---Ainda para mais!--exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz:--Tu
-o que deves fazer é descartar-te d'ella! Uma criada com uma doença
-d'essas! Que até lhe póde arrebentar a vir dar um copo d'agua á gente.
-Cruzes!
-
-O Conselheiro apoiava:
-
---E ás vezes, que embaraços com a authoridade!
-
-Julião fechou o Dante, e disse:
-
---Eu tem-me esquecido d'avisar o Jorge; mas um dia a creatura cahe-lhes
-redonda no chão.--E sorveu um gole de chá.
-
-Luiza estava afflicta. Parecia-lhe que uma nova complicação se formava
-para a torturar... Pôz-se a dizer que era tão difficil arranjar
-criadas...
-
-Lá isso era, concordaram.
-
-Fallaram de criados, das suas exigencias. Estavam cada vez mais
-atrevidos! E em se lhes dando confiança! E que immoralidade!...
-
---Muitas vezes é culpa das amas--disse D. Felicidade.--Fazem das
-criadas confidentes, e isto, em ellas apanhando um segredo, tornam-se
-as donas da casa...
-
-As mãos tremulas de Luiza faziam-lhe tilintar a chavena. Disse, com uma
-voz affectadamente risonha:
-
---E o Conselheiro, que tal de criados?
-
-Accacio tossiu:
-
---Bem. Tenho uma pessoa respeitavel, com bom paladar, muito escrupulosa
-em contas...
-
---E que não é feia--acudiu Julião.--Assim me pareceu uma vez que fui á
-rua do Ferregial...
-
-Uma vermelhidão espalhára-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade
-fitava-o anciosamente, com a pupilla chammejante. Accacio, então, disse
-com severidade:
-
---Nunca reparo para a physionomia dos subalternos, snr. Zuzarte.
-
-Julião ergueu-se e enterrando as mãos nos bolsos, jovialmente:
-
---Foi um grande erro abolir a escravatura!...
-
---E o principio da liberdade?--acudiu logo o Conselheiro--E o principio
-da liberdade? Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a
-liberdade é um bem maior.
-
-Alargou-se então em considerações; fulminou os horrores do trafico,
-lançou suspeitas sobre a philantropia dos inglezes, foi severo com os
-plantadores da Nova-Orleans, contou o caso da _Charles et Georges_:
-dirigia-se exclusivamente a Julião, que fumava, cabisbaixo.
-
-D. Felicidade fôra-se sentar ao pé de Luiza, e muito inquieta,
-fallando-lhe ao ouvido:
-
---Tu conheces a criada do Conselheiro?
-
---Não.
-
-Será bonita?
-
-Luiza encolheu os hombros.
-
---Não sei que me diz o coração, Luiza! Estou a abafar!
-
-E em quanto Accacio, de pé, perorava para Julião, D. Felicidade ia
-murmurando a Luiza as queixas da sua paixão.
-
-Que allivio para Luiza quando elles sahiram! O que ella soffrera, lá
-por dentro, toda aquella noite! Que massadores, que idiotas!--E a outra
-sem vir! Oh que vida a sua!
-
-Foi á cozinha dizer a Joanna:
-
---Espere pela Juliana, tenha paciencia. Que ella não póde tardar;
-aquillo a mulher achou-se peor!
-
-Mas já passava de meia noite, já Luiza estava deitada, quando a
-campainha tocou de leve; depois mais forte; emfim, com impaciencia.
-
-A rapariga adormeceu, pensou Luiza. Saltou da cama, subiu descalça
-á cozinha. Joanna, estirada para cima da mesa, resonava ao pé do
-candieiro de petroleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fêl-a pôr
-de pé, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu d'ahi a
-pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer com satisfação:
-
---Já está tudo acommodado, hein? Pois eu estive no theatro. Muito
-bonito! Do melhor, snr.^a Joanna, do melhor!
-
-Luiza adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto
-agitou-a.--Estava n'um theatro immenso, dourado como uma igreja.
-Era uma gala: joias faiscavam sobre seios mimosos, condecorações
-reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei triste e moço,
-immovel n'uma attitude rigida e hieratica, sustentava na mão a esphera
-armillar, e o seu manto de velludo escuro, constellado de pedrarias
-como um firmamento, espalhava-se em redor em pregas d'esculptura,
-fazendo tropeçar a multidão dos cortezãos vestidos como valetes de paus.
-
-Ella estava no palco; era actriz; debutava no drama d'Ernestinho: e
-toda nervosa via diante de si na vasta platéa susurrante, fileiras de
-olhos negros e accesos, cravados n'ella com furor: no meio a calva
-do Conselheiro, d'uma redondeza nevada e nobre, sobresahia, rodeada
-como uma flôr d'um vôo amoroso d'abelhas. No palco oscillava a vasta
-decoração d'uma floresta; ella notava sobretudo, á esquerda, um
-carvalho secular, d'uma arrogancia heroica--cujo tronco tinha a vaga
-configuração d'uma physionomia, e se parecia com Sebastião.
-
-Mas o contra-regra bateu as palmas: era esguio, parecia-se com D.
-Quixote, trazia oculos redondos com aros de lata, brandia _o Jornal do
-Commercio_ torcido em saca-rolhas, e gania: salta a scenasinha de amor!
-salta-me essa maravilha! Então a orchestra, onde os olhos dos musicos
-reluziam como granadas e as suas cabelleiras se erriçavam como montões
-d'estopa, tocou com uma lentidão melancolica o fado de Leopoldina; e
-uma voz aspera e canalha cantava em falsete:
-
- Vejo-o nas nuvens da tarde,
- Nas ondas do mar sem fim,
- E por mais longe que esteja
- Sinto-o sempre ao pé de mim.
-
-Luiza achava-se nos braços de Bazilio que a enlaçavam, a queimavam:
-toda desfallecida, sentia-se perder, fundir-se n'um elemento quente
-como o sol e dôce como o mel: gozava prodigiosamente: mas, por entre os
-seus soluços, sentia-se envergonhada, porque Bazilio repetia no palco,
-sem pudor, os delirios libertinos do _Paraiso_! Como consentia ella?
-
-O theatro n'uma acclamação immensa bradava: Bravo! Bis! bis! Lenços aos
-milhares esvoaçavam como borboletas brancas n'um campo de trevo: os
-braços nús das mulheres lançavam com um gesto ondeado ramos de violetas
-dobradas: o rei erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou
-como um _bouquet_ a sua esphera armillar: e o Conselheiro logo, n'um
-phrenesi, para seguir os exemplos de Sua Magestade, desaparafusando
-rapidamente a calva, atirou-lh'a, com um berro de dôr e de gloria! O
-contraregra gania:--Agradeçam! Agradeçam! Ella curvava-se, os seus
-cabellos de Magdalena rojavam pelo tablado: e Bazilio, a seu lado,
-seguia com olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com a
-graça d'um toureiro e a destreza d'um _clown_!
-
-Subitamente, porém, todo o theatro teve um _ah_! d'espanto.
-Fez-se um silencio ancioso e tragico; e todos os olhos, milhares
-d'olhos attonitos se fitavam no pano de fundo, onde um caramanchão
-arqueava a sua estructura toda estrellada de rosinhas brancas.
-Ella voltou-se tambem como magnetisada, e viu Jorge, Jorge que se
-adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mão; e
-a lamina reluzia--menos que os olhos d'elle! Aproximou-se da rampa e
-curvando-se, disse com uma voz graciosa:
-
---Real magestade, senhor infante, snr. governador civil, minhas
-senhoras, e meus senhores--agora é commigo! Reparem n'este trabalhinho!
-
-Caminhou então para ella com passos marmoreos que faziam oscillar o
-tablado; agarrou-lhe os cabellos, como um mólho d'herva que se quer
-arrancar; curvou-lhe a cabeça para traz; ergueu d'um modo classico o
-punhal; fez a pontaria ao seio esquerdo: e balançando o corpo, piscando
-o olho, cravou-lhe o ferro!
-
---Muito bonito!--disse uma voz--Rico trabalho!
-
-Era Bazilio que fizera entrar nobremente na platéa o seu phaeton!
-Direito na almofada, com o chapéo ao lado, uma rosa na sobrecasaca,
-continha com a mão negligente a inquietação soberba dos seus cavallos
-inglezes; e ao seu lado, sentado como um trintanario coberto das
-suas vestes sacerdotaes, vinha o patriarcha de Jerusalém!--Mas Jorge
-arrancára o punhal todo escarlate; as gotas de sangue corriam até á
-ponta, coalhavam; cahiam depois com um som crystallino, punham-se a
-rolar pelo tablado como continhas de vidro vermelho. Ella deitára-se,
-expirante, sob o carvalho que se parecia com Sebastião: então, como
-a terra era dura, a arvore estendeu por baixo d'ella as suas raizes,
-macias como coxins de pennas; como o sol a mordia, a arvore desdobrou
-sobre ella as suas ramagens, como os panos d'uma tenda: e das folhas
-deixava-lhe escorrer sobre os labios gotas de vinho da Madeira! Ella
-via no entanto com terror o seu sangue sahir da ferida, vermelho e
-forte, correr, alastrar-se, fazendo poças aqui, ribeirinhos tortuosos
-além. E ouvia a platéa berrar:
-
---O author! Fóra o author!
-
-Ernestinho, muito frisado, pallido, appareceu; agradecia soluçando; e,
-ás cortezias, saltava aqui, acolá--para não sujar no sangue da prima
-Luiza os seus sapatinhos de verniz...
-
-Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente:--Ólá, como vai
-isso?--Parecia-lhe de Jorge. D'onde vinha? Do céo? da platéa? do
-corredor? Um ruido forte, como d'uma mala que se deixa cahir,
-acordou-a. Sentou-se na cama.
-
---Bem, deixe ahi--disse a voz de Jorge.
-
-Saltou em camisa. Elle entrava. E ficaram enlaçados, n'um longo abraço,
-os beiços collados, sem uma palavra. O relogio do quarto dava sete
-horas.
-
-
-
-
-X
-
-
-N'esse dia pela uma hora Jorge e Luiza acabavam d'almoçar, como na
-vespera da partida d'elle. Mas agora não pesava a faiscante inclemencia
-da calma, as janellas estavam abertas ao sol amavel d'outubro; já
-passavam no ar certas frescuras outonaes; havia uma pallidez meiga
-na luz; á tardinha já «sabiam bem» os paletots; e tons amarellados
-começavam a envelhecer as verduras.
-
---Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho!--disse Jorge,
-estirando-se na _voltaire_.
-
-Estivera contando a Luiza a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro,
-e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos d'um bello relatorio;
-creára amigos n'aquella boa gente do Alemtejo; estavam acabadas as
-soalheiras, as cavalgadas pelos montados, os quartos d'hospedaria; e
-alli estava emfim na sua casinha. E como na vespera da sua partida,
-soprava o fumo do cigarro, cofiando com delicias o bigode,--porque
-tinha cortado a barba! Fôra a grande admiração de Luiza, quando o viu.
-Elle explicára, com humilhação e melancolia, que tivera um furunculo no
-queixo, com o calor...
-
---Mas que bem te fica!--tinha ella dito--que bem que te fica!
-
-Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de louça da China, muito
-antigos, com mandarins bojudos, de tunicas esmaltadas, suspensos
-magestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em
-casa d'umas velhas miguelistas, em Mertola. Luiza dispunha-os muito
-decorativamente nas prateleiras do guarda-louça: e em bicos de pés,
-com a larga cauda do seu roupão estendida por traz, a massa loura do
-cabello pesado, um pouco desmanchado sobre as costas--parecia a Jorge
-mais esbelta, mais irresistivel, e nunca a sua cinta fina lhe attrahira
-tanto os braços.
-
---A ultima vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo,
-lembras-te?
-
---Lembro--disse Luiza sem se voltar, collocando muito delicadamente um
-prato.
-
---E é verdade--perguntou Jorge de repente--teu primo? Vistel-o? Veio
-vêr-te?
-
-O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos.
-
---Sim, veio--disse Luiza, depois d'um silencio--esteve ahi umas poucas
-de vezes. Demorou-se pouco...
-
-Abaixou-se, abriu o gavetão do guarda-louça, esteve a remexer nas
-colheres de prata: ergueu-se, emfim, voltou-se com um sorriso,
-vermelha, sacudindo as mãos:
-
---Prompto!
-
-E foi sentar-se nos joelhos de Jorge.
-
---Como te fica bem!--dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, d'um
-modo ardente. Quando se atirára aos seus braços n'aquella madrugada,
-sentira como abrir-se-lhe o coração, e um amor repentino revolver-lh'o
-deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o
-servir, de o apertar nos braços até lhe fazer mal, de lhe obedecer com
-humildade; era uma sensação multipla, de uma doçura infinita, que a
-traspassára até ás profundidades do seu sêr. E passando-lhe um braço
-pelo pescoço, murmurava com um movimento d'uma adulação quasi lasciva:
-
---Estás contente? Sentes-te bom? Dize!
-
-Nunca lhe parecera tão bonito, tão bom; a sua pessoa depois d'aquella
-separação dava-lhe as admirações, os enlevos d'uma paixão nova.
-
---É o snr. Sebastião--veio dizer Juliana toda risonha para Jorge.
-
-Jorge deu um pulo, afastou Luiza bruscamente, atirou-se pelo corredor
-gritando:
-
---Aos meus braços! aos meus braços, scelerado!
-
-
-D'ahi a dias, uma manhã que Jorge sahira para o ministerio, Juliana
-entrou no quarto de Luiza, e fechando a porta devagarinho, com uma voz
-muito amavel:
-
---Eu desejava fallar á senhora n'uma cousa.
-
-E começou a dizer,--que o seu quarto em cima no sotão era peor que
-uma enxovia; que não podia lá continuar; o calor, o mau cheiro, os
-persevejos, a falta d'ar, e no inverno a humidade, matavam-na! Emfim,
-desejava mudar p'ra baixo, p'ra o quarto dos bahus.
-
-O _quarto dos bahus_ tinha uma janella nas trazeiras; era alto e
-espaçoso; guardavam-se alli os oleados de Jorge, as suas malas, os
-paletots velhos, e veneraveis bahus do tempo da avó, de couro vermelho
-com pregos amarellos.
-
---Ficava alli como no céo, minha senhora!
-
-E... aonde se haviam de pôr os bahus?
-
---No meu quarto, em cima.--E com um risinho:--Os bahus não são gente,
-não soffrem...
-
-Luiza disse um pouco embaraçada:
-
---Bem, eu verei, eu fallarei ao snr. Jorge.
-
---Conto com a senhora.
-
-Mas apenas n'essa tarde Luiza explicou a Jorge «a ambição da pobre de
-Christo», elle deu um salto:
-
---O quê? Mudar os bahus? Está douda!
-
-Luiza então insistiu: era o sonho da pobre creatura desde que viera
-para a casa! Enterneceu-o. Não, elle não imaginava, ninguem imaginava
-o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava, os ratos
-passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fôra lá
-ha dias, e ia tombando para o lado...
-
---Santo Deus! Mas isso é o que minha avó contava das enxovias
-d'Almeida! Muda-a, muda-a depressa, filha!... Porei os meus ricos bahus
-no sotão.
-
-Quando Juliana soube o _favor_:
-
---Ai, minha senhora, é a vida que me dá! Deus lh'o pague! Que eu não
-tinha saude para viver n'um cacifro d'aquelles.
-
-Ultimamente queixava-se mais: andava amarella, trazia os beiços
-um pouco arroxeados; tinha dias d'uma tristeza negra, ou d'uma
-irritabilidade morbida: os pés nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos
-cuidados, muitos cuidados!...
-
-Foi por isso que d'ahi a dous dias veio pedir a Luiza, «se fazia o
-favor d'ir ao quarto dos bahus». E lá, mostrando-lhe o soalho velho e
-carunchoso:
-
---Isto não póde ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira
-senão, não vale a pena mudar. Eu se tivesse dinheiro não importunava a
-senhora, mas...
-
---Bem, bem, eu arranjarei--disse Luiza com uma voz paciente.
-
-E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manhã em que os
-esteireiros a pregavam Jorge veio perguntar attonito a Luiza o que era
-aquillo, «rolos d'esteira no corredor»?
-
-Ella pôz-se a rir, pousou-lhe as mãos sobre os hombros:
-
---Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o
-soalho estava podre. Até a queria pagar, e que eu lh'a descontasse
-nas soldadas. Ora por uma ridicularia...--E com um gesto
-compassivo:--Tambem são creaturas de Deus, não são escravas, filho!
-
---Magnifico! E que não tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudança
-foi essa, tu que a não podias vêr?
-
---Coitada!--fez Luiza--reconheci que era boa mulher. E como estive
-tão só, dei-me mais com ella. Não tinha com quem fallar, fez-me muita
-companhia. Até quando estive doente...
-
---Estiveste doente?--exclamou Jorge espantado.
-
---Oh! tres dias, só--acudiu ella--uma constipação. Pois olha que dia e
-noite não se tirou d'ao pé de mim.
-
-Luiza ficou logo com receio que Jorge fallasse _na doença_, e Juliana
-desprevenida negasse; por isso, n'essa tarde, ao escurecer, chamou-a ao
-quarto:
-
---Eu disse ao snr. Jorge que vossê me tinha feito muito boa companhia
-n'uma doença...--E o seu rosto abrazava-se de vergonha.
-
-Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade:
-
---Fico entendida, minha senhora! Póde estar socegada!
-
-Com effeito Jorge, ao outro dia, depois do café, voltou-se para
-Juliana, e com bondade:
-
---Parece que vossê fez boa companhia á snr.^a D. Luiza.
-
---Fiz o meu dever--exclamou, curvando-se com a mão no peito.
-
---Bem, bem--fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sahir da sala meteu-lhe
-na mão meia libra.
-
---Palerma!--rosnou ella.
-
-Foi n'essa semana que começou a queixar-se a Luiza, «que a roupa e os
-vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam...» Estava-se-lhe a estragar
-tudo! Se ella tivesse dinheiro, não vinha com aquelles pedidos á
-senhora, mas... Emfim uma manhã declarou terminantemente que precisava
-uma commoda.
-
-Luiza sentiu uma raiva accender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos
-do bordado:
-
---Uma meia commoda?
-
---Se a senhora quer fazer o favor, então uma commoda inteira...
-
---Mas vossê tem pouca roupa--disse Luiza. Começava a installar-se na
-humilhação e já regateava as condescendencias.
-
---Tenho, sim, minha senhora--replicou Juliana--mas vou agora
-completar-me!
-
-A commoda foi comprada em segredo, e introduzida occultamente. Que dia
-de felicidade para Juliana! Não se fartava de lhe saborear o cheiro
-da madeira nova! Passava a mão, com a tremura d'uma caricia, sobre
-o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de sêda, _e
-começou a completar-se_!
-
-
-Foram semanas d'amargura para Luiza.
-
-Juliana entrava no quarto todas as manhãs, muito comprimenteira,
-começava a arrumar, e de repente com uma voz lamentosa:
-
---Ai! estou tão falta de camisas! se a senhora me podesse ajudar...
-
-Luiza ia ás suas gavetas cheias, cheirosas, e começava melancolicamente
-a pôr á parte as peças mais usadas. Adorava a sua roupa branca: tinha
-tudo ás duzias, com lindas marcas, _sachets_ para perfumar; e aquellas
-dadivas dilaceravam-n'a como mutilações! Juliana por fim já pedia com
-seccura, com direito:
-
---Que bonita que é esta camisinha!--dizia simplesmente.--A senhora não
-a quer; não?
-
---Leve, leve!--dizia Luiza sorrindo, por orgulho, para não se mostrar
-violentada.
-
-E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira,
-inchada d'alegria, com o candieiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa,
-desfazendo as duas letras de Luiza, marcando regaladamente as suas, a
-linha vermelha, enormes--_J. C. T.,_--Juliana Couceiro Tavira!
-
-Mas emfim cessou, porque, como ella dizia, «de roupa branca estava como
-um ovo».
-
---Agora, se a senhora me quizer ajudar com alguma cousa para sahir...
-
-E Luiza começou a _vestil-a_.
-
-Deu-lhe um vestido roxo de sêda, um casaco de casimira preta,
-com bordados a _soutache_. E receando que Jorge estranhasse as
-generosidades, transformava-as para elle as não reconhecer: mandou
-tingir de castanho o vestido, ella mesmo por sua mão pôz uma guarnição
-de velludo no casaco. Trabalhava para ella, agora!--Como acabaria tudo
-aquillo, Santo Deus?
-
-Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo:
-
---Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos.
-
-D. Felicidade, á noite, tambem notou:
-
---Que _chic_! Nem uma criada do paço!
-
---Coitada! cousas que ella aproveita...
-
-Prosperava, com effeito! Não punha na cama senão lençoes de linho.
-Reclamára colxões novos, um tapete para os pés da cama, felpudo! Os
-_sachets_ que perfumavam a roupa de Luiza iam passando para a dobra
-das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janella, apanhadas com
-velhas fitas de sêda azul; e sobre a commoda dous vasos da Vista Alegre
-dourados! Emfim um dia santo, em lugar da _cuia_ de retroz, appareceu
-com um _chignon_ de cabello!
-
-Joanna pasmava d'aquellas tafularias. Attribuia-as á bondade da
-senhora, e resentia-se de ser «esquecida». Um dia mesmo, que Juliana
-estreára uma sombrinha, disse diante de Luiza, com uma voz de despeito:
-
---Para umas tudo, para outras nada!...
-
-Luiza riu, acudiu:
-
---Tolices! Eu sou a mesma p'ra todas.
-
-Mas reflectiu: Joanna podia ter desconfianças tambem, ter ouvido
-_alguma cousa_ a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar
-contente e amiga, deu-lhe dous lenços de sêda, depois dous mil reis
-para um vestido; e d'ahi por diante nunca lhe recusou licença para
-sahir á noitinha _a casa d'uma tia_...
-
-A Joanna ia por toda a parte fallando da «senhora, que era um anjo».
-Na rua, de resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do
-«quarto novo», dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com
-indignação, «que alli positivamente havia marosca». Mas Juliana uma
-tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas.
-
---Ora! dizem que tenho isto e aquillo. Não é tanto! Tenho as minhas
-commodidades. Mas tambem a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia
-e de noite, sem arredar pé... Por mais que façam não me pagam, que
-arruinei a minha saude!
-
-Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a familia
-agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta!
-
-E, pouco a pouco, a casa do «Engenheiro» teve para os criados da
-visinhança a vaga seducção d'um paraiso: dizia-se que as soldadas
-eram enormes, havia vinho á discrição, recebiam-se presentes todas as
-semanas, ceava-se todas as noites caldo do gallinha! Cada um invejava
-aquella «pechincha». Pela inculcadeira, a fama da «casa do Engenheiro»
-alargou-se. Creou-se uma legenda.
-
-Jorge, attonito, recebia todos os dias cartas de pessoas offerecendo-se
-para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros,
-governantas, cocheiros, guarda-portões, ajudantes de cozinha... Citavam
-as casas titulares de que tinham sahido; pediam audiencia; suspeitando
-certas cousas uma bonita criada de quarto juntou a sua photographia; um
-cozinheiro trouxe uma carta d'empenho do director geral do ministerio.
-
---Estranho caso!--dizia Jorge, pasmado--disputam-se a honra de me
-servir! Imaginarão que me sahiu a sorte grande?
-
-Mas não dava muita attenção áquella singularidade. Vivia então muito
-occupado: andava escrevendo o seu relatorio; e todos os dias sahia ao
-meio dia, voltava ás seis, com rolos de papeis, mappas, brochuras,
-fatigado, berrando pelo jantar, radiante.
-
-Contou o _caso_, todavia, rindo, um domingo á noite. O Conselheiro
-observou logo:
-
---Com o bom genio da D. Luiza, com o seu, Jorge, n'este bairro
-saudavel, n'uma casa sem escandalos, sem questões de familia, toda
-virtude, é natural que a criadagem menos favorecida aspire a uma
-posição tão agradavel.
-
---Somos os amos ideaes!--disse Jorge, batendo muito alegre no hombro de
-Luiza.
-
-A casa, com effeito, tornava-se «agradavel». Juliana exigira que o
-jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como
-era boa cozinheira vigiava os fogões, provava, ensinava pratos á Joanna.
-
---Esta Joanna é uma revelação--dizia Jorge--vê-se-lhe crescer o
-talento!...
-
-Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pelle,
-colxões macios, saboreava a vida: o seu temperamento adoçára-se
-n'aquellas abundancias; depois, bem aconselhada pela tia Victoria,
-fazia o seu serviço com um zelo minucioso e habil. Os vestidos de Luiza
-andavam cuidados como reliquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham
-resplandecido tanto! O sol d'outubro alegrava a casa, muito aceada,
-d'uma pacatez d'abbadia. Até o gato engordava.
-
-
-E no meio d'aquella prosperidade--Luiza definhava-se. Até onde iria a
-tyrannia de Juliana? era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a
-por vezes com um olhar tão intensamente rancoroso, que receava que ella
-se voltasse subitamente, como ferida pelas costas. E via-a satisfeita,
-cantarolando a _Carta adorada_, dormindo em colxões tão bons como os
-seus, pavoneando-se na _sua_ roupa, reinando na _sua_ casa! Era justo,
-justos céos?
-
-Ás vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braços, blasphemava,
-debatia-se na sua desgraça, como nas malhas d'uma rêde; mas, não
-encontrando nenhuma solução, recahia n'uma melancolia aspera--em que o
-seu genio se pervertia. Seguia com satisfação a amarellidão crescente
-das feições de Juliana; tinha esperanças no aneurisma: não rebentaria
-um dia, o demonio?
-
-E diante de Jorge tinha de a elogiar!
-
-A vida pesava-lhe. Apenas elle pela manhã sahia e fechava a cancella,
-logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma,
-devagar, como grandes véos espessos que se abatem lugubremente; não
-se vestia então até ás quatro, cinco horas, e com o roupão solto, em
-chinellas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto.
-Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir metter-se
-n'um convento! A sua sensibilidade muito exaltada impellil-a-hia de
-certo a alguma resolução melodramatica,--se a não retivesse, com a
-força d'uma seducção permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava
-agora, immensamente! Amava-o com cuidados de mãi, com impetos de
-concubina... Tinha ciumes de tudo, até do ministerio, até do relatorio!
-Ia interrompêl-o a cada momento, tirar-lhe a penna da mão, reclamar
-o seu olhar, a sua voz; e os passos d'elle no corredor davam-lhe o
-alvoroço dos amores illegitimos...
-
-De resto ella mesma se esforçava por desenvolver aquella paixão,
-achando n'ella a compensação ineffavel das suas humilhações. Como
-lhe viera _aquillo_? Porque sempre o amára, de certo, reconhecia-o
-agora,--mas não tanto, não tão exclusivamente! Nem ella sabia.
-Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente n'aquella violencia amorosa
-pouca dignidade conjugal: suspeitava que o que tinha era apenas um
-_capricho_. Um capricho por seu marido! Não lhe parecia rigorosamente
-casto... Que lhe importava, de resto? Aquillo fazia-a feliz,
-prodigiosamente. Fosse o que fosse era delicioso!
-
-Ao principio a idéa do _outro_ pairava constantemente sobre este amor,
-pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas
-pouco a pouco esquecêra-o tanto, o _outro_--que a sua recordação,
-quando por acaso voltava, não dava mais amargor á nova paixão, que um
-torrão de sal póde dar ás aguas d'uma torrente. Que feliz que seria--se
-não fosse a _infame_!
-
-
-Era a _infame_ que se sentia feliz! Ás vezes só no seu quarto, punha-se
-a olhar em redor com um riso d'avaro: desdobrava, batia os vestidos de
-sêda: punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, extatica;
-e debruçada sobre as gavetas abertas da commoda contava, recontava a
-roupa branca, acariciando-a com o olhar de posse satisfeita. Como a da
-_Piorrinha_!--murmurava, afogada em jubilo.
-
---Ai! estou muito bem!--dizia ella á tia Victoria.
-
---Que duvida que estás! A carta não te rendeu um conto de reis, mas
-olha que te trouxe um par de regalos. E é que ha-de ser uma pingadeira:
-ha-de ser a boa peça de linho, o bom adereço, boas moedas... E ainda
-muito obrigada por cima. Carda-a, filha, carda-a!
-
-Mas já havia pouco que _cardar_. E lentamente Juliana começou a pensar,
-que agora o que devia era _gozar_. Se tinha bons colxões--para que se
-havia de levantar cêdo? Se tinha bons vestidos--porque não havia d'ir
-espairecer para a rua? Toca a tirar partido!
-
-Uma manhã que estava mais frio deixou-se ficar na cama até ás nove
-horas, com as janellas entreabertas, um bom raio de sol na esteira.
-Depois explicou seccamente, que tinha estado com a dôr. D'ahi a dous
-dias Joanna, ás dez horas, veio dizer baixo a Luiza:
-
---A snr.^a Juliana ainda está na cama, está tudo por arrumar.
-
-Luiza ficou aterrada. O quê? Teria de soffrer os seus desmazelos, como
-soffrera as suas exigencias?
-
-Foi ao quarto d'ella:
-
---Então vossê levanta-se a estas horas?
-
---Foi o que me recommendou o medico--replicou muito insolente.
-
-E d'ahi por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de
-servir ao almoço. Luiza pediu logo a Joanna que fizesse «o serviço por
-ella»: era por pouco tempo, a pobre creatura andava tão adoentada!
-E para acommodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda d'um
-vestido.
-
-Juliana depois, sem pedir licença, começou a sahir. Quando voltava
-tarde, para o jantar, não se desculpava!
-
-Um dia Luiza não se conteve, disse-lhe, vendo-a passar no corredor a
-calçar as luvas pretas:
-
---Vossê vai sahir?
-
-Ella respondeu, muito atrevidamente:
-
---É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é minha obrigação.--E
-abalou, batendo os tacões.
-
-Ora, não lhe faltava mais senão estar a constranger-se por causa da
-_Piorrinha_!
-
-Joanna começava a resmungar: «passa a sua vida na rua a snr.^a Juliana,
-e eu é que aguento...»
-
---Se vossê estivesse doente, tambem ninguem lhe ia á mão--acudia Luiza,
-afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe
-mesmo vinho e sobremesa.
-
-Havia agora um desperdicio na casa. Os roes cresciam. Luiza andava
-succumbida.--Como acabaria tudo aquillo?
-
-Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves.
-
-Para sahir mais cedo fazia apenas o «essencial». Era Luiza que acabava
-d'encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoço, que
-levava para o sotão roupa suja que ficava pelos cantos...
-
-Um dia Jorge que entrára ás quatro horas, viu por acaso a cama por
-fazer. Luiza apressou-se a dizer que «Juliana sahira, mandára-a ella á
-modista».
-
-D'ahi a dias, eram seis horas, ainda não tinha voltado para servir ao
-jantar. «Tinha ido á modista...» explicou Luiza.
-
---Mas se a Juliana é unicamente para ir á modista, então toma-se outra
-criada para fazer o serviço da casa--disse elle.
-
-Áquellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, duas lagrimas
-rolaram-lhe pela face.
-
-Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luiza não se dominou, rompeu
-n'um choro nervoso, hysterico.
-
---Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?...
-
-Ella não podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de
-_toillette_, beijou-a muito.
-
-Só quando o choro acalmou é que ella pôde dizer, com uma voz soluçada:
-
---Fallaste-me tão seccamente, e eu estou tão nervosa...
-
-Elle riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas--mas ficou
-inquieto.
-
-Já então lhe notára certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma
-irritabilidade nervosa... Que seria?
-
-Para que Jorge não tornasse a surprehender os desleixos, Luiza começou
-a completar todas as manhãs os arranjos. Juliana percebeu logo; e
-muito tranquillamente decidiu-se a «deixar-lhe de cada vez mais com
-que se entreter». Ora não varria, depois não fazia a cama; emfim uma
-manhã não vasou as aguas sujas. Luiza foi espreitar no corredor que
-Joanna não descesse, não a visse, e fez ella mesma os despejos! Quando
-veio ensaboar as mãos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava
-morrer!... A que tinha chegado!...
-
-D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a
-varrer a sala.
-
---Que eu o faça--exclamou--que tenho só uma criada, mas tu!...
-
-A Juliana tinha tanto que engommar...
-
---Ai! não lhe tires serviço do corpo, que não t'o agradece. E ainda se
-ri por cima! Se a pões em maus costumes!... Que aguente, que aguente!
-
-Luiza sorriu, disse:
-
---Ora, por uma vez na vida!
-
-
-A sua tristeza augmentava cada dia.
-
-Refugiava-se então no amor de Jorge como na sua unica consolação. A
-noite trazia-lhe a sua desforra: Juliana a essa hora dormia; não via a
-sua cara medonha; não a receava; não tinha de a elogiar; não trabalhava
-por ella! Era _ella mesma_, era Luiza, como d'antes! Estava na sua
-alcova com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir,
-conversar, ter até appetite! E trazia com effeito ás vezes marmelada e
-pão para o quarto--para fazer uma cêasinha!
-
-Jorge estranhava-a. «Tu de noite és outra», dizia. Chamava-lhe
-_ave nocturna_. Ella ria em saia branca pelo quarto, com os braços
-nús, o collo nú, o cabello n'um rolo; e passarinhava, cantarolava,
-chalrava--até que Jorge lhe dizia:
-
---Passa da uma hora, filha!
-
-Despia-se então rapidamente, cahia-lhe nos braços.
-
-Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manhã, tudo lhe
-parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com
-repugnancia--entrando no seu dia como n'uma prisão.
-
-Perdêra agora toda a esperança de se libertar! Ás vezes ainda lhe
-vinha, como um relampago, a vontade «de contar tudo a Sebastião, tudo».
-Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraçar Jorge, rirem ambos,
-e irem fumar o seu cachimbo, e elle tão cheio sempre d'admiração por
-ella, parecia-lhe mais facil sahir p'ra a rua, pedir dinheiro ao
-primeiro homem que encontrasse--que ir a Sebastião, ao intimo de Jorge,
-ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a
-criada roubou-m'a! Não, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias,
-e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! Ás vezes reflectia,
-pensava:--Mas com que conto eu?--Não sabia. Com o acaso, com a morte
-de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que
-vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma cousa de indefinido e de
-tenebroso onde se afundaria!
