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-The Project Gutenberg EBook of Os Maias, by José Maria Eça de Queirós
-
-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
-almost no restrictions whatsoever. You may copy it, give it away or
-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org
-
-
-Title: Os Maias
- episodios da vida romantica
-
-Author: José Maria Eça de Queirós
-
-Release Date: October 16, 2012 [EBook #40409]
-Last updated: June 10, 2019
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS ***
-
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-
-Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brand„o Simıes,
-GraÁa Horta and the Online Distributed Proofreading Team
-at http://www.pgdp.net (This file was produced from images
-generously made available by National Library of Portugal
-(Biblioteca Nacional de Portugal) and Biblioteca Dulce
-Ferr„o -- Biblioteca-Museu Rep˙blica e ResistÍncia.)
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- *Nota de editor:* Devido ‡ existÍncia de erros tipogr·ficos neste
- texto, foram tomadas v·rias decisıes quanto ‡ vers„o final. Em caso
- de d˙vida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
- deste livro encontrar· a lista de erros corrigidos.
-
- Na vers„o original, esta obra È uma compilaÁ„o de dois volumes, com
- capÌtulos e paginaÁ„o independentes, publicadas numa sÛ obra.
- Respeitando o original, compil·mos num sÛ ficheiro ambas as partes:
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- Primeiro Volume
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- Segundo Volume
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- Rita Farinha (Agosto 2012)
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-Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70
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-E«A DE QUEIROZ
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-OS MAIAS
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-EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
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-VOLUME I
-
-PORTO
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-
-Livraria Internacional de Ernesto Chardron
-CASA EDITORA
-LUGAN & GENELIOUX, Successores
-
-
-1888
-
-Todos os direitos reservados
-
-
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-
-OBRAS DO MESMO AUCTOR
-
-
- O Crime do Padre Amaro, ediÁ„o inteiramente refundida, recomposta,
- e differente na fÛrma e na acÁ„o da ediÁ„o primitiva. 1 grosso vol.
- 1$200
-
- O Primo Bazilio. 3.^a ediÁ„o. 1 grosso vol. 1$000
-
- O Mandarim. 2.^a ediÁ„o. 1 vol. 500
-
- A Reliquia. 1 grosso vol. 1$000
-
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-
-OS MAIAS
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-VOLUME I
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-
-OS MAIAS
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-
-I
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-A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era
-conhecida na visinhanÁa da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o
-bairro das Janellas Verdes, pela _casa do Ramalhete_ ou simplesmente o
-_Ramalhete_. Apesar d'este fresco nome de vivenda campestre, o
-_Ramalhete_, sombrio casar„o de paredes severas, com um renque de
-estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida
-fila de janellinhas abrigadas · beira do telhado, tinha o aspecto
-tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificaÁ„o do
-reinado da sr.^a D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo
-assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas. O nome de Ramalhete
-provinha de certo d'um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel
-no logar heraldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser collocado,
-e representando um grande ramo de girasoes atado por uma fita onde se
-distinguiam letras e numeros d'uma data.
-
-Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado, com teias d'aranha
-pelas grades dos postigos terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em
-1858 Monsenhor Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o com idÈa
-d'installar l· a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do
-edificio e pela paz dormente do bairro: e o interior do casar„o
-agradara-lhe tambem, com a sua disposiÁ„o apalaÁada, os tectos
-apainelados, as paredes cobertas de _frescos_ onde j· desmaiavam as
-rosas das grinaldas e as faces dos Cupidinhos. Mas Monsenhor, com os
-seus habitos de rico prelado romano, necessitava na sua vivenda os
-arvoredos e as agoas d'um jardim de luxo: e o Ramalhete possuia apenas,
-ao fundo d'um terraÁo de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado ·s
-hervas bravas, com um cypreste, um cedro, uma cascatasinha secca, um
-tanque entulhado, e uma estatua de marmore (onde Monsenhor reconheceu
-logo Venus CitherÍa) ennegrecendo a um canto na lenta humidade das
-ramagens silvestres. AlÈm d'isso, a renda que pedio o velho VillaÁa,
-procurador dos Maias, pareceu t„o exagerada a Monsenhor, que lhe
-perguntou sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos de Le„o X.
-VillaÁa respondeu--que tambem a nobreza n„o estava nos tempos do sr. D.
-Jo„o V. E o Ramalhete continuou deshabitado.
-
-Este inutil pardieiro (como lhe chamava VillaÁa Junior, agora por morte
-de seu pae administrador dos Maias) sÛ veio a servir, nos fins de 1870,
-para l· se arrecadaram as mobilias e as louÁas provenientes do palacete
-de familia em Bemfica, morada quasi historica, que, depois de andar
-annos em praÁa, fÙra ent„o comprada por um commendador brazileiro.
-N'essa occasi„o vendera-se outra propriedade dos Maias, a _Tojeira_; e
-algumas raras pessoas que em Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e
-sabiam que desde a RegeneraÁ„o elles viviam retirados na sua quinta de
-Santa Olavia, nas margens do Douro, tinham perguntado a VillaÁa se essa
-gente estava atrapalhada.
-
---Ainda teem um pedaÁo de p„o, disse VillaÁa sorrindo, e a manteiga para
-lhe barrar por cima.
-
-Os Maias eram uma antiga familia da Beira, sempre pouco numerosa, sem
-linhas collateraes, sem parentellas--e agora reduzida a dois varıes, o
-senhor da casa, Affonso da Maia, um velho j·, quasi um antepassado, mais
-edoso que o seculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra.
-Quando Affonso se retirara definitivamente para Santa Olavia, o
-rendimento da casa excedia j· cincoenta mil cruzados: mas desde ent„o
-tinham-se accumulado as economias de vinte annos de aldÍa; viera tambem
-a heranÁa d'um ultimo parente, Sebasti„o da Maia, que desde 1830 vivia
-em Napoles, sÛ, occupando-se de numismatica;--e o procurador podia
-certamente sorrir com seguranÁa quando fallava dos Maias e da sua fatia
-de p„o.
-
-A venda da _Tojeira_ fÙra realmente aconselhada por VillaÁa: mas nunca
-elle approvara que Affonso se desfizesse de Bemfica--sÛ pela ras„o
-d'aquelles muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso, como
-dizia VillaÁa, acontecia a todos os muros. O resultado era que os Maias,
-com o Ramalhete inhabitavel, n„o possuiam agora uma casa em Lisboa; e se
-Affonso n'aquella edade amava o socego de Santa Olavia, seu neto, rapaz
-de gosto e de luxo que passava as ferias em Paris e Londres, n„o
-quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro. E
-com effeito, mezes antes de elle deixar Coimbra, Affonso assombrou
-VillaÁa annunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O
-procurador compoz logo um relatorio a enumerar os inconvenientes do
-casar„o: o maior era necessitar tantas obras e tantas despezas; depois,
-a falta d'um jardim devia ser muito sensivel a quem sahia dos arvoredos
-de Santa Olavia; e por fim alludia mesmo a uma lenda, segundo a qual
-eram sempre fataes aos Maias as paredes do Ramalhete, ´ainda que
-(acrescentava elle n'uma phrase meditada) atÈ me envergonho de mencionar
-taes frioleiras n'este seculo de Voltaire, Guisot e outros philosophos
-liberaes...ª
-
-Affonso riu muito da phrase, e respondeu que aquellas razıes eram
-excellentes--mas elle desejava habitar sob tectos tradiccionalmente
-seus; se eram necessarias obras, que se fizessem e largamente; e
-emquanto a lendas e agoiros, bastaria abrir de par em par as janellas e
-deixar entrar o sol.
-
-S. ex.^a mandava:--e, como esse inverno ia secco, as obras comeÁaram
-logo, sob a direcÁ„o d'um Esteves, architecto, politico, e compadre de
-VillaÁa. Este artista enthusiasm·ra o procurador com um projecto de
-escada apparatosa, flanqueada por duas figuras symbolisando as
-conquistas da GuinÈ e da India. E estava ideando tambem uma cascata de
-louÁa na sala de jantar--quando, inesperadamente, Carlos appareceu em
-Lisboa com um architecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com
-elle · pressa algumas ornamentaÁıes e alguns tons de estofos,
-entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para elle ali crear,
-exercendo o seu gosto, um interior confortavel, de luxo intelligente e
-sobrio.
-
-VillaÁa resentiu amargamente esta desconsideraÁ„o pelo artista nacional;
-Esteves foi berrar ao seu Centro politico que isto era um paiz perdido.
-E Affonso lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves, exigiu
-mesmo que o encarregassem da construcÁ„o das cocheiras. O artista ia
-acceitar--quando foi nomeado governador civil.
-
-Ao fim d'um anno, durante o qual Carlos viera frequentemente a Lisboa
-collaborar nos trabalhos, ´dar os seus retoques estheticosª--do antigo
-Ramalhete sÛ restava a fachada tristonha, que Affonso n„o quizera
-alterada por constituir a phisionomia da casa. E VillaÁa n„o duvidou
-declarar que Jones Bule (como elle chamava ao inglez) sem despender
-despropositadamente, aproveitando atÈ as antigualhas de Bemfica, fizera
-do Ramalhete ´um museu.ª
-
-O que surprehendia logo era o pateo, outr'ora t„o lobrego, n˙, lageado
-de pedregulho--agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de
-marmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vazos de Quimper, e
-dois longos bancos feudaes que Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados
-em talha, solemnes como cÛros de cathedral. Em cima, na antecamara,
-revestida como uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos
-morria: e ornavam-n'a divans cobertos de tapetes persas, largos pratos
-mouriscos com reflexos metalicos de cobre, uma harmonia de tons severos,
-onde destacava, na brancura immaculada do marmore, uma figura de
-rapariga friorenta, arripiando-se, rindo, ao metter o pÈsinho n'agoa.
-D'ahi partia um amplo corredor, ornado com as peÁas ricas de Bemfica,
-arcas gothicas, jarrıes da India, e antigos quadros devotos. As melhores
-salas do Ramalhete abriam para essa galeria. No sal„o nobre, raramente
-usado, todo em brocados de velludo cÙr de musgo d'outono, havia uma
-bella tÈla de Constable, o retrato da sogra de Affonso, a condessa de
-Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de caÁadora ingleza,
-sobre um fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado,
-onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII com seus moveis
-enramelhetados d'ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas
-tapeÁarias de Gobelins, desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as
-paredes de pastores e d'arvoredos.
-
-Defronte era o bilhar, forrado d'um couro moderno trazido por Jones
-Bule, onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaÁavam
-cegonhas prateadas. E, ao lado, achava-se o _fumoir_, a sala mais
-commoda do Ramalhete: as ottomanas tinham a fÙfa vastid„o de leitos; e o
-conchego quente, e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era
-alegrado pelas cores cantantes de velhas faienÁas hollandezas.
-
-Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso, revestido de
-damascos vermelhos como uma velha camara de prelado. A macissa meza de
-pau preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne luxo das
-encadernaÁıes, tudo tinha ali uma feiÁ„o austera de paz
-estudiosa--realÁada ainda por um quadro attribuido a Rubens, antiga
-reliquia da casa, um Christo na Cruz, destacando a sua nudez de athleta
-sobre um ceu de poente revolto e rubro. Ao lado do fog„o Carlos
-arranjara um canto para o avÙ com um biombo japonez bordado a ouro, uma
-pelle d'urso branco, e uma veneravel cadeira de braÁos, cuja tapeÁaria
-mostrava ainda as armas dos Maias no desmaio da trama de sÍda.
-
-No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de familia,
-estavam os quartos de Affonso. Carlos despozera os seus, n'um angulo da
-casa, com uma entrada particular, e janellas sobre o jardim: eram tres
-gabinetes a seguir, sem portas, unidos pelo mesmo tapete: e, os recostos
-acolchoados, a sÍda que forrava as paredes, faziam dizer ao VillaÁa que
-aquillo n„o eram aposentos de medico--mas de danÁarina!
-
-A casa, depois de arranjada, ficou vazia emquanto Carlos, j· formado,
-fazia uma longa viagem pela Europa;--e foi sÛ nas vesperas da sua
-chegada, n'esse lindo outono de 1875, que Affonso se resolveu emfim a
-deixar Santa Olavia e vir installar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco
-annos que elle n„o via Lisboa; e, ao fim de alguns curtos dias,
-confessou ao VillaÁa que estava suspirando outra vez pelas suas sombras
-de Santa Olavia. Mas, que remedio! N„o queria viver muito separado do
-neto; e Carlos agora, com idÈas sÈrias de carreira activa, devia
-necessariamente habitar Lisboa... De resto, n„o desgostava do Ramalhete,
-apezar de Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos climas frios, ter
-prodigalisado de mais as tapeÁarias, os pesados reposteiros, e os
-velludos. Agradava-lhe tambem muito a visinhanÁa, aquella dÙce quietaÁ„o
-de suburbio adormecido ao sol. E gostava atÈ do seu quintalejo. N„o era
-de certo o jardim de Santa Olavia: mas tinha o ar sympathico, com os
-seus girasoes perfilados ao pÈ dos degraus do terraÁo, o cypreste e o
-cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Venus CytherÍa
-parecendo agora, no seu tom claro de estatua de parque, ter chegado de
-Versalhes, do fundo do grande seculo... E desde que a agoa abundava, a
-cascatasinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus tres
-pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucolico, melancolisando aquelle
-fundo de quintal soalheiro com um pranto de nayade domestica, esfiado
-gota a gota na bacia de marmore.
-
-O que desconsolara Affonso, ao principio, fÙra a vista do
-terraÁo--d'onde outr'ora, de certo, se abrangia atÈ ao mar. Mas as casas
-edificadas em redor, nos ultimos annos, tinham tapado esse horizonte
-explendido. Agora, uma estreita tira de agoa e monte que se avistava
-entre dois predios de cinco andares, separados por um cÛrte de rua,
-formava toda a paizagem defronte do Ramalhete. E, todavia, Affonso
-terminou por lhe descobrir um encanto intimo. Era como uma tÈla marinha,
-encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do cÈu azul em face do
-terraÁo, mostrando, nas variedades infinitas de cÙr e luz, os episodios
-fugitivos d'uma pacata vida de rio: ·s vezes uma vÈla de barco da
-Trafaria fugindo airosamente · bolina; outras vezes uma galera toda em
-panno, entrando n'um favor da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou
-ent„o a melancolia d'um grande paquete, descendo, fechado e preparado
-para a vaga, entrevisto um momento, desapparecendo logo, como j·
-devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no pÛ d'ouro das
-sestas silenciosas, o vulto negro de um couraÁado inglez... E sempre ao
-fundo o pedaÁo de monte verde-negro, com um moinho parado no alto, e
-duas casas brancas ao rez d'agoa, cheias de express„o--ora faiscantes e
-despedindo raios das vidraÁas accezas em braza; ora tomando aos fins de
-tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de poente, quasi
-similhantes a um rubor humano; e d'uma tristeza arripiada nos dias de
-chuva, t„o sÛs, t„o brancas, como nuas, sob o tempo agreste.
-
-O terraÁo communicava por tres portas envidraÁadas com o escriptorio--e
-foi n'essa bella camara de prelado que Affonso se acostumou logo a
-passar os seus dias, no recanto aconchegado que o neto lhe preparara
-ternamente, ao lado do fog„o. A sua longa residencia em Inglaterra
-dera-lhe o amor dos suaves vagares junto do lume. Em Santa Olavia as
-chaminÈs ficavam accezas atÈ Abril; depois ornavam-se de braÁadas de
-flÙres, como um altar domestico; e era ainda ahi, n'esse aroma e n'essa
-frescura, que elle gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tacito, ou o seu
-querido Rabelais.
-
-Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho
-borralheiro. N'aquella edade, de ver„o ou de inverno, ao romper do sol,
-estava a pÈ, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa oraÁ„o da
-manh„ que era um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor
-supersticioso da agoa; e costumava dizer que nada havia melhor para o
-homem--que sabor d'agoa, som d'agoa, e vista d'agoa. O que o prendera
-mais a Santa Olavia fÙra a sua grande riqueza d'agoas vivas, nascentes,
-repuxos, tranquillo espelhar d'agoas paradas, fresco murmurio de agoas
-regantes... E a esta viva tonificaÁ„o da agoa attribuia elle o ter vindo
-assim, desde o comeÁo do seculo, sem uma dÙr e sem uma doenÁa, mantendo
-a rica tradiÁ„o de saude da sua familia, duro, resistente aos desgostos
-e annos--que passavam por elle, t„o em v„o, como passavam em v„o, pelos
-seus robles de Santa Olavia, annos e vendavaes.
-
-Affonso era um pouco baixo, macisso, de hombros quadrados e fortes: e
-com a sua face larga de nariz aquilino, a pelle cÛrada, quasi vermelha,
-o cabello branco todo cortado · escovinha, e a barba de neve aguda e
-longa--lembrava, como dizia Carlos, um var„o esforÁado das edades
-heroicas, um D. Duarte de Menezes ou um Affonso d'Albuquerque. E isto
-fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando, quanto as
-apparencias illudem!
-
-N„o, n„o era Menezes, nem Albuquerque; apenas um antepassado bonacheir„o
-que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o seu _whist_ ao
-canto do fog„o. Elle mesmo costumava dizer, que era simplesmente um
-egoista:--mas nunca, como agora na velhice, as generosidades do seu
-coraÁ„o tinham sido t„o profundas e largas. Parte do seu rendimento
-ia-se-lhe por entre os dedos, esparsamente, n'uma caridade enternecida.
-Cada vez amava mais o que È pobre e o que È fraco. Em Santa Olavia, as
-creanÁas corriam para elle, dos portaes, sentindo-o acariciador e
-paciente. Tudo o que vive lhe merecia amor:--e era dos que n„o pisam um
-formigueiro, e se compadece da sÍde d'uma planta.
-
-VillaÁa costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se conta dos
-patriarchas, quando o vinha encontrar ao canto da chaminÈ, na sua coÁada
-quinzena de velludilho, sereno, risonho, com um livro na m„o, o seu
-velho gato aos pÈs. Este pesado e enorme angor·, branco com malhas
-louras, era agora (desde a morte de _Tobias_, o soberbo c„o de S.
-Bernardo) o fiel companheiro de Affonso. Tinha nascido em Santa Olavia,
-e recebera ent„o o nome de Bonifacio: depois, ao chegar · edade do amor
-e da caÁa, fora-lhe dado o appellido mais cavalheiresco de D. Bonifacio
-de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no
-remanso das dignidades ecclesiasticas, e era o Reverendo Bonifacio...
-
-
-Esta existencia nem sempre assim correra com a tranquillidade larga e
-clara d'um bello rio de ver„o. O antepassado, cujos olhos se enchiam
-agora d'uma luz de ternura diante das suas rosas, e que ao canto do lume
-relia com gosto o seu Guisot, fÙra, na opini„o de seu pae, algum tempo,
-o mais feroz Jacobino de Portugal! E todavia, o furor revolucionario do
-pobre moÁo consistira em lÍr Rousseau, Volney, Helvetius, e a
-Encyclopedia; em atirar foguetes de lagrimas · ConstituiÁ„o; e ir, de
-chapeu · liberal e alta gravata azul, recitando pelas lojas maÁonicas
-Odes abominaveis ao Supremo Architecto do Universo. Isto, porÈm, bast·ra
-para indignar o pae. Caetano da Maia era um portuguez antigo e fiel que
-se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apathia de fidalgo beato
-e doente, tinha sÛ um sentimento vivo--o horror, o odio ao Jacobino,
-aquem attribuia todos os males, os da patria e os seus, desde a perda
-das colonias atÈ ·s crises da sua gota. Para extirpar da naÁ„o o
-Jacobino, dÈra elle o seu amor ao sr. infante D. Miguel, Messias forte e
-Restaurador providencial... E ter justamente por filho um Jacobino,
-parecia-lhe uma provaÁ„o comparavel sÛ ·s de Job!
-
-Ao principio, na esperanÁa que o menino se emendasse, contentou-se em
-lhe mostrar um car„o severo e chamar-lhe com sarcasmo--_cidad„o_! Mas
-quando soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara · turba que,
-n'uma noite de festa civica e de luminarias, tinha apedrejado as
-vidraÁas apagadas do sr. Legado d'¡ustria, enviado da Santa
-AllianÁa--considerou o rapaz um Marat e toda a sua colera rompeu. A gota
-cruel, cravando-o na poltrona, n„o lhe deixou espancar o maÁ„o, com a
-sua bengala da India, · lei de bom pae portuguez: mas decidiu expulsal-o
-de sua casa, sem mezada e sem benÁ„o, renegado como um bastardo! Que
-aquelle pedreiro livre n„o podia ser do seu sangue!
-
-As lagrimas da mam„ amolleceram-n'o; sobretudo as razıes d'uma cunhada
-de sua mulher, que vivia com elles em Bemfica, senhora irlandeza de alta
-instrucÁ„o, Minerva respeitada e tutelar, que ensinara inglez ao menino
-e o adorava como um bÈbÈ. Caetano da Maia limitou-se a desterrar o filho
-para a quinta de Santa Olavia; mas n„o cessou de chorar no seio dos
-padres, que vinham a Bemfica, a desgraÁa da sua casa. E esses santos l·
-o consolavam, affirmando-lhe que Deus, o velho Deus d'Ourique, n„o
-permittiria j·mais que um Maia pactuasse com Belzebut e com a RevoluÁ„o!
-E, · falta de Deus Padre, l· estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira
-da casa e madrinha do menino, para fazer o bom milagre.
-
-E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa
-Olavia um pouco contricto, enfastiado sobretudo d'aquella solid„o, onde
-os ch·s do brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o terÁo das
-primas Cunhas. Vinha pedir ao pae a benÁ„o, e alguns mil cruzados, para
-ir a Inglaterra, esse paiz de vivos prados e de cabellos d'ouro de que
-lhe fallara tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em lagrimas, accedeu
-a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercess„o de
-Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da ConceiÁ„o seu
-confessor, declarou este milagre--n„o inferior ao de Carnaxide.
-
-Affonso partiu. Era na primavera--e a Inglaterra toda verde, os seus
-parques de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus
-nobres costumes, aquella raÁa t„o sÈria e t„o forte--encantaram-n'o. Bem
-depressa esqueceu o seu odio aos sorumbaticos padres da CongregaÁ„o, as
-horas ardentes passadas no cafÈ dos Romulares a recitar Mirabeau, e a
-Republica que quizera fundar, classica e voltarianna, com um triumvirato
-de Scipiıes e festas ao Ente Supremo. Durante os dias da _Abrilada_
-estava elle nas corridas d'Epsom, no alto d'uma sege de posta, com um
-grande nariz postiÁo, dando _hurrahs_ medonhos--bem indifferente aos
-seus irm„os de MaÁonaria, que a essas horas o sr. infante espicaÁava a
-chuÁo, pelas viellas do Bairro Alto, no seu rijo cavallo d'Alter.
-
-Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar a Lisboa. Foi ent„o que
-conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda
-morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ella. Teve
-um filho, desejou outros; e comeÁou logo, com bellas idÈas de patriarcha
-moÁo, a fazer obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor
-arvoredos, preparando tectos e sombras · descendencia amada que lhe
-encantaria a velhice.
-
-Mas n„o esquecia a Inglaterra:--e tornava-lh'a mais appetecida essa
-Lisboa miguelista que elle via, desordenada como uma Tunis barbaresca;
-essa rude conjuraÁ„o apostolica de frades e bolieiros, atroando tavernas
-e capellas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do _lausperenne_
-para o curro, e anciando tumultuosamente pelo principe que lhe encarnava
-t„o bem os vicios e as paixıes...
-
-Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas vezes, na paz do
-ser„o, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignaÁ„o da
-sua alma honesta. J· n„o exigia de certo, como em rapaz, uma Lisboa de
-Catıes e de Mucios-Scevolas. J· admittia mesmo o esforÁo d'uma nobreza
-para manter o seu privilegio historico; mas ent„o queria uma nobreza
-intelligente e digna, como a Aristocracia tory (que o seu amor pela
-Inglaterra lhe fazia idealisar), dando em tudo a direcÁ„o moral,
-formando os costumes e inspirando a litteratura, vivendo com fausto e
-fallando com gosto, exemplo de idÈas altas e espelho de maneiras
-patricias... O que n„o tolerava era o mundo de Queluz, bestial e
-sordido.
-
-Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as
-cÙrtes geraes, a policia invadiu Bemfica, ´a procurar papeis e armas
-escondidas.ª
-
-Affonso da Maia, com o seu filho nos braÁos e a mulher tremendo ao
-lado--viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas
-arrombadas pela coronha das escopetas, as m„os sujas do malsim
-rebuscando os colxıes do seu leito. O sr. juiz de fÛra n„o descobriu
-nada: acceitou mesmo na copa um calice de vinho, e confessou ao mordomo
-´que os tempos iam bem duros...ª Desde essa manh„ as janellas do
-palacete conservaram-se cerradas; n„o se abriu mais o port„o nobre para
-sahir o coche da senhora; e d'ahi a semanas, com a mulher e com o filho,
-Affonso da Maia partia para Inglaterra e para o exilio.
-
-Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de
-Londres, junto a Richmond, ao fundo d'um parque, entre as suaves e
-calmas paisagens de Surrey.
-
-Os seus bens, graÁas ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de D.
-Carlota Joaquina, hoje conselheiro rispido do sr. D. Miguel, n„o tinham
-sido confiscados; e Affonso da Maia podia viver largamente.
-
-Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do _Belfast_,
-ainda o vieram desassocegar e consumir. A sua alma recta n„o tardou a
-protestar vendo a separaÁ„o de castas, de gerarchias, mantidas ali na
-terra estranha entre os vencidos da mesma idÈa--os fidalgos e os
-desembargadores vivendo no luxo de Londres · forra, e a plebe, o
-exercito, depois dos padecimentos da Galliza, succumbindo agora · fome,
-· vermina, · febre nos barracıes de Plymouth. Teve logo conflictos com
-os chefes liberaes; foi accusado de vintista e demagogo; descreu por fim
-do liberalismo. Isolou-se ent„o--sem fechar todavia a sua bolsa, d'onde
-sahiam ·s cincoenta, ·s cem moedas... Mas quando a primeira expediÁ„o
-partiu, e pouco a pouco se foram vasando os depositos de emigrados,
-respirou emfim--e, como elle disse, pela primeira vez lhe soube bem o ar
-d'Inglaterra!
-
-Mezes depois sua m„e, que ficara em Bemfica, morria d'uma apoplexia: e a
-tia Fanny veiu para Richmond completar a felicidade d'Affonso, com o seu
-claro juizo, os seus caracÛes brancos, os seus modos de discreta
-Minerva. Alli estava elle pois no seu sonho, n'uma digna residencia
-ingleza, entre arvores seculares, vendo em redor nas vastas relvas
-dormirem ou pastarem os gados de luxo, e sentindo em torno de si tudo
-s„o, forte, livre e solido,--como o amava o seu coraÁ„o.
-
-Teve relaÁıes; estudou a nobre e rica litteratura ingleza;
-interessou-se, como convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura,
-pela cria dos cavallos, pela pratica da caridade;--e pensava com prazer
-em ficar ali para sempre n'aquella paz e n'aquella ordem.
-
-SÛmente Affonso sentia que sua mulher n„o era feliz. Pensativa e triste,
-tossia sempre pelas salas. ¡ noite sentava-se ao fog„o, suspirava e
-ficava calada...
-
-Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a
-minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e
-sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo
-·quella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada,
-abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas
-arvores, o seu coraÁ„o n„o estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa,
-nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoÁ„o (a devoÁ„o dos
-Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se ·quella hostilidade
-ambiente que ella sentia em redor contra os ´papistasª. E sÛ se
-satisfazia · noite, indo refugiar-se no sot„o com as creadas
-portuguezas, para resar o _terÁo_ agachada n'uma esteira--gosando ali,
-n'esse murmurio _d'ave-marias_ em paiz protestante, o encanto de uma
-conjuraÁ„o catholica!
-
-Odiando tudo o que era inglez, n„o consentira que seu filho, o Pedrinho,
-fosse estudar ao collegio de Richmond. Debalde Affonso lhe provou que
-era um collegio catholico. N„o queria: aquelle catholicismo sem
-romarias, sem fogueiras pelo S. Jo„o, sem imagens do Senhor dos Passos,
-sem frades nas ruas--n„o lhe parecia a religi„o. A alma do seu Pedrinho
-n„o abandonaria ella · heresia;--e para o educar mandou vir de Lisboa o
-padre Vasques, capell„o do Conde de Runa.
-
-O Vasques ensinava-lhe as declinaÁıes latinas, sobretudo a cartilha: e a
-face d'Affonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d'alguma
-caÁada ou das ruas de Londres, d'entre o forte rumor da vida
-livre--ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo,
-perguntando como do fundo d'uma treva:
-
---Quantos s„o os inimigos da alma?
-
-E o pequeno, mais dormente, l· ia murmurando:
-
---Tres. Mundo, Diabo e Carne...
-
-Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma sÛ havia alli o reverendo Vasques,
-obeso e sordido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o lenÁo do rapÈ
-sobre o joelho...
-
-¡s vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina,
-agarrava a m„o do Pedrinho--para o levar, correr com elle sob as arvores
-do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da
-cartilha. Mas a mam„ accudia de dentro, em terror, a abafal-o n'uma
-grande manta: depois l· fÛra o menino, acostumado ao collo das creadas e
-aos recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores: e pouco a
-pouco, n'um passo desconsolado, os dois iam pisando em silencio as
-folhas seccas--o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pae
-vergando os hombros pensativo, triste d'aquella fraqueza do filho...
-
-Mas o menor esforÁo d'elle para arrancar o rapaz ·quelles braÁos de m„e
-que o amolleciam, ·quella cartilha mortal do padre Vasques--trazia logo
-· delicada senhora accessos de febre. E Affonso n„o se atrevia j· a
-contrariar a pobre doente, t„o virtuosa, e que o amava tanto! Ia ent„o
-lamentar-se para o pÈ da tia Fanny: a sabia irlandeza mettia os oculos
-entre as folhas do seu livro, tratado d'Addisson ou poema de Pope, e
-encolhia melancolicamente os hombros. Que podia ella fazer!...
-
-Por fim a tosse de Maria Eduarda foi augmentando--como a tristeza das
-suas palavras. J· fallava da ´sua ambiÁ„o derradeiraª, que era ver o sol
-uma vez mais! Por que n„o voltariam a Bemfica, ao seu lar, agora que o
-sr. Infante estava tambem desterrado e que havia uma grande paz? Mas a
-isso Affonso n„o cedeu: n„o queria ver outra vez as suas gavetas
-arrombadas a coronhadas--e os soldados do sr. D. Pedro n„o lhe davam
-mais garantias que os malsins do sr. D. Miguel.
-
-Por esse tempo veio um grave desgosto · casa: a tia Fanny morreu, d'uma
-pneumonia, nos frios de marÁo; e isto ennegreceu mais a melancolia de
-Maria Eduarda, que a amava muito tambem--por ser irlandeza e catholica.
-
-Para a distrahir, Affonso levou-a para a Italia, para uma deliciosa
-_villa_ ao pÈ de Roma. Ahi n„o lhe faltava o sol: tinha-o ponctual e
-generoso todas as manh„s, banhando largamente os terraÁos, dourando
-loureiraes e myrtos. E depois, l· em baixo, entre marmores, estava a
-coisa preciosa e santa, o Papa!
-
-Mas a triste senhora continuava a choramigar. O que realmente appetecia
-era Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as
-procissıes passando n'um rumor de pachorrenta penitencia por tardes de
-sol e de poeira...
-
-Foi necessario calmal-a, voltar a Bemfica.
-
-Ahi comeÁou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava lentamente,
-todos os dias mais pallida, levando semanas immovel sobre um canapÈ, com
-as m„os transparentes cruzadas sobre as suas grossas pelles
-d'Inglaterra. O padre Vasques, apoderando-se d'aquella alma aterrada
-para quem Deus era um amo feroz, torn·ra-se o grande homem da casa. De
-resto Affonso encontrava a cada momento pelos corredores outras figuras
-canonicas, de capote e solideo, em que reconhecia antigos franciscanos,
-ou algum magro capuchinho parasitando no bairro; a casa tinha um bafio
-de sachristia; e dos quartos da senhora vinha constantemente, dolente e
-vago, um rumor de ladainha.
-
-Todos aquelles santos varıes comiam, bebiam o seu vinho do Porto na
-copa. As contas do administrador appareciam sobrecarregadas com as
-mesadas piedosas que dava a senhora: um Frei Patricio surripi·ra-lhe
-duzentas missas de cruzado por alma do Sr. D. JosÈ I...
-
-Esta carolice que o cercava ia lançando Affonso n'um atheismo rancoroso:
-quereria as egrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a
-machado, uma matança de reverendos... Quando sentia na casa a voz de
-resas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante,
-ler o seu Voltaire: ou então partia a desabafar com o seu velho amigo, o
-coronel Sequeira, que vivia n'uma quinta a Queluz.
-
-O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso
-como Maria Eduarda, tendo pouco da raÁa, da forÁa dos Maias; a sua linda
-face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e
-irresistiveis; promptos sempre a humedecer-se, faziam-n'o assemelhar a
-um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades,
-indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum desejo
-forte parecera j·mais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva:
-sÛ ·s vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tom·ra
-birra ao Padre Vasques, mas n„o ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um
-fraco; e esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a
-espaÁos em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo,
-murcho, amarello, com as olheiras fundas e j· velho. O seu unico
-sentimento vivo, intenso, atÈ ahi, fÙra a paix„o pela m„e.
-
-Affonso quizera-o mandar para Coimbra. Mas, · idÈa de se separar do seu
-Pedro, a pobre senhora cahira de joelhos deante d'Affonso, balbuciando e
-tremendo: e elle, naturalmente, l· cedeu perante essas m„os
-supplicantes, essas lagrimas que cahiam quatro a quatro pela pobre face
-de cera. O menino continuou em Bemfica dando os seus lentos passeios a
-cavallo, de creado de farda atraz, comeÁando j· a ir beber a sua genebra
-aos botequins de Lisboa... Depois foi despontando n'aquella organisaÁ„o
-uma grande tendencia amorosa: aos dezenove annos teve o seu
-bastardosinho.
-
-Affonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de t„o desgraÁados
-mimos, n„o faltavam ao rapaz qualidades: era muito esperto, s„o, e, como
-todos os Maias, valente: n„o havia muito que elle sÛ, com um chicote,
-dispersara na estrada tres saloios de varapau que lhe tinham chamado
-_palmito_.
-
-Quando a m„e morreu, n'uma agonia terrivel de devota, debatendo-se dias
-nos pavores do inferno, Pedro teve na sua dÙr os arrebatamentos d'uma
-loucura. Fizera a promessa hysterica, se ella escapasse, de dormir
-durante um anno sobre as lageas do pateo: e levado o caix„o, sahidos os
-padres, cahio n'uma angustia soturna, obtusa, sem lagrimas, de que n„o
-queria emergir, estirado de bruÁos sobre a cama n'uma obstinaÁ„o de
-penitente. Muitos mezes ainda n„o o deixou uma tristeza vaga: e Affonso
-da Maia j· se desesperava de ver aquelle rapaz, seu filho e seu
-herdeiro, sahir todos os dias a passos de monge, lugubre no seu luto
-pesado, para ir visitar a sepultura da mam„...
-
-Esta dÙr exagerada e morbida cessou por fim; e succedeu-lhe, quasi sem
-transiÁ„o, um periodo de vida dissipada e turbulenta, estroinice banal,
-em que Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava affogar em
-lupanares e botequins as saudades da mam„. Mas essa exhuberancia anciosa
-que se desencadeara t„o subitamente, t„o tumultuosamente, na sua
-natureza desequilibrada, gastou-se depressa tambem.
-
-Ao fim d'um anno de disturbios no Marrare, de faÁanhas nas esperas de
-toiros, de cavallos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, comeÁaram a
-reapparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias
-taciturnos, longos como desertos, passados em casa a bocejar pelas
-salas, ou sob alguma arvore da quinta todo estirado de bruÁos, como
-despenhado n'um fundo de amargura. N'esses periodos tornava-se tambem
-devoto: lia Vidas de Santos, visitava o Lausperenne: eram d'esses
-bruscos abatimentos d'alma que outr'ora levavam os fracos aos mosteiros.
-
-Isto penalisava Affonso da Maia: preferia saber que elle recolhera de
-Lisboa, de madrugada, exhausto e bebedo,--do que vel-o, de ripanÁo
-debaixo do braÁo, com um ar velho, marchando para a Egreja de Bemfica.
-
-E havia agora uma idÈa que, a seu pesar, ‡s vezes o torturava:
-descobrira a grande parecenÁa de Pedro com um avÙ de sua mulher, um
-Runa, de quem existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinario,
-com que na casa se mettia medo ·s creanÁas, enlouquecera--e julgando-se
-Judas enforcara-se n'uma figueira...
-
-Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava! Era um amor
-· Romeu, vindo de repente n'uma troca de olhares fatal e deslumbradora,
-uma d'essas paixıes que assaltam uma existencia, a assolam como um
-furac„o, arrancando a vontade, a ras„o, os respeitos humanos e
-empurrando-os de rold„o aos abysmos.
-
-N'uma tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, · porta de M.^{me}
-Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapÈo branco, e uma
-senhora loira, embrulhada n'um chale de Cashmira.
-
-O velho, baixote e reforÁado, de barba muito grisalha talhada por baixo
-do queixo, uma face tisnada d'antigo embarcadiÁo e o ar gÙche, desceu
-todo encostado ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse, entrou
-arrastando a perna o portal da modista; e ella voltando de vagar a
-cabeÁa olhou um momento o Marrare.
-
-Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto os cabellos loiros, d'um
-oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e classica: os olhos
-maravilhosos illuminavam-n'a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida a
-carnaÁ„o de marmore: e com o seu perfil grave de estatua, o modelado
-nobre dos hombros e dos braÁos que o chale cingia--pareceu a Pedro
-n'esse instante alguma cousa d'immortal e superior · terra.
-
-N„o a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido
-de negro, que fumava encostado · outra hombreira, n'uma _pose_ de
-tedio--vendo o violento interesse de Pedro, o olhar acceso e perturbado
-com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veiu tomar-lhe o braÁo,
-murmurou-lhe junto · face na sua voz grossa e lenta:
-
---Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e
-os feitos principaes? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso
-Alencar, uma garrafa de Champagne?
-
-Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos
-anneis da cabelleira e pelas pontas do bigode, comeÁou, todo recostado e
-dando um puch„o aos punhos:
-
---Por uma dourada tarde d'outomno...
-
---AndrÈ, gritou Pedro ao creado, martellando o marmore da mesa, retira o
-Champagne!
-
-O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio:
-
---O quÍ! Sem saciar a avidez de meu labio?...
-
-Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o
-poeta das _Vozes d'Aurora_, explicaria aquella gente da caleche azul
-n'uma linguagem christ„ e pratica!...
-
---Ahi vae, meu Pedro, ahi vae!
-
-Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera a mam„, aquelle velho,
-o pap· Monforte, uma manh„ rompera subitamente pelas ruas e pela
-sociedade de Lisboa n'aquella mesma caleche com essa bella filha ao seu
-lado. Ninguem os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no
-palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a apparecer em S. Carlos,
-fazendo uma impress„o--uma impress„o de causar aneurismas, dizia o
-Alencar! Quando ella atravessava o sal„o os hombros vergavam-se no
-deslumbramento de aurÈola que vinha d'aquella magnifica creatura,
-arrastando com um passo de Deusa a sua cauda de cÙrte, sempre decotada
-como em noites de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias. O
-pap· nunca lhe dava o braÁo: seguia atraz, entalado n'uma grande gravata
-branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadiÁo na
-claridade loira que sahia da filha, encolhido e quasi apavorado,
-trazendo nas m„os o oculo, o _libretto_, um saco de _bonbons_, o leque e
-o seu proprio guardachuva. Mas era no camarote, quando a luz cahia sobre
-o seu collo eburneo e as suas tranÁas de oiro, que ella offerecia
-verdadeiramente a encarnaÁ„o d'um ideal da RenascenÁa, um modelo de
-Ticiano... Elle, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara,
-mostrando-a a ella e ·s outras, ·s trigueirotas da assignatura:
-
---Rapazes! È como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo
-do Sr. D. Jo„o VI!
-
-O Magalh„es, esse torpe pirata, pozera o dito n'um folhetim do
-_Portuguez_. Mas o dito era d'elle, Alencar!
-
-Os rapazes, naturalmente, comeÁaram logo a rondar o palacete de Arroios.
-Mas nunca n'aquella casa se abria uma janella. Os criados interrogados
-disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava
-Manoel. Emfim uma creada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem
-era taciturno, tremia deante da filha, e dormia n'uma rÍde; a senhora,
-essa, vivia n'um ninho de sedas todo azul-ferrÍte, e passava o seu dia a
-ler novellas. Isto n„o podia satisfazer a sofreguid„o de Lisboa. Fez-se
-uma devassa methodica, habil, paciente... Elle, Alencar, pertencera ·
-devassa.
-
-E souberam-se horrores. O pap· Monforte era dos AÁores; muito moÁo, uma
-facada n'uma rixa, um cadaver a uma esquina tinham-n'o forÁado a fugir a
-bordo d'um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da
-casa de Taveira, que o conhecera nos AÁores, estando na Havana a estudar
-a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas
-encontr·ra l· o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando
-pelo caes, de chinellas de esparto, · procura de embarque para a
-Nova-Orleans. Aqui havia uma treva na historia do Monforte. Parece que
-servira algum tempo de feitor n'uma plantaÁ„o da Virginia... Emfim,
-quando reappareceu · face dos cÈos commandava o brigue _Nova Linda_, e
-levava cargas de pretos para o Brazil, para a Havana e para a Nova
-Orleans.
-
-Escapara aos cruzeiros inglezes, arranc·ra uma fortuna da pelle do
-africano, e agora rico, homem de bem, proprietario, ia ouvir a Corelli a
-S. Carlos. Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar, obscura
-e mal provada, claudicava aqui e alÈm...
-
---E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, serio e pallido.
-
-Mas isso n„o o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim t„o loira e
-bella? Quem fÙra a mam„? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com
-aquelle gesto real no seu chale de Cashmira?...
-
---Isso, meu Pedro, s„o
-
-
- mysterios que j·mais poude Lisboa
- astuta devassar e sÛ Deus sabe!
-
-
-Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquella legenda de sangue e
-negros, o enthusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue
-de assassino, a _belt‡_ do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras,
-deliciando-se em villipendiar uma mulher t„o loira, t„o linda e com
-tantas joias, chamaram-lhe logo a _negreira_! Quando ella apparecia
-agora no theatro, D. Maria da Gama affectava esconder a face detraz do
-leque, porque lhe parecia ver na rapariga (sobretudo quando ella usava
-os seus bellos rubis) o sangue das facadas que dera o pap·zinho! E
-tinham-n'a calumniado abominavelmente. Assim, depois de passarem em
-Lisboa o primeiro inverno, os Monfortes sumiram-se: pois disse-se logo,
-com furor, que estavam arruinados, que a policia perseguia o velho, mil
-perversidades... O excellente Monforte, que soffre de rheumatismos
-articulares, achava-se tranquillamente, ricamente, tomando as aguas dos
-Piryneus... Fora l· que o Mello os conhecera...
-
---Ah! o Mello conhece-os? exclamou Pedro.
-
---Sim, meu Pedro, o Mello os conhece.
-
-Pedro d'ahi a um momento deixou o Marrare; e n'essa noite, antes de
-recolher, apesar da chuva fria e miuda, andou rondando uma hora, com a
-imaginaÁ„o toda accesa, o palacete dos Vargas apagado e mudo. Depois,
-d'ahi a duas semanas o Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro
-acto do _Barbeiro_, ficou assombrado ao ver Pedro da Maia installado na
-frisa da Monforte, · frente, ao lado de Maria, com uma camelia escarlate
-na casaca--egual ·s d'um ramo pousado no rebordo de velludo.
-
-Nunca Maria Monforte apparecera mais bella: tinha uma d'essas
-_toilettes_ excessivas e theatraes que offendiam Lisboa, e faziam dizer
-·s senhoras que ella se vestia ´como uma comicaª. Estava de seda cÙr de
-trigo, com duas rosas amarellas e uma espiga nas tranÁas, opalas sobre o
-collo e nos braÁos; e estes tons de ceara madura batida do sol,
-fundindo-se com o ouro dos cabellos, illuminando-lhe a carnaÁ„o eburnea,
-banhando as suas fÛrmas de estatua, davam-lhe o esplendor d'uma Ceres.
-Ao fundo entreviam-se os grandes bigodes loiros do Mello, que conversava
-de pÈ com o pap· Monforte--escondido como sempre no canto negro da
-frisa.
-
-O Alencar foi observar ´o casoª do camarote dos Gamas. Pedro volt·ra ·
-sua cadeira, e de braÁos cruzados contemplava Maria. Ella conservou
-algum tempo a sua attitude de Deusa insensivel; mas, depois, no duetto
-de Rosina e Lindor, duas vezes os seus olhos azues e profundos se
-fixaram n'elle, gravemente e muito tempo. O Alencar, correu ao Marrare,
-de braÁos ao ar, a berrar a novidade.
-
-N„o tardou de resto a fallar-se em toda a Lisboa da paix„o de Pedro da
-Maia pela _negreira_. Elle tambem namorou-a publicamente, · antiga,
-plantado a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos
-cravados na janella d'ella, immovel e pallido d'extasi.
-
-Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel--poemas
-desordenados que ia compÙr para o Marrare: e ninguem l· ignorava o
-destino d'aquellas paginas de linhas encruzadas que se accumulavam
-deante d'elle sobre o taboleiro da genebra. Se algum amigo vinha · porta
-do cafÈ perguntar por Pedro da Maia, os criados j· respondiam muito
-naturalmente:
-
---O sr. D. Pedro? Est· a escrever · menina.
-
-E elle mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a m„o, exclamava
-radiante, com o seu bello e franco sorriso:
-
---Espera ahi um bocado, rapaz, estou a escrever · Maria!
-
-Os velhos amigos de Affonso da Maia que vinham fazer o seu _whist_ a
-Bemfica, sobretudo o VillaÁa, o administrador dos Maias, muito zeloso da
-dignidade da casa, n„o tardaram em lhe trazer a nova d'aquelles amores
-do Pedrinho. Affonso j· os suspeitava: via todos os dias um criado da
-quinta partir com um grande ramo das melhores camelias do jardim; todas
-as manh„s cedo encontrava no corredor o escudeiro, dirigindo-se ao
-quarto do menino, a cheirar regaladamente o perfume d'um enveloppe com
-sinete de lacre dourado;--e n„o lhe desagradava que um sentimento
-qualquer, humano e forte, lhe fosse arrancando o filho · estroinice
-bulhenta, ao jogo, ·s melancolias sem ras„o em que reapparecia o negro
-ripanÁo...
-
-Mas ignorava o nome, a existencia sequer dos Monfortes; e as
-particularidades que os amigos lhe revelaram, aquella facada nos AÁores,
-o chicote de feitor na Virginia, o brigue _Nova Linda_, toda a sinistra
-legenda do velho contrariou muito Affonso da Maia.
-
-Uma noite que o coronel Sequeira, · mesa do _whist_, contava que vira
-Maria Monforte e Pedro passeando a cavallo, ´ambos muito bem e muito
-_distinguÈs_ª, Affonso, depois d'um silencio, disse com um ar
-enfastiado:
-
---Emfim, todos os rapazes teem as suas amantes... Os costumes s„o assim,
-a vida È assim, e seria absurdo querer reprimir taes cousas. Mas essa
-mulher, com um pae d'esses, mesmo para amante acho m·.
-
-O VillaÁa suspendeu o baralhar das cartas, e ageitando os oculos d'ouro
-exclamou com espanto:
-
---Amante! Mas a rapariga È solteira, meu senhor, È uma menina
-honesta!...
-
-Affonso da Maia enchia o seu cachimbo; as m„os comeÁaram a tremer-lhe; e
-voltando-se para o administrador, n'uma voz que tremia um pouco tambem:
-
---O VillaÁa de certo n„o suppıe que meu filho queira casar com essa
-creatura...
-
-O outro emmudeceu. E foi o Sequeira que murmurou:
-
---Isso n„o, est· claro que n„o...
-
-E o jogo continuou algum tempo em silencio.
-
-Mas Affonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas
-que Pedro n„o jantava em Bemfica. De manh„, se o via, era um momento,
-quando elle descia ao almoÁo, j· com uma luva calÁada, apressado e
-radiante, gritando para dentro se estava sellado o cavallo; depois,
-mesmo de pÈ, bebia um gole de ch·, perguntava a correr ´se o pap· queria
-alguma cousaª, dava um geito ao bigode deante do grande espelho de
-Veneza sobre o fog„o, e l· partia, enlevado. Outras vezes todo o dia n„o
-sahia do quarto: a tarde descia, accendiam-se as luzes; atÈ que o pae,
-inquieto, subia, ia encontral-o estirado sobre o leito, com a cabeÁa
-enterrada nos braÁos.
-
---Que tens tu?--perguntava-lhe.
-
---Enchaqueca,--respondia n'um tom surdo e rouco.
-
-E Affonso descia indignado, vendo em toda aquella angustia covarde
-alguma carta que n„o viera, ou talvez uma rosa offerecida que n„o fÙra
-posta nos cabellos...
-
-Depois, por vezes, entre dois _robbers_ ou conversando em volta da
-bandeja do ch·, os seus amigos tinham observaÁıes que o inquietavam,
-partindo d'aquelles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os
-rumores--emquanto elle passava alli, inverno e ver„o, entre os seus
-livros e as suas rosas. Era o excellente Sequeira que perguntava porque
-n„o faria Pedro uma viagem longa, para se instruir, · Allemanha, ao
-Oriente? Ou o velho Luiz Runa, o primo d'Affonso, que, a proposito de
-cousas indifferentes, rompia lamentando os tempos em que o Intendente da
-policia podia livremente expulsar de Lisboa as pessoas importunas...
-Evidentemente alludiam · Monforte, evidentemente julgavam-n'a perigosa.
-
-No ver„o, Pedro partiu para Cintra; Affonso soube que os Monfortes
-tinham l· alugado uma casa. Dias depois o VillaÁa appareceu em Bemfica,
-muito preoccupado: na vespera Pedro visitara-o no cartorio, pedira-lhe
-informaÁıes sobre as suas propriedades, sobre o meio de levantar
-dinheiro. Elle l· lhe dissera que em setembro, chegando · sua
-maioridade, tinha a legitima da mam„...
-
---Mas n„o gostei d'isto, meu senhor, n„o gostei d'isto...
-
---E porque, VillaÁa? O rapaz querer· dinheiro, querer· dar presentes ·
-creatura... O amor È um luxo caro, VillaÁa.
-
---Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o ouÁa!
-
-E aquella confianÁa t„o nobre de Affonso da Maia no orgulho patricio,
-nos brios de raÁa de seu filho, chegava a tranquillisar VillaÁa.
-
-D'ahi a dias, Affonso da Maia viu emfim Maria Monforte. Tinha jantado na
-quinta do Sequeira ao pÈ de Queluz, e tomavam ambos o seu cafÈ no
-mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche
-azul com os cavallos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma
-sombrinha escarlate, trazia um vestido cÙr de rosa cuja roda, toda em
-folhos, quasi cobria os joelhos de Pedro sentado ao seu lado: as fitas
-do seu chapÈo, apertadas n'um grande laÁo que lhe enchia o peito, eram
-tambem cÙr de rosa: e a sua face, grave e pura como um marmore grego,
-apparecia realmente adoravel, illuminada pelos olhos d'um azul sombrio,
-entre aquelles tons rosados. No assento defronte, quasi todo tomado por
-cartıes de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapÈo panam·,
-calÁa de ganga, o mantelete da filha no braÁo, o guarda sol entre os
-joelhos. Iam callados, n„o viram o mirante; e, no caminho verde e
-fresco, a caleche passou com balanÁos lentos, sob os ramos que roÁavam a
-sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chavena de cafÈ junto aos
-labios, de olho esgazeado, murmurando:
-
---Caramba! … bonita!
-
-Affonso n„o respondeu: olhava cabisbaixo aquella sombrinha escarlate,
-que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvel-o
-todo--como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde
-triste das ramas.
-
-O outono passou, chegou o inverno, frigidissimo. Uma manh„, Pedro entrou
-na livraria onde o pae estava lendo junto ao fog„o; recebeu-lhe a
-benÁ„o, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se
-bruscamente para elle:
-
---Meu pae,--disse, esforÁando-se por ser claro e decidido--venho
-pedir-lhe licenÁa para casar com uma senhora que se chama Maria
-Monforte.
-
-Affonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e n'uma voz grave e
-lenta:
-
---N„o me tinhas fallado d'isso... Creio que È a filha d'um assassino,
-d'um negreiro, a quem chamam tambem a _negreira_...
-
---Meu pae!...
-
-Affonso ergueu-se diante d'elle, rigido e inexoravel como a encarnaÁ„o
-mesma da honra domestica.
-
---Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.
-
-Pedro, mais branco que o lenÁo que tinha na m„o, exclamou todo a tremer,
-quasi em soluÁos:
-
---Pois pÛde estar certo, meu pae, que hei de casar!
-
-Sahiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo
-escudeiro, muito alto para que o pae ouvisse, e deu-lhe ordem para levar
-as suas malas ao hotel da Europa.
-
-Dois dias depois VillaÁa entrou em Bemfica, com as lagrimas nos olhos,
-contando que o menino cas·ra n'essa madrugada--e segundo lhe dissera o
-Sergio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Italia.
-
-Affonso da Maia sent·ra-se n'esse instante · mesa do almoÁo, posta ao pÈ
-do fog„o: ao centro, um ramo esfolhava-se n'um vaso do Jap„o, · chamma
-forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o numero da
-_Grinalda_, jornal de versos que elle costumava receber... Affonso ouviu
-o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente o seu
-guardanapo.
-
---J· almoÁou, VillaÁa?
-
-O procurador, assombrado d'aquella serenidade, balbuciou:
-
---J· almocei, meu senhor...
-
-Ent„o Affonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro:
-
---PÛde tirar d'alli esse talher, Teixeira. D'aqui por diante ha sÛ um
-talher · mesa... Sente-se, VillaÁa, sente-se.
-
-O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indifferenÁa o talher do
-menino. VillaÁa sent·ra-se. Tudo em redor era correto e calmo como nas
-outras manh„s em que almoÁara em Bemfica. Os passos do escudeiro n„o
-faziam ruido no tapete fofo; o lume estalava alegremente, pondo retoques
-d'ouro nas pratas polidas; o sol discreto que brilhava fÛra no azul
-d'inverno fazia scintillar crystaes de geada nas ramas seccas; e ·
-janella o papagaio, muito patulÍa e educado por Pedro, rosnava injurias
-aos Cabraes.
-
-Por fim Affonso ergueu-se; esteve olhando abstrahidamente a quinta, os
-pavıes no terrasso; depois ao sahir da sala tomou o braÁo de VillaÁa,
-apoiou-se n'elle com forÁa, como se lhe tivesse chegado a primeira
-tremura da velhice, e no seu abandono sentisse alli uma amizade segura.
-Seguiram o corredor, callados. Na livraria Affonso foi occupar a sua
-poltrona ao pÈ da janella, comeÁou a encher de vagar o seu cachimbo.
-VillaÁa, de cabeÁa baixa, passeava ao comprido das altas estantes, nas
-pontas dos pÈs, como no quarto d'um doente. Um bando de pardaes veiu
-gralhar um momento nos ramos d'uma alta arvore que roÁava a varanda.
-Depois houve um silencio, e Affonso da Maia disse:
-
---Ent„o, VillaÁa, o Saldanha l· foi demittido do PaÁo?...
-
-O outro respondeu, vaga e machinalmente:
-
---… verdade, meu senhor, È verdade...
-
-E n„o se fallou mais de Pedro da Maia.
-
-
-
-
-II
-
-
-Pedro e Maria, no entanto, n'uma felicidade de novella, iam descendo a
-Italia, a pequenas jornadas, de cidade em cidade, n'essa via sagrada que
-vae desde as flores e das messes da planicie lombarda atÈ ao molle paiz
-de romanza, Napoles, branca sob o azul. Era l· que tencionavam passar o
-inverno, n'esse ar sempre tepido junto a um mar sempre manso, onde as
-preguiÁas de noivado teem uma suavidade mais longa... Mas um dia, em
-Roma, Maria sentiu o appetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar
-assim, aos balouÁos das caleÁas, sÛ para ir ver _lazzaroni_ engolir fios
-de macarr„o. Quanto melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos
-Elyseos, e gozarem alli um lindo inverno de amor! Paris estava seguro,
-agora, com o principe Luiz Napole„o... AlÈm d'isso, aquella velha Italia
-classica enfastiava-a j·: tantos marmores eternos, tantas _madonas_
-comeÁavam (como ella dizia pendurada languidamente do pescoÁo de Pedro)
-a dar tonturas · sua pobre cabeÁa! Suspirava por uma boa loja de modas,
-sob as chammas do gaz, ao rumor do boulevard... Depois tinha medo da
-Italia onde todo mundo conspirava.
-
-Foram para FranÁa.
-
-Mas por fim aquelle Paris ainda agitado, onde parecia restar um vago
-cheiro de polvora pelas ruas, onde cada face conservava um calor de
-batalha, desagradou a Maria. De noite accordava com a _Marselheza_;
-achava um ar feroz · policia; tudo permanecia triste; e as duquezas,
-pobres anjos, ainda n„o ousavam vir ao _Bois_, com medo dos operarios,
-corja insaciavel! Emfim demoraram-se l· atÈ a primavera, no ninho que
-ella sonh·ra, todo de velludo azul, abrindo sobre os Campos Elyseos.
-
-Depois principiou a fallar-se de novo em revoluÁ„o, em golpe d'estado. A
-admiraÁ„o absurda de Maria pelos novos uniformes da _garde-mobile_ fazia
-Pedro nervoso. E quando ella appareceu gravida, anciou por a tirar
-d'aquelle Paris batalhador e fascinante, vir abrigal-a na pacata Lisboa
-adormecida ao sol.
-
-Antes de partir porÈm escreveu ao pae.
-
-FÙra um conselho, quasi uma exigencia de Maria. A recusa de Affonso da
-Maia ao principio desesperara-a. N„o a affligia a desuni„o domestica:
-mas aquelle _n„o_ affrontoso de fidalgo puritano marcara muito
-publicamente, muito brutalmente, a sua origem suspeita! Odiou o velho: e
-tinha apressado o casamento, aquella partida triumphante para Italia,
-para lhe mostrar bem que nada valiam genealogias, avÛs godos, brios de
-familia--deante dos seus braÁos nus... Agora porÈm que ia voltar a
-Lisboa, dar _soirÈes_, crear cÙrte, a reconciliaÁ„o tornava-se
-indispensavel; aquelle pae retirado em Bemfica, com o rigido orgulho de
-outras edades, faria lembrar constantemente, mesmo entre os seus
-espelhos e os seus estofos, o brigue _Nova Linda_ carregado de negros...
-E queria mostrar-se a Lisboa pelo braÁo d'esse sogro t„o nobre e t„o
-ornamental, com as suas barbas de Viso-rei.
-
---Dize-lhe que j· o adoro, murmurava ella curvada sobre a escrivaninha
-acariciando os cabellos de Pedro. Dize-lhe que se tiver um pequeno lhe
-hei de pÙr o nome d'elle... Escreve-lhe uma carta bonita, hein!
-
-E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao pap·. O pobre rapaz amava-o.
-Fallou-lhe commovido da esperanÁa de ter um filho var„o; as
-desintelligencias deviam findar em torno do berÁo d'aquelle pequeno Maia
-que alli vinha, morgado e herdeiro do nome... Contava-lhe a sua
-felicidade, com uma effus„o de namorado indiscreto: a historia da
-bondade de Maria, das suas graÁas, da sua instrucÁ„o, enchia duas
-paginas: e jurava-lhe que apenas chegasse n„o tardaria uma hora em ir
-atirar-se aos seus pÈs...
-
-Com effeito, apenas desembarcou, correu n'um trem a Bemfica. Dois dias
-antes o pae partira para S.^{ta} Olavia: isto pareceu-lhe uma
-desfeita--e feriu-o acerbamente.
-
-Fez-se ent„o entre o pae e o filho uma grande separaÁ„o. Quando lhe
-nasceu uma filha Pedro n„o lh'o participou--dizendo dramaticamente ao
-VillaÁa ´que j· n„o tinha pae!ª Era uma linda bÈbÈ, muito gorda, loira e
-cÙr de rosa, com os bellos olhos negros dos Maias. Apesar do desejo de
-Pedro, Maria n„o a quiz crear; mas adorava-a com phrenesi; passava dias
-de joelhos ao pÈ do berÁo, em extasi, correndo as suas m„os cheias de
-pedrarias pelas carninhas tenras; pondo-lhe beijos de devota nos
-pÈsinhos, na rosquinha das cÙxas, balbuciando-lhe n'um enlevo nomes de
-grande amor, e perfumando-a j·, enchendo-a j· de laÁarotes.
-
-E n'estes delirios pela filha, brotava, mais amarga, a sua colera contra
-Affonso da Maia. Considerava-se ent„o insultada em si mesma e n'aquelle
-cherubim que lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe
-o _D. Fuas_, o _Barbatanas_...
-
-Pedro um dia ouviu isto, e escandalisou-se: ella replicou
-desabridamente: e deante d'aquella face abrazada, onde entre lagrimas os
-olhos azues pareciam negros de colera, elle sÛ poude balbuciar
-timidamente:
-
---… meu pae, Maria...
-
-Seu pae! E · face de toda a Lisboa tratava-a ent„o como uma concubina!
-Podia ser um fidalgo, as maneiras eram de vill„o. Um _D. Fuas_, um
-_Barbatanas_, nada mais!...
-
-Arrebatou a filha, e abraÁada n'ella, romperam as queixas por entre os
-prantos:
-
---Ninguem nos ama, meu anjo! Ninguem te quer! Tens sÛ a tua m„e!
-Tratam-te como se fosses bastarda!
-
-A bebÈ, sacudida nos braÁos da m„e, desatou a gritar. Pedro correu,
-envolveu-as ambas no mesmo abraÁo, j· enternecido, j· humilde; e tudo
-terminou n'um longo beijo.
-
-E elle, por fim, no seu coraÁ„o, justificava aquella colera de m„e que
-vÍ desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos de Pedro, o
-Alencar, o D. Jo„o da Cunha, que comeÁavam agora a frequentar Arroios,
-riam d'aquella obstinaÁ„o de pae gothico, amuado na provincia, porque
-sua nora n„o tivera avÛs mortos em Aljubarrota! E onde havia outra em
-Lisboa, com aquellas _toilettes_, aquella graÁa, recebendo t„o bem? Que
-diabo, o mundo marchara, sahira-se j· das attitudes empertigadas do
-seculo XVI!
-
-E o proprio VillaÁa, um dia que Pedro lhe fÙra mostrar a pequerruchinha
-adormecida entre as rendas do seu berÁo, sensibilisou-se, veio-lhe uma
-das suas faceis lagrimas, declarou, com a m„o no coraÁ„o, que aquillo
-era uma caturrice do sr. Affonso da Maia!
-
---Pois peior para elle! n„o querer ver um anjo d'estes! disse Maria,
-dando deante do espelho um lindo geito ·s flores do cabello. Tambem n„o
-faz c· falta...
-
-E n„o fazia falta. N'esse outubro, quando a pequena completou o seu
-primeiro anno, houve um grande baile na casa de Arroios, que elles agora
-occupavam toda, e que fÙra ricamente remobilada. E as senhoras que
-outr'ora tinham horror · _negreira_, a D. Maria da Gama que escondia a
-face por traz do leque, l· vieram todas, amaveis e decotadas, com o
-beijinho prompto, chamando-lhe ´queridaª, admirando as grinaldas de
-camelias que emmolduravam os espelhos de quatrocentos mil rÈis, e
-gozando muito os gelados.
-
-ComeÁara ent„o uma existencia festiva e luxuosa, que, segundo dizia o
-Alencar, o intimo da casa, o cortes„o de Madame, ´tinham um saborsinho
-d'orgia _distinguÈe_ como os poemas de Byron.ª Eram realmente as
-_soirÈes_ mais alegres de Lisboa: ceiava-se · uma hora com Champagne;
-talhava-se atÈ tarde um _monte_ forte; inventavam-se quadros vivos, em
-que Maria se mostrara soberanamente bella sob as roupagens classicas de
-Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites mais
-intimas, ella costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha
-perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a
-bater · carambola franceza D. Jo„o da Cunha, o grande taco da epoca.
-
-E no meio d'esta festanÁa, atravessada pelo sopro romantico da
-RegeneraÁ„o, l· se via sempre, taciturno e encolhido, o pap· Monforte,
-d'alta gravata branca, com as m„os atraz das costas, rondando pelos
-cantos, refugiado pelos v„os das janellas, mostrando-se sÛ para salvar
-alguma bobËche que Ìa estalar--e n„o desprendendo nunca da filha o olho
-embevecido e senil.
-
-Nunca Maria fÙra t„o formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais
-copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz ·quellas altas salas de
-Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das
-tranÁas, o eburneo e o lacteo do collo nu, e o rumor das grandes sedas.
-Com ras„o, querendo ter, · maneira das damas da RenascenÁa, uma flÙr que
-a symbolisasse, escolhera a tulipa real opulenta e ardente.
-
-Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do valor de
-propriedades!... Podia fazel-o! o marido era rico, e ella sem escrupulo
-arruinal-o-hia, a elle e ao pap· Monforte...
-
-Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar esse
-proclamava-se com alarido seu ´cavalleiro e seu poetaª. Estava sempre em
-Arroios, tinha l· o seu talher: por aquellas salas soltava as suas
-phrases ressoantes, por esses soph·s arrastava as suas _poses_ de
-melancolia. Ia dedicar a Maria (e nada havia mais extraordinario que o
-tom langoroso e plangente, o olho turvo, fatal, com que elle pronunciava
-este nome--Maria!) ia dedicar-lhe o seu poema, t„o annunciado, t„o
-esperado--Flor de Martyrio! E citavam-se as estrophes que lhe fizera ao
-gosto cantante do tempo:
-
-
- Vi-te essa noite no explendor das sallas
- Com as loiras tranÁas volteando louca...
-
-
-A paix„o do Alencar era innocente: mas, dos outros intimos da casa, mais
-d'um de certo balbuciara j· a sua declaraÁ„o no _boudoir_ azul em que
-ella recebia ·s tres horas, entre os seus vasos de tulipas; as suas
-amigas porÈm, mesmo as peiores, affirmavam que os seus favores nunca
-teriam passado de alguma rosa dada n'um v„o de janella, ou de algum
-longo e suave olhar por traz do leque. Pedro todavia comeÁava a ter
-horas sombrias. Sem sentir ciumes, vinha-lhe ·s vezes, de repente, um
-tedio d'aquella existencia de luxo e de festa, um desejo violento de
-sacudir da sala esses homens, os seus intimos, que se atropellavam assim
-t„o ardentemente em volta dos hombros decotados de Maria.
-
-Refugiava-se ent„o n'algum canto, trincando com furor o charuto: e ahi,
-era em toda a sua alma um tropel de cousas dolorosas e sem nome...
-
-Maria sabia perceber bem na face do marido ´estas nuvensª, como ella
-dizia. Corria para elle, tomava-lhe ambas as m„os, com forÁa, com
-dominio:
-
---Que tens tu, amor? Est·s amuado!
-
---N„o, n„o estou amuado...
-
---Olha ent„o para mim!...
-
-Collava o seu bello seio contra o peito d'elle; as suas m„os corriam-lhe
-os braÁos n'uma caricia lenta e quente, dos pulsos aos hombros; depois,
-com um lindo olhar, estendia-lhe os labios. Pedro colhia n'elles um
-longo beijo, e ficava consolado de tudo.
-
-Durante esse tempo Affonso da Maia n„o sahia das sombras de St.^a
-Olavia, t„o esquecido para l· como se estivesse no seu jazigo. J· se n„o
-fallava d'Èlle; em Arroios, _D. Fuas_ estava roendo a teima. SÛ Pedro ·s
-vezes perguntava a VillaÁa ´como ia o pap·.ª E as noticias do
-administrador enfureciam sempre Maria: o pap· estava optimo; tinha agora
-um cosinheiro francez explendido; St.^a Olavia enchera-se de hospedes, o
-Sequeira, AndrÈ da Ega, D. Diogo Coutinho...
-
---O _Barbatanas_ trata-se! ia elle dizer ao pae com rancor.
-
-E o velho negreiro esfregava as m„os, satisfeito de o saber assim feliz
-em St.^a Olavia; porque nunca cessara de tremer · idÈa de ver em
-Arroios, deante de si, aquelle fidalgo t„o severo e de vida t„o pura.
-
-Quando porÈm Maria teve outro filho, um pequeno, o socego que ent„o se
-fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao coraÁ„o de Pedro a
-imagem do pae abandonado n'aquella tristeza do Douro. Fallou a Maria de
-reconciliaÁ„o, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescenÁa. E a sua
-alegria foi grande, quando Maria, depois de ficar um momento pensativa,
-respondeu:
-
---Creio que me havia de fazer feliz tel-o aqui...
-
-Pedro, enthusiasmado com um assentimento t„o inesperado, pensou em
-abalar para St.^a Olavia. Mas ella tinha um plano melhor: Affonso,
-segundo dizia o VillaÁa, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem,
-ella iria l· com o pequeno, toda vestida de preto, e de repente,
-atirando-se-lhe aos pÈs, pedir-lhe-hia a benÁ„o para seu neto! N„o podia
-falhar! N„o podia, realmente; e Pedro viu alli uma alta inspiraÁ„o de
-maternidade...
-
-Para abrandar desde j‡ o pap·, Pedro quiz dar ao pequeno o nome de
-Affonso. Mas n'isso Maria n„o consentiu. Andava lendo uma novella de que
-era heroe o ultimo Stuart, o romanesco principe Carlos Eduardo; e,
-namorada d'elle, das suas aventuras e desgraÁas, queria dar esse nome a
-seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo
-um destino de amores e faÁanhas.
-
-O baptisado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi
-muito benigna porÈm; e d'ahi a duas semanas Pedro podia j· sahir para
-uma caÁada na sua quinta da _Tojeira_, adiante d'Almada. Devia
-demorar-se dois dias. A partida arranjara-se unicamente para obsequiar
-um italiano, chegado por ent„o a Lisboa, distincto rapaz que lhe fÙra
-apresentado pelo secretario da LegaÁ„o Ingleza, e com quem Pedro
-sympathisara vivamente; dizia-se sobrinho dos Principes de Soria; e
-vinha fugido de Napoles, onde conspir·ra contra os Bourbons e fÙra
-condemnado · morte. O Alencar e D. Jo„o Coutinho iam tambem · caÁada--e
-a partida foi de madrugada.
-
-N'essa tarde, Maria jantava sÛ no seu quarto, quando sentiu carruagens
-parando · porta, um grande rumor encher a escada; quasi immediatamente
-Pedro apparecia-lhe tremulo e enfiado:
-
---Uma grande desgraÁa, Maria!
-
---Jesus!
-
---Feri o rapaz, feri o napolitano!...
-
---Como?
-
-Um desastre estupido!... Ao saltar um barranco, a espingarda
-dispara-se-lhe, e a carga, z·s, vae cravar-se no napolitano! N„o era
-possivel fazer curativos na _Tojeira_, e voltaram logo a Lisboa. Elle
-naturalmËnte n„o consentira que o homem que tinha ferido recolhesse ao
-hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verde por cima, mandara
-chamar o medico, duas enfermeiras para o velar, e elle mesmo l· ia
-passar a noite...
-
---E elle?
-
---Um heroe!... Sorri, diz que n„o È nada, mas eu vejo-o pallido como um
-morto. Um rapaz adoravel! Isto sÛ a mim, Senhor! E ent„o o Alencar que
-ia mesmo ao pÈ d'elle... Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz
-intimo, de confianÁa! atÈ a gente se ria. Mas n„o, z·s, logo o outro, o
-de cerimonia...
-
-Uma sege, n'esse instante, entrava o pateo.
-
---… o medico!
-
-E Pedro abalou.
-
-Voltou, d'ahi a pouco mais tranquillo. O Dr. Guedes quasi rira d'aquella
-bagatella, uma chumbada no braÁo, e alguns gr„os perdidos nas costas.
-Promettera-lhe que d'ahi a duas semanas podia caÁar outra vez na
-_Tojeira_; e o principe estava j· fumando o seu charuto. Bello rapaz!
-Parecia sympathisar com o pap· Monforte...
-
-Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitaÁ„o vaga que lhe dava aquella
-idÈa d'um principe enthusiasta, conspirador, condemnado · morte, ferido
-agora por cima do seu quarto.
-
-Logo de manh„ cedo--apenas Pedro sahira a fazer transportar, elle mesmo,
-do hotel, as bagagens do napolitano--Maria mandou a sua criada franceza
-de quarto, uma bella moÁa d'Arles, acima, saber da parte d'ella como S.
-Alteza passara, e ´ver que figura tinhaª. A arlesiana appareceu, com os
-olhos brilhantes, a dizer · senhora, nos seus grandes gestos de
-ProvenÁal, que nunca vira um homem t„o formoso! Era uma pintura de Nosso
-Senhor Jesus Christo! Que pescoÁo, que brancura de marmore! Estava muito
-pallido ainda; agradecia enternecido os cuidados de Madame Maia; e
-ficara a ler o jornal encostado aos travesseiros...
-
-Maria, desde ent„o, n„o pareceu interessar-se mais pelo ferido. Era
-Pedro que vinha, a cada instante, fallar-lhe d'elle, enthusiasmado por
-aquella existencia pathetica de principe conspirador, partilhando j· o
-seu odio aos Bourbons, encantado com a similitude de gostos que
-encontrava n'elle, o mesmo amor da caÁa, dos cavallos, das armas. Agora
-logo de manh„, subia para o quarto do Principe, de _robe-de-chambre_, e
-cachimbo na boca, e passava l· horas n'uma camaradagem, fazendo _grogs_
-quentes--permittidos pelo Dr. Guedes. Levava mesmo para l· os seus
-amigos, o Alencar, o D. Jo„o da Cunha. Maria sentia-lhes por cima as
-risadas. ¡s vezes tocava-se viola. E o velho Monforte, pasmado para o
-heroe, n„o cessava de lhe rondar o leito.
-
-A Arlesiana, essa, tambem a cada momento apparecia l· a levar toalhas de
-rendas, um assucareiro que ninguem reclamara, ou algum vaso com flores
-para alegrar a alcova... Maria, por fim, perguntou a Pedro, muito seria,
-se alÈm de todos os amigos da casa, duas enfermeiras, dois escudeiros, o
-pap· e elle Pedro--era necessaria tambem constantemente a sua propria
-criada no quarto de Sua Alteza!
-
-N„o era. Mas Pedro riu muito · idea de que a Arlesiana se tivesse
-namorado do principe. N'esse caso Venus era-lhe propicia! O napolitano
-tambem a achava picante: _un trËs joli brin de femme_, tinha elle dito.
-
-A bella face de Maria impallideceu de colera. Julgava tudo isso de mau
-gosto, grosseiro, impudente! Pedro fÙra realmente um doido em trazer
-assim para a intimidade de Arroios um estrangeiro, um fugido, um
-aventureiro! Demais, aquella troÁa em cima, entre grogs quentes, com
-guitarra, sem respeito por ella ainda toda nervosa, toda fraca da
-convalescenÁa, indignava-a! Apenas Sua Alteza podesse accommodar-se com
-almofadas n'uma sege, queria-o fÛra, na estalagem...
-
---O que ahi vae! Jesus! o que ahi vae!... disse Pedro.
-
---… assim.
-
-E de certo foi muito severa tambem com a Arlesianna, por que n'essa
-tarde Pedro encontrou a moÁa aos ais no corredor, limpando ao avental os
-olhos affogueados.
-
-D'ahi a dias, porÈm, o napolitano, j· convalescente, quiz recolher ao
-seu hotel. N„o vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade
-mandou-lhe um admiravel ramo, e, com uma galanteria de principe artista
-da RenascenÁa, um soneto em italiano enrolado entre as flores e t„o
-perfumado como ellas: comparava-a a uma nobre dama da Syria dando a gota
-de agua da sua bilha ao cavalleiro arabe, ferido na estrada ardente;
-comparava-a · Beatriz do Dante.
-
-Isto affigurou-se a todos de uma rara distincÁ„o, e, como disse o
-Alencar, um rasgo · Byron.
-
-Depois, na _soirÈe_ do baptisado de Carlos Eduardo, dada d'ahi a uma
-semana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um homem
-esplendido, feito como um Apollo, de uma pallidez de marmore rico: a sua
-barba curta e frisada, os seus longos cabellos castanhos, cabellos de
-mulher, ondeados e com reflexos de ouro, apartados · nazarena--davam-lhe
-realmente, como dizia a Arlesianna, uma physionomia de bello Christo.
-
-DanÁou apenas uma contradanÁa com Maria, e pareceu, na verdade, um pouco
-taciturno e orgulhoso: mas tudo n'elle fascinava, a sua figura, o seu
-mysterio, atÈ o seu nome de Tancredo. Muitos coraÁıes de mulher
-palpitavam quando elle, encostado a uma hombreira, de claque na m„o, uma
-melancolia na face, exhalando o encanto pathetico de um condemnado ·
-morte, derramava lentamente pela sala o langor sombrio do seu olhar de
-velludo. A marqueza d'Alvenga, para o examinar de perto, pediu o braÁo a
-Pedro, e foi applicar-lhe, como a um marmore de museo, a sua luneta de
-ouro.
-
---… de appetite! exclamou ella. … uma imagem!... E s„o amigos, s„o
-amigos, Pedro?
-
---Somos como dois irm„os d'armas, minha senhora.
-
-N'essa mesma soirÈe, o VillaÁa inform·ra Pedro que o pae era esperado no
-dia seguinte em Bemfica. E Pedro, logo que se recolheram, fallou a Maria
-em ´irem fazer a grande scena ao pap·.ª Ella, porÈm, recusou, e com as
-razıes mais imprevistas, as mais sensatas. Tinha cogitado muito!
-Reconhecia agora que um dos motivos d'aquella teima do pap·--ultimamente
-chamava-lhe sempre o pap·--era essa extraordinaria existencia de
-Arroios...
-
---Mas filha, disse Pedro, escuta, nÛs n„o vivemos tambem em plena
-orgia... Alguns amigos que veem.
-
-Pois sim, pois sim... Mas, realmente, estava decidida a ter um interior
-mais calmo e mais domestico. Era mesmo melhor p'ra os bÈbÈs. Pois bem,
-queria que o pap· estivesse convencido d'essa transformaÁ„o, para que as
-pazes fossem mais faceis e eternas.
-
---Deixa passar dois ou tres mezes... Quando elle souber como nÛs vivemos
-quietinhos, eu o trarei, socega... … bom tambem que seja quando meu pae
-partir para as aguas, para os Pyrineos. Que o pobre pap·, coitado, tem
-medo do teu... Filho, n„o achas assim melhor?
-
---…s um anjo, foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas as m„os.
-
-Toda a antiga maneira de Maria pareceu com effeito ir mudando.
-Suspendera as _soirÈes_. ComeÁou a passar as noites muito recolhidas,
-com alguns intimos, no seu _boudoir_ azul. J· n„o fumava; abandonara o
-bilhar; e vestida de preto, com uma flÙr nos cabellos, fazia _crochet_
-ao pÈ do candieiro. Estudava-se musica classica quando vinha o velho
-Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua dama, entrara tambem na
-gravidade, recitava traducÁıes de Klopstock. Fallava-se com sisudez de
-politica; Maria era muito regeneradora.
-
-E todas essas noites, Tancredo l· estava, indolente e bello, desenhando
-alguma flÙr para ella bordar, ou tangendo ‡ guitarra canÁıes populares
-de Napoles. Todos alli o adoravam; mas ninguem mais que o velho
-Monforte, que passava horas, enterrado na sua alta gravata, contemplando
-o Principe com enternecimento. Depois, de repente, erguia-se,
-atravessava a sala, ia-se debruÁar sobre elle, palpal-o, sentil-o,
-respiral-o, murmurando no seu francez de embarcadiÁo:
-
---_«a aller bien... Hein? Beaucoup bien..._ Ora estimo...
-
-E estas correntes bruscas de affecto communicavam-se decerto, porque
-n'esse momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sorrisos para o
-pap· ou vinha beijal-o na testa.
-
-De dia occupava-se de cousas serias. Organisara uma util associaÁ„o de
-caridade, a _Obra pia dos cobertores_, com o fim de fazer no inverno ·s
-familias necessitadas distribuiÁıes de agasalhos; e presidia no sal„o de
-Arroios, com uma campainha, as reuniıes em que se elaboravam os
-estatutos. Visitava os pobres. Ia tambem amiudadas vezes a uma devoÁ„o
-·s Egrejas, toda vestida de preto, a pÈ, com um vÈo muito espesso no
-rosto.
-
-O esplendor da sua belleza apparecia agora velado por uma sombra tocante
-de ternura grave: a Deusa idealisava-se em Madona; e n„o era raro
-ouvil-a de repente suspirar sem raz„o.
-
-Ao mesmo tempo a sua paix„o pela filha crescia. Tinha ent„o dois annos e
-estava realmente adoravel; vinha todas as noites um momento · sala,
-vestida com um luxo de princeza; e as exclamaÁıes, os extasis de
-Tancredo n„o findavam! Fizera-lhe o retrato a carv„o, a esfuminho, a
-aguarella; ajoelhava-se para lhe beijar a m„osinha cÙr de rosa, como ao
-_bambino_ sagrado. E Maria, agora, apesar dos protestos de Pedro, dormia
-sempre com ella entre os braÁos.
-
-Ao comeÁo d'esse setembro o velho Monforte partiu para os Pyrineos.
-Maria chorou, dependurada do pescoÁo do velho, como se elle largasse de
-novo para as travessias de Africa.
-
-Ao jantar, porÈm, chegou j· consolada e radiante; e Pedro voltou a
-fallar da reconciliaÁ„o, parecendo-lhe bom o momento de ir a Bemfica
-recuperar para sempre aquelle pap· t„o teimoso...
-
---Ainda n„o, disse ella reflectindo, olhando o seu calice de Bordeus.
-Teu pae È uma especie de santo, ainda o n„o merecemos... Mais para o
-inverno.
-
-
-Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Affonso da Maia estava
-no seu escriptorio lendo, quando a porta se abriu violentamente, e,
-alÁando os olhos do livro, viu Pedro deante de si. Vinha todo enlameado,
-desalinhado, e na sua face livida, sob os cabellos revoltos, luzia um
-olhar de loucura. O velho ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra
-atirou-se aos braÁos do pae, rompeu a chorar perdidamente.
-
---Pedro! que succedeu, filho?
-
-Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, · idÈa do filho
-livre para sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo · sua solid„o os
-dois netos, toda uma descendencia para amar! E repetia, tremulo tambem,
-desprendendo-o de si com grande amor:
-
---Socega, filho, que foi?
-
-Pedro ent„o cahiu para o canapÈ, como cae um corpo morto; e levantando
-para o pae um rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra,
-n'uma voz surda:
-
---Estive fÛra de Lisboa dois dias... Voltei esta manh„... A Maria tinha
-fugido de casa com a pequena... Partiu com um homem, um italiano... E
-aqui estou!
-
-Affonso da Maia ficou deante do filho, quedo, mudo, como uma figura de
-pedra; e a sua bella face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a
-pouco, de uma grande colera. Viu, n'um relance, o escandalo, a cidade
-galhofando, as compaixıes, o seu nome pela lama. E era aquelle filho
-que, despresando a sua auctoridade, ligando-se a essa creatura,
-estragara o sangue da raÁa, cobria agora a sua casa de vexame. E alli
-estava! alli jazia sem um grito, sem um furor, um arranque brutal de
-homem trahido! Vinha atirar-se para um soph·, chorando miseravelmente!
-Isto indignou-o, e rompeu a passeiar pela sala, rigido e aspero,
-cerrando os labios para que n„o lhe escapassem as palavras de ira e de
-injuria que lhe enchiam o peito em tumulto...--Mas era pae: ouvia, alli
-ao seu lado, aquelle soluÁar de funda dÙr; via tremer aquelle pobre
-corpo desgraÁado que elle outr'ora emballara nos braÁos;--parou junto de
-Pedro, tomou-lhe gravemente a cabeÁa entre as m„os, e beijou-o na testa,
-uma vez, outra vez, como se elle fosse ainda creanÁa, restituindo-lhe
-alli e para sempre a sua ternura inteira.
-
---Tinha raz„o, meu pae, tinha raz„o, murmurava Pedro entre lagrimas.
-
-Depois ficaram callados. FÛra, as pancadas successivas da chuva batiam a
-casa, a quinta, n'um clamor prolongado; e as arvores, sob as janellas,
-ramalhavam n'um vasto vento de inverno.
-
-Foi Affonso que quebrou o silencio:
-
---Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? N„o È sÛ chorar...
-
---N„o sei nada, respondeu Pedro n'um longo esforÁo. Sei que fugiu. Eu
-sahi de Lisboa na segunda feira. N'essa mesma noite, ella partiu de casa
-n'uma carruagem, com uma maleta, o cofre de joias, uma creada italiana
-que tinha agora, e a pequena. Disse · governante e · ama do pequeno que
-ia ter comigo. Ellas estranharam, mas que haviam de dizer?... Quando
-voltei, achei esta carta.
-
-Era um papel j· sujo, e desde essa manh„ de certo muitas vezes relido,
-amarrotado com furia. Continha estas palavras:
-
-´… uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que n„o
-sou digna de ti, e levo a Maria que me n„o posso separar d'ella.ª
-
---E o pequeno, onde est· o pequeno? exclamou Affonso.
-
-Pedro pareceu recordar-se:
-
---Est· l· dentro com a ama, trouxe-o na sege.
-
-O velho correu, logo; e d'ahi a pouco apparecia, erguendo nos braÁos o
-pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas.
-Era gordo, de olhos muito negros, com uma adoravel bochecha fresca e cÙr
-de rosa. Todo elle ria, grulhando, agitando o seu guiso de prata. A ama
-n„o passou da porta, tristonha, com os olhos no tapete e uma trouxasinha
-na m„o.
-
-Affonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e accommodou o neto no
-collo. Os olhos enchiam-se-lhe de uma bella luz de ternura; parecia
-esquecer a agonia do filho, a vergonha domestica; agora sÛ havia ali
-aquella facesinha tenra, que se lhe babava nos braÁos...
-
---Como se chama elle?
-
---Carlos Eduardo, murmurou a ama.
-
---Carlos Eduardo, hein?
-
-Ficou a olhal-o muito tempo, como procurando n'elle os signaes da sua
-raÁa: depois tomou-lhe na sua as duas m„osinhas vermelhas que n„o
-largavam o guiso, e muito grave, como se a creanÁa o percebesse,
-disse-lhe:
-
---Olha bem para mim. Eu sou o avÙ. … necessario amar o avÙ!
-
-E ·quella forte voz, o pequeno, com effeito, abriu os seus lindos olhos
-para elle, serios de repente, muito fixos, sem medo das barbas
-grisalhas: depois rompeu a pular-lhe nos braÁos, desprendeu a m„osinha,
-e martellou-lhe furiosamente a cabeÁa com o guiso.
-
-Toda a face do velho sorria ·quella viÁosa alegria; apertou-o ao seu
-largo peito muito tempo, poz-lhe na face um beijo longo, consolado,
-enternecido, o seu primeiro beijo d'avÙ; depois, com todo o cuidado, foi
-collocal-o nos braÁos da ama.
-
---V·, ama, v·... A Gertrudes j· l· anda a arranjar-lhe o quarto, v· vÍr
-o que È necessario.
-
-Fechou a porta, e veiu sentar-se junto do filho que se n„o movera do
-canto do soph·, nem despreg·ra os olhos do ch„o.
-
---Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos n„o vemos ha tres
-annos, filho...
-
---Ha mais de tres annos, murmurou Pedro.
-
-Ergueu-se, allongou a vista · quinta, t„o triste sob a chuva; depois,
-derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu
-proprio retrato, feito em Roma aos doze annos, todo de velludo azul, com
-uma rosa na m„o. E repetia ainda amargamente:
-
---Tinha raz„o, meu pae, tinha raz„o...
-
-E pouco a pouco, passeiando e suspirando, comeÁou a fallar d'aquelles
-ultimos annos, o inverno passado em Paris, a vida em Arroios, a
-intimidade do italiano na casa, os planos de reconciliaÁ„o, por fim
-aquella carta infame, sem pudor, invocando a fatalidade,
-arremessando-lhe o nome do outro!... No primeiro momento tivera sÛ idÈas
-de sangue e quizera perseguil-os. Mas conservava um clar„o de raz„o.
-Seria ridiculo, n„o È verdade? De certo a fuga fora d'antem„o preparada,
-e n„o havia de ir correndo as estalagens da Europa · busca de sua
-mulher... Ir lamentar-se · policia, fazel-os prender? Uma imbecillidade;
-nem impedia que ella fosse j· por esses caminhos fÛra dormindo com
-outro... Restava-lhe sÛmente o desprezo. Era uma bonita amante que
-tivera alguns annos, e fugira com um homem. Adeus! Ficava-lhe um filho,
-sem m„e, com um mau nome. Paciencia! Necessitava esquecer, partir para
-uma longa viagem, para a America talvez; e o pae veria, havia de voltar
-consolado e forte.
-
-Dizia estas cousas sensatas, passeiando devagar, com o charuto apagado
-nos dedos, n'uma voz que se calmava. Mas de repente parou deante do pae,
-com um riso secco, um brilho-feroz nos olhos.
-
---Sempre desejei ver a America, e È boa occasi„o agora... … uma occasi„o
-famosa, hein? Posso atÈ naturalisar-me, chegar a presidente, ou
-rebentar... Ah! Ah!
-
---Sim, mais tarde, depois pensar·s n'isso, filho, accudiu o velho
-assustado.
-
-N'esse momento a sineta do jantar comeÁou a tocar lentamente, ao fundo
-do corredor.
-
---Ainda janta cedo, hein? disse Pedro.
-
-Teve um suspiro canÁado e lento, murmurou:
-
---NÛs jantavamos ·s sete...
-
-Quiz ent„o que o pae fosse para a mesa. N„o havia motivo para que se n„o
-jantasse. Elle ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro...
-Ainda l· tinha a cama, n„o È verdade? N„o, n„o queria tomar nada...
-
---O Teixeira que me leve um calice de genebra... Ainda c· est· o
-Teixeira, coitado!
-
-E vendo Affonso sentado, repetiu, j· impaciente:
-
---V· jantar meu pae, v· jantar, pelo amor de Deus...
-
-Saiu. O pae ouviu-lhe os passos por cima, e o ruido de janellas
-desabridamente abertas. Foi ent„o andando para a sala de jantar, onde os
-criados que pela ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de
-pÈs, com a lentid„o contristada d'uma casa onde ha morte. Affonso
-sentou-se · mesa sÛ; mas j· l· estava outra vez o talher de Pedro; rosas
-de inverno esfolhavam-se n'um vaso do Jap„o; e o velho papagaio agitado
-com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro. '
-
-Affonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto
-do fog„o; e ali ficou envolvido pouco a pouco n'aquelle melancolico
-crepusculo de dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste
-contra as vidraÁas, pensando em todas as cousas terriveis que assim
-invadiam n'um tropel pathetico · sua paz de velho. Mas no meio da sua
-dÙr, funda como era, elle percebia um ponto, um recanto do seu coraÁ„o
-onde alguma cousa de muito doce, de muito novo, palpitava com uma
-frescura de renascimento, como se algures, no seu ser, estivesse
-rompendo, burbulhando uma nascente rica de alegrias futuras; e toda a
-sua face sorria · chama alegre, revendo a bochechinha rosada, sob as
-rendas brancas da touca...
-
-Pela casa no entanto tinham-se accendido as luzes. J· inquieto subiu ao
-quarto do filho; estava tudo escuro, t„o humido e frio, como se a chuva
-caisse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de
-Pedro veiu do negro da janella; estava l·, com a vidraÁa aberta, sentado
-fÛra na varanda, voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das
-ramagens, recebendo na face o vento, a agua, toda a invernia agreste.
-
---Pois est·s aqui filho! exclamou Affonso. Os criados h„o de querer
-arranjar o quarto, desce um momento... Est·s todo molhado, Pedro!
-
-Apalpava-lhe os joelhos, as m„os regeladas. Pedro ergueu-se com um
-estremeÁ„o, desprendeu-se, impaciente d'aquella ternura do velho.
-
---Querem arranjar o quarto, hein? Faz-me bem o ar, faz-me t„o bem!
-
-O Teixeira trouxe luzes, e atraz d'elle appareceu o criado de Pedro, que
-cheg·ra n'esse momento de Arroios, com um largo estojo de viagem
-recoberto de oleado. As malas tinha-as deixado em baixo; e o cocheiro
-viera tambem, como nenhum dos senhores estava em casa...
-
---Bem, bem, interrompeu Affonso. O sr. VillaÁa l· ir· amanh„, e elle
-dar· as ordens.
-
-O criado ent„o, em bicos de pÈs, foi depÙr o estojo sobre o marmore da
-commoda: ainda l· restavam antigos frascos de toilette de Pedro: e os
-castiÁaes sobre a meza allumiavam o grande leito triste de solteiro com
-os colxıes dobrados ao meio.
-
-A Gertrudes toda atarefada entrara com os braÁos carregados de roupa de
-cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; o criado d'Arroios
-pousando o chapÈo a um canto, e sempre em ponta de pÈs, veiu ajudal-os
-tambem. Pedro no entanto, como somnambulo, voltara para a varanda, com a
-cabeÁa · chuva, attraido por aquella treva da quinta que se cavava em
-baixo com um rumor de mar bravo.
-
-Affonso, ent„o, puxou-lhe o braÁo quasi com aspereza.
-
---Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento.
-
-Elle seguiu maquinalmente o pae · livraria, mordendo o charuto apagado
-que desde tarde conservava na m„o. Sentou-se longe da luz, ao canto do
-soph·, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo sÛ os passos lentos do
-velho, ao comprido das altas estantes, quebraram o silencio em que toda
-a sala ia adormecendo. Uma braza morria no fog„o. A noite parecia mais
-aspera. Eram de repente vergastadas d'agua contra as vidraÁas, trazidas
-n'uma rajada, que longamente, n'um clamor teimoso, faziam escoar um
-diluvio dos telhados; depois havia uma calma tenebroza, com uma
-susurraÁ„o distante de vento fugindo entre ramagens: n'esse silencio as
-goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria
-mais furioso, envolvia a casa n'um bater de janellas, redomoinhava,
-partia com silvos desolados.
-
---Est· uma noite de Inglaterra, disse Affonso, debruÁando-se a espertar
-o lume.
-
-Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. De certo o ferira a
-idÈa de Maria, longe, n'um quarto alheio, agazalhando-se-lhe no leito do
-adulterio entre os braÁos do outro. Apertou um instante a cabeÁa nas
-m„os, depois veiu junto do pae, com o passo mal firme, mas a voz muito
-calma.
-
---Estou realmente canÁado, meu pae, vou-me deitar. Boa noite... Amanh„
-conversaremos mais.
-
-Beijou-lhe a m„o e saiu de vagar.
-
-Affonso demorou-se ainda ali, com um livro na m„o, sem ler, attento sÛ a
-algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silencio.
-
-Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizera a
-cama da ama. A Gertrudes o criado de Arroios, o Teixeira, estavam l·
-cochichando ao pÈ da commoda, na penumbra que dava um folio posto deante
-do candieiro; todos se esquivaram em pontas de pÈs quando lhe sentiram
-os passos, e a ama continuou a arrumar em silencio os gavetıes. No vasto
-leito, o pequeno dormia como um Menino Jesus canÁado, com o seu guiso
-apertado na m„o. Affonso n„o ousou beijal-o, para o n„o acordar com as
-barbas asperas; mas tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa
-contra a parede, deu um geito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a
-sua dÙr calmar-se n'aquella sombra de alcova onde o seu neto dormia.
-
---… necessario alguma cousa, ama? perguntou, abafando a voz.
-
---N„o, meu senhor...
-
-Ent„o, sem ruido, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara,
-entreabriu a porta. O filho escrevia, · luz de duas vellas, com o estojo
-aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pae: e na face que ergueu,
-envelhecida e livida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais
-refulgentes e duros.
-
---Estou a escrever, disse elle.
-
-Esfregou as m„os, como arripiado da friagem do quarto, e accrescentou:
-
---Amanh„ cedo È necessario que o VillaÁa v· a Arroios... Est„o l· os
-criados, tenho l· dois cavalos meus, emfim uma porÁ„o de arranjos. Eu
-estou-lhe a escrever. … numero 32 a casa d'elle, n„o È? O Teixeira ha de
-saber... Boas noites, pap·, boas noites.
-
-No seu quarto, ao lado da livraria, Affonso n„o poude socegar, n'uma
-oppress„o, uma inquietaÁ„o que a cada momento o faziam erguer sobre o
-travesseiro escutar: agora, no silencio da casa e do vento que calmara,
-ressoavam por cima lentos e continuos os passos de Pedro.
-
-A madrugada clareava, Affonso ia adormecendo--quando de repente um tiro
-atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um creado
-acudia tambem com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto
-vinha um cheiro de polvora; e aos pÈs da cama, caido de bruÁos, n'uma
-poÁa de sangue que se ensopava no tapete, Affonso encontrou seu filho
-morto, apertando uma pistola na m„o.
-
-Entre as duas vÈlas que se extinguiam, com fogachos lividos, deix·ra-lhe
-uma carta lacrada com estas palavras sobre o enveloppe, n'uma letra
-firme: _Para o pap·_.
-
-D'ahi a dias fechou-se a casa de Bemfica. Affonso da Maia partia com o
-neto e com todos os criados para a quinta de S.^{ta} Olavia.
-
-
-Quando VillaÁa, em fevereiro, foi l· acompanhar o corpo de Pedro, que ia
-ser depositado no jazigo de familia, n„o pÙde conter as lagrimas ao
-avistar aquella vivenda onde pass·ra t„o alegres nataes. Um baet„o preto
-recobria o braz„o d'armas, e esse panno de esquife parecia ter
-distingido todo o seu negrume sobre a fachada muda, sobre os
-castanheiros que ornavam o pateo; dentro os criados abafavam a voz,
-carregados de luto; n„o havia uma flor nas jarras; o proprio encanto de
-S.^{ta} Olavia, o fresco cantar das aguas vivas por tanques e repuchos,
-vinha agora com a cadencia saudosa de um choro. E VillaÁa foi encontrar
-Affonso na livraria, com as janellas cerradas ao lindo sol de inverno,
-caido para uma poltrona, a face cavada sob os cabellos crescidos e
-brancos, as m„os magras e ociosas sobre os joelhos.
-
-O procurador veiu dizer para Lisboa que o velho n„o durava um anno.
-
-
-
-
-III
-
-
-Mas esse anno passou, outros annos passaram.
-
-Por uma manh„ de abril, nas vesperas de Paschoa, VillaÁa chegava de novo
-a S.^{ta} Olavia.
-
-N„o o esperavam t„o cedo; e como era o primeiro dia bonito d'essa
-primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o
-Teixeira, que ia j· embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o
-sr. administrador com quem ·s vezes se correspondia, e conduziu-o · sala
-de jantar onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza,
-deixou cair uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pescoÁo.
-
-As tres portas envidraÁadas estavam abertas para o terraÁo, que se
-estendia ao sol, com a sua balustrada de marmore coberta de trepadeiras:
-e VillaÁa, adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal
-poude reconhecer Affonso da Maia n'aquelle velho de barba de neve, mas
-t„o robusto e corado, que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu
-neto pela m„o.
-
-Carlos, ao avistar no terraÁo um desconhecido, de chapÈo alto, abafado
-n'um cache-nez de pelucia, correu a miral-o, curioso--e achou-se
-arrebatado nos braÁos do bom VillaÁa, que largara o guarda sol, o
-beijava pelo cabello, pela face, balbuciando:
-
---Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que est·! que crescido
-que est·...
-
---Ent„o, sem avisar, VillaÁa? exclamava Affonso da Maia, chegando de
-braÁos abertos. NÛs sÛ o esperavamos para a semana, creatura!
-
-Os dois velhos abraÁaram-se; depois um momento os seus olhos
-encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram a apertar-se commovidos.
-
-Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as m„os enterradas nos
-bolsos das suas largas bragas de flanella branca, o casquete da mesma
-flanella posta de lado sobre os bellos anneis do cabello
-negro--continuava a mirar o VillaÁa, que com o beiÁo tremulo, tendo
-tirado a luva, limpava os olhos por baixo dos oculos.
-
---E ninguem a esperal-o, nem um criado l· em baixo no rio! dizia
-Affonso. Emfim, c· o temos, È o essencial... E como vocÍ est· rijo,
-VillaÁa!
-
---E v. ex.^a meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um soluÁo.
-Nem uma ruga! Branco sim, mas uma cara de moÁo... Eu nem o conhecia!...
-Quando me lembro, a ultima vez que o vi... E c· isto! c· esta linda
-flor!...
-
-Ia abraÁar Carlos outra vez enthusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com uma
-bella risada, saltou do terraÁo, foi pendurar-se d'um trapesio armado
-entre as arvores, e ficou l·, balanÁando-se em cadencia, forte e airoso,
-gritando: ´tu Ès o VillaÁa!ª
-
-O VillaÁa, de guarda sol debaixo do braÁo, contemplava-o embevecido.
-
---Est· uma linda creanÁa! Faz gosto! E parece-se com o pae. Os mesmos
-olhos, olhos dos Maias, o cabello encaracolado... Mas ha de ser muito
-mais homem!
-
---… s„o, È rijo, dizia o velho risonho, anediando as barbas. E como
-ficou o seu rapaz, o Manuel? Quando È esse casamento? Venha vocÍ c· para
-dentro, VillaÁa, que ha muito que conversar...
-
-Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chaminÈ de
-azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas
-resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canarios pareciam doudos
-de alegria.
-
-A Gertrudes, que fic·ra a observar, acercou-se, com as m„os cruzadas sob
-o avental branco, familiar, terna.
-
---Ent„o, meu senhor, aqui est· um regalo, vÍr outra vez este ingrato em
-S.^{ta} Olavia!
-
-E, com um clar„o de sympathia na face, alva e redonda como uma velha
-lua, ornada j· de um buÁo branco:
-
---Ah! sr. VillaÁa, isto agora È outra cousa! AtÈ os canarios cantam! E
-tambem eu cantava, se ainda podesse...
-
-E foi saindo, subitamente commovida, j· com vontade de chorar.
-
-O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia d'uma ·
-outra ponta dos seus altos collarinhos de mordomo.
-
---Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. VillaÁa, hein? disse
-Affonso. No quarto em que vocÍ costumava ficar dorme agora a
-viscondessa...
-
-Ent„o o VillaÁa apressou-se a perguntar pela sr.^a viscondessa. Era uma
-Runa, uma prima da mulher de Affonso, que, no tempo em que os poetas de
-Caminha a cantavam, cas·ra com um fidalgote gallego, o sr. visconde de
-Urigo-de-la-Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viuva
-e pobre, Affonso recolhera-a por dever de parentella, e para haver uma
-senhora em S.^{ta} Olavia.
-
-Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relogio, Affonso interrompeu a
-relaÁ„o d'esses achaques.
-
---VillaÁa, v·-se arranjar, depressa, que d'aqui a pouco È o jantar.
-
-O administrador surprehendido olhou tambem o relogio, depois a mesa j·
-posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto.
-
---Ent„o v. ex.^a agora janta de manh„? Eu pensei que era o almoÁo...
-
---Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen. De madrugada est· j·
-na quinta; almoÁa ·s sete; e janta · uma hora. E eu, emfim, para vigiar
-as maneiras do rapaz...
-
---E o sr. Affonso da Maia, exclamou VillaÁa, a mudar de habitos, n'essa
-edade! O que È ser avÙ, meu senhor!
-
---Tolice! n„o È isso... … que me faz bem. Olhe que me faz bem!... Mas
-avie-se VillaÁa, avie-se que Carlos n„o gosta de esperar... Talvez
-tenhamos o abbade.
-
---O Custodio? Rica cousa! Ent„o, se v. ex.^a me d· licenÁa...
-
-Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar com o sr.
-administrador, perguntou-lhe, desembaraÁando-o do guarda sol e do
-chale-manta:
-
---Com franqueza, como nos acha por c·, pela quinta sr. VillaÁa?
-
---Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a
-S.^{ta} Olavia.
-
-E, pousando familiarmente a m„o no hombro do escudeiro, piscando o olho
-ainda humido:
-
---Tudo isto È o menino. Fez reviver o patr„o!
-
-O Teixeira riu respeitosamente. O menino realmente era a alegria da
-casa...
-
---Ol·! Quem toca por c·? exclamou VillaÁa, parando nos degraus da
-escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rebeca.
-
---… o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino... Muito habilidoso, È
-um regalo ouvil-o; toca ·s vezes · noite na sala, o sr. juiz de direito
-acompanha-o na concertina... Aqui, sr. VillaÁa, o quarto de v. s.^a...
-
---Muito bonito, sim senhor!
-
-O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janellas, sobre o
-tapete alvadio semeado de florsinhas azues: e as bambinellas, os
-reposteiros de cretÛne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre
-fundo claro. Este conforto fresco e campestre deleitou o bom VillaÁa.
-
-Foi logo apalpar os cretÛnes, esfregou o marmore da commoda, provou a
-solidez das cadeiras. Eram as mobilias compradas no Porto, hein? Pois,
-elegantes. E, realmente, n„o tinham sido caras. Nem elle fazia idÈa!
-Ficou ainda em bicos de pÈs a examinar duas aguarellas inglezas
-representando vaccas de luxo, deitadas na relva, · sombra de ruinas
-romanticas. O Teixeira, observou-lhe, com o relogio na m„o:
-
---Olhe que v. s.^a tem sÛ dez minutos... O menino n„o gosta de esperar.
-
-Ent„o o VillaÁa decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou o seu
-pesado collete de malha de l„; e pela camisa entreaberta via-se ainda
-uma flanella escarlate por causa dos rheumatismos, e os bentinhos de
-seda bordada. O Teixeira desapertava as correias da maleta; ao fundo do
-corredor, a rebeca atacara o _Carnaval de Veneza_; e atravez das
-janellas fechadas sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos campos,
-todo o verde d'abril.
-
-VillaÁa, sem oculos, um pouco arripiado, passava a ponta da toalha
-molhada pelo pescoÁo, por traz da orelha, e ia dizendo:
-
---Ent„o, o nosso Carlinhos n„o gosta de esperar, hein? J· se sabe, È
-elle quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente...
-
-Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desilludiu o sr. administrador.
-Mimos e mais mimos, dizia s. s.^a? Coitadinho d'elle, que tinha sido
-educado com uma vara de ferro! Se elle fosse a contar ao sr. VillaÁa!
-N„o tinha a creanÁa cinco annos j· dormia n'um quarto sÛ, sem lamparina;
-e todas as manh„s, z·s, para dentro d'uma tina d'agua fria, ·s vezes a
-gear l· fÛra... E outras barbaridades. Se n„o se soubesse a grande
-paix„o do avÙ pela creanÁa, havia de se dizer que a queria morta. Deus
-lhe perdoe, elle, Teixeira, chegara a pensal-o... Mas n„o, parece que
-era systema inglez! Deixava-o correr, cair, trepar ·s arvores,
-molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o
-rigor com as comidas! SÛ a certas horas e de certas cousas... E ·s vezes
-a creancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.
-
-E o Teixeira accrescentou:
-
---Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que nÛs approvassemos a
-educaÁ„o que tem levado, isso nunca approv·mos, nem eu, nem a Gertrudes.
-
-Olhou outra vez o relogio, preso por uma fita negra sobre o collete
-branco, deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a
-cama a sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola,
-de leve e por amabilidade, em quanto dizia, junto ao toucador onde o
-VillaÁa acamava as duas longas repas sobre a calva:
-
---Sabe v. s.^a, apenas veiu o mestre inglez, o que lhe ensinou? A remar!
-A remar, sr. VillaÁa, como um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as
-habilidades de palhaÁo; eu n'isso nem gosto de fallar... Que eu sou o
-primeiro a dizel-o: o Brown È boa pessoa, calado, asseado, excellente
-musico. Mas È o que eu tenho repetido · Gertrudes: pÛde ser muito bom
-para inglez, n„o È para ensinar um fidalgo portuguez... N„o È. V· v.
-s.^a fallar a esse respeito com a sr.^a D. Anna Silveira...
-
-Bateram de manso · porta, o Teixeira emmudeceu. Um escudeiro entrou, fez
-um signal ao mordomo, tirou-lhe do braÁo respeitosamente a sobrecasaca,
-e ficou com ella junto do toucador, onde o VillaÁa, vermelho e
-apressado, luctava ainda com as repas rebeldes.
-
-O Teixeira, da porta, disse com o relogio na m„o:
-
---… o jantar. Tem v. s.^a dois minutos, sr. VillaÁa.
-
-E o administrador d'ahi a um momento abalava tambem, abotoando ainda o
-casaco pelas escadas.
-
-Os senhores j· estavam todos na sala. Junto do fog„o, onde as achas
-consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o _Times_. Carlos,
-a cavallo nos joelhos do avÙ, contava-lhe uma grande historia de rapazes
-e de bulhas; e ao pÈ o bom abbade Custodio, com o lenÁo de rapÈ
-esquecido nas m„os, escutava, de bocca aberta, n'um riso paternal e
-terno.
-
---Olhe quem alli vem, abbade, disse-lhe Affonso.
-
-O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada na cÙxa:
-
---Esta È nova! Ent„o È o nosso VillaÁa? E n„o me tinham dito nada!
-Venham de l· esses ossos, homem!...
-
-Carlos pulava nos joelhos do avÙ, muito divertido com aquelles longos
-abraÁos que juntavam as duas cabeÁas dos velhos--uma com as repas
-achatadas sobre a calva, outra com uma grande corÙa aberta n'uma matta
-de cabello branco. E como elles, de m„os dadas, continuavam a
-admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dos annos, Affonso disse:
-
---VillaÁa! a sr.^a viscondessa...
-
-O administrador porÈm procurou-a debalde, com os olhos abertos pela
-sala. Carlos ria, batendo as m„os:--e VillaÁa descobriu-a emfim a um
-canto, entre o aparador e a janella, sentada n'uma cadeirinha baixa,
-vestida de preto, timida e queda, com os braÁos rechonchudos pousados
-sobre a obesidade da cinta. O rosto anafado e molle, branco como papel,
-as roscas do pescoÁo, cobriram-se-lhe subitamente de rubor; n„o achou
-uma palavra para dizer ao VillaÁa, e estendeu-lhe a m„o papuda e
-pallida, com um dedo embrulhado n'um pedaÁo de seda negra. Depois ficou
-a abanar-se com um grande leque de lentejoulas, o seio a arfar, os olhos
-no regaÁo, como exhausta d'aquelle esforÁo.
-
-Dois escudeiros tinham comeÁado a servir a sopa, o Teixeira esperava,
-perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Affonso.
-
-Mas Carlos cavalgava ainda o avÙ, querendo acabar outra historia. Era o
-Manuel, trazia uma pedra na m„o... Elle primeiro pens·ra ir ·s boas; mas
-os dois rapazes comeÁaram a rir... De maneira que os correu a todos...
-
---E maiores que tu?
-
---Tres rapagıes, vÙvÙ, pÛde perguntar · tia Pedra... Ella viu, que
-estava na eira. Um d'elles trazia uma foice...
-
---Est· bom, senhor, est· bom, ficamos inteirados... V·, desmonte, que
-est· a sopa a esfriar. Upa! upa!
-
-E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarcha feliz, veiu
-sentar-se ao alto da meza, sorrindo e dizendo:
-
---J· se vae fazendo pesado, j· n„o est· para collo...
-
-Mas reparou ent„o no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresentaÁ„o do
-procurador.
-
---O sr. Brown, o amigo VillaÁa... PeÁo perd„o, descuidei-me, foi culpa
-d'aquelle cavalheiro l· ao fundo da meza, o sr. D. Carlos de mata-sete!
-
-O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu
-toda a volta · meza, rigido e teso, para vir sacudir o VillaÁa n'um
-tremendo _shake-hands_; depois, sem uma palavra, reoccupou o seu logar,
-desdobrou o guardanapo, cofiou os formidaveis bigodes, e foi ent„o que
-disse ao VillaÁa, com o seu forte accento inglez:
-
---_Muito bello dia... glorioso!_
-
---Tempo de rosas, respondeu o VillaÁa, comprimentando, intimidado diante
-d'aquelle athleta.
-
-Naturalmente, n'esse dia, fallou-se da jornada de Lisboa, do bom serviÁo
-da malla-posta, do caminho de ferro que se ia abrir... O VillaÁa j·
-viera no comboyo atÈ ao Carregado.
-
---De causar horror, hein? perguntou o abbade, suspendendo a colher que
-ia levar · bocca.
-
-O excellente homem nunca saira de Resende; e todo o largo mundo, que
-ficava para alÈm da penumbra da sua sachristia e das arvores do seu
-passal, lhe dava o terror d'uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro,
-de que tanto se fallava...
-
---Faz arripiar um bocado, affirmou com experiencia VillaÁa. Digam o que
-disserem, faz arripiar!
-
-Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgraÁas
-d'essas machinas!
-
-O VillaÁa ent„o lembrou os desastres da mala-posta. No de AlcobaÁa,
-quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irm„s de caridade! Emfim de
-todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no
-quarto...
-
-O abbade gostava do progresso... Achava atÈ necessario o progresso. Mas
-parecia-lhe que se queria fazer tudo · lufa-lufa... O paiz n„o estava
-para essas invenÁıes; o que precisava eram boas estradinhas...
-
---E economia! disse o VillaÁa, puxando para si os pimentıes.
-
---Bucellas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro.
-
-O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe · luz a cÙr
-rica, provou-o com a ponta do labio, e piscando o olho para Affonso:
-
---… do nosso!
-
---Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom
-nectar?
-
---_Magnificente!_ exclamou o perceptor com uma energia fogosa.
-
-Ent„o Carlos, estendendo o braÁo por cima da meza, reclamou tambem
-Bucellas. E a sua raz„o era haver festa por ter chegado o VillaÁa. O avÙ
-n„o consentiu; o menino teria o seu calice de Collares, como de costume,
-e um sÛ. Carlos crusou os braÁos sobre o guardanapo que lhe pendia do
-pescoÁo, espantado de tanta injustiÁa! Ent„o nem para festejar o VillaÁa
-poderia apanhar uma gotinha de Bucellas? Ahi estava uma linda maneira de
-receber os hospedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera
-o sr. administrador, havia de pÙr · noite para o ch· o fato novo de
-velludo. Agora observavam-lhe que n„o era festa, nem caso para
-Bucellas... Ent„o n„o entendia.
-
-O avÙ, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um car„o
-severo.
-
---Parece-me que o senhor est· palrando de mais. As pessoas grandes È que
-palram ‡ meza.
-
-Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente:
-
---Est· bom, vovÙ, n„o te zangues. Esperarei para quando for grande...
-
-Houve um sorriso em volta da meza. A propria viscondessa, deleitada,
-agitou preguiÁosamente o leque: o abbade, com a sua boa face banhada em
-extasi para o menino, apertava as m„os cabelludas contra o peito, tanto
-aquillo lhe parecia engraÁado: e Affonso tossia por traz do guardanapo,
-como limpando as barbas--a esconder o riso, a admiraÁ„o que lhe brilhava
-nos olhos.
-
-Tanta vivacidade surprehendeu tambem VillaÁa. Quiz ouvir mais o menino,
-e pousando o seu talher:
-
---E diga-me, Carlinhos, j· vae adiantado nos seus estudos?
-
-O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as m„os pelo cÛs das
-flanellas, e respondeu com um tom superior:
-
---J· faÁo ladear a _Brigida_.
-
-Ent„o o avÙ, sem se conter, largou a rir, cahido para o espaldar da
-cadeira:
-
---Essa È boa! Eh! Eh! J· faz ladear a _Brigida_! E È verdade, VillaÁa,
-j· a faz ladear... Pergunte ao Brown; n„o È verdade, Brown? E a eguasita
-È uma piorrita, mas fina...
-
---Oh vovÙ, gritou Carlos j· excitado, dize ao VillaÁa, anda. N„o È
-verdade que eu era capaz de governar o _dog-cart_?
-
-Affonso reassumio um ar severo.
-
---N„o o nego... Talvez o governasse, se lh'o consentissem. Mas faÁa-me
-favor de se n„o gabar das suas faÁanhas, porque um bom cavalleiro deve
-ser modesto... E sobre tudo n„o enterrar assim as m„os pela barriga
-abaixo...
-
-O bom VillaÁa, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma
-observaÁ„o. N„o se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavallo
-com as regras... Mas elle queria dizer se o Carlinhos j· entrava com o
-seu Phedro, o seu Tito Liviosinho...
-
---VillaÁa, VillaÁa, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de
-santa malicia, n„o se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo...
-N„o admitte, acha que È antigo... Elle, antigo È...
-
---Ora sirva-se d'esse fricassÈ, ande abbade, disse Affonso, que eu sei
-que È o seu fraco, e deixe l· o latim...
-
-O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons
-pedaÁos de ave, ia murmurando:
-
---Deve-se comeÁar pelo latimsinho, deve-se comeÁar por l·... … a base; È
-a basesinha!
-
---N„o! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante.
-Prrimeiro forrÁa! ForrÁa! Musculo...
-
-E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos:
-
---Prrimeiro musculo, musculo!...
-
-Affonso appoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era
-um luxo d'erudito... Nada mais absurdo que comeÁar a ensinar a uma
-creanÁa n'uma lingua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos
-Grachos, e outros negocios d'uma naÁ„o extincta, deixando-o ao mesmo
-tempo sem saber o que È a chuva que o molha, como se faz o p„o que come,
-e todas as outras cousas do Universo em que vive...
-
---Mas emfim os classicos, arriscou timidamente o abbade.
-
---Qual classicos! O primeiro dever do homem È viver. E para isso È
-necessario ser s„o, e ser forte. Toda a educaÁ„o sensata consiste
-n'isto: crear a saude, a forÁa e os seus habitos, desenvolver
-exclusivamente o animal, armal-o d'uma grande superioridade physica. Tal
-qual como se n„o tivesse alma. A alma vem depois... A alma È outro luxo.
-… um luxo de gente grande...
-
-O abbade coÁava a cabeÁa, com o ar arripiado.
-
---A instrucÁ„osinha È necessaria, disse elle. VocÍ n„o acha, VillaÁa?
-Que v. ex^a, sr. Affonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas
-emfim a instrucÁ„osinha...
-
---A instrucÁ„o para uma creanÁa n„o È recitar _Tityre, tu patulae
-recubans_... … saber factos, noÁıes, cousas uteis, cousas praticas...
-
-Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, n'um signal ao VillaÁa,
-mostrou-lhe o neto que palrava inglez com o Brown. Eram de certo feitos
-de forÁa, uma historia de briga com rapazes que elle lhe estava a
-contar, animado e jogando com os punhos. O perceptor approvava,
-retorcendo os bigodes. E · mesa os senhores com os garfos suspensos, por
-traz os escudeiros de pÈ e guardanapo no braÁo, todos, n'um silencio
-reverente, admiravam o menino a fallar inglez.
-
---Grande prenda, grande prenda, murmurou VillaÁa, inclinando-se para a
-Viscondessa.
-
-A excellente senhora cÛrou, atravez d'um sorriso. Parecia assim mais
-gorda, toda acaÁapada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a cada
-gole de Bucellas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque
-negro e lentejoulado.
-
-Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso fez uma _saude_ ao
-VillaÁa. Todos os copos se ergueram n'um rumor de amizade. Carlos quiz
-gritar _Hurrah!_ O avÙ, com um gesto reprehensivo, immobilisou-o; e na
-pausa satisfeita que se fez, o pequeno disse com uma grande convicÁ„o:
-
---Oh avÙ, eu gosto do VillaÁa. O VillaÁa È nosso amigo.
-
---Muito, e ha muitos annos, meu senhor! exclamou o velho procurador, t„o
-commovido que mal podia erguer o calice na m„o.
-
-O jantar findava. FÛra, o sol deix·ra o terrasso e a quinta verdejava na
-grande doÁura do ar tranquillo, sob o azul ferrete. Na chaminÈ sÛ
-restava uma cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam um aroma vivo,
-a que se misturava o do creme queimado, tocado de um fio de lim„o: os
-creados, de colletes brancos, moviam o serviÁo d'onde se escapava algum
-som argentino: e toda a alva toalha adamascada desapparecia sob a
-confus„o da sobremesa onde os tons dourados do vinho do Porto brilhavam
-entre as compoteiras de crystal. A Viscondessa affogueada abanava-se.
-Padre Custodio enrolava devagar o guardanapo, a sua batina coÁada luzia
-nas pregas das mangas.
-
-Ent„o Affonso, sorrindo ternamente, fez a ultima saude.
-
---Viva v. s.^a, snr. Carlos de Matta-sete!
-
---Sr. VÙvÙ! dizia o pequeno escorropichando o copo.
-
-A cabeÁinha de cabellos negros, a velha face de barbas de neve,
-saudavam-se das extremidades da mesa--em quanto todos sorriam, no
-enternecimento d'aquella cerimonia. Depois o abbade, de palito na bocca,
-murmurou as _graÁas_. A Viscondessa, cerrando os olhos, juntou tambem as
-m„os. E VillaÁa que tinha crenÁas religiosas n„o gostou de vÍr Carlos,
-sem se importar com as graÁas, saltar da cadeira, vir atirar-se ao
-pescoÁo do avÙ, fallar-lhe ao ouvido.
-
---N„o senhor! n„o senhor! dizia o velho.
-
-Mas o rapaz, abraÁando-o mais forte, dava-lhe grandes razıes, n'um
-murmurio de mimo dÙce como um beijo, que ia pondo na face do velho uma
-fraqueza indulgente.
-
---… por ser festa, disse elle emfim vencido. Mas veja l·, veja l·...
-
-O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou VillaÁa pelos braÁos, fÍl-o
-redemoinhar, e foi cantando n'um rythmo seu:
-
---Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Therezinha, inha,
-inha, inha!
-
---… a noiva, disse o avÙ, erguendo-se da mesa. J· tem amores, È a
-pequena das Silveiras... O cafÈ para o terraÁo, Teixeira.
-
-O dia fÛra convidava, adoravel, d'um azul suave, muito puro e muito
-alto, sem uma nuvem. Defronte do terraÁo os geranios vermelhos estavam
-j· abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, d'uma
-delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um
-vago cheiro de violetas, misturado ao perfume adocicado das flÙres do
-campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos
-baixos, a areia fina faiscava de leve ·quelle sol timido de primavera
-tardia, que ao longe envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa
-hora de sesta n'uma luz fresca e loura.
-
-Os tres homens sentaram-se · mesa do cafÈ. Defronte do terraÁo, o Brown,
-de bonet escossez posto ao lado e grande cachimbo na bocca, puchava ao
-alto a barra do trapezio para Carlos se balouÁar. Ent„o o bom VillaÁa
-pedio para voltar as costas. N„o gostava de vÍr gymnasticas; bem sabia
-que n„o havia perigo; mas mesmo nos cavallinhos, as cabriolas, os arcos,
-atordoavam-n'o; sahia sempre com o estomago embrulhado...
-
---E parece-me imprudente, sobre o jantar...
-
---Qual! È sÛ balouÁar-se... Olhe para aquillo!
-
-Mas VillaÁa n„o se moveu, com a face sobre a chavena.
-
-O abbade, esse, admirava, de labios entreabertos, e o pires cheio de
-cafÈ esquecido na m„o.
-
---Olhe para aquillo VillaÁa, repetio Affonso. N„o lhe faz mal, homem!
-
-O bom VillaÁa voltou-se, com esforÁo. O pequeno muito alto no ar, com as
-pernas retesadas contra a barra do trapezio, as m„os ·s cordas, descia
-sobre o terraÁo, cavando o espaÁo largamente, com os cabellos ao vento;
-depois elevava-se, serenamente, crescendo em pleno sol; todo elle
-sorria; a sua blusa, os calÁıes enfunavam-se · aragem; e via-se passar,
-fugir, o brilho dos seus olhos muito negros e muito abertos.
-
---N„o est· mais na minha m„o, n„o gosto, disse o VillaÁa. Acho
-imprudente!
-
-Ent„o Affonso bateu as palmas, o abbade gritou _bravo, bravo_. VillaÁa
-voltou-se para applaudir, mas Carlos tinha j· desapparecido; o trapezio
-parava, em oscillaÁıes lentas; e o Brown, retomando o _Times_ que pozera
-ao lado sobre o pedestal d'um busto, foi descendo para a quinta
-envolvido n'uma nuvem de fumo do cachimbo.
-
---Bella cousa, a gymnastica! exclamou Affonso da Maia, accendendo com
-satisfaÁ„o outro charuto.
-
-VillaÁa j· ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abbade, depois de
-dar um sorvo ao cafÈ, de lamber os beiÁos, soltou a sua bella phrase,
-arranjada em maxima:
-
---Esta educaÁ„o faz athletas mas n„o faz christ„os. J· o tenho dito...
-
---J· o tem dito abbade, j·! exclamou Affonso alegremente. Diz-m'o todas
-as semanas... Quer vocÍ saber, VillaÁa? O nosso Custodio matta-me o
-bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!...
-
-Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com uma face desconsolada e a
-caixa de rapÈ aberta na m„o; a irreligi„o d'aquelle velho fidalgo,
-senhor de quasi toda a freguezia, era uma das suas dÙres:
-
---A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex.^a o diga assim com esse
-modo escarnica... A cartilha. Mas j· n„o quero fallar na cartilha... Ha
-outras cousas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia, È pelo
-amor que tenho ao menino.
-
-E recomeÁou a discuss„o, que voltava sempre ao cafÈ, quando Custodio
-jantava na quinta.
-
-O bom homem achava horroroso que n'aquella edade um t„o lindo moÁo,
-herdeiro d'uma casa t„o grande, com futuras responsabilidades na
-sociedade, n„o soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao VillaÁa a
-historia da D. Cecilia Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do
-escriv„o, tendo passado deante do port„o da quinta, avistara o
-Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de creanÁas como era, e
-pedira-lhe que lhe dissesse o _acto de contricÁ„o_. E que respondeu o
-menino? _Que nunca em tal ouvira fallar!_ Estas cousas entristeciam. E o
-sr. Affonso da Maia achava-lhe graÁa, ria-se! Ora alli estava o amigo
-VillaÁa que podia dizer se era caso para jubilar. N„o, o sr. Affonso da
-Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas d'uma cousa n„o o
-podia convencer, a elle pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda, È
-que houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do
-cathecismo.
-
-E Affonso da Maia respondia com bom humor:
-
---Ent„o que lhe ensinava vocÍ, abbade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que
-se n„o deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar
-os inferiores, por que isso È contra os mandamentos da lei de Deus, e
-leva ao inferno, hein? … isso?...
-
---Ha mais alguma cousa...
-
---Bem sei. Mas tudo isso que vocÍ lhe ensinaria que se n„o deve fazer,
-por ser um peccado que offende a Deus, j· elle sabe que se n„o deve
-praticar, por que È indigno d'um cavalheiro e d'um homem de bem...
-
---Mas, meu senhor...
-
---OuÁa abbade. Toda a differenÁa È essa. Eu quero que o rapaz seja
-virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas n„o por
-medo ·s caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino
-do cÈu...
-
-E accrescentou, erguendo-se e sorrindo:
-
---Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade, È quando vem, depois
-de semanas de chuva, um dia d'estes, ir respirar pelos campos e n„o
-estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o VillaÁa n„o est·
-muito canÁado, vamos dar ahi um giro pelas fazendas...
-
-O abbade suspirou como um santo que vÍ a negra impiedade dos tempos e
-Belzebut arrebatando as melhores rezes do rebanho; depois olhou a
-chavena e sorveu com delicias o resto do seu cafÈ.
-
-Quando Affonso da Maia, VillaÁa e o abbade recolheram do seu passeio
-pela freguezia, escurecera, havia luzes pelas salas, e tinham chegado j·
-as Silveiras, senhoras ricas da quinta da _LagoaÁa_.
-
-D. Anna Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da
-familia, e era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande
-auctoridade em Resende. A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma
-excellente e pachorrenta senhora, de agradavel nutriÁ„o, trigueirota e
-pestanuda; tinha dois filhos, a Theresinha, a _noiva_ de Carlos, uma
-rapariguinha magra e viva com cabellos negros como tinta, e o
-morgadinho, o Eusebiosinho, uma maravilha muito fallada n'aquelles
-sitios.
-
-Quasi desde o berÁo este notavel menino revelara um edificante amor por
-alfarrabios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e j· a sua
-alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado n'um
-cobertor, folheando _in-folios_, com o craneosinho calvo de sabio
-curvado sobre as lettras garrafaes de boa doutrina: depois de
-crescidinho tinha tal proposito que permanecia horas immovel n'uma
-cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca appetecera um
-tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce
-letrado, entre o pasmo da mam„ e da titi, passava dias a traÁar
-algarismos, com a lingoasinha de fora.
-
-Assim na familia tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser
-primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia,
-a tia Annica installava-o logo · mesa, ao pÈ do candieiro, a admirar as
-pinturas d'um enorme e rico volume, os _Costumes de todos os Povos do
-Universo_. J· l· estava essa noite, vestido como sempre de escossez, com
-o _plaid_ de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracollo e
-preso ao hombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre d'um
-Stuart, d'um valoroso cavalleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o
-bonet onde se arqueava com heroismo uma rutilante penna de gallo; e nada
-havia mais melancolico que a sua facesinha trombuda, a que o excesso de
-lombrigas dava uma molleza e uma amarellid„o de manteiga, os seus
-olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a sciencia lh'as tivesse
-j· consummido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e
-para os guerreiros ferozes do Montenegro appoiados a escupetas, em
-pincaros de serranias.
-
-Deante do canapÈ das senhoras l· se achava tambem o fiel amigo, o dr.
-delegado, grave e digno homem, que havia cinco annos andava ponderando e
-meditando o casamento com a Silveira viuva, sem se
-decidir--contentando-se em comprar todos os annos mais meia duzia de
-lenÁoes, ou uma peÁa mais de bretanha, para arredondar o bragal. Estas
-compras eram discutidas em casa das Silveiras, · brazeira: e as allusıes
-recatadas, mas inevitaveis, ·s duas fronhasinhas, ao tamanho dos
-lenÁoes, aos cobertores de papa para os conchegos de janeiro--em logar
-de inflammar o magistrado, inquietavam-n'o. Nos dias seguintes apparecia
-preoccupado--como se a perspectiva da santa consummaÁ„o do matrimonio
-lhe dÈsse o arrepio de uma faÁanha a emprehender, o ter de agarrar um
-toiro, ou nadar nos cachıes do Douro. Ent„o, por qualquer ras„o
-especiosa, adiava-se o casamento atÈ ao S. Miguel seguinte. E alliviado,
-tranquillo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar as Silveiras a
-ch·s, festas de egreja ou pezames, vestido de preto, affavel, serviÁal,
-sorrindo a D. Eugenia, n„o desejando mais prazeres que os d'essa
-convivencia paternal.
-
-Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o
-dr. juiz de direito e a senhora n„o podiam vir, por que o magistrado
-tivera a dÙr; e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se,
-coitadas, que era dia de tristeza em casa, por fazer desesete annos que
-morrera o mano Manuel...
-
---Bem, disse Affonso, bem. A dÙr, a tristeza, o mano Manuel... Fazemos
-nÛs um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado?
-
-O excellente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que ´estava ·s
-ordens.ª
-
---Ent„o ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as m„os,
-no ardor j· da partida.
-
-Os parceiros dirigiram-se · saleta do jogo--que um reposteiro de damasco
-separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos
-circulos de luz que cahiam dos _abat-jour_ os baralhos abertos em leque.
-D'ahi a um momento o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que ´os
-deixara para um roquesinho de tresª; e retomou o seu logar ao lado de D.
-Eugenia, cruzando os pÈs debaixo da cadeira e as m„os em cima do ventre.
-As senhoras estavam fallando da dÙr do dr. juiz de direito. Costumava
-dar-lhe todos os tres mezes: e era condemnavel a sua teima em n„o querer
-consultar medicos. Quanto mais que elle andava acabado, ressequindo,
-amarellando--e a D. Augusta, a mulher, a nutrir · larga, a ganhar
-cÙres!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua gordura ao canto do
-canapÈ, com o leque aberto sobre o peito, contou que em Hespanha vira um
-caso egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa;
-e ao principio fÙra o contrario; atÈ sobre isso se tinham feito uns
-versos...
-
---Humores, disse com melancolia o dr. delegado.
-
-Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco,
-coitadinho, na flor de idade! E que perfeiÁ„o de rapaz! E que rapaz de
-juizo! D. Anna Silveira n„o se esquecera, como todos os annos, de lhe
-accender uma lamparina por alma, e de lhe resar tres padre-nossos. A
-viscondessa pareceu toda afflicta por se n„o ter lembrado... E ella que
-tinha o proposito feito!
-
---Pois estive para t'o mandar dizer! exclamou D. Anna. E as Brancos que
-tanto o agradecem, filha!
-
---Ainda est· a tempo, observou o magistrado.
-
-D. Eugenia deu uma malha indolente no _crochet_ de que nunca se
-separava, e murmurou com um suspiro:
-
---Cada um tem os seus mortos.
-
-E no silencio que se fez, saiu do canto do canapÈ outro suspiro, o da
-viscondessa, que de certo se record·ra do fidalgo d'Urigo de la Sierra,
-e murmurava:
-
---Cada um tem os seus mortos...
-
-E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar
-reflectidamente a m„o pela calva:
-
---Cada um tem os seus mortos!
-
-Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles,
-as chammas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava
-com cautella e arte as estampas dos _Costumes de todos os Povos_. E na
-saleta de jogo, atravez do reposteiro aberto, sentia-se a voz j·
-arrenegada do abbade, rosnando com um rancor tranquillo, ´passo, que È o
-que tenho feito toda a santa noite!ª
-
-N'esse momento Carlos arremettia pela sala dentro arrastando a sua
-noiva, a Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada
-das suas vozes reanimou o canapÈ dormente.
-
-Os noivos tinham chegado d'uma pittoresca e perigosa viagem, e Carlos
-parecia descontente de sua mulher; comportara-se d'uma maneira atroz;
-quando elle ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirar-se ao pÈ
-d'elle na almofada... Ora senhoras n„o viajam na almofada.
-
---E elle atirou-me ao ch„o, titi!
-
---N„o È verdade! De mais a mais È mentirosa! Foi como quando cheg·mos ·
-estalagem... Ella quiz-se deitar, e eu n„o quiz... A gente, quando se
-apeia de viagem, a primeira cousa que faz È tratar do gado... E os
-cavallos vinham a escorrer...
-
-A voz de D. Anna interrompeu, muito severa:
-
---Est· bom, est· bom, basta de tolices! J· cavallaram bastante. Senta-te
-ahi ao pÈ da sr.^a Viscondessa, Thereza... Olhe essa travessa do
-cabello... Que desproposito!
-
-Sempre detest·ra ver a sobrinha, uma menina delicada de dez annos,
-brincar assim com o Carlinhos. Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem
-doutrina e sem proposito, aterrava-a; e pela sua imaginaÁ„o de
-solteirona passavam sem cessar idÈas, suspeitas de ultrages que elle
-poderia fazer · menina. Em casa, ao agasalhal-a antes de vir para S.^ta
-Olavia, recommendava-lhe com forÁa que n„o fosse com o Carlos para os
-recantos escuros! que o n„o deixasse mecher-lhe nos vestidos!... A
-menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia: ´Sim, titi.ª Mas,
-apenas na quinta, gostava de abraÁar o seu maridinho. Se eram casados,
-por que n„o haviam de fazer nÈnÈ, ou ter uma loja e ganharem a sua vida
-aos beijinhos? Mas o violento rapaz sÛ queria guerras, quatro cadeiras
-lanÁadas a galope, viagens a terras de nomes barbaros que o Brown lhe
-ensinava. Ella, despeitada, vendo o seu coraÁ„o mal comprehendido,
-chamava-lhe _arrieiro_; elle ameaÁava boxal-a, · ingleza;--e
-separavam-se sempre arrenegados.
-
-Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as
-m„os no regaÁo--Carlos veiu logo estirar-se ao pÈ d'ella, meio deitado
-para as costas do canapÈ, bamboleando as pernas.
-
---Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito secca D. Anna.
-
---Estou canÁado, governei quatro cavallos, replicou elle, insolente e
-sem a olhar.
-
-De repente porÈm, d'um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho.
-Queria-o levar · Africa, a combatter os selvagens: e puchava-o j· pelo
-seu bello _plaid_ de cavalleiro d'Escossia, quando a mam„ accudiu
-atterrada.
-
---N„o, com o Eusebiosinho n„o, filho! N„o tem saude para essas
-cavalladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o avÙ!
-
-Mas o Eusebiosinho, a um repell„o mais forte, rolara no ch„o, soltando
-gritos medonhos. Foi um alvoroÁo, um levantamento. A m„e, tremula,
-agachada junto d'elle, punha-o de pÈ sobre as perninhas molles,
-limpando-lhe as grossas lagrimas, j· com o lenÁo, j· com beijos, quasi a
-chorar tambem. O delegado, consternado, apanhara o bonet escossez, e
-cofiava melancolicamente a bella pena de gallo. E a Viscondessa apertava
-·s m„os ambas o enorme seio, como se as palpitaÁıes a suffocassem.
-
-O Eusebiosinho foi ent„o preciosamente collocado ao lado da titi; e a
-severa senhora, com um fulgÙr de colera na face magra, apertando o leque
-fechado como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos que, de m„os
-atraz das costas e aos pulos em roda do canapÈ, ria, arreganhando para o
-Eusebiosinho um labio feroz. Mas n'esse momento davam nove horas, e a
-desempenada figura do Brown appareceu · porta.
-
-Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detraz da Viscondessa,
-gritando:
-
---Ainda È muito cedo, Brown, hoje È festa, n„o me vou deitar!
-
-Ent„o Affonso da Maia, que se n„o movera aos uivos lacinantes do
-Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade:
-
---Carlos, tenha a bondade de marchar j· para a cama.
-
---Oh vÙvÙ, È festa, que est· c· o VillaÁa!
-
-Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra,
-agarrou o rapaz pelo braÁo, e arrastou-o pelo corredor--em quanto elle,
-de calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero:
-
---… festa, vÙvÙ... … uma maldade!... O VillaÁa pÛde-se escandalisar...
-Oh vÙvÙ, eu n„o tenho somno!
-
-Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo
-aquella rigidez: ahi estava uma cousa incomprehensivel; o avÙ
-deixava-lhe fazer todos os horrores, e recusava-lhe ent„o o bocadinho da
-soirÈe...
-
---Oh sr. Affonso da Maia, por que n„o deixou estar a creanÁa?
-
---… necessario methodo, È necessario methodo, balbuciou elle, entrando,
-todo pallido do seu rigor.
-
-E · mesa do voltarete, apanhando as cartas com as m„os tremulas, repetia
-ainda:
-
---… necessario methodo. CreanÁas · noite dormem.
-
-D. Anna Silveira voltando-se para o VillaÁa--que cedera o seu lugar ao
-dr. delegado e vinha palestrar com as senhoras--teve aquelle sorriso
-mudo que lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia fallava em
-´methodos.ª
-
-Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque,
-declarou, a transbordar d'ironia, que, talvez por ter a intelligencia
-curta, nunca comprehendera a vantagem dos ´methodosª... Era · ingleza,
-segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ella estava
-enganada, ou S.^ta Olavia era no reino de Portugal...
-
-E como VillaÁa inclinava timidamente a cabeÁa, com a sua pitada nos
-dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro n„o ouvisse,
-desabafou. O sr. VillaÁa naturalmente n„o sabia, mas aquella educaÁ„o do
-Carlinhos nunca fÙra approvada pelos amigos da casa. J· a presenÁa do
-Brown, um heretico, um protestante, como perceptor na familia dos Maias,
-causara desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso tinha
-aquelle santo do abbade Custodio, t„o estimado, homem de tanto saber...
-N„o ensinaria · creanÁa habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar
-uma educaÁ„o de fidalgo, preparal-o para fazer boa figura em Coimbra.
-
-N'esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente d'ar, erguera-se da
-mesa de jogo a fechar o reposteiro: ent„o, como Affonso j· n„o podia
-ouvir, D. Anna ergueu a voz:
-
---E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. VillaÁa. Que o Carlinhos,
-coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar
-o que succedeu com a Macedo.
-
-VillaÁa j· sabia.
-
---Ah j· sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do acto de
-contricÁ„o...
-
-A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao ceu atravez do tecto.
-
---Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher chegou l· a nossa casa
-embuchada... E eu fez-me impress„o. AtÈ sonhei com aquillo tres noites a
-fio...
-
-Calou-se um momento. VillaÁa, embaraÁado, acanhado, fazia girar a caixa
-de rapÈ nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de
-somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas, fazia
-de vez em quando uma malha molle no _crochet_; e a noiva de Carlos,
-estirada para o canto do soph·, j· dormia, com a boquinha aberta, os
-seus lindos cabellos negros caindo-lhe pelo pescoÁo.
-
-D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua idÈa:
-
---Sem contar que o pequeno est· muito atrazado. A n„o ser um bocado de
-inglez, n„o sabe nada... Nem tem prenda nenhuma!
-
---Mas È muito esperto, minha rica senhora! accudiu VillaÁa.
-
---… possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira.
-
-E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d'ella,
-quieto como se fosse de gesso:
-
---Oh filho, dize tu aqui ao sr. VillaÁa aquelles lindos versos que
-sabes... N„o sejas atado, anda!... V·, Euzebio, filho, sÍ bonito...
-
-Mas o menino, molleng„o e tristonho, n„o se descollava das saias da
-titi: teve ella de o pÙr de pÈ, amparal-o, para que o tenro prodigio n„o
-alluisse sobre as perninhas flacidas; e a mam„ prometteu-lhe que, se
-dissesse os versinhos, dormia essa noite com ella...
-
-Isto decidio-o: abrio a bocca, e como d'uma torneira lassa veio de l·
-escorrendo, n'um fio de voz, um recitativo lento e babujado:
-
-
- … noite, o astro saudoso
- Rompe a custo um plumbeo cÈu,
- Tolda-lhe o rosto formoso
- Alvacento, humido vÈo...
-
-
-Disse-a toda--sem se mexer, com as m„osinhas pendentes, os olhos
-mortiÁos pregados na titi. A mam„ fazia o compasso com a agulha do
-_crochet_; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto,
-banhada no langor da melopea, ia cerrando as palpebras.
-
---Muito bem, muito bem! exclamou o VillaÁa, impressionado, quando o
-Euzebiosinho findou coberto de suor. Que memoria! Que memoria! … um
-prodigio!...
-
-Os creados entravam com o ch·. Os parceiros tinham findado a partida; e
-o bom Custodio, de pÈ, com a sua chavena na m„o, queixava-se amargamente
-da maneira porque aquelles senhores o tinham esfollado.
-
-Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senhoras
-retiraram-se ·s nove e meia. O serviÁal dr. delegado dava o braÁo a D.
-Eugenia; um creado da quinta allumiava adiante com o lampe„o; e o moÁo
-das Silveiras levava ao collo o Eusebiosinho que parecia um fardo
-escuro, abafado em mantas, com um chale amarrado na cabeÁa.
-
-
-Depois da ceia VillaÁa acompanhou ainda um momento Affonso da Maia ·
-livraria, onde, antes de recolher, elle tomava sempre · ingleza o seu
-cognac e soda.
-
-O aposento, a que as velhas estantes de pau preto davam um ar severo,
-estava adormecido tepidamente, na penumbra suave, com as cortinas bem
-fechadas, um resto de lume na chaminÈ, e o globo do candieiro pondo a
-sua claridade serena na mesa coberta de livros. Em baixo, os repuchos
-cantavam alto no silencio da noite.
-
-Emquanto o escudeiro rolava para o pÈ da poltrona de Affonso, n'uma mesa
-baixa, os crystaes e as garrafas de soda, VillaÁa, com as m„os nos
-bolsos, de pÈ e pensativo, olhava a braza da acha que morria na cinza
-branca. Depois ergueu a cabeÁa, para murmurar, como ao acaso:
-
---Aquelle rapazito È esperto...
-
---Quem? O Euzebiosinho? disse Affonso, que se accomodava junto ao fog„o,
-enchendo alegremente o cachimbo. Eu tremo de o ver c·, VillaÁa! O Carlos
-n„o gosta d'elle, e tivemos ahi um desgosto horroroso... Foi j· ha
-mezes. Havia uma prociss„o e o Eusebiosinho ia de anjo... As Silveiras,
-excellentes mulheres, coitadas, mandaram-n'o c· para o mostrar ·
-viscondessa, j· vestido de anjo. Pois senhores, distrahimo-nos, e o
-Carlos que o andava a rondar apodera-se d'elle, leva-o para o sot„o, e,
-meu caro VillaÁa... Em primeiro logar ia-o matando porque embirra com
-anjos... Mas o peior n„o foi isso. Imagine vocÍ o nosso terror, quando
-nos apparece o Eusebiosinho aos berros pela titi, todo desfrizado, sem
-uma aza, com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um
-barbante, a corÙa de rosas enterrada atÈ ao pescoÁo, e os galıes de
-ouro, os tulles, as lentejoulas, toda a vestimenta celeste em
-frangalhos!... Emfim, um anjo depennado e sovado... Eu ia dando cabo do
-Carlos.
-
-Bebeu metade da sua soda, e passando a m„o pelas barbas, accrescentou,
-com uma satisfaÁ„o profunda:
-
---… levado do diabo, VillaÁa!
-
-O administrador, sentado agora · borda de uma cadeira, esboÁou uma
-risadinha muda; depois ficou calado, olhando Affonso, com as m„os nos
-joelhos, como esquecido e vago. Ia abrir os labios, hesitou ainda,
-tossio de leve; e continuou a seguir pensativamente as faiscas que
-erravam sobre as achas.
-
-Affonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume,
-recomeÁara a fallar do Silveirinha. Tinha tres ou quatro mezes mais que
-Carlos, mas estava enfesado, estiolado, por uma educaÁ„o · portugueza:
-d'aquella edade ainda dormia no chÙco com as criadas, nunca o lavavam
-para o n„o constiparem, andava couraÁado de rolos de flanellas! Passava
-os dias nas saias da titi a decorar versos, paginas inteiras do
-_Cathecismo de PerseveranÁa_. Elle por curiosidade um dia abrira este
-livreco e vira l·, ´que o sol È que anda em volta da terra (como antes
-de Galileu), e que Nosso Senhor todas as manh„s d· as ordens ao sol,
-para onde ha d'ir e onde ha de parar, etc., etc.ª E assim lhe estavam
-arranjando uma almasinha de bacharel...
-
-VillaÁa teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamente
-decidido, ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras:
-
---V. Ex.^a sabe que appareceu a Monforte?
-
-Affonso, sem mover a cabeÁa, reclinado para as costas da poltrona,
-perguntou tranquillamente, envolvido no fumo do cachimbo:
-
---Em Lisboa?
-
---N„o senhor, em Paris. Viu-a l· o Alencar, esse rapaz que escreve, e
-que era muito de Arroios... Esteve atÈ em casa d'ella.
-
-E ficaram calados. Havia annos que entre elles se n„o pronunciara o nome
-de Maria Monforte. Ao principio, quando se retirara para Santa Olavia, a
-preoccupaÁ„o ardente de Affonso da Maia fÙra tirar-lhe a filha que ella
-levara. Mas a esse tempo ninguem sabia onde Maria se refugiara com o seu
-principe: nem pela influencia das legaÁıes, nem pagando regiamente a
-policia secreta de Paris, de Londres, de Madrid, se poude descobrir a
-´toca da feraª como disia ent„o o VillaÁa. Ambos decerto tinham mudado
-de nome; e, dadas essas naturezas bohemias, quem sabe se n„o errariam
-agora pela America, pela India, em regiıes mais exoticas? Depois, pouco
-a pouco, Affonso da Maia descorÁoado com aquelles esforÁos v„os, todo
-occupado do neto que crescia bello e forte ao seu lado, no
-enternecimento continuo que elle lhe dava foi esquecendo a Monforte e a
-sua outra neta, t„o distante, t„o vaga, a quem ignorava as feiÁıes, de
-quem mal sabia o nome. E agora de repente a Monforte apparecia outra vez
-em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto! e aquella creanÁa que dormia
-ao fundo do corredor nunca vira sua m„e...
-
-Erguera-se, passeiava na livraria, pesado e lento, com a cabeÁa baixa.
-Junto · mesa, ao pÈ do candieiro, o VillaÁa ia percorrendo um a um os
-papeis da sua carteira.
-
---E est· em Paris com o italiano? perguntou Affonso do fundo sombrio do
-aposento.
-
-O VillaÁa ergueu a cabeÁa de sobre a carteira, e disse:
-
---N„o senhor, est· com quem lhe paga.
-
-E como Affonso se aproximava da mesa, sem uma palavra, VillaÁa,
-dando-lhe um papel dobrado, accrescentou:
-
---Todas estas cousas s„o muito graves, sr. Affonso da Maia, e eu n„o
-quiz fiar-me sÛ na minha memoria. Por isso pedi ao Alencar, que È um
-excellente rapaz, que me escrevesse n'uma carta tudo o que me contou.
-Assim temos um documento. Eu n„o sei mais do que ahi est· escripto. PÛde
-V. Ex.^a ler...
-
-Affonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma historia simples, que
-o Alencar, o poeta das _Vozes d'Aurora_, o estylista de _Elvira_, orn·ra
-de flores e de galıes dourados como uma capella em dia de festa.
-
-Uma noite, ao sahir da _Maison d'Or_, elle vira a Monforte saltar d'um
-_coupÈ_ com dois homens de gravata branca; tinham-se logo reconhecido; e
-um momento ficaram hesitando, um defronte do outro, debaixo do candieiro
-de gaz, no _trottoir_. Foi ella que, muito decidida, rindo, estendeu a
-m„o ao Alencar, pediu-lhe que a visitasse, deu-lhe a _adresse_, o nome
-por que devia perguntar: M.^{me} de l'Estorade. E no seu _boudoir_, na
-manh„ seguinte a Monforte fallou largamente de si: vivera tres annos em
-Vienna d'Austria com Tancredo, e com o pap· que se lhes fÙra reunir--e
-que l· continuava de certo, como em Arroios, refugiando-se pelos cantos
-das salas, pagando as _toilettes_ da filha, e dando palmadinhas ternas
-no hombro do amante como outr'ora no hombro do marido. Depois tinham
-estado em Monaco; e ahi, dizia o Alencar, ´n'um drama sombrio de paix„o
-que ella me fez entreverª o napolitano fora morto em duello. O pap·
-morrera tambem n'esse anno, deixando apenas da sua fortuna uns magros
-contos de rÈis, e a mobilia da casa em Vienna: o velho arruinara-se com
-o luxo da filha, com as viagens, com as perdas de Tancredo ao
-_baccarat_. Pass·ra ent„o um tempo em Londres: e d'ahi viera habitar
-Paris, com Mr. de l'Estorade, um jogador, um espadachim, que acabou de a
-arrasar, e que a abandonou legando-lhe esse nome de l'Estorade, que lhe
-era a elle d'ora em diante inutil porque passava a adoptar outro mais
-sonoro de _Vicomte de Manderville_. Emfim, pobre, formosa, doida,
-excessiva, lanÁara-se na existencia d'aquellas mulheres de quem, dizia o
-Alencar, ´a pallida Margarida Gautier, a gentil _Dama das Camelias_ È o
-typo sublime, o symbolo poetico, a quem muito ser· perdoado porque muito
-amaram.ª E o poeta terminava: ´ella est· ainda no esplendor da belleza,
-mas as rugas vir„o, e ent„o que avistar· em redor de si? As rosas seccas
-e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi d'aquelle _boudoir_
-perfumado, com a alma dilacerada, meu VillaÁa! Pensava no meu pobre
-Pedro, que l· jaz sob o raio de luar, entre as raizes dos cyprestes. E,
-desilludido d'esta cruel vida, vim pedir ao absintho, no _boulevard_,
-uma hora de esquecimento.ª
-
-Affonso da Maia deu um repell„o · carta, menos enojado das torpezas da
-historia, que d'aquelles lyrismos relambidos.
-
-E recomeÁou a passear, emquanto o VillaÁa recolhia religiosamente o
-documento que tinha relido muitas vezes, na admiraÁ„o do sentimento, do
-estylo, do ideal d'aquella pagina.
-
---E a pequena? perguntou Affonso.
-
---Isso n„o sei. O Alencar n„o lhe fallarÌa na filha, nem elle mesmo sabe
-que ella a levou. Ninguem o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que passou
-desapercebido no grande escandalo. Mas emquanto a mim, a pequena morreu.
-Sen„o, siga V. Ex.^a o meu raciocinio... Se a menina fosse viva, a m„e
-podia reclamar a legitima que cabe · creanÁa... Ella sabe a casa que V.
-Ex.^a tem; ha de haver dias, e s„o frequentes na vida d'essas mulheres,
-em que lhe falte uma libra... Com o pretexto da educaÁ„o da menina, ou
-de alimentos, j· nos tinha importunado... Escrupulos n„o tem ella. Se o
-n„o faz È que a filha morreu. N„o lhe parece a V. Ex.^a?
-
---Talvez, disse Affonso.
-
-E accrescentou, parando deante de VillaÁa--que olhava outra vez a braza
-morta tirando estalinhos dos dedos:
-
---Talvez... SopÙnhamos que morreram ambas, e n„o se falle mais n'isso.
-
-Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias
-que VillaÁa passou em S.^{ta} Olavia n„o se proferiu mais o nome de
-Maria Monforte.
-
-Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Affonso subio
-ao quarto d'elle, a entregar-lha as amendoas da Paschoa que Carlos
-mandava a VillaÁa Junior, um alfinete de peito com uma magnifica
-saphira--e disse-lhe em quanto o outro, sensibilisado, balbuciava os
-agradecimentos:
-
---Agora outra cousa, VillaÁa. Tenho estado a pensar. Vou escrever a meu
-primo Noronha, ao AndrÈ que vive em Paris como vocÍ sabe, pedir-lhe que
-procure essa creatura, e que lhe offereÁa dez ou quinze contos de rÈis,
-se ella me quizer entregar a filha... No caso, est· claro, que esteja
-viva... E quero que vocÍ saiba d'esse Alencar a morada da mulher em
-Paris.
-
-O VillaÁa n„o respondeu, occupado a metter entre as camisas, bem no
-fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou
-deante d'Affonso, a coÁar reflectidamente o queixo.
-
---Ent„o que lhe parece, VillaÁa?
-
---Parece-me arriscado.
-
-E deu as suas razıes. A menina devia ir nos seus treze annos. Estava uma
-mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus
-habitos... Nem fallaria o portuguez. As saudades da m„e haviam de ser
-terriveis... Emfim, o sr. Affonso de Maia trazia uma extranha para
-casa...
-
---VocÍ tem ras„o, VillaÁa. Mas a mulher È uma prostituta, e a pequena È
-do meu sangue.
-
-N'esse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vovÙ,
-precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma rom„.--O Brown
-tinha achado uma corujasinha pequena! Queria que o vovÙ viesse, ver,
-andara a buscal-o por toda a casa... Era de morrer a rir... Muito
-pequena, muito feia, toda pellada, e com dois olhos de gente grande! E
-sabiam onde havia o ninho...
-
---Vem depressa, Û vovÙ! Depressa, que È necessario ir pol-a no ninho,
-por causa da coruja velha que se pÛde affligir... O Brown est·-lhe a dar
-azeite. Oh VillaÁa vem ver! O vovÙ, pelo amor de Deus! Tem uma cara t„o
-engraÁada! Mas depressa, depressa, que a coruja velha pÛde dar pela
-falta!...
-
-E impaciente com a lentid„o risonha do vÙvo, tanta indifferenÁa pela
-inquietaÁ„o da coruja velha, abalou atirando com a porta.
-
---Que bom coraÁ„o! exclamou o VillaÁa commovido. A pensar nas saudades
-da coruja... A m„e d'elle È que n„o tem saudades! Sempre o disse, È uma
-fera!
-
-Afonso encolheu tristemente os hombros. Iam j· no corredor quando elle,
-parando um momento, baixando a voz:
-
---Tem-me esquecido de lhe contar, VillaÁa, o Carlos sabe que o pae que
-se matou...
-
-VillaÁa arredondou os olhos d'espanto. Era verdade. Uma manh„
-entrara-lhe pela livraria, e dissera-lhe:--Û vovÙ, o pap· matou-se com
-uma pistola!--Naturalmente algum creado que lh'o contara...
-
---E vossa excellencia?
-
---Eu... Que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenho obedecido
-ao que Pedro me pediu, n'essas quatro ou cinco linhas da carta que me
-deixou. Quiz ser enterrado em S.{ta} Olavia, ahi est·. N„o queria que o
-filho j·mais soubesse da fuga da m„e; e por mim, de certo, nunca o
-saber·. Quiz que dois retratos que havia d'ella em Arroios fossem
-destruidos; como vocÍ sabe, obtiveram-se e destruiram-se. Mas n„o me
-pedio que occultasse ao rapaz o seu fim. E por isso, disse ao pequeno a
-verdade: disse-lhe que n'um momento de loucura, o pap· tinha dado um
-tiro em si...
-
---E elle?
-
---E elle, replicou Affonso sorrindo, perguntou-me quem lhe tinha dado a
-pistola, e torturou-me toda uma manh„ para lhe dar tambem uma pistola...
-E ahi est· o resultado d'essa revelaÁ„o: È que tive de mandar vir do
-Porto uma pistÛla de vento...
-
-Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo avÛ, os dois
-apressaram-se a ir admirar a corujazinha.
-
-VillaÁa ao outro dia partiu para Lisboa.
-
-Passadas duas semanas, Affonso recebia uma carta do administrador,
-trasendo-lhe, com a _adresse_ da Monforte, uma revelaÁ„o imprevista.
-Tinha voltado a casa do Alencar; e o poeta, recordando outros incidentes
-da sua visita a M.^{me} de l'Estorade, contara-lhe que no _boudoir_
-d'ella havia um adoravel retrato de creanÁa, de olhos negros, cabello
-d'azeviche, e uma pallidez de nacar. Esta pintura ferira-o, n„o sÛ por
-ser d'um grande pintor inglez, mas por ter, pendente sob o caixilho como
-um voto funerario, uma linda coroa de flores de cera brancas e roxas.
-N„o havia outro quadro no _boudoir_: e elle perguntara · Monforte se era
-um retrato ou uma phantasia. Ella respondera que era o retrato da filha
-que lhe morrera em Londres. ´Est„o assim dissipadas todas as duvidas,
-accrescentava o VillaÁa. O pobre anjinho est· n'uma patria. melhor. E
-para ella, _bem melhor_!ª
-
-Affonso, todavia, escreveu a AndrÈ de Noronha. A resposta tardou. Quando
-o primo AndrÈ procurara M.^{me} de l'Estorade, havia semanas que ella
-partira para Allemanha, depois de vender mobilia e cavallos. E no _Club
-Imperial_, a que elle pertencia, um amigo que conhecia bem M.^{me} de
-l'Estorade e a vida galante de Paris, contara-lhe que a doida fugira com
-um certo Catanni, acrobata do Circo d'Inverno nos Campos Elyseos, homem
-de fÛrmas magnificas, um Appolo de feira, que todas as cocottes se
-disputavam e que a Monforte empolg·ra. Naturalmente corria agora a
-Allemanha com a companhia de cavallinhos.
-
-Affonso da Maia, enojado, remetteu esta carta ao VillaÁa sem um
-commentario. E o honrado homem respondeu: ´Tem V. Ex.^a ras„o, È atroz:
-e mais vale suppor que todos morreram, e n„o gastar mais cera com t„o
-ruins defuntos...ª E depois n'um post-scriptum accrescentava: ´Parece
-certo abrir-se em breve o caminho de ferro atÈ ao Porto: em tal caso,
-com permiss„o de V. Ex.^a, ahi irei e o meu rapaz a pedirmos-lhe alguns
-dias d'hospitalidade.ª
-
-Esta carta foi recebida em S.^{ta} Olavia um domingo, ao jantar. Affonso
-lera alto o P. S. Todos se alegraram, na esperanÁa de ver o bom VillaÁa
-em breve na quinta; e fallou-se mesmo em arranjar um grande pic-nic, rio
-acima.
-
-Mas, terÁa feira · noite, chegava um telegramma de Manuel VillaÁa
-annunciando que o pae morrera, n'essa manh„, d'uma apoplexia: dois dias
-depois vinham mais longos e tristes pormenores. Fora depois do almoÁo
-que, de repente, VillaÁa se sentira muito suffocado, e com tonturas:
-ainda tivera forÁas d'ir ao quarto respirar um pouco d'ether: mas ao
-voltar · sala cambaleava, queixava-se de vÍr tudo amarello, e caiu de
-bruÁos, como um fardo, sobre o canapÈ. O seu pensamento, que se
-extinguia para sempre, ainda n'esse momento se occupou da casa que ha
-trinta annos administrava: balbuciou, a respeito d'uma venda de cortiÁa,
-recomendaÁıes que o filho j· n„o poude perceber: depois deu um grande
-ai; e sÛ tornou a abrir os olhos, para murmurar no derradeiro sopro
-estas derradeiras palavras: _Saudades ao patr„o!_
-
-Affonso da Maia ficou profundamente afectado, e em S.^{ta} Olavia, mesmo
-entre os creados, a morte de VillaÁa foi como um lucto domestico. Uma
-d'essas tardes, o velho, muito melancolico, estava na livraria com um
-jornal esquecido nas m„os, os olhos cerrados--quando Carlos, que ao lado
-rabiscava carantonhas n'um papel, veio passar-lhe um braÁo pelo pescoÁo,
-e como comprehendendo os seus pensamentos perguntou-lhe se o VillaÁa n„o
-voltaria a vel-os ‡ quinta.
-
---N„o filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a vÍr.
-
-O pequeno, entre os joelhos e os braÁos do velho, olhava o tapete, e,
-como recordando-se, murmurou tristemente:
-
---O VillaÁa, coitado... Dava estalinhos com os dedos... Oh vovÙ, para
-onde o levaram?
-
---Para o cemiterio, filho, para debaixo da terra.
-
-Ent„o Carlos desprendeu-se devagar do abraÁo do avÙ, e muito sÈrio, com
-os olhos n'elle:
-
---” vovÙ! porque n„o lhe mandas fazer uma capellinha bonita, toda de
-pedra, com uma figura, como tem o pap·?
-
-O velho achegou-o ao peito, beijou-o, commovido:
-
---Tens raz„o, filho. Tens mais coraÁ„o que eu!
-
-Assim o bom VillaÁa teve no cemiterio dos Prazeres o seu jazigo--que
-fÙra a alta ambiÁ„o da sua existÍncia modesta.
-
-
-Outros annos tranquillos passaram sobre Santa Olavia.
-
-Depois uma manh„ de julho, em Coimbra, Manuel VillaÁa (agora
-administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Affonso
-se hosped·ra com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando,
-berrando:
-
---_NeminË! NeminË!_
-
-Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha
-acompanhado os senhores de Santa Olavia correu · porta, abraÁou-se quasi
-chorando no menino, agora mais alto que elle, e muito formoso na sua
-batina nova.
-
-Em cima no quarto, Manuel VillaÁa, soprando ainda, limpando as bagas de
-suor, exclamava:
-
---Ficou tudo espantado, snr. Affonso da Maia! Os lentes atÈ estavam
-commovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem, È o que
-todo o mundo disse... E que faculdade vai elle seguir, meu senhor?
-
-Affonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso:
-
---N„o sei, VillaÁa... Talvez nos formemos ambos em Direito.
-
-Carlos assomou · porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro
-escudeiro--que trazia _champagne_ n'uma salva.
-
---Ent„o venha c·, seu maroto, disse Affonso muito branco, com os braÁos
-abertos. Bom exame, hein?... Eu...
-
-Mas n„o pÙde proseguir: as lagrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba
-branca.
-
-
-
-
-IV
-
-
-Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera
-sempre n'aquelle menino realmente uma ´vocaÁ„o para Esculapioª.
-
-A ´vocaÁ„oª revel·ra-se bruscamente um dia que elle descobriu no sot„o,
-entre rumas de velhos alfarrabios, um rolo manchado e antiquado de
-estampas anatomicas; tinha passado dias a recortal-as, pregando pelas
-paredes do quarto figados, liaÁas de intestinos, cabeÁas de perfil ´com
-o recheio · mostraª. Uma noite mesmo rompera pela sala em triumpho, a
-mostrar ·s Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa lithographia de um feto de
-seis mezes no utero materno. D. Anna recuou, com um grito, collando o
-leque · face: e o dr. delegado, escarlate tambem, arrebatou
-prudentemente Euzebiosinho para entre os joelhos, tapou-lhe a face com a
-m„o. Mas o que escandalisou mais as senhoras foi a indulgencia de
-Affonso.
-
---Ent„o que tem, ent„o que tem? dizia elle sorrindo.
-
---Que tem, snr. Affonso da Maia!? exclamou D. Anna. S„o indecencias!
-
---N„o ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente È a
-ignorancia... Deixar l· o rapaz. Tem curiosidade de saber como È esta
-pobre machina por dentro, n„o ha nada mais louvavel...
-
-D. Anna abanava-se, suffocada. Consentir taes horrores nas m„os da
-crianÁa!... Carlos comeÁou a apparecer-lhe como um libertino ´que j·
-sabia coisasª; e n„o consentiu mais que a Therezinha brincasse sÛ com
-elle pelos corredores de Santa Olavia.
-
-As pessoas sÈrias porÈm, o dr. juiz de direito, o proprio abbade,
-lamentando, sim, que n„o houvesse mais recato, concordavam que aquillo
-mostrava no pequeno uma grande queda para a medicina.
-
---Se pÈga, dizia ent„o com um gesto prophetico o dr. Trigueiros, temos
-d'alli coisa grande!
-
-E parecia pegar.
-
-Em Coimbra, estudante do Lyceu, Carlos deixava os seus compendios de
-logica e rhetorica para se occupar de anatomia: n'umas ferias, ao abrir
-das malas, a Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras
-d'um casaco o riso d'uma caveira: e se algum criado da quinta adoecia,
-l· estava Carlos logo revolvendo o caso em velhos livros de medicina da
-livraria, sem lhe largar a beira do catre, fazendo diagnosticos que o
-bom dr. Trigueiros escutava respeitoso e pensativo. Diante do avÙ j·
-chamava mesmo ao menino ´o seu talentoso collegaª.
-
-Esta inesperada carreira de Carlos (pens·ra-se sempre que elle tomaria
-capello em Direito) era pouco approvada entre os fieis amigos de Santa
-Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo
-t„o formoso, t„o bom cavalleiro, viesse a estragar a vida receitando
-emplastros, e sujando as m„os no jorro das sangrias. O dr. juiz de
-direito confessou mesmo um dia a sua descrenÁa de que o snr. Carlos da
-Maia quizesse ´ser medico a sÈrioª.
-
---Ora essa! exclamou Affonso. E porque n„o ha de ser medico a sÈrio? Se
-escolhe uma profiss„o È para a exercer com sinceridade e com ambiÁ„o,
-como os outros. Eu n„o o educo para vadio, muito menos para amador;
-educo-o para ser util ao seu paiz...
-
---Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, n„o lhe
-parece a v. exc.^a que ha outras coisas, importantes tambem, e mais
-proprias talvez, em que seu neto se poderia tornar util?...
-
---N„o vejo, replicou Affonso da Maia. N'um paiz em que a occupaÁ„o geral
-È estar doente, o maior serviÁo patriotico È incontestavelmente saber
-curar.
-
---V. exc.^a tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o
-magistrado.
-
-E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida ´a sÈrioª,
-pratica e util, as escadas de doentes galgadas · pressa no fogo de uma
-vasta clinica, as existencias que se salvam com um golpe de bisturÌ, as
-noites veladas · beira de um leito, entre o terror de uma familia, dando
-grandes batalhas · morte. Como em pequeno o tinham encantado as fÛrmas
-pittorescas das vÌsceras--attrahiam-no agora estes lados militantes e
-heroicos da sciencia.
-
-Matriculou-se realmente com enthusiasmo. Para esses longos annos de
-quieto estudo o avÙ prepar·ra-lhe uma linda casa em Cellas, isolada, com
-graÁas de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca entre
-as arvores. Um amigo de Carlos (um certo Jo„o da Ega) poz-lhe o nome de
-´PaÁos de Cellasª, por causa de luxos ent„o raros na Academia, um tapete
-na sala, poltronas de marroquim, panoplias d'armas, e um escudeiro de
-librÈ.
-
-Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas
-suspeito aos democratas; quando se soube porÈm que o dono d'estes
-confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava
-tambem o paiz uma _choldra ignobil_--os mais rigidos revolucionarios
-comeÁaram a vir aos PaÁos de Cellas t„o familiarmente como ao quarto do
-Trov„o, o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobilia
-uma enxerga e uma Biblia.
-
-Ao fim d'alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, concili·ra Dandys e
-Philosophos: e trazia muitas vezes no seu _break_, lado a lado, o Serra
-Torres, um monstro que j· era addido honorario em Berlim e todas as
-noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a _Morte de
-Satanaz_, encolhido no seu gab„o d'Aveiro, com o seu grande barrete de
-lontra.
-
-Os PaÁos de Cellas, sob a sua apparencia preguiÁosa e campestre,
-tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma
-gymnastica scientifica. Uma velha cozinha fÙra convertida em sala
-d'armas--porque n'aquelle grupo a esgrima passava como uma necessidade
-social. ¡ noite, na sala de jantar, moÁos sÈrios faziam um _whist_
-sÈrio: e no sal„o, sob o lustre de crystal, com o _Figaro_, o _Times_ e
-as _Revistas_ de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao
-piano tocando Chopin ou Mozart, os litteratos estirados pelas
-poltronas--havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a
-Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a
-EvoluÁ„o, tudo por seu turno flammejava no fumo do tabaco, tudo t„o
-ligeiro e vago como o fumo. E as discussıes metaphysicas, as proprias
-certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a
-presenÁa do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo
-croquettes.
-
-Carlos, naturalmente, n„o tardou a deixar pelas mesas, com as folhas
-intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob
-todas as fÛrmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no
-_Instituto_--e um artigo sobre o Parthenon: tentou, n'um _atelier_
-improvisado, a pintura a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a
-influencia da _SalammbÙ_. AlÈm d'isso todas as tardes passeava os seus
-dois cavallos. No segundo anno levaria um _R_ se n„o fosse t„o conhecido
-e rico. Tremeu, pensando no desgosto do avÙ: moderou a dissipaÁ„o
-intellectual, acantoou-se mais na sciencia que escolhera: immediatamente
-lhe deram um _accessit_. Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo:
-e estava destinado, como dizia Jo„o da Ega, a ser um d'esses medicos
-litterarios que inventam doenÁas de que a humanidade papalva se presta
-logo a morrer!
-
-O avÙ, ·s vezes, vinha passar uma, duas semanas a Cellas. Nos primeiros
-tempos a sua presenÁa, agradavel aos cavalheiros da partilha de _whist_,
-desorganisou o cavaco litterario. Os rapazes mal ousavam estender o
-braÁo para o copo da cerveja; e os _vossa excellencia_ isto, _vossa
-excellencia_ aquillo, regelavam a sala. Pouco a pouco, porÈm, vendo-o
-apparecer em chinelas e de cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com
-ares sympathicos de patriarcha bohemio, discutir arte e litteratura,
-contar anecdotas do seu tempo d'Inglaterra e d'Italia, comeÁaram a
-consideral-o como um camarada de barbas brancas. Diante d'elle j· se
-fallava de mulheres e de estroinices. Aquelle velho fidalgo, t„o rico,
-que lÍra Michelet e o admirava--chegou mesmo a enthusiasmar os
-democratas. E Affonso gozava alli tambem horas felizes, vendo o seu
-Carlos centro d'aquelles moÁos de estudo, de ideal e de veia.
-
-Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, ·s vezes em Paris ou
-Londres; mas por Nataes e Pascoas vinha sempre a Santa Olavia, que o avÙ
-mais sÛ se entretinha a embellezar com amor. As salas tinham agora
-soberbos pannos d'Arraz, paizagens de Rousseau e Daubigny, alguns moveis
-de luxo e d'arte. Das janellas a quinta offerecia aspectos nobres de
-parque inglez: atravÈs dos macios taboleiros de relva, davam curvas
-airosas as ruas areadas: havia marmores entre as verduras; e gordos
-carneiros de luxo dormiam sob os castanheiros. Mas a existencia n'este
-meio rico n„o era agora t„o alegre: a viscondessa, cada dia mais
-nutrida, cahia em somnos congestivos logo depois do jantar; o Teixeira
-primeiro, a Gertrudes depois, tinham morrido, ambos de pleurizes, ambos
-no entrudo: e j· se n„o via tambem · mesa a bondosa face do abbade, que
-l· jazia sob uma cruz de pedra, entre os goivos e as rosas de todo o
-anno. O dr. juiz de direito com a sua concertina pass·ra para a RelaÁ„o
-do Porto; D. Anna Silveira, muito doente, nunca sahia; a Therezinha
-fizera-se uma rapariguinha feia, amarella como uma cidra; o
-Euzebiosinho, molleng„o e tristonho, j· sem vestigios sequer do seu
-primeiro amor aos alfarrabios e ·s letras, ia casar na Regoa. SÛ o dr.
-delegado, esquecido n'aquella comarca, estava o mesmo, mais calvo
-talvez, sempre affavel, amando sempre a pachorrenta Eugenia. E quasi
-todas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da sua egoa branca ao
-port„o para vir cavaquear com o collega.
-
-As ferias, realmente, sÛ eram divertidas para Carlos quando trazia para
-a quinta o seu intimo, o grande Jo„o da Ega, a quem Affonso da Maia se
-affeiÁo·ra muito, por elle e pela sua originalidade, e por ser sobrinho
-d'AndrÈ da Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas vezes outr'ora,
-hospede tambem em Santa Olavia.
-
-Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente--ora
-reprovado, ora perdendo o anno. Sua m„i, rica, viuva e beata, retirada
-n'uma quinta ao pÈ de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e
-rica tambem, tinha apenas uma noÁ„o vaga do que o Jo„ozinho fizera, todo
-esse tempo, em Coimbra. O capell„o affirmava-lhe que tudo havia de
-acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o pap· e como
-o titi: e esta promessa bastava · boa senhora, que se occupava sobretudo
-da sua doenÁa de entranhas e dos confortos d'esse padre Seraphim.
-Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da
-quinta, que elle escandalisava com a sua irreligi„o e as suas facecias
-hereticas.
-
-Jo„o da Ega, com effeito, era considerado n„o sÛ em Celorico, mas tambem
-na Academia que elle espantava pela audacia e pelos ditos, como o maior
-atheu, o maior demagogo, que j·mais apparecera nas sociedades humanas.
-Isto lisonjeava-o: por systema exagerou o seu odio · Divindade, e a toda
-a Ordem social: queria o massacre das classes-mÈdias, o amor livre das
-ficÁıes do matrimonio, a repartiÁ„o das terras, o culto de Satanaz. O
-esforÁo da intelligencia n'este sentido terminou por lhe influenciar as
-maneiras e a physionomia; e, com a sua figura esgrouviada e sÍcca, os
-pÍllos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro
-entalado no olho direito--tinha realmente alguma coisa de rebelde e de
-satanico. Desde a sua entrada na Universidade renov·ra as tradiÁıes da
-antiga Bohemia: trazia os rasgıes da batina cozidos a linha branca;
-embebedava-se com carrasc„o; · noite, na Ponte, com o braÁo erguido,
-atirava injurias a Deus. E no fundo muito sentimental, enleado sempre em
-amores por meninas de quinze annos, filhas de empregados, com quem ·s
-vezes ia passar a soirÈe, levando-lhes cartuchinhos de dÙce. A sua fama
-de fidalgote rico tornava-o appetecido nas familias.
-
-Carlos escarnecia estes idyllios futricas; mas tambem elle terminou por
-se enredar n'um episodio romantico com a mulher d'um empregado do
-governo civil, uma lisboetasinha, que o seduziu pela graÁa d'um corpo de
-boneca e por uns lindos olhos verdes. A ella o que a fanatis·ra fÙra o
-luxo, o _groom_, a egoa ingleza de Carlos. Trocaram-se cartas; e elle
-viveu semanas banhado na poesia aspera e tumultuosa do primeiro amor
-adultero. Infelizmente a rapariga tinha o nome barbaro de Hermengarda; e
-os amigos de Carlos, descoberto o segredo, chamavam-lhe j· _Eurico o
-presbytero_, dirigiam para Cellas missivas pelo correio com este nome
-odioso.
-
-Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do
-governo civil passou junto d'elle com o filhinho pela m„o. Pela primeira
-vez via t„o de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e
-macilento. Mas o pequerrucho era adoravel, muito gordo, parecendo mais
-roliÁo por aquelle dia de janeiro sob os agasalhos de l„ azul,
-tremelicando nas pobres perninhas rÙxas de frio, e rindo na clara
-luz--rindo todo elle, pelos olhos, pelas covinhas do queixo, pelas duas
-rosas das faces. O pae amparava-o; e o encanto, o cuidado com que o
-rapaz ia assim guiando os passos do seu filho, impressionou Carlos. Era
-no momento em que elle lia Michelet--e enchia-lhe a alma a veneraÁ„o
-litteraria da santidade domestica. Sentiu-se canalha em andar alli de
-cima do seu _dog-cart_, a preparar friamente a vergonha, e as lagrimas
-d'aquelle pobre pae t„o inoffensivo no seu paletot coÁado! Nunca mais
-respondeu ·s cartas em que Hermengarda lhe chamava _seu ideal_. Decerto
-a rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo civil,
-d'ahi por diante, dardejava sobre elle olhares sangrentos.
-
-Mas a grande ´topada sentimental de Carlosª, como disse o Ega, foi
-quando elle, ao fim d'umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga
-hespanhola, e a installou n'uma casa ao pÈ de Cellas. Chamava-se
-Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mez uma vittoria com um cavallo branco
-e Encarnacion fanatisou Coimbra como a appariÁ„o d'uma _Dama das
-Camelias_, uma flÙr de luxo das civilisaÁıes superiores. Pela CalÁada,
-pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pallidos de emoÁ„o, quando
-ella passava, reclinada na vittoria, mostrando o sapato de setim, um
-pouco da meia de sÍda, languida e desdenhosa, com um c„osinho branco no
-regaÁo.
-
-Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada
-_Lirio d'Israel_, _Pomba da Arca_, e _Nuvem da Manh„_. Um estudante de
-theologia, rude e sebento transmontano, quiz casar com ella. Apesar das
-instancias de Carlos, Encarnacion recusou; e o theologo comeÁou a rondar
-Cellas, com um navalh„o, para ´beber o sangueª ao Maia. Carlos teve de
-lhe dar bengaladas.
-
-Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intoleravel, fallando sem cessar
-d'outras paixıes que inspir·ra em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe
-dera o conde de tal, o marquez sicrano, da grande posiÁ„o da sua familia
-ainda aparentada com os Medina-C[oe]li: os seus sapatos de setim verde
-eram t„o antipathicos como a sua voz estridula: e quando tentava
-elevar-se ·s conversaÁıes que ouvia, rompia a chamar ladrıes aos
-republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua _gracia_, o seu
-_salero_--sendo muito conservadora como todas as prostitutas. Jo„o da
-Ega odiava-a. E Craveiro declarou que n„o voltava aos PaÁos de Cellas
-emquanto por l· apparecesse aquelle mont„o de carne, pago ao arratel,
-como a de vacca.
-
-Emfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos
-surprehendeu-a com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ahi
-estava, emfim, um pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos
-Medina-C[oe]li, o _Lirio d'Israel_, a admiradora dos Bourbons, foi
-recambiada a Lisboa e · rua de S. Roque, seu elemento natural.
-
-Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em
-Cellas. Affonso viera de Santa Olavia, VillaÁa de Lisboa; toda a tarde
-no quintal, d'entre as acacias e as bella-sombras, subiram ao ar mÛlhos
-de foguetes; e Jo„o da Ega, que lev·ra o seu ultimo _R_ no seu ultimo
-anno, n„o descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas
-venezianas pelos ramos, no trapesio e em roda do poÁo, para a
-illuminaÁ„o da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, VillaÁa,
-enfiado e tremulo, fez um _speech_; ia citar o nosso _immortal Castilho_
-quando sob as janellas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o
-_Hymno Academico_. Era uma serenata.--Ega, vermelho, de batina
-desabotoada, a luneta para traz das costas, correu · sacada, a perorar:
-
---Ahi temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, comeÁando a sua
-gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma--ou acabar
-de a matar, segundo as circumstancias! A que parte remota d'estes reinos
-n„o chegou j· a fama do seu genio, do seu _dog-cart_, do sebaceo
-_accessit_ que lhe ennodÙa o passado, e d'este vinho do Porto,
-contemporaneo dos heroes de 20, que eu, homem de revoluÁ„o e homem de
-carraspana, eu, Jo„o da Ega, Johanes ab Ega...
-
-O grupo escuro em baixo desatou aos _vivas_. A philarmonica, outros
-estudantes, invadiram os PaÁos. AtÈ tarde, sob as arvores do quintal, na
-sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de
-dÙce, n„o cessou d'estalar o _champagne_. E VillaÁa, limpando a testa, o
-pescoÁo, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo tambem:
-
---Grande coisa, ter um curso!
-
-
-E ent„o Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um
-anno passou. Cheg·ra esse outono de 1875: e o avÙ installado emfim no
-Ramalhete esperava por elle anciosamente. A ultima carta de Carlos viera
-de Inglaterra, onde andava, dizia elle, a estudar a admiravel
-organisaÁ„o dos hospitaes de crianÁas. Assim era: mas passeava tambem
-por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idyllio
-errante pelos lagos da Escocia, com uma senhora hollandeza, separada de
-seu marido, veneravel magistrado da Haya, uma M.^{me} Rughel, soberba
-creatura de cabellos d'ouro fulvo, grande e branca como uma nympha de
-Rubens.
-
-Depois comeÁaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas successivas de
-livros, outras de instrumentos e apparelhos, toda uma bibliotheca e todo
-um laboratorio--que trazia o VillaÁa, manh„s inteiras, aturdido pelos
-armazens da alfandega.
-
---O meu rapaz vem com grandes idÈas de trabalho, dizia Affonso aos
-amigos.
-
-Havia quatorze mezes que elle o n„o via, o ´seu rapazª, a n„o ser n'uma
-photographia mandada de Mil„o, em que todos o acharam magro e triste. E
-o coraÁ„o batia-lhe forte, na linda manh„ de outono, quando do terraÁo
-do Ramalhete, de binoculo na m„o, viu assomar vagarosamente, por traz do
-alto predio fronteiro, um grande paquete do _Royal Mail_ que, lhe trazia
-o seu neto.
-
-¡ noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o
-VillaÁa--n„o se fartavam d'admirar ´o bem que a viagem fizera a Carlosª.
-Que differenÁa da photographia! Que forte, que saudavel!
-
-Era decerto um formoso e magnifico moÁo, alto, bem feito, de hombros
-largos, com uma testa de marmore sob os anneis dos cabellos pretos, e os
-olhos dos Maias, aquelles irresistiveis olhos do pai, de um negro
-liquido, ternos como os d'elle e mais graves. Trazia a barba toda, muito
-fina, castanho-escura, rente na face, aguÁada no queixo--o que lhe dava,
-com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma physionomia de
-bello cavalleiro da RenascenÁa. E o avÙ, cujo olhar risonho e humido
-transbordava d'emoÁ„o, todo se orgulhava de o vÍr, de o ouvir, n'uma
-larga veia, fallando da viagem, dos bellos dias de Roma, do seu mau
-humor na Prussia, da originalidade de Moscow, das paizagens da
-Hollanda...
-
---E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio em
-que Carlos estivera bebendo o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu
-fazer?
-
---Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo.
-DescanÁar primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional!
-
-Ao outro dia, com effeito, Affonso veiu encontral-o na sala de
-bilhar--onde tinham sido collocados os caixotes--a despregar, a
-desempacotar, em mangas de camisa e assobiando com enthusiasmo. Pelo
-ch„o, pelos soph·s, alastrava-se toda uma litteratura em rumas de
-volumes graves; e aqui e alÈm, por entre a palha, atravÈs das lonas
-descozidas, a luz faiscava n'um crystal, ou reluziam os vernizes, os
-metaes polidos de apparelhos. Affonso pasmava em silencio para aquelle
-pomposo apparato do saber.
-
---E onde vaes tu accommodar este museo?
-
-Carlos pensara em arranjar um vasto laboratorio alli perto no bairro,
-com fornos para trabalhos chimicos, uma sala disposta para estudos
-anatomicos e physiologicos, a sua bibliotheca, os seus apparelhos, uma
-concentraÁ„o methodica de todos os instrumentos de estudo...
-
-Os olhos do avÙ illuminavam-se ouvindo este plano grandioso.
-
---E que n„o te prendam questıes de dinheiro, Carlos! NÛs fizemos n'estes
-ultimos annos de Santa Olavia algumas economias...
-
---Boas e grandes palavras, avÙ! Repita-as ao VillaÁa.
-
-As semanas foram passando n'estes planos de installaÁ„o. Carlos trazia
-realmente resoluÁıes sinceras de trabalho: a sciencia como mera
-ornamentaÁ„o interior do espirito, mais inutil para os outros que as
-proprias tapessarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de
-solitario: desejava ser util. Mas as suas ambiÁıes fluctuavam, intensas
-e vagas; ora pensava n'uma larga clinica; ora na composiÁ„o macissa de
-um livro iniciador; algumas vezes em experiencias physiologicas,
-pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou suppunha sentir, o tumulto
-de uma forÁa, sem lhe discernir a linha d'applicaÁ„o. ´Alguma cousa de
-brilhante,ª como elle dizia: e isto para elle, homem de luxo e homem
-d'estudo, significava um conjuncto de representaÁ„o social e de
-actividade scientifica; o remecher profundo de idÈas entre as
-influencias delicadas da riqueza; os elevados vagares da philosophia
-entremeados com requintes de _sport_ e de gosto; um Claude Bernard que
-fosse tambem um Morny... No fundo era um _dilletante_.
-
-VillaÁa fÙra consultado sobre a localidade propria para o laboratorio; e
-o procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incanÁavel.
-Primeira cousa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?...
-
-Carlos n„o decidira fazer _exclusivamente_ clinica: mas desejava de
-certo dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica.
-Ent„o VillaÁa suggeriu que o consultorio estivesse separado do
-laboratorio.
-
---E a minha raz„o È esta: a vista de apparelhos, machinas, cousas, faz
-esmorecer os doentes...
-
---Tem vocÍ raz„o, VillaÁa! exclamou Affonso. J· meu pae dizia: poupe-se
-ao boi a vista do malho.
-
---Separados, separados, meu senhor, affirmou o procurador n'um tom
-profundo.
-
-Carlos concordou. E VillaÁa bem depressa descobriu, para o laboratorio,
-um antigo armazem, vasto e retirado, ao fundo de um pateo, junto ao
-largo das Necessidades.
-
---E o consultorio, meu senhor, n„o È aqui, nem acol·; È no Rocio, alli
-em pleno Rocio!
-
-Esta idÈa do VillaÁa n„o era desinteressada. Grande enthusiasta da
-_Fus„o_, membro do Centro progressista, VillaÁa Junior aspirava a ser
-vereador da camara, e mesmo em dias de satisfaÁ„o superior (como quando
-o seu anniversario natalicio vinha annunciado no _Illustrado_, ou quando
-no Centro citava com applauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptidıes
-mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultorio
-gratuito, no Rocio, o consultorio do dr. Maia, ´do seu Maiaª reluziu-lhe
-logo vagamente como um elemento de influencia. E tanto se agitou, que
-d'ahi a dois dias tinha l· alugado um primeiro andar d'esquina.
-
-Carlos mobilou-o com luxo. N'uma antecamara, guarnecida de banquetas de
-marroquim, devia estacionar, · franceza, um creado de librÈ. A sala de
-espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas,
-as plantas em vasos de Rouen, quadros de muita cÙr, e ricas poltronas
-cercando a jardineira coberta de collecÁıes do _Charivari_, de vistas
-estereoscopicas, d'albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente
-o ar triste de consultorio atÈ um piano mostrava o seu teclado branco.
-
-O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quasi austero, todo em
-velludo verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que
-comeÁavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do
-Ramalhete, o Cruges, o marquez de Souzellas, com quem percorrera a
-Italia--vieram vÍr estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano
-e achou-o abominavel; Taveira absorveu-se nas photographias d'actrizes;
-e a unica approvaÁ„o franca veiu do marquez, que depois de contemplar o
-divan do gabinete, verdadeiro movel de serralho, vasto, voluptuoso,
-fÙfo, experimentou-lhe a doÁura das molas e disse, piscando o olho a
-Carlos:
-
---A calhar.
-
-N„o pareciam acreditar n'estes preparativos. E todavia eram sinceros.
-Carlos atÈ fizera annunciar o consultorio nos jornaes; quando viu porem
-o seu nome em letras grossas, entre o de uma engommadeira · Boa Hora e
-um reclamo de casa de hospedes,--encarregou VillaÁa de retirar o
-annuncio.
-
-Occupava-se ent„o mais do laboratorio, que decidira installar no
-armazem, ·s Necessidades. Todas as manh„s, antes de almoÁo, Ìa visitar
-as obras. Entrava-se por um grande pateo, onde uma bella sombra cobria
-um poÁo, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam
-ao muro. Carlos j· decidira transformar aquelle espaÁo em fresco
-jardinete inglez; e a porta do casar„o encantava-o, ogival e nobre,
-resto de fachada d'ermida, fazendo um accesso veneravel para o seu
-sanctuario de sciencia. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim;
-sempre um vago martellar preguiÁoso n'uma poeira alvadia; sempre as
-mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um
-carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar alli, desde seculos,
-aplainando uma taboa eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os
-trabalhadores que andavam alargando a claraboia, n„o cessavam de
-assobiar, no sol d'inverno, alguma lamuria de fado.
-
-Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d'obras, que lhe asseverava
-invariavelmente ´como d'ahi a dois dias havia de s. ex.^a vÍr a
-differenÁa.ª Era um homem de meia edade, risonho, de fallar doce, muito
-barbeado, muito lavado, que morava ao pÈ do Ramalhete, e tinha no bairro
-fama de republicano. Carlos, por sympathia, como visinho, apertava-lhe
-sempre a m„o: e o sr. Vicente, considerando-o por isso um ´avanÁadoª, um
-democrata, confiava-lhe as suas esperanÁas. O que elle desejava primeiro
-que tudo era um 93, como em FranÁa...
-
---O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada, e roliÁa face
-do demagogo.
-
---N„o, senhor, um navio, um simples navio...
-
---Um navio?
-
---Sim, senhor, um navio fretado · custa da naÁ„o, em que se mandasse
-pela barra fÛra o rei, a familia real, a _cambada_ dos ministros, dos
-politicos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc.
-
-Carlos sorria, ·s vezes argumentava com elle.
-
---Mas est· o sr. Vicente bem certo, que apenas a _cambada_, como t„o
-exactamente diz, desapparecesse pela barra fÛra, ficavam resolvidas
-todas as cousas e tudo atolado em felicidade?
-
-N„o, o sr. Vicente n„o era t„o ´burroª que assim pensasse. Mas,
-supprimida a cambada, n„o via s. ex.^a? Ficava o paiz desatravancado; e
-podiam ent„o comeÁar a governar os homens de saber e de progresso...
-
---Sabe v. ex.^a qual È o nosso mal? N„o È m· vontade d'essa gente; È
-muita somma de ignorancia. N„o sabem. N„o sabem nada. Elles n„o s„o
-maus, mas s„o umas cavalgaduras!
-
---Bem, ent„o essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando o
-relogio e despedindo-se d'elle com um valente _shakehands_, veja se me
-andam. N„o lh'o peÁo como proprietario, È como correligionario.
-
---D'aqui a dois dias ha de v. ex.^a vÍr a differenÁa, respondia o mestre
-d'obras, desbarretando-se.
-
-No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almoÁo.
-Carlos encontrava quasi sempre o avÙ j· na sala de jantar, acabando de
-percorrer algum jornal junto ao fog„o, onde a tepida suavidade d'aquelle
-fim de outono n„o permittia accender lume, mas verdejando todo de
-plantas d'estufa.
-
-Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no
-seu luxo macisso e sobrio, as baixellas antigas; pelas tapeÁarias ovaes
-dos muros apainelados corriam scenas de ballada, caÁadores medivaes
-soltando o falc„o, uma dama entre pagens alimentando os cysnes de um
-lago, um cavalleiro de viseira callada seguindo ao longo d'um rio; e
-contrastando com o tecto escuro de castanho entalhado a meza
-resplandecia com as flÙres entre os crystaes.
-
-O reverendo Bonifacio, que desde que se tornara dignatario da Egreja
-comia com os senhores, l· estava j·, magestosamente sentado sobre a
-alvura nevada da toalha, · sombra de algum grande ramo. Era alli, no
-aroma das rosas, que o veneravel gato gostava de lamber, com o seu vagar
-estupido, as sopas de leite servidas n'um covilhete de Strasburgo,
-depois agachava-se, traÁava por diante do peito a fofa pluma da sua
-cauda, e, de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo elle uma bola
-entufada de pello branco malhado de ouro, gosava de leve uma sesta
-macia.
-
-Affonso,--como confessava, sorrindo e humilhado--Ìa-se tornando com a
-velhice um _gourmet_ exigente; e acolhia, com uma concentraÁ„o de
-critico, as obras d'arte do _chef_ francez que tinham agora, um
-cavalheiro de mau genio, todo bonapartista, muito parecido com o
-imperador, e que se chamava Mr. Theodore. Os almoÁos no Ramalhete eram
-sempre delicados e longos; depois, ao cafÈ, ficavam ainda conversando; e
-passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamaÁ„o,
-precipitando-se sobre relogio, se lembrava do seu consultorio. Bebia um
-calice de Chartreuse, accendia · pressa um charuto:
-
---Ao trabalho, ao trabalho! exclamava.
-
-E o avÙ, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquella
-occupaÁ„o, emquanto elle ficava alli a vadiar toda a manh„...
-
---Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez v· para l·
-passar um bocado, occupar-me de chimica.
-
---E ser talvez um grande chimico. O avÙ tem j· a feitio.
-
-O velho sorria.
-
---Esta carcassa j· n„o d· nada, filho. Est· pedindo eternidade!
-
---Quer alguma cousa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos, abotoando
-· pressa as suas luvas de governar.
-
---Bom dia de trabalho.
-
---Pouco provavel...
-
-E no _dog-cart_, com aquella linda egoa, a _Tunante_, ou no _phaeton_
-com que maravilhava Lisboa, Carlos l· partia em grande estylo para a
-Baixa, para ´o trabalho.ª
-
-O seu gabinete, no consultorio, dormia n'uma paz tepida entre os
-espessos velludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda
-verde corridas. Na sala, porÈm, as tres janellas abertas bebiam · farta
-a luz; tudo alli parecia festivo; as poltronas em torno da jardineira
-estendiam os seus braÁos, amaveis e convidativas; o teclado branco do
-piano ria e esperava, tendo abertas por cima as _CanÁıes de Gounod_; mas
-n„o apparecia j·mais um doente. E Carlos,--exactamente como o creado
-que, na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o _Diario de
-Noticias_, acaÁapado na banqueta--accendia um cigarro Laferme, tomava
-uma Revista, e estendia-se no divan. A prosa porÈm dos artigos estava
-como embebida do tedio moroso do gabinete: bem depressa bocejava,
-deixava caÌr o volume.
-
-Do Rocio, o ruido das carroÁas, os gritos errantes de pregıes, o rolar
-dos americanos, subiam, n'uma vibraÁ„o mais clara, por aquelle ar fino
-de novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete,
-vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as cÛpas mesquinhas das arvores
-de municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurraÁ„o lenta de
-cidade preguiÁosa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam ir
-penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando pelos
-velludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos n'uma
-indolencia e n'uma dormencia... Com a cabeÁa na almofada, fumando, alli
-ficava, n'essa quietaÁ„o de sesta, n'um scismar que se Ìa desprendendo,
-vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que se eleva d'uma brazeira meia
-apagada; atÈ que com um esforÁo sacudia este torpor, passeiava na sala,
-abria aqui e alÈm pelas estantes um livro, tocava no piano dois
-compassos de walsa, espriguiÁava-se--e, com os olhos nas flores do
-tapete, terminava por decidir que aquellas duas horas de consultorio
-eram estupidas!
-
---Est· ahi o carro? Ìa perguntar ao creado.
-
-Accendia bem depressa outro charuto, calÁava as luvas, descia, bebia um
-largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo:
-
---Dia perdido!
-
-
-Foi uma d'essas manh„s que preguiÁando assim no soph· com a _Revista dos
-Dois Mundos_ na m„o, elle ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz
-bem conhecida, bem querida, que dizia por tr·s do reposteiro:
-
---Sua Alteza Real est· visivel?
-
---Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do soph·.
-
-E cahiram nos braÁos um do outro, beijando-se na face, enternecidos.
-
---Quando chegaste tu?
-
---Esta manh„. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos
-hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba!
-Tu vens esplendido d'esses Londres, d'essas civilisaÁıes superiores.
-Est·s com um ar RenascenÁa, um ar Valois... N„o ha nada como a barba
-toda!
-
-Carlos ria, abraÁando-o outra vez.
-
---E d'onde vens tu, de Celorico?
-
---Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O figado, o baÁo,
-uma infinidade de visceras compromettidas. Emfim, doze annos de vinhos e
-aguas ardentes...
-
-Depois fallaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em
-Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, ·s
-varzeas de Celorico, o adeus de eternidade.
-
---Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me succede com
-minha m„e... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir
-viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, n„o
-caÌu! Fiquei na quinta, fazendo epigrammas ao padre Seraphim e a toda a
-cÙrte do cÈu. Chega julho, e apparece nos arredores uma epidemia de
-anginas. Um horror, creio que vocÍs lhe chamam diphtericas... A mam„
-salta immediatamente ‡ conclus„o que È a minha presenÁa, a presenÁa do
-atheo, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que offendeu Nosso Senhor e
-attrahiu o flagello. Minha irm„ concorda. Consultam o padre Seraphim. O
-homem, que n„o gosta de me vÍr na quinta, diz que È possivel que haja
-indignaÁ„o do Senhor--e minha m„e vem pedir-me quasi de joelhos, com a
-bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que n„o esteja
-alli chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz...
-
---E a epidemia...
-
---Desappareceu logo, disse o Ega, comeÁando a puxar devagar dos dedos
-magros uma longa luva cÙr de canario.
-
-Carlos mirava aquellas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o
-cabello que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na
-gravata de setim uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dandy,
-vistoso, paramentado, artificial e com pÛ d'arroz--e Carlos deixou emfim
-escapar a exclamaÁ„o impaciente que lhe bailava nos labios:
-
---Ega, que extraordinario casaco!
-
-Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o
-antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelliÁa, uma sumptuosa
-pelliÁa de principe russo, agasalho de trenÚ e de neve, ampla, longa,
-com alamares trespassados · Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoÁo
-esganiÁado e dos pulsos de thisico uma rica e fÙfa espessura de pelles
-de marta.
-
---… uma boa pelliÁa, hein? disse elle logo, erguendo-se, abrindo-a,
-exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss... Beneficios
-da epidemia.
-
---Como podes tu supportar isso?
-
---… um bocado pesada, mas tenho andado constipado.
-
-Tornou a recostar-se no soph·, adiantando o sapato de verniz muito
-bicudo, e, de monocolo no olho, examinou o gabinete.
-
---E tu que fazes? conta-me l·... Tens isto explendido!
-
-Carlos fallou dos seus planos, de altas idÈas de trabalho, das obras do
-laboratorio...
-
---Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega
-interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o velludo dos reposteiros,
-mirar os torneados da secret·ria de pau preto.
-
---N„o sei. O VillaÁa È que deve saber...
-
-E Ega, com as m„os enterradas nos vastos bolsos da pelliÁa,
-inventariando o gabinete, fazia consideraÁıes:
-
---O velludo d· seriedade... E o verde escuro È a cÙr suprema, È a cÙr
-esthetica... Tem a sua express„o propria, enternece e faz pensar...
-Gosto d'este divan. Movel de amor...
-
-Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho,
-estudando os ornatos.
-
---Tu Ès o grandioso Salom„o, Carlos! O papel È bonito... E o
-cretonesinho agrada-me.
-
-Apalpou-o tambem. Uma begonia, manchada da sua ferrugem de prata, n'um
-vaso de Rouen, interessou-o. Queria saber o preÁo de tudo; e diante do
-piano, olhando o livro de musica aberto, as _CanÁıes de Gounod_, teve
-uma surpreza enternecida:
-
---Homem, È curioso... C· me apparece! A _Barcarolla_! … deliciosa,
-hein?...
-
-
- Dites, la jeune belle,
- Ou voulez-vous aller?
- La voile...
-
-
-Estou um bocado rouco... Era a nossa canÁ„o na Foz!
-
-Carlos teve outra exclamaÁ„o, e crusando os braÁos diante d'elle:
-
---Tu est·s extraordinario, Ega! Tu Ès outro Ega!... A proposito da
-Foz... Quem È essa Madame Cohen, que estava tambem na Foz, de quem tu,
-em cartas successivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin, na
-Haia, em Londres, me fallavas como os arrobos do _Cantico dos Canticos_?
-
-Um leve rubor subiu ·s faces do Ega. E limpando negligentemente o
-monocolo ao lenÁo de seda branca:
-
---Uma judia. Por isso usei o lyrismo biblico. … a mulher do Cohen, has
-de conhecer, um que È director do _Banco Nacional_... DÈmos-nos
-bastante. … sympathica... Mas o marido È uma besta... Foi uma
-_flitartion_ de praia. _Voila tout_.
-
-Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o lume ao charuto, e
-ainda cÛrado.
-
---Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocÍs no Ramalhete? O avÙ
-Affonso? Quem vae por l·?...
-
-No Ramalhete, o avÙ fazia o seu _whist_ com os velhos parceiros. Ia o D.
-Diogo, o decrepito le„o, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os
-bigodes... Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de
-sangue, · espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbroken...
-
---N„o conheÁo. Refugiado?... Polaco?...
-
---N„o, ministro da Filandia... Queria-nos alugar umas cocheiras e
-complicou esta simples transacÁ„o com tantas finuras diplomaticas,
-tantos documentos, tantas cousas com o sello real da Filandia, que o
-pobre VillaÁa aturdido, para se desembaraÁar, remetteu-o ao avÙ. O avÙ,
-desnorteado tambem, offereceu-lhe as cocheiras de graÁa. Steinbroken
-considera isto um serviÁo feito ao rei da Filandia, · Filandia, vae
-visitar o avÙ, em grande estado, com o secretario da legaÁ„o, o consul,
-o vice-consul...
-
---Isso È sublime!
-
---O avÙ convida-o a jantar... E como o homem È muito fino, um gentleman,
-enthusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma auctoridade
-no wisth, o avÙ adopta-o. N„o sae do Ramalhete.
-
---E de rapazes?
-
-De rapazes, apparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no
-Tribunal de Contas: um Cruges, que o Ega n„o conhecia, um diabo
-adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de genio; o marquez de
-Souzellas...
-
---N„o ha mulheres?
-
---N„o ha quem as receba. … um covil de solteirıes. A viscondessa,
-coitada...
-
---Bem sei. Um apopletÈ...
-
---Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem o Silveirinha,
-chegou-nos ultimamente o Silveirinha...
-
---O de Resende, o cretino?
-
---O cretino. Enviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado thisico, todo
-carregado de luto... Um funebre.
-
-O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e solida felicidade que
-Carlos j· notara, disse puchando lentamente os punhos:
-
---… necessario reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo,
-uma bohemiasinha dourada, umas _soirÈes_ de inverno, com arte, com
-litteratura... Tu conheces o Craft?
-
---Sim, creio que tenho ouvido fallar...
-
-Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer o Craft! O Craft
-era simplesmente a melhor cousa que havia em Portugal...
-
---… um inglez, uma especie de doido?...
-
-Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era essa a opini„o da rua dos
-Fanqueiros; o indigena, vendo uma originalidade t„o forte como a de
-Craft, n„o podia explical-a sen„o pela doidice. O Craft era um rapaz
-extraordinario!... Agora tinha elle chegado da Suecia, de passar tres
-mezes com os estudantes de Upsala. Estava tambem na Foz... Uma
-individualidade de primeira ordem!
-
---… um negociante do Porto, n„o È?
-
---Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a
-face, enojado de tanta ignorancia. O Craft È filho d'um _clergiman_ da
-egreja ingleza do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcut· ou
-d'Australia, um Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna.
-Mas n„o negoceia, nem sabe o que isso È. D· largas ao seu temperamento
-byroneano, È o que faz. Tem viajado por todo o universo, collecciona
-obras d'arte, bateu-se como voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim
-vive, _vive_ na grande, na forte, na heroica accepÁ„o da palavra. …
-necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar por elle... Tens raz„o,
-caramba, est· calor.
-
-DesembaraÁou-se da opulenta pelliÁa, e appareceu em peitilho de camisa.
-
---O que! tu n„o trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem collete?
-
---N„o; ent„o n„o a podia aguentar... Isto È para o effeito moral, para
-impressionar o indigena... Mas, n„o ha negal-o, È pesada!
-
-E immediatamente voltou · sua idÈa: apenas Craft chegasse do Porto
-relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron d'arte e
-dilletantismo, rapazes e mulheres--tres ou quatro mulheres para
-cortarem, com a graÁa dos decotes, a severidade das philosophias...
-
-Carlos ria-se d'esta idÈa do Ega. Tres mulheres de gosto e de luxo, em
-Lisboa, para adornar um cenaculo! Lamentavel illus„o de um homem de
-Celorico! O marquez de Souzella tinha tentado, e para uma vez sÛ, uma
-cousa bem mais simples--um jantar no campo com actrizes. Pois fÙra o
-escandalo mais engraÁado e mais caracteristico: uma n„o tinha creada e
-queria levar comsigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia
-que, acceitando, o brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas o
-amante, quando soube, deu-lhe uma cÛÁa. Esta n„o tinha vestido para ir;
-aquella pretendia que lhe garantissem uma libra; houve uma que se
-escandalisou com o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os
-queridos, os pÙlhos, complicaram medonhamente a quest„o; uns exigiam ser
-convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos,
-fizeram-se intrigas,--emfim esta cousa banal, um jantar com actrizes,
-resultou em o Tarquinio do Gymnasio levar uma facada...
-
---E aqui tens tu Lisboa.
-
---Emfim, exclamou o Ega, se n„o apparecerem mulheres, importam-se, que È
-em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis,
-idÈas, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo,
-industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo
-paquete. A civilisaÁ„o custa-nos carissima com os direitos da alfandega:
-e È em segunda m„o, n„o foi feita para nÛs, fica-nos curta nas mangas...
-NÛs julgamo-nos civilisados como os negros de S. ThomÈ se suppıem
-cavalheiros, se suppıem mesmo _brancos_, por usarem com a tanga uma
-casaca velha do patr„o... Isto È uma choldra torpe. Onde puz eu a
-charuteira?
-
-DesembaraÁado da magestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega
-reapparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em
-verve, lanÁando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas
-grandes phrases, n'uma lucta constante com o monocolo, que lhe caÌa do
-olho, que elle procurava pelo peito, pelos hombros, pelos rins,
-retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se
-tambem, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo, Gambetta, o
-Nihilismo; depois, com ferocidade e · uma, malharam sobre o paiz...
-
-Mas o relogio ao lado bateu quatro horas; immediatamente Ega saltou
-sobre a pelissa, sepultou-se n'ella, aguÁou o bigode ao espelho,
-verificou a _pose_, e, encouraÁado nos seus alamares, sahio com um
-arsinho de luxo e d'aventura.
-
---John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar,
-onde est·s tu?
-
---No _Universal_, esse sanctuario!
-
-Carlos abominava o _Universal_, queria que elle viesse para o Ramalhete.
-
---N„o me convÈm...
-
---Em todo o caso vaes hoje l· jantar, vÍr o avÙ.
-
---N„o posso. Estou compromettido com a besta do Cohen... Mas vou l·
-·manh„ almoÁar.
-
-J· nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo, gritou para
-cima:
-
---Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro!
-
---O quÍ! est· prompto? exclamou Carlos, espantado.
-
---Est· esboÁado, · brocha larga...
-
-O _Livro do Ega_! FÙra em Coimbra, nos dois ultimos annos, que elle
-comeÁ·ra a fallar do seu livro, contando o plano, soltando titulos de
-capitulos, citando pelos cafÈs phrases de grande sonoridade. E entre os
-amigos do Ega discutia-se j· o livro do Ega como devendo iniciar, pela
-fÛrma e pela idÈa, uma evoluÁ„o litteraria. Em Lisboa (onde elle vinha
-passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fÙra annunciado como um
-acontecimento. Bachareis, contemporaneos ou seus condiscipulos, tinham
-levado de Coimbra, espalhado pelas provincias e pelas ilhas a fama do
-livro do Ega. J· de qualquer modo essa noticia cheg·ra ao Brazil... E
-sentindo esta anciosa espectativa em torno do seu livro--o Ega
-decidira-se emfim a escrevel-o.
-
-Devia ser uma epopÍa em prosa, como elle dizia, dando, sob episodios
-symbolicos, a historia das grandes phases do Universo e da Humanidade.
-Intitulava-se _Memorias d'um Atomo_, e tinha a fÛrma d'uma
-autobiographia. Este atomo (o atomo do Ega, como se lhe chamava a serio
-em Coimbra) apparecia no primeiro capitulo, rolando ainda no vago das
-Nebuloses primitivas: depois vinha embrulhado, faisca candente, na massa
-de fogo que devia ser mais tarde a Terra: emfim, fazia parte da primeira
-folha de planta que surgiu da crosta ainda molle do globo. Desde ent„o,
-viajando nas incessantes transformaÁıes da substancia, o atomo do Ega
-entrava na rude structura do Orango, pae da humanidade--e mais tarde
-vivia nos labios de Plat„o. Negrejava no burel dos santos, refulgia na
-espada dos heroes, palpitava no coraÁ„o dos poetas. Gota de agua nos
-lagos de GalilÈa, ouvira o fallar de Jesus, aos fins da tarde, quando os
-apostolos recolhiam as redes; nÛ de madeira na tribuna da ConvenÁ„o,
-sentira o frio da m„o de Robespierre. Errara nos vastos anneis de
-Saturno; e as madrugadas da terra tinham-n'o orvalhado, petala
-resplandecente de um dormente e languido lyrio. FÙra omnipresente, era
-omnisciente. Achando-se finalmente no bico da penna do Ega, e canÁado
-d'esta jornada atravez do Ser, repousava--escrevendo as suas
-_Memorias_... Tal era este formidavel trabalho--de que os admiradores do
-Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de respeito:
-
---… uma Biblia!
-
-
-
-
-V
-
-
-No escriptorio de Affonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a
-partida de whist. A mesa estava ao lado da chaminÈ, onde a chamma morria
-nos carvıes escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo
-japonez, por causa da bronchite de D. Diogo e do seu horror ao ar.
-
-Esse velho dandy,--a quem as damas de outras eras chamavam o ´Lindo
-Diogoª, gentil toureiro que dormira n'um leito real--acabava justamente
-de ter um dos seus accessos de tosse, cavernosa, aspera, dolorosa, que o
-sacudiam como uma ruina, que elle abafava no lenÁo, com as veias
-inchadas, rÙxo atÈ · raiz dos cabellos.
-
-Mas pass·ra. Com a m„o ainda tremula, o decrepito le„o limpou as
-lagrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compoz a rosa de
-musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um golo da sua agua chasada, e
-perguntou a Affonso, seu parceiro, n'uma voz rouca e surda:
-
---Paus, hein?
-
-E de novo, sobre o panno verde, as cartas foram cahindo n'um d'aquelles
-silencios que se seguiam ·s tosses de D. Diogo. Sentia-se sÛ a
-respiraÁ„o assobiada, quasi silvante, do general Sequeira, muito infeliz
-essa noite, desesperado com o VillaÁa seu parceiro, resing„o, e com todo
-o sangue na face.
-
-Um tom fino retiniu, o relogio Luiz XV foi ferindo. alegremente,
-vivamente, a meia noite;--depois a toada argentina do seu minuete vibrou
-um momento e morreu. Houve de novo um silencio. Uma renda vermelha
-recobria os globos de dois grandes candieiros Carcel; e a luz assim
-coada, cahindo sobre os damascos vermelhos das paredes, dos assentos,
-fazia como uma doce refracÁ„o cÙr de rosa, um vaporoso de nuvem em que a
-sala se banhava e dormia: sÛ, aqui e alÈm, sobre os carvalhos sombrios
-das estantes, rebrilhava em silencio o ouro d'um SËvres, uma pallidez de
-marfim, ou algum tom esmaltado de velha majolica.
-
---O que! ainda encarniÁados! exclamou Carlos que abrira o reposteiro,
-entrava, e com elle o rumor distante de bolas de bilhar.
-
-Affonso, que recolhia a sua vasa, voltou logo a cabeÁa, a perguntar com
-interesse:
-
---Como vae ella? Est· socegada?
-
---Est· muito melhor!
-
-Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga de origem
-alsacianna, casada com o Marcellino padeiro, muito conhecida no bairro
-pelos seus bellos cabellos, loiros, e penteados sempre em tranÁas
-soltas. Tinha estado · morte com uma pneumonia; e apesar de melhor, como
-a padaria ficava defronte, Carlos ainda ·s vezes · noite atravessava a
-rua para a ir vÍr, tranquillisar o Marcellino, que, defronte do leito e
-de gab„o pelos hombros, suffocava soluÁos d'amante, escrevinhando no
-livro de contas.
-
-Affonso interessara-se anciosamente por aquella pneumonia; e agora
-estava realmente agradecido · Marcellina por ter sido salva por Carlos.
-Fallava d'ella commovido; gabava-lhe a linda figura, o aceio alsacianno,
-a prosperidade que trouxera · padaria... Para a convalescenÁa, que se
-approximava, j· lhe mand·ra atÈ seis garrafas de Chateau-Margaux.
-
---Ent„o fÛra de perigo, inteiramente fÛra de perigo?--perguntou VillaÁa,
-com os dedos na caixa do rapÈ, sublinhando muito a sua sollicitude.
-
---Sim, quasi rija--disse Carlos, que se approximara da chaminÈ,
-esfregando as m„os, arrepiado.
-
-… que a noite, fÛra, estava regelada! Desde o anoitecer geava, d'um cÈu
-fino e duro, transbordando de estrellas que rebrilhavam como pontas
-afiadas d'aÁo; e nenhum d'aquelles cavalheiros, desde que se entendia,
-conhecera j·mais o thermometro t„o baixo. Sim, VillaÁa lembrava-se d'um
-janeiro peor no inverno de 64...
-
---… necessario carregar no _punch_, hein, general!--exclamou Carlos,
-batendo galhofeiramente nos hombros macissos do Sequeira.
-
---N„o me opponho, rosnou o outro, que fixava com concentraÁ„o e rancor
-um valete de copas sobre a meza.
-
-Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carvıes: uma chuva d'oiro
-cahiu por baixo, uma chamma mais forte ressaltou, rugiu, alegrando tudo,
-avermelhando em redor as pelles de urso onde o Reverendo Bonifacio,
-espapado, torrava ao calor, ronronava de gÙso.
-
---O Ega deve estar radiante, dizia Carlos com os pÈs · chamma. Tem,
-emfim, justificada a pellissa. A proposito, algum dos senhores tem visto
-o Ega estes ultimos dias?
-
-Ninguem respondeu, no interesse subito que causava a cartada. A longa
-m„o de D. Diogo recolhia de vagar a vasa--e languidamente, no mesmo
-silencio, soltou uma carta de paus.
-
---” Diogo! Û Diogo! gritou Affonso, estorcendo-se, como se o
-trespassasse um ferro.
-
-Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam faiscas, collocou o seu
-valete; Affonso, profundamente infeliz, separou-se do rei de paus;
-VillaÁa bateu de estalo com o az. E immediatamente foi em redor uma
-discuss„o tremenda sobre a puchada de D. Diogo--em quanto Carlos, a quem
-as cartas sempre enfastiavam, se debruÁava a coÁar o ventre fofo do
-veneravel Reverendo.
-
---Que perguntavas tu, filho? disse emfim Affonso erguendo-se, ainda
-irritado, a buscar tabaco para o cachimbo, sua consolaÁ„o nas derrotas.
-O Ega? N„o, ninguem o viu, n„o tornou a apparecer! Est· tambem um bom
-ingrato, esse John...
-
-Ao nome do Ega, VillaÁa, parando de baralhar as cartas, erguera a face
-curiosa:
-
---Ent„o sempre È certo que elle vae montar casa?
-
-Foi Affonso que respondeu, sorrindo e accendendo o cachimbo:
-
---Montar casa, comprar _coupÈ_, deitar librÈ, dar _soirÈes_ litterarias,
-publicar um poema, o diabo!
-
---Elle esteve l· no escriptorio, dizia VillaÁa recomeÁando a baralhar.
-Esteve l· a indagar o que tinha custado o consultorio, a mobilia de
-velludo, etc. O velludo verde deu-lhe no gÙto... Eu, como È um amigo da
-casa, l· lhe prestei informaÁıes, atÈ lhe mostrei as contas.--E
-respondendo a uma pergunta do Sequeira:--Sim, a m„e tem dinheiro, e
-creio que lhe d· o bastante. Que em quanto a mim, elle vem-se metter na
-politica. Tem talento, falla bem, o pae j· era muito regenerador... Alli
-ha ambiÁ„o.
-
---Alli ha mulher, disse D. Diogo, collocando com peso esta decis„o e
-accentuando-a com uma caricia languida · ponta frisada dos bigodes
-brancos. LÍ-se-lhe na cara, basta vÍr-lhe a cara... Alli ha mulher.
-
-Carlos sorria, gabando a penetraÁ„o de D. Diogo, o seu fino olho ·
-Balzac; e Sequeira, logo, franco como velho soldado, quiz saber quem era
-a Dulcinea. Mas o velho dandy declarou, da profundidade da sua
-experiencia, que essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel n„o se
-saberem. Depois passando os dedos magros e lentos pela face, deixou
-cahir d'alto e com condescendencia este juizo:
-
---Eu gosto do Ega, tem apresentaÁ„o; sobretudo tem _degagË_...
-
-Tinham recebido as cartas, fez-se um silencio na meza. O general, vendo
-o seu jogo, soltou um grunhido surdo, arrebatou o cigarro do cinzeiro, e
-puxou-lhe uma fumaÁa furiosa.
-
---Os senhores s„o muito viciosos, vou vÍr a gente do bilhar, disse
-Carlos. Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marquez, a perder j·
-quatro mil rÈis. Querem o _punch_ aqui?
-
-Nenhum dos parceiros respondeu.
-
-E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silencio de solemnidade. O
-marquez, estirado sobre a tabella, com a perna meia no ar, o comeÁo de
-calva alvejando · luz crua que cahia dos _abat-jours_, de porcelana,
-preparava a carambola decisiva. Cruges, que apost·ra por elle, deix·ra o
-divan, o cachimbo turco, e, coÁando com um gesto nervoso a grenha crespa
-que lhe ondeava atÈ · gola do jaquet„o, vigiava a bola inquieto, com os
-olhinhos piscos, o nariz espetado. Do fundo da sala, destacando em
-preto, o Silveirinha, o Eusebiosinho de S.^{ta} Olavia, estendia tambem
-o pescoÁo, affogado n'uma gravata de viuvo de merino negro e sem
-collarinho, sempre macambuzio, mais mollengo que outr'ora, com as m„os
-enterradas nos bolsos--t„o funebre que tudo n'elle parecia complemento
-do luto pesado, atÈ o preto do cabello chato, atÈ o preto das lunetas de
-fumo. Junto ao bilhar, o parceiro do marquez, o conde Steinbroken,
-esperava: e apesar do susto, da emoÁ„o d'homem do norte aferrado ao
-dinheiro, conservava-se correcto, encostado ao taco, sorrindo, sem
-desmanchar a sua linha britanica,--vestido como um inglez, inglez
-tradicional d'estampa, com uma sobrecasaca justa de manga um pouco
-curta, e largas calÁas de xadrez sobre sapatıes de tac„o raso.
-
---Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tostıesinhos para c·,
-Silveirinha!
-
-O marquez carambol·ra, ganhando a partida, e triumphava tambem:
-
---VocÍ trouxe-me a sorte, Carlos!
-
-Steinbroken depozera logo o taco, e alinhava j· sobre a tabella,
-lentamente, uma a uma, as quatro placas perdidas.
-
-Mas o marquez, de giz na m„o, reclamava-o para outras refregas,
-esfaimado d'ouro filandez.
-
---Nada mach!... VÙcÍ hoje 'st· tÍrivÍl! dizia o diplomata, no seu
-portuguez fluente, mas de accento barbaro.
-
-O marquez insistia, plantado diante d'elle, de taco ao hombro como uma
-vara de campino, dominando-o com a sua macissa, desempenada estatura. E
-ameaÁava-o de destinos medonhos n'uma voz possante habituada a ressoar
-nas lezirias; queria-o arruinar ao bilhar, forÁal-o a empenhar aquelles
-bellos anneis, leval-o elle, ministro da Filandia e representante d'uma
-raÁa de reis fortes, a vender senhas · porta da Rua dos Condes!
-
-Todos riam; e Steinbroken tambem, mas com um riso franzido e difficil,
-fixando no marquez o olhar azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo
-da sua myopia a dureza d'um metal. Apesar da sua sympathia pela illustre
-casa de Souzella, achava estas familiaridades, estas tremendas chalaÁas,
-incompativeis com a sua dignidade e com a dignidade da Filandia. O
-marquez, porÈm, coraÁ„o d'ouro, abraÁava-o j· pela cinta, com expans„o:
-
---Ent„o se n„o quereis mais bilhar, um bocadinho de canto, Steinbroken
-amigo!
-
-A isto o ministro accedeu, affavel, preparando-se logo, dando caricias
-ligeiras ·s suissas, e aos anneis do cabello d'um loiro de espiga
-desbotada.
-
-Todos os Steinbrokens, de paes a filhos (como elle dissera a Affonso)
-eram bons barytonos: e isso trouxera · familia n„o poucos proventos
-sociaes. Pela voz captivara seu pae o velho rei Rudolpho III, que o
-fizera chefe das caudelarias, e o tinha noites inteiras nos seus
-quartos, ao piano, cantando psalmos lutheranos, coraes escolares, sagas
-da Dallecarlia--em quanto o taciturno monarcha cachimbava e bebia, atÈ
-que saturado de emoÁ„o religiosa, saturado de cerveja preta, tombava do
-soph·, soluÁando e babando-se. Elle mesmo, Steinbroken, levara parte da
-sua carreira ao piano, j· como addido, j· como segundo secretario. Feito
-chefe de miss„o, absteve-se: foi sÛ quando vio o _Figaro_ celebrar
-repetidamente as walsas do principe Artoff, embaixador da Russia em
-Paris, e a voz de _basso_ do conde de Baspt, embaixador d'Austria em
-Londres, que elle, seguindo t„o altos exemplos, arriscou, aqui e alem,
-em _soirÈes_ mais intimas, algumas melodias filandezas. Emfim cantou no
-PaÁo. E desde ent„o exerceu com zelo, com formalidades, com praxes, o
-seu cargo de ´barytono plenipotenciario,ª como dizia o Ega. Entre
-homens, e com os reposteiros corridos, Steinbroken n„o duvidava todavia
-cantarolar o que elle chamava ´canÁonetas brejÍrasª--o _Amant d'Amanda_,
-ou uma certa ballada ingleza:
-
-
- On the Serpentine,
- Oh my Caroline...
- Oh!
-
-
-Este _oh_! como elle o expellia, gemido, bem puxado, n'um movimento de
-batuque, expressivo e todavia digno... Isto entre rapazes e com os
-reposteiros fechados.
-
-N'essa noite, porÈm, o marquez, que o conduzia pelo braÁo · sala do
-piano, exigia uma d'aquellas canÁıes da Filandia, de tanto sentimento e
-que lhe faziam t„o bem · alma...
-
---Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, _frisk_, _gluzk_... La
-ra l·, l·, l·!
-
---A Primavera, disse o diplomata sorrindo.
-
-Mas antes de entrar na sala, o marquez soltou o braÁo de Steinbroken,
-fez um signal ao Silveirinha para o fundo do corredor--e ahi, sob um
-sombrio painel de _Santa Magdalena no deserto_ penitenciando-se e
-mostrando nudezas ricas de nympha lubrica, interpellou-o quasi com
-aspereza:
-
---Vamos nÛs a saber. Ent„o, decide-se ou n„o?
-
-Era uma negociaÁ„o que havia semanas se arrastava entre elles, a
-respeito d'uma parelha d'egoas. Silveirinha nutria o desejo de montar
-carruagem; e o marquez procurava vender-lhe umas egoas brancas, a que
-elle dizia ´ter tomado enguiÁo, apesar de serem dois nobres animaesª.
-Pedia por ellas um conto e quinhentos mil rÈis. Silveirinha fÙra avisado
-pelo Sequeira, por Travassos, por outros entendedores, que era _uma
-espiga_: o marquez tinha a sua moral propria para negocios de gado, e
-exultaria em _intrujar um pichote_. Apesar de advertido, Eusebio cedendo
-· influencia da grossa voz do marquez, da robustez do seu phisico, da
-antiguidade do seu titulo, n„o ousava recusar. Mas hesitava; e n'essa
-noite deu a resposta usual de forreta, coÁando o queixo, cosido ao muro:
-
---Eu verei, marquez... Um conto e quinhentos È dinheiro...
-
-O marquez ergueu dois braÁos ameaÁadores como duas trancas:
-
---Homem, sim ou n„o! Que diabo... Dois animaes que s„o duas estampas...
-Irra! Sim ou n„o!
-
-Eusebio ageitou as lunetas, rosnou:
-
---Eu verei... Elle È dinheiro. Sempre È dinheiro...
-
---Queria vocÍ, talvez, pagal-as com feijıes? VocÍ leva-me a commetter um
-excesso!
-
-O piano resoou, em dois accordes cheios, sob os dedos do Cruges; e o
-marquez, baboso por musica, immediatamente largou a quest„o das egoas,
-recolheu em pontas de pÈs. Eusebiosinho ainda ficou a remoer, a coÁar o
-queixo; emfim, ·s primeiras notas de Steinbroken, veiu pousar como uma
-sombra silenciosa entre a hombreira e o reposteiro.
-
-Afastado do piano segundo o seu costume, curvado, com a cabelleira como
-pousada ·s costas, Cruges feria o acompanhamento, d'olhos cravados no
-livro de _Melodias Filandezas_. Ao lado, empertigado, quasi official,
-com o lenÁo de seda na m„o, a m„o fincada contra o peito, Steinbroken
-soltava um canto festivo, n'um movimento de tarantella triumphante, em
-que passavam, como um entrechocar de seixos, esses bocados de palavras
-de que o marquez gostava, _frisk_, _slÈcht_, _clikst_, _glukst_. Era a
-_Primavera_--fresca e silvestre, primavera do norte em paiz de
-montanhas, quando toda uma aldÍa danÁa em cÛros sob os fuscos abetos, a
-neve se derrete em cascatas, um sol pallido avelluda os musgos, e a
-brisa traz o aroma das resinas... Nos graves e cheios, as cantoneiras de
-Steinbroken ruborisavam-se, inchavam. Nos tons agudos todo elle se Ìa
-alÁando sobre a ponta dos pÈs, como levado no compasso vivo; despegava
-ent„o a m„o do peito, alargava um gesto, as bellas joias dos seus anneis
-faiscavam.
-
-O marquez, com as m„os esquecidas nos joelhos, parecia beber o canto. Na
-face de Carlos passava um sorriso enternecido pensando em Madame Rughel,
-que viajara na Filandia, e cantava ·s vezes aquella _Primavera_ nas suas
-horas de sentimentalismo flamengo...
-
-Steinbroken soltou um _stacato_ agudo, isolado como uma voz n'um
-alto,--e immediatamente, afastando-se do piano, passou o lenÁo sobre as
-fontes, sobre o pescoÁo, rectificou com um puch„o a linha da
-sobrecasaca, e agradeceu o acompanhamento ao Cruges n'um silencioso
-_shake-hands_.
-
---Bravo! bravo! berrava o marquez, batendo as m„os como malhos.
-
-E outros applausos resoaram · porta, dos parceiros do whist, que tinham
-findado a partida. Quasi immediatamente os escudeiros entravam com um
-serviÁo frio de croquettes e sandwiches, offerecendo St. Emilion ou
-Porto; e sobre uma meza, entre os renques de calices, a puncheira
-fumegou n'um aroma doce e quente de cognac e lim„o.
-
---Ent„o, meu pobre Steinbroken, exclamou Affonso, vindo-lhe bater
-amavelmente no hombro, ainda d· d'esses bellos cantos a estes bandidos,
-que o maltratam assim ao bilhar?
-
---Fui essfÙladito, si, essfÙladito. Agradecido, nÙ, prefiro um copita
-Porto...
-
---Hoje fomos nÛs as victimas, disse-lhe o general respirando com delicia
-o seu punch.
-
---VocÍ t„bem, meu genÍral?
-
---Sim, senhor, tambem me cascaram...
-
-E que dizia o amigo Steinbroken ·s noticias da manh„? perguntava
-Affonso. A queda de Mac-Mahon, a eleiÁ„o de Grevy... O que o alegrava
-n'isto, era o desapparecimento definitivo do antipathico senhor de
-Broglie e da sua _clique_. A impertinencia d'aquelle academico estreito,
-querendo impÙr a opini„o de dois ou tres salıes doutrinarios · FranÁa
-inteira, a toda uma Democracia! Ah, o _Times_ cantava-lh'as!
-
---E o _Punch_? N„o viu o _Punch_? Oh, delicioso!...
-
-O ministro pousara o calice, e esfregando cautelosamente as m„os disse
-n'uma meia voz grave a sua phrase, a phrase definitiva com que julgava
-todos os acontecimentos que apparecem em telegrammas:
-
---… gr‡ve... … eqsessivemente gr‡ve...
-
-Depois fallou-se de Gambetta; e como Affonso lhe attribuia uma dictadura
-proxima, o diplomata tomou mysteriosamente o braÁo de Sequeira, murmurou
-a palavra suprema com que definia todas as personalidades superiores,
-homens d'estado, poetas, viajantes ou tenores.
-
---… um hom[~e] m˚to forte. … um hom[~e] eqsessivemente forte!
-
---O que elle È, È um ronha! exclamou o general, escorropichando o seu
-calice.
-
-E todos tres deixaram a sala, discutindo ainda a republica--em quanto
-Cruges continuava ao piano, vagueando por Mendelsshon e por Choppin,
-depois de ter devorado um prato de croquettes.
-
-O marquez e D. Diogo, sentados no mesmo soph‡, um com a sua chasada
-d'invalido, outro com um copo de S.^t Emilion, a que aspirava o
-_bouquet_, fallavam tambem de Gambetta. O marquez gostava de Gambetta:
-fÙra o unico que durante a guerra mostrara ventas de homem; l· que
-tivesse ´comidoª ou que ´quizesse comerª como diziam,--n„o sabia nem lhe
-importava. Mas era teso! E o sr. Grevy tambem lhe parecia um cidad„o
-serio, optimo para chefe do Estado...
-
---Homem de sala? perguntou languidamente o velho le„o.
-
-O marquez sÛ o vira na AssemblÈa, presidindo e muito digno...
-
-D. Diogo murmurou, com um melancolico desdem na voz, no gesto, no olhar:
-
---O que eu queria a toda essa canalha era a saude, marquez!
-
-O marquez consolou-o, galhofeiro e amavel. Toda essa gente, parecendo
-forte por se occupar de cousas fortes, no fundo tinha asthma, tinha
-pedra, tinha gota... E o Dioguinho era um Hercules...
-
---Um Hercules! O que È, È que vocÍ apaparica-se muito... A doenÁa È um
-mau habito em que a gente se pıe. … necessario reagir... VocÍ devia
-fazer gymnastica, e muita agua fria por essa espinha. VocÍ, na
-realidade, È de ferro!
-
---Enferrujadote, enferrujadote...--replicou o outro, sorrindo e
-desvanecido.
-
---Qual enferrujadote! Se eu fosse cavallo ou mulher, antes o queria a
-vocÍ que a esses badamecos que por ahi andam meio podres... J· n„o ha
-homens da sua tempera, Dioguinho!
-
---J· n„o ha nada, disse o outro grave e convencido, e como o derradeiro
-homem nas ruinas d'um mundo.
-
-Mas era tarde, Ìa-se agasalhar, recolher, depois de acabar a sua
-chasada. O marquez ainda se demorou, preguiÁando no soph·, enchendo
-lentamente o cachimbo, dando um olhar ·quella sala que o encantava com o
-seu luxo Luiz XV, os seus florÌdos e os seus dourados, as cerimoniosas
-poltronas de Beauvais feitas para a amplid„o das anquinhas, as
-tapeÁarias de Gobelins de tons desmaiados, cheias de galantes pastoras,
-longes de parques, laÁos e l„s de cordeiros, sombras d'idyllios mortos,
-transparecendo n'uma trama de seda... ¡quella hora, no adormecimento que
-Ìa pesando, sob a luz suave e quente das velas que findavam, havia ali a
-harmonia e o ar de um outro seculo: e o marquez reclamou do Cruges um
-minuete, uma gavotta, alguma cousa que evocasse Versalhes, Maria
-Antonietta, o rythmo das bellas maneiras e o aroma dos empoados. Cruges
-deixou morrer sob os dedos a melodia vaga que estava diluindo em
-suspiros, preparou-se, alargou os braÁos--e atacou, com um pedal
-solemne, o _Hymno da Carta_. O marquez fugiu.
-
-VillaÁa e Euzebiozinho conversavam no corredor, sentados n'uma das arcas
-baixas de carvalho lavrado.
-
---A fazer politica? perguntou-lhes o marquez ao passar.
-
-Ambos sorriram; VillaÁa respondeu jocosamente:
-
---… necessario salvar a patria!
-
-Eusebio pertencia tambem ao centro progressista, aspirava a influencia
-eleitoral no circulo de Resende, e alli ·s noites no Ramalhete faziam
-conciliabulos. N'esse momento porÈm fallavam dos Maias: VillaÁa n„o
-duvidava confiar ao Silveirinha, homem de propriedade, visinho de
-S.^{ta} Olavia, quasi creado com Carlos, certas cousas que lhe
-desagradavam na casa, onde a auctoridade da sua palavra parecia
-diminuir; assim, por exemplo, n„o podia approvar o ter Carlos tomado uma
-frisa de assignatura.
-
---Para que, exclamava o digno procurador, para que, meu caro senhor?
-Para l· n„o pÙr os pÈs, para passar aqui as noites... Hoje diz que ha
-enthusiasmo, e elle ahi esteve. Tem ido l·, eu sei? duas ou trÍs
-vezes... E para isto d· c· uns poucos de centos de mil rÈis. Podia fazer
-o mesmo com meia duzia de libras! N„o, n„o È governo. No fim a frisa È
-para o Ega, para o Taveira, para o Cruges... Olhe, eu n„o me utiliso
-d'ella; nem o amigo. … verdade, que o amigo est· de luto.
-
-Eusebio pensou, com despeito, que se podia metter para o fundo da
-frisa--se tivesse sido convidado. E murmurou, sem conter um sorriso
-molle:
-
---Indo assim, atÈ se podem encalacrar...
-
-Uma tal palavra, t„o humilhante, applicada aos Maias, · casa que elle
-administrava, escandalisou VillaÁa. Encalacrar! Ora essa!
-
---O amigo n„o me comprehendeu... Ha despezas inuteis, sim, mas, louvado
-Deus, a casa pÛde bem com ellas! … verdade que o rendimento gasta-se
-todo, atÈ o ultimo ceitil; os cheques voam, voam, como folhas seccas; e
-atÈ aqui o costume da casa foi pÙr de lado, fazer bolo, fazer reserva.
-Agora o dinheiro derrete-se...
-
-Eusebio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, os nove
-cavallos, o cocheiro inglez, os grooms... O procurador acudiu:
-
---Isso, amigo, È de raz„o. Uma gente d'estas deve ter a sua
-representaÁ„o, as suas cousas bem montadas. Ha deveres na sociedade... …
-como o sr. Affonso... Gasta muito, sim, come dinheiro. N„o È com elle,
-que lhe conheÁo aquelle casaco ha vinte annos... Mas s„o esmolas, s„o
-pensıes, s„o emprestimos que nunca mais vÍ...
-
---Desperdicios...
-
---N„o lh'o censuro... … o costume da casa; nunca da porta dos Maias, j·
-meu pae dizia, sahiu ninguem descontente... Mas uma frisa, de que
-ninguem usa! sÛ para o Cruges, sÛ para o Taveira!...
-
-Teve de se callar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira,
-abafado atÈ aos olhos na gola d'uma ulster, d'onde sahiam as pontas d'um
-_cachenez_ de seda clara. O escudeiro desembaraÁou-o dos agasalhos; e
-elle, de casaca e collete branco, limpando o bonito bigode humido da
-geada, veiu apertar a m„o ao caro VillaÁa, ao amigo Eusebio, arrepiado,
-mas achando o frio elegante, desejando a neve e o seu _chic_...
