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diff --git a/42942-0.txt b/42942-0.txt new file mode 100644 index 0000000..4d25394 --- /dev/null +++ b/42942-0.txt @@ -0,0 +1,18655 @@ +*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 42942 *** + + *Nota de editor:* Devido à existência de erros tipográficos neste + texto, foram tomadas várias decisões quanto à versão final. Em caso + de dúvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final + deste livro encontrará a lista de erros corrigidos. + + Rita Farinha (Junho 2013) + + + + +O PRIMO BAZILIO + + + + +PORTO: TYPOGRAPHIA DE A. J. DA SILVA TEIXEIRA +Rua da Cancella Velha, 70 + + + + +[Figura: Assinatura] + + + + +EÇA DE QUEIROZ + + +O PRIMO BAZILIO + +EPISODIO DOMESTICO + + +SEGUNDA EDIÇÃO, REVISTA + + +[Figura] + + +LIVRARIA INTERNACIONAL + +DE + +ERNESTO CHARDRON +Porto + +EUGENIO CHARDRON +Braga + +1878 + + + + +Porto: 1878--Typ. do A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 62 + + + + +O PRIMO BAZILIO + + + + +I + + +Tinham dado onze horas no _cuco_ da sala de jantar. Jorge fechou o +volume de Luiz Figuier que estivera folheando devagar, estirado na +velha _voltaire_ de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse: + +--Tu não te vaes vestir, Luiza? + +--Logo. + +Ficára sentada á mesa, a lêr _o Diario de Noticias_, no seu roupão de +manhã de fazenda preta, bordado a _soutache_, com largos botões de +madreperola; o cabello louro um pouco desmanchado, com um tom secco do +calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, +de perfil bonito; a sua pelle tinha a brancura tenra e lactea das +louras: com o cotovêlo encostado á mesa acariciava a orelha, e, no +movimento lento e suave dos seus dedos, dous anneis de rubis miudinhos +davam scintillações escarlates. + +Tinham acabado d'almoçar. + +A sala esteirada, alegrava, com o seu tecto de madeira pintado a +branco, o seu papel claro de ramagens verdes. Era em julho, um +domingo: fazia um grande calor; as duas janellas estavam cerradas, mas +sentia-se fóra o sol faiscar nas vidraças, escaldar a pedra da varanda; +havia o silencio recolhido e somnolento de manhã de missa; uma vaga +_quebreira_ amollentava, trazia desejos de séstas, ou de sombras fôfas +debaixo d'arvoredos, no campo, ao pé d'agua; nas duas gaiolas, entre +as bambinellas de cretone azulado, os canarios dormiam; um zumbido +monotono de moscas arrastava-se por cima da mesa, pousava no fundo das +chavenas sobre o assucar mal derretido, enchia toda a sala d'um rumor +dormente. + +Jorge enrolou um cigarro, e muito repousado, muito fresco na sua camisa +de chita, sem collete, o jaquetão de flanella azul aberto, os olhos +no tecto, pôz-se a pensar na sua jornada ao Alemtejo. Era engenheiro +de minas, no dia seguinte devia partir para Beja, para Evora, mais +para o sul até S. Domingos; e aquella jornada, em julho, contrariava-o +como uma interrupção, affligia-o como uma injustiça. Que massada +por um verão d'aquelles! Ir dias e dias sacudido pelo chouto d'um +cavallo d'aluguel, por esses descampados do Alemtejo que não acabam +nunca, cobertos d'um rastolho escuro, abafados n'um sol baço, onde os +moscardos zumbem! Dormir nos montados, em quartos que cheiram a tijolo +cozido, ouvindo em redor, na escuridão da noite torrida, grunhir as +varas dos porcos! A todo o momento sentir entrar pelas janellas, passar +no ar o bafo quente das queimadas! E só! + +Tinha estado até então no ministerio, em commissão. Era a primeira vez +que se separava de Luiza; e perdia-se já em saudades d'aquella salinha, +que elle mesmo ajudára a forrar de papel novo nas vesperas do seu +casamento, e onde, depois das felicidades da noite, os seus almoços se +prolongavam em tão suaves preguiças! + +E cofiando a barba curta e fina, muito frisada, os seus olhos iam-se +demorando, com uma ternura, n'aquelles moveis intimos, que eram do +tempo da mamã: o velho guarda-louça envidraçado, com as pratas muito +tratadas a gesso-cré, resplandecendo decorativamente; o velho painel a +oleo, tão querido, que vira desde pequeno, onde apenas se percebiam, +n'um fundo lascado, os tons avermelhados de cobre d'um bojo de +cassarola e os rosados desbotados d'um mólho de rabanetes! Defronte, na +outra parede, era o retrato de seu pai: estava vestido á moda de 1830, +tinha a physionomia redonda, o olho luzidio, o beiço sensual; e sobre a +sua casaca abotoada reluzia a commenda de Nossa Senhora da Conceição. +Fôra um antigo empregado do ministerio da fazenda, muito divertido, +grande tocador de flauta. Nunca o conhecera, mas a mamã affirmava-lhe +«que o retrato só lhe faltava fallar». Vivera sempre n'aquella casa com +sua mãi. Chamava-se Isaura: era uma senhora alta, de nariz afilado, +muito apprehensiva; bebia ao jantar agua quente; e ao voltar um dia do +lausperenne da Graça, morrera de repente, sem um ai! + +Physicamente Jorge nunca se parecera com ella. Fôra sempre robusto, +d'habitos viris. Tinha os dentes admiraveis de seu pai, os seus hombros +fortes. + +De sua mãi herdára a placidez, o genio manso. Quando era estudante +na Polytechnica, ás 8 horas recolhia-se, accendia o seu candieiro +de latão, abria os seus compendios. Não frequentava botequins, nem +fazia noitadas. Só duas vezes por semana, regularmente, ia vêr uma +rapariguita costureira, a Euphrasia, que vivia ao Borratem, e nos dias +em que o Brazileiro, o seu homem, ia jogar o boston ao club, recebia +Jorge com grandes cautelas e palavras muito exaltadas; era engeitada, +e no seu corpinho fino e magro havia sempre o cheiro relentado d'uma +pontinha de febre. Jorge achava-a _romanesca_, e censurava-lh'o. Elle, +nunca fôra sentimental: os seus condiscipulos, que liam Alfred de +Musset suspirando e desejavam ter amado Margarida Gautier, chamavam-lhe +_proseirão, burguez_: Jorge ria; não lhe faltava um botão nas camisas, +era muito escarolado, admirava Luiz Figuier, Bastiat e Castilho, tinha +horror a dividas, e sentia-se feliz. + +Quando sua mãi morreu, porém, começou a achar-se só: era no inverno, +e o seu quarto nas trazeiras da casa, ao sul, um pouco desamparado, +recebia as rajadas do vento na sua prolongação uivada e triste; +sobretudo á noite, quando estava debruçado sobre o compendio, os pés no +capacho, vinham-lhe melancolias languidas; estirava os braços, com o +peito cheio d'um desejo; quereria enlaçar uma cinta fina e dôce, ouvir +na casa o frou-frou d'um vestido! Decidiu casar. Conheceu Luiza, no +verão, á noite, no Passeio. Apaixonou-se pelos seus cabellos louros, +pela sua maneira d'andar, pelos seus olhos castanhos muito grandes. No +inverno seguinte foi despachado, e casou. Sebastião, o seu intimo, o +bom Sebastião, o Sebastiarrão, tinha dito, com uma oscillação grave da +cabeça, esfregando vagarosamente as mãos: + +--Casou no ar! casou um bocado no ar! + +Mas Luiza, a Luizinha, sahiu muito boa dona de casa: tinha cuidados +muito sympathicos nos seus arranjos; era aceada, alegre como um +passarinho, como um passarinho amiga do ninho e das caricias do macho: +e aquelle serzinho louro e meigo veio dar á sua casa um encanto serio. + +--É um anjinho cheio de dignidade!--dizia então Sebastião, o bom +Sebastião, com a sua voz profunda de _basso_. + +Estavam casados havia tres annos. Que bom que tinha sido! Elle proprio +melhorára; achava-se mais intelligente, mais alegre... E recordando +aquella existencia facil e dôce, soprava o fumo do charuto, a perna +traçada, a alma dilatada, sentindo-se tão bem na vida como no seu +jaquetão de flanella! + +--Ah!--fez Luiza de repente, toda admirada para o jornal, sorrindo. + +--Que é? + +--É o primo Bazilio que chega! + +E leu alto, logo: + +«Deve chegar por estes dias a Lisboa, vindo de Bordeus, o snr. Bazilio +de Brito, bem conhecido da nossa sociedade. S. exc.^a que, como é +sabido, tinha partido para o Brazil, onde se diz reconstituira a sua +fortuna com um honrado trabalho, anda viajando pela Europa desde o +começo do anno passado. A sua volta á capital é um verdadeiro jubilo +para os amigos de s. exc.^a que são numerosos». + +--E são!--disse Luiza, muito convencida. + +--Estimo, coitado!--fez Jorge, fumando, anediando a barba com a palma +da mão.--E vem com fortuna, hein? + +--Parece. + +Olhou os annuncios, bebeu um gole de chá, levantou-se, foi abrir uma +das portadas da janella. + +--Oh Jorge, que calor que lá vai fóra, santo Deus!--Batia as palpebras +sob a radiação da luz crua e branca. + +A sala, nas trazeiras da casa, dava para um terreno vago, cercado d'um +taboado baixo, cheio d'hervas altas e d'uma vegetação d'acaso; aqui, +alli, n'aquella verdura crestada do verão, largas pedras faiscavam, +batidas do sol perpendicular; e uma velha figueira brava, isolada +no meio do terreno, estendia a sua grossa folhagem immovel, que, na +brancura da luz, tinha os tons escuros do bronze. Para além eram as +trazeiras d'outras casas, com varandas, roupas seccando em cannas, +muros brancos de quintaes, arvores esguias. Uma vaga poeira embaciava, +tornava espesso o ar luminoso. + +--Cahem os passaros!--disse ella cerrando a janella.--Olha tu pelo +Alemtejo, agora! + +Veio encostar-se á _voltaire_ de Jorge, passou-lhe lentamente a +mão sobre o cabello preto e annelado. Jorge olhou-a, triste já da +separação: os dous primeiros botões do seu roupão estavam desapertados; +via-se o começo do peito de uma brancura muito tenra, a rendinha da +camisa: muito castamente Jorge abotoou-lh'os. + +--E os meus colletes brancos?--disse. + +--Devem estar promptos. + +Para se certificar chamou Juliana. + +Houve um ruido domingueiro de saias engommadas, Juliana entrou, +arranjando nervosamente o collar e o broche. Devia ter quarenta +annos, era muitissimo magra. As feições, miudas, espremidas, tinham a +amarellidão de tons baços das doenças de coração. Os olhos grandes, +encovados, rolavam n'uma inquietação, n'uma curiosidade, raiados de +sangue, entre palpebras sempre debruadas de vermelho. Usava uma cuia de +retroz imitando tranças, que lhe fazia a cabeça enorme. Tinha um _tic_ +nas azas do nariz. E o vestido chato sobre o peito, curto da roda, +tufado pela gomma das saias--mostrava um pé pequeno, bonito, muito +apertado em botinas de duraque com ponteiras de verniz. + +Os colletes não estavam promptos, disse com uma voz muito lisboeta, não +tivera tempo de os metter em gomma. + +--Tanto lhe recommendei, Juliana!--disse Luiza.--Bem, vá. Veja como se +arranja! Os colletes hão-de ficar á noite na mala! + +E apenas ella sahiu: + +--Estou a tomar odio a esta creatura, Jorge! + +Ha dous mezes que a tinha em casa, e não se podera acostumar á sua +fealdade, aos seus tregeitos, á maneira aflautada de dizer _chapieu_, +_tisoiras_, de arrastar um pouco os _rr_, ao ruido dos seus tacões que +tinham laminasinhas de metal: ao domingo, a cuia, o pretencioso do pé, +as luvas de pellica preta arripiavam-lhe os nervos. + +--Que antipathica! + +Jorge ria: + +--Coitada, é uma pobre de Christo!--E depois que engommadeira +admiravel! No ministerio examinavam com espanto os seus peitilhos!--O +Julião diz bem, eu não ando engommado, ando esmaltado! Não é +sympathica, não, mas é aceada, é apropositada... + +E levantando-se, com as mãos nos bolsos das suas largas calças de +flanella: + +--E, emfim, minha filha, a maneira como ella se portou na doença da tia +Virginia... Foi um anjo para ella!--Repetiu com solemnidade:--De dia, +de noite, foi um anjo para ella! Estamos-lhe em divida, minha filha!--E +começou a enrolar um cigarro, com a physionomia muito séria. + +Luiza, calada, fazia saltar com a pontinha da chinella a orla do +roupão; e examinando fixamente as unhas, a testa um pouco franzida, +poz-se a dizer: + +--Mas emfim, se eu embirro com ella, não me importa, posso bem mandal-a +embora. + +Jorge parou, e raspando um phosphoro na sola do sapato: + +--Se eu consentir, minha rica. É que é uma questão de gratidão, para +mim! + +Ficaram calados. O _cuco_ cantou meio dia. + +--Bem, vou á vida--disse Jorge. Chegou-se ao pé d'ella, tomou-lhe a +cabeça entre as mãos. + +--Viborasinha!--murmurou, fitando-a muito meigamente. + +Ella riu. Ergueu para elle os seus magnificos olhos castanhos, +luminosos e meigos. Jorge enterneceu-se, poz-lhe sobre as palpebras +dous beijos chilreados. E torcendo-lhe o beicinho, com uma meiguice: + +--Queres alguma cousa de fóra, amor? + +Que não viesse muito tarde. + +Ia deixar uns bilhetes, ia n'uma tipoia, era um pulo... + +E sahiu, feliz, cantando com a sua boa voz de barytono: + + Dio del oro, + Del mondo signor. + La la ra, la ra. + +Luiza espreguiçou-se. Que sécca ter de se ir vestir! Desejaria estar +n'uma banheira de marmore côr de rosa, em agua tepida, perfumada, +e adormecer! Ou n'uma rede de sêda, com as janellas cerradas, +embalar-se, ouvindo musica! Sacudiu a chinellinha: esteve a olhar +muito amorosamente o seu pé pequeno, branco como leite, com veias +azues, pensando n'uma infinidade de cousinhas:--em meias de sêda que +queria comprar, no farnel que faria a Jorge para a jornada, em tres +guardanapos que a lavadeira perdera... + +Tornou a espreguiçar-se. E saltando na ponta do pé descalço, foi buscar +ao aparador por detraz d'uma compota um livro um pouco enxovalhado, +veio estender-se na _voltaire_, quasi deitada, e, com o gesto +acariciador e amoroso dos dedos sobre a orelha, começou a lêr, toda +interessada. + +Era a _Dama das Camelias_. Lia muitos romances; tinha uma assignatura, +na Baixa, ao mez. Em solteira, aos 18 annos, enthusiasmára-se por +Walter-Scott e pela Escocia; desejára então viver n'um d'aquelles +castellos escocezes, que teem sobre as ogivas os brazões da _clan_, +mobilados com arcas gothicas e tropheus d'armas, forrados de largas +tapecerias, onde estão bordadas legendas heroicas, que o vento do +lago agita e faz viver: e amára Ervandálo, Morton e Ivanhoé, ternos +e graves, tendo sobre o gorro a penna d'aguia, presa ao lado pelo +cardo d'Escocia d'esmeraldas e diamantes. Mas agora era o _moderno_ +que a captivava, Paris, as suas mobilias, as suas sentimentalidades. +Ria-se dos trovadores, exaltára-se por Mr. de Camors; e os homens +ideaes appareciam-lhe de gravata branca, nas hombreiras das salas de +baile, com um magnetismo no olhar, devorados de paixão, tendo palavras +sublimes. Havia uma semana que se interessava por Margarida Gautier: o +seu amor infeliz dava-lhe uma melancolia ennevoada: via-a alta e magra, +com o seu longo chale de cachemira, os olhos negros cheios da avidez da +paixão e dos ardores da tisica; nos nomes mesmo do livro--Julia Duprat, +Armando, Prudencia, achava o sabor poetico d'uma vida intensamente +amorosa; e todo aquelle destino se agitava, como n'uma musica triste, +com ceias, noites delirantes, afflicções de dinheiro, e dias de +melancolia no fundo d'um coupé, quando nas avenidas do Bois, sob um céo +pardo e elegante, silenciosamente cahem as primeiras neves. + +--Até logo, Zizi--gritou Jorge do corredor, ao sahir. + +--Olha! + +Elle veio, com a bengala debaixo do braço, apertando as luvas. + +--Não appareças muito tarde, hein? Escuta, traze-me uns bolos do +Baltresqui para a D. Felicidade. Ouve. Vê se passas pela madame +François que me mande o chapéo. Escuta. + +--Que mais, bom Deus? + +--Ah! não! Era para ires pelo livreiro que me mande mais romances... +Mas está fechado! + + + +Foi com duas lagrimas a tremer-lhe nas palpebras que acabou as paginas +da _Dama das Camelias_. E estendida na _voltaire_, com o livro cahido +no regaço, fazendo recuar a pellicula das unhas, pôz-se a cantar +baixinho, com ternura, a aria final da _Traviata_: + + Addio, del passato... + +Lembrou-lhe de repente a noticia do jornal, a chegada do primo +Bazilio... + +Um sorriso vagaroso dilatou-lhe os beicinhos vermelhos e cheios.--Fôra +o seu primeiro namoro, o primo Bazilio! Tinha ella então 18 annos! +Ninguem o sabia, nem Jorge, nem Sebastião... + +De resto fôra uma criancice: ella mesmo, ás vezes, ria, recordando +as pieguices ternas d'então, certas lagrimas exageradas! Devia estar +mudado o primo Bazilio. Lembrava-se bem d'elle--alto, delgado, um +ar fidalgo, o pequenino bigode preto levantado, o olhar atrevido, e +um geito de metter as mãos nos bolsos das calças fazendo tilintar +o dinheiro e as chaves! _Aquillo_ começára em Cintra, por grandes +partidas de bilhar muito alegres, na quinta do tio João de Brito, +em Collares. Bazilio tinha chegado então d'Inglaterra: vinha muito +_bife_, usava gravatas escarlates passadas n'um annel d'ouro, fatos +de flanella branca, espantava Cintra! Era na sala de baixo pintada a +oca, que tinha um ar antigo e morgado; uma grande porta envidraçada +abria para o jardim, sobre tres degraus de pedra. Em roda do repuxo +havia romanzeiras, onde elle apanhava flôres escarlates. A folhagem +verde-escura e polida dos arbustos de camelias fazia ruasinhas +sombrias; pedaços de sol faiscavam, tremiam na agua do tanque; duas +rôlas, n'uma gaiola de vime, arrulhavam dôcemente;--e, no silencio +aldeão da quinta, o ruido secco das bolas de bilhar tinha um tom +aristocratico. + +Depois, vieram todos os episodios classicos dos amores lisboetas +passados em Cintra: os passeios em Sitiaes ao luar, devagar, +sobre a relva pallida, com grandes descanços calados no Penedo da +Saudade, vendo o valle, as arêas ao longe, cheias d'uma luz saudosa, +idealisadora e branca; as séstas quentes, nas sombras da Penha Verde, +ouvindo o rumor fresco e gottejante das aguas que vão de pedra em +pedra; as tardes na varzea de Collares, remando n'um velho bote, sobre +a agua escura da sombra dos freixos,--e que risadas quando iam encalhar +nas hervagens altas, e o seu chapéo de palha se prendia aos ramos +baixos dos choupos! + +Sempre gostára muito de Cintra! Logo ao entrar os arvoredos escuros e +murmurosos do Ramalhão lhe davam uma melancolia feliz! + +Tinham muita liberdade, ella e o primo Bazilio. A mamã, coitadinha, +toda scismatica, com rheumatismo, egoista, deixava-os, sorria, +dormitava: Bazilio era rico, então, chamava-lhe tia Jójó, trazia-lhe +cartuchos de dôce... + +Veio o inverno, e aquelle amor foi-se abrigar na velha sala forrada +de papel _sangue-de-boi_ da rua da Magdalena. Que bons serões alli! A +mamã resonava baixo, com os pés embrulhados n'uma manta, o volume da +_Bibliotheca das Damas_ cahido sobre o regaço. E elles, muito chegados, +muito felizes no sophá! O _sophá_! Quantas recordações! Era estreito e +baixo, estofado de casimira clara, com uma tira ao centro, bordada por +ella, amores perfeitos amarellos e roxos sobre um fundo negro. Um dia +veio o _final_. João de Brito, que fazia parte da firma Bastos & Brito, +falliu. A casa d'Almada, a quinta de Collares foram vendidas. + +Bazilio estava pobre, partiu para o Brazil. Que saudades! Passou +os primeiros dias sentada no sophá querido, soluçando baixo, com a +photographia d'elle entre as mãos. Vieram então os sobresaltos das +cartas esperadas, os recados impacientes ao escriptorio da Companhia, +quando os paquetes tardavam... + +Passou um anno. Uma manhã, depois d'um grande silencio de Bazilio, +recebeu da Bahia uma longa carta, que começava: «Tenho pensado muito e +entendo que devemos considerar a nossa inclinação como uma criancice...» + +Desmaiou logo. Bazilio affectava muita dôr em duas laudas cheias +d'explicações: que estava ainda pobre; que teria de luctar muito antes +de ter para dous; o clima era horrivel; não a queria sacrificar, pobre +anjo; chamava-lhe minha «pomba» e assignava o seu nome todo, com uma +firma complicada. + +Viveu triste durante mezes. Era no inverno; e sentada á janella, por +dentro dos vidros, com o seu bordado de lã, julgava-se desilludida, +pensava no convento, seguindo com um olhar melancolico os guarda-chuvas +gottejantes que passavam sob as cordas d'agua; ou sentando-se ao piano, +ao anoitecer, cantava Soares de Passos: + + Ai! adeus, acabaram-se os dias + Que ditoso vivi a teu lado... + +ou o final da _Traviata_, ou o fado do Vimioso, muito triste, que elle +lhe ensinára. + +Mas então o catarrho da mamã aggravou-se; vieram os sustos, as noites +veladas. Na convalescença foram para Bellas: ligou-se alli muito com +as Cardosos, duas irmãs magras, estouvadas e esguias, sempre colladas +uma á outra, com um passinho trotado e secco, como um casal de galgos. +O que riam, Jesus! O que fallavam dos homens! Um tenente de artilheria +tinha-se apaixonado por ella. Era vesgo, mandou-lhe uns versos, _Ao +Lyrio de Bellas_: + + Sobre a encosta da collina + Cresce o lyrio virginal... + +Foi um tempo muito alegre, cheio de consolações. + +Quando voltaram no inverno tinha engordado, trazia boas côres. E um +dia, tendo achado n'uma gaveta uma photographia que logo ao principio +Bazilio lhe mandára da Bahia, de calça branca e chapéo _panamá_, +fitou-a, encolhendo os hombros: + +--E o que eu me ralei por esta figura! Que tôla! + +Tinham passado tres annos quando conheceu Jorge. Ao principio não lhe +agradou. Não gostava dos homens barbados: depois percebeu que era a +primeira barba, fina, rente, muito macia de certo; começou a admirar +os seus olhos, a sua frescura. E sem o amar, sentia ao pé d'elle como +uma fraqueza, uma dependencia e uma quebreira, uma vontade d'adormecer +encostada ao seu hombro, e de ficar assim muitos annos, confortavel, +sem receio de nada. Que sensação quando elle lhe disse: Vamos casar, +hein! Viu de repente o rosto barbado, com os olhos muito luzidios, +sobre o mesmo travesseiro, ao pé do seu! Fez-se escarlate. Jorge +tinha-lhe tomado a mão: ella sentia o calor d'aquella palma larga +penetral-a, tomar posse d'ella: disse que _sim_, ficou como idiota, +e sentia debaixo do vestido de merino dilatarem-se dôcemente os seus +seios. Estava noiva, emfim! Que alegria, que descanço para a mamã! + +Casaram ás oito horas, n'uma manhã de nevoeiro. Foi necessario +accender luz para lhe pôr a corôa e o véo de tulle. Todo aquelle dia +lhe apparecia como ennevoado, sem contornos, á maneira d'um sonho +antigo--onde destacava a cara balofa e amarellada do padre, e a figura +medonha d'uma velha, que estendia a mão adunca, com uma sofreguidão +colerica, empurrando, rogando pragas, quando, á porta da igreja, +Jorge commovido distribuia patacos. Os sapatos de setim apertavam-na. +Sentira-se enjoada da madrugada, fôra necessario fazer-lhe chá verde +muito forte. E tão cançada á noite n'aquella casa nova, depois de +desfazer os seus bahus!--Quando Jorge apagou a véla, com um sopro +tremulo, SS luminosos faiscavam, corriam-lhe diante dos olhos. + +Mas era o seu marido, era novo, era forte, era alegre: pôz-se a +adoral-o. Tinha uma curiosidade constante da sua pessoa e das suas +cousas, mexia-lhe no cabello, na roupa, nas pistolas, nos papeis. +Olhava muito para os maridos das outras, comparava, tinha orgulho +n'elle. Jorge envolvia-a em delicadezas d'amante, ajoelhava-se +aos seus pés, era muito _dengueiro_. E sempre de bom humor, com +muita graça: mas nas cousas da sua profissão ou do seu brio tinha +severidades exageradas, e punha então nas palavras, nos modos uma +solemnidade carrancuda. Uma amiga d'ella romanesca, que via em tudo +dramas, tinha-lhe dito: é homem para te dar uma punhalada. Ella que +não conhecia ainda então o temperamento placido de Jorge acreditou, +e isso mesmo creou uma exaltação no seu amor por elle. Era o seu +_tudo_,--a sua força, o seu fim, o seu destino, a sua religião, o +seu homem!--Pôz-se a pensar, o que teria succedido se tivesse casado +com o primo Basilio. Que desgraça, hein! Onde estaria? Perdia-se em +supposições d'outros destinos, que se desenrolavam, como pannos de +theatro: via-se no Brazil, entre coqueiros, embalada n'uma rede, +cercada de negrinhos, vendo voar papagaios! + +--Está alli a snr.^a D. Leopoldina--veio dizer Juliana. + +Luiza ergueu-se surprehendida. + +--Hein? A snr.^a D. Leopoldina? Para que mandou entrar? + +Poz-se a abotoar á pressa o roupão. Jesus! Olha se Jorge soubesse! Elle +que lhe tinha dito tantas vezes «que a não queria em casa!» Mas se já +estava na sala, agora, coitada! + +--Está bom, diga-lhe que já vou. + +Era a sua intima amiga. Tinham sido visinhas, em solteiras, na rua +da Magdalena, e estudado no mesmo collegio, á Patriarchal, na Rita +Pessoa, a côxa. Leopoldina era a filha unica do visconde de Quebraes, +o devasso, o cachetico, que fôra pagem de D. Miguel. Tinha feito +um casamento infeliz com um João Noronha, empregado da alfandega. +Chamavam-lhe a «Quebraes»; chamavam-lhe tambem a «Pão e queijo». + +Sabia-se que tinha amantes, dizia-se que tinha vicios. Jorge odiava-a. +E dissera muitas vezes a Luiza: Tudo, menos a Leopoldina! + + + +Leopoldina tinha então vinte e sete annos. Não era alta, mas passava +por ser a mulher mais bem feita de Lisboa. Usava sempre os vestidos +muito collados, com uma justeza que accusava, modelava o corpo como uma +pellica, sem largueza de roda, apanhados atraz. Dizia-se d'ella, com +os olhos em alvo: é uma estatua, é uma Venus! Tinha hombros de modêlo, +d'uma redondeza descahida e cheia; sentia-se nos seus seios, mesmo +através do corpete, o desenho rijo e harmonioso de duas bellas metades +de limão; a linha dos quadris rica e firme, certos quebrados vibrantes +de cintura faziam voltar os olhares accesos dos homens. A cara era um +pouco grosseira; as asas do nariz tinham uma dilatação carnuda; na +pelle, muito fina, d'um trigueiro quente e córado, havia signaesinhos +desvanecidos d'antigas bexigas. A sua belleza eram os olhos, d'uma +negrura intensa, afogados n'um fluido, muito _quebrados_, com grandes +pestanas. + +Luiza veio para ella com os braços abertos, beijaram-se muito. E +Leopoldina, sentada no sophá, enrolando devagarinho a sêda clara +do guarda-sol, começou a queixar-se: Tinha estado adoentada, muito +seccada, com tonturas. O calor matava-a. E que tinha ella feito? +Achava-a mais gorda. + +Como era um pouco curta de vista, para se affirmar piscava ligeiramente +os olhos, descerrando os beiços gordinhos, d'um vermelho calido. + +--A felicidade dá tudo, até boas côres!--disse, sorrindo. + +O que a trazia era perguntar-lhe a morada da franceza que lhe fazia os +chapéos. E ha tanto tempo que a não via, já tinha saudades, tambem! + +--Mas não imaginas! Que calor! Venho morta. + +E deixou-se cahir sobre a almofada do sophá, encalmada, com um sorriso +aberto, mostrando os dentes brancos e grandes. + +Luiza disse-lhe a morada da franceza, gabou-lh'a; era barateira e +tinha bom gosto. Como a sala estava escura foi entre-abrir um pouco +as portadas da janella. Os estofos das cadeiras e as bambinellas eram +de reps verde-escuro; o papel e o tapete com desenhos de ramagens +tinham o mesmo tom, e n'aquella decoração sombria destacavam muito--as +molduras douradas e pesadas de duas gravuras (a _Medea_ de Delacroix e +a _Martyr_ de Delaroche), as encadernações escarlates dos dois vastos +volumes do Dante de G. Doré, e entre as janellas o oval d'um espelho +onde se reflectia um napolitano de _biscuit_ que, na console, dançava a +_tarantella_. + +Por cima do sophá pendia o retrato da mãi de Jorge, a oleo. Estava +sentada, vestida ricamente de preto, direita no seu corpete +espartilhado e secco: uma das mãos, d'um livido morto, pousava nos +joelhos sobrecarregada d'anneis; a outra perdia-se entre as rendas +muito trabalhadas d'um mantelete de setim; e aquella figura longa, +macilenta, com grandes olhos carregados de negro, destacava sobre uma +cortina escarlate, corrida em pregas copiosamente quebradas, deixando +vêr para além céos azulados e redondezas d'arvoredos. + +--E teu marido?--perguntou Luiza, vindo sentar-se muito junto de +Leopoldina. + +--Como sempre. Pouco divertido--respondeu, rindo. E, com um ar serio, a +testa um pouco franzida:--Sabes que acabei com o Mendonça? + +Luiza fez-se ligeiramente vermelha. + +--Sim? + +Leopoldina deu logo detalhes. + +Era muito indiscreta, fallava muito de si, das suas sensações, da +sua alcova, das suas contas. Nunca tivera segredos para Luiza; e na +sua necessidade de fazer confidencias, de gozar a admiração d'ella, +descrevia-lhe os seus amantes, as opiniões d'elles, as maneiras +d'amar, os _tics_, a roupa, com grandes exagerações! Aquillo era +sempre muito picante, cochichado ao canto d'um sophá, entre risinhos: +Luiza costumava escutar, toda interessada, as maçãs do rosto um pouco +envergonhadas, pasmada, saboreando, com um arzinho beato. Achava tão +curioso! + +--D'esta vez é que bem posso dizer que me enganei, minha rica +filha!--exclamou Leopoldina erguendo os olhos desoladamente. + +Luiza riu. + +--Tu enganas-te quasi sempre! + +Era verdade! Era infeliz! + +--Que queres tu? De cada vez imagino que é uma paixão, e de cada vez me +sahe uma massada! + +E picando o tapete com a ponta da sombrinha: + +--Mas se um dia acerto! + +--Vê se acertas--disse Luiza.--Já é tempo! + +Ás vezes na sua consciencia achava Leopoldina «indecente»; mas tinha +um fraco por ella: sempre admirára muito a belleza do seu corpo, que +quasi lhe inspirava uma attracção physica. Depois desculpava-a: era tão +infeliz com o marido! Ia atraz da Paixão, coitada! E aquella grande +palavra, faiscante e mysteriosa, d'onde a felicidade escorre como a +agua d'uma taça muito cheia, satisfazia Luiza como uma justificação +sufficiente: quasi lhe parecia uma heroina; e olhava-a com espanto como +se consideram os que chegam d'alguma viagem maravilhosa e difficil, +d'episodios excitantes. Só não gostava de certo cheiro de tabaco +misturado de _feno_, que trazia sempre nos vestidos. Leopoldina fumava. + +--E que fez elle, o Mendonça? + +Leopoldina encolheu os hombros, com um grande tedio: + +--Escreveu-me uma carta muito tôla, que a final bem considerado era +melhor que acabasse tudo, porque não estava para se metter em camisa +d'onze varas! Que imbecil! Até devo ter aqui a carta. + +Procurou na algibeira do vestido: tirou o lenço, uma carteirinha, +chaves, uma caixinha de pó de arroz; mas encontrou apenas um programma +do _Price_. + +Fallou então do circo.--Uma semsaboria. O melhor era um rapaz que +trabalhava no trapezio. Lindo rapaz, bem feito, uma perfeição! + +E de repente: + +--Então teu primo Bazilio chega? + +--Assim li hoje no _Diario de Noticias_. Fiquei pasmada! + +--Ah! outra cousa que te queria perguntar antes que me esqueça. Com que +guarneceste tu aquelle teu vestido de xadrezinho azul? Vou mandar fazer +um assim. + +Tinha-o guarnecido d'azul tambem, um azul mais escuro.--Vem vêr. Vem cá +dentro. + +Entraram no quarto. Luiza foi descerrar a janella, abrir o +guarda-vestidos. Era um quarto pequeno, muito fresco, com _cretones_ +d'um azul pallido. Tinha um tapete barato, de fundo branco, com +desenhos azulados. O toucador, alto, estava entre as duas janellas, +sob um docel de renda grossa, muito ornado de frascos facetados. Entre +as bambinellas, em mesas redondas de pé de gallo, plantas espessas, +Begonias, Makoamas, dobravam decorativamente a sua folhagem rica e +forte, em vasos de barro vermelho vidrado. + +Aquelles arranjos confortaveis lembraram de certo a Leopoldina +felicidades tranquillas. Pôz-se a dizer devagar, olhando em roda: + +--E tu, sempre muito apaixonada por teu marido, hein? Fazes bem, filha, +tu é que fazes bem! + +Foi defronte do toucador, applicar pó d'arroz no pescoço, nas faces: + +--Tu é que fazes bem!--repetia--Mas vá lá uma mulher prender-se a um +homem como o meu! + +Sentou-se na _causeuse_ com um ar muito abandonado; vieram as queixas +habituaes sobre seu marido: era tão grosseiro! era tão egoista! + +--Acreditarás que ha tempos para cá, se não estou em casa ás quatro +horas, não espera, põe-se á mesa, janta, deixa-me os restos! E depois +desleixado, enxovalhado, sempre a cuspir nas esteiras... O quarto +d'elle--nós temos dous quartos, como tu sabes--é um chiqueiro! + +Luiza disse com severidade: + +--Que horror! A culpa tambem é tua. + +--Minha!--e endireitou-se, luziam-lhe os olhos, mais largos, mais +negros.--Não me faltava mais nada senão occupar-me do quarto do homem! + +Ah! era muito desgraçada, era a mulher mais desgraçada que havia no +mundo! + +--Nem ciumes tem, o bruto! + +Mas Juliana entrou, tossiu, e arranjando ainda o collar e o broche: + +--A senhora sempre quer que engomme os colletes todos? + +--Todos, já lhe disse. Hão-de ficar á noite na mala antes de se ir +deitar. + +--Que mala? Quem parte?--perguntou Leopoldina. + +--O Jorge. Vai ás minas, ao Alemtejo. + +--Então estás só, posso vir vêr-te! Ainda bem! + +E sentou-se logo ao pé d'ella, com um olhar que se fizera dôce. + +--É que tenho tanto que te contar! Se tu soubesses, filha! + +--O quê? Outra paixão?--fez Luiza rindo. + +A face de Leopoldina tornou-se grave. + +Não era p'ra rir. Estava de todo! Era por isso até que tinha vindo. +Sentira-se tão só em casa, tão nervosa!--Vou até Luiza, vou palrar um +bocado! + +E com a voz mais baixa, quasi solemne: + +--D'esta vez é serio, Luiza!--Deu os detalhes. Era um rapaz alto, +louro, lindo! E que talento! É poeta!--Dizia a palavra com devoção, +prolongando o som das syllabas.--É poeta! + +Desapertou devagar dous botões do corpete, tirou do seio um papel +dobrado. Eram versos. + +E muito chegada para Luiza, com as narinas dilatadas pela delicia da +sensação, leu baixo, com orgulho, com pompa: + + +A TI + + _Pharol da Guia, 5 de junho._ + + Quando scismo á hora do poente + Sobre os rochedos onde brame o mar... + +Era uma elegia. O rapaz contava, em quadras, as longas contemplações +em que a via a ella, Leopoldina, _visão radiosa que deslisas leve_, +nas aguas dormentes, nas vermelhidões do occaso, na brancura das +espumas. Era uma composição delambida, d'um sentimentalismo reles, com +um ar tisico, muito lisboeta, cheia de versos errados. E terminando +dizia-lhe, que não era «nos esplendores das salas» ou nos «bailes +febricitantes» que gostava de a vêr: era alli, n'aquelles rochedos, + + Onde todos os dias ao sol posto + Eu vejo adormecer o mar gigante. + +--Que bonito, hein! + +Ficaram caladas, com uma commoçãosinha. + +Leopoldina, com os olhos perturbados, repetia a data, amorosamente: + +--Pharol da Guia, 5 de junho! + +Mas o relogio do quarto deu quatro horas. Leopoldina ergueu-se logo, +atarantada, metteu o poema no seio. + +Tinha de se ir já! Fazia-se tarde, senão o outro, punha-se á mesa. +Tinha um ruivo assado para o jantar. E peixe frio era a cousa mais +estupida! + +--Adeus. Até breve, não?--E agora que Jorge ia para fóra, havia de vir +muito.--Adeus. Então a franceza, rua do Ouro, por cima do estanque? + +Luiza foi com ella até ao patamar. Leopoldina já no fundo da escada, +ainda parou, gritou: + +--Sempre te parece que guarneça o vestido d'azul, hein? + +Luiza debruçou-se sobre o corrimão: + +--Eu assim fiz, é o melhor... + +--Adeus! Rua do Ouro, por cima do estanque. + +--Sim. Rua do Ouro. Adeus.--E com um gritinho:--Porta á direita, Madame +François. + + + +Jorge voltou ás cinco horas, e logo da porta do quarto, pondo a bengala +a um canto: + +--Já sei que tiveste cá uma visita. + +Luiza voltou-se, um pouco córada. Estava diante do toucador já +penteada, com um vestido de linho branco, guarnecido de rendas. + +Era verdade, tinha vindo a Leopoldina. Juliana mandára-a entrar... +Ficára mais contrariada! Era por causa da _adresse_ da franceza dos +chapéos. Tinha-se demorado dez minutos.--Quem te disse? + +--Foi a Juliana: que a snr.^a D. Leopoldina tinha estado toda a tarde. + +--Toda a tarde! que tolice, esteve dez minutos, se tanto! + +Jorge tirava as luvas, calado. Chegou-se á janella, pôz-se a sacudir +as duras folhas d'uma Begonia malhada d'um vermelho doente, com uma +baba prateada. Assobiava baixo; e parecia todo occupado em conchegar +um botão d'Amarilis aninhado entre a sua folhagem luzidia, como um +pequenino coração assustado. + +Luiza ia passando o seu medalhão d'ouro n'uma longa fita de velludo +preto: tinha uma tremura nas mãos, estava vermelha. + +--O calor tem-lhes feito mal--disse. + +Jorge não respondeu. Assobiou mais alto, foi á outra janella, bateu +com os dedos nas folhas elasticas d'uma Makoama de tons verdes e +sanguineos, e, alargando impacientemente o collarinho como um homem +suffocado: + +--Ouve lá, é necessario que deixes por uma vez de receber essa +creatura. É necessario acabar por uma vez! + +Luiza fez-se escarlate. + +--É por causa de ti! é por causa dos visinhos! é por causa da decencia! + +--Mas foi a Juliana...--balbuciou Luiza. + +--Mandasse-l'a sahir outra vez. Que estavas fóra! que estavas na China! +que estavas doente! + +Parou, com um tom desconsolado, abrindo os braços: + +--Minha rica filha, é que todo o mundo a conhece. É a Quebraes! É a +_Pão e queijo_! É uma vergonha! + +Citava-lhe os seus amantes, exasperado: O Carlos Viegas, o magro, de +bigode cahido, que escrevia comedias para o Gymnasio! O Santos Madeira, +o picado das bexigas, com uma gaforinha! O Melchior Vadio, um _gingão_ +desossado, com um olhar de carneiro morto, sempre a fumar n'uma enorme +boquilha! O Pedro Camara, o bonito! O Mendonça dos callos! _Tutti +quanti!_ + +E encolhendo os hombros, exasperado: + +--Como se eu não percebesse que ella esteve aqui! Só pelo cheiro! Este +horrivel cheiro de feno! Vossês foram creadas juntas, etc., tudo isso +é muito bom. Has-de desculpar, mas se a encontro na escada, corro-a! +Corro-a! + +Parou um momento, e commovido: + +--Ora, vamos, Luiza, confessa. Tenho ou não razão? + +Luiza punha os brincos, ao espelho, atarantada: + +--Tens--disse. + +--Ah! bem! + +E sahiu, furioso. + +Luiza ficou immovel. Uma lagrimasinha redonda, clara, rolava-lhe pela +aza do nariz. Assoou-se muito doloridamente. Aquella Juliana! Aquella +bisbilhoteira! De má! Para fazer sizania! + +Veio-lhe então uma colera. Foi ao quarto dos engommados, atirou com a +porta: + +--Para que foi vossê dizer quem esteve ou quem deixou d'estar? + +Juliana, muito surprehendida, pousou o ferro: + +--Pensei que não era segredo, minha senhora. + +--Está claro que não! Tola! quem lhe diz que era segredo? E para que +mandou entrar? Não lhe tenho dito muitas vezes que não recebo a snr.^a +D. Leopoldina? + +--A senhora nunca me disse nada--replicou, toda offendida, cheia de +verdade. + +--Mente! Cale-se! + +Voltou-lhe as costas; veio para o quarto, muito nervosa, foi +encostar-se á vidraça. + +O sol desapparecera; na rua estreita havia uma sombra igual, de tarde +sem vento: pelas casas, de uma edificação velha, escuras, estavam +abertas as varandas onde em vasos vermelhos se mirrava alguma velha +planta miseravel, manjaricão ou cravo; ouvia-se, no teclado melancolico +d'um piano, a _Oração de uma virgem_, tocada por alguma menina, no +sentimentalismo vadio do domingo; e na sua janella, defronte, as quatro +filhas do Teixeira Azevedo, magrinhas, com os cabellos muito riçados, +as olheiras pisadas, passavam a sua tarde de dia santo, olhando para a +rua, para o ar, para as janellas visinhas, cochichando se viam passar +um homem--ou debruçadas, com uma attenção idiota, faziam pingar saliva +sobre as pedras da calçada. + +Jorge tinha razão, coitado! pensava Luiza. Mas, tambem, que podia ella +fazer? Já não ia a casa de Leopoldina, tirára o seu retrato do album +da sala, vira-se obrigada a confessar-lhe a repugnancia de Jorge, +tinham chorado ambas, até! Coitada! Só a recebia de longe a longe, uma +raridade, um momento! E emfim, depois d'ella estar na sala, não a havia +d'ir empurrar pela escada abaixo! + +Um homem grosso, de pernas tortas, curvado sob um realejo, appareceu +então ao alto da rua; as suas barbas pretas tinham um aspecto feroz; +parou, poz-se a voltear a manivella, levantando em redor, para as +janellas, um sorriso triste de dentes brancos, e a _Casta Diva_! com +uma sonoridade metallica e secca, muito tremida, espalhou-se pela rua. + +Gertrudes, a criada e a concubina do doutor de mathematica, veio +encostar logo aos caixilhos estreitos da janella a sua vasta face +trigueira de quarentona farta e estabelecida; adiante, na sacada +aberta d'um segundo andar, debruçou-se a figura do Cunha Rosado, magro +e chupado, com um boné de borla, o aspecto desconsolado do doente +d'intestinos, conchegando com as mãos transparentes o robe-de-chambre +ao ventre. Outras faces enfastiadas mostraram-se entre as bambinellas +de caça. + +Na rua, a estanqueira chegou-se á porta, vestida de luto, estendendo +o seu carão viuvo, os braços cruzados sobre o chale tingido de preto, +esguia nas longas saias escoadas. Da loja, por baixo da casa Azevedo, +veio a carvoeira, enorme de gravidez bestial, o cabello esguedelhado +em repas seccas, a cara oleosa e enfarruscada, com tres pequenos meio +nús, quasi negros, chorões e hirsutos, que se lhe penduravam da saia +de chita. E o Paula, com loja de trastes velhos, adiantou-se até ao +meio da rua; a pala de verniz do seu boné de pano preto nunca se +erguia de cima dos olhos; escondia sempre as mãos, como para ser mais +reservado, por traz das costas, debaixo das abas do seu casaco de +cotim branco; o calcanhar sujo da meia sahia-lhe para fóra da chinella +bordada a missanga; e fazia roncar o seu pigarro chronico de um modo +despeitado. Detestava os reis e os padres. O estado das cousas publicas +enfurecia-o. Assobiava frequentemente a _Maria da Fonte_; e mostrava-se +nas suas palavras, nas suas attitudes, um patriota exasperado. + +O homem do realejo tirou o seu largo chapéo desabado e, tocando sempre, +ia-o estendendo em redor para as janellas, com um olhar necessitado. +As Azevedos tinham logo fechado violentamente a vidraça. A carvoeira +deu-lhe uma moeda de cobre; mas interrogou-o; quiz de certo saber de +que paiz era, por que estradas tinha vindo, e quantas peças tinha o +instrumento. + +Gente endomingada começava a recolher, com um ar derreado do longo +passeio, as botas empoeiradas: mulheres de chale, vindas das hortas, +traziam ao collo as crianças adormecidas da caminhada e do calor: +velhos placidos, de calça branca, o chapéo na mão, gozavam a frescura, +dando um giro no bairro: pelas janellas, bocejava-se: o céo tomava +uma côr azulada e polida, como uma porcelana: um sino repicava a +distancia o fim d'alguma festa d'igreja: e o domingo terminava, com uma +serenidade cançada e triste. + +--Luiza--disse a voz de Jorge. + +Ella voltou-se, com um vago--hein? + +--Vamos jantar, filha; são sete horas. + +No meio do quarto, tomou-a pela cinta, e fallando-lhe baixo, junto á +face: + +--Tu zangaste-te ha bocado? + +--Não! Tu tens razão. Conheço que tens razão. + +--Ah!--fez elle com um tom victorioso, muito satisfeito.--Está claro, + + Quem melhor conselheiro e bom amigo + Que o marido que a alma m'escolheu? + +E com uma ternura grave: + +--Minha querida filha, esta nossa casinha é tão honesta, que é uma dôr +d'alma vêr entrar essa mulher aqui, com o cheiro do _feno_, do cigarro, +e do resto!... _Mà, di questo no parlaremo più, o donna mia!_ Á sopa! + + + + +II + + +Aos domingos á noite havia em casa de Jorge uma pequena reunião, uma +_cavaqueira_, na sala, em redor do velho candieiro de porcelana côr de +rosa. Vinham apenas os intimos. «O Engenheiro», como se dizia na rua, +vivia muito ao seu canto, sem visitas. Tomava-se chá, palrava-se. Era +um pouco _á estudante_. Luiza fazia crochet, Jorge cachimbava. + +O primeiro a chegar era Julião Zuzarte, um parente muito afastado de +Jorge, e seu antigo condiscipulo nos primeiros annos da Polytechnica. +Era um homem secco e nervoso, com lunetas azues, os cabellos compridos +cahidos sobre a gola. Tinha o curso de cirurgião da Escóla. Muito +intelligente, estudava desesperadamente, mas, como elle dizia, era +um _tumba_. Aos trinta annos, pobre, com dividas, sem clientella, +começava a estar farto do seu quarto andar na Baixa, dos seus jantares +de doze vintens, do seu paletot coçado d'alamares; e entalado na +sua vida mesquinha, via os outros, os mediocres, os superficiaes, +_furar_, subir, installar-se á larga na prosperidade! «Falta de +_chance_», dizia. Podia ter aceitado um partido da camara n'uma villa +da provincia, com pulso livre, ter uma casa _sua_, a _sua_ creação no +quintal. Mas tinha um orgulho resistente, muita fé nas suas faculdades, +na sua sciencia, e não se queria ir enterrar n'uma terriola adormecida +e lugubre, com tres ruas onde os porcos fossam. Toda a provincia o +aterrava; via-se lá obscuro, jogando a manilha na Assembléa, morrendo +de cachexia. Por isso não «arredava pé»; e esperava, com a tenacidade +do plebeu sofrego, uma clientella rica, uma cadeira na Escóla, um +coupé para as visitas, uma mulher loura com dote. Tinha certeza do +seu direito a estas felicidades, e como ellas tardavam a chegar ia-se +tornando despeitado e amargo; andava amuado com a vida; cada dia se +prolongavam mais os seus silencios hostis, roendo as unhas: e, nos dias +melhores, não cessava de ter ditos sêccos, _tiradas_ azedadas--em que a +sua voz desagradavel cahia como um gume gelado. + +Luiza não gostava d'elle; achava-lhe um _ar nordeste_, detestava o seu +tom de pedagogo, os reflexos negros da luneta, as calças curtas que +mostravam o elastico roto das botas. Mas disfarçava, sorria-lhe, porque +Jorge admirava-o, dizia sempre d'elle: Tem muito espirito! tem muito +talento! grande homem! + +Como vinha mais cedo ia á sala de jantar, tomava a sua chavena de café; +e tinha sempre um olhar de lado para as pratas do aparador e para as +_toilettes_ frescas de Luiza. Aquelle parente, um _mediocre_, que +vivia confortavelmente, bem casado, com a carne contente, estimado no +ministerio, com alguns contos de reis em inscripções--parecia-lhe uma +injustiça e pezava-lhe como uma humilhação. Mas affectava estimal-o; ia +sempre ás noites, aos domingos; escondia então as suas preoccupações, +cavaqueava, tinha pilherias,--mettendo a cada momento os dedos pelos +seus cabellos compridos, seccos e cheios de caspa. + +Ás nove horas, ordinariamente, entrava D. Felicidade de Noronha. Vinha +logo da porta com os braços estendidos, o seu bom sorriso dilatado. +Tinha cincoenta annos, era muito nutrida, e, como soffria de dyspepsia +e de gazes, áquella hora não se podia espartilhar e as suas fórmas +transbordavam. Já se viam alguns fios brancos nos seus cabellos +levemente annelados, mas a cara era lisa e redonda, cheia, d'uma alvura +baça e molle de freira; nos olhos papudos, com a pelle já engelhada em +redor, luzia uma pupilla negra e humida, muito mobil; e aos cantos da +bocca uns pellos de buço pareciam traços leves e circumflexos d'uma +penna muito fina. Fôra a intima amiga da mãi de Luiza, e tomára aquelle +habito de vir vêr a _pequena_ aos domingos. Era fidalga, dos Noronhas +de Redondella, bastante aparentada em Lisboa, um pouco devota, muito da +Encarnação. + +Mal entrava, ao pôr um beijo muito cantado na face de Luiza, +perguntava-lhe baixo, com inquietação: + +--Vem? + +--O conselheiro? Vem. + +Luiza sabia-o. Porque o conselheiro, o conselheiro Accacio, nunca +vinha aos _chás de D. Luiza_, como elle dizia, sem ter ido na vespera +ao ministerio das obras publicas procurar Jorge, declarar-lhe com +gravidade, curvando um pouco a sua alta estatura: + +--Jorge, meu amigo, ámanhã lá irei pedir a sua boa esposa a minha +chavena de chá. + +Ordinariamente acrescentava: + +--E os seus valiosos trabalhos progridem? Ainda bem! Se vir o ministro, +os meus respeitos a s. exc.^a Os meus respeitos a esse formoso talento! + +E sahia, pisando com solemnidade os corredores enxovalhados. + +Havia cinco annos que D. Felicidade o amava. Em casa de Jorge riam-se +um pouco com aquella _chamma_. Luiza dizia: Ora! é uma caturrice +d'ella! Viam-na córada e nutrida, e não suspeitavam que aquelle +sentimento concentrado, irritado semanalmente, queimando em silencio, +a ia devastando como uma doença e desmoralisando como um vicio. Todos +os seus ardores até ahi tinham sido inutilisados. Amára um official de +lanceiros que morrêra, e apenas conservava o seu daguerreotypo. Depois +apaixonára-se muito occultamente por um rapaz padeiro, da visinhança, +e vira-o casar. Dera-se então toda a um cão, o _Bilro_; uma criada +despedida deu-lhe por vingança rolha cozida; o _Bilro_ rebentou, e +tinha-o agora empalhado na sala de jantar. A pessoa do conselheiro +viera de repente, um dia, pegar fogo áquelles desejos, sobrepostos +como combustiveis antigos. Accacio tornára-se a sua _mania_: admirava +a sua figura e a sua gravidade, arregalava grandes olhos para a sua +eloquencia, achava-o n'uma «linda posição». O conselheiro era a sua +ambição e o seu vicio! Havia sobretudo n'elle uma belleza, cuja +contemplação demorada a estonteava como um vinho forte: era a calva. +Sempre tivera o gosto perverso de certas mulheres pela calva dos +homens, e aquelle appetite insatisfeito inflammára-se com a idade. +Quando se punha a olhar para a calva do conselheiro, larga, redonda, +polida, brilhante ás luzes, uma transpiração anciosa humedecia-lhe +as costas, os olhos dardejavam-lhe, tinha uma vontade absurda, avida +de lhe deitar as mãos, palpal-a, sentir-lhe as fórmas, amassal-a, +penetrar-se d'ella! Mas disfarçava, punha-se a fallar alto com um +sorriso parvo, abanava-se convulsivamente, e o suor gottejava-lhe nas +rôscas anafadas do pescoço. Ia para casa rezar estações, impunha-se +penitencias de muitas corôas á Virgem; mas apenas as orações findavam, +começava o temperamento a latejar. E a boa, a pobre D. Felicidade +tinha agora pesadêlos lascivos, e as melancolias do hysterismo velho! +A indifferença do conselheiro irritava-a mais: nenhum olhar, nenhum +suspiro, nenhuma revelação amorosa o commovia! Era para com ella +glacial e polido. Tinham-se ás vezes encontrado a sós, á parte, no +vão favoravel d'uma janella, no isolamento mal alumiado d'um canto +do sophá,--mas apenas ella fazia uma demonstração sentimental, elle +erguia-se bruscamente, afastava-se, severo e pudico. Um dia ella +julgára perceber que, por traz das suas lunetas escuras, o conselheiro +lhe deitava de revés um olhar apreciador para a abundancia do seio; +fôra mais clara, mais urgente, fallára em _paixão_, disse-lhe baixo: +Accacio!... Mas elle com um gesto gelou-a--e de pé, grave: + +--Minha senhora, + + As neves que na fronte se accumulam + Terminam por cahir no coração... + +É inutil, minha senhora! + +O martyrio de D. Felicidade era muito occulto, muito disfarçado; +ninguem o sabia; conheciam-lhe as infelicidades do sentimento, +ignoravam-lhe as torturas do desejo. E um dia Luiza ficou attonita, +sentindo D. Felicidade agarrar-lhe o pulso com a mão humida, e +dizer-lhe baixo, os olhos cravados no conselheiro: + +--Que regalo d'homem! + +Fallava-se n'essa noite do Alemtejo, d'Evora e das suas riquezas, da +capella dos ossos, quando o conselheiro entrou com o paletot no braço. +Foi-o dobrar solicitamente n'uma cadeira a um canto, e no seu passo +aprumado e official, veio apertar as mãos ambas de Luiza, dizendo-lhe +com uma voz sonora, de _papo_: + +--Minha boa snr.^a D. Luiza, de perfeita saude, não? O nosso Jorge +tinha-m'o dito. Ainda bem! Ainda bem! + +Era alto, magro, vestido todo de preto, com o pescoço entalado n'um +collarinho direito. O rosto aguçado no queixo ia-se alargando até á +calva, vasta e polida, um pouco amolgada no alto; tingia os cabellos +que d'uma orelha á outra lhe faziam collar por traz da nuca--e aquelle +preto lustroso dava, pelo contraste, mais brilho á calva; mas não +tingia o bigode: tinha-o grisalho, farto, cahido aos cantos da bocca. +Era muito pallido; nunca tirava as lunetas escuras. Tinha uma covinha +no queixo, e as orelhas grandes muito despegadas do craneo. + +Fôra, outr'ora, director geral do ministerio do reino, e sempre que +dizia--El-rei! erguia-se um pouco na cadeira. Os seus gestos eram +medidos, mesmo a tomar rapé. Nunca usava palavras triviaes; não dizia +_vomitar_, fazia um gesto indicativo e empregava _restituir_. Dizia +sempre «o nosso Garrett, o nosso Herculano». Citava muito. Era author. +E sem familia, n'um terceiro andar da rua do Ferregial, amancebado +com a criada, occupava-se d'economia politica: tinha composto os +Elementos genericos da sciencia da riqueza e sua distribuição, _segundo +os melhores authores_, e como sub-titulo: _Leituras do serão!_ Havia +apenas mezes publicára a Relação de todos os ministros d'estado desde +o grande marquez de pombal até nossos dias, com datas cuidadosamente +averiguadas de seus nascimentos e obitos. + +--Já esteve no Alemtejo, conselheiro?--perguntou-lhe Luiza. + +--Nunca, minha senhora--e curvou-se.--Nunca! E tenho pena! sempre +desejei lá ir, porque me dizem que as suas curiosidades são de primeira +ordem. + +Tomou uma pitada d'uma caixa dourada, entre os dedos, delicadamente, e +acrescentou com pompa: + +--De resto, paiz de grande riqueza suina! + +--Ó Jorge, averigua quanto é o partido da camara em Evora--disse Julião +do canto do sophá. + +O conselheiro acudiu, cheio de informações, com a pitada suspensa: + +--Devem ser seiscentos mil reis, snr. Zuzarte, e pulso livre. Tenho-o +nos meus apontamentos. Porquê, snr. Zuzarte, quer deixar Lisboa? + +--Talvez!... + +Todos desapprovaram. + +--Ah! Lisboa sempre é Lisboa!--suspirou D. Felicidade. + +--Cidade de marmore e de granito, na phrase sublime do nosso grande +historiador!--disse solemnemente o conselheiro. + +E sorveu a pitada com os dedos abertos em leque, magros, bem tratados. + +D. Felicidade disse então: + +--Quem não era capaz de deixar Lisboa, nem á mão de Deus Padre, era o +conselheiro! + +O conselheiro, voltando-se vagarosamente para ella, um pouco curvado, +replicou: + +--Nasci em Lisboa, D. Felicidade, sou lisboeta d'alma! + +--O conselheiro--lembrou Jorge--nasceu na rua de S. José. + +--Numero setenta e cinco, meu Jorge. Na casa pegada áquella em que +viveu, até casar, o meu prezado Geraldo, o meu pobre Geraldo! + +Geraldo, o seu pobre Geraldo, era o pai de Jorge. Accacio fôra o seu +intimo. Eram visinhos. Accacio tocava então rebeca, e, como Geraldo +tocava flauta, faziam duos, pertenciam mesmo á Philarmonica da rua de +S. José. Depois Accacio, quando entrou nas repartições do Estado, por +escrupulo e por dignidade, abandonou a rebeca, os sentimentos ternos, +os serões joviaes da Philarmonica. Entregou-se todo á estatistica. Mas +conservou-se muito leal a Geraldo; continuou mesmo a Jorge aquella +amizade vigilante; fôra padrinho do seu casamento, vinha vêl-o todos os +domingos, e, no dia de seus annos, mandava-lhe pontualmente, com uma +carta de felicitações, uma lampreia d'ovos. + +--Aqui nasci--repetiu, desdobrando o seu bello lenço de sêda da +India--e aqui conto morrer. + +E assoou-se discretamente. + +--Isso ainda vem longe, conselheiro! + +Elle disse, com uma melancolia grave: + +--Não me arreceio d'_ella_, meu Jorge. Até já fiz construir, sem +vacillar, no Alto de S. João, a minha ultima morada. Modesta, mas +decente. É ao entrar, no arruamento á direita, n'um lugar abrigado, ao +pé da choça dos Verissimos amigos. + +--E já compoz o seu epitaphio, snr. conselheiro?--perguntou Julião, do +canto, ironico. + +--Não o quero, snr. Zuzarte. Na minha sepultura não quero elogios. +Se os meus amigos, os meus patricios entenderem que eu fiz alguns +serviços, teem outros meios para os commemorar; lá teem a imprensa, +o communicado, o necrologio, a poesia mesmo! Por minha vontade quero +apenas sobre a lapide lisa, em letras negras, o meu nome--com a minha +designação de conselheiro--a data do meu nascimento e a data do meu +obito. + +E com um tom demorado, de reflexão: + +--Não me opponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: +_Orai por elle!_ + +Houve um silencio commovido, e á porta uma voz fina, disse: + +--Dão licença? + +--Oh Ernestinho!--exclamou Jorge. + +Com um passo miudinho e rapido, Ernestinho veio abraçal-o pela cintura: + +--Eu soube que tu que partias, primo Jorge... Como está, prima Luiza? + +Era primo de Jorge. Pequenino, lymphatico, os seus membros franzinos, +ainda quasi tenros, davam-lhe um aspecto debil de collegial; o buço, +delgado, empastado em cêra-mostache, arrebitava-se aos cantos em pontas +afiadas como agulhas; e na sua cara chupada, os olhos repolhudos +amorteciam-se com um quebrado langoroso. Trazia sapatos de verniz com +grandes laços de fita; sobre o collete branco, a cadêa do relogio +sustentava um medalhão enorme, d'ouro, com fructos e flôres esmaltadas +em relevo. Vivia com uma actrizita do Gymnasio, uma magra, côr de +melão, com o cabello muito riçado, o ar tisico,--e escrevia para o +theatro. Tinha traducções, dous originaes n'um acto, uma comedia em +_calembourgs_. Ultimamente trazia em ensaios nas Variedades uma obra +consideravel, um drama em cinco actos, a _Honra e Paixão_. Era a sua +estreia séria. E desde então, viam-no sempre muito atarefado, os bolsos +inchados de manuscriptos, com localistas, com actores, muito prodigo +de cafés e de _cognacs_, o chapéo ao lado, descórado, e dizendo a +todos: Esta vida, mata-me! Escrevia todavia por paixão entranhada pela +Arte--porque era empregado na alfandega, com bom vencimento, e tinha +quinhentos mil reis de renda das suas inscripções. A Arte mesmo, dizia, +obrigava-o a desembolsos: para o acto do baile da _Honra e Paixão_ +mandára fazer, á sua custa, botas de verniz para o _galan_, botas de +verniz para o _pai-nobre_! O seu nome de familia era Ledesma. + +Deram-lhe um lugar, e Luiza notou logo, pousando o bordado, que estava +abatido! Queixou-se então das suas fadigas: os ensaios arrazavam-no, +tinha turras com o empresario: na vespera, vira-se forçado a refazer +todo o final d'um acto! todo! + +--E tudo isto--acrescentou muito exaltado--porque é um pelintra, um +parvo, e quer que se passe n'uma sala, o acto que se passava n'um +abysmo! + +--N'um quê?--perguntou surprehendida D. Felicidade. + +O conselheiro, muito cortez, explicou: + +--N'um abysmo, D. Felicidade, n'um despenhadeiro. Tambem se diz, em bom +vernaculo, um _vortice_.--Citou: _N'um espumoso vortice se arroja..._ + +--N'um abysmo?--perguntaram.--Porquê? + +O conselheiro quiz conhecer o _lance_. + +Ernestinho, radioso, esboçou largamente o enredo:--Era uma mulher +casada. Em Cintra tinha-se encontrado com um homem fatal, o conde de +Monte-Redondo. O marido arruinado, devia cem contos de reis ao jogo! +Estava deshonrado, ia ser preso. A mulher, louca, corre a umas ruinas +acastelladas, onde habita o conde, deixa cahir o véo, conta-lhe a +catastrophe. O conde lança o seu manto aos hombros, parte, chega no +momento em que os beleguins vão levar o homem.--É uma scena muito +commovente, dizia, é de noite, ao luar!--O conde desembuça-se, atira +uma bolsa d'ouro aos pés dos beleguins, gritando-lhes: Saciai-vos, +abutres!... + +--Bello final!--murmurou o conselheiro. + +--Emfim--acrescentou Ernesto, resumindo--aqui ha um enredo complicado: +o conde de Monte-Redondo e a mulher amam-se, o marido descobre, +arremessa todo o seu ouro aos pés do conde, e mata a esposa. + +--Como?--perguntaram. + +--Atira-a ao abysmo. É no quinto acto. O conde vê, corre, atira-se +tambem. O marido cruza os braços, e dá uma gargalhada infernal. Foi +assim que eu imaginei a cousa! + +Calou-se, offegante: e, abanando-se com o lenço, rolava em redor os +seus olhos langorosos, prateados como os d'um peixe morto. + +--É uma obra de cunho, embatem-se grandes paixões!--disse o +conselheiro, passando as mãos sobre a calva.--Os meus parabens, snr. +Ledesma! + +--Mas que quer o empresario?--perguntou Julião, que escutára de pé, +attonito--que quer elle? Quer o abysmo n'um primeiro andar, mobilado +pelo Gardé? + +Ernestinho voltou-se, muito affectuosamente: + +--Não, snr. Zuzarte,--a sua voz era quasi meiga--quer o desfecho n'uma +sala. De modo que eu--e fazia um gesto resignado--a gente tem de +condescender, tive d'escrever outro final. Passei a noite em claro. +Tomei tres chavenas de café!... + +O conselheiro acudiu, com a mão espalmada: + +--Cuidado, snr. Ledesma, cuidado! Prudencia com esses excitantes! Por +quem é, prudencia! + +--A mim não me faz mal, snr. conselheiro--disse sorrindo.--Escrevi-o em +tres horas! Venho de lh'o mostrar agora. Até o tenho aqui... + +--Leia, snr. Ernesto, leia!--exclamou logo D. Felicidade. + +Que lêsse! que lêsse! porque não lia? + +Era uma massada!... Era um rascunho!... Emfim, como queriam!... E +radiante desdobrou, no silencio, uma grande folha de papel azul pautado. + +--Eu peço desculpa. Isto é um borrão. A cousa não está ainda com todos +os FF e RR.--Fez então voz theatral:--Agatha!... É a mulher; isto aqui +é a scena com o marido, o marido já sabe tudo... + + +AGATHA (cahindo de joelhos nos pés de Julio) + +«Mas mata-me! Mata-me, por piedade! Antes a morte, que vêr, com esses +desprezos, o coração rasgado fibra a fibra!» + + +JULIO + +«E não me rasgaste tu tambem o coração? Tiveste tu piedade? Não. +Retalhaste-m'o! Meu Deus, eu que a julgava pura, n'essas horas em que +arrebatados...» + +O reposteiro franziu-se. Sentiu-se um fino tilintar de chavenas. Era +Juliana, d'avental branco, com o chá. + +--Que pena!--exclamou Luiza.--Depois do chá se lê. Depois do chá. + +Ernesto dobrou o papel, e, com um olhar de lado para Juliana, rancoroso: + +--Não vale a pena, prima Luiza! + +--Ora essa! É lindo!--affirmou D. Felicidade. + +Juliana pousava sobre a mesa o prato das fatias, os biscoutos d'Oeiras, +os bolos do Cócó. + +--Aqui tem o seu chá fraco, conselheiro--dizia Luiza.--Sirva-se, +Julião. As torradas ao snr. Julião! Mais assucar! Quem quer? Uma +torrada, conselheiro? + +--Estou amplamente servido, minha prezada senhora--replicou, +curvando-se. + +E declarou, voltado para Ernestinho, que achava o dialogo opulento. + +Mas, perguntaram, o que quer o empresario mais agora? Já tem a sala... + +Ernestinho, de pé, excitado, com um bolo d'ovos na ponta dos dedos, +explicou: + +--O que o empresario quer é que o marido lhe perdôe... + +Foi um espanto: + +--Ora essa! É extraordinario! Porque? + +--Então!--exclamou Ernestinho, encolhendo os hombros,--diz que o +publico que não gosta! Que não são cousas cá para o nosso paiz. + +--A fallar a verdade--disse o conselheiro--a fallar a verdade, snr. +Ledesma, o nosso publico não é geralmente affecto a scenas de sangue. + +--Mas não ha sangue, snr. conselheiro!--protestava Ernestinho, +erguendo-se sobre os bicos dos sapatos--mas não ha sangue! É com um +tiro. É com um tiro pelas costas, snr. conselheiro! + +Luiza fez a D. Felicidade--_pst!_ e, n'um áparte, com um sorriso: + +--D'esses bolinhos d'ovos. São muito frescos! + +Ella respondeu, com uma voz lamentosa: + +--Ai, filha, não! + +E indicou o estomago, compungidamente. + +No entanto o conselheiro aconselhava a Ernestinho a clemencia: +tinha-lhe posto a mão no hombro paternalmente, e com uma voz persuasiva: + +--Dá mais alegria á peça, snr. Ledesma. O espectador sahe mais +alliviado! Deixe sahir o espectador alliviado! + +--Mais um bolinho, conselheiro? + +--Estou repleto, minha prezada senhora. + +E, então, invocou a opinião de Jorge. Não lhe parecia que o bom Ernesto +devia perdoar? + +--Eu, conselheiro? De modo nenhum. Sou pela morte. Sou inteiramente +pela morte! E exijo que a mates, Ernestinho! + +D. Felicidade acudiu, toda bondosa: + +--Deixe fallar, snr. Ledesma. Está a brincar. E elle então que é um +coração d'anjo! + +--Está enganada, D. Felicidade--disse Jorge, de pé, diante +d'ella.--Fallo serio e sou uma fera! Se enganou o marido, sou pela +morte. No abysmo, na sala, na rua, mas que a mate. Posso lá consentir +que, n'um caso d'esses, um primo meu, uma pessoa da minha familia, +do meu sangue, se ponha a perdoar como um lamecha! Não! Mata-a! É um +principio de familia. Mata-a quanto antes! + +--Aqui tem um lapis, snr. Ledesma--gritou Julião, estendendo-lhe uma +lapiseira. + +O conselheiro, então, interveio, grave: + +--Não--disse--não creio que o nosso Jorge falle serio. É muito +instruido para ter idéas tão... + +Hesitou, procurou o adjectivo. Juliana poz-se-lhe diante com uma +bandeja, onde um macaco de prata se agachava comicamente, sob um vasto +guarda-sol erriçado de palitos. Tomou um, curvou-se, e concluiu: + +--...Tão anti-civilisadoras. + +--Pois está enganado, conselheiro, tenho-as--affirmou Jorge.--São as +minhas idéas. E aqui tem, se em lugar de se tratar d'um final d'acto, +fosse um caso da vida real, se o Ernesto viesse dizer-me: sabes, +encontrei minha mulher... + +--Oh Jorge!--disseram, reprehensivamente. + +--...Bem, supponhamos, se elle m'o viesse dizer, eu respondia-lhe o +mesmo. Dou a minha palavra d'honra, que lhe respondia o mesmo: mata-a! + +Protestaram. Chamaram-lhe _tigre_, _Othello_, _Barba-Azul_. Elle ria, +enchendo muito socegadamente o seu cachimbo. + +Luiza bordava, calada: a luz do candieiro, abatida pelo _abat-jour_, +dava aos seus cabellos tons de um louro quente, resvalava sobre a sua +testa branca como sobre um marfim muito polido. + +--Que dizes tu a isto?--disse-lhe D. Felicidade. + +Ella ergueu o rosto, risonha, encolheu os hombros... + +E o conselheiro logo: + +--A snr.^a D. Luiza diz com orgulho o que dizem as verdadeiras mães de +familia: + + Impurezas do mundo não me roçam + Nem a fimbria da tunica sequer. + +--Ora muito boas noites--disse, á porta, uma voz grossa. + +Voltaram-se. + +Ó Sebastião! Ó snr. Sebastião! ó Sebastiarrão! + +Era elle, Sebastião, o grande Sebastião, o Sebastiarrão, Sebastião +_tronco d'arvore_,--o intimo, o camarada, o _inseparavel_ de Jorge, +desde o latim, na aula de frei Liborio, aos Paulistas. + +Era um homem baixo e grosso, todo vestido de preto, com um chapéo molle +desabado na mão. Começava a perder um pouco na frente, os seus cabellos +castanhos e finos. Tinha a pelle muito branca, a barba alourada e curta. + +Veio sentar-se ao pé de Luiza. + +--Então d'onde vem? d'onde vem? + +Vinha do Price. Rira muito com os palhaços. Houvera a brincadeira da +pipa. + +O seu rosto, em plena luz, tinha uma expressão honesta, simples, +aberta: os olhos pequenos, azues d'um azul claro, d'uma suavidade +séria, adoçavam-se muito quando sorria: e os beiços escarlates, sem +pelliculas seccas, os dentes luzidios, revelavam uma vida saudavel +e habitos castos. Fallava devagar, baixo, como se tivesse medo de +se manifestar ou de fatigar. Juliana trouxera-lhe a sua chavena, e +remexendo o assucar com a colhér direita, os olhos ainda a rir, um +sorriso bom: + +--A pipa tem muita graça. Muita graça! + +Sorveu um gole de chá e depois d'um momento: + +--E tu, maroto, sempre partes ámanhã? Não ha umas tentaçõesinhas d'ir +por ahi fóra com elle, minha cara amiga? + +Luiza sorriu. Tomára ella! Quem dera! Mas era uma jornada tão +incommoda! Depois a casa não podia ficar só, não havia que fiar em +criados... + +--Está claro, está claro--disse elle. + +Jorge, então, que abrira a porta do escriptorio, chamou-o: + +--Ó Sebastião! Fazes favor? + +Elle foi logo com o seu andar pesado, o largo dorso curvado: as abas do +seu casaco mal feito tinham um comprimento ecclesiastico. + +Entraram para o escriptorio. + +Era uma saleta pequena, com uma estante alta e envidraçada, tendo +em cima a estatueta de gesso, empoeirada e velha, d'uma bacchante +em delirio. A mesa, com um antigo tinteiro de prata que fôra de seu +avô, estava ao pé da janella: uma collecção empilhada de _Diarios do +Governo_, branquejava a um canto: por cima da cadeira de marroquim +escuro, pendia, n'um caixilho preto, uma larga photographia de Jorge: e +sobre o quadro, duas espadas encruzadas reluziam. Uma porta, no fundo, +coberta com um reposteiro de baeta escarlate, abria para o patamar. + +--Sabes quem esteve ahi de tarde?--disse logo Jorge, accendendo o +cachimbo--Aquella desavergonhada da Leopoldina! Que te parece, hein? + +--E entrou?--perguntou Sebastião, baixo, correndo por dentro o pesado +reposteiro de fazenda listrada. + +--Entrou, sentou-se, esteve, demorou-se! Fez o que quiz! A Leopoldina, +a _Pão e queijo_! + +E arremessando o phosphoro violentamente: + +--Quando penso que aquella desavergonhada vem a minha casa! Uma +creatura que tem mais amantes que camisas, que anda pelo Dá-fundo em +troças, que passeava nos bailes, este anno, de dominó, com um tenor! A +mulher do Zagallão, um devasso que falsificou uma letra! + +E quasi ao ouvido de Sebastião: + +--Uma mulher que dormiu com o Mendonça dos callos! Aquelle sebento do +Mendonça dos callos! + +Teve um gesto furioso, exclamou: + +--E vem aqui, senta-se nas minhas cadeiras, abraça minha mulher, +respira o meu ar!... Palavra d'honra, Sebastião, se a pilho--procurou +mentalmente, com o olhar acceso, um castigo sufficiente--dou-lhe +açoutes! + +Sebastião disse devagar: + +--E o peor é a visinhança. + +--Está claro que é!--exclamou Jorge.--Toda essa gente ahi pela rua +abaixo sabe quem ella é! Sabem-lhe os amantes, sabem-lhe os sitios. É a +_Pão e queijo_! Todo o mundo conhece a _Pão e queijo_. + +--Má visinhança--disse Sebastião. + +--De tremer. + +Mas então! estava acostumado á casa, era sua, tinha-a arranjado, era +uma economia... + +--Senão! Não parava aqui um dia! + +Era um horror de rua! Pequena, estreita, acavallados uns nos outros! +Uma visinhança a postos, avida de mexericos! Qualquer bagatella, o +trotar d'uma tipoia, e apparecia por traz de cada vidro um par d'olhos +repolhudos a cocar! E era logo um badalar de linguas por ahi abaixo, e +conciliabulos, e opiniões formadas! fulano é indecente, fulana é bebeda! + +--É o diabo!--disse Sebastião. + +--A Luiza é um anjo, coitada--dizia Jorge, passeando pela saleta--mas +tem cousas em que é criança! Não vê o mal. É muito boa, deixa-se ir. +Com este caso da Leopoldina, por exemplo; foram creadas de pequenas, +eram amigas, não tem coragem agora para a pôr fóra. É acanhamento, é +bondade. Elle comprehende-se! Mas emfim as leis da vida tem as suas +exigencias!... + +E depois d'uma pausa: + +--Por isso, Sebastião, em quanto eu estiver fóra, se te constar que a +Leopoldina vem por cá, avisa a Luiza! Porque ella é assim: esquece-se, +não reflexiona. É necessario alguem que a advirta, que lhe diga:--Alto +lá, isso não póde ser! Que então cahe logo em si, e é a primeira!... +Vens por ahi, fazes-lhe companhia, fazes-lhe musica, e se vires que a +Leopoldina apparece ao largo, tu logo:--Minha rica senhora, cuidado, +olhe que isso não! Que ella, sentindo-se apoiada, tem decisão. Senão, +acanha-se, deixa-a vir. Soffre com isso, mas não tem coragem de lhe +dizer: Não te quero vêr, vai-te! Não tem coragem p'ra nada: começam +as mãos a tremer-lhe, a seccar-se-lhe a bocca... É mulher, é muito +mulher!... Não te esqueças, hein, Sebastião? + +--Então havia de me esquecer, homem? + +Sentiram então o piano na sala, e a voz de Luiza ergueu-se, fresca e +clara, cantando a _Mandolinata_: + + Amici, la notte é bella, + La luna va spontari... + +--Fica tão só, coitada!...--disse Jorge. + +Deu alguns passos pelo escriptorio, fumando, com a cabeça baixa: + +--Todo o casal bem organisado, Sebastião, deve ter dous filhos! Deve +ter pelo menos um!... + +Sebastião coçou a barba em silencio--e a voz de Luiza, elevando-se com +um certo esforço aspero, nos _altos_ da melodia : + + Di cà, di là, per la cità + Andiami a transnottari... + +Era uma tristeza secreta de Jorge--não ter um filho! Desejava-o tanto! +Ainda em solteiro, nas vesperas do casamento, já sonhava aquella +felicidade: o seu filho! Via-o de muitas maneiras: ou gatinhando com as +suas perninhas vermelhas, cheias de rôscas, e os cabellos annelados, +finos como fios de sêda; ou rapaz forte, entrando da escóla com os +livros, alegre e d'olho vivo, vindo mostrar-lhe as boas notas dos +mestres: ou, melhor, rapariga crescida, clara e rosada, com um vestido +branco, as duas tranças cahidas, vindo pousar as mãos nos seus cabellos +já grisalhos... + +Vinha-lhe, ás vezes, um medo de morrer sem ter tido aquella felicidade +completadora! + +Agora, na sala, a voz aguda de Ernestinho perorava, depois, no piano +Luiza recomeçou a _Mandolinata_, com um _brio_ jovial. + +A porta do escriptorio abriu-se, Julião entrou: + +--Que estão vossês aqui a conspirar? Vou-me safar, que é tarde! Até +á volta, meu velho, hein? Tambem ia comtigo tomar ar, respirar, vêr +campos, mas... + +E sorriu com amargura.--_Addio! Addio!_ + +Jorge foi alumiar-lhe ao patamar, abraçal-o outra vez. Se quizesse +alguma cousa do Alemtejo!... + +Julião carregou o chapéo na cabeça: + +--Dá cá outro charuto, por despedida! Dá cá dous! + +--Leva a caixa! Eu em viagem só fumo cachimbo. Leva a caixa, homem! + +Embrulhou-lh'a n'um _Diario de Noticias_; Julião metteu-a debaixo do +braço, e descendo os degraus: + +--Cuidado com as sezões, e descobre uma mina d'ouro! + +Jorge e Sebastião entraram na sala. Ernestinho, encostado ao piano, +torcia as guias do bigodinho, e Luiza começava uma valsa de Strauss--o +_Danubio Azul_. + +Jorge disse, rindo, estendendo os braços: + +--Uma valsa, D. Felicidade? + +Ella voltou-se, com um sorriso. E porque não? Em nova era fallada! +Citou logo a valsa que dançára com o sr. D. Fernando, no tempo da +Regencia, nas Necessidades. Era uma valsa linda, d'essa época: _A +Perola d'Ophir_. + +Estava sentada ao pé do conselheiro, no sophá. E como retomando um +dialogo mais querido--continuou, baixo para elle, com uma voz meiga: + +--Pois creia, acho-o com optimas côres. + +O conselheiro enrolava vagarosamente o seu lenço de sêda da India. + +--Na estação calmosa passo sempre melhor. E D. Felicidade? + +--Ai! Estou outra, conselheiro! Muito boas digestões, muito livre de +gazes... Estou outra! + +--Deus o queira, minha senhora, Deus o queira--disse o conselheiro, +esfregando lentamente as mãos. + +Tossiu, ia levantar-se, mas D. Felicidade pôz-se a dizer: + +--Espero que esse interesse seja verdadeiro... + +Córou. O corpete flaccido do vestido de sêda preta enchia-se-lhe com o +arfar do peito. + +O conselheiro recahiu lentamente no sophá,--e com as mãos nos joelhos: + +--D. Felicidade sabe que tem em mim um amigo sincero... + +Ella levantou para elle seus olhos pisados, d'onde sahiam revelações de +paixão e supplicas de felicidade: + +--E eu, conselheiro!... + +Deu um grande suspiro, pôz o leque sobre o rosto. + +O conselheiro ergueu-se seccamente. E com a cabeça alta, as mãos atraz +das costas, foi ao piano, perguntou a Luiza curvando-se: + +--É alguma canção do Tyrol, D. Luiza? + +--Uma valsa de Strauss--murmurou-lhe Ernestinho, em bicos de pés, ao +ouvido. + +--Ah! Muita fama! Grande author! + +Tirou então o relogio. Eram horas, disse, de ir coordenar alguns +apontamentos. Aproximou-se de Jorge, com solemnidade: + +--Jorge, meu bom Jorge, adeus! Cautela com esse Alemtejo! O clima é +nocivo, a estação traiçoeira! + +E apertou-o nos braços com uma pressão commovida. + +D. Felicidade punha a sua manta de renda negra. + +--Já, D. Felicidade?--disse Luiza. + +Ella explicou-lhe, ao ouvido: + +--Já, sim, filha, que tenho estado a abarrotar, comi umas bajes e tenho +estado!... E aquelle homem, aquelle gêlo! O snr. Ernesto vem para os +meus sitios, hein? + +--Como um fuso, minha senhora! + +Tinha vestido o seu paletot d'alpaca clara, fumava chupando, com as +faces encovadas, por uma boquilha enorme, onde uma Venus se torcia +sobre o dorso d'um leão domado. + +--Adeus, primo Jorge, saudinha e dinheiro, hein? Adeus. Quando fôr a +_Honra e Paixão_ cá mando um camarote á prima Luiza. Adeus! Saudinha! + +Iam a sahir. Mas o conselheiro, á porta, voltando-se subitamente, com +as abas do paletot deitadas para traz, a mão pomposamente apoiada no +castão de prata da bengala que representava uma cabeça de mouro, disse, +com gravidade: + +--Esquecia-me, Jorge! Tanto em Evora, como em Beja, visite os +governadores civis! E eu lhe digo porquê: deve-lh'o como primeiros +funccionarios do districto, e podem-lhe ser de muita utilidade nas suas +peregrinações scientificas! + +E curvando-se profundamente: + +--_Al rivedere_, como se diz em Italia. + + + +Sebastião tinha ficado. Para arejar do fumo de tabaco Luiza foi abrir +as janellas; a noite estava quente e immovel, de luar. + +Sebastião pozera-se ao piano, e com a cabeça curvada, corria devagar o +teclado. + +Tocava admiravelmente, com uma comprehensão muito fina da musica. +Outr'ora, compozera mesmo uma _Meditação_, duas _Valsas_, +uma _Ballada_: mas eram estudos muito trabalhados, cheios de +reminiscencias, sem estylo.--Da cachimonia não me sahe nada--costumava +elle dizer com bonhomia, batendo na testa, sorrindo--mas lá com os +dedos!... + +Pôz-se a tocar um _Nocturno_ de Choppin. Jorge sentára-se no sophá ao +pé de Luiza. + +--Já tens prompto o teu farnelzinho!--disse-lhe ella. + +--Bastam umas bolachas, filha. O que quero é o cantil com _cognac_. + +--E não te esqueças de mandar um telegramma logo que chegues! + +--Pudera! + +--Tu d'aqui a quinze dias, vens! + +--Talvez... + +Ella teve um gesto amuado. + +--Ah, bem! Se não vieres, vou ter comtigo! A culpa é tua. + +E olhando em redor: + +--Que só que vou ficar! + +Mordeu o beicinho, fitou o tapete. E de repente, com a voz ainda triste: + +--Pst, Sebastião! A _malaguenha_, faz favor? + +Sebastião começou a tocar a _malaguenha_. Aquella melodia calida, muito +arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Malaga, ou em Granada, +não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrellinhas luzem; a noite é +quente, o ar cheira bem; por baixo d'um lampeão suspenso a um ramo, um +cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as +mulheres com os seus corpetes de velludilho encarnado batem as mãos +em cadencia: e ao largo dorme uma Andaluzia de romance e de zarzuela, +quente e sensual, onde tudo são braços brancos que se abrem para o +amor, capas romanticas que roçam as paredes, sombrias viellas onde luz +o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem +Santissima cantando as horas... + +--Muito bem, Sebastião! Gracias! + +Elle sorriu, ergueu-se, fechou cuidadosamente o piano, e indo buscar o +seu chapéo desabado: + +--Então ámanhã ás sete? Cá estou, e vou-te acompanhar até ao Barreiro. + +Bom Sebastião! + +Foram debruçar-se na varanda para o vêr sahir. A noite fazia um +silencio alto, d'uma melancolia placida; o gaz dos candieiros parecia +mortiço; a sombra que se recortava na rua, com uma nitidez brusca, +tinha um tom quente e dôce; a luz punha nas fachadas brancas claridades +vivas, e nas pedras da calçada faiscações vidradas; uma clara-boia +reluzia, a distancia, como uma velha lamina de prata; nada se movia; e +instinctivamente os olhos erguiam-se para as alturas, procuravam a lua +branca, muito séria. + +--Que linda noite! + +A porta bateu, e Sebastião de baixo, na sombra: + +--Dá vontade de passear, hein? + +--Linda! + +Ficaram á varanda preguiçosamente, olhando, detidos pela +tranquillidade, pela luz. Puzeram-se a fallar baixo da jornada. Áquella +hora onde estaria elle? Já em Evora, n'um quarto d'estalagem, passeando +monotonamente sobre um chão de tijolo. Mas voltaria breve; esperava +fazer um bom negocio com o Paco, o hespanhol das minas de Portel, +trazer talvez alguns centos de mil reis, e teriam então a doçura do +mez de setembro; poderiam fazer uma jornada ao Norte, irem ao Bussaco, +trepar aos altos, beber a agua fresca das rochas, sob a espessura +humida das folhagens: irem a Espinho, e pelas praias, sentar-se na +arêa, no bom ar cheio d'azote, vendo o mar unido, d'um azul metallico +e faiscante, o mar do verão, com algum fumo de paquete que passa para +o Sul ao longe muito adelgaçado. Faziam outros planos com os hombros +muito chegados: uma felicidade abundante enchia-os deliciosamente. E +Jorge disse: + +--Se houvesse um pequerrucho, já não ficavas tão só! + +Ella suspirou. Tambem o desejava tanto! Chamar-se-hia Carlos Eduardo. E +via-o no seu berço dormindo, ou no collo, nú, agarrando com a mãosinha +o dedo do pé, mamando a ponta rosada do seu peito... Um estremecimento +d'um deleite infinito correu-lhe no corpo. Passou o braço pela cinta +de Jorge. Um dia seria, teria um filho de certo! E não comprehendia +o seu filho homem nem Jorge velho: via-os ambos do mesmo modo: um +sempre amante, novo, forte; o outro sempre dependente do seu peito, +da maminha, ou gatinhando e palrando, louro e côr de rosa. E a vida +apparecia-lhe infindavel, d'uma doçura igual, atravessada do mesmo +enternecimento amoroso, quente, calma e luminosa como a noite que os +cobria. + +--A que horas quer a senhora que a venha acordar?--disse a voz secca de +Juliana. + +Luiza voltou-se: + +--Ás sete, já lhe disse ha pouco, creatura. + +Fecharam a janella. Em torno das velas uma borboleta branca esvoaçava. +Era bom agouro! + +Jorge prendeu-a nos braços: + +--Vai ficar sem o seu maridinho, hein?--disse tristemente. + +Ela deixou pesar o corpo sobre as mãos d'elle cruzadas, olhou-o com um +longo olhar que se ennevoava e escurecia, e envolvendo-lhe o pescoço +com o gesto lento, harmonioso e solemne dos braços, pousou-lhe na bocca +um beijo grave e profundo. Um vago soluço levantou-lhe o peito. + +--Jorge! Querido!--murmurou. + + + + +III + + +Havia doze dias que Jorge tinha partido e, apesar do calor e da poeira, +Luiza vestia-se para ir a casa de Leopoldina. Se Jorge soubesse, não +havia de gostar, não! Mas estava tão farta de estar só! Aborrecia-se +tanto! De manhã, ainda tinha os arranjos, a costura, a _toilette_, +algum romance... Mas de tarde! + +Á hora em que Jorge costumava voltar do ministerio, a solidão parecia +alargar-se em torno d'ella. Fazia-lhe tanta falta o _seu_ toque da +campainha, os seus passos no corredor!... + +Ao crepusculo, ao vêr cahir o dia, entristecia-se sem razão, cahia +n'uma vaga sentimentalidade: sentava-se ao piano, e os fados tristes, +as cavatinas apaixonadas gemiam instinctivamente no teclado, sob os +seus dedos preguiçosos, no movimento abandonado dos seus braços molles. +O que pensava em tolices então! E á noite, só, na larga cama franceza, +sem poder dormir com o calor, vinham-lhe de repente terrores, palpites +de viuvez. + +Não estava acostumada, não podia estar só. Até se lembrára de chamar a +tia Patrocinio, uma velha parenta pobre que vivia em Belem: ao menos +era _alguem_: mas receou aborrecer-se mais ao pé da sua longa figura de +viuva taciturna, sempre a fazer meia, com enormes oculos de tartaruga +sobre um nariz d'aguia. + +N'aquella manhã pensára em Leopoldina, toda contente d'ir tagarellar, +rir, segredar, passar as horas do calor. Penteava-se em collete e +saia branca: a camisinha decotada descobria os ombros alvos d'uma +redondeza macia, o collo branco e tenro, azulado de vêasinhas finas; e +os seus braços redondinhos, um pouco vermelhos no cotovêlo, descobriam +por baixo, quando se erguiam prendendo as tranças, fiosinhos louros, +frisando e fazendo ninho. + +A sua pelle conservava ainda o rosado humido da agua fria: havia no +quarto um cheiro agudo de vinagre de _toilette_: os transparentes de +linho branco descidos davam uma luz baça, com tons de leite. + +Ah! positivamente devia escrever a Jorge, que voltasse depressa! +Que o que tinha graça era ir surprehendel-o a Evora, cahir-lhe no +Tabaquinho, um dia, ás tres horas! E quando elle entrasse empoeirado e +encalmado, de lunetas azues, atirar-se-lhe ao pescoço! E á tardinha, +pelo braço d'elle, ainda quebrada da jornada, com um vestido fresco, +ir vêr a cidade. Pelas ruas estreitas e tristes admiravam-na muito. +Os homens vinham ás portas das lojas. Quem seria? É de Lisboa. É a do +Engenheiro.--E diante do toucador, apertando o corpete do vestido, +sorria áquellas imaginações, e ao seu rosto, no espelho. + +A porta do quarto rangeu devagarinho. + +--Que é? + +A voz de Juliana, plangente, disse: + +--A senhora dá licença que eu vá logo ao medico? + +--Vá, mas não se demore. Puxe-me essa saia atraz. Mais. O que é que +vossê tem? + +--Enjôos, minha senhora, peso no coração. Passei a noite em claro. + +Estava mais amarella, o olhar muito pisado, a face envelhecida. Trazia +um vestido de merino preto escoado, e a cuia da semana de cabellos +velhos. + +--Pois sim, vá--disse Luiza.--Mas arranje tudo antes. E não se demore, +hein ? + +Juliana subiu logo á cozinha. Era no segundo andar, com duas janellas +de sacada para as trazeiras, larga, ladrilhada de tijolo diante do +fogão. + +--Diz que sim, snr.^a Joanna--disse á cozinheira--que podia ir. Vou-me +vestir. Ella tambem está quasi prompta. Fica vossemecê com a casa por +sua! + +A cozinheira fez-se vermelha, poz-se a cantar, foi logo sacudir, +estender na varanda um velho tapete esfiado; e os seus olhos não +deixavam, defronte, uma casa baixa, pintada d'amarello, com um portal +largo,--a loja de marceneiro do tio João Galho, onde trabalhava o +Pedro, o seu amante. A pobre Joanna «babava-se» por ele. Era um +rapazola pallido e afadistado; Joanna era minhota, de Avintes, de +familia de lavrador, e aquella figura delgada de lisboeta anemico +seduzia-a com uma violencia abrazada. Como não podia sahir á semana, +mettia-o em casa, pela porta de traz, quando estava só; estendia então +na varanda para dar signal o velho tapete desbotado, onde ainda se +percebiam os paus de um veado. + +Era uma rapariga muito forte, com peitos d'ama, o cabello como +azeviche, todo lustroso do oleo de amendoas dôces. Tinha a testa curta +de plebêa teimosa. E as sobrancelhas cerradas faziam-lhe parecer o +olhar mais negro. + +--Ai!--suspirou Juliana.--A snr.^a Joanna é que a leva! + +A rapariga ficou escarlate. + +Mas Juliana acudiu logo: + +--Olha o mal! fosse eu! Boa! faz muito bem! + +Juliana lisongeava sempre a cozinheira: dependia d'ella: Joanna +dava-lhe caldinhos ás horas de debilidade, ou, quando ella estava mais +adoentada, fazia-lhe um bife ás escondidas da senhora. Juliana tinha +um grande medo de «cair em fraqueza», e a cada momento precisava tomar +a «sustancia». De certo, como feia e solteirona detestava aquelle +«escandalo do carpinteiro»; mas protegia-o, porque elle valia muitos +regalos aos seus fracos de gulosa. + +--Fosse eu!--repetiu--dava-lhe o melhor da panella! Se a gente ia a +ter escrupulos por causa dos amos, boa! Olha quem! Vêem uma pessoa a +morrer, e é como fosse um cão. + +E com um risinho amargo: + +--Diz que me não demorasse no medico. É como quem diz, cura-te depressa +ou espicha depressa! + +Foi buscar a vassoura a um canto, e com um suspiro agudo: + +--Todas o mesmo, uma récua! + +Desceu, começou a varrer o corredor.--Toda a noite estivera doente: o +quarto no sotão, debaixo das telhas, muito abafado, com um cheiro de +tijolo cozido, dava-lhe enjôos, faltas d'ar, desde o começo do verão: +na vespera até vomitára! E já levantada ás seis horas, não descançára, +limpando, engommando, despejando, com a pontada no lado e todo o +estomago embrulhado!--Tinha escancarado a cancella, e com grandes ais, +atirava vassouradas furiosas contra as grades do corrimão. + +--A snr.^a D. Luiza está em casa? + +Voltou-se. Nos ultimos degraus da escada estava um sujeito, que lhe +pareceu «estrangeirado». Era trigueiro, alto, tinha um bigode pequeno +levantado, um ramo na sobrecasaca azul, e o verniz dos seus sapatos +resplandecia. + +--A senhora vai sahir--disse ela olhando-o muito.--Faz favor de dizer +quem é? + +O individuo sorriu. + +--Diga-lhe que é um sujeito para um negocio. Um negocio de minas. + +Luiza, diante do toucador, já de chapéo, mettia n'uma casa do corpete +dous botões de rosa de chá. + +--Um negocio!--disse muito surprehendida--Deve ser algum recado para o +snr. Jorge, de certo! Mande entrar. Que especie de homem é? + +--Um janota! + +Luiza desceu o véo branco, calçou devagar as luvas de _peau de suède_ +claras, deu duas pancadinhas fofas ao espelho na gravata de renda, e +abriu a porta da sala. Mas quasi recuou, fez _ah!_ toda escarlate. +Tinha-o reconhecido logo. Era o primo Bazilio. + + + +Houve um _shake-hands_ demorado, um pouco tremulo. Estavam ambos +calados:--ella com todo o sangue no rosto, um sorriso vago; elle +fitando-a muito, com um olhar admirado. Mas as palavras, as perguntas +vieram logo, muito precipitadamente:--Quando tinha elle chegado? Se +sabia que elle estava em Lisboa? Como soubera a morada d'ella? + +Chegára na vespera no paquete de Bordeus. Perguntára no ministerio: +disseram-lhe que Jorge estava no Alemtejo, deram-lhe a _adresse_... + +--Como tu estás mudada, Santo Deus! + +--Velha? + +--Bonita! + +--Ora! + +E elle, que tinha feito? Demorava-se? + +Foi abrir uma janella, dar uma luz larga, mais clara. Sentaram-se. Elle +no sophá muito languidamente; ella ao pé, pousada de leve á beira d'uma +poltrona, toda nervosa. + +Tinha deixado o _degredo_--disse elle.--Viera respirar um pouco á +velha Europa. Estivera em Constantinopla, na Terra Santa, em Roma. +O ultimo anno passára-o em Paris. Vinha de lá, d'aquella aldeola de +Paris!--Fallava devagar, recostado, com um ar intimo, estendendo sobre +o tapete, commodamente, os seus sapatos de verniz. + +Luiza olhava-o. Achava-o mais varonil, mais trigueiro. No cabello +preto annelado havia agora alguns fios brancos: mas o bigode pequeno +tinha o antigo ar moço, orgulhoso e intrepido; os olhos, quando ria, a +mesma doçura amollecida, banhada n'um fluido. Reparou na ferradura de +perola da sua gravata de setim preto, nas pequeninas estrellas brancas +bordadas nas suas meias de sêda. A Bahia não o vulgarisára. Voltava +mais interessante! + +--Mas tu, conta-me de ti--dizia elle com um sorriso, inclinado para +ela.--És feliz, tens um pequerrucho... + +--Não--exclamou Luiza rindo.--Não tenho! Quem te disse? + +--Tinham-me dito. E teu marido demora-se? + +--Tres, quatro semanas, creio. + +Quatro semanas! Era uma viuvez! Offereceu-se logo para a vir vêr mais +vezes, palrar um momento, pela manhã... + +--Pudera não! És o unico parente, que tenho, agora... + +Era verdade!... E a conversação tomou uma intimidade melancolica: +fallaram da mãi de Luiza, a _tia Jójó_, como lhe chamava Bazilio. Luiza +contou a sua morte, muito dôce, na poltrona, sem um ai... + +--Onde está sepultada?--perguntou Bazilio com uma voz grave; e +acrescentou, puxando o punho da camisa de chita:--Está no nosso jazigo? + +--Está. + +--Hei-de ir lá. Pobre tia Jójó! + +Houve um silencio. + +--Mas tu ias sahir!--disse Bazilio de repente, querendo erguer-se. + +--Não!--exclamou--Não! Estava aborrecida, não tinha nada que fazer. Ia +tomar ar. Não saio, já. + +Elle ainda disse: + +--Não te prendas... + +--Que tolice! Ia a casa d'uma amiga passar um momento. + +Tirou logo o chapéo; n'aquelle movimento os braços erguidos repuxaram o +corpete justo, as fórmas do seio accusaram-se suavemente. + +Bazilio torcia a ponta do bigode devagar; e vendo-a descalçar as luvas: + +--Era eu antigamente quem te calçava e descalçava as luvas... +Lembras-te?... Ainda tenho esse privilegio exclusivo, creio eu... + +Ella riu-se. + +--De certo que não... + +Bazilio disse então, lentamente, fitando o chão: + +--Ah! Outros tempos! + +E poz-se a fallar de Collares: a sua primeira idéa, mal chegára, tinha +sido tomar uma tipoia e ir lá: queria vêr a quinta; ainda existiria o +balouço debaixo do castanheiro? ainda haveria o caramanchão de rosinhas +brancas, ao pé do Cupido de gesso que tinha uma aza quebrada?... + +Luiza ouvira dizer que a quinta pertencia agora a um brazileiro: sobre +a estrada havia um mirante com um tecto chinez, ornado de bolas de +vidro; e a velha casa morgada fôra reconstruida e mobilada pelo Gardé. + +--A nossa pobre sala de bilhar, côr d'oca, com grinaldas de +rosas!--disse Bazilio; e fitando-a:--Lembras-te das nossas partidas de +bilhar? + +Luiza, um pouco vermelha, torcia os dedos das luvas; ergueu os olhos +para elle, disse, sorrindo: + +--Eramos duas crianças! + +Bazilio encolheu tristemente os hombros, fitou as ramagens do tapete: +parecia abandonar-se a uma saudade remota, e com uma voz sentida: + +--Foi o bom tempo! Foi o meu bom tempo! + +Ella via a sua cabeça bem feita, descahida n'aquella melancolia +das felicidades passadas, com uma risca muito fina, e os cabellos +brancos--que lhe dera a separação. Sentia tambem uma vaga saudade +encher-lhe o peito: ergueu-se, foi abrir a outra janella, como para +dissipar na luz viva e forte aquella perturbação. Perguntou-lhe então +pelas viagens, por Paris, por Constantinopla. + +Fôra sempre o seu desejo viajar--dizia--ir ao Oriente. Quereria andar +em caravanas, balouçada no dorso dos camêlos; e não teria medo, nem do +deserto, nem das feras... + +--Estás muito valente!--disse Bazilio.--Tu eras uma maricas, tinhas +medo de tudo... Até da adega, na casa do papá, em Almada! + +Ella córou. Lembrava-se bem da adega, com a sua frialdade subterranea +que dava arripios! A candêa d'azeite pendurada na parede alumiava com +uma luz avermelhada e fumosa as grossas traves cheias de têas d'aranha, +e a fileira tenebrosa das pipas bojudas. Havia alli ás vezes, pelos +cantos, beijos furtados... + +Quiz saber então o que tinha feito em Jerusalém, se era bonito. + +Era curioso. Ia pela manhã um bocado ao Santo Sepulchro; depois +d'almoço montava a cavallo... Não se estava mal no hotel, inglezas +bonitas... Tinha algumas intimidades illustres... + +Fallava d'ellas, devagar, traçando a perna: o seu amigo o patriarcha +de Jerusalém, a sua velha amiga a princeza de La Tour d'Auvergne! Mas +o melhor do dia era de tarde--dizia--no Jardim das Oliveiras, vendo +defronte as muralhas do templo de Salomão, ao pé a aldêa escura de +Bethania onde Martha fiava aos pés de Jesus, e mais longe, faiscando +immovel sob o sol, o mar Morto! E alli passava sentado n'um banco, +fumando tranquillamente o seu cachimbo! + +Se tinha corrido perigos? + +De certo. Uma tempestade de arêa no deserto de Petra! Horrivel! Mas +que linda viagem, as caravanas, os acampamentos! Descreveu a sua +_toilette_:--uma manta de pelle de camêlo ás listras vermelhas e +pretas, um punhal de Damasco n'uma cinta de Bagdad, e a lança comprida +dos Beduinos. + +--Devia-te ficar bem! + +--Muito bem. Tenho photographias. + +Prometteu dar-lhe uma, e acrescentou: + +--Sabes que te trago presentes? + +--Trazes?