-
-Por esse tempo Jorge começou a queixar-se que as suas camisas andavam
-mal engommadas. A Juliana positivamente «perdia a mão». Um dia mesmo
-zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada:
-
---Isto não se póde vestir, está indecente!
-
-Juliana fez-se amarella, cravou em Luiza um olhar chammejante; mas, com
-os beiços tremulos, desculpou-se: «a gomma era má, fôra já trocal-a»,
-etc.
-
-Apenas, porém, Jorge sahiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a
-porta e poz-se a gritar--que a senhora sujava _um rôr_ de roupa, o
-senhor _um rôr_ de camisas, que se não tivesse alguem que a ajudasse
-não podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brazil!
-
---E não estou para aturar o genio de seu marido, percebe a senhora? Se
-quer é arranjar quem me ajude.
-
-Luiza disse simplesmente:
-
---Eu a ajudarei.
-
-Tinha agora uma resignação muda, sombria, aceitava tudo!
-
-Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio
-dizer--que se a senhora passasse, ella engommava. Senão, não!
-
-Estava um dia adoravel, Luiza tencionava sahir... Pôz um roupão, e, sem
-uma palavra, foi buscar o ferro.
-
-Joanna ficou attonita.
-
---Então a senhora vai engommar?
-
---Ha uma carga, e a Juliana só não póde aviar tudo, coitada!
-
-Installou-se no quarto dos engommados,--e estava laboriosamente
-passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana appareceu, de chapéo.
-
---Vossê vai sahir?--exclamou Luiza.
-
---É o que eu vinha dizer á senhora. Não posso deixar de sahir.--E
-abotoava as luvas pretas.
-
---Mas as camisas, quem as engomma?
-
---Eu vou sahir--disse a outra seccamente.
-
---Mas, com os diabos, quem engomma as camisas?
-
---Engomme-as a senhora! Olha a sarna!
-
---Infame!--gritou Luiza. Atirou o ferro para o chão, sahiu
-impetuosamente.
-
-Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluços. Pôz-se logo a tirar o
-chapéo e as luvas, assustada. D'ahi a um momento ouviu a cancella da
-rua bater com força. Veio ao quarto, viu o roupão de Luiza arremessado,
-a chapelleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se á policia? Procurar
-o marido? C'os diabos! Fôra estupida, com o genio! Arrumou depressa
-o quarto, foi-se pôr a engommar, com o ouvido á escuta, muito
-arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impellisse
-a fazer algum desproposito, quem perdia? Ella, que teria de sahir da
-casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posição! Safa!
-
-
-Luiza sahira, como louca. Na rua da Escóla um coupé passava, vazio:
-atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina.
-Leopoldina devia ter voltado do Porto, queria vêl-a, precisava d'ella,
-sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe uma idéa, um meio de se
-vingar! Porque a vontade de se libertar d'aquella tyrannia--era agora
-menor que o desejo de se vingar d'aquellas humilhações. Vinham-lhe
-idéas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um
-prazer delicioso em a vêr torcer-se com vomitos dilacerantes, uivando
-d'agonia, largando a alma!
-
-Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito
-tempo do puxão da sua mão febril.
-
-A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor:
-
---É a snr.^a D. Luiza, minha senhora, é a snr.^a D. Luiza!
-
-E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate de grande cauda,
-correu estendendo os braços:
-
---És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me agora! Entra cá p'ra o
-quarto. Está tudo desarranjado, mas não importa. Mas que é isto, que é
-isto?
-
-Abriu as janellas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de
-vinagre de _toilette_; a Justina tirava á pressa uma bacia de latão,
-com agua ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira
-tinham ficado da vespera os rolos de cabello, o collete, uma chavena
-com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o
-transparente, dizendo:
-
---Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!...
-
-Mas vendo o rosto perturbado de Luiza, os seus olhos vermelhos de
-lagrimas:
-
---Que é? Que tens tu? Que succedeu?
-
---Um horror, Leopoldina!--exclamou, apertando as mãos.
-
-A outra foi fechar a porta, rapidamente.
-
---Então?
-
-Mas Luiza chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada.
-
---A Juliana apanhou-me umas cartas!--disse emfim por entre
-soluços.--Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me
-martyrisado... Quero que me digas, vê se te lembras... Estou como
-douda. Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso!--E as lagrimas
-redobravam.
-
---E as tuas joias?
-
---Valem duzentos mil reis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer?
-
-Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os
-braços:
-
---Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, dá vinte libras!...
-
-Luiza murmurava, limpando os olhos:
-
---Que expiação esta, Santo Deus, que expiação!
-
---Que diz a carta?
-
---Horrores! Estava douda... É uma minha, duas d'elle.
-
---De teu primo?
-
-Luiza disse «sim», com a cabeça, lentamente.
-
---E elle?
-
---Não sei! Está em França, nunca me respondeu.
-
---Pulha! Como t'as apanhou, a mulher?
-
-Luiza contou rapidamente a historia do sarcophago, e do cofre.
-
---Mas tu tambem, Luiza, atirar uma carta d'essas! Oh mulher, isso é
-medonho!
-
-E Leopoldina pôz-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do
-roupão escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam
-procurar um meio, um expediente... Murmurava:
-
---A questão é de dinheiro...
-
-Luiza, prostrada no sophá, repetia:
-
---A questão é de dinheiro!
-
-Então Leopoldina, parando bruscamente diante d'ella:
-
---Eu sei quem te dava o dinheiro!...
-
---Quem?
-
---Um homem.
-
-Luiza ergueu-se, espantada:
-
---Quem?
-
---O Castro.
-
---O d'oculos?
-
---O d'oculos.
-
-Luiza fez-se muito córada:
-
---Oh Leopoldina!--murmurou. E depois d'um silencio, rapidamente:
-
---Quem t'o disse?
-
---Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que
-te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais d'uma vez.
-
---Que horror!--exclamou Luiza subitamente indignada.--E tu propões-me
-semelhante cousa?--O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas,
-dardejava de colera. Ir com um homem por dinheiro!--Tirou o chapéo,
-violentamente, com as mãos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e
-com passos rapidos pelo quarto:--Antes fugir, ir para um convento, ser
-criada, apanhar a lama das ruas!
-
---Não te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te
-emprestasse o dinheiro, desinteressadamente...
-
---Acreditas tu?
-
-Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa, fazia girar os anneis nos
-dedos.
-
---E quando fosse outra cousa?--exclamou de repente--Era um conto de
-reis, eram dous, estavas salva, estavas feliz!
-
-Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas palavras--dos seus
-proprios pensamentos, talvez!
-
---É indecente! É horrivel!--dizia.
-
-Ficaram caladas.
-
---Ah! fosse eu!...--disse Leopoldina.
-
---Que fazias?
-
---Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro!
-
---Isso és tu!--exclamou Luiza, arrebatadamente.
-
-Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó d'arroz.
-
-Mas Luiza atirou-lhe os braços ao pescoço:
-
---Perdôa-me, perdôa-me! estou douda, não sei o que digo!...
-
-Começaram ambas a chorar, muito nervosas.
-
---Tu zangaste-te!--dizia Leopoldina cortada de soluços.--Mas é p'ra
-teu bem. É o que me parece melhor. Se eu podesse dava-te o dinheiro...
-Fazia tudo. Acredita!
-
-E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime:
-
---Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinhal-o ámanhã!
-
-Nós de dedos bateram á porta.
-
---Quem é?
-
---Eu--disse uma voz rouca.
-
---É meu marido. O animal ainda hoje não despegou de casa... Não posso
-abrir. Logo.
-
-Luiza limpava os olhos, á pressa, punha o chapéo.
-
---Quando voltas?--perguntou Leopoldina.
-
---Quando puder, senão escrevo-te.
-
---Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar...
-
-Luiza agarrou-lhe o braço:
-
---E d'isto, nem palavra.
-
---Douda!
-
-
-Sahiu. Foi subindo devagar até ao largo de S. Roque. A porta da igreja
-da Misericordia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho
-d'armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo
-d'entrar. Não sabia para quê; mas parecia-lhe que depois da excitação
-apaixonada em que vibrára, o fresco silencio da igreja a calmaria.
-E depois sentia-se tão infeliz que se lembrou de Deus! necessitava
-alguma cousa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar
-ao pé d'um altar, persignou-se, rezou o _Padre-Nosso_, depois a _Salve
-Rainha_. Mas aquellas orações, que ella recitava em pequena, não a
-consolavam; sentia que eram sons inertes que não iam mais alto no
-caminho do céo que a sua mesma respiração; não as comprehendia bem,
-nem se applicavam ao seu _caso_: Deus por ellas, nunca poderia saber o
-que ella pedia, alli, prostrada na afflicção. Quereria fallar a Deus,
-abrir-se toda a elle: mas com que linguagem? Com as palavras triviaes,
-como se fallasse a Leopoldina? Iriam as suas confidencias tão longe,
-que o alcançassem? Estaria elle tão perto, que a ouvisse? E ficou
-ajoelhada, os braços molles, as mãos cruzadas no regaço, olhando as
-velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha
-rosada e redonda d'um menino Jesus!
-
-Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella não dirigia, que se
-formava e se movia no seu cerebro, como a fluctuação d'um fumo que se
-eleva. Pensava no tempo tão distante, em que, por melancolia e por
-sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda a mamã vivia
-então; e ella, com o coração quebrado--quando o _outro_, Bazilio, lhe
-escrevera, rompendo--procurava dissipar a sua tristeza nas consolações
-da devoção. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, fôra por esse tempo
-professar a França: e ella ás vezes lembrava-se de partir tambem,
-ser irmã de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou
-viver na paz d'uma cella mystica! Que differente a sua vida teria
-sido--d'esta agora tão alvoroçada de cólera, e tão carregada de
-peccado!... Onde estaria? Longe, n'algum mosteiro antigo, entre
-arvoredos escuros, n'um valle solitario e contemplativo: na Escocia,
-talvez, paiz que ella sempre amára desde as suas leituras de Walter
-Scott. Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe,
-n'alguma velha abbadia saxonia. Em redor os montes cobertos d'abetos,
-esbatidos nas nevoas, isolam aquelles retiros n'uma paz funeraria: n'um
-céo saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som
-festivo quebra a meiga taciturnidade das cousas: revoadas de corvos
-cortam á tarde o ar n'um vôo triangular. Alli viveria entre as monjas
-d'alta estatura e olhar celtico, filhas de duques normandos, ou de
-lords de _clans_ convertidos a Roma: leria livros dôces e cheios das
-cousas do céo: sentada na estreita janella da sua cella, veria passar
-nas mattas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas
-escutaria o som distante da _bagpipe_, que vai tristemente tocando o
-pastor que vem dos valles de Callendar: e todo o ar estaria cheio do
-murmurio choroso e gottejante dos fios d'agua, que por entre as relvas
-escuras cahem de rocha em rocha!
-
-Ou então seria outra existencia mais regalada, no convento pacato d'uma
-boa provincia portugueza. Alli os tectos são baixos; as paredes caiadas
-faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no
-vivo ar azul; em roda, nos campos d'oliveiras que dão azeite para o
-convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pateo lageado d'uma
-pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a
-ferradura: matronas cochicham ao pé da roda; um carro chia na estrada
-empoeirada e branca; gallos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras
-gordinhas, d'olho negro, chalram nos frescos corredores.
-
-Alli viveria, engordando, com uma quebrasinha de somno á hora do côro,
-bebendo copinhos de licôr de rosa no quarto da madre-escrivã, copiando
-receitas de dôces com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as
-andorinhas cantar á beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita,
-com a pitada nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da bocca da madre
-abbadessa a historia edificante da sua santa morte...
-
-Um sacristão, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de
-passaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram.
-Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste.
-
-Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz supplicante
-e baixa:
-
---A senhora por quem é perdôe, que depois estava douda! Estava com
-a cabeça perdida, não tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais
-afflicta...
-
-Luiza não respondeu, entrou na sala. Sebastião que vinha jantar, tocava
-a serenata de D. Juan--e apenas ella appareceu:
-
---D'onde vem, tão pallida?
-
---Debilidade, Sebastião, venho da igreja...
-
-Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na mão:
-
---Da igreja!--exclamou--Que horror!
-
-
-
-
-XII
-
-
-Foi por esse tempo que, n'um sabbado, o Diario do Governo publicou a
-nomeação do conselheiro Accacio ao _grau de cavalleiro da ordem de S.
-Thiago_, attendendo aos seus grandes merecimentos litterarios, ás obras
-publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes...
-
-Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram,
-felicitando-o com alarido; o Conselheiro, depois de os abraçar um por
-um, n'uma pressão nervosa e commovida, cahiu no sophá, exhausto, e
-murmurou:
-
---Não o esperava tão cedo da real munificencia! Não o esperava tão
-cedo!--E acrescentou, pondo a mão espalmada sobre o peito:--Direi como
-o philosopho: Esta condecoração é o melhor dia da minha vida!
-
-E convidou logo Jorge, Sebastião e Julião para um jantar na
-quinta-feira, «um modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugurio,
-para festejarem a regia graça».
-
---Ás cinco e meia, meus bons amigos!
-
-Na quinta-feira, os tres, que se tinham encontrado na Casa Havaneza,
-eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfregão, na
-sala do Conselheiro. Um vasto canapé de damasco amarello occupava a
-parede do fundo, tendo aos pés um tapete onde um chileno roxo caçava ao
-laço um bufalo côr de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons
-côr de carne, e cheia de corpos nús cobertos de capacetes, representava
-o valente Achilles arrastando Heitor em torno dos muros de Troya. Um
-piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta verde, enchia
-o intervallo das duas janellas. Sobre uma mesa de jogo, entre dous
-castiçaes de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o
-objecto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de musica de
-18 peças!
-
-O Conselheiro recebeu-os, com o _habito_ de S. Thiago sobre a lapella
-do _frac_ preto. Havia outro sujeito na sala, o snr. Alves Coutinho.
-Era picado das bexigas, tinha a cabeça muito enterrada nos hombros;
-quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode
-pellado arreganhava-se logo por habito, n'um sorriso alvar que mostrava
-uma bocca medonha cheia de dentes pôdres; fallava pouco, esfregava
-sempre as mãos, concordava em tudo; havia n'elle o ar d'um deboche
-banal, e d'um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministerio do
-reino, illustre pela sua boa letra.
-
-D'ahi a pouco entrou a figura conhecida do Savedra, redactor do
-_Seculo_. A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto
-reluzia de brilhantina; as lunetas d'ouro accentuavam o seu tom
-official: trazia ainda no queixo o pó d'arroz, que lhe pozera momentos
-antes o barbeiro; e a mão, que escrevia tanta banalidade e tanta
-mentira, vinha aperreada n'uma luva nova, côr de gema d'ovo!
-
---Estamos todos!--disse com jubilo o Conselheiro. E
-curvando-se:--Bemvindos, meus amigos! Estamos talvez mais á vontade
-no meu quarto de estudo! Por aqui. Ha um degrau, cuidado! Eis o meu
-_Sanctus Sanctorum_!
-
-N'uma saleta muito espanejada a que as cortinas de cassa, a luz de
-duas janellas de peitoril, e o papel claro davam um aspecto alvadio,
-estava a larga escrivaninha de trabalho, com um tinteiro de prata, os
-lapis muito aparados, as regoas bem dispostas. Via-se o sinete d'armas
-do Conselheiro, pousado sobre a _Carta Constitucional_ ricamente
-encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a _carta regia_ que o
-nomeára Conselheiro; defronte uma lithographia d'El-Rei; e sobre uma
-mesa, era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhães,
-tendo no alto da cabeça uma corôa de perpetuas--que ao mesmo tempo o
-glorificava e o chorava.
-
-Julião pozera-se logo a examinar a livraria.
-
---Prezo-me de ter os authores mais illustres, amigo Zuzarte!--disse com
-orgulho o Conselheiro.
-
-Mostrou-lhe a _Historia do consulado e do imperio_, as obras de
-Delille, o _Diccionario da conversação_, a ediçãosinha bojuda da
-_Encyclopedia Roret_, o _Parnaso lusitano_. Fallou dos seus trabalhos;
-e acrescentou que, vendo alli reunidas pessoas de tão subida
-illustração, desejaria muito lêr-lhes algumas das provas que estava
-revendo do seu novo livro--_Descripção das principaes cidades do reino
-e seus estabelecimentos_, para ouvir a opinião d'elles, desassombrada e
-severa!
-
---Se não acham massada...
-
---Prazer, Conselheiro! prazer!
-
-Escolheu então «como mais propria para dar idéa da importancia do
-trabalho» a pagina relativa a Coimbra. Assoou-se, collocou-se no meio
-da saleta, de pé, com as folhas na mão, e, com uma voz cheia, gestos
-pausados, leu:
-
-«--...Reclinada mollemente na sua verdejante collina, como odalisca
-em seus aposentos, está a sabia Coimbra, a Lusa Athenas. Beija-lhe os
-pés, segredando-lhe d'amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no
-bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus
-melancolicos trilos. Quando vos aproximaes pela estrada de Lisboa,
-onde outr'ora uma bem organisada _mala-posta_ fazia o serviço que o
-progresso hoje encarregou á fumegante locomotiva, vêdel-a branquejando,
-coroada do edificio imponente da Universidade, asylo da sabedoria. Lá
-campêa a torre com o sino, que em sua folgazã linguagem a mocidade
-estudiosa chama _a cabra_. Para além logo uma copada arvore vos attrahe
-as vistas: é a celebrada _arvore dos Dorias_, que dilata seus seculares
-ramos no jardim d'um dos membros d'esta respeitavel familia. E avistaes
-logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus innocentes
-recreios, os briosos moços, esperança da patria, ou requebrando
-galanteios com as ternas camponezas que passam reflorindo de mocidade e
-frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais arduos de seus
-bem elaborados compendios...»
-
---Está a sôpa na mesa--veio dizer uma criada, de avental branco, muito
-nutrida.
-
---Muito bem, Conselheiro, muito bem!--disse logo o Savedra do _Seculo_,
-erguendo-se.--É admiravel!
-
-Declarou para os lados com authoridade: «que o estylo era digno d'um
-Rebello ou d'um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em
-Portugal d'uma obra daquelle quilate...» E pensava baixo: «Grandissima
-cavalgadura!...» O que era a sua apreciação generica de todas as obras
-contemporaneas--exceptuando os seus artigos no _Seculo_.
-
---Que lhe pareceu, meu bom amigo?--perguntou baixo o Conselheiro
-a Julião, passando-lhe a mão sobre o hombro.--Mas uma opinião
-desaffrontada, meu Zuzarte!
-
---Snr. Conselheiro--disse Julião com uma voz profunda--tenho-lhe
-inveja!--E as suas lunetas escuras fixavam-se com uma preoccupação
-crescente n'um chale-manta pardo, que a um canto cobria
-cuidadosamente, a julgar pelas saliencias, altas pilhas de livros. Que
-seria?--Tenho-lhe inveja!--repetiu--E outra cousa, Conselheiro, não se
-me dava de lavar as mãos.
-
-Accacio levou-o logo ao seu quarto, e retirou-se discretamente. Julião,
-sempre curioso, observou, surprehendido, duas grandes lithographias
-aos lados da cama--um _Ecce Homo_! e a _Virgem das sete Dôres_. O
-quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu então a gavetinha
-da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado
-das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e
-teve a consolação de verificar,--que havia sobre o travesseiro duas
-fronhasinhas chegadas d'um modo conjugal e terno!
-
-Apenas elle sahiu do quarto, limpando as unhas com o lenço, o
-Conselheiro conduziu-os á sala de jantar, dizendo, jovialmente:
-
---Não esperem o festim de Lucullo: é apenas o modesto passadio d'um
-humilde philosopho!
-
-Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundancia das travessas
-de dôce; havia _creme_ crestado a ferro d'engomar, um prato _d'ovos
-queimados_, aletria com as iniciaes do Conselheiro desenhadas a canella.
-
---É um grande dia para Sebastião!--disse Jorge.
-
-O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastião, esfregando as mãos, com
-um riso na face amarella:
-
---É cá dos meus, hein? Gosta do bello dôce! Tambem me péllo, tambem me
-péllo!...
-
-Houve então um silencio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa
-muito quente, agitavam os longos canudos brancos e molles do macarrão.
-
-O Conselheiro disse:
-
---Não sei se gostarão da sopa. Eu adoro o macarrão!
-
---Gosta do macarrão?--acudiu o Alves.
-
---Muito, meu Alves. Lembra-me a Italia!--E acrescentou:--Paiz que
-sempre desejei vêr. Dizem-me que as suas ruinas são de primeira ordem.
-Póde ir trazendo o cozido, snr.^a Philomena...--Mas detendo-a, com um
-gesto grave:--Perdão, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? É um
-pargo.
-
-Houve uma hesitação, Jorge disse:
-
---O cozido talvez.
-
-E o Conselheiro com affecto:
-
---O nosso Jorge opina pelo cozido.
-
---Tambem estou pela sua!--exclamou o Alves Coutinho, voltado para
-Jorge, com o olho afogado em reconhecimento:--O cozidinho!
-
-E o Conselheiro que julgava do seu dever dar á conversação nobreza e
-interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa:
-
---Dizem-me que é muito liberal a constituição da Italia!
-
-Liberal! Segundo Julião, se a Italia fosse liberal, devia ter ha muito
-expulso a coronhadas o papa, o sacro collegio, e a sociedade de Jesus!
-
-O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolencia do amigo Zuzarte para
-o «chefe da Igreja».
-
---Não--explicou--que eu seja um sectario do _Syllabus_. Não que eu
-queira vêr os jesuitas enthronisados no seio da familia! Mas--e a sua
-voz tornou-se profunda--o respeitavel prisioneiro do Vaticano é o
-vigario de Christo! Meu Sebastião, sirva o arroz!
-
-Não havia que estranhar aquellas opiniões catholicas do Conselheiro,
-ia observando Julião, porque tinha duas imagens de santos pendentes á
-cabeceira da cama...
-
-A calva d'Accacio fez-se rubra. O Savedra do _Seculo_ exclamou com a
-bocca cheia:
-
---Não o sabia carola, Conselheiro!
-
-Accacio, afflicto, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e
-acudiu:
-
---Eu peço ao meu Savedra que não tire d'esse facto illações erradas.
-Os meus principios são bem conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço
-votos pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou liberal.
-Creio em Deus. Mas reconheço que a religião é um freio...
-
---Para os que o precisam--interrompeu Julião.
-
-Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdicto respondeu,
-devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio:
-
---Não o precisamos nós de certo, que somos as classes illustradas. Mas
-precisa-o a massa do povo, snr. Zuzarte. Senão veriamos augmentar a
-estatistica dos crimes.
-
-E o Savedra do _Seculo_, erguendo as sobrancelhas, com a physionomia
-muito séria:
-
---Pois olhe que diz uma grandissima verdade.--Repetiu a maxima,
-modificando-a:--A religião é um bridão!--Fazia com o gesto o esforço de
-conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava.
-
-O Conselheiro continuava, explicando:
-
---Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas lithographias ou
-gravuras, allusivas ao mysterio da Paixão, tem o seu lugar n'um quarto
-de cama, e inspiram de certo modo sentimentos christãos. Não é verdade,
-meu Jorge?
-
-Mas o Savedra interrompeu ruidosamente, com a face accesa n'uma
-jovialidade libertina:
-
---Eu, n'um quarto de dormir, as unicas pinturas que admitto são uma
-bella nympha núa, ou uma bacchante desenfreada!
-
---Isso, isso!--bradou o Alves Coutinho. A bocca dilatava-se-lhe
-n'uma admiração sensual.--Este Savedra! Este Savedra!--E baixo para
-Sebastião:--Tem um talento! Tem um talento!
-
-O Conselheiro voltou-se para Julião, e puxando o guardanapo para o
-estomago:
-
---Espero que não sejam esses os paineis immoraes, que se vêem no seu
-gabinete d'estudo.
-
-Julião emendou:
-
---No meu cubiculo. Ah! não, Conselheiro! Tenho apenas duas
-lithographias--uma é um homem sem pelle para representar o systema
-arterial, o outro é o mesmo individuo igualmente sem pelle para se vêr
-o systema nervoso.
-
-O Conselheiro teve com a sua mão branca um vago gesto enojado, e
-exprimiu a opinião--que na medicina, aliás uma grande sciencia! havia
-cousas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos theatros
-anatomicos, os estudantes d'idéas mais avançadas levavam o seu desprezo
-pela moral até atirarem uns aos outros, brincando, pedaços de membros
-humanos, pés, coxas, narizes...
-
---Mas é como quem mexe em terra, Conselheiro!--disse Julião, enchendo o
-copo--é materia inerte!
-
---E a alma, snr. Zuzarte?...--exclamou o Conselheiro. Fez um gesto
-de vaga reticencia; e julgando tel-o aniquilado com aquella palavra
-suprema, abriu para Sebastião um sorriso cortez e protector:
-
---E que diz o nosso bondoso Sebastião?
-
---Estou a ouvir, snr. Conselheiro.
-
---Não dê ouvidos a estas doutrinas!--Com o garfo mostrava a figura
-biliosa de Julião.--Mantenha a sua alma pura. São perniciosas. Que o
-nosso Jorge (o que é de lamentar n'um homem estabelecido e empregado do
-Estado) tambem vai um pouco para estas exagerações materialistas!
-
-Jorge riu; affirmou que _sim_, que tinha essa honra...
-
---Então o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de
-mathematica, acredite que ha almas que vivem no céo, com azinhas
-brancas, tunicas azues, e tocando instrumentos?
-
-O Conselheiro acudiu:
-
---Não, instrumentos não!--E como appellando para todos:--Não creio que
-tivesse fallado em instrumentos. Os instrumentos são uma exageração.
-São, podemos dizel-o, tacticas do partido reaccionario...
-
-Ia fulminar a doutrina ultramontana--mas a snr.^a Philomena
-collocou-lhe diante a travessa com a perna de vitella assada.
-Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solemnidade,
-foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como na
-applicação d'uma funcção grave. Então Julião, pousando os cotovêlos
-sobre a mesa, e escabichando os dentes com a unha, perguntou:
-
---E o ministerio, cahe ou não cahe?
-
-Sebastião ouvira dizer no vapor d'Almada, de tarde, que «a situação
-estava firme».
-
-Mas o Savedra esvaziou o copo, limpou os beiços e declarou que em duas
-semanas «estavam em terra». Nem aquelle escandalo podia continuar! Não
-tinham a mais pequena idéa de governo. Nem a mais leve! Assim, por
-exemplo, elle...--E metteu as mãos nos bolsos, firmando-se nas costas
-da cadeira--Elle tinha-os apoiado, não é verdade? E com lealdade.
-Porque era leal! Sempre o fôra em politica! Pois bem, não lhe tinham
-despachado o primo recebedor d'Aljustrel, tendo-lh'o promettido! e nem
-lhe tinham dado uma satisfação. Assim não era possivel fazer politica!
-Era uma collecção de idiotas!
-
-Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe dessem de novo a sua
-commissão no ministerio; e elle o que queria era estar quieto ao seu
-cantinho...
-
-O Alves Coutinho calava-se, com prudencia, engulindo buchas de pão.
-
---Eu que caiam, ou que fiquem--disse Julião--que venham estes, ou que
-venham aquelles... Obrigado, Conselheiro--e recebeu o seu prato de
-vitella--...é-me inteiramente indifferente. É tudo a mesma podridão! O
-paiz inspirava-lhe nojo; de cima a baixo era uma _choldra_: e esperava
-breve que, pela logica das cousas, uma revolução varresse a porcaria...
-
---Uma revolução!--fez o Alves Coutinho, assustado, com olhares
-inquietos para os lados, coçando nervosamente o queixo.
-
-O Conselheiro sentára-se, e disse, então:
-
---Eu não quero entrar em discussões politicas, só servem para dividir
-as familias mais unidas, mas só lhe lembrarei, snr. Zuzarte, uma cousa,
-os excessos da Communa...
-
-Julião recostou-se, e com uma voz muito tranquilla:
-
---Mas onde está o mal, snr. Conselheiro, se fuzilarmos alguns
-banqueiros, alguns padres, alguns proprietarios obesos, e alguns
-marquezes cacheticos! Era uma limpezasinha!...--E fazia o gesto d'afiar
-a faca.
-
-O Conselheiro sorriu, cortezmente; tomava como um gracejo aquella
-sahida sanguinaria.
-
-O Savedra porém interpoz-se, com authoridade:
-
---Eu no fundo sou republicano...
-
---E eu--disse Jorge.
-
---E eu--fez o Alves Coutinho, já inquieto.--Contem-me a mim tambem!
-
---Mas--continuou o Savedra--sou-o em principio. Porque o principio é
-bello, o principio é ideal! Mas a pratica? Sim, a pratica?--E voltava
-para todos os lados a sua face balofa.
-
---Sim, na pratica!--exclamava o Alves Coutinho, em echo admirativo.
-
---A pratica é impossivel!--declarou o Savedra. E encheu a bocca de
-vitella.
-
-O Conselheiro então resumiu:
-
---A verdade é esta: o paiz está sinceramente abraçado á familia real...
-Não acha, meu bom Sebastião?--Dirigia-se a elle, como proprietario e
-possuidor d'inscripções.
-
-Sebastião, interpellado, córou, declarou que não entendia nada de
-politica; havia todavia factos que o affligiam; parecia-lhe que os
-operarios eram mal pagos; a miseria crescia; os cigarreiros, por
-exemplo, tinham apenas de nove a onze vintens por dia, e, com familia,
-era triste...
-
---É uma infamia--disse Julião, encolhendo os hombros.
-
---E ha poucas escólas...--observou timidamente Sebastião.
-
---É uma torpeza!--insistiu Julião.
-
-O Savedra calava-se, occupado com o alimento; tinha desabotoado
-a fivela do collete; espalhava-se-lhe no rosto gordo uma côr
-d'enfartação, e sorria vagamente, inchado.
-
---E os idiotas de S. Bento?...--exclamou Julião.
-
-Mas o Conselheiro interrompeu-o:
-
---Meus bons amigos, fallemos d'outra cousa. É mais digno de portuguezes
-e de subditos fieis.
-
-E voltando-se logo para Jorge, quiz saber como ficára a interessante D.
-Luiza?
-
-Estava um pouco adoentada havia dias--disse Jorge.--Mas não era nada,
-mudança d'estação, um bocadito d'anemia...
-
-O Savedra pousando o copo, e comprimentando:
-
---Tive o prazer de a vêr passar este verão quasi todas as manhãs por
-minha casa--disse.--Ia para os lados d'Arroios. Ás vezes de trem, ás
-vezes a pé...
-
-Jorge pareceu um pouco surprehendido; mas o Conselheiro ia dizendo
-quanto lhe pezava não ter o prazer de a vêr partilhar d'aquelle modesto
-repasto; como celibatario porém... não tendo uma esposa para fazer as
-honras...
-
---E é o que eu admiro, Conselheiro--observou Julião--é que tendo uma
-casa tão confortavel, não se tenha casado, não se tenha dado o conchego
-d'uma senhora...
-
-Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado.
-
---São graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades
-d'um chefe de familia--considerou elle.
-
-Mas emfim--disseram--é o estado mais natural. E depois, que diabo, ás
-vezes havia de se sentir só! E n'uma doença! Sem contar a alegria que
-dão os filhos!...
-
-O Conselheiro objectou: «os annos, as neves da fronte...»
-
-Tambem ninguem lhe dizia que fosse casar com uma rapariga de quinze
-annos! Não, era arriscado. Mas com uma pessoa de certa idade que
-tivesse attractivos, cuidados de interior... Era mesmo moral.
-
---Porque emfim, Conselheiro, a natureza, é a natureza!--disse Julião
-com malicia.
-
---Ha muito, meu amigo, que se apagou dentro em mim o fogo das paixões.
-
-Ora qual! era um fogo que nunca se extinguia! Que diabo! era
-impossivel que o Conselheiro, apesar dos seus cincoenta e cinco, fosse
-indifferente a uns bellos olhos pretos, a umas fórmasinhas redondas!...
-
-O Conselheiro córava. E o Savedra declarou, com um circumloquio
-pudico--que nenhuma idade se eximia á influencia de Venus. Toda a
-questão é nos gostos--disse:--aos quinze annos gosta-se d'uma matrona
-cheia, aos cincoenta d'um fructosinho tenro... Pois não é verdade,
-amigo Alves?
-
-O Alves arregalou os olhos concupiscentes, e fez estalar a lingua.
-
-E o Savedra continuou:
-
---Eu, a minha primeira paixão foi uma visinha, mulher d'um capitão de
-navios, mãi de seis filhos, e que não cabia por aquella porta. Pois
-senhores, fiz-lhe versos, e a excellente creatura ensinou-me um par de
-cousas agradaveis... Deve-se começar cedo, não é verdade?--E voltou-se
-para Sebastião.
-
-Quizeram então saber as opiniões de Sebastião--que se fez escarlate.
-
-Por fim, muito solicitado, disse com timidez:
-
---Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estimal-a toda a
-vida...
-
-Aquellas palavras simples produziram um curto silencio. Mas o Savedra,
-reclinando-se, classificou uma tal opinião de «burgueza»; o casamento
-era um fardo; não havia nada como a variedade...
-
-E Julião expôz dogmaticamente:
-
---O casamento é uma formula administrativa, que ha-de um dia
-acabar...--De resto, segundo elle, a femea era um ente subalterno; o
-homem deveria aproximar-se d'ella em certas épocas do anno (como fazem
-os animaes, que comprehendem estas cousas melhor que nós), fecundal-a,
-e afastar-se com tedio.
-
-Aquella opinião escandalisou a todos, sobretudo o Conselheiro que a
-achou «d'um materialismo repugnante».
-
---Essas femeas para quem é tão severo, snr. Zuzarte--exclamava
-elle--essas femeas são nossas mães, nossas carinhosas irmãs, a esposa
-do Chefe do Estado, as damas illustres da nobreza...
-
---São o melhor bocadinho d'este valle de lagrimas--interrompeu com
-fatuidade o Savedra, dando palmadinhas sobre o estomago. Dissertou
-então sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito pé;
-não havia nada como um pésinho catita! E a todas preferia a mulher
-hespanhola!