-
---Nada, nada, dizia VillaÁa todo amavel, c· o nosso solzinho portuguez
-sempre È melhor...
-
-E foram entrando no _fumoir_, onde se ouviam as vozes do marquez, de
-Carlos, n'uma das suas sabias e prolixas cavaqueiras sobre cavallos e
-sport.
-
---Ent„o? que tal? A mulher? foi a interrogaÁ„o que acolheu o Taveira.
-
-Mas antes de dar noticia da estreia da Morelli, a dama nova, Taveira
-reclamou alguma cousa quente. E enterrado n'uma poltrona junto do fog„o,
-com os sapatos de verniz estendidos para as brazas, respirando o aroma
-do punch, saboreando uma cigarette, declarou emfim que n„o tinha sido um
-_fiasco_.
-
---Que ella, a meu vÍr, È uma insignificancia, n„o tem nada, nem voz, nem
-escola. Mas, coitada, estava t„o atrapalhada, que nos fez pena. Houve
-indulgencia, deram-se-lhe umas palmas... Quando fui ao palco, ella
-estava contente...
-
---Vamos a saber, Taveira, que tal È ella? inquiria o marquez.
-
---Cheia, dizia o Taveira collocando as palavras como pinceladas; alta;
-muito branca; bons olhos; bons dentes...
-
---E o pÈsinho?--E o marquez, j· com os olhos accesos, passava de vagar a
-m„o pela calva.
-
-Taveira n„o reparara no pÈ. N„o era amador de pÈs...
-
---Quem estava? perguntou Carlos, indolente e bocejando.
-
---A gente do costume... … verdade, sabes quem tomou a frisa ao lado da
-tua? Os Gouvarinhos. L· appareceram hoje...
-
-Carlos n„o conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe: o conde de
-Gouvarinho, o par do reino, um homem alto, de lunetas, _poseur_... E a
-condessa, uma senhora inglesada, de cabello cÙr de cenoura, muito bem
-feita... Emfim, Carlos n„o conhecia.
-
-VillaÁa encontrava o conde no centro progressista, onde elle era uma
-columna do partido. Rapaz de talento, segundo o VillaÁa. O que o
-espantava È que elle podesse ter assim frisa de assignatura, atrapalhado
-como estava: ainda n„o havia tres mezes lhe tinham protestado uma letra
-de oitocentos mil rÈis, no tribunal do commercio...
-
---Um asno, um caloteiro! disse o marquez com nojo.
-
---Passa-se l· bem, ·s terÁas feiras...--disse Taveira, mirando a sua
-meia de seda.
-
-Depois fallou-se do duello do Azevedo da _Opini„o_ com o S· Nunes,
-auctor d'_El-Rei Bolacha_, a grande magica da Rua dos Condes, e
-ultimamente ministro da marinha: tinham-se tratado furiosamente nos
-jornaes de _pulhas_ e de _ladrıes_: e havia dez interminaveis dias que
-estavam desafiados e que Lisboa, em pasmaceira, esperava o sangue.
-Cruges ouvira que S· Nunes n„o se queria bater, por estar de luto por
-uma tia; dizia-se tambem que o Azevedo partira precipitadamente para o
-Algarve. Mas a verdade, segundo VillaÁa, era que o ministro do reino,
-primo do Azevedo, para evitar o recontro, conservava a casa dos dois
-cavalheiros bloqueada pela policia...
-
---Uma canalha! exclamou o marquez com um dos seus resumos brutaes que
-varriam tudo.
-
---O ministro n„o deixa de ter raz„o, observou VillaÁa. Isto ·s vezes, em
-duellos, pÛde bem succeder uma desgraÁa...
-
-Houve um curto silencio. Carlos, que caÌa de somno, perguntou ao
-Taveira, atravez d'outro bocejo, se vira o Ega no theatro.
-
---Podera! La estava de serviÁo, no seu posto, na frisa dos Cohens, todo
-puxado...
-
---Ent„o essa cousa do Ega com a mulher do Cohen, disse o marquez, parece
-clara...
-
---Transparente, diaphana! um crystal!...
-
-Carlos, que se erguera a accender uma cigarette para despertar, lembrou
-logo a grande maxima de D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era
-preferivel n„o se saberem! Mas o marquez, a isto, lanÁou-se em
-consideraÁıes pesadas. Estimava que o Ega _se atirasse_; e via ahi um
-facto de represalia social, por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral
-n„o gostava de judeus; mas nada lhe offendia tanto o gosto e a raz„o
-como a especie _banqueiro_. Comprehendia o salteador de clavina, n'um
-pinheiral; admittia o communista, arriscando a pelle sobre uma
-barricada. Mas os argentarios, os _Fulanos e C.^{as}_ faziam-n'o
-encavacar... E achava que destruir-lhes a paz domestica era acto
-meritorio!
-
---Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relogio. E eu
-aqui, empregado publico, tendo deveres para com o Estado, logo ·s dez
-horas da manh„.
-
---Que diabo, se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se?
-Cavaquea-se?
-
---Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo... AtÈ contas!
-
-Affonso da Maia j· estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham
-partido; e D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, l· fÙra tambem a
-tomar ainda gemada, a pÙr ainda o emplastro, sob o olho solicito da
-Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro amor. E os outros n„o
-tardaram a deixar o Ramalhete. Taveira, de novo sepultado na _ulster_,
-trotou atÈ casa, uma vivendasinha perto com um bonito jardim. O marquez
-conseguiu levar Cruges no _coupÈ_, para lhe ir fazer musica a casa, no
-org„o, atÈ ·s tres ou quatro horas, musica religiosa e triste, que o
-fazia chorar, pensando nos seus amores e comendo frango frio com fatias
-de salame. E o viuvo, o Eusebiosinho, esse, batendo o queixo, t„o morosa
-e soturnamente como se caminhasse para a sua propria sepultura, l· se
-dirigiu ao lupanar onde tinha uma _paix„o_.
-
-
-O laboratorio de Carlos estava prompto--e muito convidativo, com o seu
-soalho novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta meza de marmore, um
-amplo divan de clina para o repouso depois das grandes descobertas, e em
-redor, por sobre peanhas e prateleiras, um rico brilho de metaes e
-crystaes; mas as semanas passavam, e todo esse bello material de
-experimentaÁ„o, sob a luz branca da claraboia, jazia virgem e ocioso. SÛ
-pela manh„ um servente Ìa ganhar o seu tost„o diario, dando l· uma volta
-preguiÁosa com um espanador na m„o.
-
-Carlos realmente n„o tinha tempo de se occupar do laboratorio; e
-deixaria a Deus mais algumas semanas o privilegio exclusivo de saber o
-segredo das cousas--como elle dizia rindo ao avÙ. Logo pela manh„ cedo
-Ìa fazer as suas duas horas d'armas com o velho Randon; depois via
-alguns doentes no bairro onde se espalhara, com um brilho de legenda, a
-cura da Marcellina--e as garrafas de Bordeus que lhe mandara Affonso.
-ComeÁava a ser conhecido como medico. Tinha visitas no
-consultorio--ordinariamente bachareis, seus contemporaneos, que
-sabendo-o rico o consideravam gratuito, e l· entravam, murchos e com m·
-cara, a contar a velha e mal disfarÁada historia de ternuras funestas.
-Salvara d'um garrotilho a filha d'um brazileiro, ao Aterro--e ganhara
-ahi a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um
-homem da sua familia. O dr. Barbedo convidara-o a assistir a uma
-operaÁ„o ovariotomica. E emfim (mas esta consagraÁ„o n„o a esperava
-realmente Carlos t„o cedo) alguns dos seus bons collegas, que atÈ ahi,
-vendo-o sÛ a governar os seus cavallos inglezes, fallavam do ´talento do
-Maiaª--agora percebendo-lhe estas migalhas de clientella, comeÁavam a
-dizer ´que o Maia era um asno.ª Carlos j· fallava a serio da sua
-carreira. Escrevera, com laboriosos requintes d'estylista, dois artigos
-para a _Gazeta Medica_; e pensava em fazer um livro d'idÈas geraes, que
-se devia chamar _Medicina Antiga e Moderna_. De resto occupava-se sempre
-dos seus cavallos, do seu luxo, do seu bric-a-brac. E atravez de tudo
-isto, em virtude d'essa fatal dispers„o de curiosidade que, no meio do
-caso mais interessante de pathologia, lhe fazia voltar a cabeÁa, se
-ouvia fallar d'uma estatua ou d'um poeta, attrahia-o singularmente a
-antiga idÈa do Ega, a creaÁ„o d'uma Revista, que dirigisse o gosto,
-pezasse na politica, regulasse a sociedade, fosse a forÁa pensante de
-Lisboa...
-
-Era porÈm inutil lembrar ao Ega este bello plano. Abria um olho vago,
-respondia:
-
---Ah, a Revista... Sim, est· claro, pensar n'isso! Havemos de fallar, eu
-apparecerei...
-
-Mas n„o apparecia no Ramalhete, nem no consultorio; apenas se avistavam,
-·s vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo que n„o passava no
-camarote dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se no fundo da frisa
-de Carlos, por tr·s de Taveira ou do Cruges; d'onde podesse olhar de vez
-em quando Rachel Cohen--e ali ficava, silencioso, com a cabeÁa appoiada
-ao tabique, repousando e como saturado de felicidade...
-
-O dia (dizia elle) tinha-o todo tomado: andava procurando casa, andava
-estudando mobilias... Mas era facil encontral-o pelo Chiado e pelo
-Loreto, a rondar e a farejar--ou ent„o no fundo de tipoias de praÁa,
-batendo a meio galope, n'um espalhafato de aventura.
-
-O seu dandysmo requintava; arvorara, com o desplante soberbo d'um
-Brummel, casaca de botıes amarellos sobre collete de setim branco; e
-Carlos entrando uma manh„ cedo no _Universal_, deu com elle pallido de
-colera, a despropositar com um creado, por causa d'uns sapatos mal
-envernisados. Os seus companheiros constantes, agora, eram um Damaso
-Salcede, amigo do Cohen, e um primo da Rachel Cohen, mocinho imberbe,
-d'olho esperto e duro, j· com ares de emprestar a trinta por cento.
-
-Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se ·s vezes
-Rachel, e as opiniıes discordavam. Taveira achava-a ´deliciosa!ª--e
-dizia-o rilhando o dente: ao marquez n„o deixava de parecer appetitosa,
-para uma vez, aquella carnezinha _faisandÈe_ de mulher de trinta annos:
-Cruges chamava-lhe uma ´lambisgoia relamboriaª. Nos jornaes, na secÁ„o
-do _High-life_, ella era ´uma das nossas primeiras elegantesª: e toda a
-Lisboa a conhecia, e a sua luneta d'ouro presa por um fio d'ouro, e a
-sua caleche azul com cavallos pretos. Era alta, muito pallida, sobre
-tudo ·s luzes, delicada de saude, com um quebranto nos olhos pisados,
-uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lyrio
-meio murcho: a sua maior belleza estava nos cabellos, magnificamente
-negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ella
-deixava habilmente cahir n'uma massa meia solta sobre as costas, como
-n'um desalinho de nudez. Dizia-se que tinha litteratura, e fazia
-phrases. O seu sorriso lasso, pallido, constante, dava-lhe um ar de
-insignificancia. O pobre Ega adorava-a.
-
-Conhecera-a na Foz, na AssemblÈa; n'essa noite, cervejando com os
-rapazes, ainda lhe chamou _camelia melada_; dias depois j· adulava o
-marido; e agora esse demagogo, que queria o massacre em massa das
-classes medias, soluÁava muita vez por causa d'ella, horas inteiras,
-cahido para cima da cama.
-
-Em Lisboa, entre o Gremio e a Casa Havaneza, j· se comeÁava a fallar ´do
-arranjinho do Egaª. Elle todavia procurava pÙr a sua felicidade ao
-abrigo de todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas
-precauÁıes tanta sinceridade como prazer romantico do mysterio: e era
-nos sitios mais desageitados, fÛra de portas, para os lados do
-Matadouro, que Ìa furtivamente encontrar a creada que lhe trazia as
-cartas d'ella... Mas em todos os seus modos (mesmo no disfarce affectado
-com que espreitava as horas) transbordava a immensa vaidade d'aquelle
-adulterio elegante. De resto sentia bem que os seus amigos conheciam a
-gloriosa aventura, o sabiam em pleno drama: era mesmo talvez por isso,
-que, diante de Carlos e dos outros, nunca atÈ ahi mencionara o nome
-d'ella, nem deixara j·mais escapar um lampejo de exaltaÁ„o.
-
-Uma noite, porÈm, acompanhando Carlos atÈ ao Ramalhete, noite de lua
-calma e branca, em que caminhavam ambos callados, Ega, invadido decerto
-por uma onda interior de paix„o, soltou desabafadamente um suspiro,
-alargou os braÁos, declamou com os olhos no astro, um tremor na voz:
-
-
- Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l'amour c'est la vie!
-
-
-Isto fugira-lhe dos labios como um comeÁo de confiss„o; Carlos ao lado
-n„o disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto.
-
-Mas Ega sentiu-se decerto ridiculo, porque se calmou, refugiou-se
-immediatamente no puro interesse litterario:
-
---No fim de contas, menino, digam l· o que disserem, n„o ha sen„o o
-velho Hugo...
-
-Carlos, comsigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindo contra
-Hugo, chamando-lhe ´saco-roto de espiritualismoª, ´boca-aberta de
-sombraª, ´avÙsinho lyricoª, injurias peiores.
-
-Mas n'essa noite o grande phraseador continuou:
-
---Ah o velho Hugo! o velho Hugo È o campe„o heroico de verdades
-eternas... … necessario um bocado d'ideal, que diabo!... De resto o
-ideal pÛde ser real...
-
-E foi, com esta palinodia, acordando os silencios do Aterro.
-
-Dias depois Carlos, no consultorio, acabava de despedir um doente, um
-Viegas, que todas as semanas vinha alli fazer a fastidiosa chronica da
-sua dyspepsia--quando do reposteiro da sala d'espera lhe surgiu o Ega,
-de sobrecasaca azul, luva _gris-perle_ e um rolo de papel na m„o.
-
---Tens que fazer, doutor?
-
---N„o, Ìa a sahir, janota!
-
---Bem. Venho-te impingir prosa... Um bocado do _Atomo_... Senta-te ahi.
-Ouve l·.
-
-Immediatamente abancou, afastou papeis e livros, desenrolou o
-manuscripto, espalmou-o, deu um pux„o ao collarinho--e Carlos, que se
-pousara · borda do divan, com a face espantada e as m„os nos joelhos,
-achou-se quasi sem transiÁ„o transportado dos rugidos do ventre do
-Viegas para um rumor de populaÁa, n'um bairro de judeus, na velha cidade
-de Heidelberg.
-
---Mas espera l·! exclamou elle. Deixa-me respirar. Isso n„o È o comeÁo
-do livro! Isso n„o È o cahos...
-
-Ega ent„o recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tambem.
-
---N„o, n„o È o primeiro episodio... N„o È o cahos. … j· no seculo XV...
-Mas n'um livro d'estes pÛde-se comeÁar pelo fim... Conveiu-me fazer este
-episodio: chama-se a _Hebrea_.
-
-A Cohen! pensou Carlos.
-
-Ega tornou a alargar o collarinho--e foi lendo, animando-se, ferindo as
-palavras para as fazer viver, soltando grandes cheios de voz nas
-sonoridades finaes dos periodos. Depois da sombria pintura d'um bairro
-medival de Heidelberg, o famoso Atomo, o _Atomo do Ega_, apparecia
-alojado no coraÁ„o do esplendido principe Franck, poeta, cavalleiro, e
-bastardo do imperador Maximiliano. E todo esse coraÁ„o de heroe
-palpitava pela judia Esther, perola maravilhosa do Oriente, filha do
-velho rabbino Salom„o, um grande doutor da Lei, perseguido pelo odio
-theologico do Geral dos Dominicanos.
-
-Isto contava-o o Atomo n'um monologo, t„o recamado d'imagens como um
-manto da Virgem est· recamado d'estrellas--e que era uma declaraÁ„o
-d'elle, Ega, · mulher do Cohen. Depois abria-se um intermedio
-pantheista: rompiam coros de flores, coros de astros, cantando na
-linguagem da luz, ou na eloquencia dos perfumes, a belleza, a graÁa, a
-pureza, a alma celeste de Esther--e de Rachel... Emfim, chegava o negro
-drama da perseguiÁ„o: a fuga da familia hebraica, atravÈz de bosques de
-bruxas e brutas aldÍas feudaes; a appariÁ„o, n'uma encrusilhada, do
-principe Franck que vem proteger Esther, de lanÁa alta, no seu grande
-corcel; o tropel da turba fanatica, correndo a queimar o rabbino e os
-seus livros herejes; a batalha, e o principe atravessado pelo chuÁo d'um
-_reitre_, indo morrer no peito d'Esther, que morre com elle n'um beijo.
-Tudo isto se precipitava como um sonoro e tumultuoso soluÁo; e era
-tratado com as maneiras modernas d'estylo, o esforÁo atormentado
-inchando a express„o, as camadas de cÙr atiradas · larga para fazer
-ressaltar o tom de vida...
-
-Ao findar o _Atomo_ exclamava, com a vasta solemnidade d'um cheio
-d'org„o:--´assim arrefeceu, parou, aquelle coraÁ„o de heroe que eu
-habitava; e evaporado o principio de vida, eu, agora livre, remontei aos
-astros, levando comigo a essencia pura d'esse amor immortal.ª
-
---Ent„o?...--disse Ega, esfalfado, quasi tremulo.
-
-Carlos sÛ poude responder:
-
---Est· ardente.
-
-Depois elogiou a serio alguns lances, o coro das florestas, a leitura do
-_Ecclesiastes_, de noite, entre as ruinas da torre d'Othon, certas
-imagens d'um grande vÙo lyrico.
-
-Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscripto, reabotoou a
-sobrecasaca, e j· de chapÈu na m„o:
-
---Ent„o, parece-te apresentavel?...
-
---Vaes publicar?
-
---N„o, mas emfim...--e ficou n'esta reticencia, fazendo-se corado.
-
-Carlos comprehendeu tudo dias depois, encontrando na _Gazeta do Chiado_
-uma descripÁ„o ´da leitura feita em casa do ex.^{mo} sr. Jacob Cohen,
-pelo nosso amigo Jo„o da Ega, de um dos mais brilhantes episodios do seu
-livro--_As memorias d'um atomo_.ª E o jornalista accrescentava, dando a
-sua impress„o pessoal: ´È uma pintura dos sofrimentos porque passaram,
-nos tempos da intolerancia religiosa, aquelles que seguem a Lei
-d'Israel. Que poder de imaginaÁ„o! Que fluencia d'estylo! O effeito foi
-extraordinario, e quando o nosso amigo fechou o manuscripto ao succumbir
-da protagonista--vimos lagrimas em todos os olhos da numerosa e
-estimavel colonia hebraica!ª
-
-Oh, furor do Ega! Rompeu n'essa tarde pelo consultorio, pallido,
-desorientado...
-
---Estas bestas! Estas bestas d'estes jornalistas! Leste? _Lagrimas em
-todos os olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica!_ Faz cahir a
-cousa em ridiculo... E depois a _fluencia d'estylo_. Que burros! Que
-idiotas!
-
-Carlos, que cortava as folhas d'um livro, consolou-o. Aquella era a
-maneira nacional de fallar d'obras d'arte... N„o valia a pena bramar...
-
---N„o, palavra, tinha vontade de quebrar a cara ·quelle folliculario!
-
---E porque lh'a n„o quebras?
-
---… um amigo dos Cohens.
-
-E foi grunhindo improperios contra a imprensa, a passos de tigre pelo
-gabinete. Por fim irritado com a indifferenÁa de Carlos:
-
---Que diabo est·s tu ahi a ler? _Nature parasitaire des accidents de
-l'impaludisme_... Que blague, a medicina! Dize-me uma cousa. Que diabo
-ser„o umas picadas que me veem aos braÁos, sempre que vou a
-adormecer?...
-
---Pulgas, bichos, vermina...--murmurou Carlos com os olhos no livro.
-
---Animal! rosnou Ega, arrebatando o chapÈu.
-
---Vaes-te, John?
-
---Vou, tenho que fazer!--E junto do reposteiro, ameaÁando o cÈu com o
-guarda-chuva, chorando quasi de raiva:--Estes burros d'estes
-jornalistas! S„o a escoria da sociedade!
-
-D'ahi a dez minutos reappareceu, bruscamente: e j· com outra voz, n'um
-tom de caso serio:
-
---Ouve c·. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aos
-Gouvarinhos?
-
---N„o tenho um interesse especÌal, respondeu Carlos, erguendo os olhos
-do livro, depois de um silencio. Mas n„o tenho tambem uma repugnancia
-especial.
-
---Bem, disse Ega. Elles desejam conhecer-te, sobretudo a condessa faz
-empenho... Gente intelligente, passa-se l· bem... Ent„o, decidido! TerÁa
-feira vou-te buscar ao Ramalhete, e vamo-nos _gouvarinhar_.
-
-Carlos ficou pensando n'aquella proposta do Ega, na maneira como elle
-sublinh·ra o _empenho_ da condessa. Lembrava-se agora que ella era muito
-intima da Cohen: e ultimamente, em S. Carlos, n'aquella facil visinhanÁa
-de frisa, surprehendera certos olhares d'ella... Mesmo, segundo o
-Taveira, ella realmente _fazia-lhe um olh„o_. E Carlos achava-a picante,
-com os seus cabellos crespos e ruivos, o narizinho petulante, e os olhos
-escuros, d'um grande brilho, dizendo mil cousas. Era deliciosamente bem
-feita--e tinha uma pelle muito clara, fina e doce · vista, a que se
-sentia mesmo de longe o setim.
-
-Depois d'aquelle dia tristÙnho de aguaceiros, elle resolvera passar um
-bom ser„o de trabalho, ao canto do fog„o, no conforto do seu
-robe-de-chambre. Mas ao cafÈ, os olhos da Gouvarinho comeÁaram a
-faiscar-lhe por entre o fumo do charuto, a fazer-lhe _um olh„o_,
-collocando-se tentadoramente entre elle e a sua noite d'estudo,
-pondo-lhe nas veias um vivo calor de mocidade... Tudo culpa do Ega, esse
-Mephistopheles de Celorico!
-
-Vestiu-se, foi a S. Carlos. Ao sentar-se porÈm · boca da frisa,
-preparado, de collete branco e perola negra na camisa,--em logar dos
-cabellos crespos e ruivos, avistou a carapinha retinta de um preto, um
-preto de doze annos, trombudo e lusidio, de grande collarinho · mam„
-sobre uma jaqueta de botıes amarellos; ao lado outro preto, mais
-pequeno, com o mesmo uniforme de collegio, enterrava pela venta aberta o
-dedo calÁado de pellica branca. Ambos elles lhe relancearam os olhos
-bogalhudos, cÙr de prata embaciada. A pessoa que os acompanhava,
-escondida para o fundo, parecia ter um catharro ascoroso.
-
-Dava-se a _Lucia_ em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens n„o tinham
-vindo--nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza
-do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de
-sudoeste, parecia penetrar alli, derramando o seu pesadume, a morna
-sensaÁ„o da sua humidade. Nas cadeiras, vasias, havia uma mulher
-solitaria, vestida de setim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gaz
-dormia, e os arcos das rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo
-tambem.
-
---Isto est· lugubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que occupava o escuro
-da frisa.
-
-Cruges, amodorroado n'um accesso de _spleen_, com o cotovello sobre as
-costas da cadeira, os dedos por entre a cabelleira, todo elle embrulhado
-em crepes, sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo d'um
-sepulchro:
-
---Pesadote.
-
-Por indolencia, Carlos ficou. E pouco a pouco, aquelle preto de que os
-seus olhos se n„o podiam despegar, alli enthronisado na poltrona de reps
-verde da Gouvarinho, com a manga da jaqueta plantada no rebordo onde
-costumava alvejar um lindo braÁo,--foi-lhe arrastando, a seu pesar, a
-imaginaÁ„o para a pessoa d'ella; relembrou _toilettes_ com que ella alli
-estivera; e nunca lhe pareceram t„o picantes, como agora que os n„o via,
-os seus cabellos ruivos, cÙr de braza ·s luzes, d'um encrespado forte,
-como crestados da chamma interna. A carapinha do preto, essa, em logar
-de risca tinha um sulco cavado · thesoura na massa de l„ espessa. Quem
-seriam, por que estavam alli, aquelles africanos de perfil trombudo?
-
---Tu j· reparaste n'esta extraordinaria carapinha, Cruges?
-
-O outro, que se n„o mexera da sua attitude de estatua tumular, grunhiu
-da sombra um monosyllabo surdo.
-
-Carlos respeitou-lhe os nervos.
-
-De repente, ao desafinar mais aspero d'um coro, Cruges deu um salto.
-
---Isto sÛ a pontapÈ... Que empreza esta! rugio elle, envergando
-furiosamente o paletot.
-
-Carlos foi leval-o no coupÈ · rua das Flores, onde elle morava com a m„e
-e uma irm„; e atÈ ao Ramalhete n„o cessou de lamentar comsigo o seu
-ser„o d'estudo perdido.
-
-O creado de Carlos, o Baptista, (familiarmente, o _Tista_) esperava-o,
-lendo o jornal, na confortavel antecamara dos ´quartos do meninoª,
-forrada de velludo cÙr de cereja, ornada de retratos de cavallos e
-panoplias de velhas armas, com divans do mesmo velludo, e muito
-allumiada a essa hora por dois candieiros de globo pousados sobre
-columnas de carvalho, onde se enrolavam lavores de ramos de vide.
-
-Carlos tinha desde os onze annos este creado de quarto, que viera com o
-Brown para S.^{ta} Olavia, depois de ter servido em Lisboa, na LegaÁ„o
-ingleza, e ter acompanhado o ministro, sir Hercules Morrisson, varias
-vezes a Londres. Foi em Coimbra, nos PaÁos de Cellas, que Baptista
-comeÁou a ser um personagem: Affonso correspondia-se com elle de S.^{ta}
-Olavia. Depois viajou com Carlos; enjoaram nos mesmos paquetes,
-partilharam dos mesmos _sandwiches_ no buffete das gares; Tista
-tornou-se um confidente. Era hoje um homem de cincoenta annos,
-desempenado, robusto, com um collar de barba grisalha por baixo do
-queixo, e o ar excessivamente _gentleman_. Na rua, muito direito na sua
-sobrecasaca, com o par de luvas amarellas espetado na m„o, a sua bengala
-de cana da India, os sapatos bem envernisados, tinha a consideravel
-apparencia de um alto funccionario. Mas conservava-se t„o fino e t„o
-desembaraÁado, como quando em Londres aprendera a walsar e a _boxar_ na
-rude balburdia dos salıes-danÁantes, ou como quando mais tarde, durante
-as ferias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e o ajudava a saltar o
-muro do quintal do sr. escriv„o de fazenda--aquelle que tinha uma mulher
-t„o garota.
-
-Carlos foi buscar um livro ao gabinete d'estudo, entrou no quarto,
-estendeu-se, canÁado, n'uma poltrona. ¡ luz opalina dos globos, o leito
-entre-aberto mostrava, sob a seda dos cortinados, um luxo effeminado de
-bretanhas, bordados e rendas.
-
---Que ha hoje no _Jornal da Noite_? perguntou elle bocejando, em quanto
-Baptista o descalÁava.
-
---Eu li-o todo, meu senhor, e n„o me pareceu que houvesse cousa alguma.
-Em FranÁa contin˙a socego... Mas a gente nunca pÛde saber, porque estes
-jornaes portuguezes imprimem sempre os nomes estrangeiros errados.
-
---S„o umas bestas. O sr. Ega hoje estava furioso com elles...
-
-Depois, em quanto Baptista preparava com esmero um _grog_ quente, Carlos
-j· deitado, aconchegado, abriu preguiÁosamente o livro, voltou duas
-folhas, fechou-o, tomou uma cigarette, e ficou fumando com as palpebras
-cerradas, n'uma immensa beatitude. AtravÈz das cortinas pesadas
-sentia-se o sudoeste que batia o arvoredo, e os aguaceiros alagando os
-vidros.
-
---Tu conheces os srs. condes de Gouvarinho, Tista?
-
---ConheÁo o Pimenta, meu senhor, que È creado de quarto do sr. conde...
-Creado de quarto e serve a meza.
-
---E que diz ent„o esse Tormenta? perguntou Carlos, n'uma voz indolente,
-depois d'um silencio.
-
---Pimenta, meu senhor! O Manuel È Pimenta. O sr. Gouvarinho chama-lhe
-Rom„o, por que estava acostumado ao outro creado que era Rom„o. E j·
-isto n„o È bonito, porque cada um tem o seu nome. O Manuel È Pimenta. O
-Pimenta n„o est· contente...
-
-E Baptista, depois de collocar junto da cabeceira a salva com o _grog_,
-o assucareiro, as cigarettes, transmittiu as revelaÁıes do Pimenta. O
-conde de Gouvarinho, alÈm de muito massador e muito pequinhento, n„o
-tinha nada de cavalheiro: dera um fato de cheviot claro ao Rom„o (ao
-Pimenta), mas t„o coÁado e t„o cheio de riscas de tinta, de limpar a
-penna · perna e ao hombro, que o Pimenta deitou o presente fÛra. O conde
-e a senhora n„o se davam bem: j· no tempo do Pimenta, uma occasi„o, ·
-mesa, tinham-se pegado de tal modo que ella agarrou do copo e do prato,
-e esmigalhou-os no ch„o. E outra qualquer teria feito o mesmo; por que o
-sr. conde, quando comeÁava a repisar, a remoer, n„o se podia aturar. As
-questıes eram sempre por causa de dinheiro. O Tompson velho estava farto
-de abrir os cordıes · bolsa...
-
---Quem È esse Tompson velho, que nos apparece agora, a esta hora da
-noite? perguntou Carlos, a seu pesar interessado.
-
---O Tompson velho È o pae da sr.^a condessa. A sr.^a condessa era uma
-miss Tompson, dos Tompson do Porto. O sr. Tompson n„o tem querido
-ultimamente emprestar nem mais um real ao genro: de sorte que, uma vez,
-j· no tempo do Pimenta tambem, o sr. conde, furioso, disse · senhora que
-ella e o pae se deviam lembrar que eram gente de commercio e que fora
-elle que fizera d'ella uma condessa; e com perd„o de v. ex.^a, a senhora
-condessa ali mesmo · mesa mandou o condado · tab˙a... Estas cousas n„o
-est„o no genero do Pimenta.
-
-Carlos bebeu um gole de grog. Bailava-lhe nos labios uma pergunta, mas
-hesitava. Depois reflectiu na puerilidade de t„o rigidos escrupulos, a
-respeito d'uma gente, que ao jantar, diante do escudeiro, quebrava a
-porcelana, mandava · tabua o titulo dos antepassados. E perguntou:
-
---Que diz o sr. Pimenta da senhora condessa, Baptista? Ella diverte-se?
-
---Creio que n„o, meu senhor. Mas a creada de confianÁa d'ella, uma
-escosseza, essa È desobstinada. E n„o fica bem · senhora condessa ser
-assim t„o intima com ella...
-
-Houve um silencio no quarto, a chuva cantou mais forte nos vidros.
-
---Passando a outro assumpto, Baptista. Vamos a saber, ha quanto tempo,
-n„o escrevo eu a madame Rughel?
-
-Baptista tirou do bolso interior da sua casaca um livro de apontamentos,
-aproximou-se da luz, encavalou a luneta no nariz, e verificou, com
-methodo, estas datas:--´Dia 1 de janeiro, telegramma expedido com
-felicitaÁıes do comeÁo d'anno a madame Rughel, Hotel d'Albe, Champs
-…lyseÈs, Paris. Dia 3, telegramma recebido de madame Rughel,
-reciprocando comprimentos, exprimindo amizade, annunciando partida para
-Hamburgo. Dia 15, carta lanÁada ao correio, para madame Rughel,
-_William-Strasse, Hamburgo, Allemagne_. Depois--mais nada. De modo que
-havia j· cinco semanas que o menino n„o escrevia a madame Rughel...
-
---… necessario escrever ·manh„, disse Carlos..
-
-Baptista tomou uma nota.
-
-Depois, entre uma fumaÁa languida, a voz de Carlos ergueu-se de novo na
-paz dormente do quarto:
-
---Madame Rughel era muito bonita, n„o È verdade, Baptista? … a mulher
-mais bonita que tu tens visto na tua vida!
-
-O velho creado metteu o livro no bolso da casaca, e respondeu, sem
-hesitar, muito certo de si:
-
---Madame Rughel era uma senhora de muita vista. Mas a mulher mais linda
-em que tenho posto os olhos, se o menino d· licenÁa, era aquella senhora
-do coronel de hussards que vinha ao quarto do hotel em Vienna.
-
-Carlos atirou a cigarette para a salva--e escorregando pela roupa
-abaixo, todo invadido por uma onda de recordaÁıes alegres, exclamou da
-profundidade do seu conforto, no antigo tom de emphase bohemia dos PaÁos
-de Cellas.
-
---O sr. Baptista n„o tem gosto nenhum! Madame Rughel era uma nympha de
-Rubens, senhor! Madame Rughel tinha o explendor d'uma deusa da
-RenascenÁa, senhor! Madame Rughel devia ter dormido no leito imperial de
-Carlos Quinto...--Retire-se, senhor!
-
-Baptista entalou mais o _couvre-pieds_, relanceou pelo quarto um olhar
-solicito, e, contente, da ordem em que as cousas adormeciam, saÌu,
-levando o candieiro. Carlos n„o dormia: e n„o pensava na coronela de
-hussards, nem em madame Rughel. A figura que no escuro dos cortinados
-lhe apparecia, n'um vago dourado que provinha do reflexo de seus
-cabellos soltos, era a Gouvarinho--a Gouvarinho que n„o tinha o
-explendor d'uma deusa da RenascenÁa como madame Rughel, nem era a mulher
-mais linda em que Baptista pozera os seus olhos como a coronela de
-hussards: mas, com o seu nariz petulante e a sua boca grande, brilhava
-mais e melhor que todas na imaginaÁ„o de Carlos--porque elle esperara-a
-essa noite e ella n„o tinha apparecido.
-
-Na terÁa-feira promettida Ega n„o veiu buscar Carlos para se irem
-_gouvarinhar_. E foi Carlos que d'ahi a dias, entrando como por acaso no
-_Universal_, perguntou rindo ao Ega:
-
---Ent„o quando nos _gouvarinhamos_?
-
-N'essa noite, em S. Carlos, n'um entre-acto dos _Huguenotes_, Ega
-apresentou-o ao sr. conde de Gouvarinho, no corredor das frizas. O
-conde, muito amavel, lembrou logo que j· tivera, mais de uma vez, o
-prazer de passar pela porta de S.^{ta} Olavia, quando ia vÍr os seus
-velhos amigos, os Tedins, a Entre-Rios--uma formosa vivenda tambem.
-Fallaram ent„o do Douro, da Beira, compararam outras paisagens. Para o
-conde, nada havia, no nosso Portugal, como os campos do Mondego: mas a
-sua parcialidade era perdoavel, pois n'esses ferteis vales nascera e se
-creara: e fallou um momento de Formozelha, onde tinha casa, onde vivia
-edosa e doente sua m„e, a sr.^a condessa viuva...
-
-Ega, que affectara beber as palavras do conde, comeÁou ent„o uma
-controversia, sustentando como se se tratasse dos dogmas d'uma fÈ, a
-belleza superior do Minho, ´esse paraiso idillico.ª O conde sorria: via
-ali, como elle observou a Carlos, batendo amavelmente no hombro do Ega,
-a rivalidade das duas provincias. EmulaÁ„o fecunda, de resto, no seu
-pensar...
-
---Ahi est·, por exemplo, dizia elle, o ciume entre Lisboa e Porto. … uma
-verdadeira dualidade como a que existe entre a Hungria e a Austria...
-OuÁo por ali lamental-a. Pois bem, eu, se fosse poder, instigal-a-hia,
-acirral-a-hia, se v. ex.^{as} me permittem a express„o. N'esta lucta das
-duas grandes cidades do reino, podem outros vÍr despeitos mesquinhos, eu
-vejo elementos de progresso. Vejo civilisaÁ„o!
-
-Proferia estas cousas como do alto d'um pedestal, muito acima dos
-homens, deixando-as providamente caÌr dos thesouros do seu intellecto ·
-maneira de dons inestimaveis. A voz era lenta e rotunda; os cristaes da
-sua luneta d'ouro faiscavam vistosamente; e no bigode encerado, na pera
-curta, havia ao mesmo tempo alguma cousa de doutoral e de casquilho.
-
-Carlos dizia: ´Tem v. ex.^a raz„o, sr. conde.ª O Ega dizia: ´VocÍ vÍ
-essas cousas d'alto, Gouvarinhoª. Elle cruzara as m„os por baixo das
-abas da casaca--e estavam todos tres muito serios.
-
-Depois o conde abriu a porta da friza, Ega desappareceu. E d'ahi a um
-momento, Carlos, apresentado como ´visinho de camaroteª, recebia da
-sr.^a condessa um grande _shake-hand_, em que tilintaram uma infinidade
-d'aros de prata e de _blangles_ indios sobre a sua luva preta de doze
-botıes.
-
-A sr.^a condessa, um pouco corada, ligeiramente nervosa, lembrou logo a
-Carlos que o vira no ver„o passado em Paris, no sal„o baixo do CafÈ
-Inglez: atÈ por signal estava n'essa noite um velho abominavel com duas
-garrafas vazias diante de si, e contando alto, para uma meza defronte,
-historias horrorosas do sr. Gambetta: um sujeito ao lado protestou; o
-outro n„o fez caso, era o velho duque de Grammont. O conde passou os
-dedos lentos pela testa, com um ar quasi angustioso: n„o se lembrava de
-nada d'isso! Queixou-se logo amargamente da sua falta de memoria. Uma
-cousa t„o indispensavel em quem segue a vida publica, a memoria! e elle
-desgraÁadamente, n„o possuia nem um atomo. Por exemplo, lera (como todo
-o homem devia lÍr) os vinte volumes da _Historia Universal de Cesar
-Cantu_; lÍra-os com attenÁ„o, fechado no seu gabinete, absorvendo-se na
-obra. Pois, senhores, escapara-lhe tudo--e ali estava sem saber
-historia!
-
---V. ex.^a tem boa memoria, sr. Maia?
-
---Tenho uma rasoavel memoria.
-
---Inapreciavel bem de que goza!
-
-A condessa voltara-se para a platÈa, coberta com o leque, com o ar
-constrangido, como se aquellas palavras pueris do marido a diminuissem,
-a desfeiassem... Carlos ent„o fallou da opera. Que bello escudeiro
-huguenote fazia o Pandolli! A condessa n„o aturava o Corcelli, o tenor,
-com as suas notas asperas e aquella obesidade que o tornava _buffo_. Mas
-tambem (lembrava Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande
-raÁa dos Marios, homens de belleza, de inspiraÁ„o, realisando os grandes
-typos lyricos. Nicolini era j· uma degeneraÁ„o... Isto fez lembrar a
-Patti. A condessa adorava-a, e a sua graÁa de fada, e a sua voz
-semelhante a uma chuva d'ouro!...
-
-Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil cousas; em certos movimentos, o
-cabello crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno
-d'ella errava, no calor do gaz e da enchente, um aroma exagerado de
-verbena. Estava de preto, com uma gargantilha, de rendas negras, ·
-Valois, affogando-lhe o pescoÁo onde pousavam duas rosas escarlates. E
-toda a sua pessoa tinha um arsinho de provocaÁ„o e de ataque. De pÈ,
-callado, grave, o conde batia a coxa com a claque fechada.
-
-O quarto acto comeÁara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram
-defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binoculo, observando-o, mirando a
-condessa e fallando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar
-dolente e vago.
-
---NÛs recebemos ·s terÁas feiras, disse a condessa a Carlos--e o resto
-da phrase perdeu-se n'um murmurio e n'um sorriso.
-
-O conde acompanhou-o fÛra, ao corredor.
-
---… sempre uma honra para mim, dizia elle caminhando ao lado de Carlos,
-fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma cousa n'este paiz ...
-V. ex.^a È d'esse numero, bem raro infelizmente.
-
-Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda:
-
---N„o o lisongeio. Eu nunca lisongeio... Mas a v. ex.^a podem-se dizer
-estas cousas, porque pertence · _elite_: a desgraÁa de Portugal È a
-falta de gente, Isto È um paiz sem pessoal. Quer-se um bispo? N„o ha um
-bispo. Quer-se um economista? N„o ha um economista. Tudo assim! Veja v.
-ex.^a mesmo nas profissıes subalternas. Quer-se um bom estofador? N„o ha
-um bom estofador...
-
-Um cheio de instrumentos e vozes, d'um tom sublime, passando pela porta
-da frisa entreaberta, cortou-lhe umas ultimas palavras sobre a
-defficiencia dos photographos... Escutou, com a m„o no ar:
-
---… o _coro dos punhaes_, n„o? Ah vamos a ouvir... Ouve-se sempre isto
-com proveito. Ha philosophia n'esta musica... … pena que lembre t„o
-vivamente os tempos da intolerancia religiosa, mas ha alli
-incontestavelmente philosophia!
-
-
-
-
-VI
-
-
-Carlos, n'essa manh„, ia visitar de surpreza a casa do Ega, a famosa
-´Villa Balzacª, que esse phantasista and·ra meditando e dispondo desde a
-sua chegada a Lisboa, e onde se tinha emfim installado.
-
-Ega dera-lhe esta denominaÁ„o litteraria, pelos mesmos motivos porque a
-alug·ra n'um suburbio longiquo, na solid„o da Penha de FranÁa,--para que
-o nome de Balzac, seu padroeiro, o silencio campestre, os ares limpos,
-tudo alli fosse favoravel ao estudo, ·s horas d'arte e d'ideal. Por que
-ia fechar-se l·, como n'um claustro de lettras, a findar as _Memorias
-d'um Atomo!_ SÛmente, por causa das distancias, tinha tomado ao mez um
-coupÈ da companhia.
-
-Carlos teve difficuldades em encontrar a ´Villa Balzacª: n„o era, como
-tinha dito Ega no Ramalhete, logo adiante do largo da GraÁa um
-_chaletsinho_ retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre arvores.
-Passava-se primeiro a Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se
-n'uma vereda larga, entre quintaes, descendo pelo pendor da collina, mas
-accessivel a carruagens; e ahi, n'um recanto, ladeada de muros,
-apparecia emfim uma cazota de paredes enxovalhadas, com dois degraus de
-pedra · porta, e transparentes novos d'um escarlate estridente.
-
-N'essa manh„, porÈm, debalde Carlos deu puxıes desesperados · corda da
-campainha, martellou a aldrava da porta, gritou a toda a voz por cima do
-muro do quintal e das copas das arvores o nome do Ega:--a ´Villa Balzacª
-permaneceu muda, como deshabitada, no seu retiro rustico. E todavia
-pareceu a Carlos que, justamente antes de bater, ouvira o estalar de
-rolhas de _Champagne_.
-
-Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com os criados,
-que assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeito de Torre de
-Nesle...
-
---Vae l· ·manh„, se ninguem responder, escala as janellas, pega fogo ao
-predio, como se fossem apenas as Tulherias.
-
-Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, j· a ´Villa Balzacª o
-esperava, toda em festa: · porta ´o pagemª, um garoto de feiÁıes
-horrÌvelmente viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botıes de
-metal, com uma gravata muito branca e muito teza; as duas janellas em
-cima, abertas, mostrando o reps verde das bambinellas, bebiam · larga
-todo o ar do campo e o sol de inverno: e no topo da estreita escada,
-tapetada de vermelho, Ega, n'um prodigioso robe-de-chambre, de um estofo
-adamascado do seculo dezoito, vestido de cÙrte de alguma das suas avÛs,
-exclamou dobrando a fronte ao ch„o:
-
---Bem vindo, meu principe, ao humilde tegurio do philosopho!
-
-Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de reps verde, d'um verde
-feio e triste, e introduziu o ´principeª na sala onde tudo era verde
-tambem: o reps que recobria uma mobilia de nogueira, o tecto de taboado,
-as listas verticaes do papel da parede, o pano franjado da mesa, e o
-reflexo d'um espelho redondo, inclinado sobre o soph·.
-
-N„o havia um quadro, uma flÙr, um ornato, um livro--apenas sobre a
-jardineira uma estatueta de Napole„o I, de pÈ, equilibrado sobre o orbe
-terrestre, n'essa conhecida attitude em que o heroe, com um ar pansudo e
-fatal, esconde uma das m„os por traz das costas, e enterra a outra nas
-profundidades do seu collete. Ao lado uma garrafa de _Champagne_,
-encarapuÁada de papel dourado, esperava entre dois copos esguios.
-
---Para que tens tu aqui Napole„o, John?
-
---Como alvo de injurias, disse Ega. Exercito-me sobre elle a fallar dos
-tyrannos...
-
-Esfregou as m„os, radiante. Estava n'essa manh„ em alegria e em verve. E
-quiz immediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: ahi reinava
-um cretone de ramagens alvadias sobre fundo vermelho; e o leito enchia,
-esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da ´Villa Balzacª; e
-n'elle se esgotara a imaginaÁ„o artistica do Ega. Era de madeira, baixo
-como um divan, com a barra alta, um roda-pÈ de renda, e d'ambos os lados
-um luxo de tapetes de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da
-India avermelhada envolvia-o n'um apparato de tabernaculo; e dentro, ·
-cabeceira, como n'um lupanar, reluzia um espelho.
-
-Carlos, muito seriamente, aconselhou-lhe que tirasse o espelho. Ega deu
-a todo o leito um olhar silencioso e dÙce, e disse depois de passar uma
-pontinha de lingua pelo beiÁo:
-
---Tem seu chic...
-
-Sobre a mesinha de cabeceira erguia-se um mont„o de livros: a _EducaÁ„o_
-de Spencer ao lado de BeaudelaÌre, a _Logica_ de Stuart Mill por cima do
-_Cavalleiro da Casa Vermelha_. No marmore da commoda havia outra garrafa
-de Champagne entre dous copos; o toucador, um pouco em desordem,
-mostrava uma enorme caixa de pÛ d'arroz no meio de plastrons e gravatas
-brancas do Ega, e um masso de ganchos do cabello ao lado de ferros de
-frisar.
-
---E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte?
-
---Alli! disse o Ega, alegremente, apontando para o leito.
-
-Mas foi mostrar logo o seu recantosinho estudioso, formado por um
-biombo, ao lado da janella, e tomado todo por uma mesa de pÈ de gallo,
-onde Carlos assombrado descobriu, entre o bello papel de cartas do Ega,
-um _Diccionario de Rimas_...
-
-E a visita · casa continuou.
-
-Na sala de jantar, quasi nua, caiada de amarello, um armario de pinho
-envidraÁado abrigava melancolicamente um serviÁo barato de louÁa nova; e
-do fecho da janella pendia um vestuario vermelho, que parecia roup„o de
-mulher.
-
---… sobrio e simples--exclamou o Ega--como compete ·quelle que se
-alimenta d'uma codea d'Ideal e duas garfadas de Philosophia. Agora, ·
-cosinha!...
-
-Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas janellas abertas;
-e entreviam-se arvores de quintal, um verde de terrenos vagos, depois l·
-em baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol; uma rapariga muito
-sardenta e muito forte sacudiu o gato do collo, ergueu-se, com o _Jornal
-de Noticias_ na m„o. Ega apresentou-a, n'um tom de farÁa:
-
---A sr.^a Josepha, solteira, de temperamento sanguineo, artista
-culinaria da ´Villa Balzacª, e como se pÛde observar pelo papel que lhe
-pende das garras, cultora das boas letras!
-
-A moÁa sorria, sem embaraÁo, habituada de certo a estas familiaridades
-bohemias.
-
---Eu hoje n„o janto c·, senhora Josepha, continuava o Ega no mesmo tom.
-Este formoso mancebo que me acompanha, duque do Ramalhete, e principe de
-Santa Olavia, d· hoje de papar ao seu amigo e philosopho... E, como
-quando eu recolher, talvez a senhora Josepha esteja entregue ao somno da
-innocencia, ou · vigilia da devassid„o, aqui lhe ordeno que me tenha
-amanh„ para meu _lunch_ duas formosas perdizes.
-
-E subitamente, n'uma outra voz, com um olhar que ella devia perceber:
-
---Duas perdizesinhas bem assadas e bem cÛradinhas. Frias, est· claro...
-O costume.
-
-Travou do braÁo de Carlos, voltaram · sala.
-
---Com franqueza, Carlos, que te parece a ´Villa Balzacª?
-
-Carlos respondeu como a respeito do episodio da _Hebrea_:
-
---Est· ardente.
-
-Mas elogiou o aceio, a vista da casa e a frescura dos cretones. De
-resto, para um rapaz, para uma cella de trabalho...
-
---Eu, dizia o Ega, passeiando pela sala, com as m„os enterradas nos
-bolsos do seu prodigioso robe de chambre, eu n„o tolero o _bibelot_, o
-_bric-‡-brac_, a cadeira archeologica, essas mobilias d'arte... Que
-diabo, o movel deve estar em harmonia com a idÈa e o sentir do homem que
-o usa! Eu n„o penso, nem sinto como um cavalleiro do seculo XVI, para
-que me hei de cercar de cousas do seculo XVI? N„o ha nada que me faÁa
-tanta melancolia, como ver n'uma sala um veneravel contador do tempo de
-Francisco I recebendo pela face conversas sobre eleiÁıes e altas de
-fundos. Faz-me o effeito d'um bello heroe de armadura d'aÁo, viseira
-cahida e crenÁas profundas no peito, sentado a uma mesa de voltarete a
-jogar copas. Cada seculo tem o seu genio proprio e a sua attitude
-propria. O seculo XIX concebeu a Democracia e a sua attitude È
-esta...--E enterrando-se d'estalo n'uma poltrona, espetou as pernas
-magras para o ar.--Ora esta attitude È impossivel n'um escabello do
-tempo do Prior do Crato. Menino, toca a beber o _Champagne_.
-
-E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega accudiu:
-
---… excellente, que pensas tu? Vem directamente da melhor casa
-d'Epernay, arranjou-m'o o Jacob.
-
---Que Jacob?
-
---O Jacob Cohen, o Jacob.
-
-Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma subita recordaÁ„o,
-e pousando a garrafa outra vez, entalando o monocolo no olho:
-
---… verdade! Ent„o, n'outro dia, que tal, em casa dos Gouvarinhos? Eu
-infelizmente n„o poude ir.
-
-Carlos contou a _soirÈe_. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas
-salas, n'um zum-zum dormente, · meia luz dos candieiros. O conde
-massara-o indiscretamente com a politica, admiraÁıes idiotas por um
-grande orador, um deputado de Mes„o Frio, e explicaÁıes sem fim sobre a
-reforma da instrucÁ„o. A condessa, que estava muito constipada,
-horrorisou-o, dando sobre a Inglaterra, apesar de ingleza, as opiniıes
-da rua de Cedofeita. Imaginava que a Inglaterra È um paiz sem poetas,
-sem artistas, sem ideaes, occupando-se sÛ de amontoar libras... Emfim,
-seccara-se.
-
---Que diabo! murmurou o Ega n'um tom de viva desconsolaÁ„o.
-
-A rolha estalou, elle encheu os copos em silencio; e n'uma _saude_ muda
-os dois amigos beberam o _Champagne_--que Jacob arranjara ao Ega, para o
-Ega se regalar com Rachel.
-
-Depois, de pÈ, com os olhos no tapete, agitando de vagar o copo
-novamente cheio onde a espuma morria, Ega tornou a murmurar, n'aquella
-entoaÁ„o triste de inesperado desapontamento:
-
---Que ferro!...
-
-E apÛs um momento:
-
---Pois menino, pensei que a Gouvarinho te appetecÌa...
-
-Carlos confessou que nos primeiros dias, quando Ega lhe fallara d'ella,
-tivera um caprichosinho, interessara-se por aquelles cabellos cÙr de
-brasa...
-
---Mas agora, mal a conheci, o capricho foi-se...
-
-Ega sentara-se, com o copo na m„o; e depois de contemplar algum tempo as
-suas meias de seda, escarlates como as d'um prelado, deixou cair, muito
-serio, estas palavras:
-
---… uma mulher deliciosa, Carlinhos.
-
-E, como Carlos encolhia os hombros, Ega insistio: a Gouvarinho era uma
-senhora de intelligencia e de gosto; tinha originalidade, tinha audacia,
-uma pontinha de romantismo muito picante...
-
---E, como corpinho de mulher, n„o ha melhor que aquillo de Badajoz para
-c·!
-
---Vae-te d'ahi, Mephistopheles de Celorico!
-
-E Ega, divertido, cantarolou:
-
-
- Je suis Mephisto...
- Je suis Mephisto...
-
-
-Carlos no entanto, fumando preguiÁosamente, continuava a fallar na
-Gouvarinho e n'essa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com
-ella tres palavras n'uma sala. E n„o era a primeira vez que tinha
-d'estes falsos arranques de desejo, vindo quasi com as formas do amor,
-ameaÁando absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e
-resolvendo-se em tedio, em ´seccaª. Eram como os fogachos de polvora
-sobre uma pedra; uma fagulha atÍa-os, n'um momento tornam-se chamma
-vehemente que parece que vae consumir o Universo, e por fim fazem apenas
-um rastro negro que suja a pedra. Seria o seu um d'esses coraÁıes de
-fraco, molles e flaccidos, que n„o podem conservar um sentimento, o
-deixam fugir, escoar-se pelas malhas lassas do tecido relles?
-
---Sou um ressequido! disse elle sorrindo. Sou um impotente de
-sentimento, como Satanaz... Segundo os padres da Egreja, a grande
-tortura de Satanaz È que n„o pÛde amar...
-
---Que phrases essas, menino! murmurou Ega.
-
-Como phrases? Era uma atroz realidade! Passava a vida a ver as paixıes
-falharem-lhe nas m„os como phosphoros. Por exemplo, com a coronela de
-hussards em Vienna! Quando ella faltou ao primeiro _rendez-vous_,
-chorara lagrimas como punhos, com a cabeÁa enterrada no travesseiro e
-aos coices · roupa. E d'ahi a duas semanas, mandava postar o Baptista ·
-janella do hotel, para elle se safar, mal a pobre coronela dobrasse a
-esquina! E com a hollandeza, com Madame Rughel, peior ainda. Nos
-primeiros dias foi uma insensatez: queria-se estabelecer para sempre na
-Hollanda, casar com ella (apenas ella se divorciasse), outras loucuras;
-depois os braÁos que ella lhe deitava ao pescoÁo, e que lindos braÁos,
-pareciam-lhe pesados como chumbo...
-
---Passa fÛra, pedante! E ainda lhe escreves! gritou Ega.
-
---Isso È outra cousa. Ficamos amigos, puras relaÁıes de intelligencia.
-Madame Rughel È uma mulher de muito espirito. Escreveu um romance, um
-d'esses estudos intimos e delicados, como os de Miss Brougthon: chama-se
-as _Rosas Murchas_. Eu nunca li, È em hollandez...
-
---As _Rosas Murchas_! em hollandez! exclamou Ega apertando as m„os na
-cabeÁa.
-
-Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monocolo no olho:
-
---Tu Ès extraordinario, menino!... Mas o teu caso È simples, È o caso de
-D. Juan. D. Juan tambem tinha essas alternaÁıes de chamma e cinza.
-Andava · busca do seu ideal, da _sua mulher_, procurando-a
-principalmente, como de justiÁa, entre as mulheres dos outros. E _aprËs
-avoir couchÈ_, declarava que se tinha enganado, que n„o era aquella.
-Pedia desculpa e retirava-se. Em Hespanha experimentou assim mil e tres.
-Tu Ès simplesmente, como elle, um devasso; e has de vir a acabar
-desgraÁadamente como elle, n'uma tragedia infernal!
-
-Esvasiou outro copo de _Champagne_, e a grandes passadas pela sala:
-
---Carlinhos da minha alma, È inutil que ninguem ande · busca da _sua
-mulher_. Ella vir·. Cada um tem a _sua mulher_, e necessariamente tem de
-a encontrar. Tu est·s aqui, na Cruz dos Quatro Caminhos, ella est·
-talvez em Pekin: mas tu, ahi a raspar o meu reps com o verniz dos
-sapatos, e ella a orar no templo de Confucio, estaes ambos
-insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente, marchando um para o
-outro!... Estou eloquentissimo hoje, e temos dito cousas idiotas. Toca a
-vestir. E, em quanto eu adorno a carcassa, prepara mais phrases sobre
-Satanaz!
-
-Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto--em quanto dentro o Ega
-batia com as gavetas, lanÁando, a todo o desafinado da sua voz roufenha,
-a _Barcarolla_ de Gounod. Quando appareceu, vinha de casaca, gravata
-branca, enfiando o paletot--com o olho brilhante do _Champagne_.
-
-Desceram. O pagem l· estava · porta perfilado, ao pÈ do coupÈ de Carlos,
-que esperara. E a sua fardeta azul de botıes amarellos, a magnifica
-parelha baia reluzindo como um setim vivo, as pratas dos arreios, a
-magestade do cocheiro louro com o seu ramo na librÈ, tudo alli fazia,
-junto da ´Villa Balzacª, um quadro rico que deleitou o Ega.
-
---A vida È agradavel, disse elle.
-
-O coupÈ partiu, ia entrar no largo da GraÁa, quando uma caleche de
-praÁa, aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapÈo baixo
-Ìa lendo um grande jornal.
-
---… o Craft! gritou Ega, debruÁando-se pela portinhola.
-
-O coupÈ parou. Ega de um pulo estava na calÁada, correndo, bradando:
-
---Oh Craft! oh Craft!
-
-Quando, d'ahi a um momento, sentiu duas vozes approximarem-se, Carlos
-desceu tambem do coupÈ, achou-se em face d'um homem baixo, louro, de
-pelle rosada e fresca, e apparencia fria. Sob o fraque correcto
-percebia-se-lhe uma musculatura de athleta.
-
---O Carlos, o Craft, gritou o Ega, lanÁando esta apresentaÁ„o com uma
-simplicidade classica.
-
-Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a m„o. E Ega insistia para
-que voltassem todos · Villa Balzac, fossem beber a outra garrafa de
-_Champagne_, a celebrar o _advento do Justo_! Craft recusou, com o seu
-modo calmo e placido; chegara na vespera do Porto, abraÁara j· o nobre
-Ega, e aproveitava agora a viagem ·quelle bairro longinquo para ir vÍr o
-velho Shlegen, um allem„o que vivia · Penha de FranÁa.
-
---Ent„o outra cousa! exclamou Ega. Para conversarmos, para que vocÍs se
-conheÁam mais, venham vocÍs jantar comigo amanh„ ao Hotel Central. Dito,
-hein? Perfeitamente. ¡s seis.
-
-Apenas o coupÈ partiu de novo, Ega rompeu nas costumadas admiraÁıes pelo
-Craft, encantado com aquelle encontro que dava mais um retoque luminoso
-· sua alegria. O que o enthusiasmava no Craft era aquelle ar
-imperturbavel de gentleman correcto, com que elle egualmente jogaria uma
-partida de bilhar, entraria n'uma batalha, arremetteria com uma mulher,
-ou partiria para a Patagonia...
-
---… das melhores cousas que tem Lisboa. Vaes-te morrer por elle... E que
-casa que elle tem nos Olivaes, que sublime bric-a-brac!
-
-Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma ruga na testa:
-
---Como diabo soube elle da _Villa Balzac_?
-
---Tu n„o fazes segredo d'ella, hein?
-
---N„o... Mas tambem n„o a puz nos annuncios! E o Craft chegou hontem,
-ainda n„o esteve com ninguem que eu conheÁa... … curioso!
-
---Em Lisboa sabe-se tudo...
-
---Canalha de terra! murmurou Ega.
-
-
-O jantar no Central foi addiado, porque o Ega, alargando pouco a pouco a
-idÈa, convertera-o agora n'uma festa de ceremonia em honra do Cohen.
-
---Janto l· muitas vezes, disse elle a Carlos, estou l· todas as
-noites... … necessario repagar a hospitalidade... Um jantar no Central È
-o que basta. E para o effeito moral, pespego-lhe · meza o marquez e a
-besta do Steinbroken. O Cohen gosta de gente assim...
-
-Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marquez partira para a
-Golleg„, e o pobre Steinbroken estava soffrendo d'um incommodo de
-entranhas. Ega pensou no Cruges e no Taveira--mas receiou a cabelleira
-desleixada do Cruges, e alguns dos seus ataques de amargo _spleen_ que
-estragaria o jantar. Terminou por convidar dois intimos do Cohen; mas
-teve ent„o de supprimir o Taveira, que estava de mal com um d'esses
-cavalheiros por palavras que tinham trocado em casa da ´Lola gordaª.
-
-Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda feira, Ega
-teve uma conferencia com o _maitre de hotel_ do Central, em que lhe
-recommendou muita flÙr, dois ananazes para enfeitar a meza, e exigiu que
-um dos pratos do _menu_, qualquer d'elles, fosse _‡ la Cohen_; e elle
-mesmo suggeriu uma idÈa: _tomates farcies ‡ la Cohen_...
-
-N'essa tarde, ·s seis horas, Carlos, ao descer a rua do Alecrim para o
-Hotel Central, avistou Craft dentro da loja de bric-a-brac do tio
-Abrah„o.
-
-Entrou. O velho judeo, que estava mostrando a Craft uma falsa faienÁa do
-Rato, arrancou logo da cabeÁa o sujo barrete de borla, e ficou curvado
-em dois, diante de Carlos, com as duas m„os sobre o coraÁ„o.
-
-Depois, n'uma linguagem exotica, misturada d'inglez, pediu ao seu bom
-senhor D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seu _beautiful
-gentleman_, que se dignasse examinar uma maravilhasinha que lhe tinha
-reservada; e o seu muito _generous gentleman_ tinha sÛ a voltar os
-olhos, a maravilhasinha estava alli ao lado, n'uma cadeira. Era um
-retrato d'hespanhola, apanhado a fortes brochadellas de primeira
-impress„o, e pondo, sobre um fundo audaz de cÙr de rosa murcha, uma face
-gasta de velha garÁa, picada das bexigas, cai·da, ressudando vicio, com
-um sorriso bestial que promettia tudo.
-
-Carlos, tranquillamente, offereceu dez tostıes. Craft pasmou d'uma tal
-prodigalidade; e o bom Abrah„o, n'um riso mudo que lhe abria entre a
-barba grisalha uma grande boca d'um sÛ dente, saboreou muito a ´chalaÁa
-dos seus ricos senhores.ª Dez tostıesinhos! Se o quadrinho tivesse por
-baixo o nomesinho de Fortuny, valia dez continhos de rÈis. Mas n„o tinha
-esse nomesinho bemdito... Ainda assim valia dez notasinhas de vinte mil
-rÈis...
-
---Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma! exclamou Carlos.
-
-E sahiram, deixando o velho intruj„o · porta, curvado em dois, com as
-m„os sobre o coraÁ„o, desejando mil felicidades aos seus generosos
-fidalgos...
-
---N„o tem uma unica cousa boa, este velho Abrah„o, disse Carlos.
-
---Tem a filha, disse o Craft.
-
-Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja. Ent„o, a proposito do
-Abrah„o, fallou a Craft d'essas bellas collecÁıes dos Olivaes, que o
-Ega, apesar do desdem que affectava pelo _bibelot_ e pelo movel d'arte,
-lhe descrevera como sublimes.
-
-Craft encolheu os hombros.
-
---O Ega n„o entende nada. Mesmo em Lisboa, n„o se pÛde chamar ao que eu
-tenho uma collecÁ„o. … um bric-a-brac d'acaso... De que, de resto, me
-vou desfazer!
-
-Isto surprehendeu Carlos. Comprehendera das palavras do Ega ser essa uma
-collecÁ„o formada com amor, no laborioso decurso de annos, orgulho e
-cuidado d'uma existencia de homem...
-
-Craft sorrio d'aquella legenda. A verdade era que sÛ em 1872, elle
-comeÁara a interessar-se pelo bric-a-brac; chegava ent„o da America do
-Sul; e o que fora comprando, descobrindo aqui e alÈm, accumulara-o
-n'essa casa dos Olivaes, alugada ent„o por phantasia, uma manh„ que
-aquelle pardieiro, com o seu bocado de quintal em redor, lhe parecera
-pittoresco, sob o sol de abril. Mas agora se podesse desfazer-se do que
-tinha, ia dedicar-se ent„o a formar uma collecÁ„o homogenea e compacta
-d'arte do seculo desoito.
-
---Aqui nos Olivaes?
-
---N„o. N'uma quinta que tenho ao pÈ do Porto, junto mesmo ao rio.
-
-Entravam ent„o no peristilo do Hotel Central--e n'esse momento um coupÈ
-da Companhia, chegando a largo trote do lado da rua do Arsenal, veiu
-estacar · porta.
-
-Um esplendido preto, j· grisalho, de casaca e calÁ„o, correu logo ·
-portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra,
-passou-lhe para os braÁos uma deliciosa cadelinha escosseza, de pellos
-esguedelhados, finos como seda e cÙr de prata; depois apeando-se,
-indolente e _poseur_, offereceu a m„o a uma senhora alta, loura, com um
-meio vÈo muito apertado e muito escuro que realÁava o explendor da sua
-carnaÁ„o eburnea. Craft e Carlos affastaram-se, ella passou diante
-d'elles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita,
-deixando atraz de si como uma claridade, um reflexo de cabellos d'ouro,
-e um aroma no ar. Trazia um casaco collante de velludo branco de Genova,
-e um momento sobre as lages do peristillo brilhou o verniz das suas
-bottinas. O rapaz ao lado, esticado n'um fato de xadresinho inglez,
-abria negligentemente um telegramma; o preto seguia com a cadelhinha nos
-braÁos. E no silencio a voz de Craft murmurou:
-
---_TrÈs chic_.
-
-Em cima, no gabinete que o creado lhes indicou, Ega esperava, sentado no
-divan de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado
-como um noivo de provincia, de camelia ao peito e plastron azul celeste.
-O Craft conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o sr. Damaso SalcÍde, e
-mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse
-requinte litterario e satanico do _absintho_...
-
-FÙra um dia d'inverno suave e luminoso, as duas janellas estavam ainda
-abertas. Sobre o rio, no cÈu largo, a tarde morria, sem uma aragem,
-n'uma paz elysea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas de cÙr
-de rosa; as terras, os longes da outra banda j· se iam affogando n'um
-vapor avelludado, do tom de violeta; a agoa jazia liza e luzidia como
-uma bella chapa d'aÁo novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro,
-grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraÁados
-inglezes, dormiam, com as mastreaÁıes immoveis, como tomados de
-preguiÁa, cedendo ao affago do clima doce...
-
---Vimos agora l· em baixo, disse Craft indo sentar-se no divan, uma
-esplendida mulher, com uma esplendida cadellinha _griffon_, e servida
-por um esplendido preto!
-
-O sr. Damaso SalcÍde, que n„o despegava os olhos de Carlos, acudiu logo:
-
---Bem sei! Os Castro Gomes... ConheÁo-os muito... Vim com elles de
-Bordeus... Uma gente muito chic que vive em Paris.
-
-Carlos voltou-se, reparou mais n'elle, perguntou-lhe, affavel e
-interessando-se:
-
---O senhor SalcÍde chegou agora de Bordeus?
-
-Estas palavras pareceram deleitar Damaso como um favor celeste:
-ergueu-se immediatamente, approximou-se do Maia, banhado n'um sorriso:
-
---Vim aqui ha quinze dias, no _Orenoque_. Vim de Paris... Que eu em
-podendo È l· que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordeus. Isto È,
-verdadeiramente conheci-a a bordo. Mas estavamos todos no _Hotel de
-Nantes_... Gente muito chic: creado de quarto, governanta ingleza para a
-filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chic a valer! Parece
-incrivel, uns brazileiros... Que ella na voz n„o tem _sutaque_ nenhum,
-falla como nÛs. Elle sim, elle muito _sutaque_... Mas elegante tambem,
-v. ex.^a n„o lhe pareceu?
-
---Vermouth? perguntou-lhe o creado, offerecendo a salva.
-
---Sim, uma gotinha para o appetite. V. ex.^a n„o toma, sr. Maia? Pois
-eu, assim que posso, È direitinho para Paris! Aquillo È que È terra!
-Isto aqui È um chiqueiro... Eu, em n„o indo l· todos os annos, acredite
-v. ex.^a, atÈ comeÁo a andar doente. Aquelle _boulevarsinho_, hein!...
-Ai, eu goso aquillo!... E sei gosar, sei gosar, que eu conheÁo aquillo a
-palmo... Tenho atÈ um tio em Paris.
-
---E que tio! exclamou Ega, approximando-se. Intimo do Gambetta, governa
-a FranÁa... O tio do Damaso governa a FranÁa, menino!
-
-Damaso, escarlate, estourava de gÙso.
-
---Ah, l· isso influencia tem. Intimo do Gambetta, tratam-se por tu, atÈ
-vivem quasi juntos... E n„o È sÛ com o Gambetta; È com o Mac-Mahon, com
-o Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os
-republicanos, emfim!... … tudo quanto elle queira. V. ex.^a n„o o
-conhece? … um homem de barbas brancas... Era irm„o de minha m„e,
-chama-se Guimar„es. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran...
-
-N'esse momento a porta envidraÁada abriu-se de golpe, Ega exclamou:
-´Saude ao poetaª!
-
-E appareceu um individuo muito alto, todo abotoado n'uma sobrecasaca
-preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz
-aquilino, longos, espessos, romanticos bigodes grisalhos: j· todo calvo
-na frente, os anneis fÙfos d'uma grenha muito secca cahiam-lhe
-inspiradamente sobre a golla: e em toda a sua pessoa havia alguma cousa
-de antiquado, de artificial e de lugubre.
-
-Estendeu silenciosamente dous dedos ao Damaso, e abrindo os braÁos
-lentos para Craft, disse n'uma voz arrastada, cavernosa, atheatrada:
-
---Ent„o Ès tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? D·-me c· esses
-ossos honrados, honrado inglez!
-
-Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os:
-
---N„o sei se s„o relaÁıes. Carlos da Maia... Thomaz d'Alencar, o nosso
-poeta...
-
-Era elle! o illustre cantor das _Vozes d'Aurora_, o estylista de
-_Elvira_, o dramaturgo do _Segredo do Commendador_. Deu dois passos
-graves para Carlos, esteve-lhe apertando muito tempo a m„o em
-silencio--e sensibilisado, mais cavernoso:
-
---V. ex.^a, j· que as etiquetas sociaes querem que eu lhe dÍ
-excellencia, mal sabe a quem apertou agora a m„o...
-
-Carlos, surprehendido, murmurou:
-
---Eu conheÁo muito de nome...
-
-E o outro com o olho cavo, o labio tremulo:
-
---Ao camarada, ao inseparavel, ao intimo de Pedro da Maia, do meu pobre,
-do meu valente Pedro!
-
---Ent„o, que diabo, abracem-se! gritou Ega. Abracem-se, com um berro,
-segundo as regras...
-
-Alencar j· tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou,
-retomando-lhe as m„os, sacudindo-lh'as, com uma ternura ruidosa:
-
---E deixemo-nos j· de excellencias! que eu vi-te nascer, meu rapaz!
-trouxe-te muito ao collo! sujaste-me muita calÁa! Co'os diabos, d· c·
-outro abraÁo!
-
-Craft olhava estas cousas vehementes, impassivel; Damaso parecia
-impressionado; Ega apresentou um copo de _vermouth_ ao poeta:
-
---Que grande scena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para te recuperares da
-emoÁ„o...
-
-Alencar esgotou-o d'um trago: e declarou aos amigos que n„o era a
-primeira vez que via Carlos. J· o admirara no seu phaeton, muitas vezes,
-e aos seus bellos cavallos inglezes. Mas n„o se quizera dar a conhecer.
-Elle nunca se atirava aos braÁos de ninguem, a n„o ser das mulheres...
-Foi encher outro calice de _vermouth_, e com elle na m„o, plantado
-diante de Carlos, comeÁou, n'um tom pathetico:
-
---A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estava eu no
-Rodrigues, esquadrinhando alguma d'essa velha litteratura, hoje t„o
-despresada... Lembro-me atÈ que era um volume das _Eclogas_ do nosso
-delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da natureza, esse
-rouxinol t„o portuguez, hoje, est· claro, mettido a um canto, desde que
-para ahi appareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros
-esterquilinios em _ismo_... N'esse momento passaste, disseram-me quem
-eras, e cahiu-me o livro da m„o... Fiquei alli uma hora, acredita, a
-pensar, a rever o passado...
-
-E atirou o _vermouth_ ·s goellas. Ega, impaciente, olhava o relogio. Um
-creado, entrando, accendeu o gaz; a mesa surgiu da penumbra, com um
-brilho de cristaes e louÁas, um luxo de camelias em ramos.
-
-No entanto Alencar (que · luz viva parecia mais gasto e mais velho)
-comeÁara uma grande historia, e como fÙra elle o primeiro que vira
-Carlos depois de nascer, e como fÙra elle que lhe dera o nome.
-
---Teu pae, dizia elle, o meu Pedro, queria-te pÙr o nome d'Affonso,
-d'esse santo, d'esse var„o d'outras edades, Affonso da Maia! Mas tua m„e
-que tinha l· as suas idÈas teimou em que havias de ser Carlos. E
-justamente por causa d'um romance que eu lhe emprest·ra; n'esses tempos
-podiam-se emprestar romances a senhoras, ainda n„o havia a pustula e o
-puz... Era um romance sobre o ultimo Stuart, aquelle bello typo do
-principe Carlos Eduardo, que vocÍs, filhos, conhecem todos bem, e que na
-Escossia, no tempo de Luiz XIV... Emfim, adiante! Tua m„e, devo dizel-o,
-tinha litteratura e da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre,
-n'esse tempo eu era _alguem_, e lembro-me de lhe ter respondido...
-(Lembro-me apesar de j· l· irem vinte e cinco annos... Que digo eu?
-Vinte e sete! Vejam vocÍs isto, filhos, vinte e sete annos!) Emfim,
-voltei-me para tua m„e, e disse-lhe, palavras textuaes: ´Ponha-lhe o
-nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que È o
-verdadeiro nome para o frontespicio d'um poema, para a fama d'um
-heroismo ou para o labio d'uma mulher!ª
-
-Damaso, que continuava a admirar Carlos, deu _bravos_ estrondosos; Craft
-bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de
-relogio na m„o, soltou de l· um _muito bem_ desenxabido.
-
-Alencar, radiante com o seu effeito, derramava em roda um sorriso que
-lhe mostrava os dentes estragados. AbraÁou outra vez Carlos, atirou uma
-palmada ao coraÁ„o, exclamou:
-
---Caramba, filhos, sinto uma luz c· dentro!
-
-A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-se logo da
-sua demora--emquanto Ega, que se precipitara para elle, lhe ajudava a
-despir o palletot. Depois apresentou-o a Carlos--a unica pessoa alli de
-quem o Cohen n„o era intimo. E dizia, tocando o bot„o da campainha
-electrica:
-
---O marquez n„o pÙde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coitado, est·
-com a sua gÙtta, a gÙtta de diplomata, de lord e de banqueiro... A gÙtta
-que tu has de ter, velhaco!
-
-Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suissas t„o pretas e
-luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria, descalÁando as luvas,
-dizendo, que, segundo os inglezes, havia tambem a gÙtta de gente pobre;
-e era essa naturalmente a que lhe competia a elle...
-
-Ega, no entanto, travara-lhe do braÁo, collocara-o preciosamente · mesa,
-· sua direita: depois offereceu-lhe um bot„o de camelia d'um ramo: o
-Alencar florio-se tambem--e os creados serviram as ostras.
-
-Fallou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impressionava
-Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado · navalha por uma companheira,
-vindo morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma
-viella em sangue--uma _sarrabulhada_ como disse o Cohen, sorrindo e
-provando o Bucellas.
-
-Damaso teve a satisfaÁ„o de poder dar detalhes; conhecera a rapariga, a
-que dera as facadas, quando ella era amante do visconde da Ermidinha...
-Se era bonita? Muito bonita. Umas m„os de duqueza... E como aquillo
-cantava o _fado_! O peior era que mesmo no tempo do visconde, quando
-ella era chic, j· se empiteirava... E o visconde, honra lhe seja, nunca
-lhe perdera a amisade; respeitava-a, mesmo depois de casado Ìa vel-a, e
-tinha-lhe promettido que se ella quizesse deixar o _fado_ lhe punha uma
-confeitaria para os lados da SÈ. Mas ella n„o queria. Gostava d'aquillo,
-do Bairro Alto, dos cafÈs de _lepes_, dos chulos...
-
-Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um
-romance... Isto levou logo a fallar-se do _Assommoir_, de Zola e do
-realismo:--e o Alencar immediatmente, limpando os bigodes dos pingos de
-sÙpa, supplicou que se n„o discutisse, · hora aceada do jantar, essa
-litteratura _latrinaria_. Alli todos eram homens d'aceio, de sala, hein?
-Ent„o, que se n„o mencionasse o _excremento_!
-
-Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados
-a milhares de ediÁıes; essas rudes analyses, apoderando-se da Egreja, da
-Realeza, da Bureocracia, da FinanÁa, de todas as cousas santas,
-dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a les„o, como a cadaveres
-n'um amphitheatro; esses estylos novos, t„o precisos e t„o ducteis,
-apanhando em flagrante a linha, a cÙr, a palpitaÁ„o mesma da vida; tudo
-isso (que elle, na sua confus„o mental, chamava a _IdÈa nova_) caindo
-assim de chofre e escangalhando a cathedral romantica, sob a qual tantos
-annos elle tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado o pobre
-Alencar e tornara-se o desgosto litterario da sua velhice. Ao principio
-reagiu. ´Para pÙr um dique definitivo · torpe marȪ, como elle disse em
-plena Academia, escreveu dois folhetins crueis; ninguem os leu; a ´marÈ
-torpeª alastrou-se, mais profunda, mais larga. Ent„o Alencar refugiou-se
-na _moralidade_ como n'uma rocha solida. O naturalismo, com as suas
-alluviıes de obscenidade, ameaÁava corromper o pudor social? Pois bem.
-Elle, Alencar, seria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes.
-Ent„o o poeta das _Vozes d'Aurora_, que durante vinte annos, em
-canÁoneta e ode, propozera commercios lubricos a todas as damas da
-capital; ent„o o romancista de _Elvira_ que, em novella e drama, fizera
-a propaganda do amor illegitimo, representando os deveres conjugaes como
-montanhas de tedio, dando a todos os maridos formas gordurosas e
-bestiaes, e a todos os amantes a belleza, o esplendor e o genio dos
-antigos Apollos; ent„o Thomaz Alencar que (a acreditarem-se as
-confissıes autobiographicas da _FlÙr de Martyrio_) passava elle proprio
-uma existencia medonha de adulterios, lubricidades, orgias, entre
-velludos e vinhos de Chypre--d'ora em diante austero, incorruptivel,
-todo elle uma torre de pudicicia, passou a vigiar attentamente o jornal,
-o livro, o theatro. E mal lobrigava symptomas nascentes de realismo n'um
-beijo que estalava mais alto, n'uma brancura de saia que se arregaÁava
-de mais--eis o nosso Alencar que soltava por sobre o paiz um grande
-grito de alarme, corria · penna, e as suas imprecaÁıes lembravam (a
-academicos faceis de contentar) o rugir de Isaias. Um dia porÈm, Alencar
-teve uma d'estas revelaÁıes que prostram os mais fortes; quanto mais
-elle denunciava um livro como immoral, mais o livro se vendia como
-agradavel! O Universo pareceu-lhe cousa torpe, e o auctor de _Elvira_
-encavacou...
-
-Desde ent„o reduziu a express„o do seu rancor ao minimo, a essa phrase
-curta, lanÁada com nojo:
-
---Rapazes, n„o se mencione o _excremento_!
-
-Mas n'essa noite teve o regosijo de encontrar alliados. Craft n„o
-admittia tambem o naturalismo, a realidade feia das cousas e da
-sociedade estatelada nua n'um livro. A arte era uma idealisaÁ„o! Bem:
-ent„o que mostrasse os typos superiores d'uma humanidade aperfeiÁoada,
-as fÛrmas mais bellas do viver e do sentir... Ega horrorisado apertava
-as m„os na cabeÁa--quando do outro lado Carlos declarou que o mais
-intoleravel no realismo eram os seus grandes ares scientificos, a sua
-pretenciosa esthetica deduzida d'uma philosophia alheia, e a invocaÁ„o
-de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e
-de Darwin, a proposito d'uma lavadeira que dorme com um carpinteiro!
-
-Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do
-realismo estava em ser ainda pouco scientifico, inventar enredos, crear
-dramas, abandonar-se · phantasia litteraria! a fÛrma pura da arte
-naturalista devia ser a monographia, o estudo secco d'um typo, d'um
-vicio, d'uma paix„o, tal qual como se se tratasse d'um caso pathologico,
-sem pittoresco e sem estylo!...
-
---Isso È absurdo, dizia Carlos, os caracteres sÛ se podem manifestar
-pela acÁ„o...
-
---E a obra d'arte, accrescentou Craft, vive apenas pela fÛrma...
-
-Alencar interrompeu-os, exclamando que n„o eram necessarias tantas
-philosophias.
-
---VocÍs est„o gastando cÍra com ruins defuntos, filhos. O realismo
-critica-se d'este modo: m„o no nariz! Eu quando vejo um d'esses livros,
-enfrasco-me logo em agua de colonia. N„o discutamos o _excremento_.
-
---_Sole normande_? perguntou-lhe o creado, adiantando a travessa.
-
-Ega Ìa fulminal-o. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e
-superior a estas controversias de litteraturas, calou-se; occupou-se sÛ
-d'elle, quiz saber que tal elle achava aquelle S.^t Emilion; e, quando o
-viu confortavelmente servido de _sole normande_, lanÁou com grande
-alarde de interesse esta pergunta:
-
---Ent„o, Cohen, diga-nos vocÍ, conte-nos c·... O emprestimo faz-se ou
-n„o se faz?
-
-E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquella quest„o do
-emprestimo era grave. Uma operaÁ„o tremenda, um verdadeiro episodio
-historico!...
-
-O Cohen collocou uma pitada de sal · beira do prato, e respondeu, com
-auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar _absolutamente_. Os
-emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, t„o
-regular, t„o indispensavel, t„o sabida como o imposto. A unica occupaÁ„o
-mesmo dos ministerios era esta--_cobrar o imposto_ e _fazer o
-emprestimo_. E assim se havia de continuar...
-
-Carlos n„o entendia de finanÁas: mas parecia-lhe que, d'esse modo, o
-paiz ia alegremente e lindamente para a _banca-rota_.
-
---N'um galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen,
-sorrindo. Ah, sobre isso, ninguem tem illusıes, meu caro senhor. Nem os
-proprios ministros da fazenda!... A _banca-rota_ È inevitavel: È como
-quem faz uma somma...
-
-Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos
-escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o calice de novo, fincara
-os cotovellos na meza para lhe beber melhor as palavras.
-
---A _banca-rota_ È t„o certa, as cousas est„o t„o dispostas para
-ella--continuava o Cohen--que seria mesmo facil a qualquer, em dois ou
-tres annos, fazer fallir o paiz...
-
-Ega gritou sofregamente pela _receita_. Simplesmente isto: manter uma
-agitaÁ„o revolucionaria constante; nas vesperas de se lanÁarem os
-emprestimos haver duzentos maganıes decididos que cahissem · pancada na
-municipal e quebrassem os candieiros com vivas · Republica; telegraphar
-isto em letras bem gordas para os jornaes de Paris, Londres e do Rio de
-Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro, e a _banca-rota_
-estalava. SÛmente, como elle disse, isto n„o convinha a ninguem.
-
-Ent„o Ega protestou com vehemencia. Como n„o convinha a ninguem? Ora
-essa! Era justamente o que convinha a todos! ¡ _banca-rota_ seguia-se
-uma revoluÁ„o, evidentemente. Um paiz que vive da _inscripÁ„o_, em n„o
-lh'a pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou
-procedendo apenas por vinganÁa--o primeiro cuidado que tem È varrer a
-monarchia que lhe representa o _calote_, e com ella o crasso pessoal do
-constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha divida,
-da velha gente, d'essa collecÁ„o grotesca de bestas...
-
-A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados de _grotescos_, de
-_bestas_, os homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou
-a m„o no braÁo do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, elle
-era o primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia
-mediocres e patetas,--mas tambem homens de grande valor!
-
---Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de experiencia. VocÍ deve
-reconhecel-o, Ega... VocÍ È muito exagerado! N„o senhor, ha talento, ha
-saber.
-
-E, lembrando-se que algumas d'essas _bestas_ eram amigos do Cohen, Ega
-reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porÈm cofiava sombriamente o
-bigode. Ultimamente pendia para idÈas radicaes, para a democracia
-humanitaria de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas
-letras, refugiava-se no romantismo politico, como n'um asylo paralello:
-queria uma republica governada por genios, a fraternisaÁ„o dos povos, os
-Estados Unidos da Europa... AlÈm d'isso, tinha longas queixas d'esses
-politiquotes, agora gente de Poder, outr'ora seus camaradas de redacÁ„o,
-de cafÈ e de _batota_...
-
---Isso, disse elle, l· a respeito de talento e de saber, historias... Eu
-conheÁo-os bem, meu Cohen...
-
-O Cohen acudiu:
-
---N„o senhor, Alencar, n„o senhor! VocÍ tambem È dos taes... AtÈ lhe
-fica mal dizer isso... … exageraÁ„o. N„o senhor, ha talento, ha saber.
-
-E o Alencar, peranta esta intimaÁ„o do Cohen, o respeitado director do
-_Banco Nacional_, o marido da divina Rachel, o dono d'essa hospitaleira
-casa da rua do Ferregial onde se jantava t„o bem, recalcou o
-despeito--admittiu que n„o deixava de haver talento e saber.
-
-Ent„o, tendo assim, pela influencia do seu Banco, dos bellos olhos da
-sua mulher e da excellencia do seu cosinheiro, chamado estes espiritos
-rebeldes ao respeito dos Parlamentares e · veneraÁ„o da Ordem, Cohen
-condescendeu em dizer, no tom mais suave da sua voz, que o paiz
-necessitava reformas...
-
-Ega porÈm, incorrigivel n'esse dia, soltou outra enormidade:
-
---Portugal n„o necessita refÛrmas, Cohen, Portugal o que precisa È a
-invas„o hespanhola.
-
-Alencar, patriota ‡ antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso
-indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, vio
-alli apenas ´um dos paradoxos do nosso Ega.ª Mas o Ega fallava com
-seriedade, cheio de razıes. Evidentemente, dizia elle, invas„o n„o
-significa perda absoluta de independencia. Um receio t„o estupido È
-digno sÛ de uma sociedade t„o estupida como a do _Primeiro de Dezembro_.
-N„o havia exemplo de seis milhıes de habitantes serem engolidos, de um
-sÛ trago, por um paiz que tem apenas quinze milhıes de homens. Depois
-ninguem consentiria em deixar cahir nas m„os de Hespanha, naÁ„o militar
-e maritima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as
-allianÁas que teriamos, a troco das colonias--das colonias que sÛ nos
-servem, como a prata de familia aos morgados arruinados, para ir
-empenhando em casos de crise... N„o havia perigo; o que nos aconteceria,
-dada uma invas„o, n'um momento de guerra europea, seria levarmos uma
-sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisaÁ„o, perdermos uma ou duas
-provincias, ver talvez a Galliza estendida atÈ ao Douro...
-
---_Poulet aux champignons_, murmurou o creado, apresentando-lhe a
-travessa.
-
-E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a
-_salvaÁ„o do paiz_, n'essa catastrophe que tornaria povoaÁ„o hespanhola
-Celorico de Basto, a nobre Celorico, berÁo de heroes, berÁo dos Egas...
-
---N'isto: no ressuscitar do espirito publico e do genio portuguez!
-Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um
-esforÁo desesperado para viver. E em que bella situaÁ„o nos achavamos!
-Sem monarchia, sem essa caterva de politicos, sem esse tortulho da
-_inscripÁ„o_, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha,
-limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeÁava-se
-uma historia nova, um outro Portugal, um Portugal serio e intelligente,
-forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilisaÁ„o como
-outr'ora... Meninos, nada regenera uma naÁ„o como uma medonha tarÍa...
-Oh Deus d'Ourique, manda-nos o castelhano! E vocÍ, Cohen, passe-me o
-S.^t Emilion.
-
-Agora, n'um rumor animado, discutia-se a invas„o. Ah, podia-se fazer uma
-bella resistencia! Cohen affianÁava o dinheiro. Armas, artilheria, iam
-comprar-se · America--e Craft offereceu logo a sua collecÁ„o de espadas
-do seculo XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia
-estar barato...
-
---O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega.
-
---¡s ordens, meu coronel.
-
---O Alencar, continuava Ega, È encarregado de ir despertar pela
-provincia o patriotismo, com cantos e com odes!
-
-Ent„o o poeta, pousando o calice, teve um movimento de le„o que sacode a
-juba:
-
---Isto È uma velha carcassa, meu rapaz, mas n„o est· sÛ para odes! Ainda
-se agarra uma espingarda, e como a pontaria È boa, ainda v„o a terra um
-par de gallegos... Caramba, rapazes, sÛ a idÈa d'essas cousas me pıe o
-coraÁ„o negro! E como vocÈs podem fallar n'isso, a rir, quando se trata
-do paiz, d'esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja m·, de
-accordo, mas, caramba! È a unica que temos, n„o temos outra! … aqui que
-vivemos, È aqui que rebentamos... Irra, fallemos d'outra cousa, fallemos
-de mulheres!
-
-Dera um repell„o ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paix„o
-patriotica...
-
-E no silencio que se fez Damaso, que desde as informaÁıes sobre a
-rapariga do Ermidinha emmudecera, occupado a observar Carlos com
-religi„o, ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de
-finura:
-
---Se as cousas chegassem a esse ponto, se pozessem assim feias, eu c·, ·
-cautela, Ìa-me raspando para Paris...
-
-Ega triumphou, pulou de gosto na cadeira. Eis alli, no labio synthetico
-de Damaso, o grito espontaneo e genuino do brio portuguez! Raspar-se,
-pirar-se!... Era assim que d'alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa,
-a malta constitucional, desde El-Rei nosso Senhor atÈ aos cretinos de
-secretaria!...
-
---Meninos, ao primeiro soldado hespanhol que appareÁa · fronteira, o
-paiz em massa foge como uma lebre! Vae ser uma debandada unica na
-historia!
-
-Houve uma indignaÁ„o, Alencar gritou:
-
---Abaixo o traidor!
-
-Cohen interveiu, declarou que o soldado portuguez era valente, · maneira
-dos turcos--sem disciplina, mas teso. O proprio Carlos disse, muito
-serio:
-
---N„o senhor... Ninguem ha de fugir, e ha de se morrer bem.
-
-Ega rugiu. Para quem estavam elles fazendo essa _pose_ heroica? Ent„o
-ignoravam que esta raÁa, depois de cincoenta annos de
-constitucionalismo, creada por esses saguıes da Baixa, educada na
-piolhice dos lyceus, roÌda de syphlis, apodrecida no bolÙr das
-secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o
-musculo como perdera o caracter, e era a mais fraca, a mais covarde raÁa
-da Europa?...
-
---Isso s„o os lisboetas, disse Craft.
-
---Lisboa È Portugal, gritou o outro. FÛra de Lisboa n„o ha nada. O paiz
-est· todo entre a Arcada e S. Bento!...
-
-A mais miseravel raÁa da Europa! continuava elle a berrar. E que
-exercito! Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em
-massa no hospital! Com seus olhos tinha elle visto, no dia da abertura
-das CÙrtes, um marujo sueco, um rapag„o do Norte, fazer debandar, a
-soccos, uma companhia de soldados; as praÁas tinham litteralmente
-largado a fugir, com a patrona a batter-lhe os rins; e o official,
-enfiado de terror, metteu-se para uma escada, a vomitar!...
-
-Todos protestaram. N„o, n„o era possivel... Mas se elle tinha visto, que
-diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos fallazes da phantasia...
-
---Juro pela saude da mam„! gritou Ega furioso.
-
-Mas emmudeceu. O Cohen tocara-lhe no braÁo. O Cohen Ìa fallar.
-
-O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os hespanhoes
-porÈm pensassem na invas„o isso parecia-lhe certo--sobretudo se viessem,
-como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lh'o dissera. J·
-havia mesmo negocios de fornecimentos entabolados...
-
---Hespanholadas, gallegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e
-torcendo os bigodes.
-
---No _Hotel de Paris_, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um
-magistrado, que me disse com um certo ar que n„o perdia a esperanÁa de
-se vir estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa,
-quando c· estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que ha muitos
-hespanhoes que est„o · espera d'este augmento de territorio para se
-empregarem!
-
-Ent„o Ega cahiu em extasi, apertou as m„os contra o peito. Oh que
-delicioso traÁo! Oh que admiravelmente observado!
-
---Este Cohen! exclamava elle para os lados. Que finamente observado! Que
-traÁo adoravel! Hein, Craft? Hein, Carlos? Delicioso!
-
-Todos cortezmente admiraram a finura do Cohen. Elle agradecia, com o
-olho enternecido, passando pelas suissas a m„o onde reluzia um diamante.
-E n'esse momento os creados serviam um prato de ervilhas n'um molho
-branco, murmurando:
-
---_Petits pois a la Cohen_.
-
-_A la Cohen?_ Cada um verificou o seu _menu_ mais attentamente. E l·
-estava, era o legume: _petits pois a la Cohen!_ Damaso, enthusiasmado,
-declarou isto ´chic a valer!ª E fez-se, com o Champagne que se abria, a
-primeira saude ao Cohen!
-
-Esquecera-se a banca rota, a invas„o, a patria--o jantar terminava
-alegremente. Outras _saudes_ crusaram-se, ardentes e loquazes: o proprio
-Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de creanÁa, bebeu ·
-RevoluÁ„o e · Anarchia, brinde complicado, que o Ega erguera, j· com o
-olho muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremeza alastrava-se,
-destroÁada; no prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a
-bocados de ananaz mastigado. Damaso, todo debruÁado sobre Carlos,
-fazia-lhe o elogio da parelha ingleza, e d'aquelle _phaeton_ que era a
-cousa mais linda que passeiava Lisboa. E logo depois do seu brinde de
-demagogo, sem raz„o, Ega arremettera contra Craft, injuriando a
-Inglaterra, querendo excluil-a d'entre as naÁıes pensantes, ameaÁando-a
-de uma revoluÁ„o social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com
-acenos de cabeÁa, imperturbavel, partindo nozes.
-
-Os creados serviram o cafÈ. E como havia j· tres longas horas que
-estavam · meza, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na
-animaÁ„o viva que dera o _Champagne_. A sala, de tecto baixo, com os
-cinco bicos de gaz ardendo largamente, enchera-se de um calor pesado,
-onde se ia espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores
-por entre a nevoa alvadia do fumo.
-
-Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e ahi
-recomeÁou logo, n'aquella communidade de gostos que os comeÁava a ligar,
-a conversa da rua do Alecrim sobre a bella collecÁ„o dos Olivaes. Craft
-dava detalhes; a cousa rica e rara que tinha era um armario hollandez do
-seculo XVI; de resto, alguns bronzes, faianÁas e boas armas...
-
-Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto · meza,
-estridencias de voz, e como um conflicto que rompia: Alencar, sacudindo
-a grenha, gritava contra a _palhada philosophica_; e do outro lado, com
-o calice de cognac na m„o, Ega, pallido e affectando uma tranquillidade
-superior, declarava toda essa babuge lyrica que por ahi se publica digna
-da policia correccional...
-
---Pegaram-se outra vez, veiu dizer Damaso a Carlos, approximando-se da
-varanda. … por causa do Craveiro. Est„o ambos divinos!
-
-Era com effeito a proposito de poesia moderna, de Sim„o Craveiro, do seu
-poema a _Morte de Satanaz_. Ega estivera citando, com enthusiasmo,
-estrophes do episodio da _Morte_, quando o grande esqueleto symbolico
-passa em pleno sol no Boulevard, vestido como uma cocotte, arrastando
-sedas rumorosas
-
-
- ´E entre duas costellas, no decotte,
- Tinha um bouquet de rosas!ª
-
-
-E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da _IdÈa nova_, o
-paladino do Realismo, triumphara, cascalhara, denunciando logo n'essa
-simples estrophe dois erros de grammatica, um verso errado, e uma imagem
-roubada a Beaudelaire!
-
-Ent„o Ega, que bebera um sobre outro dois calices de cognac, tornou-se
-muito provocante, muito pessoal.
-
---Eu bem sei por que tu fallas, Alencar, dizia elle agora. E o motivo
-n„o È nobre. … por causa do epigramma que elle te fez:
-
-
- O Alencar d'Alemquer,
- Acceso com a primavera...
-
-
---Ah, vocÍs nunca ouviram isto? continuou elle voltando-se, chamando os
-outros. … delicioso, È das melhores cousas do Craveiro. Nunca ouviste,
-Carlos? … sublime, sobre tudo esta estrophe:
-
-
- O Alencar d'Alemquer
- Que quer? Na verde campina
- N„o colhe a tenra bonina
- Nem consulta o malmequer...
- Que quer? Na verde campina
- O Alencar d'Alemquer
- Quer menina!
-
-
-Eu n„o me lembro do resto, mas termina com um grito de bom senso, que È
-a verdadeira critica de todo esse lyrismo pandilha:
-
-
- O Alencar d'Alemquer
- Quer cacete!
-
-
-Alencar passou a m„o pela testa livida, e com o olho cavo fito no outro,
-a voz rouca e lenta:
-
---Olha, Jo„o da Ega, deixa-me dizer-te uma cousa, meu rapaz... Todos
-esses epigrammas, esses dichotes lorpas do rachitico e dos que o
-admiram, passam-me pelos pÈs como um enxurro de cloaca... O que faÁo È
-arregaÁar as calÁas! ArregaÁo as calÁas... Mais nada, meu Ega. ArregaÁo
-as calÁas!
-
-E arregaÁou-as realmente, mostrando a ceroula, n'um gesto brusco e de
-delirio.
-
---Pois quando encontrares enchurros d'esses, gritou-lhe o Ega, agacha-te
-e bebe-os! D„o-te sangue e forÁa ao lyrismo!
-
-Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar:
-
---Eu, se esse Craveirete n„o fosse um rachitico, talvez me entretivesse
-a rolal-o aos pontapÈs por esse Chiado abaixo, a elle e · versalhada, a
-essa lambisgonhice excrementicia com que seringou Satanaz! E depois de o
-besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o craneo!
-
---N„o se esborracham assim craneos, disse de l· o Ega n'um tom frio de
-troÁa.
-
-Alencar voltou para elle uma face medonha. A colera e o cognac
-incendiavam-lhe o olhar; todo elle tremia:
-
---Esborrachava-lh'o, sim, esborrachava, Jo„o da Ega! Esborrachava-lh'o
-assim, olha, assim mesmo!--Rompeu a atirar patadas ao soalho, abalando a
-sala, fazendo tilintar crystaes e louÁas.--Mas n„o quero, rapazes!
-Dentro d'aquelle craneo sÛ ha excremento, vomito, puz, materia verde, e
-se lh'o esborrachasse, por que lh'o esborrachava, rapazes, todo o miollo
-podre sahia, empestava a cidade, tinhamos o cholera! Irra! Tinhamos a
-peste!
-
-Carlos, vendo-o t„o excitado, tornou-lhe o braÁo, quiz calmal-o:
-
---Ent„o, Alencar! Que tolice... Isso vale l· a pena!...
-
-O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o
-ultimo desabafo:
-
---Com effeito, n„o vale a pena ninguem zangar-se por causa d'esse
-Craveirote da _IdÈa nova_, esse caloteiro, que se n„o lembra que a porca
-da irm„ È uma meretriz de doze vintens em Marco de Canavezes!
-
---N„o, isso agora È de mais, pulha! gritou Ega, arremeÁando-se, de
-punhos fechados.
-
-Cohen e Damaso, assustados, agarraram-n'o. Carlos puchara logo para o
-v„o da janella o Alencar que se debatia, com os olhos chammejantes, a
-gravata solta. Tinha cahido uma cadeira; a correcta sala, com os seus
-divans de marroquim, os seus ramos de camelias, tomava um ar de taverna,
-n'uma bulha de faias, entre a fumaraÁa de cigarros. Damaso, muito
-pallido, quasi sem voz, Ìa d'um a outro:
-
---Oh meninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no
-Hotel Central!...
-
-E, d'entre os braÁos do Cohen, Ega berrava, j· rouco:
-
---Esse pulha, esse covarde... Deixe-me, Cohen! N„o, isso hei de
-esbofeteal-o!... A D. Anna Craveiro, uma santa!... Esse calumniador...
-N„o, isso hei de esganal-o!...
-
-Craft, no entanto, impassivel, bebia aos golos a sua chartreuse. J·
-presence·ra, mais vezes, duas litteraturas rivaes engalphinhando-se,
-rolando no ch„o, n'um latir de injurias: a torpeza do Alencar sobre a
-irm„ do outro fazia parte dos costumes de critica em Portugal: tudo isso
-o deixava indifferente, com um sorriso de desdem. AlÈm d'isso sabia que
-a reconciliaÁ„o n„o tardaria, ardente e com abraÁos. E n„o tardou.
-Alencar sahiu do v„o da janella, atraz de Carlos, abotoando a
-sobrecasaca, grave e como arrependido. A um canto da sala, Cohen fallava
-ao Ega com auctoridade, severo, · maneira d'um pae: depois voltou-se,
-ergueu a m„o, ergueu a voz, disse que alli todos eram cavalheiros: e
-como homens de talento e de coraÁ„o fidalgo os dois deviam abraÁar-se...
-
---V·, um _shake-hands_, Ega, faÁa isso por mim!... Alencar, vamos,
-peÁo-lh'o eu!
-
-O auctor de _Elvira_ deu um passo, o auctor das _Memorias d'um Atomo_
-estendeu a m„o: mas o primeiro aperto foi gÙche e molle. Ent„o Alencar,
-generoso e rasgado, exclamou que entre elle e o Ega n„o devia _ficar uma
-nuvem!_ Tinha-se excedido... FÙra o seu desgraÁado genio, esse calor de
-sangue, que durante toda a existencia sÛ lhe trouxera lagrimas! E alli
-declarava bem alto que Anna Craveiro era uma santa! Tinha-a conhecido em
-Marco de Canavezes, em casa dos Peixotos... Como esposa, como m„e, Anna
-Craveiro era impeccavel. E reconhecia, do fundo d'alma, que o Craveiro
-tinha carradas de talento!...
-
-Encheu um copo de _Champagne_, ergueu-o alto, diante do Ega, como um
-calice de altar:
-
---¡ tua, Jo„o!
-
-Ega, generoso tambem, respondeu:
-
---¡ tua, Thomaz!
-
-AbraÁaram-se. Alencar jurou que ainda na vespera, em casa de D. Joanna
-Coutinho, elle dissera que n„o conhecia ninguem mais scintillante que o
-Ega! Ega affirmou logo que em poemas nenhuns corria, como nos do
-Alencar, uma t„o bella veia lyrica. Apertaram-se outra vez, com palmadas
-pelos hombros. Trataram-se de _irm„os na arte_, trataram-se de
-_genios_!...
-
---S„o extraordinarios, disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapÈo.
-Desorganisam-me, preciso ar!...
-
-A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais cognac. Depois
-Cohen sahiu levando o Ega. Damaso e Alencar desceram com Carlos--que ia
-recolher a pÈ pelo Aterro.
-
-¡ porta, o poeta parou com solemnidade.
-
---Filhos, exclamou elle tirando o chapÈo e refrescando largamente a
-fronte, ent„o? Parece-me que me portei como um gentleman!
-
-Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade...
-
---Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que È ser
-gentleman! E agora vamos l· por esse Aterro fÛra... Mas deixa-me ir alli
-primeiro comprar um pacote de tabaco...
-
---Que typo! exclamou Damaso, vendo-o affastar-se. E a cousa Ìa-se pondo
-feia...
-
-E immediatamente, sem transiÁ„o, comeÁou a fazer elogios a Carlos. O sr.
-Maia n„o imaginava ha quanto tempo elle desejava conhecel-o!
-
---Oh senhor...
-
---Creia v. ex.^a... Eu n„o sou de sabujices... Mas pode v. ex.^a
-perguntar ao Ega, quantas vezes o tenho dito: v. ex.^a È a cousa melhor
-que ha em Lisboa!
-
-Carlos, baixava a cabeÁa, mordendo o riso. Damaso, repetia, do fundo do
-peito.
-
---Olhe que isto È sincero, sr. Maia! Acredite v. ex.^a que isto È do
-coraÁ„o!
-
-Era realmente sincero. Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera alli,
-n'aquelle moÁo gordo e bochechudo, sem o saber, uma adoraÁ„o muda e
-profunda; o proprio verniz dos seus sapatos, a cÙr das suas luvas eram
-para o Damaso motivo de veneraÁ„o, e t„o importantes como principios.
-Considerava Carlos um typo supremo de _chic_, do seu querido _chic_, um
-Brummel, um d'Orsay, um Morny,--uma ´d'estas cousas que sÛ se vÍem l·
-fÛraª, como elle dizia arregalando os olhos. N'essa tarde sabendo que
-vinha jantar com o Maia, conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho
-experimentando gravatas, perfumara-se como para os braÁos d'uma
-mulher;--e por causa de Carlos mandara estacionar alli o coupÈ, ·s dez
-horas, com o cocheiro de ramo ao peito.
-
---Ent„o essa senhora brazileira vive aqui? perguntou Carlos, que dera
-dous passos, olhava uma janella allumiada no segundo andar.
-
-Damaso seguiu-lhe o olhar.
-
---Vive l· do outro lado. Est„o aqui ha quinze dias... Gente _chic_... E
-ella È de appetecer, v. ex.^a reparou? Eu a bordo atirei-me... E ella
-dava cavaco! Mas tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar
-aqui, soirÈe acol·, umas aventurasitas... N„o tenho podido c· vir,
-deixei-lhes sÛ bilhetes; mas trago-a d'olho, que ella demora-se...
-Talvez venha c· ·manh„, estou c· agora a sentir umas cocegas... E se me
-pilho sÛ com ella, z·s, ferro-lhe logo um beijo! Que eu c·, n„o sei se
-v. ex.^a È a mesma cousa, mas eu c·, com mulheres, a minha theoria È
-esta: attrac„o! Eu c·, È logo: attrac„o!
-
-N'esse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca. Damaso
-despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para que Carlos ouvisse, a
-adresse da Morelli, a segunda dama de S. Carlos.
-
---Bom rapaz, este Damaso, dizia Alencar, travando de braÁo de Carlos, ao
-seguirem ambos pelo Aterro. … l· muito dos Cohens, muito querido na
-sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou
-muito teu pae; e a mim tambem. Mas elle assigna Salcede; talvez nome da
-m„e; ou talvez inventado. Bom rapaz... O pae era um velhaco! Parece que
-estou a ouvir o Pedro dizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e
-do grande: ´Silva judeu, dinheiro, e a rÙdo!ª... Outros tempos, meu
-Carlos, grandes tempos. Tempos de gente!
-
-E ent„o por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gaz
-dormente luzindo em fila d'enterro, Alencar foi fallando d'esses
-´grandes temposª da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, atravÈz das
-suas phrases de lyrico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado d'esse
-mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor
-das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou
-rebentando pilecas de sejes em galopadas para Cintra. Cintra era ent„o
-um ninho de amores, e sob as suas romanticas ramagens as fidalgas
-abandonavam-se aos braÁos dos poetas. Ellas eram Elviras, elles eram
-Antonys. O dinheiro abundava; a cÙrte era alegre; a RegeneraÁ„o
-litterata e galante ia engrandecer o paiz, bello jardim da Europa; os
-bachareis chegavam de Coimbra, frementes de eloquencia; os ministros da
-corÙa recitavam ao piano; o mesmo sopro lyrico inchava as odes e os
-projectos de lei...
-
---Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos.
-
---Era outra cousa, meu Carlos! Vivia-se! N„o existiriam esses ares
-scientificos, toda essa palhada philosophica, esses badamecos
-positivistas... Mas havia coraÁ„o, rapaz! Tinha-se faisca! Mesmo n'essas
-cousas da politica... VÍ esse chiqueiro agora ahi, essa malta de
-bandalhos... N'esse tempo Ìa-se alli · camara e sentia-se a inspiraÁ„o,
-sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeÁas!... E depois, menino, havia
-muitissimo boas mulheres.
-
-Os hombros descahiam-lhe na saudade d'esse mundo perdido. E parecia mais
-lugubre, com a sua grenha d'inspirado sahindo-lhe de sob as abas largas
-do chapÈo velho, a sobrecasaca coÁada e mal feita collando-se-lhe
-lamentavelmente ·s ilhargas.
-
-Um momento caminharam em silencio. Depois, na rua das Janellas Verdes, o
-Alencar _quiz refrescar_. Entraram n'uma pequena venda, onde a mancha
-amarella d'um candieiro de petroleo destacava n'uma penumbra de
-subterraneo, allumiando o zinco humido do balc„o, garrafas nas
-prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenÁo amarrado nos
-queixos. Alencar parecia intimo no estabelecimento: apenas soube que a
-sr.^a Candida estava com dÙr de dentes, aconselhou logo remedios,
-familiar, descido das nuvens romanticas, com os cotovellos sobre o
-balc„o. E quando Carlos quiz pagar a canna branca zangou-se, bateu a sua
-placa de dois tostıes sobre o zinco polido, exclamou, com nobreza:
-
---Eu È que faÁo a honra da bodega, meu Carlos! Nos palacios os outros
-pagar„o... C· na taberna pago eu!
-
-¡ porta tomou o braÁo de Carlos. Depois d'alguns passos lentos no
-silencio da rua, parou de novo, e murmurou n'uma voz vaga,
-contemplativa, como repassada da vasta solemnidade da noite:
-
---Aquella Rachel Cohen È divinamente bella, menino! Tu conhecel'a?
-
---De vista.
-
---N„o te faz lembrar uma mulher da Biblia? N„o digo l· uma d'essas
-viragos, uma Judith, uma Dalila... Mas um d'esses lyrios poeticos da
-Biblia... … seraphica!
-
-Era agora a paix„o platonica do Alencar, a sua dama, a sua Beatriz...
-
---Tu viste ha tempos, no _Diario Nacional_, os versos que eu lhe fiz?
-
-
- ´Abril chegou! SÍ minhaª
- Dizia o vento · rosa.
-
-
-N„o me sahiu mau! Aqui ha uma maliciasinha: _Abril chegou, sÍ minha_...
-Mas logo: _dizia o vento · rosa_. Comprehendes? Calhou bem este effeito.
-Mas n„o imagines l· outras cousas, ou que lhe faÁo a cÙrte... Basta ser
-a mulher do Cohen, um amigo, um irm„o... E a Rachel, para mim,
-coitadinha, È como uma irm„... Mas È divina. Aquelles olhos, filho, um
-velludo liquido!...
-
-Tirou o chapeu, refrescou a fronte vasta. Depois n'outro tom, e como a
-custo:
-
---Aquelle Ega tem muito talento... Vae l· muito aos Cohens... A Rachel
-acha-lhe graÁa...
-
-Carlos par·ra, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar ·
-severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz.
-
---Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou
-andando por aqui para a minha toca. E quando quizeres, filho, l· me tens
-na rua do Carvalho, 52, 3.^o andar. O predio È meu, mas eu occupo o
-terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido
-trepando... A unica cousa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, È de
-andares...
-
-Teve um gesto, como desdenhando essas miserias.
-
---E has de ir l· jantar um dia. N„o te posso dar um banquete, mas has de
-ter uma sopa e um assado... O meu Matheus, um preto, (um amigo!) que me
-serve ha muito anno, quando ha que cosinhar, sabe cosinhar! Fez muito
-jantar a teu pae, ao meu pobre Pedro... Que aquillo foi casa de alegria,
-meu rapaz. Dei l· cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita
-d'essa canalha que hoje por ahi trota em coupÈ da companhia e de correio
-atraz... E agora, quando me avistam, voltam para o lado o focinho...
-
---Isso s„o imaginaÁıes, disse Carlos com amisade.
-
---N„o s„o, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. N„o
-s„o. Tu n„o sabes a minha vida. Tenho soffrido muito repell„o, rapaz. E
-n„o o merecia! Palavra, que o n„o merecia.
-
-Agarrou o braÁo de Carlos, e com a voz abalada:
-
---Olha que esses homens que por ahi figuram embebedavam-se comigo,
-emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora s„o
-ministros, s„o embaixadores, s„o personagens, s„o o diabo. Pois
-offereceram-te elles um bocado do _bolo_ agora que o teem na m„o? N„o.
-Nem a mim. Isto È duro, Carlos, isto È muito duro, meu Carlos. E que
-diabo, eu n„o queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma
-embaixada... Mas ahi alguma cousa n'uma secretaria... Nem um chavelho!
-Emfim, ainda h· para o bocado do p„o, e para a meia onÁa do tabaco...
-Mas esta ingratid„o tem-me feito cabellos brancos... Pois n„o te quero
-massar mais, e que Deus te faÁa feliz como tu mereces, meu Carlos!
-
---Tu n„o queres subir um bocado, Alencar?
-
-Tanta franqueza enterneceu o poeta.
-
---Obrigado, rapaz, disse elle, abraÁando Carlos. E agradeÁo-te isso,
-porque sei que vem do coraÁ„o... Todos vocÍs teem coraÁ„o... J· teu pae
-o tinha, e largo, e grande como o d'um le„o! E agora crÍ uma cousa: È
-que tens aqui um amigo. Isto n„o È palavriado, isto vem de dentro...
-Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto?
-
-Carlos acceitou logo, como um presente do ceu.
-
---Ent„o ahi tens um charuto, filho! exclamou Alencar com enthusiasmo.
-
-E aquelle charuto dado a um homem t„o rico, ao dono do Ramalhete,
-fazia-o por um momento voltar aos tempos em que n'esse Marrare elle
-estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo
-triste. Interessou-se ent„o pelo charuto. Accendeu elle mesmo um
-phosphoro. Verificou se ficava bem acceso. E que tal, charuto rasoavel?
-Carlos achava um excellente charuto!
-
---Pois ainda bem que te dei um bom charuto!
-
-AbraÁou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando elle emfim se
-affastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de
-_fado_.
-
-
-Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o pessimo charuto do
-Alencar estirado n'uma chaise-longue, em quanto Baptista lhe fazia uma
-chavena de ch·, ficou pensando n'esse estranho passado que lhe evocara o
-velho lyrico...
-
-E era sympathico o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao fallar
-de Pedro, d'Arroios, dos amigos e dos amores d'então, elle evitara
-pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro
-fóra, estivera para lhe dizer:—pódes fallar da mamã, amigo Alencar, que
-eu sei perfeitamente que ella fugiu com um italiano!
-
-E isto fÍl-o insensivelmente recordar da maneira como essa lamentavel
-historia lhe fÙra revelada, em Coimbra, n'uma noite de troÁa, quasi
-grotescamente. Por que o avÙ, obdecendo · carta testamentaria de Pedro,
-contara-lhe um romance decente: um casamento de paix„o,
-incompatibilidades de naturezas, uma separaÁ„o cortez, depois a retirada
-da mam„ com a filha para a FranÁa, onde tinham morrido ambas. Mais nada.
-A morte de seu pae fÙra-lhe apresentada sempre como o brusco remate
-d'uma longa nevrose...
-
-Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceiado ambos; Ega
-muito bebedo, e n'um accesso de idealismo, lanÁara-se n'um paradoxo
-tremendo, condemnando a honestidade das mulheres como origem da
-decadencia das raÁas: e dava por prova os bastardos, sempre
-intelligentes, bravos, gloriosos! Elle, Ega, teria orgulho se sua m„e,
-sua propria m„e, em logar de ser a santa burgueza que resava o terÁo ·
-lareira, fosse como a m„e de Carlos, uma inspirada, que por amor d'um
-exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir
-isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas n„o
-poude interrogar o Ega, que j· taramellava, agoniado, e que n„o tardou a
-vomitar-lhe ignobilmente nos braÁos. Teve de o arrastar · casa das
-Seixas, despil-o, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, atÈ que o
-deixou abraÁado ao travesseiro, babando-se, balbuciando--´que queria ser
-bastardo, que queria que a mam„ fosse uma marafona!...ª
-
-E elle mal podera dormir essa noite, com a idÈa d'aquella m„e, t„o outra
-do que lhe haviam contado, fugindo nos braÁos d'um desterrado--um polaco
-talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe,
-pela sua grande amisade, a verdade toda...
-
-Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenÁo que tinha amarrado
-na cabeÁa com pannos de agua sedativa: e n„o achava uma palavra,
-coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco,
-tranquillisou-o. N„o vinha alli offendido, vinha alli curioso!
-Tinham-lhe occultado um episodio extraordinario da sua gente, que diabo,
-queria sabel-o! Havia romance? Para alli o romance!
-
-Ega, ent„o, l· ganhou animo, l· balbuciou a sua historia--a que ouvira
-ao tio Ega--a paix„o de Maria por um principe, a fuga, o longo silencio
-d'annos que se fizera sobre ella...
-
-Justamente as ferias chegavam. Apenas em S.^{ta} Olavia, Carlos contou
-ao avÙ a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquella revelaÁ„o
-vinda entre arrotos. Pobre avÙ! Um momento nem poude fallar--e a voz por
-fim veiu-lhe t„o debil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse
-morrendo o coraÁ„o. Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance
-todo atÈ ·quella tarde em que Pedro lhe apparecera, livido, coberto de
-lama, a cahir-lhe nos braÁos, chorando a sua dÙr com a fraqueza d'uma
-creanÁa.--E o desfecho d'esse amor culpado, accrescentara o avÙ, fÙra a
-morte da m„e em Vienna d'Austria, e a morte da pequenita, da neta que
-elle nunca vira, e que a Monforte levara... E eis ahi tudo. E assim,
-aquella vergonha domestica estava agora enterrada, alli, no jazigo de
-S.^{ta} Olavia, e em duas sepulturas distantes, em paiz estrangeiro...
-
-Carlos recordava-se bem que n'essa tarde, depois da melancolica conversa
-com o avÙ, devia elle experimentar uma egoa ingleza: e ao jantar n„o se
-fallou sen„o da egoa que se chamava _Sultana_. E a verdade era que d'ahi
-a dias tinha esquecido a mam„. Nem lhe era possivel sentir por esta
-tragedia sen„o um interesse vago e como litterario. Isso passara-se
-havia vinte e tantos annos, n'uma sociedade quasi desapparecida. Era
-como o episodio historico de uma velha chronica de familia, um
-antepassado morto em Alcacer-Kebir, ou uma das suas avÛs dormindo n'um
-leito real. Aquillo n„o lhe dera uma lagrima, n„o lhe pozera um rubor na
-face. De certo, prefiriria poder orgulhar-se de sua m„e, como d'uma rara
-e nobre flÙr de honra: mas n„o podia ficar toda a vida a amargurar-se
-com os seus erros. E porque? A sua honra d'elle n„o dependia dos
-impulsos falsos ou torpes que tivera o coraÁ„o d'ella. Peccara, morrera,
-acabou-se. Restava, sim, aquella idÈa do pae, findando n'uma poÁa de
-sangue, no desespero d'essa traiÁ„o. Mas n„o conhecera seu pae: tudo o
-que possuia d'elle e da sua memoria, para amar, era uma fria tela mal
-pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moÁo moreno, de
-grandes olhos, com luvas de camurÁa amarellas e um chicote na m„o... De
-sua m„e n„o ficara nem um daguerreotypo, nem sequer um contorno a lapis.
-O avÙ tinha-lhe dito que era loura. N„o sabia mais nada. N„o os
-conhecera; n„o lhes dormira nos braÁos; nunca recebera o calor da sua
-ternura. Pae, m„e, eram para elle como symbolos d'um culto convencional.
-O pap·, a mam„, os seres amados, estavam alli todos--no avÙ.
-
-Baptista trouxera o ch·, o charuto do Alencar acabara;--e elle
-continuava na chaise-longue, como amollecido n'estas recordaÁıes, e
-cedendo j·, n'um meio adormecimento, · fadiga do longo jantar... E
-ent„o, pouco a pouco, diante das suas palpebras cerradas, uma vis„o
-surgiu, tomou cÙr, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria
-n'uma paz elysia. O peristillo do Hotel Central alargava-se, claro
-ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no collo. Uma mulher
-passava, alta, com uma carnaÁ„o eburnea, bella como uma Deusa, n'um
-casaco de velludo branco de Genova. O Craft dizia ao seu lado
-_trËs-chic_. E elle sorria, no encanto que lhe davam estas imagens,
-tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloraÁ„o de cousas vivas.
-
-Eram tres horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escurid„o dos
-cortinados de seda, outra vez um bello dia de inverno morria sem uma
-aragem, banhado de cÙr de rosa: o banal peristillo de Hotel alargava-se,
-claro ainda na tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadellinha nos
-braÁos; uma mulher passava, com um casaco de velludo branco de Genova,
-mais alta que uma creatura humana, caminhando sobre nuvens, com um
-grande ar de Juno que remonta ao Olympo: a ponta dos seus sapatos de
-verniz enterrava-se na luz do azul, por tr·s as saias batiam-lhe como
-bandeiras ao vento. E passava sempre... O Craft dizia _trËs-chic_.
-Depois tudo se confundia, e era sÛ o Alencar, um Alencar colossal,
-enchendo todo o cÈu, tapando o brilho das estrellas com a sua
-sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaÁando ao vendaval das
-paixıes, alÁando os braÁos, clamando no espaÁo:
-
-
- Abril chegou, sÍ minha!
-
-
-
-
-VII
-
-
-No Ramalhete, depois do almoÁo, com as tres janellas do escriptoro
-abertas bebendo a tepida luz do bello dia de marÁo, Affonso da Maia e
-Craft jogavam uma partida de xadrez ao pÈ da chaminÈ j· sem lume, agora
-cheia de plantas, fresca e festiva como um altar domestico. N'uma facha
-obliqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo Bonifacio, enorme e fÙfo,
-dormia de leve a sua sesta.
-
-Craft tornara-se, em poucas semanas, intimo no Ramalhete. Carlos e elle,
-tendo muitas similitudes de gosto e de idÈas, o mesmo fervor pelo
-_bric-a-brac_ e pelo _bibelot_, o uso apaixonado da esgrima, egual
-dilettantismo d'espirito, uniram-se immediatamente em relaÁıes de
-superficie, faceis e amaveis. Affonso, por seu lado comeÁara logo a
-sentir uma estima elevada por aquelle gentleman de boa raÁa ingleza,
-como elle os admirava, cultivado e forte, de maneiras graves, de habitos
-rijos, sentindo finamente e pensando com rectid„o. Tinham-se encontrado
-ambos enthusiastas de Tacito, de Macaulay, de Burke, e atÈ dos poetas
-lakistas; Craft era grande no xadrez; o seu carater ganhara nas longas e
-trabalhadas viagens a rica solidez d'um bronze; para Affonso da Maia
-´aquillo era deveras um homemª. Craft, madrugador, sahia cedo dos
-Olivaes a cavallo, e vinha assim ·s vezes almoÁar de surpreza com os
-Maias; por vontade de Affonso jantaria l· sempre;--mas ao menos as
-noites passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo emfim, como elle
-dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem
-sentado, no meio de idÈas, e com boa educaÁ„o.
-
-Carlos sahia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquella revoada de
-clientella que lhe dera esperanÁas d'uma carreira cheia, activa, tinha
-passado miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe tres doentes no
-bairro; e sentia agora que as suas carruagens, os cavallos, o Ramalhete,
-os habitos de luxo, o condemnavam irremediavelmente ao _dillettantismo_.
-J· o fino dr. Theodosio lhe dissera um dia, francamente: ´vocÍ È muito
-elegante p'ra medico! As suas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem
-È o burguez que lhe vae confiar a esposa dentro d'uma alcova?... VocÍ
-aterra o pater-familias!ª O laboratorio mesmo prejudicara-o. Os collegas
-diziam que o Maia, rico, intelligente, avido de innovaÁıes, de
-modernismos, fazia sobre os doentes experiencias fataes. Tinha-se
-troÁado muito a sua idÈa, apresentada na _Gazeta Medica_, a prevenÁ„o
-das epidemias pela inoculaÁ„o dos virus. Consideravam-no um phantasista.
-E elle, ent„o, refugiava-se todo n'esse livro sobre a medicina antiga e
-moderna, o _seu livro_, trabalhado com vagares d'artista rico,
-tornando-se o interesse intellectual de um ou dous annos.
-
-N'essa manh„, em quanto dentro proseguia grave e silenciosa a partida de
-xadrez, Carlos no terrasso, estendido n'uma vasta cadeira india de
-bambu, · sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma _Revista_
-ingleza, banhado pela caricia tepida d'aquelle bafo de primavera que
-avelludava o ar, fazia j· desejar arvores e relvas...
-
-Ao lado d'elle, n'uma outra cadeira de bambu, tambem de charuto na boca,
-o sr. Damaso Salcede percorria o _Figaro_. De perna estirada, n'uma
-indolencia familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao
-terrasso as rosas das roseiras de Affonso, sentindo por tr·s, atravez
-das janellas abertas, o rico e nobre interior do Ramalhete--o filho do
-agiota saboreava alli uma d'essas horas deliciosas que ultimamente
-encontrava na intimidade dos Maias.
-
-Logo na manh„ seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fÙra ao
-Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos,
-tendo ao angulo, n'uma dobra simulada, o seu retratosinho em
-photographia, um capacete com plumas por cima do nome--DAMASO CANDIDO DE
-SALCEDE, por baixo as suas honras--Commendador de Christo, ao fundo a
-sua adresse--_Rua de S. Domingos, · Lapa_; mas esta indicaÁ„o estava
-riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais apparatosa--Grand
-Hotel, Boulevard des Capucines, Chambre N.^o 103. Em seguida procurou
-Carlos no consultorio, confiou ao creado outro cart„o. Emfim, uma tarde,
-no Aterro, vendo passar Carlos a pÈ, correu para elle, pendurou-se
-d'elle, conseguiu acompanhal-o ao Ramalhete.
-
-Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admiraÁıes extaticas, como dentro
-d'um museu, lanÁando, diante dos tapetes, das faienÁas e dos quadros, a
-sua grande phrase--´_chic_ a valer!ª Carlos levou-o para o _fumoir_,
-elle aceitou um charuto; e comeÁou a explicar, de perna traÁada, algumas
-das suas opiniıes e alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin,
-e sÛ estava bem em Paris--sobre tudo por causa do genero ´femeaª de que
-em Lisboa se passavam fomes: ainda que n'esse ponto a Providencia n„o o
-tratava mal. Gostava tambem do _bric-a-brac_; mas apanhava-se muita
-espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, n„o lhe pareciam commodas
-para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguem o pilhava sem
-livros · cabeceira da cama; ultimamente andava ·s voltas com Daudet, que
-lhe diziam ser muito _chic_, mas elle achava-o confusote. Em rapaz
-perdia sempre as noites, atÈ ·s quatro ou cinco da madrugada, no
-delirio! Agora n„o, estava mudado e pacato; emfim, n„o dizia que de vez
-em quando n„o se abandonasse a um excessozinho; mas sÛ em dias duples...
-E as suas perguntas foram terriveis. O sr. Maia achava _chic_ ter um
-_cab_ inglez? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade
-que quizesse ir passar o ver„o l· fÛra, Nice ou Trouville?... Depois ao
-sahir, muito serio, quasi commovido, perguntou ao sr. Maia (se o sr.
-Maia n„o fazia segredo) quem era o seu alfaiate.
-
-E desde esse dia, n„o o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro,
-Damaso immediatamente arrancava-se da sua cadeira, ·s vezes na
-solemnidade d'uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros,
-amarrotando a compostura das damas, abalava, abria d'estalo a _claque_,
-vinha-se installar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada,
-camelia na casaca, exhibindo os botıes de punho que eram duas enormes
-bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Gremio,
-Damaso abandonou logo a partida, indifferente · indignaÁ„o dos
-parceiros, para se vir collar · ilharga do Maia, offerecer-lhe
-marrasquino ou charutos, seguil-o de sala em sala como um rafeiro. N'uma
-d'essas occasiıes, tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Damaso
-rompendo em risadas soluÁantes, rebolando-se pelos soph·s, com as m„os
-nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se socios; elle,
-suffocado, repetia a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odial-o;
-respondia-lhe sÛ com monossyllabos; dava voltas perigosas com o
-_dog-cart_ se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa roliÁa. Debalde:
-Damaso Candido Salcede filara-o, e para sempre.
-
-Depois, um dia, Taveira appareceu no Ramalhete com uma extraordinaria
-historia. Na vespera, no Gremio (tinham-lhe contado, elle n„o
-presenceara) um sujeito, um Gomes, n'um grupo onde se commentavam os
-Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era um asno! Damaso, que
-estava ao lado mergulhado na _IlustraÁ„o_, levantou-se, muito pallido,
-declarou que, tendo a honra de ser amigo do sr. Carlos da Maia, quebrava
-a cara com a bengala ao sr. Gomes se elle ousasse babujar outra vez esse
-cavalheiro; e o sr. Gomes tragou, com os olhos no ch„o, a affronta, por
-ser rachitico de nascenÁa--e porque era inquilino de Damaso e andava
-muito atrasado na renda. Affonso da Maia achou este feito brilhante: e
-foi por desejo seu que Carlos trouxe o sr. Salcede uma tarde a jantar ao
-Ramalhete.
-
-Este dia pareceu bello a Damaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas
-melhor ainda foi a manh„ em que Carlos, um pouco incommodado e ainda
-deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... D'ahi datava a sua
-intimidade: comeÁou a tratar Carlos por _vocÍ_. Depois, n'essa semana,
-revelou aptidıes uteis. Foi despachar · alfandega (VillaÁa achava-se no
-Alemtejo) um caixote de roupa para Carlos. Tendo apparecido n'um momento
-em que Carlos copiava um artigo para a _Gazeta Medica_ offereceu a sua
-boa letra, letra prodigiosa, de uma belleza lithographica; e d'ahi por
-diante passava horas · banca de Carlos, applicado e vermelho, com a
-ponta da lingua de fÛra, o olho redondo, copiando apontamentos,
-transcripÁıes de Revistas, materiaes para o livro... Tanta dedicaÁ„o
-merecia um _tu_ de familiaridade. Carlos deu-lh'o.
-
-Damaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde
-a barba que comeÁava agora a deixar crescer atÈ · forma dos sapatos.
-LanÁara-se no _bric-a-brac_. Trazia sempre o _coupÈ_ cheio de lixos
-archeologicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a aza rachada de
-um bule... E se avistava um conhecido, fazia parar, entreabria a
-portinhola como um addito de sacrario, exhibia a preciosidade:
-
---Que te parece? _Chic_ a valer!... Vou mostral-a ao Maia. Olha-me isto,
-hein! Pura meia edade, do reinado de Luiz XIV. O Carlos vae-se roer de
-inveja!
-
-N'esta intimidade de rosas havia todavia para Damaso horas pesadas. N„o
-era divertido assistir em silencio, do fundo d'uma poltrona, ·s
-infindaveis discussıes de Carlos e de Craft sobre arte e sobre sciencia.
-E, como elle confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o
-levaram ao laboratorio para fazer no seu corpo experiencias de
-electricidade...--´Pareciam dois demonios engalphinhados em mim, disse
-elle · sr.^a condessa de Gouvarinho; e eu ent„o que embirro com o
-spiritismo!...ª
-
-Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando · noite, n'um soph·,
-do Gremio, ou ao ch· n'uma casa amiga, elle podia dizer, correndo a m„o
-pelo cabello:
-
---Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, _bric-a-brac_,
-discutimos... Um dia, _chic_! ¡manh„ tenho uma manh„ de trabalho com o
-Maia... Vamos ·s colxas.
-
-N'esse domingo, justamente, deviam ir ·s colxas, ao Lumiar. Carlos
-concebera um _boudoir_, todo revestido de colxas antigas de setim,
-bordadas a dous tons especiaes, perola e bot„o d'ouro. O tio Abrah„o
-esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos suburbios; e n'essa manh„
-viera annunciar a Carlos a existencia de duas preciosidades, _so
-beautiful! oh! so lovely!_ em casa de umas senhoras Medeiros que
-esperavam o sr. Maia ·s duas horas...
-
-J· tres vezes Damaso tossira, olhara o relogio,--mas, vendo Carlos
-confortavelmente mergulhado na _Revista_, recahia tambem na sua
-indolencia de homem _chic_, investigando o _Figaro_. Emfim, dentro, o
-relogio Luiz XV cantou argentinamente as duas...
-
---Esta È boa, exclamou Damaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa.
-Olha quem aqui me apparece! A Suzanna! A minha Suzanna!
-
-Carlos n„o despegara os olhos da pagina.
-
---Oh Carlos, accrescentou elle, fazes favor? Ouve. Ouve esta que È boa.
-Esta Suzanna È uma pequena que eu tive em Paris... Um romance!
-Apaixonou-se por mim, quiz-se envenenar, o diabo!... Pois diz aqui o
-_Figaro_ que debutou nas _Folies-Bergeres_. Falla n'ella... … boa, hein?
-E era rapariguita _chic_... E o _Figaro_ diz que ella teve aventuras,
-naturalmente sabia o que se passou comigo... Todo o mundo sabia em
-Paris. Ora a Suzanna!... Tinha bonitas pernas. E custou-me a vÍr livre
-d'ella!
-
---Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da _Revista_.
-
-Damaso era interminavel, torrencial, inundante a fallar das ´suas
-conquistasª, n'aquella solida satisfaÁ„o em que vivia de que todas as
-mulheres, desgraÁadas d'ellas, soffriam a fascinaÁ„o da sua pessoa e da
-sua toilette. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na
-sociedade, com _coupË_ e parelha, todas as meninas tinham para elle um
-olhar doce. E no _dÈmi-monde_, como elle dizia, ´tinha prestigio a
-valer.ª Desde moÁo fÙra celebre, na capital, por pÙr casas a
-hespanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mez; e este fausto
-excepcional tornara-o bem depressa o D. Jo„o V dos prostibulos.
-Conhecia-se tambem a sua ligaÁ„o com a viscondessa da Gafanha, uma
-carcassa esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens validos
-do paiz: Ìa nos cincoenta annos, quando chegou a vez do Damaso--e n„o
-era decerto uma delicia ter nos braÁos aquelle esqueleto rangente e
-lubrico; mas dizia-se que em nova dormira n'um leito real, e que
-augustos bigodes a tinham lambuzado; tanta honra fascinou Damaso, e
-collou-se-lhe ·s saias com uma fidelidade t„o sabuja, que a decrepita
-creatura, farta, enojada j·, teve de o enxotar · forÁa e com desfeitas.
-Depois gozou uma tragedia: uma actriz do _Principe Real_, uma montanha
-de carne, apaixonada por elle, n'uma noite de ciume e de genebra,
-engoliu uma caixa de phosphoros; naturalmente d'ahi a horas estava boa,
-tendo vomitado abominavelmente sobre o collete do Damaso que chorava ao
-lado--mas desde ent„o este homem de amor julgou-se fatal! Como elle
-dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida quasi tremia, tremia
-verdadeiramente de fitar uma mulher...
-
---Passaram-se scenas com esta Suzanna! murmurou elle depois de um
-silencio em que estivera catando pelliculas nos beiÁos.
-
-E, com um suspiro, retomou o _Figaro_. Houve outra vez um silencio no
-terrasso. Dentro, a partida continuava. Para l· da sombra do toldo,
-agora, o sol Ìa aquecendo, batendo a pedra, os vasos de louÁa branca,
-n'uma refracÁ„o d'ouro claro em que palpitavam as azas das primeiras
-borboletas voando em redor dos craveiros sem flor: em baixo, o jardim
-verdejava, immovel na luz, sem um bolir de ramo, refrescado pelo cantar
-do repuxo, pelo brilho liquido da agoa do tanque, avivado, aqui e alÈm,
-pelo vermelho ou o amarello das rosas, pela carnaÁ„o das ultimas
-camelias... O bocado de rio que se avistava entre os predios era azul
-ferrete como o cÈu: e entre rio e cÈu o monte punha uma grossa barra
-verde-escura, quasi negra no resplendor do dia, com os dois moinhos
-parados no alto, as duas casinhas alvejando em baixo, t„o luminosas e
-cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o
-bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique d'um sino.
-
---O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Damaso n'um tom entendido e
-traÁando a perna. O duque de Norfolk È _chic_, n„o È verdade, Û Carlos?
-
-Carlos, sem erguer os olhos, lanÁou para os cÈus um gesto, como
-exprimindo o infinito do _chic_!
-
-Damaso largara o _Figaro_ para metter um charuto na boquilha; depois
-desapertou os ultimos botıes do collete, deu um puch„o · camisa para
-mostrar melhor a marca que era um S enorme sob uma corÙa de conde, e de
-palpebra cerrada, com o beiÁo trombudo, ficou mamando gravemente a
-boquilha...
-
---Tu est·s hoje em belleza, Damaso, disse-lhe Carlos que deixara tambem
-a _Revista_ e o contemplava com melancolia.
-
-Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, · meia
-cÙr de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da orbita:
-
---Eu agora ando bem... Mas, muito _blazË_.
-
-E foi realmente com um ar _blazË_ que se ergueu a ir buscar a uma mesa
-de jardim, ao lado, onde estavam jornaes e charutos, a _Gazeta
-Illustrada_, ´para vÍr o que ia pela patria.ª Apenas lhe deitou os olhos
-soltou uma exclamaÁ„o.
-
---Outro debute? perguntou Carlos.
-
---N„o, È a besta do Castro Gomes!
-
-A _Gazeta Illustrada_ annunciava que ´o sr. Castro Gomes, o cavalheiro
-brasileiro que no Porto fÙra victima da sua dedicaÁ„o por occasi„o da
-desgraÁa occorrida na PraÁa Nova, e de que o nosso correspondente J. T.
-nos deu uma descripÁ„o t„o opulenta de colorido realista, acha-se
-restabelecido e È hoje esperado no Hotel Central. Os nossos parabens ao
-arrojado gentleman.ª
-
---Ora est· s. ex.^a restabelecida! exclamou Damaso, atirando para o lado
-o jornal. Pois deixa estar, que agora È a occasi„o de lhe dizer na cara
-o que penso... Aquelle pulha!
-
---Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e
-relia a noticia.
-
---Ora essa! exclamou Damaso, erguendo-se. Ora essa! Queria vÍr, se fosse
-comtigo... … uma besta! … um selvagem!
-
-E repetiu mais uma vez a Carlos essa historia que o magoava. Desde a sua
-chegada de Bordeus, logo que o Castro Gomes se installara no Hotel
-Central elle fÙra deixar-lhe bilhetes duas vezes--a ultima na manh„
-seguinte ao jantar do Ega. Pois bem, s. ex.^a n„o se dignara agradecer a
-visita! Depois elles tinham partido para o Porto; fÙra ahi que,
-passeiando sÛ na PraÁa Nova, vendo a parelha de uma caleche desbocada,
-duas senhoras em gritos, Castro Gomes se lanÁ·ra ao freio dos
-cavallos--e, cuspido contra as grades, tinha deslocado um braÁo. Teve de
-ficar no Porto, no Hotel, cinco semanas. E elle immediatamente (sempre
-com o olho na mulher) mandara-lhe dois telegrammas: um de sentimento,
-lamentando; outro de interesse, pedindo noticias. Nem a um, nem a outro,
-o animal respondeu!
-
---N„o, isso--exclamava Salcede, passeiando pelo terraÁo, e recordando
-estas injurias--hei de lhe fazer uma desfeita!... N„o pensei ainda o
-quÍ, mas ha de amargar-lhe... L· isso, desconsideraÁıes n„o admitto a
-ninguem! a ninguem!
-
-Arredondava o olho, ameaÁador. Desde o seu feito no Gremio, quando o
-rachitico apavorado emmudecera diante d'elle, Damaso ia-se tornando
-feroz. Pela menor cousa fallava em ´quebrar caras.ª
-
---A ninguem! repetia elle, com puxıes ao collete. DesconsideraÁıes, a
-ninguem!
-
-N'esse momento ouviu-se dentro, no escriptorio, a voz rapida do Ega--e
-quasi immediatamente elle appareceu, com um ar de pressa, e atarantado.
-
---Ol·, Damasosinho!... Carlos, d·s-me aqui em baixo uma palavra?
-
-Desceram do terraÁo, penetraram no jardim, atÈ junto de duas olaias em
-flÙr.
-
---Tu tens dinheiro?--foi ahi logo a exclamaÁ„o anciosa do Ega.
-
-E contou a sua terrivel atrapalhaÁ„o. Tinha uma letra de noventa libras
-que se vencia no dia seguinte. AlÈm d'isso, vinte e cinco libras que
-devia ao Eusebiosinho, e que elle lhe reclamara n'uma carta indecente: e
-era isto que desesperava o Ega...
-
---Quero pagar a esse canalha, e quando o vir collar-lhe a carta · cara
-com um escarro. AlÈm d'isso a letra! E tenho para tudo isto quinze
-tostıes...
-
---O Eusebiosinho È homem de ordem... Emfim, queres cento e quinze
-libras, disse Carlos.
-
-Ega hesitou, com uma cÙr no rosto. J· devia dinheiro a Carlos. Estava-se
-sempre dirigindo ·quella amisade, como a um cofre inexgotavel...
-
---N„o, bastam-me oitenta. Ponho o relogio no prego, e a pelissa, que j·
-n„o faz frio...
-
-Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque--em quanto Ega
-procurava cuidadosamente um bonito bot„o de rosa para florir a
-sobrecasaca. Carlos n„o tardou, trazendo na m„o o cheque, que alargara
-atÈ cento e vinte libras, para o Ega ficar _armado_...
-
---Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com
-um bello suspiro de allivio.
-
-Immediatamente trovejou contra o Eusebiosinho, esse vill„o! Mas tinha j·
-uma vinganÁa. Ia remetter-lhe a somma toda em cobre, n'um sacco de
-carv„o, com um rato morto dentro, e um bilhete, comeÁando
-assim:--_ascorosa lombriga e immunda osga, ahi te atiro ao focinho_,
-etc...
-
---Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o
-teu ar, aquelle ser repulsivo!...
-
-Mas era atÈ sujo mencionar o Eusebiosinho!... Quiz saber dos trabalhos
-de Carlos, do grande livro. Fallou tambem do seu _Atomo_:--e, por fim,
-n'uma voz differente, applicando o monocolo a Carlos:
-
---Dize-me outra cousa. Porque n„o tens tu voltado aos Gouvarinhos?
-
-Carlos tinha sÛ esta ras„o: n„o se divertia l·.
-
-Ega encolheu os hombros. Parecia-lhe aquillo uma puerilidade...
-
---Tu n„o percebeste nada, exclamou elle. Aquella mulher tem uma paix„o
-por ti... Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue ·
-cara.
-
-E como Carlos ria, incredulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de
-honra. Ainda na vespera, estava-se fallando de Carlos, e elle
-espreitara-a. Sem ser um Balzac, nem uma broca de observaÁ„o, tinha a
-vis„o correcta: pois bem, l· lhe vira na face, nos olhos, toda a
-express„o de um sentimento sincero...
-
---N„o estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra! Tenl-a
-quando quiseres.
-
-Carlos achava deliciosa aquella naturalidade mephistophelica com que Ega
-o induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, moraes, sociaes,
-domesticas...
-
---Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa _blague_ da cartilha e do
-codigo, ent„o n„o fallemos mais n'isso! Se apanhaste a sarna da virtude,
-com comichıes por qualquer cousa, ent„o era uma vez um homem, vae para a
-Trappa commentar o _Ecclesiastes_...
-
---N„o--disse Carlos, sentando-se n'um banco sob as arvores, ainda com
-uns restos da preguiÁa do terraÁo--o meu motivo n„o È t„o nobre. N„o vou
-l·, porque acho o Gouvarinho um massador.
-
-Ega teve um sorriso mudo.
-
---Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos massadores...
-
-Sentou-se ao lado de Carlos, comeÁou a riscar em silencio o ch„o areado;
-e sem erguer os olhos, deixando cahir as palavras, uma a uma, com
-melancolia:
-
---Antes de hontem, toda a noite, a pÈ firme, das dez · uma, estive a
-ouvir a historia da demanda do Banco Nacional!
-
-Era quasi uma confidencia, e como o desabafo dos tedios secretos em que
-se debatia, n'aquelle mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista.
-Carlos enterneceu-se.
-
---Meu pobre Ega, ent„o toda a demanda?
-
---Toda! E a leitura do relatorio da assemblÈa geral! E interessei-me! E
-tive opiniıes!... A vida È um inferno.
-
-Subiram ao terraÁo. Damaso reoccupara a sua cadeira de vime, e, com um
-canivetesinho de madreperola, estava tratando das unhas.
-
---Ent„o decidiu-se? perguntou elle logo ao Ega.
-
---Decidiu-se hontem! N„o ha _cotillon_.
-
-Tratava-se de uma grande soirÈe mascarada que Ìam dar os Cohens, no dia
-dos annos de Rachel. A idÈa d'esta festa sugerira-a o Ega, ao principio
-com grandes proporÁıes de gala artistica, a ressurreiÁ„o historica de um
-sarau no tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa era
-irrealisavel em Lisboa--e desceu-se a um plano mais sobrio, um simples
-baile _costumÈ_, a capricho...
-
---Tu, Carlos, j· decidiste como vaes?
-
---De dominÛ, um severo dominÛ preto, como convÈm a um homem de
-sciencia...
-
---Ent„o, exclamou Ega se se trata de sciencia, vae de rabona e chinellas
-de ourello!... A sciencia faz-se em casa e de chinellas... Nunca ninguem
-descobriu uma lei do Universo mettido dentro de um dominÛ... Que
-sensaboria, um dominÛ!...
-
-Justamente a sr.^a D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa
-monotonia dos dominÛs. E em Carlos n„o havia desculpa. N„o o prendiam
-vinte ou trinta libras; e, com aquelle esplendido physico de cavalleiro
-da RenascenÁa, devia ornar a sala pelo menos com um soberbo Francisco I.
-
---… n'isto, ajuntava elle com fogo, que est· a belleza de uma soirÈe de
-mascaras! N„o lhe parece, vocÍ, Damaso? Cada um deve aproveitar a sua
-figura... Por exemplo, a Gouvarinho vae muito bem. Teve uma inspiraÁ„o:
-com aquelle cabello ruivo, o nariz curto, as maÁ„s do rosto salientes, È
-Margarida de Navarra...
-
---Quem È Margarida de Navarra? perguntou Affonso da Maia, apparecendo no
-terraÁo com Craft.
-
---Margarida, a duqueza d'Angouleme, a irm„ de Francisco I, a Margarida
-das Margaridas, a perola dos Valois, a padroeira da RenascenÁa, a sr.^a
-condessa de Gouvarinho!...
-
-Rio muito, foi abraÁar Affonso, explicou-lhe que se discutia o baile dos
-Cohens. E appellou logo para elle, para o Craft tambem, acerca do
-nefando dominÛ de Carlos. N„o estava aquelle mocet„o, com os seus ares
-de homem d'armas, talhado para um soberbo Francisco I, em toda a gloria
-de Marignan?
-
-O velho deu um olhar enternecido · belleza do neto.
-
---Eu te digo, John, talvez tenhas raz„o; mas Francisco I, rei de FranÁa,
-n„o se pÛde apear de uma tipoia e entrar n'uma sala, sÛ. Precisa cÙrte,
-arautos, cavalleiros, damas, bobos, poetas... Tudo isso È difficil.
-
-Ega curvou-se. Sim senhor, d'accordo! Alli estava uma maneira
-intelligente de comprehender o baile dos Cohens!
-
---E tu, de que vaes? perguntou-lhe Affonso.
-
-Era um segredo. Tinha a theoria de que, n'aquellas festas, um dos
-encantos consistia na surpreza: dois sujeitos por exemplo que tendo
-jantado juntos, de jaquet„o, no BraganÁa, se encontram · noite, um na
-purpura imperial de Carlos V, outro com a escopeta de bandido da
-Calabria...
-
---Eu c· n„o faÁo segredo, disse ruidosamente Damaso. Eu c· vou de
-selvagem.
-
---N˙?
-
---N„o. De Nelusko na _Africana_. Oh sr. Affonso da Maia, que lhe parece?
-Acha _chic_?
-
---_Chic_ n„o exprime bem, disse Affonso sorrindo. Mas _grandioso_, È,
-decerto.
-
-Quizeram ent„o saber como Ìa Craft. Craft n„o Ìa de cousa nenhuma; Craft
-ficava nos Olivaes, de robe de chambre.
-
-Ega encolheu os hombros com tedio, quasi com colera. Aquellas
-indifferenÁas pelo baile dos Cohens feriam-n'o como injurias pessoaes.
-Elle estava dando a essa festa o seu tempo, estudos na bibliotheca, um
-trabalho fumegante de imaginaÁ„o; e pouco a pouco ella tomava aos seus
-olhos a importancia de uma celebraÁ„o d'arte, provando o genio de uma
-cidade. Os ´dominÛsª, as abstenÁıes, pareciam-lhe evidencias de
-inferioridade de espirito. Citou ent„o o exemplo do Gouvarinho: alli
-estava um homem de occupaÁıes, de posiÁ„o politica, nas vesperas de ser
-ministro, que n„o sÛ Ìa ao baile, mas estudara o seu _costume_:
-estudara, e Ìa muito bem, Ìa de _marquez de Pombal_!
-
---Reclame para ser ministro, disse Carlos.
-
---N„o o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condiÁıes para ser ministro:
-tem voz sonora, leu Mauricio Block, est· encalacrado, e È um asno!...
-
-E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um
-cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo:
-
---Mas È muito bom rapaz, e n„o se d· ares nenhuns! … um anjo!
-
-Affonso reprehendia-o, risonho e paternal:
-
---Ora tu, John, que n„o respeitas nada...
-
---O desacato È a condiÁ„o do progresso, sr. Affonso da Maia. Quem
-respeita decahe. ComeÁa-se por admirar o Gouvarinho, vae-se a gente
-esquecendo, chega a reverenciar o monarcha, e quando mal se precata tem
-descido a venerar o Todo-Poderoso!... … necessario cautela!
-
---Vae-te embora, John, vae-te embora! Tu Ès o proprio Anti-Christo...
-
-Ega Ìa responder, exhuberante e em veia--mas dentro o tinir argentino do
-relogio Luiz XV, com o seu gentil minuete, emmudeceu-o.
-
---O que? quatro horas!
-
-Ficou aterrado, verificou no seu proprio relogio, deu em redor rapidos,
-silenciosos apertos de m„o, desappareceu como um sopro.
-
-Todos de resto estavam pasmados de ser t„o tarde! E assim passara a hora
-de ir ao Lumiar vÍr as colxas antigas das senhoras Medeiros...
-
---Quer vocÍ ent„o meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos.
-
---Seja: e È necessario dar a liÁ„o ao Damaso...
-
---… verdade, a liÁ„o...--murmurou Damaso, sem enthusiasmo, com um
-sorriso murcho.
-
-A sala de esgrima era uma casa terrea, debaixo dos quartos de Carlos,
-com janellas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, atravez das
-arvores, uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era necessario accender
-os quatro bicos de gaz. Damaso seguiu, atraz dos dois, com uma lentid„o
-de rez desconfiada.
-
-Aquellas liÁıes, que elle sollicitara por amor do _chic_, Ìam-se-lhe
-tornando odiosas. E n'essa tarde, como sempre, apenas se enchumaÁou com
-o plastr„o d'anta, se cobriu com a caraÁa de arame, comeÁou a
-transpirar, a fazer-se branco. Diante d'elle Craft, de florete na m„o,
-parecia-lhe cruel e bestial, com aquelles seus hombros de Hercules
-sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros rasparam. Damaso estremeceu
-todo.
-
---Firme, gritou-lhe Carlos.
-
-O desgraÁado equilibrava-se sobre a perna roliÁa; o florete de Craft
-vibrou, rebrilhou, voou sobre elle; Damaso recuou, suffocado,
-cambaleando e com o braÁo frouxo...
-
---Firme! berrava-lhe Carlos.
-
-Damaso, exhausto, abaixou a arma.
-
---Ent„o que querem vocÍs, È nervoso! … por ser a brincar... Se fosse a
-valer, vocÍs veriam.
-
-Assim acabava sempre a liÁ„o; e ficava depois abatido sobre uma banqueta
-de marroquim, arejando-se com o lenÁo, pallido como a cal dos muros.
-
---Vou-me atÈ casa, disse elle d'ahi a pouco, fatigado de tanto crusar de
-ferro. Queres alguma cousa, Carlinhos?
-
---Quero que venhas c· jantar ·manh„... Tens o marquez.
-
---_Chic_ a valer... N„o faltarei.
-
-Mas faltou. E, como toda essa semana aquelle moÁo ponctual n„o appareceu
-no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo, foi
-uma manh„ a casa d'elle, · Lapa. Mas ahi, o creado (um gallego
-achavascado e triste, que, desde as suas relaÁıes com os Maias, Damaso
-trazia entalado n'uma casaca e mortalmente aperreado em sapatos de
-verniz) affirmou-lhe que o sr. Damasosinho estava de boa saude, e atÈ
-sahira a cavallo. Carlos veiu ent„o ao tio Abrah„o; o tio Abrah„o tambem
-n„o avistara, havia dias, aquelle bom senhor Salcede, _that beautiful
-gentleman!_ A curiosidade de Carlos levou-o ao Gremio: no Gremio nenhum
-creado vira ultimamente o sr. Salcede. ´Est· por ahi de lua de mel com
-alguma bella andaluzaª pensou Carlos.
-
-Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que
-se dirigia ao Aterro, a pÈ, seguido da sua vittoria a passo. Era a
-segunda vez que o diplomata fazia exercicio depois do seu desgraÁado
-ataque de entranhas. Mas n„o tinha j· vestigios da doenÁa: vinha todo
-rosado e loiro, muito solido na sua sobrecasaca, e com uma bella rosa de
-ch· na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava ´m·s forrteª. E n„o
-lamentava os soffrimentos, porque elles lhe tinham dado o meio de
-apreciar as sympathias que gosava em Lisboa. Estava enternecido. Sobre
-tudo o cuidado de S. M.--o augusto cuidado de S. M.--fizera-lhe melhor
-que ´todos os drogues de botiqueª! Realmente nunca as relaÁıes entre
-esses dois paizes, t„o estreitamente alliados, Portugal e a Filandia,
-tinham sido ´m‡s firmes, pur assi dizerre, m‡s intimes, que durrante seu
-ataque de intestinaesª!
-
-Depois, travando do braÁo a Carlos, alludiu commovido ao offerecimento
-de Affonso da Maia, que pozera · sua disposiÁ„o S.^ta Olavia, para elle
-se restabelecer n'esses ares fortes e limpos do Douro. Oh, esse convite
-tocara-o _au plus profond de son c[oe]ur_. Mas, infelizmente, S.^{ta}
-Olavia era longe, t„o longe!... Tinha de se contentar com Cintra, d'onde
-podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a LegaÁ„o. _C'Ètait
-ennuyeux, mais_... A Europa estava n'um d'esses momentos de crise, em
-que homens d'estado, diplomatas, n„o podiam affastar-se, gosar as
-menores ferias. Precisavam estar alli, na brecha, observando,
-informando...
-
---C'est trËs grave, murmurou elle, parando, com um pavor vago no olhar
-azulado... C'est excessivement grave!
-
-Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a
-parte uma confus„o, um _gachis_. Aqui a quest„o do Oriente; alem o
-socialismo; por cima o Papa, a complicar tudo... Oh, trËs grave!
-
---Tenez, la France, par exemple... D'abord Gambetta. Oh, je ne dis pas
-non, il est trËs fort, il est excessivement fort... Mais... Voil‡! C'est
-trËs grave...
-
-Por outro lado os radicaes, _les nouvelles couches_... Era
-excessivamente grave...
-
---Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous!
-
-Mas Carlos n„o escutava, nem sorria j·. Do fim do Aterro approximava-se,
-caminhando depressa, uma senhora--que elle reconheceu logo, por esse
-andar que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadellinha cÙr
-de prata que lhe trotava junto ·s saias, e por aquelle corpo
-maravilhoso, onde vibrava, sob linhas ricas de marmore antigo, uma graÁa
-quente, ondeante e nervosa. Vinha toda vestida de escuro, n'uma toilette
-de _serge_ muito simples que era como o complemento natural da sua
-pessoa, collando-se bem sobre ella, dando-lhe, na sua correcÁ„o, um ar
-casto e forte; trazia na m„o um guarda-sol inglez, apertado e fino como
-uma cana; e toda ella, adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha,
-n'aquelle caes triste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como
-o requinte raro de civilisaÁıes superiores. Nenhum vÈo, n'essa tarde,
-lhe assombreava o rosto. Mas Carlos n„o poude detalhar-lhe as feiÁıes;
-apenas d'entre o esplendor eburneo da carnaÁ„o sentiu o negro profundo
-de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo para
-a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem vÍr nada, estava achando Bismarch
-assustador. ¡ maneira que ella se affastava, parecia-lhe maior, mais
-bella: e aquella imagem falsa e litteraria de uma deusa marchando pela
-terra prendia-se-lhe · imaginaÁ„o. Steinbroken ficara aterrado com o
-discurso do Chanceller no Reichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o
-chapÈo, n'uma fÛrma de tranÁa enrolada, apparecia o tom do seu cabello
-castanho, quasi louro · luz; a cadelinha trotava ao lado, com as orelhas
-direitas.
-
---Evidentemente, disse Carlos, Bismarck È inquietador...
-
-Steinbroken porÈm j· deixara Bismarck. Steinbroken agora atacava lord
-Beaconsfield.
-
---Il est trËs fort... Oui, je vous l'accorde, il est excessivement
-fort... Mais voil‡... Ou va-t-il?
-
-Carlos olhava para o caes de SodrÈ. Mas tudo lhe parecia deserto.
-Steinbroken antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos
-negocios estrangeiros aquillo mesmo: lord Beaconsfield È muito forte,
-mas para onde vae elle? O que queria elle?... E s. ex.^a tinha encolhido
-os hombros... S. ex.^a n„o sabia...
-
---Eh, oui! Beaconsfield est trËs fort... Vous avez lu son speech chez le
-Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voil‡... O˘ va-t-il?
-
---Steinbroken, n„o me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a
-arrefecer no Aterro...
-
---DevÈrras? exclamou o diplomata, passando logo a m„o rapidamente pelo
-estomago e pelo ventre.
-
-E n„o se quiz demorar um instante mais! Como Carlos Ìa recolher tambem,
-offereceu-lhe um logar na vittoria atÈ ao Ramalhete.
-
---Venha ent„o jantar comnosco, Steinbroken.
-
---CharmÈ, mon cher, charmÈ...
-
-A vittoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago n'um
-grande plaid escossez:
-
---PÙs, Maia, fezemos um bello passÍo... Mas este AtÍrro no È deverrtido.
-
-N„o era divertido o Aterro!... Carlos achara-o n'essa tarde o mais
-delicioso logar da terra!
-
-Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as
-arvores, viu-a logo. Mas n„o vinha sÛ; ao seu lado o marido, esticado,
-apurado n'uma jaqueta de casimira quasi branca, com uma ferradura de
-diamantes no setim negro da gravata, fumava, indolente e languido, e
-trazia a cadellinha debaixo do braÁo. Ao passar, deu um olhar
-surprehendido a Carlos--como descobrindo emfim entre os barbaros um ser
-de linha civilisada, e disse-lhe algumas palavras baixo, a ella.
-
-Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e serios: mas n„o
-lhe parecera t„o bella; trazia uma outra toilette menos simples, de dois
-tons, cÙr de chumbo e cÙr de creme, e no chapÈo, d'abas grandes ·
-ingleza, vermelhava alguma cousa, flÙr ou penna. N'essa tarde n„o era a
-deusa descendo das nuvens d'ouro que se enrolavam alem sobre o mar; era
-uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel.
-
-Voltou ainda tres vezes ao Aterro, n„o a tornou a vÍr; e ent„o
-envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o
-trazia assim, n'uma inquietaÁ„o de rafeiro perdido, farejando o Aterro,
-da rampa de Santos ao caes de SodrÈ, · espera de uns olhos negros e de
-uns cabellos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da _Royal
-Mail_ levaria uma d'essas manh„s...
-
-E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a
-meza! E que todas as tardes, antes de sahir, se demorava ao espelho,
-estudando a gravata! Ah, miseravel, miseravel natureza...
-
-
-Ao fim d'essa semana, Carlos estava no consultorio, j· para sahir,
-calÁando as luvas, quando o creado entreabriu o reposteiro, e murmurou
-com alvoroÁo:
-
---Uma senhora!
-
-Appareceu um menino muito pallido, de caracoes louros, vestido de
-velludo preto--e atraz uma mulher, toda de negro, com um vÈo justo e
-espesso como uma mascara.
-
---Creio que vim tarde, disse ella, hesitando, junto da porta. O sr.
-Carlos da Maia Ìa sahir...
-
-Carlos reconheceu a Gouvarinho.
-
---Oh senhora condessa!
-
-DesembaraÁou logo o divan dos jornaes e das brochuras; ella olhou um
-momento, como indecisa, aquelle amplo e molle assento de serralho;
-depois sentou-se · borda e de leve, com o pequeno junto de si.
-
---Venho trazer-lhe um doente, disse ella sem erguer o vÈu, como fallando
-do fundo d'aquella toilette negra que a dissimulava. N„o o mandei
-chamar, por que realmente pouco È, e tinha hoje de passar por aqui...
-AlÈm d'isso, o meu pequeno È muito nervoso; se vÍ entrar o medico,
-parece-lhe que vae morrer. Assim È como uma visita que se faz... E n„o
-tens medo, n„o È verdade, Charlie?
-
-O pequeno n„o respondeu; de pÈ, quedo ao lado da mam„; mimoso e debil
-sob os caracoes d'anjo que lhe cahiam atÈ aos hombros, devorava Carlos
-com uns grandes olhos tristes.
-
-Carlos poz um interesse quasi terno na sua pergunta:
-
---Que tem elle?
-
-Havia dias, apparecera-lhe uma empigem no pescoÁo. AlÈm disso, por traz
-da orelha, tinha como uma dureza de caroÁo. Aquillo inquietava-a. Ella
-era forte, de uma boa raÁa, que dera athletas e velhos de grande edade.
-Mas na familia do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia
-hereditaria. O conde mesmo, com aquella solida apparencia, era um
-achacado. E ella, receiando que a influencia debilitante de Lisboa n„o
-conviesse a Charlie, estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar
-algum tempo ao campo, em Formoselha, a casa da avÛ.
-
-Carlos, approximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braÁos a
-Charlie:
-
---Ora venha c· o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico
-cabello elle tem, senhora condessa!...
-
-Ella sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquelle terror do
-medico de que fallara a mam„, veio logo, desapertou delicadamente o seu
-grande collarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoÁo
-macio e alvo como um lyrio.
-
-Carlos vio apenas uma pequena mancha cÙr de rosa desvanecendo-se; do
-´caroÁoª n„o havia vestigio; e ent„o uma ligeira vermelhid„o subiu-lhe
-ao rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como comprehendendo
-tudo, querendo vÍr n'elles a confiss„o do sentimento que a trouxera alli
-com um pretexto pueril, sob aquella toilette negra, aquelles vÈos que a
-mascaravam...
-
-Mas ella permaneceu impenetravel, sentada · borda do divan, com as m„os
-crusadas, attenta, como esperando as suas palavras, n'um vago susto de
-m„e.
-
-Carlos abotoou o collarinho do pequeno, e disse:
-
---N„o È absolutamente nada, minha senhora.
-
-No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de
-Charlie. A condessa, n'um tom pesaroso, queixou-se de que a educaÁ„o da
-creanÁa n„o fosse, como ella desejava, mais forte e mais viril; mas o
-pae oppunha-se ao que elle chamava ´a aberraÁ„o inglezaª, a agua fria,
-os exercicios a todo o ar, a gymnastica...
-
---A agoa fria e a gymnastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor
-reputaÁ„o do que merecem... … o seu unico filho, senhora condessa?
-
---…, tem os mimos de morgado, disse ella passando a m„o pelos cabellos
-louros do pequeno.
-
-Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado,
-Charlie n„o devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar
-para os ares de Formoselha... Depois ficaram um momento callados.
-
---N„o imagina como me tranquillisou, disse ella, erguendo-se, dando um
-geito ao veu. De mais a mais È um gosto vir consultal-o... N„o ha aqui o
-menor ar de doenÁa, nem de remedios... E realmente tem isto muito
-bonito...--accrescentou, dando um olhar lento em redor aos velludos do
-gabinete.
-
---Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. N„o inspira nenhum
-respeito pela minha sciencia... Eu estou com idÍas d'alterar tudo, pÙr
-aqui um crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas
-d'in-folios...
-
---A cella de Fausto.
-
---Justamente, a cella de Fausto.
-
---Falta-lhe Mephistopheles, disse ella alegremente, com um olhar que
-brilhou sob o vÈo.
-
---O que me falta È Margarida!
-
-A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os hombros, como
-duvidando discretamente; depois tomou a m„o de Charlie, e deu um passo
-lento para a porta, puxando outra vez o vÈo.
-
---Como v. ex.^a se interessa pela minha installaÁ„o, acudiu Carlos
-querendo retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala.
-
-Correu o reposteiro. Ella approximou-se, murmurou algumas palavras,
-approvando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o
-piano fel-a sorrir.
-
---Os seus doentes danÁam quadrilhas?
-
---Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, n„o s„o bastante
-numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para
-uma valsa... O piano est· simplesmente alli para dar idÍas alegres; È
-como uma promessa tacita de saude, de futuras _soirËes_, de bonitas
-arias do _Trovador_, em familia...
-
---… engenhoso, disse ella dando familiarmente alguns passos na sala, com
-Charlie collado aos vestidos.
-
-E Carlos, caminhando ao lado d'ella:
-
---V. ex.^a n„o imagina como eu sou engenhoso!
-
---J· n'outro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito
-inventivo quando odiava.
-
---Muito mais quando amo, disse elle rindo.
-
-Mas ella n„o respondeu: par·ra junto do piano, remexeu um momento as
-musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado.
-
---… um chocalho.
-
---Oh, senhora condessa!
-
-Ella seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer--um
-focinho de c„o de S. Bernardo, macisso e bonacheir„o, adormecido sobre
-as patas. Quasi roÁando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de
-verbena que ella usava sempre exageradamente: e, entre aquelles tons
-negros que a cobriam, a sua pelle parecia mais clara, mais doce · vista,
-e attrahindo como um setim.
-
---Este È um horror, murmurou ella, voltando-se; mas disse-me o Ega que
-ha quadros lindos no Ramalhete... Fallou-me sobretudo d'um Greuze e d'um
-Rubens... … pena que se n„o possam vÍr essas maravilhas.
-
-Carlos lamentava tambem que uma existencia de solteirıes lhes impedisse,
-a elle e ao avÙ, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma
-melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns mezes, sem que
-se sentisse alli um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer
-a herva pelos tapetes.
-
---… por isso, accrescentou elle muito serio, que eu vou obrigar o avÙ a
-casar-se.
-
-A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do
-vÈo.
-
---Gosto da sua alegria, disse ella.
-
---… uma quest„o de regimen. V. ex.^a n„o È alegre?
-
-Ella encolheu os hombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do
-guarda-sol na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro,
-murmurou com os olhos baixos, deixando ir as palavras, n'um tom
-d'intimidade e de confidencia:
-
---Dizem que n„o, que sou triste, que tenho _spleen_...
-
-O olhar de Carlos seguira o d'ella, pousara-se na botina de verniz que
-calÁava delicadamente um pÈ fino e comprido: Charlie, entretido, mexia
-nas teclas do piano--e elle baixou a voz para lhe dizer:
-
---… que a senhora condessa tem um mau regimen. … necessario tratar-se,
-voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer!
-
-Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle os olhos, d'onde se
-escapou um clar„o de ternura e de triumpho:
-
---Venha-m'o antes dizer um d'estes dias, tomar ch· comigo, ·s cinco
-horas... Charlie!
-
-O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do braÁo.
-
-Carlos, acompanhando-a abaixo · rua, lamentava a fealdade da sua escada
-de pedra:
-
---Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a
-dar-me a honra de me vir consultar...
-
-Ella gracejou, toda risonha:
-
---Ah n„o! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a todos a saude... E
-naturalmente n„o espera que seja eu que venha c· tomar ch· comsigo...
-
---Oh, minha senhora, eu quando comeÁo a esperar, n„o ponho limites
-nenhuns ·s minhas esperanÁas...
-
-Ella parou, com o pequeno pela m„o, olhou para elle, como pasmada,
-encantada com aquella grandiosa certeza de si mesmo.
-
---Ent„o vae por ahi alÈm, por ahi alÈm...?
-
---Vou por ahi alÈm, por ahi alÈm, minha senhora!
-
-Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua.
-
---Mande-me chegar um coupÈ.
-
-Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lanÁou logo a tipoia.
-
---E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir · egreja da GraÁa.
-
---A senhora condessa vai beijar o pÈ do Senhor dos Passos?
-
-Ella corou de leve, murmurou:
-
---Ando fazendo as minhas devoÁıes...
-
-Depois saltou ligeiramente para o coupÈ--deixando Charlie, que Carlos
-ergueu nos braÁos e lhe collocou ao lado, paternalmente.
-
---Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa!
-
-Ella agradeceu com um olhar, um movimento de cabeÁa--ambos t„o doces
-como caricias.
-
-Carlos subio: e, sem tirar o chapÈo, ficou ainda enrolando uma
-cigarrette, passeando n'aquella sala sempre deserta, sempre fria, onde
-ella deixara agora alguma cousa do seu calor e do seu aroma...
-
-Realmente gostava d'aquella audacia d'ella--ter vindo assim ao
-consultorio, toda escondida, quasi mascarada n'uma grande toilette
-negra, inventando um caroÁo no pescocinho s„o de Charlie, para o vÍr,
-para dar um nÛ brusco e mais apertado n'aquelle leve fio de relaÁıes que
-elle t„o negligentemente deixara cahir e quebrar...
-
-O Ega d'esta vez n„o phantasiara: aquelle bonito corpo offerecia-se, t„o
-claramente como se se despisse. Ah! se ella fosse de sentimentos
-errantes e faceis--que bella flÙr a colher, a respirar, a deitar fÛra
-depois! Mas n„o: como dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se
-tinha divertido. E o que elle n„o queria era achar-se envolvido n'uma
-paix„o ciosa, uma d'essas ternuras tumultuosas de mulher de trinta
-annos, de que depois se desembaraÁaria difficilmente... Nos braÁos
-d'ella o seu coraÁ„o ficaria mudo: e apenas esgotada a primeira
-curiosidade, comeÁaria o tedio dos beijos que se n„o desejam, a horrivel
-massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da casa, receber
-pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa
-distillando doutrina... Tudo isto o assustava... E, todavia, gostara
-d'aquella audacia! Havia ali uma pontinha de romantismo, muito
-irregular, e pÌcante... E devia ser deliciosamente bem feita... A sua
-imaginaÁ„o despia-a, enrolava-se-lhe no setim das fÛrmas onde sentia ao
-mesmo tempo alguma cousa de maduro e de virginal... E outra vez, como
-nas primeiras noites que os vira em S. Carlos, aquelles cabellos
-tentavam-n'o, assim avermelhados, t„o crespos e quentes...
-
-Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou
-o Damaso, n'um coupÈ lanÁado a grande trote, que o chamava, mandava
-parar, com a face · portinhola, vermelho e radiante:
-
---N„o tenho podido l· ir, exclamou elle, apoderando-se-lhe da m„o,
-apenas Carlos se approximou, e apertando-lh'a com enthusiasmo. Tenho
-andado n'um turbilh„o!.. Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te
-contarei!.. Tem cuidado com a roda! Bate l·, Û _CalÁ„o_!
-
-A parelha abalou; elle ainda se debruÁou da portinhola, agitou a m„o,
-gritou no rumor da rua:
-
---Um romance divino, _chic_ a valer!
-
-Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que
-acabava de ´baterª o marquez, perguntou, pousando o taco e accendendo o
-cachimbo:
-
---E noticias do nosso Damaso? J· se esclareceu esse lamentavel
-desapparecimento?...
-
-Carlos ent„o contou como o encontr·ra, afogueado e triumphante,
-atirando-lhe da portinhola do coupÈ, em plena rua Nova do Almada, a
-noticia de um _romance divino_!
-
---Bem sei, disse o Taveira.
-
---Como sabes?... exclamou Carlos.
-
-Taveira vira-o na vespera, n'um grande landeau da Companhia, com uma
-esplendida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira...
-
---Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza?
-
---Exactamente, uma cadelinha escoceza, um _griffon_ cÙr de prata... Quem
-s„o?
-
---E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglezado?
-
---Justamente... Muito correcto, um ar _sport_... Que gente È?
-
---Uma gente brazileira, penso eu.
-
-Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia
-apenas duas semanas que no terraÁo o Damaso, de punhos fechados, bramara
-contra os Castro Gomes e as suas ´desconsideraÁıesª! Ia pedir outros
-pormenores ao Taveira--mas o marquez ergueu a voz do fundo da poltrona
-onde se estir·ra, e quiz saber a opini„o de Carlos sobre o grande
-acontecimento d'essa manh„ na _Gazeta Illustrada_.--Na _Gazeta
-Illustrada_?... Carlos n„o sabia, essa manh„ n„o vira jornal nenhum.
-
---Ent„o n„o lhe digam nada, gritou o marquez. Venha a surpreza! C· ha a
-_Gazeta_? Manda buscar a _Gazeta_!
-
-Taveira puxou o cord„o da campainha;--e quando o escudeiro trouxe a
-_Gazeta_, elle apoderou-se d'ella, quiz fazer uma leitura solemne.
-
---Deixa-lhe vÍr primeiro o retrato, berrou o marquez, erguendo-se.
-
---Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal
-atraz das costas.
-
-Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos, largamente, como um
-sudario desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a
-prosa que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas
-retintas, era um trabalho de seis columnas, em estylo emplumado e
-cantante, celebrando atÈ aos cÈus as virtudes domesticas do Cohen, o
-genio financeiro do Cohen, os ditos d'espirito do Cohen, a mobilia das
-salas do Cohen; havia ainda um paragrapho alludindo · festa proxima, ao
-grande sarau de mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assignado--J. da
-E.--as iniciaes de Jo„o da Ega!
-
---Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando o jornal para cima do
-bilhar.
-
---… mais que tolice, observou Craft; È uma falta de senso moral.
-
-O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de
-velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso
-moral?...
-
---VocÍ, Craft, n„o conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural.
-… intimo da casa, celebra os donos. … admirador da mulher, lisongea o
-marido. Est· na logica c· da terra... VocÍ ver· que successo isto vae
-ter... E l· que o artigo est· lindo, isso est·!
-
-Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir cÙr de rosa
-de madame Cohen: ´respira-se alli (dizia o Ega) alguma cousa de
-perfumado, intimo e casto, como se todo aquelle cÙr de rosa exhalasse de
-si o aroma que a rosa temª!
-
---Isto, caramba, È lindo em toda a parte! exclamou o marquez. Tem muito
-talento, aquelle diabo! Tomara eu ter o talento que elle tem!...
-
---Nada d'isso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquillamente, que
-seja uma extraordinaria falta de senso moral.
-
---Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto
-d'um soph·, para deixar cahir ·s syilabas esta pesada opini„o.
-
-O marquez investiu com elle.
-
---Que entende vocÍ d'isso, seu maestro? O artigo È sublime! E saiba
-mais: È de finorio!
-
-O maestro, com preguiÁa de argumentar, foi-se enroscar em silencio ao
-outro canto do soph·.
-
-E ent„o o marquez, de pÈ e bracejando, appellou para Carlos, e quiz
-saber o que È que Craft em principio entendia por _senso moral_.
-
-Carlos, que dava pela sala passos impacientes, n„o respondeu, tomou o
-braÁo do Taveira, levou-o para o corredor.
-
---Dize-me uma cousa: onde viste tu o Damaso, com essa gente? Para que
-lado iam?
-
---Iam pelo Chiado abaixo; ante-hontem, ·s duas horas... Estou convencido
-que iam para Cintra. Levavam uma maleta no landau, e atraz ia uma criada
-n'um coupÈ com uma mala maior... Aquillo cheirava a ida a Cintra. E a
-mulher È divina! Que toilette, que ar, que chic!.. … uma Venus,
-menino!... Como conheceria elle aquillo?...
-
---Em Bordeus, n'um paquete, n„o sei onde!
-
---Eu do que gostei foi dos ares que elle se ia dando por aquelle Chiado!
-Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A
-debruÁar-se, a fallar muito baixo para a mulher, com olho terno,
-alardeando conquista...
-
---Que besta! exclamou Carlos, batendo com o pÈ no tapete.
-
---Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher
-civilisada e decente, e È elle que a conhece, e È elle que vae com ella
-para Cintra! Chama-lhe besta!... Anda d'ahi, vamos · partidinha de
-dominÛ.
-
-Taveira ultimamente introduzira o dominÛ no Ramalhete--e havia agora
-alli, ·s vezes, partidas ardentes, sobretudo quando apparecia o marquez.
-Porque a paix„o do Taveira era bater o marquez.
-
-Mas foi necessario que o marquez acabasse de bracejar, de desenrolar o
-arrazoado com que estava acabrunhando o Craft--que do fundo da poltrona,
-de cachimbo na m„o e com um ar de somno, respondia por monossyllabos.
-Era ainda a proposito do artigo do Ega, da definiÁ„o de _senso moral_.
-J· tinha fallado de Deus, de Garibaldi, atÈ do seu famoso perdigueiro
-_Finorio_; e agora definia a Consciencia... Segundo elle, era o medo da
-policia. Tinha o amigo Craft visto j· alguem com remorsos? N„o, a n„o
-ser no theatro da Rua dos Condes, em dramalhıes...
-
---Acredite vocÍ uma cousa, Craft--terminou elle por dizer, cedendo ao
-Taveira que o puchava para a meza--isto de consciencia È uma quest„o de
-educaÁ„o. Adquire-se como as boas maneiras; soffrer em silencio por ter
-trahido um amigo, aprende-se exactamente como se aprende a n„o metter os
-dedos no nariz. Quest„o d'educaÁ„o... No resto da gente È apenas medo da
-cadeia, ou da bengala... Ah! vocÍs querem levar outra sova ao dominÛ
-como a de sabbado passado? Perfeitamente, sou todo vosso...
-
-Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega,
-approximou-se tambem da meza. E estavam sentados, remexiam as
-pedras--quando · porta da sala appareceu o conde de Steinbroken, de
-casaca e crach·, gran-cruz sobre o colete branco, loiro como uma espiga,
-esticado e resplandecente. Tinha jantado no PaÁo, e vinha acabar no
-Ramalhete a sua soirÈe, em familia...
-
-Ent„o o marquez que o n„o via desde o famoso ataque de intestinos,
-abandonou o dominÛ, correu a abraÁal-o ruidosamente--e sem o deixar
-sequer sentar, nem estender a m„o aos outros, implorou-lhe logo uma das
-suas bellas canÁıes filandezas, uma sÛ, d'aquellas que lhe faziam t„o
-bem · alma!...
-
---SÛ a _Ballada_, Steinbroken... Eu tambem n„o me posso demorar, que
-tenho aqui a partida · espera. SÛ a _Ballada_!... V·, salta l· para
-dentro para o piano, Cruges...
-
-O diplomata sorria, dizia-se canÁado, tendo j· feito musica deliciosa no
-PaÁo com Sua Magestade. Mas nunca sabia resistir ·quelle modo folgaz„o
-do marquez--e l· foram para a sala do piano, de braÁo dado, seguidos
-pelo Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se do canto do
-soph·. E d'ahi a um momento, atravez dos resposteiros meio corridos, a
-bella voz de barytono do diplomata espalhava pelas salas, entre os
-suspiros do piano, a emballadora melancolia da _Ballada_, com a sua
-lettra traduzida em francez, que o marquez adorava, e em que se fallava
-das nevoas tristes do Norte, de lagos frios e de fadas loiras...
-
-Taveira e Carlos, no entanto, tinham comeÁado uma grande partida de
-dominÛ, a tost„o o ponto. Mas Carlos n'essa noite n„o se interessava,
-jogando distrahido, a cantarolar tambem baixo bocados tristes da
-_Ballada_: depois, quando j· Taveira tinha sÛ uma pedra diante de si, e
-elle estava comprando interminavelmente as que restavam, voltou-se para
-o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em Cintra,
-estava aberto todo o anno...
-
---A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente.
-Anda, joga!
-
-Carlos, sem responder, pousou mollemente uma pedra.
-
---DominÛ! gritou Taveira.
-
-E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os sessenta e oito pontos
-que Carlos perdia.
-
-Justamente o marquez entrava, e a victoria do Taveira indignou-o.
-
---Agora nÛs, exclamou elle, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos,
-deixe-me vocÍ dar aqui uma sova n'este ladr„o. Depois jogamos de tres...
-Como queres tu isto, Taveirete? A dous tostıes o ponto? Ah, queres sÛ a
-tost„o... Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraÁa-te j· d'esse
-dÙble-seis, miseravel...
-
-Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarette apagada
-nos dedos, o mesmo ar distrahido: de repente, pareceu tomar uma decis„o,
-atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken fÙra ao
-escriptorio vÍr Affonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges sÛ,
-entre as duas vÈlas do piano, com os olhos errantes pelo tecto,
-improvisava para si, melancolicamente.
-
---Dize c·, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir ·manh„ a Cintra?
-
-O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar espantado! Carlos nem o
-deixou fallar.
-
---Est· claro que queres, n„o te faz sen„o bem vir a Cintra... ¡manh„ l·
-estou · porta, com o break. Mette sempre uma camisa n'uma maleta, que
-talvez passemos l· a noite... ¡s oito em ponto, hein?... E n„o digas
-nada l· dentro.
-
-Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de dominÛ. Agora
-havia um largo silencio. O marquez e Taveira moviam lentamente as
-pedras, sem uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano
-verde do bilhar as bolas brancas dormiam juntas, sob a luz que cahia dos
-abat-jours de porcelana. Um som de piano, dolente e vago, passava por
-vezes. E Craft, com o braÁo descahido ao longo da poltrona, dormitava,
-beatificamente.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Na manh„ seguinte, ·s oito horas pontualmente, Carlos parava o break na
-rua das Flores, diante do conhecido port„o da casa do Cruges. Mas o
-trintanario, que elle mandara acima bater · campainha do terceiro andar,
-desceu com a estranha nova de que o sr. Cruges j· n„o morava ali. Onde
-diabo morava ent„o o sr. Cruges? A criada dissera que o sr. Cruges vivia
-agora na rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Gremio. Durante
-um momento, Carlos, desesperado, pensou em partir sÛ para Cintra. Depois
-l· largou para a rua de S. Francisco, amaldiÁoando o maestro, que mudara
-de casa sem avisar, sempre vago, sempre tenebroso!... E era em tudo
-assim. Carlos nada sabia do seu passado, do seu interior, das suas
-affeiÁıes, dos seus habitos. O marquez uma noite levara-o ao Ramalhete,
-dizendo ao ouvido de Carlos que estava alli um genio. Elle encantara
-logo todo o mundo pela modestia das suas maneiras e a sua arte
-maravilhosa ao piano: e todo o mundo no Ramalhete comeÁou a tratar
-Cruges por _maestro_, a fallar tambem do Cruges como de um genio, a
-declarar que Choppin nunca fizera obra egual · _MeditaÁ„o de Outono_ do
-Cruges. E ninguem sabia mais nada. FÙra pelo Damaso que Carlos conhecera
-a casa do Cruges e soubera que elle vivia l· com a m„e, uma senhora
-viuva, ainda fresca, e dona de predios na Baixa.
-
-Ao port„o da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto de
-hora. Primeiro appareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em
-cabello, que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos
-degraus acima. Depois veiu um creado em mangas de camisa trazer a maleta
-do senhor e um chaile manta. Emfim, o maestro desceu, a correr, quasi
-aos trambulhıes, com um cache-nez de seda na m„o o guarda-chuva debaixo
-do braÁo, abotoando atarantadamente o paletot.
-
-Quando vinha pulando os ultimos degraus, uma voz esganiÁada de mulher
-gritou-lhe de cima:
-
---Olha n„o te esqueÁam as queijadas!
-
-E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o lado de Carlos,
-rosnando que, com a preoccupaÁ„o de se levantar t„o cedo, tivera uma
-insomnia abominavel...
-
---Mas que diabo de idÈa È essa de mudar de casa, sem avisar a gente,
-homem?--exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dos joelhos um bocado do
-_plaid_ que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado.
-
---… que esta casa tambem È nossa, disse simplesmente Cruges.
-
---Est· claro, ahi est· uma raz„o! murmurou Carlos rindo e encolhendo os
-hombros.
-
-Partiram.
-
-Era uma manh„ muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um
-lindo sol que n„o aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas,
-barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as
-saloias ainda andavam pelas portas com os seus ceirıes d'hortaliÁas:
-varria-se de vagar a testada das lojas: no ar macio morria a distancia
-um toque fino de missa.
-
-Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas,
-estendeu um olhar · esplendida parelha baia reluzindo como um setim sob
-o faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas
-librÈs, a todo aquelle luxo correcto e rolando em cadencia--onde fazia
-mancha o seu paletot: mas o que o impressionou foi o aspecto
-resplandecente de Carlos, o olhar acceso, as bellas cÙres, o bello riso,
-o quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob o seu simples
-veston de xadrezinho castanho, n'aquella almofada burgueza de break, lhe
-dava um arranque de heroe jovial, lanÁando o seu carro de guerra...
-Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta que desde a vespera
-lhe ficara nos labios.
-
---Com franqueza, aqui para nÛs, que idÈa foi esta de ir a Cintra?
-
-Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de
-Mozart, e pelas _fugas_ de Bach? Pois bem, a idÈa era vir a Cintra,
-respirar o ar de Cintra, passar o dia em Cintra... Mas, pelo amor de
-Deus, que o n„o revelasse a ninguem!
-
-E accrescentou, rindo:
-
---Deixa-te levar, que n„o te has de arrepender...
-
-N„o, Cruges n„o se arrependia. AtÈ achava delicioso o passeio, gostara
-sempre muito de Cintra... Todavia n„o se lembrava bem, tinha apenas uma
-vaga idÈa de grandes rochas e de nascentes d'aguas vivas... E terminou
-por confessar que desde os nove annos n„o voltara a Cintra.
-
-O que! o maestro n„o conhecia Cintra?... Ent„o era necessario ficarem
-l·, fazer as peregrinaÁıes classicas, subir · Pena, ir beber agua ·
-Fonte dos Amores, barquejar na varzea...
-
---A mim o que me est· a appetecer muito È Sitiaes; e a manteiga fresca.
-
---Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros... Emfim,
-uma ecloga!
-
-O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de
-quintas, casarıes tristonhos de vidraÁas quebradas, vendas com o seu
-masso de cigarros · porta dependurado de uma guita: e a menor arvore,
-qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de collina
-verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle n„o via o campo!
-
-Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraÁou-se do seu grande
-cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletot--e declarou-se morto de
-fome.
-
-Felizmente estavam chegando · Porcalhota.
-
-O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado,--mas, como era
-cedo para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma
-bella pratada de ovos com chouriÁo. Era uma cousa que n„o provava havia
-annos, e que lhe daria a sensaÁ„o de estar na aldÍa... Quando o patr„o,
-com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre a meza sem
-toalha a enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as m„os, achando
-aquillo deliciosamente campestre.
-
---A gente em Lisboa estraga a saude! disse elle. puxando para o prato
-uma montanha de ovo e chouriÁo. Tu n„o tomas nada?...
-
-Carlos, para lhe fazer companhia, acceitou uma chavena de cafÈ.
-
-D'ahi a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a bocca cheia:
-
---O Rheno tambem deve ser magnifico!
-
-Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora alli o Rheno?... …
-que o maestro, desde que sahira as portas, estava cheio de idÈas de
-viagens e de paisagens; queria vÍr as grandes montanhas onde ha neve, os
-rios de que se falla na Historia. O seu ideal seria ir · Allemanha,
-percorrer a pÈ, com uma mochilla, aquella patria sagrada dos seus
-deuses, de Beethoven, de Mozart, de Wagner...
-
---N„o te appetecia mais ir · Italia? perguntou Carlos accendendo o
-charuto.
-
-O maestro esboÁou um gesto de desdem, teve uma das suas phrases
-sybillinas:
-
---Tudo contradanÁas!...
-
-Carlos ent„o fallou de um certo plano de ir · Italia, com o Ega, no
-inverno. Ir · Italia, para o Ega, era uma hygiene intellectual:
-precisava calmar aquella imaginaÁ„o tumultuosa de nervoso peninsular
-entre a placida magestade dos marmores...
-
---O que elle precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges.
-
-E voltou a fallar do caso da vespera, do famoso artigo da _Gazeta_.
-Achava aquillo, como elle dissera, pura e simplesmente insensato, e de
-uma sabujice indecorosa. E o que o affligia È que o Ega, com aquelle
-talento, aquella verve fumegante, n„o fizesse nada...
-
---Ninguem faz nada, disse Carlos espreguiÁando-se. Tu, por exemplo, que
-fazes?
-
-Cruges, depois de um silencio, rosnou encolhendo os hombros:
-
---Se eu fizesse uma boa opera, quem È que m'a representava?
-
---E se o Ega fizesse um bello livro, quem È que lh'o lia?
-
-O maestro terminou por dizer:
-
---Isto È um paiz impossivel... Parece-me que tambem vou tomar cafÈ.
-
-Os cavallos tinham descanÁado, Cruges pagou a conta, partiram. D'ahi a
-pouco entravam na charneca que lhes pareceu infindavel. D'ambos os
-lados, a perder de vista, era um ch„o escuro e triste; e por cima um
-azul sem fim, que n'aquella solid„o parecia triste tambem. O trote
-compassado dos cavallos batia monotonamente a estrada. N„o havia um
-rumor: por vezes um passaro cortava o ar, n'um vÙo brusco, fugindo do
-ermo agreste. Dentro do break um dos criados dormia; Cruges, pesado dos
-ovos com chouriÁo, olhava, vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas
-dos cavallos.
-
-Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Cintra. E realmente
-n„o sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que elle n„o avistava
-certa figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que n„o
-encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus:
-agora suppunha que ella estava em Cintra, corria a Cintra. N„o esperava
-nada, n„o desejava nada. N„o sabia se a veria, talvez ella tivesse j·
-partido. Mas vinha: e era j· delicioso o pensar n'ella assim por aquella
-estrada fÛra, penetrar, com essa doÁura no coraÁ„o, sob as bellas
-arvores de Cintra... Depois, era possivel que d'ahi a pouco, na velha
-Lawrence, elle a cruzasse de repente no corredor, roÁasse talvez o seu
-vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ella l· estivesse, decerto viria
-jantar · sala, aquella sala que elle conhecia t„o bem, que j· lhe estava
-appetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, os ramos
-toscos sobre a meza, e os dois grandes candieiros de lat„o antigo...
-Ella entraria alli, com o seu bello ar claro de Diana loira; o bom
-Damaso, apresentaria o seu amigo Maia; aquelles olhos negros que elle
-vira passar de longe como duas estrellas, pousariam mais de vagar nos
-seus; e, muito simplesmente, · ingleza, ella estender-lhe-hia a m„o...
-
---Ora atÈ que finalmente! exclamou Cruges, com um suspiro de allivio e
-respirando melhor.
-
-Chegavam ·s primeiras casas de Cintra, havia j· verduras na estrada, e
-batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.
-
-E a passo, o break foi penetrando sob as arvores do Ramalh„o. Com a paz
-das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e emballadora
-sussurraÁ„o de ramagens, e como o diffuso e vago murmurio de agoas
-correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: atravez da
-folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e avelludado
-circulava, rescendendo ·s verduras novas; aqui e alÈm, nos ramos mais
-sombrios, passaros chilreavam de leve; e n'aquelle simples bocado de
-estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se j·, sem se vÍr, a
-religiosa solemnidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das
-nascentes vivas, a tristeza que cae das penedias e o repouso fidalgo das
-quintas de ver„o... Cruges respirava largamente, voluptuosamente.
-
---A Lawrence onde È? Na serra?--perguntou elle com a idÈa repentina de
-ficar alli um mez n'aquelle paraiso.
-
---NÛs n„o vamos para a Lawrence, disse Carlos sahindo bruscamente do seu
-silencio, e espertando os cavallos. Vamos para o Nunes, estamos l· muito
-melhor!
-
-Era uma idÈa que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas
-de S. Pedro, e o break comeÁara a rolar n'aquellas estradas onde a cada
-momento elle a poderia encontrar. Tomara-o uma timidez, a que se
-misturava um laivo de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto,
-seguindo-a assim a Cintra, ainda que ella o n„o reconhecesse, indo
-installar-se sob as mesmas telhas, apoderando-se de um logar · mesma
-meza... E ao mesmo tempo repugnou-lhe a idÈa de lhe ser apresentado pelo
-Damaso: via-o j·, bochechudo e vestido de campo, a esboÁar um gesto de
-ceremonia, a mostrar o _seu amigo Maia_, a tratal-o por tu, affectando
-intimidades com ella, cocando-a com um olho terno... Isto seria
-intoleravel.
-
---Vamos para o Nunes, que se come melhor!
-
-Cruges n„o respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impress„o
-religiosa de todo aquelle esplendor sombrio de arvoredo, dos altos
-fragosos da serra entrevistos um instante l· em cima nas nuvens, d'esse
-aroma que elle sorvia deliciosamente, e do sussurro doce de aguas
-descendo para os valles...
-
-SÛ ao avistar o PaÁo descerrou os labios:
-
---Sim senhor, tem _cachet_!
-
-E foi o que mais lhe agradou--este macisso e silencioso palacio, sem
-florıes e sem torres, patriarchalmente assentado entre o casario da
-villa, com as suas bellas janellas manuelinas que lhe fazem um nobre
-semblante real, o valle aos pÈs, frondoso e fresco, e no alto as duas
-chaminÈs collossaes, disformes, resumindo tudo, como se essa residencia
-fosse toda ella uma cosinha talhada ·s proporÁıes de uma gula de Rei que
-cada dia come todo um Reino...
-
-E apenas o break parou · porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar,
-timido e de longe--receiando alguma palavra rude da sentinella.
-
-Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou · parte o criado do
-hotel, que descera a recolher as maletas.
-
---VossÍ conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se elle est· em Cintra?
-
-O creado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede. Ainda na vespera pela
-manh„ o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas
-pretas... Devia estar na Lawrence, porque sÛ com raparigas e em pandiga
-È que o sr. Damaso vinha para o Nunes.
-
---Ent„o, depressa, dous quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de
-creanÁa, certo agora que _ella_ estava em Cintra. E uma sala particular,
-sÛ para nÛs, para almoÁarmos!
-
-Cruges, que se approximava, protestou contra esta sala solitaria.
-Preferia a meza redonda. Ordinariamente na meza redonda encontram-se
-typos...
-
---Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as m„os, pıe o almoÁo na sala
-de jantar, pıe-n'o atÈ na PraÁa... E muita manteiga fresca para o sr.
-Cruges!
-
-O cocheiro levou o break, o creado sobraÁou as maletas. Cruges,
-enthusiasmado com Cintra, rompeu pela escada acima, a
-assobiar--conservando aos hombros o chaile-manta, de que se n„o queria
-separar, porque lh'o emprestara a mam„. E apenas chegou · porta da sala
-do jantar, estacou, ergueu os braÁos, teve um grito.
-
---Oh Euzebiosinho!
-
-Carlos correu, olhou... Era elle, o viuvo, acabando de almoÁar, com duas
-raparigas hespanholas.
-
-Estava no topo da meza, como presidindo, diante de uns restos de pudim e
-de pratos de fructa, amarellado, despenteado, carregado de luto, com a
-larga fita das lunetas pretas passada por traz da orelha, e uma rodela
-de taffet· negro sobre o pescoÁo tapando alguma espinha rebentada.
-
-Uma das hespanholas era um mulher„o trigueiro, com signaes de bexigas na
-cara; a outra muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de
-febre, que o pÛ de arroz n„o desfarÁava. Ambas vestiam de setim preto, e
-fumavam cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janella,
-pareciam mais gastas, mais molles, ainda pegajosas da lentura morna dos
-colxıes, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo · sucia havia um
-outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoÁo, com as costas para a porta e a
-cabeÁa sobre o prato, babujando uma metade de laranja.
-
-Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito com o garfo no ar;
-depois l· se ergueu, de guardanapo na m„o, veiu apertar os dedos aos
-amigos, balbuciando logo uma justificaÁ„o embrulhada, a ordem do medico
-para mudar de ares, aquelle rapaz que o acompanhara, e que quizera
-trazer raparigas... E nunca parecera t„o funebre, t„o relles, como
-resmungando estas cousas hypocritas, encolhido · sombra de Carlos.
-
---Fizeste muito bem, Eusebiosinho, disse Carlos por fim, batendo-lhe no
-hombro. Lisboa est· um horror, e o amor È cousa doce.
-
-O outro continuava a justificar-se. Ent„o a hespanhola magrita, que
-fumava, afastada da meza e com a perna traÁada, elevou a voz, perguntou
-ao Cruges se elle n„o lhe fallava. O maestro affirmou-se um momento, e
-partiu de braÁos abertos para a sua amiga Lolla. E foi, n'esse canto da
-meza, uma grulhada em hespanhol, grandes apertos de m„o, e _hombre, que
-no se le ha visto! e mira, que me he accordado de ti!_ e _caramba, que
-reguapa estas_... Depois a Lolla, tomando um arsinho espremido,
-apresentou o outro mulher„o, la seÒorita Concha...
-
-Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade--o sujeito obeso, que
-apenas levantara um instante a cabeÁa do prato, decidiu-se a examinar
-mais attentamente os amigos do Euzebio: crusou o talher, limpou com o
-guardanapo a bocca, a testa e o pescoÁo, encavallou laboriosamente no
-nariz uma grande luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga,
-balofa e cÙr de cidra, examinou detidamente Cruges, e depois Carlos, com
-uma impudencia tranquilla.
-
-Eusebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigo Palma, ouvindo
-o nome conhecido de Carlos da Maia, quiz logo mostrar diante de um
-gentleman, que era um gentleman tambem. Arrojou para longe o guardanapo,
-arredou para fÛra a cadeira; e de pÈ, estendendo a Carlos os dedos
-molles e de unhas roidas, exclamou, com um gesto para os restos da
-sobremeza:
-
---Se. v. ex.^a È servido, È sem ceremonia... Que isto quando a gente vem
-a Cintra, È para abrir o appetite e fazer bem · barriga...
-
-Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animava e
-gracejava com a Lolla, fez tambem do outro lado da meza a sua
-apresentaÁ„o:
-
---Carlos, quero que conheÁas aqui a lindissima Lolla, relaÁıes antigas,
-e a seÒorita Concha, que eu tive agora o prazer...
-
-Carlos saudou respeitosamente as damas.
-
-O mulher„o da Concha rosnou seccamente os _buenos dias_: parecia de mau
-humor, pesada do almoÁo, amodorrada para alli, sem dizer uma palavra,
-com os cotovellos fincados na meza, os olhos pestanudos meio cerrados,
-ora fumando, ora palitando os dentes. Mas a Lolla foi amavel, fez de
-senhora, ergueu-se, offereceu a Carlos a m„osita suada. Depois retomando
-o cigarro, dando um geito ·s pulseiras de ouro, declarou com um requebro
-d'olhos, que conhecia de ha muito Carlos...
-
---No ha estado ustÍd con Encarnacion?
-
-Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito d'ella, d'essa bella
-Encarnacion?
-
-A Lolla sorriu com finura, tocou no cotovello do maestro. N„o acreditava
-que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion... Emfim, terminou
-por dizer que a Encarnacion estava agora com o Saldanha.
-
---Mas olhe que n„o È com o duque de Saldanha! exclamou Palma, que se
-conservara de pÈ, com a bolsa do tabaco aberta sobre a meza, fazendo um
-grande cigarro.
-
-A Lolita, com um modo secco, replicou que o Saldanha n„o seria duque,
-mas era um _chico muy decente_...
-
---Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na bocca e tirando a isca
-da algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda n„o ha tres
-semanas... Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu... Foi atÈ no
-Montanha... Duas bofetadas que lhe foi logo o chapÈo parar ao meio da
-rua... O sr. Maia ha de conhecer o Saldanha... Ha de conhecer, que elle
-tambem tem um carrito e um cavallo.
-
-Carlos fez um gesto indicando que n„o; e despedia-se de novo, saudando
-as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em
-quanto satisfazia uma curiosidade: queria saber qual d'aquellas meninas
-era a _esposa do amigo Eusebio_.
-
-Assim interpellado, o viuvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem
-erguer as lunetas da laranja que descascava, que estava alli de passeio,
-n„o tinha esposa, e ambas aquellas meninas pertenciam ao amigo Palma...
-
-E ainda elle mascava as ultimas palavras, quando Concha, que digeria de
-perna estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou
-um murro · borda da meza, e com os olhos chammejantes, desafiou o
-Eusebio a que repetisse aquillo! Queria que elle repetisse! Queria que
-dissesse se tinha vergonha d'ella, e de dizer que a tinha trazido a
-Cintra!... E como o Eusebio, j· enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma
-festa--ella despropositou, atirou-lhe os peiores nomes, dando sempre
-punhadas na meza, com uma furia que lhe torcia a bocca, lhe punha duas
-manchas de sangue no car„o trigueiro. A Lolita, vexada, puchava-lhe pelo
-braÁo: a outra deu-lhe um repell„o; e, mais excitada com a estridencia
-da propria voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco, accusou-o
-de forreta, usou-o como um trapo vil.
-
-Palma afflicto, debruÁado sobre a meza, exclamava n'um tom ancioso:
-
---” Concha, escuta l·!... Ouve l·!... Concha, eu te explico...
-
-De repente, ella ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulher„o
-abalou pela sala fÛra, a grande cauda de setim varreu desabridamente o
-soalho, ouviu-se dentro estalar uma porta. No ch„o ficara caindo um
-pedaÁo da mantilha de renda.
-
-O creado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o
-olho curioso, farejando o escandalo; depois, calado e seccamente, foi
-servindo em roda o cafÈ.
-
-Durante um momento houve um silencio. Apenas porÈm o criado sahiu--a
-Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho.
-Elle portara-se muito mal! Aquillo n„o fÙra de cavalheiro! Tinha trazido
-a rapariga a Cintra, devia-a respeitar, n„o a ter renegado assim, ·
-bruta, diante de todos...
-
---_Esto no se hace_, dizia a Lolita, de pÈ, gesticulando, com os olhos
-brilhantes, voltada para Carlos, _ha sido una cosa muy fÍa!_..
-
-E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntaria da
-catastrophe--ella baixou a voz, contou que a Concha era uma furia, viera
-a Cintra com pouca vontade, e desde manh„ estava de _muy malo humor_...
-Pero lo de Silbeira habia sido una gran pulhice...
-
-Elle, coitado, com a cabeÁa cahida e as orelhas em braza, remexia
-desoladamente o seu cafÈ; n„o se lhe viam os olhos escondidos pelas
-lunetas pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluÁo que lhe affogava a
-garganta. Ent„o Palma pouzou a chavena, lambeu os beiÁos, e de pÈ no
-meio da sala, com a face luzidia, o collete desabotoado, fez n'um tom
-entendido o resumo d'aquelle desgosto.
-
---Tudo provÈm d'isto, e desculpe-me vocÍ dizel-o, Silveira: È que vocÍ
-n„o sabe tratar com hespanholas!
-
-A esta cruel palavra o viuvo succumbiu. A colher cahiu-lhe dos dedos.
-Ergueu-se, acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se n'elles,
-vindo reconfortar-se ao calor da sua amizade,—e desabafou, estas
-palavras angustiosas escaparam-se-lhe dos labios:
-
---Vejam vocÍs! vem a gente a um sitio d'estes para gosar um bocado de
-poesia, e no fim È uma d'estas!...
-
-Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro:
-
---A vida È assim, Eusebiosinho.
-
-Cruges fez-lhe uma festa nas costas:
-
---N„o se pÛde contar com prazeres, Silveirinha.
-
-Mas Palma, mais pratico, declarou que era forÁoso arranjarem-se as
-cousas. Virem a Cintra, para questıes e amuos, isso n„o! N'aquellas
-pandegas queria-se harmonia, chalaÁa, e gosar. Couces, n„o. Ent„o
-ficava-se em Lisboa, que era mais barato.
-
-Chegou-se a Lolla, passou-lhe os dedos pela face, com amor:
-
---Anda Lolita, vae tu l· dentro · Concha, dize-lhe que se n„o faÁa tola,
-que venha tomar cafÈ... Anda, que tu sabe-l'a levar... Dize-lhe que peÁo
-eu!
-
-Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um geito
-ao cabello diante do espelho, apanhou a cauda--e sahiu, atirando a
-Carlos, ao passar, um olhar e um sorrisinho.
-
-Apenas ficaram sÛs, Palma voltou-se para o Eusebio, e deu-lhe conselhos
-muito serios sobre o systema de tratar hespanholas. Era necessario
-leval-as por bons modos; por isso È que ellas se pellavam por
-portuguezes, porque l· em Hespanha era · bordoada... Emfim, elle n„o
-dizia que em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de
-bengaladas, n„o fossem uteis... Sabiam, por exemplo, os amigos, quando
-se devia bater? Quando ellas n„o gostavam da gente, e se faziam ariscas.
-Ent„o, sim. Ent„o z·s, tapona, que ellas ficavam logo pelo beiÁo... Mas
-depois bons modos, delicadeza, tal qual como com francezas...
-
---Acredite vocÍ isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiencia. E o sr.
-Maia que lhe diga se isto n„o È verdade, elle que tem tambem experiencia
-e sabe viver com hespanholas!
-
-E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito--que Cruges desatou a
-rir, fez rir Carlos tambem.
-
-O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as lunetas, e olhou para
-elles:
-
---Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que eu
-comecei a lidar com hespanholas aos quinze annos! N„o, escusam de rir,
-que n'isso ninguem me ganha! L· o que se chama ter geito para
-hespanholas, c· o meco! E, vamos l·, que n„o È facil! … necessario ter
-um certo talento!... Olhem, o Herculano È capaz de fazer bellos artigos
-e estylo catita... Agora tragam-n'o c· para lidar com hespanholas e
-veremos! N„o d· meia...
-
-Eusebiosinho no entanto fÙra duas vezes escutar · porta. Todo o hotel
-cahira n'um grande silencio, a Lolita n„o voltava. Ent„o Palma
-aconselhou um grande passo:
-
---V· vocÍ l· dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim sem mais nem
-menos, chegue-se ao pÈ d'ella...
-
---E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gosando o Palma.
-
---Qual tapona! Ajoelhe e peÁa perd„o... N'este caso È pedir perd„o... E
-como pretexto, Silveira, leve-lhe vocÍ mesmo o cafÈ.
-
-Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou os seus amigos. Mas
-o seu coraÁ„o j· decidira: e d'ahi a um momento, com o pedaÁo de
-mantilha n'uma das m„os, a chavena de cafÈ na outra, enfiado e
-commovido, l· partia a passos lentos pelo corredor a pedir perd„o ·
-Concha.
-
-E, logo atraz d'elle, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem
-do sr. Palma--que de resto, indifferente tambem, j· se accommodara ‡
-meza a preparar regaladamente o seu grog.
-
-
-Eram duas horas quando os dous amigos sahiram emfim do hotel, a fazer
-esse passeio a Sitiaes--que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na
-praÁa, por defronte das lojas vasias e silenciosas, c„es vadios dormiam
-ao sol: atravez das grades da cadÍa os presos pediam esmola. CreanÁas,
-enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas
-tinham ainda as janellas fechadas, continuando o seu somno de inverno,
-entre as arvores j· verdes. De vez em quando apparecia um bocado da
-serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se
-o castello da Pena, solitario, l· no alto. E por toda a parte o luminoso
-ar de abril punha a doÁura do seu velludo.
-
-Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao
-Cruges.
-
---Tem o ar mais sympathico, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir
-para o Nunes, sÛ para vÍr aquella scena... E ent„o com quÍ o sr. Carlos
-da Maia tem experiencia de hespanholas?
-
-Carlos n„o respondeu, os seus olhos n„o se despegavam d'aquella fachada
-banal, onde sÛ uma janella estava aberta com um par de botinas de
-duraque seccando ao ar. ¡ porta, dous rapazes inglezes, ambos de
-knicker-bokers, cachimbavam em silencio; e defronte, sentados sobre um
-banco de pedra, dous burriqueiros ao lado dos burros, n„o lhes tiravam o
-olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.
-
-Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancolico, sahindo
-do silencio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as
-suas recordaÁıes, quasi certo de Damaso lhe ter dito que a bordo Castro
-Gomes tocava flauta...
-
---Isto È sublime! exclamou do lado o Cruges, commovido.
-
-Parara diante da grade d'onde se domina o valle. E d'ali olhava,
-enlevadamente, a rica vastid„o de arvoredo cerrado, a que sÛ se veem os
-cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro,
-e tendo aquella distancia, no brilho da luz, a suavidade macia de um
-grande musgo escuro. E n'esta espessura verde-negra havia uma frontaria
-de casa que o interessava, branquejando, affogada entre a folhagem, com
-um ar de nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve
-uma idÈa de artista: desejou habital-a com uma mulher, um piano e um c„o
-da Terra-nova.
-
-Mas o que o encantava era o ar. Abria os braÁos, respirava a tragos
-deliciosos:
-
---Que ar! Isto d· saude, menino! Isto faz reviver!...
-
-Para o gosar mais docemente, sentou-se adiante, n'um bocado de muro
-baixo, defronte de um alto terraÁo gradeado, onde velhas arvores
-assombreiam bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das
-suas ramagens, cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o
-relogio, as horas que fugiam para ir vÍr o palacio, a Pena, as outras
-bellezas de Cintra--o maestro declarou que preferia estar ali, ouvindo
-correr a agua, a vÍr monumentos caturras...
-
---Cintra n„o s„o pedras velhas, nem cousas gothicas... Cintra È isto,
-uma pouca de agua, um bocado de musgo... Isto È um paraiso!...
-
-E, n'aquella satisfaÁ„o que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo a
-sua chalaÁa:
-
---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de
-hespanholas!...
-
---Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos, que riscava
-pensativamente o ch„o com a bengala.
-
-Ficaram callados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em
-que estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores
-e arvores, suffocando-se n'uma prodigalidade de bosque silvestre,
-deixando apenas espaÁo para um tanquesinho redondo, onde uma pouca de
-agua, immovel e gelada, com dous ou tres nenufares, se esverdinhava sob
-a sombra d'aquella ramaria profusa. Aqui e alem, entre a bella desordem
-da folhagem, distinguiam-se arranjos de gosto burguez, uma volta de
-ruasita estreita como uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de
-um gesso. N'outros recantos, aquelle jardim de gente rica, exposto ·s
-vistas, tinha retoques pretenciosos de estufa rara, aloes e cactos,
-braÁos aguardasolados de auraucarias erguendo-se d'entre as agulhas
-negras dos pinheiros bravos, laminas de palmeira, com o seu ar triste de
-planta exilada, roÁando a rama leve e perfumada das olaias floridas de
-cÙr de rosa. A espaÁos, com uma graÁa discreta, branquejava um grande pÈ
-de margaridas; ou em torno de uma rosa, solitaria na sua haste,
-palpitavam borboletas aos pares.
-
---Que pena que isto n„o pertenÁa a um artista! murmurou o maestro. SÛ um
-artista saberia amar estas flores, estas arvores, estes rumores...
-
-Carlos sorriu. Os artistas, dizia elle, sÛ amam na natureza os effeitos
-de linha e cÙr; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para
-cuidar de que um craveiro n„o soffra sede, para sentir magoa de que a
-geada tenha queimado os primeiros rebentıes das acacias--para isso sÛ o
-burguez, o burguez que todas as manh„s desce ao seu quintal com um
-chapÈo velho e um regador, e vÍ nas arvores e nas plantas uma outra
-familia muda, por que elle È tambem responsavel...
-
-Cruges, que escutara distrahidamente, exclamou:
-
---Diabo! … necessario que n„o me esqueÁam as queijadas!
-
-Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a
-trote do lado de Sitiaes. Carlos ergueu-se logo, certo de que era
-_ella_, e que elle ia vÍr os seus bellos olhos brilhar e fugir como duas
-estrellas. A caleche passou, levando um anci„o de barbas de patriarcha,
-e uma velha ingleza com o regaÁo cheio de flores, e o vÈo azul
-fluctuando ao ar. E logo atraz, quasi no pÛ que as rodas tinham erguido,
-appareceu, caminhando pensativamente, de m„os atraz das costas, um homem
-alto, todo de preto, com um grande chapÈo Panam· sobre os olhos. Foi
-Cruges que reconheceu os longos bigodes romanticos, que gritou:
-
---Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!...
-
-Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braÁos abertos, no
-meio da estrada. Depois, com a mesma effus„o ruidosa, apertou Carlos
-contra o coraÁ„o, beijou o Cruges na face--porque conhecia Cruges desde
-pequeno, Cruges era para elle como um filho. Caramba! Eis ahi uma
-surpreza que elle n„o trocava pelo titulo de duque! Ora o alegr„o de os
-vÍr ali! Como diabo tinham elles vindo ali parar?
-
-E n„o esperou a resposta, contou elle logo a sua historia. Tivera um dos
-seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Mello, o bom
-Mello, recommendara-lhe mudanÁa d'ares. Ora elle, bons ares, sÛ
-comprehendia os de Cintra: porque alli n„o eram sÛ os pulmıes que lhe
-respiravam bem, era tambem o coraÁ„o, rapazes!... De sorte que viera na
-vespera, no omnibus.
-
---E onde est·s tu, Alencar? perguntou logo Carlos.
-
---Pois onde queres tu que eu esteja, filho? L· estou com a minha velha
-Lawrence. Coitada! est· bem velha! mas para mim È sempre uma amiga, È
-quasi uma irm„!... E vocÍs, que diabo? Para onde v„o vocÍs, com essas
-flores nas lapellas?
-
---A Sitiaes. Vou mostrar Sitiaes ao maestro.
-
-Ent„o tambem elle voltava a Sitiaes! N„o tinha nada que fazer sen„o
-sorver bom ar, e scismar... Toda a manh„ andara alli, vagamente,
-pendurando sonhos dos ramos das arvores. Mas agora j· os n„o largava;
-era mesmo um dever ir elle proprio fazer ao maestro as honras de
-Sitiaes...
-
---Que aquillo È sitio muito meu, filhos! N„o ha alli arvore que me n„o
-conheÁa... Eu n„o vos quero comeÁar j· a impingir versos; mas emfim,
-vocÍs lembram-se de uma cousa que eu fiz a Sitiaes, e de que por ahi se
-gostou...
-
-
- Quantos luares eu l· vi!
- Que doces manh„s d'abril!
- E os ais que soltei alli
- N„o foram sete, mas mil!
-
-
-Pois ent„o j· vocÍs vÍem, rapazes, que tenho raz„o para conhecer
-Sitiaes...
-
-O poeta lanÁou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam
-todos tres callados.
-
---Dize-me uma cousa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando
-no braÁo do poeta. O Damaso est· na Lawrence?
-
-N„o, que elle o tivesse visto. Verdade seja que na vespera, apenas
-chegara, fÙra-se deitar, fatigado; e n'essa manh„ almoÁara sÛ com dois
-rapazes inglezes. O unico animal que avistara fÙra um lindo c„osinho de
-luxo, ladrando no corredor...
-
---E vocÍs onde est„o?
-
---No Nunes.
-
-Ent„o o poeta parando de novo, contemplando Carlos com sympathia:
-
---Que bem que fizeste em arrastar c· o maestro, filho!... Quantas vezes
-eu tenho dito ·quelle diabo, que se mettesse no omnibus, viesse passar
-dous dias a Cintra. Mas ninguem o tira de martelar o piano. E olha tu
-que mesmo para a musica, para compor, para entender um Mozart, um
-Choppin, È necessario ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia
-da ramagem...
-
-Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado:
-
---Tem muito talento, tem muita idÈa melodica!... Olha que andei com
-aquillo ·s cabritas... E a m„e, menino, foi muitissimo boa mulher.
-
---Vejam vocÍs isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto È
-sublime.
-
-Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre dous velhos muros
-cobertos d'hera, assombreada por grandes arvores entrelaÁadas, que lhe
-faziam um toldo de folhagem aberto · luz como uma renda: no ch„o tremiam
-manchas de sol: e, na frescura e no silencio, uma agoa que se n„o via ia
-fugindo e cantando.
-
---Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, ent„o tens de subir ·
-serra. Ahi tens o espaÁo, tens a nuvem, tens a arte...
-
---N„o sei, talvez goste mais d'isto, murmurou o maestro.
-
-A sua natureza de timido preferiria, de certo, estes humildes recantos,
-feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedaÁo de muro musgoso,
-logares de quietaÁ„o e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o
-scismar dos indolentes...
-
---De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra È divino. N„o ha
-cantinho que n„o seja um poema... Olha, alli tens tu, por exemplo,
-aquella linda florinha azul...--e, ternamente, apanhou-a.
-
---Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora,
-desde que o poeta fallara do c„osinho de luxo, mais certo de que ella
-estava na Lawrence, e que a ia brevemente encontrar.
-
-Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desillus„o diante d'aquelle
-vasto terreiro coberto de herva, com o palacete ao fundo, enxovalhado,
-de vidraÁas partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno
-ceu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a idÈa, de pequeno, que
-Sitiaes era um mont„o pittoresco de rochedos, dominando a profundidade
-de um valle; e a isto misturava-se vagamente uma recordaÁ„o de luar e de
-guitarras... Mas aquillo que elle alli via era um desapontamento.
-
---A vida È feita de desapontamentos, disse Carlos, Anda para diante!
-
-E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto o maestro, cada vez
-mais animado, lhe gritava a chalaÁa do dia:
-
---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiÍncia de
-hespanholas!...
-
-Alencar, que se demorara atraz a accender o cigarro, estendeu o ouvido,
-curioso, quiz saber o que era isso de hespanholas? O maestro contou-lhe
-o encontro no Nunes e os furores da Concha.
-
-Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes, verde e fresca, de
-uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava
-deserto; a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrellada de
-botıes de ouro brilhando ao sol, e de malmequersinhos brancos. Nenhuma
-folha se movia: atravez da ramaria ligeira o sol atirava mÛlhos de raios
-de ouro. O azul parecia recuado a uma distancia infinita, repassado de
-silencio luminoso; e sÛ se ouvia, ·s vezes, monotona e dormente, a voz
-de um cuco nos castanheiros.
-
-Toda aquella vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os
-seus florıes de pedra roÌdos da chuva, o pesado braz„o rococÛ, as
-janellas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia
-estar-se deixando morrer voluntariamente n'aquella verde
-solid„o,--amuada com a vida, desde que d'alli tinham desapparecido as
-ultimas graÁas do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de
-anquinhas tinham roÁado essas relvas... Agora Cruges Ìa descrevendo ao
-Alencar a figura do Eusebiosinho, com a chavena de cafÈ na m„o, a ir
-pedir perd„o · Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande chapÈo
-panam·, se agachava a colher florinhas silvestres.
-
-Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado n'um dos bancos de
-pedra, fumando pensativamente a sua cigarette. O palacete deitava sobre
-aquelle bocado de terraÁo a sombra dos seus muros tristes; do valle
-subia uma frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o
-prantear de um repuxo. Ent„o o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo,
-fallou com nojo do Eusebiosinho.--Ahi est· uma torpeza que elle nunca
-commettera, trazer meretrizes a Cintra! Nem a Cintra, nem a parte
-nenhuma... Mas muito menos a Cintra! Sempre tivera, todo o mundo devia
-ter, a religi„o d'aquellas arvores e o amor d'aquellas sombras...
-
---E esse Palma, accrescentou elle, È um traste! Eu conheÁo-o; elle teve
-uma especie de jornal, e j· lhe dei muita bofetada na rua do Alecrim.
-Foi uma historia curiosa... Ora eu t'a conto Carlos... Aquelle canalha!
-quando me lembro!... Aquella vil bolinha de materia putrida!... Aquelle
-chouricinho de pus!
-
-Levantou-se, passando a m„o nervosa sobre os bigodes, j· excitado pela
-lembranÁa d'aquella velha desordem, vergastando o Palma com nomes
-ferozes, todo n'uma d'essas fervuras de sangue que eram a sua desgraÁa.
-
-Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planicie de
-lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em
-quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um panno
-feito de remendos assim que elle tinha na meza do seu quarto. Tiras
-brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e alÈm, n'uma massa de
-arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, n'aquelle solo onde as
-aguas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro,
-correndo e reluzindo entre as hervas. O mar ficava ao fundo, n'uma linha
-unida, esbatida na tenuidade diffusa da bruma azulada: e por cima
-arredondava-se um grande azul lustroso como um bello esmalte, tendo
-apenas, l· no alto, um farraposinho de nevoa, que ficara alli esquecido,
-e que dormia enovellado e suspenso na luz...
-
---Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua historia.
-Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos pÈs, crusei os braÁos e
-disse-lhe: ahi tem vocÍ a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as m„os!
-
---Que diabo, n„o me h„o de esquecer as queijadas! murmurou Cruges, para
-si mesmo, affastando-se do parapeito.
-
-Carlos erguera-se tambem, olhava o relogio. Mas antes de deixar Sitiaes,
-Cruges quiz explorar o outro terraÁo ao lado: e, apenas subira os dous
-velhos degraus de pedra, soltou de l· um grito alegre:
-
---Bem dizia eu! c· est„o elles... E vocÍs a dizer que n„o!
-
-Foram-n'o encontrar triumphante, diante de um mont„o de penedos, polidos
-pelo uso, j· com um vago feitio de assentos, deixados ali outr'ora,
-poeticamente, para dar ao terraÁo uma graÁa agreste de selva brava.
-Ent„o, n„o dizia elle? Bem dizia elle que em Sitiaes havia penedos!
-
---Se eu me lembrava perfeitamente! _Penedo da Saudade_, n„o È que se
-chama, Alencar?
-
-Mas o poeta n„o respondeu. Diante d'aquellas pedras crusara os braÁos,
-sorria dolorosamente; e immovel, sombrio no seu fato negro, com o panam·
-carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto n'um olhar lento e
-triste.
-
-Depois, no silencio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente:
-
---VocÍs lembram-se, rapazes, nas _FlÙres e Martyrios_, de uma das cousas
-melhores que l· tenho, em rimas livres, chamada _6 de Agosto_? N„o se
-lembram talvez... Pois eu vol-a digo, rapazes!
-
-Machinalmente tirara do bolso o lenÁo branco. E com elle fluctuante na
-m„o, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges,
-baixou a voz como n'uma confidencia sagrada, recitou, com um ardor
-surdo, mordendo as syllabas, tremulo, n'uma paix„o ephemera de nervoso:
-
-
- Vieste! Cingi-te ao peito.
- Em redor que noite escura!
- N„o tinha rendas o leito,
- Nem tinha lavores na barra
- Que era sÛ a rocha dura...
- Muito ao longe uma guitarra
- Gemia vagos harpejos...
- (VÍ tu que n„o me esqueceu)...
- E a rocha dura aqueceu
- Ao calor dos nossos beijos!
-
-
-Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol,
-atirou para l· um gesto triste, e murmurou:
-
---Foi alli.
-
-E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chapÈo panam·, com o lenÁo
-branco na m„o. Cruges, que aquelles romantismos impressionavam, ficou a
-olhar para os penedos como para um sitio historico. Carlos sorria. E
-quando ambos deixaram esse recanto do terraÁo--o poeta, agachado junto
-do arco, estava apertando o atilho da ceroula.
-
-Endireitou-se logo, j· toda a emoÁ„o o deixara, mostrava os maus dentes
-n'um sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco:
-
---Agora, Cruges, filho, repara tu n'aquella tela sublime.
-
-O maestro embasbacou. No v„o do arco, como dentro de uma pesada moldura
-de pedra, brilhava, · luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma
-composiÁ„o quasi phantastica, como a illustraÁ„o de uma bella lenda de
-cavallaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e
-verdejando, todo salpicado de botıes amarellos; ao fundo, o renque
-cerrado de antigas arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da
-grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente d'essa
-copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia,
-destacando vigorosamente n'um relevo nitido sobre o fundo de cÈu azul
-claro, o cume airoso da serra, toda cÙr de violeta escura, coroada pelo
-castello da Pena, romantico e solitario no alto, com o seu parque
-sombrio aos pÈs, a torre esbelta perdida no ar, e as cupulas brilhando
-ao sol como se fossem feitas de ouro...
-
-Cruges achou aquelle quadro digno de Gustavo DorÈ. Alencar teve uma
-bella phrase sobre a imaginaÁ„o dos arabes. Carlos, impaciente, foi-os
-apressando para diante.
-
-Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir · Pena.
-Alencar, por si, Ìa tambem com prazer. A Pena para elle era outro ninho
-de recordaÁıes. Ninho? Devia antes dizer cemiterio... Carlos hesitava,
-parado junto da grade. Estaria ella na Pena? E olhava a estrada, olhava
-as arvores, como se podesse adivinhar pelas pegadas no pÛ, ou pelo mover
-das folhas, que direcÁ„o tinham tomado os passos que elle seguia... Por
-fim teve uma idÈa.
-
---Vamos indo primeiro · Lawrence. E depois se quizermos ir · Pena,
-arranjam-se l· os burros...
-
-E nem mesmo quiz escutar o Alencar, que tivera, tambem uma idÈa, fallava
-de Collares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; accelerou o passo
-para a Lawrence, emquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da
-ceroula, e o maestro, n'um enthusiasmo bucolico, ornava o chapÈo de
-folhas de hera.
-
-Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na bocca, n„o
-tendo podido apoderar-se dos inglezes, preguiÁavam ao sol.
-
---VocÍs sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma familia, que est· aqui no
-hotel, foi para a Pena?...
-
-Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se.
-
---Sim, senhor, foram para l· ha bocado, e aqui est· o burrinho tambem
-para v. ex.^a, meu amo!
-
-Mas o outro, mais honesto, negou. N„o senhor, a gente que fÙra para a
-Pena estava no Nunes...
-
---A familia que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palacio...
-
---Uma senhora alta?
-
---Sim senhor.
-
---Com um sujeito de barba preta?
-
---Sim senhor.
-
---E uma cadellinha?
-
---Sim senhor.
-
---Tu conheces o sr. Damaso Salcede?
-
---N„o senhor... … o que tira retratos?
-
---N„o, n„o tira retratos... Tomae l·.
-
-Deu-lhes uma placa de cinco tostıes; e voltou ao encontro dos outros,
-declarando que realmente era tarde para subirem · Pena.
-
---Agora o que tu deves vÍr, Cruges, È o palacio. Isso È que tem
-originalidade e cachet! N„o È verdade, Alencar?...
-
---Eu vos digo, filhos, comeÁou o auctor de _Elvira_, historicamente
-fallando...
-
---E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou Cruges.
-
---Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas; È necessario n„o
-perder tempo; a caminho!
-
-Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palacio, em quatro
-largas passadas estava l·. E logo da praÁa avistou, saindo j· o port„o,
-passando rente da sentinella, a famosa familia hospedada na Lawrence e a
-sua cadellinha de luxo. Era, com effeito, um sujeito de barba preta, e
-de sapatos de lona branca; e, ao lado d'elle, uma matrona enorme, com um
-mantelete de seda, cousas de ouro pelo pescoÁo e pelo peito, e o
-c„osinho felpudo ao collo. Vinham ambos rosnando o quer que fosse, com
-mau modo um para o outro, e em hespanhol.
-
-Carlos ficou a olhar para aquelle par com a melancolia de quem contempla
-os pedaÁos d'um bello marmore quebrado. N„o esperou mais pelos outros,
-nem os quiz encontrar. Correu · Lawrence por um caminho differente,
-avido de uma certeza:--e ahi, o criado que lhe appareceu, disse-lhe que
-o sr. Salcede e os srs. Castro Gomes tinham partido na vespera para
-Mafra...
-
---E de l·?...
-
-O criado ouvira dizer ao sr. Damaso que de l· voltavam a Lisboa.
-
---Bem, disse Carlos atirando o chapÈo para cima da meza, traga-me vocÍ
-um calice de cognac, e uma pouca d'agua fresca.
-
-Cintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. N„o
-teve animo de voltar ao palacio, nem quiz sahir mais d'ali; e arrancando
-as luvas passeiando em volta da meza de jantar, onde murchavam os ramos
-da vespera, sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr
-ao Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vÍl-a, saciar os seus olhos
-n'ella!... Porque, o que o irritava agora era n„o poder encontrar, na
-pequenez de Lisboa, onde toda a gente se acotovella, aquella mulher que
-elle procurava anciosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um c„o
-perdido: fizera perigrinaÁıes ridiculas de theatro em theatro: n'uma
-manh„ de domingo percorrera as missas! E n„o a tornara a vÍr. Agora
-sabia-a em Cintra, voava a Cintra, e n„o a via tambem. Ella cruzava-o
-uma tarde, bella como uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cahir
-n'alma por accaso um dos seus olhares negros, e desapparecia,
-evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao cÈo, d'ora em
-diante invisivel e sobrenatural: e elle ali ficava, com aquelle olhar no
-coraÁ„o, perturbando todo o seu ser, orientando surdamente os seus
-pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, para uma
-adoravel desconhecida, de quem elle nada sabia sen„o que era alta e
-loira, e que tinha uma cadellinha escosseza... Assim acontece com as
-estrellas d'acaso! Ellas n„o s„o d'uma essencia diferente, nem contÈem
-mais luz que as outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e
-se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento
-que deixam nos olhos È mais perturbador e mais longo... Elle n„o a
-tornara a vÍr. Outros viam-n'a. O Taveira vira-a. No Gremio, ouvira um
-alferes de lanceiros fallar d'ella, perguntar quem era, porque a
-encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os dias. Elle n„o
-a via, e n„o socegava...
-
-O criado trouxe o cognac. Ent„o Carlos, preparando vagarosamente o seu
-refresco, conversou com elle, fallou um momento dos dois rapazes
-inglezes, depois da hespanhola obesa... Emfim, dominando uma timidez,
-quasi cÛrando, fez, atravez de grandes silencios, perguntas sobre os
-Castro Gomes. E cada resposta lhe parecia uma acquisiÁ„o preciosa. A
-senhora era muito madrugadora, dizia o criado: ·s sete horas tinha
-tomado banho, estava vestida, e sahia sÛ. O sr. Castro Gomes, que dormia
-n'um quarto separado, nunca se mexia antes do meio dia; e, · noite,
-ficava uma eternidade · meza, fumando cigarettes e molhando os beiÁos em
-copinhos de cognac e agua. Elle e o sr. Damaso jogavam o dominÛ. A
-senhora tinha montıes de flÙres no quarto; e tencionavam ficar atÈ
-domingo, mas fÙra ella que apress·ra a partida...
-
---Ah, disse Carlos depois de um silencio, foi a senhora que apressou a
-partida?...
-
---Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa... V.
-ex.^a toma mais cognac?
-
-Com um gesto Carlos recusou, e veiu sentar-se no terraÁo. A tarde
-descia, calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem, cheia de
-claridade dourada, n'uma larga serenidade que penetrava a alma. Elle
-tel-a-hia pois encontrado, ali mesmo n'aquelle terraÁo, vendo tambem
-cahir a tarde--se ella n„o estivesse impaciente por tornar a vÍr a
-filha, algum bÈbÈsinho loiro que fic·ra sÛ com a ama. Assim, a brilhante
-deusa era tambem uma boa mam„; e isto dava-lhe um encanto mais profundo,
-era assim que elle gostava mais d'ella, com este terno estremecimento
-humano nas suas bellas fÛrmas de marmore. Agora, j· ella estava em
-Lisboa; e imaginava-a nas rendas do seu _peignoir_, com o cabello
-enrolado ‡ pressa, grande e branca, erguendo ao ar o bÈbÈ nos seus
-explendidos braÁos de Juno, e fallando-lhe com um riso d'ouro. Achava-a
-assim adoravel, todo o seu coraÁ„o fugia para ella... Ah! poder ter o
-direito de estar junto d'ella, n'essas horas d'intimidade, bem junto,
-sentindo o aroma da sua pelle, e sorrindo tambem a um bÈbÈ. E, pouco a
-pouco, foi-lhe surgindo na alma um romance, radiante e absurdo: um sopro
-de paix„o, mais forte que as leis humanas, enrolava violentamente,
-levava juntos o seu destino e o d'ella; depois, que divina existencia,
-escondida n'um ninho de flÙres e de sol, longe, n'algum canto da
-Italia... E, toda a sorte de idÈas d'amor, de devoÁ„o absoluta, de
-sacrificio, invadiam-n'o deliciosamente--emquanto os seus olhos se
-esqueciam, se perdiam, enlevados na religiosa solemnidade d'aquelle
-bello fim da tarde. Do lado do mar subia uma maravilhosa cÙr d'ouro
-pallido, que ia no alto diluir o azul, dava-lhe um branco indeciso e
-opalino, um tom de desmaio doce; e o arvoredo cobria-se todo de uma
-tinta loura, delicada e dormente. Todos os rumores tomavam uma suavidade
-de suspiro perdido. Nenhum contorno se movia como na immobilidade de um
-extase. E as casas, voltadas para o poente, com uma ou outra janella
-accesa em braza, os cimos redondos das arvores apinhadas, descendo a
-serra n'uma espessa debandada para o valle, tudo parecera ficar de
-repente parado n'um recolhimento melancolico e grave, olhando a partida
-do sol, que mergulhava lentamente no mar...
-
---Oh Carlos, tu est·s ahi?
-
-Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando por elle.
-Carlos appareceu · varanda do terraÁo.
-
---Que diabo est·s tu ahi a fazer, rapaz? exclamou Alencar, agitando
-alegremente o seu panam·. NÛs l· estivemos ‡ espera, no covil real...
-Fomos ao Nunes... Iamos agora procurar-te · cadeia!
-
-E o poeta riu largamente da sua pilheria--emquanto Cruges, ao lado, de
-m„os atraz das costas, e a face erguida para o terraÁo, bocejava
-desconsoladamente.
-
---Vim _refrescar_, como tu dizes, tomar um pouco de cognac, que estava
-com sÍde.
-
-Cognac? eis ahi o mimo por que o pobre Alencar estivera anciando toda a
-tarde, desde Sitiaes. E galgou logo as escadas do terraÁo--depois de ter
-gritado para dentro, para a sua velha Lawrence, que lhe mandasse acima
-_meia da fina_.
-
---Viste o PaÁo, hein, Cruges? perguntou Carlos ao maestro, quando elle
-appareceu, arrastando os passos. Ent„o, parece-me que o que nos resta a
-fazer È jantar, e abalar...
-
-Cruges concordou. Voltava do palacio com um ar murcho, fatigado
-d'aquelle vasto casar„o historico, da voz monotona do cicerone mostrando
-a cama de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha,
-´melhores que as de Mafra,ª o tira-botas de S. A.; e trazia de l· uma
-pouca d'essa melancolia que erra, como uma atmosphera propria, nas
-residencias reaes.
-
-E aquella natureza de Cintra, ao escurecer, dizia elle, comeÁava a
-entristecel-o.
-
-Ent„o concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectaculo
-torpe do Palma e das damas, mandar vir · porta o break, e partir depois
-ao nascer do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia tambem a
-Lisboa.
-
---E, para ser festa completa, exclamou elle, limpando os bigodes do
-cognac, emquanto vocÍs v„o ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o
-break, eu vou-me entender l· abaixo · cosinha com a velha Lawrence, e
-preparar-vos um _bacalhau · Alencar_, recipe meu... E vocÍs ver„o o que
-È um bacalhau! Porque, l· isso, rapazes, versos os far„o outros melhor;
-bacalhau, n„o!
-
-Atravessando a praÁa, Cruges pedia a Deus que n„o encontrassem mais o
-Eusebiosinho. Mas, apenas pozeram os pÈs nos primeiros degraus do Nunes,
-ouviram em cima o chalrar da sucia. Estavam na ante-sala, j· todos
-reconciliados, a Concha contente--e installados aos dois cantos de uma
-meza, com cartas. O Palma, munido d'uma garrafa de genebra, fazia uma
-_batotinha_ para o Eusebio; e as duas hespanholas, de cigarro na bocca,
-jogavam languidamente a bisca.
-
-O viuvo, enfiado, perdia. No monte, que comeÁ·ra miseravelmente com duas
-corÙas, j· luzia ouro; e Palma triumphava, chalaceiando, dando beijocas
-na sua moÁa. Mas, ao mesmo tempo, fazia de cavalheiro, fallava de dar a
-desforra, ficar ali, sendo necessario, atÈ de madrugada.
-
---Ent„o vv. ex.^{as} n„o se tentam? Isto È para passar o tempo... Em
-Cintra tudo serve... Valete! Perdeu vocÍ outro mico no rei. Deve a libra
-mais quinze tostıes, sÙ Silveira!
-
-Carlos pass·ra, sem responder, seguido pelo criado--no momento em que
-Euzebiosinho, furioso, j· desconfiado, quiz verificar, com as lunetas
-negras sobre o baralho, se l· estavam todos os reis.