--E os seus olhos brilhavam. + +O melhor era um rosario... + +--Um rosario? + +--Uma reliquia! Foi benzido primeiro pelo patriarcha de Jerusalém sobre +o tumulo de Christo, depois pelo papa... + +Ah! Porque tinha estado com o papa! Um velhinho muito aceado, já todo +branquinho, vestido de branco, muito amavel! + +--Tu d'antes não eras muito devota--disse. + +--Não, não sou muito caturra n'essas cousas--respondeu rindo. + +--Lembras-te da capella de nossa casa em Almada? + +Tinham passado alli lindas tardes! Ao pé da velha capella morgada +havia um adro todo cheio de altas hervas floridas,--e as papoulas, +quando vinha a aragem, agitavam-se como azas vermelhas de borboletas +pousadas... + +--E a tilia, lembras-te, onde eu fazia gymnastica? + +--Não fallemos no que lá vai! + +Em que queria ella então que elle fallasse? Era a sua mocidade, o +melhor que tivera na vida... + +Ella sorriu, perguntou: + +--E no Brazil? + +Um horror! Até fizera a côrte a uma mulata. + +--E porque te não casaste?... + +Estava a mangar! Uma mulata! + +--E de resto--acrescentou com a voz d'um arrependimento +triste--já que me não casei quando devia,--encolheu os hombros +melancolicamente--acabou-se... Perdi a vez. Ficarei solteiro. + +Luiza fez-se escarlate. Houve um silencio. + +--E qual é o outro presente, então, além do rosario? + +--Ah! Luvas. Luvas de verão, de _peau de suède_, de oito botões. Luvas +decentes. Vossês aqui usam umas luvitas de dous botões, a vêr-se o +punho, um horror! + +De resto pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se +vestiam peor! Era atroz! Não dizia por ella; até aquelle vestido tinha +_chic_, era simples, era honesto. Mas em geral, era um horror. Em +Paris! Que deliciosas, que frescas as _toilettes_ d'aquelle verão! +Oh! mas em Paris!... Tudo é superior! Por exemplo, desde que chegára +ainda não pudera comer. Positivamente não podia comer!--Só em Paris se +come--resumiu. + +Luiza voltava entre os dedos o seu medalhão de ouro, preso ao pescoço +por uma fita de velludo preto. + +--E estiveste então um anno em Paris? + +Um anno divino. Tinha um _appartamento_ lindissimo, que pertencera a +lord Falmouth, rue Saint Florentin, tinha tres cavallos... + +E recostando-se muito, com as mãos nos bolsos: + +--Emfim, fazer este valle de lagrimas o mais confortavel possivel!... +Dize cá, tens algum retrato n'esse medalhão? + +--O retrato de meu marido. + +--Ah! deixa vêr! + +Luiza abriu o medalhão. Elle debruçou-se; tinha o rosto quasi sobre o +peito d'ella. Luiza sentia o aroma fino que vinha de seus cabellos. + +--Muito bem, muito bem!--fez Bazilio. + +Ficaram calados. + +--Que calor que está!--disse Luiza.--Abafa-se, hein! + +Levantou-se, foi abrir um pouco uma vidraça. O sol deixára a varanda. +Uma aragem suave encheu as pregas grossas das bambinellas. + +--É o calor do Brazil--disse elle.--Sabes que estás mais crescida? + +Luiza estava de pé. O olhar de Bazilio corria-lhe as linhas do corpo; e +com a voz muito intima, os cotovêlos sobre os joelhos, o rosto erguido +para ella: + +--Mas, francamente, dize cá, pensaste que eu te viria vêr? + +--Ora essa! Realmente, se não viesses zangava-me. És o meu unico +parente... O que tenho pena é que meu marido não esteja... + +--Eu--acudiu Bazilio--foi justamente por elle não estar... + +Luiza fez-se escarlate. Bazilio emendou logo, um pouco corado tambem: + +--Quero dizer... talvez elle saiba que houve entre nós... + +Ella interrompeu: + +--Tolices! Eramos duas crianças. Onde isso vai! + +--Eu tinha vinte e sete annos--observou elle, curvando-se. + +Ficaram calados, um pouco embaraçados. Bazilio cofiava o bigode, +olhando vagamente em redor. + +--Estás muito bem installada aqui--disse. + +Não estava mal... A casa era pequena, mas muito commoda. Pertencia-lhes. + +--Ah! estás perfeitamente! Quem é esta senhora, com uma luneta d'ouro? + +E indicava o retrato por cima do sophá. + +--A mãi de meu marido. + +--Ah! vive ainda? + +--Morreu. + +--É o que uma sogra póde fazer de mais amavel... + +Bocejou ligeiramente, fitou um momento os seus sapatos muito aguçados, +e com um movimento brusco, ergueu-se, tomou o chapéo. + +--Já? Onde estás? + +--No Hotel Central. E até quando? + +--Até quando quizeres. Não disseste que vinhas ámanhã com o rosario? + +Elle tomou-lhe a mão, curvou-se: + +--Já se não póde dar um beijo na mão d'uma velha prima? + +--Porque não? + +Pousou-lhe um beijo na mão, muito longo, com uma pressão dôce. + +--Adeus!--disse. + +E á porta, com o reposteiro meio erguido, voltando-se: + +--Sabes, que eu, ao subir as escadas, vinha a perguntar a mim mesmo, +como se vai isto passar? + +--Isto quê? Vêrmo-nos outra vez? Mas, perfeitamente. Que imaginaste tu? + +Elle hesitou, sorriu: + +--Imaginei que não eras tão boa rapariga. Adeus. Ámanhã, hein? + +No fundo da escada accendeu o charuto, devagar. + +--Que bonita que ella está!--pensou. + +E arremessando o phosphoro, com força: + +--E eu, pedaço d'asno, que estava quasi decidido a não a vir vêr! +Está de appetite! Está muito melhor! E sósinha em casa, aborrecidinha +talvez!... + +Ao pé da Patriarchal fez parar um _coupé_ vazio; e estendido, com o +chapéo nos joelhos, em quanto a parelha esfalfada trotava: + +--E tem-me o ar de ser muito aceada, cousa rara na terra! As mãos muito +bem tratadas! O pé muito bonito! + +Revia a pequenez do pé, poz-se a fazer por elle o desenho mental de +outras bellezas, despindo-a, querendo adivinhal-a... A amante que +deixára em Paris era muito alta e magra, d'uma elegancia de tisica; +quando se decotava viam-se as saliencias das suas primeiras costellas. +E as fórmas redondinhas de Luiza decidiram-no: + +--A ella!--exclamou com appetite:--A ella, como S. Thiago aos mouros! + + + +Luiza, quando o sentiu em baixo fechar a porta da rua, entrou no +quarto, atirou o chapéo para a _causeuse,_ e foi-se logo vêr ao +espelho. Que felicidade estar vestida! Se elle a tivesse apanhado em +roupão, ou mal penteada!... Achou-se muito afogueada, cobriu-se de pós +de arroz. Foi á janella, olhou um momento a rua, o sol que batia ainda +nas casas fronteiras. Sentia-se cançada. Áquellas horas, Leopoldina +estava a jantar já, de certo... Pensou em escrever a Jorge «para +matar o tempo», mas veio-lhe uma preguiça; estava tanto calor! Depois +não tinha que lhe dizer! Começou então a despir-se devagar diante do +espelho, olhando-se muito, gostando de se vêr branca, acariciando a +finura da pelle, com bocejos languidos d'um cansaço feliz.--Havia +sete annos que não via o primo Bazilio! Estava mais trigueiro, mais +queimado, mas ia-lhe bem! + +E depois de jantar ficou junto á janella, estendida na _voltaire_, com +um livro esquecido no regaço. O vento cahira, e o ar, de um azul forte +nas alturas, estava immovel; a poeira grossa pousára, a tarde tinha +uma transparencia calma de luz; passaros chilreavam na figueira brava; +da serralheria proxima sahia o martellar continuo e sonoro de folhas +de ferro. Pouco a pouco o azul desbotou; sobre o poente, laivos de côr +de laranja desmaiada esbateram-se como grandes pinceladas desleixadas. +Depois tudo se cobriu de uma sombra diffusa, calada e quente, com uma +estrellinha muita viva que luzia e tremia. E Luiza deixára-se ficar na +_voltaire_ esquecida, absorvida, sem pedir luz. + +--Que vida interessante a do primo Bazilio!--pensava.--O que elle tinha +visto! Se ella podesse tambem fazer as suas malas, partir, admirar +aspectos novos e desconhecidos, a neve nos montes, cascatas reluzentes! +Como desejaria visitar os paizes que conhecia dos romances--a Escocia e +os seus lagos taciturnos, Veneza e os seus palacios tragicos; aportar +ás bahias, onde um mar luminoso e faiscante morre na arêa fulva; e das +cabanas dos pescadores, de tecto chato, onde vivem as Graziellas, vêr +azularem-se ao longe as ilhas de nomes sonoros! E ir a Paris! Paris +sobretudo! Mas, qual! Nunca viajaria de certo; eram pobres; Jorge era +caseiro, tão lisboeta! + +Como seria o patriarcha de Jerusalém? Imaginava-o de longas barbas +brancas, recamado d'ouro, entre instrumentações solemnes e rolos de +incenso! E a princeza de La Tour d'Auvergne? Devia ser bella, de uma +estatura real, vivia cercada de pagens, namorára-se de Bazilio.--A +noite escurecia, outras estrellas luziam.--Mas de que servia viajar, +enjoar nos paquetes, bocejar nos wagons, e, n'uma diligencia muita +sacudida, cabecear de somno pela serra nas madrugadas frias? Não era +melhor viver n'um bom conforto, com um marido terno, uma casinha +abrigada, colxões macios, uma noite de theatro ás vezes, e um bom +almoço nas manhãs claras quando os canarios chalram? Era o que ella +tinha. Era bem feliz! Então veio-lhe uma saudade de Jorge; desejaria +abraçal-o, tel-o alli, ou quando descesse ir encontral-o fumando o seu +cachimbo no escriptorio, com o seu jaquetão de velludo. Tinha tudo, +elle, para fazer uma mulher feliz e orgulhosa: era bello, com uns +olhos magnificos, terno, fiel. Não gostaria de um marido com uma vida +sedentaria e caturra: mas a profissão de Jorge era interessante; descia +aos poços tenebrosos das minas, um dia aperrára as pistolas contra +uma malta revoltada; era valente, tinha talento! Involuntariamente, +porém, o primo Bazilio fazendo fluctuar o seu _burnous_ branco pelas +planicies da Terra Santa; ou em Paris, direito na almofada, governando +tranquillamente os seus cavallos inquietos--davam-lhe a idéa d'uma +outra existencia mais poetica, mais propria para os episodios do +sentimento. + +Do céo estrellado cahia uma luz diffusa: janellas alumiadas sobresahiam +ao longe, abertas á noite abafada: vôos de morcegos passavam diante da +vidraça. + +--A senhora não quer luz?--perguntou á porta a voz fatigada de Juliana. + +--Ponha-a no quarto. + +Desceu. Bocejava muito, sentia-se quebrada. + +--É trovoada--pensou. + +Foi á sala, sentou-se ao piano, tocou ao acaso bocados da _Lucia_, da +_Somnambula_, o _Fado_; e parando, os dedos pousados de leve sobre +o teclado, poz-se a pensar que Bazilio devia vir no dia seguinte: +vestiria o roupão novo de _foulard_ côr de castanho! Recomeçou o +_Fado_, mas os olhos cerravam-se-lhe. + +Foi para o quarto. + +Juliana trouxe o rol e a lamparina. Vinha arrastando as chinellas, com +um casabeque pelos hombros, encolhida e lugubre. Aquella figura com um +ar de enfermaria irritou Luiza: + +--Credo, mulher! Vossê parece a imagem da morte! + +Juliana não respondeu. Pousou a lamparina; apanhou, placa a placa, +sobre a commoda, o dinheiro das compras; e com os olhos baixos: + +--A senhora não precisa mais nada, não? + +--Vá-se, mulher, vá! + + + +Juliana foi buscar o candieiro de petroleo, subiu ao quarto. Dormia em +cima, no sotão, ao pé da cozinheira. + +--Pareço-te a imagem da morte!--resmungava, furiosa. + +O quarto era baixo, muito estreito, com o tecto de madeira inclinado; +o sol, aquecendo todo o dia as telhas por cima, fazia-o abafado +como um forno; havia sempre á noite um cheiro requentado de tijolo +escandecido. Dormia n'um leito de ferro, sobre um colxão de palha +molle coberto d'uma colcha de chita; da barra da cabeceira pendiam os +seus _bentinhos_ e a rêde enxovalhada que punha na cabeça; ao pé tinha +preciosamente a sua grande arca de pau, pintada de azul, com uma grossa +fechadura. Sobre a mesa de pinho estava o espelho de gaveta, a escova +de cabello ennegrecida e despellada, um pente d'osso, as garrafas de +remedio, uma velha pregadeira de setim amarello, e, embrulhada n'um +jornal, a _cuia_ de retroz dos domingos. E o unico adorno das paredes +sujas, riscadas da cabeça de phosphoros,--era uma lithographia de Nossa +Senhora das Dôres por cima da cama, e um daguerreotypo onde se percebia +vagamente, no reflexo espelhado da lamina, os bigodes encerados e as +divisas de um sargento. + +--A senhora já se deitou, snr.^a Juliana?--perguntou a cozinheira do +quarto pegado, d'onde sahia uma barra de luz viva cortando a escuridão +do corredor. + +--Já se deitou, snr.^a Joanna, já. Está hoje com os azeites. Falta-lhe +o homem! + +Joanna, ás voltas, fazia ranger as madeiras velhas da cama. Não podia +dormir! Abafava-se! Ouf! + +--Ai! e aqui!--exclamou Juliana. + +Abriu o postigo que dava para os telhados, para deixar arejar; calçou +as chinellas de tapete, e foi ao quarto de Joanna. Mas não entrou, +ficou á porta; era _criada de dentro_, evitava familiaridades. Tinha +tirado a _cuia_, e com um lenço preto e amarello amarrado na cabeça, o +seu rosto parecia mais chupado, e as orelhas mais despegadas do craneo; +a camisa decotada descobria as claviculas descarnadas; a saia curta +mostrava as canellas muito brancas, muito seccas. E com o casabeque +pelos hombros, coçando devagarinho os cotovêlos agudos: + +--Diga-me cá, snr.^a Joanna--disse com a voz discreta--aquelle sujeito +demorou-se muito? Reparou? + +--Tinha sahido n'aquelle instantinho, quando vossemecê entrou. Ouf! + +Encalmada, quasi descoberta, com as pernas muito abertas, Joanna +coçava-se furiosamente por baixo da grossa camisa com folhos á minhota +que lhe descobria os peitos. Não podia parar com os persevejos! O raio +do quarto tinha ninhos! Até sentia o estomago embrulhado. + +--Ai! é um inferno!--disse com lastima Juliana.--Eu só adormeço com +dia. Mas ainda eu agora reparo... Vossemecê tem S. Pedro á cabeceira. É +devoção? + +--É o santo do meu rapaz--disse a outra. Sentou-se na cama. Ouf! E +então tinha estado toda a noite com uma sêde!... + +Saltou para o chão, com passadas rijas que faziam tremer o soalho, foi +ao jarro, pôl-o á bocca, bebeu uma tarraçada. A camisa justa, feita de +pouca fazenda, mostrava as fórmas rijas e valentes. + +--Pois eu fui ao medico--disse Juliana. E com um grande suspiro:--Ai! +isto só Deus, snr.^a Joanna! Isto só Deus! + +Mas porque se não resolvia a snr.^a Juliana a ir á mulher de virtude? +Era a saude certa. Morava ao Poço dos Negros; tinha orações e unguentos +para tudo. Levava meia moeda pelo _preparo_... + +--Que isso são humores, snr.^a Juliana. O que vossemecê tem, são +humores. + +Juliana tinha dado dous passos para dentro do quarto. Quando se tratava +de doenças, de remedios, tornava-se mais familiar. + +--Eu já me tenho lembrado... eu já me tenho lembrado de ir á mulher. +Mas, meia moeda! + +E ficou a olhar, tristemente, reflectindo. + +--É o que eu tenho junto para umas botinas de gaspia! + +Eram o seu vicio, as botinas! Arruinava-se com ellas: tinha-as de +duraque com ponteiras de verniz, de cordovão com laço, de pellica +com pespontos de côr, embrulhadas em papeis de sêda, na arca, +fechadas--guardadas para os domingos! + +Joanna censurou-a. + +--Ai! eu, em se tratando do corpo, do interior, que o diabo leve os +arrebiques! + +Queixou-se tambem da sua miseria. Tinha pedido á senhora um mez +adiantado! Estava sem camisas! As duas que tinha eram uns trapos! Pelo +gosto da que trazia, a desfazerem-se! + +--Mas, então!--suspirou--O meu rapaz precisou um dinheiro... + +--Vossemecê tambem, snr.^a Joanna, deixa-se cardar pelo homem! + +Joanna sorriu. + +--Ainda que eu tivesse de roer ossos, snr.^a Juliana, a ultima migalha +havia de ser p'ra elle! + +Juliana teve um risinho secco, e com a voz arrastada: + +--Vale lá a pena! + +Mas invejava asperamente a cozinheira pela posse d'aquelle amor, pelas +suas delicias. Repetiu, contrafeita: + +--Vale lá a pena! Perfeito rapaz--continuou--o que veio hoje vêr a +senhora! Melhor que o homem! + +E depois d'uma pausa: + +--Então esteve mais de duas horas? + +--Tinha sahido quando vossemecê entrou. + +Mas o candieiro de petroleo apagava-se, com um cheiro fetido e uma +fumarada negra. + +--Boa noite, snr.^a Joanna. Ainda vou rezar a minha corôa. + +--Ó snr.^a Juliana!--disse a outra d'entre os lençoes--Se vossemecê +quer rezar tres salvè-rainhas pela saude do meu rapaz que tem estado +adoentado, eu cá lhe rezava tres pelas melhoras do peito. + +--Pois sim, snr.^a Joanna! + +Mas reflectindo: + +--Olhe. Eu do peito vou melhor; dê-m'as antes p'ra allivio das dôres de +cabeça. A Santa Engracia! + +--Como vossemecê quizer, snr.^a Juliana. + +--Se faz favor. Boa noite! Fica-lhe ahi um cheiro! Credo! + +Foi para o quarto. Rezou, apagou a luz. Um calor molle continuo cahia +do forro; começou a faltar-lhe o ar: tornou a abrir o postigo, mas o +bafo quente que vinha dos telhados enjoava-a; e era assim todas as +noites, desde o começo do estio! Depois as madeiras velhas fervilhavam +de bicharia! Nunca, nunca, nas casas que servira, tinha tido um quarto +peor. Nunca! + +A cozinheira começou a resonar ao lado. E acordada, ás voltas, com +afflicções no coração, Juliana sentia a vida pesar-lhe, com uma +amargura maior! + + + +Nascera em Lisboa. O seu nome era Juliana Couceiro Tavira. Sua mãi +fôra engommadeira; e desde pequena tinha conhecido em casa um sujeito, +a quem chamavam na visinhança--_o fidalgo_, a quem sua mãi chamava--o +snr. D. Augusto. Vinha todos os dias, de tarde no verão, no inverno +de manhã, para a saleta onde sua mãi engommava, e alli estava horas +sentado no poial da janella que dava para um quintalejo, fumando +cachimbo, cofiando em silencio um enorme bigode preto. Como o poial era +de pedra, punha-lhe em cima, com muito methodo, uma almofada de vento, +que elle mesmo soprava. Era calvo, e trazia ordinariamente uma quinzena +de velludo castanho e chapéo alto branco. Ás seis horas levantava-se, +esvaziava a almofada, estava um bocado a esticar as calças para cima, +e sahia, com a sua grossa bengala de cana da India debaixo do braço, +gingando da cinta. Ella e sua mãi iam então jantar na mesinha de pinho +da cozinha debaixo d'um postigo, diante do qual se balouçavam, de verão +e d'inverno, galhos magros d'uma arvore triste. + +Á noite o snr. D. Augusto voltava; trazia sempre um jornal; sua mãi +fazia-lhe chá e torradas, servia-o, toda enlevada n'elle. Muitas vezes +Juliana a vira chorar de ciumes. + +Um dia uma visinha má, a quem ella não quizera ajudar a lavar a roupa, +enfureceu-se, e atirando-lhe injurias dos degraus da porta,--gritou-lhe +que sua mãi era uma desavergonhada, e que seu pai estava na Africa por +ter morto o _Rei de Copas_! + +Pouco tempo depois foi servir. Sua mãi morreu d'ahi a mezes, com uma +doença d'utero. Juliana só uma vez tornou a vêr o snr. D. Augusto,--uma +tarde, com uma opa rôxa, lugubre, na procissão de Passos! + +Servia, havia vintes annos. Como ella dizia, mudava de amos, mas não +mudava de sorte. Vinte annos a dormir em cacifros, a levantar-se +de madrugada, a comer os restos, a vestir trapos velhos, a soffrer +os repellões das crianças e as más palavras das senhoras, a fazer +despejos, a ir para o hospital quando vinha a doença, a esfalfar-se +quando voltava a saude!... Era de mais! Tinha agora dias em que só de +vêr o balde das aguas sujas e o ferro d'engommar se lhe embrulhava o +estomago. Nunca se acostumára a servir. Desde rapariga a sua ambição +fôra ter um negociosito, uma tabacaria, uma loja de capellista ou de +quinquilherias, dispôr, governar, ser patrôa: mas, apesar d'economias +mesquinhas e de calculos sôfregos, o mais que conseguira juntar foram +sete moedas ao fim d'annos: tinha então adoecido; com o horror do +hospital fôra tratar-se para casa d'uma parenta; e o dinheiro, ai! +derretera-se! No dia em que se trocou a ultima libra, chorou horas com +a cabeça debaixo da roupa. + +Ficou sempre adoentada desde então, perdeu toda a esperança de se +estabelecer. Teria de servir até ser velha, sempre, d'amo em amo! Essa +certeza dava-lhe uma desconsolação constante. Começou a azedar-se. + +E depois não tinha _geito_, não sabia tirar partido das casas: via +companheiras divertir-se, visinhar, janellar, bisbilhotar, sahir aos +domingos ás hortas e aos retiros, levar o dia cantando, e quando as +patrôas iam ao theatro, abrir a porta aos derriços--e patuscar pelos +quartos! Ella não. Sempre fôra embezerrada. Fazia a sua obrigação, +comia, ia estirar-se sobre a cama; e aos domingos, quando não passeava, +encostava-se a uma janella, com o lenço sobre o peitoril para não +roçar as mangas, e alli estava immovel, a olhar, com o seu broche de +filigrana e a cuia dos dias santos! Outras companheiras eram muito das +amas, faziam-se muito humildes, sabujavam, traziam de fóra as historias +da rua, e cartinhas levadas e recadinhos e p'ra dentro e p'ra fóra, +muito confidentes,--muito presenteadas tambem! Ella não podia. Era +_minha senhora isto! minha senhora aquillo!_ E cada uma no seu lugar! +Era genio. + +Desde que servia, apenas entrava n'uma casa sentia logo, n'um relance, +a hostilidade, a malquerença: a senhora fallava-lhe com seccura, de +longe; as crianças tomavam-lhe birra; as outras criadas, se estavam +chalrando, calavam-se, mal a sua figura esguia apparecia; punham-lhe +alcunhas--_a isca sêcca_, _a fava torrada_, _o saca-rolhas_; +imitavam-lhe os trejeitos nervosos; havia risinhos, cochichos pelos +cantos; e só tinha encontrado alguma sympathia nos gallegos taciturnos, +cheios d'uma saudade morrinhenta, que veem de manhã quando ainda os +quartos estão escuros, com as suas grossas passadas, encher os barris, +engraxar o calçado. + +Lentamente, começou a tornar-se desconfiada, cortante como um nordeste; +tinha respostadas, questões com as companheiras; não se havia de deixar +pôr o pé no pescoço! + +As antipathias que a cercavam faziam-na assanhada, como um circulo +d'espingardas enraivece um lobo. Fez-se má; beliscava crianças até lhe +ennodoar a pelle; e se lhe ralhavam, a sua colera rompia em rajadas. +Começou a ser despedida. N'um só anno esteve em tres casas. Sahia com +escandalo, aos gritos, atirando as portas, deixando as amas todas +pallidas, todas nervosas... + +A inculcadeira, a sua velha amiga, a tia Victoria, disse-lhe: + +--Tu acabas por não ter onde te arrumar, e falta-te o bocado do pão! + +O pão! Aquella palavra que é o terror, o sonho, a difficuldade do pobre +assustou-a. Era fina, e dominou-se. Começou a fazer-se «uma pobre +mulher», com affectações de zelo, um ar de soffrer tudo, os olhos +no chão. Mas roia-se por dentro: veio-lhe a inquietação nervosa dos +musculos da face, o _tic_ de franzir o nariz: a pelle esverdeou-se-lhe +de bilis. + +A necessidade de se constranger trouxe-lhe o habito d'odiar: odiou +sobretudo as patrôas, com um odio irracional e pueril. Tivera-as ricas, +com palacetes, e pobres, mulheres d'empregados, velhas e raparigas, +colericas e pacientes;--odiava-as a todas, sem differença. É patrôa +e basta! Pela mais simples palavra, pelo acto mais trivial! Se as +via sentadas:--Anda, refestela-te, que a moura trabalha! Se as via +sahir:--Vai-te, a negra cá fica no buraco! Cada riso d'ellas era uma +offensa á sua tristeza doentia; cada vestido novo uma affronta ao seu +velho vestido de merino tingido. Detestava-as na alegria dos filhos +e nas prosperidades da casa. Rogava-lhes pragas. Se os amos tinham +um dia de contrariedade, ou via as caras tristes, cantarolava todo o +dia em voz de falsete a _Carta adorada_! Com que gosto trazia a conta +retardada d'um credor impaciente, quando presentia embaraços na casa! +«Este papel!--gritava com uma voz estridente--diz que não se vai embora +sem uma resposta!» Todos os lutos a deleitavam,--e sob o chale preto, +que lhe tinham comprado, tinha palpitações de regosijo. Tinha visto +morrer criancinhas, e nem a afflicção das mães a commovera; encolhia os +hombros: «Vai d'alli, vai fazer outro. Cabras!» + +As boas palavras mesmo, as condescendencias eram perdidas com ella, +como gotas d'agua lançadas no fogo. Resumia as patrôas na mesma +palavra--_uma récua_! E detestava as boas pelos vexames que soffrera +das más. A ama era para ella o Inimigo, o Tyranno. Tinha visto morrer +duas,--e de cada vez sentira, sem saber porquê, um vago allivio, como +se uma porção do vasto peso, que a suffocava na vida, se tivesse +desprendido e evaporado! + +Sempre fôra invejosa; com a idade aquelle sentimento exagerou-se de +um modo aspero. Invejava tudo na casa: as sobremesas que os amos +comiam, a roupa branca que vestiam. As noites de _soirée_, de theatro, +exasperavam-na. Quando havia passeios projectados, se chovia de +repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapéo, +olhando por dentro da vidraça com um tedio infeliz, deliciava-a, +fazia-a loquaz: + +--Ai minha senhora! É um temporal desfeito! É a cantaros, está para +todo o dia! Olha o ferro! + +E muito curiosa: era facil encontral-a, de repente, cosida por detraz +de uma porta com a vassoura a prumo, o olhar aguçado. Qualquer carta +que vinha era revirada, cheirada... Remexia subtilmente em todas as +gavetas abertas, vasculhava em todos os papeis atirados. Tinha um modo +de andar ligeiro e surprehendedor. Examinava as visitas. Andava á busca +de um _segredo_, de um _bom segredo_! Se lhe cahia um nas mãos! + +Era muito gulosa. Nutria o desejo insatisfeito de comer bem, de +petiscos, de sobremesas. Nas casas em que servia ao jantar, o seu olho +avermelhado seguia avidamente as porções cortadas á mesa; e qualquer +bom appetite que repetia exasperava-a, como uma diminuição da sua +parte. De comer sempre os restos ganhára o ar aguado,--o seu cabello +tomára tons seccos, côr de rato. Era lambareira: gostava de vinho; +em certos dias comprava uma garrafa de oitenta reis, e bebia-a só, +fechada, repimpada, com estalos da lingua, a orla do vestido um pouco +erguida, revendo-se no pé. + +E nunca tivera um homem, era virgem. Fôra sempre feia, ninguem a +tentára: e, por orgulho, por birra, com receio de uma desfeita, não se +offerecera, como vira muitas, claramente. O unico homem que a olhára +com desejo tinha sido um criado de cavalhariça, atarracado e immundo, +de aspecto facinora: a sua magreza, a sua _cuia_, o seu ar domingueiro +tinham excitado o bruto. Fitava-a com um ar de _bull-dog_. Causára-lhe +horror,--mas vaidade. E o primeiro homem por quem ella sentira, um +criado bonito e alourado, rira-se d'ella, pozera-lhe o nome da _Isca +sêcca_! Não contou mais com os homens, por despeito, por desconfiança +de si mesma. As rebelliões da natureza, suffocava-as; eram _fogachos, +flatos_. Passavam. Mas faziam-na mais secca; e a falta d'aquella grande +consolação aggravava a miseria da sua vida. + +Um dia teve, emfim, uma grande esperança. Entrára para o serviço +da snr.^a D. Virginia Lemos, uma viuva rica, tia de Jorge, muito +doente, quasi a morrer com um catarrho de bexiga. A tia Victoria, a +inculcadeira, preveniu-a: + +--Tu trata a velha, apaparica-a, que ella o que quer é uma enfermeira +que a soffra. É rica, não é nada apegada ao dinheiro, é capaz de te +deixar uma independencia! + +Durante um anno Juliana, roída de ambição, foi a enfermeira da velha. +Que zelos! que mimos! + +Virginia era muito rabugenta, a idéa de morrer enfurecia-a; quanto mais +ella ralhava com a sua voz guttural, mais Juliana se fazia serviçal. A +velha, por fim, estava enternecida: gabava-a ás pessoas que a vinham +vêr, chamava-lhe a sua _providencia_. Tinha-a recommendado muito a +Jorge. + +--Não ha outra! não ha outra!--exclamava. + +--Pois apanhaste!--dizia-lhe a tia Victoria.--Pelo menos deixa-te o teu +conto de reis. + +Um conto de reis! Juliana, de noite, em quanto a velha gemia no seu +antigo leito de pau santo, via o conto de reis á claridade morbida que +dava a lamparina, reluzir em pilhas de ouro inesgotavel e prodigioso. +Que faria com o dinheiro? E, á cabeceira da doente, com um cobertor +pelos hombros, os olhos dilatados e fixos, planeava: poria uma loja de +capellista! Vinham-lhe logo lampejos vivos de outras felicidades: um +conto de reis era um dote, poderia casar, teria um homem! + +Estavam acabadas as canceiras. Ia jantar, emfim, o _seu_ jantar! +Mandar, emfim, a _sua_ criada! A _sua_ criada! Via-se a chamal-a, +a dizer-lhe, de cima para baixo:--Faça, vá, despeje, sáia!--Tinha +contracções no estomago, de alegria. Havia de ser boa ama. Mas que lhe +andassem direitas! Desmazelos, más respostas, não havia de soffrer a +criadas!--E, impellida por aquellas imaginações, arrastava subtilmente +as chinellas pelo quarto, fallando só.--Não, desmazelos, não havia de +soffrer! Mantel-as bem, de certo, porque quem trabalha precisa metter +p'ra dentro! Mas havia de lh'o tirar do corpo. Ah! lá isso, haviam de +lhe andar direitas...--A velha tinha então um gemido mais afflicto. + +--É agora!--pensava--Morre! + +E o seu olhar ancioso ia logo para a gaveta da commoda, onde estava +de certo o dinheiro, os papeis. Mas não! a velha queria beber, ou +voltar-se... + +--Como se sente?--perguntava Juliana, com uma voz plangente. + +--Melhor, Juliana, melhor--murmurava. + +Suppunha-se sempre melhor. + +--Mas a senhora tem estado desinquieta!--dizia Juliana, despeitada da +melhora. + +--Não--suspirava--dormi bem! + +--Isso não tem dormido... Tenho-a ouvido gemer! Tem estado toda a noite +a gemer! + +Queria argumentar com ella, convencel-a que estava peor! Convencer-se a +si mesma que o allivio era ephemero, que ia morrer depressa! E todas as +manhãs seguia o dr. Pinto até á porta, com os braços cruzados, a face +triste: + +--Então, snr. doutor, não ha esperança? + +--Está por dias! + +Queria saber os dias: dous? cinco? + +--Sim, snr.^a Juliana--dizia o velho, calçando as suas luvas +pretas--uns dias, sete, oito. + +--Oito dias! + +E como a felicidade se aproximava, já tinha de olho tres pares de +botinas que vira na vidraça do Manoel Lourenço! + +A velha, emfim, morreu. Nem a mencionava no testamento! + +Veio-lhe uma febre. Jorge, agradecido pelos cuidados d'ella com a tia +Virginia, pagou-lhe um quarto no hospital, e prometteu tomal-a para +criada de dentro. A que tinha, uma Emilia muito bonita, ia casar. + +Quando sahiu do hospital para casa de Jorge, começava a queixar-se +mais do coração. Vinha desilludida de tudo, tinha ás vezes vontade de +morrer. Ouviam-se todo o dia pela casa os seus _ais_. Luiza achava-a +funebre. + +Quiz despedil-a ao fim de duas semanas. Jorge não consentiu, +estava em divida com ella, dizia. Mas Luiza não podia disfarçar a +sua antipathia;--e Juliana começou a detestal-a: poz-lhe logo um +nome:--a _piorrinha_! depois, d'ahi a semanas viu vir os estofadores: +renovava-se a mobilia da sala! A tia Virginia deixára tres contos de +reis a Jorge,--e ella, ella que durante um anno fôra a enfermeira, +humilde como um cão e fixa como uma sombra, aturando o monstrengo, +tinha em paga ido para o hospital, com uma febre, das noitadas, das +canceiras! Julgava-se vagamente roubada. Começou a odiar a casa. + +Tinha para isso muitas razões, dizia: dormia n'um cubiculo abafado; ao +jantar não lhe davam vinho, nem sobremesa; o serviço dos engommados +era pesado; Jorge e Luiza tomavam banho todos os dias, e era um +trabalhão encher, despejar todas as manhãs as largas bacias de folha: +achava despropositada aquella mania de se pôrem a chafurdar todos os +dias que Deus deitava ao mundo; tinha servido vinte amos, e nunca +vira semelhante desproposito! A unica vantagem--dizia ella á tia +Victoria--era não haver pequenos; tinha horror a crianças! Além d'isso +achava que o bairro era saudavel; e como tinha a cozinheira «na mão», +não é verdade? havia aquelle regalo dos caldinhos, de algum prato +melhor de vez em quando! Por isso ficava; senão, não era ella! + +Fazia no entanto o seu serviço, ninguem tinha nada que lhe dizer. O +olho aberto sempre e o ouvido á escuta, já se vê! E como perdera a +esperança de se estabelecer, não se sujeitava ao rigor de economisar: +por isso ia-se consolando com algumas pinguinhas, de vez em quando; e +satisfazia o seu vicio,--trazer o pé catita. O pé era o seu orgulho, a +sua mania, a sua despeza. Tinha-o bonito e pequenino. + +--Como poucos--dizia ella--não vai outro ao Passeio! + +E apertava-o, aperreava-o; trazia os vestidos curtos, lançava-o muito +para fóra. A sua alegria era ir aos domingos para o Passeio Publico, +e alli, com a orla do vestido erguida, a cara sob o guarda-solinho de +sêda, estar a tarde inteira na poeira, no calor, immovel, feliz,--a +mostrar, a expôr o pé! + + + + +IV + + +Pelas tres horas da tarde, Juliana entrou na cozinha e atirou-se para +uma cadeira, derreada. Não se tinha nas pernas de debilidade! Desde as +duas horas que andava a arrumar a sala! Estava um chiqueiro. O peralta +na vespera até deixára cinza de tabaco por cima das mesas! A negra é +que as pagava. E que calor! Era de derreter! Ouf! + +--O caldinho ha-de estar prompto, hein!--disse, adocicando a +voz.--Tira-m'o, snr.^a Joanna, faz favor? + +--Vossemecê hoje está com outra cara--notou a cozinheira. + +--Ai! sinto-me outra, snr.^a Joanna! Pois olhe que adormeci com dia. Já +luzia o dia! + +--E eu!--Tinha tido cada sonho! Credo! Uma avantesma côr de fogo a +passear-lhe por cima do corpo, e cada pancada na bocca do estomago, +como quem pisava uvas n'um lagar! + +--Enfartamento--disse sentenciosamente Juliana, e repetiu: + +--Pois eu sinto-me outra. Ha mezes que me não sinto tão bem! + +Sorria com os seus dentes amarellados. O caldo que Joanna deitava na +malga branca, com um vapor cheiroso, cheio de hortaliça, dava-lhe uma +alegria gulosa. Estendeu os pés, recostou-se, feliz, na boa sensação +da tarde quente e luminosa, entrando largamente pelas duas janellas +abertas. + +O sol retirára-se da varanda, e sobre a pedra, em vasos de barro, +plantas pobres encolhiam a sua folhagem chupada do calor: sobre +uma táboa a um canto, n'uma velha panella bojuda, verdejava um pé +de salsa muito tratado: o gato dormia sobre um esteirão: esfregões +seccavam n'uma corda: e para além alargava-se o azul vivo como um +metal candente, as arvores dos quintaes tinham tons ardentes do sol, +os telhados pardos com as suas vegetações esguias coziam no calor, e +pedaços de paredes caiadas despediam uma rebrilhação dura. + +--Está de appetite, snr.^a Joanna, está de appetite!--dizia Juliana, +remexendo o caldo devagarinho, com gula. A cozinheira de pé, com os +braços cruzados sobre o seu peito abundante, regosijava-se: + +--O que se quer é que esteja a gosto. + +--Está a preceito. + +Sorriam, contentes da intimidade, das boas palavras.--E a campainha da +porta que já tinha tocado, tornou a tilintar discretamente. + +Juliana não se mexeu. Bafos de aragem quente entravam: ouvia-se ferver +a panella no fogão, e fóra o martellar incessante da forja: ás vezes o +arrulhar triste de duas rôlas que viviam na varanda, n'uma gaiola de +vime, punha na tarde abrazada uma sensação de suavidade. + +A campainha retilintou, sacudida com impaciencia. + +--Com a cabeça, burro!--disse Juliana. + +Riram. Joanna fôra sentar-se á janella, n'uma cadeira baixa; estendia +os seus grossos pés, calçados de chinellas de ourêlo; coçava-se +devagarinho no sovaco, toda repousada. + +A campainha retiniu violentamente. + +--Fóra, besta!--rosnou Juliana, muito tranquilla. + +Mas a voz irritada de Luiza chamou de baixo: + +--Juliana! + +--Que nem uma pessoa póde tomar a sustancia socegada! Raio de casa! +Irra! + +--Juliana!--gritou Luiza. + +A cozinheira voltou-se, já assustada: + +--A senhora zanga-se, snr.^a Juliana. + +--Que a leve o diabo! + +Limpou os beiços gordurosos ao avental, desceu furiosa. + +--Vossê não ouve, mulher? Estão a bater ha uma hora! + +Juliana arregalou os olhos espantada: Luiza tinha vestido o roupão novo +de _foulard_ côr de castanho, com pintinhas amarellas! + +--Temos novidade! Temol-a grossa!--pensou Juliana pelo corredor. + +A campainha repicava. E no patamar, vestido de claro, com uma rosa ao +peito, um embrulho debaixo do braço, estava o _sujeito do negocio das +minas_! + +--Aquelle sujeito de hontem!--veio dizer, toda pasmada. + +--Mande entrar... + +--Viva!--pensou. + +Galgou a escada da cozinha, disse logo da porta, com a voz aguda de +jubilo: + +--Está cá o peralta de hontem! Está cá outra vez! Traz um +embrulho!--Que lhe parece, snr.^a Joanna? Que lhe parece? + +--Visitas...--disse a cozinheira. + +Juliana teve um risinho secco. Sentou-se, acabou o seu caldo, á pressa. + +Joanna indifferente cantarolava pela cozinha; o arrulhar das rôlas +continuava langoroso e debil. + +--Pois, senhores, isto vai rico!--disse Juliana. + +Esteve um momento a limpar os dentes com a lingua, o olhar fixo, +reflectindo. Sacudiu o avental, e desceu ao quarto de Luiza: o seu +olhar esquadrinhador avistou logo sobre o toucador as chaves esquecidas +da dispensa: podia subir, beber um trago de bom vinho, engulir dous +ladrilhos de marmelada... Mas possuia-a uma curiosidade urgente, e, em +bicos de pés, foi agachar-se á porta que dava para a sala, espreitou. O +reposteiro estava corrido por dentro: podia apenas sentir a voz grossa +e jovial do sujeito. Foi de volta, pelo corredor, á outra porta, ao +pé da escada; poz o olho á fechadura, collou o ouvido á frincha. O +reposteiro dentro estava tambem cerrado. + +--Os diabos calafetaram-se!--pensou. + +Pareceu-lhe que se arrastava uma cadeira, depois que se fechava uma +vidraça. Os olhos faiscavam-lhe. Uma risada de Luiza sobresahiu, em +seguida um silencio; e as vozes recomeçaram n'um tom sereno e continuo. +De repente o sujeito ergueu a falla, e entre as palavras que dizia, de +pé de certo, passeando, Juliana ouviu claramente: _Tu, foste tu!_ + +--Oh que bebeda! + +Um tlim-tlim timido da campainha, ao lado, assustou-a. Foi abrir. Era +Sebastião, muito vermelho do sol, com as botas cheias de pó. + +--Está?--perguntou, limpando a testa suada. + +--Está com uma visita, snr. Sebastião! + +E cerrando a porta sobre si, mais baixo: + +--Um rapaz novo que já cá esteve hontem, um janota! Quer que vá dizer? + +--Não, não, obrigado, adeus. + +Desceu discretamente. Juliana voltou logo a encostar-se á porta, a +orelha contra a madeira, as mãos atraz das costas: mas a conversação, +sem saliencia de vozes, tinha um rumor tranquillo e indistincto. Subiu +á cozinha. + +--Tratam-se por tu!--exclamou.--Tratam-se por tu, snr.^a Joanna! + +E muita excitada: + +--Isto vai á vela! Caspitè! assim é que eu gosto d'ellas! + +O sujeito sahiu ás cinco horas. Juliana, apenas sentiu abrir-se a +porta, veio a correr; viu Luiza no patamar, debruçada no corrimão, +dizendo para baixo, com muita intimidade: + +--Bem, não falto. Adeus. + +Ficou então tomada d'uma curiosidade que a alterava como uma febre. +Toda a tarde, na sala de jantar, no quarto, esquadrinhou Luiza com +olhares de lado. Mas Luiza, com um roupão de linho mais velho, parecia +serena, muito indifferente. + +--Que sonsa! + +Aquella naturalidade despertava a sua bisbilhotice. + +--Eu hei-de-t'apanhar, desavergonhada!--calculava. + +Afigurou-se-lhe que Luiza tinha os olhos um pouco pisados! Estudava-lhe +as posições, os tons de voz. Viu-a repetir o assado,--pensou logo: + +--Abriu-lhe o appetite! + +E quando Luiza ao fim do jantar se estendeu na _voltaire_ com um ar +quebrado: + +--Ficou derreada. + +Luiza que nunca tomava café, quiz n'essa tarde «meia chavena, mas +forte, muito forte». + +--Quer café!--veio ella dizer á cozinheira, toda excitada.--Tudo á +grande! E do forte. Quer do forte! Ora o diabo! + +Estava furiosa. + +--Todas o mesmo! Uma récua de cabras! + + + +Ao outro dia era domingo. Logo pela manhã cedo, quando Juliana ia +para a missa, Luiza chamou-a da porta do quarto, deu-lhe uma carta +para levar a D. Felicidade. Ordinariamente mandava um recado;--e a +curiosidade de Juliana accendeu-se logo diante d'aquelle sobrescripto +fechado e lacrado com o sinete de Luiza, um L gothico dentro d'uma +corôa de rosas. + +--Tem resposta? + +--Tem. + +Quando voltou ás dez horas, com um bilhete de D. Felicidade, Luiza quiz +saber se havia muito calor, se fazia poeira. Sobre a mesa estava um +chapéo de palha escuro, que ella estivera a enfeitar com duas rosas de +musgo. + +Fazia um bocadinho de vento, mas p'ra a tarde abrandava, de certo. E +pensou logo:--Temos passeata, vai ter com o gajo! + +Mas durante todo o dia, Luiza em roupão não sahiu do seu quarto ou +da sala, ora estendida na _causeuse_ lendo aos bocados, ora batendo +distrahidamente no piano pedaços de valsas. Jantou ás quatro horas. A +cozinheira sahiu, e Juliana pôz-se a passar a sua tarde á janella da +sala de jantar. Tinha o vestido novo, as salas muito rijas de gomma, a +cuia dos dias santos--e pousava solemnemente os cotovêlos n'um lenço, +estendido sobre o peitoril da varanda. Defronte os passaros chilreavam +na figueira brava. Dos dous lados do tabique que cercava o terreno +vago, agachavam-se os tectos escuros das duas ruasitas parallelas: +eram casas pobres onde viviam mulheres, que pela tarde, em chambre +ou de garibaldi, os cabellos muito oleosos, faziam meia á janella, +fallando aos homens, cantarolando com um tedio triste. Do outro lado do +terreno, verduras de quintaes, muros brancos davam áquelle sitio um ar +adormecido de villa pacata. Quasi ninguem passava. Havia um silencio +fatigado; e só ás vezes o som distante d'um realejo, que tocava a +_Norma_ ou a _Lucia_, punha uma melancolia na tarde.--E Juliana alli +estava immovel, até que os tons quentes da tarde empallideciam, e os +morcegos começavam a voar. + +Pelas oito horas entrou no quarto de Luiza,--ficou pasmada de a vêr +vestida toda de preto, de chapéo! Tinha accendido as serpentinas na +parede, os castiçaes no toucador; e sentada á beira da _causeuse_ +calçava as luvas devagar, com a face muito séria, um pouco esbatida de +pó d'arroz, o olhar cheio de brilho. + +--O vento abrandou?--disse. + +--Está a noite muito bonita, minha senhora. + +Um pouco antes das nove horas uma carruagem parou á porta. Era D. +Felicidade, muito encalmada. Abafára todo o dia! E á noite nem uma +aragem! Até tinha mandado buscar uma carruagem descoberta, que n'um +coupé, credo, morria-se! + +Juliana pelo quarto arrumava, dobrava, toda curiosa. Onde iriam? onde +iriam? D. Felicidade, amplamente sentada, de chapéo, tagarellava: uma +indigestão que tivera na vespera com umas bajes; a cozinheira que a +tinha querido «comer» em quatro vintens; uma visita que lhe fizera a +condessa de Arruella... + +Emfim, Luiza, disse, baixando o seu véo branco: + +--Vamos, filha. Faz-se tarde. + +Juliana foi-lhes alumiar, furiosa. Olha que proposito, irem duas +mulheres sós por ahi fóra, n'uma tipoia! E se uma criada então se +demorava na rua mais meia hora, credo, que alarido! Que duas bebedas! + +Foi á cozinha desabafar com a Joanna. Mas a rapariga estirada n'uma +cadeira, dormitava. + +Fôra com o seu Pedro ao Alto de S. João. E toda a tarde tinham passeado +no cemiterio, muito juntos, admirando os jazigos, soletrando os +epitaphios, beijocando-se nos recantos que os chorões escureciam, e +regalando-se do ar dos cyprestes e das relvas dos mortos. Voltaram por +casa da Serena, entraram a beberricar um quartilho no Espregueira... +Tarde cheia! e estava derreada da soalheira, do pó, da admiração de +tanto tumulo rico, do homem, e da pinguita de vinho. + +O que ia, era refastelar-se para a cama! + +--Credo, snr.^a Joanna, vossemecê está-se a fazer uma dorminhôca! Olha +que mulher! Com pouco arrêa! Cruzes! + +Desceu ao quarto de Luiza, apagou as luzes, abriu as janellas, arrastou +a poltrona para a varanda,--e, repimpada, os braços cruzados, pôz-se a +passar a noite. + +O estanque ainda não se fechára, e a sua luzita lugubre como a +estanqueira, estendia-se tristemente sobre a pedra miuda da rua; as +janellas ao pé estavam abertas; por algumas, mal alumiadas, viam-se +dentro serões melancolicos; n'outras, onde havia vultos immoveis, +luzia ás vezes a ponta d'um cigarro; aqui, além tossia-se; e o moço do +padeiro, no silencio quente da noite, harpejava baixinho a guitarra. + +Juliana pozera um vestido de chita claro; dous sujeitos que estavam +á porta do estanque riam, erguiam de vez em quando os olhos para a +janella, para aquelle vulto branco de mulher: Juliana, então, gozou! +Tomavam-na de certo pela senhora, pela do Engenheiro; faziam-lhe +«olho», diziam brejeirices... Um tinha calça branca e chapéo alto, eram +janotas... E com os pés muito estendidos, os braços cruzados, a cabeça +de lado, saboreava, longamente, aquella consideração. + +Passos fortes que subiam a rua, pararam á porta; a campainha retiniu de +leve. + +--Quem é?--perguntou muito impaciente. + +--Está?--disse a voz grossa de Sebastião. + +--Sahiu com a D. Felicidade, foram de carruagem. + +--Ah!--fez elle. + +E acrescentou: + +--Muito bonita noite! + +--D'appetite, snr. Sebastião! d'appetite!--exclamou alto. + +E quando o viu descer a rua, gritou, affectadamente: + +--Recados a Joanna! Não se esqueça!--mostrando-se intima, madama, com +olho terno para os homens. + + + +Áquella hora D. Felicidade e Luiza chegavam ao Passeio. + +Era beneficio; já de fóra se sentia o _brouhaha_ lento e monotono, e +via-se uma nevoa alta de poeira, amarellada e luminosa. + +Entraram. Logo ao pé do tanque encontraram Bazilio. Fez-se muito +surprehendido, exclamou: + +--Que feliz acaso! + +Luiza corou, apresentou-o a D. Felicidade. + +A excellente senhora teve muitos sorrisos. Lembrava-se d'elle, mas se +não lhe dissessem talvez o não conhecesse! Estava muito mudado! + +--Os trabalhos, minha senhora...--disse Bazilio curvando-se. + +E acrescentou rindo, batendo com a bengala na pedra do tanque: + +--E a velhice! Sobretudo a velhice! + +Na agua escura e suja as luzes do gaz torciam-se até uma grande +profundidade. As folhagens em redor estavam immoveis, no ar parado, +com tons d'um verde livido e artificial. Entre os dous longos renques +parallelos d'arvores mesquinhas, entremeadas de candieiros de gaz, +apertava-se, n'um empoeiramento de macadam, uma multidão compacta e +escura; e através do rumor grosso, as saliencias metallicas da musica +faziam passar no ar pesado, compassos vivos de valsa. + +Tinham ficado parados, conversando. + +Que calor, hein? Mas a noite estava linda! Nem uma aragem! que enchente! + +E olhavam a gente que entrava: moços muito frisados, com calças côr de +flôr d'alecrim, fumando ceremoniosamente os charutos do dia santo; um +aspirante com a cinta espartilhada e o peito enchumaçado; duas meninas +de cabello riçado, de movimentos gingados que lhe desenhavam os ossos +das omoplatas sob a fazenda do vestido atabalhoado; um ecclesiastico +côr de cidra, o ar molle, o cigarro na bocca, e lunetas defumadas; uma +hespanhola com dous metros de saia branca muita rija, fazendo ruge-ruge +na poeira; o triste Xavier, poeta; um fidalgo de jaquetão e bengalão, +de chapéo na nuca, o olho avinhado; e Bazilio ria muito de dous +pequenos que o pai conduzia com um ar hilare e compenetrado--vestidos +d'azul claro, a cinta ligada n'uma facha escarlate, barretinas de +lanceiro, botas á hungara, cretinos e somnambulos. + +Um sujeito alto então passou rente d'elles, e voltando-se, revirou para +Luiza dous grandes olhos langorosos e prateados: tinha uma pera longa +e aguçada; trazia o collete decotado mostrando um bello peitilho, e +fumava por urna boquilha enorme que representava um zuavo. + +Luiza quiz-se sentar. + +Um garoto de blusa, sujo como um esfregão, correu a arranjar cadeiras; +e acommodaram-se ao pé d'uma familia acabrunhada e taciturna. + +--Que fizeste tu hoje, Bazilio?--perguntou Luiza. + +Tinha ido aos touros. + +--E que tal? Gostaste? + +--Uma semsaboria. Se não fosse pelo trambolhão do Peixinho tinha-se +morrido de pasmaceira. Gado fraco, cavalleiros infelizes, nenhuma +sorte! Touros em Hespanha! Isso sim! + +D. Felicidade protestou. Que horror! Tinha-os visto em Badajoz, +quando estivera de visita em Elvas á tia Francisca de Noronha, e ia +desmaiando. O sangue, as tripas dos cavallos... Pouh! É muito cruel! + +Bazilio disse, com um sorriso: + +--Que faria se visse os combates de gallos, minha senhora! + +D. Felicidade tinha ouvido contar,--mas achava todos esses +divertimentos barbaros, contra a religião. + +E recordando um gozo que lhe punha um riso na face gorda: + +--P'ra mim não ha nada como uma boa noite de theatro! Nada! + +--Mas aqui representam tão mal!--replicou Bazilio com uma voz +desolada.--Tão mal, minha rica senhora! + +D. Felicidade não respondeu; meio erguida na cadeira, o olhar avivado +d'um brilho humido, saudava desesperadamente com a mão: + +--Não me viu--disse desconsolada. + +--Era o conselheiro?--perguntou Luiza. + +--Não. Era a condessa d'Alviella. Não me viu! Vai muito á Encarnação, +sou muito d'ella. É um anjo! Não me viu. Ia com o sogro. + +Bazilio não tirava os olhos de Luiza. Sob o véo branco, á luz falsa +do gaz, no ar ennevoado da poeira, o seu rosto tinha uma fórma alva +e suave, onde os olhos que a noite escurecia punham uma expressão +apaixonada; os cabellinhos louros, frisados, tornando a testa +mais pequena, davam-lhe uma graça ameninada e amorosa; e as luvas +_gris-perle_ faziam destacar sobre o vestido negro o desenho elegante +das mãos, que ella pousára no regaço, sustentando o leque, com uma fofa +renda branca em torno dos seus pulsos finos. + +--E tu, que fizeste hoje?--perguntou-lhe Bazilio. + +Tinha-se aborrecido muito. Estivera todo o santo dia a lêr. + +Tambem elle passára a manhã deitado no sophá a lêr a _Mulher de fogo_ +de Belot. Tinha lido, ella? + +--Não, que é? + +--É um romance, uma novidade. + +E acrescentou sorrindo: + +--Talvez um pouco picante; não t'o aconselho! + +D. Felicidade andava a lêr o _Rocambole_. Tanto lh'o tinham apregoado! +Mas era uma tal trapalhada! Embrulhava-se, esquecia-se... E ia deixar, +porque tinha percebido que a leitura lhe augmentava a indigestão. + +--Soffre?--perguntou Bazilio, com um interesse bem educado. + +D. Felicidade contou logo a sua dyspepsia. Bazilio aconselhou-lhe o +uso do gelo.--De resto felicitava-a, porque as doenças d'estomago, +ultimamente, tinham muito _chic_. Interessou-se pela d'ella, pediu +pormenores. + +D. Felicidade prodigalisou-os; e, fallando, via-se-lhe crescer no +olhar, na voz a sua sympathia por Bazilio. Havia de usar o gelo! + +--Com o vinho, já se sabe? + +--Com o vinho, minha senhora! + +--E olha que talvez!--exclamou D. Felicidade, batendo com o leque no +braço de Luiza, já esperançada. + +Luiza sorriu, ia responder--mas viu o sujeito pallido da pera longa que +fitava n'ella os seus olhos langorosos, com obstinação. Voltou o rosto +importunada. O sujeito afastou-se, retorcendo a ponta da pera. + +Luiza sentia-se molle; o movimento rumoroso e monotono, a noite calida, +a accumulação da gente, a sensação de verdura em redor davam ao seu +corpo de mulher caseira um torpor agradavel, um bem estar d'inercia, +envolviam-na n'uma doçura emolliente de banho morno. Olhava com um vago +sorriso, o olhar frouxo; quasi tinha preguiça de mexer as mãos, d'abrir +o leque. + +Bazilio notou o seu silencio.--Tinha somno? + +D. Felicidade sorriu com finura. + +--Ora, vê-se sem o seu maridinho! Desde que o não tem está esta mona +que se vê. + +Luiza respondeu, olhando Bazilio instinctivamente: + +--Que tolice! Até estes dias tenho andado bem alegre! + +Mas D. Felicidade insistia: + +--Ora, bem sabemos, bem sabemos. Esse coraçãosinho está no Alemtejo! + +Luiza disse, com impaciencia: + +--Não has-de querer que me ponha aos pulos e ás gargalhadas no Passeio. + +--Está bem, não te enfureças!--exclamou D. Felicidade. E para +Bazilio:--Que geniosinho, hein! + +Bazilio pôz-se a rir. + +--A prima Luiza antigamente era uma vibora. Agora não sei... + +D. Felicidade acudiu: + +--É uma pomba, coitada, é uma pomba! Não, lá isso, é uma pomba. + +E envolvia-a n'um olhar maternal. + +Mas a familia taciturna ergueu-se, sem ruido,--e as meninas adiante, os +paes atraz, afastaram-se lugubremente, succumbidos. + +Bazilio immediatamente apossou-se da cadeira ao pé de Luiza,--e vendo +D. Felicidade a olhar distrahida: + +--Estive para te ir vêr de manhã--disse baixinho a Luiza. + +Ella ergueu a voz, muito naturalmente, com indifferença: + +--E porque não foste? Tinhamos feito musica. Fizeste mal. Devias ter +ido... + +D. Felicidade quiz então saber as horas. Começava a enfastiar-se. +Tinha esperado encontrar o conselheiro: por elle, para lhe parecer +bem, fizera o sacrificio de se apertar; Accacio não vinha, os gazes +começavam a affrontal-a; e o despeito d'aquella ausencia augmentava-lhe +a tortura da digestão. Na sua cadeira, com o corpo molle, ia seguindo a +multidão que girava incessantemente, n'uma nevoa empoeirada. + +Mas a musica, no coreto, bateu de repente, alto, a grande ruido de +cobres, os primeiros compassos impulsivos da marcha do _Fausto_. +Aquillo reanimou-a. Era um _pot-pourri_ da opera,--e não havia musica +de que gostasse mais. Estaria para a abertura de S. Carlos, o snr. +Bazilio? + +Bazilio disse, com uma intenção, voltando-se para Luiza: + +--Não sei, minha senhora, depende... + +Luiza olhava, calada. A multidão crescera. Nas ruas lateraes mais +espaçosas, frescas, passeavam apenas, sob a penumbra das arvores, os +acanhados, as pessoas de luto, os que tinham o fato coçado. Toda a +burguezia domingueira viera amontoar-se na rua do meio, no corredor +formado pela filas cerradas das cadeiras do asylo: e alli se movia +entalada, com a lentidão espessa d'uma massa mal derretida, arrastando +os pés, raspando o macadam, n'um amarfanhamento plebeu, a garganta +secca, os braços molles, a palavra rara. Iam, vinham, incessantemente, +para cima e para baixo, com um bamboleamento relaxado e um rumor +grosso, sem alegria e sem bonhomia, no arrebanhamento passivo que +agrada ás raças mandrionas: no meio da abundancia das luzes e das +festividades da musica, um tedio morno circulava, penetrava como uma +nevoa: a poeirada fina envolvia as figuras, dava-lhes um tom neutro; e +nos rostos que passavam sob os candieiros, nas zonas mais directas de +luz, viam-se desconsolações de fadiga e aborrecimentos de dia santo. + +Defronte as casas da rua Occidental tinham na sua fachada o reflexo +claro das luzes do Passeio; algumas janellas estavam abertas; as +cortinas de fazenda escura destacavam sobre a claridade interior dos +candieiros. Luiza sentia como uma saudade de outras noites de verão, de +serões recolhidos. Onde? Não se lembrava. O movimento então retrahia-a; +e encontrava em face, fitando-a n'uma attitude lugubre, o sujeito da +pera longa. Debaixo do véo sentia a poeira arder-lhe nos olhos: em +redor d'ella gente bocejava. + +D. Felicidade propoz uma volta. Levantaram-se, foram rompendo devagar; +as filas das cadeiras apertavam-se compactamente, e uma infinidade de +faces a que a luz do gaz dava o mesmo tom amarellado olhavam de um modo +fixo e cançado, n'um abatimento de pasmaceira. Aquelle aspecto irritou +Bazilio, e como era difficil andar lembrou--«que se fossem d'aquella +semsaboria». + +Sahiram. Em quanto elle ia comprar os bilhetes, D. Felicidade, +deixando-se quasi cahir n'um banco sob a folhagem d'um chorão, exclamou +afflicta: + +--Ai filha! Estou que arrebento! + +Passava a mão no estomago, tinha a face envelhecida. + +--E o conselheiro, que me dizes? Olha que já é pouca sorte! Hoje que eu +vim ao Passeio... + +Suspirou, abanando-se. E com o seu sorriso bondoso: + +--É muito sympathico, teu primo! E que maneiras! Um verdadeiro fidalgo. +Que elles conhecem-se, filha! + +Declarou-se muito fatigada, apenas sahiram o portão. Era melhor tomarem +um trem. + +Bazilio achava preferivel subirem a pé até ao largo do Loreto. A noite +estava tão agradavel! E o andar fazia bem á snr.^a D. Felicidade! + +Depois diante do Martinho, fallou em irem tomar neve; mas D. Felicidade +receava a frialdade, Luiza tinha vergonha. Pelas portas do café +abertas, viam-se sobre as mesas jornaes enxovalhados; e algum raro +individuo, de calça branca, tomava placidamente o seu sorvete de +morango. + +No Rocio, sob as arvores, passeava-se: pelos bancos, gente immovel +parecia dormitar; aqui e além pontas de cigarro reluziam; sujeitos +passavam, com o chapéo na mão, abanando-se, o collete desabotoado; a +cada canto se apregoava agua fresca «do Arsenal»; em torno do largo, +carruagens descobertas rodavam vagarosamente. O céo abafava,--e na +noite escura, a columna da estatua de D. Pedro tinha o tom baço e +pallido de uma vela de estearina colossal e apagada. + +Bazilio, ao pé de Luiza, ia calado. Que horror de cidade!--pensava--Que +tristeza! E lembrava-lhe Paris, de verão: subia, á noite, no seu +phaeton, os Campos Elyseos devagar: centenares de victorias descem, +sobem rapidamente, com um trote discreto e alegre; e as lanternas fazem +em toda a avenida um movimento jovial de pontos de luz; vultos brancos +e mimosos de mulheres reclinam-se nas almofadas, balançadas nas molas +macias; o ar em redor tem uma doçura avelludada, e os castanheiros +espalham um aroma subtil. Dos dous lados, d'entre os arvoredos, saltam +as claridades violentas dos cafés cantantes, cheios do _brouhaha_ +das multidões alegres, dos _brios_ impulsivos das orchestras; os +restaurantes flammejam; ha uma intensidade de vida amorosa e feliz; +e, para além, sahe das janellas dos palacetes, através dos _stores_ +de sêda, a luz sobria e velada das existencias ricas. Ah! se lá +estivesse!--Mas ao passar junto dos candieiros olhava de lado para +Luiza: o seu perfil fino sob o véo branco tinha uma grande doçura; o +vestido prendia bem a curva do seu peito; e havia no seu andar uma +lassidão que lhe quebrava a linha da cinta de um modo languido e +promettedor. + +Veio-lhe uma certa idéa, começou a dizer: Que pena que não houvesse +em toda a Lisboa um restaurante, onde se podesse ir tomar uma aza de +perdiz e beber uma garrafa de _champagne frappée_! + +Luiza não respondeu. Devia ser delicioso--pensava.--Mas D. Felicidade +exclamou: + +--Perdiz, a esta hora! + +--Perdiz ou outra qualquer cousa. + +--Fosse o que fosse, era para estourar! Credo! + +Subiam pela rua Nova do Carmo. Os candieiros davam uma luz mortiça: as +altas casas dos dous lados, apagadas, entalavam, carregavam a sombra; +e a patrulha muito armada, descia passo a passo, sem ruido, sinistra e +subtil. + +Ao Chiado um garoto de barrete azul perseguiu-os com cautelas de +loteria; a sua voz aguda e chorosa promettia a fortuna, muitos contos +de reis. D. Felicidade ainda parou, com uma tentação... Mas uma troça +de rapazes bebedos que descia de chapéo na nuca, fallando alto, aos +tropeções, assustou muito as duas senhoras. Luiza encolheu-se logo +contra Bazilio, D. Felicidade enfiada agarrou-lhe anciosamente o braço, +quiz-se metter n'uma carruagem; e até ao Loreto foi explicando o seu +medo aos borrachos, com a voz atarantada, contando casos, facadas, sem +largar o braço de Bazilio. Da fileira de tipoias, ao lado das grades +da praça de Camões, um cocheiro lançou logo a sua caleche descoberta, +de pé na almofada, apanhando confusamente as rédeas, com grandes +chicotadas na parelha, muito excitado, gritando: + +--Prompto, meu amo, prompto! + +Demoraram-se um momento ainda conversando. Um homem então passou, +rondou,--e Luiza desesperada reconheceu os olhos acarneirados do +sujeito da pera. + +Entraram para a caleche. Luiza ainda se voltou para vêr Bazilio +immovel no largo, com o seu chapéo na mão: depois accommodou-se, pôz +os pésinhos no outro assento e balançada pelo trote largo viu passar, +calada, as casas apagadas da rua de S. Roque, as arvores de S. Pedro +de Alcantara, as fachadas estreitas do Moinho de Vento, os jardins +adormecidos da Patriarchal. A noite estava immovel, de um calor molle: +e desejava, sem saber porque, rolar assim sempre, infinitamente, entre +ruas, entre grades cheias de folhagem de quintas nobres, sem destino, +sem cuidados, para alguma cousa de feliz que não distinguia bem! Um +grupo defronte da Escóla ia tocando o _Fado do Vimioso_; aquelles sons +entraram-lhe na alma como um vento dôce, que fazia agitar brandamente +muitas sensibilidades passadas: suspirou baixo. + +--Um suspirosinho que vai para o Alemtejo--disse D. Felicidade, +tocando-lhe o braço. + +Luiza sentiu todo o sangue abrazar-lhe o rosto. Davam onze horas quando +entrou em casa. + +Juliana veio alumiar.--O chá estava prompto, quando a senhora +quizesse... + +Luiza subiu d'ahi a pouco com um largo roupão branco, muito fatigada, +estendeu-se na _voltaire_; sentia vir-lhe uma somnolencia, a cabeça +pendia-lhe, cerrava as palpebras... E Juliana tardava tanto com o chá! +Chamou-a. Onde estava? credo! + +Tinha descido, pé ante pé, ao quarto de Luiza. E ahi tomando o +vestido, as saias engommadas que ella despira e atirára para cima da +_causeuse_, desdobrou-as, revirou-as, examinou-as, e com uma certa +idéa, cheirou-as! Havia o vago aroma de um corpo lavado e quente, +com uma pontinha de suor e de agua de colonia. Quando a sentiu +chamar, impacientar-se em cima, subiu, correndo.--Fôra abaixo dar uma +arrumadella. Era o chá? Estava prompto... + +E entrando com as torradas: + +--Veio ahi o snr. Sebastião, haviam de ser nove horas... + +--Que lhe disse? + +--Que a senhora tinha sahido com a snr.^a D. Felicidade. Como não +sabia, não disse para onde. + +E acrescentou: + +--Esteve a conversar commigo, o snr. Sebastião... Esteve a conversar +mais de meia hora!... + + + +Luiza recebeu, na manhã seguinte, da parte de Sebastião, um ramo de +rosas, magenta-escuro, magnificas. Cultivava-as elle na quinta de +Almada, e chamavam-se rosas _D. Sebastião_. Mandou-as pôr nos vasos da +sala, e como o dia estava encoberto, de um calor baixo e suffocante: + +--Olhe--disse a Juliana--abra as janellas. + +--Bem--pensou Juliana--temos cá o melro. + +O _melro_ veio com effeito ás tres horas. Luiza estava na sala, ao +piano. + +--Está alli o sujeito do costume--foi dizer Juliana. + +Luiza voltou-se corada, escandalisada da expressão: + +--Ah! meu primo Bazilio? Mande entrar. + +E chamando-a: + +--Ouça, se vier o snr. Sebastião, ou alguem, que entre. + +Era o primo! O _sujeito_, as suas visitas perderam de repente para ella +todo o interesse picante. A sua malicia cheia, enfunada até ahi, cahiu, +engelhou-se como uma vela a que falta o vento. Ora, adeus! Era o primo! + +Subiu á cozinha, devagar,--lograda. + +--Temos grande novidade, snr.^a Joanna! O tal peralta é primo. Diz que +é o primo Bazilio. + +E com um risinho: + +--É o Bazilio! Ora o Bazilio! Sahe-nos primo á ultima hora! O diabo tem +graça! + +--Então que havia de o homem ser senão parente?--observou Joanna. + +Juliana não respondeu. Quiz saber se estava o ferro prompto, que tinha +uma carga de roupa para passar! E sentou-se á janella, esperando. O céo +baixo e pardo pesava, carregado de electricidade; ás vezes uma aragem +subita e fina punha nas folhagens dos quintaes um arripio tremulo. + +--É o primo!--reflectia ella.--E só vem então quando o marido se vai. +Boa! E fica-se toda no ar quando elle sahe, e é roupa branca e mais +roupa branca, e roupão novo, e tipoia para o passeio, e suspiros e +olheiras! Boa bebeda! Tudo fica na familia! + +Os olhos luziam-lhe. Já se não sentia tão lograda. Havia alli muito +«para vêr e para escutar». E o ferro, estava prompto? + +Mas a campainha, em baixo, tocou. + +--Boa! isto agora é um fadario! Estamos na casa do despacho! + +Desceu; e exclamou logo, vendo Julião com um livro debaixo do braço: + +--Faz favor d'entrar, snr. Julião! A senhora está com o primo, mas diz +que mandasse entrar! + +Abriu a porta da sala bruscamente, de surpreza. + +--Está aqui o snr. Julião--disse com satisfação. + +Luiza apresentou os dous homens. + +Bazilio ergueu-se do sophá languidamente, e, n'um relance, percorreu +Julião desde a cabelleira desleixada até ás botas mal engraxadas, com +um olhar quasi horrorisado. + +--Que pulha!--pensou. + +Luiza, muito fina, percebeu, e córou, envergonhada de Julião. + +Aquelle homem de collarinho enxovalhado e com um velho casaco de pano +preto mal feito--que idéa daria a Bazilio das relações, dos amigos +da casa! Sentia já o seu _chic_ diminuido. E instinctivamente, a sua +physionomia tornou-se muito reservada,--como se semelhante visita a +surprehendesse! semelhante _toilette_ a indignasse! + +Julião percebeu o constrangimento d'ella, disse, já embaraçado, +ageitando a luneta: + +--Passei por aqui por acaso, entrei a saber se ha algumas noticias de +Jorge... + +--Obrigada. Sim, tem escripto. Está bem... + +Bazilio, recostado no sophá, como um parente intimo, examinava a +sua meia de sêda bordada de estrellinhas escarlates, e cofiava +indolentemente o bigode, arrebitando um pouco o dedo minimo,--onde +brilhavam, em dous grossos anneis d'ouro, uma saphira e um rubi. + +A affectação da attitude, o reluzir das joias irritaram Julião. + +Quiz mostrar tambem a sua intimidade, os seus direitos, disse: + +--Eu não tenho vindo fazer-lhe um bocado de companhia, porque tenho +estado muito occupado... + +Luiza acudiu para desauthorisar logo aquella familiaridade: + +--Eu tambem não me tenho achado bem. Não tenho recebido ninguem,--a não +ser meu primo, naturalmente! + +Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpreza, d'indignação, +ficou a balançar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a +calça era curta, via-se o elastico esfiado das botas velhas. + +Houve um silencio difficil. + +--Bonitas rosas!--disse emfim Bazilio, preguiçosamente. + +--Muito bonitas!--respondeu Luiza. + +Estava agora compadecida de Julião, procurava uma palavra; disse-lhe +emfim muito precipitadamente: + +--E que calor! É de morrer! Tem havido muitas doenças? + +--Colerinas--respondeu Julião.--Por causa das frutas. Doenças de ventre. + +Luiza baixou os olhos. Bazilio então começou a fallar da viscondessinha +d'Azeias: tinha-a achado acabada; e que era feito da irmã, da grande? + +Aquella conversação sobre fidalgas que elle não conhecia isolava mais +Julião: sentia o suor humedecer-lhe o pescoço; procurava um dito, uma +ironia, uma agudeza; e machinalmente abria e fechava o seu grosso livro +de capa amarella. + +--É algum romance?--perguntou-lhe Luiza. + +--Não. É o tratado do dr. Lee sobre doenças d'utero. + +Luiza fez-se escarlate: Julião tambem, furioso da palavra que lhe +escapára. E Bazilio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D. +Raphaela Grijó, que costumava ir á rua da Magdalena, que usava luneta, +e tinha um cunhado gago... + +--Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado. + +--Com o gago? + +--Sim. Tem um filhito d'elle, gago tambem. + +--Que conversação, em familia! E a D. Eugenia, a de Braga? + +Julião, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta secca: + +--Estou com pressa, não me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os +meus recados, hein? + +Abaixou bruscamente a cabeça a Bazilio. Mas não achava o chapéo, +tinha rolado para debaixo d'uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, +topou violentamente contra a porta fechada, e sahiu emfim +desesperado, desejando vingar-se, odiando Luiza, Jorge, o luxo, a +vida,--transbordando agora d'ironias, de ditos, de réplicas. Devia-os +ter achatado, o asno e a tola... E não lhe acudira nada! + +Mas apenas elle tinha fechado a cancella, Bazilio pôz-se de pé, e +cruzando os braços: + +--Quem é este pulha? + +Luiza córou muito, balbuciou: + +--É um rapaz medico... + +--É uma creatura impossivel, é uma especie d'estudante! + +--Coitado, não tem muitos meios... + +Mas não era necessario ter meios para escovar o casaco e limpar a +caspa! Não devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu +marido gostava d'elle, que o recebesse no escriptorio!... + +Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar +o dinheiro e as chaves. + +--São frescos os amigos da casa!...--continuou.--Que diabo! tu não +foste educada assim. Nunca tiveste gente d'este genero na rua da +Magdalena. + +Não tivera: e pareceu-lhe que as ligações do casamento lhe tinham +trazido um pouco o plebeismo das convivencias. Mas um respeito pelas +opiniões, pelas sympathias de Jorge fez-lhe dizer: + +--Diz que tem muito talento... + +--Era melhor que tivesse botas. + +Luiza, por cobardia, concordou. + +--Tambem o acho exquisito!--disse. + +--Horrivel, minha filha! + +Aquella palavra fez-lhe bater o coração. Era assim que elle lhe +chamava, outr'ora! Houve um momento de silencio:--e a campainha da +porta retiniu fortemente. + +Luiza ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião! Bazilio achal-o-hia +ainda mais reles! Mas Juliana veio dizer: + +--O snr. conselheiro. Mando entrar? + +--De certo--exclamou. + +E a alta figura d'Accacio adiantou-se, com as bandas do casaco d'alpaca +deitadas para traz, a calça branca muito engommada cahindo sobre +sapatos de entrada abaixo, de laço. + +Apenas Luiza lhe apresentou o primo Bazilio, disse logo, respeitoso: + +--Já sabia que v. exc.^a tinha chegado, vi-o nas interessantes noticias +do nosso _high-life_. E do nosso Jorge? + +Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito... + +Bazilio, mais amavel, deixou cahir: + +--Eu realmente não tenho a menor idéa do que se possa fazer em Beja. +Deve ser horroroso! + +O conselheiro, passando sobre o bigode a sua mão branca onde destacava +o annel d'armas, observou: + +--É todavia a capital do districto! + +Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do +reino!--E Bazilio puxava, todo recostado, o punho da camisa.--Morria-se +positivamente de pasmaceira! + +Luiza, muito contente da affabilidade de Bazilio, pôz-se a rir: + +--Não digas isso diante do conselheiro. É um grande admirador de Lisboa. + +Accacio curvou-se: + +--Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora. + +E com muita bonhomia: + +--Conheço porém que não é para comparar aos Parizes, ás Londres, ás +Madrids... + +--De certo--fez Luiza. + +E o conselheiro continuou com pompa: + +--Lisboa porém tem bellezas sem igual! A entrada, ao que me dizem +(eu nunca entrei a barra), é um panorama grandioso, rival das +Constantinoplas e das Napoles. Digno da penna d'um Garrett ou d'um +Lamartine! Proprio para inspirar um grande engenho!... + +Luiza, receando citações ou apreciações litterarias, interrompeu-o, +perguntou-lhe o que tinha feito? Tinham estado domingo no Passeio, ella +e D. Felicidade, tinham esperado vêl-o, e nada! + +Nunca ia ao Passeio, ao domingo--declarou.--Reconhecia que era muito +agradavel, mas a multidão entontecia-o. Tinha notado,--e a sua voz +tomou o tom espaçado d'uma revelação,--tinha notado que muita gente, +n'um local, causa vertigens aos homens d'estudo. De resto queixou-se da +sua saude e do peso dos seus trabalhos. Andava compilando um livro e +usando as aguas de Vichy. + +--Pódes fumar--disse Luiza de repente, sorrindo, a Bazilio.--Queres +lume? + +Ella mesmo lhe foi buscar um phosphoro, toda ligeira, feliz. Tinha um +vestido claro, um pouco transparente, muito fresco. Os seus cabellos +pareciam mais louros, a sua pelle mais fina. + +Bazilio soprou o fumo do charuto, e declarou muito reclinado: + +--O Passeio ao domingo é simplesmente idiota!... + +O conselheiro reflectiu e respondeu: + +--Não serei tão severo, snr. Brito!--Mas parecia-lhe que com +effeito antigamente era uma diversão mais agradavel.--Em primeiro +lugar--exclamou com muita convicção, endireitando-se--nada, mas +nada, absolutamente nada póde substituir a charanga da Armada!--Além +d'isso havia a questão dos preços... Ah! tinha estudado muito o +assumpto! Os preços diminutos favoreciam a agglomeração das classes +subalternas... Que longe do seu pensamento lançar desdouro n'essa parte +da população... As suas idéas liberaes eram bem conhecidas.--Appéllo +para a snr.^a D. Luiza!--disse.--Mas emfim, sempre era mais agradavel +encontrar uma roda escolhida! Em quanto a si nunca ia ao Passeio. +Talvez não acreditassem, mas nem mesmo quando havia fogo de vistas! +N'esses dias, sim, ia vêr por fóra das grades. Não por economia! De +certo não. Não era rico, mas podia fazer face a essa contribuição +diminuta. Mas é que receava os accidentes! É que os receava muito! +Contou a historia d'um sujeito, cujo nome lhe escapava, a quem uma cana +de foguete furára o craneo.--E além d'isso nada mais facil que cahir +uma fagulha accesa na cara, n'um paletot novo...--É conveniente ter +prudencia--resumiu, compenetrado, limpando os beiços com o lenço de +sêda da India muito enrolado. + +Fallaram então da estação: muita gente fôra para Cintra: de resto, +Lisboa no verão era tão seccante!... E o conselheiro declarou que +Lisboa só era imponente, verdadeiramente imponente, quando estavam +abertas as camaras e S. Carlos! + +--Que estavas tu a tocar quando eu entrei?--perguntou Bazilio. + +O conselheiro acudiu logo: + +--Se estavam fazendo musica, por quem são... Sou um velho assignante de +S. Carlos, ha dezoito annos... + +Bazilio interrompeu-o: + +--Toca? + +--Toquei. Não o occulto. Em rapaz fui dado á flauta. + +E acrescentou, com um gesto benevolo: + +--Rapaziadas!... Alguma novidade, o que estava tocando, D. Luiza? + +--Não! Uma musica muito conhecida, já antiga: a _Filha do Pescador_, de +Meyerbeer! Tenho a letra traduzida. + +Tinha cerrado as vidraças, sentára-se ao piano. + +--O Sebastião é que toca isto bem, não é verdade, conselheiro? + +--O nosso Sebastião--disse o conselheiro com authoridade--é um rival +dos Thalbergs e dos Litz. Conhece o nosso Sebastião?--perguntou a +Bazilio. + +--Não, não conheço. + +--Uma perola! + +Bazilio tinha-se aproximado do piano devagar, frisando o bigode. + +--Tu ainda cantas?--perguntou-lhe Luiza, sorrindo. + +--Quando estou só. + +Mas o conselheiro pediu-lhe logo um «trecho». Bazilio ria. Tinha medo +d'escandalisar um velho assignante de S. Carlos... + +O conselheiro animou-o; disse mesmo paternalmente: + +--Coragem, snr. Brito, coragem! + +Luiza então preludiou. + +E Bazilio soltou logo a voz, cheia, bem timbrada, de barytono; as suas +notas altas faziam a sala sonora. O conselheiro, direito na poltrona, +escutava concentrado; a sua testa, franzida n'um vinco, parecia +curvar-se sob uma responsabilidade de juiz; e as lunetas defumadas +destacavam, com reflexos escuros, n'aquella physionomia de calvo, que o +calor tornava mais pallida. + +Bazilio dizia com uma melancolia grave a primeira phrase, tão larga, da +canção: + + Igual ao mar sombrio + Meu coração profundo... + +Um poeta, com uma dedicação obscura, traduzira a letra no _Almanach das +Senhoras_. Luiza pela sua propria mão a tinha copiado nas entrelinhas +da musica. E Bazilio debruçado sobre o papel sempre torcendo as pontas +do bigode: + + Tem tempestades, coleras, + Mas perolas no fundo! + +Os olhos largos de Luiza affirmavam-se para a musica--ou a espaços, com +um movimento rapido, erguiam-se para Bazilio. Quando, na nota final, +prolongada como a reclamação d'um amor supplicante, Bazilio soltou a +voz d'um modo appellativo: + + Vem! vem + Pousar, ó dôce amada, + Teu peito contra o meu... + +os seus olhos fixaram-se n'ella com uma significação de tanto desejo, +que o peito de Luiza arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado. + +O conselheiro bateu as palmas. + +--Uma voz admiravel!--exclamava--Uma voz admiravel! + +Bazilio dizia-se envergonhado. + +--Não, senhor, não, senhor!--protestou Accacio, levantando-se.--Um +excellente orgão! Direi, o melhor orgão da nossa sociedade! + +Bazilio riu. Uma vez que tinha successo, então ia dizer-lhes uma +modinha brazileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter +preludiado uma melodia muito balançada, d'um embalado tropical, cantou: + + Sou negrinha, mas meu peito + Sente mais que um peito branco. + +E interrompendo-se: + +--Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti. + +Era a historia d'uma «negrinha» nascida na roça, e que contava, com +lyrismos d'almanach, a sua paixão por um feitor branco. + +Bazilio parodiava o tom sentimental d'alguma menina bahiana; e a sua +voz tinha uma preciosidade comica, quando dizia o _ritornello_ choroso: + + E a negra p'ra os mares + Seus olhos alonga; + No alto coqueiro + Cantava a araponga. + +O conselheiro achou «delicioso»; e, de pé na sala, lamentou a proposito +da cantiga a condição dos escravos. Que lhe affirmavam amigos do Brazil +que os negros eram muito bem tratados. Mas emfim a civilisação era +a civilisação! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita +confiança no imperador... + +--Monarcha de rara illustração...--acrescentou respeitosamente. + +Foi buscar o seu chapéo, e collando-lhe as abas ao peito, curvando-se, +jurou que--havia muito tempo não tinha passado uma manhã tão completa. +De resto para elle nada havia como a boa conversação e a boa musica... + +--Onde está v. exc.^a alojado, snr. Brito? + +Pelo amor de Deus! Que não se incommodasse! Estava no Hotel Central. + +Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu +dever--declarou.--Cumpril-o-hia! Elle era uma pessoa inutil, a snr.^a +D. Luiza bem o sabia.--Mas se necessitar alguma cousa, uma informação, +uma apresentação nas regiões officiaes, licença para visitar algum +estabelecimento publico, creia que me tem ás suas ordens! + +E conservando na sua mão a mão de Bazilio: + +--Rua do Ferregial de Cima numero tres, terceiro. O modesto tugurio +d'um ermita. + +Tornou a curvar-se diante de Luiza: + +--E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela +prosperidade dos seus emprehendimentos. Por quem é! Criado de v. exc.^a! + +E direito, grave, sahiu. + +--Este ao menos é limpo--resmungou Bazilio, com o charuto ao canto da +bocca. + +Sentára-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luiza +aproximou-se: + +--Canta alguma cousa, Bazilio! + +Bazilio pôz-se então a olhar muito para ella. + +Luiza córou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do +vestido, entrevia-se a brancura macia e lactea do collo e dos braços; +e nos seus olhos, na côr quente do rosto havia uma animação e como uma +vitalidade amorosa. + +Bazilio disse-lhe, baixo: + +--Estás hoje nos teus dias felizes, Luiza. + +O olhar d'elle, tão avido, perturbava-a; insistiu: + +--Canta alguma cousa. + +O seu seio arfava. + +--Canta tu--murmurou Bazilio. + +E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco humidas, um +pouco tremulas, uniram-se. + +A campainha, fóra, tocou. Luiza desprendeu a mão bruscamente. + +--É alguem--disse agitada. + +Vozes baixas fallavam á cancella. + +Bazilio teve um movimento d'hombros contrariado, foi buscar o chapéo. + +--Vaes-te?--exclamou ella toda desconsolada. + +--Pudera! Não posso estar só comtigo um momento! + +A cancella fechou-se com ruido. + +--Não é ninguem, foi-se--disse Luiza. + +Estavam de pé, no meio da sala. + +--Não te vás! Bazilio! + +Os seus olhos profundos tinham uma supplicação dôce. Bazilio pousou o +chapéo sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso. + +--E para que queres tu estar só commigo?--disse ella.--Que tem que +venha gente?--E arrependeu-se logo d'aquellas palavras. + +Mas Bazilio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os +hombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos +cabellos, vorazmente. + +Ella soltou-se a tremer, escarlate. + +--Perdôa-me--exclamou elle logo, com um impeto apaixonado.--Perdôa-me. +Foi sem pensar. Mas é porque te adoro, Luiza! + +Tomou-lhe as mãos com dominio, quasi com direito. + +--Não. Has-de ouvir. Desde o primeiro dia que te tornei a vêr estou +doudo por ti, como d'antes, a mesma cousa. Nunca deixei de me morrer +por ti. Mas não tinha fortuna, tu bem o sabes, e queria-te vêr rica, +feliz. Não te podia levar para o Brazil. Era matar-te, meu amor! Tu +imaginas lá o que aquillo é! Foi por isso que te escrevi aquella carta, +mas o que eu soffri, as lagrimas que chorei! + +Luiza escutava-o immovel, a cabeça baixa, o olhar esquecido; aquella +voz quente e forte, de que recebia o bafo amoroso, dominava-a, +vencia-a; as mãos de Bazilio penetravam com o seu calor febril a +substancia das suas; e, tomada d'uma lassidão, sentia-se como adormecer. + +--Falla, responde!--disse elle anciosamente, sacudindo-lhe as mãos, +procurando o seu olhar avidamente. + +--Que queres que te diga?--murmurou ella. + +A sua voz tinha um tom abstracto, mal acordado. + +E desprendendo-se devagar, voltando o rosto: + +--Fallemos n'outras cousas! + +Elle balbuciava com os braços estendidos: + +--Luiza! Luiza! + +--Não, Bazilio, não! + +E na sua voz havia o arrastado d'uma lamentação, com a molleza d'uma +caricia. + +Elle então não hesitou, prendeu-a nos braços. + +Luiza ficou inerte, os beiços brancos, os olhos cerrados--e Bazilio, +pousando-lhe a mão sobre a testa, inclinou-lhe a cabeça para traz, +beijou-lhe as palpebras devagar, a face, os labios depois muito +profundamente; os beiços d'ella entreabriram-se, os seus joelhos +dobraram-se. + +Mas de repente todo o seu corpo se endireitou, com um pudor indignado, +afastou o rosto, exclamou afflicta: + +--Deixa-me, deixa-me! + +Viera-lhe uma força nervosa; desprendeu-se, empurrou-o; e passando as +mãos abertas pela testa, pelos cabellos: + +--Oh meu Deus! É horrivel!--murmurou.--Deixa-me! É horrivel! + +Elle adiantava-se com os dentes cerrados; mas Luiza recuava, dizia: + +--Vai-te. Que queres tu? Vai-te! Que fazes tu aqui? Deixa-me! + +Elle então tranquillisou-a com a voz subitamente serena e humilde. Não +percebia. Porque se zangava? Que tinha um beijo? Elle não pedia mais. +Que tinha ella imaginado, então? Adorava-a, de certo, mas puramente. + +--Juro-t'o!--disse com força, batendo no peito. + +Fel-a sentar no sophá, sentou-se ao pé d'ella. Fallou-lhe muito +sensatamente:--Via as circumstancias, e resignar-se-hia. Seria como uma +amizade d'irmãos, nada mais. + +Ella escutava-o, esquecida. + +De certo, dizia elle, aquella paixão era uma tortura immensa. Mas +era forte, dominar-se-hia. Só queria vir vêl-a, fallar-lhe. Seria um +sentimento ideal.--E os seus olhos devoravam-na. + +Voltou-lhe a mão, curvou-se, pôz-lhe um beijo cheio na palma. Ella +estremeceu, ergueu-se logo: + +--Não! Vai-te! + +--Bem, adeus. + +Levantou-se com um movimento resignado e infeliz. E limpando devagar a +sêda do chapéo: + +--Bem, adeus--repetiu melancolicamente. + +--Adeus. + +Bazilio disse então com muita ternura: + +--Estás zangada? + +--Não! + +--Escuta--murmurou, adiantando-se. + +Luiza bateu com o pé. + +--Oh que homem! Deixa-me! Ámanhã. Adeus. Vai-te! Ámanhã! + +--Ámanhã!--disse elle, baixinho. + +E sahiu rapidamente. + +Luiza entrou no quarto toda nervosa. E ao passar diante do espelho +ficou surprehendida: nunca se vira tão linda! Deu alguns passos calada. + +Juliana arrumava roupa branca n'um gavetão do guarda-vestidos. + +--Quem tocou ha bocado?--perguntou Luiza. + +--Foi o snr. Sebastião. Não quiz entrar; disse que voltava. + + + +Tinha dito, com effeito, «que voltava». Mas começava quasi a +envergonhar-se de vir assim todos os dias, e encontral-a sempre «com +uma visita»! + +Logo no primeiro dia ficára muito surprehendido quando Juliana lhe +disse: «Está com um sujeito! Um rapaz novo que já cá esteve hontem!» +Quem seria? Conhecia todos os amigos da casa... Seria algum empregado +da secretaria ou algum proprietario de minas, o filho do Alonso, +talvez, um negocio de Jorge de certo... + +Depois no domingo, á noite, trazia-lhe a partitura de _Romeu e +Julieta_, de Gounod, que ella desejava tanto ouvir, e quando Juliana +lhe disse da varanda «que tinha sahido com D. Felicidade de carruagem», +ficou muito embaraçado com o grosso volume debaixo do braço, coçando +devagar a barba. Onde teriam ido? Lembrou-se do enthusiasmo de D. +Felicidade pelo theatro de D. Maria. Mas irem sós, n'aquelle calor de +julho, ao theatro! Emfim, era possivel. Foi a D. Maria. + +O theatro, quasi vazio, estava lugubre; aqui e além, n'algum camarote, +uma familia feia perfilava-se, com cabellos negrissimos carregados de +postiços, gozando soturnamente a sua noite de domingo: na platéa, á +larga nas bancadas vazias, pessoas avelhadas e inexpressivas escutavam +com um ar encalmado e farto, limpando a espaços, com lenços de sêda, +o suor dos pescoços; na geral, gente de trabalho arregalava olhos +negros em faces trigueiras e oleosas; a luz tinha um tom dormente; +bocejava-se. E no palco, que representava uma sala de baile amarella, +um velhote condecorado fallava a uma magrita de cabellos riçados, sem +cessar, com o tom diluido de uma agua gordurosa e morna que escorre. + +Sebastião sahiu. Onde estariam? Soube-o na manhã seguinte.--Descia +o Moinho de Vento, e um visinho, o Netto, que subia curvado sob o +seu guarda-sol, com o cigarro ao canto do bigode grisalho, deteve-o +bruscamente, para lhe dizer: + +--Ó amigo Sebastião, ouça cá. Vi hontem á noite no Passeio a D. Luiza +com um rapaz que eu conheço. Mas d'onde conheço eu aquella cara? Quem +diabo é? + +Sebastião encolheu os hombros. + +--Um rapaz alto, bonito, com um ar estrangeirado. Eu conheço-o. N'outro +dia vi-o entrar para lá. Vossê não sabe? + +Não sabia. + +--Eu conheço aquella cara. Tenho estado a vêr se me recordo...--Passava +a mão pela testa.--Eu conheço aquella cara! Elle é de Lisboa. De Lisboa +é elle! + +E depois d'um silencio, fazendo girar o guarda-sol: + +--E que ha de novo, Sebastião? + +Tambem não sabia. + +--Nem eu! + +E bocejando muito: + +--Isto está uma pasmaceira, homem! + +N'essa tarde, ás quatro horas, Sebastião voltou a casa de Luiza. Estava +com «o sujeito!» Ficou então preoccupado. De certo era algum negocio de +Jorge; porque não comprehendia que ella fallasse, sentisse, vivesse, +que não fosse no interesse da casa e para maior felicidade de Jorge. +Mas devia ser grave então--para reclamar visitas, encontros, tantas +relações. Tinham pois interesses importantes que elle não conhecia! E +aquillo parecia-lhe uma ingratidão, e como uma diminuição d'amizade. + +A tia Joanna tinha-o achado «macambusio». + +Foi ao outro dia que soube que o sujeito era o primo Bazilio, o Bazilio +de Brito. O seu vago desgosto dissipou-se, mas um receio mais definido +veio inquietal-o. + +Sebastião não conhecia Bazilio pessoalmente, mas sabia a chronica da +sua mocidade. Não havia n'ella certamente, nem escandalo excepcional, +nem romance pungente. Bazilio tinha sido apenas um _pandigo_ e, como +tal, passára methodicamente por todos os episodios classicos da +estroinice lisboeta:--partidas de monte até de madrugada com ricaços +do Alemtejo; uma tipoia despedaçada n'um sabbado de touros; ceias +repetidas com alguma velha Lola e uma antiga salada de lagosta; algumas +_pégas_ applaudidas em Salvaterra ou na Alhandra; noitadas de bacalhau +e Collares nas tabernas fadistas; muita guitarra; sôcos bem jogados á +face attonita d'um policia; e uma profusão de gemas d'ovos nas glorias +do entrudo. As unicas mulheres mesmo que appareciam na sua historia, +além das Lolas e das Carmens usuaes, eram a Pistelli, uma dançarina +allemã cujas pernas tinham uma musculatura d'athleta, e a condessinha +d'Alvim, uma douda, grande cavalleira, que se separára de seu marido +depois de o ter chicotado, e que se vestia d'homem para bater ella +mesmo em trem de praça do Rocio ao Dá-fundo. Mas isto bastava para +que Sebastião o achasse um _debochado_, um _perdido_; ouvira que elle +tinha ido para o Brazil para fugir aos credores; que enriquecera por +acaso, n'uma especulação, no Paraguay; que mesmo na Bahia, com a corda +na garganta, nunca fôra um trabalhador; e suppunha que a posse da +fortuna para elle, seria apenas um desenvolvimento dos vicios. E este +homem agora vinha vêr a Luizinha todos os dias, estava horas e horas, +seguia-a ao Passeio... + +Para que?... Era claro, para a desinquietar! + +Ia justamente descendo a rua, dobrado sob a pesada desconsolação +d'estas idéas, quando uma voz encatarrhoada disse com respeito: + +--Ó snr. Sebastião! + +Era o Paula dos moveis. + +--Viva, snr. João. + +O Paula atirou para as pedras da rua um jacto escuro de saliva, e com +as mãos cruzadas debaixo das abas do comprido casaco de cotim, o tom +grave: + +--Ó snr. Sebastião, ha doença cá por casa do snr. Engenheiro? + +Sebastião todo surprehendido: + +--Não. Porque? + +O Paula fez roncar a garganta, cuspilhou: + +--É que tenho visto entrar para cá todos os dias um sujeito. Imaginei +que fosse o medico. + +E puxando o escarro: + +--D'esses novos da hom[oe]opathia! + +Sebastião tinha córado. + +--Nada--disse.--É o primo de D. Luiza. + +--Ah!--fez o Paula.--Pois pensei... Queira desculpar, snr. Sebastião. + +E curvou-se, respeitosamente. + +--Já temos fallatorio!--foi pensando Sebastião. + +E entrou em casa, descontente. + +Morava ao fundo da rua, n'um predio seu, de construcção antiga, com +quintal. + +Sebastião era só. Tinha uma fortuna pequena em inscripções, terras de +lavoura para o lado do Seixal, e a quinta em Almada,--o Rozegal. As +duas criadas eram muito antigas na casa. A Vicencia, a cozinheira, era +uma preta de S. Thomé já do tempo da mamã. A tia Joanna, a governanta, +servia-o havia trinta e cinco annos; chamava ainda a Sebastião o +«menino»; tinha já as tontices d'uma criança, e recebia sempre os +respeitos d'uma avó. Era do Porto, do _Poârto_, como ella dizia, +porque nunca perdera o seu accento minhôto. Os amigos de Sebastião +chamavam-lhe uma velha de comedia. Era baixinha e gorda, com um sorriso +muito bondoso; tinha os cabellos alvos como uma estriga, atados no +alto n'um rolinho com um antigo pente de tartaruga; trazia sempre um +vasto lenço branco muito aceado, traçado sobre o peito. E todo o dia +passarinhava pela casa, com o seu passinho arrastado, fazendo tilintar +os mólhos de chaves, resmungando proverbios, tomando rapé de uma caixa +redonda, em cuja tampa se lascava o desenho abonecado da ponte pensil +do Porto. + +Em toda a casa havia um tom caturra e dôce: na sala de visitas, quasi +sempre fechada, o vasto canapé, as poltronas tinham o ar empertigado +do tempo do snr. D. José I, e os estofos de damasco vermelho desbotado +lembravam a pompa d'uma côrte decrepita; das paredes da casa de jantar +pendiam as primeiras gravuras das batalhas de Napoleão, onde se vê +invariavelmente, n'uma eminencia, o cavallo branco, para o qual galopa +desenfreadamente do primeiro plano um hussard, brandido um sabre. +Sebastião dormia os seus somnos de sete horas, sem sonhos, n'uma velha +barra de pau preto torneado; e n'uma saleta escura, sobre uma commoda +de fecharias de metal amarello, conservava-se, havia annos, o padroeiro +da casa, S. Sebastião--que se torcia, cravado de settas, nas cordas que +o atavam ao tronco, á luz d'uma lampada muito cuidada pela tia Joanna, +sob os ruidos subtis dos ratos pelo forro. + +A casa condizia com o dono. Sebastião tinha um genio antiquado. Era +solitario e acanhado. Já no latim lhe chamavam o _pelludo_; punham-lhe +rabos, roubavam-lhe impudentemente as merendas. Sebastião, que tinha a +força d'um gymnasta, offerecia a resignação d'um martyr. + +Foi sempre reprovado nos primeiros exames do lyceu. Era intelligente, +mas uma pergunta, o reluzir dos oculos d'um professor, a grande lousa +negra immobilisavam-o; ficava muito embezerrado, a face inchada e +rubra, a coçar os joelhos, o olhar vazio. + +Sua mãi, que era da aldêa e que fôra padeira, muito vaidosa agora das +suas inscripções, da sua quinta, da sua mobilia de damasco, sempre +vestida de sêda, carregada d'anneis, costumava dizer: + +--Ora! tem que comer e beber! Estar a affligir a criança com estudos! +Deixa lá, deixa lá! + +A inclinação de Sebastião era pela musica. Sua mãi, por conselhos da +mãi de Jorge, sua visinha e sua intima, tomou-lhe um mestre de piano; +logo desde as primeiras lições, a que ella assistia com enfeites de +velludo vermelho e cheia de joias, o velho professor Achilles Bentes, +d'oculos redondos e cara de coruja, exclamou excitado com a sua voz +nasal: + +--Minha rica senhora! o seu menino é um genio! É um genio! Ha-de ser um +Rossini! É puxar por elle! É puxar por elle! + +Mas era justamente o que ella não queria, era puxar por elle, +coitadinho! Por isso não foi um Rossini. E todavia o velho Bentes +continuava a dizer, por habito: + +--Ha-de ser um Rossini! Ha-de ser um Rossini! + +Sómente em lugar de o gritar, brandindo papeis de musica, murmurava-o, +com bocejos enormes de leão enfastiado. + +Já então os dous rapazes visinhos, Jorge e Sebastião, eram intimos. +Jorge mais vivo, mais inventivo, dominava-o. No quintal, a brincar, +Sebastião era sempre o _cavallo_ nas imitações da diligencia, o +_vencido_ nas guerras. Era Sebastião que carregava os pesos, que +offerecia o dorso para Jorge trepar; nas merendas comia todo o pão, +deixava a Jorge toda a fruta. Cresceram. E aquella amizade sempre +igual, sem amúos, tornou-se na vida d'ambos um interesse essencial e +permanente. + +Quando a mãi de Jorge morreu, pensaram mesmo em viver juntos; +habitariam a casa de Sebastião, mais larga e que tinha quintal; Jorge +queria comprar um cavallo; mas conheceu Luiza no Passeio, e d'ahi a +dous mezes passava quasi todo o seu dia na rua da Magdalena. + +Todo aquelle plano jovial da _Sociedade Sebastião e +Jorge_--chamavam-lhe assim, rindo--desabou, como um castello de cartas. +Sebastião teve um grande pezar. + +E era elle, depois, que fornecia os ramos de rosas que Jorge levava a +Luiza, sem espinhos, com cuidados devotos embrulhados n'um papel de +sêda. Era elle que tratava dos arranjos do «ninho», ia apressar os +estofadores, discutir preços de roupas, vigiar o trabalho dos homens +que pregavam os tapetes, conferenciar com a inculcadeira, cuidar dos +papeis do casamento! + +E á noite, fatigado como um procurador zeloso, tinha ainda de escutar +com um sorriso as expansões felizes de Jorge, que passeava pelo quarto +até ás duas horas da noite em mangas de camisa, namorado, loquaz, +brandindo o cachimbo! + +Depois do casamento Sebastião sentiu-se muito só. Foi a Portel visitar +um tio, um velho exquisito, com um olhar de doudo, que passava a +existencia combinando enxertos no pomar, e lendo, relendo o _Eurico_. +Quando voltou, passado um mez, Jorge disse-lhe radioso: + +--E sabes, hein? Isto agora é que é a tua casa! Aqui é que tu vives! + +Mas nunca obteve de Sebastião que fosse a sua casa com uma inteira +intimidade. Sebastião batia á porta, timidamente. Corava diante de +Luiza; o antigo _pelludo_ de latim reapparecia. Jorge luctára para que +elle cruzasse sem ceremonia as pernas, fumasse cachimbo diante d'ella, +não lhe dissesse a todo o momento:--V. exc.