-
-O Alves votava pelas francezas: citava algumas do Café Concerto,
-creaturas de fazer perder a cabeça!...--E injectavam-se-lhe os olhos.
-
-O Savedra disse com um trejeito hostil:
-
---Sim, para um bocado de can-can... Para o can-can não ha como as
-francezas... Mas muito chupistas!
-
-O Conselheiro affirmou ageitando as lunetas:
-
---Viajantes instruidos teem-me afiançado que as inglezas são notaveis
-mães de familia...
-
---Mas frias como esta madeira--disse o Savedra, batendo no
-mesa.--Mulheres de gêlo!--E reclamava hespanholas! Queria fogo! Queria
-_salero_! Tinha o olho brilhante do vinho; a comida accendia-lhe o
-sentimento!
-
---Uma bella _gaditana_, hein, amigo Alves?
-
-Mas em presença dos dôces que a snr.^a Philomena dispôz sobre a mesa,
-o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastião,
-discutia gulodices. Indicava as especialidades: Para os folhados, o
-Cócó! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o largo de S.
-Domingos! Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os
-olhos:
-
---Porque--dizia--o docinho e a mulherzinha é o que me toca cá por
-dentro a alma.
-
-Era: todo o tempo que não dedicava ao serviço do Estado, dividia-o, com
-solicitude, entre as confeitarias e os lupanares.
-
-Savedra e Julião discutiam a imprensa. O redactor do _Seculo_ gabava a
-profissão de jornalista--quando a gente, já sabe, tem alguma cousa de
-seu; mais tarde ou mais cedo apanha-se um nicho, não é verdade? Depois
-as entradas nos theatros, a influencia nas cantoras. Sempre se é um
-bocado temido...
-
-E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da
-convivencia, dizia a Jorge:
-
---Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre
-amigos, todos de reconhecida illustração, discutir as questões mais
-importantes, e vêr travada uma conversação erudita?... Parecem
-excellentes os ovos.
-
-A snr.^a Philomena, então, com solemnidade, veio collocar-lhe ao pé uma
-garrafa de champagne.
-
-O Savedra pediu logo para a abrir, porque o fazia com muito _chic_.
-E apenas a rolha saltou, e, no silencio que creou a ceremonia, se
-encheram os copos, o Savedra, que ficára de pé, disse:
-
---Conselheiro!
-
-Accacio curvou-se, pallido.
-
---Conselheiro, é com o maior prazer que bebo, que todos bebemos, á
-saude d'um homem, que--e arremessando o braço, deu um puxão ao punho
-da camisa com eloquencia--pela sua respeitabilidade, a sua posição, os
-seus vastos conhecimentos, é um dos vultos d'este paiz. Á sua saude,
-Conselheiro!
-
---Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro!
-
-Beberam com ruido. Accacio, depois de limpar os beiços, passou a mão
-tremula pela calva, levantou-se commovido, e começou:
-
---Meus bons amigos! Eu não me preparei para esta circumstancia. Se o
-soubesse d'antemão, teria tomado algumas notas. Não tenho a verbosidade
-dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lagrimas me vão embargar a
-voz...
-
-Fallou então de si, com modestia: reconhecia, quando via na capital
-tão illustres parlamentares, oradores tão sublimes, tão consummados
-estylistas, reconhecia que era um Zero!--E com a mão erguida formava
-no ar, pela junção do pollegar e do indicador, um 0: um _zero_!
-Proclamou o seu amor á patria: que ámanhã as instituições ou a familia
-real precisassem d'elle--e o seu corpo, a sua penna, o seu modesto
-peculio, tudo offerecia de bom grado! Quereria derramar todo o seu
-sangue pelo throno!--E, prolixo, citou o _Eurico_, as instituições da
-Belgica, Bocage e passagens dos seus prologos. Honrou-se de pretencer á
-Sociedade Primeiro de Dezembro...--N'esse dia memoravel--exclamou--eu
-mesmo illumino as minhas janellas, sem o luxo dos grandes
-estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera!
-
-E terminou dizendo:--Não esqueçamos, meus amigos, como portuguezes, de
-fazer votos pelo illustrado monarcha, que deu ás neves da minha fronte,
-antes de descerem ao tumulo, a consolação de se poderem revestir com
-o honroso habito de S. Thiago! Meus amigos, á familia real!--e ergueu
-o copo--á familia modêlo, que sentada ao leme do Estado, dirige,
-cercada dos grandes vultos da nossa politica, dirige...--Procurou
-o fecho; havia um silencio ancioso--dirige...--Através das lunetas
-negras, os seus olhos cravavam-se, á busca da inspiração, na
-travessa d'aletria--dirige...--Coçou a calva, afflicto; mas um
-sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrára a phrase; e estendendo o
-braço:--...dirige a barca da governação publica com inveja das nações
-visinhas! Á familia real!
-
---Á familia real!--disseram com respeito.
-
-O café foi servido na sala. As velas d'estearina punham uma luz
-triste n'aquella habitação fria; o Conselheiro foi dar corda á caixa
-de musica; e, ao som do côro nupcial da _Lucia_, offereceu em redor
-charutos.
-
---E a snr.^a Adelaide póde trazer os licôres--disse á Philomena.
-
-Viram então apparecer uma bella mulher de trinta annos, muito branca,
-de olhos negros, e fórmas ricas, com um vestido de merino azul,
-trazendo n'uma bandeja de prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa
-de cognac e o frasco de curaçáo.
-
---Boa moça!--rosnou com o rosto acceso o Alves Coutinho.
-
-Julião quasi lhe tapou a bocca com a mão. E fallando-lhe ao ouvido,
-olhando o Conselheiro, recitou:
-
- Não ouses, temerario, erguer teus olhos
- Para a mulher de Cesar!
-
-E em quanto se bebia o curaçáo, Julião pé ante pé dirigiu-se ao
-escriptorio, e foi erguer a ponta do chale-manta pardo que tanto o
-preoccupava; eram rumas de livros brochados, atadas com guitas,--as
-obras do Conselheiro, intactas!
-
-Quando Jorge entrou, ás onze horas, Luiza já deitada lia, esperando-o.
-
-Quiz saber do jantar do Conselheiro.
-
-Excellente, contou Jorge, começando a despir-se. Gabou muito os vinhos.
-Tinha havido _speechs_... E de repente:
-
---É verdade, onde ias tu a Arroios?
-
-Luiza passou devagar as mãos sobre o rosto para lhe cobrir a alteração.
-Disse bocejando ligeiramente:
-
---A Arroios?
-
---Sim. O Savedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que
-te via passar todos os dias para lá, de trem e a pé.
-
---Ah!--fez Luiza, depois de tossir--ia vêr a Guedes, uma rapariga que
-andou commigo no collegio, que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes!
-
---Silva Guedes!...--disse Jorge reflectindo--Imaginei que estava
-secretario geral em Cabo-Verde!
-
---Não sei. Estiveram ahi um mez no verão. Moravam a Arroios. Ella
-estava doente, coitada: eu ia lá ás vezes. Mandava-me pedir para ir lá.
-Põe essa luz fóra, está-me a fazer impressão.
-
-Queixou-se então que toda a tarde estivera exquisita. Sentia-se fraca,
-e com uma pontinha de febre...
-
-
-E nos dias seguintes não se achou melhor. Queixava-se ainda vagamente
-de peso na cabeça, mal estar... Uma manhã mesmo ficou de cama. Jorge
-não sahiu, inquieto, querendo já mandar chamar Julião. Mas Luiza
-insistiu que «não era nada, um bocadito de fraqueza, talvez...»
-
-Foi tambem a opinião de Juliana, em cima na cozinha.
-
---Que aquella senhora é fraca; alli ha cousa do peito--disse com
-importancia.
-
-Joanna que estava debruçada sobre o fogão, acudiu logo:
-
---O que ella é, é uma santa!...
-
-Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho:
-
---A snr.^a Joanna diz isso como se as outras fossem uma peste.
-
---Que outras?
-
---Eu, vossemecê, a mais gente...
-
-Joanna sempre remexendo nas panellas sem se voltar:
-
---Olhe, outra não encontra vossemessê, snr.^a Juliana! Uma senhora que
-lhe deixa fazer tudo o que quer, e faz ella mesma o serviço! N'outra
-dia andava a despejar as aguas. É uma santa!
-
-Aquelle tom hostil de Joanna exasperou-a; mas conteve-se; apesar da
-sua _posição_ na casa, dependia d'ella para os caldinhos, os bifes,
-os petiscos; tinha diante d'ella a vaga timidez respeitosa das
-constituições franzinas pelos corpos possantes; pôz-se a dizer com uma
-voz tortuosa, ambigua:
-
---Ora!--são genios! Gosta d'arrumar. Ah, lá isso deve-se dizer, é
-senhora de muita ordem. Mas gosta, gosta de trabalhar. Ás vezes
-basta-lhe vêr um bocadinho de pó, agarra logo no espanador... É genio.
-Tenho visto outras assim...--E punha a cabeça de lado, franzindo os
-beiços.
-
---O que ella é, é uma santa--repetiu a Joanna.
-
---É genio! Está sempre n'uma labutação. Eu nunca sáio sem deixar tudo
-n'um brinco. Pois senhores, nunca está satisfeita. Até n'outro dia, lá
-em baixo a passar a roupa... Eu ia a sahir, pois tirei logo o chapéo,
-e não consenti... Olhe, quer que lhe diga? falta de cuidados, não ter
-filhos... Que ella não lhe falta nada...
-
-Calou-se, remirou o pé, e com satisfação:
-
---Nem a mim--disse reclinando-se na cadeira.
-
-A Joanna pôz-se a cantarolar. Não queria «questões». Mas ultimamente
-achava «tudo aquillo muito fóra dos eixos», a Juliana sempre na rua, ou
-mettida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando tudo
-ao Deus dará, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emmagrecer! Não,
-alli havia cousa! Mas o seu Pedro que ella consultára, disse-lhe com
-finura, retorcendo o buço:--Ellas lá se entendem! Trata tu de gozar,
-e não te importes com a vida dos outros. A casa é boa, toca a tirar
-partido!
-
-Mas Joanna sentia «lá por dentro» a crescer-lhe uma embirração pela
-snr.^a Juliana. Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto,
-pelas passeatas todo o dia, pelos modos de madama; não se recusava a
-fazer-lhe o serviço, porque isso lhe rendia presentinhos da senhora;
-mas, quê, tinha-lhe birra! O que a consolava era a idéa de que um
-piparote desfazia aquella magricella! e ia tirando partido da casa,
-tambem. O Pedro tinha razão...
-
-Juliana com effeito, agora, não se constrangia. Depois da «scena da
-roupa», assustára-se, porque, emfim, o escandalo podia-lhe fazer
-perder a _posição_; durante alguns dias não sahiu, foi cuidadosa: mas
-quando viu Luiza resignar-se, abandonou-se logo, quasi com fervor,
-ás satisfações da preguiça e ás alegriasinhas da vingança. Passeava,
-costurava fechada no seu quarto, e a _Piorrinha_ que se arranjasse!
-Diante de Jorge ainda se continha: temia-o. Mas apenas elle sahia! Que
-desforra! Ás vezes estava varrendo ou arrumando--e, mal o sentia fechar
-a cancella, atirava o ferro, a vassoura, punha-se a «panriar». Lá
-estava a _Piorrinha_, para acabar!
-
-Luiza, no entanto, passava peor: tinha de repente, sem razão, febres
-ephemeras; emmagrecia, e as suas melancolias torturavam Jorge.
-
-Ella explicava tudo pelo _nervoso_.
-
---Que será, Sebastião?--era a pergunta incessante de Jorge. E
-lembrava-se com terror que a mãi de Luiza morrera d'uma doença de
-coração!
-
-Na rua, pela cozinheira, pela tia Joanna, sabia-se que a do Engenheiro
-«ia mal». A tia Joanna jurava que era a solitaria. Porque emfim,
-uma pessoa a quem não faltava nada, com um marido que era um anjo,
-uma boa casa, todos os seus commodos--e a esmorecer, a esmorecer...
-Era a bicha! Não podia ser senão a bicha! E todos os dias lembrava
-a Sebastião que se devia mandar chamar o homem de Villa Nova de
-Famalicão, que tinha o remedio «para a bicha».
-
-O Paula explicava d'outro modo.
-
---Alli anda cousa de cabeça--dizia, franzindo a testa, com o ar
-profundo.--Sabe o que ella tem, snr.^a Helena? É muita dóse de novellas
-n'aquella cachimonia. Eu vejo-o de pela manhã até á noite de livro na
-mão. Põe-se a lêr romances e mais romances... Ahi teem o resultado:
-arrazada!
-
-Um dia Luiza de repente, sem razão, desmaiou; e quando voltou a si
-ficou muito fraca, com o pulso sumido, os olhos cavados. Jorge foi logo
-buscar Julião: encontrou-o muito agitado, porque o concurso era para o
-dia seguinte, e «sentia cólicas».
-
-Durante todo o caminho não deixou de fallar excitadamente da sua
-these, do escandalo dos patrocinatos, do barulho que faria se fossem
-injustos,--arrependido agora de não ter «mettido mais cunhas»!
-
-Depois de ter examinado Luiza veio dizer, furioso, a Jorge:
-
---Não tem nada! E vaes-me buscar p'ra isto! Tem anemia, o que todos
-temos. Que passeie, que se distráia. Distracções e ferro, muito
-ferro... E agua fria, agua fria p'ra cima d'aquella espinha!
-
-Como eram cinco horas, convidou-se para jantar, deblaterando toda a
-tarde contra o paiz, amaldiçoando a carreira medica, injuriando o seu
-concorrente, e fumando com desespero os charutos de Jorge.
-
-Luiza tomava o ferro, mas recusava as distracções; fatigava-a
-vestir-se, aborrecia-lhe ir ao theatro... Depois, logo que viu Jorge
-preoccupar-se do seu estado, quiz affectar força, alegria, bom humor; e
-aquelle esforço abatia-a, extraordinariamente.
-
---Vamos para o campo, queres tu?--dizia-lhe Jorge desolado, vendo-a
-esmorecida.
-
-Ella, receando complicações possiveis, não aceitava; não se sentia
-bastante forte, dizia: onde estava mais confortavel que em casa? Depois
-as despezas, os incommodos...
-
-Uma manhã, que Jorge voltára a casa inesperadamente, encontrou-a
-em _robe-de-chambre_, com um lenço amarrado na cabeça, varrendo,
-lugubremente.
-
-Ficou á porta attonito:
-
---Que andas tu a fazer? andas a varrer?
-
-Ella córou muito, atirou logo a vassoura, veio abraçal-o.
-
---Não tinha que fazer... Deu-me a mania da limpeza... Estava
-aborrecida, além d'isso faz-me bem, é um exercicio.
-
-Jorge, á noite, contou a Sebastião aquella «tolice, de se andar a
-esfalfar...»
-
---Uma pessoa que está tão fraca, minha senhora...--observou
-reprehensivamente Sebastião.
-
-Mas não! dizia ella, achava-se bem melhor! Até agora andava muito
-melhor...
-
-Todavia, quasi não fallou n'essa noite, curvada sobre o seu _crochet_,
-um pouco pallida: e os seus olhos ás vezes erguiam-se com uma fadiga
-triste, sorrindo silenciosamente, d'um modo desconsolado.
-
-Pediu a Sebastião que tocasse algum cousa do _Requiem_ de Mozart.
-Achava tão lindo! Gostava que lh'o cantassem na igreja quando ella
-morresse...
-
-Jorge zangou-se. Que mania de fallar em cousas ridiculas!
-
---Mas então, não é possivel que eu morra?...
-
---Pois bem, morre e deixa-nos em paz!--exclamou elle furioso.
-
---Que bom marido!--dizia ella sorrindo a Sebastião.--Deixou cahir
-o _crochet_ no regaço, pediu-lhe então os _Dezeseis compassos da
-Africana_. Escutava, com a cabeça apoiada á mão: aquelles sons
-entravam-lhe na alma com a doçura de vozes mysticas que a chamavam;
-parecia-lhe que ia levada por ellas, se desprendia de tudo o que era
-terrestre e agitado, se achava n'uma praia deserta, junto ao mar
-triste, sob um frio luar--e alli, puro espirito, livre das miserias
-carnaes, rolava nas ondulações do ar, tremia nos raios luminosos,
-passava sobre as urzes nos sopros salgados...
-
-A melancolica attitude do seu corpo abatido enfureceu Jorge:
-
---Ó Sebastião, fazes-me favor de tocar o fandango, o Barba Azul,
-o Pirolito, o diabo? Senão, se querem melancolia, eu começo com o
-canto-chão!
-
-E cantou, com um tom funebre:
-
- _Dies ir[ae], dies illa
- Solvunt s[ae]cula in favilla!..._
-
-Luiza riu-se:
-
---Que doudo! Nem póde a gente estar triste...
-
---Póde!--exclamou Jorge.--Mas então venha a bella tristeza, venha a
-tristeza completa.--E com uma voz medonha entoou o _Bemdito_!
-
---Os visinhos hão-de dizer que estamos doudos, Jorge--acudiu ella.
-
---É justamente o que nós estamos!--E entrou no escriptorio, atirando
-com a porta.
-
-Sebastião bateu alguns compassos, e voltando-se para ella, baixo:
-
---Então que idéas são essas? Que melancolia é essa?
-
-Luiza ergueu os olhos para elle; viu a sua face boa e amiga, cheia de
-sympathia; ia talvez dizer-lhe tudo n'uma explosão de dôr, mas Jorge
-sahia do escriptorio. Sorriu, encolheu os hombros, retomou devagar o
-seu _crochet_.
-
-
-No domingo seguinte, á noite, conversava-se na sala. Julião contára o
-seu concurso. Em resumo, estava contente: tinha fallado duas horas bem,
-com precisão, com lucidez.
-
-O dr. Figueiredo dissera-lhe que «devia ter amenisado um bocado mais...»
-
---Litteratos!--fazia Julião, encolhendo os hombros, com desprezo.--Não
-podem fallar cinco minutos sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as
-«flôres da primavera» e «o facho da civilisação»!
-
---O portuguez tem a mania da rhetorica...--disse Jorge.
-
-N'este momento Juliana entrou na sala, com uma carta.
-
---Oh! é do Conselheiro!
-
-Ficaram inquietos. Mas Accacio apenas se desculpava de «não poder vir,
-como promettera na vespera, partilhar do excellente chá de D. Luiza.
-Um trabalho urgente retinha-o á banca do dever. Pedia lembranças aos
-nossos Sebastião e Julião, e affectuosos respeitos á interessante D.
-Felicidade».
-
-Uma onda de sangue abrazou o rosto da excellente senhora. Ficou a
-arfar, toda alterada; mudou duas vezes de cadeira, foi tocar no teclado
-com um dedo a _Perola d'Ophir_; e emfim, não se dominando, pediu baixo
-a Luiza «que fossem para o quarto, tinha um segredo...»
-
-Apenas entraram, fechando a porta da sala:
-
---Que me dizes á carta d'elle?
-
---Os meus parabens--disse Luiza, rindo.
-
---É o milagre!--exclamou D. Felicidade--já é o milagre a fazer-se!--E
-mais baixo:--Mandei o homem! O que eu te disse, o gallego!
-
-Luiza não comprehendia.
-
---O homem a Tuy, á mulher de virtude! Levou o meu retrato e o d'elle.
-Partiu ha uma semana: a mulher naturalmente já começou a enterrar-lhe
-as agulhas no coração...
-
---Que agulhas?--perguntou Luiza attonita.
-
-Estavam de pé, junto ao toucador. E D. Felicidade com uma voz
-mysteriosa:
-
---A mulher faz um coração de cera, colla-o ao retrato do Conselheiro,
-e durante uma semana á meia noite crava-lhe uma agulha benta com o
-preparo que ella tem, e faz as orações...
-
---E déste o dinheiro ao homem?
-
---Oito moedas.
-
---Oh D. Felicidade!
-
---Ai! não me digas. Que já vês! Que mudança! D'aqui a uns dias,
-baba-se! Ai! Nossa Senhora da Alegria o permitta. Nossa Senhora o
-permitta! Que aquelle homem traz-me douda. De noite, é cada sonho! Até
-ando em peccado mortal! e são suores! Mudo de camisa tres e quatro
-vezes!
-
-E ia-se olhando ao espelho: queria convencer-se que as bellezas da sua
-pessoa ajudariam as agulhas da bruxa: alisou o cabello.
-
---Não me achas mais magra?
-
---Não.
-
---Ai estou, filha, estou!--E mostrou o corpete lasso.
-
-Já fazia planos. Iria passar a _lua de mel_ a Cintra... Os olhos
-afogavam-se-lhe n'um fluido lubrico.
-
---Nossa Senhora da Alegria o permitta. Tenho-lhe duas velas accesas, de
-dia e de noite...
-
-Mas de repente a voz afflicta de Joanna bradou da escada da cozinha:
-
---Minha senhora! Minha senhora, acuda!
-
-Luiza correu, Jorge tambem, que ouvira na sala o grito. Juliana estava
-estendida no soalho da cozinha, desmaiada!
-
---Deu-lhe de repente, deu-lhe de repente!--exclamava Joanna, muito
-branca, a tremer.--Tombou p'ra o lado de repente...
-
-Julião tranquillisou-os logo: era uma syncope, simples.
-Transportaram-na para a cama. Julião fez-lhe esfregar violentamente
-com uma flanella quente as extremidades,--e, mesmo antes que Joanna
-atarantada, em cabello, corresse á botica por um antispasmodico,
-Juliana voltava a si, muito fraca. Quando desceram á sala, Julião
-disse, enrolando o cigarro:
-
---Não vale nada. São muito frequentes, estas syncopes, nas doenças
-de coração. Esta é simples. Mas é o diabo, ás vezes tem um caracter
-apopletico, e vem a paralysia; pouco duradoura, sim, porque a
-effusão de sangue no cerebro é muito pequena, mas emfim, sempre
-desagradavel.--E accendendo o cigarro:--Esta mulher um dia morre-lhes
-em casa.
-
-Jorge, preoccupado, passeava pela sala com as mãos nos bolsos.
-
---Sempre o tenho dito--acudiu D. Felicidade, baixando a voz,
-assustada.--Sempre o tenho dito. É desfazerem-se d'ella.
-
---Além d'isso o tratamento é incompativel com o serviço--disse
-Julião.--Emfim, mesmo a engommar roupa se póde tomar digitalis ou
-quinino; mas é que o verdadeiro tratamento é o repouso, é a absoluta
-exclusão da fadiga. Que ella um dia se zangue ou que tenha uma manhã de
-canceira, e póde ir-se!
-
---E vai adiantada a doença?--perguntou Jorge.
-
---Pelo que ella diz já tem a difficuldade asthmatica, oppressões, uma
-dôr aguda na região cardiaca, flatulencia, humidade nas extremidades--o
-diabo!
-
---Olha que espiga!--murmurou Jorge, olhando em roda.
-
---É pôl-a na rua!--resumiu D. Felicidade.
-
-Quando ficaram sós, ás onze horas, Jorge disse logo a Luiza:
-
---Que te parece esta, hein? É necessario descartarmo-nos da creatura.
-Não quero que me morra em casa!
-
-Ella, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos, começou a
-dizer, que não se podia mandar tambem a pobre creatura morrer p'ra a
-rua... Lembrou vagamente o que ella tinha feito pela tia Virginia... Ia
-collocando devagar as suas palavras com a cautela com que se pousa o pé
-n'um terreno traiçoeiro.--Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que
-ella fosse viver algures...
-
-Jorge, depois d'um silencio, respondeu:
-
---Não tenho duvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se vá, que se
-arranje!
-
-Dez ou doze libras!--pensou Luiza com um sorriso infeliz.--E á beira
-do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida
-saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas
-pela afflicção, e os seus olhos fatigados pelas lagrimas...
-
-
-Porque, emfim, a _crise_ tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir
-a creatura, ella não podia, sem provocar um espanto e uma explicação,
-dizer a Jorge: não quero que ella sáia, quero que ella aqui morra! E
-Juliana vendo-se expulsa, desesperada, doente, percebendo que Luiza não
-a defendia, não a reclamava,--vingar-se-hia! Que havia de fazer?
-
-Ergueu-se ao outro dia n'uma grande agitação. Juliana muito fatigada,
-ainda estava na cama. E em quanto Joanna punha a mesa, Luiza sentada na
-_voltaire_, á janella da sala de jantar, lia machinalmente o _Diario
-de Noticias_, quasi sem comprehender, quando uma noticia, no alto da
-pagina, lhe deu um sobresalto: «Parte além d'ámanhã para França o
-nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da firma Castro Miranda &
-C.^a S. exc.^a retira-se dos negocios da praça, e vai estabelecer-se
-definitivamente em França, perto de Bordeus, onde comprou ultimamente
-uma valiosa propriedade.»
-
-O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ella quizesse! dizia
-Leopoldina. Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro
-momento, aquelle recurso infame, vinha-lhe a seu pezar como uma
-desconsolação de o vêr desapparecer! Porque nunca mais voltaria a
-Portugal, o Castro!... E de repente uma idéa atravessou-a, que a fez
-vibrar toda, erguer-se direita, muito pallida.--Se na vespera da
-partida d'elle, Santo Deus! se na vespera ella consentisse!... Oh! era
-horrivel! Nem pensar em tal!...
-
-Mas pensou--e sentia-se toda fraca contra uma tentação crescente, que
-se lhe enroscava na alma com caricias persuasivas. É que então estava
-salva! Dava seiscentos mil reis a Juliana! E o demonio iria morrer para
-longe!
-
-E elle, o homem, tomaria o paquete! Não teria de córar diante d'elle;
-o seu segredo ia para o estrangeiro, tão perdido como se fosse para o
-tumulo!--E, além d'isso, se o Castro tinha uma paixão por ella, era bem
-possivel que lhe emprestasse, sem condições!...
-
-Bom Deus! No dia seguinte podia ter alli na algibeira do seu roupão as
-notas, o ouro... Porque não?--Porque não? E vinha-lhe um desejo ancioso
-de se libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martyrios...
-
-Voltou ao quarto. Pôz-se a remexer no toucador, olhando de lado Jorge
-que se vestia... A presença d'elle deu-lhe logo um remorso; ir pedir
-a um homem dinheiro, consentir nos seus olhares lascivos, nas suas
-palavras intencionaes!... Que horror!--Mas já subtilisava. Era por
-Jorge, era por elle! Era para lhe poupar o desgosto de _saber_! Era
-para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, sem reservas...
-
-Durante todo o almoço esteve calada. O rosto sympathico de Jorge
-enternecia-a; o _outro_ parecia-lhe medonho, odiava-o já!...
-
-Quando Jorge sahiu ficou muito nervosa. Ia á janella; o sol parecia-lhe
-adoravel, a rua attrahia-a.--Porque não? Porque não?
-
-A voz de Juliana, muito aspera, fallou então nas escadas da cozinha; e
-aquelle cantado odioso decidiu-a bruscamente.
-
-Vestiu-se com cuidado: era mulher, quiz parecer bonita.--E chegou toda
-esbaforida a casa de Leopoldina, quando dava meio dia a S. Roque.
-
-Encontrou-a vestida, esperando o almoço. E tirando immediamente o
-chapéo, installando-se no sophá, explicou muito claramente a Leopoldina
-a sua resolução. Queria o dinheiro do Castro. Emprestado ou dado,
-queria o dinheiro!... Estava n'uma afflicção, devia valer-se de
-tudo!... Jorge queria despedir a mulher... Tinha medo d'uma vingança
-d'ella... Queria dinheiro, alli estava!
-
---Mas assim de repente, filha!--disse Leopoldina, pasmada do seu olhar
-decidido.
-
---O Castro vai-se ámanhã. Vai para Bordeus, para o inferno! É
-necessario fazer alguma cousa, já!
-
-Leopoldina lembrou escrever-lhe.
-
---O que quizeres... Eu aqui estou!
-
-A outra sentou-se devagar á mesa, escolheu uma folha de papel, e, com o
-dedinho no ar, a cabeça de lado, começou a escrevinhar.
-
-Luiza passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora uma resolução teimosa,
-que a presença de Leopoldina fortificava! Divertia-se, aquella,
-dançava, ia ao campo, gozava, vivia, sem ter como ella uma tortura a
-minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! não voltaria para casa sem levar
-na algibeira em boas libras o resgate, a salvação! Ainda que tivesse
-de ser vil como as do Bairro Alto! Estava farta das humilhações, dos
-sustos, das noites cortadas de pesadêlos!... Queria saborear a vida,
-que diabo! o seu amor, o seu jantar, sem cuidados, com o coração
-contente!
-
---Vê lá--disse Leopoldina, lendo:
-
-
- «Meu caro amigo.
-
-«Desejo absolutamente fallar-lhe. É um negocio grave. Venha logo que
-possa. Talvez me agradeça. Espero-o até ás tres horas, o mais tardar.
-
-«Com toda a estima
-
- Sua amiga
-
- _Leopoldina_».
-
-
---Que te parece?
-
---Horrivel! Mas está bem... Está muito bem! Risca-lhe o _talvez me
-agradeça_. É melhor.
-
-Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, n'um trem.
-
---E agora vou almoçar, que me não tenho nas pernas.
-
-A sala de jantar dava para um saguão estreito. As paredes estavam
-cobertas d'uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes
-semelhavam collinas, e linhas azues ferretes representavam lagos. Um
-armario, no angulo da parede, servia de guarda-louça. As cadeiras de
-palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e na toalha havia
-nodoas do café da vespera.
-
---D'uma cousa pódes tu ter a certeza--dizia Leopoldina, bebendo
-grandes goles de chá--é que o Castro é um homem p'ra um segredo!...
-Se te emprestar o dinheiro, que empresta, d'aquella bocca não sahe
-uma palavra. Lá n'isso é perfeito... Olha que foi o amante da Videira
-annos! e nem ao Mendonça, que é o seu intimo, disse uma palavra. Nem
-uma allusão! É um poço.
-
---Que Videira?--perguntou Luiza.
-
---Uma alta, de nariz grande, que tem um _landau_.
-
---Mas passa por uma mulher tão séria...
-
---Já tu vês!--E com um risinho:--Ai ellas passam, passam. Lá passar,
-passam. A questão é conhecer-lhes os pôdres, minha fidalga!
-
-E barrando de manteiga grandes fatias de pão, pôz-se a fallar
-complacentemente dos escandalos de Lisboa, a desdobrar o _sudario_:
-citava nomes, especialidades, as que depois de terem «feito o diabo»,
-gastam, n'uma devoção tardia, o resto d'uma velha sensibilidade; que
-é por onde ellas acabam, algumas é pelas sacristias! As que, cançadas
-de certo d'uma virtude monotona, preparam habilmente o seu «fracasso»
-n'uma estação em Cintra ou em Cascaes. E as meninas solteiras! Muito
-pequerrucho por essas amas, dos arredores tem o direito de lhes
-chamar _mamã_! Outras mais prudentes, receando os resultados do amor,
-refugiam-se nas precauções da libertinagem... Sem contar as senhoras
-que em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito
-supplementar!--Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas
-tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que
-ella perdera, e manobravam com habilidade, onde ella, a tola, tivera só
-a sinceridade! E em quanto ellas conservavam as suas relações, convites
-para _soirées_, a estima da côrte,--ella perdera tudo, era apenas a
-Quebraes!...
-
-Aquella conversação enervava Luiza; n'uma tal generalidade do vicio
-parecia-lhe que o seu caso, como um edificio n'um nevoeiro, perdia o
-seu relevo cruel, se esbatia; e sentindo-o tão pouco visivel quasi o
-julgava já justificado.
-
-Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquelle sentimento d'uma
-forte immoralidade geral, onde as resistencias, os orgulhos se
-amollecem, se enlanguecem,--como os musculos n'uma estufa fortemente
-saturada de exhalações mornas.
-
---Este mundo é uma historia--disse Leopoldina erguendo-se e
-espreguiçando-se.
-
---E teu marido onde está?--perguntou Luiza no corredor.
-
-Fôra p'ra o Porto. Estavam á vontade, podiam commetter crimes!
-
-E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canapé, com o cigarrinho
-_laferme_ na bocca, começou tambem a queixar-se.
-
-Andava aborrecida ha tempos; enfastiava-se, achava tudo seccante;
-queria alguma cousa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos
-os poros do seu corpo...
-
---E o Fernando, então?--disse distrahidamente Luiza, que a cada momento
-se aproximava da janella.
-
---Um idiota!--respondeu Leopoldina com um movimento d'hombros, cheio de
-saciedade e de desprezo.
-
-Não, realmente tinha vontade d'outra cousa, não sabia bem de quê!
-Ás vezes lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braços com um
-tedio molle). Eram tão semsaborões todos os homens que conhecia! tão
-corriqueiros todos os prazeres que encontrára! Queria uma outra vida,
-forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar--ser mulher d'um
-salteador, andar no mar, n'um navio pirata... Em quanto ao Fernando,
-o amado Fernando dava-lhe nauseas! E outro que viesse seria o mesmo.
-Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus!
-
-E, depois d'escancarar a bocca, n'um bocejo de fera engaiolada:
-
---Aborreço-me! Aborreço-me!... Oh céos!
-
-Ficaram um momento caladas.
-
---Mas, que se lhe ha-de dizer, a esse homem?--perguntou de repente
-Luiza.
-
-Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a voz muito preguiçosa:
-
---Diz-se-lhe que se precisa um conto de reis, ou seiscentos mil reis...
-Que se lhe ha-de então dizer? Que se lhe paga.
-
---Como?
-
-Leopoldina disse, deitada, com os olhos no tecto:
-
---Em affecto.
-
---Oh! és horrivel!--exclamou Luiza, exasperada.--Vês-me aqui
-desgraçada, meia douda, dizes que és minha amiga, e estás a rir, a
-escarnecer...--A sua voz tremia, quasi chorava.
-
---Mas tambem que pergunta tão tola! Como se lhe ha-de pagar?... Tu não
-sabes?
-
-Olharam-se um momento.
-
---Não, eu vou-me embora, Leopoldina!--exclamou Luiza.