-
-Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar. Entre amigos, que
-diabo, tudo se admittia! A sua hespanhola, essa sim, escandalisou-se,
-defendendo a honra do seu homem: ent„o Palmita havia de ter empalmado o
-rei? Mas, a Concha, zelava o dinheiro do seu viuvo, exclamava que o rei
-podia estar perdido... Os reis estavam l·.
-
-Palma atirou um calice de genebra ·s goelas, e recomeÁou a baralhar
-magestosamente.
-
---Ent„o v. ex.^a n„o se tenta? repetia elle para o maestro.
-
-Cruges, com effeito, par·ra, roÁando-se pela meza, com o olho nas cartas
-e no ouro do monte, j· sem forÁa, remexendo o dinheiro nas algibeiras.
-Subitamente um az decidiu-o. Com a m„o nervosa, escorregou-lhe uma libra
-por baixo, jogando cinco tostıes, e de porta. Perdeu logo. Quando Carlos
-voltou do quarto com o criado que descia as malas, o maestro estava em
-pleno vicio, com a libra entalada, os olhos accezos, o ar esguedelhado.
-
---Ent„o tu?...--exclamou Carlos com severidade.
-
---J· desÁo, rosnou o maestro.
-
-E, · pressa, foi · paz da libra, n'um terno contra o rei. Cartada de
-colicas! como disse o Palma: e foi com emoÁ„o que elle comeÁou a puxar
-as cartas, espremendo-as uma a uma, n'um vagar mortal. A appariÁ„o de um
-bico arrancou-lhe uma praga. Era apenas um duque, Eusebiosinho perdia
-mais uma placa. Palma teve um suspirinho de alivio; e, escondendo com
-ambas as m„os o baralho, erguendo as lunetas faiscantes para o maestro:
-
---Ent„o, sempre contin˙a toda a libra?
-
---Toda.
-
-Palma teve outro suspiro, d'anciedade; e, mais pallido, voltou
-bruscamente as cartas.
-
---Rei! gritou elle, empolgando o ouro.
-
-Era o rei de paus, a sua hespanhola bateu as palmas, o maestro abalou
-furioso.
-
-Na Lawrence o jantar prolongou-se atÈ ·s oito horas, com luzes;--e o
-Alencar fallou sempre. Tinha esquecido n'esse dia as desillusıes da
-vida, todos os rancores litterarios, estava n'uma veia excellente; e
-foram historias dos velhos tempos de Cintra, recordaÁıes da sua famosa
-ida a Paris, cousas picantes de mulheres, bocados da chronica intima da
-RegeneraÁ„o... Tudo isto com estridencias de voz, e _filhos isto!_ e
-_rapazes aquillo!_ e gestos que faziam oscillar as chammas das vellas, e
-grandes copos de Collares emborcados de um trago. Do outro lado da meza,
-os dois inglezes, correctos nos seus fraques negros, de cravos brancos
-na botoeira, pasmavam, com um ar embaraÁado a que se misturava desdem,
-para esta desordenada exhuberancia de meridional.
-
-A appariÁ„o do bacalhau foi um triumpho:--e a satisfaÁ„o do poeta t„o
-grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!
-
---Sempre queria que elle provasse este bacalhau! J· que me n„o aprecia
-os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto È um bacalhau de
-artista em toda a parte!... N'outro dia fil-o l· em casa dos meus
-Cohens; e a Rachel, coitadinha, veiu para mim e abraÁou-me... Isto,
-filhos, a poesia e a cozinha s„o irm„s! Vejam vocÍs Alexandre Dumas...
-Dir„o vocÍs que o pae Dumas n„o È um poeta... E ent„o d'Artagnan?
-D'Artagnan È um poema... … a faisca È a phantasia, È a inspiraÁ„o, È o
-sonho, È o arrobo! Ent„o, pÙÁo, j· vÍem vocÍs, que È poeta!... Pois
-vocÍs h„o-de vir um dia d'estes jantar commigo, e ha-de vir o Ega, e
-hei-de-vos arranjar umas perdizes · hespanhola, que vos h„o-de nascer
-castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! L· essas cousas de
-realismo e romantismo, historias... Um lyrio È t„o natural como um
-persevejo... Uns preferem fedÙr de sargeta; perfeitamente, destape-se o
-cano publico... Eu prefiro pÛs de marechala n'um seio branco; a mim o
-seio, e, l· vae · vossa. O que se quer, È coraÁ„o. E o Ega tem-n'o. E
-tem faisca, tem rasgo, tem estylo... Pois, assim È que elles se querem,
-e, l· vae · saude do Ega!
-
-Pousou o copo, passou a m„o pelos bigodes, e rosnou mais baixo:
-
---E, se aquelles inglezes continuam a embasbacar para mim, vae-lhes um
-copo na cara, e È aqui um vendaval, que ha-de a Gran-Bretanha ficar
-sabendo o que È um poeta portuguez!...
-
-Mas n„o houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou sem saber o que È um poeta
-portuguez, e o jantar terminou n'um cafÈ tranquillo. Eram nove horas,
-fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break.
-
-Alencar, embuÁado n'um capote, um verdadeiro capote de padre de aldÍa,
-levava na m„o um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panam· na
-maleta, trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um
-comeÁo de _spleen_, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na
-gola do paletot, com a manta da mam„ sobre os joelhos. Partiram. Cintra
-ficava dormindo ao luar.
-
-Algum tempo o break rodou em silencio, na belleza da noite. A espaÁos, a
-estrada apparecia banhada d'uma claridade quente que faiscava. Fachadas
-de casas, caladas e pallidas, surgiam, d'entre as arvores com um ar de
-melancolia romantica. Murmurios de agoas perdiam-se na sombra; e, junto
-dos muros enramados, o ar estava cheio d'aroma. Alencar accendera o
-cachimbo, e olhava a lua.
-
-Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada,
-silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou tambem para a lua, e
-murmurou d'entre os seus agasalhos:
-
---Oh Alencar, recita para ahi alguma cousa...
-
-O poeta condescendeu logo--apesar de um dos criados ir ali ao lado
-d'elles, dentro do break. Mas, que havia elle de recitar, sob o encanto
-da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua!
-Emfim, Ìa dizer-lhe uma historia bem verdadeira e bem triste... Veiu
-sentar-se ao pÈ do Cruges, dentro do seu grande capot„o, esvaziou os
-restos do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os bigodes,
-comeÁou, n'um tom familiar e simples:
-
-
- Era o jardim d'uma vivenda antiga,
- Sem arrebiques d'arte ou flÙres de luxo;
- Ruas singellas d'alfazema e buxo,
- Cravos, roseiras...
-
-
---Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da
-manta, com um berro que emmudeceu o poeta, fez voltar Carlos na
-almofada, assustou o trintanario.
-
-O break par·ra, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silencio da
-charneca, sob a paz do luar, Cruges, succumbido, exclamou:
-
---Esqueceram-me as queijadas!
-
-
-
-
-IX
-
-
-O dia famoso da soirÈe dos Cohens, ao fim d'essa semana t„o luminosa e
-t„o doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janella
-sobre o jardim, vira um cÈu baixo que pesava como se fosse feito de
-algod„o em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arripiado e humido;
-ao longe o rio estava turvo, e no ar molle errava um halito morno de
-sudoeste. Decidira n„o sahir--e desde as nove horas, sentado · banca,
-embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de velludo azul, que lhe dava o
-bello ar de um principe artista da RenascenÁa, tentava trabalhar: mas,
-apesar de duas chavenas de cafÈ, de cigarettes sem fim, o cerebro, como
-o cÈu fÛra, conservava-se-lhe n'essa manh„ afogado em nevoas. Tinha
-d'estes dias terriveis; julgava-se ent„o ´uma bestaª; e a quantidade de
-folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete
-aos pÈs, davam-lhe a sensaÁ„o de ser todo elle uma ruina.
-
-Foi realmente um allivio, uma tregoa n'aquella lucta com as idÈas
-rebeldes, quando Baptista annunciou VillaÁa, que lhe vinha fallar de uma
-venda de montados no Alemtejo, pertencentes · sua legitima.
-
---Negociosinho, disse o administrador, pousando o chapÈo a um canto da
-mesa e dentro um rolo de papeis, que lhe mette na algibeira para cima de
-dois contos de rÈis... E n„o È mau presente, logo assim pela manh„...
-
-Carlos espreguiÁou-se, crusando fortemente as m„os por tr·s da cabeÁa:
-
---Pois olhe, VillaÁa, preciso bem de dous contos de rÈis, mas preferia
-que me trouxesse ahi alguma lucidez de espirito... Estou hoje d'uma
-estupidez!
-
-VillaÁa considerou-o um momento, com malicia.
-
---Quer v. ex.^a dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que
-receber assim perto de quinhentas libras? S„o gostos, meu senhor, s„o
-gostos... Elle È bom sahir-se a gente um Herculano ou um Garrett, mas
-dous contos de rÈis, s„o dous contos de rÈis... Olhe que sempre valem um
-folhetim. Emfim, o negocio È este.
-
-Explicou-lh'o, sem se sentar, apressado, emquanto Carlos, de braÁos
-cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que VillaÁa
-trazia (um macac„o de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia
-vagamente, atravez da sua neblina mental, que se tratava de um visconde
-de Torral e de porcos... Quando VillaÁa lhe apresentou os papeis,
-assignou-os com um ar moribundo.
-
---Ent„o n„o fica para almoÁar, VillaÁa? disse elle, vendo o procurador
-metter o seu rolo de papeis debaixo do braÁo.
-
---Muito agradecido a v. ex.^a Tenho de me encontrar com o nosso amigo
-Eusebio... Vamos ao ministerio do reino, elle tem l· uma pertenÁ„o...
-Quer a commenda da ConceiÁ„o... Mas este governo est· desgostoso com
-elle.
-
---Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez d'um bocejo, o governo n„o
-est· contente com o Eusebiosinho?
-
---N„o se portou bem nas eleiÁıes. Ainda ha dias, o ministro do reino me
-dizia, em confidencia: ´O Eusebio È rapaz de merecimento, mas
-atravessado...ª V. Ex.^a n'outro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o em
-Cintra.
-
---Sim, l· estava a fazer jus · commenda da ConceiÁ„o.
-
-Quando VillaÁa saiu Carlos retomou lentamente a penna, e ficou um
-momento, com os olhos na pagina meio-escripta, coÁando a barba,
-desanimado e esteril. Mas quasi em seguida appareÁeu Affonso da Maia,
-ainda de chapÈo, · volta do seu passeio matinal no bairro, e com uma
-carta na m„o, que era para Carlos, e que elle achara no escriptorio
-misturada ao seu correio. AlÈm d'isso, esperava encontrar ali o VillaÁa.
-
---Esteve ahi, mas deitou a correr, para ir arranjar uma commenda para o
-Eusebiosinho--disse Carlos, abrindo a carta.
-
-E teve uma surpreza, vendo no papel--que cheirava a verbena como a
-condessa de Gouvarinho--um convite do conde para jantar no sabbado
-seguinte, feito em termos de sympathia t„o escolhidos que eram quasi
-poeticos; tinha mesmo uma phrase sobre a amisade, fallava dos _atomos em
-gancho_ de Descartes. Carlos desatou a rir, contou ao avÙ que era um par
-do reino que o convidava a jantar, citando Descartes...
-
---S„o capazes de tudo, murmurou o velho.
-
-E dando um olhar risonho, aos manuscriptos espalhados sobre a banca:
-
---Ent„o, aqui, trabalha-se, hein?
-
-Carlos encolheu os hombros:
-
---Se È que se pÛde chamar a isto trabalhar... Olhe ahi para o ch„o. Veja
-esses destroÁos... Em quanto se trata de tomar notas, colligir
-documentos, reunir materiaes, bem, l· vou indo. Mas quando se trata de
-pÙr as idÈas, a observaÁ„o, n'uma fÛrma de gosto e de symetria, dar-lhe
-cÙr, dar-lhe relevo, ent„o... Ent„o foi-se!
-
---PreoccupaÁ„o peninsular, filho, disse Affonso sentando-se ao pÈ da
-mesa, com o seu chapÈo desabado na m„o. DesembaraÁa-te d'ella. … o que
-eu dizia n'outro dia ao Craft, e elle concordava... O portuguez nunca
-pÛde ser homem de idÈas, por causa da paix„o da fÛrma. A sua mania È
-fazer bellas phrases vÍr-lhes o brilho, sentir-lhes a musica. Se fÙr
-necessario falsear a idÈa, deixal-a incompleta, exageral-a, para a
-phrase ganhar em belleza, o desgraÁado n„o hesita... V·-se pela agoa
-abaixo o pensamento, mas salve-se a bella phrase.
-
---Quest„o de temperamento, disse Carlos. Ha sÍres inferiores, para quem
-a sonoridade de um adjectivo È mais importante que a exactid„o de um
-systema... Eu sou d'esses monstros.
-
---Diabo! ent„o Ès um rhetorico...
-
---Quem o n„o È? E resta saber por fim se o estylo n„o È uma disciplina
-do pensamento. Em verso, o avÙ sabe, È muitas vezes a necessidade de uma
-rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o
-esforÁo para completar bem a cadencia de uma phrase, n„o poder· trazer
-desenvolvimentos novos e inesperados de uma idÈa... Viva a bella phrase!
-
---O sr. Ega annunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando comeÁava
-justamente a tocar a sineta do almoÁo.
-
---Fallae na phrase...--disse Affonso, rindo.
-
---Hein? Que phrase? O que?..--exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com
-o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletot levantada. Oh! por
-aqui a esta hora sr. Affonso da Maia! Como est· v. ex.^a? Dize-me c·,
-Carlos, tu È que me podes tirar d'uma atrapalhaÁ„o... Tu ter·s por acaso
-uma espada que me sirva?
-
-E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, j· impaciente:
-
---Sim, homem, uma espada! N„o È para me batter, estou em paz com toda a
-humanidade... … para esta noute, para o fato de mascara.
-
-O Mattos, aquelle animal, sÛ na vespera lhe dera o costume para o baile:
-e, qual È o seu horror, ao vÍr que lhe arranjara, em logar de uma espada
-artistica, um sabre da guarda municipal! Tivera vontade de lh'o passar
-atravez das entranhas. Correu ao tio Abrah„o, que sÛ tinha espadins de
-cÙrte, reles e pelintras como a propria cÙrte! Lembrara-se do Craft e da
-sua collecÁ„o; vinha de l·; mas ahi eram uns espadıes de ferro, catanas
-pesando arrobas, as durindanas tremendas dos brutos que conquistaram a
-India... Nada que lhe servisse. FÙra ent„o que lhe tinham vindo · idÈa
-as panoplias antigas do Ramalhete.
-
---Tu È que deves ter... Eu preciso uma espada longa e fina, com os copos
-em concha, d'aÁo rendilhado, forrados de velludo escarlate. E sem cruz,
-sobretudo sem cruz!
-
-Affonso, tomando logo um interesse paternal por aquella difficuldade do
-John, lembrou que havia no corredor, em cima, umas espadas
-hespanholas...
-
---Em cima, no corredor? exclamou Ega, j· com a m„o no reposteiro.
-
-Inutil precipitar-se, o bom John n„o as poderia encontrar. N„o estavam ·
-vista, arranjadas em panoplia, conservavam-se ainda nos caixıes em que
-tinham vindo de Bemfica.
-
---Eu l· vou, homem fatal, eu l· vou, disse Carlos, erguendo-se com
-resignaÁ„o. Mas olha que ellas n„o tÍem bainhas.
-
-Ega ficou succumbido. E foi ainda Affonso que achou uma idÈa, o salvou.
-
---Manda fazer uma simples bainha de velludo negro; isso faz-se n'uma
-hora. E manda-lhe cozer ao comprido rodellas de velludo escarlate...
-
---Explendido, gritou Ega: o que È ter gosto!
-
-E apenas Carlos sahiu, trovejou contra o Mattos.
-
---Veja v. ex.^a isto, um sabre da guarda municipal! E È quem faz ahi os
-fatos para todos os theatros! Que idiota!.. E È tudo assim, isto È um
-paiz insensato!...
-
---Meu bom Ega, tu n„o queres tornar de certo Portugal inteiro, o Estado,
-sete milhıes d'almas, responsaveis por esse comportamento do Mattos?
-
---Sim senhor, exclamava o Ega passeiando pelo gabinete, com as m„os
-enterradas nos bolsos do paletot; sim senhor, tudo isso se prende. O
-_costumier_ com um fato do seculo XIV manda um sabre da guarda
-municipal; por seu lado o ministro, a proposito de impostos, cita as
-_MeditaÁıes_ de Lamartine; e o litterato, essa besta suprema...
-
-Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na m„o, uma folha do
-seculo XVI, de grande tempera, fina e vibrante, com copos trabalhado
-como uma renda--e tendo gravado no aÁo o nome illustre do espadeiro,
-Francisco Ruy de Toledo.
-
-Embrulhou-a logo n'um jornal, recusou · pressa o almoÁo, que lhe
-offereciam, deu dous vivos _shake-hands_, atirou o chapÈu para a nuca,
-ia abalar, quando a voz de Affonso o deteve:
-
---Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso È uma espada c· da
-casa, que nunca brilhou sem gloria, creio eu... VÍ como te serves
-d'ella!
-
-Ao pÈ do resposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contra o peito
-do paletot o ferro, enrolado, no _Jornal do Commercio_:
-
---N„o a sacarei sem justiÁa, nem a embainharei sem honra. _Au revoir!_
-
---Que vida, que mocidade! murmurou Affonso. Muito feliz È este John!...
-Pois vae-te arranjando filho, que j· tocou a primeira vez para o almoÁo.
-
-Carlos ainda se demorou um instante a reler, com um sorriso, a
-apparatosa carta do Gouvarinho; e ia emfim chamar o Baptista para se
-vestir, quando em baixo, · entrada particular, o timbre electrico
-comeÁou a vibrar violentamente. Um passo ancioso ressoou na ante-camara,
-o Damaso appareceu esbaforido, d'olho esgazeado, com a face em braza. E,
-sem dar tempo a que Carlos exprimisse a surpreza de o ver emfim no
-Ramalhete, exclamou, lanÁando os braÁos ao ar:
-
---Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas d'ahi, que me
-venhas ver um doente... Eu te explicarei... … aquella gente brazileira.
-Mas pelo amor de Deus, vem depressa, menino!
-
-Carlos erguera-se, pallido:
-
---… ella?
-
---N„o, È a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos,
-veste-te, que a responsabilidade È minha!
-
---… um bÈbÈ, n„o È?
-
---Qual bÈbÈ!... … uma pequena crescida, de seis annos... Anda d'ahi!
-
-Carlos, j· em mangas de camisa, estendia o pÈ ao Baptista, que, com um
-joelho em terra, apressado tambem, quasi fez saltar os botıes da bota. E
-Damaso, de chapÈu na cabeÁa, agitava-se, exagerando a sua impaciencia, a
-estalar de importancia.
-
---Sempre a gente se vÍ em coisas!.. Olha que responsabilidade a minha!
-Vou visital-os, como costumo ·s vezes, de manh„... E vae, tinham partido
-para Queluz.
-
-Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meia vestida:
-
---Mas ent„o?..
-
---Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a
-governanta... Depois do almoÁo deu-lhe uma dÙr. A governante queria um
-medico inglez, porque n„o falla sen„o inglez... Do hotel foram procurar
-o Smith, que n„o appareceu... E a pequena a morrer!... Felizmente,
-cheguei eu, e lembrei-me logo de ti... Foi sorte encontrar-te, caramba!
-
-E acrescentou, dando um olhar ao jardim:
-
---Tambem, irem a Queluz com um dia d'estes! H„o-de-se divertir... Est·s
-prompto, hein? Eu tenho l· em baixo o coupÈ... Deixa as luvas, vaes
-muito bem sem luvas!
-
---O avÙ que n„o me espere para almoÁar, gritou Carlos ao Baptista, j· do
-fundo da escada.
-
-Dentro do coupÈ, um ramo enorme enchia quasi o assento.
-
---Era para ella, disse o Damaso, pondo-o sobre os joelhos. Pela-se por
-flores.
-
-Apenas o coupÈ partiu, Carlos cerrando a vidraÁa, fez a pergunta que
-desde a appariÁ„o do Damaso lhe faiscava nos labios.
-
---Mas ent„o tu, que querias quebrar a cara a esse Castro Gomes?..
-
-O Damaso contou logo tudo, triumphante. FÙra tudo um equivoco! Ah, as
-explicaÁıes do Castro Gomes tinham sido d'um gentleman. Sen„o
-quebrava-lhe a cara. Isso n„o, desconsideraÁıes, a ninguem! a ninguem!
-Mas fÙra assim: os bilhetes de visita que elle lhe deixara conservavam o
-seu adresse do _Grand Hotel_ em Paris. E o Castro Gomes, suppondo que
-elle vivia l·, obdecendo · indicaÁ„o, mandara para l· os seus cartıes!
-Curioso, hein? E de estupÌdo... E a falta de resposta aos telegrammas
-fÙra culpa de Madame, descuido, n'aquelle momento de afflicÁ„o, vendo o
-marido com o braÁo escavacado... Ah, tinham-lhe dado satisfaÁıes
-humildes. E agora eram intimos, estava l· quasi sempre...
-
---Emfim, menino, um romance... Mas isso È para mais tarde!
-
-O coupÈ parara · porta do Hotel Central. Damaso saltou, correu ao guarda
-port„o.
-
---Mandou o telegramma, Antonio?
-
---J· l· vae...
-
---Tu comprehendes, dizia elle a Carlos, galgando as escadas, mandei-lhes
-logo um telegramma para o hotel em Queluz. N„o estou para ter mais
-responsabilidades!...
-
-No corredor, defronte do escriptorio, um criado passava, com um
-guardanapo debaixo do braÁo:
-
---Como est· a menina? gritou-lhe o Damaso.
-
-O criado encolheu os hombros, sem comprehender.
-
-Mas Damaso j· trepava o outro lanÁo de escada, soprando, gritando:
-
---Por aqui Carlos, eu conheÁo isto a palmos! Numero 26!
-
-Abriu com estrondo a porta do numero 26. Uma criada, que estava ·
-janella, voltou-se.
-
-Ah _bonjour_, Melanie! exclamava Damaso, no seu extraordinario francez.
-A creanÁa estava melhor? _l'enfant etait meilleur?_ Ali lhe trazia o
-doutor, _monsieur le docteur Maia_.
-
-Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que Mademoiselle estava
-mais socegada, e ella ia avisar miss Sarah, a governanta. Passou o
-espanador pelo marmore d'uma console, ageitou os livros sobre a meza, e
-sahiu, dardejando a Carlos um olhar vivo como uma faisca.
-
-A sala era espaÁosa, com uma mobilia de rÈps azul, e um grande espelho
-sobre a console dourada, entre as duas janellas: a meza estava coberta
-de jornaes, de caixas de charutos, e de romances de Cappendu; sobre uma
-cadeira, ao lado, fic·ra enrolado um bordado.
-
---Esta Melanie, esta desleixada, murmurava o Damaso, fechando a janella
-com um esforÁo sobre o feixo perro. Deixar assim tudo aberto! Jesus, que
-gente!
-
---Este cavalheiro È bonapartista, disse Carlos vendo sobre a meza os
-numeros do _Pays_.
-
---Isso, temos questıes terriveis! exclamou o Damaso. E eu enterro-o
-sempre... … bom rapaz, mas tem pouco fundo.
-
-Melanie voltou pedindo a _Monsieur le Docteur_ para entrar um instante
-no gabinete de toilette. E ahi, depois de apanhar uma toalha cahida, de
-dardejar a Carlos outro olharsinho petulante, disse que Miss Sarah vinha
-immediatamente, e retirou-se na ponta dos sapatos. FÛra, na sala,
-ergueu-se logo a voz do Damaso, fallando a Melanie de _sa
-responsabilitÈ, et que il etait trËs affligÈ_.
-
-Carlos ficou sÛ, na intimidade d'aquelle gabinete de toilette, que
-n'essa manh„ ainda n„o fÙra arrumado. Duas malas, pertencentes de certo
-a Madame, enormes, magnificas, com fecharias e cantos de aÁo polido,
-estavam abertas: d'uma trasbordava uma cauda rica, de seda forte cÙr de
-vinho: e na outra era um delicado alvejar de roupa branca, todo um luxo
-secreto e raro de rendas e _baptistes_, d'um brilho de neve, macio pelo
-uso e cheirando bem. Sobre uma cadeira alastrava-se um monte de meias de
-seda, de todos os tons, unidas, bordadas, abertas em renda e t„o leves,
-que uma aragem as faria voar; e, no ch„o corria uma fila de sapatinhos
-de verniz, todos do mesmo estylo, longos, com o tac„o baixo e grandes
-fitas de laÁar. A um canto estava um cesto acolchoado de seda cÙr de
-rosa, onde de certo viajara a cadellinha.
-
-Mas o olhar de Carlos prendia-se sobre tudo a um soph· onde ficar·
-estendido, com as duas mangas abertas, · maneira de dous braÁos que se
-offerecem, o casaco branco de velludo lavrado de Genova com que elle a
-vira, a primeira vez, apear-se · porta do hotel. O forro, de setim
-branco, n„o tinha o menor acolxoado, t„o perfeito devia ser o corpo que
-vestia: e assim, deitado sobre o soph·, n'essa attitude viva, n'um
-desabotoado de semi-nudez, adiantando em vago relevo o cheio de dois
-seios, com os braÁos alargando-se, dando-se todos, aquelle estofo
-parecia exhalar um calor humano, e punha ali a fÛrma d'um corpo amoroso,
-desfallecendo n'um silencio d'alcova. Carlos sentiu bater o coraÁ„o. Um
-perfume indefinido e forte de jasmim, de marechala, de tanglewood,
-elevava-se de todas aquellas cousas intimas, passava-lhe pela face com
-um bafo suave de caricia...
-
-Ent„o desviou os olhos, approximou-se da janella, que tinha por
-perspectiva a fachada enxovalhada do hotel _Shneid_. Quando se voltou,
-miss Sarah estava diante d'elle, vestida de preto e muito cÛrada: era
-uma pessoa sympathica, redondinha e pequena, com um ar de rola farta, os
-olhos sentimentaes, e uma testa de virgem sob bandÛs lisos e louros.
-Balbuciava umas palavras em francez, em que Carlos sÛ percebeu
-_docteur_.
-
---_Yes, I am the doctor_, disse elle.
-
-A face da boa ingleza illuminou-se. Oh! era t„o bom, ter emfim com quem
-se entender! A menina estava muito melhor! Oh, o doutor vinha livral-a
-d'uma responsabilidade!...
-
-Abriu o reposteiro, fÍl-o penetrar n'um quarto com as janellas todas
-cerradas, onde elle apenas distinguiu a fÛrma d'um grande leito e o
-brilho de cristaes n'um toucador. Perguntou para que eram aquellas
-trevas?
-
-Miss Sarah pensara que a escurid„o faria bem ‡ menina, e a adormeceria.
-E trouxera-a ali para o quarto da mam„, por ser mais largo e mais
-arejado.
-
-Carlos fez abrir as janellas: e, quando a grande luz entrou, ao avistar
-a pequena no leito, sob os cortinados abertos, n„o conteve a sua
-admiraÁ„o.
-
---Que linda creanÁa!
-
-E ficou um instante a contemplal-a, n'um enlevo d'artista, pensando que
-os brancos mais mimosos, mais ricos, sob a mais sabia combinaÁ„o de luz,
-n„o egualariam a pallidez eburnea d'aquella pelle maravilhosa: e esta
-adoravel brancura era ainda realÁada por um cabello negro, tenebroso,
-forte, que reluzia sob a rede. Os seus por dois olhos grandes, d'um azul
-profundo e liquido, pareciam n'esse instante maiores, muito serios, e
-muito abertos para elle.
-
-Estava encostada a um grande travesseiro, toda quieta, com o susto ainda
-da dÙr, perdida n'aquelle vasto leito, e apertando nos braÁos uma enorme
-boneca paramentada, de pello riÁado, d'olhos tambem azues e arregalados
-tambem.
-
-Carlos tomou-lhe a m„osinha e beijou-lh'a,--perguntando se a boneca
-tambem estava doente.
-
---Cri-cri tambem teve dÙr, respondeu ella muito sÈria, sem tirar d'elle
-os seus magnificos olhos. Eu j· n„o tenho...
-
-Estava com effeito fresca como uma flor, com a lingoasinha muito rosada,
-e a sua vontade j· de lunchar.
-
-Carlos tranquillisou miss Sarah. Oh, ella via bem que mademoiselle
-estava boa. O que a assustara fÙra achar-se ali sÛ, sem a mam„, com
-aquella responsabilidade. Por isso a tinha deitado... Oh se fosse uma
-creanÁa ingleza saÌa com ella para o ar... Mas estas meninas
-estrangeiras, t„o debeis, t„o delicadas... E o labiosinho gordo da
-ingleza trahia um desdem compassivo por estas raÁas inferiores e
-deterioradas.
-
---Mas a mam„ n„o È doente?
-
-Oh, n„o! Madame era muito forte. O senhor, esse sim, parecia mais
-fraco...
-
---E, como se chama a minha querida amiga? perguntou Carlos, sentado ‡
-cabeceira do leito.
-
---Esta È Cri-cri, disse a pequena, apresentando outra vez a boneca. Eu
-chamo-me Rosa, mas o pap· diz que eu que sou Rosicler.
-
---Rosicler? realmente? disse Carlos sorrindo d'aquelle nome de livro de
-cavallaria, rescendente a torneios, e a bosques de fadas.
-
-Ent„o, como colhendo simplesmente informaÁıes de medico, perguntou a
-miss Sarah se a menina sentira a mudanÁa de clima. Habitavam
-ordinariamente Paris, n„o È verdade?
-
-Sim, viviam em Paris no inverno, no parque Monceaux; de ver„o iam para
-uma quinta da Touraine ao pÈ mesmo de Tours, onde ficavam atÈ ao comeÁo
-da caÁa; e iam sempre passar um mez a Dieppe. Pelo menos fora assim, nos
-ultimos tres annos, desde que ella estava com Madame.
-
-Emquanto a ingleza fallava, Rosa, com a sua boneca nos braÁos, n„o
-cessava de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Elle, de vez em
-quando sorria-lhe, ou acariciava-lhe a m„osinha. Os olhos da m„e eram
-negros: os do pae d'azeviche e pequeninos: de quem herdara ella aquellas
-maravilhosas pupillas d'um azul t„o rico, liquido e doce.
-
-Mas a sua visita de medico findara, ergueu-se para receitar um calmante.
-Emquanto a ingleza preparava muito cuidadosamente o papel, e
-experimentava a pena, elle examinou um momento o quarto. N'aquella
-installaÁ„o banal d'hotel, certos retoques d'uma elegancia delicada
-revelavam a mulher de gosto e de luxo: sobre a commoda e sobre a meza
-havia grandes ramos de flores: os travesseiros e os lenÁoes n„o eram do
-hotel, mas proprios, de bretanha fina, com rendas e largos monogrammas
-bordados a duas cÙres. Na poltrona que ella usava uma cachemira de
-Tarnah disfarÁava o medonho reps desbotado.
-
-Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a meza alguns
-livros de encadernaÁıes ricas, romances e poetas inglezes: mas destoava
-ali, estranhamente, uma brochura singular--o _Manual de interpretaÁ„o
-dos sonhos_. E ao lado, em cima do toucador, entre os marfins das
-escovas, os cristaes dos frascos, as tartarugas finas, havia outro
-objecto estravagante, uma enorme caixa de pÛ de arroz, toda de prata
-dourada, com uma magnifica safira engastada na tampa dentro d'um circulo
-de brilhantes miudos, uma joia exagerada de cocotte, pondo ali uma
-dissonancia audaz de explendor brutal.
-
-Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler: ella
-estendeu-lhe logo a boquinha fresca como um bot„o de rosa; elle n„o
-ousou beijal-a assim n'aquelle grande leito da m„e, e tocou-lhe apenas
-na testa.
-
---Quando vens tu outra vez? perguntou ella agarrando-o pela manga do
-casaco.
-
---N„o È necessario vir outra vez, minha querida. Tu est·s boa, e Cri-cri
-tambem.
-
---Mas eu quero o meu lunch... Dize a Sarah que eu posso tomar o meu
-lunch... E Cri-cri tambem.
-
---Sim j· podeis ambas petiscar alguma cousa... Fez as suas
-recommendaÁıes · mestra, e depois, apertando a m„osinha da pequena:
-
---E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que Ès Rosicler...
-
-E n„o quiz ser menos amavel com a boneca, deu-lhe tambem um
-_shake-hands_.
-
-Isto pareceu captivar Rosa ainda mais. A ingleza, ao lado, sorria, com
-duas covinhas na face.
-
-N„o era necessario, lembrou Carlos, conservar a creanÁa na cama, nem
-tortural-a com cautellas exageradas...
-
---Oh, nÚ, sir!
-
-E se a dÙr reapparecesse, ainda que ligeira, mandal-o logo chamar...
-
---Oh yes, sir!
-
-E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse.
-
---Oh thank you, sir!
-
-Ao voltar · sala, o Damaso saltou do soph·, onde percorria um jornal,
-como uma fÈra a quem se abre a jaula.
-
---Credo, imaginei que ias l· ficar toda a vida! Que estivestes tu a
-fazer? Irra, que estopada!
-
-Carlos, calÁando as luvas, sorria, sem responder.
-
---Ent„o, È cousa de cuidado?
-
---N„o tem nada. Tem uns lindos olhos... E um nome extraordinario.
-
---Ah, Rosicler, murmurou Damaso, agarrando o chapÈo com mau modo; muito
-ridiculo, n„o È verdade?
-
-A creada franceza appareceu outra vez a abrir a porta da
-sala,--dardejando para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Damaso
-recommendou-lhe muito que dissesse aos senhores, que elle tinha vindo
-logo com o medico; e que havia de voltar · noite para lhes fazer uma
-surpreza, e para saber se tinham gostado de Queluz--_si ils avaient aimË
-Queluz_.
-
-Depois, ao passar diante do escriptorio, metteu a cabeÁa, para dizer ao
-guarda-livros, que a menina estava boa, tudo ficava em socego.
-
-O guarda livros sorrio, e cortejou.
-
---Queres que te v· levar a casa? perguntou elle a Carlos, em baixo,
-abrindo a porta do coupÈ, ainda com um resto de mau humor.
-
-Carlos preferia ir a pÈ.
-
---E acompanha-me tu um bocado, Damaso, tu agora n„o tens que fazer.
-
-Damaso hesitou, olhando o cÈu aspero, as nuvens pesadas de chuva. Mas
-Carlos tomara-lhe o braÁo, arrastava-o, amavel e gracejando.
-
---Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero o _romance_... Tu
-disseste que tinhas um _romance_. N„o te largo. …s meu. Venha o
-_romance_. Eu sei que os tens sempre bons. Quero o _romance_!
-
-Pouco a pouco Damaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe de
-satisfaÁ„o.
-
---Vae-se fazendo pela vida, disse elle a estoirar de jactancia.
-
---VocÍs estiveram em Cintra?...
-
---Estivemos, mas isso n„o foi divertido... O romance È outro!
-
-Desprendeu-se do braÁo de Carlos, fez um signal ao cocheiro para que os
-seguisse, e regalou-se pelo Aterro fÛra de contar o seu _romance_.
-
---A coisa È esta... O marido d'aqui a dias vai para o Brazil, tem l·
-negocios. E ella fica! Fica com as criadas e com a pequena, · espera,
-dois ou tres mezes. Diz que j· andaram atÈ a vÍr casas mobiladas, que
-ella n„o quer estar no hotel... E eu, intimo, a unica pessoa que ella
-conhece, mettido de dentro... Hein, percebes agora?
-
---Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe o charuto, com um
-gesto nervoso. E de certo, a pobre creatura j· est· fascinada! J· lhe
-dÈste, como costumas, um beijo ardente entre duas portas! J· a
-desgraÁada se surtiu da caixa de phosphoros, para mais tarde quando a
-abandonares!
-
-Damaso enfiava.
-
---N„o venhas j· tu com o espirito e com a chufasinha... N„o lhe dei
-beijos que ainda n„o houve occasi„o... Mas, o que te posso dizer, È que
-tenho mulher!
-
---Pois j· era tempo, exclamou Carlos, sem conter um gesto brusco, e
-atirando-lhe as palavras como chicotadas. J· era tempo! Andavas ahi
-mettido com umas creaturas ignobeis, uma ralÈ de lupanar. Emfim, agora
-ha progresso. E eu gosto que os meus amigos vivam n'uma ordem de
-sentimentos decentes... Mas vÍ l·... N„o sejas o costumado Damaso! N„o
-te v·s pÙr a alardear isso pelo Gremio e pela casa Havaneza!
-
-D'esta vez Damaso estacou, suffocado, sem comprehender aquelle modo,
-semelhante azedume. E terminou por balbuciar, livido:
-
---Tu podes entender muito de medicina e de bric-a-brac, mas l· a
-respeito de mulheres, e da maneira de fazer as cousas, n„o me d·s
-licÁıes...
-
-Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E de repente,
-sentio-o t„o innofensivo, t„o insignificante, com o seu ar bochechudo, e
-molle, que se envergonhou do surdo despeito que o atravessara, tomou-lhe
-o braÁo, teve duas palavras amaveis.
-
---Damaso, tu n„o me comprehendeste. Eu n„o te quiz fazer zangar... …
-para teu bem... O que eu receava È que tu, imprudente, arrebatado,
-apaixonado, fosses perder essa bella aventura por uma indiscriÁ„o...
-
-E o outro ficou logo contente, sorrindo j·, abandonando-se ao braÁo do
-seu amigo, certo que o desejo do Maia era que elle tivesse uma amante
-_chic_. N„o, elle n„o se tinha zangado, nunca se zangava com os
-intimos... Comprehendia bem que o que Carlos dizia era por amisade...
-
---Mas tu, ·s vezes, tens essa cousa que te pegou o Ega, gostas do teu
-bocadinho de espirito...
-
-E ent„o tranquillisou-o. N„o, por imprudencia n„o havia elle de ´perder
-a cousaª. Aquillo ia com todas as regras. L· n'isso sobrava-lhe
-experiencia. A Melanie j· a tinha na m„o; j· lhe dera duas libras.
-
---Isto de mais a mais È uma cousa muito seria... Ella conhece meu tio, È
-intima d'elle desde pequena, tratam-se atÈ por _tu_...
-
---Que tio?
-
---Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimar„es. Mr. de Guimaran, o que
-vive em Paris, o amigo de Gambetta...
-
---Ah sim, o communista...
-
---Qual communista, atÈ tem carruagem!
-
-Subitamente lembrou-lhe outra cousa, um ponto de toilette em que queria
-consultar Carlos.
-
---¡manh„ vou jantar com elles, e v„o tambem dois brazileiros, amigos
-d'elle, que chegaram ahi ha dias, e que partem pelo mesmo paquete... Um
-È _chic_, È da LegaÁ„o do Brazil em Londres. De maneira que È jantar de
-ceremonia. O Castro Gomes n„o me disse nada; mas que te parece, achas
-que v· de casaca?...
-
---Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapella.
-
-O Damaso olhou-o, pensativo.
-
---A mim tinha-me lembrado o habito de Christo.
-
---O habito de Christo... Sim, pıe o habito de Christo ao pescoÁo, e pıe
-a rosa na botoeira.
-
---Ser· talvez de mais, Carlos!
-
---N„o, fica bem ao teu typo.
-
-Damaso fizera parar o coupÈ que os tinha seguido a passo. E no ultimo
-aperto de m„o a Carlos:
-
---Tu sempre vaes · noite, aos Cohens, de dominÛ? O meu fato de selvagem
-ficou divino. Eu venho mostral-o · noite · brazileira... Entro no Hotel
-embrulhado n'um capote, e appareÁo-lhes de repente na sala, de selvagem,
-de Nelusko, a cantar:
-
-
- Alerta, marinari,
- Il vento cangia...
-
-
-_Chic_ a valer!... _Good bye!_
-
-
-¡s dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. FÛra, a noite
-fizera-se tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas d'agoa, que a cada
-instante batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinete de toilette,
-errava no ar tepido um vago aroma de sabonete e de bom charuto. Sobre
-duas commodas de pau preto, marchetadas a marfim, duas serpentinas de
-velho bronze erguiam os seus molhos de vellas accezas, pondo largos
-reflexos doces sobre a seda castanha das paredes. Ao lado do alto
-espelho-psychÈ alastrava-se, em cima d'uma poltrona, o dominÛ de j·
-setim negro com um grande laÁo azul-claro.
-
-Baptista, com a casaca na m„o, esperava que Carlos acabasse a chavena de
-ch· preto que elle estava bebendo aos golos, de pÈ, em mangas de camisa,
-e de gravata branca.
-
-De repente, o timbre electrico da porta particular reteniu, apressado e
-violento.
-
---Talvez outra surpreza, murmurou Carlos, hoje È o dia das surprezas...
-
-Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir--quando em baixo vibrou
-outro repique brutal, d'uma impaciencia phrenetica.
-
-Ent„o Carlos, curioso, sahiu · ante-camara: e ahi, · meia luz das
-lampadas Carcel, ainda quebrantada pelo tom dos velludos cÙr de cereja,
-viu, ao abrir-se a porta por onde entrou um sopro aspero da noite,
-apparecer vivamente uma fÛrma esguia e vermelha, com um confuso tinir de
-ferro. Depois, pela escada acima, duas pennas negras de gallo ondearam,
-um manto escarlate esvoaÁou--e o Ega estava diante d'elle,
-caracterisado, vestido de Mephistopheles!
-
-Carlos apenas poude dizer _bravo_--o aspecto do Ega emmudeceu-o. Apezar
-dos toques de caracterisaÁ„o que quasi o mascaravam, sobrancelhas de
-diabo, guias de bigode ferozmente exageradas--sentia-se bem a afflicÁ„o
-em que vinha, com os olhos injectados, perdido, n'uma terrivel pallidez.
-Fez um gesto a Carlos, arremessou-se pelo gabinete dentro. Baptista,
-logo, discretamente, retirou-se cerrando o reposteiro.
-
-Estavam sÛs. Ent„o Ega, apertando desesperadamente as m„os, n'uma voz
-rouca e d'agonia:
-
---Tu sabes o que me succedeu, Carlos?
-
-Mas n„o poude dizer mais, suffocado, tremendo todo; e diante d'elle,
-devorando-o com os olhos, Carlos tremia tambem, enfiado.
-
---Cheguei a casa dos Cohens, continuou Ega por fim com esforÁo e quasi
-balbuciando, mais cedo, como tinhamos combinado. Ao entrar na sala, j·
-estavam duas ou tres pessoas... Elle vem direito a mim, e diz-me: ´VocÍ,
-seu infame, ponha-se j· no meio da rua... J· no meio da rua sen„o,
-diante d'esta gente, corro-o a pontapÈs!ª E eu, Carlos...
-
-Mas a colera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve um momento mordendo os
-beiÁos, recalcando os soluÁos, com os olhos reluzentes de lagrimas.
-
-Quando as palavras voltaram, foi uma explos„o selvagem:
-
---Quero-me batter em duello com aquelle malvado, a cinco passos,
-metter-lhe uma bala no coraÁ„o!
-
-Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da garganta; e, batendo
-furiosamente o pÈ, esmurrando o ar, berrava, sem cessar, como cevando-se
-na estridencia da propria voz.
-
---Quero matal-o! Quero matal-o! Quero matal-o!
-
-Depois, allucinado, sem ver Carlos, rompeu a passear desabridamente pelo
-quarto, ·s patadas, com o manto deitado para traz, a espada mal
-afivelada batendo-lhe as canellas escarlates.
-
---Ent„o descobriu tudo, murmurou Carlos.
-
---Est· claro que descobriu tudo! exclamou o Ega, no seu passear
-arrebatado, atirando os braÁos ao ar. Como descobriu, n„o sei. Sei isto,
-j· n„o È pouco. Poz-me fÛra!... Hei-de-lhe metter uma bala no corpo!
-Pela alma de meu pae, hei-de-lhe varar o coraÁ„o!... Quero que v·s l·
-logo pela manh„ com o Craft... E as condiÁıes s„o estas: · pistolla, a
-quinze passos!
-
-Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chavena de ch·. Depois
-disse muito simplesmente:
-
---Meu querido Ega, tu n„o podes mandar desafiar o Cohen.
-
-O outro estacou de repell„o, atirando pelos olhos dois relampagos
-d'ira--a que as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas pennas de gallo
-ondeando na gorra, davam uma ferocidade theatral e comica.
-
---N„o o posso mandar desafiar?
-
---N„o.
-
---Ent„o pıe-me fÛra de casa...
-
---Estava no seu direito.
-
---No seu direito!... Diante de toda a gente?...
-
---E tu, n„o eras amante da mulher diante de toda a gente?...
-
-O Ega ficou a olhar um momento para Carlos, como atordoado. Depois fez
-um grande gesto:
-
---N„o se trata da mulher!... n„o se fallou da mulher!... … uma quest„o
-d'honra para mim, quero mandal-o desafiar, quero matal-o...
-
-Carlos encolheu os hombros.
-
---Tu n„o est·s em ti. Tens sÛ uma coisa a fazer; È ficar ·manh„ em casa,
-a vÍr se elle te manda desafiar a ti...
-
---O que, o Cohen! exclamou Ega. … um covarde, È um canalha!... Ou o
-mato, ou lhe rasgo a cara com um chicote. Desafiar-me! Olha quem... Tu
-est·s doido...
-
-E recomeÁou o seu passear desabalado do espelho para a janella,
-soprando, rilhando os dentes, com repellıes para traz ao manto que
-faziam oscillar, nas serpentinas, as chammas altas das vellas.
-
-Carlos n„o dizia nada, de pÈ junto da meza, enchendo lentamente de novo
-a sua chavena. Tudo aquillo comeÁava a parecer-lhe pouco serio, pouco
-digno, as ameaÁas de pontapÈs do marido, os furores melodramaticos do
-Ega:--e mesmo n„o podia deixar de sorrir diante d'aquelle Mephistopheles
-esgouroviado, espalhando pelo quarto o brilho escarlate do seu manto de
-velludo, e a fallar furiosamente d'honra e de morte, com sobrancelhas
-postiÁas, e escarcella de coiro · cinta.
-
---Vamos fallar ao Craft! exclamou de repente Ega, parando, com esta
-brusca resoluÁ„o. Quero vÍr o que diz o Craft. Tenho l· em baixo uma
-tipoia; estamos l· n'um instante!
-
---Ir agora · quinta, aos Olivaes? disse Carlos, olhando o relogio.
-
---Se Ès meu amigo, Carlos!...
-
-Carlos immediatamente, sem chamar o Baptista, acabou de se vestir.
-
-Ega, no entanto, ia preparando uma chavena de ch·, deitando-lhe rhum,
-ainda t„o nervoso, que mal podia segurar a garrafa. Depois, com um
-grande suspiro, accendeu uma cigarrete. Carlos entr·ra na alcova de
-banho, ao lado, allumiada por um forte jacto de gaz que assobiava. FÛra,
-a chuva continuava seguida e monotona, as goteiras escoavam-se no ch„o
-molle do jardim.
-
---Achas que a tipoia aguentar·? perguntou Carlos de dentro.
-
---Aguenta, È o _CanhÙto_, disse Ega.
-
-Agora reparara no dominÛ, fÙra erguel-o, examinava-lhe o setim rico, o
-bello laÁo azul claro. Depois, tendo encontrado diante de si o grande
-espelho-psychÈ, entalou o monoculo no olho, recuou um passo,
-contemplou-se d'alto a baixo;--e terminou por pousar uma das m„os na
-cinta, appoiar a outra, galhardamente, sobre os copos da espada.
-
---Eu n„o estava mal, oh Carlos, hein?
-
---Estavas explendido, respondeu o outro de dentro da alcova. Foi pena
-estragar-se tudo... Como estava ella?
-
---Devia estar de Margarida.
-
---E elle?
-
---A besta? De beduino.
-
-E continuou ao espelho, gosando a sua figura esguia, as pennas da gorra,
-os sapatos bicudos de velludo, e a ponta flamante da espada erguendo o
-manto por traz, n'uma prega fidalga.
-
---Mas ent„o, disse Carlos, apparecendo a enxugar as m„os, tu n„o fazes
-idÈa do que se passou, o que elle diria · mulher, o escandalo...
-
---N„o faÁo idÈa nenhuma, disse o Ega, agora mais sereno. Quando entrei
-na primeira sala estava elle, de beduino; estava um outro sujeito
-d'urso, e uma senhora n„o sei de que, de Tyrollesa creio eu... Elle veiu
-para mim, e disse-me aquillo: ponha-se fÛra! N„o sei mais nada... Nem
-posso perceber... O canalha, se descobriu, naturalmente, para n„o
-estragar a festa, n„o disse nada a Rachel... Depois È que ellas s„o!
-
-Ergueu as m„os para o ceu, murmurou:
-
---… horroroso!
-
-Deu ainda uma volta pelo quarto, e depois n'uma outra voz, franzindo a
-face:
-
---N„o sei que diabo aquelle Godefroy me deu para collar as sobrancelhas,
-que me picam que tem diabo!
-
---Tira-as...
-
-Deante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu semblante feroz de
-Santanaz. Mas arrancou-as por fim--e a gorra emplumada, muito justa, que
-lhe escaldava a cabeÁa. Ent„o Carlos lembrou-lhe que, para ir a casa do
-Craft, se desembaraÁasse do manto e da espada, se agasalhasse n'um
-paletot d'elle. Ega deu ainda um longo e mudo olhar ao seu flamejante
-traje infernal, e com um profundo suspiro comeÁou a desafivelar o talim.
-Mas o paletot era muito largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra
-nas mangas. Depois Carlos metteu-lhe um bonet escossez na cabeÁa.--E
-assim arranjado, com as canellas vermelhas de diabo apparecendo sob o
-paletot, a gargantilha escarlate · Carlos IX emergindo da gola, a velha
-casqueta de viagem na nuca, o pobre Ega tinha o ar lamentavel d'um
-Satanaz pelintra, agasalhado pela caridade d'um gentleman, e usando-lhe
-o fato velho.
-
-Baptista allumiou, grave e discreto. Ega ao passar por elle, murmurou:
-
---Isto vae mal, Baptista, isto vae mal...
-
-O velho creado teve um movimento triste d'hombros, como significando que
-nada no mundo ia bem.
-
-Na rua negra, a parelha quieta dobrava a cabeÁa sob a chuva. O
-_Canhoto_, ao ouvir fallar d'uma gorgeta de libra, fez um grande
-espalhafato, rompeu ·s chicotadas; e a velha traquitana l· partiu a
-galope, a escorrer d'agua, atroando a calÁada.
-
-Por vezes um coupÈ particular crusava-os, os casacos de gutta-perche dos
-criados branquejavam · luz das lanternas. Ent„o a idÈa da festa que
-devia agora resplandecer; Margarida ignorando tudo, walsando nos braÁos
-d'outros, anciosa, · espera d'elle; a ceia depois, o champagne, as
-cousas brilhantes que elle teria dito--todas estas delicias perdidas se
-vinham cravar no coraÁ„o do pobre Ega, arrancavam-lhe pragas surdas,
-Carlos fumava silenciosamente, com o pensamento no Hotel Central.
-
-Depois de Santa Apolonia a estrada comeÁou, infindavel, desabrigada,
-batida pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra, cada um para o
-seu canto, arripiados na friagem que entrava pelas gretas da tipoia.
-Carlos n„o cessava de vÍr o casaco branco de velludo, com as duas mangas
-abertas, como dois braÁos que se offereciam...
-
-Passava da uma hora quando chegaram · quinta, a sineta do port„o, aos
-puxıes do cocheiro encharcado, retumbou lugubre n'aquelle silencio
-escuro de aldeia. Um c„o ladrou furiosamente: outros latidos ao longe
-responderam; e ainda esperaram muito, antes que um creado, somnolento e
-resmung„o, apparecesse com uma lanterna. Uma rua d'acacias conduzia ·
-casa: o Ega praguejava, enterrando os seus bellos sapatos de velludo no
-ch„o lamacento.
-
-Craft, surprehendido com aquelle tumulto, veiu-lhes ao encontro no
-corredor, de robe-de-chambre, e a _Revista dos Dois Mundos_ debaixo do
-braÁo. Percebeu logo que havia desastre. Levou-os em silencio para o seu
-gabinete onde um bom lume de carv„o na chaminÈ aquecia, alegrava o
-aposento todo estofado de cretones claros. Ambos foram direitos ao lume.
-
-Ega rompera logo a contar o seu caso--emquanto Craft, sem espanto nem
-exclamaÁıes, ia preparando methodicamente sobre a meza tres grogs de
-cognac e lim„o. Carlos, sentado ao pÈ do fog„o, aquecia os pÈs: e Craft
-veiu acabar de ouvir o Ega, accommodando-se tambem na sua poltrona, do
-outro lado da chaminÈ, com o seu cachimbo na bocca.
-
---Emfim, exclamou Ega, de pÈ, cruzando os braÁos, que me aconselhas tu
-agora?
-
---Tens a fazer sÛ isto, disse Craft: esperar ·manh„ em casa que elle te
-mande os seus padrinhos... Que tenho a certeza que n„o manda... E
-depois, se vos baterdes, deixar-te ferir ou matar.
-
---Perfeitamente o que eu disse, murmurou Carlos, provando o seu grog.
-
-Ega olhou-os a ambos, successivamente, petrificado. E logo, n'um fluxo
-de palavras desordenadas, queixou-se de n„o ter amigos. Ali estava,
-n'aquella crise, a maior da sua vida: e em logar de encontrar, nos seus
-camaradas de infancia e de Coimbra, apoio, solidariedade, lealdade _‡
-tort et ‡ travers_, abandonavam-n'o, pareciam querer enterral-o, e
-expol-o a irrisıes maiores... Ia-se commovendo; os olhos
-vermelhejavam-lhe sob as lagrimas. E quando algum d'elles ia
-interrompel-o, n'uma palavra de senso, batia o pÈ, persistia na sua
-teima--um desafio, matar o Cohen, vingar-se! Tinha sido insultado. N„o
-existia outra cousa. N„o se tinha fallado na mulher. Era elle que devia
-primeiro mandar padrinhos, lavar a sua honra. Havia pessoas na sala,
-quando o outro o insultou. Havia um urso, e uma tyrolesa... E emquanto a
-deixar-se varar por uma bala, n„o! Tinha mais direito a viver que o
-Cohen, que era um burguez, e um agiota... E elle era um homem de estudo
-e de arte! Tinha na cabeÁa livros, idÈas, cousas grandes. Devia-se ao
-paiz, · civilisaÁ„o!... Se fosse ao campo, era para fazer a sua
-pontaria, e abater o Cohen, ali, como uma besta immunda...
-
---Mas o que È, È que n„o tenho amigos! gritou elle exhausto por fim,
-cahindo para o canto d'um soph·.
-
-Craft bebia em silencio, e aos golos, o seu cognac.
-
-Foi Carlos que se ergueu, serio e aspero. Elle n„o tinha direito de
-duvidar da sua amisade. Quando lhe tinha ella faltado? Mas era
-necessario n„o ser pueril; nem theatral... A quest„o estava simplesmente
-em que o Cohen o surprehendera, amando-lhe a mulher. Logo, podia
-matal-o, podia entregal-o aos tribunaes, podia escavacal-o na sala a
-pontapÈs...
-
---Ou peor, interrompeu Craft. Mandar-te a senhora, com este bilhetinho:
-´Guarde-aª.
-
---Ou isso! continuava Carlos. N„o, senhor: limita-se a prohibir-te a
-entrada em casa, um pouco asperamente, sim, mas indicando que, depois de
-ter feito isto, n„o quer nada mais violento, nem mais dramatico. Teve
-portanto um acto de moderaÁ„o. E tu queres mandal-o desafiar por
-isso?...
-
-Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pela sala, sem
-paletot agora, esguedelhado, parecendo mais phantastico n'aquelle
-simples gib„o escarlate, com os sapatos de velludo enlameados, as longas
-pernas de cegonha cobertas de malha de seda vermelha. E teimava que se
-n„o tratava d'isso! N„o, n„o se tratava da mulher! A quest„o era
-outra...
-
-Carlos ent„o zangou-se.
-
---Para que diabo te expulsou elle de casa ent„o? N„o disparates, homem!
-NÛs estamos-te a dizer o que faz um homem de senso. E È triste, que te
-custe tanto a perceber o que manda o senso. Trahiste um amigo teu...
-Nada de equivocos! tu declaravas bem alto a tua amisade pelo Cohen.
-Trahistel-o, tens de acceitar a lei: se elle te quizer matar tens de
-morrer. Se elle n„o quizer fazer nada, tens de ficar de braÁos cruzados.
-Se elle te quizer chamar ahi por essas ruas um infame, tens de baixar a
-cabeÁa, e reconhecer-te infame...
-
---Ent„o tenho de engolir a affronta?
-
-Os dois amigos explicaram-lhe que aquelle fato de Satanaz lhe perturbava
-a lucidez do criterio mundano--e que chegava a ser torpe fallar elle,
-Ega, de _affronta_.
-
-Ega, outra vez acabrunhado sobre o soph·, conservou um momento a cabeÁa
-enterrada nas m„os.
-
---Eu j· nem sei, disse elle por fim. VocÍs devem ter ras„o... Eu
-estou-me a sentir idiota ... Ent„o, vamos, que hei de eu fazer?
-
---VocÍs teem a tipoia · espera? perguntou tranquillamente Craft.
-
-Carlos mandara desapparelhar, recolher o gado esfalfado.
-
---Excellente! Ent„o, meu caro Ega, tens outra cousa a fazer, antes de
-morrer ·manh„ talvez, È cear esta noite. Eu ia ceiar, e por motivos
-longos d'explicar, ha n'esta casa um peru frio. E ha-de haver uma
-garrafa de Bourgonhe...
-
-D'ahi a pouco estavam · mesa--n'aquella bella sala de jantar do Craft,
-que encantava sempre Carlos, com as suas tapeÁarias ovaes representando
-bocados solitarios d'arvoredo, as severas faenÁas da Persia, e a sua
-original chaminÈ flanqueada por duas figuras negras de Nubios com olhos
-rutilantes de crystal. Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava j·
-o per˙, emquanto Craft, desarrolhava, com veneraÁ„o, duas garrafas do
-seu velho Chambertin, para reconfortar Mephistopheles.
-
-Mas Mephistopheles, sombrio e com os olhos avermelhados, repelliu o
-prato, desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o
-Chambertin.
-
---Pois eu, dizia Craft empunhando o talher, quando vocÍs chegaram,
-estava a lÍr um artigo interessante sobre a decadencia do protestantismo
-em Inglaterra...
-
---Que È aquillo, alÈm, n'aquella lata? perguntou Ega, com uma voz
-moribunda.
-
-Um _p‚tÍ de foie-gras_. Mephistopheles escolheu com tedio uma trufa.
-
---Bem bom, este teu Chambertin, suspirou elle.
-
---Anda come e bebe com franqueza, gritou-lhe Craft. N„o te romantises.
-Tu o que tens È fome. Todas as tuas idÈas esta noite se ressentem da
-debilidade!
-
-Ent„o Ega confessou que devia estar fraco. Com aquella excitaÁ„o do seu
-trage de Satanaz nem jant·ra, contando ceiar bem em casa do outro...
-Sim, com effeito, tinha appetite! Excellente _foie-gras_...
-
-E d'ahi a pouco devorava: foram talhadas de per˙, uma porÁ„o immensa de
-lingua d'Oxford, duas vezes presunto d'York, todas aquellas boas cousas
-inglezas que havia sempre em casa do Craft. E elle sÛ bebeu quasi toda
-uma garrafa de Chambertin.
-
-O escudeiro fÙra preparar o cafÈ: e, no entanto, ia-se discutindo, em
-todas as hypotheses, a attitude provavel do Cohen com a mulher. Que
-faria elle? Talvez lhe perdoasse. Ega affirmava que n„o: era vaidoso, e
-de rancores longos! N'um convento tambem n„o a fechava, sendo judia...
-
---Talvez a mate, disse Craft, com toda a seriedade.
-
-Ega, j· com os olhos brilhantes do Bourgogne, declarou tragicamente que
-elle ent„o entrava n'um mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em
-que mosteiro queria elle entrar? Nenhum era congenere com o Ega! Para
-dominicano era muito magro, para trapista muito lascivo, muito palrador
-para jesuita, e para benedictino muito ignorante... Era necessario crear
-uma ordem para elle! Craft lembrou a _Santa Blague_!
-
---VocÍs n„o teem coraÁ„o, exclamou Ega, enchendo outro grande copo.
-VocÍs n„o sabem, eu adorava aquella mulher!
-
-Ent„o largou a fallar de Rachel. E teve alli, de certo, os momentos
-melhores de toda aquella paix„o,--porque poude, sem escrupulo, fazer
-reluzir a sua aureola de amante, banhar-se no mar de leite das
-confidencias vaidosas. ComeÁou por contar o encontro com ella na
-Foz--emquanto Craft, sem perder uma palavra, como quem se instrue, se
-erguera a abrir uma garrafa de Champagne. Disse depois os passeios na
-Cantareira; as cartinhas ainda hesitantes e platonicas, trocadas entre
-folhas de livros emprestados, em que ella se assignava _Violetta de
-Parma_; o primeiro beijo, o melhor, surripiado entre duas portas,
-emquanto o marido correra acima a buscar-lhe charutos especiaes; os
-rendez-vous no Porto, no Cemiterio do Repouso, as pressıes ardentes de
-m„os · sombra dos cyprestes, e os planos de voluptuosidade combinados
-entre as lapides funebres...
-
---Muito curioso! dizia o Craft.
-
-Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o cafÈ. Emquanto se
-enchiam as chavenas, e Craft fÙra buscar uma caixa de charutos, elle
-acabou a garrafa de Champagne, j· pallido, com o nariz afilado.
-
-O criado sahiu, correndo o reposteiro de tapeÁaria: e logo Ega, com o
-calice de cognac ao lado, recomeÁou as confidencias, contou a volta a
-Lisboa, a Villa Balzac, as manh„s deliciosas passadas l· com ella no
-calor d'um ninho d'amor...
-
-Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enterrando um
-momento a cabeÁa entre os punhos. Depois l· vinha outro detalhe, os
-nomes lubricos que ella lhe dava, uma certa coberta de seda preta onde
-ella brilhava como um jaspe... Duas lagrimas embaciaram-lhe os olhos,
-jurou que queria morrer!
-
---Se vocÍs soubessem que corpo de mulher! gritou elle de repente. Oh
-meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocÍs um peito...
-
---N„o queremos saber, disse Carlos. Cala-te, tu est·s bebado, miseravel!
-
-Ega ergueu-se, retezando a perna, arrimado de lado · meza.
-
-Bebado! Elle? Ora essa!... Era cousa que n„o podia, era empiteirar-se.
-Tinha feito o possivel, bebido tudo, atÈ agua raz. Nunca! N„o podia...
-
---Olha, vou pÙr aquella garrafa · boca, tu ver·s. E fico frio, fico
-impassivel. A discutir philosophia... Queres que te diga o que penso de
-Darwin? … uma besta... Ora ahi tens. D· c· a garrafa.
-
-Mas Craft recusou-lh'a; e, um momento Ega ficou oscillando, a olhar para
-elle, com a face livida.
-
---Ou me d·s a garrafa... ou me d·s a garrafa, ou te metto uma bala no
-coraÁ„o... N„o, nem vales a bala... Vou-te dar uma bolacha!
-
-De repente os olhos cerraram-se-lhe, abatteu-se sobre a cadeira, d'ahi
-sobre o ch„o, como um fardo.
-
---Terra! disse tranquillamente Craft.
-
-Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam Jo„o da Ega. E emquanto
-o levavam para o quarto dos hospedes e lhe despiam o fato de Satanaz,
-n„o cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas m„os de Carlos,
-balbuciando:
-
---Rachelsinha!... RacaquÈ, minha Raquesinha! gostas do teu
-bibichinho?...
-
-Quando Carlos partiu na tipoia para Lisboa, n„o chovia, um vento frio ia
-varrendo o ceu, j· clareava a alvorada.
-
-Ao outro dia, ·s dez horas, Carlos voltou aos Olivaes. Achou Craft
-dormindo, e subiu ao quarto do Ega. As janellas tinham ficado abertas,
-um largo raio de sol dourava o leito; e elle ressonava ainda, no meio
-d'aquella aureola, deitado de lado, com os joelhos contra o estomago, o
-nariz dentro dos lenÁoes.
-
-Quando Carlos o sacudio, o pobre John abriu um olho triste, e
-bruscamente ergueu-se sobre o cotovello, espantado para o quarto, para
-os cortinados de damasco verde, para um retrato de dama empoada que lhe
-sorria de dentro da sua moldura dourada. De certo as memorias da vespera
-o assaltaram, porque se enterrou para baixo, com os lenÁoes atÈ ao
-queixo; e a sua face esverdeada, envelhecida, exprimiu a desconsolaÁ„o
-de deixar aquelles fofos colxıes, a paz confortavel da quinta--para ir
-affrontar a Lisboa toda a sorte de cousas amargas.
-
---Est· frio l· fÛra? perguntou elle melancholicamente.
-
---N„o, est· um dia adoravel. Mas levanta-te, depressa! Se l· fÙr alguem
-da parte do Cohen, podem imaginar que fugiste...
-
-Ega deu immediatamente um pulo da cama, e atordoado, esguedelhado,
-procurava a roupa, com as canellas nuas, tropeÁando contra os moveis. SÛ
-achou o gib„o de Satanaz. Chamaram o criado, que trouxe umas calÁas de
-Craft. Ega enfiou-as · pressa: e sem se lavar, com a barba por fazer, a
-gola do paletot erguida, enterrou emfim na cabeÁa o bonet escossez,
-voltou-se para Carlos, disse com um ar tragico:
-
---Vamos a isso!
-
-Craft, que se erguera, foi acompanhal-os ao port„o, onde esperava o
-coupÈ de Carlos. Na alameda de acacias, t„o tenebrosa na vespera sob a
-chuva, cantavam agora os passaros. A quinta, fresca e lavada, verdejava
-ao sol. O grande Terra-nova do Craft pulava em roda d'elles.
-
---Doe-te a cabeÁa, Ega? perguntou Craft.
-
---N„o, respondeu o outro, acabando de abotoar o paletot. Eu hontem n„o
-estava bebado... O que estava era fraco.
-
-Mas, ao entrar para o coupÈ, fez, com um ar profundo e philosophico,
-esta reflex„o:
-
---O que È a gente beber bons vinhos... Estou como se n„o fosse nada!
-
-Craft recommendou que se houvesse novidade, lhe mandassem um telegramma;
-fechou a portinhola, o coupÈ partiu.
-
-Durante a manh„ n„o veiu telegramma · quinta; e quando Craft appareceu
-na Villa Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperava · porta, j·
-escurecera, duas vÈlas ardiam na triste sala verde. Carlos, estirado no
-soph·, dormitava, com um livro aberto sobre o estomago: e Ega passeiava
-d'um lado para outro, todo vestido de preto, pallido, com uma rosa na
-botoeira. Tinham estado alli na sala, n'aquella sÈcca, esperando todo o
-dia as testemunhas do Cohen.
-
---Que te dizia eu? N„o ha nada, nem podia haver, murmurou Craft.
-
-Mas Ega, agora agitado de idÈas negras, temia que elle tivesse
-assassinado a mulher! O sorriso sceptico de Craft indignou-o. Quem
-conhecia melhor o Cohen do que elle? Sob a apparencia burgueza, era um
-monstro! Tinha-lhe visto matar um gato, sÛ por capricho de derramar
-sangue...
-
---Tenho um presentimento de desgraÁa, balbuciou elle aterrado.
-
-E logo n'esse momento a campainha retiniu. Ega acordou precipitadamente
-Carlos, empurrou os dois amigos para o quarto de cama. Craft ainda lhe
-disse que, ·quella hora, n„o podiam ser os amigos do Cohen. Mas elle
-queria estar sÛ na sala: e l· ficou, mais pallido, rigido, muito
-abotoado na sobrecasaca, com os olhos cravados na porta.
-
---Que massada! dizia Carlos dentro, tenteando a escurid„o do quarto.
-
-Craft accendeu no toucador um resto de vella. Uma luz triste
-espalhou-se, tudo appareceu n'um desarranjo: no meio do ch„o estava
-cahida uma camisa de dormir; a um canto ficara a bacia de banho com agoa
-de sab„o; e, no centro, o enorme leito, envolto nas suas cortinas de
-seda vermelha, conservava uma magestade de tabernaculo.
-
-Um momento estiveram callados. Craft methodico, e como quem se instrue,
-examinava o toucador, onde havia um maÁo de ganchos de cabello, uma liga
-com o fecho quebrado, um ramo de violetas murchas. Depois foi olhar o
-marmore da commoda; ahi ficara um prato com ossos de frango, e ao lado
-uma meia folha de papel escripta a lapis, toda emendada, de certo
-trabalho litterario do Ega. Elle achava tudo isto muito curioso.
-
-Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e intimo. Carlos
-escutando, julgou sentir uma falla abafada de mulher... Impaciente, foi
-· cozinha. A criada estava sentada · meza, com a m„o mettida pelos
-cabellos, sem fazer nada, a olhar para a luz: o pagem, espaparrado n'uma
-cadeira, chupava o seu cigarro.
-
---Quem foi que entrou? perguntou Carlos.
-
---Foi a criada do sr. Cohen, disse o garoto, escondendo o cigarro atraz
-das costas.
-
-Carlos voltou ao quarto, annunciando:
-
---… a confidente. As cousas terminam amavelmente.
-
---E como queria vocÍ que terminassem? disse Craft. O Cohen tem o seu
-Banco, os seus negocios, as suas letras a vencer, o seu credito, a sua
-respeitabilidade, todo um arranjo de cousas a que n„o convÈm um
-escandalo... … isto que calma os maridos. AlÈm d'isso, j· se satisfez,
-j· lhe offereceu pontapÈs...
-
-N'esse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta.
-
---N„o ha nada, exclamou elle, deu-lhe uma coÁa, e v„o ·manh„ para
-Inglaterra!
-
-Carlos olhou para o Craft--que movia a cabeÁa, como vendo todas as suas
-previsıes realisadas, e approvando plenamente.
-
---Uma coÁa, dizia o Ega, com os olhos chammejantes e n'uma voz que
-sibillava. E depois fizeram as pazes... Vem ainda a ser um _menage_
-modelo! A bengala purifica tudo... Que canalha!
-
-Estava furioso. N'esse momento odiava Rachel--n„o perdoando ao seu idolo
-ter-se deixado desfazer · paulada. Lembrava-se justamente da bengala do
-Cohen, um junco da India, com uma cabeÁa de galgo por cast„o. E aquillo
-zurzira as carnes que elle tinha apertado com paix„o! Aquillo pozera
-vergıes roxos onde os seus labios tinham avivado signaes cÙr de rosa! E
-tinham _feito as pazes_. E assim terminava, relles e chinfrim, o romance
-melhor da sua vida! Preferiria sabel-a morta, a sabel-a espancada. Mas
-n„o! levava a sova, deitava-se depois com o marido, e elle mesmo,
-decerto arrependido, chamando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a
-fazer as applicaÁıes de arnica! Aquillo acabava em arnica!
-
---Entre vocemecÍ para aqui, sr.^a Adelia, gritou elle para a sala, entre
-para aqui! Aqui sÛ ha amigos. O segredo acabou, o pudor acabou! Isto s„o
-amigos! Somos tres, mas somos um! Tem vocemecÍ diante de si o grande
-mysterio da Santissima Trindade. Sente-se, sr.^a Adelia, sente-se... N„o
-faÁa ceremonia... E pÛde contar... Aqui a sr.^a Adelia, meninos, viu
-tudo, viu a coÁa!
-
-A sr.^a Adelia, uma moÁa gordinha e baixa, de bonitos olhos, com um
-chapÈo de flÙres vermelhas, veiu logo da sala rectificando. N„o, ella
-n„o vira... Ent„o o sr. Ega n„o tinha percebido bem... Ella sÛ _ouvira_.
-
---Aqui est· como foi, meus senhores... Eu tinha ficado a pÈ,
-naturalmente, atÈ ao fim do baile, que estava que nem me tinha nas
-pernas. Era j· dia claro, quando o senhor, ainda vestido de moiro, se
-fechou no quarto com a senhora. Eu fiquei na cozinha com o Domingos ·
-espera que elles tocassem a campainha. De repente ouvimos gritos!... Eu
-fiquei estarrecida, pensei atÈ que eram ladrıes. Corremos, eu e o
-Domingos, mas a porta do quarto estava fechada, e os dois estavam por
-dentro, l· para o fundo da alcova. Eu ainda puz o olho · fechadura, mas
-n„o pude vÍr nada... L· o estalar de bofetadas, e trambulhıes, e sons de
-bengalada, isso sim, isso ouvia-se perfeitamente; e os gritos. Eu disse
-logo ao Domingos ´ai que È uma quest„o, ai que l· se foi tudo.ª Mas de
-repente, silencio geral! NÛs volt·mos para a cozinha; d'ahi a pouco o
-sr. Cohen appareceu, todo esguedelhado, em mangas de camisa, a dizer que
-nos podiamos deitar, que elles n„o precisavam nada, e que amanh„
-fallariamos!... Depois l· ficaram toda a noite, e pela manh„ parece que
-estavam muito amiguinhos... Que eu n„o puz os olhos na senhora. O sr.
-Cohen, apenas se levantou, veiu · cozinha, fez-me elle as contas, e
-pÙz-me fÛra; muito mal creado, atÈ me ameaÁou com a policia... Foi pelo
-Domingos, que eu soube agora, quando fui buscar o bah˙ com um gallego,
-que o sr. Cohen Ìa com a senhora para Inglaterra. Emfim, um chinfrim...
-Eu atÈ tenho estado todo o dia com o estomago embrulhado.
-
-A sr.^a Adelia com um suspiro, pondo os olhos no ch„o, calou-se. Ega,
-com os braÁos cruzados, olhava amargamente para os seus amigos. Que lhes
-parecia aquillo? Uma coÁa!.. Se um covarde d'aquelles n„o merecia uma
-bala no coraÁ„o! Mas ella tambem, deixar-se tocar, n„o ter fugido,
-consentir ainda depois em dormir com elle!.. Tudo uma corja!
-
---E a sr.^a Adelia, perguntava Craft, n„o tem idÈa de como elle
-descobriu?..
-
---Isso È que È prodigioso! gritou Ega, apertando as m„os na cabeÁa.
-
-Sim, prodigioso! N„o fÙra carta apanhada: elles n„o se escreviam. N„o
-podia ter surprehendido as visitas · Villa Balzac: as cousas estavam
-combinadas com uma arte muito subtil, perfeitamente impenetraveis. Para
-vir ali, nunca ella commettera a indiscripÁ„o de se servir da sua
-carruagem. Nunca ella claramente entrara pela porta. Os criados d'elle
-nunca a tinham visto, n„o sabiam quem era a senhora que o visitava...
-Tantos cuidados, e tudo estragado!
-
---Estranho, estranho! murmurava Craft.
-
-Houve um silencio. A sr.^a Adelia terminara por descanÁar familiarmente
-n'uma cadeira, com a sua trouxasinha no regaÁo.
-
---Pois olhe, sr. Ega, disse ella, depois de reflectir creia ent„o uma
-cousa, È que foi em sonhos. J· tem acontecido... Foi a senhora que
-sonhou alto com v. ex.^a, disse tudo, o sr. Cohen ouviu, ficou de pedra
-no sapato, espreitou-a, e descobriu a marosca... E eu sei que ella sonha
-alto.
-
-Ega, diante da sr.^a Adelia, percorria-a desde as flÙres do chapÈo atÈ ·
-roda das saias, com os olhos faiscantes.
-
---Como È possivel que elle ouvisse? Se elles tinham quartos
-separados!... Eu sei que tinham.
-
-A sr.^a Adelia baixou as palpebras, acariciou com os dedos calÁados de
-luvas pretas a sua trouxasinha redonda, e disse mais baixo estas
-palavras:
-
---N„o tinham, n„o senhor. Nem a senhora consentia em tal arranjo... A
-senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciumes d'elle.
-
-Houve um silencio embaraÁado e desagradavel. Sobre o toucador o resto da
-vella acabava, com uma luz lugubre. E Ega, que affectara sorrir,
-encolher os hombros, dava pelo quarto passos lentos e murchos,
-triturando o bigode com a m„o tremula.
-
-Ent„o Carlos enojado, canÁado d'aquelle episodio que durava desde a
-vespera, e onde constantemente se remexera em lodo, declarou que era
-necessario findar! Eram oito horas, e elle queria jantar...
-
---Sim, vamos todos jantar, murmurou o Ega, com o ar confuso e embaÁado.
-
-De repente fez um signal · sr.^a Adelia, arrastou-a para a sala,
-fechou-se l· outra vez.
-
---VocÍ n„o est· farto d'isto, Craft? exclamou Carlos, desesperado.
-
---N„o. Acho um estudo curioso.
-
-Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vella extinguiu-se. Carlos,
-furioso, gritou pelo pagem. E o garoto entrava com um immundo candieiro
-de petroleo--quando Ega, mais composto, voltou da sala. Tudo acabara, a
-sr.^a Adelia partira.
-
---Vamos l· jantar, disse elle. Mas aonde, a esta hora?
-
-E elle mesmo lembrou o AndrÈ, ao Chiado. Em baixo, alem do coupÈ de
-Carlos, esperava a tipoia do Craft. As duas carruagens partiram. A Villa
-Balzac ficava apagada, muda, d'ora em diante inutil.
-
-No AndrÈ tiveram de esperar muito tempo, n'um gabinete triste, com um
-papel de estrellinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas
-de reps azul, e dois bicos de gaz que silvavam. Ega, enterrado no soph·
-de mollas gastas e lassas, cerrara os olhos, parecia exhausto. Carlos Ìa
-contemplando as gravuras pela parede, todas relativas a hespanholas: uma
-saÌndo da egreja; outra saltando uma pocinha de agua; outra, de olhos
-baixos, escutando os conselhos de um canonico. Craft, j· · meza, com a
-cabeÁa entre os punhos, percorria um _Diario da Manh„_, que o criado
-offerecera para os senhores se entreterem.
-
-De repente o Ega deu um murro no soph·, que rangeu lamentavelmente.
-
---Eu o que n„o percebo, gritou elle, È como aquelle malvado descobriu!..
-
---A hypothese da sr.^a Adelia, disse Craft erguendo os olhos do jornal,
-parece provavel. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre senhora descahiu-se.
-Ou talvez uma denuncia anonyma. Ou talvez apenas um acaso... O facto È
-que o homem desconfiou, espreitou-a, e apanhou-a.
-
-Ega erguera-se:
-
---Eu n„o vos quiz dizer diante da Adelia, que n„o estava no segredo
-todo. Mas vocÍs sabem a casa defronte da minha, do outro lado da viella,
-uma casa com um grande quintal? Ahi mora uma tia do Gouvarinho, a D.
-Maria Lima, uma pessoa respeitavel. A Rachel Ìa vÍl-a de vez em quando.
-S„o intimas, a D. Maria Lima È intima de todo o mundo. Depois sahia por
-uma portinha do quintal, atravessava a viella, e estava · porta da minha
-casa, · porta escusa, · porta da escada que vae ter ao cacifro de banho.
-J· vocÍs vÍem... Os criados nem a avistavam. Quando ella l· lunchava, o
-lunch estava j· posto no meu quarto, as portas fechadas. Mesmo se alguem
-visse, era uma senhora com um vÈo preto, que vinha de casa da Lima...
-Como podia o homem apanhal-a?.. AlÈm d'isso, em casa da Lima, ella
-mudava de chapÈo, e punha um waterproof...
-
-Craft cumprimentou.
-
---… brilhante! Parece de Scribe.
-
---Ent„o, disse Carlos sorrindo, essa respeitavel fidalga...
-
---A D. Maria, coitada... Eu te digo, È uma excellente velha, recebida em
-toda a parte, mas pobre, e faz d'estes favores... ¡s vezes mesmo em casa
-d'ella.
-
---Leva caro por esses serviÁos? perguntou tranquillamente Craft, que em
-todo aquelle caso procurava instruir-se.
-
---N„o, coitada, disse o Ega. D„o-se-lhe de vez em quando cinco libras.
-
-O criado entrava com uma travessa de camarıes, os tres em silencio
-accommodaram-se · meza.
-
-Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega Ìa l· dormir, receiando,
-com os nervos t„o excitados, a solid„o da villa Balzac. Partiram, de
-charutos accesos, n'uma caleche descoberta, sob a noite estrellada e
-doce.
-
-Felizmente n„o estava ninguem no Ramalhete; Ega, canÁado, poude
-retirar-se logo para o seu quarto, um aposento d'hospedes no segundo
-andar, onde havia um bello leito antigo de pau preto. Ahi, apenas o
-criado o deixou, Ega approximou-se do tremÛ onde ardiam as luzes, e
-tirou do pescoÁo, de sob a camiza, um medalh„o de ouro. Tinha dentro uma
-photographia de Rachel:--e a sua intenÁ„o agora era queimal-a, deitar ao
-balde das agoas sujas as cinzas d'aquella paix„o. Mas, ao abrir o
-medalh„o, a face bonita, banhada n'um sorriso, sob o vidro oval, pareceu
-olhar para elle com uma tristeza no velludo das pupillas languidas... A
-photographia mostrava apenas a cabeÁa, com uma abertura de decote no
-comeÁo do vestido: e as recordaÁıes de Ega alargaram aquelle decote uma
-vez mais, revendo o collo, o extraordinario setim da pelle, o
-signalsinho sobre o seio esquerdo... O sabor dos seus beijos passou-lhe
-de novo nos labios, sentiu n'alma outra vez como o ecco dos suspiros
-canÁados que ella soltara nos seus braÁos. E ella ia-se embora, _nunca
-mais_ a veria! Esta desolada amargura do _nunca mais_ revolveu-o todo--e
-com a face enterrada no travesseiro, o pobre demagogo, o grande
-phraseador soluÁou muito tempo no segredo da noite.
-
-Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Damaso
-apparecera no Ramalhete, e por elle ouviram os rumores de Lisboa. J· se
-sabia no Gremio, no Chiado, por toda a parte, que elle fÙra expulso da
-casa dos Cohens. O urso, a pastora do Tyrol, testemunhas do episodio,
-tinham-n'o badallado com enthusiasmo. Dizia-se mesmo que o Cohen lhe
-dera um pontapÈ. Os amigos da casa, esses, sobretudo o Alencar, prÈgavam
-com fervor a innocencia da sr.^a D. Rachel. O Alencar contava
-publicamente que o Ega, provinciano inexperiente e le„o de Celorico,
-tendo tomado por evidencias de paix„o os sorrisos de amabilidade de uma
-senhora que recebe,--escrevera · sr.^a D. Rachel uma carta quasi
-obscena, que ella, coitadinha, toda em lagrimas, viera mostrar ao
-marido.
-
---Ent„o d„o-me para baixo, hein, Damaso? murmurou Ega que, no gabinete
-de Carlos, embrulhado n'uma velha ulster, e encolhido n'uma poltrona,
-escutava estas cousas com um ar canÁado e doente.
-
-Damaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo.
-
-Ah, elle sabia-o bem! tinha antipathias em Lisboa. Ninguem lhe perdoara
-ainda a pelissa. A sua verve, toda em sarcasmos, offendia. E era
-desagradavel para muita gente que um homem, com esse espirito t„o
-perigoso de ferro em braza, tivesse uma m„e rica, e fosse independente.
-
-Depois, no sabbado seguinte, Carlos, ao voltar do jantar dos
-Gouvarinhos--que fÙra excellente--contou-lhe a conversa que tivera com a
-sr.^a condessa. A condessa fallara-lhe muito livremente, como um homem,
-d'aquelle desastre do Ega. Tinha-se affligido muito, n„o sÛ pela Rachel,
-coitada, de quem era amiga, mas pelo Ega, que ella apreciava tanto, t„o
-interessante, t„o brilhante, e que sahia de tudo aquillo enxovalhado! O
-Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gouvarinho) que ameaÁ·ra o Ega de
-pontapÈs, por elle ter escripto a sua mulher uma carta immunda. Os que
-n„o sabiam nada, como o Gouvarinho, acreditavam, apertavam as m„os na
-cabeÁa; e os que sabiam, os que havia seis mezes sorriam da intimidade
-do Ega com os Cohens, affectavam tambem acreditar, cerravam os punhos de
-indignaÁ„o. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa, que vive entre o
-Gremio e a casa Havaneza, folgava em ´enterrarª o Ega.
-
-Ega, com effeito, sentia-se ´enterradoª. E n'essa noite declarou a
-Carlos que decidira recolher-se · quinta da m„e, passar l· um anno a
-acabar as _Memorias d'um Atomo_, e reapparecer em Lisboa com o seu livro
-publicado, triumphando sobre a cidade, esmagando os mediocres. Carlos
-n„o perturbou esta radiante illus„o.
-
-Mas quando Ega, antes de partir, foÌ a recapitular os seus negocios de
-casa, de dinheiro, encontrou-se diante de cousas abominaveis. Devia a
-todo o mundo, desde o estofador atÈ ao padeiro; tinha tres letras a
-vencer; aquellas dividas, se as deixasse, soltas e ladrando,
-juntar-se-iam, na tagarallice publica, ao caso dos Cohens--e elle seria,
-alÈm do amante ameaÁado de pontapÈs, o pelintra perseguido pelos
-credores! Que havia de fazer, sen„o valer-se de Carlos? Carlos, para
-regular tudo, emprestou-lhe dois contos de rÈis.
-
-Depois, tendo despedido os criados da Villa Balzac, surgiram-lhe outras
-complicaÁıes. A m„e do pagem veiu d'ahi a dias ao Ramalhete, muito
-insolente, gritando que o filho lhe desapparecera! E era exacto: o
-famoso pagem, pervertido pela cozinheira, sumira-se com ella para as
-viellas da Mouraria, a comeÁar ahi uma divertida carreira de _faia_.
-
-Ega recusou-se a attender ·s reclamaÁıes da matrona. Que diabo tinha
-elle com essas torpezas?
-
-Ent„o o amante da creatura interveiu, ameaÁadoramente, Era um policia,
-um esteio da ordem: e deu a entender que lhe seria facil provar como na
-Villa Balzac se passavam ´cousas contra a naturezaª, e que o pagem n„o
-era sÛ para servir · meza... Nauseado atÈ · morte, Ega pacteou com a
-intrugice, largou cinco libras ao policia. Quando n'essa noite, uma
-noite triste d'agoa, Carlos e Craft o acompanharam a Santa Apolonia,
-elle disse-lhes na carruagem estas palavras, triste resumo d'um amor
-romantico:
-
---Sinto-me como se a alma me tivesse cahido a uma latrina! Preciso um
-banho por dentro!
-
-
-Affonso da Maia ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com
-tristeza:
-
---M· estreia, filho, pessima estreia!
-
-E n'essa noite, depois de voltar de Santa Apolonia, Carlos pensava
-n'estas palavras, dizia tambem comsigo:--Pessima estreia!... E nem sÛ a
-estreia do Ega era pessima; tambem a sua. E talvez, por pensar n'isso,
-as palavras do avÙ tinham tido aquella tristeza. Pessimas estreias!
-Havia seis mezes que o Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande
-pellissa, preparado a deslumbrar Lisboa com as _Memorias d'um Atomo_, a
-dominal-a com a influencia de uma Revista, a ser uma luz, uma forÁa, mil
-outras cousas... E agora, cheio de dividas e cheio de ridiculo, l·
-voltava para Celorico, escorraÁado. Pessima estreia! Elle, por seu lado,
-desembarcara em Lisboa, com idÈas collossaes de trabalho, armado como um
-luctador: era o consultorio, o laboratorio, um livro iniciador, mil
-cousas fortes... E, que tinha feito? Dois artigos de jornal, uma duzia
-de receitas, e esse melancolico capitulo da _Medicina entre os Gregos_.
-Pessima estreia!
-
-N„o, a vida n„o lhe parecia promettedora, n'esse instante, passeiando na
-sala de bilhar com as m„os nos bolsos, emquanto ao lado os amigos
-conversavam, e fÛra uivava o sudoeste. Pobre Ega, que infeliz elle iria,
-encolhido ao canto do seu wagon!.. Mas os outros, ali, n„o estavam mais
-alegres. Craft e o Marquez tinham comeÁado uma conversa sobre a vida,
-soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, n„o se sendo
-um Livingstone ou um Bismark? E o Marquez, com um ar philosophico,
-achava que o mundo se ia tornando estupido. Depois chegou o Taveira com
-a historia horrivel d'um collega d'elle, cujo filho cahira pela escada,
-se despedaÁara, no momento em que a mulher estava a morrer d'uma
-pleurisia. Cruges resmungou o quer que fosse sobre suicidio. As palavras
-arrastavam-se, melancolicas. Instinctivamente, Carlos, de vez em quando,
-ia despertar as lampadas.
-
-Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando d'ahi a instantes Damaso
-chegou, e lhe disse que o Castro Gomes estava incommodado, e de cama.
-
---Naturalmente, accrescentou o Damaso, mandam-te chamar, por teres j·
-visto a pequena...
-
-Carlos ao outro dia n„o sahiu de casa, esperando um recado, faiscando
-d'impaciencia. Nenhum recado veiu. E, duas tardes depois, ao descer para
-o Aterro--o primeiro encontro que teve, ·s Janellas Verdes, foi o Castro
-Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadellinha no
-collo.
-
-Ella passou, sem o vÍr. E logo ali Carlos decidiu findar aquella
-tortura, pedir muito simplesmente ao Damaso que o apresentasse ao Castro
-Gomes, antes d'elle partir para o Brazil... N„o podia mais, precisava
-ouvir a voz d'ella, vÍr o que os seus olhos diziam quando eram
-interrogados de perto.
-
-Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na
-companhia dos Gouvarinhos. ComeÁou por encontrar o conde, que lhe travou
-do braÁo, arrastou-o · rua de S. MarÁal, installou-o n'uma poltrona, no
-seu escriptorio, e leu-lhe um artigo que destinava ao _Jornal do
-Commercio_ sobre a situaÁ„o dos partidos em Portugal: depois convidou-o
-a jantar. Na tarde seguinte elles tinham uma partida de _croquet_.
-Carlos foi. E, a uma janella, aberta sobre o jardim, teve um momento de
-intimidade com a condessa, contou-lhe, rindo, como os cabellos d'ella o
-tinham encantado, a primeira vez que a vira. N'essa noite, ella fallou
-d'um livro de Tennyson, que n„o lera; Carlos offereceu-lh'o, foi-lh'o
-levar ao outro dia, de manh„. Encontrou-a sÛ, toda vestida de branco: e
-riam, baixavam j· a voz, as duas cadeias estavam mais juntas--quando o
-escudeiro annunciou a sr.^a D. Maria da Cunha. Era uma cousa t„o
-extraordinaria, a D. Maria da Cunha ·quella hora! Carlos, de resto,
-gostava muito da D. Maria da Cunha, uma velha engraÁada, toda bondade,
-cheia de sympathia por todos os peccados--e ella mesma muito peccadora
-quando era a linda Cunha. D. Maria era muito falladora, parecia ter que
-dizer em particular · condessa; e Carlos deixou-as, promettendo voltar
-uma d'essas tardes tomar ch·, e fallar de Tennyson.
-
-Na tarde em que elle se vestia para l· ir, Damaso appareceu-lhe no
-quarto, a dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e de ´ferroª. O
-telhudo do Castro Gomes mud·ra de idÈa, j· n„o ia ao Brazil! Ficava ali,
-no Central, atÈ ao meiado do ver„o! De sorte que estava tudo
-estragado...
-
-Carlos pensou logo em fallar da sua apresentaÁ„o ao Castro Gomes. Mas,
-como em Cintra, sem saber porquÍ, veiu-lhe uma repugnancia de a conhecer
-por meio do Damaso. E foi-se vestindo em silencio.
-
-Damaso no entanto maldizia a sua _chance_:
-
---E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse occasi„o. Mas que
-diabo queres tu, assim?...
-
-Queixou-se ent„o do Castro Gomes. Em resumo, era um telhudo. E a vida
-d'aquelle homem era mysteriosa... Que diabo estava elle a fazer em
-Lisboa? Ali havia difficuldades de dinheiro... E elles n„o se davam bem.
-Na vespera houvera de certo quest„o. Quando elle entrara, ella estava
-com os olhos vermelhos, e enfiada; e elle, nervoso, a passeiar pela
-sala, a retorcer a barba... Ambos contrafeitos, uma palavra cada quarto
-d'hora...
-
---Sabes tu? exclamou elle. Tenho minha vontade de os mandar · fava.
-
-Queixou-se tambem d'ella. Era sobretudo muito desegual. Ora bom modo,
-ora regelada; e, ·s vezes, elle dizia qualquer cousa muito natural,
-d'estas cousas de conversa de sociedade, e ella punha-se a rir. Era de
-encavacar, hein? Emfim, gente muito exquisita.
-
---Onde vaes tu? disse elle, com um suspiro de aborrecimento, vendo
-Carlos pÙr o chapeu.
-
-Ia tomar ch· com a Gouvarinho.
-
---Pois olha, vou comtigo... Estou d'uma secca!
-
-Carlos hesitou um instante, terminou por dizer:
-
---Vem, fazes-me atÈ favor...
-
-A tarde estava lindissima, Carlos ia no dog-cart.
-
---Ha que tempos que n„o damos assim um passeio juntos, disse Damaso.
-
---Tu andas l· mettido com estrangeiros!...
-
-Damaso deu outro suspiro, e n„o tornou a dizer mais nada. Depois, ·
-porta dos Gouvarinhos, quando soube que a sr.^a condessa recebia,
-resolveu subitamente n„o entrar. N„o, n„o entrava. Estava muito
-estupido, incapaz de achar uma palavra...
-
---Ah, e outra cousa que me lembrou agora, exclamou elle, demorando ainda
-Carlos diante do port„o. O Castro Gomes, hontem, perguntou-me o que te
-havia de mandar pela visita · pequena... Eu disse que tu tinhas ido l·
-por favor, como meu amigo. E elle disse que te havia de vir deixar um
-bilhete... Naturalmente vens a conhecel-os.
-
-N„o era, pois, necessario que Damaso o apresentasse!
-
---Apparece · noite, Damasosinho, vai l· jantar ·manh„! exclamou Carlos,
-subitamente radiante, dando um ardente aperto de m„o ao seu amigo.
-
-Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir ch·. A sala,
-forrada d'um papel severo, verde e ouro, com retratos de familia em
-caixilhos pesados, abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim.
-Em cima das mezas havia cestos de flÙres. No soph·, duas senhoras de
-chapeu, ambas de preto, conversavam, com a chavena na m„o. A condessa,
-ao estender os dedos a Carlos, ficara t„o cÙr de rosa--como a seda
-acolchoada da cadeira em que estava recostada, ao pÈ d'um velador de pau
-santo. Notou logo, sorrindo, o ar radiante de Carlos. Que lhe tinha
-acontecido de bom? Carlos sorriu tambem, disse que n„o era possivel
-entrar ali com outro ar. Depois perguntou pelo conde...
-
-O conde ainda n„o apparecera, detido de certo na camara dos pares, onde
-se discutia o projecto sobre a Reforma da InstrucÁ„o Publica.
-
-Uma das senhoras de preto fazia votos para que se alliviassem os
-estudos. As pobres creanÁas succumbiam verdadeiramente · quantidade
-exaggerada de materias, de cousas a decorar: o d'ella, o Jo„osinho,
-andava t„o pallido e t„o desfigurado, que ella ·s vezes tinha vontade de
-o deixar ficar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chavena sobre
-um console ao lado, e passando sobre os labios a renda do lenÁo,
-queixou-se sobretudo dos examinadores. Era um escandalo as exigencias,
-as difficuldades que punham, sÛ para poder deitar RR... Ao pequeno
-d'ella tinham feito as perguntas mais estupidas, as mais reles; assim,
-por exemplo, o que era o sab„o, porque lavava o sab„o?...
-
-A outra senhora e a condessa apertaram as m„os contra o peito,
-consternadas. E Carlos, muito amavel, concordou que era uma abominaÁ„o.
-O marido d'ella--continuava a dama de preto--ficara t„o desesperado que,
-encontrando o examinador no Chiado, o ameaÁou de lhe dar bengaladas. Uma
-imprudencia, de certo; mas, emfim, o homem fÙra malvado!... N„o havia
-verdadeiramente sen„o uma cousa digna de se estudar, eram as linguas.
-Parecia insensato que se torturasse uma creanÁa com botanica,
-astronomia, physica... Para que? Cousas inuteis na sociedade. Assim, o
-pequeno d'ella, agora, tinha liÁıes de chimica... Que absurdo! Era o que
-o pae dizia--para que, se elle o n„o queria para boticario?
-
-Depois d'um silencio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmo tempo; e
-houve um murmurio de beijos, um frou-frou de sedas.
-
-Carlos ficou sÛ com a sr.^a condessa, que reoccupara a sua cadeira cÙr
-de rosa.
-
-Immediatamente ella perguntou pelo Ega.
-
---Coitado, l· est· para Celorico.
-
-Ella protestou, com um lindo riso, contra aquella phrase t„o feia ´l·
-est· para Celoricoª N„o, n„o queria... Coitado do Ega! Merecia uma
-melhor oraÁ„o funebre. Celorico era horrÌvel para um fim de romance...
-
---De certo, exclamou Carlos, rindo tambem, era mais bello dizer-se: _l·
-est· para Jerusalem!_
-
-N'esse momento o criado annunciou um nome, e appareceu o amigo Telles da
-Gama, um intimo da casa. Quando soube que o conde devia estar ainda
-batalhando sobre a Reforma da InstrucÁ„o, levou as m„os · cabeÁa como
-lamentando um t„o feio desperdicio de tempo, e n„o se quiz demorar. N„o,
-nem mesmo o excellente ch· da sr.^a condessa o tentava. A verdade era
-que estava t„o abandonado da graÁa de Deus, perdera de tal modo o
-sentimento das cousas bellas, que entrara, n„o para vÍr a sr.^a
-condessa--mas simplesmente fallar ao conde. Ent„o ella teve um bonito ar
-de princeza offendida, perguntou a Carlos se uma t„o rude sinceridade de
-montanhez n„o fazia saudades das maneiras polidas do antigo regimen. E
-Telles da Gama, gingando de leve, declarava-se democrata, homem da
-natureza, com um riso que lhe mostrava dentes magnificos. Depois, ao
-sair, dando um _shake-hands_ ao amigo Maia, quiz saber quando o principe
-de S.^t Olavia lhe dava emfim a honra de vir jantar com elle. A sr.^a
-condessa indignou-se. N„o, era realmente de mais! Fazer convites, na sua
-sala, diante d'ella,--um homem que fallava tanto da sua cozinheira
-allem„, e nem sequer lhe offerecera j·mais um prato de chou-crÙute!
-
-Telles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava a arranjar a
-sua sala de jantar para dar · sr.^a condessa uma festa, que havia de
-ficar nos annaes do reino! Agora com o Maia era differente: jantavam
-ambos na cozinha, com os pratos sobre os joelhos. E abalou, gingando
-sempre, rindo ainda da porta, mostrando os dentes magnificos.
-
---Muito alegre, este Gama, n„o È verdade? disse a condessa.
-
---Muito alegre, disse Carlos.
-
-Ent„o a condessa olhou o relogio. Eram cinco e meia, ·quella hora ella
-j· n„o recebia: podiam, emfim, conversar um momento, em boa camaradagem.
-E, o que houve, foi um silencio lento, em que os olhos de ambos se
-encontraram. Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo doente.
-N„o estava bem, com uma ligeira tosse apanhada no passeio da Estrella.
-Ah, aquella creanÁa nunca deixava de lhe dar o cuidado! Ficou callada,
-com o olhar esquecido no tapete, movendo languidamente o leque: tinha
-n'essa tarde uma toilette exaggerada, d'um tom de folha de outono
-amarellada, d'uma seda grossa, que ao menor movimento fazia um ruge-ruge
-de folhas seccas.
-
---Que lindo tempo tem feito! exclamou ella de repente, como acordando.
-
---Lindo! disse Carlos. Eu estive ha dias em Cintra, e n„o imagina... Era
-d'uma belleza de idyllio.
-
-E immediatamente arrependeu-se, quiz-se mal por ter fallado da sua ida a
-Cintra, n'aquella sala.
-
-Mas a condessa mal o escut·ra. Tinha-se erguido, fallando de algumas
-canÁıes que essa manh„ recebera de Inglaterra, as novidades frescas da
-_season_. Depois, sentou-se ao piano, correu os dedos no teclado,
-perguntou a Carlos se conhecia aquella melodia--_The pale star_. N„o,
-Carlos n„o conhecia. Mas todas essas canÁıes inglezas se parecem, sempre
-do mesmo tom dolente, romanesco, e muito _miss_. E trata-se sempre d'um
-parque melancolico, um regato lento, um beijo sob os castanheiros...
-
-Ent„o a condessa leu alto a letra da _Pale star_. E era a mesma cousa,
-uma estrellinha de amor palpitando no crepusculo, um lago pallido, um
-timido beijo sob as arvores...
-
---… sempre o mesmo, disse Carlos, e È sempre delicioso.
-
-Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquillo estupido.
-ComeÁou a remexer entre os papeis de musica, nervosa, e com um olhar que
-escurecia. Para quebrar o silencio, Carlos gabou-lhe as suas lindas
-flores.
-
---Ah, vou-lhe dar uma rosa! exclamou ella logo, deixando as musicas.
-
-Mas, a flÙr que ella lhe queria dar estava no _boudoir_, ao lado. Carlos
-seguiu a sua grande cauda, onde corria um reflexo dourado de folhagem de
-outono batida do sol. Era um gabinete forrado de azul, com um bonito
-tremÛ do seculo XVIII, e sobre um forte pedestal de carvalho, o busto em
-barro do conde, na sua express„o de orador, a fronte erguida, a gravata
-desmanchada, o labio fremente...
-
-A condessa escolheu um bot„o com duas folhas, e ella mesmo lhe veiu
-florir a sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o calor que
-subia do seu seio arfando com forÁa. E ella n„o acabava de prender a
-flÙr, com os dedos tremulos, lentos, que pareciam collar-se, deixar-se
-adormecer sobre o panno...
-
---_Voila!_ murmurou emfim, muito baixo. Ahi est· o meu bello cavalleiro
-da Rosa Vermelha... E agora, n„o me agradeÁa!
-
-Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os labios nos
-labios d'ella. A seda do vestido roÁava-lhe, com um fino ruge-ruge entre
-os braÁos;--e ella pendia para traz a cabeÁa, branca como uma cera, com
-as palpebras docemente cerradas. Elle deu um passo, tendo-a assim
-enlaÁada, e como morta; o seu joelho encontrou um soph· baixo, que rolou
-e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos pÈs, Carlos seguiu,
-tropeÁando, o largo soph·, que rolou, fugiu ainda, atÈ que esbarrou
-contra o pedestal onde o sr. conde erguia a fronte inspirada. E um longo
-suspiro morreu, n'um rumor de saias amarrotadas.
-
-D'ahi a um momento estavam ambos de pÈ: Carlos, junto do busto, coÁando
-a barba, com o ar embaraÁado, e j· vagamente arrependido: ella, diante
-do tremÛ Luiz XV, compondo, com os dedos tremulos, o frisado do cabello.
-De repente, na antecamara, ouviu-se a voz do conde. Ella, bruscamente,
-voltou-se, correu a Carlos, e, com os longos dedos cobertos de
-pedrarias, agarrou-lhe o rosto, atirou-lhe dois beijos faiscantes ao
-cabello e aos olhos. Depois, sentou-se largamente no soph·--e estava
-fallando de Cintra, rindo alto, quando o conde entrou, seguido de um
-velho calvo, que se vinha a assoar a um enorme lenÁo de seda da India.
-
-Ao vÍr Carlos no _boudoir_, o conde teve uma bella surpreza, esteve-lhe
-apertando as m„os muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda
-n'essa manh„, na camara, se lembrara d'elle...
-
---Ent„o, por que vieram t„o tarde? exclamou a condessa, que se apoderara
-logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amavel.
-
---O nosso conde fallou! disse o velho, ainda com o olho brilhante de
-enthusiasmo.
-
---Fallaste? exclamou ela, voltando-se com um interesse encantador.
-
-… verdade, fallara; e desprevenido! Quando ouvira porÈm o Torres Valente
-(homem de litteratura, mas um doido, sem senso pratico) quando o ouvira
-defender a gymnastica obrigatoria nos collegios--erguera-se. Mas n„o
-imaginasse o amigo Maia, que elle tinha feito um discurso.
-
---Ora essa! exclamou o velho, agitando o lenÁo. E um dos melhores que eu
-tenho ouvido na camara! Dos de arromba!
-
-O Conde modestamente protestou. N„o: tinha simplesmente lanÁado uma
-palavra de bom senso, e de bom principio. Perguntara apenas ao seu
-illustre amigo, o sr. Torres Valente, se na sua idÈa, os nossos filhos,
-os herdeiros das nossas casas, estavam destinados para palhaÁos!...
-
---Ah, esta piada, sr.^a condessa! exclamou o velho. Eu sÛ queria que v.
-ex.^a ouvisse esta piada... E como elle a disse! com um _chic!_
-
-O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe
-aquillo. E, respondendo a outras reflexıes do Torres Valente, que n„o
-queria nos lyceus, nem nos collegios, um ensino ´todo impregnado de
-cathecismoª, elle lanÁara-lhe uma palavra cruel.
-
---Terrivel, exclamou o velho n'um tom cavo, preparando o lenÁo para se
-assoar outra vez.
-
---Sim, terrivel... Voltei-me para elle, e disse-lhe isto... ´Creia o
-digno par, que nunca este paiz retomar· o seu logar ‡ testa da
-civilisaÁ„o, se, nos lyceus, nos collegios, nos estabelecimentos de
-instrucÁ„o, nÛs outros os legisladores formos, com m„o impia, substituir
-a cruz pelo trapezio...
-
---Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do lenÁo.
-
-Carlos, erguendo-se, declarou aquillo d'uma ironia adoravel.
-
-E o conde, quando elle se despediu, n„o se contentou com um simples
-aperto de m„o, passou-lhe o braÁo pela cinta, chamou-lhe o seu querido
-Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda humido, um resto de pallidez,
-movendo o leque languidamente, recostada em duas almofadas do
-soph·--debaixo do busto do marido que erguia a fronte inspirada.
-
-
-
-
-X
-
-
-Tres semanas depois, por uma tarde quente, com um ceu triste de
-trovoada, e no momento em que estavam cahindo algumas gotas grossas de
-chuva,--Carlos apeava-se d'um coupÈ de praÁa, que viera parar, de vagar,
-· esquina da Patriarchal, com os stores verdes mysteriosamente corridos.
-Dous sujeitos que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se
-desgeitosamente d'uma portinha suspeita. E com effeito a velha
-traquitana de rodas amarellas acabava de ser uma alcova d'amor,
-perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro
-d'ella, pela estrada de Queluz, com a sr.^a condessa de Gouvarinho.
-
-A condessa tinha descido no largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a
-solid„o da Patriarchal para se desembaraÁar do calhambeque d'assento
-duro, onde durante a ultima hora suffoc·ra, sem ousar descer as
-vidraÁas, com as pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas
-amarrotadas e dos beijos interminaveis que ella lhe dava na barba...
-
-AtÈ ahi, durante essas tres semanas, tinham-se encontrado n'uma casa da
-rua de Santa Izabel, pertencente a uma tia da condessa que fÙra para o
-Porto com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato. A
-boa titi, uma velha pequenina, chamada miss Jones, era uma santa, uma
-apostola militante da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da
-Propaganda; e todos os mezes fazia assim uma viagem de cathechisaÁ„o ·
-provincia, distribuindo Biblias, arrancando almas · treva catholica,
-purificando (como ella dizia) o tremedal papista... J· na escada havia
-um cheirinho adocicado e triste a devoÁ„o e a virgem velha: e no patamar
-pendia um largo cart„o, com um distico em letras de ouro entrelaÁadas de
-lyrios roxos, rogando aos que entravam que preserverassem nas vias do
-Senhor! Carlos entrou, tropeÁando logo n'um mont„o de Biblias. O quarto
-todo era um ninho de Biblias; havia-as ·s pilhas por cima dos moveis,
-transbordando de velhas chapelleiras, misturadas a pares de galochas,
-cahidas para o fundo da bacia d'assento, todas do mesmo formato,
-entaladas n'uma encadernaÁ„o negra como n'uma armadura de combate,
-carrancudas e aggressivas! As paredes resplandeciam, forradas de
-cartonagens impressas em lettras de cÙr, irradiando versiculos duros da
-Biblia, asperos conselhos de moral, gritos dos psalmos, ameaÁas
-insolentes do inferno... E no meio d'esta religiosidade anglicana, ·
-cabeceira d'um leitosinho de ferro, rigido e virginal, duas garrafas
-quasi vasias de cognac e de gin, Carlos bebeu o gin da santa; e o leito
-rigido ficou revolto como um campo de batalha.
-
-Depois a condessa comeÁou a ter medo d'uma visinha, uma Borges, que
-visitava a titi, e era viuva de um antigo procurador dos Gouvarinhos.
-Uma occasi„o em que, no casto leito de miss Jones, elles fumavam
-languidamente cigarrilhas, tres enormes argoladas · porta atroaram a
-casa. A pobre condessa quasi desmaiou; Carlos, correndo · janella, viu
-um homem que se affastava, com uma estatueta de gesso na m„o, outras
-dentro d'um cesto. Mas a condessa jurava que fÙra a Borges quem mand·ra
-o italiano das imagens atirar-lhes para dentro aquellas aldrabadas, como
-tres avisos, tres rebates da Moral... N„o quizera voltar mais ao
-beatifico cutÈ da titi. E n'essa tarde, como n„o havia ainda outro
-escondrijo, tinham abrigado os seus amores dentro d'aquella tipoia de
-praÁa.
-
-Mas Carlos vinha de l· enervado, amollecido, sentindo j· na alma os
-primeiros bocejos da saciedade. Havia tres semanas apenas que aquelles
-braÁos perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pescoÁo,--e agora,
-pelo passeio de S. Pedro d'Alcantara, sob o ligeiro chuvisco que batia
-as folhagens da alameda, elle Ìa pensando como se poderia desembaraÁar
-da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso... … que a condessa Ìa-se
-tornando absurda com aquella determinaÁ„o anciosa e audaz de invadir
-toda a sua vida, tomar n'ella o logar mais largo e mais profundo--como
-se o primeiro beijo trocado tivesse unido n„o sÛ os labios de ambos um
-momento, mas os seus destinos tambem e para sempre. N'essa tarde l·
-tinham voltado as palavras que ella balbuciava, cahida sobre o seu
-peito, com os olhos affogados n'uma ternura supplicante: _Se tu
-quizesses! que felizes que seriamos! que vida adoravel! ambos sÛs!_... E
-isto era claro--a condessa concebera a idÈa extravagante de fugir com
-elle, ir viver n'um sonho eterno de amor lyrico, n'algum canto do mundo,
-o mais longe possivel da rua de S. MarÁal! _Se tu quizesses!_ N„o, com
-mil demonios, n„o queria fugir com a sr.^a condessa de Gouvarinho!...
-
-E n„o era sÛ isto--mas ainda exigencias, egoismos, explosıes tumultuosas
-d'um temperamento cioso: j· mais de uma vez, n'essas duas curtas
-semanas, por pieguices, ella desproposit·ra, fallara de morrer,
-debulhada em lagrimas... Ah! nas lagrimas havia ainda uma
-voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o setim do seu collo! O que o
-inquietava eram certos clarıes que lhe sulcavam o rosto, um dardejar
-nervoso dos olhos seccos, revelando a paix„o que se accendera n'aquelles
-nervos de mulher de trinta e tres annos, e a queimava atÈ ·s
-profundidades do seu ser... Certamente este amor punha na sua vida um
-luxo mais, e um perfume. Mas o seu encanto estava em conservar-se facil,
-sereno, sem penetrar mais fundo que a epiderme. Se ella, por qualquer
-cousa, tinha os olhos turvos d'agua, e fallava em morrer, e torcia os
-braÁos, e queria fugir com elle--ent„o adeus! Tudo estava estragado; e a
-sr.^a condessa com a sua verbena, os seus cabellos cÙr de braza, e o seu
-pranto, era apenas um trambolho!
-
-O chuveiro parara, um bocado d'azul lavado appareceu entre nuvens. E
-Carlos descia a rua de S. Roque--quando encontrou o marquez, sahindo
-d'uma confeitaria, tristonho, com um embrulho na m„o, e o pescoÁo
-abafado n'um enorme cache-nez de seda branca.
-
---Que È isso? ConstipaÁ„o? perguntou Carlos.
-
---Tudo, disse o marquez, pondo-se a caminhar ao lado d'elle com uma
-lentid„o de moribundo. Deitei-me tarde. CanÁasso. Oppress„o no peito.
-Pigarreira. DÙres no lado. Um horror... Levo j· aqui rebuÁados.
-
---N„o seja piegas, homem! VocÍ o que precisa È roast-beef e uma garrafa
-de Borgonha... N„o È hoje que vocÍ janta l· no Ramalhete?... …, atÈ tem
-l· o Craft e o Damaso... Ent„o descemos por essa rua do Alecrim, que j·
-n„o chove, depois pelo Aterro fÛra, a passo gymnastico, e em chegando l·
-vocÍ est· curado.
-
-O pobre marquez encolheu os hombros. Apenas sentia o menor encommodo,
-uma dÙr, um arrepio, considerava-se logo, como elle dizia, _liquidado_.
-O mundo comeÁava a findar para elle: tomavam-no terrores catholicos, uma
-preoccupaÁ„o angustiosa da Eternidade. N'esses dias fechava-se no quarto
-com o padre capell„o--com quem ·s vezes, todavia, terminava por jogar as
-damas.
-
---Em todo o caso, disse elle, tirando cautelosamente o chapeu ao passar
-pela porta aberta da egreja dos Martyres, deixe-me vocÍ ir primeiro ao
-Gremio... Quero escrever · Manoeleta que n„o conte comigo esta noite...
-
-Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou noticias d'esse devasso
-do Ega. Esse devasso do Ega l· estava em Celorico, na quinta materna,
-ouvindo arrotar o padre Seraphim, e refugiando-se, segundo dizia, na
-grande arte: andava a compor uma comedia em cinco actos, que se devia
-chamar o _LodaÁal_--escripta para se vingar de Lisboa.
-
---O peor, murmurou o marquez, depois de um silencio, e abafando-se mais
-no cache-nez, È se eu estou assim no domingo para as corridas!
-
---O quÍ! exclamou Carlos, ent„o as corridas s„o j· no domingo?
-
-O marquez foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as
-corridas se tinham apressado a pedido do Clifford, o grande _sportman_
-de Cordova, que devia trazer dois cavallos inglezes... Era um bocado
-humilhante depender do Clifford. Mas emfim o Clifford era um _gentleman_
-e com os seus cavallos de raÁa, os seus jockeys inglezes, constituia a
-unica feiÁ„o sÈria do Hyppodromo de Belem. Sem o Clifford aquillo era
-uma brincadeira de pilecas e d'_abas_...
-
---VocÍ n„o conhece o Clifford?.. Bello rapaz! Um pouco _poseur_, mas
-oiro de lei.
-
-Tinham entrado no pateo do Gremio, o marquez estendeu o braÁo a Carlos.
-
---Veja esse pulso!
-
---O pulso est· excellente... V· vocÍ dar l· esse golpe · Manoela, que eu
-fico aqui · espera.
-
-No domingo pois, d'ahi a cinco dias, eram as corridas... E _ella_
-estaria l·, elle ia conhecel-a, emfim! Durante essas tres ultimas
-semanas vira-a duas vezes: uma occasi„o, estando a conversar com o
-Taveira · porta do hotel Central, ella chegara a uma das varandas, de
-chapeu, calÁando uma grande luva preta; d'outra vez, havia dias, por uma
-tarde de chuva, ella viera parar · porta do Mour„o, ao Chiado, n'um
-coupÈ da Companhia, e ficara esperando emquanto o trintanario levava
-dentro · loja um embrulho que tinha a fÛrma d'um cofre, apertado com uma
-fita vermelha. D'ambas as vezes ella vira-o, demorara os olhos n'elle um
-momento: e parecera a Carlos que o ultimo olhar se prolongara mais, como
-abandonando-se, humedecendo-se, n'uma leve doÁura, ao pousar no seu...
-Era talvez uma illus„o; mas isto decidiu-o, na sua impaciencia, a
-realisar a antiga idÈa (ainda que desagradavel) de ser apresentado pelo
-Damaso ao Castro Gomes. O pobre Damaso, ao principio, diante d'esta
-exigencia, ficou perturbado; e com um ar de c„o que defende o seu osso,
-lembrou logo a Carlos o deploravel comportamento do Castro Gomes, que
-n„o viera como lh'o annunciara, havia tres semanas, deixar o seu cart„o
-ao Ramalhete... Mas Carlos desdenhava essas formalidades estreitas entre
-rapazes: o Castro Gomes parecia-lhe um homem de gosto e de _sport_; nem
-todos os dias apparecia em Lisboa quem soubesse dar com correcÁ„o o nÛ
-da gravata; e seria agradavel, mesmo para elle Damaso, reunirem-se todos
-de vez em quando, com o Craft, com o marquez, a fumar um charuto e a
-fallar de cavallos. Isto decidiu Damaso, que terminou por propÙr a
-Carlos o leval-o uma tarde ao hotel Central. Carlos porÈm n„o queria
-entrar pelo hotel dentro, de chapeu na m„o, atraz do Damaso. Resolveram
-ent„o esperar pelas corridas, onde os Castro Gomes tencionavam ir. ´Ahi,
-no recinto da pesagem, disse o Damaso, a apresentaÁ„o È mais _chic_... …
-mesmo pÙdre de _chic_.ª
-
---Deus queira com effeito que n„o chova no domingo, murmurou Carlos
-quando o marquez desceu, mais tristonho, mais abafado no seu cache-nez.
-
-Foram seguindo pelo meio da rua, em direcÁ„o ao Ferregial. Adiante do
-Gremio, encostado ao passeio, estava um coupÈ da Companhia, com um
-trintanario de luvas brancas esperando junto ao portal. Carlos olhou,
-casualmente; e viu, debruÁado · portinhola, um rosto de creanÁa, d'uma
-brancura adoravel sorrindo-lhe, com um bello sorriso que lhe punha duas
-covinhas na face. Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ella n„o
-se contentou em sorrÌr, com o seu doce olhar azul fugindo todo para
-elle,--deitou a m„osinha de fÛra, atirou-lhe um grande adeus. No fundo
-do coupÈ, forrado de negro, destacava um perfil claro d'estatua, um tom
-ondeado de cabello louro. Carlos tirou profundamente o chapeu, t„o
-perturbado, que os seus passos hesitaram. _Ella_ abaixou a cabeÁa, de
-leve; alguma cousa de luminoso, um confuso rubor d'emoÁ„o,
-espalhou-se-lhe no rosto. E fugitivamente foi como se, da m„e e da
-filha, ao mesmo tempo, viesse para elle uma suave e quente emanaÁ„o de
-sympathia.
-
---Caramba, aquillo pertence-lhe? perguntou o marquez, que notara a
-impress„o de Madame Gomes.
-
-Carlos cÛrou.
-
---N„o, È uma senhora brazileira a quem eu curei aquella pequerrucha...
-
---Irra! que gratid„o! rosnou o outro de dentro das dobras do seu
-cachenez.
-
-Caminhando em silencio pelo Ferregial, Carlos revolvia uma idÈa que lhe
-viera de repente, ao receber aquelle doce olhar. Por que È que Damaso
-n„o levaria uma manh„ o Castro Gomes aos Olivaes, a vÍr as collecÁıes do
-Craft?... Elle estaria l·, abria-se uma garrafa de Champagne, discutiam
-_bric-‡-brac_. Depois, muito naturalmente, elle convidava Castro Gomes a
-almoÁar no Ramalhete, para lhe mostrar o grande Rubens, e as suas velhas
-colxas da India. E assim, j· antes das corridas existiria entre elles
-uma camaradagem, talvez um tratamento de _vocÍ_.
-
-No Aterro, temendo o ar do rio, o marquez quiz tomar uma tipoia; e, atÈ
-ao Ramalhete, continuaram callados. O marquez, outra vez inquieto,
-apalpava a garganta. Carlos discutia complicadamente comsigo aquella
-lenta inclinaÁ„o de cabeÁa, o olhar d'ella, o vivo rubor fugitivo...
-Ella atÈ ahi n„o o conhecia talvez. Mas, depois de atirar o seu grande
-_adeus_, Rosa, ainda sorrindo, voltara-se para a m„e, a dizer-lhe
-decerto que aquelle era o medico que a curara, a ella e · boneca... E
-ent„o a linda cÙr que lhe enternecera o rosto tomava uma significaÁ„o
-mais profunda--era como a surpreza feliz, o enleio casto, ao saber que o
-homem que ella not·ra j· de algum modo tinha penetrado na sua
-intimidade, beijara a sua filha, se tinha mesmo sentado · beira do seu
-leito...
-
-Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes, mais largo agora,
-mais brilhante. Porque n„o iria ella tambem vÍr as curiosidades do
-Craft? Que tarde encantadora, que festa, que lindo idyllio! O Craft
-arranjava um _lunch_ delicado no seu velho serviÁo de Wedgewood. Elle
-ficava · meza junto d'ella. Depois iam vÍr o jardim j· em flÙr; ou
-tomavam ch· no pavilh„o japonez, forrado de esteiras. Mas, o que mais
-lhe appetecia era percorrer com ella as duas salas de Craft, parando
-ambos diante d'uma bella faienÁa ou d'um movel raro, e sentindo, atravez
-da concordancia dos seus gostos, subir, como um perfume, a sympathia dos
-seus coraÁıes... Nunca a vira t„o formosa como n'essa tarde, dentro do
-coupÈ forrado de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura do seu
-perfil. Sobre o regaÁo do vestido negro pousava o tom claro das suas
-luvas; e no chapÈo frisava-se a ponta de uma penna cor de neve.
-
-A tipoia parara ao port„o do Ramalhete, estavam agora entre as
-silenciosas tapessarias da ante-camara.
-
---Como È que ella conhece os Cruges? perguntou de repente o marquez, com
-um tom desconfiado, desembaraÁando-se do cache-nez.
-
-Carlos olhou para elle, como mal acordado.
-
---Ella quem? Aquella senhora? Como conhece o Cruges?... Homem, sim, tem
-vocÍ raz„o!.. Aquella era a casa do Cruges! a carruagem estava parada ‡
-porta do Cruges!.. Talvez alguem que mÛre n'outro andar.
-
---N„o mÛra ninguem, disse o marquez, dando um passo para o corredor. Em
-todo o caso, È um mulher„o.
-
-Carlos achou a palavra odÌosa.
-
-Do corredor ouvia-se j· no escriptorio de Affonso, atravez da porta
-aberta, a voz petulante do Damaso fallando alto d'_handicap_ e de
-_dead-beat_... E foram-n'o encontrar discursando sobre as corridas, com
-convicÁ„o, com auctoridade, como membro do Jockey-Club. Affonso, na sua
-velha poltrona, escutava-o, cortez e risonho, com o reverendo Bonifacio
-no collo. Ao canto do soph·, Craft folheava um livro.
-
-E o Damaso appellou logo para o marquez. N„o era verdade, como elle
-estivera dizendo ao sr. Affonso da Maia, que iam ser as melhores
-corridas que se tinham feito em Lisboa? SÛ para o grande premio nacional
-de seiscentos mil rÈis havia oito cavallos inscriptos! E alÈm d'isso, o
-Clifford trazia a _Mist_.
-
---Ah, È verdade, oh marquez, È necessario que vocÍ appareÁa sexta-feira
-· noite no Jockey-Club, para acabarmos o _handicap_!
-
-O marquez arrastara uma cadeira para o pÈ de Affonso, para lhe fazer a
-confidencia dos seus achaques; mas como Damaso se mettia entre elles,
-fallando ainda da _Mist_, decidindo que a _Mist_ era chic, querendo
-apostar cinco libras pela _Mist_ contra o campo--o marquez terminou por
-se voltar, enfastiado, dizendo que o sr. Damazosinho se estava a dar
-ares patuscos... Apostar pela _Mist_! Todo o patriota devia apostar
-pelos cavallos do visconde de Darque, que era o unico criador
-portuguez!...
-
---Pois n„o È verdade, sr. Affonso da Maia?
-
-O velho sorrio, amaciando o seu gato.
-
---O verdadeiro patriotismo talvez, disse elle, seria, em logar de
-corridas, fazer uma boa tourada.
-
-Damazo levou as m„os · cabeÁa. Uma tourada! Ent„o o sr. Affonso da Maia
-preferia touros a corridas de cavallos? O sr. Affonso da Maia, um
-inglez!...
-
---Um simples beir„o, sr. Salcede, um simples beir„o, e que faz gosto
-n'isso; se habitei a Inglaterra È que o meu rei, que era ent„o, me pÙz
-fÛra do meu paiz... Pois È verdade, tenho esse fraco portuguez, prefiro
-touros. Cada raÁa possue o seu _sport_ proprio, e o nosso È o toiro: o
-toiro com muito sol, ar de dia santo, agua fresca, e foguetes... Mas
-sabe o sr. Salcede qual È a vantagem da toirada? … ser uma grande escola
-de forÁa, de coragem e de destreza... Em Portugal n„o ha instituiÁ„o que
-tenha uma importancia egual · tourada de curiosos. E acredite uma cousa:
-È que se n'esta triste geraÁ„o moderna ainda ha em Lisboa uns rapazes
-com certo musculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom socco,
-deve-se isso ao touro e · tourada de curiosos...
-
-O marquez enthusiasmado bateu as palmas. Aquillo È que era fallar!
-Aquillo È que era dar a philosophia do toiro! Est· claro que a tourada
-era uma grande educaÁ„o phisica! E havia imbecis que fallavam em acabar
-com os touros! Oh, estupidos, acabaes ent„o com a coragem portugueza!...
-
---NÛs n„o temos os jogos de destresa das outras naÁıes, exclamava elle,
-bracejando pela sala e esquecido dos seus males. N„o temos o _cricket_,
-nem o _foot-ball_, nem o _running_, como os inglezes: n„o temos a
-gymnastica como ella se faz em FranÁa; n„o temos o serviÁo militar
-obrigatorio que È o que torna o allem„o solido... N„o temos nada capaz
-de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos sÛ a tourada... Tirem a
-tourada, e n„o ficam sen„o badamecos derreados da espinha, a mellarem-se
-pelo Chiado! Pois vocÍ n„o acha, Craft?
-
-Craft, do canto do soph·, onde Carlos se fÙra sentar e lhe fallava
-baixo, respondeu, convencido:
-
---O que, o touro? Est· claro! o touro devia ser n'este paiz como o
-ensino È l· fÛra: gratuito e obrigatorio.
-
-Damazo no entanto jurava a Affonso compenetradamente que gostava tambem
-muito de touros. Ah l· n'essas cousas de patriotismo ninguem lhe levava
-a palma... Mas as corridas tinham outro _chic_! Aquelles _Bois de
-Boulogne_, n'um dia de _Grand-Prix_, hein!... Era de embatucar!
-
---Sabes o que È pena? exclamou elle voltando-se de repente para Carlos.
-… que tu n„o tenhas um _four-in-hand_, um _mail coach_. Iamos todos
-d'aqui, cahia tudo de chic!
-
-Carlos pensou tambem comsigo que era uma pena n„o ter um _four-in-hand_.
-Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockey Club da travessa da
-ConceiÁ„o irem todos dentro d'um omnibus.
-
-Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os braÁos, descorÁoado:
-
---Ahi est·, sr. Affonso da Maia! Ahi est· por que em Portugal nunca se
-faz nada em termos! … por que ninguem quer concorrer para que as cousas
-saiam bem... Assim n„o È possivel! Eu c· entendo isto: que n'um paiz,
-cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para a civilisaÁ„o.
-
---Muito bem, sr. Salcede! disse Affonso da Maia. Eis ahi uma nobre, uma
-grande palavra!
-
---Pois n„o È verdade? gritou Damazo, triumphante, a estoirar de goso.
-Assim eu, por exemplo...
-
---Tu, o quÍ? exclamaram dos lados. Que fizeste, tu pela civilisaÁ„o?...
-
---Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca... E vou
-de vÈo azul no chapÈo!
-
-Um escudeiro entrou com uma carta para Affonso, n'uma salva. O velho,
-sorrindo ainda das idÈas de Damaso sobre a civilisaÁ„o, puxou a luneta,
-leu as primeiras linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se
-logo, tendo depositado cuidadosamente sobre a sua almofada o pesado
-Bonifacio.
-
---Isto È que È ter gosto, isto È que È comprehender as cousas! exclamava
-o Damaso, agitando os braÁos para Carlos, quando o velho desappareceu
-atravez do reposteiro de damasco. Este teu avÙ, menino, È podre de
-chic!..
-
---Deixa l· o chic do avÙ... Anda c·, que te quero dizer uma cousa.
-
-Abriu uma das janellas do terraÁo, levou para l· o Damaso, e disse-lhe
-ahi, · pressa, o seu plano da visita aos Olivaes, e a linda tarde que
-poderiam passar na quinta com os Castro Gomes... Elle j· fallara ao
-Craft, que estava de accordo, achava delicioso, ia encher tudo de
-flores. E agora sÛ restava que Damaso amigo, como amabilidade sua,
-convidasse os Castro Gomes...
-
---Caramba! murmurou Damaso desconfiado, est·s com furor de a conhecer!
-
-Mas emfim concordou que era chic a valer! E via ahi uma bella occasi„o
-para elle!... Em quanto Carlos e Craft andassem mostrando as
-curiosidades ao Castro Gomes e lhe fallassem de cavallos, elle, z·s, ia
-para a quinta passear com ella... A calhar!
-
---Pois vou ·manh„ j· fallar-lhes... Estou convencido que aceitam logo.
-Ella pela-se por bric-a-brac!
-
---E vens dizer-me se acceitaram ou n„o...
-
---Venho dizer-te... Tu vaes gostar d'ella; tem lido muito, entende
-tambem de litteratura; e olha que ·s vezes a conversar atrapalha...
-
-O marquez veiu chamal-os para dentro, impaciente, querendo fechar a
-porta envidraÁada, outra vez preoccupado com a garganta. E desejava
-antes de jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar com agua e sal...
-
---E È isto um portuguez forte! exclamou Carlos, travando-lhe alegremente
-do braÁo.
-
---Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marquez, desprendendo-se
-d'elle e olhando-o com ferocidade. E vocÍ È-o no sentimento. E o Craft
-È-o na respeitabilidade. E o Damasosinho È-o na tolice. Em Portugal È
-tudo Pieguice e Companhia!
-
-Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na
-ante-camara, deram com Affonso fallando a uma mulher, carregada de luto,
-que lhe beijava a m„o, meia de joelhos, suffocada de lagrimas: e ao lado
-outra mulher, com os olhos turvos d'agua tambem, embalava dentro do
-chaile uma criancinha que parecia doente e gemia. Carlos parara
-embaraÁado; o marquez instinctivamente levou a m„o · algibeira. Mas o
-velho, assim surprehendido na sua caridade, foi logo empurrando as duas
-mulheres para a escada: ellas desciam, encolhidas, abenÁoando-o, n'um
-murmurio de soluÁos; e elle voltando-se para Carlos, quasi se desculpou
-n'uma voz que ainda tremia:
-
---Sempre estes peditorios... Caso bem triste todavia... E o que È peior
-È que por mais que se dÍ nunca se d· bastante. Mundo muito mal feito,
-marquez.
-
---Mundo muito mal feito, sr. Affonso da Maia, respondeu o marquez
-commovido.
-
-No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu phaeton de oito
-molas, levando ao lado Craft que durante os dois dias de corridas se
-installara no Ramalhete, parou ao fim do largo de Belem, no momento em
-que para o lado do Hyppodromo estavam j· estalando foguetes. Um dos
-criados desceu a comprar o bilhete de pesagem para o Craft, n'uma tosca
-guarita de madeira, armada alli de vespera, onde se mexia um homemsinho
-de grandes barbas grisalhas.
-
-Era um dia j· quente, azul ferrete, com um d'esses rutilantes soes de
-festa que enflammam as pedras da rua, doiram a poeirada baÁa do ar, poem
-fulgores d'espelho pelas vidraÁas, d„o a toda a cidade essa branca
-faiscaÁ„o de cal, d'um vivo monotono e implacavel, que na lentid„o das
-horas de ver„o canÁa a alma, e vagamente entristece. No largo dos
-Jeronymos silencioso, e a escaldar na luz, um omnibus esperava,
-desatrelado, junto ao portal da Egreja. Um trabalhador com o filho ao
-collo, e a mulher ao lado no seu chaile de ramagens, andava alli,
-pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gosar ociosamente o seu
-domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente programmas das
-corridas que ninguem comprava. A mulher da agua fresca, sem freguezes,
-sentara-se com a sua bilha · sombra, a catar um pequeno. Quatro pesados
-municipaes a cavallo patrulhavam a passo aquella solid„o. E a distancia,
-sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente.
-
-No entanto o tritanario continuava debruÁado na guarita, sem poder
-arranjar l· dentro o troco d'uma libra. Foi necessario Craft saltar da
-almofada, ir l· parlamentar--emquanto Carlos, impaciente, raspando com o
-chicote as ancas das egoas, luzidias como um setim castanho, riscava no
-largo uma volta brusca e nervosa. Desde o Ramalhete viera assim
-governando, irritadamente, sem descerrar os labios. … que toda aquella
-semana, desde a tarde em que combinara com o Damaso a visita aos
-Olivaes, fÙra desconsoladora. O Damaso tinha desapparecido, sem mandar a
-resposta dos Castro Gomes. Elle, por orgulho, n„o procurara o Damaso. Os
-dias tinham passado, vazios; n„o se realisara o alegre idyllio dos
-Olivaes; ainda n„o conhecia Madame Gomes; n„o a tornara a ver; n„o a
-esperava nas corridas. E aquelle domingo de festa, o grande sol, a gente
-pelas ruas, vestida de casimiras e de sedas de missa, enchiam-n'o de
-melancolia e de malestar.
-
-Uma caleche de praÁa passou, com dous sujeitos de flores ao peito,
-acabando de calÁar as luvas; depois um dog-cart, governado por um homem
-gordo, de lunetas pretas, quasi foi esbarrar contra o Arco. Emfim, Craft
-voltou com o seu bilhete, tendo sido descomposto pelo homem de barbas
-propheticas.
-
-Para alÈm do arco, a poeira suffocava. Pelas janellas havia senhoras
-debruÁadas, olhando por debaixo de sombrinhas. Outros municipaes, a
-cavallo, atravancavam a rua.
-
-¡ entrada para o hyppodromo, abertura escalavrada n'um muro de
-quintarola, o phaeton teve de parar atr·z do dog-cart do homem
-gordo--que n„o podia tambem avanÁar porque a porta estava tomada pela
-caleche de praÁa, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava
-furiosamente com um policia. Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O
-sr. Savedra, que era do Jockey-Club, tinha-lhe dito que elle podia
-entrar sem pagar a carruagem! Ainda lh'o dissÈra na vespera, na botica
-do Azevedo! Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O policia
-bracejava, enfiado. E o cavalleiro, tirando as luvas, ia abrir a
-portinhola, esmurrar o homem--quando, trotando na sua grande horsa, um
-municipal de punho alÁado correu, gritou, injuriou o cavalleiro gordo,
-fez rodar para Ûra a caleche. Outro municipal entrometteu-se,
-brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um
-portal, espavoridas. E atravez do reboliÁo, da poeira, sentia-se
-adiante, melancolicamente, um realejo tocando a _Traviata_.
-
-O phaeton entrou--atraz do dog-cart, onde o homem gordo, a estoirar de
-furia, voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do
-municipal:
-
---Tudo isto est· arranjado com decencia, murmurou Craft.
-
-Diante d'elles, o hyppodromo elevava-se suavemente em colina, parecendo,
-depois da poeirada quente da calÁada e das cruas reverberaÁıes da cal,
-mais fresco, mais vasto, com a sua relva j· um pouco crestada pelo sol
-de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e alÈm. Uma aragem
-larga e repousante chegava vagarosamente do rio.
-
-No centro, como perdido no largo espaÁo verde, negrejava, no brilho do
-sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio,
-d'onde sobresahiam tons claros de sombrinhas, o faiscar d'um vidro de
-lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. Para alÈm, dos dois lados da
-tribuna real forrada de um baet„o vermelho de mesa de RepartiÁ„o,
-erguiam-se as duas tribunas publicas, com o feitio de traves mal
-pregadas, como palanques d'arraial. A da esquerda vasia, por pintar,
-mostrava · luz as fendas do taboado. Na da direita, bezuntada por fÛra
-d'azul claro, havia uma fila de senhoras quasi todas de escuro
-encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o
-resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, d'um tom alvadio
-de madeira, que abafava as cÙres alegres dos raros vestidos de ver„o.
-Por vezes a briza lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das
-bandeirolas. Um grande silencio caÌa do ceu faiscante.
-
-Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia
-mais soldados de infanteria, com as bayonetas lampejando ao sol. E no
-homem triste que estava · entrada, recebendo os bilhetes, mettido dentro
-d'um enorme collete branco, reteso de gomma, e que lhe chegava atÈ aos
-joelhos--Carlos reconheceu o servente do seu laboratorio.
-
-Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira · porta do buffete
-onde se estivera reconfortando com uma cerveja. Tinha um molho de cravos
-amarellos ao peito, polainas brancas,--e queria animar as corridas. J·
-vira a _Mist_, a egoa de Clifford, e decidira apostar pela _Mist_. Que
-cabeÁa d'animal, meninos, que finura de pernas!...
-
---Palavra que me enthusiasmou! E est· decidido, um dia n„o s„o dias, È
-necessario animar isto! Aposto trez mil rÈis. Quer vocÍ Craft?
-
---Pois sim, talvez, depois... Vamos primeiro vÍr o aspecto geral.
-
-No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia sÛ homens, a
-gente do Gremio, das Secretarias e da Casa Havaneza; a maior parte ·
-vontade, com jaquetıes claros, e de chapÈo cÙco; outros mais em estylo,
-de sobrecasaca e binoculo a tiracollo, pareciam embaraÁados e quasi
-arrependidos do seu chic. Fallava-se baixo, com passos lentos pela
-relva, entre leves fumaraÁas de cigarro. Aqui e alÈm um cavalheiro,
-parado, de m„os atraz das costas, pasmava languidamente para as
-senhoras. Ao lado de Carlos dois brazileiros queixavam-se do preÁo dos
-bilhetes, achando aquillo ´uma semsaboria de rachar.ª
-
-Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por
-soldados: e junto · corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente,
-com as carruagens pelo meio, sem um rumor, n'uma pasmaceira tristonha,
-sob o peso do sol de junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoava
-agua fresca. L· ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, t„o azul como
-o ceu, n'uma pulverisaÁ„o fina de luz.
-
-O visconde de Darque, com o seu ar placido de gentleman louro que comeÁa
-a engordar, veio apertar a m„o a Carlos e a Craft. E mal elles lhe
-fallaram dos seus cavallos (_Rabbino_, o favorito, e o outro potro)
-encolheu os hombros, cerrou os olhos, como um homem que se sacrifica.
-Ent„o, que diabo, os rapazes tinham querido!... Mas elle, realmente, n„o
-podia apresentar um cavallo decente, com as suas cÙres, sen„o d'ahi a
-quatro annos. De resto n„o apurava cavallos para aquella melancolia de
-Belem, n„o imaginassem os amigos que elle era t„o patriota: o seu fim
-era ir a Hespanha, bater os cavallos de Caldillo...
-
---Emfim, vamos a vÍr... DÍ vocÍ c· lume. Isto est· um horror. E depois,
-que diabo, para corridas È necessario cocottes e Champagne. Com esta
-gente seria, e agua fresca, n„o vae!
-
-N'esse momento um dos commissarios das corridas, um rapag„o sem barba,
-vermelho como uma papoula, a pingar de suor sob o chapÈo branco deitado
-para a nuca, veio arrebatar o Darque, ´que era muito preciso, l· na
-pesagem, para uma duvidasinha.ª
-
---Eu sou o diccionario, dizia o Darque, tornando a encolher os hombros
-resignadamente. De vez em quando vem um d'estes senhores do Jockey-Club,
-e folheia-me... Veja vocÍ, Maia, em que estado eu fico depois das
-corridas! Ha-de ser necessario encadernar-me de novo...
-
-E l· foi, rindo da sua pilheria--empurrado para diante pelo commissario,
-que lhe dava palmadas familiares nas costas, e lhe chamava _catita_.
-
---Vamos nÛs vÍr as mulheres, disse Carlos.
-
-Seguiram devagar ao comprido da tribuna. DebruÁadas no rebordo, n'uma
-fila muda, olhando vagamente, como d'uma janella em dia de prociss„o,
-estavam ali todas as senhoras que vÍem no high-life dos jornaes, as dos
-camarotes de S. Carlos, as das terÁas-feiras dos Gouvarinhos. A maior
-parte tinha vestidos serios de missa. Aqui e alÈm um d'esses grandes
-chapÈos emplumados · Gainsborough, que ent„o se comeÁavam a usar,
-carregava d'uma sombra maior o tom trigueiro d'uma carinha miuda. E na
-luz franca da tarde, no grande ar da collina descoberta, as pelles
-appareciam murchas, gastas, molles, com um baÁo de pÛ de arroz.
-
-Carlos cumprimentou as duas irm„s do Taveira, magrinhas, loirinhas,
-ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa
-d'Alvim, nedia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos,
-tendo ao lado a sua terna inseparavel, a Joaninha Villar, cada vez mais
-cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante
-eram as Pedrosos, as banqueiras, de cÙres claras, interessando-se pelas
-corridas, uma de programma na m„o, a outra de pÈ e de binoculo estudando
-a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal,
-desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. N'uma bancada isolada, em
-silencio, VillaÁa com duas damas de preto.
-
-A condessa de Gouvarinho ainda n„o viera. E n„o estava tambem aquella
-que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperanÁa.
-
---… um canteirinho de camelias meladas, disse o Taveira, repetindo um
-dito do Ega.
-
-Carlos, no entanto, fÙra fallar · sua velha amiga D. Maria da Cunha que,
-havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de
-bÙa mam„. Era a unica senhora que ousara descer do retiro ajanellado da
-tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ella
-disse, n„o aturara a sÈca de estar l· em cima perfilada, · espera da
-passagem do Senhor dos Passos. E, bella ainda sob os seus cabellos j·
-grisalhos, sÛ ella parecia divertir-se alli, muito · vontade, com os pÈs
-pousados na travessa d'uma cadeira, o binoculo no regaÁo, cumprimentada
-a cada instante, tratando os rapazes por _meninos_... Tinha comsigo uma
-parenta que apresentou a Carlos, uma senhora hespanhola, que seria
-bonita se n„o fossem as olheiras negras, cavadas atÈ ao meio da face.
-Apenas Carlos se sentou ao pÈ d'ella, D. Maria perguntou-lhe logo por
-esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava em
-Celorico compondo uma comedia para se vingar de Lisboa, chamada o
-_LodaÁal_...
-
---Entra o Cohen? perguntou ella, rindo.
-
---Entramos todos, sr.^a D. Maria. Todos nÛs somos lodaÁal...
-
-N'esse momento, por traz do recinto, rompia, com um taran-tan-tan
-molleng„o de tambores e pratos, o hymno da Carta, a que se misturou uma
-voz de official e o bater de coronhas. E, entre dourados de dragonas,
-El-rei appareceu na tribuna, sorrindo, de quinzena de velludo, e chapÈo
-branco. Aqui e alÈm, raros sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a
-senhora hespanhola, essa, tomou o oculo do regaÁo de D. Maria, e de pÈ,
-muito descanÁadamente, poz-se a examinar o rei. D. Maria achava ridicula
-a musica, dando ·s corridas um ar de arraial... AlÈm d'isso, que tolice,
-o hymno, como n'um dia de parada!
-
---E este hymno, ent„o, que È medonho, dizia Carlos. A sr.^a D. Maria n„o
-sabe a definiÁ„o do Ega, e a sua theoria dos hymnos? Maravilhosa!
-
---Aquelle Ega! dizia ella sorrindo, j· encantada.
-
---O Ega diz que o hymno È a definiÁ„o pela musica do caracter d'um povo.
-Tal È o compasso do hymno nacional, diz elle, tal È o movimento moral da
-naÁ„o. Agora veja a sr.^a D. Maria os differentes hymnos, segundo o Ega.
-A _Marselheza_ avanÁa com uma espada n˙a. O _God save the queen_
-adianta-se, arrastando um manto real...
-
---E o hymno da Carta?
-
---O hymno da Carta ginga, de rabona.
-
-E D. Maria ria ainda, quando a hespanhola, sentando-se e repousando-lhe
-tranquillamente o binoculo no regaÁo, murmurou:
-
---Tiene cara de buena persona.
-
---Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos. Excellente!
-
-No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E no quadro indicador
-subiram os numeros dos dois cavallos que corriam o primeiro premio dos
-_Productos_. Eram o n.^o 1 e o n.^o 4. D. Maria Telles quiz-lhe saber os
-nomes, com o appetite de apostar e ganhar cinco tostıes a Carlos. E como
-Carlos se erguia para arranjar um programma:
-
---Deixe estar o menino, disse ella, tocando-lhe no braÁo. Ahi vem o
-nosso Alencar, com o programma... Olhe para aquillo! Veja se ainda hoje
-os ha por ahi com aquelle ar de sentimento e de poesia...
-
-Com um fato novo de cheviote claro que o remoÁava, de luvas gris-perle,
-o seu bilhete de pezagem na botoeira, o poeta vinha-se abanando com o
-programma, e j· de longe sorrindo · sua boa amiga D. Maria. Quando
-chegou junto d'ella, descoberto, bem penteado n'esse dia, com um lustre
-d'oleo na grenha, levou-lhe a m„o aos labios, fidalgamente.
-
-D. Maria fÙra uma das suas lindas contemporaneas. Tinham danÁado muita
-ardente mazurka nos salıes de Arroios. Ella tratava-o por _tu_. Elle
-dizia sempre _boa amiga_, e _querida Maria_.
-
---Deixa vÍr os nomes d'esses cavallos, Alencar... Senta-t'ahi, anda,
-faze companhia.
-
-Elle puchou uma cadeira, rindo do interesse que ella tomava pelas
-corridas. E elle que a conhecera sempre uma enthusiasta de toiros!...
-Pois os nomes dos cavallos eram _Jupiter_ e _Escossez_...
-
---Nenhum d'esses nomes me agrada, n„o aposto. E ent„o que te parece tudo
-isto, Alencar?... A nossa Lisboa vae-se sahindo da concha...
-
-Alencar, pousando o chapÈo sobre uma cadeira, e passando a m„o pela sua
-vasta fronte de bardo, confessou que aquillo tinha realmente um certo ar
-de elegancia, um perfume de cÙrte... Depois, l· em baixo, aquelle
-maravilhoso Tejo... Sem fallar na importancia do apuramento das raÁas
-cavallares...
-
---Pois n„o È verdade, meu Carlos? Tu que entendes superiormente d'isso,
-que Ès um mestre em todos os _sports_, sabes bem que o apuramento...
-
---Sim, com effeito, o apuramento, muito importante...--disse Carlos,
-vagamente, erguendo-se a olhar outra vez · tribuna.
-
-Eram quasi tres horas, e agora, de certo, _ella_ j· n„o vinha: e a
-condessa de Gouvarinho n„o apparecia tambem... ComeÁava a invadil-o uma
-grande lassitude. Respondendo, com um leve movimento de cabeÁa, ao
-sorriso doce que lhe dava da tribuna a Joaninha Villar, pensava em
-voltar para o Ramalhete, acabar tranquillamente a tarde dentro do seu
-robe-de-chambre, com um livro, longe de todo aquelle tÈdio.
-
-No entanto, ainda entravam senhoras. A menina S· Videira, filha do rico
-negociante de sapatos d'ourello, passou pelo braÁo do irm„o, abonecada,
-com o arsinho petulante e enojado de tudo, fallando alto inglez. Depois
-foi a ministra da Baviera, a baroneza de Craben, enorme, empavoada, com
-uma face macissa de matrona romana, a pelle cheia de manchas cÙr de
-tomate, a estalar dentro d'um vestido de gorgor„o azul com riscas
-brancas: e atraz o bar„o, pequenino, amavel, aos pulinhos, com um grande
-chapÈo de palha.
-
-D. Maria da Cunha erguera-se para lhes fallar: e durante um momento
-ouviu-se, como um glou-glou grosso de per˙, a voz da baroneza achando
-_que c'Ètait charmant, c'Ètait trËs beau_. O bar„o, aos pulinhos, aos
-risinhos, _trouvait Áa ravissant_. E o Alencar, diante d'aquelles
-estrangeiros que o n„o tinham saudado, apurava a sua attitude de grande
-homem nacional, retorcendo a ponta dos bigodes, alÁando mais a fronte
-n˙a.
-
-Quando elles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tornou a
-sentar, o poeta, indignado, declarou que abominava allem„es! O ar de
-sobranceria com que aquella ministra, com feitio de barrica deixando
-sahir o cebo por todas as costuras do vestido, o olh·ra, a elle! Ora, a
-insolente baleia!
-
-D. Maria sorria, olhando com sympathia o poeta. E voltando-se de repente
-para a senhora hespanhola:
-
---Concha, deja-me presentar-te D. Thomaz de Alencar, nuestro gran poeta
-lyrico...
-
-N'esse momento, algum dos rapazes mais amadores, dos que traziam
-binoculos a tiracollo, apressaram o passo para a corda da pista. Dois
-cavallos passavam n'um galope sereno, quasi juntos, sob as vergastadas
-estonteadas de dois jockeys de grande bigode. Uma voz erguendo-se disse
-que tinha ganhado _Escossez_. Outros affirmavam que fÙra _Jupiter_. E no
-silencio que se fez, de lassid„o e de desapontamento, ondeou mais viva
-no ar, lanÁada pelos flautins da banda, a valsa de _madame Angot_.
-Alguns sujeitos tinham-se conservado de costas para a pista, fumando,
-olhando a tribuna--onde as senhoras continuavam debruÁadas no parapeito,
-· espera do Senhor dos Passos. Ao lado de Carlos, um cavalheiro resumiu
-as impressıes, dizendo que tudo _aquillo era uma intrujice_.
-
-E quando Carlos se ergueu para ir procurar o Damaso, Alencar, muito
-animado com a hespanhola, fallava de Sevilha, de malagueÒas e do coraÁ„o
-d'Espronceda.
-
-O desejo de Carlos agora era achar Damazo, saber porque falhara a visita
-aos Olivaes--e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquella
-melancolia que o enevoava, estranha e pueril, misturada de
-irritabilidade, fazendo-lhe detestar as vozes que lhe fallavam, os
-rantatans da musica, atÈ a belleza calma da tarde... Mas ao dobrar a
-esquina da tribuna, topou com Craft, que o deteve, o apresentou a um
-rapaz loiro e forte com quem estava fallando alegremente. Era o famoso
-Clifford, o grande sportman de Cordova. Em redor sujeitos tinham parado,
-embasbacados para aquelle inglez legendario em Lisboa, dono de cavallos
-de corridas, amigo do rei d'Hespanha, homem de todos os _chics_. Elle,
-muito · vontade, um pouco _poseur_, com um simples veston de flanella
-azul como no campo, ria alto com o Craft do tempo em que tinham estado
-no collegio de Rugby. Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos, amavelmente.
-N„o se tinham encontrado havia quasi um anno, em Madrid, n'um jantar, em
-casa de Pancho Calderon? E assim era. O aperto de m„o que repetiram foi
-mais intimo--e Craft quiz que fossem regar aquella flor d'amisade com
-uma garrafa de mau Champagne. Em roda crescera a pasmaceira.
-
-O buffete estava installado debaixo da tribuna, sob o taboado n˙, sem
-sobrado, sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de
-taberna com garrafas e pratos de bolos. E, no balc„o tosco, dois
-criados, estonteados e sujos, achatavam · pressa as fatias de sandwiches
-com as m„os humidas da espuma da cerveja.
-
-Quando Carlos e os seus amigos entraram, havia junto d'um dos barrotes
-que especavam os degraus da tribuna, n'um grupo animado, com copos de
-champagne na m„o, o marquez, o visconde de Darque, o Taveira, um rapaz
-pallido de barba preta, que tinha debaixo do braÁo enrolada a bandeira
-vermelha de _Starter_, e o commissario imberbe, com o chapÈo branco cada
-vez mais atirado para a nuca, a face mais esbrazeada, o collarinho j·
-molle de suor. Era elle que offerecia o champagne; e apenas viu entrar
-Clifford, rompeu para elle, de taÁa no ar, fez tremer as vigas, soltando
-o seu vozeir„o:
-
---¡ saude do amigo Clifford! o primeiro sportman da penÌnsula, e rapaz
-c· dos nossos!... Hip hip, hurrah!
-
-Os copos ergueram-se, n'um clamor d'hurrahs, onde destacou, vibrante e
-enthusiasta, a voz do _starter_. Clifford agradecia, risonho, tirando
-lentamente as luvas--em quanto o marquez, puxando Carlos pelo braÁo para
-o lado, lhe apresentava rapidamente o commissario, seu primo D. Pedro
-Vargas.
-
---Muito gosto em conhecer...
-
---Qual historias! Eu È que fazia furor! exclamou o commissario. C· a
-rapaziada do sport deve-se conhecer toda... Porque isto c· È a
-confraria, e todo o resto È chinfrinada!
-
-E immediatamente arrebatou o copo ao ar, berrou com um impeto que lhe
-trazia mais sangue · face:
-
---¡ saude de Carlos da Maia, o primeiro elegante c· da patria! a melhor
-m„o de redea... Hip, hip, hurrah...
-
---Hip, hip, hip... Hurrah!
-
-E foi ainda a voz do starter que deu o _hurrah_ mais vibrante e mais
-enthusiasta.
-
-Um empregado assomou · porta do buffete, e chamou o sr. commissario. O
-Vargas atirou uma libra para o balc„o, abalou, gritando j· de fÛra, com
-o olho acceso:
-
---Isto vae-se animando, rapazes! Caramba! … carregar no liquido! E vocÍ,
-oh l· de baixo, o patr„o, sÙ Manuel, mande vir esse gelo... Est· a gente
-aqui a tomar a bebida quente... Despache um proprio, v· vocÍ, rebente!
-Irra!
-
-No entanto em quanto se desarrolhava o champagne de Craft, Carlos tinha
-convidado Clifford a jantar n'essa noite no Ramalhete. O outro acceitou,
-molhando os labios no copo, achando excellente que se continuasse a
-tradiÁ„o de jantarem juntos, sempre que se encontravam.
-
---Ol·! o general por aqui! exclamou Craft.
-
-Os outros voltaram-se. Era o Sequeira, com a face como um piment„o,
-entalado n'uma sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapeu
-branco sobre o olho, e grande chicote debaixo do braÁo.
-
-Acceitou um copo de Champagne, e teve muito prazer em conhecer o sr.
-Clifford...
-
---E que me diz vocÍ a esta semsaboria? exclamou elle logo, voltando-se
-para Carlos.
-
-Em quanto a si estava contente, pulava... Aquella corrida insipida, sem
-cavallos, sem jockeys, com meia duzia de pessoas a bocejar em roda,
-dava-lhe a certeza que eram talvez as ultimas, e que o _Jockey-Club_
-rebentava... E ainda bem! Via-se a gente livre d'um divertimento que n„o
-estava nos habitos do paiz. Corridas era para se apostar. Tinha-se
-apostado? N„o, ent„o historias!... Em Inglaterra e em FranÁa, sim! Ahi
-eram um jogo como a roletta, ou como o monte... AtÈ havia banqueiros,
-que eram os _bookmakers_... Ent„o j· viam!
-
-E como o marquez, pousando o copo, e querendo calmar o general, fallava
-do apuramento das raÁas, e da remonta,--o outro ergueu os hombros, com
-indignaÁ„o:
-
---Que me est· vocÍ a cantar! Quer vocÍ dizer que se apura a raÁa para a
-remonta da cavallaria?... Ora v· l· montar o exercito com cavallos de
-corridas!... Em serviÁo o que se quer n„o È o cavallo que corra mais, È
-o cavallo que aguente mais... O resto È uma historia... Cavallos de
-corridas s„o phenomenos! S„o como o boi com duas cabeÁas... Ent„o
-historias!... Em FranÁa atÈ lhe d„o Champagne, homem!... Ent„o veja l·!
-
-E a cada phrase, sacudia os hombros, furiosamente. Depois, d'um trago,
-esvasiou o seu copo de Champagne, repetiu que tinha muito prazer em
-conhecer o sr. Clifford, rodou sobre os tacıes, sahiu, bufando,
-entalando mais debaixo do braÁo o chicote--que tremia na ponta como
-avido de vergastar alguem.
-
-Craft sorria, batia no hombro de Clifford.
-
---Veja vocÍ! c· nÛs, velhos portuguezes, n„o gostamos de novidades, e de
-_sports_... Somos pelo toiro...
-
---Com raz„o, dizia o outro, serio e aprumando-se sobre o collarinho.
-Ainda ha dias me contava na Granja, o Rei de Hespanha...
-
-De repente, fÛra, houve um reboliÁo, e vozes sobresaltadas gritando
-_ordem_! Uma senhora, que atravessava com um pequenito, fugiu para
-dentro do buffete, enfiada. Um policia passou, correndo.
-
-Era uma desordem!
-
-Carlos e os outros, sahindo · pressa, viram ao pÈ da tribuna real um
-magote de homens--onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os
-rapazes corriam com curiosidade, j· excitados, apinhando-se, alÁando-se
-em bicos de pÈs; do recinto das carruagens acudiam outros, saltando as
-cordas da pista, apesar dos repellıes dos policias:--e agora era uma
-massa tumultuosa de chapÈos altos, de fatos claros, empurrando-se contra
-as escadas da tribuna real, onde um ajudante d'el-rei, reluzente de
-agulhetas e em cabello, olhava tranquillamente.
-
-E Carlos, furando, poude emfim avistar no meio do mont„o um dos sujeitos
-que correra no premio dos Productos, o que montava _Jupiter_, ainda de
-botas, com um paletot alvadio por cima da jaqueta de jockey, furioso,
-perdido, injuriando o juiz das corridas, o MendonÁa, que arregalava os
-olhos, aturdido e sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-n'o,
-queriam que elle fizesse um protesto. Mas elle batia o pÈ, tremulo,
-livido, gritando que n„o se importava nada com protestos! Perdera a
-corrida por uma pouca vergonha! O protesto alli era um arrocho! Porque o
-que havia n'aquelle hyppodromo era compadrice e ladroeira!
-
-Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade.
-
---FÛra! FÛra!
-
-Alguns tomavam o partido do jockey; j· aos lados outras questıes
-surgiam, desabridas. Um sujeito vestido de cinzento berrava que o
-MendonÁa decidira pelo Pinheiro, que montava _Escossez_, por ser intimo
-d'elle; outro cavalheiro, de binoculo a tiracollo, achava aquella
-insinuaÁ„o infame; e os dois, frente a frente, com os punhos fechados,
-tratavam-se furiosamente de _pulhas_.
-
-E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes collarinhos de
-pintinhas, procurava romper, erguia os braÁos, exclamava, n'uma voz
-supplicante e rouca:
-
---Por quem s„o, meus senhores... Um momento... Eu tenho experiencia...
-Eu tenho experiencia!
-
-De repente o vozeir„o do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro.
-Diante do jockey, sem chapÈo, com a face a estoirar de sangue,
-gritava-lhe que era indigno de estar alli, entre gente decente! Quando
-um gentleman duvida do juiz da corrida, faz um protesto! Mas vir dizer
-que ha ladrıes, era sÛ d'um canalha e d'um fadista, como elle, que nunca
-devia ter pertencido ao Jockey-Club!--O outro, agarrado pelos amigos,
-esticando o pescoÁo magro como para lhe morder, atirou-lhe um nome sujo.
-Ent„o o Vargas, com um encontr„o para os lados, abriu espaÁo, repuxou as
-mangas, berrou:
-
---Repita l· isso! repita l· isso!
-
-E immediatamente aquella massa de gente oscillou, embateu contra o
-taboado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de _ordem_ e
-_morra_, chapÈos pelo ar, baques surdos de murros.
-
-Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da policia;
-senhoras, com as saias apanhadas, fugiam atravez da pista, procurando
-espavoridamente as carruagens;--e um sopro grosseiro de desordem relles
-passava sobre o hyppodromo, desmanchando a linha postiÁa de civilisaÁ„o
-e a attitude forÁada de decoro...
-
-Carlos achou-se ao pÈ do marquez, que exclamava, pallido:
-
---Isto È incrivel, isto È incrivel!...
-
-Carlos, pelo contrario, achava pittoresco.
-
---Qual pittoresco, homem! … uma vergonha, com todos esses estrangeiros!
-
-No entanto a massa de gente dispersava, lentamente, obedecendo ao
-official de guarda, um moÁo pequenino mas decidido, que, em bicos de
-pÈs, aconselhava para os lados, n'uma voz de orador, ´cavalheirismoª e
-´prudencia...ª O jockey de paletot alvadio affastou-se, apoiado ao braÁo
-d'um amigo, cocheando, com o nariz a pingar sangue: e o commissario
-desceu para a pista, com um cortejo atraz, triumphante, sem collarinho,
-arranjando o chapÈo achatado n'uma pasta. A musica tocava a marcha do
-_Propheta_; em quanto o desgraÁado juiz das corridas, o MendonÁa,
-encostado · tribuna real, com os braÁos cahidos, aparvalhado, balbuciava
-n'um resto d'assombro:
-
---Isto sÛ a mim! Isto sÛ a mim!
-
-O marquez, n'um grupo a que se junt·ra o Clifford, Craft, e Taveira,
-continuava a vociferar:
-
---Ent„o, est„o convencidos? Que lhes tenho eu sempre dito? Isto È um
-paiz que sÛ supporta hortas e arraiaes... Corridas, como muitas outras
-coisas civilisadas l· de fÛra, necessitam primeiro gente educada. No
-fundo todos nÛs somos fadistas! Do que gostamos È de vinhaÁa, e viola, e
-bordoada, e viva l· seu compadre! Ahi est· o que È!
-
-Ao lado d'elle Clifford, que no meio d'aquelle desmancho todo esticava
-mais correctamente a sua linha de gentleman, mordia um sorriso,
-assegurando, com um ar de consolaÁ„o, que conflictos eguaes succedem em
-toda a parte... Mas no fundo parecia achar tudo aquillo ignobil.
-Dizia-se mesmo que elle ia retirar a _Mist_. E alguns davam-lhe raz„o.
-Que diabo! Era aviltante para um bello animal de raÁa correr n'um
-hyppodromo sem ordem e sem decencia, onde a todo o momento podiam
-reluzir navalhas.
-
---Ouve c·, tu viste por acaso esse animal do Damaso? perguntou Carlos,
-chamando para o lado o Taveira. Ha uma hora que ando a farejal-o...
-
---Estava ainda ha pouco do outro lado, no recinto das carruagens, com a
-Josephina do Salazar... Anda extraordinario, de sobrecasaca branca, e de
-vÈo no chapÈo!
-
-Mas, quando d'ahi a pouco, Carlos quiz atravessar, a pista estava
-fechada. Ia-se correr o _Grande premio nacional_. Os numeros j· tinham
-subido ao indicador, um tom de sineta morria no ar. Um cavallo do
-Darque, o _Rabbino_, com o seu jockey de encarnado e branco, descia,
-trazido · redea por um groom e acompanhado pelo Darque: alguns sujeitos
-paravam a examinar-lhe as pernas, com o olho serio, affectando entender.
-Carlos demorou-se um momento tambem, admirando-o: era d'um bonito
-castanho escuro, nervoso e ligeiro, mas com o peito estreito.
-
-Depois, ao voltar-se, viu de repente a Gouvarinho, que acabava de certo
-de chegar, e conversava de pÈ com D. Maria da Cunha. Estava com uma
-toilette ingleza, justa e simples, toda de cazimira branca, d'um branco
-de creme, onde as grandes luvas negras · mosqueteira punham um contraste
-audaz: e o chapÈo preto tambem desapparecia sob as pregas finas d'um vÈo
-branco, enrolado em volta da cabeÁa, cobrindo-lhe metade do rosto, com
-um ar oriental que n„o Ìa bem ao seu narizinho curto, ao seu cabello cÙr
-de braza. Mas em redor os homens olhavam para ella como para um quadro.
-
-Ao avistar Carlos, a condessa n„o conteve um sorriso, um brilho de olhos
-que a illuminou. Instinctivamente deu um passo para elle: e ficaram um
-instante isolados, fallando baixo, em quanto D. Maria os observava,
-sorrindo, cheia j· de benevolencia, prompta j· a abenÁoal-os
-maternalmente.
-
---Estive para n„o vir, dizia a condessa, que parecia nervosa. O Gast„o
-fez-se t„o desagradavel hoje! E naturalmente tenho d'ir ·manh„ para o
-Porto.
-
---Para o Porto?...
-
---O pap· quer que eu l· v·, s„o os annos d'elle... Coitado, vae-se
-fazendo velho, escreveu-me uma carta t„o triste... Ha dois annos que me
-n„o vÍ...
-
---O conde vae?
-
---N„o.
-
-E a condessa, depois de dar um sorriso ao ministro da Baviera, que a
-cumprimentava de passagem, aos pulinhos, acrescentou, mergulhando o
-olhar nos olhos de Carlos:
-
---E quero uma coisa.
-
---O que?
-
---Que venhas tambem.
-
-Justamente n'esse instante, Telles da Gama, de programma e lapis na m„o,
-parou junto d'elles:
-
---VocÍ quer entrar n'uma _poule_ monstro, Maia? Quinze bilhetes, dez
-tostıes cada um... L· em cima ao canto da tribuna est·-se apostando
-ferozmente... A desordem fez bem, sacudiu os nervos, todo o mundo
-acordou... Quer v. ex.^a tambem, sr.^a condessa?
-
-Sim, a condessa tambem entrava na _poule_. Telles da Gama inscreveu-a, e
-abalou atarefado. Depois foi Steinbroken que se acercou, todo florÌdo,
-de chapÈo branco, ferradura de rubis na gravata, mais esticado, mais
-loiro, mais inglez, n'este dia solemne de _sport_ official.
-
---Ah, comme vous Ítes belle, comtesse!... Voil· une toilette
-merveilleuse, n'est ce pas, Maia?... Est ce que nous n'allons pas parier
-quelque chose?
-
-A condessa contrariada, querendo fallar a Carlos, risonha todavia,
-lamentou-se de ter j· uma fortuna compromettida... Emfim sempre apostava
-cinco tostıes com a Filandia. Que cavallo tomava elle?
-
---Ah, je ne sais pas, je ne connais pas les chevaux... D'abord, quand on
-parie...
-
-Ella, impaciente, offereceu-lhe _Vladimiro_. E teve de estender a m„o a
-outro filandez, o secretario de Steinbroken, um moÁo loiro, lento,
-languido, que se curvara em silencio diante d'ella, deixando escorregar
-do olho claro e vago o seu monoculo d'ouro. Quasi immediatamente Taveira
-excitado veiu dizer que Clifford retirara a _Mist_.
-
-Vendo-a, assim cercada, Carlos affastou-se. Justamente o olhar de D.
-Maria, que o n„o deixara, chamava-o agora, mais carinhoso e vivo. Quando
-elle se chegou, ella puxou-lhe pela manga, fel-o debruÁar, para lhe
-murmurar ao ouvido, deliciada:
-
---Est· hoje t„o galante!
-
---Quem?
-
-D. Maria encolheu os hombros, impaciente.
-
---Ora quem! Quem ha-de ser? O menino sabe perfeitamente. A condessa...
-Est· de appetite.
-
---Muito galante, com effeito, disse Carlos friamente.
-
-De pÈ, junto de D. Maria, tirando de vagar uma cigarrette, elle
-ruminava, quasi com indignaÁ„o, as palavras da condessa. Ir com ella
-para o Porto!... E via alli outra exigencia audaz, a mesma tendencia
-impertinente a dispÙr do seu tempo, dos seus passos, da sua vida! Tinha
-um desejo de voltar junto d'ella, dizer-lhe que _n„o_, seccamente,
-desabridamente, sem motivos, sem explicaÁıes, como um brutal.
-
-Acompanhada em silencio pelo esguio secretario de Steinbroken, ella
-vinha agora caminhando lentamente para elle: e o olhar alegre com que o
-envolvia irritou-o mais, sentindo no seu brilho sereno, no sorrir calmo,
-quanto ella estava certa da sua submiss„o.
-
-E estava. Apenas o filandez se affastou languidamente--ella, muito
-tranquilla, alli mesmo junto de D. Maria, fallando em inglez, e
-apontando para a pista como se commentasse os cavallos do Darque,
-explicou-lhe um plano que imaginara, encantador. Em logar de partir na
-terÁa feira para o Porto--ia na segunda · noite, sÛ com a criada
-escocessa, sua confidente, n'um compartimento reservado. Carlos tomava o
-mesmo comboio. Em Santarem, desciam ambos, muito simplesmente, e iam
-passar a noite ao hotel. No dia seguinte ella seguia para o Porto, elle
-recolhia a Lisboa...
-
-Carlos abria os olhos para ella, assombrado, emmudecido. N„o esperava
-aquella extravagancia. Suppozera que ella o queria no Porto, escondido
-no _Francfort_, para passeios romanticos · Foz, ou visitas furtivas a
-algum casebre da Aguardente... Mas a idÈa d'uma noite, n'um hotel, em
-Santarem!
-
-Terminou por encolher os hombros, indignado. Como queria ella, n'uma
-linha de caminho de ferro em que se encontra constantemente gente
-conhecida, apear-se com elle na estaÁ„o de Santarem, dar-lhe o braÁo,
-maritalmente, e enfiarem para uma estalagem? Ella, porÈm, pens·ra em
-todos os detalhes. Ninguem a conheceria, disfarÁada n'um grande
-_water-proof_, e com uma cabelleira postiÁa.
-
---Com uma cabelleira!?
-
---O Gast„o! murmurou ella de repente.
-
-Era o conde, por traz d'elle, abraÁando-o ternamente pela cintura. E
-quiz logo saber a opini„o do amigo Maia sobre as corridas. Bastante
-animaÁ„o, n„o È verdade? E bonitas _toilettes_, certo ar de luxo...
-Emfim, n„o envergonhavam. E ahi estava provado o que elle sempre
-dissera, que todos os requintes da civilisaÁ„o se aclimatavam bem em
-Portugal...
-
---O nosso solo moral, Maia, como o nosso solo physico, È um solo
-abenÁoado!
-
-A condessa voltara para o pÈ de D. Maria. E Telles da Gama, passando de
-novo, n'aquella faina ruidosa em que o trazia a formaÁ„o da sua _poule_,
-chamou Carlos para a tribuna, para elle tirar o seu bilhete, e apostar
-com as senhoras...
-
---Oh Gouvarinho! venha tambem d'ahi, homem! exclamou elle. Que diabo! …
-necessario animar isto, È atÈ patriotico.
-
-E o conde condescendeu, por patriotismo.
-
---… bom, dizia elle, travando do braÁo de Carlos, fomentar os
-divertimentos elegantes. J· uma vez o disse na camara: o luxo È
-conservador.
-
-Em cima, a um canto, n'um grupo de senhoras, foram com effeito encontrar
-uma animaÁ„o--que quasi fazia escandalo n'aquella tribuna silenciosa e ·
-espera do Senhor dos Passos. A viscondessa de Alvim dobrava
-atarefadamente os bilhetes da _poule_: uma secretariasinha da Russia, de
-bonitos olhos garÁos, apostava desesperadamente placas de cinco tostıes,
-estonteada, j· embrulhada, rabiscando com phrenesi o seu programma. A
-Pinheiro, a mais magra, com um vestido leve de raminhos Pompadour que
-lhe fazia covas nas claviculas, dava opiniıes pretenciosas sobre os
-cavallos, em inglez: emquanto o Taveira, de olhos humidos no meio de
-todas aquellas saias, fallava de arruinar as senhoras, de viver · custa
-das senhoras... E todos os homens, acotovelando-se, queriam fazer uma
-aposta com a Joanninha Villar, que, de costas contra o rebordo da
-tribuna, gordinha e languida, sorrindo, com a cabeÁa deitada para traz,
-as pestanas mortas, parecia offerecer a todas aquellas m„os, que se
-estendiam gulosamente para ella, o seu appetitoso peito de rola.
-
-Telles da Gama, no entanto, ia organisando a confus„o alegre. Os
-bilhetes estavam dobrados, era necessario um chapÈo... Ent„o os
-cavalheiros affectaram um amor desordenado pelos seus chapÈos, n„o os
-querendo confiar ·s m„os nervosas das senhoras; um rapaz, todo de luto,
-excedeu-se mesmo, agarrando as abas do seu, com ambas as m„os, aos
-gritos.
-
-A secretariasinha da Russia, impaciente, terminou por offerecer o
-barrete de marujo do seu pequeno--uma creanÁa obesa, pousada alli para
-um lado como uma trouxa. Foi a Joanninha Villar que levou em roda os
-bilhetes, rindo e chocalhando-os preguiÁosamente; emquanto o secretario
-de Steinbroken, grave, como exercendo uma funcÁ„o, recolhia no seu
-grande chapÈo as placas cahindo uma a uma com um som argentino. E a
-tiragem foi o lindo divertimento da _poule_. Como estavam sÛ quatro
-cavallos inscriptos, e as entradas eram quinze, havia onze bilhetes
-brancos que aterravam. Todos ambicionavam tirar o numero tres, o de
-_Rabbino_, o cavallo de Darque, favorito do _Premio Nacional_. Assim
-cada m„osinha soffrega que se demorava no fundo do barrete, remexendo,
-tenteando os papeis, causava uma indignaÁ„o folgas„, n'um exagero de
-risos.
-
---A sr.^a viscondessa procura de mais!... E dobrou os numeros,
-conhece-os... … necessario probidade, sr.^a viscondessa!
-
---Oh, mon Dieu, j'ai _Minhoto_, cette rosse!
-
---Je vous l'achette, madame!
-
---” sr.^a D. Maria Pinheiro, v. ex.^a leva dous numeros!...
-
---Ah! je suis perdue... Blanc!
-
---E eu! … necessario fazer outra _poule_! Vamos fazer outra _poule_!
-
---Isso! Outra _poule_, outra _poule_!
-
-No entanto a enorme baroneza de Craben, n'um degrau mais elevado, que
-ella occupava sÛ, como um throno, erguera-se, com o seu bilhete na m„o.
-Tinha tirado _Rabbino_: e affectava superiormente n„o comprehender esta
-fortuna, perguntava o que era _Rabbino_. Quando o conde de Gouvarinho
-lhe explicou muito serio a importancia de _Rabbino_, e que _Rabbino_ era
-quasi uma gloria publica, ella mostrou a dentuÁa, condescendeu em rosnar
-do fundo do papo que _c'etait charmant_. Todo o mundo a invejava; e a
-vasta baleia alastrou-se de novo sobre o seu throno, abanando-se, com
-magestade.
-
-E subitamente houve uma surpreza: em quanto elles tiravam os bilhetes,
-os cavallos tinham partido, passavam juntos diante da tribuna. Todos se
-ergueram, de binoculos na m„o. O _starter_ ainda estava na pista, com a
-bandeira vermelha inclinada ao ch„o: e as ancas de cavallos fugiam na
-curva, lustrosos · luz, sob as jaquetas enfunadas dos jockeys.
-
-Ent„o todo o rumor de vozes caiu; e no silencio a bella tarde pareceu
-alargar-se em redor, mais suave e mais calma. Atravez do ar sem poeira,
-sem a vibraÁ„o dos raios fortes, tudo tomava uma nitidez delicada:
-defronte da tribuna, na collina, a relva era d'um louro quente; no grupo
-de carruagens scintillava por vezes o vidro de uma lanterna, o metal de
-um arreio, ou de pÈ, sobre uma almofada, destacava em escuro alguma
-figura de chapeo alto; e pela pista verde, os cavallos corriam, mais
-pequenos, finamente recortados na luz. Ao fundo, a cal das casas
-cobria-se de uma leve agoada cÙr de rosa: e o distante horisonte
-resplandecia, com dourados de sol, brilhos de rio vidrado, fundindo-se
-n'uma nevoa luminosa, onde as collinas, nos seus tons azulados, tinham
-quasi transparencia, como feitas d'uma substancia preciosa...
-
---… _Rabbino_! exclamou por traz de Carlos, um sugeito, de pÈ n'um
-degrau.
-
-As cÙres encarnadas e brancas do Darque corriam com effeito na frente.
-Os dous outros cavallos iam juntos; e, o ultimo, n'um galope que
-adormecia, era _Vladimiro_, outro potro do Darque, baio-claro, quasi
-louro · luz.
-
-Ent„o, a secretaria da Russia bateu as palmas, interpellou Carlos, que
-justamente tirara na poule o numero de _Vladimiro_. A ella coubera
-_Minhoto_, uma pileca melancolica do Manoel Godinho; e tinham feito
-sobre os dous cavallos uma aposta complicada de luvas e de amendoas. J·
-umas poucas de vezes os seus lindos olhos garÁos tinham procurado os de
-Carlos; e agora tocava-lhe no braÁo com o leque, gracejava,
-triumphava...
-
---Ah, vous avez perdu, vous avez perdu! Mais c'est un vieux cheval de
-fiacre, vÙtre _Vladimir_.
-
-Como um cavallo de fiacre? _Vladimiro_ era o melhor potro do Darque!
-Talvez ainda viesse a ser a unica gloria de Portugal, como outr'ora o
-_Gladiador_ fÙra a unica gloria da FranÁa! Talvez ainda substituisse
-Camıes...
-
---Ah, vous plaisantez...
-
-N„o, Carlos n„o gracejava. Estava atÈ prompto a apostar tudo por
-_Vladimiro_.
-
---VocÍ aposta por _Vladimiro_? gritou Telles da Gama, voltando-se
-vivamente.
-
-Carlos, por divertimento, sem mesmo saber por quÍ, declarou que tomava
-_Vladimiro_. Ent„o, em roda, foi uma surpreza; e todo o mundo quiz
-apostar, aproveitar-se d'aquella phantasia de homem rico, que sustentava
-um potro verde, de tres quartos de sangue, a que o proprio Darque
-chamava _pileca_. Elle sorria, aceitava; terminou ate por erguer a voz,
-proclamar _Vladimiro contra o campo_. E de todos os lados o chamavam,
-n'uma sofreguid„o de saque.
-
---Mr. de Maia, dix tostons.
-
---Parfaitement, madame.
-
---Oh Maia, vocÍ quer meia libra?
-
---¡s ordens.
-
---Maia, tambem eu! OuÁa l·... Tambem eu!... Dous mil rÈis.
-
---” sr. Maia, eu vou dez tostıes...
-
---Com o maior prazer, minha senhora...
-
-Ao longe os cavallos davam a volta, na subida do terreno. _Rabbino_ já
-desapparecera,--e _Vladimiro_ n'um galope a que se sentia o canÁasso,
-corria só na pista. Uma voz elevou-se, dizendo que elle manquejava.
-Então Carlos, que continuava a tomar _Vladimiro_ contra o campo, sentiu
-que lhe puxavam de vagar pela manga; voltou-se; era o secretario de
-Steinbroken, chegando subtilmente a tomar tambem parte no saque á bolsa
-do Maia, propondo dous soberanos, em seu nome e em nome do seu chefe,
-como uma aposta collectiva da legação, a aposta do reino da Filandia.
-
---C'est fait, monsieur! exclamou Carlos, rindo.
-
-Agora comeÁava a divertir-se. Apenas vira de relance _Vladimiro_, e
-gostara da cabeÁa ligeira do potro, do seu peito largo e fundo; mas
-apostava sobre tudo para animar mais aquelle recanto da tribuna, ver
-brilhar gulosamente os olhos interesseiros das mulheres. Telles da Gama
-ao lado approvava-o, achava aquillo patriotico e _chic_.
-
---… _Minhoto_! gritou de repente Taveira.
-
-Na volta, com effeito, fizera-se uma mudanÁa. Subitamente _Rabbino_
-perdera terreno, resistindo · subida, com o folego curto. E agora era
-_Minhoto_, o cavallicoque obscuro de Manuel Godinho, que se arremessava
-para a frente, vinha devorando a pista, n'um esforÁo continuo,
-admiravelmente montado por um jockey hespanhol. E logo atraz vinham as
-cÙres escarlates e brancas de Darque: ao principio ainda pareceu que era
-_Rabbino_: mas, apanhado de repente n'um raio oblÌquo de sol, o cavallo
-cobriu-se de tons lustrosos de baio claro, e foi uma surpreza ao
-reconhecer-se que era _Vladimiro_! A corrida travava-se entre elle e
-_Minhoto_.
-
-Os amigos de Godinho, precipitando-se para a pista, bradavam, de chapÈos
-no ar:
-
---_Minhoto, Minhoto!_
-
-E, em redor de Carlos, os que tinham apostado pelo campo contra
-_Vladimiro_ faziam tambem votos por _Minhoto_, em bicos de pÈs, junto do
-parapeito da tribuna, estendendo o braÁo para elle, animando-o:
-
---Anda _Minhoto_!... Isso, assim!... Aguenta, rapaz!... Bravo!...
-_Minhoto! Minhoto!_
-
-A russa, toda nervosa, na esperanÁa de ganhar a _poule_, batia as
-palmas. AtÈ a enorme Craben se erguera, dominando a tribuna, enchendo-a
-com os seus gorgorıes azues e brancos:--em quanto que, ao lado d'ella, o
-conde de Gouvarinho, tambem de pÈ, sorria, contente no seu peito de
-patriota, vendo n'aquelles jockeys · desfilada, nos chapÈos que se
-agitavam, brilhar civilisaÁ„o...
-
-De repente, de baixo, d'ao pÈ da tribuna, d'entre os rapazes que
-cercavam o Darque, uma exclamaÁ„o partiu.
-
---_Vladimiro! Vladimiro!_
-
-Com um arranque desesperado o potro viera juntar-se a _Minhoto_: e agora
-chegavam furiosamente, com brilhos vivos de cÙres claras, os focinhos
-juntos, os olhos esbogalhados, sob uma chuva de vergastadas.
-
-Telles da Gama, esquecido da sua aposta, todo pelo Darque, seu intimo,
-berrava por _Vladimiro_. A russa, de pÈ n'um degrau, apoiada sobre o
-hombro de Carlos, pallida, excitada, animava _Minhoto_ com gritinhos,
-com pancadas de leque. A agitaÁ„o d'aquelle canto da tribuna
-estendera-se em baixo ao recinto--onde se via uma linha de homens,
-contra a corda da pista, bracejando. Do outro lado, era uma fila de
-rostos pallidos, fixos n'uma curta anciedade. Algumas senhoras tinham-se
-posto de pÈ nas carruagens. E atravez da collina, para ver a chegada,
-dous cavalleiros, segurando com as m„os os chapÈos baixos, corriam ·
-desfilada.
-
---_Vladimiro! Vladimiro!_ foram de novo os gritos isolados, aqui, alÈm.
-
-Os dous cavallos approximavam-se, com um som surdo das patas, trazendo
-um ar de rajada.
-
---_Minhoto! Minhoto!_
-
---_Vladimiro! Vladimiro!_
-
-Chegavam... De repente o jockey inglez de _Vladimiro_, todo em fogo,
-levantando o potro que lhe parecia fugir d'entre as pernas, esticado e
-lustroso, fez silvar triumphantemente o chicote, e d'um arremesso
-directo lanÁou-o alÈm da meta, duas cabeÁas adiante de _Minhoto_, todo
-coberto d'espuma.
-
-Ent„o em volta de Carlos foi uma desconsolaÁ„o, um longo murmurio de
-lassid„o. Todos perdiam; elle apanhava a _poule_, ganhava as apostas,
-empolgava tudo. Que sorte! Que chance! Um addido italiano, thesoureiro
-da _poule_, empallideceu ao separar-se do lenÁo cheio de prata: e de
-todos os lados m„osinhas calÁadas de gris-perle, ou de castanho,
-atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de placas que
-elle recolhia, rindo, no chapÈo.
-
---Ah, monsieur, exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa,
-mefiez-vous... Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu...
-
---Helas! madame! disse Carlos, resignado, estendendo-lhe o chapÈo.
-
-E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no braÁo. Era o secretario de
-Steinbroken, lento e silencioso, que lhe trazia o seu dinheiro e o
-dinheiro do seu chefe, a aposta do reino da Filandia.
-
---Quanto ganha vocÍ? exclamou Telles da Gama, assombrado.
-
-Carlos n„o sabia. No fundo do chapÈo j· reluzia ouro. Telles contou, com
-o olho brilhante.
-
---VocÍ ganha doze libras! disse elle maravilhado, e olhando Carlos com
-respeito.
-
-Doze libras! Esta somma espalhou-se em redor, n'um rumor de espanto.
-Doze libras! Em baixo os amigos de Darque, agitando os chapÈos, davam
-ainda _hurrahs_. Mas uma indifferenÁa, um tedio lento, ia pesando outra
-vez, desconsoladoramente. Os rapazes vinham-se deixar cahir nas
-cadeiras, bocejando, com um ar exhausto. A musica, desanimada tambem,
-tocava cousas plangentes da _Norma_.
-
-Carlos, no entanto, n'um degrau da tribuna, com a idÈa de descobrir o
-Damaso, sondava de binoculo o recinto das carruagens. A gente, agora, ia
-dispersando pela collina. As senhoras tinham retomado a immobilidade
-melancolica, no fundo das caleches, de m„os no regaÁo. Aqui e alÈm um
-dog-cart, mal arranjado, dava um trote curto pela relva. N'uma vittoria
-estavam as duas hespanholas do Eusebiosinho, a Concha e a Carmen, de
-sombrinhas escarlates. E sujeitos, de m„os atr·s das costas, pasmavam
-para um char-‡-bancs a quatro attrelado · Daumont onde, entre uma
-familia triste, uma ama de lenÁo de lavradeira dava de mamar a uma
-creanÁa cheia de rendas. Dous garotos esganiÁados passeavam bilhas
-d'agua fresca.
-
-Carlos descia da tribuna, sem ter descoberto o Damaso--quando deu
-justamente de frente com elle, dirigindo-se para a escada, affogueado,
-flamante, na sua famosa sobrecasaca branca.
-
---Onde diabo tens tu estado, creatura?
-
-O Damaso agarrou-o pelo braÁo, alÁou-se em bicos de pÈs, para lhe contar
-ao ouvido que tinha estado do outro lado com uma gaja divina, a
-Josephina do Zalazar... Chic a valer! lindamente vestida! parecia-lhe
-que tinha mulher!
-
---Ah, Sardanapalo!...
-
---Faz-se pela vida... Volta c· acima · tribuna, anda. Eu ainda hoje n„o
-pude cavaquear com o _high-life_!... Mas estou furioso, sabes?
-Implicaram com o meu veo azul. Isto È um paiz de bestas! Logo troÁa, e
-_olhe n„o creste a pelle_, e _onde mora, Û catitinha?_ e chalaÁa... Uma
-canalha! Tive de tirar o veo ... Mas j· resolvi. Para as outras corridas
-venho n˙. Palavra, venho n˙! Isto È a vergonha da civilisaÁ„o, esta
-terra! N„o vens d'ahi? Ent„o atÈ j·.
-
-Carlos deteve-o.
-
---Escuta l· homem, tenho que te dizer... Ent„o, essa visita aos
-Olivaes?... Nunca mais appareceste... Tinhamos combinado que fosses
-convidar o Castro Gomes, que viesses dar a resposta... N„o vens, n„o
-mandas... O Craft · espera... Emfim um procedimento de selvagem.
-
-Damaso atirou os braÁos ao ar. Ent„o Carlos n„o sabia? Havia grandes
-novidades! Elle n„o voltara ao Ramalhete, como estava combinado, porque
-o Carlos Gomes n„o podia ir aos Olivaes. Ia partir para o Brazil. J·
-partir· mesmo, na quarta feira. A coisa mais extraordinaria... Elle
-chega l·, para fazer o convite, e s. ex.^a declara-lhe que sente muito,
-mas que parte no dia seguinte para o Rio... E j· de mala feita, j·
-alugada uma casa para a mulher ficar aqui · espera tres mezes, j· a
-passagem no bolso. Tudo de repente, feito de sabbado para segunda
-feira... Telhudo, aquelle Castro Gomes.
-
---E l· partiu, exclamou elle, voltando-se a cumprimentar a viscondessa
-d'Alvim e Joanninha Villar que desciam das tribunas. L· partiu, e ella
-j· est· installada. AtÈ j· antes de hontem a fui visitar, mas n„o estava
-em casa... Sabes do que tenho medo? … que ella, n'estes primeiros
-tempos, por causa da visinhanÁa, como est· sÛ, n„o queira que eu l· v·
-muito... Que te parece?
-
---Talvez... E onde mora ella?
-
-Em quatro palavras, Damaso explicou a installaÁ„o de madame. Era muito
-engraÁado, morava no predio do Cruges! A mam„ Cruges, havia j· annos,
-alugava aquelle primeiro andar mobilado: o inverno passado estivera l· o
-Bertonni, o tenor, com a familia. Casa bem arranjada, o Castro Gomes
-tinha tido dedo...
-
---E para mim, muito commodo, ali ao pÈ do Gremio... Ent„o n„o voltas c·
-acima, a cavaquear com o femeaÁo? AtÈ logo... Est· hoje chic a valer a
-Gouvarinho! E est· a pedir homem! _Good-bye_.
-
-Defronte de Carlos a condessa de Gouvarinho, no grupo de D. Maria a que
-se viera juntar a Alvim e Joanninha Villar, n„o cessava de o chamar com
-o olhar inquieto, torturando o seu grande leque negro. Mas elle n„o
-obedeceu logo, parado ao pÈ dos degraus da tribuna, accendendo vagamente
-uma cigarrette, perturbado por todas aquellas palavras do Damaso que lhe
-deixavam n'alma um sulco luminoso. Agora que a sabia sÛ em Lisboa,
-vivendo na mesma casa do Cruges, parecia-lhe que j· a conhecia,
-sentia-se muito perto d'ella--podendo assim a todo o momento entrar os
-hombraes da sua porta, pisar os degraus que ella pisava. Na sua
-imaginaÁ„o transluziam j· possibilidades d'um encontro, alguma palavra
-trocada, cousas pequeninas, subtis como fios, mas por onde os seus
-destinos se comeÁariam a prender... E immediatamente veio-lhe a tentaÁ„o
-pueril de ir l·, logo n'essa mesma tarde, n'esse instante, gosar como
-amigo do Cruges o direito de subir a escada d'ella, parar diante da
-porta d'ella--e surprehender uma voz, um som de piano, um rumor qualquer
-da sua vida.
-
-O olhar da condessa n„o o deixava. Elle approximou-se, emfim,
-contrariado: ella ergueu-se logo, deixou o seu grupo, e dando alguns
-passos com elle pela relva, recomeÁou a fallar na ida a Santarem.
-Carlos, ent„o, muito seccamente, declarou toda essa invenÁ„o insensata.
-
---Porque?...
-
-Ora porque! Por tudo. Pelo perigo, pelos desconfortos, pelo ridiculo...
-Emfim, a ella como mulher ficava-lhe bem ter phantasias pittorescas de
-romance; mas a elle competia-lhe ter bom senso.
-
-Ella mordia o beiÁo, com todo o sangue na face. E n„o via alli bom
-senso. Via sÛ frieza. Quando ella arriscava tanto, elle podia bem, por
-uma noite, affrontar os desconfortos da estalagem...
-
---Mas n„o È isso!...
-
-Ent„o que era? Tinha medo? N„o havia mais perigo do que nas idas a casa
-da titi. Ninguem a podia conhecer, com outra cÙr de cabello, toda a
-sorte de vÈos, disfarÁada n'um grande water-proof. Chegavam de noite,
-entravam para o quarto, d'onde n„o sahiam mais, servidos apenas pela
-escosseza. No dia seguinte, no comboio da noite, ella seguia para o
-Porto, todo acabava... E n'aquella insistencia ella era o homem, o
-seductor, com a sua vehemencia de paix„o activa, tentando-o,
-soprando-lhe o desejo; emquanto elle parecia a mulher, hesitante e
-assustada. E Carlos sentia isto. A sua resistencia a uma noite de amor,
-prolongando-se assim, ameaÁava ser grotesca: ao mesmo tempo o calor de
-voluptuosidade que emanava d'aquelle seio, arfando junto d'elle e por
-elle, ia-o amollecendo lentamente. Terminou por a olhar de certo modo;
-e, como se o desejo se lhe accendesse emfim de repente · curta chamma
-que faiscava nas pupillas d'ella, negras, humidas, avidas, promettendo
-mil cousas, disse, um pouco pallido:
-
---Pois bem, perfeitamente... ¡manh„ · noite, na estaÁ„o.
-
-N'esse momento, em redor, romperam exclamaÁıes de troÁa: era um cavallo
-solitario que chegava, n'um galope pacato, passara a meta sem se
-apressar, como se descesse uma avenida do Campo Grande n'uma tarde de
-domingo. E em redor perguntava-se que corrida era aquella d'um cavallo
-sÛ--quando ao longe, como sahindo da claridade loura do sol que descia
-sobre o rio, appareceu uma pobre pileca branca, empurrando-se,
-arquejando, n'um esforÁo doloroso, sob as chicotadas atarantadas d'um
-jockey de roxo e preto. Quando ella chegou, emfim, j· o outro
-_gentleman-rider_ voltara da meta, a passo, pachorrentamente,--e estava
-conversando com os amigos, encostado · corda da pista.
-
-Todo o mundo ria. E a corrida do Premio d'El-rei terminou assim,
-grotescamente.
-
-Ainda havia o Premio de ConsolaÁ„o--mas agora desapparecera todo o
-interesse ficticio pelos cavallos. Perante a calma e radiante belleza da
-tarde, algumas senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a
-pesagem, canÁadas da immobilidade da tribuna. Arranjaram-se mais
-cadeiras: aqui e alÈm, sobre a relva pisada, formavam-se grupos
-alegrados por algum vestido claro ou por uma pluma viva de chapÈo: e
-palrava-se, como n'uma sala de inverno, fumando-se familiarmente. Em
-redor de D. Maria e da Alvim projectava-se um grande pic-nic a Queluz.
-Alencar e o Gouvarinho discutiam a reforma de instrucÁ„o. A horrivel
-Craben, entre outros diplomatas e moÁos de binoculo a tiracolo, dava do
-fundo grosso do papo, opiniıes sobre Daudet, que elle achava _trËs
-agreable_. E, quando Carlos emfim abalou, o recinto, esquecidas as
-corridas, tomava um tom de _soirÈe_, no ar claro e fresco da collina,
-com o murmurio de vozes, um mover de leques, e ao fundo a musica tocando
-uma valsa de Strauss.
-
-Carlos, depois de procurar muito Craft, encontrou-o no buffete com o
-Darque, com outros, bebendo mais champagne.
-
---Eu tenho de ir ainda a Lisboa, disse-lhe elle, e vou no phaeton.
-Abandono torpemente. VocÍ v· para o Ramalhete como poder...
-
---Eu o levo! gritou logo o Vargas, que tinha j· a gravata toda
-desmanchada. Levo-o no dog-cart. Eu me encarrego d'elle... O Craft fica
-por minha conta... … necessario recibo? ¡ saude do Craft, inglez c· dos
-meus... Hurrah!
-
---Hurrah! Hip, hip, hurrah!
-
-D'ahi a pouco, a trote largo no phaeton, Carlos descia o Chiado, dava a
-volta para a rua de S. Francisco. Ia n'uma perturbaÁ„o deliciosa e
-singular, com aquella certeza de que ella estava sÛ na casa do Cruges: o
-ultimo olhar que ella lhe dÈra parecia ir adiante d'elle, chamando-o: e
-um despertar tumultuoso de esperanÁas sem nome atirava-lhe a alma para o
-azul.
-
-Quando parou diante do port„o--alguem, por dentro das janellas d'ella,
-Ìa correndo lentamente os stores. Na rua silenciosa cahia j· uma sombra
-de crepusculo. Atirou as redeas ao cocheiro, atravessou o pateo. Nunca
-viera visitar o Cruges, nunca subira esta escada; e pareceu-lhe
-horrorosa, com os seus frios degraus de pedra, sem tapete, as paredes
-nuas e enxovalhadas alvejando tristemente no comeÁo de escurid„o. No
-patamar do primeiro andar parou. Era alli que ella vivia. E ficou
-olhando, com uma devoÁ„o ingenua, para as tres portas pintadas d'azul: a
-do centro estava inutilisada por um banco comprido de palhinha, e na do
-lado direito pendia, com uma enorme bola, o cord„o da campainha. De
-dentro n„o vinha um rumor:--e este pesado silencio, juntando-se ao
-movimento de stores que elle vira fechar-se, parecia cercar as pessoas
-que alli viviam de solid„o e de impenetrabilidade. Uma desconsolaÁ„o
-passou-lhe na alma. Se ella agora, sÛ, sem o marido, comeÁasse uma vida
-reclusa e solitaria? Se elle n„o tornasse mais a encontrar os seus
-olhos?
-
-Foi subindo de vagar atÈ ao andar do Cruges. E mal sabia o que havia de
-dizer ao maestro para explicar aquella visita extranha, deslocada... Foi
-um allivio quando a criadita lhe veiu dizer que o menino Victorino tinha
-sahido.
-
-Em baixo, Carlos tomou as redeas, e foi levando lentamente o phaeton atÈ
-ao largo da Bibliotheca. Depois retrocedeu, a passo. Agora, por traz do
-store branco, havia uma vaga claridade de luz. Elle olhou-a como se olha
-uma estrella.
-
-Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de pÛ, estava-se justamente apeando
-de uma calecha de praÁa. Um momento ficaram alli · porta, em quanto
-Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas.
-No _Premio de ConsolaÁ„o_, um dos cavalleiros tinha cahido, quasi ao pÈ
-da meta, sem se magoar: e, por ultimo, j· · partida, o Vargas, que ia na
-sua terceira garrafa de champagne, esmurrara um criado do buffete, com
-ferocidade.
-
---Assim, disse Craft completando o seu troco, estas corridas foram boas
-pelo velho principe Shakespereano de que _tudo È bom quanto acaba bem_.
-
---Um murro, disse Carlos rindo, È com effeito um bello ponto final.
-
-No peristillo, o velho guarda-port„o esperava, descoberto, com uma carta
-na m„o para Carlos. Um criado tinha-a trazido, instantes antes de s.
-ex.^a chegar.
-
-Era uma letra ingleza de mulher, n'um envelope largo, lacrado com um
-sinete d'armas. Carlos alli mesmo abriu-a: e, logo · primeira linha,
-teve um movimento t„o vivo, de t„o bella surpreza, illuminando-se-lhe
-tanto o rosto, que Craft do lado perguntou sorrindo:
-
---Aventura? HeranÁa?...
-
-Carlos, vermelho, metteu a carta no bolso, e murmurou:
-
---Um bilhete apenas, um doente...
-
-Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas comeÁava
-assim:--´Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos
-da Maia, e roga-lhe o obsequio...ª--depois, em duas breves palavras,
-pedia-lhe para ir ver na manh„ seguinte, o mais cedo possivel, uma
-pessoa de familia, que se achava incommodada.
-
---Bem, eu vou-me vestir, disse Craft... Jantar ·s sete e meia, hein?
-
---Sim, o jantar...--respondeu Carlos, sem saber o quÍ, banhado todo n'um
-sorriso, como em extase.
-
-Correu aos seus aposentos: e junto da janella, sem mesmo tirar o chapÈo,
-leu uma vez mais o bilhete, outra vez ainda, contemplando enlevadamente
-a forma da letra, procurando voluptuosamente o perfume do papel.
-
-Era datada d'esse mesmo dia · tarde. Assim, quando elle passara defronte
-da sua porta, j· ella a escrevera, j· o seu pensamento se demorara
-n'elle--quando mais n„o fosse sen„o ao traÁar as lettras simples do seu
-nome. N„o era ella que estava doente. Se fosse Rosa, ella n„o diria t„o
-friamente ´uma pessoa de familia.ª Era talvez o esplendido preto de
-carapinha grisalha. Talvez miss Sarah, abenÁoada fosse ella para sempre,
-que queria um medico que entendesse inglez... Emfim havia l· uma pessoa
-n'uma cama, junto da qual ella mesma o conduziria, atravez dos
-corredores interiores d'aquella casa--que havia apenas instantes sentira
-t„o fechada, e como impenetravel para sempre!... E depois este adorado
-bilhete, este delicioso pedido para ir a sua casa, agora que ella o
-conhecia, que vira Rosa atirar-lhe um grande adeus--tomava uma
-significaÁ„o profunda, perturbadora...
-
-Se ella n„o quizesse comprehender, nem acceitar o distante amor que os
-seus olhos lhe tinham offerecido claramente, o mais luminosamente que
-tinham podido, n'esses fugitivos instantes que se tinham cruzado com os
-d'ella--ent„o poderia ter mandado chamar outro medico, um clinico
-qualquer, um estranho. Mas n„o: o seu olhar respondera ao d'elle, e ella
-abria-lhe a sua porta...--E o que sentia a esta idÈa era uma gratid„o
-ineffavel, um impulso tumultuoso de todo o seu ser a cahir-lhe aos pÈs,
-ficar-lhe beijando a orla do vestido, devotamente, eternamente, sem
-querer mais nada, sem pedir mais nada...
-
-Quando Craft d'alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado,
-correcto--achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chapÈo na
-cabeÁa passeando o quarto, n'esta agitaÁ„o radiante.
-
---VocÍ est· a faiscar, homem! disse Craft, parando deante d'elle, com as
-m„os nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu
-resplandecente collarinho. VocÍ flameja!... VocÍ parece que tem uma
-aurÈola na nuca!... VocÍ succedeu-lhe o quer que seja de muito bom!
-
-Carlos espreguiÁou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em
-silencio, encolheu os hombros, e murmurou:
-
---A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe succede È, em definitivo, bom
-ou mau.
-
---Ordinariamente È mau, disse o outro friamente, aproximando-se do
-espelho a retocar com mais correcÁ„o o nÛ da gravata branca.
-
-FIM DO PRIMEIRO VOLUME
-
-
-
-
-E«A DE QUEIROZ
-
-OS MAIAS
-
-EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
-
-VOLUME II
-
-PORTO
-
-
-Livraria Internacional de Ernesto Chardron
-CASA EDITORA
-LUGAN & GENELIOUX, Successores
-
-
-1888
-
-Todos os direitos reservados
-
-
-
-
-OS MAIAS
-
-VOLUME I
-
-
-
-
-OS MAIAS
-
-
-
-
-I
-
-
-Na manh„ seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a pÈ do Ramalhete
-atÈ · rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde
-morria em penumbra a luz distante da claraboia, uma velha de lenÁo na
-cabeÁa, encolhida n'um chalesinho preto, esperava, sentada
-melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava
-uma parede feia de corredor, forrada de papel amarello. Dentro um
-relogio ronceiro estava batendo dez horas.
-
---A senhora j· tocou? perguntou Carlos, erguendo o chapÈo.
-
-A velha murmurou, d'entre a sombra do lenÁo que lhe cahia para os olhos,
-n'um tom canÁado e doente:
-
---J·, sim, meu senhor. J· fizeram o favor de me fallar. O criado, o snr.
-Domingos, n„o tarda...
-
-Carlos esperou, passeando lentamente no patamar. Do segundo andar vinha
-um barulho alegre de crianÁas brincando; por cima, o moÁo do Cruges
-esfregava a escada com estrondo, assobiando desesperadamente o fado. Um
-longo minuto arrastou-se, depois outro, infindavel. A velha, d'entre a
-negrura do lenÁo, deu um suspirosinho abatido. L· ao fundo um canario
-rompera a cantar; e ent„o Carlos, impaciente, puxou o cord„o da
-campainha.
-
-Um criado de suissas ruivas, correctamente abotoado n'um jaquet„o de
-flanella, appareceu correndo, com uma travessa na m„o, abafada n'um
-guardanapo; e ao vÍr Carlos ficou t„o atarantado, bambaleando · porta,
-que um pouco de molho de assado escorregou, cahiu sobre o soalho.
-
---Oh snr. D. Carlos Eduardo, faz favor d'entrar!... Ora esta! Tem a
-bondade d'esperar um instantinho, que eu abro j· a sala... Tome l·,
-snr.^a Augusta, tome l·, olhe n„o entorne mais! A senhora diz que l·
-manda logo o vinho do Porto... Desculpe v. exc.^a, snr. D. Carlos... Por
-aqui, meu senhor...
-
-Correu um reposteiro de reps vermelho, introduziu Carlos n'uma sala
-alta, espaÁosa, com um papel de ramagens azues, e duas varandas para a
-rua de S. Francisco; e erguendo · pressa os dois transparentes de
-paninho branco, perguntava a Carlos se s. exc.^a n„o se lembrava j· do
-Domingos. Quando elle se voltou, risonho, descendo precipitadamente os
-canhıes das mangas, Carlos reconheceu-o pelas suissas ruivas. Era com
-effeito o Domingos, escudeiro excellente, que no comeÁo do inverno
-estivera no Ramalhete, e se despedira por birras patrioticas, birras
-ciumentas, com o cozinheiro francez.
-
---N„o o tinha visto bem, Domingos, disse Carlos. O patamar È um pouco
-escuro... Lembro-me perfeitamente... E ent„o vossÍ agora aqui, hein? E
-est· contente?
-
---Eu parece-me que estou muito contente, meu senhor... O snr. Cruges
-tambem mora c· por cima...
-
---Bem sei, bem sei...
-
---Tenha v. exc.^a a paciencia de esperar um instantinho que eu vou dar
-parte · snr.^a D. Maria Eduarda...
-
-Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome d'ella; e
-pareceu-lhe perfeito, condizendo bem com a sua belleza serena. Maria
-Eduarda, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem
-sabe se n„o presagiava a concordancia dos seus destinos!
-
-Domingos, no entanto, j· · porta da sala, com a m„o no reposteiro, parou
-ainda, para dizer n'um tom de confidencia e sorrindo:
-
---… a governante ingleza que est· doente...
-
---Ah! È a governante?
-
---Sim, meu senhor, tem uma febresita desde hontem, peso no peito...
-
---Ah!...
-
-O Domingos deu outro movimento lento ao reposteiro, sem se apressar,
-contemplando Carlos com admiraÁ„o:
-
---E o avÙsinho de v. exc.^a passa bem?
-
---Obrigado, Domingos, passa bem.
-
---Aquillo È que È um grande senhor!... N„o ha, n„o ha outro assim em
-Lisboa!
-
---Obrigado, Domingos, obrigado...
-
-Quando elle finalmente sahiu, Carlos, tirando as luvas, deu uma volta
-curiosa e lenta pela sala. O soalho fÙra esteirado de novo. Ao pÈ da
-porta havia um piano antigo de cauda, coberto com um pano alvadio; sobre
-uma estante ao lado, cheia de partituras, de musicas, de jornaes
-illustrados, pousava um vaso do Jap„o onde murchavam tres bellos lirios
-brancos; todas as cadeiras eram forradas de reps vermelho; e aos pÈs do
-sof· estirava-se uma velha pelle de tigre. Como no Hotel Central, esta
-intallaÁ„o summaria de casa alugada recebera retoques de conforto e de
-gosto: cortinas novas de cretone, combinando com o papel azul da parede,
-tinham substituido as classicas bambinellas de cassa: um pequeno
-contador arabe, que Carlos se lembrava de ter visto havia dias no tio
-Abrah„o, viera encher um lado mais desguarnecido da parede: o tapete de
-pellucia d'uma mesa oval, collocada ao centro, desapparecia sob lindas
-encadernaÁıes de livros, albuns, duas taÁas japonezas de bronze, um
-cesto para flÙres de porcelana de Dresde, objectos delicados d'arte que
-n„o pertenciam decerto · m„i Cruges. E parecia errar alli, acariciando a
-ordem das coisas e marcando-as com um encanto particular, aquelle
-indefinido perfume que Carlos j· sentira nos quartos do Hotel Central, e
-em que dominava o jasmim.
-
-Mas o que attrahiu Carlos foi um bonito biombo de linho cr˙, com
-ramalhetes bordados, desdobrado ao pÈ da janella, fazendo um recanto
-mais resguardado e mais intimo. Havia l· uma cadeirinha baixa de setim
-escarlate, uma grande almofada para os pÈs, uma mesa de costura com todo
-um trabalho de mulher interrompido, numeros de jornaes de modas, um
-bordado enrolado, mÛlhos de l„ de cÙres transbordando de um aÁafate. E,
-confortavelmente enroscada no macio da cadeira, achava-se ahi, n'esse
-momento, a famosa cadellinha escosseza, que tantas vezes pass·ra nos
-sonhos de Carlos, trotando ligeiramente atraz de uma radiante figura
-pelo Aterro fÛra, ou aninhada e adormecida n'um doce regaÁo...
-
---Bonjour, Mademoiselle, disse-lhe elle, baixinho, querendo captar-lhe
-as sympathias.
-
-A cadellinha erguera-se logo bruscamente na cadeira, d'orelhas fitas,
-dardejando para aquelle estranho, por entre as repas esguedelhadas, dois
-bellos olhos de azeviche, desconfiados, d'uma penetraÁ„o quasi humana.
-Um instante Carlos receou que ella rompesse a ladrar. Mas a cadellinha
-de repente namor·ra-se d'elle, deitada j· na cadeira, de patas ao ar,
-descomposta, abandonando o ventresinho ·s suas caricias. Carlos ia
-coÁal-a e amimal-a, quando um passo leve pizou a esteira. Voltou-se, viu
-Maria Eduarda diante de si.
-
-Foi como uma inesperada appariÁ„o--e vergou profundamente os hombros,
-menos a saudal-a, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia
-abrazar-lhe o rosto. Ella, com um vestido simples e justo de sarja
-preta, um collarinho direito de homem, um bot„o de rosa e duas folhas
-verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval,
-acabando de desdobrar um pequeno lenÁo de renda. Obedecendo ao seu gesto
-risonho, Carlos pousou-se embaraÁadamente · borda do sof· de reps. E
-depois d'um instante de silencio, que lhe pareceu profundo, quasi
-solemne, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, d'um
-tom d'ouro que acariciava.
-
-AtravÈs do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ella lhe agradecia
-os cuidados que elle tivera com Rosa: e, de cada vez que o seu olhar se
-demorava n'ella um instante mais, descobria logo um encanto novo e outra
-fÛrma da sua perfeiÁ„o. Os cabellos n„o eram louros, como julg·ra de
-longe · claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e
-castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na
-grande luz escura dos seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de
-muito grave e de muito dÙce. Por um geito familiar cruzava ·s vezes, ao
-fallar, as m„os sobre os joelhos. E atravÈs da manga justa de sarja,
-terminando n'um punho branco, elle sentia a belleza, a brancura, o
-macio, quasi o calor dos seus braÁos.
-
-Ella cal·ra-se. Carlos, ao levantar a voz, sentiu outra vez o sangue
-abrazar-lhe o rosto. E, apesar de saber j· pelo Domingos que a doente
-era a governante, sÛ achou, na sua perturbaÁ„o, esta pergunta timida:
-
---N„o È sua filha que est· doente, minha senhora?
-
---Oh n„o! graÁas a Deus!
-
-E Maria Eduarda contou-lhe, justamente como o Domingos, que a governante
-ingleza havia dois dias se achava incommodada, com difficuldade de
-respirar, tosse, uma ponta de febre...
-
---Imagin·mos ao principio que era uma constipaÁ„o passageira; mas hontem
-· tarde estava peor, e estou agora impaciente que a veja...
-
-Ergueu-se, foi puxar um enorme cord„o de campainha que pendia ao lado do
-piano. O seu cabello por traz, repuxado para o alto da cabeÁa, deixava
-uma pennugem d'ouro frisar-se delicadamente sobre a brancura lactea do
-pescoÁo. Entre aquelles moveis de reps, sob o tecto banal d'estuque
-enxovalhado, toda a sua pessoa parecia a Carlos mais radiante, d'uma
-belleza mais nobre, e quasi inaccessivel; e pensava que nunca alli
-ousaria olhal-a t„o francamente, com uma t„o clara adoraÁ„o, como quando
-a encontrava na rua.
-
---Que linda cadellinha v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, quando
-Maria Eduarda se tornou a sentar, e pondo j· n'estas palavras simples,
-ditas a sorrir, um accento de ternura.
-
-Ella sorriu tambem com um lindo sorriso, que lhe fazia uma covinha no
-queixo, dava uma doÁura mais mimosa ·s suas feiÁıes sÈrias. E
-alegremente, batendo as palmas, chamando para dentro do biombo:
-
---_Niniche!_ est„o-te a fazer elogios, vem agradecer!
-
-_Niniche_ appareceu a bocejar. Carlos achava lindo este nome de
-_Niniche_. E era curioso, tinha tido tambem uma galguinha italiana que
-se chamava _Niniche_...
-
-N'esse instante a criada entrou--a rapariga magra e sardenta, d'olhar
-petulante, que Carlos vira j· no Hotel Central.
-
---Melanie vai-lhe ensinar o quarto de miss Sarah, disse Maria Eduarda.
-Eu n„o o acompanho, porque ella È t„o timida, tem tanto escrupulo em
-incommodar, que diante de mim È capaz de negar tudo, dizer que n„o tem
-nada...
-
---Perfeitamente, perfeitamente, murmurava Carlos, sorrindo, n'um encanto
-de tudo.
-
-E pareceu-lhe ent„o que no olhar d'ella alguma coisa brilh·ra, fugira
-para elle, de mais vivo, de mais dÙce.
-
-Com o seu chapÈo na m„o, pisando familiarmente aquelle corredor intimo,
-surprehendendo detalhes de vida domestica, Carlos sentia como a alegria
-d'uma posse. Por uma porta meio aberta pÙde entrevÍr uma banheira, e ao
-lado dependurados grandes roupıes turcos de banho. Adiante, sobre uma
-mesa, estavam alinhadas, e como desencaixotadas recentemente, garrafas
-d'aguas mineraes de Saint-Galmier e de Vals. Elle deduzia logo d'estas
-coisas t„o simples, t„o banaes, evidencias de vida delicada.
-
-Melanie correu um reposteiro de linho cr˙, fÍl-o entrar n'um quarto
-claro e fresco: e ahi foi encontrar a pobre miss Sarah n'um leitosinho
-de ferro, sentada, com um laÁo de sÍda azul ao pescoÁo, e os bandÛs t„o
-lisos, t„o acamados pela escova, como se fosse sahir n'um domingo para a
-capella presbyteriana. Na mesinha de cabeceira os seus jornaes inglezes
-estavam escrupulosamente dobrados, junto d'um copo com duas bellas
-rosas; e tudo no quarto resplandecia de severo arranjo, desde os
-retratos da familia real d'Inglaterra, expostos sobre a toalha de renda
-que cobria a commoda, atÈ ·s suas botinas bem engraxadas, classificadas,
-perfiladas n'uma prateleira de pinho.
-
-Apenas Carlos se sentou, ella immediatamente, com duas rosetas de
-vergonha na face, entre frouxos de tosse, declarou que n„o tinha nada.
-Era a senhora, t„o boa, t„o cautelosa, que a forÁ·ra a metter-se na
-cama... E para ella era um desgosto vÍr-se alli ociosa, inutil, agora
-que Madame estava t„o sÛ, n'uma casa sem jardim. Onde havia a menina de
-brincar? Quem havia de sahir com ella? Ah! Era uma pris„o para
-Madame!...
-
-Carlos consolava-a, tomando-lhe o pulso. Depois, quando elle se ergueu
-para a auscultar, a pobre miss cobriu-se toda d'um rubor afflicto,
-apertando mais a roupa contra o peito, querendo saber se era
-_absolutamente_ necessario... Sim, decerto, era necessario... Achou-lhe
-o pulm„o direito um pouco tomado; e, em quanto a agasalhava, fez-lhe
-algumas perguntas sobre a sua familia. Ella contou que era de York,
-filha de um _clergyman_, e tinha quatorze irm„os: os rapazes estavam na
-Nova Zelandia, e todos eram d'uma robustez de athletas. Ella sahira a
-mais fraca; tanto que o pai, vendo que ella aos dezesete annos pesava sÛ
-oito arrobas, ensinou-lhe logo latim, destinando-a para governante.
-
-Em todo o caso, dizia Carlos, nunca houvera na sua familia doenÁas de
-peito? Ella sorriu. Oh! nunca! A mam„ ainda vivia. O pap·, j· muito
-velho, morrera do couce de uma egua.
-
-Carlos, no entanto, j· de pÈ, com o chapÈo na m„o, continuava a
-observal-a, reflectindo. Ent„o, de repente, sem motivo, ella
-enterneceu-se, os seus olhos pequeninos ennevoaram-se de agua. E quando
-ouviu que eram precisos tantos agasalhos, que teria de estar alli no
-quarto ainda quinze dias, perturbou-se mais, duas lagrimasinhas timidas
-quasi lhe fugiram das pestanas. Carlos terminou por lhe afagar
-paternalmente a m„o.
-
---_Oh! Thank you sir!_ murmurou ella, commovida de todo.
-
-Na sala, Carlos veio encontrar Maria Eduarda sentada junto da mesa,
-arranjando ramos, com uma grande cesta de flÙres pousada ao lado d'uma
-cadeira, e o regaÁo cheio de cravos. Uma bella restea de sol, estendida
-na esteira, vinha morrer-lhe aos pÈs; e _Niniche_, deitada alli, reluzia
-como se fosse feita de fios de prata. Na rua, sob as janellas, um
-realejo ia tocando, na alegria da linda manh„ de sol, a walsa da _Madame
-Angot_. Pelo andar de cima tinham recomeÁado as correrias de crianÁas
-brincando.
-
---Ent„o? exclamou ella, voltando-se logo, com um mÛlho de cravos na m„o.
-
-Carlos tranquillisou-a. A pobre miss Sarah tinha uma bronchite ligeira,
-com pouca febre. Em todo o caso necessitava resguardo, toda a cautela...
-
---Certamente! E ha de tomar algum remedio, n„o È verdade?
-
-Atirou logo o resto dos cravos do regaÁo para o cesto, foi abrir uma
-secretariasinha de pau preto collocada entre as janellas. Ella mesmo
-arranjou o papel para elle receitar, metteu um bico novo na penna. E
-estes cuidados perturbavam Carlos como caricias.
-
---Oh minha senhora... murmurava elle, um lapis basta...
-
-Quando se sentou, os seus olhos demoraram-se com uma curiosidade
-enternecida n'esses objectos familiares onde pousava a doÁura das m„os
-d'ella--um sinete d'agatha sobre um velho livro de contas, uma faca de
-marfim com monogramma de prata ao lado d'uma taÁasinha de Saxe cheia
-d'estampilhas; e em tudo havia a ordem clara que t„o bem condizia com o
-seu puro perfil. Na rua o realejo cal·ra-se, por cima do tecto j· n„o
-cavallavam as crianÁas. E, em quanto escrevia devagar, Carlos sentia-a
-abafar sobre a esteira o som dos seus passos, mover os seus vasos mais
-de leve.
-
---Que bonitas flÙres v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, voltando
-a cabeÁa, em quanto ia seccando distrahida e lentamente a receita.
-
-De pÈ, junto do contador arabe, onde pousava um vaso amarello da India,
-ella arranjava folhas em volta de duas rosas.
-
---D„o frescura, disse ella. Mas imaginei que em Lisboa havia mais
-bonitas flÙres. N„o ha nada que se compare ·s flÙres de FranÁa... Pois
-n„o È verdade?
-
-Elle n„o respondeu logo, esquecido a olhar para ella, pensando na doÁura
-de ficar alli eternamente n'aquella sala de reps vermelho, cheia de
-claridade e cheia de silencio, a vÍl-a pÙr folhas verdes em torno de pÈs
-de rosa!
-
---Em Cintra ha lindas flÙres, murmurou por fim.
-
---Oh, Cintra È um encanto! disse ella, sem erguer os olhos do seu ramo.
-Vale a pena vir a Portugal sÛ por causa de Cintra.
-
-N'esse momento, o reposteiro de reps esvoaÁou, e Rosa entrou de dentro,
-correndo, vestida de branco, com meiasinhas de sÍda preta, uma onda
-negra de cabello a bater-lhe as costas, e trazendo ao collo a sua grande
-boneca. Ao vÍr Carlos parou bruscamente, com os bellos olhos muito
-abertos para elle, toda encantada, e apertando mais nos braÁos Cri-cri
-que vinha em camisa.
-
---N„o conheces? perguntou-lhe a m„i, indo sentar-se outra vez diante do
-seu cesto de flÙres.
-
-Rosa comeÁava j· a sorrir, o seu rostosinho cobria-se d'uma linda cÙr. E
-assim, toda d'alvo e negro como uma andorinha, tinha um encanto raro,
-com o seu dÙce mimo de fÛrma, a sua graÁa ligeira, os seus grandes olhos
-cheios d'azul, e um ruborzinho de mulher na face. Quando Carlos se
-adiantou com a m„o estendida para renovar o antigo conhecimento--ella
-ergueu-se na ponta dos pÈs, estendeu-lhe vivamente a boquinha, fresca
-como um bot„o de rosa. Carlos ousou apenas tocar-lhe de leve na testa.
-
-Depois quiz apertar a m„o · sua velha amiga Cri-cri. E ent„o, de
-repente, Rosa recordou-se do que a trouxera alli a correr.
-
---… o robe-de-chambre, mam„! N„o posso achar o robe-de-chambre de
-Cri-cri... Ainda a n„o pude vestir... Dize, sabes onde È que est· o
-robe-de-chambre?
-
---Vejam esta desarranjada! murmurava a m„i olhando-a com um sorriso
-lento e terno. Se Cri-cri tem uma commoda particular, o seu
-guarda-vestidos, n„o se lhe deviam perder as coisas... Pois n„o È
-verdade, snr. Carlos da Maia?
-
-Elle, ainda com a sua receita na m„o, sorria tambem, sem dizer nada,
-todo no enternecimento d'aquella intimidade em que se sentia penetrar
-dÙcemente.
-
-A pequena ent„o veio encostar-se · m„i, roÁando-se pelo seu braÁo, com
-uma vozinha languida, lenta, e de mimo:
-
---Anda, dize... N„o sejas m·... Anda... Onde est· o robe-de-chambre?
-Dize...
-
-Levemente, com a ponta dos dedos, Maria Eduarda arranjou-lhe o pequenino
-laÁo de sÍda branca que lhe prendia no alto o cabello. Depois ficou mais
-sÈria:
-
---Est· bem, est· quieta... Tu sabes que n„o sou eu que trato dos
-arranjos da Cri-cri. Devias ter mais ordem... Vai perguntar a Melanie.
-
-E Rosa obedeceu logo, sÈria tambem, comprimentando agora Carlos ao
-passar, com um arzinho senhoril:
-
---Bonjour, Monsieur...
-
---… encantadora! murmurou elle.
-
-A m„i sorriu. Tinha acabado de compÙr o seu ramo de cravos;--e
-immediatamente attendeu a Carlos, que pous·ra a receita sobre a mesa, e
-sem se apressar, installando-se n'uma poltrona, lhe foi fallando da
-dieta que devia ter miss Sarah, das colheres de xarope de codeina que se
-lhe deviam dar de tres em tres horas...
-
---Pobre Sarah! dizia ella. E È curioso, n„o È verdade? Veio com o
-presentimento, quasi com a certeza, que havia de adoecer em Portugal...
-
---Ent„o vem a detestar Portugal!
-
---Oh! tem-lhe j· horror! Acha muito calor, por toda a parte maus
-cheiros, a gente hedionda... Tem medo de ser insultada na rua... Emfim È
-infelicissima, est· ardendo por se ir embora...
-
-Carlos ria d'aquellas antipathias saxonias. De resto em muitas coisas a
-boa miss Sarah tinha talvez raz„o...
-
---E v. exc.^a tem-se dado bem em Portugal, minha senhora?
-
-Ella encolheu os hombros, indecisa.
-
---Sim... Devo dar-me bem... … o meu paiz
-
-O _seu_ paiz!... E elle que a julgava brazileira!
-
---N„o, sou portugueza.
-
-E, durante um momento, houve um silencio. Ella tom·ra de sobre a mesa,
-abria lentamente um grande leque negro pintado de flÙres vermelhas. E
-Carlos sentia, sem saber porque, uma doÁura nova penetrar-lhe no
-coraÁ„o. Depois ella fallou da sua viagem que fÙra muito agradavel;
-adorava andar no mar; tinha sido um encanto a manh„ da chegada a Lisboa,
-com um cÈo azul-ferrete, o mar todo azul tambem, e j· um calorzinho do
-clima dÙce... Mas depois, apenas desembarcados, tudo correra
-desagradavelmente. Tinham ficado mal alojados no Central. _Niniche_, uma
-noite, assust·ra-os muito com uma indigest„o. Em seguida no Porto viera
-aquelle desastre...
-
---Sim, disse Carlos, o marido de v. exc.^a, na PraÁa Nova...
-
-Ella pareceu surprehendida. Como sabia elle? Ah! sim, sabia de certo
-pelo Damaso...
-
---S„o muito amigos, creio eu.
-
-Depois d'uma leve hesitaÁ„o, que ella comprehendeu, Carlos murmurou:
-
---Sim... O Damaso vai bastante ao Ramalhete... … de resto um rapaz que
-eu conheÁo apenas ha mezes...
-
-Ella abriu os olhos, pasmada.
-
---O Damaso? Mas elle disse-me que se conheciam desde pequeninos, que
-eram atÈ parentes...
-
-Carlos encolheu simplesmente os hombros, sorrindo.
-
---… uma bella illus„o... E se isso o faz feliz!...
-
-Ella sorriu tambem, encolhendo tambem ligeiramente os hombros.
-
---E v. exc.^a, minha senhora, continuou logo Carlos n„o querendo fallar
-mais do Damaso, como acha Lisboa?
-
-Gostava bastante, achava muito bonito este tom azul e branco de cidade
-meridional... Mas, havia t„o poucos confortos!... A vida tinha aqui um
-ar que ella n„o pudera perceber ainda--se era de simplicidade ou de
-pobreza.
-
---Simplicidade, minha senhora. Temos a simplicidade dos selvagens...
-
-Ella riu.
-
---N„o direi isso. Mas supponho que s„o como os gregos: contentam-se em
-comer uma azeitona, olhando o cÈo que È bonito...
-
-Isto pareceu adoravel a Carlos, todo o seu coraÁ„o fugiu para ella.
-
-Maria Eduarda queixava-se sobretudo das casas, t„o faltas de
-commodidade, t„o despidas de gosto, t„o desleixadas. Aquella em que
-vivia fazia a sua desgraÁa. A cozinha era atroz, as portas n„o fechavam.
-Na sala de jantar havia sobre a parede umas pinturas de barquinhos e
-collinas que lhe tiravam o appetite...
-
---AlÈm d'isso, acrescentou, È um horror n„o ter um quintal, um jardim,
-onde a pequena possa correr, ir brincar...
-
---N„o È facil encontrar assim uma casa nas condiÁıes d'esta e com
-jardim, disse Carlos.
-
-Deu um olhar ·s paredes, ao estuque enxovalhado do tecto--e lembrou-lhe
-de repente a quinta do Craft, com a sua vista de rio, o ar largo, as
-frescas ruas de acacias.
-
-Felizmente, Maria Eduarda tom·ra a casa apenas ao mez, e estava pensando
-em ir passar · beira-mar o tempo que tivesse de ficar ainda em Portugal.
-
---De resto, disse ella, foi o que me aconselhou o meu medico em Paris, o
-dr. Chaplain.
-
-O dr. Chaplain? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain.
-Ouvira-lhe as liÁıes, visit·ra-o atÈ intimamente na sua propriedade de
-Maisonnettes, ao pÈ de Saint-Germain. Era um grande mestre, era um
-espirito bem superior!
-
---E t„o bom coraÁ„o! disse ella com um claro sorriso, um olhar que
-brilhou.
-
-E este sentimento commum pareceu de repente aproximal-os mais dÙcemente:
-cada um n'esse instante adorou o dr. Chaplain: e continuaram ainda
-fallando d'elle prolongadamente, gozando, atravÈs d'essa trivial
-sympathia por um velho clinico, a nascente concordancia dos seus
-coraÁıes.
-
-O bom dr. Chaplain! Que physionomia t„o amavel, t„o fina!... Sempre com
-o seu barretinho de sÍda... E sempre com a sua grande flÙr na casaca...
-De resto, o pratico maior que sahira da geraÁ„o de Trousseau.
-
---E Madame Chaplain, acrescentou Carlos, È uma pessoa encantadora... N„o
-È verdade?
-
-Mas Maria Eduarda n„o conhecia Madame Chaplain.
-
-Dentro o relogio ronceiro comeÁ·ra a bater onze horas. E Carlos ent„o
-ergueu-se, findando a sua fugitiva, inolvidavel, deliciosa visita...
-
-Quando ella lhe estendeu a m„o, um pouco de sangue subiu-lhe de novo ·
-face ao tocar aquella palma t„o macia e t„o fresca. Pediu os seus
-comprimentos para Mademoiselle Rosa. Depois, · porta, j· com o
-reposteiro na m„o, voltou-se ainda, uma vez mais, n'uma ultima saudaÁ„o,
-a receber o olhar suave com que ella o seguia...
-
---AtÈ ·manh„, est· claro! exclamou ella de repente, com o seu lindo
-sorriso.
-
---AtÈ ·manh„, decerto!
-
-O Domingos estava j· no patamar, de casaca, risonho e bem penteado.
-
---… coisa de cuidado, meu senhor?
-
---N„o È nada, Domingos... Estimei vÍl-o por aqui.
-
---E eu muito a v. exc.^a. AtÈ ·manh„, meu senhor.
-
---AtÈ ·manh„.
-
-_Niniche_ appareceu tambem no patamar. Elle abaixou-se ternamente a
-afagal-a, e disse-lhe tambem, radiante:
-
---AtÈ ·manh„, _Niniche_!
-
-
-AtÈ ·manh„! Voltando para o Ramalhete, era esta a unica idÈa que elle
-sentia distinctamente atravÈs da nevoa luminosa que lhe afogava a alma.
-Agora o seu dia estava findo:--mas, passadas as longas horas, terminada
-a longa noite, elle penetraria outra vez n'aquella sala de reps
-vermelho, onde ella o esperava, com o mesmo vestido de sarja, enrolando
-ainda folhas verdes em torno de pÈs de rosa...
-
-Pelo Aterro, por entre a poeira de ver„o e o ruido das carroÁas, o que
-elle via era essa sala, esteirada de novo, fresca, silenciosa e clara:
-por vezes uma phrase que ella dissera cantava-lhe na memoria, com o tom
-d'ouro da sua voz; ou luziam-lhe diante dos olhos as pedras dos seus
-anneis entremettidos pelos pÍllos de _Niniche_. Parecia-lhe mais linda,
-agora que conhecia o seu sorriso d'uma graÁa t„o delicada; era cheia de
-inteligencia, era cheia de gosto; e a pobre velha · porta, esse doente a
-quem ella mandava vinho do Porto, revelavam a sua bondade... E o que o
-encantava È que n„o tornaria mais a farejar a cidade como um rafeiro
-perdido, · busca dos seus olhos negros; agora bastava-lhe subir alguns
-degraus, abria-se diante d'elle a porta da sua casa; e tudo de repente
-na vida parecia tornar-se facil, equilibrado, sem duvidas e sem
-impaciencias.
-
-No seu quarto, no Ramalhete, Baptista entregou-lhe uma carta.
-
---Trouxe-a a escosseza, j· v. exc.^a tinha sahido.
-
-Era da Gouvarinho! Meia folha de papel, tendo simplesmente escripto a
-lapis--_all rigth_. Carlos amarrotou-a, furioso. A Gouvarinho!... N„o se
-torn·ra quasi a lembrar d'ella, desde a vespera, no radiante tumulto em
-que and·ra o seu coraÁ„o. E era no comboio d'essa noite, d'ahi a horas,
-que deviam ambos partir para Santarem, a amarem-se, escondidos n'uma
-estalagem! Elle promettera-lh'o, a sÈrio; j· ella se prepar·ra decerto,
-com a atroz cabelleira postiÁa, com o _water-proof_ de grande roda; tudo
-estava _all rigth_... Achou-a n'esse instante ridicula, reles,
-estupida... Oh, era claro como a luz que n„o ia, que nunca iria, j·mais!
-Mas tinha d'apparecer na estaÁ„o de Santa Apolonia, balbuciar uma
-desculpa tosca, assistir · sua desconsolaÁ„o, vÍr-lhe os olhos marejados
-de lagrimas. Que massada!... Teve-lhe odio.
-
-Quando chegou · mesa do almoÁo Craft e Affonso, j· sentados, fallavam
-justamente do Gouvarinho, e dos artigos que elle continuava gravemente a
-publicar no _Jornal do Commercio_.
-
---Que besta essa! exclamou Carlos n'uma voz que sibilava, desabafando
-sobre a litteratura politica do marido a colera que lhe davam as
-importunidades amorosas da mulher.
-
-Affonso e Craft olharam-n'o, pasmados de tanta violencia. E Craft
-censurou-lhe a ingratid„o. Porque, realmente, n„o havia em toda a terra
-um enthusiasmo como o que aquelle desventuroso homem d'estado tinha por
-Carlos...
-
---V. exc.^a n„o faz idÈa, snr. Affonso da Maia. … um culto. … uma
-idolatria!
-
-Carlos encolhia os hombros, impaciente. E Affonso, j· bem disposto para
-com o homem que assim admirava t„o prodigamente o seu neto, murmurou com
-bondade:
-
---Coitado, supponho que È inoffensivo...
-
-Craft fez uma ovaÁ„o ao velho:
-
---_Inoffensivo!_ Admiravel, snr. Affonso da Maia! _Inoffensivo_,
-applicado a um homem d'estado, a um par, a um ministro, a um legislador,
-È um achado! E È com effeito o que elle È, _inoffensivo_... E È o que
-elles s„o...
-
---Chablis? murmurou o escudeiro.
-
---N„o, tomo ch·.
-
-E acrescentou:
-
---Aquelle champagne que hontem bebemos nas corridas, por patriotismo,
-arrasou-me... Tenho de me pÙr uma semana a regimen de leite.
-
-Ent„o fallou-se ainda das corridas, dos ganhos de Carlos, do Clifford, e
-do vÈo azul do Damaso.
-
---Ora quem estava hontem muito bem vestida era a Gouvarinho, disse Craft
-remexendo o seu ch·. Ficava-lhe admiravelmente aquelle branco creme,
-tocado de tons negros. Uma verdadeira toilette de corridas... _C'Ètait
-un [oe]illet blanc panachÈ de noir_... VossÍ n„o achou, Carlos?
-
---Sim, rosnou Carlos, estava bem.
-
-Outra vez a Gouvarinho! Parecia-lhe agora que n„o haveria na sua vida
-conversa em que n„o surgisse a Gouvarinho, e que n„o haveria caminho na
-sua vida que o n„o atravancasse a Gouvarinho! E alli mesmo, · mesa,
-decidiu comsigo n„o a tornar a vÍr, escrever-lhe um bilhete curto,
-polido, recusando-se a ir a Santarem, sem razıes...
-
-Mas no seu quarto, diante da folha de papel, fumou uma longa cigarrette,
-sem achar phrase que n„o fosse pueril ou brutal. Nem tinha a sympathia
-precisa para lhe dar o banal tratamento de _querida_. Vinha-lhe atÈ por
-ella uma indefinida repuls„o physica: devia ser intoleravel toda uma
-noite o seu cheiro exagerado de verbena;--e lembrava-se que aquella
-pelle do seu pescoÁo, que se lhe afigurava outr'ora um setim, tinha um
-tom pegajoso, um tom amarellado, para alÈm da linha de pÛs d'arroz.
-Decidiu n„o lhe escrever. Iria · noite a Santa Apolonia, e no momento do
-comboio partir correria · portinhola, a balbuciar fugitivamente uma
-desculpa; n„o lhe daria tempo de choramigar, nem de recriminar; um
-rapido aperto de m„o, e adeus, para nunca mais...
-
-¡ noite, porÈm, · hora de ir · estaÁ„o, que sacrificio em se arrancar
-aos confortos da sua poltrona, e do seu charuto!... Atirou-se para o
-coupÈ desesperado, maldizendo essa tarde no boudoir azul em que, por
-causa d'uma rosa e d'um certo vestido cÙr de folha morta que lhe ficava
-bem, elle se'ach·ra cahido com ella n'um sof·...
-
-Ao chegar a Santa Apolonia faltavam, para a partida do expresso, dois
-minutos. Precipitou-se para a extremidade da sala, j· quasi vazia
-·quella hora, a comprar uma _admiss„o_; e ainda ahi esperou uma
-eternidade, vendo dentro do postigo duas m„os lentas e molles arranjar
-laboriosamente os patacos d'um troco.
-
-Penetrava emfim na sala d'espera--quando esbarrou com o Damaso, de
-chapÈo desabado e saccola de viagem a tiracollo. Damaso agarrou-lhe as
-m„os, enternecido:
-
---” menino! pois tiveste o incommodo?... E como soubeste tu que eu
-partia?
-
-Carlos n„o o desilludiu, balbuciando que lh'o dissera o Taveira, que
-encontr·ra o Taveira...
-
---Pois eu estava mais longe d'uma d'estas! exclamou o Damaso. Esta
-manh„, muito regalado na cama, quando me vem o telegramma... Fiquei
-furioso! Isto È, imagina tu como eu fiquei, um desgosto assim!...