^a, v. exc.^a--meio erguido +na cadeira. + +Nunca vinha jantar senão arrastado. Quando Jorge não estava, as suas +visitas eram curtas, cheias de silencio. Julgava-se gebo, tinha medo de +massar! + +N'essa tarde, quando elle foi para a sala de jantar, a tia Joanna +veio-lhe perguntar pela Luizinha. + +Adorava-a, achava-a um _anjinho_, uma _açucena_. + +--Como está ella? viu-a? + +Sebastião corou, não quiz dizer, como na vespera, «que estava gente, +que não tinha entrado»; e abaixando-se, pondo-se a brincar com as +orelhas do _Trajano_, o seu velho perdigueiro: + +--Está boa, tia Joanna, está boa. Então como ha-de d'estar? Está optima! + + + +Áquella hora Luiza recebia uma carta de Jorge. Era de Portel, com +muitas queixas sobre o calor, sobre as más estalagens, historias sobre +o extraordinario parente de Sebastião,--saudades e mil beijos... + +Não a esperava, e aquella folha de papel cheia d'uma letra miudinha, +que lhe fazia reapparecer vivamente Jorge, a sua figura, o seu olhar, +a sua ternura, deu-lhe uma sensação quasi dolorosa. Toda a vergonha +dos seus desfallecimentos cobardes, sob os beijos de Bazilio, veio +abrazar-lhe as faces. Que horror deixar-se abraçar, apertar! No +sophá o que elle lhe dissera, com que olhos a devorára!... Recordava +tudo,--a sua attitude, o calor das suas mãos, a tremura da sua voz... E +machinalmente, pouco e pouco, ia-se esquecendo n'aquellas recordações, +abandonando-se-lhe, até ficar perdida na deliciosa lassidão que ellas +lhe davam, com o olhar languido, os braços frouxos. Mas a idéa de +Jorge vinha então outra vez fustigal-a como uma chicotada. Erguia-se +bruscamente, passeava pelo quarto toda nervosa, com uma vaga vontade de +chorar... + +--Ah! não! é horroroso, é horroroso!--dizia só, fallando alto.--É +necessario acabar! + +Resolveu não receber Bazilio, escrever-lhe, pedir-lhe que não voltasse, +que partisse! Meditava mesmo as palavras; seria sêcca e fria, não diria +_meu querido primo_, mas simplesmente _primo Bazilio_. + +E que faria elle, quando recebesse a carta? Choraria, coitado! + +Imaginava-o só, no seu quarto d'hotel, infeliz e pallido; e d'aqui, +pelos declives da sensibilidade, passava á recordação da sua pessoa, da +sua voz convincente, das turbações do seu olhar dominante, e a memoria +demorava-se n'aquellas lembranças com uma sensação de felicidade, como +a mão se esquece acariciando a plumagem dôce d'um passaro raro. Sacudia +a cabeça com impaciencia, como se aquellas imaginações fossem os +ferrões d'insectos importunos: esforçava-se por pensar só em Jorge; mas +as idéas más voltavam, mordiam-na: e achava-se desgraçada, sem saber +o que queria, com vontades confusas de estar com Jorge, de consultar +Leopoldina, de fugir para longe, ao acaso. Jesus, que infeliz que +era!--E do fundo da sua natureza de preguiçosa vinha-lhe uma indefinida +indignação contra Jorge, contra Bazilio, contra os sentimentos, contra +os deveres, contra tudo o que a fazia agitar-se e soffrer. Que a não +seccassem, Santo Deus! + +Depois de jantar, á janella da sala, ficou a relêr a carta de Jorge. +Pôz-se a recordar de proposito tudo o que a encantava n'elle, do +seu corpo e das suas qualidades. E juntava ao acaso argumentos, uns +de honra, outros de sentimento, para o amar, para o respeitar. Tudo +era por elle estar fóra, na provincia! Se elle alli estivesse ao pé +d'ella! Mas tão longe, e demorar-se tanto! E ao mesmo tempo, contra +sua vontade, a certeza d'aquella ausencia dava-lhe uma sensação +de liberdade; a idéa de se poder mover á vontade nos desejos, nas +curiosidades, enchia-lhe o peito d'um contentamente largo, como uma +lufada de independencia. + +Mas emfim, vamos, de que lhe servia estar livre, só?--E de repente tudo +o que poderia fazer, sentir, possuir, lhe apparecia n'uma perspectiva +longa que fulgurava: aquillo era como uma porta, subitamente aberta e +fechada, que deixa entrever, n'um relance, alguma cousa de indefinido, +de maravilhoso, que palpita e faisca.--Oh! estava douda, de certo! + +Escureceu. Foi para a sala, abriu a janella; a noite estava quente e +espessa, com um ar d'electricidade e de trovoada. Respirava mal, olhava +para o céo, desejando alguma cousa fortemente, sem saber o quê. + +O moço do padeiro em baixo, como sempre, tocava o fado; aquelles sons +banaes entravam-lhe agora na alma, com a brandura d'um bafo quente e a +melancolia de um gemido. + +Encostou a cabeça á mão com uma lassidão. Mil pensamentosinhos +corriam-lhe no cerebro como os pontos de luz que correm n'um papel que +se queimou; lembrava-lhe sua mãi, o chapéo novo que lhe mandára madame +François, o tempo que faria em Cintra, a doçura das noites quentes sob +a escuridão das ramagens... + +Fechou a janella, espreguiçou-se; e sentada na _causeuse_, no seu +quarto, ficou alli, n'uma immobilidade, pensando em Jorge, em lhe +escrever, em lhe pedir que viesse. Mas bem depressa aquelle scismar +começou a quebrar-se a cada momento como uma tela que se esgaça em +rasgões largos, e por traz apparecia logo com uma intensidade luminosa +e forte a idéa do primo Bazilio. + +As viagens, os mares atravessados tinham-no tornado mais trigueiro; +a melancolia da separação dera-lhe cabellos brancos. Tinha soffrido +por ella!--dissera.--E no fim onde estava o mal? Elle jurára-lhe que +aquelle amor era casto, passando-se todo na alma. Tinha vindo de Paris, +o pobre rapaz, assim lh'o jurára, para a vêr, uma semana, quinze dias. +E havia de dizer-lhe:--Não voltes, vai-te? + +--Quando a senhora quizer o chá...--disse da porta do quarto Juliana. + +Luiza deu um suspiro alto como acordando. Não; que trouxesse a +lamparina, mais tarde. + +Eram dez horas. Juliana foi tomar o seu chá, á cozinha. O lume ia-se +apagando, o candieiro de petroleo estendia nos cobres dos tachos +reflexos avermelhados. + +--Hoje houve cousa, snr.^a Joanna--disse Juliana sentando-se.--Está +toda no ar! E é cada suspiro! Alli houve-a e grossa. + +Joanna, do outro lado, com os cotovêlos na mesa e a face sobre os +punhos, pestanejava de somno. + +--A snr.^a Juliana, tambem, deita tudo para o mal--disse. + +--É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna! + +Calou-se, cheirou o assucar; era um dos seus despeitos; gostava d'elle +bem refinado--e aquelle assucar mascavado e grosso, que punha no chá um +gosto de formigas, exasperava-a. + +--Este é peor que o do mez passado! Para uma pobre de Christo tudo é +bom!--rosnou muito amargamente. + +E depois d'uma pausa repetiu: + +--É que era necessario ser tola, snr.^a Joanna! + +A cozinheira disse preguiçosamente: + +--Cada um sabe de si... + +--E Deus de todos--suspirou Juliana. + +E ficaram caladas. + +Luiza tocou a campainha em baixo. + +--Que teremos nós agora? Está com as cocegas! + +Desceu. Voltou com o regador, muito enfastiada: + +--Quer mais agua! Olha a mania, pôr-se agora a chafurdar á meia noite! +Sempre a gente as vê... + +Foi encher o regador, e em quanto a agua da torneira cantava no fundo +de lata: + +--E diz que lhe faça ámanhã ao almoço um bocado de presunto frito, do +salgado. Quer picantes! + +E com muito escarneo: + +--Sempre a gente vê cousas! Quer picantes! + +Á meia noite a casa estava adormecida e apagada. Fóra, o céo +ennegrecera mais; relampejou, e um trovão secco estalou, rolou. + +Luiza abriu os olhos estremunhada; começára a cahir uma chuva grossa +e sonora; a trovoada arrastava-se, ao longe. Esteve um momento +escutando as goteiras que cantavam sobre o lagedo; a alcova abafava, +descobriu-se; o somno tinha fugido, e de costas, o olhar fixo na vaga +claridade que vinha de fóra da lamparina, seguia o tic-tac do relogio. +Espreguiçou-se, e uma certa idéa, uma certa visão foi-se formando +no seu cerebro, completando-se, tão nitida, quasi tão visivel, que +se revirou na cama devagar, estirou os braços, lançou-os em roda do +travesseiro, adiantando os beiços seccos--para beijar uns cabellos +negros onde reluziam fios brancos. + + + +Sebastião tinha dormido mal. Acordou ás seis horas e desceu ao quintal +em chinellas. Uma porta envidraçada da sala de jantar abria para um +terraçosinho, largo apenas para tres cadeiras de ferro pintado e +alguns vasos de cravos; d'alli, quatro degraus de pedra desciam para +o quintal; era uma horta ajardinada, muito cheia, com canteirinhos de +flôres, saladas muito regadas, pés de roseiras junto dos muros, um poço +e um tanque debaixo d'uma parreirita, e arvores; terminava por outro +terraço assombreado d'uma tilia, com um parapeito para uma rua baixa +e solitaria; defronte corria um muro de quintal muito caiado. Era um +sitio recolhido, d'uma paz aldeã. Muitas vezes Sebastião, de madrugada, +ia para alli fumar o seu cigarro. + +Era uma manhã deliciosa. Havia um ar transparente e fino; o céo +arredondava-se a uma grande altura com o azulado de certas porcelanas +velhas e, aqui e além, uma nuvemzinha algodoada, mollemente enrolada, +côr de leite; a folhagem tinha um verde lavado, a agua do tanque uma +crystallinidade fria; passaros chilreavam de leve, com vôos rapidos. + +Sebastião estava debruçado para a rua, quando a ponteira d'uma bengala, +passos vagarosos cortaram o silencio fresco. Era um visinho de Jorge, +o Cunha Rosado, o doente d'intestinos; arrastava-se, curvado, abafado +n'um cachenez e n'um paletot côr de pinhão, com a barba grisalha +desmazelada, a crescer. + +--Já a pé, visinho!--disse Sebastião. + +O outro parou, ergueu a cabeça lentamente. + +--Oh Sebastião!--disse com uma voz plangente--Ando a passear os meus +leites, homem! + +--A pé? + +--Ao principio ia na burrita até fóra de portas, mas diz que me fazia +bem o passeiosito a pé... + +Encolheu os hombros com um gesto triste de duvida, de desconsolação. + +--E como vai isso?--perguntou Sebastião, muito debruçado para a rua, +com affecto. + +O Cunha teve um sorriso desolado nos seus beiços brancos: + +--A desfazer-se! + +Sebastião tossiu, embaraçado, sem achar uma consolação. + +Mas o doente, com as duas mãos apoiadas á bengala, uma subita radiação +d'interesse no olhar amortecido: + +--Ó Sebastião, um rapaz alto, que eu tenho visto todos estes dias +entrar para casa do Jorge, é o Bazilio de Brito, pois não é? O primo da +mulher? o filho do João de Brito? + +--É, sim, porque? + +O Cunha fez: _Ah! ah!_ com uma grande satisfação. + +--Bem dizia eu!--exclamou.--Bem dizia eu! E aquella teimosa que não! +que não!... + +E então explicou com uma tagarellice subita, e cansaços de voz: + +--O meu quarto é para a rua, e todos os dias, como eu estou quasi +sempre pela janella para espairecer... tenho visto aquelle rapaz, a +modo estrangeirado, entrar para lá... todos os dias! Este é o Bazilio +de Brito! disse eu. Mas minha mulher que não! que não!... Que diabo, +homem! Eu tinha quasi a certeza... Não conheço eu outra cousa!... Até +elle esteve para casar com a D. Luiza. Oh! Eu sei essa historia na +ponta dos dedos... Morava ella na rua da Magdalena!... + +Sebastião disse vagamente: + +--Pois é, é o Brito... + +--Bem dizia eu! + +Ficou um momento immovel, fitando o chão, e refazendo uma voz dolente: + +--Pois, vou-me arrastando até casa. + +Suspirou. E arregalando os olhos: + +--Quem me dera a sua saude, Sebastião! + +E dizendo adeus, com um gesto da mão calçada de luva de casimira +escura, afastou-se, curvado, rente do muro, conchegando com o braço ao +ventre, o seu largo paletot côr de pinhão. + +Sebastião entrou preoccupado. Todo o mundo começava a reparar, hein! +Pudera! Um rapaz novo, janota, vir todos os dias de trem, estar duas, +tres horas! Uma visinhança tão chegada, tão maligna!... + +Ao começo da tarde sahiu. Teve vontade de procurar Luiza; mas sem saber +porque, sentia um grande acanhamento; como que receava encontral-a +differente ou com outra expressão... E subia a rua devagar, sob o seu +guarda-sol, hesitando, quando um coupé que descia a trote largo veio +parar á porta de Luiza. + +Um sujeito saltou rapidamente, atirou o charuto, entrou. Era alto, +com um bigode levantado, trazia uma flôr no peito; devia ser o primo +Bazilio, pensou. O cocheiro limpou o suor da testa, e, cruzando as +pernas, pôz-se a enrolar o cigarro. + +Ao ruido do trem o Paula postou-se logo á porta, de boné carregado, as +mãos enterradas no bolso, com olhares de revés: a carvoeira defronte, +immunda, disforme de obesidade e de prenhez, veio embasbacar com um +pasmo lôrpa na face oleosa; a criada do doutor abriu precipitadamente +a vidraça. Então o Paula atravessou rapidamente a rua faiscante de +sol, entrou no estanque; d'ahi a um momento appareceu á porta, com a +estanqueira, de carão viuvo; e cochichavam, cravavam olhares perfidos +nas varandas de Luiza, no coupé! O Paula, d'alli, arrastando as +chinellas de tapete, foi segredar com a carvoeira, provocou-lhe uma +risada que lhe sacudia a massa do seio; e foi emfim estacar á sua +porta entre um retrato de D. João VI e duas velhas cadeiras de couro, +assobiando com jubilo. No silencio da rua ouvia-se n'um piano, a +compasso de estudo, a _Oração d'uma virgem_. + +Sebastião ao passar olhou machinalmente para as janellas de Luiza. + +--Rico calor, snr. Sebastião!--observou o Paula curvando-se--É um +regalo estar á fresca! + + + +Luiza e Bazilio estavam muito tranquillos, muito felizes na sala, com +as portadas meio cerradas, n'uma penumbra dôce. Luiza tinha apparecido +de roupão branco, muito fresca, com um bom cheiro de agua d'alfazema. + +--Eu venho assim mesmo--disse ella.--Não faço ceremonias. + +Mas assim é que ella estava linda! Assim é que a queria +sempre!--exclamava Bazilio muito contente, como se aquelle roupão de +manhã fosse já uma promessa da sua nudez. + +Vinha muito tranquillo, affectava um tom de parente. Não a inquietou +com palavras vehementes, nem com gestos desejosos: fallou-lhe do calor, +d'uma _zarzuela_ que vira na vespera, de velhos amigos que encontrára, +e disse-lhe apenas que tinha sonhado com ella. + +O que? Que estavam longe, n'uma terra distante, que devia ser a Italia, +tantas as estatuas que havia nas praças, tantas as fontes sonoras +que cantavam nas bacias de marmore; era n'um jardim antigo, sobre um +terraço classico; flôres raras transbordavam de vasos florentinos; +pousando sobre as balaustradas esculpidas, pavões abriam as caudas; e +ella arrastava devagar sobre as lages quadradas a cauda longa do seu +vestido de velludo azul. De resto, dizia, era um terraço como o de S. +Donato, a _villa_ do principe Demidoff,--porque lembrava sempre as suas +intimidades illustres, e não se descuidava de fazer reluzir a gloria +das suas viagens. + +E ella, tinha sonhado? + +Luiza córou.--Não, tinha tido muito medo da trovoada. Tinha ouvido a +trovoada, elle? + +--Estava a cear no Gremio, quando trovejou. + +--Costumas cear? + +Elle teve um sorriso infeliz.--Cear! se se podia chamar cear ir ao +Gremio rilhar um bife corneo e tragar um Collares peçonhento! + +E fitando-a: + +--Por tua causa, ingrata! + +Por sua causa? + +--Por quem, então? Porque vim eu a Lisboa? Porque deixei Paris? + +--Por causa dos teus negocios... + +Elle encarou-a severamente: + +--Obrigado--disse, curvando-se até ao chão. + +E a grandes passadas pela sala soprava violentamente o fumo do seu +charuto. + +Veio sentar-se bruscamente ao pé d'ella.--Não, realmente era injusta. +Se estava em Lisboa, era por ella. Só por ella! + +Fez uma voz meiga, perguntou-lhe se lhe tinha realmente um bocadinho +d'amor muito pequenino, assim...--Mostrava o comprimento da unha. + +Riram. + +--Assim, talvez. + +E o peito de Luiza arfava. + +Elle então examinou-lhe as unhas; admirou-lh'as e aconselhou-lhe o +verniz que usam as _cocottes_, que lhes dá um lustre polido; ia-se +apossando da sua mão, pôz-lhe um beijo na ponta dos dedos; chupou o +dedo minimo, jurou que era muito dôce; arranjou-lhe com um contacto +muito timido uns fios de cabello que se tinham soltado,--e, disse, +tinha um pedido a fazer-lhe! + +Olhava-a com uma supplicação. + +--Que é? + +--É que venhas commigo ao campo. Deve estar lindo no campo! + +Ella não respondeu; dava pancadinhas leves nas pregas molles do roupão. + +--É muito simples--acrescentou elle.--Tu vaes-me encontrar a qualquer +parte, longe d'aqui, está claro. Eu estou á espera de ti com uma +carruagem, tu saltas para dentro e _fouette_, _cocher_! + +Luiza hesitava. + +--Não digas que não. + +--Mas onde? + +--Onde tu quizeres. A Paço d'Arcos, a Loires, a Queluz. Dize que sim. + +A sua voz era muito urgente, quasi ajoelhára. + +--Que tem? É um passeio d'amigos, d'irmãos. + +--Não! isso não! + +Bazilio zangou-se, chamou-lhe _beata_. Quiz sahir. Ella veio tirar-lhe +o chapéo da mão, muito meiga, quasi vencida. + +--Talvez, veremos--dizia. + +--Dize que sim!--insistia.--Sê boa rapariga! + +--Pois sim, ámanhã veremos, ámanhã fallaremos. + +Mas no dia seguinte, muito habilmente, Bazilio não fallou no passeio, +nem no campo. Não fallou tambem do seu amor, nem dos seus desejos. +Parecia muito alegre, muito superficial; tinha-lhe trazido o romance de +Belot, _A mulher de fogo_. E sentando-se ao piano, disse-lhe canções de +_café concerto_, muito picantes; imitava a rouquidão acre e canalha das +cantoras; fel-a rir. + +Depois fallou muito de Paris, contou-lhe a moderna chronica amorosa, +anecdotas, paixões _chics_. Tudo se passava com duquezas, princezas, +d'um modo dramatico e sensibilisador, ás vezes jovial, sempre cheio de +delicias. E, de todas as mulheres de que fallava, dizia recostando-se: +Era uma mulher distinctissima, tinha naturalmente o seu amante... + +O adulterio apparecia assim um dever aristocratico. De resto a virtude +parecia ser, pelo que elle contava, o defeito d'um espirito pequeno, ou +a occupação reles d'um temperamento burguez... + +E quando sahiu, disse, como recordando-se: + +--Sabes que estou com minhas idéas de partir?... + +Ella perguntou, um pouco descorada: + +--Porque? + +Bazilio disse, muito indifferente: + +--Que diabo faço eu aqui?... + +Esteve um momento a fitar o tapete, deu um suspiro, e como dominando-se: + +--Adeus, meu amor... + +E sahiu. + +Quando n'essa tarde Luiza entrou na sala de jantar, levava os olhos +vermelhos. + +Foi ella no dia seguinte que fallou do campo. Queixou-se do contínuo +calor, da _sécca_ de Lisboa. Como devia estar lindo em Cintra! + +--És tu que não queres--acudiu elle. --Podiamos fazer um passeio +adoravel. + +Mas tinha medo, podiam vêr... + +--O quê! N'um coupé fechado? Com os _stores_ descidos? + +Mas então era peor que estar n'uma sala, era abafar n'uma bocêta! + +Mas não! Iam a uma quinta. Podiam ir ás _Alegrias_, á quinta d'um amigo +d'elle que estava em Londres. Só viviam lá os caseiros, era ao pé dos +Olivaes, era lindo! Bellas ruas de loureiros, sombras adoraveis. Podiam +levar gelo, champagne... + +--Vem!--disse bruscamente, tomando-lhe as mãos. + +Ella córou.--Talvez. No domingo veria. + +Bazilio conservava-lhe as mãos presas. Os seus olhos encontraram-se, +humedeceram-se. Ella sentiu-se muito perturbada; desprendeu as mãos; +foi abrir as vidraças ambas, dar á sala uma claridade larga como +uma publicidade; sentou-se n'uma cadeira ao pé do piano, receando a +penumbra, o sophá, todas as cumplicidades; e pediu-lhe que cantasse +alguma cousa, porque já temia as palavras, tanto como os silencios! +Bazilio cantou a _Medjé_, a melodia de Gounod, tão sensual e +perturbadora. Aquellas notas quentes passavam-lhe na alma como bafos +d'uma noite electrica. E quando Bazilio sahiu, ficou sentada, quebrada, +como depois d'um excesso. + + +Sebastião tinha estado nos ultimos tres dias em Almada, na quinta do +Rozegal, onde trazia obras. Voltára na segunda-feira cedo, e, pelas +dez horas, sentado no poial da janella de jantar que abria para o +terraçosinho, esperava o seu almoço, brincando com o _Rolim_--o seu +gato, amigo e confidente da illustre Vicencia, nedio como um prelado, +ingrato como um tyranno. + +A manhã começava a aquecer; o quintal estava já cheio de sol; na agua +do tanque, sob a parreira, claridades espelhadas e tremulas faiscavam. +Nas duas gaiolas os canarios cantavam estridentemente. + +A tia Joanna, que andava a arranjar a mesa do almoço muito calada, +poz-se então a dizer com a sua vozinha arrastada e minhôta: + +--Ora esteve ahi hontem a Gertrudes, a do doutor, com uns palratorios, +com umas tontices!... + +--A respeito de quê, tia Joanna?--perguntou Sebastião. + +--A respeito d'um rapaz, que diz que vai agora todos os dias a casa da +Luizinha. + +Sebastião ergueu-se logo: + +--Que disse ella, tia Joanna? + +A velha assentava a toalha devagar com a sua mão gorducha espalmada: + +--Esteve ahi a palrar. Quem seria, quem não seria? Diz que é um +perfeito rapaz. Vem todos os dias. Vem de trem, vai de trem... No +sabbado que estivera até quasi á noitinha. E cantou-se na sala, diz que +uma voz que nem no theatro... + +Sebastião interrompeu-a, impaciente: + +--É o primo, tia Joanna. Então quem havia de ser? É o primo que chegou +do Brazil. + +A tia Joanna teve um bom sorriso. + +--Eu logo vi que era cousa de parente. Pois diz que é um perfeito +rapaz! E todo janota! + +E sahindo para a cozinha, devagar: + +--Eu logo vi que era parente, logo disse!... + +Sebastião almoçou inquieto. Positivamente a visinhança já se punha a +mexericar, a commentar! Estava-se a armar um escandalo!--E, assustado, +decidiu-se logo a ir consultar Julião. + +Descia a rua de S. Roque para casa d'elle, quando o viu, que subia +devagar pela sombra, com um rolo de papel debaixo do braço, uma calça +branca enxovalhada, o ar suado. + +--Ia a tua casa, homem!--disse Sebastião logo. + +Julião estranhou a excitação desusada da sua voz. + +Havia alguma novidade? Que era? + +--Uma do diabo!--exclamou, baixo, Sebastião. + +Estavam parados ao pé da confeitaria. Na vidraça, por traz d'elles, +emprateleirava-se uma exposição de garrafas de malvasia com os seus +letreiros muito coloridos, transparencias avermelhadas de gelatinas, +amarellidões enjoativas de dôces d'ovos, e quéques d'um castanho escuro +tendo espetados cravos tristes de papel branco ou côr de rosa. Velhas +natas lividas amollentavam-se no ôco dos folhados; ladrilhos grossos de +marmelada esbeiçavam-se ao calor; as empadinhas de marisco agglomeravam +as suas crôstas resequidas. E no centro, muito proeminente n'uma +travessa, enroscava-se uma lampreia d'ovos medonha e bojuda, com o +ventre d'um amarello ascoroso, o dorso malhado d'arabescos d'assucar, a +bocca escancarada: na sua cabeça grossa esbogalhavam-se dous horriveis +olhos de chocolate; os seus dentes d'amendoa ferravam-se n'uma +tangerina de chila; e em torno do monstro espapado moscas esvoaçavam. + +--Vamos alli para o café--disse Julião.--Aqui na rua arde-se! + +--Tenho estado apoquentado--ia dizendo Sebastião.--Muito apoquentado! +Quero fallar-te. + +No café o papel azul ferrete e as meias portas fechadas abatiam a +aspera intensidade da luz, davam uma frescura calada. + +Foram-se sentar ao fundo. Do outro lado da rua as fachadas muito +caiadas brilhavam com uma radiação faiscante. Por traz do balcão, onde +reluziam garrafas de crystal, um criado de jaquetão, estremunhado +e esguedelhado, cabeceava de somno. Um passaro chilreava dentro; +sentia-se o bater espaçado das bolas do bilhar através d'uma porta de +baeta verde; ás vezes o pregão de um cangalheiro na rua sobresahia, +e--todos estes sons, por momentos, se perdiam no ruido forte do descer +d'um trem travado. + +Defronte d'elles um sujeito de ar debochado lia um jornal; as suas +melenas grisalhas collavam-se a um craneo amarellado; o bigode tinha +tons queimados do cigarro; e das noitadas ficára-lhe uma vermelhidão +inflammada nas palpebras. De vez em quando erguia preguiçosamente a +cabeça, atirava para o chão areado um jacto escuro de saliva, dava uma +sacudidella triste ao jornal e tornava a fital-o com um olhar infeliz. +Quando os dous entraram e pediram carapinhadas, abaixou-lhes gravemente +a cabeça. + +--Mas o que é então?--perguntou logo Julião. + +Sebastião chegou-se mais para elle: + +--É por causa lá da nossa gente. Por causa do primo--disse baixo. + +E acrescentou: + +--Tu vistel-o, hein? + +A lembrança repentina da sua humilhação na sala de Luiza trouxe um +rubor ás faces de Julião. Mas muito orgulhoso, disse seccamente: + +--Vi. + +--E então? + +--Pareceu-me um asno!--exclamou, não se contendo. + +--E um extravagante--disse com terror Sebastião--Não te pareceu, hein? + +--Pareceu-me um asno--repetiu.--Umas maneiras, uma affectação, um +alambicado, a olhar muito para as meias, umas meias ridiculas de +mulher... + +E com um certo sorriso azedado: + +--Eu mostrei-lhe francamente as minhas botas. Estas--disse, apontando +para os botins mal engraxados--tenho muita honra n'ellas, são de quem +trabalha... + +Porque publicamente costumava gloriar-se d'uma pobreza, que intimamente +não cessava de o humilhar. + +E remexendo devagar a sua carapinhada: + +--Uma besta!--resumiu. + +--Tu sabes que elle foi namoro da Luiza?--disse Sebastião, baixo, como +assustado da gravidade da confidencia. + +E respondendo logo ao olhar surprehendido de Julião: + +--Sim. Ninguem o sabe. Nem Jorge. Eu soube-o ha pouco, ha mezes. Foi. +Estiveram para casar. Depois o pai falliu, elle foi para o Brazil, e de +lá escreveu a romper o casamento. + +Julião sorriu, e encostando a cabeça á parede: + +--Mas isso é o enredo da _Eugenia Grandet_, Sebastião! Estás-me a +contar o romance de Balzac! Isso é a _Eugenia Grandet_! + +Sebastião fitou-o espantado. + +--Ora! não se póde fallar serio comtigo. Dou-te a minha palavra +d'honra--acrescentou vivamente. + +--Vá, Sebastião, vá, dize. + +Houve um silencio. O sujeito calvo, agora, contemplava o estuque do +tecto sujo do fumo dos cigarros e do pousar das moscas; e, com a mão +sapuda, de tom pegajoso, cofiava amorosamente as rêpas. No bilhar vozes +altercavam. + +Sebastião então, como tomado d'uma resolução, disse bruscamente: + +--E agora vai lá todos os dias, não sahe de lá! + +Julião afastou-se na banqueta e encarou-o: + +--Tu queres-me dar a entender alguma cousa, Sebastião? + +E com uma vivacidade quasi jovial: + +--O primo atira-se? + +Aquella palavra escandalisou Sebastião. + +--Ó Julião!--E severamente:--Com essas cousas não se brinca! + +Julião encolheu os hombros. + +--Mas está claro que se atira!--exclamou.--És de bom tempo ainda! Está +claro que sim! Namorou-a solteira, agora quel-a casada! + +--Falla baixo--acudiu Sebastião. + +Mas o criado dormitava, e o sujeito calvo tinha recahido na sua leitura +funebre. + +Julião baixou a voz: + +--Mas é sempre assim, Sebastião. O primo Bazilio tem razão; quer o +prazer sem a responsabilidade! + +E quasi ao ouvido d'elle: + +--É de graça, amigo Sebastião! É de graça! Tu não imaginas que +influencia isto tem no sentimento! + +Riu-se. Estava radioso; as palavras, as pilherias vinham-lhe com +abundancia: + +--Ha um marido que a veste, que a calça, que a alimenta, que a engomma, +que a vela se está doente, que a atura se ella está nervosa, que tem +todos os encargos, todos os tedios, todos os filhos, todos, todos os +que vierem, sabes a lei... Por consequencia o primo não tem mais que +chegar, bater ao ferrolho, encontra-a aceada, fresca, appetitosa á +custa do marido, e... + +Teve um risinho, recostou-se com uma grande satisfação, enrolando +deliciosamente o cigarro, regosijando-se no escandalo. + +--É optimo!--acrescentou.--Todos os primos raciocinam assim. Bazilio +é primo, logo... Sabes o syllogismo, Sebastião! Sabes o syllogismo, +menino!--gritou, dando-lhe uma palmada na perna. + +--É o diabo--murmurou Sebastião cabisbaixo. + +Mas revoltando-se contra a suspeita que o ia dominando: + +--Mas tu suppões que uma rapariga de bem... + +--Eu não supponho nada!--acudiu Julião. + +--Falla baixo, homem! + +--Eu não supponho nada--repetiu Julião baixinho.--Eu affirmo o que elle +faz. Agora ella... + +E acrescentou com seccura: + +--Como é uma rapariga honesta... + +--Se é!--exclamou Sebastião, batendo uma punhada na pedra da mesa. + +--Prompto!--cantou arrastadamente o moço. + +O velho calvo ergueu-se logo; mas vendo que o criado se recolhia +ao balcão bocejando, e que os dous continuavam a remexer a sua +carapinhada, encostou os cotovêlos á mesa, salivou para longe, e +puxando o jornal deixou-lhe cahir em cima um olhar desolado. + +Sebastião disse, então, com tristeza: + +--A questão não é por ella. A questão é pela visinhança. + +Ficaram um momento calados. A altercação de vozes no bilhar crescia. + +--Mas--disse Julião, como sahindo d'uma reflexão--a visinhança? Como a +visinhança? + +--Sim, homem! Vêem entrar para lá o rapaz. Vem de tipoia, faz um +escandalo na rua. Já se falla. Já vieram com mexericos á tia Joanna. +Ha dias encontrei o Netto que reparou. O Cunha tambem. O homem dos +trastes, em baixo, não se faz nada que elle não dê fé: são umas linguas +de tremer. Ha dias ia eu a passar quando o primo se apeou da carruagem +para entrar, e foram logo conciliabulos na rua, olhadellas para a +janella, o diabo! Vai lá todos os dias. Sabem que o Jorge está no +Alemtejo... Está duas e tres horas. É muito serio, é muito serio! + +--Mas ella então é tola! + +--Não vê o mal... + +Julião encolheu os hombros, duvidando. + +Mas a porta de baeta do bilhar abriu-se; um homem herculeo, de bigode +negro, muito escarlate, sahiu bruscamente, e parando, segurando a porta +aberta, gritou para dentro: + +--E fique sabendo que havia d'encontrar homem! + +Uma voz grossa, do bilhar, respondeu-lhe uma obscenidade. + +O sujeito herculeo atirou a porta, furioso; atravessou o café +resfolegando, apopletico; um rapaz chupado, de jaquetão de inverno e +calça branca, seguia-o, com um ar gingado. + +--O que eu devia fazer--exclamava o agigantado, brandindo o punho--era +quebrar a cara áquelle pulha! + +O rapaz chupado, dizia, com doçura e servilismo, bamboleando-se: + +--Questões não servem para nada, sô Corrêa! + +--É que sou muito prudente--berrou o herculeo.--É que me lembro que +tenho mulher e filhos! Senão bebia-lhe o sangue! + +E sahindo, a sua voz roncante perdeu-se no rumor da rua. + +O criado muito pallido, tremia dentro do balcão; e o sujeito calvo, que +erguera a cabeça, teve um sorriso de tedio, e retomou tristemente o +jornal. + +Sebastião, então, disse reflectindo: + +--Não te parece que seria bom avisal-a? + +Julião encolheu os hombros, soltou uma baforada de fumo. + +--Dize alguma cousa!--implorou Sebastião--Tu não ias fallar-lhe, hein? + +--Eu?--exclamou Julião com um aspecto que repellia a idéa.--Eu! Estás +doudo! + +--Mas que te parece, emfim? + +E a voz de Sebastião tinha quasi uma afflicção. + +Julião hesitou: + +--Vai, se queres. Dize-lhe que se tem reparado... Emfim, eu não sei, +meu amigo! + +E pôz-se a chupar o seu cigarro. + +Aquelle mutismo affectou Sebastião. Disse com desconsolação: + +--Homem, vim-te pedir um conselho... + +--Mas que diabo queres tu?--E a voz de Julião irritava-se.--A culpa é +d'ella. É d'ella!--insistiu, vendo o olhar de Sebastião.--É uma mulher +de vinte e cinco annos, casada ha quatro, deve saber que se não recebe +todos os dias um peralvilho, n'uma rua pequena, com a visinhança a +postos! Se o faz, é porque lhe agrada. + +--Ó Julião!--disse muito severamente Sebastião. + +E dominando-se, com a voz commovida: + +--Não tens razão, não tens razão! + +Calou-se muito magoado. + +Julião levantou-se. + +--Amigo Sebastião, eu digo o que penso, tu fazes o que entendes. + +Chamou o criado. + +--Deixa--disse Sebastião precipitadamente, pagando. + +Iam sahir. Mas então o sujeito calvo, atirando o jornal, arremessou-se +para a porta, abriu-a, curvou-se, e estendeu a Sebastião um papel +enxovalhado. + +Sebastião, surprehendido, leu alto, machinalmente: + +«O abaixo assignado, antigo empregado da nação, reduzido á miseria...» + +--Fui intimo amigo do nobre duque de Saldanha!--gemeu chorosamente, com +uma rouquidão, o sujeito calvo. + +Sebastião córou, comprimentou, metteu-lhe na mão duas placas de cinco +tostões, discretamente. + +O sujeito dobrou profundamente o espinhaço, e declamou com uma voz cava: + +--Mil agradecimentos a v. exc.^a, snr. conde! + + + + +V + + +A manhã estava abrazadora. Um pouco depois do meio dia, Joanna, +estirada n'uma velha cadeira de vime da ilha da Madeira que havia na +cozinha, dormitava a sésta. Como madrugava muito, áquella hora da calma +vinha-lhe sempre uma quebreira. + +As janellas estavam cerradas ao sol faiscante; as panellas no lume +faziam um _ron-ron_ dormente; e toda a casa, muito silenciosa, parecia +amodorroada no amollecimento do calor torrido, quando Juliana entrou +como uma rajada, atirou para o chão, furiosa, uma braçada de roupa +suja, e gritou: + +--Raios me partam se não ha um escandalo n'esta casa que vai tudo raso! + +Joanna deu um salto estremunhada. + +--Quem quer as cousas em ordem olha por ellas!--berrava a outra com +os olhos injectados.--Não é estar todo o dia na sala a palrar com as +visitas! + +A cozinheira foi fechar a porta precipitadamente, já assustada. + +--Que foi, snr.^a Juliana, que foi? + +--Está com a mosca! Tem o sangue a ferver! Sangrias! sangrias! Tem +peguilhado por tudo! Não estou para a aturar, não estou! + +E batia o pé com phrenesi. + +--Mas que foi? que foi? + +--Diz que os collarinhos tinham pouca gomma, pôz-se a despropositar! +Estou farta de a aturar! Estou farta! Estou até aqui!--bradava, puxando +a pelle engelhada da garganta.--Pois que me não faça sahir de mim! Que +me vou, e pespego-lhe na cara por quê! Desde que aqui temos homem e +pouca vergonha, boas noites!... Quem quizer que se metta em alhadas... + +--Ó snr.^a Juliana, pelo amor de Deus! Jesus!--E a Joanna apertava a +cabeça nas mãos.--Ai, se a senhora ouve! + +--Que ouça, digo-lh'o na cara! Estou farta! estou farta! + +Mas, de repente, fez-se branca como a cal, cahiu sobre a cadeira de +vime com as duas mãos contra o coração, os olhos em alvo. + +--Snr.^a Juliana!--gritou Joanna--Snr.^a Juliana! Falle! + +Borrifou-a d'agua; sacudia-a, anciosamente. + +--Nossa Senhora nos valha! Nossa Senhora nos valha! Está melhor? Falle! + +Juliana deu um suspiro longo, d'allivio, cerrou as palpebras. E +arquejava devagarinho, muito prostrada. + +--Como se sente? Quer um caldinho? É fraqueza, ha-de ser fraqueza... + +--Foi a pontada--murmurou Juliana. + +Ai! aquelles phrenesis matavam-na!--dizia a cozinheira, remexendo-lhe +o caldo, muito pallida tambem.--A gente tinha d'aturar os amos! Que +tomasse a sustancia, que socegasse!... + +N'aquelle momento Luiza abriu a porta. Vinha em collete e saia branca. + +Que barulho era aquelle? + +--A snr.^a Juliana que lhe tinha dado uma cousa, quasi desmaiára... + +--Foi a pontada--balbuciou Juliana. + +E erguendo-se, com um esforço: + +--Se a senhora não precisa nada, vou ao medico... + +--Vá, vá!--disse Luiza logo. E desceu. + +Juliana pôz-se a tomar o seu caldo com um vagar moribundo. Joanna +consolava-a baixo:--Tambem, a snr.^a Juliana arrenegava-se por +qualquer cousa. E quando a gente tem pouca saude não ha nada peor que +emphrenesiar-se... + +--É que não imagina!--e abafava a voz arregalando os olhos--Tem estado +de não se poder aturar! Está-se a vestir que nem para uma partida! +Amarfanhou uns poucos de collares, atirou-os para o chão, que eu +engommava que era uma porcaria, que não servia para nada... Ai! Estou +farta!--repetia--Estou farta! + +--É ter paciencia! Todos tem a sua cruz! + +Juliana teve um sorriso livido, ergueu-se com um grande _ai!_, +escabichou os dentes, apanhou a roupa suja, e subiu ao sotão. + +D'ahi a pouco, de luvas pretas, muito amarella, sahiu. + +Ao dobrar a esquina da rua, defronte do estanque, parou indecisa. Até +ao medico era um estirão!... E estava, que lhe tremiam as pernas!... +Mas tambem, largar tres tostões para trem!... + +--Pst, pst!--fez do lado uma voz dôce. + +Era a estanqueira, com o seu longo vestido de luto tingido, o seu +sorriso desconsolado. + +Que era feito da snr.^a Juliana? a dar o seu passeio, hein? + +Gabou-lhe a sombrinha preta de cabo d'osso.--De muito gosto--disse.--E +como ia de saude? + +Mal. Dera-lhe a pontada. Ia ao medico... + +Mas a estanqueira não tinha fé nos medicos. Era dinheiro deitado á +rua... Citou a doença do seu homem, os gastos, um _rôr_ de moedas. E +para que? para o vêr penar e morrer como se nada fosse! Era um dinheiro +que sempre chorava! + +E suspirou. Emfim, fosse feita a vontade de Deus! E lá por casa do snr. +Engenheiro? + +--Tudo sem novidade. + +--Ó snr.^a Juliana, quem é aquelle rapaz que vai agora por lá todos os +dias? + +Juliana respondeu logo: + +--É o primo da senhora. + +--Dão-se muito!... + +--Parece. + +Tossiu, e com um comprimentosinho: + +--Pois, muito boas tardes, snr.^a Helena. + +E foi resmungando: + +--Ora, fica-te a chuchar no dedo, lêsma! + +Juliana detestava a visinhança; sabia que a escarneciam, que a +imitavam, que lhe chamavam a _tripa velha_!...--Pois tambem d'ella +não haviam de saber nada! Podiam rebentar de curiosidade! Vinham de +carrinho! Boa! Tudo o que visse ou que lhe cheirasse havia de ficar +guardadinho, lá dentro.--Para uma occasião!--pensava com rancor, +sacudindo os quadris. + +A estanqueira ficou á porta, despeitada. E o Paula dos moveis, que as +vira conversar, veio logo, deslisando subtilmente nas suas chinellas de +tapete: + +--Então a _tripa velha_ escorregou-se? + +--Ai! não se lhe tira nada! + +O Paula enterrou as mãos nos bolsos, com tedio: + +--Aquillo, a do Engenheiro besunta-lhe as mãos... É ella quem leva a +cartinha, quem abre a portita de noite... + +--Tanto não direi! Credo! + +O Paula fitou-a com superioridade: + +--A snr.^a Helena está ahi ao seu balcão... Mas eu é que as conheço, +as mulheres da alta sociedade! Conheço-as nas pontas dos dedos. É uma +cambada! + +Citou logo nomes, alguns illustres; tinham amantes innumeraveis: até +trintanarios! Algumas fumavam, outras _entortavam-se_. E peor! E peor! + +--E passeiam por ahi, muito repimpadas de carrinho, á barba da gente de +bem! + +--Falta de religião!--suspirou a estanqueira. + +O Paula encolheu os hombros: + +--A religião é que é, snr.^a Helena! C'os padres é que é! + +E agitando furioso o punho fechado: + +--C'os padres é uma _choldra_ viva! + +--Credo, snr. Paula, que até lhe fica mal!... + +E o carão amarellado da estanqueira tinha uma severidade de devota +offendida. + +--Ora, historias, snr.^a Helena!--exclamou o homem com desprezo. + +E bruscamente: + +--Porque é que acabaram os conventos? Diga-me! Porque era um desaforo +lá dentro! + +--Oh snr. Paula! oh snr. Paula!--balbuciava a Helena, recuando, +encolhendo-se. + +Mas o Paula atirava-lhe as impiedades como punhaladas. + +--Um desaforo! De noite as freiras vinham por um subterraneo ter c'os +frades. E era vinhaça e mais vinhaça. E batiam o fandango em camisa! +Anda isso por ahi em todos os livros. + +E erguendo-se nas chinellas: + +--E os jesuitas, se vamos a isso! Sim! diga! + +Mas recuou, e levando a mão á pala do boné: + +--Um criado da senhora--disse com respeito. + +Era Luiza que passava, vestida de preto, o véo descido. Ficaram +calados, a olhal-a. + +--Que ella é muito bonita!--murmurou a estanqueira, com admiração. + +O Paula franziu a testa. + +--Não é mau bocado...--disse. E acrescentou, com desdem:--P'ra quem +gosta d'aquillo!... + +Houve um silencio. E o Paula rosnou: + +--Não são as saias que me levam o tempo, nem d'isto!... + +E bateu no bolso do collete, fazendo tilintar dinheiro. + +Tossiu, pigarreou, e ainda aspero: + +--Venha de lá um pataco de Xabregas. + +Foi para a porta do estanco enrolar o cigarro, assobiar; mas os seus +olhos arregalaram-se indignados; n'uma das janellas de cima na casa do +Engenheiro, tinha avistado, por entre as vidraças abertas, a figura +enfesada do Pedro, o carpinteiro. + +Voltou-se para a estanqueira, e cruzando dramaticamente os braços: + +--E agora que a patrôa vai á vida, lá está o rapazola a entender-se com +a criada! + +Soltou uma larga baforada de fumo, e com uma voz soturna: + +--Aquella casa vai-se tornando um prostibulo! + +--Um quê, snr. Paula? + +--Um prostibulo, snr.^a Helena! É como se dissesse um alcouce! + +E, com passos escandalisados, o patriota afastou-se. + + +Luiza ia emfim ao campo com Bazilio. Consentira na vespera, declarando +logo «que era só um passeio de meia hora, de carruagem, sem se +apearem». Bazilio ainda insistiu, fallando em «sombras d'alamedas, +uma merendinha, relvas...» Mas ella recusou, muito teimosa, rindo, +dizendo:--Nada de relvas!... + +E tinham combinado encontrar-se na praça da Alegria. Chegou tarde, já +depois das duas e meia, com o guarda-solinho muito carregado sobre o +rosto, toda assustada. + +Bazilio esperava, fumando, n'um coupé, á esquina, debaixo d'uma +arvore. Abriu rapidamente a portinhola, e Luiza entrou fechando +atrapalhadamente a sombrinha; o vestido prendeu-se ao estribo, +esgaçou-se no rufo de sêda; e achou-se ao lado d'elle, muito nervosa, +offegante, com o rosto abrazado, murmurando: + +--Que tolice, que tolice esta! + +Mal podia fallar. O coupé partiu logo a trote. O cocheiro era o +Pintéos, um batedor. + +--Tão cançada, coitadinha!--disse-lhe Bazilio muito meigo. + +Levantou-lhe o véo; estava suada; os seus largos olhos brilhavam da +excitação, da pressa, do medo... + +--Que calor, Bazilio! + +Quiz descer um dos vidros do coupé. + +Não, isso não! Podiam vêl-os! Quando passassem as portas... + +--Para onde vamos nós? + +E espreitava, levantando o _store_. + +--Vamos para o lado do Lumiar, é o melhor sitio. Não queres? + +Encolheu os hombros. Que lhe importava? Ia socegando: tinha tirado o +véo e as luvas: sorria, abanando-se com o lenço, d'onde sahia um aroma +fresco. + +Bazilio prendeu-lhe o pulso, pôz-lhe muitos beijos longos, delicados, +na pelle fina, azulada de veiasinhas. + +--Tu prometteste ter juizo!--fez ella com um sorriso calido, olhando-o +de lado. + +Ora! mas um beijo, no braço! Que mal havia? Tambem era necessario não +ser beata! + +E olhava-a avidamente. + +Os velhos _stores_ do coupé corridos eram de sêda vermelha, e a luz que +os atravessava envolvia-a n'um tom igual, côr de rosa e quente. Os seus +beiços tinham um escarlate molhado, a lisura sã d'uma petala de rosa; e +ao canto do olho um ponto de luz movia-se n'um fluido dôce. + +Não se conteve, passou-lhe os dedos um pouco tremulos nas fontes, nos +cabellos, com uma caricia fugitiva e assustada; e com a voz humilde: + +--Nem um beijo na face, um só? + +--Um só?...--fez ella. + +Pousou-lh'o delicadamente ao pé da orelha. Mas aquelle contacto +exasperou-lhe o desejo brutalmente; teve um som de voz soluçado; +agarrou-a com sofreguidão, e atirava-lhe beijos tontos pelo pescoço, +pela face, pelo chapéo... + +--Não! não!--balbuciava ella, resistindo.--Quero descer! Dize que pare! + +Batia nos vidros; esforçava-se por correr um, desesperada, magoando os +dedos na dura corrêa suja. + +Bazilio pôz-se a supplicar, que lhe perdoasse! Que doudice, zangar-se +por um beijo! Se ella estava tão linda!... Fazia-o doudo. Mas jurava ir +quieto, muito quieto... + +A carruagem, ao pé das portas, rolava sacudida na calçada miuda; nas +terras, aos lados, as oliveiras de um verde empoeirado estavam immoveis +na luz branca; e sobre a herva crestada o sol batia duramente n'uma +fulguração continua. + +Bazilio tinha descido um dos vidros; o _store_ corrido palpitava +brandamente; pôz-se então a fallar-lhe ternamente de si, do seu +amor, dos seus planos. Estava resolvido a vir estabelecer-se em +Lisboa--dizia.--Não tencionava casar-se; amava-a e não comprehendia +nada melhor do que viver ao pé d'ella, sempre. Dizia-se desilludido, +enfastiado. Que mais lhe podia offerecer a vida? Tinha tido as +sensações dos amores ephemeros, as aventuras das longas viagens. +Ajuntára alguma cousa de seu,--e sentia-se velho. + +Repetia, fitando-a, tomando-lhe as mãos: + +--Não é verdade que estou velho? + +--Não muito--e os seus olhos humedeciam-se. + +Ah! estava! estava! O que lhe appetecia agora era viver para ella, +vir descançar nas doçuras da sua intimidade. Ella era a sua unica +familia.--Fazia-se muito _parente_.--A familia no fim de tudo é o que +ha de melhor ainda. Não te incommoda que eu fume? + +E acrescentou, raspando o phosphoro: + +--O que ha de bom na vida é uma affeição profunda como a nossa. Não +é verdade? Contento-me com pouco, de resto. Vêr-te todos os dias, +conversar muito, saber que me estimas...--Por dentro do campo, ó +Pintéos!--gritou com força pela portinhola. + +O coupé entrou a passo no Campo Grande. Bazilio ergueu os _stores_; um +ar mais vivo penetrou. O sol cahia sobre o arvoredo, traspassando-o +d'uma luz faiscante, formando no chão poeirento e branco sombras +quentes de ramagens. Tudo tinha em redor um aspecto resequido e +exhausto. Na terra gretada, a herva curta, crestada, fazia tons +cinzentos. Na estrada, ao lado, arrastava-se uma poeira amarellada. +Saloios passavam, amodorroados sobre o albardão, bamboleando as pernas, +abrigados sob os vastos guarda-soes escarlates; e a luz que vinha de +um céo azul ferrete, acabrunhador, fazia reluzir com uma radiação crua +as paredes muito caiadas, as aguas d'algum balde esquecido ás portas, +todas as brancuras de pedras. + +E Bazilio continuava: + +--Vendo tudo o que tenho lá fóra, alugo aqui uma casinha em Lisboa, em +Buenos-Ayres, talvez... Não te agrada? Dize... + +Ella calava-se; aquellas palavras, as promessas, a que a voz d'elle +metallica e velada dava um vigor mais amoroso, iam-na perturbando como +a inebriação d'um licôr forte. O seu seio arfava. + +Bazilio baixou a voz, disse: + +--Quando estou ao pé de ti sinto-me tão feliz, parece-me tudo tão +bom!... + +--Se isso fosse verdade!--suspirou ella, encostando-se para o fundo do +coupé. + +Bazilio prendeu-lhe logo a cintura; jurou-lhe que sim! Ia pôr a sua +fortuna em inscripções. Começou a dar-lhe provas: já fallára a um +procurador; citou-lhe o nome, um sêcco, de nariz agudo... + +E apertando-a contra si, os olhos muito vorazes: + +--E se fosse verdade, dize, que fazias? + +--Nem eu sei--murmurou ella. + +Iam entrando no Lumiar, e por prudencia desceram os _stores_. Ella +afastou um, e, espreitando, via fóra passar rapidamente, ao lado do +trem, arvores empoeiradas; um muro de quinta d'uma côr de rosa sujo; +fachadas de casas mesquinhas; um omnibus desatrellado; mulheres +sentadas ao portal, á sombra, catando os filhos; e um sujeito vestido +de branco, de chapéo de palha, que estacou, arregalou os olhos para as +cortinas fechadas do coupé. E ia desejando habitar alli n'uma quinta, +longe da estrada; teria uma casinha fresca com trepadeiras em roda das +janellas, parreiras sobre pilares de pedra, pés de roseiras, ruasinhas +amaveis sob arvores entrelaçadas, um tanque debaixo d'uma tilia, onde +de manhã as criadas ensaboariam, bateriam a roupa, palrando. E ao +escurecer, ella e elle, um pouco quebrados das felicidades da sésta, +iriam pelos campos, ouvindo calados, sob o céo que se estrella, o +coaxar triste das rãs. + +Cerrou os olhos. O movimento muito lançado do coupé, o calor, a +presença d'elle, o contacto da sua mão, do seu joelho, amolleciam-na. +Sentia um desejo a alargar-se dentro do peito. + +--Em que vaes tu a pensar?--perguntou-lhe elle baixo, muito terno. + +Luiza fez-se vermelha. Não respondeu. Tinha medo de fallar, de lhe +dizer... + +Bazilio tomou-lhe a mão devagarinbo, com respeito, com cuidado, como +uma cousa preciosa e santa; e beijou-lh'a de leve, com a servilidade +d'um negro e a unção d'um devoto. Aquella caricia tão humilde, tão +tocante, quebrou-a; os seus nervos distenderam-se; deixou-se cahir para +o canto do coupé, rompeu a chorar... + +Que era? Que tinha? Prendera-a nos braços, beijava-a, dizia-lhe +palavras loucas. + +--Queres que fujamos? + +As suas lagrimasinhas redondas e luminosas, rolando devagarinho sobre +aquella face mimosa, enterneciam-no, e davam aos seus desejos uma +vibração quasi dolorosa. + +--Foge commigo, vem, levo-te! Vamos para o fim do mundo! + +Ella soluçou, murmurou muito doridamente: + +--Não digas tolices. + +Elle calou-se; pôz a mão sobre os olhos com uma attitude melancolica, +pensando:--Estou a dizer tolices, não ha que vêr! + +Luiza limpava as lagrimas, assoando-se devagarinho. + +--É nervoso--disse.--É nervoso. Voltamos, sim? Não me sinto bem. Dize +que volte. + +Bazilio mandou «bater» para Lisboa. + +Ella queixava-se de um ameaço d'enxaqueca. Elle tinha-lhe tomado a mão, +repetia-lhe as mesmas ternuras: chamava-lhe «sua pomba», «seu ideal». E +pensava baixo:--Estás cahida! + +Pararam na praça da Alegria. Luiza espreitou, saltou depressa, dizendo: + +--Ámanhã, não faltes, hein? + +Abriu o guarda-solinho, carregou-o sobre o rosto, subiu rapidamente +para a Patriarchal. + +Bazilio então desceu os vidros, e respirou com satisfação. Accendeu +outro charuto, estendeu as pernas, gritou: + +--Ao Gremio, ó Pintéos! + +Na sala de leitura, o seu amigo o visconde Reynaldo, que havia annos +vivia em Londres, e muito em Paris tambem, lia o _Times_ languidamente, +enterrado n'uma poltrona. Tinham vindo ambos de Paris, com promessa +de voltarem juntos por Madrid. Mas o calor desolava Reynaldo; achava +a temperatura de Lisboa _reles_; trazia lunetas defumadas; e andava +saturado de perfumes, por causa «do cheiro ignobil de Portugal». Apenas +viu Bazilio deixou escorregar o _Times_ no tapete, e com os braços +molles, a voz desfallecida: + +--E então essa questão da prima, vai ou não vai? Isto está horrivel, +menino! Eu morro! Preciso o Norte! Preciso a Escocia! Vamos embora! +Acaba com essa prima. Viola-a. Se ella te resiste, mata-a! + +Bazilio, que se estendera n'uma poltrona, disse, estirando muito os +braços: + +--Oh! Está cahidinha! + +--Pois avia-te, menino, avia-te! + +Apanhou moribundamente o _Times_, bocejou, pediu soda--soda ingleza! + +«Não havia», veio dizer o criado. Reynaldo fitou Bazilio com espanto, +com terror, e murmurou soturnamente: + +--Que abjecção de paiz! + + +Quando Luiza entrou, Juliana, ainda vestida, disse-lhe logo á porta: + +--O snr. Sebastião está na sala. Tem estado um _rôr_ de tempo á +espera... Já cá estava quando eu cheguei. + +Tinha vindo com effeito havia meia hora. Quando a Joanna lhe veio +abrir, muito encarnada, com o ar estremunhado, e resmungou «que a +senhora estava para fóra», Sebastião ia logo descer, com o allivio +delicioso d'uma difficuldade adiada. Mas reagiu, retesou a vontade, +entrou, pôz-se a esperar... Na vespera tinha decidido fallar-lhe, +avisal-a que aquellas visitas do primo, tão repetidas, com espalhafato, +n'uma rua maligna, podiam compromettel-a... Era o diabo, dizer-lh'o!... +Mas era um dever! Por ella, pelo marido, pelo respeito da casa! +Era forçoso acautelal-a!... E não se sentia acanhado. Perante as +reclamações do dever, vinham-lhe as energias da decisão. O coração +batia-lhe um pouco, sim, e estava pallido... Mas, que diabo, havia de +lh'o dizer!... + +E passeando pela sala com as mãos nos bolsos, ia arranjando as suas +phrases, procurando-as muito delicadas, bem amigas... + +Mas a campainha retiniu, um _frou-frou_ de vestido roçou o corredor,--e +a sua coragem engelhou-se como um balão furado. Foi-se logo sentar ao +piano, pôz-se a bater vivamente no teclado. Quando Luiza entrou, sem +chapéo, descalçando as luvas, ergueu-se, disse embaraçado: + +--Tenho estado aqui a trautear um bocado... Estava á espera... Então +d'onde vem? + +Ella sentou-se, cançada. Vinha da modista--disse. Fazia um calor! +Porque não tinha entrado as outras vezes? Não estava com visitas de +ceremonia! Era familia, era seu primo que viera de fóra. + +--Está bom, seu primo? + +--Bom. Tem estado aqui, bastante. Aborrece-se muito em Lisboa, coitado! +Ora, quem vive lá fóra! + +Sebastião repetiu, esfregando devagar os joelhos: + +--Está claro, quem vive lá fóra! + +--E Jorge, tem-lhe escripto?--perguntou Luiza. + +--Recebi carta hontem. + +Tambem ella. Fallaram de Jorge, dos tedios da jornada, do que contava +do phantastico parente de Sebastião, da demora provavel... + +--Faz-nos uma falta, aquelle maroto!--disse Sebastião. + +Luiza tossiu. Estava um pouco pallida, agora. Passava ás vezes a mão +pela testa, cerrando os olhos. + +Sebastião de repente, teve uma decisão: + +--Pois eu vinha, minha rica amiga...--começou. + +Mas viu-a ao canto do sophá, com a cabeça baixa, a mão sobre os olhos. + +--Que tem? Está incommodada? + +--É a enxaqueca que me veio de repente. Já tinha tido ameaços na rua. E +com uma força! + +Sebastião tomou logo o chapéo: + +--E eu a massal-a! É necessario alguma cousa? Quer que vá chamar o +medico? + +--Não! Vou-me deitar um momento, passa logo. + +Que não apanhasse ar, ao menos, recommendava elle. Talvez sinapismos +ou rodellas de limão nas fontes... E em todo o caso, se não estivesse +melhor que o mandasse chamar... + +--Isto passa! E appareça, Sebastião! Não se esconda... + +Sebastião desceu, respirou largamente; e pensava:--Eu não me atrevo, +santo Deus!... Mas á porta, ao levantar os olhos, viu no fundo escuro +da loja de carvão o vulto enorme da carvoeira, de chambre branco, +estendendo o olhar, cocando; por cima, tres das Azevedos, entre as +velhas cortinas de cassa, juntavam as suas cabecinhas riçadas n'algum +conciliabulo maligno: por traz dos vidros a criada do doutor costurava, +com olhares de lado, a cada momento, que lambiam a rua; e ao lado, na +loja de moveis, sentiam-se as expectorações do patriota. + +--Não passa um gato que esta gente não dê fé!--pensou Sebastião.--E que +linguas! Que linguas! Devo fazel-o, ainda que estoure! Se ella ámanhã +está melhor, digo-lhe tudo! + + +Estava com effeito já boa, ás nove horas, no dia seguinte, quando +Juliana a foi acordar, com «uma cartinha da snr.^a D. Leopoldina». + +A criada de Leopoldina, a Justina, uma magrita muito trigueira, de +buço e olho vesgo, esperava na sala de jantar. Era amiga de Juliana, +beijocavam-se muito, diziam-se sempre finezas. E depois de ter guardado +a resposta de Luiza n'um cabazinho que trazia no braço, traçou o chale, +e muito risonha: + +--Então que ha por cá de novo, snr.^a Juliana? + +--Tudo velho, snr.^a Justina. + +E mais baixo: + +--O primo da senhora, agora; vem todos os dias. Perfeito rapaz! + +Tossiram ambas, baixinho, com malicia. + +--E por lá, snr.^a Justina, quem vai por lá? + +Justina fez um aceno de desprezo. + +--Um rapazola, um estudante. Fraca cousa!... + +--Sempre pinga!--disse Juliana com um risinho. + +A outra exclamou: + +--Olha quem! o pelintra! Nem cheta! + +E erguendo o olhar com saudade: + +--Ai, como o Gama não ha! Quando era do tempo do Gama, isso sim! Nunca +ia que me não désse os seus dez tostões, ás vezes meia libra. Ai, +devo dizel-o, foi elle que me ajudou para o meu vestido de sêda! Este +agora!... é um fedelho. Eu nem sei como a senhora supporta aquillo! E +amarellado, enfesado! Aquillo póde prestar para nada! + +Juliana disse então: + +--Pois olhe, snr.^a Justina, eu agora é que começo a considerar: é onde +se está bem, é em casas em que ha pôdres! Encontrei hontem a Agostinha, +a que está em casa do commendador, ao Rato... Pois senhor, não se +imagina. É tudo o que se póde! Tudo! Annel, vestido de sêda, sombrinha, +chapéo! E de roupa branca diz que é um enxoval. E tudo o Couceiro, +o que está com a ama. E pelas festas sua moeda. Diz que é um homem +rasgado. Ella tambem, verdade seja, tem um trabalhão: fal-o entrar pelo +jardim, e para o fazer sahir tem d'esperar... + +--Ah, lá não!--acudiu a Justina.--Lá é pela escada. + +Riram baixinho, saboreando o escandalo. + +--Genios...--disse Juliana. + +--Ai, lá isso, o nosso tem estomago--affirmou Justina.--Encontra-os na +escada, e tanto se lhe dá!... + +E muito affectuosamente, arranjando o chale: + +--E adeusinho, que se faz tarde, snr.^a Juliana. Ella vem hoje cá +jantar, a senhora. Estive toda a manhã a engommar uma saia; desde as +sete! + +--Tambem eu por cá--disse Juliana.--Ellas é o que tem; quando ha amante +sempre ha mais que engommar. + +--Deitam mais roupa branca, deitam--observou a Justina. + +--As que deitam!--exclamou Juliana, com desprezo. + +Mas Luiza tocou a campainha dentro. + +--Adeus, snr.^a Juliana--disse logo a outra, ageitando o chapéo. + +--Adeus, snr.^a Justina. + +Foi acompanhal-a ao patamar. Beijocaram-se. Juliana voltou muito +apressada ao quarto de Luiza; estava já a pé, vestindo-se, muito +alegre, cantarolando. + +O bilhete de Leopoldina dizia na sua letra torta: + + +«Meu marido vai hoje para o campo. Eu vou-te pedir de jantar, mas não +posso ir antes das seis. Convem-te?» + + +Ficou muito contente. Havia semanas que a não via... O que iam rir, +palrar! E Bazilio devia vir ás duas. Era um dia divertido, bem +preenchido... + +Foi logo á cozinha dar as suas ordens para o jantar. Quando descia, +o criadito de Sebastião tocava a campainha, com um ramo de rosas, «a +saber se a senhora estava melhor». + +--Que sim, que sim!--gritou logo Luiza.--E para o tranquillisar, para +que elle não viesse:--Que estava boa, que até talvez sahisse... + +As rosas, sim, é que vinham a proposito. Foi ella mesma pôl-as nos +vasos, cantarolando sempre, o olhar vivo, satisfeita de si, da sua vida +que se tornava interessante, cheia de incidentes... + +E ás duas horas, vestida, veio para a sala, pôz-se ao piano a estudar a +_Medjé_ de Gounod, que Bazilio trouxera, e que a encantava agora muito, +com os seus accentos suspirados e calidos. + +Ás duas e meia, porém, começou a estar impaciente; os dedos +embrulhavam-se-lhe no teclado.--Já devia ter vindo, Bazilio!--pensava. + +Foi abrir as janellas, debruçar-se para a rua; mas a criada do doutor, +que costurava por dentro dos vidros, ergueu logo olhos tão sofregos +que Luiza fechou rapidamente as vidraças. Veio recomeçar a melodia, já +nervosa. + +Uma carruagem rolou. Ergueu-se agitada, batia-lhe o coração. A +carruagem passou... + +Tres horas já! O calor parecia-lhe maior, insupportavel; sentia-se +afogueada, foi cobrir-se de pó d'arroz. Se Bazilio estivesse doente! E +n'um quarto d'hotel! Só, com criados desleixados! Mas não, ter-lhe-hia +escripto n'esse caso!... Não viera, não se importára! Que grosseiro, +que egoista! + +Era bem tola em se affligir. Melhor! Mas, abafava-se, positivamente! +Foi buscar um leque, e as suas mãos enraivecidas sacudiram n'um +phrenesi a gaveta, que não se abriu logo, um pouca perra. Pois bem, não +o tornaria a receber! E acabava tudo! + +E o seu grande amor, de repente, como um fumo que uma rajada dissipa, +desappareceu! Sentiu um allivio, um grande desejo de tranquillidade. +Era absurdo, realmente, com um marido como Jorge, pensar n'outro homem, +um leviano, um estroina!... + +Deram quatro horas. Veio-lhe uma desesperação, correu ao escriptorio de +Jorge, agarrou uma folha de papel, escreveu á pressa: + + + «Querido Bazilio. + + +«Porque não vens? Estás doente? Se soubesses os tormentos por que me +fazes passar...» + + +A campainha retiniu. Era elle! Amarrotou o bilhete, metteu-o no bolso +do vestido, ficou esperando, palpitante. Passos d'homem pisaram o +tapete da sala. Entrou, com o olhar faiscante... Era Sebastião. + +Sebastião, um pouco pallido, que lhe apertou muito as mãos. Estava +melhor? Tinha dormido bem? + +Sim, obrigada, estava melhor. Sentára-se no sophá, muito vermelha. Mal +sabia que dizer. + +Repetiu com um sorriso vago:--Estou muito melhor!--E pensava:--Não me +deixa agora a casa, este massador! + +--Então, não sahiu?--perguntou Sebastião, sentado na poltrona, com o +chapéo desabado nas mãos. + +Não, estava um pouco fatigada ainda. + +Sebastião passou devagar a mão pelos cabellos, e com uma voz que o +embaraço engrossava: + +--Tambem agora tem sempre companhia pela manhã... + +--Sim, meu primo Bazilio tem apparecido. Ha tanto tempo que nos não +viamos! Fomos creados de pequenos, quasi... Tenho-o visto quasi todos +os dias. + +Sebastião fez logo rolar um pouco a poltrona, e curvando-se, baixando a +voz: + +--Eu mesmo tinha vindo para lhe fallar a esse respeito... + +Luiza abriu um olhar surprehendido. + +--A respeito de quê? + +--É que se repara... A visinhança é a peor cousa que ha, minha rica +amiga. Repara em tudo. Já se tem fallado. A criada do lente, o Paula. +Até já vieram á tia Joanna. E como o Jorge não está... O Netto tambem +reparou. Como não sabem o parentesco... E como vem todos os dias... + +Luiza ergueu-se bruscamente, com o rosto alterado: + +--Então eu não posso receber os meus parentes sem ser +insultada?--exclamou. + +Sebastião levantou-se tambem. Aquella colera subita n'ella, uma pessoa +tão dôce, atarantou-o como um trovão que estala n'um céo claro de verão. + +Pôz-se a dizer, quasi anciosamente: + +--Oh minha rica senhora! mas repare, eu não digo... É por causa da +visinhança!... + +--Mas que póde dizer a visinhança? + +A sua voz tinha uma vibração aguda. E batendo com as mãos, +apertando-as, exaltada: + +--Isto é curioso! Tenho um parente unico, com quem fui creada, que não +vejo ha uns poucos d'annos, vem-me fazer tres ou quatro visitas, está +um momento, e já querem deitar maldade! + +Fallava convencida, esquecendo as palavras de Bazilio, os beijos, o +_coupé_... + +Sebastião, acabrunhado, enrolava o chapéo nas mãos tremulas. E com uma +voz abafada: + +--Eu tinha-me parecido prudente avisar; o Julião tambem... + +--O Julião!--exclamou ella.--Mas que tem o Julião com isso? Com que +direito se mettem no que se passa em minha casa? O Julião! + +A intervenção, as decisões de Julião pareciam-lhe um acrescimo +d'affronta. Cahiu n'uma cadeira, com as mãos contra o peito, os olhos +no tecto. + +--Oh! Se o Jorge aqui estivesse! Oh! se elle aqui estivesse, Santo Deus! + +Sebastião balbuciou aniquilado: + +--Era para seu bem... + +--Mas que mal me póde succeder? + +E erguendo-se, indo d'um movel a outro, n'uma excitação: + +--É o meu unico parente. Fomos creados ambos, brincavamos juntos. Em +casa da mamã, na rua da Magdalena, estava lá sempre. Ia lá jantar todos +os dias. É como se fossemos irmãos. Em pequena trazia-me ao collo... + +E amontoava detalhes d'aquella fraternidade, exagerando uns, inventando +outros ao acaso, na improvisação da colera. + +--Vem aqui--acrescentava--está um bocado, fazemos musica, elle toca +admiravelmente, fuma um charuto, vai-se... + +Instinctivamente justificava-se. + +Sebastião estava sem idéa, sem resolução. Parecia-lhe aquella uma outra +Luiza, differente, que o assustava; e quasi curvava os hombros sob a +estridencia da sua voz, que nunca conhecera tão forte, vibrando n'uma +loquacidade trapalhona. + +Erguendo-se emfim, disse com uma dignidade melancolica: + +--Eu entendi que era o meu dever, minha senhora. + +Fez-se um silencio grave. Aquelle tom sobrio, quasi severo, obrigou-a a +córar um pouco dos seus espalhafatos: baixou os olhos: disse embaraçada: + +--Perdôe, Sebastião! Mas realmente!... Não, acredite, juro-lhe, +estou-lhe muito obrigada em me avisar. Fez muito bem, Sebastião! + +Elle exclamou logo, vivamente: + +--Para evitar qualquer calumnia d'essas linguas damnadas! Pois não é +verdade? + +Justificou então a sua intervenção, com muita amizade: ás vezes por uma +palavra, arma-se uma intriga, e quando uma pessoa está prevenida... + +--De certo, Sebastião!--repetiu ella.--Fez perfeitamente bem em me +avisar. De certo!... + +Tinha-se sentado; o olhar reluzia-lhe febrilmente; e a cada momento +limpava com o lenço os cantos seccos da bocca. + +--Mas que hei-de eu fazer, Sebastião! Diga! + +Elle commovia-se agora de a vêr assim ceder, aconselhar-se; quasi +lamentava vir, com a gravidade das suas advertencias, perturbar a +alegria das suas intimidades. Disse: + +--Está claro que deve vêr seu primo, recebel-o... Mas emfim, sempre +é bom uma certa reserva, com esta visinhança! Eu se fosse a si +contava-lhe... explicava-lhe... + +--Mas, por fim, que diz essa gente, Sebastião? + +--Repararam. Quem seria? quem não seria? Que vinha, que estava, o diabo! + +Luiza ergueu-se impetuosamente: + +--Eu bem tenho dito a Jorge! Tantas vezes lh'o tenho dito! Isto é +uma rua impossivel! Não se mexe um dedo que não espreitem, que não +cochichem! + +--Não teem que fazer... + +Houve um silencio. Luiza passeava pela sala, com a cabeça baixa, a +testa franzida; e parando, olhando quasi anciosamente para Sebastião: + +--O Jorge se soubesse é que tinha um desgosto! Santo Deus! + +--Escusa de saber!--exclamou logo Sebastião.--Isto fica entre nós! + +--Para o não affligir, não é verdade?--acudiu ella. + +--Está claro! Isto fica entre nós. + +E Sebastião estendendo-lhe a mão, quasi humildemente: + +--Então não está zangada commigo, hein? + +--Eu, Sebastião! Que tolice! + +--Bem, bem. Acredite!--e espalmou a mão sobre o peito--eu entendi que +era o meu dever. Porque emfim, a minha rica amiga não sabia nada... + +--Estava bem longe!... + +--De certo. Bem, adeus. Não a quero massar mais.--E com uma voz +profunda, commovida:--Cá estou ás ordens, hein! + +--Adeus, Sebastião... Mas que gente! Por vêr entrar o pobre rapaz tres +ou quatro vezes!... + +--Uma canalha, uma canalha!--disse Sebastião, arregalando os olhos. + +E sahiu. + +Apenas elle fechou a porta: + +--Que desafôro!--exclamou Luiza--Isto só a mim! + +Porque a intervenção de Sebastião, no fundo, irritava-a mais que os +mexericos da visinhança! A sua vida, as suas visitas, o interior da +sua casa era discutido, resolvido por Sebastião, por Julião, por +_tutti quanti_! Aos vinte e cinco annos tinha mentores! Não estava má! +E porque, Santo Deus? Porque seu primo, o seu unico parente, vinha +vel-a!... + +Mas então, de repente, emmudecia interiormente. Lembravam-lhe os +olhares de Bazilio, as suas palavras exaltadas, aquelles beijos, o +passeio ao Lumiar. A sua alma corava baixo, mas o seu despeito seguia +declamando alto:--de certo, havia um sentimento, mas era honesto, +ideal, todo platonico!... Nunca seria _outra cousa_! Podia ter lá +dentro, no fundo, uma fraqueza... Mas seria sempre uma mulher de bem, +fiel, só d'um!... + +E esta certeza irritava-a então contra os «palratorios» da rua! Que de +resto era lá possivel, que só por verem entrar Bazilio, quatro ou cinco +vezes, ás duas horas da tarde, começassem logo a murmurar, a cortar na +pelle?... Sebastião era um caturra, com terrores d'ermitão! E que idéa, +ir consultar Julião! Julião! Era elle, de certo, que o instigára a vir +prégar, assustal-a, humilhal-a!... Porque? Azedume, inveja! Porque +Bazilio tinha belleza, _toilette_, maneiras, dinheiro!... Se tinha! + +As qualidades de Bazilio appareciam-lhe então magnificas e abundantes +como os attributos d'um deus. E estava apaixonado por ella! E queria +vir viver junto d'ella! O amor d'aquelle homem, que tinha esgotado +tantas sensações, abandonado de certo tantas mulheres, parecia-lhe como +a affirmação gloriosa da sua belleza e da irresistibilidade da sua +seducção. + +A alegria que lhe dava aquelle culto trazia-lhe o receio de o perder. +Não o queria vêr diminuido; queria-o sempre presente, crescendo, +balouçando sem cessar, diante d'ella, o murmurio languido das ternuras +humildes! Podia lá separar-se de Bazilio! Mas se a visinhança, as +relações começavam a commentar, a cochichar... Jorge podia saber!... +Áquella supposição o coração arrefecia-lhe...--Sebastião tinha razão, +no fundo, era evidente! + +N'uma rua pequena, com doze casas, vir todos os dias, aquelle +lindo rapaz, tão elegante, agora que seu marido não estava... Era +terrivel!--Que havia de fazer, Santo Deus!... + +A campainha retiniu com força; Lepoldina entrou. + +Vinha furiosa com o cocheiro: que imaginasse ella, hein! Tinha parado +ao Correio, e o homem queria duas corridas. Uma canalha assim!... + +--E que calor, ouf!--Atirou a sombrinha, as luvas; agitou as mãos no ar +para descer o sangue, dar-lhes pallidez; e diante do toucador, compondo +ligeiramente os frisados do cabello, com uma côr na pelle, muito +espartilhada, admiravel no seu corpete couraçado: + +--Que tens tu, filha? Estás toda no ar! + +Nada. Tinha-se zangado com as criadas... + +--Ai! estão insupportaveis!--Contou as exigencias da Justina, os seus +desmazelos.--E muito agradecida ainda que ella se me não vá! Quando a +gente depende d'ellas!...--E pondo pó d'arroz no rosto, com uma voz +lenta:--Lá o meu senhor foi para o Campo Grande. Eu estive para ir +jantar fóra com...--Suspendeu-se, sorriu, e voltada para Luiza, mais +baixo, com um tom alegre, muito sincero:--Mas olha, a fallar a verdade, +nem sabia onde, nem tinha dinheiro... Que elle coitado com a sua mezada +mal lhe chega. Disse commigo: nada, vou vêr a Luiza. Tambem os homens +sempre, sempre, seccam!...--Que tens tu para jantar? Não fizeste +ceremonia, hein? + +E com uma idéa subita: + +--Tens tu bacalhau? + +Devia haver, talvez. Que extravagancia! Porque? + +--Ai!--exclamou--Manda-me assar um bocadinho de bacalhau! Meu marido +detesta o bacalhau! aquelle animal! Eu é a minha paixão. Com azeite e +alho!--Mas calou-se, contrariada.--Diabo! + +--O que? + +--É que hoje não posso comer alho... + +E entrou para a sala a rir. Foi tirar uma rosa do ramo de Sebastião, +pôl-a n'uma casa do corpete. Desejava ter uma sala assim,--pensava, +olhando em redor. Queria-a de reps azul, com dous grandes espelhos, um +lustre de gaz, e o seu retrato a oleo de corpo inteiro, decotada, ao +pé d'um rico vaso de flôres... Sentou-se ao piano, bateu rijamente o +teclado, tocou motivos do _Barba Azul_. + +E vendo Luiza entrar: + +--Mandaste arranjar o bacalhau? + +--Mandei. + +--Assado? + +--Sim. + +--Gracias!--E atirou, com a sua voz mordente, a sua canção querida da +_Gran-Duqueza_: + + Ouvi dizer que meu avô de vinho, + Era um tal amador... + +Mas Luiza achava aquella musica «espalhafatona»; queria alguma cousa +triste, dôce... O fado! que tocasse o fado!... + +Leopoldina exclamou logo: + +--Ai, o fado novo! Tu não ouviste? É lindo! Os versos são divinos! + +Preludiou, cantando com um balouçar languido da cabeça, o olhar erguido +e turvo: + + O rapaz que eu hontem vi + Era moreno e bem feito... + +--Tu não sabes isto, Luiza? Oh filha! É o ultimo! É de chorar! + +Recomeçou, com o tom muito quebrado. Era a historia rimada d'um amor +infeliz. Fallava-se nas «raivas do ciume, nas rochas de Cascaes, nas +noites de luar, nos suspiros da saudade», todo o palavriado morbido do +sentimentalismo lisboeta. Leopoldina dava tons dolentes á voz, revirava +um olhar expirante; uma quadra sobre tudo enternecia-a; repetiu-a com +paixão: + + Vejo-o nas nuvens do céo, + Nas ondas do mar sem fim, + E por mais longe que esteja + Sinto-o sempre ao pé de mim. + +--Lindo!--suspirava Luiza. + +E Leopoldina terminava com _ais_! em que a sua voz se arrastava n'uma +extensão desafinada. + +Luiza, de pé junto do piano, sentia o cheiro do _feno_ que ella usava; +o fado, os versos entristeciam-na um pouco; e com o olhar saudoso +seguia sobre o teclado os dedos ageis e magros de Leopoldina, onde +reluziam as pedras dos anneis que lhe tinha dado o Gama. + +Mas Juliana entrou, vestida de passeio, com a sua cuia nova. Estava o +jantar na mesa! + +Leopoldina declarou que vinha a cahir de fome! E a sala de jantar com +as vidraças abertas, as verduras dos terrenos vagos defronte, um azul +d'horisonte onde se algodoavam nuvemzinhas muito brancas--alegrou-a: +a sala de jantar d'ella tirava-lhe até o appetite, era uma tristeza, +deitava para o saguão! + +Pôz-se a depenicar bagos d'uvas, a trincar bocadinhos de conserva--e +reparando no retrato do pai de Jorge, desdobrando o guardanapo: + +--Havia de ser divertido teu sogro! Tem cara de pandigo!... + +E ha que tempos que não jantavam juntas! Desde quando? + +--Desde o meu primeiro anno de casada--lembrou Luiza. + +Leopoldina fez-se um pouco vermelha. Viam-se muito n'esse tempo; +Jorge deixava-as ir ás lojas ambas, aos confeiteiros, á Graça... +A lembrança d'aquella camaradagem levou-a ás recordações mais +distantes do collegio. Tinha visto, havia dias, a Rita Pessoa, com o +sobrinho.--Lembras-te d'elle? + +--O _Espinafre_? + +_Espinafre_ ou não era no collegio o homem, o ideal, o heroe; todas lhe +escreviam bilhetes, desenhavam-lhe corações d'onde sahia uma fogueira, +mettiam-lhe no boné muito sebento ramos de flôres de papel... E quando +a Michaela foi apanhada, no cacifro dos bahús, a devoral-o de beijos!... + +Luiza disse: + +--Que horror! + +--Não que a Michaela era douda! + +Coitada! Tinha casado com um alferes, um homem que a espancava. Estava +cheia de filhos... + +--Isto é um valle de lagrimas!--resumiu Leopoldina, recostando-se. + +Estava loquaz. Servia-se muito, com gula; depois picava um bocadinho na +ponta do garfo, provava, deixava, punha-se a comer côdeas de pão que +barrava de manteiga. E deleitava-se nas recordações do collegio! Que +bom tempo! + +--Lembraste quando estivemos de mal? + +Luiza não se lembrava... + +--Por tu teres dado um beijo na Thereza, que era o meu +_sentimento_--disse Leopoldina. + +Pozeram-se a fallar dos _sentimentos_. Leopoldina tivera quatro; a +mais bonita era a Joanninha, a Freitas. Que olhos! E que bem feita! +Tinha-lhe feito a côrte um mez!... + +--Tolices!--disse Luiza córando um pouco. + +--Tolices! Porque? + +Ai! era sempre com saudade que fallava dos _sentimentos_. Tinham sido +as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciumes! Que +delirio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os +bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida! + +--Nunca--exclamou--nunca, depois de mulher, senti por um homem o que +senti pela Joanninha!... Pois pódes crêr... + +Um olhar de Luiza deteve-a.--A Juliana!... Diabo! tinha-se esquecido! +Constrangia-as muito, com o seu sorrisinho torcido, a figura de peito +chato, o tic-tac metallico dos tacões. + +--E que foi feito da Joanninha?--perguntou Luiza. + +Morrêra tisica--e a voz de Leopoldina fez-se saudosa. Uma doença bem +triste, não era? Mas não lhe tinha medo, ella! Batia no seio, bem +formado: + +--Isto é rijo, isto é são! + +Juliana sahiu, e Luiza observou logo: + +--Vê no que fallas, filha! Tem cuidado! + +Leopoldina curvou-se: + +--Ah! a respeitabilidade da casa! Tens razão!--murmurou. + +E como Juliana entrava com o bacalhau assado, fez-lhe uma ovação! + +--Bravo! Está soberbo! + +Tocou-lhe com a ponta do dedo, gulosa; vinha louro, um pouco tostado, +abrindo em lascas. + +--Tu verás--dizia ella.--Não te tentas? Fazes mal! + +Teve então um movimento decidido de bravura, disse: + +--Traga-me um alho, snr.^a Juliana! Traga-me um bom alho! + +E apenas ella sahiu: + +--Eu vou ter logo com o Fernando, mas não me importa!...--Ah! Obrigada, +snr.^a Juliana! Não ha nada como o alho!... + +Esborrachou-o em roda do prato, regou as lascas do bacalhau d'um fio +molle d'azeite, com gravidade.--Divino!--exclamou.--Tornou a encher o +copo, achava aquillo «uma pandiga». + +--Mas que tens tu? + +Luiza com effeito parecia preoccupada. Tinha suspirado baixo. Duas +vezes, endireitando-se na cadeira, dissera a Juliana, inquieta: + +--Parece que tocaram a campainha, vá vêr. + +Não era ninguem. + +--Quem havia de ser? Não esperas teu marido, de certo. + +--Ah! não! + +E então Leopoldina, com os olhos no prato, partindo devagar, muito +attenta, lascasinhas de bacalhau: + +--E teu primo veio vêr-te? + +Luiza fez-se vermelha. + +--Sim, tem vindo. Tem vindo varias vezes. + +--Ah! + +E depois d'um silencio: + +--Ainda está bonito? + +--Não está feio... + +--Ah! + +Luiza apressou-se a perguntar se tinha encommendado o vestido de +xadrezinho? Não. E começaram a fallar de _toilettes_, fazendas, +lojas, e preços... Depois, de conhecidas, d'outras senhoras, de +boatos--perdendo-se n'uma conversa de mulheres sós, miudinha e +divagada, semelhante ao ramalhar de folhagens. + +Viera o assado. Leopoldina já ia tendo uma côr quente nas faces. Pediu +a Juliana que lhe fosse buscar o leque;--e recostada, abanando-se, +declarou que se sentia como um principe! E ia beberricando golinhos de +vinho. Que boa idéa, jantarem juntas!... + +Apenas Juliana dispôz os pratos de fruta, Luiza disse-lhe logo: «que +chamaria para o café, que podia ir». Foi ella mesmo fechar a porta da +sala, correr o reposteiro de cretone: + +--Estamos á vontade, agora! Faço-me velha só d'olhar para esta +creatura! Estou morta pela vêr pelas costas. + +--Mas porque a não pões na rua? + +Era Jorge que não queria, senão... + +Leopoldina protestou. Boa! os maridos não deviam ter vontade!... Era o +que faltava!... + +--E o teu, então?--disse Luiza, rindo. + +--Obrigada!--exclamou Leopoldina.--Um homem que faz quarto á parte! + +De resto detestava os homens que se occupam de criadas, de roes, +d'azeites e vinagres... + +--Que lá o meu cavalheiro até pesa a carne!--Sorriu, com odio.--Tambem +é o que vale, senão!... Eu só d'ir á cozinha me dão enjôos... + +Quiz deitar vinho, mas a garrafa estava vazia. + +Luiza acudiu: + +--Queres tu champagne?--Tinha-o muito bom, que o mandava a Jorge um +hespanhol, um proprietario de minas. + +Foi ella mesmo buscar a garrafa, desembrulhou-a do seu papel azul;--e +com risinhos, sustos, fizeram estalar a rolha. A espuma encantou-as: +olhavam os copos, caladas, com um bem-estar feliz. Leopoldina gabou-se +de saber abrir muito bem o champagne; fallava vagamente de cêas +passadas... + +--Em terça-feira gorda, ha dous annos!... + +E toda recostada na cadeira, com um sorriso calido, as azas do nariz +dilatadas, a pupilla humida, olhava com sensualidade os globulosinhos +vivos que subiam, sem cessar, no copo esguio. + +--Se fosse rica, bebia sempre champagne--disse. + +Luiza não: ambicionava um coupé; e queria viajar, ir a Paris, a +Sevilha, a Roma... Mas os desejos de Leopoldina eram mais vastos: +invejava uma larga vida, com carruagens, camarotes d'assignatura, uma +casa em Cintra, cêas, bailes, _toilettes_, jogo... Porque gostava do +_monte_--dizia--fazia-lhe bater o coração. E estava convencida que +havia de adorar a roleta. + +--Ah!--exclamou--Os homens são bem mais felizes que nós! Eu nasci para +homem! O que eu faria! + +Levantou-se, foi-se deixar cahir muito languidamente na _voltaire_, ao +pé da janella. A tarde descia serenamente; por traz das casas, para lá +dos terrenos vagos, nuvens arredondavam-se, amarelladas, orladas de +côres sanguineas ou de tons alaranjados. + +E voltando-lhe a mesma idéa d'acção, d'independencia: + +--Um homem póde fazer tudo! Nada lhe fica mal! Póde viajar, correr +aventuras... Sabes tu, fumava agora um cigarrito... + +O peor é que Juliana podia sentir o cheiro. E parecia tão mal!... + +--É um convento, isto!--murmurou Leopoldina.--Não tens má prisão, minha +filha! + +Luiza não respondeu; tinha encostado a cabeça á mão: e com o olhar +vago, como continuando alguma idéa: + +--São tolices, no fim, andar, viajar! A unica cousa n'este mundo é a +gente estar na sua casa, com o seu homem, um filho ou dous... + +Leopoldina deu um salto na _voltaire_. Filhos! Credo, que nem fallasse +em semelhante cousa! Todos os dias dava graças a Deus em os não ter! + +--Que horror!--exclamou com convicção.--O incommodo todo o tempo que se +está!... as despezas! os trabalhos, as doenças! Deus me livre! É uma +prisão! E depois quando crescem, dão fé de tudo, palram, vão dizer... +Uma mulher com filhos está inutil para tudo, está atada de pés e mãos! +Não ha prazer na vida. É estar alli a atural-os... Credo! Eu? Que Deus +não me castigue, mas se tivesse essa desgraça parece-me que ia ter com +a velha da travessa da Palha! + +--Que velha?--perguntou Luiza. + +Leopoldina explicou. Luiza achava uma «infamia». A outra encolheu os +hombros, acrescentou: + +--E depois, minha rica, é que uma mulher estraga-se: não ha belleza de +corpo que resista. Perde-se o melhor. Quando se é como a tua amiga, a +D. Felicidade, emfim!... Mas quando se é direitinha e arranjadinha!... +Nada, minha rica! Embaraços não faltam! + +Por baixo, na rua, o realejo do bairro, no seu giro da tarde, veio +tocar o final da _Traviata_; ia escurecendo; já as verduras dos +quintaes tinham uma igual côr parda; e as casas para além esbatiam-se +na sombra. + +A _Traviata_ lembrou a Luiza a _Dama das Camelias_: fallaram do +romance: recordaram episodios... + +--Que paixão que eu tive por Armando em rapariga!--disse Leopoldina. + +--E eu foi por d'Artagnan--exclamou ingenuamente Luiza. + +Riram muito. + +--Começamos cedo--observou Leopoldina.--Dá-me uma gotinha mais. + +Bebeu, pousou o calix--e encolhendo os hombros: + +--Oh! Começamos cedo? Começam todas! Aos treze annos já a gente vai na +sua quarta paixão. Todas são mulheres, todas sentem o mesmo!--E batendo +o compasso com o pé, cantou, no tom do fado: + + O amor é uma doença + Que costuma andar no ar; + Só d'ir á janella, ás vezes + S'apanha a febre d'amar! + +Estou hoje com uma telha!--E espreguiçando-se muito languidamente:--No +fim de contas é o que ha de melhor n'este mundo: o resto é uma +semsaboria! Não é verdade? Dize, tu! Não é verdade? + +Luiza murmurou: + +--Se é!--E acrescentou logo:--Creio eu! + +Leopoldina ergueu-se, e escarnecendo-a: + +--Crê ella! Pobre innocentinha! Vejam o anjinho! + +Foi-se encostar á janella; ficou a olhar pelos vidros o descer do +crepusculo; de repente pôz-se a dizer devagar: + +--Realmente vale bem a pena estar uma pobre de Christo a privar-se, a +passar uma vida de coruja, a mortificar-se, para vir um dia uma febre, +um ar, uma soalheira, e boas noites, vai-se para o Alto de S. João! Tó +rola! + +A sala agora estava um pouco escura. + +--Pois não te parece?--perguntou ella. + +Aquella conversa embaraçava Luiza: sentia-se córar; mas o crepusculo, +as palavras de Leopoldina davam-lhe como o enfraquecimento d'uma +tentação. Declarou todavia _immoral_ semelhante idéa. + +--Immoral, porque? + +Luiza fallou vagamente nos _deveres_, na _religião_. Mas os _deveres_ +irritavam Leopoldina. Se havia uma cousa que a fizesse sahir de +si--dizia--era ouvir fallar em deveres!... + +--Deveres? Para com quem? Para um maroto como meu marido? + +Calou-se, e passeando pela sala excitada: + +--E em quanto a religião, historias! A mim me dizia o padre Estevão, o +de luneta, que tem os dentes bonitos, que me dava todas as absolvições, +se eu fosse com elle a Carriche! + +--Ah, os padres...--murmurou Luiza. + +--Os padres quê? São a religião! Nunca vi outra. Deus, esse, minha +rica, está longe, não se occupa do que fazem as mulheres. + +Luiza achava horrivel «aquelle modo de pensar». A felicidade, a +verdadeira, segundo ella, era ser honesta... + +--E a bisca em familia!--resmungou Leopoldina, com odio. + +Luiza disse, animada: + +--Pois olha que com as tuas paixões, umas atraz das outras... + +Leopoldina estacou: + +--O que? + +--Não te podem fazer feliz! + +--Está claro que não!--exclamou a outra.--Mas...--procurou a +palavra; não a quiz empregar de certo; disse apenas com um tom +secco:--Divertem-me! + +Calaram-se. Luiza pediu o café. + +Juliana entrou com a bandeja, trouxe luz; d'ahi a pouco foram para a +sala. + +--Sabes quem me fallou hontem de ti?--disse Leopoldina, indo +estender-se no divan. + +--Quem? + +--O Castro. + +--Que Castro? + +--O d'oculos, o banqueiro. + +--Ah! + +--Muito apaixonado por ti sempre. + +Luiza riu. + +--Doudo, palavra!--affirmou Leopoldina. + +A sala estava ás escuras, com as janellas abertas; a rua esbatia-se +n'um crepusculo pardo: um ar languido e dôce amaciava a noite. + +Leopoldina esteve um momento calada; mas o champagne, a meia +obscuridade deram-lhe bem depressa a necessidade de cochichar +confidenciasinhas. Estirou-se mais no divan, n'uma attitude toda +abandonada; pôz-se a fallar «d'elle». Era ainda o Fernando, o poeta. +Adorava-o. + +--Se tu soubesses!--murmurava com um ar de extase.--É um amor de rapaz! + +A sua voz velada tinha inflexões d'uma ternura calida. Luiza sentia-lhe +o halito e o calor do corpo, quasi deitada tambem, enervada; a sua +respiração alta tinha por vezes um tom suspirado: e a certos detalhes +mais picantes de Leopoldina soltava um risinho quente e curto, como +de cocegas... Mas passos fortes de botas de taxas subiram a rua, e no +candieiro defronte o gaz saltou com um jacto vivo. Uma branda claridade +pallida penetrou na sala. + +Leopoldina ergueu-se logo.--Tinha d'ir já, já, ao accender do gaz. +Estava á espera, o pobre rapaz! Entrou no quarto, mesmo ás escuras, a +pôr o chapéo, buscar a sombrinha.--Tinha-lhe promettido, coitado, não +podia faltar. Mas realmente embirrava d'ir só. Era tão longe! Se a +Juliana podesse vir acompanhal-a... + +--Vai, sim, filha!--disse Luiza. + +Ergueu-se preguiçosamente com um grande _ai!_ foi abrir a porta, e deu +de cara com Juliana, na sombra do corredor. + +--Credo, mulher, que susto! + +--Vinha saber se queriam luz... + +--Não. Vá pôr um chale para acompanhar a snr.^a D. Leopoldina! Depressa! + +Juliana foi correndo. + +--E quando appareces tu, Leopoldina?--perguntou Luiza. + +Logo que podesse. Para a semana estava com idéas d'ir ao Porto vêr a +tia Figueiredo, passar quinze dias na Foz... + +A porta abriu-se. + +--Quando a senhora quizer...--disse Juliana. + +Fizeram grandes _adeuses_, beijaram-se muito. Luiza disse rindo ao +ouvido de Leopoldina:--Sê feliz! + +Ficou só. Fechou as janellas, accendeu as velas, começou a passear pela +sala, esfregando devagar as mãos. E, sem querer, não podia desprender a +idéa de Leopoldina que ia vêr o seu amante! O seu amante!... + +Seguia-a mentalmente:--caminhava depressa de certo fallando com +Juliana; chegava; subia a escada, nervosa; atirava com a porta--e que +delicioso, que avido, que profundo o primeiro beijo! Suspirou. Tambem +ella amava--e _um_ mais bello, mais fascinante. Porque não tinha vindo? + +Sentou-se ao piano preguiçosamente; pôz-se a cantar baixo, triste, o +fado de Leopoldina: + + E por mais longe que esteja + Vejo-o sempre ao pé de mim!... + +Mas um sentimento de solidão, d'abandono, veio impaciental-a. Que +sécca, estar alli tão sósinha! Aquella noite calida, bella e dôce, +attrahia-a, chamava-a para fóra, para passeios sentimentaes, ou para +contemplações do céo, n'um banco de jardim, com as mãos entrelaçadas. +Que vida estupida, a d'ella! Oh! aquelle Jorge! Que idéa ir para o +Alemtejo! + +As conversas de Leopoldina e a lembrança das suas felicidades +voltavam-lhe a cada momento; uma pontinha de champagne agitava-se-lhe +no sangue. O relogio do quarto começou lentamente a dar nove horas--e +de repente a campainha retiniu. + +Teve um sobresalto: não podia ser ainda Juliana! Poz-se a escutar, +assustada. Vozes fallavam á cancella. + +--Minha senhora--veio dizer Joanna baixo--é o primo da senhora que diz +que se vem despedir... + +Abafou um grito, balbuciou: + +--Que entre! + +Os seus olhos dilatados cravavam-se febrilmente na porta. O reposteiro +franziu-se, Bazilio entrou, pallido, com um sorriso fixo. + +--Tu partes!--exclamou ella surdamente, precipitando-se para elle. + +--Não!--E prendeu-a nos braços.--Não! Imaginei que me não recebias a +esta hora, e tomei este pretexto. + +Apertou-a contra si, beijou-a; ella deixava, toda abandonada; os seus +labios prendiam-se aos d'elle. Bazilio deitou um olhar rapido, em +redor, pela sala, e foi-a levando abraçada, murmurando: Meu amor! minha +filha! Mesmo tropeçou na pelle de tigre, estendida ao pé do divan. + +--Adoro-te! + +--Que susto que tive!--suspirou Luiza. + +--Tiveste? + +Ella não respondeu; ia perdendo a percepção nitida das cousas; +sentia-se como adormecer; balbuciou: Jesus! não! não! Os seus olhos +cerraram-se. + + +Quando a campainha retiniu fortemente ás dez horas, Luiza, havia +momentos, sentára-se á beira do divan. Mal teve força de dizer a +Bazilio: + +--Ha-de ser a Juliana, tinha ido fóra... + +Bazilio cofiou o bigode, deu duas voltas na sala, foi accender um +charuto. Para quebrar o silencio sentou-se ao piano, tocou alguns +compassos ao acaso, e, erguendo um pouco a voz, começou a cantarolar a +aria do 3.^o acto do _Fausto_: + + Al pallido chiarore + Del astri d'oro... + +Luiza, através das ultimas vibrações dos seus nervos, ia entrando +na realidade; os seus joelhos tremiam. E então, ouvindo aquella +melodia, uma recordação foi-se formando no seu espirito, ainda +estremunhado:--era uma noite, havia annos, em S. Carlos, n'um camarote +com Jorge; uma luz electrica dava ao jardim, no palco, um tom livido +de luar legendario; e n'uma altitude extatica e suspirante o tenor +invocava as estrellas; Jorge tinha-se voltado, dissera-lhe: Que lindo! +E o seu olhar devorava-a. Era no segundo mez do seu casamento. Ella +estava com um vestido azul-escuro. E á volta, na carruagem, Jorge, +passando-lhe a mão pela cinta, repetia: + + Al pallido chiarore + Del astri d'oro... + +E apertava-a contra si... + +Ficára immovel á beira do divan, quasi a escorregar, os braços frouxos, +o olhar fixo, a face envelhecida, o cabello desmanchado. Bazilio então +veio sentar-se devagarinho junto d'ella.--Em que estava a pensar? + +--Nada. + +Elle passou-lhe o braço pela cinta, começou a dizer que havia de +procurar uma casinha para se verem melhor, estarem mais á vontade; não +era mesmo prudente alli em casa d'ella... + +E fallando, voltava a cada momento o rosto, soprava para o lado o fumo +do charuto. + +--Não te parece que vir eu aqui, todos os dias, póde ser reparado? + +Luiza ergueu-se bruscamente, lembrára-lhe Sebastião!... E com uma voz +um pouco desvairada: + +--Já é tão tarde!--disse. + +--Tens razão. + +Foi buscar o chapéo em bicos de pés, veio beijal-a muito, sahiu. + +--Luiza sentiu-o accender um phosphoro, fechar devagarinho a cancella. + +Estava só; pôz-se a olhar em roda, como idiota. O silencio da sala +parecia-lhe enorme. As velas tinham uma chamma avermelhada. Piscava os +olhos, tinha a bocca sêcca. Uma das almofadas do divan estava cahida, +apanhou-a. + +E com um ar somnambulo entrou no quarto. Juliana veio trazer o rol. E +já vinha com a lamparina, estava a arranjal-a... + +Tinha tirado a cuia; subiu á cozinha quasi a correr. A Joanna, que +estivera dormitando, espreguiçava-se com bocejos enormes. + +Juliana pôz-se a arranjar a torcida da lamparina; os dedos tremiam-lhe; +tinha no olhar um brilho agudo; e depois de tossir, devagarinho, com um +sorriso para Joanna: + +--E então a que horas veio o primo da senhora? + +--Veio logo que vossemecê sahiu, estavam a dar as nove. + +--Ah! + +Desceu com a lamparina; e sentindo Luiza na alcova despir-se: + +--A senhora não quer chá?--perguntou, com muito interesse. + +--Não. + +Foi á sala, fechou o piano. Havia um forte cheiro de charuto. Pôz-se +a olhar em redor, devagar, andando com um passo subtil... De repente +agachou-se, anciosamente: ao pé do divan uma cousa reluzia. Era uma +travessa de Luiza, de tartaruga, com o aro dourado. Tornou a entrar +no quarto em pontas de pés, pousou-a no toucador, entre os rôlos de +cabello. + +--Quem anda ahi?--perguntou da alcova a voz somnolenta de Luiza. + +--Sou eu, minha senhora, sou eu, estive a fechar a sala. Muito boas +noites, minha senhora! + + +Áquella hora Bazilio entrava no Gremio. Procurou pelas salas. Estavam +quasi desertas. Dous sujeitos, com os rostos entre os punhos, curvados +em attitudes lugubres, ruminavam os jornaes: aqui, além, junto a +mesinhas redondas, pessoas de calça branca mastigavam torradas com uma +satisfação placida; as janellas estavam fechadas, a noite quente, e o +calor molle do gaz abafava. Ia descer quando de uma saleta de jogo, +de repente, sahiu o ruido irritado de uma altercação; trocavam-se +injurias, gritava-se:--Mente! O asno é vossê! + +Bazilio estacou, escutando. Mas, subitamente, fez-se um grande +silencio; uma das vozes disse com brandura: + +--Paus! + +A outra respondeu com benevolencia: + +--É o que devia ter feito ha pouco. + +E immediatamente a questão rebentou de novo, estridente. Praguejavam, +diziam obscenidades. + +Bazilio foi ao bilhar. O visconde Reynaldo, de pé, apoiado ao taco, +seguia com uma immobilidade grave o jogo do seu parceiro; mas apenas +viu Bazilio, veio para elle rapidamente, e muito interessado: + +--Então? + +--Agora mesmo--disse Bazilio mordendo o charuto. + +--Emfim, hein?--exclamou Reynaldo, arregalando os olhos, com uma grande +alegria. + +--Emfim! + +--Ainda bem, menino! Ainda bem! + +Batia-lhe no hombro, commovido. + +Mas chamaram-no para jogar; e todo estirado sobre o bilhar, com uma +perna no ar, para dar com mais segurança o _effeito_, dizia com a voz +constrangida pela attitude: + +--Estimo, estimo, porque essa cousa começava a arrastar... + +Tac! Falhou a carambola. + +--Não dou meia!--murmurou com rancor. + +E chegando-se a Bazilio, a dar giz no taco: + +--Ouve cá... + +Fallou-lhe ao ouvido. + +--Como um anjo, menino!--suspirou Bazilio. + + + + +VI + + +Foi Juliana que na manhã seguinte veio acordar Luiza, dizendo á porta +da alcova com a voz abafada, em confidencia: + +--Minha senhora! Minha senhora! É um criado com esta carta, diz que vem +do hótel. + +Foi abrir uma das janellas, em bicos de pés; e voltando á alcova com +uma cautela mysteriosa: + +--E está á espera da resposta, está á porta. + +Luiza, estremunhada, abriu o largo enveloppe azul com um +monogramma--dous BB, um purpura, outro ouro, sob uma corôa de conde. + +--Bem, não tem resposta. + +Não tem resposta--foi dizer Juliana ao criado, que esperava encostado +ao corrimão, fumando um grande charuto, e cofiando as suiças pretas. + +--Não tem resposta? Bem, muito bom dia.