-
---Não sejas criança!
-
-Um trem parou na rua. A Justina appareceu. Não encontrára o snr. Castro
-em casa, estava no escriptorio. Fôra lá, disse que vinha immediatamente.
-
-Mas Luiza, muito pallida, tinha o chapéo na mão.
-
---Não--disse Leopoldina, quasi escandalisada--tu agora não me deixas
-aqui com o homem! Que lhe hei-de eu dizer?
-
---É horrivel!--murmurou Luiza com uma lagrima nas palpebras, deixando
-cahir os braços, solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha,
-muito infeliz!
-
---É como quem toma oleo de ricino--disse a outra com um gesto cynico.
-E acrescentou, vendo o horror de Luiza:--Que diabo! onde é que está a
-deshonra, em pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede...
-
-N'aquelle momento outra carruagem, a largo trote, parou.
-
---Entra tu primeiro! falla-lhe tu primeiro!--supplicou Luiza, erguendo
-as mãos para ella.
-
-A campainha retiniu. Luiza muito tremula, muito branca, olhava para
-todos os lados com um olhar muito aberto, de susto, d'ancia, como
-procurando uma idéa, uma resolução ou um recanto para se esconder!
-Botas d'homem rangeram na esteira da sala ao lado. Leopoldina então
-disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar as palavras na alma, uma
-a uma:
-
---Lembra-te que d'aqui a uma hora pódes estar salva, com as tuas cartas
-na algibeira, feliz, livre!
-
-Luiza pôz-se de pé com uma decisão brusca. Foi pôr pós d'arroz, alisou
-o cabello,--e entraram na
-
-Ao vêr Luiza, o Castro teve um movimento surprehendido. Curvou-se, com
-os pés pequeninos muito juntos, inclinando a cabeça grossa, onde os
-cabellos muito finos alourados já rareavam.
-
-Sobre o seu ventresinho redondo, que a perna curta fazia parecer quasi
-pansudo, o medalhão do relogio pousava com opulencia. Trazia na mão
-um chicote, cujo cabo de prata representava uma Venus retorcendo os
-braços. A pelle tinha um rubor prospero; o bigode farto, terminava em
-pontas agudas, empastadas em cera mostacha, d'um aspecto napoleonico.
-E os seus oculos de ouro tinham um ar authoritario, bancario, amigo da
-Ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto.
-
-Com que! Era necessario mandal-o chamar, para que se lhe pozesse a
-vista em cima,--começou logo Leopoldina. E depois de o apresentar a
-Luiza «sua intima, sua amiga de collegio»:
-
---Que tem feito, porque não tem apparecido?
-
-O Castro repoltreou-se n'uma cadeira de braços, e batendo com o chicote
-nas botas, desculpou-se com os preparativos da partida...
-
---Sempre é verdade? Deixa-nos?
-
-O Castro curvou-se:
-
---Além d'amanhã. No _Orenoque_.
-
---Então d'esta vez os jornaes não mentiram. E com demora?
-
---_Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum._
-
-Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem tão estimado, que se podia
-divertir tanto!--Pois não é verdade?--disse voltando-se para Luiza,
-para a tirar do seu silencio embaraçado.
-
---Com certeza--murmurou ella.
-
-Estava sentada á beira da cadeira, como assustada, prompta a fugir. E
-os olhares do Castro, insistentes por traz dos reflexos dos oculos,
-incommodavam-na.
-
-Leopoldina reclinára-se no sophá e ameaçando-o com o dedo erguido:
-
---Ah! Ahi n'essa ida p'ra França anda historia de saias!
-
-Elle negou frouxamente, com um sorriso fatuo.
-
-Mas Leopoldina não achava as francezas bonitas--o que era é que tinham
-muito _chic_, muita animação...
-
-O Castro declarou-as adoraveis. Sobretudo para a estroinice! Ah!
-conhecia-as bem! Emfim, lá como mães de familia não dizia. Mas para uma
-cêa, para um bocado de _can-can_ não havia outras...--Affirmava-o com
-convicção, pois, como os burguezes «da sua roda», avaliava doze milhões
-de francezas por seis prostitutas de Café Concerto,--que tinha pago
-caro e enfastiado immenso!
-
-Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe _estroina_!
-
-Elle sorria, deliciando-se, afiando as pontas do bigode:
-
---Calumnias, calumnias...--murmurava.
-
-E Leopoldina voltando-se para Luiza:
-
---Comprou uma quinta magnifica em Bordeus, um palacio!...
-
---Uma choupana, uma choupana...
-
---E naturalmente vai dar festas magnificas!...
-
---Modestos chás, modestos chás...--dizia, repoltreando-se.
-
-E riam ambos d'um modo muito affectado.
-
-O Castro curvou-se então para Luiza:
-
---Tive o gosto de vêr v. exc.^a ha tempos, na rua do Ouro...
-
---Creio que tambem me lembro--respondeu ella.
-
-E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se mais á beira do sophá,
-e depois de sorrir:
-
---Pois eu mandei-o chamar porque temos uma cousa a dizer-lhe.
-
-Castro inclinou-se. O seu olhar não deixava Luiza, percorria-a com
-atrevimento, palpava-a.
-
---Aqui está o que é. Eu vou direita ás cousas, sem preambulos.--E teve
-outro risinho.--Aqui a minha amiga está n'um grande apuro, e precisa um
-conto de reis.
-
-Luiza acudiu com a voz quasi sumida:
-
---Seiscentos mil reis...
-
---Isso não importa--disse Leopoldina com uma indifferença
-opulenta--estamos a fallar com um millionario! A questão é esta: quer o
-meu amigo fazer o favor?
-
-O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e com uma voz arrastada,
-ambigua:
-
---Certamente, certamente...
-
-Leopoldina ergueu-se logo:
-
---Bem. Eu tenho alli no quarto a costureira á espera. Deixo-os fallar
-do negocio.
-
-E á porta do quarto, voltando-se para o Castro, ameaçando-o com o dedo,
-a voz muito alegre:
-
---Que o juro seja pequeno, hein?
-
-E sahiu, rindo.
-
-O Castro disse logo a Luiza, curvando-se:
-
---Pois minha senhora, eu...
-
---A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou n'uma grande afflicção de
-dinheiro. E dirijo-me a si... São seiscentos mil reis... Procurarei
-pagar, o mais depressa...
-
---Oh minha senhora!--fez o Castro com um gesto generoso. Começou então
-a dizer, que comprehendia perfeitamente, todo o mundo tinha os seus
-embaraços... Lamentava que a não tivesse conhecido ha mais tempo...
-Sempre tivera uma grande sympathia por ella... Uma grande sympathia!...
-
-Luiza calava-se, com os olhos baixos. Elle foi pousar o chicote na
-jardineira, veio sentar-se no sophá junto d'ella. Vendo o seu ar
-embaraçado, pediu-lhe que não se affligisse. Valia lá a pena por
-questões de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir uma senhora
-nova, tão interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir a elle.
-Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam,
-eram indiscretos...--E fallando tinha-lhe tomado a mão; o contacto
-d'aquella pelle appetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o
-respirar alto; Luiza, toda constrangida, nem retirára a mão; e Castro
-abrazado--com uma verbosidade um pouco rouca, promettia _tudo_, _tudo
-o que ella quizesse_!... Os seus olhinhos arregalados devoravam-lhe o
-pescoço muito branco.
-
---Seiscentos mil reis..., o que quizer!...
-
---E quando?--disse Luiza muito perturbada.
-
-Elle via-lhe o seio arfar--e sob a irrupção d'um desejo brutal:
-
---Já!
-
-Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quasi lhe mordeu a
-face.
-
-Luiza ergueu-se com o salto d'uma mola d'aço.
-
-Mas o Castro escorregára sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe
-sofregamente os vestidos:
-
---Dou-lhe o que quizer, mas sente-se! Ha annos que tenho uma paixão
-por si. Escute!--Os seus braços tremulos subiam; envolviam-na, e o que
-sentia das suas fórmas inflammava-o.
-
-Luiza, sem ruido, repellia-lhe as mãos, recusava-se.
-
---O que quizer! Mas ouça!--balbuciava elle puxando-a violentamente para
-si. A concupiscencia brutal dava-lhe uma respiração de touro.
-
-Então, com um puxão desesperado ás saias, ella soltou-se, e recuando
-afflicta:
-
---Deixe-me! Deixe-me!
-
-O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes cerrados, os braços
-abertos, rompeu para ella.
-
-Diante d'aquella luxuria bestial, Luiza, indignada, agarrou
-instinctivamente de sobre a jardineira o chicote e deu-lhe uma forte
-chicotada na mão.
-
-A dôr, a raiva, o desejo enfureceram-no.
-
---Seu diabo!--rosnou, rangendo os dentes.
-
-Ia-se arremessar. Mas Luiza então, erguendo o braço, revolvida por
-uma cólera phrenetica, atirou-lhe chicotadas rapidamente pelos
-braços, pelos hombros--muito pallida, muito séria, com uma crueldade
-a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma alegria de desforra em fustigar
-aquella carne gorda.
-
-O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, com os braços diante da
-cara, recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candieiro de
-porcelana oscillou, desequilibrou-se, rolou no chão, com estilhaços de
-louça, e uma nodoa escura d'azeite alastrou-se na esteira.
-
---Ahi está! Vê?--disse Luiza toda a tremer, apertando ainda
-convulsivamente o chicote.
-
-Leopoldina ao barulho correu, do quarto.
-
---Que foi? Que foi?
-
---Nada, estavamos a brincar--disse Luiza.
-
-Atirou o chicote para o chão, sahiu da sala.
-
-O Castro, livido de raiva, tinha agarrado o chapéo; e fixando
-terrivelmente Leopoldina:
-
---Agradecido! Conte commigo quando quizer!
-
---Mas que foi? Que foi?
-
---Até á vista!--rugiu o Castro.--E indo apanhar o chicote, sacudindo-o
-ameaçadoramente para o quarto, onde Luiza entrára:
-
---Grande bebeda!--murmurou com rancor.
-
-E sahiu, atirando com as portas.
-
-Leopoldina, attonita, veio encontrar Luiza no quarto a pôr o chapéo,
-com as mãos ainda tremulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita.
-
---Chegou-me cá uma cousa, e enchi-lhe a cara de chicotadas--disse ella.
-
-Leopoldina esteve um momento a olhal-a petrificada.
-
---Bateste-lhe?...--E de repente desatou a rir, convulsivamente.--O
-Castro d'oculos, o Castro coberto de chicotadas! O Castro a levar
-uma coça!--Atirou-se para cima da _chaise-longue_, rolou-se;
-suffocava.--Até já tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... Vir a uma
-casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil reis e ser corrido a
-chicote!... Com o seu proprio chicote!... Oh! era para estourar!...
-
---O peor foi o candieiro--disse Luiza.
-
-Leopoldina ergueu-se, de salto.
-
---E o azeite! Ai que agouro!--Correu á sala. Luiza veio encontral-a
-diante da nodoa escura, com os braços cruzados, como se visse, toda
-pallida, catastrophes avisinharem-se.--Que agouro, Santo Deus!
-
---Deita-lhe sal depressa.
-
---Faz bem?
-
---Quebra o agouro.
-
-Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a nodoa:
-
---Ai! Nossa Senhora permitta que não haja nada mau! Mas que caso este,
-que caso este! E agora, filha?
-
-Luiza encolheu os hombros.
-
---Eu sei cá! Soffrer!...
-
-
-
-
-XIII
-
-
-N'essa semana, uma manhã, Jorge, que se não recordava que era dia de
-gala, encontrou a secretaria fechada, e voltou para casa ao meio dia.
-Joanna á porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancella
-em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto,
-surprehendeu Juliana commodamente deitada na _chaise-longue_, lendo
-tranquillamente o jornal.
-
-Ergueu-se, muita vermelha, mal o viu, balbuciou:
-
---Peço desculpa, tinha-me dado uma palpitação tão forte...
-
---Que se pôz a lêr o jornal, hein?...--disse Jorge, apertando
-instinctivamente o castão da bengala.--Onde está a senhora?
-
---Deve estar p'ra a sala de jantar--disse Juliana, que se pôz logo a
-varrer, muito apressada.
-
-Jorge não encontrou Luiza na sala de jantar; foi dar com ella no quarto
-dos engommados, despenteada, em roupão de manhã, passando roupa, muito
-applicada e muito desconsolada.
-
---Tu estás a engommar?--exclamou.
-
-Luiza córou um pouco, pousou o ferro.--A Juliana estava adoentada,
-juntára-se uma carga de roupa...
-
---Dize-me cá, quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora?
-
-A sua voz era tão aspera, que Luiza fez-se pallida, murmurou:
-
---Que queres tu dizer?
-
---Quero dizer que te venho encontrar a ti a engommar, e que a encontrei
-a ella lá em baixo muito repimpada na tua cadeira, a lêr o jornal.
-
-Luiza, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, começou a
-remexer, a desdobrar, a sacudir com a mão tremula...
-
---Tu não pódes fazer idéa do que aqui vai por fazer--ia dizendo.--É
-a limpeza, são os engommados, é um servição. A pobre de Christo tem
-estado doente...
-
---Pois se está doente que vá p'ra o hospital!
-
---Não, tambem não tens razão!
-
-Aquella insistencia em defender a outra, que se repoltreava em baixo na
-sua _chaise-longue_, exasperou-o:
-
---Dize cá, tu dependes d'ella? Havia de dizer que tens medo d'ella!
-
---Ah! se estás com esse genio!--fez Luiza com os beiços tremulos, uma
-lagrima já nas palpebras.
-
-Mas Jorge continuava, muito zangado:
-
---Não, essas condescendencias hão-de acabar por uma vez! Vêr aquelle
-estafermo, com os pés p'ra cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se
-nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendel-a, a fazer-lhe o
-serviço, ah! não! É necessario acabar com isso. Sempre desculpas!
-sempre desculpas! Se não póde que arreie. Que vá p'ra o hospital, que
-vá p'ra o inferno!
-
-Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluçando.
-
---Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras?
-
-Ella não respondia, n'um grande pranto.
-
---Porque choras, filha?--perguntou elle, com uma impaciencia commovida,
-chegando-se a ella.
-
---Para que me fallas tu assim?--dizia, toda soluçante, limpando os
-olhos.--Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau genio p'ra mim! O
-que me sabes dizer são cousas desagradaveis.
-
---Cousas desagradaveis! Minha filha, eu disse-te lá nada
-desagradavel!--E abraçou-a, ternamente.
-
-Mas ella desprendeu-se, e com a voz cortada de soluços:
-
---Então é algum crime estar a engommar? Por que trabalho, por que trato
-das minhas cousas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A
-mulher tem estado doente! Em quanto se não arranja outra, é necessario
-fazer as cousas... Mas tu fallas, fallas! P'ra me affligir!...
-
---Estás a dizer tolices, filha. Não estás em ti. Eu o que não quero é
-que te cances!
-
---P'ra que dizes então que tenho medo d'ella?--E as lagrimas
-recomeçavam.--Medo de quê? Porque hei-de eu ter medo d'ella? Que
-desproposito!
-
---Pois bem, não digo. Não se falla mais na creatura. Mas não
-chores... Vá, acabou-se!--Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a
-dôcemente:--Vá, deixa o ferro agora. Vem! Que criança que tu és!
-
-
-Por bondade, por consideração com os nervos de Luiza, Jorge durante
-alguns dias não fallou «na creatura». Mas pensava n'ella; e aquelle
-estafermo, com os pés para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as
-madracices que lhe percebera, os confortos do quarto que vira na noite
-em que ella desmaiára, aquella bondade ridicula de Luiza!... Achava
-aquillo estranho, irritante!... Como estava fóra de casa todo o dia, e
-diante d'ella Juliana só tinha sorrisos para Luiza, muitas attitudes
-de affecto, imaginava que ella se soubera insinuar, e, pelas pequenas
-intimidades de ama a criada, se tornára necessaria e estimada. Isso
-augmentava a sua antipathia. E não a disfarçava.
-
-Luiza vendo-o ás vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia!
-Mas o que a torturava era a maneira que Jorge adoptára de fallar
-d'ella com uma veneração ironica; chamava-lhe _a illustre D. Juliana,
-a minha ama e senhora_! Se faltava um guardanapo ou um copo, fingia-se
-espantado: «Como! a D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa tão perfeita!»
-Tinha gracejos que gelavam Luiza.
-
---A que sabia o filtro que ella te deu? Era bom?
-
-Luiza agora, diante d'elle, já nem se atrevia a fallar a Juliana com um
-modo natural; temia os sorrisos malignos, os ápartes:--«Anda, atira-lhe
-um beijo, conhece-se na cara que estás com a vontade de lh'o atirar!»
-E, receando as suspeitas d'elle, querendo mostrar-se _independente_,
-começou na sua presença, a fallar a Juliana com uma dureza brusca,
-muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava á voz inflexões d'um
-rancor postiço.
-
-Juliana, muito fina, tinha percebido _tudo_, e supportava, calada.
-
-Queria evitar toda a questão que a perturbasse no seu conchego.
-Sentia-se agora muito mal, e nas noites em que não podia dormir com
-afflicções asthmaticas, punha-se a pensar com terror--se fosse expulsa
-d'aquella casa, para onde iria? Para o hospital!
-
-Tinha por isso medo de Jorge.
-
---Elle está morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de
-mim--dizia ella á tia Victoria--mas não lhe hei-de dar esse gosto, ao
-boi manso!
-
-E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomeçar a fazer todo o
-serviço, com zelo, apparentemente; e todavia ás vezes não podia,
-vencida pela doença; tinha «flatos» que a faziam cahir n'uma cadeira,
-arquejando, com as mãos no coração. Mas reagia. Uma occasião mesmo
-vendo Luiza a passar um espanejador pelos _consoles_ da sala, zangou-se:
-
---A senhora faz favor de se não metter no meu serviço? Eu ainda posso!
-Ainda não estou na cova!
-
-Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava
-sopinhas, croquettes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e
-vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de gallinha á noite.
-
---Com o meu corpo o pago--dizia ella a Joanna--que trabalho como uma
-negra! Arrazo-me!
-
-Um dia, porém, que Jorge se irritára mais com a figura amarellada de
-Juliana, e que estava nervoso, ao achar á noite o jarro vazio e o
-lavatorio sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente:
-
---Não estou para aturar estes desleixos! Irra!--gritou.
-
-Luiza veio logo, inquieta, desculpar Juliana.
-
-Jorge mordeu o beiço, curvou-se profundamente, e com a voz um pouco
-tremula:
-
---Perdão! esquecia-me que a pessoa de Juliana é sagrada! eu mesmo vou
-buscar agua!
-
-Luiza então zangou-se: se havia de estar sempre com aquelles remoques,
-era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ella amava
-de paixão a Juliana? Se a conservava é porque era uma boa criada. Mas
-se ella se tornava a causa de maus humores, de questões, se elle lhe
-ganhára tamanho odio, bem, então que se fosse! Era uma sécca aquella
-ironia constante...
-
-Jorge não respondeu.
-
-E durante a noite Luiza, sem dormir, pensava que aquillo não podia
-durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tyranna, e ouvir a todo
-o momento ditinhos, allusões, ah, não! era de mais! Bastava! Elle
-começava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ella mesma
-chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que
-mostrasse as cartas, acabou-se! Se elle a mettesse n'um convento,
-se separasse d'ella, bem! Soffreria, morreria! Tudo, menos aquelle
-martyrio reles, ás picadinhas, medonho e grotesco!
-
---Que tens tu?--perguntou Jorge, meio a dormir, sentindo-a inquieta.
-
---Espertina.
-
---Coitada! Conta cento e cincoenta p'ra traz!--E voltou-se,
-enrolando-se commodamente na roupa.
-
-
-Ao outro dia Jorge levantára-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso,
-o hespanhol das minas, e jantar com elle no Gibraltar. Depois de
-vestido foi á sala de jantar--eram dez horas--e voltou a dizer a Luiza,
-com uma cortezia profunda, espaçando as palavras:--que não estava a
-mesa posta! que as chavenas do chá da vespera estavam ainda por lavar!
-e que a snr.^a D. Juliana, a illustre snr.^a D. Juliana, tinha sahido,
-a seu passeio!
-
---Eu disse-lhe hontem á noite que me fosse ao sapateiro...--começou
-Luiza, que vestia o seu roupão.
-
---Ah, perdão!--interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.--Esquecia-me
-outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdão!
-
-Luiza acudiu logo:
-
---Não. Tens razão. Tu verás! É preciso pôr um côbro...
-
-Subiu logo á cozinha, desesperada:
-
---Vossê porque não pôz a mesa, Joanna, se a outra sahiu?
-
-Mas a rapariga não ouvira sahir a snr.^a Juliana! Imaginára que estava
-p'ra baixo, p'ra a sala! Como ella agora é que queria fazer tudo!...
-
-Quando Joanna trouxe o almoço d'ahi a pouco Jorge veio sentar-se á
-mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes
-com um sorriso mudo para ir buscar uma colhér, o assucareiro. Luiza
-via-lhe os musculos da face contrahidos: mal podia comer, atarantada;
-a chavena, quando a erguia, tremia-lhe na mão; com os olhos baixos
-espreitava Jorge ás furtadellas, e o seu silencio torturava-a.
-
---Tu fallaste hontem que ias jantar fóra hoje...
-
---Vou--disse seccamente. E acrescentou:--Graças a Deus!
-
---Estás de bom humor!...--murmurou ella.
-
---Como vês!
-
-Luiza fez-se pallida, pousou o talher: tomou o jornal para disfarçar
-uma lagrimasinha que lhe tremia na palpebra; mas as letras
-confundiam-se, sentia pular o coração. De repente a campainha tocou.
-Era a outra, de certo!
-
-Jorge, que se ia erguer, disse logo:
-
---Ha-de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras...
-
-E ficou de pé, junto á mesa, aguçando devagar um palito.
-
-Luiza, a tremer, levantou-se tambem:
-
---Eu vou-lhe fallar...
-
-Jorge reteve-a pelo braço, e tranquillamente:
-
---Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!...
-
-Luiza recahiu na cadeira, muito pallida.
-
-Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge aguçava tranquillamente
-o seu palito.
-
-Luiza então voltou-se para elle, e batendo as mãos, afflicta:
-
---Não lhe digas nada!...
-
-Elle fixou-a, assombrado:
-
---Porque?
-
-Juliana n'este momento abriu o reposteiro.
-
---Então que desaforo é este, sahir e deixar tudo por
-arrumar?--disse-lhe Luiza logo, erguendo-se.
-
-Juliana, que vinha sorrindo, estacou á porta, petrificada: apesar da
-sua amarellidão, uma vaga côr de sangue espalhou-se-lhe nas feições.
-
---Não lhe torne a acontecer semelhante cousa, ouviu? A sua obrigação
-é estar em casa pela manhã...--Mas o olhar de Juliana, que se cravava
-n'ella terrivelmente, emmudeceu-a. Agarrou no bule com as mãos
-tremulas.--Deite agua n'este bule, vá.
-
-Juliana não se mexeu.
-
---Vossê não ouviu?--berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada á
-mesa, que fez saltar a louça.
-
---Jorge!--gritou Luiza, agarrando-lhe no braço.
-
-Mas Juliana fugira da sala, correndo.
-
---E logo, na rua!--exclamou Jorge.--Faze-lhe as contas, e que se vá.
-Ah! estou farto! Nem mais um dia! Se a torno a vêr, desfaço-a! Até que
-emfim! Chegou-me a minha vez!
-
-Foi buscar o paletot, muito excitado, e antes de sahir, voltando á sala:
-
---E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora mais! Ha quinze dias
-que a trago aqui atravessada. P'ra a rua!
-
-
-Luiza veio para o quarto quasi sem se poder suster. Estava perdida!
-estava perdida! Uma multidão d'idéas, todas extremas e insensatas,
-redemoinhava no seu cerebro como um montão de folhas seccas n'uma
-ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de
-não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas
-que Juliana lhe entregava, lendo: _Meu adorado Bazilio!_ Então uma
-cobardia immensa amolleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana. Ia
-supplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martyrisasse!...
-E Jorge depois? Diria que a Juliana chorára, se atirára de joelhos!
-Mentiria, cobril-o-hia de beijos... Era nova, era bonita, era
-ardente--convencel-o-hia!
-
-Juliana não estava no quarto. Subiu á cozinha; estava lá, sentada,
-com os olhos chammejantes, os braços nervosamente cruzados, n'uma
-raiva muda. Apenas viu Luiza, deu um salto sobre os calcanhares, e
-mostrando-lhe o punho, berrou:
-
---Olhe que a primeira vez que vossê me torna a fallar como hoje, vai
-aqui tudo raso n'esta casa!
-
---Cale-se, sua infame!--gritou Luiza.
-
---Vossê manda-me calar, sua p...!--E Juliana disse a palavra.
-
-Mas a Joanna correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez
-cahir, com um gemido, sobre os joelhos.
-
---Mulher!--bradou Luiza, arremessando-se sobre a Joanna, agarrando-a
-pelos braços.
-
-Juliana, assombrada, fugiu.
-
---Ó Joanna! ó mulher! que desgraça, que escandalo!--exclamava Luiza com
-as mãos apertadas na cabeça.
-
---Racho-a!--dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como
-brazas--racho-a!
-
-Luiza andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pallida como
-a cal, repetindo, toda a tremer:
-
---O que vossê foi fazer, mulher! o que vossê foi fazer!
-
-A Joanna ainda toda revolvida de sua colera, com o rosto manchado de
-vermelho, remexia furiosamente as panellas.
-
---E se ella me diz uma palavra, acabo-a, aquella bebeda! Acabo-a!
-
-Luiza desceu ao quarto. No corredor sahiu-lhe Juliana, com a cuia á
-banda, as dedadas escarlates na face, medonha.
-
---Ou aquella desavergonhada vai já p'ra a rua--gritou ella--ou eu
-vou-me pôr lá em baixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe
-tudo!...
-
---Pois mostre, faça o que quizer!--disse Luiza, passando, sem a olhar.
-
-Fôra uma desesperação, um odio que a tinham decidido. Mais valia acabar
-por uma vez!...
-
-Sentia então como um allivio doloroso, em vêr o fim do seu longo
-martyrio! Havia mezes que elle durava. E pensando em tudo o que
-tinha feito e que tinha soffrido, as infamias em que chafurdára e as
-humilhações a que descera, vinha-lhe um tedio de si mesma, um nojo
-immenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espesinhado; que
-n'ella nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em
-si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo
-que foi pisado por uma multidão, sobre a lama. Não valia a pena
-luctar por uma vida tão vil. O convento seria já uma purificação, a
-morte uma purificação maior...--E onde estava elle, o homem que a
-desgraçára? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando,
-governando os seus cavallos, dormindo com outras! E ella morria alli,
-estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse,
-nem uma palavra de resposta; nem a julgára digna do meio tostão da
-estampilha! O que elle lhe dizia pelas terras da Polvora acima,
-n'aquelle _coupé_:--Dar-lhe-hia toda a sua vida, viveria á sombra das
-suas saias! O infame! Já tinha talvez no bolso o bilhete da passagem!
-Em quanto ella fôra a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra
-um lindo collo--então bem, prompto! Mas teve uma difficuldade, chorou,
-soffreu--ah! não, isso não! És um bello animal que me dás um grande
-prazer--perfeitamente, tudo o que quizeres: mas tornas-te uma creatura
-dolorida que precisa consolações, talvez uns poucos de centos de mil
-reis--então boas noites, cá vou no paquete! Oh que estupida que é a
-vida! Ainda bem que a deixava!
-
-Foi-se encostar á janella. Estava um dia muito azul, muito dôce. O
-sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes
-brancas, sobre a calçada. E havia no ar uma suavidade avelludada.
-O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se á porta do estanque.
-Então, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. Todos eram
-felizes n'aquella manhã de rosas, só ella soffria, pobre d'ella! E
-ficou a olhar, como esquecida n'uma vaga saudade, com uma lagrima
-na palpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a
-esquina,--e d'ahi a pouco voltar com um gallego, velho e pesado, que
-trazia o seu sacco ao hombro.
-
-Ia-se embora!--pensou Luiza.--Mandava pôr fóra os bahus! E depois?
-Remettia as cartas a Jorge, ou entregava-lh'as ella mesma, no portal!
-Santo Deus!--E parecia-lhe vêr Jorge apparecer no quarto, livido, com
-as cartas na mão!...
-
-Veio-lhe um terror allucinado: não queria perder o seu marido, o seu
-Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se d'ella a revolta
-da femea contra a viuvez: aos vinte e cinco annos ir murchar para um
-convento! Não, c'os diabos!
-
-Foi direita ao quarto de Juliana.
-
---Vem vêr se lhe levo alguma cousa?--gritou logo a outra furiosa.
-
-Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo chão botinas
-embrulhadas em jornaes velhos.
-
---E ainda cá me ficam quatro camisas, dous pares de calcinhas, tres
-pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica ahi o rol. E quero as
-minhas contas!...
-
---Escute, Juliana, não se vá.--Mas a voz desappareceu-lhe, as lagrimas
-saltaram-lhe dos olhos.
-
-Juliana poz-se a olhar para ella d'alto, triumphando, com uma botina de
-duraque em cada mão.
-
---É mandar aquella desavergonhada embora, e está tudo acabado!--E com
-uma voz aguda, batendo as solas das botinas:--Fica tudo como d'antes,
-na paz do Senhor!
-
-Uma alegria extraordinaria accendia-lhe o olhar. Vingava-se! fazia-a
-chorar! expulsava a _outra_! e não perdia os seus commodos!
-
---É pôr a bebeda na rua! É pôl-a na rua!
-
-Luiza curvou os hombros, foi á cozinha devagar; os degraus da escada
-pareciam-lhe immensos, infindaveis. Deixou-se cahir n'um banco, e
-limpando os olhos:
-
---Joanna, venha cá, escute, vossê não póde continuar na casa...
-
-A rapariga ficou a olhar para ella, espantada.
-
---O que a Juliana disse foi n'um repente... Tem estado a chorar, a
-arrepender-se. É a criada mais antiga. O senhor estima-a muito...
-
---Então a senhora manda-me embora? Então a senhora manda-me embora?
-
-Luiza insistiu, baixo, envergonhada:
-
---Foi um repente, tem estado a pedir perdão...
-
---Eu foi para defender a senhora!--exclamou a rapariga, abrindo os
-braços, afflicta.
-
-Luiza sentiu-se indigna; e impaciente, para acabar:
-
---Bem, Joanna, não estejamos com mais. Eu é que sou a dona da casa...
-Vou-lhe fazer as contas.
-
---Olha que pago este!--gritou Joanna, então, desesperada. E com uma
-resolução, batendo o pé:--Pois o senhor é que ha-de dizer! Eu vou dizer
-tudo ao senhor! Hei-de-lhe contar tudo o que se passou! A senhora não
-tem razão!...
-
-Luiza olhava-a, estupida. Agora era aquella! Era d'aquella rapariga,
-teimosa na sua justiça, que vinha o desastre! Era de mais! Veio-lhe um
-terror sobrenatural, como um espanto da consciencia, e apertando as
-fontes nas mãos abertas:
-
---Que expiação! Que expiação, Santo Deus!
-
-De repente, como desvairada, agarrou Joanna pelos braços, e
-fallando-lhe junto do rosto:
-
---Joanna, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não diga nada. Despeça-se
-vossê!--E perdendo inteiramente todo o respeito proprio, cahiu de
-joelhos, diante da cozinheira, soluçando:--Pelas cinco chagas de
-Christo, vá, Joanna, minha rica Joanna, vá. Peço-lhe eu, Joanna! Pelo
-amor de Deus!
-
-A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente.
-
---Vou, sim, minha senhora!... vou, sim, minha rica senhora!
-
---Sim, Joanna, sim. Eu dou-lhe alguma cousa. Vossê bem vê... Não
-chore... Espere...
-
-Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas
-economias, voltou, galgando os degraus, metteu-lh'as na mão,
-dizendo-lhe baixo:
-
---Faça uma trouxa, eu ámanhã lhe mandarei o bahu.
-
---Sim, minha senhora--soluçava a rapariga, babada de dôr--sim, minha
-rica senhora!
-
-Luiza veio deixar-se cahir de bruços sobre a sua _chaise-longue_, n'um
-choro convulsivo tambem, desejando a morte, pedindo, n'um terror,
-piedade a Deus!
-
-Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente á porta:
-
---Então em que ficamos?
-
---A Joanna vai-se. Que quer mais?
-
---Que sáia já!--disse a outra imperiosamente.--Que o jantar o faço eu.
-Por hoje, já se vê!
-
-As lagrimas de Luiza seccavam-se, de raiva.
-
---E a senhora agora ouça!
-
-O tom de Juliana era tão insultante, que Luiza ergueu-se, como ferida.
-
-E Juliana, ameaçando-a, d'alto, com o dedo erguido:
-
---E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lh'as cantarei!...
-
-E voltou as costas, batendo os tacões.
-
-
-Luiza olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto;
-mas tudo estava immovel e correcto; nem uma prega das cortinas se
-movera, e os dous pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam
-pretenciosamente.
-
-Então tirou o roupão violentamente, passou um vestido sem apertar o
-corpete, vestiu por cima um casaco largo d'inverno, atirou o chapéo
-para a cabeça despenteada, sahiu, desceu a rua tropeçando nas saias,
-quasi a correr.
-
-O Paula saltou para o meio da rua para a seguir: viu-a parar á porta de
-Sebastião, e veio dizer á estanqueira:
-
---Em casa do Engenheiro ha novidade!
-
-E ficou plantado á porta com os olhos cravados para as janellas
-abertas, onde as bambinellas de reps verde cahiam com as suas pregas
-immoveis.
-
---O snr. Sebastião?--perguntava Luiza á rapariguita sardenta, que
-correra a abrir a porta.
-
-E ia entrando pelo corredor.
-
---Na sala--disse a pequena.
-
-Luiza subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta, e
-correndo para elle, apertando as mãos contra o peito, n'uma voz
-angustiosa e sumida:
-
---Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-m'a. Estou
-perdida!
-
-Elle ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto
-manchado, o chapéo mal posto, a afflicção do olhar:
-
---Que é? Que é?