-
-Foi ent„o que Carlos reparou que elle estava carregado de luto, com fumo
-no chapÈo, luvas pretas, polainas pretas, barra preta no lenÁo...
-Murmurou, embaraÁado:
-
---O Taveira disse-me que ias, mas n„o me disse mais nada... Morreu-te
-alguem?
-
---Meu tio Guimar„es.
-
---O communista? o de Paris?
-
---N„o, o irm„o d'elle, o mais velho, o de Penafiel... Espera ahi que eu
-volto j·, vou alli ao cafÈ encher o frasco de cognac. Com a afflicÁ„o
-esquecia-me o cognac...
-
-Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos, de guarda-pÛ, com
-chapeleiras na m„o. Os guardas rolavam pachorrentamente as bagagens.
-D'uma portinhola, onde se exhibia um cavalheiro barrigudo, com um bonet
-bordado a retroz, pendia todo um cacho d'amigos politicos,
-respeitosamente e em silencio. A um canto uma senhora soluÁava por baixo
-do vÈo.
-
-Carlos, vendo um wagon com a papeleta de _reservado_, imaginou l· a
-condessa. Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a profanaÁ„o
-d'um santuario. Que queria elle, que queria elle d'alli? N„o sabia que
-era o _reservado_ do snr. Carneiro?
-
---N„o sabia.
-
---Perguntasse, devia saber! ficou o outro a resmungar, ainda tremulo.
-
-Carlos correu ainda outros wagons, onde a gente se apinhava,
-atabafadamente, na amontoaÁ„o dos embrulhos; n'um, dois sujeitos, a
-proposito de lugares, tratavam-se de _malcriados_; adiante, uma crianÁa
-esperneava no collo da ama, aos gritos.
-
---” menino, quem diabo andas tu a procurar? exclamou Damaso alegremente,
-surgindo por traz d'elle, e passando-lhe o braÁo pela cinta.
-
---Ninguem... Imaginei que tinha visto o marquez.
-
-Immediatamente Damaso queixou-se d'aquella l˙gubre massada de ter d'ir a
-Penafiel!
-
---E ent„o agora que eu precisava tanto estar em Lisboa! Que tenho andado
-com uma sorte para mulheres, menino!... Uma sorte damnada!
-
-Uma sineta badalou. Damaso deu logo um abraÁo terno a Carlos, saltou
-para o seu wagon, enterrou na cabeÁa um barretinho de sÍda--e depois
-debruÁado da portinhola continuou ainda as confidencias. O que mais o
-contrariava era deixar aquelle arranjinho da rua de S. Francisco. Que
-ferro! agora que aquillo ia t„o bem, o gajo no Brazil, e ella alli, ·
-m„o, a dois passos do Gremio!...
-
-Carlos mal o escutava, distrahido, olhando o grande relogio
-transparente. De repente Damaso, · portinhola, deu um salto de surpreza:
-
---Olha os Gouvarinhos!
-
-Carlos deu um salto tambem. O conde, de cÙco de viagem, de paletot
-alvadio, sem se apressar, como competia a um director da Companhia,
-vinha conversando com um empregado superior da estaÁ„o, agaloado de
-ouro, que se encarreg·ra da chapeleira de papel„o de s. exc.^a E a
-condessa, com um rico guarda-pÛ de foulard cÙr de castanho, um vÈo
-cinzento que lhe cobria a face e o chapÈo, seguia atraz, com a criada
-escosseza, trazendo na m„o um ramo de rosas.
-
-Carlos correu para elles, foi todo um assombro.
-
---Por aqui, Maia?
-
---De viagem, conde?
-
-… verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos annos do pap·...
-ResoluÁ„o da ultima hora, quasi iam perdendo o comboio.
-
---Ent„o temol-o por companheiro, Maia? Teremos esse grande prazer, Maia?
-
-Carlos contou rapidamente que viera apenas apertar a m„o ao pobre
-Damaso, de jornada para Penafiel, por causa da morte do tio.
-
-DebruÁado da portinhola, com as m„os de fÛra calÁadas de negro, o pobre
-Damaso estava saudando a senhora condessa, gravemente, funebremente. E o
-bom Gouvarinho n„o quiz deixar de lhe ir dar logo o seu _shake-hands_ e
-o seu pezame.
-
-SÛsinho n'esse curto instante com a condessa, Carlos murmurou apenas:
-
---Que ferro!
-
---Este maldito homem! exclamou ella, entre dentes, com um olhar que
-fuzilou atravÈs do vÈo. Tudo t„o bem arranjado, e · ultima hora teima em
-vir!...
-
-Carlos acompanhou-os atÈ ao _reservado_, n'um outro wagon que se
-estivera mettendo de novo para s. exc.^a A condessa tomou o lugar do
-canto junto da portinhola. E como o conde, n'um tom de polidez acida, a
-aconselhava a que se sentasse antes com o rosto para a machina, ella
-teve um gesto de aborrecimento, atirou o ramo para o lado
-desabridamente, enterrou-se com mais forÁa na almofada; e um duro olhar
-de colera passou entre ambos. Carlos, embaraÁado, perguntava:
-
---Ent„o v„o com demora?
-
-O conde respondeu, sorrindo, disfarÁando o seu mau humor:
-
---Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas ferias.
-
---Tres dias, o mais, replicou ella n'uma voz fria e afiada como uma
-navalha.
-
-O conde n„o respondeu, livido.
-
-Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silencio cahira sobre a
-plataforma. O apito da machina varou o ar; e o comprido trem, n'um ruido
-secco de freios retesados, comeÁou a rolar, com gente ·s portinholas,
-que ainda se debruÁava, estendendo a m„o para um ultimo aperto. Aqui e
-alÈm esvoaÁava um lenÁo branco. O olhar da condessa para o lado de
-Carlos teve a doÁura de um beijo, o Damaso gritou saudades para o
-Ramalhete. O compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro
-dilacerante silvo o comboio mergulhou na noite...
-
-Carlos, sÛ, dentro do coupÈ, voltando · Baixa, sentia uma alegria
-triumphante com aquella partida da condessa, e a inesperada jornada do
-Damaso. Era como uma dispers„o providencial de todos os importunos: e
-assim se fazia em torno da rua de S. Francisco uma solid„o--com todos os
-seus encantos, e todas as suas cumplicidades.
-
-No caes do SodrÈ deixou a carruagem, subiu a pÈ pelo Ferregial, veio
-passar diante das janellas na rua de S. Francisco. SÛ pÙde vÍr uma vaga
-tira de claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto bastava-lhe.
-Podia agora imaginar com precis„o o ser„o calmo que ella estava passando
-na larga sala de reps vermelho. Sabia o nome dos livros que ella lia, e
-as partituras que tinha sobre o piano; e as flÙres que espalhavam alli o
-seu aroma vira-as elle arranjar n'essa manh„. Poria ella um instante o
-seu pensamento n'elle? Decerto; a doenÁa em casa forÁava-a a lembrar as
-horas do remedio, as explicaÁıes que elle dera, e o som da sua voz; e
-fallando com miss Sarah pronunciaria decerto o seu nome. Duas vezes
-percorreu a rua de S. Francisco; e recolheu para casa, sob a noite
-estrellada, devagar, ruminando a doÁura d'aquelle grande amor.
-
-
-Ent„o todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa,
-esplendida, perfeita, ´a visita · inglezaª.
-
-Saltava do leito, cantando como um canario, e penetrava no seu dia como
-n'uma acÁ„o triumphal. O correio chegava; e invariavelmente lhe trazia
-uma carta da Gouvarinho, tres folhas de papel d'onde cahia sempre alguma
-pequena flÙr meio murcha. Elle deixava ficar a flÙr no tapete: e mal
-podia dizer o que havia n'aquellas longas linhas cruzadas. Sabia apenas
-vagamente que, tres dias depois d'ella chegar ao Porto, o pai, o velho
-Thompson, tivera uma apoplexia. Ella l· estava, d'enfermeira. Depois,
-levando duas ou tres bellas flÙres do jardim embrulhadas n'um papel de
-sÍda, partia para a rua de S. Francisco, sempre no seu coupÈ--porque o
-tempo mud·ra, e os dias seguiam-se, tristonhos, cheios de sudoeste e de
-chuva.
-
-¡ porta o Domingos acolhia-o com um sorriso cada vez mais enternecido.
-_Niniche_ corria de dentro, a pular d'amizade; elle erguia-a nos braÁos
-para a beijar. Esperava um instante na sala, de pÈ, saudando com o olhar
-os moveis, os ramos, a clara ordem das coisas; ia examinar no piano a
-musica que ella toc·ra essa manh„, ou o livro que deix·ra interrompido,
-com a faca de marfim entre as folhas.
-
-Ella entrava. O seu sorriso ao dar-lhe os bons dias, a sua voz d'ouro
-tinham cada dia para Carlos um encanto novo e mais penetrante. Trazia
-ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas ·s vezes uma gravata
-de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivella era cravejada de pedras,
-avivavam este traje sobrio, quasi severo, que parecia a Carlos o mais
-bello, e como uma express„o do seu espirito.
-
-ComeÁavam por fallar de miss Sarah, d'aquelle tempo agreste e humido que
-lhe era t„o desfavoravel. Conversando, ainda de pÈ, ella dava aqui e
-alÈm um arranjo melhor a um livro, ou ia mover uma cadeira que n„o
-estava no seu alinho; tinha o habito inquieto de recompÙr constantemente
-a symetria das coisas;--e, machinalmente, ao passar, sacudia a
-superficie de moveis j· perfeitamente espanejados com as magnificas
-rendas do seu lenÁo.
-
-Agora acompanhava-o sempre ao quarto de miss Sarah. Pelo corredor
-amarello, caminhando ao seu lado, Carlos perturbava-se sentindo a
-caricia d'esse intimo perfume em que havia jasmim, e que parecia sahir
-do movimento das suas saias. Ella ·s vezes abria familiarmente a porta
-de um quarto, apenas mobilado com um velho sof·: era alli que Rosa
-brincava, e que tinha os arranjos de Cri-cri, as carruagens de Cri-cri,
-a cozinha de Cri-cri. Encontravam-na vestindo e conversando
-profundamente com a boneca; ou ent„o, ao canto do sof·, com os pÈsinhos
-cruzados, immovel, perdida na admiraÁ„o d'algum livro d'estampas aberto
-sobre os joelhos. Ella corria, estendia a boquinha a Carlos; e toda a
-sua pessoa tinha a frescura de uma linda flÙr.
-
-No quarto da governante, Maria Eduarda sentava-se aos pÈs do leito
-branco; e logo a pobre miss Sarah, ainda cheia de tosse, confusa,
-verificando a cada instante se o lenÁo de sÍda lhe cobria correctamente
-o pescoÁo, affirmava que estava boa. Carlos gracejava com ella,
-provando-lhe que n'esse feio tempo d'inverno, a felicidade era estar
-alli na cama, com bons cuidados em redor, alguns romances patheticos, e
-appetitosa dieta portugueza. Ella voltava os olhos gratos para Madame,
-com um suspiro. Depois murmurava:
-
---_Oh yes, I am very comfortable!_
-
-E enternecia-se.
-
-Logo nos primeiros dias, ao voltar · sala, Maria Eduarda tinha-se
-sentado na sua cadeira escarlate, e, conversando com Carlos, retom·ra
-muito naturalmente o seu bordado como na presenÁa familiar de um velho
-amigo. Com que felicidade profunda elle viu desdobrar-se essa talagarÁa!
-Devia ser um fais„o de plumagens rutilantes: mas por ora sÛ estava
-bordado o galho de macieira em que elle pousava, galho fresco de
-primavera, coberto de florzinhas brancas, como n'um pomar da Normandia.
-
-Carlos, junto da linda secretariasinha de pau preto, occupava a mais
-velha, a mais commoda das poltronas de reps vermelho, cujas molas
-rangiam de leve. Entre elles ficava a mesa de costura com as
-_IllustraÁıes_ ou algum jornal de modas; ·s vezes, um instante calado,
-elle folheava as gravuras, em quanto as lindas m„os de Maria, com
-brilhos de joias, iam puxando os fios de l„. Aos pÈs d'ella _Niniche_
-dormitava, espreitando-os a espaÁos, atravÈs das repas do focinho, com o
-seu bello olho grave e negro. E n'esses escuros dias de chuva, cheios de
-friagem l· fÛra e do rumor das goteiras, aquelle canto da janella, com a
-paz do vagaroso trabalho na talagarÁa, as vozes lentas e amigas, e ·s
-vezes um dÙce silencio, tinha um ar intimo e carinhoso...
-
-Mas no que diziam n„o havia intimidades. Fallavam de Paris e do seu
-encanto, de Londres onde ella estivera durante quatro lugubres mezes de
-inverno, da Italia que era o seu sonho vÍr, de livros, de coisas d'arte.
-Os romances que preferia eram os de Dickens; e agradava-lhe menos
-Feuillet, por cobrir tudo de pÛ d'arroz, mesmo as feridas do coraÁ„o.
-Apesar de educada n'um convento severo d'Orleans, lÍra Michelet e lÍra
-Renan. De resto n„o era catholica praticante; as igrejas apenas a
-attrahiam pelos lados graciosos e artisticos do culto, a musica, as
-luzes, ou os lindos mezes de Maria, em FranÁa, na doÁura das flÙres de
-maio. Tinha um pensar muito recto e muito s„o--com um fundo de ternura
-que a inclinava para tudo o que soffre e È fraco. Assim gostava da
-Republica por lhe parecer o regimen em que ha mais solicitude pelos
-humildes. Carlos provava-lhe rindo que ella era socialista.
-
---Socialista, legitimista, orleanista, dizia ella, qualquer coisa,
-comtanto que n„o haja gente que tenha fome!
-
-Mas era isso possivel? J· Jesus, mesmo, que tinha t„o dÙces illusıes,
-declar·ra que pobres sempre os haveria...
-
---Jesus viveu ha muito tempo, Jesus n„o sabia tudo... Hoje sabe-se mais,
-os senhores sabem muito mais... … necessario arranjar-se outra
-sociedade, e depressa, em que n„o haja miseria. Em Londres, ·s vezes,
-por aquellas grandes neves, ha criancinhas pelos portaes a tiritar, a
-gemer de fome... … um horror! E em Paris ent„o! … que se n„o vÍ sen„o o
-boulevard; mas quanta pobreza, quanta necessidade...
-
-Os seus bellos olhos quasi se enchiam de lagrimas. E cada uma d'estas
-palavras trazia todas as complexas bondades da sua alma--como n'um sÛ
-sopro podem vir todos os aromas esparsos de um jardim.
-
-Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou ·s suas caridades,
-pedindo-lhe para ir vÍr a irm„ da sua engommadeira que tinha
-rheumatismo, e o filho da snr.^a Augusta, a velha do patamar, que estava
-tisico. Carlos cumpria esses encargos com o fervor de acÁıes religiosas.
-E n'estas piedades achava-lhe semelhanÁas com o avÙ. Como Affonso, todo
-o soffrimento dos animaes a consternava. Um dia viera indignada da PraÁa
-da Figueira, quasi com idÈas de vinganÁa, por ter visto nas tendas dos
-gallinheiros aves e coelhos apinhados em cestos, soffrendo durante dias
-as torturas da immobilidade e a anciedade da fome. Carlos levava estes
-bellas coleras para o Ramalhete, increpava violentamente o marquez, que
-era membro da _Sociedade protectora dos animaes_. O marquez, indignado
-tambem, jurava justiÁa, fallava em cadÍas, em costa d'Africa... E
-Carlos, commovido, ficava a pensar quanta larga e distante influencia
-pÛde ter, mesmo isolado de tudo, um coraÁ„o que È justo.
-
-Uma tarde fallaram do Damaso. Ella achava-o insupportavel, com a sua
-petulancia, os olhos bugalhudos, as perguntas nescias. V. exc.^a acha
-Nice elegante? V. exc.^a prefere a capella de S. Jo„o Baptista a
-_Notre-Dame_?...
-
---E ent„o a insistencia de fallar de pessoas que eu n„o conheÁo! A
-snr.^a condessa de Gouvarinho, e os ch·s da snr.^a condessa de
-Gouvarinho, e a frisa da snr.^a condessa de Gouvarinho, e a preferencia
-que a snr.^a condessa de Gouvarinho tem por elle... E isto horas! Eu ·s
-vezes tinha medo de adormecer...
-
-Carlos fez-se escarlate. Porque trouxera ella, entre todos, o nome da
-Gouvarinho? Tranquillisou-se, vendo-a rir simples e limpidamente.
-Decerto n„o sabia quem era Gouvarinho. Mas, para sacudir logo d'entre
-elles esse nome, comeÁou a fallar de Mr. Guimar„es, o famoso tio do
-Damaso, o amigo de Gambetta, o influente da Republica...
-
---O Damaso tem-me dito que v. exc.^a o conhece muito...
-
-Ella erguera os olhos, com um fugitivo rubor no rosto.
-
---Mr. Guimar„es?... Sim, conheÁo muito... Ultimamente viamo-nos menos,
-mas elle era muito amigo da mam„.
-
-E depois d'um silencio, d'um curto sorriso, recomeÁando a puxar o seu
-longo fio de l„:
-
---Pobre Guimar„es, coitado! A sua influencia na Republica È traduzir
-noticias dos jornaes hespanhoes e italianos para o _Rappel_, que d'isso
-È que vive... Se È amigo de Gambetta, n„o sei, Gambetta tem amigos t„o
-extraordinarios... Mas o Guimar„es, ali·s bom homem e homem honrado, È
-um grutesco, uma especie de Calino republicano. E t„o pobre, coitado! O
-Damaso, que È rico, se tivesse decencia, ou o menor sentimento, n„o o
-deixava viver assim t„o miseravelmente.
-
---Mas ent„o essas carruagens do tio, esse luxo do tio, de que falla o
-Damaso...?
-
-Ella encolheu mudamente os hombros; e Carlos sentiu pelo Damaso um asco
-intoleravel.
-
-Pouco a pouco nas suas conversas foi havendo uma intimidade mais
-penetrante. Ella quiz saber a idade de Carlos, elle fallou-lhe do avÙ. E
-durante essas horas suaves em que ella, silenciosa, ia picando a
-talagarÁa, elle contou-lhe a sua vida passada, os planos de carreira, os
-amigos, e as viagens... Agora ella conhecia a paizagem de Santa Olavia,
-o reverendo Bonifacio, as excentricidades do Ega. Um dia quiz que Carlos
-lhe explicasse longamente a idÈa do seu livro _A medicina antiga e
-moderna_. Approvou, com sympathia, que elle pintasse as figuras dos
-grandes medicos, bemfeitores da humanidade. Porque se glorificariam sÛ
-guerreiros e fortes? A vida salva a uma crianÁa parecia-lhe coisa bem
-mais bella que a batalha de Austerlitz. E estas palavras que dizia com
-simplicidade, sem mesmo erguer os olhos do seu bordado, cahiam no
-coraÁ„o de Carlos e ficavam l· muito tempo, palpitando e brilhando...
-
-Elle tinha-lhe feito assim largamente todas as confissıes;--e ainda n„o
-sabia nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer
-a rua que habitava em Paris. N„o lhe ouvira murmurar j·mais o nome do
-marido, nem fallar d'um amigo ou d'uma alegria da sua casa. Parecia n„o
-ter em FranÁa, onde vivia, nem interesses, nem lar;--e era realmente
-como a deusa que elle ide·ra, sem contactos anteriores com a terra,
-descida da sua nuvem d'oiro para vir ter alli, n'aquelle andar alugado
-da rua de S. Francisco, o seu primeiro estremecimento humano.
-
-Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham faltado
-d'affeiÁıes. Ella acreditava candidamente que podesse haver, entre uma
-mulher e um homem, uma amizade pura, immaterial, feita da concordancia
-amavel de dois espiritos delicados. Carlos jurou que tambem tinha fÈ
-n'essas bellas uniıes, todas d'estima, todas de raz„o--comtanto que se
-lhes misturasse, ao de leve que fosse, uma ponta de ternura... Isso
-perfumava-as d'um grande encanto--e n„o lhes diminuia a sinceridade. E,
-sob estas palavras um pouco diffusas, murmuradas por entre as malhas do
-bordado e com lentos sorrisos, fic·ra subtilmente estabelecido que entre
-elles sÛ deveria haver um sentimento assim, casto, legitimo, cheio de
-suavidade e sem tormentos.
-
-Que importava a Carlos? Comtanto que podesse passar aquella hora na
-poltrona de cretone, contemplando-a a bordar, e conversando em coisas
-interessantes, ou tornadas interessantes pela graÁa da sua pessoa;
-comtanto que visse o seu rosto, ligeiramente cÛrado, baixar-se, com a
-lenta attracÁ„o d'uma caricia, sobre as flÙres que lhe trazia; comtanto
-que lhe afagasse a alma a certeza de que o pensamento d'ella o ficava
-seguindo sympathicamente atravÈs do seu dia, mal elle deixava aquella
-adorada sala de reps vermelho--o seu coraÁ„o estava satisfeito,
-esplendidamente.
-
-N„o pensava mesmo que aquella ideal amizade, d'intenÁ„o casta, era o
-caminho mais seguro para a trazer, brandamente enganada, aos seus braÁos
-ardentes d'homem. No deslumbramento que o tom·ra ao vÍr-se de repente
-admittido a uma intimidade que julg·ra impenetravel,--os seus desejos
-desappareciam: longe d'ella, ·s vezes, ainda ousavam ir temerariamente
-atÈ · esperanÁa d'um beijo, ou d'uma fugitiva caricia com a ponta dos
-dedos; mas apenas transpunha a sua porta, e recebia o calmo raio do seu
-olhar negro, cahia em devoÁ„o, e julgaria um ultraje bestial roÁar
-sequer as prÈgas do seu vestido.
-
-Foi aquelle decerto o periodo mais delicado da sua vida. Sentia em si
-mil coisas finas, novas, d'uma tocante frescura. Nunca imagin·ra que
-houvesse tanta felicidade em olhar para as estrellas quando o cÈo est·
-limpo; ou em descer de manh„ ao jardim para escolher uma rosa mais
-aberta. Tinha na alma um constante sorriso--que os seus labios repetiam.
-O marquez achava-lhe o ar baboso e abenÁoador...
-
-¡s vezes, passeando sÛ no seu quarto, perguntava a si mesmo onde o
-levaria aquelle grande amor. N„o sabia. Tinha diante de si os tres mezes
-em que ella estaria em Lisboa, e em que ninguem mais sen„o elle
-occuparia a velha cadeira ao lado do seu bordado. O marido andava longe,
-separado por legoas de mar incerto. Depois elle era rico, e o mundo era
-largo...
-
-Conservava sempre as suas grandes idÈas do trabalho, querendo que no seu
-dia sÛ houvesse horas nobres,--e que aquellas que n„o pertenciam ·s
-puras felicidades do amor, pertencessem ·s alegrias fortes do estudo. Ia
-ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscripto. Mas antes da
-visita · rua de S. Francisco n„o podia disciplinar o espirito, inquieto,
-n'um tumulto d'esperanÁas; e depois de voltar de l·, passava o dia a
-recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a
-graÁa de certo sorriso... Fumava ent„o cigarrettes, lia os poetas.
-
-Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de
-_whist_. O marquez batia-se ao dominÛ com o Taveira, enfronhados ambos
-n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias.
-Depois das corridas, o secretario de Steinbroken comeÁ·ra a vir ao
-Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as
-balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de
-vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus
-longos bigodes tristes.
-
-O amigo que Carlos gostava de vÍr entrar era o Cruges--que vinha da rua
-de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava.
-O maestro sabia que Carlos ia todas as manh„s ao predio vÍr a ´miss
-inglezaª; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de
-coraÁ„o com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da
-visinha...
-
---A visinha l· ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execuÁ„o, tem
-express„o, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin.
-
-Se elle n„o apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam
-no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da
-visinha; Cruges achava-lhe ´um verdadeiro typo de _grande dame_ª.
-
-Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como elle
-dizia a faiscar d'ironia) o que se passava ´no paiz do snr. Gambettaª.
-Parecera remoÁar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade
-d'esperanÁa nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela
-condessa. L· estava no Porto, nos seus deveres de filha...
-
---E seu sogro?
-
-O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente:
-
---Mal.
-
-
-Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando _Niniche_
-que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Rom„o entreabriu
-discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraÁado, um
-ar de cumplicidade, murmurou:
-
---… o snr. Damaso!...
-
-Ella olhou o Rom„o, surprehendida d'aquelles modos, e quasi
-escandalisada.
-
---Pois bem, mande entrar!
-
-E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flÙr ao peito,
-gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na m„o, trazendo dependurado
-por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vÍr Carlos
-alli, intimamente, de cadellinha no collo, estacou assombrado, com o
-olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraÁou as m„os, veio
-comprimentar Maria Eduarda quasi de leve,--e voltando-se logo para
-Carlos, de braÁos abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente:
-
---Ent„o tu aqui, homem? Isto È que È uma surpreza! Ora quem me diria!...
-Eu estava mais longe...
-
-Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente
-uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle
-tinha chegado.
-
---Perfeitamente, minha senhora... Um bocado canÁado, como È natural...
-Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.^a vÍ--e mostrou o seu luto
-pesado--acabo de passar por um grande desgosto.
-
-Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso
-pous·ra os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de cÙr, cheio de
-sangue; e como cort·ra a barba (que havia mezes deix·ra crescer para
-imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As cÙxas
-roliÁas estalavam-lhe de gordura dentro da calÁa de casimira preta.
-
---E ent„o, perguntou Maria Eduarda, temol-o por c· algum tempo?
-
-Elle deu um pux„osinho · cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez
-risonho:
-
---Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer...
-Isto È, credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero
-dizer È que ha de custar a arrancar-me d'aqui!
-
-Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pÍllos da
-_Niniche_. E houve ent„o um pequeno silencio. Maria Eduarda retom·ra o
-bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao
-bigode, estendeu a m„o para acariciar tambem _Niniche_ sobre os joelhos
-de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho
-desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.
-
---_C'est moi, Niniche!_ dizia Damaso, recuando a cadeira. _C'est moi,
-ami... Alors, Niniche_...
-
-Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente _Niniche_. E,
-aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso,
-rosnando, e com rancor.
-
---J· me n„o conhece, dizia elle embaÁado, È curioso...
-
---Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito sÈria. Mas n„o sei
-o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. … sempre este
-escandalo.
-
-Damaso balbuciava, escarlate:
-
---Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre
-caricias...
-
-E ent„o n„o se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades
-novas de Mademoiselle _Niniche_. Alli estava nos braÁos d'outro,
-emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto...
-
-Carlos ria.
-
---” Damaso, n„o a accuses de ingratid„o... Pois se a snr.^a D. Maria
-Eduarda est· a dizer que ella sempre te teve odio...
-
---Sempre! exclamou Maria.
-
-Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um lenÁo de barra
-negra, limpando os beiÁos e mesmo o suor do pescoÁo, lembrou a Maria
-Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a
-tarde · espera...
-
---Eram vesperas de partida, disse ella.
-
---Sim, bem sei, o marido de v. exc.^a... E como vai o snr. Castro Gomes?
-V. exc.^a j· recebeu noticias?
-
---N„o, respondeu ella com o rosto sobre o bordado.
-
-Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa.
-Depois por Cri-cri. Era necessario n„o esquecer Cri-cri...
-
---Pois v. exc.^a--continuou elle, cheio subitamente de
-loquacidade--perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... NÛs ainda
-n„o nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na
-estaÁ„o... Pois n„o È verdade que estiveram muito _chics_? Olhe, minha
-senhora, d'uma coisa pÛde v. exc.^a estar certa, È que hippodromo mais
-bonito n„o ha l· fÛra. Uma vista atÈ · barra, que È d'appetite... AtÈ se
-vÍem entrar os navios... Pois n„o È assim, Carlos?
-
---Sim, disse Carlos, sorrindo. N„o È propriamente um campo de
-corridas... … verdade que n„o ha tambem propriamente cavallos de
-corridas... Verdade seja que n„o ha jockeys... Ora È verdade que n„o ha
-apostas... Mas È verdade tambem que n„o ha publico...
-
-Maria Eduarda ria, alegremente.
-
---Mas ent„o?
-
---VÍem-se entrar os navios, minha senhora...
-
-Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer
-mal · forÁa... N„o senhor, n„o senhor!... Eram muito boas corridas. Tal
-qual como l· fÛra, as mesmas regras, tudo...
-
---AtÈ na pesagem, acrescentou elle muito sÈrio, fallamos sempre inglez!
-
-Repetiu ainda que as corridas eram _chics_. Depois n„o achou mais
-nada:--e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se
-forÁado a ficar em casa, estupidamente, a lÍr...
-
---Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um
-bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas
-de pÈ descalÁo, n„o tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v.
-exc.^a, n„o tolero...
-
-Carlos cor·ra: mas Maria Eduarda parecia n„o ter ouvido, occupada a
-contar attentamente as malhas do seu bordado.
-
-De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a
-snr.^a D. Maria Eduarda. Mas n„o imaginasse que era alguma
-preciosidade... Verdadeiramente atÈ o presente era para Mademoiselle
-Rosa.
-
---Olhe, para n„o estar com mysterios, sabe o que È? Tenho-o alli no
-embrulhosinho de papel pardo... S„o seis barrilinhos d'ovos molles
-d'Aveiro. … um dÙce muito cÈlebre, mesmo l· fÛra. SÛ o de Aveiro È que
-tem _chic_... Pergunte v. exc.^a ao Carlos. Pois n„o È verdade, Carlos,
-que È uma delicia, atÈ conhecido l· fÛra?
-
---Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente...
-
-Pous·ra _Niniche_ no ch„o, erguera-se, fÙra buscar o seu chapÈo.
-
---J·?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era sÛ para
-elle. AtÈ ·manh„, ent„o!
-
-E voltou-se logo para o Damaso, esperando vÍl-o erguer-se tambem. Elle
-conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a
-perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos.
-
---_Au revoir_, disse o outro. Recados l· no Ramalhete; hei de
-apparecer!...
-
-Carlos desceu as escadas, furioso.
-
-Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente,
-t„o obtuso que n„o percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E
-para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em
-cal„o, e de perna traÁada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe
-dissera na noite do jantar do Ega, · porta do Hotel Central, a respeito
-da propria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres ´que era o
-_atrac„o_ª. Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse
-um ultraje? A supposiÁ„o era insensata, talvez--mas reteve-o no pateo,
-applicando o ouvido para cima, com idÈas ferozes de esperar alli o
-Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, · menor
-reflex„o d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages...
-
-Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser
-assim surprehendido · escuta. O coupÈ do Damaso estacionava na rua.
-Ent„o veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle
-ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao Gremio; e apenas abrira uma
-vidraÁa--viu logo o Damaso sahir do port„o, saltar para o coupÈ, bater
-com forÁa a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraÁado, e
-subitamente teve dÛ d'aquelle grutesco...
-
-N'essa noite, depois de jantar, Carlos sÛ no seu quarto fumava,
-enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida n'essa
-manh„,--quando appareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapÈo, logo da
-porta, exclamou, com o mesmo espanto da manh„:
-
---Ent„o dize-me c·! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a
-brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi isso?
-
-Sem mover a cabeÁa do espaldar da poltrona, cruzando as m„os sobre os
-joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor,
-disse, com uma dÙce reprehens„o paternal:
-
---Pois ent„o tu vaes expÙr a uma senhora as tuas opiniıes lubricas sobre
-as lavradeiras de Penafiel!
-
---N„o se trata d'isso, sei muito bem o que hei de expÙr! exclamou o
-outro, vermelho. Conta l·, anda... Que diabo! Parece-me que tenho
-direito a saber... Como a conheceste tu?
-
-Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar, comeÁou,
-n'um tom lento e solemne de recitativo:
-
---Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens
-d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete.
-Via-se-lhe na m„o uma carta, lacrada com sello heraldico; e a express„o
-do seu semblante...
-
-Damaso, j· zangado, atirou com o chapÈo para cima da mesa.
-
---Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios!
-
---Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde
-existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado,
-petrificado, ao encontrar l· o medico! Quem esperavas tu vÍr l·? Um
-photographo?
-
---Ent„o quem est· doente?
-
-Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza--emquanto o
-Damaso, sentado · beira do sof·, mordendo o charuto sem lume, olhava
-para elle desconfiado.
-
---E como soube ella onde tu moravas?
-
---Como se sabe onde mora o rei; onde È a alfandega; de que lado luz a
-estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se
-aprendem nas aulas de instrucÁ„o primaria...
-
-O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as m„os nos
-bolsos.
-
---Ella tem agora l· o Rom„o, o que foi meu criado, murmurou depois d'um
-silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu
-lhe digo...
-
---Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi · terra. Vai mandal-o
-embora, È um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado m·s maneiras...
-
-Ent„o Damaso atirou-se para o canto do sof· e confessou que ao entrar na
-sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, fic·ra
-furioso... Emfim, agora que sabia que era por doenÁa, bem, tudo se
-explicava... Mas primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... SÛ com
-ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que n„o fosse
-delicado; e alÈm d'isso ella estava de mau humor...
-
-E acrescentou logo, accendendo o charuto:
-
---Que apenas tu sahiste, pÙz-se melhor, mais · vontade... Rimos muito...
-Eu fiquei ainda atÈ tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco
-quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim?
-
---N„o. … uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, n„o se
-atreveria a dizer-me mal de ti.
-
-Damaso olhou-o, esgazeado:
-
---Ora essa!... Mas podia ter dito bem!
-
---N„o; È uma pessoa de bom senso, n„o se atreveria tambem.
-
-E erguendo-se vivamente, Carlos abraÁou Damaso pela cinta,
-acariciando-o, perguntando-lhe pela heranÁa do titi, e em que amores, em
-que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhıes...
-
-Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o
-de revez.
-
---Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um
-traste... N„o ha a gente fiar-se em ninguem!
-
---Tudo na terra, meu Damaso, È apparencia e engano!
-
-Seguiram d'alli · sala do bilhar fazer ´a partida de reconciliaÁ„oª. E
-pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o
-Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho j·, gozando de novo a sua
-intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo sÈrio, e tratando-o outra
-vez por ´meninoª. Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o
-bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?...
-
---Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez c· no
-sabbado.
-
-Foi um espanto para o Damaso.
-
---Homem! essa È curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha
-dois dias de Southampton... JÛgo eu?
-
-Jogou, falhou a carambola.
-
---Pois È verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a
-Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma _toilette_ ingleza com
-coisas brancas, coisas cÙr de rosa... _Chic_ a valer, parecia um
-moranguinho! E ent„o o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos
-escandalo!
-
-
-
-
-II
-
-
-No sabbado, com effeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da rua
-de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, mettido n'um fato de
-cheviotte claro, e com o cabello muito crescido.
-
---N„o faÁas espalhafato, gritou-lhe elle, que eu estou em Lisboa
-_incognito_!
-
-E em seguida aos primeiros abraÁos declarou que vinha a Lisboa, sÛ por
-alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava
-com Carlos para lhe fornecer esses requintes, alli, no Ramalhete...
-
---Ha c· um quarto para mim? Eu por ora estou no _Hotel Hespanhol_, mas
-ainda nem mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de
-pinho, larga bastante para se escrever uma obra sublime.
-
-Decerto! Havia o quarto em cima, onde elle estivera depois de deixar a
-Villa Balzac. E mais sumptuoso agora, com um bello leito da RenascenÁa,
-e uma cÛpia dos _Borrachos_ de Velasquez.
-
---Optimo covil para a arte! Velasquez È um dos Santos Padres do
-naturalismo... A proposito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho. O
-pai Tompson esteve · morte, arribou, depois o conde foi buscal-a.
-Achei-a magra; mas com um ar ardente; e fallou-me constantemente de ti.
-
---Ah! murmurou Carlos.
-
-Ega, de monoculo no olho e m„os nos bolsos, contemplava Carlos.
-
---… verdade. Fallou de ti constantemente, irresistivelmente,
-immoderadamente! N„o me tinhas mandado contar isso... Sempre seguiste o
-meu conselho, hein? Muito bem feita de corpo, n„o È verdade? E que tal,
-no acto d'amor?
-
-Carlos cÛrou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a
-Gouvarinho sen„o relaÁıes superficiaes. Ia l· ·s vezes tomar uma chavena
-de ch·; e · hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar
-com o conde sobre as miserias publicas, · esquina do Loreto. Nada mais.
-
---Tu est·s-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas n„o importa. Eu hei de
-descobrir tudo isso com o meu olho de Balzac, na segunda-feira....
-Porque nÛs vamos l· jantar na segunda-feira.
-
---NÛs... NÛs, quem?
-
---NÛs. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me no comboio. E o
-Gouvarinho, como compete ao individuo d'aquella especie, acrescentou
-logo que haviamos de ter tambem ´o nosso Maiaª. O Maia d'elle, e o Maia
-d'ella... Santo accordo! Suavissimo arranjo!
-
-Carlos olhou-o com severidade.
-
---Tu vens obsceno de Celorico, Ega.
-
---… o que se aprende no seio da Santa Madre Igreja.
-
-Mas tambem Carlos tinha uma novidade que o devia fazer estremecer. O Ega
-porÈm j· sabia. A chegada dos Cohens, n„o È verdade? LÍra-o logo n'essa
-manh„, na _Gazeta Illustrada_, no _high-life_. L· se dizia
-respeitosamente que s. exc.^{as} tinham regressado do seu passeio pelo
-estrangeiro.
-
---E que impress„o te fez? perguntou Carlos rindo.
-
-O outro encolheu brutalmente os hombros:
-
---Fez-me o effeito de haver um cabr„o mais na cidade.
-
-E, como Carlos o accusava outra vez de trazer de Celorico uma lingua
-immunda, o Ega, um pouco cÛrado, arrependido talvez, lanÁou-se em
-consideraÁıes criticas, clamando pela necessidade social de dar ·s
-coisas o nome exacto. Para que servia ent„o o grande movimento
-naturalista do seculo? Se o vicio se perpetuava, È porque a sociedade,
-indulgente e romanesca, lhe dava nomes que o embellezavam, que o
-idealisavam... Que escrupulo pÛde ter uma mulher em beijocar um terceiro
-entre os lenÁoes conjugaes, se o mundo chama a isso sentimentalmente um
-romance, e os poetas o cantam em estrophes d'ouro?
-
---E a proposito, a tua comedia, o _LodaÁal_? perguntou Carlos, que
-entr·ra um instante para a alcova de banho.
-
---Abandonei-a, disse o Ega. Era feroz de mais... E alÈm d'isso fazia-me
-remexer na podrid„o lisboeta, mergulhar outra vez na sargeta humana...
-Affligia-me...
-
-Parou diante do grande espelho, deu um olhar descontente ao seu jaquet„o
-claro e ·s botas com mau verniz.
-
---Preciso enfardelar-me de novo, Carlinhos... O Poole naturalmente
-mandou-te fato de ver„o, hei de querer examinar esses cÛrtes da alta
-civilisaÁ„o... N„o ha negal-o, diabo, esta minha linha est· chinfrim!
-
-Passou uma escova pelo bigode, e continuou fallando para dentro, para a
-alcova de banho:
-
---Pois, menino, eu agora o que necessito È o regimen da Chimera. Vou-me
-atirar outra vez ·s _Memorias_. Ha de se fazer ahi uma quantidade d'arte
-colossal n'esse quarto que me destinas, diante de Velasquez... E a
-proposito, È necessario ir comprimentar o velho Affonso, uma vez que
-elle me vai dar o p„o, o tecto, e a enxerga...
-
-Foram encontrar Affonso da Maia no escriptorio, na sua velha poltrona,
-com um antigo volume da _IllustraÁ„o franceza_ aberto sobre os joelhos,
-mostrando as estampas a um pequeno bonito, muito moreno, d'olho vivo, e
-cabello encarapinhado. O velho ficou contentissimo ao saber que o Ega
-vinha por algum tempo alegrar o Ramalhete com a sua bella phantasia.
-
---J· n„o tenho phantasia, snr. Affonso da Maia!
-
---Ent„o esclarecÍl-o com a tua clara raz„o, disse o velho rindo. Estamos
-c· precisando d'ambas as coisas, John.
-
-Depois apresentou-lhe aquelle pequeno cavalheiro, o snr. Manoelinho,
-rapazinho amavel da visinhanÁa, filho do Vicente, mestre d'obras; o
-Manoelinho vinha ·s vezes animar a solid„o d'Affonso--e alli folheavam
-ambos livros d'estampas e tinham conversas philosophicas. Agora,
-justamente, estava elle muito embaraÁado por n„o lhe saber explicar como
-È que o general Canrobert (de quem estavam admirando o garbo sobre o seu
-cavallo empinado) tendo mandado matar gente, muita gente, em batalhas,
-n„o era mettido na cadÍa...
-
---Est· visto! exclamou o pequeno, esperto e desembaraÁado, com as m„os
-cruzadas atraz das costas. Se mandou matar gente deviam-no ferrar na
-cadÍa!
-
---Hein, amigo Ega! dizia Affonso rindo. Que se ha de responder a esta
-bella logica? Olha, filho, agora que est„o aqui estes dois senhores que
-s„o formados em Coimbra, eu vou estudar esse caso... Vai tu vÍr os
-bonecos alli para cima da mesa... E depois v„o sendo horas d'ires l·
-dentro · Joanna, para merendares.
-
-Carlos, ajudando o pequeno a accommodar-se · mesa com o seu grande
-volume d'estampas, pensava quanto o avÙ, com aquelle seu amor por
-crianÁas, gostaria de conhecer Rosa!
-
-Affonso no emtanto perguntava tambem ao Ega pela comedia. O quÍ! J·
-abandonada? Quando acabaria ent„o o bravo John de fazer bocados
-incompletos d'obras-primas?...--Ega queixou-se do paiz, da sua
-indifferenÁa pela arte. Que espirito original n„o esmoreceria, vendo em
-torno de si esta espessa massa de burguezes, amodorrada e crassa,
-desdenhando a intelligencia, incapaz de se interessar por uma idÈa
-nobre, por uma phrase bem feita?
-
---N„o vale a pena, snr. Affonso da Maia. N'este paiz, no meio d'esta
-prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve
-limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano...
-
---Pois ent„o, acudiu o velho, planta os teus legumes. … um serviÁo ·
-alimentaÁ„o publica. Mas tu nem isso fazes!
-
-Carlos, muito sÈrio, apoiava o Ega.
-
---A unica coisa a fazer em Portugal, dizia elle, È plantar legumes,
-emquanto n„o ha uma revoluÁ„o que faÁa subir · superficie alguns dos
-elementos originaes, fortes, vivos, que isto ainda encerre l· no fundo.
-E se se vir ent„o que n„o encerra nada, demittamo-nos logo
-voluntariamente da nossa posiÁ„o de paiz para que n„o temos elementos,
-passemos a ser uma fertil e estupida provincia hespanhola, e plantemos
-mais legumes!
-
-O velho escutava com melancolia estas palavras do neto em que sentia
-como uma decomposiÁ„o da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a
-glorificaÁ„o da sua inercia. Terminou por dizer:
-
---Pois ent„o faÁam vocÍs essa revoluÁ„o. Mas pelo amor de Deus, faÁam
-alguma coisa!
-
---O Carlos j· n„o faz pouco, exclamou Ega, rindo. Passeia a sua pessoa,
-a sua toilette e o seu phaeton, e por esse facto educa o gosto!
-
-O relogio Luiz XV interrompeu-os--lembrando ao Ega que devia ainda,
-antes de jantar, ir buscar a sua mala ao Hotel Hespanhol. Depois no
-corredor confessou a Carlos que, antes d'ir ao Hespanhol, queria correr
-ao Fillon, ao photographo, vÍr se podia tirar um bonito retrato.
-
---Um retrato?
-
---Uma surpreza que tem d'ir d'aqui a tres dias para Celorico, para o dia
-d'annos d'uma creaturinha que me adoÁou o exilio.
-
---Oh Ega!
-
---… horroroso, mas ent„o? … a filha do padre CorrÍa, filha conhecida
-como tal; alÈm d'isso casada com um proprietario rico da visinhanÁa,
-reaccionario odioso... De modo que, bem vÍs, esta dupla peÁa a pregar ·
-Religi„o e · Propriedade...
-
---Ah! n'esse caso...
-
---Ninguem se deve eximir, amigo, aos seus grandes deveres democraticos!
-
-
-Na segunda-feira seguinte choviscava quando Carlos e Ega, no coupÈ
-fechado, partiram para o jantar dos Gouvarinhos. Desde a chegada da
-condessa Carlos vira-a sÛ uma vez, em casa d'ella; e fÙra uma meia hora
-desagradavel, cheia de malestar, com um ou outro beijo frio, e
-recriminaÁıes infindaveis. Ella queix·ra-se das cartas d'elle, t„o
-raras, t„o seccas. N„o se puderam entender sobre os planos d'esse ver„o,
-ella devendo ir para Cintra onde j· alug·ra casa, Carlos fallando no
-dever de acompanhar o avÙ a Santa Olavia. A condessa achava-o
-distrahido: elle achou-a exigente. Depois ella sentou-se um instante
-sobre os seus joelhos e aquelle leve e delicado corpo pareceu a Carlos
-de um fastidioso peso de bronze.
-
-Por fim a condessa arranc·ra-lhe a promessa de a ir encontrar,
-justamente n'essa segunda-feira de manh„, a casa da titi, que estava em
-Santarem;--porque tinha sempre o appetite perverso e requintado de o
-apertar nos braÁos n˙s, em dias que o devesse receber na sua sala, mais
-tarde, e com ceremonia. Mas Carlos falt·ra,--e agora, rodando para casa
-d'ella, impacientavam-n'o j· as queixas que teria de ouvir nos v„os de
-janella, e as mentiras chÙchas que teria de balbuciar...
-
-De repente o Ega, que fumava em silencio, abotoado no seu paletot de
-ver„o, bateu no joelho de Carlos, e entre risonho e sÈrio:
-
---Dize-me uma coisa, se n„o È um segredo sacrosanto... Quem È essa
-brazileira com quem tu agora passas todas as tuas manh„s?
-
-Carlos ficou um instante aturdido, com os olhos no Ega.
-
---Quem te fallou n'isso?
-
---Foi o Damaso que m'o disse. Isto È, o Damaso que m'o rugiu... Porque
-foi de dentes rilhados, a dar murros surdos n'um sof· do Gremio, e com
-uma cÙr d'apoplexia, que elle me contou tudo...
-
---Tudo o quÍ?
-
---Tudo. Que te apresent·ra a uma brazileira a quem se atirava, e que tu,
-aproveitando a sua ausencia, te metteras l·, n„o sahias de l·...
-
---Tudo isso È mentira! exclamou o outro, j· impaciente.
-
-E Ega, sempre risonho:
-
---Ent„o ´que È a verdadeª, como perguntava o velho Pilatus ao chamado
-Jesus Christo?
-
---… que ha uma senhora a quem o Damaso suppunha ter inspirado uma
-paix„o, como suppıe sempre, e que, tendo-lhe adoecido a governante
-ingleza com uma bronchite, me mandou chamar para eu a tratar. Ainda n„o
-est· melhor, eu vou vÍl-a todos os dias. E Madame Gomes, que È o nome da
-senhora, que nem brazileira È, n„o podendo tolerar o Damaso, como
-ninguem o tolera, tem-lhe fechado a sua porta. Esta È a verdade; mas
-talvez eu arranque as orelhas ao Damaso!
-
-Ega contentou-se em murmurar:
-
---E ahi est· como se escreve a historia... v·-se l· a gente fiar em
-Guizot!
-
-Em silencio, atÈ casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a sua cÛlera
-contra o Damaso. Ahi estava pois rasgada por aquelle imbecil a penumbra
-suave e favoravel em que se abrig·ra o seu amor! Agora j· se pronunciava
-o nome de Maria Eduarda no Gremio: o que o Damaso dissera ao Ega,
-repetil-o-hia a outros, na Casa Havaneza, no restaurante Silva, talvez
-nos lupanares: e assim o interesse supremo da sua vida seria d'ahi por
-diante constantemente perturbado, estragado, sujo pela tagarellice reles
-do Damaso!
-
---Parece-me que temos c· mais gente, disse o Ega, ao penetrarem na
-ante-camara dos Gouvarinhos, vendo sobre o canapÈ um paletot cinzento e
-capas de sonhem.
-
-A condessa esperava-os na salinha ao fundo, chamada ´do bustoª, vestida
-de preto, com uma tira de velludo em volta do pescoÁo picada de tres
-estrellas de diamantes. Uma cesta de esplendidas flÙres quasi enchia a
-mesa, onde se accumulavam tambem romances inglezes, e uma Revista dos
-Dois Mundos em evidencia, com a faca de marfim entre as folhas. AlÈm da
-boa D. Maria da Cunha e da baroneza d'Alvim, havia uma outra senhora,
-que nem Carlos nem Ega conheciam, gorda e vestida d'escarlate; e de pÈ,
-conversando baixo com o conde, de m„os atraz das costas, um cavalheiro
-alto, escaveirado, grave, com uma barba rala, e a commenda da ConceiÁ„o.
-
-A condessa, um pouco cÛrada, estendeu a Carlos a m„o amuada e frouxa:
-todos os seus sorrisos foram para o Ega. E o conde apoderou-se logo do
-querido Maia, para o apresentar ao seu amigo o snr. Sousa Netto. O snr.
-Sousa Netto j· tinha o prazer de conhecer muito Carlos da Maia, como um
-medico distincto, uma honra da Universidade... E era esta a vantagem de
-Lisboa, disse logo o conde, o conhecerem-se todos de reputaÁ„o, o
-poder-se ter assim uma apreciaÁ„o mais justa dos caracteres. Em Paris,
-por exemplo, era impossivel; por isso havia tanta immoralidade, tanta
-relaxaÁ„o...
-
---Nunca sabe a gente quem mette em casa.
-
-O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no divan, mostrando as
-estrellinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a historia do seu
-exilio em Celorico, onde se distrahia compondo sermıes para o abbade: o
-abbade recitava-os; e os sermıes, sob uma fÛrma mystica, eram de facto
-affirmaÁıes revolucionarias que o santo var„o lanÁava com fervor,
-esmurrando o pulpito... A senhora de vermelho, sentada defronte, de m„os
-no regaÁo, escutava o Ega, com o olhar espantado.
-
---Imaginei que v. exc.^a tinha ido j· para Cintra, veio dizer Carlos ·
-senhora baroneza, sentando-se junto d'ella. V. exc.^a È sempre a
-primeira...
-
---Como quer o senhor que se v· para Cintra com um tempo d'estes?
-
---Com effeito, est· infernal...
-
---E que conta de novo? perguntou ella, abrindo lentamente o seu grande
-leque preto.
-
---Creio que n„o ha nada de novo em Lisboa, minha senhora, desde a morte
-do snr. D. Jo„o VI.
-
---Agora ha o seu amigo Ega, por exemplo.
-
---… verdade, ha o Ega... Como o acha v. exc.^a, senhora baroneza?
-
-Ella nem baixou a voz para dizer:
-
---Olhe, eu como o achei sempre um grande presumido e n„o gosto d'elle,
-n„o posso dizer nada...
-
---Oh senhora baroneza, que falta de caridade!
-
-O escudeiro annunci·ra o jantar. A condessa tomou o braÁo de Carlos,--e,
-ao atravessar o sal„o, entre o frouxo murmurio de vozes e o rumor lento
-das caudas de sÍda, pÙde dizer-lhe asperamente:
-
---Esperei meia hora; mas comprehendi logo que estaria entretido com a
-brazileira...
-
-Na sala de jantar, um pouco sombria, forrada de papel cÙr de vinho,
-escurecida ainda por dois antigos paineis de paizagem tristonha, a mesa
-oval, cercada de cadeiras de carvalho lavrado, resaltava alva e fresca,
-com um esplendido cesto de rosas entre duas serpentinas douradas. Carlos
-ficou · direita da condessa, tendo ao lado D. Maria da Cunha, que n'esse
-dia parecia um pouco mais velha, e sorria com um ar cansado.
-
---Que tem feito todo este tempo, que ninguem o tem visto? perguntou-lhe
-ella, desdobrando o guardanapo.
-
---Por esse mundo, minha senhora, vagamente...
-
-Defronte de Carlos, o snr. Sousa Netto, que tinha tres enormes coraes no
-peitilho da camisa, estava j· observando, emquanto remexia a sopa, que a
-senhora condessa, na sua viagem ao Porto, devia ter encontrado nas ruas
-e nos edificios grandes mudanÁas... A condessa, infelizmente, mal tinha
-sahido durante o tempo que estivera no Porto. O conde, esse, È que
-admirara os progressos da cidade. E especificou-os: elogiou a vista do
-Palacio de Crystal; lembrou o fecundo antagonismo que existe entre
-Lisboa e Porto; mais uma vez o comparou ao dualismo da Austria e da
-Hungria. E atravÈs d'estas coisas graves, lanÁadas d'alto, com
-superioridade e com peso, a baroneza e a senhora d'escarlate, aos dois
-lados d'elle, fallavam do convento das Selesias.
-
-Carlos, no emtanto, comendo em silencio a sua sopa, ruminava as palavras
-da condessa. Tambem ella conhecia j· a sua intimidade com a
-´brazileiraª. Era evidente pois que j· andava alli, diffamante e torpe,
-a tagarellice do Damaso. E quando o criado lhe offereceu Sauterne,
-estava decidido a bater no Damaso.
-
-De repente ouviu o seu nome. Do fim da mesa uma voz dizia, pachorrenta e
-cantada:
-
---O snr. Maia È que deve saber... O snr. Maia j· l· esteve.
-
-Carlos pousou vivamente o copo. Era a senhora d'escarlate que lhe
-fallava, sorrindo, mostrando uns bonitos dentes sob o buÁo forte de
-quarentona pallida. Ninguem lh'a apresent·ra, elle n„o sabia quem era.
-Sorriu tambem, perguntou:
-
---Onde, minha senhora?
-
---Na Russia.
-
---Na Russia?... N„o, minha senhora, nunca estive na Russia.
-
-Ella pareceu um pouco desapontada.
-
---Ah, È que me tinham dito... N„o sei j· quem me disse, mas era pessoa
-que sabia...
-
-O conde ao fundo explicava-lhe amavelmente que o amigo Maia estivera
-apenas na Hollanda.
-
---Paiz de grande prosperidade, a Hollanda!... Em nada inferior ao
-nosso... J· conheci mesmo um hollandez que era excessivamente
-instruido...
-
-A condessa baix·ra os olhos, partindo vagamente um bocadinho de p„o,
-mais sÈria de repente, mais secca, como se a voz de Carlos, erguendo-se
-t„o tranquilla ao seu lado, tivesse avivado os seus despeitos. Elle,
-ent„o, depois de provar devagar o seu Sauterne, voltou-se para ella,
-muito naturalmente e risonho:
-
---Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo idÈa d'ir · Russia. Ha
-assim uma infinidade de coisas que se dizem e que n„o s„o exactas... E
-se se faz uma allus„o ironica a ellas, ninguem comprehende a allus„o nem
-a ironia...
-
-A condessa n„o respondeu logo, dando com o olhar uma ordem muda ao
-escudeiro. Depois, com um sorriso pallido:
-
---No fundo de tudo que se diz ha sempre um facto, ou um bocado de facto
-que È verdadeiro. E isso basta... Pelo menos a mim basta-me...
-
---A senhora condessa tem ent„o uma credulidade infantil. Estou vendo que
-acredita que era uma vez uma filha d'um rei que tinha uma estrella na
-testa...
-
-Mas o conde interpellava-o, o conde queria a opini„o do seu amigo Maia.
-Tratava-se do livro de um inglez, o major Bratt, que atravess·ra a
-Africa, e dizia coisas perfidamente desagradaveis para Portugal. O conde
-via alli sÛ inveja--a inveja que nos tÍm todas as naÁıes por causa da
-importancia das nossas colonias, e da nossa vasta influencia na
-Africa...
-
---Est· claro, dizia o conde, que n„o temos nem os milhıes, nem a marinha
-dos inglezes. Mas temos grandes glorias; o infante D. Henrique È de
-primeira ordem; e a tomada d'Ormuz È um primor... E eu que conheÁo
-alguma coisa de systemas coloniaes, posso affirmar que n„o ha hoje
-colonias nem mais susceptiveis de riqueza, nem mais crentes no
-progresso, nem mais liberaes que as nossas! N„o lhe parece, Maia?
-
---Sim, talvez, È possivel... Ha muita verdade n'isso...
-
-Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o
-monoculo no olho e sorrindo para a baroneza, pronunciou-se alegremente
-contra todas essas exploraÁıes da Africa, e essas longas missıes
-geographicas... Porque n„o se deixaria o preto socegado, na calma posse
-dos seus manipansos? Que mal fazia · ordem das coisas que houvesse
-selvagens? Pelo contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de
-pittoresco! Com a mania franceza e burgueza de reduzir todas as regiıes
-e todas as raÁas ao mesmo typo de civilisaÁ„o, o mundo ia tornar-se
-d'uma monotonia abominavel. Dentro em breve um touriste faria enormes
-sacrificios, despezas sem fim, para ir a Tombuctu--para quÍ? Para
-encontrar l· pretos de chapÈo alto, a lÍr o _Jornal dos Debates_!
-
-O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, sahindo do seu vago
-abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada:
-
---Este Ega! Este Ega! Que graÁa! Que _chic_!
-
-Ent„o Sousa Netto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta
-pergunta grave:
-
---V. exc.^a pois È em favor da escravatura?
-
-Ega declarou muito decididamente ao snr. Sousa Netto que era pela
-escravatura. Os desconfortos da vida, segundo elle, tinham comeÁado com
-a libertaÁ„o dos negros. SÛ podia ser sÈriamente obedecido, quem era
-sÈriamente temido... Por isso ninguem agora lograva ter os seus sapatos
-bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde
-que n„o tinha criados pretos em quem fosse licito dar vergastadas... SÛ
-houvera duas civilisaÁıes em que o homem conseguira viver com razoavel
-commodidade: a civilisaÁ„o romana, e a civilisaÁ„o especial dos
-plantadores da Nova Orleans. Porque? porque n'uma e n'outra existira a
-escravatura absoluta, a sÈrio, com o direito de morte!...
-
-Durante um momento o snr. Sousa Netto ficou como desorganisado. Depois
-passou o guardanapo sobre os beiÁos, preparou-se, encarou o Ega:
-
---Ent„o v. exc.^a n'essa idade, com a sua intelligencia, n„o acredita no
-Progresso?
-
---Eu n„o senhor.
-
-O conde interveio, affavel e risonho:
-
---O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem raz„o, tem
-realmente raz„o, porque os faz brilhantes...
-
-Estava-se servindo _Jambon aux Èpinards_. Durante um momento fallou-se
-de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia tambem brilhantes e
-difficeis de sustentar, excessivamente difficeis, era o Barros, o
-ministro do reino...
-
---Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Netto.
-
---Sim, pujante, disse o conde.
-
-Mas elle agora n„o fallava tanto do talento do Barros como parlamentar,
-como homem d'estado. Fallava do seu espirito de sociedade, do seu
-_esprit_...
-
---Ainda este inverno nÛs lhe ouvimos um paradoxo brilhante! AtÈ foi em
-casa da snr.^a D. Maria da Cunha... V. exc.^a n„o se lembra, snr.^a D.
-Maria? Esta minha desgraÁada memoria! ” Thereza, lembras-te d'aquelle
-paradoxo do Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Emfim, um paradoxo
-muito difficil de sustentar... Esta minha memoria!... Pois n„o te
-lembras, Thereza?
-
-A condessa n„o se lembrava. E emquanto o conde ficava remexendo
-anciosamente, com a m„o na testa, as suas recordaÁıes,--a senhora
-d'escarlate voltou a fallar de pretos, e de escudeiros pretos, e d'uma
-cozinheira preta que tivera uma tia d'ella, a tia Villar... Depois
-queixou-se amargamente dos criados modernos: desde que lhe morrera a
-Joanna, que estava em casa havia quinze annos, n„o sabia que fazer,
-andava como tonta, tinha sÛ desgostos. Em seis mezes j· vira quatro
-caras novas. E umas desleixadas, umas pretenciosas, uma immoralidade!...
-Quasi lhe fugiu um suspiro do peito, e trincando desconsoladamente uma
-migalhinha de p„o:
-
---” baroneza, ainda tens a Vicenta?
-
---Pois ent„o n„o havia de ter a Vicenta?... Sempre a Vicenta... A snr.^a
-D. Vicenta, se faz favor.
-
-A outra contemplou-a um instante, com inveja d'aquella felicidade.
-
---E È a Vicenta que te penteia?
-
-Sim, era a Vicenta que a penteava. Ia-se fazendo velha, coitada... Mas
-sempre caturra. Agora andava com a mania de aprender francez. J· sabia
-verbos. Era de morrer, a Vicenta a dizer _j'aime_, _tu aimes_...
-
---E a senhora baroneza, acudiu o Ega, comeÁou por lhe mandar ensinar os
-verbos mais necessarios.
-
-Est· claro, dizia a baroneza, que aquelle era o mais necessario. Mas na
-idade da Vicenta j· de pouco lhe poderia servir!
-
---Ah! gritou de repente o conde, deixando quasi cahir o talher. Agora me
-lembro!
-
-Tinha-se lembrado emfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros
-que os c„es, quanto mais ensinados... Pois, n„o, n„o era isto!
-
---Esta minha desgraÁada memoria!... E era sobre c„es. Uma coisa
-brilhante, philosophica atÈ!
-
-E, por se fallar de c„es, a baroneza lembrou-se do _Tommy_, o galgo da
-condessa; perguntou por _Tommy_. J· o n„o via ha que tempos, esse bravo
-_Tommy_! A condessa nem queria que se fallasse no _Tommy_, coitado!
-Tinham-lhe nascido umas coisas nos ouvidos, um horror... Mand·ra-o para
-o Instituto, l· morrera.
-
---Est· deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha, inclinando-se
-para Carlos.
-
---Deliciosa.
-
-E a baroneza, do lado, declarou tambem a galantine uma perfeiÁ„o. Com um
-olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine: e
-apressou-se a responder ao snr. Sousa Netto, que, a proposito de c„es,
-lhe estava fallando da _Sociedade protectora dos animaes_. O snr. Sousa
-Netto approvava-a, considerava-a como um progresso... E, segundo elle,
-n„o seria mesmo de mais que o governo lhe dÈsse um subsidio.
-
---Que eu creio que ella vai prosperando... E merece-o, acredite a
-senhora condessa que o merece... Estudei essa quest„o, e de todas as
-sociedades que ultimamente se tÍm fundado entre nÛs, · imitaÁ„o do que
-se faz l· fÛra, como a _Sociedade de Geographia_ e outras, a _Protectora
-dos animaes_ parece-me decerto uma das mais uteis.
-
-Voltou-se para o lado, para o Ega:
-
---V. exc.^a pertence?
-
---¡ _Sociedade protectora dos animaes_?... N„o senhor, pertenÁo a outra,
-· de _Geographia_. Sou dos protegidos.
-
-A baroneza teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se
-extremamente sÈrio: pertencia · _Sociedade de Geographia_, considerava-a
-um pilar do Estado, acreditava na sua miss„o civilisadora, detestava
-aquellas irreverencias. Mas a condessa e Carlos tinham rido tambem:--e
-de repente a frialdade que atÈ ahi os conserv·ra ao lado um do outro
-reservados, n'uma ceremonia affectada, pareceu dissipar-se ao calor
-d'esse riso trocado, no brilho dos dois olhares encontrando-se
-irresistivelmente. Servira-se o Champagne, ella tinha uma cÙrzinha no
-rosto. O seu pÈ, sem ella saber como, roÁou pelo pÈ de Carlos; sorriram
-ainda outra vez;--e, como no resto da mesa se conversava sobre uns
-concertos classicos que ia haver no Price, Carlos perguntou-lhe, baixo,
-com uma reprehens„o amavel:
-
---Que tolice foi essa da _brazileira_?... Quem lhe disse isso?
-
-Ella confessou-lhe logo que fÙra o Damaso... O Damaso viera contar-lhe o
-enthusiasmo de Carlos por essa senhora, e as manh„s inteiras que l·
-passava, todos os dias, · mesma hora... Emfim o Damaso fizera-lhe
-claramente entrevÍr uma _liaison_.
-
-Carlos encolheu os hombros. Como podia ella acreditar no Damaso? Devia
-conhecer-lhe bem a tagarellice, a imbecilidade...
-
---… perfeitamente verdade que eu vou a casa d'essa senhora, que nem
-brazileira È, que È t„o portugueza como eu; mas È porque ella tem a
-governante muito doente com uma bronchite, e eu sou o medico da casa.
-Foi atÈ o Damaso, elle proprio, que l· me levou como medico!
-
-No rosto da condessa espalhava-se um riso, uma claridade vinda do dÙce
-allivio que se fazia no seu coraÁ„o.
-
---Mas o Damaso disse-me que era t„o linda!...
-
-Sim, era muito linda. E ent„o? Um medico, por fidelidade ·s suas
-affeiÁıes, e para as n„o inquietar, n„o podia realmente, antes de
-penetrar na casa d'uma doente, exigir-lhe um certificado de hediondez!
-
---Mas que est· ella c· a fazer?...
-
---Est· · espera do marido que foi a negocios ao Brazil, e vem ahi... …
-uma gente muito distincta, e creio que muito rica... V„o-se brevemente
-embora, de resto, e eu pouco sei d'elles. As minhas visitas s„o de
-medico; tenho apenas conversado com ella sobre Paris, sobre Londres,
-sobre as suas impressıes de Portugal...
-
-A condessa bebia estas palavras, deliciosamente, dominada pelo bello
-olhar com que elle lh'as murmurava: e o seu pÈ apertava o de Carlos
-n'uma reconciliaÁ„o apaixonada, com a forÁa que desejaria pÙr n'um
-abraÁo--se alli lh'o podesse dar.
-
-A senhora d'escarlate, no emtanto, recomeÁ·ra a fallar da Russia. O que
-a assustava È que o paiz era t„o caro, corriam-se tantos perigos por
-causa da dynamite, e uma constituiÁ„o fraca devia soffrer muito com a
-neve nas ruas. E foi ent„o que Carlos percebeu que ella era a esposa de
-Sousa Netto, e que se tratava d'um filho d'elles, filho unico,
-despachado segundo secretario para a legaÁ„o de S. Petersburgo.
-
---O menino conhece-o? perguntou D. Maria ao ouvido de Carlos, por traz
-do leque. … um horror d'estupidez... Nem francez sabe! De resto n„o È
-peor que os outros... Que a quantidade de mÙnos, de semsaborıes e de
-tolos que nos representam l· fÛra atÈ faz chorar... Pois o menino n„o
-acha? Isto È um paiz desgraÁado.
-
---Peor, minha cara senhora, muito peor. Isto È um paiz _cursi_.
-
-Tinha findado a sobremesa. D. Maria olhou para a condessa com o seu
-sorriso cansado; a senhora de escarlate cal·ra-se, j· preparada, tendo
-mesmo afastado um pouco a cadeira; e as senhoras ergueram-se, no momento
-em que o Ega, ainda ·cerca da Russia, acabava de contar uma historia
-ouvida a um polaco, e em que se provava que o Czar era um estupido...
-
---Liberal todavia, gostando bastante do progresso! murmurou ainda o
-conde, j· de pÈ.
-
-Os homens, sÛs, accenderam os seus charutos; o escudeiro serviu o cafÈ.
-Ent„o o snr. Sousa Netto, com a sua chavena na m„o, aproximou-se de
-Carlos para lhe exprimir de novo o prazer que tivera em fazer o seu
-conhecimento...
-
---Eu tive tambem em tempos o prazer de conhecer o pai de v. exc.^a...
-Pedro, creio que era justamente o snr. Pedro da Maia. ComeÁava eu ent„o
-a minha carreira publica... E o avÙ de v. exc.^a, bom?
-
---Muito agradecido a v. exc.^a
-
---Pessoa muito respeitavel... O pai de v. exc.^a era... Emfim, era o que
-se chama ´um eleganteª. Tive tambem o prazer de conhecer a m„i de v.
-exc.^a...
-
-E de repente calou-se, embaraÁado, levando a chavena aos labios. Depois,
-lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia
-com o Gouvarinho sobre mulheres. Era a proposito da secret·ria da
-legaÁ„o da Russia, com quem elle encontr·ra n'essa manh„ o conde
-conversando ao Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho
-nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garÁos... E o conde, que a
-admirava tambem, gabava-lhe sobretudo o espirito, a instrucÁ„o. Isso,
-segundo o Ega, prejudicava-a: porque o dever da mulher era primeiro ser
-bella, e depois ser estupida... O conde affirmou logo com exuberancia
-que n„o gostava tambem de litteratas: sim, decerto o lugar da mulher era
-junto do berÁo, n„o na bibliotheca...
-
---No emtanto È agradavel que uma senhora possa conversar sobre coisas
-amenas, sobre o artigo d'uma Revista, sobre... Por exemplo, quando se
-publica um livro... Emfim, n„o direi quando se trata d'um Guizot, ou
-d'um Jules Simon... Mas, por exemplo, quando se trata d'um Feuillet,
-d'um... Emfim, uma senhora deve ser prendada. N„o lhe parece, Netto?
-
-Netto, grave, murmurou:
-
---Uma senhora, sobretudo quando ainda È nova, deve ter algumas
-prendas...
-
-Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas
-litterarias, sabendo dizer coisas sobre o snr. Thiers, ou sobre o snr.
-Zola, È um monstro, um phenomeno que cumpria recolher a uma companhia de
-cavallinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher sÛ devia
-ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem.
-
---V. exc.^a decerto, snr. Sousa Netto, sabe o que diz Proudhon?
-
---N„o me recordo textualmente, mas...
-
---Em todo o caso v. exc.^a conhece perfeitamente o seu Proudhon?
-
-O outro, muito seccamente, n„o gostando decerto d'aquelle
-interrogatorio, murmurou que Proudhon era um author de muita nomeada.
-
-Mas o Ega insistia, com uma impertinencia perfida:
-
---V. exc.^a leu evidentemente, como nÛs todos, as grandes paginas de
-Proudhon sobre o amor?
-
-O snr. Netto, j· vermelho, pousou a chavena sobre a mesa. E quiz ser
-sarcastico, esmagar aquelle moÁo, t„o litterario, t„o audaz.
-
---N„o sabia, disse elle com um sorriso infinitamente superior, que esse
-philosopho tivesse escripto sobre assumptos escabrosos!
-
-Ega atirou os braÁos ao ar, consternado:
-
---Oh snr. Sousa Netto! Ent„o v. exc.^a, um chefe de familia, acha o amor
-um assumpto escabroso?!
-
-O snr. Netto encordoou. E muito direito, muito digno, fallando do alto
-da sua consideravel posiÁ„o burocratica:
-
---… meu costume, snr. Ega, n„o entrar nunca em discussıes, e acatar
-todas as opiniıes alheias, mesmo quando ellas sejam absurdas...
-
-E quasi voltou as costas ao Ega, dirigindo-se outra vez a Carlos,
-desejando saber, n'uma voz ainda um pouco alterada, se elle agora se
-fixava algum tempo mais em Portugal. Ent„o, durante um momento, acabando
-os charutos, os dois fallaram de viagens. O snr. Netto lamentava que os
-seus muitos deveres n„o lhe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno
-fÙra esse o seu ideal; mas agora, com tantas occupaÁıes publicas, via-se
-forÁado a n„o deixar a carteira. E alli estava, sem ter visto sequer
-Badajoz...
-
---E v. exc.^a de que gostou mais, de Paris ou de Londres?
-
-Carlos realmente n„o sabia, nem se podia comparar... Duas cidades t„o
-differentes, duas civilisaÁıes t„o originaes...
-
---Em Londres, observou o conselheiro, tudo carv„o...
-
-Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carv„o, sobretudo nos fogıes,
-quando havia frio...
-
-O snr. Sousa Netto murmurou:
-
---E o frio alli deve ser sempre consideravel... Clima t„o ao norte!...
-
-Esteve um momento mamando o charuto, de palpebra cerrada. Depois, fez
-esta observaÁ„o sagaz e profunda:
-
---Povo pratico, povo essencialmente pratico.
-
---Sim, bastante pratico, disse vagamente Carlos, dando um passo para a
-sala, onde se sentiam as risadas cantantes da baroneza.
-
---E diga-me outra coisa, proseguiu o snr. Sousa Netto, com interesse,
-cheio de curiosidade intelligente. Encontra-se por l·, em Inglaterra,
-d'esta litteratura amena, como entre nÛs, folhetinistas, poetas de
-pulso?...
-
-Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com
-descaro:
-
---N„o, n„o ha d'isso.
-
---Logo vi, murmurou Sousa Netto. Tudo gente de negocio.
-
-E penetraram na sala. Era o Ega que assim fazia rir a baroneza, sentado
-defronte d'ella, fallando outra vez de Celorico, contando-lhe uma soirÈe
-de Celorico, com detalhes picarescos sobre as authoridades, e sobre um
-abbade que tinha morto um homem e cantava fados sentimentaes ao piano. A
-senhora d'escarlate, no sof· ao lado, com os braÁos cahidos no regaÁo,
-pasmava para aquella veia do Ega como para as destrezas d'um palhaÁo. D.
-Maria, junto da mesa, folheava com o seu ar cansado uma _IllustraÁ„o_; e
-vendo que Carlos ao entrar procur·ra com o olhar a condessa, chamou-o,
-disse-lhe baixo que ella fÙra dentro vÍr Charlie, o pequeno...
-
---… verdade, perguntou Carlos, sentando-se ao lado d'ella, que È feito
-d'elle, d'esse lindo Charlie?
-
---Diz que tem estado hoje constipado, e um pouco murcho...
-
---A snr.^a D. Maria tambem me parece hoje um pouco murcha.
-
---… do tempo. Eu j· estou na idade em que o bom humor ou o aborrecimento
-vÍm sÛ das influencias do tempo... Na sua idade vem d'outras coisas. E a
-proposito d'outras coisas: ent„o a Cohen tambem chegou?
-
---Chegou, disse Carlos, mas n„o _tambem_. O _tambem_ implica
-combinaÁ„o... E a Cohen e o Ega chegaram realmente ambos por acaso... De
-resto isso È historia antiga, È como os amores de Helena e de P·ris.
-
-N'esse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada, e
-trazendo aberto um grande leque negro. Sem se sentar, fallando sobretudo
-para a mulher do snr. Sousa Netto, queixou-se logo de n„o ter achado
-Charlie bem... Estava t„o quente, t„o inquieto... Tinha quasi medo que
-fosse sarampo.--E voltando-se vivamente para Carlos, com um sorriso:
-
---Eu estou com vergonha... Mas se o snr. Carlos da Maia quizesse ter o
-incommodo de o vir vÍr um instante... … odioso, realmente, pedir-lhe
-logo depois de jantar para examinar um doente...
-
---Oh senhora condessa! exclamou elle, j· de pÈ.
-
-Seguiu-a. N'uma saleta, ao lado, o conde e o snr. Sousa Netto,
-enterrados n'um sof·, conversavam fumando.
-
---Levo o snr. Carlos da Maia para vÍr o pequeno...
-
-O conde erguera-se um pouco do sof·, sem comprehender bem. J· ella
-pass·ra. Carlos seguiu em silencio a sua longa cauda de sÍda preta
-atravÈs do bilhar, deserto, com o gaz acceso, ornado de quatro retratos
-de damas, da familia dos Gouvarinhos, empoadas e sorumbaticas. Ao lado,
-por traz de um pesado reposteiro de fazenda verde, era um gabinete, com
-uma velha poltrona, alguns livros n'uma estante envidraÁada, e uma
-escrevaninha onde pousava um candieiro sob o abat-jour de renda cÙr de
-rosa. E ahi, bruscamente, ella parou, atirou os braÁos ao pescoÁo de
-Carlos, os seus labios prenderam-se aos d'elle n'um beijo sÙfrego,
-penetrante, completo, findando n'um soluÁo de desmaio... Elle sentia
-aquelle lindo corpo estremecer, escorregar-lhe entre os braÁos, sobre os
-joelhos sem forÁa.
-
---¡manh„, em casa da titi, ·s onze, murmurou ella quando pÙde fallar.
-
---Pois sim.
-
-Desprendida d'elle, a condessa ficou um momento com as m„os sobre os
-olhos, deixando desvanecer aquella languida vertigem, que a fizera cÙr
-de cÍra. Depois, cansada e sorrindo:
-
---Que doida que eu sou... Vamos vÍr Charlie.
-
-O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. E ahi, n'uma caminha de
-ferro, junto do leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco,
-com um bracinho cahido para o lado, os seus lindos caracoes loiros
-espalhados no travesseiro como uma aureola d'anjo. Carlos tocou-lhe
-apenas no pulso; e a criada escosseza, que trouxera uma luz de sobre a
-commoda, disse, sorrindo tranquillamente:
-
---O menino n'estes ultimos dias tem andado muitissimo bem...
-
-Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa, j· com a
-m„o no reposteiro, estendeu ainda a Carlos os seus labios insaciaveis.
-Elle colheu um rapido beijo. E, ao passar na antecamara, onde Sousa
-Netto e o conde continuavam enfronhados n'uma conversa grave, ella disse
-ao marido:
-
---O pequeno est· a dormir... O snr. Carlos da Maia achou-o bem.
-
-O conde de Gouvarinho bateu no hombro de Carlos, carinhosamente. E
-durante um momento a condessa ficou alli conversando, de pÈ, a deixar-se
-serenar, pouco a pouco, n'aquella penumbra favoravel, antes de affrontar
-a luz forte da sala. Depois, por se fallar em hygiene, convidou o snr.
-Sousa Netto para uma partida de bilhar; mas o snr. Netto, desde Coimbra,
-desde a Universidade, n„o peg·ra n'um taco. E ia-se chamar o Ega quando
-appareceu Telles da Gama, que chegava do Price. Logo atraz d'elle entrou
-o conde de Steinbroken. Ent„o o resto da noite passou-se no sal„o, em
-redor do piano. O ministro cantou melodias da Filandia. Telles da Gama
-tocou _fados_.
-
-Carlos e Ega foram os derradeiros a sahir, depois de um _brandy and
-soda_, de que a condessa partilhou, como ingleza forte. E em baixo, no
-pateo, acabando de abotoar o paletot, Carlos pÙde emfim soltar a
-pergunta que lhe faisc·ra nos labios toda a noite:
-
---” Ega, quem È aquelle homem, aquelle Sousa Netto, que quiz saber se em
-Inglaterra havia tambem litteratura?
-
-Ega olhou-o com espanto:
-
---Pois n„o adivinhaste? N„o deduziste logo? N„o viste immediatamente
-quem n'este paiz È capaz de fazer essa pergunta?
-
---N„o sei... Ha tanta gente capaz...
-
-E o Ega radiante:
-
---Official superior d'uma grande repartiÁ„o do Estado!
-
---De qual?
-
---Ora de qual! De qual ha de ser?... Da InstrucÁ„o publica!
-
-
-Na tarde seguinte, ·s cinco horas, Carlos, que se demor·ra de mais em
-casa da titi com a condessa, retido pelos seus beijos interminaveis, fez
-voar o coupÈ atÈ · rua de S. Francisco, olhando a cada momento o
-relogio, n'um receio de que Maria Eduarda tivesse sahido por aquelle
-lindo dia de ver„o, luminoso e sem calor. Com effeito · porta d'ella
-estava a carruagem da Companhia; e Carlos galgou as escadas, desesperado
-com a condessa, sobretudo comsigo mesmo, t„o fraco, t„o passivo, que
-assim se deix·ra retomar por aquelles braÁos exigentes, cada vez mais
-pesados, e j· incapazes de o commover...
-
---A senhora chegou agora mesmo, disse-lhe o Domingos, que volt·ra da
-terra havia tres dias, e ainda n„o cess·ra de lhe sorrir.
-
-Sentada no sof·, de chapÈo, tirando as luvas, ella acolheu-o com uma
-dÙce cÙr no rosto, e uma carinhosa reprehens„o:
-
---Estive · espera mais de meia hora antes de sahir... … uma ingratid„o!
-Imaginei que nos tinha abandonado!
-
---PorquÍ? Est· peor, miss Sarah?
-
-Ella olhou-o, risonhamente escandalisada. Ora, miss Sarah! Miss Sarah ia
-seguindo perfeitamente na sua convalescenÁa... Mas agora j· n„o eram as
-visitas de medico que se esperavam, eram as de amigo; e essa tinha-lhe
-faltado.
-
-Carlos, sem responder, perturbado, voltou-se para Rosa, que folheava
-junto da mesa um livro novo d'estampas; e a ternura, a gratid„o infinita
-do seu coraÁ„o, que n„o ousava mostrar · m„e, pÙl-a toda na longa
-caricia em que envolveu a filha.
-
---S„o historias que a mam„ agora comprou, dizia Rosa, sÈria e presa ao
-seu livro. Hei de t'as contar depois... S„o historias de bichos.
-
-Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do chapÈo.
-
---Quer tomar uma chavena de ch· comnosco, snr. Carlos da Maia? Eu vinha
-morrendo por uma chavena de ch·... Que lindo dia, n„o È verdade? Rosa,
-fica tu a contar o nosso passeio emquanto eu vou tirar o chapÈo...
-
-Carlos, sÛ com Rosa, sentou-se junto d'ella, desviando-a do livro,
-tomando-lhe ambas as m„os.
-
---Fomos ao Passeio da Estrella, dizia a pequena. Mas a mam„ n„o se
-queria demorar, porque tu podias ter vindo!
-
-Carlos beijou, uma depois da outra, as duas m„osinhas de Rosa.
-
---E ent„o que fizeste no Passeio? perguntou elle, depois d'um leve
-suspiro de felicidade que lhe fugira do peito.
-
---Andei a correr, havia uns patinhos novos...
-
---Bonitos?...
-
-A pequena encolheu os hombros:
-
---Chinfrinzitos.
-
-Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa t„o feia?
-
-Rosa sorriu. FÙra o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras coisas
-assim, engraÁadas... Dizia que a Melanie era uma _gaja_... O Domingos
-tinha muita graÁa.
-
-Ent„o Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com t„o bonitos vestidos,
-n„o devia dizer aquellas palavras... Assim fallava a gente rÙta.
-
---O Domingos n„o anda rÙto, disse Rosa muito sÈria.
-
-E subitamente, com outra idÈa, bateu as palmas, pulou-lhe entre os
-joelhos, radiante:
-
---E trouxe-me uns grillos da PraÁa! O Domingos trouxe-me uns grillos...
-Se tu soubesses! _Niniche_ tem medo dos grillos! Parece incrivel, hein?
-Eu nunca vi ninguem mais medrosa...
-
-Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave:
-
---… a mam„ que lhe d· tanto mimo. … uma pena!
-
-Maria Eduarda entrava, ageitando ainda de leve o ondeado do cabello: e,
-ouvindo assim fallar de mimo, quiz saber quem È que ella estragava com
-mimo... _Niniche_? Pobre _Niniche_, coitada, ainda essa manh„ fÙra
-castigada!
-
-Ent„o Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as m„os:
-
---Sabes como a mam„ a castiga? exclamava ella, puxando a manga de
-Carlos. Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em inglez: _Bad dog!
-dreadful dog!_
-
-Era encantadora assim, imitando a voz severa da mam„, com o dedinho
-erguido, a ameaÁar _Niniche_. A pobre _Niniche_, imaginando com effeito
-que a estavam a reprehender, arrastou-se, vexada, para debaixo do sof·.
-E foi necessario que Rosa a tranquillisasse, de joelhos sobre a pelle de
-tigre, jurando-lhe, por entre abraÁos, que ella nem era mau c„o, nem
-feio c„o; fÙra sÛ para contar como fazia a mam„...
-
---Vai-lhe dar agua, que ella deve estar com sÍde, disse ent„o Maria
-Eduarda, indo sentar-se na sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que
-nos traga o ch·.
-
-Rosa e _Niniche_ partiram correndo. Carlos veio occupar, junto da
-janella, a costumada poltrona de reps. Mas pela primeira vez, desde a
-sua intimidade, houve entre elles um silencio difficil. Depois ella
-queixou-se de calor, desenrolando distrahidamente o bordado; e Carlos
-permanecia mudo, como se para elle, n'esse dia, apenas houvesse encanto,
-apenas houvesse significaÁ„o n'uma certa palavra de que os seus labios
-estavam cheios e que n„o ousavam murmurar, que quasi receava que fosse
-adivinhada apesar d'ella suffocar o seu coraÁ„o.
-
---Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse elle por fim,
-impaciente de a vÍr, t„o serena, a occupar-se das suas l„s.
-
-Com a talagarÁa desdobrada sobre os joelhos, ella respondeu, sem erguer
-os olhos:
-
---E para que se ha de acabar? O grande prazer È andal-o a fazer, pois
-n„o acha? Uma malha hoje, outra malha ·manh„, torna-se assim uma
-companhia... Para que se ha de querer chegar logo ao fim das coisas?
-
-Uma sombra passou no rosto de Carlos. N'estas palavras, ditas de leve
-·cerca do bordado, elle sentia uma desanimadora allus„o ao seu
-amor,--esse amor que lhe fÙra enchendo o coraÁ„o · maneira que a l„
-cobria aquella talagarÁa, e que era obra simultanea das mesmas brancas
-m„os. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o bordado,
-sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no cesto da
-costura, para ser o desafogo da sua solid„o?
-
-Disse-lhe ent„o, commovido:
-
---N„o È assim. Ha coisas que sÛ existem quando se completam, e que sÛ
-ent„o d„o a felicidade que se procurava n'ellas.
-
---… muito complicado isso, murmurou ella, cÛrando. … muito subtil...
-
---Quer que lh'o diga mais claramente?
-
-N'esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava
-alli o snr. Damaso...
-
-Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia:
-
---Diga que n„o recebo!
-
-FÛra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto,
-lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o
-seu coupÈ. Santo Deus! O que elle iria tagarellar agora, com os seus
-pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe pareceu n'esse instante
-a existencia do Damaso incompativel com a tranquillidade do seu amor.
-
---Ahi est· outro inconveniente d'esta casa, dizia no emtanto Maria
-Eduarda. Aqui ao lado d'esse Gremio, a dois passos do Chiado, È
-demasiadamente accessivel aos importunos. Tenho agora de repellir quasi
-todos os dias este assalto · minha porta! … intoleravel.
-
-E com uma subita idÈa, atirando o bordado para o aÁafate, cruzando as
-m„os sobre os joelhos:
-
---Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... N„o me seria
-possivel arranjar por ahi uma casinhola, um cottage, onde eu fosse
-passar os mezes de ver„o?... Era t„o bom para a pequena! Mas n„o conheÁo
-ninguem, n„o sei a quem me hei de dirigir...
-
-Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes--como j·
-n'outra occasi„o em que ella mostr·ra desejos d'ir para o campo.
-Justamente, n'esses ultimos tempos, Craft volt·ra a fallar, e mais
-decidido, no antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das suas
-collecÁıes. Que deliciosa vivenda para ella, artistica e campestre,
-condizendo t„o bem com os seus gostos! Uma tentaÁ„o atravessou-o,
-irresistivel.
-
---Eu sei com effeito d'uma casa... E t„o bem situada, que lhe convinha
-tanto!...
-
---Que se aluga?
-
-Carlos n„o hesitou:
-
---Sim, È possivel arranjar-se...
-
---Isso era um encanto!
-
-Ella tinha dito--´era um encantoª. E isto decidiu-o logo, parecendo-lhe
-desamoravel e mesquinho o ter-lhe suggerido uma esperanÁa, e n„o lh'a
-realisar com fervor.
-
-O Domingos entr·ra com o taboleiro do ch·. E emquanto o collocava sobre
-uma pequena mesa, defronte de Maria Eduarda, ao pÈ da janella, Carlos,
-erguendo-se, dando alguns passos pela sala, pensava em comeÁar
-immediatamente negociaÁıes com o Craft, comprar-lhe as collecÁıes,
-alugar-lhe a casa por um anno, e offerecel-a a Maria Eduarda para os
-mezes de ver„o. E n„o considerava, n'esse instante, nem as
-difficuldades, nem o dinheiro. Via sÛ a alegria d'ella passeando com a
-pequena, entre as bellas arvores do jardim. E como Maria Eduarda deveria
-ser mais grandemente formosa no meio d'esses moveis da RenascenÁa,
-severos e nobres!
-
---Muito assucar? perguntou ella.
-
---N„o... Perfeitamente, basta.
-
-Viera sentar-se na sua velha poltrona; e, recebendo a chavena de
-porcelana ordinaria com um filetesinho azul, recordava o magnifico
-serviÁo que tinha o Craft, de velho Wedgewood, oiro e cÙr de fogo. Pobre
-senhora! t„o delicada, e alli enterrada entre aquelles reps, maculando a
-graÁa das suas m„os nas coisas reles da m„i Cruges!
-
---E onde È essa casa? perguntou Maria Eduarda.
-
---Nos Olivaes, muito perto d'aqui, vai-se l· n'uma hora de carruagem...
-
-Explicou-lhe detalhadamente o sitio,--acrescentando, com os olhos
-n'ella, e com um sorriso inquieto:
-
---Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se fÙr para l·
-installar-se, e depois vier o calor, quem È que a torna a vÍr?
-
-Ella pareceu surprehendida:
-
---Mas que lhe custa, a si, que tem cavallos, que tem carruagens, que n„o
-tem quasi nada que fazer?...
-
-Assim ella achava natural que elle continuasse nos Olivaes as suas
-visitas de Lisboa! E pareceu-lhe logo impossivel renunciar ao encanto
-d'esta intimidade, t„o largamente offerecida, e decerto mais dÙce na
-solid„o d'aldÍa. Quando acabou a sua chavena de ch·--era como se a casa,
-os moveis, as arvores fossem j· seus, fossem j· d'ella. E teve alli um
-momento delicioso, descrevendo-lhe a quietaÁ„o da quinta, a entrada por
-uma rua d'acacias, e a belleza da sala de jantar com duas janellas
-abrindo sobre o rio...
-
-Ella escutava-o, encantada:
-
---Oh! isso era o meu sonho! Vou ficar agora toda alterada, cheia
-d'esperanÁas... Quando poderei ter uma resposta?
-
-Carlos olhou o relogio. Era j· tarde para ir aos Olivaes. Mas logo na
-manh„ seguinte cedo, ia fallar com o dono da casa, seu amigo...
-
---Quanto incommodo por minha causa! disse ella. Realmente! como lhe hei
-de eu agradecer?...
-
-Calou-se; mas os seus bellos olhos ficaram um instante pousados nos de
-Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do
-segredo que ella retinha no seu coraÁ„o.
-
-Elle murmurou:
-
---Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra
-vez assim.
-
-Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda.
-
---N„o diga isso...
-
---E que necessidade ha que eu lh'o diga? Pois n„o sabe perfeitamente que
-a adoro, que a adoro, que a adoro!
-
-Ella ergueu-se bruscamente, elle tambem:--e assim ficaram, mudos, cheios
-d'anciedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma
-grande alteraÁ„o no Universo, e elles esperassem, suspensos, o desfecho
-supremo dos seus destinos... E foi ella que fallou, a custo, quasi
-desfallecida, estendendo para elle, como se o quizesse afastar, as m„os
-inquietas e tremulas:
-
---Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute... Antes que seja
-tarde ha uma coisa que lhe quero dizer...
-
-Carlos via-a assim tremer, via-a toda pallida... E nem a escut·ra, nem a
-comprehendera. Sentia apenas, n'um deslumbramento, que o amor comprimido
-atÈ ahi no seu coraÁ„o irrompera por fim, triumphante, e embatendo no
-coraÁ„o d'ella, atravÈs do apparente marmore do seu peito, fizera de l·
-resaltar uma chamma igual... SÛ via que ella tremia, sÛ via que ella o
-amava... E, com a gravidade forte d'um acto de posse, tomou-lhe
-lentamente as m„os, que ella lhe abandonou, submissa de repente, j· sem
-forÁa, e vencida. E beijava-lh'as ora uma ora outra, e as palmas, e os
-dedos, devagar, murmurando apenas:
-
---Meu amor! meu amor! meu amor!
-
-Maria Eduarda cahira pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem retirar as
-m„os, erguendo para elle os olhos cheios de paix„o, ennevoados de
-lagrimas, balbuciou ainda, debilmente, n'uma derradeira supplicaÁ„o:
-
---Ha uma coisa que eu lhe queria dizer!...
-
-Carlos estava j· ajoelhado aos seus pÈs.
-
---Eu sei o que È! exclamou, ardentemente, junto do rosto d'ella, sem a
-deixar fallar mais, certo de que adivinh·ra o seu pensamento. Escusa de
-dizer, sei perfeitamente. … o que eu tenho pensado tantas vezes! … que
-um amor como o nosso n„o pÛde viver nas condiÁıes em que vivem outros
-amores vulgares... … que desde que eu lhe digo que a amo, È como se lhe
-pedisse para ser minha esposa diante de Deus...
-
-Ella recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se n„o
-comprehendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as m„os d'ella
-presas, penetrando-a toda da emoÁ„o que o fazia tremer:
-
---Sempre que pensava em si, era j· com esta esperanÁa d'uma existencia
-toda nossa, longe d'aqui, longe de todos, tendo quebrado todos os laÁos
-presentes, pondo a nossa paix„o acima de todas as ficÁıes humanas, indo
-ser felizes para algum canto do mundo, solitariamente e para sempre...
-Levamos Rosa, est· claro, sei que n„o se pÛde separar d'ella... E assim
-viveriamos sÛs, todos tres, n'um encanto!
-
---Meu Deus! Fugirmos? murmurou ella, assombrada.
-
-Carlos erguera-se.
-
---E que podemos fazer? Que outra coisa podemos nÛs fazer, digna do nosso
-amor?
-
-Maria n„o respondeu, immovel, a face erguida para elle, branca de cera.
-E pouco a pouco uma idÈa parecia surgir n'ella, inesperada e
-perturbadora, revolvendo todo o seu sÍr. Os seus olhos alargavam-se,
-anciosos e refulgentes.
-
-Carlos ia fallar-lhe... Um leve rumor de passos na esteira da sala
-deteve-o. Era o Domingos que vinha recolher a bandeja do ch·: e durante
-um momento, quasi interminavel, houve entre aquelles dois sÍres,
-sacudidos por um ardente vendaval de paix„o, a caseira passagem d'um
-criado arrumando chavenas vazias. Maria Eduarda, bruscamente,
-refugiou-se detraz das bambinellas de cretone com o rosto contra a
-vidraÁa. Carlos foi sentar-se no sof·, a folhear ao acaso uma
-_IllustraÁ„o_, que lhe tremia nas m„os. E n„o pensava em nada, nem sabia
-onde estava... Ainda na vespera, havia ainda instantes, conversando com
-ella, dizia ceremoniosamente ´minha cara senhoraª: depois houvera um
-olhar; e agora deviam fugir ambos, e ella torn·ra-se o cuidado supremo
-da sua vida, e a esposa secreta do seu coraÁ„o.
-
---V. exc.^a quer mais alguma coisa? perguntou o Domingos.
-
-Maria Eduarda respondeu sem se voltar:
-
---N„o.
-
-O Domingos sahiu, a porta ficou cerrada. Ella ent„o atravessou a sala,
-veio para Carlos, que a esperava no sof·, com os braÁos estendidos. E
-era como se obedecesse sÛ ao impulso da sua ternura, calmadas j· todas
-as incertezas. Mas hesitou de novo diante d'aquella paix„o, t„o prompta
-a apoderar-se de todo o seu sÍr, e murmurou, quasi triste:
-
---Mas conhece-me t„o pouco!... Conhece-me t„o pouco, para irmos assim
-ambos, quebrando por tudo, crear um destino que È irreparavel...
-
-Carlos tomou-lhe as m„os, fazendo-a sentar ao seu lado, brandamente:
-
---O bastante para a adorar acima de tudo, e sem querer mais nada na
-vida!
-
-Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do
-seu coraÁ„o, escutando-lhe as derradeiras agitaÁıes. Depois soltou um
-longo suspiro.
-
---Pois seja assim! Seja assim... Havia uma coisa que eu lhe queria
-dizer, mas n„o importa... … melhor assim!...
-
-E que outra coisa podiam fazer? perguntava Carlos radiante. Era a unica
-soluÁ„o digna, sÈria... E nada os podia embaraÁar; amavam-se, confiavam
-absolutamente um no outro; elle era rico, o mundo era largo...
-
-E ella repetia, mais firme agora, j· decidida, e como se aquella
-resoluÁ„o a cada momento se cravasse mais fundo na sua alma,
-penetrando-a toda e para sempre:
-
---Pois seja assim! … melhor assim!
-
-Um momento ficaram calados, olhando-se arrebatadamente.
-
---Dize-me ao menos que Ès feliz, murmurou Carlos.
-
-Ella lanÁou-lhe os braÁos ao pescoÁo: e os seus labios uniram-se n'um
-beijo profundo, infinito, quasi immaterial pelo seu extasi. Depois Maria
-Eduarda descerrou lentamente as palpebras, e disse-lhe, muito baixo:
-
---Adeus, deixa-me sÛ, vai.
-
-Elle tomou o chapÈo, e sahiu.
-
-
-No dia seguinte Craft, que havia uma semana n„o ia ao Ramalhete,
-passeava na quinta antes d'almoÁo--quando appareceu Carlos. Apertaram as
-m„os, fallaram um instante do Ega, da chegada dos Cohens. Depois,
-Carlos, fazendo um gesto largo que abrangia a quinta, a casa, todo o
-horisonte, perguntou rindo:
-
---VocÍ quer-me vender tudo isto, Craft?
-
-O outro respondeu, sem pestanejar, e com as m„os nas algibeiras:
-
---A la disposicion de ustÍd...
-
-E alli mesmo concluiram a negociaÁ„o, passeando n'uma ruasinha de buxo
-por entre os geranios em flÙr.
-
-Craft cedia a Carlos todos os seus moveis antigos e modernos por duas
-mil e quinhentas libras, pagas em prestaÁıes: sÛ reservava algumas raras
-peÁas do tempo de Luiz XV, que deviam fazer parte d'essa nova collecÁ„o
-que planeava, homogenea, e toda do seculo XVIII. E como Carlos n„o tinha
-no Ramalhete lugar para este vasto _bric-‡-brac_, Craft alugava-lhe por
-um anno a casa dos Olivaes, com a quinta.
-
-Depois foram almoÁar. Carlos nem por um momento pensou na larga despeza
-que fazia, sÛ para offerecer uma residencia de ver„o, por dois curtos
-mezes--a quem se contentaria com um simples cottage, entre arvores de
-quintal. Pelo contrario! quando repercorreu as salas do Craft, j· com
-olhos de dono, achou tudo mesquinho, pensou em obras, em retoques de
-gosto.
-
-Com que alegria, ao deixar os Olivaes, correu · rua de S. Francisco, a
-annunciar a Maria Eduarda que lhe arranj·ra emfim definitivamente uma
-linda casa no campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu
-encontro ao patamar: elle ergueu-a nos braÁos, entrou assim na sala, com
-ella ao collo, em triumpho. E n„o se conteve; foi · pequena que deu logo
-´a grande novidadeª, annunciando-lhe que ia ter duas vaccas, e uma
-cabra, e flÙres, e arvores para se balouÁar...
-
---Onde È? Dize, onde È? exclamava Rosa, com os lindos olhos
-resplandecentes, e a facesinha cheia de riso.
-
---D'aqui muito longe... Vai-se n'uma carruagem... VÍem-se passar os
-barcos no rio... E entra-se por um grande port„o onde ha um c„o de fila.
-
-Maria Eduarda appareceu, com _Niniche_ ao collo.
-
---Mam„, mam„! gritou Rosa correndo para ella, dependurando-se-lhe do
-vestido. Diz que vou ter duas cabrinhas, e um balouÁo... … verdade?
-Dize, deixa vÍr, onde È? Dize... E vamos j· para l·?
-
-Maria e Carlos apertaram a m„o, com um longo olhar, sem uma palavra. E
-logo junto da mesa, com Rosa encostada aos seus joelhos, Carlos contou a
-sua ida aos Olivaes... O dono da casa estava prompto a alugar, j·, n'uma
-semana... E assim se achava ella de repente com uma vivenda pittoresca,
-mobilada n'um bello estylo, deliciosamente saudavel...
-
-Maria Eduarda parecia surprehendida, quasi desconfiada.
-
---Ha de ser necessario levar roupas de cama, roupas de mesa...
-
---Mas ha tudo! exclamou Carlos alegremente, ha quasi tudo! … tal qual
-como n'um conto de fadas... As luzes est„o accÍsas, as jarras est„o
-cheias de flÙres... … sÛ tomar uma carruagem e chegar.
-
---SÛmente, È necessario saber o que esse paraiso me vae custar...
-
-Carlos fez-se vermelho. N„o previra que se fallasse em dinheiro--e que
-ella quereria decerto pagar a casa que habitasse... Ent„o preferiu
-confessar-lhe tudo. Disse-lhe como o Craft, havia quasi um anno, andava
-desejando desfazer-se das suas collecÁıes, e alugar a quinta: o avÙ e
-elle tinham repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e
-das faienÁas, para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais
-Santa Olavia; e elle emfim decidira-se a fazer essa compra desde que
-entrevira a felicidade de lhe poder offerecer, por alguns mezes de
-ver„o, uma residencia t„o graciosa, e t„o confortavel...
-
---Rosa, vai l· para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de
-silencio... Miss Sarah est· · tua espera.
-
-Depois, olhando para Carlos, muito sÈria:
-
---De sorte que, se eu n„o mostrasse desejos de ir para o campo, n„o
-tinha feito essa despeza...
-
---Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambem alugado a casa por seis
-mezes ou por um anno... Onde possuia eu agora de repente um sitio para
-metter as coisas do Craft? O que n„o fazia talvez era comprar
-conjuntamente roupas de cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos
-criados, etc....
-
-E acrescentou, rindo:
-
---Ora se me quizer indemnisar d'isso podemos debater esse negocio...
-
-Ella baixou os olhos, reflectindo, lentamente.
-
---Em todo o caso seu avÙ e os seus amigos devem saber d'aqui a dias que
-me vou installar n'essa casa... E devem comprehender que a comprou para
-que eu l· me installasse...
-
-Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado d'elle. E
-isto inquietou-o--o vÍl-a assim retrahir-se ·quella absoluta communh„o
-d'interesses em que a queria envolver, como esposa do seu coraÁ„o.
-
---N„o approva ent„o o que fiz? Seja franca...
-
---Decerto... Como n„o hei de eu approvar tudo quanto faz, tudo quanto
-vem de si? Mas...
-
-Elle acudiu, apoderando-se das suas m„os, sentindo-se triumphar:
-
---N„o ha _mas_! O avÙ e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no
-campo, inutil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto,
-se quizer, metteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga,
-se fosse possivel que a nossa affeiÁ„o se passasse fÛra do mundo,
-distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria
-delicioso... Mas n„o pÛde ser!... Alguem tem de saber sempre alguma
-coisa; quando n„o seja sen„o o cocheiro que me leva todos os dias a sua
-casa, quando n„o seja sen„o o criado que me abre todos os dias a sua
-porta... Ha sempre alguem que surprehende o encontro de dois olhares; ha
-sempre alguem que adivinha d'onde se vem a certas horas... Os deuses
-antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os
-tornava invisiveis. NÛs n„o somos deuses, felizmente...
-
-Ella sorriu.
-
---Quantas palavras para converter uma convertida!
-
-E tudo ficou harmonisado n'um grande beijo.
-
-
-Affonso da Maia approvou plenamente a compra das collecÁıes do Craft. ´…
-um valor, disse elle ao VillaÁa, e acabamos d'encher com boa arte
-Santa-Olavia e o Ramalhete.ª
-
-Mas o Ega indignou-se, chegou a fallar em ´desvarioª,--despeitado por
-essa transacÁ„o secreta para que n„o fÙra consultado. O que o irritava
-sobretudo era vÍr, n'esta acquisiÁ„o inesperada de uma casa de campo,
-outro symptoma do grave e do fundo segredo que presentia na vida de
-Carlos: e havia j· duas semanas que elle habitava o Ramalhete e Carlos
-ainda n„o lhe fizera uma confidencia!... Desde a sua ligaÁ„o de rapazes
-em Coimbra, nos PaÁos de Cella, fÙra elle o confessor secular de Carlos:
-mesmo em viagem, Carlos n„o tinha uma aventura banal d'hotel, de que n„o
-mandasse ao Ega ´um relatorioª. O romance com a Gouvarinho, de que
-Carlos ao principio tent·ra, frouxamente, guardar um mysterio delicado,
-j· o conhecia todo, j· lÍra as cartas da Gouvarinho, j· pass·ra pela
-casa da titi...
-
-Mas do outro segredo n„o sabia nada--e considerava-se ultrajado. Via
-todas as manh„s Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando
-flÙres; via-o chegar de l·, como elle dizia, ´besuntado d'extasiª;
-via-lhe os silencios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao
-mesmo tempo sÈrio e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente
-amado... E n„o sabia nada.
-
-Justamente alguns dias depois, estando ambos sÛs, a fallar de planos de
-ver„o, Carlos alludiu aos Olivaes, com enthusiasmo, relembrando algumas
-das preciosidades do Craft, o dÙce socego da casa, a clara vista do
-Tejo... Aquillo realmente fÙra obter por uma m„o cheia de libras um
-pedaÁo do paraiso...
-
-Era · noite, no quarto de Carlos, j· tarde. E o Ega, que passeava com as
-m„os nas algibeiras do robe-de-chambre, encolheu os hombros, impaciente,
-farto d'aquelles louvores eternos · casinhola do Craft.
-
---Essa concepÁ„o do paraiso, exclamou elle, parece-me d'um estofador da
-rua Augusta! Como natureza, couves gallegas; como decoraÁ„o, os velhos
-cretones do gabinete, desbotados j· por tres barrelas... Um quarto de
-dormir lugubre como uma capella de santuario... Um sal„o confuso como o
-armazem d'um cara-de-pau, e onde n„o È possivel conversar... A n„o ser o
-armario hollandez, e um ou outro prato, tudo aquillo È um lixo
-archeologico... Jesus! o que eu odeio _bric-‡-brac_!
-
-Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquillamente, e como
-reflectindo:
-
---Com effeito esses cretones s„o medonhos... Mas eu vou mandar
-remobilar, tornar aquillo mais habitavel.
-
-Ega estacou no meio do quarto, com o monoculo a faiscar sobre Carlos.
-
---Habitavel? Vaes ter hospedes?
-
---Vou alugar.
-
---Vaes alugar! A quem?
-
-E o silencio de Carlos, que soprava o fumo da cigarrette com os olhos no
-tecto, enfureceu Ega. Comprimentou quasi atÈ ao ch„o, disse
-sarcasticamente:
-
---PeÁo perd„o. A pergunta foi brutal. Tive agora o ar de querer arrombar
-uma gaveta fechada... O aluguel d'um predio È sempre um d'esses
-delicados segredos de sentimento e de honra em que n„o deve roÁar nem a
-aza da imaginaÁ„o... Fui rude... Irra! Fui bestialmente rude!
-
-Carlos continuava calado. Comprehendia bem o Ega--e quasi sentia um
-remorso d'aquella sua rigida reserva. Mas era como um pudor que o
-enleava, lhe impedia de pronunciar sequer o nome de Maria Eduarda. Todas
-as suas outras aventuras as cont·ra ao Ega; e essas confidencias
-constituiam talvez mesmo o prazer mais solido que ellas lhe davam. Isto,
-porÈm, n„o era ´uma aventuraª. Ao seu amor misturava-se alguma coisa de
-religioso; e, como os verdadeiros devotos, repugnava-lhe conversar sobre
-a sua fÈ... Todavia, ao mesmo tempo, sentia uma tentaÁ„o de fallar
-d'_ella_ ao Ega, e de tornar vivas, e como visiveis aos seus proprios
-olhos, dando-lhes o contorno das palavras e o seu relevo, as coisas
-divinas e confusas que lhe enchiam o coraÁ„o. AlÈm d'isso, Ega n„o
-saberia tudo, mais tarde ou mais cedo, pela tagarellice alheia? Antes
-lh'o dissesse elle, fraternalmente. Mas hesitou ainda, accendeu outra
-cigarrette. Justamente o Ega tom·ra o seu castiÁal, e comeÁava a
-accendel-o a uma serpentina, devagar e com um ar amuado.
-
---N„o sejas tolo, n„o te v·s deitar, senta-te ahi, disse Carlos.
-
-E contou-lhe tudo miudamente, diffusamente, desde o primeiro encontro, ·
-entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen.
-
-Ega escutava-o, sem uma palavra, enterrado no fundo do sof·. Suppuzera
-um romancesinho, d'esses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo:
-e agora, sÛ pelo modo como Carlos fallava d'aquelle grande amor, elle
-sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal
-tornando-se d'ahi por diante, e para sempre, o seu irreparavel destino.
-Imagin·ra uma brazileira polida por Paris, bonita e futil, que tendo o
-marido longe, no Brazil, e um formoso rapaz ao lado, no sof·, obedecia
-simplesmente e alegremente · disposiÁ„o das coisas: e sahia-lhe uma
-creatura cheia de caracter, cheia de paix„o, capaz de sacrificios, capaz
-de heroismos. Como sempre, diante d'estas coisas patheticas,
-murchava-lhe a veia, faltava-lhe a phrase; e quando Carlos se calou, o
-bom Ega teve esta pergunta chÙcha:
-
---Ent„o est·s decidido a safar-te com ella?
-
---A _safar-me_, n„o; a ir viver com ella longe d'aqui, decididissimo!
-
-Ega ficou um momento a olhar para Carlos como para um phenomeno
-prodigioso, e murmurou:
-
---… d'arromba!
-
-Mas que outra coisa podiam elles fazer? D'ahi a tres mezes talvez,
-Castro Gomes chegava do Brazil. Ora nem Carlos, nem ella, aceitariam
-nunca uma d'essas situaÁıes atrozes e reles em que a mulher È do amante
-e do marido, a horas diversas... SÛ lhes restava uma soluÁ„o digna,
-decente, sÈria--fugir.
-
-Ega, depois de um silencio, disse pensativamente:
-
---Para o marido È que n„o È talvez divertido perder assim, de uma vez, a
-mulher, a filha, e a cadellinha...
-
-Carlos ergueu-se, deu alguns passos pelo quarto. Sim, tambem elle j·
-pens·ra n'isso... E n„o sentia remorsos--mesmo quando os podesse haver
-no absoluto egoismo da paix„o... Elle n„o conhecia intimamente Castro
-Gomes: mas tinha podido adivinhar o typo, reconstruil-o, pelo que lhe
-dissera o Damaso, e por algumas conversas com miss Sarah. Castro Gomes
-n„o era um esposo a sÈrio: era um dandy, um futil, um _gommeux_, um
-homem de sport e de cocottes... Cas·ra com uma mulher bella, saci·ra a
-paix„o, e recomeÁ·ra a sua vida de club e de bastidores... Bastava olhar
-para elle, para a sua toilette, para os seus modos--e comprehendia-se
-logo a trivialidade d'aquelle caracter...
-
---Que tal È, como homem? perguntou Ega.
-
---Um brazileirito trigueiro, com um ar espartilhado... Um
-_rastaquouËre_, o verdadeiro typosinho do _CafÈ de la Paix_... …
-possivel que sinta, quando isto vier a succeder, um certo ardor na
-vaidade ferida... Mas È um coraÁ„o que se ha de consolar facilmente nas
-_Folies BergËres_.
-
-Ega n„o dizia nada. Mas pensava que um homem de club, e mesmo consolavel
-nas _Folies BergËres_, pÛde n„o se importar muito com sua mulher, mas
-pÛde todavia amar muito sua filha... Depois, atravessado por uma outra
-idÈa, acrescentou:
-
---E teu avÙ?
-
-Carlos encolheu os hombros:
-
---O avÙ tem de se affligir um pouco para eu poder ser profundamente
-feliz; como eu teria de ser desgraÁado toda a minha vida se quizesse
-poupar ao avÙ essa contrariedade... O mundo È assim, Ega... E eu, n'esse
-ponto, n„o estou decidido a fazer sacrificios.
-
-Ega esfregou lentamente as m„os, com os olhos no ch„o, repetindo a mesma
-palavra, a unica que lhe suggeria todo o seu espirito perante aquellas
-coisas vehementes:
-
---… d'arromba!
-
-
-
-
-III
-
-
-Carlos, que almoÁ·ra cedo, estava para sahir no coupÈ, e j· de
-chapÈo--quando Baptista veio dizer que o snr. Ega, desejando fallar-lhe
-n'uma coisa grave, lhe pedia para esperar um instante. O snr. Ega fic·ra
-a fazer a barba.
-
-Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que ella
-cheg·ra a Lisboa, Ega ainda a n„o vira, e fallava d'ella raramente. Mas
-Carlos sentia-o nervoso e desassocegado. Todas as manh„s o pobre Ega
-mostrava um desapontamento ao receber o correio, que sÛ lhe trazia algum
-jornal cintado, ou cartas de Celorico. ¡ noite percorria dois, tres
-theatros, j· quasi vazios n'aquelle comeÁo de ver„o; e ao recolher era
-outra desconsolaÁ„o, quando os criados lhe affirmavam, com certeza, que
-n„o viera carta alguma para s. exc.^a Decerto Ega n„o se resignava a
-perder Rachel, anciava por a encontrar; e roÌa-o o despeito de que ella,
-de qualquer modo, lhe n„o tivesse mostrado que no seu coraÁ„o permanecia
-ao menos a saudade das antigas felicidades... Justamente na vespera Ega
-apparecera · hora do jantar, transtornado: cruz·ra-se com o Cohen na rua
-do Ouro, e parecera-lhe que ´esse canalhaª lhe atir·ra de lado um olhar
-atrevido, sacudindo a bengala; o Ega jurava que se ´esse canalhaª
-ousasse outra vez fital-o, espedaÁava-o, sem piedade, publicamente, a
-uma esquina da Baixa.
-
-Na ante-camara o relogio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir
-ao quarto do Ega. Mas n'esse instante o correio chegava, com a _Revista
-dos Dois Mundos_, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos
-acabava de a lÍr--quando o Ega appareceu, de jaquet„o, e em chinelas.
-
---Tenho a fallar-te n'uma coisa grave, menino.
-
---LÍ isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da Gouvarinho.
-
-A Gouvarinho, n'um tom amargo, queixava-se que, j· por duas vezes,
-Carlos falt·ra ao _rendez-vous_ em casa da titi, sem lhe ter sequer
-escripto uma palavra; ella vira n'isto uma offensa, uma brutalidade; e
-vinha agora intimal-o, ´em nome de todos os sacrificios que por elle
-fizeraª, a que apparecesse na rua de S. MarÁal, domingo ao meio dia,
-para terem uma explicaÁ„o definitiva antes d'ella partir para Cintra.
-
---Excellente occasi„o d'acabar! exclamou Ega, entregando a carta a
-Carlos, depois de respirar o perfume do papel. N„o v·s, nem respondas...
-Ella parte para Cintra, tu para Santa Olavia, n„o vos vÍdes mais, e
-assim finda o romance. Finda como todas as coisas grandes, como o
-Imperio Romano, e como o Rheno, por dispers„o, insensivelmente...
-
---… o que eu vou fazer, disse Carlos, comeÁando a calÁar as luvas.
-Jesus! Que mulher massadora!
-
---E que desavergonhada! Chamar a essas coisas ´sacrificios!...ª
-Arrasta-te duas vezes por semana a casa da titi, regala-se l· de
-extravagancias, bebe champagne, fuma cigarrettes, sobe ao setimo cÈo,
-delira, e depois pıe dolorosamente os olhos no ch„o, e chama a isso
-´sacrificios...ª SÛ com um chicote!...
-
-Carlos encolheu os hombros, com resignaÁ„o, como se nas condessas de
-Gouvarinho, e no mundo, sÛ houvesse incoherencia e dÛlo.
-
---E que È isso que tu me tinhas a dizer?
-
-Ega ent„o tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma
-cigarrette, abotoou devagar o jaquet„o.
-
---Tu n„o tens visto o Damaso?
-
---Nunca mais me appareceu, disse Carlos. Creio que est· amuado... Eu
-sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois
-dedos...
-
---Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda ahi, por toda a parte,
-fallando de ti e d'essa senhora, tua amiga... A ti chama-te _pulha_, a
-ella peor ainda. … a velha historia; diz que te apresentou, que te
-metteste de dentro, e como para essa senhora È uma quest„o de dinheiro,
-e tu Ès o mais rico, ella lhe passou o pÈ... VÍs d'ahi a infamiasinha. E
-isto tagarellado pelo Gremio, pela Casa Havaneza, com detalhes torpes,
-envolvendo sempre a quest„o de dinheiro. Tudo isto È atroz. Trata de lhe
-pÙr cobro.
-
-Carlos, muito pallido, disse simplesmente:
-
---Ha de se fazer justiÁa.
-
-Desceu, indignado. Aquella torpe insinuaÁ„o sobre ´dinheiroª parecia-lhe
-poder ser castigada sÛ com a morte. E um instante mesmo, com a m„o no
-fecho da portinhola do coupÈ, pensou em correr a casa do Damaso, tomar
-um desforÁo brutal.
-
-Mas eram quasi onze horas, e elle tinha d'ir aos Olivaes. No dia
-seguinte, sabbado, dia bello entre todos e solemne para o seu coraÁ„o,
-Maria Eduarda devia emfim visitar a quinta do Craft: e fic·ra combinado,
-na vespera, que passariam l· as horas do calor, atÈ tarde, sÛs,
-n'aquella casa solitaria e sem criados, escondida entre as arvores. Elle
-pedira-lh'o assim, hesitante e a tremer: ella consentira logo, sorrindo
-e naturalmente. N'essa manh„ elle mand·ra aos Olivaes dois criados para
-arejar as salas, espanejar, encher tudo de flÙres. Agora ia l·, como um
-devoto, vÍr se estava bem enfeitado o sacrario da sua deusa... E era
-atravÈs d'estes deliciosos cuidados, em plena ventura, que lhe apparecia
-outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a tagarellice do
-Damaso!
-
-AtÈ aos Olivaes, n„o cessou de ruminar coisas vagas e violentas que
-faria para aniquilar o Damaso. No seu amor n„o haveria paz, emquanto
-aquelle vill„o o andasse commentando sordidamente pelas esquinas das
-ruas. Era necessario enxovalhal-o de tal modo, com tal publicidade, que
-elle n„o ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil...
-Quando o coupÈ parou · porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas
-no Damaso, uma tarde, no Chiado, com apparato...
-
-Mas depois, ao regressar da quinta, vinha j· mais calmo. Pis·ra a linda
-rua d'acacias que os pÈs d'ella pisariam na manh„ seguinte: dera um
-longo olhar ao leito que seria o leito d'ella, rico, alÁado sobre um
-estrado, envolto em cortinados de brocatel cÙr d'ouro, com um esplendor
-sÈrio d'altar profano... D'ahi a poucas horas, encontrar-se-hiam sÛs
-n'aquella casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o ver„o os seus
-amores viveriam escondidos n'esse fresco retiro d'aldÍa; e d'ahi a tres
-mezes estariam longe, na Italia, · beira d'um claro lago, entre as
-flÙres d'Isola Bella... No meio d'estas voluptuosidades magnificas, que
-lhe podia importar o Damaso, gorducho e reles, palrando em cal„o nos
-bilhares do Gremio! Quando chegou · rua de S. Francisco resolvera, se
-visse o Damaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos.
-
-Maria Eduarda fÙra passear a Belem com Rosa deixando-lhe um bilhete, em
-que lhe pedia para vir · noite _faire un bout de causerie_. Carlos
-desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na
-carteira como uma dÙce reliquia; e sahia o port„o, no momento em que o
-Alencar desembocava defronte, da travessa da Parreirinha, todo de preto,
-moroso e pensativo. Ao avistar Carlos, parou de braÁos abertos; depois
-vivamente, como recordando-se, ergueu os olhos para o primeiro andar.
-
-N„o se tinham visto desde as corridas, o poeta abraÁou com effus„o o seu
-Carlos. E fallou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Cintra,
-em Collares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembr·ra do rico dia
-passado com Carlos e com o maestro em Sitiaes!... Cintra uma belleza.
-Elle, um pouco constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, t„o
-erudito e t„o profundo, apesar da excellente musica da mulher, da
-Julinha (que para elle era como uma irm„), tinha-se aborrecido. Quest„o
-de velhice...
-
---Com effeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te o
-teu ar aureolado.
-
-O poeta encolheu os hombros.
-
---O Evangelho l· o diz bem claro... Ou È a Biblia que o diz...? N„o; È
-S. Paulo... S. Paulo ou Santo Agostinho?... Emfim a authoridade n„o faz
-ao caso. N'um d'esses santos livros se affirma que este mundo È um valle
-de lagrimas...
-
---Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente.
-
-O poeta tornou a encolher os hombros. Lagrimas ou risos, que
-importava?... Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na vespera elle
-dissera isso mesmo em casa dos Cohens...
-
-E de repente, estacando no meio da rua, tocando no braÁo de Carlos:
-
---E agora por fallar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza, meu
-rapaz. Eu sei que tu Ès intimo do Ega, e, que diabo, ninguem lhe admira
-mais o talento do que eu!... Mas, realmente, tu approvas que elle,
-apenas soube da chegada dos Cohens, se viesse metter em Lisboa? Depois
-do que houve!...
-
-Carlos afianÁou ao poeta que o Ega sÛ no dia mesmo da chegada, horas
-depois, soubera pela _Gazeta Illustrada_ a vinda dos Cohens... E de
-resto se n„o podessem habitar, conjuntas na mesma cidade, as pessoas
-entre as quaes tivesse havido attritos desagradaveis, as sociedades
-humanas tinham de se desfazer...
-
-Alencar n„o respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com a cabeÁa baixa.
-Depois parou de novo, franzindo a testa:
-
---Outra coisa em que te quero fallar. Houve entre ti e o Damaso alguma
-pÈga? Eu pergunto-te isto porque n'outro dia, l· em casa dos Cohens,
-elle veio com uns ditos, umas insinuaÁıes... Eu declarei-lhe logo:
-´Damaso, Carlos da Maia, filho de Pedro da Maia, È como se fosse meu
-irm„o.ª E o Damaso calou-se... Calou-se, porque me conhece, e sabe que
-eu n'estas coisas de lealdade e de coraÁ„o sou uma fera!
-
-Carlos disse simplesmente:
-
---N„o, n„o ha nada, n„o sei nada... Nem sequer tenho visto o Damaso.
-
---Pois È verdade, continuou Alencar tomando o braÁo de Carlos,
-lembrei-me muito de ti em Cintra. AtÈ fiz l· um coisita que me n„o sahiu
-m·, e que te dediquei... Um simples soneto, uma paizagem, um quadrosinho
-de Cintra ao pÙr do sol. Quiz provar ahi a esses da IdÈa Nova, que,
-sendo necessario, tambem por c· se sabe cinzelar o verso moderno e dar o
-traÁo realista. Ora espera ahi, eu te digo, se me lembrar. A coisa
-chama-se--_Na estrada dos Capuchos_...
-
-Tinham parado · esquina do Seixas; e o poeta tossira j· de leve, antes
-de recitar,--quando justamente lhes appareceu o Ega, vindo de baixo,
-vestido de campo, com uma bella rosa branca no jaquet„o de flanella
-azul.
-
-Alencar e elle n„o se encontravam desde a fatal soirÈe dos Cohens. E ao
-passo que o Ega conservava um resentimento feroz contra o poeta vendo
-n'elle o inventor d'essa perfida lenda da ´carta obscenaª--Alencar
-odiava-o pela certeza secreta de que elle fÙra o amante amado da sua
-divina Rachel. Ambos se fizeram pallidos; o aperto de m„o que deram foi
-incerto e regelado; e ficaram calados, todos tres, emquanto Ega nervoso
-levava uma eternidade a accender o charuto no lume de Carlos. Mas foi
-elle que fallou, por entre uma fumaÁa, affectando uma superioridade
-amavel:
-
---Acho-te com boa cÙr, Alencar!
-
-O poeta foi amavel tambem, um pouco d'alto, passando os dedos no bigode:
-
---Vai-se andando. E tu que fazes? Quando nos d·s essas _Memorias_,
-homem?
-
---Estou · espera que o paiz aprenda a lÍr.
-
---Tens que esperar! Pede ao teu amigo Gouvarinho que apresse isso, elle
-occupa-se da InstrucÁ„o publica... Olha, alli o tens tu, grave e Ùco
-como uma columna do _Diario do Governo_...
-
-O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde o
-Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao lado
-d'elles, de chapÈo branco, de collete branco, o Damaso deitava olhares
-pelo Chiado, risonho, ovante, barrigudo, como um conquistador nos seus
-dominios. J· aquelle arzinho gordo de tranquillo triumpho irritou
-Carlos. Mas quando o Damaso parou defronte, no outro passeio, todo de
-costas para elle, ostentando rir alto com o Gouvarinho, n„o se conteve,
-atravessou a rua.
-
-Foi breve, e foi cruel: sacudiu a m„o do Gouvarinho, saudou de leve o
-Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Damaso friamente:
-
---Ouve l·. Se contin˙as a fallar de mim e de pessoas das minhas
-relaÁıes, do modo como tens fallado, e que n„o me convÈm, arranco-te as
-orelhas.
-
-O conde acudiu, mettendo-se entre elles:
-
---Maia, por quem È! Aqui no Chiado...
-
---N„o È nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o, muito sÈrio e muito
-sereno. … apenas um aviso a este imbecil.
-
---Eu n„o quero questıes, eu n„o quero questıes!... balbuciou o Damaso,
-livido, enfiando para dentro d'uma tabacaria.
-
-E Carlos voltou, com socego, para junto dos seus amigos, depois de ter
-saudado o Cohen e sacudir a m„o ao Gouvarinho.
-
-Vinha apenas um pouco pallido: mais perturbado estava o Ega, que julg·ra
-vÍr de novo, n'um olhar do Cohen, uma provocaÁ„o intoleravel. SÛ o
-Alencar n„o repar·ra em nada: continuava a discursar sobre coisas
-litterarias, explicando ao Ega as concessıes que se podiam fazer ao
-naturalismo...
-
---Fiquei aqui a dizer ao Ega... … evidente que quando se trata de
-paizagem È necessario copiar a realidade... N„o se pode descrever um
-castanheiro _a priori_, como se descreveria uma alma... E l· isso faÁo
-eu... Ahi est· esse soneto de Cintra que eu te dediquei, Carlos. …
-realista, est· claro que È realista... PudÈra, se È paizagem! Ora eu
-vol-o digo... Ia justamente dizel-o, quando tu appareceste, Ega... Mas
-vejam l· vocÍs se isto os massa...
-
-Qual massava! E atÈ, para o escutarem melhor, penetraram na rua de S.
-Francisco, mais silenciosa. Ahi, dando um passo lento, depois outro, o
-poeta murmurou a sua ecloga. Era em Cintra, ao pÙr do sol: uma ingleza,
-de cabellos soltos, toda de branco, desce n'um burrinho por uma vereda
-que domina um valle; as aves cantam de leve, ha borboletas em torno das
-madresilvas; ent„o a ingleza p·ra, deixa o burrinho, olha enlevada o
-cÈo, os arvoredos, a paz das casas;--e ahi, no ultimo terceto, vinha ´a
-nota realistaª de que se ufanava o Alencar:
-
-
- Ella olha a flÙr dormente, a nuvem casta,
- Emquanto o fumo dos casaes se eleva
- E ao lado o burro, pensativo, pasta.
-
-
---Ahi tÍm vocÍs o traÁo, a nota naturalista... _Ao lado o burro,
-pensativo, pasta_... Eis ahi a realidade, est·-se a vÍr o burro
-pensativo... N„o ha nada mais pensativo que um burro... E s„o estas
-pequeninas coisas da natureza que È necessario observar... J· vÍem vocÍs
-que se pÛde fazer realismo, e do bom, sem vir logo com obscenidades...
-VocÍs que lhes parece o sonetito?
-
-Ambos o elogiaram profundamente--Carlos arrependido de n„o ter
-completado a humilhaÁ„o do Damaso, dando-lhe bengaladas; Ega pensando
-que decerto, n'uma d'essas tardes, no Chiado, teria de esbofetear o
-Cohen. Como elles recolhiam ao Ramalhete, Alencar, j· desanuviado, foi
-acompanhal-os pelo Aterro. E fallou sempre, contando o plano de um
-romance historico, em que elle queria pintar a grande figura d'Affonso
-d'Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais intimo: Affonso
-d'Albuquerque namorado: Affonso d'Albuquerque, sÛ, de noite, na pÙpa do
-seu gale„o, diante d'Ormuz incendiada, beijando uma flÙr secca, entre
-soluÁos. Alencar achava isto sublime.
-
-Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir · rua de S. Francisco--quando
-o Baptista veio dizer que o snr. Telles da Gama lhe desejava fallar com
-urgencia. N„o o querendo receber, alli, em mangas de camisa, mandou-o
-entrar para o gabinete escarlate e preto. E veio d'ahi a um instante
-encontrar Telles da Gama admirando as bellas faianÁas hollandezas.
-
---VocÍ, Maia, tem isto lindissimo, exclamou elle logo. Eu pello-me por
-porcelanas... Hei de voltar um dia d'estes, com mais vagar, vÍr tudo
-isto, de dia... Mas hoje venho com pressa, venho com uma miss„o... VocÍ
-n„o adivinha?
-
-Carlos n„o adivinhava.
-
-E o outro, recuando um passo, com uma gravidade em que transparecia um
-sorriso:
-
---Eu venho aqui perguntar-lhe da parte do Damaso, se vocÍ hoje,
-n'aquillo que lhe disse, tinha tenÁ„o de o offender. … sÛ isto... A
-minha miss„o È apenas esta: perguntar-lhe se vocÍ tinha intenÁ„o de o
-offender.
-
-Carlos olhou-o, muito sÈrio:
-
---O quÍ!? Se tinha intenÁ„o de offender o Damaso quando o ameacei de lhe
-arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha sÛ intenÁ„o de lhe arrancar
-as orelhas!
-
-Telles da Gama saudou, rasgadamente:
-
---Foi isso mesmo o que eu respondi ao Damaso: que vocÍ n„o tinha sen„o
-essa intenÁ„o. Em todo o caso, desde este momento, a minha miss„o est·
-finda... Como vocÍ tem isto bonito!... O que È aquelle prato grande,
-majolica?
-
---N„o, um velho Nevers. Veja vocÍ ao pÈ... … Thetis conduzindo as armas
-d'Achilles... … esplendido; e È muito raro... Veja vocÍ esse Deft, com
-as duas tulipas amarellas... … um encanto!
-
-Telles da Gama dava um olhar lento a todas estas preciosidades, tomando
-o chapÈo de sobre o sof·.
-
---Lindissimo tudo isto!... Ent„o sÛ intenÁ„o de lhe arrancar as orelhas?
-nenhuma de o offender?...
-
---Nenhuma de o offender, toda de lhe arrancar as orelhas... Fume vocÍ um
-charuto.
-
---N„o, obrigado...
-
---Calice de cognac?
-
---N„o! abstenÁ„o total de bebidas e aguas ardentes... Pois adeus, meu
-bom Maia!
-
---Adeus, meu bom Telles...
-
-
-Ao outro dia, por uma radiante manh„ de julho, Carlos saltava do coupÈ,
-com um mÛlho de chaves, diante do port„o da quinta do Craft. Maria
-Eduarda devia chegar ·s dez horas, sÛ, na sua carruagem da Companhia. O
-hortel„o, dispensado por dois dias, fÙra a Villa Franca; n„o havia ainda
-criados na casa; as janellas estavam fechadas. E pesava alli, envolvendo
-a estrada e a vivenda, um d'esses altos e graves silencios d'aldÍa, em
-que se sente, dormente no ar, o zumbir dos moscardos.
-
-Logo depois do port„o, penetrava-se n'uma fresca rua d'acacias, onde
-cheirava bem. A um lado, por entre a ramagem, apparecia o kiosque, com
-tecto de madeira, pintado de vermelho, que fÙra o capricho de Craft, e
-que elle mobil·ra · japoneza. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com
-janellas de peitoril, persianas verdes, e a portinha ao centro sobre
-tres degraus, flanqueados por vasos de louÁa azul cheios de cravos.
-
-SÛ o metter a chave devagar e com uma inutil cautela na fechadura
-d'aquella morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janellas:
-e a larga luz que entrava pareceu-lhe trazer uma doÁura rara, e uma
-alegria maior que a dos outros dias, como preparada especialmente pelo
-bom Deus para alumiar a festa do seu coraÁ„o. Correu logo · sala de
-jantar, a verificar se, na mesa posta para o _lunch_, se conservavam
-ainda viÁosas as flÙres que l· deix·ra na vespera. Depois voltou ao
-coupÈ a tirar o caixote de gelo, que trouxera de Lisboa, embrulhado em
-flanella, entre serradura. Na estrada, silenciosa por ora, ia sÛ
-passando uma saloia montada na sua egua.
-
-Mas apenas accommod·ra o gelo--sentiu fÛra o ruido lento da carruagem.
-Veio para o gabinete forrado de cretones, que abria sobre o corredor; e
-ficou alli, espreitando da porta, mas escondido, por causa do cocheiro
-da Companhia. D'ahi a um instante viu-a emfim chegar, pela rua de
-acacias, alta e bella, vestida de preto, e com um meio-vÈo espesso como
-uma mascara. Os seus pÈsinhos subiram os tres degraus de pedra. Elle
-sentiu a sua voz inquieta perguntar de leve:
-
---_ tes-vous l‡?_
-
-Appareceu--e ficaram um instante, · porta do gabinete, apertando
-sofregamente as m„os, sem fallar, commovidos, deslumbrados.
-
---Que linda manh„! disse ella por fim, rindo e toda vermelha.
-
---Linda manh„, linda! repetia Carlos, contemplando-a, enlevado.
-
-Maria Eduarda resval·ra sobre uma cadeira, junto da porta, n'um cansaÁo
-delicioso, deixando calmar o alvoroÁo do seu coraÁ„o.
-
---… muito confortavel, È encantador tudo isto, dizia ella olhando
-lentamente em redor os cretones do gabinete, o divan turco coberto com
-um tapete de Brousse, a estante envidraÁada cheia de livros. Vou ficar
-aqui adoravelmente...
-
---Mas ainda nem lhe agradeci o ter vindo, murmurou Carlos, esquecido, a
-olhar para ella. Ainda nem lhe beijei a m„o...
-
-Maria Eduarda comeÁou a tirar o vÈo, depois as luvas, fallando da
-estrada. Ach·ra-a longa, fatigante. Mas que lhe importava? Apenas se
-accommodasse n'aquelle fresco ninho nunca mais voltava a Lisboa!
-
-Atirou o chapÈo para cima do divan--ergueu-se, toda alegre e luminosa.
-
---Vamos vÍr a casa, estou morta por vÍr essas maravilhas do seu amigo
-Craft!... … Craft que se chama? _Craft_ quer dizer industria!
-
---Mas ainda nem sequer lhe beijei a m„o! tornou Carlos, sorrindo e
-supplicante.
-
-Ella estendeu-lhe os labios, e ficou presa nos seus braÁos.
-
-E Carlos, beijando-lhe devagar os olhos, o cabello, dizia-lhe quanto era
-feliz e quanto a sentia agora mais sua entre estes velhos muros de
-quinta que a separavam do resto do mundo...
-
-Ella deixava-se beijar, sÈria e grave:
-
---E È verdade isso? … realmente verdade?...
-
-Se era verdade! Carlos teve um suspiro quasi triste:
-
---Que lhe hei de eu responder? Tenho de lhe repetir essa coisa antiga
-que j· Hamlet disse: que duvide de tudo, que duvide do sol, mas que n„o
-duvide de mim...
-
-Maria Eduarda desprendeu-se, lentamente e perturbada.
-
---Vamos vÍr a casa, disse ella.
-
-ComeÁaram pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos
-em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papeis claros, abriam
-sobre o rio e sobre os campos.
-
---Os seus aposentos, disse Carlos, h„o de ser em baixo, est· visto,
-entre as coisas ricas... Mas Rosa e miss Sarah ficam aqui
-esplendidamente. N„o lhe parece?
-
-E ella percorria os quartos, devagar, examinando a accommodaÁ„o dos
-armarios, palpando a elasticidade dos colxıes, attenta, cuidadosa, toda
-no desvelo de alojar bem a sua gente. Por vezes mesmo exigia uma
-alteraÁ„o. E era realmente como se aquelle homem que a seguia,
-enternecido e radiante, fosse apenas um velho senhorio.
-
---O quarto com as duas janellas, ao fundo do corredor, seria o melhor
-para Rosa. Mas a pequena n„o pÛde dormir n'aquelle enorme leito de pau
-preto...
-
---Muda-se!
-
---Sim, pÛde mudar-se... E falta uma sala larga para ella brincar, ·s
-horas do calor... Se n„o houvesse o tabique entre os dois quartos
-pequenos...
-
---Deita-se abaixo!
-
-Elle esfregava as m„os, encantado, prompto a refundir toda a casa; e
-ella n„o recusava nada, para conforto mais perfeito dos seus.
-
-Desceram · sala de jantar. E ahi, diante da famosa chaminÈ de carvalho
-lavrado, flanqueada · maneira de cariatides pelas duas negras figuras de
-Nubios, com olhos rutilantes de crystal, Maria Eduarda comeÁou a achar o
-gosto do Craft excentrico, quasi exotico... Tambem Carlos n„o lhe dizia
-que Craft tivesse o gosto correcto d'um atheniense. Era um saxonio
-batido d'um raio de sol meridional: mas havia muito talento na sua
-excentricidade...
-
---Oh, a vista È que È deliciosa! exclamou ella chegando-se · janella.
-
-Junto do peitoril crescia um pÈ de margaridas, e ao lado outro de
-baunilha que perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete de relva, mal
-aparada, um pouco amarellada j· pelo calor de julho; e entre duas
-grandes arvores que lhe faziam sombra, havia alli, para os vagares da
-sÈsta, um largo banco de cortiÁa. Um renque de arbustos cerrados parecia
-fechar a quinta d'aquelle lado como uma sebe. Depois a collina descia,
-com outras quintarolas, casas que se n„o viam, e uma chaminÈ de fabrica;
-e l· no fundo o rio rebrilhava, vidrado de azul, mudo e cheio de sol,
-atÈ ·s montanhas d'alÈm-Tejo, azuladas tambem na faiscaÁ„o clara do cÈo
-de ver„o.
-
---Isto È encantador! repetia ella.
-
---… um paraiso! Pois n„o lhe dizia eu? … necessario pÙr um nome a esta
-casa... Como se ha de chamar? _Villa-Marie?_ N„o. _Ch‚teau-Rose_...
-Tambem n„o, crÈdo! Parece o nome d'um vinho. O melhor È baptisal-a
-definitivamente com o nome que nÛs lhe davamos. NÛs chamavamos-lhe a
-_TÛca_.
-
-Maria Eduarda achou originalissimo o nome de _TÛca_. Devia-se atÈ pintar
-em letras vermelhas sobre o port„o.
-
---Justamente, e com uma divisa de bicho, disse Carlos rindo. Uma divisa
-de bicho egoista na sua felicidade e no seu buraco: _N„o me mexam!_
-
-Mas ella par·ra, com um lindo riso de surpreza, diante da mesa posta,
-cheia de fruta, com as duas cadeiras j· chegadas, e os crystaes
-brilhando entre as flÙres.
-
---S„o as bodas de Cann·!
-
-Os olhos de Carlos resplandeceram.
-
---S„o as nossas!
-
-Maria Eduarda fez-se muito vermelha; e baixou o rosto a escolher um
-morango, depois a escolher uma rosa.
-
---Quer uma gota de champagne? exclamou Carlos. Com um pouco de gelo? NÛs
-temos gelo, temos tudo! N„o nos falta nada, nem a benÁ„o de Deus... Uma
-gotinha de champagne, v·!
-
-Ella aceitou: beberam pelo mesmo copo; outra vez os seus labios se
-encontraram, apaixonadamente.
-
-Carlos accendeu uma cigarrette, continuaram a percorrer a casa. A
-cozinha agradou-lhe muito, arranjada · ingleza, toda em azulejos. No
-corredor Maria Eduarda demorou-se diante de uma panoplia de tourada, com
-uma cabeÁa negra de touro, espadas e garrochas, mantos de sÍda vermelha,
-conservando nas suas pregas uma graÁa ligeira, e ao lado o cartaz
-amarello _de la corrida_, com o nome de Lagartijo. Isto encantou-a como
-um quente lampejo de festa e de sol peninsular...
-
-Mas depois o quarto que devia ser o seu, quando Carlos lh'o foi mostrar,
-desagradou-lhe com o seu luxo estridente e sensual. Era uma alcova,
-recebendo a claridade d'uma sala forrada de tapeÁarias, onde desmaiavam
-na trama de l„ os amores de Venus e Marte: da porta de communicaÁ„o,
-arredondada em arco de capella, pendia uma pesada lampada da RenascenÁa,
-de ferro forjado: e, ·quella hora, batida por uma larga facha de sol, a
-alcova resplandecia como o interior de um tabernaculo profanado,
-convertido em retiro lascivo de serralho... Era toda forrada, paredes e
-tectos, de um brocado amarello, cÙr de bot„o d'ouro; um tapete de
-velludo do mesmo tom rico fazia um pavimento d'ouro vivo sobre que
-poderiam correr n˙s os pÈs ardentes d'uma deusa amorosa--e o leito de
-docel, alÁado sobre um estrado, coberto com uma colcha de setim amarello
-bordada a flÙres d'ouro, envolto em solemnes cortinas tambem amarellas
-de velho brocatel,--enchia a alcova, esplendido e severo, e como erguido
-para as voluptuosidades grandiosas de uma paix„o tragica do tempo de
-Lucrecia ou de Romeu. E era alli que o bom Craft, com um lenÁo de sÍda
-da India amarrado na cabeÁa, resonava as suas sete horas, pacata e
-solitariamente.
-
-Mas Maria Eduarda n„o gostou d'estes amarellos excessivos. Depois
-impressionou-se, ao reparar n'um painel antigo, defumado, resaltando em
-negro do fundo de todo aquelle ouro--onde apenas se distinguia uma
-cabeÁa degolada, livida, gelada no seu sangue, dentro d'um prato de
-cobre. E para maior excentricidade, a um canto, de cima de uma columna
-de carvalho, uma enorme coruja empalhada fixava no leito d'amor, com um
-ar de meditaÁ„o sinistra, os seus dois olhos redondos e agourentos...
-Maria Eduarda achava impossivel ter alli sonhos suaves.
-
-Carlos agarrou logo na columna e no mocho, atirou-os para um canto do
-corredor; e propoz-lhe mudar aquelles brocados, forrar a alcova de um
-setim cÙr de rosa e risonho.
-
---N„o, venho-me a acostumar a todos esses ouros... SÛmente aquelle
-quadro, com a cabeÁa, e com o sangue... Jesus, que horror!
-
---Reparando bem, disse Carlos, creio que È o nosso velho amigo S. Jo„o
-Baptista.
-
-Para desfazer essa impress„o desconsolada levou-a ao sal„o nobre, onde
-Craft concentr·ra as suas preciosidades. Maria Eduarda, porÈm, ainda
-descontente, achou-lhe um ar atulhado e frio de museu.
-
---… para vÍr de pÈ, e de passagem... N„o se pÛde ficar aqui sentado, a
-conversar.
-
---Mas esta È materia-prima! exclamou Carlos. Com isto depois faz-se uma
-sala adoravel... Para que serve o nosso genio decorativo?... Olhe o
-armario, veja que centro! Que belleza!
-
-Enchendo quasi a parede do fundo, o famoso armario, o ´movel divinoª do
-Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseatica, luxuoso e sombrio,
-tinha uma magestade architectural: na base quatro guerreiros, armados
-como Marte, flanqueavam as portas, mostrando cada uma em baixo-relevo o
-assalto de uma cidade ou as tendas de um acampamento; a peÁa superior
-era guardada aos quatro cantos pelos quatro evangelistas, Jo„o, Marcos,
-Lucas e Matheus, imagens rigidas, envolvidas n'essas roupagens violentas
-que um vento de prophecia parece agitar: depois na cornija erguia-se um
-trophÈo agricola com mÛlhos d'espigas, fouces, cachos d'uvas e rabiÁas
-d'arados; e, · sombra d'estas coisas de labor e fartura, dois Faunos,
-recostados em symetria, indifferentes aos heroes e aos santos, tocavam
-n'um desafio bucolico a frauta de quatro tubos.
-
---Ent„o, hein? dizia Carlos. Que movel! … todo um poema da RenascenÁa,
-Faunos e Apostolos, guerras e georgicas... Que se pÛde metter dentro
-d'este armario? Eu se tivesse cartas suas era aqui que as depositava,
-como n'um altar-mÛr.
-
-Ella n„o respondeu, sorrindo, caminhando devagar entre essas coisas do
-passado, d'uma belleza fria, e exhalando a indefinida tristeza de um
-luxo morto: finos moveis da RenascenÁa italiana, exilados dos seus
-palacios de marmore, com embutidos de cornalina e agatha que punham um
-brilho suave de joia sobre a negrura dos ebanos ou setim das madeiras
-cÙr de rosa; cofres nupciaes, longos como bah˙s, onde se guardavam os
-presentes dos Papas e dos Principes, pintados a purpura e ouro, com
-graÁas de miniatura; contadores hespanhoes impertigados, revestidos de
-ferro brunido e de velludo vermelho, e com interiores mysteriosos, em
-fÛrma de capella, cheios de nichos, de claustros de tartaruga... Aqui e
-alÈm, sobre a pintura verde-escura das paredes, resplandecia uma colcha
-de setim toda recamada de flÙres e d'aves d'ouro; ou sobre um bocado de
-tapete do Oriente de tons severos, com versiculos do Alcor„o,
-desdobrava-se a pastoral gentil d'um minuete em Cythera sobre a sÍda de
-um leque aberto...
-
-Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, n'uma poltrona Luiz XV,
-ampla e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta de
-tapeÁaria de Beauvais, d'onde parecia exhalar-se ainda um vago aroma
-d'empoado.
-
-Carlos triumphava, vendo a admiraÁ„o de Maria. Ent„o, ainda considerava
-uma extravagancia aquella compra, feita n'um rasgo de enthusiasmo?
-
---N„o, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei a viver
-uma vida pacata de aldÍa no meio de todas estas raridades...
-
---N„o diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pÈgo fogo a tudo!
-
-Mas o que lhe agradou mais foram as bellas faianÁas, toda uma arte
-immortal e fragil espalhada por sobre o marmore das consolas. Uma
-sobretudo attrahiu-a, uma esplendida taÁa persa, d'um desenho raro, com
-um renque de negros cyprestes, cada um abrigando uma flÙr de cÙr viva: e
-aquillo fazia lembrar breves sorrisos reapparecendo entre longas
-tristezas. Depois eram as apparatosas majolicas, de tons estridentes e
-desencontrados, cheias de grandes personagens, Carlos V passando o Elba,
-Alexandre coroando Roxane; os lindos Nevers, ingenuos e sÈrios; os
-Marselhas, onde se abre voluptuosamente, como uma nudez que se mostra,
-uma grossa rosa vermelha; os Derby, com as suas rendas de ouro sobre o
-azul-ferrete de cÈo tropical; os Wedgewood, cÙr de leite e cÙr de rosa,
-com transparencias fugitivas de concha na agua...
-
---SÛ um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez sentar-se, È
-necessario saudar o genio tutelar da casa!
-
-Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze, um
-deus bestial, n˙, pelado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso,
-com o ventre Ûvante, distendido na indigest„o de todo um universo--e as
-duas perninhas bambas, molles e flaccidas como as pelles mortas d'um
-feto. E este monstro triumphava, encanchado sobre um animal fabuloso, de
-pÈs humanos, que dobrava para a terra o pescoÁo submisso, mostrando no
-focinho e no olho obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhaÁ„o...
-
---E pensarmos, dizia Carlos, que geraÁıes inteiras vieram ajoelhar-se
-diante d'este rat„o, rezar-lhe, beijar-lhe o embigo, offerecer-lhe
-riquezas, morrer por elle...
-
---O amor que se tem por um monstro, disse Maria, È mais meritorio, n„o È
-verdade?
-
---Por isso n„o acha talvez meritorio o amor que se tem por si...
-
-Sentaram-se ao pÈ da janella, n'um divan baixo e largo, cheio de
-almofadas, cercado por um biombo de sÍda branca, que fazia entre aquelle
-luxo do passado um fÙfo recanto de conforto moderno: e como ella se
-queixava um pouco de calor, Carlos abriu a janella. Junto do peitoril
-crescia tambem um grande pÈ de margaridas; adiante, n'um velho vaso de
-pedra, pousado sobre a relva, vermelhejava a flÙr d'um cacto; e dos
-ramos de uma nogueira cahia uma fina frescura.
-
-Maria Eduarda veio encostar-se · janella, Carlos seguiu-a; e ficaram
-alli juntos, calados, profundamente felizes, penetrados pela doÁura
-d'aquella solid„o. Um passaro cantou de leve no ramo da arvore; depois
-calou-se. Ella quiz saber o nome de uma povoaÁ„o que branquejava ao
-longe ao sol na collina azulada. Carlos n„o se lembrava. Depois
-brincando, colheu uma margarida, para a interrogar: _Elle m'aime, un
-peu, beaucoup_... Ella arrancou-lh'a das m„os.
-
---Para que precisa perguntar ·s flÙres?
-
---Porque ainda m'o n„o disse claramente, absolutamente, como eu quero
-que m'o diga...
-
-AbraÁou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Ent„o Carlos, com os olhos
-mergulhados nos d'ella, disse-lhe baixÌnho e implorando:
-
---Ainda n„o vimos a saleta de banho...
-
-Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaÁada pelo sal„o, depois atravÈs
-da sala de tapeÁarias onde Marte e Venus se amavam entre os bosques. Os
-banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho
-tapete vermelho da Caramania. Elle, tendo-a sempre abraÁada, pousou-lhe
-no pescoÁo um beijo longo e lento. Ella abandonou-se mais, os seus olhos
-cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e cÙr
-d'ouro: Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capella,
-feitas de uma sÍda leve que coava para dentro uma claridade loura: e um
-instante ficaram immoveis, sÛs emfim, desatado o abraÁo, sem se tocarem,
-como suspensos e suffocados pela abundancia da sua felicidade.
-
---Aquella horrivel cabeÁa! murmurou ella.
-
-Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E ent„o
-todo o rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida entre as
-arvores, n'uma demorada sÈsta, sob a calma de julho...
-
-
-Os annos de Affonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo.
-Quasi todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tom·ra-se o
-cafÈ no escriptorio d'Affonso, onde as janellas se conservavam abertas.
-A noite estava tepida, estrellada e serenissima. Craft, Sequeira e o
-Taveira passeavam fumando no terraÁo. Ao canto d'um sof· Cruges escutava
-religiosamente Steinbroken que lhe contava, com gravidade, os progressos
-da musica na Filandia. E em redor de Affonso, estendido na sua velha
-poltrona, de cachimbo na m„o, fallava-se do campo.
-
-Ao jantar Affonso annunci·ra a intenÁ„o de ir visitar, para o meado do
-mez, as velhas arvores de Santa Olavia; e combin·ra-se logo uma grande
-romaria de amizade ·s margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam
-Affonso. O marquez promettera uma visita para agosto ´na companhia
-melodiosaª, dizia elle, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com
-receio da longa jornada, da humidade da aldÍa. E agora tratava-se de
-persuadir Ega a ir tambem, com Carlos--quando Carlos acabasse emfim de
-reunir esses materiaes do seu livro que o retinham em Lisboa ´· banca do
-labor...ª Mas o Ega resistia. O campo, dizia elle, era bom para os
-selvagens. O homem, · maneira que se civilisa, afasta-se da natureza; e
-a realisaÁ„o do progresso, o paraiso na Terra, que presagiam os
-Idealistas, concebia-o elle como uma vasta cidade occupando totalmente o
-Globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e alÈm um
-bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes
-para perfumar o altar da JustiÁa...
-
---E o milho? A bella fruta? A hortaliÁasinha? perguntava VillaÁa, rindo
-com malicia.
-
-Imaginava ent„o VillaÁa, replicava o outro, que d'aqui a seculos ainda
-se comeriam hortaliÁas? O habito dos vegetaes era um resto da rude
-animalidade do homem. Com os tempos o sÍr civilisado e completo vinha a
-alimentar-se unicamente de productos artificiaes, em frasquinhos e em
-pilulas, feitos nos laboratorios do Estado...
-
---O campo, disse ent„o D. Diogo, passando gravemente os dedos pelos
-bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer um bonito
-_pic-nic_, para uma burricada, para uma partida de croquet... Sem campo
-n„o ha sociedade.
-
---Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambem ha arvores ainda se
-admitte...
-
-Enterrado n'uma poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em
-silencio. Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente a
-tudo, com um ar luminoso e de deliciosa lassid„o. E ent„o o marquez, que
-j· duas vezes, dirigindo-se a elle, encontr·ra a mesma abstracÁ„o
-radiosa, impacientou-se:
-
---Homem, falle, diga alguma coisa!... VocÍ est· hoje com um ar
-extraordinario, um arzinho de beato que se regalou de papar o
-Santissimo!
-
-Todos em redor, com sympathia, se affirmaram em Carlos: VillaÁa
-achava-lhe agora melhor cara, cÙr d'alegria: D. Diogo, com um ar
-entendido, sentindo mulher, invejou-lhe os annos, invejou-lhe o vigor. E
-Affonso reenchendo o cachimbo olhava o neto, enternecido.
-
-Carlos ergueu-se immediatamente, fugindo ·quelle exame affectuoso.
-
---Com effeito, disse elle, espreguiÁando-se de leve, tenho estado hoje
-languido e mono... … o comeÁo do ver„o... Mas È necessario sacudir-me...
-Quer vocÍ fazer uma partida de bilhar, Û marquez?
-
---V· l·, homem. Se isso o resuscita...
-
-Foram, Ega seguiu-os. E apenas no corredor o marquez parando, e como
-recordando-se, perguntou sem rebuÁo ao Ega noticias dos Cohens.
-Tinham-se encontrado? Estava tudo acabado? Para o marquez, uma flÙr de
-lealdade, n„o havia segredos: Ega contou-lhe que o romance find·ra, e
-agora o Cohen, quando o cruzava, baixava prudentemente os olhos...
-
---Eu perguntei isto, disse o marquez, porque j· vi a Cohen duas vezes...
-
---Onde? foi a exclamaÁ„o sÙfrega do Ega.
-
---No Price, e sempre com o Damaso. A ultima vez foi j· esta semana. E l·
-estava o Damaso, muito chegadinho, palrando muito... Depois veio
-sentar-se um bocado ao pÈ de mim, e sempre d'olho n'ella... E ella de
-l·, com aquelle ar de lambisgoia, de luneta n'elle... N„o havia que
-duvidar, era um namoro... Aquelle Cohen È um predestinado.
-
-Ega fez-se livido, torceu nervosamente o bigode, terminou por dizer:
-
---O Damaso È muito intimo d'elles... Mas talvez se atire, n„o duvido...
-S„o dignos um do outro.
-
-No bilhar, emquanto os dois carambolavam preguiÁosamente, elle n„o
-cessou de passear, n'uma agitaÁ„o, trincando o charuto apagado. De
-repente estacou em frente do marquez, com os olhos chammejantes:
-
---Quando È que vocÍ a viu ultimamente no Price, essa torpe filha
-d'Israel?
-
---TerÁa-feira, creio eu.
-
-O Ega recomeÁou a passear, sombrio.
-
-N'esse instante Baptista, apparecendo · porta do bilhar, chamou Carlos
-em silencio, com um leve olhar. Carlos veio, surprehendido.
-
---… um cocheiro de praÁa, murmurou Baptista. Diz que est· alli uma
-senhora dentro d'uma carruagem que lhe quer fallar.
-
---Que senhora?
-
-Baptista encolheu os hombros. Carlos, de taco na m„o, olhava para elle,
-aterrado. Uma senhora! Era decerto Maria... Que teria succedido, santo
-Deus, para ella vir n'uma tipoia, ·s nove da noite, ao Ramalhete!
-
-Mandou Baptista, a correr, buscar-lhe um chapÈo baixo; e assim mesmo, de
-casaca, sem paletot, desceu n'uma grande anciedade. No peristyllo topou
-com Eusebiosinho que chegava, e sacudia cuidadosamente com o lenÁo a
-poeira dos botins. Nem fallou ao Eusebiosinho. Correu ao coupÈ, parado ·
-porta particular dos seus quartos, mudo, fechado, mysterioso,
-aterrador...
-
-Abriu a portinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro,
-abafado n'uma mantilha de renda, debruÁou-se, perturbado, balbuciou:
-
---… sÛ um instante! Quero-lhe fallar!
-
-Que allivio! Era a Gouvarinho! Ent„o, na sua indignaÁ„o, Carlos foi
-brutal.
-
---Que diabo de tolice È esta? Que quer?
-
-Ia bater com a portinhola; ella empurrou-a para fÛra, desesperada; e n„o
-se conteve, desabafou logo alli, diante do cocheiro, que mexia
-tranquillamente na fivela d'um tirante.
-
---De quem È a culpa? Para que me trata d'este modo?... … sÛ um instante,
-entre, tenho de lhe fallar!...
-
-Carlos saltou para dentro, furioso:
-
---D· uma volta pelo Aterro, gritou ao cocheiro. Devagar!
-
-O velho calhambeque desceu a calÁada; e durante um momento, na
-escurid„o, recuando um do outro no assento estreito, tiveram as mesmas
-palavras, bruscas e colericas, atravÈs do barulho das vidraÁas.
-
---Que imprudencia! que tolice!...
-
---E de quem È a culpa? De quem È a culpa?
-
-Depois, na rampa de Santos, o coupÈ rolou mais silenciosamente no
-macadam. Carlos ent„o, arrependido da sua dureza, voltou-se para ella, e
-com brandura, quasi no tom carinhoso d'outr'ora, reprehendeu-a por
-aquella imprudencia... Pois n„o era melhor ter-lhe escripto?
-
---Para quÍ? exclamou ella. Para n„o me responder? Para n„o fazer caso
-das minhas cartas, como se fossem as de um importuno a pedir-lhe uma
-esmola!...
-
-Suffocava, arrancou a mantilha da cabeÁa. No vagaroso rolar do coupÈ,
-sem ruido, ao longo do rio, Carlos sentia a respiraÁ„o d'ella,
-tumultuosa e cheia d'angustia. E n„o dizia nada, immovel, n'um infinito
-mal-estar, entrevendo confusamente, atravÈs do vidro embaciado, na
-sombra triste do rio adormecido, as mastreaÁıes vagas de fal˙as. A
-parelha parecia ir adormecendo; e as queixas d'ella desenrolavam-se,
-profundas, mordentes, repassadas d'amargura.
-
---PeÁo-lhe que venha a Santa Isabel, n„o vem... Escrevo-lhe, n„o me
-responde... Quero ter uma explicaÁ„o franca comsigo, n„o apparece...
-Nada, nem um bilhete, nem uma palavra, nem um aceno... Um desprezo
-brutal, um desprezo grosseiro... Eu nem devia ter vindo... Mas n„o pude,
-n„o pude!... Quiz saber o que lhe tinha feito. O que È isto? Que lhe fiz
-eu?
-
-Carlos percebia os olhos d'ella, faiscantes sob a nevoa de lagrimas
-retidas, supplicando e procurando os seus. E sem coragem sequer de a
-fitar, murmurou, torturado:
-
---Realmente, minha amiga... As coisas fallam bem por si, n„o s„o
-necessarias explicaÁıes.
-
---S„o! … necessario saber se isto È uma coisa passageira, um amuo, ou se
-È uma coisa definitiva, um rompimento!
-
-Elle agitava-se no seu canto, sem achar uma maneira suave, affectuosa
-ainda, de lhe dizer que todo o seu desejo d'ella find·ra. Terminou por
-affirmar que n„o era um amuo. Os seus sentimentos tinham sido sempre
-elevados, n„o cahiria agora na pieguice de ter um amuo...
-
---Ent„o È um rompimento?...
-
---N„o, tambem n„o... Um rompimento absoluto, para sempre, n„o...
-
---Ent„o È um amuo? PorquÍ?
-
-Carlos n„o respondeu. Ella, perdida, sacudiu-o pelo braÁo.
-
---Mas falle! Diga alguma coisa, santo Deus! N„o seja cobarde, tenha a
-coragem de dizer o que È!
-
-Sim, ella tinha raz„o... Era uma cobardia, era uma indignidade,
-continuar alli, gÙchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar coisas
-mesquinhas. Quiz ser claro, quiz ser forte.
-
---Pois bem, ahi est·. Eu entendi que as nossas relaÁıes deviam ser
-alteradas...
-
-E outra vez hesitou, a verdade amolleceu-lhe nos labios, sentindo
-aquella mulher ao seu lado a tremer d'agonia.
-
---Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado,
-que n„o podia durar, n'uma amizade agradavel, e mais nobre...
-
-E pouco a pouco as palavras voltavam-lhe faceis, habeis, persuasivas,
-atravÈs do rumor lento das rodas. Onde os podia levar aquella ligaÁ„o?
-Ao resultado costumado. A que a um dia se descobrisse tudo, e o seu
-bello romance acabasse no escandalo e na vergonha; ou a que,
-envolvendo-os por muito tempo o segredo, elle viesse a descahir na
-banalidade d'uma uni„o quasi conjugal, sem interesse e sem requinte. De
-resto era certo que, continuando a encontrarem-se, aqui, em Cintra,
-n'outros sitios, a sociedadesinha curiosa e mexeriqueira viria a
-perceber a sua affeiÁ„o. E havia por acaso nada mais horroroso, para
-quem tem orgulho e delicadeza d'alma, do que uns amores que todo o
-publico conhece, atÈ os cocheiros de praÁa? N„o... O bom senso, o bom
-gosto mesmo, tudo indicava a necessidade d'uma separaÁ„o. Ella mesmo
-mais tarde lhe seria grata... Decerto, esta primeira interrupÁ„o d'um
-habito dÙce era desagradavel, e elle estava bem longe de se sentir
-feliz. FÙra por isso que n„o tivera a coragem de lhe escrever... Emfim
-deviam ser fortes, e n„o se vÍrem pelo menos durante alguns mezes...
-Depois, pouco a pouco, o que era capricho fragil, cheio de inquietaÁ„o,
-tornar-se-hia uma boa amizade, bem segura e bem duradoura.
-
-Calou-se; e ent„o, no silencio, sentiu que ella, cahida para o canto do
-coupÈ, como uma coisa miseravel e meio morta, encolhida no seu vÈo,
-estava chorando baixo.
-
-Foi um momento intoleravel. Ella chorava sem violencia, mansamente, com
-um chÙro lento, que parecia n„o dever findar. E Carlos sÛ achava esta
-palavra banal e desenxabida:
-
---Que tolice, que tolice!
-
-Vinham rodando ao comprido das casas, por diante da fabrica do gaz. Um
-americano passou alumiado, com senhoras vestidas de claro. N'aquella
-noite de ver„o e d'estrellas, havia gente vagueando tranquillamente
-entre as arvores. Ella continuava a chorar.
-
-Aquelle pranto triste, lento, correndo a seu lado, comeÁou a commovel-o;
-e ao mesmo tempo quasi lhe queria mal por ella n„o reter essas lagrimas
-infindaveis que laceravam o seu coraÁ„o... E elle que estava t„o
-tranquillo, no Ramalhete, na sua poltrona, sorrindo a tudo, n'uma
-deliciosa lassid„o!
-
-Tomou-lhe a m„o, querendo calmal-a, apiedado, e j· impaciente.
-
---Realmente n„o tem raz„o. … absurdo... Tudo isto È para seu bem...
-
-Ella teve emfim um movimento, enxugou os olhos, assoou-se doloridamente
-por entre os seus longos soluÁos... E de repente, n'um arranque de
-paix„o, atirou-lhe os braÁos ao pescoÁo, prendendo-se a elle com
-desespero, esmagando-o contra o seu seio.
-
---Oh meu amor, n„o me deixes, n„o me deixes! Se tu soubesses! …s a unica
-felicidade que eu tenho na vida... Eu morro, eu mato-me!... Que te fiz
-eu? Ninguem sabe do nosso amor... E que soubesse! Por ti sacrifico tudo,
-vida, honra, tudo! tudo!...
-
-Molhava-lhe a face com o resto das suas lagrimas; e elle abandonava-se,
-sentindo aquelle corpo sem collete, quente e como n˙, subir-lhe para os
-joelhos, collar-se ao seu, n'um furor de o repossuir, com beijos
-sÙfregos, furiosos, que o suffocavam... Subitamente a tipoia parou. E um
-momento ficaram assim--Carlos immovel, ella cahida sobre elle e
-arquejando.
-
-Mas a tipoia n„o continuava. Ent„o Carlos desprendeu um braÁo, desceu o
-vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete. O homem, obedecendo ·
-ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar, subira a rampa, retrocedera ·
-porta da casa. Durante um instante Carlos teve a tentaÁ„o de descer,
-acabar alli bruscamente aquelle longo tormento. Mas pareceu-lhe uma
-brutalidade. E desesperado, detestando-a, berrou ao cocheiro:
-
---Outra vez ao Aterro, anda sempre!...
-
-A tipoia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar; de
-novo as pedras da calÁada fizeram tilintir os vidros; de novo, mais
-suavemente, desceram a rampa de Santos.
-
-Ella recomeÁ·ra os seus beijos. Mas tinham perdido a chamma que um
-instante os fizera quasi irresistiveis. Agora Carlos sentia sÛ uma
-fadiga, um desejo infinito de voltar ao seu quarto, ao repouso de que
-ella o arranc·ra para o torturar com estas recriminaÁıes, estes ardores
-entre lagrimas... E de repente, emquanto a condessa balbuciava, como
-tonta, pendurada do seu pescoÁo,--elle viu surgir n'alma, viva e
-resplandecente, a imagem de Maria Eduarda, tranquilla ·quella hora na
-sua sala de reps vermelho, fazendo ser„o, confiando n'elle, pensando
-n'elle, relembrando as felicidades da vespera, quando a _Toca_, cheia de
-seus amores, dormia, branca entre as arvores... Teve ent„o horror ·
-Gouvarinho; brutalmente, sem piedade, repelliu-a para o canto do coupÈ.
-
---Basta! Tudo isto È absurdo... As nossas relaÁıes est„o acabadas, n„o
-temos mais nada que nos dizer!
-
-Ella ficou um instante como atordoada. Depois estremeceu, teve um riso
-nervoso, reppelliu-o tambem, phreneticamente, pisando-lhe o braÁo.
-
---Pois bem! Vai, deixa-me! Vai para a outra, para a brazileira! Eu
-conheÁo-a, È uma aventureira que tem o marido arruinado, e precisa quem
-lhe pague as modistas!...
-
-Elle voltou-se, com os punhos fechados, como para a espancar; e na
-tipoia escura, onde j· havia um vago cheiro de verbena, os olhos
-d'ambos, sem se vÍrem, dardejavam o odio que os enchia... Carlos bateu
-raivosamente no vidro. A tipoia n„o parou. E a Gouvarinho, do outro
-lado, furiosa, magoando os dedos, procurava descer a vidraÁa.
-
---… melhor que s·ia! dizia ella suffocada. Tenho horror de me achar
-aqui, ao seu lado! Tenho horror! Cocheiro! cocheiro!
-
-O calhambeque parou. Carlos pulou para fÛra, fechou d'estalo a
-portinhola; e sem uma palavra, sem erguer o chapÈo, virou costas, abalou
-a grandes passadas para o Ramalhete, tremulo ainda, cheio d'idÈas de
-rancor, sob a paz da noite estrellada.
-
-
-
-
-IV
-
-
-Foi n'um sabbado que Affonso da Maia partiu para Santa Olavia. Cedo
-n'esse mesmo dia, Maria Eduarda, que o escolhera por ser de boa estreia,
-install·ra-se nos Olivaes. E Carlos, voltando de Santa Apolonia, onde
-fÙra acompanhar o avÙ, com o Ega, dizia-lhe alegremente:
-
---Ent„o aqui ficamos nÛs sÛs a torrar, _na cidade de marmore_ e de
-lixo...
-
---Antes isso, respondeu o Ega, que andar de sapatos brancos, a scismar,
-por entre a poeirada de Cintra!
-
-Mas no domingo, quando Carlos recolheu ao Ramalhete ao
-anoitecer--Baptista annunciou que o snr. Ega tinha partido n'esse
-momento para Cintra, levando apenas livros e umas escovas embrulhadas
-n'um jornal... O snr. Ega tinha deixado uma carta. E tinha dito:
-´Baptista, vou pastar.ª
-
-A carta, a lapis, n'uma larga folha d'almasso, dizia: ´Assaltou-me de
-repente, amigo, juntamente com um horror · caliÁa de Lisboa, uma saudade
-infinita da natureza e do verde. A porÁ„o d'animalidade que ainda resta
-no meu sÍr civilisado e recivilisado precisa urgentemente
-d'espolinhar-se na relva, beber no fio dos regatos, e dormir balanÁada
-n'um ramo de castanheiro. O solÌcito Baptista que me remetta ·manh„ pelo
-omnibus a mala com que eu n„o quiz sobrecarregar a tipoia do _Mulato_.
-Eu demoro-me apenas tres ou quatro dias. O tempo de cavaquear um bocado
-com o Absoluto no alto dos _Capuchos_, e vÍr o que est„o fazendo os
-myosotis junto · meiga _fonte dos Amores_...ª
-
---Pedante! rosnou Carlos, indignado com o abandono ingrato em que o
-deixava o Ega.
-
-E atirando a carta:
-
---Baptista! O snr. Ega diz ahi que lhe mandem uma caixa de charutos, dos
-_Imperiales_. Manda-lhe antes dos _FlÙr de Cuba_. Os _Imperiales_ s„o um
-veneno. Esse animal nem fumar sabe!
-
-Depois de jantar Carlos percorreu o _Figaro_, folheou um volume de
-Byron, bateu carambolas solitarias no bilhar, assobiou _malagueÒas_ no
-terrasso--e terminou por sahir, sem destino, para os lados do Aterro. O
-Ramalhete entristecia-o, assim mudo, apagado, todo aberto ao calor da
-noite. Mas insensivelmente, fumando, achou-se na rua de S. Francisco. As
-janellas de Maria Eduarda estavam tambem abertas e negras. Subiu ao
-andar do Cruges. O menino Victorino n„o estava em casa...
-
-AmaldiÁoando o Ega, entrou no Gremio. Encontrou o Taveira, de paletot ao
-hombro, lendo os telegrammas. N„o havia nada novo por essa velha Europa;
-apenas mais uns Nihilistas enforcados; e elle Taveira ia ao Price...
-
---Vem tu tambem d'ahi, Carlinhos! Tens l· uma mulher bonita que se mette
-na agua com cobras e crocodilos... Eu pello-me por estas mulheres de
-bichos!... Que esta È difficil, traz um _chulo_... Mas eu j· lhe
-escrevi: e ella faz-me um bocado d'olho de dentro da tina.
-
-Arrastou Carlos: e pelo Chiado abaixo fallou-lhe logo do Damaso. N„o
-torn·ra a ver essa flÙr? Pois essa flÙr andava apregoando por toda a
-parte que o Maia, depois do caso do Chiado, lhe dera por um amigo
-explicaÁıes humildes, covardes... Terrivel, aquelle Damaso! Tinha
-figura, interior, e natureza de pÈlla! Com quanto mais forÁa se atirava
-ao ch„o, mais elle resaltava para o ar, triumphante!...
-
---Em todo o caso È uma rez traiÁoeira, e deves ter cautela com elle...
-
-Carlos encolheu os hombros, rindo.
-
-N„o, n„o, dizia o Taveira muito sÈrio, eu conheÁo o meu Damaso. Quando
-foi da nossa pÈga, em casa da Lola Gorda, elle portou-se como um
-poltr„o, mas depois ia-me atrapalhando a vida... … capaz de tudo...
-Antes d'hontem estava eu a cear no Silva, elle veio sentar-se um bocado
-ao pÈ de mim, e comeÁou logo com umas coisas a teu respeito, umas
-ameaÁas...
-
---AmeaÁas! Que disse elle?
-
---Diz que te d·s ares de espadachim e de valent„o, mas has de encontrar
-dentro em pouco quem te ensine... Que se est· ahi preparando um
-escandalo monumental... Que se n„o admirar· de te vÍr brevemente com uma
-boa bala na cabeÁa...
-
---Uma bala?
-
---Assim o disse. Tu ris, mas eu È que sei... Eu, se fosse a ti, ia-me ao
-Damaso e dizia-lhe: ´Damasosinho, flÙr, fique avisado que, d'ora em
-diante, cada vez que me succeder uma coisa desagradavel, venho aqui e
-parto-lhe uma costella; tome as suas medidas...ª
-
-Tinham chegado ao Price. Uma multid„o de domingo, alegre e pasmada,
-apinhava-se atÈ ·s ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de
-camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os
-requebros do palhaÁo, rebocado de c·io e vermelh„o, que tocava nos
-pÈsinhos d'uma _voltigeuse_ e lambia os dedos, d'olhos em alvo, n'um
-gosto de mel... DescanÁando na sella larga de xairel dourado, a
-creatura, magrinha e sÈria, com flÙres nas tranÁas, dava a volta
-devagar, ao passo d'um cavallo branco, que mordia o freio, levado · m„o
-por um estribeiro; e pela arena o palhaÁo lamb„o e nescio acompanhava-a,
-com as m„os ambas apertadas ao coraÁ„o, n'uma supplica babosa, rebolando
-languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de
-lantejoulas. Um dos escudeiros, de calÁa listrada d'ouro, empurrava-o,
-n'um arremedo de ciumes; e o palhaÁo cahia, estatelado, com um estoiro
-de nadegas, entre os risos das crianÁas e os rantantans da charanga. O
-calor suffocava; e as fumaraÁas de charuto, subindo sem cessar, faziam
-uma neva onde tremiam as chammas largas do gaz. Carlos, incommodado,
-abalou.
-
---Espera ao menos para vÍr a mulher dos crocodilos! gritou ainda o
-Taveira.
-
---N„o posso, cheira mal, morro!
-
-Mas · porta, de repente, foi detido pelos braÁos abertos do Alencar, que
-chegava--com outro sujeito, velho e alto, de barbas brancas, todo
-vestido de luto. O poeta ficou pasmado de vÍr alli o de seu Carlos.
-Fazia-o no seu solar Santa de Olavia! Vira atÈ nos papeis publicos...
-
---N„o, disse Carlos, o avÙ È que foi hontem... Eu n„o me sinto ainda em
-disposiÁ„o do ir communicar com a natureza...
-
-Alencar riu, levemente afogueado, com um brilho de genebra no olho cavo.
-Ao lado, grave, o anci„o de barbas calÁava as suas luvas pretas.
-
---Pois eu È o contrario! exclamava o poeta.
-
-Estou precisado d'um banho de pantheismo! A bella natureza! O prado! O
-bosque!... De modo que talvez me mimoseie com Cintra, para a semana.
-Est„o l· os Cohens, alugaram uma casita muito bonita, logo adiante do
-Victor...
-
-Os Cohens! Carlos comprehendeu ent„o a fuga do Ega e a ´sua saudade do
-verde.ª
-
---Ouve l·, dizia-lhe o poeta baixo, e puxando-o pela manga, para o lado.
-Tu n„o conheces este meu amigo? Pois foi muito de teu pai, fizemos muita
-troÁa juntos... N„o era nenhum personagem, era apenas um alquilador de
-cavallos... Mas tu sabes, c· em Portugal, sobretudo n'esses tempos,
-havia muita bonhomia, o fidalgo dava-se com o arrieiro... Mas, que
-diabo, tu deves conhecel-o! … o tio do Damaso!
-
-Carlos n„o se recordava.
-
---O Guimar„es, o que est· em Paris!
-
---Ah, o communista!
-
---Sim, muito republicano, homem de idÈas humanitarias, amigo do
-Gambetta, escreve no _Rappel_... Homem interessante!... Veio ahi por
-causa d'umas terras que herdou do irm„o, d'esse outro tio do Damaso que
-morreu ha mezes... E demora-se, creio eu... Pois jantamos hoje juntos,
-beberam-se uns liquidos, e atÈ estivemos a fallar de teu pai... Queres
-tu que eu t'o apresente?
-
-Carlos hesitou. Seria melhor n'outra occasi„o mais intima, quando
-podessem fumar um charuto tranquillo, e conversar do passado...
-
---Valeu! Has de gostar d'elle. Conhece muito Victor Hugo, detesta a
-padraria... Espirito largo, espirito muito largo!
-
-O poeta sacudiu ardentemente as duas m„os de Carlos. O snr. Guimar„es
-ergueu de leve o seu chapÈo, carregado de crepe.
-
-Todo o caminho, atÈ ao Ramalhete, Carlos foi pensando em seu pai e
-n'esse passado, assim rememorado e estranhamente resurgido pela presenÁa
-d'aquelle patriarcha, antigo alquilador, que fizera com elle tantas
-troÁas! E isto trazia conjuntamente outra idÈa, que n'esses ultimos dias
-j· o atravess·ra, pertinaz e torturante, dando-lhe, no meio da sua
-radiante felicidade, um sombrio arripio de dÙr... Carlos pensava no avÙ.
-
-Estava agora decidido que Maria Eduarda e elle partiriam para Italia,
-nos fins de outubro. Castro Gomes, na sua ultima carta do Brazil, sÍcca
-e pretenciosa, fallava ´em apparecer por Lisboa, com as elegancias do
-frio, l· para meado de novembroª; e era necessario antes d'isso que
-estivessem j· longe, entre as verduras d'Isola Bella, escondidos no seu
-amor e separados por elle do mundo como pelos muros d'um claustro. Tudo
-isto era facil, considerado quasi legÌtimo pelo seu coraÁ„o, e enchia a
-sua vida d'esplendor... SÛmente havia n'isto um espinho--o avÙ!
-
-Sim, o avÙ! Elle partia com Maria, elle entrava na ventura absoluta; mas
-ia destruir de uma vez e para sempre a alegria d'Affonso, e a nobre paz
-que lhe tornava t„o bella a velhice. Homem de outras eras, austero e
-puro, como uma d'essas fortes almas que nunca desfalleceram--o avÙ,
-n'esta franca, viril, rasgada soluÁ„o d'um amor indominavel, sÛ veria
-libertinagem! Para elle nada significava o esponsal natural das almas,
-acima e fÛra das ficÁıes civis; e nunca comprehenderia essa subtil
-ideologia sentimental, com que elles, como todos os transviados,
-procuravam azular o seu erro. Para Affonso haveria apenas um homem que
-leva a mulher d'outro, leva a filha d'outro, dispersa uma familia, apaga
-um lar, e se atola para sempre na concubinagem: todas as subtilezas da
-paix„o, por mais finas, por mais fortes, quebrar-se-hiam, como bolas de
-sab„o, contra as tres ou quatro idÈas fundamentaes de Dever, de JustiÁa,
-de Sociedade, de Familia, duras como blocos de marmore, sobre que
-assent·ra a sua vida quasi durante um seculo... E seria para elle como o
-horror d'uma fatalidade! J· a mulher de seu filho fugira com um homem,
-deixando atraz de si um cadaver; seu neto agora fugia tambem,
-arrebatando a familia d'outro:--e a historia da sua casa tornava-se
-assim uma repetiÁ„o d'adulterios, de fugas, de dispersıes, sob o bruto
-aguilh„o da carne!... Depois as esperanÁas que Affonso fund·ra
-n'elle--consideral-as-hia tombadas, mortas no lodo! Elle passava a ser
-para sempre, na imaginaÁ„o angustiada do avÙ, um foragido, um
-inutilisado, tendo partido todas as raizes que o prendiam ao seu sÛlo,
-tendo abdicado toda a acÁ„o que o elevaria no seu paiz, vivendo por
-hoteis de refugio, fallando linguas estranhas, entre uma familia
-equivoca crescida em torno d'elle como as plantas de uma ruina...
-Sombrio tormento, implacavel e sempre presente, que consumiria os
-derradeiros annos do pobre avÙ!... Mas, que podia elle fazer? J· o
-dissera ao Ega. A vida È assim! Elle n„o tinha o heroismo nem a
-santidade que tornam facil o sacrificio... E depois os dissabores do
-avÙ, de que provinham? De preconceitos. E a sua felicidade, justo Deus,
-tinha direitos mais largos, fundados na natureza!...
-
-Cheg·ra ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escurid„o. Por
-alli entraria em breve do Brazil, o _outro_--que nas suas cartas se
-esquecia de mandar um beijo a sua filha! Ah, se elle n„o voltasse! Uma
-onda providencial podia leval-o... Tudo se tornaria t„o facil, perfeito
-e limpido! De que servia na vida esse resequido? Era como um sacco vazio
-que cahisse ao mar! Ah, se _elle_ morresse!... E esquecia-se, enlevado
-n'uma vis„o em que a imagem de Maria o chamava, o esperava, livre,
-serena, sorrindo e coberta de luto...
-
-No seu quarto, Baptista, vendo-o atirar-se para uma poltrona com um
-suspiro de fadiga, de desconsolaÁ„o,--disse, depois de tossir
-risonhamente, e dando mais luz ao candieiro:
-
---Isto agora, sem o snr. Ega, parece um bocadinho mais sÛ...
-
---Est· sÛ, est· triste, murmurou Carlos. … necessario sacudirmo-nos...
-Eu j· te disse que talvez fossemos viajar este inverno...
-
-O menino n„o lhe tinha dito nada.
-
---Pois talvez vamos a Italia... Appetece-te voltar a Italia?
-
-Baptista reflectiu.
-
---Eu, da outra vez n„o vi o Papa... E antes de morrer n„o se me dava de
-vÍr o Papa...
-
---Pois sim, ha de se arranjar isso, has de vÍr o Papa.
-
-Baptista, depois d'um silencio, perguntou, lanÁando um olhar ao espelho:
-
---Para vÍr o Papa vai-se de casaca, creio eu?
-
---Sim, recommendo-te a casaca... O que tu devias ter, para esses casos,
-era um habito de Christo... Hei de vÍr se te arranjo um habito de
-Christo.
-
-Baptista ficou um instante assombrado. Depois fez-se escarlate,
-d'emoÁ„o:
-
---Muito agradecido a v. exc.^a Ha por ahi gente que o tem, ainda talvez
-com menos merecimentos que eu... Dizem que atÈ ha barbeiros...
-
---Tens raz„o, replicou Carlos muito sÈrio. Era uma vergonha. O que hei
-de vÍr se te arranjo com effeito È a commenda da ConceiÁ„o.
-
-
-Todas as manh„s, agora, Carlos percorria o poeirento caminho dos
-Olivaes. Para poupar aos seus cavallos a soalheira ia na tipoia do
-_Mulato_, o batedor favorito do Ega--que recolhia a parelha na velha
-cavalhariÁa da _Toca_, e, atÈ · hora em que Carlos voltava ao Ramalhete,
-vadiava pelas tabernas.
-
-Ordinariamente ao meio dia, ao acabar de almoÁar, Maria Eduarda, ouvindo
-rodar o trem na estrada silenciosa, vinha esperar Carlos · porta da
-casa, no topo dos degraus ornados de vasos e resguardados por um fresco
-toldo de fazenda cÙr de rosa. Na quinta usava sempre vestidos claros; ·s
-vezes trazia, · antiga moda hespanhola, uma flÙr entre os cabellos; o
-forte e fresco ar do campo avivava com um brilho mais quente o mate
-eburneo do seu rosto;--e assim, simples e radiante, entre sol e verdura,
-ella deslumbrava Carlos cada dia com um encanto inesperado e maior.
-Cerrando o port„o d'entrada, que rangia nos gonzos, Carlos sentia-se
-logo envolvido n'um ´extraordinario conforto moralª, como elle dizia, em
-que todo o seu sÍr se movia mais facilmente, fluidamente, n'uma
-permanente impress„o de harmonia e doÁura... Mas o seu primeiro beijo
-era para Rosa, que corria pela rua de acacias ao seu encontro, com uma
-onda de cabello negro a bater-lhe os hombros, e _Niniche_ ao lado,
-pulando e ladrando de alegria. Elle erguia Rosa ao collo. Maria de longe
-sorria-lhes, sob o toldo cÙr de rosa. Em redor tudo era luminoso,
-familiar e cheio de paz.
-
-A casa dentro resplandecia com um arranjo mais delicado. J· se podia
-usar o sal„o nobre, que perdera o seu ar rigido de museu, exhalando a
-tristeza d'um luxo morto: as flÙres que Maria punha nos vasos, um jornal
-esquecido, as l„s de um bordado, o simples roÁar dos seus frescos
-vestidos, tinham communicado j· um subtil calor de vida e de conchego
-aos mais impertigados contadores do tempo de Carlos V, revestidos de
-ferro brunido:--e era alli que elles ficavam conversando emquanto n„o
-chegava a hora das liÁıes de Rosa.
-
-A essa hora apparecia miss Sarah, sÈria e recolhida--sempre de preto,
-com uma ferradura de prata em broche sobre o collarinho direito de
-homem. Recuper·ra as suas cÙres fortes de boneca, e as pestanas baixas
-tinham uma timidez mais virginal sob o liso dos bandÛs puritanos.
-Gordinha, com o peito de pomba farta estalando dentro do corpete severo,
-mostrava-se toda contente da vida calma e lenta de aldÍa. Mas aquellas
-terras trigueiras d'olivedo n„o lhe pareciam campo: ´È muito sÍcco, È
-muito duro,ª dizia ella, com uma indefinida saudade dos verdes molhados
-da sua Inglaterra, e dos cÈos de nevoa, cinzentos e vagos.
-
-Davam duas horas; e comeÁavam logo nos quartos de cima as longas liÁıes
-de Rosa. Carlos e Maria iam ent„o refugiar-se n'uma intimidade mais
-livre, no kiosque japonez, que uma phantasia de Craft, o seu amor do
-Jap„o, construira ao pÈ da rua d'acacias, aproveitando a sombra e o
-retiro bucolico de dois velhos castanheiros. Maria affeiÁoara-se ·quelle
-recanto, chamava-lhe o seu _pensadoiro_. Era todo de madeira, com uma sÛ
-janellinha redonda, e um telhado agudo · japoneza, onde roÁavam os
-ramos--t„o leve que atravÈs d'elle nos momentos de silencio se sentiam
-piar as aves. Craft forr·ra-o todo de esteiras finas da India; uma mesa
-de xar„o, algumas faianÁas do Jap„o, ornavam-no sobriamente; o tecto n„o
-se via, occulto por uma colcha de sÍda amarella, suspensa pelos quatro
-cantos, em laÁos, como o rico docel de uma tenda;--e todo o ligeiro
-kiosque parceia ter sido armado sÛ com o fim d'abrigar um divan baixo e
-fÙfo, d'uma languidez de serralho, profundo para todos os sonhos, amplo
-para todas as preguiÁas...
-
-Elles entravam, Carlos com algum livro que escolhera na presenÁa de miss
-Sarah, Maria Eduarda com um bordado ou uma costura. Mas bordado e livro
-cahiam logo no ch„o--e os seus labios, os seus braÁos uniam-se
-arrebatadamente. Ella escorregava sobre o divan: Carlos ajoelhava n'uma
-almofada, tremulo, impaciente depois da forÁada reserva diante de Rosa e
-diante de Sarah--e alli ficava, abraÁado · sua cintura, balbuciando mil
-coisas pueris e ardentes, por entre longos beijos que os deixavam
-frouxos, com os olhos cerrados, n'uma doÁura de desmaio. Ella queria
-saber o que elle tinha feito durante a longa, longa noite de separaÁ„o.
-E Carlos nada tinha a contar sen„o que pens·ra n'ella, que sonh·ra com
-ella... Depois era um silencio: os pardaes piaram, as pombas arrulhavam
-por cima do leve telhado: e _Niniche_, que os acompanhava sempre, seguia
-os seus murmurios, os seus silencios, enroscada a um canto, com um olho
-negro, reluzindo desconfiadamente por entre as repas prateadas.
-
-FÛra, por aquelles dias de calma, sem aragem, a quinta sÍcca, d'um verde
-empoeirado, dormia com as folhagens immoveis, sob o peso do sol. Da casa
-branca, atravÈs das persianas fechadas, vinha apenas o som amodorrado
-das escalas que Rosa fazia no piano. E no kiosque havÌa tambem um
-silencio satisfeito e pleno--sÛmente quebrado por algum dÙce suspiro de
-lassid„o que sahia do divan, d'entre as almofadas de sÍda, ou algum
-beijo mais longo e d'um remate mais profundo... Era _Niniche_ que os
-tirava d'aquelle suave entorpecimento, farta de estar alli quieta,
-encerrada entre as madeiras quentes, n'um ar molle j· repassado d'esse
-aroma indefinido em que havia jasmim.
-
-Lenta, e passando as m„os no rosto Maria erguia-se--mas para cahir logo
-aos pÈs de Carlos, no seu reconhecimento infinito... Meu Deus, o que lhe
-custava ent„o esse momento de separaÁ„o! Para que havia de ser assim?
-Parecia t„o pouco natural, esposos como eram, que ella ficasse alli toda
-a noite, sÛsinha, com o seu desejo d'elle, e elle fosse, sem as suas
-carÌcias, dormir solitariamente ao Ramalhete!... E ainda se demoravam
-muito tempo, n'uma mudez d'extasi, em que os olhos humidos,
-trespassando-se, continuavam o beijo insaciado que morrera nos seus
-labios canÁados. Era _Niniche_ que os fazia sahir por fim trotando
-impacientemente da porta para o divan, rosnando, ameaÁando ladrar.
-
-Muitas vezes ao recolherem Maria tinha uma inquietaÁ„o. Que pensaria
-miss Sarah d'esta sÈsta assim enclausurada, sem um rumor, com a janella
-do pavilh„o cerrada? Melanie, desde pequena ao serviÁo de Maria, era uma
-confidente: o bom Domingos, um imbecil, n„o contava: mas miss Sarah?...
-Maria confessava sorrindo que se sentia um pouco humilhada, ao encontrar
-depois · mesa os candidos olhos da ingleza sob os seus bandÛs
-virginaes... Est· claro! se a boa miss tivesse a ousadia de resmungar ou
-franzir de leve a testa, recebia logo seccamente a sua passagem no
-_Royal Mail_ para Southampton! Rosa n„o a lamentaria, Rosa n„o lhe tinha
-affeiÁ„o. Mas, emfim, era t„o sÈria, admirava tanto a senhora! Ella n„o
-gostava de perder a admiraÁ„o d'uma rapariga t„o sÈria. E assim
-decidiram despedir miss Sarah, rÈgiamente paga, e substituil-a, mais
-tarde, em Italia, por uma governante allem„, para quem elles fossem como
-casados, ´Monsieur et Madame...ª
-
-Mas pouco a pouco o desejo d'uma felicidade mais intima, mais completa,
-foi crescendo n'elles. N„o lhes bastava j· essa curta manh„ no divan com
-os passaros cantando por cima, a quinta cheia de sol, tudo acordado em
-redor: appeteciam o longo contentamento d'uma longa noite, quando os
-seus braÁos se podessem enlaÁar sem encontrar o estofo dos vestidos, e
-tudo dormisse em torno, os campos, a gente e a luz... De resto era bem
-facil! A sala de tapeÁarias, communicando com a alcova de Maria, abria
-sobre o jardim por uma porta envidraÁada; a governante, os criados,
-subiam ·s dez horas para os seus quartos no andar alto; a casa adormecia
-profundamente; Carlos tinha uma chave do port„o; e o unico c„o,
-_Niniche_, era o confidente fiel dos seus beijos...
-
-Maria desejava essa noite t„o ardentemente como elle. Uma tarde ao
-escurecer, voltando d'um fresco passeio nos campos, experimentaram ambos
-essa dupla chave--que Carlos j· promettia mandar dourar: e elle ficou
-surprehendido ao vÍr que o velho port„o, que ouvira sempre ranger
-abominavelmente, rolava agora nos gonzos com um silencio oleoso.
-
-Veio n'essa mesma noite--tendo deixado na villa para o levar ao
-amanhecer a caleche do _Mulato_, um batedor discreto, que elle cevava de
-gorgetas. O cÈo, molle e abafado, n„o tinha uma estrella; e sobre o mar
-lampejava a espaÁos, mudamente, a lividez d'um relampago. Caminhando com
-inuteis cautelas rente do muro Carlos sentia, n'esta proximidade d'uma
-posse t„o desejada, uma melancolia, cortada de anciedade, que vagamente
-o acobardava. Abriu quasi a tremer o port„o: e mal dÈra alguns passos
-estacou, ouvindo ao fundo _Niniche_ ladrar furiosamente. Mas tudo
-emmudeceu; e da janella do canto, sobre o jardim, surgiu uma claridade
-que o socegou. Foi encontrar Maria, com um roup„o de rendas, junto da
-porta envidraÁada, suffocando quasi entre os braÁos _Niniche_ que ainda
-rosnava. Estava toda medrosa, n'uma impaciencia de o sentir ao seu lado:
-e n„o quiz recolher logo: um momento ficaram alli, sentados nos degraus,
-com _Niniche_ que aquiet·ra e lambia Carlos. Tudo em redor era como uma
-infinita mancha de tinta; sÛ l· em baixo, perdida e mortiÁa, surdia da
-treva alguma luzinha vacillando no alto d'um mastro. Maria, conchegada a
-Carlos, refugiada n'elle, deu um longo suspiro: e os seus olhos
-mergulhavam inquietos n'aquella mudez negra, onde os arbustos familiares
-do jardim, toda a quinta, parecia perder a realidade, sumida, diluida na
-sombra.
-
---Porque n„o havemos de partir j· para a Italia? perguntou ella de
-repente, procurando a m„o de Carlos. Se tem de ser, porque n„o ha de ser
-j·?... Escusavamos de ter estes segredos, estes sustos!
-
---Sustos de que, meu amor? Estamos aqui t„o seguros como na Italia, como
-na China... De resto podemos partir mais depressa, se quizeres... Dize
-tu um dia, marca um dia!
-
-Ella n„o respondeu, deixando cahir dÙcemente a cabeÁa sobre o hombro de
-Carlos. Elle acrescentou, devagar:
-
---Em todo o caso, comprehendes bem, preciso primeiro ir a Santa Olavia,
-vÍr o avÙ...
-
-Os olhos de Maria perdiam-se outra vez na escurid„o--como recebendo
-d'ella o presagio d'um futuro, onde tudo seria confuso e escuro tambem.
-
---Tu tens Santa Olavia, tens teu avÙ, tens os teus amigos... Eu n„o
-tenho ninguem!
-
-Carlos estreitou-a a si, enternecido.
-
---N„o tens ninguem! Isso dito a mim! Nem chega a ser injustiÁa, nem
-chega a ser ingratid„o! … nervoso; e È tambem o que os inglezes chamam a
-´impudente adulteraÁ„o d'um facto.ª
-
-Ella fic·ra aninhada no peito de Carlos, como desfallecida.
-
---N„o sei porque, queria morrer...
-
-Um largo brilho de relampago alumiou o rio. Maria teve medo, entraram na
-alcova. Os mÛlhos de velas de duas serpentinas, batendo os damascos e os
-setins amarellos, embebiam o ar tepido, onde errava um perfume, n'uma
-refulgencia ardente de sacrario: e as bretanhas, as rendas do leito j·
-aberto punham uma casta alvura de neve fresca n'esse luxo amoroso e cÙr
-de chamma. FÛra, para os lados do mar, um trov„o rolou lento e surdo.
-Mas Maria j· o n„o ouviu, cahida nos braÁos de Carlos. Nunca o desej·ra,
-nunca o ador·ra tanto! Os seus beijos anciosos pareciam tender mais
-longe que a carne, trespassal-o, querer sorver-lhe a vontade e a
-alma:--e toda a noite, entre esses brocados radiantes, com os cabellos
-soltos, divina na sua nudez, ella lhe appareceu realmente como a Deusa
-que elle sempre imagin·ra, que o arrebatava emfim, apertado ao seu seio
-immortal, e com elle pairava n'uma celebraÁ„o d'amor, muito alto, sobre
-nuvens de ouro...
-
-Quando sahiu, ao amanhecer, chovia. Foi encontrar o _Mulato_ a dormir
-n'uma taberna, bebedo. Teve de o metter dentro do carro; e foi elle que
-governou atÈ ao Ramalhete, embrulhado n'uma manta do taberneiro,
-encharcado, cantarolando, esplendidamente feliz.
-
-Passados dias, passeando com Maria nos arredores da _Toca_, Carlos
-reparou n'uma casita, · beira da estrada, com escriptos: e veio-lhe logo
-a idÈa de a alugar, para evitar aquella desagradavel partida de
-madrugada com o _Mulato_ estremunhado, borracho, despedaÁando o trem
-pelas calÁadas. Visitaram-na: havia um quarto largo, que com tapete e
-cortinas podia dar um refugio confortavel. Tomou-a logo--e Baptista veio
-ao outro dia, com moveis n'uma carroÁa, arranjar este novo ninho. Maria
-disse, quasi triste:
-
---Mais outra casa!
-
---Esta, exclamou Carlos rindo, È a ultima! N„o, È a penultima... Temos
-ainda a outra, a nossa, a verdadeira, l· longe, n„o sei onde...
-
-ComeÁaram a encontrar-se todas as noites. ¡s nove e meia, pontualmente,
-Carlos deixava a _Toca_, com o seu charuto accÍso: e Domingos, adiante,
-de lanterna, vinha fechar o port„o, tirar a chave. Elle recolhia devagar
-· sua ´choupanaª onde o servia um criadito, filho do jardineiro do
-Ramalhete. Sobre um tapete solto, deitado no velho soalho, havia apenas,
-alÈm do leito, uma mesa, um sof· de riscadinho, duas cadeiras de palha;
-e Carlos entretinha as horas que o separavam ainda de Maria, escrevendo
-para Santa Olavia e sobretudo ao Ega, que se eternisava em Cintra.
-
-Recebera duas cartas d'elle, fallando quasi sÛmente do Damaso. O Damaso
-apparecia em toda a parte com a Cohen; o Damaso torn·ra-se grutesco em
-Cintra, n'uma corrida de burros; o Damaso arvor·ra capacete e vÈo em
-Sitiaes; o Damaso era uma besta immunda; o Damaso, no pateo do Victor,
-de perna traÁada, dizia familiarmente ´a Rachelª; era um dever de
-moralidade publica dar bengaladas no Damaso!... Carlos encolhia os
-hombros, achando estes ciumes indignos do coraÁ„o do Ega. E ent„o por
-quem! Por aquella lambisgoia d'Israel, melada e mollenga, sovada a
-bengala! ´Se com effeito, escrevera elle ao Ega, ella desceu de ti atÈ
-ao Damaso, tens sÛ a fazer como se fosse um charuto que te cahisse ·
-lama: n„o o pÛdes naturalmente levantar: deves deixar fumal-o em paz ao
-garoto que o apanhou: enfurecer-te com o garoto ou com o charuto, È
-d'imbecil.ª Mas ordinariamente, quando respondia, fallava sÛ ao Ega dos
-Olivaes, dos seus passeios com Maria, das conversas d'ella, do encanto
-d'ella, da superioridade d'ella... Ao avÙ n„o achava que dizer; nas dez
-linhas que lhe destinava, descrevia o calor, recommendava-lhe que n„o se
-fatigasse, mandava saudades para os hospedes, e dava-lhe recados do
-Manoelzinho--que elle nunca via.
-
-Quando n„o tinha que escrever, estirava-se no sof·, com um livro aberto,
-os olhos no ponteiro do relogio. ¡ meia noite sahia, encafuado n'um
-gab„o d'Aveiro, e de varapau. Os seus passos resoavam, solitarios na
-mudez dos campos, com uma indefinida melancolia de segredo e de culpa...
-
-N'uma d'essas noites, de grande calor, Carlos canÁado adormeceu no sof·:
-e sÛ despertou, em sobresalto, quando o relogio na parede dava
-tristemente duas horas. Que desespero! Ahi ficava perdida a sua noite de
-amor! E Maria decerto · espera, angustiada, imaginando desastres!...
-Agarrou o cajado, abalou, correndo pela estrada. Depois, ao abrir
-subtilmente o port„o da quinta, pensou que Maria teria adormecido:
-_Niniche_ podia ladrar: os seus passos, entre as acacias, abafaram-se,
-mais cautelosos. E de repente sentiu ao lado, sob as ramagens, vindo do
-ch„o, d'entre a herva, um resfolgar ardente d'homem, a que se misturavam
-beijos. Parou, varado: e o seu impeto logo foi esmagar a cacete aquelles
-dois animaes, enroscados na relva, sujando brutamente o poetico retiro
-dos seus amores. Uma alvura de saia moveu-se no escuro: uma voz
-soluÁava, desfalecida--_oh yes, oh yes_... Era a ingleza!
-
-Oh santo Deus, era a ingleza, era miss Sarah! Apagando os passos,
-atordoado, Carlos escoou-se pelo port„o, cerrou-o mansamente, foi
-esperar adiante, n'um recanto do muro, sob as ramarias d'uma faia,
-sumido na sombra. E tremia de indignaÁ„o. Era preciso contar
-immediatamente a Maria aquelle grande _horror_! N„o queria que ella
-consentisse um momento mais essa impura fÍmea, junto de Rosa, roÁando a
-candidez do seu anjo... Oh, era pavorosa uma tal hypocrisia, assim
-astuta e methodica, sem se desconcertar j·mais! Havia dias apenas, vira
-a creatura desviar os olhos d'uma gravura d'_IllustraÁ„o_, onde dois
-castos pastores se beijavam n'um arvoredo bucolico! E agora rugia,
-estirada na herva!
-
-Na estrada escura, do lado do port„o, brilhou um lume de cigarro. Um
-homem passou, forte e pesado, com uma manta aos hombros. Parecia um
-jornaleiro. A boa miss Sarah n„o escolhera! Bem lavada, toda correcta,
-com os seus bandÛs puritanos, aceitava _um qualquer_, rude e sujo, desde
-que era um macho! E assim os embaÌra, mezes, com aquellas suas duas
-existencias, t„o separadas, t„o completas! De dia virginal, severa,
-cÛrando sempre, com a Biblia no cesto da costura: · noite a pequena
-adormecia, todos os seus deveres sÈrios acabavam, a santa
-transformava-se em cabra, chale aos hombros, e l· ia para a relva, com
-qualquer!... Que bello romance para o Ega!
-
-Voltou; tornou a abrir devagarinho o port„o: de novo subiu, amollecendo
-os passos, a sombria rua d'acacias. Mas agora ia sentindo uma hesitaÁ„o
-em contar a Maria _aquelle horror_. A seu pezar pensava que tambem Maria
-o esperava, com o leito aberto, no silencio da casa adormecida; e que
-tambem elle penetrava alli, ·s escondidas, como o homem da manta... De
-certo era bem differente! Toda a immensuravel differenÁa que vai do
-divino ao bestial... E todavia receava despertar os melindrosos
-escrupulos de Maria, mostrando-lhe, parallelo ao seu amor cheio de
-requintes e passado entre brocados cÙr d'ouro, aquelle outro rude amor,
-secreto e illegitimo como o d'ella, e arrastado brutamente na relva...
-Era como mostrar-lhe um reflexo da sua propria culpa, um pouco esfumada,
-mais grosseira, mas parecida nos seus contornos, lamentavelmente
-parecida... N„o, n„o diria nada. E a pequena?... Oh, nas suas relaÁıes
-com Rosa a creatura continuaria a ser, como sempre, a puritana
-laboriosa, grave e cheia d'ordem.
-
-A porta envidraÁada sobre o jardim tinha ainda luz: elle atirou aos
-vidros uma pouca de terra solta, depois bateu de leve. Maria appareceu,
-mal embrulhada n'um roup„o, juntando os cabellos que se tinham
-desenrolado, e meia adormecida.
-
---Porque vieste t„o tarde?
-
-Carlos beijou longamente os seus bellos olhos pesados, quasi cerrados.
-
---Adormeci estupidamente, a lÍr... Depois, quando entrei pareceu-me
-ouvir passos na quinta, andei a rebuscar... Era imaginaÁ„o, tudo
-deserto.
-
---Precisavamos ter um c„o de fila, murmurou ella, espreguiÁando-se.
-
-Sentada · beira do leito, com os braÁos cahidos e adormentados, sorria
-da sua preguiÁa.
-
---Est·s t„o fatigada, filha! queres tu que me v· embora ?...
-
-Ella puxou-o para o seu seio perfumado e quente.
-
---Je veux que tu m'aimes beaucoup, beaucoup, et longtemps...
-
-Ao outro dia Carlos n„o fÙra a Lisboa, e appareceu cedo na _Toca_.
-Melanie, que andava espanejando o kiosque, disse-lhe que Madame, um
-pouco canÁada, tinha justamente tomado o seu chocolate na cama. Elle
-entrou no sal„o: defronte da janella aberta, sentada no banco de
-cortiÁa, miss Sarah costurava, · sombra das arvores.
-
---_Good morning_, disse-lhe Carlos, chegando-se ao peitoril, todo
-curioso de a observar.
-
---_Good morning, sir_, respondeu ella com o seu ar modesto e tÌmido.
-
-Carlos fallou do calor. Miss Sarah j· ·quella hora o achava intoleravel.
-Felizmente a vista do rio, l· em baixo, refrescava...
-
-Sobretudo a noite passada, insistiu Carlos accendendo a cigarrette, fÙra
-t„o abafada! Elle mal pudera dormir. E ella?
-
-Oh, ella dormira d'um somno sÛ. Carlos quiz saber se tivera bonitos
-sonhos.
-
---_Oh yes, sir_.
-
-_Oh yes!_ mas agora um yes pudico, sem gemidos, com os olhos baixos. E
-t„o correcta, t„o pregada, fresca como se nunca tivesse servido!...
-Positivamente era extraordinaria! E Carlos, torcendo o bigode, pensava
-que ella devia ter um seiosinho bem alvo e bem redondinho!
-
-
-
-Assim ia passando o ver„o nos Olivaes. No comeÁo de setembro, Carlos
-soube por uma carta do avÙ que Craft devia chegar a Lisboa, n'um
-sabbado, ao Hotel Central: e correu l· cedo, logo n'essa manh„, a ouvir
-as novidades de Santa Olavia. Achou Craft j· a pÈ, diante do espelho,
-fazendo a barba. A um canto do sof·, Eusebiosinho, que viera na vespera
-· noite de Cintra e estava tambem no Hotel, limpava as unhas com um
-canivete, em silencio, coberto de negro.
-
-Craft vinha encantado com Santa Olavia. Nem comprehendia como Affonso,
-beir„o forte, tolerava a rua de S. Francisco, e o quintalejo abafado do
-Ramalhete. Tinha-se passado rÈgiamente! O avÙ, cheio de saude, d'uma
-hospitalidade que lembrava Abrah„o e a Biblia. O Sequeira optimo comendo
-tanto que ficava inutil depois de jantar, a estoirar e a gemer no fundo
-d'uma poltrona. L· conhecera o velho Travassos, que fallava sempre com
-os olhos cheios de lagrimas do ´talento do seu caro collega Carlos.ª E o
-marquez esplendido, com abraÁos de primo a todos os fidalgotes de
-Lamego, e apaixonado por uma barqueira... De resto soberbos jantares,
-alguns tiros aos coelhos, uma romaria, danÁas de raparigas no adro,
-guitarradas, esfolhadas, todo o dÙce idyllio portuguez...
-
---Mas a respeito de Santa Olavia temos a fallar mais sÈriamente, disse
-por fim Craft, entrando na alcova, a ensaboar a cabeÁa.
-
---E tu, perguntou ent„o Carlos, voltando-se para o Eusebiosinho. Tens
-estado em Cintra, hein? Que se faz l·?... O Ega?
-
-O outro ergueu-se guardando o canivete, ageitando as lunetas.
-
---L· est· no Victor, muito engraÁado, comprou um burro... L· est· o
-Damaso tambem... Mas esse pouco se vÍ, n„o larga os Cohens... Emfim
-tem-se passado menos mal, com bastante calor...
-
---Tu estavas outra vez com a mesma prostituta, a Lola?
-
-Eusebiosinho fez-se escarlate. Credo! estava no Victor, muito sÈrio! O
-Palma È que l· tinha apparecido com uma rapariga portugueza... Tinha
-agora um jornal, _A Corneta do Diabo_.
-
---_A Corneta...?_
-
---Sim, _do Diabo_, disse o Eusebiosinho. … um jornal de pilherias, de
-picuinhas... Elle j· existia, chamava-se o _Apito_; mas agora passou
-para o Palma; elle vae-lhe augmentar o formato, e metter-lhe mais
-chalaÁa...
-
---Emfim, disse Carlos, qualquer coisa sebacea e immunda como elle...
-
-Craft reappareceu, enxugando a cabeÁa. E emquanto se vestia, fallou de
-uma viagem que agora o tentava, que estivera planeando em Santa Olavia.
-Como j· n„o tinha a _Toca_, e a sua casa ao pÈ do Porto necessitava
-longas obras, ia passar o inverno ao Egypto, subindo o Nilo, em
-communicaÁ„o espiritual com a antiguidade Pharaonica. Depois talvez se
-adiantasse atÈ Bagdad, a vÍr o Euphrates, e os sitios de Babylonia...
-
---Por isso eu lhe vi alli, na mesa, exclamou Carlos, um livro, _Ninive e
-Babylonia_... Que diabo, vocÍ gosta d'isso? Eu tenho horror a raÁas e a
-civilisaÁıes defuntas... N„o me interessa sen„o a Vida.
-
---… que vocÍ È um sensual, disse Craft. E a proposito de sensualidade e
-de Babylonia, quer vir vocÍ almoÁar ao BraganÁa? Eu tenho de l·
-encontrar um inglez, o meu homem das minas... Mas havemos d'ir pela rua
-do Ouro, que quero trepar um instante · caverna do meu procurador... E a
-caminho, que È meio dia!
-
-Deixaram o Eusebiosinho, em baixo na sala, ageitando as suas lugubres
-lunetas negras diante dos telegrammas. E apenas sahira o pateo, Craft
-travou do braÁo de Carlos, e disse-lhe que as coisas sÈrias a respeito
-de Santa Olavia--era o visivel, profundo desgosto do avÙ por elle n„o
-ter l· apparecido.
-
---Seu avÙ n„o me disse nada, mas eu sei que elle est· muitissimo magoado
-com vocÍ. N„o ha desculpa, s„o umas horas de viagem... VocÍ sabe como
-elle o adora... Que diabo! _Est modus in rebus_.
-
---Com effeito, murmurou Carlos. Eu devia ter l· ido... Que quer vocÍ,
-amigo?... Emfim acabou-se, È necessario fazer um esforÁo!... Talvez
-parta para a semana com o Ega.
-
---Sim, homem, dÍ-lhe esse alegr„o... Esteja l· umas semanas...
-
---_Est modus in rebus_. Hei de vÍr se l· estou uns dias.
-
-A caverna do procurador era defronte do Monte-Pio. Carlos esperava,
-havia momentos, dando por diante das lojas uma volta lenta--quando de
-repente avistou Melanie, a sahir o port„o do Monte-Pio, com uma matrona
-gorda, de chapÈo rÙxo. Surprehendido, atravessou a rua. Ella estacou
-como apanhada, fazendo-se toda vermelha; e nem deixou vir a pergunta;
-balbuciou logo que Madame lhe dÈra licenÁa para vir a Lisboa, e ella
-andava acompanhando aquella amiga... Uma velha caleche, de parelha
-branca, estava encalhada alli, contra o passeio. Melanie saltou para
-dentro, · pressa. A traquitana rodou aos solavancos para o Terreiro do
-PaÁo.
-
-Carlos via-a desapparecer, pasmado. E Craft, que volt·ra, olhando
-tambem, reconheceu no lamentavel calhambeque a caleche do _Torto_, dos
-Olivaes, onde elle ·s vezes costumava vir ´janotar a Lisboaª.
-
---Era alguem l· da _Toca_? perguntou.
-
-Uma criada, disse Carlos, ainda espantado d'aquelle estranho embaraÁo de
-Melanie.
-
-E mal tinham dado alguns passos, Carlos, parando, baixando a voz no
-rumor da rua:
-
---OuÁa l·! O Eusebiosinho disse-lhe alguma coisa a meu respeito, Craft?
-
-O outro confessou que Eusebiosinho, apenas lhe apparecera no quarto,
-rompera logo, mascando as palavras, a informal-o da mysteriosa vida de
-Carlos nos Olivaes...
-
---Mas eu fil-o calar, acrescentou Craft, declarando-lhe que era t„o
-pouco curioso que nem mesmo quizera lÍr nunca a _Historia Romana_... Em
-todo o caso vocÍ deve ir a Santa Olavia.
-
-Carlos, com effeito, logo n'essa noite fallou a Maria da visita que
-devia ao avÙ. Ella, muito sÈria, aconselhou-lh'a tambem, arrependida de
-o ter retido assim, egoisticamente e tanto tempo, longe dos outros que o
-amavam.
-
---Mas ouve, querido, n„o È por muito tempo, n„o?
-
---Por dois ou tres dias, quando muito. E naturalmente, trago atÈ o avÙ.
-N„o est· l· a fazer nada, e eu n„o estou para a massada de voltar l·...
-
-Maria ent„o lanÁou-lhe os braÁos ao pescoÁo, e baixo, timidamente,
-confessou-lhe um grande desejo que tinha... Era vÍr o Ramalhete! Queria
-visitar os quartos d'elle, o jardim, todos esses recantos, onde tantas
-vezes elle pensara n'ella, e se desesper·ra, sentindo-a distante e
-inaccessivel...
-
---Dize, queres? Mas È necessario que seja antes de vir teu avÙ. Queres?
-
---Acho um encanto! Ha sÛ um perigo. … eu n„o te deixar sahir mais e
-ficar a devorar-te na minha caverna.
-
---Prouvera a Deus!
-
-Combinaram ent„o que ella fosse jantar ao Ramalhete, no dia da partida
-de Carlos para Santa Olavia. ¡ noitinha levava-o no coupÈ a Santa
-Apolonia; depois seguia para os Olivaes.
-
-Foi no sabbado. Carlos veio muito cedo para o Ramalhete: e o seu coraÁ„o
-batia com a deliciosa perturbaÁ„o d'um primeiro encontro, quando sentiu
-parar a carruagem de Maria e os seus vestidos escuros roÁarem o velludo
-cÙr de cereja que forrava a escada discreta dos seus quartos. O beijo
-que trocaram, na ante-camara, teve a profunda doÁura d'um primeiro
-beijo!
-
-Ella foi logo ao toucador tirar o chapÈo, dar um geito ao cabello. Elle
-n„o cessava de a beijar; abraÁava-a pela cinta; e com os rostos juntos
-sorriam para o espelho, enlevados no brilho da sua mocidade. Depois,
-impaciente, curiosa, ella percorreu os quartos, miudamente, atÈ · alcova
-de banho; leu os titulos dos livros, respirou o perfume dos frascos,
-abriu os cortinados de sÍda do leito... Sobre uma commoda Luiz XV havia
-uma salva de prata, transbordando de retratos que Carlos se esquecera de
-esconder, a coronella d'hussards d'amazona, madame Rughel decotada,
-outras ainda. Ella mergulhou as m„os, com um sorriso triste, na profus„o
-d'aquellas recordaÁıes... Carlos, rindo, pediu-lhe que n„o olhasse
-´esses enganos do seu coraÁ„oª.
-
-Porque n„o? dizia Maria, sÈria. Sabia bem que elle n„o descera das
-nuvens, puro como um seraphim. Havia sempre photographias no passado
-d'um homem. De resto tinha a certeza que nunca am·ra as outras como a
-sabia amar a ella.
-
---AtÈ È uma profanaÁ„o fallar em _amor_ quando se trata d'essas coisas
-d'acaso, murmurou Carlos. S„o quartos de estalagem onde se dorme uma
-vez...
-
-No emtanto Maria considerava longamente a photographia da coronella
-d'hussards. Parecia-lhe bem linda! Quem era? Uma franceza?
-
---N„o, de Vienna. Mulher d'um correspondente meu, homem de negocios...
-Gente tranquilla, que vivia no campo...
-
---Ah, Viennense... Dizem que tem um grande encanto as mulheres de
-Vienna!
-
-Carlos tirou-lhe a photographia da m„o. Para que haviam de fallar
-d'outras mulheres? Existia em todo o vasto mundo uma mulher unica, e
-elle tinha-a alli abraÁada sobre o seu coraÁ„o.
-
-Foram ent„o percorrer todo o Ramalhete, atÈ ao terraÁo. Ella gostou
-sobretudo do escriptorio d'Affonso, com os seus damascos de camara de
-prelado, a sua feiÁ„o severa de paz estudiosa.
-
---N„o sei porque, murmurou dando um olhar lento ·s estantes pesadas e ao
-Christo na cruz, n„o sei porque, mas teu avÙ faz-me medo!
-
-Carlos riu. Que tonteria! O avÙ se a conhecesse, fazia-lhe logo a cÙrte
-rasgadamente... O avÙ era um santo! E um lindo velho!
-
---Teve paixıes?
-
---N„o sei, talvez... Mas creio que o avÙ foi sempre um puritano.
-
-Desceram ao jardim, que lhe agradou tambem, quieto e burguez, com a sua
-cascatasinha chorando n'um rythmo dÙce. Sentaram-se um instante sob o
-velho cedro, junto a uma mesa rustica de pedra, onde estavam entalhadas
-letras mal distinctas e uma data antiga; o chalrar das aves nos ramos
-pareceu a Maria mais dÙce que o de todas as outras aves que ouvira;
-depois arranjou um ramo para levar como reliquia.
-
-Mesmo em cabello foram vÍr defronte as cocheiras: o guarda-port„o ficou
-de bonÈ na m„o, embasbacado para aquella senhora t„o linda, t„o loira, a
-primeira que via entrar no Ramalhete! Maria acariciou os cavallos, e fez
-uma festa grata e mais longa · _Tunante_, que tantas vezes lev·ra Carlos
-· rua de S. Francisco. Elle via n'estas simples coisas as graÁas
-incomparaveis d'uma esposa perfeita.
-
-Recolheram pela escada particular de Carlos--que Maria achava
-´mysteriosaª com aquelles velludos grossos cÙr de cereja, forrando-a
-como um cofre, e abafando todo o rumor de saias. Carlos jurou que nunca
-alli pass·ra outro vestido--a n„o ser o do Ega, uma vez, mascarado de
-varina.
-
-Depois deixou-a no quarto, um momento para ir dar ordens ao Baptista:
-mas quando voltou encontrou-a a um canto do sof·, t„o descahida, t„o
-desanimada, que lhe arrebatou as m„os, cheio d'inquietaÁ„o.
-
---Que tens, amor? Est·s doente?
-
-Ella ergueu lentamente os olhos que brilhavam n'uma nevoa de lagrimas.
-
-Pensar que tu vaes deixar por mim esta linda casa, o teu conforto, a tua
-paz, os teus amigos... … uma tristeza, tenho remorsos!
-
-Carlos ajoelh·ra ao seu lado, sorrindo dos seus escrupulos, chamando-lhe
-tonta, seccando-lhe n'um beijo as lagrimas que rolavam... Considerava-se
-ella ent„o valendo menos que a cascata do jardim e alguns tapetes
-usados?...
-
---O que eu tenho pena È de te sacrificar t„o pouco, minha querida Maria,
-quando tu sacrificas tanto!
-
-Ella encolheu os hombros, amargamente.
-
---Eu!
-
-Passou-lhe as m„os entre os cabellos, puxou-o brandamente para o seu
-seio--e dizia, baixo, como fallando ao seu proprio coraÁ„o, calmando-lhe
-as incertezas e as duvidas:
-
---N„o, com effeito, nada vale no mundo sen„o o nosso amor! Nada mais
-vale! Se elle È verdadeiro, se È profundo, tudo mais È v„o, nada mais
-importa...
-
-A sua voz morreu entre os beijos de Carlos, que a levava abraÁada para o
-leito--onde tentas vezes desesperava d'ella como d'uma deusa intangivel.
-
-¡s cinco horas pensaram em jantar. A mesa fÙra posta n'uma saleta que
-Carlos quizera em tempo revestir de colxas de setim cÙr de perola e
-bot„o d'ouro. Mas n„o estava ainda arranjada; as paredes conservavam o
-seu papel verde-escuro; e Carlos puzera alli ultimamente o retrato de
-seu pai--uma teia banal, representando um moÁo pallido, de grandes
-olhos, com luvas de camurÁa amarella e um chicote na m„o.
-
-Era Baptista que os servia, j· com um fato claro de viagem. A mesa,
-redonda e pequena, parecia uma cesta de flÙres; o champagne gelava
-dentro dos baldes de prata; no aparador a travessa d'arroz dÙce tinha as
-iniciaes de Maria.
-
-Aquelles lindos cuidados fizeram-na sorrir, enternecida. Depois reparou
-no retrato de Pedro da Maia: e interressou-se, ficou a contemplar
-aquella face descÛrada, que o tempo fizera livida, e onde pareciam mais
-tristes os grandes olhos d'arabe, negros e languidos.
-
---Quem È? perguntou.
-
---… meu pai.
-
-Ella examinou-o mais de perto, erguendo uma vela. N„o achava que Carlos
-se parecesse com elle. E voltando-se muito sÈria, emquanto Carlos
-desarrolhava com veneraÁ„o uma garrafa de velho Chambertin:
-
---Sabes tu com quem te pareces ·s vezes?... … extraordinario, mas È
-verdade. Pareces-te com minha m„i!
-
-Carlos riu, encantado d'uma parecenÁa que os aproximava mais, e que o
-lisonjeava.
-
---Tens raz„o, disse ella, que a mam„ era formosa... Pois È verdade, ha
-um n„o sei quÍ na testa, no nariz... Mas sobretudo certos geitos, uma
-maneira de sorrir... Outra maneira que tu tens de ficar assim um pouco
-vago, esquecido... Tenho pensado n'isto muitas vezes...
-
-Baptista entrava com uma terrina de louÁa do Jap„o. E Carlos,
-alegremente, annunciou um jantar · portugueza. Mr. Antoine, o _chef
-francez_, fÙra com o avÙ. Fic·ra a Michaela, outra cozinheira de casa,
-que elle achava magnifica, e que conservava a tradiÁ„o da antiga cozinha
-freiratica do tempo do snr. D. Jo„o V.
-
---Assim, para comeÁar, minha querida Maria, ahi tens tu um caldo de
-gallinha, como sÛ se comia em Odivellas, na cella da madre Paula, em
-noites de noivado mystico...
-
-E o jantar foi encantador. Quando Baptista se retirava, elles
-apertavam-se rapidamente a m„o por cima das flÙres. Nunca Carlos a
-ach·ra t„o linda, t„o perfeita: os seus olhos pareciam- lhe irradiar uma
-ternura maior: na singela rosa que lhe ornava o peito via a
-superioridade do seu gosto. E o mesmo desejo invadiu-os a ambos, de
-ficarem alli eternamente, n'aquelle quarto de rapaz, com jantarinhos
-portuguezes · moda de D. Jo„o V, servidos pelo Baptista de jaquet„o.
-
---Estou com uma vontade de perder o comboio! disse Carlos como
-implorando a sua approvaÁ„o.
-
---N„o, deves ir... È necessario n„o sermos egoistas... SÛmente n„o te
-descuides, manda-me todos os dias um grande telegramma... Que os
-telegraphos foram unicamente inventados para quem se ama e est· longe,
-como dizia a mam„.
-
-Ent„o Carlos gracejou de novo sobre a sua parecenÁa com a m„i d'ella. E
-baixando-se a remexer a garrafa de champagne dentro do gelo:
-
---… curioso n„o m'o teres dito antes... Tambem tu nunca me fallaste de
-tua m„i...
-
-Um pouco de sangue roseou a face de Maria Eduarda. Oh, nunca fall·ra da
-mam„, porque nunca viera a proposito...
-
---De resto n„o havia coisas muito interessantes a contar, acrescentou. A
-mam„ era uma senhora da ilha da Madeira, n„o tinha fortuna, casou...
-
---Casou em Paris?
-
---N„o, casou na Madeira com um austriaco que fÙra l· acompanhar um irm„o
-tisico... Era um homem muito distincto, viu a mam„, que era lindÌssima,
-gostaram um do outro, _et voil‡_...
-
-Dissera isto sem erguer os olhos do prato, lentamente, cortando uma aza
-de frango.
-
---Mas ent„o, exclamou Carlos, se teu pai era austriaco, meu amor, tu Ès
-tambem austriaca... …s talvez uma d'essas viennenses que tu dizes que
-tem um t„o grande encanto...
-
-Sim, talvez, segundo essas coisas dos codigos, era austriaca. Mas nunca
-conhecera o pai, vivera sempre com a mam„, fall·ra sempre portuguez,
-considerava-se portugueza. Nunca estivera na Austria, nem sabia mesmo
-allem„o...
-
---N„o tiveste irm„os?
-
---Sim, tive, uma irm„sinha que morreu em pequena... Mas n„o me lembra.
-Tenho em Paris o retrato d'ella... Bem linda!
-
-N'esse momento em baixo, na calÁada, uma carruagem, a trote largo,
-estacou. Carlos, surprehendido, correu · janella com o guardanapo na
-m„o.
-
---… o Ega! exclamou. … aquelle velhaco que chega de Cintra!
-
-Maria erguera-se, inquieta. E um momento, de pÈ, ambos se olharam,
-hesitando... Mas o Ega era como um irm„o de Carlos. Elle esperava sÛ que
-o Ega recolhesse de Cintra para o levar · _Toca_. Melhor seria que o
-encontro se dÈsse alli, natural, franco e simples...
-
---Baptista! gritou Carlos, sem vacillar mais. Dize ao snr. Ega que estou
-a jantar, que entre para aqui.
-
-Maria sent·ra-se, vermelha, dando um geito rapido aos ganchos do
-cabello, arranjado · pressa, um pouco desmanchado.
-
-A porta abriu-se,--e o Ega parou, assombrado, intimidado, de chapÈo
-branco, de guarda-sol branco, e com um embrulho de papel pardo na m„o.
-
---Maria, disse Carlos, aqui tens emfim o meu grande amigo Ega.
-
-E ao Ega disse simplesmente:
-
---Maria Eduarda.
-
-Ega ia largar atarantadamente o embrulho para apertar a m„o que Maria
-Eduarda lhe estendia, cÛrada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado,
-desfez-se; e uma provis„o fresca de queijadas de Cintra rolou,
-esmagando-se, sobre as flÙres do tapete. Ent„o todo o embaraÁo findou
-atravÈs d'uma risada alegre--emquanto o Ega, desolado, abria os braÁos
-sobre as ruinas do seu dÙce.
-
---Tu j· jantaste? perguntou Carlos.
-
-N„o, n„o tinha jantado. E via j· alli uns ovos molles nacionaes, que o
-encantavam, enfastiado como vinha da horrivel cozinha do Victor. Oh, que
-cozinha! Pratos lugubres, traduzidos do francez em cal„o, como as
-comedias do Gymnasio!
-
---Ent„o avanÁa! exclamou Carlos. Depressa, Baptista!... Traze o caldo de
-gallinha! Oh, ainda temos tempo!... Tu sabes que vou hoje para Santa
-Olavia?
-
-Est· claro que sabia, recebera a carta d'elle, e por isso viera... Mas
-n„o podia jantar ainda, assim coberto do pÛ da estrada, e com um
-jaquet„o de bucolica...
-
---Dize que me guardem o caldo, Baptista! Olha, dize que me guardem tudo,
-que eu trago uma fome de pastor da Arcadia!...
-
-O Baptista servira o cafÈ. E a carruagem da senhora, que os devia levar
-a Santa Apolonia, esperava j· · porta com a maleta. Mas Ega agora queria
-conversar, affirmou que tinham tempo, tirou o relogio. Estava parado. E
-elle declarou logo que no campo se regulava pelo sol, como as flÙres e
-como as aves...
-
---Fica agora em Lisboa? perguntou-lhe Maria Eduarda.
-
---N„o, minha senhora, sÛ o tempo de cumprir o meu dever de cidad„o,
-subindo duas ou tres vezes o Chiado... Depois volto para a relva. Cintra
-comeÁa a ser interessante para mim, agora que n„o est· ninguem...
-Cintra, de ver„o, com burguezes, parece-me um idyllio com nodoas de
-sebo.
-
-Mas Baptista offerecia a Carlos a _chartreuse_--dizendo que s. exc.^a
-n„o se devia demorar se n„o tencionava perder o comboio, de proposito.
-Maria ergueu-se logo para ir dentro pÙr o chapÈo. E os dois amigos, sÛs,
-ficaram um momento calados, emquanto Carlos accendia devagar o charuto.
-
---Tu quanto tempo te demoras? perguntou por fim o Ega.
-
---Tres ou quatro dias. E tu n„o voltes para Cintra antes que eu chegue,
-precisamos communicar... Que diabo tens tu feito l·?
-
-O outro encolheu os hombros.
-
---Tenho sorvido ar puro, colhido florinhas, murmurado de vez em quando
-´que lindo que isto È!ª etc.
-
-Depois, debruÁado sobre a mesa, picando com um palito uma azeitona:
-
---De resto, nada... O Damaso l· est·! Sempre com a Cohen, como te mandei
-dizer... Est· claro que n„o ha nada entre elles, aquillo È sÛ para mim,
-para me irritar... … um canalha aquelle Damaso! Eu sÛ quero um pretexto.
-Esgano-o!
-
-Deu um pux„o forte aos punhos, com uma cÙr de cÛlera no rosto queimado:
-
---Eu, est· claro, fallo-lhe, aperto-lhe a m„o, chamo-lhe ´amigo Damasoª,
-etc. Mas sÛ quero um pretexto! … necessario aniquilar aquelle animal. …
-um dever de moralidade, d'aceio publico, de gosto varrer aquella bola de
-lama humana!
-
---Quem esteve por l· mais? perguntou Carlos.
-
---Que te interesse?... A Gouvarinho. Mas vi-a uma sÛ vez. Apparecia
-pouco, coitada, agora que andava de luto.
-
---De luto?
-
---Por ti.
-
-Calou-se. Maria entrava, com o vÈu descido, acabando de apertar as
-luvas. Ent„o Carlos, suspirando, resignado, estendeu os braÁos ao
-Baptista para elle lhe vestir um casaco leve de jornada. Ega ajudava,
-pedindo um abraÁo filial para Affonso, e recados para o gordo Sequeira.
-
-Foi acompanhal-os a baixo, em cabello: e fechou elle a portinhola,
-promettendo a Maria Eduarda uma visita · _Toca_, apenas Carlos voltasse
-d'esses penhascos do Douro...
-
---N„o v·s para Cintra antes de eu voltar! gritou-lhe ainda Carlos. E a
-Michaela que tome conta em ti!
-
---_All right, all right_, dizia o Ega. Boa jornada! Criado de v. exc.^a,
-minha senhora... AtÈ · _Toca_!
-
-O coupÈ partiu. Ega subiu ao seu quarto, onde outro criado lhe estava
-preparando o banho. Na saleta deserta, entre as flÙres e os restos do
-jantar, as velas continuavam a arder solitarias, fazendo resaltar no
-painel escuro a pallidez de Pedro da Maia, e a melancolia dos seus
-olhos.
-
-
-
-No sabbado seguinte, perto das duas horas, Carlos e Ega, ainda · mesa do
-almoÁo, acabavam os seus charutos, fallando de Santa Olavia. Carlos
-cheg·ra de l· essa madrugada, sÛ. O avÙ decidira ficar entre as suas
-velhas arvores atÈ ao fim do outono que ia t„o luminoso e t„o macio...
-
-Carlos fÙra-o encontrar muito alegre, muito forte--apesar de ter sido
-obrigado, por causa d'um toque de rheumatismo, a abandonar emfim o seu
-culto da agua fria. E esta macissa, resplandecente saude do velho fÙra
-um allivio para o coraÁ„o de Carlos: parecia-lhe assim mais facil, menos
-ingrata, a sua partida com Maria para Italia, em outubro. AlÈm d'isso
-ach·ra um _truc_, como elle dizia ao Ega, para realisar o supremo desejo
-da sua vida sem magoar o avÙ, sem lhe turbar a paz da velhice. Era um
-_truc_, simples. Consistia em partir elle sÛ para Madrid, no comeÁo
-d'uma certa ´viagem d'estudoª, para que j· prepar·ra o avÙ em Santa
-Olavia. Maria ficava na _Toca_, durante um mez. Depois tomava o paquete
-para Bordeus: e era ahi que Carlos se reunia com ella, a comeÁarem essa
-existencia de felicidade e romance que as flÙres da Italia deviam
-perfumar... Na primavera elle voltava a Lisboa, deixando Maria
-installada no seu ninho: e ent„o, pouco a pouco, ia revelando ao avÙ
-aquella ligaÁ„o, a que o prendia a honra, e que o forÁaria agora a viver
-regularmente longos mezes n'uma outra terra que se torn·ra a patria do
-seu coraÁ„o. E que havia de dizer o avÙ? Aceitar esse romance, a que n„o
-veria os lados desagradaveis, esbatido assim pela distancia e pela nevoa
-da paix„o. Seria para Affonso uma vaga e mal sabida coisa d'amor que se
-passava em Italia... Poderia lamental-a apenas por lhe levar
-pontualmente todos os annos o neto para longe; e cada anno se consolaria
-pensando na curta duraÁ„o dos idyllios humanos. De resto Carlos contava
-com essa larga benevolencia que amollece as almas mais rigidas quando
-apenas alguns passos as separam do tumulo... Emfim o seu _truc_
-parecia-lhe bom. Ega, em resumo, approvou o _truc_.
-
-Depois, mais alegremente, fallaram da installaÁ„o d'esse amor. Carlos
-permanecia na sua idÈa romantica--um cottage · beira d'um lago. Mas Ega
-n„o approvava o lago. Ter todos os dias diante dos olhos uma agua sempre
-mansa e sempre azul, parecia-lhe perigoso para a durabilidade da paix„o.
-Na quietaÁ„o continua d'uma paizagem igual, dois amantes solitarios,
-dizia elle, n„o sendo botanicos nem pescando · linha, vÍem-se forÁados a
-viver exclusivamente do desejo um do outro, e a tirar d'ahi todas as
-suas idÈas, sensaÁıes, occupaÁıes, gracejos e silencios... E, que diabo,
-o mais forte sentimento n„o pÛde dar para tanto! Dois amantes, cuja
-unica profiss„o È amarem-se, deviam procurar uma cidade, uma vasta
-cidade, tumultuosa e creadora, onde o homem tenha durante o dia os
-clubs, o cavaco, os museus, as idÈas, o sorriso d'outras mulheres--e a
-mulher tenha as ruas, as compras, os theatros, a attenÁ„o d'outros
-homens; de sorte que · noite, quando se reunam, n„o tendo passado o
-infindavel dia a observarem-se um no outro e a si proprios, trazendo
-cada um a vibraÁ„o da vida forte que atravessaram--achem um encanto novo
-e verdadeiro no conchego da sua solid„o, e um sabor sempre renovado na
-repetiÁ„o dos seus beijos...
-
---Eu, continuava Ega, erguendo-se, se levasse para longe uma mulher, n„o
-era para um lago, nem para a Suissa, nem para os montes da Sicilia; era
-para Paris, para o boulevard dos Italianos, alli · esquina do
-Vaudeville, com janellas deitando para a grande vida, a um passo do
-_Figaro_, do Louvre, da Philosophia e da _blague_... Aqui tens tu a
-minha doutrina!... E ahi temos nÛs o amigo Baptista com o correio.
-
-N„o era o correio. Era apenas um bilhete que o Baptista trazia n'uma
-salva: e vinha t„o perturbado que annunciou ´um sujeito, alli fÛra, na
-antecamara, n'uma carruagem, · espera...ª
-
-Carlos olhou o bilhete, empallideceu terrivelmente. E ficou a reviral-o,
-lento e como atordoado, entre os dedos que tremiam... Depois, em
-silencio, atirou-o ao Ega por cima da mesa.
-
---Caramba! murmurou Ega, assombrado.
-
-Era Castro Gomes!
-
-Bruscamente Carlos erguera-se, decidido.
-
---Manda entrar... Para o sal„o grande!
-
-Baptista apontou para o jaquet„o de flanella com que Carlos tinha
-almoÁado, e perguntou baixo se s. exc.^a queria uma sobrecasaca.
-
---Traze.
-
-SÛs, Ega e Carlos olharam-se um instante, anciosamente.
-
---N„o È um desafio, est· claro, balbuciou Ega.
-
-Carlos n„o respondeu. Examinava outra vez o bilhete: o homem chamava-se
-Joaquim Alvares de Castro Gomes: por baixo tinha escripto a lapis ´Hotel
-BraganÁaª... Baptista volt·ra com a sobrecasaca: e Carlos, abotoando-a
-devagar, sahiu sem outra mais palavra ao Ega, que fic·ra de pÈ junto da
-mesa, limpando estupidamente as m„os ao guardanapo.
-
-No sal„o nobre, forrado de brocados cÙr de musgo d'outono, Castro Gomes
-examinava curiosamente, com um joelho apoiado · borda do sof·, a
-esplendida tela de Constable, o retrato da condessa de Runa, bella e
-forte no seu vestido de velludo escarlate de caÁadora ingleza. Ao rumor
-dos passos de Carlos sobre o tapete, voltou-se, de chapÈo branco na m„o,
-sorrindo, pedindo perd„o de estar assim a pasmar familiarmente para
-aquelle soberbo Constable... Com um gesto rigido, Carlos, muito pallido,
-indicou-lhe o sof·. Saudando e risonho Castro Gomes sentou-se
-vagarosamente. No peito da sobrecasaca muito justa trazia um bot„o de
-rosas, os seus sapatos de verniz resplandeciam sob as polainas de linho;
-no rosto chupado, queimado, a barba negra, terminava em bico; os
-cabellos rareavam-lhe na risca; e mesmo a sorrir tinha um ar de seccura,
-de fadiga.