--Levou o dedo seccamente á aba +do «côco», e desceu, gingando. + +Perfeito homem! foi pensando Juliana, pela escada da cozinha. + +--Quem bateu, snr.^a Juliana?--perguntou-lhe logo a cozinheira. + +Juliana resmungou: + +--Ninguem, um recado da modista. + +Desde pela manhã a Joanna achava-lhe o «ar exquisito». Sentira-a desde +as sete horas varrer, espanejar, sacudir, lavar as vidraças da sala +de jantar, arrumar as louças no aparador. E com uma azafama! Ouvira-a +cantar a _Carta adorada_, ao mesmo tempo que os canarios, nas varandas +abertas, chilreavam estridentemente ao sol. Quando veio tomar o seu +café á cozinha não palestrou como de costume; parecia preoccupada e +ausente. + +Joanna até lhe perguntou: + +--Sente-se peor, snr.^a Juliana? + +--Eu? Graças a Deus, nunca me senti tão bem. + +--Como a vejo tão calada... + +--A malucar cá por dentro... A gente nem sempre está para grulhar. + +Apesar de serem nove horas não quizera acordar a senhora. Deixal-a +descançar, coitada--disse. Foi em pontas de pés encher devagarinho a +bacia grande do banho, no quarto; para não fazer ruido, sacudiu no +corredor as saias, o vestido da vespera: e os seus olhos brilharam +avidamente quando sentiu na algibeirinha um papel amarrotado! Era +o bilhete que Luiza escrevera a Bazilio: «Porque não vens?... Se +soubesses o que me fazes soffrer!...» Teve-o um momento na mão, +mordendo o beiço, o olhar fixo n'um calculo agudo; por fim tornou a +mettel-o na algibeira de Luiza, dobrou o vestido, foi estendel-o com +muito cuidado na _causeuse_. + +Enfim, mais tarde, sentindo o _cuco_ dar horas, decidiu-se a ir dizer a +Luiza, com uma voz meiga: + +--São dez e meia, minha senhora! + +Luiza, na cama, tinha lido, relido o bilhete de Bazilio: «Não +pudera--escrevia ele--estar mais tempo sem lhe dizer que a adorava. +Mal dormira! Erguera-se de manhã muito cêdo para lhe jurar que estava +louco, e que punha a sua vida aos pés d'ella.» Compozera aquella prosa +na vespera, no Gremio, ás tres horas, depois de alguns _robbers_ +d'_whist_, um bife, dous copos de cerveja e uma leitura preguiçosa da +_Illustração_. E terminava, exclamando:--«Que outros desejem a fortuna, +a gloria, as honras, eu desejo-te a ti! Só a ti, minha pomba, porque +tu és o unico laço que me prende á vida, e se ámanhã perdesse o teu +amor, juro-te que punha um termo, com uma boa bala, a esta existencia +inutil!»--Pedira mais cerveja, e levára a carta para a fechar em casa, +n'um enveloppe com o seu monogramma, «porque sempre fazia mais effeito». + +E Luiza tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a +primeira vez que lhe escreviam aquellas sentimentalidades, e o seu +orgulho dilatava-se ao calor amoroso que sahia d'ellas, como um corpo +resequido que se estira n'um banho tepido: sentia um acrescimo de +estima par si mesma, e parecia-lhe que entrava emfim n'uma existencia +superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto +differente, cada passo conduzia a um extase, e a alma se cobria d'um +luxo radioso de sensações! + +Ergueu-se d'um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os +transparentes da janella... Que linda manhã! Era um d'aquelles dias +do fim d'agosto em que o estio faz uma pausa; ha prematuramente, no +calor e na luz, uma certa tranquillidade outonal; o sol cahe largo, +resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, +e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais +livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento molle da +calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha +dormido a noite d'um somno são, continuo, e todas as agitações, as +impaciencias dos dias passados pareciam ter-se dissipado n'aquelle +repouso. Foi-se vêr ao espelho; achou a pelle mais clara, mais fresca, +e um enternecimento humido no olhar;--seria verdade então o que dizia +Leopoldina, que «não havia como uma maldadesinha para fazer a gente +bonita?» Tinha um amante, ella! + +E immovel no meio do quarto, os braços cruzados, o olhar fixo, repetia: +Tenho um amante! Recordava a sala na vespera, a chamma aguçada das +velas, e certos silencios extraordinarios em que lhe parecia que a +vida parára, em quanto os olhos do retrato da mãi de Jorge, negros na +face amarella, lhe estendiam da parede o seu olhar fixo de pintura. +Mas Juliana entrou com um taboleiro de roupa passada. Eram horas de se +vestir... + +Que requintes teve n'essa manhã! Perfumou a agua com um cheiro de +_Lubin_, escolheu a camisinha que tinha melhores rendas. E suspirava +por ser rica! Queria as bretanhas e as hollandas mais caras, as +mobilias mais apparatosas, grossas joias inglezas, um coupé forrado +de setim... Porque nos temperamentos sensiveis as alegrias do coração +tendem a completar-se com as sensualidades do luxo: o primeiro erro +que se installa n'uma alma até ahi defendida, facilita logo aos outros +entradas tortuosas;--assim, um ladrão que se introduz n'uma casa vai +abrindo subtilmente as portas á sua quadrilha esfomeada. + +Subiu para o almoço, muito fresca, com o cabello em duas tranças, um +roupão branco. Juliana precipitou-se logo a fechar as janellas, «porque +apesar de não estar calor, as portadas cerradas sempre davam mais +frescura!» E, vendo que lhe esquecera o lenço, correu a buscar-lhe um, +que perfumou com agua de colonia. Servia-a com ternura. Viu-a comer +muitos figos: + +--Não lhe vão fazer mal, minha senhora!--exclamou quasi lacrimosamente. + +Andava em redor d'ella com um sorriso servil, sem ruido: ou defronte da +mesa, com os braços cruzados, parecia admiral-a com orgulho, como um +sêr precioso e querido, todo seu, a _sua ama!_ O seu olhar esbugalhado +apossava-se d'ella. + +E dizia consigo: + +--Grande cabra! Grande bebeda! + +Luiza, depois de almoço, veio para o quarto estender-se na _causeuse_, +com o seu _Diario de Noticias_. Mas não podia lêr. As recordações +da vespera redemoinhavam-lhe n'alma a cada momento, como as folhas +que um vento d'outono levanta a espaços d'um chão tranquillo: certas +palavras d'elle, certos impetos, toda a sua maneira d'amar... E ficava +immovel, o olhar afogado n'um fluido, sentindo aquellas reminiscencias +vibrarem-lhe muito tempo, dôcemente, nos nervos da memoria. Todavia a +lembrança de Jorge não a deixava; tivera-a sempre no espirito, desde +a vespera; não a assustava, nem a torturava; estava alli, immovel mas +presente, sem lhe fazer medo, nem lhe trazer remorso; era como se elle +tivesse morrido, ou estivesse tão longe que não podesse voltar, ou a +tivesse abandonado! Ela mesmo se espantava de se sentir tão tranquilla. +E todavia impacientava-a ter constantemente aquella idéa no espirito, +impassivel, com uma obstinação espectral; punha-se instinctivamente a +accumular as justificações: Não fôra culpa sua. Não abrira os braços a +Bazilio voluntariamente!... Tinha sido uma _fatalidade_: fôra o calor +da hora, o crepusculo, uma pontinha de vinho talvez... Estava douda, +de certo. E repetia comsigo as attenuações tradicionaes: não era a +primeira que enganára seu marido; e muitas era apenas por vicio, ella +fôra por paixão... Quantas mulheres viviam n'um amor illegitimo e eram +illustres, admiradas! Rainhas mesmo tinham amantes. E elle amava-a +tanto!... Seria tão fiel, tão discreto! As suas palavras eram tão +captivantes, os seus beijos tão estonteadores!... E emfim que lhe havia +de fazer agora? _Já agora_!... + +E resolveu ir responder-lhe. Foi ao escriptorio. Logo ao entrar o seu +olhar deu com a photographia de Jorge--a cabeça de tamanho natural,--no +seu caixilho envernizado de preto. Uma commoção comprimiu-lhe o +coração; ficou como _tolhida_--como uma pessoa encalmada de ter +corrido, que entra na frieza d'um subterraneo; e examinava o seu +cabello frisado, a barba negra, a gravata de pontas, as duas espadas +encruzadas que reluziam por cima. Se elle soubesse matava-a!... Fez-se +muito pallida. Olhava vagamente em redor o casaco de velludo de +trabalho dependurado n'um prego, a manta em que elle embrulhava os pés +dobrada a um lado, as grandes folhas de papel de desenho na outra mesa +ao fundo, e o pótesinho do tabaco, e a caixa das pistolas!... Matava-a +de certo! + +Aquelle quarto estava tão penetrado da personalidade de Jorge, que lhe +parecia que elle ia voltar, entrar d'ahi a bocado... Se elle viesse +de repente!... Havia tres dias que não recebia carta--e quando ella +estivesse alli a escrever ao seu amante, n'um momento o _outro_ podia +apparecer e apanhal-a!... Mas eram tolices, pensou. O vapor do Barreiro +só chegava ás cinco horas; e depois elle dizia na ultima carta que +ainda se demorava um mez, talvez mais... + +Sentou-se, escolheu uma folha de papel, começou a escrever, na sua +letra um pouco gorda: + + + «_Meu adorado Bazilio_. + + +Mas um terror importuno tolhia-a; sentia como um _palpite_ de que +elle vinha, ia entrar... Era melhor não se pôr a escrever, talvez!... +Ergueu-se, foi á sala devagar, sentou-se no divan; e, como se o +contacto d'aquelle largo sophá e o ardor das recordações que elle lhe +trazia da vespera lhe tivesse dado a coragem das acções amorosas e +culpadas, voltou muito decidida ao escriptorio, escreveu rapidamente: + + +«Não imaginas com que alegria recebi esta manhã a tua carta...» + + +A penna velha escrevia mal; molhou-a mais, e ao sacudil-a, como +lhe tremia um pouco a mão, um borrão negro cahiu no papel. Ficou +toda contrariada, pareceu-lhe aquillo um _mau agouro_. Hesitou um +momento,--e coçando a cabeça, com os cotovêlos sobre a mesa, sentia +Juliana varrer fóra o patamar, cantarolando a _Carta adorada_. Emfim, +impaciente, rasgou a folha muitas vezes em pedacinhos miudos--e +atirou-os para um caixão de pau envernizado com duas argolas de metal, +que estava ao canto junto á mesa, onde Jorge deitava os rascunhos +velhos e os papeis inuteis: chamavam-lhe o _sarcophago_; Juliana, de +certo, descuidára-se de o esvaziar no lixo, porque transbordava de +papelada. + +Escolheu outra folha, recomeçou: + + + «_Meu adorado Bazilio_. + +«Não imaginas como fiquei quando recebi a tua carta, esta manhã, ao +acordar. Cobri-a de beijos...» + + +Mas o reposteiro franziu-se n'uma prega molle, a voz de Juliana disse +discretamente: + +--Está alli a costureira, minha senhora. + +Luiza, sobresaltada, tinha tapado a folha de papel com a mão. + +--Que espere. + +E continuou: + + +«...Que tristeza que fosse a carta e que não fosses tu que alli +estivesses! Estou pasmada de mim mesma, como em tão pouco tempo te +apossaste do meu coração, mas a verdade é que nunca deixei de te amar. +Não me julgues por isto leviana, nem penses mal de mim, porque eu +desejo a tua estima, mas é que nunca deixei de te amar e ao tornar +a vêr-te, depois d'aquella estupida viagem para tão longe, não fui +superior ao sentimento que me impellia para ti, meu adorado Bazilio. +Era mais forte que eu, meu Bazilio. Hontem, quando aquella maldita +criada me veio dizer que tu te vinhas despedir, Bazilio, fiquei +como morta; mas quando vi que não, nem eu sei, adorei-te! E se tu +me tivesses pedido a vida dava-t'a, porque te amo, que eu mesma, me +estranho... Mas para que foi aquella mentira, e para que vieste tu? +Mau! tinha vontade de te dizer adeus para sempre, mas não posso, meu +adorado Bazilio! É superior a mim. Sempre te amei, e agora que sou +tua, que te pertenço corpo e alma, parece-me que te amo mais, se é +possivel...» + + +--Onde está ella? Onde está ella?--disse uma voz na sala. + +Luiza ergueu-se, com um salto, livida. Era Jorge! Amarrotou +convulsivamente a carta, quiz escondel-a no bolso,--o roupão não tinha +bolso! E desvairada, sem reflexão, arremessou-a para o _sarcophago_. +Ficou de pé, esperando, as duas mãos apoiadas á mesa, a vida suspensa. + +O reposteiro ergueu-se,--e reconheceu logo o chapéo de velludo azul de +D. Felicidade. + +--Aqui mettida, sua brejeira! Que estavas tu aqui a fazer? Que tens tu, +filha, estás como a cal... + +Luiza deixou-se cahir no _fauteuil_, branca e fria, disse com um +sorriso cançado: + +--Estava a escrever, deu-me uma tontura... + +--Ai! Tonturas, eu!--acudiu logo D. Felicidade--É uma desgraça, a cada +momento a agarrar-me aos moveis, até tenho medo d'andar só. Falta de +purgas! + +--Vamos para o quarto!--disse logo Luiza.--Estamos melhor no quarto. + +Ao erguer-se, as pernas tremiam-lhe. + +Atravessaram a sala: Juliana começava a arrumar. Luiza, ao passar, viu +na pedra da _console_, debaixo do espelho oval, uma pouca de cinza: era +da vespera, do charuto d'_elle_! Sacudiu-a--e ao erguer os olhos, ficou +pasmada de se vêr tão pallida. + +A costureira vestida de preto, com um chapéo de fitas rôxas, esperava +sentada á beira da _causeuse_, com um olhar infeliz e o seu embrulho +nos joelhos; vinha provar o corpete d'um vestido composto; assentou, +pregou, alinhavou, fallando baixo, com uma humildade triste e uma +tossinha sêcca ; e apenas ella sahiu, de leve, com o seu andar de +sombra, o chale tinto muito cingido ás omoplatas magras,--D. Felicidade +começou logo a fallar d'_elle_, do Conselheiro. Tinha-o encontrado no +Moinho de Vento. Pois, senhores, nem lhe viera fallar! Fizera-lhe uma +cortezia muito sêcca, por demais, e tic-tic por alli fóra, que se diria +que ia fugido! Que te parece? Ai! aquellas indifferenças matavam-na. E +não as comprehendia, não, realmente não as comprehendia... + +--Porque emfim--exclamava--eu bem me conheço, não sou nenhuma criança, +mas tambem não sou nenhum caco! Pois não é verdade? + +--Certamente--disse Luiza distrahida. Lembrava-lhe a carta. + +--Olha que aqui onde me vês com os meus quarenta, decotada, ainda +valho! O que são hombros e collo é do melhor! + +Luiza ia erguer-se. Mas D. Felicidade repetiu: + +--Do melhor! Tomaram-no muitas novas! + +--Creio bem--concordou Luiza, sorrindo vagamente. + +--E elle tambem não é nenhum rapazinho novo... + +--Não... + +--Mas muito bem conservado!--E os olhos luziam-lhe--Para fazer ainda +uma mulher muito feliz! + +--Muito... + +--Um homem d'appetecer!--suspirou D. Felicidade. + +E Luiza, então: + +--Tu esperas um instantinho! Vou lá dentro e volto já. + +--Vai, filha, vai. + +Luiza correu ao escriptorio, direita ao _sarcophago_. Estava vazio! E a +carta d'ella, Santo Deus! + +Chamou logo Juliana, aterrada. + +--Vossê despejou o caixão dos papeis? + +--Despejei, sim, minha senhora--respondeu muito tranquillamente. + +E com interesse: + +--Porquê, perdeu-se algum papel? + +Luiza fazia-se pallida. + +--Foi um papel que eu atirei para o caixão. Onde o despejou vossê? + +--No barril do lixo, como é costume, minha senhora; imaginei que nada +servia... + +--Ah! deixe vêr! + +Subiu rapidamente á cozinha. + +Juliana, atraz, ia dizendo: + +--Ora esta! Pois ainda não ha cinco minutos! O caixão estava mais +cheio... Andei a dar uma arrumadella no escriptorio... Valha-me Deus, +se a senhora tem dito... + +Mas o barril do lixo estava vazio. Joanna tinha-o ido despejar abaixo +n'aquelle instantinho; e vendo a inquietação de Luiza: + +--Porquê, perdeu-se alguma cousa? + +--Um papel--disse Luiza, que olhava em redor, pelo chão, muito branca. + +--Elle iam uns poucos de papeis, minha senhora--disse a rapariga--eu +deitei tudo ao despejo. + +--Podia ter ficado algum cahido por fóra, snr.^a Joanna--lembrou +timidamente Juliana. + +--Vá vêr, vá vêr, Joanna--acudiu Luiza com uma esperança. + +Juliana parecia afflicta: + +--Jesus, Senhor! Eu podia lá adivinhar! Mas para que não disse a +senhora...? + +--Bem, bem, a culpa não é sua, mulher... + +--Credo, que até se me está a embrulhar o estomago... E é cousa de +importancia, minha senhora? + +--Não, é uma conta... + +--Valha-me Deus!... + +Joanna voltou, sacudindo um papel enxovalhado. Luiza agarrou-o, +leu:--«... o diametro do primeiro poço de exploração...» + +--Não, não é isto!--exclamou toda contrariada. + +--Então foi p'ra baixo p'ra o cano, minha senhora, não está mais nada. + +--Viu bem? + +--Esquadrinhei tudo... + +E Juliana continuava, desolada: + +--Antes queria perder dez tostões! Uma assim! Eu, minha senhora, podia +lá adivinhar... + +--Bem, bem!--murmurou Luiza descendo. + +Mas estava assustada, sentia mesmo uma suspeita indefinida... +Lembrou-lhe o bilhete que escrevera na vespera a Bazilio, e que +mettera, todo amarrotado, no bolso do vestido... Entrou no quarto, +agitada. + +D. Felicidade tirára o chapéo, acommodára-se na _causeuse_. + +--Tu desculpas, hein?--fez Luiza. + +--Anda, filha, anda! Que é? + +--Perdi uma conta--respondeu. + +Foi ao guarda-vestidos, achou logo o bilhete na algibeira... Aquillo +serenou-a. A carta tinha ido para o lixo de certo. Mas que imprudencia! + +--Bem, acabou-se!--disse, sentando-se resignada. + +E D. Felicidade immediatamente, baixando a voz muito confidencialmente: + +--Ora eu vinha-te fallar n'uma cousa. Mas vê lá! Olha que é segredo. + +Luiza ficou logo sobresaltada. + +--Tu sabes--continuou D. Felicidade, devagar, com pausas--que a minha +criada, a Josepha, está para casar com o gallego... O homem é de ao pé +de Tuy, e diz que na terra d'elle ha uma mulher que tem uma virtude +para fazer casamentos que é uma cousa milagrosa... Diz que é o mais que +ha... Em deitando a sorte a um homem,--o homem entra-lhe uma tal paixão +que se arranja logo o casamento, e é a maior felicidade. + +Luiza tranquillisada, sorriu. + +--Escuta--acudiu D. Felicidade--não te ponhas já com as tuas cousas... + +No seu tom grave havia um respeito supersticioso. + +--Diz que tem feito milagres. Homens que tinham desamparado raparigas, +outros que não faziam caso d'ellas, maridos que tinham amigas, emfim +toda a sorte de ingratidão... Em a mulher deitando o encanto, os homens +começam a esmorecer, a arrepender-se, a apaixonar-se, e estão pelo +beiço... A rapariga contou-me isto. Eu lembrei-me logo... + +--De deitar uma sorte ao Conselheiro!--exclamou Luiza. + +--Que te parece? + +Luiza deu uma risada sonora. Mas D. Felicidade quasi se escandalisou. +Contou outros casos: um fidalgo que deshonrára uma lavadeira; um +homem que abandonou a mulher e os filhos, fugira com uma _bebeda_... +Em todos a _sorte_ operára d'um modo fulminante, produzindo um amor +subito e fogoso pela pessoa desprezada. Appareciam logo rendidos, se +estavam perto; se estavam longe, voltavam, avidos, a pé, a cavallo, +na mala-posta, apressando-se, ardendo... E entregavam-se, mansos e +humildes como escravos acorrentados... + +--Mas o gallego--continuava ella muito excitada--diz que para ir á +terra, fallar á mulher, levar o retrato do Conselheiro, é necessario o +retrato d'elle, o meu, é necessario o meu, ir fallar, voltar--quer sete +moedas!... + +--Oh D. Felicidade!--fez Luiza reprehensivamente. + +--Não me digas, não venhas com as tuas! Olha que eu sei de casos... + +E erguendo-se: + +--Mas são sete moedas! Sete moedas!--exclamou, arregalando os olhos. + +Juliana appareceu á porta, e muito baixinho, com um sorriso: + +--A senhora faz favor? + +Chamou-a para o corredor, em segredo: + +--Esta carta. Que vem do hótel. + +Luiza fez-se escarlate. + +--Credo, mulher! não é necessario fazer mysterios! + +Mas não entrou no quarto, abriu-a logo no corredor; era a lapis, +escripta á pressa: + + +«Meu amor--dizia Bazilio--por um feliz acaso descobri o que +precisavamos, um ninho discreto para nos vêrmos...» E indicava a rua, o +numero, os signaes, o caminho mais perto. «... Quando vens, meu amor? +Vem ámanhã. Baptisei a casa com o nome de _Paraiso_: para mim, minha +adorada, é com effeito o paraiso. Eu espero-te lá desde o meio dia: +logo que te aviste, desço.» + + +Aquella precipitação amorosa em arranjar o _ninho_--provando uma paixão +impaciente, toda occupada d'ella--produziu-lhe uma dilatação dôce +do orgulho; ao mesmo tempo que aquelle _Paraiso_ secreto, como n'um +romance, lhe dava a esperança de felicidades excepcionaes; e todas as +suas inquietações, os sustos da carta perdida se dissiparam de repente +sob uma sensação calida, como flocos de nevoa sob o sol que se levanta. + +Voltou ao quarto, com o olhar risonho. + +--Que te parece, hein?--perguntou logo D. Felicidade, a quem a sua idéa +occupava tyrannicamente. + +--O que? + +--Achas que mande o homem a Tuy? + +Luiza encolheu os hombros; veio-lhe um tedio de taes enredos de +bruxaria, misturados a amores caturras. Na vaidade da sua intriga +romantica achava repugnante aquelle sentimentalismo senil. + +--Tolices!--disse com muito desdem. + +--Oh filha! não me digas, não me digas!--acudiu desolada D. Felicidade. + +--Bem, então manda, manda!--fez Luiza, já impaciente. + +--Mas são sete moedas!--exclamou D. Felicidade, quasi chorosa. + +Luiza poz-se a rir. + +--Por um marido? Acho barato... + +--E se a sorte falha? + +--Então é caro! + +D. Felicidade deu um grande _ai!_ Estava muito infeliz, n'aquella +hesitação entre os impulsos da concupiscencia e as prudencias da +economia. Luiza teve pena d'ella, e, tirando um vestido do guarda-roupa: + +--Deixa lá, filha! Não hão-de ser necessarias bruxarias!... + +D. Felicidade ergueu os olhos ao céo. + +--Vaes sahir?--perguntou melancolicamente. + +--Não. + +D. Felicidade propoz-lhe então que viesse com ella á Encarnação. +Visitavam a Silveira, coitada, que tinha um furunculo! E viam a armação +da igreja para a festa, estreava-se o frontal novo, um primor! + +--E estou tambem com vontade de ir rezar uma estaçãosinha, para +alliviar cá por dentro--ajuntou, suspirando. + +Luiza aceitou. Appetecia-lhe ir vêr altares alumiados, ouvir o ciciar +de rezas no côro, como se os requintes devotos dissessem bem com as +suas disposições sentimentaes. Começou a vestir-se depressa. + +--Como tu estás gorda, filha!--exclamou D. Felicidade admirada, +vendo-lhe os hombros, o collo. + +Luiza diante do espelho olhava-se, sorria com o seu sorriso quente, +contente das suas linhas, acariciando devagarinho, voluptuosamente, a +pelle branca e fina. + +--Redondinha--disse, namorando-se. + +--Redondinha? Vaes-te a fazer uma bola! + +E acrescentou, tristemente: + +--Tambem com a tua vida, um marido como o teu, regaladinha, sem filhos, +sem cuidados... + +--Vamos lá, minha rica--disse Luiza--que as tristezas não te tem feito +emmagrecer... + +--Pois sim, pois sim! Mas...--e parecia desolada, como curvada sob as +suas proprias ruinas--cá por dentro é uma desgraça, estomago, figado... + +--Se a mulher de Tuy faz o milagre, põe tudo isso como novo! + +D. Felicidade sorriu, com uma duvida desconsolada. + +--Sabes que tenho um chapéo lindo?--exclamou de repente Luiza--Não +viste? Lindo! + +Foi logo buscal-o ao guarda-vestidos. Era de palha fina, guarnecido de +myosotis. + +--Que te parece? + +--É um primor! + +Luiza mirava-o dando pancadinhas com as pontas dos dedos nas florzinhas +azues. + +--Dá frescura--fez D. Felicidade. + +--Não é verdade? + +Pôl-o com muito cuidado, toda séria. Ficava-lhe bem! Bazilio se a visse +havia de gostar, pensou. Era bem possivel que o encontrassem... + +Veio-lhe, sem motivo, uma felicidade exuberante: achava tão delicioso +viver, sahir, ir á Encarnação, pensar no seu amante!... E toda no ar, +procurava pelo quarto as chavinhas do toucador. + +Onde tinha deixado as chaves? Na sala de jantar, talvez! Ia vêr! Sahiu +correndo, tontinha, cantarolando: + + Amici, la notte è bella... + La ra la la... + +Quasi topou com Juliana, que varria o corredor. + +--Não deixe de engommar a saia bordada para ámanhã, Juliana! + +--Sim, minha senhora. Está em gomma! + +E seguindo-a com um olhar feroz: + +--Canta, piorrinha, canta, cabrasinha, canta, bebedasinha!... + +E ella mesma, tomada subitamente d'um jubilo agudo, atirou vassouradas +rapidas, soltando na sua voz rachada: + + Além d'ámanhã termina a campanha, + P-o-o-or aqui se diz... + Se tal fôr verdade, se não fôr patranha... + +E com um espremido emphatico: + + Se-e-rei bem feliz! + +Ao outro dia, pelas duas horas da tarde, Sebastião e Julião passeavam +em S. Pedro de Alcantara. + +Sebastião estivera contando a sua «scena» com Luiza, e como desde então +a sua estima por ella crescera. Ao principio escabreára-se, sim... + +--Mas teve razão! Assim de surpreza, ouvir uma d'aquellas! E eu levei a +cousa mal, fui muito á bruta... + +Depois, coitadinha, concordára logo, mostrára-se muito desgostosa, toda +zelosa do seu pudor, pedira-lhe conselhos... Até tinha as lagrimas nos +olhos. + +--Eu disse-lhe logo que o melhor era fallar ao primo, dizer o que se +passava... Que te parece? + +--Sim--disse vagamente Julião. + +Tinha-o escutado distrahido, chupando a ponta do cigarro. O seu rosto +terreo cavava-se, com uma côr mais biliosa. + +--Então achas que fiz bem, hein? + +E depois d'uma pausa: + +--Que ella é uma senhora de bem ás direitas! Ás direitas, Julião! + +Continuaram calados. O dia estava encoberto e abafado, com um ar +de trovoada: grossas nuvens pesadas e pardas iam-se accumulando, +ennegrecendo para o lado da Graça por traz das collinas: um vento +rasteiro passava por vezes, pondo um arripio nas folhas das arvores. + +--De maneira que agora estou descançado--resumiu Sebastião.--Não te +parece? + +Julião encolheu os hombros com um sorriso triste: + +--Quem me dera os teus cuidados, homem!--disse. + +E fallou então com amargura nas suas preoccupações.--Havia uma semana +que se abrira concurso para uma cadeira de substituto na Escóla, +e preparava-se para elle. Era a sua taboa de salvação, dizia: se +apanhasse a cadeira, ganhava logo nome, a clientella podia vir, e a +fortuna... E, que diabo, sempre era estar de dentro!... Mas a certeza +da sua superioridade não o tranquillisava--porque emfim em Portugal, +não é verdade? n'estas questões a sciencia, o estudo, o talento são +uma historia, o principal são os padrinhos! Elle não os tinha--e o seu +concorrente, um semsaborão, era sobrinho d'um director geral, tinha +parentes na camara, era um colosso! Por isso elle trabalhava a valer, +mas parecia-lhe indispensavel metter tambem as suas cunhas! Mas quem? + +--Tu não conheces ninguem, Sebastião?... + +Sebastião lembrava-se d'um primo seu, deputado pelo Alemtejo, um +gordo, da maioria, um pouco fanhoso. Se Julião queria, fallava-lhe... +Mas sempre ouvira dizer que a Escóla não era gente de empenhos e de +intriga... De resto tinham o conselheiro Accacio... + +--Uma besta!--fez Julião--Um parlapatão! Quem faz lá caso d'aquillo? +O teu primo, hein! O teu primo parece-me bom! É necessario alguem que +falle, que trabalhe...--Porque acreditava muito nas influencias dos +empenhos, no dominio dos «personagens», nas docilidades da fortuna +quando dirigida pelas habilidades da intriga. E com um orgulho raiado +d'ameaça:--Que eu hei-de-lhes mostrar o que é saber as cousas, +Sebastião! + +Ia explicar-lhe o assumpto da these, mas Sebastião interrompeu-o: + +--Ella ahi vem. + +--Quem? + +--A Luiza. + +Passava com effeito, por fóra do Passeio, toda vestida de preto, +só.--Respondeu á cortezia dos dous homens com um sorriso, _adeusinhos_ +da mão, um pouco corada. + +E Sebastião immovel, seguindo-a devotamente com os olhos: + +--Se aquillo não respira mesmo honestidade! Vai ás lojas... Santa +rapariga! + + +Ia encontrar Bazilio no _Paraiso_ pela primeira vez. E estava muito +nervosa: não pudera dominar, desde pela manhã, um medo indefinido que +lhe fizera pôr um véo muito espêsso, e bater o coração ao encontrar +Sebastião. Mas ao mesmo tempo uma curiosidade intensa, multipla, +impellia-a, com um estremecimentosinho de prazer.--Ia, emfim, ter +ella propria aquella aventura que lêra tantas vezes nos romances +amorosos! Era uma fórma nova do amor que ia experimentar, sensações +excepcionaes! Havia tudo--a casinha mysteriosa, o segredo illegitimo, +todas as palpitações do perigo! Porque o apparato impressionava-a mais +que o sentimento; e a _casa_ em si interessava-a, attrahia-a mais que +Bazilio! Como seria? Era para os lados d'Arroios, adiante do largo de +Santa Barbara: lembrava-se vagamente que havia alli uma correnteza de +casas velhas... Desejaria antes que fosse no campo, n'uma quinta, com +arvoredos murmurosos e relvas fôfas; passeariam então, com as mãos +enlaçadas, n'um silencio poetico; e depois o som d'agua que cahe nas +bacias de pedra daria um rhythmo languido aos somnos amorosos... Mas +era n'um terceiro andar,--quem sabe como seria dentro? Lembrava-lhe um +romance de Paulo Féval em que o heroe, poeta e duque, fórra de setins e +tapeçarias o interior d'uma choça; encontra alli a sua amante; os que +passam, vendo aquelle casebre arruinado, dão um pensamento compassivo +á miseria que de certo o habita--em quanto dentro, muito secretamente, +as flôres se esfolham nos vasos de Sèvres e os pés nús pisam Gobelins +veneraveis! Conhecia o gosto de Bazilio,--e o _Paraiso_ de certo era +como no romance de Paulo Féval. + +Mas no largo de Camões reparou que o sujeito de pera comprida, o do +Passeio, a vinha seguindo, com uma obstinação de gallo; tomou logo +um coupé. E ao descer o Chiado, sentia uma sensação deliciosa em ser +assim levada rapidamente para o seu amante, e mesmo olhava com certo +desdem os que passavam, no movimento da vida trivial--em quanto ella ia +para uma hora tão romanesca da vida amorosa! Todavia á maneira que se +aproximava vinha-lhe uma timidez, uma contracção d'acanhamento, como um +plebeu que tem de subir, entre alarbadeiros solemnes, a escadaria d'um +palacio. Imaginava Bazilio esperando-a estendido n'um divan de sêda: e +quasi receava que a sua simplicidade burgueza, pouco experiente, não +achasse palavras bastante finas ou caricias bastante exaltadas. Elle +devia ter conhecido mulheres tão bellas, tão ricas, tão educadas no +amor! Desejava chegar n'um coupé seu, com rendas de centos de mil reis, +e ditos tão espirituosos como um livro... + +A carruagem parou ao pé d'uma casa amarellada, com uma portinha +pequena. Logo á entrada um cheiro molle e salobre enojou-a. A escada, +de degraus gastos, subia ingrememente, apertada entre paredes onde a +cal cahia, e a humidade fizera nodoas. No patamar da sobre-loja, uma +janella com um gradeadosinho d'arame, parda do pó accumulado, coberta +de teias d'aranha, coava a luz suja do saguão. E por traz d'uma +portinha, ao lado, sentia-se o ranger d'um berço, o chorar doloroso +d'uma criança. + +Mas Bazilio desceu logo, com o charuto na bocca, dizendo baixo: + +--Tão tarde! sóbe! Pensei que não vinhas. O que foi? + +A escada era tão esguia, que não podiam subir juntos. E Bazilio, +caminhando adiante, d'esguelha: + +--Estou aqui desde a uma hora, filha! imaginei que te tinhas esquecido +da rua... + +Empurrou uma cancella, fêl-a entrar n'um quarto pequeno, forrado de +papel ás listras azues e brancas. + +Luiza viu logo, ao fundo, uma cama de ferro com uma colcha amarellada, +feita de remendos juntos de chitas differentes: e os lençoes +grossos, d'um branco encardido e mal lavado, estavam impudicamente +entreabertos... + +Fez-se escarlate, sentou-se, calada, embaraçada. E os seus olhos, muito +abertos, iam-se fixando--nos riscos ignobeis da cabeça dos phosphoros, +ao pé da cama; na esteira esfiada, comida, com uma nodoa de tinta +entornada; nas bambinellas da janella, d'uma fazenda vermelha, onde +se viam passagens; n'uma lithographia, onde uma figura, coberta d'uma +tunica azul fluctuante, espalhava flôres voando... Sobre tudo uma larga +photographia, por cima do velho canapé de palhinha, fascinava-a: era um +individuo atarracado, d'aspecto hilare e alvar, com a barba em collar, +o feitio d'um piloto ao domingo: sentado, de calças brancas, com as +pernas muito afastadas, pousava uma das mãos sobre um joelho, e a outra +muito estendida assentava sobre uma columna truncada: e por baixo do +caixilho, como sobre a pedra d'um tumulo, pendia d'um prego de cabeça +amarella, uma corôa de perpetuas! + +--Foi o que se pôde arranjar--disse-lhe Bazilio.--E foi um acaso: é +muito retirado, é muito discreto... Não é muito luxuoso... + +--Não--fez ella, baixo.--Levantou-se, foi á janella, ergueu uma ponta +da cortininha de cassa fixada á vidraça: defronte eram casas pobres: um +sapateiro grisalho, batia a sola a uma porta; á entrada d'uma lojita +balouçava-se um ramo de carqueja ao pé d'um maço de cigarros pendente +d'um barbante; e, a uma janella, uma rapariga esguedelhada embalava +tristemente no collo uma criança doente que tinha crostas grossas de +chagas na sua cabecinha côr de melão. + +Luiza mordia os beiços, sentia-se entristecer. Então nós de dedos +bateram discretamente á porta. Ella assustou-se, desceu rapidamente o +véo. Bazilio foi abrir. Uma voz adocicada, cheia de _ss_ mellifluos, +ciciou baixo. Luiza ouviu vagamente: Socegadinhos, suas chavesinhas... + +--Bem, bem!--disse Bazilio apressado, batendo com a porta. + +--Quem é? + +--É a patrôa. + +O céo pozera-se a ennegrecer; já a espaços grossas gôtas de chuva se +esmagavam nas pedras da rua; e um tom crepuscular fazia o quarto mais +melancolico. + +--Como descobriste tu isto?--perguntou Luiza, triste. + +--Inculcaram-m'o. + +Outra gente, então, tinha vindo alli, «amado» alli? pensou ella. E a +cama pareceu-lhe repugnante. + +--Tira o chapéo--disse Bazilio, quasi impaciente--estás-me a fazer +afflicção com esse chapéo na cabeça. + +Ella soltou devagar o elastico que o prendia, foi pôl-o no canapé de +palhinha, desconsoladamente. + +Bazilio tomou-lhe as mãos, e attrahindo-a, sentando-se na cama: + +--Estás tão linda!--Beijou-lhe o pescoço, encostou a cabeça ao peito +d'ella. E com a vista muito quebrada: + +--O que eu sonhei comtigo esta noite! + +Mas, de repente, uma forte pancada de chuva fustigou os vidros. E +immediatamente bateram á porta, com pressa. + +--Que é?--bradou Bazilio furioso. + +A voz cheia de _ss_ explicou que esquecera um cobertor na varanda que +estava a seccar. Se se encharcasse, que perdição!... + +--Eu lhe pagarei o cobertor, deixe-me!--berrou Bazilio. + +--Dá-lhe o cobertor... + +--Que a leve o diabo! + +E Luiza, sentindo um arripio de frio nos seus hombros nús, +abandonava-se com uma vaga resignação, entre os joelhos de +Bazilio--vendo constantemente voltada para si a face alvar do piloto. + +Assim um _yacht_ que apparelhou nobremente para uma viagem romanesca +vai encalhar, ao partir, nos lodaçaes do rio baixo; e o mestre +aventureiro que sonhava com os incensos e os almiscares das florestas +aromaticas, immovel sobre o seu tombadilho, tapa o nariz aos cheiros +dos esgotos. + + +Apenas Luiza começou a sahir todos os dias, Juliana pensou logo: Bem, +vai ter com o _gajo_! + +E a sua attitude tornou-se ainda mais servil. Era com um sorriso de +baixeza que corria a abrir a porta, alvoroçada, quando Luiza voltava +ás cinco horas. E que zelo! Que exactidões! Um botão que faltasse, uma +fita que se extraviava, e eram «mil perdões, minha senhora», «desculpe +por esta vez», muitas lamentações humildes. Interessava-se com devoção +pela saude d'ella, pela sua roupa, pelo que tinha para jantar... + +Todavia, desde as idas ao _Paraiso_, o seu trabalho augmentára: todos +os dias agora tinha d'engommar; muitas vezes era preciso ensaboar á +noite collares, rendinhas, punhos, n'uma bacia de latão, até ás onze +horas. Ás seis da manhã, mais cedo, já estava com o «ferro ás voltas». +E não se queixava, até dizia a Joanna: + +--Ai! é um regalo vêr assim uma senhora aceada!... Que as ha! credo! +Não, não é por dizer, mas até me dá gosto. Depois, graças a Deus, agora +tenho saude, o trabalho não me assusta! + +Não tornára a resmungar da «patrôa». Affirmava mesmo á Joanna +repetidamente: + +--A senhora! ai, é uma santa! Muito boa d'aturar... Não a ha melhor! + +O seu rosto perdera alguma cousa do tom bilioso, da contracção amarga. +Ás vezes, ao jantar ou á noite, costurando calada ao pé de Joanna, á +luz do petroleo, vinham-lhe sorrisos subitos, o olhar clareava-se-lhe +n'uma dilatação jovial. + +--A snr.^a Juliana tem o ar de quem está a pensar em cousas boas... + +--A malucar cá por dentro, snr.^a Joanna!--respondia com satisfação. + +Parecia perder a inveja; ouviu mesmo fallar com tranquillidade do +vestido de sêda que estreou n'um dia de festa, em setembro, a Gertrudes +do doutor. Disse apenas: + +--Tambem um dia hei-de estrear vestidos, e dos bons! Dos da modista! + +Já outras vezes revelára por palavras vagas a idéa d'uma abundancia +proxima. Joanna até lhe dissera: + +--A snr.^a Juliana espera alguma herança? + +--Talvez!--respondeu seccamente. + +E cada dia detestava mais Luiza. Quando pela manhã a via arrebicar-se, +perfumar-se com agua de colonia, mirar-se ao toucador cantarolando, +sahia do quarto porque lhe vinham venetas d'odio, tinha medo +d'estourar! Odiava-a pelas _toilettes_, pelo ar alegre, pela roupa +branca, pelo _homem_ que ia vêr, por todos os seus regalos de senhora. +«A cabra!» Quando ella sahia ia espreitar, vêl-a subir a rua, e +fechando a vidraça com um risinho rancoroso: + +--Diverte-te, piorrinha, diverte-te, que o meu dia ha-de chegar! Oh se +ha-de! + +Luiza com effeito divertia-se. Sahia todos os dias ás duas horas. Na +rua já se dizia que «a do Engenheiro tinha agora o seu S. Miguel». + +Apenas ella dobrava a esquina o conciliabulo juntava-se logo a +cochichar. Tinham a certeza que se ia encontrar com o «peralta». Onde +seria?--era a grande curiosidade da carvoeira. + +--No hótel--murmurava o Paula.--Que nos hóteis é escandalo bravio. Ou +talvez--acrescentava com tedio--n'alguma d'essas possilgas da baixa! + +A estanqueira lamentava-a: uma senhora que era tão apropositada! + +--Vacca solta lambe-se toda, snr.^a Helena!--rosnava o Paula.--São +todas o mesmo! + +--Menos isso!--protestava a estanqueira--Que eu sempre fui uma mulher +honesta! + +E ella?--reclamava a carvoeira--ninguem tinha que lhe dizer! + +--Fallo da alta sociedade, das fidalgas, das que arrastam sêdas! É +uma cambada. Eu é que o sei!--E acrescentava gravemente:--No povo ha +mais moralidade. O povo é outra raça!--E com as mãos enterradas nos +bolsos, as pernas muito abertas, ficava absorto, com a cabeça baixa, +o olhar cravado no chão.--Se é!--murmurava--Se é!--Como se estivesse +positivamente achando as pedrinhas da calçada menos numerosas que as +virtudes do povo! + + +Sebastião, que tinha estado na quinta d'Almada quasi duas semanas, +ficou aterrado quando, ao voltar, a Joanna lhe deu as grandes +«novidades»: que a Luizinha agora sahia todos os dias ás duas horas, +que o primo não voltára; a Gertrudes é que lh'o dissera; não se fallava +na rua n'outra cousa... + +--Então a pobre senhora nem sequer póde ir ás lojas, aos seus +arranjos!--exclamou Sebastião.--A Gertrudes é uma desavergonhada, e +nem sei como a tia Joanna consente que ella ponha aqui os pés. Vir com +esses mexericos!... + +--Cruzes! Olha o destempero!--replicou muito escandalisada a tia +Joanna.--Oh menino, realmente... A pobre mulher disse o que ouviu na +rua! Que ella até a defende, até ella é que a defende! Até se esteve +a queixar que se falla! que se falla! Boa!--E a tia Joanna sahiu, +resmungando:--Olha o destempero, credo! + +Sebastião chamou-a, aplacou-a: + +--Mas quem falla, tia Joanna? + +--Quem?--E muito emphaticamente:--Toda a rua! Toda a rua! Toda a rua! + +Sebastião ficou aniquilado. Toda a rua! Pudera! Se ella agora se +punha a sahir todos os dias, uma senhora, que quando estava Jorge não +sahia do buraco! A visinhança que murmurára das visitas do outro, +naturalmente começava a commentar as sahidas d'ella! Estava-se a +desacreditar! E elle não podia fazer nada! Ir advertil-a? Ter outra +«scena»? Não podia. + +Procurou-a. Não lhe queria de certo tocar em nada, ia só vêl-a. Não +estava. Voltou d'ahi a dous dias. Juliana veio-lhe dizer á cancella, +com o seu sorriso amarellado: «Foi-se agora mesmo, ha um instantinho. +Ainda a apanha á Patriarchal». Emfim, um dia encontrou-a ao principio +da rua de S. Roque. Luiza pareceu muito contente em o vêr:--Porque se +tinha demorado tanto em Almada? Que deserção! + +Trazia carpinteiros, era necessario vigiar as obras. E ella? + +--Bem. Um bocado aborrecida. O Jorge diz que ainda se demora. Tenho +estado muito só. Nem Julião, nem Conselheiro, ninguem. A D. Felicidade +é que tem apparecido ás vezes de fugida. Está agora sempre mettida na +Encarnação... Isto gente devota!--E riu. + +Então aonde ia? + +A umas comprasitas, á modista depois...--E appareça agora, Sebastião, +hein? + +--Hei-d'apparecer. + +--Á noite. Estou tão só! Tenho tocado muito, é o que me vale é o piano! + +N'essa mesma tarde Sebastião recebeu uma carta de Jorge. «Tens visto a +Luiza? Estive quasi com cuidado, porque estive mais de cinco dias sem +carta d'ella. De resto está preguiçosa como uma freira; quando escreve +são quatro linhas porque está o correio a partir. Vai dizer ao correio +que espere, que diabo! Queixa-se de se aborrecer, de estar só, que +todos a abandonaram, que tem vivido como n'um deserto. Vê se lhe vaes +fazer companhia, coitada, etc.» + +No dia seguinte ao anoitecer foi a casa d'ella. Appareceu-lhe muito +vermelha, com os olhos estremunhados, de roupão branco. Tinha chegado +muito cançada de fóra, tinha-lhe dado o somno depois de jantar, +adormecera sobre a _causeuse_... Que havia de novo? E bocejava. + +Fallaram das obras d'Almada, do Conselheiro, de Julião; e ficaram +calados. Havia um constrangimento. + +Luiza então accendeu as velas no piano, mostrou-lhe a nova musica +que estudava, a _Medjé_ de Gounod; mas havia uma passagem em que se +embrulhava sempre; pediu a Sebastião que a tocasse, e junto do piano, +batendo o compasso com o pé, acompanhava baixo a melodia, a que a +execução de Sebastião dava um encanto penetrante. Quiz tentar depois, +mas enganou-se, zangou-se, atirou a musica para o lado, veio sentar-se +no sophá, dizendo: + +--Quasi nunca tóco! Estão-se-me a enferrujar os dedos!... + +Sebastião não se atrevia a perguntar pelo primo Bazilio. Luiza não lhe +pronunciou sequer o nome. E Sebastião, vendo n'aquella reserva uma +diminuição de confiança ou um resto persistente de despeito, disse que +tinha d'ir á Associação Geral d'Agricultura, e sahiu muito desconsolado. + +Cada dia que se seguiu trouxe-lhe a sua inquietação differente. Ás +vezes era a tia Joanna que lhe dizia á tarde: «A Luizinha lá sahiu hoje +outra vez! Por este calor, até póde apanhar alguma! Credo!» Outras era +o conciliabulo dos visinhos, que avistava de longe, e que de certo +«estavam a cortar na pelle da pobre senhora»! + +Parecia-lhe tudo aquillo exactamente a _aria da Calumnia_ no _Barbeiro +de Sevilha_: a calumnia ao principio leve como o fremito das azas d'um +passaro, subindo n'um crescendo aterrador até estalar como um trovão! + +Dava agora voltas para não passar na rua, diante do Paula e da +estanqueira: tinha vergonha d'elles! Encontrára o Teixeira Azevedo, que +lhe perguntára: + +--Então o Jorge quando vem? Que diabo! o rapaz fica por lá! + +E aquella observação trivial aterrou-o. + +Emfim, um dia, mais apoquentado, foi procurar Julião. Encontrou-o no +seu quarto andar, em mangas de camisa e em chinellas, enxovalhado e +esguedelhado, rodeado de papelada, com uma chocolateirinha de café ao +pé, trabalhando. O soalho negro estava cheio de pontas de cigarro; +ao canto estava embrulhada roupa suja; sobre a cama desfeita havia +livros abertos;--e um cheiro relentado sahia do desmazêlo das cousas. +A janella de peitoril dava para o saguão, d'onde vinha o cantar +estridente d'uma criada, e o ruido areado do esfregar de tachos. + +Julião, apenas elle entrou, ergueu-se, espreguiçou-se, enrolou um +cigarro, e declarou que estava a trabalhar desde as sete!... Hein? Era +bonito! Para que soubesse o snr. Sebastião! + +--De resto chegaste a proposito. Estava para mandar a tua casa... Devia +receber ahi um dinheiro e não veio. Dá cá uma libra. + +E immediatamente começou a fallar da these. A cousa sahia! + +Leu-lhe paragraphos do prologo com uma deleitação paternal, e, muito +satisfeito, na abundancia de confiança que dá a excitação do trabalho, +com grandes passadas pelo quarto: + +--Hei-de-lhes mostrar que ainda ha portuguezes em Portugal, Sebastião! +Hei-de-os deixar de bocca aberta! Tu verás! + +Sentou-se, pôz-se a numerar as folhas escriptas, assobiando. Sebastião, +então, com timidez, quasi vexado de perturbar com as suas preoccupações +domesticas aquelles interesses scientificos, disse baixo: + +--Pois eu vim-te fallar por causa lá da nossa gente... + +Mas a porta abriu-se com força, e um rapaz de barba desleixada, e olhar +um pouco doudo, entrou; era um estudante da Escóla, amigo de Julião; +e quasi immediatamente os dous recomeçaram uma discussão que tinham +travado de manhã, e que fôra interrompida ás onze horas, quando o rapaz +d'olhar doudo descêra a almoçar á Aurea. + +--Não, menino!--exclamava o estudante exaltado.--Estou na minha! A +medicina é uma meia sciencia, a physiologia é outra meia sciencia! São +sciencias conjecturaes, porque nos escapa a base, conhecer o principio +da vida! + +E cruzando os braços diante de Sebastião, bradou-lhe: + +--Que sabemos nós do principio da vida? + +Sebastião, humilhado, baixou os olhos. + +Mas Julião indignava-se: + +--Estás desmoralisado pela doutrina vitalista, miseravel! Trovejou +contra o Vitalismo, que declarou «contrario ao espirito scientifico». +Uma theoria que pretende que as leis que governam os corpos brutos +não são as mesmas que governam os corpos vivos--é uma heresia +grotesca!--exclamava.--E Bichat que a proclama é uma besta! + +O estudante, fóra de si, bradou--que chamar a Bichat uma besta era +simplesmente d'um alarve. + +Mas Julião desprezou a injuria, e continuou, exaltado nas suas idéas: + +--Que nos importa a nós o principio da vida? Importa-me tanto como +a primeira camisa que vesti! O principio da vida é como outro +qualquer principio: um segredo! Havemos d'ignoral-o eternamente! +Não podemos saber nenhum principio. A vida, a morte, as origens, os +fins, mysterios! São causas primarias com que não temos nada a fazer, +nada! Podemos batalhar seculos, que não avançamos uma pollegada. O +physiologista, o chimico, não tem nada com os principios das cousas; +o que lhes importa são os phenomenos! Ora os phenomenos e as suas +causas immediatas, meu caro amigo, podem ser determinadas com tanto +rigor nos corpos brutos, como nos corpos vivos--n'uma pedra, como n'um +desembargador! E a physiologia e a medicina são sciencias tão exactas +como a chimica! Isto já vem de Descartes! + +Travaram então um berreiro sobre Descartes. E immediatamente, sem que +Sebastião attonito tivesse descoberto a transição, encarniçaram-se +sobre a idéa de Deus. + +O estudante parecia necessitar Deus para explicar o universo. Mas +Julião atacava Deus com cólera: chamava-lhe «uma hypothese safada», +«uma velha caturrice do partido miguelista»! E começaram a assaltar-se +sobre a questão social, como dous gallos inimigos. + +O estudante, com os olhos esgazeados, sustentava, dando punhadas sobre +a mesa, o principio da authoridade! Julião berrava pela «anarchia +individual»! E depois de citarem com furia Proudhon, Bastiat, Jouffroy +romperam em personalidades. Julião, que dominava pela estridencia da +voz, censurou violentamente ao estudante--as suas inscripções a seis +por cento, o ridiculo de ser filho d'um corretor de fundos, e o bife de +proprietario que vinha de comer na Aurea! + +Olharam-se, então, com rancor. + +Mas d'ahi a momentos o estudante deixou cahir com desdem algumas +palavras sobre Claude Bernard, e a questão recomeçou, furiosa. + +Sebastião tomou o chapéo. + +--Adeus--disse baixo. + +--Adeus, Sebastião, adeus--disse promptamente Julião. + +Acompanhou-o ao patamar. + +--E quando quizeres que eu falle a meu primo...--murmurou Sebastião. + +--Pois sim, veremos, eu pensarei--disse Julião com indifferença, como +se o orgulho do trabalho lhe tivesse dissipado o terror da injustiça. + +Sebastião foi descendo as escadas, pensando: Não se lhe póde fallar em +nada, agora! + +De repente veio-lhe uma idéa: se fosse ter com D. Felicidade, abrir-se +com ella! D. Felicidade era espalhafatona, um pouco tonta, mas era +uma mulher d'idade, intima de Luiza; tinha mais authoridade, mais +habilidade mesmo... + +Decidiu-se logo, tomou um trem, foi á rua de S. Bento. + +A criada de D. Felicidade appareceu-lhe, desolada, e lacrimosa: + +--Pois não sabe? + +--Não. + +--Ai! até admira! + +--Mas o que? + +--A senhora! Uma desgraça assim! Torceu um pé na Encarnação, deu uma +quéda. Tem estado muito mal, muito mal. + +--Aqui? + +--Na Encarnação. Nem pôde sahir. Está com a snr.^a D. Anna Silveira. +Uma desgraça assim! E está n'um phrenesi! + +--Mas quando foi? + +--Antes d'hontem á noite. + +Sebastião saltou para o trem, mandou «bater» para casa de Luiza. + +A D. Felicidade, doente, na Encarnação! Mas então Luiza podia bem sahir +todos os dias! Ia vêl-a, fazer-lhe companhia, tratar d'ella!... + +A visinhança não tinha que rosnar! Ia vêr a pobre doente!... + +Eram duas horas quando a parelha estacou á porta de Luiza. Encontrou-a, +que descia a escada, vestida de preto, de luva _gris perle_, com um véo +negro. + +--Ah! suba, Sebastião, suba! Quer subir? + +Parára, nos degraus, com uma côrzinha no rosto, um pouco embaraçada. + +--Não, obrigado. Vinha dizer-lhe... Não sabe? A D. Felicidade... + +--O quê? + +--Torceu um pé. Está mal. + +--Que me diz? + +Sebastião deu os pormenores. + +--Vou já lá. + +--Deve ir. Eu não posso ir, não entram homens. Coitada! Diz que +está mal.--Acompanhou-a até á esquina da rua, offereceu-lhe mesmo +a tipoia:--E muitos recados, que tenho pena de a não vêr!... Pobre +senhora! E diz que está n'um phrenesi! + +Viu-a afastar-se para a Patriarchal, e, admirando a graça da sua +figura, esfregava as mãos satisfeito. + +Estavam justificadas, santificadas mesmo aquellas passeatas todos +os dias! Ia ser a enfermeira da pobre D. Felicidade! Era necessario +que todos soubessem, o Paula, a estanqueira, a Gertrudes, as +Azevedos, todos, de modo que quando a vissem de manhã, subir a rua, +dissessem:--Lá vai fazer companhia á doente! Santa senhora! + +O Paula estava á porta da loja--e Sebastião com uma idéa subita, +entrou. Estava-se estimando de se sentir tão fecundo em expedientes, +tão habil! + +Deitou um pouco o chapéo para a nuca, e mostrando com o guarda-sol o +painel que representava D. João VI: + +--Quanto quer vossemecê por isto, ó snr. Paula? + +O Paula ficou surprehendido: + +--O snr. Sebastião está a brincar? + +Sebastião exclamou: + +--A brincar?--Fallava muito sério! queria uns quadros para a sala +d'entrada, em Almada: mas velhos, sem caixilho, para dizerem bem sobre +um papel escuro.--Como isto! Estou a brincar! Ora essa, homem! + +--Desculpe, snr. Sebastião... Pois n'esse caso ha por ahi alguns +paineis a calhar. + +--Este D. João VI agrada-me. Quanto custa isto? + +O Paula disse, sem hesitar: + +--Sete mil e duzentos. Mas é obra de mestre. + +Era uma téla desbotada de tom defumado, onde uns restos de face +avermelhada, com uma cabelleira em cachos, sobresahiam vagamente sobre +um fundo sombrio. Um vermelhão baço indicava o velludo de uma casaca +de côrte: a pança saliente e ostentosa enchia um collete esverdeado. E +a parte mais conservada da téla era, ao lado sobre um coxim, a corôa +real--que o artista trabalhára com uma minuciosidade enthusiasta, ou +por preoccupação d'idiota, ou por adulação de cortezão. + +Sebastião achava caro; mas o Paula mostrou-lhe o preço escripto por +traz, n'uma tirinha de papel; espanejou a téla com amor; indicou as +bellezas, fallou na sua honestidade; deprimiu outros vendedores de +moveis, «que tinham a consciencia nas palmilhas»; jurou que o retrato +pertencera ao paço de Queluz, e ia atacar as questões publicas--quando +Sebastião disse resumindo: + +--Bem, pois mande-m'o logo, fico com elle. E mande a conta. + +--Leva uma rica obra! + +Sebastião agora olhava em redor. Queria fallar do «pé torcido de D. +Felicidade», e procurava uma transição. Examinou umas jarras da India, +um tremó; e avistando uma poltrona de doente: + +--Aquillo é que era bom para a D. Felicidade!--exclamou logo--aquella +cadeira! Boa cadeira! + +O Paula arregalou os olhos. + +--Para a D. Felicidade Noronha--repetiu Sebastião.--Para estar +deitada... Pois não sabia, homem? Partiu um pé, tem estado muito mal. + +--A D. Felicidade, a amiga _de cá_?--e indicou com o pollegar a casa do +Engenheiro. + +--Sim, homem! Quebrou um pé na Encarnação. Até lá ficou. A D. Luiza vai +para lá fazer-lhe companhia todos os dias. Agora ia ella para lá... + +--Ah!--fez o Paula lentamente. E depois de uma pausa:--Mas eu ainda a +vi entrar _para cá_ ha-de haver oito dias. + +--Foi antes d'hontem.--Tossiu e acrescentou, voltando o rosto, olhando +muito umas gravuras:--De resto a D. Luiza já ia todos os dias á +Encarnação, mas era para vêr a Silveira, a D. Anna Silveira, que esteve +mal. Coitada, ha tres semanas que tem passado uma vida d'enfermeira. +Não sahe da Encarnação! E agora é a D. Felicidade. Não é má massada! + +--Pois não sabia, não sabia--murmurava o Paula, com as mãos enterradas +nos bolsos. + +--Mande-me o D. João VI, hein? + +--Ás ordens, snr. Sebastião. + +Sebastião foi para casa. Subiu á sala; e atirando o chapéo +para o sophá: Bem, pensou, agora ao menos estão salvas as +apparencias!--Passeou algum tempo com a cabeça baixa; sentia-se triste; +porque o ter conseguido, por um acaso, justificar aquelles passeios +para com a visinhança, fazia-lhe parecer mais cruel a idéa de que os +não podia justificar para comsigo. Os commentarios dos visinhos iam +findar por algum tempo, mas _os seus_?... Queria achal-os falsos, +pueris, injustos: e, contra sua vontade, o seu bom senso e a sua +rectidão estavam sempre a revolvel-os baixo. Emfim, tinha feito o que +devia! E com um gesto triste, fallando só, no silencio da sala: + +--O resto é com a sua consciencia! + +N'essa tarde, na rua, sabia-se já que a D. Felicidade de Noronha +torcera um pé na Encarnação, (outros diziam quebrára uma perna), e +que a D. Luiza não lhe sahia da cabeceira... O Paula declarára com +authoridade: + +--É de boa rapariga, é de muito boa rapariga! + +A Gertrudes do doutor foi logo, á noitinha, perguntar á tia Joanna, +«se era verdade da perna quebrada». A tia Joanna corrigiu: era o pé, +torcera o pé! E a Gertrudes veio dizer ao doutor, ao chá, que a D. +Felicidade déra uma queda que ficára em pedaços.--Foi na Encarnação, +acrescentou. Diz que anda tudo lá n'uma roda viva. A Luizinha até lá +tem dormido... + +--Pieguices de beatas!--rosnou com tedio o doutor. + +Mas na rua todos a elogiavam. Mesmo, d'ahi a dias, o Teixeira Azevedo +(que apenas comprimentava Luiza), tendo-a encontrado na rua de S. +Roque, parou, e com uma cortezia profunda: + +--Desculpe vossencia. Como vai a sua doente? + +--Melhor, agradecida. + +--Pois, minha senhora, tem sido de muita caridade, ir todos os dias por +este calor á Encarnação... + +Luiza corou. + +--Coitada! Não lhe falta companhia, mas... + +--É de muita caridade, minha senhora--exclamou com emphase--Tenho-o +dito por toda a parte. É de muita caridade. Um criado de vossencia! + +E afastou-se commovido. + + +Luiza fôra logo, com effeito, vêr D. Felicidade. Tinha uma luxação +simples; e deitada nos quartos da Silveira, com o pé em compressas +d'arnica, cheia de terror de «perder a perna», passava o dia rodeada +d'amigas, chorando-se, saboreando os mexericos do Recolhimento, e +debicando petiscos. + +Apenas alguem entrava para a vêr, redobrava d'exclamações e de queixas; +vinha logo a historia miuda, incidentada, prolixa da «desgraça»: ia a +descer, a pôr o pé no degrau; escorregára; sentiu que ia a cahir; ainda +se sustentou, e pôde dizer: Ai Nossa Senhora da Saude! Ao principio a +dôr não foi grande; mas podia ter morrido; tinha sido um milagre! + +Todas as senhoras concordavam «que era realmente um milagre». +Olhavam-na compungidas, e iam ao côro alternadamente prostrar-se, e +pedir aos santos especiaes o allivio da Noronha! + +A primeira visita de Luiza foi para D. Felicidade uma consolação, +«deu-lhe melhoras»; porque se ralava de estar alli de cama, sem saber +noticias d'_elle_, sem poder fallar d'_elle_! + +E nos dias seguintes, apenas ficava só no quarto com Luiza, chamava-a +logo para a cabeceira, e n'um murmurio mysterioso: Tinha-o visto? +Sabia d'_elle_?--A sua afflicção era que o Conselheiro não soubesse +que ella estava doente, e não lhe podesse dar aquelles pensamentos +compassivos--a que o seu pé tinha direito, e que seriam um conforto +para o seu coração! Mas Luiza não _o_ vira--e D. Felicidade, remexendo +a chásada, exhalava suspiros agudos. + +Ás duas horas Luiza sahia da Encarnação--e ia tomar um trem ao Rocio: +para não parar á porta do _Paraiso_ com espalhafato de tipoia, +apeava-se ao largo de Santa Barbara; e fazendo-se pequenina, cosida com +a sombra das casas, apressava-se com os olhos baixos, e um vago sorriso +de prazer. + +Bazilio esperava-a deitado na cama, em mangas de camisa: para não se +enfastiar, só, tinha trazido para o _Paraiso_ uma garrafa de cognac, +assucar, limões--e com a porta entreaberta fumava, fazendo _grogs_ +frios. O tempo arrastava-se, via a todo o momento as horas, e sem +querer ia escutando, notando todos os ruidos intimos da familia da +proprietaria que vivia nos quartos interiores: a rabuje d'uma criança, +uma voz acatarrhoada que ralhava, e de repente uma cadellinha que +começava a ladrar furiosa. Bazilio achava aquillo burguez e reles, +impacientava-se. Mas um _frou-frou_ de vestido roçava a escada--e os +tedios d'elle, bem como os receios d'ella, dissipavam-se logo no calor +dos primeiros beijos. Luiza vinha sempre com pressa; queria estar +em casa ás cinco horas, «e era um estirão depois!» Entrava um pouco +suada, e Bazilio gostava da transpiraçãosinha tepida que havia nos seus +hombros nús. + +--E teu marido?--perguntava elle.--Quando vem? + +--Não falla em nada.--Ou então:--Não recebi carta, não sei nada. + +Parecia ser aquella a preoccupação de Bazilio, na alegria egoista da +posse recente. Tinha então caricias muito extaticas; ajoelhava-se aos +pés d'ella; fazia voz de criança: + +--Lili não ama Bibi... + +Ella ria, meio despida, com um riso cantado e libertino. + +--Lili adora Bibi!... É douda por Bibi! + +E queria saber se pensava n'ella, o que tinha feito na vespera. Fôra ao +Gremio, jogára uns _robbers_, viera para casa cedo, sonhára com ella... + +--Vivo para ti, meu amor, acredita! + +E deixava-lhe cahir a cabeça no regaço, como sob uma felicidade +excessiva. + +Outras vezes, mais serio, dava-lhe certos conselhos de gôsto, de +_toilette_: pedira-lhe que não trouxesse postiços no cabello, que não +usasse botinhas de elastico. + +Luiza admirava muito a sua experiencia do luxo; obedecia-lhe, +amoldava-se ás suas idéas:--até affectar, sem o sentir, um desdem pela +gente virtuosa, para imitar as suas opiniões libertinas. + +E lentamente, vendo aquella docilidade, Bazilio não se dava ao +incommodo de se constranger; usava d'ella, _como se a pagasse_! +Acontecera uma manhã escrever-lhe duas palavras a lapis que «não podia +ir ao _Paraiso_», sem outras explicações! Uma occasião mesmo não foi, +sem a avisar--e Luiza achou a porta fechada. Bateu timidamente, olhou +pela fechadura, esperou palpitante--e voltou muito desconsolada, +quebrada do calor, com a poeirada nos olhos, e vontade de chorar. + +Não aceitava o menor incommodo, nem para lhe causar um contentamento. +Luiza tinha-lhe pedido que fosse de vez em quando aos domingos a sua +casa, passar a noite: viria Sebastião, o Conselheiro, D. Felicidade +quando estivesse melhor: era uma alegria para ella, e depois dava ás +suas relações um ar mais parente, mais legitimo. + +Mas Bazilio pulou: + +--O quê! ir cabecear de somno com quatro caturras... Ah! não!... + +--Mas conversa-se, faz-se musica... + +--_Merci!_ Conheço-a, a musica das _soirées_ de Lisboa! A valsa do +_Beijo_ e o _Trovador_. Safa! + +Depois duas ou tres vezes fallára de Jorge com desdem. Aquillo +offendera-a. + +Ultimamente mesmo, quando ella entrava no _Paraiso_, já não tinha a +delicadeza amorosa de se levantar alvoroçado: sentava-se apenas na +cama, e tirando preguiçosamente o charuto da bocca: + +--Ora viva a minha flôr!--dizia. + +E um ar de superioridade quando lhe fallava! Um modo de encolher os +hombros, de exclamar:--Tu não percebes nada d'isso! Chegava a ter +palavras cruas, gestos brutaes. E Luiza começou a desconfiar que +Bazilio não a estimava,--apenas a desejava! + +Ao principio chorou. Resolveu explicar-se com elle, romper se fosse +necessario. Mas adiou, não se atrevia: a figura de Bazilio, a sua voz, +o seu olhar dominavam-na; e accendendo-lhe a paixão tiravam-lhe a +coragem de a perturbar com queixas. Porque estava convencida então que +o adorava: o que lhe dava tanta exaltação no _desejo_, se não era a +grandeza do _sentimento_?... Gozava tanto, é porque o amava muito!... +E a sua honestidade natural, os seus pudores refugiavam-se n'este +raciocinio subtil. + +Elle tinha ás vezes uma seccura aspera de maneiras, era verdade; certos +tons de indifferença, era certo... Mas n'outros momentos, quantas +denguices, que tremuras na voz, que phrenesi nas caricias!... Amava-a +tambem, não havia duvida. Aquella certeza era a sua justificação. E +como era o Amor que os produzia, não se envergonhava dos alvoroços +voluptuosos com que ia todas as manhãs ao _Paraiso_! + +Duas ou tres vezes, ao voltar, tinha encontrado Juliana que subia +tambem apressada o Moinho de Vento. + +--D'onde vinha vossê?--perguntára-lhe em casa. + +--Do medico, minha senhora, fui ao medico. + +Queixava-se de pontadas, palpitações, faltas d'ar. + +--Flatos! flatos! + + +Com effeito, Juliana agora fazia todos os arranjos pela manhã; depois +apenas Luiza, pela uma hora, dobrava a esquina, ia-se vestir, e muito +espartilhada no seu vestido de merino, de chapéo e sombrinha, vinha +dizer a Joanna: + +--Até logo, vou ao medico. + +--Até logo, snr.^a Juliana--dizia a cozinheira radiante. + +E ia logo fazer signal ao carpinteiro. + +Juliana descia por S. Pedro de Alcantara, e tomando para o largo do +Carmo ia á ruasita, defronte do quartel. Alli morava n'um terceiro +andar a sua intima amiga, a tia Victoria. + +Era uma velha que fôra inculcadeira. Ainda tinha mesmo na cancella, +n'uma placa de metal, com letras negras: «Victoria Soares, +inculcadeira.» Mas nos ultimos annos a sua industria tornou-se mais +complicada, muito tortuosa. + +Exercia-a n'uma saleta esteirada, com mosquiteiros de papel pendentes +do tecto encardido, alumiada por duas tristes janellas de peito. Um +vasto sophá occupava quasi a parede do fundo: fôra de certo de reps +verde, mas o estofo coçado, comido, remendado, tinha agora, sob largas +nodoas, uma vaga côr parda; as molas partidas, rangiam com estalidos +melancolicos; a um dos cantos, n'uma cova que o uso cavára, dormia todo +o dia um gato; e um dos lados da madeira queimada revelava que fôra +salvo d'um incendio. Sobre o sophá pendia a lithographia do senhor D. +Pedro IV. Entre as duas janellas havia uma commoda alta; e em cima, +entre um Santo Antonio e um cofre feito de buzios, um macaquinho +empalhado, com olhos de vidro, equilibrava-se sobre um galho d'arvore. +Ao entrar via-se logo, junto da janella fronteira á porta, a uma mesa +coberta de oleado, um dorso magro e curvado, e um barretinho de sêda +com uma borla arrebitada. Era o snr. Gouvêa, o escripturario! + +O ar abafado tinha um cheiro complexo, indefinido--em que se sentia +a cavalhariça, a graxa e o refogado. Havia sempre gente: grossas +matronas de capote e lenço, face gordalhufa e buço; cocheiros com +o cabello acamado, muito lustroso de oleo, e blusa de riscadinho: +pesados gallegos côr de greda, de passadas retumbantes e fórmas lôrpas: +criadinhas de dentro, amarelladas, de olheiras, sombrinha de cabo +d'osso, e as luvas de pellica com passagens nas pontas dos dedos. + +Defronte da sala abria-se um quarto que deitava para o saguão,--por +cuja portinha verde se viam ás vezes desapparecer dorsos respeitaveis +de proprietarios, ou caudas espalhafatosas de vestidos suspeitos. + +Em certas occasiões, aos sabbados, juntavam-se cinco, seis pessoas: +velhas fallavam baixo, com gestos mysteriosos: uma altercação mal +abafada roncava no patamar: rapariguitas de repente desatavam a +chorar; e, impassivel, o snr. Gouvêa escrevinhava os seus registos, +arremessando para o lado jactos melancolicos de saliva. + +A tia Victoria, no entanto, com a sua touca de renda negra, um vestido +rôxo,--ia, vinha, cochichava, gesticulava, fazia tilintar dinheiro, +tirando a cada momento da algibeira rebuçados de avenca para o catarrho. + +A tia Victoria era uma grande utilidade, tornára-se um centro! A +criadagem reles, mesmo a criadagem fina, tinha alli para tudo o +seu _despacho_. Emprestava dinheiro aos desempregados; guardava +as economias dos poupados; fazia escrever pelo snr. Gouvêa as +correspondencias amorosas ou domesticas dos que não tinham ido á +escóla; vendia vestidos em segunda mão; alugava casacas; aconselhava +collocações, recebia confidencias, dirigia intrigas, entendia de +partos. Nenhum criado era inculcado por ella; mas, arranjados ou +despedidos, nunca deixavam de subir, descer as escadas da tia Victoria. +Tinha além d'isso muitas relações, infinitas condescendencias: +celibatarios maduros iam entender-se com ella, para o confortosinho +d'uma sopeira gordita e nova: era ella quem inculcava as serventes ás +mulheres policiadas; sabia de certos agiotas discretos. E dizia-se: a +tia Victoria tem mais manhas que cabellos! + +Mas, ultimamente, apesar dos seus «afazeres», apenas Juliana +entrava--levava-a para o quarto nas trazeiras, fechava a porta, e +«havia para meia hora»! + +E Juliana sahia sempre vermelha, os olhos accesos, feliz! Voltava +depressa para casa; e mal entrava: + +--A senhora ainda não voltou, snr.^a Joanna? + +--Ainda não. + +--Está na Encarnação. Coitada! não tem má cruz, ir aturar a velha! +E depois naturalmente vai dar o seu passeio! Faz ella muito bem! +Espairecer! + +Joanna era de certo espessa e obtusa; além d'isso a paixão animal pelo +rapazola emparvecia-a. Todavia, percebera que a snr.^a Juliana andava +«muito derretida pela senhora»: disse-lh'o mesmo um dia: + +--Vossemecê agora, snr.^a Juliana, parece mais na bola da senhora! + +--Na bola? + +--Sim, quero dizer, mais aquella, mais... + +--Mais apegada á senhora? + +--Mais apegada. + +--Sempre o estive. Mas então! ás vezes a gente tem os seus repentes... +Que olhe, snr.^a Joanna, não se acha melhor que aqui. Senhora de muito +bom genio, nada de exquisitices, nenhumas prisões... Ai, é dar louvores +ao céo de estarmos n'este descanço. + +--E é! + +A casa com effeito tinha um aspecto jovial de felicidade tranquilla: +Luiza sahia todos os dias e achava tudo bom; nunca se impacientava; +a sua antipathia por Juliana parecia dissipada, considerava-a uma +pobre de Christo! Juliana tomava os seus caldinhos, dava os seus +passeios, ruminava. Joanna, muito livre, muito só em casa, regalava-se +com o carpinteiro. Não vinham visitas. D. Felicidade, na Encarnação, +inundava-se d'arnica. Sebastião fôra para Almada vigiar as obras. O +Conselheiro partira para Cintra, «dar umas ferias ao espirito, tinha +elle dito a Luiza, e deliciar-se nas maravilhas d'aquelle Eden». O snr. +Julião, «o doutor», como dizia a Joanna, trabalhava a sua these. As +horas eram muito regulares, havia sempre um silencio pacato. Juliana, +um dia, na cozinha, impressionada por aquelle recolhimento satisfeito +de toda a casa, exclamou para Joanna: + +--Não se póde estar melhor! A barca vai n'um mar de rosas! + +E acrescentou, com uma risadinha: + +--E eu ao leme! + + + + +VII + + +Por esse tempo, uma manhã que Luiza ia para o _Paraiso_, viu de repente +sahir d'um portal, um pouco adiante do largo de Santa Barbara, a figura +azafamada d'Ernestinho. + +--Por aqui, prima Luiza!--exclamou elle logo muito surprehendido.--Por +estes bairros! Que faz por aqui? Grande milagre! + +Vinha vermelho, trazia as bandas do casaco d'alpaca todas deitadas para +traz, e agitava com excitação um rolo grosso de papeis. + +Luiza ficou um pouco embaraçada; disse que viera fazer uma visita a uma +amiga.--Oh! elle não conhecia, tinha chegado do Porto... + +--Ah, bem! bem! E que é feito, como tem passado? Quando vem o +Jorge?--Desculpou-se logo de a não ter ido vêr; mas é que não tinha uma +migalha livre! De manhã a alfandega, á noite os ensaios... + +--Então sempre vai?--perguntou Luiza. + +--Vai. + +E enthusiasmado: + +--E como vai! Um primor! Mas que trabalhão, que trabalhão!--Agora vinha +elle de casa do actor Pinto, que fazia o papel de amante, de conde de +Monte Redondo; tinha-o ouvido dizer as palavras finaes do terceiro +acto: _Maldição, a sorte funesta esmaga-me! Pois bem, arcarei braço a +braço com a sorte. Á lucta!_ Era uma maravilha! Vinha tambem de lhe dar +parte que alterára o monologo do segundo acto. O empresario achava-o +longo... + +--Então continúa a implicar, o empresario? + +Ernestinho fez uma visagem d'hesitação. + +--Implica um bocado...--E com um rosto radioso:--Mas está delirante! +Estão todos delirantes! Hontem me dizia elle: «Lesminha»... É o nome +que me dão por pandiga. Tem graça, não é verdade? Dizia-me elle: +«Lesminha, na primeira representação cahe ahi Lisboa em peso! Vossê +enterra-os a todos!» É bom homem! E agora vou-me a casa do Bastos, o +folhetinista da _Verdade_. Não conhece? + +Luiza não se lembrava bem. + +--O Bastos, o da _Verdade_!--insistia elle. + +E vendo que Luiza parecia alheia ao nome, ao individuo: + +--Ora não conhece outra cousa!--Ia descrever-lhe as feições, citar-lhes +as obras... + +Mas Luiza, impaciente, para findar: + +--Ah! sim, lembro-me agora. Perfeitamente... Bem sei! + +--Pois é verdade, vou a casa d'elle.--Tomou um tom compenetrado:--Somos +muito amigos, é muito bom rapaz, e tem um pequerrucho lindo!...--E +apertando-lhe muito a mão:--Adeusinho, prima Luiza, que não posso +perder um momento. Quer que a vá acompanhar? + +--Não, é aqui perto. + +--Adeus, recados ao Jorge! + +Ia a afastar-se, atarefado, mas voltando-se rapidamente, correu atraz +d'ella. + +--Ah! esquecia-me dizer-lhe, sabe que lhe perdoei? + +Luiza abriu muito os olhos. + +--Á condessa, á heroina!--exclamou Ernestinho. + +--Ah! + +--Sim, o marido perdôa-lhe, obtem uma embaixada, e vão viver no +estrangeiro. É mais natural... + +--De certo!--disse vagamente Luiza. + +--E a peça acaba, dizendo o amante, o conde de Monte Redondo: _E +eu irei para a solidão morrer d'esta paixão funesta!_ É de muito +effeito!--Esteve um momento a olhal-a, e bruscamente:--Adeus, prima +Luiza, recadinhos ao Jorge! + +E abalou. + +Luiza entrou no _Paraiso_ muito contrariada. Contou o encontro a +Bazilio. Ernestinho era tão tolo! Podia mais tarde fallar n'aquillo, +citar a hora, perguntarem-lhe quem era a amiga do Porto... + +E tirando o véo, o chapéo: + +--Não, realmente é imprudente vir assim tantas vezes. Era melhor não +vir tanto. Póde-se saber... + +Bazilio encolheu os hombros, contrariado: + +--Se queres não venhas. + +Luiza olhou-o um momento, e curvando-se profundamente: + +--Obrigada! + +Ia a pôr o chapéo, mas elle veio prender-lhe as mãos, abraçou-a, +murmurando: + +--Pois tu fallas em não vir! E eu, então? Eu que estou em Lisboa por +tua causa... + +--Não, realmente dizes ás vezes cousas... tens certos modos... + +Bazilio abafou-lhe as palavras com beijos. + +--Ta, ta, ta! Nada de questões! Perdôa. Estás tão linda... + +Luiza, ao voltar para casa, veio a reflectir n'aquella «scena». +Não--pensava--já não era a primeira vez que elle mostrava um +desprendimento muito secco por ella, pela sua reputação, pela sua +saude! Queria-a alli todos os dias, egoistamente. Que as más linguas +fallassem, que as soalheiras a matassem, que lhe importava? E para +que?... Porque emfim, saltava aos olhos, elle amava-a menos... As suas +palavras, os seus beijos arrefeciam cada dia, mais e mais!... Já não +tinha aquelles arrebatamentos do desejo em que a envolvia toda n'uma +caricia palpitante, nem aquella abundancia de sensação que o fazia +cahir de joelhos com as mãos tremulas como as d'um velho!... Já se +não arremessava para ella, mal ella apparecia á porta, como sobre uma +presa estremecida!... Já não havia aquellas conversas pueris, cheias de +risos, divagadas e tontas, em que se abandonavam, se esqueciam, depois +da hora ardente e physica, quando ella ficava n'uma lassitude dôce, com +o sangue fresco, a cabeça deitada sobre os braços nús!--Agora! trocado +o ultimo beijo, accendia o charuto, como n'um restaurante ao fim do +jantar! E ia logo a um espelho pequeno que havia sobre o lavatorio dar +uma penteadella no cabello com um pentesinho d'algibeira! (O que ella +odiava o pentesinho!) Ás vezes até olhava o relogio!... E em quanto +ella se arranjava não vinha, como nos primeiros tempos, ajudal-a, +pôr-lhe o collarinho, picar-se nos seus alfinetes, rir em volta d'ella, +despedir-se com beijos apressados da nudez dos seus hombros antes que +o vestido se apertasse. Ia rufar nos vidros,--ou sentado, com um ar +macambuzio, bamboleava a perna! + +E depois positivamente não a respeitava, não a considerava... Tratava-a +por cima do hombro, como uma burguezinha, pouco educada e estreita, +que apenas conhece o seu bairro. E um modo de passear, fumando, com a +cabeça alta, fallando no «espirito de madame de tal», nas _toilettes_ +da «condessa de tal»! Como se ella fosse estupida, e os seus vestidos +fossem trapos! Ah, era seccante! E parecia, Deus me perdôe, parecia que +lhe fazia uma honra, uma grande honra em a possuir... Immediatamente +lembrava-lhe Jorge, Jorge que a amava com tanto respeito! Jorge, +para quem ella era de certo a mais linda, a mais elegante, a mais +intelligente, a mais captivante!... E já pensava um pouco que +sacrificára a sua tranquillidade tão feliz a um amor bem incerto! + +Emfim, um dia que o viu mais distrahido, mais frio, explicou-se +abertamente com elle. Direita, sentada no canapé de palhinha, fallou +com bom senso, devagar, com um ar digno e preparado: «Que percebia bem +que elle se aborrecia, que o seu grande amor tinha passado, que era por +tanto humilhante para ella verem-se n'essas condições, e que julgava +mais digno acabarem...» + +Bazilio olhava-a, surprehendido da sua solemnidade; sentia um estudo, +uma affectação n'aquellas phrases; disse muito tranquillamente, +sorrindo: + +--Trazias isso decorado! + +Luiza ergueu-se bruscamente, encarou-o, teve um movimento desdenhoso +dos labios. + +--Tu estás douda, Luiza? + +--Estou farta! Faço todos os sacrificios por ti, venho aqui todos os +dias, comprometto-me, e para que? Para te vêr muito indifferente, muito +seccado... + +--Mas, meu amor... + +Ella teve um sorriso d'escarneo. + +--_Meu amor!_ Oh! são ridiculos esses fingimentos! + +Bazilio impacientou-se. + +--Já isso cá me faltava, essa scena!--exclamou impetuosamente. E +cruzando os braços diante d'ella:--Mas que queres tu? Queres que te +ame como no theatro, em S. Carlos? Todas sois assim! Quando um pobre +diabo ama naturalmente, como todo o mundo, com o seu coração, mas +não tem gestos de tenor, aqui d'el-rei que é frio, que se aborrece, +é ingrato... Mas que queres tu? Queres que me atire de joelhos, que +declame, que revire os olhos, que faça juras, outras tolices?... + +--São tolices que tu fazias... + +--Ao principio!--respondeu elle brutalmente.--Já nos conhecemos muito +para isso, minha rica. + +E havia apenas cinco semanas! + +--Adeus!--disse Luiza. + +--Bem. Vaes zangada? + +Ella respondeu, com os olhos baixos, calçando nervosamente as luvas: + +--Não. + +Bazilio pôz-se diante da porta, e estendendo os braços: + +--Mas sê razoavel, minha querida. Uma ligação como a nossa não é o +duetto do _Fausto_. Eu amo-te; tu, creio, gostas de mim; fazemos os +sacrificios necessarios, encontramo-nos, somos felizes... Que diabo +queres tu mais? Porque te queixas? + +Ella respondeu com um sorriso ironico e triste: + +--Não me queixo. Tens razão. + +--Mas não vás zangada, então. + +--Não... + +--Palavrinha? + +--Sim... + +Bazilio tomou-lhe as mãos. + +--Dê então um beijinho em Bibi... + +Luiza beijou-o de leve na face. + +--Na boquinha, na boquinha!--E ameaçando-a com o dedo, fitando-a +muito:--Ah geniosinho! Tens bem o sangue do snr. Antonio de Brito, +nosso extremoso tio, que arrepellava as criadas pelos cabellos!--E +sacudindo-lhe o queixo:--E vens ámanhã? + +Luiza hesitou um momento: + +--Venho. + +Entrou em casa exasperada, humilhada. Eram seis horas. Juliana veio +logo dizer-lhe, muito quisilada: que a Joanna tinha sahido ás quatro +horas, não tinha voltado, o jantar estava por acabar... + +--Onde foi? + +Juliana encolheu os hombros com um sorrisinho. + +Luiza percebeu. Tinha ido a algum amante, a algum amor... Teve um gesto +de piedade desdenhosa. + +--Ha-de lucrar muito com isso. Boa tôla!--disse. + +Juliana olhou-a espantada. + +--Está bebeda!--pensou. + +--Bem, que se lhe ha-de fazer?--exclamou Luiza.--Esperarei... + +E passeando pelo quarto, excitada, revolvendo o seu despeito: + +--Que egoista, que grosseiro, que infame! E é por um homem assim que +uma mulher se perde! É estupido! + +Como elle supplicava, se fazia pequenino, humilde ao principio! O que +são os amores dos homens! Como teem a fadiga facil! + +E immediatamente lhe veio a idéa de Jorge! _Esse_ não! Vivia com +ella havia tres annos--e o seu amor era sempre o mesmo, vivo, meigo, +dedicado. Mas o _outro_! Que indigno! _Já a conhecia muito!_ Ah! estava +bem certa agora, nunca a amára, elle! Quizera-a por vaidade, por +capricho, por distracção, para ter uma mulher em Lisboa! É o que era! +Mas amor? Qual! + +E ella mesmo, por fim? Amava-o, ella? Concentrou-se, interrogou-se... +Imaginou casos, circumstancias: se elle a quizesse levar para longe, +para França, iria? Não! Se por um acaso, por uma desgraça enviuvasse, +antevia alguma felicidade casando com elle? Não! + +Mas então!... E como uma pessoa que destapa um frasco muito guardado, e +se admira vendo o perfume evaporado, ficou toda pasmada de encontrar o +seu coração vazio. O que a levára então para elle?... Nem ella sabia; +não ter nada que fazer, a curiosidade romanesca e morbida de ter um +amante, mil vaidadesinhas inflammadas, um certo desejo physico... E +sentira-a por ventura, essa felicidade, que dão os amores illegitimos, +de que tanto se falla nos romances e nas operas, que faz esquecer +tudo na vida, affrontar a morte, quasi fazel-a amar? Nunca! Todo o +prazer que sentira ao principio, que lhe parecera ser o amor--vinha +da novidade, do saborzinho delicioso de comer a maçã prohibida, das +condições do mysterio do _Paraiso_, d'outras circumstancias talvez, que +nem queria confessar a si mesma, que a faziam corar por dentro! + +Mas que sentia d'extraordinario _agora_? Bom Deus, começava a estar +menos commovida ao pé do seu amante, do que ao pé de seu marido! Um +beijo de Jorge perturbava-a mais, e viviam juntos havia tres annos! +Nunca se seccára ao pé de Jorge, nunca! E seccava-se positivamente ao +pé de Bazilio! Bazilio, no fim, o que se tornára para ella? era como +um marido pouco amado, que ia amar fóra de casa! Mas então, valia a +pena?... + +Onde estava o defeito? No amor mesmo talvez! Porque emfim, ella e +Bazilio estavam nas condições melhores para obterem uma felicidade +excepcional: eram novos, cercava-os o mysterio, excitava-os a +difficuldade... Porque era então que quasi bocejavam? É que o amor +é essencialmente perecivel, e na hora em que nasce começa a morrer. +Só os começos são bons. Ha então um delirio, um enthusiasmo, um +bocadinho do céo. Mas depois!... Seria pois necessario estar sempre a +_começar_, para poder sempre sentir?... Era o que fazia Leopoldina. E +apparecia-lhe então nitidamente a explicação d'aquella existencia de +Leopoldina, inconstante, tomando um amante, conservando-o uma semana, +abandonando-o como um limão espremido, e renovando assim constantemente +a flôr da sensação!--E, pela logica tortuosa dos amores illegitimos, o +seu primeiro amante fazia-a vagamente pensar no segundo! + +Logo no dia seguinte pôz-se a dizer comsigo que era bem longe o +_Paraiso_! Que massada, por aquelle calor, vestir-se, sahir! Mandou +saber de D. Felicidade por Juliana, e ficou em casa, de roupão branco, +preguiçosa, saboreando a sua preguiça. + +N'essa tarde recebeu uma carta de Jorge: «que ainda se demorava, mas +que a sua viuvez começava a pezar-lhe. Quando se veria emfim na sua +casinha, na sua alcovinha?...» + +Ficou muito commovida. Um sentimento de vergonha, de remorso, uma +compaixão terna por Jorge, tão bom, coitado! um indefinido desejo de o +vêr e de o beijar, a recordação de felicidades passadas perturbaram-na +até ás profundidades do seu sêr. Foi logo responder-lhe, jurando-lhe +«que tambem já estava farta de estar só, que viesse, que era estupida +semelhante separação...» E era sincera n'aquelle momento. + +Tinha fechado o enveloppe, quando Juliana lhe veio trazer «uma carta +do hotel». Bazilio mostrava-se desesperado: «...Como não vieste, vejo +que estás zangada; mas é de certo o teu orgulho, não o teu amor que te +domina: não imaginas o que senti quando vi que não vinhas hoje. Esperei +até ás cinco horas; que supplicio! Fui talvez secco, mas tu tambem +estavas implicativa. Devemos perdoar-nos ambos, ajoelharmos um diante +do outro, e esquecer todo o despeito no mesmo amor... Vem ámanhã. +Adoro-te tanto! Que outra prova queres, que esta que te dou d'abandonar +os meus interesses, as minhas relações, os meus gostos, e enterrar-me +aqui em Lisboa, etc.» + +Ficou muito nervosa, sem saber o que havia de fazer, o que havia de +querer. Aquillo era verdade. Porque estava elle em Lisboa? Por ella. +Mas se reconhecia agora,--que o não amava, ou tão pouco! E depois +era vil trahir assim Jorge, tão bom, tão amoroso, vivendo todo para +ella. Mas se Bazilio realmente estivesse tão apaixonado!... As suas +idéas redemoinhavam, como folhas d'outono, violentadas por ventos +contradictorios. Desejava estar tranquilla, «que a não perseguissem». +Para que voltára aquelle homem? Jesus! que havia de fazer? Tinha os +seus pensamentos, os seus sentimentos n'uma dolorosa trapalhada. + +E na manhã seguinte estava na mesma hesitação. Iria, não iria? O +calor fóra, a poeirada da rua faziam-lhe appetecer mais a casa! +Mas que desapontamento, o do pobre rapaz tambem! Atirou ao ar uma +moeda de cinco tostões. Era cunho, devia ir. Vestiu-se, sem vontade, +seccada,--tendo todavia um certo desejo dos refinamentos de prazer que +dão as expansões da reconciliação... + +Mas que surpreza! esperava encontral-o humilde e de joelhos, achou-o +com a testa franzida e muito aspero. + +--Luiza, parece incrivel, porque não vieste hontem? + +Na vespera, Bazilio, quando viu que ella faltava, teve um grande +despeito e um medo maior; a sua concupiscencia receou perder aquelle +lindo corpo de rapariga, e o seu orgulho escandalisou-se de vêr +libertar-se aquella escravasinha docil. Resolveu portanto, a todo o +custo, «chamal-a ao rego». Escreveu-lhe; e mostrando-se submisso para a +attrahir, decidiu ser severo para a castigar.--E acrescentou: + +--É uma criancice ridicula. Porque não vieste? + +Aquelle modo enraiveceu-a: + +--Porque não quiz. + +Mas emendou logo: + +--Não pude. + +--Ah! é essa a maneira por que respondes á minha carta, Luiza? + +--E tu, é esse o modo com que me recebes? + +Olharam-se um momento, detestando-se. + +--Bem, queres uma questão? És como as outras. + +--Que outras? + +E toda escandalisada: + +--Ah! é de mais! Adeus! + +Ia sahir. + +--Vaes-te, Luiza? + +--Vou. É melhor acabarmos por uma vez... + +Elle segurou o fecho da porta rapidamente. + +--Fallas serio, Luiza? + +--De certo. Estou farta! + +--Bem. Adeus. + +Abriu a porta para a deixar passar, curvou-se silenciosamente. + +Ella deu um passo, e Bazilio com a voz um pouco tremula: + +--Então, é para sempre? Nunca mais? + +Luiza parou, branca. Aquella triste palavra _nunca mais_ deu-lhe uma +saudade, uma commoção. Rompeu a chorar. + +As lagrimas tornavam-na sempre mais linda. Parecia tão dolorida, tão +fragil, tão desamparada!... + +Bazilio cahiu-lhe aos pés: tinha tambem os olhos humidos. + +--Se tu me deixares, morro! + +Os seus labios uniram-se n'um beijo profundo, longo, penetrante. A +excitação dos nervos deu-lhes momentaneamente a sinceridade da paixão; +e foi uma manhã deliciosa. + +Ella prendia-o nos braços nús, pallida como cêra, balbuciava: + +--Não me deixas nunca, não? + +--Juro-t'o! Nunca, meu amor! + +Mas fazia-se tarde, era necessario ir-se! E a mesma idéa de certo +acudiu-lhes--porque se olharam avidamente, e Bazilio murmurou: + +--Se podesses aqui passar a noite! + +Ella disse aterrada, quasi supplicante: + +--Oh! não me tentes, não me tentes... + +Bazilio suspirou, disse: + +--Não, é uma tolice. Vai. + +Luiza começou a arranjar-se, á pressa. E de repente, parando, com um +sorriso: + +--Sabes tu uma cousa? + +--O que, meu amor? + +--Estou a cahir com fome! Não almocei nada, estou a cahir! + +Elle ficou desolado: + +--Coitadinha, minha pobre filha! Se eu soubesse... + +--Que horas são, filho? + +Bazilio viu o relogio, disse quasi envergonhado: + +--Sete! + +--Ai, Santo Deus! + +Punha o chapéo, o véo, atrapalhadamente: + +--Que tarde! Jesus! Que tarde! + +--E ámanhã, quando? + +--Á uma. + +--Com certeza? + +--Com certeza. + +Ao outro dia foi muito pontual. Bazilio veio esperal-a ao fundo da +escada; e apenas entraram no quarto, devorando-a de beijos: + +--Que me fizeste tu? Desde hontem que estou doudo! + +Mas Luiza estava muito intrigada com um cesto que via em cima da cama. + +--Que é aquillo? + +Elle sorriu, levou-a pela mão junto da barra de ferro, e destampando o +cesto, com uma cortezia grave: + +--Provisões, festins, bacchanaes! Não dirás depois que tens fome! + +Era um _lunch_. Havia sandwichs, um _pâté de foie gras_, fruta, uma +garrafa de champagne, e, envolto em flanella, gelo. + +--É brilhante!--disse ella, com um sorriso quente, rubra de prazer. + +--Foi o que se pôde arranjar, minha querida prima! Já vê que pensei em +si! + +Pôz o cesto no chão, e vindo para ella com os braços abertos: + +--E tu pensaste em mim, meu amor? + +Os olhos d'ella responderam--e a pressão apaixonada dos seus braços. + +Ás tres horas lancharam. Foi delicioso; tinham estendido um guardanapo +sobre a cama; a louça tinha a marca do Hotel Central; aquillo parecia a +Luiza muito estroina, adoravel--e ria de sensualidade, fazendo tilintar +os pedacinhos de gelo contra o vidro do copo, cheio de _champagne_. +Sentia uma felicidade exuberante que transbordava em gritinhos, em +beijos, em toda a sorte de gestos buliçosos. Comia com gula; e eram +adoraveis os seus braços nús movendo-se por cima dos pratos. + +Nunca achára Bazilio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito +conchegado para aquellas intimidades da paixão; quasi julgava possivel +viver alli, n'aquelle cacifro, annos, feliz com elle, n'um amor +permanente, e _lunchs_ ás tres horas... Tinham as pieguices classicas: +mettiam-se bocadinhos na bocca; ella ria com os seus dentinhos brancos; +bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos,--e elle quiz-lhe +ensinar então a verdadeira maneira de beber _champagne_. Talvez ella +não soubesse! + +--Como é?--perguntou Luiza erguendo o copo. + +--Não é com o copo! Horror! Ninguem que se preza bebe _champagne_ por +um copo. O copo é bom para o Collares... + +Tomou um gole de _champagne_, e n'um beijo passou-o para a bocca +d'ella. Luiza riu muito, achou «divino», quiz beber mais assim. Ia-se +fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe. + +Tinham tirado os pratos da cama; e sentada á beira do leito, os seus +pésinhos calçados n'uma meia côr de rosa pendiam, agitavam-se, em +quanto um pouco dobrada sobre si, os cotovêlos sobre o regaço, a +cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça languida d'uma +pomba fatigada. + +Bazilio achava-a irresistivel: quem diria que uma burguezinha podia ter +tanto _chic_, tanta _queda_? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pésinhos entre +as mãos, beijou-lh'os; depois, dizendo muito mal das ligas «tão feias, +com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então +fez-lhe baixinho um pedido. Ella córou, sorriu, dizia: não! não!--E +quando sahiu do seu delirio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate, +murmurou reprehensivamente: + +--Oh Bazilio! + +Elle torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinára-lhe uma sensação nova: +tinha-a na mão! + +Só ás seis horas se desprendeu dos seus braços. Luiza fez-lhe jurar +que havia de pensar n'ella toda a noite:--não queria que elle sahisse; +tinha ciumes do Gremio, do ar, de tudo! E já no patamar voltava, +beijava-o, louca, repetia: + +--E ámanhã mais cedo, sim? para estarmos todo o dia. + +--Não vaes vêr a D. Felicidade? + +--Que me importa a D. Felicidade! Não me importa ninguem! Quero-te a +ti! só a ti! + +--Ao meio dia? + +--Ao meio dia! + + +Quanto lhe pezou á noite a solidão do seu quarto! Tinha uma impaciencia +que a impellia a prolongar a excitação da tarde, agitar-se. Ainda quiz +lêr, mas bem depressa arremessou o livro: as duas velas accesas sobre +o toucador pareciam-lhe lugubres; foi vêr a noite,--estava tepida e +serena. Chamou Juliana: + +--Vá pôr um chale, vamos a casa da snr.^a D. Leopoldina. + +Quando chegaram foi a Justina que veio abrir, depois d'uma grande +demora, esguedelhada, em chambre branco. Pareceu muito espantada: + +--A senhora foi p'ra o Porto! + +--P'ra o Porto! + +Sim. Demorava-se quinze dias. + +Luiza ficou muito desconsolada. Mas não queria voltar, o seu quarto +solitario aterrava-a. + +--Vamos um bocado até alli abaixo, Juliana. A noite está tão bonita! + +--Rica, minha senhora! + +Foram pela rua de S. Roque. E como guiados pelas duas linhas de pontos +de gaz, que desciam a rua do Alecrim, o seu pensamento, o seu desejo +foram logo para o _Hotel Central_. + +Estaria em casa? Pensaria n'ella? Se podesse ir surprehendel-o de +repente, atirar-se-lhe aos braços, vêr as suas malas... Aquella idéa +fazia-a arfar. Entraram na praça de Camões. Gente passeava devagar; sob +a sombra mais escura que faziam as arvores cochichava-se pelos bancos; +bebia-se agua fresca; claridades cruas de vidraças, de portas de lojas +destacavam em redor no tom escuro da noite: e no rumor lento das ruas +em redor, sobresahiam as vozes agudas dos vendedores de jornaes. + +Então um sujeito com um chapéo de palha passou tão rente d'ella, tão +intencionalmente que Luiza teve medo.--Era melhor voltarem--disse. + +Mas ao meio da rua de S. Roque o chapéo de palha reappareceu, roçou +quasi o hombro de Luiza; dous olhos repolhudos dardejaram sobre ella. + +Luiza ia desesperada: o tic-tac das suas botinas batia vivamente a lage +do passeio; de repente, ao pé de S. Pedro d'Alcantara, de sob o chapéo +de palha sahiu uma voz adocicada e brazileira, dizendo-lhe junto ao +pescoço: + +--Aonde mora, ó menina? + +Agarrou aterrada o braço de Juliana. + +A voz repetiu: + +--Não se agaste, menina, aonde mora? + +--Seu malcriado!--rugiu Juliana. + +O chapéo de palha immediatamente desappareceu entre as arvores. + +Chegaram a casa a arquejar. Luiza tinha vontade de chorar; deixou-se +cahir na _causeuse_, esfalfada, infeliz. Que imprudencia, pôr-se +a passear pelas ruas de noite, com uma criada! Estava douda, +desconhecia-se. Que dia aquelle! E recordava-o desde pela manhã: o +_lunch_, o _champagne_ bebido pelos beijos de Bazilio, os seus delirios +libertinos, que vergonha! e ir a casa de Leopoldina, de noite, e ser +tomada na rua por uma mulher do Bairro Alto!... De repente lembrou-lhe +Jorge no Alemtejo trabalhando por ella, pensando n'ella... Escondeu o +rosto entre as mãos, detestou-se, os seus olhos humedeceram-se. + + +Mas na manhã seguinte acordou muito alegre. Sentia, sim, uma vaga +vergonha de todas as suas «tolices» da vespera, e como a sensação +indefinida, palpite ou presentimento, de que não devia ir ao _Paraiso_. +O seu desejo, porém, que a impellia para lá vivamente, forneceu-lhe +logo razões: era desapontar Bazilio, a não ir hoje não devia voltar, e +então romper... Além d'isso a manhã muito linda attrahia para a rua: +chovera de noite, o calor cedera; havia nos tons da luz e do azul uma +frescura lavada e dôce. + +E ás onze e meia descia o Moinho de Vento, quando viu a figura digna do +conselheiro Accacio que subia da rua da Rosa, devagar, com o guarda-sol +fechado, a cabeça alta. + +Apenas a avistou apressou-se, curvou-se profundamente: + +--Que encontro verdadeiramente feliz!... + +--Como está, Conselheiro? Ditosos olhos que o vêem! + +--E v. exc.^a, minha senhora? Vejo-a com excellente aspecto! + +Passou-lhe á esquerda com um movimento solemne, pôz-se a caminhar ao +lado d'ella. + +--Permitte-me de certo que a acompanhe na sua excursão? + +--De certo, com o maior prazer. Mas que tem feito? Tenho muito que lhe +ralhar... + +--Estive em Cintra, minha querida senhora.--E parando:--Não sabia? O +_Diario de Noticias_ especificou-o! + +--Mas depois de vir de Cintra? + +Elle acudiu: + +--Ah! tenho estado occupadissimo! Occupadissimo! Inteiramente absorvido +na compilação de certos documentos que me eram indispensaveis para o +meu livro...