-
---Escrevi a meu primo--repetiu, com os olhos cravados n'elle,
-anciosamente--a mulher apanhou-me a carta... Estou perdida!
-
-Fez-se muito pallida, os olhos cerraram-se-lhe.
-
-Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sophá de damasco
-amarello. E ficou de pé, mais descórado que ella, com as mãos nos
-bolsos do seu jaquetão azul, immovel, estupido.
-
-De repente correu fóra, trouxe um copo d'agua, borrifou-lhe o rosto ao
-acaso. Ella abriu os olhos, as suas mãos errantes apalparam em redor,
-fitou-o espantada, e deixando-se cahir sobre o braço do canapé, com o
-rosto escondido nas mãos, rompeu n'um choro hysterico.
-
-O seu chapéo cahira. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as
-flôres, pôl-o sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos
-pés debruçar-se junto d'ella:
-
---Então! então!--murmurava. E as suas mãos tocando-lhe de leve o braço,
-tremiam como folhas.
-
-Quiz dar-lhe agua para a socegar: ella recusou com a mão, endireitou-se
-devagar no sophá, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluços.
-
---Desculpe, Sebastião, desculpe--dizia.--Bebeu então um gole d'agua,
-ficou com as mãos no regaço, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas
-silenciosas cahiam sem cessar.
-
-Sebastião foi fechar a porta--e vindo ao pé d'ella, com muita doçura:
-
---Mas então? Que foi?
-
-Ella ergueu para elle a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam
-febrilmente; olhou-o um momento, e deixando pender a cabeça, toda
-humilhada:
-
---Uma desgraça, Sebastião, uma vergonha!--murmurou.
-
---Não se afflija! Não se afflija!
-
-Sentou-se ao pé d'ella, e baixo, com solemnidade:
-
---Tudo o que eu puder, tudo o que fôr necessario, aqui me tem!
-
---Oh Sebastião!...--exclamou n'um impulso de reconhecimento humilde;
-e acrescentou:--Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho
-soffrido, Sebastião!
-
-Esteve um momento com os olhos cravados no chão; e agarrando-lhe
-o braço de repente, com força, as palavras romperam abundantes e
-precipitadas, como os borbulhões d'uma agua comprimida que rebenta.
-
---Apanhou-me a carta, não sei como, por um descuido meu! Ao principio
-pediu-me seiscentos mil reis. Depois começou a martyrisar-me... Tive
-de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus
-lençoes, dos finos. Era a dona da casa. O serviço quem o faz sou
-eu!... Ameaça-me todos os dias, é um monstro. Tudo tem sido baldado,
-boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois não é
-verdade? Ella bem via... O que eu tenho soffrido! Dizem que estou mais
-magra, até o Sebastião reparou. A minha vida é um inferno. Se Jorge
-soubesse!... Aquella infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho
-como uma negra. Logo pela manhã a limpar e varrer. Ás vezes tenho de
-lavar as chicaras do almoço. Tenha piedade de mim, Sebastião, por quem
-é, Sebastião! coitada de mim, não tenho ninguem n'este mundo.
-
-E chorava, com as mãos sobre o rosto.
-
-Sebastião, calado, mordia o beiço; duas lagrimas rolavam-lhe tambem
-pela face, sobre a barba. E levantando-se, devagar:
-
---Mas Santo nome de Deus, minha senhora! porque me não disse ha mais
-tempo?
-
---Ó Sebastião, podia lá! Uma vez estive para lh'o dizer... Mas não
-pude, não pude!
-
---Fez mal!...
-
---Esta manhã o Jorge quiz pôl-a fóra. Embirra com ella, percebe os
-desmazelos. Mas não desconfia de nada, Sebastião!...--E desviou os
-olhos, muito escarlate.--Escarnecia-me ás vezes por eu parecer tão
-apaixonada por ella... Mas esta manhã zangou-se, mandou-a embora.
-Apenas elle sahiu, veio como uma furia, insultou-me...
-
---Santo Deus!--murmurava Sebastião assombrado, com a mão sobre a testa.
-
---Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que faço os despejos!...
-
---Mas merece a morte, essa infame!--exclamou batendo com o pé no chão.
-
-Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mãos nos bolsos,
-os seus largos hombros curvados. Voltou sentar-se ao pé d'ella, e
-tocando-lhe timidamente no braço, muito baixo:
-
---É necessario tirar-lhe as cartas...
-
---Mas como?
-
-Sebastião coçava a barba, a testa.
-
---Ha-de-se arranjar--disse, por fim.
-
-Ella agarrou-lhe a mão:
-
---Oh Sebastião, se fizesse isso!
-
---Ha-de-se arranjar.
-
-Esteve um momento calculando--e com o seu tom grave:
-
---Eu vou-me entender com ella... É necessario que ella esteja só em
-casa... Podiam ir ao theatro, esta noite.
-
-Levantou-se lentamente, foi buscar o _Jornal do Commercio_, sobre a
-mesa, olhou os annuncios:
-
---Podiam ir a S. Carlos, que acaba mais tarde... É o _Fausto_... Podiam
-ir vêr o _Fausto_...
-
---Podiamos ir vêr o _Fausto_--repetiu Luiza, suspirando.
-
-E então, muito chegados, ao canto do sophá, Sebastião foi-lhe dizendo
-um plano, em palavras baixas, que ella devorava, anciosa.
-
-Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao theatro...
-Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao _Hotel
-Gibraltar_... E a Joanna? A Joanna deixára a casa. Bem. Ás nove horas,
-então, Juliana estaria só.
-
---Vê como tudo se arranja?--disse elle, sorrindo.
-
-Era verdade... Mas daria a mulher as cartas?
-
-Sebastião tornou a coçar a barba, a testa:
-
---Ha-de dar--disse.
-
-Luiza olhava-o quasi com ternura: parecia-lhe vêr na sua face honesta,
-uma alta belleza moral. E de pé diante d'elle, com uma melancolia na
-voz:
-
---E vai fazer isso por mim, Sebastião, por mim, que fui tão má mulher...
-
-Sebastião córou, respondeu encolhendo os hombros:
-
---Não ha más mulheres, minha rica senhora, ha maus homens, é o que ha!
-
-E acrescentou logo:
-
---Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hein?... Uma frisasinha ao
-pé do palco...
-
-Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapéo, descia o véo com
-pequeninos soluços tristes, que voltavam a espaços.
-
-No corredor encontraram a tia Joanna com os braços abertos; beijou
-muito Luiza; aquella visita era um milagre! E que bonita que estava!
-era a flôr do bairro!
-
---Está bom, tia Joanna, está bom--disse Sebastião, afastando-a
-brandamente.
-
-Ora que não fosse mettediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora,
-tambem ella agora a queria um bocadinho! Assim é que elle devia ter uma
-mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma açucena!
-
-Luiza corava, embaraçada.
-
-E o snr. Jorge? que era feito d'elle? Ninguem o via. E a D. Felicidade?
-
---Está bom, basta, tia Joanna!--fez Sebastião impaciente.
-
---Olha o sofrego!... Ninguem lhe come a menina!... Cruzes!...
-
-Luiza sorriu; lembrou-se então de repente que não tinha por quem mandar
-os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel.
-
-Sebastião fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: que escrevesse,
-elle os mandaria: escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a penna--mais
-prompto, mais delicado desde que a sabia infeliz. Luiza fez o bilhete
-para Jorge; e, como apesar das suas afflicções, se lembrou com terror
-de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou n'um _P.
-S._, no bilhete para ella: «o melhor é vires de preto, e não fazeres
-grande _toilette_. Nada de decotes nem de côres claras.»
-
-
-Quando entrou em casa, viu um gallego sahindo com a trouxasita de
-Joanna. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das
-escadas da cozinha dizia para cima, ameaçadoramente:
-
---Torne eu a apanhal-a, que não me sahe viva das mãos, sua bebeda!
-
---Bufa! bufa!--gritou de cima Juliana--mas vai-te indo para o olho da
-rua!
-
-Luiza escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma
-praça! Uma taberna!
-
---Se eu t'apanho!--rosnava a Joanna descendo.
-
---Rua! rua, sua porca!--gania a Juliana.
-
-Luiza então chamou a rapariga:
-
---Joanna, não procure casa, venha por aqui além d'amanhã--disse-lhe
-baixo.
-
-Juliana em cima cantava a _Carta adorada_, com um jubilo estridente.
-
-E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, «que estava o
-jantar na mesa».
-
-Luiza não respondeu. Esperou que ella subisse á cozinha, correu á sala
-de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se
-no quarto;--e alli _jantou_, a um canto da jardineira.
-
-Ás seis horas um trem parou á porta. Devia ser Sebastião! Foi ella
-mesma abrir, em bicos de pés. Era elle, animado, vermelho, com o chapéo
-na mão: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito...
-
---E isto...
-
-Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas.
-
---Oh Sebastião!--murmurou ella, com um reconhecimento commovido.
-
---E carruagem, tem?
-
---Não
-
---Eu cá mando. Ás oito, hein?
-
-E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o com o olhar que se
-humedecia. Foi á janella do quarto vêl-o sahir.--Que homem! pensava. E
-cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia tambem um prazer
-dôce na protecção d'elle, nos seus cuidados.
-
-Nós de dedos bateram á porta do quarto:
-
---Então a senhora não quer jantar?--disse a voz impaciente de Juliana,
-de fóra.
-
---Não.
-
---Mais fica!
-
-
-D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla,
-vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço d'esmeraldas.
-
---Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber?--disse logo,
-muito alegre, a excellente senhora.
-
-Um capricho!--O Jorge tinha jantado fóra, ella sentira-se tão só!...
-Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. Não pudera resistir... Tinham de o
-ir buscar pelo _Hotel Gibraltar_.
-
---Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!...
-E estive p'ra não vir--disse, sentando-se, com pancadinhas muito
-satisfeitas nas pregas do vestido.--Apertar-me depois de jantar!
-Felizmente, não tinha comido quasi nada!
-
-Quiz então saber o que ia. O _Fausto_? Ainda bem! De que lado era a
-frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois
-estava mais longe d'aquella noitada de theatro!...--E erguendo-se
-passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós,
-ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia.
-
-Uma carruagem parou á porta.
-
---O trem!--disse, toda risonha.
-
-Luiza calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração
-batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada?
-perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? o lenço?
-
---Ai! o meu ramo!--exclamou Luiza.
-
-Juliana ficou espantada quando a viu vestida _p'ra theatro_. Foi
-alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente:
-
---Não tem mesmo vergonha n'aquella cara!--rosnou.
-
-O trem já rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos
-vidros:
-
---Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! Não posso ir sem leque!
-Pare, cocheiro!
-
---Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!--fez Luiza impaciente.
-
-Aquellas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade;
-felizmente, como ella dizia, arrotava! Graças a Deus, louvada seja
-Nossa Senhora, que podia arrotar!
-
-Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se
-gesticulava, destacavam ás portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza;
-os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir
-de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos
-criados. D. Felicidade com a sua face jubilosa á portinhola, gozava a
-claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma satisfação
-que viu o guarda-portão do _Gibraltar_, de calções vermelhos, vir com o
-boné na mão, á portinhola.
-
-Perguntaram por Jorge.
-
-E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos
-derramavam uma luz dôce. D. Felicidade, muito curiosa da «vida
-d'hotel», reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa;
-depois n'uma senhora que lhe pareceu «estabanada», e que descia,
-vestida de _soirée_, mostrando o pé calçado n'um sapato redondo de
-setim branco: e sorria de vêr sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando
-para dentro olhares gulosos.
-
---Estão a arder por saber quem somos.
-
-Luiza calada apertava nas mãos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no
-alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito
-magrissimo, de chapéo ao lado, as mãos nos bolsos d'umas calças muito
-estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam,
-gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge,
-fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no hombro,
-obrigou-o muito sériamente a aceitar outro charuto,--e pondo o chapéo
-mais ao lado foi conversar com o guarda-portão.
-
-Jorge correu á portinhola do trem, rindo:
-
---Então que extravagancia é esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o
-divorcio!
-
-Parecia muito jovial. Sómente tinha pena de não estar vestido...
-Ficaria atraz no camarote.--E para as não amarrotar subiu para a
-almofada.
-
-
-
-
-XV
-
-
-Passava das oito horas quando o trem parou em S. Carlos. Um gaiato,
-que tossia muito, com o casaco pregado sobre o peito por um alfinete,
-precipitou-se a abrir a portinhola; e D. Felicidade sorria de
-contentamento, sentindo a cauda do vestido de sêda arrastar sobre o
-tapete esfiado do corredor das frisas.
-
-O pano já estava levantado. Era á luz diminuida da rampa, a decoração
-classica d'uma cella d'alchimista; embrulhado n'um roupão monastico,
-com uma abundancia hirsuta de barbas grisalhas, tremuras senis, Fausto
-cantava, desilludido das sciencias, pousando sobre o coração a mão
-onde reluzia um brilhante. Um cheiro vago de gaz extravasado errava
-subtilmente. Aqui e além tosses expectoravam. Havia ainda pouca gente.
-Entrava-se.
-
-Na frisa, para se collocarem, D. Felicidade e Luiza cochichavam, com
-gestosinhos de recusa, olhares supplicantes:
-
---Oh D. Felicidade, por quem é!
-
---Se estou aqui muito bem...
-
---Não consinto...
-
-Emfim D. Felicidade sentou-se no lugar superior alteando o peito. Luiza
-ficára atraz calçando as luvas; em quanto Jorge arrumava os agasalhos,
-furioso com o chapéo que já duas vezes rolára.
-
---Tem banquinho, D. Felicidade?
-
---Obrigada, cá o sinto.--E remexeu os pés.--Que pena não se vêr a
-familia real!
-
-Nos camarotes d'assignantes iam apparecendo os altos penteados
-medonhos, enchumaçados de postiços; peitilhos de camisas branquejavam.
-Sujeitos entravam para as cadeiras devagar, com um ar gasto e intimo,
-compondo o cabello. Conversava-se baixo. Ao fundo da platéa havia um
-rumor desinquieto entre moços de jaquetão; e á entrada, sob a tribuna,
-viam-se, n'um apparato militar, correames polidos de municipaes, bonés
-carregados de policias; e reluzindo á luz, punhos de sabres.
-
-Mas na orchestra correram fortes estremecimentos metallicos, dando um
-pavor sobrenatural; Fausto tremia como um arbusto ao vento; um ruido
-de folhas de lata, fortemente sacudidas, estalou; e Mephistopheles
-ergueu-se ao fundo, escarlate, lançando a perna com um ar charlatão,
-as duas sobrancelhas arrebitadas, uma barbilha insolente, _un bel
-cavalier_; e em quanto a sua voz poderosa saudava o Doutor, as duas
-plumas vermelhas do gorro oscillavam sem cessar d'um modo fanfarrão.
-
-Luiza chegára-se para a frente; ao ruido da cadeira, cabeças na platéa
-voltaram-se, languidamente; pareceu de certo bonita, examinaram-na;
-ella, embaraçada, pôz-se a olhar para o palco muito séria:--por traz
-de véos sobrepostos que se levantavam, n'uma affectação de visão,
-Margarida appareceu fiando o linho, toda vestida de branco; a luz
-electrica, envolvendo-a n'um tom crú, fazia-a parecer de gesso muito
-caiado; e D. Felicidade achou-a tão linda que a comparou a uma santa!
-
-A visão desappareceu n'um tremulo de rebecas. E depois d'uma aria,
-Fausto, que ficára immovel ao fundo do palco, debateu-se um momento
-dentro da tunica e das barbas, e emergiu joven, gordinho, vestido de
-côr de lilaz, coberto de pôs d'arroz, compondo o frisado do cabello. As
-luzes da rampa subiram: uma instrumentação alegre e expansiva resoou:
-Mephistopheles, apossando-se d'elle, arrastou-o sofrego através da
-decoração. E o pano desceu rapidamente.
-
-As platéas ergueram-se com um rumor grosso e lento. D. Felicidade um
-pouco affrontada abanava-se. Examinaram então as familias, algumas
-_toilettes_; e sorrindo concordaram que estava «do mais fino».
-
-Nos camarotes conversava-se sobriamente; ás vezes uma joia brilhava,
-ou a luz punha tons lustrosos d'aza de corvo nos cabellos pretos onde
-alvejavam camelias ou reluzia o aro de metal d'um pente; os vidros
-redondos dos binoculos moviam-se devagar, picados de pontos luminosos.
-
-Na platéa, nas bancadas clareadas, sujeitos quasi deitados namoravam
-com languidez; ou de pé, taciturnos, acariciavam as luvas; velhos
-_dilettanti_, de lenço de sêda, tomavam rapé, caturravam; e D.
-Felicidade interessava-se por duas hespanholas de verde, que na
-superior immobilisavam, n'uma affectação casta, os seus corpos de
-lupanar.
-
-Um collega de Jorge magrinho e janota entrou então no camarote: parecia
-animado, e perguntou logo se não sabiam o grande escandalo? Não. E o
-engenheiro, com gestos vivos das suas mãosinhas calçadas n'umas luvas
-esverdeadas, contou que a mulher do Palma, o deputado, sabiam, tinha
-fugido!...
-
---P'ra o estrangeiro?
-
---Qual!--E a voz do engenheiro tinha agudos triumphantes.--Ahi é que
-estava o bonito. P'ra casa d'um hespanhol que morava defronte!... Era
-divino! De resto--e a sua voz tornou-se grave--estava enthusiasmado com
-o baixo!
-
-E depois de ter sorrido, olhado pelo binoculo, ficou calado, extenuado
-do que dissera, batendo apenas de vez em quando no joelho de Jorge, com
-um _Sim, senhor!_ familiar, ou um _Então que é feito?_ amigavel.
-
-Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro sahiu, em bicos de
-pés. E o pano ergueu-se devagar na alegria da kermesse, cheia de uma
-luz branca e dura. Casas acastelladas branquejavam no pano de fundo,
-n'alguma collina do Rheno amiga das vinhas. Escarranchado sobre uma
-pipa, o barrigudo e folgazão rei Cambrinus ria enormemente, erguendo,
-na sua attitude de taboleta gothica, a vasta caneca emblematica da
-cerveja germanica. E estudantes, judeus, reitres e donzellas, nas suas
-côres vivas de paninho, moviam-se d'um modo automatico e somnambulo,
-aos compassos largos da instrumentação festiva.
-
-A walsa então desenrolou-se languidamente, como um fio de melodia,
-em espiraes suaves que ondeavam e fugiam: Luiza seguia os pésinhos
-das dançarinas, as pernas musculosas volteando no tablado; e as saias
-tufadas e curtas faziam como o girar multiplicado e reproduzido de
-vagos discos de cambraia.
-
---Que bonito!--murmurava ella, com uma felicidade no rosto.
-
---D'appetite--affirmava D. Felicidade, revirando os olhos.
-
-Certas agudezas delicadas dos flautins enterneciam Luiza; e a casa,
-Juliana, as suas miserias, tudo lhe parecia recuado, no fundo d'uma
-noite esquecida.
-
-Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos, e logo, com gestos
-aduncos e rapaces, cantou o _Dio del oro_. A sua voz arremessada
-affirmava, n'um tom brutal, o poder do dinheiro; nas massas da
-instrumentação passavam sonoridades claras e tilintantes d'um remexer
-sofrego de thesouros; e as notas altas finaes cahiam, d'um modo curto e
-secco, como martelladas triumphantes cunhando o divino ouro!
-
-Luiza então viu D. Felicidade perturbar-se; e seguindo o seu olhar
-negro, subitamente avivado, descobriu na geral a calva polida do
-conselheiro Accacio,--que comprimentava, promettendo generosamente, com
-a mão espalmada, a sua visita proxima.
-
-Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as immediatamente por terem
-escolhido aquella noite: a opera era das melhores e estava gente muito
-fina. Lamentou ter perdido o primeiro acto;--ainda que não gostasse
-extremamente da musica, apreciava-o por ser muito philosophico. E,
-tomando da mão de Luiza o binoculo, explicou os camarotes, disse os
-titulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados, apontou os
-litteratos.--Ah! conhecia bem S. Carlos! Havia dezoito annos!
-
-D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro sentia que não podessem
-vêr o camarote real: a rainha, como sempre, estava adoravel.
-
-Sim? Como estava?
-
---De velludo. Não sabia se rôxo, se azul escuro. Affirmar-se-hia, e
-viria dizer...
-
-Mas quando o pano subiu, ficou sentado por traz de Luiza começando
-logo a explicar--que aquella (Siebel, colhendo flôres no jardim de
-Margarida) posto que segunda dama, ganhava quinhentos mil reis por
-mez...
-
---Mas apesar d'estes ordenadões morrem quasi sempre na miseria--disse
-com reprovação.--Vicios, cêas, orgias, cavalgadas...
-
-A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida entrou devagar,
-desfolhando o malmequer da legenda, caracterisada de virgem, com
-as duas longas tranças louras. Scismava, fallava só, amava: a dôce
-creatura sente em volta de si o ar pesado, e quereria bem que sua mãi
-voltasse!
-
-Os olhos de Luiza encheram-se então de melancolia, com a saudosa
-ballada do rei de Thule; aquella melodia dava-lhe a vaga sensação d'um
-pallido paiz d'amores espirituaes, banhado de luares frios, longe,
-no Norte, junto a um mar gemente--ou de tristezas aristocraticas,
-scismadas n'um terraço, sob a sombra d'um parque...
-
-Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo:
-
---Agora é que é! Reparem. Agora é o ponto capital.
-
-De joelhos, diante do cofre das joias, a dama requebrava-se,
-garganteando; apertava nas mãos o collar, extasiada; punha os brincos
-com denguices delirantes; e da sua bocca muito aberta sahia um canto
-trinado, d'uma crystallinidade aguda--entre o vago susurro da admiração
-burgueza.
-
-O Conselheiro disse discretamente:
-
---Bravo! Bravo!
-
-E, excitado, dissertou: aquillo era o melhor da opera! Era alli que se
-via a força das cantoras...
-
-D. Felicidade quasi tinha medo que lhe estalasse alguma cousa na
-garganta. Preoccupava-se tambem com as joias. Seriam falsas? Seriam
-d'ella?
-
---É p'ra a tentar, não é verdade?
-
---É um drama allemão--disse-lhe baixo o Conselheiro.
-
-Mas Mephistopheles ia arrastando a boa Martha; Fausto e Margarida
-perdiam-se nas sombras cumplices do jardim aphrodisiaco,--e o
-Conselheiro observou que todo aquelle acto era um pouco fresco.
-
-D. Felicidade murmurou-lhe--entre reprehensiva e extatica:
-
---Quantas scenas não terá tido assim, maganão!
-
-O Conselheiro fitou-a, indignado:
-
---O quê, minha senhora! levar a deshonra ao seio d'uma familia!
-
-Luiza fez-lhe _chut_, sorrindo. Interessava-se agora. Tinha escurecido;
-uma facha de luz electrica enchia o jardim d'um vago luar azulado, onde
-os maciços arredondados se recortavam em pastas escuras; e Fausto e
-Margarida enlaçados, quasi desfallecidos, soltavam d'um modo expirante
-o seu duetto: uma sensualidade delicada e moderna, com elances
-d'um requinte devoto, arrastava-se na orchestra gemente; o tenor
-esforçava-se, agarrando o peito, com um geito morbido dos quadris, o
-olhar anuviado: e desprendendo-se da languida arcada dos violoncellos,
-o canto subia para as estrellas...
-
- Al pallido chiarore
- Dei astri d'oro.
-
-Mas o coração de Luiza batia precipitadamente; vira-se de repente
-sentada no divan, na sua sala, ainda tomada dos soluços do adulterio,
-e Bazilio, com o charuto ao canto da bocca, batia distrahido no piano
-aquella aria--_Al pallido chiarore dei astri d'oro_. D'essa noite tinha
-vindo toda a sua miseria!--e subitamente, como longos véos funebres
-que descem e abafam, as recordações de Juliana, da casa, de Sebastião,
-vieram escurecer-lhe a alma.
-
-Olhou o relogio. Eram dez horas. Que se passaria?
-
---Estás incommodada?--perguntou-lhe Jorge.
-
---Um pouco.
-
-Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade, ao rebordo da sua
-janellinha. Fausto corre. Enlaçam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e
-o roncar dos rebecões--o pano desceu, pondo uma reticencia pudica...
-
-D. Felicidade, abrazada, quiz agua. Jorge apressou-se: queria bolos?
-neve? A excellente senhora hesitou; o _chic_ da neve attrahia-a, mas
-cohibiu-se com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao pé de
-Luiza, e ficou a olhar, vagamente cançada; havia um susurro lento;
-bocejava-se discretamente; e o fumo dos cigarros, entrando, de fóra,
-fazia uma nevoa apenas perceptivel que enchia a sala, ia prender-se
-ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes. Quando Jorge sahiu o
-Conselheiro acompanhou-o: ia acima tomar o seu copo de gelatina...
-
---É a minha cêa em dia de S. Carlos--disse.
-
-Voltou d'ahi a pouco, limpando os beiços ao lenço de sêda, ter com
-Jorge que fumava no pequeno patamar junto á entrada das cadeiras:
-
---Veja isto, Conselheiro--disse-lhe logo Jorge, indignado, mostrando a
-parede--que escandalo!
-
-Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre a parede caiada, enormes
-figuras obscenas: e alguem, prudente e amigo da clareza, ajuntára por
-baixo as designações sexuaes com uma boa letra cursiva.
-
-E Jorge, revoltado:
-
---E passam por aqui senhoras! Vêem, lêem! Isto só em Portugal!...
-
-O Conselheiro disse:
-
---A autoridade devia intervir de certo...--Acrescentou com
-bonhomia:--São rapazes, com o charuto. Apreciam muito esta
-distracção...--E sorrindo, recordando-se:--Uma occasião mesmo, o conde
-de Villa Rica, que tem graça, muita graça, insistiu commigo, dando-me o
-charuto, para que eu fizesse um desenho...--E mais baixo:--Eu dei-lhe
-uma lição severa. Tomei o charuto...
-
---E fumou-o?
-
---Escrevi.
-
---Uma obscenidade?
-
-O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade:
-
---Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppõe...?--E acalmando-se:--Não,
-tomei o charuto e escrevi com mão firme: HONRA AO MERITO!
-
-Mas a campainha retiniu, entraram no camarote. Luiza incommodada
-não quiz sentar-se á frente. E o Conselheiro, grave, tomou o seu
-lugar--defronte de D. Felicidade. Foi para a nutrida senhora um momento
-feliz, de um gozo requintado. Estavam _ambos_, alli, como noivos! O
-seu peito abundante arfava: via-se a sahirem, mais tarde, de braço
-dado, entrarem n'um _coupé_ estreito, pararem á porta da casa conjugal,
-pisarem o tapete da alcova... Tinha um suor á raiz dos cabellos--e
-vendo o Conselheiro sorrir-lhe, amavel, com a sua calva toda luzidia ao
-gaz, sentia um reconhecimento apaixonado pela mulher de virtude que,
-áquella hora, no fundo da Galliza, estava cravando agulhas n'um coração
-de cera!...
-
-Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se sobre o
-chapéo, sahiu impetuosamente. Olharam-se inquietos. D. Felicidade
-empallideceu: seria alguma dôr? Santo Deus! Já murmurava baixo uma reza.
-
-Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz triumphante:
-
---D'azul escuro!
-
-Abriram grandes olhos, sem comprehender.
-
---Sua magestade a rainha! Tinha promettido verifical-o, cumpri-o!
-
-E sentou-se com solemnidade, dizendo a Luiza:
-
---Lamento que se esconda n'esse recanto, D. Luiza! Na sua idade! Na
-flôr dos annos! Quando tudo na vida é côr de rosa!
-
-Ella sorriu. Estava agora muito sobresaltada. A cada momento olhava
-o relogio. Sentia-se doente: os pés arrefeciam-lhe, uma vaga febre
-fazia-lhe a cabeça pesada. O seu pensamento estava na casa, em Juliana,
-em Sebastião, cortado de palpites, de esperanças, de terrores... E via,
-sem comprehender, a multidão de soldados vestidos de côres mipartidas,
-com armas obsoletas, que marchavam, paravam n'uma cadencia affectada,
-erguendo uma poeira subtil no tablado mal regado. Um côro vigoroso
-resoava: era a marcha arrogante e festiva dos reitres allemães,
-celebrando a alegria das excursões victoriosas pelos paizes do vinho,
-e a posse das bolsas mercenarias cheias de sonoros rixdales! E os
-seus olhos seguiam um barbaças corpulento, que, por cima dos gorros
-quadrados dos bésteiros, balançava monotonamente um largo quadrado de
-paninho--a bandeira do Santo Imperio, negra, vermelha e d'ouro!
-
-Mas então ergueu-se um rumor no fundo da platéa. Vozes duras
-altercavam. Ordem! ordem! dizia-se. Localistas na superior pozeram-se
-rapidamente em bicos de pés na palhinha das cadeiras. Quatro policias
-e dous municipaes appareceram á porta do fundo; e depois d'uma troça,
-de risadas, foram levando um moço livido, que cambaleava,--e o lado
-esquerdo do seu jaquetão de pellucia estava todo vomitado!
-
-Mas fez-se logo silencio: o pano de fundo oscillava um pouco,
-acotovellado pela sahida festiva dos reitres e dos populares; e no
-palco deserto, tendo á direita um portico oscillante de cathedral e á
-esquerda a portinha triste d'uma casa burgueza, Valentim, com uma longa
-pera, á beira da rampa, beijava sofregamente uma medalha:--mas Luiza
-não o escutava. Pensava com o coração confrangido: que fará a esta hora
-Sebastião?
-
-
-Sebastião, ás nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do
-gaz dentro dos candieiros, dirigia-se devagar a casa d'um commissario
-de policia, seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma velha servente,
-engelhada como uma maçã raineta, levou-o ao quarto escolastico, «onde
-o snr. commissario estava a cozer uma grande constipação»: encontrou-o
-com um gabão pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, tomando
-_grogs_ quentes, e lendo o _Homem dos tres calções_. Apenas Sebastião
-entrou tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e erguendo para elle
-os olhos pequeninos, chorosos do defluxo, exclamou:
-
---Estou com um diabo d'uma constipação ha tres dias, que me não quer
-largar...--E rosnou algumas pragas, passando a mão magra e nodosa sobre
-uma face trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho
-dava ferocidade.
-
-Sebastião lamentou-o muito: não admirava com a estação que ia!...
-Aconselhou-lhe agua sulfurica com leite fervido.
-
---Eu, se isto não despega--disse o commissario
-rancorosamente--atiro-lhe ámanhã p'ra dentro com meia garrafa de
-genebra; e se não fôr por bem, ha-de ir á força... E que ha de novo?
-
-Sebastião tossiu, queixou-se d'andar tambem adoentado, e chegando a
-cadeira para ao pé do primo Vicente, pondo-lhe a mão sobre o joelho:
-
---Ó Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra me acompanhar cá p'ra
-uma cousa, só p'ra metter medo, só p'ra fazer que uma pessoa restitua o
-que tirou, tu davas ordem, hein?
-
---Ordem p'ra quê?--perguntou lentamente o Vicente com a cabeça baixa,
-os olhinhos avermelhados em Sebastião.
-
---Ordem p'ra me acompanhar, p'ra se mostrar. É só p'ra se mostrar. É um
-caso exquisito... P'ra metter medo... Tu sabes que eu não sou capaz...
-É p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escandalo...
-
---Roupas? Dinheiro?
-
-E o commissario cofiava reflectidamente o bigode com os seus longos
-dedos magros, muito queimados do cigarro.
-
-Sebastião hesitou:
-
---Sim. Roupas, cousas... É p'ra não haver escandalo... Tu percebes...
-
-O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o:
-
---Um policia p'ra se mostrar...
-
-Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa:
-
---Não é cousa de politica?
-
---Não!--fez Sebastião.
-
-O commissario embrulhou mais os pés no cobertor, rolou em redor os
-olhos, ferozmente:
-
---Nem toca com gente grauda?
-
---Qual!
-
---Um policia p'ra se mostrar...--ruminava o Vicente.--Tu és um homem de
-bem... Dá cá aquella pasta de cima da commoda.
-
-Tirou um papel pautado, examinou-o, acavallando a luneta no nariz,
-meditou com a mão em garra sobre a testa:
-
---O Mendes... Serve-te o Mendes?
-
-Sebastião, que não conhecia o Mendes, acudiu logo:
-
---Sim, quem quizeres. É só p'ra se mostrar...
-
---O Mendes. É um homemzarrão. É serio, foi da Guarda.
-
-Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas
-vezes; cortou os _tt_, seccou-a á chaminé do candieiro; e dobrando-a
-com solemnidade:
-
---Á segunda divisão!
-
---Obrigado, Vicente. É um grande favor... Obrigado. E agasalha-te,
-homem! E não te esqueça: agua sulfurica da pharmacia Azevedo na rua de
-S. Roque: meia chavena de leite fervido... E obrigado. Não queres nada,
-hein?
-
---Não. Dá uma placa ao Mendes. É serio, foi da Guarda!
-
-E acavallando as lunetas retomou o _Homem dos tres calções_.
-
-Sebastião d'ahi a meia hora, seguido do robusto Mendes, que marchava
-militarmente, com os braços um pouco arqueados, encaminhava-se
-para casa de Jorge. Não tinha ainda um plano definido. Calculava
-naturalmente que Juliana vendo, áquella hora da noite, o policia com o
-seu terçado, se aterraria, imaginaria logo a Boa Hora, o Limoeiro, a
-costa d'Africa, entregaria as cartas, pediria misericordia! E depois?
-Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para o Brazil, ou dar-lhe
-quinhentos mil reis para ella se estabelecer longe, na provincia...
-Veria. O essencial era aterral-a!
-
-
-Juliana, com effeito, depois d'abrir a porta, apenas viu subir, atraz
-de Sebastião, o policia, fez-se muito amarella, exclamou:
-
---Credo! Que temos nós?
-
-Estava embrulhada n'um chale preto, e o candieiro de petroleo, que ella
-erguia, prolongava na parede a sombra disforme da cuia.
-
---Ó snr.^a Juliana, faça favor d'accender luz na sala--disse Sebastião,
-tranquillamente.