-
---Eu possuo tambem em Paris um Constable muito _chic_, disse elle, sem
-embaraÁo, n'um tom arrastado, cheio de _rr_, que o _sutaque_ brazileiro
-adocicava. Mas È apenas uma pequena paizagem, com duas figurinhas. … um
-pintor que n„o me diverte, a dizer a verdade... Todavia d· muito tom a
-uma galeria. … necessario tel-o.
-
-Carlos, defronte n'uma cadeira, com os punhos fortemente fechados sobre
-os joelhos, conservava a immobilidade d'um marmore. E, perante aquelle
-modo affavel, uma idÈa ia-o atravessando, lacerante, angustiosa,
-pondo-lhe j· nos olhos largos que n„o tirava de sobre o outro, uma
-irreprimivel chamma de cÛlera. Carlos Gomes decerto _n„o sabia nada_!
-Cheg·ra, desembarc·ra, correra aos Olivaes, dormira nos Olivaes! Era o
-marido, era novo, tivera-a j· nos braÁos--a ella! E agora alli estava,
-tranquillo, de flÙr ao peito, fallando de Constable! O unico desejo de
-Carlos, n'esse instante, era que aquelle homem o insultasse.
-
-No emtanto Castro Gomes, amavelmente, desculpava-se de se apresentar
-assim, sem o conhecer, sem ao menos ter pedido por um bilhete uma
-entrevista...
-
---O motivo porÈm que me traz È t„o urgente, que cheguei esta manh„ ·s
-dez horas do Rio de Janeiro, ou antes do Lazareto, e estou aqui!... E
-esta mesma noite, se puder, parto para Madrid.
-
-Fez-se um allivio infinito no coraÁ„o de Carlos. Ainda n„o vira ent„o
-Maria Eduarda, aquelles seccos labios n„o a tinham tocado! E sahiu emfim
-da sua rigidez de marmore, teve um movimento attento, aproximando de
-leve a cadeira.
-
-Castro Gomes no emtanto, tendo pousado o chapÈo, tir·ra do bolso
-interior da sobrecasaca uma carteira com um largo monogramma de ouro; e,
-vagaroso, procurava entre os papeis uma carta... Depois, com ella na
-m„o, muito tranquillamente:
-
---Eu recebi no Rio de Janeiro, antes de partir, este escripto anonymo...
-Mas n„o creia v. exc.^a que foi elle que me levou a atravessar · pressa
-o Atlantico. Seria o maior dos ridiculos... E desejo tambem affirmar-lhe
-que todo o conteudo d'elle me deixou perfeitamente indifferente... Aqui
-o tem. Quer v. exc.^a lÍl-o, ou quer que eu leia?
-
-Carlos murmurou com um esforÁo:
-
---Leia v. exc.^a
-
-Castro Gomes desdobrou o papel, e revirou-o um instante entre os dedos.
-
---Como v. exc.^a vÍ, È a carta anonyma em todo o seu horror: papel de
-mercearia, pautadinho de azul; calligraphia reles; tinta reles; cheiro
-reles. Um documento odioso. E aqui est· como elle se exprime: ´Um homem
-´que teve a honra de apertar a m„o de v. exc.^aª Eu dispensava a
-honra... ´que teve a hora de apertar a m„o de v. exc.^a e d'apreciar o
-seu cavalheirismo, julga dever prevenil-o que sua mulher È, · vista de
-toda a Lisboa, a amante d'um rapaz muito conhecido aqui, Carlos Eduardo
-da Maia, que vive n'uma casa ·s Janelas Verdes, chamada o Ramalhete.
-Este heroe, que È muito rico, comprou expressamente uma quinta nos
-Olivaes, ´onde installou a mulher de v. exc.^a e onde a vai vÍr todos os
-dias, ficando ·s vezes, com escandalo da visinhanÁa, atÈ de madrugada.
-Assim o nome honrado de v. exc.^a anda pelas lamas da capital.ª … tudo o
-que diz a carta; e eu sÛ devo acrescentar, porque o sei, que tudo quanto
-ella diz È incontestavelmente exacto... O snr. Carlos da Maia È pois
-publicamente, com conhecimento de toda a Lisboa, o amante d'essa
-senhora.
-
-Carlos ergueu-se, muito sereno. E abrindo de leve os braÁos, n'uma
-aceitaÁ„o inteira de todas as responsabilidades:
-
---N„o tenho ent„o nada a dizer a v. exc.^a sen„o que estou ·s suas
-ordens!...
-
-Uma fugitiva onda de sangue avivou a pallidez morena de Castro Gomes.
-Dobrou a carta, guardou-a com todo o vagar na carteira. Depois, sorrindo
-friamente:
-
---Perd„o... O snr. Carlos da Maia sabe, t„o bem como eu, que se isto
-tivesse de ter uma soluÁ„o, violenta, eu n„o viria aqui pessoalmente, a
-sua casa, lÍr-lhe este papel... A coisa È inteiramente outra.
-
-Carlos recahira na cadeira, assombrado. E agora a lentid„o adocicada
-d'aquella voz ia-se-lhe tornando intoleravel. Um confuso terror do que
-viria d'esses labios, que sorriam com uma pallidez impertinente, quasi
-fazia estalar o seu pobre coraÁ„o. E era um desejo brutal de lhe gritar
-que acabasse, que o matasse, ou que sahisse d'aquella sala, onde a sua
-presenÁa era uma inutilidade ou uma torpeza!...
-
-O outro passou os dedos no bigode, e proseguiu, devagar, arranjando as
-suas palavras com cuidado e com precis„o:
-
---O meu caso È este, snr. Carlos da Maia. Ha pessoas em Lisboa que me
-n„o conhecem decerto, mas que sabem a esta hora que existe algures, em
-Paris, no Brazil ou no inferno, um certo Castro Gomes, que tem uma
-mulher bonita, e que a mulher d'esse Castro Gomes tem em Lisboa um
-amante. Isto È desagradavel, sobretudo por ser falso. E v. exc.^a
-comprehende que eu n„o devo continuar a arrastar por mais tempo a fama
-de _marido infeliz_, visto que a n„o mereÁo, e que a n„o posso
-_legalmente_ ter... … por isso que aqui venho, muito francamente, de
-_gentleman_ para _gentleman_, dizer-lhe, como tenho tenÁ„o de dizer a
-outros, que aquella senhora n„o È minha mulher.
-
-Durante um momento Castro Gomes esperou a voz de Carlos da Maia. Mas
-elle conservava uma face muda, impenetravel, onde apenas os olhos
-brilhavam angustiosamente na lividez que a cobrira. Por fim, com um
-esforÁo, baixou de leve a cabeÁa, como acolhendo placidamente aquella
-revelaÁ„o, que tornava outra qualquer palavra entre elles desnecessaria
-e v„.
-
-Mas Castro Gomes encolhera de leve os hombros, com uma languida
-resignaÁ„o, como quem attribue tudo · malicia dos Destinos.
-
---S„o as ridiculas scenas da vida... O snr. Carlos da Maia est· d'ahi a
-vÍr as coisas. … a velha, a classica historia... Ha tres annos que eu
-vivo com essa senhora; quando tive o inverno passado d'ir ao Brazil,
-trouxe-a a Lisboa para n„o vir sÛsinho. FÙmos para o hotel Central. V.
-exc.^a comprehende perfeitamente que eu n„o fui fazer confidencias ao
-gerente do estabelecimento. Aquella senhora vinha commigo, dormia
-commigo, portanto, para todos os effeitos do hotel, era minha mulher.
-Como mulher de Castro Gomes ficou no Central; como mulher de Castro
-Gomes alugou depois uma casa na rua de S. Francisco; como mulher de
-Castro Gomes tomou emfim um amante... Deu-se sempre como mulher de
-Castro Gomes, mesmo nas circumstancias mais particularmente
-desagradaveis para Castro Gomes... E, meu Deus! n„o podemos realmente
-condemnal-a muito... Achava-se por acaso revestida d'uma excellente
-posiÁ„o social e d'um nome puro, seria mais que humano que o seu amor da
-verdade a levasse, apenas conhecia alguem, a declarar que posiÁ„o e nome
-eram de emprestimo e ella era apenas ´Fulana de tal, amigada...ª De
-resto, sejamos justos, ella n„o era moralmente obrigada a dar
-semelhantes explicaÁıes ao tendeiro que lhe vendia a manteiga, ou ·
-matrona que lhe alugava a casa: nem mesmo, penso eu, a ninguem, a n„o
-ser a um pai que lhe quizesse apresentar sua filha, sahida do
-convento... Demais a mais sou eu que tenho um pouco a culpa; muitas
-vezes, em coisas relativamente delicadas lhe deixei usar o meu nome.
-Foi, por exemplo, com o nome de Castro Gomes que ella tomou a governante
-ingleza. As inglezas s„o t„o exigentes!... Aquella, sobretudo, uma
-rapariga t„o sÈria... Emfim tudo isso passou... O que importa agora È
-que eu lhe retiro solemnemente o nome que lhe emprest·ra; e ella fica
-apenas com o seu, que È Madame Mac-Gren.
-
-Carlos ergueu-se, livido. E com as m„os fincadas nas costas da cadeira
-t„o fortemente, que quasi lhe esgaÁava o estofo:
-
---Mais nada, creio eu?
-
-Castro Gomes mordeu de leve os beiÁos perante este remate brutal que o
-despediu.
-
---Mais nada, disse elle tomando o chapÈo e levantando-se muito
-vagarosamente. Devo apenas acrescentar, para evitar a v. exc.^a
-suspeitas injustas, que aquella senhora n„o È uma menina que eu tivesse
-seduzido, e a quem recuse uma reparaÁ„o. A pequerruchinha que alli anda
-n„o È minha filha... Eu conheÁo a m„i sÛmente ha tres annos... Vinha dos
-braÁos d'um qualquer, passou para os meus... Posso pois dizer, sem
-injuria, que era uma mulher que eu pagava.
-
-Complet·ra com esta palavra a humilhaÁ„o do outro. Estava deliciosamente
-desforrado. Carlos, mudo, abrira o reposteiro da sala, n'uma sacudidella
-brusca. E, diante d'esta nova rudeza que revelava sÛ mortificaÁ„o,
-Castro Gomes foi perfeito: saudou, sorriu, murmurou:
-
---Parto esta noite mesmo para Madrid, e levo o pezar de ter feito o
-conhecimento de v. exc.^a por um motivo t„o desagradavel... T„o
-desagradavel para mim.
-
-Os seus passos desafogados e leves perderam-se na ante-camara, entre as
-tapeÁarias. Depois em baixo uma portinhola bateu, uma carruagem rodou na
-calÁada...
-
-Carlos fic·ra cahido n'uma cadeira, junto da porta, com a cabeÁa entre
-as m„os. E de todas aquellas palavras de Castro Gomes, que ainda lhe
-resoavam em redor, adocicadas e lentas, sÛ lhe restava o sentimento
-atordoado de uma coisa muito bella, resplandecendo muito alto, e que
-cahia de repente, se fazia em pedaÁos na lama, salpicando-o todo de
-nodoas intoleraveis... N„o soffria: era simplesmente um assombro de todo
-o seu sÍr perante este fim immundo d'um sonho divino... Unira a sua alma
-arrebatadamente a outra alma nobre e perfeita, longe nas alturas, entre
-nuvens d'ouro; de repente uma voz passava, cheia de _rr_; as duas almas
-rolavam, batiam n'um charco; e elle achava-se tendo nos braÁos uma
-mulher que n„o conhecia, e que se chamava Mac-Gren!
-
-Mac-Gren! era a Mac-Gren!
-
-Ergueu-se, com os punhos fechados; e veio-lhe uma revolta furiosa de
-todo o seu orgulho contra essa ingenuidade que o trouxera mezes timido,
-tremulo, ancioso, seguindo · maneira d'uma estrella aquella mulher, que
-qualquer em Paris, com mil francos no bolso, poderia ter sobre um sof·,
-facil e n˙a! Era horrivel! E recordava agora, afogueado de vergonha, a
-emoÁ„o religiosa com que entrava na sala de reps vermelho da rua de S.
-Francisco: o encanto enternecido com que via aquellas m„os, que elle
-julgava as mais castas da terra, puxarem os fios de l„ no bordado, n'um
-constante trabalho de m„i laboriosa e recolhida; a veneraÁ„o espiritual
-com que se afastava da orla do seu vestido, igual para elle · tunica
-d'uma Virgem cujas pregas rigidas nem a mais rude bestialidade ousaria
-desmanchar de leve! Oh imbecil, imbecil!... E todo esse tempo ella
-sorria comsigo d'aquella simpleza de provinciano do Douro! Oh! tinha
-vergonha agora das flÙres apaixonadas que lhe trouxera! Tinha vergonha
-das ´excellenciasª que lhe dÈra!
-
-E seria t„o facil, desde o primeiro dia no Aterro, ter percebido que
-aquella deusa, descida das nuvens, estava amigada com um brazileiro! Mas
-quÍ! a sua paix„o absurda de romantico puzera-lhe logo, entre os olhos e
-as coisas flagrantes e reveladoras, uma d'essas nevoas douradas que d„o
-·s montanhas mais rugosas e negras um brilho polido de pedra preciosa!
-Porque escolhera ella precisamente para seu medico, na sua casa e na sua
-intimidade, o homem que na rua a fit·ra com um fulgor de desejo na face?
-Porque È que nas suas longas conversas, nas manh„s da rua de S.
-Francisco, n„o fall·ra j·mais de Paris, dos seus amigos e das coisas da
-sua casa? Porque È que ao fim de dois mezes, sem preparaÁ„o, sem todas
-essas progressivas evidencias do amor que cresce e desabrocha como uma
-flÙr, se lhe abandon·ra de chofre, toda prompta, apenas elle lhe disse o
-primeiro ´amo-teª?... Porque lhe aceit·ra uma casa j· mobilada, com a
-facilidade com que lhe aceitava os ramos? E outras coisas ainda,
-pequeninas, mas que n„o teriam escapado ao mais simples: joias brutaes,
-d'um luxo grosseiro de _cocotte_: o livro da _ExplicaÁ„o de sonhos_, ·
-cabeceira da cama; a sua familiaridade com Melanie... E agora atÈ o
-ardor dos seus beijos lhe parecia vir menos da sinceridade da
-paix„o--que da sciencia da voluptuosidade!... Mas tudo acab·ra,
-providencialmente! A mulher que elle am·ra e as suas seducÁıes
-esvaÌam-se de repente no ar como um sonho, radiante e impuro, de que
-aquelle brazileiro o viera acordar por caridade! Esta mulher era apenas
-a Mac-Gren... O seu amor fÙra, desde que a vira, como o proprio sangue
-das suas veias; e escoava-se agora todo atravÈs da ferida incuravel e
-que nunca mais fecharia, feita no seu orgulho!
-
-Ega appareceu · porta do sal„o, ainda pallido:
-
---Ent„o?
-
-Toda a cÛlera de Carlos fez explos„o:
-
---Extraordinario, Ega, extraordinario! A coisa mais abjecta, a coisa
-mais immunda!
-
---O homem pediu-te dinheiro?
-
---Peor!
-
-E, passeando arrebatadamente, Carlos desabafou, contou tudo, sem
-reticencias, com as mesmas palavras cruas do outro,--que assim repetidas
-e avivadas pelos seus labios, lhe descobriam motivos novos de humilhaÁ„o
-e de nojo.
-
---J· por acaso sucedeu a alguem coisa mais horrivel? exclamou por fim,
-cruzando violentamente os braÁos diante do Ega, que se abatera no sof·,
-assombrado. PÛdes tu conceber um caso mais sordido? E tambem mais
-burlesco? … para estalar o coraÁ„o. E È para rebentar a rir. Estupendo!
-Ahi, n'esse sof·, ahi onde tu est·s, o homemzinho, muito amavel, de flÙr
-ao peito, a dizer: ´Olhe que aquella creatura n„o È minha mulher, È uma
-creatura que eu pago...ª Comprehendes isto bem! Aquelle sujeito
-paga-a... Quanto È o beijo? Cem francos. Ahi est„o cem francos... … de
-morrer!
-
-E recomeÁou no seu passeio, desvairado, desabafando mais, recontando
-tudo, sempre com as palavras do Castro Gomes, que elle deformava ainda
-n'uma brutalidade maior...
-
---Que te parece, Ega? Dize l·. Que fazias tu? … horrivel, heim?
-
-Ega, que limpava pensativamente o vidro do monoculo, hesitou, terminou
-por dizer que, considerando as coisas com superioridade, como homens do
-seu tempo e ´do seu mundoª, ellas n„o offereciam nem motivos de cÛlera,
-nem motivos de dÙr...
-
---Ent„o n„o comprehendes nada! gritou Carlos, n„o percebes o meu caso!
-
-Sim, sim, Ega comprehendia claramente que era horrivel para um homem, no
-momento em que ia ligar com adoraÁ„o o seu destino ao d'uma mulher,
-saber que outros a tinham tido a tanto por noite... Mas isso mesmo
-simplificava e amenisava as coisas. O que fÙra um drama complicado
-tornava-se uma distracÁ„o bonanÁosa. Ficava Carlos, desde logo,
-alliviado do remorso de ter desorganisado uma familia: j· n„o tinha de
-se exilar, a esconder o seu erro, n'um buraco florido da Italia; j· o
-n„o prendia a honra para sempre a uma mulher a quem talvez n„o o
-prenderia para sempre o amor. Tudo isto, que diabo! eram vantagens.
-
---E a dignidade d'ella! exclamou Carlos.
-
-Sim, mas a diminuiÁ„o de dignidade e pureza n„o era na verdade grande,
-porque antes da visita de Castro Gomes j· ella era uma mulher que foge
-do seu marido--o que, sem mesmo usar termos austeros, nem È muito puro
-nem muito digno... Decerto, tudo isso era uma humilhaÁ„o irritante--n„o
-superior todavia · d'um homem que tem uma _Madona_ que contempla com
-religi„o, suppondo-a de Raphael, e que descobre um dia que a tela divina
-foi fabricada na Bahia por um sujeito chamado Castro Gomes! Mas o
-resultado intimo e social parecia-lhe ser este: Carlos atÈ ahi tivera
-uma bella amante com inconvenientes, e agora tinha sem inconvenientes
-uma bella amante...
-
---O que tu deves fazer, meu caro Carlos...
-
---O que eu vou fazer È escrever-lhe uma carta, remettendo-lhe o preÁo de
-dois mezes que dormi com ella...
-
---Brutalidade romantica!... Isso j· vem na _Dama das Camelias_...
-Sobretudo È n„o vÍr com boa philosophia as _nuances_.
-
-O outro atalhou, impaciente:
-
---Bem, Ega, n„o fallemos mais n'isso... Eu estou horrivelmente
-nervoso!... AtÈ logo. Tu jantas em casa, n„o È verdade? Bem, atÈ logo.
-
-Sahia atirando a porta, quando Ega, agora tranquillo, disse, erguendo-se
-muito lentamente do sof·:
-
---O homemzinho foi para l·.
-
-Carlos voltou-se, com os olhos chammejantes:
-
---Foi para os Olivaes? Foi ter com ella?
-
-Sim, pelo menos mand·ra a tipoia · quinta do Craft. Ega, para conhecer
-esse snr. Castro Gomes, fÙra metter-se no cubiculo do guarda-port„o. E
-vira-o descer, accender um charuto... Era com effeito um d'esses
-_rastaquouËros_ que, n'esse infeliz Paris que tudo tolera, veem ao _CafÈ
-de la Paix_ ·s duas horas para tomar a sua groseille, tesos e
-embrutecidos... E fÙra o guarda-port„o que lhe dissera que o sujeito
-parecia muito alegre e mand·ra o cocheiro bater para os Olivaes...
-
-Carlos parecia aniquilado:
-
---Tudo isso È nojento!... No fim talvez atÈ se entendam ambos... Estou
-como tu dizias aqui h· tempos: ´Cahiu-me a alma a uma latrina, preciso
-um banho por dentro!ª
-
-Ega murmurou melancolicamente:
-
---Essa necessidade de banhos moraes est·-se tornando com effeito t„o
-frequente!... Devia haver na cidade um estabelecimento para elles.
-
-
-
-Carlos, no seu quarto, passeava diante da mesa onde a folha branca de
-papel, em que ia escrever a Maria Eduarda, j· tinha a data d'esse dia,
-depois--_Minha senhora_, n'uma letra que elle se esforÁ·ra por traÁar
-firme e serena:--e n„o achava outra palavra. Estava bem decidido a
-mandar-lhe um cheque de duzentas libras, paga esplendidamente ultrajante
-das semanas que pass·ra no seu leito. Mas queria juntar duas linhas
-regeladas, impassiveis, que a ferissem mais que o dinheiro: n„o
-encontrava sen„o phrases de grande cÛlera, revelando um grande amor.
-
-Olhava a folha branca: e a banal express„o _Minha senhora_ dava-lhe uma
-saudade dilacerante por aquella a quem na vespera ainda dizia ´_minha
-adorada_ª, pela mulher que se n„o chamava ainda Mac-Gren, que era
-perfeita, e que uma paix„o indomavel, superior · raz„o, entontecera e
-vencera. E o seu amor por essa Maria Eduarda, nobre e amante, que se
-transform·ra na Mac-Gren, amigada e falsa, era agora maior
-infinitamente, desesperado por ser irrealisavel--como o que se tem por
-uma morta e que palpita mais ardente junto da frialdade da cova. Oh! se
-ella pudesse resurgir outra vez, limpa, clara, do lodo em que afund·ra,
-outra vez Maria Eduarda, com o seu casto bordado!... De que amor mais
-delicado a cercaria, para a compensar das affeiÁıes domesticas que ella
-deixasse de merecer! Que veneraÁ„o maior lhe consagraria--para supprir o
-respeito que o mundo superficial e affectado lhe retirasse! E ella tinha
-tudo para reter amor e respeito--tinha a belleza, a graÁa, a
-intelligencia, a alegria, a maternidade, a bondade, um incomparavel
-gosto... E com todas estas qualidades dÙces e fortes--era apenas uma
-intrujona!
-
-Mas porque? porque? Porque entr·ra ella n'esta longa fraude, tramada dia
-a dia, mentindo em tudo, desde o pudor que fingia atÈ ao nome que usava!
-
-Apertava a cabeÁa entre as m„os, achava a vida intoleravel. Se ella
-mentia--onde havia ent„o a verdade? Se ella o trahia assim, com aquelles
-olhos claros, o universo podia bem ser todo uma immensa traiÁ„o muda.
-Punha-se um mÛlho de rosas n'um vaso, exhalava-se d'elle a peste!
-Caminhava-se para uma relva fresca, ella escondia um lamaÁal! E para
-que, para que mentira ella? Se, desde o primeiro dia em que o vira,
-tremulo e rendido, a contemplar o seu bordado como se contempla uma
-acÁ„o de santidade--lhe tivesse dito que n„o era esposa do snr. Castro
-Gomes, mas sÛ amante do snr. Castro Gomes--teria a sua paix„o sido menos
-viva, menos profunda? N„o era a estola do padre que dava belleza ao seu
-corpo e valor ·s suas caricias... Para que fÙra ent„o essa mentira
-tenebrosa e descarada--que lhe fazia suppÙr agora que eram imposturas os
-seus mesmos beijos, imposturas os seus mesmos suspiros!... E com este
-longo embuste o levava a expatriar-se, dando a sua vida inteira por um
-corpo por que outros davam apenas um punhado de libras! E por esta
-mulher, tarifada ·s horas como as caleches da Companhia, elle ia
-amarguarar a velhice do avÙ, estragar irreparavelmente o seu destino,
-cortar a sua livre acÁ„o de homem!
-
-Mas porque? Porque fÙra esta farÁa banal, arrastada por todos os palcos
-de opera comica, da _cocotte que se finge senhora_? Porque o fizera
-ella, com aquelle fallar honesto, o puro perfil e a doÁura de m„i? Por
-interesse? N„o. Castro Gomes era mais rico do que elle, mais largamente
-lhe podia satisfazer o appetite mundano de toilettes, de carruagens...
-Sentia ella que Castro Gomes a ia abandonar, e queria ter ao lado aberta
-e prompta outra bolsa rica? Ent„o mais simples teria sido dizer-lhe: ´eu
-sou livre, gÛsto de ti, toma-me livremente, como eu me dou.ª N„o! Havia
-alli alguma coisa secreta, tortuosa, impenetravel... O que daria por a
-conhecer!
-
-E ent„o pouco a pouco foi surgindo n'elle o desejo de ir aos Olivaes...
-Sim, n„o lhe bastaria desforrar-se arrogantemente, atirando-lhe ao
-regaÁo um cheque embrulhado n'uma insolencia! O que precisava, para sua
-plena tranquillidade, era arrancar do fundo d'aquella turva alma o
-segredo d'aquella torpe farÁa... SÛ isso amansaria o seu incomparavel
-tormento. Queria entrar outra vez na _TÛca_, vÍr como era aquella outra
-mulher que se chamava Mac-Gren, e ouvir as suas palavras. Oh! iria sem
-violencia, sem recriminaÁıes, muito calmo, sorrindo! SÛ para que ella
-lhe dissesse qual fÙra a raz„o d'aquella mentira t„o laboriosa, t„o
-v„... SÛ para lhe perguntar serenamente: ´Minha rica senhora para quer
-foi toda esta intrujice?ª E depois vÍl-a chorar... Sim, tinha esta
-anciedade cheia d'amor de a vÍr chorar. A agonia que elle sentira no
-sal„o cÙr de musgo do outono, emquanto o outro arrastava os _rr_, queria
-vÍl-a repetida n'esse seio, onde elle atÈ ahi dormira t„o dÙcemente,
-esquecido de tudo, e que era bello, t„o divinamente bello!...
-
-Bruscamente, decidido, deu um pux„o · campainha. Baptista appareceu todo
-abotoado na sua sobrecasaca, com um ar resoluto, como armado e prompto a
-ser util n'aquella crise que adivinhava...
-
---Baptista, corre ao hotel Central e pergunta se j· entrou o snr. Castro
-Gomes!... N„o, escuta... Pıe-te · porta do Central, e espera atÈ que
-entre aquelle sujeito que aqui esteve... N„o, È melhor perguntar!...
-Emfim, certifica-te de que o sujeito ou voltou ou est· no hotel. E
-apenas estejas bem certo d'isso, volta aqui, · desfilada, n'uma
-tipoia... Um batedor seguro, que È para me levar depois aos Olivaes!...
-
-Immediatamente, dada esta ordem, serenou. Era j· um allivio immenso n„o
-ter de escrever a carta, e achar palavras acerbas que a deviam
-dilacerar. Rasgou o papel devagar. Depois fez o cheque de duzentas
-libras, ao _portador_. Elle mesmo lh'o levaria... Oh, decerto, n„o lh'o
-atirava romanticamente ao regaÁo... Deixal-o-hia sobre uma mesa,
-sobrescriptado a Madame Mac-Gren... E de repente sentiu uma compaix„o
-por ella. Via-a j·, abrindo o enveloppe com duas grandes lagrimas,
-lentas, caladas, a rolarem-lhe na face... E os seus proprios olhos se
-humedeceram.
-
-N'esse momento Ega, de fÛra, perguntou se era importuno.
-
---Entra! gritou.
-
-E continuou passeando, calado, com as m„os nos bolsos: o outro, em
-silencio tambem, foi encostar-se · janella sobre o jardim.
-
---Preciso escrever ao avÙ a dizer-lhe que cheguei, murmurou Carlos por
-fim, parando junto da mesa.
-
---D·-lhe recados meus.
-
-Carlos sent·ra-se, tom·ra languidamente a penna: mas bem depressa a
-arremessou: cruzou as m„os por detraz da cabeÁa no espaldar da cadeira,
-cerrou os olhos, como exhausto.
-
---Sabes uma coisa que me parece certa? disse de repente o Ega da
-janella. Quem escreveu a carta anonyma ao Castro Gomes foi o Damaso!
-
-Carlos olhou para elle:
-
---Achas?... Sim, talvez... Com effeito quem havia de ser?
-
---N„o foi mais ninguem, menino. foi o Damaso!
-
-Carlos ent„o recordou o que lhe cont·ra o Taveira--as allusıes
-mysteriosas do Damaso a um escandalo que se estava armando, uma bala que
-elle devia receber na cabeÁa... O Damaso, portanto, tinha como certa a
-vinda do brazileiro, depois um duello...
-
---… necessario esmagar esse infame! exclamou Ega, subitamente furioso.
-N„o ha seguranÁa, n„o ha paz na nossa vida emquanto esse bandido
-viver!...
-
-Carlos n„o respondeu. E o outro proseguia, transtornado, j· todo
-pallido, deixando transbordar odios cada dia accumulados:
-
---Eu n„o o mato porque n„o tenho um pretexto!... Se tivesse um pretexto,
-uma insolencia d'elle, um olhar atrevido, era meu, esborrachava-o!...
-Mas tu precisas fazer alguma coisa, isto n„o pÛde ficar assim! N„o pÛde!
-… necessario sangue... VÍ tu que infamia, uma carta anonyma!... Temos a
-nossa paz, a nossa felicidade, tudo exposto constantemente aos ataques
-do snr. Damaso. N„o pÛde ser. Eu o que tenho pena È de n„o ter um
-pretexto! Mas tenl-o tu, aproveita, e esmaga-o!
-
-Carlos encolheu vagamente os hombros:
-
---Merecia chicotadas, com effeito... Mas elle realmente sÛ tem sido
-velhaco commigo por causa das minhas relaÁıes com essa senhora; e como
-isso È um caso acabado, tudo o que se prende com elle finda tambem.
-_Parce sepultis_... E no fim era elle que tinha raz„o, quando dizia que
-ella era uma intrujona...
-
-Atirou uma punhada · mesa, ergueu-se, e com um sorriso amargo, n'um
-tedio infinito de tudo:
-
---Era elle, era o snr. Damaso Salcede que tinha raz„o!...
-
-Toda a sua cÛlera revivera, mais aspera, a esta idÈa. Olhou o relogio.
-Tinha pressa de a vÍr, tinha pressa de a injuriar!...
-
---Escreveste-lhe? perguntou o Ega.
-
---N„o, vou l· eu mesmo.
-
-Ega pareceu espantado. Depois recomeÁou a passear, calado, com os olhos
-no tapete.
-
-Ia escurecendo quando Baptista voltou. Vira o snr. Castro Gomes apear-se
-no hotel e mandar descer as suas bagagens:--e a tipoia, para levar o
-menino aos Olivaes, esperava em baixo.
-
---Bem, adeus! disse Carlos procurando atarantadamente um par de luvas.
-
---N„o jantas?
-
---N„o.
-
-D'ahi a pouco rodava pela estrada dos Olivaes. J· se accendera o gaz. E
-inquieto, no estreito assento, accendendo nervosamente _cigarettes_ que
-n„o fumava, soffria j· a perturbaÁ„o d'aquelle encontro difficil e
-doloroso... Nem sabia mesmo como a havia de tratar, se por ´minha
-senhoraª, se por ´minha boa amigaª, com uma superior indifferenÁa. E ao
-mesmo tempo sentia por ella uma compaix„o indefinida, que o amollecia.
-Diante d'estes seus modos regelados, via-a j· toda pallida, a tremer,
-com os olhos cheios d'agua. E estas lagrimas que appetecera, agora que
-estava t„o perto de as vÍr correr, enchiam-no sÛ de commoÁ„o e de dÛ...
-Durante um momento mesmo pensou em retroceder. Por fim seria muito mais
-digno escrever-lhe duas linhas altivas, sacudindo-a de si para sempre e
-seccamente! Poderia n„o lhe mandar o cheque,--affronta brutal d'homem
-rico. Apesar d'embusteira era mulher, cheia de nervos, cheia de
-phantasia, e am·ra-o talvez com desinteresse... Mas uma carta era mais
-digno. E agora acudiam-lhe as palavras que lhe deveria ter dirigido,
-incisivas e precisas. Sim, devia-lhe ter dito--que se estava prompto a
-dar a sua vida a uma mulher que se lhe abandon·ra _por paix„o_, estava
-decidido a n„o sacrificar nem os seus vagares a uma mulher que lhe
-cedera _por profiss„o_. Era mais simples, era terminante... E depois n„o
-a via, n„o teria de supportar a tortura das explicaÁıes e das lagrimas.
-
-Ent„o veio-lhe uma fraqueza. Bateu nos vidros para fazer parar,
-reflectir um instante, mais calmamente, no silencio das rodas. O
-cocheiro n„o ouviu: o trote largo da parelha continuou batendo a estrada
-escura. E Carlos deixou seguir, outra vez hesitante. Depois, · maneira
-que reconhecia, esbatidos na sombra, aquelles sitios onde tantas vezes
-pass·ra com o coraÁ„o em festa, quando a sua paix„o estava em flÙr, uma
-cÛlera nova voltava--menos contra a pessoa de Maria Eduarda, que contra
-essa _mentira_ que fÙra obra d'ella, e que vinha estragar
-irremediavelmente o encanto divino da sua vida. Era essa _mentira_ que
-agora odiava--vendo-a como uma coisa material e tangivel, de um peso
-enorme, feia e cÙr de ferro, esmagando-lhe o coraÁ„o. Oh! Se n„o fosse
-_essa coisa_ pequenina e inolvidavel que estava entre elles, como um
-indestructivel bloco de granito, poderia abrir-lhe novamente os seus
-braÁos, sen„o com a mesma crenÁa pelo menos com o mesmo ardor! Esposa do
-outro ou amante do outro--no fim que importava? N„o era por faltar aos
-beijos que lhe dera esse a consagraÁ„o d'um padre, rosnada em latim--que
-a sua pelle estava mais polluida por elles, ou tinha a menos frescura?
-Mas havia a _mentira_, a _mentira_ inicial, dita no primeiro dia em que
-fÙra · rua de S. Francisco, e que como um fermento podre ficava
-estragando tudo d'ahi por diante, dÙces conversas, silencios, passeios,
-sestas no calor da quinta, murmurios de beijos morrendo entre os
-cortinados cÙr d'ouro... Tudo manchado, tudo contaminado por aquella
-_mentira_ primeira que ella dissera sorrindo, com os seus tranquillos
-olhos limpidos...
-
-Abafava. Ia a descer a vidraÁa que faltava a correia--quando a tipoia
-parou de repente, na estrada solitaria... Abriu a portinhola. Uma mulher
-com um chale pela cabeÁa fallava ao cocheiro.
-
---Melanie!
-
---Ah, monsieur!
-
-Carlos saltou precipitadamente. Era j· proximo da quinta, na volta
-d'estrada, onde o muro fazia um recanto sob uma faia, defronte de sebes
-de piteiras resguardando campos d'olivedo. Carlos gritou ao cocheiro que
-seguisse e esperasse no port„o da quinta. E ficou alli, no escuro, com
-Melanie encolhida no seu chale.
-
-Que estava ella alli a fazer? Melanie parecia transtornada: contou que
-vinha procurar · villa uma carruagem, porque a senhora queria ir a
-Lisboa, ao Ramalhete... Ella julg·ra a tipoia vazia.
-
-E apertava as m„os, dando as graÁas, com um immenso allivio. Ah! que
-felicidade, que felicidade ter elle vindo!... A senhora estava afflicta,
-nem jant·ra, perdida de chÙro. O snr. Castro Gomes apparecera l·
-inesperadamente... A senhora, coitadinha, queria morrer!
-
-Ent„o Carlos, caminhando rente ao muro, interrogou Melanie. Como viera o
-outro? que dissera? como se despedira?... Melanie n„o ouvira nada. O
-Snr. Castro Gomes e a senhora tinham conversado sÛs no pavilh„o japonez.
-¡ sahida È que vira o snr. Castro Gomes dizer adeus a madame, muito
-socegado, muito amavel, rindo, fallando de _Niniche_... A senhora, essa,
-parecia como morta, t„o pallida! Quando o outro partiu, ia tendo um
-desmaio.
-
-Estavam proximo do port„o da _Toca_. Carlos retrocedeu, respirando
-fortemente, com o chapÈo na m„o. E agora todo o seu orgulho se ia
-sumindo sob a violencia da sua anciedade. Queria saber! E perguntava,
-deixava Melanie nas coisas dolorosas da sua paix„o... Dites toujours,
-Melanie, dites! Sabia a senhora que Castro Gomes estivera com elle no
-Ramalhete, lhe confess·ra tudo?...
-
-Claramente que sabia, por isso chorava--dizia Melanie. Ah, ella bem
-repetira · senhora que era melhor contar a verdade! Era muito amiga
-d'ella, servia-a desde pequena, vira nascer a menina... E tinha-lh'o
-dito, atÈ j· nos Olivaes!
-
-Carlos curvava a cabeÁa na escurid„o do muro. Melanie _tinha-lh'o dito_!
-Assim ella e a criada discutiam ambas, acamaradadas, o embuste em que
-andava presa a sua vida! E aquellas revelaÁıes de Melanie, que suspirava
-com o chale sobre o rosto, abatiam os ultimos pedaÁos d'esse sonho, que
-elle erguera t„o alto, entre nuvens d'ouro. Nada restava. Tudo jazia em
-estilhaÁos, no lodo immundo.
-
-Um momento, com o coraÁ„o cheio de fadiga, pensou em voltar a Lisboa.
-Mas para alÈm d'aquelle negro muro estava _ella_, perdida de chÙro,
-querendo morrer... E lentamente recomeÁou a caminhar para o port„o.
-
-E agora, sem resistencia nenhuma do orgulho, fazia perguntas mais
-intimas a Melanie. Porque È que Maria Eduarda n„o lhe dissera a verdade?
-
-Melanie encolheu os hombros. N„o sabia: nem a senhora sabia! Estivera no
-Central como madame Gomes; alug·ra a casa da rua de S. Francisco como
-madame Gomes; recebera-o como madame Gomes... E assim se deix·ra ir,
-insensivelmente, conversando com elle, gostando d'elle, vindo para os
-Olivaes... E depois era tarde, j· n„o se atrevera a confessar, toda
-enterrada assim na _mentira_, com medo do desgosto...
-
-Mas, exclamava Carlos, nunca imagin·ra ella que fatalmente tudo se
-descobriria um dia?
-
---Je ne sais pas, monsieur, je ne sais pas, murmurou Melanie quasi a
-chorar.
-
-Depois eram outras curiosidades. Ella n„o esperava Castro Gomes? n„o
-suppunha que elle voltasse? n„o costumava fallar d'elle?...
-
---Oh non, monsieur, oh non!
-
-Madame, desde que o senhor comeÁ·ra a ir todos os dias · rua de S.
-Francisco, consider·ra-se para sempre desligada do snr. Castro Gomes,
-nem fallava n'elle, nem queria que se fallasse... Antes d'isso a menina
-chamava sempre ao snr. Castro Gomes _petit ami_. Agora n„o lhe chamava
-nada. Tinham-lhe dito que j· n„o havia _petit ami_...
-
---Ella escrevia-lhe ainda, dizia Carlos, eu sei que ella lhe escrevia...
-
-Sim, Melanie julgava que sim... Mas cartas indifferentes. A senhora
-lev·ra o seu escrupulo a ponto de que, desde que viera para os Olivaes,
-nunca mais gast·ra um ceitil das quantias que lhe mandava o snr. Castro
-Gomes. As letras para receber dinheiro conservava-as intactas,
-entregara-lh'as n'essa tarde... N„o se lembrava elle de a ter encontrado
-uma manh„ · porta do Monte-Pio? Pois bem! FÙra l·, com uma amiga
-franceza, empenhar uma pulseira de brilhantes da senhora. A senhora
-vivia agora das suas joias; tinha j· outras no prÈgo.
-
-Carlos par·ra, commovido. Mas ent„o para que tinha ella mentido?
-
---Je ne sais pas, dizia Melanie, je ne sais pas... Mais elle vous aime
-bien, allez!
-
-Estavam defronte do port„o. A tipoia esperava. E, ao fundo da rua
-d'acacias, a porta da casa aberta deixava passar a luz do corredor,
-frouxa e triste. Carlos julgou vÍr mesmo a figura de Maria Eduarda,
-embrulhada n'uma capa escura, de chapÈo, atravessar n'essa claridade...
-Ouvira decerto rodar a carruagem. Que afflicta paciencia seria a sua!
-
---Vai-lhe dizer que vim, Melanie, vai! murmurou Carlos.
-
-A rapariga correu. E elle, caminhando devagar sob as acacias, sentia no
-sombrio silencio as pancadas desordenandas do seu coraÁ„o. Subiu os tres
-degraus de pedra--que lhe pareciam j· d'uma casa estranha. Dentro, o
-corredor estava deserto, com a sua lampada mourisca alumiando as
-panoplias de touros... Alli ficou. Melanie, com o chale na m„o, veio
-dizer-lhe que a senhora estava na sala das tapeÁarias...
-
-Carlos entrou.
-
-L· estava, ainda de capa, esperando de pÈ, palida, com toda a alma
-concentrada nos olhos que refulgiam entre as lagrimas. E correu para
-elle, arrebatou-lhe as m„os, sem poder fallar, soluÁando, tremendo toda.
-
-Na sua terrivel perturbaÁ„o, Carlos achava sÛ esta palavra,
-melancolicamente estupida:
-
---N„o sei porque chora, n„o sei, n„o h· raz„o para chorar...
-
-Ella pÙde emfim balbuciar:
-
---Escuta-me, pelo amor de Deus! n„o digas nada, deixa contar-te... Eu ia
-l·, tinha mandado Melanie por uma carruagem. Ia vÍr-te... Nunca tive a
-coragem de te dizer! Fiz mal, foi horrivel... Mas escuta, n„o digas nada
-ainda, perdÙa, que eu n„o tenho culpa!
-
-De novo os soluÁos a suffocaram. E cahiu ao canto do sof·, n'um chÙro
-brusco e nervoso, que a sacudiu toda, lhe fazia rolar sobre os hombros
-os cabellos mal atados.
-
-Carlos fic·ra diante d'ella, immovel. O seu coraÁ„o parecia parado de
-surpreza e de duvida, sem forÁa para desafogar. Apenas agora sentia
-quanto baixo e brutal deixar-lhe o cheque--que tinha alli na carteira e
-que o enchia de vergonha... Ella ergueu o rosto, todo molhado, murmurou
-com um grande esforÁo:
-
---Escuta-me!... Nem sei como hei de dizer... Oh, s„o tantas coisas, s„o
-tantas coisas!... Tu n„o te vaes j· embora, senta-te, escuta...
-
-Carlos puxou uma cadeira, lentamente.
-
---N„o, aqui ao pÈ de mim... Para eu ter mais coragem... Por quem Ès, tem
-pena, faze-me isso!
-
-Elle cedeu · supplicaÁ„o humilde e enternecedora dos seus olhos
-arrazados d'agua: e sentou-se ao outro canto do sof·, afastado d'ella,
-n'uma desconsolaÁ„o infinita. Ent„o, muito baixo, enrouquecida pelo
-chÙro, sem o olhar, e como n'um confessionario--Maria comeÁou a fallar
-do seu passado, desmanchadamente, hesitando, balbuciando, entre grandes
-soluÁos que a afogavam, e pudores amargos que lhe faziam enterrar nas
-m„os a face afflicta.
-
-A culpa n„o fÙra d'ella! n„o fÙra d'ella! Elle devia ter perguntado
-·quelle homem que sabia toda a sua vida... FÙra sua m„i... Era horroroso
-dizel-o, mas fÙra por causa d'ella que conhecera e que fugira com o
-primeiro homem, o outro, um irlandez... E tinha vivido com elle quatro
-annos, como sua esposa, t„o fiel, t„o retirada de tudo e sÛ occupada da
-sua casa, que elle ia casar com ella! Mas morrera na guerra com os
-allem„es, na batalha de Saint-Privat. E ella fic·ra com Rosa, com a m„i
-j· doente, sem recursos, depois de vender tudo... Ao principio
-trabalh·ra... Em Londres tinha procurado dar liÁıes de piano... Tudo
-falh·ra, dois dias vivera sem lume, de peixe salgado, vendo Rosa com
-fome! com fome! Ah, elle n„o podia perceber o que isto era!... Quasi
-fÙra por caridade que as tinha repatriado para Paris... E ahi conhecera
-Castro Gomes. Era horrivel, mas que havia d'ella fazer! Estava
-perdida...
-
-Lentamente escorreg·ra do sof·, cahira aos pÈs de Carlos. E elle
-permanecia immovel, mudo, com o coraÁ„o rasgado por angustias
-differentes: era uma compaix„o tremula por todas aquellas miserias
-soffridas, dÙr de m„i, trabalho procurado, fome, que lh'a tornavam
-confusamente mais querida; e era o horror d'esse outro homem, o
-irlandez, que surgia agora, e que lh'a tornava de repente mais
-maculada...
-
-Ella continuava fallando de Castro Gomes. Vivera tres annos com elle,
-honestamente, sem um desvio, sem um pensamento mau. O seu desejo era
-estar quieta em casa. Elle È que a forÁava a andar em ceias, em
-noitadas...
-
-E Carlos n„o podia ouvir mais, torturado. Repeliu-lhe as m„os, que
-procuravam as suas. Queria fugir, queria findar!...
-
---Oh n„o, n„o me mandes embora! gritou ella prendendo-se a elle
-anciosamente. Eu sei que n„o mereÁo nada! Sou uma desgraÁada... Mas n„o
-tive coragem, meu amor! Tu Ès homem, n„o comprehendes estas coisas...
-Olha para mim! porque n„o olhas para mim? Um instante sÛ, n„o voltes o
-rosto, tem pena de mim...
-
-N„o! elle n„o queria olhar. Temia aquellas lagrimas, o rosto cheio
-d'agonia. Ao calor do seio que arquejava sobre os seus joelhos, j· tudo
-n'elle comeÁava a oscillar, orgulhos, despeitos, dignidade, ciume... E
-ent„o, sem saber, a seu pezar, as suas m„os apertaram as d'ella. Ella
-cobriu-lhe logo de beijos os dedos, as mangas, arrebatadamente: e
-anciosa implorava do fundo da sua miseria um instante de misericordia.
-
---Oh, dize que me perdÙas! Tu Ès t„o bom! Uma palavra sÛ... Dize sÛ que
-n„o me odeias, e depois deixo-te ir... Mas dize primeiro... Olha ao
-menos para mim como d'antes, uma sÛ vez!...
-
-E eram agora os seus labios que procuravam os d'elle. Ent„o a fraqueza
-em que sentia afundar-se todo o seu sÍr encheu Carlos de cÛlera, contra
-si e contra ella. Sacudiu-a brutalmente, gritou:
-
---Mas porque n„o me disseste, porque n„o me disseste? Para que foi essa
-longa mentira? Eu tinha-te amado do mesmo modo! Para que mentiste, tu?
-
-Larg·ra-a, prostrada no ch„o. E de pÈ, deixava cahir sobre ella a sua
-queixa desesperada:
-
---… a tua mentira que nos separa, a tua horrivel mentira, a tua mentira
-sÛmente!
-
-Ella ergueu-se pouco a pouco, mal se sustendo, e com uma pallidez de
-desmaio.
-
---Mas eu queria dizer-t'o, murmurou muito baixo, muito quebrado diante
-d'elle, deixando cahir os braÁos. Eu queria dizer-t'o... N„o te lembras,
-n'aquelle dia em que vieste tarde, quando eu fallei da casa de campo, e
-que tu pela primeira vez declaraste que gostavas de mim? Eu disse-te
-logo: ´ha uma coisa que te quero contar...ª Tu nem me deixaste acabar.
-Imaginavas o que era, que eu queria ser sÛ tua, longe de tudo... E
-disseste ent„o que haviamos d'ir, com Rosa, ser felizes para algum canto
-do mundo... N„o te lembras?... Foi ent„o que me veio uma tentaÁ„o! Era
-n„o dizer nada, deixar-me levar, e depois, mais tarde, annos depois,
-quando te tivesse provado bem que boa mulher eu era, digna da tua
-estima, confessar-te tudo e dizer-te: ´agora, se queres, manda-me
-embora.ª Oh! foi mal feito, bem sei... Mas foi uma tentaÁ„o, n„o
-resisti... Se tu n„o fallasses em fugirmos, tinha-te dito tudo... Mas
-mal fallaste em fugirmos, vi uma outra vida, uma grande esperanÁa, nem
-sei que! E alÈm d'isso adiava aquella horrivel confiss„o! Emfim, nem
-posso explicar, era como o cÈo que se abria, via-me comtigo n'uma casa
-nossa... Foi uma tentaÁ„o!... E depois era horrivel, no momento em que
-tu me querias tanto, ir dizer-te ´n„o faÁas tudo isso por mim, olha que
-eu sou uma desgraÁada, nem marido tenho...ª Que te hei de explicar mais?
-N„o me resignava a perder o teu respeito. Era t„o bom ser assim
-estimada... Emfim foi um mal, foi um grande mal... E agora ahi est·,
-vejo-me perdida, tudo acabou!
-
-Atirou-se para o ch„o, como uma creatura vencida e finda, escondendo a
-face no sof·. E Carlos, indo lentamente ao fundo da sala, voltando
-bruscamente atÈ junto d'ella, tinha sÛ a mesma recriminaÁ„o, a
-_mentira_, a _mentira_, pertinaz e de cada dia... SÛ os soluÁos d'ella
-lhe respondiam.
-
---Porque n„o me disseste ao menos depois, aqui nos Olivaes, quando
-sabias que tu eras tudo para mim?...
-
-Ella ergueu a cabeÁa fatigada:
-
---Que queres tu? Tive medo que o teu amor mudasse, que fosse d'outro
-modo... Via-te j· a tratar-me sem respeito. Via-te a entrar por ahi
-dentro de chapÈo na cabeÁa, a perder a affeiÁ„o · pequena, a querer
-pagar as despezas da casa... Depois tinha remorsos, ia adiando. Dizia
-´hoje n„o, um dia sÛ mais de felicidade, ·manh„ ser·...ª E assim ia
-indo! Emfim, nem eu sei, um horror!
-
-Houve um silencio. E ent„o Carlos sentiu · porta _Niniche_ que queria
-entrar e que gania baixinho e doloridamente. Abriu. A cadellinha correu,
-pulou para o sof·, onde Maria permanecia soluÁando, enrodilhando a um
-canto: procurava lamber-lhe as m„os, inquieta: depois ficou plantada
-junto d'ella, como a guarda-l'a, desconfiada, seguindo, com os seus
-vivos olhos d'azeviche, Carlos que recomeÁ·ra a passear sombriamente.
-
-Um ai mais longo e mais triste de Maria fel-o parar. Esteve um momento
-olhando para aquella dÙr humilhada... Todo abalado, com os labios a
-tremer, murmurou:
-
---Mesmo que te pudesse perdoar, como te poderia acreditar agora nunca
-mais? Ha esta mentira horrivel sempre entre nÛs a separar-nos! N„o teria
-um unico dia de confianÁa e de paz...
-
---Nunca te menti sen„o n'uma coisa, e por amor de ti! disse ella
-gravemente do fundo da sua prostraÁ„o.
-
---N„o, mentiste em tudo! Tudo era falso, falso o teu casamento, falso o
-teu nome, falsa a tua vida toda... Nunca mais te poderia acreditar...
-Como havia de ser, se agora mesmo quasi que nem acredito no motivo das
-tuas lagrimas?
-
-Uma indignaÁ„o ergueu-a, direita e soberba. Os seus olhos de repente
-seccos rebrilharam, revoltados e largos, no marmore da sua pallidez.
-
---Que queres tu dizer? Que estas lagrimas tem outro motivo, estas
-supplicas s„o fingidas? Que finjo tudo para te reter, para n„o te
-perder, ter outro homem, agora que estou abandonada?...
-
-Elle balbuciou:
-
---N„o, n„o! N„o È isso!
-
---E eu? exclamou ella, caminhando para elle, dominando-o, magnifica e
-com um esplendor de verdade na face. E eu? porque hei de eu acreditar
-n'essa grande paix„o que me juravas? O que È que tu amavas ent„o em mim?
-Dize l·! Era a mulher d'outro, o nome, o requinte do adulterio, as
-_toilletes_?... Ou era eu propria, o meu corpo, a minha alma e o meu
-amor por ti?... Eu sou a mesma, olha bem para mim!... Estes braÁos s„o
-os mesmos, este peito È o mesmo... SÛ uma coisa È differente: a minha
-paix„o! Essa È maior, desgraÁadamente, infinitamente maior.
-
---Oh! se isso fosse verdade! gritou Carlos, apertando as m„os.
-
-N'um instante Maria estava cahida a seus pÈs, com os braÁos abertos para
-elle.
-
---Juro-t'o por alma de minha filha, por alma de Rosa! Amo-te, adoro-te
-doidamente, absurdamente, atÈ · morte!
-
-Carlos tremia. Todo o seu sÍr pendia para ella; e era um impulso
-irresistivel de se deixar cahir sobre aquelle seio que arfava a seus
-pÈs, ainda que elle fosse o abysmo da sua vida inteira... Mas outra vez
-a idÈia da _mentira_ passou, regeladora. E afastou-se d'ella, levando os
-punhos · cabeÁa, n'um desespero, revoltado contra aquella coisa
-pequenina e indestructivel que n„o queria sumir-se, e que se interpunha
-como uma barra de ferro entre elle e a sua felicidade divina!
-
-Ella fic·ra ajoelhada, immovel, com os olhos esgazeados para o tapete.
-Depois, no silencio estofado da sala, a sua voz ergueu-se dolente e
-tremula:
-
---Tens raz„o, acabou-se! Tu n„o me acreditas, tudo se acabou!... …
-melhor que te v·s embora... Ninguem me torna a acreditar... Acabou tudo
-para mim, n„o tenho ninguem mais no mundo... ¡manh„ s·io d'aqui,
-deixo-te tudo... Has de me dar tempo para arranjar... Depois, que hei de
-fazer, vou-me embora!
-
-E n„o pÙde mais, tombou para o ch„o, com os braÁos estirados, perdida de
-chÙro.
-
-Carlos voltou-se, ferido no coraÁ„o. Com o seu vestido escuro, para alli
-cahida e abandonada, parecia j· uma pobre creatura, arremessada para
-fÛra de todo o lar, sÛsinha a um canto, entre a inclemencia do mundo...
-Ent„o respeitos humanos, orgulho, dignidade humana, tudo n'elle foi
-levado como por um grande vento de piedade. Viu sÛ, offuscando todas as
-fragilidades, a sua belleza, a sua dÙr, a sua alma sublimemente amante.
-Um delirio generoso, de grandiosa bondade, misturou-se · sua paix„o. E,
-debruÁando-se, disse-lhe baixo, com os braÁos abertos:
-
---Maria, queres casar commigo?
-
-Ella ergueu a cabeÁa, sem comprehender, com os olhos desvairados. Mas
-Carlos tinha os braÁos abertos; e estava esperando para a fechar dentro
-d'elles outra vez, como sua e para sempre... Ent„o levantou-se,
-tropeÁando nos vestidos, veio cahir sobre o peito d'elle, cobrindo-o de
-beijos, entre soluÁos e risos, tonta, n'um deslumbramento:
-
---Casar comtigo, comtigo? Oh Carlos... E viver sempre, sempre
-comtigo?... Oh meu amor, meu amor! E tratar de ti, e servir-te, e
-adorar-te, e ser sÛ tua? E a pobre Rosa tambem... N„o, n„o cases
-commigo, n„o È possivel, n„o valho nada! Mas se tu queres, porque
-n„o?... Vamos para longe, juntos, e Rosa e eu sobre o teu coraÁ„o! E has
-de ser nosso amigo, meu e d'ella, que n„o temos ninguem no mundo... Oh!
-meu Deus, meu Deus!...
-
-Empallideceu, escorregando pesadamente entre os braÁos d'elle,
-desmaiada: e os seus longos cabellos desprendido rojavam o ch„o, tocados
-pela luz de tons d'ouro.
-
-
-
-
-V
-
-
-Maria Eduarda e Carlos, que fic·ra essa noite nos Olivaes na sua
-casinhola, acabavam de almoÁar. O Domingos servira o cafÈ, e antes de
-sahir deix·ra ao lado de Carlos a caixa de cigarettes e o _Figaro_. As
-duas janellas estavam abertas. Nem uma folha se movia no ar pesado da
-manh„ encoberta, entristecida ainda por um dobre lento de sinos que
-morria ao longe nos campos. No banco de cortiÁa, sob as arvores, miss
-Sarah costurava preguiÁosamente; Rosa ao lado brincava na relva. E
-Carlos, que viera n'uma intimidade conjugal, com uma simples camisa de
-sÍda e um jaquet„o de flanella, chegou ent„o a cadeira para junto de
-Maria, tomou-lhe a m„o, brincando-lhe com os anneis, n'uma lenta
-caricia:
-
---Vamos a saber, meu amor... Decidiste, por fim? Quando queres partir?
-
-N'essa noite, entre os seus primeiros beijos de noiva, ella mostr·ra o
-desejo enternecido de n„o alterar o plano da Italia e d'um ninho
-romantico entre as flÙres d'Isola-bella: sÛmente agora n„o iam esconder
-a inquietaÁ„o d'uma felicidade culpada, mas gozar o repouso d'uma
-felicidade legitima. E, depois de todas as incertezas e tormentos que o
-tinham agitado desde o dia em que cruz·ra Maria Eduarda no Aterro,
-Carlos anhelava tambem pelo momento de se installar emfim no conforto
-d'um amor sem duvidas e sem sobresaltos:
-
---Eu por mim abalava ·manh„. Estou sÙfrego de paz. Estou atÈ sÙfrego de
-preguiÁa... Mas tu, dize, quando queres?
-
-Maria n„o respondeu; apenas o seu olhar sorriu, reconhecido e
-apaixonado. Depois, sem retirar a m„o que a longa caricia de Carlos
-ainda prendia, chamou Rosa atravÈs da janella.
-
---Mam„, espera, j· vou! Passa-me umas migalhas... Andam aqui uns pardaes
-que ainda n„o almoÁaram...
-
---N„o, vem c·.
-
-Quando ella appareceu · porta, toda de branco, cÛrada, com uma das
-ultimas rosas de ver„o mettida no cinto--Maria quil-a mais perto, entre
-elles, encostada aos seus joelhos. E, arranjando-lhe a fita solta do
-cabello, perguntou, muito sÈria, muito commovida, se ella gostaria que
-Carlos viesse viver com ellas de todo e ficar alli na _Toca_... Os olhos
-da pequena encheram-se de surpreza e de riso:
-
---O quÍ! estar sempre, sempre aqui, mesmo de noite, toda a noite?... E
-ter aqui as suas malas, as suas coisas?...
-
-Ambos murmuraram--´simª.
-
-Rosa ent„o pulou, bateu as palmas, radiante, querendo que Carlos fosse
-j·, j·, buscar as suas malas e as suas coisas...
-
---Escuta, disse-lhe ainda Maria gravemente, retendo-a sobre os joelhos.
-E gostavas que elle fosse como o pap·, e que andasse sempre comnosco, e
-que lhe obedecessemos ambas, e que gostassemos muito d'elle ?
-
-Rosa ergueu para a m„e uma facesinha compenetrada, onde todo o sorriso
-se apag·ra.
-
---Mas eu n„o posso gostar mais d'elle do que gÛsto!...
-
-Ambos a beijaram, n'um enternecimento que lhes humedecia os olhos. E
-Maria Eduarda, pela primeira vez diante de Rosa debruÁando-se sobre
-ella, beijou de leve a testa de Carlos. A pequena ficou pasmada para o
-seu amigo, depois para a m„i. E pareceu comprehender tudo; escorregou
-dos joelhos de Maria, veio encostar-se a Carlos com uma meiguice
-humilde:
-
---Queres que te chame pap·, sÛ a ti?
-
---SÛ a mim, disse elle, fechando-a toda nos braÁos.
-
-E assim obtiveram o consentimento de Rosa--que fugiu, atirando a porta,
-com as m„os cheias de bolos para os pardaes.
-
-Carlos levantou-se, tomou a cabeÁa de Maria entre as m„os, e
-contemplando-a profundamente, atÈ · alma, murmurou n'um enlevo:
-
---…s perfeita!
-
-Ella desprendeu-se, com melancolia, d'aquella adoraÁ„o que a perturbava.
-
---Escuta... Tenho ainda muito, muito que te dizer, infelizmente. Vamos
-para o nosso kiosque... Tu n„o tens nada que fazer, n„o? E que tenhas,
-hoje Ès meu... Vou j· ter comtigo. Leva as tuas cigarettes.
-
-Nos degraus do jardim, Carlos parou a olhar, a sentir a doÁura velada do
-cÈo cinzento... E a vida pareceu-lhe adoravel, d'uma poesia fina e
-triste,assim envolta n'aquella nevoa macia onde nada resplandecia e nada
-cantava, e que t„o favoravel era para que dois coraÁıes, desinteressados
-do mundo e em desharmonia com elle, se abandonassem juntos ao contÌnuo
-encanto de estremecerem juntos na mudez e na sombra.
-
---Vamos ter chuva, tio AndrÈ, disse elle, passando junto do velho
-jardineiro que aparava o buxo.
-
-O tio AndrÈ, atarantado, arrancou o chapÈo. Ah! uma gota d'agua era bem
-necessaria, depois da estiagem! O torr„osinho j· estava com sÍde! E em
-casa todos bons? A senhora? A menina?
-
---Tudo bom, tio AndrÈ, obrigado.
-
-E no seu desejo de vÍr todos em torno de si felizes como elle e como a
-terra sequiosa que ia ser consolada--Carlos metteu uma libra na m„o do
-tio AndrÈ, que ficou deslumbrado, sem ousar fechar os dedos sobre aquelle
-ouro extraordinario que reluziu.
-
-Quando Maria entrou no kiosque trazia um cofre de sandalo. Atirou-o para
-o divan: fez sentar Carlos ao lado, bem confortavel, entre almofadas:
-accendeu-lhe uma cigarrete. Depois agachou-se aos seus pÈs, sobre o
-tapete, como na humildade de uma confiss„o.
-
---Est·s bem assim? Queres que o Domingos te traga agua e cognac?... N„o?
-Ent„o ouve agora, quero-te contar tudo...
-
-Era toda a sua existencia que ella desejava contar. Pens·ra mesmo em
-lh'a escrever n'uma carta interminavel, como nos romances. Mas decidira
-antes tagarellar alli uma manh„ inteira, aninhada aos seus pÈs.
-
---Est·s bem, n„o est·s?
-
-Carlos esperava, commovido. Sabia que aquelles labios amados iam fazer
-revelaÁıes pungentes para o seu coraÁ„o--e amargas para o seu orgulho.
-Mas a confidencia da sua vida completava a posse da sua pessoa: quando a
-conhecesse toda no seu passado sentil-a-hia mais sua inteiramente. E no
-fundo tinha uma curiosidade insaciavel d'essas coisas que o deviam
-pungir e que o deviam humilhar.
-
---Sim, conta... Depois esquecemos tudo e para sempre. Mas agora dize,
-conta... Onde nasceste tu por fim?
-
-Nascera em Vienna: mas pouco se recordava dos tempos de crianÁa, quasi
-nada sabia do pap·, a n„o ser a sua grande nobreza e a sua grande
-belleza. Tivera uma irm„sinha que morrera de dois annos e que se chamava
-Heloisa. A mam„, mais tarde, quando ella era j· rapariga, n„o tolerava
-que lhe perguntassem pelo passado; e dizia sempre que remexer a memoria
-das coisas antigas prejudicava tanto como sacudir uma garrafa de vinho
-velho... De Vienna apenas recordava confusamente largos passeios
-d'arvores, militares vestidos de branco, e uma casa espelhada e dourada
-onde se danÁava: ·s vezes durante tempos ella ficava l· sÛ com o avÙ, um
-velhinho triste e timido, mettido pelos cantos, que lhe contara
-historias de navios. Depois tinham ido a Inglaterra: mas lembrava-se
-sÛmente de ter atravessado um grande rumor de ruas, n'um dia de chuva,
-embrulhada em pelles, sobre os joelhos d'um escudeiro. As suas primeiras
-memorias mais nitidas datavam de Paris; a mam„, j· viuva, andava de luto
-pelo avÙ; e ella tinha uma aia italiana que a levava todas as manh„s,
-com um arco e com uma pÈlla, brincar aos Campos Elyseos. A noite
-costumava vÍr a mam„ decotada, n'um quarto cheio de setins e de luzes; e
-um homem louro, um pouco brusco, que fumava sempre estirado pelos sof·s,
-trazia-lhe de vez em quando uma boneca, e chamava-lhe mademoiselle
-_Triste-c[oe]ur_ por causa do seu arzinho sisudo. Emfim a mam„ mettera-a
-n'um convento ao pÈ de Tours--porque n'essa idade, apesar de cantar j·
-ao piano as walsas da _Belle HelËne_, ainda n„o sabia soletrar. FÙra nos
-jardins do convento, onde havia lindos lilazes, que a mam„ se separ·ra
-d'ella n'uma paix„o de lagrimas; e ao lado esperava, para a consolar
-decerto, um sujeito muito grave, de bigodes encerados, a quem a Madre
-Superiora fallara com veneraÁ„o.
-
-A mam„ ao principio vinha vÍl-a todos os mezes, demorando-se em Tours
-dois, tres dias; trazia-lhe uma profus„o de presentes, bonecas, bonbons,
-lenÁos bordados, vestidos ricos, que lhe n„o permittia usar a regra
-severa do convento. Davam ent„o passeios de carruagem pelos arredores de
-Tours: e havia sempre officiaes a cavallo, que escoltavam a caleche--e
-tratavam a mam„ por _tu_. No convento as mestras, a Madre Superiora n„o
-gostavam d'estas sahidas--nem mesmo que a mam„ viesse acordar os
-corredores devotos com as suas risadas e o ruido das suas sÍdas; ao
-mesmo tempo pareciam temel-a; chamavam-lhe _Madame la Comtesse_. A mam„
-era muito amiga do general que commandava em Tours, e visitava o bispo.
-Monsenhor, quando vinha ao convento, fazia-lhe uma festinha especial na
-face e alludia risonhamente a _son excellente mËre_. Depois a mam„
-comeÁou a apparecer menos em Tours. Esteve um anno longe, quasi sem
-escrever, viajando na Allemanha; voltou um dia, magra e coberta de luto,
-e ficou toda a manh„ abraÁada a ella a chorar.
-
-Mas na visita seguinte vinha mais moÁa, mais brilhante, mais ligeira,
-com dois grandes galgos brancos, annunciando uma romagem poetica · Terra
-Santa e a todo o remoto Oriente. Ella tinha ent„o quasi dezeseis annos:
-pela sua applicaÁ„o, os seus modos dÙces e graves, ganh·ra a affeiÁ„o da
-Madre Superiora--que ·s vezes, olhando-a com tristeza, acariciando-lhe o
-cabello cahido em duas tranÁas segundo a regra, lhe mostrava o desejo de
-a conservar sempre ao seu lado. _Le monde_, dizia ella, _ne vous sera
-bon ‡ rien, mon enfant!_... Um dia, porÈm, appareceu para a levar para
-Paris, para a mam„, uma Madame de Chavigny, fidalga pobre, de caracoes
-brancos, que era como uma estampa de severidade e de virtude.
-
-O que ella chor·ra ao deixar o convento! Mais choraria se soubesse o que
-ia encontrar em Paris!
-
-A casa da mam„, no Parc Monceaux, era na realidade uma casa de jogo--mas
-recoberta de um luxo sÈrio e fino. Os escudeiros tinham meias de sÍda;
-os convidados, com grandes nomes no Nobiliario de FranÁa, conversavam de
-corridas, das Tulherias, dos discursos do Senado; e as mesas de jogo
-armavam-se depois como uma distracÁ„o mais picante. Ella recolhia sempre
-ao seu quarto ·s dez horas: Madame de Chavigny, que fic·ra como sua dama
-de companhia, ia com ella cedo ao Bois n'um coupÈ estufo de
-_douairiËre_. Pouco a pouco, porÈm, este grande verniz comeÁou a
-estalar. A pobre mam„ cahira sob o jugo d'um Mr. de Trevernnes, homem
-perigoso pela sua seducÁ„o pessoal e por uma desoladora falta de honra e
-de senso. A casa descahiu rapidamente n'uma bohemia mal dourada e
-ruidosa. Quando ella madrugava, com os seus habitos saudaveis do
-convento, encontrava paletots d'homens por cima dos sof·s: no marmore
-das consoles restavam pontas de charuto entre nodoas de champagne; e
-n'algum quarto mais retirado ainda tinia o dinheiro d'um _baccarat_
-talhado · claridade do sol. Depois uma noite, estando deitada, sentira
-de repente gritos, uma debandada brusca na escada; veio encontrar a mam„
-estirada no tapete, desmaiada; ella dissera-lhe apenas mais tarde,
-alagada em lagrimas, ´que tinha havido uma desgraÁaª...
-
-Mudaram ent„o para um terceiro andar da ChaussÈe-d'Antin. Ahi comeÁou a
-apparecer uma gente desconhecida e suspeita. Eram Valachos de grandes
-bigodes, Peruanos com diamantes falsos, e condes romanos que escondiam
-para dentro das mangas os punhos enxovalhados... Por vezes entre esta
-malta vinha algum _gentleman_--que n„o tirava o paletot, como n'um
-cafÈ-concerto. Um d'esses foi um irlandez, muito moÁo, Mac-Gren...
-Madame de Champigny deix·ra-as desde que falt·ra o coupÈ severo,
-acolchoado de setim; e ella, sÛ com a m„i, insensivelmente, fatalmente,
-fÙra-se misturando a essa vida tresnoitada de grogs e de _baccarat_.
-
-A mam„ chamava a Mac-Gren o ´bÈbȪ. Era com effeito uma crianÁa
-estouvada e feliz. Namor·ra-se d'ella logo com o ardor, a effus„o, o
-impeto d'um irlandez; e prometteu-lhe fazel-a sua esposa apenas se
-emancipasse--porque Mac-Gren, menor ainda, vivia sobretudo das
-liberalidades de uma avÛ excentrica e rica que o adorava, e que habitava
-a ProvenÁa n'uma vasta quinta onde tinha feras em jaulas... E no entanto
-induzia-a sem cessar a fugir com elle, desesperado de a vÍr entre
-aquelles Valachos que cheiravam a genebra. O seu desejo era leval-a para
-Fontainebleau, para um _cottage_ com trepadeiras de que fallava sempre,
-e esperar ahi tranquillamente a maioridade que lhe traria duas mil
-libras de renda. Decerto, era uma situaÁ„o falsa: mas preferivel a
-permanecer n'aquelle meio depravado e brutal onde ella a cada instante
-cÛrava... A esse tempo a mam„ parcela ir perdendo todo o senso,
-desarranjada de nervos, quasi irresponsavel. As difficuldades crescentes
-estonteavam-n'a; brigava com as criadas; bebia champagne ´_pour
-s'Ètourdir_ª. Para satisfazer as exigencias de Mr. de Trevernnes
-empenh·ra as suas joias, e quasi todos os dias chorava com ciumes
-d'elle. Por fim houve uma penhora: uma noite tiveram d'enfardelar ·
-pressa roupa n'um sacco, e ir dormir a um hotel. E, peor, peor que tudo!
-Mr. de Trevernnes comeÁava a olhar para ella d'um modo que a
-assustava...
-
---Minha pobre Maria! murmurou Carlos, pallido, agarrando-lhe as m„os.
-
-Ella permaneceu um momento suffocada, com o rosto cahido nos joelhos
-d'elle. Depois limpando as lagrimas que a ennevoavam:
-
---Ahi est„o as cartas de Mac-Gren, n'esse cofre... Tenho-as guardado
-sempre para me justificar a mim mesma, se me È possivel... Pede-me em
-todas que v· para Fontainebleau; chama-me sua esposa; jura que apenas
-juntos iremos ajoelhar-nos diante da avÛ, obter a sua indulgencia... Mil
-promessas! E era sincero... Que queres que te diga? A mam„ uma manh„
-partiu com uma sucia para Baden. Fiquei em Paris sÛ, n'um hotel... Tinha
-um palpite, um terror que Trevernnes apparecia... E eu sÛ! Estava t„o
-transtornada que pensei em comprar um rewolver... Mas quem veio foi
-Mac-Gren.
-
-E partira com elle, sem precipitaÁ„o, como sua esposa, levando todas as
-suas malas. A mam„ de volta de Baden correu a Fontainebleau, desvairada
-e tragica, amaldiÁoando Mac-Gren, ameaÁando-o com a pris„o de Mazas,
-querendo esbofeteal-o; depois rompeu a chorar. Mac-Gren, como um bÈbÈ,
-agarrou-se a ella aos beijos, chorando tambem. A mam„ terminou por os
-apertar a ambos contra o coraÁ„o, j· rendida, perdoando tudo,
-chamando-lhes ´filhos da sua almaª. Passou o dia em Fontainebleau,
-radiante, contando ´a patuscada de Badenª, j· com o plano de vir
-installar-se no _cottage_, viver junto d'elles n'uma felicidade calma e
-nobre de avÛsinha... Era em maio; Mac-Gren, · noite, deitou um ´fogo
-presoª no jardim.
-
-ComeÁou um anno quieto e facil. O seu unico desejo era que a mam„
-vivesse com elles socegadamente. Diante das suas supplicas ella ficava
-pensativa, dizia: ´Tens raz„o, veremos!ª Depois remergulhava no
-torvelinho de Paris, d'onde resurgia uma manh„, n'um _fiacre_,
-estremunhada e afflicta, com uma rica pelliÁa sobre uma velha saia, a
-pedir-lhe cem francos... Por fim nascera Rosa. Toda a sua anciedade
-desde ent„o fÙra legitimar a sua uni„o. Mas Mac-Gren adiava,
-levianamente, com um medo pueril da avÛ. Era um perfeito bÈbÈ!
-Entretinha as manh„s a caÁar passaros com visco! E ao mesmo tempo
-terrivelmente teimoso: ella pouco a pouco perdera-lhe todo o respeito.
-No comeÁo da primavera a mam„ um dia appareceu em Fontainebleau com as
-suas malas, succumbida, enojada da vida. Rompera emfim com Trevernnes.
-Mas quasi immediatamente se consolou: e comeÁou d'ahi a adorar Mac-Gren
-com uma t„o larga effus„o de caricias, e achando-o t„o lindo, que era ·s
-vezes embaraÁadora. Os dois passavam o dia, com copinhos de cognac,
-jogando o _bezigue_.
-
-De repente rebentou a guerra com a Prussia. Mac-Gren enthusiasmado, e
-apesar das supplicas d'ellas, corrÍra a alistar-se no batalh„o de Zuavos
-de Charette; a avÛ de resto approv·ra este rasgo d'amor pela FranÁa, e
-fizera-lhe n'uma carta em verso, em que celebrava Jeanne d'Arc, uma
-larga remessa de dinheiro. Por esse tempo Rosa teve o garrotilho. Ella,
-sem lhe largar o leito, mal attendia ·s noticias da guerra. Sabia apenas
-confusamente das primeiras batalhas perdidas na fronteira. Uma manh„ a
-mam„ rompeu-lhe no quarto, estonteada, em camisa: o exercito capitul·ra
-em SÈdan, o imperador estava prisioneiro! ´… o fim de tudo, È o fim de
-tudo!ª dizia a mam„ espavorida. Ella veio a Paris procurar noticias de
-Mac-Gren: na rua Royale teve de se refugiar n'um port„o, diante do
-tumulto d'um povo em delirio, acclamando, cantando a Marselheza, em
-torno de uma caleche onde ia um homem, pallido como cera, com um
-cache-nez escarlate ao pescoÁo. E um sujeito ao lado, aterrado,
-disse-lhe que o povo fÙra buscar Rochefort · pris„o e que estava,
-proclamada a Republica.
-
-Nada soubera de Mac-Gren. ComeÁaram ent„o dias d'infinito sobresalto.
-Felizmente Rosa convalescia. Mas a pobre mam„ causava dÛ, envelhecida de
-repente, sombria, prostrada n'uma cadeira, murmurando apenas: ´… o fim
-de tudo, È o fim de tudo!ª E parecia na verdade o fim da FranÁa. Cada
-dia uma batalha perdida; regimentos presos, apinhados em wagons de gado,
-internados a todo o vapor para os presidios d'Allemanha; os prussianos
-marchando sobre Paris... N„o podiam permanecer em Fontainebleau; o duro
-inverno comeÁava; e com o que venderam · pressa, com o dinheiro que
-Mac-Gren deix·ra, partiram para Londres.
-
-FÙra uma exigencia da mam„. E em Londres ella, desorientada na enorme e
-estranha cidade, doente tambem, deix·ra-se levar pelas tontas idÈas da
-m„e. Tomaram uma casa mobilada, muito cara, nos bairros de luxo, ao pÈ
-de Mayfair. A mam„ fallava em organisar alli o centro de resistencia dos
-bonapartistas refugiados; no fundo, a desgraÁada pensava em crear uma
-casa de jogo em Londres. Mas ai! eram outros tempos... Os imperialistas,
-sem imperio, n„o jogavam j· o _baccarat_. E ellas em breve, sem
-rendimentos, gastando sempre, tinham-se achado com aquella dispendiosa
-casa, tres criados, contas colossaes e uma nota de cinco libras no fundo
-d'uma gaveta. E Mac-Gren mettido dentro de Paris, com meio milh„o de
-prussianos em redor. Foi necessario vender todas as joias, vestidos, atÈ
-as pelliÁas. Alugaram ent„o, no bairro pobre de Soho, tres quartos mal
-mobilados. Era o _lodging_ de Londres em toda a sua suja, solitaria
-tristeza; uma criadita unica, enfarruscada como um trapo; alguns carvıes
-humidos fumegando mal na chaminÈ; e para jantar um pouco de carneiro
-frio e cerveja da esquina. Por fim falt·ra mesmo o escasso shilling para
-pagar o _lodging_. A mam„ n„o sahia do catre, doente, succumbida,
-chorando. Ella ·s vezes ao anoitecer, escondida n'um water-proof, levava
-ao _prÈgo_ embrulhos de roupa (atÈ roupa branca, atÈ camisas!) para que
-ao menos n„o faltasse a Rosa a sua chicara de leite. As cartas que a
-mam„ escrevia a alguns antigos companheiros de ceias na _Maison d'Or_
-ficavam sem resposta: outras traziam, embrulhada n'um bocado de papel,
-alguma meia-libra que tinha o pavoroso sabor d'uma esmola. Uma noite, um
-sabbado de grande nevoeiro, indo empenhar um chambre de rendas da mam„,
-perdera-se, err·ra na vasta Londres n'uma treva amarellada, a tiritar de
-frio, quasi com fome, perseguida por dois brutos que empestavam a
-alcool. Para lhes fugir atirou-se para dentro d'um _cab_ que a levou a
-casa. Mas n„o tinha um penny para pagar ao cocheiro; e a patrÙa roncava
-no seu cacifro, bebeda. O homem resmungou; ella, succumbida, alli mesmo
-na porta rompeu a chorar. Ent„o o cocheiro desceu da almofada,
-commovido, offereceu-se para a levar de graÁa ao _prÈgo_, onde
-ajustariam as suas contas. Foi; o pobre homem sÛ aceitou um _schilling_;
-atÈ mesmo suppondo-a franceza grunhiu blasphemias contra os prussianos,
-e teimou em lhe offerecer uma bebida.
-
-Ella no emtanto procurava uma occupaÁ„o qualquer costura, bordados,
-traducÁıes, cÛpias de manuscriptos... N„o achava nada. N'aquelle duro
-inverno o trabalho escasseava em Londres; surgira uma multid„o de
-francezes, pobres como ella, luctando pelo p„o... A mam„ n„o cessava de
-chorar; e havia alguma coisa mais terrivel que as suas lagrimas--eram as
-suas allusıes constantes · facilidade de se ter em Londres dinheiro,
-conforto e luxo, quando se È nova e se È bonita...
-
---Que te parece esta vida, meu amor? exclamou ella, apertando as m„os
-amargamente.
-
-Carlos beijou-a em silencio, com os olhos humedecidos.
-
---Emfim tudo passou, continuou Maria Eduarda. Fez-se a paz, o cÍrco
-acabou. Paris estava de novo aberto... SÛmente a difficuldade era
-voltar.
-
---Como voltaste?
-
-Um dia por acaso, em Regent-Street, encontr·ra um amigo de Mac-Gren,
-outro irlandez, que muitas vezes jant·ra com elles em Fontainebleau.
-Veio vÍl-as a Soho; diante d'aquella miseria, do bule de ch· aguado, dos
-ossos de carneiro requentando sobre tres brazas mortas, comeÁou, como
-bom irlandez, por accusar o governo d'Inglaterra e jurar uma desforra de
-sangue. Depois offereceu, com os beiÁos j· a tremer, toda a sua
-dedicaÁ„o. O pobre rapaz batia tambem o lagedo n'uma lucta tormentosa
-pela vida. Mas era irlandez; e partiu logo generosamente, armado de
-todos os seus ardis, a conquistar atravÈs de Londres o pouco que ellas
-necessitavam para recolher a FranÁa. Com effeito appareceu n'essa mesma
-noite, derreado e triumphante, brandindo tres notas de banco e uma
-garrafa de _champagne_. A mam„ ao vÍr, depois de tantos mezes de ch·
-preto, a garrafa de _Clicquot_ encarapuÁada de ouro--quasi desmaiou, de
-enternecimento. Enfardelaram os trapos. Ao partirem, na estaÁ„o de
-_Charing-Cross_, o irlandez levou-a para um canto, e engasgado, torcendo
-os bigodes, disse-lhe que Mac-Gren tinha morrido na batalha de
-Saint-Privat...
-
---Para que te hei de eu contar o resto? Em Paris recomecei a procurar
-trabalho. Mas tudo estava ainda em confus„o... Quasi immediatamente veio
-a Communa... PÛdes acreditar que muitas vezes tivemos fome. Mas emfim j·
-n„o era Londres, nem o inverno, nem o exilio. Estavamos em Paris,
-soffriamos de companhia com amigos d'outros tempos. J· n„o parecia t„o
-terrivel... Com todas estas privaÁıes a pobre Rosa comeÁava a
-definhar... Era um supplicio vÍl-a perder as cÙres, tristinha, mal
-vestida, mettida n'uma trapeira... A mam„ j· se queixava da doenÁa de
-coraÁ„o que a matou... O trabalho que eu encontrava, mal pago, dava-nos
-apenas para a renda da casa, e para n„o morrer absolutamente de
-necessidade... Principiei a adoecer de anciedade, de desespero. Luctei
-ainda. A mam„ fazia dÛ. E Rosa morria se n„o tivesse outro regimen, bom
-ar, algum conforto... Conheci ent„o Castro Gomes em casa d'uma antiga
-amiga da mam„, que n„o perdera nada com a guerra, nem com os prussianos,
-e que me dava trabalhos de costura... E o resto s·bel-o... Nem eu me
-lembro... Fui levada... Via ·s vezes Rosa, coitadinha, embrulhada n'um
-chale, muito quietinha ao seu canto, depois de rapada a sua magra tigela
-de sopas, e ainda com fome...
-
-N„o pÙde continuar; rompeu a chorar, cahida sobre os joelhos de Carlos.
-E elle na sua emoÁ„o sÛ lhe podia dizer, passando-lhe as m„os tremulas
-pelos cabellos, que a havia de desforrar bem de todas as miserias
-passadas...
-
---Escuta ainda, murmurou ella, limpando as lagrimas. Ha sÛ uma coisa
-mais que te quero dizer. E È a santa verdade, juro-te pela alma de Rosa!
-… que n'estas duas relaÁıes que tive o meu coraÁ„o conservou-se
-adormecido... Dormiu sempre, sempre, sem sentir nada, sem desejar nada,
-atÈ que te vi... E ainda te quero dizer outra coisa...
-
-Um momento hesitou, coberta de rubor. Pass·ra os braÁos em torno de
-Carlos, pendurada toda d'elle, com os olhos mergulhados nos seus. E foi
-mais baixo que balbuciou na derradeira, na absoluta confiss„o de todo o
-seu sÍr:
-
---AlÈm de ter o coraÁ„o adormecido, o meu corpo permaneceu sempre frio,
-frio como um marmore...
-
-Elle estreitou-a a si arrebatadamente: e os seus labios ficaram collados
-muito tempo, em silencio, completando, n'uma emoÁ„o nova e quasi
-virginal, a communh„o perfeita das suas almas.
-
-
-
-D'ahi a dias Carlos e Ega vinham n'uma victoria, pela estrada dos
-Olivaes, em caminho da _Toca_.
-
-Toda essa manh„, no Ramalhete, Carlos estivera emfim contando ao Ega o
-impulso de paix„o que o lanÁ·ra de novo e para sempre, como esposo, nos
-braÁos de Maria; e, na confianÁa absoluta que o prendia ao Ega,
-revel·ra-lhe mesmo miudamente a historia d'ella, dolorosa e
-justificadora. Depois, ao acalmar o calor, propoz que fossem comer as
-sopas · _Toca_. Ega deu uma volta pelo quarto, hesitando. Por fim
-comeÁou a passar devagar a escova pelo paletot, murmurando, como durante
-as longas confidencias de Carlos: ´… prodigioso!... Que estranha coisa,
-a vida!ª
-
-E agora pela estrada, na aragem dÙce do rio, Carlos fallava ainda de
-Maria, da vida na _Toca_, deixando escapar do coraÁ„o muito cheio o
-interminavel cantico da sua felicidade.
-
---… facto, Egasinho, conheÁo quasi a felicidade perfeita!
-
---E c· na _Toca_ ainda ninguem sabe nada?
-
-Ninguem--a n„o ser Melanie, a confidente--suspeitava a profunda
-alteraÁ„o que se fizera nas suas relaÁıes: e tinham assentado que miss
-Sarah e o Domingos, primeiras testemunhas da sua amizade, seriam
-rÈgiamente recompensados e despedidos quando em fins de outubro elles
-partissem para Italia.
-
---E ides ent„o casar a Roma?...
-
---Sim... Em qualquer logar onde haja um altar e uma estola. Isso n„o
-falta em Italia... E È ent„o, Ega, que reapparece o espinho de toda esta
-felicidade. … por isso que eu disse ´quasi.ª O terrivel espinho, o avÙ!
-
---… verdade, o velho Affonso. Tu n„o tens idÈa como lhe has de fazer
-conhecer esse caso?...
-
-Carlos n„o tinha idÈa nenhuma. Sentia sÛ que lhe faltava absolutamente a
-coragem de dizer ao avÙ: ´esta mulher, com quem vou casar, teve na sua
-vida estes errosª... E alÈm d'isso, j· reflectira, era inutil. O avÙ
-nunca comprehenderia os motivos complicados, fataes, inilludiveis que
-tinham arrastado Maria. Se lh'os contasse miudamente--o avÙ veria alli
-um romance confuso e fragil, antipathico · sua natureza forte e candida.
-A fealdade das culpas feril-o-hia, exclusivamente; e n„o lhe deixaria
-apreciar, com serenidade, a irresistibilidade das causas. Para perceber
-este caso d'um caracter nobre apanhado dentro d'uma implacavel rede de
-fatalidades, seria necessario um espirito mais ductil, mais mundano que
-o do avÙ... O velho Affonso era um bloco de granito: n„o se podiam
-esperar d'elle as subtis discriminaÁıes d'um casuista moderno. Da
-existencia de Maria sÛ veria o facto tangivel:--cahira successivamente
-nos braÁos de dois homens. E d'ahi decorreria toda a sua attitude de
-chefe de familia. Para que havia elle pois de fazer ao velho uma
-confiss„o, que necessariamente originaria um conflicto de sentimentos e
-uma irreparavel separaÁ„o domestica?...
-
---Pois n„o te parece, Ega?
-
---Falla mais baixo, olha o cocheiro.
-
---N„o percebe bem o portuguez, sobretudo o nosso estylo... Pois n„o te
-parece?
-
-Ega raspava phosphoros na sola para accender o charuto. E resmungava:
-
---Sim, o velho Affonso È granitico...
-
-Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder
-ao avÙ o passado de Maria--e fazer-lhe conhecer a pessoa de Maria.
-Casavam secretamente em Italia. Regressavam: ella para a rua de S.
-Francisco, elle filialmente para o Ramalhete. Depois Carlos levava o avÙ
-a casa da sua boa amiga, que conhecera em Italia, M.^{me} de Mac-Gren.
-Para o prender logo l· estavam os encantos de Maria, todas as graÁas
-d'um interior delicado e sÈrio, jantarinhos perfeitos, idÈas justas,
-Chopin, Beethoven, etc. E, para completar a conquista de quem t„o
-enternecidamente adorava crianÁas, l· estava Rosa... Emfim, quando o avÙ
-estivesse namorado de Maria, da pequena, de tudo--elle, uma manh„,
-dizia-lhe francamente: ´Esta creatura superior e adoravel teve uma quÈda
-no seu passado; mas eu casei com ella; e, sendo tal como È, n„o fiz bem,
-apesar de tudo, em a escolher para minha esposa?ª E o avÙ, perante esta
-terrivel irremediabilidade do facto consummado, com toda a sua
-indulgencia de velho enternecido a defender Maria--seria o primeiro a
-pensar que, se esse casamento n„o era o melhor segundo as regras do
-mundo, era decerto o melhor segundo os interesses do coraÁ„o...
-
---Pois n„o te parece, Ega?
-
-Ega, absorvido, sacudia a cinza do charuto. E pensava que Carlos, em
-resumo, adopt·ra para com o avÙ a complicada combinaÁ„o que Maria
-Eduarda tent·ra para com elle--e imitava sem o sentir os subtis
-raciocinios d'ella.
-
---E acabou-se, continuava Carlos. Se elle na sua indulgencia aceitar
-tudo, bravo! d·-se uma grande festa no Ramalhete... Sen„o, foi-se!
-passaremos a viver cada um para seu lado, fazendo ambos prevalecer a
-superioridade de duas coisas excellentes: o avÙ as tradiÁıes do sangue,
-eu os direitos do coraÁ„o.
-
-E, vendo o Ega ainda silencioso:
-
---Que te parece? Dize l·. Tu andas t„o falto de idÈas, homem!
-
-O outro sacudiu a cabeÁa, como despertando.
-
---Queres que te diga o que me parece, com franqueza? Que diabo, nÛs
-somos dois homens fallando como homens!... Ent„o aqui est·: teu avÙ tem
-quasi oitenta annos, tu tens vinte e sete ou o quer que seja... …
-doloroso dizel-o, ninguem o diz com mais dÙr que eu, mas teu avÙ ha de
-morrer... Pois bem, espera atÈ l·. N„o cases. Suppıe que ella tem um pae
-muito velho, teimoso e caturra, que detesta o snr. Carlos da Maia e a
-sua barba em bico. Espera; contin˙a a vir · _Toca_, na tipoia do Mulato;
-e deixa teu avÙ acabar a sua velhice calma, sem desillusıes e sem
-desgostos...
-
-Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca,
-n'esses dias de inquietaÁ„o, lhe acudira idÈa t„o sensata, t„o facil!
-Sim, era isso, esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre avÙ toda
-a dÙr?... Maria de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a
-convers„o do amante no marido pelo laÁo d'estola que tudo purifica e
-nenhuma forÁa desata. Mas ella mesma preferiria uma consagraÁ„o
-legal--que n„o fosse assim precipitada, dissimulada... Depois, t„o recta
-e generosa, comprehenderia bem a obrigaÁ„o suprema de n„o mortificar
-aquelle santo velho. De resto, n„o conhecia ella a sua lealdade solida e
-pura como um diamante? Recebera a sua palavra: desde esse momento
-estavam casados, n„o diante do sacrario e nos registos da sacristia--mas
-diante da honra e na inabalavel communh„o dos seus coraÁıes...
-
---Tens raz„o! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens
-immensamente raz„o! Essa idÈa È genial! Devo esperar... E emquanto
-espero?...
-
---Como, emquanto esperas? acudiu Ega, rindo. Que diabo! Isso n„o È
-commigo!
-
-E mais sÈrio:
-
---Emquanto esperas tens esse metal vil que faz a existencia nobre.
-Installas tua mulher, porque desde hoje È tua mulher, aqui nos Olivaes
-ou n'outro sitio, com o gosto, o conforto e a dignidade que competem a
-tua mulher... E deixas-te ir! Nada impede que faÁaes essa viagem nupcial
-· Italia... Voltas, contin˙as a fumar a tua _cigarette_ e a deixar-te
-ir. Este È o bom senso: È assim que pensaria o grande Sancho Pansa...
-Que diabo tens tu n'aquelle embrulho que cheira t„o bem?
-
---Um ananaz... Pois È isso, querido: esperar, deixar-me ir. … uma idÈa!
-
-Uma idÈa! e a mais grata ao temperamento de Carlos. Para que iria com
-effeito enredar-se n'uma meada de amarguras domesticas, por um excesso
-de cavalheirismo romantico? Maria confiava n'elle; era rico, era moÁo; o
-mundo abria-se ante elles facil e cheio de indulgencias. N„o tinha sen„o
-a deixar-se ir.
-
---Tens raz„o, Ega! E Maria È a primeira a achar isto cheio de senso e
-d'_opportunismo_. Eu tenho uma certa pena em adiar a installaÁ„o da
-minha vida e do meu _home_. Mas, acabou-se! Antes de tudo que o avÙ seja
-feliz... E para celebrar o advento d'esta idÈa, Deus queira que Maria
-nos tenha um bom jantar!
-
-Agora, ao aproximar-se da _Toca_, Ega ia receando o primeiro encontro
-com Maria Eduarda. Incommodava-o esse enleio, esse rubor que ella n„o
-poderia occultar--certa que, como confidente de Carlos, elle conhecia a
-sua vida, as suas miserias, as suas relaÁıes com Castro Gomes. Por isso
-hesit·ra em vir · _Toca_. Mas tambem, n„o apparecer mais a Maria Eduarda
-seria marcar com um relevo quasi offensivo o desejo caridoso de n„o
-molestar o seu pudor... Por isso decidira ´dar o mergulho d'uma vezª.
-Quem, sen„o elle, deveria ser o mais apressado em estender a m„o · noiva
-de Carlos?... AlÈm d'isso tinha uma infinita curiosidade de vÍr no seu
-interior, · sua mesa, essa creatura t„o bella, com a sua graÁa nobre de
-Deusa moderna! Mas saltou da victoria muito embaraÁado.
-
-Por fim tudo se passou com uma facilidade risonha. Maria bordava,
-sentada nos degraus do jardim. Teve um sobresalto, cÛrou toda, com
-effeito, ao avistar o Ega que procurava atarantadamente o monoculo: o
-aperto de m„o que trocaram foi mudo e timido: mas Carlos, alegremente,
-desembrulh·ra o ananaz--e na admiraÁ„o d'elle todo o constrangimento se
-dissipou.
-
---Oh! È magnifico!
-
---Que cÙr, que luxo de tons!
-
---E que aroma! Veio perfumando toda a estrada.
-
-Ega n„o volt·ra · _Toca_ desde a noite fatal da _soirÈe_ dos Cohens em
-que elle alli tanto bebera e delir·ra tanto. E lembrou logo a Carlos a
-jornada na velha traquitana, debaixo d'um temporal, o _grog_ do Craft, a
-ceia de per˙...
-
---J· aqui soffri muito, minha senhora, vestido de Mephistopheles!...
-
---Por causa de Margarida?
-
---Por quem se ha de soffrer n'este apaixonado mundo, minha senhora,
-sen„o por Margarida ou por Fausto?
-
-Mas Carlos quiz que elle admirasse os esplendores novos da _Toca_. E foi
-j· com familiaridade que Maria o levou pelas salas, lamentando que sÛ
-viesse assim · _Toca_ no fim do ver„o e no fim das flÙres. Ega
-extasiou-se ruidosamente. Emfim, perdera a _Toca_ o seu ar regelado e
-triste de museu! J· alli se podia palrar livremente!
-
---Isto È um barbaro, Maria! exclamava Carlos radiante. Tem horror ·
-arte! … um Ibero, È um Semita...
-
-Semita? Ega prezava-se de ser um luminoso Aryano! E por isso mesmo n„o
-podia viver n'uma casa, em que cada cadeira tinha a solemnidade
-sorumbatica de antepassados com cabelleira...
-
---Mas, dizia Maria rindo, rodas estas lindas coisas do seculo dezoito
-lembram antes a ligeireza, o espirito, a graÁa de maneiras...
-
---V. exc.^a acha? acudiu Ega. A mim todos esses dourados, esses
-enramalhetados, esses rococÛs lembram-me uma vivacidade estouvada e
-sirigaita... Nada! nÛs vivemos n'uma Democracia! E n„o ha para exprimir
-a alegria simples, sÛlida e bonacheirona da Democracia, como largas
-poltronas de marroquim, e o mogno envernizado!...
-
-Assim n'uma risonha, ligeira discuss„o sobre bric-‡-brac, desceram ao
-jardim.
-
-Miss Sarah passeava entre o buxo, de olhos baixos, com um livro fechado
-na m„o. Ega, que conhecia j· os seus ardores nocturnos, cravou-lhe
-sÙfregamente o monoculo; e emquanto Maria se abaix·ra a cortar um
-geranio, exprimiu a Carlos n'um gesto mudo a sua admiraÁ„o por aquelle
-beicinho escarlate, aquelle seiosinho redondo de rola farta... Depois,
-ao fundo, junto do caramanch„o, encontraram Rosa que se balouÁava. Ega
-pareceu deslumbrado com a sua belleza, a sua frescura mate de camelia
-branca. Pediu-lhe um beijo. Ella exigiu primeiro, muito sÈria, que elle
-tirasse o vidro do olho.
-
---Mas È para te vÍr melhor! È para te vÍr melhor!...
-
---Ent„o porque n„o trazes um em cada olho? Assim sÛ me vÍs metade...
-
-Encantadora! encantadora! murmurava Ega. No fundo achava a pequena
-espevitada e impudente. Maria resplandecia.
-
-E o jantar alargou mais esta intimidade risonha. Carlos, logo · sopa,
-fallando-se de campo e d'um _chalet_ que elle desejava construir em
-Cintra, nos Capuchos, dissera--´quando nos casarmosª. E Ega alludiu a
-esse futuro do modo mais grato ao coraÁ„o de Maria. Agora que Carlos se
-installava para sempre n'uma felicidade estavel (dizia elle) era
-necessario trabalhar! E relembrou ent„o a sua velha idÈa do Cenaculo,
-representado por uma _Revista_ que dirigisse a litteratura, educasse o
-gosto, elevasse a politica, fizesse a civilisaÁ„o, remoÁasse o
-carunchoso Portugal... Carlos, pelo seu espirito, pela sua fortuna (atÈ
-pela sua figura, ajuntava o Ega rindo) devia tomar a direcÁ„o d'este
-movimento. E que profunda alegria para o velho Affonso da Maia!
-
-Maria escutava, presa e sÈria. Sentia bem quanto Carlos, com uma vida
-toda de intelligencia e de actividade, rehabilitaria supremamente
-aquella uni„o mostrando-lhe a influencia fecunda e purificadora.
-
---Tem raz„o, tem bem raz„o! exclamava ella com ardor.
-
---Sem contar, acrescentava o Ega, que o paiz precisa de nÛs! Como muito
-bem diz o nosso querido e imbecilissimo Gouvarinho, o paiz n„o tem
-pessoal... Como ha de tel-o, se nÛs, que possuimos as aptidıes, nos
-contentamos em governar os nossos dog-carts e escrever a vida intima dos
-atomos? Sou eu, minha senhora, sou eu que ando a escrever essa
-biographia d'um atomo!... No fim, este dilettantismo È absurdo. Clamamos
-por ahi, em botequins e livros, ´que o paiz È uma choldraª. Mas que
-diabo! Porque È que n„o trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso
-gosto e pelo molde perfeito das nossas idÈas?... V. exc.^a n„o conhece
-este paiz, minha senhora. … admiravel! … uma pouca de cera inerte de
-primeira qualidade. A quest„o toda est· em quem a trabalha. AtÈ aqui a
-cera tem estado em m„os brutas, banaes, toscas, reles, rotineiras... …
-necessario pÙl-a em m„os d'artistas, nas nossas. Vamos fazer d'isto um
-_bijou_!...
-
-Carlos ria, preparando n'uma travessa o ananaz com sumo de laranja e
-vinho da Madeira. Mas Maria n„o queria que elle risse. A idÈa do Ega
-parecia-lhe superior, inspirada n'um alto dever. Quasi tinha remorsos,
-dizia ella, d'aquella preguiÁa de Carlos. E agora, que ia ser cercado de
-affeiÁ„o serena, queria-o vÍr trabalhar, mostrar-se, dominar...
-
---Com effeito, disse o Ega recostado e sorrindo, a era do romance
-findou. E agora...
-
-Mas o Domingos servia o ananaz. E o Ega provou e rompeu em clamores de
-enthusiasmo. Oh que maravilha! Oh que delicia!
-
---Como fazes tu isto? Com Madeira...
-
---E genio! exclamou Carlos. Delicioso, n„o È verdade? Ora digam-me se
-tudo o que eu pudesse fazer pela civilisaÁ„o valeria este prato de
-ananaz! … para estas coisas que eu vivo! Eu n„o nasci para fazer
-civilisaÁ„o...
-
---Nasceste, acudiu o Ega, para colher as flÙres d'essa planta da
-civilisaÁ„o que a multid„o rega com o seu suor! No fundo tambem eu,
-menino!
-
-N„o, n„o! Maria n„o queria que fallassem assim!
-
---Esses ditos estragam tudo. E o snr. Ega, em logar de corromper Carlos,
-devia inspiral-o...
-
-Ega protestou requebrando o olho, j· languido. Se Carlos necessitava uma
-musa inspiradora e benefica--n„o podia ser elle, bicho com barbas e
-bacharel em leis... A musa estava _toute trouvÈe_!
-
---Ah, com effeito!... Quantas paginas bellas, quantas nobres idÈas se
-n„o podem produzir n'um paraiso d'estes!...
-
-E o seu gesto molle e acariciador indicava a _Toca_, a quietaÁ„o dos
-arvoredos, a belleza de Maria. Depois na sala, emquanto Maria tocava um
-nocturno de Chopin e Carlos e elle acabavam os charutos · porta do
-jardim vendo nascer a lua--Ega declarou que, desde o comeÁo do jantar,
-estava com idÈas de casar!... Realmente n„o havia nada como o casamento,
-o interior, o ninho...
-
---Quando penso, menino, murmurou elle mordendo sombriamente o charuto,
-que quasi todo um anno da minha vida foi dado ·quella israelita devassa
-que gosta de levar bordoada...
-
---Que faz ella em Cintra? perguntou Carlos.
-
---Ensopa-se na crapula. N„o ha a menor duvida que d· todo o seu coraÁ„o
-ao Damaso... Tu sabes o que n'estes casos significa o termo _coraÁ„o_...
-Viste j· immundicie igual? … simplesmente obscena!
-
---E tu adÛral-a, disse Carlos.
-
-O outro n„o respondeu. Depois, dentro, n'um odio repentino da bohemia e
-do romantismo, entoou louvores sonoros · familia, ao trabalho, aos altos
-deveres humanos--bebendo copinhos de cognac. ¡ meia noite, ao sahir,
-tropeÁou duas vezes na rua d'acacias, j· vago, citando Proudhon. E
-quando Carlos o ajudou a subir para a victoria, que elle quiz descoberta
-para ir communicando com a lua, Ega ainda lhe agarrou o braÁo para lhe
-fallar da _Revista_, d'um forte vento de espiritualidade e de virtude
-viril que se devia fazer soprar sobre o paiz... Por fim, j· estirado no
-assento, tirando o chapÈo · aragem da noite:
-
---E outra coisa, Carlinhos. VÍ se me arranjas a ingleza... Ha vicios
-deliciosos n'aquellas pestanas baixas... VÍ se m'a arranjas... V· l·,
-bate l·, cocheiro! Caramba, que belleza de noite!
-
-
-
-Carlos fic·ra encantado com este primeiro jantar d'amizade na _Toca_.
-Elle tencionava n„o apresentar Maria aos seus intimos sen„o depois de
-casado e · volta de Italia. Mas agora a ´uni„o legalª estava j· no seu
-pensamento adiada, remota, quasi dispersa no vago. Como dizia o Ega,
-devia esperar, deixar-se ir... E no emtanto, Maria e elle n„o poderiam
-isolar-se alli todo um longo inverno, sem o calor sociavel d'alguns
-amigos em redor. Por isso uma manh„, encontrando o Cruges, que fÙra o
-visinho de Maria e outr'ora lhe dava noticias da ´lady inglezaª,
-pediu-lhe para vir jantar · _Toca_ no domingo.
-
-O maestro appareceu n'uma tipoia, · tardinha, de laÁo branco e de
-casaca: e os fatos claros de campo com que encontrou Carlos e Ega
-comeÁaram logo a enchel-o de mal-estar. Toda a mulher, alÈm das Lolas e
-Conchas, o atarantava, o emmudecia: Maria, ´com o seu porte de
-_grande-dame_ª, como elle dizia, intimidou-o a tal ponto que ficou
-diante d'ella, sem uma palavra, escarlate, torcendo o forro das
-algibeiras. Antes de jantar, por lembranÁa de Carlos, foram-lhe mostrar
-a quinta. O pobre maestro, roÁando a casaca mal feita pela folhagem dos
-arbustos, fazia esforÁos anciosos por murmurar algum elogio ´· belleza
-do sitioª; mas escapavam-lhe ent„o inexplicavelmente coisas reles, em
-cal„o: ´vista catitaª! ´È pitadaª! Depois ficava furioso, coberto de
-suor, sem comprehender como se lhe babavam dos labios esses ditos
-abominaveis, t„o contrarios ao seu gosto fino d'artista. Quando se
-sentou · mesa soffria um negrissimo accesso de _spleen_ e mudez! Nem uma
-controversia que Maria arranj·ra caridosamente para elle sobre Wagner e
-Verdi pÙde descerrar-lhe os labios empedernidos. Carlos ainda tentou
-envolvel-o na alegria da mesa--contando a ida a Cintra, quando elle
-procurava Maria na Lawrence, e em vez d'ella ach·ra uma matrona obesa,
-de bigode, de c„osinho ao collo, ralhando com o homem em hespanhol. Mas
-a cada exclamaÁ„o de Carlos--´Lembras-te, Cruges?ª, ´N„o È verdade,
-Cruges?ª--o maestro, rubro, grunhia apenas um _sim_ avaro. Terminou por
-estar alli, ao lado de Maria, como um trambolho funebre. Estragou o
-jantar.
-
-Combin·ra-se para depois do cafÈ um passeio pelos arredores, n'um break.
-E Carlos j· tom·ra as guias, Maria na almofada acabava de abotoar as
-luvas--quando Ega, que receava a friagem da tarde, saltou do break,
-correu a buscar o paletot. N'esse mesmo momento sentiram um trote de
-cavallo na estrada--e appareceu o marquez.
-
-Foi uma surpreza para Carlos, que o n„o vira durante esse ver„o. O
-marquez parou logo, tirando profundamente, ao vÍr Maria, o seu largo
-chapÈo desabado.
-
---Imaginava-o pela Golleg„! exclamou Carlos. Foi atÈ o Cruges que me
-disse... Quando chegou vossÍ?
-
-Cheg·ra na vespera. L· fÙra ao Ramalhete; tudo deserto. Agora vinha aos
-Olivaes vÍr um dos Vargas que tinha casado, se install·ra alli perto, a
-passar o noivado...
-
---Quem, o gordo, o das corridas?
-
---N„o, o magro, o das regatas.
-
-Carlos, debruÁado da almofada, examinava a egoasita do marquez, pequena,
-bem estampada, d'um baio escuro e bonito.
-
---Isso È novo?
-
---Uma facasita do Darque... Quer-m'a vossÍ comprar? Sou j· um pouco
-pesado para ella, e isto mette-se a um dog-cart...
-
---DÍ l· uma volta.
-
-O marquez deu a volta, bem posto na sella, avantajando a egoa. Carlos
-achou-lhe ´boas acÁıesª. Maria murmurou--´Muito bonita, uma cabeÁa
-fina...ª Ent„o Carlos apresentou o marquez de Souzella a madame
-Mac-Gren. Elle chegou a egoa · roda, descoberto, para apertar a m„o a
-Maria: e · espera do Ega que se eternisava l· dentro, ficaram fallando
-do ver„o, de Santa Olavia, dos Olivaes, da _Toca_... Ha que tempos o
-marquez alli n„o passava! A ultima vez fÙra victima da excentricidade do
-Craft...
-
---Imagine v. exc.^a, disse elle a Maria Eduarda, que esse Craft me
-convida a almoÁar. Venho, e o hortel„o diz-me que o snr. Craft, criado e
-cozinheiro, tudo partira para o Porto; mas que o snr. Craft deix·ra um
-cartaz na sala... Vou · sala, e vejo dependurado ao pescoÁo d'um idolo
-japonez uma folha de papel com estas palavras pouco mais ou menos: ´O
-deus Tchi tem a honra de convidar o snr. marquez, em nome de seu amo
-ausente, a passar · sala de jantar onde encontrar·, n'um aparador,
-queijo e vinho, que È o almoÁo que basta ao homem forte.ª E foi com
-effeito o meu almoÁo... Para n„o estar sÛ, partilhei-o com o hortel„o.
-
---Espero que se tivesse vingado! exclamou Maria rindo.
-
---PÛde crÍr, minha senhora... Convidei-o a jantar, e quando elle
-appareceu, vindo d'aqui da _Toca_, o meu guarda-port„o disse-lhe que o
-snr. marquez fÙra para longe, e que n„o havia nem p„o nem queijo...
-Resultado: o Craft mandou-me uma duzia de magnificas garrafas de
-Chambertin. Esse deus Tchi nunca mais o tornei a vÍr...
-
-O deus Tchi l· estava, obeso e medonho. E, muito naturalmente, Carlos
-convidou o marquez a revisitar n'essa noite, · volta da casa do Vargas,
-o seu velho amigo Tchi.
-
-O marquez veio, ·s dez horas--e foi um ser„o encantador. Conseguiu
-sacudir logo a melancolia do Cruges, arrastando-o com m„o de ferro para
-o piano; Maria cantou; palrou-se com graÁa; e aquelle escondrijo d'amor
-ficou alumiado atÈ tarde, na sua primeira festa de amizade.
-
-Estas reuniıes alegres foram ao principio, como dizia o Ega,
-_dominicaes_: mas o outono arrefecia, bem depressa se despiriam as
-arvores da _Toca_, e Carlos accumulou-as duas vezes por semana, nos
-velhos dias feriados da Universidade, domingos e quintas. Tinha
-descoberto uma admiravel cozinheira alsaciana, educada nas grandes
-tradiÁıes, que servira o bispo de Strasburgo, e a quem as extravagancias
-d'um filho e outras desgraÁas tinham arrojado a Lisboa. Maria, de resto,
-punha na composiÁ„o dos seus jantares uma sciencia delicada: o dia de
-vir · _Toca_ era considerado pelo marquez ´dia de civilisaÁ„oª.
-
-A mesa resplandecia; e as tapeÁarias representando massas d'arvoredos
-punham em redor como a sombra escura d'um retiro silvestre onde por um
-capricho se tivessem accendido candelabros de prata. Os vinhos sahiam da
-frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da terra e do cÈo
-se grulhava com phantasia--menos de ´politica portuguezaª, considerada
-conversa indecorosa entre pessoas de gosto.
-
-Rosa apparecia ao cafÈ, exhalando do seu sorriso, dos bracinhos n˙s, dos
-vestidos brancos tufados sobre as meias de sÍda preta, um bom aroma de
-flÙr. O marquez adorava-a, disputando-a ao Ega, que a pedira a Maria em
-casamento e lhe andava compondo havia tempo um soneto. Ella preferia o
-marquez: achava o Ega ´muito...ª--e completava o seu pensamento com um
-gestosinho do dedo ondeado no ar, como a exprimir que o Ega ´era muito
-retorcidoª.
-
---Ahi est·! exclamava elle. Porque eu sou mais civilisado que o outro! …
-a simplicidade n„o comprehendendo o requinte.
-
---N„o, desgraÁado! exclamavam do lado. … porque Ès impresso!... … a
-natureza repellindo a convenÁ„o!...
-
-Bebia-se · saude de Maria: ella sorria, feliz entre os seus novos
-amigos, divinamente bella, quasi sempre de escuro, com um curto decote
-onde resplandecia o incomparavel esplendor do seu collo.
-
-Depois organisaram-se solemnidades. N'um domingo, em que os sinos
-repicavam e a distancia foguetes esfuziavam no ar--Ega lamentou que os
-seus austeros principios philosophicos o impedissem de festejar tambem
-aquelle santo d'aldeia, que fÙra decerto em vida um caturra encantador,
-cheio d'illusıes e doÁura... Mas de resto, acrescentou, n„o teria sido
-n'um dia assim, fino e secco, sob um grande cÈo cheio de sol, que se
-feriu a batalha das Thermopylas? Porque n„o se atiraria uma girandola de
-foguetes em honra de Leonidas e dos trezentos? E atirou-se a girandola
-pela eterna gloria de Sparta.
-
-Depois celebraram-se outras datas historicas. O anniversario da
-descoberta da Venus de Milo foi commemorado com um bal„o que ardeu.
-N'outra occasi„o o marquez trouxe de Lisboa, apinhados n'uma tipoia,
-fadistas famosos, o _Pintado_, o _Vira-vira_ e o _Gago_: e depois de
-jantar, atÈ tarde, com o luar sobre o rio, cinco guitarras choraram os
-ais mais tristes dos fados de Portugal.
-
-Quando estavam sÛs, Carlos e Maria passavam as suas manh„s no kiosque
-japonez--affeiÁoados ·quelle primeiro retiro dos seus amores, pequeno e
-apertado, onde os seus coraÁıes batiam mais perto um do outro. Em logar
-das esteiras de palha Carlos revestira-o com as suas formosas colchas da
-India, cÙr de palha e cÙr de perola. Um dos maiores cuidados d'elle,
-agora, era embellezar a _Toca_: nunca voltava de Lisboa sem trazer
-alguma figurinha de Saxe, um marfim, uma faianÁa, como noivo feliz que
-aperfeiÁÙa o seu ninho.
-
-Maria no emtanto n„o cessava de lembrar os planos intellectuaes do Ega:
-queria que elle trabalhasse, ganhasse um nome: seria isso o orgulho
-intimo d'ella, e sobretudo a alegria suprema do avÙ. Para a contentar
-(mais que para satisfazer as suas necessidades de espirito) Carlos
-recomeÁ·ra a compÙr alguns dos seus artigos de medicina litteraria para
-a _Gazeta Medica_. Trabalhava no kiosque, de manh„. Trouxera para l·
-rascunhos, livros, o seu famoso manuscripto da _Medicina antiga e
-moderna_. E por fim ach·ra um grande encanto em estar alli, com um leve
-casaco de sÍda, as suas cigarettes ao lado, um fresco murmurio de
-arvoredo em redor--cinzelando as suas phrases, emquanto ella ao lado
-bordava silenciosa. As suas idÈas surgiam com mais originalidade, a sua
-fÛrma ganhava em colorido, n'aquelle estreito kiosque assetinado que
-ella perfumava com a sua presenÁa. Maria respeitava este trabalho como
-coisa nobre e sagrada. De manh„, ella mesma espanejava os livros do leve
-pÛ que a aragem soprava pela janella; dispunha o papel branco, punha
-cuidadosamente pennas novas; e andava bordando uma almofada de pennas e
-setim para que o trabalhador estivesse mais confortavel na sua vasta
-cadeira de couro lavrado.
-
-Um dia offerecera-se a passar a limpo um artigo. Carlos, enthusiasmado
-com a letra d'ella, quasi comparavel · lendaria letra do Damaso,
-occupava-a agora incessantemente como copista, sentindo mais amor por um
-trabalho a que ella se associava. Quantos cuidados se dava a dÙce
-creatura! Tinha para isso um papel especial, d'um tom macio de marfim:
-e, com o dedinho no ar, ia desenrolando as pesadas consideraÁıes de
-Carlos sobre o Vitalismo e o Transformismo na graÁa delicada d'uma
-renda... Um beijo pagava-a de tudo.
-
-¡s vezes Carlos dava liÁıes a Rosa--ora de historia, contando-lh'a
-familiarmente como um conto de fadas; ora de geographia, interessando-a
-pelas terras onde vivem gentes negras, e pelos velhos rios que correm
-entre as ruinas dos santuarios. Isto era o prazer mais alto de Maria.
-SÈria, muda, cheia de religi„o, escutava aquelle sÍr bem-amado ensinando
-sua filha. Deixava escapar das m„os o trabalho--e o interesse de Carlos,
-a enlevada attenÁ„o de Rosa sentada aos pÈs d'elle, bebendo aquellas
-bellas historias de Joanna d'Arc ou das caravellas que foram · India,
-fazia resplandecer nos seus olhos uma nevoa de lagrimas felizes...
-
-
-
-Desde o meado d'outubro Affonso da Maia fallava da sua partida de Santa
-Olavia, retardada apenas por algumas obras que comeÁ·ra na parte velha
-da casa e nas cocheiras: porque ultimamente invadira-o a paix„o de
-edificar--sentindo-se remoÁar, como elle dizia, no contacto das madeiras
-novas e no cheiro vivo das tintas. Carlos e Maria pensavam tambem em
-abandonar os Olivaes. Carlos n„o poderia por dever domestico permanecer
-alli installado desde que o avÙ recolhesse ao Ramalhete. AlÈm d'isso
-aquelle fim d'outono ia escuro e agreste; e a _Toca_ era agora pouco
-bucolica, com a quinta desfolhada e alagada, uma nevoa sobre o rio, e um
-fog„o unico no gabinete de cretones--alÈm da sumptuosa chaminÈ da sala
-de jantar, que, por entre os seus Nubios d'olhos de crystal, soltava uma
-fumaraÁa odiosa quando o Domingos a tentava accender.
-
-N'uma d'essas manh„s, Carlos, que fic·ra atÈ tarde com Maria, e depois
-no seu delgado casebre mal pudera dormir com um temporal de vento e agua
-desencadeado de madrugada--ergueu-se ·s nove horas, veio · _Toca_. As
-janellas do quarto de Maria conservavam-se ainda cerradas; a manh„
-clare·ra; a quinta lavada, meio despida, no ar fino e azul, tinha uma
-linda e silenciosa graÁa d'inverno. Carlos passeava, olhando os vasos
-onde os chrysanthemos floriam, quando retiniu a sineta do port„o. Era o
-toque do carteiro. Justamente elle escrevera dias antes ao Cruges,
-perguntando se estaria desoccupado para os primeiros frios de dezembro o
-andar da rua de S. Francisco: e, esperando carta do maestro, foi abrir,
-acompanhado por _Niniche_. Mas o correio, n'essa manh„, consistia apenas
-n'uma carta do Ega e dois numeros de jornal cintados--um para elle,
-outro para ´Madame Castro Gomes, na quinta do snr. Craft, aos Olivaesª.
-
-Caminhando sob as acacias, Carlos abriu a carta do Ega. Era da vespera,
-com a data ´· noite, · pressaª. E dizia: ´--LÍ, n'esse trapo que te
-mando, esse superior pedaÁo de prosa que lembra Tacito. Mas n„o te
-assustes; eu supprimi, mediante pecunia, toda a tiragem, com excepÁ„o de
-dois numeros mais que foram, um para a _Toca_, outro (oh logica suprema
-dos habitos constitucionaes!) para o PaÁo, para o chefe do Estado!...
-Mas esse mesmo n„o chegar· ao seu destino. Em todo o caso desconfio de
-que esgÙto sahiu esse enxurro e precisamos providenciar! Vem j·!
-Espero-te atÈ ·s duas. E, como Iago dizia a Cassio--_mette dinheiro na
-bolsa_.ª
-
-Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se a _Corneta do Diabo_: e
-na impress„o, no papel, na abundancia dos _italicos_, no typo gasto,
-todo elle revelava immundicie e malandrice. Logo na primeira pagina duas
-cruzes a lapis marcavam um artigo que Carlos, n'um relance, viu
-salpicado com o seu nome. E leu isto: ´--Ora viva, _sÙ_ Maia! Ent„o j·
-se n„o vai ao consultorio, nem se vÍem os doentes do bairro, _sÙ_
-janota?--Esta piada era botada no Chiado, · porta da Havaneza, ao Maia,
-ao Maia dos cavallos inglezes, um tal Maia do Ramalhete, que abarrota
-por ahi de _catita_; e o pai Paulino _que tem olho_ e que passava n'essa
-occasi„o ouviu a seguinte _cornetada_:--… que o _sÙ_ Maia acha _que È
-mais quente_ viver nas fraldas d'uma _brazileira casada_, que nem È
-brazileira nem È casada, e a quem o papalvo poz casa, ahi para o lado
-dos Olivaes, para _estar ao fresco_! Sempre os ha n'este mundo!... Pensa
-o homem que botou conquista; e c· a rapaziada de gosto ri-se, porque o
-que a gaja lhe quer n„o s„o os lindos olhos, s„o as lindas _louras_... O
-simplorio, que bate ahi pilecas _bifes_, que nem que fosse o _marquez_,
-o verdadeiro Marquez, imaginava que se estava abiscoitando com uma
-senhora do _chic_, e do boulevard de Paris, e casada, e titular!... E no
-fim (n„o, esta È para a gente deixar estoirar o bandulho a rir!) no fim
-descobre-se que a typa era uma _cocotte_ safada, que trouxe para ahi um
-brazileiro _j· farto d'ella_ para a passar c· aos bellos lusitanos... E
-cahiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! Ainda assim o _sÙ_ Maia sÛ
-apanhou os restos d'outro, porque a _typa_, j· antes d'elle se enfeitar,
-tinha _pandegado · larga_, ahi para a rua de S. Francisco, com um rapaz
-da fina, que se safou tambem, porque c· como nÛs sÛ _aprecia a bella
-hespanhola_. Mas n„o obsta a que o _sÙ_ Maia seja traste!--Pois se assim
-È, dissemos nÛs, cautelinha, porque o diabo c· tem a sua _Corneta_
-preparada para cornetear por esse mundo as faÁanhas do _Maia das
-conquistas_. Ora viva, _sÙ_ Maia!ª
-
-Carlos ficou immovel entre as acacias, com o jornal na m„o, no espanto
-furioso e mudo d'um homem que subitamente recebe na face uma grossa
-chapada de lÙdo! N„o era a cÛlera de vÍr o seu amor assim aviltado na
-publicidade chula d'um jornal sordido: era o horror de sentir aquellas
-phrases em cal„o, pandilhas, afadistadas, como sÛ Lisboa as pÛde crear,
-pingando fetidamente, · maneira de sebo, sobre si, sobre Maria, sobre o
-esplendor da sua paix„o... Sentia-se todo emporcalhado. E uma unica idÈa
-surgia atravÈs da sua confus„o--matar o bruto que escrevera aquillo.
-
-Matal-o! Ega sust·ra a tiragem da folha, Ega pois conhecia o
-folliculario. Nada importava que aquelles numeros, que tinha na m„o,
-fossem os unicos impressos. Recebera lama na face. Que a injuria fosse
-espalhada nas praÁas n'uma profusa publicidade ou lhe fosse atirada sÛ a
-elle escondidamente n'um papel unico, era igual... Quem tanto ous·ra
-tinha de cahir, esmagado!
-
-Decidiu ir logo ao Ramalhete. O Domingos · janella da cozinha areava
-pratas, assobiando. Mas quando Carlos lhe fallou de ir buscar um
-calhambeque aos Olivaes, o bom Domingos consultou o relogio:
-
---V. exc.^a tem ·s onze horas a caleche do _Torto_ que a senhora mandou
-c· estar para ir a Lisboa...
-
-Carlos, com effeito, recordou-se que Maria na vespera plane·ra ir ·
-Aline e aos livreiros. Uma contrariedade, justamente n'esse dia em que
-elle precisava ficar livre--elle e a sua bengala! Mas Melanie, passando
-ent„o com um jarro d'agua quente, disse que a senhora ainda se n„o
-vestira, que talvez nem fosse a Lisboa... E Carlos recomeÁou a passear,
-no tapete de relva, entre as nogueiras.
-
-Sentou-se por fim no banco de cortiÁa, descintou a _Corneta_
-sobrescriptada para Maria, releu lentamente a prosa immunda: e, n'esse
-numero que lhe fÙra destinado a ella, todo aquelle cal„o lhe pareceu
-mais ultrajante, intoleravel, punivel sÛ com sangue. Era monstruoso, na
-verdade, que sobre uma mulher, quieta, innoffensiva no silencio da sua
-casa, alguem ousasse t„o brutalmente arremessar esse lÙdo ·s m„os
-cheias! E a sua indignaÁ„o alargava-se do folliculario que bab·ra
-aquillo--atÈ · sociedade que, na sua decomposiÁ„o, produzira o
-folliculario. Decerto toda a cidade soffria a sua vermina... Mas sÛ
-Lisboa, sÛ a horrivel Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu
-rebaixamento social, a perda inteira do bom-senso, o desvio profundo do
-bom gosto, a sua pulhice e o seu cal„o, podia produzir uma _Corneta do
-Diabo_.
-
-E, no meio d'esta alta cÛlera de moralista, uma dÙr perpassava, precisa
-e dilacerante. Sim, toda a sociedade de Lisboa fazia um monturo sordido
-n'este canto do mundo--mas, em summa, havia no artigo da _Corneta_ uma
-calumnia? N„o. Era o passado de Maria, que ella arranc·ra de si como um
-vestido rÙto e sujo, que elle mesmo enterr·ra muito fundo, deitando-lhe
-por cima o seu amor e o seu nome--e que alguem desenterrava para o
-mostrar bem alto ao sol, com as suas manchas e os seus rasgıes... E isto
-agora ameaÁava para sempre a sua vida como um terror sobre ella
-suspenso. Debalde elle perdo·ra, debalde elle esquecera. O mundo em
-redor sabia. E a todo o tempo o interesse ou a perversidade poderiam
-refazer o artigo da _Corneta_.
-
-Ergueu-se, abalado. E ent„o alli, sob essas arvores desfolhadas, onde
-durante o ver„o, quando ellas se enchiam de sombra e de murmurio, elle
-passe·ra com Maria, esposa eleita da sua vida--Carlos perguntou pela vez
-primeira a si mesmo se a honra domestica, a honra social, a pureza dos
-homens de quem descendia, a dignidade dos homens que d'elle descendessem
-lhe permittiam em verdade casar com ella...
-
-Dedicar-lhe toda a sua affeiÁ„o, toda a sua fortuna, certamente! Mas
-casar... E se tivesse um filho? O seu filho, j· homem, altivo e puro,
-poderia um dia lÍr n'uma _Corneta do Diabo_ que sua m„i fÙra amante d'um
-brazileiro, depois de ser amante d'um irlandez. E se seu filho lhe
-viesse gritar, n'uma bella indignaÁ„o, ´È uma calumnia?ª--elle teria de
-baixar a cabeÁa, murmurar--´È uma verdade!ª E seu filho veria para
-sempre collada a si aquella m„i de quem o mundo ignorava os martyrios e
-os encantos--mas de quem conhecia cruelmente os erros.
-
-E ella mesma! Se elle appellasse para a sua raz„o, alta e t„o recta,
-mostrando-lhe as zombarias e as affrontas de que uma vil _Corneta do
-Diabo_ poderia um dia trespassar o filho que d'elles nascesse--ella
-mesma o desligaria alegremente do seu voto, contente em entrar no
-Ramalhete pela escadinha secreta forrada de velludo cÙr de cereja,
-comtanto que em cima a esperasse um amor constante e forte... Nunca ella
-torn·ra, em todo o ver„o, a alludir a uma uni„o differente d'essa em que
-os seus coraÁıes viviam t„o lealmente, t„o confortavelmente. N„o, Maria
-n„o era uma devota, preoccupada ´do peccado mortalª! Que lhe podia
-importar a estola banal do padre?...
-
-Sim; mas elle que lhe pedira essa consagraÁ„o na hora mais commovida do
-seu longo amor, iria dizer-lhe agora--´foi uma criancice, n„o pensemos
-mais n'isso, desculpa?ª N„o; nem o seu coraÁ„o o desejava! Antes pendia
-todo para ella... Pendia todo para ella, n'um enternecimento mais
-generoso e mais quente--emquanto a sua raz„o assim arengava, cautelosa e
-austera. Elle tinha n'aquella alma o seu culto perfeito, n'aquelles
-braÁos a sua voluptuosidade magnifica; fÛra d'alli n„o havia felicidade;
-a unica sabedoria era prender-se a ella pelo derradeiro elo, o mais
-forte, o seu nome, embora as _Cornetas do Diabo_ atroassem todo o ar. E
-assim affrontaria o mundo n'uma soberba revolta, affirmando a
-omnipotencia, o reino unico da Paix„o... Mas primeiro mataria o
-folliculario!--Passeava, esmagava a relva. E todos os seus pensamentos
-se resolviam por fim em furia contra o infame que bab·ra sobre o seu
-amor, e durante um instante introduzia na sua vida tanta incerteza e
-tanto tormento!
-
-Maria ao lado abriu a janella. Estava vestida d'escuro para sahir; e
-bastou o brilho terno do seu sorriso, aquelles hombros a que o estofo
-justo modelava a belleza cheia e quente--para que Carlos detestasse logo
-as duvidas desleaes e covardes, a que se abandon·ra um momento sob as
-arvores desfolhadas... Correu para ella. O beijo que lhe deu, lento e
-mudo, teve a humildade d'um perd„o que se implora.
-
---Que tens tu, que est·s t„o sÈrio?
-
-Elle sorriu. SÈrio, no sentido de solemne, n„o estava. Talvez seccado.
-Recebera uma carta do Ega, uma das eternas complicaÁıes do Ega. E
-precisava ir a Lisboa, ficar l· naturalmente toda a noite...
-
---Toda a noite? exclamou ella com um desapontamento, pousando-lhe as
-m„os sobre os hombros.
-
---Sim, È bem possivel, um horror! Nos negocios do Ega ha fatalmente o
-inesperado... Tu com effeito vaes a Lisboa?
-
---Agora, com mais raz„o... Se me queres.
-
---O dia est· bonito... Mas ha de fazer frio na estrada.
-
-Maria justamente gostava d'esses dias d'inverno, cheios de sol, com um
-arzinho vivo e arripiado. Tornavam-n'a mais leve, mais esperta.
-
---Bem, bem, disse Carlos atirando o cigarro. Vamos ao almoÁo, minha
-filha... O pobre Ega deve estar a uivar de impaciencia.
-
-Emquanto Maria correra a apressar o Domingos--Carlos, atravÈs da relva
-humida, foi ainda lentamente atÈ ao renque baixo d'arbustos que
-d'aquelle lado fechava a _Toca_ como uma sebe. Ahi a collina descia, com
-quintarolas, muros brancos, olivedos, uma grande chaminÈ de fabrica que
-fumegava: para alÈm era o azul fino e frio do rio: depois os montes,
-d'um azul mais carregado, com a casaria branca da povoaÁ„o aninhada ·
-beira da agua, nitida e suave na transparencia do ar macio. Parou um
-momento, olhando. E aquella aldeia de que nunca soubera o nome, t„o
-quieta e feliz na luz, deu a Carlos um desejo repentino de socego e de
-obscuridade, n'um canto assim do mundo, · beira d'agua, onde ninguem o
-conhecesse nem houvesse _Cornetas do Diabo_, e elle pudesse ter a paz
-d'um simples e d'um pobre debaixo de quatro telhas, no seio de quem
-amava...
-
-Maria gritou por elle da janella da sala de jantar, onde se debruÁ·ra a
-apanhar uma das ultimas rosas trepadeiras que ainda floriam.
-
---Que lindo tempo para viajar, Maria!--disse Carlos chegando, atravÈs da
-relva.
-
---Lisboa È tambem muito linda, agora, havendo sol...
-
---Pois sim, mas o Chiado, a coscovilhice, os politiquetes, as gazetas,
-todos os horrores... A mim est·-me positivamente a appetecer uma cubata
-na Africa!
-
-O almoÁo, por fim, foi demorado. Ia bater uma hora quando a caleche do
-_Torto_ comeÁou a rolar na estrada, ainda encharcada da chuva da noite.
-Logo adiante da villa, na descida, cruzaram um coupÈ que trepava n'um
-trote esfalfado. Maria julgou avistar n'elle de relance o chapÈo branco
-e o monoculo do Ega... Pararam. E era com effeito o Ega, que reconhecera
-tambem a caleche da _Toca_, vinha j· saltitando as lamas com longas
-pernadas de cegonha, chamando por Carlos.
-
-Ao vÍr Maria ficou atrapalhado:
-
---Que bella surpreza! Eu ia para l·... Vi o dia t„o bonito, disse
-commigo...
-
---Bem, paga a tua tipoia, vem comnosco! atalhou Carlos que trespassava o
-Ega, com os olhos inquietos, querendo adivinhar o motivo d'aquella
-brusca chegada aos Olivaes.
-
-Quando entrou para a caleche, tendo pago o batedor, Ega, embaraÁado, sem
-poder desabafar diante de Maria sobre o caso da _Corneta_, comeÁou, sob
-os olhos de Carlos que o n„o deixavam, a fallar do inverno, das
-inundaÁıes do Riba-Tejo... Maria lÍra. Uma desgraÁa, duas crianÁas
-afogadas nos berÁos, gados perdidos, uma grande miseria! Por fim Carlos
-n„o se conteve:
-
---Eu l· recebi a tua carta...
-
-Ega acudiu:
-
---Arranja-se tudo! Est· tudo combinado! E com effeito eu n„o vim sen„o
-por um sentimento bucolico...
-
-Muito discretamente Maria olh·ra para o rio. Ega fez ent„o um gesto
-rapido com os dedos significando ´dinheiro, sÛ quest„o de dinheiroª.
-Carlos socegou: e Ega voltou a fallar dos inundados do Riba-Tejo e do
-sarau litterario e artistico que em beneficio d'elles se ´ia commetterª
-no sal„o da Trindade... Era uma vasta solemnidade official. Tenores do
-parlamento, rouxinoes da litteratura, pianistas ornados com o habito de
-S. Thiago, todo o pessoal canoro e sentimental do constitucionalismo _ia
-entrar em fogo_. Os reis assistiam, j· se teciam grinaldas de camelias
-para pendurar na sala. Elle, apesar de demagogo, fÙra convidado para lÍr
-um episodio das _Memorias d'um Atomo_: recus·ra-se, por modestia, por
-n„o encontrar nas _Memorias_ nada t„o sufficientemente palerma que
-agradasse · capital. Mas lembr·ra o Cruges; e o _maestro_ ia ribombar ou
-arrulhar uma das suas _MeditaÁıes_. AlÈm d'isso havia uma poesia social
-pelo Alencar. Emfim, tudo prenunciava uma immensa orgia...
-
---E a snr.^a D. Maria, acrescentou elle, devia ir!... … summamente
-pittoresco. Tinha v. exc.^a occasi„o de vÍr todo o Portugal romantico e
-liberal, _‡ la besogne_, engravatado de branco, dando tudo que tem
-n'alma!
-
---Com effeito devias ir, disse Carlos, rindo. Demais a mais se o Cruges
-toca, se o Alencar recita, È uma festa nossa...
-
---Pois est· claro! gritou Ega, procurando o monoculo, j· excitado. Ha
-duas coisas que È necessario vÍr em Lisboa... Uma prociss„o do Senhor
-dos Passos e um sarau poetico!
-
-Rolavam ent„o pelo largo do Pelourinho. Carlos gritou ao cocheiro que
-parasse no comeÁo da rua do Alecrim: elles apeavam-se e tomavam de l· o
-americano para o Ramalhete.
-
-Mas a tipoia estacou antes da calÁada, rente ao passeio, em frente d'uma
-loja de alfaiate. E n'esse instante achava-se ahi parado, calÁando as
-suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas d'apostolo, todo
-vestido de luto. Ao vÍr Maria, que se inclin·ra · portinhola, o homem
-pareceu assombrado; depois, com uma leve cÙr na face larga e pallida,
-tirou gravemente o chapÈo, um immenso chapÈo de abas recurvas, · moda de
-1830, carregado de crepe.
-
---Quem È? perguntou Carlos.
-
---… o tio do Damaso, o Guimar„es, disse Maria, que cÛr·ra tambem. …
-curioso, elle aqui!
-
-Ah, sim! o famoso Mr. Guimar„es, o do _Rappel_, o intimo de Gambetta!
-Carlos recordava-se de ter j· encontrado aquelle patriarcha no Price com
-o Alencar. Comprimentou-o tambem; o outro ergueu de novo com uma
-gravidade maior o seu sombrio chapÈo de carbonario. Ega ental·ra
-vivamente o monoculo para examinar esse lendario tio do Damaso, que
-ajudava a governar a FranÁa: e depois de se despedirem de Maria, quando
-a caleche j· subia a rua do Alecrim e elles atravessavam para o Hotel
-Central, ainda se voltou seduzido por aquelles modos, aquellas barbas
-austeras de revolucionario...
-
---Bom typo! E que magnifico chapÈo, hein! D'onde diabo o conhece a
-snr.^a D. Maria?
-
---De Paris... Este Mr. Guimar„es era muito da m„i d'ella. A Maria j· me
-tinha fallado n'elle. … um pobre diabo. Nem amigo de Gambetta, nem coisa
-nenhuma... Traduz noticias dos jornaes hespanhoes para o _Rappel_, e
-morre de fome...
-
---Mas ent„o, o Damaso?
-
---O Damaso È um trapalh„o. Vamos nÛs ao nosso caso... Essa immundicie
-que me mandaste, a _Corneta_? Dize l·.
-
-Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a historia da immundicie. FÙra
-na vespera · tarde que recebera no Ramalhete a _Corneta_. Elle j·
-conhecia o papelucho, j· priv·ra mesmo com o proprietario e redactor--o
-Palma, chamado Palma _Cavall„o_ para se distinguir d'outro benemerito
-chamado Palma _Cavallinho_. Comprehendeu logo que se a prosa era do
-Palma a inspiraÁ„o era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de
-Maria, nem da casa da rua de S. Francisco, nem da _Toca_... N„o era
-natural que escrevesse por deleite intellectual um documento que sÛ lhe
-podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois, fÙra-lhe
-simplesmente encommendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre
-quem tem mais dinheiro. Por este solido principio correra a procurar o
-Palma _Cavall„o_ no seu antro.
-
---Tambem lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror.
-
---Tanto n„o... Fui perguntar · secretaria da JustiÁa a um sujeito que
-esteve associado com elle n'um negocio de _Almanachs religiosos_...
-
-FÙra pois ao antro. E encontr·ra as coisas dispostas pelas m„os habeis
-d'uma Providencia amiga. Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis
-numeros, a machina, esfalfada na pratica d'aquellas maroteiras,
-desmanch·ra-se. AlÈm d'isso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro
-que lhe encommend·ra o artigo, por divergencia na seriissima quest„o de
-pecunia. De sorte que apenas elle propÙz comprar a tiragem do jornal--o
-jornalista estendeu logo a m„o larga, d'unhas roÌdas, tremendo de
-reconhecimento e de esperanÁa. Dera-lhe cinco libras que tinha, e a
-promessa de mais dez...
-
---… caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me atarantar, n„o
-regateei bastante... E emquanto a dizer quem È o cavalheiro que
-encommendou o artigo, o Palma, coitado, affirma que tem uma rapariga
-hespanhola a sustentar, que o senhorio lhe levantou o aluguer da casa,
-que Lisboa est· carissima, que a litteratura n'este desgraÁado paiz...
-
---Quanto quer elle?
-
---Cem mil reis. Mas, ameaÁando-o com a policia, talvez desÁa a quarenta.
-
---Promette os cem, promette tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem
-te parece que seja?
-
-Ega encolheu os hombros, deu um risco lento no ch„o com a bengala. E
-mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da _Corneta_
-devia ser alguem familiar com Castro Gomes; alguem frequentador da rua
-de S. Francisco; alguem conhecedor da _Toca_; alguem que tinha, por
-ciume ou vinganÁa, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguem que sabia
-a historia de Maria; e emfim alguem que era um covarde...
-
---Est·s a descrever o Damaso! exclamou Carlos, pallido e parando.
-
-Ega encolheu de novo os hombros, tornou a riscar o ch„o:
-
---Talvez n„o... Quem sabe! Emfim, nÛs vamos averigual-o com certeza,
-porque, para terminar a negociaÁ„o, fiquei de me ir encontrar com o
-Palma ·s tres horas no _Lisbonense_... E o melhor È vires tambem. Trazes
-tu dinheiro?
-
---Se fÙr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos.
-
-E n„o trazia sufficiente dinheiro. Tomaram uma tipoia para correr ao
-escriptorio do VillaÁa. O procurador fÙra a Mafra, a um baptisado.
-Carlos teve de ir pedir cem mil reis ao velho Cortez, alfaiate do avÙ.
-Quando perto das quatro horas se apearam · entrada do _Lisbonense_, no
-largo de Santa Justa, o Palma no portal, com um jaquet„o de velludo
-coÁado e calÁa de casimira clara collada · cÙxa, accendia um cigarro.
-Estendeu logo rasgadamente a m„o a Carlos--que lhe n„o tocou. E Palma
-_Cavall„o_, sem se offender, com a m„o abandonada no ar, declarou que ia
-justamente sahir, canÁado j· de esperar em cima diante d'um _grog_ frio.
-De resto sentia que o snr. Maia se incommodasse em vir alli...
-
---Eu arranjava c· o negociosinho com o amigo Ega... Em todo o caso, se
-os senhores querem, vamos l· p'ra cima para um gabinete, que se est·
-mais · vontade, e toma-se outra bebida.
-
-Subindo a escada lobrega, Carlos recordava-se de ter j· visto aquella
-luneta de vidros grossos, aquella cara balofa cÙr de cidra... Sim, fÙra
-em Cintra, com o Eusebiosinho e duas hespanholas, n'esse dia em que elle
-farej·ra pelas estradas silenciosas, como um c„o abandonado, procurando
-Maria!... Isto tornou-lhe mais odioso o snr. Palma. Em cima entraram
-n'um cubiculo, com uma janella gradeada por onde resvalava uma luz suja
-de sagu„o. Na toalha da mesa, salpicada de gordura e vinho, alguns
-pratos rodeavam um galheteiro que tinha moscas no azeite. O snr. Palma
-bateu as palmas, mandou vir genebra. Depois dando um grande pux„o ·s
-calÁas:
-
---Pois eu espero que me acho aqui entre cavalheiros. Como eu j· disse c·
-ao amigo Ega, em todo este negocio...
-
-Carlos atalhou-o, tocando muito significativamente com a ponteira da
-bengala na borda da mesa.
-
---Vamos ao ponto essencial... Quanto quer o snr. Palma por me dizer quem
-lhe encommendou o artigo da _Corneta_?
-
---Dizer quem o encommendou, e proval-o! acudiu o Ega, que examinava na
-parede uma gravura onde havia mulheres n˙as · beira d'agua. N„o nos
-basta o nome... O amigo Palma, est· claro, È de toda a confianÁa... Mas
-emfim, que diabo, n„o È natural que nÛs acreditassemos se o amigo nos
-dissesse que tinha sido o snr. D. Luiz de BraganÁa!
-
-Palma encolheu os hombros. Est· visto que havia de dar provas. Elle
-podia ter outros defeitos, trapalh„o n„o! Em negocios era todo franqueza
-e lisura... E, se se entendessem, alli as entregava logo, essas provas
-que lhe estavam enchendo o bolsinho, pimponas e d'escachar! Tinha a
-carta do amigo que lhe encommend·ra a piada: a lista das pessoas a quem
-se devia mandar a _Corneta_: o rascunho do artigo a lapis...
-
---Quer cem mil reis por tudo isso? perguntou Carlos.
-
-O Palma ficou um momento indeciso, ageitando as lunetas com os dedos
-molles. Mas o criado veio trazer a garrafa da genebra: e ent„o o
-redactor da _Corneta_ offereceu a ´bebidaª rasgadamente, puxou mesmo
-cadeiras para aquelles cavalheiros abancarem. Ambos recusaram--Carlos de
-pÈ junto da mesa onde termin·ra por pousar a bengala, Ega passando a
-outra gravura onde dois frades se emborrachavam. Depois, quando o criado
-sahiu, Ega acercou-se, tocou com bonhomia no hombro do jornalista:
-
---Cem mil reis s„o uma linda somma, Palma amigo! E olhe que se lhe
-offerecem por delicadeza comsigo. Porque artiguinhos como este da
-_Corneta_, apresentados na Boa-Hora, levam · grilheta!... Est· claro,
-este caso È outro, vossÍ n„o teve intenÁ„o d'offender; mas levam ·
-grilheta!... Foi assim que o Severino marchou para a Africa. Alli no
-por„osinho d'um navio, com raÁ„o de marujo e chibatadas. Desagradavel,
-muito desagradavel. Por isso eu quiz que tratassemos isto aqui, entre
-cavalheiros, e em amizade.
-
-Palma, com a cabeÁa baixa, desfazia torrıes de assucar dentro do copo de
-genebra. E suspirou, findou por dizer, um pouco murcho, que era por ser
-entre cavalheiros, e com amizade, que aceitava os cem mil reis...
-
-Immediatamente Carlos tirou da algibeira das calÁas um punhado de
-libras, que comeÁou a deixar cahir em silencio uma a uma dentro d'um
-prato. E Palma _Cavall„o_, agitado com o tinir do ouro, desabotoou logo
-o jaquet„o, sacou uma carteira onde reluzia um pesado monogramma de
-prata sob uma enorme corÙa de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim
-desdobrou, estendeu tres papeis sobre a mesa. Ega, que esperava, com o
-monoculo sÙfrego, teve um brado de triumpho. Reconhecera a letra do
-Damaso!
-
-Carlos examinou os papeis lentamente. Era uma carta do Damaso ao Palma,
-curta e em cal„o, remettendo o artigo, recommendando-lhe ´que o
-apimentasseª. Era o rascunho do artigo, laboriosamente trabalhado pelo
-Damaso, com entrelinhas. Era a lista, escripta pelo Damaso, das pessoas
-que deviam receber a _Corneta_: vinha l· a Gouvarinho, o ministro do
-Brazil, D. Maria da Cunha, El-Rei, todos os amigos do Ramalhete, o
-Cohen, varias authoridades, e a Fancelli prima-donna...
-
-Palma no emtanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao
-prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de
-relancear os olhos aos documentos por cima do hombro de Carlos:
-
---Recolha o bago, amigo Palma! Negocios s„o negocios, e o baguinho est·
-ahi a arrefecer!
-
-Ent„o, ao palpar o ouro, Palma _Cavall„o_ commoveu-se. Palavra, caramba,
-se soubesse que se tratava d'um cavalheiro como o snr. Maia n„o tinha
-aceitado o artigo! Mas ent„o!... FÙra o Eusebio Silveira, rapaz amigo,
-que lhe viera fallar. Depois o Salcede. E ambos com muitas lÈrias, e que
-era uma brincadeira, e que o Maia n„o se importava, e isto e aquillo, e
-muita promessa... Emfim deix·ra-se tentar. E tanto o Salcede como o
-Silveira se tinham portado pulhamente.
-
---Foi uma sorte que se escangalhasse a machina! Sen„o estava agora
-entalado, irra! E tinha desgosto, palavra, caramba, tinha desgosto! Mas
-acabou-se! O mal n„o foi grande, e sempre se fez alguma coisa pela porca
-da vida.
-
-Vivamente, com um olhar, recont·ra o dinheiro na palma da m„o: depois
-esvaziou a genebra, d'um trago consolado e ruidoso. Carlos guard·ra as
-cartas do Damaso, levantava j· o fecho da porta. Mas voltou-se ainda,
-n'uma derradeira averiguaÁ„o:
-
---Ent„o esse meu amigo Eusebio Silveira tambem se metteu no negocio?...
-
-O snr. Palma, muito lealmente, afianÁou que o Eusebio lhe fall·ra apenas
-em nome do Damaso!
-
---O Eusebio, coitado, veio sÛ como embaixador... Que o Damaso e eu n„o
-vamos muito na mesma bola. Fic·mos exquisitos, desde uma pÈga em casa da
-Biscainha. Aqui p'ra nÛs, eu prometti-lhe dois estalos na cara, e elle
-embuchou. Passados tempos torn·mos a fallar, quando eu fazia o
-_High-life_ na _Verdade_. Elle veio-me pedir com bons modos, em nome do
-conde de Landim, para eu dar umas piadas catitas sobre um baile
-d'annos... Depois, quando o Damaso fez tambem annos, eu dei outra
-piadita. Elle pagou a ceia, fic·mos mais calhados... Mas È traste... E
-l· o Eusebiosinho, coitado, veio sÛ d'embaixador.
-
-Sem uma palavra, sem um aceno ao Palma, Carlos virou as costas, deixou o
-cubiculo. O redactor da _Corneta_ ainda baixou a cabeÁa para a porta;
-depois, sem se offender, voltou alegremente · genebra, dando outro pux„o
-·s calÁas. Ega no emtanto accendia devagar o charuto.
-
---VossÍ agora È que redige o jornal todo, Palma?
-
---O Silvestre, tambem...
-
---Que Silvestre?
-
---O que est· com a _Pingada_. VossÍ n„o conhece, creio eu. Um rapazola
-magro, que n„o È feio... Semsabor„o, escreve uma palhada... Mas sabe
-coisas da sociedade. Esteve um tempo com a viscondessa de Cabellas, que
-elle chama a sua _cabelluda_... Que o Silvestre ·s vezes tem graÁa! E
-sabe, sabe coisas da sociedade, assim maroteiras de fidalgos, amigaÁıes,
-pulhices... VossÍ nunca leu nada d'elle? ChÙcho. Tenho sempre de lhe
-arranjar o estylo... N'este numero È que havia um folhetimzito meu,
-catita, c· · moderna, como eu gÛsto, alli com a piadinha realista a
-bater... Emfim fica para outra vez. E outra coisa, Ega, olhe que lhe
-agradeÁo. Quando quizer, eu e a _Corneta_ ·s ordens!
-
-Ega estendeu-lhe a m„o:
-
---Obrigado, digno Palma! E _adiÛs_!
-
---Pues vaya usted con Dios, Don Juanito! exclamou logo o benemerito
-homem com infinito _salero_.
-
-Em baixo Carlos esperava, dentro do coupÈ.
-
---E agora? perguntou Ega, · portinhola.
-
---Agora salta para dentro e vamos liquidar com o Damaso...
-
-Carlos j· esboÁ·ra summariamente o plano d'essa liquidaÁ„o. Queria
-mandar desafiar o Damaso como author comprovado d'um artigo de jornal
-que o injuriava. O duello devia ser · espada ou ao florete, um d'esses
-ferros cujo lampejo, na sala d'armas do Ramalhete, fazia empallidecer o
-Damaso. Se contra toda a verosimilhanÁa elle se batesse, Carlos
-fazia-lhe algures, entre a bochecha e o ventre, um furo que o cravasse
-mezes na cama. Sen„o a unica explicaÁ„o que Carlos aceitaria do snr.
-Salcede seria um documento em que elle escrevesse esta coisa simples:
-´Eu abaixo assignado declaro que sou um infame.ª E para estes serviÁos
-Carlos contava com o Ega.
-
---AgradeÁo! agradeÁo! Vamos a isso! exclamava o Ega esfregando as m„os,
-faiscando de jubilo.
-
-No emtanto, dizia elle, a etiqueta funebre reclamava outro padrinho; e
-lembrou o Cruges, moÁo passivo e malleavel. Mas era impossivel encontrar
-o _maestro_, porque invariavelmente a criada affirmava que o menino
-Victorino n„o estava em casa... Decidiram ir ao Gremio, mandar de l· um
-bilhete chamando o Cruges--´para um caso urgente d'amizade e d'arteª.
-
---Com quÍ, dizia o Ega continuando a esfregar as m„os emquanto a tipoia
-trotava para a rua de S. Francisco, com quÍ, demolir o nosso Damaso?
-
---Sim, È necessario acabar com esta perseguiÁ„o. Chega a ser ridiculo...
-E com uma estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por
-algum tempo. Eu preferia a estocada. Sen„o deixo-te a ti arranjar os
-termos d'uma carta forte...
-
---Has de ter uma boa carta! disse o Ega com um sorriso de ferocidade.
-
-No Gremio, depois de redigirem o bilhete ao Cruges, vieram esperar por
-elle na sala das _IllustraÁıes_. O conde de Gouvarinho e Steinbroken
-conversavam de pÈ, no v„o d'uma janella. E foi uma surpreza. O ministro
-da Filandia abriu os braÁos para o _cher Maia_, que elle n„o vira desde
-a partida d'Affonso para Santa Olavia. Gouvarinho acolheu o Ega
-risonhamente, reatando uma certa camaradagem que entre elles se form·ra
-n'esse ver„o, em Cintra: mas o aperto de m„o a Carlos foi sÍcco e curto.
-J· dias antes, tendo-se encontrado no Loreto, o Gouvarinho murmur·ra de
-leve e de passagem ´um como est·, Maia?ª em que se sentia arrefecimento.
-Ah! j· n„o eram essas effusıes, essas palmadas enternecidas pelos
-hombros, dos tempos em que Carlos e a condessa fumavam cigarettes na
-cama da titi em Santa Isabel. Agora que Carlos abandon·ra a snr.^a
-condessa de Gouvarinho, a rua de S. MarÁal e o commodo sof· em que ella
-cahia com um rumor de saias amarrotadas--o marido amuava, como
-abandonado tambem.
-
---Tenho tido saudade das nossas bellas discussıes em Cintra! disse elle,
-dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outr'ora pertencia ao
-Maia. Tivemol-as de primeira ordem!
-
-Eram realmente ´pÈgas tremendasª no pateo do Victor sobre litteratura,
-sobre religi„o, sobre moral... Uma noite mesmo tinham-se zangado por
-causa da divindade de Jesus.
-
---… verdade! acudiu o Ega. VossÍ n'essa noite parecia ter ·s costas uma
-opa de irm„o do Senhor dos Passos!
-
-O conde sorriu. Irm„o do Senhor dos Passos n„o, graÁas a Deus! Ninguem
-melhor do que elle sabia que n'esses sublimes episodios do Evangelho
-reinava bastante lenda... Mas emfim eram lendas que serviam para
-consolar a alma humana. … o que elle object·ra n'essa noite ao amigo
-Ega... Sentiam-se a philosophia e o racionalismo capazes de consolar a
-m„i que chora? N„o. Ent„o...
-
---Em todo o caso, tivemol-as brilhantes! concluiu elle olhando o
-relogio. E, eu confesso, uma discuss„o elevada sobre religi„o, sobre
-metaphysica, encanta-me... Se a politica me deixasse vagares dedicava-me
-· philosophia... Nasci para isso, para aprofundar problemas.
-
-Steinbroken no emtanto, esticado na sua sobrecasaca azul, com um raminho
-d'alecrim ao peito, tom·ra as m„os de Carlos:
-
---Mais vous Ítes encore devenu plus fort!... Et Affonso da Maia,
-toujours dans ses terres?... Est-ce qu'on ne va pas le voir un peu cet
-hiver?
-
-E immediatamente lamentou n„o ter visitado Santa Olavia. Mas quÍ! a
-familia real install·ra-se em Cintra; elle fÙra forÁado a acompanhal-a,
-fazer a sua cÙrte... Depois necessit·ra ir de fugida a Inglaterra d'onde
-acabava de chegar, havia dias.
-
-Sim, Carlos sabia, vira na _Gazeta Illustrada_...
-
---Vous avez lu Áa? Oh oui, on a ÈtÈ trËs aimable, trËs aimable pour moi
-‡ la _Gazette_...
-
-Tinham-lhe annunciado a partida, depois a chegada, com palavras de
-amizade particularmente bem escolhidas. Nem podia deixar de ser, dada
-esta affeiÁ„o sincera que liga Portugal e a Filandia... ´Mais enfin on
-avait ÈtÈ charmant, charmant!...ª
-
---Seulement--ajuntou elle, sorrindo com finura e voltando-se tambem para
-o Gouvarinho--on a fait une petite erreur... On a dit que j'Ètais venu
-de Southampton par le _Royal Mail_... Ce n'est pas vrai, non! Je me suis
-embarquÈ ‡ Bordeaux dans les _Messageries_. J'ai mÍme pensÈ ‡ Ècrire ‡
-Mr. Pinto, redacteur de la _Gazette_, qui est un charmant garÁon...
-Puis, j'ai reflechi, je me suis dit: ´Mon Dieu, on va croire que je veux
-donner une leÁon d'exactitude ‡ la _Gazette_, c'est trËs grave...ª
-Alors, voil‡, trËs prudemment, j'ai gardÈ le silence... Mais enfin c'est
-une erreur: je me suis embarquÈ ‡ Bordeaux.
-
-Ega murmurou que a Historia se encarregaria um dia de rectificar esse
-facto. O ministro sorria modestamente, fazendo um gesto em que parecia
-desejar, por polidez, que a Historia se n„o incommodasse. E ent„o o
-Gouvarinho, que accendÍra o charuto, espreit·ra outra vez o relogio,
-perguntou se os amigos tinham ouvido alguma coisa do ministerio e da
-crise.
-
-Foi uma surpreza para ambos, que n„o tinham lido os jornaes... Mas,
-exclamou logo o Ega, crise porquÍ, assim em pleno remanso, com as
-camaras fechadas, tudo contente, um t„o lindo tempo d'outono?
-
-O Gouvarinho encolheu os hombros com reserva. Houvera na vespera, ·
-noitinha, uma reuni„o de ministros; n'essa manh„ o presidente do
-conselho fÙra ao paÁo, fardado, determinado a ´largar o poderª... N„o
-sabia mais. N„o conferenci·ra com os seus amigos, nem mesmo fÙra ao seu
-Centro. Como n'outras occasiıes de crise, conserv·ra-se retirado,
-calado, esperando... Alli estivera toda a manh„, com o seu charuto, e a
-_Revista dos Dois Mundos_.
-
-Isto parecia a Carlos uma abstenÁ„o pouco patriotica...
-
---Porque emfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem...
-
---Exactamente por isso, acudiu o conde com uma cÙr viva na face, n„o
-desejo pÙr-me em evidencia... Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o
-ter... Se a minha experiencia, a minha palavra, o meu nome s„o
-necessarios, os meus correligionarios sabem onde eu estou, venham
-pedir-m'os...
-
-Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas
-coisas politicas, comeÁou logo a retrahir-se para o fundo da janella,
-limpando os vidros da luneta, recolhido, j· impenetravel, no grande
-recato neutral que competia · Filandia. Ega no emtanto n„o sahia do seu
-espanto. Mas porque cahia, porque cahia assim um governo com maioria nas
-camaras, socego no paiz, o apoio do exercito, a benÁ„o da Igreja, a
-protecÁ„o do _Comptoir d'Escompte_?...
-
-O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pera, e murmurou esta raz„o:
-
---O ministerio estava gasto.
-
---Como uma vela de sebo? exclamou Ega, rindo.
-
-O conde hesitou. Como uma vela de sebo n„o diria... Sebo subentendia
-obtusidade... Ora n'este ministerio sobrava o talento.
-Incontestavelmente havia l· talentos pujantes...
-
---Essa È outra! gritou Ega atirando os braÁos ao ar. … extraordinario!
-N'este abenÁoado paiz todos os politicos tÍm _immenso talento_. A
-opposiÁ„o confessa sempre que os ministros, que ella cobre d'injurias,
-tÍm, · parte os disparates que fazem, um _talento de primeira ordem_!
-Por outro lado a maioria admitte que a opposiÁ„o, a quem ella
-constantemente recrimina pelos disparates que fez, est· cheia de
-_robustissimos talentos_! De resto todo o mundo concorda que o paiz È
-uma choldra. E resulta portanto este facto supra-comico: um paiz
-governado _com immenso talento_, que È de todos na Europa, segundo o
-consenso unanime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a
-vÍr: que como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os
-imbecis!
-
-O conde sorria com bonhomia e superioridade a estes exageros de
-phantasista. E Carlos, ancioso por ser amavel, atalhou, accendendo o
-charuto no d'elle:
-
---Que pasta preferiria vocÍ, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A
-dos Estrangeiros, est· claro...
-
-O conde fez um largo gesto d'abnegaÁ„o. Era pouco natural que os seus
-amigos necessitassem da sua experiencia politica. Elle torn·ra-se
-sobretudo um homem d'estudo e de theoria. AlÈm d'isso n„o sabia bem se
-as occupaÁıes da sua casa, a sua saude, os seus habitos lhe permittiriam
-tomar o fardo do governo. Em todo o caso, decerto, a pasta dos
-Estrangeiros n„o o tentava...
-
---Essa, nunca! proseguiu elle, muito compenetrado. Para se poder fallar
-d'alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, È necessario ter por
-traz um exercito de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos.
-NÛs, infelizmente, somos fracos... E eu, para papeis subalternos, para
-que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me ´ha de ser assimª, n„o
-estou!... Pois n„o acha, Steinbroken?
-
-O ministro tossiu, balbuciou:
-
---Certainement... C'est trËs grave... C'est excessivement grave...
-
-Ega ent„o affirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interresse
-geographico pela Africa, faria um ministro da Marinha iniciador,
-original, rasgado...
-
-Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer.
-
---Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colonias todas as
-coisas bellas, todas as coisas grandes est„o feitas. Libertaram-se j· os
-escravos; deu-se-lhes j· uma sufficiente noÁ„o da moral christ„;
-organisaram-se j· os serviÁos aduaneiros... Emfim o melhor est· feito.
-Em todo o caso ha ainda detalhes interessantes a terminar... Por
-exemplo, em Loanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque
-mais de progresso a dar. Em Loanda precisava-se bem um theatro normal
-como elemento civilisador!
-
-N'esse momento um criado veio annunciar a Carlos--que o snr. Cruges
-estava em baixo, no portal, · espera. Immediatamente os dois amigos
-desceram.
-
---Extraordinario, este Gouvarinho! dizia o Ega na escada.
-
---E este, observou Carlos com um immenso desdem de mundano, È um dos
-melhores que ha na politica. Pensando mesmo bem, e mettendo a roupa
-branca em linha de conta, este È talvez o melhor!
-
-Acharam o Cruges · porta, de jaquet„o claro, embrulhando um cigarro. E
-Carlos pediu-lhe logo que voltasse a casa vestir uma sobrecasaca preta.
-O maestro arregalava os olhos.
-
---… jantar?
-
---… enterro.
-
-E rapidamente, sem alludir a Maria, contaram ao maestro que o Damaso
-public·ra n'um jornal, a _Corneta do Diabo_ (cuja tiragem elles tinham
-supprimido, n„o sendo possivel por isso mostrar o numero immundo) um
-artigo em que a coisa mais dÙce que se chamava a Carlos era _pulha_.
-Portanto Ega e elle Cruges iam a casa do Damaso pedir-lhe a honra ou a
-vida.
-
---Bem, rosnou o maestro. Que tenho eu a fazer?... Que eu d'essas coisas
-n„o entendo.
-
---Tens, explicou Ega, d'ir vestir uma sobrecasaca preta e franzir o
-sobr'olho. Depois vir commigo; n„o dizer nada; tratar o Damaso por ´v.
-exc.^aª; assentar em tudo o que eu propuzer; e nunca desfranzir o
-sobr'olho nem despir a sobrecasaca...
-
-Sem outra observaÁ„o, Cruges partiu a cobrir-se de ceremonia e de negro.
-Mas no meio da rua retrocedeu:
-
---” Carlos, olha que eu fallei l· em casa. Os quartos do primeiro andar
-est„o livres, e forrados de papel novo...
-
---Obrigado. Vai-te fazer sombrio, depressa!...
-
-O maestro abal·ra, quando diante do Gremio estacou a todo o trote uma
-caleche. De dentro saltou o Telles da Gama que, ainda com a m„o no fecho
-da portinhola, gritou aos dois amigos:
-
---O Gouvarinho? est· l· em cima?
-
---Est·... Novidade fresca?
-
---Os homens cahiram. Foi chamado o S· Nunes!
-
-E enfiou pelo pateo, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar atÈ ao
-port„o do Cruges. As janellas do primeiro andar estavam abertas, sem
-cortinas. Carlos, erguendo para l· os olhos, pensava n'essa tarde das
-corridas em que elle viera no phaeton, de Belem, para vÍr aquellas
-janellas: ia ent„o escurecendo, por traz dos _stores_ fechados surgira
-uma luz, elle contempl·ra-a como uma estrella inaccessivel... Como tudo
-passa!
-
-Retrocederam para o Gremio. Justamente o Gouvarinho e Telles atiravam-se
-· pressa para dentro da caleche que esper·ra. Ega parou, deixou cahir os
-braÁos:
-
---L· vae o Gouvarinho batendo para o Poder, a mandar representar a _Dama
-das Camelias_ no sert„o! Deus se amerceie de nÛs!
-
-Mas o Cruges appareceu emfim de chapÈo alto, entalado n'uma sobrecasaca
-solemne, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipoia
-estreita e dura. Carlos ia leval-os a casa do Damaso. E como queria
-ainda jantar nos Olivaes, esperaria por elles, para saber o resultado
-´do chinfrinª, no jardim da Estrella, junto ao coreto.
-
---SÍde rapidos e medonhos!
-
-
-
-A casa do Damaso, velha e d'um andar sÛ, tinha um enorme port„o verde,
-com um arame pendente que fez resoar dentro uma sineta triste de
-convento: e os dois amigos esperaram muito antes que apparecesse,
-arrastando as chinelas, o gallego achavascado que o Damaso (agora livre
-de Carlos e das suas pompas) j· n„o trazia torturado em botins crueis de
-verniz. A um canto do pateo uma portinha abria sobre a luz d'um quintal,
-que parecia ser um deposito de caixotes, de garrafas vazias e de lixo.
-
-O gallego, que reconhecera o snr. Ega, conduziu-os logo, por uma
-escadinha esteirada, a um corredor largo, escuro, com cheiro a mÙfo.
-Depois, batendo o chinelo, correu ao fundo, onde alvejava a claridade
-d'uma porta entreaberta. Quasi immediatamente Damaso gritou de l·:
-
---” Ega, È vocÍ? Entre para aqui, homem! Que diabo!... Eu estou-me a
-vestir...
-
-EmbaraÁado com estes brados de intimidade e tanta effus„o, Ega ergueu a
-voz da sombra do corredor, gravemente:
-
---N„o tem duvida, nÛs esperamos...
-
-O Damaso insistia, · porta, em mangas de camisa, cruzando os
-suspensorios:
-
---Venha vocÍ, homem! Que diabo, eu n„o tenho vergonha, j· estou de
-calÁas!
-
---Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar.
-
-A porta ao fundo cerrou-se, o gallego veio abrir a sala. O tapete era
-exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor
-abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de Carlos
-a cavallo, n'um vistoso caixilho de flÙres em faianÁa: uma das colchas
-da India das senhoras Medeiros, branca e verde, enroupando o piano,
-arranjada por Carlos com alfinetes: e sobre um contador hespanhol,
-debaixo de redoma, um sapatinho de setim de mulher, novo, que o Damaso
-compr·ra no Serra, por ter ouvido um dia a Carlos que ´em todo o quarto
-de rapaz deve apparecer, discretamente disposta, alguma reliquia
-d'amor...ª
-
-Sob estes retoques de _chic_, dados · pressa sob a influencia do Maia,
-impertigava-se a sÛlida mobilia do pai Salcede, de mogno e velludo azul;
-a console de marmore, com um relogio de bronze dourado, onde Diana
-acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no
-caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de
-convites para _soirÈes_. E Cruges ia examinar estes documentos, quando
-os passos alegres do Damaso soaram no corredor. O maestro correu logo a
-perfilar-se ao lado do Ega, diante do canapÈ de velludo, teso, commodo,
-com o seu chapÈo alto na m„o.
-
-Ao vÍl-o, o bom Damaso, que se aboto·ra todo n'uma sobrecasaca azul,
-florida por um bot„o de camelia, atirou risonhamente os braÁos ao ar:
-
---Ent„o esta È que È a pessoa de ceremonia? Sempre vocÍs tÍm coisas! E
-eu a pÙr sobrecasaca... Por pouco que n„o lhe afinfo com o habito de
-Christo!...
-
-Ega atalhou, muito sÈrio:
-
---O Cruges n„o È de ceremonia, mas o motivo que aqui nos traz È delicado
-e grave, Damaso.
-
-Damaso arregalou os olhos, reparando emfim n'aquelle estranho modo dos
-seus amigos, ambos de negro, seccos, t„o solemnes. E recuou, todo o
-sorriso se lhe apagou na face.
-
---Que diabo È isso? Sentem-se, sentem-se vocÍs...
-
-A voz apagava-se-lhe tambem. Pousado · borda d'uma poltrona baixa, junto
-d'uma mesa coberta d'encadernaÁıes ricas, com as m„os nos joelhos, ficou
-esperando, n'uma anciedade.
-
---NÛs vimos aqui, comeÁou Ega, em nome do nosso amigo Carlos da Maia...
-
-Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso atÈ ·
-risca do cabello encaracolado a ferro. E n„o achou uma palavra,
-attonito, suffocado, esfregando estupidamente os joelhos.
-
-Ega proseguiu, lento, direito no canapÈ:
-
---O nosso amigo Carlos da Maia queixa-se de que o Damaso publicou, ou
-fez publicar, um artigo extremamente injurioso para elle e para uma
-senhora das relaÁıes d'elle na _Corneta do Diabo_...
-
---Na _Corneta_, eu? acudiu o Damaso, balbuciando. Que _Corneta_? Nunca
-escrevi em jornaes, graÁas a Deus! Ora essa, a _Corneta_!...
-
-Ega, muito friamente, tirou do bolso um masso de papeis. E veio
-collocal-os um por um, ao lado do Damaso, na mesa, sobre um magnifico
-volume da _Biblia_ de DorÈ.
-
---Aqui est· a sua carta remettendo ao Palma Cavall„o o rascunho do
-artigo... Aqui est·, pela sua letra igualmente, a lista das pessoas a
-quem se devia mandar a _Corneta_, desde o Rei atÈ · Fancelli... AlÈm
-d'isso nÛs temos as declaraÁıes do Palma. O Damaso È n„o sÛ o
-inspirador, mas materialmente o auctor do artigo... O nosso amigo Carlos
-da Maia exige, pois, como injuriado, uma reparaÁ„o pelas armas...
-
-Damaso deu um salto da poltrona, t„o arrebatado--que involuntariamente
-Ega recuou, no receio d'uma brutalidade. Mas j· o Damaso estava no meio
-da sala, esgazeado, com os braÁos tremulos no ar:
-
---Ent„o o Carlos manda-me desafiar? A mim?... Que lhe fiz eu? Elle a mim
-È que me pregou uma partida!... Foi elle, vocÍs sabem perfeitamente que
-foi elle!...
-
-E desabafou, n'um prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmadas ao
-peito, com os olhos marejados de lagrimas. FÙra Carlos, Carlos, que o
-desfeiti·ra a elle, mortalmente! Durante todo o inverno tinha-o
-perseguido para que elle o apresentasse a uma senhora brazileira muito
-_chic_, que vivia em Paris, e que lhe fazia olho... E elle, bondoso como
-era, promettia, dizia: ´Deixa estar, eu te apresento!ª Pois, senhores,
-que faz Carlos? Aproveita uma occasi„o sagrada, um momento de luto,
-quando elle Damaso fÙra ao Norte por causa da morte do tio, e mette-se
-dentro da casa da brazileira... E tanto intriga, que leva a pobre
-senhora a fechar-lhe a sua porta, a elle, Damaso, que era intimo do
-marido, intimo de _tu_! Caramba, elle È que devia mandar desafiar
-Carlos! Mas n„o! fÙra prudente, evit·ra o escandalo por causa do snr.
-Affonso da Maia... Queix·ra-se de Carlos, È verdade... Mas no Gremio, na
-Casa Havaneza, entre rapaziada amiga... E no fim Carlos prÈga-lhe uma
-d'estas!
-
---Mandar-me desafiar, a mim! A mim, que todo o mundo conhece!...
-
-Calou-se, engasgado. E Ega, estendendo a m„o, observou placidamente que
-se desviavam do ponto vivo da quest„o. O Damaso concebera, rascunh·ra,
-pag·ra o artigo da _Corneta_. Isso n„o o negava, nem o podia negar: as
-provas estavam alli, abertas sobre a mesa: elles tinham alÈm d'isso a
-declaraÁ„o do Palma...
-
---Esse desavergonhado! gritou o Damaso, levado n'outra rajada
-d'indignaÁ„o que o fez redemoinhar, estonteado, tropeÁando nos moveis.
-Esse descarado do Palma! Com esse È que eu me quero vÍr!... L· a quest„o
-com o Carlos n„o vale nada, arranja-se, somos todos rapazes finos... Com
-o Palma È que È! Esse traidor È que eu quero rachar! Um homem a quem eu
-tenho dado ·s meias libras, aos sete mil reis! E ceias, e tipoias! Um
-ladr„o que pediu o relogio ao Zeferino para figurar n'um baptisado, e
-pÙl-o no prÈgo!... E faz-me uma d'estas!... Mas hei de escavacal-o! Onde
-È que vocÍ o viu, Ega? Diga l·, homem! Que quero ir procural-o, hoje
-mesmo, correl-o a chicotadas... TraiÁıes n„o, n„o admitto a ninguem!
-
-Ega, com a tranquillidade paciente de quem sente a prÍsa certa, lembrou
-de novo a inutilidade d'aquellas divagaÁıes:
-
---Assim nunca acabamos, Damaso... O nosso ponto È este: o Damaso
-injuriou Carlos da Maia: ou se retracta publicamente d'essa injuria, ou
-d· uma reparaÁ„o pelas armas...
-
-Mas o Damaso, sem escutar, appellava desesperadamente para o Cruges, que
-se n„o movera do sof· de velludo, esfregando, um contra o outro, com um
-ar arripiado e de dÙr, os dois sapatos novos de verniz.
-
---Aquelle Carlos! Um homem que se dizia meu amigo intimo! Um homem que
-fazia de mim tudo! AtÈ lhe copiava coisas... VocÍ bem viu, Cruges. Diga!
-Falle, homem! N„o sejam vocÍs todos contra mim!... AtÈ ·s vezes ia ·
-alfandega despachar-lhe caixotes...
-
-O maestro baixava os olhos, vermelho, n'um infinito mal-estar. E Ega,
-por fim, j· farto, lanÁou uma intimaÁ„o derradeira:
-
---Em resumo, Damaso, desdiz-se ou bate-se?
-
---Desdizer-me? tartamudeou o outro, impertigando-se, n'um penoso esforÁo
-de dignidade, a tremer todo. E de quÍ? Ora essa! … boa! Eu sou l· homem
-que me desdiga!
-
---Perfeitamente, ent„o bate-se...
-
-Damaso cambaleou para traz, desvairado:
-
---Qual bater-me! Eu sou l· homem que me bata! Eu c· È a sÙcco. Que venha
-para c·, n„o tenho medo d'elle, arrombo-o...
-
-Dava pulinhos curtos de gordo, atravÈs do tapete, com os punhos fechados
-e em riste. E queria Carlos alli para o escavacar! N„o lhe faltava mais
-sen„o bater-se... E ent„o duellos em Portugal, que acabavam sempre por
-troÁa!
-
-Ega no emtanto, como se a sua miss„o estivesse finda, aboto·ra a
-sobrecasaca e recolhia os papeis espalhados sobre a _Biblia_. Depois,
-serenamente, fez a ultima declaraÁ„o de que fÙra incumbido. Como o snr.
-Damaso Salcede recusava retractar-se e rejeitava tambem uma reparaÁ„o
-pelas armas, Carlos da Maia prevenia-o de que em qualquer parte que o
-encontrasse d'ahi por diante, fosse uma rua, fosse um theatro, lhe
-escarraria na face...
-
---Escarrar-me! berrou o outro, livido, recuando, como se o escarro j·
-viesse no ar.
-
-E de repente, espavorido, coberto de bagas de suor, precipitou-se sobre
-o Ega, agarrando-lhe as m„os, n'uma agonia:
-
---” Jo„o, Û Jo„o, tu, que Ès meu amigo, por quem Ès, livra-me d'esta
-entaladella!
-
-Ega foi generoso. Desprendeu-se d'elle, empurrou-o brandamente para a
-poltrona, calmando-o com palmadinhas fraternaes pelo hombro. E declarou
-que, desde que Damaso appellava para a sua amizade, desapparecia o
-enviado de Carlos necessariamente exigente, ficava sÛ o camarada, como
-no tempo dos Cohens e da _villa_ Balzac. Queria pois o amigo Damaso um
-conselho? Era assignar uma carta affirmando que tudo o que fizera
-publicar na _Corneta_ sobre o snr. Carlos da Maia e certa senhora fÙra
-invenÁ„o falsa e gratuita. SÛ isto o salvava. D'outro modo, Carlos um
-dia, no Chiado, em S. Carlos, escarrava-lhe na cara. E, dado esse
-desastre, Damasosinho, a n„o querer ser apontado em Lisboa como um
-incomparavel cobarde, tinha de se bater · espada ou · pistola...
-
---Ora, em qualquer d'esses casos, vocÍ era um homem morto.
-
-O outro escutava, esbarrondado no fundo do assento de velludo, com a
-face emparvecida para o Ega. Alargou mollemente os braÁos, murmurou da
-profundidade do seu terror:
-
---Pois sim, eu assigno, Jo„o, eu assigno...
-
---… o que lhe convÈm... Arranje ent„o papel. VocÍ est· perturbado, eu
-mesmo redijo.
-
-Damaso ergueu-se, com as pernas frouxas, atirando um olhar tonto e vago
-por sobre os moveis:
-
---Papel de carta? … para carta?
-
---Sim, est· claro, uma carta ao Carlos!
-
-Os passos do desgraÁado perderam-se emfim no corredor, pesados e
-succumbidos.
-
---Coitado! suspirou o Cruges levando de novo, com um ar de arripio, a
-m„o aos sapatos.
-
-Ega lanÁou-lhe um _chut_ severo. Damaso voltava com o seu sumptuoso
-papel de monogramma e corÙa. Para envolver em silencio e segredo aquelle
-transe amargo, cerrou o reposteiro; e o vasto pano de velludo,
-desdobrando-se, mostrou o braz„o de Salcede, onde havia um le„o, uma
-torre, um braÁo armado, e por baixo, a letras d'ouro, a sua formidavel
-divisa: Sou forte! Immediatamente Ega afastou os livros na mesa,
-abancou, atirou largamente ao papel a data e a adresse do Damaso...
-
---Eu faÁo o rascunho, vocÍ depois copÌa...
-
---Pois sim! gemeu o outro, de novo, aluido na poltrona, passando o lenÁo
-pelo pescoÁo e pela face.
-
-Ega no emtanto escrevia muito lentamente, com amor. E n'aquelle
-silencio, que o embaraÁava, Cruges terminou por se erguer, foi coxeando
-atÈ ao espelho onde se desenrolavam, entalados na frincha do caixilho,
-bilhetes e photographias. Eram as glorias sociaes do Damaso, os
-documentos do _chic a valer_ que era a paix„o da sua vida: bilhetes com
-titulos, retratos de cantoras, convites para bailes, cartas de entrada
-no Hippodromo, diplomas de membro do Club Naval, de membro do Jockey
-Club, de membro do Tiro aos Pombos:--atÈ pedaÁos cortados de jornaes
-annunciando os annos, as partidas, as chegadas do snr. Salcede, ´um dos
-nossos mais distinctos _sportmen_ª.
-
-Desventuroso _sportman_! Aquella folha de papel, onde o Ega rascunhava,
-ia-o enchendo pouco a pouco d'um terror angustioso. Santo Deus! Para que
-eram tantos apuros n'uma carta ao Carlos, um rapaz intimo? Uma linha
-bastaria:--´Meu querido Carlos, n„o te zangues, desculpa, foi
-brincadeira.ª Mas n„o! Toda uma pagina de letra miuda com entrelinhas!
-J· mesmo Ega voltava a folha, molhava a penna, como se d'ella devessem
-escorrer sem cessar coisas humilhadoras! N„o se conteve, estendeu a face
-por sobre a mesa, atÈ o papel:
-
---” Ega, isso n„o È para publicar, pois n„o È verdade?
-
-Ega reflectiu, com a penna no ar:
-
---Talvez n„o... Estou certo que n„o. Naturalmente Carlos, vendo o seu
-arrependimento, deixa isto esquecido no fundo d'uma gaveta.
-
-Damaso respirou com allivio. Ah, bem! Isso parecia-lhe mais decente
-entre amigos! Que l· isso, mostrar o seu arrependimento, atÈ elle
-desejava! Com effeito o artigo fÙra uma tolice... Mas ent„o! Em questıes
-de mulheres era assim, assomado, um le„o...
-
-Abanou-se com o lenÁo, desanuviado, recomeÁando a achar sabÙr · vida.
-Findou mesmo por accender um charuto, levantar-se sem rumor, acercar-se
-do Cruges--que, coxeando atravÈs das curiosidades da sala, encalh·ra
-sobre o piano e sobre os livros de musica, com o pÈ dorido no ar.
-
---Ent„o tem-se feito alguma coisa de novo, Cruges?
-
-Cruges, muito vermelho, resmungou que n„o tinha feito nada.
-
-Damaso ficou alli um momento, a mascar o charuto. Depois, atirando um
-olhar inquieto · mesa onde o Ega rascunhava interminavelmente, murmurou,
-sobre o hombro do maestro:
-
---Uma entaladella assim! Eu È por causa da gente conhecida... Sen„o n„o
-me importava! Mas veja vocÍ tambem se arranja as coisas e se o Carlos
-deixa aquillo na gaveta...
-
-Justamente Ega erguera-se com o papel na m„o e caminhava para o piano,
-devagar, relendo baixo.
-
---Ficou optimo, salva tudo! exclamou por fim. Vai em fÛrma de carta ao
-Carlos, È mais correcto. VocÍ depois copÌa e assigna. OuÁa l·:
-´Exc.^{mo} snr....ª Est· claro, vocÍ d·-lhe excellencia, porque È um
-documento d'honra... ´Exc.^{mo} snr.--Tendo-me v. exc.^a, por intermÈdio
-dos seus amigos Jo„o da Ega e Victorino Cruges, manifestado a indignaÁ„o
-que lhe caus·ra um certo artigo da _Corneta do Diabo_ de que eu escrevi
-o rascunho e de que promovi a publicaÁ„o, venho declarar francamente a
-v. exc.^a que esse artigo, como agora reconheÁo, n„o continha sen„o
-falsidades e incoherencias: e a minha desculpa unica est· em que o
-compuz e enviei · redacÁ„o da _Corneta_ no momento de me achar no mais
-completo estado d'embriaguez...ª
-
-Parou. E nem se voltou para o Damaso, que deix·ra pender os braÁos,
-rolar o charuto no tapete, varado. Foi ao Cruges que se dirigiu,
-entalando o monoculo:
-
---Achas talvez forte?... Pois eu redigi assim por ser justamente a unica
-maneira de resalvar a dignidade do nosso Damaso.
-
-E desenvolveu a sua idÈa, mostrando quanto era generosa e
-habil--emquanto o Damaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos
-nem elle queriam que o Damaso n'uma carta (que se podia tornar publica)
-declarasse ´que calumni·ra por ser calumniadorª. Era necessario, pois,
-dar · calumnia uma d'essas causas fortuitas e ingovernaveis que tiram a
-responsabilidade ·s acÁıes. E que melhor, tratando-se d'um rapaz mundano
-e femeeiro, do que estar bebedo?... N„o era vergonha para ninguem
-embebedar-se... O proprio Carlos, todos elles alli, homens de gosto e de
-honra, se tinham embebedado. Sem remontar aos romanos, onde isso era uma
-hygiene e um luxo, muitos grandes homens na Historia bebiam de mais. Em
-Inglaterra era t„o _chic_, que Pitt, Fox e outros nunca fallavam na
-Camara dos communs sen„o aos bordos. Musset, por exemplo, que bebedo!
-Emfim a Historia, a Litteratura, a Politica, tudo fervilhava de
-piteiras... Ora, desde que o Damaso se declarava borracho, a sua honra
-ficava salva. Era um homem de bem que apanh·ra uma carraspana e que
-commettera uma indiscriÁ„o... Nada mais!
-
---Pois n„o te parece, Cruges?
-
---Sim, talvez, que estava bebedo, murmurou o maestro timidamente.
-
---Pois n„o lhe parece a vocÍ, francamente, Damaso?
-
---Sim, que estava bebedo, balbuciou o desgraÁado.
-
-Immediatamente Ega retomou a leitura: ´Agora que voltei a mim reconheÁo,
-como sempre reconheci e proclamei, que È v. exc.^a um caracter
-absolutamente nobre; e as outras pessoas, que n'esse momento
-d'embriaguez ousei salpicar de lama, s„o-me sÛ merecedoras de veneraÁ„o
-e louvor. Mais declaro que se por acaso tornasse a succeder soltar eu
-alguma palavra offensiva para v. exc.^a, n„o lhe devia dar v. exc.^a, ou
-aquelles que a escutassem, mais importancia do que a que se d· a uma
-involuntaria baforada d'alcool--pois que, por um habito hereditario que
-reapparece frequentemente na minha familia, me acho repetidas vezes em
-estado de embriaguez... De v. exc.^a, com toda a estima etc....ª Rodou
-sobre os tacıes, pousou o rascunho na mesa--e accendendo o charuto ao
-lume do Damaso, explicou com amizade, com bonhomia, o que o determin·ra
-·quella confiss„o de bebedeira incorrigivel e palreira. FÙra ainda o
-desejo de garantir a tranquillidade do ´nosso Damasoª. Attribuindo todas
-as imprudencias em que pudesse cahir a um habito d'intemperanÁa
-hereditaria, de que tinha t„o pouca culpa como de ser baixo e gordo, o
-Damaso punha-se _para sempre_ ao abrigo das provocaÁıes de Carlos...
-
---VocÍ, Damaso, tem genio, tem lingua... Um dia esquece-se, e no Gremio,
-sem querer, na cavaqueira depois do theatro, l· lhe escapa uma palavra
-contra Carlos... Sem esta precauÁ„o, ahi recomeÁa a quest„o, o escarro,
-o duello... Assim j· Carlos n„o se pÛde queixar. L· tem a explicaÁ„o que
-tudo cobre, uma gotta de mais, a gotta tomada por impulso de borrachice
-hereditaria... VocÍ alcanÁa d'este modo a coisa que mais se appetece
-n'este nosso seculo XIX--a irresponsabilidade!... E depois para a sua
-familia n„o È vergonha, porque vocÍ n„o tem familia. Em resumo,
-convem-lhe?
-
-O pobre Damaso escutava-o, esmagado, enervado, sem comprehender aquellas
-roncantes phrases sobre ´a hereditariedadeª, sobre ´o seculo XIXª. E um
-unico sentimento vivo o dominava, acabar, reentrar na sua paz
-pachorrenta, livre de floretes e de escarros. Encolheu os hombros, sem
-forÁa:
-
---Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar fallatorios.
-
-E abancou, metteu um bico novo na penna, escolheu uma folha de papel em
-que o monogramma luzia mais largo, comeÁou a copiar a carta na sua
-maravilhosa letra, com finos e grossos, d'uma nitidez de gravura em aÁo.
-
-Ega no emtanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava
-em torno da mesa, seguindo sÙfregamente as linhas que traÁava a m„o
-applicada do Damaso, ornada d'um grosso annel d'armas. E durante um
-momento atravessou-o um susto... Damaso par·ra, com a penna indecisa.
-Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquella gordura balofa, um
-resto escondido de dignidade, de revolta?... Damaso alÁou para elle os
-olhos embaciados:
-
---Embriaguez È com _n_ ou com _m_?
-
---Com um _m_, um _m_ sÛ, Damaso! acudiu Ega affectuosamente. Vai muito
-bem... Que linda letra vocÍ tem, caramba!
-
-E o infeliz sorriu · sua propria letra--pondo a cabeÁa de lado, no
-orgulho sincero d'aquella soberba prenda.
-
-Quando findou a cÛpia foi Ega que conferiu, pÙz a pontuaÁ„o. Era
-necessario que o documento fosse _chic_ e perfeito.
-
---Quem È o seu tabelli„o, Damaso?
-
---O Nunes, na rua do Ouro... Porque?
-
---Oh! nada. … um detalhe que n'estes casos se pergunta sempre. Mera
-ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como estylo, est·
-d'appetite a cartinha!
-
-Metteu-a logo n'um enveloppe onde rebrilhava a divisa ´Sou Forteª,
-sepultou-a preciosamente no interior da sobrecasaca. Depois, agarrando o
-chapÈo, batendo no hombro do Damaso com uma familiaridade folgaz„ e
-leve:
-
---Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fÛra de portas,
-n'uma poÁa de sangue! Assim È uma delicia. E adeus... N„o se incommode
-vocÍ. Ent„o o grande sarau sempre È na segunda-feira? Vai l· tudo, hein!
-N„o venha c·, homem... Adeus!
-
-Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor, mudo, murcho, cabisbaixo. E no
-patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietaÁ„o que o assalt·ra:
-
---Isso n„o se mostra a ninguem, n„o È verdade, Ega?
-
-Ega encolheu os hombros. O documento pertencia a Carlos... Mas emfim
-Carlos era t„o bom rapaz, t„o generoso!
-
-Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso:
-
---E chamei eu ·quelle homem _meu amigo_!
-
---Tudo na vida s„o desapontamentos, meu Damaso! foi a observaÁ„o do Ega,
-saltando alegremente os degraus.
-
-Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrella, Carlos j· esperava ao
-port„o de ferro, n'uma impaciencia, por causa do jantar na _Toca_.
-Enfiou logo para dentro atropellando o maestro, bradou ao cocheiro que
-voasse ao Loreto.
-
---E ent„o, meus senhores, temos sangue?
-
---Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o
-enveloppe.
-
-Carlos leu a carta do Damaso. E foi um immenso assombro:
-
---Isto È incrivel!... Chega a ser humilhante para a natureza humana!
-
---O Damaso n„o È o genero humano, acudiu Ega. Que diabo esperavas tu?
-Que elle se batesse?
-
---N„o sei, corta o coraÁ„o... Que se ha de fazer a isto?
-
-Segundo o Ega n„o se devia publicar; seria crear curiosidade e escandalo
-em torno do artigo da _Corneta_ que cust·ra trinta libras a suffocar.
-Mas convinha conservar aquillo como uma ameaÁa pairando sobre o Damaso,
-tornando-o para longos annos nullo e inoffensivo.
-
---Eu estou mais que vingado, concluiu Carlos. Guarda o papel: È obra
-tua, usa-o como quizeres...
-
-Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos, batendo no joelho do maestro,
-queria saber como elle se port·ra n'aquelle lance d'honra...
-
---Pessimamente! gritou Ega. Com expressıes de compaix„o; sem linha
-nenhuma; estendido por cima do piano; agarrando com a m„o no sapato...
-
---Pudera! exclamou Cruges desafogando emfim. VocÍs dizem-me que me ponha
-de ceremonia, calÁo uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde
-n'um tormento!
-
-E n„o se conteve mais, arrancou o sapato, pallido, com um medonho
-suspiro de consolaÁ„o.
-
-
-No dia seguinte, depois do almoÁo, emquanto uma chuva grossa alagava os
-vidros sob as lufadas de sudoeste, Ega, no _fumoir_, enterrado n'uma
-poltrona, com os pÈs para o lume, relia a carta do Damaso: e pouco a
-pouco subia n'elle a m·goa de que esse colossal documento de cobardia
-humana, t„o interessante para a physiologia e para a arte, ficasse para
-sempre inaproveitado no escuro d'uma gaveta!... Que effeito, que soberbo
-effeito se aquella confiss„o do ´nosso distincto _sportman_ª surgisse um
-dia na _Gazeta Illustrada_ ou no novo jornal _A Tarde_, nas columnas do
-_High-life_, sob este titulo--Pendencia d'honra! E que liÁ„o, que
-meritorio acto de justiÁa social!
-
-Todo esse ver„o, Ega detest·ra o Damaso, certo, desde Cintra, de que
-elle era o amante da Cohen--e de que, por esse imbecil de grossas
-nadegas, esquecera ella para sempre a _villa_ Balzac, as manh„s na
-colcha de setim preto, os seus beijos delicados, os versos de Musset que
-lhe lia, os lunchesinhos de perdiz, tantos encantos poeticos. Mas o que
-lhe torn·ra o Damaso intoleravel--fÙra a sua farofia radiante de homem
-preferido; o ar de posse com que passeava ao lado de Rachel pelas
-estradas de Cintra, vestido de flanella branca; os segredinhos que tinha
-sempre a cochichar-lhe sobre o hombro; e o acÍnosinho desdenhoso, com um
-dedo, que lhe atirava de lado, ao passar, a elle proprio, Ega... Era
-odioso! Odiava-o: e atravÈs d'esse odio rumin·ra sempre o desejo d'uma
-vinganÁa--pancada, deshonra ou ridiculo que tornasse o snr. Salcede, aos
-olhos de Rachel, desprezivel, grutesco, chato como um bal„o furado...
-
-E agora alli tinha essa carta providencial, em que o homem solemnemente
-se declarava bebedo. ´Sou um bebedo, estou sempre bebedoª! Assim o
-dizia, no seu papel de monogramma d'ouro, o snr. Salcede, n'um medo vil
-de c„o gÙso, rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer
-pau!... Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia d'encafuar t„o
-decisivo documento no fundo d'um gavet„o?
-
-Publical-o na _Gazeta Illustrada_ ou na _Tarde_ n„o podia, infelizmente,
-por interesse de Carlos. Mas porque o n„o mostraria ´em segredoª, como
-uma curiosidade psychologica, ao Craft, ao marquez, ao Telles, ao
-Gouvarinho, ao primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cÛpia ao Taveira
-que, resentido eternamente da quest„o com o Damaso em casa da Lola
-Gorda, correria a lÍl-a _em segredo_ na Casa Havaneza, no bilhar do
-Gremio, no Silva, nos camarins de cantoras... E ao fim de uma semana a
-snr.^a D. Rachel saberia inevitavelmente que o escolhido do seu coraÁ„o
-era por confiss„o propria um calumniador e um bebedo!... Delicioso!
-
-T„o delicioso que n„o hesitou mais, subiu ao quarto para copiar a carta
-do Damaso. Mas quasi immediatamente um criado trouxe-lhe um telegramma
-de Affonso da Maia annunciando que chegava no dia seguinte ao Ramalhete.
-Ega teve de sahir, telegraphar para os Olivaes, avisar Carlos.
-
-Carlos appareceu n'essa noite, j· tarde, transido de frio, com um monte
-de bagagens--porque abandon·ra definitivamente os Olivaes. Maria Eduarda
-regressava tambem a Lisboa, para o primeiro andar da rua de S.
-Francisco, tomado agora por seis mezes, tapetado de novo pela m„i
-Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com profundas saudades da
-_Toca_. Depois de cear, ao fog„o, acabando o charuto, relembrou
-infindavelmente esses dias alegres, a sua casinhola, o banho da manh„
-tomado dentro d'uma dorna, a festa do deus Tchi, as guitarradas do
-marquez, as longas cavaqueiras ao cafÈ com as janellas abertas e as
-borboletas voando em torno aos candieiros... FÛra as cordas d'agua, sob
-o vento d'inverno, batiam os vidros na mudez da noite negra. Ambos
-terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no lume.
-
---Quando esta tarde dei pela ultima vez uma volta na quinta, disse por
-fim Carlos, j· n„o havia uma unica folha nas arvores... Tu n„o sentes
-sempre uma grande melancolia n'estes fins de outono?...
-
---Immensa! murmurou Ega lugubremente.
-
-Ao outro dia a manh„ clareava, limpa e branca, quando Ega e Carlos,
-ainda estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolonia. O comboio
-acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de gente que
-se escoava das portinholas abertas, Affonso, com o seu velho capote de
-gola de velludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre homens de
-bonÈ agaloado que lhe offereciam o _Hotel Terreirense_ e a _Pomba
-d'Ouro_. Atraz Mr. Antoine, o chefe francez, grave, de chapÈo alto,
-trazia o cesto em que viaj·ra o reverendo Bonifacio.
-
-Carlos e Ega acharam Affonso mais acabado, mais pesado. Todavia
-gabaram-lhe muito, entre os primeiros abraÁos, a sua robustez de
-patriarcha. Elle encolheu os hombros, queixando-se de ter sentido desde
-o fim do ver„o vertigens, um cansaÁo vago...
-
---VocÍs È que est„o excellentes, acrescentou abraÁando outra vez Carlos
-e sorrindo ao Ega. E que ingratid„o foi essa tua, John, mettido aqui
-todo um ver„o sem me ir visitar?... Que tens tu feito? Que tÍm vocÍs
-feito?
-
---Mil coisas! acudiu Ega alegremente. Planos, ideias, titulos... Temos
-sobretudo o projecto d'uma _Revista_, um apparelho d'educaÁ„o superior
-que vamos montar com uma forÁa de mil cavallos!... Emfim logo se lhe
-conta tudo ao almoÁo.
-
-E ao almoÁo, com effeito, para justificarem as suas occupaÁıes em
-Lisboa, fallaram da _Revista_ como se ella j· estivesse organisada e os
-artigos a imprimir na officina--tanta foi a precis„o com que lhe
-descreveram as tendencias, a feiÁ„o critica, as linhas de pensamento
-sobre que ella devia rolar... Ega j· prepar·ra um trabalho para o
-primeiro numero--_A capital dos portuguezes_. Carlos meditava uma sÈrie
-d'_ensaios_ · ingleza, sob este titulo--_Porque falhou entre nÛs o
-systema constitucional_. E Affonso escutava, encantado com aquellas
-bellas ambiÁıes de lucta, querendo partilhar da grande obra como socio
-capitalista... Mas Ega entendia que o snr. Affonso da Maia devia descer
-· arena, lanÁar tambem a palavra do seu saber e da sua experiencia.
-Ent„o o velho riu. O quÍ! compÙr prosa, elle, que hesitava para traÁar
-uma carta ao feitor? De resto o que teria a dizer ao seu paiz, como
-fructo da sua experiencia, reduzia-se pobremente a tres conselhos em
-tres phrases: aos politicos--´menos liberalismo e mais caracterª; aos
-homens de letras--´menos eloquencia e mais ideiaª; aos cidad„os em
-geral--´menos progresso e mais moralª.
-
-Isto enthusiasmou o Ega! Justamente, ahi estavam as verdadeiras feiÁıes
-da reforma espiritual que a _Revista_ devia prÈgar! Era necessario
-tomal-as como moto symbolico, inscrevel-as em letras gothicas no
-frontispicio--porque Ega queria que a _Revista_ fosse original logo na
-capa. E ent„o a conversaÁ„o desviou para o exterior da _Revista_--Carlos
-pretendendo que fosse azul-claro com typo RenascenÁa, Ega exigindo uma
-cÛpia exacta da _Revista dos Dois Mundos_, n'uma nuance mais cÙr de
-canario. E, levados pela sua imaginaÁ„o de meridionaes, j· n„o era sÛ
-para agradar a Affonso da Maia que iam levantando e dando fÛrma ·quelle
-confuso plano.
-
-Carlos exclamava para o Ega, com os olhos j· apaixonados:
-
---Isto agora È sÈrio. Precisamos arranjar immediatamente a casa para a
-redacÁ„o!
-
-Ega bracejava:
-
---Pudera! E moveis! E machinas!
-
-Toda a manh„, no escriptorio d'Affonso, azafamados, com papel e lapis,
-se occuparam em fixar uma lista de collaboradores. Mas j· as
-difficuldades surgiam. Quasi todos os escriptores suggeridos
-desagradavam ao Ega, por lhes faltar no estylo aquelle requinte plastico
-e parnasiano de que elle desejava que a _Revista_ fosse o impeccavel
-modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam _impossiveis_--sem
-querer confessar que n'elles lhe repugnava exclusivamente a falta de
-linha e o fato mal feito...
-
-Uma coisa porÈm ficou decidida: a casa da redacÁ„o. Devia ser mobilada
-luxuosamente, com sof·s do consultorio de Carlos e algum _bric-‡-brac_
-da _Toca_: e sobre a porta (ornada d'um guarda-port„o de librÈ) a
-taboleta de verniz preto, com _Revista de Portugal_ em altas letras a
-ouro. Carlos sorria, esfregava as m„os, pensando na alegria de Maria ao
-saber esta decis„o que o lanÁava, como era o desejo d'ella, na
-actividade, n'uma lucta interessante d'ideias. Ega, esse, via j· a
-brochura cÙr de canario aos montıes nas vitrines dos livreiros,
-discutida nas _soirÈes_ do Gouvarinho, folheada na camara com espanto
-pelos politicos...
-
---Vai-se remexer Lisboa este inverno, snr. Affonso da Maia! gritou elle
-atirando um gesto immenso atÈ ao tecto.
-
-E o mais contente era o velho.
-
-Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com elle · rua de S.
-Francisco (onde Maria se install·ra n'essa manh„) levarem a nova da
-grande obra. Mas encontraram · porta uma carroÁa descarregando malas; e
-a senhora, contou o Domingos que ajudava os carroceiros, estava ainda
-jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confus„o na casa,
-Ega n„o quiz subir.
-
---AtÈ logo, disse elle. Vou talvez procurar o Sim„o Craveiro e
-fallar-lhe da _Revista_.
-
-Subiu lentamente o Chiado, leu os telegrammas na Casa Havaneza. Depois ·
-esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido n'um paletot,
-offereceu-lhe uma ´senhasinhaª. Outros, em volta, gritavam na sombra do
-_Hotel AllianÁa_:
-
---Bilhete para o Gymnasio! Mais barato... Bilhete para o Gymnasio! Quem
-vende?...
-
-Havia um cruzar animado de carruagens com librÈs. Os bicos de gaz do
-Gymnasio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que
-atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e flÙr no paletot.
-
---Que È isto?
-
---Festa de beneficencia, n„o sei, disse o Craft. Uma coisa promovida por
-senhoras, a baroneza d'Alvim mandou-me um bilhete... Venha vocÍ d'ahi
-ajudar-me a levar esta caridade ao Calvario.
-
-E na esperanÁa de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No
-perystilo do Gymnasio encontraram Taveira passeando e fumando
-solitariamente, · espera que findasse a primeira comedia, o _Fructo
-prohibido_. Ent„o Craft propÙz ´botequim e genebraª.
-
---E que ha do ministerio? perguntou elle, apenas abancaram a um canto.
-
-O Taveira n„o sabia. Todos esses dois longos dias se intrig·ra
-desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Publicas: o Videira
-tambem. E fallava-se d'uma scena terrivel por causa de syndicatos, em
-casa do presidente do conselho, o S· Nunes, que termin·ra por dar um
-murro na mesa, gritar: ´Irra! que isto n„o È o pinhal d'Azambuja!ª
-
---Canalha! rosnou Ega com odio.
-
-Depois fallaram do Ramalhete, da volta d'Affonso, da reappariÁ„o de
-Carlos. Craft louvou Deus por haver outra vez n'esse inverno uma casa
-com fogıes, onde se passasse uma hora civilisada e intelligente.
-
-Taveira acudiu com o olho brilhante:
-
---Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na rua
-de S. Francisco! Foi o marquez que me disse. Madame Mac-Gren vai
-receber.
-
-Craft n„o sabia mesmo que ella j· tivesse recolhido da _Toca_.
-
---Voltou hoje, disse o Ega. VocÍ ainda n„o a conhece?... Encantadora.
-
---Creio que sim.
-
-O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma belleza. E um ar
-t„o sympathico!
-
---Encantadora! repetiu Ega.
-
-Mas o _Fructo prohibido_ find·ra, os homens enchiam o peristylo, n'um
-rumor lento, accendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira
-com a genebra, correu · plateia para descobrir o camarote da Alvim.
-
-Mal erguera porÈm a cortina e assest·ra o monoculo--avistou defronte, na
-primeira ordem, a Cohen, toda de preto, com um grande leque de rendas
-brancas; por traz negrejavam as suissas fortes do marido; e em face
-d'ella, recostado no velludo da grade, de casaca, com a bochecha
-risonha, uma grossa perola no peitilho da camisa, o Damaso, o bebedo!
-
-Ega cahiu mollemente, ao acaso, na borda d'uma cadeira: e perturbado, j·
-esquecido da Alvim, alli ficou a olhar o panno coberto d'annuncios,
-correndo os dedos tremulos pelo bigode.
-
-No emtanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na
-plateia. Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeÁou no joelho do Ega:
-outro, de luvas claras, com uma polidez adocicada, pediu permiss„o a s.
-exc.^a Elle n„o escutava, n„o percebia: os seus olhos, um momento
-errantes, tinham-se emfim cravado no camarote da Cohen e n„o se
-desviaram de l·, n'uma emoÁ„o que o empallidecia.
-
-N„o a torn·ra a encontrar desde Cintra, onde sÛ a via de longe, com
-vestidos claros sob o verde das arvores; e agora alli, toda de preto, em
-cabello, com um decote curto onde brilhava a perfeita brancura do seu
-collo, ella era outra vez a _sua_ Rachel, dos tempos divinos da _villa_
-Balzac. Era assim que elle, todas as noites em S. Carlos, a contemplava
-do fundo da frisa de Carlos, com a cabeÁa encostada ao tabique, saturado
-de felicidade. L· tinha a sua luneta d'ouro, presa por um fio d'ouro.
-Parecia mais pallida, mais delicada, com o longo quebranto dos olhos
-pisados, o seu ar de romance e de lirio meio murcho: e como ent„o os
-seus cabellos magnificos e pesados cahiam habilmente n'uma massa meia
-solta sobre as costas, n'um desalinho de nudez. Pouco a pouco, entre o
-afinar de rebecas e o rumor das cadeiras Ega revia, n'uma onda de
-recordaÁıes que o suffocava, o grande leito da _villa_ Balzac, certos
-beijos e certos risos, as perdizes comidas em camisa · borda do sof·, e
-a melancolia deliciosa das tardes, quando ella sahia furtivamente,
-coberta de vÈos, e elle ficava, cansado, no crepusculo poetico do
-quarto, cantarolando a _Traviata_...
-
---V. exc.^a d· licenÁa, snr. Ega?
-
-Era um sujeito escaveirado, de barba rala, que reclamava a sua cadeira.
-Ega ergueu-se, confusamente, sem reconhecer o snr. Sousa Netto. O panno
-subira. ¡ borda da rampa um lacaio, piscando o olho · Plateia, fazia
-confidencias sobre a patrÙa, de espanejador debaixo do braÁo. E Cohen,
-agora de pÈ, enchia o meio do camarote, cofiando as suissas com um
-correr lento da m„o bem tratada, onde reluzia um diamante.
-
-Ega ent„o, n'um soberbo alarde d'indifferenÁa, cravou o monoculo no
-palco. O lacaio abal·ra espavorido, a um repique furioso de sineta; e
-uma megera azeda, de roup„o verde e touca · banda, rompera de dentro,
-meneando desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida
-que batia o tac„o, se esganiÁava: ´Pois hei de amal-o sempre! hei de
-amal-o sempre!ª
-
-Irresistivelmente Ega revirou o canto do olho para o camarote: Rachel e
-o Damaso, com as cabeÁas chegadas como em Cintra, cochichavam n'um
-sorriso. E tudo logo dentro do Ega se resumiu n'um immenso odio ao
-Damaso! Collado · umbreira da porta, rilhava os dentes, n'um desejo de
-subir, escarrar-lhe na bochecha gorda.
-
-E n„o desviava d'elle os olhos, que dardejavam. Na scena, um velho
-general, gottoso e resmung„o, sacudia um jornal, gritava pela sua
-tapioca. A Plateia ria, o Cohen ria. E n'esse momento Damaso, que se
-debruÁ·ra no camarote com as m„os de fÛra, calÁadas de _gris-perle_,
-descobriu o Ega, sorriu, atirou-lhe como em Cintra um acenosinho
-petulante, muito d'alto, na ponta dos dedos. Isto feriu o Ega como um
-insulto. E ainda na vespera aquelle covarde se lhe agarr·ra ·s m„os,
-tremendo todo, a gritar ´que o salvasse!...ª
-
-Subitamente, com uma idÈa, palpou por sobre o bolso a carteira onde na
-vespera guard·ra a carta do Damaso... ´Eu t'arranjo!ª murmurou elle. E
-abalou, desceu a rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que
-rola, enfiou, ao fundo da praÁa de Camıes, n'um grande port„o que uma
-lanterna alumiava. Era a redacÁ„o da _Tarde_.
-
-Dentro do pateo d'esse jornal elegante fedia. Na escadaria de pedra, sem
-luz, cruzou um sujeito encatarrhoado que lhe disse que o Neves estava em
-cima ao cavaco. O Neves, deputado, politico, director da _Tarde_, fÙra,
-havia annos, n'umas ferias, seu companheiro de casa no largo do Carmo; e
-desde esse ver„o alegre em que o Neves lhe fic·ra sempre devendo tres
-moedas, os dois tratavam-se por _tu_.
-
-Foi encontral-o n'uma vasta sala alumiada por bicos de gaz sem globo,
-sentado na borda d'uma mesa atulhada de jornaes, com o chapÈo para a
-nuca, discursando a alguns cavalheiros de provincia que o escutavam de
-pÈ, n'um respeito de crentes. N'um v„o de janella, com dois homens
-d'idade, um rapaz esgalgado, de jaquet„o de cheviote claro e uma
-cabelleira crespa que parecia erguida n'uma rajada de vento, bracejava
-como um moinho na crista d'um monte. E, abancado, outro sujeito j· calvo
-rascunhava laboriosamente uma tira de papel.
-
-Ao vÍr o Ega (um intimo do Gouvarinho) alli na redacÁ„o, n'aquella noite
-de intriga e de crise, Neves cravou n'elle os olhos t„o curiosos, t„o
-inquietos, que o Ega apressou-se a dizer:
-
---Nada de politica, negocio particular... N„o te interrompas. Depois
-fallaremos.
-
-O outro findou a injuria que estava lanÁando ao JosÈ Bento, ´essa grande
-besta que fÙra metter tudo no bico da amiga do Sousa e S·, o par do
-reinoª--e na sua impaciencia saltou da mesa, travou do braÁo do Ega
-arrastando-o para um canto:
-
---Ent„o que È?
-
---… isto, em quatro palavras. O Carlos da Maia foi offendido ahi por um
-sujeito muito conhecido. Nada d'interessante. Um paragrapho immundo na
-_Corneta do Diabo_, por uma quest„o de cavallos... O Maia pediu-lhe
-explicaÁıes. O outro deu-as, chatas, medonhas, n'uma carta que quero que
-vocÍs publiquem.
-
-A curiosidade do Neves flammejou:
-
---Quem È?
-
---O Damaso.
-
-O Neves recuou d'assombro:
-
---O Damaso!? Ora essa! Isso È extraordinario! Ainda esta tarde jantei
-com elle! Que diz a carta?
-
---Tudo. Pede perd„o, declara que estava bebedo, que È de profiss„o um
-bebedo...
-
-O Neves agitou as m„os com indignaÁ„o:
-
---E tu querias que eu publicasse isso, homem? O Damaso, nosso amigo
-politico!... E que n„o fosse, n„o È quest„o de partido, È de decencia!
-Eu faÁo l· isso!... Se fosse uma acta de duello, uma coisa honrosa,
-explicaÁıes dignas... Mas uma carta em que um homem se declara bebedo!
-Tu est·s a mangar!
-
-Ega, j· furioso, franzia a testa. Mas o Neves, com todo o sangue na
-face, teve ainda uma revolta ·quella idÈa do Damaso se declarar bebedo!
-
---Isso n„o pÛde ser! … absurdo! Ahi ha historia... Deixa vÍr a carta.
-
-E, mal relance·ra os olhos ao papel, · larga assignatura floreada,
-rompeu n'um alarido:
-
---Isto n„o È o Damaso nem È letra do Damaso!... ´Salcedeª! Quem diabo È
-´Salcedeª? Nunca foi o _meu_ Damaso!
-
---… o _meu_ Damaso, disse o Ega. O Damaso Salcede, um gordo...
-
-O outro atirou os braÁos ao ar:
-
---O meu È o Guedes, homem, o Damaso Guedes! N„o ha outro! Que diabo,
-quando se diz o Damaso È o Guedes!...
-
-Respirou com grande allivio:
-
---Irra, que me assustaste! Olha agora n'este momento, com estas coisas
-de ministerio, uma carta d'essas escripta pelo Guedes... Se È o Salcede,
-bem, acabou-se! Espera l·... N„o È um gordalhufo, um janota que tem uma
-propriedade em Cintra? Isso! Um magan„o que nos entalou na eleiÁ„o
-passada, fez gastar ao Silverio mais de trezentos mil reis...
-Perfeitamente, ·s ordens... ” Pereirinha, olhe aqui o snr. Ega. Tem ahi
-uma carta para sahir ·manh„, na primeira pagina, typo largo...
-
-O snr. Pereirinha lembrou o artigo do snr. Vieira da Costa sobre a
-´Reforma das Pautasª.
-
---Vai depois! gritou o Neves. As questıes de honra antes de tudo!
-
-E voltou ao seu grupo onde agora se fallava do conde de Gouvarinho,
-saltou para a borda da mesa, lanÁou logo o seu vozeir„o de chefe,
-affirmando no Gouvarinho enormes dotes de parlamentar!
-
-Ega accendeu o charuto, ficou um momento considerando aquelles sujeitos
-que pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise
-arrast·ra a Lisboa, arranc·ra · quietaÁ„o das villas e das quintas. O
-mais novo parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face
-a estourar de sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de
-porco. Outro, esguio, com o paletot solto sobre as costas em arco, tinha
-um queixo duro e macisso de cavallo: e dois padres muito rapados, muito
-morenos, fumavam pontas de cigarro. Em todos havia esse ar,
-conjunctamente apagado e desconfiado, que marca os homens de provincia,
-perdidos entre as tipoias e as intrigas da Capital. Vinham alli ·s
-noites, ·quelle jornal do partido, saber as novas, _beber do fino_, uns
-com esperanÁas de empregos, outros por interesses de terriola, alguns
-por ociosidade. Para todos o Neves era um ´robusto talentoª;
-admiravam-lhe a verbosidade e a tactica; decerto gostavam de citar nas
-lojas das suas villas o amigo Neves, o jornalista, o da _Tarde_... Mas,
-atravÈs d'essa admiraÁ„o e do prazer de roÁar por elle, percebia-se-lhes
-um vago medo que aquelle ´robusto talentoª lhes pedisse, n'um v„o de
-janella, duas ou tres moedas. O Neves no emtanto celebrava o Gouvarinho
-como orador. N„o que tivesse os rasgos, a pureza, as bellas syntheses
-historicas do JosÈ Clemente! Nem a poesia do Rufino! Mas n„o havia outro
-para as piadas que ferem e que ficam cravadas, alli a arder, na pelle do
-touro! E era a grande coisa na Camara--ter a farpa, sabÍl-a ferrar!
-
---” GonÁalo, tu lembras-te da piada do Gouvarinho, a do trapezio? gritou
-elle virando-se para a janella, para o rapaz de jaquet„o claro.
-
-O GonÁalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e malicia, estendeu
-o pescoÁo magro n'um collarinho muito decotado, lanÁou de l·:
-
---A do trapezio? Divina! Conta · rapaziada!
-
-A rapaziada arregalou os olhos para o Neves, · espera da ´do trapezioª.
-FÙra na Camara dos Pares, na reforma da instrucÁ„o. Estava fallando o
-Torres Valente, esse maluco que defendia a gymnastica dos collegios e
-queria as meninas a fazerem a prancha. Gouvarinho ergue-se e atira-lhe
-esta:
-
-´Snr. presidente, direi uma palavra sÛ. Portugal sahir· para sempre da
-senda do progresso, em que tanto se tem illustrado, no dia em que nÛs
-fÙrmos ao ensino, com m„o impia, substituir a cruz pelo trapezio!ª
-
---Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito.
-
-E no murmurio de admiraÁ„o que se ergueu destacou um ganido--o do rapaz
-mais grosso que um pote, que mexia os hombros, chasqueava com uma risota
-na bochecha cÙr de tomate:
-
---Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae È um grandissimo
-carola!
-
-E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provincia, liberaes
-e finorios, que achavam aquelle fidalgo excessivamente apegado · cruz.
-Mas j· o Neves, de pÈ, bravejava:
-
---Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho
-carola! Est· claro que tem toda a orientaÁ„o mental do seculo, È um
-racionalista, um positivista... Mas a quest„o aqui È a rÈplica, a
-tactica parlamentar! Desde que o typo da maioria vem de l· com a
-descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo, ainda que fosse t„o atheu como
-Renan, z·s! atira-lhe logo para cima com a cruz!... Isto È que È a
-estrategia parlamentar! Pois n„o È assim, Ega?
-
-Ega murmurou, atravÈs do fumo do charuto:
-
---Sim, com effeito a cruz para isso ainda serve...
-
-Mas n'esse momento o sujeito calvo, que repellira a tira de papel e se
-espreguiÁava, cahido para as costas da cadeira, exhausto, pediu ao snr.
-Jo„o da Ega--que fallasse · gente e guardasse o seu dinheiro...
-
-Ega acercou-se logo d'aquelle sympathico homem, t„o engraÁado, t„o
-querido de todos:
-
---Ent„o, na grande faina, Melchior?
-
---Estou aqui a vÍr se faÁo uma coisa sobre o livro do Craveiro, os
-_Cantos da Serra_, e n„o me sae nada em termos... N„o sei o que hei de
-dizer!
-
-Ega gracejou, de m„os nos bolsos, muito risonho, muito camarada com o
-Melchior:
-
---Nada! VocÍs aqui s„o simples localistas, noticiaristas, annunciadores.
-D'um livro como o do Craveiro tÍm sÛ respeitosamente a dizer onde se
-vende e quanto custa.
-
-O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz da
-nuca:
-
---Ent„o onde queria vocÍ que se fallasse dos livros?... Nos reportorios?
-
-N„o, nas Revistas Criticas: ou ent„o nos jornaes--que fossem jornaes,
-n„o papeluchos volantes, tendo em cima uma cataplasma de politica em
-estylo mazorro ou em estylo fadista, um romance mal traduzido do francez
-por baixo e o resto cheio com ´annosª, despachos, parte de policia e
-loteria da Misericordia. E como em Portugal n„o havia nem jornaes sÈrios
-nem Revistas Criticas--que se n„o fallasse em parte nenhuma.
-
---Com effeito, murmurou Melchior, ninguem falla de nada, ninguem parece
-pensar em nada...
-
-E com toda a raz„o, affirmou Ega. Certamente muito d'esse silencio
-provinha do natural desejo que tÍm os que s„o mediocres de que se n„o
-alluda muito aos que s„o grandes. … a invejasinha reles e rastejante!
-Mas em geral o silencio dos jornaes para com os livros provÈm sobretudo
-d'elles terem abdicado todas as funcÁıes elevadas d'estudo e de critica,
-de se terem tornado folhas rasteiras d'informaÁ„o caseira, e de sentirem
-por isso a sua incompetencia...
-
---Est· claro, n„o fallo por vocÍ, Melchior, que È dos nossos e de
-primeira ordem! Mas os seus collegas, menino, calam-se por se saberem
-incompetentes...
-
-O Melchior ergueu os hombros com um ar canÁado e descrente:
-
---Calam-se tambem porque o publico n„o se importa, ninguem se importa...
-
-Ega protestou, j· excitado. O Publico n„o se importava!? Essa era
-curiosa! O Publico ent„o n„o se importa que lhe fallem de livros que
-elle compra aos tres mil, aos seis mil exemplares? E isto, dada a
-populaÁ„o de Portugal, caramba, È igual aos grandes successos de Paris e
-de Londres... N„o, Melchiorzinho amigo, n„o! Esse silencio diz ainda
-mais claramente e retumbantemente que as palavras: ´NÛs somos
-incompetentes. NÛs estamos bestialisados pela noticia do snr.
-conselheiro que chegou ou do snr. conselheiro que partiu, pelos
-_High-lifes_, pela amabilidade dos donos da casa, pelo artigo de fundo
-em descompostura e cal„o, por toda esta prosa chula em que nos
-atolamos... NÛs n„o sabemos, n„o podemos j· fallar d'uma obra d'arte ou
-d'uma obra de historia, d'este bello livro de versos ou d'este bello
-livro de viagens. N„o temos nem phrases nem idÈas. N„o somos talvez
-cretinos--mas estamos cretinisados. A obra de litteratura passa muito
-alto--nÛs chafurdamos aqui muito em baixo...ª
-
---E aqui tem vocÍ, Melchior, o que diz, atravÈs do silencio dos jornaes,
-o cÙro dos jornalistas!
-
-Melchior sorria, enlevado, com a cabeÁa deitada para traz, como quem
-goza uma bella ·ria. Depois com uma palmada na mesa:
-
---Caramba, Û Ega, muito bem falla vocÍ!... VocÍ nunca pensou em ser
-deputado? Eu ainda outro dia dizia ao Neves: ´O Ega! O Ega È que era,
-para atirar alli na camara a piadinha · Rochefort. Ardia Troia!ª
-
-E immediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a accender o
-charuto--Melchior arrebatou a penna:
-
---VocÍ est· em veia! Diga l·, dicte l·... Que hei de eu aqui pÙr sobre o
-livro do Craveiro?
-
-Ega quiz saber o que escrevera j· o amigo Melchior. Apenas tres linhas:
-´Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta Sim„o Craveiro. O
-precioso volume, onde scintillam em caprichosos relevos todas as joias
-d'este prestigioso escriptor, È publicado pelos activos editores...ª E
-aqui o Melchior emperr·ra. Melchior n„o gostava d'aquelle frouxo
-termo--_activos_. Ega ent„o suggeriu--_emprehendedores_. Melchior
-emendou, leu:
-
---´...publicado pelos emprehendedores editores...ª Ora sÍbo, rima!
-
-Arrojou a penna, descorÁoado. Acabou-se! N„o estava em _verve_. E alÈm
-d'isso era tarde, tinha a rapariga · espera...
-
---Fica para ·manh„... O peor È que j· ando n'isto ha cinco dias! Irra!
-VocÍ tem raz„o, a gente bestialisa-se. E faz-me raiva! N„o È l· pelo
-livro, n„o me importa o livro... … pelo Craveiro, que È bom rapaz, e
-demais a mais pertence c· ao partido!
-
-Abriu um gavet„o, sacou uma escova, rompeu a escovar-se com desespero. E
-Ega ia ajudal-o, limpar-lhe as costas cheias de cal--quando entre elles
-surgiu a face chupada e nervosa do GonÁalo, com a sua gaforinha
-perpetuamente erguida como por uma rajada de vento.
-
---Que est· o Egasinho a fazer n'este covil da noticia?
-
---Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambem a ouvir o Neves, a grande
-phrase do Gouvarinho...
-
-O GonÁalo pulou, com uma faisca de malicia nos olhos negros de algarvio
-esperto.
-
---A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor!
-
-Travou do braÁo do Ega, puxou-o para um canto da janella:
-
---… necessario fallar baixo por causa da rapaziada de provincia... Ha
-outra deliciosa. Eu n„o me lembro bem, o Neves È que sabe! … uma coisa
-da Liberdade conduzindo · m„o o corcel do Progresso... O quer que seja
-assim, uma imagem equestre! A Liberdade com calÁıes de jockey, o
-Progresso com um grande freio... Espantoso! Que besta, aquelle
-Gouvarinho! E os outros, menino, os outros! VocÍ n„o foi · camara quando
-se discutiu a quest„o de Tondella? Extraordinario! O que se disse! Foi
-de morrer! E eu morro! Esta politica, este S. Bento, esta eloquencia,
-estes bachareis matam-me. Querem dizer agora ahi que isto por fim n„o È
-peor que a Bulgaria. Historias! Nunca houve uma choldra assim no
-universo!
-
---Choldra em que vocÍ chafurda! observou o Ega rindo.
-
-O outro recuou com um grande gesto:
-
---Distingamos! Chafurdo por necessidade, como politico: e trÛÁo por
-gosto, como artista!
-
-Mas Ega justamente achava uma desgraÁa incomparavel para o paiz--esse
-immoral desaccordo entre a intelligencia e o caracter. Assim, alli
-estava o amigo GonÁalo, como homem de intelligencia, considerando o
-Gouvarinho um imbecil...
-
---Uma cavalgadura, corrigiu o outro.
-
---Perfeitamente! E todavia, como politico, vocÍ quer essa cavalgadura
-para ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos sempre que ella
-rinche ou escoucinhe.
-
-GonÁalo correu lentamente a m„o pela gaforinha, com a face franzida:
-
---… necessario, homem! Razıes de disciplina e de solidariedade
-partidaria... Ha uns compromissos... O paÁo quer, gosta d'elle...
-
-Espreitou em roda, murmurou, collado ao Ega:
-
---Ha ahi umas questıes de syndicatos, de banqueiros, de concessıes em
-MoÁambique... Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!
-
-E como Ega se curvava, vencido, cheio sÛ de respeito--o outro, faiscando
-todo de finura e cynismo, atirou-lhe uma palmada ao hombro:
-
---Meu caro, a politica hoje È uma coisa muito differente! NÛs fizemos
-como vocÍs os litteratos. Antigamente a litteratura era a imaginaÁ„o, a
-phantasia, o ideal... Hoje È a realidade, a experiencia, o facto
-positivo, o documento. Pois c· a politica em Portugal tambem se lanÁou
-na corrente realista. No tempo da RegeneraÁ„o e dos Historicos a
-politica era o progresso, a viaÁ„o, a liberdade, o palavrorio... NÛs
-mudamos tudo isso. Hoje È o facto positivo,--o dinheiro, o dinheiro! o
-bago! a _massa_! A rica _massinha_ da nossa alma, menino! O divino
-dinheiro!
-
-E de repente emmudeceu, sentindo na sala um silencio--onde o seu grito
-de ´dinheiro! dinheiro!ª parecera ficar vibrando, no ar quente do gaz,
-com a prolongaÁ„o de um toque de rebate acordando as cubiÁas, chamando
-ao longe e ao largo todos os habeis para o saque da Patria inerte!...
-
-O Neves desapparecera. Os cavalheiros de provincia dispersavam, uns
-enfiando o paletot, outros sem pressa dando um olhar amortecido aos
-jornaes sobre a mesa. E o GonÁalo bruscamente disse adeus ao Ega, rodou
-nos tacıes, desappareceu tambem, abraÁando ao passar um dos padres a
-quem tratou de ´malandro!ª
-
-Era meia noite, Ega sahiu. E na tipoia que o levava ao Ramalhete, j·
-mais calmo, comeÁou logo a reflectir que o resultado da publicaÁ„o da
-carta seria despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. A ´quest„o
-de cavallosª com que o Neves se content·ra promptamente, distrahido e
-absorvido n'essa noite pela crise,--ninguem mais a acreditaria... O
-Damaso decerto, interrogado, para se desculpar, contaria horrores de
-Maria e de Carlos: e uma intoleravel luz d'escandalo ia bater coisas que
-deviam permanecer na sombra. Eram talvez apoquentaÁıes, desesperos que
-elle assim estivera preparando a Carlos--por causa d'um odiosinho ao
-Damaso. Nada mais egoista e pequeno!... E subindo para o quarto Ega
-decidia correr depois d'almoÁo · redacÁ„o da _Tarde_, suster a
-publicaÁ„o da carta.
-
-Mas toda essa noite sonhou com Rachel e com Damaso. Via-os rolando por
-uma estrada sem fim, entre pomares e vinhedos, deitados n'uma carroÁa de
-bois, sobre um enxerg„o onde se desdobrava, lasciva e rica, a sua colcha
-de setim preto da _villa_ Balzac: os dois beijavam-se, enroscados, sem
-pudor, sob a fresca sombra que cahia dos ramos, ao chiar lento das
-rodas. E por um requinte do sonho cruel, elle Ega, sem perder a
-consciencia e o orgulho d'homem, era um dos bois que puxava ao carro! Os
-moscardos picavam-no, a canga pesava-lhe; e, a cada beijo mais cantado
-que atraz soava no carro, elle erguia o focinho a escorrer de baba,
-sacudia os cornos, mugia lamentavelmente para os cÈos!
-
-Acordou n'estes urros d'agonia: e a sua cÛlera contra o Damaso resurgiu,
-mais nutrida pelas incoherencias do sonho. AlÈm d'isso chovia. E decidiu
-n„o voltar · _Tarde_, deixar imprimir a carta. Que importava, de resto,
-o que dissesse o Damaso? O artigo da _Corneta_ estava extincto, o Palma
-bem pago.--E quem j·mais acreditaria n'um homem que nos jornaes se
-declara calumniador e bebedo?
-
-E Carlos assim pensou tambem--quando, depois d'almoÁo, Ega lhe contou a
-sua resoluÁ„o da vespera ao vÍr o Damaso no camarote, d'olho trocista
-posto n'elle, a segredar com os Cohens...
-
---Percebi claramente, sem erro possivel, que estava a fallar de ti, da
-snr.^a D. Maria, de nÛs todos, contando horrores... E ent„o acabou-se,
-n„o hesitei mais. Era necessario deixar passar a justiÁa de Deus! N„o
-tinhamos paz emquanto o n„o aniquilassemos!
-
-Sim, concordou Carlos, talvez. SÛmente receava que o avÙ, sabendo o
-escandalo, se desgostasse de vÍr o seu nome misturado a toda aquella
-sordidez de _Corneta_ e de bebedeira...
-
---Elle n„o lÍ a _Tarde_, acudiu Ega. O rumor, se lhe chegar, È j· vago e
-desfigurado.
-
-Com effeito Affonso soube apenas confusamente que o Damaso solt·ra no
-Gremio algumas palavras desagradaveis para Carlos, e declar·ra depois
-n'um jornal que, n'esse momento, estava bebedo. E a opini„o do velho
-foi--que se o Damaso estava embriagado (e d'outro modo como teria
-injuriado Carlos, seu antigo amigo?) a sua declaraÁ„o revelava extrema
-lealdade e um amor quasi heroico da verdade!
-
---Por esta n„o esperavamos nÛs! exclamou depois Ega no quarto de Carlos.
-O Damaso torna-se um justo!
-
-De resto os amigos da casa, sem conhecer o artigo da _Corneta_,
-approvavam a aniquilaÁ„o do Damaso. SÛ o Craft sustentou que Carlos lhe
-devia ter antes dado ´bengaladas secretasª; e o Taveira achou cruel que
-se dissesse ao desgraÁado, com um florete ao peito--´ou a dignidade ou a
-vida!ª
-
-Mas dias depois n„o se fallava mais n'esse escandalo. Outras coisas
-interessavam o Chiado e a Casa Havaneza. O ministerio fÙra formado,
-finalmente! Gouvarinho entrava na Marinha--Neves no Tribunal de Contas.
-J· os jornaes do governo cahido comeÁavam, segundo a pratica
-constitucional, a achar o paiz irremediavelmente perdido, e a alludir ao
-rei com azedume... E o derradeiro, esvaÌdo echo da carta do Damaso foi,
-na vespera do sarau da Trindade, um paragrapho da propria _Tarde_ onde
-ella fÙra publicada, n'estas amaveis palavras:
-
---´O nosso amigo e distincto _sportman_ Damaso Salcede parte brevemente
-para uma viagem de recreio a Italia. Desejamos ao elegante _touriste_
-todas as prosperidades na sua bella excurs„o ao paiz do canto e das
-artes.ª
-
-
-
-
-VI
-
-
-Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demor·ra no
-corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletot, entrou na
-sala, perguntando a Maria, j· sentada ao piano:
-
---Ent„o, definitivamente, v. exc.^a n„o vem ao sarau da Trindade?...
-
-Ella voltou-se para dizer, preguiÁosamente, por entre a walsa lenta que
-lhe cantava entre os dedos:
-
---N„o me interessa, estou muito canÁada...
-
---… uma sÈcca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se
-estir·ra consoladamente, fumando, d'olhos cerrados.
-
-Ega protestou. Tambem era uma massada subir ·s Pyramides no Egypto. E no
-emtanto soffria-se invariavelmente, porque nem todos os dias pÛde um
-christ„o trepar a um monumento que tem cinco mil annos de existencia...
-Ora a snr.^a D. Maria, n'este sarau, ia vÍr por dez tostıes uma coisa
-tambem rara,--a alma sentimental d'um povo exhibindo-se n'um palco, ao
-mesmo tempo nua e de casaca.
-
---V·, coragem! um chapÈo, um par de luvas, e a caminho!
-
-Ella sorria, queixando-se de fadiga e preguiÁa.
-
---Bem, exclamou Ega, eu È que n„o quero perder o Rufino... Vamos l·,
-Carlos, mexe-te!
-
-Mas Carlos implorou clemencia:
-
---Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do _Hamlet_.
-Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, sÛ gorgeiam mais
-tarde...
-
-Ent„o Ega, cedendo tambem a todo aquelle conchego tepido e amavel,
-enterrou-se no sof· com o charuto, para escutar a canÁ„o d'_Ophelia_, de
-que Maria j· murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes:
-
-
- P‚le et blonde,
- Dort sous l'eau profonde...
-
-
-Ega adorava esta velha ballada escandinavia. Mais porÈm o encantava
-Maria que nunca lhe parecera t„o bella: o vestido claro que tinha n'essa
-noite modelava-a com a perfeiÁ„o d'um marmore: e entre as velas do
-piano, que lhe punham um traÁo de luz no perfil puro e tons d'ouro
-esfiado no cabello--o incomparavel eburneo da sua pelle ganhava em
-esplendor e mimo... Tudo n'ella era harmonioso, s„o, perfeito... E
-quanto aquella serenidade da sua fÛrma devia tornar delicioso o ardor da
-sua paix„o! Carlos era positivamente o homem mais feliz d'estes reinos!
-Em torno d'elle sÛ havia facilidades, doÁuras. Era rico, intelligente,
-d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; sÛ
-tinha o numero d'inimigos que È necessario para confirmar uma
-superioridade; nunca soffrera de dyspepsia; jogava as armas bastante
-para ser temido; e na sua complacencia de forte nem a tolice publica o
-irritava. SÍr verdadeiramente ditoso!
-
---Quem È por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os pÈs
-pelo tapete, quando Maria findou a canÁ„o d'_Ophelia_.
-
-Ega n„o sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado...
-
-Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se:
-
---… esse grande orador de que fallavam na _Toca_?
-
-N„o, n„o! Esse era outro, a sÈrio, um amigo de Coimbra, o JosÈ Clemente,
-homem d'eloquencia e de pensamento... Este Rufino era um rat„o de pera
-grande, deputado por MonÁ„o, e sublime n'essa arte, antigamente nacional
-e hoje mais particularmente provinciana, de arranjar, n'uma voz de
-theatro e de papo, combinaÁıes sonoras de palavras...
-
---Detesto isso! rosnou Carlos.
-
-Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idÈas, como
-um passaro n'um galho d'arvore...
-
---… conforme a occasi„o, observou Ega, olhando o relogio. Uma walsa de
-Strauss tambem n„o tem idÈas, e · noite, com mulheres n'uma sala, È
-deliciosa...
-
-N„o, n„o! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava sempre a
-palavra humana, que, pela sua natureza mesma, sÛ pÛde servir para dar
-fÛrma ·s idÈas. A musica, essa, falla aos nervos. Se se cantar uma
-marcha a uma crianÁa, ella ri-se e salta no collo...
-
---E se lhe lÍres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho
-secca-se e berra!
-
---Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos
-costumes que ella cria. N„o ha inglez, por mais culto e espiritualista,
-que n„o tenha um fraco pela forÁa, pelos athletas, pelo _sport_, pelos
-musculos de ferro. E nÛs, os meridionaes, por mais criticos, gostamos do
-palavriadinho mavioso. Eu c· pelo menos, · noite, com mulheres, luzes,
-um piano e gente de casaca, pello-me por um bocado de rhetorica.
-
-E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot,
-voar · _Trindade_, n'um receio de perder o Rufino.
-
-Carlos deteve-o ainda, com uma grande idÈa:
-
---Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beethoven;
-nÛs declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se
-te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma medonha orgia
-d'ideal!...
-
---E ha melhores cadeiras, acudiu Maria.
-
---Melhores poetas, affirmou Carlos.
-
---Bons charutos!
-
---Bom cognac!
-
-Ega alÁou os braÁos ao ar, desolado. Ahi est· como se pervertia um
-cidad„o, impedindo-o de proteger as letras patrias--com promessas
-perfidas de tabaco e de bebidas!... Mas de resto elle n„o tinha sÛ uma
-raz„o litteraria para ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas
-_MeditaÁıes d'Outono_, e era necessario dar palmas ao Cruges.
-
---N„o digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona. Esquecia-me
-o Cruges!... … um dever d'honra! Abalemos.
-
-E d'ahi a pouco, tendo beijado a m„o de Maria que ficava ao piano, os
-dois, surprehendidos com a belleza d'essa noite d'inverno, t„o clara e
-dÙce, seguiam devagar pela rua--onde Carlos ainda duas vezes se voltou
-para olhar as janellas alumiadas.
-
---Estou bem contente, exclamou elle travando do braÁo do Ega, em ter
-deixado os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos para um bocado
-de cavaco e de litteratura...
-
-Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o quarto
-ao lado n'um _fumoir_ forrado com as suas colchas da India, depois ter
-um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim se realisava o velho
-sonho, o cenaculo de dilettantismo e d'arte... AlÈm d'isso havia a
-lanÁar a _Revista_, que era a suprema pandega intellectual. Tudo isto
-annunciava um inverno _chic a valer_, como dizia o defunto Damaso.
-
---E tudo isto, resumiu o Ega, È dar civilisaÁ„o ao paiz. Positivamente,
-menino, vamo-nos tornar grandes cidad„os!...
-
---Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja
-aqui na rua de S. Francisco... Que belleza de noite!