--E depois d'uma pausa:--Cujo nome não ignora, creio. + +Luiza não se recordava inteiramente. O Conselheiro então expôz o +titulo, os fins, alguns nomes de capitulos, a utilidade da obra: era +a DESCRIPÇÃO PITORESCA DAS PRINCIPAES CIDADES DE PORTUGAL E SEUS MAIS +FAMOSOS ESTABELECIMENTOS. + +--É um guia, mas um guia scientifico. Illustrarei com um exemplo: V. +exc.^a quer ir a Bragança: sem o meu livro é muito natural (direi, é +certo) que volta sem ter gozado das curiosidades locaes; com o meu +livro percorre os edificios mais notaveis, recolhe um fundo muito +solido d'instrucção, e tem ao mesmo tempo o prazer. + +Luiza mal o escutava, sorrindo vagamente sob o seu véo branco. + +--Está hoje muito agradavel!--disse ella. + +--Agradabilissimo! Um dia creador! + +--Que bom fresco aqui! + +Tinham entrado em S. Pedro d'Alcantara; um ar dôce circulava entre as +arvores mais verdes; o chão compacto, sem pó, tinha ainda uma ligeira +humidade; e, apesar do sol vivo, o céo azul parecia leve e muito remoto. + +O Conselheiro então fallou do estio; tinha sido torrido! na sua sala +de jantar tinha havido 48 graus á sombra! 48 graus!--E com bonhomia, +querendo logo desculpar a sala d'aquella exageração canicular:--Mas é +que está exposta ao sul! façamos essa justiça! Está muito exposta ao +sul. Hoje porém está verdadeiramente restaurador. + +Convidou-a mesmo a dar uma volta em baixo no jardim. Luiza hesitava. +E o Conselheiro puxando o relogio, fitando-o de longe, declarou logo +que ainda não era meio dia. Estava certo pelo Arsenal, era um relogio +inglez.--Muito preferiveis aos suissos!--acrescentou com ar profundo. + +Cobardemente, por inercia, enervada pela voz pomposa do Conselheiro, +Luiza foi descendo, contrariada, as escadinhas para o jardim. De +resto--pensava--tinha tempo, tomaria um trem... + +Foram encostar-se ás grades. Através dos varões viam, descendo n'um +declive, telhados escuros, intervallos de pateos, cantos de muro com +uma ou outra magra verdura de quintal resequido; depois, no fundo do +valle, o Passeio estendia a sua massa de folhagem prolongada e oblonga, +onde a espaços branquejavam pedaços da rua areada. Do lado de lá +erguiam-se logo as fachadas inexpressivas da rua Oriental, recebendo +uma luz forte que fazia faiscar as vidraças: por traz iam-se elevando +no mesmo plano terrenos d'um verde crestado fechados por fortes muros +sombrios, a cantaria da Encarnação de um amarello triste, outras +construcções separadas, até ao alto da Graça coberta d'edificios +ecclesiasticos, com renques de janellinhas conventuaes e torres +d'igrejas, muito brancas sobre o azul: e a Penha de França, mais para +além, punha em relevo o vivo do muro caiado, d'onde sobresahia uma tira +verde-negra d'arvoredo. Á direita, sobre o monte pellado, o castello +assentava, atarracado, ignobilmente sujo: e a linha muito quebrada +de telhados, d'esquinas de casas da Mouraria e d'Alfama descia com +angulos bruscos até ás duas pesadas torres da Sé, d'um aspecto abbacial +e secular. Depois viam um pedaço do rio, batido da luz: duas velas +brancas passavam devagar: e na outra banda, á base de uma collina baixa +que o ar distante azulava, estendia-se a correnteza de casarias d'uma +povoaçãosinha d'um branco de cré luzidio. Da cidade um rumor grosso e +lento subia, onde se misturavam o rolar dos trens, o pesado rodar dos +carros de bois, a vibração metallica das carretas que levam ferraria, e +algum grito agudo de pregão. + +--Grande panorama!--disse o Conselheiro com emphase.--E encetou logo o +elogio da cidade. Era uma das mais bellas da Europa, de certo, e como +entrada, só Constantinopla! Os estrangeiros invejavam-na immenso. Fôra +outr'ora um grande emporio, e era uma pena que a canalisação fosse tão +má, e a edilidade tão negligente! + +--Isto devia estar na mão dos inglezes, minha rica senhora!--exclamou. + +Mas arrependeu-se logo d'aquella phrase impatriotica. Jurou que «era +uma maneira de dizer». Queria a independencia do seu paiz; morreria por +ella, se fosse necessario; nem inglezes nem castelhanos!... Só nós, +minha senhora!--E acrescentou com uma voz respeitosa:--E Deus! + +--Que bonito está o rio!--disse Luiza. + +Accacio affirmou-se, e murmurou em tom cavo: + +--O Tejo! + +Quiz então dar uma volta pelo jardim. Sobre os canteiros borboletas +brancas, amarellas, esvoaçavam; um gotejar d'agua fazia no tanque um +rhythmosinho de jardim burguez; um aroma de baunilha predominava; sobre +a cabeça dos bustos de marmore, que se elevam d'entre os maciços e as +moitas de dhalias, passaros pousavam. + +Luiza gostava d'aquelle jardimzinho, mas embirrava com as grades tão +altas... + +--Por causa dos suicidios!--acudiu logo o Conselheiro.--E +todavia, segundo a sua opinião, os suicidios em Lisboa diminuiam +consideravelmente; attribuia isso á maneira severa e muito louvavel +como a imprensa os condemnava... + +--Porque em Portugal, creia isto, minha senhora, a imprensa é uma força! + +--Se fossemos andando...?--lembrou Luiza. + +O Conselheiro curvou-se, mas vendo-a a ir colher uma flôr, reteve-lhe +vivamente o braço: + +--Ah, minha rica senhora, por quem é! os regulamentos são muito +explicitos! Não os infrinjamos, não os infrinjamos!--E acrescentou:--O +exemplo deve vir de cima. + +Foram subindo, e Luiza pensava:--Vai para casa, larga-me ao Loreto. + +Na rua de S. Roque espreitou o relogio d'uma confeitaria: era meia hora +depois do meio dia! Já Bazilio esperava! + +Apressou o passo, ao Loreto parou. O Conselheiro olhou-a, sorrindo, +esperando. + +--Ah! pensei que ia para casa, Conselheiro! + +--Já agora quero acompanhal-a, se v. exc.^a m'o permitte. De certo não +sou indiscreto? + +--Ora essa! De modo nenhum. + +Uma carruagem da Companhia passava, seguida d'um correio a trote. + +O Conselheiro, com um movimento ancioso, tirou profundamente o chapéo. + +--É o presidente do conselho. Não viu? Fez-me um signal de +dentro.--Começou logo o seu elogio: Era o nosso primeiro parlamentar; +vastissimo talento, uma linguagem muito castigada!--E ia de certo +fallar das cousas publicas, mas Luiza atravessou para os Martyres, +erguendo um pouco o vestido por causa d'uns restos de lama. Parou á +porta da igreja, e sorrindo: + +--Vou aqui fazer uma devoçãosinha. Não o quero fazer esperar. Adeus, +Conselheiro, appareça.--Fechou a sombrinha, estendeu-lhe a mão. + +--Ora essa, minha rica senhora! Esperarei, se vir que não se demora +muito. Esperarei, não tenho pressa.--E com respeito:--Muito louvavel +esse zelo! + +Luiza entrou na igreja desesperada. Ficou de pé debaixo do côro, +calculando:--Demoro-me aqui, elle cança-se d'esperar e vai-se! Por +cima reluziam vagamente os pingentes de crystal dos lustres. Havia +uma luz velada, igual, um pouco fôsca. E as architecturas caiadas, +a madeira muito lavada do soalho, as balaustradas lateraes de pedra +davam uma tonalidade clara e alvadia, onde destacavam os dourados da +capella, os frontaes rôxos dos pulpitos, ao fundo dous reposteiros d'um +rôxo mais escuro, e sob o docel côr de violeta os ouros do Throno. Um +silencio fresco e alto repousava. Diante do Baptisterio um rapaz de +joelhos, com um balde de zinco ao pé, esfregava o chão com uma rodilha, +discretamente: dorsos de beatas, encapotados ou cobertos de chales +tingidos, curvavam-se, aqui e além, diante d'um altar: e um velho, de +jaqueta de saragoça, prostrado no meio da igreja, rosnava rezas n'uma +molopéa lugubre; via-se a sua cabeça calva, as tachas enormes dos +sapatos, e a cada momento, dobrando-se, batia no peito com desespero. + +Luiza subiu ao altar-mór. Bazilio impacientava-se, de certo, pobre +rapaz! Perguntou então, timidamente, as horas a um sacristão que +passava. O homem ergueu a sua face côr de cidra para uma janela na +cupula, e olhando Luiza de lado: + +--Vai indo p'ra as duas. + +Para as duas! Era capaz de não esperar, Bazilio! Veio-lhe um receio +de perder a sua manhã amorosa, um desejo aspero de se achar no +_Paraiso_ nos braços d'elle! E olhava vagamente os santos, as virgens +trespassadas d'espadas, os Christos chagados,--cheia de impaciencias +voluptuosas, revendo o quarto, a caminha de ferro, o pequeno bigode de +Bazilio!... Mas demorou-se, queria «fatigar o Conselheiro, deixal-o +ir». Quando pensou que elle teria partido, sahiu devagarinho.--Viu-o +logo á porta, direito, com as mãos atraz das costas, lendo a pauta dos +jurados. + +Começou immediatamente a louvar a sua devoção. Não entrára porque não +quizera perturbar o seu recolhimento. Mas approvava-a muito! A falta de +religião era a causa de toda a immoralidade que grassava... + +--E além d'isso é de boa educação. V. exc.^a ha-de reparar que toda a +nobreza cumpre... + +Calou-se; aprumava a estatura, todo satisfeito de descer o Chiado com +aquella linda senhora, tão olhada. Mesmo, ao passar por um grupo, +curvou-se para ella mysteriosamente, disse-lhe ao ouvido, sorrindo: + +--Está um dia apreciavel! + +E offereceu-lhe bolos á porta do Baltreschi. Luiza recusou. + +--Sinto. Todavia acho muito sensata a regularidade nas comidas. + +A sua voz vinha agora a Luiza com a impertinencia d'um zumbido; apesar +de não fazer calor, abafava, picava-lhe o sangue no corpo; tinha +vontade de deitar a correr, de repente; e todavia caminhava devagar, +infeliz, como somnambula, cheia da necessidade de chorar. + +Sem razão, ao acaso, entrou no Valente. Era hora e meia! Depois +d'hesitar pediu gravatas de _foulard_ a um caixeiro louro e jovial. + +--Brancas? de côr? de riscas? com pintinhas? + +--Sim, verei, sortidas. + +Não lhe agradavam. Desdobrava-as, sacudia-as, punha-as de lado; e +olhava em roda vagamente, pallida... O caixeiro perguntou-lhe se estava +incommodada: offereceu-lhe agua, qualquer cousa... + +Não era nada; o ar é que lhe fazia bem; voltaria. Sahiu. O Conselheiro, +muito solicito, promptificou-se a acompanhal-a a uma boa pharmacia +tomar agua de flôr de laranja... Desciam então a rua Nova do Carmo, +e o Conselheiro ia affirmando que o caixeiro fôra muito polido: não +se admirava, porque no commercio havia filhos de boas familias: citou +exemplos. + +Mas vendo-a calada: + +--Ainda soffre? + +--Não, estou bem. + +--Temos dado um delicioso passeio! + +Foram ao comprido do Rocio, até ao fim. Voltaram, atravessaram-no +em diagonal. E pelo lado do Arco do Bandeira, aproximaram-se para a +rua do Ouro. Luiza olhava em redor, afflicta, procurava uma idéa, +uma occasião, um acontecimento--e o Conselheiro, grave a seu lado, +dissertava. A vista do theatro de D. Maria levára-o para as questões +da arte dramatica: tinha achado que a peça do Ernestinho era talvez +demasiado forte. De resto só gostava de comedias. Não que se não +enthusiasmasse com as bellezas d'um _Frei Luiz de Sousa_! mas a sua +saude não lhe permittia as agitações fortes. Assim por exemplo... + +Mas Luiza tivera uma idéa, e immediatamente: + +--Ah! esquecia-me! Tenho d'ir ao Vitry. Vou fazer chumbar um dente. + +O Conselheiro, interrompido, fitou-a. E Luiza, estendendo-lhe a mão, +com a voz rapida: + +--Adeus, appareça, hein?--E precipitou-se para o portal do Vitry. + +Subiu até ao primeiro andar, correndo, com os vestidos apanhados: +parou, arquejando: esperou: desceu devagar, espreitou á porta... A +figura do Conselheiro afastava-se direita, digna, para os lados das +secretarias. + +Chamou um trem. + +--A quanto puder!--exclamou. + +A carruagem entrou quasi a galope na ruasinha do _Paraiso_. Figuras +pasmadas appareceram á janella. Subiu, palpitante. A porta estava +fechada--e logo a cancella do lado abriu-se, e a voz dôce da patrôa +segredou: + +--Já sahiu. Ha-de haver meia hora. + +Desceu. Deu a sua morada ao cocheiro, e atirando-se para o fundo +do coupé, rompeu n'um chôro hysterico. Correu os _stores_ para se +esconder; arrancou o véo, rasgou uma luva, sentindo em si violencias +inesperadas, Então veio-lhe um desejo phrenetico de vêr Bazilio! Bateu +nos vidros desesperadamente, gritou: + +--Ao Hotel Central! + +Porque estava n'um d'aquelles momentos em que os temperamentos +sensiveis teem impulsos indomaveis; ha uma delicia colerica em +espedaçar os deveres e as conveniencias; e a alma procura sofregamente +o mal com estremecimentos de sensualidade! + +A parelha estacou, resvalando á porta do hotel. «O snr. Bazilio de +Brito não estava, o snr. visconde Reynaldo, sim». + +--Bem, para casa, para onde eu disse! + +O cocheiro bateu. E Luiza, sacudida por uma irritabilidade febril, +insultava o Conselheiro, o estafermo, o imbecil! maldizia a vida que +lh'os fizera conhecer, a elle e a todos os amigos da casa! vinha-lhe +uma vontade acre de mandar o casamento ao diabo, de fazer o que lhe +viesse á cabeça!... + +Á porta não tinha troco para o cocheiro. Espere!--disse, subindo +furiosa--Eu lhe mandarei pagar! + +--Que bicha!--pensou o cocheiro. + +Foi Joanna que veio abrir; e quasi recuou, vendo-a tão vermelha, tão +excitada. + +Luiza foi direita ao quarto: o _cuco_ cantava tres horas. Estava tudo +desarrumado; vasos de plantas no chão, o toucador coberto com um lençol +velho, roupa suja pelas cadeiras. E Juliana, com um lenço amarrado na +cabeça, varria tranquillamente, cantarolando. + +--Então vossê ainda não arrumou o quarto!--gritou Luiza. + +Juliana estremeceu áquella colera inesperada. + +--Estava agora, minha senhora! + +--Que estava agora vejo eu!--rompeu Luiza.--São tres horas da tarde e +ainda o quarto n'este estado! + +Tinha atirado o chapéo, a sombrinha. + +--Como a senhora costuma vir sempre mais tarde...--disse Juliana. + +E seus beiços faziam-se brancos. + +--Que lhe importa a que horas eu venho? Que tem vossê com isso? A +sua obrigação é arrumar logo que eu me levante. E não querendo, rua, +fazem-se-lhe as contas! + +Juliana fez-se escarlate e cravando em Luiza os olhos injectados: + +--Olhe, sabe que mais? não estou para a aturar! + +E arremessou violentamente a vassoura. + +--Sáia!--berrou Luiza--Sáia immediatamente! Nem mais um momento em casa! + +Juliana poz-se diante d'ella, e com palmadas convulsivas no peito, a +voz rouca: + +--Hei-de sahir se eu quizer! Se eu quizer! + +--Joanna!--bradou Luiza. + +Queria chamar a cozinheira, um homem, um policia, alguem! Mas Juliana +descomposta, com o punho no ar, toda a tremer: + +--A senhora não me faça sahir de mim! A senhora não me faça perder a +cabeça!--E com a voz estrangulada através dos dentes cerrados:--Olhe +que nem todos os papeis foram p'ra o lixo! + +Luiza recuou, gritou: + +--Que diz vossê? + +--Que as cartas que a senhora escreve aos seus amantes, tenho-as eu +aqui!--E bateu na algibeira, ferozmente. + +Luiza fitou-a um momento com os olhos desvairados, e cahiu no chão, +junto á _causeuse_, desmaiada. + + + + +VIII + + +A primeira impressão, mal acordada, de Luiza foi que duas figuras, +que não conhecia, estavam debruçadas sobre ella. Uma, a mais forte, +afastou-se; o som frio d'um frasco de vidro, pousado sobre o marmore do +toucador, despertou-a. Sentiu então uma voz dizer abafadamente: + +--Está muito melhor. Mas deu-lhe de repente, snr.^a Juliana? + +--De repente. + +--Eu vi-a entrar tão afogueada... + +Passos subtis pisaram o tapete, a voz de Joanna perguntou-lhe junto do +rosto: + +--Está melhor, minha senhora? + +Abriu os olhos, a percepção nitida das cousas foi-lhe voltando; estava +estendida na _causeuse_, tinham-lhe desapertado o vestido, e havia no +quarto um forte cheiro de vinagre. Ergueu-se sobre o cotovêlo, devagar, +com um olhar errante, vago: + +--E a outra?... + +--A snr.^a Juliana? Foi-se deitar. Tambem se não achava bem. Foi de vêr +a senhora, coitada... Está melhorzinha? + +Sentou-se. Sentia uma fadiga em todo o corpo; tudo no quarto lhe +parecia oscillar brandamente: + +--Póde ir, Joanna, póde ir--disse. + +--A senhora não precisa mais nada? Talvez um caldinho lhe fizesse bem... + +Luiza, só, pôz-se a olhar em roda, espantada. Estava já tudo arrumado, +as janellas cerradas. Uma luva ficára cahida no chão: ergueu-se, ainda +tropega, foi apanhal-a, esteve a esticar-lhe os dedos machinalmente, +como somnambula, pôl-a na gaveta do toucador. Alisou o cabello; +achava-se mudada, com _outra_ expressão como se fosse _outra_; e o +silencio do quarto impressionava-a, como extraordinario. + +--Minha senhora--disse a voz timida de Joanna. + +--Que é? + +--É o cocheiro. + +Luiza voltou-se, sem comprehender: + +--Que cocheiro? + +--Um cocheiro; diz que a senhora que não tinha troco, que o mandou +esperar... + +--Ah! + +E como a uma luz de gaz que salta subitamente e alumia uma decoração, +viu, n'um relance, toda a «sua desgraça»! + +Ficou tão tremula que mal podia abrir a gavetinha da commoda: + +--Tinha-me esquecido, tinha-me esquecido...--balbuciava. + +Deu o dinheiro a Joanna; e vindo cahir sobre a _causeuse_: + +--Estou perdida!--murmurou, apertando as mãos na cabeça. + +Tudo descoberto! E representaram-se-lhe logo no espirito, com a +intensidade de desenhos negros sobre um muro branco, o furor de Jorge, +o espanto dos seus amigos, a indignação d'uns, o escarneo dos outros; +e estas imagens cahindo com ruido na sua alma, como combustiveis n'uma +fogueira, ateavam-lhe desesperadamente o terror. + +Que lhe restava?--Fugir com Bazilio! + +Aquella idéa, a primeira, a unica, apossou-se d'ella impetuosamente, +trespassou-a--como a agua d'uma inundação que subitamente alaga um +campo. + +Elle tinha-lhe tantas vezes jurado que seriam tão felizes em Paris, no +seu _appartamento_ da rua Saint Florentin! Pois bem, iria! Não levaria +malas, poria no seu pequeno sacco de marroquim alguma roupa branca, as +joias da mamã... E os criados? a casa? Deixaria uma carta a Sebastião +para que viesse, fechasse tudo!... Levaria na viagem o vestido de +riscadinho azul--ou o preto! Mais nada. O resto compral-o-hia longe, +n'outras cidades... + +--Se a senhora quer vir jantar...--disse Joanna á porta do quarto. + +Tinha posto um avental branco, e acrescentou: + +--A snr.^a Juliana está deitada, diz que está com a dôr, não póde +servir á mesa. + +--Já vou. + +Tomou apenas uma colhér de sopa, bebeu um grande gole d'agua; e +erguendo-se: + +--Que tem ella? + +--Diz que é uma dôr muito forte no coração. + +Se morresse! Estava salva, ella! Podia ficar, então! E com uma +esperança perversa: + +--Vá vêr, Joanna, vá vêr como está! + +Tinha ouvido de tantas pessoas que morrem de uma dôr! Iria logo ao +quarto d'ella rebuscar-lhe a arca, apossar-se da carta! E não teria +medo do silencio da morte, nem da lividez do cadaver... + +--Está mais descançada, minha senhora--veio dizer a Joanna--diz que +logo que se levanta. Então a senhora não come mais nada? Credo! + +--Não. + +E entrou para o quarto, pensando:--de que serve estar a imaginar +cousas? Só me resta fugir. + +Decidiu-se logo a escrever a Sebastião; mas não pôde acertar com outras +palavras além do começo, no alto, n'uma letra muito trémula: _Meu +amigo!_ + +Para que havia de escrever? Quando ao outro dia ella não voltasse, nem +á tarde, nem á noite--as criadas, a _outra_, a infame! iriam logo a +Sebastião. Era o intimo da casa. Que espanto o d'elle! Imaginaria algum +accidente, correria á Encarnação, depois á policia, esperaria n'uma +angustia até de madrugada! Todo o dia seguinte seriam outras esperanças +de a vêr chegar, decepções aterradas,--até que telegrapharia a Jorge! +E a essa hora de certo, ella, encolhida no canto do wagon, rolaria, ao +ruido offegante da machina, para um destino novo!... + +Mas porque se affligia, por fim? Quantas invejariam a sua desgraça! +O que havia de infeliz em abandonar a sua vida estreita entre quatro +paredes, passada a examinar roes de cozinha e a fazer _crochet_, e +partir com um homem novo e amado, ir para Paris! para Paris! viver nas +consolações do luxo, em alcovas de sêda, com um camarote na Opera!... +Era bem tola em se affligir! Quasi fôra uma felicidade aquelle +«desastre»! Sem elle nunca teria tido a coragem de se desembaraçar da +sua vida burgueza; mesmo quando um alto desejo a impellisse, haveria +sempre uma timidez maior para a reter! + +E depois, fugindo, o seu amor tornava-se digno! Seria só d'um homem; +não teria de amar em casa e amar fóra de casa! + +Veio-lhe mesmo a idéa de ir ter immediatamente com Bazilio, «acabar com +aquillo por uma vez». Mas era tarde para ir ao hotel; temia as ruas +escuras, a noite, e os bebedos... + +Foi logo arranjar o sacco de marroquim. Metteu lenços, alguma roupa +branca, o estojo das unhas, o rosario que lhe dera Bazilio, pós +d'arroz, algumas joias que tinham pertencido á mamã... Quiz levar as +cartas de Bazilio tambem... Tinha-as guardadas n'um cofre de sandalo, +no gavetão do guarda-vestidos. Espalhou-as no regaço; abriu uma, d'onde +cahiu uma florzinha sêcca; outra que tinha, na dobra, a photographia +de Bazilio. De repente, pareceu-lhe que não estavam completas! Tinha +_sete_: _cinco_ bilhetes curtos, e _duas_ cartas--a primeira que elle +lhe escrevêra, tão terna! e a ultima no dia do arrufo! Contou-as... +Faltava, com effeito, a _primeira_, e _dous_ bilhetes! Tinha-lh'as +roubado, tambem!... Ergueu-se livida. Ah que infame! veio-lhe uma raiva +de subir ao sotão, luctar com ella, arrancar-lh'as, esganal-a!... +Que lhe importava, por fim!--E deixou-se cahir na _causeuse_, +aniquilada--Que ella tivesse uma, duas, todas--era a mesma desgraça! + +E muito excitada, foi preparar o vestido preto que devia levar, o +chapéo, um chale-manta... + +O _cuco_ cantou dez horas. Entrou então na alcova; pôz o castiçal +sobre a mesinha, ficou a olhar o largo leito com o seu cortinado de +fustão branco. Era a ultima vez que alli dormia! Fôra ella que bordára +aquella coberta de _crochet_ no primeiro anno de casada: não havia uma +malha que não correspondesse a uma alegria. Jorge ás vezes vinha vêl-a +trabalhar, e, calado, considerava-a com um sorriso, ou fallava-lhe +baixo enrolando devagar nos dedos o fio de algodão grosso! Alli dormira +com elle tres annos: o seu lugar era de lá, do lado da parede... Fôra +n'aquella cama que ella estivera doente, com a pneumonia. Durante +semanas elle não se deitára--a velal-a, a conchegar-lhe a roupa, a +dar-lhe os caldos, os remedios, com toda a sorte de palavras dôces +que lhe faziam tão bem!... Fallava-lhe como a criancinha pequena: +dizia-lhe: «isso vai passar, ámanhã estás boa, vamos passear». Mas o +seu olhar ancioso estava marejado de lagrimas! Ou então pedia-lhe: +«Melhora, sim? Faze-me a vontade, minha querida, melhora!...» E ella +queria tanto melhorar, que sentia como uma ligeira onda de vida que +voltava, lhe refrescava o sangue! + +Nos primeiros dias da convalescença era elle que a vestia; ajoelhava-se +para lhe calçar os sapatos, embrulhava-a no roupão, vinha estendel-a na +_causeuse_, sentava-se ao pé d'ella a lêr-lhe romances, desenhar-lhe +paizagens, recortar-lhe soldados de papel. E dependia toda d'elle, +não tinha mais ninguem no mundo para a tratar, para soffrer, chorar +por ella--senão elle! Adormecia sempre com as mãos nas suas, porque +a doença deixára-lhe um vago medo dos pesadêlos da febre; e o pobre +Jorge, para a não acordar, alli ficava com a mão presa, horas, sem se +mover. Deitava-se vestido n'um colxãosito ao pé d'ella. Muitas vezes, +acordando de noite, o tinha visto a limpar as lagrimas; d'alegria, de +certo, porque ella então estava salva! o medico, o bom dr. Caminha, +tinha-o dito: «Está livre de perigo, agora é refazer esse corpinho». E +Jorge, o pobre Jorge, coitado, sem dizer nada, tinha tomado as mãos do +velho,--tinha-as coberto de beijos! + +E agora, quando elle soubesse, quando elle voltasse! Quando ao entrar +alli na alcova--visse os dous travesseirinhos, ainda! Ella iria longe, +com outro, por caminhos estranhos, ouvindo outra lingua. Que horror! E +elle alli estaria, n'aquella casa só, chorando, abraçado a Sebastião. +Quantas memorias d'ella para o torturar! Os seus vestidos, as suas +chinellinhas, os seus pentes, toda a casa! Que vida triste, a d'elle! +Dormiria alli _só_! Já não teria ninguem para o acordar de manhã com um +beijinho, passar-lhe o braço pelo pescoço, dizer-lhe: _é tarde, Jorge!_ +Tudo acabára para ambos. Nunca mais!--Rompeu a chorar, de bruços sobre +a cama... + +Mas a voz de Juliana fallou alto no corredor com Joanna. Ergueu-se +aterrada. Viria ter com ella, aquella infame? Os passos achinellados +afastaram-se devagar, e Joanna entrou com o rol e com a lamparina. + +--A snr.^a Juliana--disse--levantou-se um momento, mas diz que ainda +está mal, coitada. Foi-se deitar. A senhora não precisa mais nada? + +--Não--disse da alcova. + +Despiu-se; e, prostrada, adormeceu profundamente. + + +Juliana em cima não dormia. A dôr passára-lhe--e agitava-se sobre o +enxergão, «com o diabo da espertina»! como tantas outras noites, nas +ultimas semanas. Porque desde que apanhára a carta no _sarcophago_ +vivia n'uma febre; mas a alegria era tão aguda, a esperança tão larga +que a sustentavam, lhe davam saude! Deus emfim tinha-se lembrado +d'ella! Desde que Bazilio começára a vir a casa, tivera logo um +palpite, uma cousa que lhe dizia que tinha chegado emfim a sua vez! +A primeira satisfação fôra n'aquella noite em que achára, depois +de Bazilio sahir ás dez horas, a travéssinha de Luiza cahida ao pé +do sophá. Mas que explosão de felicidade, quando, depois de tanta +espionagem, de tanta canceira, apanhou emfim a carta no _sarcophago_! +Correu ao sotão, leu-a avidamente, e quando viu a importancia da +«cousa» arrasaram-se-lhe os olhos de lagrimas, arremessou a sua alma +perversa para as alturas, bradando em si, n'um triumpho: + +--Bemdito seja Deus! Bemdito seja Deus! + +E que havia de fazer _áquillo_?--foi então a sua inquietação. Ora +pensava em a vender a Luiza por uma forte somma... mas onde tinha ella +o dinheiro? Não; o melhor era esperar a volta de Jorge, e com ameaças +de a publicar, extorquir-lhe _um rôr_ de libras por meio d'outra +pessoa, já se vê, e ella á capa! E em certos dias em que a figura, as +_toilettes_, as passeatas de Luiza a irritavam mais, vinham-lhe venetas +de sahir p'ra a rua, chamar os visinhos, lêr o papel, pôl-a mais rasa +que a lama, vingar-se da «cabra»! + +Foi a tia Victoria que a calmou, e a dirigiu. Disse-lhe logo «que para +a armadilha ser completa era necessario uma carta do janota». Começára +então o lento trabalho de lh'a apanhar! Fôra preciso muita finura, +muita chave experimentada, duas feitas por moldes de cêra, paciencia +de gato, habilidades de ratoneiro! Mas pilhou-a, e que carta! Tinha-a +lido com a tia Victoria--que rira, rira!... Sobre tudo o bilhete em +que Bazilio lhe dizia: «Hoje não posso ir, mas espero-te ámanhã ás +duas; mando-te essa rosinha, e peço-te que faças o que fizeste á outra, +trazel-a no seio, porque é tão bom quando vens assim, sentir-te o +peitinho perfumado!...» A tia Victoria, suffocada, quil-a mostrar á sua +velha amiga, a Pêdra, a Pêdra gorda, que estava na saleta. + +A Pêdra torceu-se! Os seus enormes seios, pendentes como odres mal +cheios, tinham sacudidellas furiosas de hilaridade. E com as mãos nas +ilhargas, rubra, roncando, com o seu vozeirão de trombone: + +--Essa é das boas, tia Victoria! Essa é de mestre. Não, isso merece ir +para os papeis! Ai os bebedos! Raios do diabo! + +A tia Victoria, então, disse muito seriamente a Juliana: + +--Bem; agora tens a faca e o queijo! Com isso já pódes fallar d'alto. +É esperar a occasião. Muito bons modos, cara prazenteira, sorrisos a +fartar para ella não desconfiar, e o olho álerta. Tens o rato seguro, +deixa-o dar ao rabo! + +E desde esse dia Juliana saboreava com delicias, com gula, muito +comsigo--aquelle gozo de a ter «na mão», a Luizinha, a senhora, a +patroa, a _piorrinha_! Via-a aperaltar-se, ir ao homem, cantarolar, +comer bem--e pensava com uma voluptuosidade felina: Anda, folga, folga, +que eu cá t'a tenho armada! Aquillo dava-lhe um orgulho perverso. +Sentia-se vagamente _senhora da casa_. Tinha alli fechada na mão a +felicidade, o bom nome, a honra, a paz dos patrões! Que desforra! + +E o futuro estava certo! _Aquillo_ era dinheiro, o pão da velhice. Ah! +tinha-lhe chegado o seu dia! Todos os dias rezava uma _Salvè-rainha_ de +graças a Nossa Senhora, mãi dos homens! + +Mas agora, depois d'aquella _scena_ com Luiza--não podia ficar de +braços cruzados, com as cartas na algibeira. Devia sahir de casa, +pôr-se em campo, fazer _alguma cousa_. O que? A tia Victoria é que +havia de dizer... + +Logo pela manhã ás sete horas, sem tomar o seu café, sem fallar a +Joanna, desceu devagar, sahiu. + +A tia Victoria não estava em casa. Gente na saleta esperava. O snr. +Gouvêa, com a borla do barretinho muito arrebitada, escrevinhava, +dobrado, cuspilhando o seu catarrho. Juliana deu os _bons dias_ em +redor, e sentou-se a um canto, direita, com a sua sombrinha nos joelhos. + +Conversava-se: e uma mulher de trinta annos, picada das bexigas, que +estava sentada no canapé, depois de ter dado um sorriso a Juliana, +continuou, voltada para uma gordita com um chale de quadrados vermelhos: + +--Pois não imagina, snr.^a Anna, não faz idéa! É uma desgraça! É todas +as noites como um carro. Ás vezes até acordo com o barulho que elle faz +a fallar só, a tropeçar na escada... Eu, do que tenho mais medo, é que +o demonio adormeça com a luz e haja um fogo. Ah! é de todo! + +--Quem?--perguntou um rapazola bonito, com uma blusa de trintanario, +que fallava de pé a um criado alto, de suiças e gravata branca +enxovalhada. + +--O Cunha, o filho do meu patrão. É uma desgraça! + +--Piteireiro, hein?--disse o rapazola, enrolando o cigarro. + +--Um horror! Eu pela manhã nem posso entrar no quarto, que é um +cheiro... A mãi, coitadinha, chora, rala-se; o rapaz já esteve para ser +posto fóra do emprego. Ai! não estou nada contente, nada contente! + +--Pois olhe que por lá tambem ha desgosto grande--disse, baixando a +voz, a do chale de quadrados. + +Os dous homens aproximaram-se. + +--O senhor--continuou ella com gestos aterrados--é um desafôro com a +cunhada!... A senhora sabe, e aquillo são questões de dia e de noite! +As duas irmãs andam n'uma bulha pegada. O homem toma as dôres da +rapariga, a mulher põe-se aos gritos... Ai! aquillo vem a acabar mal! + +--E então se a gente tem lá o seu descuido--disse o da gravata branca +com indignação--é aqui d'el-rei, e d'aqui e d'alli! + +--Lá a sua gente é socegada, snr. João--observou a picada das bexigas. + +--É boa gente. As raparigas namoradeiras... Proveito das criadas, +apanham o seu vestidito, a sua placa... Mas os velhotes é uma santa +gente, a verdade é a verdade! E come-se bem! + +E voltando-se para o trintanario, batendo-lhe no hombro, com uma voz +que o admirava e que o invejava: + +--Mas isto sim! Isto é que é leval-a! + +O rapazola sorriu com satisfação: + +--Ora! são mais as vozes do que as nozes! + +--Vá lá, mostra lá--disse o da gravata branca tocando-lhe com o +cotovêlo--mostra lá! + +O rapaz fez-se rogado, e depois de gingar da cintura, arregaçando a +blusa, tirou do bolso do collete de riscadinho um relogio d'ouro. + +--Muito bonito! Rica prenda!--disseram as duas mulheres. + +--Suor do meu rosto--fez elle, acariciando o queixo. + +O da gravata branca indignou-se: + +--Ora seu marôto!--E baixo para as raparigas:--Suor do seu rosto, +hein!--É o seraphim da patrôa, uma senhora da alta que aquillo são tudo +sêdas, muitissimo boa mulher, um bocado entradota, mas muitissimo boa +mulher, recebe d'estas lembranças, um relogio d'um par de moedas--e +ainda falla! + +O rapazola disse então, enterrando as mãos na algibeira: + +--E se quizer agora, ha-de largar a corrente! + +--Ha-de-lhe custar muito!--exclamou o da gravata branca.--Uma gente que +tem ahi pela baixa correntezas de casas! Metade da rua dos Retrozeiros +é d'ella! + +--Mas muito agarrada!--disse o rapazola. E bamboleando o corpo, com o +cigarro ao canto da bocca:--Estou com ella ha dous mezes, e ainda se +não desabotoou senão com o relogio e tres libras em ouro!... Que eu, +como quem diz, um dia passo-lhe o pé!--E cofiando o cabello para a +testa:--Não faltam mulheres! e das que tem _Dom_! + +Mas a tia Victoria entrou, muito azafamada, com o chale no braço; e +vendo Juliana: + +--Olá! por cá! Tive que dar umas voltas, estou na rua desde as seis. +Bons dias, snr.^a Theodosia; bons dias, Anna. Viva, temos por cá o +alfenim! Entra cá p'ra dentro, Juliana! Eu já venho, meus pombinhos, é +um instante! + +Levou-a para o outro quarto, para o lado do saguão: + +--E então, que ha de novo? + +Juliana pôz-se a contar longamente a _scena_ da vespera, o desmaio... + +--Pois minha rica--disse a tia Victoria--o que está feito, está feito; +não ha tempo a perder; é mãos á obra! Tu vaes ao Brito, ao hótel, e +entendes-te com elle. + +Juliana recusou-se logo: não se atrevia, tinha medo... + +A tia Victoria reflectiu, coçando o ouvido; foi dentro, cochichou com o +tio Gouvêa, e voltando, fechando a porta do quarto: + +--Arranja-se quem vá. Tens tu as cartas? + +Juliana tirou da algibeira uma velha carteirinha de marroquim +escarlate. Mas hesitou um momento, olhou a tia Victoria com +desconfiança. + +--Tens medo de largar os papeis, creatura?--exclamou offendida a +velha.--Arranja-te tu, então arranja-te tu... + +Juliana deu-lh'as logo. Mas que as guardasse, que tivesse cautela!... + +--A pessoa--disse a tia Victoria--vai ámanhã á noite fallar com o +Brito, e pede-lhe um conto de reis! + +Juliana teve um deslumbramento. Um conto de reis! A tia Victoria estava +a brincar! + +--Ora essa! Que pensas tu? Por uma carta, que quasi não tinha mal +nenhum, pagou uma pessoa que bate ahi o Chiado de carruagem--ainda +hontem a vi com uma pequerrucha que tem--pagou trezentos mil reis. E em +bellas notas. Pagou-os o janota, já se sabe, foi o janota que pagou. Se +fosse outro, não digo, mas o Brito! É rico, é um man-rôtas, cahe logo... + +Juliana, muito branca, agarrou-lhe o braço, tremula: + +--Oh tia Victoria, dava-lhe um córte de sêda. + +--Azul! até já te digo a côr! + +--Mas o Brito é homem muito teso, tia Victoria, se lhe tira as cartas, +se lhe faz alguma! + +A tia Victoria fitou-a, com desdem: + +--Sahes-me uma simploria! Imaginas que eu mando lá algum tolo? Nem as +cartas vão, o que vai é uma copia! Olha quem! O melro que lá ha-de ir! + +E depois de reflectir um momento: + +--Tu vai-te para casa... + +--Não, lá isso não volto... + +--Tambem tens razão. Até vêr em que param as modas, vem cá dormir. +Jantas cá hoje; tenho uma rica pescada... + +--Mas não haverá perigo, tia Victoria, se o Brito vai á policia... + +A tia Victoria encolheu os hombros, e impacientada: + +--Olha, vai-te, que me estás a emphrenesiar! Policia! Qual policia! +Essas cousas levam-se lá á policia... Deixa a cousa commigo! Adeus--e +ás quatro para jantar, hein! + +Juliana sahiu como levada pelo ar! Um conto de reis! _Era o conto de +reis_ que voltava, o que já um dia entrevira, que lhe fugira, que lhe +vinha agora cahir na mão, com um tlin-tlin de libras e um _frou-frou_ +de notas! E o cerebro enchia-se-lhe confusamente de perspectivas +differentes, todas maravilhosas: um mostrador de capellista onda ella +venderia! um marido ao seu lado, ás horas da cêa! pares de botinas das +boas, das _chics_. Onde poria o dinheiro? No Banco? Não; no fundo da +arca--para estar mais seguro, mais á mão! + +Para passar a sua manhã, comprou uma quarta de rebuçados, e foi-se +sentar no Passeio, com a sombrinha aberta, deliciando-se, ruminando +já a sua vida rica, julgando-se já senhora; mesmo fez olho a um +proprietario pacifico e rubicundo--que se afastou escandalisado! + +Áquella hora Luiza acordava. E sentando-se bruscamente na cama:--É +hoje!--foi o seu primeiro pensamento. Um susto, uma tristeza horrivel +contrahiram-lhe o coração. Começou depois a vestir-se, muito nervosa +com a idéa de vêr Juliana! Estava mesmo imaginando fechar-se, não +almoçar, sahir pé ante pé ás onze horas, ir procurar Bazilio ao hotel, +quando a voz de Joanna disse á porta do quarto: + +--A senhora faz favor? + +Começou logo a contar, muito espantada, que a snr.^a Juliana tinha +sahido de manhã, ainda não voltára, estava tudo por arrumar... + +--Bem, arranje-me o almoço, eu já vou...--Que allivio para ella! + +Calculou logo que Juliana deixára a casa. Para que? Para lhe armar +alguma, de certo! O melhor era sahir immediatamente... Podia esperar +Bazilio no _Paraiso_. + +Foi á sala de jantar, bebeu um gole de chá, de pé, á pressa. + +--A snr.^a Juliana ter-lhe-ha dado alguma cousa?--veio dizer Joanna +assombrada. + +Luiza encolheu os hombros, respondeu vagamente: + +--Depois se saberá... + +Era hora e meia, foi pôr o chapéo. O coração batia-lhe alto, e +apesar do terror de vêr entrar Juliana, não se decidia a sahir; +sentou-se mesmo, com o sacco de marroquim nos joelhos. Vamos! pensou +emfim.--Ergueu-se; mas parecia que alguma cousa de subtil e de forte +a prendia, a enleava... Entrou na alcova devagar: o seu roupão +estava cahido aos pés da cama, as suas chinellinhas sobre o tapete +felpudo...--Que desgraça! disse alto. Veio ao toucador, mexeu nos +pentes, abriu as gavetas; de repente entrou na sala, foi ao album, +tirou a photographia de Jorge, metteu-a toda tremula no sacco de +marroquim, olhou ainda em roda como desvairada, sahiu, atirou com a +porta, desceu a escada correndo. + +Á Patriarchal passava um _coupé de praça_. Tomou-o, mandou-o ir ao +_Hotel Central_. + +O snr. Brito sahira logo de manhã cedo, disse o porteiro muito +azafamado. De certo algum paquete chegára, porque entravam bagagens, +fortes malas cobertas d'oleado, caixas de madeira debruadas de ferro; +passageiros com ar espantado da chegada, ainda entontecidos do balouço +do mar, fallavam, chamavam. Aquelle movimento animou-a: veio-lhe um +desejo de viagens, do ruido nocturno das _gares_ á claridade do gaz, da +agitação alegre das partidas nas manhãs frescas, sobre o tombadilho dos +paquetes! + +Deu ao cocheiro a adresse do _Paraiso_. E á maneira que o trem +trotava parecia-lhe que toda a sua vida passada, Juliana, a casa, +se esbatiam, se dissipavam n'um horisonte abandonado. Á porta d'um +livreiro julgou entrevêr Julião; debruçou-se pela portinhola, +precipitadamente; não o avistou, teve pena: ia-se sem vêr um amigo da +casa! Todos agora, Julião, Ernestinho, o Conselheiro, D. Felicidade lhe +pareciam adoraveis, com qualidades nobres, que nunca percebera, que +repentinamente tomavam um grande encanto. E o pobre Sebastião, tão bom! +Nunca mais lhe ouviria tocar a sua _Malaguenha_! + +Ao fim da rua do Ouro o _coupé_ parou n'um embaraço de carroças, +e Luiza viu no passeio ao lado o Castro, o Castro dos oculos, o +banqueiro, o que Leopoldina lhe dizia que «tinha uma paixão por ella»: +um rapazito rôto offerecia-lhe cautelas; e o Castro nedio, com os dous +pollegares nas algibeiras do collete branco, dizia graças ao rapaz, com +um desdem ricaço, dardejando olhadellas sobre Luiza, através dos seus +oculos d'ouro. Ella, pelo canto do olho, observava-o: tinha uma paixão +por ella, aquelle homem, que horror! Achava-o medonho, com o seu ventre +pançudo, a perninha curta. A lembrança de Bazilio atravessou-a, a sua +linda figura!...--e bateu nos vidros impaciente, com pressa de o vêr. + +O trem partiu emfim. O Rocio reluzia ao sol; do Americano, parado á +esquina, gente descia apressada, de calças brancas, vestidos leves, +vinda de Belem, de Pedrouços; pregões cantavam.--Todos alli ficavam nas +suas familias, nas suas felicidades, só ella partia! + +Na rua Occidental, viu vir a D. Camilla--uma senhora casada com um +velho, illustre pelos seus amantes. Parecia gravida; e adiantava-se +devagar, com a face branca satisfeita, uma lassitude do corpo +arredondado, passeando um marmanjosinho de jaqueta côr de pinhão, +uma pequerrucha de sainhas tufadas, e adiante uma ama, vestida de +lavradeira, empurrava um carrinho de mão onde um bébé se babava. E +a Camilla, feliz, vinha tranquillamente pela rua expondo as suas +fecundidades adulteras! Era muito festejada, ninguem dizia mal d'ella; +era rica, dava _soirées_...--O que é o mundo!--pensava Luiza. + +O trem parou á porta do _Paraiso_, era meio dia. A portinha em cima +estava fechada: e a patrôa appareceu logo, ciciando que «sentia +muitissimo, mas só o senhor é que tinha a chavesinha, se a senhora +quizesse descançar...» N'este momento outra carruagem chegou, e Bazilio +appareceu galgando os degraus. + +--Até que emfim!--exclamou abrindo a porta.--Porque não vieste +hontem?... + +--Ah! se tu soubesses... + +E, agarrando-lhe os braços, cravando os olhos n'elle: + +--Bazilio, sabes, estou perdida! + +--Que ha? + +Luiza atirára o sacco de marroquim para o canapé, e, d'um folego, +contou-lhe a historia da carta apanhada nos papeis, as d'elle roubadas, +a _scena_ no quarto...--O que me resta é fugir. Aqui estou. Leva-me. Tu +disseste que podias, tens-l'o dito muitas vezes. Estou prompta. Trouxe +aquelle sacco, com o necessario, lenços, luvas... hein? + +Bazilio com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as +chaves, seguia attonito os seus gestos, as suas palavras. + +--Isso só a ti!--exclamou.--Que douda! Que mulher!--E muito +excitado:--Isso é lá questão de fugir? Que estás tu a fallar em fugir? +É uma questão de dinheiro. O que ella quer é dinheiro. É vêr quanto +quer, e pagar-se-lhe! + +--Não, não!--fez Luiza--Não posso ficar!--Tinha uma afflicção na voz. +A mulher venderia a carta, mas conservava o segredo: a todo o tempo +podia fallar, Jorge saber: estava perdida, não tinha coragem de voltar +para casa!--Não sinto um momento de descanço, em quanto estiver em +Lisboa. Partimos hoje, sim? Se não pódes, ámanhã. Eu vou para algum +hotel, aonde ninguem saiba, escondo-me esta noite. Mas, ámanhã vamos. +Se elle sabe, mata-me, Bazilio! Sim, dize que sim!--Agarrára-se a elle, +procurava avidamente com os seus olhos o consentimento dos d'elle. + +Bazilio desprendeu-se brandamente: + +--Estás douda, Luiza, tu não estás em ti! Póde lá pensar-se em fugir! +Era um escandalo atroz, eramos apanhados de certo, com a policia, com +os telegraphos! É impossivel! Fugir é bom nos romances! E depois, minha +filha, não é um caso para isso! É uma simples questão de dinheiro... + +Luiza fazia-se branca, ouvindo-o. + +--E além d'isso--continuou Bazilio, muito agitado, pelo quarto--eu +não estou preparado, nem tu! Não se foge assim. Ficas desacreditada +para toda a vida, sem remedio, Luiza. Uma mulher que foge, deixa de +ser a snr.^a D. Fulana, é a Fulana, a que fugiu, a desavergonhada, uma +concubina! Eu tenho de certo de ir ao Brazil, onde has-de tu ficar? +Queres ir tambem, um mez n'um beliche, arriscar-te á febre amarella? +E se teu marido nos persegue se formos detidos na fronteira? Achas +bonito voltar entre dous policias, e ir passar um anno ao Limoeiro? O +teu caso é simplicissimo. Entendes-te com essa creatura, dá-se-lhe um +par de libras, que é o que ella quer, e ficas em tua casa, socegada, +respeitada como d'antes--sómente mais acautelada! Aqui está! + +Aquellas palavras cahiam sobre os planos de Luiza, como machadadas que +derrubam arvores. Ás vezes a verdade que ellas continham atravessava-a +irresistivelmente, viva como um relampago, desagradavel como um gume +frio. Mas via n'aquella recusa uma ingratidão, um abandono. Depois +de se ter installado, pela imaginação, n'uma segurança feliz, longe, +em Paris--parecia-lhe intoleravel ter de voltar para casa, de cabeça +baixa, soffrer Juliana, esperar a morte; e os contentamentos que +entrevira n'aquelle outro destino, agora que lhe fugiam d'entre as +mãos, pareciam-lhe maravilhosos, quasi indispensaveis! E depois de que +servia resgatar a carta a dinheiro? A creatura saberia o seu segredo! +E a vida seria amarga, tendo sempre em volta de si aquelle perigo a +rondar! + +Ficára calada, como perdida n'uma reflexão vaga; e de repente erguendo +a cabeça, com um olhar brilhante: + +--Então, dize!... + +--Mas estou-te a dizer, filha... + +--Não queres? + +--Não!--exclamou Bazilio com força.--Se tu estás douda, não estou eu! + +--Oh! pobre de mim, pobre de mim! + +Deixou-se cahir no sophá, tapou o rosto com as mãos. Soluços baixos +sacudiam-lhe o peito. + +Bazilio sentou-se ao pé d'ella. Aquellas lagrimas mortificavam-no, e +impacientavam-no. + +--Mas, santo nome de Deus, escuta-me! + +Ella voltou para elle os olhos que reluziam sob o pranto: + +--Para que dizias então, tantas vezes, que seriamos tão felizes, que se +eu quizesse... + +Bazilio ergueu-se bruscamente: + +--Pois tu pensaste em fugir, em te metter commigo n'um wagon, vir para +Paris, viver commigo, ser a minha amante? + +--Sahi de casa p'ra sempre, ahi está o que eu fiz! + +--Mas vaes voltar p'ra casa!--exclamou elle, quasi com colera.--Por que +havias de tu fugir? por amor? então deviamos ter partido ha um mez, não +ha razão agora para irmos. Para que, então? Para evitar um escandalo? +com um escandalo maior, não é verdade? um escandalo irreparavel, +medonho! Estou-te a fallar como um amigo, Luiza!--Tomou-lhe as mãos, +com muita ternura:--Tu imaginas que eu não seria feliz em ir viver +comtigo para Paris? Mas vejo os resultados, tenho outra experiencia. O +escandalo todo evita-se com umas poucas de libras. Tu imaginas que a +mulher vai-se pôr a fallar? O seu interesse é safar-se, desapparecer; +sabe perfeitamente o que fez, que te roubou, que usou de chaves falsas. +A questão é pagar-lhe. + +Ella disse, com uma voz lenta: + +--E o dinheiro, onde o tenho eu? + +--Está claro que o dinheiro tenho-o eu!--E depois de uma pausa:--Não +muito, estou mesmo um pouco atrapalhado, mas emfim...--Hesitou, +disse:--se a creatura quizer duzentos mil reis, dão-se-lhe! + +--E se não quizer? + +--Que ha-de ella querer, então? Se roubou a carta é para a vender! Não +é para guardar um autographo teu! + +Vinham-lhe palavras duras, passeava pelo quarto exasperado. Que +pretensão querer vir com elle para Paris, embaraçar-lhe para sempre +a sua vida! E que despeza tão tola, dar um 'rôr de libras a uma +ladra! Depois aquelle incidente, a carta de namoro roubada nos papeis +sujos, a criada, a chave falsa do gavetão dos vestidos--parecia-lhe +soberanamente burguez, um pouco pulha. E parando, para acabar: + +--Emfim oferece-lhe trezentos mil reis, se quizeres. Mas pelo amor +de Deus, não faças outra; não estou para pagar as tuas distracções a +trezentos mil reis cada uma! + +Luiza fez-se livida, como se elle lhe tivesse cuspido no rosto. + +--Se é uma questão de dinheiro, eu o pagarei, Bazilio! + +Não sabia como. Que lhe importava! Pediria, trabalharia, empenharia... +Não o aceitaria d'elle! + +Bazilio encolheu os hombros: + +--Estás-te a dar ares, onde o tens tu? + +--Que te importa?--exclamou. + +Bazilio coçou a cabeça, desesperado. E tomando-lhe as mãos, com uma +impaciencia reprimida: + +--Estamos a dizer tolices, filha, estamos a irritar-nos... Tu não tens +dinheiro. + +Ella interrompeu-o, agarrou-lhe violentamente o braço: + +--Pois sim, mas falla tu a essa mulher, falla-lhe tu, arranja tudo. Eu +não a quero tornar a vêr. Se a vejo, morro, acredita. Falla-lhe tu! + +Bazilio recuou vivamente, e batendo com o pé: + +--Estás douda, mulher! Se eu lhe fallo, então pede tudo, então pede-me +a pelle! Isso é comtigo. Eu dou-te o dinheiro, tu arranja-te! + +--Nem isso me fazes? + +Bazilio não se conteve: + +--Não! c'os diabos, não! + +--Adeus! + +--Tu estás fóra de ti, Luiza! + +--Não. A culpa é minha--dizia, descendo o véo com as mãos tremulas--eu +é que devo arranjar tudo! + +E abriu a porta. Bazilio correu a ella, prendeu-a por um braço. + +--Luiza, Luiza! o que queres tu fazer? não podemos romper assim! +Escuta... + +--Fujamos então, salva-me de todo!--gritou ella, abraçando-o +anciosamente. + +--Caramba! Se te estou a dizer que não é possivel! + +Ella atirou com a porta, desceu as escadas correndo. O coupé esperava-a. + +--Para o Rocio--disse. + +E deitando-se para o canto da carruagem, rompeu a chorar +convulsivamente. + + +Bazilio sahiu do _Paraiso_ muito agitado. As pretensões de Luiza, os +seus terrores burgueses, a trivialidade reles do caso, irritavam-no +tanto, que tinha quasi vontade de não voltar ao _Paraiso_, calar-se, e +_deixar correr o marfim_! Mas tinha pena d'ella, coitada! E depois, sem +a amar appetecia-a: era tão bem feita, tão amorosa, as revelações do +vicio davam-lhe um delirio tão adoravel! Um conchegosinho tão picante +em quanto estivesse em Lisboa... Maldita complicação! Ao entrar no +hotel, disse ao seu criado: + +--Quando vier o snr. visconde Reynaldo, que vá ao meu quarto. + +Estava alojado no segundo andar, com janellas para o rio. Bebeu um +calix de cognac, e estirou-se no sophá. Ao pé, na jardineira, tinha o +seu _buvard_ com um largo monogramma em prata sob a corôa de conde, +caixas de charutos, os seus livros--_Mademoiselle Giraud ma femme_, +_La vierge de Mabille_, _Ces Frippones! Memoires secrètes d'une femme +de chambre_, _Le chien d'arrêt_, _Manuel du chasseur_, numeros do +_Figaro_, a photographia de Luiza, e a photographia d'um cavallo. + +E soprando o fumo do charuto, começou a considerar, com horror, a +«situação»! Não lhe faltava mais nada senão partir para Paris, com +aquelle trambolhosinho! Trazer uma pessoa, havia sete annos, a sua +vida tão arranjadinha, e patatrás! embrulhar tudo, porque á menina +lhe apanharam a carta de namoro e tem medo do esposo! Ora o descaro! +No fim, toda aquella aventura desde o começo fôra um erro! Tinha sido +uma idéa de burguez inflammado ir desinquietar a prima da Patriarchal. +Viera a Lisboa para os seus negocios, era tratal-os, aturar o calor +e o _b[oe]uf à la mode_ do Hotel Central, tomar o paquete, e mandar +a patria ao inferno!... Mas não idiota! Os seus negocios tinham-se +concluido,--e elle, burro, ficára alli a torrar em Lisboa, a gastar uma +fortuna em tipoias para o largo de Santa Barbara, para quê? Para uma +d'aquellas! Antes ter trazido a Alphonsine! + +Que, verdade, verdade, em quanto estivesse em Lisboa o romance era +agradavel, muito excitante; porque era muito completo! Havia o +adulteriosinho, o incestosinho. Mas aquelle episodio agora estragava +tudo! Não, realmente, o mais razoavel era safar-se! + +A sua fortuna tinha sido feita com negocio de borracha, no alto +Paraguay; a grandeza da especulação trouxera a formação d'uma +companhia, com capitaes brazileiros; mas Bazilio e alguns engenheiros +francezes queriam resgatar as acções brazileiras, «que eram um +_empecilho_», formar em Paris uma outra companhia, e dar ao negocio +um movimento mais ousado. Bazilio partira para Lisboa entender-se com +alguns brazileiros, e comprára as acções habilmente. A prolongação +d'aquelle incidente amoroso tornava-se uma perturbação na sua vida +pratica... E, agora que a aventura tomava um aspecto seccante, convinha +passar o pé! + +A porta abriu-se e o visconde Reynaldo entrou--afogueado, de lunetas +azues, furioso. + +Vinha de Bemfica! Morto, absolutamente morto com aquelle calor, d'um +paiz de negros. Tivera a estupida idéa de ir visitar uma tia--que o +fizera logo membro d'uma associação para não sei que diabo de que +creche, e que lhe prégára moral! Tambem que idéa de collegial--ir +visitar a tia! Porque realmente, se havia uma cousa que lhe causasse +repugnancia, eram as ternuras de familia! + +--E tu, que queres tu? Eu vou-me metter n'um banho até ao jantar! + +--Sabes o que me succede?--disse Bazilio, erguendo-se. + +--O quê? + +--Imagina. O caso mais estupido. + +--O marido apanhou-te? + +--Não, a criada! + +--_Shocking!_--exclamou Reynaldo com nôjo. + +Bazilio contou miudamente «o caso». E cruzando os braços diante d'elle: + +--E agora? + +--Agora é safar-te! + +E levantou-se. + +--Onde vaes tu? + +--Vou ao banho. + +Que esperasse, que diabo, queria fallar com elle... + +--Não posso!--exclamou Reynaldo com um egoismo phrenetico.--Vem tu cá +abaixo! Posso perfeitamente conversar na agua! + +Sahiu, berrando por William, o seu criado inglez. + +Quando Bazilio desceu aos banhos, Reynaldo estirado com voluptuosidade +na tina, d'onde sahia um forte cheiro d'agua de Lubin, exclamou, +deleitando-se no seu conforto: + +--Então cartinha apanhada nos papeis sujos! + +--Não, Reynaldo, mas francamente estou embaraçado; que achas tu que eu +faça? + +--As malas, menino! + +E sentado na tina, ensaboando devagar o seu corpo magro: + +--Ahi está o que é fazer amor ás primas da Patriarchal Queimada! + +--Oh!--fez Bazilio, impaciente. + +--Oh quê?--E, coberto de flocos d'espuma, com as mãos apoiadas ao +rebordo de marmore da tina:--Pois tu achas isso decente, uma mulher +que toma a cozinheira por confidente, que lhe está na mão, que perde a +carta nos papeis sujos, que chora, que pede duzentos mil reis, que se +quer safar--isso é lá amante, isso é lá nada! Uma mulher que, como tu +mesmo disseste, usa meias de tear! + +--Meu rico, é uma mulher deliciosa! + +O outro encolheu os hombros, descrente. + +Bazilio deu logo provas: descreveu bellezas do corpo de Luiza; citou +episodios lascivos. + +O tecto e os tabiques envernizados de branco reflectiam a luz, com tons +macios de leite; a exhalação da agua tepida augmentava o calor morno; e +um cheiro fresco de sabão e agua de Lubin adoçava o ar. + +--Bem! estás pelo beiço--resumiu Reynaldo com tedio, estirando-se. + +Bazilio teve um movimento d'hombros, que repellia aquella supposição +grotesca. + +--Mas dize, então, queres ficar-lhe agarrado ás saias ou queres +desembaraçar-te d'ella? Mas a verdade, venha a verdade! + +--Eu--disse logo Bazilio, chegando-se á tina, baixo--se me podesse +desembaraçar decentemente... + +--Oh desgraçado! tens uma occasião divina! Ella sahiu como uma bicha, +dizes tu. Bem; escreve-lhe uma carta, «que vendo que ella deseja +romper, não a queres importunar, e partes». Os teus negocios estão +concluidos, não é verdade? Escusas de negar, o Lapierre disse-me que +sim. Bem, então sê decente: manda fazer as malas, e livra-te da sarna! + +E tomando a esponja, deixava cahir grandes golpes d'agua pela cabeça, +pelos hombros, soprando, regalado na frescura aromatica. + +--Mas tambem--disse Bazilio--deixal-a agora n'aquella atrapalhação com +a criada! No fim é minha prima... + +Reynaldo agitou os braços, com hilaridade. + +--Esse espirito de familia é optimo! Vai lá, idiota, dize-lhe que és +obrigado a partir, os teus negocios, etc., e mette-lhe umas poucas de +notas na mão. + +--É brutal... + +--É caro! + +Bazilio disse então: + +--Olha que tambem é uma dos diabos, a pobre rapariga apanhada pela +criada... + +Reynaldo estirou-se mais, e disse com jubilo: + +--Estão a estas horas a esgadanharem-se uma á outra! + +Recostou-se, n'uma beatitude: quiz saber as horas; declarou que estava +confortavel, que se sentia feliz! Com tanto que o John se não tivesse +esquecido de _frapper_ o champagne! + +Bazilio torcia o bigode, calado. Revia a sala de Luiza de reps verde, +a figura horrivel de Juliana com a sua enorme cuia... Estariam com +effeito a ralhar, a descompôr-se? Que _pulhice_ que era tudo aquillo! +Positivamente devia partir. + +--Mas que pretexto lhe hei-de eu dar para sahir de Lisboa? + +--Um telegramma! Não ha nada como um telegramma! Telegrapha já ao teu +homem em Paris, ao Labachardie, ou Labachardette, ou o que é, que te +mande logo este despacho: «Parta, negocios maus, etc.» É o melhor! + +--Vou fazel-o--disse Bazilio erguendo-se, muito decidido. + +--E partimos ámanhã?--gritou Reynaldo. + +--Ámanhã. + +--Por Madrid? + +--Por Madrid. + +--_Salero!_--Pôz-se de pé, na tina, enthusiasmado, a escorrer, e +com movimentos aduncos de magricella saltou para fóra, embrulhou-se +no roupão turco. O seu criado William entrou logo, subtilmente, +ajoelhou-se, tomou-lhe um pé entre as mãos, seccou-lh'o com precauções, +pôz-se respeitosamente a calçar-lhe a meia de sêda preta com +ferradurinhas bordadas. + + +Na manhã seguinte, um pouco antes do meio dia, Joanna veio bater +discretamente á porta do quarto de Luiza, e com a voz baixa--desde o +desmaio fallava-lhe sempre baixo, como a uma convalescente: + +--Está alli o primo da senhora. + +Luiza ficou surprehendida. Estava ainda de _robe de chambre_, e tinha +os olhos vermelhos de chorar; pôz n'um instante um pouco de pó d'arroz, +alisou o cabello, entrou na sala. + +Bazilio, vestido de claro, sentára-se melancolicamente no môcho do +piano. Trazia um ar grave, e, sem transição, começou a dizer:--que +apesar d'ella se ter zangado na vespera, elle considerava ainda tudo +«como d'antes». Viera porque n'aquelle momento não se podiam separar +sem algumas explicações, sobretudo sem resolver definitivamente o caso +da carta... E com um gesto triste, como contendo lagrimas: + +--Porque eu vejo-me forçado a sahir de Lisboa, minha querida! + +Luiza, sem olhar para elle, fez um sorriso mudo, muito desdenhoso. +Bazilio acrescentou logo: + +--Por pouco tempo, naturalmente, tres semanas ou um mez... Mas enfim +tenho de partir... Se fossem só os meus interesses!--Encolheu os +hombros com desdem.--Mas são interesses d'outros... E aqui está o que +eu recebi esta manhã. + +Estendeu-lhe um telegramma. Ella conservou-o um momento, sem o abrir; a +sua mão fazia tremer o papel. + +--Lê, peço-te que leias! + +--Para que?--fez ella. + +Mas leu baixo: «Venha, graves complicações. Presença absolutamente +necessaria. Parta já.» + +Dobrou o papel, entregou-lh'o. + +--E partes, hein? + +--É forçoso. + +--Quando? + +--Esta noite. + +Luiza ergueu-se bruscamente, e estendendo-lhe a mão: + +--Bem, adeus. + +Bazilio murmurou: + +--És cruel, Luiza!... Não importa! Em todo o caso ha um negocio que é +necessario terminar. Fallaste á mulher? + +--Está tudo arranjado--respondeu ella, franzindo a testa. + +Bazilio tomou-lhe a mão, e quasi com solemnidade: + +--Minha filha, eu sei que és muito orgulhosa, mas peço-te que digas a +verdade. Eu não te quero deixar em difficuldades. Fallaste-lhe? + +Ella retirou a mão, e com uma impaciencia crescente: + +--Arranjou-se tudo, arranjou-se tudo!... + +Bazilio parecia muito embaraçado, estava mesmo um pouco pallido: emfim, +tirando uma carteira da algibeira, começou: + +--Em todo o caso é possivel, é natural (nós não sabemos com quem +lidamos), é natural que haja outras exigencias...--Abriu a carteira, +tomou um sobrescripto pequenino e cheio. + +Luiza seguia, fazendo-se vermelha, os movimentos de Bazilio. + +--Por isso, para te poderes entender melhor com ella, sempre me parece +bom deixar-te algum dinheiro. + +--Tu estás doudo?--exclamou ella. + +--Mas... + +--Tu queres-me dar dinheiro?--A sua voz tremia. + +--Mas emfim... + +--Adeus!--E ia sahir da sala, indignada. + +--Luiza, pelo amor de Deus! Tu não me comprehendeste... + +Ella parou, disse precipitadamente, como impaciente por acabar: + +--Comprehendi, Bazilio, obrigada. Mas não, não é necessario. Estou +nervosa, é o que é... Não prolonguemos mais isto... Adeus... + +--Mas sabes que volto, dentro de tres semanas... + +--Bem, então nos veremos... + +Elle attrahiu-a, deu-lhe um beijo na bocca, encontrou os seus labios +passivos e inertes. + +Aquella frieza irritou-lhe a vaidade. Apertou-a contra o peito; +disse-lhe baixo, pondo muita paixão na voz: + +--Nem um beijo me queres dar? + +Nos olhos de Luiza passou um ligeiro clarão; beijou-o rapidamente, e +recuando: + +--Adeus. + +Bazilio esteve um momento a olhal-a, teve como um leve suspiro: + +--Adeus!--E da porta, voltando-se, com melancolia:--Escreve-me ao +menos. Sabes a minha morada. Rue Saint Florentin, 22. + +Luiza chegou-se á janella. Viu-o accender o charuto na rua, fallar ao +cocheiro, saltar para o coupé, fechar com força a portinhola, sem um +olhar para as janellas! + +O trem rolou. Era o n.^o 10... Nunca mais o veria! Tinham palpitado +no mesmo amor, tinham commettido a mesma culpa.--Elle partia alegre, +levando as recordações romanescas da aventura: ella ficava, nas +amarguras permanentes do erro. E assim era o mundo! + +Veio-lhe um sentimento pungente de solidão e de abandono. Estava só, e +a vida apparecia-lhe como uma vasta planicie desconhecida, coberta da +densa noite, erriçada de perigos! + +Entrou no quarto devagar, foi-se deixar cahir no sophá: viu ao pé o +sacco de marroquim, que preparára na vespera para fugir: abriu-o, +pôz-se a tirar lentamente os lenços, uma camisinha bordada,--encontrou +a photographia de Jorge! Ficou com ella na mão, contemplando o seu +olhar leal, o seu sorriso bom.--Não, não estava no mundo só! Tinha-o +a elle! Amava-a aquelle, nunca a trahiria, nunca a abandonaria!--E +collando os beiços ao retrato, humedecendo-o de beijos convulsivos, +atirou-se de bruços, lavada em lagrimas, dizendo:--Perdôa-me, Jorge, +meu Jorge, meu querido Jorge, Jorge da minha alma! + + +Depois de jantar Joanna veio dizer-lhe timidamente: + +--A senhora não lhe parece que seria bom ir saber da snr.^a Juliana? + +--Mas onde quer vossê ir saber?--perguntou Luiza. + +--Ella ás vezes vai a casa d'uma amiga, uma inculcadeira, para os +lados do Carmo. Talvez lhe tivesse dado alguma, esteja mal. Mas tambem +não mandar recado desde hontem pela manhã... Cousa assim! Eu podia ir +saber... + +--Pois bem, vá, vá. + +Aquella desapparição brusca inquietava tambem Luiza. Onde estava, +que fazia? Parecia-lhe que alguma cousa se tramava em segredo, +longe d'ella, que viria de repente estalar-lhe sobre a cabeça, +terrivelmente... + +Anoiteceu. Accendeu as velas. Tinha um certo medo de estar assim só +em casa: e, passeando pelo quarto, pensava que áquella hora Bazilio +em Santa Apolonia comprava alegremente o seu bilhete, installava-se +no wagon, accendia o charuto, e d'ahi a pouco, a machina arquejando +leval-o-hia para sempre! Porque não acreditava «na demora de tres +semanas, um mez»! Ia para sempre, safava-se! E apesar de o detestar +sentia que alguma cousa dentro em si se partia com aquella separação, e +sangrava dolorosamente! + +Eram quasi nove horas quando a campainha retiniu com pressa. Julgou +que seria Joanna de volta, foi abrir com um castiçal,--e recuou vendo +Juliana, amarella, muita alterada. + +--A senhora faz favor de me dar uma palavra? + +Entrou no quarto atraz de Luiza, e immediatamente rompeu, gritando, +furiosa: + +--Então a senhora imagina que isto ha-de ficar assim? A senhora imagina +que por seu amante se safar, isto ha-de ficar assim? + +--Que é, mulher?--fez Luiza, petrificada. + +--Se a senhora pensa, que por o seu amante se safar, isto ha-de ficar +em nada?--berrou. + +--Oh mulher, pelo amor de Deus!... + +A sua voz tinha tanta angustia que Juliana calou-se. + +Mas depois de um momento, mais baixo: + +--A senhora bem sabe que se eu guardei as cartas, para alguma cousa +era! Queria pedir ao primo da senhora que me ajudasse! Estou cançada +de trabalhar, e quero o meu descanço. Não ia fazer escandalo, o que +desejava é que elle me ajudasse... Mandei ao hótel esta tarde... O +primo da senhora tinha desarvorado! Tinha ido para o lado dos Olivaes, +para o inferno! E o criado ia á noite com as malas. Mas a senhora +pensa que me logram?--E retomada pela sua colera, batendo com o punho +furiosamente na mesa:--Raios me partam, se não houver uma desgraça +n'esta casa, que ha-de ser fallada em Portugal! + +--Quanto quer vossê pelas cartas, sua ladra?--disse Luiza, erguendo-se +direita, diante d'ella. + +Juliana ficou um momento interdicta. + +--A senhora ou me dá seiscentos mil reis, ou eu não largo os +papeis!--respondeu, empertigando-se. + +--Seiscentos mil reis! Onde quer vossê que eu vá buscar seiscentos mil +reis? + +--Ao inferno!--gritou Juliana.--Ou me dá seiscentos mil reis, ou tão +certo como eu estar aqui, o seu marido ha-de lêr as cartas! + +Luiza deixou-se cahir n'uma cadeira, aniquilada. + +--Que fiz eu para isto, meu Deus, que fiz para isto? + +Juliana plantou-se-lhe diante, muito insolente. + +--A senhora diz bem, sou uma ladra, é verdade, apanhei a carta no +cisco, tirei as outras do gavetão. É verdade! E foi para isto, para +m'as pagarem!--E traçando, destraçando o chale, n'uma excitação +phrenetica:--Não que a minha vez havia de chegar! Tenho soffrido muito, +estou farta! Vá buscar o dinheiro onde quizer. Nem cinco reis de menos! +Tenho passado annos e annos a ralar-me! P'ra ganhar meia moeda por mez, +estafo-me a trabalhar, de madrugada até á noite, em quanto a senhora +está de panria! É que eu levanto-me ás seis horas da manhã--e é logo +engraxar, varrer, arrumar, labutar, e a senhora está muito regalada em +valle de lençoes, sem cuidados, nem canceiras. Ha um mez que me ergo +com o dia, p'ra metter em gomma, passar, engommar! A senhora suja, +suja, quer ir vêr quem lhe parece, apparecer-lhe com tafularias por +baixo, e cá está a negra, com a pontada no coração, a matar-se, com o +ferro na mão! E a senhora, são passeios, tipoias, boas sêdas, tudo o +que lhe appetece--e a negra? A negra a esfalfar-se! + +Luiza, quebrada, sem força de responder, encolhia-se sob aquella colera +como um passaro sob um chuveiro. Juliana ia-se exaltando com a mesma +violencia da sua voz. E as lembranças das fadigas, das humilhações, +vinham atear-lhe a raiva, como achas n'uma fogueira. + +--Pois que lhe parece?--exclamava.--Não que eu cômo os restos e a +senhora os bons bocados! Depois de trabalhar todo o dia, se quero uma +gota de vinho, quem m'o dá? Tenho de o comprar! A senhora já foi ao +meu quarto? É uma enxovia! A persevejada é tanta que tenho de dormir +quasi vestida! E a senhora se sente uma mordedura, tem a negra de +desaparafusar a cama, e de a catar frincha por frincha. Uma criada! +A criada é o animal. Trabalha se pódes, senão rua, para o hospital. +Mas chegou-me a minha vez--e dava palmadas no peito, fulgurante de +vingança.--Quem manda agora, sou eu! + +Luiza soluçava baixo. + +--A senhora chora! tambem eu tenho chorado muita lagrima! Ai! eu não +lhe quero mal, minha senhora, certamente que não! Que se divirta, que +goze, que goze! O que eu quero é o meu dinheiro. O que eu quero é o meu +dinheiro aqui escarrado, ou o papel ha-de ser fallado! Ainda este tecto +me rache, se eu não fôr mostrar a carta ao seu homem, aos seus amigos, +á visinhança toda, que ha-de andar arrastada pelas ruas da amargura! + +Calou-se, exhausta; e com a voz entrecortada de cansaços: + +--Mas dê-me a senhora o meu dinheiro, o meu rico dinheiro, e aqui +tem os papeis, e o que lá vai, lá vai, e até lhe levo outras. Mas o +meu dinheiro p'ra aqui! E tambem lhe digo, que morta seja eu n'este +instante com um raio, se depois de eu receber o meu dinheiro esta bocca +se torna a abrir!--E deu uma palmada na bocca. + +Luiza erguera-se devagar, muito branca: + +--Pois bem--disse, quasi n'um murmurio--eu lhe arranjarei o dinheiro. +Espere uns dias. + +Fez-se um silencio--que depois do ruido parecia muito profundo, e tudo +no quarto como que se tornára mais immovel. Apenas o relogio batia o +seu _tic-tac_, e duas velas sobre o toucador consumindo-se davam uma +luz avermelhada, e direita. + +Juliana tomou a sombrinha, traçou o chale, e depois de fitar Luiza um +momento: + +--Bem, minha senhora--disse, muito secca. + +Voltou as costas, sahiu. + +Luiza sentiu-a bater a cancella com força. + +--Que expiação, Santo Deus!--exclamou, cahindo n'uma cadeira, banhada +de novo em lagrimas. + +Eram quasi dez horas quando Joanna voltou. + +--Não pude saber nada, minha senhora, na inculcadeira ninguem sabe +d'ella. + +--Bem, traga a lamparina. + +E Joanna ao despir-se no seu quarto, rosnava comsigo: + +--A mulher tem arranjo, está mettida por ahi com algum sucio! + + +Que noite para Luiza! A cada momento acordava n'um sobresalto, abria +os olhos na penumbra do quarto, e cahia-lhe logo na alma, como uma +punhalada, aquelle cuidado pungente: Que havia de fazer? Como havia +d'arranjar dinheiro? Seiscentos mil reis! As suas joias valiam talvez +duzentos mil reis. Mas depois, que diria Jorge? Tinha as pratas... Mas +era o mesmo! + +A noite estava quente, e na sua inquietação a roupa escorregára, apenas +lhe restava o lençol sobre o corpo. Ás vezes a fadiga readormecia-a +d'um somno superficial, cortado de sonhos muitos vivos. Via montões +de libras reluzirem vagamente, maços de notas agitarem-se brandamente +no ar. Erguia-se, saltava para as agarrar, mas as libras começavam a +rolar, a rolar como infinitas rodinhas sobre um chão liso, e as notas +desappareciam, voando muito leves com um fremito de azas ironicas. Ou +então era alguem que entrava na sala, curvava-se respeitosamente, e +começava a tirar do chapéo, a deixar-lhe cahir no regaço libras, moedas +de cinco mil reis, peças, muitas, muitas, profusamente: não conhecia o +homem: tinha um chinó vermelho e uma pera impudente. Seria o diabo? Que +lhe importava? Estava rica, estava salva! Punha-se a chamar, a gritar +por Juliana, a correr atraz d'ella, por um corredor que não findava, e +que começava a estreitar-se, a estreitar-se, até que era como uma fenda +por onde ella se arrastava de esguelha, respirando mal, e apertando +sempre contra si o montão de libras que lhe punha frialdades de metal +sobre a pelle núa do peito. Acordava assustada: e o contraste da sua +miseria real com aquellas riquezas do sonho era como um acrescimo de +amargura. Quem lhe poderia valer?--Sebastião! Sebastião era rico, era +bom. Mas mandal-o chamar, e dizer-lhe ella, ella Luiza, mulher de +Jorge:--Empreste-me seiscentos mil reis.--Para quê, minha senhora? +E podia lá responder: para resgatar umas cartas que escrevi ao meu +amante. Era lá possivel! Não, estava perdida. Restava-lhe ir para um +convento. + +A cada momento voltava o travesseirinho que lhe escaldava o rosto: +atirou a touca, os seus longos cabellos soltaram-se, prendeu-os ao +acaso com um gancho; e de costas, com a cabeça sobre os braços nús, +pensava amargamente no romance de todo aquelle verão,--a chegada de +Bazilio, o passeio ao Campo Grande, a primeira visita ao _Paraiso_... + +Onde iria elle, aquelle infame? Dormindo tranquillamente nas almofadas +do wagon! + +E ella alli, na agonia! + +Atirou o lençol, abafava. E descoberta, mal se distinguindo da alvura +da roupa, adormeceu quando a madrugada rompia. + +Acordou tarde, succumbida. Mas logo na sala de jantar a belleza da +manhã gloriosa reanimou-a. O sol entrava abundante e radioso pela +janella aberta; os canarios faziam um concerto; da forja ao pé sahia um +martellar jovial; e o largo azul vigoroso levantava as almas.--Aquella +alegria das cousas deu-lhe como uma coragem inesperada. Não se havia de +abandonar a uma desesperança inerte... Que diabo! Devia luctar! + +Vieram-lhe esperanças, então. Sebastião era bom, Leopoldina tinha +expedientes, havia outras possibilidades, o acaso mesmo: e tudo isto +podia, em definitiva, formar seiscentos mil reis, salval-a! Juliana +desappareceria, Jorge voltaria!--E, alvoraçada, via perspectivas de +felicidades possiveis reluzirem, no futuro, deliciosamente. + +Ao meio dia veio o criadito de Sebastião: o senhor tinha chegado +d'Almada, desejava saber como a senhora estava. + +Correu ella mesma á porta; que pedia ao snr. Sebastião, que viesse logo +que podesse! + +Acabou-se! Sentia-se resoluta, ia fallar a Sebastião... No fim era o +que lhe restava: contar ella tudo a Sebastião, ou que a outra contasse +tudo a seu marido. Impossivel hesitar! E depois podia attenuar, dizer +que fôra só uma correspondencia platonica... A partida de Bazilio, +além d'isso, fazia d'aquelle erro um facto passado, quasi antigo... E +Sebastião era tão amigo d'ella! + +Veio, era uma hora. Luiza que estava no quarto sentiu-o entrar, e só +o som dos seus passos grossos no tapete da sala deu-lhe uma timidez, +quasi um terror. Parecia-lhe agora muito difficil, terrivel de dizer... +Preparára phrases, explicações, uma historia de galanteio, de cartas +trocadas; e estava com a mão no fecho da porta, a tremer. Tinha medo +d'elle! Ouvia-o passear pela sala; e receando que a impaciencia lhe +désse mau humor, entrou. + +Afigurou-se-lhe mais alto, mais digno: nunca o seu olhar lhe parecera +tão recto, e a sua barba tão séria! + +--Então que é? precisa alguma cousa?--perguntou-lhe elle depois das +primeiras palavras sobre Almada, sobre o tempo. + +Luiza teve uma cobardia indominavel, respondeu logo: + +--É por causa de Jorge! + +--Aposto que não lhe tem escripto? + +--Não. + +--Esteve muito tempo sem me escrever tambem.--E rindo:--Mas hoje recebi +duas cartas por atacado. + +Procurou-as entre outros papeis que tirou da algibeira. Luiza fôra +sentar-se no sophá; olhava-o com o coração aos pulos, e as suas unhas +impacientes raspavam devagarinho o estôfo. + +--É verdade--dizia Sebastião, revolvendo o maço de papeis.--Recebi +duas, falla em voltar, diz que está muito seccado...--E estendendo uma +carta a Luiza:--Póde vêr. + +Luiza desdobrára-a, e começava a lêr; mas Sebastião, estendendo a mão +precipitadamente: + +--Perdão, não é essa! + +--Não, deixe vêr... + +--Não diz nada, são negocios... + +--Não, quero vêr! + +Sebastião, sentado á beira da cadeira, coçava a barba, olhando-a, muito +contrariado. E Luiza de repente, franzindo a testa: + +--O quê?--A leitura espalhava-lhe no rosto uma surpreza +irritada.--Realmente!... + +--São tolices, são tolices!--murmurava Sebastião, muito vermelho. + +Luiza pôz-se então a lêr alto, devagar: + +«Saberás, amigo Sebastião, que fiz aqui uma conquista. Não é o que se +póde chamar uma princeza, porque é nem mais nem menos que a mulher +do estanqueiro. Parece estar abrazada no mais impuro fogo, por este +seu criado. Deus me perdôe, mas desconfio até que me leva apenas um +vintem pelos charutos de pataco, fazendo assim ao esposo, o digno +Carlos, a dupla partida de lhe arruinar a felicidade e a tenda!»--Que +graça!--murmurou Luiza, furiosa.--«Receio muito que se repita commigo +o caso biblico da mulher de Putiphar. Acredita que ha um certo merito +em lhe resistir, porque a mulher, estanqueira como é, é lindissima. E +tenho medo que succeda algum fracasso á minha pobre virtude...» + +Luiza interrompeu-se, e olhou Sebastião com um olhar terrivel. + +--São brincadeiras!--balbuciou elle. + +Ella seguiu, lendo: «Olha se a Luiza soubesse d'esta aventura! De +resto, o meu successo não pára aqui: a mulher do delegado faz-me um +olho dos diabos! É de Lisboa, d'uma gente Gamacho, que parece que mora +para Belem, conheces? e dá-se ares de morrer de tedio, na tristeza +provinciana da localidade. Deu uma _soirée_ em minha honra, e em minha +honra, creio tambem, decotou-se. Muito bonito collo»--Luiza fez-se +escarlate--«e uma queda do diabo...» + +--Está doudo!--exclamou ella.--«E aqui tens o teu amigo feito um D. +Juan do Alemtejo, e deixando um rasto de chammas sentimentaes por essa +provincia fóra! O Pimentel recommenda-se...» + +Luiza ainda leu baixo algumas linhas, e erguendo-se bruscamente, dando +a carta a Sebastião: + +--Muito bem, diverte-se!--disse com uma voz sibilante. + +--São lá cousas que se tomem a serio! Não deve tomar a serio... + +--Eu!--exclamou ella.--Acho muito natural até! + +Sentou-se, começou, com volubilidade, a fallar d'outras cousas, de D. +Felicidade, de Julião... + +--Trabalha muito agora para o concurso--disse Sebastião.--Quem não +tenho visto é o Conselheiro. + +--Mas, quem é essa gente Gamacho, de Belem? + +Sebastião encolheu os hombros--e com um ar quasi reprehensivo: + +--Ora realmente tomou a serio... + +Luiza interrompeu-o: + +--Ah! sabe? Meu primo Bazilio partiu. + +Sebastião teve um alvoroço d'alegria. + +--Sim? + +--Foi para Paris, não creio que volte.--E depois d'uma pausa, parecendo +ter esquecido Jorge, e a carta:--Só em Paris está bem... Estava no +ar p'ra partir.--Acrescentou com pancadinhas leves nas pregas do +vestido:--Precisava casar, aquelle rapaz. + +--P'ra assentar--disse Sebastião. + +Mas Luiza não acreditava que um homem que gostava tanto de viagens, de +cavallos, d'aventuras, podesse dar um bom marido. + +Sebastião era d'opinião que ás vezes socegavam, e eram homens de +familia... + +--Teem mais experiencia--disse. + +--Mas um fundo leviano--observou ella. + +E depois d'estas palavras vagas calaram-se com embaraço. + +--Eu a fallar a verdade--disse então Luiza--estimei que meu primo +partisse... Como tinha havido essas tolices na visinhança... +Ultimamente mesmo quasi que o não vi. Esteve ahi hontem, veio +despedir-se, fiquei surprehendida... + +Estava tornando impossivel a historia d'um galanteio platonico, cartas +trocadas--mas um sentimento mais forte que ella impellia-a a attenuar, +distanciar as suas relações com Bazilio. Acrescentou mesmo: + +--Eu sou amiga d'elle, mas somos muito differentes... Bazilio é +egoista, pouco affeiçoado... De resto a nossa intimidade nunca foi +grande... + +Calou-se bruscamente, sentiu que «se enterrava». + +Sebastião lembráva-se ouvir-lhe dizer «que tinham sido creados ambos de +pequenos»; mas emfim aquella maneira de fallar do primo, parecia-lhe +a prova maior de que «não houvera nada». Quasi se queria mal pelas +duvidas, que tivera, tão injustas!... + +--E volta?--perguntou. + +--Não me disse, mas não creio. Em se pilhando em Paris! + +E com a idéa da carta, de repente: + +--Então o Sebastião é confidente de Jorge? + +Elle riu: + +--Oh minha senhora! pois acredita... + +--E a mim quando me escreve, que se aborrece, que está só, que não +supporta o Alemtejo...--Mas vendo Sebastião olhar o relogio:--O que, +já? É cedo. + +Tinha d'estar na baixa antes das tres, disse elle. + +Luiza quiz retel-o. Não sabia para quê--porque a cada momento sentia +a sua resolução diminuir, desapparecer como a agua d'um rio que se +absorve no seu leito. Pôz-se a fallar-lhe das obras d'Almada. + +Sebastião começára-as pensando que duzentos ou trezentos mil reis +fariam as restaurações necessarias: mas depois umas cousas tinham +trazido outras--e, dizia, está-se-me tornando um sorvedouro! + +Luiza riu, forçadamente. + +--Ora, quando se é proprietario e rico!... + +--Isso sim! Parece que não é nada: mas uma pintura n'uma porta, uma +janella nova, uma sala forrada de papel, um soalho, e isto e aquillo, e +lá se vão oitocentos mil reis... Emfim!... + +Levantou-se, e despedindo-se: + +--Eu espero que aquelle vadio se não demore muito... + +--Se a estanqueira der licença... + +Ficou a passear na sala, nervosa, com aquella idéa. Deixar-se namorar +pela estanqueira, e a mulher do delegado, e as outras!... De certo, +tinha confiança n'elle, mas os homens!... De repente representou-se-lhe +a estanqueira prendendo-o nos braços detraz do balcão, ou Jorge +beijando, n'alguma entrevista, de noite, o collo bonito da mulher +do delegado!... E tumultuosamente appareceram-lhe todas as razões +que provavam irrecusavelmente a traição de Jorge: estava ha dous +mezes fóra! sentia-se cançado da sua viuvez! encontrava uma mulher +bonita! tomava aquillo como um prazer passageiro, sem importancia!... +Que infame! Resolveu escrever-lhe uma carta digna e offendida, «que +viesse immediatamente, ou que partia ella!»--Entrou no quarto, muito +excitada. A photographia de Jorge, que ella tirára na vespera do sacco +de marroquim, ficára no toucador. Pôz-se a olhal-a: não admirava que o +namorassem, era bonito, era amavel... Veio-lhe uma onda de ciume, que +lhe obscureceu o olhar: se elle a enganasse, se tivesse a certeza da +«mais pequena cousa»--separava-se, recolhia-se a um convento, morria de +certo, matava-o!... + +--Minha senhora--veio dizer Joanna--é um gallego com esta carta. Está á +espera da resposta. + +Que espanto! Era de Juliana! + +Escripta em papel pautado, n'uma letra medonha, erriçada de erros +d'orthographia, dizia: + + + + + «Minha senhora. + +«Bem sei que fui imprudente, o que a senhora deve attribuir tanto á +minha desgraça como á falta de saude, o que ás vezes faz que se tenham +genios repentinos. Mas se a senhora quer que eu volte e faça o serviço +como d'antes--ao qual creio que a senhora não póde oppôr-se, terei +muito gosto em ser agradavel na certeza que nunca mais se fallará em +tal até que a senhora queira, e cumpra o que prometteu. Prometto fazer +o meu serviço, e desejo que a senhora esteja por isto pois que é para +bem de todos. Pois que foi genio e naturalmente todos teem os seus +repentes, e com isto não canço mais e sou + + «Serva muito obediente + + «a criada + + «_Juliana Couceiro Tavira_.» + + +Ficou com a carta na mão, sem resolução. A sua primeira vontade foi +dizer--não! Tornar a recebel-a, vêl-a, com a sua face horrivel, a cuia +enorme! Saber que ella tinha no bolso a sua carta, a sua deshonra, +e chamal-a, pedir-lhe agua, a lamparina, ser servida por ella! Não! +Mas veio-lhe um terror; se recusasse irritava a creatura, Deus sabe o +que faria! Estava nas mãos d'ella, devia passar por tudo. Era o seu +castigo... Hesitou ainda um momento: + +--Que sim, que venha, é a resposta. + + +Juliana veio com effeito ás oito horas. Subiu pé ante pé para o +sotão, poz o fato de casa e as chinellas, e desceu para o quarto +dos engommados, onde Joanna sentada n'um tapete costurava, á luz do +petroleo. + +Joanna, muito curiosa, acabrunhou-a logo de perguntas: Onde estivera? +o que tinha acontecido? porque não déra noticias?--Juliana contou que +fôra a uma visita a uma amiga, á calçada do Marquez d'Abrantes, e que +de repente lhe dera um flato, e a dôr... Não quiz mandar dizer, porque +imaginára que poderia vir. Mas qual! estivera dia e meio de cama... + +Quiz saber então o que tinha feito a senhora, se sahira, quem +estivera... + +--A senhora tem andado a modo incommodada--disse Joanna. + +--É do tempo--observou Juliana.--Tinha trazido a sua costura, e ambas +caladas continuaram o serão. + +Ás dez horas Luiza ouviu bater devagarinho á porta do quarto. Era +_ella_, de certo! + +--Entre... + +A voz de Juliana disse muito naturalmente: + +--Está o chá na mesa. + +Mas Luiza não se decidia a ir á sala, com medo, horror de a vêr! Deu +voltas no quarto, demorou-se; foi emfim, toda tremula. Juliana vinha +justamente no corredor; encolheu-se contra a parede, com respeito, +disse: + +--Quer que vá pôr a lamparina, minha senhora? + +Luiza fez que _sim_ com a cabeça, sem a olhar. + +Quando voltou ao quarto Juliana enchia o jarro; e depois de ter aberto +a cama, cerrado as portas, quasi em pontas de pés: + +--A senhora não precisa mais nada?--perguntou. + +--Não. + +--Muito boa noite, minha senhora. + +E não houve outra palavra mais. + +--Parece um sonho!--pensava Luiza, ao despir-se melancolicamente.--Esta +creatura, com as minhas cartas, installada em minha casa para me +torturar, para me roubar!--Como se achava ella, Luiza, n'aquella +situação? Nem sabia. As cousas tinham vindo tão bruscamente, com a +precipitação furiosa d'uma borrasca, que estala! Não tivera tempo de +raciocinar, de se defender: fôra embrulhada: e alli estava, quasi sem +«dar fé», na sua casa sob a dominação da sua criada! Ah! se tivesse +fallado a Sebastião! Tinha agora o dinheiro, de certo, notas, ouro... +Com que phrenesi lh'o arremessaria, a expulsaria, e a arca, e os +trapos, e a cuia!...--Jurou a si propria fallar a Sebastião, dizer +tudo! Iria mesmo a casa d'elle, para o impressionar mais! + +D'ahi a pouco, quebrada da agitação do dia, adormecera--e sonhava que +um estranho passaro negro lhe entrára no quarto, fazendo uma ventania, +com as suas azas pretas de morcego: era Juliana! Corria aterrada ao +escriptorio, gritando: Jorge! Mas não via nem livros, nem estante, +nem mesa:--havia uma armação reles de loja de tabaco, e por traz do +balcão, Jorge acariciava sobre os joelhos uma bella mulher de fórmas +robustas, em camisa d'estopa, que perguntava com uma voz desfallecida +de voluptuosidade e os olhos afogados em paixão:--Brejeiros ou de +Xabregas?--Fugia então de casa indignada, e, através de successos +confusos, via-se ao lado de Bazilio, n'uma rua sem fim, onde os +palacios tinham fachadas de cathedraes, e as carruagens rolavam +ricamente com uma pompa de cortejo. Contava soluçando a Bazilio a +traição de Jorge. E Bazilio, saltitando em volta d'ella com requebros +de palhaço, repenicava uma viola, e cantava: + + Escrevi uma carta a Cupido + A mandar-lhe perguntar + Se um coração offendido + Tem obrigação de amar! + +--Não tem!--gania a voz d'Ernestinho, brandindo triumphante um rolo de +papel.--E tudo se obscurecia de repente nos largos vôos circulares que +fazia Juliana com as suas azas de morcego. + + + + +IX + + +Juliana voltára para casa de Luiza por conselhos da tia Victoria. + +--Olha, minha rica, tinha-lhe ella dito, não ha que vêr, o passaro +fugiu-nos! Suspira, bem pódes suspirar que o dinheiro grosso foi-se! +Quem podia lá adivinhar que o homem desarvorava! Não, lá isso pódes +tirar d'ahi o sentido! Que d'ella escusas d'esperar nem cheta... + +--Tambem me regalo de mandar as cartas ao marido, tia Victoria! + +A velha encolheu os hombros: + +--Não lucras nada com isso. Ou que elles se desquitem, ou que elle +lhe parta os ossos, ou que a mande para um convento--tu não ganhas +nada. E se se acommodarem, mais ficas a chuchar no dedo, porque nem +tens a consolação de fazeres a sizania. E isto é se as cousas correrem +pelo melhor, porque pódes muito bem ficar mas é em lençoes de vinagre +com alguma carga de pau que elles te mandem dar.--E vendo um gesto +espantado de Juliana:--Já não era o primeiro caso, minha rica, já não +era o primeiro. Olha que em Lisboa, passa-se muita cousa, e nem tudo +vem nos jornaes! + +Positivamente o que ella tinha a fazer era voltar para a casa. Porque +emfim o que restava de tudo aquillo? O medo de D. Luiza: esse é que +lá estava sempre a dar-lhe por dentro a colica: d'esse é que era +necessario tirar partido... + +--Tu voltas para lá--dizia--á espera que ella cumpra o que prometteu. +Se te dá o dinheiro, bem... Senão tem-l'a em todo o caso na mão, estás +de dentro da praça, sabes o que se passa, pódes-lhe apanhar muita +cousa... + +Mas Juliana hesitava.--Era difficil viverem debaixo das mesmas telhas +sem haver uma questão por dá cá aquella palha. + +--Não te diz uma palavra, tu verás... + +--Mas tenho medo... + +--De que?--exclamava a tia Victoria. Ella não era mulher para a +envenenar, não é verdade? Então? Quem a nada se arriscava nada +ganhava.--Isto é se queres--acrescentou--senão trata de te arranjar +n'outra parte, e deita as cartas para o fundo da arca. Que diabo! Tu +vaes vêr, se não te convém, safas-te... + +Juliana decidiu ir, «a vêr». + +E reconheceu logo, que «aquella finoria da tia Victoria tinha carradas +de razão». + +Luiza, com effeito, parecia resignada. Sebastião tinha ido para Almada, +outra vez. Mas como estava decidida, apenas elle voltasse, a ir a casa +d'elle uma manhã, atirar-se-lhe ao pés, contar-lhe _tudo_, _tudo_, +supportava Juliana, reflectindo:--É apenas por dias!--Por isso não lhe +disse uma palavra. Para que? O que tinha a fazer era pagar-lhe e pôl-a +fóra, não é verdade? Em quanto o não podesse fazer, era aguentar e +calar. Até que Sebastião voltasse... + +No entretanto evitava vêl-a. Nunca a chamava. Não sahia da alcova de +manhã, sem a ter sentido fóra no quarto encher o banho, sacudir os +vestidos. Ia para a sala de jantar com um livro, e nos intervallos não +levantava os olhos das paginas. E durante todo o dia conservava-se no +quarto com a porta fechada, lendo, costurando, pensando em Jorge--ás +vezes tambem em Bazilio com odio, desejando a volta de Sebastião, e +preparando a sua historia. + +Juliana, uma manhã, encontrou Luiza no corredor trazendo para o quarto +o regador cheio d'agua. + +--Oh minha senhora! porque não chamou?--exclamou, quasi escandalisada. + +--Não tem duvida--disse Luiza. + +Mas Juliana seguiu-a ao quarto, e cerrando a porta: + +--Oh minha senhora!--disse muito offendida--isto assim não póde +continuar. A senhora parece que tem medo de me vêr, credo! Eu +voltei para fazer o meu serviço como d'antes... Verdade, verdade, +naturalmente, sempre espero que a senhora faça o que prometteu... E +lá largar as cartas não largo, sem ter seguro o pão da velhice. Mas +o que se passou foi um repente de genio, e já pedi perdão á senhora. +Quero fazer o meu serviço... Agora se a senhora não quer, então saio, +e--acrescentou com uma voz secca--talvez seja peor para todos!... + +Luiza, muito perturbada, balbuciou: + +--Mas... + +--Não, minha senhora--cortou Juliana severamente--aqui a criada sou eu. + +E sahiu, empertigada. + +Tanta audacia aterrou Luiza. Aquella ladra era capaz de tudo! + +Então, para a não irritar começou, d'ahi por diante, a chamal-a, a +dizer:--Traga isto, traga aquillo,--sem a olhar. + +Mas Juliana fazia-se tão serviçal, era tão calada, que Luiza pouco a +pouco, dia a dia, com o seu caracter mobil, inconsistente, cheio _de +deixar-se ir_, principiou a perder o sentimento pungente d'aquella +difficuldade. E no fim de tres semanas «as cousas tinham entrado nos +seus eixos»--dizia Juliana. + +Luiza já gritava por ella do quarto, já a mandava a recados fóra: +Juliana chegava a ter ás vezes migalhas de conversação:--Está um calor +de morrer... A lavadeira tarda...--Um dia arriscou esta phrase mais +intima:--Encontrei a criada da snr.^a D. Leopoldina. + +Luiza perguntou: + +--Ainda está para o Porto? + +--Ainda se demora um mez, minha senhora... + +De resto havia na casa um aspecto muito tranquillo, e Luiza, depois +de tantas agitações, abandonava-se com gozo á satisfação d'aquelle +descanço. Ia ás vezes vêr D. Felicidade á Encarnação, que já se +levantava. E esperava sempre Sebastião, mas sem impaciencia, quasi +contente por vêr adiado o momento terrivel de lhe dizer: escrevi a um +homem, Sebastião! + +Assim iam passando os dias; estava-se no fim de setembro. + +Uma tarde Luiza ficára mais tempo á janella da sala de jantar; deixára +cahir o livro no regaço, e olhava, sorrindo, um bando de pombas que +d'algum quintal visinho viera pousar sobre o tabique do terreno vago. +Pensava vagamente em Bazilio, no _Paraiso_... Sentiu passos, era +Juliana. + +--Que é? + +A mulher cerrára a porta, e vindo junto d'ella, baixo: + +--Então a senhora ainda não decidiu nada? + +Luiza sentiu como uma pancada no estomago. + +--Ainda não pude arranjar nada... + +Juliana esteve um momento a olhar para o chão: + +--Bem--murmurou, por fim. + +E Luiza ouviu-a, no corredor, dizer alto: + +--Isto quando o senhor voltar é que são os ajustes de contas! + + +Quando Jorge voltasse! Immediatamente no seu espirito, que se tinha +pouco a pouco serenado, todos os sustos, as angustias estremeceram +de novo áquella ameaça--assim uma rajada subita põe em convulsão um +arvoredo. Devia, pois, fazer _alguma cousa_ antes que elle chegasse! +Justamente Jorge escrevera-lhe, que «não se demoraria, que a avisaria +pelo telegrapho...» Desejava, agora, que do ministerio o mandassem +fazer uma viagem mais longe, pela Hespanha ou pela Africa; que alguma +catastrophe, sem lhe fazer mal, o retardasse mezes!... + +Que faria elle, se soubesse! Matal-a-hia? Lembravam-lhe as suas +palavras muito sérias, n'aquella noite, quando Ernestinho contára o +final do seu drama... Mettel-a-hia n'uma carruagem, leval-a-hia a um +convento? E via a grossa portaria fechar-se com um ruido funerario de +ferrolhos, olhos lugubres estudal-a curiosamente... + +O seu terror irraciocinado fizera-lhe mesmo perder a idéa nitida do seu +marido; imaginava um _outro_ Jorge sanguinario e vingativo, esquecendo +o seu caracter bom, tão pouco melodramatico. Um dia foi ao escriptorio, +tomou a caixa das pistolas, fechou-a n'um bahú de roupa velha, e +escondeu a chave!... + +Uma idéa amparava-a: era que apenas Sebastião viesse d'Almada, estava +salva; e apesar d'aquella agonia miuda de todos os momentos, quasi +receava saber _que elle tivesse chegado_,--tanto a confissão da verdade +lhe parecia uma agonia maior! Foi por esse tempo, então, que lhe veio +uma lembrança--escrever a Bazilio. O terror permanente amollecera-lhe +o orgulho, como a lenta infiltração da agua faz a uma parede; e todos +os dias começou a achar uma razão, _mais uma_, para se dirigir «áquelle +infame»: fôra seu amante, já sabia todo o caso das cartas, era o seu +unico parente... E não teria de «dizer» a Sebastião! Já ás vezes +pensára que não aceitar dinheiro de Bazilio fôra uma «fanfarronada +bem tola»! Um dia emfim escreveu-lhe. Era uma carta longa, um pouco +confusa, pedia-lhe _seiscentos mil reis_. Foi ella mesmo leval-a ao +correio, sobrecarregando-a de estampilhas. + +N'essa tarde, por acaso, Sebastião, que chegára d'Almada, veio vêl-a. +Recebeu-o com alegria, feliz _por não ter de lhe contar_... Fallou da +volta de Jorge; alludiu mesmo ao primo Bazilio, á «pouca vergonha da +visinhança...» + +--Não--disse--é a primeira cousa que hei-de contar ao Jorge. + +Porque se considerava salva, agora! E todos os dias seguia a carta, +no seu caminho para França, como se a sua mesma vida fosse dentro +d'aquelle sobrescripto entregue ao acaso dos trens e á confusão das +viagens! Chegára a Madrid, depois a Bayonna, depois a Paris! Um +carteiro corria a entregal-a na rua Saint Florentin. Bazilio abria-a +tremendo, enchia um sobrescripto de notas, muitas, que cobria de +beijos, e o enveloppe, trazendo a sua salvação e o seu descanço, +começava a rolar para baixo, pela França e pela Navarra, soprando como +um monstro e apressando-se como um proprio. + +No dia em que a resposta _devia_ chegar, levantou-se mais cedo, +agitada, com o ouvido pregado na porta, esperando o toque do carteiro. +Via-se já a expulsar Juliana, a soluçar de alegria!... Mas ás dez e +meia começou a estar nervosa: ás onze chamou Joanna, «que fosse saber +se o carteiro passára». + +--Diz que sim, minha senhora, que já passou. + +--Canalha!