-
-Ella fixava no policia um olhar faiscante e inquieto.
-
---Ó senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores não estão em casa. Eu se
-soubesse nem tinha aberto... Ha alguma novidade? Olha o proposito!
-
---Não é nada--disse Sebastião, abrindo a porta da sala--tudo em paz!
-
-Elle mesmo accendeu com um phosphoro uma vela na serpentina--que fez
-sahir vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a
-pallida face do retrato da mãi de Jorge, um reflexo de espelho.
-
---Ó snr. Mendes, sente-se, sente-se!
-
-O Mendes collocou-se á beira da cadeira com a mão na cinta, o terçado
-entre os joelhos, muito soturno.
-
---Esta é que é a pessoa--disse Sebastião, indicando Juliana, que ficára
-á porta da sala, attonita.
-
-A mulher recuou, livida:
-
---Ó snr. Sebastião, que brincadeira é esta?
-
---Não é nada, não é nada...
-
-Tomou-lhe o candieiro da mão, e tocando-lhe no braço:
-
---Vamos lá dentro á sala de jantar.
-
---Mas que é? É alguma cousa commigo? Credo! E esta! Olha que
-desconchavo!
-
-Sebastião fechou a porta da sala de jantar, pousou o candieiro sobre
-a mesa, onde havia ainda um prato com codeas de queijo, e um fundo de
-vinho n'um copo, deu alguns passos, fazendo estalar nervosamente os
-dedos, e parando bruscamente diante de Juliana:
-
---Dê cá umas cartas que roubou á senhora...
-
-Juliana teve um movimento para correr á janella, gritar.
-
-Sebastião agarrou-lhe o braço, e fazendo-a sentar com força sobre uma
-cadeira:
-
---Escusa d'ir á janella gritar, a policia já está dentro de casa. Dê cá
-as cartas, ou p'ra a enxovia!
-
-Juliana entreviu n'um relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo
-do rancho, a enxerga nas lages frias...
-
---Mas que fiz eu?--balbuciava--que fiz eu?
-
---Roubou as cartas. Dê-as p'ra cá, avie-se.
-
-Juliana sentada á beira da cadeira, apertando desesperadamente as mãos,
-rosnava por entre os dentes cerrados:
-
---A bebeda! A bebeda!
-
-Sebastião, impaciente, pôz a mão no fecho da porta.
-
---Espere, seu diabo!--gritou ella, erguendo-se com um salto. Fixou-o
-rancorosamente, desabotoou o corpete, enterrou a mão no peito, tirou
-uma carteirinha. Mas de repente batendo com o pé, n'um phrenesi:
-
---Não! não! não!
-
---Diabos me levem se vossê não fôr dormir á enxovia!--Entre-abriu a
-porta.--Ó snr. Mendes!
-
---Ahi tem!--gritou ella atirando-lhe a carteira. E brandindo para elle
-os punhos:--Raios te partam, malvado!
-
-Sebastião apanhou a carteira. Havia tres cartas: uma muito dobrada era
-de Luiza; leu a primeira linha: _Meu adorado Bazilio_; e muito pallido
-guardou logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu então a porta:
-a possante figura do Mendes estava na sombra.
-
---Está tudo arranjado, snr. Mendes,--a voz tremia-lhe um pouco--não lhe
-quero tomar mais tempo.
-
-O homem fez uma continencia, calado: quando Sebastião, no patamar, lhe
-resvalou na mão uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse,
-com uma voz pegajosa:
-
---E para o que quizer, o sessenta e quatro, o Mendes, que foi da
-Guarda. Não se incommode v. s.^a Ás ordens de v. s.^a Minha mulher
-e filhos agradecem. Não se incommode v. s.^a O sessenta e quatro, o
-Mendes, que foi da Guarda!
-
-Sebastião fechou a cancella, voltou á sala de jantar. Juliana ficára
-n'uma cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente:
-
---A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi vossê que arranjou a armadilha!
-Tambem vossê dormiu com ella!...
-
-Sebastião, muito branco, dominava-se.
-
---Vá pôr o chapéo, mulher. O snr. Jorge despediu-a. Ámanhã mandará
-buscar os bahus...
-
---Mas o homem ha-de saber tudo!--berrou ella.--Este tecto me rache
-se eu não lhe disser tudo tim-tim por tim-tim. Tudo! As cartas que
-recebia, onde ia vêr o homem. Deitava-se com ella na sala, até os
-pentes lhe cahiam na balburdia. Até a cozinheira lhes sentia o alarido!
-
---Cale-se!--bradou Sebastião com uma punhada na mesa, que fez tremer
-toda a louça no aparador, e esvoaçar os canarios. E com a voz toda
-tremula, os beiços brancos:--A policia tem o seu nome, sua ladra! Á
-menor palavra que vossê diga vai para o Limoeiro, e pela barra fóra.
-Vossê não roubou só as cartas; roubou roupas, camisas, lençoes,
-vestidos...--Juliana ia fallar, gritar.--Bem sei--continuou elle
-violentamente--deu-lh'os ella, mas á força, porque vossê a ameaçava.
-Vossê arrancou-lhe tudo. É roubo. É d'Africa!--E o que é dizer ao snr.
-Jorge, póde ir dizer. Vá. Veja se elle a acredita. Diga! São algumas
-bengaladas que leva por esses hombros, ladra!
-
-Ella rangia os dentes. Estava apanhada! _Elles_ tinham tudo por si, a
-policia, a Boa-Hora, a cadêa, a Africa!... E ella--nada!
-
-Todo o seu odio contra a _Piorrinha_ fez explosão. Chamou-lhe os nomes
-mais obscenos. Inventou infamias.
-
---É que nem as do Bairro-Alto! E eu--gritava--sou uma mulher de bem,
-nunca um homem se pôde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve raio
-nenhum que me visse a côr da pelle. E a bebeda!...--Tinha arremessado o
-chale, alargou anciosamente o collar do vestido.--Era um desaforo por
-essa casa! E o que eu passei com a bruxa da tia! É o pago que me dão!
-Os diabos me levem se eu não fôr para os jornaes. Vi-a eu abraçada ao
-janota, como uma cabra!
-
-Sebastião a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por
-aquelles pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus
-olhos devoravam-lhe as palavras. Quando ella se calou arquejante:
-
---Vá, ponha o chapéo, e p'ra a rua!
-
-Juliana então allucinada de raiva, com os olhos sahidos das orbitas,
-veio para elle, e cuspiu-lhe na cara!
-
-Mas de repente a bocca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para
-traz, levou com ancia as mãos ambas ao coração, e cahiu para o lado,
-com um som molle, como um fardo de roupa.
-
-Sebastião abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma escuma rôxa
-apparecia-lhe aos cantos da bocca.
-
-Agarrou no chapéo, desceu as escadas, correu até á Patriarchal. Um
-_coupé_ vazio passava; atirou-se para dentro, mandou a «todo o que
-dér», para casa de Julião; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo em
-chinellas, sem collarinho.
-
---É caso de morte, é a Juliana--balbuciava muito pallido.
-
-E pelo caminho, entre o ruido das rodas e o tilintar dos caixilhos,
-contava confusamente que entrára em casa de Luiza, que achára Juliana
-muito despeitada por ter sido despedida, e que a fallar, a esbracejar,
-de repente, tombára p'ra o lado!
-
---Foi o coração. Estava p'ra dias--disse Julião, chupando a ponta do
-cigarro.
-
-Pararam. Mas Sebastião desorientado, ao sahir, fechára a porta! E
-dentro só a morta! O cocheiro offereceu a sua gazua, que serviu.
-
---Então nem se vai a uma passeadinha ao Dáfundo, meus fidalgos?--disse
-o homem, mettendo a gorgeta na algibeira.
-
-Mas vendo-os atirar com a porta:
-
---Tambem não é gente d'isso--rosnou com desprezo, batendo a parelha.
-
-Entraram.
-
-No pequeno pateo o silencio da casa pareceu a Sebastião pavoroso.
-Subia, aterrado, os degraus, que se afiguravam infindaveis; e, com
-fortes pancadas do coração, esperava ainda que ella estivesse apenas
-adormecida n'um desmaio simples, ou já de pé, pallida e respirando!
-
-Não. Lá estava como a deixára, estendida na esteira, com os braços
-abertos, os dedos retorcidos como garras. A convulsão das pernas
-arregaçára-lhe as saias, viam-se as suas canellas magras com meias
-de riscadinho côr de rosa e as chinellas de tapete; o candieiro de
-petroleo, que Sebastião esquecera ao pé sobre uma cadeira, punha tons
-lividos na testa, nas faces rigidas; a bocca torcida fazia um sombra;
-e os olhos medonhamente abertos, immobilisados na agonia repentina,
-tinham uma vaga nevoa, como cobertos d'uma têa d'aranha diaphana. Em
-redor tudo parecia mais immovel, d'um hirto morto. Vagos reflexos
-de prata reluziam no aparador; e o tic-tac do _cuco_ palpitava sem
-descontinuar.
-
---Julião apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mãos, disse:
-
---Está morta com todas as regras. É necessario tiral-a d'aqui. Onde é o
-quarto?
-
-Sebastião, pallido, fez signal com o dedo que era por cima.
-
---Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candieiro.--E como Sebastião não se
-movia:--Tens medo?--perguntou rindo.
-
-Escarneceu-o: que diabo, era materia inerte, era como quem agarrava uma
-boneca! Sebastião, com um suor á raiz dos cabellos, levantou o cadaver
-por debaixo dos braços, começou a arrastal-o, devagar. Julião adiante
-erguia o candieiro; e por fanfarronada cantou os primeiros compassos da
-marcha do _Fausto_. Mas Sebastião escandalisou-se, e com uma voz que
-tremia:
-
---Largo tudo, e vou-me...
-
---Respeitarei os nervos da menina!--disse Julião curvando-se.
-
-Continuaram calados. Aquelle corpo magro parecia a Sebastião d'um
-peso de chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinellas do cadaver
-soltou-se, rolou. E Sebastião sentia aterrado alguma cousa que lhe
-batia contra os joelhos; era a cuia cahida, suspensa por um atilho.
-
-Estenderam-na na cama; Julião, dizendo que se deviam seguir as
-tradições,--pôz-lhe os braços em cruz e fechou-lhe os olhos.
-
-Esteve um momento a olhal-a:
-
---Feia besta!--murmurou, estendendo-lhe sobre o rosto uma toalha
-enxovalhada.
-
-Ao sahir examinou, admirado, o quarto:
-
---Estava mais bem alojada que eu, o estafermo!
-
-Fechou a porta, deu volta á chave:
-
---_Requiescat in pace_--disse.
-
-E desceram, calados.
-
-Ao entrar na sala, Sebastião, muito pallido, pôz a mão no hombro de
-Julião:
-
---Então achas que foi o aneurisma?
-
---Foi. Enfureceu-se, estourou. É dos livros...
-
---Se não se tivesse zangado hoje...
-
---Estourava ámanhã. Estava nas ultimas... Deixa em paz a creatura. Está
-começando a esta hora a apodrecer, não a perturbemos.
-
-Declarou então, esfregando as mãos com frio, que «comia alguma cousa».
-Achou no armario um pedaço de vitella fria, uma garrafa meia de
-Collares. Installou-se e, com a bocca cheia, deitando o vinho d'alto:
-
---Então sabes a novidade, Sebastião?
-
---Não.
-
---O meu concorrente foi despachado!
-
-Sebastião murmurou:
-
---Que ferro!
-
---Era previsto--disse Julião com um grande gesto.--Eu ia fazer um
-escandalo, mas...--e teve um risinho--amansaram-me! Estou n'um posto
-medico, deram-me um posto medico! Atiraram-me um osso!
-
---Sim?--fez Sebastião.--Homem, ainda bem, parabens. E agora?
-
---Agora, roel-o!
-
-De resto, tinham-lhe promettido a primeira vagatura. O posto medico não
-era mau... Em definitiva, a situação melhorára...
-
---Mas mesquinha, mesquinha! Não sáio do atoleiro...
-
-Estava farto de medicina, disse depois d'um silencio. Era um bêco
-sem sahida. Devia-se ter feito advogado, politico, intrigante. Tinha
-nascido p'ra isso!
-
-Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mão, a voz
-cortante, expoz um plano de ambição:--O paiz está a preceito para um
-intrigante com vontade! Esta gente toda está velha, cheia de doenças,
-de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis! tudo isto está pôdre
-por dentro e por fóra! o velho mundo constitucional vai a cahir aos
-pedaços... Necessitam-se homens!
-
-E plantando-se diante de Sebastião:
-
---Este paiz, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com
-_expedientes_. Quando vier a revolução contra os _expedientes_, o paiz
-ha-de procurar quem tenha os _principios_. Mas quem tem ahi principios?
-Quem tem ahi quatro principios? Ninguem; teem dividas, vicios secretos,
-dentes postiços; mas principios, nem meio! Por consequencia se houver
-tres patuscos que se dêem ao trabalho de estabelecer meia duzia de
-principios sérios, racionaes, modernos, positivos, o paiz tem se atirar
-de joelhos, e supplicar-lhes: Senhores, fazei-me a honra insigne de
-me pôr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um d'estes. Nasci p'ra
-isso! E secca-me a idéa de que em quanto outros idiotas, mais astutos
-e mais previdentes, hão-de estar no poleiro a reluzir ao sol, _al
-hermoso sol português_, como se diz nas zarzuelas, eu hei-de estar a
-receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas d'algum
-desembargador caduco.
-
-Sebastião calado pensava na outra, morta em cima.
-
---Estupido paiz, estupida vida!--rosnou Julião.
-
-Mas uma carruagem entrou na rua, parou á porta.
-
---Chegam os principes!--disse Julião. Desceram logo.
-
-Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastião, abrindo a porta,
-bruscamente:
-
---Houve cá grande novidade!
-
---Fogo?--gritou Jorge voltando-se aterrado.
-
---A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma--disse a voz de Julião da
-sombra da porta.
-
---Oh c'os diabos!--E Jorge atarantado procurava á pressa na algibeira
-troco para o cocheiro.
-
---Ai, eu já não entro!--exclamou logo D. Felicidade, mostrando á
-portinhola a sua larga face envolvida n'uma manta branca.--Eu já não
-entro!
-
---Nem eu!--fez Luiza, toda tremula.
-
---Mas para onde queres que vamos, filha?--exclamou Jorge.
-
-Sebastião lembrou que podiam ir para casa d'elle. Tinha o quarto da
-mamã, era só pôr lençoes na cama.
-
---Vamos, sim! Vamos, Jorge! É o melhor!--supplicou Luiza.
-
-Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao vêr
-aquelle grupo junto á lanterna do trem, parou. E Jorge emfim, instado,
-muito contrariado, consentiu.
-
---Diabo da mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar,
-D. Felicidade...
-
---E a mim, que estou em chinellas!--acudiu Julião.
-
-D. Felicidade lembrou então, como christã, que era necessario alguem,
-para velar a morta...
-
---Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade!--exclamou Julião, entrando
-logo para a carruagem, batendo com a portinhola.
-
-Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religião! ao menos pôr
-duas velas, mandar chamar um padre!...
-
---Largue, cocheiro!--berrou Julião, impaciente.
-
-A carruagem deu a volta. E D. Felicidade á portinhola, apesar de Julião
-que a puxava pelos vestidos, gritava:
-
---É um peccado mortal! É uma irreverencia! Ao menos duas velas!
-
-O trem partiu a trote.
-
-Luiza agora tinha escrupulos: realmente podia-se mandar chamar alguem...
-
-Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, áquella hora? Que beatice! Estava
-morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez
-camara ardente tambem? Queria ella ir velal-a?...
-
---Então, Jorge, então!...--murmurava Sebastião.
-
---Não, é de mais! É vontade de crear embaraços, que diabo!
-
-Luiza baixava a cabeça: e, em quanto Jorge, praguejando, ficou atraz a
-fechar a porta da casa, ella foi descendo a rua pelo braço de Sebastião.
-
---Estourou de raiva--disse-lhe elle baixinho.
-
-Toda a rua Jorge resmungou. Que idéa, irem dormir agora fóra de casa!
-Realmente era levar muito longe as mariquices...!
-
-Até que Luiza lhe disse, quasi chorando:
-
---Vê se me queres torturar mais, e fazer-me mais doente, Jorge!
-
-Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastião, para a socegar,
-propoz que viesse a tia Vicencia, a preta, velar a Juliana.
-
---Era talvez melhor--murmurou Luiza.
-
-Chegaram á porta de Sebastião. O _frou-frou_ do vestido de sêda de
-Luiza, áquella hora, na sua casa, dava uma commoção a Sebastião: a mão
-tremia-lhe ao accender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicencia
-para fazer chá; tirou elle mesmo os lençoes dos bahús, apressado, feliz
-d'aquella hospitalidade. Quando voltou á sala, Luiza estava só, muito
-pallida, ao canto do sophá.
-
---Jorge?--perguntou elle.
-
---Foi ao seu escriptorio, Sebastião, escrever ao parocho para
-o enterro...--E com os olhos brilhantes, n'uma voz sumida e
-assustada:--Então?
-
-Sebastião tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ella agarrou-a
-sofregamente--e com um movimento brusco, tomou-lhe a mão, e beijou-lh'a.
-
-Mas Jorge entrava, sorrindo.
-
---Então agora está mais descançada, a menina?
-
---Inteiramente--disse ella, com um suspiro de allivio.
-
-Foram tomar chá. Sebastião contou a Jorge, corando um pouco, a
-maneira como entrára em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fôra
-despedida, e fallando, exaltando-se, zás, de repente, cahira para o
-lado morta...
-
-E acrescentou:
-
---Coitada!
-
-Luiza via-o mentir, olhando-o com adoração.
-
---E a Joanna?--perguntou Jorge, de repente.
-
-Luiza, sem se perturbar, respondeu:
-
---Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licença p'ra ir vêr uma tia
-que está muito mal, p'ra os lados de Bellas... Diz que volta ámanhã...
-Mais uma gota de chá, Sebastião...
-
-Esqueceram-se depois de mandar a Vicencia--e ninguem velou a morta.
-
-
-
-
-XVI
-
-
-Luiza passou a noite ás voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou
-assustado da frequencia do seu pulso e do calor secco da pelle.
-
-Elle mesmo, muito nervoso, não pudera dormir.
-
-O quarto, onde se não accendera luz havia muito, tinha uma frialdade
-deshabitada: na parede, junto ao tecto, havia manchas de humidade: e
-a cama antiga de columnas torneadas sem cortinados, o velho tremó do
-seculo passado com o seu espelho embaciado davam, á luz bruxuleante
-da lamparina, um sentimento triste de convivencias extinctas. O
-achar-se alli com sua mulher, n'uma cama alheia, trazia-lhe, sem saber
-porque, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua vida uma
-alteração brusca--e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a
-sua existencia, desde essa noite, começaria a correr entre aspectos
-differentes. O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraça, e uivava
-encanado na rua.
-
-Pela manhã, Luiza não se pôde levantar.
-
-Julião, chamado á pressa, tranquillisou-os:
-
---É uma febresita nervosa. Quer socego, não vale nada. Foi o medosinho
-d'hontem, hein?
-
---Sonhei toda a noite com ella--disse Luiza.--Que tinha resuscitado...
-Que horror!
-
---Ah! póde estar socegada... E já a aviaram, a mulher?
-
---O Sebastião lá anda com a massada--disse Jorge.--E eu vou dar uma
-vista d'olhos.
-
-Na rua já se sabia a morte da _tripa-velha_.
-
-A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas,
-com os olhos avermelhados da paixão da aguardente, era conhecida
-da snr.^a Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, á porta do
-estanque:
-
---Muito que fazer agora, snr.^a Margarida, hein?
-
---Bastante, bastante, snr.^a Helena--disse a amortalhadeira com a voz
-um pouco rouca.--No inverno sempre ha mais obra. Mas tudo gente velha,
-com os frios. Nem um corpinho bonito p'ra vestir...
-
-A snr.^a Margarida tinha predilecções artisticas. Gostava d'um bonito
-corpo de dezoito annos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar,
-enfeitar... Entrouxava á má cara a gente velha. Mas com as raparigas
-novas esmerava-se: acatitava as pregas da mortalha; calculava o _chic_
-d'uma flôr, d'um laço; trabalhava com os requintes ajanotados d'uma
-modista do sepulchro.
-
-A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana,
-os favores dos patrões, as tafularias d'ella, os luxos do quarto
-tapetado... A snr.^a Margarida dizia-se «banzada». E para quem iria
-agora tudo aquillo?--perguntavam.--A _tripa-velha_ não tinha parentes...
-
---Era uma riqueza p'ra a minha Antoninha!--disse a amortalhadeira,
-traçando o chale com tristeza.
-
---Como vai ella, a pequena?...
-
---Aquillo vai mal, snr.^a Helena. Aquella cabeça douda!--E exhalando
-a sua dôr com loquacidade:--Deixar o brazileiro que a trazia nas
-palminhas... E por quem? Por aquelle desalmado, que lhe come tudo,
-que já lhe arranjou um filho, e que a derrêa com pau... Mas então, as
-raparigas são assim... Vão atraz do palmo de cara... Que elle é bonito
-rapaz! Mas um bebedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca, snr.^a
-Helena.--E entrou na casa compungidamente.
-
-O padre já chegára tambem. Estava na sala com Sebastião, que conhecia
-d'Almada, e fallava de lavoura, d'enxertos, das regas, n'uma voz
-grossa--passando, com um gesto lento da sua mão cabelluda, o lenço
-enrolado por debaixo do nariz. As janellas em toda a casa estavam
-abertas ao sol muito dôce. Os canarios chilreavam.
-
---E estava ha muito tempo na casa, a defunta?--perguntou o padre, a
-Jorge que passeava pela sala, fumando.
-
---Ha quasi um anno.
-
-O padre desdobrou lentamente o lenço, e sacudindo-o, antes de se assoar:
-
---A sua senhora ha-de sentir muito... É um tributo universal!...
-
-E assoou-se, com estrondo.
-
-A Joanna, então, de chale e lenço, appareceu, em bicos de pés. Soubera
-pelos visinhos que a Juliana «arrebentára», que os senhores estavam em
-casa do snr. Sebastião. Vinha de lá. Luiz mandára-a entrar no quarto.
-Quando a viu doente, a sua rica senhora, lagrimejou muito. Luiza
-disse-lhe--«que agora estava tudo como d'antes, podia voltar...»
-
---E ouça, Joanna, se o snr. Jorge lhe perguntar... que esteve em
-Bellas, com a tia...
-
-A rapariga fôra logo buscar a trouxa e vinha installar-se--um pouco
-assustada da morte em casa.
-
-D'ahi a pouco o Paula bateu discretamente á porta.
-
-Alli vinha offerecer-se para o que fosse necessario n'aquelle transe! E
-tirando e pondo rapidamente o boné, raspando o pé, dizia com a sua voz
-catarrhosa:
-
---Lamento a desgraça, lamento a desgraça! Todos somos mortaes...
-
---Bem, bem, snr. Paula, não é necessario nada--disse Jorge.--Obrigado!
-
-E fechou bruscamente a cancella.
-
-Estava impaciente por se desembaraçar «d'aquella estopada»: e mesmo
-como o enfastiavam as martelladas espaçadas dos homens pregando o
-caixão, em cima, chamou a Joanna:
-
---Diga a essa gente que se avie. Não vamos ficar aqui toda a vida!
-
-A Joanna foi logo dizer que o senhor estava n'um phrenesi! Tinha-se
-feito já intima da snr.^a Margarida. A amortalhadeira fôra mesmo com
-ella á cozinha para tomar uma «sustanciasinha». Como o lume estava
-apagado, contentou-se com sopas de pão em vinho.
-
---Sopinha de burro--dizia, fazendo estalar a lingua.
-
-Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira bicho mais feio. Um corpo
-de sardinha secca! E pondo um olhar complacente nas bellas fórmas
-de Joanna:--A menina, não. A menina tem-me o ar de ter muito bom
-corpo...--E parecia calcular como talharia a mortalha para aquellas
-linhas robustas.
-
-Joanna disse escandalisada:
-
---Longe vá o agouro, cruzes!
-
-A outra sorriu; faltavam-lhe dous dentes: e aflautando a voz:
-
---Tem-me passado pela mão muita gente fina, minha menina. Mais uma
-gotinha de vinho, faz favor? É do Cartaxo, não? é muito avelludado!
-rica gota!
-
-Emfim, com grande satisfação de Jorge, ás quatro horas os homens
-desceram o caixão. A visinhança estava pelas portas. O Paula mesmo, por
-fanfarronada, disse com dous dedos adeus ao esquife, murmurando:
-
---Boa viagem!
-
-Jorge em cima, ao sahir, perguntou a Joanna:
-
---E vossê não tem medo de ficar aqui só?
-
---Eu não, meu senhor. Quem vai não volta!
-
-Tinha medo, com effeito; mas preparava-se a passar a noite com o Pedro,
-e batia-lhe o coração de alegria de «terem a casa por sua» até de
-manhã, e de se poderem rolar amorosamente, como fidalgos, por cima do
-divan da sala.
-
-Jorge voltou com Sebastião para casa, e apenas entrou no quarto, onde
-Luiza estava deitada:
-
---Tudo prompto--disse, esfregando as mãos.--Lá vai para o Alto de S.
-João, devidamente acondicionada. _Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum!_
-
-A tia Joanna, que estava á cabeceira de Luiza, acudiu:
-
---Ai, quem lá vai, lá vai... Mas boa mulher, não era ella!
-
---Era um bom estafermo--disse Jorge.--Esperemos que a esta hora esteja
-a ferver na caldeira de Pero Botelho. Não é verdade, tia Joanna?
-
---Jorge!--fez Luiza reprehensivamente. E julgou dever rezar-lhe baixo
-dous padre-nossos por alma.
-
-Foi tudo o que a terra deu na sua morte áquella que ia rolando a essa
-hora, ao trote de duas velhas eguas, para a valla dos pobres, e que
-fôra na vida Juliana Couceiro Tavira!
-
-
-No dia seguinte Luiza estava melhor: fallaram mesmo, com grande
-desconsolação da tia Joanna, em voltar para casa. Sebastião não dizia
-nada, mas quasi desejava secretamente que uma convalescença a retivesse
-alli semanas indefinidas. Ella parecia tão agradecida! Tinha olhares
-tão reconhecidos, que só elle comprehendia! E era tão feliz tendo-a
-alli e a Jorge na sua casa! Conferenciava com a tia Vicencia sobre o
-jantar; andava pelos corredores e pela sala, com respeito, quasi em
-bicos de pés, como se a presença d'ella santificasse a casa; enchia
-os vasos de camelias e de violetas; sorria beatamente ao vêr Jorge, á
-sobremesa, saborear e gabar o seu velho cognac; sentia alguma cousa
-de bom acalental-o como um manto acolchoado e macio; e já pensava que
-quando ella partisse tudo lhe pareceria mais frio, e com uma tristeza
-de ruina!
-
-Mas d'ahi a dous dias voltaram para casa.
-
-Luiza ficou muito agradada com a criada nova. Fôra Sebastião que a
-arranjára. Era uma rapariguita aceadinha e branca, com grandes olhos
-bonitos e pasmados, um ar amoravel: chamava-se Marianna; e foi logo
-correndo dizer a Joanna «que morria pela senhora! tinha uma carinha
-d'anjo! que linda que era!»
-
-Jorge logo n'essa manhã mandou os dous bahus de Juliana á tia Victoria.
-
-Luiza, quando elle sahiu á tardinha, fechou-se no quarto, com a
-carteirinha de Juliana, correu os transparentes por precaução, accendeu
-uma vela, e queimou as cartas. As mãos tremiam-lhe; e via, com os
-olhos marejados de lagrimas, a sua vergonha, a sua escravidão irem-se,
-dissiparem-se n'um fumo alvadio! Respirou completamente! Emfim! E fôra
-Sebastião, aquelle querido Sebastião!
-
-Foi então á sala, á cozinha, vêr a casa: tudo lhe pareceu novo, a sua
-vida cheia de doçura: abriu todas as janellas; experimentou o piano;
-rasgou mesmo em pedaços, por superstição, a musica da _Médjé_, que lhe
-dera Bazilio; conversou muito com a Marianna; e saboreando o seu caldo
-de gallinha de convalescente, com a face alumiada da felicidade:
-
---Que bem que vou passar agora!--pensava.
-
-Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu,
-deitou-lhe os braços ao pescoço, e com a cabeça no hombro d'elle:
-
---Estou tão contente hoje! E se tu soubesses, é tão boa rapariga a
-Marianna!
-
-
-Mas n'essa noite a febre voltou. Julião, de manhã, achou-a peor.
-
---Crescimentos...--disse descontente.
-
-Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou
-toda surprehendida de vêr Luiza doente; e debruçando-se sobre ella,
-disse-lhe logo ao ouvido:
-
---Tenho que te contar!
-
-Apenas Jorge e Julião sahiram, desabafou, sentada aos pés da cama,--com
-uma voz ora baixa pela gravidade da confidencia, ora aguda pelo impeto
-da indignação:
-
-Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandára a
-Tuy, o grande ladrão, tinha escripto á Gertrudes, á criada, que não
-estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude mudára de
-povoação; que elle não queria saber mais d'esse negocio e que até o
-achava exquisito; que offerecia o seu prestimo em Tuy,--tudo isto n'uma
-boa letra d'escrevente publico, n'um portuguez horrivel,--e do dinheiro
-nem palavra!
-
---Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu se não fosse pela vergonha,
-ia direita á policia... Ai! os gallegos p'ra mim acabaram! Por isso o
-Conselheiro não se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca lançou a
-sorte!...--Porque se já não acreditava na honestidade dos gallegos, não
-perdera a fé no poder das bruxas.
-
-Que ella não era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe
-onde estaria agora a mulher! Ai, era d'endoudecer!... Que te parece,
-hein?
-
-Luiza encolheu os hombros: muito abafada na roupa, as faces escarlates,
-cerravam-se-lhe os olhos n'uma somnolencia pesada: D. Felicidade
-aconselhou-lhe vagamente um «suadouro», suspirando; e como Luiza não
-lhe podia dar consolações, sahiu para ir á Encarnação desabafar com a
-Silveira.
-
-N'essa madrugada Luiza peorou. A febre recrudecera. Jorge, inquieto,
-vestiu-se á pressa, ás nove horas da manhã, foi buscar Julião. Descia a
-escada rapidamente, abotoando ainda o paletot, quando o carteiro subia,
-tossindo o seu catarrho.
-
---Cartas?--perguntou Jorge.
-
---Uma p'ra a senhora--disse o homem.--Ha-de ser p'ra a senhora...
-
-Jorge olhou o enveloppe: tinha o nome de Luiza, vinha de França.
-
---De quem diabo é isto?--pensou. Metteu-a no bolso do paletot, e sahiu.
-
-D'ahi a meia hora voltava com Julião, n'um trem.
-
-Luiza dormitava, amodorrada.
-
---É preciso cautela... Vamos a vêr...--murmurou Julião, coçando devagar
-a cabeça, em quanto do outro lado do leito Jorge o olhava anciosamente.
-
-Receitou e ficou para almoçar com Jorge. Estava um dia frio e pardo.
-A Marianna, abafada n'um casabeque, servia, com os dedos vermelhos,
-inchados de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se toda a
-nevoa do ar se lhe fosse lentamente depositando e condensando n'alma.
-
-A que se podia attribuir semelhante febre? dizia, muito desconsolado.
-Tão extraordinario! Havia seis dias, ora melhor, ora peor...
-
---Estas febres veem por tudo--replicou Julião, partindo tranquillamente
-uma torrada.--Ás vezes por uma corrente d'ar ás vezes por um desgosto.
-Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que
-esteve p'ra fallir, e que viveu, coitado, durante dous mezes em
-torturas. Ha duas semanas, por um golpe de fortuna,--a velhaca ás vezes
-tem d'estes caprichos,--arranjou todos os seus negocios, viu-se livre.
-Pois senhor, desde então tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com
-symptomas disparatados... O que é? É que a excitação nervosa abateu, e
-a felicidade trouxe-lhe uma revolução no sangue. Póde muito bem dar á
-casca. Faz então a fallencia geral, a grande, aquella em que o crédor é
-implacavel, saca á vista, e... _per omnia s[ae]cula!_
-
-Ergueu-se, e accendendo o cigarro:
-
---Em todo o caso um repouso absoluto. É necessario ter-lhe o espirito
-em algodão em rama. Nada de palestra, nada de phrases, e se tiver sêde,
-limonada. Até logo!
-
-E sahiu, calçando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia
-ao Posto Medico.
-
-Jorge voltou á alcova: Luiza ainda dormitava. Marianna sentada ao pé
-n'uma cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, não tirava de
-Luiza os seus grandes olhos vagamente espantados.
-
---Tem estado muito inquieta--murmurou.
-
-Jorge apalpou a mão de Luiza que ardia, conchegou-lhe a roupa. Beijou-a
-devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janella, defronte da
-alcova.--E passeando no escriptorio, voltavam-lhe as palavras de
-Julião: são febres que veem por um desgosto! Pensava na historia do
-negociante, recordava aquelle estado de abatimento e de fraqueza de
-Luiza que o preoccupára tanto, ultimamente, tão inexplicavel! Ora,
-tolices! Desgosto de quê? Em casa de Sebastião estivera tão animada!
-Nem a morte da outra lhe fizera abalo!--De resto acreditava pouco nas
-_febres de desgosto_! Julião tinha uma medicina litteraria. Pensou
-mesmo que seria mais prudente chamar o velho dr. Caminha...
-
-Ao metter a mão no bolso, então, os seus dedos encontraram uma
-carta; era a que o carteiro lhe dera, de manhã, para Luiza. Tornou a
-examinal-a com curiosidade; o sobrescripto era banal, como os que ha
-nos cafés ou nos restaurantes; não conhecia a letra; era d'homem, vinha
-de França... Atravessou-o um desejo rapido de a abrir. Mas conteve-se,
-atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar um cigarro.