-
-
-
-Pararam · porta do theatro da Trindade no momento em que, d'uma tipoia
-de praÁa, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com
-um chapÈo de largas abas recurvas · moda de 1830. Passou junto dos dois
-amigos sem os vÍr, recolhendo um troco · bolsa. Mas Ega reconheceu-o.
-
---… o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo!
-
---E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos rindo.
-
-Por cima, de repente, no sal„o, estalaram grandes palmas. Carlos, que
-dava o paletot ao porteiro, receou que j· fosse o Cruges...
-
---Qual! disse o Ega. Aquillo È applaudir de rhetorica!
-
-E com effeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao
-ante-sal„o, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de pÈs,
-segredando--sentiram logo um vozeir„o tumido, garganteado, provinciano,
-de vogaes arrastadas em canto, invocando l· do fundo, do estrado, ´a
-alma religiosa de Lamartine!...ª
-
---… o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Telles da Gama que n„o
-pass·ra da porta, com o charuto escondido atraz das costas.
-
-Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Telles. Mas Ega, esguio e magro,
-foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D'ambos os lados se
-cerravam filas de cabeÁas, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de
-palhinha atÈ junto ao tablado, onde dominavam os chapÈos de senhoras
-picados por manchas claras de plumas ou flÙres. Em volta, de pÈ,
-encostados aos pilares ligeiros que sustÍm a galeria, reflectidos pelos
-espelhos, estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das
-Secretarias, uns de gravata branca, outros de jaquetıes. Ega avistou o
-snr. Sousa Netto, pensativo, sustentando entre dois dedos a face
-escaveirada, de barba rala; adiante o GonÁalo, com a sua gaforinha ao
-vento; depois o marquez atabafado n'um cache-nez de sÍda branca; e, n'um
-grupo, mais longe, rapazes do Jockey Club, os dois Vargas, o MendonÁa, o
-Pinheiro, assistindo ·quelle _sport_ da eloquencia com uma mistura
-d'assombro e tedio. Por cima, no parapeito de velludo da galeria, corria
-outra linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se mollemente; por
-traz alÁava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava o Neves, o
-novo Conselheiro, grave, de braÁos cruzados, com um bot„o de camelia na
-casaca mal feita.
-
-O gaz suffocava, vibrando cruamente n'aquella sala clara, d'um tom
-desmaiado de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e alÈm uma
-tosse timida de catarrho desmanchava o silencio, logo abafada no lenÁo.
-E na extremidade da galeria, n'um camarote feito de tabiques, com
-sanefas de velludo cÙr de cereja, duas cadeiras de espaldar dourado
-permaneciam vazias, na solemnidade real do seu damasco escarlate.
-
-No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito
-trigueiro, de pera, alargava os braÁos, celebrava um anjo, ´o _Anjo da
-Esmola_ que elle entrevira, alÈm no azul, batendo as azas de setim...ª
-Ega n„o comprehendia bem--entalado entre um padre muito gordo que
-pingava de suor, e um alferes de lunetas escuras. Por fim n„o se
-conteve:--´Sobre que est· elle a fallar?ª E foi o padre que o informou,
-com a face luzidia, inflammada de enthusiasmo:
-
---Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime...
-Infelizmente est· a acabar!
-
-Parecia ser, com effeito, a peroraÁ„o. O Rufino arrebat·ra o lenÁo,
-limpava a testa lentamente; depois arremetteu para a borda do tablado,
-voltando-se para as cadeiras reaes com um t„o ardente gesto
-d'inspiraÁ„o--que o collete repuxado descobriu o comeÁo da ceroula. Foi
-ent„o que Ega comprehendeu. Rufino estava exaltando uma princeza que
-dera seiscentos mil reis para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio
-d'elles organisar um bazar na Tapada. Mas n„o era sÛ essa soberba esmola
-que deslumbrava o Rufino--porque elle, ´como todos os homens educados
-pela philosophia e que tÍm a verdadeira orientaÁ„o mental do seu tempo,
-via nos grandes factos da historia n„o sÛ a sua belleza poetica, mas a
-sua influencia social. A multid„o, essa, sorria simplesmente, enlevada,
-para a incomparavel poesia da m„o calÁada de fina luva que se estende
-para o pobre. Elle porÈm, philosopho, antevia j·, sahindo d'esses
-delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo e formoso... O
-quÍ, meus senhores? O renascimento da FÈ!ª
-
-De repente, um leque que escorreg·ra da galeria, arrancando em baixo um
-berro a uma senhora gorda, creou um susurro, uma curta emoÁ„o. Um
-commissario do sarau, D. JosÈ Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do
-tablado, com o seu laÁarote de sÍda vermelha na casaca, dardejando
-severamente os olhos vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos
-risos esfusiavam. Outros cavalheiros, indignados, gritavam ´_chut,
-silencio,_ _fÛra!_ª E das cadeiras da frente surgiu a face ministerial
-do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as lunetas brilhando
-duramente... Ent„o Ega procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim
-mais longe, com um chapÈo azul, entre a Alvim toda de preto e umas
-vastas esp·doas cobertas de setim malva que eram as da baroneza de
-Craben. Todo o rumor findava--e o Rufino, que molh·ra lentamente os
-labios no copo, avanÁou um passo, sorrindo, com o lenÁo branco na m„o:
-
---Dizia eu, meus senhores, que dada a orientaÁ„o mental d'este seculo...
-
-Mas o Ega suffocava, esmagado, farto do Rufino, com a impress„o de que o
-padre ao lado cheirava mal. E n„o aturou mais, furou para traz, para
-desabafar com Carlos.
-
---Tu imaginavas uma besta assim?
-
---Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocar· o Cruges?
-
-Ega n„o sabia, todo o programma fÙra alterado.
-
---E tens c· a Gouvarinho! Est· l· adiante, d'azul... Hei de querer vÍr
-logo esse encontro!
-
-Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente
-´_bonsoir, messieurs_...ª Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de
-casaca, em pontas de pÈs, com as claques fechadas. E immediatamente
-Steinbroken queixou-se da ausencia da familia real...
-
---Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assurÈ que la
-reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas, toute
-cette musique, ces vers?... Voil‡ pourquoi je suis venu. C'est trËs
-ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours en santÈ?
-
---Merci...
-
-Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traÁa n'uma
-tela linhas lentas e nobres, descrevia a doÁura d'uma aldeia, a aldeia
-em que elle nascera, ao pÙr do sol. E o seu vozeir„o velava-se,
-enternecido, morrendo n'um rumor de crepusculo. Ent„o Steinbroken,
-subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria saber se era esse o grande
-orador de que lhe tinham fallado...
-
-Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa!
-
---Em qual gÈnerro?...
-
---Genero sublime, genero de Demosthenes!
-
-Steinbroken alÁou as sobrancelhas com admiraÁ„o, fallou em filandez ao
-seu secretario que entalou languidamente o monoculo: e com as claques
-debaixo do braÁo, cerrados os olhos, recolhidos como n'um templo, os
-dois enviados da Filandia ficaram escutando, · espera do sublime.
-
-Ruffino, no entanto, com as m„os descahidas, confessava uma fragilidade
-de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia natal, onde a
-violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus
-irrefutavelmente,--elle fÙra dilacerado pelo espinho da descrenÁa! Sim,
-quantas vezes, ao cahir da tarde, quando os sinos da velha torre
-choravam no ar a Ave-Maria e no valle cantavam as ceifeiras, elle
-pass·ra junto da cruz do adro e da cruz do cemiterio, atirando-lhes de
-lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire!...
-
-Um largo fremito d'emoÁ„o passou. Vozes suffocadas de gozo mal podiam
-murmurar ´_muito bem, muito bem_...ª
-
-Pois fÙra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino ouvira um
-grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que succedera? Era a
-Natureza que atacava seus filhos!--E lanÁando os braÁos, como quem se
-debate n'uma catastrophe, Rufino pintou a inundaÁ„o... Aqui aluia um
-casal, ninho florido d'amores; alÈm, na quebrada, passava o balar
-choroso dos gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando
-um bot„o de rosa e um berÁo!...
-
-Os _bravos_ partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em
-torno de Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns para
-os outros, com um brilho na face, commungando no mesmo enthusiasmo: ´Que
-rajadas!... Caramba!... Sublime!...ª
-
-Rufino sorria, bebendo esta commoÁ„o, que era a obra do seu verbo.
-Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras reaes, solemnes e
-vazias...
-
-Vendo que a cÛlera da Natureza rugia implacavel, elle erguera os olhos
-para o natural abrigo, para o exaltado logar d'onde desce a salvaÁ„o,
-para o Throno de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre
-elle estenderem-se as azas brancas d'um anjo! Era o anjo da esmola, meus
-senhores! E d'onde vinha? d'onde recebera a inspiraÁ„o da caridade?
-d'onde sahia assim, com os seus cabellos d'ouro? Dos livros da sciencia?
-dos laboratorios chimicos? d'esses amphitheatros d'anatomia onde se nega
-covardemente a alma? das sÍccas escÛlas de philosophia que fazem de
-Jesus um precursor de Robespierre? N„o! Elle ous·ra interrogar o anjo,
-submisso, com o joelho em terra. E o anjo da esmola, apontando o espaÁo
-divino, murmur·ra: ´Venho d'alÈm!ª
-
-Ent„o pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo. Era como se os
-estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto. Um
-estremecimento devoto e poetico arrepiava as cuias das senhoras.
-
-E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores!
-Desde esse momento, a duvida fÙra n'elle como a nevoa que o sol, este
-radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora, apesar de todas as
-ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos d'um Renan, d'um
-LittrÈ e d'um Spencer, elle, que recebera a confidencia divina, podia
-alli, com a m„o sobre o coraÁ„o, affirmar a todos bem alto--havia um
-cÈo!
-
---Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento.
-
-E por todo o sal„o, no aperto e no calor do gaz, os cavalheiros das
-Secretarias, da Arcada, da Casa Havaneza, berrando, batendo as m„os,
-affirmaram soberbamente o cÈo!
-
-O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de cÛlera. Era o
-Alencar, de paletot, de gravata branca, cofiando sombriamente os
-bigodes.
-
---Que te parece, Thomaz?
-
---Faz nojo! rugiu surdamente o poeta.
-
-Tremia, revoltado! N'uma noite d'aquellas, toda de poesia, quando os
-homens de letras se deviam mostrar como s„o, filhos da democracia e da
-liberdade, vir aquelle pulha pÙr-se alli a lamber os pÈs · familia
-real... Era simplesmente ascoroso!
-
-L· ao fundo, junto aos degraus do tablado, ia um tumulto d'abraÁos, de
-comprimentos, em torno do Rufino, que reluzia todo de orgulho e suor. E
-pela porta os homens escoavam-se, afogueados, commovidos ainda, puxando
-das charuteiras. Ent„o o poeta travou do braÁo do Ega:
-
---Ouve l·, eu vinha justamente procurar-te. … o Guimar„es, o tio do
-Damaso, que me pediu para te ser apresentado... Diz que È uma coisa
-sÈria, muito sÈria... Est· l· em baixo no botequim, com um _grog_.
-
-Ega pareceu surprehendido... Coisa sÈria!?
-
---Bem, vamos nÛs l· baixo tomar tambem um _grog_! E que recitas tu logo,
-Alencar?
-
---_A Democracia_, foi dizendo o poeta pela escada, com certa reserva.
-Uma coisita nova, tu ver·s... S„o algumas verdades duras a toda essa
-burguezia...
-
-Estavam · porta do botequim--e precisamente o snr. Guimar„es sahia, com
-o chapÈo sobre o olho, de charuto accÍso, abotoando a sobrecasaca.
-Alencar lanÁou a apresentaÁ„o, com immensa gravidade:
-
---O meu amigo Jo„o da Ega... O meu velho amigo Guimar„es, um bravo c·
-dos nossos, um veterano da Democracia.
-
-Ega acercou-se d'uma mesa, puxou cortezmente um banco para o veterano da
-Democracia, quiz saber se elle preferia cognac ou cerveja.
-
---Tomei agora o meu _grog_ de guerra, disse o snr. Guimar„es com
-seccura, tenho para toda a noite.
-
-Um criado dava uma limpadella lenta sobre o marmore da mesa. Ega ordenou
-cerveja. E directamente, largando o charuto, passando a m„o pelas barbas
-a retocar a magestade da face, o snr. Guimar„es comeÁou com lentid„o e
-solemnidade:
-
---Eu sou tio do Damaso Salcede, e pedi aqui ao meu velho amigo Alencar
-para me apresentar a v. exc.^a, com o fim de o intimar a que olhe bem
-para mim e que diga se me acha cara de bebedo...
-
-Ega comprehendeu, atalhou logo, cheio de franqueza e bonhomia:
-
---V. exc.^a refere-se a uma carta que seu sobrinho me escreveu...
-
---Carta que v. exc.^a dictou! Carta que v. exc.^a o forÁou a assignar!
-
---Eu?...
-
---Affirmou-m'o elle, senhor!
-
-Alencar interveio:
-
---Fallem vocÍs baixo, que diabo!... Isto È terra de curiosos...
-
-O snr. Guimar„es tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa. Tinha
-estado, contou elle, havia semanas fÛra de Lisboa por negocios da
-heranÁa de seu irm„o. N„o vira o sobrinho, porque sÛ por necessidade se
-encontrava com esse imbecil. Na vespera, em casa d'um antigo amigo, o
-Vaz Forte, deit·ra por acaso os olhos ao _Futuro_, um jornal
-republicano, bem escripto, mas frouxo de idÈas. E avist·ra logo na
-primeira pagina, em typo enorme, sob esta rubrica ali·s justa _Coisas do
-high-life_, a carta do sobrinho... Imagine o snr. Ega o seu furor! Alli
-mesmo, em casa do Forte, escrevera ao Damaso pouco mais ou menos n'estes
-termos: ´Li a tua infame declaraÁ„o. Se ·manh„ n„o fazes outra, em todos
-os jornaes, dizendo que n„o tinhas intenÁ„o de me incluir entre os
-bebedos da tua familia, vou ahi e quebro-te os ossos um por um. Treme!ª
-Assim lhe escrevera. E sabia o snr. Jo„o da Ega qual fÙra a resposta do
-snr. Damaso?
-
---Tenho-a aqui, È um _documento humano_, como diz o amigo Zola! Aqui
-est·... Grande papel, monogramma d'ouro, corÙa de conde. Aquelle asno!
-Quer v. exc.^a que eu leia?
-
-A um gesto risonho do Ega, elle mesmo leu, lentamente, e sublinhando:
-
---´Meu caro tio! A carta de que falla foi escripta pelo snr. Jo„o da
-Ega. Eu era incapaz de tal desacato · nossa querida familia. Foi elle
-que me agarrou na m„o, · forÁa, para eu assignar: e eu, n'aquella
-atrapalhaÁ„o, sem saber o que fazia, assignei para evitar fallatorios.
-Foi um laÁo que me armaram os meus inimigos. O meu querido tio, que sabe
-como eu gÛsto de si, que atÈ estava o anno passado com tenÁ„o, se
-soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de
-Collares, n„o fique pois zangado commigo. Bem infeliz j· eu sou! E se
-quizer procure esse Jo„o da Ega que me perdeu! Mas acredite que hei de
-tirar uma vinganÁa que ha de ser fallada! Ainda n„o decidi qual, n'esta
-atarantaÁ„o; mas em todo o caso a nossa familia ha de ficar
-desenxovalhada, porque eu nunca admitti que ninguem brincasse com a
-minha dignidade... E se o n„o fiz j· antes de partir para Italia, se
-ainda n„o pugnei pela minha honra, È porque ha dias, com todos estes
-abalos, veio-me uma tremenda dysenteria, que estou que me n„o tenho nas
-pernas. Isto por cima dos meus males moraes!...ª V. exc.^a ri-se, snr.
-Ega?
-
---Pois que quer v. exc.^a que eu faÁa? balbuciou o Ega por fim,
-suffocado, com os olhos em lagrimas. Rio-me eu, ri-se o Alencar, ri-se
-v. exc.^a Isso È extraordinario! Essa dignidade, essa dysenteria...
-
-O snr. Guimar„es, embaÁado, olhou o Ega, olhou o poeta que fungava sob
-os longos bigodes, e terminou por dizer:
-
---Com effeito, a carta È d'uma cavalgadura... Mas o facto permanece...
-
-Ent„o Ega appellou para o bom senso do snr. Guimar„es, para a sua
-experiencia das coisas d'honra. Comprehendia elle que dois cavalheiros,
-indo desafiar um homem a sua casa, lhe agarrem no pulso, o forcem
-violentamente a assignar uma carta em que elle se declara bebedo?...
-
-O snr. Guimar„es, agradado com aquella deferencia pelo seu tacto e pela
-sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em Paris, seria pouco
-natural.
-
---E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto n„o È a Cafraria! E diga-me o
-snr. Guimar„es outra coisa, de gentleman para gentleman: como considera
-seu sobrinho? um homem irreprehensivelmente veridico?
-
-O snr. Guimar„es cofiou as barbas, declarou lealmente:
-
---Um refinado mentiroso.
-
---Ent„o! gritou Ega em triumpho, atirando os braÁos ao ar.
-
-De novo Alencar interveio. A quest„o parecia-lhe satisfactoriamente
-finda. E n„o restava sen„o os dois apertarem-se a m„o fraternalmente,
-como bons democratas...
-
-J· de pÈ, atirou a genebra ·s guelas. Ega sorria, estendia a m„o ao snr.
-Guimar„es. Mas o velho demagogo, ainda com uma sombra na face enrugada,
-desejou que o snr. Jo„o da Ega (se n'isso n„o tinha duvida) declarasse,
-alli diante do amigo Alencar, que n„o lhe achava a elle, Guimar„es, cara
-de bebedo...
-
---Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa para
-chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar diante do
-Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara d'um perfeito
-cavalheiro e d'um patriota!
-
-Ent„o trocaram um rasgado aperto de m„os--emquanto o snr. Guimar„es
-affirmava a sua satisfaÁ„o por conhecer o snr. Jo„o da Ega, moÁo de
-tantos dotes e t„o liberal. E quando s. exc.^a quizesse qualquer coisa,
-politica ou litteraria, era escrever este endereÁo bem conhecido no
-mundo:--_Redaction du_ Rappel, _Paris!_
-
-Alencar abal·ra. E os dois deixaram o botequim, trocando impressıes do
-sarau. O snr. Guimar„es estava enojado com a carolice, a sabujice d'esse
-Rufino. Quando o ouvira palrar das azas da princeza e da cruz do adro,
-quasi lhe grit·ra c· do fundo: ´Quanto te pagam para isso, miseravel?ª
-
-Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapÈo:
-
---Oh snr.^a baroneza, ent„o j· nos abandona?
-
-Era a Alvim que descia devagar, com a Joanninha Villar, atando as largas
-fitas d'uma capa de pellucia verde. Queixou-se d'uma dÙr de cabeÁa que a
-torturava, apesar de ter gostado loucamente do Rufino... Mas uma noite
-toda de litteratura, que estafa! E agora, para mais, fic·ra l· um
-homemzinho a fazer musica classica...
-
---… o meu amigo Cruges!
-
---Ah! È seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse antes o
-_Pirolito_.
-
---V. exc.^a afflige-me com esse desdem pelos grandes mestres... N„o quer
-que a v· acompanhar · carruagem? Paciencia... Muito boa noite, snr.^a D.
-Joanna!... Um servo seu, snr.^a baroneza! E Deus lhe tire a sua dÙr de
-cabeÁa!
-
-Ella voltou-se ainda no degrau, para o ameaÁar risonhamente com o leque:
-
---N„o seja impostor! O snr. Ega n„o acredita em Deus.
-
---Perd„o... Que o Diabo lhe tire a sua dÙr de cabeÁa, snr.^a baroneza!
-
-O velho democrata desapparecera discretamente. E da ante-sala Ega
-avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um mÙcho muito baixo que lhe
-fazia roÁar pelo ch„o as longas abas da casaca--o Cruges, com o nariz
-bicudo contra o caderno da Sonata, martellando sabiamente o teclado. Foi
-ent„o subindo em pontas de pÈs pela coxia tapetada de vermelho, agora
-desafogada, quasi vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras,
-canÁadas, bocejavam por traz dos leques.
-
-Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um
-rancho intimo, a marqueza de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza Darque.
-E a boa D. Maria tocou-lhe logo no braÁo para saber quem era aquelle
-musico de cabelleira.
-
---Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges.
-
-O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o n„o conheciam. E era
-composiÁ„o d'elle, aquella coisa triste?
-
---… de Beethoven, snr.^a D. Maria da Cunha, a _Sonata pathetica_.
-
-Uma das Pedrosos n„o percebera bem o nome da Sonata. E a marqueza de
-Soutal, muito sÈria, muito bella, cheirando devagar um frasquinho de
-saes, disse que era a _Sonata pateta_. Por toda a bancada foi um
-rastilho de risos suffocados. A _Sonata pateta_! Aquillo parecia divino!
-Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face enorme,
-imberbe e cÙr de papoula:
-
---Muito bem, snr.^a marqueza, muito catita!
-
-E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam ·
-marqueza, entre o _frou-frou_ dos leques. Ella triumphava, bella e
-sÈria, com um velho vestido de velludo preto, respirando os
-saes--emquanto adiante um amador de barba grisalha cravava n'aquelle
-rancho ruidoso dois grandes oculos d'ouro que faiscavam de cÛlera.
-
-No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarrhoados
-tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a _Tarde_. E cahido
-sobre o teclado, com a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre
-Cruges, suando, estonteado por aquella desattenÁ„o rumorosa, atabalhoava
-as notas, n'uma debandada.
-
---Fiasco completo, declarou Carlos que se aproxim·ra do Ega e do rancho.
-
-Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! AtÈ que emfim se
-via o snr. Carlos da Maia, o Principe Tenebroso! Que fizera elle durante
-esse ver„o? Todo o mundo a esperal-o em Cintra, alguem mesmo com
-anciedade... Um _chut_ furioso do amador de barbas grisalhas
-emmudeceu-a. E justamente Cruges, depois de bater dois accordes bruscos,
-arred·ra o mÙcho, esgueirava-se do estrado, enxugando as m„os ao lenÁo.
-Aqui e alÈm algumas palmas resoaram, molles e de cortezia, entre um
-grande murmurio d'allivio. E o Ega e Carlos correram · porta, onde j·
-esperavam o marquez, o Craft, o Taveira--para abraÁar, consolar o pobre
-Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados.
-
-E immediatamente, no silencio attento que redominava, um sujeito muito
-magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscripto na m„o. Alguem
-ao lado do Ega disse que era o Prata, que ia fallar sobre o _Estado
-agricola da provincia do Minho_. Atraz, um criado veio collocar sobre a
-mesa um candelabro de duas velas: o Prata, d'ilharga para a luz,
-mergulhou no caderno: e d'entre o perfil triste e as folhas largas um
-rumor lento foi escorrendo, rumor de reza n'uma somnolencia de novena,
-onde por vezes destacavam como gemidos--´riqueza dos gados...,
-esphacelamento da propriedade..., fertil e desprotegida regi„o...ª
-
-ComeÁou ent„o uma debandada sorrateira e formigueira, que nem os _chuts_
-do commissario do sarau, vigilante e de pÈ sobre um degrau do estrado,
-podiam conter. SÛ as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata idoso,
-que se inclinava zelosamente para o murmurio de reza, com a m„o em
-concha sobre a orelha.
-
-Ega, que fugia tambem ´ao vecejante paraiso do Minhoª, achou-se em
-frente do snr. Guimar„es.
-
---Que massada, hein?
-
-O democrata concordou que aquelle preopinante n„o lhe parecia
-divertido... Depois, mais sÈrio, com outra idÈa, segurando um bot„o da
-casaca do Ega:
-
----Eu espero que v. exc.^a ha pouco n„o ficasse com a impress„o de que
-eu sou solidario ou me importo com meu sobrinho...
-
-Oh! decerto que n„o! Ega vira bem que o snr. Guimar„es n„o tinha pelo
-Damaso nenhum enthusiasmo de familia.
-
---Asco, senhor, sÛ asco! Quando elle foi a primeira vez a Paris, e soube
-que eu morava n'uma trapeira, nunca me procurou! Porque aquelle imbecil
-d·-se ares d'aristocrata... E como v. exc.^a sabe, È filho d'um agiota!
-
-Puxou a charuteira, ajuntou gravemente:
-
---A m„i, sim! Minha irm„ era d'uma boa familia. Fez aquelle desgraÁado
-casamento, mas era d'uma boa familia! Que, com os meus principios, j· v.
-exc.^a vÍ que tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brazıes, s„o para mim
-_blague_ e mais _blague_! Mas emfim os factos s„o os factos, a historia
-de Portugal ahi est·... Os Guimar„es da Bairrada eram de sangue azul.
-
-Ega sorriu, n'um assentimento cortez:
-
---E v. exc.^a ent„o parte brevemente para Paris?
-
---¡manh„ mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada do marechal
-de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi pelos ares, j· se
-pÛde l· respirar...
-
-N'esse instante Telles e o Taveira, passando de braÁo dado, voltaram-se,
-a observar curiosamente aquelle velho austero, todo de preto, que
-fallava alto com o Ega de marechaes e de duques. Ega reparou: o
-democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira nova; o seu
-altivo chapÈo reluzia; e Ega ficou de bom grado a conversar com aquelle
-gentleman correcto e venerando que impressionava os seus amigos.
-
---A republica com effeito, observou elle, dando alguns passos ao lado do
-snr. Guimar„es, esteve alli um momento compromettida!
-
---Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me vÍ, para ser expulso por
-causa d'umas verdadesinhas que soltei n'uma reuni„o anarchista. AtÈ me
-affirmaram que n'um conselho de ministros o marechal de Mac-Mahon, que È
-um tarimbeiro, batera um murro na mesa e dissera: _Ce sacrÈ Guimaran, il
-nous embÍte, faut lui donner du pied dans le derriËre!_ Eu n„o estava
-l·, n„o sei, mas affirmaram-me... Em Paris, como os francezes n„o sabem
-pronunciar Guimar„es, e eu embirro que me estropiem o nome, assigno _Mr.
-Guimaran_. Ha dois annos, quando fui · Italia, era _Mr. Guimarini_. E se
-fÙr agora · Russia, c· por coisas, hei de ser _Mr. Guimaroff_... Embirro
-que me estropiem o nome!
-
-Tinham voltado · porta do sal„o. Longas bancadas vazias punham dentro,
-no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono e tedio; e no estrado
-o Prata continuava, de m„o no bolso, com o nariz sobre o manuscripto,
-sem que se sentisse agora surdir um som d'aquelle espantalho esguio. Mas
-o marquez, que descia do fundo, atabafando-se no seu cache-nez de sÍda,
-disse ao Ega ao passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da
-pÛda, e l· tinha ficado ·s voltas com Proudhon.
-
-Ega e o democrata recomeÁaram ent„o os seus passos lentos na ante-sala
-onde o susurro de conversas mal abafadas crescia, como n'um pateo, entre
-fumaÁas furtivas de cigarro. E o snr. Guimar„es chasqueava, achando uma
-boa _bÍtise_ que se citasse Proudhon, alli n'aquelle theatreco, a
-proposito d'estrumes do Minho...
-
---Oh, Proudhon entre nÛs, acudiu Ega rindo, cita-se muito, È j· um
-monstro classico. AtÈ os conselheiros d'Estado j· sabem que para elle a
-propriedade era um roubo, e Deus era o mal...
-
-O democrata encolheu os hombros:
-
---Grande homem, senhor! Homem immenso! S„o os tres grandes pimpıes
-d'este seculo: Proudhon, Garibaldi, e o compadre!
-
---O compadre! exclamou Ega, attonito.
-
-Era o nome d'amizade que o snr. Guimar„es dava em Paris a Gambetta.
-Gambetta nunca o via, que n„o lhe gritasse de longe, em hespanhol:
-_´Hombre, compadre!_ª E elle tambem, logo: ´_Compadre, caramba!_ª D'ahi
-fic·ra a alcunha, e Gambetta ria. Porque l· isso, bom rapaz, e amigo
-d'esta franqueza do sul, e patriota, atÈ alli!
-
---Immenso, meu caro senhor! O maior de todos!
-
-Pois Ega imaginaria que o snr. Guimar„es, com as suas relaÁıes do
-_Rappel_, devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo...
-
---Esse, meu caro senhor, n„o È um homem, È um mundo!
-
-E o snr. Guimar„es ergueu mais a face, ajuntou infinitamente grave:
-
---… um mundo! .. E aqui onde me vÍ, ainda n„o ha tres mezes que elle me
-disse uma coisa que me foi direita ao coraÁ„o!
-
-Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata contou
-largamente esse glorioso lance que ainda o commovia:
-
---Foi uma noite no _Rappel_. Eu estava a escrever, elle appareceu, j· um
-pouco trÙpego, mas com o olho a luzir, e aquella bondade, aquella
-magestade!... Eu ergui-me, como se entrasse um rei... Isto È, n„o! que
-se fosse um rei tinha-lhe dado com a bota no rabiosque. Levantei-me como
-se elle fosse um Deus! Qual Deus! n„o ha Deus que me fizesse
-levantar!... Emfim, acabou-se, levantei-me! Elle olhou para mim, fez
-assim um gesto com a m„o, e disse, a sorrir, com aquelle ar de genio que
-tinha sempre: _Bonsoir, mon ami!_
-
-E o snr. Guimar„es deu alguns passos dignos, em silencio, como se
-aquelle _bonsoir_, aquelle _mon ami_, assim recordados, lhe fizessem
-mais vivamente sentir a sua importancia no mundo.
-
-De repente Alencar, que bracejava n'um grupo, rompeu para elles,
-pallido, d'olhos chammejantes:
-
---Que me dizem vocÍs a esta pouca vergonha? Aquelle infame alli ha meia
-hora, com o in-folio, a rosnar, a rosnar... E toda a gente a sahir, n„o
-fica ninguem! Tenho de recitar aos bancos de palhinha!...
-
-E abalou, rilhando os dentes, a exhalar mais longe o seu furor.
-
-Mas algumas palmas canÁadas, dentro, fizeram voltar o Ega. O estrado
-fic·ra novamente vazio, com as duas velas ardendo no candelabro. Um
-cart„o em grossas letras, que um criado colloc·ra no piano, annunciava
-um ´intervallo de dez minutosª como n'um circo. E n'esse instante a
-snr.^a condessa de Gouvarinho sahira pelo braÁo do marido, deixando
-atraz um sulco largo de comprimentos, d'espinhas que se vergavam, de
-chapÈos de burocratas rasgadamente erguidos. O commissario do sarau
-azafamava-se procurando duas cadeiras para ss. exc.^{as} A condessa
-porÈm foi reunir-se a D. Maria da Cunha, que ella vira, com as Pedrosos
-e a marqueza de Soutal, refugiada n'um v„o de janella. Ega
-immediatamente acercou-se do rancho intimo, esperando que as senhoras se
-beijocassem.
-
---Ent„o, snr.^a condessa, ainda muito commovida com a eloquencia do
-Rufino?
-
---Muito canÁada... E que calor, hein?
-
---Horrivel. A snr.^a baroneza d'Alvim sahiu ha pouco, com uma dor de
-cabeÁa...
-
-A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos cantos
-da boca, murmurou:
-
---N„o admira, isto n„o È divertido... Emfim, j· agora È necessario levar
-a cruz ao Calvario.
-
---Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente È uma
-lyra!
-
-Ella riu. E D. Maria da Cunha, n'essa noite mais remoÁada e viva, ficou
-logo toda banhada n'um sorriso, com aquella carinhosa admiraÁ„o pelo
-Ega, que era um dos seus sentimentos.
-
---Este Ega!... N„o ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra coisa, que
-È feito do seu amigo Maia?
-
-Ega vira-a momentos antes, no sal„o, puxar pela manga de Carlos,
-cochichar com Carlos. Mas conservou um ar innocente:
-
---Est· ahi, anda por ahi, assistindo a toda essa litteratura.
-
-De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha
-rebrilharam com uma faisca de malicia:
-
---Fallai no mau... N'este caso seria fallar do bom. Emfim ahi nos vem o
-Principe Tenebroso!
-
-E era com effeito Carlos que passava, se encontr·ra diante dos braÁos do
-conde de Gouvarinho, estendidos para elle com uma effus„o em que parecia
-renascer o antigo affecto. Pela primeira vez Carlos via a condessa,
-desde a noite em que no Aterro, abandonando-a para sempre, fech·ra com
-odio a portinhola da tipoia onde ella ficava chorando. Ambos baixaram os
-olhos, ao adiantar a m„o um para o outro, lentamente. E foi ella que
-findou o embaraÁo, abrindo o seu grande leque de pennas de avestruz:
-
---Que calor, n„o È verdade?
-
---Atroz! disse Carlos. N„o v· v. exc.^a apanhar ar d'essa janella.
-
-Ella forÁou os labios brancos a um sorriso:
-
---… conselho de medico?
-
---Oh, minha senhora, n„o s„o as horas da minha consulta! … apenas
-caridade de christ„o.
-
-Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido, com a
-marqueza de Soutal, para o reprehender por elle n„o ter apparecido
-terÁa-feira na rua de S. MarÁal. Surprehendido com tanto interesse,
-tanta familiaridade, o Taveira, muito vermelho, balbuciou que nem sabia,
-fÙra o seu infortunio, tinham-se mettido umas coisas...
-
---AlÈm d'isso n„o imaginei que v. exc.^a comeÁasse a receber t„o cedo...
-V. exc.^a antigamente era sÛ depois da CerraÁ„o da Velha. AtÈ me lembro
-que o anno passado...
-
-Mas emmudeceu. O conde de Gouvarinho volt·ra-se, pousando a m„o
-carinhosa no hombro de Carlos, desejando a sua impress„o sobre o ´nosso
-Rufinoª. Elle conde estava encantado! Encantado sobretudo com a
-_variedade d'escala_, aquella arte t„o difficil de passar do solemne
-para o ameno, de descer das grandes rajadas para os brincados de
-linguagem. Extraordinario!
-
---Tenho ouvido grandes parlamentares, o Rouher, o Gladstone, o Canovas,
-outros muitos. Mas n„o s„o estes vÙos, esta opulencia... … tudo muito
-sÍcco, idÈas e factos. N„o entra n'alma! Vejam os amigos aquella imagem
-t„o pujante, t„o respeitosa, do Anjo da Esmola, descendo devagar, com as
-azas de setim... … de primeira ordem.
-
-Ega n„o se conteve:
-
---Eu acho esse genio um imbecil.
-
-O conde sorriu, como · tonteria d'uma crianÁa:
-
---S„o opiniıes...
-
-E estendeu em redor as m„os ao Sousa Netto, ao Darque, ao Telles da
-Gama, a outros que se juntavam ao rancho intimo--emquanto os seus
-correligionarios, os seus collegas do Centro e da Camara, o GonÁalo, o
-Neves, o Vieira da Costa rondavam de longe, sem poder roÁar pelo
-ministro que tinham creado, agora que elle conversava e ria com rapazes
-e senhoras da ´sociedadeª. O Darque, que era parente do Gouvarinho, quiz
-saber como o amigo Gast„o se ia dando com os encargos do Poder... O
-conde declarou para os lados que n„o fizera mais por ora do que passar
-em revista os elementos com que contava para atacar os problemas... De
-resto, em questıes de trabalho, o ministerio fÙra infelicissimo! O
-presidente do conselho de cama com uma catarrheira, inutil para uma
-semana. Agora o collega da fazenda com as febres do Aterro...
-
---Est· melhor? J· sae? foi em torno a pergunta cheia de cuidado.
-
---Est· na mesma, vai ·manh„ para o D·fundo. Mas realmente esse n„o se
-acha de todo inutilisado. Ainda hontem eu lhe dizia: ´VocÍ parte para o
-D·fundo, leva os seus papeis, os seus documentos... Pela manh„ d· os
-seus passeios, respira o bom ar... E · noite, depois de jantar, · luz do
-candieiro, entretem-se a resolver a quest„o de fazenda!ª
-
-Uma campainha retiniu. D. JosÈ Sequeira, escarlate d'azafama, veio,
-furando, annunciar a s. exc.^a o fim do intervallo--offerecer o braÁo ·
-snr.^a condessa. Ao passar, ella lembrou a Carlos as suas
-´terÁas-feirasª, com a delicada simplicidade d'um dever. Elle curvou-se
-em silencio. Era como se todo o passado, o sof· que rolava, a casa da
-titi em Santa Isabel, as tipoias em que ella deixava o seu cheiro de
-verbena--fossem coisas lidas por ambos n'um livro e por ambos
-esquecidas. Atraz, o marido seguia, erguendo alto a cabeÁa e as lunetas,
-como representante do Poder n'aquella festa da Intelligencia.
-
---Pois senhores, disse o Ega afastando-se com Carlos, a mulherzinha tem
-topete!
-
---Que diabo queres tu? Atravessou a sua hora de tolice e de paix„o, e
-agora contin˙a tranquillamente na rotina da vida.
-
---E na rotina da vida, concluiu Ega, encontra-se a cada passo comtigo,
-que a viste em camisa!... Bonito mundo!
-
-Mas o Alencar appareceu no alto da escada, voltando do botequim e da
-genebra, com um brilho maior no olho cavo, de paletot no braÁo, j·
-preparado para gorgear. E o marquez juntou-se a elles, abafado no
-cache-nez de sÍda branca, mais rouco, queixando-se de que a cada minuto
-a garganta se lhe punha peor... Aquella canalha d'aquella garganta ainda
-lhe vinha a pregar uma!...
-
-Depois, muito sÈrio, considerando o Alencar:
-
---Ouve l·, isso que tu vaes recitar, a _Democracia_, È politica ou
-sentimento? Se È politica, raspo-me. Mas se È sentimento, e a
-humanidade, e o santo operario, e a fraternidade, ent„o fico, que d'isso
-gÛsto e atÈ talvez me faÁa bem.
-
-Os outros affirmaram que era sentimento. O poeta tirou o chapÈo, passou
-os dedos pelos anneis fÙfos da grenha inspirada:
-
---Eu vos digo, rapazes... Uma coisa n„o vai sem a outra, vejam vocÍs
-Danton!... Mas j· n„o fallo emfim d'esses leıes da RevoluÁ„o. Vejam
-vocÍs o Passos Manoel! Est· claro, È necessario logica... Mas, tambem,
-caramba, sÍbo para uma politica sem entranhas e sem um bocado de
-infinito!
-
-Subitamente, por sobre o novo silencio da sala, um vozeir„o mais forte
-que o do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D. Jo„o de Castro e de
-Affonso d'Albuquerque... Todos se acercaram da porta, curiosamente. Era
-um magan„o gordo, de barba em bico e camelia na casaca, que, de m„o
-fechada no ar como se agitasse o pend„o das Quinas, lamentava aos berros
-que nÛs portuguezes, possuindo este nobre estuario do Tejo e t„o
-formosas tradiÁıes de gloria, deixassemos esbanjar, ao vento do
-indifferentismo, a sublime heranÁa dos avÛs!...
-
---… patriotismo, disse o Ega. Fujamos!
-
-Mas o marquez reteve-os, gostando tambem de um bocado de Quinas. E foi o
-pobre marquez que o patriota pareceu interpellar, alÁando na ponta dos
-botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora ahi, que,
-agarrando n'uma das m„os a espada e na outra a cruz, saltasse para o
-convÈs d'uma caravella a ir levar o nome portuguez atravÈs dos mares
-desconhecidos? Quem havia ahi, heroico bastante, para imitar o grande
-Jo„o de Castro, que na sua quinta de Cintra arranc·ra todas as arvores
-de fructo, tal a era a isenÁ„o da sua alma de poeta?...
-
---Aquelle miseravel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega.
-
-Em torno correram risos alegres. O marquez virou costas, enojado com
-aquella patriotice reles. Outros bocejavam por traz da m„o, n'um tedio
-completo de ´todas as nossas gloriasª. E Carlos, enervado, preso alli
-pelo dever de applaudir o Alencar, chamava o Ega para irem abaixo ao
-botequim espairecer a impaciencia--quando viu o Eusebiosinho que descia
-a escada, enfiando · pressa um paletot alvadio. N„o o encontr·ra mais
-desde a infamia da _Corneta_, em que elle fÙra ´embaixadorª. E a cÛlera
-que tivera contra elle n'esse dia reviveu logo n'um desejo irresistivel
-de o espancar. Disse ao Ega:
-
---Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar as
-orelhas ·quelle maroto!
-
---Deixa l·, acudiu Ega, È um irresponsavel!
-
-Mas j· Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz, inquieto, temendo
-uma violencia. Quando chegaram · porta, Eusebio mettera para os lados do
-Carmo. E alcanÁaram-no no largo da Abegoaria, ·quella hora deserto,
-mudo, com dois bicos de gaz mortiÁos. Ao vÍr Carlos fender assim sobre
-elle, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusebio,
-encolhido, balbuciou atarantadamente: ´Ol·, por aqui...ª
-
---Ouve c·, estupÙr! rugiu Carlos, baixo. Ent„o tambem andaste mettido
-n'essa maroteira da _Corneta_? Eu devia rachar-te os ossos um a um!
-
-Agarr·ra-lhe o braÁo, ainda sem odio. Mas, apenas sentiu na sua m„o de
-forte aquella carne mollenga e tremula, resurgiu n'elle essa avers„o
-nunca apagada--que j· em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho,
-esfrangalhal-o, sempre que as Silveiras o traziam · quinta. E ent„o
-abanou-o, como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre
-viuvo, no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapÈo coberto de
-luto que lhe rol·ra nas lages, danÁava, escanifrado e desengonÁado. Por
-fim Carlos atirou-o contra a porta d'uma cocheira.
-
---Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraÁado.
-
-J· a m„o de Carlos lhe empolg·ra as guelas. Mas Ega interveio:
-
---Alto! Basta! O nosso querido amigo j· recebeu a sua dÛse...
-
-Elle mesmo lhe apanhou o chapÈo. Tremendo, arquejando, de bruÁos,
-Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para findar, a bota de
-Carlos, atirada com nojo, estatelou-o nas pedras, para cima d'uma
-sargeta onde restavam immundicies e humidade de cavallo.
-
-O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros baÁos.
-Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No peristylo, cheio de luz
-e plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado
-d'amigos, em caminho para o botequim, limpando ao lenÁo o pescoÁo e a
-face, exclamando com o cansaÁo radiante d'um triumphador:
-
---Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda!
-
-J· o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a escada. E com
-effeito Alencar apparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de
-duas velas.
-
-Esguio, mais sombrio n'aquelle fundo cÙr de canario, o poeta derramou
-pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento:
-e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de
-tanta solemnidade.
-
---_A Democracia!_ annunciou o auctor d'_Elvira_, com a pompa d'uma
-revelaÁ„o.
-
-Duas vezes passou pelos bigodes o lenÁo branco, que depois atirou para a
-mesa. E levantando a m„o n'um gesto demorado e largo:
-
-
- Era n'um parque. O luar
- Sobre os vastos arvoredos,
- Cheios de amor e segredos...
-
-
---Que lhe disse eu? exclamou o Ega, tocando no cotovÍlo do marquez. …
-sentimento... Aposto que È o festim!
-
-E era com effeito o festim, j· cantado na _FlÙr de Martyrio_, festim
-romantico, n'um vago jardim onde vinhos de Chypre circulam, caudas de
-brocado rojam entre macissos de magnolias, e das aguas do lago sobem
-cantos ao gemer dos violoncellos... Mas bem depressa transpareceu a
-severa idÈa social da Poesia. Emquanto, sob as arvores radiantes de
-luar, tudo s„o ´risos, brindes, lascivos murmuriosª--fÛra, junto ·s
-grades douradas do parque, assustada com o latir dos molossos, uma
-mulher macilenta, em farrapos, chora, aconchegando ao seio magro o filho
-que pede p„o... E o poeta, sacudindo os cabellos para traz, perguntava
-porque havia ainda esfomeados n'este orgulhoso seculo XIX? De que
-servira ent„o, desde Spartacus, o esforÁo desesperado dos homens para a
-JustiÁa e para a Igualdade? De que servira ent„o a cruz do grande
-Martyr, erguida alÈm na collina, onde, por entre os abetos
-
-
- Os raios do sol se somem,
- O vento triste se cala...
- E as aguias revolteando
- D'entre as nuvens est„o olhando
- Morrer o filho do Homem!
-
-
-A sala permanecia muda e desconfiada. E o Alencar, com as m„os tremendo
-no ar, desolava-se de que todo o Genio das geraÁıes fosse impotente para
-esta coisa simples--dar p„o · crianÁa que chora!
-
-
- Martyrio do coraÁ„o!
- Espanto da consciencia!
- Que toda a humana sciencia
- N„o solva a negra quest„o!
- Que os tempos passem e rolem
- E nenhuma luz assome,
- E eu veja d'um lado a fome
- E do outro a indigest„o!
-
-
-Ega torcia-se, fungando dentro do lenÁo, jurando que rebentava. ´_E do
-outro a indigest„o!_ª Nunca, nas alturas lyricas, se grit·ra nada t„o
-extraordinario! E sujeitos graves, em redor, sorriam d'aquelle
-_realismo_ sujo. Um jocoso lembrou que para indigestıes j· havia o
-bi-carbonato de potassa.
-
---Quando n„o s„o das minhas! rosnou um cavalheiro esverdinhado, que
-alargava a fivela do collete.
-
-Mas tudo emmudeceu ante um _chut_ terrivel do marquez, que desapert·ra o
-cache-nez, j· excitado, no enternecimento que sempre lhe davam estes
-humanitarismos poeticos. E entretanto, no estrado, o Alencar ach·ra a
-soluÁ„o do soffrimento humano! FÙra uma Voz que lh'a ensin·ra! Uma Voz
-sahida do fundo dos seculos, e que atravÈs d'elles, sempre suffocada,
-viera crescendo todavia irresistivelmente desde o Golgotha atÈ ·
-Bastilha! E ent„o, mais solemne por traz da mesa, com um arranque de
-Precursor e uma firmeza de Soldado, como se aquelle honesto movel de
-mogno fosse um pulpito e uma barricada--o Alencar, alÁando a fronte
-n'uma grande audacia · Danton, soltou o brado temeroso. Alencar queria a
-Republica!
-
-Sim, a Republica! N„o a do Terror e a do odio, mas a da mansid„o e do
-Amor. Aquella em que o Millionario sorrindo abre os braÁos ao Operario!
-Aquella que È Aurora, ConsolaÁ„o, Refugio, Estrella mystica e Pomba...
-
-
- Pomba da Fraternidade,
- Que estendendo as brancas azas
- Por sobre os humanos lodos,
- Envolve os seus filhos todos
- Na mesma santa Igualdade!...
-
-
-Em cima, na galeria, resoou um _bravo_ ardente. E immediatamente, para o
-suffocar, sujeitos sÈrios lanÁaram, aqui e alÈm: ´Chut, silencio!ª Ent„o
-Ega ergueu as m„os magras, bem alto, berrou com um destaque atrevido:
-
---Bravo! Muito bem! Bravo!
-
-E todo pallido da sua audacia, entalando o monoculo, declarou para os
-lados:
-
---Aquella democracia È absurda... Mas que os burguezes se dÍem ares
-intolerantes, isso n„o! Ent„o applaudo eu!
-
-E as suas m„os magras de novo se ergueram, bem alto, junto das do
-marquez que retumbavam como malhos. Outros em volta, immediatamente, n„o
-se querendo mostrar menos democratas que o Ega e aquelle fidalgo de t„o
-grande linhagem, reforÁaram os _bravos_ com calor. J· pela sala se
-voltavam olhares inquietos para aquelle grupo cheio de revoluÁ„o. Mas um
-silencio cahiu, mais commovido e grave, quando o Alencar (que
-inspiradamente previra a intolerancia burgueza) perguntou em estrophes
-iradas o que detestavam, o que receavam elles, no advento sublime da
-Republica? Era o p„o carinhoso dado · crianÁa? Era a m„o justa estendida
-ao proletario? Era a esperanÁa? Era a aurora?
-
-
- Receaes a grande luz?
- Tendes medo do AbecÍ?...
- Ent„o castigai quem lÍ,
- Voltai · plebe soez!
- Recuai sempre na Historia,
- Apagai o gaz nas ruas,
- Deixai as crianÁas nuas,
- E venha a forca outra vez!
-
-
-Palmas, mais numerosas, j· sinceras, estalaram pela sala, que cedia
-emfim ao repetido encanto d'aquelle lyrismo humanitario e sonoro. J· n„o
-importava a Republica, os seus perigos. Os versos rolavam, cantantes e
-claros; e a sua onda larga arrastava os espiritos mais positivos. Sob
-aquelle bafo de sympathia Alencar sorria, com os braÁos abertos,
-annunciando uma a uma, como perolas que se desfiam, todas as dadivas que
-traria a Republica. Debaixo da sua bandeira, n„o vermelha mas branca,
-elle via a terra coberta de searas, todas as fomes satisfeitas, as
-naÁıes cantando nos valles sob o olhar risonho de Deus. Sim, porque
-Alencar n„o queria uma Republica sem Deus! A Democracia e o
-Christianismo, como um lirio que se abraÁa a uma espiga, completavam-se,
-estreitando os seios! A rocha do Golgotha tornava-se a tribuna da
-ConvenÁ„o! E para t„o dÙce ideal n„o se necessitavam cardeaes, nem
-missaes, nem novenas, nem igrejas. A Republica, feita sÛ de pureza e de
-fÈ, reza nos campos; a lua cheia È hostia; os rouxinoes entoam o _tantum
-ergo_ nos ramos dos loureiraes. E tudo prospÈra, tudo refulge--ao mundo
-do Conflicto substitue-se o mundo do Amor...
-
-
- ¡ espada succede o arado,
- A JustiÁa ri da Morte,
- A escÛla est· livre e forte,
- E a Bastilha derrocada.
- RÛla a ti·ra no lodo,
- Brota o lirio da Igualdade,
- E uma nova Humanidade
- Planta a cruz na barricada!
-
-
-Uma rajada farta e franca de _bravos_ fez oscillar as chammas do gaz!
-Era a paix„o meridional do verso, da sonoridade, do Liberalismo
-romantico, da imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de
-foguete, conquistando emfim tudo, pondo uma palpitaÁ„o em cada peito,
-levando chefes de repartiÁ„o a berrarem, estirados por cima das damas,
-no enthusiasmo d'aquella republica onde havia rouxinoes! E quando
-Alencar, alÁando os braÁos ao tecto, com modulaÁıes de _preghiera_ na
-voz roufenha, chamou para a terra essa pomba da Democracia, que erguera
-o vÙo do Calvario, e vinha com largos sulcos de luz--foi um
-enternecimento banhando as almas, um fundo arrepio d'extasi. As senhoras
-amolleciam nas cadeiras, com a face meia voltada ao cÈo. No sal„o
-abrazado perpassavam frescuras de capella. As rimas fundiam-se n'um
-murmurio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de setim
-cobrissem, estrellas d'ouro coroassem. E mal se sabia j· se Essa, que se
-invocava e se esperava, era a deusa da Liberdade--ou Nossa Senhora das
-DÙres.
-
-Alencar no emtanto via-a descer, espalhando um perfume. J· Ella tocava
-com os seus pÈs divinos os valles humanos. J· do seu seio fecundo
-trasbordava a universal abundancia. Tudo reflorescia, tudo rejuvenescia:
-
-
- As rosas tÍm mais aroma!
- Os fructos tÍm mais doÁura!
- Brilha a alma clara e pura,
- Solta de sombras e vÈos...
- Foge a dÙr espavorida,
- Foi-se a fome, foi-se a guerra,
- O homem canta na terra,
- E Christo sorri nos cÈos!...
-
-
-Uma acclamaÁ„o rompeu, immensa e rouca, abalando os muros cÙr de
-canario. MoÁos exaltados treparam ·s cadeiras, dois lenÁos brancos
-fluctuavam. E o poeta, tremulo, exhausto, rolou pela escada atÈ aos
-braÁos que se lhe estendiam frementes. Elle suffocava, murmurava:
-´filhos! rapazes!...ª Quando Ega correu do fundo, com Carlos,
-gritando--´FÙste extraordinario, Thomaz!ª--as lagrimas saltaram dos
-olhos do Alencar, quebrado todo d'emoÁ„o.
-
-E ao longo da coxia a ovaÁ„o continuou, feita de palmadinhas pelo
-hombro, de _shake-hands_ da gente sÈria, de ´muitos parabens a v.
-exc.^a!ª Pouco a pouco elle erguia a cabeÁa, n'um altivo sorriso que lhe
-mostrava os dentes maus, sentindo-se o poeta da Democracia, consagrado,
-ungido pelo triumpho, com a inesperada miss„o de libertar almas! D.
-Maria da Cunha puxou-lhe pela manga quando elle passou, para murmurar,
-encantada, que ach·ra--´lindissimo, lindissimoª. E o poeta, estonteado,
-exclamou: ´Maria, È necessario luz!ª Telles da Gama veio bater-lhe nas
-costas affirmando-lhe que ´pi·ra esplendidamenteª. E Alencar,
-inteiramente perdido, balbuciou: ´_Sursum corda_, meu Telles, _sursum
-corda_!ª
-
-Ega no emtanto, atravÈs do tumulto, farejava buscando Carlos que
-desapparecera depois dos abraÁos ao Alencar. Taveira assegurou-lhe que
-Carlos pass·ra para o botequim. Depois em baixo um garoto jurou que o
-snr. D. Carlos tom·ra uma tipoia e ia j· virando o Chiado...
-
-Ega ficou · porta hesitando se aturaria o resto do sarau. N'esse momento
-o Gouvarinho, trazendo a condessa pelo braÁo, descia rapidamente, com a
-face toda contrariada e sombria. O trintanario de ss. exc.^{as} correu a
-chamar o coupÈ. E quando o Ega se acercou, sorrindo, para saber que
-impress„o lhes deix·ra o grande triumpho democratico do Alencar--a
-profunda cÛlera do Gouvarinho escapou-se-lhe, mal contida, por entre os
-dentes cerrados:
-
---Versos admiraveis, mas indecentes!
-
-O coupÈ avanÁou. Elle teve apenas tempo de rosnar ainda, surdamente,
-apertando a m„o ao Ega:
-
---N'uma festa de sociedade, sob a protecÁ„o da rainha, diante d'um
-ministro da corÙa, fallar de barricadas, prometter mundos e fundos ·s
-classes proletarias... … perfeitamente indecente!
-
-J· a condessa enfi·ra a portinhola, apanhando a larga cauda de sÍda. O
-ministro mergulhou tambem furiosamente na sombra do coupÈ. Junto ·s
-rodas passou choutando, n'uma pileca branca, o correio agaloado.
-
-Ega ia subir. Mas o marquez appareceu, abafado n'um gab„o d'Aveiro,
-fugindo a um poeta de grandes bigodes que fic·ra em cima a recitar
-quadrinhas miudinhas a uns olhinhos galantinhos: e o marquez detestava
-versos feitos a partes do corpo humano. Depois foi o Cruges que surgiu
-do botequim, abotoando o paletot. Ent„o, perante essa debandada de todos
-os amigos, Ega decidiu abalar tambem, ir tomar o seu _grog_ ao Gremio
-com o maestro.
-
-Metteram o marquez n'uma tipoia--e elle e Cruges desceram a rua Nova da
-Trindade, devagar, no encanto estranho d'aquella noite d'inverno, sem
-estrellas, mas t„o macia que n'ella parecia andar perdido um bafo de
-maio.
-
-Passavam · porta do _Hotel AllianÁa_ quando Ega sentiu alguem, que se
-apressava, chamar atraz: ´” snr. Ega! V. exc.^a faz favor, snr.
-Ega?...ª--Parou, reconheceu o chapÈo recurvo, as barbas brancas do snr.
-Guimar„es.
-
---V. exc.^a desculpe! exclamou o demagogo esbaforido. Mas vi-o descer,
-queria-lhe dar duas palavras, e como me vou embora ·manh„...
-
---Perfeitamente... ” Cruges, vai andando, j· te apanho!
-
-O maestro estacionou · esquina do Chiado. O snr. Guimar„es pedia de novo
-desculpa. De resto eram duas curtas palavras...
-
---V. exc.^a, segundo me disseram, È o grande amigo do snr. Carlos da
-Maia... S„o como irm„os...
-
---Sim, muito amigos...
-
-A rua estava deserta, com alguns garotos apenas · porta alumiada da
-Trindade. Na noite escura a alta fachada do _AllianÁa_ lanÁava sobre
-elles uma sombra maior. Todavia o snr. Guimar„es baixou a voz cautelosa:
-
---Aqui est· o que È... V. exc.^a sabe, ou talvez n„o saiba, que eu fui
-em Paris intimo da m„i do snr. Carlos da Maia... V. exc.^a tem pressa, e
-n„o vem agora a proposito essa historia. Basta dizer que aqui ha annos
-ella entregou-me, para eu guardar, um cofre que, segundo dizia, continha
-papeis importantes... Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras
-coisas em que pensar, os annos correram, ella morreu. N'uma palavra,
-porque v. exc.^a est· com pressa: eu conservo ainda em meu poder esse
-deposito, e trouxe-o por acaso quando vim agora a Portugal por negocios
-da heranÁa de meu irm„o... Ora hoje justamente, alli no theatro, comecei
-a reflectir que o melhor era entregal-o · familia...
-
-O Cruges mexeu-se impaciente:
-
---Ainda te demoras?
-
---Um instante! gritou Ega, j· interessado por aquelles papeis e pelo
-cofre. Vai andando.
-
-Ent„o o snr. Guimar„es, · pressa, resumiu o pedido. Como sabia a
-intimidade do snr. Jo„o da Ega e de Carlos da Maia, lembr·ra-se de lhe
-entregar o cofresinho para que elle o restituisse · familia...
-
---Perfeitamente! acudiu Ega. Eu estou mesmo em casa dos Maias, no
-Ramalhete.
-
---Ah, muito bem! Ent„o v. exc.^a manda um criado de confianÁa ·manh„
-buscal-o... Eu estou no _Hotel de Paris_, no Pelourinho. Ou melhor
-ainda: levo-lh'o eu, n„o me d· incommodo nenhum, apesar de ser dia de
-partida...
-
---N„o, n„o, eu mando um criado! insistiu o Ega estendendo a m„o ao
-democrata.
-
-Elle estreitou-lh'a com calor.
-
---Muito agradecido a v. exc.^a! Eu junto-lhe ent„o um bilhete e v.
-exc.^a entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou · irm„.
-
-Ega teve um movimento d'espanto:
-
---¡ irm„!... A que irm„?
-
-O snr. Guimar„es considerou Ega tambem com assombro. E abandonando-lhe
-lentamente a m„o:
-
---A que irm„!? ¡ irm„ d'elle, · unica que tem, · Maria!
-
-Cruges, que batia as solas no lagedo, enfastiado gritou da esquina:
-
---Bem, eu vou andando para o Gremio.
-
---AtÈ logo!
-
-O snr. Guimar„es, no emtanto, passava os dedos calÁados de pellica preta
-pelos longos fios da barba, fitando o Ega, n'um esforÁo de penetraÁ„o. E
-quando Ega lhe travou do braÁo, pedindo-lhe para conversarem um pouco
-atÈ ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentid„o
-desconfiada.
-
---Eu parece-me, dizia o Ega sorrindo, mas nervoso, que nÛs estamos aqui
-a enrodilhar-nos n'um equivoco... Eu conheÁo o Maia desde pequeno, vivo
-atÈ agora em casa d'elle, posso afianÁar-lhe que n„o tem irm„ nenhuma...
-
-Ent„o o snr. Guimar„es comeÁou a rosnar umas desculpas embrulhadas que
-mais enervavam, torturavam o Ega. O snr. Guimar„es imaginava que n„o era
-segredo, que todas essas coisas da irm„ estavam esquecidas, desde que
-houvera reconciliaÁ„o...
-
---Como vi, ainda n„o ha muitos dias, o snr. Carlos da Maia com a irm„ e
-com v. exc.^a, na mesma carruagem, no caes do SodrÈ...
-
---O quÍ! Aquella senhora! A que ia na carruagem?
-
---Sim! exclamou o snr. Guimar„es irritado, farto emfim d'essa confus„o
-em que se debatiam. Aquella mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria
-Eduarda Maia, como quizer, que eu conheci de pequena, com quem andei
-muitas vezes ao collo, que fugiu com o Mac-Gren, que esteve depois com a
-besta do Castro Gomes... Essa mesma!
-
-Era ao meio do Loreto sob o lampe„o de gaz. E o snr. Guimar„es de
-repente estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror, uma
-terrivel pallidez cobrir-lhe a face.
-
---V. exc.^a n„o sabia nada d'isto?
-
-Ega respirou fortemente, arredando o chapÈo da testa sem responder.
-Ent„o o outro, embaÁado, terminou por encolher os hombros. Bem, via que
-tinha feito uma tolice! A gente nunca se devia intrometter nos negocios
-alheios! Mas acabou-se! Imaginasse o snr. Ega que aquillo fÙra um
-pesadÍlo, depois da versalhada do sarau! Pedia desculpa sinceramente--e
-desejava ao snr. Jo„o da Ega muitissimo boas noites.
-
-Ega, como a um clar„o de relampago, entrevira toda a catastrophe: e
-agarrou avidamente o braÁo do snr. Guimar„es, n'um terror que elle
-abalasse, desapparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses
-papeis, o cofre da Monforte, e com elles a certeza--a certeza por que
-agora anciava. E atravÈs do Loreto, vagamente, foi balbuciando,
-justificando a sua emoÁ„o, para tranquillisar o homem, poder lentamente
-arrancar-lhe as coisas que soubesse, as provas, a verdade inteira.
-
---O snr. Guimar„es comprehende... Isto s„o coisas muito delicadas, que
-eu suppunha absolutamente ignoradas de todos... De modo que fiquei
-embatucado, fiquei tonto, quando o ouvi assim de repente fallar d'ellas
-com essa simplicidade... Porque emfim, aqui para nÛs, essa senhora n„o
-passa em Lisboa por irm„ de Carlos.
-
-O snr. Guimar„es atirou logo a m„o n'um grande gesto. Ah, bem! Ent„o era
-jogo com elle? Pois tinha feito o snr. Ega perfeitamente... Com certeza
-eram coisas muito sÈrias, que necessitavam toda a sorte de vÈos... Elle
-comprehendia, comprehendia muito bem!... E realmente, dada a posiÁ„o dos
-Maias em Lisboa, na sociedade, aquella senhora n„o era irm„ que se
-apresentasse.
-
---Mas a culpa n„o a teve ella, meu caro senhor! Foi a m„i, foi aquella
-extraordinaria m„i que o Diabo lhe deu!...
-
-Desciam o Chiado. Ega parou um momento, devorando o velho com olhos de
-febre:
-
---O snr. Guimar„es conheceu muito essa senhora, a Monforte?
-
-Intimamente! J· a conhecera em Lisboa--mas de longe, como mulher de
-Pedro da Maia. Depois viera essa tragedia, ella fugira com o italiano.
-Elle abal·ra tambem para Paris n'esse anno, com uma Clemence, uma
-costureira da Levaillant: e, umas coisas enfiando n'outras, negocios e
-desgraÁas, por l· fic·ra para sempre! Emfim, n„o era a sua vida que lhe
-ia contar... SÛ mais tarde encontr·ra a Monforte, uma noite, no baile
-Laborde: e d'ahi datavam as suas relaÁıes. A esse tempo j· o italiano
-morrera n'um duello, e o velho Monforte espich·ra da bexiga. Ella estava
-ent„o com um rapaz chamado Trevernnes--n'uma casa bonita, no Parc
-Monceaux, em grande chic... Mulher extraordinaria! E n„o se envergonhava
-de confessar que lhe devia obrigaÁıes! Quando essa rapariga, a Clemence,
-que era um encanto, adoecera do peito, a Monforte trazia-lhe flÙres,
-frutas, vinhos, fazia-lhe companhia, velava-a como um anjo... Porque l·
-isso coraÁ„o largo e generoso atÈ alli! Esta, a filha, a D. Maria, tinha
-ent„o sete ou oito annos, linda como os amores... E houvera uma outra
-pequena do italiano, muito galantinha tambem. Oh! muito galantinha
-tambem! Mas morrera em Londres, essa...
-
---E com esta Maria andei muitas vezes ao collo, meu caro senhor... N„o
-sei se ella ainda se lembra d'uma boneca que eu lhe dei, que fallava,
-dizia _NapolÈon_... Era no bello tempo do Imperio, atÈ as
-desavergonhadas das bonecas eram imperialistas! Depois, quando ella
-estava em Tours, no convento, fui l· duas vezes com a m„i. J· ent„o os
-meus principios me n„o permittiam entrar n'esses covis religiosos: mas
-emfim fui acompanhar a m„i... E quando ella fugiu com o irlandez, o
-Mac-Gren, foi commigo que a m„i veio ter, furiosa, a querer que eu
-chamasse o commissario de policia para se prender o irlandez. Por fim
-metteu-se n'um _fiacre_, foi para Fontainebleau, l· fez as pazes, viviam
-atÈ juntos... Emfim uma sÈrie de trapalhadas.
-
-Um suspiro cansado escapou-se do peito do Ega, que arrastava os passos,
-succumbido:
-
---E esta senhora, est· claro, n„o sabia ent„o de quem era filha...
-
-O snr. Guimar„es encolheu os hombros:
-
---Nem suspeitava que existissem Maias sobre a face da terra! A Monforte
-dissera-lhe sempre que o pai era um fidalgo austriaco com quem ella
-cas·ra na Madeira... Uma mixordia, meu caro senhor, uma mixordia!
-
---… horrivel! murmurou Ega.
-
-Mas, dizia o snr. Guimar„es, que podia tambem fazer a Monforte? Que
-diabo, era duro confessar · filha: ´Olha que eu fugi a teu pai, e elle
-por causa d'isso matou-se!ª N„o tanto pela quest„o de pudor; a rapariga
-devia perceber que a m„i tinha amantes, ella mesma aos dezoito annos,
-coitadinha, j· tinha um; mas por causa do tiro, do cadaver, do sangue...
-
---A mim mesmo! exclamou o snr. Guimar„es, parando, alargando os braÁos
-na rua deserta. A mim mesmo nunca ella fallou do marido, nem de Lisboa,
-nem de Portugal. Lembra-me atÈ uma occasi„o em casa da Clemence, que eu
-alludi a um cavallo laz„o, um cavallo de Pedro da Maia, em que ella
-costumava montar. Animal soberbo! Mas nem mencionei o marido, fallei sÛ
-do cavallo. Pois senhores, bate com o leque em cima da mesa, grita como
-uma bicha:--_Dites donc, mon cher, vous m'embÍtez avec ces histoires de
-l'autre monde_!... Com effeito, bem o podia dizer, eram historias do
-outro mundo! Para encurtar: estou convencido que nos ultimos tempos ella
-mesmo julgava que Pedro da Maia nunca existira. Uma insensata! Por fim
-atÈ bebia... Mas acabou-se! Tinha grande coraÁ„o, e portou-se muito bem
-com a Clemence. _Parce sepultis!_
-
---… horrivel! murmurou outra vez o Ega, tirando o chapÈo, correndo a m„o
-tremula pela testa.
-
-E agora o seu unico desejo era a accumulaÁ„o incessante de provas, de
-detalhes. Fallou ent„o d'esses papeis, d'esse cofre da Monforte. O snr.
-Guimar„es n„o sabia o que elles continham; e n„o se admiraria se fossem
-apenas contas de modista, ou pedaÁos velhos do _Figaro_ em que se
-fallava d'ella...
-
---… uma caixita pequena que a Monforte me deu, na vespera de partir para
-Londres com a filha. Era no tempo da guerra... J· a Maria vivia com o
-irlandez, tinha mesmo uma pequena, a Rosa. Depois veio a Communa, todos
-aquelles desastres. Quando a Monforte voltou de Londres eu estava em
-Marselha. Foi ent„o que a pobre Maria se metteu com o Castro Gomes,
-creio que para n„o morrer de fome... Eu recolhi a Paris, mas n„o vi mais
-a Monforte, que j· estava muito doente... ¡ Maria, collada ent„o a essa
-besta do Castro Gomes, um pedante, um _rastaquouËre_ mesmo a calhar para
-a guilhotina, n„o tornei tambem a fallar. Se a encontrava era um
-comprimento de longe, como n'outro dia, quando a vi na carruagem com v.
-exc.^a e com o irm„o... De sorte que fui ficando com os papeis. Nem a
-fallar a verdade, com estas coisas todas de politica, me lembrei mais
-d'elles. E agora ahi est„o, ·s ordens da familia.
-
---Se isso n„o fosse incommodo para v. exc.^a, acudiu Ega, eu passava
-agora pelo seu hotel e levava-os logo commigo...
-
---Incommodo nenhum! Estamos em caminho, È negocio que fica feito!
-
-Algum tempo seguiram calados. O sarau decerto acab·ra. Um bater de
-carruagens atroava as descidas do Chiado. Junto d'elles passaram duas
-senhoras, com um rapaz que bracejava, fallando alto do Alencar. O snr.
-Guimar„es tir·ra lentamente do bolso a charuteira: depois parando, para
-raspar um phosphoro:
-
---Ent„o a D. Maria passa simplesmente por parenta?... E como soube ella?
-Como foi isso?
-
-Ega, que caminhava com a cabeÁa cahida, estremeceu como se acordasse. E
-comeÁou a tartamudear uma historia confusa, de que elle mesmo cÛrava na
-sombra. Sim, Maria Eduarda passava por parenta. FÙra o procurador que
-descobrira. Ella rompera com o Castro Gomes, com todo o passado. Os
-Maias davam-lhe uma mezada; e vivia nos Olivaes, muito retirada, como
-filha d'um Maia que morrera na Italia. Todos gostavam muito d'ella,
-Affonso da Maia tinha grande ternura pela pequena...
-
-E de repente indignou-se com estas invenÁıes por onde arrastava j· o
-nome do nobre velho, exclamou como se abafasse:
-
---Emfim, nem eu sei, um horror!
-
---Um drama! resumiu gravemente o snr. Guimar„es.
-
-E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento
-emquanto elle corria acima buscar os papeis da Monforte.
-
-SÛ, no largo, Ega ergueu as m„os ao cÈo n'um desabafo mudo d'aquella
-angustia em que caminhava, como um somnambulo, desde o Loreto. E a sua
-unica sensaÁ„o, bem clara--era a indestructivel certeza da historia do
-Guimar„es, t„o compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse
-e se fizesse cahir aos pedaÁos. O homem conhecera Maria Monforte em
-Lisboa, ainda mulher de Pedro da Maia, brilhando no seu cavallo laz„o;
-encontr·ra-a em Paris j· fugida, depois da morte do primeiro amante,
-vivendo com outros; and·ra ent„o ao collo com Maria Eduarda a quem se
-davam bonecas... E desde ent„o n„o deix·ra mais de vÍr Maria Eduarda, de
-a seguir: em Paris; no convento de Tours; em Fontainebleau com o
-irlandez; nos braÁos de Castro Gomes; n'uma tipoia de praÁa emfim com
-elle e com Carlos da Maia, havia dias, no caes do SodrÈ! Tudo isto se
-encadeava, concordando com a historia contada por Maria Eduarda. E de
-tudo resaltava esta certeza monstruosa:--Carlos amante da irm„!
-
-Guimar„es n„o descia. No segundo andar surgira uma luz viva, n'uma
-janella aberta. Ega recomeÁou a passear lentamente pelo meio do largo. E
-agora, pouco a pouco, subia n'elle uma incredulidade contra esta
-catastrophe de dramalh„o. Era acaso verosimil que tal se passasse, com
-um amigo seu, n'uma rua de Lisboa, n'uma casa alugada · m„i Cruges?...
-N„o podia ser! Esses horrores sÛ se produziam na confus„o social, no
-tumulto da Meia-Idade! Mas n'uma sociedade burgueza, bem policiada, bem
-escripturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papeis,
-com tanto registro de baptismo, com tanta certid„o de casamento, n„o
-podia ser! N„o! N„o estava no feitio da vida contemporanea que duas
-crianÁas separadas por uma loucura da m„i, depois de dormirem um
-instante no mesmo berÁo, cresÁam em terras distantes, se eduquem,
-descrevam as parabolas remotas dos seus destinos--para quÍ? Para virem
-tornar a dormir juntas no mesmo ponto, n'um leito de concubinagem! N„o
-era possivel. Taes coisas pertencem sÛ aos livros, onde vÍm, como
-invenÁıes subtis da arte, para dar · alma humana um terror novo...
-Depois levantava os olhos para a janella alumiada--onde o snr. Guimar„es
-decerto rebuscava os papeis na mala. Alli estava porÈm esse homem com a
-sua historia--em que n„o havia uma discordancia por onde ella pudesse
-ser abalada!... E pouco a pouco aquella luz viva, sahida do alto,
-parecia ao Ega penetrar n'essa intrincada desgraÁa, aclaral-a toda,
-mostrar-lhe bem a lenta evoluÁ„o. Sim, tudo isso era provavel no fundo!
-Essa crianÁa, filha d'uma senhora que a lev·ra comsigo, cresce, È amante
-d'um brazileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. N'um bairro visinho vive
-outro filho d'essa mulher, por ella deixado, que cresceu, È um homem.
-Pela sua figura, o seu luxo, elle destaca n'esta cidade provinciana e
-pelintra. Ella por seu lado, loura, alta, esplendida, vestida pela
-LaferriËre, flÙr d'uma civilisaÁ„o superior, faz relÍvo n'esta multid„o
-de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde
-todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho
-pessoal, muito fatalmente se attrahem! Ha nada mais natural? Se ella
-fosse feia e trouxesse aos hombros uma confecÁ„o barata da loja da
-America, se elle fosse um mocinho encolhido de chapÈo cÙco, nunca se
-notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o
-conhecerem-se era certo, o amarem-se era provavel... E um dia o snr.
-Guimar„es passa, a verdade terrivel estala!
-
-A porta do hotel rangeu no escuro, o snr. Guimar„es adiantou-se, de bonÈ
-de sÍda na cabeÁa, com o embrulho na m„o.
-
---N„o podia dar com a chave da mala, desculpe v. exc.^a … sempre assim
-quando ha pressa... E aqui temos o famoso cofre!
-
---Perfeitamente, perfeitamente...
-
-Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulh·ra n'um
-velho numero do _Rappel_. Ega metteu-a no bolso largo do seu paletot: e
-immediatamente, como se qualquer outra palavra entre elles fosse v„,
-estendeu a m„o ao snr. Guimar„es. Mas o outro insistiu em o acompanhar
-atÈ · esquina da rua do Arsenal, apesar de estar de bonÈ. A noite, para
-quem vinha de Paris, tinha uma doÁura oriental--e elle, com os seus
-habitos de jornalista, nunca se deitava sen„o tarde, ·s duas, tres horas
-da madrugada...
-
-E ent„o, caminhando devagar, com as m„os nos bolsos e o charuto entre os
-dentes, o snr. Guimar„es voltou · politica e ao sarau. A poesia do
-Alencar (de que esper·ra muito por causa do titulo, _A Democracia_)
-sahira-lhe consideravelmente chÙcha.
-
---Muita flÙr, muita farofia, muita liberdade, mas n„o havia alli um
-ataque em fÛrma, duas ou tres boas estocadas n'esta choldra da monarchia
-e da cÙrte... Pois n„o È verdade?
-
---Sim, com effeito...--murmurou Ega, olhando ao longe, na esperanÁa
-d'uma tipoia.
-
---… como os jornaes republicanos que por ahi ha... Tudo uma palhada,
-senhores, tudo uma balofice!... … o que eu lhes digo a elles:--´” almas
-do diabo, atacai as questıes sociaes!ª
-
-Felizmente um trem avanÁava, rolando devagar, do lado do Terreiro do
-PaÁo. Ega, precipitadamente, deu um aperto de m„o ao democrata,
-desejou-lhe uma ´boa viagemª, atirou ao cocheiro a adresse do Ramalhete.
-Mas o snr. Guimar„es ainda se apoderou da portinhola--para aconselhar ao
-Ega que fosse a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o
-apresentar a toda aquella gente... E o snr. Ega veria! N„o era c· a
-grande _pose_ portugueza, d'estes imbecis, d'estes pelintras a darem-se
-ares, torcendo os bigodes. L·, na primeira naÁ„o do mundo, tudo era
-alegria e fraternidade e espirito a rodos...
-
---E a minha adresse, na redacÁ„o do _Rappel_! Bem conhecida no mundo!
-Emquanto ao embrulhosinho fico descanÁado...
-
---PÛde v. exc.^a ficar descanÁado!
-
---Criado de v. exc.^a... Os meus comprimentos · snr.^a D. Maria!
-
-Na carruagem, atravÈs do Aterro, a anciosa interrogaÁ„o do Ega a si
-mesmo foi--´que hei de fazer?ª Que faria, santo Deus, com aquelle
-segredo terrivel que possuia, de que sÛ elle era senhor, agora que o
-Guimar„es partia, desapparecia para sempre? E antevendo com terror todas
-as angustias em que essa revelaÁ„o ia lanÁar o homem que mais estimava
-no mundo--a sua instinctiva idÈa foi guardar para sempre o segredo,
-deixal-o morrer dentro em si. N„o diria nada; o Guimar„es sumia-se em
-Paris; e quem se amava continuava a amar-se!... N„o crearia assim uma
-crise atroz na vida de Carlos--nem soffreria elle, como companheiro, a
-sua parte d'essas afflicÁıes. Que coisa mais impiedosa, de resto, que
-estragar a vida de duas innocentes e adoraveis creaturas, atirando-lhes
-· face uma prova de incesto!...
-
-Mas, a esta idÈa de _incesto_, todas as consequencias d'esse silencio
-lhe appareceram, como coisas vivas e pavorosas, flammejando no escuro
-diante dos seus olhos. Poderia elle tranquillamente testemunhar a vida
-dos dois--desde que a sabia _incestuosa_? Ir · rua de S. Francisco,
-sentar-se-lhes alegremente · mesa, entrevÍr atravÈs do reposteiro a cama
-em que ambos dormiam--e saber que esta sordidez de peccado era obra do
-seu silencio? N„o podia ser... Mas teria tambem coragem de entrar ao
-outro dia no quarto de Carlos, e dizer-lhe em face--´Olha que tu Ès
-amante de tua irm„?ª
-
-A carruagem par·ra no Ramalhete. Ega subiu, como costumava, pela escada
-particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. Accendeu a sua
-palmatoria; entreabriu o reposteiro dos aposentos de Carlos; deu alguns
-passos timidos no tapete, que pareceram j· soar tristemente. Um reflexo
-d'espelho alvejou ao fundo na sombra da alcova. E a luz cahiu sobre o
-leito intacto, com a sua longa colcha lisa, entre os cortinados de sÍda.
-Ent„o a idÈa que Carlos estava ·quella hora na rua de S. Francisco,
-dormindo com uma mulher que era sua irm„, atravessou-o com uma cruel
-nitidez, n'uma imagem material, t„o viva e real, que elle viu-os
-claramente, de braÁos enlaÁados, e em camisa... Toda a belleza de Maria,
-todo o requinte de Carlos desappareciam. Ficavam sÛ dois animaes,
-nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como c„es, sob o
-impulso bruto do cio!
-
-Correu para o seu quarto, fugindo ·quella vis„o a que o escuro do
-corredor, mal dissipado pela luz tremula, accentuava mais o relÍvo.
-Aferrolhou a porta; accendeu · pressa sobre o toucador, uma depois da
-outra, com a m„o agitada, as seis velas dos candelabros. E agora
-apparecia-lhe mais urgente, inevitavel, a necessidade de contar _tudo_ a
-Carlos. Mas ao mesmo tempo sentia em si, a cada instante, menos animo
-para chegar, encarar Carlos, e destruir-lhe a felicidade e a vida com
-uma revelaÁ„o d'incesto. N„o podia! Outro que lh'o dissesse! Elle l·
-estava depois para o consolar, tomar metade da sua dÙr, carinhoso e
-fiel. Mas o desgosto supremo da vida de Carlos n„o viria de palavras
-cahidas da sua boca!... Outro que lh'o dissesse! Mas quem? Mil idÈas
-passavam na sua pobre cabeÁa, incoherentes e tontas. Pedir a Maria que
-fugisse, desapparecesse... Escrever uma carta anonyma a Carlos, com a
-detalhada historia do Guimar„es... E esta confus„o, esta anciedade ia-se
-resolvendo lentamente em odio ao snr. Guimar„es. Para que fall·ra
-·quelle imbecil? Para que insistira em lhe confiar papeis alheios? Para
-que lh'o apresent·ra o Alencar? Ah! se n„o fosse a carta do Damaso...
-Tudo provinha do maldito Damaso!
-
-Agitando-se pelo quarto, ainda de chapÈo, os seus olhos cahiram n'um
-sobrescripto pousado sobre a mesa de cabeceira. Reconheceu a letra do
-VillaÁa. E nem a abriu... Uma idÈa sulc·ra-o de repente. Contar tudo ao
-VillaÁa!... Porque n„o? Era o procurador dos Maias. Nunca para elle
-houvera segredos n'aquella casa. E esta complicaÁ„o singular d'uma
-senhora da familia, considerada morta e que surge inesperadamente--a
-quem a pertencia aclarar sen„o ao fiel procurador, ao velho confidente,
-ao homem que, por heranÁa e por destino, recebera sempre todos os
-segredos e partilh·ra todos os interesses domesticos?... E sem pensar,
-sem aprofundar mais, fixou-se logo n'esta decis„o salvadora,--que ao
-menos o socegava, lhe tirava j· do coraÁ„o um peso de ferro, suffocante
-e intoleravel...
-
-Devia acordar cedo, procurar VillaÁa em casa. Escreveu n'uma folha de
-papel--´Acorda-me ·s seteª. E desceu abaixo, ao longo corredor de pedra
-onde dormiam os criados, dependurou este recado na chave do quarto do
-escudeiro.
-
-Quando subiu, mais calmo,--abriu ent„o a carta do VillaÁa. Era uma curta
-linha lembrando ao amigo Ega que a letrinha de duzentos mil reis, no
-Banco Popular, se vencia d'ahi a dois dias...
-
---SÍbo, tudo se junta! exclamou Ega furioso, atirando a carta amarrotada
-para o ch„o.
-
-
-
-
-VII
-
-
-Pontual, ·s sete horas, o escudeiro acordou Ega. Ao rumor da porta elle
-sentou-se na cama com um salto--e logo todos os negros cuidados da
-vespera, Carlos, a irm„, a felicidade d'aquella casa acabada para
-sempre, se lhe ergueram n'alma em sobresalto, como despertando tambem. A
-portada da varanda fic·ra aberta; um ar silencioso e livido de madrugada
-clareava atravÈs do transparente de fazenda branca. Durante um momento
-Ega ficou olhando em redor, arrepiado; depois, sem coragem, remergulhou
-nos lenÁoes, gozando aquelle bocado de calor e de conchÍgo antes d'ir
-affrontar fÛra as amarguras do dia.
-
-E pouco a pouco, sob o tepido conchÍgo dos cobertores em que se
-atabaf·ra, comeÁou a afigurar-se-lhe menos urgente, e menos util, essa
-correria estremunhada a casa do VillaÁa... De que servia procurar o
-VillaÁa? N„o se tratava alli de dinheiro, nem de demandas, nem de
-legalidade--de nada que reclamasse a experiencia d'um procurador. Era
-apenas introduzir um burguez mais n'um segredo t„o terrivelmente
-delicado que elle mesmo se assustava de o saber. E acochado mais sob a
-roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava comsigo: ´… uma tolice ir
-ao VillaÁa!ª
-
-De resto n„o poderia elle ajuntar em si bastante coragem para contar
-tudo a Carlos, logo, n'essa manh„, claramente, virilmente? Era por fim
-aquelle caso t„o pavoroso como lhe parecera na vespera--um irreparavel
-desabamento d'uma vida de homem?... Ao pÈ da quinta da m„e, em Celorico,
-no logar de Vouzeias, houvera um successo parecido, dois irm„os que
-innocentemente iam casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para
-os _banhos_. Os noivos ficaram uns dias ´embatucadosª, como dizia o
-padre Seraphim; mas por fim j· riam, muito amigos, muito divertidos,
-quando se tratavam de ´manosª. O noivo, um rapag„o bonito, contava
-depois ´que ia havendo uma mixordia na familiaª. Aqui o engano seguira
-mais longe, as sensibilidades eram mais requintadas; mas os seus
-coraÁıes permaneciam livres de toda a culpa, innocentes absolutamente.
-Porque ficaria pois a existencia de Carlos para sempre estragada? A
-inconsciencia impedia-lhe o remorso: e passado o primeiro horror, de que
-lhe podia, na realidade, vir a definitiva dÙr? SÛmente do prazer ter
-findado. Era ent„o como outro qualquer desgosto d'amor. Bem menos atroz
-do que se Maria o tivesse trahido com o Damaso!
-
-De repente a porta abriu-se, Carlos appareceu exclamando:
-
---Ent„o que madrugada foi esta? Disse-me agora l· em baixo o Baptista...
-… aventura? duello?
-
-Trazia o paletot todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a
-gravata branca da vespera; e decerto cheg·ra da rua de S. Francisco na
-tipoia que havia instantes Ega sentira parar na calÁada.
-
-Elle sent·ra-se bruscamente na cama; e estendendo a m„o para os
-cigarros, sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na vÈspera
-combin·ra uma ida a Cintra com o Taveira... Por precauÁ„o mand·ra-se
-chamar... Mas n„o sabia, acord·ra cansado...
-
---Que tal est· o dia?
-
-Justamente Carlos fÙra correr o transparente da janella. Ahi, na mesa de
-trabalho, collocada em plena luz, fic·ra a caixa da Monforte embrulhada
-no _Rappel_. E Ega pensou n'um relance:--´Se elle repara, se pergunta,
-digo tudo!ª--O seu pobre coraÁ„o pÙz-se a bater anciosamente no terror
-d'aquella decis„o. Mas o transparente um pouco pÍrro subiu, uma facha de
-sol banhou a mesa--e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um immenso
-allivio para o Ega.
-
---Ent„o, Cintra? disse Carlos, sentando-se aos pÈs da cama. Com effeito
-n„o È m· idÈa... A Maria ainda hontem esteve tambem a fallar d'ir a
-Cintra... Espera! Podiamos fazer a patuscada juntos... Iamos no break, a
-quatro!
-
-E olhava j· o relogio, calculando o tempo para atrellar, avisar Maria.
-
---O peor, acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monoculo,
-È que o Taveira fallou em irmos com umas raparigas...
-
-Carlos encolheu os hombros com horror. Que sordidez, ir com mulheres
-para Cintra, de dia!... De noite, nas trevas, por bebedeira, v·... Mas ·
-luz do Senhor! Talvez com a Lola gorda, hein?...
-
-Ega embrulhou-se n'uma complicada historia, limpando o monoculo · ponta
-do lenÁol. N„o eram hespanholas... Pelo contrario, umas costureiras,
-raparigas sÈrias... Elle tinha um compromisso antigo d'ir a Cintra com
-uma d'ellas, filha d'um Simıes, um estofador que fallira... Gente muito
-sÈria!...
-
-Perante estes compromissos, tanta seriedade, Carlos desistiu logo da
-idÈa de Cintra.
-
---Bem, acabou-se!... Vou ent„o tomar banho e depois a negocios... E tu,
-se fÙres, traze-me umas queijadas para a Rosa, que ella gosta!...
-
-Apenas Carlos sahiu, Ega cruzou os braÁos desanimado, descorÁoado,
-sentindo bem que n„o teria coragem nunca de ´dizer tudoª. Que havia de
-fazer?... E de novo, insensivelmente, se refugiou na idÈa de procurar o
-VillaÁa, entregar-lhe o cofre da Monforte. N„o havia homem mais honesto,
-nem mais pratico; e, pela mesma mediocridade do seu espirito burguez,
-quem melhor para encarar aquella catastrophe sem paix„o e sem nervos?...
-E esta _falta de nervos_ do VillaÁa fixou-o definitivamente.
-
-Saltou ent„o da cama, n'uma impaciencia, repicou a campainha. E emquanto
-o criado n„o entrava, foi, com o robe-de-chambre aos hombros, examinar o
-cofre da Monforte. Parecia com effeito uma velha caixa de charutos,
-embrulhada n'um papel de dobras j· sujas e gastas, com marcas de lacre
-onde se distinguia uma divisa que seria decerto a da Monforte--_Pro
-amore_. Na tampa tinha escripto n'uma letra de mulher
-mal-ensinada--_Monsieur Guimaran, ‡ Paris_. Ao sentir os passos do
-criado deitou-lhe por cima uma toalha, que pendia ao lado, n'uma
-cadeira. E d'ahi a meia hora rolava pelo Aterro n'uma tipoia descoberta,
-mais animado, respirando largamente aquelle bello ar da manh„, fino e
-fresco, que elle t„o raras vezes gozava.
-
-ComeÁou por uma contrariedade. VillaÁa j· sahira: e a criada n„o sabia
-bem se elle fÙra para o escriptorio, se a uma vistoria ao Alfeite... Ega
-largou para o escriptorio, na rua da Prata. O snr. VillaÁa ainda n„o
-viera...
-
---E a que horas vir·?
-
-O escrevente, um rapaz macilento que torcia nervosamente sobre o collete
-uma corrente de coral, balbuciou que o snr. VillaÁa n„o devia tardar, se
-n„o tivesse atravessado, no vapor das nove, para o Alfeite... Ega desceu
-desesperado.
-
---Bem, gritou ao cocheiro, vai ao cafÈ Tavares...
-
-No Tavares, ainda solitario ·quella hora, um moÁo areava o sobrado. E
-emquanto esperava o almoÁo Ega percorreu os jornaes. Todos fallavam do
-sarau, em linhas curtas, promettendo detalhes criticos, mais tarde,
-sobre esse brilhante torneio artistico. SÛ a _Gazeta Illustrada_ se
-alargava, com phrases sÈrias, tratando o Rufino de _grandioso_ o Cruges
-de _esperanÁoso:_ no Alencar a _Gazeta_ separava o philosopho do poeta;
-ao philosopho a _Gazeta_ lembrava com respeito que nem todas as
-aspiraÁıes ideaes da philosophia, bellas como miragens de deserto, s„o
-realisaveis na pratica social; mas ao poeta, ao creador de t„o formosas
-imagens, de t„o inspiradas estancias, a _Gazeta_ desafogadamente
-bradava--´bravo! bravo!ª Havia ainda outras abominaveis sandices. Depois
-seguia-se a lista das pessoas que a _Gazeta_ se recordava de ter visto,
-entre as quaes ´destacava com o seu monoculo o fino perfil de Jo„o da
-Ega, sempre brilhante de _verve_.ª Ega sorriu, cofiando o bigode.
-Justamente o bife chegava, fumegante, chiando na frigideirinha de barro.
-Ega pousou a _Gazeta_ ao lado, dizendo comsigo: ´N„o È nada mal feito,
-este jornal!ª
-
-O bife era excellente:--e depois d'uma perdiz fria, d'um pouco de dÙce
-de ananaz, d'um cafÈ forte, Ega sentiu adelgaÁar-se emfim aquelle
-negrume que desde a vespera lhe pesava n'alma. No fim, pensava elle,
-accendendo o charuto e lanÁando os olhos ao relogio, n'aquelle desastre
-praticamente encarado sÛ havia para Carlos a perda d'uma bella amante. E
-essa perda, que agora o angustiava, n„o traria depois compensaÁıes? O
-futuro de Carlos atÈ ahi tinha uma sombra--aquella promessa de casamento
-que irreparavelmente o collava pela honra a uma mulher muito
-interessante, mas com um passado cheio de brazileiros e de irlandezes...
-A sua belleza poetisava tudo: mas quanto tempo mais duraria esse
-encanto, o seu brilho de deusa pisando a terra?... N„o seria por fim
-aquella descoberta do Guimar„es uma libertaÁ„o providencial? D'ahi a
-annos Carlos estaria consolado, sereno como se nunca tivesse sofrido--e
-livre, e rico, com o largo mundo diante de si!
-
-O relogio do cafÈ deu dez horas. ´Bem, vamos a istoª, pensou Ega.
-
-De novo a tipoia bateu para a rua da Prata. O snr. VillaÁa ainda n„o
-viera, o escrevente estava realmente pensando que o snr. VillaÁa fÙra ao
-Alfeite. E diante d'esta incerteza, de repente, Ega ficou de novo
-descorÁoado, sem coragem. Despediu a tipoia: com o embrulho do cofre na
-m„o foi andando pela rua do Ouro, depois atÈ ao Rocio, parando
-distrahidamente diante d'um ourives, lendo aqui e alÈm a capa d'um livro
-na vitrine dos livreiros. Pouco a pouco o negrume da vespera, um momento
-adelgaÁado, recahia-lhe n'alma mais denso. J· n„o via as ´libertaÁıesª
-nem as ´compensaÁıesª. SÛ sentia em torno de si, como fluctuando no ar,
-aquelle horror--Carlos a dormir com a irm„.
-
-Voltou pela rua da Prata, de novo subiu a suja escadaria de pedra; e
-logo no patamar, diante da porta de baeta verde, deu com o VillaÁa que
-sahia, atarefado, calÁando as luvas.
-
---Homem, atÈ que emfim!
-
---Ah! Era o amigo que me tinha procurado?... Pois tenha paciencia, que
-est· o visconde do Torral · minha espera...
-
-Ega quasi o empurrou. Qual visconde!... Tratava-se d'uma coisa muito
-urgente, muito sÈria! Mas o outro n„o se arredava da porta, acabando de
-calÁar a luva, com o mesmo ar vivo de negocio e de pressa.
-
---O amigo bem vÍ... Est· o homem · espera! … um _rendez-vous_ para as
-onze!
-
-Ega, j· furioso, agarrou-lhe a manga, murmurou-lhe junto · face,
-tragicamente, que se tratava de Carlos, d'um caso de vida ou de morte!
-Ent„o o VillaÁa, n'um grande espanto, atravessou bruscamente o
-escriptorio, fez entrar Ega n'um cubiculo ao lado, estreito como um
-corredor, com um canapÈ de palhinha, uma mesa onde os livros tinham pÛ,
-e um armario ao fundo. Fechou a porta, atirou o chapÈo para a nuca:
-
---Ent„o que È?
-
-Ega, com um gesto, indicou fÛra o escrevente que podia escutar. O
-procurador abriu a porta, gritou ao rapazola que voasse ao Hotel
-Pelicano pedir ao snr. visconde do Torral a fineza de esperar meia
-hora... Depois, fechada a porta no ferrolho, foi a mesma exclamaÁ„o
-anciosa:
-
---Ent„o que È?
-
---… um horror, VillaÁa, um grande horror... Nem eu sei por onde hei de
-comeÁar.
-
-VillaÁa, j· muito pallido, pousou lentamente o guardachuva sobre a mesa.
-
---… duello?
-
---N„o... … isto... VocÍ sabia que o Carlos tinha relaÁıes com uma snr.^a
-Mac-Gren que veio o inverno passado a Portugal, ficou ahi?...
-
-Uma senhora brazileira, mulher d'um brazileiro, que pass·ra o ver„o nos
-Olivaes?... Sim, VillaÁa sabia. Fall·ra atÈ n'isso com o Eusebiosinho.
-
---Ah, com o Eusebio?... Pois n„o È brazileira! … portugueza, e È irm„
-d'elle!
-
-VillaÁa cahiu para o canapÈ, batendo as m„os n'um assombro.
-
---Irm„ do Eusebio!
-
---Qual do Eusebio, homem!... Irm„ de Carlos!
-
-VillaÁa fic·ra mudo, sem comprehender, com os olhos terrivelmente
-arregalados para o outro, que se movia pelo cubiculo, repetindo: ´irm„!
-irm„ legÌtima!ª Ega por fim sentou-se no canapÈ de palhinha; e baixo,
-muito baixo, apesar da solid„o do escriptorio, contou o seu encontro com
-o Guimar„es no sarau, e como a verdade terrivel estal·ra casualmente,
-n'uma palavra, · esquina do _AllianÁa_... Mas quando fallou dos papeis,
-entregues pela Monforte ao Guimar„es, ha tantos annos guardados, nunca
-reclamados, e que o democrata agora, t„o de repente, t„o urgentemente,
-queria restituir · familia--VillaÁa, atÈ ahi esmagado e como
-emparvecido, despertou, teve uma explos„o:
-
---Ahi ha marosca! Tudo isso È para apanhar dinheiro!...
-
---Apanhar dinheiro! Quem?
-
---Quem!? exclamou VillaÁa de pÈ, arrebatadamente. Essa senhora, esse
-Guimar„es, essa tropa!... … que o amigo n„o percebe! Se apparecer uma
-irm„ do Maia, legitima e authentica, s„o quatrocentos contos e pico que
-cabem · irm„ do Maia!...
-
-Ent„o os dois ficaram-se devorando com os olhos, na forte impress„o
-d'aquella idÈa inesperada que a seu pezar abalava o Ega. Mas como o
-procurador, tremulo, voltava · grande somma de quatrocentos contos,
-lembrava a _Companhia do Olho Vivo_, Ega terminou por encolher os
-hombros:
-
---Isso n„o tem verosimilhanÁa nenhuma! Ella È incapaz, absolutamente
-incapaz, de semelhante intriga. AlÈm d'isso, se È uma quest„o de
-dinheiro, que necessidade tinha de se fazer passar como irm„ desde que
-Carlos lhe promettera casar com ella?
-
-Casar com ella! VillaÁa erguia as m„os, n„o queria acreditar. O quÍ! o
-snr. Carlos da Maia dar a sua m„o, o seu nome, a essa creatura amigada
-com um brazileiro!?... Santissimo nome de Deus! E atravÈs do assombro
-recrescia-lhe a desconfianÁa, via ahi um novo feito do _Olho Vivo_.
-
---N„o senhor, VillaÁa, n„o senhor! insistiu Ega, j· impaciente. Se a
-quest„o È de documentos e se ella os tinha, verdadeiros ou falsificados,
-apresentava-os logo, n„o ia primeiro dormir com o irm„o!
-
-VillaÁa baixou lentamente os olhos para o sobrado. Um terror invadia-o
-diante d'aquella grande casa, que era o seu orgulho, partida em metade,
-empolgada por uma aventureira... Mas como o Ega, muito nervoso, lembrava
-que de resto a quest„o n„o era de documentos, nem de legalidade, nem de
-fortuna--o procurador teve outro grito, com a face de novo alumiada:
-
---Espere, homem, ha outra coisa!... Talvez ella seja filha do italiano!
-
---E ent„o?... Vem a dar na mesma.
-
---Alto l·! berrou o procurador, batendo com o punho na mesa. N„o tem
-direito · legitima do pai, e n„o apanha um real d'esta casa!... Irra,
-ahi È que est· o ponto!
-
-Ega teve um gesto desolado. N„o, nem isso, desgraÁadamente! Esta era a
-filha do Pedro da Maia. O Guimar„es conhecia-a de a trazer ao collo, de
-lhe dar bonecas quando ella tinha sete annos, e quando apenas havia
-quatro ou cinco annos que o italiano estivera em Arroios, de cama, com
-uma chumbada... A filha d'esse morrera em Londres, pequenina.
-
-VillaÁa recahiu no canapÈ, succumbido.
-
---Quatrocentos contos, que bolada!
-
-Ent„o Ega resumiu. Se n„o existia ainda uma certeza legal, havia j· uma
-forte suspeita. E desde logo n„o se podia deixar o pobre Carlos,
-innocentemente, a chafurdar n'aquella sordidez. Era pois indispensavel
-revelar tudo a Carlos n'essa noite...
-
---E vocÍ, VillaÁa, È que tem de lh'o dizer.
-
-VillaÁa deu um salto que fez bater o canapÈ contra a parede.
-
---Eu!?
-
---VocÍ, que È o procurador da casa!
-
-Que havia alli, sen„o uma quest„o de filiaÁ„o, portanto de legitima? A
-quem pertenciam esses detalhes legaes sen„o ao procurador?
-
-VillaÁa murmurou com todo o sangue na face:
-
---Homem, o amigo mette-me n'uma!...
-
-N„o. Ega mettia-o apenas n'aquillo em que o VillaÁa, como procurador,
-logicamente e profissionalmente devia estar.
-
-O outro protestou, t„o perturbado que gaguejava. Que diabo! N„o era
-esquivar-se aos seus deveres! Mas È que elle n„o sabia nada! Que podia
-dizer ao snr. Carlos da Maia? ´O amigo Ega veio-me contar isto, que lhe
-contou um tal Guimar„es hontem · noite no Loreto...ª N„o tinha a dizer
-mais nada...
-
---Pois diga isso.
-
-O outro encarou Ega com olhos que chammejavam:
-
---Diga isso, diga isso... Que diabo, senhor, È necessario ter topete!
-
-Deu um pux„o desesperado ao collete, foi bufando atÈ ao fundo do
-cubiculo, onde esbarrou com o armario. Voltou, tornou a encarar o Ega:
-
---N„o se vai a um homem com uma coisa d'essas sem provas... Onde est„o
-as provas?...
-
---” VillaÁa, desculpe, vocÍ est· obtuso!... A que vim eu aqui sen„o
-trazer-lhe as provas, as que ha, boas ou m·s, a historia do Guimar„es,
-essa caixa com os papeis da Monforte?...
-
-VillaÁa, que resmungava, foi examinar a caixa, virando-a nas m„os,
-decifrando o mote do sinete _Pro amore_.
-
---Ent„o, abrimol-a?
-
-J· Ega pux·ra uma cadeira para a mesa. VillaÁa cortou o papel, gasto nos
-cantos, que envolvia o cofre. E appareceu effectivamente uma velha caixa
-de charutos pregada com duas taxas, cheia de papeis, alguns em maÁos
-apertados por fitas, outros soltos dentro de sobrescriptos abertos que
-tinham o monogramma da Monforte sob uma corÙa de marquez. Ega
-desembrulhou o primeiro maÁo. Eram cartas em allem„o, que elle n„o
-percebia, datadas de Buda-Pesth e de Carlsruhe.
-
---Bem, isto n„o nos diz nada... Adiante!
-
-Outro embrulho, a que VillaÁa cuidadosamente desapertou o nÛ cÙr de
-rosa, resguardava uma caixa oval com a miniatura d'um homem de bigodes e
-suissas ruivas, entalado na alta gola dourada d'uma farda branca.
-VillaÁa achou a pintura ´lindaª.
-
---Algum official austriaco, rosnou Ega. Outro amante... _«a marche_.
-
-Iam tirando os papeis por ordem, com a ponta dos dedos, como tocando em
-reliquias. Um largo enveloppe atulhado de contas de modistas, algumas
-pagas, outras sem recibo, interessou profundamente o VillaÁa--que
-percorria os _items_, espantado dos preÁos, das infinitas invenÁıes do
-luxo. Contas de seis mil francos! Um sÛ vestido, dois mil francos!...
-Outro maÁo trouxe uma surpreza. Eram cartas de Maria Eduarda · m„i,
-escriptas do convento, n'uma letra redonda e trabalhada como um desenho,
-com phrasesinhas cheias de gravidade devota, dictadas decerto pelas boas
-Irm„s; e n'estas composiÁıes, virtuosas e frias como themas, o sincero
-coraÁ„o da rapariga sÛ transparecia n'alguma florzinha, agora sÍcca,
-pregada no alto do papel com um alfinete.
-
---Isto pıe-se de parte, murmurou VillaÁa.
-
-Ent„o Ega, j· impaciente, esvaziou toda a caixa sobre a mesa, alastrou
-os papeis. E entre cartas, outras contas, bilhetes de visita, um grande
-sobrescripto destacou com esta linha a tinta azul:--_Pertence a minha
-filha Maria Eduarda_. Foi VillaÁa que lanÁou os olhos rapidamente ·
-enorme folha de papel que elle continha, luxuosa e documental, com o
-monogramma d'ouro sob a corÙa de marquez. Quando o passou em silencio
-para a m„o do Ega parecia suffocado, com todo o sangue nas orelhas.
-
-Ega leu-o alto, devagar. Dizia:--´Como a Maria teve a pequena e anda
-muito fraca, e eu tambem me n„o sinto nada boa com umas pontadas,
-parece-me prudente, para o que possa vir a succeder, fazer aqui uma
-declaraÁ„o que te pertence a ti, minha querida filha, e que sÛ sabe o
-padre Talloux (_Mr. l'abbÈ Talloux, coadjuteur ‡ Saint-Roch_) porque
-lh'o disse ha dois annos quando tive a pneumonia. E È o seguinte:
-Declaro que minha filha Maria Eduarda, que costuma assignar Maria
-Calzaski, por suppÙr ser esse o nome de seu pai, È portugueza e filha de
-meu marido Pedro da Maia, de quem me separei voluntariamente, trazendo-a
-commigo para Vienna, depois para Paris, e que agora vive em companhia de
-Patrick Mac-Gren, em Fontainebleau, com quem vai casar. E o pai de meu
-marido era meu sogro Affonso da Maia, viuvo, que vivia em Bemfica e
-tambem em Santa Olavia ao pÈ do rio Douro. O que tudo se pÛde verificar
-em Lisboa pois devem l· estar os papeis; e os meus erros de que vejo
-agora as consequencias n„o devem impedir que tu, minha querida filha,
-tenhas a posiÁ„o e fortuna que te pertencem. E por isso aqui declaro
-tudo isto que assigno, no caso que o n„o possa fazer diante d'um
-tabelli„o, o que tenciono logo que esteja melhor. E de tudo, se eu vier
-a morrer, o que Deus n„o permitta, peÁo perd„o a minha filha. E assigno
-com o meu nome de casada--_Maria Monforte da Maia_.ª
-
-Ega ficou a olhar para o VillaÁa. O procurador sÛ pÙde murmurar, com as
-m„os cruzadas sobre a mesa:
-
---Que bolada! Que bolada!
-
-Ent„o Ega ergueu-se. Bem! Agora tudo se simplificava. Havia unicamente a
-entregar aquelle documento a Carlos, sem commentarios. Mas o VillaÁa
-coÁava a cabeÁa, retomado por uma duvida:
-
---Eu n„o sei se este papelinho faria fÈ em juizo...
-
---Qual fÈ, qual juizo! exclamou Ega violentamente. … o bastante para que
-elle n„o torne a dormir com ella!...
-
-Uma pancada timida na porta do cubiculo fÍl-o estacar, inquieto.
-Desandou a chave. Era o escrevente, que segredou atravÈs da frincha:
-
---O snr. Carlos da Maia ficou agora l· em baixo no carrinho quando eu
-entrei, perguntou pelo snr. VillaÁa.
-
-Houve um p‚nico! Ega, atarantado, agarr·ra o chapÈo do VillaÁa. O
-procurador atirava ·s m„os ambas, para dentro d'uma gaveta, os papeis da
-Monforte.
-
---… talvez melhor dizer que n„o est·, lembrou o escrevente.
-
---Sim, que n„o est·! foi o grito abafado de ambos.
-
-Ficaram · escuta, ainda pallidos. O dog-cart de Carlos rolou na calÁada;
-os dois amigos respiraram. Mas agora Ega arrependia-se de n„o terem
-mandado subir Carlos--e alli mesmo, sem outras vacillaÁıes nem
-pieguices, corajosamente, contarem-lhe tudo, diante d'aquelles papeis
-bem abertos. E estava saltado o barranco!
-
---Homem, dizia o VillaÁa passando o lenÁo pela testa, as coisas
-querem-se devagar, com methodo. … necessario preparar-se a gente,
-respirar para dar bem o mergulho...
-
-Em todo o caso, concluiu o Ega, eram ociosas mais conversas. Os outros
-papeis da caixa perdiam o interesse depois d'aquella confiss„o da
-Monforte. SÛ restava que VillaÁa apparecesse · noite no Ramalhete ·s
-oito e meia, ou nove horas, antes de Carlos sahir para a rua de S.
-Francisco.
-
---Mas o amigo ha de l· estar! exclamou o procurador, j· aterrado.
-
-Ega prometteu. VillaÁa teve um pequeno suspiro. Depois, no patamar, onde
-viera acompanhar o outro:
-
---Uma d'estas, uma d'estas!... E eu ainda, t„o contente, a jantar no
-Ramalhete...
-
---E eu, com elles, na rua de S. Francisco!...
-
---Emfim, atÈ · noite!
-
---AtÈ · noite.
-
-Ega n„o se atreveu n'esse dia a voltar ao Ramalhete, a jantar diante de
-Carlos, a vÍr-lhe a alegria e a paz--sentindo aquella negra desgraÁa que
-descia sobre elle · maneira que a noite descia. Foi pedir as sopas ao
-marquez, que desde o sarau se conservava em casa, de garganta entrapada.
-Depois, ·s oito e meia, quando calculou que VillaÁa devia estar j· no
-Ramalhete, deixou o marquez que se enfronh·ra com o capell„o n'uma
-partida de damas.
-
-Aquelle lindo dia, toldado de tarde, find·ra n'uma chuvinha miuda que
-transia as ruas. Ega tomou uma tipoia. E parava no Ramalhete, j·
-terrivelmente nervoso, quando avistou VillaÁa no portal, de guardachuva
-sob o braÁo, arregaÁando as calÁas para sahir.
-
---Ent„o? gritou-lhe o Ega.
-
-VillaÁa abriu o guardachuva, para murmurar debaixo, mas em segredo:
-
---N„o foi possivel... Disse que tinha muita pressa, que n„o me podia
-ouvir.
-
-Ega bateu o pÈ, desesperado:
-
---Oh homem!
-
---Que quer o amigo? Havia de o agarrar · forÁa? Ficou para ·manh„...
-Tenho de c· estar ·manh„ ·s onze horas.
-
-Ega galgou as escadas, rosnando entre dentes: ´Irra! n„o sahimos
-d'esta!ª Foi atÈ ao escriptorio de Affonso. Mas n„o entrou. AtravÈs
-d'uma fenda larga do reposteiro meio franzido, um canto da sala
-apparecia, quente e cheio de conchÍgo, no dÙce tom cÙr de rosa da luz
-cahindo sobre os damascos: as cartas esperavam na mesa do whist: no sof·
-bordado a matiz D. Diogo, murcho e molle, olhava o lume, cofiando os
-bigodes. E, travadas n'alguma quest„o, a voz do Craft, que perpassou de
-cachimbo na m„o, e a voz mais lenta de Affonso, tranquillo na sua
-poltrona, misturavam-se, abafadas pela do Sequeira, que berrava
-furiosamente:--´Mas se ·manh„ houvesse uma bernarda, esse exercito com
-que os senhores querem acabar por ser uma escÛla de vadiagem È que lhes
-havia de guardar as costas... … bom fallar, ter muita philosophia! Mas
-quando ellas chegam, se n„o ha meia duzia de baionetas promptas, ent„o
-s„o as cÛlicas!...ª
-
-Ega foi d'alli aos quartos de Carlos. As velas ardiam ainda nas
-serpentinas: um aroma errava de agua de Lubin e charuto: e o Baptista
-disse-lhe que o snr. D. Carlos ´sahira havia dez minutosª. FÙra para a
-rua de S. Francisco! Ia l· dormir! Ent„o enervado, com a longa e triste
-noite diante de si, Ega teve um appetite de se atordoar, dissipar n'uma
-excitaÁ„o forte as idÈas que o torturavam. N„o despedira a tipoia,
-abalou para S. Carlos. E findou por ir cear ao Augusto com o Taveira e
-duas raparigas, a Paca e a Carmen Philosopha, prodigalisando o
-champagne. ¡s quatro da manh„ estava bebedo, estatelado sobre o sof·,
-gemendo sentimentalmente, sÛ para si, as estrophes de Musset ·
-Malibran... O Taveira e a Paca, juntinhos na mesma cadeira, elle com o
-seu ar terno de chulo, ella _muy caliente_ tambem, debicavam copinhos de
-gelatina. E a Carmen Philosopha, empanturrada, desapertada, com o
-collete embrulhado j· n'um _Diario de Noticias_, repicava a faca na
-borda do prato, cantarolando d'olhos perdidos nos bicos de gaz:
-
-
- SeÒor Alcalde mayor,
- No prenda usted los ladrones...
-
-
-
-
-Acordou ao outro dia ·s nove horas, ao lado da Carmen Philosopha, n'um
-quarto de grandes janellas rasgadas por onde entrava toda a melancolia
-da escura manh„ de chuva. E, emquanto n„o vinha a tipoia fechada que a
-servente correra a chamar, o pobre Ega enojado, vexado, com a lingua
-pastosa, os pÈs n˙s sobre o tapete, reunindo o fato espalhado, tinha sÛ
-uma idÈa clara--fugir d'alli para um grande banho, bem perfumado e bem
-fresco, onde se purificasse d'uma sensaÁ„o viscosa de Carmen e d'orgia
-que o arrepiava.
-
-Esse banho lustral foi tomal-o ao _Hotel Braganza_, para se encontrar
-com Carlos e com VillaÁa ·s onze horas j· lavado e preparado. Mas
-precisou esperar pela roupa branca que o cocheiro, com um bilhete para o
-Baptista, vo·ra a buscar ao Ramalhete: depois almoÁou: e j· batera meio
-dia quando se apeou · porta particular dos quartos de Carlos, com a
-roupa suja n'uma trouxa.
-
-Justamente Baptista atravessava o patamar com camelias n'um aÁafate.
-
---O VillaÁa j· veio? perguntou-lhe Ega baixo, andando em pontas de pÈs.
-
---O snr. VillaÁa j· l· est· dentro ha bocado. V. exc.^a recebeu a roupa
-branca?... Eu tambem mandei um fato, porque n'esses casos sempre d· mais
-frescura...
-
---Obrigado, Baptista, obrigado!
-
-E Ega pensava:--´Bem, Carlos j· sabe tudo, o barranco est· passado!ª Mas
-demorou-se ainda, tirando as luvas e o paletot com uma lentid„o cobarde.
-Por fim, sentindo bater alto o coraÁ„o, puxou o reposteiro de velludo.
-Na ante-camara pesava um silencio; a chuva grossa fustigava a porta
-envidraÁada, por onde se viam as arvores do jardim esfumadas na nevoa.
-Ega levantou o outro reposteiro que tinha bordadas as armas dos Maias.
-
---Ah! Ès tu? exclamou Carlos, erguendo-se da mesa de trabalho com uns
-papeis na m„o.
-
-Parecia ter conservado um animo viril e firme: apenas os olhos lhe
-rebrilhavam, com um fulgor sÍcco, anciosos e mais largos na pallidez que
-o cobria. VillaÁa, sentado defronte, passava vagarosamente pela testa,
-n'um movimento cansado, o lenÁo de sÍda da India. Sobre a mesa
-alastravam-se os papeis da Monforte.
-
---Que diabo de embrulhada È esta que me vem contar o VillaÁa? rompeu
-Carlos, cruzando os braÁos diante do Ega, n'uma voz que apenas de leve
-tremia.
-
-Ega balbuciou:
-
---Eu n„o tive coragem de te dizer...
-
---Mas tenho eu para ouvir!... Que diabo te contou esse homem?
-
-VillaÁa ergueu-se immediatamente. Ergueu-se com a pressa d'um galucho
-timido que È rendido n'um posto arriscado, pediu licenÁa, se n„o
-precisavam d'elle, para voltar ao escriptorio. Os amigos decerto
-preferiam conversar mais livremente. De resto, alli ficavam os papeis da
-snr.^a D. Maria Monforte. E se elle fosse necessario um recado
-encontrava-o na rua da Prata ou em casa...
-
---E v. exc.^a comprehende, acrescentou elle enrolando nas m„os o lenÁo
-de sÍda, eu tomei a iniciativa de vir fallar, por ser o meu dever, como
-amigo confidencial da casa... Foi essa tambem a opini„o do nosso Ega...
-
---Perfeitamente, VillaÁa, obrigado! acudiu Carlos. Se fÙr necessario l·
-mando...
-
-O procurador, com o lenÁo na m„o, lanÁou em redor um olhar lento. Depois
-espreitou debaixo da mesa. Parecia muito surprehendido. E Carlos seguia
-com impaciencia os passos timidos que elle dava pelo quarto,
-procurando...
-
---Que È, homem?
-
---O meu chapÈo. Imaginei que o tinha posto aqui... Naturalmente ficou l·
-fÛra... Bem, se fÙr necessario alguma coisa...
-
-Mal elle sahiu, atirando ainda os olhos inquietos pelos cantos, Carlos
-fechou violentamente o reposteiro. E voltando para o Ega, cahindo
-pesadamente n'uma cadeira:
-
---Dize l·!
-
-Ega, sentado no sof·, comeÁou por contar o encontro com o snr.
-Guimar„es, em baixo no botequim da Trindade, depois de ter fallado o
-Rufino. O homem queria explicaÁıes sobre a carta do Damaso, sobre a
-bebedeira hereditaria... Tudo se aclar·ra, ficando d'ahi entre elles um
-comeÁo de familiaridade...
-
-Mas o reposteiro mexeu de leve--e surdiu de novo a face do VillaÁa:
-
---PeÁo desculpa, mas È o meu chapÈo... N„o o acho, havia de jurar que o
-deixei aqui...
-
-Carlos conteve uma praga. Ent„o Ega procurou tambem, por traz do sof·,
-no v„o da janella. Carlos, desesperado, para findar, foi vÍr entre os
-cortinados da cama. E VillaÁa, escarlate, afflicto, esquadrinhava atÈ a
-alcova do banho...
-
---Um sumiÁo assim! Emfim, talvez me esquecesse na ante-camara!... Vou
-vÍr outra vez... O que peÁo È desculpa.
-
-Os dois ficaram sÛs. E Ega recomeÁou, detalhando como Guimar„es, duas ou
-tres vezes nos intervallos, lhe viera fallar de coisas indifferentes, do
-sarau, de politica, do pap· Hugo, etc. Depois elle procur·ra Carlos para
-irem um bocado ao Gremio. Termin·ra por sahir com o Cruges. E passavam
-defronte do AllianÁa...
-
-Novamente o reposteiro franziu, Baptista pediu perd„o a suas
-excellencias:
-
---… o snr. VillaÁa que n„o acha o chapÈo, diz que o deixou aqui...
-
-Carlos ergueu-se furioso, agarrando a cadeira pelas costas como para
-despedaÁar o Baptista.
-
---Vai para o diabo tu e o snr. VillaÁa!... Que s·ia sem chapÈo! D·-lhe
-um chapÈo meu! Irra!
-
-Baptista recuou, muito grave.
-
---V·, acaba l·! exclamou Carlos, recahindo no assento, mais pallido.
-
-E Ega, miudamente, contou a sua longa, terrivel conversa com o
-Guimar„es, desde o momento em que o homem por acaso, j· ao despedir-se,
-j· ao estender-lhe a m„o, fall·ra da ´irm„ do Maiaª. Depois
-entreg·ra-lhe os papeis da Monforte · porta do _Hotel de Paris_, no
-Pelourinho...
-
---E aqui est·, n„o sei mais nada. Imagina tu que noite eu passei! Mas
-n„o tive coragem de te dizer. Fui ao VillaÁa... Fui ao VillaÁa com a
-esperanÁa sobretudo de elle saber algum facto, ter algum documento que
-atirasse por terra toda esta historia do Guimar„es... N„o tinha nada,
-n„o sabia nada. Ficou t„o aniquilado como eu!
-
-No curto silencio que cahiu, um chuveiro mais largo, alagando o arvoredo
-do jardim, cantou nas vidraÁas. Carlos ergueu-se arrebatadamente, n'uma
-revolta de todo o sÍr:
-
---E tu acreditas que isso seja possivel? Acreditas que succeda a um
-homem como eu, como tu, n'uma rua de Lisboa? Encontro uma mulher, Ûlho
-para ella, conheÁo-a, durmo com ella e, entre todas as mulheres do
-mundo, essa justamente ha de ser minha irm„! … impossivel... N„o ha
-Guimar„es, n„o ha papeis, n„o ha documentos que me convenÁam!
-
-E como Ega permanecia mudo, a um canto do sof·, com os olhos no ch„o:
-
---Dize alguma coisa, gritou-lhe Carlos. DuvÌda tambem, homem, duvÌda
-commigo!... … extraordinario! Todos vocÍs acreditam, como se isto fosse
-a coisa mais natural do mundo, e n„o houvesse por essa cidade fÛra sen„o
-irm„os a dormir juntos!
-
-Ega murmurou:
-
---J· ia succedendo um caso assim, l· ao pÈ da quinta, em Celorico...
-
-E n'esse momento, sem que um rumor os prevenisse, Affonso da Maia
-appareceu n'uma abertura do reposteiro, encostado · bengala, sorrindo
-todo com alguma idÈa que decerto o divertia. Era ainda o chapÈo do
-VillaÁa.
-
---Que diabo fizeram vocÍs ao chapÈo do VillaÁa? O pobre homem andou por
-ahi afflicto... Teve de levar um chapÈo meu. Cahia-lhe pela cabeÁa
-abaixo, enchumaÁaram-lh'o com lenÁos...
-
-Mas subitamente reparou na face transtornada do neto. Reparou na
-atarantaÁ„o do Ega cujos olhos mal se fixavam, fugindo anciosamente
-d'elle para Carlos. Todo o sorriso se lhe apagou, deu no quarto um passo
-lento:
-
---Que È isso, que tÍm vocÍs?... Ha alguma coisa?
-
-Ent„o Carlos, no ardente egoismo da sua paix„o, sem pensar no abalo
-cruel que ia dar ao pobre velho, cheio sÛ de esperanÁa que elle, seu
-avÙ, testemunha do passado, soubesse algum facto, possuisse alguma
-certeza contraria a toda essa historia do Guimar„es, a todos esses
-papeis da Monforte--veio para elle, desabafou:
-
---Ha uma coisa extraordinaria, avÙ! O avÙ talvez saiba... O avÙ deve
-saber alguma coisa que nos tire d'esta afflicÁ„o!... Aqui est·, em duas
-palavras. Eu conheÁo ahi uma senhora que chegou ha tempos a Lisboa, mora
-na rua de S. Francisco. Agora de repente descobre-se que È minha irm„
-legitima!... Passou ahi um homem que a conhecia, que tinha uns papeis...
-Os papeis ahi est„o. S„o cartas, uma declaraÁ„o de minha m„e... Emfim
-uma trapalhada, um mont„o de provas... Que significa tudo isto? Essa
-minha irm„, a que foi levada em pequena, n„o morreu?... O avÙ deve
-saber!
-
-Affonso da Maia, que um tremor tom·ra, agarrou-se um momento com forÁa ·
-bengala, cahiu por fim pesadamente n'uma poltrona, junto do reposteiro.
-E ficou devorando o neto, o Ega, com um olhar esgazeado e mudo.
-
---Esse homem, exclamou Carlos, È um Guimar„es, um tio do Damaso...
-Fallou com o Ega, foi ao Ega que entregou os papeis... Conta tu ao avÙ,
-Ega, conta tu do comeÁo!
-
-Ega, com um suspiro, resumiu a sua longa historia. E findou por dizer
-que o importante, o decisivo alli era este homem, o Guimar„es, que n„o
-tinha interesse em mentir e sÛ por acaso, puramente por acaso, fall·ra
-em taes coisas--conhecia essa senhora, desde pequenina, como filha de
-Pedro da Maia e de Maria Monforte. E nunca a perdera de vista. Vira-a
-crescer em Paris, and·ra com ella ao collo, dera-lhe bonecas. Visit·ra-a
-com a m„i no convento. Frequent·ra a casa que ella habitava em
-Fontainebleau, como casada...
-
---Emfim, interrompeu Carlos, viu-a ainda ha dias, n'uma carruagem,
-commigo e com o Ega... Que lhe parece, avÙ?
-
-O velho murmurou, n'um grande esforÁo, como se as palavras sahindo lhe
-rasgassem o coraÁ„o:
-
---Essa senhora, est· claro, n„o sabe nada...
-
-Ega e Carlos, a um tempo, gritaram:--´N„o sabe nada!ª Segundo affirmava
-o Guimar„es, a m„i escondera-lhe sempre a verdade. Ella julgava-se filha
-d'um austriaco. Assignava-se ao principio Calzaski...
-
-Carlos, que remexera sobre a mesa, adiantou-se com um papel na m„o:
-
---Aqui tem o avÙ a declaraÁ„o de minha m„i.
-
-O velho levou muito tempo a procurar, a tirar a luneta d'entre o collete
-com os seus pobres dedos que tremiam; leu o papel devagar,
-empallidecendo mais a cada linha, respirando penosamente; ao findar
-deixou cahir sobre os joelhos as m„os, que ainda agarravam o papel,
-ficou como esmagado e sem forÁa. As palavras por fim vieram-lhe
-apagadas, morosas. Elle nada sabia... O que a Monforte alli assegurava,
-elle n„o o podia destruir... Essa senhora da rua de S. Francisco era
-talvez na verdade sua neta... N„o sabia mais...
-
-E Carlos diante d'elle vergava os hombros, esmagado tambem sob a certeza
-da sua desgraÁa. O avÙ, testemunha do passado, nada sabia! Aquella
-declaraÁ„o, toda a historia do Guimar„es ahi permaneciam inteiras,
-irrefutaveis. Nada havia, nem memoria de homem, nem documento escripto,
-que as pudesse abalar. Maria Eduarda era, pois, sua irm„!... E um
-defronte do outro, o velho e o neto pareciam dobrados por uma mesma
-dÙr--nascida da mesma idÈa.
-
-Por fim Affonso ergueu-se, fortemente encostado · bengala, foi pousar
-sobre a mesa o papel da Monforte. Deu um olhar, sem lhes tocar, ·s
-cartas espalhadas em volta da caixa de charutos. Depois, lentamente,
-passando a m„o pela testa:
-
---Nada mais sei... Sempre pensamos que essa crianÁa tinha morrido...
-Fizeram-se todas as pesquizas... Ella mesma disse que lhe tinha morrido
-a filha, mostrou j· n„o sei a quem um retrato...
-
---Era outra mais nova, a filha do italiano, disse o Ega. O Guimar„es
-fallou-me n'isso... Foi esta que viveu. Esta, que tinha j· sete a oito
-annos, quando havia apenas quatro ou cinco que esse sujeito italiano
-apparecera em Lisboa... Foi esta.
-
---Foi esta, murmurou o velho.
-
-Teve um gesto vago de resignaÁ„o, acrescentou, depois de respirar
-fortemente:
-
---Bem! Tudo isto tem de ser mais pensado... Parece-me bom tornar a
-chamar o VillaÁa... Talvez seja necessario que elle v· a Paris... E
-antes de tudo precisamos socegar... De resto n„o ha aqui morte
-d'homem... N„o ha aqui morte d'homem!
-
-A voz sumia-se-lhe, toda tremula. Estendeu a m„o a Carlos que lh'a
-beijou, suffocado; e o velho, puxando o neto para si, pousou-lhe os
-labios na testa. Depois deu dois passos para a porta, t„o lentos e
-incertos que Ega correu para elle:
-
---Tome v. exc.^a o meu braÁo...
-
-Affonso apoiou-se n'elle, pesadamente. Atravessaram a ante-camara
-silenciosa onde a chuva contÌnua batia os vidros. Por traz d'elles cahiu
-o grande reposteiro com as armas dos Maias. E ent„o Affonso, de repente,
-soltando o braÁo do Ega, murmurou-lhe, junto · face, no desabafo de toda
-a sua dÙr:
-
---Eu sabia d'essa mulher!... Vive na rua de S. Francisco, passou todo o
-ver„o nos Olivaes... … a amante d'elle!
-
-Ega ainda balbuciou: ´N„o, n„o, snr. Affonso da Maia!ª Mas o velho pÙz o
-dedo nos labios, indicou Carlos dentro que podia ouvir... E afastou-se,
-todo dobrado sobre a bengala, vencido emfim por aquelle implacavel
-destino que depois de o ter ferido na idade de forÁa com a desgraÁa do
-filho--o esmagava ao fim da velhice com a desgraÁa do neto.
-
-Ega enervado, exhausto, voltou para o quarto--onde Carlos recomeÁ·ra
-n'aquelle agitado passeio que abalava o soalho, fazia tilintar finamente
-os frascos de crystal sobre o marmore da console. Calado, junto da mesa,
-Ega ficou percorrendo outros papeis da Monforte--cartas, um livrinho de
-marroquim com adresses, bilhetes de visita de membros do Jockey Club e
-de senadores do imperio. Subitamente Carlos parou diante d'elle,
-apertando desesperadamente as m„os:
-
---Estarem duas creaturas em pleno cÈo, passar um quidam, um idiota, um
-Guimar„es, dizer duas palavras, entregar uns papeis e quebrar para
-sempre duas existencias!... Olha que isto È horrivel, Ega!
-
-Ega arriscou uma consolaÁ„o banal:
-
---Era peor se ella morresse...
-
---Peor porque? exclamou Carlos. Se ella morresse, ou eu, acabava o
-motivo d'esta paix„o, restava a dÙr e a saudade, era outra coisa...
-Assim estamos vivos, mas mortos um para o outro, e viva a paix„o que nos
-unia!... Pois tu imaginas que por me virem provar que ella È minha irm„,
-eu gÛsto menos d'ella do que gostava hontem, ou gÛsto d'um modo
-differente? Est· claro que n„o! O meu amor n„o se vai d'uma hora para a
-outra accommodar a novas circumstancias, e transformar-se em amizade...
-Nunca! Nem eu quero!
-
-Era uma brutal revolta--o seu amor defendendo-se, n„o querendo morrer,
-sÛ porque as revelaÁıes d'um Guimar„es e uma caixa de charutos cheia de
-papeis velhos o declaravam impossivel, e lhe ordenavam que morresse!
-
-Houve outro melancolico silencio. Ega accendeu uma cigarette, foi-se
-enterrar ao canto do sof·. Uma fadiga ia-o vencendo, feita de toda
-aquella emoÁ„o, da noitada no Augusto, da estremunhada manh„ na alcova
-da Carmen. Todo o quarto ia entristecendo, · luz mais triste da tarde
-d'inverno que descia. Ega terminou por cerrar os olhos. Mas bem depressa
-o sacudiu outra exclamaÁ„o de Carlos, que de novo, diante d'elle,
-apertava as m„os com desespero:
-
---E o peor ainda n„o È isto, Ega! O peor È que temos de lhe dizer tudo,
-de lhe contar tudo, a ella!...
-
-Ega j· pens·ra n'isso... E era necessario que se lhe dissesse
-immediatamente, sem hesitaÁıes.
-
---Vou-lhe eu mesmo contar tudo, murmurou Carlos.
-
---Tu!?
-
---Pois quem, ent„o? Querias que fosse o VillaÁa?...
-
-Ega franzia a testa:
-
---O que tu devias fazer era metter-te esta noite no comboio, e partir
-para Santa Olavia. De l· contavas-lhe tudo. Estavas assim mais seguro.
-
-Carlos atirou-se para uma poltrona, com um grande suspiro de fadiga:
-
---Sim, talvez, ·manh„, no comboio da noite... J· pensei n'isso, era o
-melhor... Agora o que estou È muito cansado!
-
---Tambem eu, disse o Ega espreguiÁando-se. E j· n„o adiantamos nada,
-atolamo-nos mais na confus„o. O melhor È serenar... Eu vou-me estirar um
-bocado na cama.
-
---AtÈ logo!
-
-Ega subiu ao quarto, deitou-se por cima da roupa; e no seu immenso
-cansaÁo bem depressa adormeceu. Acordou tarde a um rumor da porta. Era
-Carlos que entrava, raspando um phosphoro. Anoitecera, em baixo tocava a
-campainha para o jantar.
-
---Demais a mais esta massada do jantar! dizia Carlos accendendo as velas
-no toucador. N„o termos um pretexto para irmos fÛra, a uma taverna,
-conversar em socego! Ainda por cima convidei hontem o Steinbroken.
-
-Depois voltando-se:
-
---” Ega, tu achas que o avÙ sabe tudo?
-
-O outro salt·ra da cama, e diante do lavatorio arregaÁava as mangas:
-
---Eu te digo... Parece-me que teu avÙ desconfia... O caso fez-lhe a
-impress„o d'uma catastrophe... E, se n„o suspeitasse o que ha, devia-lhe
-causar simplesmente a surpreza de quem descobre uma neta perdida.
-
-Carlos teve um lento suspiro. D'ahi a um instante desciam para o jantar.
-
-Em baixo encontraram, alÈm de Steinbroken e de D. Diogo--o Craft, que
-viera ´pedir as sopasª. E em tÙrno ·quella mesa, sempre alegre, coberta
-de flÙres e de luzes, uma melancolia fluctuava n'essa tarde atravÈs
-d'uma conversa dormente sobre doenÁas,--o Sequeira que tinha
-rheumatismo, o pobre marquez peor·ra.
-
-De resto Affonso, no escriptorio, queix·ra-se d'uma forte dÙr de cabeÁa,
-que justificava o seu ar consumido e _pallido_. Carlos, a quem
-Steinbroken ach·ra ´m· caraª, explicou tambem que pass·ra uma noite
-abominavel. Ent„o Ega, para desanuviar o jantar, pediu ao amigo
-Steinbroken as suas impressıes sobre o grande orador do sarau da
-Trindade, o Rufino. O diplomata hesitou. Surprehendera-o bastante saber
-que o Rufino era um politico, um parlamentar... Aquelles gestos, o
-bocado da camisa a vÍr-se-lhe no estomago, a pera, a grenha, as botas,
-n„o lhe pareciam realmente d'um Homem d'Estado:
-
---Mais cependant, cependant... Dans ce genre l‡, dans le genre sublime,
-dans le genre de DemosthËnes, il m'a paru trËs fort... Oh, il m'a paru
-excessivement fort!
-
---E vocÍ, Craft?
-
-Craft, no sarau, sÛ gost·ra do Alencar. Ega encolheu violentamente os
-hombros. Ora historias! Nada podia haver mais comico que a Democracia
-romantica do Alencar, aquella Republica meiga e loura, vestida de branco
-como Ophelia, orando no prado, sob o olhar de Deus... Mas Craft
-justamente achava tudo isso excellente por ser sincero. O que feria
-sempre nas exhibiÁıes da litteratura portugueza? A escandalosa falta de
-sinceridade. Ninguem, em verso ou prosa, parecia j·mais acreditar
-n'aquillo que declamava com ardor, esmurrando o peito. E assim fÙra na
-vespera. Nem o Rufino parecia acreditar na influencia da religi„o; nem o
-homem da barba bicuda no heroismo dos Castros e dos Albuquerques; nem
-mesmo o poeta dos olhinhos bonitos na bonitice dos olhinhos... Tudo
-contrafeito e postiÁo! Com o Alencar, que differenÁa! Esse tinha uma fÈ
-real no que cantava, na Fraternidade dos povos, no Christo republicano,
-na Democracia devota e coroada d'estrellas...
-
---J· deve ser bem velho esse Alencar, observou D. Diogo que rolava
-bolinhas de p„o entre os longos dedos pallidos.
-
-Carlos, ao lado, emergiu emfim do seu silencio:
-
---O Alencar deve ter bons cincoenta annos.
-
-Ega jurou pelo menos sessenta. J· em 1836 o Alencar publicava coisas
-delirantes, e chamava pela morte, no remorso de tantas virgens que
-seduzira...
-
---Ha que annos, com effeito, murmurou lentamente Affonso, eu ouvi fallar
-d'esse homem!
-
-D. Diogo, que lev·ra os labios ao copo, voltou-se para Carlos:
-
---O Alencar tem a idade que havia de ter teu pai... Eram intimos, d'essa
-roda _distinguÈe_ d'ent„o. O Alencar ia muito a Arroios com o pobre D.
-Jo„o da Cunha, que Deus haja, e com os outros. Era tudo uma fina flÙr, e
-regulavam pela mesma idade... J· nada resta, j· nada resta!
-
-Carlos baix·ra os olhos: todos por acaso emmudeceram: um ar de tristeza
-passou entre as flÙres e as luzes como vinda do fundo d'esse passado,
-cheio de sepulturas e dÙres.
-
---E o pobre Cruges, coitado, que fiasco! exclamou Ega, para sacudir
-aquella nevoa.
-
-Craft achava o fiasco justo. Para que fÙra elle dar Beethoven a uma
-gente educada pela chulice de Offenbach? Mas Ega n„o admittia esse
-desdem por Offenbach, uma das mais finas manifestaÁıes modernas do
-scepticismo e da ironia! Steinbroken accusou Offenbach de n„o saber
-contra-ponto. Durante um momento discutiu-se musica. Ega acabou por
-sustentar que nada havia em arte t„o bello como o _fado_. E appellou
-para Affonso, para o despertar.
-
---Pois n„o È verdade, snr. Affonso da Maia? V. exc.^a tambem È como eu,
-um dos fieis ao fado, · nossa grande creaÁ„o nacional.
-
---Sim, com effeito, murmurou o velho, levando a m„o · testa, como a
-justificar o seu modo desinteressado e murcho. Ha muita poesia no
-fado...
-
-Craft porÈm atacava o fado, as _malagueÒas_, as _peteneras_--toda essa
-musica meridional, que lhe parecia apenas um garganteado gemebundo,
-prolongado infinitamente, em _ais_ de esterilidade e de preguiÁa. Elle,
-por exemplo, ouvira uma noite uma _malagueÒa_, uma d'essas famosas
-_malagueÒas_, cantada em perfeito estylo por uma senhora de Malaga. Era
-em Madrid, em casa dos Villa-Rubia. A senhora pıe-se ao piano, rosna uma
-coisa sobre _piedra_ e _sepultura_, e rompe a gemer n'um gemido que n„o
-findava--_„-„-„-„-„-ah_... Pois senhores, elle aborrece-se, passa para
-outra sala, vÍ jogar todo um robber de whist, folheia um immenso album,
-discute a guerra carlista com o general Jovellos, e quando volta, l·
-estava ainda a senhora, de cravos na tranÁa e olhos no tecto, a gemer o
-mesmo--_„-„-„-„-„-ah!_...
-
-Todos riram. Ega protestou com impeto, j· excitado. O Craft era um sÍcco
-inglez, educado sobre o chato seio da Economia Politica, incapaz de
-comprehender todo o mundo de poesia que podia conter um ai! Mas elle n„o
-fallava das _malagueÒas_. N„o estava encarregado de defender a Hespanha.
-Ella possuia, para convencer o Craft e outros britannicos, bastante
-pilheria e bastante navalha... A quest„o era o _fado_!
-
---Onde È que vocÍ tem ouvido o fado? Ahi pelas salas, ao piano... Com
-effeito assim, concordo, È chÙcho. Mas ouÁa-o vocÍ por tres ou quatro
-guitarristas, uma noite, no campo, com uma bella lua no cÈo... Como nos
-Olivaes este ver„o, quando o marquez l· levou o _Vira-vira_! Lembras-te,
-Carlos?...
-
-E estacou, como entalado, no arrependimento d'aquella memoria da _Toca_
-que levianamente evoc·ra. Carlos permanecera silencioso, com uma sombra
-na face. Craft ainda rosnou que, n'uma linda noite de luar, todos os
-sons no campo eram bonitos, mesmo o chiar dos sapos. E de novo uma
-estranha desanimaÁ„o amolleceu a sala; os escudeiros serviam os dÙces.
-
-Ent„o, no silencio, D. Diogo disse pensativamente, com a sua magestade
-de le„o saudoso que relembra um grande passado:
-
---Uma musica tambem muito _distinguÈe_ antigamente eram os _Sinos do
-mosteiro_. Parecia mesmo que se estavam ouvindo os sinos... J· n„o ha
-d'isso!
-
-O jantar terminava friamente. Steinbroken volt·ra ·quella falta da
-familia real no sarau, que desde a vespera o inquietava. Ninguem alli se
-interessava pelo PaÁo. Depois D. Diogo surdiu com uma velha e fastidiosa
-historia sobre a infanta D. Isabel. Foi um allivio quando o escudeiro
-trouxe em volta a larga bacia de prata e o jarro d'agua perfumada.
-
-Ao fim do cafÈ, servido no bilhar, Steinbroken e Craft comeÁaram uma
-partida ´·s cincoentaª e a quinze tostıes para interessar. Affonso e D.
-Diogo tinham recolhido ao escriptorio. Ega enterr·ra-se no fundo d'uma
-poltrona, com o _Figaro_. Mas bem depressa deixou escorregar a folha no
-tapete, cerrou os olhos. Ent„o Carlos, que passeava pensativamente
-fumando, olhou um momento o Ega adormecido, e sumiu-se por traz do
-reposteiro.
-
-
-
-Ia · rua de S. Francisco.
-
-Mas n„o se apressava, a pÈ pelo Aterro, abafado n'um paletot de pelles,
-acabando o charuto. A noite clare·ra, com um crescente de lua entre
-farrapos de nuvens brancas, que fugiam sob um norte fino.
-
-FÙra n'essa tarde, sÛ no seu quarto, que Carlos decidira ir fallar a
-Maria Eduarda--por um motivo supremo de dignidade e de raz„o, que elle
-descobrira e que repetia a si mesmo incessantemente para se justificar.
-Nem ella nem elle eram duas crianÁas frouxas, necessitando que a crise
-mais temerosa da sua vida lhes fosse resolvida e arranjada pelo Ega ou
-pelo VillaÁa: mas duas pessoas fortes, com o animo bastante resoluto, e
-o juizo bastante seguro, para elles mesmos acharem o caminho da
-dignidade e da raz„o n'aquella catastrophe que lhes desmantelava a
-existencia. Por isso elle, sÛ elle, devia ir · rua de S. Francisco.
-
-Decerto era terrivel tornar a vÍl-a n'aquella sala, quente ainda do seu
-amor, agora que a sabia sua irm„... Mas porque n„o? Havia acaso alli
-dois devotos, possuidos da preoccupaÁ„o do demonio, espavoridos pelo
-peccado em que se tinham atolado ainda que inconscientemente, anciosos
-por irem esconder no fundo de mosteiros distantes o horror carnal um do
-outro? N„o! Necessitavam elles acaso pÙr immediatamente entre si as
-compridas legoas que v„o de Lisboa a Santa Olavia, com receio de cahir
-na antiga fragilidade, se de novo os seus olhos se encontrassem
-brilhando com a antiga chamma? N„o! Ambos tinham em si bastante forÁa
-para enterrar o coraÁ„o sob a raz„o, como sob uma fria e dura pedra, t„o
-completamente que n„o lhe sentissem mais nem a revolta nem o chÙro. E
-elle podia desafogadamente voltar ·quella sala, toda quente ainda do seu
-amor...
-
-De resto, que precisavam appellar para a raz„o, para a sua coragem de
-fortes?... Elle n„o ia revelar bruscamente _toda_ a verdade a Maria
-Eduarda, dizer-lhe um ´adeus!ª pathetico, um adeus de theatro, affrontar
-uma crise de paix„o e dÙr. Pelo contrario! Toda essa tarde, atravÈs do
-seu proprio tormento, procur·ra anciosamente um meio de adoÁar e graduar
-·quella pobre creatura o horror da revelaÁ„o que lhe devia. E ach·ra um
-por fim, bem complicado, bem cobarde! Mas que! Era o unico, o unico que
-por uma preparaÁ„o lenta, caridosa, lhe pouparia uma dÙr fulminante e
-brutal. E esse meio justamente sÛ era praticavel indo elle, com toda a
-frieza, com todo o animo, · rua de S. Francisco.
-
-Por isso ia--e ao longo do Aterro, retardando os passos, resumia,
-retocava esse plano, ensaiando mesmo comsigo, baixo, palavras que lhe
-diria. Entraria na sala, com um grande ar de pressa--e contava-lhe que
-um negocio de casa, uma complicaÁ„o de feitores o obrigava a partir para
-Santa Olavia d'ahi a dias. E immediatamente sahia, com o pretexto de
-correr a casa do procurador. Podia mesmo ajuntar--´È um momento, n„o
-tardo, atÈ j·.ª Uma coisa o inquietava. Se ella lhe dÈsse um beijo?...
-Decidia ent„o exagerar a sua pressa, conservando o charuto na bÙca, sem
-mesmo pousar o chapÈo... E sahia. N„o voltava. Pobre d'ella, coitada,
-que ia esperar atÈ tarde, escutando cada rumor de carruagem na rua!...
-Na noite seguinte abalava para Santa Olavia com o Ega, deixando-lhe a
-ella uma carta a annunciar que infelizmente, por causa d'um telegramma,
-se vira forÁado a partir n'esse comboio. Podia mesmo ajuntar--´volto
-d'aqui a dois ou tres dias...ª E ahi estava longe d'ella para sempre. De
-Santa Olavia escrevia-lhe logo, d'um modo incerto e confuso, fallando de
-documentos de familia, inesperadamente descobertos, provando entre elles
-um parentesco chegado. Tudo isto atrapalhado, curto, ´· pressaª. Por fim
-n'outra carta deixava escapar _toda_ a verdade, mandava-lhe a declaraÁ„o
-da m„e; e mostrando a necessidade d'uma separaÁ„o, emquanto se n„o
-esclarecessem todas as duvidas, pedia-lhe que partisse para Paris.
-VillaÁa ficava encarregado da quest„o de dinheiro, entregando-lhe logo
-para a viagem trezentas ou quatrocentas libras... Ah! tudo isto era bem
-complicado, bem covarde! Mas sÛ havia esse meio. E quem, sen„o elle, o
-podia tentar com caridade e com tacto?
-
-E, entre o tumulto d'estes pensamentos, de repente achou-se na travessa
-da Parreirinha, defronte da casa de Maria. Na sala, atravÈs das
-cortinas, transparecia uma luz dormente. Todo o resto estava apagado--a
-janella do gabinete estreito onde ella se vestia, a varanda do quarto
-d'ella com os vasos de chrysantemos.
-
-E pouco a pouco aquella fachada muda d'onde apenas sahia, a um canto,
-uma claridade languida d'alcova adormecida, foi-o estranhamente
-penetrando da inquietaÁ„o e desconfianÁa. Era um medo d'essa penumbra
-molle que sentia l· dentro, toda cheia de calor e do perfume em que
-havia jasmim. N„o entrou; seguiu devagar pelo passeio fronteiro,
-pensando em certos detalhes da casa--o sof· largo e profundo com
-almofadas de sÍda, as rendas do toucador, o cortinado branco da cama
-d'ella... Depois parou diante da larga barra de claridade que sahia do
-port„o do Gremio; e foi para l·, machinalmente attrahido pela
-simplicidade e seguranÁa d'aquella entrada, lageada de pedra, com
-grossos bicos de gaz, sem penumbras e sem perfumes.
-
-Na sala, em baixo, ficou percorrendo, sem os comprehender, os
-telegrammas soltos sobre a mesa. Um criado passou, elle pediu cognac.
-Telles da Gama, que vinha de dentro assobiando, com as m„os nos bolsos
-do paletot, deteve-se um momento para lhe perguntar se ia na terÁa-feira
-aos Gouvarinhos.
-
---Talvez, murmurou Carlos.
-
---Ent„o venha!... Eu ando a arrebanhar gente... S„o os annos do Charlie,
-de mais a mais. Cae l· o peso do mundo, e ha ceia!...
-
-O criado entrou com a bandeja--e Carlos, de pÈ junto da mesa, remexendo
-o assucar no copo, recordava, sem saber porque, aquella tarde em que a
-condessa, pondo-lhe uma rosa no casaco, lhe dera o primeiro beijo; revia
-o sof· onde ella cahira com um rumor de sÍdas amarrotadas... Como tudo
-isto era j· vago e remoto!
-
-Apenas acabou o cognac sahiu. Agora, caminhando rente das casas, n„o via
-aquella fachada que o perturbava com a sua claridade d'alcova morrendo
-nos vidros. O port„o fic·ra cerrado, o gaz ardia no patamar. E subiu,
-sentindo mais pela escada de pedra as pancadas do coraÁ„o que o pousar
-dos seus passos. Melanie, que veio abrir, disse-lhe que a senhora, um
-pouco cansada, se fÙra encostar sobre a roupa;--e a sala, com effeito,
-parecia abandonada por essa noite, com as serpentinas apagadas, o
-bordado ocioso e enrolado no seu cesto, os livros n'um frio arranjo
-orlando a mesa onde o candieiro espalhava uma luz tenue sob o abat-jour
-de renda amarella.
-
-Carlos tirava as luvas, lentamente, retomado de novo por uma inquietaÁ„o
-ante aquelle recolhimento adormecido. E de repente Rosa correu de
-dentro, rindo, pulando, com os cabellos soltos nos hombros, os braÁos
-abertos para elle. Carlos levantou-a ao ar, dizendo como costumava: ´L·
-vem a cabrita!...ª
-
-Mas ent„o, quando a tinha assim suspensa, batendo os
-pÈsinhos--atravessou-o a idÈa de que aquella crianÁa era sua sobrinha e
-tinha o seu nome!... Largou-a, quasi a deixou cahir--assombrado para
-ella, como se pela vez primeira visse essa facesinha eburnea e fina onde
-corria o seu sangue...
-
---Que est·s tu a olhar para mim? murmurou ella, recuando e sorrindo, com
-as m„osinhas cruzadas atraz das saias que tufavam.
-
-Elle n„o sabia, parecia-lhe outra Rosa: e · sua perturbaÁ„o misturava-se
-uma saudade pela antiga Rosa, a outra, a que era filha de Madame
-Mac-Gren, a quem elle contava historias de Joanna d'Arc, a quem
-balouÁava na _Toca_ sob as acacias em flÙr. Ella no emtanto sorria mais,
-com um brilho nos dentinhos miudos, uma ternura nos bellos olhos azues,
-vendo-o assim t„o grave e t„o mudo, pensando que elle ia brincar, fazer
-´voz de Carlos Magnoª. Tinha o mesmo sorriso da m„i, com a mesma covinha
-no queixo. Carlos viu n'ella de repente toda a graÁa de Maria, todo o
-encanto de Maria. E arrebatou-a de novo nos braÁos, t„o violentamente,
-com beijos t„o bruscos no cabello e nas faces, que Rosa estrebuchou,
-assustada e com um grito. Soltou-a logo, n'um receio de n„o ter sido
-casto... Depois, muito sÈrio:
-
---Onde est· a mam„?
-
-Rosa coÁava o braÁo, com a testasinha franzida:
-
---Apre!... Magoaste-me.
-
-Carlos passou-lhe pelos cabellos a m„o que ainda tremia.
-
---V·, n„o sejas piegas, a mam„ n„o gosta. Onde est· ella?
-
-A pequena, aplacada, j· contente, pulava em redor, agarrando nos pulsos
-de Carlos para que elle saltasse tambem...
-
---A mam„ foi deitar-se... Diz que est· muito cansada, depois chama-me a
-mim preguiÁosa... V·, salta tambem. N„o sejas mono!...
-
-N'esse instante, do corredor, miss Sarah chamou:
-
---Mademoiselle!...
-
-Rosa pÙz o dedinho na bÙca cheia de riso:
-
---Dize-lhe que n„o estou aqui! A vÍr... Para a fazer zangar!... Dize!
-
-Miss Sarah erguera o reposteiro; e descobriu-a logo escondida, sumida
-por traz de Carlos, na pontinha dos pÈs, fazendo-se pequenina. Teve um
-sorriso benevolo, murmurou ´good night, sirª. Depois lembrou que eram
-quasi nove e meia, mademoiselle tinha estado um pouco constipada e devia
-recolher-se. Ent„o Carlos puxou brandamente pelo braÁo de Rosa,
-acariciou-a ainda para que ella obedecesse a miss Sarah.
-
-Mas Rosa sacudia-o, indignada d'aquella traiÁ„o.
-
---Tambem nunca fazes nada!... Semsabor„o! Pois olha, nem te digo adeus!
-
-Atravessou a sala, amuada, esquivou-se com um repell„o · governante que
-sorria e lhe estendia a m„o--e pelo corredor rompeu n'um chÙro
-despeitado e pÍrro. Miss Sarah risonhamente desculpou mademoiselle. Era
-a constipaÁ„o que a tornava impertinente. Mas se fosse diante da mam„
-n„o fazia aquillo, n„o!
-
---Good night, sir.
-
---Good night, miss Sarah...
-
-SÛ, Carlos errou alguns momentos pela sala. Por fim ergueu o pedaÁo de
-tapeÁaria que cerrava o estreito gabinete onde Maria se vestia. Ahi, na
-escurid„o, um brilho pallido d'espelho tremia, batido por um longo raio
-do candieiro da rua. Muito de leve empurrou a porta do quarto.
-
---Maria!... Est·s a dormir?
-
-N„o havia luz; mas o mesmo candieiro da rua, atravÈs do transparente
-erguido, tirava das trevas a brancura vaga do cortinado que envolvia o
-leito. E foi d'ahi que ella murmurou, mal acordada:
-
---Entra! Vim-me deitar, estava muito cansada... Que horas s„o?
-
-Carlos n„o se movera, ainda com a m„o na porta:
-
---… tarde, e eu preciso sahir j· a procurar o VillaÁa ... Vinha dizer-te
-que tenho talvez de ir a Santa Olavia, alÈm d'·manh„, por dois ou tres
-dias...
-
-Um movimento, entre os cortinados, fez ranger o leito.
-
---Para Santa Olavia?... Ora essa, porque? E assim de repente...
-Entra!... Vem c·!
-
-Ent„o Carlos deu um passo no tapete, sem rumor. Ainda sentia o ranger
-molle do leito. E j· todo aquelle aroma d'ella que t„o bem conhecia,
-esparso na sombra tepida, o envolvia, lhe entrava n'alma com uma
-seducÁ„o inesperada de caricia nova, que o perturbava estranhamente. Mas
-ia balbuciando, insistindo na sua pressa de encontrar essa noite o
-VillaÁa.
-
---… uma massada, por causa d'uns feitores, d'umas aguas...
-
-Tocou no leito; e sentou-se muito · beira, n'uma fadiga que de repente o
-enle·ra, lhe tirava a forÁa para continuar essas invenÁıes d'aguas e de
-feitores, como se ellas fossem montanhas de ferro a mover.
-
-O grande e bello corpo de Maria, embrulhado n'um roup„o branco de sÍda,
-movia-se, espreguiÁava-se languidamente sobre o leito brando.
-
---Achei-me t„o cansada, depois de jantar, veio-me uma preguiÁa... Mas
-ent„o partires assim de repente!... Que sÈcca! D· c· a m„o!
-
-Elle tenteava, procurando na brancura da roupa: encontrou um joelho a
-que percebia a fÛrma e o calor suave, atravÈs da sÍda leve: e alli
-esqueceu a m„o, aberta e frouxa, como morta, n'um entorpecimento onde
-toda a vontade e toda a consciencia se lhe fundiam, deixando-lhe apenas
-a sensaÁ„o d'aquella pelle quente e macia onde a sua palma pousava. Um
-suspiro, um pequenino suspiro de crianÁa, fugiu dos labios de Maria,
-morreu na sombra. Carlos sentiu a quentura de desejo que vinha d'ella,
-que o entontecia, terrivel como o bafo ardente d'um abysmo, escancarado
-na terra a seus pÈs. Ainda balbuciou: ´n„o, n„o...ª Mas ella estendeu os
-braÁos, envolveu-lhe o pescoÁo, puxando-o para si, n'um murmurio que era
-como a continuaÁ„o do suspiro, e em que o nome de _querido_ susurrava e
-tremia. Sem resistencia, como um corpo morto que um sopro impelle, elle
-cahiu-lhe sobre o seio. Os seus labios seccos acharam-se collados n'um
-beijo aberto que os humedecia. E de repente, Carlos enlaÁou-a
-furiosamente, esmagando-a e sugando-a, n'uma paix„o e n'um desespero que
-fez tremer todo o leito.
-
-
-
-A essa hora Ega acordava no bilhar, ainda estirado na poltrona onde o
-cansaÁo o prostr·ra. Bocejando, estremunhado, arrastou os passos atÈ ao
-escriptorio de Affonso.
-
-Ahi ardia um lume alegre, a que o reverendo Bonifacio se deixava torrar,
-enrolado sobre a pelle d'urso. Affonso fazia a partida de whist com
-Steinbroken e com o VillaÁa: mas t„o distrahido, t„o confuso, que j·
-duas vezes D. Diogo, infeliz e irritado, rosn·ra que se a dÙr de cabeÁa
-assim o estonteava melhor seria findarem! Quando Ega appareceu, o velho
-levantou os olhos inquietos:
-
---O Carlos? Sahiu?...
-
---Sim, creio que sahiu com o Craft, disse o Ega. Tinham fallado em ir
-vÍr o marquez.
-
-VillaÁa, que baralhava com a sua lentid„o meticulosa, deitou tambem para
-o Ega um olhar curioso e vivo. Mas j· D. Diogo batia com os dedos no
-pano da mesa, resmungando:--´Vamos l·, vamos l·... N„o se ganha nada em
-saber dos outros!ª Ent„o Ega ficou alli um momento, com bocejos vagos,
-seguindo o cahir lento das cartas. Por fim, molle e seccado, decidiu ir
-lÍr para a cama, hesitou por diante das estantes, sahiu com um velho
-numero do _Panorama_.
-
-Ao outro dia, · hora do almoÁo, entrou no quarto de Carlos. E ficou
-pasmado quando o Baptista--tristonho desde a vespera, farejando
-desgosto--lhe disse que Carlos fÙra para a Tapada, muito cedo, a
-cavallo...
-
---Ora essa!... E n„o deixou ordens nenhumas, n„o fallou em ir para Santa
-Olavia?...
-
-Baptista olhou Ega, espantado:
-
---Para Santa Olavia!... N„o senhor, n„o fallou em semelhante coisa. Mas
-deixou uma carta para v. exc.^a vÍr. Creio que È do snr. marquez. E diz
-que l· apparecia depois, ·s seis... Acho que È jantar.
-
-N'um bilhete de visita, o marquez, com effeito, lembrava que esse dia
-era ´o seu fausto natalicioª, e esperava Carlos e o Ega ·s seis, para
-lhe ajudarem a comer a gallinha de dieta.
-
---Bem, l· nos encontraremos, murmurou Ega, descendo para o jardim.
-
-Aquillo parecia-lhe extraordinario! Carlos passeando a cavallo, Carlos
-jantando com o marquez, como se nada houvesse perturbado a sua vida
-facil de rapaz feliz!... Estava agora certo de que elle na vespera fÙra
-· rua de S. Francisco. Justos cÈos! Que se teria l· passado? Subiu,
-ouvindo a sineta do almoÁo. O escudeiro annunciou-lhe que o snr. Affonso
-da Maia tom·ra uma chavena de ch· no quarto e ainda estava recolhido.
-Todos sumidos! Pela primeira vez no Ramalhete Ega almoÁou solitariamente
-na larga mesa, lendo a _Gazeta Illustrada_.
-
-De tarde, ·s seis, no quarto do marquez (que tinha o pescoÁo enrolado
-n'uma _boa_ de senhora de pelle de marta), encontrou Carlos, o Darque, o
-Craft, em torno d'um rapaz gordo que tocava guitarra--emquanto ao lado o
-procurador do marquez, um bello homem de barba preta, se batia com o
-Telles n'uma partida de damas.
-
---Viste o avÙ? perguntou Carlos, quando o Ega lhe estendeu a m„o.
-
---N„o, almocei sÛ.
-
-O jantar, d'ahi a pouco, foi muito divertido, largamente regado com os
-soberbos vinhos da casa. E ninguem decerto bebeu mais, ninguem riu mais
-do que Carlos, resurgido quasi de repente d'uma desanimaÁ„o sombria a
-uma alegria nervosa--que incommodava o Ega, sentindo n'ella um timbre
-falso e como um som de crystal rachado. O proprio Ega por fim ·
-sobremesa se excitou consideravelmente com um esplendido Porto de 1815.
-Depois houve um _baccarat_ em que Carlos, outra vez sombrio, deitando a
-cada instante os olhos ao relogio, teve uma sorte triumphante, uma
-´sorte de cabr„oª, como a classificou o Darque, indignado, ao trocar a
-sua ultima nota de vinte mil reis. ¡ meia noite porÈm, inexoravelmente,
-o procurador do marquez lembrou as ordens do medico que marc·ra esse
-limite ´ao natalicioª. Foi ent„o um enfiar de paletots, em debandada,
-por entre os queixumes do Darque e do Craft, que sahiam escorridos, sem
-sequer um troco para o ´americanoª. Fez-se-lhes uma subscripÁ„o de
-caridade, que elles recolheram nos chapÈos, rosnando bÍnÁ„os aos
-bemfeitores.
-
-Na tipoia que os levava ao Ramalhete, Carlos e Ega permaneceram muito
-tempo em silencio, cada um enterrado ao seu canto, fumando. Foi j· ao
-meio do Aterro que Ega pareceu despertar:
-
---E ent„o por fim?... Sempre vaes para Santa Olavia, ou que fazes?
-
-Carlos mexeu-se no escuro da tipoia. Depois, lentamente, como cheio de
-cansaÁo:
-
---Talvez v· ·manh„... Ainda n„o disse nada, ainda n„o fiz nada... Decidi
-dar-me quarenta e oito horas para acalmar, para reflectir... N„o se pÛde
-agora fallar com este barulho das rodas.
-
-De novo cada um recahiu na sua mudez, ao seu canto.
-
-Em casa, subindo a escadinha forrada de velludo, Carlos declarou-se
-exhausto e com uma intoleravel dÙr de cabeÁa:
-
---¡manh„ fallamos, Ega... Boa noite, sim?
-
---AtÈ ·manh„.
-
-Alta noite Ega acordou com uma grande sÍde. Salt·ra da cama, esvazi·ra a
-garrafa no toucador, quando julgou sentir por baixo, no quarto de
-Carlos, uma porta bater. Escutou. Depois, arrepiado, remergulhou nos
-lenÁoes. Mas espert·ra inteiramente, com uma idÈa estranha, insensata,
-que o assalt·ra sem motivo, o agitava, lhe fazia palpitar o coraÁ„o no
-grande silencio da noite. Ouviu assim dar tres horas. A porta de novo
-batera, depois uma janella: era decerto vento que se erguera. N„o podia
-porÈm readormecer, ·s voltas, n'um terrivel mal-estar, com aquella idÈa
-cravada na imaginaÁ„o que o torturava. Ent„o, desesperado, pulou da
-cama, enfiou um paletot, e em pontas de chinelas, com a m„o diante da
-luz, desceu surdamente ao quarto de Carlos. Na ante-sala parou,
-tremendo, com o ouvido contra o reposteiro, na esperanÁa de perceber
-algum calmo rumor de respiraÁ„o. O silencio era pesado e pleno. Ousou
-entrar... A cama estava feita e vazia, Carlos sahira.
-
-Elle ficou a olhar estupidamente para aquella colcha lisa, com a dobra
-do lenÁol de renda cuidadosamente entreaberta pelo Baptista. E agora n„o
-duvidava. Carlos fÙra findar a noite · rua de S. Francisco!... Estava
-l·, dormia l·! E sÛ uma idÈa surgia atravÈs do seu horror--fugir,
-safar-se para Celorico, n„o ser testemunha d'aquella incomparavel
-infamia!...
-
-E o dia seguinte, terÁa-feira, foi desolador para o pobre Ega. Vexado,
-n'um terror de encontrar Carlos ou Affonso, levantou-se cedo,
-esgueirou-se pelas escadas com cautelas de ladr„o, foi almoÁar ao
-Tavares. De tarde, na rua do Ouro, viu passar Carlos, que levava no
-break o Cruges e o Taveira--arrebanhados certamente para elle se n„o
-encontrar sÛ · mesa com o avÙ. Ega jantou melancolicamente no Universal.
-SÛ entrou no Ramalhete ·s nove horas, vestir-se para a _soirÈe_ da
-Gouvarinho, que pela manh„ no Loreto par·ra a carruagem para lhe lembrar
-´que era a festa do Charlieª. E foi j· de paletot, de _claque_ na m„o,
-que appareceu emfim na salinha Luiz xv onde Cruges tocava Chopin, e
-Carlos se install·ra n'uma partida de bezigue com o Craft. Vinha saber
-se os amigos queriam alguma coisa para os nobres condes de Gouvarinho...
-
---Diverte-te!
-
---SÍ faiscante!
-
---Eu l· appareÁo para a ceia! prometteu Taveira, estirado n'uma poltrona
-com o _Figaro_.
-
-Eram duas horas da manh„ quando Ega recolheu da _soirÈe_--onde por fim
-se divertira n'uma desesperada flirtaÁ„o com a baroneza d'Alvim, que ·
-ceia, depois do champagne, vencida por tanta graÁa e tanta audacia, lhe
-tinha dado duas rosas. Diante do quarto de Carlos, accendendo a vela,
-Ega hesitou, mordido por uma curiosidade... Estaria l·? Mas teve
-vergonha d'aquella espionagem, e subiu, bem decidido como na vespera a
-fugir para Celorico. No seu quarto, diante do espelho, pÙz
-cuidadosamente n'um copo as rosas da Alvim. E comeÁava a despir-se,
-quando ouviu passos no negro corredor, passos muito lentos, muito
-pesados, que se adiantavam, findaram · sua porta em suspens„o e
-silencio. Assustado, gritou: ´Que È l·?ª A porta rangeu. E appareceu
-Afonso da Maia, pallido, com um jaquet„o sobre a camisa de dormir, e um
-castiÁal onde a vela ia morrendo. N„o entrou. N'uma voz enrouquecida,
-que tremia:
-
---O Carlos? esteve l·?
-
-Ega balbuciou, atarantado, em mangas de camisa. N„o sabia... Estivera
-apenas um momento nos Gouvarinhos... Era provavel que Carlos tivesse ido
-mais tarde com o Taveira, para a ceia.
-
-O velho cerr·ra os olhos, como se desfallecesse, estendendo a m„o para
-se apoiar. Ega correu para elle:
-
---N„o se afflija, snr. Affonso da Maia!
-
---Que queres ent„o que faÁa? Onde est· elle? L· mettido, com essa
-mulher... Escusas de dizer, eu sei, mandei espreitar... Desci a isso,
-mas quiz acabar esta angustia... E esteve l· hontem atÈ de manh„, est·
-l· a dormir n'este instante... E foi para este horror que Deus me deixou
-viver atÈ agora!
-
-Teve um grande gesto de revolta e de dÙr. De novo os seus passos, mais
-pesados, mais lentos, se sumiram no corredor.
-
-Ega ficou junto da porta, um momento, estarrecido. Depois foi-se
-despindo devagar, decidido a dizer a Carlos muito simplesmente, ao outro
-dia, antes de partir para Celorico, que a sua infamia estava matando o
-avÙ, e o forÁava a elle, seu melhor amigo, a fugir para a n„o
-testemunhar por mais tempo.
-
-Mal acordou, puxou a mala para o meio do quarto, atirou para cima da
-cama, ·s braÁadas, a roupa que ia emmalar. E durante meia hora, em
-mangas de camisa, lidou n'esta tarefa, misturando aos seus pensamentos
-de cÛlera lembranÁas da _sÛirÈe_ da vespera, certos olhares da Alvim,
-certas esperanÁas que lhe tornavam saudosa a partida. Um alegre sol
-dourava a varanda. Terminou por abrir a vidraÁa, respirar, olhar o bello
-azul d'inverno. Lisboa ganhava tanto com aquelle tempo! E j· Celorico, a
-quinta, o padre Seraphim, lhe estendiam de longe a sua sombra n'alma. Ao
-baixar os olhos viu o dog-cart de Carlos atrellado com a _Tunante_, que
-escarvava a calÁada animada pelo ar vivo. Era Carlos decerto que ia
-sahir cedo--para n„o se encontrar com elle e com o avÙ!
-
-N'um receio de o n„o apanhar n'esse dia, desceu correndo. Carlos
-aferrolh·ra-se na alcova de banho. Ega chamou, o outro n„o tugiu. Por
-fim Ega bateu, gritou atravÈs da porta, sem esconder a sua irritaÁ„o:
-
---Tem a bondade d'escutar!... Ent„o partes para Santa Olavia, ou quÍ?
-
-Depois d'um instante, Carlos lanÁou de l·, entre um rumor d'agua que
-cahia:
-
---N„o sei... Talvez... Logo te digo...
-
-O outro n„o se conteve mais:
-
---… que se n„o pÙde ficar assim eternamente... Recebi uma carta de minha
-m„i... E se n„o partes para Santa Olavia, eu vou para Celorico... …
-absurdo! J· estamos n'isto ha tres dias!
-
-E quasi se arrependia j· da sua violencia, quando a voz de Carlos se
-arrastou de dentro, humilde e cansada, n'uma supplica:
-
---Por quem Ès, Ega! Tem um bocado de paciencia commigo. Eu logo te
-digo...
-
-N'uma d'aquellas subitas emoÁıes de nervoso, que o sacudiam--os olhos do
-Ega humedeceram. Balbuciou logo:
-
---Bem, bem! Eu fallei alto por ser atravÈs da porta... N„o ha pressa!
-
-E fugiu para o quarto, cheio sÛ de compaix„o e ternura, com uma grossa
-lagrima nas pestanas. Sentia agora bem a tortura em que o pobre Carlos
-se debatera, sob o despotismo d'uma paix„o atÈ ahi legitima, e que n'uma
-hora amarga se tornava de repente monstruosa, sem nada perder de seu
-encanto e da sua intensidade... Humano e fragil, elle n„o pudera estacar
-n'aquelle violento impulso de amor e de desejo que o levava como n'um
-vendaval! Cedera, cedera, continu·ra a rolar ·quelles braÁos, que
-innocentemente o continuavam a chamar. E ahi andava agora, aterrado,
-escorraÁado, fugindo occultamente de casa, passando o dia longe dos
-seus, n'uma vadiagem tragica, como um excommungado que receia encontrar
-olhos puros onde sinta o horror do seu peccado... E ao lado, o pobre
-Affonso, sabendo tudo, morrendo d'aquella dÙr! Podia elle, hospede
-querido dos tempos alegres, partir, agora que uma onda de desgraÁa
-quebr·ra sobre essa casa, onde o acolhiam affeiÁıes mais largas que na
-sua propria? Seria ignobil! Tornou logo a desfazer a mala; e, furioso no
-seu egoismo com todas aquellas amarguras que o abalavam, arranjava outra
-vez a roupa dentro da commoda, com a mesma cÛlera com que a desmanch·ra,
-rosnando:
-
---Diabo levem as mulheres, e a vida, e tudo!...
-
-Quando desceu, j· vestido, Carlos desapparecera! Mas Baptista,
-tristonho, carrancudo, certo agora de que havia um grande desgosto,
-deteve-o para lhe murmurar:
-
---Tinha v. exc.^a raz„o... Partimos ·manh„ para Santa Olavia e levamos
-roupa para muito tempo... Este inverno comeÁa mal!
-
-
-
-N'essa madrugada, ·s quatro horas, em plena escurid„o, Carlos cerr·ra de
-manso o port„o da rua de S. Francisco. E, mais pungente, apoderava-se
-d'elle, na frialdade da rua, o medo que j· o roÁ·ra, ao vestir-se na
-penumbra do quarto, ao lado de Maria adormecida--o medo de voltar ao
-Ramalhete! Era esse medo que j· na vespera o trouxera todo o dia por
-fÛra no dog-cart, findando por jantar lugubremente com o Cruges,
-escondido n'um gabinete do Augusto. Era medo do avÙ, medo do Ega, medo
-do VillaÁa; medo d'aquella sineta do jantar que os chamava, os juntava;
-medo do seu quarto, onde a cada momento qualquer d'elles podia erguer o
-reposteiro, entrar, cravar os olhos na sua alma e no seu segredo...
-Tinha agora a certeza _que elles sabiam tudo_. E mesmo que n'essa noite
-fugisse para Santa Olavia, pondo entre si e Maria uma separaÁ„o t„o alta
-como o muro d'um claustro, nunca mais do espirito d'aquelles homens, que
-eram os seus amigos melhores, sahiria a memoria e a dÙr da infamia em
-que elle se despenh·ra. A sua vida moral estava estragada... Ent„o, para
-que partiria--abandonando a paix„o, sem que por isso encontrasse a paz?
-N„o seria mais logico calcar desesperadamente todas as leis humanas e
-divinas, arrebatar para longe Maria na sua innocencia, e para todo o
-sempre abysmar-se n'esse crime que se torn·ra a sua sombria partilha na
-terra?
-
-J· assim pens·ra na vespera. J· assim pens·ra... Mas antevira ent„o um
-outro horror, um supremo castigo, a esperal-o na solid„o onde se
-sepultasse. J· lhe percebera mesmo a aproximaÁ„o; j· n'outra noite
-recebera d'elle um arrepio; j· n'essa noite, deitado junto de Maria, que
-adormecera cansada, o presentira, apoderando-se d'elle, com um primeiro
-frio d'agonia.
-
-Era, surgindo do fundo do seu sÍr, ainda tenue mas j· perceptivel, uma
-saciedade, uma repugnancia por ella desde que a sabia do seu sangue!...
-Uma repugnancia material, carnal, · flÙr da pelle, que passava como um
-arrepio. FÙra primeiramente aquelle aroma que a envolvia, fluctuava
-entre os cortinados, lhe ficava a elle na pelle e no fato, o excitava
-tanto outr'ora, o impacientava tanto agora--que ainda na vespera se
-encharc·ra em agua de Colonia para o dissipar. FÙra depois aquelle corpo
-d'ella, adorado sempre como um marmore ideal, que de repente lhe
-apparecera, como era na sua realidade, forte de mais, musculoso, de
-grossos membros de Amazona barbara, com todas as bellezas copiosas do
-animal de prazer. Nos seus cabellos d'um lustre t„o macio, sentia agora
-inesperadamente uma rudeza de juba. Os seus movimentos na cama, ainda
-n'essa noite, o tinham assustado como se fossem os de uma fera, lenta e
-ciosa, que se estirava para o devorar... Quando os seus braÁos o
-enlaÁavam, o esmagavam contra os seus rijos peitos tumidos de seiva,
-ainda decerto lhe punham nas veias uma chamma que era toda bestial. Mas,
-apenas o ultimo suspiro lhe morria nos labios, ahi comeÁava
-insensivelmente a recuar para a borda do colch„o, com um susto estranho:
-e immovel, encolhido na roupa, perdido no fundo d'uma infinita tristeza,
-esquecia-se pensando n'uma outra vida que podia ter, longe d'alli, n'uma
-casa simples, toda aberta ao sol, com sua mulher, legitimamente sua,
-flÙr de graÁa domestica, pequenina, timida, pudica, que n„o soltasse
-aquelles gritos lascivos, e n„o usasse esse aroma t„o quente! E
-desgraÁadamente agora j· n„o duvidava... Se partisse com ella, seria
-para bem cedo se debater no indizivel horror de um nojo physico. E que
-lhe restaria ent„o, morta a paix„o que fÙra a desculpa do crime, ligado
-para sempre a uma mulher que o enojava--e que era... SÛ lhe restava
-matar-se!
-
-Mas, tendo por um sÛ dia dormido com ella, na plena consciencia da
-consanguinidade que os separava, poderia recomeÁar a vida
-tranquillamente? Ainda que possuisse frieza e forÁa para apagar dentro
-em si essa memoria--ella n„o morreria no coraÁ„o do avÙ, e do seu amigo.
-Aquelle ascoroso segredo ficaria entre elles, estragando, maculando
-tudo. A existencia d'ora ·vante sÛ lhe offerecia intoleravel amargÙr...
-Que fazer, santo Deus, que fazer! Ah, se alguem o podesse aconselhar, o
-podesse consolar! Quando chegou · porta de casa o seu desejo unico era
-atirar-se aos pÈs d'um padre, aos pÈs d'um santo, abrir-lhe as miserias
-do seu coraÁ„o, implorar-lhe a doÁura da sua misericordia! Mas ai! onde
-havia um santo?
-
-Defronte do Ramalhete os candieiros ainda ardiam. Abriu de leve a porta.
-PÈ ante pÈ, subiu as escadas ensurdecidas pelo velludo cÙr de cereja. No
-patamar tacteava, procurava a vela--quando, atravÈs do reposteiro
-entreaberto, avistou uma claridade que se movia no fundo do quarto.
-Nervoso, recuou, parou no recanto. O clar„o chegava, crescendo: passos
-lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete: a luz surgiu--e com ella o
-avÙ em mangas de camisa, livido, mudo, grande, espectral. Carlos n„o se
-moveu, suffocado; e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados,
-cheios de horror, cahiram sobre elle, ficaram sobre elle, varando-o atÈ
-·s profundidades d'alma, lendo l· o seu segredo. Depois, sem uma
-palavra, com a cabeÁa branca a tremer, Affonso atravessou o patamar,
-onde a luz sobre o velludo espalhava um tom de sangue:--e os seus passos
-perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais
-sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida!
-
-Carlos entrou no quarto ·s escuras, tropeÁou n'um sof·. E alli se deixou
-cahir, com a cabeÁa enterrada nos braÁos, sem pensar, sem sentir, vendo
-o velho livido passar, repassar diante d'elle como um longo phantasma,
-com a luz avermelhada na m„o. Pouco a pouco foi-o tomando um cansaÁo,
-uma inercia, uma infinita lassid„o da vontade, onde um desejo apenas
-transparecia, se alongava--o desejo de interminavelmente repousar
-algures n'uma grande mudez e n'uma grande treva... Assim escorregou ao
-pensamento da morte. Ella seria a perfeita cura, o asylo seguro. Porque
-n„o iria ao seu encontro? Alguns gr„os de laudano n'essa noite e
-penetrava na absoluta paz...
-
-Ficou muito tempo, embebendo-se n'esta idÈa que lhe dava allivio e
-consolo, como se, escorraÁado por uma tormenta ruidosa, visse diante dos
-seus passos abrir-se uma porta d'onde sahisse calor e silencio. Um
-rumor, o chilrear d'um passaro na janella, fez-lhe sentir o sol e o dia.
-Ergueu-se, despiu-se muito devagar, n'uma immensa molleza. E mergulhou
-na cama, enterrou a cabeÁa no travesseiro para recahir na doÁura
-d'aquella inercia, que era um antegosto da morte, e n„o sentir mais nas
-horas que lhe restavam nenhuma luz, nenhuma coisa da terra.
-
-
-
-O sol ia alto, um barulho passou, o Baptista rompeu pelo quarto:
-
---” snr. D. Carlos, Û meu menino! O avÙ achou-se mal no jardim, n„o d·
-accordo!...
-
-Carlos pulou do leito, enfiando um paletot que agarr·ra. Na ante-camara
-a governante, debruÁada no corrim„o, gritava, afflicta:--´Adiante, homem
-de Deus, ao pÈ da padaria, o snr. dr. Azevedo!ª E um moÁo que corria,
-com que esbarrou no corredor, atirou, sem parar:
-
---Ao fundo, ao pÈ da cascata, snr. D. Carlos, na mesa de pedra!...
-
-Affonso da Maia l· estava, n'esse recanto do quintal, sob os ramos do
-cedro, sentado no banco de cortiÁa, tombado por sobre a tosca mesa, com
-a face cahida entre os braÁos. O chapÈo desabado rol·ra para o ch„o; nas
-costas, com a gola erguida, conservava o seu velho capote azul. Em
-volta, nas folhas das camelias, nas aleas areadas, refulgia, cÙr d'ouro,
-o sol fino d'inverno. Por entre as conchas da cascata o fio d'agua punha
-o seu choro lento.
-
-Arrebatadamente, Carlos levant·ra-lhe a face, j· rigida, cÙr de cera,
-com os olhos cerrados, e um fio de sangue aos cantos da longa barba de
-neve. Depois cahiu de joelhos no ch„o humido, sacudia-lhe as m„os,
-murmurando:--´” avÙ! Û avÙ!ª--Correu ao tanque, borrifou-o d'agua:
-
---Chamem alguem! chamem alguem!
-
-Outra vez lhe palpava o coraÁ„o... Mas estava morto. Estava morto, j·
-frio, aquelle corpo que, mais velho que o seculo, resistira t„o
-formidavelmente, como um grande roble, aos annos e aos vendavaes. Alli
-morrera solitariamente, j· o sol ia alto, n'aquella tosca mesa de pedra
-onde deix·ra pender a cabeÁa cansada.
-
-Quando Carlos se ergueu, Ega apparecia, esguedelhado, embrulhado no
-robe-de-chambre. Carlos abraÁou-se n'elle, tremendo todo, n'um chÙro
-despedaÁado. Os criados em redor olhavam, aterrados. E a governante,
-como tonta, entre as ruas de roseiras, gemia com as m„os na cabeÁa:--´Ai
-o meu rico senhor, ai o meu rico senhor!ª
-
-Mas o porteiro, esbaforido, chegava com o medico, o dr. Azevedo, que
-felizmente encontr·ra na rua. Era um rapaz, apenas sahido da EscÛla,
-magrinho e nervoso, com as pontas do bigode muito frisadas. Deu em
-redor, atarantadamente, um comprimento aos criados, ao Ega, e a Carlos,
-que procurava serenar com a face lavada de lagrimas. Depois, tendo
-descalÁado a luva, estudou todo o corpo de Affonso com uma lentid„o, uma
-minuciosidade que exagerava, · medida que sentia em volta, mais anciosos
-e attentos n'elle, todos aquelles olhos humedecidos. Por fim, diante de
-Carlos, passando nervosamente os dedos no bigode, murmurou termos
-technicos... De resto, dizia, j· o collega se teria compenetrado de que
-tudo infelizmente find·ra. Elle sentia das vÈras da alma o desgosto...
-Se para alguma coisa fosse necessario, com o maximo prazer...
-
---Muito agradecido a v. exc.^a, balbuciou Carlos.
-
-Ega, em chinelas, deu alguns passos com o snr. dr. Azevedo, para lhe
-indicar a porta do jardim.
-
-Carlos no emtanto fic·ra defronte do velho, sem chorar, perdido apenas
-no espanto d'aquelle brusco fim! Imagens do avÙ, do avÙ vivo e forte,
-cachimbando ao canto do fog„o, regando de manh„ as roseiras,
-passavam-lhe n'alma, em tropel, deixando-lh'a cada vez mais dorida e
-negra... E era ent„o um desejo de findar tambem, encostar-se como elle
-·quella mesa de pedra, e sem outro esforÁo, nenhuma outra dÙr da vida,
-cahir como elle na sempiterna paz. Uma restea de sol, entre os ramos
-grossos do cedro, batia a face morta de Affonso. No silencio os
-passaros, um momento espantados, tinham recomeÁado a chalrar. Ega veio a
-Carlos, tocou-lhe no braÁo:
-
---… necessario leval-o para cima.
-
-Carlos beijou a m„o fria que pendia. E, devagar, com os beiÁos a tremer,
-levantou o avÙ pelos hombros carinhosamente. Baptista correra a ajudar;
-Ega, embaraÁado no seu largo roup„o, segurava os pÈs do velho. AtravÈs
-do jardim, do terraÁo cheio de sol, do escriptorio onde a sua poltrona
-esperava diante do lume accÍso, foram-o transportando n'um silencio sÛ
-quebrado pelos passos dos criados, que corriam a abrir as portas,
-acudiam quando Carlos, na sua perturbaÁ„o, ou o Ega fraquejavam sob o
-peso do grande corpo. A governante j· estava no quarto d'Affonso com uma
-colcha de sÍda para estender na singela cama de ferro, sem cortinado. E
-alli o depuzeram emfim sobre as ramagens claras bordadas na sÍda azul.
-
-Ega accendera dois castiÁaes de prata: a governante, de joelhos · beira
-do leito, esfiava o rosario: e Mr. Antoine, com o seu barrete branco de
-cozinheiro na m„o, fic·ra · porta, junto d'um cesto que trouxera, cheio
-de camelias e palmas de estufa. Carlos, no emtanto, movendo-se pelo
-quarto, com longos soluÁos que o sacudiam, voltava a cada instante,
-n'uma derradeira e absurda esperanÁa, palpar as m„os ou o coraÁ„o do
-velho. Com o jaquet„o de velludilho, os seus grossos sapatos brancos,
-Affonso parecia mais forte e maior, na sua rigidez, sobre o leito
-estreito: entre o cabello de neve cortado · escovinha e a longa barba
-desleixada, a pelle ganh·ra um tom de marfim velho, onde as rugas
-tomavam a dureza d'entalhaduras a cinzel: as palpebras engelhadas, de
-pestanas brancas, pousavam com a consolada serenidade de quem emfim
-descanÁa; e ao deitarem-no uma das m„os fic·ra-lhe aberta e posta sobre
-o coraÁ„o, na simples e natural attitude de quem tanto pelo coraÁ„o
-vivÍra!
-
-Carlos perdia-se n'esta contemplaÁ„o dolorosa. E o seu desespero era que
-o avÙ assim tivesse partido para sempre, sem que entre elles houvesse um
-adeus, uma dÙce palavra trocada. Nada! Apenas aquelle olhar angustiado,
-quando pass·ra com a vela accÍsa na m„o. J· ent„o elle ia andando para a
-morte. O avÙ sabia tudo, d'isso morrera! E esta certeza sem cessar lhe
-batia n'alma, com uma longa pancada repetida e lugubre. O avÙ sabia
-tudo, d'isso morrera!
-
-Ega veio com um gesto indicar-lhe o estado em que estavam--elle de
-robe-de-chambre, Carlos com o paletot sobre a camisa de dormir:
-
---… necessario descer, È necessario vestir-nos.
-
-Carlos balbuciou:
-
---Sim, vamo-nos vestir...
-
-Mas n„o se arredava. Ega levou-o brandamente pelo braÁo. Elle caminhava
-como um somnambulo, passando o lenÁo devagar pela testa e pela barba. E
-de repente no corredor, apertando desesperadamente as m„os, outra vez
-coberto de lagrimas, n'um agoniado desabafo de toda a sua culpa:
-
---Ega, meu querido Ega! O avÙ viu-me esta manh„ quando entrei! E passou,
-n„o me disse nada... Sabia tudo, foi isso que o matou!...
-
-Ega arrastou-o, consolou-o, repellindo tal idÈa. Que tolice! O avÙ tinha
-quasi oitenta annos, e uma doenÁa de coraÁ„o... Desde a volta de Santa
-Olavia, quantas vezes elles tinham fallado n'isso, aterrados! Era
-absurdo ir agora fazer-se mais desgraÁado com semelhante imaginaÁ„o!
-
-Carlos murmurou, devagar, como para si mesmo, com os olhos postos no
-ch„o:
-
---N„o! … estranho, n„o me faÁo mais desgraÁado! Aceito isto como um
-castigo... Quero que seja um castigo... E sinto-me sÛ muito pequeno,
-muito humilde diante de quem assim me castiga. Esta manh„ pensava em
-matar-me. E agora n„o! … o meu castigo viver, esmagado para sempre... O
-que me custa È que elle n„o me tivesse dito _adeus_!!
-
-De novo as lagrimas lhe correram, mas lentas, mansamente, sem desespero.
-Ega levou-o para o quarto, como uma crianÁa. E assim o deixou a um canto
-do sof·, com o lenÁo sobre a face, n'um chÙro contÌnuo e quieto, que lhe
-ia lavando, alliviando o coraÁ„o de todas as angustias confusas e sem
-nome que n'esses dias derradeiros o traziam suffocado.
-
-Ao meio dia, em cima, Ega acabava de vestir-se quando VillaÁa lhe rompeu
-pelo quarto de braÁos abertos.
-
---Ent„o como foi isto, como foi isto?
-
-Baptista mand·ra-o chamar pelo trintanario, mas o rapazola pouco lhe
-soubera contar. Agora em baixo o pobre Carlos abraÁ·ra-o, coitadinho,
-lavado em lagrimas, sem poder dizer nada, pedindo-lhe sÛ para se
-entender em tudo com o Ega... E alli estava.
-
---Mas como foi, como foi, assim de repente?...
-
-Ega contou, brevemente, como tinham encontrado Affonso de manh„ no
-jardim, tombado para cima da mesa de pedra. Viera o dr. Azevedo, mas
-tudo acab·ra!
-
-VillaÁa levou as m„os · cabeÁa:
-
---Uma coisa assim! Creia o amigo! Foi essa mulher, essa mulher que ahi
-appareceu, que o matou! Nunca foi o mesmo depois d'aquelle abalo! N„o
-foi mais nada! Foi isso!
-
-Ega murmurava, deitando machinalmente agua de Colonia no lenÁo:
-
---Sim, talvez, esse abalo, e oitenta annos, e poucas cautelas, e uma
-doenÁa de coraÁ„o.
-
-Fallaram ent„o do enterro, que devia ser simples como convinha ·quelle
-homem simples. Para depositar o corpo, emquanto n„o fosse trasladado
-para Santa Olavia, Ega lembr·ra-se do jazigo do marquez.
-
-VillaÁa coÁava o queixo, hesitando:
-
---Eu tambem tenho um jazigo. Foi o proprio snr. Affonso da Maia que o
-mandou erguer para meu pai, que Deus haja... Ora parece-me que por uns
-dias ficava l· perfeitamente. Assim n„o se pedia a ninguem, e eu tinha
-n'isso muita honra...
-
-Ega concordou. Depois fixaram outros detalhes de convite, de hora, de
-chave do caix„o. Por fim VillaÁa, olhando o relogio, ergueu-se com um
-grande suspiro:
-
---Bem, vou dar esses tristes passos! E c· appareÁo logo, que o quero vÍr
-pela ultima vez, quando o tiverem vestido. Quem me havia de dizer! Ainda
-antes de hontem a jogar com elle... AtÈ lhe ganhei tres mil reis,
-coitadinho!
-
-Uma onda de saudade suffocou-o, fugiu com o lenÁo nos olhos.
-
-Quando Ega desceu, Carlos, todo de luto, estava sentado · escrivaninha,
-diante d'uma folha de papel. Immediatamente ergueu-se, arrojou a penna.
-
---N„o posso!... Escreve-lhe tu ahi, a ella, duas palavras.
-
-Em silencio, Ega tomou a penna, redigiu um bilhete muito curto. Dizia:
-´Minha senhora. O snr. Affonso da Maia morreu esta madrugada, de
-repente, com uma apoplexia. V. exc.^a comprehende que, n'este momento,
-Carlos nada mais pÛde do que pedir-me para eu transmittir a v. exc.^a
-esta desgraÁada noticia. Creia-me, etc.ª N„o o leu a Carlos. E como
-Baptista entrava n'esse momento, todo de preto, com o almoÁo n'uma
-bandeja, Ega pediu-lhe para mandar o trintanario com aquelle bilhete ·
-rua de S. Francisco. Baptista segredou sobre o hombro do Ega:
-
---… bom n„o esquecer as fardas de luto para os criados...
-
---O snr. VillaÁa j· sabe.
-
-Tomaram ch· · pressa em cima do taboleiro. Depois Ega escreveu bilhetes
-a D. Diogo e ao Sequeira, os mais velhos amigos d'Affonso: e davam duas
-horas quando chegaram os homens com o caix„o para amortalhar o corpo.
-Mas Carlos n„o permittiu que m„os mercenarias tocassem no avÙ. Foi elle
-e o Ega, ajudados pelo Baptista, que, corajosamente, recalcando a emoÁ„o
-sob o dever, o lavaram, o vestiram, o depuzeram dentro do grande cofre
-de carvalho, forrado de setim claro, onde Carlos collocou uma miniatura
-de sua avÛ Runa. ¡ tarde, com auxilio de VillaÁa, que volt·ra ´para dar
-o ultimo olhar ao patr„oª, desceram-no ao escriptorio, que Ega n„o
-quizera alterar nem ornar, e que, com os damascos escarlates, as
-estantes lavradas, os livros juncando a carteira de pau preto,
-conservava a sua feiÁ„o austera de paz estudiosa. SÛmente, para depÙr o
-caix„o, tinham juntado duas largas mesas, recobertas por um panno de
-velludo negro que havia na casa, com as armas bordadas a ouro. Por cima
-o Christo de Rubens abria os braÁos sobre a vermelhid„o do poente. Aos
-lados ardiam doze castiÁaes de prata. Largas palmas d'estufa cruzavam-se
-· cabeceira do esquife, entre ramos de camelias. E Ega accendeu um pouco
-de incenso em dois perfumadores de bronze.
-
-¡ noite o primeiro dos velhos amigos a apparecer foi D. Diogo, solemne,
-de casaca. Encostado ao Ega, aterrado diante do caix„o, sÛ pÙde
-murmurar:--´E tinha menos sete mezes que eu!ª O marquez veio j· tarde,
-abafado em mantas, trazendo um grande cesto de flÙres. Craft e o Cruges
-nada sabiam, tinham-se encontrado na rampa de Santos;--e receberam a
-primeira surpreza ao vÍr fechado o port„o do Ramalhete. O ultimo a
-chegar foi o Sequeira, que pass·ra o dia na quinta, e se abraÁou em
-Carlos, depois no Craft ao acaso, entontecido, com uma lagrima nos olhos
-injectados, balbuciando:--´Foi-se o companheiro de muitos annos. Tambem
-n„o tardo!...ª
-
-E a noite de vigilia e pezames comeÁou, lenta e silenciosa. As doze
-chammas das velas ardiam, muito altas, n'uma solemnidade funeraria. Os
-amigos trocavam algum murmurio abafado, com as cadeiras chegadas. Pouco
-a pouco, o calor, o aroma do incenso, a exhalaÁ„o das flÙres forÁaram o
-Baptista a abrir uma das janellas do terraÁo. O cÈo estava cheio
-d'estrellas. Um vento fino susurrava nas ramagens do jardim.
-
-J· tarde Sequeira, que n„o se movera d'uma poltrona, com os braÁos
-cruzados, teve uma tontura. Ega levou-o · sala de jantar, a
-reconfortal-o com um calice de cognac. Havia l· uma ceia fria, com
-vinhos e dÙces. E Craft veio tambem--com o Taveira, que soubera a
-desgraÁa na redacÁ„o da _Tarde_, e correra quasi sem jantar. Tomando um
-pouco de Bordeus, uma _sandwich_, Sequeira reanimava-se, lembrava o
-passado, os tempos brilhantes, quando Affonso e elle eram novos. Mas
-emmudeceu vendo apparecer Carlos, pallido e vagaroso como um somnambulo,
-que balbuciou: ´Tomem alguma coisa, sim, tomem alguma coisa...ª
-
-Mexeu n'um prato, deu uma volta · mesa, sahiu. Assim vagamente foi atÈ ·
-ante-camara, onde todos os candelabros ardiam. Uma figura esguia e negra
-surgiu da escada. Dois braÁos enlaÁaram-no. Era o Alencar.
-
---Nunca vim c· nos dias felizes, aqui estou na hora triste!
-
-E o poeta seguiu pelo corredor, em pontas de pÈs, como pela nave d'um
-templo.
-
-Carlos no emtanto deu ainda alguns passos pela ante-camara. Ao canto
-d'um divan fic·ra um grande cesto com uma corÙa de flÙres, sobre que
-pousava uma carta. Reconheceu a letra de Maria. N„o lhe tocou, recolheu
-ao escriptorio. Alencar, diante do caix„o, com a m„o pousada no hombro
-do Ega, murmurava: ´Foi-se uma alma de heroe!ª
-
-As velas iam-se consumindo. Um cansaÁo pesava. Baptista fez servir cafÈ
-no bilhar. E ahi, apenas recebeu a sua chavena, Alencar, cercado do
-Cruges, do Taveira, do VillaÁa, rompeu a fallar tambem do passado, dos
-tempos brilhantes d'Arroios, dos rapazes ardentes d'ent„o:
-
---Vejam vocÍs, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias,
-almas de leıes, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo n'este
-desgraÁado paiz!... Foi-se a faisca, foi-se a paix„o... Affonso da Maia!
-Parece que o estou a vÍr, · janella do palacio em Bemfica, com a sua
-grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora... E
-l· vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba, atÈ se me faz a alma
-negra!
-
-Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac.
-
-Ega, depois de beber um gole de cafÈ, volt·ra ao escriptorio, onde o
-cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de capella. D. Diogo, estirado
-no sof·, resonava; Sequeira defronte dormitava tambem, descahido sobre
-os braÁos cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve.
-Os dois velhos amigos, depois d'um abraÁo a Carlos, partiram na mesma
-carruagem, com os charutos accÍsos. Os outros, pouco a pouco, iam tambem
-abraÁar Carlos, enfiavam os paletots. O ultimo a sahir foi Alencar, que,
-no pateo, beijou o Ega, n'um impulso d'emoÁ„o, lamentando ainda o
-passado, os companheiros desapparecidos:
-
---O que me vale agora s„o vocÍs, rapazes, a gente nova. N„o me deitem ·
-margem! Sen„o, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao
-cemiterio. Adeus, n„o apanhes frio!
-
-O enterro foi ao outro dia, · uma hora. O Ega, o marquez, o Craft, o
-Sequeira levaram o caix„o atÈ · porta, seguidos pelo grupo d'amigos,
-onde destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O
-conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na m„o uma corÙa de
-violetas. Na calÁada estreita os trens apertavam-se, n'uma longa fila
-que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as
-janellas do bairro se apinhava gente: os policias berravam com os
-cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas
-carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos vÈos
-de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os trens da Companhia
-com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a
-friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coupÈ. O
-correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a
-rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o port„o do
-Ramalhete.
-
-Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando
-papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava
-uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava as
-m„os, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o
-_fumoir_ onde havia lume.
-
-Apenas l· entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega:
-
---Tens duvida em lhe ir fallar, a ella?
-
---N„o. Para que?... Para lhe dizer o que?
-
---Tudo.
-
-Ega rolou uma poltrona para junto da chaminÈ, despertou as brazas. E
-Carlos, ao lado, proseguiu devagar, olhando o lume:
-
---AlÈm d'isso, desejo que ella parta, que parta j· para Paris... Seria
-absurdo ficar em Lisboa... Emquanto se n„o liquidar o que lhe pertence,
-ha-de-se-lhe estabelecer uma mezada, uma larga mezada... VillaÁa vem
-d'aqui a bocado para fallar d'esses detalhes... Em todo o caso, ·manh„,
-para ella partir, levas-lhe quinhentas libras.
-
-Ega murmurou:
-
---Talvez para essas questıes de dinheiro fosse melhor ir l· o VillaÁa...
-
---N„o, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer cÛrar a pobre creatura
-diante do VillaÁa?...
-
-Houve um silencio. Ambos olhavam a chamma clara que bailava.
-
---Custa-te muito, n„o È verdade, meu pobre Ega?...
-
---N„o... ComeÁo a estar embotado. … fechar os olhos, tragar mais essa m·
-hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia?
-
-Carlos n„o sabia. Contava que Ega, terminada essa miss„o · rua de S.
-Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com elle a Santa Olavia. Mais
-tarde era necessario trasladar para l· o corpo do avÙ...
-
---E passado isso, vou viajar... Vou · America, vou ao Jap„o, vou fazer
-esta coisa estupida e sempre efficaz que se chama _distrahir_...
-
-Encolheu os hombros, foi devagar atÈ · janella, onde morria pallidamente
-um raio de sol na tarde que clare·ra. Depois voltando para o Ega, que de
-novo remexia os carvıes:
-
---Eu, est· claro, n„o me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava
-bem, mas n„o me atrevo!
-
-Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braÁos para Carlos,
-commovido:
-
---Atreve, que diabo... Porque n„o?
-
---Ent„o vem!
-
-Carlos puzera n'isto toda a sua alma. E ao abraÁar o Ega corriam-lhe na
-face duas grandes lagrimas.
-
-Ent„o Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma
-romagem · quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar ·
-m„i algumas letras de credito... E como Carlos pretendia ter ´bastante
-para o luxo d'ambosª, Ega atalhou muito sÈrio:
-
---N„o, n„o! Minha m„i tambem È rica. Uma viagem · America e ao Jap„o s„o
-fÛrmas de educaÁ„o. E a mam„ tem o dever de completar a minha educaÁ„o.
-O que acceito, sim, È uma das tuas malas de couro...
-
-Quando n'essa noite, acompanhados pelo VillaÁa, Carlos e Ega chegaram ·
-estaÁ„o de Santa Apolonia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de
-saltar para o seu compartimento reservado--emquanto o Baptista, abraÁado
-·s mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se iÁava desesperadamente
-para outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O
-trem immediatamente rolou. Carlos debruÁou-se · portinhola, gritando ao
-Ega:--´Manda um telegramma ·manh„ a dizer o que houve!ª
-
-Recolhendo ao Ramalhete com o VillaÁa, que ia n'essa noite colligir e
-sellar os papeis de Affonso da Maia, Ega fallou logo nas quinhentas
-libras que elle devia entregar na manh„ seguinte a Maria Eduarda.
-VillaÁa recebera com effeito essa ordem de Carlos. Mas francamente,
-entre amigos, n„o lhe parecia excessiva a somma, para uma jornada? AlÈm
-d'isso Carlos fall·ra em estabelecer a essa senhora uma mezada de quatro
-mil francos, cento e sessenta libras! N„o achava tambem exagerado? Para
-uma mulher, uma simples mulher...
-
-Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais...
-
---Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem
-ainda de ser muito estudado. N„o fallemos n'isso. Eu nem gÛsto de fallar
-d'isso!...
-
-Depois como Ega alludia · fortuna que deixava Affonso da Maia--VillaÁa
-deu detalhes. Era decerto uma das boas casas de Portugal. SÛ o que viera
-da heranÁa de Sebasti„o da Maia, representava bem quinze contos de
-renda. As propriedades do Alemtejo, com os trabalhos que l· fizera o pai
-d'elle VillaÁa, tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma
-despeza. Mas as quintas ao pÈ de Lamego, um condado.
-
---Ha muito dinheiro! exclamou elle com satisfaÁ„o, batendo no joelho do
-Ega. E isto, amigo, digam l· o que disserem, sempre consola de tudo.
-
---Consola de muito, com effeito.
-
-Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar
-feliz e amavel que alli houvera e que para sempre se apag·ra. Na
-ante-camara, os seus passos j· lhe pareceram soar tristemente como os
-que se d„o n'uma casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso
-e de phenol. No lustre do corredor havia uma luz sÛ e dormente.
-
---J· anda aqui um ar de ruina, VillaÁa.
-
---Ruinasinha bem confortavel, todavia! murmurou o procurador dando um
-olhar ·s tapeÁarias e aos divans, e esfregando as m„os, arrepiado da
-friagem da noite.
-
-Entraram no escriptorio de Affonso, onde durante um momento se ficaram
-aquecendo ao lume. O relogio Luiz XV bateu finalmente as nove
-horas--depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e
-morreu. VillaÁa preparou-se para comeÁar a sua tarefa. Ega declarou que
-ia para o quarto arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final
-de dois annos de mocidade...
-
-Subiu. E pous·ra apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu ao fundo,
-no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d'uma tristeza
-infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo arrastava-se,
-gemia no escuro, para o lado dos aposentos d'Affonso da Maia. Por fim,
-reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de
-luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castiÁal na m„o
-tremula.
-
-Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d'Affonso,
-arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraÁou-o,
-furioso. O pobre Bonifacio fugiu, obeso e lento, com a cauda fÙfa a
-roÁar o ch„o: mas voltou logo, e esgatanhando a porta, roÁando-se pelas
-pernas do Ega, recomeÁou a miar, n'um lamento agudo, saudoso como o
-d'uma dÙr humana, chorando o dono perdido que o acariciava no collo e
-que n„o torn·ra a apparecer.
-
-Ega correu ao escriptorio a pedir ao VillaÁa que dormisse essa noite no
-Ramalhete. O procurador accedeu, impressionado com aquelle horror do
-gato a chorar. Deix·ra o mont„o de papeis sobre a mesa, volt·ra a
-aquecer os pÈs ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se
-sent·ra, ainda todo pallido, no sof· bordado a matiz, antigo logar de D.
-Diogo, murmurou devagar, gravemente:
-
---Ha tres annos, quando o snr. Affonso me encommendou aqui as primeiras
-obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes
-aos Maias as paredes do Ramalhete. O snr. Affonso da Maia riu d'agouros
-e lendas... Pois fataes foram!
-
-
-
-No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e
-libras que VillaÁa lhe entreg·ra · porta do Banco de Portugal, Ega, com
-o coraÁ„o aos pulos, mas decidido a ser forte, a affrontar a crise
-serenamente, subia ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos,
-de gravata preta, movendo-se em pontas de pÈs, abriu o reposteiro da
-sala. E Ega pous·ra apenas sobre o sof· a velha caixa de charutos da
-Monforte--quando Maria Eduarda entrou, pallida, toda coberta de negro,
-estendendo-lhe as m„os ambas.
-
---Ent„o Carlos?
-
-Ega balbuciou:
-
---Como v. exc.^a pÛde imaginar, n'um momento d'estes... Foi horrivel,
-assim de surpreza...
-
-Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ella n„o conhecia o snr.
-Affonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas soffria realmente por
-sentir bem o soffrimento de Carlos... O que aquelle rapaz estremecia o
-avÙ!
-
---Foi de repente, n„o?
-
-Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a corÙa que ella mand·ra.
-Contou os gemidos, a afflicÁ„o do pobre Bonifacio...
-
---E Carlos? repetiu ella.
-
---Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora.
-
-Ella apertou as m„os, n'uma surpreza que a acabrunhava. Para Santa
-Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empallidecia-a
-mais, diante d'aquella partida t„o arrebatada, quasi parecida com um
-abandono. Terminou por murmurar, com um ar de resignaÁ„o e de confianÁa
-que n„o sentia:
-
---Sim, com effeito, n'este momento n„o se pensa nos outros...
-
-Duas lagrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante d'esta dÙr, t„o
-humilde e t„o muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os
-dedos tremulos no bigode, viu Maria chorar em silencio. Por fim
-ergueu-se, foi · janella, voltou, abriu os braÁos diante d'ella n'uma
-afflicÁ„o:
-
---N„o, n„o È isso, minha querida senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra
-coisa! Tem sido para nÛs dias terriveis! Tem sido dias d'angustia...
-
-Outra coisa!?... Ella esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma
-toda suspensa.
-
-Ega respirou fortemente:
-
---V. exc.^a lembra-se d'um Guimar„es, que vive em Paris, um tio do
-Damaso?
-
-Maria, espantada, moveu lentamente a cabeÁa.
-
---Esse Guimar„es era muito conhecido da m„i de v. exc.^a, n„o È verdade?
-
-Ella teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava
-ainda, com a face arrepanhada e branca, n'um embaraÁo que o dilacerava:
-
---Eu fallo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu...
-Deus sabe o que me custa!... E È horrivel, nem sei por onde hei de
-comeÁar...
-
-Ella juntou as m„os, n'uma supplica, n'uma angustia:
-
---Pelo amor de Deus!
-
-E n'esse instante, muito socegadamente, Rosa erguia uma ponta do
-reposteiro, com _Niniche_ ao lado e a sua boneca nos braÁos. A m„i teve
-um grito impaciente:
-
---Vai l· p'ra dentro! deixa-me!
-
-Assustada, a pequena n„o se moveu mais, com os lindos olhos de repente
-cheios de agua. O reposteiro cahiu, do fundo do corredor veio um grande
-chÙro magoado.
-
-Ent„o Ega teve sÛ um desejo, o desesperado desejo de findar.
-
---V. exc.^a conhece a letra de sua m„i, n„o È verdade?... Pois bem! Eu
-trago aqui uma declaraÁ„o d'ella a seu respeito... Esse Guimar„es È que
-tinha este documento, com outros papeis que ella lhe entregou em 71, nas
-vesperas da guerra... Elle conservou-os atÈ agora, e queria
-restituir-lh'os, mas n„o sabia onde v. exc.^a vivia. Viu-a ha dias n'uma
-carruagem, commigo, e com o Carlos... Foi ao pÈ do Aterro, v. exc.^a
-deve lembrar-se, defronte do alfaiate, quando vinhamos da _Toca_... Pois
-bem! o Guimar„es veio immediatamente ao procurador dos Maias, deu-lhe
-esses papeis, para que os entregasse a v. exc.^a... E nas primeiras
-palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se entreviu que
-v. exc.^a era parenta de Carlos, e parenta muito chegada...
-
-Atabalho·ra esta historia de pÈ, quasi d'um fÙlego, com bruscos gestos
-de nervoso. Ella mal comprehendia, livida, n'um indefinido terror. SÛ
-pÙde murmurar muito debilmente: ´Mas...ª E de novo emmudeceu,
-assombrada, devorando os movimentos do Ega que, debruÁado sobre o sof·,
-desembrulhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por fim voltou
-para ella com um papel na m„o, atropellando as palavras n'uma debandada:
-
---A m„i de v. exc.^a nunca lh'o disse... Havia um motivo muito grave...
-Ella tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim
-brutalmente, perdÙe-me v. exc.^a, mas n„o È o momento de attenuar as
-coisas... Aqui est·! V. exc.^a conhece a letra de sua m„i. … d'ella esta
-letra, n„o È verdade?
-
---…! exclamou Maria, indo arrebatar o papel.
-
---Perd„o! gritou Ega, retirando-lh'o violentamente. Eu sou um estranho!
-E v. exc.^a n„o se pÛde inteirar de tudo isto emquanto eu n„o sahir
-d'aqui.
-
-FÙra uma inspiraÁ„o providencial, que o salvava de testemunhar o choque
-terrivel, o horror das coisas que ella ia saber. E insistiu. Deixava-lhe
-alli todos os papeis que eram de sua m„i. Ella lerÌa, quando elle
-sahisse, comprehenderia a realidade atroz... Depois, tirando do bolso os
-dois pesados rÙlos de libras, o sobrescripto que continha a letra sobre
-Paris, pÙz tudo em cima da mesa, com a declaraÁ„o da Monforte.
-
---Agora sÛ mais duas palavras. Carlos pensa que o que v. exc.^a deve
-fazer j· È partir para Paris. V. exc.^a tem direito, como sua filha ha
-de ter, a uma parte da fortuna d'esta familia dos Maias, que agora È a
-sua... N'este masso que lhe deixo est· uma letra sobre Paris para as
-despezas immediatas... O procurador de Carlos tomou j· um wagon-sal„o.
-Quando v. exc.^a decidir partir, peÁo-lhe que mande um recado ao
-Ramalhete para eu estar na _gare_... Creio que È tudo. E agora devo
-deixal-a...
-
-Agarr·ra rapidamente o chapÈo, veio tomar-lhe a m„o inerte e fria:
-
---Tudo È uma fatalidade! V. exc.^a È nova, ainda lhe resta muita coisa
-na vida, tem a sua filha a consolal-a de tudo... Nem lhe sei dizer mais
-nada!
-
-Suffocado, beijou-lhe a m„o que ella lhe abandonou, sem consciencia e
-sem voz, de pÈ, direita no seu negro luto, com a lividez parada d'um
-marmore. E fugiu.
-
---Ao telegrapho! gritou em baixo ao cocheiro.
-
-Foi sÛ na rua do Ouro que comeÁou a serenar, tirando o chapÈo,
-respirando largamente. E ia ent„o repetindo a si mesmo todas as
-consolaÁıes que se poderiam dar a Maria Eduarda: era nova e formosa; o
-seu peccado fÙra inconsciente; o tempo acalma toda a dÙr; e em breve, j·
-resignada, encontrar-se-hia com uma familia sÈria, uma larga fortuna,
-n'esse amavel Paris, onde uns lindos olhos, com algumas notas de mil
-francos, tÍm sempre um reinado seguro...
-
---… uma situaÁ„o de viuva bonita e rica, terminou elle por dizer alto no
-coupÈ. Ha peor na vida.
-
-Ao sahir do telegrapho despediu a tipoia. Por aquella luz consoladora do
-dia de inverno, recolheu a pÈ para o Ramalhete, a escrever a longa carta
-que promettera a Carlos. VillaÁa j· l· estava installado, com um bonÈ de
-velludilho na cabeÁa, emmassando ainda os papeis de Affonso, liquidando
-as contas dos criados. Jantaram tarde. E fumavam junto do lume, na sala
-Luiz XV, quando o escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, n'uma
-carruagem, procurava o snr. Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria,
-alguma resoluÁ„o desesperada. VillaÁa ainda teve a esperanÁa d'ella
-trazer alguma nova revelaÁ„o, que tudo mudasse, salvasse da ´boladaª...
-Ega desceu a tremer. Era Melanie n'uma tipoia de praÁa, abafada n'uma
-grande _ulster_, com uma carta de Madame.
-
-¡ luz da lanterna Ega abriu o enveloppe, que trazia apenas um cart„o
-branco, com estas palavras a lapis: ´Decidi partir ·manh„ para Paris.ª
-
-Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo
-as escadas: e seguido de VillaÁa, que fic·ra na ante-camara · espreita,
-correu ao escriptorio d'Affonso, a escrever a Maria. N'um papel tarjado
-de luto dizia-lhe (alÈm de detalhes sobre bagagens)--que o wagon-sal„o
-estava tomado atÈ Paris, e que elle teria a honra de a vÍr em Santa
-Apolonia. Depois, ao fazer o sobrescripto, ficou com a penna no ar, n'um
-embaraÁo. Devia pÙr ´Madame Mac-Grenª ou ´D. Maria Eduarda da Maia?ª
-VillaÁa achava preferivel o antigo nome, porque ella legalmente ainda
-n„o era Maia. Mas, dizia o Ega atrapalhado, tambem j· n„o era
-Mac-Gren...
-
---Acabou-se! Vae sem nome. Imagina-se que foi esquecimento...
-
-Levou assim a carta, dentro do sobrescripto em branco. Melanie guardou-a
-no regalo. E, debruÁada · portinhola, entristecendo a voz, desejou
-saber, da parte de Madame, onde estava enterrado o avÙ do senhor...
-
-Ega ficou com o monoculo sobre ella, sem sentir bem se aquella
-curiosidade de Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma
-indicaÁ„o. Era nos Prazeres, · direita, ao fundo, onde havia um anjo com
-uma tocha. O melhor seria perguntar ao guarda pelo jazigo dos snrs.
-VillaÁas.
-
---Merci, monsieur, bien le bonsoir.
-
---Bonsoir, Melanie!
-
-No dia seguinte, na estaÁ„o de Santa Apolonia, Ega, que viera cedo com o
-VillaÁa, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou
-Maria que entrava trazendo Rosa pela m„o. Vinha toda envolta n'uma
-grande pelliÁa escura, com um vÈo dobrado, espesso como uma mascara: e a
-mesma gaze de luto escondia o rostosinho da pequena, fazendo-lhe um laÁo
-sobre a touca. Miss Sarah, n'uma _ulster_ clara de quadrados, sobraÁava
-um masso de livros. Atraz o Domingos, com os olhos muito vermelhos,
-segurava um rÙlo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto que
-levava _Niniche_ ao collo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a
-pelo braÁo, em silencio, ao wagon-sal„o que tinha todas as cortinas
-cerradas. Junto do estribo ella tirou devagar a luva. E muda,
-estendeu-lhe a m„o.
-
---Ainda nos vemos no Entroncamento, murmurou Ega. Eu sigo tambem para o
-Norte.
-
-Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao vÍr sumir-se n'aquella
-carruagem de luxo, fechada, mysteriosa, uma senhora que parecia t„o
-bella, d'ar t„o triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a
-portinhola, o Neves, o da _Tarde_ e do Tribunal de Contas, rompeu
-d'entre um rancho, arrebatou-lhe o braÁo com sofreguid„o:
-
---Quem È?
-
-Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cahir no ouvido, j·
-muito adiante, tragicamente:
-
---Cleopatra!
-
-O politico, furioso, ficou rosnando: ´Que asno!...ª Ega abal·ra. Junto
-do seu compartimento VillaÁa esperava, ainda deslumbrado com aquella
-figura de Maria Eduarda, t„o melancolica e nobre. Nunca a vira antes. E
-parecia-lhe uma rainha de romance.
-
---Acredite o amigo, fez-me impress„o! Caramba, bella mulher! D·-nos uma
-bolada, mas È uma soberba praÁa!
-
-O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um lenÁo de cÙres
-sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda
-furioso, vendo o Ega · portinhola, atirou-lhe de lado, disfarÁadamente,
-um gesto obsceno.
-
-No Entroncamento Ega veio bater nos vidros do sal„o que se conservava
-fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sarah lia a um
-canto, com a cabeÁa n'uma almofada. E _Niniche_ assustada ladrou.
-
---Quer tomar alguma coisa, minha senhora?
-
---N„o, obrigada...
-
-Ficaram calados, emquanto Ega com o pÈ no estribo tirava lentamente a
-charuteira. Na estaÁ„o mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados
-em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a machina
-resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do sal„o, com
-olhares curiosos e j· languidos para aquella magnifica mulher, t„o grave
-e sombria, envolta na sua pelliÁa negra.
-
---Vai para o Porto? murmurou ella.
-
---Para Santa Olavia...
-
---Ah!
-
-Ent„o Ega balbuciou com os beiÁos a tremer:
-
---Adeus!
-
-Ella apertou-lhe a m„o com muita forÁa, em silencio, suffocada.
-
-Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a
-tiracollo que corriam a beber · cantina. ¡ porta do buffete voltou-se
-ainda, ergueu o chapÈo. Ella, de pÈ, moveu de leve o braÁo n'um lento
-adeus. E foi assim que elle pela derradeira vez na vida viu Maria
-Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, · portinhola d'aquelle
-wagon que para sempre a levava.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Semanas depois, nos primeiros dias d'anno novo, a _Gazeta Illustrada_
-trazia na sua columna do _High-life_ esta noticia: ´ O distincto e
-brilhante _sportman_, o snr. Carlos da Maia, e o nosso amigo e
-collaborador Jo„o da Ega, partiram hontem para Londres, d'onde seguir„o
-em breve para a America do Norte, devendo d'ahi prolongar a sua
-interessante viagem atÈ ao Jap„o. Numerosos amigos foram a bordo do
-_Tamar_ despedir-se dos sympathicos _touristes_. Vimos entre outros os
-snrs, ministro da Filandia e seu secretario, o marquez de Souzella,
-conde de Gouvarinho, visconde de Darque, Guilherme Craft, Telles da
-Gama, Cruges, Taveira, VillaÁa, general Sequeira, o glorioso poeta
-Thomaz d'Alencar, etc. etc. O nosso amigo e collaborador Jo„o da Ega
-fez-nos, no ultimo _shake-hands_, a promessa de nos mandar algumas
-cartas com as suas impressıes do Jap„o, esse delicioso paiz d'onde nos
-vem o sol e a moda! … uma boa nova para todos os que prezam a observaÁ„o
-e o espirito. _Au revoir!_ª
-
-Depois d'estas linhas affectuosas (em que o Alencar collabor·ra) as
-primeiras noticias dos ´viajantesª vieram, n'uma carta do Ega para o
-VillaÁa, de New-York. Era curta, toda de negocios. Mas elle ajuntava um
-_post-scriptum_ com o titulo de _InformaÁıes geraes para os amigos_.
-Contava ahi a medonha travessia desde Liverpool, a persistente tristeza
-de Carlos, e New-York coberta de neve sob um sol rutilante. E
-acrescentava ainda: ´Est·-se apossando de nÛs a embriaguez das viagens,
-decididos a trilhar este estreito Universo atÈ que _cancem as nossas
-tristezas_. Planeamos ir a Pekin, passar a Grande Muralha, atravessar a
-Asia Central, o oasis de Merv, Khiva, e penetrar na Russia; d'ahi, pela
-Armenia e pela Syria, descer ao Egypto a retemperar-nos no sagrado Nilo;
-subir depois a Athenas, lanÁar sobre a Acropole uma saudaÁ„o a Minerva;
-passar a Napoles; dar um olhar a Argelia e a Marrocos; e cahir emfim ao
-comprido em Santa Olavia l· para os meados de 79 a descanÁar os membros
-fatigados. N„o escrevinho mais porque È tarde, e vamos · Opera vÍr a
-Patti no _Barbeiro_. Larga distribuiÁ„o d'abraÁos a todos os amigos
-queridosª
-
-VillaÁa copiou este paragrapho, e trazia-o na carteira para mostrar aos
-fieis amigos do Ramalhete. Todos approvaram, com admiraÁ„o, t„o bellas,
-aventurosas jornadas. SÛ Cruges, aterrado com aquella vastid„o do
-Universo, murmurou tristemente: ´N„o voltam c·!ª
-
-Mas, passado anno e meio, n'um lindo dia de marÁo, Ega reappareceu no
-Chiado. E foi uma sensaÁ„o! Vinha esplendido, mais forte, mais
-trigueiro, soberbo de _verve_, n'um alto apuro de toilette, cheio de
-historias e de aventuras do Oriente, n„o tolerando nada em arte ou
-poesia que n„o fosse do Jap„o ou da China, e annunciando um grande
-livro, o ´seu livroª, sob este titulo grave de chronica
-heroica--_Jornadas da Asia_.
-
---E Carlos?...
-
---Magnifico! Installado em Paris, n'um delicioso appartamento dos
-Campos-Elyseos, fazendo a vida larga d'um principe artista da
-RenascenÁa...
-
-Ao VillaÁa porÈm, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos fic·ra
-ainda _abalado_. Vivia, ria, governava o seu phaeton no Bois--mas l· no
-fundo do seu coraÁ„o permanecia, pesada e negra, a memoria da ´semana
-terrivelª.
-
---Todavia os annos v„o passando, VillaÁa, acrescentou elle. E com os
-annos, a n„o ser a China, tudo na terra passa...
-
-E esse anno passou. Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram,
-arvoredos murcharam. Outros annos passaram.
-
-
-
-Nos fins de 1886, Carlos veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa
-d'um amigo seu de Paris, o marquez de Villa-Medina. E d'essa propriedade
-dos Villa-Medina, chamada _La Soledad_, escreveu para Lisboa ao Ega
-annunciando que--depois d'um exilio de quasi dez annos, resolvera vir ao
-velho Portugal vÍr as arvores de Santa Olavia e as maravilhas da
-Avenida. De resto tinha uma formidavel nova, que assombraria o bom Ega:
-e se elle j· ardia em curiosidade, que viesse ao seu encontro com o
-VillaÁa, comer o porco a Santa Olavia.
-
---Vae casar! pensou Ega.
-
-Havia tres annos (desde a sua ultima estada em Paris) que elle n„o via
-Carlos. Infelizmente n„o pÙde correr a Santa Olavia, retido n'um quarto
-do _Braganza_ com uma angina, desde uma ceia prodigiosamente divertida
-com que celebr·ra no Silva a noite de Reis. VillaÁa, porÈm, levou a
-Carlos para Santa Olavia uma carta em que o Ega, contando a sua angina,
-lhe supplicava que se n„o retardasse com o porco n'esses penhascos do
-Douro, e que voasse · grande Capital a trazer a grande nova.
-
-Com effeito, Carlos pouco se demorou em Rezende. E n'uma luminosa e
-macia manh„ de janeiro de 1887, os dois amigos emfim juntos almoÁavam
-n'um sal„o do _Hotel Braganza_, com as duas janellas abertas para o rio.
-
-Ega, j· curado, radiante, n'uma excitaÁ„o que n„o se calmava,
-alagando-se de cafÈ, entalava a cada instante o monoculo para admirar
-Carlos e a sua ´immutabilidadeª.
-
---Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso È
-Paris, menino!... Lisboa arraza. Olha para mim, olha para isto!
-
-Com o dedo magro apontava os dois vincos fundos ao lado do nariz, na
-face chupada. E o que o aterrava sobretudo era a calva, uma calva que
-comeÁ·ra havia dois annos, alastr·ra, j· reluzia no alto.
-
---Olha este horror! A sciencia para tudo acha um remedio, menos para a
-calva! Transformam-se as civilisaÁıes, a calva fica!... J· tem tons de
-bola de bilhar, n„o È verdade?... De que ser·?
-
---… a ociosidade, lembrou Carlos rindo.
-
---A ociosidade!... E tu, ent„o?
-
-De resto, que podia elle fazer n'este paiz?... Quando volt·ra de FranÁa,
-ultimamente, pens·ra em entrar na diplomacia. Para isso sempre tivera a
-_blague_: e agora que a mam„, coitada, l· estava no seu grande jazigo em
-Celorico, tinha a _massa_. Mas depois reflectira. Por fim, em que
-consistia a diplomacia portugueza? N'uma outra fÛrma da ociosidade,
-passada no estrangeiro, com o sentimento constante da propria
-insignificancia. Antes o Chiado!
-
-E como Carlos lembrava a Politica, occupaÁ„o dos inuteis, Ega trovejou.
-A politica! Isso torn·ra-se moralmente e physicamente nojento, desde que
-o negocio atac·ra o constitucionalismo como uma phylloxera! Os politicos
-hoje eram bonecos de engonÁos, que faziam gestos e tomavam attitudes
-porque dois ou tres financeiros por traz lhes puxavam pelos cordeis...
-Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas
-qual! Ahi È que estava o horror. N„o tinham feitio, n„o tinham maneiras,
-n„o se lavavam, n„o limpavam as unhas... Coisa extraordinaria, que em
-paiz algum succedia, nem na Romelia, nem na Bulgaria! Os tres ou quatro
-salıes que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem fÙr, largamente,
-excluem a maioria dos politicos. E porque? Porque as _senhoras tÍm
-nÙjo_!
-
---Olha o Gouvarinho! VÍ l· se elle recebe ·s terÁas-feiras os seus
-correligionarios...
-
-Carlos que sorria, encantado com aquella veia acerba do Ega, saltou na
-cadeira:
-
---… verdade, e a Gouvarinho, a nossa boa Gouvarinho?
-
-Ega, passeando pela sala, deu as novas dos Gouvarinhos. A condessa
-herd·ra uns sessenta contos de uma tia excentrica que vivia a Santa
-Isabel, tinha agora melhores carruagens, recebia sempre ·s
-terÁas-feiras. Mas soffria uma doenÁa qualquer, grave, no figado ou no
-pulm„o. Ainda elegante todavia, muito sÈria, uma terrivel flÙr de
-_pruderie_... Elle, o Gouvarinho, ahi continuava, palrador,
-escrevinhador, politicote, impertigadote, j· grisalho, duas vezes
-ministro, e coberto de gran-cruzes...
-
---Tu n„o os viste em Paris, ultimamente?
-
---N„o. Quando soube fui-lhes deixar bilhetes, mas tinham partido na
-vespera para Vichy...
-
-A porta abriu-se, um brado cavo resoou:
-
---AtÈ que emfim, meu rapaz!
-
---Oh Alencar! gritou Carlos, atirando o charuto.
-
-E foi um infinito abraÁo, com palmadas arrebatadas pelos hombros, e um
-beijo ruidoso--o beijo paternal do Alencar, que tremia, commovido. Ega
-arrast·ra uma cadeira, berrava pelo escudeiro:
-
---Que tomas tu, Thomaz? Cognac? CuraÁ·o? Em todo o caso cafÈ! Mais cafÈ!
-Muito forte, para o snr. Alencar!
-
-O poeta, no emtanto, abysmado na contemplaÁ„o de Carlos, agarr·ra-o
-pelas m„os, com um sorriso largo, que lhe descobria os dentes mais
-estragados. Achava-o magnifico, var„o soberbo, honra da raÁa... Ah!
-Paris, com o seu espirito, a sua vida ardente, conserva...
-
---E Lisboa arraza! acudiu Ega. J· c· tive essa phrase. V·, abanca, ahi
-tens o cafÈsinho e a bebida!
-
-Mas Carlos agora tambem contemplava o Alencar. E parecia-lhe mais
-bonito, mais poetico, com a sua grenha inspirada e toda branca, e
-aquellas rugas fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela
-tumultuosa passagem das emoÁıes...
-
---Est·s typico, Alencar! Est·s a preceito para a gravura e para a
-estatua!...
-
-O poeta sorria, passando os dedos com complacencia pelos longos bigodes
-romanticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarell·ra. Que diabo,
-algumas compensaÁıes havia de ter a velhice!... Em todo o caso o
-estomago n„o era mau, e conservava-se, caramba, filhos, um bocado de
-coraÁ„o.
-
---O que n„o impede, meu Carlos, que isto por c· esteja cada vez peor!
-Mas acabou-se... A gente queixa-se sempre do seu paiz, È habito humano.
-J· Horacio se queixava. E vocÍs, intelligencias superiores, sabeis bem,
-filhos, que no tempo de Augusto... Sem fallar, È claro, na quÈda da
-republica, n'aquelle desabamento das velhas instituiÁıes... Emfim
-deixemos l· os Romanos! Que est· alli n'aquella garrafa? Chablis... N„o
-desgosto, no outono, com as ostras. Pois v· l· o Chablis. E · tua
-chegada, meu Carlos! e · tua, meu Jo„o, e que Deus vos dÍ as glorias que
-mereceis, meus rapazes!...
-
-Bebeu. Rosnou: ´bom Chablis, _bouquet_ finoª. E acabou por abancar,
-ruidosamente, sacudindo para traz a juba branca.
-
---Este Thomaz! exclamava Ega, pousando-lhe a m„o no hombro com carinho.
-N„o ha outro, È unico! O bom Deus fel-o n'um dia de grande _verve_, e
-depois quebrou a fÙrma.
-
-Ora, historias! murmurava o poeta radiante. Havia-os t„o bons como elle.
-A humanidade viera toda do mesmo barro como pretendia a Biblia--ou do
-mesmo macaco como affirmava o Darwin...
-
---Que, l· essas coisas d'evoluÁ„o, origem das especies, desenvolvimento
-da cellula, c· para mim... Est· claro, o Darwin, o Lamarck, o Spencer, o
-Claudio Bernard, o LittrÈ, tudo isso, È gente de primeira ordem. Mas
-acabou-se, irra! Ha uns poucos de mil annos que o homem prova
-sublimemente que tem alma!
-
---Toma o cafÈsinho, Thomaz! aconselhou o Ega, empurrando-lhe a chavena.
-Toma o cafÈsinho!
-
---Obrigado!... E È verdade, Jo„o, l· dei a tua boneca · pequena. ComeÁou
-logo a beijal-a, a embalal-a, com aquelle profundo instincto de m„i,
-aquelle _quid_ divino... … uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem
-m„i, coitadinha, l· a tenho, l· vou tratando de fazer d'ella uma
-mulher... Has de vÍl-a. Quero que vocÍs l· v„o jantar um dia, para vos
-dar umas perdizes · hespanhola... Tu demoras-te, Carlos?
-
---Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da patria.
-
---Tens raz„o, meu rapaz! exclamou o poeta, puxando a garrafa do cognac.
-Isto ainda n„o È t„o mau como se diz... Olha tu para isso, para esse
-cÈo, para esse rio, homem!
-
---Com effeito È encantador!
-
-Todos tres, durante um momento, pasmaram para a incomparavel belleza do
-rio, vasto, lustroso, sereno, t„o azul como o cÈo, esplendidamente
-coberto de sol.
-
---E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta.
-Abandonaste a lingua divina?
-
-Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia j· a lingua divina? O
-novo Portugal sÛ comprehendia a lingua da libra, da ´massaª. Agora,
-filho, tudo eram syndicatos!
-
---Mas ainda ·s vezes me passa uma coisa c· por dentro, o velho homem
-estremece... Tu n„o viste nos jornaes?... Est· claro, n„o lÍs c· esses
-trapos que por ahi chamam gazetas... Pois veio ahi uma coisita, dedicada
-aqui ao Jo„o. Ora eu t'a digo se me lembrar...
-
-Correu a m„o aberta pela face escaveirada, lanÁou a estrophe n'um tom de
-lamento:
-
-
- Luz d'esperanÁa, luz d'amor,
- Que vento vos desfolhou?
- Que a alma que vos seguia
- Nunca mais vos encontrou!
-
-
-Carlos murmurou: ´Lindo!ª Ega murmurou: ´Muito fino!ª E o poeta,
-aquecendo, j· commovido, esboÁou um movimento d'aza que foge:
-
-
- Minh'alma em tempos d'outr'ora,
- Quando nascia o luar,
- Como um rouxinol que acorda
- Punha-se logo a cantar.
-
- Pensamentos eram flÙres,
- Que a aragem lenta de Maio...
-
-
---O snr. Cruges! annunciou o criado, entreabrindo a porta.
-
-Carlos ergueu os braÁos. E o maestro, todo abotoado n'um paletot claro,
-abandonou-se · effus„o de Carlos, balbuciando:
-
---Eu sÛ hontem È que soube. Queria-te ir esperar, mas n„o me
-acordaram...
-
---Ent„o contin˙a o mesmo desleixo? exclamava Carlos, alegremente. Nunca
-te acordam?
-
-Cruges encolhia os hombros, muito vermelho, acanhado, depois d'aquella
-longa separaÁ„o. E foi Carlos que o obrigou a sentar-se ao lado,
-enternecido com o seu velho maestro, sempre esguio, com o nariz mais
-agudo, a grenha cahindo mais crespa sobre a gola do paletot.
-
---E deixa-me dar-te os parabens! L· soube pelos jornaes, o triumpho, a
-linda opera-comica, a _FlÙr de Sevilha_...
-
---_De Granada_! acudiu o maestro. Sim, uma coisita para ahi, n„o
-desgostaram.
-
---Uma belleza! gritou Alencar, enchendo outro copo de cognac. Uma musica
-toda do sul, cheia de luz, cheirando a laranjeira... Mas j· lhe tenho
-dito: ´Deixa l· a opereta, rapaz, vÙa mais alto, faze uma grande
-symphonia historica!ª Ainda ha dias lhe dei uma idÈa. A partida de D.
-Sebasti„o para a Africa. Cantos de marinheiros, atabales, o chÙro do
-povo, as ondas batendo... Sublime! Qual, pıe-se-me l· com castanholas...
-Emfim, acabou-se, tem muito talento, e È como se fosse meu filho porque
-me sujou muita calÁa!...
-
-Mas o maestro, inquieto, passava os dedos pela grenha. Por fim confessou
-a Carlos que n„o se podia demorar, tinha um _rendez-vous_...
-
---D'amor?
-
---N„o... … o Barradas que me anda a tirar o retrato a oleo.
-
---Com a lyra na m„o?
-
---N„o, respondeu o maestro, muito sÈrio. Com a batuta... E estou de
-casaca.
-
-E desabotoou o paletot, mostrou-se em todo o seu esplendor, com dois
-coraes no peitilho da camisa, e a batuta de marfim mettida na abertura
-do collete.
-
---Est·s magnifico! affirmou Carlos. Ent„o outra coisa, vem c· jantar
-logo. Alencar, tu tambem, hein? Quero ouvir esses bellos versos com
-socego... ¡s seis, em ponto, sem falhar. Tenho um jantarinho ·
-portugueza que encommendei de manh„, com cozido, arroz de forno, gr„o de
-bico, etc., para matar saudades...
-
-Alencar lanÁou um gesto immenso de desdem. Nunca o cozinheiro do
-_Braganza_, francelhote miseravel, estaria · altura d'esses nobres
-petiscos do velho Portugal. Emfim acabou-se. Seria pontual ·s seis para
-uma grande saude ao seu Carlos!
-
---VocÍs v„o sahir, rapazes?
-
-Carlos e Ega iam ao Ramalhete visitar o casar„o.
-
-O poeta declarou logo que isso era romagem sagrada. Ent„o elle partia
-com o maestro. O seu caminho ficava tambem para o lado do Barradas...
-MoÁo de talento, esse Barradas!... Um pouco pardo de cÙr, tudo por
-acabar, esborratado, mas uma bella ponta de faisca.
-
---E teve uma tia, filhos, a Leonor Barradas! Que olhos, que corpo! E n„o
-era sÛ o corpo! Era a alma, a poesia, o sacrificio!... J· n„o ha d'isso,
-j· l· vai tudo. Emfim, acabou-se, ·s seis!
-
---¡s seis, em ponto, sem falhar!
-
-Alencar e o maestro partiram, depois de se munirem de charutos. E d'ahi
-a pouco Carlos e Ega seguiam tambem pela rua do Thesouro Velho, de braÁo
-dado, muito lentamente.
-
-Iam conversando de Paris, de rapazes e de mulheres que o Ega conhecÍra,
-havia quatro annos, quando l· pass·ra um t„o alegre inverno nos
-appartamentos de Carlos. E a surpreza do Ega, a cada nome evocado, era o
-curto brilho, o fim brusco de toda essa mocidade estouvada. A Lucy Gray,
-morta. A Conrad, morta... E a Maria Blond? Gorda, emburguezada, casada
-com um fabricante de velas de estearina. O polaco, o louro? Fugido,
-desapparecido. Mr. de Menant, esse D. Juan? Sub-prefeito no departamento
-do Doubs. E o rapaz que morava ao lado, o belga? Arruinado na Bolsa... E
-outros ainda, mortos, sumidos, afundados no lodo de Paris!
-
---Pois tudo sommado, menino, observou Ega, esta nossa vidinha de Lisboa,
-simples, pacata, corredia, È infinitamente preferivel.
-
-Estavam no Loreto; e Carlos par·ra, olhando, reentrando na intimidade
-d'aquelle velho coraÁ„o da capital. Nada mud·ra. A mesma sentinella
-somnolenta rondava em torno · estatua triste de Camıes. Os mesmos
-reposteiros vermelhos, com brazıes ecclesiasticos, pendiam nas portas
-das duas igrejas. O _Hotel Alliance_ conservava o mesmo ar mudo e
-deserto. Um lindo sol dourava o lagedo; batedores de chapÈo · faia
-fustigavam as pilecas; tres varinas, de canastra · cabeÁa, meneavam os
-quadris, fortes e ageis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos
-fumavam; e na esquina defronte na Havaneza, fumavam tambem outros
-vadios, de sobrecasaca, politicando.
-
---Isto È horrivel quando se vem de fÛra! exclamou Carlos. N„o È a
-cidade, È a gente. Uma gente feiissima, encardida, mollenga, reles,
-amarellada, acabrunhada!...
-
---Todavia Lisboa faz differenÁa, affirmou Ega, muito sÈrio. Oh, faz
-muita differenÁa! Has de vÍr a Avenida... Antes do Ramalhete vamos dar
-uma volta · Avenida.
-
-Foram descendo o Chiado. Do outro lado os toldos das lojas estendiam no
-ch„o uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados ·s
-mesmas portas, sujeitos que l· deix·ra havia dez annos, j· assim
-encostados, j· assim melancolicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas l·
-estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas humbreiras, com
-collarinhos · moda. Depois, diante da livraria Bertrand, Ega, rindo,
-tocou no braÁo de Carlos:
-
---Olha quem alli est·, · porta do Baltresqui!