--murmurou, pensando em Bazilio. + +Talvez, todavia, não tivesse respondido no mesmo dia! Esperou ainda, +mas desconsolada, já sem fé. Nada! Nem na outra manhã, nem nas +seguintes! O infame! + +Veio-lhe então a idéa da loteria--porque insensivelmente a esperança +tornára-se-lhe necessaria. A primeira vez que sahiu comprou umas poucas +de cautelas. Apesar de não ser religiosa nem supersticiosa, metteu-as +debaixo da peanha d'um S. Vicente de Paula que tinha sobre a commoda, +na alcova. _Não se perdia nada!_ Examinava-as todos os dias, sommava os +algarismos a vêr se davam _nove_, _noves fóra_, _nada_, ou um numero +par--que é de bom agouro! E aquelle contacto diario com a imagem do +santo levando-a a pensar de certo na protecção inesperada do céo, fez +uma promessa de cincoenta missas se as cautelas fossem premiadas!... + +Sahiram brancas--e então desesperou de tudo; abandonou-se a uma inacção +em que sentia quasi uma voluptuosidade, passando dias sem se importar, +quasi sem se vestir, desejando morrer, devorando nos jornaes todos os +casos de suicidios, de fallencias, de desgraças--consolando-se com a +idéa de que nem só ella soffria, e que a vida em redor, na cidade, +fervilhava de afflicções. + +Ás vezes, de repente, vinha-lhe uma pontada de medo. Decidia-se então +de novo a «abrir-se» com Sebastião; depois pensava que seria melhor +escrever-lhe; mas não achava as palavras, não conseguia arranjar uma +historia racional; vinha-lhe uma cobardia; e recahia na sua inercia, +pensando: «ámanhã, ámanhã...» + +Quando, só, no seu quarto, se chegava por acaso á janella, punha-se +a imaginar o que «diria a visinhança, quando se soubesse»! +Condemnal-a-hiam? Lamental-a-hiam? Diriam--«Que desavergonhada»? +Diriam--«Coitadinha»? E por dentro da vidraça seguia, com um olhar +quasi aterrado, as passeatas do Paula pela rua, o embasbacamento obeso +da carvoeira, as Azevedos por traz das bambinellas de cassa! Como elles +todos gritariam:--«Bem diziamos nós! Bem diziamos nós!» Que desgraça! +Ou então via de repente Jorge, terrivel, fóra de si, com as _cartas_ na +mão; e encolhia-se como se já estivesse sob a colera dos seus punhos +fechados. + +Mas o que a torturava mais era a tranquillidade de +Juliana--espanejando, cantarolando, servindo-a ao jantar d'avental +branco. Que tencionava ella? Que preparava ella? Ás vezes vinha-lhe uma +onda de raiva; se fosse forte ou corajosa, de certo atirar-se-lhe-hia +ao pescoço, para a esganar, arrancar-lhe a carta! Mas pobre d'ella, era +«uma mosquinha»! + +Justamente, n'uma d'essas manhãs, Juliana entrou no quarto--com o +vestido de sêda preto no braço. Estendeu-o na _causeuse_, e mostrou +a Luiza, na saia, ao pé do ultimo folho, um rasgão largo que parecia +feito com um prego; vinha saber se a senhora queria que o mandasse á +costureira. + +Luiza lembrava-se bem, rasgára-o uma manhã no _Paraiso_ a brincar com +Bazilio! + +--Isto é facil d'arranjar--dizia Juliana, passando de leve a mão +espalmada sobre a sêda, com a lentidão d'uma caricia. + +Luiza examinava-o, hesitando: + +--Elle tambem já não está novo... Olhe, guarde-o p'ra vossê! + +Juliana estremeceu, fez-se vermelha: + +--Oh minha senhora!--exclamou--Muito agradecida! É um rico +presente. Muito agradecida, minha senhora! Realmente...--E a voz +perturbava-se-lhe. + +Tomou-o nos braços, com cuidado, correu logo á cozinha. E Luiza, que a +seguira pé ante pé, ouviu-a dizer toda excitada: + +--É um rico presente, é o que ha de melhor. E novo! Uma rica +sêda!--Fazia arrastar a cauda pelo chão, com um _frou-frou_. Sempre o +invejára: e tinha-o agora, era o _seu_ vestido de sêda!--É de muito boa +senhora, snr.^a Joanna, é d'um anjo! + +Luiza voltou ao quarto, toda alvoroçada; era como uma pessoa perdida de +noite, n'um descampado--que de repente, ao longe, vê reluzir um clarão +de vidraça! Estava salva! Era presenteal-a, era fartal-a! Começou logo +a pensar no que lhe podia dar mais, pouco a pouco: o vestido rôxo, +roupas brancas, o roupão velho, uma pulseira! + + +D'ahi a dous dias--era um domingo--recebeu um telegramma de Jorge: +«Parto ámanhã do Carregado. Chego pelo comboio do Porto ás 6.» Que +sobresalto! Voltava, emfim! + +Era nova, era amorosa--e no primeiro momento todos os sustos, as +inquietações desappareceram sob uma sensação d'amor e de desejo, que a +inundou. Viria de madrugada, encontral-a-hia deitada,--e já pensava na +delicia do seu primeiro beijo!... + +Foi-se vêr ao espelho: estava um pouco magra, talvez, com a physionomia +um pouco fatigada... E a imagem de Jorge apparecia-lhe então muito +nitidamente, mais queimado do sol, com os seus olhos ternos, o cabello +tão annelado! Que estranha cousa! Nunca lhe appetecêra tanto vêl-o. Foi +logo occupar-se d'elle: o escriptorio estaria bem arranjado? Quereria +um banho morno, seria necessario aquecer a agua na tina grande!... E ia +e vinha, cantarolando, com um brilho exaltado nos olhos. + +Mas a voz de Juliana, de repente no corredor, fêl-a estremecer. Que +faria ella, a mulher? Ao menos que a deixasse n'aquelles primeiros +dias gozar a volta de Jorge, tranquillamente!... Veio-lhe uma audacia, +chamou-a. + +Juliana entrou, com o vestido de sêda novo, movendo-se cuidadosamente: + +--Quer alguma cousa, minha senhora? + +--O snr. Jorge volta amanhã...--disse Luiza. + +E suspendeu-se; o coração batia-lhe fortemente. + +--Ah!--fez Juliana.--Bem, minha senhora. + +E ia sahir. + +--Juliana!--fez Luiza, com a voz alterada. + +A outra voltou-se, surprehendida. + +E Luiza batendo com as mãos, n'um movimento supplicante: + +--Mas vossê ao menos n'estes primeiros dias... Eu hei-de arranjar, +esteja certa!... + +Juliana acudiu logo: + +--Oh minha senhora! Eu não quero dar desgostos a ninguem. O que eu +quero é um bocadinho de pão para a velhice. Da minha bocca não ha-de +vir mal a ninguem. O que peço á senhora é que se fôr da sua vontade e +me quizer ir ajudando... + +--Lá isso, sim... O que vossê quizer... + +--Pois póde estar certa que esta bocca...--E fechou os labios com os +dedos. + +Que alegria para Luiza! Tinha uns dias, umas semanas, emfim, sem +tormentos, com o _seu_ Jorge! Abandonou-se então toda á deliciosa +impaciencia de o vêr. Era singular--mas parecia-lhe que o amava +mais!...--E depois pensaria, veria, daria outros presentes a Juliana, +poderia pouco a pouco preparar Sebastião... Quasi se sentia feliz. + +De tarde Juliana veio dizer-lhe, muito risonha; + +--A snr.^a Joanna sahiu, que era hoje o seu dia, mas eu tinha tanta +precisão de sahir, tambem! se a senhora lhe não custasse ficar só... + +--Não! Fico, que tem? Vá, vá! + +E, d'ahi a pouco, sentiu-a bater os tacões no corredor, fechar com +ruido a cancella. + +Então de repente uma idéa deslumbrou-a, como a fulguração d'um +relampago:--ir ao quarto d'ella, rebuscar-lhe a arca, roubar-lhe as +cartas! + +Viu-a da janella dobrar a esquina. Subiu logo ao sotão, devagar, +escutando, com o coração aos saltos. A porta do quarto de Juliana +estava aberta; vinha de lá um cheiro de mofo, de rato e de roupa +enxovalhada que a enjoou; pelo postigo entrava uma luz triste, de +tarde escura; e por baixo, encostada á parede, ficava a arca! Mas +estava fechada! De certo! Desceu correndo, veio buscar o seu mólho +de chaves... Sentia uma vergonha,--mas se achasse as cartas! Aquella +esperança dava-lhe todos os atrevimentos, como um vinho alcoolico. +Começou a experimentar as chaves; a mão tremia-lhe; de repente a +lingueta, com um estalinho secco, cedeu! Ergueu a tampa, estavam alli, +talvez! E então, com cautela, muito femininamente, poz-se a tirar as +cousas uma por uma, pondo-as em cima do colxão:--o vestido de merino; +um leque com figuras douradas, embrulhado em papel de sêda; velhas +fitas rôxas e azues, passadas a ferro; uma pregadeira de setim côr +de rosa, com um coração bordado a matiz: dous frasquinhos de cheiro, +intactos, tendo collados ao vidro raminhos de rosas de papel recortado; +tres pares de botinas embrulhadas em jornaes; a roupa branca, d'onde +se exhalava um cheiro de madeira e de folhas de maçã camoeza. Entre +duas camisas estava um maço de cartas atadas com um nastro... Nenhuma +era d'ella! Nem de Bazilio! Eram d'uma letra d'aldêa, inintelligivel e +amarellada! Que raiva! E ficou a olhar para a arca vazia, de pé, com os +braços tristemente cahidos. + +Uma sombra de repente passou diante do postigo. Estremeceu, aterrada. +Era um gato, que com passos leves, vadiava pelo telhado.--Tornou a +repôr tudo com as mesmas dobras, fechou a arca, ia a sahir,--mas +lembrou-se de procurar na gaveta da mesa e debaixo do travesseiro. +Nada! Impacientou-se então; não se queria ir sem ter gasto toda a +esperança; desmanchou a roupa da cama, remexeu a palha amollentada do +enxergão, sacudiu as velhas botinas, esgaravatou os cantos... Nada! +Nada! + +Subitamente, a campainha tocou. Desceu a correr. Que surpreza! Era D. +Felicidade. + +--És tu! Como estás tu? Entra. + +Estava melhor, veio logo contando pelo corredor. Sahira na vespera da +Encarnação: o pé ás vezes ainda lhe fazia mal: mas graças a Deus estava +escapa! E que lhe agradecesse, era a sua primeira visita! + +Entraram no quarto. Escurecia, Luiza accendeu as velas. + +--E como me achas tu, hein?--perguntou D. Felicidade, pondo-se diante +d'ella. + +--Um bocadito mais pallida. + +Ai! tinha soffrido muito! Ergueu a saia, mostrou o pé calçado n'um +sapato largo, obrigou Luiza a apalpal-o... Que uma consolação lhe +restava: é que toda a Lisboa a fôra vêr! Graças a Deus! Toda a Lisboa, +o que ha de melhor em Lisboa! + +--E tu esta semana--acrescentou--nem appareceste! Pois olha que te +cortaram na pelle... + +--Não pude, filha. O Jorge chega ámanhã, sabias? + +--Ah sua brejeira! Viva! Está esse coraçãosinho aos pulos!--E disse-lhe +um segredinho. + +Riram muito. + +--Pois eu--continuou D. Felicidade sentando-se--arranjei-te hoje a +partida. Encontrei esta manhã o Conselheiro, que me disse que vinha. +Encontrei-o aos Martyres! Olha que foi sorte, logo no primeiro dia que +sahi! E um bocado adiante dou com o Julião: diz que tambem vinha!...--E +com uma voz desfallecida: + +--Sabes? tomava uma colherinha de dôce... + + +Foi Luiza que abriu a porta ao Conselheiro e a Julião, que se tinham +encontrado na escada, dizendo-lhes a rir: + +--Hoje sou eu o guarda-portão! + +D. Felicidade, na sala, para disfarçar a perturbação que lhe deu o +espectaculo amado da pessoa d'Accacio, começou, fallando muito, a +censural-a «por deixar assim sahir no mesmo dia as duas criadas...» + +--E se te achares incommodada, filha, se te dér alguma cousa? + +Luiza riu. Não era affecta a fanicos... + +Todavia achavam-na abatida. E o Conselheiro, com interesse: + +--Tem continuado a soffrer dos dentes, D. Luiza? + +Dos dentes? Era a primeira vez que tal ouvia!--exclamou logo D. +Felicidade. Julião declarou que raras vezes vira uma dentição tão +perfeita. + +O Conselheiro apressou-se a citar: + + Em labios de coral, perolas finas... + +E acrescentou: + +--É verdade, mas a ultima vez que tive a honra d'estar com D. Luiza, +viu-se tão repentinamente afflicta com um dente, que teve d'ir a correr +chumbal-o ao Vitry! + +Luiza fez-se muito vermelha. Felizmente a campainha tocou. Devia ser a +Joanna, ia abrir... + +--É verdade--continuou o Conselheiro--tinhamos feito um delicioso +passeio, quando de repente D. Luiza empallidece, e parece que a dôr era +tão urgente, que se precipitou para a escada do dentista, como louca... + +A proposito de dôres, D. Felicidade, que estava anciosa por interessar, +commover o Conselheiro, começou a historia do seu pé: disse a queda, +o milagre de não ter morrido, as visitas assiduas de condessas e +viscondessas, o susto em toda a Encarnação, os cuidados do bom dr. +Caminha... + +--Ai! soffri muito!--suspirou, com os olhos no Conselheiro, para +provocar uma palavra sympathica. + +Accacio, então, disse com authoridade: + +--É sempre um erro, ao descer uma escada ingreme, não procurar o apoio +do corrimão. + +--Mas podia ter morrido!--exclamou ella. E voltando-se para +Julião:--Pois não é verdade? + +--N'este mundo morre-se por qualquer cousa--disse elle enterrado n'uma +poltrona, fumando voluptuosamente. Elle mesmo estivera n'aquella tarde +para ser atropellado por um trem: destinára o domingo para se dar _um +feriado_, e fizera um grande passeio pela circumvallação...--Ha mais +d'um mez vivo no meu cubiculo, como um frade benedictino na livraria do +seu convento!--acrescentou, rindo, quebrando complacentemente a cinza +do cigarro sobre o tapete. + +O Conselheiro quiz saber então o assumpto da these: de certo muito +momentoso!... E apenas Julião lhe disse: «Sobre physiologia, snr. +Conselheiro», Accacio observou logo, com uma voz profunda: + +--Ah! physiologia! Deve ser então de grande magnitude! E presta-se mais +ao estylo ameno. + +Queixou-se, tambem, de «vergar ao peso dos seus trabalhos +litterarios...» + +--Esperemos todavia, snr. Zuzarte, que não sejam infructiferas as +nossas vigilias! + +--As suas, snr. Conselheiro, as suas!--E com interesse:--Quando nos dá +o seu novo trabalho? Ha sofreguidão em o vêr! + +--Ha alguma sofreguidão--concordou o Conselheiro com seriedade.--Ha +dias me dizia o snr. ministro da justiça (esse robustissimo talento), +ha dias me dizia, me fazia a honra de me dizer: Dê-nos depressa o seu +livro, Accacio, estamos precisados de luz, de muita luz! Foi assim que +elle disse. Eu inclinei-me, naturalmente, e respondi: Snr. ministro, +não serei eu que a negue ao meu paiz, quando o meu paiz a necessitar! + +--Muito bem, muito bem, Conselheiro! + +--E--acrescentou--dir-lhes-hei, aqui em familia, que o nosso ministro +do reino me deixou entrevêr n'um futuro não remoto, a commenda de S. +Thiago! + +--Já lh'a deviam ter dado, Conselheiro!--exclamou Julião, +divertindo-se.--Mas n'este desgraçado paiz... Já a devia ter ao peito, +Conselheiro! + +--Ha que tempos!--exclamou com força D. Felicidade. + +--Obrigado, obrigado!--balbuciou o Conselheiro, rubro. E na expansão do +seu jubilo offereceu com uma familiaridade agradecida, a sua caixa de +rapé a Julião. + +--Tomarei para espirrar--disse elle. + +Sentia-se n'aquella tarde n'uma disposição benevola: o trabalho e as +altas esperanças que elle lhe dava tinham de certo dissipado o seu +azedume: parecia até ter esquecido a sua humilhação, quando encontrára +alli, n'aquella sala, o primo Bazilio, porque apenas Luiza entrou, +perguntou-lhe por elle. + +--Partiu para Paris, não sabiam? ha que tempos! + +D. Felicidade e o Conselheiro fizeram logo o elogio de Bazilio. Tinha +ido deixar bilhetes de visita a ambos--o que encantára D. Felicidade, +e ensoberbecera o Conselheiro. Era um verdadeiro fidalgo!--exclamava +ella. E Accacio affirmou com authoridade: + +--E uma voz de barytono, digna de S. Carlos. + +--E muito elegante!--disse D. Felicidade. + +--Um _gentleman_!--resumiu o Conselheiro. + +Julião, calado, bambaleava a perna. Agora, áquelles elogios, o seu +despeito renascia; lembrava a seccura cortante de Luiza, n'aquella +manhã, as _poses_ do outro. Não resistiu a dizer: + +--Um pouco sobrecarregado nas joias e nos bordados das meias. De resto +é moda no Brazil, creio... + +Luiza córou; teve-lhe odio. E, vagamente, veio-lhe uma saudade de +Bazilio. + +D. Felicidade então, perguntou por Sebastião: não o via havia um +seculo; e lamentava, porque era uma pessoa que lhe dava saude, só vêl-a. + +--É uma grande alma--disse com emphase o Conselheiro.--Todavia +censurava-o um pouco por não se occupar, não se tornar util ao seu +paiz.--Porque emfim--declarou--o piano é uma bonita habilidade, mas não +dá uma posição na sociedade.--Citou então Ernestinho, que, posto que +dando-se á arte dramatica, era todavia (e a sua voz tornou-se grave), +segundo todas as informações, um excellente empregado aduaneiro... + +Que fazia elle, Ernestinho?--perguntaram. + +Julião tinha-o encontrado. Dissera-lhe que a _Honra e Paixão_ ia d'ahi +a duas semanas, já se estavam a imprimir os cartazes, e na rua dos +Condes já lhe não chamavam senão o _Dumas filho portuguez_! E o pobre +rapaz crê-se realmente um _Dumas filho_! + +--Não conheço esse author--disse com gravidade o Conselheiro--posto que +me pareça, pelo nome, ser filho do escriptor que se tornou famoso pelos +_Tres Mosqueteiros_ e outras obras de imaginação!... Mas, de resto, +o nosso Ledesma é um esmerado cultor da arte dos Corneilles! Não lhe +parece, D. Luiza? + +--Sim--disse ella com um sorriso vago. + +Parecia preoccupada. Fôra já duas vezes ao relogio do quarto vêr as +horas: quasi dez, e Juliana sem voltar! Quem havia de servir o chá? +Ella mesmo foi pôr as chavenas no taboleiro, armar o paliteiro. Quando +voltou á sala notou um silencio enfastiado...--Queriam que fosse +tocar?--perguntou. + +Mas D. Felicidade que olhava, ao pé de Julião, as gravuras do Dante, +illustrado por G. Doré, que elle folheava, com o volume sobre os +joelhos, exclamou, de repente: + +--Ai que bonito! que é? Muito bonito! Viste, Luiza? + +Luiza aproximou-se. + +--É um caso d'amor infeliz, snr.^a D. Felicidade--disse Julião.--É +a historia triste de Paulo e Francesca de Rimini.--E explicando o +desenho:--Aquella senhora sentada é Francesca: este moço de guedelha, +ajoelhado aos pés d'ella, e que a abraça, é seu cunhado, e, lamento ter +de o dizer, seu amante. E aquelle barbaças, que lá ao fundo levanta o +reposteiro e saca da espada, é o marido que vem, e zás!--E fez o gesto +de enterrar o ferro. + +--Safa!--fez D. Felicidade, arripiada--E aquelle livro cahido o que é? +Estavam a lêr?... + +Julião disse discretamente: + +--Sim... Tinham começado por lêr, mas depois... + + Quel giorno più no vi leggiomi avante, + +o que quer dizer:--_E nós não lemos mais em todo o dia!_ + +--Pozeram-se a derriçar--disse D. Felicidade com um sorriso. + +--Peor, minha rica senhora, peor! Porque segundo a mesma confissão de +Francesca, este moço, o da guedelha, o cunhado, + + La bocca me bacciò tutto tremante, + +o que significa:--_A bocca me beijou tremendo todo_... + +--Ah!--fez D. Felicidade, com um olhar rapido para o Conselheiro.--É +uma novella? + +--É o Dante, D. Felicidade--acudiu com severidade o Conselheiro--um +poema epico classificado entre os melhores. Inferior, porém, ao nosso +Camões! Mas rival do famoso Milton! + +--Que n'essas historias estrangeiras os maridos matam sempre as +mulheres!--exclamou ella. E voltando-se para o Conselheiro:--Pois não é +verdade? + +--Sim. D. Felicidade, repetem-se lá fóra com frequencia essas +tragedias domesticas. O desenfreamento das paixões é maior. Mas entre +nós, digamol-o com orgulho, o lar é muito respeitado. Assim eu, por +exemplo, em todas as minhas relações em Lisboa, que são numerosas, +graças a Deus, não conheço senão esposas modêlos.--E com um sorriso +cortezão:--De que é de certo a flôr a dona da casa! + +D. Felicidade revirou os olhos para Luiza que estava encostada á +cadeira d'ella, e batendo-lhe no braço: + +--Isto é uma joia!--disse com amor. + +--E de resto--acudiu o Conselheiro--o nosso Jorge merece-o. Porque, +como diz o poeta: + + Seu coração é nobre, e a fronte altiva + Revela-lhe da alma a pura essencia. + +Aquella conversação impacientava Luiza. Ia sentar-se ao piano, quando +D. Felicidade exclamou:--Dize cá, então não se toma hoje chá n'esta +casa? + +Luiza foi outra vez á cozinha. Disse a Joanna que viesse ella mesma +com o chá.--E d'ahi a pouco Joanna, d'avental branco, vermelha, muito +atarantada, entrou com o taboleiro. + +--E a Juliana?--perguntou logo D. Felicidade. + +--Sahiu, coitada--explicou Luiza--tem andado doente... + +--E anda-te então por fóra até estas horas?... Boa! Até desacredita uma +casa... + +O Conselheiro tambem achava imprudente: + +--Porque emfim as tentações são grandes n'uma capital, minha senhora! + +Julião exclamou, rindo: + +--Não, se aquella é tentada, descreio para sempre e totalmente, dos +meus contemporaneos. + +--Oh snr. Zuzarte!--acudiu o Conselheiro, quasi severamente--referia-me +a outras tentações: entrar, por exemplo, n'uma loja de bebidas, +appetecer-lhe ir ao Circo e desleixar os seus deveres... + +Mas D. Felicidade não podia soffrer a Juliana: achava-lhe cara de +Judas, tinha ar de ser capaz de tudo... + +Luiza defendeu-a: era muito serviçal, muito boa engommadeira, muito +honesta... + +--E anda-te pela rua até ás onze da noite!... Credo! Fosse commigo! + +--E creio--observou o Conselheiro--que tem uma doença mortal. Não é +verdade, snr. Zuzarte? + +--Mortal. Um aneurisma--respondeu Julião, sem levantar os olhos do +Dante. + +--Ainda para mais!--exclamou D. Felicidade. E abaixando a voz:--Tu +o que deves fazer é descartar-te d'ella! Uma criada com uma doença +d'essas! Que até lhe póde arrebentar a vir dar um copo d'agua á gente. +Cruzes! + +O Conselheiro apoiava: + +--E ás vezes, que embaraços com a authoridade! + +Julião fechou o Dante, e disse: + +--Eu tem-me esquecido d'avisar o Jorge; mas um dia a creatura cahe-lhes +redonda no chão.--E sorveu um gole de chá. + +Luiza estava afflicta. Parecia-lhe que uma nova complicação se formava +para a torturar... Pôz-se a dizer que era tão difficil arranjar +criadas... + +Lá isso era, concordaram. + +Fallaram de criados, das suas exigencias. Estavam cada vez mais +atrevidos! E em se lhes dando confiança! E que immoralidade!... + +--Muitas vezes é culpa das amas--disse D. Felicidade.--Fazem das +criadas confidentes, e isto, em ellas apanhando um segredo, tornam-se +as donas da casa... + +As mãos tremulas de Luiza faziam-lhe tilintar a chavena. Disse, com uma +voz affectadamente risonha: + +--E o Conselheiro, que tal de criados? + +Accacio tossiu: + +--Bem. Tenho uma pessoa respeitavel, com bom paladar, muito escrupulosa +em contas... + +--E que não é feia--acudiu Julião.--Assim me pareceu uma vez que fui á +rua do Ferregial... + +Uma vermelhidão espalhára-se pela calva do Conselheiro. D. Felicidade +fitava-o anciosamente, com a pupilla chammejante. Accacio, então, disse +com severidade: + +--Nunca reparo para a physionomia dos subalternos, snr. Zuzarte. + +Julião ergueu-se e enterrando as mãos nos bolsos, jovialmente: + +--Foi um grande erro abolir a escravatura!... + +--E o principio da liberdade?--acudiu logo o Conselheiro--E o principio +da liberdade? Que os pretos eram grandes cozinheiros, concordo... Mas a +liberdade é um bem maior. + +Alargou-se então em considerações; fulminou os horrores do trafico, +lançou suspeitas sobre a philantropia dos inglezes, foi severo com os +plantadores da Nova-Orleans, contou o caso da _Charles et Georges_: +dirigia-se exclusivamente a Julião, que fumava, cabisbaixo. + +D. Felicidade fôra-se sentar ao pé de Luiza, e muito inquieta, +fallando-lhe ao ouvido: + +--Tu conheces a criada do Conselheiro? + +--Não. + +Será bonita? + +Luiza encolheu os hombros. + +--Não sei que me diz o coração, Luiza! Estou a abafar! + +E em quanto Accacio, de pé, perorava para Julião, D. Felicidade ia +murmurando a Luiza as queixas da sua paixão. + +Que allivio para Luiza quando elles sahiram! O que ella soffrera, lá +por dentro, toda aquella noite! Que massadores, que idiotas!--E a outra +sem vir! Oh que vida a sua! + +Foi á cozinha dizer a Joanna: + +--Espere pela Juliana, tenha paciencia. Que ella não póde tardar; +aquillo a mulher achou-se peor! + +Mas já passava de meia noite, já Luiza estava deitada, quando a +campainha tocou de leve; depois mais forte; emfim, com impaciencia. + +A rapariga adormeceu, pensou Luiza. Saltou da cama, subiu descalça +á cozinha. Joanna, estirada para cima da mesa, resonava ao pé do +candieiro de petroleo, que fumegava fetidamente. Sacudiu-a, fêl-a pôr +de pé, estremunhada; voltou, correndo, deitar-se; e sentiu d'ahi a +pouco, no corredor, a voz de Juliana dizer com satisfação: + +--Já está tudo acommodado, hein? Pois eu estive no theatro. Muito +bonito! Do melhor, snr.^a Joanna, do melhor! + +Luiza adormeceu tarde, e durante toda a noite um sonho inquieto +agitou-a.--Estava n'um theatro immenso, dourado como uma igreja. +Era uma gala: joias faiscavam sobre seios mimosos, condecorações +reluziam sobre fardas palacianas. Na tribuna, um rei triste e moço, +immovel n'uma attitude rigida e hieratica, sustentava na mão a esphera +armillar, e o seu manto de velludo escuro, constellado de pedrarias +como um firmamento, espalhava-se em redor em pregas d'esculptura, +fazendo tropeçar a multidão dos cortezãos vestidos como valetes de paus. + +Ella estava no palco; era actriz; debutava no drama d'Ernestinho: e +toda nervosa via diante de si na vasta platéa susurrante, fileiras de +olhos negros e accesos, cravados n'ella com furor: no meio a calva +do Conselheiro, d'uma redondeza nevada e nobre, sobresahia, rodeada +como uma flôr d'um vôo amoroso d'abelhas. No palco oscillava a vasta +decoração d'uma floresta; ella notava sobretudo, á esquerda, um +carvalho secular, d'uma arrogancia heroica--cujo tronco tinha a vaga +configuração d'uma physionomia, e se parecia com Sebastião. + +Mas o contra-regra bateu as palmas: era esguio, parecia-se com D. +Quixote, trazia oculos redondos com aros de lata, brandia _o Jornal do +Commercio_ torcido em saca-rolhas, e gania: salta a scenasinha de amor! +salta-me essa maravilha! Então a orchestra, onde os olhos dos musicos +reluziam como granadas e as suas cabelleiras se erriçavam como montões +d'estopa, tocou com uma lentidão melancolica o fado de Leopoldina; e +uma voz aspera e canalha cantava em falsete: + + Vejo-o nas nuvens da tarde, + Nas ondas do mar sem fim, + E por mais longe que esteja + Sinto-o sempre ao pé de mim. + +Luiza achava-se nos braços de Bazilio que a enlaçavam, a queimavam: +toda desfallecida, sentia-se perder, fundir-se n'um elemento quente +como o sol e dôce como o mel: gozava prodigiosamente: mas, por entre os +seus soluços, sentia-se envergonhada, porque Bazilio repetia no palco, +sem pudor, os delirios libertinos do _Paraiso_! Como consentia ella? + +O theatro n'uma acclamação immensa bradava: Bravo! Bis! bis! Lenços aos +milhares esvoaçavam como borboletas brancas n'um campo de trevo: os +braços nús das mulheres lançavam com um gesto ondeado ramos de violetas +dobradas: o rei erguera-se espectralmente, e, triste, arremessou +como um _bouquet_ a sua esphera armillar: e o Conselheiro logo, n'um +phrenesi, para seguir os exemplos de Sua Magestade, desaparafusando +rapidamente a calva, atirou-lh'a, com um berro de dôr e de gloria! O +contraregra gania:--Agradeçam! Agradeçam! Ella curvava-se, os seus +cabellos de Magdalena rojavam pelo tablado: e Bazilio, a seu lado, +seguia com olhos vivos os charutos que lhe atiravam, apanhando-os com a +graça d'um toureiro e a destreza d'um _clown_! + +Subitamente, porém, todo o theatro teve um _ah_! d'espanto. +Fez-se um silencio ancioso e tragico; e todos os olhos, milhares +d'olhos attonitos se fitavam no pano de fundo, onde um caramanchão +arqueava a sua estructura toda estrellada de rosinhas brancas. +Ella voltou-se tambem como magnetisada, e viu Jorge, Jorge que se +adiantava, vestido de luto, de luvas pretas, com um punhal na mão; e +a lamina reluzia--menos que os olhos d'elle! Aproximou-se da rampa e +curvando-se, disse com uma voz graciosa: + +--Real magestade, senhor infante, snr. governador civil, minhas +senhoras, e meus senhores--agora é commigo! Reparem n'este trabalhinho! + +Caminhou então para ella com passos marmoreos que faziam oscillar o +tablado; agarrou-lhe os cabellos, como um mólho d'herva que se quer +arrancar; curvou-lhe a cabeça para traz; ergueu d'um modo classico o +punhal; fez a pontaria ao seio esquerdo: e balançando o corpo, piscando +o olho, cravou-lhe o ferro! + +--Muito bonito!--disse uma voz--Rico trabalho! + +Era Bazilio que fizera entrar nobremente na platéa o seu phaeton! +Direito na almofada, com o chapéo ao lado, uma rosa na sobrecasaca, +continha com a mão negligente a inquietação soberba dos seus cavallos +inglezes; e ao seu lado, sentado como um trintanario coberto das +suas vestes sacerdotaes, vinha o patriarcha de Jerusalém!--Mas Jorge +arrancára o punhal todo escarlate; as gotas de sangue corriam até á +ponta, coalhavam; cahiam depois com um som crystallino, punham-se a +rolar pelo tablado como continhas de vidro vermelho. Ella deitára-se, +expirante, sob o carvalho que se parecia com Sebastião: então, como +a terra era dura, a arvore estendeu por baixo d'ella as suas raizes, +macias como coxins de pennas; como o sol a mordia, a arvore desdobrou +sobre ella as suas ramagens, como os panos d'uma tenda: e das folhas +deixava-lhe escorrer sobre os labios gotas de vinho da Madeira! Ella +via no entanto com terror o seu sangue sahir da ferida, vermelho e +forte, correr, alastrar-se, fazendo poças aqui, ribeirinhos tortuosos +além. E ouvia a platéa berrar: + +--O author! Fóra o author! + +Ernestinho, muito frisado, pallido, appareceu; agradecia soluçando; e, +ás cortezias, saltava aqui, acolá--para não sujar no sangue da prima +Luiza os seus sapatinhos de verniz... + +Sentiu que ia morrer! Uma voz disse vagamente:--Ólá, como vai +isso?--Parecia-lhe de Jorge. D'onde vinha? Do céo? da platéa? do +corredor? Um ruido forte, como d'uma mala que se deixa cahir, +acordou-a. Sentou-se na cama. + +--Bem, deixe ahi--disse a voz de Jorge. + +Saltou em camisa. Elle entrava. E ficaram enlaçados, n'um longo abraço, +os beiços collados, sem uma palavra. O relogio do quarto dava sete +horas. + + + + +X + + +N'esse dia pela uma hora Jorge e Luiza acabavam d'almoçar, como na +vespera da partida d'elle. Mas agora não pesava a faiscante inclemencia +da calma, as janellas estavam abertas ao sol amavel d'outubro; já +passavam no ar certas frescuras outonaes; havia uma pallidez meiga +na luz; á tardinha já «sabiam bem» os paletots; e tons amarellados +começavam a envelhecer as verduras. + +--Que bom achar-se a gente outra vez no seu ninho!--disse Jorge, +estirando-se na _voltaire_. + +Estivera contando a Luiza a sua viagem. Tinha trabalhado como um mouro, +e tinha ganho dinheiro! Trazia os elementos d'um bello relatorio; +creára amigos n'aquella boa gente do Alemtejo; estavam acabadas as +soalheiras, as cavalgadas pelos montados, os quartos d'hospedaria; e +alli estava emfim na sua casinha. E como na vespera da sua partida, +soprava o fumo do cigarro, cofiando com delicias o bigode,--porque +tinha cortado a barba! Fôra a grande admiração de Luiza, quando o viu. +Elle explicára, com humilhação e melancolia, que tivera um furunculo no +queixo, com o calor... + +--Mas que bem te fica!--tinha ella dito--que bem que te fica! + +Jorge trouxera-lhe como presente seis pratos de louça da China, muito +antigos, com mandarins bojudos, de tunicas esmaltadas, suspensos +magestosamente no ar azulado; uma preciosidade que descobrira em +casa d'umas velhas miguelistas, em Mertola. Luiza dispunha-os muito +decorativamente nas prateleiras do guarda-louça: e em bicos de pés, +com a larga cauda do seu roupão estendida por traz, a massa loura do +cabello pesado, um pouco desmanchado sobre as costas--parecia a Jorge +mais esbelta, mais irresistivel, e nunca a sua cinta fina lhe attrahira +tanto os braços. + +--A ultima vez que aqui almocei, antes de partir, foi um domingo, +lembras-te? + +--Lembro--disse Luiza sem se voltar, collocando muito delicadamente um +prato. + +--E é verdade--perguntou Jorge de repente--teu primo? Vistel-o? Veio +vêr-te? + +O prato escorregou, houve um tlin-tlin de copos. + +--Sim, veio--disse Luiza, depois d'um silencio--esteve ahi umas poucas +de vezes. Demorou-se pouco... + +Abaixou-se, abriu o gavetão do guarda-louça, esteve a remexer nas +colheres de prata: ergueu-se, emfim, voltou-se com um sorriso, +vermelha, sacudindo as mãos: + +--Prompto! + +E foi sentar-se nos joelhos de Jorge. + +--Como te fica bem!--dizia, torcendo-lhe o bigode. Admirava-o, d'um +modo ardente. Quando se atirára aos seus braços n'aquella madrugada, +sentira como abrir-se-lhe o coração, e um amor repentino revolver-lh'o +deliciosamente; viera-lhe um desejo de o adorar perpetuamente, de o +servir, de o apertar nos braços até lhe fazer mal, de lhe obedecer com +humildade; era uma sensação multipla, de uma doçura infinita, que a +traspassára até ás profundidades do seu sêr. E passando-lhe um braço +pelo pescoço, murmurava com um movimento d'uma adulação quasi lasciva: + +--Estás contente? Sentes-te bom? Dize! + +Nunca lhe parecera tão bonito, tão bom; a sua pessoa depois d'aquella +separação dava-lhe as admirações, os enlevos d'uma paixão nova. + +--É o snr. Sebastião--veio dizer Juliana toda risonha para Jorge. + +Jorge deu um pulo, afastou Luiza bruscamente, atirou-se pelo corredor +gritando: + +--Aos meus braços! aos meus braços, scelerado! + + +D'ahi a dias, uma manhã que Jorge sahira para o ministerio, Juliana +entrou no quarto de Luiza, e fechando a porta devagarinho, com uma voz +muito amavel: + +--Eu desejava fallar á senhora n'uma cousa. + +E começou a dizer,--que o seu quarto em cima no sotão era peor que +uma enxovia; que não podia lá continuar; o calor, o mau cheiro, os +persevejos, a falta d'ar, e no inverno a humidade, matavam-na! Emfim, +desejava mudar p'ra baixo, p'ra o quarto dos bahus. + +O _quarto dos bahus_ tinha uma janella nas trazeiras; era alto e +espaçoso; guardavam-se alli os oleados de Jorge, as suas malas, os +paletots velhos, e veneraveis bahus do tempo da avó, de couro vermelho +com pregos amarellos. + +--Ficava alli como no céo, minha senhora! + +E... aonde se haviam de pôr os bahus? + +--No meu quarto, em cima.--E com um risinho:--Os bahus não são gente, +não soffrem... + +Luiza disse um pouco embaraçada: + +--Bem, eu verei, eu fallarei ao snr. Jorge. + +--Conto com a senhora. + +Mas apenas n'essa tarde Luiza explicou a Jorge «a ambição da pobre de +Christo», elle deu um salto: + +--O quê? Mudar os bahus? Está douda! + +Luiza então insistiu: era o sonho da pobre creatura desde que viera +para a casa! Enterneceu-o. Não, elle não imaginava, ninguem imaginava +o que era o quarto da pobre mulher! O cheiro empestava, os ratos +passeavam-lhe pelo corpo, o forro estava roto, chovia dentro; fôra lá +ha dias, e ia tombando para o lado... + +--Santo Deus! Mas isso é o que minha avó contava das enxovias +d'Almeida! Muda-a, muda-a depressa, filha!... Porei os meus ricos bahus +no sotão. + +Quando Juliana soube o _favor_: + +--Ai, minha senhora, é a vida que me dá! Deus lh'o pague! Que eu não +tinha saude para viver n'um cacifro d'aquelles. + +Ultimamente queixava-se mais: andava amarella, trazia os beiços +um pouco arroxeados; tinha dias d'uma tristeza negra, ou d'uma +irritabilidade morbida: os pés nunca lhe aqueciam. Ah! Precisava muitos +cuidados, muitos cuidados!... + +Foi por isso que d'ahi a dous dias veio pedir a Luiza, «se fazia o +favor d'ir ao quarto dos bahus». E lá, mostrando-lhe o soalho velho e +carunchoso: + +--Isto não póde ficar assim, minha senhora, isto precisa uma esteira +senão, não vale a pena mudar. Eu se tivesse dinheiro não importunava a +senhora, mas... + +--Bem, bem, eu arranjarei--disse Luiza com uma voz paciente. + +E pagou a esteira, sem dizer nada a Jorge. Mas na manhã em que os +esteireiros a pregavam Jorge veio perguntar attonito a Luiza o que era +aquillo, «rolos d'esteira no corredor»? + +Ella pôz-se a rir, pousou-lhe as mãos sobre os hombros: + +--Foi a pobre Juliana que pediu como uma esmola a esteira, que o +soalho estava podre. Até a queria pagar, e que eu lh'a descontasse +nas soldadas. Ora por uma ridicularia...--E com um gesto +compassivo:--Tambem são creaturas de Deus, não são escravas, filho! + +--Magnifico! E que não tardem os espelhos e os bronzes! Mas que mudança +foi essa, tu que a não podias vêr? + +--Coitada!--fez Luiza--reconheci que era boa mulher. E como estive +tão só, dei-me mais com ella. Não tinha com quem fallar, fez-me muita +companhia. Até quando estive doente... + +--Estiveste doente?--exclamou Jorge espantado. + +--Oh! tres dias, só--acudiu ella--uma constipação. Pois olha que dia e +noite não se tirou d'ao pé de mim. + +Luiza ficou logo com receio que Jorge fallasse _na doença_, e Juliana +desprevenida negasse; por isso, n'essa tarde, ao escurecer, chamou-a ao +quarto: + +--Eu disse ao snr. Jorge que vossê me tinha feito muito boa companhia +n'uma doença...--E o seu rosto abrazava-se de vergonha. + +Juliana logo, risonha, contente da cumplicidade: + +--Fico entendida, minha senhora! Póde estar socegada! + +Com effeito Jorge, ao outro dia, depois do café, voltou-se para +Juliana, e com bondade: + +--Parece que vossê fez boa companhia á snr.^a D. Luiza. + +--Fiz o meu dever--exclamou, curvando-se com a mão no peito. + +--Bem, bem--fez Jorge, remexendo no bolso. E ao sahir da sala meteu-lhe +na mão meia libra. + +--Palerma!--rosnou ella. + +Foi n'essa semana que começou a queixar-se a Luiza, «que a roupa e os +vestidos, na arca, se lhe amarfanhavam...» Estava-se-lhe a estragar +tudo! Se ella tivesse dinheiro, não vinha com aquelles pedidos á +senhora, mas... Emfim uma manhã declarou terminantemente que precisava +uma commoda. + +Luiza sentiu uma raiva accender-lhe o sangue, e sem levantar os olhos +do bordado: + +--Uma meia commoda? + +--Se a senhora quer fazer o favor, então uma commoda inteira... + +--Mas vossê tem pouca roupa--disse Luiza. Começava a installar-se na +humilhação e já regateava as condescendencias. + +--Tenho, sim, minha senhora--replicou Juliana--mas vou agora +completar-me! + +A commoda foi comprada em segredo, e introduzida occultamente. Que dia +de felicidade para Juliana! Não se fartava de lhe saborear o cheiro +da madeira nova! Passava a mão, com a tremura d'uma caricia, sobre +o polimento luzidio!... Forrou-lhe as gavetas de papel de sêda, _e +começou a completar-se_! + + +Foram semanas d'amargura para Luiza. + +Juliana entrava no quarto todas as manhãs, muito comprimenteira, +começava a arrumar, e de repente com uma voz lamentosa: + +--Ai! estou tão falta de camisas! se a senhora me podesse ajudar... + +Luiza ia ás suas gavetas cheias, cheirosas, e começava melancolicamente +a pôr á parte as peças mais usadas. Adorava a sua roupa branca: tinha +tudo ás duzias, com lindas marcas, _sachets_ para perfumar; e aquellas +dadivas dilaceravam-n'a como mutilações! Juliana por fim já pedia com +seccura, com direito: + +--Que bonita que é esta camisinha!--dizia simplesmente.--A senhora não +a quer; não? + +--Leve, leve!--dizia Luiza sorrindo, por orgulho, para não se mostrar +violentada. + +E todas as noites Juliana fechada no seu quarto, encruzada na esteira, +inchada d'alegria, com o candieiro sobre uma cadeira, desmarcava roupa, +desfazendo as duas letras de Luiza, marcando regaladamente as suas, a +linha vermelha, enormes--_J. C. T.,_--Juliana Couceiro Tavira! + +Mas emfim cessou, porque, como ella dizia, «de roupa branca estava como +um ovo». + +--Agora, se a senhora me quizer ajudar com alguma cousa para sahir... + +E Luiza começou a _vestil-a_. + +Deu-lhe um vestido roxo de sêda, um casaco de casimira preta, +com bordados a _soutache_. E receando que Jorge estranhasse as +generosidades, transformava-as para elle as não reconhecer: mandou +tingir de castanho o vestido, ella mesmo por sua mão pôz uma guarnição +de velludo no casaco. Trabalhava para ella, agora!--Como acabaria tudo +aquillo, Santo Deus? + +Todavia Jorge um domingo disse ao jantar, rindo: + +--Esta Juliana anda uma janota! Prospera a olhos vistos. + +D. Felicidade, á noite, tambem notou: + +--Que _chic_! Nem uma criada do paço! + +--Coitada! cousas que ella aproveita... + +Prosperava, com effeito! Não punha na cama senão lençoes de linho. +Reclamára colxões novos, um tapete para os pés da cama, felpudo! Os +_sachets_ que perfumavam a roupa de Luiza iam passando para a dobra +das suas calcinhas. Tinha cortinas de cassa na janella, apanhadas com +velhas fitas de sêda azul; e sobre a commoda dous vasos da Vista Alegre +dourados! Emfim um dia santo, em lugar da _cuia_ de retroz, appareceu +com um _chignon_ de cabello! + +Joanna pasmava d'aquellas tafularias. Attribuia-as á bondade da +senhora, e resentia-se de ser «esquecida». Um dia mesmo, que Juliana +estreára uma sombrinha, disse diante de Luiza, com uma voz de despeito: + +--Para umas tudo, para outras nada!... + +Luiza riu, acudiu: + +--Tolices! Eu sou a mesma p'ra todas. + +Mas reflectiu: Joanna podia ter desconfianças tambem, ter ouvido +_alguma cousa_ a Juliana... E logo ao outro dia, para a conservar +contente e amiga, deu-lhe dous lenços de sêda, depois dous mil reis +para um vestido; e d'ahi por diante nunca lhe recusou licença para +sahir á noitinha _a casa d'uma tia_... + +A Joanna ia por toda a parte fallando da «senhora, que era um anjo». +Na rua, de resto, tinha-se notado o luxo de Juliana. Sabia-se do +«quarto novo», dizia-se baixo que tinha alcatifa! O Paula decidira, com +indignação, «que alli positivamente havia marosca». Mas Juliana uma +tarde, diante do Paula e da estanqueira, explicou, acalmou as suspeitas. + +--Ora! dizem que tenho isto e aquillo. Não é tanto! Tenho as minhas +commodidades. Mas tambem a maneira como eu lhes tratei a tia, de dia +e de noite, sem arredar pé... Por mais que façam não me pagam, que +arruinei a minha saude! + +Assim se justificou a prosperidade de Juliana. Era a familia +agradecida, dizia-se; tratavam-na como parenta! + +E, pouco a pouco, a casa do «Engenheiro» teve para os criados da +visinhança a vaga seducção d'um paraiso: dizia-se que as soldadas +eram enormes, havia vinho á discrição, recebiam-se presentes todas as +semanas, ceava-se todas as noites caldo do gallinha! Cada um invejava +aquella «pechincha». Pela inculcadeira, a fama da «casa do Engenheiro» +alargou-se. Creou-se uma legenda. + +Jorge, attonito, recebia todos os dias cartas de pessoas offerecendo-se +para criados de quarto, criadas de dentro, cozinheiros, escudeiros, +governantas, cocheiros, guarda-portões, ajudantes de cozinha... Citavam +as casas titulares de que tinham sahido; pediam audiencia; suspeitando +certas cousas uma bonita criada de quarto juntou a sua photographia; um +cozinheiro trouxe uma carta d'empenho do director geral do ministerio. + +--Estranho caso!--dizia Jorge, pasmado--disputam-se a honra de me +servir! Imaginarão que me sahiu a sorte grande? + +Mas não dava muita attenção áquella singularidade. Vivia então muito +occupado: andava escrevendo o seu relatorio; e todos os dias sahia ao +meio dia, voltava ás seis, com rolos de papeis, mappas, brochuras, +fatigado, berrando pelo jantar, radiante. + +Contou o _caso_, todavia, rindo, um domingo á noite. O Conselheiro +observou logo: + +--Com o bom genio da D. Luiza, com o seu, Jorge, n'este bairro +saudavel, n'uma casa sem escandalos, sem questões de familia, toda +virtude, é natural que a criadagem menos favorecida aspire a uma +posição tão agradavel. + +--Somos os amos ideaes!--disse Jorge, batendo muito alegre no hombro de +Luiza. + +A casa, com effeito, tornava-se «agradavel». Juliana exigira que o +jantar fosse mais largo (para ter uma parte sua, sem sobejos), e como +era boa cozinheira vigiava os fogões, provava, ensinava pratos á Joanna. + +--Esta Joanna é uma revelação--dizia Jorge--vê-se-lhe crescer o +talento!... + +Juliana, bem alojada, bem alimentada, com roupa fina sobre a pelle, +colxões macios, saboreava a vida: o seu temperamento adoçára-se +n'aquellas abundancias; depois, bem aconselhada pela tia Victoria, +fazia o seu serviço com um zelo minucioso e habil. Os vestidos de Luiza +andavam cuidados como reliquias. Nunca os peitilhos de Jorge tinham +resplandecido tanto! O sol d'outubro alegrava a casa, muito aceada, +d'uma pacatez d'abbadia. Até o gato engordava. + + +E no meio d'aquella prosperidade--Luiza definhava-se. Até onde iria a +tyrannia de Juliana? era agora o seu terror. E como a odiava! Seguia-a +por vezes com um olhar tão intensamente rancoroso, que receava que ella +se voltasse subitamente, como ferida pelas costas. E via-a satisfeita, +cantarolando a _Carta adorada_, dormindo em colxões tão bons como os +seus, pavoneando-se na _sua_ roupa, reinando na _sua_ casa! Era justo, +justos céos? + +Ás vezes vinha-lhe uma revolta, torcia os braços, blasphemava, +debatia-se na sua desgraça, como nas malhas d'uma rêde; mas, não +encontrando nenhuma solução, recahia n'uma melancolia aspera--em que o +seu genio se pervertia. Seguia com satisfação a amarellidão crescente +das feições de Juliana; tinha esperanças no aneurisma: não rebentaria +um dia, o demonio? + +E diante de Jorge tinha de a elogiar! + +A vida pesava-lhe. Apenas elle pela manhã sahia e fechava a cancella, +logo as suas tristezas, os seus receios lhe desciam sobre a alma, +devagar, como grandes véos espessos que se abatem lugubremente; não +se vestia então até ás quatro, cinco horas, e com o roupão solto, em +chinellas, despenteada, arrastava o seu aborrecimento pelo quarto. +Vinham-lhe, por momentos, de repente, desejos de fugir, ir metter-se +n'um convento! A sua sensibilidade muito exaltada impellil-a-hia de +certo a alguma resolução melodramatica,--se a não retivesse, com a +força d'uma seducção permanente, o seu amor por Jorge. Porque o amava +agora, immensamente! Amava-o com cuidados de mãi, com impetos de +concubina... Tinha ciumes de tudo, até do ministerio, até do relatorio! +Ia interrompêl-o a cada momento, tirar-lhe a penna da mão, reclamar +o seu olhar, a sua voz; e os passos d'elle no corredor davam-lhe o +alvoroço dos amores illegitimos... + +De resto ella mesma se esforçava por desenvolver aquella paixão, +achando n'ella a compensação ineffavel das suas humilhações. Como +lhe viera _aquillo_? Porque sempre o amára, de certo, reconhecia-o +agora,--mas não tanto, não tão exclusivamente! Nem ella sabia. +Envergonhava-se mesmo, sentindo vagamente n'aquella violencia amorosa +pouca dignidade conjugal: suspeitava que o que tinha era apenas um +_capricho_. Um capricho por seu marido! Não lhe parecia rigorosamente +casto... Que lhe importava, de resto? Aquillo fazia-a feliz, +prodigiosamente. Fosse o que fosse era delicioso! + +Ao principio a idéa do _outro_ pairava constantemente sobre este amor, +pondo um gosto infeliz em cada beijo, um remorso em cada noite. Mas +pouco a pouco esquecêra-o tanto, o _outro_--que a sua recordação, +quando por acaso voltava, não dava mais amargor á nova paixão, que um +torrão de sal póde dar ás aguas d'uma torrente. Que feliz que seria--se +não fosse a _infame_! + + +Era a _infame_ que se sentia feliz! Ás vezes só no seu quarto, punha-se +a olhar em redor com um riso d'avaro: desdobrava, batia os vestidos de +sêda: punha as botinas em fileira, contemplando-as de longe, extatica; +e debruçada sobre as gavetas abertas da commoda contava, recontava a +roupa branca, acariciando-a com o olhar de posse satisfeita. Como a da +_Piorrinha_!--murmurava, afogada em jubilo. + +--Ai! estou muito bem!--dizia ella á tia Victoria. + +--Que duvida que estás! A carta não te rendeu um conto de reis, mas +olha que te trouxe um par de regalos. E é que ha-de ser uma pingadeira: +ha-de ser a boa peça de linho, o bom adereço, boas moedas... E ainda +muito obrigada por cima. Carda-a, filha, carda-a! + +Mas já havia pouco que _cardar_. E lentamente Juliana começou a pensar, +que agora o que devia era _gozar_. Se tinha bons colxões--para que se +havia de levantar cêdo? Se tinha bons vestidos--porque não havia d'ir +espairecer para a rua? Toca a tirar partido! + +Uma manhã que estava mais frio deixou-se ficar na cama até ás nove +horas, com as janellas entreabertas, um bom raio de sol na esteira. +Depois explicou seccamente, que tinha estado com a dôr. D'ahi a dous +dias Joanna, ás dez horas, veio dizer baixo a Luiza: + +--A snr.^a Juliana ainda está na cama, está tudo por arrumar. + +Luiza ficou aterrada. O quê? Teria de soffrer os seus desmazelos, como +soffrera as suas exigencias? + +Foi ao quarto d'ella: + +--Então vossê levanta-se a estas horas? + +--Foi o que me recommendou o medico--replicou muito insolente. + +E d'ahi por diante Juliana poucas vezes se erguia antes da hora de +servir ao almoço. Luiza pediu logo a Joanna que fizesse «o serviço por +ella»: era por pouco tempo, a pobre creatura andava tão adoentada! +E para acommodar a cozinheira deu-lhe meia moeda, para a ajuda d'um +vestido. + +Juliana depois, sem pedir licença, começou a sahir. Quando voltava +tarde, para o jantar, não se desculpava! + +Um dia Luiza não se conteve, disse-lhe, vendo-a passar no corredor a +calçar as luvas pretas: + +--Vossê vai sahir? + +Ella respondeu, muito atrevidamente: + +--É como vê. Fica tudo arrumado, tudo o que é minha obrigação.--E +abalou, batendo os tacões. + +Ora, não lhe faltava mais senão estar a constranger-se por causa da +_Piorrinha_! + +Joanna começava a resmungar: «passa a sua vida na rua a snr.^a Juliana, +e eu é que aguento...» + +--Se vossê estivesse doente, tambem ninguem lhe ia á mão--acudia Luiza, +afflicta, quando percebia estas revoltas. E presenteava-a. Dava-lhe +mesmo vinho e sobremesa. + +Havia agora um desperdicio na casa. Os roes cresciam. Luiza andava +succumbida.--Como acabaria tudo aquillo? + +Os desleixos de Juliana iam-se tornando graves. + +Para sahir mais cedo fazia apenas o «essencial». Era Luiza que acabava +d'encher os jarros, que levantava muitas vezes a mesa do almoço, que +levava para o sotão roupa suja que ficava pelos cantos... + +Um dia Jorge que entrára ás quatro horas, viu por acaso a cama por +fazer. Luiza apressou-se a dizer que «Juliana sahira, mandára-a ella á +modista». + +D'ahi a dias, eram seis horas, ainda não tinha voltado para servir ao +jantar. «Tinha ido á modista...» explicou Luiza. + +--Mas se a Juliana é unicamente para ir á modista, então toma-se outra +criada para fazer o serviço da casa--disse elle. + +Áquellas palavras seccas Luiza fez-se pallida, duas lagrimas +rolaram-lhe pela face. + +Jorge ficou pasmado. Que era? Que tinha? Luiza não se dominou, rompeu +n'um choro nervoso, hysterico. + +--Mas que é, minha filha, que tens? Zangaste-te?... + +Ella não podia responder, suffocada. Jorge fez-lhe respirar vinagre de +_toillette_, beijou-a muito. + +Só quando o choro acalmou é que ella pôde dizer, com uma voz soluçada: + +--Fallaste-me tão seccamente, e eu estou tão nervosa... + +Elle riu, chamou-lhe tontinha, limpou-lhe as lagrimas--mas ficou +inquieto. + +Já então lhe notára certas tristezas, abatimentos inexplicaveis, uma +irritabilidade nervosa... Que seria? + +Para que Jorge não tornasse a surprehender os desleixos, Luiza começou +a completar todas as manhãs os arranjos. Juliana percebeu logo; e +muito tranquillamente decidiu-se a «deixar-lhe de cada vez mais com +que se entreter». Ora não varria, depois não fazia a cama; emfim uma +manhã não vasou as aguas sujas. Luiza foi espreitar no corredor que +Joanna não descesse, não a visse, e fez ella mesma os despejos! Quando +veio ensaboar as mãos, as lagrimas corriam-lhe pelo rosto. Desejava +morrer!... A que tinha chegado!... + +D. Felicidade, um dia, tendo entrado de repente, surprehendera-a a +varrer a sala. + +--Que eu o faça--exclamou--que tenho só uma criada, mas tu!... + +A Juliana tinha tanto que engommar... + +--Ai! não lhe tires serviço do corpo, que não t'o agradece. E ainda se +ri por cima! Se a pões em maus costumes!... Que aguente, que aguente! + +Luiza sorriu, disse: + +--Ora, por uma vez na vida! + + +A sua tristeza augmentava cada dia. + +Refugiava-se então no amor de Jorge como na sua unica consolação. A +noite trazia-lhe a sua desforra: Juliana a essa hora dormia; não via a +sua cara medonha; não a receava; não tinha de a elogiar; não trabalhava +por ella! Era _ella mesma_, era Luiza, como d'antes! Estava na sua +alcova com o seu marido, fechada por dentro, livre! Podia viver, rir, +conversar, ter até appetite! E trazia com effeito ás vezes marmelada e +pão para o quarto--para fazer uma cêasinha! + +Jorge estranhava-a. «Tu de noite és outra», dizia. Chamava-lhe +_ave nocturna_. Ella ria em saia branca pelo quarto, com os braços +nús, o collo nú, o cabello n'um rolo; e passarinhava, cantarolava, +chalrava--até que Jorge lhe dizia: + +--Passa da uma hora, filha! + +Despia-se então rapidamente, cahia-lhe nos braços. + +Mas que acordar! Por mais clara que estivesse a manhã, tudo lhe +parecia vagamente pardo. A vida sabia-lhe mal. Vestia-se devagar, com +repugnancia--entrando no seu dia como n'uma prisão. + +Perdêra agora toda a esperança de se libertar! Ás vezes ainda lhe +vinha, como um relampago, a vontade «de contar tudo a Sebastião, tudo». +Mas quando o via, com o seu olhar honesto, abraçar Jorge, rirem ambos, +e irem fumar o seu cachimbo, e elle tão cheio sempre d'admiração por +ella, parecia-lhe mais facil sahir p'ra a rua, pedir dinheiro ao +primeiro homem que encontrasse--que ir a Sebastião, ao intimo de Jorge, +ao melhor amigo da casa, dizer-lhe: escrevi uma carta a um homem, a +criada roubou-m'a! Não, antes morrer n'aquella agonia de todos os dias, +e ter ella mesma, de rastos, de lavar as escadas! Ás vezes reflectia, +pensava:--Mas com que conto eu?--Não sabia. Com o acaso, com a morte +de Juliana... E deixava-se viver, gozando como um favor cada dia que +vinha, sentindo vagamente, a distancia, alguma cousa de indefinido e de +tenebroso onde se afundaria! + +Por esse tempo Jorge começou a queixar-se que as suas camisas andavam +mal engommadas. A Juliana positivamente «perdia a mão». Um dia mesmo +zangou-se: chamou-a, e atirando-lhe uma camisa toda amarrotada: + +--Isto não se póde vestir, está indecente! + +Juliana fez-se amarella, cravou em Luiza um olhar chammejante; mas, com +os beiços tremulos, desculpou-se: «a gomma era má, fôra já trocal-a», +etc. + +Apenas, porém, Jorge sahiu, veio com uma rajada ao quarto, fechou a +porta e poz-se a gritar--que a senhora sujava _um rôr_ de roupa, o +senhor _um rôr_ de camisas, que se não tivesse alguem que a ajudasse +não podia dar aviamento!... Quem queria negras trazia-as do Brazil! + +--E não estou para aturar o genio de seu marido, percebe a senhora? Se +quer é arranjar quem me ajude. + +Luiza disse simplesmente: + +--Eu a ajudarei. + +Tinha agora uma resignação muda, sombria, aceitava tudo! + +Logo no fim da semana houve uma grande trouxa de roupa: e Juliana veio +dizer--que se a senhora passasse, ella engommava. Senão, não! + +Estava um dia adoravel, Luiza tencionava sahir... Pôz um roupão, e, sem +uma palavra, foi buscar o ferro. + +Joanna ficou attonita. + +--Então a senhora vai engommar? + +--Ha uma carga, e a Juliana só não póde aviar tudo, coitada! + +Installou-se no quarto dos engommados,--e estava laboriosamente +passando a roupa branca de Jorge, quando Juliana appareceu, de chapéo. + +--Vossê vai sahir?--exclamou Luiza. + +--É o que eu vinha dizer á senhora. Não posso deixar de sahir.--E +abotoava as luvas pretas. + +--Mas as camisas, quem as engomma? + +--Eu vou sahir--disse a outra seccamente. + +--Mas, com os diabos, quem engomma as camisas? + +--Engomme-as a senhora! Olha a sarna! + +--Infame!--gritou Luiza. Atirou o ferro para o chão, sahiu +impetuosamente. + +Juliana sentiu-a ir pelo corredor aos soluços. Pôz-se logo a tirar o +chapéo e as luvas, assustada. D'ahi a um momento ouviu a cancella da +rua bater com força. Veio ao quarto, viu o roupão de Luiza arremessado, +a chapelleira tombada. Onde teria ido? Queixar-se á policia? Procurar +o marido? C'os diabos! Fôra estupida, com o genio! Arrumou depressa +o quarto, foi-se pôr a engommar, com o ouvido á escuta, muito +arrependida. Onde diabo teria ido? Devia ter cuidado! Se a impellisse +a fazer algum desproposito, quem perdia? Ella, que teria de sahir da +casa, deixar o seu quarto, os seus regalos, a sua posição! Safa! + + +Luiza sahira, como louca. Na rua da Escóla um coupé passava, vazio: +atirou-se para dentro, deu ao cocheiro a morada de Leopoldina. +Leopoldina devia ter voltado do Porto, queria vêl-a, precisava d'ella, +sem saber para que... Para desabafar! Pedir-lhe uma idéa, um meio de se +vingar! Porque a vontade de se libertar d'aquella tyrannia--era agora +menor que o desejo de se vingar d'aquellas humilhações. Vinham-lhe +idéas insensatas! Se a envenenasse! Parecia-lhe que sentiria um +prazer delicioso em a vêr torcer-se com vomitos dilacerantes, uivando +d'agonia, largando a alma! + +Galgou as escadas de Leopoldina; a campainha ficou a retinir muito +tempo do puxão da sua mão febril. + +A Justina apenas a viu foi a gritar pelo corredor: + +--É a snr.^a D. Luiza, minha senhora, é a snr.^a D. Luiza! + +E Leopoldina despenteada, com um roupão escarlate de grande cauda, +correu estendendo os braços: + +--És tu! Que milagre é este? Eu levantei-me agora! Entra cá p'ra o +quarto. Está tudo desarranjado, mas não importa. Mas que é isto, que é +isto? + +Abriu as janellas que estavam ainda cerradas. Havia um forte cheiro de +vinagre de _toilette_; a Justina tirava á pressa uma bacia de latão, +com agua ensaboada; toalhas sujas arrastavam; sobre uma jardineira +tinham ficado da vespera os rolos de cabello, o collete, uma chavena +com um fundo de chá cheio de pontas de cigarros. E Leopoldina corria o +transparente, dizendo: + +--Ora graças a Deus que honras esta casa, minha fidalga!... + +Mas vendo o rosto perturbado de Luiza, os seus olhos vermelhos de +lagrimas: + +--Que é? Que tens tu? Que succedeu? + +--Um horror, Leopoldina!--exclamou, apertando as mãos. + +A outra foi fechar a porta, rapidamente. + +--Então? + +Mas Luiza chorava sem responder. Leopoldina olhava-a, petrificada. + +--A Juliana apanhou-me umas cartas!--disse emfim por entre +soluços.--Quer seiscentos mil reis! Estou perdida... Tem-me +martyrisado... Quero que me digas, vê se te lembras... Estou como +douda. Sou eu que faço tudo em casa... Morro, não posso!--E as lagrimas +redobravam. + +--E as tuas joias? + +--Valem duzentos mil reis. E Jorge, que lhe havia eu de dizer? + +Leopoldina ficou um momento calada, e olhando em roda de si, abrindo os +braços: + +--Tudo o que eu tenho, no prego, minha filha, dá vinte libras!... + +Luiza murmurava, limpando os olhos: + +--Que expiação esta, Santo Deus, que expiação! + +--Que diz a carta? + +--Horrores! Estava douda... É uma minha, duas d'elle. + +--De teu primo? + +Luiza disse «sim», com a cabeça, lentamente. + +--E elle? + +--Não sei! Está em França, nunca me respondeu. + +--Pulha! Como t'as apanhou, a mulher? + +Luiza contou rapidamente a historia do sarcophago, e do cofre. + +--Mas tu tambem, Luiza, atirar uma carta d'essas! Oh mulher, isso é +medonho! + +E Leopoldina pôz-se a passear pelo quarto, arrastando a longa cauda do +roupão escarlate: os seus grandes olhos negros, excitados, pareciam +procurar um meio, um expediente... Murmurava: + +--A questão é de dinheiro... + +Luiza, prostrada no sophá, repetia: + +--A questão é de dinheiro! + +Então Leopoldina, parando bruscamente diante d'ella: + +--Eu sei quem te dava o dinheiro!... + +--Quem? + +--Um homem. + +Luiza ergueu-se, espantada: + +--Quem? + +--O Castro. + +--O d'oculos? + +--O d'oculos. + +Luiza fez-se muito córada: + +--Oh Leopoldina!--murmurou. E depois d'um silencio, rapidamente: + +--Quem t'o disse? + +--Sei-o eu. Disse-o elle ao Mendonça. Sabes que eram unha e carne. Que +te dava tudo o que tu lhe pedisses! Disse-lh'o mais d'uma vez. + +--Que horror!--exclamou Luiza subitamente indignada.--E tu propões-me +semelhante cousa?--O seu olhar, sob as sobrancelhas franzidas, +dardejava de colera. Ir com um homem por dinheiro!--Tirou o chapéo, +violentamente, com as mãos tremulas, arremessou-o para a jardineira, e +com passos rapidos pelo quarto:--Antes fugir, ir para um convento, ser +criada, apanhar a lama das ruas! + +--Não te exaltes, creatura! Quem te diz isso? Talvez o homem te +emprestasse o dinheiro, desinteressadamente... + +--Acreditas tu? + +Leopoldina não respondeu: com a cabeça baixa, fazia girar os anneis nos +dedos. + +--E quando fosse outra cousa?--exclamou de repente--Era um conto de +reis, eram dous, estavas salva, estavas feliz! + +Luiza sacudia os hombros, indignada d'aquellas palavras--dos seus +proprios pensamentos, talvez! + +--É indecente! É horrivel!--dizia. + +Ficaram caladas. + +--Ah! fosse eu!...--disse Leopoldina. + +--Que fazias? + +--Escrevia ao Castro, que viesse e com dinheiro! + +--Isso és tu!--exclamou Luiza, arrebatadamente. + +Leopoldina fez-se escarlate sob a camada de pó d'arroz. + +Mas Luiza atirou-lhe os braços ao pescoço: + +--Perdôa-me, perdôa-me! estou douda, não sei o que digo!... + +Começaram ambas a chorar, muito nervosas. + +--Tu zangaste-te!--dizia Leopoldina cortada de soluços.--Mas é p'ra +teu bem. É o que me parece melhor. Se eu podesse dava-te o dinheiro... +Fazia tudo. Acredita! + +E abrindo os braços, indicando o seu corpo com um impudor sublime: + +--Seiscentos mil reis! Se eu valesse tanto dinheiro, tinhal-o ámanhã! + +Nós de dedos bateram á porta. + +--Quem é? + +--Eu--disse uma voz rouca. + +--É meu marido. O animal ainda hoje não despegou de casa... Não posso +abrir. Logo. + +Luiza limpava os olhos, á pressa, punha o chapéo. + +--Quando voltas?--perguntou Leopoldina. + +--Quando puder, senão escrevo-te. + +--Bem. Eu vou pensar, vou esquadrinhar... + +Luiza agarrou-lhe o braço: + +--E d'isto, nem palavra. + +--Douda! + + +Sahiu. Foi subindo devagar até ao largo de S. Roque. A porta da igreja +da Misericordia estava aberta, com o seu largo reposteiro vermelho +d'armas bordadas que o vento agitava brandamente. Veio-lhe um desejo +d'entrar. Não sabia para quê; mas parecia-lhe que depois da excitação +apaixonada em que vibrára, o fresco silencio da igreja a calmaria. +E depois sentia-se tão infeliz que se lembrou de Deus! necessitava +alguma cousa de superior, de forte a que se amparar. Foi-se ajoelhar +ao pé d'um altar, persignou-se, rezou o _Padre-Nosso_, depois a _Salve +Rainha_. Mas aquellas orações, que ella recitava em pequena, não a +consolavam; sentia que eram sons inertes que não iam mais alto no +caminho do céo que a sua mesma respiração; não as comprehendia bem, +nem se applicavam ao seu _caso_: Deus por ellas, nunca poderia saber o +que ella pedia, alli, prostrada na afflicção. Quereria fallar a Deus, +abrir-se toda a elle: mas com que linguagem? Com as palavras triviaes, +como se fallasse a Leopoldina? Iriam as suas confidencias tão longe, +que o alcançassem? Estaria elle tão perto, que a ouvisse? E ficou +ajoelhada, os braços molles, as mãos cruzadas no regaço, olhando as +velas de cera tristes, os bordados desbotados do frontal, a carinha +rosada e redonda d'um menino Jesus! + +Lentamente perdeu-se n'um scismar que ella não dirigia, que se +formava e se movia no seu cerebro, como a fluctuação d'um fumo que se +eleva. Pensava no tempo tão distante, em que, por melancolia e por +sentimentalidade, frequentava mais as igrejas. Ainda a mamã vivia +então; e ella, com o coração quebrado--quando o _outro_, Bazilio, lhe +escrevera, rompendo--procurava dissipar a sua tristeza nas consolações +da devoção. Uma amiga sua, a Joanna Silveira, fôra por esse tempo +professar a França: e ella ás vezes lembrava-se de partir tambem, +ser irmã de caridade, levantar os feridos nos campos de batalha, ou +viver na paz d'uma cella mystica! Que differente a sua vida teria +sido--d'esta agora tão alvoroçada de cólera, e tão carregada de +peccado!... Onde estaria? Longe, n'algum mosteiro antigo, entre +arvoredos escuros, n'um valle solitario e contemplativo: na Escocia, +talvez, paiz que ella sempre amára desde as suas leituras de Walter +Scott. Podia ser nas verde-negras terras de Lamermoor ou de Glencoe, +n'alguma velha abbadia saxonia. Em redor os montes cobertos d'abetos, +esbatidos nas nevoas, isolam aquelles retiros n'uma paz funeraria: n'um +céo saudoso, as nuvens passam devagar, com recolhimento: nenhum som +festivo quebra a meiga taciturnidade das cousas: revoadas de corvos +cortam á tarde o ar n'um vôo triangular. Alli viveria entre as monjas +d'alta estatura e olhar celtico, filhas de duques normandos, ou de +lords de _clans_ convertidos a Roma: leria livros dôces e cheios das +cousas do céo: sentada na estreita janella da sua cella, veria passar +nas mattas baixas os altos paus dos veados, ou pelas tardes vaporosas +escutaria o som distante da _bagpipe_, que vai tristemente tocando o +pastor que vem dos valles de Callendar: e todo o ar estaria cheio do +murmurio choroso e gottejante dos fios d'agua, que por entre as relvas +escuras cahem de rocha em rocha! + +Ou então seria outra existencia mais regalada, no convento pacato d'uma +boa provincia portugueza. Alli os tectos são baixos; as paredes caiadas +faiscam ao sol, com as suas gradesinhas devotas; os sinos repicam no +vivo ar azul; em roda, nos campos d'oliveiras que dão azeite para o +convento, raparigas varejam a azeitona cantando; no pateo lageado d'uma +pedra miudinha as mulas do almocreve, sacudindo a mosca, batem com a +ferradura: matronas cochicham ao pé da roda; um carro chia na estrada +empoeirada e branca; gallos cacarejam, brilhando ao sol; e freiras +gordinhas, d'olho negro, chalram nos frescos corredores. + +Alli viveria, engordando, com uma quebrasinha de somno á hora do côro, +bebendo copinhos de licôr de rosa no quarto da madre-escrivã, copiando +receitas de dôces com uma letra garrafal; morreria velha, ouvindo as +andorinhas cantar á beira da sua grade; e o senhor bispo na sua visita, +com a pitada nos seus dedos brancos, ouviria sorrindo da bocca da madre +abbadessa a historia edificante da sua santa morte... + +Um sacristão, que passava, escarrou fortemente; e, como um bando de +passaros que se cala a um ruido brusco, todos os seus sonhos fugiram. +Suspirou, ergueu-se devagar, foi indo para casa, triste. + +Foi Juliana quem veio abrir, e logo no corredor, com a voz supplicante +e baixa: + +--A senhora por quem é perdôe, que depois estava douda! Estava com +a cabeça perdida, não tinha dormido nada toda a noite. Fiquei mais +afflicta... + +Luiza não respondeu, entrou na sala. Sebastião que vinha jantar, tocava +a serenata de D. Juan--e apenas ella appareceu: + +--D'onde vem, tão pallida? + +--Debilidade, Sebastião, venho da igreja... + +Jorge entrava do escriptorio com uns papeis na mão: + +--Da igreja!--exclamou--Que horror! + + + + +XII + + +Foi por esse tempo que, n'um sabbado, o Diario do Governo publicou a +nomeação do conselheiro Accacio ao _grau de cavalleiro da ordem de S. +Thiago_, attendendo aos seus grandes merecimentos litterarios, ás obras +publicadas de reconhecida utilidade, e mais partes... + +Na noite seguinte, ao entrar em casa de Jorge, todos o cercaram, +felicitando-o com alarido; o Conselheiro, depois de os abraçar um por +um, n'uma pressão nervosa e commovida, cahiu no sophá, exhausto, e +murmurou: + +--Não o esperava tão cedo da real munificencia! Não o esperava tão +cedo!--E acrescentou, pondo a mão espalmada sobre o peito:--Direi como +o philosopho: Esta condecoração é o melhor dia da minha vida! + +E convidou logo Jorge, Sebastião e Julião para um jantar na +quinta-feira, «um modesto jantar de rapazes, no seu humilde tugurio, +para festejarem a regia graça». + +--Ás cinco e meia, meus bons amigos! + +Na quinta-feira, os tres, que se tinham encontrado na Casa Havaneza, +eram introduzidos por uma rapariguita vesga, suja como um esfregão, na +sala do Conselheiro. Um vasto canapé de damasco amarello occupava a +parede do fundo, tendo aos pés um tapete onde um chileno roxo caçava ao +laço um bufalo côr de chocolate; por cima uma pintura tratada a tons +côr de carne, e cheia de corpos nús cobertos de capacetes, representava +o valente Achilles arrastando Heitor em torno dos muros de Troya. Um +piano de cauda, mudo e triste sob a sua capa de baeta verde, enchia +o intervallo das duas janellas. Sobre uma mesa de jogo, entre dous +castiçaes de prata, uma galguinha de vidro transparente galopava; e o +objecto em que se sentia mais o calor do uso era uma caixa de musica de +18 peças! + +O Conselheiro recebeu-os, com o _habito_ de S. Thiago sobre a lapella +do _frac_ preto. Havia outro sujeito na sala, o snr. Alves Coutinho. +Era picado das bexigas, tinha a cabeça muito enterrada nos hombros; +quando o seu olhar parvo se fixava nas pessoas, com pasmo, o seu bigode +pellado arreganhava-se logo por habito, n'um sorriso alvar que mostrava +uma bocca medonha cheia de dentes pôdres; fallava pouco, esfregava +sempre as mãos, concordava em tudo; havia n'elle o ar d'um deboche +banal, e d'um embrutecimento antigo. Era um empregado do ministerio do +reino, illustre pela sua boa letra. + +D'ahi a pouco entrou a figura conhecida do Savedra, redactor do +_Seculo_. A sua face branca parecia mais balofa; o bigode muito preto +reluzia de brilhantina; as lunetas d'ouro accentuavam o seu tom +official: trazia ainda no queixo o pó d'arroz, que lhe pozera momentos +antes o barbeiro; e a mão, que escrevia tanta banalidade e tanta +mentira, vinha aperreada n'uma luva nova, côr de gema d'ovo! + +--Estamos todos!--disse com jubilo o Conselheiro. E +curvando-se:--Bemvindos, meus amigos! Estamos talvez mais á vontade +no meu quarto de estudo! Por aqui. Ha um degrau, cuidado! Eis o meu +_Sanctus Sanctorum_! + +N'uma saleta muito espanejada a que as cortinas de cassa, a luz de +duas janellas de peitoril, e o papel claro davam um aspecto alvadio, +estava a larga escrivaninha de trabalho, com um tinteiro de prata, os +lapis muito aparados, as regoas bem dispostas. Via-se o sinete d'armas +do Conselheiro, pousado sobre a _Carta Constitucional_ ricamente +encadernada. Encaixilhada, na parede, pendia a _carta regia_ que o +nomeára Conselheiro; defronte uma lithographia d'El-Rei; e sobre uma +mesa, era eminente o busto em gesso de Rodrigo da Fonseca Magalhães, +tendo no alto da cabeça uma corôa de perpetuas--que ao mesmo tempo o +glorificava e o chorava. + +Julião pozera-se logo a examinar a livraria. + +--Prezo-me de ter os authores mais illustres, amigo Zuzarte!--disse com +orgulho o Conselheiro. + +Mostrou-lhe a _Historia do consulado e do imperio_, as obras de +Delille, o _Diccionario da conversação_, a ediçãosinha bojuda da +_Encyclopedia Roret_, o _Parnaso lusitano_. Fallou dos seus trabalhos; +e acrescentou que, vendo alli reunidas pessoas de tão subida +illustração, desejaria muito lêr-lhes algumas das provas que estava +revendo do seu novo livro--_Descripção das principaes cidades do reino +e seus estabelecimentos_, para ouvir a opinião d'elles, desassombrada e +severa! + +--Se não acham massada... + +--Prazer, Conselheiro! prazer! + +Escolheu então «como mais propria para dar idéa da importancia do +trabalho» a pagina relativa a Coimbra. Assoou-se, collocou-se no meio +da saleta, de pé, com as folhas na mão, e, com uma voz cheia, gestos +pausados, leu: + +«--...Reclinada mollemente na sua verdejante collina, como odalisca +em seus aposentos, está a sabia Coimbra, a Lusa Athenas. Beija-lhe os +pés, segredando-lhe d'amor, o saudoso Mondego. E em seus bosques, no +bem conhecido salgueiral, o rouxinol e outras aves canoras soltam seus +melancolicos trilos. Quando vos aproximaes pela estrada de Lisboa, +onde outr'ora uma bem organisada _mala-posta_ fazia o serviço que o +progresso hoje encarregou á fumegante locomotiva, vêdel-a branquejando, +coroada do edificio imponente da Universidade, asylo da sabedoria. Lá +campêa a torre com o sino, que em sua folgazã linguagem a mocidade +estudiosa chama _a cabra_. Para além logo uma copada arvore vos attrahe +as vistas: é a celebrada _arvore dos Dorias_, que dilata seus seculares +ramos no jardim d'um dos membros d'esta respeitavel familia. E avistaes +logo, sentados nos parapeitos da antiga ponte, em seus innocentes +recreios, os briosos moços, esperança da patria, ou requebrando +galanteios com as ternas camponezas que passam reflorindo de mocidade e +frescura, ou revolvendo em suas mentes os problemas mais arduos de seus +bem elaborados compendios...» + +--Está a sôpa na mesa--veio dizer uma criada, de avental branco, muito +nutrida. + +--Muito bem, Conselheiro, muito bem!--disse logo o Savedra do _Seculo_, +erguendo-se.--É admiravel! + +Declarou para os lados com authoridade: «que o estylo era digno d'um +Rebello ou d'um Latino, e que realmente estava-se precisando muito em +Portugal d'uma obra daquelle quilate...» E pensava baixo: «Grandissima +cavalgadura!...» O que era a sua apreciação generica de todas as obras +contemporaneas--exceptuando os seus artigos no _Seculo_. + +--Que lhe pareceu, meu bom amigo?--perguntou baixo o Conselheiro +a Julião, passando-lhe a mão sobre o hombro.--Mas uma opinião +desaffrontada, meu Zuzarte! + +--Snr. Conselheiro--disse Julião com uma voz profunda--tenho-lhe +inveja!--E as suas lunetas escuras fixavam-se com uma preoccupação +crescente n'um chale-manta pardo, que a um canto cobria +cuidadosamente, a julgar pelas saliencias, altas pilhas de livros. Que +seria?--Tenho-lhe inveja!--repetiu--E outra cousa, Conselheiro, não se +me dava de lavar as mãos. + +Accacio levou-o logo ao seu quarto, e retirou-se discretamente. Julião, +sempre curioso, observou, surprehendido, duas grandes lithographias +aos lados da cama--um _Ecce Homo_! e a _Virgem das sete Dôres_. O +quarto era esteirado, o leito baixo e largo. Abriu então a gavetinha +da mesa de cabeceira, e viu, espantado, uma touca e o volume brochado +das poesias obscenas de Bocage! Entreabriu os cortinados fechados; e +teve a consolação de verificar,--que havia sobre o travesseiro duas +fronhasinhas chegadas d'um modo conjugal e terno! + +Apenas elle sahiu do quarto, limpando as unhas com o lenço, o +Conselheiro conduziu-os á sala de jantar, dizendo, jovialmente: + +--Não esperem o festim de Lucullo: é apenas o modesto passadio d'um +humilde philosopho! + +Mas o Alves Coutinho extasiou-se sobre a abundancia das travessas +de dôce; havia _creme_ crestado a ferro d'engomar, um prato _d'ovos +queimados_, aletria com as iniciaes do Conselheiro desenhadas a canella. + +--É um grande dia para Sebastião!--disse Jorge. + +O Alves Coutinho voltou-se logo para Sebastião, esfregando as mãos, com +um riso na face amarella: + +--É cá dos meus, hein? Gosta do bello dôce! Tambem me péllo, tambem me +péllo!... + +Houve então um silencio. As colheres de prata, remexendo devagar a sopa +muito quente, agitavam os longos canudos brancos e molles do macarrão. + +O Conselheiro disse: + +--Não sei se gostarão da sopa. Eu adoro o macarrão! + +--Gosta do macarrão?--acudiu o Alves. + +--Muito, meu Alves. Lembra-me a Italia!--E acrescentou:--Paiz que +sempre desejei vêr. Dizem-me que as suas ruinas são de primeira ordem. +Póde ir trazendo o cozido, snr.^a Philomena...--Mas detendo-a, com um +gesto grave:--Perdão, com franqueza, preferem o cozido ou o peixe? É um +pargo. + +Houve uma hesitação, Jorge disse: + +--O cozido talvez. + +E o Conselheiro com affecto: + +--O nosso Jorge opina pelo cozido. + +--Tambem estou pela sua!--exclamou o Alves Coutinho, voltado para +Jorge, com o olho afogado em reconhecimento:--O cozidinho! + +E o Conselheiro que julgava do seu dever dar á conversação nobreza e +interesse, disse, limpando devagar o bigode da gordura da sopa: + +--Dizem-me que é muito liberal a constituição da Italia! + +Liberal! Segundo Julião, se a Italia fosse liberal, devia ter ha muito +expulso a coronhadas o papa, o sacro collegio, e a sociedade de Jesus! + +O Conselheiro pediu, com bondade, a benevolencia do amigo Zuzarte para +o «chefe da Igreja». + +--Não--explicou--que eu seja um sectario do _Syllabus_. Não que eu +queira vêr os jesuitas enthronisados no seio da familia! Mas--e a sua +voz tornou-se profunda--o respeitavel prisioneiro do Vaticano é o +vigario de Christo! Meu Sebastião, sirva o arroz! + +Não havia que estranhar aquellas opiniões catholicas do Conselheiro, +ia observando Julião, porque tinha duas imagens de santos pendentes á +cabeceira da cama... + +A calva d'Accacio fez-se rubra. O Savedra do _Seculo_ exclamou com a +bocca cheia: + +--Não o sabia carola, Conselheiro! + +Accacio, afflicto, suspendeu o trinchador sobre o paio escarlate, e +acudiu: + +--Eu peço ao meu Savedra que não tire d'esse facto illações erradas. +Os meus principios são bem conhecidos. Não sou ultramontano, nem faço +votos pelo restabelecimento da perseguição religiosa. Sou liberal. +Creio em Deus. Mas reconheço que a religião é um freio... + +--Para os que o precisam--interrompeu Julião. + +Riram; o Alves Coutinho torcia-se. O Conselheiro interdicto respondeu, +devagar, dispondo na travessa as rodelas do paio: + +--Não o precisamos nós de certo, que somos as classes illustradas. Mas +precisa-o a massa do povo, snr. Zuzarte. Senão veriamos augmentar a +estatistica dos crimes. + +E o Savedra do _Seculo_, erguendo as sobrancelhas, com a physionomia +muito séria: + +--Pois olhe que diz uma grandissima verdade.--Repetiu a maxima, +modificando-a:--A religião é um bridão!--Fazia com o gesto o esforço de +conter uma mula. E pediu mais arroz. Devorava. + +O Conselheiro continuava, explicando: + +--Como dizia, sou liberal, mas entendo que algumas lithographias ou +gravuras, allusivas ao mysterio da Paixão, tem o seu lugar n'um quarto +de cama, e inspiram de certo modo sentimentos christãos. Não é verdade, +meu Jorge? + +Mas o Savedra interrompeu ruidosamente, com a face accesa n'uma +jovialidade libertina: + +--Eu, n'um quarto de dormir, as unicas pinturas que admitto são uma +bella nympha núa, ou uma bacchante desenfreada! + +--Isso, isso!--bradou o Alves Coutinho. A bocca dilatava-se-lhe +n'uma admiração sensual.--Este Savedra! Este Savedra!--E baixo para +Sebastião:--Tem um talento! Tem um talento! + +O Conselheiro voltou-se para Julião, e puxando o guardanapo para o +estomago: + +--Espero que não sejam esses os paineis immoraes, que se vêem no seu +gabinete d'estudo. + +Julião emendou: + +--No meu cubiculo. Ah! não, Conselheiro! Tenho apenas duas +lithographias--uma é um homem sem pelle para representar o systema +arterial, o outro é o mesmo individuo igualmente sem pelle para se vêr +o systema nervoso. + +O Conselheiro teve com a sua mão branca um vago gesto enojado, e +exprimiu a opinião--que na medicina, aliás uma grande sciencia! havia +cousas bastante asquerosas. Assim, ouvira dizer que nos theatros +anatomicos, os estudantes d'idéas mais avançadas levavam o seu desprezo +pela moral até atirarem uns aos outros, brincando, pedaços de membros +humanos, pés, coxas, narizes... + +--Mas é como quem mexe em terra, Conselheiro!--disse Julião, enchendo o +copo--é materia inerte! + +--E a alma, snr. Zuzarte?...--exclamou o Conselheiro. Fez um gesto +de vaga reticencia; e julgando tel-o aniquilado com aquella palavra +suprema, abriu para Sebastião um sorriso cortez e protector: + +--E que diz o nosso bondoso Sebastião? + +--Estou a ouvir, snr. Conselheiro. + +--Não dê ouvidos a estas doutrinas!--Com o garfo mostrava a figura +biliosa de Julião.--Mantenha a sua alma pura. São perniciosas. Que o +nosso Jorge (o que é de lamentar n'um homem estabelecido e empregado do +Estado) tambem vai um pouco para estas exagerações materialistas! + +Jorge riu; affirmou que _sim_, que tinha essa honra... + +--Então o Conselheiro quer que eu, um engenheiro, um estudante de +mathematica, acredite que ha almas que vivem no céo, com azinhas +brancas, tunicas azues, e tocando instrumentos? + +O Conselheiro acudiu: + +--Não, instrumentos não!--E como appellando para todos:--Não creio que +tivesse fallado em instrumentos. Os instrumentos são uma exageração. +São, podemos dizel-o, tacticas do partido reaccionario... + +Ia fulminar a doutrina ultramontana--mas a snr.^a Philomena +collocou-lhe diante a travessa com a perna de vitella assada. +Compenetrou-se logo do seu dever, afiou o trinchador com solemnidade, +foi cortando fatias finas, com a testa muito franzida como na +applicação d'uma funcção grave. Então Julião, pousando os cotovêlos +sobre a mesa, e escabichando os dentes com a unha, perguntou: + +--E o ministerio, cahe ou não cahe? + +Sebastião ouvira dizer no vapor d'Almada, de tarde, que «a situação +estava firme». + +Mas o Savedra esvaziou o copo, limpou os beiços e declarou que em duas +semanas «estavam em terra». Nem aquelle escandalo podia continuar! Não +tinham a mais pequena idéa de governo. Nem a mais leve! Assim, por +exemplo, elle...--E metteu as mãos nos bolsos, firmando-se nas costas +da cadeira--Elle tinha-os apoiado, não é verdade? E com lealdade. +Porque era leal! Sempre o fôra em politica! Pois bem, não lhe tinham +despachado o primo recebedor d'Aljustrel, tendo-lh'o promettido! e nem +lhe tinham dado uma satisfação. Assim não era possivel fazer politica! +Era uma collecção de idiotas! + +Jorge alegrava-se que viessem outros; talvez lhe dessem de novo a sua +commissão no ministerio; e elle o que queria era estar quieto ao seu +cantinho... + +O Alves Coutinho calava-se, com prudencia, engulindo buchas de pão. + +--Eu que caiam, ou que fiquem--disse Julião--que venham estes, ou que +venham aquelles... Obrigado, Conselheiro--e recebeu o seu prato de +vitella--...é-me inteiramente indifferente. É tudo a mesma podridão! O +paiz inspirava-lhe nojo; de cima a baixo era uma _choldra_: e esperava +breve que, pela logica das cousas, uma revolução varresse a porcaria... + +--Uma revolução!--fez o Alves Coutinho, assustado, com olhares +inquietos para os lados, coçando nervosamente o queixo. + +O Conselheiro sentára-se, e disse, então: + +--Eu não quero entrar em discussões politicas, só servem para dividir +as familias mais unidas, mas só lhe lembrarei, snr. Zuzarte, uma cousa, +os excessos da Communa... + +Julião recostou-se, e com uma voz muito tranquilla: + +--Mas onde está o mal, snr. Conselheiro, se fuzilarmos alguns +banqueiros, alguns padres, alguns proprietarios obesos, e alguns +marquezes cacheticos! Era uma limpezasinha!...--E fazia o gesto d'afiar +a faca. + +O Conselheiro sorriu, cortezmente; tomava como um gracejo aquella +sahida sanguinaria. + +O Savedra porém interpoz-se, com authoridade: + +--Eu no fundo sou republicano... + +--E eu--disse Jorge. + +--E eu--fez o Alves Coutinho, já inquieto.--Contem-me a mim tambem! + +--Mas--continuou o Savedra--sou-o em principio. Porque o principio é +bello, o principio é ideal! Mas a pratica? Sim, a pratica?--E voltava +para todos os lados a sua face balofa. + +--Sim, na pratica!--exclamava o Alves Coutinho, em echo admirativo. + +--A pratica é impossivel!--declarou o Savedra. E encheu a bocca de +vitella. + +O Conselheiro então resumiu: + +--A verdade é esta: o paiz está sinceramente abraçado á familia real... +Não acha, meu bom Sebastião?--Dirigia-se a elle, como proprietario e +possuidor d'inscripções. + +Sebastião, interpellado, córou, declarou que não entendia nada de +politica; havia todavia factos que o affligiam; parecia-lhe que os +operarios eram mal pagos; a miseria crescia; os cigarreiros, por +exemplo, tinham apenas de nove a onze vintens por dia, e, com familia, +era triste... + +--É uma infamia--disse Julião, encolhendo os hombros. + +--E ha poucas escólas...--observou timidamente Sebastião. + +--É uma torpeza!--insistiu Julião. + +O Savedra calava-se, occupado com o alimento; tinha desabotoado +a fivela do collete; espalhava-se-lhe no rosto gordo uma côr +d'enfartação, e sorria vagamente, inchado. + +--E os idiotas de S. Bento?...--exclamou Julião. + +Mas o Conselheiro interrompeu-o: + +--Meus bons amigos, fallemos d'outra cousa. É mais digno de portuguezes +e de subditos fieis. + +E voltando-se logo para Jorge, quiz saber como ficára a interessante D. +Luiza? + +Estava um pouco adoentada havia dias--disse Jorge.--Mas não era nada, +mudança d'estação, um bocadito d'anemia... + +O Savedra pousando o copo, e comprimentando: + +--Tive o prazer de a vêr passar este verão quasi todas as manhãs por +minha casa--disse.--Ia para os lados d'Arroios. Ás vezes de trem, ás +vezes a pé... + +Jorge pareceu um pouco surprehendido; mas o Conselheiro ia dizendo +quanto lhe pezava não ter o prazer de a vêr partilhar d'aquelle modesto +repasto; como celibatario porém... não tendo uma esposa para fazer as +honras... + +--E é o que eu admiro, Conselheiro--observou Julião--é que tendo uma +casa tão confortavel, não se tenha casado, não se tenha dado o conchego +d'uma senhora... + +Todos apoiaram. Era verdade! O Conselheiro devia-se ter casado. + +--São graves, perante Deus e perante a sociedade, as responsabilidades +d'um chefe de familia--considerou elle. + +Mas emfim--disseram--é o estado mais natural. E depois, que diabo, ás +vezes havia de se sentir só! E n'uma doença! Sem contar a alegria que +dão os filhos!... + +O Conselheiro objectou: «os annos, as neves da fronte...» + +Tambem ninguem lhe dizia que fosse casar com uma rapariga de quinze +annos! Não, era arriscado. Mas com uma pessoa de certa idade que +tivesse attractivos, cuidados de interior... Era mesmo moral. + +--Porque emfim, Conselheiro, a natureza, é a natureza!--disse Julião +com malicia. + +--Ha muito, meu amigo, que se apagou dentro em mim o fogo das paixões. + +Ora qual! era um fogo que nunca se extinguia! Que diabo! era +impossivel que o Conselheiro, apesar dos seus cincoenta e cinco, fosse +indifferente a uns bellos olhos pretos, a umas fórmasinhas redondas!... + +O Conselheiro córava. E o Savedra declarou, com um circumloquio +pudico--que nenhuma idade se eximia á influencia de Venus. Toda a +questão é nos gostos--disse:--aos quinze annos gosta-se d'uma matrona +cheia, aos cincoenta d'um fructosinho tenro... Pois não é verdade, +amigo Alves? + +O Alves arregalou os olhos concupiscentes, e fez estalar a lingua. + +E o Savedra continuou: + +--Eu, a minha primeira paixão foi uma visinha, mulher d'um capitão de +navios, mãi de seis filhos, e que não cabia por aquella porta. Pois +senhores, fiz-lhe versos, e a excellente creatura ensinou-me um par de +cousas agradaveis... Deve-se começar cedo, não é verdade?--E voltou-se +para Sebastião. + +Quizeram então saber as opiniões de Sebastião--que se fez escarlate. + +Por fim, muito solicitado, disse com timidez: + +--Eu acho que se deve casar com uma rapariga de bem, e estimal-a toda a +vida... + +Aquellas palavras simples produziram um curto silencio. Mas o Savedra, +reclinando-se, classificou uma tal opinião de «burgueza»; o casamento +era um fardo; não havia nada como a variedade... + +E Julião expôz dogmaticamente: + +--O casamento é uma formula administrativa, que ha-de um dia +acabar...--De resto, segundo elle, a femea era um ente subalterno; o +homem deveria aproximar-se d'ella em certas épocas do anno (como fazem +os animaes, que comprehendem estas cousas melhor que nós), fecundal-a, +e afastar-se com tedio. + +Aquella opinião escandalisou a todos, sobretudo o Conselheiro que a +achou «d'um materialismo repugnante». + +--Essas femeas para quem é tão severo, snr. Zuzarte--exclamava +elle--essas femeas são nossas mães, nossas carinhosas irmãs, a esposa +do Chefe do Estado, as damas illustres da nobreza... + +--São o melhor bocadinho d'este valle de lagrimas--interrompeu com +fatuidade o Savedra, dando palmadinhas sobre o estomago. Dissertou +então sobre as mulheres. O que sobretudo lhes exigia era um bonito pé; +não havia nada como um pésinho catita! E a todas preferia a mulher +hespanhola! + +O Alves votava pelas francezas: citava algumas do Café Concerto, +creaturas de fazer perder a cabeça!...--E injectavam-se-lhe os olhos. + +O Savedra disse com um trejeito hostil: + +--Sim, para um bocado de can-can... Para o can-can não ha como as +francezas... Mas muito chupistas! + +O Conselheiro affirmou ageitando as lunetas: + +--Viajantes instruidos teem-me afiançado que as inglezas são notaveis +mães de familia... + +--Mas frias como esta madeira--disse o Savedra, batendo no +mesa.--Mulheres de gêlo!--E reclamava hespanholas! Queria fogo! Queria +_salero_! Tinha o olho brilhante do vinho; a comida accendia-lhe o +sentimento! + +--Uma bella _gaditana_, hein, amigo Alves? + +Mas em presença dos dôces que a snr.^a Philomena dispôz sobre a mesa, +o Alves Coutinho esquecera as mulheres, e, voltado para Sebastião, +discutia gulodices. Indicava as especialidades: Para os folhados, o +Cócó! Para as natas, o Baltresqui! Para as gelatinas, o largo de S. +Domingos! Dava receitas; contava proezas de lambarice, revirando os +olhos: + +--Porque--dizia--o docinho e a mulherzinha é o que me toca cá por +dentro a alma. + +Era: todo o tempo que não dedicava ao serviço do Estado, dividia-o, com +solicitude, entre as confeitarias e os lupanares. + +Savedra e Julião discutiam a imprensa. O redactor do _Seculo_ gabava a +profissão de jornalista--quando a gente, já sabe, tem alguma cousa de +seu; mais tarde ou mais cedo apanha-se um nicho, não é verdade? Depois +as entradas nos theatros, a influencia nas cantoras. Sempre se é um +bocado temido... + +E o Conselheiro, cortando os ovos queimados, saboreando as alegrias da +convivencia, dizia a Jorge: + +--Que maior prazer, meu Jorge, que passar assim as horas entre +amigos, todos de reconhecida illustração, discutir as questões mais +importantes, e vêr travada uma conversação erudita?... Parecem +excellentes os ovos. + +A snr.^a Philomena, então, com solemnidade, veio collocar-lhe ao pé uma +garrafa de champagne. + +O Savedra pediu logo para a abrir, porque o fazia com muito _chic_. +E apenas a rolha saltou, e, no silencio que creou a ceremonia, se +encheram os copos, o Savedra, que ficára de pé, disse: + +--Conselheiro! + +Accacio curvou-se, pallido. + +--Conselheiro, é com o maior prazer que bebo, que todos bebemos, á +saude d'um homem, que--e arremessando o braço, deu um puxão ao punho +da camisa com eloquencia--pela sua respeitabilidade, a sua posição, os +seus vastos conhecimentos, é um dos vultos d'este paiz. Á sua saude, +Conselheiro! + +--Conselheiro! Conselheiro! Amigo Conselheiro! + +Beberam com ruido. Accacio, depois de limpar os beiços, passou a mão +tremula pela calva, levantou-se commovido, e começou: + +--Meus bons amigos! Eu não me preparei para esta circumstancia. Se o +soubesse d'antemão, teria tomado algumas notas. Não tenho a verbosidade +dos Rodrigos ou dos Garretts. E sinto que as lagrimas me vão embargar a +voz... + +Fallou então de si, com modestia: reconhecia, quando via na capital +tão illustres parlamentares, oradores tão sublimes, tão consummados +estylistas, reconhecia que era um Zero!--E com a mão erguida formava +no ar, pela junção do pollegar e do indicador, um 0: um _zero_! +Proclamou o seu amor á patria: que ámanhã as instituições ou a familia +real precisassem d'elle--e o seu corpo, a sua penna, o seu modesto +peculio, tudo offerecia de bom grado! Quereria derramar todo o seu +sangue pelo throno!--E, prolixo, citou o _Eurico_, as instituições da +Belgica, Bocage e passagens dos seus prologos. Honrou-se de pretencer á +Sociedade Primeiro de Dezembro...--N'esse dia memoravel--exclamou--eu +mesmo illumino as minhas janellas, sem o luxo dos grandes +estabelecimentos do Chiado, mas com uma alma sincera! + +E terminou dizendo:--Não esqueçamos, meus amigos, como portuguezes, de +fazer votos pelo illustrado monarcha, que deu ás neves da minha fronte, +antes de descerem ao tumulo, a consolação de se poderem revestir com +o honroso habito de S. Thiago! Meus amigos, á familia real!--e ergueu +o copo--á familia modêlo, que sentada ao leme do Estado, dirige, +cercada dos grandes vultos da nossa politica, dirige...--Procurou +o fecho; havia um silencio ancioso--dirige...--Através das lunetas +negras, os seus olhos cravavam-se, á busca da inspiração, na +travessa d'aletria--dirige...--Coçou a calva, afflicto; mas um +sorriso clareou-lhe o aspecto, encontrára a phrase; e estendendo o +braço:--...dirige a barca da governação publica com inveja das nações +visinhas! Á familia real! + +--Á familia real!--disseram com respeito. + +O café foi servido na sala. As velas d'estearina punham uma luz +triste n'aquella habitação fria; o Conselheiro foi dar corda á caixa +de musica; e, ao som do côro nupcial da _Lucia_, offereceu em redor +charutos. + +--E a snr.^a Adelaide póde trazer os licôres--disse á Philomena. + +Viram então apparecer uma bella mulher de trinta annos, muito branca, +de olhos negros, e fórmas ricas, com um vestido de merino azul, +trazendo n'uma bandeja de prata, onde tremelicavam copinhos, a garrafa +de cognac e o frasco de curaçáo. + +--Boa moça!--rosnou com o rosto acceso o Alves Coutinho. + +Julião quasi lhe tapou a bocca com a mão. E fallando-lhe ao ouvido, +olhando o Conselheiro, recitou: + + Não ouses, temerario, erguer teus olhos + Para a mulher de Cesar! + +E em quanto se bebia o curaçáo, Julião pé ante pé dirigiu-se ao +escriptorio, e foi erguer a ponta do chale-manta pardo que tanto o +preoccupava; eram rumas de livros brochados, atadas com guitas,--as +obras do Conselheiro, intactas! + +Quando Jorge entrou, ás onze horas, Luiza já deitada lia, esperando-o. + +Quiz saber do jantar do Conselheiro. + +Excellente, contou Jorge, começando a despir-se. Gabou muito os vinhos. +Tinha havido _speechs_... E de repente: + +--É verdade, onde ias tu a Arroios? + +Luiza passou devagar as mãos sobre o rosto para lhe cobrir a alteração. +Disse bocejando ligeiramente: + +--A Arroios? + +--Sim. O Savedra, um sujeito que estava em casa do Conselheiro, diz que +te via passar todos os dias para lá, de trem e a pé. + +--Ah!--fez Luiza, depois de tossir--ia vêr a Guedes, uma rapariga que +andou commigo no collegio, que tinha chegado do Porto. A Silva Guedes! + +--Silva Guedes!...