-
-Voltou á alcova. Luiza permanecia na sua modorra: a manga do chambre
-arregaçada descobria o braço mimoso, com a sua pennugem loura; a
-face escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente, no
-adormecimento das palpebras finas; um annel do cabello cahira-lhe
-sobre a testa, e pareceu a Jorge adoravel e tocante com aquella côr,
-a expressão da febre. Pensou, sem saber porque, que outros a deveriam
-achar linda, desejal-a, dizer-lh'o, se podessem... Para que lhe
-escreviam de França, quem?
-
-Voltou ao escriptorio, mas aquella carta sobre a mesa irritava-o: quiz
-lêr um livro, atirou-o logo impaciente; e poz-se a passear, torcendo
-muito nervoso o forro das algibeiras.
-
-Agarrou então a carta, quiz vêr, através do papel delgado do enveloppe;
-os seus dedos, mesmo irresistivelmente, começaram a rasgar um angulo do
-sobrescripto. Ah! Não era delicado aquillo!... Mas a curiosidade, que
-governava o seu cerebro, suggeriu-lhe toda a sorte de raciocinios, com
-uma tentação persuasiva:--Ella estava doente, e podia ter alguma cousa
-urgente; se fosse uma herança? depois ella não tinha segredos, e então
-em França! Os seus escrupulos eram pueris! Dir-lhe-hia que a abrira
-por engano. E se a carta contivesse o segredo d'aquelle desgosto, do
-_desgosto_ das theorias de Julião!... Devia abril-a então para a curar
-melhor!
-
-Sem querer achou-se com a carta desdobrada na mão. N'um relanço
-avido devorou-a. Mas não comprehendeu bem; as letras embrulhavam-se;
-chegou-se á janella, releu devagar:
-
-
- «Minha querida Luiza.
-
-«Seria longo explicar-te, como só antes d'hontem em Nice--d'onde
-cheguei esta madrugada a Paris--recebi a tua carta, que pelos carimbos
-vejo que percorreu toda a Europa atraz de mim. Como já lá vão dous
-mezes e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com a mulher,
-e que não precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres, manda
-um telegramma e tens-l'o ahi em dous dias. Vejo pela tua carta que não
-acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negocios. És
-bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como tu dizes,
-_todas as illusões sobre o amor_, porque foi realmente quando sahi de
-Lisboa que percebi quanto te amava, e não ha dia, acredita, em que me
-não lembre do _Paraiso_. Que boas manhãs! Passaste por lá por acaso
-alguma outra vez? Lembras-te do nosso _lunch_? Não tenho tempo para
-mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero vêr-te, porque sem ti
-Lisboa é para mim um desterro.
-
-«Um longo beijo do
-
- «Teu do C.
-
- «_Bazilio_».
-
-
-Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em quatro dobras, atirou-o
-para cima da mesa, disse alto:
-
---Sim, senhor! bonito!
-
-Encheu o cachimbo de tabaco machinalmente, com os olhos vagos, os
-beiços a tremer: deu alguns passos incertos pelo escriptorio:--de
-repente arremessou o cachimbo que despedaçou um vidro da janella, bateu
-com as mãos desvairado, e atirando-se de bruços para cima da mesa,
-rompeu a chorar, rolando a cabeça entre os braços, mordendo as mangas,
-batendo com os pés, louco!
-
-Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com ella á alcova de Luiza.
-Mas a lembrança das palavras de Julião immobilisou-o: que esteja
-socegada, nada de phrases, nenhuma excitação! Fechou a carta n'uma
-gaveta, metteu a chave na algibeira. E de pé, a tremer, com os olhos
-raiados de sangue, sentia idéas insensatas alumiarem-lhe bruscamente
-o cerebro, como relampagos n'uma tormenta--matal-a, sahir de casa,
-abandonal-a, fazer saltar os miolos...
-
-A Marianna bateu ligeiramente á porta, disse-lhe que a senhora o
-chamava.
-
-Uma onda de sangue subiu-lhe á cabeça; fitava Marianna, estupido,
-batendo as palpebras:
-
---Já vou--disse com a voz rouca.
-
-Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto
-manchado, envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou
-o cabello: e ao entrar na alcova, ao vêl-a, com os seus grandes olhos
-dilatados onde a febre reluzia, teve de se agarrar á barra do leito,
-porque sentiu, em redor, as paredes oscillarem como lonas ao vento.
-
-Mas sorriu-lhe:
-
---Como estás?
-
---Mal--murmurou ella debilmente.
-
-Chamou-o para ao pé de si com um gesto muito fatigado.
-
-Elle veio, sentou-se sem a olhar.
-
---Que tens?--disse ella chegando o rosto para elle.--Não te
-afflijas.--E tomou a mão que elle pousára á beira do leito.
-
-Jorge, com um repellão secco, sacudiu a mão d'ella, ergueu-se
-bruscamente com os dentes cerrados; sentia uma colera brutal;
-ia-se, com medo de si, de um crime, quando ouviu a voz de Luiza,
-arrastando-se, n'uma lamentação:
-
---Porque, Jorge? Que tens?...
-
-Voltou-se; viu-a meia erguida com os olhos abertos para elle, uma
-angustia no rosto; e duas lagrimas cahiam-lhe, silenciosamente.
-
-Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mãos, aos soluços.
-
---Que é isto?--exclamou a voz de Julião á porta da alcova.
-
-Jorge, muito pallido, ergueu-se devagar.
-
-Julião levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente os braços diante
-d'elle:
-
---Tu estás doudo? Pois tu sabes que ella está n'um estado d'aquelles, e
-vaes-te pôr a fazer-lhe scenas de lagrimas?
-
---Não me pude conter...
-
---Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um lado, e tu a dar-lh'a
-por outro? Estás doudo!
-
-Estava realmente indignado. Interessava-se por Luiza como doente.
-Desejava muito cural-a; e sentia uma satisfação em exercer o dominio
-de pessoa necessaria n'aquella casa, onde as suas visitas tinham tido
-sempre uma attitude dependente; mesmo agora ao sahir, não se esquecia
-de offerecer negligentemente um charuto a Jorge.
-
-
-Jorge foi heroico durante toda essa tarde. Não podia estar muito
-tempo na alcova de Luiza, a desesperação trazia-o n'um movimento
-contradictorio; mas ia lá a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe
-a roupa com as mãos tremulas; e como ella dormitava, ficava immovel a
-olhal-a feição por feição, com uma curiosidade dolorosa e immoral, com
-para lhe surprehender no rosto vestigios de beijos alheios, esperando
-ouvir-lhe n'algum sonho da febre murmurar um nome ou uma data; e
-amava-a mais desde que a suppunha infiel, mas d'um outro amor, carnal e
-perverso. Depois ia-se fechar no escriptorio, e movia-se alli entre as
-paredes estreitas, como um animal n'uma jaula. Releu a carta infinitas
-vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem
-cessar: Como tinha sido? Onde era o _Paraiso_? Havia uma cama? Que
-vestido levava ella? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava?
-
-Foi relêr todas as cartas que ella lhe escrevêra para o Alemtejo,
-procurando descobrir nas palavras symptomas de frieza, a data
-da traição! Tinha-lhe odio então, voltavam-lhe ao cerebro idéas
-homicidas--esganal-a, dar-lhe chloroformio, fazer-lhe beber laudano!
-E depois immovel, encostado á janella, ficava esquecido n'um scismar
-espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, certos passeios que
-déra com ella, palavras que ella dissera...
-
-Ás vezes pensava--seria a carta uma _mistificação_? Algum inimigo
-d'elle podia tel-a escripto, remettido para França. Ou talvez Bazilio
-tivesse _outra_ Luiza em Lisboa, e por engano ao sobrescriptar o
-enveloppe tivesse escripto o nome da prima; e a alegria momentanea
-que lhe davam aquellas phantasias fazia-lhe parecer a realidade mais
-cruel. Mas como fôra? como fôra? Se podesse saber a verdade! Tinha a
-certeza que socegaria, então! Arrancaria de certo do seu peito aquelle
-amor como um parasita immundo; apenas ella melhorasse, leval-a-hia a um
-convento, e elle iria morrer longe, n'Africa, ou algures... Mas quem
-saberia?... Juliana!
-
-Era ella que sabia! De certo! E todas as condescendencias d'ella por
-Juliana, os moveis, o quarto, as roupas, comprehendeu tudo! Era a pagar
-a cumplicidade! Era a sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E
-estava na valla, morta, sem poder fallar, a maldita!
-
-Sebastião, como costumava, veio á noitinha. Não havia ainda luzes, e,
-apenas elle entrou, Jorge chamou-o ao escriptorio, calado, accendeu uma
-vela, tirou a carta da gaveta.
-
---Lê isto.
-
-Sebastião ficára assombrado ao vêr o rosto de Jorge. Olhava a carta
-fechada, e tremia. Apenas viu a assignatura, uma pallidez d'agonia
-cobriu-lhe o rosto. Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibração onde
-elle se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar, pousou a carta sobre
-a mesa, sem uma palavra.
-
-Jorge disse então:
-
---Sebastião, isto p'ra mim é a morte. Sebastião, tu sabes alguma cousa.
-Tu vinhas aqui. Tu sabes. Dize-me a verdade!
-
-Sebastião abriu devagar os braços e respondeu:
-
---Que te hei-de eu dizer? Não sei nada!
-
-Jorge agarrou-lhe as mãos, sacudiu-lh'as, e procurando o seu olhar
-anciosamente:
-
---Sebastião, pela nossa amizade, pela alma de tua mãi, por tantos annos
-que temos passado juntos, Sebastião, dize-me a verdade!...
-
---Não sei nada. Que hei-de eu saber?
-
---Mentes!
-
-Sebastião disse apenas:
-
---Podem-te ouvir, homem!
-
-Houve um silencio: Jorge apertava as fontes nas mãos, com passadas pelo
-escriptorio, que faziam vibrar o soalho; e de repente pondo-se diante
-de Sebastião, quasi supplicante:
-
---Mas dize-me ao menos o que fazia ella! Sahia? Vinha aqui alguem?
-
-Sebastião respondeu devagar, os olhos fixos na luz:
-
---Vinha o primo ás vezes, ao principio. Quando a D. Felicidade esteve
-doente, ella ia vêl-a... O primo depois partiu... Não sei mais nada.
-
-Jorge esteve um momento a olhar Sebastião, com uma fixidez abstracta.
-
---Mas que lhe fiz eu, Sebastião? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que lhe fiz
-eu p'ra isto? Eu, que a adorava, áquella mulher!
-
-Rompeu a chorar.
-
-Sebastião ficára de pé junto á mesa, estupido, aniquilado.
-
---Foi talvez uma brincadeira, apenas...--murmurou.
-
---E o que diz a carta?--gritou Jorge, voltando-se n'uma colera,
-sacudindo o papel.--Este _Paraiso_! _As boas manhãs_ lá passadas! É uma
-infame!...
-
---Está doente, Jorge--disse apenas Sebastião.
-
-Jorge não respondeu. Passeou calado algum tempo. Sebastião, immovel,
-fatigava a vista contra a chamma da luz. Jorge então fechou a carta na
-gaveta, e tomando o castiçal com um tom de lassidão lugubre e resignado:
-
---Queres vir tomar chá, Sebastião?
-
-E não tornaram mais a fallar na carta.
-
-
-N'essa noite Jorge dormiu profundamente. Ao outro dia o seu rosto
-estava impassivel, d'uma serenidade livida.
-
-Foi d'ahi por diante o enfermeiro de Luiza.
-
-A doença, depois d'uma marcha incerta durante tres dias, definiu-se:
-eram crescimentos; enfraquecia muito, mas Julião estava tranquillo.
-
-Jorge passava os seus dias ao pé d'ella. D. Felicidade vinha
-ordinariamente pelas manhãs: sentava-se aos pés da cama, e ficava
-calada, com uma face envelhecida; aquella esperança na mulher de Tuy
-tão subitamente destruida abalára-a como um velho edificio a que se
-tira subitamente um pilar; ia-se tornando ruina; e só se animava quando
-o Conselheiro apparecia pelas tres horas a saber da «nossa formosa
-enferma». Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um tom
-profundo, conservando o chapéo na mão, sem querer entrar na alcova, por
-pudor:
-
---A saude é um bem que só apreciamos quando nos foge!
-
-Ou:
-
---A doença serve para aquilatarmos os amigos.
-
-E terminava sempre:
-
---Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo reflorirão nas faces de sua
-virtuosa esposa!...
-
-De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergão sobre o chão; mas apenas
-cerrava os olhos uma ou duas horas. O resto da noite procurava lêr:
-começava um romance, mas nunca ia além das primeiras linhas; esquecia
-o livro, e com a cabeça entre as mãos punha-se a pensar: era sempre a
-mesma idéa--_como_ tinha sido? Conseguira reconstruir aproximadamente,
-com logica, certos factos; via bem Bazilio chegando, vindo visital-a,
-desejando-a, mandando-lhe ramos, perseguindo-a, indo-a vêr aqui e
-além, escrevendo-lhe; mas depois? Viera já a comprehender que o
-dinheiro era para Juliana. A creatura tivera alguma exigencia: tinha-os
-surprehendido? possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstrucção
-dolorosa, falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se
-arremessava sofregamente. Então começava a recordar os ultimos mezes
-desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrára amante, e que
-ardor punha nas suas caricias... Para que o enganára então?
-
-Uma noite, com precauções de ladrão, rebuscou todas as gavetas d'ella,
-esquadrinhou os vestidos, até as dobras da roupa branca, as caixas de
-collares, de rendas; viu bem o cofre de sandalo; estava vazio; nem o
-pó d'uma flôr secca! Ás vezes punha-se a fitar os moveis no quarto,
-na sala, a sondal-os como se quizesse descobrir n'elles os vestigios
-do adulterio. Ter-se-hiam sentado alli? Elle teria ajoelhado aos
-pés d'ella, acolá, sobre o tapete? Sobretudo o divan tão largo, tão
-commodo, desesperava-o; tomou-lhe odio. Veio a detestar mesmo a casa,
-como se os tectos que os tinham coberto, os soalhos que os tinham
-sustentado tivessem uma cumplicidade consciente. Mas o que o torturava
-sobretudo eram aquellas palavras--o _Paraiso_, _as boas manhãs_...
-
-Luiza então já dormia tranquillamente. Ao fim de uma semana os
-crescimentos desappareceram. Mas estava muito fraca: no dia em que
-pela primeira vez se levantou, desmaiou duas vezes: era necessario
-vestil-a, trazel-a amparada para a _chaise-longue_: e não dispensava
-Jorge, queria-o alli, ao pé, com exigencias de criança! Parecia receber
-a vida dos seus olhos, a saude do contacto das suas mãos. Fazia-lhe
-lêr o jornal pela manhã, e vir escrever para ao pé d'ella. Elle
-obedecia, e mesmo aquellas instancias eram para a sua dôr como caricias
-consoladoras. É porque o amava de certo!
-
-Sentia então, machinalmente, abertas de felicidade. Surprehendia-se
-a dizer-lhe ternuras, a rir com ella, esquecido, como d'antes!
-E, estendida na _chaise-longue_, Luiza, contente, percorria
-antigos volumes da _Illustração franceza_, que lhe mandára o
-Conselheiro,--«onde», segundo elle lhe dissera, «podia, ao mesmo
-tempo que se divertia com os desenhos, adquirir noções uteis sobre
-importantes acontecimentos historicos»; ou, com a cabeça reclinada,
-saboreava a felicidade de melhorar, de estar livre das tyrannias da
-_outra_, das amarguras do _passado_.
-
-Uma das suas alegrias era vêr entrar a Marianna com o seu jantarzinho
-disposto n'um guardanapo sobre o taboleiro; tinha appetite, saboreava
-muito o calix de vinho do Porto, que Julião recommendára; quando Jorge
-não estava, fazia longas conversações com Marianna, palrando baixo,
-consolada, e lambendo colherinhas de gelatina.
-
-Ás vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia planos. Dizia-os depois
-a Jorge: iria estar duas semanas no campo, para ganhar forças; á volta
-começaria a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras da sala;
-porque queria occupar-se muito da casa, viver recolhida; elle não
-voltaria ao Alemtejo, não sahiria de Lisboa, não é verdade? E a sua
-vida seria d'ahi por diante d'uma doçura continua e facil.
-
-Mas Luiza ás vezes achava-o «macambusio». Que tinha? Elle explicava
-pela fadiga, pelas noites mal dormidas... Se adoecesse, ao menos,
-dizia ella, que fosse quando ella estivesse forte para o tratar, para
-o velar!... Mas não adoeceria, não? E fazia-o sentar ao pé de si,
-passava-lhe a mão pelos cabellos, com o olhar quebrado, porque com as
-forças que renasciam vinham os impulsos do seu temperamento amoroso.
-Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraçado!
-
-Luiza, só comsigo, tinha outras resoluções. Não tornaria a vêr
-Leopoldina, e frequentaria as igrejas. Sahia da doença com uma vaga
-sentimentalidade devota. Durante a febre, em certos pesadêlos de
-que lhe ficára uma indistincta idéa aterrada, vira-se ás vezes n'um
-lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo os braços, do meio
-de chammas escarlates: fórmas negras giravam com espetos em braza, um
-rugido d'agonia subia para a mudez do céo: e já lhe tocavam o peito
-linguas de fogueiras, quando alguma cousa de dôce e d'ineffavel de
-repente a refrescava; eram as azas d'um anjo luminoso e sereno, que a
-tomava nos braços; e ella sentia-se elevar, apoiando a cabeça contra
-o seio divino, que a penetrava d'uma felicidade sobrenatural; via as
-estrellas de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensação deixára-lhe
-como uma recordação saudosa do céo. E aspirava a ella, nas debilidades
-da convalescença, esperando ganhal-a pela pontualidade á missa, e pela
-repetição de corôas á Virgem.
-
-Emfim uma manhã veio á sala, e abriu pela primeira vez o piano; Jorge,
-á janella, olhava para a rua--quando ella o chamou, e sorrindo:
-
---Estou a detestar, ha tempos, aquelle divan--disse.--Podia-se tirar,
-não te parece?
-
-Jorge sentiu uma pancada no coração: não pôde responder logo; disse,
-emfim, com esforço:
-
---Sim, parece...
-
---Estou com vontade de o tirar--disse ella sahindo da sala, arrastando
-tranquillamente a longa cauda do seu roupão.
-
-Jorge não pôde destacar os olhos do divan. Veio mesmo sentar-se n'elle;
-passava a mão sobre o estofo ás listras; e sentia um prazer doloroso em
-verificar _que fôra alli_!
-
-Principiára a vir-lhe agora uma especie de resignação sombria; quando
-a ouvia gozar tanto as melhoras, fallar com felicidade de futuros
-tranquillos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ella
-tinha-se arrependido de certo, amava-o: para que havia de crear a
-sangue frio uma infelicidade perpetua? Mas quando a via com os seus
-movimentos languidos estender-se na _chaise-longue_, ou ao despir-se
-mostrar a brancura do seu collo--e pensava que aquelles braços
-tinham enlaçado outro homem, aquella bocca gemido de amor n'uma cama
-alheia--vinha-lhe uma onda de cólera bruta, precisava sahir para a não
-esganar!
-
-Para explicar os seus maus humores, os seus silencios, começou a
-queixar-se, a dizer-se doente. E as solicitudes d'ella, então, as
-interrogações mudas do seu olhar inquieto faziam-o mais infeliz--por se
-sentir amado, agora que se sabia trahido!
-
-Um domingo emfim Julião deu licença a Luiza para se deitar mais tarde,
-e fazer á noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos vel-a na
-sala, ainda um pouco pallida e fraca,--mas, como disse o Conselheiro,
-restituida aos deveres domesticos e aos prazeres da sociedade!
-
-Julião que veio ás nove horas achou-a _como nova_. E abrindo os braços,
-no meio da sala:
-
---E que me dizem á novidade?--exclamou--A peça do Ernesto teve um
-triumpho!...
-
-Assim tinham lido nos jornaes. O _Diario de Noticias_ dizia mesmo que
-o «author chamado ao proscenio, no meio do mais vivo enthusiasmo,
-recebera uma formosa corôa de louros». Luiza declarou logo que queria
-ir vêr!
-
---Mais tarde, D. Luiza, mais tarde--acudiu com prudencia o
-Conselheiro.--Por ora é conveniente evitar toda a commoção forte. As
-lagrimas que não deixaria de derramar, conheço o seu bom coração,
-podiam produzir uma recahida. Não é verdade, amigo Julião?
-
---De certo, Conselheiro, de certo. Eu tambem quero ir. Quero
-convencer-me por meus olhos...
-
-Mas o ruido d'uma carruagem, lançada a trote largo, que parou á porta,
-interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente.
-
---Aposto que é o author!--exclamou elle.
-
-E quasi immediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca,
-precipitou-se na sala: ergueram-se com ruido, abraçaram-no: mil
-parabens! mil parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras:
-
---Bem vindo o festejado author! Bem vindo!
-
-Ernesto suffocava de jubilo. Tinha um sorriso immobilisado; as azas
-do nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o
-peito alto, enfunado d'orgulho; e movia a cabeça, sem cessar, como n'um
-agradecimento instinctivo a multidões applaudidoras.
-
---Aqui estou! aqui estou!--disse.
-
-Sentou-se offegante; e, com um modo amavel de Deus-bom-rapaz, declarou
-que os ultimos ensaios de apuro não lhe tinham deixado um momento para
-vir vêr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante de seu,
-mas devia voltar ás dez horas para o theatro: até nem mandára a tipoia
-embora...
-
-Contou então largamente o triumpho. Ao principio tivera «grandes
-colicas». Todos as tinham, os mais acostumados, os mais illustres! Mas
-apenas o Campos disse o monologo do primeiro acto--e como o disse!
-haviam de vêr, uma cousa sublime!--os applausos romperam. Tinha
-agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo author, salvas de
-palmas... Elle viera ao palco, arrastado; não queria, mas obrigaram-no,
-a Jesuina por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delirio! O
-Savedra do _Seculo_ tinha-lhe dito: o amigo é o nosso Shakspeare! O
-Bastos da _Verdade_ tinha affirmado: és o nosso Scribe! Houve uma cêa.
-E tinham-lhe dado uma corôa.
-
---E serve-lhe?--acudiu Julião.
-
---Perfeitamente; um bocadinho larga...
-
-O Conselheiro disse com authoridade:
-
---Os grandes authores, o famigerado Tasso, o nosso Camões são sempre
-representados com as suas respectivas corôas.
-
---É o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma--acudiu Julião, erguendo-se e
-batendo-lhe no hombro--é que se faça retratar de corôa!...
-
-Riram.
-
-E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu lenço perfumado:
-
---O snr. Zuzarte não dispensa o seu epigrammasinho...
-
---É a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos dos generaes
-victoriosos, em Roma, havia um bobo no prestito!
-
---Eu não sei!--disse Luiza muito risonha--É uma honra p'ra a familia!...
-
-Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a
-corôa, como se tivesse direito a usal-a...
-
-E Ernestinho voltando-se logo para elle:
-
---Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei á esposa...
-
---Como Christo...
-
---Como Christo--confirmou Ernestinho, com satisfação.
-
-D. Felicidade approvou logo:
-
---Fez muito bem! Até é mais moral!
-
---O Jorge é que queria que eu désse cabo d'ella--disse Ernestinho,
-rindo tolamente.--Não se lembra, n'aquella noite...
-
---Sim, sim--fez Jorge, rindo tambem, nervosamente.
-
---O nosso Jorge--disse com solemnidade o Conselheiro--não podia
-conservar idéas tão extremas. E de certo a reflexão, a experiencia da
-vida...
-
---Mudei, Conselheiro, mudei--interrompeu Jorge.
-
-E entrou bruscamente no escriptorio.
-
-Sebastião, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava ás escuras.
-
---Aquelles idiotas não se calarão? Não se irão?--disse elle
-abafadamente, agarrando o braço de Sebastião.
-
---Socega!
-
---Oh Sebastião! Sebastião!--E sua voz tremia, com lagrimas.
-
-Mas Luiza, da sala, gritou:
-
---Que conspiração é essa ahi dentro ás escuras?
-
-Sebastião appareceu logo, dizendo:
-
---Nada, nada. Estavamos lá dentro...--E acrescentou baixo:--O Jorge
-está fatigado. Está adoentado, coitado!
-
-Notaram, quando elle voltou--que tinha com effeito o ar exquisito.
-
---Não, realmente não me sinto bom, estou incommodado!
-
---E a debil D. Luiza precisa o repouso do seu leito--disse o
-Conselheiro erguendo-se.
-
-Ernestinho que não se podia demorar, offereceu logo ao Conselheiro e a
-Julião--«a sua carruagem, que era um caleche, se iam para a baixa...»
-
---Que honra--exclamou Julião olhando Accacio--irmos na tipoia do Grande
-Homem!
-
-E em quanto D. Felicidade se agasalhava, os tres desceram.
-
-No meio da escada Julião parou, e cruzando os braços:
-
---Ora aqui vou eu entre os representantes dos dous grandes movimentos
-de Portugal desde 1820. A Litteratura--e comprimentou Ernestinho--e o
-Constitucionalismo!--e curvou-se para o Conselheiro.
-
-Os dous riram, lisongeados.
-
---E o amigo Zuzarte?
-
---Eu?--E baixando a voz:--Até ha dias um revolucionario terrivel. Mas
-agora...
-
---O quê?
-
---Um amigo da ordem--gritou com jubilo.
-
-E desceram, contentes de si e do seu paiz, para se metterem na tipoia
-do Grande Homem!
-
-
-
-
-XVII
-
-
-Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde não tinha apparecido nos
-ultimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença dos conhecidos
-ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que _todo o mundo sabia_; nos
-olhares mais naturaes via uma intenção maligna, e nos apertos de mão
-mais sinceros uma ironica pressão de pezames; as carruagens mesmo que
-passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao _rendez-vous_,
-e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do _Paraiso_. Voltou
-mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao
-entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a _Mandolinata_!
-
-Estava-se a vestir.
-
---Como estás tu?--perguntou, pondo a um canto a sua bengala.
-
---Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda...
-
-Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno.
-
---E tu?--perguntou-lhe ella.
-
---P'ra aqui ando--disse tão desconsoladamente que Luiza pousou o pente,
-e com os cabellos soltos veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito
-carinhosa:
-
---Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te tanto ha dias! Não és
-o mesmo! Ás vezes estás com uma cara de réo... Que é? Dize.
-
-E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados.
-
-Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á «sua mulherzinha».
-
---Dize. Que tens?
-
-Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta:
-
---Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, pódes ouvir... Luiza! vivo
-n'um inferno ha duas semanas. Não posso mais... Tu estás boa, não é
-verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade!
-
-E estendeu-lhe a carta de Bazilio.
-
---O que é?--fez ella muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mão.
-
-Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a.
-Fixou Jorge um momento d'um modo desvairado, estendeu os braços sem
-poder fallar, levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso como se se
-sentisse ferida, e oscillando, com um grito rouco, cahiu sobre os
-joelhos, ficou estirada no tapete.
-
-Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que
-Joanna corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto
-ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os
-espartilhos da senhora.
-
-Sebastião veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar;
-apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella:
-
---Luiza, ouve, falla! Não, não tem duvida. Mas falla. Dize, que tens?
-
-Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos
-sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião.
-
-Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca como cera, as mãos
-pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas
-faces.
-
-Um trem parou. Julião appareceu esbaforido.
-
---Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal!--disse Jorge.
-
-Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra vez. Julião
-fallou-lhe, tomando-lhe o pulso.
-
---Não, não, ninguem!--murmurou ella, retirando a mão. Repetiu com
-impaciencia:--Não, vão-se, não quero...--As suas lagrimas redobravam.
-E como elles sahiam da alcova para a não excitar contrariando-a,
-ouviram-na chamar:--Jorge!
-
-Elle ajoelhou-se ao pé da cama, e fallando-lhe junto do rosto:
-
---Que tens tu? Não se falla mais em tal. Acabou-se. Não estejas doente.
-Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, não me importa. Não quero saber,
-não.
-
-E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mão na bocca:
-
---Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não soffras! Dize
-que estás boa! Que tens? Vamos ámanhã para o campo, e esquece-se tudo.
-Foi uma cousa que passou...
-
-Ella disse apenas com a voz sumida:
-
---Oh! Jorge! Jorge!
-
---Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes?
-
---Aqui--disse ella, e levava as mãos á cabeça.--Dóe-me!
-
-Elle ergueu-se para chamar Julião, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e
-devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto,
-estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio
-de perdão.
-
---Oh! minha pobre cabeça!--gritou ella.
-
-As fontes latejavam-lhe, e uma côr ardente, sêcca, esbrazeava-lhe o
-rosto.
-
-Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os; recommendou um
-socego immovel e sinapismos de mostarda aos pés,--até que elle voltasse.
-
-Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de
-sustos, suspirando ás vezes.
-
-Eram então quatro horas; cahia uma chuva miudinha, ennevoada; a alcova
-tinha uma luz lugubre.
-
---Não ha-de ser nada...--dizia Sebastião.
-
-Luiza agitava-se no leito, apertando as mãos na cabeça, torturada pela
-dôr crescente, cheia de sêde.
-
-Marianna acabava d'arrumar em pontas de pés, vagamente assombrada
-d'aquella casa, onde só vira desgosto e doença: mas só o pousar subtil
-dos seus passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas sobre o
-craneo.
-
-Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto d'ella
-inquietou-o. Accendeu um phosphoro, aproximou-lh'o do rosto; e aquella
-luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a
-cabeça.
-
-Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico. Conservava-se muito
-quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dôres penetrantes
-que a dilaceravam. Só de vez em quando sorria para Jorge com uma
-expressão d'afflicção serena e muda.
-
-Julião fez logo pôr tres travesseiros, para lhe conservar a cabeça
-alta. Fóra cahia o crepusculo humido. Andavam em bicos de pés, com
-cuidado; e mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o _tic-tac_
-monotono. Ella começava agora a murmurar sons cançados, e a voltar-se
-com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia d'um
-modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas n'um longo
-sinapismo; mas não o sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a
-lingua tornára-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo.
-
-Julião fez logo applicar na cabeça compressas d'agua fria. Mas o
-delirio exacerbava-se.
-
-Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento--onde os nomes
-de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois
-debatia-se, esgaçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se, os seus
-olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupilla se sumia.
-
-Socegava mais; dava risadinhas d'uma doçura idiota; tinha gestos
-lentos sobre o lençol, que aconchegavam e acariciavam, como n'um
-gozo tepido: depois começava a respirar anciosamente, vinham-lhe
-expressões torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros e
-nos colxões, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se então a apertar a
-cabeça phreneticamente, pedia que lh'a abrissem, que a tinha cheia de
-pedras, que tivessem piedade d'ella!--e fios de lagrimas corriam-lhe
-pelo rosto. Não sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os pés nús
-ao vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre
-adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe com toda a sorte de
-palavras consoladoras e supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o
-conhecesse; mas de repente ella desesperava-se, gritava pela carta,
-maldizia Juliana--ou então dizia palavras d'amor, enumerava sommas de
-dinheiro... Jorge temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julião,
-ás criadas: tinha um suor á raiz dos cabellos--e quando ella, um
-momento, julgando-se no _Paraiso_ e nas exaltações do adulterio, chamou
-Bazilio, pediu _champagne_, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da
-alcova allucinado, foi para a sala ás escuras, atirou-se para o divan a
-soluçar, arrepellou-se, blasphemou.
-
---Está em perigo?--perguntou Sebastião.
-
---Está--disse Julião.--Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas
-malditas febres cerebraes...
-
-Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado,
-esguedelhado.
-
-E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para fóra:
-
---Ouve lá, é necessario cortar-lhe o cabello, e rapar-lhe a cabeça.
-
-Jorge olhou-o com um ar estupido:
-
---O cabello?--E agarrando-lhe os braços:--Não, Julião, não, hein?
-Póde-se fazer outra cousa. Tu deves saber. O cabello não! Não! Isso
-não, pelo amor de Deus! Ella não está em perigo. P'ra quê?
-
-Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia a acção da agua!
-
---Ámanhã, se fôr necessario. Ámanhã! Espera até ámanhã... Obrigado,
-Julião, obrigado!
-
-Julião consentiu, contrariado. Fazia então humedecer constantemente
-as compressas da cabeça, e como Marianna tremula, desgeitosa, molhava
-muito o travesseiro, foi Sebastião que se collocou á cabeceira da cama,
-toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, d'onde a agua gotejava
-lentamente; tinham jarros fóra da varanda, na sala, para dar á agua uma
-frialdade gelada. O delirio alta noite acalmára um pouco. Mas o seu
-olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas
-um ponto negro.
-
-Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos, olhava
-para ella: lembravam-lhe vagamente outras noites de doença assim,
-quando ella tivera a pneumonia: e melhorára! Até ficára mais linda,
-com tons de pallidez que lhe adoçavam a expressão! Iriam para o campo
-quando ella convalescesse: alugaria uma casinha: voltaria á noite no
-omnibus, e vêl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um
-vestido claro, na tarde suave!... Mas ella gemia, elle erguia os olhos
-sobresaltado: e não lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia
-dissipando, desapparecendo n'aquelle ar de febre que enchia a alcova,
-no silencio morbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço
-sacudia-o, e recahia na sua immobilidade.
-
-Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma chamma alta e direita,
-extinguiam-se.
-
-Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os
-caixilhos da vidraça. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua.
-Não chovia; a calçada seccava. O ar tinha uma vaga côr d'aço. Tudo
-dormia: e uma toalha, esquecida á janella das Azevedos, agitava-se ao
-vento frio, silenciosamente.
-
-Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma voz extincta: sentia
-muito vagamente os sinapismos, mas a dôr de cabeça não cessava.
-Começou a agitar-se--e o delirio d'ahi a pouco voltou. Julião, então,
-determinou que se lhe rapasse o cabello.
-
-Sebastião foi acordar um barbeiro na rua da Escóla--que veio logo, com
-um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo começou
-a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas, as tesouras,
-devagar, com as mãos molles da gordura das pomadas.
-
-Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que grandes pedaços
-mutilados da sua felicidade cahiam com aquellas lindas tranças,
-destruidas ás tesouradas; e com a cabeça nas mãos recordava certos
-penteados que ella usava, noites em que os seus cabellos se tinham
-desmanchado nas alegrias da paixão, tons com que brilhavam á luz...