-
-Era o Damaso. O Damaso, barrigudo, nedio, mais pesado, de flÙr ao peito,
-mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente
-embrutecido d'um ruminante farto e feliz. Ao avistar tambem os seus dois
-velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar,
-refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente,
-achou-se em frente de Carlos, com a m„o aberta e um sorriso na bochecha,
-que se lhe esbraze·ra.
-
---Ol·, por c·!... Que grande surpreza!
-
-Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo tambem, indifferente e
-esquecido.
-
---… verdade, Damaso... Como vai isso?
-
---Por aqui, n'esta semsaboria... E ent„o com demora?
-
---Umas semanas.
-
---Est·s no Ramalhete?
-
---No _Braganza_. Mas n„o te incommodes, eu ando sempre por fÛra.
-
---Pois sim senhor!... Eu tambem estive em Paris, ha tres mezes, no
-_Continental_...
-
---Ah!... Bem, estimei vÍr-te, atÈ sempre!
-
---Adeus, rapazes. Tu est·s bom, Carlos, est·s com boa cara!
-
---… dos teus olhos, Damaso.
-
-E nos olhos do Damaso, com effeito, parecia reviver a antiga admiraÁ„o,
-arregalados, acompanhando Carlos, estudando-lhe por traz a sobrecasaca,
-o chapÈo, o andar, como no tempo em que o Maia era para elle o typo
-supremo do seu querido _chic_, ´uma d'essas coisas que sÛ se vÍem l·
-fÛra...ª
-
---Sabes que o nosso Damaso casou? disse o Ega um pouco adiante, travando
-outra vez do braÁo de Carlos.
-
-E foi um espanto para Carlos. O quÍ! O nosso Damaso! Casado!?... Sim,
-casado com uma filha dos condes d'Agueda, uma gente arruinada, com um
-rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o optimo
-Damaso, verdadeira sorte grande para aquella distincta familia, pagava
-agora os vestidos, das mais velhas.
-
---… bonita?
-
---Sim, bonitinha... Faz ahi a felicidade d'um rapazote sympathico,
-chamado Barroso.
-
---O quÍ, o Damaso, coitado!...
-
---Sim, coitado, coitadinho, coitadissimo... Mas como vÍs, immensamente
-ditoso, atÈ tem engordado com a perfidia!
-
-Carlos par·ra. Olhava, pasmado para as varandas extraordinarias d'um
-primeiro andar, recobertas, como em dia de prociss„o, de sanefas de pano
-vermelho onde se entrelaÁavam monogrammas. E ia indagar--quando, d'entre
-um grupo que estacionava ao portal d'esse predio festivo, um rapaz d'ar
-estouvado, com a face imberbe cheia d'espinhas carnaes, atravessou
-rapidamente a rua para gritar ao Ega, suffocado de riso:
-
---Se vocÍ for depressa ainda a encontra ahi abaixo! Corra!
-
---Quem?
-
---A Adosinda!... De vestido azul, com plumas brancas no chapÈo... V·
-depressa... O Jo„o Elyseu metteu-lhe a bengala entre as pernas, ia-a
-fazendo estatelar no ch„o, foi uma scena... V· depressa, homem!
-
-Com duas pernadas esguias o rapaz recolheu ao seu rancho--onde todos, j·
-calados, com uma curiosidade de provincia, examinavam aquelle homem de
-t„o alta elegancia que acompanhava o Ega, e que nenhum conhecia. E Ega,
-no emtanto, explicava a Carlos as varandas e o grupo:
-
---S„o rapazes do _Turf_. … um club novo, o antigo Jockey da travessa da
-Palha. Faz-se l· uma batotinha barata, tudo gente muito sympathica... E
-como vÍs est„o sempre assim preparados, com sanefas e tudo, para se
-acaso passar por ahi o Senhor dos Passos.
-
-Depois, descendo para a rua Nova do Almada, contou o caso da Adosinda.
-FÙra no Silva, havia duas semanas, estando elle a cear com rapazes
-depois de S. Carlos, que lhes apparecera essa mulher inverosimil,
-vestida de vermelho, carregando insensatamente nos _rr_, mettendo _rr_
-em todas as palavras, e perguntando pelo snr. _virrsconde_... Qual
-_virrsconde_? Ella n„o sabia bem. _Erra um virrsconde que encontrr·rra
-no Crrolyseu_. Senta-se, offerecem-lhe champagne, e D. Adosinda comeÁa a
-revelar-se um sÍr prodigioso. Fallavam de politica, do ministerio e do
-_deficit_. D. Adosinda declara logo que conhece muito bem o _deficit_, e
-que È um bello rapaz... O _deficit_ bello rapaz--immensa gargalhada! D.
-Adosinda zanga-se, exclama que j· fÙra com elle a Cintra, que È um
-perfeito cavalheiro, e empregado no Banco Inglez... O _deficit_
-empregado no Banco Inglez--gritos, uivos, urros! E n„o cessou esta
-gargalhada contÌnua, estrondosa, phrenetica, atÈ ·s cinco da manh„ em
-que D. Adosinda fÙra rifada e sahira ao Telles!... Noite soberba!
-
---Com effeito, disse Carlos rindo, È uma orgia grandiosa, lembra
-Heliogabalo e o Conde d'Orsay...
-
-Ent„o Ega defendeu calorosamente a sua orgia. Onde havia melhor, na
-Europa, em qualquer civilisaÁ„o? Sempre queria vÍr que se passasse uma
-noite mais alegre em Paris, na desoladora banalidade do _Grand-Treize_,
-ou em Londres, n'aquella correcta e massuda semsaboria do _Bristol_! O
-que ainda tornava a vida toleravel era de vez em quando uma boa risada.
-Ora na Europa o homem requintado j· n„o ri,--sorri regeladamente,
-lividamente. SÛ nÛs aqui, n'este canto do mundo barbaro, conservamos
-ainda esse dom supremo, essa coisa bemdita e consoladora--a barrigada de
-riso!...
-
---Que diabo est·s tu a olhar?
-
-Era o consultorio, o antigo consultorio de Carlos--onde agora, pela
-taboleta, parecia existir um pequeno _atelier_ de modista. Ent„o
-bruscamente os dois amigos recahiram nas recordaÁıes do passado. Que
-estupidas horas Carlos alli arrast·ra, com a _Revista dos Dois Mundos_,
-na espera v„ dos doentes, cheio ainda de fÈ nas alegrias do trabalho!...
-E a manh„ em que o Ega l· apparecera com a sua esplendida pelliÁa,
-preparando-se para transformar, n'um sÛ inverno, todo o velho e
-rotineiro Portugal!
-
---Em que tudo ficou!
-
---Em que tudo ficou! Mas rimos bastante! Lembras-te d'aquella noite em
-que o pobre marquez queria levar ao consultorio a Paca, para utilisar
-emfim o divan, movel de serralho?...
-
-Carlos teve uma exclamaÁ„o de saudade. Pobre marquez! FÙra uma das suas
-fortes impressıes, n'esses ultimos annos--aquella morte do marquez,
-sabida de repente ao almoÁo, n'uma banal noticia de jornal!... E atravÈs
-do Rocio, andando mais devagar, recordavam outros desapparecimentos: a
-D. Maria da Cunha, coitada, que acabara hydropica; o D. Diogo, casado
-por fim com a cozinheira; o bom Sequeira, morto uma noite n'uma tipoia
-ao sahir dos cavallinhos...
-
---E outra coisa, perguntou Ega. Tens visto o Craft em Londres?
-
---Tenho, disse Carlos. Arranjou uma casa muito bonita ao pÈ de
-Richmond... Mas est· muito avelhado, queixa-se muito do figado. E,
-desgraÁadamente, carrega de mais nos alcools. … uma pena!
-
-Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moÁo, contou o Ega, tinha
-agora por cima mais dez annos de Secretaria e de Chiado. Mas sempre
-apurado, j· um bocado grisalho, mettido continuamente com alguma
-hespanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e murmurando todas as
-tardes na Havaneza, com um ar dÙce e contente--´isto È um paiz perdidoª!
-Enfim um bom typosinho de lisboeta fino.
-
---E a besta do Steinbroken?
-
---Ministro em Athenas, exclamou Carlos, entre as ruinas classicas!
-
-E esta idÈa do Steinbroken, na velha Grecia, divertiu-os infinitamente.
-Ega imaginava j· o bom Steinbroken, tÍso nos seus altos collarinhos,
-affirmando a respeito de Socrates, com prudencia: ´Oh, il est trËs fort,
-il est excessivement fort!ª Ou ainda, a proposito da batalha das
-Thermopylas, rosnando, com medo de se comprometter: ´C'est trËs grave,
-c'est excessivement grave!ª Valia a pena ir · Grecia para vÍr!
-
-Subitamente Ega parou:
-
---Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?... J· n„o È mau!
-
-N'um claro espaÁo rasgado, onde Carlos deix·ra o Passeio Publico pacato
-e frondoso--um obelisco, com borrıes de bronze no pedestal, erguia um
-traÁo cÙr d'assucar na vibraÁ„o fina da luz de inverno: e os largos
-globos dos candieiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam,
-transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sab„o suspensas no ar.
-Dos dois lados seguiam, em alturas desiguaes, os pesados predios, lisos
-e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde
-negrejavam piteiras de zinco, e pateos de pedra, quadrilhados a branco e
-preto, onde guarda-portıes chupavam o cigarro: e aquelles dois hirtos
-renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as familias que outr'ora
-se immobilisavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa
-´da umaª, ouvindo a Banda, com casimiras e sÍdas, no catitismo
-domingueiro. Todo o lagedo reluzia como cal nova. Aqui e alÈm um arbusto
-encolhia na aragem a sua folhagem pallida e rara. E ao fundo a collina
-verde, salpicada d'arvores, os terrenos de Valle de Pereiro, punham um
-brusco remate campestre ·quelle curto rompante de luxo barato--que
-partira para transformar a velha cidade, e estac·ra logo, com o fÙlego
-curto, entre montıes de cascalho.
-
-Mas um ar lavado e largo circulava; o sol dourava a caliÁa; a divina
-serenidade do azul sem igual tudo cobria e adoÁava. E os dois amigos
-sentaram-se n'um banco, junto de uma verdura que orlava a agua d'um
-tanque esverdinhada e molle.
-
-Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flÙres na
-lapella, a calÁa apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro.
-Era toda uma geraÁ„o nova e miuda que Carlos n„o conhecia. Por vezes Ega
-murmurava um _Ûl·!_, acenava com a bengala. E elles iam, repassavam, com
-um arzinho timido e contrafeito, como mal acostumados ·quelle vasto
-espaÁo, a tanta luz, ao seu proprio _chic_. Carlos pasmava. Que faziam
-alli, ·s horas de trabalho, aquelles moÁos tristes, de calÁa esguia? N„o
-havia mulheres. Apenas n'um banco adiante uma creatura adoentada, de
-lenÁo e chale, tomava o sol; e duas matronas, com vidrilhos no
-mantelete, donas de casa de hospedes, arejavam um c„osinho felpudo. O
-que attrahia pois alli aquella mocidade pallida? E o que sobretudo o
-espantava eram as botas d'esses cavalheiros, botas despropositadamente
-compridas, rompendo para fÛra da calÁa collante com pontas aguÁadas e
-reviradas como prÙas de barcos varinos...
-
---Isto È phantastico, Ega!
-
-Ega esfregava as m„os. Sim, mas precioso! Porque essa simples fÙrma de
-botas explicava todo o Portugal contemporaneo. Via-se por alli como a
-coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, · D. Jo„o VI, que t„o
-bem lhe ficava, este desgraÁado Portugal decidira arranjar-se · moderna:
-mas sem originalidade, sem forÁa, sem caracter para crear um feitio seu,
-um feitio proprio, manda vir modelos do estrangeiro--modelos d'idÈas, de
-calÁas, de costumes, de leis, d'arte, de cozinha... SÛmente, como lhe
-falta o sentimento da proporÁ„o, e ao mesmo tempo o domina a impaciencia
-de parecer muito moderno e muito civilisado--exagera o modelo,
-deforma-o, estraga-o atÈ · caricatura. O figurino da bota que veio de
-fÛra era levemente estreito na ponta;--immediatamente o janota estica-o
-e aguÁa-o atÈ ao bico d'alfinete. Por seu lado o escriptor lÍ uma pagina
-de Goncourt ou de Verlaine em estylo precioso e
-cinzelado;--immediatamente retorce, emmaranha, desengonÁa a sua pobre
-phrase atÈ descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o
-legislador ouve dizer que l· fÛra se levanta o nivel da
-instrucÁ„o;--immediatamente pıe no programma dos exames de primeiras
-letras a metaphysica, a astronomia, a philologia, a egyptologia, a
-chresmatica, a critica das religiıes comparadas, e outros infinitos
-terrores. E tudo por ahi adiante assim, em todas as classes e
-profissıes, desde o orador atÈ ao photographo, desde o jurisconsulto atÈ
-ao _sportman_... … o que succede com os pretos j· corrompidos de S.
-ThomÈ, que vÍem os europeus de lunetas--e imaginam que n'isso consiste
-ser civilisado e ser branco. Que fazem ent„o? Na sua sofreguid„o de
-progresso e de brancura acavallam no nariz tres ou quatro lunetas,
-claras, defumadas, atÈ de cÙr. E assim andam pela cidade, de tanga, de
-nariz no ar, aos tropeÁıes, no desesperado e angustioso esforÁo de
-equilibrarem todos estes vidros--para serem immensamente civilisados e
-immensamente brancos...
-
-Carlos ria:
-
---De modo que isto est· cada vez peor...
-
---Medonho! … d'um reles, d'um postiÁo! Sobretudo postiÁo! J· n„o ha nada
-genuino n'este miseravel paiz, nem mesmo o p„o que comemos!
-
-Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, n'um gesto lento:
-
---Resta aquillo, que È genuino...
-
-E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da GraÁa e da Penha,
-com o seu casario escorregando pelas encostas resequidas e tisnadas do
-sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as
-atarracadas vivendas ecclesiasticas, lembrando o frade pingue e
-pachorrento, beatas de mantilha, tardes de prociss„o, irmandades d'opa
-atulhando os adros, herva dÙce juncando as ruas, tremoÁo e fava-rica
-apregoada ·s esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto
-ainda, recortando no radiante azul a miseria da sua muralha, era o
-castello, sordido e tarimbeiro, d'onde outr'ora, ao som do hymno tocado
-em fagotes, descia a tropa de calÁa branca a fazer a _bernarda_! E
-abrigados por elle, no escuro bairro de S. Vicente e da SÈ, os palacetes
-decrepitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brazıes nas
-paredes rachadas, onde entre a maledicencia, a devoÁ„o e a bisca,
-arrasta os seus derradeiros dias, cachetica e caturra, a velha Lisboa
-fidalga!
-
-Ega olhou um momento, pensativo:
-
---Sim, com effeito, È talvez mais genuino. Mas t„o estupido, t„o
-sebento! N„o sabe a gente para onde se ha de voltar... E se nos voltamos
-para nÛs mesmos, ainda peor!
-
-E de repente bateu no joelho de Carlos, com um brilho na face:
-
---Espera... Olha quem ahi vem!
-
-Era uma vittoria, bem posta e correcta, avanÁando com lentid„o e estylo,
-ao trote esteppado de duas egoas inglezas. Mas foi um desapontamento.
-Vinha l· sÛmente um rapaz muito louro, d'uma brancura de camelia, com
-uma pennugem no beiÁo, languidamente recostado. Fez um aceno ao Ega, com
-um lindo sorriso de virgem. A vittoria passou.
-
---N„o conheces?
-
-Carlos procurava, com uma recordaÁ„o.
-
---O teu antigo doente! O Charlie!
-
-O outro bateu as m„os. O Charlie! O seu Charlie! Como aquillo o fazia
-velho!... E era bonitinho!
-
---Sim, muito bonitinho. Tem ahi uma amizade com um velho, anda sempre
-com um velho... Mas elle vinha decerto com a m„i, estou convencido que
-ella ficou por ahi a passear a pÈ. Vamos nÛs vÍr?
-
-Subiram ao comprido da Avenida, procurando. E quem avistaram logo foi o
-Eusebiosinho. Parecia mais funebre, mais tisico, dando o braÁo a uma
-senhora muito forte, muito cÛrada, que estalava n'um vestido de sÍda cor
-de pinh„o. Iam devagar, tomando o sol. E o Eusebio nem os viu, descahido
-e mollengo, seguindo com as grossas lunetas pretas o marchar lento da
-sua sombra.
-
---Aquella aventesma È a mulher, contou Ega. Depois de varias paixıes em
-lupanares, o nosso Eusebio teve este namoro. O pai da creatura, que È
-dono d'um prego, apanhou-o uma noite na escada com ella a surripiar-lhe
-uns prazeres... Foi o diabo, obrigaram-no a casar. E desappareceu, n„o o
-tornei a vÍr... Diz que a mulher que o derreia · pancada.
-
---Deus a conserve!
-
---Amen!
-
-E ent„o Carlos, que recordava a coÁa no Eusebio, o caso da _Corneta_,
-quiz saber do Palma Cavall„o. Ainda deshonrava o Universo com a sua
-presenÁa, esse benemerito? Ainda o deshonrava, disse o Ega. SÛmente
-deix·ra a litteratura, e torn·ra-se _factotum_ do Carneiro, o que fÙra
-ministro; levava-lhe a hespanhola ao theatro pelo braÁo; e era um bom
-empenho em politica.
-
---Ainda ha de ser deputado, acrescentou Ega. E, da fÛrma que as coisas
-v„o, ainda ha de ser ministro... E isto est·-se fazendo tarde,
-Carlinhos. Vamos nÛs tomar esta tipoia e abalar para o Ramalhete?
-
-Eram quatro horas, o sol curto de inverno tinha j· um tom pallido.
-
-Tomaram a tipoia. No Rocio, Alencar que passava, que os viu--parou,
-sacudiu ardentemente a m„o no ar. E ent„o Carlos exclamou, com uma
-surpreza que j· o assalt·ra essa manh„ no _Braganza_:
-
---Ouve c·, Ega! Tu agora pareces intimo do Alencar! Que transformaÁ„o
-foi essa?
-
-Ega confessou que realmente agora apreciava immensamente o Alencar. Em
-primeiro logar no meio d'esta Lisboa toda postiÁa, Alencar permanecia o
-unico portuguez genuino. Depois, atravÈs da contagiosa intrujice,
-conservava uma honestidade resistente. AlÈm d'isso havia n'elle
-lealdade, bondade, generosidade. O seu comportamento com a sobrinhita
-era tocante. Tinha mais cortezia, melhores maneiras que os novos. Um
-bocado de piteirice n„o lhe ia mal ao seu feitio lyrico. E por fim, no
-estado a que descamb·ra a litteratura, a versalhada do Alencar tomava
-relevo pela correcÁ„o, pela simplicidade, por um resto de sincera
-emoÁ„o. Em resumo, um bardo infinitamente estimavel.
-
---E aqui tens tu, Carlinhos, a que nÛs chegamos! N„o ha nada com efeito
-que caracterise melhor a pavorosa decadencia de Portugal, nos ultimos
-trinta annos, do que este simples facto: t„o profundamente tem baixado o
-caracter e o talento, que de repente o nosso velho Thomaz, o homem da
-_FlÙr de Martyrio_, o Alencar d'Alemquer, apparece com as proporÁıes
-d'um Genio e d'um Justo!
-
-Ainda fallavam de Portugal e dos seus males quando a tipoia parou. Com
-que commoÁ„o Carlos avistou a fachada severa do Ramalhete, as
-janellinhas abrigadas · beira do telhado, o grande ramo de girasoes
-fazendo painel no logar do escudo d'armas! Ao ruido da carruagem,
-VillaÁa appareceu · porta, calÁando luvas amarellas. Estava mais gordo o
-VillaÁa--e tudo na sua pessoa, desde o chapÈo novo atÈ ao cast„o de
-prata da bengala, revelava a sua importancia como administrador, quasi
-directo senhor durante o longo desterro de Carlos, d'aquella vasta casa
-dos Maias. Apresentou logo o jardineiro, um velho, que alli vivia com a
-mulher e o filho, guardando o casar„o deserto. Depois felicitou-se de
-vÍr emfim os dois amigos juntos. E ajuntou, batendo com carinho familiar
-no hombro de Carlos:
-
---Pois eu, depois de nos separarmos em Santa Apolonia, fui tomar um
-banho ao Central e n„o me deitei. Olhe que È uma grande commodidade o
-tal _sleeping-car_! Ah l· isso, em progresso, o nosso Portugal j· n„o
-est· atraz de ninguem!... E v. exc.^a agora precisa de mim?
-
---N„o, obrigado, VillaÁa. Vamos dar uma volta pelas salas... V· jantar
-comnosco. ¡s seis! Mas ·s seis em ponto, que ha petiscos especiaes.
-
-E os dois amigos atravessaram o perystillo. Ainda l· se conservavam os
-bancos feudaes de carvalho lavrado, solemnes como coros de cathedral. Em
-cima porÈm a ante-camara entristecia, toda despida, sem um movel, sem um
-estofo, mostrando a cal lascada dos muros. TapeÁarias orientaes que
-pendiam como n'uma tenda, pratos mouriscos de reflexos de cobre, a
-estatua da _Friorenta_ rindo e arrepiando-se, na sua nudez de marmore,
-ao metter o pÈsinho na agua--tudo ornava agora os aposentos de Carlos em
-Paris: e outros caixıes apilhavam-se a um canto, promptos a embarcar,
-levando as melhores faianÁas da _Toca_. Depois no amplo corredor, sem
-tapete, os seus passos soaram como n'um claustro abandonado. Nos quadros
-devotos, d'um tom mais negro, destacava aqui e alÈm, sob a luz escassa,
-um hombro descarnado de eremita, a mancha livida d'uma caveira. Uma
-friagem regelava. Ega levant·ra a gola do paletot.
-
-No sal„o nobre os moveis de brocado cÙr de musgo estavam embrulhados em
-lenÁoes d'algod„o, como amortalhados, exhalando um cheiro de mumia a
-terebinthina e camphora. E no ch„o, na tela de Constable, encostada ·
-parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caÁadora
-ingleza, parecia ir dar um passo, sahir do caixilho dourado, para partir
-tambem, consummar a dispers„o da sua raÁa...
-
---Vamos embora, exclamou Ega. Isto est· lugubre!...
-
-Mas Carlos, pallido e calado, abriu adiante a porta do bilhar. Ahi, que
-era a maior sala do Ramalhete, tinham sido recentemente accumulados na
-confus„o das artes e dos seculos, como n'um armazem de _bric-‡-brac_,
-todos os moveis ricos da _Toca_. Ao fundo, tapando o fog„o, dominando
-tudo na sua magestade architectural, erguia-se o famoso armario do tempo
-da Liga Hanseatica, com os seus Martes armados, as portas lavradas, os
-quatro Evangelistas prÈgando aos cantos, envoltos n'essas roupagens
-violentas que um vento de prophecia parece agitar. E Carlos
-immediatamente descobriu um desastre na cornija, nos dois faunos que
-entre trophÈos agricolas tocavam ao desafio. Um partira o seu pÈ de
-cabra, outro perdera a sua frauta bucolica...
-
---Que brutos! exclamou elle furioso, ferido no seu amor da coisa d'arte.
-Um movel d'estes!...
-
-Trepou a uma cadeira para examinar os estragos. E Ega, no emtanto,
-errava entre os outros moveis, cofres nupciaes, contadores hespanhoes,
-bufetes da RenascenÁa italiana, recordando a alegre casa dos Olivaes que
-tinham ornado, as bellas noites de cavaco, os jantares, os foguetes
-atirados em honra de Leonidas... Como tudo pass·ra! De repente deu com o
-pÈ n'uma caixa de chapÈo sem tampa, atulhada de coisas velhas--um vÈo,
-luvas desirmanadas, uma meia de sÍda, fitas, flÙres artificiaes. Eram
-objectos de Maria, achados n'algum canto da _Toca_, para alli atirados,
-no momento de se esvaziar a casa! E, coisa lamentavel, entre estes
-restos d'ella, misturados como na promiscuidade d'um lixo, apparecia uma
-chinela de velludo bordada a matiz, uma velha chinela de Affonso da
-Maia! Ega escondeu a caixa rapidamente debaixo d'um pedaÁo solto de
-tapeÁaria. Depois, como Carlos saltava da cadeira, sacudindo as m„os,
-ainda indignado, Ega apressou aquella peregrinaÁ„o, que lhe estragava a
-alegria do dia.
-
---Vamos ao terraÁo! D·-se um olhar ao jardim, e abalamos!
-
-Mas deviam atravessar ainda a memoria mais triste, o escriptorio de
-Affonso da Maia. A fechadura estava pÍrra. No esforÁo de abrir a m„o de
-Carlos tremia. E Ega, commovido tambem, revia toda a sala tal como
-outr'ora, com os seus candieiros Carcel dando um tom cÙr de rosa, o lume
-crepitando, o reverendo Bonifacio sobre a pelle d'urso, e Affonso na sua
-velha poltrona, de casaco de velludo, sacudindo a cinza do cachimbo
-contra a palma da m„o. A porta cedeu: e toda a emoÁ„o de repente findou,
-na grutesca, absurda surpreza de romperem ambos a espirrar,
-desesperadamente, suffocados pelo cheiro acre d'um pÛ vago que lhes
-picava os olhos, os estonteava. FÙra o VillaÁa, que, seguindo uma
-receita d'almanach, fizera espalhar ·s m„os cheias, sobre os moveis,
-sobre os lenÁoes que os resguardavam, camadas espessas de pimenta
-branca! E estrangulados, sem vÍr, sob uma nevoa de lagrimas, os dois
-continuavam, um defronte do outro, em espirros afflictivos que os
-desengonÁavam.
-
-Carlos por fim conseguiu abrir largamente as duas portadas d'uma
-janella. No terraÁo morria um resto de sol. E, revivendo um pouco ao ar
-puro, alli ficaram de pÈ, calados, limpando os olhos, sacudidos ainda
-por um ou outro espirro retardado.
-
---Que infernal invenÁ„o! exclamou Carlos, indignado.
-
-Ega, ao fugir com o lenÁo na face, tropeÁ·ra, batera contra um sof·,
-coÁava a canella:
-
---Estupida coisa! E que bordoada que eu dei!...
-
-Voltou a olhar para a sala, onde todos os moveis desappareciam sob os
-largos sudarios brancos. E reconheceu que tropeÁ·ra na antiga almofada
-de velludo do velho Bonifacio. Pobre Bonifacio! Que fÙra feito d'elle?
-
-Carlos, que se sent·ra no parapeito baixo do terraÁo, entre os vasos sem
-flÙr, contou o fim do reverendo Bonifacio. Morrera em Santa Olavia,
-resignado, e t„o obeso que se n„o movia. E o VillaÁa, com uma idÈa
-poetica, a unica da sua vida de procurador, mand·ra-lhe fazer um
-mausolÈo, uma simples pedra de marmore branco, sob uma roseira, debaixo
-das janellas do quarto do avÙ.
-
-Ega sent·ra-se tambem no parapeito, ambos se esqueceram n'um silencio.
-Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez d'inverno,
-tinha a melancolia de um retiro esquecido que j· ninguem ama: uma
-ferrugem verde de humidade cobria os grossos membros da Venus Citherea;
-o cypreste e o cedro envelheciam juntos como dois amigos n'um ermo; e
-mais lento corria o prantosinho da cascata, esfiado saudosamente gotta a
-gotta na bacia de marmore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela
-marinha nas cantarias dos dois altos predios, a curta paizagem do
-Ramalhete, um pedaÁo de Tejo e monte, tomava n'aquelle fim de tarde um
-tom mais pensativo e triste: na tira de rio um paquete fechado,
-preparado para a vaga, ia descendo, desapparecendo logo, como j·
-devorado pelo mar incerto; no alto da collina o moinho par·ra, transido
-na larga friagem do ar; e nas janellas das casas · beira d'agua um raio
-de sol morria, lentamente sumido, esvaÌdo na primeira cinza do
-crepusculo, como um resto d'esperanÁa n'uma face que se anuvia.
-
-Ent„o, n'aquella mudez de soledade e d'abandono, Ega, com os olhos para
-o longe, murmurou devagar:
-
---Mas tu d'esse casamento n„o tinhas a menor indicaÁ„o, a menor
-suspeita?
-
---Nenhuma... Soube-o de repente pela carta d'ella em Sevilha.
-
-E era esta a formidavel nova annunciada por Carlos, a nova que elle logo
-cont·ra de madrugada ao Ega, depois dos primeiros abraÁos, em Santa
-Apolonia. Maria Eduarda ia casar.
-
-Assim o annunci·ra ella a Carlos n'uma carta muito simples, que elle
-recebera na quinta dos Villa-Medina. Ia casar. E n„o parecia ser uma
-resoluÁ„o tomada arrebatadamente sob um impulso do coraÁ„o; mas antes um
-proposito lento, longamente amadurecido. Ella alludia n'essa carta a ter
-´pensado muito, reflectido muito...ª De resto o noivo devia ir perto dos
-cincoenta annos. E Carlos portanto via alli a uni„o de dois sÍres
-desilludidos da vida, maltratados por ella, cansados ou assustados do
-seu isolamento, que, sentindo um no outro qualidades sÈrias de coraÁ„o e
-de espirito, punham em commum o seu resto de calor, d'alegria e de
-coragem para affrontar juntos a velhice...
-
---Que idade tem ella?
-
-Carlos pensava que ella devia ter quarenta e um ou quarenta e dois
-annos. Ella dizia na carta ´sou apenas mais nova que o meu noivo seis
-annos e tres mezesª. Elle chamava-se Mr. de Trelain. E era evidentemente
-um homem d'espirito largo, desembaraÁado de prejuizos, d'uma
-benevolencia quasi misericordiosa, porque quizera Maria, conhecendo bem
-os seus erros.
-
---Sabe tudo? exclamou Ega, que salt·ra do parapeito.
-
---Tudo n„o. Ella diz que Mr. de Trelain conhecia do seu passado ´todos
-aquelles erros em que ella cahira inconscientementeª. Isto d· a entender
-que n„o sabe tudo... Vamos andando, que se faz tarde, e quero ainda vÍr
-os meus quartos.
-
-Desceram ao jardim. Um momento seguiram calados pela alea onde cresciam
-outr'ora as roseiras de Affonso. Sob as duas olaias ainda existia o
-banco de cortiÁa; Maria sent·ra-se alli, na sua visita ao Ramalhete, a
-atar n'um ramo flÙres que ia levar como reliquia. Ao passar Ega cortou
-uma pequenina margarida que ainda floria solitariamente.
-
---Ella contin˙a a viver em OrlÈans, n„o È verdade?
-
-Sim, disse Carlos, vivia ao pÈ d'OrlÈans, n'uma quinta que l· compr·ra,
-chamada _Les RosiËres_. O noivo devia habitar nos arredores algum
-pequeno _ch‚teau_. Ella chamava-lhe ´visinhoª. E era naturalmente um
-_gentilhomme campagnard_, de familia sÈria, com fortuna...
-
---Ella sÛ tem o que tu lhe d·s, est· claro.
-
---Creio que te mandei contar tudo isso, murmurou Carlos. Emfim ella
-recusou-se a receber parte alguma da sua heranÁa... E o VillaÁa arranjou
-as coisas por meio d'uma doaÁ„o que lhe fiz, correspondente a doze
-contos de reis de renda...
-
---… bonito. Ella fallava de Rosa na carta?
-
---Sim, de passagem, que ia bem... Deve estar uma mulher.
-
---E bem linda!
-
-Iam subindo a escadinha de ferro torneada que levava do jardim aos
-quartos de Carlos. Com a m„o na porta da vidraÁa, Ega parou ainda, n'uma
-derradeira curiosidade:
-
---E que effeito te fez isso?
-
-Carlos accendia o charuto. Depois atirando o phosphoro por cima da
-varandinha de ferro onde uma trepadeira se enlaÁava:
-
---Um effeito de conclus„o, de absoluto remate. … como se ella morresse,
-morrendo com ella todo o passado, e agora renascesse sob outra fÛrma. J·
-n„o È Maria Eduarda. … Madame de Trelain, uma senhora franceza. Sob este
-nome, tudo o que houve fica sumido, enterrado a mil braÁas, findo para
-sempre, sem mesmo deixar memoria... Foi o effeito que me fez.
-
---Tu nunca encontraste em Paris o snr. Guimar„es?
-
---Nunca. Naturalmente morreu.
-
-Entraram no quarto. VillaÁa, na supposiÁ„o de Carlos vir para o
-Ramalhete, mand·ra-o preparar; e todo elle regelava--com o marmore das
-commodas espanejado e vazio, uma vela intacta n'um castiÁal solitario, a
-colcha de fust„o vincada de dobras sobre o leito sem cortinados. Carlos
-pousou o chapÈo e a bengala em cima da sua antiga mesa de trabalho.
-Depois, como dando um resumo:
-
---E aqui tens tu a vida, meu Ega! N'este quarto, durante noites, soffri
-a certeza de que tudo no mundo acab·ra para mim... Pensei em me matar.
-Pensei em ir para a Trappa. E tudo isto friamente, com uma conclus„o
-logica. Por fim dez annos passaram, e aqui estou outra vez...
-
-Parou diante do alto espelho suspenso entre as duas columnas de carvalho
-lavrado, deu um geito ao bigode, concluiu, sorrindo melancolicamente:
-
---E mais gordo!
-
-Ega espalhava tambem pelo quarto um olhar pensativo:
-
---Lembras-te quando appareci aqui uma noite, n'uma agonia, vestido de
-Mephistopheles?
-
-Ent„o Carlos teve um grito. E a Rachel, È verdade! A Rachel? Que era
-feito da Rachel, esse lirio d'Israel?
-
-Ega encolheu os hombros:
-
---Para ahi anda, estuporada...
-
-Carlos murmurou--´coitada!ª E foi tudo o que disseram sobre a grande
-paix„o romantica do Ega.
-
-Carlos no emtanto fÙra examinar, junto da janella, um quadro que pousava
-no ch„o, para alli esquecido e voltado para a parede. Era o retrato do
-pai, de Pedro da Maia, com as suas luvas de camurÁa na m„o, os grandes
-olhos arabes na face triste e pallida que o tempo amarell·ra mais.
-Collocou-o em cima d'uma commoda. E atirando-lhe uma leve sacudidella
-com o lenÁo:
-
---N„o ha nada que me faÁa mais pena do que n„o ter um retrato do avÙ!...
-Em todo o caso este sempre o vou levar para Paris.
-
-Ent„o Ega perguntou, do fundo do sof· onde se enterr·ra, se, n'esses
-ultimos annos, elle n„o tivera a idÈa, o vago desejo de voltar para
-Portugal...
-
-Carlos considerou Ega com espanto. Para que? Para arrastar os passos
-tristes desde o Gremio atÈ · Casa Havaneza? N„o! Paris era o unico logar
-da terra congenere com o typo definitivo em que elle se fix·ra:--´o
-homem rico que vive bemª. Passeio a cavallo no Bois; almÛÁo no Bignon;
-uma volta pelo _boulevard_; uma hora no club com os jornaes; um bocado
-de florete na sala d'armas; · noite a _ComÈdie FranÁaise_ ou uma
-_soirÈe_; Trouville no ver„o, alguns tiros ·s lebres no inverno; e
-atravÈs do anno as mulheres, as corridas, certo interesse pela sciencia,
-o _bric-‡-brac_, e uma pouca de _blague_. Nada mais inoffensivo, mais
-nullo, e mais agradavel.
-
---E aqui tens tu uma existencia d'homem! Em dez annos n„o me tem
-succedido nada, a n„o ser quando se me quebrou o phaeton na estrada de
-Saint-Cloud... Vim no _Figaro_.
-
-Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado:
-
---Falh·mos a vida, menino!
-
---Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto È,
-falha-se sempre na realidade aquella vida que se planeou com a
-imaginaÁ„o. Diz-se: ´vou ser assim, porque a belleza est· em ser assimª.
-E nunca se È assim, È-se invariavelmente _assado_, como dizia o pobre
-marquez. ¡s vezes melhor, mas sempre differente.
-
-Ega concordou, com um suspiro mudo, comeÁando a calÁar as luvas.
-
-O quarto escurecia no crepusculo frio e melancolico d'inverno. Carlos
-pÙz tambem o chapÈo: e desceram pelas escadas forradas de velludo cÙr de
-cereja, onde ainda pendia, com um ar baÁo de ferrugem, a panoplia de
-velhas armas. Depois na rua Carlos parou, deu um longo olhar ao sombrio
-casar„o, que n'aquella primeira penumbra tomava um aspecto mais
-carregado de residencia ecclesiastica, com as suas paredes severas, a
-sua fila de janellinhas fechadas, as grades dos postigos terreos cheias
-de treva, mudo, para sempre deshabitado, cobrindo-se j· de tons de
-ruina.
-
-Uma commoÁ„o passou-lhe n'alma, murmurou, travando do braÁo do Ega:
-
---… curioso! SÛ vivi dois annos n'esta casa, e È n'ella que me parece
-estar mettida a minha vida inteira!
-
-Ega n„o se admirava. SÛ alli no Ramalhete elle vivera realmente
-d'aquillo que d· sabÙr e relevo · vida--a paix„o.
-
---Muitas outras coisas d„o valor · vida... Isso È uma velha idÈa de
-romantico, meu Ega!
-
---E que somos nÛs? exclamou Ega. Que temos nÛs sido desde o collegio,
-desde o exame de latim? Romanticos: isto È, individuos inferiores que se
-governam na vida pelo sentimento e n„o pela raz„o...
-
-Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses
-que se dirigiam sÛ pela raz„o, n„o se desviando nunca d'ella,
-torturando-se para se manter na sua linha inflexivel, sÍccos, hirtos,
-logicos, sem emoÁ„o atÈ ao fim...
-
---Creio que n„o, disse o Ega. Por fÛra, · vista, s„o desconsoladores. E
-por dentro, para elles mesmos, s„o talvez desconsolados. O que prova que
-n'este lindo mundo ou tem de se ser insensato ou semsabor...
-
---Resumo: n„o vale a pena viver...
-
---Depende inteiramente do estomago! atalhou Ega.
-
-Riram ambos. Depois Carlos, outra vez sÈrio, deu a sua theoria da vida,
-a theoria definitiva que elle deduzira da experiencia e que agora o
-governava. Era o fatalismo musulmano. Nada desejar e nada recear... N„o
-se abandonar a uma esperanÁa--nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o
-que vem e o que foge, com a tranquillidade com que se acolhem as
-naturaes mudanÁas de dias agrestes e de dias suaves. E, n'esta placidez,
-deixar esse pedaÁo de materia organisada, que se chama o Eu, ir-se
-deteriorando e decompondo atÈ reentrar e se perder no infinito
-Universo... Sobretudo n„o ter appetites. E, mais que tudo, n„o ter
-contrariedades.
-
-Ega, em summa, concordava. Do que elle principalmente se convencera,
-n'esses estreitos annos de vida, era da inutilidade de todo o esforÁo.
-N„o valia a pena dar um passo para alcanÁar coisa alguma na
-terra--porque tudo se resolve, como j· ensin·ra o sabio do
-_Ecclesiastes_, em desillus„o e poeira.
-
---Se me dissessem que alli em baixo estava uma fortuna como a dos
-Rothschilds ou a corÙa imperial de Carlos V, · minha espera, para serem
-minhas se eu para l· corresse, eu n„o apressava o passo... N„o! N„o
-sahia d'este passinho lento, prudente, correcto, seguro, que È o unico
-que se deve ter na vida.
-
---Nem eu! acudiu Carlos com uma convicÁ„o decisiva.
-
-E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se
-aquelle fosse em verdade o caminho da vida, onde elles, certos de sÛ
-encontrar ao fim desillus„o e poeira, n„o devessem j·mais avanÁar sen„o
-com lentid„o e desdem. J· avistavam o Aterro, a sua longa fila de luzes.
-De repente Carlos teve um largo gesto de contrariedade:
-
---Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este appetite! Esqueci-me de
-mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas.
-
-E agora j· era tarde, lembrou Ega. Ent„o Carlos, atÈ ahi esquecido em
-memorias do passado e syntheses da existencia, pareceu ter
-inesperadamente consciencia da noite que cahira, dos candieiros accÍsos.
-A um bico de gaz tirou o relogio. Eram seis e um quarto!
-
---Oh, diabo!... E eu que disse ao VillaÁa e aos rapazes para estarem no
-_Braganza_ pontualmente ·s seis! N„o apparecer por ahi uma tipoia!...
-
---Espera! exclamou Ega. L· vem um ´americanoª, ainda o apanhamos.
-
---Ainda o apanhamos!
-
-Os dois amigos lanÁaram o passo, largamente. E Carlos, que arroj·ra o
-charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
-
---Que raiva ter esquecido o paiosinho! Emfim, acabou-se. Ao menos
-assentamos a theoria definitiva da existencia. Com effeito, n„o vale a
-pena fazer um esforÁo, correr com ancia para coisa alguma...
-
-Ega, ao lado, ajuntava, offegante, atirando as pernas magras:
-
---Nem para o amor, nem para a gloria, nem para o dinheiro, nem para o
-poder...
-
-A lanterna vermelha do ´americanoª, ao longe, no escuro, par·ra. E foi
-em Carlos e em Jo„o da Ega uma esperanÁa, outro esforÁo:
-
---Ainda o apanhamos!
-
---Ainda o apanhamos!
-
-De novo a lanterna deslisou e fugiu. Ent„o, para apanhar o ´americanoª,
-os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e
-pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.
-
-FIM DO SEGUNDO VOLUME
-
-
-
-
-Lista de erros corrigidos
-
-
-Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
-
-+-----------+-------------------------+---------------------------+
-| | Original | CorrecÁ„o |
-+-----------+-------------------------+---------------------------+
-| Vol I. | | |
-| | | |
-| #p·g. 11 | d'um planta | d'uma planta |
-| #p·g. 25 | n'eses | n'esse |
-| #p·g. 64 | dehruÁando-se | debruÁando-se |
-| #p·g. 71 | mesmo olhos | mesmos olhos |
-| #p·g. 82 | o o que | o que |
-| #p·g. 151 | appproximava | approximava |
-| #p·g. 220 | ningnem | ninguem |
-| #p·g. 222 | pararello | paralello |
-| #p·g. 290 | quas? | quasi |
-| #p·g. 326 | pohre | pobre |
-| #p·g. 345 | extraordinrio | extraordinario |
-| #p·g. 416 | luvar | luvas |
-| #p·g. 423 | hespanhla | hespanhola |
-| #p·g. 428 | o os deus | e os seus |
-| | | |
-| Vol II. | | |
-| | | |
-| #p·g. 84 | ?uvas | luvas |
-| #p·g. 276 | o o monoculo | o monoculo |
-| #p·g. 324 | a? suissas | as suissas |
-| #p·g. 343 | n'um voz | n'uma voz |
-| #p·g. 432 | moresse | morresse |
-| #p·g. 456 | Celerico | Celorico |
-| #p·g. 475 | n'um longa | n'uma longa |
-+-----------+-------------------------+---------------------------+
-
-As variaÁıes de vÙvÙ (vÙvo ou vovÙ) foram mantidas de acordo com o
-original. As variaÁıes de nomes prÛprios foram mantidas de acordo
-com o original.
-
-No original est„o presentes dois capÌtulos VII (no volume I),
-rectificados nesta vers„o.
-
-No volume II verificamos que se passa do capÌtulo IV para o VII e
-a numeraÁ„o dos capÌtulos fica alterada a partir desse momento.
-Uma vez que n„o h· p·ginas em falta, rectific·mos nesta vers„o.
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Os Maias, by JosÈ Maria EÁa de QueirÛs
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS ***
-
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@@ -1,27494 +0,0 @@
-The Project Gutenberg EBook of Os Maias, by Jos Maria Ea de Queirs
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-This eBook is for the use of anyone anywhere at no cost and with
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-re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included
-with this eBook or online at www.gutenberg.org
-
-
-Title: Os Maias
- episodios da vida romantica
-
-Author: Jos Maria Ea de Queirs
-
-Release Date: October 16, 2012 [EBook #40409]
-
-Language: Portuguese
-
-Character set encoding: ISO-8859-1
-
-*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS ***
-
-
-
-
-Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brando Simes,
-Graa Horta and the Online Distributed Proofreading Team
-at http://www.pgdp.net (This file was produced from images
-generously made available by National Library of Portugal
-(Biblioteca Nacional de Portugal) and Biblioteca Dulce
-Ferro -- Biblioteca-Museu Repblica e Resistncia.)
-
-
-
-
-
- *Nota de editor:* Devido existncia de erros tipogrficos neste
- texto, foram tomadas vrias decises quanto verso final. Em caso
- de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final
- deste livro encontrar a lista de erros corrigidos.
-
- Na verso original, esta obra uma compilao de dois volumes, com
- captulos e paginao independentes, publicadas numa s obra.
- Respeitando o original, compilmos num s ficheiro ambas as partes:
-
- Primeiro Volume
-
- Segundo Volume
-
-
- Rita Farinha (Agosto 2012)
-
-
-
-
-Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70
-
-
-
-
-
-EA DE QUEIROZ
-
-OS MAIAS
-
-EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
-
-VOLUME I
-
-PORTO
-
-
-Livraria Internacional de Ernesto Chardron
-CASA EDITORA
-LUGAN & GENELIOUX, Successores
-
-
-1888
-
-Todos os direitos reservados
-
-
-
-
-OBRAS DO MESMO AUCTOR
-
-
- O Crime do Padre Amaro, edio inteiramente refundida, recomposta,
- e differente na frma e na aco da edio primitiva. 1 grosso vol.
- 1$200
-
- O Primo Bazilio. 3.^a edio. 1 grosso vol. 1$000
-
- O Mandarim. 2.^a edio. 1 vol. 500
-
- A Reliquia. 1 grosso vol. 1$000
-
-
-
-
-OS MAIAS
-
-VOLUME I
-
-
-
-
-OS MAIAS
-
-
-
-
-I
-
-
-A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era
-conhecida na visinhana da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o
-bairro das Janellas Verdes, pela _casa do Ramalhete_ ou simplesmente o
-_Ramalhete_. Apesar d'este fresco nome de vivenda campestre, o
-_Ramalhete_, sombrio casaro de paredes severas, com um renque de
-estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida
-fila de janellinhas abrigadas beira do telhado, tinha o aspecto
-tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificao do
-reinado da sr.^a D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo
-assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas. O nome de Ramalhete
-provinha de certo d'um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel
-no logar heraldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser collocado,
-e representando um grande ramo de girasoes atado por uma fita onde se
-distinguiam letras e numeros d'uma data.
-
-Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado, com teias d'aranha
-pelas grades dos postigos terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em
-1858 Monsenhor Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o com ida
-d'installar l a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do
-edificio e pela paz dormente do bairro: e o interior do casaro
-agradara-lhe tambem, com a sua disposio apalaada, os tectos
-apainelados, as paredes cobertas de _frescos_ onde j desmaiavam as
-rosas das grinaldas e as faces dos Cupidinhos. Mas Monsenhor, com os
-seus habitos de rico prelado romano, necessitava na sua vivenda os
-arvoredos e as agoas d'um jardim de luxo: e o Ramalhete possuia apenas,
-ao fundo d'um terrao de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado s
-hervas bravas, com um cypreste, um cedro, uma cascatasinha secca, um
-tanque entulhado, e uma estatua de marmore (onde Monsenhor reconheceu
-logo Venus Cithera) ennegrecendo a um canto na lenta humidade das
-ramagens silvestres. Alm d'isso, a renda que pedio o velho Villaa,
-procurador dos Maias, pareceu to exagerada a Monsenhor, que lhe
-perguntou sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos de Leo X.
-Villaa respondeu--que tambem a nobreza no estava nos tempos do sr. D.
-Joo V. E o Ramalhete continuou deshabitado.
-
-Este inutil pardieiro (como lhe chamava Villaa Junior, agora por morte
-de seu pae administrador dos Maias) s veio a servir, nos fins de 1870,
-para l se arrecadaram as mobilias e as louas provenientes do palacete
-de familia em Bemfica, morada quasi historica, que, depois de andar
-annos em praa, fra ento comprada por um commendador brazileiro.
-N'essa occasio vendera-se outra propriedade dos Maias, a _Tojeira_; e
-algumas raras pessoas que em Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e
-sabiam que desde a Regenerao elles viviam retirados na sua quinta de
-Santa Olavia, nas margens do Douro, tinham perguntado a Villaa se essa
-gente estava atrapalhada.
-
---Ainda teem um pedao de po, disse Villaa sorrindo, e a manteiga para
-lhe barrar por cima.
-
-Os Maias eram uma antiga familia da Beira, sempre pouco numerosa, sem
-linhas collateraes, sem parentellas--e agora reduzida a dois vares, o
-senhor da casa, Affonso da Maia, um velho j, quasi um antepassado, mais
-edoso que o seculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra.
-Quando Affonso se retirara definitivamente para Santa Olavia, o
-rendimento da casa excedia j cincoenta mil cruzados: mas desde ento
-tinham-se accumulado as economias de vinte annos de alda; viera tambem
-a herana d'um ultimo parente, Sebastio da Maia, que desde 1830 vivia
-em Napoles, s, occupando-se de numismatica;--e o procurador podia
-certamente sorrir com segurana quando fallava dos Maias e da sua fatia
-de po.
-
-A venda da _Tojeira_ fra realmente aconselhada por Villaa: mas nunca
-elle approvara que Affonso se desfizesse de Bemfica--s pela raso
-d'aquelles muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso, como
-dizia Villaa, acontecia a todos os muros. O resultado era que os Maias,
-com o Ramalhete inhabitavel, no possuiam agora uma casa em Lisboa; e se
-Affonso n'aquella edade amava o socego de Santa Olavia, seu neto, rapaz
-de gosto e de luxo que passava as ferias em Paris e Londres, no
-quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro. E
-com effeito, mezes antes de elle deixar Coimbra, Affonso assombrou
-Villaa annunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O
-procurador compoz logo um relatorio a enumerar os inconvenientes do
-casaro: o maior era necessitar tantas obras e tantas despezas; depois,
-a falta d'um jardim devia ser muito sensivel a quem sahia dos arvoredos
-de Santa Olavia; e por fim alludia mesmo a uma lenda, segundo a qual
-eram sempre fataes aos Maias as paredes do Ramalhete, ainda que
-(acrescentava elle n'uma phrase meditada) at me envergonho de mencionar
-taes frioleiras n'este seculo de Voltaire, Guisot e outros philosophos
-liberaes...
-
-Affonso riu muito da phrase, e respondeu que aquellas razes eram
-excellentes--mas elle desejava habitar sob tectos tradiccionalmente
-seus; se eram necessarias obras, que se fizessem e largamente; e
-emquanto a lendas e agoiros, bastaria abrir de par em par as janellas e
-deixar entrar o sol.
-
-S. ex.^a mandava:--e, como esse inverno ia secco, as obras comearam
-logo, sob a direco d'um Esteves, architecto, politico, e compadre de
-Villaa. Este artista enthusiasmra o procurador com um projecto de
-escada apparatosa, flanqueada por duas figuras symbolisando as
-conquistas da Guin e da India. E estava ideando tambem uma cascata de
-loua na sala de jantar--quando, inesperadamente, Carlos appareceu em
-Lisboa com um architecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com
-elle pressa algumas ornamentaes e alguns tons de estofos,
-entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para elle ali crear,
-exercendo o seu gosto, um interior confortavel, de luxo intelligente e
-sobrio.
-
-Villaa resentiu amargamente esta desconsiderao pelo artista nacional;
-Esteves foi berrar ao seu Centro politico que isto era um paiz perdido.
-E Affonso lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves, exigiu
-mesmo que o encarregassem da construco das cocheiras. O artista ia
-acceitar--quando foi nomeado governador civil.
-
-Ao fim d'um anno, durante o qual Carlos viera frequentemente a Lisboa
-collaborar nos trabalhos, dar os seus retoques estheticos--do antigo
-Ramalhete s restava a fachada tristonha, que Affonso no quizera
-alterada por constituir a phisionomia da casa. E Villaa no duvidou
-declarar que Jones Bule (como elle chamava ao inglez) sem despender
-despropositadamente, aproveitando at as antigualhas de Bemfica, fizera
-do Ramalhete um museu.
-
-O que surprehendia logo era o pateo, outr'ora to lobrego, n, lageado
-de pedregulho--agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de
-marmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vazos de Quimper, e
-dois longos bancos feudaes que Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados
-em talha, solemnes como cros de cathedral. Em cima, na antecamara,
-revestida como uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos
-morria: e ornavam-n'a divans cobertos de tapetes persas, largos pratos
-mouriscos com reflexos metalicos de cobre, uma harmonia de tons severos,
-onde destacava, na brancura immaculada do marmore, uma figura de
-rapariga friorenta, arripiando-se, rindo, ao metter o psinho n'agoa.
-D'ahi partia um amplo corredor, ornado com as peas ricas de Bemfica,
-arcas gothicas, jarres da India, e antigos quadros devotos. As melhores
-salas do Ramalhete abriam para essa galeria. No salo nobre, raramente
-usado, todo em brocados de velludo cr de musgo d'outono, havia uma
-bella tla de Constable, o retrato da sogra de Affonso, a condessa de
-Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de caadora ingleza,
-sobre um fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado,
-onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII com seus moveis
-enramelhetados d'ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas
-tapearias de Gobelins, desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as
-paredes de pastores e d'arvoredos.
-
-Defronte era o bilhar, forrado d'um couro moderno trazido por Jones
-Bule, onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaavam
-cegonhas prateadas. E, ao lado, achava-se o _fumoir_, a sala mais
-commoda do Ramalhete: as ottomanas tinham a ffa vastido de leitos; e o
-conchego quente, e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era
-alegrado pelas cores cantantes de velhas faienas hollandezas.
-
-Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso, revestido de
-damascos vermelhos como uma velha camara de prelado. A macissa meza de
-pau preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne luxo das
-encadernaes, tudo tinha ali uma feio austera de paz
-estudiosa--realada ainda por um quadro attribuido a Rubens, antiga
-reliquia da casa, um Christo na Cruz, destacando a sua nudez de athleta
-sobre um ceu de poente revolto e rubro. Ao lado do fogo Carlos
-arranjara um canto para o av com um biombo japonez bordado a ouro, uma
-pelle d'urso branco, e uma veneravel cadeira de braos, cuja tapearia
-mostrava ainda as armas dos Maias no desmaio da trama de sda.
-
-No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de familia,
-estavam os quartos de Affonso. Carlos despozera os seus, n'um angulo da
-casa, com uma entrada particular, e janellas sobre o jardim: eram tres
-gabinetes a seguir, sem portas, unidos pelo mesmo tapete: e, os recostos
-acolchoados, a sda que forrava as paredes, faziam dizer ao Villaa que
-aquillo no eram aposentos de medico--mas de danarina!
-
-A casa, depois de arranjada, ficou vazia emquanto Carlos, j formado,
-fazia uma longa viagem pela Europa;--e foi s nas vesperas da sua
-chegada, n'esse lindo outono de 1875, que Affonso se resolveu emfim a
-deixar Santa Olavia e vir installar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco
-annos que elle no via Lisboa; e, ao fim de alguns curtos dias,
-confessou ao Villaa que estava suspirando outra vez pelas suas sombras
-de Santa Olavia. Mas, que remedio! No queria viver muito separado do
-neto; e Carlos agora, com idas srias de carreira activa, devia
-necessariamente habitar Lisboa... De resto, no desgostava do Ramalhete,
-apezar de Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos climas frios, ter
-prodigalisado de mais as tapearias, os pesados reposteiros, e os
-velludos. Agradava-lhe tambem muito a visinhana, aquella dce quietao
-de suburbio adormecido ao sol. E gostava at do seu quintalejo. No era
-de certo o jardim de Santa Olavia: mas tinha o ar sympathico, com os
-seus girasoes perfilados ao p dos degraus do terrao, o cypreste e o
-cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Venus Cythera
-parecendo agora, no seu tom claro de estatua de parque, ter chegado de
-Versalhes, do fundo do grande seculo... E desde que a agoa abundava, a
-cascatasinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus tres
-pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucolico, melancolisando aquelle
-fundo de quintal soalheiro com um pranto de nayade domestica, esfiado
-gota a gota na bacia de marmore.
-
-O que desconsolara Affonso, ao principio, fra a vista do
-terrao--d'onde outr'ora, de certo, se abrangia at ao mar. Mas as casas
-edificadas em redor, nos ultimos annos, tinham tapado esse horizonte
-explendido. Agora, uma estreita tira de agoa e monte que se avistava
-entre dois predios de cinco andares, separados por um crte de rua,
-formava toda a paizagem defronte do Ramalhete. E, todavia, Affonso
-terminou por lhe descobrir um encanto intimo. Era como uma tla marinha,
-encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do cu azul em face do
-terrao, mostrando, nas variedades infinitas de cr e luz, os episodios
-fugitivos d'uma pacata vida de rio: s vezes uma vla de barco da
-Trafaria fugindo airosamente bolina; outras vezes uma galera toda em
-panno, entrando n'um favor da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou
-ento a melancolia d'um grande paquete, descendo, fechado e preparado
-para a vaga, entrevisto um momento, desapparecendo logo, como j
-devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no p d'ouro das
-sestas silenciosas, o vulto negro de um couraado inglez... E sempre ao
-fundo o pedao de monte verde-negro, com um moinho parado no alto, e
-duas casas brancas ao rez d'agoa, cheias de expresso--ora faiscantes e
-despedindo raios das vidraas accezas em braza; ora tomando aos fins de
-tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de poente, quasi
-similhantes a um rubor humano; e d'uma tristeza arripiada nos dias de
-chuva, to ss, to brancas, como nuas, sob o tempo agreste.
-
-O terrao communicava por tres portas envidraadas com o escriptorio--e
-foi n'essa bella camara de prelado que Affonso se acostumou logo a
-passar os seus dias, no recanto aconchegado que o neto lhe preparara
-ternamente, ao lado do fogo. A sua longa residencia em Inglaterra
-dera-lhe o amor dos suaves vagares junto do lume. Em Santa Olavia as
-chamins ficavam accezas at Abril; depois ornavam-se de braadas de
-flres, como um altar domestico; e era ainda ahi, n'esse aroma e n'essa
-frescura, que elle gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tacito, ou o seu
-querido Rabelais.
-
-Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho
-borralheiro. N'aquella edade, de vero ou de inverno, ao romper do sol,
-estava a p, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa orao da
-manh que era um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor
-supersticioso da agoa; e costumava dizer que nada havia melhor para o
-homem--que sabor d'agoa, som d'agoa, e vista d'agoa. O que o prendera
-mais a Santa Olavia fra a sua grande riqueza d'agoas vivas, nascentes,
-repuxos, tranquillo espelhar d'agoas paradas, fresco murmurio de agoas
-regantes... E a esta viva tonificao da agoa attribuia elle o ter vindo
-assim, desde o comeo do seculo, sem uma dr e sem uma doena, mantendo
-a rica tradio de saude da sua familia, duro, resistente aos desgostos
-e annos--que passavam por elle, to em vo, como passavam em vo, pelos
-seus robles de Santa Olavia, annos e vendavaes.
-
-Affonso era um pouco baixo, macisso, de hombros quadrados e fortes: e
-com a sua face larga de nariz aquilino, a pelle crada, quasi vermelha,
-o cabello branco todo cortado escovinha, e a barba de neve aguda e
-longa--lembrava, como dizia Carlos, um varo esforado das edades
-heroicas, um D. Duarte de Menezes ou um Affonso d'Albuquerque. E isto
-fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando, quanto as
-apparencias illudem!
-
-No, no era Menezes, nem Albuquerque; apenas um antepassado bonacheiro
-que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o seu _whist_ ao
-canto do fogo. Elle mesmo costumava dizer, que era simplesmente um
-egoista:--mas nunca, como agora na velhice, as generosidades do seu
-corao tinham sido to profundas e largas. Parte do seu rendimento
-ia-se-lhe por entre os dedos, esparsamente, n'uma caridade enternecida.
-Cada vez amava mais o que pobre e o que fraco. Em Santa Olavia, as
-creanas corriam para elle, dos portaes, sentindo-o acariciador e
-paciente. Tudo o que vive lhe merecia amor:--e era dos que no pisam um
-formigueiro, e se compadece da sde d'uma planta.
-
-Villaa costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se conta dos
-patriarchas, quando o vinha encontrar ao canto da chamin, na sua coada
-quinzena de velludilho, sereno, risonho, com um livro na mo, o seu
-velho gato aos ps. Este pesado e enorme angor, branco com malhas
-louras, era agora (desde a morte de _Tobias_, o soberbo co de S.
-Bernardo) o fiel companheiro de Affonso. Tinha nascido em Santa Olavia,
-e recebera ento o nome de Bonifacio: depois, ao chegar edade do amor
-e da caa, fora-lhe dado o appellido mais cavalheiresco de D. Bonifacio
-de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no
-remanso das dignidades ecclesiasticas, e era o Reverendo Bonifacio...
-
-
-Esta existencia nem sempre assim correra com a tranquillidade larga e
-clara d'um bello rio de vero. O antepassado, cujos olhos se enchiam
-agora d'uma luz de ternura diante das suas rosas, e que ao canto do lume
-relia com gosto o seu Guisot, fra, na opinio de seu pae, algum tempo,
-o mais feroz Jacobino de Portugal! E todavia, o furor revolucionario do
-pobre moo consistira em lr Rousseau, Volney, Helvetius, e a
-Encyclopedia; em atirar foguetes de lagrimas Constituio; e ir, de
-chapeu liberal e alta gravata azul, recitando pelas lojas maonicas
-Odes abominaveis ao Supremo Architecto do Universo. Isto, porm, bastra
-para indignar o pae. Caetano da Maia era um portuguez antigo e fiel que
-se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apathia de fidalgo beato
-e doente, tinha s um sentimento vivo--o horror, o odio ao Jacobino,
-aquem attribuia todos os males, os da patria e os seus, desde a perda
-das colonias at s crises da sua gota. Para extirpar da nao o
-Jacobino, dra elle o seu amor ao sr. infante D. Miguel, Messias forte e
-Restaurador providencial... E ter justamente por filho um Jacobino,
-parecia-lhe uma provao comparavel s s de Job!
-
-Ao principio, na esperana que o menino se emendasse, contentou-se em
-lhe mostrar um caro severo e chamar-lhe com sarcasmo--_cidado_! Mas
-quando soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara turba que,
-n'uma noite de festa civica e de luminarias, tinha apedrejado as
-vidraas apagadas do sr. Legado d'ustria, enviado da Santa
-Alliana--considerou o rapaz um Marat e toda a sua colera rompeu. A gota
-cruel, cravando-o na poltrona, no lhe deixou espancar o mao, com a
-sua bengala da India, lei de bom pae portuguez: mas decidiu expulsal-o
-de sua casa, sem mezada e sem beno, renegado como um bastardo! Que
-aquelle pedreiro livre no podia ser do seu sangue!
-
-As lagrimas da mam amolleceram-n'o; sobretudo as razes d'uma cunhada
-de sua mulher, que vivia com elles em Bemfica, senhora irlandeza de alta
-instruco, Minerva respeitada e tutelar, que ensinara inglez ao menino
-e o adorava como um bb. Caetano da Maia limitou-se a desterrar o filho
-para a quinta de Santa Olavia; mas no cessou de chorar no seio dos
-padres, que vinham a Bemfica, a desgraa da sua casa. E esses santos l
-o consolavam, affirmando-lhe que Deus, o velho Deus d'Ourique, no
-permittiria jmais que um Maia pactuasse com Belzebut e com a Revoluo!
-E, falta de Deus Padre, l estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira
-da casa e madrinha do menino, para fazer o bom milagre.
-
-E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa
-Olavia um pouco contricto, enfastiado sobretudo d'aquella solido, onde
-os chs do brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o tero das
-primas Cunhas. Vinha pedir ao pae a beno, e alguns mil cruzados, para
-ir a Inglaterra, esse paiz de vivos prados e de cabellos d'ouro de que
-lhe fallara tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em lagrimas, accedeu
-a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercesso de
-Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da Conceio seu
-confessor, declarou este milagre--no inferior ao de Carnaxide.
-
-Affonso partiu. Era na primavera--e a Inglaterra toda verde, os seus
-parques de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus
-nobres costumes, aquella raa to sria e to forte--encantaram-n'o. Bem
-depressa esqueceu o seu odio aos sorumbaticos padres da Congregao, as
-horas ardentes passadas no caf dos Romulares a recitar Mirabeau, e a
-Republica que quizera fundar, classica e voltarianna, com um triumvirato
-de Scipies e festas ao Ente Supremo. Durante os dias da _Abrilada_
-estava elle nas corridas d'Epsom, no alto d'uma sege de posta, com um
-grande nariz postio, dando _hurrahs_ medonhos--bem indifferente aos
-seus irmos de Maonaria, que a essas horas o sr. infante espicaava a
-chuo, pelas viellas do Bairro Alto, no seu rijo cavallo d'Alter.
-
-Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar a Lisboa. Foi ento que
-conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda
-morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ella. Teve
-um filho, desejou outros; e comeou logo, com bellas idas de patriarcha
-moo, a fazer obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor
-arvoredos, preparando tectos e sombras descendencia amada que lhe
-encantaria a velhice.
-
-Mas no esquecia a Inglaterra:--e tornava-lh'a mais appetecida essa
-Lisboa miguelista que elle via, desordenada como uma Tunis barbaresca;
-essa rude conjurao apostolica de frades e bolieiros, atroando tavernas
-e capellas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do _lausperenne_
-para o curro, e anciando tumultuosamente pelo principe que lhe encarnava
-to bem os vicios e as paixes...
-
-Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas vezes, na paz do
-sero, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignao da
-sua alma honesta. J no exigia de certo, como em rapaz, uma Lisboa de
-Cates e de Mucios-Scevolas. J admittia mesmo o esforo d'uma nobreza
-para manter o seu privilegio historico; mas ento queria uma nobreza
-intelligente e digna, como a Aristocracia tory (que o seu amor pela
-Inglaterra lhe fazia idealisar), dando em tudo a direco moral,
-formando os costumes e inspirando a litteratura, vivendo com fausto e
-fallando com gosto, exemplo de idas altas e espelho de maneiras
-patricias... O que no tolerava era o mundo de Queluz, bestial e
-sordido.
-
-Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as
-crtes geraes, a policia invadiu Bemfica, a procurar papeis e armas
-escondidas.
-
-Affonso da Maia, com o seu filho nos braos e a mulher tremendo ao
-lado--viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas
-arrombadas pela coronha das escopetas, as mos sujas do malsim
-rebuscando os colxes do seu leito. O sr. juiz de fra no descobriu
-nada: acceitou mesmo na copa um calice de vinho, e confessou ao mordomo
-que os tempos iam bem duros... Desde essa manh as janellas do
-palacete conservaram-se cerradas; no se abriu mais o porto nobre para
-sahir o coche da senhora; e d'ahi a semanas, com a mulher e com o filho,
-Affonso da Maia partia para Inglaterra e para o exilio.
-
-Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de
-Londres, junto a Richmond, ao fundo d'um parque, entre as suaves e
-calmas paisagens de Surrey.
-
-Os seus bens, graas ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de D.
-Carlota Joaquina, hoje conselheiro rispido do sr. D. Miguel, no tinham
-sido confiscados; e Affonso da Maia podia viver largamente.
-
-Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do _Belfast_,
-ainda o vieram desassocegar e consumir. A sua alma recta no tardou a
-protestar vendo a separao de castas, de gerarchias, mantidas ali na
-terra estranha entre os vencidos da mesma ida--os fidalgos e os
-desembargadores vivendo no luxo de Londres forra, e a plebe, o
-exercito, depois dos padecimentos da Galliza, succumbindo agora fome,
- vermina, febre nos barraces de Plymouth. Teve logo conflictos com
-os chefes liberaes; foi accusado de vintista e demagogo; descreu por fim
-do liberalismo. Isolou-se ento--sem fechar todavia a sua bolsa, d'onde
-sahiam s cincoenta, s cem moedas... Mas quando a primeira expedio
-partiu, e pouco a pouco se foram vasando os depositos de emigrados,
-respirou emfim--e, como elle disse, pela primeira vez lhe soube bem o ar
-d'Inglaterra!
-
-Mezes depois sua me, que ficara em Bemfica, morria d'uma apoplexia: e a
-tia Fanny veiu para Richmond completar a felicidade d'Affonso, com o seu
-claro juizo, os seus caraces brancos, os seus modos de discreta
-Minerva. Alli estava elle pois no seu sonho, n'uma digna residencia
-ingleza, entre arvores seculares, vendo em redor nas vastas relvas
-dormirem ou pastarem os gados de luxo, e sentindo em torno de si tudo
-so, forte, livre e solido,--como o amava o seu corao.
-
-Teve relaes; estudou a nobre e rica litteratura ingleza;
-interessou-se, como convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura,
-pela cria dos cavallos, pela pratica da caridade;--e pensava com prazer
-em ficar ali para sempre n'aquella paz e n'aquella ordem.
-
-Smente Affonso sentia que sua mulher no era feliz. Pensativa e triste,
-tossia sempre pelas salas. noite sentava-se ao fogo, suspirava e
-ficava calada...
-
-Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a
-minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e
-sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo
-quella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada,
-abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas
-arvores, o seu corao no estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa,
-nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoo (a devoo dos
-Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se quella hostilidade
-ambiente que ella sentia em redor contra os papistas. E s se
-satisfazia noite, indo refugiar-se no soto com as creadas
-portuguezas, para resar o _tero_ agachada n'uma esteira--gosando ali,
-n'esse murmurio _d'ave-marias_ em paiz protestante, o encanto de uma
-conjurao catholica!
-
-Odiando tudo o que era inglez, no consentira que seu filho, o Pedrinho,
-fosse estudar ao collegio de Richmond. Debalde Affonso lhe provou que
-era um collegio catholico. No queria: aquelle catholicismo sem
-romarias, sem fogueiras pelo S. Joo, sem imagens do Senhor dos Passos,
-sem frades nas ruas--no lhe parecia a religio. A alma do seu Pedrinho
-no abandonaria ella heresia;--e para o educar mandou vir de Lisboa o
-padre Vasques, capello do Conde de Runa.
-
-O Vasques ensinava-lhe as declinaes latinas, sobretudo a cartilha: e a
-face d'Affonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d'alguma
-caada ou das ruas de Londres, d'entre o forte rumor da vida
-livre--ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo,
-perguntando como do fundo d'uma treva:
-
---Quantos so os inimigos da alma?
-
-E o pequeno, mais dormente, l ia murmurando:
-
---Tres. Mundo, Diabo e Carne...
-
-Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma s havia alli o reverendo Vasques,
-obeso e sordido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o leno do rap
-sobre o joelho...
-
-s vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina,
-agarrava a mo do Pedrinho--para o levar, correr com elle sob as arvores
-do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da
-cartilha. Mas a mam accudia de dentro, em terror, a abafal-o n'uma
-grande manta: depois l fra o menino, acostumado ao collo das creadas e
-aos recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores: e pouco a
-pouco, n'um passo desconsolado, os dois iam pisando em silencio as
-folhas seccas--o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pae
-vergando os hombros pensativo, triste d'aquella fraqueza do filho...
-
-Mas o menor esforo d'elle para arrancar o rapaz quelles braos de me
-que o amolleciam, quella cartilha mortal do padre Vasques--trazia logo
- delicada senhora accessos de febre. E Affonso no se atrevia j a
-contrariar a pobre doente, to virtuosa, e que o amava tanto! Ia ento
-lamentar-se para o p da tia Fanny: a sabia irlandeza mettia os oculos
-entre as folhas do seu livro, tratado d'Addisson ou poema de Pope, e
-encolhia melancolicamente os hombros. Que podia ella fazer!...
-
-Por fim a tosse de Maria Eduarda foi augmentando--como a tristeza das
-suas palavras. J fallava da sua ambio derradeira, que era ver o sol
-uma vez mais! Por que no voltariam a Bemfica, ao seu lar, agora que o
-sr. Infante estava tambem desterrado e que havia uma grande paz? Mas a
-isso Affonso no cedeu: no queria ver outra vez as suas gavetas
-arrombadas a coronhadas--e os soldados do sr. D. Pedro no lhe davam
-mais garantias que os malsins do sr. D. Miguel.
-
-Por esse tempo veio um grave desgosto casa: a tia Fanny morreu, d'uma
-pneumonia, nos frios de maro; e isto ennegreceu mais a melancolia de
-Maria Eduarda, que a amava muito tambem--por ser irlandeza e catholica.
-
-Para a distrahir, Affonso levou-a para a Italia, para uma deliciosa
-_villa_ ao p de Roma. Ahi no lhe faltava o sol: tinha-o ponctual e
-generoso todas as manhs, banhando largamente os terraos, dourando
-loureiraes e myrtos. E depois, l em baixo, entre marmores, estava a
-coisa preciosa e santa, o Papa!
-
-Mas a triste senhora continuava a choramigar. O que realmente appetecia
-era Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as
-procisses passando n'um rumor de pachorrenta penitencia por tardes de
-sol e de poeira...
-
-Foi necessario calmal-a, voltar a Bemfica.
-
-Ahi comeou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava lentamente,
-todos os dias mais pallida, levando semanas immovel sobre um canap, com
-as mos transparentes cruzadas sobre as suas grossas pelles
-d'Inglaterra. O padre Vasques, apoderando-se d'aquella alma aterrada
-para quem Deus era um amo feroz, tornra-se o grande homem da casa. De
-resto Affonso encontrava a cada momento pelos corredores outras figuras
-canonicas, de capote e solideo, em que reconhecia antigos franciscanos,
-ou algum magro capuchinho parasitando no bairro; a casa tinha um bafio
-de sachristia; e dos quartos da senhora vinha constantemente, dolente e
-vago, um rumor de ladainha.
-
-Todos aquelles santos vares comiam, bebiam o seu vinho do Porto na
-copa. As contas do administrador appareciam sobrecarregadas com as
-mesadas piedosas que dava a senhora: um Frei Patricio surripira-lhe
-duzentas missas de cruzado por alma do Sr. D. Jos I...
-
-Esta carolice que o cercava ia lanando Affonso n'um atheismo rancoroso:
-quereria as egrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a
-machado, uma matana de reverendos... Quando sentia na casa a voz de
-resas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante,
-ler o seu Voltaire: ou ento partia a desabafar com o seu velho amigo, o
-coronel Sequeira, que vivia n'uma quinta a Queluz.
-
-O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso
-como Maria Eduarda, tendo pouco da raa, da fora dos Maias; a sua linda
-face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e
-irresistiveis; promptos sempre a humedecer-se, faziam-n'o assemelhar a
-um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades,
-indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum desejo
-forte parecera jmais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva:
-s s vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tomra
-birra ao Padre Vasques, mas no ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um
-fraco; e esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a
-espaos em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo,
-murcho, amarello, com as olheiras fundas e j velho. O seu unico
-sentimento vivo, intenso, at ahi, fra a paixo pela me.
-
-Affonso quizera-o mandar para Coimbra. Mas, ida de se separar do seu
-Pedro, a pobre senhora cahira de joelhos deante d'Affonso, balbuciando e
-tremendo: e elle, naturalmente, l cedeu perante essas mos
-supplicantes, essas lagrimas que cahiam quatro a quatro pela pobre face
-de cera. O menino continuou em Bemfica dando os seus lentos passeios a
-cavallo, de creado de farda atraz, comeando j a ir beber a sua genebra
-aos botequins de Lisboa... Depois foi despontando n'aquella organisao
-uma grande tendencia amorosa: aos dezenove annos teve o seu
-bastardosinho.
-
-Affonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de to desgraados
-mimos, no faltavam ao rapaz qualidades: era muito esperto, so, e, como
-todos os Maias, valente: no havia muito que elle s, com um chicote,
-dispersara na estrada tres saloios de varapau que lhe tinham chamado
-_palmito_.
-
-Quando a me morreu, n'uma agonia terrivel de devota, debatendo-se dias
-nos pavores do inferno, Pedro teve na sua dr os arrebatamentos d'uma
-loucura. Fizera a promessa hysterica, se ella escapasse, de dormir
-durante um anno sobre as lageas do pateo: e levado o caixo, sahidos os
-padres, cahio n'uma angustia soturna, obtusa, sem lagrimas, de que no
-queria emergir, estirado de bruos sobre a cama n'uma obstinao de
-penitente. Muitos mezes ainda no o deixou uma tristeza vaga: e Affonso
-da Maia j se desesperava de ver aquelle rapaz, seu filho e seu
-herdeiro, sahir todos os dias a passos de monge, lugubre no seu luto
-pesado, para ir visitar a sepultura da mam...
-
-Esta dr exagerada e morbida cessou por fim; e succedeu-lhe, quasi sem
-transio, um periodo de vida dissipada e turbulenta, estroinice banal,
-em que Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava affogar em
-lupanares e botequins as saudades da mam. Mas essa exhuberancia anciosa
-que se desencadeara to subitamente, to tumultuosamente, na sua
-natureza desequilibrada, gastou-se depressa tambem.
-
-Ao fim d'um anno de disturbios no Marrare, de faanhas nas esperas de
-toiros, de cavallos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, comearam a
-reapparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias
-taciturnos, longos como desertos, passados em casa a bocejar pelas
-salas, ou sob alguma arvore da quinta todo estirado de bruos, como
-despenhado n'um fundo de amargura. N'esses periodos tornava-se tambem
-devoto: lia Vidas de Santos, visitava o Lausperenne: eram d'esses
-bruscos abatimentos d'alma que outr'ora levavam os fracos aos mosteiros.
-
-Isto penalisava Affonso da Maia: preferia saber que elle recolhera de
-Lisboa, de madrugada, exhausto e bebedo,--do que vel-o, de ripano
-debaixo do brao, com um ar velho, marchando para a Egreja de Bemfica.
-
-E havia agora uma ida que, a seu pesar, s vezes o torturava:
-descobrira a grande parecena de Pedro com um av de sua mulher, um
-Runa, de quem existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinario,
-com que na casa se mettia medo s creanas, enlouquecera--e julgando-se
-Judas enforcara-se n'uma figueira...
-
-Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava! Era um amor
- Romeu, vindo de repente n'uma troca de olhares fatal e deslumbradora,
-uma d'essas paixes que assaltam uma existencia, a assolam como um
-furaco, arrancando a vontade, a raso, os respeitos humanos e
-empurrando-os de roldo aos abysmos.
-
-N'uma tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, porta de M.^{me}
-Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapo branco, e uma
-senhora loira, embrulhada n'um chale de Cashmira.
-
-O velho, baixote e reforado, de barba muito grisalha talhada por baixo
-do queixo, uma face tisnada d'antigo embarcadio e o ar gche, desceu
-todo encostado ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse, entrou
-arrastando a perna o portal da modista; e ella voltando de vagar a
-cabea olhou um momento o Marrare.
-
-Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto os cabellos loiros, d'um
-oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e classica: os olhos
-maravilhosos illuminavam-n'a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida a
-carnao de marmore: e com o seu perfil grave de estatua, o modelado
-nobre dos hombros e dos braos que o chale cingia--pareceu a Pedro
-n'esse instante alguma cousa d'immortal e superior terra.
-
-No a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido
-de negro, que fumava encostado outra hombreira, n'uma _pose_ de
-tedio--vendo o violento interesse de Pedro, o olhar acceso e perturbado
-com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veiu tomar-lhe o brao,
-murmurou-lhe junto face na sua voz grossa e lenta:
-
---Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e
-os feitos principaes? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso
-Alencar, uma garrafa de Champagne?
-
-Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos
-anneis da cabelleira e pelas pontas do bigode, comeou, todo recostado e
-dando um pucho aos punhos:
-
---Por uma dourada tarde d'outomno...
-
---Andr, gritou Pedro ao creado, martellando o marmore da mesa, retira o
-Champagne!
-
-O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio:
-
---O qu! Sem saciar a avidez de meu labio?...
-
-Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o
-poeta das _Vozes d'Aurora_, explicaria aquella gente da caleche azul
-n'uma linguagem christ e pratica!...
-
---Ahi vae, meu Pedro, ahi vae!
-
-Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera a mam, aquelle velho,
-o pap Monforte, uma manh rompera subitamente pelas ruas e pela
-sociedade de Lisboa n'aquella mesma caleche com essa bella filha ao seu
-lado. Ninguem os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no
-palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a apparecer em S. Carlos,
-fazendo uma impresso--uma impresso de causar aneurismas, dizia o
-Alencar! Quando ella atravessava o salo os hombros vergavam-se no
-deslumbramento de aurola que vinha d'aquella magnifica creatura,
-arrastando com um passo de Deusa a sua cauda de crte, sempre decotada
-como em noites de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias. O
-pap nunca lhe dava o brao: seguia atraz, entalado n'uma grande gravata
-branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadio na
-claridade loira que sahia da filha, encolhido e quasi apavorado,
-trazendo nas mos o oculo, o _libretto_, um saco de _bonbons_, o leque e
-o seu proprio guardachuva. Mas era no camarote, quando a luz cahia sobre
-o seu collo eburneo e as suas tranas de oiro, que ella offerecia
-verdadeiramente a encarnao d'um ideal da Renascena, um modelo de
-Ticiano... Elle, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara,
-mostrando-a a ella e s outras, s trigueirotas da assignatura:
-
---Rapazes! como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo
-do Sr. D. Joo VI!
-
-O Magalhes, esse torpe pirata, pozera o dito n'um folhetim do
-_Portuguez_. Mas o dito era d'elle, Alencar!
-
-Os rapazes, naturalmente, comearam logo a rondar o palacete de Arroios.
-Mas nunca n'aquella casa se abria uma janella. Os criados interrogados
-disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava
-Manoel. Emfim uma creada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem
-era taciturno, tremia deante da filha, e dormia n'uma rde; a senhora,
-essa, vivia n'um ninho de sedas todo azul-ferrte, e passava o seu dia a
-ler novellas. Isto no podia satisfazer a sofreguido de Lisboa. Fez-se
-uma devassa methodica, habil, paciente... Elle, Alencar, pertencera
-devassa.
-
-E souberam-se horrores. O pap Monforte era dos Aores; muito moo, uma
-facada n'uma rixa, um cadaver a uma esquina tinham-n'o forado a fugir a
-bordo d'um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da
-casa de Taveira, que o conhecera nos Aores, estando na Havana a estudar
-a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas
-encontrra l o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando
-pelo caes, de chinellas de esparto, procura de embarque para a
-Nova-Orleans. Aqui havia uma treva na historia do Monforte. Parece que
-servira algum tempo de feitor n'uma plantao da Virginia... Emfim,
-quando reappareceu face dos cos commandava o brigue _Nova Linda_, e
-levava cargas de pretos para o Brazil, para a Havana e para a Nova
-Orleans.
-
-Escapara aos cruzeiros inglezes, arrancra uma fortuna da pelle do
-africano, e agora rico, homem de bem, proprietario, ia ouvir a Corelli a
-S. Carlos. Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar, obscura
-e mal provada, claudicava aqui e alm...
-
---E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, serio e pallido.
-
-Mas isso no o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim to loira e
-bella? Quem fra a mam? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com
-aquelle gesto real no seu chale de Cashmira?...
-
---Isso, meu Pedro, so
-
-
- mysterios que jmais poude Lisboa
- astuta devassar e s Deus sabe!
-
-
-Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquella legenda de sangue e
-negros, o enthusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue
-de assassino, a _belt_ do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras,
-deliciando-se em villipendiar uma mulher to loira, to linda e com
-tantas joias, chamaram-lhe logo a _negreira_! Quando ella apparecia
-agora no theatro, D. Maria da Gama affectava esconder a face detraz do
-leque, porque lhe parecia ver na rapariga (sobretudo quando ella usava
-os seus bellos rubis) o sangue das facadas que dera o papzinho! E
-tinham-n'a calumniado abominavelmente. Assim, depois de passarem em
-Lisboa o primeiro inverno, os Monfortes sumiram-se: pois disse-se logo,
-com furor, que estavam arruinados, que a policia perseguia o velho, mil
-perversidades... O excellente Monforte, que soffre de rheumatismos
-articulares, achava-se tranquillamente, ricamente, tomando as aguas dos
-Piryneus... Fora l que o Mello os conhecera...
-
---Ah! o Mello conhece-os? exclamou Pedro.
-
---Sim, meu Pedro, o Mello os conhece.
-
-Pedro d'ahi a um momento deixou o Marrare; e n'essa noite, antes de
-recolher, apesar da chuva fria e miuda, andou rondando uma hora, com a
-imaginao toda accesa, o palacete dos Vargas apagado e mudo. Depois,
-d'ahi a duas semanas o Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro
-acto do _Barbeiro_, ficou assombrado ao ver Pedro da Maia installado na
-frisa da Monforte, frente, ao lado de Maria, com uma camelia escarlate
-na casaca--egual s d'um ramo pousado no rebordo de velludo.
-
-Nunca Maria Monforte apparecera mais bella: tinha uma d'essas
-_toilettes_ excessivas e theatraes que offendiam Lisboa, e faziam dizer
-s senhoras que ella se vestia como uma comica. Estava de seda cr de
-trigo, com duas rosas amarellas e uma espiga nas tranas, opalas sobre o
-collo e nos braos; e estes tons de ceara madura batida do sol,
-fundindo-se com o ouro dos cabellos, illuminando-lhe a carnao eburnea,
-banhando as suas frmas de estatua, davam-lhe o esplendor d'uma Ceres.
-Ao fundo entreviam-se os grandes bigodes loiros do Mello, que conversava
-de p com o pap Monforte--escondido como sempre no canto negro da
-frisa.
-
-O Alencar foi observar o caso do camarote dos Gamas. Pedro voltra
-sua cadeira, e de braos cruzados contemplava Maria. Ella conservou
-algum tempo a sua attitude de Deusa insensivel; mas, depois, no duetto
-de Rosina e Lindor, duas vezes os seus olhos azues e profundos se
-fixaram n'elle, gravemente e muito tempo. O Alencar, correu ao Marrare,
-de braos ao ar, a berrar a novidade.
-
-No tardou de resto a fallar-se em toda a Lisboa da paixo de Pedro da
-Maia pela _negreira_. Elle tambem namorou-a publicamente, antiga,
-plantado a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos
-cravados na janella d'ella, immovel e pallido d'extasi.
-
-Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel--poemas
-desordenados que ia compr para o Marrare: e ninguem l ignorava o
-destino d'aquellas paginas de linhas encruzadas que se accumulavam
-deante d'elle sobre o taboleiro da genebra. Se algum amigo vinha porta
-do caf perguntar por Pedro da Maia, os criados j respondiam muito
-naturalmente:
-
---O sr. D. Pedro? Est a escrever menina.
-
-E elle mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a mo, exclamava
-radiante, com o seu bello e franco sorriso:
-
---Espera ahi um bocado, rapaz, estou a escrever Maria!
-
-Os velhos amigos de Affonso da Maia que vinham fazer o seu _whist_ a
-Bemfica, sobretudo o Villaa, o administrador dos Maias, muito zeloso da
-dignidade da casa, no tardaram em lhe trazer a nova d'aquelles amores
-do Pedrinho. Affonso j os suspeitava: via todos os dias um criado da
-quinta partir com um grande ramo das melhores camelias do jardim; todas
-as manhs cedo encontrava no corredor o escudeiro, dirigindo-se ao
-quarto do menino, a cheirar regaladamente o perfume d'um enveloppe com
-sinete de lacre dourado;--e no lhe desagradava que um sentimento
-qualquer, humano e forte, lhe fosse arrancando o filho estroinice
-bulhenta, ao jogo, s melancolias sem raso em que reapparecia o negro
-ripano...
-
-Mas ignorava o nome, a existencia sequer dos Monfortes; e as
-particularidades que os amigos lhe revelaram, aquella facada nos Aores,
-o chicote de feitor na Virginia, o brigue _Nova Linda_, toda a sinistra
-legenda do velho contrariou muito Affonso da Maia.
-
-Uma noite que o coronel Sequeira, mesa do _whist_, contava que vira
-Maria Monforte e Pedro passeando a cavallo, ambos muito bem e muito
-_distingus_, Affonso, depois d'um silencio, disse com um ar
-enfastiado:
-
---Emfim, todos os rapazes teem as suas amantes... Os costumes so assim,
-a vida assim, e seria absurdo querer reprimir taes cousas. Mas essa
-mulher, com um pae d'esses, mesmo para amante acho m.
-
-O Villaa suspendeu o baralhar das cartas, e ageitando os oculos d'ouro
-exclamou com espanto:
-
---Amante! Mas a rapariga solteira, meu senhor, uma menina
-honesta!...
-
-Affonso da Maia enchia o seu cachimbo; as mos comearam a tremer-lhe; e
-voltando-se para o administrador, n'uma voz que tremia um pouco tambem:
-
---O Villaa de certo no suppe que meu filho queira casar com essa
-creatura...
-
-O outro emmudeceu. E foi o Sequeira que murmurou:
-
---Isso no, est claro que no...
-
-E o jogo continuou algum tempo em silencio.
-
-Mas Affonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas
-que Pedro no jantava em Bemfica. De manh, se o via, era um momento,
-quando elle descia ao almoo, j com uma luva calada, apressado e
-radiante, gritando para dentro se estava sellado o cavallo; depois,
-mesmo de p, bebia um gole de ch, perguntava a correr se o pap queria
-alguma cousa, dava um geito ao bigode deante do grande espelho de
-Veneza sobre o fogo, e l partia, enlevado. Outras vezes todo o dia no
-sahia do quarto: a tarde descia, accendiam-se as luzes; at que o pae,
-inquieto, subia, ia encontral-o estirado sobre o leito, com a cabea
-enterrada nos braos.
-
---Que tens tu?--perguntava-lhe.
-
---Enchaqueca,--respondia n'um tom surdo e rouco.
-
-E Affonso descia indignado, vendo em toda aquella angustia covarde
-alguma carta que no viera, ou talvez uma rosa offerecida que no fra
-posta nos cabellos...
-
-Depois, por vezes, entre dois _robbers_ ou conversando em volta da
-bandeja do ch, os seus amigos tinham observaes que o inquietavam,
-partindo d'aquelles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os
-rumores--emquanto elle passava alli, inverno e vero, entre os seus
-livros e as suas rosas. Era o excellente Sequeira que perguntava porque
-no faria Pedro uma viagem longa, para se instruir, Allemanha, ao
-Oriente? Ou o velho Luiz Runa, o primo d'Affonso, que, a proposito de
-cousas indifferentes, rompia lamentando os tempos em que o Intendente da
-policia podia livremente expulsar de Lisboa as pessoas importunas...
-Evidentemente alludiam Monforte, evidentemente julgavam-n'a perigosa.
-
-No vero, Pedro partiu para Cintra; Affonso soube que os Monfortes
-tinham l alugado uma casa. Dias depois o Villaa appareceu em Bemfica,
-muito preoccupado: na vespera Pedro visitara-o no cartorio, pedira-lhe
-informaes sobre as suas propriedades, sobre o meio de levantar
-dinheiro. Elle l lhe dissera que em setembro, chegando sua
-maioridade, tinha a legitima da mam...
-
---Mas no gostei d'isto, meu senhor, no gostei d'isto...
-
---E porque, Villaa? O rapaz querer dinheiro, querer dar presentes
-creatura... O amor um luxo caro, Villaa.
-
---Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o oua!
-
-E aquella confiana to nobre de Affonso da Maia no orgulho patricio,
-nos brios de raa de seu filho, chegava a tranquillisar Villaa.
-
-D'ahi a dias, Affonso da Maia viu emfim Maria Monforte. Tinha jantado na
-quinta do Sequeira ao p de Queluz, e tomavam ambos o seu caf no
-mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche
-azul com os cavallos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma
-sombrinha escarlate, trazia um vestido cr de rosa cuja roda, toda em
-folhos, quasi cobria os joelhos de Pedro sentado ao seu lado: as fitas
-do seu chapo, apertadas n'um grande lao que lhe enchia o peito, eram
-tambem cr de rosa: e a sua face, grave e pura como um marmore grego,
-apparecia realmente adoravel, illuminada pelos olhos d'um azul sombrio,
-entre aquelles tons rosados. No assento defronte, quasi todo tomado por
-cartes de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapo panam,
-cala de ganga, o mantelete da filha no brao, o guarda sol entre os
-joelhos. Iam callados, no viram o mirante; e, no caminho verde e
-fresco, a caleche passou com balanos lentos, sob os ramos que roavam a
-sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chavena de caf junto aos
-labios, de olho esgazeado, murmurando:
-
---Caramba! bonita!
-
-Affonso no respondeu: olhava cabisbaixo aquella sombrinha escarlate,
-que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvel-o
-todo--como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde
-triste das ramas.
-
-O outono passou, chegou o inverno, frigidissimo. Uma manh, Pedro entrou
-na livraria onde o pae estava lendo junto ao fogo; recebeu-lhe a
-beno, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se
-bruscamente para elle:
-
---Meu pae,--disse, esforando-se por ser claro e decidido--venho
-pedir-lhe licena para casar com uma senhora que se chama Maria
-Monforte.
-
-Affonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e n'uma voz grave e
-lenta:
-
---No me tinhas fallado d'isso... Creio que a filha d'um assassino,
-d'um negreiro, a quem chamam tambem a _negreira_...
-
---Meu pae!...
-
-Affonso ergueu-se diante d'elle, rigido e inexoravel como a encarnao
-mesma da honra domestica.
-
---Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha.
-
-Pedro, mais branco que o leno que tinha na mo, exclamou todo a tremer,
-quasi em soluos:
-
---Pois pde estar certo, meu pae, que hei de casar!
-
-Sahiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo
-escudeiro, muito alto para que o pae ouvisse, e deu-lhe ordem para levar
-as suas malas ao hotel da Europa.
-
-Dois dias depois Villaa entrou em Bemfica, com as lagrimas nos olhos,
-contando que o menino casra n'essa madrugada--e segundo lhe dissera o
-Sergio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Italia.
-
-Affonso da Maia sentra-se n'esse instante mesa do almoo, posta ao p
-do fogo: ao centro, um ramo esfolhava-se n'um vaso do Japo, chamma
-forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o numero da
-_Grinalda_, jornal de versos que elle costumava receber... Affonso ouviu
-o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente o seu
-guardanapo.
-
---J almoou, Villaa?
-
-O procurador, assombrado d'aquella serenidade, balbuciou:
-
---J almocei, meu senhor...
-
-Ento Affonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro:
-
---Pde tirar d'alli esse talher, Teixeira. D'aqui por diante ha s um
-talher mesa... Sente-se, Villaa, sente-se.
-
-O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indifferena o talher do
-menino. Villaa sentra-se. Tudo em redor era correto e calmo como nas
-outras manhs em que almoara em Bemfica. Os passos do escudeiro no
-faziam ruido no tapete fofo; o lume estalava alegremente, pondo retoques
-d'ouro nas pratas polidas; o sol discreto que brilhava fra no azul
-d'inverno fazia scintillar crystaes de geada nas ramas seccas; e
-janella o papagaio, muito patula e educado por Pedro, rosnava injurias
-aos Cabraes.
-
-Por fim Affonso ergueu-se; esteve olhando abstrahidamente a quinta, os
-paves no terrasso; depois ao sahir da sala tomou o brao de Villaa,
-apoiou-se n'elle com fora, como se lhe tivesse chegado a primeira
-tremura da velhice, e no seu abandono sentisse alli uma amizade segura.
-Seguiram o corredor, callados. Na livraria Affonso foi occupar a sua
-poltrona ao p da janella, comeou a encher de vagar o seu cachimbo.
-Villaa, de cabea baixa, passeava ao comprido das altas estantes, nas
-pontas dos ps, como no quarto d'um doente. Um bando de pardaes veiu
-gralhar um momento nos ramos d'uma alta arvore que roava a varanda.
-Depois houve um silencio, e Affonso da Maia disse:
-
---Ento, Villaa, o Saldanha l foi demittido do Pao?...
-
-O outro respondeu, vaga e machinalmente:
-
--- verdade, meu senhor, verdade...
-
-E no se fallou mais de Pedro da Maia.
-
-
-
-
-II
-
-
-Pedro e Maria, no entanto, n'uma felicidade de novella, iam descendo a
-Italia, a pequenas jornadas, de cidade em cidade, n'essa via sagrada que
-vae desde as flores e das messes da planicie lombarda at ao molle paiz
-de romanza, Napoles, branca sob o azul. Era l que tencionavam passar o
-inverno, n'esse ar sempre tepido junto a um mar sempre manso, onde as
-preguias de noivado teem uma suavidade mais longa... Mas um dia, em
-Roma, Maria sentiu o appetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar
-assim, aos balouos das caleas, s para ir ver _lazzaroni_ engolir fios
-de macarro. Quanto melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos
-Elyseos, e gozarem alli um lindo inverno de amor! Paris estava seguro,
-agora, com o principe Luiz Napoleo... Alm d'isso, aquella velha Italia
-classica enfastiava-a j: tantos marmores eternos, tantas _madonas_
-comeavam (como ella dizia pendurada languidamente do pescoo de Pedro)
-a dar tonturas sua pobre cabea! Suspirava por uma boa loja de modas,
-sob as chammas do gaz, ao rumor do boulevard... Depois tinha medo da
-Italia onde todo mundo conspirava.
-
-Foram para Frana.
-
-Mas por fim aquelle Paris ainda agitado, onde parecia restar um vago
-cheiro de polvora pelas ruas, onde cada face conservava um calor de
-batalha, desagradou a Maria. De noite accordava com a _Marselheza_;
-achava um ar feroz policia; tudo permanecia triste; e as duquezas,
-pobres anjos, ainda no ousavam vir ao _Bois_, com medo dos operarios,
-corja insaciavel! Emfim demoraram-se l at a primavera, no ninho que
-ella sonhra, todo de velludo azul, abrindo sobre os Campos Elyseos.
-
-Depois principiou a fallar-se de novo em revoluo, em golpe d'estado. A
-admirao absurda de Maria pelos novos uniformes da _garde-mobile_ fazia
-Pedro nervoso. E quando ella appareceu gravida, anciou por a tirar
-d'aquelle Paris batalhador e fascinante, vir abrigal-a na pacata Lisboa
-adormecida ao sol.
-
-Antes de partir porm escreveu ao pae.
-
-Fra um conselho, quasi uma exigencia de Maria. A recusa de Affonso da
-Maia ao principio desesperara-a. No a affligia a desunio domestica:
-mas aquelle _no_ affrontoso de fidalgo puritano marcara muito
-publicamente, muito brutalmente, a sua origem suspeita! Odiou o velho: e
-tinha apressado o casamento, aquella partida triumphante para Italia,
-para lhe mostrar bem que nada valiam genealogias, avs godos, brios de
-familia--deante dos seus braos nus... Agora porm que ia voltar a
-Lisboa, dar _soires_, crear crte, a reconciliao tornava-se
-indispensavel; aquelle pae retirado em Bemfica, com o rigido orgulho de
-outras edades, faria lembrar constantemente, mesmo entre os seus
-espelhos e os seus estofos, o brigue _Nova Linda_ carregado de negros...
-E queria mostrar-se a Lisboa pelo brao d'esse sogro to nobre e to
-ornamental, com as suas barbas de Viso-rei.
-
---Dize-lhe que j o adoro, murmurava ella curvada sobre a escrivaninha
-acariciando os cabellos de Pedro. Dize-lhe que se tiver um pequeno lhe
-hei de pr o nome d'elle... Escreve-lhe uma carta bonita, hein!
-
-E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao pap. O pobre rapaz amava-o.
-Fallou-lhe commovido da esperana de ter um filho varo; as
-desintelligencias deviam findar em torno do bero d'aquelle pequeno Maia
-que alli vinha, morgado e herdeiro do nome... Contava-lhe a sua
-felicidade, com uma effuso de namorado indiscreto: a historia da
-bondade de Maria, das suas graas, da sua instruco, enchia duas
-paginas: e jurava-lhe que apenas chegasse no tardaria uma hora em ir
-atirar-se aos seus ps...
-
-Com effeito, apenas desembarcou, correu n'um trem a Bemfica. Dois dias
-antes o pae partira para S.^{ta} Olavia: isto pareceu-lhe uma
-desfeita--e feriu-o acerbamente.
-
-Fez-se ento entre o pae e o filho uma grande separao. Quando lhe
-nasceu uma filha Pedro no lh'o participou--dizendo dramaticamente ao
-Villaa que j no tinha pae! Era uma linda bb, muito gorda, loira e
-cr de rosa, com os bellos olhos negros dos Maias. Apesar do desejo de
-Pedro, Maria no a quiz crear; mas adorava-a com phrenesi; passava dias
-de joelhos ao p do bero, em extasi, correndo as suas mos cheias de
-pedrarias pelas carninhas tenras; pondo-lhe beijos de devota nos
-psinhos, na rosquinha das cxas, balbuciando-lhe n'um enlevo nomes de
-grande amor, e perfumando-a j, enchendo-a j de laarotes.
-
-E n'estes delirios pela filha, brotava, mais amarga, a sua colera contra
-Affonso da Maia. Considerava-se ento insultada em si mesma e n'aquelle
-cherubim que lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe
-o _D. Fuas_, o _Barbatanas_...
-
-Pedro um dia ouviu isto, e escandalisou-se: ella replicou
-desabridamente: e deante d'aquella face abrazada, onde entre lagrimas os
-olhos azues pareciam negros de colera, elle s poude balbuciar
-timidamente:
-
--- meu pae, Maria...
-
-Seu pae! E face de toda a Lisboa tratava-a ento como uma concubina!
-Podia ser um fidalgo, as maneiras eram de villo. Um _D. Fuas_, um
-_Barbatanas_, nada mais!...
-
-Arrebatou a filha, e abraada n'ella, romperam as queixas por entre os
-prantos:
-
---Ninguem nos ama, meu anjo! Ninguem te quer! Tens s a tua me!
-Tratam-te como se fosses bastarda!
-
-A beb, sacudida nos braos da me, desatou a gritar. Pedro correu,
-envolveu-as ambas no mesmo abrao, j enternecido, j humilde; e tudo
-terminou n'um longo beijo.
-
-E elle, por fim, no seu corao, justificava aquella colera de me que
-v desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos de Pedro, o
-Alencar, o D. Joo da Cunha, que comeavam agora a frequentar Arroios,
-riam d'aquella obstinao de pae gothico, amuado na provincia, porque
-sua nora no tivera avs mortos em Aljubarrota! E onde havia outra em
-Lisboa, com aquellas _toilettes_, aquella graa, recebendo to bem? Que
-diabo, o mundo marchara, sahira-se j das attitudes empertigadas do
-seculo XVI!
-
-E o proprio Villaa, um dia que Pedro lhe fra mostrar a pequerruchinha
-adormecida entre as rendas do seu bero, sensibilisou-se, veio-lhe uma
-das suas faceis lagrimas, declarou, com a mo no corao, que aquillo
-era uma caturrice do sr. Affonso da Maia!
-
---Pois peior para elle! no querer ver um anjo d'estes! disse Maria,
-dando deante do espelho um lindo geito s flores do cabello. Tambem no
-faz c falta...
-
-E no fazia falta. N'esse outubro, quando a pequena completou o seu
-primeiro anno, houve um grande baile na casa de Arroios, que elles agora
-occupavam toda, e que fra ricamente remobilada. E as senhoras que
-outr'ora tinham horror _negreira_, a D. Maria da Gama que escondia a
-face por traz do leque, l vieram todas, amaveis e decotadas, com o
-beijinho prompto, chamando-lhe querida, admirando as grinaldas de
-camelias que emmolduravam os espelhos de quatrocentos mil ris, e
-gozando muito os gelados.
-
-Comeara ento uma existencia festiva e luxuosa, que, segundo dizia o
-Alencar, o intimo da casa, o corteso de Madame, tinham um saborsinho
-d'orgia _distingue_ como os poemas de Byron. Eram realmente as
-_soires_ mais alegres de Lisboa: ceiava-se uma hora com Champagne;
-talhava-se at tarde um _monte_ forte; inventavam-se quadros vivos, em
-que Maria se mostrara soberanamente bella sob as roupagens classicas de
-Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites mais
-intimas, ella costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha
-perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a
-bater carambola franceza D. Joo da Cunha, o grande taco da epoca.
-
-E no meio d'esta festana, atravessada pelo sopro romantico da
-Regenerao, l se via sempre, taciturno e encolhido, o pap Monforte,
-d'alta gravata branca, com as mos atraz das costas, rondando pelos
-cantos, refugiado pelos vos das janellas, mostrando-se s para salvar
-alguma bobche que a estalar--e no desprendendo nunca da filha o olho
-embevecido e senil.
-
-Nunca Maria fra to formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais
-copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz quellas altas salas de
-Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das
-tranas, o eburneo e o lacteo do collo nu, e o rumor das grandes sedas.
-Com raso, querendo ter, maneira das damas da Renascena, uma flr que
-a symbolisasse, escolhera a tulipa real opulenta e ardente.
-
-Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do valor de
-propriedades!... Podia fazel-o! o marido era rico, e ella sem escrupulo
-arruinal-o-hia, a elle e ao pap Monforte...
-
-Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar esse
-proclamava-se com alarido seu cavalleiro e seu poeta. Estava sempre em
-Arroios, tinha l o seu talher: por aquellas salas soltava as suas
-phrases ressoantes, por esses sophs arrastava as suas _poses_ de
-melancolia. Ia dedicar a Maria (e nada havia mais extraordinario que o
-tom langoroso e plangente, o olho turvo, fatal, com que elle pronunciava
-este nome--Maria!) ia dedicar-lhe o seu poema, to annunciado, to
-esperado--Flor de Martyrio! E citavam-se as estrophes que lhe fizera ao
-gosto cantante do tempo:
-
-
- Vi-te essa noite no explendor das sallas
- Com as loiras tranas volteando louca...
-
-
-A paixo do Alencar era innocente: mas, dos outros intimos da casa, mais
-d'um de certo balbuciara j a sua declarao no _boudoir_ azul em que
-ella recebia s tres horas, entre os seus vasos de tulipas; as suas
-amigas porm, mesmo as peiores, affirmavam que os seus favores nunca
-teriam passado de alguma rosa dada n'um vo de janella, ou de algum
-longo e suave olhar por traz do leque. Pedro todavia comeava a ter
-horas sombrias. Sem sentir ciumes, vinha-lhe s vezes, de repente, um
-tedio d'aquella existencia de luxo e de festa, um desejo violento de
-sacudir da sala esses homens, os seus intimos, que se atropellavam assim
-to ardentemente em volta dos hombros decotados de Maria.
-
-Refugiava-se ento n'algum canto, trincando com furor o charuto: e ahi,
-era em toda a sua alma um tropel de cousas dolorosas e sem nome...
-
-Maria sabia perceber bem na face do marido estas nuvens, como ella
-dizia. Corria para elle, tomava-lhe ambas as mos, com fora, com
-dominio:
-
---Que tens tu, amor? Ests amuado!
-
---No, no estou amuado...
-
---Olha ento para mim!...
-
-Collava o seu bello seio contra o peito d'elle; as suas mos corriam-lhe
-os braos n'uma caricia lenta e quente, dos pulsos aos hombros; depois,
-com um lindo olhar, estendia-lhe os labios. Pedro colhia n'elles um
-longo beijo, e ficava consolado de tudo.
-
-Durante esse tempo Affonso da Maia no sahia das sombras de St.^a
-Olavia, to esquecido para l como se estivesse no seu jazigo. J se no
-fallava d'lle; em Arroios, _D. Fuas_ estava roendo a teima. S Pedro s
-vezes perguntava a Villaa como ia o pap. E as noticias do
-administrador enfureciam sempre Maria: o pap estava optimo; tinha agora
-um cosinheiro francez explendido; St.^a Olavia enchera-se de hospedes, o
-Sequeira, Andr da Ega, D. Diogo Coutinho...
-
---O _Barbatanas_ trata-se! ia elle dizer ao pae com rancor.
-
-E o velho negreiro esfregava as mos, satisfeito de o saber assim feliz
-em St.^a Olavia; porque nunca cessara de tremer ida de ver em
-Arroios, deante de si, aquelle fidalgo to severo e de vida to pura.
-
-Quando porm Maria teve outro filho, um pequeno, o socego que ento se
-fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao corao de Pedro a
-imagem do pae abandonado n'aquella tristeza do Douro. Fallou a Maria de
-reconciliao, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescena. E a sua
-alegria foi grande, quando Maria, depois de ficar um momento pensativa,
-respondeu:
-
---Creio que me havia de fazer feliz tel-o aqui...
-
-Pedro, enthusiasmado com um assentimento to inesperado, pensou em
-abalar para St.^a Olavia. Mas ella tinha um plano melhor: Affonso,
-segundo dizia o Villaa, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem,
-ella iria l com o pequeno, toda vestida de preto, e de repente,
-atirando-se-lhe aos ps, pedir-lhe-hia a beno para seu neto! No podia
-falhar! No podia, realmente; e Pedro viu alli uma alta inspirao de
-maternidade...
-
-Para abrandar desde j o pap, Pedro quiz dar ao pequeno o nome de
-Affonso. Mas n'isso Maria no consentiu. Andava lendo uma novella de que
-era heroe o ultimo Stuart, o romanesco principe Carlos Eduardo; e,
-namorada d'elle, das suas aventuras e desgraas, queria dar esse nome a
-seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo
-um destino de amores e faanhas.
-
-O baptisado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi
-muito benigna porm; e d'ahi a duas semanas Pedro podia j sahir para
-uma caada na sua quinta da _Tojeira_, adiante d'Almada. Devia
-demorar-se dois dias. A partida arranjara-se unicamente para obsequiar
-um italiano, chegado por ento a Lisboa, distincto rapaz que lhe fra
-apresentado pelo secretario da Legao Ingleza, e com quem Pedro
-sympathisara vivamente; dizia-se sobrinho dos Principes de Soria; e
-vinha fugido de Napoles, onde conspirra contra os Bourbons e fra
-condemnado morte. O Alencar e D. Joo Coutinho iam tambem caada--e
-a partida foi de madrugada.
-
-N'essa tarde, Maria jantava s no seu quarto, quando sentiu carruagens
-parando porta, um grande rumor encher a escada; quasi immediatamente
-Pedro apparecia-lhe tremulo e enfiado:
-
---Uma grande desgraa, Maria!
-
---Jesus!
-
---Feri o rapaz, feri o napolitano!...
-
---Como?
-
-Um desastre estupido!... Ao saltar um barranco, a espingarda
-dispara-se-lhe, e a carga, zs, vae cravar-se no napolitano! No era
-possivel fazer curativos na _Tojeira_, e voltaram logo a Lisboa. Elle
-naturalmnte no consentira que o homem que tinha ferido recolhesse ao
-hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verde por cima, mandara
-chamar o medico, duas enfermeiras para o velar, e elle mesmo l ia
-passar a noite...
-
---E elle?
-
---Um heroe!... Sorri, diz que no nada, mas eu vejo-o pallido como um
-morto. Um rapaz adoravel! Isto s a mim, Senhor! E ento o Alencar que
-ia mesmo ao p d'elle... Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz
-intimo, de confiana! at a gente se ria. Mas no, zs, logo o outro, o
-de cerimonia...
-
-Uma sege, n'esse instante, entrava o pateo.
-
--- o medico!
-
-E Pedro abalou.
-
-Voltou, d'ahi a pouco mais tranquillo. O Dr. Guedes quasi rira d'aquella
-bagatella, uma chumbada no brao, e alguns gros perdidos nas costas.
-Promettera-lhe que d'ahi a duas semanas podia caar outra vez na
-_Tojeira_; e o principe estava j fumando o seu charuto. Bello rapaz!
-Parecia sympathisar com o pap Monforte...
-
-Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitao vaga que lhe dava aquella
-ida d'um principe enthusiasta, conspirador, condemnado morte, ferido
-agora por cima do seu quarto.
-
-Logo de manh cedo--apenas Pedro sahira a fazer transportar, elle mesmo,
-do hotel, as bagagens do napolitano--Maria mandou a sua criada franceza
-de quarto, uma bella moa d'Arles, acima, saber da parte d'ella como S.
-Alteza passara, e ver que figura tinha. A arlesiana appareceu, com os
-olhos brilhantes, a dizer senhora, nos seus grandes gestos de
-Provenal, que nunca vira um homem to formoso! Era uma pintura de Nosso
-Senhor Jesus Christo! Que pescoo, que brancura de marmore! Estava muito
-pallido ainda; agradecia enternecido os cuidados de Madame Maia; e
-ficara a ler o jornal encostado aos travesseiros...
-
-Maria, desde ento, no pareceu interessar-se mais pelo ferido. Era
-Pedro que vinha, a cada instante, fallar-lhe d'elle, enthusiasmado por
-aquella existencia pathetica de principe conspirador, partilhando j o
-seu odio aos Bourbons, encantado com a similitude de gostos que
-encontrava n'elle, o mesmo amor da caa, dos cavallos, das armas. Agora
-logo de manh, subia para o quarto do Principe, de _robe-de-chambre_, e
-cachimbo na boca, e passava l horas n'uma camaradagem, fazendo _grogs_
-quentes--permittidos pelo Dr. Guedes. Levava mesmo para l os seus
-amigos, o Alencar, o D. Joo da Cunha. Maria sentia-lhes por cima as
-risadas. s vezes tocava-se viola. E o velho Monforte, pasmado para o
-heroe, no cessava de lhe rondar o leito.
-
-A Arlesiana, essa, tambem a cada momento apparecia l a levar toalhas de
-rendas, um assucareiro que ninguem reclamara, ou algum vaso com flores
-para alegrar a alcova... Maria, por fim, perguntou a Pedro, muito seria,
-se alm de todos os amigos da casa, duas enfermeiras, dois escudeiros, o
-pap e elle Pedro--era necessaria tambem constantemente a sua propria
-criada no quarto de Sua Alteza!
-
-No era. Mas Pedro riu muito idea de que a Arlesiana se tivesse
-namorado do principe. N'esse caso Venus era-lhe propicia! O napolitano
-tambem a achava picante: _un trs joli brin de femme_, tinha elle dito.
-
-A bella face de Maria impallideceu de colera. Julgava tudo isso de mau
-gosto, grosseiro, impudente! Pedro fra realmente um doido em trazer
-assim para a intimidade de Arroios um estrangeiro, um fugido, um
-aventureiro! Demais, aquella troa em cima, entre grogs quentes, com
-guitarra, sem respeito por ella ainda toda nervosa, toda fraca da
-convalescena, indignava-a! Apenas Sua Alteza podesse accommodar-se com
-almofadas n'uma sege, queria-o fra, na estalagem...
-
---O que ahi vae! Jesus! o que ahi vae!... disse Pedro.
-
--- assim.
-
-E de certo foi muito severa tambem com a Arlesianna, por que n'essa
-tarde Pedro encontrou a moa aos ais no corredor, limpando ao avental os
-olhos affogueados.
-
-D'ahi a dias, porm, o napolitano, j convalescente, quiz recolher ao
-seu hotel. No vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade
-mandou-lhe um admiravel ramo, e, com uma galanteria de principe artista
-da Renascena, um soneto em italiano enrolado entre as flores e to
-perfumado como ellas: comparava-a a uma nobre dama da Syria dando a gota
-de agua da sua bilha ao cavalleiro arabe, ferido na estrada ardente;
-comparava-a Beatriz do Dante.
-
-Isto affigurou-se a todos de uma rara distinco, e, como disse o
-Alencar, um rasgo Byron.
-
-Depois, na _soire_ do baptisado de Carlos Eduardo, dada d'ahi a uma
-semana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um homem
-esplendido, feito como um Apollo, de uma pallidez de marmore rico: a sua
-barba curta e frisada, os seus longos cabellos castanhos, cabellos de
-mulher, ondeados e com reflexos de ouro, apartados nazarena--davam-lhe
-realmente, como dizia a Arlesianna, uma physionomia de bello Christo.
-
-Danou apenas uma contradana com Maria, e pareceu, na verdade, um pouco
-taciturno e orgulhoso: mas tudo n'elle fascinava, a sua figura, o seu
-mysterio, at o seu nome de Tancredo. Muitos coraes de mulher
-palpitavam quando elle, encostado a uma hombreira, de claque na mo, uma
-melancolia na face, exhalando o encanto pathetico de um condemnado
-morte, derramava lentamente pela sala o langor sombrio do seu olhar de
-velludo. A marqueza d'Alvenga, para o examinar de perto, pediu o brao a
-Pedro, e foi applicar-lhe, como a um marmore de museo, a sua luneta de
-ouro.
-
--- de appetite! exclamou ella. uma imagem!... E so amigos, so
-amigos, Pedro?
-
---Somos como dois irmos d'armas, minha senhora.
-
-N'essa mesma soire, o Villaa informra Pedro que o pae era esperado no
-dia seguinte em Bemfica. E Pedro, logo que se recolheram, fallou a Maria
-em irem fazer a grande scena ao pap. Ella, porm, recusou, e com as
-razes mais imprevistas, as mais sensatas. Tinha cogitado muito!
-Reconhecia agora que um dos motivos d'aquella teima do pap--ultimamente
-chamava-lhe sempre o pap--era essa extraordinaria existencia de
-Arroios...
-
---Mas filha, disse Pedro, escuta, ns no vivemos tambem em plena
-orgia... Alguns amigos que veem.
-
-Pois sim, pois sim... Mas, realmente, estava decidida a ter um interior
-mais calmo e mais domestico. Era mesmo melhor p'ra os bbs. Pois bem,
-queria que o pap estivesse convencido d'essa transformao, para que as
-pazes fossem mais faceis e eternas.
-
---Deixa passar dois ou tres mezes... Quando elle souber como ns vivemos
-quietinhos, eu o trarei, socega... bom tambem que seja quando meu pae
-partir para as aguas, para os Pyrineos. Que o pobre pap, coitado, tem
-medo do teu... Filho, no achas assim melhor?
-
---s um anjo, foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas as mos.
-
-Toda a antiga maneira de Maria pareceu com effeito ir mudando.
-Suspendera as _soires_. Comeou a passar as noites muito recolhidas,
-com alguns intimos, no seu _boudoir_ azul. J no fumava; abandonara o
-bilhar; e vestida de preto, com uma flr nos cabellos, fazia _crochet_
-ao p do candieiro. Estudava-se musica classica quando vinha o velho
-Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua dama, entrara tambem na
-gravidade, recitava traduces de Klopstock. Fallava-se com sisudez de
-politica; Maria era muito regeneradora.
-
-E todas essas noites, Tancredo l estava, indolente e bello, desenhando
-alguma flr para ella bordar, ou tangendo guitarra canes populares
-de Napoles. Todos alli o adoravam; mas ninguem mais que o velho
-Monforte, que passava horas, enterrado na sua alta gravata, contemplando
-o Principe com enternecimento. Depois, de repente, erguia-se,
-atravessava a sala, ia-se debruar sobre elle, palpal-o, sentil-o,
-respiral-o, murmurando no seu francez de embarcadio:
-
---_a aller bien... Hein? Beaucoup bien..._ Ora estimo...
-
-E estas correntes bruscas de affecto communicavam-se decerto, porque
-n'esse momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sorrisos para o
-pap ou vinha beijal-o na testa.
-
-De dia occupava-se de cousas serias. Organisara uma util associao de
-caridade, a _Obra pia dos cobertores_, com o fim de fazer no inverno s
-familias necessitadas distribuies de agasalhos; e presidia no salo de
-Arroios, com uma campainha, as reunies em que se elaboravam os
-estatutos. Visitava os pobres. Ia tambem amiudadas vezes a uma devoo
-s Egrejas, toda vestida de preto, a p, com um vo muito espesso no
-rosto.
-
-O esplendor da sua belleza apparecia agora velado por uma sombra tocante
-de ternura grave: a Deusa idealisava-se em Madona; e no era raro
-ouvil-a de repente suspirar sem razo.
-
-Ao mesmo tempo a sua paixo pela filha crescia. Tinha ento dois annos e
-estava realmente adoravel; vinha todas as noites um momento sala,
-vestida com um luxo de princeza; e as exclamaes, os extasis de
-Tancredo no findavam! Fizera-lhe o retrato a carvo, a esfuminho, a
-aguarella; ajoelhava-se para lhe beijar a mosinha cr de rosa, como ao
-_bambino_ sagrado. E Maria, agora, apesar dos protestos de Pedro, dormia
-sempre com ella entre os braos.
-
-Ao comeo d'esse setembro o velho Monforte partiu para os Pyrineos.
-Maria chorou, dependurada do pescoo do velho, como se elle largasse de
-novo para as travessias de Africa.
-
-Ao jantar, porm, chegou j consolada e radiante; e Pedro voltou a
-fallar da reconciliao, parecendo-lhe bom o momento de ir a Bemfica
-recuperar para sempre aquelle pap to teimoso...
-
---Ainda no, disse ella reflectindo, olhando o seu calice de Bordeus.
-Teu pae uma especie de santo, ainda o no merecemos... Mais para o
-inverno.
-
-
-Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Affonso da Maia estava
-no seu escriptorio lendo, quando a porta se abriu violentamente, e,
-alando os olhos do livro, viu Pedro deante de si. Vinha todo enlameado,
-desalinhado, e na sua face livida, sob os cabellos revoltos, luzia um
-olhar de loucura. O velho ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra
-atirou-se aos braos do pae, rompeu a chorar perdidamente.
-
---Pedro! que succedeu, filho?
-
-Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, ida do filho
-livre para sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo sua solido os
-dois netos, toda uma descendencia para amar! E repetia, tremulo tambem,
-desprendendo-o de si com grande amor:
-
---Socega, filho, que foi?
-
-Pedro ento cahiu para o canap, como cae um corpo morto; e levantando
-para o pae um rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra,
-n'uma voz surda:
-
---Estive fra de Lisboa dois dias... Voltei esta manh... A Maria tinha
-fugido de casa com a pequena... Partiu com um homem, um italiano... E
-aqui estou!
-
-Affonso da Maia ficou deante do filho, quedo, mudo, como uma figura de
-pedra; e a sua bella face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a
-pouco, de uma grande colera. Viu, n'um relance, o escandalo, a cidade
-galhofando, as compaixes, o seu nome pela lama. E era aquelle filho
-que, despresando a sua auctoridade, ligando-se a essa creatura,
-estragara o sangue da raa, cobria agora a sua casa de vexame. E alli
-estava! alli jazia sem um grito, sem um furor, um arranque brutal de
-homem trahido! Vinha atirar-se para um soph, chorando miseravelmente!
-Isto indignou-o, e rompeu a passeiar pela sala, rigido e aspero,
-cerrando os labios para que no lhe escapassem as palavras de ira e de
-injuria que lhe enchiam o peito em tumulto...--Mas era pae: ouvia, alli
-ao seu lado, aquelle soluar de funda dr; via tremer aquelle pobre
-corpo desgraado que elle outr'ora emballara nos braos;--parou junto de
-Pedro, tomou-lhe gravemente a cabea entre as mos, e beijou-o na testa,
-uma vez, outra vez, como se elle fosse ainda creana, restituindo-lhe
-alli e para sempre a sua ternura inteira.
-
---Tinha razo, meu pae, tinha razo, murmurava Pedro entre lagrimas.
-
-Depois ficaram callados. Fra, as pancadas successivas da chuva batiam a
-casa, a quinta, n'um clamor prolongado; e as arvores, sob as janellas,
-ramalhavam n'um vasto vento de inverno.
-
-Foi Affonso que quebrou o silencio:
-
---Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? No s chorar...
-
---No sei nada, respondeu Pedro n'um longo esforo. Sei que fugiu. Eu
-sahi de Lisboa na segunda feira. N'essa mesma noite, ella partiu de casa
-n'uma carruagem, com uma maleta, o cofre de joias, uma creada italiana
-que tinha agora, e a pequena. Disse governante e ama do pequeno que
-ia ter comigo. Ellas estranharam, mas que haviam de dizer?... Quando
-voltei, achei esta carta.
-
-Era um papel j sujo, e desde essa manh de certo muitas vezes relido,
-amarrotado com furia. Continha estas palavras:
-
- uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que no
-sou digna de ti, e levo a Maria que me no posso separar d'ella.
-
---E o pequeno, onde est o pequeno? exclamou Affonso.
-
-Pedro pareceu recordar-se:
-
---Est l dentro com a ama, trouxe-o na sege.
-
-O velho correu, logo; e d'ahi a pouco apparecia, erguendo nos braos o
-pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas.
-Era gordo, de olhos muito negros, com uma adoravel bochecha fresca e cr
-de rosa. Todo elle ria, grulhando, agitando o seu guiso de prata. A ama
-no passou da porta, tristonha, com os olhos no tapete e uma trouxasinha
-na mo.
-
-Affonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e accommodou o neto no
-collo. Os olhos enchiam-se-lhe de uma bella luz de ternura; parecia
-esquecer a agonia do filho, a vergonha domestica; agora s havia ali
-aquella facesinha tenra, que se lhe babava nos braos...
-
---Como se chama elle?
-
---Carlos Eduardo, murmurou a ama.
-
---Carlos Eduardo, hein?
-
-Ficou a olhal-o muito tempo, como procurando n'elle os signaes da sua
-raa: depois tomou-lhe na sua as duas mosinhas vermelhas que no
-largavam o guiso, e muito grave, como se a creana o percebesse,
-disse-lhe:
-
---Olha bem para mim. Eu sou o av. necessario amar o av!
-
-E quella forte voz, o pequeno, com effeito, abriu os seus lindos olhos
-para elle, serios de repente, muito fixos, sem medo das barbas
-grisalhas: depois rompeu a pular-lhe nos braos, desprendeu a mosinha,
-e martellou-lhe furiosamente a cabea com o guiso.
-
-Toda a face do velho sorria quella viosa alegria; apertou-o ao seu
-largo peito muito tempo, poz-lhe na face um beijo longo, consolado,
-enternecido, o seu primeiro beijo d'av; depois, com todo o cuidado, foi
-collocal-o nos braos da ama.
-
---V, ama, v... A Gertrudes j l anda a arranjar-lhe o quarto, v vr
-o que necessario.
-
-Fechou a porta, e veiu sentar-se junto do filho que se no movera do
-canto do soph, nem despregra os olhos do cho.
-
---Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos no vemos ha tres
-annos, filho...
-
---Ha mais de tres annos, murmurou Pedro.
-
-Ergueu-se, allongou a vista quinta, to triste sob a chuva; depois,
-derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu
-proprio retrato, feito em Roma aos doze annos, todo de velludo azul, com
-uma rosa na mo. E repetia ainda amargamente:
-
---Tinha razo, meu pae, tinha razo...
-
-E pouco a pouco, passeiando e suspirando, comeou a fallar d'aquelles
-ultimos annos, o inverno passado em Paris, a vida em Arroios, a
-intimidade do italiano na casa, os planos de reconciliao, por fim
-aquella carta infame, sem pudor, invocando a fatalidade,
-arremessando-lhe o nome do outro!... No primeiro momento tivera s idas
-de sangue e quizera perseguil-os. Mas conservava um claro de razo.
-Seria ridiculo, no verdade? De certo a fuga fora d'antemo preparada,
-e no havia de ir correndo as estalagens da Europa busca de sua
-mulher... Ir lamentar-se policia, fazel-os prender? Uma imbecillidade;
-nem impedia que ella fosse j por esses caminhos fra dormindo com
-outro... Restava-lhe smente o desprezo. Era uma bonita amante que
-tivera alguns annos, e fugira com um homem. Adeus! Ficava-lhe um filho,
-sem me, com um mau nome. Paciencia! Necessitava esquecer, partir para
-uma longa viagem, para a America talvez; e o pae veria, havia de voltar
-consolado e forte.
-
-Dizia estas cousas sensatas, passeiando devagar, com o charuto apagado
-nos dedos, n'uma voz que se calmava. Mas de repente parou deante do pae,
-com um riso secco, um brilho-feroz nos olhos.
-
---Sempre desejei ver a America, e boa occasio agora... uma occasio
-famosa, hein? Posso at naturalisar-me, chegar a presidente, ou
-rebentar... Ah! Ah!
-
---Sim, mais tarde, depois pensars n'isso, filho, accudiu o velho
-assustado.
-
-N'esse momento a sineta do jantar comeou a tocar lentamente, ao fundo
-do corredor.
-
---Ainda janta cedo, hein? disse Pedro.
-
-Teve um suspiro canado e lento, murmurou:
-
---Ns jantavamos s sete...
-
-Quiz ento que o pae fosse para a mesa. No havia motivo para que se no
-jantasse. Elle ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro...
-Ainda l tinha a cama, no verdade? No, no queria tomar nada...
-
---O Teixeira que me leve um calice de genebra... Ainda c est o
-Teixeira, coitado!
-
-E vendo Affonso sentado, repetiu, j impaciente:
-
---V jantar meu pae, v jantar, pelo amor de Deus...
-
-Saiu. O pae ouviu-lhe os passos por cima, e o ruido de janellas
-desabridamente abertas. Foi ento andando para a sala de jantar, onde os
-criados que pela ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de
-ps, com a lentido contristada d'uma casa onde ha morte. Affonso
-sentou-se mesa s; mas j l estava outra vez o talher de Pedro; rosas
-de inverno esfolhavam-se n'um vaso do Japo; e o velho papagaio agitado
-com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro. '
-
-Affonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto
-do fogo; e ali ficou envolvido pouco a pouco n'aquelle melancolico
-crepusculo de dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste
-contra as vidraas, pensando em todas as cousas terriveis que assim
-invadiam n'um tropel pathetico sua paz de velho. Mas no meio da sua
-dr, funda como era, elle percebia um ponto, um recanto do seu corao
-onde alguma cousa de muito doce, de muito novo, palpitava com uma
-frescura de renascimento, como se algures, no seu ser, estivesse
-rompendo, burbulhando uma nascente rica de alegrias futuras; e toda a
-sua face sorria chama alegre, revendo a bochechinha rosada, sob as
-rendas brancas da touca...
-
-Pela casa no entanto tinham-se accendido as luzes. J inquieto subiu ao
-quarto do filho; estava tudo escuro, to humido e frio, como se a chuva
-caisse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de
-Pedro veiu do negro da janella; estava l, com a vidraa aberta, sentado
-fra na varanda, voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das
-ramagens, recebendo na face o vento, a agua, toda a invernia agreste.
-
---Pois ests aqui filho! exclamou Affonso. Os criados ho de querer
-arranjar o quarto, desce um momento... Ests todo molhado, Pedro!
-
-Apalpava-lhe os joelhos, as mos regeladas. Pedro ergueu-se com um
-estremeo, desprendeu-se, impaciente d'aquella ternura do velho.
-
---Querem arranjar o quarto, hein? Faz-me bem o ar, faz-me to bem!
-
-O Teixeira trouxe luzes, e atraz d'elle appareceu o criado de Pedro, que
-chegra n'esse momento de Arroios, com um largo estojo de viagem
-recoberto de oleado. As malas tinha-as deixado em baixo; e o cocheiro
-viera tambem, como nenhum dos senhores estava em casa...
-
---Bem, bem, interrompeu Affonso. O sr. Villaa l ir amanh, e elle
-dar as ordens.
-
-O criado ento, em bicos de ps, foi depr o estojo sobre o marmore da
-commoda: ainda l restavam antigos frascos de toilette de Pedro: e os
-castiaes sobre a meza allumiavam o grande leito triste de solteiro com
-os colxes dobrados ao meio.
-
-A Gertrudes toda atarefada entrara com os braos carregados de roupa de
-cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; o criado d'Arroios
-pousando o chapo a um canto, e sempre em ponta de ps, veiu ajudal-os
-tambem. Pedro no entanto, como somnambulo, voltara para a varanda, com a
-cabea chuva, attraido por aquella treva da quinta que se cavava em
-baixo com um rumor de mar bravo.
-
-Affonso, ento, puxou-lhe o brao quasi com aspereza.
-
---Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento.
-
-Elle seguiu maquinalmente o pae livraria, mordendo o charuto apagado
-que desde tarde conservava na mo. Sentou-se longe da luz, ao canto do
-soph, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo s os passos lentos do
-velho, ao comprido das altas estantes, quebraram o silencio em que toda
-a sala ia adormecendo. Uma braza morria no fogo. A noite parecia mais
-aspera. Eram de repente vergastadas d'agua contra as vidraas, trazidas
-n'uma rajada, que longamente, n'um clamor teimoso, faziam escoar um
-diluvio dos telhados; depois havia uma calma tenebroza, com uma
-susurrao distante de vento fugindo entre ramagens: n'esse silencio as
-goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria
-mais furioso, envolvia a casa n'um bater de janellas, redomoinhava,
-partia com silvos desolados.
-
---Est uma noite de Inglaterra, disse Affonso, debruando-se a espertar
-o lume.
-
-Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. De certo o ferira a
-ida de Maria, longe, n'um quarto alheio, agazalhando-se-lhe no leito do
-adulterio entre os braos do outro. Apertou um instante a cabea nas
-mos, depois veiu junto do pae, com o passo mal firme, mas a voz muito
-calma.
-
---Estou realmente canado, meu pae, vou-me deitar. Boa noite... Amanh
-conversaremos mais.
-
-Beijou-lhe a mo e saiu de vagar.
-
-Affonso demorou-se ainda ali, com um livro na mo, sem ler, attento s a
-algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silencio.
-
-Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizera a
-cama da ama. A Gertrudes o criado de Arroios, o Teixeira, estavam l
-cochichando ao p da commoda, na penumbra que dava um folio posto deante
-do candieiro; todos se esquivaram em pontas de ps quando lhe sentiram
-os passos, e a ama continuou a arrumar em silencio os gavetes. No vasto
-leito, o pequeno dormia como um Menino Jesus canado, com o seu guiso
-apertado na mo. Affonso no ousou beijal-o, para o no acordar com as
-barbas asperas; mas tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa
-contra a parede, deu um geito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a
-sua dr calmar-se n'aquella sombra de alcova onde o seu neto dormia.
-
--- necessario alguma cousa, ama? perguntou, abafando a voz.
-
---No, meu senhor...
-
-Ento, sem ruido, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara,
-entreabriu a porta. O filho escrevia, luz de duas vellas, com o estojo
-aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pae: e na face que ergueu,
-envelhecida e livida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais
-refulgentes e duros.
-
---Estou a escrever, disse elle.
-
-Esfregou as mos, como arripiado da friagem do quarto, e accrescentou:
-
---Amanh cedo necessario que o Villaa v a Arroios... Esto l os
-criados, tenho l dois cavalos meus, emfim uma poro de arranjos. Eu
-estou-lhe a escrever. numero 32 a casa d'elle, no ? O Teixeira ha de
-saber... Boas noites, pap, boas noites.
-
-No seu quarto, ao lado da livraria, Affonso no poude socegar, n'uma
-oppresso, uma inquietao que a cada momento o faziam erguer sobre o
-travesseiro escutar: agora, no silencio da casa e do vento que calmara,
-ressoavam por cima lentos e continuos os passos de Pedro.
-
-A madrugada clareava, Affonso ia adormecendo--quando de repente um tiro
-atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um creado
-acudia tambem com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto
-vinha um cheiro de polvora; e aos ps da cama, caido de bruos, n'uma
-poa de sangue que se ensopava no tapete, Affonso encontrou seu filho
-morto, apertando uma pistola na mo.
-
-Entre as duas vlas que se extinguiam, com fogachos lividos, deixra-lhe
-uma carta lacrada com estas palavras sobre o enveloppe, n'uma letra
-firme: _Para o pap_.
-
-D'ahi a dias fechou-se a casa de Bemfica. Affonso da Maia partia com o
-neto e com todos os criados para a quinta de S.^{ta} Olavia.
-
-
-Quando Villaa, em fevereiro, foi l acompanhar o corpo de Pedro, que ia
-ser depositado no jazigo de familia, no pde conter as lagrimas ao
-avistar aquella vivenda onde passra to alegres nataes. Um baeto preto
-recobria o brazo d'armas, e esse panno de esquife parecia ter
-distingido todo o seu negrume sobre a fachada muda, sobre os
-castanheiros que ornavam o pateo; dentro os criados abafavam a voz,
-carregados de luto; no havia uma flor nas jarras; o proprio encanto de
-S.^{ta} Olavia, o fresco cantar das aguas vivas por tanques e repuchos,
-vinha agora com a cadencia saudosa de um choro. E Villaa foi encontrar
-Affonso na livraria, com as janellas cerradas ao lindo sol de inverno,
-caido para uma poltrona, a face cavada sob os cabellos crescidos e
-brancos, as mos magras e ociosas sobre os joelhos.
-
-O procurador veiu dizer para Lisboa que o velho no durava um anno.
-
-
-
-
-III
-
-
-Mas esse anno passou, outros annos passaram.
-
-Por uma manh de abril, nas vesperas de Paschoa, Villaa chegava de novo
-a S.^{ta} Olavia.
-
-No o esperavam to cedo; e como era o primeiro dia bonito d'essa
-primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o
-Teixeira, que ia j embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o
-sr. administrador com quem s vezes se correspondia, e conduziu-o sala
-de jantar onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza,
-deixou cair uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pescoo.
-
-As tres portas envidraadas estavam abertas para o terrao, que se
-estendia ao sol, com a sua balustrada de marmore coberta de trepadeiras:
-e Villaa, adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal
-poude reconhecer Affonso da Maia n'aquelle velho de barba de neve, mas
-to robusto e corado, que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu
-neto pela mo.
-
-Carlos, ao avistar no terrao um desconhecido, de chapo alto, abafado
-n'um cache-nez de pelucia, correu a miral-o, curioso--e achou-se
-arrebatado nos braos do bom Villaa, que largara o guarda sol, o
-beijava pelo cabello, pela face, balbuciando:
-
---Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que est! que crescido
-que est...
-
---Ento, sem avisar, Villaa? exclamava Affonso da Maia, chegando de
-braos abertos. Ns s o esperavamos para a semana, creatura!
-
-Os dois velhos abraaram-se; depois um momento os seus olhos
-encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram a apertar-se commovidos.
-
-Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as mos enterradas nos
-bolsos das suas largas bragas de flanella branca, o casquete da mesma
-flanella posta de lado sobre os bellos anneis do cabello
-negro--continuava a mirar o Villaa, que com o beio tremulo, tendo
-tirado a luva, limpava os olhos por baixo dos oculos.
-
---E ninguem a esperal-o, nem um criado l em baixo no rio! dizia
-Affonso. Emfim, c o temos, o essencial... E como voc est rijo,
-Villaa!
-
---E v. ex.^a meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um soluo.
-Nem uma ruga! Branco sim, mas uma cara de moo... Eu nem o conhecia!...
-Quando me lembro, a ultima vez que o vi... E c isto! c esta linda
-flor!...
-
-Ia abraar Carlos outra vez enthusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com uma
-bella risada, saltou do terrao, foi pendurar-se d'um trapesio armado
-entre as arvores, e ficou l, balanando-se em cadencia, forte e airoso,
-gritando: tu s o Villaa!
-
-O Villaa, de guarda sol debaixo do brao, contemplava-o embevecido.
-
---Est uma linda creana! Faz gosto! E parece-se com o pae. Os mesmos
-olhos, olhos dos Maias, o cabello encaracolado... Mas ha de ser muito
-mais homem!
-
--- so, rijo, dizia o velho risonho, anediando as barbas. E como
-ficou o seu rapaz, o Manuel? Quando esse casamento? Venha voc c para
-dentro, Villaa, que ha muito que conversar...
-
-Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chamin de
-azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas
-resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canarios pareciam doudos
-de alegria.
-
-A Gertrudes, que ficra a observar, acercou-se, com as mos cruzadas sob
-o avental branco, familiar, terna.
-
---Ento, meu senhor, aqui est um regalo, vr outra vez este ingrato em
-S.^{ta} Olavia!
-
-E, com um claro de sympathia na face, alva e redonda como uma velha
-lua, ornada j de um buo branco:
-
---Ah! sr. Villaa, isto agora outra cousa! At os canarios cantam! E
-tambem eu cantava, se ainda podesse...
-
-E foi saindo, subitamente commovida, j com vontade de chorar.
-
-O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia d'uma
-outra ponta dos seus altos collarinhos de mordomo.
-
---Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. Villaa, hein? disse
-Affonso. No quarto em que voc costumava ficar dorme agora a
-viscondessa...
-
-Ento o Villaa apressou-se a perguntar pela sr.^a viscondessa. Era uma
-Runa, uma prima da mulher de Affonso, que, no tempo em que os poetas de
-Caminha a cantavam, casra com um fidalgote gallego, o sr. visconde de
-Urigo-de-la-Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viuva
-e pobre, Affonso recolhera-a por dever de parentella, e para haver uma
-senhora em S.^{ta} Olavia.
-
-Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relogio, Affonso interrompeu a
-relao d'esses achaques.
-
---Villaa, v-se arranjar, depressa, que d'aqui a pouco o jantar.
-
-O administrador surprehendido olhou tambem o relogio, depois a mesa j
-posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto.
-
---Ento v. ex.^a agora janta de manh? Eu pensei que era o almoo...
-
---Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen. De madrugada est j
-na quinta; almoa s sete; e janta uma hora. E eu, emfim, para vigiar
-as maneiras do rapaz...
-
---E o sr. Affonso da Maia, exclamou Villaa, a mudar de habitos, n'essa
-edade! O que ser av, meu senhor!
-
---Tolice! no isso... que me faz bem. Olhe que me faz bem!... Mas
-avie-se Villaa, avie-se que Carlos no gosta de esperar... Talvez
-tenhamos o abbade.
-
---O Custodio? Rica cousa! Ento, se v. ex.^a me d licena...
-
-Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar com o sr.
-administrador, perguntou-lhe, desembaraando-o do guarda sol e do
-chale-manta:
-
---Com franqueza, como nos acha por c, pela quinta sr. Villaa?
-
---Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a
-S.^{ta} Olavia.
-
-E, pousando familiarmente a mo no hombro do escudeiro, piscando o olho
-ainda humido:
-
---Tudo isto o menino. Fez reviver o patro!
-
-O Teixeira riu respeitosamente. O menino realmente era a alegria da
-casa...
-
---Ol! Quem toca por c? exclamou Villaa, parando nos degraus da
-escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rebeca.
-
--- o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino... Muito habilidoso,
-um regalo ouvil-o; toca s vezes noite na sala, o sr. juiz de direito
-acompanha-o na concertina... Aqui, sr. Villaa, o quarto de v. s.^a...
-
---Muito bonito, sim senhor!
-
-O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janellas, sobre o
-tapete alvadio semeado de florsinhas azues: e as bambinellas, os
-reposteiros de cretne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre
-fundo claro. Este conforto fresco e campestre deleitou o bom Villaa.
-
-Foi logo apalpar os cretnes, esfregou o marmore da commoda, provou a
-solidez das cadeiras. Eram as mobilias compradas no Porto, hein? Pois,
-elegantes. E, realmente, no tinham sido caras. Nem elle fazia ida!
-Ficou ainda em bicos de ps a examinar duas aguarellas inglezas
-representando vaccas de luxo, deitadas na relva, sombra de ruinas
-romanticas. O Teixeira, observou-lhe, com o relogio na mo:
-
---Olhe que v. s.^a tem s dez minutos... O menino no gosta de esperar.
-
-Ento o Villaa decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou o seu
-pesado collete de malha de l; e pela camisa entreaberta via-se ainda
-uma flanella escarlate por causa dos rheumatismos, e os bentinhos de
-seda bordada. O Teixeira desapertava as correias da maleta; ao fundo do
-corredor, a rebeca atacara o _Carnaval de Veneza_; e atravez das
-janellas fechadas sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos campos,
-todo o verde d'abril.
-
-Villaa, sem oculos, um pouco arripiado, passava a ponta da toalha
-molhada pelo pescoo, por traz da orelha, e ia dizendo:
-
---Ento, o nosso Carlinhos no gosta de esperar, hein? J se sabe,
-elle quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente...
-
-Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desilludiu o sr. administrador.
-Mimos e mais mimos, dizia s. s.^a? Coitadinho d'elle, que tinha sido
-educado com uma vara de ferro! Se elle fosse a contar ao sr. Villaa!
-No tinha a creana cinco annos j dormia n'um quarto s, sem lamparina;
-e todas as manhs, zs, para dentro d'uma tina d'agua fria, s vezes a
-gear l fra... E outras barbaridades. Se no se soubesse a grande
-paixo do av pela creana, havia de se dizer que a queria morta. Deus
-lhe perdoe, elle, Teixeira, chegara a pensal-o... Mas no, parece que
-era systema inglez! Deixava-o correr, cair, trepar s arvores,
-molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o
-rigor com as comidas! S a certas horas e de certas cousas... E s vezes
-a creancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza.
-
-E o Teixeira accrescentou:
-
---Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que ns approvassemos a
-educao que tem levado, isso nunca approvmos, nem eu, nem a Gertrudes.
-
-Olhou outra vez o relogio, preso por uma fita negra sobre o collete
-branco, deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a
-cama a sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola,
-de leve e por amabilidade, em quanto dizia, junto ao toucador onde o
-Villaa acamava as duas longas repas sobre a calva:
-
---Sabe v. s.^a, apenas veiu o mestre inglez, o que lhe ensinou? A remar!
-A remar, sr. Villaa, como um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as
-habilidades de palhao; eu n'isso nem gosto de fallar... Que eu sou o
-primeiro a dizel-o: o Brown boa pessoa, calado, asseado, excellente
-musico. Mas o que eu tenho repetido Gertrudes: pde ser muito bom
-para inglez, no para ensinar um fidalgo portuguez... No . V v.
-s.^a fallar a esse respeito com a sr.^a D. Anna Silveira...
-
-Bateram de manso porta, o Teixeira emmudeceu. Um escudeiro entrou, fez
-um signal ao mordomo, tirou-lhe do brao respeitosamente a sobrecasaca,
-e ficou com ella junto do toucador, onde o Villaa, vermelho e
-apressado, luctava ainda com as repas rebeldes.
-
-O Teixeira, da porta, disse com o relogio na mo:
-
--- o jantar. Tem v. s.^a dois minutos, sr. Villaa.
-
-E o administrador d'ahi a um momento abalava tambem, abotoando ainda o
-casaco pelas escadas.
-
-Os senhores j estavam todos na sala. Junto do fogo, onde as achas
-consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o _Times_. Carlos,
-a cavallo nos joelhos do av, contava-lhe uma grande historia de rapazes
-e de bulhas; e ao p o bom abbade Custodio, com o leno de rap
-esquecido nas mos, escutava, de bocca aberta, n'um riso paternal e
-terno.
-
---Olhe quem alli vem, abbade, disse-lhe Affonso.
-
-O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada na cxa:
-
---Esta nova! Ento o nosso Villaa? E no me tinham dito nada!
-Venham de l esses ossos, homem!...
-
-Carlos pulava nos joelhos do av, muito divertido com aquelles longos
-abraos que juntavam as duas cabeas dos velhos--uma com as repas
-achatadas sobre a calva, outra com uma grande cora aberta n'uma matta
-de cabello branco. E como elles, de mos dadas, continuavam a
-admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dos annos, Affonso disse:
-
---Villaa! a sr.^a viscondessa...
-
-O administrador porm procurou-a debalde, com os olhos abertos pela
-sala. Carlos ria, batendo as mos:--e Villaa descobriu-a emfim a um
-canto, entre o aparador e a janella, sentada n'uma cadeirinha baixa,
-vestida de preto, timida e queda, com os braos rechonchudos pousados
-sobre a obesidade da cinta. O rosto anafado e molle, branco como papel,
-as roscas do pescoo, cobriram-se-lhe subitamente de rubor; no achou
-uma palavra para dizer ao Villaa, e estendeu-lhe a mo papuda e
-pallida, com um dedo embrulhado n'um pedao de seda negra. Depois ficou
-a abanar-se com um grande leque de lentejoulas, o seio a arfar, os olhos
-no regao, como exhausta d'aquelle esforo.
-
-Dois escudeiros tinham comeado a servir a sopa, o Teixeira esperava,
-perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Affonso.
-
-Mas Carlos cavalgava ainda o av, querendo acabar outra historia. Era o
-Manuel, trazia uma pedra na mo... Elle primeiro pensra ir s boas; mas
-os dois rapazes comearam a rir... De maneira que os correu a todos...
-
---E maiores que tu?
-
---Tres rapages, vv, pde perguntar tia Pedra... Ella viu, que
-estava na eira. Um d'elles trazia uma foice...
-
---Est bom, senhor, est bom, ficamos inteirados... V, desmonte, que
-est a sopa a esfriar. Upa! upa!
-
-E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarcha feliz, veiu
-sentar-se ao alto da meza, sorrindo e dizendo:
-
---J se vae fazendo pesado, j no est para collo...
-
-Mas reparou ento no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresentao do
-procurador.
-
---O sr. Brown, o amigo Villaa... Peo perdo, descuidei-me, foi culpa
-d'aquelle cavalheiro l ao fundo da meza, o sr. D. Carlos de mata-sete!
-
-O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu
-toda a volta meza, rigido e teso, para vir sacudir o Villaa n'um
-tremendo _shake-hands_; depois, sem uma palavra, reoccupou o seu logar,
-desdobrou o guardanapo, cofiou os formidaveis bigodes, e foi ento que
-disse ao Villaa, com o seu forte accento inglez:
-
---_Muito bello dia... glorioso!_
-
---Tempo de rosas, respondeu o Villaa, comprimentando, intimidado diante
-d'aquelle athleta.
-
-Naturalmente, n'esse dia, fallou-se da jornada de Lisboa, do bom servio
-da malla-posta, do caminho de ferro que se ia abrir... O Villaa j
-viera no comboyo at ao Carregado.
-
---De causar horror, hein? perguntou o abbade, suspendendo a colher que
-ia levar bocca.
-
-O excellente homem nunca saira de Resende; e todo o largo mundo, que
-ficava para alm da penumbra da sua sachristia e das arvores do seu
-passal, lhe dava o terror d'uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro,
-de que tanto se fallava...
-
---Faz arripiar um bocado, affirmou com experiencia Villaa. Digam o que
-disserem, faz arripiar!
-
-Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgraas
-d'essas machinas!
-
-O Villaa ento lembrou os desastres da mala-posta. No de Alcobaa,
-quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irms de caridade! Emfim de
-todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no
-quarto...
-
-O abbade gostava do progresso... Achava at necessario o progresso. Mas
-parecia-lhe que se queria fazer tudo lufa-lufa... O paiz no estava
-para essas invenes; o que precisava eram boas estradinhas...
-
---E economia! disse o Villaa, puxando para si os pimentes.
-
---Bucellas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro.
-
-O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe luz a cr
-rica, provou-o com a ponta do labio, e piscando o olho para Affonso:
-
--- do nosso!
-
---Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom
-nectar?
-
---_Magnificente!_ exclamou o perceptor com uma energia fogosa.
-
-Ento Carlos, estendendo o brao por cima da meza, reclamou tambem
-Bucellas. E a sua razo era haver festa por ter chegado o Villaa. O av
-no consentiu; o menino teria o seu calice de Collares, como de costume,
-e um s. Carlos crusou os braos sobre o guardanapo que lhe pendia do
-pescoo, espantado de tanta injustia! Ento nem para festejar o Villaa
-poderia apanhar uma gotinha de Bucellas? Ahi estava uma linda maneira de
-receber os hospedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera
-o sr. administrador, havia de pr noite para o ch o fato novo de
-velludo. Agora observavam-lhe que no era festa, nem caso para
-Bucellas... Ento no entendia.
-
-O av, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um caro
-severo.
-
---Parece-me que o senhor est palrando de mais. As pessoas grandes que
-palram meza.
-
-Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente:
-
---Est bom, vov, no te zangues. Esperarei para quando for grande...
-
-Houve um sorriso em volta da meza. A propria viscondessa, deleitada,
-agitou preguiosamente o leque: o abbade, com a sua boa face banhada em
-extasi para o menino, apertava as mos cabelludas contra o peito, tanto
-aquillo lhe parecia engraado: e Affonso tossia por traz do guardanapo,
-como limpando as barbas--a esconder o riso, a admirao que lhe brilhava
-nos olhos.
-
-Tanta vivacidade surprehendeu tambem Villaa. Quiz ouvir mais o menino,
-e pousando o seu talher:
-
---E diga-me, Carlinhos, j vae adiantado nos seus estudos?
-
-O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as mos pelo cs das
-flanellas, e respondeu com um tom superior:
-
---J fao ladear a _Brigida_.
-
-Ento o av, sem se conter, largou a rir, cahido para o espaldar da
-cadeira:
-
---Essa boa! Eh! Eh! J faz ladear a _Brigida_! E verdade, Villaa,
-j a faz ladear... Pergunte ao Brown; no verdade, Brown? E a eguasita
- uma piorrita, mas fina...
-
---Oh vov, gritou Carlos j excitado, dize ao Villaa, anda. No
-verdade que eu era capaz de governar o _dog-cart_?
-
-Affonso reassumio um ar severo.
-
---No o nego... Talvez o governasse, se lh'o consentissem. Mas faa-me
-favor de se no gabar das suas faanhas, porque um bom cavalleiro deve
-ser modesto... E sobre tudo no enterrar assim as mos pela barriga
-abaixo...
-
-O bom Villaa, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma
-observao. No se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavallo
-com as regras... Mas elle queria dizer se o Carlinhos j entrava com o
-seu Phedro, o seu Tito Liviosinho...
-
---Villaa, Villaa, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de
-santa malicia, no se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo...
-No admitte, acha que antigo... Elle, antigo ...
-
---Ora sirva-se d'esse fricass, ande abbade, disse Affonso, que eu sei
-que o seu fraco, e deixe l o latim...
-
-O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons
-pedaos de ave, ia murmurando:
-
---Deve-se comear pelo latimsinho, deve-se comear por l... a base;
-a basesinha!
-
---No! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante.
-Prrimeiro forra! Forra! Musculo...
-
-E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos:
-
---Prrimeiro musculo, musculo!...
-
-Affonso appoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era
-um luxo d'erudito... Nada mais absurdo que comear a ensinar a uma
-creana n'uma lingua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos
-Grachos, e outros negocios d'uma nao extincta, deixando-o ao mesmo
-tempo sem saber o que a chuva que o molha, como se faz o po que come,
-e todas as outras cousas do Universo em que vive...
-
---Mas emfim os classicos, arriscou timidamente o abbade.
-
---Qual classicos! O primeiro dever do homem viver. E para isso
-necessario ser so, e ser forte. Toda a educao sensata consiste
-n'isto: crear a saude, a fora e os seus habitos, desenvolver
-exclusivamente o animal, armal-o d'uma grande superioridade physica. Tal
-qual como se no tivesse alma. A alma vem depois... A alma outro luxo.
- um luxo de gente grande...
-
-O abbade coava a cabea, com o ar arripiado.
-
---A instrucosinha necessaria, disse elle. Voc no acha, Villaa?
-Que v. ex^a, sr. Affonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas
-emfim a instrucosinha...
-
---A instruco para uma creana no recitar _Tityre, tu patulae
-recubans_... saber factos, noes, cousas uteis, cousas praticas...
-
-Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, n'um signal ao Villaa,
-mostrou-lhe o neto que palrava inglez com o Brown. Eram de certo feitos
-de fora, uma historia de briga com rapazes que elle lhe estava a
-contar, animado e jogando com os punhos. O perceptor approvava,
-retorcendo os bigodes. E mesa os senhores com os garfos suspensos, por
-traz os escudeiros de p e guardanapo no brao, todos, n'um silencio
-reverente, admiravam o menino a fallar inglez.
-
---Grande prenda, grande prenda, murmurou Villaa, inclinando-se para a
-Viscondessa.
-
-A excellente senhora crou, atravez d'um sorriso. Parecia assim mais
-gorda, toda acaapada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a cada
-gole de Bucellas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque
-negro e lentejoulado.
-
-Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso fez uma _saude_ ao
-Villaa. Todos os copos se ergueram n'um rumor de amizade. Carlos quiz
-gritar _Hurrah!_ O av, com um gesto reprehensivo, immobilisou-o; e na
-pausa satisfeita que se fez, o pequeno disse com uma grande convico:
-
---Oh av, eu gosto do Villaa. O Villaa nosso amigo.
-
---Muito, e ha muitos annos, meu senhor! exclamou o velho procurador, to
-commovido que mal podia erguer o calice na mo.
-
-O jantar findava. Fra, o sol deixra o terrasso e a quinta verdejava na
-grande doura do ar tranquillo, sob o azul ferrete. Na chamin s
-restava uma cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam um aroma vivo,
-a que se misturava o do creme queimado, tocado de um fio de limo: os
-creados, de colletes brancos, moviam o servio d'onde se escapava algum
-som argentino: e toda a alva toalha adamascada desapparecia sob a
-confuso da sobremesa onde os tons dourados do vinho do Porto brilhavam
-entre as compoteiras de crystal. A Viscondessa affogueada abanava-se.
-Padre Custodio enrolava devagar o guardanapo, a sua batina coada luzia
-nas pregas das mangas.
-
-Ento Affonso, sorrindo ternamente, fez a ultima saude.
-
---Viva v. s.^a, snr. Carlos de Matta-sete!
-
---Sr. Vv! dizia o pequeno escorropichando o copo.
-
-A cabeinha de cabellos negros, a velha face de barbas de neve,
-saudavam-se das extremidades da mesa--em quanto todos sorriam, no
-enternecimento d'aquella cerimonia. Depois o abbade, de palito na bocca,
-murmurou as _graas_. A Viscondessa, cerrando os olhos, juntou tambem as
-mos. E Villaa que tinha crenas religiosas no gostou de vr Carlos,
-sem se importar com as graas, saltar da cadeira, vir atirar-se ao
-pescoo do av, fallar-lhe ao ouvido.
-
---No senhor! no senhor! dizia o velho.
-
-Mas o rapaz, abraando-o mais forte, dava-lhe grandes razes, n'um
-murmurio de mimo dce como um beijo, que ia pondo na face do velho uma
-fraqueza indulgente.
-
--- por ser festa, disse elle emfim vencido. Mas veja l, veja l...
-
-O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Villaa pelos braos, fl-o
-redemoinhar, e foi cantando n'um rythmo seu:
-
---Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Therezinha, inha,
-inha, inha!
-
--- a noiva, disse o av, erguendo-se da mesa. J tem amores, a
-pequena das Silveiras... O caf para o terrao, Teixeira.
-
-O dia fra convidava, adoravel, d'um azul suave, muito puro e muito
-alto, sem uma nuvem. Defronte do terrao os geranios vermelhos estavam
-j abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, d'uma
-delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um
-vago cheiro de violetas, misturado ao perfume adocicado das flres do
-campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos
-baixos, a areia fina faiscava de leve quelle sol timido de primavera
-tardia, que ao longe envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa
-hora de sesta n'uma luz fresca e loura.
-
-Os tres homens sentaram-se mesa do caf. Defronte do terrao, o Brown,
-de bonet escossez posto ao lado e grande cachimbo na bocca, puchava ao
-alto a barra do trapezio para Carlos se balouar. Ento o bom Villaa
-pedio para voltar as costas. No gostava de vr gymnasticas; bem sabia
-que no havia perigo; mas mesmo nos cavallinhos, as cabriolas, os arcos,
-atordoavam-n'o; sahia sempre com o estomago embrulhado...
-
---E parece-me imprudente, sobre o jantar...
-
---Qual! s balouar-se... Olhe para aquillo!
-
-Mas Villaa no se moveu, com a face sobre a chavena.
-
-O abbade, esse, admirava, de labios entreabertos, e o pires cheio de
-caf esquecido na mo.
-
---Olhe para aquillo Villaa, repetio Affonso. No lhe faz mal, homem!
-
-O bom Villaa voltou-se, com esforo. O pequeno muito alto no ar, com as
-pernas retesadas contra a barra do trapezio, as mos s cordas, descia
-sobre o terrao, cavando o espao largamente, com os cabellos ao vento;
-depois elevava-se, serenamente, crescendo em pleno sol; todo elle
-sorria; a sua blusa, os cales enfunavam-se aragem; e via-se passar,
-fugir, o brilho dos seus olhos muito negros e muito abertos.
-
---No est mais na minha mo, no gosto, disse o Villaa. Acho
-imprudente!
-
-Ento Affonso bateu as palmas, o abbade gritou _bravo, bravo_. Villaa
-voltou-se para applaudir, mas Carlos tinha j desapparecido; o trapezio
-parava, em oscillaes lentas; e o Brown, retomando o _Times_ que pozera
-ao lado sobre o pedestal d'um busto, foi descendo para a quinta
-envolvido n'uma nuvem de fumo do cachimbo.
-
---Bella cousa, a gymnastica! exclamou Affonso da Maia, accendendo com
-satisfao outro charuto.
-
-Villaa j ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abbade, depois de
-dar um sorvo ao caf, de lamber os beios, soltou a sua bella phrase,
-arranjada em maxima:
-
---Esta educao faz athletas mas no faz christos. J o tenho dito...
-
---J o tem dito abbade, j! exclamou Affonso alegremente. Diz-m'o todas
-as semanas... Quer voc saber, Villaa? O nosso Custodio matta-me o
-bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!...
-
-Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com uma face desconsolada e a
-caixa de rap aberta na mo; a irreligio d'aquelle velho fidalgo,
-senhor de quasi toda a freguezia, era uma das suas dres:
-
---A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex.^a o diga assim com esse
-modo escarnica... A cartilha. Mas j no quero fallar na cartilha... Ha
-outras cousas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia, pelo
-amor que tenho ao menino.
-
-E recomeou a discusso, que voltava sempre ao caf, quando Custodio
-jantava na quinta.
-
-O bom homem achava horroroso que n'aquella edade um to lindo moo,
-herdeiro d'uma casa to grande, com futuras responsabilidades na
-sociedade, no soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Villaa a
-historia da D. Cecilia Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do
-escrivo, tendo passado deante do porto da quinta, avistara o
-Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de creanas como era, e
-pedira-lhe que lhe dissesse o _acto de contrico_. E que respondeu o
-menino? _Que nunca em tal ouvira fallar!_ Estas cousas entristeciam. E o
-sr. Affonso da Maia achava-lhe graa, ria-se! Ora alli estava o amigo
-Villaa que podia dizer se era caso para jubilar. No, o sr. Affonso da
-Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas d'uma cousa no o
-podia convencer, a elle pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda,
-que houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do
-cathecismo.
-
-E Affonso da Maia respondia com bom humor:
-
---Ento que lhe ensinava voc, abbade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que
-se no deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar
-os inferiores, por que isso contra os mandamentos da lei de Deus, e
-leva ao inferno, hein? isso?...
-
---Ha mais alguma cousa...
-
---Bem sei. Mas tudo isso que voc lhe ensinaria que se no deve fazer,
-por ser um peccado que offende a Deus, j elle sabe que se no deve
-praticar, por que indigno d'um cavalheiro e d'um homem de bem...
-
---Mas, meu senhor...
-
---Oua abbade. Toda a differena essa. Eu quero que o rapaz seja
-virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas no por
-medo s caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino
-do cu...
-
-E accrescentou, erguendo-se e sorrindo:
-
---Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade, quando vem, depois
-de semanas de chuva, um dia d'estes, ir respirar pelos campos e no
-estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o Villaa no est
-muito canado, vamos dar ahi um giro pelas fazendas...
-
-O abbade suspirou como um santo que v a negra impiedade dos tempos e
-Belzebut arrebatando as melhores rezes do rebanho; depois olhou a
-chavena e sorveu com delicias o resto do seu caf.
-
-Quando Affonso da Maia, Villaa e o abbade recolheram do seu passeio
-pela freguezia, escurecera, havia luzes pelas salas, e tinham chegado j
-as Silveiras, senhoras ricas da quinta da _Lagoaa_.
-
-D. Anna Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da
-familia, e era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande
-auctoridade em Resende. A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma
-excellente e pachorrenta senhora, de agradavel nutrio, trigueirota e
-pestanuda; tinha dois filhos, a Theresinha, a _noiva_ de Carlos, uma
-rapariguinha magra e viva com cabellos negros como tinta, e o
-morgadinho, o Eusebiosinho, uma maravilha muito fallada n'aquelles
-sitios.
-
-Quasi desde o bero este notavel menino revelara um edificante amor por
-alfarrabios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e j a sua
-alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado n'um
-cobertor, folheando _in-folios_, com o craneosinho calvo de sabio
-curvado sobre as lettras garrafaes de boa doutrina: depois de
-crescidinho tinha tal proposito que permanecia horas immovel n'uma
-cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca appetecera um
-tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce
-letrado, entre o pasmo da mam e da titi, passava dias a traar
-algarismos, com a lingoasinha de fora.
-
-Assim na familia tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser
-primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia,
-a tia Annica installava-o logo mesa, ao p do candieiro, a admirar as
-pinturas d'um enorme e rico volume, os _Costumes de todos os Povos do
-Universo_. J l estava essa noite, vestido como sempre de escossez, com
-o _plaid_ de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracollo e
-preso ao hombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre d'um
-Stuart, d'um valoroso cavalleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o
-bonet onde se arqueava com heroismo uma rutilante penna de gallo; e nada
-havia mais melancolico que a sua facesinha trombuda, a que o excesso de
-lombrigas dava uma molleza e uma amarellido de manteiga, os seus
-olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a sciencia lh'as tivesse
-j consummido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e
-para os guerreiros ferozes do Montenegro appoiados a escupetas, em
-pincaros de serranias.
-
-Deante do canap das senhoras l se achava tambem o fiel amigo, o dr.
-delegado, grave e digno homem, que havia cinco annos andava ponderando e
-meditando o casamento com a Silveira viuva, sem se
-decidir--contentando-se em comprar todos os annos mais meia duzia de
-lenoes, ou uma pea mais de bretanha, para arredondar o bragal. Estas
-compras eram discutidas em casa das Silveiras, brazeira: e as alluses
-recatadas, mas inevitaveis, s duas fronhasinhas, ao tamanho dos
-lenoes, aos cobertores de papa para os conchegos de janeiro--em logar
-de inflammar o magistrado, inquietavam-n'o. Nos dias seguintes apparecia
-preoccupado--como se a perspectiva da santa consummao do matrimonio
-lhe dsse o arrepio de uma faanha a emprehender, o ter de agarrar um
-toiro, ou nadar nos caches do Douro. Ento, por qualquer raso
-especiosa, adiava-se o casamento at ao S. Miguel seguinte. E alliviado,
-tranquillo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar as Silveiras a
-chs, festas de egreja ou pezames, vestido de preto, affavel, servial,
-sorrindo a D. Eugenia, no desejando mais prazeres que os d'essa
-convivencia paternal.
-
-Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o
-dr. juiz de direito e a senhora no podiam vir, por que o magistrado
-tivera a dr; e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se,
-coitadas, que era dia de tristeza em casa, por fazer desesete annos que
-morrera o mano Manuel...
-
---Bem, disse Affonso, bem. A dr, a tristeza, o mano Manuel... Fazemos
-ns um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado?
-
-O excellente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que estava s
-ordens.
-
---Ento ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as mos,
-no ardor j da partida.
-
-Os parceiros dirigiram-se saleta do jogo--que um reposteiro de damasco
-separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos
-circulos de luz que cahiam dos _abat-jour_ os baralhos abertos em leque.
-D'ahi a um momento o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que os
-deixara para um roquesinho de tres; e retomou o seu logar ao lado de D.
-Eugenia, cruzando os ps debaixo da cadeira e as mos em cima do ventre.
-As senhoras estavam fallando da dr do dr. juiz de direito. Costumava
-dar-lhe todos os tres mezes: e era condemnavel a sua teima em no querer
-consultar medicos. Quanto mais que elle andava acabado, ressequindo,
-amarellando--e a D. Augusta, a mulher, a nutrir larga, a ganhar
-cres!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua gordura ao canto do
-canap, com o leque aberto sobre o peito, contou que em Hespanha vira um
-caso egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa;
-e ao principio fra o contrario; at sobre isso se tinham feito uns
-versos...
-
---Humores, disse com melancolia o dr. delegado.
-
-Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco,
-coitadinho, na flor de idade! E que perfeio de rapaz! E que rapaz de
-juizo! D. Anna Silveira no se esquecera, como todos os annos, de lhe
-accender uma lamparina por alma, e de lhe resar tres padre-nossos. A
-viscondessa pareceu toda afflicta por se no ter lembrado... E ella que
-tinha o proposito feito!
-
---Pois estive para t'o mandar dizer! exclamou D. Anna. E as Brancos que
-tanto o agradecem, filha!
-
---Ainda est a tempo, observou o magistrado.
-
-D. Eugenia deu uma malha indolente no _crochet_ de que nunca se
-separava, e murmurou com um suspiro:
-
---Cada um tem os seus mortos.
-
-E no silencio que se fez, saiu do canto do canap outro suspiro, o da
-viscondessa, que de certo se recordra do fidalgo d'Urigo de la Sierra,
-e murmurava:
-
---Cada um tem os seus mortos...
-
-E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar
-reflectidamente a mo pela calva:
-
---Cada um tem os seus mortos!
-
-Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles,
-as chammas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava
-com cautella e arte as estampas dos _Costumes de todos os Povos_. E na
-saleta de jogo, atravez do reposteiro aberto, sentia-se a voz j
-arrenegada do abbade, rosnando com um rancor tranquillo, passo, que o
-que tenho feito toda a santa noite!
-
-N'esse momento Carlos arremettia pela sala dentro arrastando a sua
-noiva, a Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada
-das suas vozes reanimou o canap dormente.
-
-Os noivos tinham chegado d'uma pittoresca e perigosa viagem, e Carlos
-parecia descontente de sua mulher; comportara-se d'uma maneira atroz;
-quando elle ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirar-se ao p
-d'elle na almofada... Ora senhoras no viajam na almofada.
-
---E elle atirou-me ao cho, titi!
-
---No verdade! De mais a mais mentirosa! Foi como quando chegmos
-estalagem... Ella quiz-se deitar, e eu no quiz... A gente, quando se
-apeia de viagem, a primeira cousa que faz tratar do gado... E os
-cavallos vinham a escorrer...
-
-A voz de D. Anna interrompeu, muito severa:
-
---Est bom, est bom, basta de tolices! J cavallaram bastante. Senta-te
-ahi ao p da sr.^a Viscondessa, Thereza... Olhe essa travessa do
-cabello... Que desproposito!
-
-Sempre detestra ver a sobrinha, uma menina delicada de dez annos,
-brincar assim com o Carlinhos. Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem
-doutrina e sem proposito, aterrava-a; e pela sua imaginao de
-solteirona passavam sem cessar idas, suspeitas de ultrages que elle
-poderia fazer menina. Em casa, ao agasalhal-a antes de vir para S.^ta
-Olavia, recommendava-lhe com fora que no fosse com o Carlos para os
-recantos escuros! que o no deixasse mecher-lhe nos vestidos!... A
-menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia: Sim, titi. Mas,
-apenas na quinta, gostava de abraar o seu maridinho. Se eram casados,
-por que no haviam de fazer nn, ou ter uma loja e ganharem a sua vida
-aos beijinhos? Mas o violento rapaz s queria guerras, quatro cadeiras
-lanadas a galope, viagens a terras de nomes barbaros que o Brown lhe
-ensinava. Ella, despeitada, vendo o seu corao mal comprehendido,
-chamava-lhe _arrieiro_; elle ameaava boxal-a, ingleza;--e
-separavam-se sempre arrenegados.
-
-Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as
-mos no regao--Carlos veiu logo estirar-se ao p d'ella, meio deitado
-para as costas do canap, bamboleando as pernas.
-
---Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito secca D. Anna.
-
---Estou canado, governei quatro cavallos, replicou elle, insolente e
-sem a olhar.
-
-De repente porm, d'um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho.
-Queria-o levar Africa, a combatter os selvagens: e puchava-o j pelo
-seu bello _plaid_ de cavalleiro d'Escossia, quando a mam accudiu
-atterrada.
-
---No, com o Eusebiosinho no, filho! No tem saude para essas
-cavalladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o av!
-
-Mas o Eusebiosinho, a um repello mais forte, rolara no cho, soltando
-gritos medonhos. Foi um alvoroo, um levantamento. A me, tremula,
-agachada junto d'elle, punha-o de p sobre as perninhas molles,
-limpando-lhe as grossas lagrimas, j com o leno, j com beijos, quasi a
-chorar tambem. O delegado, consternado, apanhara o bonet escossez, e
-cofiava melancolicamente a bella pena de gallo. E a Viscondessa apertava
-s mos ambas o enorme seio, como se as palpitaes a suffocassem.
-
-O Eusebiosinho foi ento preciosamente collocado ao lado da titi; e a
-severa senhora, com um fulgr de colera na face magra, apertando o leque
-fechado como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos que, de mos
-atraz das costas e aos pulos em roda do canap, ria, arreganhando para o
-Eusebiosinho um labio feroz. Mas n'esse momento davam nove horas, e a
-desempenada figura do Brown appareceu porta.
-
-Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detraz da Viscondessa,
-gritando:
-
---Ainda muito cedo, Brown, hoje festa, no me vou deitar!
-
-Ento Affonso da Maia, que se no movera aos uivos lacinantes do
-Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade:
-
---Carlos, tenha a bondade de marchar j para a cama.
-
---Oh vv, festa, que est c o Villaa!
-
-Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra,
-agarrou o rapaz pelo brao, e arrastou-o pelo corredor--em quanto elle,
-de calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero:
-
--- festa, vv... uma maldade!... O Villaa pde-se escandalisar...
-Oh vv, eu no tenho somno!
-
-Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo
-aquella rigidez: ahi estava uma cousa incomprehensivel; o av
-deixava-lhe fazer todos os horrores, e recusava-lhe ento o bocadinho da
-soire...
-
---Oh sr. Affonso da Maia, por que no deixou estar a creana?
-
--- necessario methodo, necessario methodo, balbuciou elle, entrando,
-todo pallido do seu rigor.
-
-E mesa do voltarete, apanhando as cartas com as mos tremulas, repetia
-ainda:
-
--- necessario methodo. Creanas noite dormem.
-
-D. Anna Silveira voltando-se para o Villaa--que cedera o seu lugar ao
-dr. delegado e vinha palestrar com as senhoras--teve aquelle sorriso
-mudo que lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia fallava em
-methodos.
-
-Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque,
-declarou, a transbordar d'ironia, que, talvez por ter a intelligencia
-curta, nunca comprehendera a vantagem dos methodos... Era ingleza,
-segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ella estava
-enganada, ou S.^ta Olavia era no reino de Portugal...
-
-E como Villaa inclinava timidamente a cabea, com a sua pitada nos
-dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro no ouvisse,
-desabafou. O sr. Villaa naturalmente no sabia, mas aquella educao do
-Carlinhos nunca fra approvada pelos amigos da casa. J a presena do
-Brown, um heretico, um protestante, como perceptor na familia dos Maias,
-causara desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso tinha
-aquelle santo do abbade Custodio, to estimado, homem de tanto saber...
-No ensinaria creana habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar
-uma educao de fidalgo, preparal-o para fazer boa figura em Coimbra.
-
-N'esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente d'ar, erguera-se da
-mesa de jogo a fechar o reposteiro: ento, como Affonso j no podia
-ouvir, D. Anna ergueu a voz:
-
---E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Villaa. Que o Carlinhos,
-coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar
-o que succedeu com a Macedo.
-
-Villaa j sabia.
-
---Ah j sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do acto de
-contrico...
-
-A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao ceu atravez do tecto.
-
---Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher chegou l a nossa casa
-embuchada... E eu fez-me impresso. At sonhei com aquillo tres noites a
-fio...
-
-Calou-se um momento. Villaa, embaraado, acanhado, fazia girar a caixa
-de rap nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de
-somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas, fazia
-de vez em quando uma malha molle no _crochet_; e a noiva de Carlos,
-estirada para o canto do soph, j dormia, com a boquinha aberta, os
-seus lindos cabellos negros caindo-lhe pelo pescoo.
-
-D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua ida:
-
---Sem contar que o pequeno est muito atrazado. A no ser um bocado de
-inglez, no sabe nada... Nem tem prenda nenhuma!
-
---Mas muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villaa.
-
--- possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira.
-
-E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d'ella,
-quieto como se fosse de gesso:
-
---Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villaa aquelles lindos versos que
-sabes... No sejas atado, anda!... V, Euzebio, filho, s bonito...
-
-Mas o menino, mollengo e tristonho, no se descollava das saias da
-titi: teve ella de o pr de p, amparal-o, para que o tenro prodigio no
-alluisse sobre as perninhas flacidas; e a mam prometteu-lhe que, se
-dissesse os versinhos, dormia essa noite com ella...
-
-Isto decidio-o: abrio a bocca, e como d'uma torneira lassa veio de l
-escorrendo, n'um fio de voz, um recitativo lento e babujado:
-
-
- noite, o astro saudoso
- Rompe a custo um plumbeo cu,
- Tolda-lhe o rosto formoso
- Alvacento, humido vo...
-
-
-Disse-a toda--sem se mexer, com as mosinhas pendentes, os olhos
-mortios pregados na titi. A mam fazia o compasso com a agulha do
-_crochet_; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto,
-banhada no langor da melopea, ia cerrando as palpebras.
-
---Muito bem, muito bem! exclamou o Villaa, impressionado, quando o
-Euzebiosinho findou coberto de suor. Que memoria! Que memoria! um
-prodigio!...
-
-Os creados entravam com o ch. Os parceiros tinham findado a partida; e
-o bom Custodio, de p, com a sua chavena na mo, queixava-se amargamente
-da maneira porque aquelles senhores o tinham esfollado.
-
-Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senhoras
-retiraram-se s nove e meia. O servial dr. delegado dava o brao a D.
-Eugenia; um creado da quinta allumiava adiante com o lampeo; e o moo
-das Silveiras levava ao collo o Eusebiosinho que parecia um fardo
-escuro, abafado em mantas, com um chale amarrado na cabea.
-
-
-Depois da ceia Villaa acompanhou ainda um momento Affonso da Maia
-livraria, onde, antes de recolher, elle tomava sempre ingleza o seu
-cognac e soda.
-
-O aposento, a que as velhas estantes de pau preto davam um ar severo,
-estava adormecido tepidamente, na penumbra suave, com as cortinas bem
-fechadas, um resto de lume na chamin, e o globo do candieiro pondo a
-sua claridade serena na mesa coberta de livros. Em baixo, os repuchos
-cantavam alto no silencio da noite.
-
-Emquanto o escudeiro rolava para o p da poltrona de Affonso, n'uma mesa
-baixa, os crystaes e as garrafas de soda, Villaa, com as mos nos
-bolsos, de p e pensativo, olhava a braza da acha que morria na cinza
-branca. Depois ergueu a cabea, para murmurar, como ao acaso:
-
---Aquelle rapazito esperto...
-
---Quem? O Euzebiosinho? disse Affonso, que se accomodava junto ao fogo,
-enchendo alegremente o cachimbo. Eu tremo de o ver c, Villaa! O Carlos
-no gosta d'elle, e tivemos ahi um desgosto horroroso... Foi j ha
-mezes. Havia uma procisso e o Eusebiosinho ia de anjo... As Silveiras,
-excellentes mulheres, coitadas, mandaram-n'o c para o mostrar
-viscondessa, j vestido de anjo. Pois senhores, distrahimo-nos, e o
-Carlos que o andava a rondar apodera-se d'elle, leva-o para o soto, e,
-meu caro Villaa... Em primeiro logar ia-o matando porque embirra com
-anjos... Mas o peior no foi isso. Imagine voc o nosso terror, quando
-nos apparece o Eusebiosinho aos berros pela titi, todo desfrizado, sem
-uma aza, com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um
-barbante, a cora de rosas enterrada at ao pescoo, e os gales de
-ouro, os tulles, as lentejoulas, toda a vestimenta celeste em
-frangalhos!... Emfim, um anjo depennado e sovado... Eu ia dando cabo do
-Carlos.
-
-Bebeu metade da sua soda, e passando a mo pelas barbas, accrescentou,
-com uma satisfao profunda:
-
--- levado do diabo, Villaa!
-
-O administrador, sentado agora borda de uma cadeira, esboou uma
-risadinha muda; depois ficou calado, olhando Affonso, com as mos nos
-joelhos, como esquecido e vago. Ia abrir os labios, hesitou ainda,
-tossio de leve; e continuou a seguir pensativamente as faiscas que
-erravam sobre as achas.
-
-Affonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume,
-recomeara a fallar do Silveirinha. Tinha tres ou quatro mezes mais que
-Carlos, mas estava enfesado, estiolado, por uma educao portugueza:
-d'aquella edade ainda dormia no chco com as criadas, nunca o lavavam
-para o no constiparem, andava couraado de rolos de flanellas! Passava
-os dias nas saias da titi a decorar versos, paginas inteiras do
-_Cathecismo de Perseverana_. Elle por curiosidade um dia abrira este
-livreco e vira l, que o sol que anda em volta da terra (como antes
-de Galileu), e que Nosso Senhor todas as manhs d as ordens ao sol,
-para onde ha d'ir e onde ha de parar, etc., etc. E assim lhe estavam
-arranjando uma almasinha de bacharel...
-
-Villaa teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamente
-decidido, ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras:
-
---V. Ex.^a sabe que appareceu a Monforte?
-
-Affonso, sem mover a cabea, reclinado para as costas da poltrona,
-perguntou tranquillamente, envolvido no fumo do cachimbo:
-
---Em Lisboa?
-
---No senhor, em Paris. Viu-a l o Alencar, esse rapaz que escreve, e
-que era muito de Arroios... Esteve at em casa d'ella.
-
-E ficaram calados. Havia annos que entre elles se no pronunciara o nome
-de Maria Monforte. Ao principio, quando se retirara para Santa Olavia, a
-preoccupao ardente de Affonso da Maia fra tirar-lhe a filha que ella
-levara. Mas a esse tempo ninguem sabia onde Maria se refugiara com o seu
-principe: nem pela influencia das legaes, nem pagando regiamente a
-policia secreta de Paris, de Londres, de Madrid, se poude descobrir a
-toca da fera como disia ento o Villaa. Ambos decerto tinham mudado
-de nome; e, dadas essas naturezas bohemias, quem sabe se no errariam
-agora pela America, pela India, em regies mais exoticas? Depois, pouco
-a pouco, Affonso da Maia descoroado com aquelles esforos vos, todo
-occupado do neto que crescia bello e forte ao seu lado, no
-enternecimento continuo que elle lhe dava foi esquecendo a Monforte e a
-sua outra neta, to distante, to vaga, a quem ignorava as feies, de
-quem mal sabia o nome. E agora de repente a Monforte apparecia outra vez
-em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto! e aquella creana que dormia
-ao fundo do corredor nunca vira sua me...
-
-Erguera-se, passeiava na livraria, pesado e lento, com a cabea baixa.
-Junto mesa, ao p do candieiro, o Villaa ia percorrendo um a um os
-papeis da sua carteira.
-
---E est em Paris com o italiano? perguntou Affonso do fundo sombrio do
-aposento.
-
-O Villaa ergueu a cabea de sobre a carteira, e disse:
-
---No senhor, est com quem lhe paga.
-
-E como Affonso se aproximava da mesa, sem uma palavra, Villaa,
-dando-lhe um papel dobrado, accrescentou:
-
---Todas estas cousas so muito graves, sr. Affonso da Maia, e eu no
-quiz fiar-me s na minha memoria. Por isso pedi ao Alencar, que um
-excellente rapaz, que me escrevesse n'uma carta tudo o que me contou.
-Assim temos um documento. Eu no sei mais do que ahi est escripto. Pde
-V. Ex.^a ler...
-
-Affonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma historia simples, que
-o Alencar, o poeta das _Vozes d'Aurora_, o estylista de _Elvira_, ornra
-de flores e de gales dourados como uma capella em dia de festa.
-
-Uma noite, ao sahir da _Maison d'Or_, elle vira a Monforte saltar d'um
-_coup_ com dois homens de gravata branca; tinham-se logo reconhecido; e
-um momento ficaram hesitando, um defronte do outro, debaixo do candieiro
-de gaz, no _trottoir_. Foi ella que, muito decidida, rindo, estendeu a
-mo ao Alencar, pediu-lhe que a visitasse, deu-lhe a _adresse_, o nome
-por que devia perguntar: M.^{me} de l'Estorade. E no seu _boudoir_, na
-manh seguinte a Monforte fallou largamente de si: vivera tres annos em
-Vienna d'Austria com Tancredo, e com o pap que se lhes fra reunir--e
-que l continuava de certo, como em Arroios, refugiando-se pelos cantos
-das salas, pagando as _toilettes_ da filha, e dando palmadinhas ternas
-no hombro do amante como outr'ora no hombro do marido. Depois tinham
-estado em Monaco; e ahi, dizia o Alencar, n'um drama sombrio de paixo
-que ella me fez entrever o napolitano fora morto em duello. O pap
-morrera tambem n'esse anno, deixando apenas da sua fortuna uns magros
-contos de ris, e a mobilia da casa em Vienna: o velho arruinara-se com
-o luxo da filha, com as viagens, com as perdas de Tancredo ao
-_baccarat_. Passra ento um tempo em Londres: e d'ahi viera habitar
-Paris, com Mr. de l'Estorade, um jogador, um espadachim, que acabou de a
-arrasar, e que a abandonou legando-lhe esse nome de l'Estorade, que lhe
-era a elle d'ora em diante inutil porque passava a adoptar outro mais
-sonoro de _Vicomte de Manderville_. Emfim, pobre, formosa, doida,
-excessiva, lanara-se na existencia d'aquellas mulheres de quem, dizia o
-Alencar, a pallida Margarida Gautier, a gentil _Dama das Camelias_ o
-typo sublime, o symbolo poetico, a quem muito ser perdoado porque muito
-amaram. E o poeta terminava: ella est ainda no esplendor da belleza,
-mas as rugas viro, e ento que avistar em redor de si? As rosas seccas
-e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi d'aquelle _boudoir_
-perfumado, com a alma dilacerada, meu Villaa! Pensava no meu pobre
-Pedro, que l jaz sob o raio de luar, entre as raizes dos cyprestes. E,
-desilludido d'esta cruel vida, vim pedir ao absintho, no _boulevard_,
-uma hora de esquecimento.
-
-Affonso da Maia deu um repello carta, menos enojado das torpezas da
-historia, que d'aquelles lyrismos relambidos.
-
-E recomeou a passear, emquanto o Villaa recolhia religiosamente o
-documento que tinha relido muitas vezes, na admirao do sentimento, do
-estylo, do ideal d'aquella pagina.
-
---E a pequena? perguntou Affonso.
-
---Isso no sei. O Alencar no lhe fallara na filha, nem elle mesmo sabe
-que ella a levou. Ninguem o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que passou
-desapercebido no grande escandalo. Mas emquanto a mim, a pequena morreu.
-Seno, siga V. Ex.^a o meu raciocinio... Se a menina fosse viva, a me
-podia reclamar a legitima que cabe creana... Ella sabe a casa que V.
-Ex.^a tem; ha de haver dias, e so frequentes na vida d'essas mulheres,
-em que lhe falte uma libra... Com o pretexto da educao da menina, ou
-de alimentos, j nos tinha importunado... Escrupulos no tem ella. Se o
-no faz que a filha morreu. No lhe parece a V. Ex.^a?
-
---Talvez, disse Affonso.
-
-E accrescentou, parando deante de Villaa--que olhava outra vez a braza
-morta tirando estalinhos dos dedos:
-
---Talvez... Sopnhamos que morreram ambas, e no se falle mais n'isso.
-
-Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias
-que Villaa passou em S.^{ta} Olavia no se proferiu mais o nome de
-Maria Monforte.
-
-Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Affonso subio
-ao quarto d'elle, a entregar-lha as amendoas da Paschoa que Carlos
-mandava a Villaa Junior, um alfinete de peito com uma magnifica
-saphira--e disse-lhe em quanto o outro, sensibilisado, balbuciava os
-agradecimentos:
-
---Agora outra cousa, Villaa. Tenho estado a pensar. Vou escrever a meu
-primo Noronha, ao Andr que vive em Paris como voc sabe, pedir-lhe que
-procure essa creatura, e que lhe offerea dez ou quinze contos de ris,
-se ella me quizer entregar a filha... No caso, est claro, que esteja
-viva... E quero que voc saiba d'esse Alencar a morada da mulher em
-Paris.
-
-O Villaa no respondeu, occupado a metter entre as camisas, bem no
-fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou
-deante d'Affonso, a coar reflectidamente o queixo.
-
---Ento que lhe parece, Villaa?
-
---Parece-me arriscado.
-
-E deu as suas razes. A menina devia ir nos seus treze annos. Estava uma
-mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus
-habitos... Nem fallaria o portuguez. As saudades da me haviam de ser
-terriveis... Emfim, o sr. Affonso de Maia trazia uma extranha para
-casa...
-
---Voc tem raso, Villaa. Mas a mulher uma prostituta, e a pequena
-do meu sangue.
-
-N'esse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vov,
-precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma rom.--O Brown
-tinha achado uma corujasinha pequena! Queria que o vov viesse, ver,
-andara a buscal-o por toda a casa... Era de morrer a rir... Muito
-pequena, muito feia, toda pellada, e com dois olhos de gente grande! E
-sabiam onde havia o ninho...
-
---Vem depressa, vov! Depressa, que necessario ir pol-a no ninho,
-por causa da coruja velha que se pde affligir... O Brown est-lhe a dar
-azeite. Oh Villaa vem ver! O vov, pelo amor de Deus! Tem uma cara to
-engraada! Mas depressa, depressa, que a coruja velha pde dar pela
-falta!...
-
-E impaciente com a lentido risonha do vvo, tanta indifferena pela
-inquietao da coruja velha, abalou atirando com a porta.
-
---Que bom corao! exclamou o Villaa commovido. A pensar nas saudades
-da coruja... A me d'elle que no tem saudades! Sempre o disse, uma
-fera!
-
-Afonso encolheu tristemente os hombros. Iam j no corredor quando elle,
-parando um momento, baixando a voz:
-
---Tem-me esquecido de lhe contar, Villaa, o Carlos sabe que o pae que
-se matou...
-
-Villaa arredondou os olhos d'espanto. Era verdade. Uma manh
-entrara-lhe pela livraria, e dissera-lhe:-- vov, o pap matou-se com
-uma pistola!--Naturalmente algum creado que lh'o contara...
-
---E vossa excellencia?
-
---Eu... Que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenho obedecido
-ao que Pedro me pediu, n'essas quatro ou cinco linhas da carta que me
-deixou. Quiz ser enterrado em S.{ta} Olavia, ahi est. No queria que o
-filho jmais soubesse da fuga da me; e por mim, de certo, nunca o
-saber. Quiz que dois retratos que havia d'ella em Arroios fossem
-destruidos; como voc sabe, obtiveram-se e destruiram-se. Mas no me
-pedio que occultasse ao rapaz o seu fim. E por isso, disse ao pequeno a
-verdade: disse-lhe que n'um momento de loucura, o pap tinha dado um
-tiro em si...
-
---E elle?
-
---E elle, replicou Affonso sorrindo, perguntou-me quem lhe tinha dado a
-pistola, e torturou-me toda uma manh para lhe dar tambem uma pistola...
-E ahi est o resultado d'essa revelao: que tive de mandar vir do
-Porto uma pistla de vento...
-
-Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo av, os dois
-apressaram-se a ir admirar a corujazinha.
-
-Villaa ao outro dia partiu para Lisboa.
-
-Passadas duas semanas, Affonso recebia uma carta do administrador,
-trasendo-lhe, com a _adresse_ da Monforte, uma revelao imprevista.
-Tinha voltado a casa do Alencar; e o poeta, recordando outros incidentes
-da sua visita a M.^{me} de l'Estorade, contara-lhe que no _boudoir_
-d'ella havia um adoravel retrato de creana, de olhos negros, cabello
-d'azeviche, e uma pallidez de nacar. Esta pintura ferira-o, no s por
-ser d'um grande pintor inglez, mas por ter, pendente sob o caixilho como
-um voto funerario, uma linda coroa de flores de cera brancas e roxas.
-No havia outro quadro no _boudoir_: e elle perguntara Monforte se era
-um retrato ou uma phantasia. Ella respondera que era o retrato da filha
-que lhe morrera em Londres. Esto assim dissipadas todas as duvidas,
-accrescentava o Villaa. O pobre anjinho est n'uma patria. melhor. E
-para ella, _bem melhor_!
-
-Affonso, todavia, escreveu a Andr de Noronha. A resposta tardou. Quando
-o primo Andr procurara M.^{me} de l'Estorade, havia semanas que ella
-partira para Allemanha, depois de vender mobilia e cavallos. E no _Club
-Imperial_, a que elle pertencia, um amigo que conhecia bem M.^{me} de
-l'Estorade e a vida galante de Paris, contara-lhe que a doida fugira com
-um certo Catanni, acrobata do Circo d'Inverno nos Campos Elyseos, homem
-de frmas magnificas, um Appolo de feira, que todas as cocottes se
-disputavam e que a Monforte empolgra. Naturalmente corria agora a
-Allemanha com a companhia de cavallinhos.
-
-Affonso da Maia, enojado, remetteu esta carta ao Villaa sem um
-commentario. E o honrado homem respondeu: Tem V. Ex.^a raso, atroz:
-e mais vale suppor que todos morreram, e no gastar mais cera com to
-ruins defuntos... E depois n'um post-scriptum accrescentava: Parece
-certo abrir-se em breve o caminho de ferro at ao Porto: em tal caso,
-com permisso de V. Ex.^a, ahi irei e o meu rapaz a pedirmos-lhe alguns
-dias d'hospitalidade.
-
-Esta carta foi recebida em S.^{ta} Olavia um domingo, ao jantar. Affonso
-lera alto o P. S. Todos se alegraram, na esperana de ver o bom Villaa
-em breve na quinta; e fallou-se mesmo em arranjar um grande pic-nic, rio
-acima.
-
-Mas, tera feira noite, chegava um telegramma de Manuel Villaa
-annunciando que o pae morrera, n'essa manh, d'uma apoplexia: dois dias
-depois vinham mais longos e tristes pormenores. Fora depois do almoo
-que, de repente, Villaa se sentira muito suffocado, e com tonturas:
-ainda tivera foras d'ir ao quarto respirar um pouco d'ether: mas ao
-voltar sala cambaleava, queixava-se de vr tudo amarello, e caiu de
-bruos, como um fardo, sobre o canap. O seu pensamento, que se
-extinguia para sempre, ainda n'esse momento se occupou da casa que ha
-trinta annos administrava: balbuciou, a respeito d'uma venda de cortia,
-recomendaes que o filho j no poude perceber: depois deu um grande
-ai; e s tornou a abrir os olhos, para murmurar no derradeiro sopro
-estas derradeiras palavras: _Saudades ao patro!_
-
-Affonso da Maia ficou profundamente afectado, e em S.^{ta} Olavia, mesmo
-entre os creados, a morte de Villaa foi como um lucto domestico. Uma
-d'essas tardes, o velho, muito melancolico, estava na livraria com um
-jornal esquecido nas mos, os olhos cerrados--quando Carlos, que ao lado
-rabiscava carantonhas n'um papel, veio passar-lhe um brao pelo pescoo,
-e como comprehendendo os seus pensamentos perguntou-lhe se o Villaa no
-voltaria a vel-os quinta.
-
---No filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a vr.
-
-O pequeno, entre os joelhos e os braos do velho, olhava o tapete, e,
-como recordando-se, murmurou tristemente:
-
---O Villaa, coitado... Dava estalinhos com os dedos... Oh vov, para
-onde o levaram?
-
---Para o cemiterio, filho, para debaixo da terra.
-
-Ento Carlos desprendeu-se devagar do abrao do av, e muito srio, com
-os olhos n'elle:
-
--- vov! porque no lhe mandas fazer uma capellinha bonita, toda de
-pedra, com uma figura, como tem o pap?
-
-O velho achegou-o ao peito, beijou-o, commovido:
-
---Tens razo, filho. Tens mais corao que eu!
-
-Assim o bom Villaa teve no cemiterio dos Prazeres o seu jazigo--que
-fra a alta ambio da sua existncia modesta.
-
-
-Outros annos tranquillos passaram sobre Santa Olavia.
-
-Depois uma manh de julho, em Coimbra, Manuel Villaa (agora
-administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Affonso
-se hospedra com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando,
-berrando:
-
---_Nemin! Nemin!_
-
-Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha
-acompanhado os senhores de Santa Olavia correu porta, abraou-se quasi
-chorando no menino, agora mais alto que elle, e muito formoso na sua
-batina nova.
-
-Em cima no quarto, Manuel Villaa, soprando ainda, limpando as bagas de
-suor, exclamava:
-
---Ficou tudo espantado, snr. Affonso da Maia! Os lentes at estavam
-commovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem, o que
-todo o mundo disse... E que faculdade vai elle seguir, meu senhor?
-
-Affonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso:
-
---No sei, Villaa... Talvez nos formemos ambos em Direito.
-
-Carlos assomou porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro
-escudeiro--que trazia _champagne_ n'uma salva.
-
---Ento venha c, seu maroto, disse Affonso muito branco, com os braos
-abertos. Bom exame, hein?... Eu...
-
-Mas no pde proseguir: as lagrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba
-branca.
-
-
-
-
-IV
-
-
-Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera
-sempre n'aquelle menino realmente uma vocao para Esculapio.
-
-A vocao revelra-se bruscamente um dia que elle descobriu no soto,
-entre rumas de velhos alfarrabios, um rolo manchado e antiquado de
-estampas anatomicas; tinha passado dias a recortal-as, pregando pelas
-paredes do quarto figados, liaas de intestinos, cabeas de perfil com
-o recheio mostra. Uma noite mesmo rompera pela sala em triumpho, a
-mostrar s Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa lithographia de um feto de
-seis mezes no utero materno. D. Anna recuou, com um grito, collando o
-leque face: e o dr. delegado, escarlate tambem, arrebatou
-prudentemente Euzebiosinho para entre os joelhos, tapou-lhe a face com a
-mo. Mas o que escandalisou mais as senhoras foi a indulgencia de
-Affonso.
-
---Ento que tem, ento que tem? dizia elle sorrindo.
-
---Que tem, snr. Affonso da Maia!? exclamou D. Anna. So indecencias!
-
---No ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente a
-ignorancia... Deixar l o rapaz. Tem curiosidade de saber como esta
-pobre machina por dentro, no ha nada mais louvavel...
-
-D. Anna abanava-se, suffocada. Consentir taes horrores nas mos da
-criana!... Carlos comeou a apparecer-lhe como um libertino que j
-sabia coisas; e no consentiu mais que a Therezinha brincasse s com
-elle pelos corredores de Santa Olavia.
-
-As pessoas srias porm, o dr. juiz de direito, o proprio abbade,
-lamentando, sim, que no houvesse mais recato, concordavam que aquillo
-mostrava no pequeno uma grande queda para a medicina.
-
---Se pga, dizia ento com um gesto prophetico o dr. Trigueiros, temos
-d'alli coisa grande!
-
-E parecia pegar.
-
-Em Coimbra, estudante do Lyceu, Carlos deixava os seus compendios de
-logica e rhetorica para se occupar de anatomia: n'umas ferias, ao abrir
-das malas, a Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras
-d'um casaco o riso d'uma caveira: e se algum criado da quinta adoecia,
-l estava Carlos logo revolvendo o caso em velhos livros de medicina da
-livraria, sem lhe largar a beira do catre, fazendo diagnosticos que o
-bom dr. Trigueiros escutava respeitoso e pensativo. Diante do av j
-chamava mesmo ao menino o seu talentoso collega.
-
-Esta inesperada carreira de Carlos (pensra-se sempre que elle tomaria
-capello em Direito) era pouco approvada entre os fieis amigos de Santa
-Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo
-to formoso, to bom cavalleiro, viesse a estragar a vida receitando
-emplastros, e sujando as mos no jorro das sangrias. O dr. juiz de
-direito confessou mesmo um dia a sua descrena de que o snr. Carlos da
-Maia quizesse ser medico a srio.
-
---Ora essa! exclamou Affonso. E porque no ha de ser medico a srio? Se
-escolhe uma profisso para a exercer com sinceridade e com ambio,
-como os outros. Eu no o educo para vadio, muito menos para amador;
-educo-o para ser util ao seu paiz...
-
---Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, no lhe
-parece a v. exc.^a que ha outras coisas, importantes tambem, e mais
-proprias talvez, em que seu neto se poderia tornar util?...
-
---No vejo, replicou Affonso da Maia. N'um paiz em que a occupao geral
- estar doente, o maior servio patriotico incontestavelmente saber
-curar.
-
---V. exc.^a tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o
-magistrado.
-
-E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida a srio,
-pratica e util, as escadas de doentes galgadas pressa no fogo de uma
-vasta clinica, as existencias que se salvam com um golpe de bistur, as
-noites veladas beira de um leito, entre o terror de uma familia, dando
-grandes batalhas morte. Como em pequeno o tinham encantado as frmas
-pittorescas das vsceras--attrahiam-no agora estes lados militantes e
-heroicos da sciencia.
-
-Matriculou-se realmente com enthusiasmo. Para esses longos annos de
-quieto estudo o av preparra-lhe uma linda casa em Cellas, isolada, com
-graas de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca entre
-as arvores. Um amigo de Carlos (um certo Joo da Ega) poz-lhe o nome de
-Paos de Cellas, por causa de luxos ento raros na Academia, um tapete
-na sala, poltronas de marroquim, panoplias d'armas, e um escudeiro de
-libr.
-
-Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas
-suspeito aos democratas; quando se soube porm que o dono d'estes
-confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava
-tambem o paiz uma _choldra ignobil_--os mais rigidos revolucionarios
-comearam a vir aos Paos de Cellas to familiarmente como ao quarto do
-Trovo, o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobilia
-uma enxerga e uma Biblia.
-
-Ao fim d'alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, concilira Dandys e
-Philosophos: e trazia muitas vezes no seu _break_, lado a lado, o Serra
-Torres, um monstro que j era addido honorario em Berlim e todas as
-noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a _Morte de
-Satanaz_, encolhido no seu gabo d'Aveiro, com o seu grande barrete de
-lontra.
-
-Os Paos de Cellas, sob a sua apparencia preguiosa e campestre,
-tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma
-gymnastica scientifica. Uma velha cozinha fra convertida em sala
-d'armas--porque n'aquelle grupo a esgrima passava como uma necessidade
-social. noite, na sala de jantar, moos srios faziam um _whist_
-srio: e no salo, sob o lustre de crystal, com o _Figaro_, o _Times_ e
-as _Revistas_ de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao
-piano tocando Chopin ou Mozart, os litteratos estirados pelas
-poltronas--havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a
-Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a
-Evoluo, tudo por seu turno flammejava no fumo do tabaco, tudo to
-ligeiro e vago como o fumo. E as discusses metaphysicas, as proprias
-certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a
-presena do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo
-croquettes.
-
-Carlos, naturalmente, no tardou a deixar pelas mesas, com as folhas
-intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob
-todas as frmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no
-_Instituto_--e um artigo sobre o Parthenon: tentou, n'um _atelier_
-improvisado, a pintura a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a
-influencia da _Salammb_. Alm d'isso todas as tardes passeava os seus
-dois cavallos. No segundo anno levaria um _R_ se no fosse to conhecido
-e rico. Tremeu, pensando no desgosto do av: moderou a dissipao
-intellectual, acantoou-se mais na sciencia que escolhera: immediatamente
-lhe deram um _accessit_. Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo:
-e estava destinado, como dizia Joo da Ega, a ser um d'esses medicos
-litterarios que inventam doenas de que a humanidade papalva se presta
-logo a morrer!
-
-O av, s vezes, vinha passar uma, duas semanas a Cellas. Nos primeiros
-tempos a sua presena, agradavel aos cavalheiros da partilha de _whist_,
-desorganisou o cavaco litterario. Os rapazes mal ousavam estender o
-brao para o copo da cerveja; e os _vossa excellencia_ isto, _vossa
-excellencia_ aquillo, regelavam a sala. Pouco a pouco, porm, vendo-o
-apparecer em chinelas e de cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com
-ares sympathicos de patriarcha bohemio, discutir arte e litteratura,
-contar anecdotas do seu tempo d'Inglaterra e d'Italia, comearam a
-consideral-o como um camarada de barbas brancas. Diante d'elle j se
-fallava de mulheres e de estroinices. Aquelle velho fidalgo, to rico,
-que lra Michelet e o admirava--chegou mesmo a enthusiasmar os
-democratas. E Affonso gozava alli tambem horas felizes, vendo o seu
-Carlos centro d'aquelles moos de estudo, de ideal e de veia.
-
-Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, s vezes em Paris ou
-Londres; mas por Nataes e Pascoas vinha sempre a Santa Olavia, que o av
-mais s se entretinha a embellezar com amor. As salas tinham agora
-soberbos pannos d'Arraz, paizagens de Rousseau e Daubigny, alguns moveis
-de luxo e d'arte. Das janellas a quinta offerecia aspectos nobres de
-parque inglez: atravs dos macios taboleiros de relva, davam curvas
-airosas as ruas areadas: havia marmores entre as verduras; e gordos
-carneiros de luxo dormiam sob os castanheiros. Mas a existencia n'este
-meio rico no era agora to alegre: a viscondessa, cada dia mais
-nutrida, cahia em somnos congestivos logo depois do jantar; o Teixeira
-primeiro, a Gertrudes depois, tinham morrido, ambos de pleurizes, ambos
-no entrudo: e j se no via tambem mesa a bondosa face do abbade, que
-l jazia sob uma cruz de pedra, entre os goivos e as rosas de todo o
-anno. O dr. juiz de direito com a sua concertina passra para a Relao
-do Porto; D. Anna Silveira, muito doente, nunca sahia; a Therezinha
-fizera-se uma rapariguinha feia, amarella como uma cidra; o
-Euzebiosinho, mollengo e tristonho, j sem vestigios sequer do seu
-primeiro amor aos alfarrabios e s letras, ia casar na Regoa. S o dr.
-delegado, esquecido n'aquella comarca, estava o mesmo, mais calvo
-talvez, sempre affavel, amando sempre a pachorrenta Eugenia. E quasi
-todas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da sua egoa branca ao
-porto para vir cavaquear com o collega.
-
-As ferias, realmente, s eram divertidas para Carlos quando trazia para
-a quinta o seu intimo, o grande Joo da Ega, a quem Affonso da Maia se
-affeiora muito, por elle e pela sua originalidade, e por ser sobrinho
-d'Andr da Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas vezes outr'ora,
-hospede tambem em Santa Olavia.
-
-Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente--ora
-reprovado, ora perdendo o anno. Sua mi, rica, viuva e beata, retirada
-n'uma quinta ao p de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e
-rica tambem, tinha apenas uma noo vaga do que o Joozinho fizera, todo
-esse tempo, em Coimbra. O capello affirmava-lhe que tudo havia de
-acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o pap e como
-o titi: e esta promessa bastava boa senhora, que se occupava sobretudo
-da sua doena de entranhas e dos confortos d'esse padre Seraphim.
-Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da
-quinta, que elle escandalisava com a sua irreligio e as suas facecias
-hereticas.
-
-Joo da Ega, com effeito, era considerado no s em Celorico, mas tambem
-na Academia que elle espantava pela audacia e pelos ditos, como o maior
-atheu, o maior demagogo, que jmais apparecera nas sociedades humanas.
-Isto lisonjeava-o: por systema exagerou o seu odio Divindade, e a toda
-a Ordem social: queria o massacre das classes-mdias, o amor livre das
-fices do matrimonio, a repartio das terras, o culto de Satanaz. O
-esforo da intelligencia n'este sentido terminou por lhe influenciar as
-maneiras e a physionomia; e, com a sua figura esgrouviada e scca, os
-pllos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro
-entalado no olho direito--tinha realmente alguma coisa de rebelde e de
-satanico. Desde a sua entrada na Universidade renovra as tradies da
-antiga Bohemia: trazia os rasges da batina cozidos a linha branca;
-embebedava-se com carrasco; noite, na Ponte, com o brao erguido,
-atirava injurias a Deus. E no fundo muito sentimental, enleado sempre em
-amores por meninas de quinze annos, filhas de empregados, com quem s
-vezes ia passar a soire, levando-lhes cartuchinhos de dce. A sua fama
-de fidalgote rico tornava-o appetecido nas familias.
-
-Carlos escarnecia estes idyllios futricas; mas tambem elle terminou por
-se enredar n'um episodio romantico com a mulher d'um empregado do
-governo civil, uma lisboetasinha, que o seduziu pela graa d'um corpo de
-boneca e por uns lindos olhos verdes. A ella o que a fanatisra fra o
-luxo, o _groom_, a egoa ingleza de Carlos. Trocaram-se cartas; e elle
-viveu semanas banhado na poesia aspera e tumultuosa do primeiro amor
-adultero. Infelizmente a rapariga tinha o nome barbaro de Hermengarda; e
-os amigos de Carlos, descoberto o segredo, chamavam-lhe j _Eurico o
-presbytero_, dirigiam para Cellas missivas pelo correio com este nome
-odioso.
-
-Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do
-governo civil passou junto d'elle com o filhinho pela mo. Pela primeira
-vez via to de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e
-macilento. Mas o pequerrucho era adoravel, muito gordo, parecendo mais
-rolio por aquelle dia de janeiro sob os agasalhos de l azul,
-tremelicando nas pobres perninhas rxas de frio, e rindo na clara
-luz--rindo todo elle, pelos olhos, pelas covinhas do queixo, pelas duas
-rosas das faces. O pae amparava-o; e o encanto, o cuidado com que o
-rapaz ia assim guiando os passos do seu filho, impressionou Carlos. Era
-no momento em que elle lia Michelet--e enchia-lhe a alma a venerao
-litteraria da santidade domestica. Sentiu-se canalha em andar alli de
-cima do seu _dog-cart_, a preparar friamente a vergonha, e as lagrimas
-d'aquelle pobre pae to inoffensivo no seu paletot coado! Nunca mais
-respondeu s cartas em que Hermengarda lhe chamava _seu ideal_. Decerto
-a rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo civil,
-d'ahi por diante, dardejava sobre elle olhares sangrentos.
-
-Mas a grande topada sentimental de Carlos, como disse o Ega, foi
-quando elle, ao fim d'umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga
-hespanhola, e a installou n'uma casa ao p de Cellas. Chamava-se
-Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mez uma vittoria com um cavallo branco
-e Encarnacion fanatisou Coimbra como a appario d'uma _Dama das
-Camelias_, uma flr de luxo das civilisaes superiores. Pela Calada,
-pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pallidos de emoo, quando
-ella passava, reclinada na vittoria, mostrando o sapato de setim, um
-pouco da meia de sda, languida e desdenhosa, com um cosinho branco no
-regao.
-
-Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada
-_Lirio d'Israel_, _Pomba da Arca_, e _Nuvem da Manh_. Um estudante de
-theologia, rude e sebento transmontano, quiz casar com ella. Apesar das
-instancias de Carlos, Encarnacion recusou; e o theologo comeou a rondar
-Cellas, com um navalho, para beber o sangue ao Maia. Carlos teve de
-lhe dar bengaladas.
-
-Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intoleravel, fallando sem cessar
-d'outras paixes que inspirra em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe
-dera o conde de tal, o marquez sicrano, da grande posio da sua familia
-ainda aparentada com os Medina-C[oe]li: os seus sapatos de setim verde
-eram to antipathicos como a sua voz estridula: e quando tentava
-elevar-se s conversaes que ouvia, rompia a chamar ladres aos
-republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua _gracia_, o seu
-_salero_--sendo muito conservadora como todas as prostitutas. Joo da
-Ega odiava-a. E Craveiro declarou que no voltava aos Paos de Cellas
-emquanto por l apparecesse aquelle monto de carne, pago ao arratel,
-como a de vacca.
-
-Emfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos
-surprehendeu-a com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ahi
-estava, emfim, um pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos
-Medina-C[oe]li, o _Lirio d'Israel_, a admiradora dos Bourbons, foi
-recambiada a Lisboa e rua de S. Roque, seu elemento natural.
-
-Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em
-Cellas. Affonso viera de Santa Olavia, Villaa de Lisboa; toda a tarde
-no quintal, d'entre as acacias e as bella-sombras, subiram ao ar mlhos
-de foguetes; e Joo da Ega, que levra o seu ultimo _R_ no seu ultimo
-anno, no descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas
-venezianas pelos ramos, no trapesio e em roda do poo, para a
-illuminao da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Villaa,
-enfiado e tremulo, fez um _speech_; ia citar o nosso _immortal Castilho_
-quando sob as janellas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o
-_Hymno Academico_. Era uma serenata.--Ega, vermelho, de batina
-desabotoada, a luneta para traz das costas, correu sacada, a perorar:
-
---Ahi temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, comeando a sua
-gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma--ou acabar
-de a matar, segundo as circumstancias! A que parte remota d'estes reinos
-no chegou j a fama do seu genio, do seu _dog-cart_, do sebaceo
-_accessit_ que lhe ennoda o passado, e d'este vinho do Porto,
-contemporaneo dos heroes de 20, que eu, homem de revoluo e homem de
-carraspana, eu, Joo da Ega, Johanes ab Ega...
-
-O grupo escuro em baixo desatou aos _vivas_. A philarmonica, outros
-estudantes, invadiram os Paos. At tarde, sob as arvores do quintal, na
-sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de
-dce, no cessou d'estalar o _champagne_. E Villaa, limpando a testa, o
-pescoo, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo tambem:
-
---Grande coisa, ter um curso!
-
-
-E ento Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um
-anno passou. Chegra esse outono de 1875: e o av installado emfim no
-Ramalhete esperava por elle anciosamente. A ultima carta de Carlos viera
-de Inglaterra, onde andava, dizia elle, a estudar a admiravel
-organisao dos hospitaes de crianas. Assim era: mas passeava tambem
-por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idyllio
-errante pelos lagos da Escocia, com uma senhora hollandeza, separada de
-seu marido, veneravel magistrado da Haya, uma M.^{me} Rughel, soberba
-creatura de cabellos d'ouro fulvo, grande e branca como uma nympha de
-Rubens.
-
-Depois comearam a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas successivas de
-livros, outras de instrumentos e apparelhos, toda uma bibliotheca e todo
-um laboratorio--que trazia o Villaa, manhs inteiras, aturdido pelos
-armazens da alfandega.
-
---O meu rapaz vem com grandes idas de trabalho, dizia Affonso aos
-amigos.
-
-Havia quatorze mezes que elle o no via, o seu rapaz, a no ser n'uma
-photographia mandada de Milo, em que todos o acharam magro e triste. E
-o corao batia-lhe forte, na linda manh de outono, quando do terrao
-do Ramalhete, de binoculo na mo, viu assomar vagarosamente, por traz do
-alto predio fronteiro, um grande paquete do _Royal Mail_ que, lhe trazia
-o seu neto.
-
- noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o
-Villaa--no se fartavam d'admirar o bem que a viagem fizera a Carlos.
-Que differena da photographia! Que forte, que saudavel!
-
-Era decerto um formoso e magnifico moo, alto, bem feito, de hombros
-largos, com uma testa de marmore sob os anneis dos cabellos pretos, e os
-olhos dos Maias, aquelles irresistiveis olhos do pai, de um negro
-liquido, ternos como os d'elle e mais graves. Trazia a barba toda, muito
-fina, castanho-escura, rente na face, aguada no queixo--o que lhe dava,
-com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma physionomia de
-bello cavalleiro da Renascena. E o av, cujo olhar risonho e humido
-transbordava d'emoo, todo se orgulhava de o vr, de o ouvir, n'uma
-larga veia, fallando da viagem, dos bellos dias de Roma, do seu mau
-humor na Prussia, da originalidade de Moscow, das paizagens da
-Hollanda...
-
---E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio em
-que Carlos estivera bebendo o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu
-fazer?
-
---Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo.
-Descanar primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional!
-
-Ao outro dia, com effeito, Affonso veiu encontral-o na sala de
-bilhar--onde tinham sido collocados os caixotes--a despregar, a
-desempacotar, em mangas de camisa e assobiando com enthusiasmo. Pelo
-cho, pelos sophs, alastrava-se toda uma litteratura em rumas de
-volumes graves; e aqui e alm, por entre a palha, atravs das lonas
-descozidas, a luz faiscava n'um crystal, ou reluziam os vernizes, os
-metaes polidos de apparelhos. Affonso pasmava em silencio para aquelle
-pomposo apparato do saber.
-
---E onde vaes tu accommodar este museo?
-
-Carlos pensara em arranjar um vasto laboratorio alli perto no bairro,
-com fornos para trabalhos chimicos, uma sala disposta para estudos
-anatomicos e physiologicos, a sua bibliotheca, os seus apparelhos, uma
-concentrao methodica de todos os instrumentos de estudo...
-
-Os olhos do av illuminavam-se ouvindo este plano grandioso.
-
---E que no te prendam questes de dinheiro, Carlos! Ns fizemos n'estes
-ultimos annos de Santa Olavia algumas economias...
-
---Boas e grandes palavras, av! Repita-as ao Villaa.
-
-As semanas foram passando n'estes planos de installao. Carlos trazia
-realmente resolues sinceras de trabalho: a sciencia como mera
-ornamentao interior do espirito, mais inutil para os outros que as
-proprias tapessarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de
-solitario: desejava ser util. Mas as suas ambies fluctuavam, intensas
-e vagas; ora pensava n'uma larga clinica; ora na composio macissa de
-um livro iniciador; algumas vezes em experiencias physiologicas,
-pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou suppunha sentir, o tumulto
-de uma fora, sem lhe discernir a linha d'applicao. Alguma cousa de
-brilhante, como elle dizia: e isto para elle, homem de luxo e homem
-d'estudo, significava um conjuncto de representao social e de
-actividade scientifica; o remecher profundo de idas entre as
-influencias delicadas da riqueza; os elevados vagares da philosophia
-entremeados com requintes de _sport_ e de gosto; um Claude Bernard que
-fosse tambem um Morny... No fundo era um _dilletante_.
-
-Villaa fra consultado sobre a localidade propria para o laboratorio; e
-o procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incanavel.
-Primeira cousa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?...
-
-Carlos no decidira fazer _exclusivamente_ clinica: mas desejava de
-certo dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica.
-Ento Villaa suggeriu que o consultorio estivesse separado do
-laboratorio.
-
---E a minha razo esta: a vista de apparelhos, machinas, cousas, faz
-esmorecer os doentes...
-
---Tem voc razo, Villaa! exclamou Affonso. J meu pae dizia: poupe-se
-ao boi a vista do malho.
-
---Separados, separados, meu senhor, affirmou o procurador n'um tom
-profundo.
-
-Carlos concordou. E Villaa bem depressa descobriu, para o laboratorio,
-um antigo armazem, vasto e retirado, ao fundo de um pateo, junto ao
-largo das Necessidades.
-
---E o consultorio, meu senhor, no aqui, nem acol; no Rocio, alli
-em pleno Rocio!
-
-Esta ida do Villaa no era desinteressada. Grande enthusiasta da
-_Fuso_, membro do Centro progressista, Villaa Junior aspirava a ser
-vereador da camara, e mesmo em dias de satisfao superior (como quando
-o seu anniversario natalicio vinha annunciado no _Illustrado_, ou quando
-no Centro citava com applauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptides
-mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultorio
-gratuito, no Rocio, o consultorio do dr. Maia, do seu Maia reluziu-lhe
-logo vagamente como um elemento de influencia. E tanto se agitou, que
-d'ahi a dois dias tinha l alugado um primeiro andar d'esquina.
-
-Carlos mobilou-o com luxo. N'uma antecamara, guarnecida de banquetas de
-marroquim, devia estacionar, franceza, um creado de libr. A sala de
-espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas,
-as plantas em vasos de Rouen, quadros de muita cr, e ricas poltronas
-cercando a jardineira coberta de colleces do _Charivari_, de vistas
-estereoscopicas, d'albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente
-o ar triste de consultorio at um piano mostrava o seu teclado branco.
-
-O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quasi austero, todo em
-velludo verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que
-comeavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do
-Ramalhete, o Cruges, o marquez de Souzellas, com quem percorrera a
-Italia--vieram vr estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano
-e achou-o abominavel; Taveira absorveu-se nas photographias d'actrizes;
-e a unica approvao franca veiu do marquez, que depois de contemplar o
-divan do gabinete, verdadeiro movel de serralho, vasto, voluptuoso,
-ffo, experimentou-lhe a doura das molas e disse, piscando o olho a
-Carlos:
-
---A calhar.
-
-No pareciam acreditar n'estes preparativos. E todavia eram sinceros.
-Carlos at fizera annunciar o consultorio nos jornaes; quando viu porem
-o seu nome em letras grossas, entre o de uma engommadeira Boa Hora e
-um reclamo de casa de hospedes,--encarregou Villaa de retirar o
-annuncio.
-
-Occupava-se ento mais do laboratorio, que decidira installar no
-armazem, s Necessidades. Todas as manhs, antes de almoo, a visitar
-as obras. Entrava-se por um grande pateo, onde uma bella sombra cobria
-um poo, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam
-ao muro. Carlos j decidira transformar aquelle espao em fresco
-jardinete inglez; e a porta do casaro encantava-o, ogival e nobre,
-resto de fachada d'ermida, fazendo um accesso veneravel para o seu
-sanctuario de sciencia. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim;
-sempre um vago martellar preguioso n'uma poeira alvadia; sempre as
-mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um
-carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar alli, desde seculos,
-aplainando uma taboa eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os
-trabalhadores que andavam alargando a claraboia, no cessavam de
-assobiar, no sol d'inverno, alguma lamuria de fado.
-
-Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d'obras, que lhe asseverava
-invariavelmente como d'ahi a dois dias havia de s. ex.^a vr a
-differena. Era um homem de meia edade, risonho, de fallar doce, muito
-barbeado, muito lavado, que morava ao p do Ramalhete, e tinha no bairro
-fama de republicano. Carlos, por sympathia, como visinho, apertava-lhe
-sempre a mo: e o sr. Vicente, considerando-o por isso um avanado, um
-democrata, confiava-lhe as suas esperanas. O que elle desejava primeiro
-que tudo era um 93, como em Frana...
-
---O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada, e rolia face
-do demagogo.
-
---No, senhor, um navio, um simples navio...
-
---Um navio?
-
---Sim, senhor, um navio fretado custa da nao, em que se mandasse
-pela barra fra o rei, a familia real, a _cambada_ dos ministros, dos
-politicos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc.
-
-Carlos sorria, s vezes argumentava com elle.
-
---Mas est o sr. Vicente bem certo, que apenas a _cambada_, como to
-exactamente diz, desapparecesse pela barra fra, ficavam resolvidas
-todas as cousas e tudo atolado em felicidade?
-
-No, o sr. Vicente no era to burro que assim pensasse. Mas,
-supprimida a cambada, no via s. ex.^a? Ficava o paiz desatravancado; e
-podiam ento comear a governar os homens de saber e de progresso...
-
---Sabe v. ex.^a qual o nosso mal? No m vontade d'essa gente;
-muita somma de ignorancia. No sabem. No sabem nada. Elles no so
-maus, mas so umas cavalgaduras!
-
---Bem, ento essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando o
-relogio e despedindo-se d'elle com um valente _shakehands_, veja se me
-andam. No lh'o peo como proprietario, como correligionario.
-
---D'aqui a dois dias ha de v. ex.^a vr a differena, respondia o mestre
-d'obras, desbarretando-se.
-
-No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almoo.
-Carlos encontrava quasi sempre o av j na sala de jantar, acabando de
-percorrer algum jornal junto ao fogo, onde a tepida suavidade d'aquelle
-fim de outono no permittia accender lume, mas verdejando todo de
-plantas d'estufa.
-
-Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no
-seu luxo macisso e sobrio, as baixellas antigas; pelas tapearias ovaes
-dos muros apainelados corriam scenas de ballada, caadores medivaes
-soltando o falco, uma dama entre pagens alimentando os cysnes de um
-lago, um cavalleiro de viseira callada seguindo ao longo d'um rio; e
-contrastando com o tecto escuro de castanho entalhado a meza
-resplandecia com as flres entre os crystaes.
-
-O reverendo Bonifacio, que desde que se tornara dignatario da Egreja
-comia com os senhores, l estava j, magestosamente sentado sobre a
-alvura nevada da toalha, sombra de algum grande ramo. Era alli, no
-aroma das rosas, que o veneravel gato gostava de lamber, com o seu vagar
-estupido, as sopas de leite servidas n'um covilhete de Strasburgo,
-depois agachava-se, traava por diante do peito a fofa pluma da sua
-cauda, e, de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo elle uma bola
-entufada de pello branco malhado de ouro, gosava de leve uma sesta
-macia.
-
-Affonso,--como confessava, sorrindo e humilhado--a-se tornando com a
-velhice um _gourmet_ exigente; e acolhia, com uma concentrao de
-critico, as obras d'arte do _chef_ francez que tinham agora, um
-cavalheiro de mau genio, todo bonapartista, muito parecido com o
-imperador, e que se chamava Mr. Theodore. Os almoos no Ramalhete eram
-sempre delicados e longos; depois, ao caf, ficavam ainda conversando; e
-passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamao,
-precipitando-se sobre relogio, se lembrava do seu consultorio. Bebia um
-calice de Chartreuse, accendia pressa um charuto:
-
---Ao trabalho, ao trabalho! exclamava.
-
-E o av, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquella
-occupao, emquanto elle ficava alli a vadiar toda a manh...
-
---Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez v para l
-passar um bocado, occupar-me de chimica.
-
---E ser talvez um grande chimico. O av tem j a feitio.
-
-O velho sorria.
-
---Esta carcassa j no d nada, filho. Est pedindo eternidade!
-
---Quer alguma cousa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos, abotoando
- pressa as suas luvas de governar.
-
---Bom dia de trabalho.
-
---Pouco provavel...
-
-E no _dog-cart_, com aquella linda egoa, a _Tunante_, ou no _phaeton_
-com que maravilhava Lisboa, Carlos l partia em grande estylo para a
-Baixa, para o trabalho.
-
-O seu gabinete, no consultorio, dormia n'uma paz tepida entre os
-espessos velludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda
-verde corridas. Na sala, porm, as tres janellas abertas bebiam farta
-a luz; tudo alli parecia festivo; as poltronas em torno da jardineira
-estendiam os seus braos, amaveis e convidativas; o teclado branco do
-piano ria e esperava, tendo abertas por cima as _Canes de Gounod_; mas
-no apparecia jmais um doente. E Carlos,--exactamente como o creado
-que, na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o _Diario de
-Noticias_, acaapado na banqueta--accendia um cigarro Laferme, tomava
-uma Revista, e estendia-se no divan. A prosa porm dos artigos estava
-como embebida do tedio moroso do gabinete: bem depressa bocejava,
-deixava car o volume.
-
-Do Rocio, o ruido das carroas, os gritos errantes de preges, o rolar
-dos americanos, subiam, n'uma vibrao mais clara, por aquelle ar fino
-de novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete,
-vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as cpas mesquinhas das arvores
-de municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurrao lenta de
-cidade preguiosa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam ir
-penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando pelos
-velludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos n'uma
-indolencia e n'uma dormencia... Com a cabea na almofada, fumando, alli
-ficava, n'essa quietao de sesta, n'um scismar que se a desprendendo,
-vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que se eleva d'uma brazeira meia
-apagada; at que com um esforo sacudia este torpor, passeiava na sala,
-abria aqui e alm pelas estantes um livro, tocava no piano dois
-compassos de walsa, espriguiava-se--e, com os olhos nas flores do
-tapete, terminava por decidir que aquellas duas horas de consultorio
-eram estupidas!
-
---Est ahi o carro? a perguntar ao creado.
-
-Accendia bem depressa outro charuto, calava as luvas, descia, bebia um
-largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo:
-
---Dia perdido!
-
-
-Foi uma d'essas manhs que preguiando assim no soph com a _Revista dos
-Dois Mundos_ na mo, elle ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz
-bem conhecida, bem querida, que dizia por trs do reposteiro:
-
---Sua Alteza Real est visivel?
-
---Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do soph.
-
-E cahiram nos braos um do outro, beijando-se na face, enternecidos.
-
---Quando chegaste tu?
-
---Esta manh. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos
-hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba!
-Tu vens esplendido d'esses Londres, d'essas civilisaes superiores.
-Ests com um ar Renascena, um ar Valois... No ha nada como a barba
-toda!
-
-Carlos ria, abraando-o outra vez.
-
---E d'onde vens tu, de Celorico?
-
---Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O figado, o bao,
-uma infinidade de visceras compromettidas. Emfim, doze annos de vinhos e
-aguas ardentes...
-
-Depois fallaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em
-Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, s
-varzeas de Celorico, o adeus de eternidade.
-
---Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me succede com
-minha me... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir
-viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, no
-cau! Fiquei na quinta, fazendo epigrammas ao padre Seraphim e a toda a
-crte do cu. Chega julho, e apparece nos arredores uma epidemia de
-anginas. Um horror, creio que vocs lhe chamam diphtericas... A mam
-salta immediatamente concluso que a minha presena, a presena do
-atheo, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que offendeu Nosso Senhor e
-attrahiu o flagello. Minha irm concorda. Consultam o padre Seraphim. O
-homem, que no gosta de me vr na quinta, diz que possivel que haja
-indignao do Senhor--e minha me vem pedir-me quasi de joelhos, com a
-bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que no esteja
-alli chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz...
-
---E a epidemia...
-
---Desappareceu logo, disse o Ega, comeando a puxar devagar dos dedos
-magros uma longa luva cr de canario.
-
-Carlos mirava aquellas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o
-cabello que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na
-gravata de setim uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dandy,
-vistoso, paramentado, artificial e com p d'arroz--e Carlos deixou emfim
-escapar a exclamao impaciente que lhe bailava nos labios:
-
---Ega, que extraordinario casaco!
-
-Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o
-antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pellia, uma sumptuosa
-pellia de principe russo, agasalho de tren e de neve, ampla, longa,
-com alamares trespassados Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoo
-esganiado e dos pulsos de thisico uma rica e ffa espessura de pelles
-de marta.
-
--- uma boa pellia, hein? disse elle logo, erguendo-se, abrindo-a,
-exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss... Beneficios
-da epidemia.
-
---Como podes tu supportar isso?
-
--- um bocado pesada, mas tenho andado constipado.
-
-Tornou a recostar-se no soph, adiantando o sapato de verniz muito
-bicudo, e, de monocolo no olho, examinou o gabinete.
-
---E tu que fazes? conta-me l... Tens isto explendido!
-
-Carlos fallou dos seus planos, de altas idas de trabalho, das obras do
-laboratorio...
-
---Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega
-interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o velludo dos reposteiros,
-mirar os torneados da secretria de pau preto.
-
---No sei. O Villaa que deve saber...
-
-E Ega, com as mos enterradas nos vastos bolsos da pellia,
-inventariando o gabinete, fazia consideraes:
-
---O velludo d seriedade... E o verde escuro a cr suprema, a cr
-esthetica... Tem a sua expresso propria, enternece e faz pensar...
-Gosto d'este divan. Movel de amor...
-
-Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho,
-estudando os ornatos.
-
---Tu s o grandioso Salomo, Carlos! O papel bonito... E o
-cretonesinho agrada-me.
-
-Apalpou-o tambem. Uma begonia, manchada da sua ferrugem de prata, n'um
-vaso de Rouen, interessou-o. Queria saber o preo de tudo; e diante do
-piano, olhando o livro de musica aberto, as _Canes de Gounod_, teve
-uma surpreza enternecida:
-
---Homem, curioso... C me apparece! A _Barcarolla_! deliciosa,
-hein?...
-
-
- Dites, la jeune belle,
- Ou voulez-vous aller?
- La voile...
-
-
-Estou um bocado rouco... Era a nossa cano na Foz!
-
-Carlos teve outra exclamao, e crusando os braos diante d'elle:
-
---Tu ests extraordinario, Ega! Tu s outro Ega!... A proposito da
-Foz... Quem essa Madame Cohen, que estava tambem na Foz, de quem tu,
-em cartas successivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin, na
-Haia, em Londres, me fallavas como os arrobos do _Cantico dos Canticos_?
-
-Um leve rubor subiu s faces do Ega. E limpando negligentemente o
-monocolo ao leno de seda branca:
-
---Uma judia. Por isso usei o lyrismo biblico. a mulher do Cohen, has
-de conhecer, um que director do _Banco Nacional_... Dmos-nos
-bastante. sympathica... Mas o marido uma besta... Foi uma
-_flitartion_ de praia. _Voila tout_.
-
-Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o lume ao charuto, e
-ainda crado.
-
---Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocs no Ramalhete? O av
-Affonso? Quem vae por l?...
-
-No Ramalhete, o av fazia o seu _whist_ com os velhos parceiros. Ia o D.
-Diogo, o decrepito leo, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os
-bigodes... Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de
-sangue, espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbroken...
-
---No conheo. Refugiado?... Polaco?...
-
---No, ministro da Filandia... Queria-nos alugar umas cocheiras e
-complicou esta simples transaco com tantas finuras diplomaticas,
-tantos documentos, tantas cousas com o sello real da Filandia, que o
-pobre Villaa aturdido, para se desembaraar, remetteu-o ao av. O av,
-desnorteado tambem, offereceu-lhe as cocheiras de graa. Steinbroken
-considera isto um servio feito ao rei da Filandia, Filandia, vae
-visitar o av, em grande estado, com o secretario da legao, o consul,
-o vice-consul...
-
---Isso sublime!
-
---O av convida-o a jantar... E como o homem muito fino, um gentleman,
-enthusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma auctoridade
-no wisth, o av adopta-o. No sae do Ramalhete.
-
---E de rapazes?
-
-De rapazes, apparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no
-Tribunal de Contas: um Cruges, que o Ega no conhecia, um diabo
-adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de genio; o marquez de
-Souzellas...
-
---No ha mulheres?
-
---No ha quem as receba. um covil de solteires. A viscondessa,
-coitada...
-
---Bem sei. Um apoplet...
-
---Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem o Silveirinha,
-chegou-nos ultimamente o Silveirinha...
-
---O de Resende, o cretino?
-
---O cretino. Enviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado thisico, todo
-carregado de luto... Um funebre.
-
-O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e solida felicidade que
-Carlos j notara, disse puchando lentamente os punhos:
-
--- necessario reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo,
-uma bohemiasinha dourada, umas _soires_ de inverno, com arte, com
-litteratura... Tu conheces o Craft?
-
---Sim, creio que tenho ouvido fallar...
-
-Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer o Craft! O Craft
-era simplesmente a melhor cousa que havia em Portugal...
-
--- um inglez, uma especie de doido?...
-
-Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era essa a opinio da rua dos
-Fanqueiros; o indigena, vendo uma originalidade to forte como a de
-Craft, no podia explical-a seno pela doidice. O Craft era um rapaz
-extraordinario!... Agora tinha elle chegado da Suecia, de passar tres
-mezes com os estudantes de Upsala. Estava tambem na Foz... Uma
-individualidade de primeira ordem!
-
--- um negociante do Porto, no ?
-
---Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a
-face, enojado de tanta ignorancia. O Craft filho d'um _clergiman_ da
-egreja ingleza do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcut ou
-d'Australia, um Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna.
-Mas no negoceia, nem sabe o que isso . D largas ao seu temperamento
-byroneano, o que faz. Tem viajado por todo o universo, collecciona
-obras d'arte, bateu-se como voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim
-vive, _vive_ na grande, na forte, na heroica accepo da palavra.
-necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar por elle... Tens razo,
-caramba, est calor.
-
-Desembaraou-se da opulenta pellia, e appareceu em peitilho de camisa.
-
---O que! tu no trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem collete?
-
---No; ento no a podia aguentar... Isto para o effeito moral, para
-impressionar o indigena... Mas, no ha negal-o, pesada!
-
-E immediatamente voltou sua ida: apenas Craft chegasse do Porto
-relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron d'arte e
-dilletantismo, rapazes e mulheres--tres ou quatro mulheres para
-cortarem, com a graa dos decotes, a severidade das philosophias...
-
-Carlos ria-se d'esta ida do Ega. Tres mulheres de gosto e de luxo, em
-Lisboa, para adornar um cenaculo! Lamentavel illuso de um homem de
-Celorico! O marquez de Souzella tinha tentado, e para uma vez s, uma
-cousa bem mais simples--um jantar no campo com actrizes. Pois fra o
-escandalo mais engraado e mais caracteristico: uma no tinha creada e
-queria levar comsigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia
-que, acceitando, o brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas o
-amante, quando soube, deu-lhe uma ca. Esta no tinha vestido para ir;
-aquella pretendia que lhe garantissem uma libra; houve uma que se
-escandalisou com o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os
-queridos, os plhos, complicaram medonhamente a questo; uns exigiam ser
-convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos,
-fizeram-se intrigas,--emfim esta cousa banal, um jantar com actrizes,
-resultou em o Tarquinio do Gymnasio levar uma facada...
-
---E aqui tens tu Lisboa.
-
---Emfim, exclamou o Ega, se no apparecerem mulheres, importam-se, que
-em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis,
-idas, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo,
-industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo
-paquete. A civilisao custa-nos carissima com os direitos da alfandega:
-e em segunda mo, no foi feita para ns, fica-nos curta nas mangas...
-Ns julgamo-nos civilisados como os negros de S. Thom se suppem
-cavalheiros, se suppem mesmo _brancos_, por usarem com a tanga uma
-casaca velha do patro... Isto uma choldra torpe. Onde puz eu a
-charuteira?
-
-Desembaraado da magestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega
-reapparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em
-verve, lanando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas
-grandes phrases, n'uma lucta constante com o monocolo, que lhe caa do
-olho, que elle procurava pelo peito, pelos hombros, pelos rins,
-retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se
-tambem, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo, Gambetta, o
-Nihilismo; depois, com ferocidade e uma, malharam sobre o paiz...
-
-Mas o relogio ao lado bateu quatro horas; immediatamente Ega saltou
-sobre a pelissa, sepultou-se n'ella, aguou o bigode ao espelho,
-verificou a _pose_, e, encouraado nos seus alamares, sahio com um
-arsinho de luxo e d'aventura.