--disse Jorge reflectindo--Imaginei que estava +secretario geral em Cabo-Verde! + +--Não sei. Estiveram ahi um mez no verão. Moravam a Arroios. Ella +estava doente, coitada: eu ia lá ás vezes. Mandava-me pedir para ir lá. +Põe essa luz fóra, está-me a fazer impressão. + +Queixou-se então que toda a tarde estivera exquisita. Sentia-se fraca, +e com uma pontinha de febre... + + +E nos dias seguintes não se achou melhor. Queixava-se ainda vagamente +de peso na cabeça, mal estar... Uma manhã mesmo ficou de cama. Jorge +não sahiu, inquieto, querendo já mandar chamar Julião. Mas Luiza +insistiu que «não era nada, um bocadito de fraqueza, talvez...» + +Foi tambem a opinião de Juliana, em cima na cozinha. + +--Que aquella senhora é fraca; alli ha cousa do peito--disse com +importancia. + +Joanna que estava debruçada sobre o fogão, acudiu logo: + +--O que ella é, é uma santa!... + +Juliana cravou-lhe nas costas um olhar rancoroso. E com um risinho: + +--A snr.^a Joanna diz isso como se as outras fossem uma peste. + +--Que outras? + +--Eu, vossemecê, a mais gente... + +Joanna sempre remexendo nas panellas sem se voltar: + +--Olhe, outra não encontra vossemessê, snr.^a Juliana! Uma senhora que +lhe deixa fazer tudo o que quer, e faz ella mesma o serviço! N'outra +dia andava a despejar as aguas. É uma santa! + +Aquelle tom hostil de Joanna exasperou-a; mas conteve-se; apesar da +sua _posição_ na casa, dependia d'ella para os caldinhos, os bifes, +os petiscos; tinha diante d'ella a vaga timidez respeitosa das +constituições franzinas pelos corpos possantes; pôz-se a dizer com uma +voz tortuosa, ambigua: + +--Ora!--são genios! Gosta d'arrumar. Ah, lá isso deve-se dizer, é +senhora de muita ordem. Mas gosta, gosta de trabalhar. Ás vezes +basta-lhe vêr um bocadinho de pó, agarra logo no espanador... É genio. +Tenho visto outras assim...--E punha a cabeça de lado, franzindo os +beiços. + +--O que ella é, é uma santa--repetiu a Joanna. + +--É genio! Está sempre n'uma labutação. Eu nunca sáio sem deixar tudo +n'um brinco. Pois senhores, nunca está satisfeita. Até n'outro dia, lá +em baixo a passar a roupa... Eu ia a sahir, pois tirei logo o chapéo, +e não consenti... Olhe, quer que lhe diga? falta de cuidados, não ter +filhos... Que ella não lhe falta nada... + +Calou-se, remirou o pé, e com satisfação: + +--Nem a mim--disse reclinando-se na cadeira. + +A Joanna pôz-se a cantarolar. Não queria «questões». Mas ultimamente +achava «tudo aquillo muito fóra dos eixos», a Juliana sempre na rua, ou +mettida no quarto a trabalhar para si, sem se importar, deixando tudo +ao Deus dará, e a pobre senhora a varrer, a passar, a emmagrecer! Não, +alli havia cousa! Mas o seu Pedro que ella consultára, disse-lhe com +finura, retorcendo o buço:--Ellas lá se entendem! Trata tu de gozar, +e não te importes com a vida dos outros. A casa é boa, toca a tirar +partido! + +Mas Joanna sentia «lá por dentro» a crescer-lhe uma embirração pela +snr.^a Juliana. Tinha-lhe asca pelas tafularias, pelos luxos do quarto, +pelas passeatas todo o dia, pelos modos de madama; não se recusava a +fazer-lhe o serviço, porque isso lhe rendia presentinhos da senhora; +mas, quê, tinha-lhe birra! O que a consolava era a idéa de que um +piparote desfazia aquella magricella! e ia tirando partido da casa, +tambem. O Pedro tinha razão... + +Juliana com effeito, agora, não se constrangia. Depois da «scena da +roupa», assustára-se, porque, emfim, o escandalo podia-lhe fazer +perder a _posição_; durante alguns dias não sahiu, foi cuidadosa: mas +quando viu Luiza resignar-se, abandonou-se logo, quasi com fervor, +ás satisfações da preguiça e ás alegriasinhas da vingança. Passeava, +costurava fechada no seu quarto, e a _Piorrinha_ que se arranjasse! +Diante de Jorge ainda se continha: temia-o. Mas apenas elle sahia! Que +desforra! Ás vezes estava varrendo ou arrumando--e, mal o sentia fechar +a cancella, atirava o ferro, a vassoura, punha-se a «panriar». Lá +estava a _Piorrinha_, para acabar! + +Luiza, no entanto, passava peor: tinha de repente, sem razão, febres +ephemeras; emmagrecia, e as suas melancolias torturavam Jorge. + +Ella explicava tudo pelo _nervoso_. + +--Que será, Sebastião?--era a pergunta incessante de Jorge. E +lembrava-se com terror que a mãi de Luiza morrera d'uma doença de +coração! + +Na rua, pela cozinheira, pela tia Joanna, sabia-se que a do Engenheiro +«ia mal». A tia Joanna jurava que era a solitaria. Porque emfim, +uma pessoa a quem não faltava nada, com um marido que era um anjo, +uma boa casa, todos os seus commodos--e a esmorecer, a esmorecer... +Era a bicha! Não podia ser senão a bicha! E todos os dias lembrava +a Sebastião que se devia mandar chamar o homem de Villa Nova de +Famalicão, que tinha o remedio «para a bicha». + +O Paula explicava d'outro modo. + +--Alli anda cousa de cabeça--dizia, franzindo a testa, com o ar +profundo.--Sabe o que ella tem, snr.^a Helena? É muita dóse de novellas +n'aquella cachimonia. Eu vejo-o de pela manhã até á noite de livro na +mão. Põe-se a lêr romances e mais romances... Ahi teem o resultado: +arrazada! + +Um dia Luiza de repente, sem razão, desmaiou; e quando voltou a si +ficou muito fraca, com o pulso sumido, os olhos cavados. Jorge foi logo +buscar Julião: encontrou-o muito agitado, porque o concurso era para o +dia seguinte, e «sentia cólicas». + +Durante todo o caminho não deixou de fallar excitadamente da sua +these, do escandalo dos patrocinatos, do barulho que faria se fossem +injustos,--arrependido agora de não ter «mettido mais cunhas»! + +Depois de ter examinado Luiza veio dizer, furioso, a Jorge: + +--Não tem nada! E vaes-me buscar p'ra isto! Tem anemia, o que todos +temos. Que passeie, que se distráia. Distracções e ferro, muito +ferro... E agua fria, agua fria p'ra cima d'aquella espinha! + +Como eram cinco horas, convidou-se para jantar, deblaterando toda a +tarde contra o paiz, amaldiçoando a carreira medica, injuriando o seu +concorrente, e fumando com desespero os charutos de Jorge. + +Luiza tomava o ferro, mas recusava as distracções; fatigava-a +vestir-se, aborrecia-lhe ir ao theatro... Depois, logo que viu Jorge +preoccupar-se do seu estado, quiz affectar força, alegria, bom humor; e +aquelle esforço abatia-a, extraordinariamente. + +--Vamos para o campo, queres tu?--dizia-lhe Jorge desolado, vendo-a +esmorecida. + +Ella, receando complicações possiveis, não aceitava; não se sentia +bastante forte, dizia: onde estava mais confortavel que em casa? Depois +as despezas, os incommodos... + +Uma manhã, que Jorge voltára a casa inesperadamente, encontrou-a +em _robe-de-chambre_, com um lenço amarrado na cabeça, varrendo, +lugubremente. + +Ficou á porta attonito: + +--Que andas tu a fazer? andas a varrer? + +Ella córou muito, atirou logo a vassoura, veio abraçal-o. + +--Não tinha que fazer... Deu-me a mania da limpeza... Estava +aborrecida, além d'isso faz-me bem, é um exercicio. + +Jorge, á noite, contou a Sebastião aquella «tolice, de se andar a +esfalfar...» + +--Uma pessoa que está tão fraca, minha senhora...--observou +reprehensivamente Sebastião. + +Mas não! dizia ella, achava-se bem melhor! Até agora andava muito +melhor... + +Todavia, quasi não fallou n'essa noite, curvada sobre o seu _crochet_, +um pouco pallida: e os seus olhos ás vezes erguiam-se com uma fadiga +triste, sorrindo silenciosamente, d'um modo desconsolado. + +Pediu a Sebastião que tocasse algum cousa do _Requiem_ de Mozart. +Achava tão lindo! Gostava que lh'o cantassem na igreja quando ella +morresse... + +Jorge zangou-se. Que mania de fallar em cousas ridiculas! + +--Mas então, não é possivel que eu morra?... + +--Pois bem, morre e deixa-nos em paz!--exclamou elle furioso. + +--Que bom marido!--dizia ella sorrindo a Sebastião.--Deixou cahir +o _crochet_ no regaço, pediu-lhe então os _Dezeseis compassos da +Africana_. Escutava, com a cabeça apoiada á mão: aquelles sons +entravam-lhe na alma com a doçura de vozes mysticas que a chamavam; +parecia-lhe que ia levada por ellas, se desprendia de tudo o que era +terrestre e agitado, se achava n'uma praia deserta, junto ao mar +triste, sob um frio luar--e alli, puro espirito, livre das miserias +carnaes, rolava nas ondulações do ar, tremia nos raios luminosos, +passava sobre as urzes nos sopros salgados... + +A melancolica attitude do seu corpo abatido enfureceu Jorge: + +--Ó Sebastião, fazes-me favor de tocar o fandango, o Barba Azul, +o Pirolito, o diabo? Senão, se querem melancolia, eu começo com o +canto-chão! + +E cantou, com um tom funebre: + + _Dies ir[ae], dies illa + Solvunt s[ae]cula in favilla!..._ + +Luiza riu-se: + +--Que doudo! Nem póde a gente estar triste... + +--Póde!--exclamou Jorge.--Mas então venha a bella tristeza, venha a +tristeza completa.--E com uma voz medonha entoou o _Bemdito_! + +--Os visinhos hão-de dizer que estamos doudos, Jorge--acudiu ella. + +--É justamente o que nós estamos!--E entrou no escriptorio, atirando +com a porta. + +Sebastião bateu alguns compassos, e voltando-se para ella, baixo: + +--Então que idéas são essas? Que melancolia é essa? + +Luiza ergueu os olhos para elle; viu a sua face boa e amiga, cheia de +sympathia; ia talvez dizer-lhe tudo n'uma explosão de dôr, mas Jorge +sahia do escriptorio. Sorriu, encolheu os hombros, retomou devagar o +seu _crochet_. + + +No domingo seguinte, á noite, conversava-se na sala. Julião contára o +seu concurso. Em resumo, estava contente: tinha fallado duas horas bem, +com precisão, com lucidez. + +O dr. Figueiredo dissera-lhe que «devia ter amenisado um bocado mais...» + +--Litteratos!--fazia Julião, encolhendo os hombros, com desprezo.--Não +podem fallar cinco minutos sobre o osso do tornozelo, sem trazerem as +«flôres da primavera» e «o facho da civilisação»! + +--O portuguez tem a mania da rhetorica...--disse Jorge. + +N'este momento Juliana entrou na sala, com uma carta. + +--Oh! é do Conselheiro! + +Ficaram inquietos. Mas Accacio apenas se desculpava de «não poder vir, +como promettera na vespera, partilhar do excellente chá de D. Luiza. +Um trabalho urgente retinha-o á banca do dever. Pedia lembranças aos +nossos Sebastião e Julião, e affectuosos respeitos á interessante D. +Felicidade». + +Uma onda de sangue abrazou o rosto da excellente senhora. Ficou a +arfar, toda alterada; mudou duas vezes de cadeira, foi tocar no teclado +com um dedo a _Perola d'Ophir_; e emfim, não se dominando, pediu baixo +a Luiza «que fossem para o quarto, tinha um segredo...» + +Apenas entraram, fechando a porta da sala: + +--Que me dizes á carta d'elle? + +--Os meus parabens--disse Luiza, rindo. + +--É o milagre!--exclamou D. Felicidade--já é o milagre a fazer-se!--E +mais baixo:--Mandei o homem! O que eu te disse, o gallego! + +Luiza não comprehendia. + +--O homem a Tuy, á mulher de virtude! Levou o meu retrato e o d'elle. +Partiu ha uma semana: a mulher naturalmente já começou a enterrar-lhe +as agulhas no coração... + +--Que agulhas?--perguntou Luiza attonita. + +Estavam de pé, junto ao toucador. E D. Felicidade com uma voz +mysteriosa: + +--A mulher faz um coração de cera, colla-o ao retrato do Conselheiro, +e durante uma semana á meia noite crava-lhe uma agulha benta com o +preparo que ella tem, e faz as orações... + +--E déste o dinheiro ao homem? + +--Oito moedas. + +--Oh D. Felicidade! + +--Ai! não me digas. Que já vês! Que mudança! D'aqui a uns dias, +baba-se! Ai! Nossa Senhora da Alegria o permitta. Nossa Senhora o +permitta! Que aquelle homem traz-me douda. De noite, é cada sonho! Até +ando em peccado mortal! e são suores! Mudo de camisa tres e quatro +vezes! + +E ia-se olhando ao espelho: queria convencer-se que as bellezas da sua +pessoa ajudariam as agulhas da bruxa: alisou o cabello. + +--Não me achas mais magra? + +--Não. + +--Ai estou, filha, estou!--E mostrou o corpete lasso. + +Já fazia planos. Iria passar a _lua de mel_ a Cintra... Os olhos +afogavam-se-lhe n'um fluido lubrico. + +--Nossa Senhora da Alegria o permitta. Tenho-lhe duas velas accesas, de +dia e de noite... + +Mas de repente a voz afflicta de Joanna bradou da escada da cozinha: + +--Minha senhora! Minha senhora, acuda! + +Luiza correu, Jorge tambem, que ouvira na sala o grito. Juliana estava +estendida no soalho da cozinha, desmaiada! + +--Deu-lhe de repente, deu-lhe de repente!--exclamava Joanna, muito +branca, a tremer.--Tombou p'ra o lado de repente... + +Julião tranquillisou-os logo: era uma syncope, simples. +Transportaram-na para a cama. Julião fez-lhe esfregar violentamente +com uma flanella quente as extremidades,--e, mesmo antes que Joanna +atarantada, em cabello, corresse á botica por um antispasmodico, +Juliana voltava a si, muito fraca. Quando desceram á sala, Julião +disse, enrolando o cigarro: + +--Não vale nada. São muito frequentes, estas syncopes, nas doenças +de coração. Esta é simples. Mas é o diabo, ás vezes tem um caracter +apopletico, e vem a paralysia; pouco duradoura, sim, porque a +effusão de sangue no cerebro é muito pequena, mas emfim, sempre +desagradavel.--E accendendo o cigarro:--Esta mulher um dia morre-lhes +em casa. + +Jorge, preoccupado, passeava pela sala com as mãos nos bolsos. + +--Sempre o tenho dito--acudiu D. Felicidade, baixando a voz, +assustada.--Sempre o tenho dito. É desfazerem-se d'ella. + +--Além d'isso o tratamento é incompativel com o serviço--disse +Julião.--Emfim, mesmo a engommar roupa se póde tomar digitalis ou +quinino; mas é que o verdadeiro tratamento é o repouso, é a absoluta +exclusão da fadiga. Que ella um dia se zangue ou que tenha uma manhã de +canceira, e póde ir-se! + +--E vai adiantada a doença?--perguntou Jorge. + +--Pelo que ella diz já tem a difficuldade asthmatica, oppressões, uma +dôr aguda na região cardiaca, flatulencia, humidade nas extremidades--o +diabo! + +--Olha que espiga!--murmurou Jorge, olhando em roda. + +--É pôl-a na rua!--resumiu D. Felicidade. + +Quando ficaram sós, ás onze horas, Jorge disse logo a Luiza: + +--Que te parece esta, hein? É necessario descartarmo-nos da creatura. +Não quero que me morra em casa! + +Ella, sem se voltar, diante do toucador, tirando os brincos, começou a +dizer, que não se podia mandar tambem a pobre creatura morrer p'ra a +rua... Lembrou vagamente o que ella tinha feito pela tia Virginia... Ia +collocando devagar as suas palavras com a cautela com que se pousa o pé +n'um terreno traiçoeiro.--Podia-se talvez dar-lhe algum dinheiro, que +ella fosse viver algures... + +Jorge, depois d'um silencio, respondeu: + +--Não tenho duvida em lhe dar dez ou doze libras, e que se vá, que se +arranje! + +Dez ou doze libras!--pensou Luiza com um sorriso infeliz.--E á beira +do toucador olhava para o seu rosto, ao espelho, com uma indefinida +saudade, como se as suas faces devessem dentro em pouco estar cavadas +pela afflicção, e os seus olhos fatigados pelas lagrimas... + + +Porque, emfim, a _crise_ tinha chegado. Se Jorge insistisse em despedir +a creatura, ella não podia, sem provocar um espanto e uma explicação, +dizer a Jorge: não quero que ella sáia, quero que ella aqui morra! E +Juliana vendo-se expulsa, desesperada, doente, percebendo que Luiza não +a defendia, não a reclamava,--vingar-se-hia! Que havia de fazer? + +Ergueu-se ao outro dia n'uma grande agitação. Juliana muito fatigada, +ainda estava na cama. E em quanto Joanna punha a mesa, Luiza sentada na +_voltaire_, á janella da sala de jantar, lia machinalmente o _Diario +de Noticias_, quasi sem comprehender, quando uma noticia, no alto da +pagina, lhe deu um sobresalto: «Parte além d'ámanhã para França o +nosso amigo e conhecido banqueiro Castro, da firma Castro Miranda & +C.^a S. exc.^a retira-se dos negocios da praça, e vai estabelecer-se +definitivamente em França, perto de Bordeus, onde comprou ultimamente +uma valiosa propriedade.» + +O Castro! O homem que lhe dava dinheiro, o que ella quizesse! dizia +Leopoldina. Partia!... E apesar de ter achado, desde o primeiro +momento, aquelle recurso infame, vinha-lhe a seu pezar como uma +desconsolação de o vêr desapparecer! Porque nunca mais voltaria a +Portugal, o Castro!... E de repente uma idéa atravessou-a, que a fez +vibrar toda, erguer-se direita, muito pallida.--Se na vespera da +partida d'elle, Santo Deus! se na vespera ella consentisse!... Oh! era +horrivel! Nem pensar em tal!... + +Mas pensou--e sentia-se toda fraca contra uma tentação crescente, que +se lhe enroscava na alma com caricias persuasivas. É que então estava +salva! Dava seiscentos mil reis a Juliana! E o demonio iria morrer para +longe! + +E elle, o homem, tomaria o paquete! Não teria de córar diante d'elle; +o seu segredo ia para o estrangeiro, tão perdido como se fosse para o +tumulo!--E, além d'isso, se o Castro tinha uma paixão por ella, era bem +possivel que lhe emprestasse, sem condições!... + +Bom Deus! No dia seguinte podia ter alli na algibeira do seu roupão as +notas, o ouro... Porque não?--Porque não? E vinha-lhe um desejo ancioso +de se libertar, de viver feliz, sem agonias, sem martyrios... + +Voltou ao quarto. Pôz-se a remexer no toucador, olhando de lado Jorge +que se vestia... A presença d'elle deu-lhe logo um remorso; ir pedir +a um homem dinheiro, consentir nos seus olhares lascivos, nas suas +palavras intencionaes!... Que horror!--Mas já subtilisava. Era por +Jorge, era por elle! Era para lhe poupar o desgosto de _saber_! Era +para o poder amar livremente, toda a vida, sem receios, sem reservas... + +Durante todo o almoço esteve calada. O rosto sympathico de Jorge +enternecia-a; o _outro_ parecia-lhe medonho, odiava-o já!... + +Quando Jorge sahiu ficou muito nervosa. Ia á janella; o sol parecia-lhe +adoravel, a rua attrahia-a.--Porque não? Porque não? + +A voz de Juliana, muito aspera, fallou então nas escadas da cozinha; e +aquelle cantado odioso decidiu-a bruscamente. + +Vestiu-se com cuidado: era mulher, quiz parecer bonita.--E chegou toda +esbaforida a casa de Leopoldina, quando dava meio dia a S. Roque. + +Encontrou-a vestida, esperando o almoço. E tirando immediamente o +chapéo, installando-se no sophá, explicou muito claramente a Leopoldina +a sua resolução. Queria o dinheiro do Castro. Emprestado ou dado, +queria o dinheiro!... Estava n'uma afflicção, devia valer-se de +tudo!... Jorge queria despedir a mulher... Tinha medo d'uma vingança +d'ella... Queria dinheiro, alli estava! + +--Mas assim de repente, filha!--disse Leopoldina, pasmada do seu olhar +decidido. + +--O Castro vai-se ámanhã. Vai para Bordeus, para o inferno! É +necessario fazer alguma cousa, já! + +Leopoldina lembrou escrever-lhe. + +--O que quizeres... Eu aqui estou! + +A outra sentou-se devagar á mesa, escolheu uma folha de papel, e, com o +dedinho no ar, a cabeça de lado, começou a escrevinhar. + +Luiza passeava pelo quarto, nervosa. Tinha agora uma resolução teimosa, +que a presença de Leopoldina fortificava! Divertia-se, aquella, +dançava, ia ao campo, gozava, vivia, sem ter como ella uma tortura a +minar-lhe, a estragar-lhe a vida! Ah! não voltaria para casa sem levar +na algibeira em boas libras o resgate, a salvação! Ainda que tivesse +de ser vil como as do Bairro Alto! Estava farta das humilhações, dos +sustos, das noites cortadas de pesadêlos!... Queria saborear a vida, +que diabo! o seu amor, o seu jantar, sem cuidados, com o coração +contente! + +--Vê lá--disse Leopoldina, lendo: + + + «Meu caro amigo. + +«Desejo absolutamente fallar-lhe. É um negocio grave. Venha logo que +possa. Talvez me agradeça. Espero-o até ás tres horas, o mais tardar. + +«Com toda a estima + + Sua amiga + + _Leopoldina_». + + +--Que te parece? + +--Horrivel! Mas está bem... Está muito bem! Risca-lhe o _talvez me +agradeça_. É melhor. + +Leopoldina copiou o bilhete, mandou-o pela Justina, n'um trem. + +--E agora vou almoçar, que me não tenho nas pernas. + +A sala de jantar dava para um saguão estreito. As paredes estavam +cobertas d'uma pintura medonha, em que grandes manchas verdes +semelhavam collinas, e linhas azues ferretes representavam lagos. Um +armario, no angulo da parede, servia de guarda-louça. As cadeiras de +palhinha tinham almofadinhas de paninho vermelho; e na toalha havia +nodoas do café da vespera. + +--D'uma cousa pódes tu ter a certeza--dizia Leopoldina, bebendo +grandes goles de chá--é que o Castro é um homem p'ra um segredo!... +Se te emprestar o dinheiro, que empresta, d'aquella bocca não sahe +uma palavra. Lá n'isso é perfeito... Olha que foi o amante da Videira +annos! e nem ao Mendonça, que é o seu intimo, disse uma palavra. Nem +uma allusão! É um poço. + +--Que Videira?--perguntou Luiza. + +--Uma alta, de nariz grande, que tem um _landau_. + +--Mas passa por uma mulher tão séria... + +--Já tu vês!--E com um risinho:--Ai ellas passam, passam. Lá passar, +passam. A questão é conhecer-lhes os pôdres, minha fidalga! + +E barrando de manteiga grandes fatias de pão, pôz-se a fallar +complacentemente dos escandalos de Lisboa, a desdobrar o _sudario_: +citava nomes, especialidades, as que depois de terem «feito o diabo», +gastam, n'uma devoção tardia, o resto d'uma velha sensibilidade; que +é por onde ellas acabam, algumas é pelas sacristias! As que, cançadas +de certo d'uma virtude monotona, preparam habilmente o seu «fracasso» +n'uma estação em Cintra ou em Cascaes. E as meninas solteiras! Muito +pequerrucho por essas amas, dos arredores tem o direito de lhes +chamar _mamã_! Outras mais prudentes, receando os resultados do amor, +refugiam-se nas precauções da libertinagem... Sem contar as senhoras +que em vista dos pequenos ordenados, completam o marido com um sujeito +supplementar!--Exagerava muito; mas odiava-as tanto! Porque todas +tinham, mais ou menos, sabido conservar a exterioridade decente que +ella perdera, e manobravam com habilidade, onde ella, a tola, tivera só +a sinceridade! E em quanto ellas conservavam as suas relações, convites +para _soirées_, a estima da côrte,--ella perdera tudo, era apenas a +Quebraes!... + +Aquella conversação enervava Luiza; n'uma tal generalidade do vicio +parecia-lhe que o seu caso, como um edificio n'um nevoeiro, perdia o +seu relevo cruel, se esbatia; e sentindo-o tão pouco visivel quasi o +julgava já justificado. + +Ficaram caladas, vagamente entorpecidas por aquelle sentimento d'uma +forte immoralidade geral, onde as resistencias, os orgulhos se +amollecem, se enlanguecem,--como os musculos n'uma estufa fortemente +saturada de exhalações mornas. + +--Este mundo é uma historia--disse Leopoldina erguendo-se e +espreguiçando-se. + +--E teu marido onde está?--perguntou Luiza no corredor. + +Fôra p'ra o Porto. Estavam á vontade, podiam commetter crimes! + +E Leopoldina, no quarto, estirando-se no canapé, com o cigarrinho +_laferme_ na bocca, começou tambem a queixar-se. + +Andava aborrecida ha tempos; enfastiava-se, achava tudo seccante; +queria alguma cousa de novo, de desusado! Sentia-se bocejar por todos +os poros do seu corpo... + +--E o Fernando, então?--disse distrahidamente Luiza, que a cada momento +se aproximava da janella. + +--Um idiota!--respondeu Leopoldina com um movimento d'hombros, cheio de +saciedade e de desprezo. + +Não, realmente tinha vontade d'outra cousa, não sabia bem de quê! +Ás vezes lembrava-se fazer-se freira! (E estirava os braços com um +tedio molle). Eram tão semsaborões todos os homens que conhecia! tão +corriqueiros todos os prazeres que encontrára! Queria uma outra vida, +forte, aventurosa, perigosa, que a fizesse palpitar--ser mulher d'um +salteador, andar no mar, n'um navio pirata... Em quanto ao Fernando, +o amado Fernando dava-lhe nauseas! E outro que viesse seria o mesmo. +Sentia-se farta dos homens! Estava capaz de tentar Deus! + +E, depois d'escancarar a bocca, n'um bocejo de fera engaiolada: + +--Aborreço-me! Aborreço-me!... Oh céos! + +Ficaram um momento caladas. + +--Mas, que se lhe ha-de dizer, a esse homem?--perguntou de repente +Luiza. + +Leopoldina, soprando o fumo do cigarro, com a voz muito preguiçosa: + +--Diz-se-lhe que se precisa um conto de reis, ou seiscentos mil reis... +Que se lhe ha-de então dizer? Que se lhe paga. + +--Como? + +Leopoldina disse, deitada, com os olhos no tecto: + +--Em affecto. + +--Oh! és horrivel!--exclamou Luiza, exasperada.--Vês-me aqui +desgraçada, meia douda, dizes que és minha amiga, e estás a rir, a +escarnecer...--A sua voz tremia, quasi chorava. + +--Mas tambem que pergunta tão tola! Como se lhe ha-de pagar?... Tu não +sabes? + +Olharam-se um momento. + +--Não, eu vou-me embora, Leopoldina!--exclamou Luiza. + +--Não sejas criança! + +Um trem parou na rua. A Justina appareceu. Não encontrára o snr. Castro +em casa, estava no escriptorio. Fôra lá, disse que vinha immediatamente. + +Mas Luiza, muito pallida, tinha o chapéo na mão. + +--Não--disse Leopoldina, quasi escandalisada--tu agora não me deixas +aqui com o homem! Que lhe hei-de eu dizer? + +--É horrivel!--murmurou Luiza com uma lagrima nas palpebras, deixando +cahir os braços, solicitada pelo interesse, enleada pela vergonha, +muito infeliz! + +--É como quem toma oleo de ricino--disse a outra com um gesto cynico. +E acrescentou, vendo o horror de Luiza:--Que diabo! onde é que está a +deshonra, em pedir dinheiro emprestado? Todo o mundo pede... + +N'aquelle momento outra carruagem, a largo trote, parou. + +--Entra tu primeiro! falla-lhe tu primeiro!--supplicou Luiza, erguendo +as mãos para ella. + +A campainha retiniu. Luiza muito tremula, muito branca, olhava para +todos os lados com um olhar muito aberto, de susto, d'ancia, como +procurando uma idéa, uma resolução ou um recanto para se esconder! +Botas d'homem rangeram na esteira da sala ao lado. Leopoldina então +disse-lhe baixo, devagar, como para lhe cravar as palavras na alma, uma +a uma: + +--Lembra-te que d'aqui a uma hora pódes estar salva, com as tuas cartas +na algibeira, feliz, livre! + +Luiza pôz-se de pé com uma decisão brusca. Foi pôr pós d'arroz, alisou +o cabello,--e entraram na + +Ao vêr Luiza, o Castro teve um movimento surprehendido. Curvou-se, com +os pés pequeninos muito juntos, inclinando a cabeça grossa, onde os +cabellos muito finos alourados já rareavam. + +Sobre o seu ventresinho redondo, que a perna curta fazia parecer quasi +pansudo, o medalhão do relogio pousava com opulencia. Trazia na mão +um chicote, cujo cabo de prata representava uma Venus retorcendo os +braços. A pelle tinha um rubor prospero; o bigode farto, terminava em +pontas agudas, empastadas em cera mostacha, d'um aspecto napoleonico. +E os seus oculos de ouro tinham um ar authoritario, bancario, amigo da +Ordem. Parecia contente da vida como um pardal muito farto. + +Com que! Era necessario mandal-o chamar, para que se lhe pozesse a +vista em cima,--começou logo Leopoldina. E depois de o apresentar a +Luiza «sua intima, sua amiga de collegio»: + +--Que tem feito, porque não tem apparecido? + +O Castro repoltreou-se n'uma cadeira de braços, e batendo com o chicote +nas botas, desculpou-se com os preparativos da partida... + +--Sempre é verdade? Deixa-nos? + +O Castro curvou-se: + +--Além d'amanhã. No _Orenoque_. + +--Então d'esta vez os jornaes não mentiram. E com demora? + +--_Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum._ + +Leopoldina pasmava. Deixar Lisboa! Um homem tão estimado, que se podia +divertir tanto!--Pois não é verdade?--disse voltando-se para Luiza, +para a tirar do seu silencio embaraçado. + +--Com certeza--murmurou ella. + +Estava sentada á beira da cadeira, como assustada, prompta a fugir. E +os olhares do Castro, insistentes por traz dos reflexos dos oculos, +incommodavam-na. + +Leopoldina reclinára-se no sophá e ameaçando-o com o dedo erguido: + +--Ah! Ahi n'essa ida p'ra França anda historia de saias! + +Elle negou frouxamente, com um sorriso fatuo. + +Mas Leopoldina não achava as francezas bonitas--o que era é que tinham +muito _chic_, muita animação... + +O Castro declarou-as adoraveis. Sobretudo para a estroinice! Ah! +conhecia-as bem! Emfim, lá como mães de familia não dizia. Mas para uma +cêa, para um bocado de _can-can_ não havia outras...--Affirmava-o com +convicção, pois, como os burguezes «da sua roda», avaliava doze milhões +de francezas por seis prostitutas de Café Concerto,--que tinha pago +caro e enfastiado immenso! + +Leopoldina, para o lisonjear, chamou-lhe _estroina_! + +Elle sorria, deliciando-se, afiando as pontas do bigode: + +--Calumnias, calumnias...--murmurava. + +E Leopoldina voltando-se para Luiza: + +--Comprou uma quinta magnifica em Bordeus, um palacio!... + +--Uma choupana, uma choupana... + +--E naturalmente vai dar festas magnificas!... + +--Modestos chás, modestos chás...--dizia, repoltreando-se. + +E riam ambos d'um modo muito affectado. + +O Castro curvou-se então para Luiza: + +--Tive o gosto de vêr v. exc.^a ha tempos, na rua do Ouro... + +--Creio que tambem me lembro--respondeu ella. + +E ficaram calados. Leopoldina tossiu, sentou-se mais á beira do sophá, +e depois de sorrir: + +--Pois eu mandei-o chamar porque temos uma cousa a dizer-lhe. + +Castro inclinou-se. O seu olhar não deixava Luiza, percorria-a com +atrevimento, palpava-a. + +--Aqui está o que é. Eu vou direita ás cousas, sem preambulos.--E teve +outro risinho.--Aqui a minha amiga está n'um grande apuro, e precisa um +conto de reis. + +Luiza acudiu com a voz quasi sumida: + +--Seiscentos mil reis... + +--Isso não importa--disse Leopoldina com uma indifferença +opulenta--estamos a fallar com um millionario! A questão é esta: quer o +meu amigo fazer o favor? + +O Castro endireitou-se na cadeira, devagar, e com uma voz arrastada, +ambigua: + +--Certamente, certamente... + +Leopoldina ergueu-se logo: + +--Bem. Eu tenho alli no quarto a costureira á espera. Deixo-os fallar +do negocio. + +E á porta do quarto, voltando-se para o Castro, ameaçando-o com o dedo, +a voz muito alegre: + +--Que o juro seja pequeno, hein? + +E sahiu, rindo. + +O Castro disse logo a Luiza, curvando-se: + +--Pois minha senhora, eu... + +--A Leopoldina contou-lhe a verdade, estou n'uma grande afflicção de +dinheiro. E dirijo-me a si... São seiscentos mil reis... Procurarei +pagar, o mais depressa... + +--Oh minha senhora!--fez o Castro com um gesto generoso. Começou então +a dizer, que comprehendia perfeitamente, todo o mundo tinha os seus +embaraços... Lamentava que a não tivesse conhecido ha mais tempo... +Sempre tivera uma grande sympathia por ella... Uma grande sympathia!... + +Luiza calava-se, com os olhos baixos. Elle foi pousar o chicote na +jardineira, veio sentar-se no sophá junto d'ella. Vendo o seu ar +embaraçado, pediu-lhe que não se affligisse. Valia lá a pena por +questões de dinheiro! Tinha o maior prazer em servir uma senhora +nova, tão interessante... Fizera perfeitamente em se dirigir a elle. +Conhecia casos em que senhoras se dirigiam a agiotas que as exploravam, +eram indiscretos...--E fallando tinha-lhe tomado a mão; o contacto +d'aquella pelle appetecida, exaltando-lhe o desejo brutalmente, fazia-o +respirar alto; Luiza, toda constrangida, nem retirára a mão; e Castro +abrazado--com uma verbosidade um pouco rouca, promettia _tudo_, _tudo +o que ella quizesse_!... Os seus olhinhos arregalados devoravam-lhe o +pescoço muito branco. + +--Seiscentos mil reis..., o que quizer!... + +--E quando?--disse Luiza muito perturbada. + +Elle via-lhe o seio arfar--e sob a irrupção d'um desejo brutal: + +--Já! + +Agarrou-a pela cinta, atirou-lhe um beijo voraz, quasi lhe mordeu a +face. + +Luiza ergueu-se com o salto d'uma mola d'aço. + +Mas o Castro escorregára sobre o tapete, de joelhos; e, prendendo-lhe +sofregamente os vestidos: + +--Dou-lhe o que quizer, mas sente-se! Ha annos que tenho uma paixão +por si. Escute!--Os seus braços tremulos subiam; envolviam-na, e o que +sentia das suas fórmas inflammava-o. + +Luiza, sem ruido, repellia-lhe as mãos, recusava-se. + +--O que quizer! Mas ouça!--balbuciava elle puxando-a violentamente para +si. A concupiscencia brutal dava-lhe uma respiração de touro. + +Então, com um puxão desesperado ás saias, ella soltou-se, e recuando +afflicta: + +--Deixe-me! Deixe-me! + +O Castro ergueu-se, a bufar, e com os dentes cerrados, os braços +abertos, rompeu para ella. + +Diante d'aquella luxuria bestial, Luiza, indignada, agarrou +instinctivamente de sobre a jardineira o chicote e deu-lhe uma forte +chicotada na mão. + +A dôr, a raiva, o desejo enfureceram-no. + +--Seu diabo!--rosnou, rangendo os dentes. + +Ia-se arremessar. Mas Luiza então, erguendo o braço, revolvida por +uma cólera phrenetica, atirou-lhe chicotadas rapidamente pelos +braços, pelos hombros--muito pallida, muito séria, com uma crueldade +a reluzir-lhe nos olhos, gozando uma alegria de desforra em fustigar +aquella carne gorda. + +O Castro, assombrado, defendia-se vagamente, com os braços diante da +cara, recuando; de repente, topou contra a jardineira; o candieiro de +porcelana oscillou, desequilibrou-se, rolou no chão, com estilhaços de +louça, e uma nodoa escura d'azeite alastrou-se na esteira. + +--Ahi está! Vê?--disse Luiza toda a tremer, apertando ainda +convulsivamente o chicote. + +Leopoldina ao barulho correu, do quarto. + +--Que foi? Que foi? + +--Nada, estavamos a brincar--disse Luiza. + +Atirou o chicote para o chão, sahiu da sala. + +O Castro, livido de raiva, tinha agarrado o chapéo; e fixando +terrivelmente Leopoldina: + +--Agradecido! Conte commigo quando quizer! + +--Mas que foi? Que foi? + +--Até á vista!--rugiu o Castro.--E indo apanhar o chicote, sacudindo-o +ameaçadoramente para o quarto, onde Luiza entrára: + +--Grande bebeda!--murmurou com rancor. + +E sahiu, atirando com as portas. + +Leopoldina, attonita, veio encontrar Luiza no quarto a pôr o chapéo, +com as mãos ainda tremulas, os olhos muito brilhantes, satisfeita. + +--Chegou-me cá uma cousa, e enchi-lhe a cara de chicotadas--disse ella. + +Leopoldina esteve um momento a olhal-a petrificada. + +--Bateste-lhe?...--E de repente desatou a rir, convulsivamente.--O +Castro d'oculos, o Castro coberto de chicotadas! O Castro a levar +uma coça!--Atirou-se para cima da _chaise-longue_, rolou-se; +suffocava.--Até já tinha uma pontada, Jesus! O Castro!... Vir a uma +casa amiga, levar o tiro de seiscentos mil reis e ser corrido a +chicote!... Com o seu proprio chicote!... Oh! era para estourar!... + +--O peor foi o candieiro--disse Luiza. + +Leopoldina ergueu-se, de salto. + +--E o azeite! Ai que agouro!--Correu á sala. Luiza veio encontral-a +diante da nodoa escura, com os braços cruzados, como se visse, toda +pallida, catastrophes avisinharem-se.--Que agouro, Santo Deus! + +--Deita-lhe sal depressa. + +--Faz bem? + +--Quebra o agouro. + +Leopoldina correu a buscar sal; e de joelhos, salgando a nodoa: + +--Ai! Nossa Senhora permitta que não haja nada mau! Mas que caso este, +que caso este! E agora, filha? + +Luiza encolheu os hombros. + +--Eu sei cá! Soffrer!... + + + + +XIII + + +N'essa semana, uma manhã, Jorge, que se não recordava que era dia de +gala, encontrou a secretaria fechada, e voltou para casa ao meio dia. +Joanna á porta conversava com a velha que comprava os ossos; a cancella +em cima estava aberta; e Jorge, chegando despercebido ao quarto, +surprehendeu Juliana commodamente deitada na _chaise-longue_, lendo +tranquillamente o jornal. + +Ergueu-se, muita vermelha, mal o viu, balbuciou: + +--Peço desculpa, tinha-me dado uma palpitação tão forte... + +--Que se pôz a lêr o jornal, hein?...--disse Jorge, apertando +instinctivamente o castão da bengala.--Onde está a senhora? + +--Deve estar p'ra a sala de jantar--disse Juliana, que se pôz logo a +varrer, muito apressada. + +Jorge não encontrou Luiza na sala de jantar; foi dar com ella no quarto +dos engommados, despenteada, em roupão de manhã, passando roupa, muito +applicada e muito desconsolada. + +--Tu estás a engommar?--exclamou. + +Luiza córou um pouco, pousou o ferro.--A Juliana estava adoentada, +juntára-se uma carga de roupa... + +--Dize-me cá, quem é aqui a criada e quem é aqui a senhora? + +A sua voz era tão aspera, que Luiza fez-se pallida, murmurou: + +--Que queres tu dizer? + +--Quero dizer que te venho encontrar a ti a engommar, e que a encontrei +a ella lá em baixo muito repimpada na tua cadeira, a lêr o jornal. + +Luiza, atarantada, abaixou-se sobre o cesto da roupa lavada, começou a +remexer, a desdobrar, a sacudir com a mão tremula... + +--Tu não pódes fazer idéa do que aqui vai por fazer--ia dizendo.--É +a limpeza, são os engommados, é um servição. A pobre de Christo tem +estado doente... + +--Pois se está doente que vá p'ra o hospital! + +--Não, tambem não tens razão! + +Aquella insistencia em defender a outra, que se repoltreava em baixo na +sua _chaise-longue_, exasperou-o: + +--Dize cá, tu dependes d'ella? Havia de dizer que tens medo d'ella! + +--Ah! se estás com esse genio!--fez Luiza com os beiços tremulos, uma +lagrima já nas palpebras. + +Mas Jorge continuava, muito zangado: + +--Não, essas condescendencias hão-de acabar por uma vez! Vêr aquelle +estafermo, com os pés p'ra cova, a prosperar em minha casa, a deitar-se +nas minhas cadeiras, a passear, e tu a defendel-a, a fazer-lhe o +serviço, ah! não! É necessario acabar com isso. Sempre desculpas! +sempre desculpas! Se não póde que arreie. Que vá p'ra o hospital, que +vá p'ra o inferno! + +Luiza lavada em lagrimas assoava-se, soluçando. + +--Bem! Agora choras. Que tens tu? Por que choras? + +Ella não respondia, n'um grande pranto. + +--Porque choras, filha?--perguntou elle, com uma impaciencia commovida, +chegando-se a ella. + +--Para que me fallas tu assim?--dizia, toda soluçante, limpando os +olhos.--Sabes que estou doente, nervosa, e tens mau genio p'ra mim! O +que me sabes dizer são cousas desagradaveis. + +--Cousas desagradaveis! Minha filha, eu disse-te lá nada +desagradavel!--E abraçou-a, ternamente. + +Mas ella desprendeu-se, e com a voz cortada de soluços: + +--Então é algum crime estar a engommar? Por que trabalho, por que trato +das minhas cousas, zangas-te? Querias que eu fosse uma desarranjada? A +mulher tem estado doente! Em quanto se não arranja outra, é necessario +fazer as cousas... Mas tu fallas, fallas! P'ra me affligir!... + +--Estás a dizer tolices, filha. Não estás em ti. Eu o que não quero é +que te cances! + +--P'ra que dizes então que tenho medo d'ella?--E as lagrimas +recomeçavam.--Medo de quê? Porque hei-de eu ter medo d'ella? Que +desproposito! + +--Pois bem, não digo. Não se falla mais na creatura. Mas não +chores... Vá, acabou-se!--Beijou-a. E tomando-a pela cinta, levando-a +dôcemente:--Vá, deixa o ferro agora. Vem! Que criança que tu és! + + +Por bondade, por consideração com os nervos de Luiza, Jorge durante +alguns dias não fallou «na creatura». Mas pensava n'ella; e aquelle +estafermo, com os pés para a cova, em sua casa, exasperava-o. Depois as +madracices que lhe percebera, os confortos do quarto que vira na noite +em que ella desmaiára, aquella bondade ridicula de Luiza!... Achava +aquillo estranho, irritante!... Como estava fóra de casa todo o dia, e +diante d'ella Juliana só tinha sorrisos para Luiza, muitas attitudes +de affecto, imaginava que ella se soubera insinuar, e, pelas pequenas +intimidades de ama a criada, se tornára necessaria e estimada. Isso +augmentava a sua antipathia. E não a disfarçava. + +Luiza vendo-o ás vezes seguir Juliana com um olhar rancoroso, tremia! +Mas o que a torturava era a maneira que Jorge adoptára de fallar +d'ella com uma veneração ironica; chamava-lhe _a illustre D. Juliana, +a minha ama e senhora_! Se faltava um guardanapo ou um copo, fingia-se +espantado: «Como! a D. Juliana esqueceu-se! Uma pessoa tão perfeita!» +Tinha gracejos que gelavam Luiza. + +--A que sabia o filtro que ella te deu? Era bom? + +Luiza agora, diante d'elle, já nem se atrevia a fallar a Juliana com um +modo natural; temia os sorrisos malignos, os ápartes:--«Anda, atira-lhe +um beijo, conhece-se na cara que estás com a vontade de lh'o atirar!» +E, receando as suspeitas d'elle, querendo mostrar-se _independente_, +começou na sua presença, a fallar a Juliana com uma dureza brusca, +muito affectada. A pedir-lhe agua, uma faca, dava á voz inflexões d'um +rancor postiço. + +Juliana, muito fina, tinha percebido _tudo_, e supportava, calada. + +Queria evitar toda a questão que a perturbasse no seu conchego. +Sentia-se agora muito mal, e nas noites em que não podia dormir com +afflicções asthmaticas, punha-se a pensar com terror--se fosse expulsa +d'aquella casa, para onde iria? Para o hospital! + +Tinha por isso medo de Jorge. + +--Elle está morto por me pilhar em desleixo grosso, e descartar-se de +mim--dizia ella á tia Victoria--mas não lhe hei-de dar esse gosto, ao +boi manso! + +E Luiza, pasmada, vira-a pouco a pouco recomeçar a fazer todo o +serviço, com zelo, apparentemente; e todavia ás vezes não podia, +vencida pela doença; tinha «flatos» que a faziam cahir n'uma cadeira, +arquejando, com as mãos no coração. Mas reagia. Uma occasião mesmo +vendo Luiza a passar um espanejador pelos _consoles_ da sala, zangou-se: + +--A senhora faz favor de se não metter no meu serviço? Eu ainda posso! +Ainda não estou na cova! + +Consolava-se então com regalos de gulodice. Durante todo o dia debicava +sopinhas, croquettes, pudinzinhos de batata. Tinha no quarto gelatina e +vinho do Porto. Em certos dias mesmo queria caldos de gallinha á noite. + +--Com o meu corpo o pago--dizia ella a Joanna--que trabalho como uma +negra! Arrazo-me! + +Um dia, porém, que Jorge se irritára mais com a figura amarellada de +Juliana, e que estava nervoso, ao achar á noite o jarro vazio e o +lavatorio sem toalha, enfureceu-se desproporcionadamente: + +--Não estou para aturar estes desleixos! Irra!--gritou. + +Luiza veio logo, inquieta, desculpar Juliana. + +Jorge mordeu o beiço, curvou-se profundamente, e com a voz um pouco +tremula: + +--Perdão! esquecia-me que a pessoa de Juliana é sagrada! eu mesmo vou +buscar agua! + +Luiza então zangou-se: se havia de estar sempre com aquelles remoques, +era mandar a criada embora por uma vez! Imaginava talvez que ella amava +de paixão a Juliana? Se a conservava é porque era uma boa criada. Mas +se ella se tornava a causa de maus humores, de questões, se elle lhe +ganhára tamanho odio, bem, então que se fosse! Era uma sécca aquella +ironia constante... + +Jorge não respondeu. + +E durante a noite Luiza, sem dormir, pensava que aquillo não podia +durar! Estava farta! Aturar a mulher, a sua tyranna, e ouvir a todo +o momento ditinhos, allusões, ah, não! era de mais! Bastava! Elle +começava a desconfiar, a bomba ia estalar! Pois bem, ella mesma +chegaria o lume ao rastilho! Ia mandar a Juliana embora! E que +mostrasse as cartas, acabou-se! Se elle a mettesse n'um convento, +se separasse d'ella, bem! Soffreria, morreria! Tudo, menos aquelle +martyrio reles, ás picadinhas, medonho e grotesco! + +--Que tens tu?--perguntou Jorge, meio a dormir, sentindo-a inquieta. + +--Espertina. + +--Coitada! Conta cento e cincoenta p'ra traz!--E voltou-se, +enrolando-se commodamente na roupa. + + +Ao outro dia Jorge levantára-se cedo. Devia encontrar-se com o Alonso, +o hespanhol das minas, e jantar com elle no Gibraltar. Depois de +vestido foi á sala de jantar--eram dez horas--e voltou a dizer a Luiza, +com uma cortezia profunda, espaçando as palavras:--que não estava a +mesa posta! que as chavenas do chá da vespera estavam ainda por lavar! +e que a snr.^a D. Juliana, a illustre snr.^a D. Juliana, tinha sahido, +a seu passeio! + +--Eu disse-lhe hontem á noite que me fosse ao sapateiro...--começou +Luiza, que vestia o seu roupão. + +--Ah, perdão!--interrompeu Jorge muito ceremoniosamente.--Esquecia-me +outra vez que se trata de Juliana, tua ama e senhora! Perdão! + +Luiza acudiu logo: + +--Não. Tens razão. Tu verás! É preciso pôr um côbro... + +Subiu logo á cozinha, desesperada: + +--Vossê porque não pôz a mesa, Joanna, se a outra sahiu? + +Mas a rapariga não ouvira sahir a snr.^a Juliana! Imaginára que estava +p'ra baixo, p'ra a sala! Como ella agora é que queria fazer tudo!... + +Quando Joanna trouxe o almoço d'ahi a pouco Jorge veio sentar-se á +mesa, torcendo muito nervosamente o bigode. Levantou-se duas vezes +com um sorriso mudo para ir buscar uma colhér, o assucareiro. Luiza +via-lhe os musculos da face contrahidos: mal podia comer, atarantada; +a chavena, quando a erguia, tremia-lhe na mão; com os olhos baixos +espreitava Jorge ás furtadellas, e o seu silencio torturava-a. + +--Tu fallaste hontem que ias jantar fóra hoje... + +--Vou--disse seccamente. E acrescentou:--Graças a Deus! + +--Estás de bom humor!...--murmurou ella. + +--Como vês! + +Luiza fez-se pallida, pousou o talher: tomou o jornal para disfarçar +uma lagrimasinha que lhe tremia na palpebra; mas as letras +confundiam-se, sentia pular o coração. De repente a campainha tocou. +Era a outra, de certo! + +Jorge, que se ia erguer, disse logo: + +--Ha-de ser essa senhora. Ora, vou-lhe dizer duas palavras... + +E ficou de pé, junto á mesa, aguçando devagar um palito. + +Luiza, a tremer, levantou-se tambem: + +--Eu vou-lhe fallar... + +Jorge reteve-a pelo braço, e tranquillamente: + +--Não, deixa-a vir. Deixa-me gozar!... + +Luiza recahiu na cadeira, muito pallida. + +Os tacões de Juliana soaram no corredor. Jorge aguçava tranquillamente +o seu palito. + +Luiza então voltou-se para elle, e batendo as mãos, afflicta: + +--Não lhe digas nada!... + +Elle fixou-a, assombrado: + +--Porque? + +Juliana n'este momento abriu o reposteiro. + +--Então que desaforo é este, sahir e deixar tudo por +arrumar?--disse-lhe Luiza logo, erguendo-se. + +Juliana, que vinha sorrindo, estacou á porta, petrificada: apesar da +sua amarellidão, uma vaga côr de sangue espalhou-se-lhe nas feições. + +--Não lhe torne a acontecer semelhante cousa, ouviu? A sua obrigação +é estar em casa pela manhã...--Mas o olhar de Juliana, que se cravava +n'ella terrivelmente, emmudeceu-a. Agarrou no bule com as mãos +tremulas.--Deite agua n'este bule, vá. + +Juliana não se mexeu. + +--Vossê não ouviu?--berrou de repente Jorge. E atirou uma punhada á +mesa, que fez saltar a louça. + +--Jorge!--gritou Luiza, agarrando-lhe no braço. + +Mas Juliana fugira da sala, correndo. + +--E logo, na rua!--exclamou Jorge.--Faze-lhe as contas, e que se vá. +Ah! estou farto! Nem mais um dia! Se a torno a vêr, desfaço-a! Até que +emfim! Chegou-me a minha vez! + +Foi buscar o paletot, muito excitado, e antes de sahir, voltando á sala: + +--E que se vá hoje mesmo, ouviste? Nem uma hora mais! Ha quinze dias +que a trago aqui atravessada. P'ra a rua! + + +Luiza veio para o quarto quasi sem se poder suster. Estava perdida! +estava perdida! Uma multidão d'idéas, todas extremas e insensatas, +redemoinhava no seu cerebro como um montão de folhas seccas n'uma +ventania: queria fugir, atirar-se ao rio, de noite; arrependia-se de +não ter cedido ao Castro... De repente imaginou Jorge abrindo as cartas +que Juliana lhe entregava, lendo: _Meu adorado Bazilio!_ Então uma +cobardia immensa amolleceu-lhe a alma. Correu ao quarto de Juliana. Ia +supplicar-lhe que lhe perdoasse, que ficasse, que a martyrisasse!... +E Jorge depois? Diria que a Juliana chorára, se atirára de joelhos! +Mentiria, cobril-o-hia de beijos... Era nova, era bonita, era +ardente--convencel-o-hia! + +Juliana não estava no quarto. Subiu á cozinha; estava lá, sentada, +com os olhos chammejantes, os braços nervosamente cruzados, n'uma +raiva muda. Apenas viu Luiza, deu um salto sobre os calcanhares, e +mostrando-lhe o punho, berrou: + +--Olhe que a primeira vez que vossê me torna a fallar como hoje, vai +aqui tudo raso n'esta casa! + +--Cale-se, sua infame!--gritou Luiza. + +--Vossê manda-me calar, sua p...!--E Juliana disse a palavra. + +Mas a Joanna correu, atirou-lhe pelo queixo uma bofetada que a fez +cahir, com um gemido, sobre os joelhos. + +--Mulher!--bradou Luiza, arremessando-se sobre a Joanna, agarrando-a +pelos braços. + +Juliana, assombrada, fugiu. + +--Ó Joanna! ó mulher! que desgraça, que escandalo!--exclamava Luiza com +as mãos apertadas na cabeça. + +--Racho-a!--dizia a rapariga com os dentes cerrados, os olhos como +brazas--racho-a! + +Luiza andava em volta da mesa da cozinha, automaticamente, pallida como +a cal, repetindo, toda a tremer: + +--O que vossê foi fazer, mulher! o que vossê foi fazer! + +A Joanna ainda toda revolvida de sua colera, com o rosto manchado de +vermelho, remexia furiosamente as panellas. + +--E se ella me diz uma palavra, acabo-a, aquella bebeda! Acabo-a! + +Luiza desceu ao quarto. No corredor sahiu-lhe Juliana, com a cuia á +banda, as dedadas escarlates na face, medonha. + +--Ou aquella desavergonhada vai já p'ra a rua--gritou ella--ou eu +vou-me pôr lá em baixo na escada, e quando o seu homem vier, mostro-lhe +tudo!... + +--Pois mostre, faça o que quizer!--disse Luiza, passando, sem a olhar. + +Fôra uma desesperação, um odio que a tinham decidido. Mais valia acabar +por uma vez!... + +Sentia então como um allivio doloroso, em vêr o fim do seu longo +martyrio! Havia mezes que elle durava. E pensando em tudo o que +tinha feito e que tinha soffrido, as infamias em que chafurdára e as +humilhações a que descera, vinha-lhe um tedio de si mesma, um nojo +immenso da vida. Parecia-lhe que a tinham sujado e espesinhado; que +n'ella nem havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em +si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, como um trapo +que foi pisado por uma multidão, sobre a lama. Não valia a pena +luctar por uma vida tão vil. O convento seria já uma purificação, a +morte uma purificação maior...--E onde estava elle, o homem que a +desgraçára? Em Paris, retorcendo a guia dos bigodes, chalaceando, +governando os seus cavallos, dormindo com outras! E ella morria alli, +estupidamente! E quando lhe escrevera a pedir-lhe que a salvasse, +nem uma palavra de resposta; nem a julgára digna do meio tostão da +estampilha! O que elle lhe dizia pelas terras da Polvora acima, +n'aquelle _coupé_:--Dar-lhe-hia toda a sua vida, viveria á sombra das +suas saias! O infame! Já tinha talvez no bolso o bilhete da passagem! +Em quanto ella fôra a mulher alegre, que vem, despe o corpete, mostra +um lindo collo--então bem, prompto! Mas teve uma difficuldade, chorou, +soffreu--ah! não, isso não! És um bello animal que me dás um grande +prazer--perfeitamente, tudo o que quizeres: mas tornas-te uma creatura +dolorida que precisa consolações, talvez uns poucos de centos de mil +reis--então boas noites, cá vou no paquete! Oh que estupida que é a +vida! Ainda bem que a deixava! + +Foi-se encostar á janella. Estava um dia muito azul, muito dôce. O +sol punha grandes claridades de um dourado ligeiro sobre as paredes +brancas, sobre a calçada. E havia no ar uma suavidade avelludada. +O Paula, em chinellas de tapete, aquecia-se á porta do estanque. +Então, diante do lindo ar d'inverno, enterneceu-se. Todos eram +felizes n'aquella manhã de rosas, só ella soffria, pobre d'ella! E +ficou a olhar, como esquecida n'uma vaga saudade, com uma lagrima +na palpebra... De repente viu Juliana atravessar a rua, dobrar a +esquina,--e d'ahi a pouco voltar com um gallego, velho e pesado, que +trazia o seu sacco ao hombro. + +Ia-se embora!--pensou Luiza.--Mandava pôr fóra os bahus! E depois? +Remettia as cartas a Jorge, ou entregava-lh'as ella mesma, no portal! +Santo Deus!--E parecia-lhe vêr Jorge apparecer no quarto, livido, com +as cartas na mão!... + +Veio-lhe um terror allucinado: não queria perder o seu marido, o seu +Jorge, o seu amor, a sua casa, o seu homem! Apossou-se d'ella a revolta +da femea contra a viuvez: aos vinte e cinco annos ir murchar para um +convento! Não, c'os diabos! + +Foi direita ao quarto de Juliana. + +--Vem vêr se lhe levo alguma cousa?--gritou logo a outra furiosa. + +Sobre a cama estava roupa branca espalhada, pelo chão botinas +embrulhadas em jornaes velhos. + +--E ainda cá me ficam quatro camisas, dous pares de calcinhas, tres +pares de meias, seis punhos na lavadeira. Fica ahi o rol. E quero as +minhas contas!... + +--Escute, Juliana, não se vá.--Mas a voz desappareceu-lhe, as lagrimas +saltaram-lhe dos olhos. + +Juliana poz-se a olhar para ella d'alto, triumphando, com uma botina de +duraque em cada mão. + +--É mandar aquella desavergonhada embora, e está tudo acabado!--E com +uma voz aguda, batendo as solas das botinas:--Fica tudo como d'antes, +na paz do Senhor! + +Uma alegria extraordinaria accendia-lhe o olhar. Vingava-se! fazia-a +chorar! expulsava a _outra_! e não perdia os seus commodos! + +--É pôr a bebeda na rua! É pôl-a na rua! + +Luiza curvou os hombros, foi á cozinha devagar; os degraus da escada +pareciam-lhe immensos, infindaveis. Deixou-se cahir n'um banco, e +limpando os olhos: + +--Joanna, venha cá, escute, vossê não póde continuar na casa... + +A rapariga ficou a olhar para ella, espantada. + +--O que a Juliana disse foi n'um repente... Tem estado a chorar, a +arrepender-se. É a criada mais antiga. O senhor estima-a muito... + +--Então a senhora manda-me embora? Então a senhora manda-me embora? + +Luiza insistiu, baixo, envergonhada: + +--Foi um repente, tem estado a pedir perdão... + +--Eu foi para defender a senhora!--exclamou a rapariga, abrindo os +braços, afflicta. + +Luiza sentiu-se indigna; e impaciente, para acabar: + +--Bem, Joanna, não estejamos com mais. Eu é que sou a dona da casa... +Vou-lhe fazer as contas. + +--Olha que pago este!--gritou Joanna, então, desesperada. E com uma +resolução, batendo o pé:--Pois o senhor é que ha-de dizer! Eu vou dizer +tudo ao senhor! Hei-de-lhe contar tudo o que se passou! A senhora não +tem razão!... + +Luiza olhava-a, estupida. Agora era aquella! Era d'aquella rapariga, +teimosa na sua justiça, que vinha o desastre! Era de mais! Veio-lhe um +terror sobrenatural, como um espanto da consciencia, e apertando as +fontes nas mãos abertas: + +--Que expiação! Que expiação, Santo Deus! + +De repente, como desvairada, agarrou Joanna pelos braços, e +fallando-lhe junto do rosto: + +--Joanna, vá-se pelo amor de Deus, vá-se! Não diga nada. Despeça-se +vossê!--E perdendo inteiramente todo o respeito proprio, cahiu de +joelhos, diante da cozinheira, soluçando:--Pelas cinco chagas de +Christo, vá, Joanna, minha rica Joanna, vá. Peço-lhe eu, Joanna! Pelo +amor de Deus! + +A rapariga, assombrada, rompeu n'um choro estridente. + +--Vou, sim, minha senhora!... vou, sim, minha rica senhora! + +--Sim, Joanna, sim. Eu dou-lhe alguma cousa. Vossê bem vê... Não +chore... Espere... + +Desceu ao quarto correndo, tirou da gaveta duas libras das suas +economias, voltou, galgando os degraus, metteu-lh'as na mão, +dizendo-lhe baixo: + +--Faça uma trouxa, eu ámanhã lhe mandarei o bahu. + +--Sim, minha senhora--soluçava a rapariga, babada de dôr--sim, minha +rica senhora! + +Luiza veio deixar-se cahir de bruços sobre a sua _chaise-longue_, n'um +choro convulsivo tambem, desejando a morte, pedindo, n'um terror, +piedade a Deus! + +Mas a voz aspera de Juliana disse bruscamente á porta: + +--Então em que ficamos? + +--A Joanna vai-se. Que quer mais? + +--Que sáia já!--disse a outra imperiosamente.--Que o jantar o faço eu. +Por hoje, já se vê! + +As lagrimas de Luiza seccavam-se, de raiva. + +--E a senhora agora ouça! + +O tom de Juliana era tão insultante, que Luiza ergueu-se, como ferida. + +E Juliana, ameaçando-a, d'alto, com o dedo erguido: + +--E a senhora agora é andar-me direita, senão eu lh'as cantarei!... + +E voltou as costas, batendo os tacões. + + +Luiza olhou em roda, como se um raio tivesse atravessado o quarto; +mas tudo estava immovel e correcto; nem uma prega das cortinas se +movera, e os dous pastorinhos de porcelana sobre o toucador sorriam +pretenciosamente. + +Então tirou o roupão violentamente, passou um vestido sem apertar o +corpete, vestiu por cima um casaco largo d'inverno, atirou o chapéo +para a cabeça despenteada, sahiu, desceu a rua tropeçando nas saias, +quasi a correr. + +O Paula saltou para o meio da rua para a seguir: viu-a parar á porta de +Sebastião, e veio dizer á estanqueira: + +--Em casa do Engenheiro ha novidade! + +E ficou plantado á porta com os olhos cravados para as janellas +abertas, onde as bambinellas de reps verde cahiam com as suas pregas +immoveis. + +--O snr. Sebastião?--perguntava Luiza á rapariguita sardenta, que +correra a abrir a porta. + +E ia entrando pelo corredor. + +--Na sala--disse a pequena. + +Luiza subiu; sentia sons de piano; abriu violentamente a porta, e +correndo para elle, apertando as mãos contra o peito, n'uma voz +angustiosa e sumida: + +--Sebastião, escrevi uma carta a um homem, a Juliana apanhou-m'a. Estou +perdida! + +Elle ergueu-se devagar, assombrado, muito branco; viu-lhe o rosto +manchado, o chapéo mal posto, a afflicção do olhar: + +--Que é? Que é? + +--Escrevi a meu primo--repetiu, com os olhos cravados n'elle, +anciosamente--a mulher apanhou-me a carta... Estou perdida! + +Fez-se muito pallida, os olhos cerraram-se-lhe. + +Sebastião amparou-a, levou-a meio desmaiada para o sophá de damasco +amarello. E ficou de pé, mais descórado que ella, com as mãos nos +bolsos do seu jaquetão azul, immovel, estupido. + +De repente correu fóra, trouxe um copo d'agua, borrifou-lhe o rosto ao +acaso. Ella abriu os olhos, as suas mãos errantes apalparam em redor, +fitou-o espantada, e deixando-se cahir sobre o braço do canapé, com o +rosto escondido nas mãos, rompeu n'um choro hysterico. + +O seu chapéo cahira. Sebastião apanhou-o, sacudiu-lhe delicadamente as +flôres, pôl-o sobre a jardineira com cuidado; e vindo nas pontas dos +pés debruçar-se junto d'ella: + +--Então! então!--murmurava. E as suas mãos tocando-lhe de leve o braço, +tremiam como folhas. + +Quiz dar-lhe agua para a socegar: ella recusou com a mão, endireitou-se +devagar no sophá, limpando os olhos, assoando-se com grandes soluços. + +--Desculpe, Sebastião, desculpe--dizia.--Bebeu então um gole d'agua, +ficou com as mãos no regaço, quebrada; e, uma a uma, as suas lagrimas +silenciosas cahiam sem cessar. + +Sebastião foi fechar a porta--e vindo ao pé d'ella, com muita doçura: + +--Mas então? Que foi? + +Ella ergueu para elle a sua face chorosa, onde os olhos brilhavam +febrilmente; olhou-o um momento, e deixando pender a cabeça, toda +humilhada: + +--Uma desgraça, Sebastião, uma vergonha!--murmurou. + +--Não se afflija! Não se afflija! + +Sentou-se ao pé d'ella, e baixo, com solemnidade: + +--Tudo o que eu puder, tudo o que fôr necessario, aqui me tem! + +--Oh Sebastião!...--exclamou n'um impulso de reconhecimento humilde; +e acrescentou:--Acredite, tenho sido bem castigada! O que eu tenho +soffrido, Sebastião! + +Esteve um momento com os olhos cravados no chão; e agarrando-lhe +o braço de repente, com força, as palavras romperam abundantes e +precipitadas, como os borbulhões d'uma agua comprimida que rebenta. + +--Apanhou-me a carta, não sei como, por um descuido meu! Ao principio +pediu-me seiscentos mil reis. Depois começou a martyrisar-me... Tive +de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus +lençoes, dos finos. Era a dona da casa. O serviço quem o faz sou +eu!... Ameaça-me todos os dias, é um monstro. Tudo tem sido baldado, +boas palavras, bons modos... E onde tenho eu dinheiro? Pois não é +verdade? Ella bem via... O que eu tenho soffrido! Dizem que estou mais +magra, até o Sebastião reparou. A minha vida é um inferno. Se Jorge +soubesse!... Aquella infame queria hoje dizer-lhe tudo!... E trabalho +como uma negra. Logo pela manhã a limpar e varrer. Ás vezes tenho de +lavar as chicaras do almoço. Tenha piedade de mim, Sebastião, por quem +é, Sebastião! coitada de mim, não tenho ninguem n'este mundo. + +E chorava, com as mãos sobre o rosto. + +Sebastião, calado, mordia o beiço; duas lagrimas rolavam-lhe tambem +pela face, sobre a barba. E levantando-se, devagar: + +--Mas Santo nome de Deus, minha senhora! porque me não disse ha mais +tempo? + +--Ó Sebastião, podia lá! Uma vez estive para lh'o dizer... Mas não +pude, não pude! + +--Fez mal!... + +--Esta manhã o Jorge quiz pôl-a fóra. Embirra com ella, percebe os +desmazelos. Mas não desconfia de nada, Sebastião!...--E desviou os +olhos, muito escarlate.--Escarnecia-me ás vezes por eu parecer tão +apaixonada por ella... Mas esta manhã zangou-se, mandou-a embora. +Apenas elle sahiu, veio como uma furia, insultou-me... + +--Santo Deus!--murmurava Sebastião assombrado, com a mão sobre a testa. + +--Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que faço os despejos!... + +--Mas merece a morte, essa infame!--exclamou batendo com o pé no chão. + +Deu alguns passos pesados pela sala, devagar, as mãos nos bolsos, +os seus largos hombros curvados. Voltou sentar-se ao pé d'ella, e +tocando-lhe timidamente no braço, muito baixo: + +--É necessario tirar-lhe as cartas... + +--Mas como? + +Sebastião coçava a barba, a testa. + +--Ha-de-se arranjar--disse, por fim. + +Ella agarrou-lhe a mão: + +--Oh Sebastião, se fizesse isso! + +--Ha-de-se arranjar. + +Esteve um momento calculando--e com o seu tom grave: + +--Eu vou-me entender com ella... É necessario que ella esteja só em +casa... Podiam ir ao theatro, esta noite. + +Levantou-se lentamente, foi buscar o _Jornal do Commercio_, sobre a +mesa, olhou os annuncios: + +--Podiam ir a S. Carlos, que acaba mais tarde... É o _Fausto_... Podiam +ir vêr o _Fausto_... + +--Podiamos ir vêr o _Fausto_--repetiu Luiza, suspirando. + +E então, muito chegados, ao canto do sophá, Sebastião foi-lhe dizendo +um plano, em palavras baixas, que ella devorava, anciosa. + +Devia escrever a D. Felicidade, para a acompanhar ao theatro... +Mandar um recado a Jorge, prevenindo-o que o iriam buscar ao _Hotel +Gibraltar_... E a Joanna? A Joanna deixára a casa. Bem. Ás nove horas, +então, Juliana estaria só. + +--Vê como tudo se arranja?--disse elle, sorrindo. + +Era verdade... Mas daria a mulher as cartas? + +Sebastião tornou a coçar a barba, a testa: + +--Ha-de dar--disse. + +Luiza olhava-o quasi com ternura: parecia-lhe vêr na sua face honesta, +uma alta belleza moral. E de pé diante d'elle, com uma melancolia na +voz: + +--E vai fazer isso por mim, Sebastião, por mim, que fui tão má mulher... + +Sebastião córou, respondeu encolhendo os hombros: + +--Não ha más mulheres, minha rica senhora, ha maus homens, é o que ha! + +E acrescentou logo: + +--Eu vou buscar o camarote. Uma boa frisa, hein?... Uma frisasinha ao +pé do palco... + +Sorria, para a tranquillisar. Ella punha o chapéo, descia o véo com +pequeninos soluços tristes, que voltavam a espaços. + +No corredor encontraram a tia Joanna com os braços abertos; beijou +muito Luiza; aquella visita era um milagre! E que bonita que estava! +era a flôr do bairro! + +--Está bom, tia Joanna, está bom--disse Sebastião, afastando-a +brandamente. + +Ora que não fosse mettediço! Já lá a tinha tido mais de meia hora, +tambem ella agora a queria um bocadinho! Assim é que elle devia ter uma +mulherzinha! Uma rapariga de bem! Uma açucena! + +Luiza corava, embaraçada. + +E o snr. Jorge? que era feito d'elle? Ninguem o via. E a D. Felicidade? + +--Está bom, basta, tia Joanna!--fez Sebastião impaciente. + +--Olha o sofrego!... Ninguem lhe come a menina!... Cruzes!... + +Luiza sorriu; lembrou-se então de repente que não tinha por quem mandar +os bilhetes a D. Felicidade e a Jorge, ao hotel. + +Sebastião fel-a entrar logo em baixo no escriptorio: que escrevesse, +elle os mandaria: escolheu-lhe o papel, molhando-lhe a penna--mais +prompto, mais delicado desde que a sabia infeliz. Luiza fez o bilhete +para Jorge; e, como apesar das suas afflicções, se lembrou com terror +de certo vestido verde decotado de D. Felicidade, acrescentou n'um _P. +S._, no bilhete para ella: «o melhor é vires de preto, e não fazeres +grande _toilette_. Nada de decotes nem de côres claras.» + + +Quando entrou em casa, viu um gallego sahindo com a trouxasita de +Joanna. E logo no corredor sentiu a voz grossa da rapariga, que das +escadas da cozinha dizia para cima, ameaçadoramente: + +--Torne eu a apanhal-a, que não me sahe viva das mãos, sua bebeda! + +--Bufa! bufa!--gritou de cima Juliana--mas vai-te indo para o olho da +rua! + +Luiza escutava mordendo os beiços. Em que se convertera a sua casa! Uma +praça! Uma taberna! + +--Se eu t'apanho!--rosnava a Joanna descendo. + +--Rua! rua, sua porca!--gania a Juliana. + +Luiza então chamou a rapariga: + +--Joanna, não procure casa, venha por aqui além d'amanhã--disse-lhe +baixo. + +Juliana em cima cantava a _Carta adorada_, com um jubilo estridente. + +E d'ahi a pouco desceu, veio dizer, muito seccamente, «que estava o +jantar na mesa». + +Luiza não respondeu. Esperou que ella subisse á cozinha, correu á sala +de jantar, trouxe pão, um prato de marmelada, uma faca, veio fechar-se +no quarto;--e alli _jantou_, a um canto da jardineira. + +Ás seis horas um trem parou á porta. Devia ser Sebastião! Foi ella +mesma abrir, em bicos de pés. Era elle, animado, vermelho, com o chapéo +na mão: trazia-lhe a chave da frisa numero dezoito... + +--E isto... + +Era um ramo de camelias vermelhas, rodeadas de violetas dobradas. + +--Oh Sebastião!--murmurou ella, com um reconhecimento commovido. + +--E carruagem, tem? + +--Não + +--Eu cá mando. Ás oito, hein? + +E desceu, todo feliz de a servir. Ella seguiu-o com o olhar que se +humedecia. Foi á janella do quarto vêl-o sahir.--Que homem! pensava. E +cheirava as violetas, voltava o ramo na mão, sentia tambem um prazer +dôce na protecção d'elle, nos seus cuidados. + +Nós de dedos bateram á porta do quarto: + +--Então a senhora não quer jantar?--disse a voz impaciente de Juliana, +de fóra. + +--Não. + +--Mais fica! + + +D. Felicidade veio um pouco antes das oito. Luiza ficou tranquilla, +vendo-a com vestido preto afogado, e o seu adereço d'esmeraldas. + +--Então que é isto? Que estroinice é esta, vamos a saber?--disse logo, +muito alegre, a excellente senhora. + +Um capricho!--O Jorge tinha jantado fóra, ella sentira-se tão só!... +Dera-lhe o appetite d'ir ao theatro. Não pudera resistir... Tinham de o +ir buscar pelo _Hotel Gibraltar_. + +--Eu tinha acabado de jantar quando recebi o teu bilhete. Fiquei!... +E estive p'ra não vir--disse, sentando-se, com pancadinhas muito +satisfeitas nas pregas do vestido.--Apertar-me depois de jantar! +Felizmente, não tinha comido quasi nada! + +Quiz então saber o que ia. O _Fausto_? Ainda bem! De que lado era a +frisa? dezoito. Perdiam a vista da familia real, era pena!... Pois +estava mais longe d'aquella noitada de theatro!...--E erguendo-se +passeava diante do toucador com olhares de lado, alisando os bandós, +ageitando as pulseiras, entalada nos espartilhos, a pupilla luzidia. + +Uma carruagem parou á porta. + +--O trem!--disse, toda risonha. + +Luiza calçando as luvas, já com a capa, olhava em redor: o coração +batia-lhe alto; nos seus olhos havia uma febre. Não lhe faltava nada? +perguntou D. Felicidade. A chave da frisa? o lenço? + +--Ai! o meu ramo!--exclamou Luiza. + +Juliana ficou espantada quando a viu vestida _p'ra theatro_. Foi +alumiar, calada; e atirando a cancella com uma pancada insolente: + +--Não tem mesmo vergonha n'aquella cara!--rosnou. + +O trem já rodava, quando D. Felicidade rompeu a gritar, batendo nos +vidros: + +--Espere, pare! Que ferro, esqueceu-me o leque! Não posso ir sem leque! +Pare, cocheiro! + +--Faz-se tarde, filha, dou-te o meu. Toma!--fez Luiza impaciente. + +Aquellas agitações abalavam a digestão comprimida de D. Felicidade; +felizmente, como ella dizia, arrotava! Graças a Deus, louvada seja +Nossa Senhora, que podia arrotar! + +Mas a descida do Chiado alegrou-a muito. Grupos escuros, onde se +gesticulava, destacavam ás portas vivamente alumiadas da Casa Havaneza; +os trens passavam para o lado do Picadeiro, com um rapido reluzir +de lanternas ricas, que alumiavam as bandas brancas dos capotes dos +criados. D. Felicidade com a sua face jubilosa á portinhola, gozava a +claridade do gaz nas vitrines, o ar d'inverno; e foi com uma satisfação +que viu o guarda-portão do _Gibraltar_, de calções vermelhos, vir com o +boné na mão, á portinhola. + +Perguntaram por Jorge. + +E, caladas, olhavam a escada de lance decorativo onde globos foscos +derramavam uma luz dôce. D. Felicidade, muito curiosa da «vida +d'hotel», reparou na engommadeira que entrou com um cesto de roupa; +depois n'uma senhora que lhe pareceu «estabanada», e que descia, +vestida de _soirée_, mostrando o pé calçado n'um sapato redondo de +setim branco: e sorria de vêr sujeitos roçarem-se pelo trem, lançando +para dentro olhares gulosos. + +--Estão a arder por saber quem somos. + +Luiza calada apertava nas mãos o seu ramo. Emfim Jorge appareceu no +alto da escada, conversando muito interessadamente com um sujeito +magrissimo, de chapéo ao lado, as mãos nos bolsos d'umas calças muito +estreitas, e um enorme charuto enristado ao canto da bocca. Paravam, +gesticulavam, cochichavam. Por fim o sujeito apertou a mão de Jorge, +fallou-lhe ao ouvido, riu baixo, torcendo-se, bateu-lhe no hombro, +obrigou-o muito sériamente a aceitar outro charuto,--e pondo o chapéo +mais ao lado foi conversar com o guarda-portão. + +Jorge correu á portinhola do trem, rindo: + +--Então que extravagancia é esta? Theatro, tipoias!... Eu reclamo o +divorcio! + +Parecia muito jovial. Sómente tinha pena de não estar vestido... +Ficaria atraz no camarote.--E para as não amarrotar subiu para a +almofada. + + + + +XV + + +Passava das oito horas quando o trem parou em S. Carlos. Um gaiato, +que tossia muito, com o casaco pregado sobre o peito por um alfinete, +precipitou-se a abrir a portinhola; e D. Felicidade sorria de +contentamento, sentindo a cauda do vestido de sêda arrastar sobre o +tapete esfiado do corredor das frisas. + +O pano já estava levantado. Era á luz diminuida da rampa, a decoração +classica d'uma cella d'alchimista; embrulhado n'um roupão monastico, +com uma abundancia hirsuta de barbas grisalhas, tremuras senis, Fausto +cantava, desilludido das sciencias, pousando sobre o coração a mão +onde reluzia um brilhante. Um cheiro vago de gaz extravasado errava +subtilmente. Aqui e além tosses expectoravam. Havia ainda pouca gente. +Entrava-se. + +Na frisa, para se collocarem, D. Felicidade e Luiza cochichavam, com +gestosinhos de recusa, olhares supplicantes: + +--Oh D. Felicidade, por quem é! + +--Se estou aqui muito bem... + +--Não consinto... + +Emfim D. Felicidade sentou-se no lugar superior alteando o peito. Luiza +ficára atraz calçando as luvas; em quanto Jorge arrumava os agasalhos, +furioso com o chapéo que já duas vezes rolára. + +--Tem banquinho, D. Felicidade? + +--Obrigada, cá o sinto.--E remexeu os pés.--Que pena não se vêr a +familia real! + +Nos camarotes d'assignantes iam apparecendo os altos penteados +medonhos, enchumaçados de postiços; peitilhos de camisas branquejavam. +Sujeitos entravam para as cadeiras devagar, com um ar gasto e intimo, +compondo o cabello. Conversava-se baixo. Ao fundo da platéa havia um +rumor desinquieto entre moços de jaquetão; e á entrada, sob a tribuna, +viam-se, n'um apparato militar, correames polidos de municipaes, bonés +carregados de policias; e reluzindo á luz, punhos de sabres. + +Mas na orchestra correram fortes estremecimentos metallicos, dando um +pavor sobrenatural; Fausto tremia como um arbusto ao vento; um ruido +de folhas de lata, fortemente sacudidas, estalou; e Mephistopheles +ergueu-se ao fundo, escarlate, lançando a perna com um ar charlatão, +as duas sobrancelhas arrebitadas, uma barbilha insolente, _un bel +cavalier_; e em quanto a sua voz poderosa saudava o Doutor, as duas +plumas vermelhas do gorro oscillavam sem cessar d'um modo fanfarrão. + +Luiza chegára-se para a frente; ao ruido da cadeira, cabeças na platéa +voltaram-se, languidamente; pareceu de certo bonita, examinaram-na; +ella, embaraçada, pôz-se a olhar para o palco muito séria:--por traz +de véos sobrepostos que se levantavam, n'uma affectação de visão, +Margarida appareceu fiando o linho, toda vestida de branco; a luz +electrica, envolvendo-a n'um tom crú, fazia-a parecer de gesso muito +caiado; e D. Felicidade achou-a tão linda que a comparou a uma santa! + +A visão desappareceu n'um tremulo de rebecas. E depois d'uma aria, +Fausto, que ficára immovel ao fundo do palco, debateu-se um momento +dentro da tunica e das barbas, e emergiu joven, gordinho, vestido de +côr de lilaz, coberto de pôs d'arroz, compondo o frisado do cabello. As +luzes da rampa subiram: uma instrumentação alegre e expansiva resoou: +Mephistopheles, apossando-se d'elle, arrastou-o sofrego através da +decoração. E o pano desceu rapidamente. + +As platéas ergueram-se com um rumor grosso e lento. D. Felicidade um +pouco affrontada abanava-se. Examinaram então as familias, algumas +_toilettes_; e sorrindo concordaram que estava «do mais fino». + +Nos camarotes conversava-se sobriamente; ás vezes uma joia brilhava, +ou a luz punha tons lustrosos d'aza de corvo nos cabellos pretos onde +alvejavam camelias ou reluzia o aro de metal d'um pente; os vidros +redondos dos binoculos moviam-se devagar, picados de pontos luminosos. + +Na platéa, nas bancadas clareadas, sujeitos quasi deitados namoravam +com languidez; ou de pé, taciturnos, acariciavam as luvas; velhos +_dilettanti_, de lenço de sêda, tomavam rapé, caturravam; e D. +Felicidade interessava-se por duas hespanholas de verde, que na +superior immobilisavam, n'uma affectação casta, os seus corpos de +lupanar. + +Um collega de Jorge magrinho e janota entrou então no camarote: parecia +animado, e perguntou logo se não sabiam o grande escandalo? Não. E o +engenheiro, com gestos vivos das suas mãosinhas calçadas n'umas luvas +esverdeadas, contou que a mulher do Palma, o deputado, sabiam, tinha +fugido!... + +--P'ra o estrangeiro? + +--Qual!--E a voz do engenheiro tinha agudos triumphantes.--Ahi é que +estava o bonito. P'ra casa d'um hespanhol que morava defronte!... Era +divino! De resto--e a sua voz tornou-se grave--estava enthusiasmado com +o baixo! + +E depois de ter sorrido, olhado pelo binoculo, ficou calado, extenuado +do que dissera, batendo apenas de vez em quando no joelho de Jorge, com +um _Sim, senhor!_ familiar, ou um _Então que é feito?_ amigavel. + +Mas a campainha retinia finamente. O engenheiro sahiu, em bicos de +pés. E o pano ergueu-se devagar na alegria da kermesse, cheia de uma +luz branca e dura. Casas acastelladas branquejavam no pano de fundo, +n'alguma collina do Rheno amiga das vinhas. Escarranchado sobre uma +pipa, o barrigudo e folgazão rei Cambrinus ria enormemente, erguendo, +na sua attitude de taboleta gothica, a vasta caneca emblematica da +cerveja germanica. E estudantes, judeus, reitres e donzellas, nas suas +côres vivas de paninho, moviam-se d'um modo automatico e somnambulo, +aos compassos largos da instrumentação festiva. + +A walsa então desenrolou-se languidamente, como um fio de melodia, +em espiraes suaves que ondeavam e fugiam: Luiza seguia os pésinhos +das dançarinas, as pernas musculosas volteando no tablado; e as saias +tufadas e curtas faziam como o girar multiplicado e reproduzido de +vagos discos de cambraia. + +--Que bonito!--murmurava ella, com uma felicidade no rosto. + +--D'appetite--affirmava D. Felicidade, revirando os olhos. + +Certas agudezas delicadas dos flautins enterneciam Luiza; e a casa, +Juliana, as suas miserias, tudo lhe parecia recuado, no fundo d'uma +noite esquecida. + +Mas o jovial Diabo adiantava-se por entre os grupos, e logo, com gestos +aduncos e rapaces, cantou o _Dio del oro_. A sua voz arremessada +affirmava, n'um tom brutal, o poder do dinheiro; nas massas da +instrumentação passavam sonoridades claras e tilintantes d'um remexer +sofrego de thesouros; e as notas altas finaes cahiam, d'um modo curto e +secco, como martelladas triumphantes cunhando o divino ouro! + +Luiza então viu D. Felicidade perturbar-se; e seguindo o seu olhar +negro, subitamente avivado, descobriu na geral a calva polida do +conselheiro Accacio,--que comprimentava, promettendo generosamente, com +a mão espalmada, a sua visita proxima. + +Veio, apenas o pano desceu, e felicitou-as immediatamente por terem +escolhido aquella noite: a opera era das melhores e estava gente muito +fina. Lamentou ter perdido o primeiro acto;--ainda que não gostasse +extremamente da musica, apreciava-o por ser muito philosophico. E, +tomando da mão de Luiza o binoculo, explicou os camarotes, disse os +titulos, citou as herdeiras ricas, nomeou os deputados, apontou os +litteratos.--Ah! conhecia bem S. Carlos! Havia dezoito annos! + +D. Felicidade, rubra, admirava-o. O Conselheiro sentia que não podessem +vêr o camarote real: a rainha, como sempre, estava adoravel. + +Sim? Como estava? + +--De velludo. Não sabia se rôxo, se azul escuro. Affirmar-se-hia, e +viria dizer... + +Mas quando o pano subiu, ficou sentado por traz de Luiza começando +logo a explicar--que aquella (Siebel, colhendo flôres no jardim de +Margarida) posto que segunda dama, ganhava quinhentos mil reis por +mez... + +--Mas apesar d'estes ordenadões morrem quasi sempre na miseria--disse +com reprovação.--Vicios, cêas, orgias, cavalgadas... + +A portinha verde do jardim abriu-se, e Margarida entrou devagar, +desfolhando o malmequer da legenda, caracterisada de virgem, com +as duas longas tranças louras. Scismava, fallava só, amava: a dôce +creatura sente em volta de si o ar pesado, e quereria bem que sua mãi +voltasse! + +Os olhos de Luiza encheram-se então de melancolia, com a saudosa +ballada do rei de Thule; aquella melodia dava-lhe a vaga sensação d'um +pallido paiz d'amores espirituaes, banhado de luares frios, longe, +no Norte, junto a um mar gemente--ou de tristezas aristocraticas, +scismadas n'um terraço, sob a sombra d'um parque... + +Mas o Conselheiro preveniu-as, dizendo: + +--Agora é que é! Reparem. Agora é o ponto capital. + +De joelhos, diante do cofre das joias, a dama requebrava-se, +garganteando; apertava nas mãos o collar, extasiada; punha os brincos +com denguices delirantes; e da sua bocca muito aberta sahia um canto +trinado, d'uma crystallinidade aguda--entre o vago susurro da admiração +burgueza. + +O Conselheiro disse discretamente: + +--Bravo! Bravo! + +E, excitado, dissertou: aquillo era o melhor da opera! Era alli que se +via a força das cantoras... + +D. Felicidade quasi tinha medo que lhe estalasse alguma cousa na +garganta. Preoccupava-se tambem com as joias. Seriam falsas? Seriam +d'ella? + +--É p'ra a tentar, não é verdade? + +--É um drama allemão--disse-lhe baixo o Conselheiro. + +Mas Mephistopheles ia arrastando a boa Martha; Fausto e Margarida +perdiam-se nas sombras cumplices do jardim aphrodisiaco,--e o +Conselheiro observou que todo aquelle acto era um pouco fresco. + +D. Felicidade murmurou-lhe--entre reprehensiva e extatica: + +--Quantas scenas não terá tido assim, maganão! + +O Conselheiro fitou-a, indignado: + +--O quê, minha senhora! levar a deshonra ao seio d'uma familia! + +Luiza fez-lhe _chut_, sorrindo. Interessava-se agora. Tinha escurecido; +uma facha de luz electrica enchia o jardim d'um vago luar azulado, onde +os maciços arredondados se recortavam em pastas escuras; e Fausto e +Margarida enlaçados, quasi desfallecidos, soltavam d'um modo expirante +o seu duetto: uma sensualidade delicada e moderna, com elances +d'um requinte devoto, arrastava-se na orchestra gemente; o tenor +esforçava-se, agarrando o peito, com um geito morbido dos quadris, o +olhar anuviado: e desprendendo-se da languida arcada dos violoncellos, +o canto subia para as estrellas... + + Al pallido chiarore + Dei astri d'oro. + +Mas o coração de Luiza batia precipitadamente; vira-se de repente +sentada no divan, na sua sala, ainda tomada dos soluços do adulterio, +e Bazilio, com o charuto ao canto da bocca, batia distrahido no piano +aquella aria--_Al pallido chiarore dei astri d'oro_. D'essa noite tinha +vindo toda a sua miseria!--e subitamente, como longos véos funebres +que descem e abafam, as recordações de Juliana, da casa, de Sebastião, +vieram escurecer-lhe a alma. + +Olhou o relogio. Eram dez horas. Que se passaria? + +--Estás incommodada?--perguntou-lhe Jorge. + +--Um pouco. + +Margarida apoiava-se, expirante de voluptuosidade, ao rebordo da sua +janellinha. Fausto corre. Enlaçam-se. E entre as gargalhadas do Diabo e +o roncar dos rebecões--o pano desceu, pondo uma reticencia pudica... + +D. Felicidade, abrazada, quiz agua. Jorge apressou-se: queria bolos? +neve? A excellente senhora hesitou; o _chic_ da neve attrahia-a, mas +cohibiu-se com terror da colica. Veio sentar-se ao fundo ao pé de +Luiza, e ficou a olhar, vagamente cançada; havia um susurro lento; +bocejava-se discretamente; e o fumo dos cigarros, entrando, de fóra, +fazia uma nevoa apenas perceptivel que enchia a sala, ia prender-se +ao lustre, embaciando ligeiramente as luzes. Quando Jorge sahiu o +Conselheiro acompanhou-o: ia acima tomar o seu copo de gelatina... + +--É a minha cêa em dia de S. Carlos--disse. + +Voltou d'ahi a pouco, limpando os beiços ao lenço de sêda, ter com +Jorge que fumava no pequeno patamar junto á entrada das cadeiras: + +--Veja isto, Conselheiro--disse-lhe logo Jorge, indignado, mostrando a +parede--que escandalo! + +Tinham desenhado, com o charuto apagado sobre a parede caiada, enormes +figuras obscenas: e alguem, prudente e amigo da clareza, ajuntára por +baixo as designações sexuaes com uma boa letra cursiva. + +E Jorge, revoltado: + +--E passam por aqui senhoras! Vêem, lêem! Isto só em Portugal!... + +O Conselheiro disse: + +--A autoridade devia intervir de certo...--Acrescentou com +bonhomia:--São rapazes, com o charuto. Apreciam muito esta +distracção...--E sorrindo, recordando-se:--Uma occasião mesmo, o conde +de Villa Rica, que tem graça, muita graça, insistiu commigo, dando-me o +charuto, para que eu fizesse um desenho...--E mais baixo:--Eu dei-lhe +uma lição severa. Tomei o charuto... + +--E fumou-o? + +--Escrevi. + +--Uma obscenidade? + +O Conselheiro, recuando, exclamou com severidade: + +--Jorge, conhece o meu caracter! Pois suppõe...?--E acalmando-se:--Não, +tomei o charuto e escrevi com mão firme: HONRA AO MERITO! + +Mas a campainha retiniu, entraram no camarote. Luiza incommodada +não quiz sentar-se á frente. E o Conselheiro, grave, tomou o seu +lugar--defronte de D. Felicidade. Foi para a nutrida senhora um momento +feliz, de um gozo requintado. Estavam _ambos_, alli, como noivos! O +seu peito abundante arfava: via-se a sahirem, mais tarde, de braço +dado, entrarem n'um _coupé_ estreito, pararem á porta da casa conjugal, +pisarem o tapete da alcova... Tinha um suor á raiz dos cabellos--e +vendo o Conselheiro sorrir-lhe, amavel, com a sua calva toda luzidia ao +gaz, sentia um reconhecimento apaixonado pela mulher de virtude que, +áquella hora, no fundo da Galliza, estava cravando agulhas n'um coração +de cera!... + +Mas de repente o Conselheiro bateu na testa, arremessou-se sobre o +chapéo, sahiu impetuosamente. Olharam-se inquietos. D. Felicidade +empallideceu: seria alguma dôr? Santo Deus! Já murmurava baixo uma reza. + +Mas viram-no entrar logo, e dizer com uma voz triumphante: + +--D'azul escuro! + +Abriram grandes olhos, sem comprehender. + +--Sua magestade a rainha! Tinha promettido verifical-o, cumpri-o! + +E sentou-se com solemnidade, dizendo a Luiza: + +--Lamento que se esconda n'esse recanto, D. Luiza! Na sua idade! Na +flôr dos annos! Quando tudo na vida é côr de rosa! + +Ella sorriu. Estava agora muito sobresaltada. A cada momento olhava +o relogio. Sentia-se doente: os pés arrefeciam-lhe, uma vaga febre +fazia-lhe a cabeça pesada. O seu pensamento estava na casa, em Juliana, +em Sebastião, cortado de palpites, de esperanças, de terrores... E via, +sem comprehender, a multidão de soldados vestidos de côres mipartidas, +com armas obsoletas, que marchavam, paravam n'uma cadencia affectada, +erguendo uma poeira subtil no tablado mal regado. Um côro vigoroso +resoava: era a marcha arrogante e festiva dos reitres allemães, +celebrando a alegria das excursões victoriosas pelos paizes do vinho, +e a posse das bolsas mercenarias cheias de sonoros rixdales! E os +seus olhos seguiam um barbaças corpulento, que, por cima dos gorros +quadrados dos bésteiros, balançava monotonamente um largo quadrado de +paninho--a bandeira do Santo Imperio, negra, vermelha e d'ouro! + +Mas então ergueu-se um rumor no fundo da platéa. Vozes duras +altercavam. Ordem! ordem! dizia-se. Localistas na superior pozeram-se +rapidamente em bicos de pés na palhinha das cadeiras. Quatro policias +e dous municipaes appareceram á porta do fundo; e depois d'uma troça, +de risadas, foram levando um moço livido, que cambaleava,--e o lado +esquerdo do seu jaquetão de pellucia estava todo vomitado! + +Mas fez-se logo silencio: o pano de fundo oscillava um pouco, +acotovellado pela sahida festiva dos reitres e dos populares; e no +palco deserto, tendo á direita um portico oscillante de cathedral e á +esquerda a portinha triste d'uma casa burgueza, Valentim, com uma longa +pera, á beira da rampa, beijava sofregamente uma medalha:--mas Luiza +não o escutava. Pensava com o coração confrangido: que fará a esta hora +Sebastião? + + +Sebastião, ás nove horas, por um nordeste agudo que torcia as luzes do +gaz dentro dos candieiros, dirigia-se devagar a casa d'um commissario +de policia, seu primo afastado, o Vicente Azurara. Uma velha servente, +engelhada como uma maçã raineta, levou-o ao quarto escolastico, «onde +o snr. commissario estava a cozer uma grande constipação»: encontrou-o +com um gabão pelos hombros, os pés embrulhados n'um cobertor, tomando +_grogs_ quentes, e lendo o _Homem dos tres calções_. Apenas Sebastião +entrou tirou do nariz adunco as grandes lunetas, e erguendo para elle +os olhos pequeninos, chorosos do defluxo, exclamou: + +--Estou com um diabo d'uma constipação ha tres dias, que me não quer +largar...--E rosnou algumas pragas, passando a mão magra e nodosa sobre +uma face trigueira, de linhas duras, a que um espesso bigode grisalho +dava ferocidade. + +Sebastião lamentou-o muito: não admirava com a estação que ia!... +Aconselhou-lhe agua sulfurica com leite fervido. + +--Eu, se isto não despega--disse o commissario +rancorosamente--atiro-lhe ámanhã p'ra dentro com meia garrafa de +genebra; e se não fôr por bem, ha-de ir á força... E que ha de novo? + +Sebastião tossiu, queixou-se d'andar tambem adoentado, e chegando a +cadeira para ao pé do primo Vicente, pondo-lhe a mão sobre o joelho: + +--Ó Vicente, tu, se eu te pedisse um policia p'ra me acompanhar cá p'ra +uma cousa, só p'ra metter medo, só p'ra fazer que uma pessoa restitua o +que tirou, tu davas ordem, hein? + +--Ordem p'ra quê?--perguntou lentamente o Vicente com a cabeça baixa, +os olhinhos avermelhados em Sebastião. + +--Ordem p'ra me acompanhar, p'ra se mostrar. É só p'ra se mostrar. É um +caso exquisito... P'ra metter medo... Tu sabes que eu não sou capaz... +É p'ra que uma pessoa restitua o que tirou. Sem fazer escandalo... + +--Roupas? Dinheiro? + +E o commissario cofiava reflectidamente o bigode com os seus longos +dedos magros, muito queimados do cigarro. + +Sebastião hesitou: + +--Sim. Roupas, cousas... É p'ra não haver escandalo... Tu percebes... + +O Vicente murmurou com um ar profundo, fixando-o: + +--Um policia p'ra se mostrar... + +Escarrou ruidosamente. E franzindo a testa: + +--Não é cousa de politica? + +--Não!--fez Sebastião. + +O commissario embrulhou mais os pés no cobertor, rolou em redor os +olhos, ferozmente: + +--Nem toca com gente grauda? + +--Qual! + +--Um policia p'ra se mostrar...--ruminava o Vicente.--Tu és um homem de +bem... Dá cá aquella pasta de cima da commoda. + +Tirou um papel pautado, examinou-o, acavallando a luneta no nariz, +meditou com a mão em garra sobre a testa: + +--O Mendes... Serve-te o Mendes? + +Sebastião, que não conhecia o Mendes, acudiu logo: + +--Sim, quem quizeres. É só p'ra se mostrar... + +--O Mendes. É um homemzarrão. É serio, foi da Guarda. + +Fez-lhe aproximar o tinteiro; escreveu devagar a ordem; releu-a duas +vezes; cortou os _tt_, seccou-a á chaminé do candieiro; e dobrando-a +com solemnidade: + +--Á segunda divisão! + +--Obrigado, Vicente. É um grande favor... Obrigado. E agasalha-te, +homem! E não te esqueça: agua sulfurica da pharmacia Azevedo na rua de +S. Roque: meia chavena de leite fervido... E obrigado. Não queres nada, +hein? + +--Não. Dá uma placa ao Mendes. É serio, foi da Guarda! + +E acavallando as lunetas retomou o _Homem dos tres calções_. + +Sebastião d'ahi a meia hora, seguido do robusto Mendes, que marchava +militarmente, com os braços um pouco arqueados, encaminhava-se +para casa de Jorge. Não tinha ainda um plano definido. Calculava +naturalmente que Juliana vendo, áquella hora da noite, o policia com o +seu terçado, se aterraria, imaginaria logo a Boa Hora, o Limoeiro, a +costa d'Africa, entregaria as cartas, pediria misericordia! E depois? +Pensava vagamente em lhe pagar a passagem para o Brazil, ou dar-lhe +quinhentos mil reis para ella se estabelecer longe, na provincia... +Veria. O essencial era aterral-a! + + +Juliana, com effeito, depois d'abrir a porta, apenas viu subir, atraz +de Sebastião, o policia, fez-se muito amarella, exclamou: + +--Credo! Que temos nós? + +Estava embrulhada n'um chale preto, e o candieiro de petroleo, que ella +erguia, prolongava na parede a sombra disforme da cuia. + +--Ó snr.^a Juliana, faça favor d'accender luz na sala--disse Sebastião, +tranquillamente. + +Ella fixava no policia um olhar faiscante e inquieto. + +--Ó senhor, que aconteceu? Credo! Os senhores não estão em casa. Eu se +soubesse nem tinha aberto... Ha alguma novidade? Olha o proposito! + +--Não é nada--disse Sebastião, abrindo a porta da sala--tudo em paz! + +Elle mesmo accendeu com um phosphoro uma vela na serpentina--que fez +sahir vagamente da sombra os dourados dos caixilhos das gravuras, a +pallida face do retrato da mãi de Jorge, um reflexo de espelho. + +--Ó snr. Mendes, sente-se, sente-se! + +O Mendes collocou-se á beira da cadeira com a mão na cinta, o terçado +entre os joelhos, muito soturno. + +--Esta é que é a pessoa--disse Sebastião, indicando Juliana, que ficára +á porta da sala, attonita. + +A mulher recuou, livida: + +--Ó snr. Sebastião, que brincadeira é esta? + +--Não é nada, não é nada... + +Tomou-lhe o candieiro da mão, e tocando-lhe no braço: + +--Vamos lá dentro á sala de jantar. + +--Mas que é? É alguma cousa commigo? Credo! E esta! Olha que +desconchavo! + +Sebastião fechou a porta da sala de jantar, pousou o candieiro sobre +a mesa, onde havia ainda um prato com codeas de queijo, e um fundo de +vinho n'um copo, deu alguns passos, fazendo estalar nervosamente os +dedos, e parando bruscamente diante de Juliana: + +--Dê cá umas cartas que roubou á senhora... + +Juliana teve um movimento para correr á janella, gritar. + +Sebastião agarrou-lhe o braço, e fazendo-a sentar com força sobre uma +cadeira: + +--Escusa d'ir á janella gritar, a policia já está dentro de casa. Dê cá +as cartas, ou p'ra a enxovia! + +Juliana entreviu n'um relance um quarto tenebroso no Limoeiro, o caldo +do rancho, a enxerga nas lages frias... + +--Mas que fiz eu?--balbuciava--que fiz eu? + +--Roubou as cartas. Dê-as p'ra cá, avie-se. + +Juliana sentada á beira da cadeira, apertando desesperadamente as mãos, +rosnava por entre os dentes cerrados: + +--A bebeda! A bebeda! + +Sebastião, impaciente, pôz a mão no fecho da porta. + +--Espere, seu diabo!--gritou ella, erguendo-se com um salto. Fixou-o +rancorosamente, desabotoou o corpete, enterrou a mão no peito, tirou +uma carteirinha. Mas de repente batendo com o pé, n'um phrenesi: + +--Não! não! não! + +--Diabos me levem se vossê não fôr dormir á enxovia!--Entre-abriu a +porta.--Ó snr. Mendes! + +--Ahi tem!--gritou ella atirando-lhe a carteira. E brandindo para elle +os punhos:--Raios te partam, malvado! + +Sebastião apanhou a carteira. Havia tres cartas: uma muito dobrada era +de Luiza; leu a primeira linha: _Meu adorado Bazilio_; e muito pallido +guardou logo tudo na algibeira interior do casaco. Abriu então a porta: +a possante figura do Mendes estava na sombra. + +--Está tudo arranjado, snr. Mendes,--a voz tremia-lhe um pouco--não lhe +quero tomar mais tempo. + +O homem fez uma continencia, calado: quando Sebastião, no patamar, lhe +resvalou na mão uma libra, o Mendes curvou-se respeitosamente e disse, +com uma voz pegajosa: + +--E para o que quizer, o sessenta e quatro, o Mendes, que foi da +Guarda. Não se incommode v. s.^a Ás ordens de v. s.^a Minha mulher +e filhos agradecem. Não se incommode v. s.^a O sessenta e quatro, o +Mendes, que foi da Guarda! + +Sebastião fechou a cancella, voltou á sala de jantar. Juliana ficára +n'uma cadeira, aniquilada; mas apenas o viu, erguendo-se furiosamente: + +--A bebeda foi-lhe contar tudo! Foi vossê que arranjou a armadilha! +Tambem vossê dormiu com ella!... + +Sebastião, muito branco, dominava-se. + +--Vá pôr o chapéo, mulher. O snr. Jorge despediu-a. Ámanhã mandará +buscar os bahus... + +--Mas o homem ha-de saber tudo!--berrou ella.--Este tecto me rache +se eu não lhe disser tudo tim-tim por tim-tim. Tudo! As cartas que +recebia, onde ia vêr o homem. Deitava-se com ella na sala, até os +pentes lhe cahiam na balburdia. Até a cozinheira lhes sentia o alarido! + +--Cale-se!--bradou Sebastião com uma punhada na mesa, que fez tremer +toda a louça no aparador, e esvoaçar os canarios. E com a voz toda +tremula, os beiços brancos:--A policia tem o seu nome, sua ladra! Á +menor palavra que vossê diga vai para o Limoeiro, e pela barra fóra. +Vossê não roubou só as cartas; roubou roupas, camisas, lençoes, +vestidos...--Juliana ia fallar, gritar.--Bem sei--continuou elle +violentamente--deu-lh'os ella, mas á força, porque vossê a ameaçava. +Vossê arrancou-lhe tudo. É roubo. É d'Africa!