-Voltou ao quarto, attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o
-ruido secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma caixa de
-sabão, estava um velho pincel de barba, entre flocos d'espuma... Chamou
-Sebastião baixo:
-
---Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo lento! É de mais. Que
-ande depressa!
-
-Foi á sala de jantar, errou pela casa: a manhã fria clareava;
-erguera-se vento, que ia levando, aos pedaços, nuvens d'um tom alvadio.
-
-Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a
-mesma lentidão molle; e tomando o seu chapéo desabado, sahiu em bicos
-de pés, murmurando n'um tom funerario:
-
---Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que não seja nada...
-
-O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:--e Luiza cahiu n'uma
-somnolencia prostrada com gemidos fracos, que sahiam de seus labios
-como a lamentação interior da vida vencida.
-
-Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava chamar o doutor
-Caminha. Era um medico velho que tratára sua mãi, e que curára Luiza da
-pneumonia, no segundo anno de casada. Jorge conservára uma admiração
-agradecida por aquella reputação antiquada; e agora a sua esperança
-voltava-se sofregamente para elle, anciando pela sua presença como pela
-apparição d'um santo.
-
-Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião desceu correndo,
-para ir a casa do dr. Caminha.
-
-Luiza, que sahira um momento do seu torpôr, sentiu-os fallar baixo. A
-sua voz extincta chamou Jorge:
-
---Cortaram-me o cabello...--murmurou tristemente.
-
---É para te fazer bem--disse-lhe Jorge, quasi tão agonisante como
-ella.--Cresce logo. Até te vem melhor...
-
-Ella não respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos
-dos olhos.
-
-Devia ser a sua ultima sensação: a prostração comatosa ia-a
-immobilisando, apenas a sua cabeça rolava n'um movimento dôce e
-vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansaço triste;
-a pelle empallidecia como um vidro de janella, por traz do qual
-lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruidos da rua que começavam não
-a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodão.
-
-Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada quando a viu
-tão mal: e ella que a vinha buscar para irem á Encarnação, talvez ás
-lojas! Tirou logo o chapéo, installou-se; fez arranjar a alcova, tirar
-as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compôr a cama--«porque
-não havia peor p'ra um doente que desarranjo no quarto»: e muito
-corajosamente animava Jorge.
-
-Uma carruagem parou á porta. Era o doutor Caminha, emfim!... Entrou
-atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se
-muito do frio;--e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que
-pôz dentro do chapéo methodicamente, adiantou-se para a alcova com um
-passo cadenciado, acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito
-colladas ao craneo pela escova.
-
-Julião e elle ficaram sós na alcova.
-
-No quarto os outros esperavam calados, ao pé de Jorge, pallido como
-cêra, com os olhos vermelhos como carvões.
-
---Vai-se-lhe pôr um caustico na nuca--veio dizer Julião.
-
-Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, que se pozera a
-calçar tranquillamente as suas luvas de casimira, dizendo:
-
---Vamos a vêr com o caustico. Não está bem... Mas ha ainda peor. E eu
-volto, meu amigo, eu volto.
-
-O caustico foi inutil. Não o sentia, immovel e branca, com as feições
-crispadas; e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como
-vibrações fugitivas.
-
---Está perdida--disse Julião baixo a Sebastião.
-
-D. Felicidade ficou muito aterrada, fallou logo nos sacramentos.
-
---P'ra quê?--resmungou Julião impaciente.
-
-Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos, que era um peccado
-mortal; e chamando Jorge para o vão da janella, toda tremula:
-
---Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos...
-
-Elle murmurava como assombrado:
-
---Os sacramentos!
-
-Julião chegou-se bruscamente, e quasi zangado:
-
---Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra quê? Ella nem ouve, nem
-comprehende, nem sente. É necessario deitar-lhe outro caustico, talvez
-ventosas, e é o que é! Isso é que são os sacramentos!
-
-Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, começou a chorar.
-Esqueciam Deus, e em Deus é que está o remedio!--dizia, assoando-se com
-estrondo.
-
---Pelo que Deus faz por mim...--exclamou Jorge, sahindo do seu torpôr.
-E batendo as mãos, como revoltado por uma injustiça:--Porque realmente,
-que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!...
-
-Julião ordenára outro caustico. Havia agora na casa um movimento
-allucinado. Joanna entrava de repente com um caldo inutil que ninguem
-pedira, os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluçava pelos
-cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para
-rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o
-doutor Barral.
-
-E Luiza no entanto estava immovel; uma côr macilenta ia-lhe dando ás
-faces tons cavados e rigidos.
-
-Julião extenuado pediu um calix de vinho, uma fatia de pão.
-Lembraram-se então que desde a vespera não tinham comido, e foram á
-sala de jantar onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu uma sopa,
-e ovos. Mas não achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava
-rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na
-borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha.
-
-Depois d'um momento pousou devagarinho a colhér, desceu ao quarto.
-Marianna estava sentada aos pés do leito: Jorge disse-lhe que fosse
-servir os senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de joelhos,
-tomou uma das mãos de Luiza, chamou-a baixo; depois mais forte:
-
---Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas assim, faze por
-melhorar. Não me deixes n'este mundo, não tenho mais ninguem!
-Perdôa-me. Dize que sim. Faze signal que sim ao menos. Não me ouve, meu
-Deus!
-
-E olhava-a anciosamente. Ella não se movia.
-
-Ergueu então os braços ao ar n'uma desesperação allucinada.
-
---Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!--E arremessava a
-sua alma para as alturas:--Ouve, meu Deus! Escuta-me! Sê bom!
-
-Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre!
-Mas tudo lhe pareceu mais immovel. A face livida cavava-se; o lenço que
-lhe envolvia a cabeça desarranjára-se, via-se o craneo rapado, d'uma
-côr ligeiramente amarellada. Pôz-lhe então a mão na testa, hesitando,
-com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu para
-fóra do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando
-pausadamente as luvas.
-
---Doutor! Está morta! Veja. Não falla, está fria...
-
---Então! Então!--disse elle--Nada de barulho, nada de barulho!
-
-Tomou o pulso de Luiza, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibração
-expirante d'uma corda.
-
-Julião veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas eram
-inuteis.
-
---Já as não sente--disse o doutor, sacudindo o tabaco dos dedos.
-
---Se se lhe désse um copo de cognac?...--lembrou de repente Julião. E
-vendo o olhar espantado do doutor:--Ás vezes estes symptomas de coma
-não querem dizer que o cerebro esteja desorganisado: podem ser apenas
-a inacção da força nervosa exhausta. Se a morte é irremediavel não
-se perde nada; se é apenas uma depressão do systema nervoso, póde-se
-salvar...
-
-O doutor Caminha, com o beiço descahido, oscillava incredulamente a
-cabeça:
-
---Theorias!--murmurou.
-
---Nos hospitaes inglezes...--começou Julião.
-
-O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo.
-
---Mas se o doutor lêsse...--insistiu Julião.
-
---Não leio nada!--disse o doutor Caminha com força--tenho lido de mais!
-Os livros são os doentes...--E curvando-se, com ironia:--Mas se o meu
-talentoso collega quer fazer a experiencia...
-
---Um copo de cognac ou d'aguardente!--pediu Julião á porta.
-
-E o doutor Caminha sentou-se commodamente «para gozar o fracasso do
-talentoso collega».
-
-Levantaram Luiza; Julião fez-lhe engulir o cognac; quando a deitaram
-ficou na mesma immobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o
-relogio, viu as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim o
-doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das
-extremidades; e indo buscar silenciosamente o chapéo começou a calçar
-as luvas.
-
-Jorge foi com elle até á porta:
-
---Então, doutor?--disse, agarrando com uma força desvairada o braço.
-
---Fez-se o que se pôde--disse o velho, encolhendo os hombros.
-
-Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas
-vagarosas nos degraus cahiam-lhe com uma percussão medonha no coração.
-Debruçou-se no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os
-olhos; Jorge pôz as mãos para elle, com uma anciedade humilde:
-
---Então não é possivel mais nada?
-
-O doutor fez um gesto vago, indicou o céo.
-
-Jorge voltou para o quarto, encostando-se ás paredes. Entrou na alcova,
-atirou-se de joelhos aos pés da cama, e alli ficou com a cabeça entre
-as mãos n'um soluçar baixo e continuo.
-
-Luiza morria: os seus braços tão bonitos, que ella costumava acariciar
-diante do espelho, estavam já paralysados; os seus olhos, a que a
-paixão dera chammas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se como sob
-a camada ligeira d'uma pulverisação muito fina.
-
-D. Felicidade e Marianna tinham accendido uma lamparina a uma gravura
-de Nossa Senhora das Dôres, e de joelhos rezavam.
-
-O crepusculo triste descia, parecia trazer um silencio funerario.
-
-A campainha, então, tocou discretamente; e d'ahi a momentos appareceu a
-figura do Conselheiro Accacio. D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as
-suas lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente:
-
---Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe!
-
-Explicou «que encontrára por acaso o bom doutor Caminha, que lhe
-contára a fatal occorrencia»! Mas muito discretamente não quiz
-entrar na alcova. Sentou-se n'uma cadeira, collocou melancolicamente
-o cotovêlo sobre o joelho, a testa sobre a mão, dizendo baixo a D.
-Felicidade:
-
---Continue as suas orações. Deus é imperscrutavel em seus decretos.
-
-Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de Luiza; olhou então
-Sebastião, fez-lhe o gesto d'alguma cousa que vôa e desapparece...
-Aproximaram-se de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face
-enterrada no leito:
-
---Jorge--disse baixinho Sebastião.
-
-Elle levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabellos nos olhos,
-as olheiras escuras.
-
---Vá, vem--disse Julião. E vendo o espanto do seu olhar:--Não, não está
-morta, está n'aquella somnolencia... Mas vem.
-
-Elle ergueu-se, dizendo com mansidão:
-
---Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado.
-
-Sahiu da alcova.
-
-O Conselheiro levantou-se, foi abraçal-o com solemnidade:
-
---Aqui estou, meu Jorge!
-
---Obrigado, Conselheiro, obrigado.
-
-Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam preoccupar-se
-com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as
-pontas, e viu os cabellos de Luiza. Ficou a olhal-os, erguendo-os,
-passando-os d'uma das mãos para outra, e disse com os beiços a tremer:
-
---Fazia tanto gosto n'elles, coitadinha!
-
-Tornou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe o braço, queria-o
-afastar do leito. Elle debatia-se dôcemente; e, como uma vela ardia
-sobre a mesinha ao pé da cabeceira, disse, mostrando-a:
-
---Talvez a incommode a luz...
-
-Julião respondeu commovido:
-
---Já não a vê, Jorge!
-
-Elle soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se sobre ella; tomou-lhe
-a cabeça entre as mãos com cuidado para a não magoar, esteve a olhal-a
-um momento; depois pousou-lhe sobre os labios frios um beijo, outro,
-outro, e murmurava:
-
---Adeus! Adeus!
-
-Endireitou-se, abriu os braços, cahiu no chão.
-
-Todos correram. Levaram-no para a _chaise-longue_.
-
-E em quanto D. Felicidade n'um pranto afflicto fechava os olhos de
-Luiza, o Conselheiro, com o chapéo sempre na mão, cruzava os braços, e
-oscillando a sua calva respeitavel, dizia a Sebastião:
-
---Que profundo desgosto de familia!
-
-
-
-
-XVIII
-
-
-Depois do enterro de Luiza, Jorge despediu as criadas, foi para casa de
-Sebastião.
-
-N'essa noite pelas nove horas o Conselheiro Accacio, muito abafado,
-descia o Moinho de Vento, quando encontrou Julião, que vinha de vêr um
-doente na rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando de Luiza, do
-enterro, da afflicção de Jorge.
-
---Pobre rapaz! Aquillo é que é soffrer!--disse Julião compadecido.
-
---Era uma esposa modêlo!...--murmurou o Conselheiro.
-
-De resto, disse, vinha justamente de casa do bom Sebastião, mas não
-podéra vêr o seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia
-profundamente.
-
-E acrescentou:
-
---Ultimamente lia eu que aos grandes golpes succedem sempre somnos
-prolongados. Assim, por exemplo, Napoleão depois de Waterloo, depois do
-grande desastre de Waterloo!
-
-E passado um momento, continuou:
-
---É verdade. Fui vêr o nosso Sebastião... Fui mostrar-lhe...--E
-interrompendo-se, parando:--Porque eu entendi que era o meu dever
-dedicar um tributo á memoria da infeliz senhora. Era o meu dever, e não
-me eximi a elle! E estimo tel-o encontrado, porque quero saber a sua
-opinião conscienciosa e desassombrada.
-
-Julião tossiu, e perguntou:
-
---É um necrologio?
-
---É um necrologio.
-
-E o Conselheiro, apesar de «não achar proprio, na sua posição, o entrar
-em cafés publicos», lembrou a Julião que poderiam descançar um momento
-no Tavares, se não estivesse muita gente, e elle poderia lêr-lhe «a
-producção».
-
-Espreitaram.
-
-Estavam apenas, a uma mesa, dous velhos calados defronte dos seus
-cafés, com os chapéos na cabeça, apoiados a bengalas de cana da India.
-O moço dormitava ao fundo. Uma luz crua e intensa enchia a sala
-estreita.
-
---Ha um silencio propicio--disse o Conselheiro.
-
-Offereceu um café a Julião; e tirando então do bolso uma folha de papel
-pautado, murmurou:--Infeliz senhora!--Inclinou-se para Julião, e leu:
-
-
-NECROLOGIO
-
-Á MEMORIA DA SNR.^a D. LUIZA MENDONÇA DE BRITO CARVALHO
-
-
- Rosa d'amor, rosa purpurea e bella,
- Quem entre os goivos te esfolhou na campa?
-
-
---É do immortal Garrett!--E continuou com uma voz lenta e lugubre:
-
-«... Mais um anjo que subiu ao céo! Mais uma flôr pendida na tenra
-haste que o vendaval da morte, em sua inclemente furia, arremessou mal
-desabrochada para as trevas do tumulo...»
-
-Olhou Julião para solicitar a sua admiração, e vendo-o curvado a
-remexer o seu café, proseguiu com entonações mais funerarias:
-
---«Detende-vos, e olhai a terra fria! Alli jaz a casta esposa tão cedo
-arrancada ás caricias do seu talentoso conjuge. Alli sossobrou, como
-baixel no escarcéo da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã
-natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu
-lar! Por que soluçaes?»
-
---Um café, ó Antonio!--bradou a voz rouca de um sujeito grosso, de
-jaquetão, que se sentou ao pé, pondo com ruido a bengala sobre a mesa e
-deitando o chapéo para o cachaço.
-
-O Conselheiro olhou-o de lado, com rancor. E baixando a voz:
-
---«...Não soluceis! Que o anjo se não pertence á terra pertence ao
-céo!...»
-
---O sô Guedes esteve já por ahi?--perguntou a voz rouca.
-
-O criado disse de traz do balcão, limpando com uma rodilha as travessas
-de metal:
-
---Ainda não, snr. D. José!
-
---«...Alli--continuou o Conselheiro--seu espirito, librando-se nas
-candidas azas, entôa louvores ao Eterno! E não cessa de pedir ao
-Omnipotente mercês e favores para derramar sobre a cabeça do dilecto
-esposo, que um dia, não duvideis, a encontrará nas regiões celestes,
-patria das almas de tão subido quilate...»--E a voz do Conselheiro
-aflautava-se para indicar aquella ascensão paradisiaca.
-
---E hontem á noite esteve cá, o sô Guedes?--insistiu o sujeito de
-jaquetão com os cotovêlos sobre a mesa, fumando como uma chaminé.
-
---Esteve tarde. Lá pelas duas horas.
-
-O Conselheiro sacudiu o papel com um desespero mudo: por traz dos
-vidros da luneta escura fusilavam-lhe nos olhos os despeitos homicidas
-de author interrompido. Mas proseguiu:
-
---«...E vós, ó almas sensiveis, vertei as lagrimas, mas vertendo-as,
-não percaes de vista que o homem deve curvar-se aos decretos da
-Providencia...»
-
-E interrompendo-se:
-
---Isto é para dar coragem ao nosso pobre Jorge!--Continuou:--«...da
-Providencia. Deus conta mais um anjo, e a sua alma brilha pura...»
-
---Esteve com a pequena, o sô Guedes?--fez o sujeito, quebrando no
-marmore da mesa a cinza do charuto.
-
-O Conselheiro suspendeu-se pallido de raiva:
-
---Deve ser pessoa da mais baixa extracção--rosnou com odio.
-
-E o criado erguendo a vozinha fina detraz do balcão:
-
---Nada, não; tem vindo agora com uma hespanhola d'ahi de cima da rua.
-Uma magrinha, com o cabello riçado, uma capa vermelha...
-
---A Lola!--acudiu o outro com satisfação. E espreguiçou-se com
-voluptuosidade á recordação da Lola.
-
-O Conselheiro agora apressava-se:
-
-«... E de resto, o que é a vida? Uma rapida passagem sobre o orbe, e um
-vão sonho de que acordamos no seio do Deus dos Exercitos, de que todos
-somos indignos vassallos».
-
-E com esta phrase monarchica o Conselheiro terminou.
-
---Que lhe parece, com franqueza?
-
-Julião sorveu o fundo da chavena, e collocando-a devagar no pires,
-lambendo os beiços:
-
---É para imprimir?
-
---Na _Voz Popular_, com tarjeta preta.
-
-Julião coçou convulsivamente a caspa, e erguendo-se:
-
---Está muito bom. Muito bom, Conselheiro!
-
-E Accacio procurando o troco para o moço:
-
---Creio que está digno d'ella, e de mim!
-
-E sahiram calados.
-
-A noite estava muito escura: erguera-se um nordeste frio: gotas de
-chuva tinham cahido. Ao Loreto, Julião parou subitamente; e exclamou:
-
---Ai esquecia-me! Sabe a novidade, Conselheiro? A D. Felicidade
-recolhe-se á Encarnação.
-
---Ah!
-
---Disse-m'o agora. Eu fui justamente vêl-a antes de ir vêr um doente á
-rua da Rosa. Estava com uma febresita. Cousa de nada... A commoção; o
-susto! E deu-me parte: recolhe-se ámanhã á Encarnação.
-
-O Conselheiro disse:
-
---Sempre conheci n'aquella senhora idéas retrogradas. É o resultado das
-manobras jesuiticas, meu amigo!--E ajuntou com a melancolia do liberal
-descontente:--A reacção levanta a cabeça!
-
-Julião tomou familiarmente o braço do Conselheiro, e sorrindo:
-
---Qual reacção! É por sua causa, ingrato...
-
-O Conselheiro estacou:
-
---Que quer o meu nobre amigo insinuar?
-
---Sim, homem! Não sei como diabo descobriu uma cousa grave...
-
---O que? Acredite...
-
---O que eu tambem descobri, seu maganão! Que o Conselheiro tem duas
-travesseirinhas na cama, tendo só uma cabeça... Disse-m'o ella!--E
-rindo muito, dizendo-lhe _adeus_! _adeus!_ desceu rapidamente a rua do
-Alecrim. O Conselheiro ficou immovel, no largo, de braços cruzados,
-como petrificado.--Que infeliz senhora! Que funesta paixão!--murmurou
-emfim. E acariciou o bigode, com satisfação.
-
-Como tinha de passar a limpo o _Necrologio_ apressou-se a entrar
-em casa. Abancou com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as
-responsabilidades de prosador distrahiram-no das preoccupações
-d'homem; e até às onze horas a sua bella letra cursiva e burocratica
-desenrolou-se nobremente sobre uma larga folha de papel inglez, no
-silencio do seu _Sanctus Sanctorum_. Terminava quando a porta rangeu,
-e a Adelaide, com um chale forte pelos hombros, veio dizer, n'uma voz
-constipada:
-
---Então hoje não se faz néné?
-
---Não tardo, minha Adelaide, não tardo!
-
-E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe então que o final não era
-commovente: queria terminar por uma exclamação dolorosa, prolongada
-como um _ai!_ Meditou, com os cotovêlos sobre a mesa, a cabeça entre os
-dedos muito abertos: Adelaide então, chegando-se devagar, passou-lhe a
-mão pela calva: aquelle dôce roçar amoroso fez de certo saltar a idéa
-como uma faisca, porque tomou rapidamente a penna, e acrescentou:
-
---«Chorai! Chorai! Em quanto a mim, a dôr suffoca-me!»
-
-Esfregou as mãos com orgulho. Repetiu alto n'um tom plangente:
-
---«Chorai, Chorai, em quanto a mim, a dôr suffoca-me!»--E passando o
-braço concupiscente pela cinta da Adelaide, exclamou:
-
---Está de fazer sensação, minha Adelaide!
-
-Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fôra bem preenchido e digno: da
-manhã certificára-se com regosijo no _Diario do Governo_, que a familia
-real «passava sem novidade»; cumprira o dever d'amigo, acompanhando
-Luiza aos Prazeres n'uma carruagem da Companhia; a alta das inscripções
-assegurava-lhe a paz da sua patria; compozera uma prosa notavel;
-a sua Adelaide amava-o! E de certo se deliciou na certeza d'estas
-felicidades, que contrastavam tanto com as imagens sepulchraes que a
-sua penna revolvera, porque Adelaide ouviu-o murmurar:
-
---A vida é um bem inestimavel!--E acrescentar como bom
-cidadão:--Sobretudo n'esta era de grande prosperidade publica!
-
-E entrou no quarto com a cabeça erecta, o peito cheio, os passos
-firmes, erguendo alto o castiçal.
-
-A sua Adelaide seguia-o, bocejando; estava cançada da constipação
-e--de uma hora de ternuras, que tivera á tardinha, com o louro e meigo
-Arnaldo, caixeiro da _Loja da America_.
-
-
-Áquella hora dous homens desciam d'uma carruagem á porta do Hotel
-Central: um trazia uma _ulster_ de xadrez, o outro uma longa pelliça.
-Um omnibus quasi ao mesmo tempo parou, carregado de bagagens.
-
-Um criado allemão, que conversava em baixo com o porteiro,
-reconheceu-os logo, e tirando o côco:
-
---Oh snr. D. Bazilio! Oh snr. visconde!
-
-O visconde Reynaldo, que batia os pés nas lages, rosnou de dentro da
-sua pelliça:
-
---É verdade, aqui estamos outra vez na possilga!
-
-Mas áquella hora?
-
---A que horas queria vossê que chegassemos? Ás horas da tabella,
-talvez! Doze horas d'atrazo, essa bagatella! Em Portugal é quasi nada...
-
---Houve algum transtorno?--perguntava o criado com solicitude,
-seguindo-os pela escada.
-
-E Reynaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor:
-
---O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre!
-Abjecto paiz!...--E desabafava a sua cólera com o criado: tel-a-hia
-desabafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bilis:--Ha
-um anno que a minha oração é esta: Meu Deus, manda-lhe outra vez o
-terromoto! Pois todos os dias leio os telegrammas a vêr se o terromoto
-chegou... e nada! Algum ministro que cahe, ou algum barão que surge.
-E de terremoto nada! O Omnipotente faz ouvidos de mercador ás minhas
-preces... Protege o paiz! Tão bom é um como outro!--E sorria, vagamente
-reconhecido a uma nação, cujos defeitos lhe forneciam tantas pilherias.
-
-Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou--que não havia
-senão um salão e uma alcova com duas camas, no terceiro andar--a cólera
-de Reynaldo não conheceu restricções:
-
---Então havemos de dormir no mesmo quarto? Vossê pensa que o snr. D.
-Bazilio é meu amante, seu devasso? Está tudo cheio? Mas quem diabo
-se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente o que me
-espanta!--E encolhendo os hombros com rancôr.--É o clima, é o clima
-que os attrahe! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima
-pestifero. Não ha nada mais reles de que um bom clima!...
-
-E não cessou d'invectivar o seu paiz, em quanto o criado á pressa,
-sorrindo servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um
-frango frio e Bourgogne.
-
-Reynaldo vinha vender a ultima propriedade, e acompanhára Bazilio que
-voltava a terminar «o seccante negocio da borracha». E não cessava de
-rosnar soturnamente de dentro da pelliça:
-
---Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro!
-
-Bazilio não respondia. Desde que chegára a Santa Apolonia, recordações
-do _Paraiso_, da casa de Luiza, de todo aquelle romance do verão
-passado, começavam a voltar, a attrahil-o, com um encanto picante. Fôra
-encostar-se á vidraça. Uma lua fria, livida, corria agora entre grossas
-nuvens côr de chumbo: ás vezes uma grande malha luminosa cahia sobre a
-agua, faiscava: depois tudo escurecia: vagas mastreações desenhavam-se
-na obscuridade diffusa: e algum fanal de navio tremeluzia friamente.
-
---Que fará ella a esta hora?--pensava Bazilio.--Naturalmente,
-deitava-se... Mal sabia que elle estava alli, n'um quarto do Hotel
-Central...
-
-Cearam.
-
-Bazilio levou a garrafinha de cognac para a cabeceira da cama: e com a
-cara coberta de pó d'arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos
-sobre o peito, muito estendido, soprando o fumo do charuto, gozava uma
-lassidão confortavel.
-
---E ámanhã estou-te d'aqui a vêr--disse Reynaldo.--Vaes-te logo metter
-com a prima!
-
-Bazilio sorriu, o seu olhar errou um pouco pelo tecto; certas
-recordações das bellezas d'ella, do seu temperamento amoroso,
-trouxeram-lhe uma vaga voluptuosidade: espreguiçou-se.--Que
-diabo!--disse--é uma linda rapariga! Vale immenso a pena!--Bebeu mais
-um calice de cognac, e d'ahi a pouco dormia profundamente. Era meia
-noite.
-
-Áquella hora Jorge acordava, e sentado n'uma cadeira, immovel, com
-soluços cançados que ainda o sacudiam, pensava n'ella. Sebastião, no
-seu quarto, chorava baixo. Julião, no Posto Medico, estendido n'um
-sophá, lia a _Revista dos Dous Mundos_. Leopoldina dançava n'uma
-_soirée_ da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria as
-nuvens e agitava o gaz dos candieiros ia fazer ramalhar tristemente uma
-arvore sobre a sepultura de Luiza.
-
-
-D'ahi a dous dias pela manhã Bazilio, no Rocio, procurava, com o olhar
-em redor, um _coupé_ decente. Mas o Pintéos, avistando-o de longe,
-lançou logo a parelha. Cá está o Pintéos, meu amo! Parecia encantado de
-tornar a vêr o snr. D. Bazilinho, e apenas elle lhe disse:
-
---Lá acima, á Patriarchal, ó Pintéos!
-
---A casa da senhora? Prompto, meu amo.--E endireitando-se na almofada,
-bateu.
-
-Quando a tipoia parou á porta de Jorge--o Paula sahiu para a rua, a
-estanqueira correu de dentro do balcão, a criada do doutor debruçou-se
-logo na janella. E immoveis arregalavam os olhos.
-
-Bazilio tocára a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o
-charuto, tornou a puxar o cordão com força.
-
---As janellas estão trancadas, meu amo--disse o Pintéos.
-
-Bazilio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a
-casa tinha um aspecto mudo.
-
-Bazilio dirigiu-se ao Paula:
-
---Os senhores que alli moram, estão p'ra fóra?
-
---Já não moram--disse o Paula soturnamente, passando a mão sobre o
-bigode.
-
-Bazilio fixou-o, surprehendido d'aquella entonação funebre.
-
---Onde vivem agora então?
-
-O Paula escarrou, e cravando em Bazilio um olhar desolado:
-
---V. s.^a é o parente?
-
-Bazilio disse sorrindo:
-
---Sou o parente, sou.
-
---Então não sabe?
-
---O quê, homem de Deus?
-
-O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabeça:
-
---Pois sinto dizer-lh'o. A senhora morreu.
-
---Que senhora?--perguntou Bazilio. E fez-se muito branco.
-
---A senhora! A senhora D. Luiza, a mulher do snr. Carvalho, o
-Engenheiro... E o snr. Jorge está em casa do snr. Sebastião. Alli ao
-fim da rua. Se v. s.^a lá quer ir...
-
---Não!--fez Bazilio com um gesto rapido da mão. Os beiços tremiam-lhe
-um pouco.--Mas que foi?
-
---Uma febre! Rapou-a em dous dias!
-
-Bazilio dirigiu-se ao _coupé_ devagar, com a cabeça baixa. Olhou mais
-uma vez para a casa; fechou com força a portinhola. O Pintéos _bateu_
-p'ra a Baixa.
-
-O Paula então aproximou-se do estanque:
-
---Não lhe fez muita móssa! Fidalgos! Canalha!--murmurou.
-
-A estanqueira disse lamentosamente:
-
---Pois eu não sou parenta, e todas as noites lhe rezo dous padre-nossos
-por alma...
-
---E eu!--suspirou a carvoeira.
-
---Ha-de-lhe isso servir de muito!--rosnou o Paula, afastando-se.
-
-Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquellas mortes na rua
-traziam-no desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres!
-e todas as noites lia a _Nação_ que lhe emprestava o Azevedo,
-repastando-se com rancor d'artigos devotos, que o exasperavam, o
-impelliam para o atheismo; e o descontentamento das cousas publicas
-inclinava-o para a communa. Como elle dizia, achava tudo uma _porcaria_.
-
-Foi de certo sob este sentimento que, voltando á porta do estanque,
-disse ás visinhas com um ar lugubre:
-
---Sabem o que isto é? Sabem o que tudo isto é?--Fazia um gesto que
-abrangia o universo. Fitou-as d'um modo irado, e rosnou esta palavra
-suprema:
-
---Um monte d'estrume!
-
-
-Ao descer a rua do Alecrim, Bazilio viu o visconde Reynaldo á porta do
-hotel _Street_. Mandou parar o Pintéos, e saltando do _coupé_:
-
---Sabes?
-
---O quê?
-
---Minha prima morreu.
-
-O visconde Reynaldo murmurou polidamente:
-
---Coitada!...
-
-E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro. O dia estava
-glorioso; um friosinho subtil errava; no ar luminoso, leve, trespassado
-de sol, as casas, os galhos das arvores, os mastros das faluas, as
-mastreações dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os sons
-sobresahiam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um
-metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam a
-côr do leite; e ao fundo as collinas faziam na pulverisação da luz uma
-sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam.
-
-E os dous passeando devagar, iam fallando de Luiza.
-
-O visconde Reynaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que
-se tinha deixado morrer por um tempo tão lindo!--Mas em resumo, sempre
-achára aquella ligação absurda...
-
-Porque emfim fossem francos: que tinha ella? Não queria dizer mal «da
-pobre senhora que estava n'aquelle horror dos Prazeres», mas a verdade
-é que não era uma amante _chic_; andava em tipoias de praça; usava
-meias de tear; casára com um reles individuo de secretaria; vivia numa
-casinhola, não possuia relações decentes; jogava naturalmente o quino,
-e andava por casa de sepatos d'ourello; não tinha espirito, não tinha
-_toilette_... que diabo! Era um trambolho!
-
---Para um ou dous meses que eu estivesse em Lisboa...--resmungou
-Bazilio com a cabeça baixa.
-
---Sim, p'ra isso talvez. Como hygiene!--disse Reynaldo com desdem.
-
-E continuaram calados, devagar. Riram-se muito d'um sujeito que passava
-governando atarantadamente dous cavallos pretos:--Que phaeton! Que
-arreios! Que estylo! Só em Lisboa!...
-
-Ao fundo do Aterro voltaram; e o visconde Reynaldo passando os dedos
-pelas suiças:
-
---De modo que estás sem mulher...
-
-Bazilio teve um sorriso resignado. E, depois d'um silencio, dando um
-forte raspão no chão com a bengala:
-
---Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine!
-
-E foram tomar Xerez á _Taverna Ingleza_.
-
-
- Setembro 1876--Setembro 1877.
-
-
-FIM
-
-
-
-
-Lista de erros corrigidos
-
-
-Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
-
-
- +----------+-------------------------+---------------------------+
- | | Original | Correcção |
- +----------+-------------------------+---------------------------+
- |#pág. 84 | Luzia | Luiza |
- |#pág. 130 | arrebitanto | arrebitando |
- |#pág. 155 | com ha-de d'estar? | como ha-de d'estar? |
- |#pág. 190 | pé dos portas | pé das portas |
- |#pág. 194 | enternciam-no | enterneciam-no |
- |#pág. 209 | Lepoldina | Leopoldina |
- |#pág. 215 | lacas | lascas |
- |#pág. 263 | concialibulo | conciliabulo |
- |#pág. 267 | Luzinha | Luizinha |
- |#pág. 316 | dsesperadamente | desesperadamente |
- |#pág. 328 | eperança | esperança |
- |#pág. 333 | batendo-lho | batendo-lhe |
- |#pág. 337 | de de pé | de pé |
- |#pág. 404 | Leolpodina | Leopoldina |
- |#pág. 404 | prodigiosomente | prodigiosamente |
- |#pág. 425 | Sabastião | Sebastião |
- |#pág. 427 | engmomados | engommados |
- |#pág. 430 | Leolpodina | Leopoldina |
- |#pág. 456 | apparer | apparecer |
- |#pág. 457 | Julão | Julião |
- |#pág. 457 | ao ouvindo | ao ouvido |
- |#pág. 472 | cousá | cousa |
- |#pág. 477 | as palavra | as palavras |
- |#pág. 482 | quizessse | quizesse |
- |#pág. 494 | voltou dizer | voltou a dizer |
- |#pág. 507 | apaixonado | apaixonada |
- |#pág. 512 | d'aqulla | d'aquella |
- |#pág. 521 | susurrro | susurro |
- |#pág. 558 | illsuões | illusões |
- +----------+-------------------------+---------------------------+
-
-Não existem os capítulo XI e XIV nesta obra:
-Não havendo interrupção na paginação respeitámos a ordem da obra original.
-
-A página 525 surge no original como 425. Corrigimos para 525 para manter
-a ordem (após verificação que não se tratava de uma página fora de sítio).
-
-
-
-
-
-End of Project Gutenberg's O Primo Bazilio, by José Maria Eça de Queirós
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK O PRIMO BAZILIO ***
-
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