--E o que é dizer ao snr. +Jorge, póde ir dizer. Vá. Veja se elle a acredita. Diga! São algumas +bengaladas que leva por esses hombros, ladra! + +Ella rangia os dentes. Estava apanhada! _Elles_ tinham tudo por si, a +policia, a Boa-Hora, a cadêa, a Africa!... E ella--nada! + +Todo o seu odio contra a _Piorrinha_ fez explosão. Chamou-lhe os nomes +mais obscenos. Inventou infamias. + +--É que nem as do Bairro-Alto! E eu--gritava--sou uma mulher de bem, +nunca um homem se pôde gabar de tocar n'este corpo. Nunca houve raio +nenhum que me visse a côr da pelle. E a bebeda!...--Tinha arremessado o +chale, alargou anciosamente o collar do vestido.--Era um desaforo por +essa casa! E o que eu passei com a bruxa da tia! É o pago que me dão! +Os diabos me levem se eu não fôr para os jornaes. Vi-a eu abraçada ao +janota, como uma cabra! + +Sebastião a seu pezar escutava-a, com uma curiosidade dolorosa por +aquelles pormenores; sentia desejos agudos de a esganar, e os seus +olhos devoravam-lhe as palavras. Quando ella se calou arquejante: + +--Vá, ponha o chapéo, e p'ra a rua! + +Juliana então allucinada de raiva, com os olhos sahidos das orbitas, +veio para elle, e cuspiu-lhe na cara! + +Mas de repente a bocca abriu-se-lhe desmedidamente, arqueou-se para +traz, levou com ancia as mãos ambas ao coração, e cahiu para o lado, +com um som molle, como um fardo de roupa. + +Sebastião abaixou-se, sacudiu-a; estava hirta, uma escuma rôxa +apparecia-lhe aos cantos da bocca. + +Agarrou no chapéo, desceu as escadas, correu até á Patriarchal. Um +_coupé_ vazio passava; atirou-se para dentro, mandou a «todo o que +dér», para casa de Julião; e obrigou-o a vir immediatamente, mesmo em +chinellas, sem collarinho. + +--É caso de morte, é a Juliana--balbuciava muito pallido. + +E pelo caminho, entre o ruido das rodas e o tilintar dos caixilhos, +contava confusamente que entrára em casa de Luiza, que achára Juliana +muito despeitada por ter sido despedida, e que a fallar, a esbracejar, +de repente, tombára p'ra o lado! + +--Foi o coração. Estava p'ra dias--disse Julião, chupando a ponta do +cigarro. + +Pararam. Mas Sebastião desorientado, ao sahir, fechára a porta! E +dentro só a morta! O cocheiro offereceu a sua gazua, que serviu. + +--Então nem se vai a uma passeadinha ao Dáfundo, meus fidalgos?--disse +o homem, mettendo a gorgeta na algibeira. + +Mas vendo-os atirar com a porta: + +--Tambem não é gente d'isso--rosnou com desprezo, batendo a parelha. + +Entraram. + +No pequeno pateo o silencio da casa pareceu a Sebastião pavoroso. +Subia, aterrado, os degraus, que se afiguravam infindaveis; e, com +fortes pancadas do coração, esperava ainda que ella estivesse apenas +adormecida n'um desmaio simples, ou já de pé, pallida e respirando! + +Não. Lá estava como a deixára, estendida na esteira, com os braços +abertos, os dedos retorcidos como garras. A convulsão das pernas +arregaçára-lhe as saias, viam-se as suas canellas magras com meias +de riscadinho côr de rosa e as chinellas de tapete; o candieiro de +petroleo, que Sebastião esquecera ao pé sobre uma cadeira, punha tons +lividos na testa, nas faces rigidas; a bocca torcida fazia um sombra; +e os olhos medonhamente abertos, immobilisados na agonia repentina, +tinham uma vaga nevoa, como cobertos d'uma têa d'aranha diaphana. Em +redor tudo parecia mais immovel, d'um hirto morto. Vagos reflexos +de prata reluziam no aparador; e o tic-tac do _cuco_ palpitava sem +descontinuar. + +--Julião apalpou-a, ergueu-se sacudindo as mãos, disse: + +--Está morta com todas as regras. É necessario tiral-a d'aqui. Onde é o +quarto? + +Sebastião, pallido, fez signal com o dedo que era por cima. + +--Bem. Arrasta-a tu, que eu levo o candieiro.--E como Sebastião não se +movia:--Tens medo?--perguntou rindo. + +Escarneceu-o: que diabo, era materia inerte, era como quem agarrava uma +boneca! Sebastião, com um suor á raiz dos cabellos, levantou o cadaver +por debaixo dos braços, começou a arrastal-o, devagar. Julião adiante +erguia o candieiro; e por fanfarronada cantou os primeiros compassos da +marcha do _Fausto_. Mas Sebastião escandalisou-se, e com uma voz que +tremia: + +--Largo tudo, e vou-me... + +--Respeitarei os nervos da menina!--disse Julião curvando-se. + +Continuaram calados. Aquelle corpo magro parecia a Sebastião d'um +peso de chumbo. Arquejava. Nas escadas uma das chinellas do cadaver +soltou-se, rolou. E Sebastião sentia aterrado alguma cousa que lhe +batia contra os joelhos; era a cuia cahida, suspensa por um atilho. + +Estenderam-na na cama; Julião, dizendo que se deviam seguir as +tradições,--pôz-lhe os braços em cruz e fechou-lhe os olhos. + +Esteve um momento a olhal-a: + +--Feia besta!--murmurou, estendendo-lhe sobre o rosto uma toalha +enxovalhada. + +Ao sahir examinou, admirado, o quarto: + +--Estava mais bem alojada que eu, o estafermo! + +Fechou a porta, deu volta á chave: + +--_Requiescat in pace_--disse. + +E desceram, calados. + +Ao entrar na sala, Sebastião, muito pallido, pôz a mão no hombro de +Julião: + +--Então achas que foi o aneurisma? + +--Foi. Enfureceu-se, estourou. É dos livros... + +--Se não se tivesse zangado hoje... + +--Estourava ámanhã. Estava nas ultimas... Deixa em paz a creatura. Está +começando a esta hora a apodrecer, não a perturbemos. + +Declarou então, esfregando as mãos com frio, que «comia alguma cousa». +Achou no armario um pedaço de vitella fria, uma garrafa meia de +Collares. Installou-se e, com a bocca cheia, deitando o vinho d'alto: + +--Então sabes a novidade, Sebastião? + +--Não. + +--O meu concorrente foi despachado! + +Sebastião murmurou: + +--Que ferro! + +--Era previsto--disse Julião com um grande gesto.--Eu ia fazer um +escandalo, mas...--e teve um risinho--amansaram-me! Estou n'um posto +medico, deram-me um posto medico! Atiraram-me um osso! + +--Sim?--fez Sebastião.--Homem, ainda bem, parabens. E agora? + +--Agora, roel-o! + +De resto, tinham-lhe promettido a primeira vagatura. O posto medico não +era mau... Em definitiva, a situação melhorára... + +--Mas mesquinha, mesquinha! Não sáio do atoleiro... + +Estava farto de medicina, disse depois d'um silencio. Era um bêco +sem sahida. Devia-se ter feito advogado, politico, intrigante. Tinha +nascido p'ra isso! + +Ergueu-se, e com grandes passadas pela sala, o cigarro na mão, a voz +cortante, expoz um plano de ambição:--O paiz está a preceito para um +intrigante com vontade! Esta gente toda está velha, cheia de doenças, +de catarrhos de bexiga, de antigas syphilis! tudo isto está pôdre +por dentro e por fóra! o velho mundo constitucional vai a cahir aos +pedaços... Necessitam-se homens! + +E plantando-se diante de Sebastião: + +--Este paiz, meu caro amigo, tem-se governado até aqui com +_expedientes_. Quando vier a revolução contra os _expedientes_, o paiz +ha-de procurar quem tenha os _principios_. Mas quem tem ahi principios? +Quem tem ahi quatro principios? Ninguem; teem dividas, vicios secretos, +dentes postiços; mas principios, nem meio! Por consequencia se houver +tres patuscos que se dêem ao trabalho de estabelecer meia duzia de +principios sérios, racionaes, modernos, positivos, o paiz tem se atirar +de joelhos, e supplicar-lhes: Senhores, fazei-me a honra insigne de +me pôr o freio nos dentes! Ora eu devia ser um d'estes. Nasci p'ra +isso! E secca-me a idéa de que em quanto outros idiotas, mais astutos +e mais previdentes, hão-de estar no poleiro a reluzir ao sol, _al +hermoso sol português_, como se diz nas zarzuelas, eu hei-de estar a +receitar cataplasmas a velhas devotas, ou a ligar as rupturas d'algum +desembargador caduco. + +Sebastião calado pensava na outra, morta em cima. + +--Estupido paiz, estupida vida!--rosnou Julião. + +Mas uma carruagem entrou na rua, parou á porta. + +--Chegam os principes!--disse Julião. Desceram logo. + +Jorge ajudava Luiza a sahir do trem, quando Sebastião, abrindo a porta, +bruscamente: + +--Houve cá grande novidade! + +--Fogo?--gritou Jorge voltando-se aterrado. + +--A Juliana, que lhe rebentou o aneurisma--disse a voz de Julião da +sombra da porta. + +--Oh c'os diabos!--E Jorge atarantado procurava á pressa na algibeira +troco para o cocheiro. + +--Ai, eu já não entro!--exclamou logo D. Felicidade, mostrando á +portinhola a sua larga face envolvida n'uma manta branca.--Eu já não +entro! + +--Nem eu!--fez Luiza, toda tremula. + +--Mas para onde queres que vamos, filha?--exclamou Jorge. + +Sebastião lembrou que podiam ir para casa d'elle. Tinha o quarto da +mamã, era só pôr lençoes na cama. + +--Vamos, sim! Vamos, Jorge! É o melhor!--supplicou Luiza. + +Jorge hesitava. A patrulha que ia passando ao alto da rua, ao vêr +aquelle grupo junto á lanterna do trem, parou. E Jorge emfim, instado, +muito contrariado, consentiu. + +--Diabo da mulher, morrer a semelhante hora! A carruagem vai-a levar, +D. Felicidade... + +--E a mim, que estou em chinellas!--acudiu Julião. + +D. Felicidade lembrou então, como christã, que era necessario alguem, +para velar a morta... + +--Ora, pelo amor de Deus, D. Felicidade!--exclamou Julião, entrando +logo para a carruagem, batendo com a portinhola. + +Mas D. Felicidade insistia: era uma falta de religião! ao menos pôr +duas velas, mandar chamar um padre!... + +--Largue, cocheiro!--berrou Julião, impaciente. + +A carruagem deu a volta. E D. Felicidade á portinhola, apesar de Julião +que a puxava pelos vestidos, gritava: + +--É um peccado mortal! É uma irreverencia! Ao menos duas velas! + +O trem partiu a trote. + +Luiza agora tinha escrupulos: realmente podia-se mandar chamar alguem... + +Mas Jorge enfureceu-se. Chamar quem, áquella hora? Que beatice! Estava +morta, acabou-se! Enterrava-se... Velar o estafermo! Fazer-lhe talvez +camara ardente tambem? Queria ella ir velal-a?... + +--Então, Jorge, então!...--murmurava Sebastião. + +--Não, é de mais! É vontade de crear embaraços, que diabo! + +Luiza baixava a cabeça: e, em quanto Jorge, praguejando, ficou atraz a +fechar a porta da casa, ella foi descendo a rua pelo braço de Sebastião. + +--Estourou de raiva--disse-lhe elle baixinho. + +Toda a rua Jorge resmungou. Que idéa, irem dormir agora fóra de casa! +Realmente era levar muito longe as mariquices...! + +Até que Luiza lhe disse, quasi chorando: + +--Vê se me queres torturar mais, e fazer-me mais doente, Jorge! + +Elle calou-se, mordendo furioso o charuto. E Sebastião, para a socegar, +propoz que viesse a tia Vicencia, a preta, velar a Juliana. + +--Era talvez melhor--murmurou Luiza. + +Chegaram á porta de Sebastião. O _frou-frou_ do vestido de sêda de +Luiza, áquella hora, na sua casa, dava uma commoção a Sebastião: a mão +tremia-lhe ao accender as velas da sala. Foi acordar a tia Vicencia +para fazer chá; tirou elle mesmo os lençoes dos bahús, apressado, feliz +d'aquella hospitalidade. Quando voltou á sala, Luiza estava só, muito +pallida, ao canto do sophá. + +--Jorge?--perguntou elle. + +--Foi ao seu escriptorio, Sebastião, escrever ao parocho para +o enterro...--E com os olhos brilhantes, n'uma voz sumida e +assustada:--Então? + +Sebastião tirou da algibeira a carteirinha de Juliana. Ella agarrou-a +sofregamente--e com um movimento brusco, tomou-lhe a mão, e beijou-lh'a. + +Mas Jorge entrava, sorrindo. + +--Então agora está mais descançada, a menina? + +--Inteiramente--disse ella, com um suspiro de allivio. + +Foram tomar chá. Sebastião contou a Jorge, corando um pouco, a +maneira como entrára em casa, a Juliana lhe estivera a dizer que fôra +despedida, e fallando, exaltando-se, zás, de repente, cahira para o +lado morta... + +E acrescentou: + +--Coitada! + +Luiza via-o mentir, olhando-o com adoração. + +--E a Joanna?--perguntou Jorge, de repente. + +Luiza, sem se perturbar, respondeu: + +--Ah, esqueci-me dizer-te... Tinha pedido licença p'ra ir vêr uma tia +que está muito mal, p'ra os lados de Bellas... Diz que volta ámanhã... +Mais uma gota de chá, Sebastião... + +Esqueceram-se depois de mandar a Vicencia--e ninguem velou a morta. + + + + +XVI + + +Luiza passou a noite ás voltas, com febre. Jorge de madrugada ficou +assustado da frequencia do seu pulso e do calor secco da pelle. + +Elle mesmo, muito nervoso, não pudera dormir. + +O quarto, onde se não accendera luz havia muito, tinha uma frialdade +deshabitada: na parede, junto ao tecto, havia manchas de humidade: e +a cama antiga de columnas torneadas sem cortinados, o velho tremó do +seculo passado com o seu espelho embaciado davam, á luz bruxuleante +da lamparina, um sentimento triste de convivencias extinctas. O +achar-se alli com sua mulher, n'uma cama alheia, trazia-lhe, sem saber +porque, uma vaga saudade; parecia-lhe que se dera na sua vida uma +alteração brusca--e que, semelhante a um rio a que se muda o leito, a +sua existencia, desde essa noite, começaria a correr entre aspectos +differentes. O nordeste fazia bater os caixilhos da vidraça, e uivava +encanado na rua. + +Pela manhã, Luiza não se pôde levantar. + +Julião, chamado á pressa, tranquillisou-os: + +--É uma febresita nervosa. Quer socego, não vale nada. Foi o medosinho +d'hontem, hein? + +--Sonhei toda a noite com ella--disse Luiza.--Que tinha resuscitado... +Que horror! + +--Ah! póde estar socegada... E já a aviaram, a mulher? + +--O Sebastião lá anda com a massada--disse Jorge.--E eu vou dar uma +vista d'olhos. + +Na rua já se sabia a morte da _tripa-velha_. + +A mulher que a veio amortalhar, uma matrona muito picada das bexigas, +com os olhos avermelhados da paixão da aguardente, era conhecida +da snr.^a Helena. Estiveram um momento a palrar ao sol, á porta do +estanque: + +--Muito que fazer agora, snr.^a Margarida, hein? + +--Bastante, bastante, snr.^a Helena--disse a amortalhadeira com a voz +um pouco rouca.--No inverno sempre ha mais obra. Mas tudo gente velha, +com os frios. Nem um corpinho bonito p'ra vestir... + +A snr.^a Margarida tinha predilecções artisticas. Gostava d'um bonito +corpo de dezoito annos, uma mocinha fresca para lavar, escarolar, +enfeitar... Entrouxava á má cara a gente velha. Mas com as raparigas +novas esmerava-se: acatitava as pregas da mortalha; calculava o _chic_ +d'uma flôr, d'um laço; trabalhava com os requintes ajanotados d'uma +modista do sepulchro. + +A estanqueira contou-lhe muitas particularidades sobre a Juliana, +os favores dos patrões, as tafularias d'ella, os luxos do quarto +tapetado... A snr.^a Margarida dizia-se «banzada». E para quem iria +agora tudo aquillo?--perguntavam.--A _tripa-velha_ não tinha parentes... + +--Era uma riqueza p'ra a minha Antoninha!--disse a amortalhadeira, +traçando o chale com tristeza. + +--Como vai ella, a pequena?... + +--Aquillo vai mal, snr.^a Helena. Aquella cabeça douda!--E exhalando +a sua dôr com loquacidade:--Deixar o brazileiro que a trazia nas +palminhas... E por quem? Por aquelle desalmado, que lhe come tudo, +que já lhe arranjou um filho, e que a derrêa com pau... Mas então, as +raparigas são assim... Vão atraz do palmo de cara... Que elle é bonito +rapaz! Mas um bebedo!... Coitada!... Pois vou vestir a boneca, snr.^a +Helena.--E entrou na casa compungidamente. + +O padre já chegára tambem. Estava na sala com Sebastião, que conhecia +d'Almada, e fallava de lavoura, d'enxertos, das regas, n'uma voz +grossa--passando, com um gesto lento da sua mão cabelluda, o lenço +enrolado por debaixo do nariz. As janellas em toda a casa estavam +abertas ao sol muito dôce. Os canarios chilreavam. + +--E estava ha muito tempo na casa, a defunta?--perguntou o padre, a +Jorge que passeava pela sala, fumando. + +--Ha quasi um anno. + +O padre desdobrou lentamente o lenço, e sacudindo-o, antes de se assoar: + +--A sua senhora ha-de sentir muito... É um tributo universal!... + +E assoou-se, com estrondo. + +A Joanna, então, de chale e lenço, appareceu, em bicos de pés. Soubera +pelos visinhos que a Juliana «arrebentára», que os senhores estavam em +casa do snr. Sebastião. Vinha de lá. Luiz mandára-a entrar no quarto. +Quando a viu doente, a sua rica senhora, lagrimejou muito. Luiza +disse-lhe--«que agora estava tudo como d'antes, podia voltar...» + +--E ouça, Joanna, se o snr. Jorge lhe perguntar... que esteve em +Bellas, com a tia... + +A rapariga fôra logo buscar a trouxa e vinha installar-se--um pouco +assustada da morte em casa. + +D'ahi a pouco o Paula bateu discretamente á porta. + +Alli vinha offerecer-se para o que fosse necessario n'aquelle transe! E +tirando e pondo rapidamente o boné, raspando o pé, dizia com a sua voz +catarrhosa: + +--Lamento a desgraça, lamento a desgraça! Todos somos mortaes... + +--Bem, bem, snr. Paula, não é necessario nada--disse Jorge.--Obrigado! + +E fechou bruscamente a cancella. + +Estava impaciente por se desembaraçar «d'aquella estopada»: e mesmo +como o enfastiavam as martelladas espaçadas dos homens pregando o +caixão, em cima, chamou a Joanna: + +--Diga a essa gente que se avie. Não vamos ficar aqui toda a vida! + +A Joanna foi logo dizer que o senhor estava n'um phrenesi! Tinha-se +feito já intima da snr.^a Margarida. A amortalhadeira fôra mesmo com +ella á cozinha para tomar uma «sustanciasinha». Como o lume estava +apagado, contentou-se com sopas de pão em vinho. + +--Sopinha de burro--dizia, fazendo estalar a lingua. + +Mas estava enojada com a defunta! Nunca vira bicho mais feio. Um corpo +de sardinha secca! E pondo um olhar complacente nas bellas fórmas +de Joanna:--A menina, não. A menina tem-me o ar de ter muito bom +corpo...--E parecia calcular como talharia a mortalha para aquellas +linhas robustas. + +Joanna disse escandalisada: + +--Longe vá o agouro, cruzes! + +A outra sorriu; faltavam-lhe dous dentes: e aflautando a voz: + +--Tem-me passado pela mão muita gente fina, minha menina. Mais uma +gotinha de vinho, faz favor? É do Cartaxo, não? é muito avelludado! +rica gota! + +Emfim, com grande satisfação de Jorge, ás quatro horas os homens +desceram o caixão. A visinhança estava pelas portas. O Paula mesmo, por +fanfarronada, disse com dous dedos adeus ao esquife, murmurando: + +--Boa viagem! + +Jorge em cima, ao sahir, perguntou a Joanna: + +--E vossê não tem medo de ficar aqui só? + +--Eu não, meu senhor. Quem vai não volta! + +Tinha medo, com effeito; mas preparava-se a passar a noite com o Pedro, +e batia-lhe o coração de alegria de «terem a casa por sua» até de +manhã, e de se poderem rolar amorosamente, como fidalgos, por cima do +divan da sala. + +Jorge voltou com Sebastião para casa, e apenas entrou no quarto, onde +Luiza estava deitada: + +--Tudo prompto--disse, esfregando as mãos.--Lá vai para o Alto de S. +João, devidamente acondicionada. _Per omnia s[ae]cula s[ae]culorum!_ + +A tia Joanna, que estava á cabeceira de Luiza, acudiu: + +--Ai, quem lá vai, lá vai... Mas boa mulher, não era ella! + +--Era um bom estafermo--disse Jorge.--Esperemos que a esta hora esteja +a ferver na caldeira de Pero Botelho. Não é verdade, tia Joanna? + +--Jorge!--fez Luiza reprehensivamente. E julgou dever rezar-lhe baixo +dous padre-nossos por alma. + +Foi tudo o que a terra deu na sua morte áquella que ia rolando a essa +hora, ao trote de duas velhas eguas, para a valla dos pobres, e que +fôra na vida Juliana Couceiro Tavira! + + +No dia seguinte Luiza estava melhor: fallaram mesmo, com grande +desconsolação da tia Joanna, em voltar para casa. Sebastião não dizia +nada, mas quasi desejava secretamente que uma convalescença a retivesse +alli semanas indefinidas. Ella parecia tão agradecida! Tinha olhares +tão reconhecidos, que só elle comprehendia! E era tão feliz tendo-a +alli e a Jorge na sua casa! Conferenciava com a tia Vicencia sobre o +jantar; andava pelos corredores e pela sala, com respeito, quasi em +bicos de pés, como se a presença d'ella santificasse a casa; enchia +os vasos de camelias e de violetas; sorria beatamente ao vêr Jorge, á +sobremesa, saborear e gabar o seu velho cognac; sentia alguma cousa +de bom acalental-o como um manto acolchoado e macio; e já pensava que +quando ella partisse tudo lhe pareceria mais frio, e com uma tristeza +de ruina! + +Mas d'ahi a dous dias voltaram para casa. + +Luiza ficou muito agradada com a criada nova. Fôra Sebastião que a +arranjára. Era uma rapariguita aceadinha e branca, com grandes olhos +bonitos e pasmados, um ar amoravel: chamava-se Marianna; e foi logo +correndo dizer a Joanna «que morria pela senhora! tinha uma carinha +d'anjo! que linda que era!» + +Jorge logo n'essa manhã mandou os dous bahus de Juliana á tia Victoria. + +Luiza, quando elle sahiu á tardinha, fechou-se no quarto, com a +carteirinha de Juliana, correu os transparentes por precaução, accendeu +uma vela, e queimou as cartas. As mãos tremiam-lhe; e via, com os +olhos marejados de lagrimas, a sua vergonha, a sua escravidão irem-se, +dissiparem-se n'um fumo alvadio! Respirou completamente! Emfim! E fôra +Sebastião, aquelle querido Sebastião! + +Foi então á sala, á cozinha, vêr a casa: tudo lhe pareceu novo, a sua +vida cheia de doçura: abriu todas as janellas; experimentou o piano; +rasgou mesmo em pedaços, por superstição, a musica da _Médjé_, que lhe +dera Bazilio; conversou muito com a Marianna; e saboreando o seu caldo +de gallinha de convalescente, com a face alumiada da felicidade: + +--Que bem que vou passar agora!--pensava. + +Quando sentiu no corredor os passos de Jorge que entrava, correu, +deitou-lhe os braços ao pescoço, e com a cabeça no hombro d'elle: + +--Estou tão contente hoje! E se tu soubesses, é tão boa rapariga a +Marianna! + + +Mas n'essa noite a febre voltou. Julião, de manhã, achou-a peor. + +--Crescimentos...--disse descontente. + +Estava receitando, quando D. Felicidade entrou, muito excitada. Ficou +toda surprehendida de vêr Luiza doente; e debruçando-se sobre ella, +disse-lhe logo ao ouvido: + +--Tenho que te contar! + +Apenas Jorge e Julião sahiram, desabafou, sentada aos pés da cama,--com +uma voz ora baixa pela gravidade da confidencia, ora aguda pelo impeto +da indignação: + +Tinha sido roubada! Indignamente roubada! O homem que mandára a +Tuy, o grande ladrão, tinha escripto á Gertrudes, á criada, que não +estava resolvido a voltar a Lisboa; que a mulher de virtude mudára de +povoação; que elle não queria saber mais d'esse negocio e que até o +achava exquisito; que offerecia o seu prestimo em Tuy,--tudo isto n'uma +boa letra d'escrevente publico, n'um portuguez horrivel,--e do dinheiro +nem palavra! + +--Que te parece o mariola? Oito moedas! Eu se não fosse pela vergonha, +ia direita á policia... Ai! os gallegos p'ra mim acabaram! Por isso o +Conselheiro não se chegava ao rego! Pudera! A mulher nunca lançou a +sorte!...--Porque se já não acreditava na honestidade dos gallegos, não +perdera a fé no poder das bruxas. + +Que ella não era pelas oito moedas! Era pelo ferro! E depois, quem sabe +onde estaria agora a mulher! Ai, era d'endoudecer!... Que te parece, +hein? + +Luiza encolheu os hombros: muito abafada na roupa, as faces escarlates, +cerravam-se-lhe os olhos n'uma somnolencia pesada: D. Felicidade +aconselhou-lhe vagamente um «suadouro», suspirando; e como Luiza não +lhe podia dar consolações, sahiu para ir á Encarnação desabafar com a +Silveira. + +N'essa madrugada Luiza peorou. A febre recrudecera. Jorge, inquieto, +vestiu-se á pressa, ás nove horas da manhã, foi buscar Julião. Descia a +escada rapidamente, abotoando ainda o paletot, quando o carteiro subia, +tossindo o seu catarrho. + +--Cartas?--perguntou Jorge. + +--Uma p'ra a senhora--disse o homem.--Ha-de ser p'ra a senhora... + +Jorge olhou o enveloppe: tinha o nome de Luiza, vinha de França. + +--De quem diabo é isto?--pensou. Metteu-a no bolso do paletot, e sahiu. + +D'ahi a meia hora voltava com Julião, n'um trem. + +Luiza dormitava, amodorrada. + +--É preciso cautela... Vamos a vêr...--murmurou Julião, coçando devagar +a cabeça, em quanto do outro lado do leito Jorge o olhava anciosamente. + +Receitou e ficou para almoçar com Jorge. Estava um dia frio e pardo. +A Marianna, abafada n'um casabeque, servia, com os dedos vermelhos, +inchados de frieiras. E Jorge sentia-se entristecer, como se toda a +nevoa do ar se lhe fosse lentamente depositando e condensando n'alma. + +A que se podia attribuir semelhante febre? dizia, muito desconsolado. +Tão extraordinario! Havia seis dias, ora melhor, ora peor... + +--Estas febres veem por tudo--replicou Julião, partindo tranquillamente +uma torrada.--Ás vezes por uma corrente d'ar ás vezes por um desgosto. +Tenho eu, por exemplo, um caso curioso: um sujeito, um Alves, que +esteve p'ra fallir, e que viveu, coitado, durante dous mezes em +torturas. Ha duas semanas, por um golpe de fortuna,--a velhaca ás vezes +tem d'estes caprichos,--arranjou todos os seus negocios, viu-se livre. +Pois senhor, desde então tem uma febre assim, tortuosa, complexa, com +symptomas disparatados... O que é? É que a excitação nervosa abateu, e +a felicidade trouxe-lhe uma revolução no sangue. Póde muito bem dar á +casca. Faz então a fallencia geral, a grande, aquella em que o crédor é +implacavel, saca á vista, e... _per omnia s[ae]cula!_ + +Ergueu-se, e accendendo o cigarro: + +--Em todo o caso um repouso absoluto. É necessario ter-lhe o espirito +em algodão em rama. Nada de palestra, nada de phrases, e se tiver sêde, +limonada. Até logo! + +E sahiu, calçando as luvas pretas que usava agora desde que pertencia +ao Posto Medico. + +Jorge voltou á alcova: Luiza ainda dormitava. Marianna sentada ao pé +n'uma cadeirinha baixa, com o rostinho muito triste, não tirava de +Luiza os seus grandes olhos vagamente espantados. + +--Tem estado muito inquieta--murmurou. + +Jorge apalpou a mão de Luiza que ardia, conchegou-lhe a roupa. Beijou-a +devagarinho na testa, foi cerrar as portas da janella, defronte da +alcova.--E passeando no escriptorio, voltavam-lhe as palavras de +Julião: são febres que veem por um desgosto! Pensava na historia do +negociante, recordava aquelle estado de abatimento e de fraqueza de +Luiza que o preoccupára tanto, ultimamente, tão inexplicavel! Ora, +tolices! Desgosto de quê? Em casa de Sebastião estivera tão animada! +Nem a morte da outra lhe fizera abalo!--De resto acreditava pouco nas +_febres de desgosto_! Julião tinha uma medicina litteraria. Pensou +mesmo que seria mais prudente chamar o velho dr. Caminha... + +Ao metter a mão no bolso, então, os seus dedos encontraram uma +carta; era a que o carteiro lhe dera, de manhã, para Luiza. Tornou a +examinal-a com curiosidade; o sobrescripto era banal, como os que ha +nos cafés ou nos restaurantes; não conhecia a letra; era d'homem, vinha +de França... Atravessou-o um desejo rapido de a abrir. Mas conteve-se, +atirou-a para cima da mesa, embrulhou devagar um cigarro. + +Voltou á alcova. Luiza permanecia na sua modorra: a manga do chambre +arregaçada descobria o braço mimoso, com a sua pennugem loura; a +face escarlate reluzia; as pestanas longas pousavam pesadamente, no +adormecimento das palpebras finas; um annel do cabello cahira-lhe +sobre a testa, e pareceu a Jorge adoravel e tocante com aquella côr, +a expressão da febre. Pensou, sem saber porque, que outros a deveriam +achar linda, desejal-a, dizer-lh'o, se podessem... Para que lhe +escreviam de França, quem? + +Voltou ao escriptorio, mas aquella carta sobre a mesa irritava-o: quiz +lêr um livro, atirou-o logo impaciente; e poz-se a passear, torcendo +muito nervoso o forro das algibeiras. + +Agarrou então a carta, quiz vêr, através do papel delgado do enveloppe; +os seus dedos, mesmo irresistivelmente, começaram a rasgar um angulo do +sobrescripto. Ah! Não era delicado aquillo!... Mas a curiosidade, que +governava o seu cerebro, suggeriu-lhe toda a sorte de raciocinios, com +uma tentação persuasiva:--Ella estava doente, e podia ter alguma cousa +urgente; se fosse uma herança? depois ella não tinha segredos, e então +em França! Os seus escrupulos eram pueris! Dir-lhe-hia que a abrira +por engano. E se a carta contivesse o segredo d'aquelle desgosto, do +_desgosto_ das theorias de Julião!... Devia abril-a então para a curar +melhor! + +Sem querer achou-se com a carta desdobrada na mão. N'um relanço +avido devorou-a. Mas não comprehendeu bem; as letras embrulhavam-se; +chegou-se á janella, releu devagar: + + + «Minha querida Luiza. + +«Seria longo explicar-te, como só antes d'hontem em Nice--d'onde +cheguei esta madrugada a Paris--recebi a tua carta, que pelos carimbos +vejo que percorreu toda a Europa atraz de mim. Como já lá vão dous +mezes e meio que a escreveste, imagino que te arranjaste com a mulher, +e que não precisas do dinheiro. De resto se por acaso o queres, manda +um telegramma e tens-l'o ahi em dous dias. Vejo pela tua carta que não +acreditaste nunca que a minha partida fosse motivada por negocios. És +bem injusta. A minha partida não te devia ter tirado, como tu dizes, +_todas as illusões sobre o amor_, porque foi realmente quando sahi de +Lisboa que percebi quanto te amava, e não ha dia, acredita, em que me +não lembre do _Paraiso_. Que boas manhãs! Passaste por lá por acaso +alguma outra vez? Lembras-te do nosso _lunch_? Não tenho tempo para +mais. Talvez em breve volte a Lisboa. Espero vêr-te, porque sem ti +Lisboa é para mim um desterro. + +«Um longo beijo do + + «Teu do C. + + «_Bazilio_». + + +Jorge dobrou o papel, lentamente, em duas, em quatro dobras, atirou-o +para cima da mesa, disse alto: + +--Sim, senhor! bonito! + +Encheu o cachimbo de tabaco machinalmente, com os olhos vagos, os +beiços a tremer: deu alguns passos incertos pelo escriptorio:--de +repente arremessou o cachimbo que despedaçou um vidro da janella, bateu +com as mãos desvairado, e atirando-se de bruços para cima da mesa, +rompeu a chorar, rolando a cabeça entre os braços, mordendo as mangas, +batendo com os pés, louco! + +Ergueu-se subitamente, agarrou a carta, ia com ella á alcova de Luiza. +Mas a lembrança das palavras de Julião immobilisou-o: que esteja +socegada, nada de phrases, nenhuma excitação! Fechou a carta n'uma +gaveta, metteu a chave na algibeira. E de pé, a tremer, com os olhos +raiados de sangue, sentia idéas insensatas alumiarem-lhe bruscamente +o cerebro, como relampagos n'uma tormenta--matal-a, sahir de casa, +abandonal-a, fazer saltar os miolos... + +A Marianna bateu ligeiramente á porta, disse-lhe que a senhora o +chamava. + +Uma onda de sangue subiu-lhe á cabeça; fitava Marianna, estupido, +batendo as palpebras: + +--Já vou--disse com a voz rouca. + +Ao passar na sala, diante do espelho oval, ficou pasmado do seu rosto +manchado, envelhecido. Foi correr uma toalha molhada pela face, alisou +o cabello: e ao entrar na alcova, ao vêl-a, com os seus grandes olhos +dilatados onde a febre reluzia, teve de se agarrar á barra do leito, +porque sentiu, em redor, as paredes oscillarem como lonas ao vento. + +Mas sorriu-lhe: + +--Como estás? + +--Mal--murmurou ella debilmente. + +Chamou-o para ao pé de si com um gesto muito fatigado. + +Elle veio, sentou-se sem a olhar. + +--Que tens?--disse ella chegando o rosto para elle.--Não te +afflijas.--E tomou a mão que elle pousára á beira do leito. + +Jorge, com um repellão secco, sacudiu a mão d'ella, ergueu-se +bruscamente com os dentes cerrados; sentia uma colera brutal; +ia-se, com medo de si, de um crime, quando ouviu a voz de Luiza, +arrastando-se, n'uma lamentação: + +--Porque, Jorge? Que tens?... + +Voltou-se; viu-a meia erguida com os olhos abertos para elle, uma +angustia no rosto; e duas lagrimas cahiam-lhe, silenciosamente. + +Atirou-se de joelhos, agarrou-lhe as mãos, aos soluços. + +--Que é isto?--exclamou a voz de Julião á porta da alcova. + +Jorge, muito pallido, ergueu-se devagar. + +Julião levou-o para a sala, e cruzando terrivelmente os braços diante +d'elle: + +--Tu estás doudo? Pois tu sabes que ella está n'um estado d'aquelles, e +vaes-te pôr a fazer-lhe scenas de lagrimas? + +--Não me pude conter... + +--Estoura. Eu estou a cortar-lhe a febre por um lado, e tu a dar-lh'a +por outro? Estás doudo! + +Estava realmente indignado. Interessava-se por Luiza como doente. +Desejava muito cural-a; e sentia uma satisfação em exercer o dominio +de pessoa necessaria n'aquella casa, onde as suas visitas tinham tido +sempre uma attitude dependente; mesmo agora ao sahir, não se esquecia +de offerecer negligentemente um charuto a Jorge. + + +Jorge foi heroico durante toda essa tarde. Não podia estar muito +tempo na alcova de Luiza, a desesperação trazia-o n'um movimento +contradictorio; mas ia lá a cada momento, sorria-lhe, conchegava-lhe +a roupa com as mãos tremulas; e como ella dormitava, ficava immovel a +olhal-a feição por feição, com uma curiosidade dolorosa e immoral, com +para lhe surprehender no rosto vestigios de beijos alheios, esperando +ouvir-lhe n'algum sonho da febre murmurar um nome ou uma data; e +amava-a mais desde que a suppunha infiel, mas d'um outro amor, carnal e +perverso. Depois ia-se fechar no escriptorio, e movia-se alli entre as +paredes estreitas, como um animal n'uma jaula. Releu a carta infinitas +vezes, e a mesma curiosidade roedora, baixa, vil, torturava-o sem +cessar: Como tinha sido? Onde era o _Paraiso_? Havia uma cama? Que +vestido levava ella? O que lhe dizia? Que beijos lhe dava? + +Foi relêr todas as cartas que ella lhe escrevêra para o Alemtejo, +procurando descobrir nas palavras symptomas de frieza, a data +da traição! Tinha-lhe odio então, voltavam-lhe ao cerebro idéas +homicidas--esganal-a, dar-lhe chloroformio, fazer-lhe beber laudano! +E depois immovel, encostado á janella, ficava esquecido n'um scismar +espesso, revendo o passado, o dia do seu casamento, certos passeios que +déra com ella, palavras que ella dissera... + +Ás vezes pensava--seria a carta uma _mistificação_? Algum inimigo +d'elle podia tel-a escripto, remettido para França. Ou talvez Bazilio +tivesse _outra_ Luiza em Lisboa, e por engano ao sobrescriptar o +enveloppe tivesse escripto o nome da prima; e a alegria momentanea +que lhe davam aquellas phantasias fazia-lhe parecer a realidade mais +cruel. Mas como fôra? como fôra? Se podesse saber a verdade! Tinha a +certeza que socegaria, então! Arrancaria de certo do seu peito aquelle +amor como um parasita immundo; apenas ella melhorasse, leval-a-hia a um +convento, e elle iria morrer longe, n'Africa, ou algures... Mas quem +saberia?... Juliana! + +Era ella que sabia! De certo! E todas as condescendencias d'ella por +Juliana, os moveis, o quarto, as roupas, comprehendeu tudo! Era a pagar +a cumplicidade! Era a sua confidente! Levava as cartas, sabia tudo. E +estava na valla, morta, sem poder fallar, a maldita! + +Sebastião, como costumava, veio á noitinha. Não havia ainda luzes, e, +apenas elle entrou, Jorge chamou-o ao escriptorio, calado, accendeu uma +vela, tirou a carta da gaveta. + +--Lê isto. + +Sebastião ficára assombrado ao vêr o rosto de Jorge. Olhava a carta +fechada, e tremia. Apenas viu a assignatura, uma pallidez d'agonia +cobriu-lhe o rosto. Parecia-lhe que o soalho tinha uma vibração onde +elle se firmava mal. Mas dominou-se, leu devagar, pousou a carta sobre +a mesa, sem uma palavra. + +Jorge disse então: + +--Sebastião, isto p'ra mim é a morte. Sebastião, tu sabes alguma cousa. +Tu vinhas aqui. Tu sabes. Dize-me a verdade! + +Sebastião abriu devagar os braços e respondeu: + +--Que te hei-de eu dizer? Não sei nada! + +Jorge agarrou-lhe as mãos, sacudiu-lh'as, e procurando o seu olhar +anciosamente: + +--Sebastião, pela nossa amizade, pela alma de tua mãi, por tantos annos +que temos passado juntos, Sebastião, dize-me a verdade!... + +--Não sei nada. Que hei-de eu saber? + +--Mentes! + +Sebastião disse apenas: + +--Podem-te ouvir, homem! + +Houve um silencio: Jorge apertava as fontes nas mãos, com passadas pelo +escriptorio, que faziam vibrar o soalho; e de repente pondo-se diante +de Sebastião, quasi supplicante: + +--Mas dize-me ao menos o que fazia ella! Sahia? Vinha aqui alguem? + +Sebastião respondeu devagar, os olhos fixos na luz: + +--Vinha o primo ás vezes, ao principio. Quando a D. Felicidade esteve +doente, ella ia vêl-a... O primo depois partiu... Não sei mais nada. + +Jorge esteve um momento a olhar Sebastião, com uma fixidez abstracta. + +--Mas que lhe fiz eu, Sebastião? Que lhe fiz eu? Adorava-a! Que lhe fiz +eu p'ra isto? Eu, que a adorava, áquella mulher! + +Rompeu a chorar. + +Sebastião ficára de pé junto á mesa, estupido, aniquilado. + +--Foi talvez uma brincadeira, apenas...--murmurou. + +--E o que diz a carta?--gritou Jorge, voltando-se n'uma colera, +sacudindo o papel.--Este _Paraiso_! _As boas manhãs_ lá passadas! É uma +infame!... + +--Está doente, Jorge--disse apenas Sebastião. + +Jorge não respondeu. Passeou calado algum tempo. Sebastião, immovel, +fatigava a vista contra a chamma da luz. Jorge então fechou a carta na +gaveta, e tomando o castiçal com um tom de lassidão lugubre e resignado: + +--Queres vir tomar chá, Sebastião? + +E não tornaram mais a fallar na carta. + + +N'essa noite Jorge dormiu profundamente. Ao outro dia o seu rosto +estava impassivel, d'uma serenidade livida. + +Foi d'ahi por diante o enfermeiro de Luiza. + +A doença, depois d'uma marcha incerta durante tres dias, definiu-se: +eram crescimentos; enfraquecia muito, mas Julião estava tranquillo. + +Jorge passava os seus dias ao pé d'ella. D. Felicidade vinha +ordinariamente pelas manhãs: sentava-se aos pés da cama, e ficava +calada, com uma face envelhecida; aquella esperança na mulher de Tuy +tão subitamente destruida abalára-a como um velho edificio a que se +tira subitamente um pilar; ia-se tornando ruina; e só se animava quando +o Conselheiro apparecia pelas tres horas a saber da «nossa formosa +enferma». Trazia sempre alguma palavra grave que dizia com um tom +profundo, conservando o chapéo na mão, sem querer entrar na alcova, por +pudor: + +--A saude é um bem que só apreciamos quando nos foge! + +Ou: + +--A doença serve para aquilatarmos os amigos. + +E terminava sempre: + +--Meu Jorge, as rosas da saude bem cedo reflorirão nas faces de sua +virtuosa esposa!... + +De noite Jorge dormia vestido, n'um enxergão sobre o chão; mas apenas +cerrava os olhos uma ou duas horas. O resto da noite procurava lêr: +começava um romance, mas nunca ia além das primeiras linhas; esquecia +o livro, e com a cabeça entre as mãos punha-se a pensar: era sempre a +mesma idéa--_como_ tinha sido? Conseguira reconstruir aproximadamente, +com logica, certos factos; via bem Bazilio chegando, vindo visital-a, +desejando-a, mandando-lhe ramos, perseguindo-a, indo-a vêr aqui e +além, escrevendo-lhe; mas depois? Viera já a comprehender que o +dinheiro era para Juliana. A creatura tivera alguma exigencia: tinha-os +surprehendido? possuia cartas?... E encontrava, n'aquella reconstrucção +dolorosa, falhas, vazios, como buracos escuros, onde a sua alma se +arremessava sofregamente. Então começava a recordar os ultimos mezes +desde a sua volta do Alemtejo, e como ella se mostrára amante, e que +ardor punha nas suas caricias... Para que o enganára então? + +Uma noite, com precauções de ladrão, rebuscou todas as gavetas d'ella, +esquadrinhou os vestidos, até as dobras da roupa branca, as caixas de +collares, de rendas; viu bem o cofre de sandalo; estava vazio; nem o +pó d'uma flôr secca! Ás vezes punha-se a fitar os moveis no quarto, +na sala, a sondal-os como se quizesse descobrir n'elles os vestigios +do adulterio. Ter-se-hiam sentado alli? Elle teria ajoelhado aos +pés d'ella, acolá, sobre o tapete? Sobretudo o divan tão largo, tão +commodo, desesperava-o; tomou-lhe odio. Veio a detestar mesmo a casa, +como se os tectos que os tinham coberto, os soalhos que os tinham +sustentado tivessem uma cumplicidade consciente. Mas o que o torturava +sobretudo eram aquellas palavras--o _Paraiso_, _as boas manhãs_... + +Luiza então já dormia tranquillamente. Ao fim de uma semana os +crescimentos desappareceram. Mas estava muito fraca: no dia em que +pela primeira vez se levantou, desmaiou duas vezes: era necessario +vestil-a, trazel-a amparada para a _chaise-longue_: e não dispensava +Jorge, queria-o alli, ao pé, com exigencias de criança! Parecia receber +a vida dos seus olhos, a saude do contacto das suas mãos. Fazia-lhe +lêr o jornal pela manhã, e vir escrever para ao pé d'ella. Elle +obedecia, e mesmo aquellas instancias eram para a sua dôr como caricias +consoladoras. É porque o amava de certo! + +Sentia então, machinalmente, abertas de felicidade. Surprehendia-se +a dizer-lhe ternuras, a rir com ella, esquecido, como d'antes! +E, estendida na _chaise-longue_, Luiza, contente, percorria +antigos volumes da _Illustração franceza_, que lhe mandára o +Conselheiro,--«onde», segundo elle lhe dissera, «podia, ao mesmo +tempo que se divertia com os desenhos, adquirir noções uteis sobre +importantes acontecimentos historicos»; ou, com a cabeça reclinada, +saboreava a felicidade de melhorar, de estar livre das tyrannias da +_outra_, das amarguras do _passado_. + +Uma das suas alegrias era vêr entrar a Marianna com o seu jantarzinho +disposto n'um guardanapo sobre o taboleiro; tinha appetite, saboreava +muito o calix de vinho do Porto, que Julião recommendára; quando Jorge +não estava, fazia longas conversações com Marianna, palrando baixo, +consolada, e lambendo colherinhas de gelatina. + +Ás vezes, calada, com os olhos no tecto, fazia planos. Dizia-os depois +a Jorge: iria estar duas semanas no campo, para ganhar forças; á volta +começaria a bordar tiras de casimira para cobrir as cadeiras da sala; +porque queria occupar-se muito da casa, viver recolhida; elle não +voltaria ao Alemtejo, não sahiria de Lisboa, não é verdade? E a sua +vida seria d'ahi por diante d'uma doçura continua e facil. + +Mas Luiza ás vezes achava-o «macambusio». Que tinha? Elle explicava +pela fadiga, pelas noites mal dormidas... Se adoecesse, ao menos, +dizia ella, que fosse quando ella estivesse forte para o tratar, para +o velar!... Mas não adoeceria, não? E fazia-o sentar ao pé de si, +passava-lhe a mão pelos cabellos, com o olhar quebrado, porque com as +forças que renasciam vinham os impulsos do seu temperamento amoroso. +Jorge sentia que a adorava, e era mais desgraçado! + +Luiza, só comsigo, tinha outras resoluções. Não tornaria a vêr +Leopoldina, e frequentaria as igrejas. Sahia da doença com uma vaga +sentimentalidade devota. Durante a febre, em certos pesadêlos de +que lhe ficára uma indistincta idéa aterrada, vira-se ás vezes n'um +lugar pavoroso, onde corpos se erguiam, torcendo os braços, do meio +de chammas escarlates: fórmas negras giravam com espetos em braza, um +rugido d'agonia subia para a mudez do céo: e já lhe tocavam o peito +linguas de fogueiras, quando alguma cousa de dôce e d'ineffavel de +repente a refrescava; eram as azas d'um anjo luminoso e sereno, que a +tomava nos braços; e ella sentia-se elevar, apoiando a cabeça contra +o seio divino, que a penetrava d'uma felicidade sobrenatural; via as +estrellas de perto, ouvia fremitos d'azas. Aquella sensação deixára-lhe +como uma recordação saudosa do céo. E aspirava a ella, nas debilidades +da convalescença, esperando ganhal-a pela pontualidade á missa, e pela +repetição de corôas á Virgem. + +Emfim uma manhã veio á sala, e abriu pela primeira vez o piano; Jorge, +á janella, olhava para a rua--quando ella o chamou, e sorrindo: + +--Estou a detestar, ha tempos, aquelle divan--disse.--Podia-se tirar, +não te parece? + +Jorge sentiu uma pancada no coração: não pôde responder logo; disse, +emfim, com esforço: + +--Sim, parece... + +--Estou com vontade de o tirar--disse ella sahindo da sala, arrastando +tranquillamente a longa cauda do seu roupão. + +Jorge não pôde destacar os olhos do divan. Veio mesmo sentar-se n'elle; +passava a mão sobre o estofo ás listras; e sentia um prazer doloroso em +verificar _que fôra alli_! + +Principiára a vir-lhe agora uma especie de resignação sombria; quando +a ouvia gozar tanto as melhoras, fallar com felicidade de futuros +tranquillos, decidia-se a aniquilar a carta, esquecer tudo. Ella +tinha-se arrependido de certo, amava-o: para que havia de crear a +sangue frio uma infelicidade perpetua? Mas quando a via com os seus +movimentos languidos estender-se na _chaise-longue_, ou ao despir-se +mostrar a brancura do seu collo--e pensava que aquelles braços +tinham enlaçado outro homem, aquella bocca gemido de amor n'uma cama +alheia--vinha-lhe uma onda de cólera bruta, precisava sahir para a não +esganar! + +Para explicar os seus maus humores, os seus silencios, começou a +queixar-se, a dizer-se doente. E as solicitudes d'ella, então, as +interrogações mudas do seu olhar inquieto faziam-o mais infeliz--por se +sentir amado, agora que se sabia trahido! + +Um domingo emfim Julião deu licença a Luiza para se deitar mais tarde, +e fazer á noite as honras da casa. Foi uma alegria para todos vel-a na +sala, ainda um pouco pallida e fraca,--mas, como disse o Conselheiro, +restituida aos deveres domesticos e aos prazeres da sociedade! + +Julião que veio ás nove horas achou-a _como nova_. E abrindo os braços, +no meio da sala: + +--E que me dizem á novidade?--exclamou--A peça do Ernesto teve um +triumpho!... + +Assim tinham lido nos jornaes. O _Diario de Noticias_ dizia mesmo que +o «author chamado ao proscenio, no meio do mais vivo enthusiasmo, +recebera uma formosa corôa de louros». Luiza declarou logo que queria +ir vêr! + +--Mais tarde, D. Luiza, mais tarde--acudiu com prudencia o +Conselheiro.--Por ora é conveniente evitar toda a commoção forte. As +lagrimas que não deixaria de derramar, conheço o seu bom coração, +podiam produzir uma recahida. Não é verdade, amigo Julião? + +--De certo, Conselheiro, de certo. Eu tambem quero ir. Quero +convencer-me por meus olhos... + +Mas o ruido d'uma carruagem, lançada a trote largo, que parou á porta, +interrompeu-o. A campainha retiniu fortemente. + +--Aposto que é o author!--exclamou elle. + +E quasi immediatamente a figura radiante de Ernestinho, de casaca, +precipitou-se na sala: ergueram-se com ruido, abraçaram-no: mil +parabens! mil parabens! E a voz do Conselheiro, dominando as outras: + +--Bem vindo o festejado author! Bem vindo! + +Ernesto suffocava de jubilo. Tinha um sorriso immobilisado; as azas +do nariz dilatavam-se-lhe, como para respirar os incensos; trazia o +peito alto, enfunado d'orgulho; e movia a cabeça, sem cessar, como n'um +agradecimento instinctivo a multidões applaudidoras. + +--Aqui estou! aqui estou!--disse. + +Sentou-se offegante; e, com um modo amavel de Deus-bom-rapaz, declarou +que os ultimos ensaios de apuro não lhe tinham deixado um momento para +vir vêr a prima Luiza. Tinha tido n'aquella noite um instante de seu, +mas devia voltar ás dez horas para o theatro: até nem mandára a tipoia +embora... + +Contou então largamente o triumpho. Ao principio tivera «grandes +colicas». Todos as tinham, os mais acostumados, os mais illustres! Mas +apenas o Campos disse o monologo do primeiro acto--e como o disse! +haviam de vêr, uma cousa sublime!--os applausos romperam. Tinha +agradado tudo. No fim era um barulho, gritos pelo author, salvas de +palmas... Elle viera ao palco, arrastado; não queria, mas obrigaram-no, +a Jesuina por um lado, a Maria Adelaide por outro! Um delirio! O +Savedra do _Seculo_ tinha-lhe dito: o amigo é o nosso Shakspeare! O +Bastos da _Verdade_ tinha affirmado: és o nosso Scribe! Houve uma cêa. +E tinham-lhe dado uma corôa. + +--E serve-lhe?--acudiu Julião. + +--Perfeitamente; um bocadinho larga... + +O Conselheiro disse com authoridade: + +--Os grandes authores, o famigerado Tasso, o nosso Camões são sempre +representados com as suas respectivas corôas. + +--É o que eu lhe aconselho, snr. Ledesma--acudiu Julião, erguendo-se e +batendo-lhe no hombro--é que se faça retratar de corôa!... + +Riram. + +E Ernestinho, um pouco despeitado, desdobrando o seu lenço perfumado: + +--O snr. Zuzarte não dispensa o seu epigrammasinho... + +--É a prova da gloria, meu amigo. Nos triumphos dos generaes +victoriosos, em Roma, havia um bobo no prestito! + +--Eu não sei!--disse Luiza muito risonha--É uma honra p'ra a familia!... + +Jorge concordou. Passeava pela sala fumando; e disse que gozava tanto a +corôa, como se tivesse direito a usal-a... + +E Ernestinho voltando-se logo para elle: + +--Sabes que lhe perdoei, primo Jorge? Perdoei á esposa... + +--Como Christo... + +--Como Christo--confirmou Ernestinho, com satisfação. + +D. Felicidade approvou logo: + +--Fez muito bem! Até é mais moral! + +--O Jorge é que queria que eu désse cabo d'ella--disse Ernestinho, +rindo tolamente.--Não se lembra, n'aquella noite... + +--Sim, sim--fez Jorge, rindo tambem, nervosamente. + +--O nosso Jorge--disse com solemnidade o Conselheiro--não podia +conservar idéas tão extremas. E de certo a reflexão, a experiencia da +vida... + +--Mudei, Conselheiro, mudei--interrompeu Jorge. + +E entrou bruscamente no escriptorio. + +Sebastião, inquieto, foi devagar ter com elle. Estava ás escuras. + +--Aquelles idiotas não se calarão? Não se irão?--disse elle +abafadamente, agarrando o braço de Sebastião. + +--Socega! + +--Oh Sebastião! Sebastião!--E sua voz tremia, com lagrimas. + +Mas Luiza, da sala, gritou: + +--Que conspiração é essa ahi dentro ás escuras? + +Sebastião appareceu logo, dizendo: + +--Nada, nada. Estavamos lá dentro...--E acrescentou baixo:--O Jorge +está fatigado. Está adoentado, coitado! + +Notaram, quando elle voltou--que tinha com effeito o ar exquisito. + +--Não, realmente não me sinto bom, estou incommodado! + +--E a debil D. Luiza precisa o repouso do seu leito--disse o +Conselheiro erguendo-se. + +Ernestinho que não se podia demorar, offereceu logo ao Conselheiro e a +Julião--«a sua carruagem, que era um caleche, se iam para a baixa...» + +--Que honra--exclamou Julião olhando Accacio--irmos na tipoia do Grande +Homem! + +E em quanto D. Felicidade se agasalhava, os tres desceram. + +No meio da escada Julião parou, e cruzando os braços: + +--Ora aqui vou eu entre os representantes dos dous grandes movimentos +de Portugal desde 1820. A Litteratura--e comprimentou Ernestinho--e o +Constitucionalismo!--e curvou-se para o Conselheiro. + +Os dous riram, lisongeados. + +--E o amigo Zuzarte? + +--Eu?--E baixando a voz:--Até ha dias um revolucionario terrivel. Mas +agora... + +--O quê? + +--Um amigo da ordem--gritou com jubilo. + +E desceram, contentes de si e do seu paiz, para se metterem na tipoia +do Grande Homem! + + + + +XVII + + +Ao outro dia Jorge foi ao ministerio, onde não tinha apparecido nos +ultimos tempos. Mas demorou-se pouco. A rua, a presença dos conhecidos +ou dos estranhos torturava-o; parecia-lhe que _todo o mundo sabia_; nos +olhares mais naturaes via uma intenção maligna, e nos apertos de mão +mais sinceros uma ironica pressão de pezames; as carruagens mesmo que +passavam davam-lhe a suspeita de a terem conduzido ao _rendez-vous_, +e todas as casas lhe pareciam a fachada infame do _Paraiso_. Voltou +mais sombrio, infeliz, sentindo a vida estragada. E logo do corredor ao +entrar ouviu Luiza cantarolando, como outr'ora, a _Mandolinata_! + +Estava-se a vestir. + +--Como estás tu?--perguntou, pondo a um canto a sua bengala. + +--Estou boa. Hoje estou muito melhor. Um bocado fraca ainda... + +Jorge deu alguns passos pelo quarto, taciturno. + +--E tu?--perguntou-lhe ella. + +--P'ra aqui ando--disse tão desconsoladamente que Luiza pousou o pente, +e com os cabellos soltos veio pôr-lhe as mãos nos hombros, muito +carinhosa: + +--Que tens tu? Tu tens alguma cousa. Estranho-te tanto ha dias! Não és +o mesmo! Ás vezes estás com uma cara de réo... Que é? Dize. + +E os seus olhos procuravam os d'elle, que se desviavam perturbados. + +Abraçou-o. Insistia, queria que dissesse tudo á «sua mulherzinha». + +--Dize. Que tens? + +Elle olhou-a muito, e de repente, com uma resolução violenta: + +--Pois bem, digo-te. Tu agora estás boa, pódes ouvir... Luiza! vivo +n'um inferno ha duas semanas. Não posso mais... Tu estás boa, não é +verdade? Pois bem, que quer dizer isto? Dize a verdade! + +E estendeu-lhe a carta de Bazilio. + +--O que é?--fez ella muito branca. E o papel dobrado tremia-lhe na mão. + +Abriu-a devagar, viu a letra de Bazilio, n'um relance adivinhou-a. +Fixou Jorge um momento d'um modo desvairado, estendeu os braços sem +poder fallar, levou as mãos á cabeça com um gesto ancioso como se se +sentisse ferida, e oscillando, com um grito rouco, cahiu sobre os +joelhos, ficou estirada no tapete. + +Jorge gritou. As criadas acudiram. Estenderam-na na cama. Elle quiz que +Joanna corresse a chamar Sebastião; e ficou, como petrificado, junto +ao leito, olhando-a, em quanto Marianna toda tremula desatacava os +espartilhos da senhora. + +Sebastião veio logo. Felizmente havia ether, fizeram-lh'o respirar; +apenas abriu lentamente os olhos, Jorge precipitou-se sobre ella: + +--Luiza, ouve, falla! Não, não tem duvida. Mas falla. Dize, que tens? + +Ao ouvir a voz d'elle desmaiou outra vez. Movimentos convulsivos +sacudiam-lhe o corpo. Sebastião correu a buscar Julião. + +Luiza parecia adormecida agora, immovel, branca como cera, as mãos +pousadas sobre a colcha; e duas lagrimas corriam-lhe devagar pelas +faces. + +Um trem parou. Julião appareceu esbaforido. + +--Achou-se mal de repente... Vê, Julião. Está muito mal!--disse Jorge. + +Fizeram-lhe respirar mais ether; despertou outra vez. Julião +fallou-lhe, tomando-lhe o pulso. + +--Não, não, ninguem!--murmurou ella, retirando a mão. Repetiu com +impaciencia:--Não, vão-se, não quero...--As suas lagrimas redobravam. +E como elles sahiam da alcova para a não excitar contrariando-a, +ouviram-na chamar:--Jorge! + +Elle ajoelhou-se ao pé da cama, e fallando-lhe junto do rosto: + +--Que tens tu? Não se falla mais em tal. Acabou-se. Não estejas doente. +Juro-te, amo-te... Fosse o que fosse, não me importa. Não quero saber, +não. + +E como ella ia fallar, elle pousou-lhe a mão na bocca: + +--Não, não quero ouvir. Quero que estejas boa, que não soffras! Dize +que estás boa! Que tens? Vamos ámanhã para o campo, e esquece-se tudo. +Foi uma cousa que passou... + +Ella disse apenas com a voz sumida: + +--Oh! Jorge! Jorge! + +--Bem sei... Mas agora vaes ser feliz outra vez... Dize, que sentes? + +--Aqui--disse ella, e levava as mãos á cabeça.--Dóe-me! + +Elle ergueu-se para chamar Julião, mas ella reteve-o, attrahiu-o; e +devorando-o com olhos onde a febre se accendia, adiantando o rosto, +estendia-lhe os labios. Elle deu-lhe um beijo inteiro, sincero, cheio +de perdão. + +--Oh! minha pobre cabeça!--gritou ella. + +As fontes latejavam-lhe, e uma côr ardente, sêcca, esbrazeava-lhe o +rosto. + +Como era habituada a enxaquecas, Julião traquillisou-os; recommendou um +socego immovel e sinapismos de mostarda aos pés,--até que elle voltasse. + +Jorge ficou junto do leito, taciturno, cortado de presentimentos, de +sustos, suspirando ás vezes. + +Eram então quatro horas; cahia uma chuva miudinha, ennevoada; a alcova +tinha uma luz lugubre. + +--Não ha-de ser nada...--dizia Sebastião. + +Luiza agitava-se no leito, apertando as mãos na cabeça, torturada pela +dôr crescente, cheia de sêde. + +Marianna acabava d'arrumar em pontas de pés, vagamente assombrada +d'aquella casa, onde só vira desgosto e doença: mas só o pousar subtil +dos seus passos fazia soffrer Luiza, como se fossem martelladas sobre o +craneo. + +Julião não tardou; logo da porta do quarto, o aspecto d'ella +inquietou-o. Accendeu um phosphoro, aproximou-lh'o do rosto; e aquella +luz fez-lhe dar um grito como se um ferro frio lhe trespassasse a +cabeça. + +Os olhos dilatados tinham um reluzir metallico. Conservava-se muito +quieta, porque o gesto mais lento lhe dava na nuca dôres penetrantes +que a dilaceravam. Só de vez em quando sorria para Jorge com uma +expressão d'afflicção serena e muda. + +Julião fez logo pôr tres travesseiros, para lhe conservar a cabeça +alta. Fóra cahia o crepusculo humido. Andavam em bicos de pés, com +cuidado; e mesmo tiraram o relogio da parede para afastar o _tic-tac_ +monotono. Ella começava agora a murmurar sons cançados, e a voltar-se +com movimentos bruscos que lhe arrancavam gritos; ou immovel gemia d'um +modo continuo e angustioso. Tinham-lhe envolvido as pernas n'um longo +sinapismo; mas não o sentia. Pelas nove horas começou a delirar; a +lingua tornára-se-lhe branca e dura, como de gesso sujo. + +Julião fez logo applicar na cabeça compressas d'agua fria. Mas o +delirio exacerbava-se. + +Ora tinha um murmurio espesso, um vago rosnar modorrento--onde os nomes +de Leopoldina, de Jorge, de Bazilio voltavam incessantemente: depois +debatia-se, esgaçava a camisa com as mãos; e, arqueando-se, os seus +olhos rolavam, como largos bugalhos prateados onde a pupilla se sumia. + +Socegava mais; dava risadinhas d'uma doçura idiota; tinha gestos +lentos sobre o lençol, que aconchegavam e acariciavam, como n'um +gozo tepido: depois começava a respirar anciosamente, vinham-lhe +expressões torturadas de terror, queria enterrar-se nos travesseiros e +nos colxões, fugindo a aspectos pavorosos: punha-se então a apertar a +cabeça phreneticamente, pedia que lh'a abrissem, que a tinha cheia de +pedras, que tivessem piedade d'ella!--e fios de lagrimas corriam-lhe +pelo rosto. Não sentia os sinapismos; expunham-lhe agora os pés nús +ao vapor d'agua a ferver, carregada de mostarda; um cheiro acre +adstringia o ar do quarto. Jorge fallava-lhe com toda a sorte de +palavras consoladoras e supplicantes: pedia-lhe que socegasse, que o +conhecesse; mas de repente ella desesperava-se, gritava pela carta, +maldizia Juliana--ou então dizia palavras d'amor, enumerava sommas de +dinheiro... Jorge temia que aquelle delirio revelasse tudo a Julião, +ás criadas: tinha um suor á raiz dos cabellos--e quando ella, um +momento, julgando-se no _Paraiso_ e nas exaltações do adulterio, chamou +Bazilio, pediu _champagne_, teve palavras libertinas, Jorge fugiu da +alcova allucinado, foi para a sala ás escuras, atirou-se para o divan a +soluçar, arrepellou-se, blasphemou. + +--Está em perigo?--perguntou Sebastião. + +--Está--disse Julião.--Se sentisse os sinapismos, ao menos! Mas estas +malditas febres cerebraes... + +Calaram-se vendo Jorge entrar na alcova, com o rosto manchado, +esguedelhado. + +E Julião tomando-o pelo braço, levando-o para fóra: + +--Ouve lá, é necessario cortar-lhe o cabello, e rapar-lhe a cabeça. + +Jorge olhou-o com um ar estupido: + +--O cabello?--E agarrando-lhe os braços:--Não, Julião, não, hein? +Póde-se fazer outra cousa. Tu deves saber. O cabello não! Não! Isso +não, pelo amor de Deus! Ella não está em perigo. P'ra quê? + +Mas aquella massa de cabello era o diabo, impedia a acção da agua! + +--Ámanhã, se fôr necessario. Ámanhã! Espera até ámanhã... Obrigado, +Julião, obrigado! + +Julião consentiu, contrariado. Fazia então humedecer constantemente +as compressas da cabeça, e como Marianna tremula, desgeitosa, molhava +muito o travesseiro, foi Sebastião que se collocou á cabeceira da cama, +toda a noite, espremendo sem cessar uma esponja, d'onde a agua gotejava +lentamente; tinham jarros fóra da varanda, na sala, para dar á agua uma +frialdade gelada. O delirio alta noite acalmára um pouco. Mas o seu +olhar injectado tinha um aspecto selvagem: as pupillas pareciam apenas +um ponto negro. + +Jorge, sentado aos pés da cama, com a cabeça entre as mãos, olhava +para ella: lembravam-lhe vagamente outras noites de doença assim, +quando ella tivera a pneumonia: e melhorára! Até ficára mais linda, +com tons de pallidez que lhe adoçavam a expressão! Iriam para o campo +quando ella convalescesse: alugaria uma casinha: voltaria á noite no +omnibus, e vêl-a-hia de longe na estrada vindo ao seu encontro, com um +vestido claro, na tarde suave!... Mas ella gemia, elle erguia os olhos +sobresaltado: e não lhe parecia a mesma: afigurava-se-lhe que se ia +dissipando, desapparecendo n'aquelle ar de febre que enchia a alcova, +no silencio morbido da noite, e no cheiro da mostarda. Um soluço +sacudia-o, e recahia na sua immobilidade. + +Joanna, em cima, rezava. As velas, com uma chamma alta e direita, +extinguiam-se. + +Emfim uma vaga claridade desenhou nos transparentes brancos os +caixilhos da vidraça. Amanhecia. Jorge ergueu-se, foi olhar para a rua. +Não chovia; a calçada seccava. O ar tinha uma vaga côr d'aço. Tudo +dormia: e uma toalha, esquecida á janella das Azevedos, agitava-se ao +vento frio, silenciosamente. + +Quando entrou na alcova Luiza fallava com uma voz extincta: sentia +muito vagamente os sinapismos, mas a dôr de cabeça não cessava. +Começou a agitar-se--e o delirio d'ahi a pouco voltou. Julião, então, +determinou que se lhe rapasse o cabello. + +Sebastião foi acordar um barbeiro na rua da Escóla--que veio logo, com +um ar transido, a gola do casaco levantada; e batendo o queixo começou +a tirar immediatamente d'um sacco de couro as navalhas, as tesouras, +devagar, com as mãos molles da gordura das pomadas. + +Jorge foi refugiar-se na sala: parecia-lhe que grandes pedaços +mutilados da sua felicidade cahiam com aquellas lindas tranças, +destruidas ás tesouradas; e com a cabeça nas mãos recordava certos +penteados que ella usava, noites em que os seus cabellos se tinham +desmanchado nas alegrias da paixão, tons com que brilhavam á luz... +Voltou ao quarto, attrahido irresistivelmente; sentiu na alcova o +ruido secco e metallico das tesouras; sobre a mesa, n'uma caixa de +sabão, estava um velho pincel de barba, entre flocos d'espuma... Chamou +Sebastião baixo: + +--Dize-lhe que se avie! Estão-me a matar a fogo lento! É de mais. Que +ande depressa! + +Foi á sala de jantar, errou pela casa: a manhã fria clareava; +erguera-se vento, que ia levando, aos pedaços, nuvens d'um tom alvadio. + +Quando tornou a entrar no quarto, o barbeiro guardava as navalhas com a +mesma lentidão molle; e tomando o seu chapéo desabado, sahiu em bicos +de pés, murmurando n'um tom funerario: + +--Estimo as melhoras. Deus ha-de permittir que não seja nada... + +O delirio com effeito d'ahi a uma hora acalmou:--e Luiza cahiu n'uma +somnolencia prostrada com gemidos fracos, que sahiam de seus labios +como a lamentação interior da vida vencida. + +Jorge tinha então dito a Sebastião que desejava chamar o doutor +Caminha. Era um medico velho que tratára sua mãi, e que curára Luiza da +pneumonia, no segundo anno de casada. Jorge conservára uma admiração +agradecida por aquella reputação antiquada; e agora a sua esperança +voltava-se sofregamente para elle, anciando pela sua presença como pela +apparição d'um santo. + +Julião condescendeu logo. Até estimava! E Sebastião desceu correndo, +para ir a casa do dr. Caminha. + +Luiza, que sahira um momento do seu torpôr, sentiu-os fallar baixo. A +sua voz extincta chamou Jorge: + +--Cortaram-me o cabello...--murmurou tristemente. + +--É para te fazer bem--disse-lhe Jorge, quasi tão agonisante como +ella.--Cresce logo. Até te vem melhor... + +Ella não respondeu; duas lagrimas silenciosas correram-lhe pelos cantos +dos olhos. + +Devia ser a sua ultima sensação: a prostração comatosa ia-a +immobilisando, apenas a sua cabeça rolava n'um movimento dôce e +vagaroso sobre o travesseiro, gemendo sempre com um cansaço triste; +a pelle empallidecia como um vidro de janella, por traz do qual +lentamente uma luz se apaga; e mesmo os ruidos da rua que começavam não +a impressionavam, como se fossem muito distantes e abafados em algodão. + +Ao meio dia D. Felicidade appareceu. Ficou petrificada quando a viu +tão mal: e ella que a vinha buscar para irem á Encarnação, talvez ás +lojas! Tirou logo o chapéo, installou-se; fez arranjar a alcova, tirar +as bacias, os velhos sinapismos que arrastavam, compôr a cama--«porque +não havia peor p'ra um doente que desarranjo no quarto»: e muito +corajosamente animava Jorge. + +Uma carruagem parou á porta. Era o doutor Caminha, emfim!... Entrou +atabafado no seu cachenez de quadrados verdes e pretos, queixando-se +muito do frio;--e tirando devagar as grossas luvas de casimira, que +pôz dentro do chapéo methodicamente, adiantou-se para a alcova com um +passo cadenciado, acamando com a mão as suas repas grisalhas já muito +colladas ao craneo pela escova. + +Julião e elle ficaram sós na alcova. + +No quarto os outros esperavam calados, ao pé de Jorge, pallido como +cêra, com os olhos vermelhos como carvões. + +--Vai-se-lhe pôr um caustico na nuca--veio dizer Julião. + +Jorge devorava com o olhar ancioso o doutor Caminha, que se pozera a +calçar tranquillamente as suas luvas de casimira, dizendo: + +--Vamos a vêr com o caustico. Não está bem... Mas ha ainda peor. E eu +volto, meu amigo, eu volto. + +O caustico foi inutil. Não o sentia, immovel e branca, com as feições +crispadas; e tremuras passaram-lhe de repente nos nervos da face como +vibrações fugitivas. + +--Está perdida--disse Julião baixo a Sebastião. + +D. Felicidade ficou muito aterrada, fallou logo nos sacramentos. + +--P'ra quê?--resmungou Julião impaciente. + +Mas D. Felicidade declarou que tinha escrupulos, que era um peccado +mortal; e chamando Jorge para o vão da janella, toda tremula: + +--Jorge, não se assuste, mas seria bom pensar nos sacramentos... + +Elle murmurava como assombrado: + +--Os sacramentos! + +Julião chegou-se bruscamente, e quasi zangado: + +--Nada de tolices! Qual sacramentos! P'ra quê? Ella nem ouve, nem +comprehende, nem sente. É necessario deitar-lhe outro caustico, talvez +ventosas, e é o que é! Isso é que são os sacramentos! + +Mas D. Felicidade escandalisada, muito abalada, começou a chorar. +Esqueciam Deus, e em Deus é que está o remedio!--dizia, assoando-se com +estrondo. + +--Pelo que Deus faz por mim...--exclamou Jorge, sahindo do seu torpôr. +E batendo as mãos, como revoltado por uma injustiça:--Porque realmente, +que fiz eu p'ra isto? Que fiz eu!... + +Julião ordenára outro caustico. Havia agora na casa um movimento +allucinado. Joanna entrava de repente com um caldo inutil que ninguem +pedira, os olhos muito vermelhos de chorar. Marianna soluçava pelos +cantos. D. Felicidade ia, vinha pelo quarto, refugiando-se na sala para +rezar, fazendo promessas, lembrando que se chamasse o doutor Barbosa, o +doutor Barral. + +E Luiza no entanto estava immovel; uma côr macilenta ia-lhe dando ás +faces tons cavados e rigidos. + +Julião extenuado pediu um calix de vinho, uma fatia de pão. +Lembraram-se então que desde a vespera não tinham comido, e foram á +sala de jantar onde Joanna, sempre lavada em lagrimas, serviu uma sopa, +e ovos. Mas não achava os colheres, nem os guardanapos; murmurava +rezas, pedia desculpa; em quanto Jorge, com os olhos inchados, fitos na +borda da mesa, a face contrahida, fazia dobras na toalha. + +Depois d'um momento pousou devagarinho a colhér, desceu ao quarto. +Marianna estava sentada aos pés do leito: Jorge disse-lhe que fosse +servir os senhores: e apenas ella sahiu, deixou-se cahir de joelhos, +tomou uma das mãos de Luiza, chamou-a baixo; depois mais forte: + +--Escuta-me. Ouve, pelo amor de Deus. Não estejas assim, faze por +melhorar. Não me deixes n'este mundo, não tenho mais ninguem! +Perdôa-me. Dize que sim. Faze signal que sim ao menos. Não me ouve, meu +Deus! + +E olhava-a anciosamente. Ella não se movia. + +Ergueu então os braços ao ar n'uma desesperação allucinada. + +--Sabes que creio em ti, meu Deus. Salva-a! Salva-a!--E arremessava a +sua alma para as alturas:--Ouve, meu Deus! Escuta-me! Sê bom! + +Olhava em roda, esperando um movimento, uma voz, um acaso, um milagre! +Mas tudo lhe pareceu mais immovel. A face livida cavava-se; o lenço que +lhe envolvia a cabeça desarranjára-se, via-se o craneo rapado, d'uma +côr ligeiramente amarellada. Pôz-lhe então a mão na testa, hesitando, +com medo; pareceu-lhe que estava fria! Abafou um grito, correu para +fóra do quarto, e deu com o doutor Caminha que entrava, tirando +pausadamente as luvas. + +--Doutor! Está morta! Veja. Não falla, está fria... + +--Então! Então!--disse elle--Nada de barulho, nada de barulho! + +Tomou o pulso de Luiza, sentiu-o fugir sob os dedos, como a vibração +expirante d'uma corda. + +Julião veio logo. E concordou com o doutor Caminha que as ventosas eram +inuteis. + +--Já as não sente--disse o doutor, sacudindo o tabaco dos dedos. + +--Se se lhe désse um copo de cognac?...--lembrou de repente Julião. E +vendo o olhar espantado do doutor:--Ás vezes estes symptomas de coma +não querem dizer que o cerebro esteja desorganisado: podem ser apenas +a inacção da força nervosa exhausta. Se a morte é irremediavel não +se perde nada; se é apenas uma depressão do systema nervoso, póde-se +salvar... + +O doutor Caminha, com o beiço descahido, oscillava incredulamente a +cabeça: + +--Theorias!--murmurou. + +--Nos hospitaes inglezes...--começou Julião. + +O doutor Caminha encolheu os hombros com desprezo. + +--Mas se o doutor lêsse...--insistiu Julião. + +--Não leio nada!--disse o doutor Caminha com força--tenho lido de mais! +Os livros são os doentes...--E curvando-se, com ironia:--Mas se o meu +talentoso collega quer fazer a experiencia... + +--Um copo de cognac ou d'aguardente!--pediu Julião á porta. + +E o doutor Caminha sentou-se commodamente «para gozar o fracasso do +talentoso collega». + +Levantaram Luiza; Julião fez-lhe engulir o cognac; quando a deitaram +ficou na mesma immobilidade comatosa: o doutor Caminha tirou o +relogio, viu as horas, esperou: havia um silencio ancioso: emfim o +doutor ergueu-se, tomou-lhe o pulso, apalpou a frialdade crescente das +extremidades; e indo buscar silenciosamente o chapéo começou a calçar +as luvas. + +Jorge foi com elle até á porta: + +--Então, doutor?--disse, agarrando com uma força desvairada o braço. + +--Fez-se o que se pôde--disse o velho, encolhendo os hombros. + +Jorge ficou estupido no patamar, vendo-o descer. As suas passadas +vagarosas nos degraus cahiam-lhe com uma percussão medonha no coração. +Debruçou-se no corrimão, chamou-o baixo. O doutor parou, levantou os +olhos; Jorge pôz as mãos para elle, com uma anciedade humilde: + +--Então não é possivel mais nada? + +O doutor fez um gesto vago, indicou o céo. + +Jorge voltou para o quarto, encostando-se ás paredes. Entrou na alcova, +atirou-se de joelhos aos pés da cama, e alli ficou com a cabeça entre +as mãos n'um soluçar baixo e continuo. + +Luiza morria: os seus braços tão bonitos, que ella costumava acariciar +diante do espelho, estavam já paralysados; os seus olhos, a que a +paixão dera chammas e a voluptuosidade lagrimas, embaciavam-se como sob +a camada ligeira d'uma pulverisação muito fina. + +D. Felicidade e Marianna tinham accendido uma lamparina a uma gravura +de Nossa Senhora das Dôres, e de joelhos rezavam. + +O crepusculo triste descia, parecia trazer um silencio funerario. + +A campainha, então, tocou discretamente; e d'ahi a momentos appareceu a +figura do Conselheiro Accacio. D. Felicidade ergueu-se logo; e vendo as +suas lagrimas, o Conselheiro disse lugubremente: + +--Venho cumprir o meu dever, ajudar-lhes a passar este transe! + +Explicou «que encontrára por acaso o bom doutor Caminha, que lhe +contára a fatal occorrencia»! Mas muito discretamente não quiz +entrar na alcova. Sentou-se n'uma cadeira, collocou melancolicamente +o cotovêlo sobre o joelho, a testa sobre a mão, dizendo baixo a D. +Felicidade: + +--Continue as suas orações. Deus é imperscrutavel em seus decretos. + +Na alcova, Julião estivera tomando o pulso de Luiza; olhou então +Sebastião, fez-lhe o gesto d'alguma cousa que vôa e desapparece... +Aproximaram-se de Jorge, que não se movia, de joelhos, com a face +enterrada no leito: + +--Jorge--disse baixinho Sebastião. + +Elle levantou o rosto desfigurado, envelhecido, os cabellos nos olhos, +as olheiras escuras. + +--Vá, vem--disse Julião. E vendo o espanto do seu olhar:--Não, não está +morta, está n'aquella somnolencia... Mas vem. + +Elle ergueu-se, dizendo com mansidão: + +--Pois sim, eu vou. Estou bem... Obrigado. + +Sahiu da alcova. + +O Conselheiro levantou-se, foi abraçal-o com solemnidade: + +--Aqui estou, meu Jorge! + +--Obrigado, Conselheiro, obrigado. + +Deu alguns passos pelo quarto; os seus olhos pareciam preoccupar-se +com um embrulho que estava sobre a mesa; foi apalpal-o; desapertou as +pontas, e viu os cabellos de Luiza. Ficou a olhal-os, erguendo-os, +passando-os d'uma das mãos para outra, e disse com os beiços a tremer: + +--Fazia tanto gosto n'elles, coitadinha! + +Tornou a entrar na alcova. Mas Julião tomou-lhe o braço, queria-o +afastar do leito. Elle debatia-se dôcemente; e, como uma vela ardia +sobre a mesinha ao pé da cabeceira, disse, mostrando-a: + +--Talvez a incommode a luz... + +Julião respondeu commovido: + +--Já não a vê, Jorge! + +Elle soltou-se da mão de Julião, foi debruçar-se sobre ella; tomou-lhe +a cabeça entre as mãos com cuidado para a não magoar, esteve a olhal-a +um momento; depois pousou-lhe sobre os labios frios um beijo, outro, +outro, e murmurava: + +--Adeus! Adeus! + +Endireitou-se, abriu os braços, cahiu no chão. + +Todos correram. Levaram-no para a _chaise-longue_. + +E em quanto D. Felicidade n'um pranto afflicto fechava os olhos de +Luiza, o Conselheiro, com o chapéo sempre na mão, cruzava os braços, e +oscillando a sua calva respeitavel, dizia a Sebastião: + +--Que profundo desgosto de familia! + + + + +XVIII + + +Depois do enterro de Luiza, Jorge despediu as criadas, foi para casa de +Sebastião. + +N'essa noite pelas nove horas o Conselheiro Accacio, muito abafado, +descia o Moinho de Vento, quando encontrou Julião, que vinha de vêr um +doente na rua da Rosa. Foram andando juntos, conversando de Luiza, do +enterro, da afflicção de Jorge. + +--Pobre rapaz! Aquillo é que é soffrer!--disse Julião compadecido. + +--Era uma esposa modêlo!...--murmurou o Conselheiro. + +De resto, disse, vinha justamente de casa do bom Sebastião, mas não +podéra vêr o seu Jorge; tinha-se estirado sobre a cama, e dormia +profundamente. + +E acrescentou: + +--Ultimamente lia eu que aos grandes golpes succedem sempre somnos +prolongados. Assim, por exemplo, Napoleão depois de Waterloo, depois do +grande desastre de Waterloo! + +E passado um momento, continuou: + +--É verdade. Fui vêr o nosso Sebastião... Fui mostrar-lhe...--E +interrompendo-se, parando:--Porque eu entendi que era o meu dever +dedicar um tributo á memoria da infeliz senhora. Era o meu dever, e não +me eximi a elle! E estimo tel-o encontrado, porque quero saber a sua +opinião conscienciosa e desassombrada. + +Julião tossiu, e perguntou: + +--É um necrologio? + +--É um necrologio. + +E o Conselheiro, apesar de «não achar proprio, na sua posição, o entrar +em cafés publicos», lembrou a Julião que poderiam descançar um momento +no Tavares, se não estivesse muita gente, e elle poderia lêr-lhe «a +producção». + +Espreitaram. + +Estavam apenas, a uma mesa, dous velhos calados defronte dos seus +cafés, com os chapéos na cabeça, apoiados a bengalas de cana da India. +O moço dormitava ao fundo. Uma luz crua e intensa enchia a sala +estreita. + +--Ha um silencio propicio--disse o Conselheiro. + +Offereceu um café a Julião; e tirando então do bolso uma folha de papel +pautado, murmurou:--Infeliz senhora!--Inclinou-se para Julião, e leu: + + +NECROLOGIO + +Á MEMORIA DA SNR.^a D. LUIZA MENDONÇA DE BRITO CARVALHO + + + Rosa d'amor, rosa purpurea e bella, + Quem entre os goivos te esfolhou na campa? + + +--É do immortal Garrett!--E continuou com uma voz lenta e lugubre: + +«... Mais um anjo que subiu ao céo! Mais uma flôr pendida na tenra +haste que o vendaval da morte, em sua inclemente furia, arremessou mal +desabrochada para as trevas do tumulo...» + +Olhou Julião para solicitar a sua admiração, e vendo-o curvado a +remexer o seu café, proseguiu com entonações mais funerarias: + +--«Detende-vos, e olhai a terra fria! Alli jaz a casta esposa tão cedo +arrancada ás caricias do seu talentoso conjuge. Alli sossobrou, como +baixel no escarcéo da costa, a virtuosa senhora, que em sua folgazã +natureza era o encanto de quantos tinham a honra de se aproximar do seu +lar! Por que soluçaes?» + +--Um café, ó Antonio!--bradou a voz rouca de um sujeito grosso, de +jaquetão, que se sentou ao pé, pondo com ruido a bengala sobre a mesa e +deitando o chapéo para o cachaço. + +O Conselheiro olhou-o de lado, com rancor. E baixando a voz: + +--«...Não soluceis! Que o anjo se não pertence á terra pertence ao +céo!...» + +--O sô Guedes esteve já por ahi?--perguntou a voz rouca. + +O criado disse de traz do balcão, limpando com uma rodilha as travessas +de metal: + +--Ainda não, snr. D. José! + +--«...Alli--continuou o Conselheiro--seu espirito, librando-se nas +candidas azas, entôa louvores ao Eterno! E não cessa de pedir ao +Omnipotente mercês e favores para derramar sobre a cabeça do dilecto +esposo, que um dia, não duvideis, a encontrará nas regiões celestes, +patria das almas de tão subido quilate...»--E a voz do Conselheiro +aflautava-se para indicar aquella ascensão paradisiaca. + +--E hontem á noite esteve cá, o sô Guedes?--insistiu o sujeito de +jaquetão com os cotovêlos sobre a mesa, fumando como uma chaminé. + +--Esteve tarde. Lá pelas duas horas. + +O Conselheiro sacudiu o papel com um desespero mudo: por traz dos +vidros da luneta escura fusilavam-lhe nos olhos os despeitos homicidas +de author interrompido. Mas proseguiu: + +--«...E vós, ó almas sensiveis, vertei as lagrimas, mas vertendo-as, +não percaes de vista que o homem deve curvar-se aos decretos da +Providencia...» + +E interrompendo-se: + +--Isto é para dar coragem ao nosso pobre Jorge!--Continuou:--«...da +Providencia. Deus conta mais um anjo, e a sua alma brilha pura...» + +--Esteve com a pequena, o sô Guedes?--fez o sujeito, quebrando no +marmore da mesa a cinza do charuto. + +O Conselheiro suspendeu-se pallido de raiva: + +--Deve ser pessoa da mais baixa extracção--rosnou com odio. + +E o criado erguendo a vozinha fina detraz do balcão: + +--Nada, não; tem vindo agora com uma hespanhola d'ahi de cima da rua. +Uma magrinha, com o cabello riçado, uma capa vermelha... + +--A Lola!--acudiu o outro com satisfação. E espreguiçou-se com +voluptuosidade á recordação da Lola. + +O Conselheiro agora apressava-se: + +«... E de resto, o que é a vida? Uma rapida passagem sobre o orbe, e um +vão sonho de que acordamos no seio do Deus dos Exercitos, de que todos +somos indignos vassallos». + +E com esta phrase monarchica o Conselheiro terminou. + +--Que lhe parece, com franqueza? + +Julião sorveu o fundo da chavena, e collocando-a devagar no pires, +lambendo os beiços: + +--É para imprimir? + +--Na _Voz Popular_, com tarjeta preta. + +Julião coçou convulsivamente a caspa, e erguendo-se: + +--Está muito bom. Muito bom, Conselheiro! + +E Accacio procurando o troco para o moço: + +--Creio que está digno d'ella, e de mim! + +E sahiram calados. + +A noite estava muito escura: erguera-se um nordeste frio: gotas de +chuva tinham cahido. Ao Loreto, Julião parou subitamente; e exclamou: + +--Ai esquecia-me! Sabe a novidade, Conselheiro? A D. Felicidade +recolhe-se á Encarnação. + +--Ah! + +--Disse-m'o agora. Eu fui justamente vêl-a antes de ir vêr um doente á +rua da Rosa. Estava com uma febresita. Cousa de nada... A commoção; o +susto! E deu-me parte: recolhe-se ámanhã á Encarnação. + +O Conselheiro disse: + +--Sempre conheci n'aquella senhora idéas retrogradas. É o resultado das +manobras jesuiticas, meu amigo!--E ajuntou com a melancolia do liberal +descontente:--A reacção levanta a cabeça! + +Julião tomou familiarmente o braço do Conselheiro, e sorrindo: + +--Qual reacção! É por sua causa, ingrato... + +O Conselheiro estacou: + +--Que quer o meu nobre amigo insinuar? + +--Sim, homem! Não sei como diabo descobriu uma cousa grave... + +--O que? Acredite... + +--O que eu tambem descobri, seu maganão! Que o Conselheiro tem duas +travesseirinhas na cama, tendo só uma cabeça... Disse-m'o ella!--E +rindo muito, dizendo-lhe _adeus_! _adeus!_ desceu rapidamente a rua do +Alecrim. O Conselheiro ficou immovel, no largo, de braços cruzados, +como petrificado.--Que infeliz senhora! Que funesta paixão!--murmurou +emfim. E acariciou o bigode, com satisfação. + +Como tinha de passar a limpo o _Necrologio_ apressou-se a entrar +em casa. Abancou com uma manta sobre os joelhos; bem depressa as +responsabilidades de prosador distrahiram-no das preoccupações +d'homem; e até às onze horas a sua bella letra cursiva e burocratica +desenrolou-se nobremente sobre uma larga folha de papel inglez, no +silencio do seu _Sanctus Sanctorum_. Terminava quando a porta rangeu, +e a Adelaide, com um chale forte pelos hombros, veio dizer, n'uma voz +constipada: + +--Então hoje não se faz néné? + +--Não tardo, minha Adelaide, não tardo! + +E releu baixo, enlevado. Pareceu-lhe então que o final não era +commovente: queria terminar por uma exclamação dolorosa, prolongada +como um _ai!_ Meditou, com os cotovêlos sobre a mesa, a cabeça entre os +dedos muito abertos: Adelaide então, chegando-se devagar, passou-lhe a +mão pela calva: aquelle dôce roçar amoroso fez de certo saltar a idéa +como uma faisca, porque tomou rapidamente a penna, e acrescentou: + +--«Chorai! Chorai! Em quanto a mim, a dôr suffoca-me!» + +Esfregou as mãos com orgulho. Repetiu alto n'um tom plangente: + +--«Chorai, Chorai, em quanto a mim, a dôr suffoca-me!»--E passando o +braço concupiscente pela cinta da Adelaide, exclamou: + +--Está de fazer sensação, minha Adelaide! + +Ergueu-se. Tinha terminado o seu dia. Fôra bem preenchido e digno: da +manhã certificára-se com regosijo no _Diario do Governo_, que a familia +real «passava sem novidade»; cumprira o dever d'amigo, acompanhando +Luiza aos Prazeres n'uma carruagem da Companhia; a alta das inscripções +assegurava-lhe a paz da sua patria; compozera uma prosa notavel; +a sua Adelaide amava-o! E de certo se deliciou na certeza d'estas +felicidades, que contrastavam tanto com as imagens sepulchraes que a +sua penna revolvera, porque Adelaide ouviu-o murmurar: + +--A vida é um bem inestimavel!--E acrescentar como bom +cidadão:--Sobretudo n'esta era de grande prosperidade publica! + +E entrou no quarto com a cabeça erecta, o peito cheio, os passos +firmes, erguendo alto o castiçal. + +A sua Adelaide seguia-o, bocejando; estava cançada da constipação +e--de uma hora de ternuras, que tivera á tardinha, com o louro e meigo +Arnaldo, caixeiro da _Loja da America_. + + +Áquella hora dous homens desciam d'uma carruagem á porta do Hotel +Central: um trazia uma _ulster_ de xadrez, o outro uma longa pelliça. +Um omnibus quasi ao mesmo tempo parou, carregado de bagagens. + +Um criado allemão, que conversava em baixo com o porteiro, +reconheceu-os logo, e tirando o côco: + +--Oh snr. D. Bazilio! Oh snr. visconde! + +O visconde Reynaldo, que batia os pés nas lages, rosnou de dentro da +sua pelliça: + +--É verdade, aqui estamos outra vez na possilga! + +Mas áquella hora? + +--A que horas queria vossê que chegassemos? Ás horas da tabella, +talvez! Doze horas d'atrazo, essa bagatella! Em Portugal é quasi nada... + +--Houve algum transtorno?--perguntava o criado com solicitude, +seguindo-os pela escada. + +E Reynaldo, pisando com um pé nervoso o esparto do corredor: + +--O transtorno nacional! Descarrilou tudo! Estamos aqui por milagre! +Abjecto paiz!...--E desabafava a sua cólera com o criado: tel-a-hia +desabafado com as pedras da rua, tanto era o excesso da bilis:--Ha +um anno que a minha oração é esta: Meu Deus, manda-lhe outra vez o +terromoto! Pois todos os dias leio os telegrammas a vêr se o terromoto +chegou... e nada! Algum ministro que cahe, ou algum barão que surge. +E de terremoto nada! O Omnipotente faz ouvidos de mercador ás minhas +preces... Protege o paiz! Tão bom é um como outro!--E sorria, vagamente +reconhecido a uma nação, cujos defeitos lhe forneciam tantas pilherias. + +Mas quando o criado, muito consternado, lhe declarou--que não havia +senão um salão e uma alcova com duas camas, no terceiro andar--a cólera +de Reynaldo não conheceu restricções: + +--Então havemos de dormir no mesmo quarto? Vossê pensa que o snr. D. +Bazilio é meu amante, seu devasso? Está tudo cheio? Mas quem diabo +se lembra de vir a Portugal? Estrangeiros? É justamente o que me +espanta!--E encolhendo os hombros com rancôr.--É o clima, é o clima +que os attrahe! O clima, este prodigioso engodo nacional! Um clima +pestifero. Não ha nada mais reles de que um bom clima!... + +E não cessou d'invectivar o seu paiz, em quanto o criado á pressa, +sorrindo servilmente, punha sobre a jardineira pratos, fiambre, um +frango frio e Bourgogne. + +Reynaldo vinha vender a ultima propriedade, e acompanhára Bazilio que +voltava a terminar «o seccante negocio da borracha». E não cessava de +rosnar soturnamente de dentro da pelliça: + +--Aqui estamos! Aqui estamos no chiqueiro! + +Bazilio não respondia. Desde que chegára a Santa Apolonia, recordações +do _Paraiso_, da casa de Luiza, de todo aquelle romance do verão +passado, começavam a voltar, a attrahil-o, com um encanto picante. Fôra +encostar-se á vidraça. Uma lua fria, livida, corria agora entre grossas +nuvens côr de chumbo: ás vezes uma grande malha luminosa cahia sobre a +agua, faiscava: depois tudo escurecia: vagas mastreações desenhavam-se +na obscuridade diffusa: e algum fanal de navio tremeluzia friamente. + +--Que fará ella a esta hora?--pensava Bazilio.--Naturalmente, +deitava-se... Mal sabia que elle estava alli, n'um quarto do Hotel +Central... + +Cearam. + +Bazilio levou a garrafinha de cognac para a cabeceira da cama: e com a +cara coberta de pó d'arroz, os folhos da sua camisa de dormir abertos +sobre o peito, muito estendido, soprando o fumo do charuto, gozava uma +lassidão confortavel. + +--E ámanhã estou-te d'aqui a vêr--disse Reynaldo.--Vaes-te logo metter +com a prima! + +Bazilio sorriu, o seu olhar errou um pouco pelo tecto; certas +recordações das bellezas d'ella, do seu temperamento amoroso, +trouxeram-lhe uma vaga voluptuosidade: espreguiçou-se.--Que +diabo!--disse--é uma linda rapariga! Vale immenso a pena!--Bebeu mais +um calice de cognac, e d'ahi a pouco dormia profundamente. Era meia +noite. + +Áquella hora Jorge acordava, e sentado n'uma cadeira, immovel, com +soluços cançados que ainda o sacudiam, pensava n'ella. Sebastião, no +seu quarto, chorava baixo. Julião, no Posto Medico, estendido n'um +sophá, lia a _Revista dos Dous Mundos_. Leopoldina dançava n'uma +_soirée_ da Cunha. Os outros dormiam. E o vento frio que varria as +nuvens e agitava o gaz dos candieiros ia fazer ramalhar tristemente uma +arvore sobre a sepultura de Luiza. + + +D'ahi a dous dias pela manhã Bazilio, no Rocio, procurava, com o olhar +em redor, um _coupé_ decente. Mas o Pintéos, avistando-o de longe, +lançou logo a parelha. Cá está o Pintéos, meu amo! Parecia encantado de +tornar a vêr o snr. D. Bazilinho, e apenas elle lhe disse: + +--Lá acima, á Patriarchal, ó Pintéos! + +--A casa da senhora? Prompto, meu amo.--E endireitando-se na almofada, +bateu. + +Quando a tipoia parou á porta de Jorge--o Paula sahiu para a rua, a +estanqueira correu de dentro do balcão, a criada do doutor debruçou-se +logo na janella. E immoveis arregalavam os olhos. + +Bazilio tocára a campainha, um pouco nervoso: esperou, arremessou o +charuto, tornou a puxar o cordão com força. + +--As janellas estão trancadas, meu amo--disse o Pintéos. + +Bazilio recuou ao meio da rua: as portadas verdes estavam fechadas, a +casa tinha um aspecto mudo. + +Bazilio dirigiu-se ao Paula: + +--Os senhores que alli moram, estão p'ra fóra? + +--Já não moram--disse o Paula soturnamente, passando a mão sobre o +bigode. + +Bazilio fixou-o, surprehendido d'aquella entonação funebre. + +--Onde vivem agora então? + +O Paula escarrou, e cravando em Bazilio um olhar desolado: + +--V. s.^a é o parente? + +Bazilio disse sorrindo: + +--Sou o parente, sou. + +--Então não sabe? + +--O quê, homem de Deus? + +O Paula esfregou o queixo, e bamboleando a cabeça: + +--Pois sinto dizer-lh'o. A senhora morreu. + +--Que senhora?--perguntou Bazilio. E fez-se muito branco. + +--A senhora! A senhora D. Luiza, a mulher do snr. Carvalho, o +Engenheiro... E o snr. Jorge está em casa do snr. Sebastião. Alli ao +fim da rua. Se v. s.^a lá quer ir... + +--Não!--fez Bazilio com um gesto rapido da mão. Os beiços tremiam-lhe +um pouco.--Mas que foi? + +--Uma febre! Rapou-a em dous dias! + +Bazilio dirigiu-se ao _coupé_ devagar, com a cabeça baixa. Olhou mais +uma vez para a casa; fechou com força a portinhola. O Pintéos _bateu_ +p'ra a Baixa. + +O Paula então aproximou-se do estanque: + +--Não lhe fez muita móssa! Fidalgos! Canalha!--murmurou. + +A estanqueira disse lamentosamente: + +--Pois eu não sou parenta, e todas as noites lhe rezo dous padre-nossos +por alma... + +--E eu!--suspirou a carvoeira. + +--Ha-de-lhe isso servir de muito!--rosnou o Paula, afastando-se. + +Estava ultimamente mais amargo. Vendia pouco. Aquellas mortes na rua +traziam-no desconfiado da vida. Cada dia detestava mais os padres! +e todas as noites lia a _Nação_ que lhe emprestava o Azevedo, +repastando-se com rancor d'artigos devotos, que o exasperavam, o +impelliam para o atheismo; e o descontentamento das cousas publicas +inclinava-o para a communa. Como elle dizia, achava tudo uma _porcaria_. + +Foi de certo sob este sentimento que, voltando á porta do estanque, +disse ás visinhas com um ar lugubre: + +--Sabem o que isto é? Sabem o que tudo isto é?--Fazia um gesto que +abrangia o universo. Fitou-as d'um modo irado, e rosnou esta palavra +suprema: + +--Um monte d'estrume! + + +Ao descer a rua do Alecrim, Bazilio viu o visconde Reynaldo á porta do +hotel _Street_. Mandou parar o Pintéos, e saltando do _coupé_: + +--Sabes? + +--O quê? + +--Minha prima morreu. + +O visconde Reynaldo murmurou polidamente: + +--Coitada!... + +E foram descendo a rua, de braço dado, até ao Aterro. O dia estava +glorioso; um friosinho subtil errava; no ar luminoso, leve, trespassado +de sol, as casas, os galhos das arvores, os mastros das faluas, as +mastreações dos navios tinham uma nitidez muito desenhada; os sons +sobresahiam com uma tonalidade cantada e alegre; o rio reluzia como um +metal azul; o vapor de Cacilhas ia soltando rolos de fumo que tomavam a +côr do leite; e ao fundo as collinas faziam na pulverisação da luz uma +sombra azulada, onde as casarias caiadas rebrilhavam. + +E os dous passeando devagar, iam fallando de Luiza. + +O visconde Reynaldo, delicado, lamentava a pobre senhora, coitada, que +se tinha deixado morrer por um tempo tão lindo!--Mas em resumo, sempre +achára aquella ligação absurda... + +Porque emfim fossem francos: que tinha ella? Não queria dizer mal «da +pobre senhora que estava n'aquelle horror dos Prazeres», mas a verdade +é que não era uma amante _chic_; andava em tipoias de praça; usava +meias de tear; casára com um reles individuo de secretaria; vivia numa +casinhola, não possuia relações decentes; jogava naturalmente o quino, +e andava por casa de sepatos d'ourello; não tinha espirito, não tinha +_toilette_... que diabo! Era um trambolho! + +--Para um ou dous meses que eu estivesse em Lisboa...--resmungou +Bazilio com a cabeça baixa. + +--Sim, p'ra isso talvez. Como hygiene!--disse Reynaldo com desdem. + +E continuaram calados, devagar. Riram-se muito d'um sujeito que passava +governando atarantadamente dous cavallos pretos:--Que phaeton! Que +arreios! Que estylo! Só em Lisboa!... + +Ao fundo do Aterro voltaram; e o visconde Reynaldo passando os dedos +pelas suiças: + +--De modo que estás sem mulher... + +Bazilio teve um sorriso resignado. E, depois d'um silencio, dando um +forte raspão no chão com a bengala: + +--Que ferro! Podia ter trazido a Alphonsine! + +E foram tomar Xerez á _Taverna Ingleza_. + + + Setembro 1876--Setembro 1877. + + +FIM + + + + +Lista de erros corrigidos + + +Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: + + + +----------+-------------------------+---------------------------+ + | | Original | Correcção | + +----------+-------------------------+---------------------------+ + |#pág. 84 | Luzia | Luiza | + |#pág. 130 | arrebitanto | arrebitando | + |#pág. 155 | com ha-de d'estar? | como ha-de d'estar? | + |#pág. 190 | pé dos portas | pé das portas | + |#pág. 194 | enternciam-no | enterneciam-no | + |#pág. 209 | Lepoldina | Leopoldina | + |#pág. 215 | lacas | lascas | + |#pág. 263 | concialibulo | conciliabulo | + |#pág. 267 | Luzinha | Luizinha | + |#pág. 316 | dsesperadamente | desesperadamente | + |#pág. 328 | eperança | esperança | + |#pág. 333 | batendo-lho | batendo-lhe | + |#pág. 337 | de de pé | de pé | + |#pág. 404 | Leolpodina | Leopoldina | + |#pág. 404 | prodigiosomente | prodigiosamente | + |#pág. 425 | Sabastião | Sebastião | + |#pág. 427 | engmomados | engommados | + |#pág. 430 | Leolpodina | Leopoldina | + |#pág. 456 | apparer | apparecer | + |#pág. 457 | Julão | Julião | + |#pág. 457 | ao ouvindo | ao ouvido | + |#pág. 472 | cousá | cousa | + |#pág. 477 | as palavra | as palavras | + |#pág. 482 | quizessse | quizesse | + |#pág. 494 | voltou dizer | voltou a dizer | + |#pág. 507 | apaixonado | apaixonada | + |#pág. 512 | d'aqulla | d'aquella | + |#pág. 521 | susurrro | susurro | + |#pág. 558 | illsuões | illusões | + +----------+-------------------------+---------------------------+ + +Não existem os capítulo XI e XIV nesta obra: +Não havendo interrupção na paginação respeitámos a ordem da obra original. + +A página 525 surge no original como 425. Corrigimos para 525 para manter +a ordem (após verificação que não se tratava de uma página fora de sítio). + + + + + +End of Project Gutenberg's O Primo Bazilio, by José Maria Eça de Queirós + +*** END OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK 42942 *** |