-
---John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar,
-onde ests tu?
-
---No _Universal_, esse sanctuario!
-
-Carlos abominava o _Universal_, queria que elle viesse para o Ramalhete.
-
---No me convm...
-
---Em todo o caso vaes hoje l jantar, vr o av.
-
---No posso. Estou compromettido com a besta do Cohen... Mas vou l
-manh almoar.
-
-J nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo, gritou para
-cima:
-
---Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro!
-
---O qu! est prompto? exclamou Carlos, espantado.
-
---Est esboado, brocha larga...
-
-O _Livro do Ega_! Fra em Coimbra, nos dois ultimos annos, que elle
-comera a fallar do seu livro, contando o plano, soltando titulos de
-capitulos, citando pelos cafs phrases de grande sonoridade. E entre os
-amigos do Ega discutia-se j o livro do Ega como devendo iniciar, pela
-frma e pela ida, uma evoluo litteraria. Em Lisboa (onde elle vinha
-passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fra annunciado como um
-acontecimento. Bachareis, contemporaneos ou seus condiscipulos, tinham
-levado de Coimbra, espalhado pelas provincias e pelas ilhas a fama do
-livro do Ega. J de qualquer modo essa noticia chegra ao Brazil... E
-sentindo esta anciosa espectativa em torno do seu livro--o Ega
-decidira-se emfim a escrevel-o.
-
-Devia ser uma epopa em prosa, como elle dizia, dando, sob episodios
-symbolicos, a historia das grandes phases do Universo e da Humanidade.
-Intitulava-se _Memorias d'um Atomo_, e tinha a frma d'uma
-autobiographia. Este atomo (o atomo do Ega, como se lhe chamava a serio
-em Coimbra) apparecia no primeiro capitulo, rolando ainda no vago das
-Nebuloses primitivas: depois vinha embrulhado, faisca candente, na massa
-de fogo que devia ser mais tarde a Terra: emfim, fazia parte da primeira
-folha de planta que surgiu da crosta ainda molle do globo. Desde ento,
-viajando nas incessantes transformaes da substancia, o atomo do Ega
-entrava na rude structura do Orango, pae da humanidade--e mais tarde
-vivia nos labios de Plato. Negrejava no burel dos santos, refulgia na
-espada dos heroes, palpitava no corao dos poetas. Gota de agua nos
-lagos de Galila, ouvira o fallar de Jesus, aos fins da tarde, quando os
-apostolos recolhiam as redes; n de madeira na tribuna da Conveno,
-sentira o frio da mo de Robespierre. Errara nos vastos anneis de
-Saturno; e as madrugadas da terra tinham-n'o orvalhado, petala
-resplandecente de um dormente e languido lyrio. Fra omnipresente, era
-omnisciente. Achando-se finalmente no bico da penna do Ega, e canado
-d'esta jornada atravez do Ser, repousava--escrevendo as suas
-_Memorias_... Tal era este formidavel trabalho--de que os admiradores do
-Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de respeito:
-
--- uma Biblia!
-
-
-
-
-V
-
-
-No escriptorio de Affonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a
-partida de whist. A mesa estava ao lado da chamin, onde a chamma morria
-nos carves escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo
-japonez, por causa da bronchite de D. Diogo e do seu horror ao ar.
-
-Esse velho dandy,--a quem as damas de outras eras chamavam o Lindo
-Diogo, gentil toureiro que dormira n'um leito real--acabava justamente
-de ter um dos seus accessos de tosse, cavernosa, aspera, dolorosa, que o
-sacudiam como uma ruina, que elle abafava no leno, com as veias
-inchadas, rxo at raiz dos cabellos.
-
-Mas passra. Com a mo ainda tremula, o decrepito leo limpou as
-lagrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compoz a rosa de
-musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um golo da sua agua chasada, e
-perguntou a Affonso, seu parceiro, n'uma voz rouca e surda:
-
---Paus, hein?
-
-E de novo, sobre o panno verde, as cartas foram cahindo n'um d'aquelles
-silencios que se seguiam s tosses de D. Diogo. Sentia-se s a
-respirao assobiada, quasi silvante, do general Sequeira, muito infeliz
-essa noite, desesperado com o Villaa seu parceiro, resingo, e com todo
-o sangue na face.
-
-Um tom fino retiniu, o relogio Luiz XV foi ferindo. alegremente,
-vivamente, a meia noite;--depois a toada argentina do seu minuete vibrou
-um momento e morreu. Houve de novo um silencio. Uma renda vermelha
-recobria os globos de dois grandes candieiros Carcel; e a luz assim
-coada, cahindo sobre os damascos vermelhos das paredes, dos assentos,
-fazia como uma doce refraco cr de rosa, um vaporoso de nuvem em que a
-sala se banhava e dormia: s, aqui e alm, sobre os carvalhos sombrios
-das estantes, rebrilhava em silencio o ouro d'um Svres, uma pallidez de
-marfim, ou algum tom esmaltado de velha majolica.
-
---O que! ainda encarniados! exclamou Carlos que abrira o reposteiro,
-entrava, e com elle o rumor distante de bolas de bilhar.
-
-Affonso, que recolhia a sua vasa, voltou logo a cabea, a perguntar com
-interesse:
-
---Como vae ella? Est socegada?
-
---Est muito melhor!
-
-Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga de origem
-alsacianna, casada com o Marcellino padeiro, muito conhecida no bairro
-pelos seus bellos cabellos, loiros, e penteados sempre em tranas
-soltas. Tinha estado morte com uma pneumonia; e apesar de melhor, como
-a padaria ficava defronte, Carlos ainda s vezes noite atravessava a
-rua para a ir vr, tranquillisar o Marcellino, que, defronte do leito e
-de gabo pelos hombros, suffocava soluos d'amante, escrevinhando no
-livro de contas.
-
-Affonso interessara-se anciosamente por aquella pneumonia; e agora
-estava realmente agradecido Marcellina por ter sido salva por Carlos.
-Fallava d'ella commovido; gabava-lhe a linda figura, o aceio alsacianno,
-a prosperidade que trouxera padaria... Para a convalescena, que se
-approximava, j lhe mandra at seis garrafas de Chateau-Margaux.
-
---Ento fra de perigo, inteiramente fra de perigo?--perguntou Villaa,
-com os dedos na caixa do rap, sublinhando muito a sua sollicitude.
-
---Sim, quasi rija--disse Carlos, que se approximara da chamin,
-esfregando as mos, arrepiado.
-
- que a noite, fra, estava regelada! Desde o anoitecer geava, d'um cu
-fino e duro, transbordando de estrellas que rebrilhavam como pontas
-afiadas d'ao; e nenhum d'aquelles cavalheiros, desde que se entendia,
-conhecera jmais o thermometro to baixo. Sim, Villaa lembrava-se d'um
-janeiro peor no inverno de 64...
-
--- necessario carregar no _punch_, hein, general!--exclamou Carlos,
-batendo galhofeiramente nos hombros macissos do Sequeira.
-
---No me opponho, rosnou o outro, que fixava com concentrao e rancor
-um valete de copas sobre a meza.
-
-Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carves: uma chuva d'oiro
-cahiu por baixo, uma chamma mais forte ressaltou, rugiu, alegrando tudo,
-avermelhando em redor as pelles de urso onde o Reverendo Bonifacio,
-espapado, torrava ao calor, ronronava de gso.
-
---O Ega deve estar radiante, dizia Carlos com os ps chamma. Tem,
-emfim, justificada a pellissa. A proposito, algum dos senhores tem visto
-o Ega estes ultimos dias?
-
-Ninguem respondeu, no interesse subito que causava a cartada. A longa
-mo de D. Diogo recolhia de vagar a vasa--e languidamente, no mesmo
-silencio, soltou uma carta de paus.
-
--- Diogo! Diogo! gritou Affonso, estorcendo-se, como se o
-trespassasse um ferro.
-
-Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam faiscas, collocou o seu
-valete; Affonso, profundamente infeliz, separou-se do rei de paus;
-Villaa bateu de estalo com o az. E immediatamente foi em redor uma
-discusso tremenda sobre a puchada de D. Diogo--em quanto Carlos, a quem
-as cartas sempre enfastiavam, se debruava a coar o ventre fofo do
-veneravel Reverendo.
-
---Que perguntavas tu, filho? disse emfim Affonso erguendo-se, ainda
-irritado, a buscar tabaco para o cachimbo, sua consolao nas derrotas.
-O Ega? No, ninguem o viu, no tornou a apparecer! Est tambem um bom
-ingrato, esse John...
-
-Ao nome do Ega, Villaa, parando de baralhar as cartas, erguera a face
-curiosa:
-
---Ento sempre certo que elle vae montar casa?
-
-Foi Affonso que respondeu, sorrindo e accendendo o cachimbo:
-
---Montar casa, comprar _coup_, deitar libr, dar _soires_ litterarias,
-publicar um poema, o diabo!
-
---Elle esteve l no escriptorio, dizia Villaa recomeando a baralhar.
-Esteve l a indagar o que tinha custado o consultorio, a mobilia de
-velludo, etc. O velludo verde deu-lhe no gto... Eu, como um amigo da
-casa, l lhe prestei informaes, at lhe mostrei as contas.--E
-respondendo a uma pergunta do Sequeira:--Sim, a me tem dinheiro, e
-creio que lhe d o bastante. Que em quanto a mim, elle vem-se metter na
-politica. Tem talento, falla bem, o pae j era muito regenerador... Alli
-ha ambio.
-
---Alli ha mulher, disse D. Diogo, collocando com peso esta deciso e
-accentuando-a com uma caricia languida ponta frisada dos bigodes
-brancos. L-se-lhe na cara, basta vr-lhe a cara... Alli ha mulher.
-
-Carlos sorria, gabando a penetrao de D. Diogo, o seu fino olho
-Balzac; e Sequeira, logo, franco como velho soldado, quiz saber quem era
-a Dulcinea. Mas o velho dandy declarou, da profundidade da sua
-experiencia, que essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel no se
-saberem. Depois passando os dedos magros e lentos pela face, deixou
-cahir d'alto e com condescendencia este juizo:
-
---Eu gosto do Ega, tem apresentao; sobretudo tem _degag_...
-
-Tinham recebido as cartas, fez-se um silencio na meza. O general, vendo
-o seu jogo, soltou um grunhido surdo, arrebatou o cigarro do cinzeiro, e
-puxou-lhe uma fumaa furiosa.
-
---Os senhores so muito viciosos, vou vr a gente do bilhar, disse
-Carlos. Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marquez, a perder j
-quatro mil ris. Querem o _punch_ aqui?
-
-Nenhum dos parceiros respondeu.
-
-E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silencio de solemnidade. O
-marquez, estirado sobre a tabella, com a perna meia no ar, o comeo de
-calva alvejando luz crua que cahia dos _abat-jours_, de porcelana,
-preparava a carambola decisiva. Cruges, que apostra por elle, deixra o
-divan, o cachimbo turco, e, coando com um gesto nervoso a grenha crespa
-que lhe ondeava at gola do jaqueto, vigiava a bola inquieto, com os
-olhinhos piscos, o nariz espetado. Do fundo da sala, destacando em
-preto, o Silveirinha, o Eusebiosinho de S.^{ta} Olavia, estendia tambem
-o pescoo, affogado n'uma gravata de viuvo de merino negro e sem
-collarinho, sempre macambuzio, mais mollengo que outr'ora, com as mos
-enterradas nos bolsos--to funebre que tudo n'elle parecia complemento
-do luto pesado, at o preto do cabello chato, at o preto das lunetas de
-fumo. Junto ao bilhar, o parceiro do marquez, o conde Steinbroken,
-esperava: e apesar do susto, da emoo d'homem do norte aferrado ao
-dinheiro, conservava-se correcto, encostado ao taco, sorrindo, sem
-desmanchar a sua linha britanica,--vestido como um inglez, inglez
-tradicional d'estampa, com uma sobrecasaca justa de manga um pouco
-curta, e largas calas de xadrez sobre sapates de taco raso.
-
---Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tostesinhos para c,
-Silveirinha!
-
-O marquez carambolra, ganhando a partida, e triumphava tambem:
-
---Voc trouxe-me a sorte, Carlos!
-
-Steinbroken depozera logo o taco, e alinhava j sobre a tabella,
-lentamente, uma a uma, as quatro placas perdidas.
-
-Mas o marquez, de giz na mo, reclamava-o para outras refregas,
-esfaimado d'ouro filandez.
-
---Nada mach!... Vc hoje 'st trivl! dizia o diplomata, no seu
-portuguez fluente, mas de accento barbaro.
-
-O marquez insistia, plantado diante d'elle, de taco ao hombro como uma
-vara de campino, dominando-o com a sua macissa, desempenada estatura. E
-ameaava-o de destinos medonhos n'uma voz possante habituada a ressoar
-nas lezirias; queria-o arruinar ao bilhar, foral-o a empenhar aquelles
-bellos anneis, leval-o elle, ministro da Filandia e representante d'uma
-raa de reis fortes, a vender senhas porta da Rua dos Condes!
-
-Todos riam; e Steinbroken tambem, mas com um riso franzido e difficil,
-fixando no marquez o olhar azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo
-da sua myopia a dureza d'um metal. Apesar da sua sympathia pela illustre
-casa de Souzella, achava estas familiaridades, estas tremendas chalaas,
-incompativeis com a sua dignidade e com a dignidade da Filandia. O
-marquez, porm, corao d'ouro, abraava-o j pela cinta, com expanso:
-
---Ento se no quereis mais bilhar, um bocadinho de canto, Steinbroken
-amigo!
-
-A isto o ministro accedeu, affavel, preparando-se logo, dando caricias
-ligeiras s suissas, e aos anneis do cabello d'um loiro de espiga
-desbotada.
-
-Todos os Steinbrokens, de paes a filhos (como elle dissera a Affonso)
-eram bons barytonos: e isso trouxera familia no poucos proventos
-sociaes. Pela voz captivara seu pae o velho rei Rudolpho III, que o
-fizera chefe das caudelarias, e o tinha noites inteiras nos seus
-quartos, ao piano, cantando psalmos lutheranos, coraes escolares, sagas
-da Dallecarlia--em quanto o taciturno monarcha cachimbava e bebia, at
-que saturado de emoo religiosa, saturado de cerveja preta, tombava do
-soph, soluando e babando-se. Elle mesmo, Steinbroken, levara parte da
-sua carreira ao piano, j como addido, j como segundo secretario. Feito
-chefe de misso, absteve-se: foi s quando vio o _Figaro_ celebrar
-repetidamente as walsas do principe Artoff, embaixador da Russia em
-Paris, e a voz de _basso_ do conde de Baspt, embaixador d'Austria em
-Londres, que elle, seguindo to altos exemplos, arriscou, aqui e alem,
-em _soires_ mais intimas, algumas melodias filandezas. Emfim cantou no
-Pao. E desde ento exerceu com zelo, com formalidades, com praxes, o
-seu cargo de barytono plenipotenciario, como dizia o Ega. Entre
-homens, e com os reposteiros corridos, Steinbroken no duvidava todavia
-cantarolar o que elle chamava canonetas brejras--o _Amant d'Amanda_,
-ou uma certa ballada ingleza:
-
-
- On the Serpentine,
- Oh my Caroline...
- Oh!
-
-
-Este _oh_! como elle o expellia, gemido, bem puxado, n'um movimento de
-batuque, expressivo e todavia digno... Isto entre rapazes e com os
-reposteiros fechados.
-
-N'essa noite, porm, o marquez, que o conduzia pelo brao sala do
-piano, exigia uma d'aquellas canes da Filandia, de tanto sentimento e
-que lhe faziam to bem alma...
-
---Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, _frisk_, _gluzk_... La
-ra l, l, l!
-
---A Primavera, disse o diplomata sorrindo.
-
-Mas antes de entrar na sala, o marquez soltou o brao de Steinbroken,
-fez um signal ao Silveirinha para o fundo do corredor--e ahi, sob um
-sombrio painel de _Santa Magdalena no deserto_ penitenciando-se e
-mostrando nudezas ricas de nympha lubrica, interpellou-o quasi com
-aspereza:
-
---Vamos ns a saber. Ento, decide-se ou no?
-
-Era uma negociao que havia semanas se arrastava entre elles, a
-respeito d'uma parelha d'egoas. Silveirinha nutria o desejo de montar
-carruagem; e o marquez procurava vender-lhe umas egoas brancas, a que
-elle dizia ter tomado enguio, apesar de serem dois nobres animaes.
-Pedia por ellas um conto e quinhentos mil ris. Silveirinha fra avisado
-pelo Sequeira, por Travassos, por outros entendedores, que era _uma
-espiga_: o marquez tinha a sua moral propria para negocios de gado, e
-exultaria em _intrujar um pichote_. Apesar de advertido, Eusebio cedendo
- influencia da grossa voz do marquez, da robustez do seu phisico, da
-antiguidade do seu titulo, no ousava recusar. Mas hesitava; e n'essa
-noite deu a resposta usual de forreta, coando o queixo, cosido ao muro:
-
---Eu verei, marquez... Um conto e quinhentos dinheiro...
-
-O marquez ergueu dois braos ameaadores como duas trancas:
-
---Homem, sim ou no! Que diabo... Dois animaes que so duas estampas...
-Irra! Sim ou no!
-
-Eusebio ageitou as lunetas, rosnou:
-
---Eu verei... Elle dinheiro. Sempre dinheiro...
-
---Queria voc, talvez, pagal-as com feijes? Voc leva-me a commetter um
-excesso!
-
-O piano resoou, em dois accordes cheios, sob os dedos do Cruges; e o
-marquez, baboso por musica, immediatamente largou a questo das egoas,
-recolheu em pontas de ps. Eusebiosinho ainda ficou a remoer, a coar o
-queixo; emfim, s primeiras notas de Steinbroken, veiu pousar como uma
-sombra silenciosa entre a hombreira e o reposteiro.
-
-Afastado do piano segundo o seu costume, curvado, com a cabelleira como
-pousada s costas, Cruges feria o acompanhamento, d'olhos cravados no
-livro de _Melodias Filandezas_. Ao lado, empertigado, quasi official,
-com o leno de seda na mo, a mo fincada contra o peito, Steinbroken
-soltava um canto festivo, n'um movimento de tarantella triumphante, em
-que passavam, como um entrechocar de seixos, esses bocados de palavras
-de que o marquez gostava, _frisk_, _slcht_, _clikst_, _glukst_. Era a
-_Primavera_--fresca e silvestre, primavera do norte em paiz de
-montanhas, quando toda uma alda dana em cros sob os fuscos abetos, a
-neve se derrete em cascatas, um sol pallido avelluda os musgos, e a
-brisa traz o aroma das resinas... Nos graves e cheios, as cantoneiras de
-Steinbroken ruborisavam-se, inchavam. Nos tons agudos todo elle se a
-alando sobre a ponta dos ps, como levado no compasso vivo; despegava
-ento a mo do peito, alargava um gesto, as bellas joias dos seus anneis
-faiscavam.
-
-O marquez, com as mos esquecidas nos joelhos, parecia beber o canto. Na
-face de Carlos passava um sorriso enternecido pensando em Madame Rughel,
-que viajara na Filandia, e cantava s vezes aquella _Primavera_ nas suas
-horas de sentimentalismo flamengo...
-
-Steinbroken soltou um _stacato_ agudo, isolado como uma voz n'um
-alto,--e immediatamente, afastando-se do piano, passou o leno sobre as
-fontes, sobre o pescoo, rectificou com um pucho a linha da
-sobrecasaca, e agradeceu o acompanhamento ao Cruges n'um silencioso
-_shake-hands_.
-
---Bravo! bravo! berrava o marquez, batendo as mos como malhos.
-
-E outros applausos resoaram porta, dos parceiros do whist, que tinham
-findado a partida. Quasi immediatamente os escudeiros entravam com um
-servio frio de croquettes e sandwiches, offerecendo St. Emilion ou
-Porto; e sobre uma meza, entre os renques de calices, a puncheira
-fumegou n'um aroma doce e quente de cognac e limo.
-
---Ento, meu pobre Steinbroken, exclamou Affonso, vindo-lhe bater
-amavelmente no hombro, ainda d d'esses bellos cantos a estes bandidos,
-que o maltratam assim ao bilhar?
-
---Fui essfladito, si, essfladito. Agradecido, n, prefiro um copita
-Porto...
-
---Hoje fomos ns as victimas, disse-lhe o general respirando com delicia
-o seu punch.
-
---Voc tbem, meu genral?
-
---Sim, senhor, tambem me cascaram...
-
-E que dizia o amigo Steinbroken s noticias da manh? perguntava
-Affonso. A queda de Mac-Mahon, a eleio de Grevy... O que o alegrava
-n'isto, era o desapparecimento definitivo do antipathico senhor de
-Broglie e da sua _clique_. A impertinencia d'aquelle academico estreito,
-querendo impr a opinio de dois ou tres sales doutrinarios Frana
-inteira, a toda uma Democracia! Ah, o _Times_ cantava-lh'as!
-
---E o _Punch_? No viu o _Punch_? Oh, delicioso!...
-
-O ministro pousara o calice, e esfregando cautelosamente as mos disse
-n'uma meia voz grave a sua phrase, a phrase definitiva com que julgava
-todos os acontecimentos que apparecem em telegrammas:
-
--- grve... eqsessivemente grve...
-
-Depois fallou-se de Gambetta; e como Affonso lhe attribuia uma dictadura
-proxima, o diplomata tomou mysteriosamente o brao de Sequeira, murmurou
-a palavra suprema com que definia todas as personalidades superiores,
-homens d'estado, poetas, viajantes ou tenores.
-
--- um hom[~e] mto forte. um hom[~e] eqsessivemente forte!
-
---O que elle , um ronha! exclamou o general, escorropichando o seu
-calice.
-
-E todos tres deixaram a sala, discutindo ainda a republica--em quanto
-Cruges continuava ao piano, vagueando por Mendelsshon e por Choppin,
-depois de ter devorado um prato de croquettes.
-
-O marquez e D. Diogo, sentados no mesmo soph, um com a sua chasada
-d'invalido, outro com um copo de S.^t Emilion, a que aspirava o
-_bouquet_, fallavam tambem de Gambetta. O marquez gostava de Gambetta:
-fra o unico que durante a guerra mostrara ventas de homem; l que
-tivesse comido ou que quizesse comer como diziam,--no sabia nem lhe
-importava. Mas era teso! E o sr. Grevy tambem lhe parecia um cidado
-serio, optimo para chefe do Estado...
-
---Homem de sala? perguntou languidamente o velho leo.
-
-O marquez s o vira na Assembla, presidindo e muito digno...
-
-D. Diogo murmurou, com um melancolico desdem na voz, no gesto, no olhar:
-
---O que eu queria a toda essa canalha era a saude, marquez!
-
-O marquez consolou-o, galhofeiro e amavel. Toda essa gente, parecendo
-forte por se occupar de cousas fortes, no fundo tinha asthma, tinha
-pedra, tinha gota... E o Dioguinho era um Hercules...
-
---Um Hercules! O que , que voc apaparica-se muito... A doena um
-mau habito em que a gente se pe. necessario reagir... Voc devia
-fazer gymnastica, e muita agua fria por essa espinha. Voc, na
-realidade, de ferro!
-
---Enferrujadote, enferrujadote...--replicou o outro, sorrindo e
-desvanecido.
-
---Qual enferrujadote! Se eu fosse cavallo ou mulher, antes o queria a
-voc que a esses badamecos que por ahi andam meio podres... J no ha
-homens da sua tempera, Dioguinho!
-
---J no ha nada, disse o outro grave e convencido, e como o derradeiro
-homem nas ruinas d'um mundo.
-
-Mas era tarde, a-se agasalhar, recolher, depois de acabar a sua
-chasada. O marquez ainda se demorou, preguiando no soph, enchendo
-lentamente o cachimbo, dando um olhar quella sala que o encantava com o
-seu luxo Luiz XV, os seus flordos e os seus dourados, as cerimoniosas
-poltronas de Beauvais feitas para a amplido das anquinhas, as
-tapearias de Gobelins de tons desmaiados, cheias de galantes pastoras,
-longes de parques, laos e ls de cordeiros, sombras d'idyllios mortos,
-transparecendo n'uma trama de seda... quella hora, no adormecimento que
-a pesando, sob a luz suave e quente das velas que findavam, havia ali a
-harmonia e o ar de um outro seculo: e o marquez reclamou do Cruges um
-minuete, uma gavotta, alguma cousa que evocasse Versalhes, Maria
-Antonietta, o rythmo das bellas maneiras e o aroma dos empoados. Cruges
-deixou morrer sob os dedos a melodia vaga que estava diluindo em
-suspiros, preparou-se, alargou os braos--e atacou, com um pedal
-solemne, o _Hymno da Carta_. O marquez fugiu.
-
-Villaa e Euzebiozinho conversavam no corredor, sentados n'uma das arcas
-baixas de carvalho lavrado.
-
---A fazer politica? perguntou-lhes o marquez ao passar.
-
-Ambos sorriram; Villaa respondeu jocosamente:
-
--- necessario salvar a patria!
-
-Eusebio pertencia tambem ao centro progressista, aspirava a influencia
-eleitoral no circulo de Resende, e alli s noites no Ramalhete faziam
-conciliabulos. N'esse momento porm fallavam dos Maias: Villaa no
-duvidava confiar ao Silveirinha, homem de propriedade, visinho de
-S.^{ta} Olavia, quasi creado com Carlos, certas cousas que lhe
-desagradavam na casa, onde a auctoridade da sua palavra parecia
-diminuir; assim, por exemplo, no podia approvar o ter Carlos tomado uma
-frisa de assignatura.
-
---Para que, exclamava o digno procurador, para que, meu caro senhor?
-Para l no pr os ps, para passar aqui as noites... Hoje diz que ha
-enthusiasmo, e elle ahi esteve. Tem ido l, eu sei? duas ou trs
-vezes... E para isto d c uns poucos de centos de mil ris. Podia fazer
-o mesmo com meia duzia de libras! No, no governo. No fim a frisa
-para o Ega, para o Taveira, para o Cruges... Olhe, eu no me utiliso
-d'ella; nem o amigo. verdade, que o amigo est de luto.
-
-Eusebio pensou, com despeito, que se podia metter para o fundo da
-frisa--se tivesse sido convidado. E murmurou, sem conter um sorriso
-molle:
-
---Indo assim, at se podem encalacrar...
-
-Uma tal palavra, to humilhante, applicada aos Maias, casa que elle
-administrava, escandalisou Villaa. Encalacrar! Ora essa!
-
---O amigo no me comprehendeu... Ha despezas inuteis, sim, mas, louvado
-Deus, a casa pde bem com ellas! verdade que o rendimento gasta-se
-todo, at o ultimo ceitil; os cheques voam, voam, como folhas seccas; e
-at aqui o costume da casa foi pr de lado, fazer bolo, fazer reserva.
-Agora o dinheiro derrete-se...
-
-Eusebio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, os nove
-cavallos, o cocheiro inglez, os grooms... O procurador acudiu:
-
---Isso, amigo, de razo. Uma gente d'estas deve ter a sua
-representao, as suas cousas bem montadas. Ha deveres na sociedade...
-como o sr. Affonso... Gasta muito, sim, come dinheiro. No com elle,
-que lhe conheo aquelle casaco ha vinte annos... Mas so esmolas, so
-penses, so emprestimos que nunca mais v...
-
---Desperdicios...
-
---No lh'o censuro... o costume da casa; nunca da porta dos Maias, j
-meu pae dizia, sahiu ninguem descontente... Mas uma frisa, de que
-ninguem usa! s para o Cruges, s para o Taveira!...
-
-Teve de se callar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira,
-abafado at aos olhos na gola d'uma ulster, d'onde sahiam as pontas d'um
-_cachenez_ de seda clara. O escudeiro desembaraou-o dos agasalhos; e
-elle, de casaca e collete branco, limpando o bonito bigode humido da
-geada, veiu apertar a mo ao caro Villaa, ao amigo Eusebio, arrepiado,
-mas achando o frio elegante, desejando a neve e o seu _chic_...
-
---Nada, nada, dizia Villaa todo amavel, c o nosso solzinho portuguez
-sempre melhor...
-
-E foram entrando no _fumoir_, onde se ouviam as vozes do marquez, de
-Carlos, n'uma das suas sabias e prolixas cavaqueiras sobre cavallos e
-sport.
-
---Ento? que tal? A mulher? foi a interrogao que acolheu o Taveira.
-
-Mas antes de dar noticia da estreia da Morelli, a dama nova, Taveira
-reclamou alguma cousa quente. E enterrado n'uma poltrona junto do fogo,
-com os sapatos de verniz estendidos para as brazas, respirando o aroma
-do punch, saboreando uma cigarette, declarou emfim que no tinha sido um
-_fiasco_.
-
---Que ella, a meu vr, uma insignificancia, no tem nada, nem voz, nem
-escola. Mas, coitada, estava to atrapalhada, que nos fez pena. Houve
-indulgencia, deram-se-lhe umas palmas... Quando fui ao palco, ella
-estava contente...
-
---Vamos a saber, Taveira, que tal ella? inquiria o marquez.
-
---Cheia, dizia o Taveira collocando as palavras como pinceladas; alta;
-muito branca; bons olhos; bons dentes...
-
---E o psinho?--E o marquez, j com os olhos accesos, passava de vagar a
-mo pela calva.
-
-Taveira no reparara no p. No era amador de ps...
-
---Quem estava? perguntou Carlos, indolente e bocejando.
-
---A gente do costume... verdade, sabes quem tomou a frisa ao lado da
-tua? Os Gouvarinhos. L appareceram hoje...
-
-Carlos no conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe: o conde de
-Gouvarinho, o par do reino, um homem alto, de lunetas, _poseur_... E a
-condessa, uma senhora inglesada, de cabello cr de cenoura, muito bem
-feita... Emfim, Carlos no conhecia.
-
-Villaa encontrava o conde no centro progressista, onde elle era uma
-columna do partido. Rapaz de talento, segundo o Villaa. O que o
-espantava que elle podesse ter assim frisa de assignatura, atrapalhado
-como estava: ainda no havia tres mezes lhe tinham protestado uma letra
-de oitocentos mil ris, no tribunal do commercio...
-
---Um asno, um caloteiro! disse o marquez com nojo.
-
---Passa-se l bem, s teras feiras...--disse Taveira, mirando a sua
-meia de seda.
-
-Depois fallou-se do duello do Azevedo da _Opinio_ com o S Nunes,
-auctor d'_El-Rei Bolacha_, a grande magica da Rua dos Condes, e
-ultimamente ministro da marinha: tinham-se tratado furiosamente nos
-jornaes de _pulhas_ e de _ladres_: e havia dez interminaveis dias que
-estavam desafiados e que Lisboa, em pasmaceira, esperava o sangue.
-Cruges ouvira que S Nunes no se queria bater, por estar de luto por
-uma tia; dizia-se tambem que o Azevedo partira precipitadamente para o
-Algarve. Mas a verdade, segundo Villaa, era que o ministro do reino,
-primo do Azevedo, para evitar o recontro, conservava a casa dos dois
-cavalheiros bloqueada pela policia...
-
---Uma canalha! exclamou o marquez com um dos seus resumos brutaes que
-varriam tudo.
-
---O ministro no deixa de ter razo, observou Villaa. Isto s vezes, em
-duellos, pde bem succeder uma desgraa...
-
-Houve um curto silencio. Carlos, que caa de somno, perguntou ao
-Taveira, atravez d'outro bocejo, se vira o Ega no theatro.
-
---Podera! La estava de servio, no seu posto, na frisa dos Cohens, todo
-puxado...
-
---Ento essa cousa do Ega com a mulher do Cohen, disse o marquez, parece
-clara...
-
---Transparente, diaphana! um crystal!...
-
-Carlos, que se erguera a accender uma cigarette para despertar, lembrou
-logo a grande maxima de D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era
-preferivel no se saberem! Mas o marquez, a isto, lanou-se em
-consideraes pesadas. Estimava que o Ega _se atirasse_; e via ahi um
-facto de represalia social, por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral
-no gostava de judeus; mas nada lhe offendia tanto o gosto e a razo
-como a especie _banqueiro_. Comprehendia o salteador de clavina, n'um
-pinheiral; admittia o communista, arriscando a pelle sobre uma
-barricada. Mas os argentarios, os _Fulanos e C.^{as}_ faziam-n'o
-encavacar... E achava que destruir-lhes a paz domestica era acto
-meritorio!
-
---Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relogio. E eu
-aqui, empregado publico, tendo deveres para com o Estado, logo s dez
-horas da manh.
-
---Que diabo, se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se?
-Cavaquea-se?
-
---Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo... At contas!
-
-Affonso da Maia j estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham
-partido; e D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, l fra tambem a
-tomar ainda gemada, a pr ainda o emplastro, sob o olho solicito da
-Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro amor. E os outros no
-tardaram a deixar o Ramalhete. Taveira, de novo sepultado na _ulster_,
-trotou at casa, uma vivendasinha perto com um bonito jardim. O marquez
-conseguiu levar Cruges no _coup_, para lhe ir fazer musica a casa, no
-orgo, at s tres ou quatro horas, musica religiosa e triste, que o
-fazia chorar, pensando nos seus amores e comendo frango frio com fatias
-de salame. E o viuvo, o Eusebiosinho, esse, batendo o queixo, to morosa
-e soturnamente como se caminhasse para a sua propria sepultura, l se
-dirigiu ao lupanar onde tinha uma _paixo_.
-
-
-O laboratorio de Carlos estava prompto--e muito convidativo, com o seu
-soalho novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta meza de marmore, um
-amplo divan de clina para o repouso depois das grandes descobertas, e em
-redor, por sobre peanhas e prateleiras, um rico brilho de metaes e
-crystaes; mas as semanas passavam, e todo esse bello material de
-experimentao, sob a luz branca da claraboia, jazia virgem e ocioso. S
-pela manh um servente a ganhar o seu tosto diario, dando l uma volta
-preguiosa com um espanador na mo.
-
-Carlos realmente no tinha tempo de se occupar do laboratorio; e
-deixaria a Deus mais algumas semanas o privilegio exclusivo de saber o
-segredo das cousas--como elle dizia rindo ao av. Logo pela manh cedo
-a fazer as suas duas horas d'armas com o velho Randon; depois via
-alguns doentes no bairro onde se espalhara, com um brilho de legenda, a
-cura da Marcellina--e as garrafas de Bordeus que lhe mandara Affonso.
-Comeava a ser conhecido como medico. Tinha visitas no
-consultorio--ordinariamente bachareis, seus contemporaneos, que
-sabendo-o rico o consideravam gratuito, e l entravam, murchos e com m
-cara, a contar a velha e mal disfarada historia de ternuras funestas.
-Salvara d'um garrotilho a filha d'um brazileiro, ao Aterro--e ganhara
-ahi a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um
-homem da sua familia. O dr. Barbedo convidara-o a assistir a uma
-operao ovariotomica. E emfim (mas esta consagrao no a esperava
-realmente Carlos to cedo) alguns dos seus bons collegas, que at ahi,
-vendo-o s a governar os seus cavallos inglezes, fallavam do talento do
-Maia--agora percebendo-lhe estas migalhas de clientella, comeavam a
-dizer que o Maia era um asno. Carlos j fallava a serio da sua
-carreira. Escrevera, com laboriosos requintes d'estylista, dois artigos
-para a _Gazeta Medica_; e pensava em fazer um livro d'idas geraes, que
-se devia chamar _Medicina Antiga e Moderna_. De resto occupava-se sempre
-dos seus cavallos, do seu luxo, do seu bric-a-brac. E atravez de tudo
-isto, em virtude d'essa fatal disperso de curiosidade que, no meio do
-caso mais interessante de pathologia, lhe fazia voltar a cabea, se
-ouvia fallar d'uma estatua ou d'um poeta, attrahia-o singularmente a
-antiga ida do Ega, a creao d'uma Revista, que dirigisse o gosto,
-pezasse na politica, regulasse a sociedade, fosse a fora pensante de
-Lisboa...
-
-Era porm inutil lembrar ao Ega este bello plano. Abria um olho vago,
-respondia:
-
---Ah, a Revista... Sim, est claro, pensar n'isso! Havemos de fallar, eu
-apparecerei...
-
-Mas no apparecia no Ramalhete, nem no consultorio; apenas se avistavam,
-s vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo que no passava no
-camarote dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se no fundo da frisa
-de Carlos, por trs de Taveira ou do Cruges; d'onde podesse olhar de vez
-em quando Rachel Cohen--e ali ficava, silencioso, com a cabea appoiada
-ao tabique, repousando e como saturado de felicidade...
-
-O dia (dizia elle) tinha-o todo tomado: andava procurando casa, andava
-estudando mobilias... Mas era facil encontral-o pelo Chiado e pelo
-Loreto, a rondar e a farejar--ou ento no fundo de tipoias de praa,
-batendo a meio galope, n'um espalhafato de aventura.
-
-O seu dandysmo requintava; arvorara, com o desplante soberbo d'um
-Brummel, casaca de botes amarellos sobre collete de setim branco; e
-Carlos entrando uma manh cedo no _Universal_, deu com elle pallido de
-colera, a despropositar com um creado, por causa d'uns sapatos mal
-envernisados. Os seus companheiros constantes, agora, eram um Damaso
-Salcede, amigo do Cohen, e um primo da Rachel Cohen, mocinho imberbe,
-d'olho esperto e duro, j com ares de emprestar a trinta por cento.
-
-Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se s vezes
-Rachel, e as opinies discordavam. Taveira achava-a deliciosa!--e
-dizia-o rilhando o dente: ao marquez no deixava de parecer appetitosa,
-para uma vez, aquella carnezinha _faisande_ de mulher de trinta annos:
-Cruges chamava-lhe uma lambisgoia relamboria. Nos jornaes, na seco
-do _High-life_, ella era uma das nossas primeiras elegantes: e toda a
-Lisboa a conhecia, e a sua luneta d'ouro presa por um fio d'ouro, e a
-sua caleche azul com cavallos pretos. Era alta, muito pallida, sobre
-tudo s luzes, delicada de saude, com um quebranto nos olhos pisados,
-uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lyrio
-meio murcho: a sua maior belleza estava nos cabellos, magnificamente
-negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ella
-deixava habilmente cahir n'uma massa meia solta sobre as costas, como
-n'um desalinho de nudez. Dizia-se que tinha litteratura, e fazia
-phrases. O seu sorriso lasso, pallido, constante, dava-lhe um ar de
-insignificancia. O pobre Ega adorava-a.
-
-Conhecera-a na Foz, na Assembla; n'essa noite, cervejando com os
-rapazes, ainda lhe chamou _camelia melada_; dias depois j adulava o
-marido; e agora esse demagogo, que queria o massacre em massa das
-classes medias, soluava muita vez por causa d'ella, horas inteiras,
-cahido para cima da cama.
-
-Em Lisboa, entre o Gremio e a Casa Havaneza, j se comeava a fallar do
-arranjinho do Ega. Elle todavia procurava pr a sua felicidade ao
-abrigo de todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas
-precaues tanta sinceridade como prazer romantico do mysterio: e era
-nos sitios mais desageitados, fra de portas, para os lados do
-Matadouro, que a furtivamente encontrar a creada que lhe trazia as
-cartas d'ella... Mas em todos os seus modos (mesmo no disfarce affectado
-com que espreitava as horas) transbordava a immensa vaidade d'aquelle
-adulterio elegante. De resto sentia bem que os seus amigos conheciam a
-gloriosa aventura, o sabiam em pleno drama: era mesmo talvez por isso,
-que, diante de Carlos e dos outros, nunca at ahi mencionara o nome
-d'ella, nem deixara jmais escapar um lampejo de exaltao.
-
-Uma noite, porm, acompanhando Carlos at ao Ramalhete, noite de lua
-calma e branca, em que caminhavam ambos callados, Ega, invadido decerto
-por uma onda interior de paixo, soltou desabafadamente um suspiro,
-alargou os braos, declamou com os olhos no astro, um tremor na voz:
-
-
- Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l'amour c'est la vie!
-
-
-Isto fugira-lhe dos labios como um comeo de confisso; Carlos ao lado
-no disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto.
-
-Mas Ega sentiu-se decerto ridiculo, porque se calmou, refugiou-se
-immediatamente no puro interesse litterario:
-
---No fim de contas, menino, digam l o que disserem, no ha seno o
-velho Hugo...
-
-Carlos, comsigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindo contra
-Hugo, chamando-lhe saco-roto de espiritualismo, boca-aberta de
-sombra, avsinho lyrico, injurias peiores.
-
-Mas n'essa noite o grande phraseador continuou:
-
---Ah o velho Hugo! o velho Hugo o campeo heroico de verdades
-eternas... necessario um bocado d'ideal, que diabo!... De resto o
-ideal pde ser real...
-
-E foi, com esta palinodia, acordando os silencios do Aterro.
-
-Dias depois Carlos, no consultorio, acabava de despedir um doente, um
-Viegas, que todas as semanas vinha alli fazer a fastidiosa chronica da
-sua dyspepsia--quando do reposteiro da sala d'espera lhe surgiu o Ega,
-de sobrecasaca azul, luva _gris-perle_ e um rolo de papel na mo.
-
---Tens que fazer, doutor?
-
---No, a a sahir, janota!
-
---Bem. Venho-te impingir prosa... Um bocado do _Atomo_... Senta-te ahi.
-Ouve l.
-
-Immediatamente abancou, afastou papeis e livros, desenrolou o
-manuscripto, espalmou-o, deu um puxo ao collarinho--e Carlos, que se
-pousara borda do divan, com a face espantada e as mos nos joelhos,
-achou-se quasi sem transio transportado dos rugidos do ventre do
-Viegas para um rumor de populaa, n'um bairro de judeus, na velha cidade
-de Heidelberg.
-
---Mas espera l! exclamou elle. Deixa-me respirar. Isso no o comeo
-do livro! Isso no o cahos...
-
-Ega ento recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tambem.
-
---No, no o primeiro episodio... No o cahos. j no seculo XV...
-Mas n'um livro d'estes pde-se comear pelo fim... Conveiu-me fazer este
-episodio: chama-se a _Hebrea_.
-
-A Cohen! pensou Carlos.
-
-Ega tornou a alargar o collarinho--e foi lendo, animando-se, ferindo as
-palavras para as fazer viver, soltando grandes cheios de voz nas
-sonoridades finaes dos periodos. Depois da sombria pintura d'um bairro
-medival de Heidelberg, o famoso Atomo, o _Atomo do Ega_, apparecia
-alojado no corao do esplendido principe Franck, poeta, cavalleiro, e
-bastardo do imperador Maximiliano. E todo esse corao de heroe
-palpitava pela judia Esther, perola maravilhosa do Oriente, filha do
-velho rabbino Salomo, um grande doutor da Lei, perseguido pelo odio
-theologico do Geral dos Dominicanos.
-
-Isto contava-o o Atomo n'um monologo, to recamado d'imagens como um
-manto da Virgem est recamado d'estrellas--e que era uma declarao
-d'elle, Ega, mulher do Cohen. Depois abria-se um intermedio
-pantheista: rompiam coros de flores, coros de astros, cantando na
-linguagem da luz, ou na eloquencia dos perfumes, a belleza, a graa, a
-pureza, a alma celeste de Esther--e de Rachel... Emfim, chegava o negro
-drama da perseguio: a fuga da familia hebraica, atravz de bosques de
-bruxas e brutas aldas feudaes; a appario, n'uma encrusilhada, do
-principe Franck que vem proteger Esther, de lana alta, no seu grande
-corcel; o tropel da turba fanatica, correndo a queimar o rabbino e os
-seus livros herejes; a batalha, e o principe atravessado pelo chuo d'um
-_reitre_, indo morrer no peito d'Esther, que morre com elle n'um beijo.
-Tudo isto se precipitava como um sonoro e tumultuoso soluo; e era
-tratado com as maneiras modernas d'estylo, o esforo atormentado
-inchando a expresso, as camadas de cr atiradas larga para fazer
-ressaltar o tom de vida...
-
-Ao findar o _Atomo_ exclamava, com a vasta solemnidade d'um cheio
-d'orgo:--assim arrefeceu, parou, aquelle corao de heroe que eu
-habitava; e evaporado o principio de vida, eu, agora livre, remontei aos
-astros, levando comigo a essencia pura d'esse amor immortal.
-
---Ento?...--disse Ega, esfalfado, quasi tremulo.
-
-Carlos s poude responder:
-
---Est ardente.
-
-Depois elogiou a serio alguns lances, o coro das florestas, a leitura do
-_Ecclesiastes_, de noite, entre as ruinas da torre d'Othon, certas
-imagens d'um grande vo lyrico.
-
-Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscripto, reabotoou a
-sobrecasaca, e j de chapu na mo:
-
---Ento, parece-te apresentavel?...
-
---Vaes publicar?
-
---No, mas emfim...--e ficou n'esta reticencia, fazendo-se corado.
-
-Carlos comprehendeu tudo dias depois, encontrando na _Gazeta do Chiado_
-uma descripo da leitura feita em casa do ex.^{mo} sr. Jacob Cohen,
-pelo nosso amigo Joo da Ega, de um dos mais brilhantes episodios do seu
-livro--_As memorias d'um atomo_. E o jornalista accrescentava, dando a
-sua impresso pessoal: uma pintura dos sofrimentos porque passaram,
-nos tempos da intolerancia religiosa, aquelles que seguem a Lei
-d'Israel. Que poder de imaginao! Que fluencia d'estylo! O effeito foi
-extraordinario, e quando o nosso amigo fechou o manuscripto ao succumbir
-da protagonista--vimos lagrimas em todos os olhos da numerosa e
-estimavel colonia hebraica!
-
-Oh, furor do Ega! Rompeu n'essa tarde pelo consultorio, pallido,
-desorientado...
-
---Estas bestas! Estas bestas d'estes jornalistas! Leste? _Lagrimas em
-todos os olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica!_ Faz cahir a
-cousa em ridiculo... E depois a _fluencia d'estylo_. Que burros! Que
-idiotas!
-
-Carlos, que cortava as folhas d'um livro, consolou-o. Aquella era a
-maneira nacional de fallar d'obras d'arte... No valia a pena bramar...
-
---No, palavra, tinha vontade de quebrar a cara quelle folliculario!
-
---E porque lh'a no quebras?
-
--- um amigo dos Cohens.
-
-E foi grunhindo improperios contra a imprensa, a passos de tigre pelo
-gabinete. Por fim irritado com a indifferena de Carlos:
-
---Que diabo ests tu ahi a ler? _Nature parasitaire des accidents de
-l'impaludisme_... Que blague, a medicina! Dize-me uma cousa. Que diabo
-sero umas picadas que me veem aos braos, sempre que vou a
-adormecer?...
-
---Pulgas, bichos, vermina...--murmurou Carlos com os olhos no livro.
-
---Animal! rosnou Ega, arrebatando o chapu.
-
---Vaes-te, John?
-
---Vou, tenho que fazer!--E junto do reposteiro, ameaando o cu com o
-guarda-chuva, chorando quasi de raiva:--Estes burros d'estes
-jornalistas! So a escoria da sociedade!
-
-D'ahi a dez minutos reappareceu, bruscamente: e j com outra voz, n'um
-tom de caso serio:
-
---Ouve c. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aos
-Gouvarinhos?
-
---No tenho um interesse especal, respondeu Carlos, erguendo os olhos
-do livro, depois de um silencio. Mas no tenho tambem uma repugnancia
-especial.
-
---Bem, disse Ega. Elles desejam conhecer-te, sobretudo a condessa faz
-empenho... Gente intelligente, passa-se l bem... Ento, decidido! Tera
-feira vou-te buscar ao Ramalhete, e vamo-nos _gouvarinhar_.
-
-Carlos ficou pensando n'aquella proposta do Ega, na maneira como elle
-sublinhra o _empenho_ da condessa. Lembrava-se agora que ella era muito
-intima da Cohen: e ultimamente, em S. Carlos, n'aquella facil visinhana
-de frisa, surprehendera certos olhares d'ella... Mesmo, segundo o
-Taveira, ella realmente _fazia-lhe um olho_. E Carlos achava-a picante,
-com os seus cabellos crespos e ruivos, o narizinho petulante, e os olhos
-escuros, d'um grande brilho, dizendo mil cousas. Era deliciosamente bem
-feita--e tinha uma pelle muito clara, fina e doce vista, a que se
-sentia mesmo de longe o setim.
-
-Depois d'aquelle dia tristnho de aguaceiros, elle resolvera passar um
-bom sero de trabalho, ao canto do fogo, no conforto do seu
-robe-de-chambre. Mas ao caf, os olhos da Gouvarinho comearam a
-faiscar-lhe por entre o fumo do charuto, a fazer-lhe _um olho_,
-collocando-se tentadoramente entre elle e a sua noite d'estudo,
-pondo-lhe nas veias um vivo calor de mocidade... Tudo culpa do Ega, esse
-Mephistopheles de Celorico!
-
-Vestiu-se, foi a S. Carlos. Ao sentar-se porm boca da frisa,
-preparado, de collete branco e perola negra na camisa,--em logar dos
-cabellos crespos e ruivos, avistou a carapinha retinta de um preto, um
-preto de doze annos, trombudo e lusidio, de grande collarinho mam
-sobre uma jaqueta de botes amarellos; ao lado outro preto, mais
-pequeno, com o mesmo uniforme de collegio, enterrava pela venta aberta o
-dedo calado de pellica branca. Ambos elles lhe relancearam os olhos
-bogalhudos, cr de prata embaciada. A pessoa que os acompanhava,
-escondida para o fundo, parecia ter um catharro ascoroso.
-
-Dava-se a _Lucia_ em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens no tinham
-vindo--nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza
-do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de
-sudoeste, parecia penetrar alli, derramando o seu pesadume, a morna
-sensao da sua humidade. Nas cadeiras, vasias, havia uma mulher
-solitaria, vestida de setim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gaz
-dormia, e os arcos das rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo
-tambem.
-
---Isto est lugubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que occupava o escuro
-da frisa.
-
-Cruges, amodorroado n'um accesso de _spleen_, com o cotovello sobre as
-costas da cadeira, os dedos por entre a cabelleira, todo elle embrulhado
-em crepes, sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo d'um
-sepulchro:
-
---Pesadote.
-
-Por indolencia, Carlos ficou. E pouco a pouco, aquelle preto de que os
-seus olhos se no podiam despegar, alli enthronisado na poltrona de reps
-verde da Gouvarinho, com a manga da jaqueta plantada no rebordo onde
-costumava alvejar um lindo brao,--foi-lhe arrastando, a seu pesar, a
-imaginao para a pessoa d'ella; relembrou _toilettes_ com que ella alli
-estivera; e nunca lhe pareceram to picantes, como agora que os no via,
-os seus cabellos ruivos, cr de braza s luzes, d'um encrespado forte,
-como crestados da chamma interna. A carapinha do preto, essa, em logar
-de risca tinha um sulco cavado thesoura na massa de l espessa. Quem
-seriam, por que estavam alli, aquelles africanos de perfil trombudo?
-
---Tu j reparaste n'esta extraordinaria carapinha, Cruges?
-
-O outro, que se no mexera da sua attitude de estatua tumular, grunhiu
-da sombra um monosyllabo surdo.
-
-Carlos respeitou-lhe os nervos.
-
-De repente, ao desafinar mais aspero d'um coro, Cruges deu um salto.
-
---Isto s a pontap... Que empreza esta! rugio elle, envergando
-furiosamente o paletot.
-
-Carlos foi leval-o no coup rua das Flores, onde elle morava com a me
-e uma irm; e at ao Ramalhete no cessou de lamentar comsigo o seu
-sero d'estudo perdido.
-
-O creado de Carlos, o Baptista, (familiarmente, o _Tista_) esperava-o,
-lendo o jornal, na confortavel antecamara dos quartos do menino,
-forrada de velludo cr de cereja, ornada de retratos de cavallos e
-panoplias de velhas armas, com divans do mesmo velludo, e muito
-allumiada a essa hora por dois candieiros de globo pousados sobre
-columnas de carvalho, onde se enrolavam lavores de ramos de vide.
-
-Carlos tinha desde os onze annos este creado de quarto, que viera com o
-Brown para S.^{ta} Olavia, depois de ter servido em Lisboa, na Legao
-ingleza, e ter acompanhado o ministro, sir Hercules Morrisson, varias
-vezes a Londres. Foi em Coimbra, nos Paos de Cellas, que Baptista
-comeou a ser um personagem: Affonso correspondia-se com elle de S.^{ta}
-Olavia. Depois viajou com Carlos; enjoaram nos mesmos paquetes,
-partilharam dos mesmos _sandwiches_ no buffete das gares; Tista
-tornou-se um confidente. Era hoje um homem de cincoenta annos,
-desempenado, robusto, com um collar de barba grisalha por baixo do
-queixo, e o ar excessivamente _gentleman_. Na rua, muito direito na sua
-sobrecasaca, com o par de luvas amarellas espetado na mo, a sua bengala
-de cana da India, os sapatos bem envernisados, tinha a consideravel
-apparencia de um alto funccionario. Mas conservava-se to fino e to
-desembaraado, como quando em Londres aprendera a walsar e a _boxar_ na
-rude balburdia dos sales-danantes, ou como quando mais tarde, durante
-as ferias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e o ajudava a saltar o
-muro do quintal do sr. escrivo de fazenda--aquelle que tinha uma mulher
-to garota.
-
-Carlos foi buscar um livro ao gabinete d'estudo, entrou no quarto,
-estendeu-se, canado, n'uma poltrona. luz opalina dos globos, o leito
-entre-aberto mostrava, sob a seda dos cortinados, um luxo effeminado de
-bretanhas, bordados e rendas.
-
---Que ha hoje no _Jornal da Noite_? perguntou elle bocejando, em quanto
-Baptista o descalava.
-
---Eu li-o todo, meu senhor, e no me pareceu que houvesse cousa alguma.
-Em Frana contina socego... Mas a gente nunca pde saber, porque estes
-jornaes portuguezes imprimem sempre os nomes estrangeiros errados.
-
---So umas bestas. O sr. Ega hoje estava furioso com elles...
-
-Depois, em quanto Baptista preparava com esmero um _grog_ quente, Carlos
-j deitado, aconchegado, abriu preguiosamente o livro, voltou duas
-folhas, fechou-o, tomou uma cigarette, e ficou fumando com as palpebras
-cerradas, n'uma immensa beatitude. Atravz das cortinas pesadas
-sentia-se o sudoeste que batia o arvoredo, e os aguaceiros alagando os
-vidros.
-
---Tu conheces os srs. condes de Gouvarinho, Tista?
-
---Conheo o Pimenta, meu senhor, que creado de quarto do sr. conde...
-Creado de quarto e serve a meza.
-
---E que diz ento esse Tormenta? perguntou Carlos, n'uma voz indolente,
-depois d'um silencio.
-
---Pimenta, meu senhor! O Manuel Pimenta. O sr. Gouvarinho chama-lhe
-Romo, por que estava acostumado ao outro creado que era Romo. E j
-isto no bonito, porque cada um tem o seu nome. O Manuel Pimenta. O
-Pimenta no est contente...
-
-E Baptista, depois de collocar junto da cabeceira a salva com o _grog_,
-o assucareiro, as cigarettes, transmittiu as revelaes do Pimenta. O
-conde de Gouvarinho, alm de muito massador e muito pequinhento, no
-tinha nada de cavalheiro: dera um fato de cheviot claro ao Romo (ao
-Pimenta), mas to coado e to cheio de riscas de tinta, de limpar a
-penna perna e ao hombro, que o Pimenta deitou o presente fra. O conde
-e a senhora no se davam bem: j no tempo do Pimenta, uma occasio,
-mesa, tinham-se pegado de tal modo que ella agarrou do copo e do prato,
-e esmigalhou-os no cho. E outra qualquer teria feito o mesmo; por que o
-sr. conde, quando comeava a repisar, a remoer, no se podia aturar. As
-questes eram sempre por causa de dinheiro. O Tompson velho estava farto
-de abrir os cordes bolsa...
-
---Quem esse Tompson velho, que nos apparece agora, a esta hora da
-noite? perguntou Carlos, a seu pesar interessado.
-
---O Tompson velho o pae da sr.^a condessa. A sr.^a condessa era uma
-miss Tompson, dos Tompson do Porto. O sr. Tompson no tem querido
-ultimamente emprestar nem mais um real ao genro: de sorte que, uma vez,
-j no tempo do Pimenta tambem, o sr. conde, furioso, disse senhora que
-ella e o pae se deviam lembrar que eram gente de commercio e que fora
-elle que fizera d'ella uma condessa; e com perdo de v. ex.^a, a senhora
-condessa ali mesmo mesa mandou o condado taba... Estas cousas no
-esto no genero do Pimenta.
-
-Carlos bebeu um gole de grog. Bailava-lhe nos labios uma pergunta, mas
-hesitava. Depois reflectiu na puerilidade de to rigidos escrupulos, a
-respeito d'uma gente, que ao jantar, diante do escudeiro, quebrava a
-porcelana, mandava tabua o titulo dos antepassados. E perguntou:
-
---Que diz o sr. Pimenta da senhora condessa, Baptista? Ella diverte-se?
-
---Creio que no, meu senhor. Mas a creada de confiana d'ella, uma
-escosseza, essa desobstinada. E no fica bem senhora condessa ser
-assim to intima com ella...
-
-Houve um silencio no quarto, a chuva cantou mais forte nos vidros.
-
---Passando a outro assumpto, Baptista. Vamos a saber, ha quanto tempo,
-no escrevo eu a madame Rughel?
-
-Baptista tirou do bolso interior da sua casaca um livro de apontamentos,
-aproximou-se da luz, encavalou a luneta no nariz, e verificou, com
-methodo, estas datas:--Dia 1 de janeiro, telegramma expedido com
-felicitaes do comeo d'anno a madame Rughel, Hotel d'Albe, Champs
-lyses, Paris. Dia 3, telegramma recebido de madame Rughel,
-reciprocando comprimentos, exprimindo amizade, annunciando partida para
-Hamburgo. Dia 15, carta lanada ao correio, para madame Rughel,
-_William-Strasse, Hamburgo, Allemagne_. Depois--mais nada. De modo que
-havia j cinco semanas que o menino no escrevia a madame Rughel...
-
--- necessario escrever manh, disse Carlos..
-
-Baptista tomou uma nota.
-
-Depois, entre uma fumaa languida, a voz de Carlos ergueu-se de novo na
-paz dormente do quarto:
-
---Madame Rughel era muito bonita, no verdade, Baptista? a mulher
-mais bonita que tu tens visto na tua vida!
-
-O velho creado metteu o livro no bolso da casaca, e respondeu, sem
-hesitar, muito certo de si:
-
---Madame Rughel era uma senhora de muita vista. Mas a mulher mais linda
-em que tenho posto os olhos, se o menino d licena, era aquella senhora
-do coronel de hussards que vinha ao quarto do hotel em Vienna.
-
-Carlos atirou a cigarette para a salva--e escorregando pela roupa
-abaixo, todo invadido por uma onda de recordaes alegres, exclamou da
-profundidade do seu conforto, no antigo tom de emphase bohemia dos Paos
-de Cellas.
-
---O sr. Baptista no tem gosto nenhum! Madame Rughel era uma nympha de
-Rubens, senhor! Madame Rughel tinha o explendor d'uma deusa da
-Renascena, senhor! Madame Rughel devia ter dormido no leito imperial de
-Carlos Quinto...--Retire-se, senhor!
-
-Baptista entalou mais o _couvre-pieds_, relanceou pelo quarto um olhar
-solicito, e, contente, da ordem em que as cousas adormeciam, sau,
-levando o candieiro. Carlos no dormia: e no pensava na coronela de
-hussards, nem em madame Rughel. A figura que no escuro dos cortinados
-lhe apparecia, n'um vago dourado que provinha do reflexo de seus
-cabellos soltos, era a Gouvarinho--a Gouvarinho que no tinha o
-explendor d'uma deusa da Renascena como madame Rughel, nem era a mulher
-mais linda em que Baptista pozera os seus olhos como a coronela de
-hussards: mas, com o seu nariz petulante e a sua boca grande, brilhava
-mais e melhor que todas na imaginao de Carlos--porque elle esperara-a
-essa noite e ella no tinha apparecido.
-
-Na tera-feira promettida Ega no veiu buscar Carlos para se irem
-_gouvarinhar_. E foi Carlos que d'ahi a dias, entrando como por acaso no
-_Universal_, perguntou rindo ao Ega:
-
---Ento quando nos _gouvarinhamos_?
-
-N'essa noite, em S. Carlos, n'um entre-acto dos _Huguenotes_, Ega
-apresentou-o ao sr. conde de Gouvarinho, no corredor das frizas. O
-conde, muito amavel, lembrou logo que j tivera, mais de uma vez, o
-prazer de passar pela porta de S.^{ta} Olavia, quando ia vr os seus
-velhos amigos, os Tedins, a Entre-Rios--uma formosa vivenda tambem.
-Fallaram ento do Douro, da Beira, compararam outras paisagens. Para o
-conde, nada havia, no nosso Portugal, como os campos do Mondego: mas a
-sua parcialidade era perdoavel, pois n'esses ferteis vales nascera e se
-creara: e fallou um momento de Formozelha, onde tinha casa, onde vivia
-edosa e doente sua me, a sr.^a condessa viuva...
-
-Ega, que affectara beber as palavras do conde, comeou ento uma
-controversia, sustentando como se se tratasse dos dogmas d'uma f, a
-belleza superior do Minho, esse paraiso idillico. O conde sorria: via
-ali, como elle observou a Carlos, batendo amavelmente no hombro do Ega,
-a rivalidade das duas provincias. Emulao fecunda, de resto, no seu
-pensar...
-
---Ahi est, por exemplo, dizia elle, o ciume entre Lisboa e Porto. uma
-verdadeira dualidade como a que existe entre a Hungria e a Austria...
-Ouo por ali lamental-a. Pois bem, eu, se fosse poder, instigal-a-hia,
-acirral-a-hia, se v. ex.^{as} me permittem a expresso. N'esta lucta das
-duas grandes cidades do reino, podem outros vr despeitos mesquinhos, eu
-vejo elementos de progresso. Vejo civilisao!
-
-Proferia estas cousas como do alto d'um pedestal, muito acima dos
-homens, deixando-as providamente car dos thesouros do seu intellecto
-maneira de dons inestimaveis. A voz era lenta e rotunda; os cristaes da
-sua luneta d'ouro faiscavam vistosamente; e no bigode encerado, na pera
-curta, havia ao mesmo tempo alguma cousa de doutoral e de casquilho.
-
-Carlos dizia: Tem v. ex.^a razo, sr. conde. O Ega dizia: Voc v
-essas cousas d'alto, Gouvarinho. Elle cruzara as mos por baixo das
-abas da casaca--e estavam todos tres muito serios.
-
-Depois o conde abriu a porta da friza, Ega desappareceu. E d'ahi a um
-momento, Carlos, apresentado como visinho de camarote, recebia da
-sr.^a condessa um grande _shake-hand_, em que tilintaram uma infinidade
-d'aros de prata e de _blangles_ indios sobre a sua luva preta de doze
-botes.
-
-A sr.^a condessa, um pouco corada, ligeiramente nervosa, lembrou logo a
-Carlos que o vira no vero passado em Paris, no salo baixo do Caf
-Inglez: at por signal estava n'essa noite um velho abominavel com duas
-garrafas vazias diante de si, e contando alto, para uma meza defronte,
-historias horrorosas do sr. Gambetta: um sujeito ao lado protestou; o
-outro no fez caso, era o velho duque de Grammont. O conde passou os
-dedos lentos pela testa, com um ar quasi angustioso: no se lembrava de
-nada d'isso! Queixou-se logo amargamente da sua falta de memoria. Uma
-cousa to indispensavel em quem segue a vida publica, a memoria! e elle
-desgraadamente, no possuia nem um atomo. Por exemplo, lera (como todo
-o homem devia lr) os vinte volumes da _Historia Universal de Cesar
-Cantu_; lra-os com atteno, fechado no seu gabinete, absorvendo-se na
-obra. Pois, senhores, escapara-lhe tudo--e ali estava sem saber
-historia!
-
---V. ex.^a tem boa memoria, sr. Maia?
-
---Tenho uma rasoavel memoria.
-
---Inapreciavel bem de que goza!
-
-A condessa voltara-se para a plata, coberta com o leque, com o ar
-constrangido, como se aquellas palavras pueris do marido a diminuissem,
-a desfeiassem... Carlos ento fallou da opera. Que bello escudeiro
-huguenote fazia o Pandolli! A condessa no aturava o Corcelli, o tenor,
-com as suas notas asperas e aquella obesidade que o tornava _buffo_. Mas
-tambem (lembrava Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande
-raa dos Marios, homens de belleza, de inspirao, realisando os grandes
-typos lyricos. Nicolini era j uma degenerao... Isto fez lembrar a
-Patti. A condessa adorava-a, e a sua graa de fada, e a sua voz
-semelhante a uma chuva d'ouro!...
-
-Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil cousas; em certos movimentos, o
-cabello crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno
-d'ella errava, no calor do gaz e da enchente, um aroma exagerado de
-verbena. Estava de preto, com uma gargantilha, de rendas negras,
-Valois, affogando-lhe o pescoo onde pousavam duas rosas escarlates. E
-toda a sua pessoa tinha um arsinho de provocao e de ataque. De p,
-callado, grave, o conde batia a coxa com a claque fechada.
-
-O quarto acto comeara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram
-defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binoculo, observando-o, mirando a
-condessa e fallando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar
-dolente e vago.
-
---Ns recebemos s teras feiras, disse a condessa a Carlos--e o resto
-da phrase perdeu-se n'um murmurio e n'um sorriso.
-
-O conde acompanhou-o fra, ao corredor.
-
--- sempre uma honra para mim, dizia elle caminhando ao lado de Carlos,
-fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma cousa n'este paiz ...
-V. ex.^a d'esse numero, bem raro infelizmente.
-
-Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda:
-
---No o lisongeio. Eu nunca lisongeio... Mas a v. ex.^a podem-se dizer
-estas cousas, porque pertence _elite_: a desgraa de Portugal a
-falta de gente, Isto um paiz sem pessoal. Quer-se um bispo? No ha um
-bispo. Quer-se um economista? No ha um economista. Tudo assim! Veja v.
-ex.^a mesmo nas profisses subalternas. Quer-se um bom estofador? No ha
-um bom estofador...
-
-Um cheio de instrumentos e vozes, d'um tom sublime, passando pela porta
-da frisa entreaberta, cortou-lhe umas ultimas palavras sobre a
-defficiencia dos photographos... Escutou, com a mo no ar:
-
--- o _coro dos punhaes_, no? Ah vamos a ouvir... Ouve-se sempre isto
-com proveito. Ha philosophia n'esta musica... pena que lembre to
-vivamente os tempos da intolerancia religiosa, mas ha alli
-incontestavelmente philosophia!
-
-
-
-
-VI
-
-
-Carlos, n'essa manh, ia visitar de surpreza a casa do Ega, a famosa
-Villa Balzac, que esse phantasista andra meditando e dispondo desde a
-sua chegada a Lisboa, e onde se tinha emfim installado.
-
-Ega dera-lhe esta denominao litteraria, pelos mesmos motivos porque a
-alugra n'um suburbio longiquo, na solido da Penha de Frana,--para que
-o nome de Balzac, seu padroeiro, o silencio campestre, os ares limpos,
-tudo alli fosse favoravel ao estudo, s horas d'arte e d'ideal. Por que
-ia fechar-se l, como n'um claustro de lettras, a findar as _Memorias
-d'um Atomo!_ Smente, por causa das distancias, tinha tomado ao mez um
-coup da companhia.
-
-Carlos teve difficuldades em encontrar a Villa Balzac: no era, como
-tinha dito Ega no Ramalhete, logo adiante do largo da Graa um
-_chaletsinho_ retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre arvores.
-Passava-se primeiro a Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se
-n'uma vereda larga, entre quintaes, descendo pelo pendor da collina, mas
-accessivel a carruagens; e ahi, n'um recanto, ladeada de muros,
-apparecia emfim uma cazota de paredes enxovalhadas, com dois degraus de
-pedra porta, e transparentes novos d'um escarlate estridente.
-
-N'essa manh, porm, debalde Carlos deu puxes desesperados corda da
-campainha, martellou a aldrava da porta, gritou a toda a voz por cima do
-muro do quintal e das copas das arvores o nome do Ega:--a Villa Balzac
-permaneceu muda, como deshabitada, no seu retiro rustico. E todavia
-pareceu a Carlos que, justamente antes de bater, ouvira o estalar de
-rolhas de _Champagne_.
-
-Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com os criados,
-que assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeito de Torre de
-Nesle...
-
---Vae l manh, se ninguem responder, escala as janellas, pega fogo ao
-predio, como se fossem apenas as Tulherias.
-
-Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, j a Villa Balzac o
-esperava, toda em festa: porta o pagem, um garoto de feies
-horrvelmente viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botes de
-metal, com uma gravata muito branca e muito teza; as duas janellas em
-cima, abertas, mostrando o reps verde das bambinellas, bebiam larga
-todo o ar do campo e o sol de inverno: e no topo da estreita escada,
-tapetada de vermelho, Ega, n'um prodigioso robe-de-chambre, de um estofo
-adamascado do seculo dezoito, vestido de crte de alguma das suas avs,
-exclamou dobrando a fronte ao cho:
-
---Bem vindo, meu principe, ao humilde tegurio do philosopho!
-
-Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de reps verde, d'um verde
-feio e triste, e introduziu o principe na sala onde tudo era verde
-tambem: o reps que recobria uma mobilia de nogueira, o tecto de taboado,
-as listas verticaes do papel da parede, o pano franjado da mesa, e o
-reflexo d'um espelho redondo, inclinado sobre o soph.
-
-No havia um quadro, uma flr, um ornato, um livro--apenas sobre a
-jardineira uma estatueta de Napoleo I, de p, equilibrado sobre o orbe
-terrestre, n'essa conhecida attitude em que o heroe, com um ar pansudo e
-fatal, esconde uma das mos por traz das costas, e enterra a outra nas
-profundidades do seu collete. Ao lado uma garrafa de _Champagne_,
-encarapuada de papel dourado, esperava entre dois copos esguios.
-
---Para que tens tu aqui Napoleo, John?
-
---Como alvo de injurias, disse Ega. Exercito-me sobre elle a fallar dos
-tyrannos...
-
-Esfregou as mos, radiante. Estava n'essa manh em alegria e em verve. E
-quiz immediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: ahi reinava
-um cretone de ramagens alvadias sobre fundo vermelho; e o leito enchia,
-esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da Villa Balzac; e
-n'elle se esgotara a imaginao artistica do Ega. Era de madeira, baixo
-como um divan, com a barra alta, um roda-p de renda, e d'ambos os lados
-um luxo de tapetes de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da
-India avermelhada envolvia-o n'um apparato de tabernaculo; e dentro,
-cabeceira, como n'um lupanar, reluzia um espelho.
-
-Carlos, muito seriamente, aconselhou-lhe que tirasse o espelho. Ega deu
-a todo o leito um olhar silencioso e dce, e disse depois de passar uma
-pontinha de lingua pelo beio:
-
---Tem seu chic...
-
-Sobre a mesinha de cabeceira erguia-se um monto de livros: a _Educao_
-de Spencer ao lado de Beaudelare, a _Logica_ de Stuart Mill por cima do
-_Cavalleiro da Casa Vermelha_. No marmore da commoda havia outra garrafa
-de Champagne entre dous copos; o toucador, um pouco em desordem,
-mostrava uma enorme caixa de p d'arroz no meio de plastrons e gravatas
-brancas do Ega, e um masso de ganchos do cabello ao lado de ferros de
-frisar.
-
---E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte?
-
---Alli! disse o Ega, alegremente, apontando para o leito.
-
-Mas foi mostrar logo o seu recantosinho estudioso, formado por um
-biombo, ao lado da janella, e tomado todo por uma mesa de p de gallo,
-onde Carlos assombrado descobriu, entre o bello papel de cartas do Ega,
-um _Diccionario de Rimas_...
-
-E a visita casa continuou.
-
-Na sala de jantar, quasi nua, caiada de amarello, um armario de pinho
-envidraado abrigava melancolicamente um servio barato de loua nova; e
-do fecho da janella pendia um vestuario vermelho, que parecia roupo de
-mulher.
-
--- sobrio e simples--exclamou o Ega--como compete quelle que se
-alimenta d'uma codea d'Ideal e duas garfadas de Philosophia. Agora,
-cosinha!...
-
-Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas janellas abertas;
-e entreviam-se arvores de quintal, um verde de terrenos vagos, depois l
-em baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol; uma rapariga muito
-sardenta e muito forte sacudiu o gato do collo, ergueu-se, com o _Jornal
-de Noticias_ na mo. Ega apresentou-a, n'um tom de fara:
-
---A sr.^a Josepha, solteira, de temperamento sanguineo, artista
-culinaria da Villa Balzac, e como se pde observar pelo papel que lhe
-pende das garras, cultora das boas letras!
-
-A moa sorria, sem embarao, habituada de certo a estas familiaridades
-bohemias.
-
---Eu hoje no janto c, senhora Josepha, continuava o Ega no mesmo tom.
-Este formoso mancebo que me acompanha, duque do Ramalhete, e principe de
-Santa Olavia, d hoje de papar ao seu amigo e philosopho... E, como
-quando eu recolher, talvez a senhora Josepha esteja entregue ao somno da
-innocencia, ou vigilia da devassido, aqui lhe ordeno que me tenha
-amanh para meu _lunch_ duas formosas perdizes.
-
-E subitamente, n'uma outra voz, com um olhar que ella devia perceber:
-
---Duas perdizesinhas bem assadas e bem cradinhas. Frias, est claro...
-O costume.
-
-Travou do brao de Carlos, voltaram sala.
-
---Com franqueza, Carlos, que te parece a Villa Balzac?
-
-Carlos respondeu como a respeito do episodio da _Hebrea_:
-
---Est ardente.
-
-Mas elogiou o aceio, a vista da casa e a frescura dos cretones. De
-resto, para um rapaz, para uma cella de trabalho...
-
---Eu, dizia o Ega, passeiando pela sala, com as mos enterradas nos
-bolsos do seu prodigioso robe de chambre, eu no tolero o _bibelot_, o
-_bric--brac_, a cadeira archeologica, essas mobilias d'arte... Que
-diabo, o movel deve estar em harmonia com a ida e o sentir do homem que
-o usa! Eu no penso, nem sinto como um cavalleiro do seculo XVI, para
-que me hei de cercar de cousas do seculo XVI? No ha nada que me faa
-tanta melancolia, como ver n'uma sala um veneravel contador do tempo de
-Francisco I recebendo pela face conversas sobre eleies e altas de
-fundos. Faz-me o effeito d'um bello heroe de armadura d'ao, viseira
-cahida e crenas profundas no peito, sentado a uma mesa de voltarete a
-jogar copas. Cada seculo tem o seu genio proprio e a sua attitude
-propria. O seculo XIX concebeu a Democracia e a sua attitude
-esta...--E enterrando-se d'estalo n'uma poltrona, espetou as pernas
-magras para o ar.--Ora esta attitude impossivel n'um escabello do
-tempo do Prior do Crato. Menino, toca a beber o _Champagne_.
-
-E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega accudiu:
-
--- excellente, que pensas tu? Vem directamente da melhor casa
-d'Epernay, arranjou-m'o o Jacob.
-
---Que Jacob?
-
---O Jacob Cohen, o Jacob.
-
-Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma subita recordao,
-e pousando a garrafa outra vez, entalando o monocolo no olho:
-
--- verdade! Ento, n'outro dia, que tal, em casa dos Gouvarinhos? Eu
-infelizmente no poude ir.
-
-Carlos contou a _soire_. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas
-salas, n'um zum-zum dormente, meia luz dos candieiros. O conde
-massara-o indiscretamente com a politica, admiraes idiotas por um
-grande orador, um deputado de Meso Frio, e explicaes sem fim sobre a
-reforma da instruco. A condessa, que estava muito constipada,
-horrorisou-o, dando sobre a Inglaterra, apesar de ingleza, as opinies
-da rua de Cedofeita. Imaginava que a Inglaterra um paiz sem poetas,
-sem artistas, sem ideaes, occupando-se s de amontoar libras... Emfim,
-seccara-se.
-
---Que diabo! murmurou o Ega n'um tom de viva desconsolao.
-
-A rolha estalou, elle encheu os copos em silencio; e n'uma _saude_ muda
-os dois amigos beberam o _Champagne_--que Jacob arranjara ao Ega, para o
-Ega se regalar com Rachel.
-
-Depois, de p, com os olhos no tapete, agitando de vagar o copo
-novamente cheio onde a espuma morria, Ega tornou a murmurar, n'aquella
-entoao triste de inesperado desapontamento:
-
---Que ferro!...
-
-E aps um momento:
-
---Pois menino, pensei que a Gouvarinho te appeteca...
-
-Carlos confessou que nos primeiros dias, quando Ega lhe fallara d'ella,
-tivera um caprichosinho, interessara-se por aquelles cabellos cr de
-brasa...
-
---Mas agora, mal a conheci, o capricho foi-se...
-
-Ega sentara-se, com o copo na mo; e depois de contemplar algum tempo as
-suas meias de seda, escarlates como as d'um prelado, deixou cair, muito
-serio, estas palavras:
-
--- uma mulher deliciosa, Carlinhos.
-
-E, como Carlos encolhia os hombros, Ega insistio: a Gouvarinho era uma
-senhora de intelligencia e de gosto; tinha originalidade, tinha audacia,
-uma pontinha de romantismo muito picante...
-
---E, como corpinho de mulher, no ha melhor que aquillo de Badajoz para
-c!
-
---Vae-te d'ahi, Mephistopheles de Celorico!
-
-E Ega, divertido, cantarolou:
-
-
- Je suis Mephisto...
- Je suis Mephisto...
-
-
-Carlos no entanto, fumando preguiosamente, continuava a fallar na
-Gouvarinho e n'essa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com
-ella tres palavras n'uma sala. E no era a primeira vez que tinha
-d'estes falsos arranques de desejo, vindo quasi com as formas do amor,
-ameaando absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e
-resolvendo-se em tedio, em secca. Eram como os fogachos de polvora
-sobre uma pedra; uma fagulha ata-os, n'um momento tornam-se chamma
-vehemente que parece que vae consumir o Universo, e por fim fazem apenas
-um rastro negro que suja a pedra. Seria o seu um d'esses coraes de
-fraco, molles e flaccidos, que no podem conservar um sentimento, o
-deixam fugir, escoar-se pelas malhas lassas do tecido relles?
-
---Sou um ressequido! disse elle sorrindo. Sou um impotente de
-sentimento, como Satanaz... Segundo os padres da Egreja, a grande
-tortura de Satanaz que no pde amar...
-
---Que phrases essas, menino! murmurou Ega.
-
-Como phrases? Era uma atroz realidade! Passava a vida a ver as paixes
-falharem-lhe nas mos como phosphoros. Por exemplo, com a coronela de
-hussards em Vienna! Quando ella faltou ao primeiro _rendez-vous_,
-chorara lagrimas como punhos, com a cabea enterrada no travesseiro e
-aos coices roupa. E d'ahi a duas semanas, mandava postar o Baptista
-janella do hotel, para elle se safar, mal a pobre coronela dobrasse a
-esquina! E com a hollandeza, com Madame Rughel, peior ainda. Nos
-primeiros dias foi uma insensatez: queria-se estabelecer para sempre na
-Hollanda, casar com ella (apenas ella se divorciasse), outras loucuras;
-depois os braos que ella lhe deitava ao pescoo, e que lindos braos,
-pareciam-lhe pesados como chumbo...
-
---Passa fra, pedante! E ainda lhe escreves! gritou Ega.
-
---Isso outra cousa. Ficamos amigos, puras relaes de intelligencia.
-Madame Rughel uma mulher de muito espirito. Escreveu um romance, um
-d'esses estudos intimos e delicados, como os de Miss Brougthon: chama-se
-as _Rosas Murchas_. Eu nunca li, em hollandez...
-
---As _Rosas Murchas_! em hollandez! exclamou Ega apertando as mos na
-cabea.
-
-Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monocolo no olho:
-
---Tu s extraordinario, menino!... Mas o teu caso simples, o caso de
-D. Juan. D. Juan tambem tinha essas alternaes de chamma e cinza.
-Andava busca do seu ideal, da _sua mulher_, procurando-a
-principalmente, como de justia, entre as mulheres dos outros. E _aprs
-avoir couch_, declarava que se tinha enganado, que no era aquella.
-Pedia desculpa e retirava-se. Em Hespanha experimentou assim mil e tres.
-Tu s simplesmente, como elle, um devasso; e has de vir a acabar
-desgraadamente como elle, n'uma tragedia infernal!
-
-Esvasiou outro copo de _Champagne_, e a grandes passadas pela sala:
-
---Carlinhos da minha alma, inutil que ninguem ande busca da _sua
-mulher_. Ella vir. Cada um tem a _sua mulher_, e necessariamente tem de
-a encontrar. Tu ests aqui, na Cruz dos Quatro Caminhos, ella est
-talvez em Pekin: mas tu, ahi a raspar o meu reps com o verniz dos
-sapatos, e ella a orar no templo de Confucio, estaes ambos
-insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente, marchando um para o
-outro!... Estou eloquentissimo hoje, e temos dito cousas idiotas. Toca a
-vestir. E, em quanto eu adorno a carcassa, prepara mais phrases sobre
-Satanaz!
-
-Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto--em quanto dentro o Ega
-batia com as gavetas, lanando, a todo o desafinado da sua voz roufenha,
-a _Barcarolla_ de Gounod. Quando appareceu, vinha de casaca, gravata
-branca, enfiando o paletot--com o olho brilhante do _Champagne_.
-
-Desceram. O pagem l estava porta perfilado, ao p do coup de Carlos,
-que esperara. E a sua fardeta azul de botes amarellos, a magnifica
-parelha baia reluzindo como um setim vivo, as pratas dos arreios, a
-magestade do cocheiro louro com o seu ramo na libr, tudo alli fazia,
-junto da Villa Balzac, um quadro rico que deleitou o Ega.
-
---A vida agradavel, disse elle.
-
-O coup partiu, ia entrar no largo da Graa, quando uma caleche de
-praa, aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapo baixo
-a lendo um grande jornal.
-
--- o Craft! gritou Ega, debruando-se pela portinhola.
-
-O coup parou. Ega de um pulo estava na calada, correndo, bradando:
-
---Oh Craft! oh Craft!
-
-Quando, d'ahi a um momento, sentiu duas vozes approximarem-se, Carlos
-desceu tambem do coup, achou-se em face d'um homem baixo, louro, de
-pelle rosada e fresca, e apparencia fria. Sob o fraque correcto
-percebia-se-lhe uma musculatura de athleta.
-
---O Carlos, o Craft, gritou o Ega, lanando esta apresentao com uma
-simplicidade classica.
-
-Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a mo. E Ega insistia para
-que voltassem todos Villa Balzac, fossem beber a outra garrafa de
-_Champagne_, a celebrar o _advento do Justo_! Craft recusou, com o seu
-modo calmo e placido; chegara na vespera do Porto, abraara j o nobre
-Ega, e aproveitava agora a viagem quelle bairro longinquo para ir vr o
-velho Shlegen, um allemo que vivia Penha de Frana.
-
---Ento outra cousa! exclamou Ega. Para conversarmos, para que vocs se
-conheam mais, venham vocs jantar comigo amanh ao Hotel Central. Dito,
-hein? Perfeitamente. s seis.
-
-Apenas o coup partiu de novo, Ega rompeu nas costumadas admiraes pelo
-Craft, encantado com aquelle encontro que dava mais um retoque luminoso
- sua alegria. O que o enthusiasmava no Craft era aquelle ar
-imperturbavel de gentleman correcto, com que elle egualmente jogaria uma
-partida de bilhar, entraria n'uma batalha, arremetteria com uma mulher,
-ou partiria para a Patagonia...
-
--- das melhores cousas que tem Lisboa. Vaes-te morrer por elle... E que
-casa que elle tem nos Olivaes, que sublime bric-a-brac!
-
-Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma ruga na testa:
-
---Como diabo soube elle da _Villa Balzac_?
-
---Tu no fazes segredo d'ella, hein?
-
---No... Mas tambem no a puz nos annuncios! E o Craft chegou hontem,
-ainda no esteve com ninguem que eu conhea... curioso!
-
---Em Lisboa sabe-se tudo...
-
---Canalha de terra! murmurou Ega.
-
-
-O jantar no Central foi addiado, porque o Ega, alargando pouco a pouco a
-ida, convertera-o agora n'uma festa de ceremonia em honra do Cohen.
-
---Janto l muitas vezes, disse elle a Carlos, estou l todas as
-noites... necessario repagar a hospitalidade... Um jantar no Central
-o que basta. E para o effeito moral, pespego-lhe meza o marquez e a
-besta do Steinbroken. O Cohen gosta de gente assim...
-
-Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marquez partira para a
-Golleg, e o pobre Steinbroken estava soffrendo d'um incommodo de
-entranhas. Ega pensou no Cruges e no Taveira--mas receiou a cabelleira
-desleixada do Cruges, e alguns dos seus ataques de amargo _spleen_ que
-estragaria o jantar. Terminou por convidar dois intimos do Cohen; mas
-teve ento de supprimir o Taveira, que estava de mal com um d'esses
-cavalheiros por palavras que tinham trocado em casa da Lola gorda.
-
-Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda feira, Ega
-teve uma conferencia com o _maitre de hotel_ do Central, em que lhe
-recommendou muita flr, dois ananazes para enfeitar a meza, e exigiu que
-um dos pratos do _menu_, qualquer d'elles, fosse _ la Cohen_; e elle
-mesmo suggeriu uma ida: _tomates farcies la Cohen_...
-
-N'essa tarde, s seis horas, Carlos, ao descer a rua do Alecrim para o
-Hotel Central, avistou Craft dentro da loja de bric-a-brac do tio
-Abraho.
-
-Entrou. O velho judeo, que estava mostrando a Craft uma falsa faiena do
-Rato, arrancou logo da cabea o sujo barrete de borla, e ficou curvado
-em dois, diante de Carlos, com as duas mos sobre o corao.
-
-Depois, n'uma linguagem exotica, misturada d'inglez, pediu ao seu bom
-senhor D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seu _beautiful
-gentleman_, que se dignasse examinar uma maravilhasinha que lhe tinha
-reservada; e o seu muito _generous gentleman_ tinha s a voltar os
-olhos, a maravilhasinha estava alli ao lado, n'uma cadeira. Era um
-retrato d'hespanhola, apanhado a fortes brochadellas de primeira
-impresso, e pondo, sobre um fundo audaz de cr de rosa murcha, uma face
-gasta de velha gara, picada das bexigas, caida, ressudando vicio, com
-um sorriso bestial que promettia tudo.
-
-Carlos, tranquillamente, offereceu dez tostes. Craft pasmou d'uma tal
-prodigalidade; e o bom Abraho, n'um riso mudo que lhe abria entre a
-barba grisalha uma grande boca d'um s dente, saboreou muito a chalaa
-dos seus ricos senhores. Dez tostesinhos! Se o quadrinho tivesse por
-baixo o nomesinho de Fortuny, valia dez continhos de ris. Mas no tinha
-esse nomesinho bemdito... Ainda assim valia dez notasinhas de vinte mil
-ris...
-
---Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma! exclamou Carlos.
-
-E sahiram, deixando o velho intrujo porta, curvado em dois, com as
-mos sobre o corao, desejando mil felicidades aos seus generosos
-fidalgos...
-
---No tem uma unica cousa boa, este velho Abraho, disse Carlos.
-
---Tem a filha, disse o Craft.
-
-Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja. Ento, a proposito do
-Abraho, fallou a Craft d'essas bellas colleces dos Olivaes, que o
-Ega, apesar do desdem que affectava pelo _bibelot_ e pelo movel d'arte,
-lhe descrevera como sublimes.
-
-Craft encolheu os hombros.
-
---O Ega no entende nada. Mesmo em Lisboa, no se pde chamar ao que eu
-tenho uma colleco. um bric-a-brac d'acaso... De que, de resto, me
-vou desfazer!
-
-Isto surprehendeu Carlos. Comprehendera das palavras do Ega ser essa uma
-colleco formada com amor, no laborioso decurso de annos, orgulho e
-cuidado d'uma existencia de homem...
-
-Craft sorrio d'aquella legenda. A verdade era que s em 1872, elle
-comeara a interessar-se pelo bric-a-brac; chegava ento da America do
-Sul; e o que fora comprando, descobrindo aqui e alm, accumulara-o
-n'essa casa dos Olivaes, alugada ento por phantasia, uma manh que
-aquelle pardieiro, com o seu bocado de quintal em redor, lhe parecera
-pittoresco, sob o sol de abril. Mas agora se podesse desfazer-se do que
-tinha, ia dedicar-se ento a formar uma colleco homogenea e compacta
-d'arte do seculo desoito.
-
---Aqui nos Olivaes?
-
---No. N'uma quinta que tenho ao p do Porto, junto mesmo ao rio.
-
-Entravam ento no peristilo do Hotel Central--e n'esse momento um coup
-da Companhia, chegando a largo trote do lado da rua do Arsenal, veiu
-estacar porta.
-
-Um esplendido preto, j grisalho, de casaca e calo, correu logo
-portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra,
-passou-lhe para os braos uma deliciosa cadelinha escosseza, de pellos
-esguedelhados, finos como seda e cr de prata; depois apeando-se,
-indolente e _poseur_, offereceu a mo a uma senhora alta, loura, com um
-meio vo muito apertado e muito escuro que realava o explendor da sua
-carnao eburnea. Craft e Carlos affastaram-se, ella passou diante
-d'elles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita,
-deixando atraz de si como uma claridade, um reflexo de cabellos d'ouro,
-e um aroma no ar. Trazia um casaco collante de velludo branco de Genova,
-e um momento sobre as lages do peristillo brilhou o verniz das suas
-bottinas. O rapaz ao lado, esticado n'um fato de xadresinho inglez,
-abria negligentemente um telegramma; o preto seguia com a cadelhinha nos
-braos. E no silencio a voz de Craft murmurou:
-
---_Trs chic_.
-
-Em cima, no gabinete que o creado lhes indicou, Ega esperava, sentado no
-divan de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado
-como um noivo de provincia, de camelia ao peito e plastron azul celeste.
-O Craft conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o sr. Damaso Salcde, e
-mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse
-requinte litterario e satanico do _absintho_...
-
-Fra um dia d'inverno suave e luminoso, as duas janellas estavam ainda
-abertas. Sobre o rio, no cu largo, a tarde morria, sem uma aragem,
-n'uma paz elysea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas de cr
-de rosa; as terras, os longes da outra banda j se iam affogando n'um
-vapor avelludado, do tom de violeta; a agoa jazia liza e luzidia como
-uma bella chapa d'ao novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro,
-grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraados
-inglezes, dormiam, com as mastreaes immoveis, como tomados de
-preguia, cedendo ao affago do clima doce...
-
---Vimos agora l em baixo, disse Craft indo sentar-se no divan, uma
-esplendida mulher, com uma esplendida cadellinha _griffon_, e servida
-por um esplendido preto!
-
-O sr. Damaso Salcde, que no despegava os olhos de Carlos, acudiu logo:
-
---Bem sei! Os Castro Gomes... Conheo-os muito... Vim com elles de
-Bordeus... Uma gente muito chic que vive em Paris.
-
-Carlos voltou-se, reparou mais n'elle, perguntou-lhe, affavel e
-interessando-se:
-
---O senhor Salcde chegou agora de Bordeus?
-
-Estas palavras pareceram deleitar Damaso como um favor celeste:
-ergueu-se immediatamente, approximou-se do Maia, banhado n'um sorriso:
-
---Vim aqui ha quinze dias, no _Orenoque_. Vim de Paris... Que eu em
-podendo l que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordeus. Isto ,
-verdadeiramente conheci-a a bordo. Mas estavamos todos no _Hotel de
-Nantes_... Gente muito chic: creado de quarto, governanta ingleza para a
-filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chic a valer! Parece
-incrivel, uns brazileiros... Que ella na voz no tem _sutaque_ nenhum,
-falla como ns. Elle sim, elle muito _sutaque_... Mas elegante tambem,
-v. ex.^a no lhe pareceu?
-
---Vermouth? perguntou-lhe o creado, offerecendo a salva.
-
---Sim, uma gotinha para o appetite. V. ex.^a no toma, sr. Maia? Pois
-eu, assim que posso, direitinho para Paris! Aquillo que terra!
-Isto aqui um chiqueiro... Eu, em no indo l todos os annos, acredite
-v. ex.^a, at comeo a andar doente. Aquelle _boulevarsinho_, hein!...
-Ai, eu goso aquillo!... E sei gosar, sei gosar, que eu conheo aquillo a
-palmo... Tenho at um tio em Paris.
-
---E que tio! exclamou Ega, approximando-se. Intimo do Gambetta, governa
-a Frana... O tio do Damaso governa a Frana, menino!
-
-Damaso, escarlate, estourava de gso.
-
---Ah, l isso influencia tem. Intimo do Gambetta, tratam-se por tu, at
-vivem quasi juntos... E no s com o Gambetta; com o Mac-Mahon, com
-o Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os
-republicanos, emfim!... tudo quanto elle queira. V. ex.^a no o
-conhece? um homem de barbas brancas... Era irmo de minha me,
-chama-se Guimares. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran...
-
-N'esse momento a porta envidraada abriu-se de golpe, Ega exclamou:
-Saude ao poeta!
-
-E appareceu um individuo muito alto, todo abotoado n'uma sobrecasaca
-preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz
-aquilino, longos, espessos, romanticos bigodes grisalhos: j todo calvo
-na frente, os anneis ffos d'uma grenha muito secca cahiam-lhe
-inspiradamente sobre a golla: e em toda a sua pessoa havia alguma cousa
-de antiquado, de artificial e de lugubre.
-
-Estendeu silenciosamente dous dedos ao Damaso, e abrindo os braos
-lentos para Craft, disse n'uma voz arrastada, cavernosa, atheatrada:
-
---Ento s tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? D-me c esses
-ossos honrados, honrado inglez!
-
-Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os:
-
---No sei se so relaes. Carlos da Maia... Thomaz d'Alencar, o nosso
-poeta...
-
-Era elle! o illustre cantor das _Vozes d'Aurora_, o estylista de
-_Elvira_, o dramaturgo do _Segredo do Commendador_. Deu dois passos
-graves para Carlos, esteve-lhe apertando muito tempo a mo em
-silencio--e sensibilisado, mais cavernoso:
-
---V. ex.^a, j que as etiquetas sociaes querem que eu lhe d
-excellencia, mal sabe a quem apertou agora a mo...
-
-Carlos, surprehendido, murmurou:
-
---Eu conheo muito de nome...
-
-E o outro com o olho cavo, o labio tremulo:
-
---Ao camarada, ao inseparavel, ao intimo de Pedro da Maia, do meu pobre,
-do meu valente Pedro!
-
---Ento, que diabo, abracem-se! gritou Ega. Abracem-se, com um berro,
-segundo as regras...
-
-Alencar j tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou,
-retomando-lhe as mos, sacudindo-lh'as, com uma ternura ruidosa:
-
---E deixemo-nos j de excellencias! que eu vi-te nascer, meu rapaz!
-trouxe-te muito ao collo! sujaste-me muita cala! Co'os diabos, d c
-outro abrao!
-
-Craft olhava estas cousas vehementes, impassivel; Damaso parecia
-impressionado; Ega apresentou um copo de _vermouth_ ao poeta:
-
---Que grande scena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para te recuperares da
-emoo...
-
-Alencar esgotou-o d'um trago: e declarou aos amigos que no era a
-primeira vez que via Carlos. J o admirara no seu phaeton, muitas vezes,
-e aos seus bellos cavallos inglezes. Mas no se quizera dar a conhecer.
-Elle nunca se atirava aos braos de ninguem, a no ser das mulheres...
-Foi encher outro calice de _vermouth_, e com elle na mo, plantado
-diante de Carlos, comeou, n'um tom pathetico:
-
---A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estava eu no
-Rodrigues, esquadrinhando alguma d'essa velha litteratura, hoje to
-despresada... Lembro-me at que era um volume das _Eclogas_ do nosso
-delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da natureza, esse
-rouxinol to portuguez, hoje, est claro, mettido a um canto, desde que
-para ahi appareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros
-esterquilinios em _ismo_... N'esse momento passaste, disseram-me quem
-eras, e cahiu-me o livro da mo... Fiquei alli uma hora, acredita, a
-pensar, a rever o passado...
-
-E atirou o _vermouth_ s goellas. Ega, impaciente, olhava o relogio. Um
-creado, entrando, accendeu o gaz; a mesa surgiu da penumbra, com um
-brilho de cristaes e louas, um luxo de camelias em ramos.
-
-No entanto Alencar (que luz viva parecia mais gasto e mais velho)
-comeara uma grande historia, e como fra elle o primeiro que vira
-Carlos depois de nascer, e como fra elle que lhe dera o nome.
-
---Teu pae, dizia elle, o meu Pedro, queria-te pr o nome d'Affonso,
-d'esse santo, d'esse varo d'outras edades, Affonso da Maia! Mas tua me
-que tinha l as suas idas teimou em que havias de ser Carlos. E
-justamente por causa d'um romance que eu lhe emprestra; n'esses tempos
-podiam-se emprestar romances a senhoras, ainda no havia a pustula e o
-puz... Era um romance sobre o ultimo Stuart, aquelle bello typo do
-principe Carlos Eduardo, que vocs, filhos, conhecem todos bem, e que na
-Escossia, no tempo de Luiz XIV... Emfim, adiante! Tua me, devo dizel-o,
-tinha litteratura e da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre,
-n'esse tempo eu era _alguem_, e lembro-me de lhe ter respondido...
-(Lembro-me apesar de j l irem vinte e cinco annos... Que digo eu?
-Vinte e sete! Vejam vocs isto, filhos, vinte e sete annos!) Emfim,
-voltei-me para tua me, e disse-lhe, palavras textuaes: Ponha-lhe o
-nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que o
-verdadeiro nome para o frontespicio d'um poema, para a fama d'um
-heroismo ou para o labio d'uma mulher!
-
-Damaso, que continuava a admirar Carlos, deu _bravos_ estrondosos; Craft
-bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de
-relogio na mo, soltou de l um _muito bem_ desenxabido.
-
-Alencar, radiante com o seu effeito, derramava em roda um sorriso que
-lhe mostrava os dentes estragados. Abraou outra vez Carlos, atirou uma
-palmada ao corao, exclamou:
-
---Caramba, filhos, sinto uma luz c dentro!
-
-A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-se logo da
-sua demora--emquanto Ega, que se precipitara para elle, lhe ajudava a
-despir o palletot. Depois apresentou-o a Carlos--a unica pessoa alli de
-quem o Cohen no era intimo. E dizia, tocando o boto da campainha
-electrica:
-
---O marquez no pde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coitado, est
-com a sua gtta, a gtta de diplomata, de lord e de banqueiro... A gtta
-que tu has de ter, velhaco!
-
-Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suissas to pretas e
-luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria, descalando as luvas,
-dizendo, que, segundo os inglezes, havia tambem a gtta de gente pobre;
-e era essa naturalmente a que lhe competia a elle...
-
-Ega, no entanto, travara-lhe do brao, collocara-o preciosamente mesa,
- sua direita: depois offereceu-lhe um boto de camelia d'um ramo: o
-Alencar florio-se tambem--e os creados serviram as ostras.
-
-Fallou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impressionava
-Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado navalha por uma companheira,
-vindo morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma
-viella em sangue--uma _sarrabulhada_ como disse o Cohen, sorrindo e
-provando o Bucellas.
-
-Damaso teve a satisfao de poder dar detalhes; conhecera a rapariga, a
-que dera as facadas, quando ella era amante do visconde da Ermidinha...
-Se era bonita? Muito bonita. Umas mos de duqueza... E como aquillo
-cantava o _fado_! O peior era que mesmo no tempo do visconde, quando
-ella era chic, j se empiteirava... E o visconde, honra lhe seja, nunca
-lhe perdera a amisade; respeitava-a, mesmo depois de casado a vel-a, e
-tinha-lhe promettido que se ella quizesse deixar o _fado_ lhe punha uma
-confeitaria para os lados da S. Mas ella no queria. Gostava d'aquillo,
-do Bairro Alto, dos cafs de _lepes_, dos chulos...
-
-Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um
-romance... Isto levou logo a fallar-se do _Assommoir_, de Zola e do
-realismo:--e o Alencar immediatmente, limpando os bigodes dos pingos de
-spa, supplicou que se no discutisse, hora aceada do jantar, essa
-litteratura _latrinaria_. Alli todos eram homens d'aceio, de sala, hein?
-Ento, que se no mencionasse o _excremento_!
-
-Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados
-a milhares de edies; essas rudes analyses, apoderando-se da Egreja, da
-Realeza, da Bureocracia, da Finana, de todas as cousas santas,
-dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a leso, como a cadaveres
-n'um amphitheatro; esses estylos novos, to precisos e to ducteis,
-apanhando em flagrante a linha, a cr, a palpitao mesma da vida; tudo
-isso (que elle, na sua confuso mental, chamava a _Ida nova_) caindo
-assim de chofre e escangalhando a cathedral romantica, sob a qual tantos
-annos elle tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado o pobre
-Alencar e tornara-se o desgosto litterario da sua velhice. Ao principio
-reagiu. Para pr um dique definitivo torpe mar, como elle disse em
-plena Academia, escreveu dois folhetins crueis; ninguem os leu; a mar
-torpe alastrou-se, mais profunda, mais larga. Ento Alencar refugiou-se
-na _moralidade_ como n'uma rocha solida. O naturalismo, com as suas
-alluvies de obscenidade, ameaava corromper o pudor social? Pois bem.
-Elle, Alencar, seria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes.
-Ento o poeta das _Vozes d'Aurora_, que durante vinte annos, em
-canoneta e ode, propozera commercios lubricos a todas as damas da
-capital; ento o romancista de _Elvira_ que, em novella e drama, fizera
-a propaganda do amor illegitimo, representando os deveres conjugaes como
-montanhas de tedio, dando a todos os maridos formas gordurosas e
-bestiaes, e a todos os amantes a belleza, o esplendor e o genio dos
-antigos Apollos; ento Thomaz Alencar que (a acreditarem-se as
-confisses autobiographicas da _Flr de Martyrio_) passava elle proprio
-uma existencia medonha de adulterios, lubricidades, orgias, entre
-velludos e vinhos de Chypre--d'ora em diante austero, incorruptivel,
-todo elle uma torre de pudicicia, passou a vigiar attentamente o jornal,
-o livro, o theatro. E mal lobrigava symptomas nascentes de realismo n'um
-beijo que estalava mais alto, n'uma brancura de saia que se arregaava
-de mais--eis o nosso Alencar que soltava por sobre o paiz um grande
-grito de alarme, corria penna, e as suas imprecaes lembravam (a
-academicos faceis de contentar) o rugir de Isaias. Um dia porm, Alencar
-teve uma d'estas revelaes que prostram os mais fortes; quanto mais
-elle denunciava um livro como immoral, mais o livro se vendia como
-agradavel! O Universo pareceu-lhe cousa torpe, e o auctor de _Elvira_
-encavacou...
-
-Desde ento reduziu a expresso do seu rancor ao minimo, a essa phrase
-curta, lanada com nojo:
-
---Rapazes, no se mencione o _excremento_!
-
-Mas n'essa noite teve o regosijo de encontrar alliados. Craft no
-admittia tambem o naturalismo, a realidade feia das cousas e da
-sociedade estatelada nua n'um livro. A arte era uma idealisao! Bem:
-ento que mostrasse os typos superiores d'uma humanidade aperfeioada,
-as frmas mais bellas do viver e do sentir... Ega horrorisado apertava
-as mos na cabea--quando do outro lado Carlos declarou que o mais
-intoleravel no realismo eram os seus grandes ares scientificos, a sua
-pretenciosa esthetica deduzida d'uma philosophia alheia, e a invocao
-de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e
-de Darwin, a proposito d'uma lavadeira que dorme com um carpinteiro!
-
-Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do
-realismo estava em ser ainda pouco scientifico, inventar enredos, crear
-dramas, abandonar-se phantasia litteraria! a frma pura da arte
-naturalista devia ser a monographia, o estudo secco d'um typo, d'um
-vicio, d'uma paixo, tal qual como se se tratasse d'um caso pathologico,
-sem pittoresco e sem estylo!...
-
---Isso absurdo, dizia Carlos, os caracteres s se podem manifestar
-pela aco...
-
---E a obra d'arte, accrescentou Craft, vive apenas pela frma...
-
-Alencar interrompeu-os, exclamando que no eram necessarias tantas
-philosophias.
-
---Vocs esto gastando cra com ruins defuntos, filhos. O realismo
-critica-se d'este modo: mo no nariz! Eu quando vejo um d'esses livros,
-enfrasco-me logo em agua de colonia. No discutamos o _excremento_.
-
---_Sole normande_? perguntou-lhe o creado, adiantando a travessa.
-
-Ega a fulminal-o. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e
-superior a estas controversias de litteraturas, calou-se; occupou-se s
-d'elle, quiz saber que tal elle achava aquelle S.^t Emilion; e, quando o
-viu confortavelmente servido de _sole normande_, lanou com grande
-alarde de interesse esta pergunta:
-
---Ento, Cohen, diga-nos voc, conte-nos c... O emprestimo faz-se ou
-no se faz?
-
-E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquella questo do
-emprestimo era grave. Uma operao tremenda, um verdadeiro episodio
-historico!...
-
-O Cohen collocou uma pitada de sal beira do prato, e respondeu, com
-auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar _absolutamente_. Os
-emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, to
-regular, to indispensavel, to sabida como o imposto. A unica occupao
-mesmo dos ministerios era esta--_cobrar o imposto_ e _fazer o
-emprestimo_. E assim se havia de continuar...
-
-Carlos no entendia de finanas: mas parecia-lhe que, d'esse modo, o
-paiz ia alegremente e lindamente para a _banca-rota_.
-
---N'um galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen,
-sorrindo. Ah, sobre isso, ninguem tem illuses, meu caro senhor. Nem os
-proprios ministros da fazenda!... A _banca-rota_ inevitavel: como
-quem faz uma somma...
-
-Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos
-escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o calice de novo, fincara
-os cotovellos na meza para lhe beber melhor as palavras.
-
---A _banca-rota_ to certa, as cousas esto to dispostas para
-ella--continuava o Cohen--que seria mesmo facil a qualquer, em dois ou
-tres annos, fazer fallir o paiz...
-
-Ega gritou sofregamente pela _receita_. Simplesmente isto: manter uma
-agitao revolucionaria constante; nas vesperas de se lanarem os
-emprestimos haver duzentos maganes decididos que cahissem pancada na
-municipal e quebrassem os candieiros com vivas Republica; telegraphar
-isto em letras bem gordas para os jornaes de Paris, Londres e do Rio de
-Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro, e a _banca-rota_
-estalava. Smente, como elle disse, isto no convinha a ninguem.
-
-Ento Ega protestou com vehemencia. Como no convinha a ninguem? Ora
-essa! Era justamente o que convinha a todos! _banca-rota_ seguia-se
-uma revoluo, evidentemente. Um paiz que vive da _inscripo_, em no
-lh'a pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou
-procedendo apenas por vingana--o primeiro cuidado que tem varrer a
-monarchia que lhe representa o _calote_, e com ella o crasso pessoal do
-constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha divida,
-da velha gente, d'essa colleco grotesca de bestas...
-
-A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados de _grotescos_, de
-_bestas_, os homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou
-a mo no brao do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, elle
-era o primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia
-mediocres e patetas,--mas tambem homens de grande valor!
-
---Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de experiencia. Voc deve
-reconhecel-o, Ega... Voc muito exagerado! No senhor, ha talento, ha
-saber.
-
-E, lembrando-se que algumas d'essas _bestas_ eram amigos do Cohen, Ega
-reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porm cofiava sombriamente o
-bigode. Ultimamente pendia para idas radicaes, para a democracia
-humanitaria de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas
-letras, refugiava-se no romantismo politico, como n'um asylo paralello:
-queria uma republica governada por genios, a fraternisao dos povos, os
-Estados Unidos da Europa... Alm d'isso, tinha longas queixas d'esses
-politiquotes, agora gente de Poder, outr'ora seus camaradas de redaco,
-de caf e de _batota_...
-
---Isso, disse elle, l a respeito de talento e de saber, historias... Eu
-conheo-os bem, meu Cohen...
-
-O Cohen acudiu:
-
---No senhor, Alencar, no senhor! Voc tambem dos taes... At lhe
-fica mal dizer isso... exagerao. No senhor, ha talento, ha saber.
-
-E o Alencar, peranta esta intimao do Cohen, o respeitado director do
-_Banco Nacional_, o marido da divina Rachel, o dono d'essa hospitaleira
-casa da rua do Ferregial onde se jantava to bem, recalcou o
-despeito--admittiu que no deixava de haver talento e saber.
-
-Ento, tendo assim, pela influencia do seu Banco, dos bellos olhos da
-sua mulher e da excellencia do seu cosinheiro, chamado estes espiritos
-rebeldes ao respeito dos Parlamentares e venerao da Ordem, Cohen
-condescendeu em dizer, no tom mais suave da sua voz, que o paiz
-necessitava reformas...
-
-Ega porm, incorrigivel n'esse dia, soltou outra enormidade:
-
---Portugal no necessita refrmas, Cohen, Portugal o que precisa a
-invaso hespanhola.
-
-Alencar, patriota antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso
-indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, vio
-alli apenas um dos paradoxos do nosso Ega. Mas o Ega fallava com
-seriedade, cheio de razes. Evidentemente, dizia elle, invaso no
-significa perda absoluta de independencia. Um receio to estupido
-digno s de uma sociedade to estupida como a do _Primeiro de Dezembro_.
-No havia exemplo de seis milhes de habitantes serem engolidos, de um
-s trago, por um paiz que tem apenas quinze milhes de homens. Depois
-ninguem consentiria em deixar cahir nas mos de Hespanha, nao militar
-e maritima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as
-allianas que teriamos, a troco das colonias--das colonias que s nos
-servem, como a prata de familia aos morgados arruinados, para ir
-empenhando em casos de crise... No havia perigo; o que nos aconteceria,
-dada uma invaso, n'um momento de guerra europea, seria levarmos uma
-sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisao, perdermos uma ou duas
-provincias, ver talvez a Galliza estendida at ao Douro...
-
---_Poulet aux champignons_, murmurou o creado, apresentando-lhe a
-travessa.
-
-E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a
-_salvao do paiz_, n'essa catastrophe que tornaria povoao hespanhola
-Celorico de Basto, a nobre Celorico, bero de heroes, bero dos Egas...
-
---N'isto: no ressuscitar do espirito publico e do genio portuguez!
-Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um
-esforo desesperado para viver. E em que bella situao nos achavamos!
-Sem monarchia, sem essa caterva de politicos, sem esse tortulho da
-_inscripo_, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha,
-limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeava-se
-uma historia nova, um outro Portugal, um Portugal serio e intelligente,
-forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilisao como
-outr'ora... Meninos, nada regenera uma nao como uma medonha tara...
-Oh Deus d'Ourique, manda-nos o castelhano! E voc, Cohen, passe-me o
-S.^t Emilion.
-
-Agora, n'um rumor animado, discutia-se a invaso. Ah, podia-se fazer uma
-bella resistencia! Cohen affianava o dinheiro. Armas, artilheria, iam
-comprar-se America--e Craft offereceu logo a sua colleco de espadas
-do seculo XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia
-estar barato...
-
---O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega.
-
---s ordens, meu coronel.
-
---O Alencar, continuava Ega, encarregado de ir despertar pela
-provincia o patriotismo, com cantos e com odes!
-
-Ento o poeta, pousando o calice, teve um movimento de leo que sacode a
-juba:
-
---Isto uma velha carcassa, meu rapaz, mas no est s para odes! Ainda
-se agarra uma espingarda, e como a pontaria boa, ainda vo a terra um
-par de gallegos... Caramba, rapazes, s a ida d'essas cousas me pe o
-corao negro! E como vocs podem fallar n'isso, a rir, quando se trata
-do paiz, d'esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja m, de
-accordo, mas, caramba! a unica que temos, no temos outra! aqui que
-vivemos, aqui que rebentamos... Irra, fallemos d'outra cousa, fallemos
-de mulheres!
-
-Dera um repello ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paixo
-patriotica...
-
-E no silencio que se fez Damaso, que desde as informaes sobre a
-rapariga do Ermidinha emmudecera, occupado a observar Carlos com
-religio, ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de
-finura:
-
---Se as cousas chegassem a esse ponto, se pozessem assim feias, eu c,
-cautela, a-me raspando para Paris...
-
-Ega triumphou, pulou de gosto na cadeira. Eis alli, no labio synthetico
-de Damaso, o grito espontaneo e genuino do brio portuguez! Raspar-se,
-pirar-se!... Era assim que d'alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa,
-a malta constitucional, desde El-Rei nosso Senhor at aos cretinos de
-secretaria!...
-
---Meninos, ao primeiro soldado hespanhol que apparea fronteira, o
-paiz em massa foge como uma lebre! Vae ser uma debandada unica na
-historia!
-
-Houve uma indignao, Alencar gritou:
-
---Abaixo o traidor!
-
-Cohen interveiu, declarou que o soldado portuguez era valente, maneira
-dos turcos--sem disciplina, mas teso. O proprio Carlos disse, muito
-serio:
-
---No senhor... Ninguem ha de fugir, e ha de se morrer bem.
-
-Ega rugiu. Para quem estavam elles fazendo essa _pose_ heroica? Ento
-ignoravam que esta raa, depois de cincoenta annos de
-constitucionalismo, creada por esses sagues da Baixa, educada na
-piolhice dos lyceus, roda de syphlis, apodrecida no bolr das
-secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o
-musculo como perdera o caracter, e era a mais fraca, a mais covarde raa
-da Europa?...
-
---Isso so os lisboetas, disse Craft.
-
---Lisboa Portugal, gritou o outro. Fra de Lisboa no ha nada. O paiz
-est todo entre a Arcada e S. Bento!...
-
-A mais miseravel raa da Europa! continuava elle a berrar. E que
-exercito! Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em
-massa no hospital! Com seus olhos tinha elle visto, no dia da abertura
-das Crtes, um marujo sueco, um rapago do Norte, fazer debandar, a
-soccos, uma companhia de soldados; as praas tinham litteralmente
-largado a fugir, com a patrona a batter-lhe os rins; e o official,
-enfiado de terror, metteu-se para uma escada, a vomitar!...
-
-Todos protestaram. No, no era possivel... Mas se elle tinha visto, que
-diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos fallazes da phantasia...
-
---Juro pela saude da mam! gritou Ega furioso.
-
-Mas emmudeceu. O Cohen tocara-lhe no brao. O Cohen a fallar.
-
-O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os hespanhoes
-porm pensassem na invaso isso parecia-lhe certo--sobretudo se viessem,
-como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lh'o dissera. J
-havia mesmo negocios de fornecimentos entabolados...
-
---Hespanholadas, gallegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e
-torcendo os bigodes.
-
---No _Hotel de Paris_, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um
-magistrado, que me disse com um certo ar que no perdia a esperana de
-se vir estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa,
-quando c estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que ha muitos
-hespanhoes que esto espera d'este augmento de territorio para se
-empregarem!
-
-Ento Ega cahiu em extasi, apertou as mos contra o peito. Oh que
-delicioso trao! Oh que admiravelmente observado!
-
---Este Cohen! exclamava elle para os lados. Que finamente observado! Que
-trao adoravel! Hein, Craft? Hein, Carlos? Delicioso!
-
-Todos cortezmente admiraram a finura do Cohen. Elle agradecia, com o
-olho enternecido, passando pelas suissas a mo onde reluzia um diamante.
-E n'esse momento os creados serviam um prato de ervilhas n'um molho
-branco, murmurando:
-
---_Petits pois a la Cohen_.
-
-_A la Cohen?_ Cada um verificou o seu _menu_ mais attentamente. E l
-estava, era o legume: _petits pois a la Cohen!_ Damaso, enthusiasmado,
-declarou isto chic a valer! E fez-se, com o Champagne que se abria, a
-primeira saude ao Cohen!
-
-Esquecera-se a banca rota, a invaso, a patria--o jantar terminava
-alegremente. Outras _saudes_ crusaram-se, ardentes e loquazes: o proprio
-Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de creana, bebeu
-Revoluo e Anarchia, brinde complicado, que o Ega erguera, j com o
-olho muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremeza alastrava-se,
-destroada; no prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a
-bocados de ananaz mastigado. Damaso, todo debruado sobre Carlos,
-fazia-lhe o elogio da parelha ingleza, e d'aquelle _phaeton_ que era a
-cousa mais linda que passeiava Lisboa. E logo depois do seu brinde de
-demagogo, sem razo, Ega arremettera contra Craft, injuriando a
-Inglaterra, querendo excluil-a d'entre as naes pensantes, ameaando-a
-de uma revoluo social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com
-acenos de cabea, imperturbavel, partindo nozes.
-
-Os creados serviram o caf. E como havia j tres longas horas que
-estavam meza, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na
-animao viva que dera o _Champagne_. A sala, de tecto baixo, com os
-cinco bicos de gaz ardendo largamente, enchera-se de um calor pesado,
-onde se ia espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores
-por entre a nevoa alvadia do fumo.
-
-Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e ahi
-recomeou logo, n'aquella communidade de gostos que os comeava a ligar,
-a conversa da rua do Alecrim sobre a bella colleco dos Olivaes. Craft
-dava detalhes; a cousa rica e rara que tinha era um armario hollandez do
-seculo XVI; de resto, alguns bronzes, faianas e boas armas...
-
-Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto meza,
-estridencias de voz, e como um conflicto que rompia: Alencar, sacudindo
-a grenha, gritava contra a _palhada philosophica_; e do outro lado, com
-o calice de cognac na mo, Ega, pallido e affectando uma tranquillidade
-superior, declarava toda essa babuge lyrica que por ahi se publica digna
-da policia correccional...
-
---Pegaram-se outra vez, veiu dizer Damaso a Carlos, approximando-se da
-varanda. por causa do Craveiro. Esto ambos divinos!
-
-Era com effeito a proposito de poesia moderna, de Simo Craveiro, do seu
-poema a _Morte de Satanaz_. Ega estivera citando, com enthusiasmo,
-estrophes do episodio da _Morte_, quando o grande esqueleto symbolico
-passa em pleno sol no Boulevard, vestido como uma cocotte, arrastando
-sedas rumorosas
-
-
- E entre duas costellas, no decotte,
- Tinha um bouquet de rosas!
-
-
-E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da _Ida nova_, o
-paladino do Realismo, triumphara, cascalhara, denunciando logo n'essa
-simples estrophe dois erros de grammatica, um verso errado, e uma imagem
-roubada a Beaudelaire!
-
-Ento Ega, que bebera um sobre outro dois calices de cognac, tornou-se
-muito provocante, muito pessoal.
-
---Eu bem sei por que tu fallas, Alencar, dizia elle agora. E o motivo
-no nobre. por causa do epigramma que elle te fez:
-
-
- O Alencar d'Alemquer,
- Acceso com a primavera...
-
-
---Ah, vocs nunca ouviram isto? continuou elle voltando-se, chamando os
-outros. delicioso, das melhores cousas do Craveiro. Nunca ouviste,
-Carlos? sublime, sobre tudo esta estrophe:
-
-
- O Alencar d'Alemquer
- Que quer? Na verde campina
- No colhe a tenra bonina
- Nem consulta o malmequer...
- Que quer? Na verde campina
- O Alencar d'Alemquer
- Quer menina!
-
-
-Eu no me lembro do resto, mas termina com um grito de bom senso, que
-a verdadeira critica de todo esse lyrismo pandilha:
-
-
- O Alencar d'Alemquer
- Quer cacete!
-
-
-Alencar passou a mo pela testa livida, e com o olho cavo fito no outro,
-a voz rouca e lenta:
-
---Olha, Joo da Ega, deixa-me dizer-te uma cousa, meu rapaz... Todos
-esses epigrammas, esses dichotes lorpas do rachitico e dos que o
-admiram, passam-me pelos ps como um enxurro de cloaca... O que fao
-arregaar as calas! Arregao as calas... Mais nada, meu Ega. Arregao
-as calas!
-
-E arregaou-as realmente, mostrando a ceroula, n'um gesto brusco e de
-delirio.
-
---Pois quando encontrares enchurros d'esses, gritou-lhe o Ega, agacha-te
-e bebe-os! Do-te sangue e fora ao lyrismo!
-
-Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar:
-
---Eu, se esse Craveirete no fosse um rachitico, talvez me entretivesse
-a rolal-o aos pontaps por esse Chiado abaixo, a elle e versalhada, a
-essa lambisgonhice excrementicia com que seringou Satanaz! E depois de o
-besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o craneo!
-
---No se esborracham assim craneos, disse de l o Ega n'um tom frio de
-troa.
-
-Alencar voltou para elle uma face medonha. A colera e o cognac
-incendiavam-lhe o olhar; todo elle tremia:
-
---Esborrachava-lh'o, sim, esborrachava, Joo da Ega! Esborrachava-lh'o
-assim, olha, assim mesmo!--Rompeu a atirar patadas ao soalho, abalando a
-sala, fazendo tilintar crystaes e louas.--Mas no quero, rapazes!
-Dentro d'aquelle craneo s ha excremento, vomito, puz, materia verde, e
-se lh'o esborrachasse, por que lh'o esborrachava, rapazes, todo o miollo
-podre sahia, empestava a cidade, tinhamos o cholera! Irra! Tinhamos a
-peste!
-
-Carlos, vendo-o to excitado, tornou-lhe o brao, quiz calmal-o:
-
---Ento, Alencar! Que tolice... Isso vale l a pena!...
-
-O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o
-ultimo desabafo:
-
---Com effeito, no vale a pena ninguem zangar-se por causa d'esse
-Craveirote da _Ida nova_, esse caloteiro, que se no lembra que a porca
-da irm uma meretriz de doze vintens em Marco de Canavezes!
-
---No, isso agora de mais, pulha! gritou Ega, arremeando-se, de
-punhos fechados.
-
-Cohen e Damaso, assustados, agarraram-n'o. Carlos puchara logo para o
-vo da janella o Alencar que se debatia, com os olhos chammejantes, a
-gravata solta. Tinha cahido uma cadeira; a correcta sala, com os seus
-divans de marroquim, os seus ramos de camelias, tomava um ar de taverna,
-n'uma bulha de faias, entre a fumaraa de cigarros. Damaso, muito
-pallido, quasi sem voz, a d'um a outro:
-
---Oh meninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no
-Hotel Central!...
-
-E, d'entre os braos do Cohen, Ega berrava, j rouco:
-
---Esse pulha, esse covarde... Deixe-me, Cohen! No, isso hei de
-esbofeteal-o!... A D. Anna Craveiro, uma santa!... Esse calumniador...
-No, isso hei de esganal-o!...
-
-Craft, no entanto, impassivel, bebia aos golos a sua chartreuse. J
-presencera, mais vezes, duas litteraturas rivaes engalphinhando-se,
-rolando no cho, n'um latir de injurias: a torpeza do Alencar sobre a
-irm do outro fazia parte dos costumes de critica em Portugal: tudo isso
-o deixava indifferente, com um sorriso de desdem. Alm d'isso sabia que
-a reconciliao no tardaria, ardente e com abraos. E no tardou.
-Alencar sahiu do vo da janella, atraz de Carlos, abotoando a
-sobrecasaca, grave e como arrependido. A um canto da sala, Cohen fallava
-ao Ega com auctoridade, severo, maneira d'um pae: depois voltou-se,
-ergueu a mo, ergueu a voz, disse que alli todos eram cavalheiros: e
-como homens de talento e de corao fidalgo os dois deviam abraar-se...
-
---V, um _shake-hands_, Ega, faa isso por mim!... Alencar, vamos,
-peo-lh'o eu!
-
-O auctor de _Elvira_ deu um passo, o auctor das _Memorias d'um Atomo_
-estendeu a mo: mas o primeiro aperto foi gche e molle. Ento Alencar,
-generoso e rasgado, exclamou que entre elle e o Ega no devia _ficar uma
-nuvem!_ Tinha-se excedido... Fra o seu desgraado genio, esse calor de
-sangue, que durante toda a existencia s lhe trouxera lagrimas! E alli
-declarava bem alto que Anna Craveiro era uma santa! Tinha-a conhecido em
-Marco de Canavezes, em casa dos Peixotos... Como esposa, como me, Anna
-Craveiro era impeccavel. E reconhecia, do fundo d'alma, que o Craveiro
-tinha carradas de talento!...
-
-Encheu um copo de _Champagne_, ergueu-o alto, diante do Ega, como um
-calice de altar:
-
--- tua, Joo!
-
-Ega, generoso tambem, respondeu:
-
--- tua, Thomaz!
-
-Abraaram-se. Alencar jurou que ainda na vespera, em casa de D. Joanna
-Coutinho, elle dissera que no conhecia ninguem mais scintillante que o
-Ega! Ega affirmou logo que em poemas nenhuns corria, como nos do
-Alencar, uma to bella veia lyrica. Apertaram-se outra vez, com palmadas
-pelos hombros. Trataram-se de _irmos na arte_, trataram-se de
-_genios_!...
-
---So extraordinarios, disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapo.
-Desorganisam-me, preciso ar!...
-
-A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais cognac. Depois
-Cohen sahiu levando o Ega. Damaso e Alencar desceram com Carlos--que ia
-recolher a p pelo Aterro.
-
- porta, o poeta parou com solemnidade.
-
---Filhos, exclamou elle tirando o chapo e refrescando largamente a
-fronte, ento? Parece-me que me portei como um gentleman!
-
-Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade...
-
---Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que ser
-gentleman! E agora vamos l por esse Aterro fra... Mas deixa-me ir alli
-primeiro comprar um pacote de tabaco...
-
---Que typo! exclamou Damaso, vendo-o affastar-se. E a cousa a-se pondo
-feia...
-
-E immediatamente, sem transio, comeou a fazer elogios a Carlos. O sr.
-Maia no imaginava ha quanto tempo elle desejava conhecel-o!
-
---Oh senhor...
-
---Creia v. ex.^a... Eu no sou de sabujices... Mas pode v. ex.^a
-perguntar ao Ega, quantas vezes o tenho dito: v. ex.^a a cousa melhor
-que ha em Lisboa!
-
-Carlos, baixava a cabea, mordendo o riso. Damaso, repetia, do fundo do
-peito.
-
---Olhe que isto sincero, sr. Maia! Acredite v. ex.^a que isto do
-corao!
-
-Era realmente sincero. Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera alli,
-n'aquelle moo gordo e bochechudo, sem o saber, uma adorao muda e
-profunda; o proprio verniz dos seus sapatos, a cr das suas luvas eram
-para o Damaso motivo de venerao, e to importantes como principios.
-Considerava Carlos um typo supremo de _chic_, do seu querido _chic_, um
-Brummel, um d'Orsay, um Morny,--uma d'estas cousas que s se vem l
-fra, como elle dizia arregalando os olhos. N'essa tarde sabendo que
-vinha jantar com o Maia, conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho
-experimentando gravatas, perfumara-se como para os braos d'uma
-mulher;--e por causa de Carlos mandara estacionar alli o coup, s dez
-horas, com o cocheiro de ramo ao peito.
-
---Ento essa senhora brazileira vive aqui? perguntou Carlos, que dera
-dous passos, olhava uma janella allumiada no segundo andar.
-
-Damaso seguiu-lhe o olhar.
-
---Vive l do outro lado. Esto aqui ha quinze dias... Gente _chic_... E
-ella de appetecer, v. ex.^a reparou? Eu a bordo atirei-me... E ella
-dava cavaco! Mas tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar
-aqui, soire acol, umas aventurasitas... No tenho podido c vir,
-deixei-lhes s bilhetes; mas trago-a d'olho, que ella demora-se...
-Talvez venha c manh, estou c agora a sentir umas cocegas... E se me
-pilho s com ella, zs, ferro-lhe logo um beijo! Que eu c, no sei se
-v. ex.^a a mesma cousa, mas eu c, com mulheres, a minha theoria
-esta: attraco! Eu c, logo: attraco!
-
-N'esse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca. Damaso
-despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para que Carlos ouvisse, a
-adresse da Morelli, a segunda dama de S. Carlos.
-
---Bom rapaz, este Damaso, dizia Alencar, travando de brao de Carlos, ao
-seguirem ambos pelo Aterro. l muito dos Cohens, muito querido na
-sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou
-muito teu pae; e a mim tambem. Mas elle assigna Salcede; talvez nome da
-me; ou talvez inventado. Bom rapaz... O pae era um velhaco! Parece que
-estou a ouvir o Pedro dizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e
-do grande: Silva judeu, dinheiro, e a rdo!... Outros tempos, meu
-Carlos, grandes tempos. Tempos de gente!
-
-E ento por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gaz
-dormente luzindo em fila d'enterro, Alencar foi fallando d'esses
-grandes tempos da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, atravz das
-suas phrases de lyrico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado d'esse
-mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor
-das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou
-rebentando pilecas de sejes em galopadas para Cintra. Cintra era ento
-um ninho de amores, e sob as suas romanticas ramagens as fidalgas
-abandonavam-se aos braos dos poetas. Ellas eram Elviras, elles eram
-Antonys. O dinheiro abundava; a crte era alegre; a Regenerao
-litterata e galante ia engrandecer o paiz, bello jardim da Europa; os
-bachareis chegavam de Coimbra, frementes de eloquencia; os ministros da
-cora recitavam ao piano; o mesmo sopro lyrico inchava as odes e os
-projectos de lei...
-
---Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos.
-
---Era outra cousa, meu Carlos! Vivia-se! No existiriam esses ares
-scientificos, toda essa palhada philosophica, esses badamecos
-positivistas... Mas havia corao, rapaz! Tinha-se faisca! Mesmo n'essas
-cousas da politica... V esse chiqueiro agora ahi, essa malta de
-bandalhos... N'esse tempo a-se alli camara e sentia-se a inspirao,
-sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeas!... E depois, menino, havia
-muitissimo boas mulheres.
-
-Os hombros descahiam-lhe na saudade d'esse mundo perdido. E parecia mais
-lugubre, com a sua grenha d'inspirado sahindo-lhe de sob as abas largas
-do chapo velho, a sobrecasaca coada e mal feita collando-se-lhe
-lamentavelmente s ilhargas.
-
-Um momento caminharam em silencio. Depois, na rua das Janellas Verdes, o
-Alencar _quiz refrescar_. Entraram n'uma pequena venda, onde a mancha
-amarella d'um candieiro de petroleo destacava n'uma penumbra de
-subterraneo, allumiando o zinco humido do balco, garrafas nas
-prateleiras, e o vulto triste da patroa com um leno amarrado nos
-queixos. Alencar parecia intimo no estabelecimento: apenas soube que a
-sr.^a Candida estava com dr de dentes, aconselhou logo remedios,
-familiar, descido das nuvens romanticas, com os cotovellos sobre o
-balco. E quando Carlos quiz pagar a canna branca zangou-se, bateu a sua
-placa de dois tostes sobre o zinco polido, exclamou, com nobreza:
-
---Eu que fao a honra da bodega, meu Carlos! Nos palacios os outros
-pagaro... C na taberna pago eu!
-
- porta tomou o brao de Carlos. Depois d'alguns passos lentos no
-silencio da rua, parou de novo, e murmurou n'uma voz vaga,
-contemplativa, como repassada da vasta solemnidade da noite:
-
---Aquella Rachel Cohen divinamente bella, menino! Tu conhecel'a?
-
---De vista.
-
---No te faz lembrar uma mulher da Biblia? No digo l uma d'essas
-viragos, uma Judith, uma Dalila... Mas um d'esses lyrios poeticos da
-Biblia... seraphica!
-
-Era agora a paixo platonica do Alencar, a sua dama, a sua Beatriz...
-
---Tu viste ha tempos, no _Diario Nacional_, os versos que eu lhe fiz?
-
-
- Abril chegou! S minha
- Dizia o vento rosa.
-
-
-No me sahiu mau! Aqui ha uma maliciasinha: _Abril chegou, s minha_...
-Mas logo: _dizia o vento rosa_. Comprehendes? Calhou bem este effeito.
-Mas no imagines l outras cousas, ou que lhe fao a crte... Basta ser
-a mulher do Cohen, um amigo, um irmo... E a Rachel, para mim,
-coitadinha, como uma irm... Mas divina. Aquelles olhos, filho, um
-velludo liquido!...
-
-Tirou o chapeu, refrescou a fronte vasta. Depois n'outro tom, e como a
-custo:
-
---Aquelle Ega tem muito talento... Vae l muito aos Cohens... A Rachel
-acha-lhe graa...
-
-Carlos parra, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar
-severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz.
-
---Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou
-andando por aqui para a minha toca. E quando quizeres, filho, l me tens
-na rua do Carvalho, 52, 3.^o andar. O predio meu, mas eu occupo o
-terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido
-trepando... A unica cousa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, de
-andares...
-
-Teve um gesto, como desdenhando essas miserias.
-
---E has de ir l jantar um dia. No te posso dar um banquete, mas has de
-ter uma sopa e um assado... O meu Matheus, um preto, (um amigo!) que me
-serve ha muito anno, quando ha que cosinhar, sabe cosinhar! Fez muito
-jantar a teu pae, ao meu pobre Pedro... Que aquillo foi casa de alegria,
-meu rapaz. Dei l cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita
-d'essa canalha que hoje por ahi trota em coup da companhia e de correio
-atraz... E agora, quando me avistam, voltam para o lado o focinho...
-
---Isso so imaginaes, disse Carlos com amisade.
-
---No so, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. No
-so. Tu no sabes a minha vida. Tenho soffrido muito repello, rapaz. E
-no o merecia! Palavra, que o no merecia.
-
-Agarrou o brao de Carlos, e com a voz abalada:
-
---Olha que esses homens que por ahi figuram embebedavam-se comigo,
-emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora so
-ministros, so embaixadores, so personagens, so o diabo. Pois
-offereceram-te elles um bocado do _bolo_ agora que o teem na mo? No.
-Nem a mim. Isto duro, Carlos, isto muito duro, meu Carlos. E que
-diabo, eu no queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma
-embaixada... Mas ahi alguma cousa n'uma secretaria... Nem um chavelho!
-Emfim, ainda h para o bocado do po, e para a meia ona do tabaco...
-Mas esta ingratido tem-me feito cabellos brancos... Pois no te quero
-massar mais, e que Deus te faa feliz como tu mereces, meu Carlos!
-
---Tu no queres subir um bocado, Alencar?
-
-Tanta franqueza enterneceu o poeta.
-
---Obrigado, rapaz, disse elle, abraando Carlos. E agradeo-te isso,
-porque sei que vem do corao... Todos vocs teem corao... J teu pae
-o tinha, e largo, e grande como o d'um leo! E agora cr uma cousa:
-que tens aqui um amigo. Isto no palavriado, isto vem de dentro...
-Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto?
-
-Carlos acceitou logo, como um presente do ceu.
-
---Ento ahi tens um charuto, filho! exclamou Alencar com enthusiasmo.
-
-E aquelle charuto dado a um homem to rico, ao dono do Ramalhete,
-fazia-o por um momento voltar aos tempos em que n'esse Marrare elle
-estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo
-triste. Interessou-se ento pelo charuto. Accendeu elle mesmo um
-phosphoro. Verificou se ficava bem acceso. E que tal, charuto rasoavel?
-Carlos achava um excellente charuto!
-
---Pois ainda bem que te dei um bom charuto!
-
-Abraou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando elle emfim se
-affastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de
-_fado_.
-
-
-Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o pessimo charuto do
-Alencar estirado n'uma chaise-longue, em quanto Baptista lhe fazia uma
-chavena de ch, ficou pensando n'esse estranho passado que lhe evocara o
-velho lyrico...
-
-E era sympathico o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao fallar
-de Pedro, d'Arroios, dos amigos e dos amores d'ento, elle evitara
-pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro
-fra, estivera para lhe dizer:--pdes fallar da mam, amigo Alencar, que
-eu sei perfeitamente que ella fugiu com um italiano!
-
-E isto fl-o insensivelmente recordar da maneira como essa lamentavel
-historia lhe fra revelada, em Coimbra, n'uma noite de troa, quasi
-grotescamente. Por que o av, obdecendo carta testamentaria de Pedro,
-contara-lhe um romance decente: um casamento de paixo,
-incompatibilidades de naturezas, uma separao cortez, depois a retirada
-da mam com a filha para a Frana, onde tinham morrido ambas. Mais nada.
-A morte de seu pae fra-lhe apresentada sempre como o brusco remate
-d'uma longa nevrose...
-
-Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceiado ambos; Ega
-muito bebedo, e n'um accesso de idealismo, lanara-se n'um paradoxo
-tremendo, condemnando a honestidade das mulheres como origem da
-decadencia das raas: e dava por prova os bastardos, sempre
-intelligentes, bravos, gloriosos! Elle, Ega, teria orgulho se sua me,
-sua propria me, em logar de ser a santa burgueza que resava o tero
-lareira, fosse como a me de Carlos, uma inspirada, que por amor d'um
-exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir
-isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas no
-poude interrogar o Ega, que j taramellava, agoniado, e que no tardou a
-vomitar-lhe ignobilmente nos braos. Teve de o arrastar casa das
-Seixas, despil-o, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, at que o
-deixou abraado ao travesseiro, babando-se, balbuciando--que queria ser
-bastardo, que queria que a mam fosse uma marafona!...
-
-E elle mal podera dormir essa noite, com a ida d'aquella me, to outra
-do que lhe haviam contado, fugindo nos braos d'um desterrado--um polaco
-talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe,
-pela sua grande amisade, a verdade toda...
-
-Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o leno que tinha amarrado
-na cabea com pannos de agua sedativa: e no achava uma palavra,
-coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco,
-tranquillisou-o. No vinha alli offendido, vinha alli curioso!
-Tinham-lhe occultado um episodio extraordinario da sua gente, que diabo,
-queria sabel-o! Havia romance? Para alli o romance!
-
-Ega, ento, l ganhou animo, l balbuciou a sua historia--a que ouvira
-ao tio Ega--a paixo de Maria por um principe, a fuga, o longo silencio
-d'annos que se fizera sobre ella...
-
-Justamente as ferias chegavam. Apenas em S.^{ta} Olavia, Carlos contou
-ao av a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquella revelao
-vinda entre arrotos. Pobre av! Um momento nem poude fallar--e a voz por
-fim veiu-lhe to debil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse
-morrendo o corao. Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance
-todo at quella tarde em que Pedro lhe apparecera, livido, coberto de
-lama, a cahir-lhe nos braos, chorando a sua dr com a fraqueza d'uma
-creana.--E o desfecho d'esse amor culpado, accrescentara o av, fra a
-morte da me em Vienna d'Austria, e a morte da pequenita, da neta que
-elle nunca vira, e que a Monforte levara... E eis ahi tudo. E assim,
-aquella vergonha domestica estava agora enterrada, alli, no jazigo de
-S.^{ta} Olavia, e em duas sepulturas distantes, em paiz estrangeiro...
-
-Carlos recordava-se bem que n'essa tarde, depois da melancolica conversa
-com o av, devia elle experimentar uma egoa ingleza: e ao jantar no se
-fallou seno da egoa que se chamava _Sultana_. E a verdade era que d'ahi
-a dias tinha esquecido a mam. Nem lhe era possivel sentir por esta
-tragedia seno um interesse vago e como litterario. Isso passara-se
-havia vinte e tantos annos, n'uma sociedade quasi desapparecida. Era
-como o episodio historico de uma velha chronica de familia, um
-antepassado morto em Alcacer-Kebir, ou uma das suas avs dormindo n'um
-leito real. Aquillo no lhe dera uma lagrima, no lhe pozera um rubor na
-face. De certo, prefiriria poder orgulhar-se de sua me, como d'uma rara
-e nobre flr de honra: mas no podia ficar toda a vida a amargurar-se
-com os seus erros. E porque? A sua honra d'elle no dependia dos
-impulsos falsos ou torpes que tivera o corao d'ella. Peccara, morrera,
-acabou-se. Restava, sim, aquella ida do pae, findando n'uma poa de
-sangue, no desespero d'essa traio. Mas no conhecera seu pae: tudo o
-que possuia d'elle e da sua memoria, para amar, era uma fria tela mal
-pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moo moreno, de
-grandes olhos, com luvas de camura amarellas e um chicote na mo... De
-sua me no ficara nem um daguerreotypo, nem sequer um contorno a lapis.
-O av tinha-lhe dito que era loura. No sabia mais nada. No os
-conhecera; no lhes dormira nos braos; nunca recebera o calor da sua
-ternura. Pae, me, eram para elle como symbolos d'um culto convencional.
-O pap, a mam, os seres amados, estavam alli todos--no av.
-
-Baptista trouxera o ch, o charuto do Alencar acabara;--e elle
-continuava na chaise-longue, como amollecido n'estas recordaes, e
-cedendo j, n'um meio adormecimento, fadiga do longo jantar... E
-ento, pouco a pouco, diante das suas palpebras cerradas, uma viso
-surgiu, tomou cr, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria
-n'uma paz elysia. O peristillo do Hotel Central alargava-se, claro
-ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no collo. Uma mulher
-passava, alta, com uma carnao eburnea, bella como uma Deusa, n'um
-casaco de velludo branco de Genova. O Craft dizia ao seu lado
-_trs-chic_. E elle sorria, no encanto que lhe davam estas imagens,
-tomando o relevo, a linha ondeante, e a colorao de cousas vivas.
-
-Eram tres horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escurido dos
-cortinados de seda, outra vez um bello dia de inverno morria sem uma
-aragem, banhado de cr de rosa: o banal peristillo de Hotel alargava-se,
-claro ainda na tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadellinha nos
-braos; uma mulher passava, com um casaco de velludo branco de Genova,
-mais alta que uma creatura humana, caminhando sobre nuvens, com um
-grande ar de Juno que remonta ao Olympo: a ponta dos seus sapatos de
-verniz enterrava-se na luz do azul, por trs as saias batiam-lhe como
-bandeiras ao vento. E passava sempre... O Craft dizia _trs-chic_.
-Depois tudo se confundia, e era s o Alencar, um Alencar colossal,
-enchendo todo o cu, tapando o brilho das estrellas com a sua
-sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaando ao vendaval das
-paixes, alando os braos, clamando no espao:
-
-
- Abril chegou, s minha!
-
-
-
-
-VII
-
-
-No Ramalhete, depois do almoo, com as tres janellas do escriptoro
-abertas bebendo a tepida luz do bello dia de maro, Affonso da Maia e
-Craft jogavam uma partida de xadrez ao p da chamin j sem lume, agora
-cheia de plantas, fresca e festiva como um altar domestico. N'uma facha
-obliqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo Bonifacio, enorme e ffo,
-dormia de leve a sua sesta.
-
-Craft tornara-se, em poucas semanas, intimo no Ramalhete. Carlos e elle,
-tendo muitas similitudes de gosto e de idas, o mesmo fervor pelo
-_bric-a-brac_ e pelo _bibelot_, o uso apaixonado da esgrima, egual
-dilettantismo d'espirito, uniram-se immediatamente em relaes de
-superficie, faceis e amaveis. Affonso, por seu lado comeara logo a
-sentir uma estima elevada por aquelle gentleman de boa raa ingleza,
-como elle os admirava, cultivado e forte, de maneiras graves, de habitos
-rijos, sentindo finamente e pensando com rectido. Tinham-se encontrado
-ambos enthusiastas de Tacito, de Macaulay, de Burke, e at dos poetas
-lakistas; Craft era grande no xadrez; o seu carater ganhara nas longas e
-trabalhadas viagens a rica solidez d'um bronze; para Affonso da Maia
-aquillo era deveras um homem. Craft, madrugador, sahia cedo dos
-Olivaes a cavallo, e vinha assim s vezes almoar de surpreza com os
-Maias; por vontade de Affonso jantaria l sempre;--mas ao menos as
-noites passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo emfim, como elle
-dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem
-sentado, no meio de idas, e com boa educao.
-
-Carlos sahia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquella revoada de
-clientella que lhe dera esperanas d'uma carreira cheia, activa, tinha
-passado miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe tres doentes no
-bairro; e sentia agora que as suas carruagens, os cavallos, o Ramalhete,
-os habitos de luxo, o condemnavam irremediavelmente ao _dillettantismo_.
-J o fino dr. Theodosio lhe dissera um dia, francamente: voc muito
-elegante p'ra medico! As suas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem
- o burguez que lhe vae confiar a esposa dentro d'uma alcova?... Voc
-aterra o pater-familias! O laboratorio mesmo prejudicara-o. Os collegas
-diziam que o Maia, rico, intelligente, avido de innovaes, de
-modernismos, fazia sobre os doentes experiencias fataes. Tinha-se
-troado muito a sua ida, apresentada na _Gazeta Medica_, a preveno
-das epidemias pela inoculao dos virus. Consideravam-no um phantasista.
-E elle, ento, refugiava-se todo n'esse livro sobre a medicina antiga e
-moderna, o _seu livro_, trabalhado com vagares d'artista rico,
-tornando-se o interesse intellectual de um ou dous annos.
-
-N'essa manh, em quanto dentro proseguia grave e silenciosa a partida de
-xadrez, Carlos no terrasso, estendido n'uma vasta cadeira india de
-bambu, sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma _Revista_
-ingleza, banhado pela caricia tepida d'aquelle bafo de primavera que
-avelludava o ar, fazia j desejar arvores e relvas...
-
-Ao lado d'elle, n'uma outra cadeira de bambu, tambem de charuto na boca,
-o sr. Damaso Salcede percorria o _Figaro_. De perna estirada, n'uma
-indolencia familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao
-terrasso as rosas das roseiras de Affonso, sentindo por trs, atravez
-das janellas abertas, o rico e nobre interior do Ramalhete--o filho do
-agiota saboreava alli uma d'essas horas deliciosas que ultimamente
-encontrava na intimidade dos Maias.
-
-Logo na manh seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fra ao
-Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos,
-tendo ao angulo, n'uma dobra simulada, o seu retratosinho em
-photographia, um capacete com plumas por cima do nome--DAMASO CANDIDO DE
-SALCEDE, por baixo as suas honras--Commendador de Christo, ao fundo a
-sua adresse--_Rua de S. Domingos, Lapa_; mas esta indicao estava
-riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais apparatosa--Grand
-Hotel, Boulevard des Capucines, Chambre N.^o 103. Em seguida procurou
-Carlos no consultorio, confiou ao creado outro carto. Emfim, uma tarde,
-no Aterro, vendo passar Carlos a p, correu para elle, pendurou-se
-d'elle, conseguiu acompanhal-o ao Ramalhete.
-
-Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admiraes extaticas, como dentro
-d'um museu, lanando, diante dos tapetes, das faienas e dos quadros, a
-sua grande phrase--_chic_ a valer! Carlos levou-o para o _fumoir_,
-elle aceitou um charuto; e comeou a explicar, de perna traada, algumas
-das suas opinies e alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin,
-e s estava bem em Paris--sobre tudo por causa do genero femea de que
-em Lisboa se passavam fomes: ainda que n'esse ponto a Providencia no o
-tratava mal. Gostava tambem do _bric-a-brac_; mas apanhava-se muita
-espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, no lhe pareciam commodas
-para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguem o pilhava sem
-livros cabeceira da cama; ultimamente andava s voltas com Daudet, que
-lhe diziam ser muito _chic_, mas elle achava-o confusote. Em rapaz
-perdia sempre as noites, at s quatro ou cinco da madrugada, no
-delirio! Agora no, estava mudado e pacato; emfim, no dizia que de vez
-em quando no se abandonasse a um excessozinho; mas s em dias duples...
-E as suas perguntas foram terriveis. O sr. Maia achava _chic_ ter um
-_cab_ inglez? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade
-que quizesse ir passar o vero l fra, Nice ou Trouville?... Depois ao
-sahir, muito serio, quasi commovido, perguntou ao sr. Maia (se o sr.
-Maia no fazia segredo) quem era o seu alfaiate.
-
-E desde esse dia, no o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro,
-Damaso immediatamente arrancava-se da sua cadeira, s vezes na
-solemnidade d'uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros,
-amarrotando a compostura das damas, abalava, abria d'estalo a _claque_,
-vinha-se installar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada,
-camelia na casaca, exhibindo os botes de punho que eram duas enormes
-bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Gremio,
-Damaso abandonou logo a partida, indifferente indignao dos
-parceiros, para se vir collar ilharga do Maia, offerecer-lhe
-marrasquino ou charutos, seguil-o de sala em sala como um rafeiro. N'uma
-d'essas occasies, tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Damaso
-rompendo em risadas soluantes, rebolando-se pelos sophs, com as mos
-nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se socios; elle,
-suffocado, repetia a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odial-o;
-respondia-lhe s com monossyllabos; dava voltas perigosas com o
-_dog-cart_ se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa rolia. Debalde:
-Damaso Candido Salcede filara-o, e para sempre.
-
-Depois, um dia, Taveira appareceu no Ramalhete com uma extraordinaria
-historia. Na vespera, no Gremio (tinham-lhe contado, elle no
-presenceara) um sujeito, um Gomes, n'um grupo onde se commentavam os
-Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era um asno! Damaso, que
-estava ao lado mergulhado na _Ilustrao_, levantou-se, muito pallido,
-declarou que, tendo a honra de ser amigo do sr. Carlos da Maia, quebrava
-a cara com a bengala ao sr. Gomes se elle ousasse babujar outra vez esse
-cavalheiro; e o sr. Gomes tragou, com os olhos no cho, a affronta, por
-ser rachitico de nascena--e porque era inquilino de Damaso e andava
-muito atrasado na renda. Affonso da Maia achou este feito brilhante: e
-foi por desejo seu que Carlos trouxe o sr. Salcede uma tarde a jantar ao
-Ramalhete.
-
-Este dia pareceu bello a Damaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas
-melhor ainda foi a manh em que Carlos, um pouco incommodado e ainda
-deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... D'ahi datava a sua
-intimidade: comeou a tratar Carlos por _voc_. Depois, n'essa semana,
-revelou aptides uteis. Foi despachar alfandega (Villaa achava-se no
-Alemtejo) um caixote de roupa para Carlos. Tendo apparecido n'um momento
-em que Carlos copiava um artigo para a _Gazeta Medica_ offereceu a sua
-boa letra, letra prodigiosa, de uma belleza lithographica; e d'ahi por
-diante passava horas banca de Carlos, applicado e vermelho, com a
-ponta da lingua de fra, o olho redondo, copiando apontamentos,
-transcripes de Revistas, materiaes para o livro... Tanta dedicao
-merecia um _tu_ de familiaridade. Carlos deu-lh'o.
-
-Damaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde
-a barba que comeava agora a deixar crescer at forma dos sapatos.
-Lanara-se no _bric-a-brac_. Trazia sempre o _coup_ cheio de lixos
-archeologicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a aza rachada de
-um bule... E se avistava um conhecido, fazia parar, entreabria a
-portinhola como um addito de sacrario, exhibia a preciosidade:
-
---Que te parece? _Chic_ a valer!... Vou mostral-a ao Maia. Olha-me isto,
-hein! Pura meia edade, do reinado de Luiz XIV. O Carlos vae-se roer de
-inveja!
-
-N'esta intimidade de rosas havia todavia para Damaso horas pesadas. No
-era divertido assistir em silencio, do fundo d'uma poltrona, s
-infindaveis discusses de Carlos e de Craft sobre arte e sobre sciencia.
-E, como elle confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o
-levaram ao laboratorio para fazer no seu corpo experiencias de
-electricidade...--Pareciam dois demonios engalphinhados em mim, disse
-elle sr.^a condessa de Gouvarinho; e eu ento que embirro com o
-spiritismo!...
-
-Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando noite, n'um soph,
-do Gremio, ou ao ch n'uma casa amiga, elle podia dizer, correndo a mo
-pelo cabello:
-
---Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, _bric-a-brac_,
-discutimos... Um dia, _chic_! manh tenho uma manh de trabalho com o
-Maia... Vamos s colxas.
-
-N'esse domingo, justamente, deviam ir s colxas, ao Lumiar. Carlos
-concebera um _boudoir_, todo revestido de colxas antigas de setim,
-bordadas a dous tons especiaes, perola e boto d'ouro. O tio Abraho
-esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos suburbios; e n'essa manh
-viera annunciar a Carlos a existencia de duas preciosidades, _so
-beautiful! oh! so lovely!_ em casa de umas senhoras Medeiros que
-esperavam o sr. Maia s duas horas...
-
-J tres vezes Damaso tossira, olhara o relogio,--mas, vendo Carlos
-confortavelmente mergulhado na _Revista_, recahia tambem na sua
-indolencia de homem _chic_, investigando o _Figaro_. Emfim, dentro, o
-relogio Luiz XV cantou argentinamente as duas...
-
---Esta boa, exclamou Damaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa.
-Olha quem aqui me apparece! A Suzanna! A minha Suzanna!
-
-Carlos no despegara os olhos da pagina.
-
---Oh Carlos, accrescentou elle, fazes favor? Ouve. Ouve esta que boa.
-Esta Suzanna uma pequena que eu tive em Paris... Um romance!
-Apaixonou-se por mim, quiz-se envenenar, o diabo!... Pois diz aqui o
-_Figaro_ que debutou nas _Folies-Bergeres_. Falla n'ella... boa, hein?
-E era rapariguita _chic_... E o _Figaro_ diz que ella teve aventuras,
-naturalmente sabia o que se passou comigo... Todo o mundo sabia em
-Paris. Ora a Suzanna!... Tinha bonitas pernas. E custou-me a vr livre
-d'ella!
-
---Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da _Revista_.
-
-Damaso era interminavel, torrencial, inundante a fallar das suas
-conquistas, n'aquella solida satisfao em que vivia de que todas as
-mulheres, desgraadas d'ellas, soffriam a fascinao da sua pessoa e da
-sua toilette. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na
-sociedade, com _coup_ e parelha, todas as meninas tinham para elle um
-olhar doce. E no _dmi-monde_, como elle dizia, tinha prestigio a
-valer. Desde moo fra celebre, na capital, por pr casas a
-hespanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mez; e este fausto
-excepcional tornara-o bem depressa o D. Joo V dos prostibulos.
-Conhecia-se tambem a sua ligao com a viscondessa da Gafanha, uma
-carcassa esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens validos
-do paiz: a nos cincoenta annos, quando chegou a vez do Damaso--e no
-era decerto uma delicia ter nos braos aquelle esqueleto rangente e
-lubrico; mas dizia-se que em nova dormira n'um leito real, e que
-augustos bigodes a tinham lambuzado; tanta honra fascinou Damaso, e
-collou-se-lhe s saias com uma fidelidade to sabuja, que a decrepita
-creatura, farta, enojada j, teve de o enxotar fora e com desfeitas.
-Depois gozou uma tragedia: uma actriz do _Principe Real_, uma montanha
-de carne, apaixonada por elle, n'uma noite de ciume e de genebra,
-engoliu uma caixa de phosphoros; naturalmente d'ahi a horas estava boa,
-tendo vomitado abominavelmente sobre o collete do Damaso que chorava ao
-lado--mas desde ento este homem de amor julgou-se fatal! Como elle
-dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida quasi tremia, tremia
-verdadeiramente de fitar uma mulher...
-
---Passaram-se scenas com esta Suzanna! murmurou elle depois de um
-silencio em que estivera catando pelliculas nos beios.
-
-E, com um suspiro, retomou o _Figaro_. Houve outra vez um silencio no
-terrasso. Dentro, a partida continuava. Para l da sombra do toldo,
-agora, o sol a aquecendo, batendo a pedra, os vasos de loua branca,
-n'uma refraco d'ouro claro em que palpitavam as azas das primeiras
-borboletas voando em redor dos craveiros sem flor: em baixo, o jardim
-verdejava, immovel na luz, sem um bolir de ramo, refrescado pelo cantar
-do repuxo, pelo brilho liquido da agoa do tanque, avivado, aqui e alm,
-pelo vermelho ou o amarello das rosas, pela carnao das ultimas
-camelias... O bocado de rio que se avistava entre os predios era azul
-ferrete como o cu: e entre rio e cu o monte punha uma grossa barra
-verde-escura, quasi negra no resplendor do dia, com os dois moinhos
-parados no alto, as duas casinhas alvejando em baixo, to luminosas e
-cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o
-bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique d'um sino.
-
---O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Damaso n'um tom entendido e
-traando a perna. O duque de Norfolk _chic_, no verdade, Carlos?
-
-Carlos, sem erguer os olhos, lanou para os cus um gesto, como
-exprimindo o infinito do _chic_!
-
-Damaso largara o _Figaro_ para metter um charuto na boquilha; depois
-desapertou os ultimos botes do collete, deu um pucho camisa para
-mostrar melhor a marca que era um S enorme sob uma cora de conde, e de
-palpebra cerrada, com o beio trombudo, ficou mamando gravemente a
-boquilha...
-
---Tu ests hoje em belleza, Damaso, disse-lhe Carlos que deixara tambem
-a _Revista_ e o contemplava com melancolia.
-
-Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, meia
-cr de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da orbita:
-
---Eu agora ando bem... Mas, muito _blaz_.
-
-E foi realmente com um ar _blaz_ que se ergueu a ir buscar a uma mesa
-de jardim, ao lado, onde estavam jornaes e charutos, a _Gazeta
-Illustrada_, para vr o que ia pela patria. Apenas lhe deitou os olhos
-soltou uma exclamao.
-
---Outro debute? perguntou Carlos.
-
---No, a besta do Castro Gomes!
-
-A _Gazeta Illustrada_ annunciava que o sr. Castro Gomes, o cavalheiro
-brasileiro que no Porto fra victima da sua dedicao por occasio da
-desgraa occorrida na Praa Nova, e de que o nosso correspondente J. T.
-nos deu uma descripo to opulenta de colorido realista, acha-se
-restabelecido e hoje esperado no Hotel Central. Os nossos parabens ao
-arrojado gentleman.
-
---Ora est s. ex.^a restabelecida! exclamou Damaso, atirando para o lado
-o jornal. Pois deixa estar, que agora a occasio de lhe dizer na cara
-o que penso... Aquelle pulha!
-
---Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e
-relia a noticia.
-
---Ora essa! exclamou Damaso, erguendo-se. Ora essa! Queria vr, se fosse
-comtigo... uma besta! um selvagem!
-
-E repetiu mais uma vez a Carlos essa historia que o magoava. Desde a sua
-chegada de Bordeus, logo que o Castro Gomes se installara no Hotel
-Central elle fra deixar-lhe bilhetes duas vezes--a ultima na manh
-seguinte ao jantar do Ega. Pois bem, s. ex.^a no se dignara agradecer a
-visita! Depois elles tinham partido para o Porto; fra ahi que,
-passeiando s na Praa Nova, vendo a parelha de uma caleche desbocada,
-duas senhoras em gritos, Castro Gomes se lanra ao freio dos
-cavallos--e, cuspido contra as grades, tinha deslocado um brao. Teve de
-ficar no Porto, no Hotel, cinco semanas. E elle immediatamente (sempre
-com o olho na mulher) mandara-lhe dois telegrammas: um de sentimento,
-lamentando; outro de interesse, pedindo noticias. Nem a um, nem a outro,
-o animal respondeu!
-
---No, isso--exclamava Salcede, passeiando pelo terrao, e recordando
-estas injurias--hei de lhe fazer uma desfeita!... No pensei ainda o
-qu, mas ha de amargar-lhe... L isso, desconsideraes no admitto a
-ninguem! a ninguem!
-
-Arredondava o olho, ameaador. Desde o seu feito no Gremio, quando o
-rachitico apavorado emmudecera diante d'elle, Damaso ia-se tornando
-feroz. Pela menor cousa fallava em quebrar caras.
-
---A ninguem! repetia elle, com puxes ao collete. Desconsideraes, a
-ninguem!
-
-N'esse momento ouviu-se dentro, no escriptorio, a voz rapida do Ega--e
-quasi immediatamente elle appareceu, com um ar de pressa, e atarantado.
-
---Ol, Damasosinho!... Carlos, ds-me aqui em baixo uma palavra?
-
-Desceram do terrao, penetraram no jardim, at junto de duas olaias em
-flr.
-
---Tu tens dinheiro?--foi ahi logo a exclamao anciosa do Ega.
-
-E contou a sua terrivel atrapalhao. Tinha uma letra de noventa libras
-que se vencia no dia seguinte. Alm d'isso, vinte e cinco libras que
-devia ao Eusebiosinho, e que elle lhe reclamara n'uma carta indecente: e
-era isto que desesperava o Ega...
-
---Quero pagar a esse canalha, e quando o vir collar-lhe a carta cara
-com um escarro. Alm d'isso a letra! E tenho para tudo isto quinze
-tostes...
-
---O Eusebiosinho homem de ordem... Emfim, queres cento e quinze
-libras, disse Carlos.
-
-Ega hesitou, com uma cr no rosto. J devia dinheiro a Carlos. Estava-se
-sempre dirigindo quella amisade, como a um cofre inexgotavel...
-
---No, bastam-me oitenta. Ponho o relogio no prego, e a pelissa, que j
-no faz frio...
-
-Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque--em quanto Ega
-procurava cuidadosamente um bonito boto de rosa para florir a
-sobrecasaca. Carlos no tardou, trazendo na mo o cheque, que alargara
-at cento e vinte libras, para o Ega ficar _armado_...
-
---Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com
-um bello suspiro de allivio.
-
-Immediatamente trovejou contra o Eusebiosinho, esse villo! Mas tinha j
-uma vingana. Ia remetter-lhe a somma toda em cobre, n'um sacco de
-carvo, com um rato morto dentro, e um bilhete, comeando
-assim:--_ascorosa lombriga e immunda osga, ahi te atiro ao focinho_,
-etc...
-
---Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o
-teu ar, aquelle ser repulsivo!...
-
-Mas era at sujo mencionar o Eusebiosinho!... Quiz saber dos trabalhos
-de Carlos, do grande livro. Fallou tambem do seu _Atomo_:--e, por fim,
-n'uma voz differente, applicando o monocolo a Carlos:
-
---Dize-me outra cousa. Porque no tens tu voltado aos Gouvarinhos?
-
-Carlos tinha s esta raso: no se divertia l.
-
-Ega encolheu os hombros. Parecia-lhe aquillo uma puerilidade...
-
---Tu no percebeste nada, exclamou elle. Aquella mulher tem uma paixo
-por ti... Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue
-cara.
-
-E como Carlos ria, incredulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de
-honra. Ainda na vespera, estava-se fallando de Carlos, e elle
-espreitara-a. Sem ser um Balzac, nem uma broca de observao, tinha a
-viso correcta: pois bem, l lhe vira na face, nos olhos, toda a
-expresso de um sentimento sincero...
-
---No estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra! Tenl-a
-quando quiseres.
-
-Carlos achava deliciosa aquella naturalidade mephistophelica com que Ega
-o induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, moraes, sociaes,
-domesticas...
-
---Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa _blague_ da cartilha e do
-codigo, ento no fallemos mais n'isso! Se apanhaste a sarna da virtude,
-com comiches por qualquer cousa, ento era uma vez um homem, vae para a
-Trappa commentar o _Ecclesiastes_...
-
---No--disse Carlos, sentando-se n'um banco sob as arvores, ainda com
-uns restos da preguia do terrao--o meu motivo no to nobre. No vou
-l, porque acho o Gouvarinho um massador.
-
-Ega teve um sorriso mudo.
-
---Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos massadores...
-
-Sentou-se ao lado de Carlos, comeou a riscar em silencio o cho areado;
-e sem erguer os olhos, deixando cahir as palavras, uma a uma, com
-melancolia:
-
---Antes de hontem, toda a noite, a p firme, das dez uma, estive a
-ouvir a historia da demanda do Banco Nacional!
-
-Era quasi uma confidencia, e como o desabafo dos tedios secretos em que
-se debatia, n'aquelle mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista.
-Carlos enterneceu-se.
-
---Meu pobre Ega, ento toda a demanda?
-
---Toda! E a leitura do relatorio da assembla geral! E interessei-me! E
-tive opinies!... A vida um inferno.
-
-Subiram ao terrao. Damaso reoccupara a sua cadeira de vime, e, com um
-canivetesinho de madreperola, estava tratando das unhas.
-
---Ento decidiu-se? perguntou elle logo ao Ega.
-
---Decidiu-se hontem! No ha _cotillon_.
-
-Tratava-se de uma grande soire mascarada que am dar os Cohens, no dia
-dos annos de Rachel. A ida d'esta festa sugerira-a o Ega, ao principio
-com grandes propores de gala artistica, a ressurreio historica de um
-sarau no tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa era
-irrealisavel em Lisboa--e desceu-se a um plano mais sobrio, um simples
-baile _costum_, a capricho...
-
---Tu, Carlos, j decidiste como vaes?
-
---De domin, um severo domin preto, como convm a um homem de
-sciencia...
-
---Ento, exclamou Ega se se trata de sciencia, vae de rabona e chinellas
-de ourello!... A sciencia faz-se em casa e de chinellas... Nunca ninguem
-descobriu uma lei do Universo mettido dentro de um domin... Que
-sensaboria, um domin!...
-
-Justamente a sr.^a D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa
-monotonia dos domins. E em Carlos no havia desculpa. No o prendiam
-vinte ou trinta libras; e, com aquelle esplendido physico de cavalleiro
-da Renascena, devia ornar a sala pelo menos com um soberbo Francisco I.
-
--- n'isto, ajuntava elle com fogo, que est a belleza de uma soire de
-mascaras! No lhe parece, voc, Damaso? Cada um deve aproveitar a sua
-figura... Por exemplo, a Gouvarinho vae muito bem. Teve uma inspirao:
-com aquelle cabello ruivo, o nariz curto, as mas do rosto salientes,
-Margarida de Navarra...
-
---Quem Margarida de Navarra? perguntou Affonso da Maia, apparecendo no
-terrao com Craft.
-
---Margarida, a duqueza d'Angouleme, a irm de Francisco I, a Margarida
-das Margaridas, a perola dos Valois, a padroeira da Renascena, a sr.^a
-condessa de Gouvarinho!...
-
-Rio muito, foi abraar Affonso, explicou-lhe que se discutia o baile dos
-Cohens. E appellou logo para elle, para o Craft tambem, acerca do
-nefando domin de Carlos. No estava aquelle moceto, com os seus ares
-de homem d'armas, talhado para um soberbo Francisco I, em toda a gloria
-de Marignan?
-
-O velho deu um olhar enternecido belleza do neto.
-
---Eu te digo, John, talvez tenhas razo; mas Francisco I, rei de Frana,
-no se pde apear de uma tipoia e entrar n'uma sala, s. Precisa crte,
-arautos, cavalleiros, damas, bobos, poetas... Tudo isso difficil.
-
-Ega curvou-se. Sim senhor, d'accordo! Alli estava uma maneira
-intelligente de comprehender o baile dos Cohens!
-
---E tu, de que vaes? perguntou-lhe Affonso.
-
-Era um segredo. Tinha a theoria de que, n'aquellas festas, um dos
-encantos consistia na surpreza: dois sujeitos por exemplo que tendo
-jantado juntos, de jaqueto, no Bragana, se encontram noite, um na
-purpura imperial de Carlos V, outro com a escopeta de bandido da
-Calabria...
-
---Eu c no fao segredo, disse ruidosamente Damaso. Eu c vou de
-selvagem.
-
---N?
-
---No. De Nelusko na _Africana_. Oh sr. Affonso da Maia, que lhe parece?
-Acha _chic_?
-
---_Chic_ no exprime bem, disse Affonso sorrindo. Mas _grandioso_, ,
-decerto.
-
-Quizeram ento saber como a Craft. Craft no a de cousa nenhuma; Craft
-ficava nos Olivaes, de robe de chambre.
-
-Ega encolheu os hombros com tedio, quasi com colera. Aquellas
-indifferenas pelo baile dos Cohens feriam-n'o como injurias pessoaes.
-Elle estava dando a essa festa o seu tempo, estudos na bibliotheca, um
-trabalho fumegante de imaginao; e pouco a pouco ella tomava aos seus
-olhos a importancia de uma celebrao d'arte, provando o genio de uma
-cidade. Os domins, as abstenes, pareciam-lhe evidencias de
-inferioridade de espirito. Citou ento o exemplo do Gouvarinho: alli
-estava um homem de occupaes, de posio politica, nas vesperas de ser
-ministro, que no s a ao baile, mas estudara o seu _costume_:
-estudara, e a muito bem, a de _marquez de Pombal_!
-
---Reclame para ser ministro, disse Carlos.
-
---No o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condies para ser ministro:
-tem voz sonora, leu Mauricio Block, est encalacrado, e um asno!...
-
-E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um
-cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo:
-
---Mas muito bom rapaz, e no se d ares nenhuns! um anjo!
-
-Affonso reprehendia-o, risonho e paternal:
-
---Ora tu, John, que no respeitas nada...
-
---O desacato a condio do progresso, sr. Affonso da Maia. Quem
-respeita decahe. Comea-se por admirar o Gouvarinho, vae-se a gente
-esquecendo, chega a reverenciar o monarcha, e quando mal se precata tem
-descido a venerar o Todo-Poderoso!... necessario cautela!
-
---Vae-te embora, John, vae-te embora! Tu s o proprio Anti-Christo...
-
-Ega a responder, exhuberante e em veia--mas dentro o tinir argentino do
-relogio Luiz XV, com o seu gentil minuete, emmudeceu-o.
-
---O que? quatro horas!
-
-Ficou aterrado, verificou no seu proprio relogio, deu em redor rapidos,
-silenciosos apertos de mo, desappareceu como um sopro.
-
-Todos de resto estavam pasmados de ser to tarde! E assim passara a hora
-de ir ao Lumiar vr as colxas antigas das senhoras Medeiros...
-
---Quer voc ento meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos.
-
---Seja: e necessario dar a lio ao Damaso...
-
--- verdade, a lio...--murmurou Damaso, sem enthusiasmo, com um
-sorriso murcho.
-
-A sala de esgrima era uma casa terrea, debaixo dos quartos de Carlos,
-com janellas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, atravez das
-arvores, uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era necessario accender
-os quatro bicos de gaz. Damaso seguiu, atraz dos dois, com uma lentido
-de rez desconfiada.
-
-Aquellas lies, que elle sollicitara por amor do _chic_, am-se-lhe
-tornando odiosas. E n'essa tarde, como sempre, apenas se enchumaou com
-o plastro d'anta, se cobriu com a caraa de arame, comeou a
-transpirar, a fazer-se branco. Diante d'elle Craft, de florete na mo,
-parecia-lhe cruel e bestial, com aquelles seus hombros de Hercules
-sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros rasparam. Damaso estremeceu
-todo.
-
---Firme, gritou-lhe Carlos.
-
-O desgraado equilibrava-se sobre a perna rolia; o florete de Craft
-vibrou, rebrilhou, voou sobre elle; Damaso recuou, suffocado,
-cambaleando e com o brao frouxo...
-
---Firme! berrava-lhe Carlos.
-
-Damaso, exhausto, abaixou a arma.
-
---Ento que querem vocs, nervoso! por ser a brincar... Se fosse a
-valer, vocs veriam.
-
-Assim acabava sempre a lio; e ficava depois abatido sobre uma banqueta
-de marroquim, arejando-se com o leno, pallido como a cal dos muros.
-
---Vou-me at casa, disse elle d'ahi a pouco, fatigado de tanto crusar de
-ferro. Queres alguma cousa, Carlinhos?
-
---Quero que venhas c jantar manh... Tens o marquez.
-
---_Chic_ a valer... No faltarei.
-
-Mas faltou. E, como toda essa semana aquelle moo ponctual no appareceu
-no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo, foi
-uma manh a casa d'elle, Lapa. Mas ahi, o creado (um gallego
-achavascado e triste, que, desde as suas relaes com os Maias, Damaso
-trazia entalado n'uma casaca e mortalmente aperreado em sapatos de
-verniz) affirmou-lhe que o sr. Damasosinho estava de boa saude, e at
-sahira a cavallo. Carlos veiu ento ao tio Abraho; o tio Abraho tambem
-no avistara, havia dias, aquelle bom senhor Salcede, _that beautiful
-gentleman!_ A curiosidade de Carlos levou-o ao Gremio: no Gremio nenhum
-creado vira ultimamente o sr. Salcede. Est por ahi de lua de mel com
-alguma bella andaluza pensou Carlos.
-
-Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que
-se dirigia ao Aterro, a p, seguido da sua vittoria a passo. Era a
-segunda vez que o diplomata fazia exercicio depois do seu desgraado
-ataque de entranhas. Mas no tinha j vestigios da doena: vinha todo
-rosado e loiro, muito solido na sua sobrecasaca, e com uma bella rosa de
-ch na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava ms forrte. E no
-lamentava os soffrimentos, porque elles lhe tinham dado o meio de
-apreciar as sympathias que gosava em Lisboa. Estava enternecido. Sobre
-tudo o cuidado de S. M.--o augusto cuidado de S. M.--fizera-lhe melhor
-que todos os drogues de botique! Realmente nunca as relaes entre
-esses dois paizes, to estreitamente alliados, Portugal e a Filandia,
-tinham sido ms firmes, pur assi dizerre, ms intimes, que durrante seu
-ataque de intestinaes!
-
-Depois, travando do brao a Carlos, alludiu commovido ao offerecimento
-de Affonso da Maia, que pozera sua disposio S.^ta Olavia, para elle
-se restabelecer n'esses ares fortes e limpos do Douro. Oh, esse convite
-tocara-o _au plus profond de son c[oe]ur_. Mas, infelizmente, S.^{ta}
-Olavia era longe, to longe!... Tinha de se contentar com Cintra, d'onde
-podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a Legao. _C'tait
-ennuyeux, mais_... A Europa estava n'um d'esses momentos de crise, em
-que homens d'estado, diplomatas, no podiam affastar-se, gosar as
-menores ferias. Precisavam estar alli, na brecha, observando,
-informando...
-
---C'est trs grave, murmurou elle, parando, com um pavor vago no olhar
-azulado... C'est excessivement grave!
-
-Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a
-parte uma confuso, um _gachis_. Aqui a questo do Oriente; alem o
-socialismo; por cima o Papa, a complicar tudo... Oh, trs grave!
-
---Tenez, la France, par exemple... D'abord Gambetta. Oh, je ne dis pas
-non, il est trs fort, il est excessivement fort... Mais... Voil! C'est
-trs grave...
-
-Por outro lado os radicaes, _les nouvelles couches_... Era
-excessivamente grave...
-
---Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous!
-
-Mas Carlos no escutava, nem sorria j. Do fim do Aterro approximava-se,
-caminhando depressa, uma senhora--que elle reconheceu logo, por esse
-andar que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadellinha cr
-de prata que lhe trotava junto s saias, e por aquelle corpo
-maravilhoso, onde vibrava, sob linhas ricas de marmore antigo, uma graa
-quente, ondeante e nervosa. Vinha toda vestida de escuro, n'uma toilette
-de _serge_ muito simples que era como o complemento natural da sua
-pessoa, collando-se bem sobre ella, dando-lhe, na sua correco, um ar
-casto e forte; trazia na mo um guarda-sol inglez, apertado e fino como
-uma cana; e toda ella, adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha,
-n'aquelle caes triste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como
-o requinte raro de civilisaes superiores. Nenhum vo, n'essa tarde,
-lhe assombreava o rosto. Mas Carlos no poude detalhar-lhe as feies;
-apenas d'entre o esplendor eburneo da carnao sentiu o negro profundo
-de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo para
-a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem vr nada, estava achando Bismarch
-assustador. maneira que ella se affastava, parecia-lhe maior, mais
-bella: e aquella imagem falsa e litteraria de uma deusa marchando pela
-terra prendia-se-lhe imaginao. Steinbroken ficara aterrado com o
-discurso do Chanceller no Reichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o
-chapo, n'uma frma de trana enrolada, apparecia o tom do seu cabello
-castanho, quasi louro luz; a cadelinha trotava ao lado, com as orelhas
-direitas.
-
---Evidentemente, disse Carlos, Bismarck inquietador...
-
-Steinbroken porm j deixara Bismarck. Steinbroken agora atacava lord
-Beaconsfield.
-
---Il est trs fort... Oui, je vous l'accorde, il est excessivement
-fort... Mais voil... Ou va-t-il?
-
-Carlos olhava para o caes de Sodr. Mas tudo lhe parecia deserto.
-Steinbroken antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos
-negocios estrangeiros aquillo mesmo: lord Beaconsfield muito forte,
-mas para onde vae elle? O que queria elle?... E s. ex.^a tinha encolhido
-os hombros... S. ex.^a no sabia...
-
---Eh, oui! Beaconsfield est trs fort... Vous avez lu son speech chez le
-Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voil... O va-t-il?
-
---Steinbroken, no me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a
-arrefecer no Aterro...
-
---Devrras? exclamou o diplomata, passando logo a mo rapidamente pelo
-estomago e pelo ventre.
-
-E no se quiz demorar um instante mais! Como Carlos a recolher tambem,
-offereceu-lhe um logar na vittoria at ao Ramalhete.
-
---Venha ento jantar comnosco, Steinbroken.
-
---Charm, mon cher, charm...
-
-A vittoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago n'um
-grande plaid escossez:
-
---Ps, Maia, fezemos um bello passo... Mas este Atrro no deverrtido.
-
-No era divertido o Aterro!... Carlos achara-o n'essa tarde o mais
-delicioso logar da terra!
-
-Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as
-arvores, viu-a logo. Mas no vinha s; ao seu lado o marido, esticado,
-apurado n'uma jaqueta de casimira quasi branca, com uma ferradura de
-diamantes no setim negro da gravata, fumava, indolente e languido, e
-trazia a cadellinha debaixo do brao. Ao passar, deu um olhar
-surprehendido a Carlos--como descobrindo emfim entre os barbaros um ser
-de linha civilisada, e disse-lhe algumas palavras baixo, a ella.
-
-Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e serios: mas no
-lhe parecera to bella; trazia uma outra toilette menos simples, de dois
-tons, cr de chumbo e cr de creme, e no chapo, d'abas grandes
-ingleza, vermelhava alguma cousa, flr ou penna. N'essa tarde no era a
-deusa descendo das nuvens d'ouro que se enrolavam alem sobre o mar; era
-uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel.
-
-Voltou ainda tres vezes ao Aterro, no a tornou a vr; e ento
-envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o
-trazia assim, n'uma inquietao de rafeiro perdido, farejando o Aterro,
-da rampa de Santos ao caes de Sodr, espera de uns olhos negros e de
-uns cabellos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da _Royal
-Mail_ levaria uma d'essas manhs...
-
-E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a
-meza! E que todas as tardes, antes de sahir, se demorava ao espelho,
-estudando a gravata! Ah, miseravel, miseravel natureza...
-
-
-Ao fim d'essa semana, Carlos estava no consultorio, j para sahir,
-calando as luvas, quando o creado entreabriu o reposteiro, e murmurou
-com alvoroo:
-
---Uma senhora!
-
-Appareceu um menino muito pallido, de caracoes louros, vestido de
-velludo preto--e atraz uma mulher, toda de negro, com um vo justo e
-espesso como uma mascara.
-
---Creio que vim tarde, disse ella, hesitando, junto da porta. O sr.
-Carlos da Maia a sahir...
-
-Carlos reconheceu a Gouvarinho.
-
---Oh senhora condessa!
-
-Desembaraou logo o divan dos jornaes e das brochuras; ella olhou um
-momento, como indecisa, aquelle amplo e molle assento de serralho;
-depois sentou-se borda e de leve, com o pequeno junto de si.
-
---Venho trazer-lhe um doente, disse ella sem erguer o vu, como fallando
-do fundo d'aquella toilette negra que a dissimulava. No o mandei
-chamar, por que realmente pouco , e tinha hoje de passar por aqui...
-Alm d'isso, o meu pequeno muito nervoso; se v entrar o medico,
-parece-lhe que vae morrer. Assim como uma visita que se faz... E no
-tens medo, no verdade, Charlie?
-
-O pequeno no respondeu; de p, quedo ao lado da mam; mimoso e debil
-sob os caracoes d'anjo que lhe cahiam at aos hombros, devorava Carlos
-com uns grandes olhos tristes.
-
-Carlos poz um interesse quasi terno na sua pergunta:
-
---Que tem elle?
-
-Havia dias, apparecera-lhe uma empigem no pescoo. Alm disso, por traz
-da orelha, tinha como uma dureza de caroo. Aquillo inquietava-a. Ella
-era forte, de uma boa raa, que dera athletas e velhos de grande edade.
-Mas na familia do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia
-hereditaria. O conde mesmo, com aquella solida apparencia, era um
-achacado. E ella, receiando que a influencia debilitante de Lisboa no
-conviesse a Charlie, estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar
-algum tempo ao campo, em Formoselha, a casa da av.
-
-Carlos, approximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braos a
-Charlie:
-
---Ora venha c o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico
-cabello elle tem, senhora condessa!...
-
-Ella sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquelle terror do
-medico de que fallara a mam, veio logo, desapertou delicadamente o seu
-grande collarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoo
-macio e alvo como um lyrio.
-
-Carlos vio apenas uma pequena mancha cr de rosa desvanecendo-se; do
-caroo no havia vestigio; e ento uma ligeira vermelhido subiu-lhe
-ao rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como comprehendendo
-tudo, querendo vr n'elles a confisso do sentimento que a trouxera alli
-com um pretexto pueril, sob aquella toilette negra, aquelles vos que a
-mascaravam...
-
-Mas ella permaneceu impenetravel, sentada borda do divan, com as mos
-crusadas, attenta, como esperando as suas palavras, n'um vago susto de
-me.
-
-Carlos abotoou o collarinho do pequeno, e disse:
-
---No absolutamente nada, minha senhora.
-
-No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de
-Charlie. A condessa, n'um tom pesaroso, queixou-se de que a educao da
-creana no fosse, como ella desejava, mais forte e mais viril; mas o
-pae oppunha-se ao que elle chamava a aberrao ingleza, a agua fria,
-os exercicios a todo o ar, a gymnastica...
-
---A agoa fria e a gymnastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor
-reputao do que merecem... o seu unico filho, senhora condessa?
-
---, tem os mimos de morgado, disse ella passando a mo pelos cabellos
-louros do pequeno.
-
-Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado,
-Charlie no devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar
-para os ares de Formoselha... Depois ficaram um momento callados.
-
---No imagina como me tranquillisou, disse ella, erguendo-se, dando um
-geito ao veu. De mais a mais um gosto vir consultal-o... No ha aqui o
-menor ar de doena, nem de remedios... E realmente tem isto muito
-bonito...--accrescentou, dando um olhar lento em redor aos velludos do
-gabinete.
-
---Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. No inspira nenhum
-respeito pela minha sciencia... Eu estou com idas d'alterar tudo, pr
-aqui um crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas
-d'in-folios...
-
---A cella de Fausto.
-
---Justamente, a cella de Fausto.
-
---Falta-lhe Mephistopheles, disse ella alegremente, com um olhar que
-brilhou sob o vo.
-
---O que me falta Margarida!
-
-A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os hombros, como
-duvidando discretamente; depois tomou a mo de Charlie, e deu um passo
-lento para a porta, puxando outra vez o vo.
-
---Como v. ex.^a se interessa pela minha installao, acudiu Carlos
-querendo retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala.
-
-Correu o reposteiro. Ella approximou-se, murmurou algumas palavras,
-approvando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o
-piano fel-a sorrir.
-
---Os seus doentes danam quadrilhas?
-
---Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, no so bastante
-numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para
-uma valsa... O piano est simplesmente alli para dar idas alegres;
-como uma promessa tacita de saude, de futuras _soires_, de bonitas
-arias do _Trovador_, em familia...
-
--- engenhoso, disse ella dando familiarmente alguns passos na sala, com
-Charlie collado aos vestidos.
-
-E Carlos, caminhando ao lado d'ella:
-
---V. ex.^a no imagina como eu sou engenhoso!
-
---J n'outro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito
-inventivo quando odiava.
-
---Muito mais quando amo, disse elle rindo.
-
-Mas ella no respondeu: parra junto do piano, remexeu um momento as
-musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado.
-
--- um chocalho.
-
---Oh, senhora condessa!
-
-Ella seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer--um
-focinho de co de S. Bernardo, macisso e bonacheiro, adormecido sobre
-as patas. Quasi roando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de
-verbena que ella usava sempre exageradamente: e, entre aquelles tons
-negros que a cobriam, a sua pelle parecia mais clara, mais doce vista,
-e attrahindo como um setim.
-
---Este um horror, murmurou ella, voltando-se; mas disse-me o Ega que
-ha quadros lindos no Ramalhete... Fallou-me sobretudo d'um Greuze e d'um
-Rubens... pena que se no possam vr essas maravilhas.
-
-Carlos lamentava tambem que uma existencia de solteires lhes impedisse,
-a elle e ao av, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma
-melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns mezes, sem que
-se sentisse alli um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer
-a herva pelos tapetes.
-
--- por isso, accrescentou elle muito serio, que eu vou obrigar o av a
-casar-se.
-
-A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do
-vo.
-
---Gosto da sua alegria, disse ella.
-
--- uma questo de regimen. V. ex.^a no alegre?
-
-Ella encolheu os hombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do
-guarda-sol na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro,
-murmurou com os olhos baixos, deixando ir as palavras, n'um tom
-d'intimidade e de confidencia:
-
---Dizem que no, que sou triste, que tenho _spleen_...
-
-O olhar de Carlos seguira o d'ella, pousara-se na botina de verniz que
-calava delicadamente um p fino e comprido: Charlie, entretido, mexia
-nas teclas do piano--e elle baixou a voz para lhe dizer:
-
--- que a senhora condessa tem um mau regimen. necessario tratar-se,
-voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer!
-
-Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle os olhos, d'onde se
-escapou um claro de ternura e de triumpho:
-
---Venha-m'o antes dizer um d'estes dias, tomar ch comigo, s cinco
-horas... Charlie!
-
-O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do brao.
-
-Carlos, acompanhando-a abaixo rua, lamentava a fealdade da sua escada
-de pedra:
-
---Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a
-dar-me a honra de me vir consultar...
-
-Ella gracejou, toda risonha:
-
---Ah no! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a todos a saude... E
-naturalmente no espera que seja eu que venha c tomar ch comsigo...
-
---Oh, minha senhora, eu quando comeo a esperar, no ponho limites
-nenhuns s minhas esperanas...
-
-Ella parou, com o pequeno pela mo, olhou para elle, como pasmada,
-encantada com aquella grandiosa certeza de si mesmo.
-
---Ento vae por ahi alm, por ahi alm...?
-
---Vou por ahi alm, por ahi alm, minha senhora!
-
-Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua.
-
---Mande-me chegar um coup.
-
-Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lanou logo a tipoia.
-
---E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir egreja da Graa.
-
---A senhora condessa vai beijar o p do Senhor dos Passos?
-
-Ella corou de leve, murmurou:
-
---Ando fazendo as minhas devoes...
-
-Depois saltou ligeiramente para o coup--deixando Charlie, que Carlos
-ergueu nos braos e lhe collocou ao lado, paternalmente.
-
---Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa!
-
-Ella agradeceu com um olhar, um movimento de cabea--ambos to doces
-como caricias.
-
-Carlos subio: e, sem tirar o chapo, ficou ainda enrolando uma
-cigarrette, passeando n'aquella sala sempre deserta, sempre fria, onde
-ella deixara agora alguma cousa do seu calor e do seu aroma...
-
-Realmente gostava d'aquella audacia d'ella--ter vindo assim ao
-consultorio, toda escondida, quasi mascarada n'uma grande toilette
-negra, inventando um caroo no pescocinho so de Charlie, para o vr,
-para dar um n brusco e mais apertado n'aquelle leve fio de relaes que
-elle to negligentemente deixara cahir e quebrar...
-
-O Ega d'esta vez no phantasiara: aquelle bonito corpo offerecia-se, to
-claramente como se se despisse. Ah! se ella fosse de sentimentos
-errantes e faceis--que bella flr a colher, a respirar, a deitar fra
-depois! Mas no: como dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se
-tinha divertido. E o que elle no queria era achar-se envolvido n'uma
-paixo ciosa, uma d'essas ternuras tumultuosas de mulher de trinta
-annos, de que depois se desembaraaria difficilmente... Nos braos
-d'ella o seu corao ficaria mudo: e apenas esgotada a primeira
-curiosidade, comearia o tedio dos beijos que se no desejam, a horrivel
-massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da casa, receber
-pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa
-distillando doutrina... Tudo isto o assustava... E, todavia, gostara
-d'aquella audacia! Havia ali uma pontinha de romantismo, muito
-irregular, e pcante... E devia ser deliciosamente bem feita... A sua
-imaginao despia-a, enrolava-se-lhe no setim das frmas onde sentia ao
-mesmo tempo alguma cousa de maduro e de virginal... E outra vez, como
-nas primeiras noites que os vira em S. Carlos, aquelles cabellos
-tentavam-n'o, assim avermelhados, to crespos e quentes...
-
-Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou
-o Damaso, n'um coup lanado a grande trote, que o chamava, mandava
-parar, com a face portinhola, vermelho e radiante:
-
---No tenho podido l ir, exclamou elle, apoderando-se-lhe da mo,
-apenas Carlos se approximou, e apertando-lh'a com enthusiasmo. Tenho
-andado n'um turbilho!.. Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te
-contarei!.. Tem cuidado com a roda! Bate l, _Calo_!
-
-A parelha abalou; elle ainda se debruou da portinhola, agitou a mo,
-gritou no rumor da rua:
-
---Um romance divino, _chic_ a valer!
-
-Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que
-acabava de bater o marquez, perguntou, pousando o taco e accendendo o
-cachimbo:
-
---E noticias do nosso Damaso? J se esclareceu esse lamentavel
-desapparecimento?...
-
-Carlos ento contou como o encontrra, afogueado e triumphante,
-atirando-lhe da portinhola do coup, em plena rua Nova do Almada, a
-noticia de um _romance divino_!
-
---Bem sei, disse o Taveira.
-
---Como sabes?... exclamou Carlos.
-
-Taveira vira-o na vespera, n'um grande landeau da Companhia, com uma
-esplendida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira...
-
---Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza?
-
---Exactamente, uma cadelinha escoceza, um _griffon_ cr de prata... Quem
-so?
-
---E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglezado?
-
---Justamente... Muito correcto, um ar _sport_... Que gente ?
-
---Uma gente brazileira, penso eu.
-
-Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia
-apenas duas semanas que no terrao o Damaso, de punhos fechados, bramara
-contra os Castro Gomes e as suas desconsideraes! Ia pedir outros
-pormenores ao Taveira--mas o marquez ergueu a voz do fundo da poltrona
-onde se estirra, e quiz saber a opinio de Carlos sobre o grande
-acontecimento d'essa manh na _Gazeta Illustrada_.--Na _Gazeta
-Illustrada_?... Carlos no sabia, essa manh no vira jornal nenhum.
-
---Ento no lhe digam nada, gritou o marquez. Venha a surpreza! C ha a
-_Gazeta_? Manda buscar a _Gazeta_!
-
-Taveira puxou o cordo da campainha;--e quando o escudeiro trouxe a
-_Gazeta_, elle apoderou-se d'ella, quiz fazer uma leitura solemne.
-
---Deixa-lhe vr primeiro o retrato, berrou o marquez, erguendo-se.
-
---Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal
-atraz das costas.
-
-Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos, largamente, como um
-sudario desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a
-prosa que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas
-retintas, era um trabalho de seis columnas, em estylo emplumado e
-cantante, celebrando at aos cus as virtudes domesticas do Cohen, o
-genio financeiro do Cohen, os ditos d'espirito do Cohen, a mobilia das
-salas do Cohen; havia ainda um paragrapho alludindo festa proxima, ao
-grande sarau de mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assignado--J. da
-E.--as iniciaes de Joo da Ega!
-
---Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando o jornal para cima do
-bilhar.
-
--- mais que tolice, observou Craft; uma falta de senso moral.
-
-O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de
-velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso
-moral?...
-
---Voc, Craft, no conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural.
- intimo da casa, celebra os donos. admirador da mulher, lisongea o
-marido. Est na logica c da terra... Voc ver que successo isto vae
-ter... E l que o artigo est lindo, isso est!
-
-Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir cr de rosa
-de madame Cohen: respira-se alli (dizia o Ega) alguma cousa de
-perfumado, intimo e casto, como se todo aquelle cr de rosa exhalasse de
-si o aroma que a rosa tem!
-
---Isto, caramba, lindo em toda a parte! exclamou o marquez. Tem muito
-talento, aquelle diabo! Tomara eu ter o talento que elle tem!...
-
---Nada d'isso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquillamente, que
-seja uma extraordinaria falta de senso moral.
-
---Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto
-d'um soph, para deixar cahir s syilabas esta pesada opinio.
-
-O marquez investiu com elle.
-
---Que entende voc d'isso, seu maestro? O artigo sublime! E saiba
-mais: de finorio!
-
-O maestro, com preguia de argumentar, foi-se enroscar em silencio ao
-outro canto do soph.
-
-E ento o marquez, de p e bracejando, appellou para Carlos, e quiz
-saber o que que Craft em principio entendia por _senso moral_.
-
-Carlos, que dava pela sala passos impacientes, no respondeu, tomou o
-brao do Taveira, levou-o para o corredor.
-
---Dize-me uma cousa: onde viste tu o Damaso, com essa gente? Para que
-lado iam?
-
---Iam pelo Chiado abaixo; ante-hontem, s duas horas... Estou convencido
-que iam para Cintra. Levavam uma maleta no landau, e atraz ia uma criada
-n'um coup com uma mala maior... Aquillo cheirava a ida a Cintra. E a
-mulher divina! Que toilette, que ar, que chic!.. uma Venus,
-menino!... Como conheceria elle aquillo?...
-
---Em Bordeus, n'um paquete, no sei onde!
-
---Eu do que gostei foi dos ares que elle se ia dando por aquelle Chiado!
-Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A
-debruar-se, a fallar muito baixo para a mulher, com olho terno,
-alardeando conquista...
-
---Que besta! exclamou Carlos, batendo com o p no tapete.
-
---Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher
-civilisada e decente, e elle que a conhece, e elle que vae com ella
-para Cintra! Chama-lhe besta!... Anda d'ahi, vamos partidinha de
-domin.
-
-Taveira ultimamente introduzira o domin no Ramalhete--e havia agora
-alli, s vezes, partidas ardentes, sobretudo quando apparecia o marquez.
-Porque a paixo do Taveira era bater o marquez.
-
-Mas foi necessario que o marquez acabasse de bracejar, de desenrolar o
-arrazoado com que estava acabrunhando o Craft--que do fundo da poltrona,
-de cachimbo na mo e com um ar de somno, respondia por monossyllabos.
-Era ainda a proposito do artigo do Ega, da definio de _senso moral_.
-J tinha fallado de Deus, de Garibaldi, at do seu famoso perdigueiro
-_Finorio_; e agora definia a Consciencia... Segundo elle, era o medo da
-policia. Tinha o amigo Craft visto j alguem com remorsos? No, a no
-ser no theatro da Rua dos Condes, em dramalhes...
-
---Acredite voc uma cousa, Craft--terminou elle por dizer, cedendo ao
-Taveira que o puchava para a meza--isto de consciencia uma questo de
-educao. Adquire-se como as boas maneiras; soffrer em silencio por ter
-trahido um amigo, aprende-se exactamente como se aprende a no metter os
-dedos no nariz. Questo d'educao... No resto da gente apenas medo da
-cadeia, ou da bengala... Ah! vocs querem levar outra sova ao domin
-como a de sabbado passado? Perfeitamente, sou todo vosso...
-
-Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega,
-approximou-se tambem da meza. E estavam sentados, remexiam as
-pedras--quando porta da sala appareceu o conde de Steinbroken, de
-casaca e crach, gran-cruz sobre o colete branco, loiro como uma espiga,
-esticado e resplandecente. Tinha jantado no Pao, e vinha acabar no
-Ramalhete a sua soire, em familia...
-
-Ento o marquez que o no via desde o famoso ataque de intestinos,
-abandonou o domin, correu a abraal-o ruidosamente--e sem o deixar
-sequer sentar, nem estender a mo aos outros, implorou-lhe logo uma das
-suas bellas canes filandezas, uma s, d'aquellas que lhe faziam to
-bem alma!...
-
---S a _Ballada_, Steinbroken... Eu tambem no me posso demorar, que
-tenho aqui a partida espera. S a _Ballada_!... V, salta l para
-dentro para o piano, Cruges...
-
-O diplomata sorria, dizia-se canado, tendo j feito musica deliciosa no
-Pao com Sua Magestade. Mas nunca sabia resistir quelle modo folgazo
-do marquez--e l foram para a sala do piano, de brao dado, seguidos
-pelo Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se do canto do
-soph. E d'ahi a um momento, atravez dos resposteiros meio corridos, a
-bella voz de barytono do diplomata espalhava pelas salas, entre os
-suspiros do piano, a emballadora melancolia da _Ballada_, com a sua
-lettra traduzida em francez, que o marquez adorava, e em que se fallava
-das nevoas tristes do Norte, de lagos frios e de fadas loiras...
-
-Taveira e Carlos, no entanto, tinham comeado uma grande partida de
-domin, a tosto o ponto. Mas Carlos n'essa noite no se interessava,
-jogando distrahido, a cantarolar tambem baixo bocados tristes da
-_Ballada_: depois, quando j Taveira tinha s uma pedra diante de si, e
-elle estava comprando interminavelmente as que restavam, voltou-se para
-o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em Cintra,
-estava aberto todo o anno...
-
---A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente.
-Anda, joga!
-
-Carlos, sem responder, pousou mollemente uma pedra.
-
---Domin! gritou Taveira.
-
-E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os sessenta e oito pontos
-que Carlos perdia.
-
-Justamente o marquez entrava, e a victoria do Taveira indignou-o.
-
---Agora ns, exclamou elle, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos,
-deixe-me voc dar aqui uma sova n'este ladro. Depois jogamos de tres...
-Como queres tu isto, Taveirete? A dous tostes o ponto? Ah, queres s a
-tosto... Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraa-te j d'esse
-dble-seis, miseravel...
-
-Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarette apagada
-nos dedos, o mesmo ar distrahido: de repente, pareceu tomar uma deciso,
-atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken fra ao
-escriptorio vr Affonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges s,
-entre as duas vlas do piano, com os olhos errantes pelo tecto,
-improvisava para si, melancolicamente.
-
---Dize c, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir manh a Cintra?
-
-O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar espantado! Carlos nem o
-deixou fallar.
-
---Est claro que queres, no te faz seno bem vir a Cintra... manh l
-estou porta, com o break. Mette sempre uma camisa n'uma maleta, que
-talvez passemos l a noite... s oito em ponto, hein?... E no digas
-nada l dentro.
-
-Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de domin. Agora
-havia um largo silencio. O marquez e Taveira moviam lentamente as
-pedras, sem uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano
-verde do bilhar as bolas brancas dormiam juntas, sob a luz que cahia dos
-abat-jours de porcelana. Um som de piano, dolente e vago, passava por
-vezes. E Craft, com o brao descahido ao longo da poltrona, dormitava,
-beatificamente.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Na manh seguinte, s oito horas pontualmente, Carlos parava o break na
-rua das Flores, diante do conhecido porto da casa do Cruges. Mas o
-trintanario, que elle mandara acima bater campainha do terceiro andar,
-desceu com a estranha nova de que o sr. Cruges j no morava ali. Onde
-diabo morava ento o sr. Cruges? A criada dissera que o sr. Cruges vivia
-agora na rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Gremio. Durante
-um momento, Carlos, desesperado, pensou em partir s para Cintra. Depois
-l largou para a rua de S. Francisco, amaldioando o maestro, que mudara
-de casa sem avisar, sempre vago, sempre tenebroso!... E era em tudo
-assim. Carlos nada sabia do seu passado, do seu interior, das suas
-affeies, dos seus habitos. O marquez uma noite levara-o ao Ramalhete,
-dizendo ao ouvido de Carlos que estava alli um genio. Elle encantara
-logo todo o mundo pela modestia das suas maneiras e a sua arte
-maravilhosa ao piano: e todo o mundo no Ramalhete comeou a tratar
-Cruges por _maestro_, a fallar tambem do Cruges como de um genio, a
-declarar que Choppin nunca fizera obra egual _Meditao de Outono_ do
-Cruges. E ninguem sabia mais nada. Fra pelo Damaso que Carlos conhecera
-a casa do Cruges e soubera que elle vivia l com a me, uma senhora
-viuva, ainda fresca, e dona de predios na Baixa.
-
-Ao porto da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto de
-hora. Primeiro appareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em
-cabello, que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos
-degraus acima. Depois veiu um creado em mangas de camisa trazer a maleta
-do senhor e um chaile manta. Emfim, o maestro desceu, a correr, quasi
-aos trambulhes, com um cache-nez de seda na mo o guarda-chuva debaixo
-do brao, abotoando atarantadamente o paletot.
-
-Quando vinha pulando os ultimos degraus, uma voz esganiada de mulher
-gritou-lhe de cima:
-
---Olha no te esqueam as queijadas!
-
-E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o lado de Carlos,
-rosnando que, com a preoccupao de se levantar to cedo, tivera uma
-insomnia abominavel...
-
---Mas que diabo de ida essa de mudar de casa, sem avisar a gente,
-homem?--exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dos joelhos um bocado do
-_plaid_ que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado.
-
--- que esta casa tambem nossa, disse simplesmente Cruges.
-
---Est claro, ahi est uma razo! murmurou Carlos rindo e encolhendo os
-hombros.
-
-Partiram.
-
-Era uma manh muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um
-lindo sol que no aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas,
-barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as
-saloias ainda andavam pelas portas com os seus ceires d'hortalias:
-varria-se de vagar a testada das lojas: no ar macio morria a distancia
-um toque fino de missa.
-
-Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas,
-estendeu um olhar esplendida parelha baia reluzindo como um setim sob
-o faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas
-librs, a todo aquelle luxo correcto e rolando em cadencia--onde fazia
-mancha o seu paletot: mas o que o impressionou foi o aspecto
-resplandecente de Carlos, o olhar acceso, as bellas cres, o bello riso,
-o quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob o seu simples
-veston de xadrezinho castanho, n'aquella almofada burgueza de break, lhe
-dava um arranque de heroe jovial, lanando o seu carro de guerra...
-Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta que desde a vespera
-lhe ficara nos labios.
-
---Com franqueza, aqui para ns, que ida foi esta de ir a Cintra?
-
-Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de
-Mozart, e pelas _fugas_ de Bach? Pois bem, a ida era vir a Cintra,
-respirar o ar de Cintra, passar o dia em Cintra... Mas, pelo amor de
-Deus, que o no revelasse a ninguem!
-
-E accrescentou, rindo:
-
---Deixa-te levar, que no te has de arrepender...
-
-No, Cruges no se arrependia. At achava delicioso o passeio, gostara
-sempre muito de Cintra... Todavia no se lembrava bem, tinha apenas uma
-vaga ida de grandes rochas e de nascentes d'aguas vivas... E terminou
-por confessar que desde os nove annos no voltara a Cintra.
-
-O que! o maestro no conhecia Cintra?... Ento era necessario ficarem
-l, fazer as peregrinaes classicas, subir Pena, ir beber agua
-Fonte dos Amores, barquejar na varzea...
-
---A mim o que me est a appetecer muito Sitiaes; e a manteiga fresca.
-
---Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros... Emfim,
-uma ecloga!
-
-O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de
-quintas, casares tristonhos de vidraas quebradas, vendas com o seu
-masso de cigarros porta dependurado de uma guita: e a menor arvore,
-qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de collina
-verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle no via o campo!
-
-Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraou-se do seu grande
-cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletot--e declarou-se morto de
-fome.
-
-Felizmente estavam chegando Porcalhota.
-
-O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado,--mas, como era
-cedo para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma
-bella pratada de ovos com chourio. Era uma cousa que no provava havia
-annos, e que lhe daria a sensao de estar na alda... Quando o patro,
-com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre a meza sem
-toalha a enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as mos, achando
-aquillo deliciosamente campestre.
-
---A gente em Lisboa estraga a saude! disse elle. puxando para o prato
-uma montanha de ovo e chourio. Tu no tomas nada?...
-
-Carlos, para lhe fazer companhia, acceitou uma chavena de caf.
-
-D'ahi a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a bocca cheia:
-
---O Rheno tambem deve ser magnifico!
-
-Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora alli o Rheno?...
-que o maestro, desde que sahira as portas, estava cheio de idas de
-viagens e de paisagens; queria vr as grandes montanhas onde ha neve, os
-rios de que se falla na Historia. O seu ideal seria ir Allemanha,
-percorrer a p, com uma mochilla, aquella patria sagrada dos seus
-deuses, de Beethoven, de Mozart, de Wagner...
-
---No te appetecia mais ir Italia? perguntou Carlos accendendo o
-charuto.
-
-O maestro esboou um gesto de desdem, teve uma das suas phrases
-sybillinas:
-
---Tudo contradanas!...
-
-Carlos ento fallou de um certo plano de ir Italia, com o Ega, no
-inverno. Ir Italia, para o Ega, era uma hygiene intellectual:
-precisava calmar aquella imaginao tumultuosa de nervoso peninsular
-entre a placida magestade dos marmores...
-
---O que elle precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges.
-
-E voltou a fallar do caso da vespera, do famoso artigo da _Gazeta_.
-Achava aquillo, como elle dissera, pura e simplesmente insensato, e de
-uma sabujice indecorosa. E o que o affligia que o Ega, com aquelle
-talento, aquella verve fumegante, no fizesse nada...
-
---Ninguem faz nada, disse Carlos espreguiando-se. Tu, por exemplo, que
-fazes?
-
-Cruges, depois de um silencio, rosnou encolhendo os hombros:
-
---Se eu fizesse uma boa opera, quem que m'a representava?
-
---E se o Ega fizesse um bello livro, quem que lh'o lia?
-
-O maestro terminou por dizer:
-
---Isto um paiz impossivel... Parece-me que tambem vou tomar caf.
-
-Os cavallos tinham descanado, Cruges pagou a conta, partiram. D'ahi a
-pouco entravam na charneca que lhes pareceu infindavel. D'ambos os
-lados, a perder de vista, era um cho escuro e triste; e por cima um
-azul sem fim, que n'aquella solido parecia triste tambem. O trote
-compassado dos cavallos batia monotonamente a estrada. No havia um
-rumor: por vezes um passaro cortava o ar, n'um vo brusco, fugindo do
-ermo agreste. Dentro do break um dos criados dormia; Cruges, pesado dos
-ovos com chourio, olhava, vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas
-dos cavallos.
-
-Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Cintra. E realmente
-no sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que elle no avistava
-certa figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que no
-encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus:
-agora suppunha que ella estava em Cintra, corria a Cintra. No esperava
-nada, no desejava nada. No sabia se a veria, talvez ella tivesse j
-partido. Mas vinha: e era j delicioso o pensar n'ella assim por aquella
-estrada fra, penetrar, com essa doura no corao, sob as bellas
-arvores de Cintra... Depois, era possivel que d'ahi a pouco, na velha
-Lawrence, elle a cruzasse de repente no corredor, roasse talvez o seu
-vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ella l estivesse, decerto viria
-jantar sala, aquella sala que elle conhecia to bem, que j lhe estava
-appetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, os ramos
-toscos sobre a meza, e os dois grandes candieiros de lato antigo...
-Ella entraria alli, com o seu bello ar claro de Diana loira; o bom
-Damaso, apresentaria o seu amigo Maia; aquelles olhos negros que elle
-vira passar de longe como duas estrellas, pousariam mais de vagar nos
-seus; e, muito simplesmente, ingleza, ella estender-lhe-hia a mo...
-
---Ora at que finalmente! exclamou Cruges, com um suspiro de allivio e
-respirando melhor.
-
-Chegavam s primeiras casas de Cintra, havia j verduras na estrada, e
-batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.
-
-E a passo, o break foi penetrando sob as arvores do Ramalho. Com a paz
-das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e emballadora
-sussurrao de ramagens, e como o diffuso e vago murmurio de agoas
-correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: atravez da
-folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e avelludado
-circulava, rescendendo s verduras novas; aqui e alm, nos ramos mais
-sombrios, passaros chilreavam de leve; e n'aquelle simples bocado de
-estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se j, sem se vr, a
-religiosa solemnidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das
-nascentes vivas, a tristeza que cae das penedias e o repouso fidalgo das
-quintas de vero... Cruges respirava largamente, voluptuosamente.
-
---A Lawrence onde ? Na serra?--perguntou elle com a ida repentina de
-ficar alli um mez n'aquelle paraiso.
-
---Ns no vamos para a Lawrence, disse Carlos sahindo bruscamente do seu
-silencio, e espertando os cavallos. Vamos para o Nunes, estamos l muito
-melhor!
-
-Era uma ida que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas
-de S. Pedro, e o break comeara a rolar n'aquellas estradas onde a cada
-momento elle a poderia encontrar. Tomara-o uma timidez, a que se
-misturava um laivo de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto,
-seguindo-a assim a Cintra, ainda que ella o no reconhecesse, indo
-installar-se sob as mesmas telhas, apoderando-se de um logar mesma
-meza... E ao mesmo tempo repugnou-lhe a ida de lhe ser apresentado pelo
-Damaso: via-o j, bochechudo e vestido de campo, a esboar um gesto de
-ceremonia, a mostrar o _seu amigo Maia_, a tratal-o por tu, affectando
-intimidades com ella, cocando-a com um olho terno... Isto seria
-intoleravel.
-
---Vamos para o Nunes, que se come melhor!
-
-Cruges no respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impresso
-religiosa de todo aquelle esplendor sombrio de arvoredo, dos altos
-fragosos da serra entrevistos um instante l em cima nas nuvens, d'esse
-aroma que elle sorvia deliciosamente, e do sussurro doce de aguas
-descendo para os valles...
-
-S ao avistar o Pao descerrou os labios:
-
---Sim senhor, tem _cachet_!
-
-E foi o que mais lhe agradou--este macisso e silencioso palacio, sem
-flores e sem torres, patriarchalmente assentado entre o casario da
-villa, com as suas bellas janellas manuelinas que lhe fazem um nobre
-semblante real, o valle aos ps, frondoso e fresco, e no alto as duas
-chamins collossaes, disformes, resumindo tudo, como se essa residencia
-fosse toda ella uma cosinha talhada s propores de uma gula de Rei que
-cada dia come todo um Reino...
-
-E apenas o break parou porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar,
-timido e de longe--receiando alguma palavra rude da sentinella.
-
-Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou parte o criado do
-hotel, que descera a recolher as maletas.
-
---Voss conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se elle est em Cintra?
-
-O creado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede. Ainda na vespera pela
-manh o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas
-pretas... Devia estar na Lawrence, porque s com raparigas e em pandiga
- que o sr. Damaso vinha para o Nunes.
-
---Ento, depressa, dous quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de
-creana, certo agora que _ella_ estava em Cintra. E uma sala particular,
-s para ns, para almoarmos!
-
-Cruges, que se approximava, protestou contra esta sala solitaria.
-Preferia a meza redonda. Ordinariamente na meza redonda encontram-se
-typos...
-
---Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as mos, pe o almoo na sala
-de jantar, pe-n'o at na Praa... E muita manteiga fresca para o sr.
-Cruges!
-
-O cocheiro levou o break, o creado sobraou as maletas. Cruges,
-enthusiasmado com Cintra, rompeu pela escada acima, a
-assobiar--conservando aos hombros o chaile-manta, de que se no queria
-separar, porque lh'o emprestara a mam. E apenas chegou porta da sala
-do jantar, estacou, ergueu os braos, teve um grito.
-
---Oh Euzebiosinho!
-
-Carlos correu, olhou... Era elle, o viuvo, acabando de almoar, com duas
-raparigas hespanholas.
-
-Estava no topo da meza, como presidindo, diante de uns restos de pudim e
-de pratos de fructa, amarellado, despenteado, carregado de luto, com a
-larga fita das lunetas pretas passada por traz da orelha, e uma rodela
-de taffet negro sobre o pescoo tapando alguma espinha rebentada.
-
-Uma das hespanholas era um mulhero trigueiro, com signaes de bexigas na
-cara; a outra muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de
-febre, que o p de arroz no desfarava. Ambas vestiam de setim preto, e
-fumavam cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janella,
-pareciam mais gastas, mais molles, ainda pegajosas da lentura morna dos
-colxes, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo sucia havia um
-outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoo, com as costas para a porta e a
-cabea sobre o prato, babujando uma metade de laranja.
-
-Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito com o garfo no ar;
-depois l se ergueu, de guardanapo na mo, veiu apertar os dedos aos
-amigos, balbuciando logo uma justificao embrulhada, a ordem do medico
-para mudar de ares, aquelle rapaz que o acompanhara, e que quizera
-trazer raparigas... E nunca parecera to funebre, to relles, como
-resmungando estas cousas hypocritas, encolhido sombra de Carlos.
-
---Fizeste muito bem, Eusebiosinho, disse Carlos por fim, batendo-lhe no
-hombro. Lisboa est um horror, e o amor cousa doce.
-
-O outro continuava a justificar-se. Ento a hespanhola magrita, que
-fumava, afastada da meza e com a perna traada, elevou a voz, perguntou
-ao Cruges se elle no lhe fallava. O maestro affirmou-se um momento, e
-partiu de braos abertos para a sua amiga Lolla. E foi, n'esse canto da
-meza, uma grulhada em hespanhol, grandes apertos de mo, e _hombre, que
-no se le ha visto! e mira, que me he accordado de ti!_ e _caramba, que
-reguapa estas_... Depois a Lolla, tomando um arsinho espremido,
-apresentou o outro mulhero, la seorita Concha...
-
-Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade--o sujeito obeso, que
-apenas levantara um instante a cabea do prato, decidiu-se a examinar
-mais attentamente os amigos do Euzebio: crusou o talher, limpou com o
-guardanapo a bocca, a testa e o pescoo, encavallou laboriosamente no
-nariz uma grande luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga,
-balofa e cr de cidra, examinou detidamente Cruges, e depois Carlos, com
-uma impudencia tranquilla.
-
-Eusebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigo Palma, ouvindo
-o nome conhecido de Carlos da Maia, quiz logo mostrar diante de um
-gentleman, que era um gentleman tambem. Arrojou para longe o guardanapo,
-arredou para fra a cadeira; e de p, estendendo a Carlos os dedos
-molles e de unhas roidas, exclamou, com um gesto para os restos da
-sobremeza:
-
---Se. v. ex.^a servido, sem ceremonia... Que isto quando a gente vem
-a Cintra, para abrir o appetite e fazer bem barriga...
-
-Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animava e
-gracejava com a Lolla, fez tambem do outro lado da meza a sua
-apresentao:
-
---Carlos, quero que conheas aqui a lindissima Lolla, relaes antigas,
-e a seorita Concha, que eu tive agora o prazer...
-
-Carlos saudou respeitosamente as damas.
-
-O mulhero da Concha rosnou seccamente os _buenos dias_: parecia de mau
-humor, pesada do almoo, amodorrada para alli, sem dizer uma palavra,
-com os cotovellos fincados na meza, os olhos pestanudos meio cerrados,
-ora fumando, ora palitando os dentes. Mas a Lolla foi amavel, fez de
-senhora, ergueu-se, offereceu a Carlos a mosita suada. Depois retomando
-o cigarro, dando um geito s pulseiras de ouro, declarou com um requebro
-d'olhos, que conhecia de ha muito Carlos...
-
---No ha estado ustd con Encarnacion?
-
-Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito d'ella, d'essa bella
-Encarnacion?
-
-A Lolla sorriu com finura, tocou no cotovello do maestro. No acreditava
-que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion... Emfim, terminou
-por dizer que a Encarnacion estava agora com o Saldanha.
-
---Mas olhe que no com o duque de Saldanha! exclamou Palma, que se
-conservara de p, com a bolsa do tabaco aberta sobre a meza, fazendo um
-grande cigarro.
-
-A Lolita, com um modo secco, replicou que o Saldanha no seria duque,
-mas era um _chico muy decente_...
-
---Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na bocca e tirando a isca
-da algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda no ha tres
-semanas... Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu... Foi at no
-Montanha... Duas bofetadas que lhe foi logo o chapo parar ao meio da
-rua... O sr. Maia ha de conhecer o Saldanha... Ha de conhecer, que elle
-tambem tem um carrito e um cavallo.
-
-Carlos fez um gesto indicando que no; e despedia-se de novo, saudando
-as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em
-quanto satisfazia uma curiosidade: queria saber qual d'aquellas meninas
-era a _esposa do amigo Eusebio_.
-
-Assim interpellado, o viuvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem
-erguer as lunetas da laranja que descascava, que estava alli de passeio,
-no tinha esposa, e ambas aquellas meninas pertenciam ao amigo Palma...
-
-E ainda elle mascava as ultimas palavras, quando Concha, que digeria de
-perna estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou
-um murro borda da meza, e com os olhos chammejantes, desafiou o
-Eusebio a que repetisse aquillo! Queria que elle repetisse! Queria que
-dissesse se tinha vergonha d'ella, e de dizer que a tinha trazido a
-Cintra!... E como o Eusebio, j enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma
-festa--ella despropositou, atirou-lhe os peiores nomes, dando sempre
-punhadas na meza, com uma furia que lhe torcia a bocca, lhe punha duas
-manchas de sangue no caro trigueiro. A Lolita, vexada, puchava-lhe pelo
-brao: a outra deu-lhe um repello; e, mais excitada com a estridencia
-da propria voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco, accusou-o
-de forreta, usou-o como um trapo vil.
-
-Palma afflicto, debruado sobre a meza, exclamava n'um tom ancioso:
-
--- Concha, escuta l!... Ouve l!... Concha, eu te explico...
-
-De repente, ella ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulhero
-abalou pela sala fra, a grande cauda de setim varreu desabridamente o
-soalho, ouviu-se dentro estalar uma porta. No cho ficara caindo um
-pedao da mantilha de renda.
-
-O creado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o
-olho curioso, farejando o escandalo; depois, calado e seccamente, foi
-servindo em roda o caf.
-
-Durante um momento houve um silencio. Apenas porm o criado sahiu--a
-Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho.
-Elle portara-se muito mal! Aquillo no fra de cavalheiro! Tinha trazido
-a rapariga a Cintra, devia-a respeitar, no a ter renegado assim,
-bruta, diante de todos...
-
---_Esto no se hace_, dizia a Lolita, de p, gesticulando, com os olhos
-brilhantes, voltada para Carlos, _ha sido una cosa muy fa!_..
-
-E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntaria da
-catastrophe--ella baixou a voz, contou que a Concha era uma furia, viera
-a Cintra com pouca vontade, e desde manh estava de _muy malo humor_...
-Pero lo de Silbeira habia sido una gran pulhice...
-
-Elle, coitado, com a cabea cahida e as orelhas em braza, remexia
-desoladamente o seu caf; no se lhe viam os olhos escondidos pelas
-lunetas pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluo que lhe affogava a
-garganta. Ento Palma pouzou a chavena, lambeu os beios, e de p no
-meio da sala, com a face luzidia, o collete desabotoado, fez n'um tom
-entendido o resumo d'aquelle desgosto.
-
---Tudo provm d'isto, e desculpe-me voc dizel-o, Silveira: que voc
-no sabe tratar com hespanholas!
-
-A esta cruel palavra o viuvo succumbiu. A colher cahiu-lhe dos dedos.
-Ergueu-se, acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se n'elles,
-vindo reconfortar-se ao calor da sua amizade,--e desabafou, estas
-palavras angustiosas escaparam-se-lhe dos labios:
-
---Vejam vocs! vem a gente a um sitio d'estes para gosar um bocado de
-poesia, e no fim uma d'estas!...
-
-Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro:
-
---A vida assim, Eusebiosinho.
-
-Cruges fez-lhe uma festa nas costas:
-
---No se pde contar com prazeres, Silveirinha.
-
-Mas Palma, mais pratico, declarou que era foroso arranjarem-se as
-cousas. Virem a Cintra, para questes e amuos, isso no! N'aquellas
-pandegas queria-se harmonia, chalaa, e gosar. Couces, no. Ento
-ficava-se em Lisboa, que era mais barato.
-
-Chegou-se a Lolla, passou-lhe os dedos pela face, com amor:
-
---Anda Lolita, vae tu l dentro Concha, dize-lhe que se no faa tola,
-que venha tomar caf... Anda, que tu sabe-l'a levar... Dize-lhe que peo
-eu!
-
-Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um geito
-ao cabello diante do espelho, apanhou a cauda--e sahiu, atirando a
-Carlos, ao passar, um olhar e um sorrisinho.
-
-Apenas ficaram ss, Palma voltou-se para o Eusebio, e deu-lhe conselhos
-muito serios sobre o systema de tratar hespanholas. Era necessario
-leval-as por bons modos; por isso que ellas se pellavam por
-portuguezes, porque l em Hespanha era bordoada... Emfim, elle no
-dizia que em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de
-bengaladas, no fossem uteis... Sabiam, por exemplo, os amigos, quando
-se devia bater? Quando ellas no gostavam da gente, e se faziam ariscas.
-Ento, sim. Ento zs, tapona, que ellas ficavam logo pelo beio... Mas
-depois bons modos, delicadeza, tal qual como com francezas...
-
---Acredite voc isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiencia. E o sr.
-Maia que lhe diga se isto no verdade, elle que tem tambem experiencia
-e sabe viver com hespanholas!
-
-E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito--que Cruges desatou a
-rir, fez rir Carlos tambem.
-
-O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as lunetas, e olhou para
-elles:
-
---Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que eu
-comecei a lidar com hespanholas aos quinze annos! No, escusam de rir,
-que n'isso ninguem me ganha! L o que se chama ter geito para
-hespanholas, c o meco! E, vamos l, que no facil! necessario ter
-um certo talento!... Olhem, o Herculano capaz de fazer bellos artigos
-e estylo catita... Agora tragam-n'o c para lidar com hespanholas e
-veremos! No d meia...
-
-Eusebiosinho no entanto fra duas vezes escutar porta. Todo o hotel
-cahira n'um grande silencio, a Lolita no voltava. Ento Palma
-aconselhou um grande passo:
-
---V voc l dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim sem mais nem
-menos, chegue-se ao p d'ella...
-
---E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gosando o Palma.
-
---Qual tapona! Ajoelhe e pea perdo... N'este caso pedir perdo... E
-como pretexto, Silveira, leve-lhe voc mesmo o caf.
-
-Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou os seus amigos. Mas
-o seu corao j decidira: e d'ahi a um momento, com o pedao de
-mantilha n'uma das mos, a chavena de caf na outra, enfiado e
-commovido, l partia a passos lentos pelo corredor a pedir perdo
-Concha.
-
-E, logo atraz d'elle, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem
-do sr. Palma--que de resto, indifferente tambem, j se accommodara
-meza a preparar regaladamente o seu grog.
-
-
-Eram duas horas quando os dous amigos sahiram emfim do hotel, a fazer
-esse passeio a Sitiaes--que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na
-praa, por defronte das lojas vasias e silenciosas, ces vadios dormiam
-ao sol: atravez das grades da cada os presos pediam esmola. Creanas,
-enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas
-tinham ainda as janellas fechadas, continuando o seu somno de inverno,
-entre as arvores j verdes. De vez em quando apparecia um bocado da
-serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se
-o castello da Pena, solitario, l no alto. E por toda a parte o luminoso
-ar de abril punha a doura do seu velludo.
-
-Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao
-Cruges.
-
---Tem o ar mais sympathico, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir
-para o Nunes, s para vr aquella scena... E ento com qu o sr. Carlos
-da Maia tem experiencia de hespanholas?
-
-Carlos no respondeu, os seus olhos no se despegavam d'aquella fachada
-banal, onde s uma janella estava aberta com um par de botinas de
-duraque seccando ao ar. porta, dous rapazes inglezes, ambos de
-knicker-bokers, cachimbavam em silencio; e defronte, sentados sobre um
-banco de pedra, dous burriqueiros ao lado dos burros, no lhes tiravam o
-olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.
-
-Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancolico, sahindo
-do silencio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as
-suas recordaes, quasi certo de Damaso lhe ter dito que a bordo Castro
-Gomes tocava flauta...
-
---Isto sublime! exclamou do lado o Cruges, commovido.
-
-Parara diante da grade d'onde se domina o valle. E d'ali olhava,
-enlevadamente, a rica vastido de arvoredo cerrado, a que s se veem os
-cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro,
-e tendo aquella distancia, no brilho da luz, a suavidade macia de um
-grande musgo escuro. E n'esta espessura verde-negra havia uma frontaria
-de casa que o interessava, branquejando, affogada entre a folhagem, com
-um ar de nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve
-uma ida de artista: desejou habital-a com uma mulher, um piano e um co
-da Terra-nova.
-
-Mas o que o encantava era o ar. Abria os braos, respirava a tragos
-deliciosos:
-
---Que ar! Isto d saude, menino! Isto faz reviver!...
-
-Para o gosar mais docemente, sentou-se adiante, n'um bocado de muro
-baixo, defronte de um alto terrao gradeado, onde velhas arvores
-assombreiam bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das
-suas ramagens, cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o
-relogio, as horas que fugiam para ir vr o palacio, a Pena, as outras
-bellezas de Cintra--o maestro declarou que preferia estar ali, ouvindo
-correr a agua, a vr monumentos caturras...
-
---Cintra no so pedras velhas, nem cousas gothicas... Cintra isto,
-uma pouca de agua, um bocado de musgo... Isto um paraiso!...
-
-E, n'aquella satisfao que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo a
-sua chalaa:
-
---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de
-hespanholas!...
-
---Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos, que riscava
-pensativamente o cho com a bengala.
-
-Ficaram callados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em
-que estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores
-e arvores, suffocando-se n'uma prodigalidade de bosque silvestre,
-deixando apenas espao para um tanquesinho redondo, onde uma pouca de
-agua, immovel e gelada, com dous ou tres nenufares, se esverdinhava sob
-a sombra d'aquella ramaria profusa. Aqui e alem, entre a bella desordem
-da folhagem, distinguiam-se arranjos de gosto burguez, uma volta de
-ruasita estreita como uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de
-um gesso. N'outros recantos, aquelle jardim de gente rica, exposto s
-vistas, tinha retoques pretenciosos de estufa rara, aloes e cactos,
-braos aguardasolados de auraucarias erguendo-se d'entre as agulhas
-negras dos pinheiros bravos, laminas de palmeira, com o seu ar triste de
-planta exilada, roando a rama leve e perfumada das olaias floridas de
-cr de rosa. A espaos, com uma graa discreta, branquejava um grande p
-de margaridas; ou em torno de uma rosa, solitaria na sua haste,
-palpitavam borboletas aos pares.
-
---Que pena que isto no pertena a um artista! murmurou o maestro. S um
-artista saberia amar estas flores, estas arvores, estes rumores...
-
-Carlos sorriu. Os artistas, dizia elle, s amam na natureza os effeitos
-de linha e cr; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para
-cuidar de que um craveiro no soffra sede, para sentir magoa de que a
-geada tenha queimado os primeiros rebentes das acacias--para isso s o
-burguez, o burguez que todas as manhs desce ao seu quintal com um
-chapo velho e um regador, e v nas arvores e nas plantas uma outra
-familia muda, por que elle tambem responsavel...
-
-Cruges, que escutara distrahidamente, exclamou:
-
---Diabo! necessario que no me esqueam as queijadas!
-
-Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a
-trote do lado de Sitiaes. Carlos ergueu-se logo, certo de que era
-_ella_, e que elle ia vr os seus bellos olhos brilhar e fugir como duas
-estrellas. A caleche passou, levando um ancio de barbas de patriarcha,
-e uma velha ingleza com o regao cheio de flores, e o vo azul
-fluctuando ao ar. E logo atraz, quasi no p que as rodas tinham erguido,
-appareceu, caminhando pensativamente, de mos atraz das costas, um homem
-alto, todo de preto, com um grande chapo Panam sobre os olhos. Foi
-Cruges que reconheceu os longos bigodes romanticos, que gritou:
-
---Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!...
-
-Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braos abertos, no
-meio da estrada. Depois, com a mesma effuso ruidosa, apertou Carlos
-contra o corao, beijou o Cruges na face--porque conhecia Cruges desde
-pequeno, Cruges era para elle como um filho. Caramba! Eis ahi uma
-surpreza que elle no trocava pelo titulo de duque! Ora o alegro de os
-vr ali! Como diabo tinham elles vindo ali parar?
-
-E no esperou a resposta, contou elle logo a sua historia. Tivera um dos
-seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Mello, o bom
-Mello, recommendara-lhe mudana d'ares. Ora elle, bons ares, s
-comprehendia os de Cintra: porque alli no eram s os pulmes que lhe
-respiravam bem, era tambem o corao, rapazes!... De sorte que viera na
-vespera, no omnibus.
-
---E onde ests tu, Alencar? perguntou logo Carlos.
-
---Pois onde queres tu que eu esteja, filho? L estou com a minha velha
-Lawrence. Coitada! est bem velha! mas para mim sempre uma amiga,
-quasi uma irm!... E vocs, que diabo? Para onde vo vocs, com essas
-flores nas lapellas?
-
---A Sitiaes. Vou mostrar Sitiaes ao maestro.
-
-Ento tambem elle voltava a Sitiaes! No tinha nada que fazer seno
-sorver bom ar, e scismar... Toda a manh andara alli, vagamente,
-pendurando sonhos dos ramos das arvores. Mas agora j os no largava;
-era mesmo um dever ir elle proprio fazer ao maestro as honras de
-Sitiaes...
-
---Que aquillo sitio muito meu, filhos! No ha alli arvore que me no
-conhea... Eu no vos quero comear j a impingir versos; mas emfim,
-vocs lembram-se de uma cousa que eu fiz a Sitiaes, e de que por ahi se
-gostou...
-
-
- Quantos luares eu l vi!
- Que doces manhs d'abril!
- E os ais que soltei alli
- No foram sete, mas mil!
-
-
-Pois ento j vocs vem, rapazes, que tenho razo para conhecer
-Sitiaes...
-
-O poeta lanou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam
-todos tres callados.
-
---Dize-me uma cousa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando
-no brao do poeta. O Damaso est na Lawrence?
-
-No, que elle o tivesse visto. Verdade seja que na vespera, apenas
-chegara, fra-se deitar, fatigado; e n'essa manh almoara s com dois
-rapazes inglezes. O unico animal que avistara fra um lindo cosinho de
-luxo, ladrando no corredor...
-
---E vocs onde esto?
-
---No Nunes.
-
-Ento o poeta parando de novo, contemplando Carlos com sympathia:
-
---Que bem que fizeste em arrastar c o maestro, filho!... Quantas vezes
-eu tenho dito quelle diabo, que se mettesse no omnibus, viesse passar
-dous dias a Cintra. Mas ninguem o tira de martelar o piano. E olha tu
-que mesmo para a musica, para compor, para entender um Mozart, um
-Choppin, necessario ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia
-da ramagem...
-
-Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado:
-
---Tem muito talento, tem muita ida melodica!... Olha que andei com
-aquillo s cabritas... E a me, menino, foi muitissimo boa mulher.
-
---Vejam vocs isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto
-sublime.
-
-Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre dous velhos muros
-cobertos d'hera, assombreada por grandes arvores entrelaadas, que lhe
-faziam um toldo de folhagem aberto luz como uma renda: no cho tremiam
-manchas de sol: e, na frescura e no silencio, uma agoa que se no via ia
-fugindo e cantando.
-
---Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, ento tens de subir
-serra. Ahi tens o espao, tens a nuvem, tens a arte...
-
---No sei, talvez goste mais d'isto, murmurou o maestro.
-
-A sua natureza de timido preferiria, de certo, estes humildes recantos,
-feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedao de muro musgoso,
-logares de quietao e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o
-scismar dos indolentes...
-
---De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra divino. No ha
-cantinho que no seja um poema... Olha, alli tens tu, por exemplo,
-aquella linda florinha azul...--e, ternamente, apanhou-a.
-
---Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora,
-desde que o poeta fallara do cosinho de luxo, mais certo de que ella
-estava na Lawrence, e que a ia brevemente encontrar.
-
-Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desilluso diante d'aquelle
-vasto terreiro coberto de herva, com o palacete ao fundo, enxovalhado,
-de vidraas partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno
-ceu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a ida, de pequeno, que
-Sitiaes era um monto pittoresco de rochedos, dominando a profundidade
-de um valle; e a isto misturava-se vagamente uma recordao de luar e de
-guitarras... Mas aquillo que elle alli via era um desapontamento.
-
---A vida feita de desapontamentos, disse Carlos, Anda para diante!
-
-E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto o maestro, cada vez
-mais animado, lhe gritava a chalaa do dia:
-
---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experincia de
-hespanholas!...
-
-Alencar, que se demorara atraz a accender o cigarro, estendeu o ouvido,
-curioso, quiz saber o que era isso de hespanholas? O maestro contou-lhe
-o encontro no Nunes e os furores da Concha.
-
-Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes, verde e fresca, de
-uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava
-deserto; a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrellada de
-botes de ouro brilhando ao sol, e de malmequersinhos brancos. Nenhuma
-folha se movia: atravez da ramaria ligeira o sol atirava mlhos de raios
-de ouro. O azul parecia recuado a uma distancia infinita, repassado de
-silencio luminoso; e s se ouvia, s vezes, monotona e dormente, a voz
-de um cuco nos castanheiros.
-
-Toda aquella vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os
-seus flores de pedra rodos da chuva, o pesado brazo rococ, as
-janellas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia
-estar-se deixando morrer voluntariamente n'aquella verde
-solido,--amuada com a vida, desde que d'alli tinham desapparecido as
-ultimas graas do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de
-anquinhas tinham roado essas relvas... Agora Cruges a descrevendo ao
-Alencar a figura do Eusebiosinho, com a chavena de caf na mo, a ir
-pedir perdo Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande chapo
-panam, se agachava a colher florinhas silvestres.
-
-Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado n'um dos bancos de
-pedra, fumando pensativamente a sua cigarette. O palacete deitava sobre
-aquelle bocado de terrao a sombra dos seus muros tristes; do valle
-subia uma frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o
-prantear de um repuxo. Ento o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo,
-fallou com nojo do Eusebiosinho.--Ahi est uma torpeza que elle nunca
-commettera, trazer meretrizes a Cintra! Nem a Cintra, nem a parte
-nenhuma... Mas muito menos a Cintra! Sempre tivera, todo o mundo devia
-ter, a religio d'aquellas arvores e o amor d'aquellas sombras...
-
---E esse Palma, accrescentou elle, um traste! Eu conheo-o; elle teve
-uma especie de jornal, e j lhe dei muita bofetada na rua do Alecrim.
-Foi uma historia curiosa... Ora eu t'a conto Carlos... Aquelle canalha!
-quando me lembro!... Aquella vil bolinha de materia putrida!... Aquelle
-chouricinho de pus!
-
-Levantou-se, passando a mo nervosa sobre os bigodes, j excitado pela
-lembrana d'aquella velha desordem, vergastando o Palma com nomes
-ferozes, todo n'uma d'essas fervuras de sangue que eram a sua desgraa.
-
-Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planicie de
-lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em
-quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um panno
-feito de remendos assim que elle tinha na meza do seu quarto. Tiras
-brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e alm, n'uma massa de
-arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, n'aquelle solo onde as
-aguas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro,
-correndo e reluzindo entre as hervas. O mar ficava ao fundo, n'uma linha
-unida, esbatida na tenuidade diffusa da bruma azulada: e por cima
-arredondava-se um grande azul lustroso como um bello esmalte, tendo
-apenas, l no alto, um farraposinho de nevoa, que ficara alli esquecido,
-e que dormia enovellado e suspenso na luz...
-
---Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua historia.
-Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos ps, crusei os braos e
-disse-lhe: ahi tem voc a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as mos!
-
---Que diabo, no me ho de esquecer as queijadas! murmurou Cruges, para
-si mesmo, affastando-se do parapeito.
-
-Carlos erguera-se tambem, olhava o relogio. Mas antes de deixar Sitiaes,
-Cruges quiz explorar o outro terrao ao lado: e, apenas subira os dous
-velhos degraus de pedra, soltou de l um grito alegre:
-
---Bem dizia eu! c esto elles... E vocs a dizer que no!
-
-Foram-n'o encontrar triumphante, diante de um monto de penedos, polidos
-pelo uso, j com um vago feitio de assentos, deixados ali outr'ora,
-poeticamente, para dar ao terrao uma graa agreste de selva brava.
-Ento, no dizia elle? Bem dizia elle que em Sitiaes havia penedos!
-
---Se eu me lembrava perfeitamente! _Penedo da Saudade_, no que se
-chama, Alencar?
-
-Mas o poeta no respondeu. Diante d'aquellas pedras crusara os braos,
-sorria dolorosamente; e immovel, sombrio no seu fato negro, com o panam
-carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto n'um olhar lento e
-triste.
-
-Depois, no silencio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente:
-
---Vocs lembram-se, rapazes, nas _Flres e Martyrios_, de uma das cousas
-melhores que l tenho, em rimas livres, chamada _6 de Agosto_? No se
-lembram talvez... Pois eu vol-a digo, rapazes!
-
-Machinalmente tirara do bolso o leno branco. E com elle fluctuante na
-mo, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges,
-baixou a voz como n'uma confidencia sagrada, recitou, com um ardor
-surdo, mordendo as syllabas, tremulo, n'uma paixo ephemera de nervoso:
-
-
- Vieste! Cingi-te ao peito.
- Em redor que noite escura!
- No tinha rendas o leito,
- Nem tinha lavores na barra
- Que era s a rocha dura...
- Muito ao longe uma guitarra
- Gemia vagos harpejos...
- (V tu que no me esqueceu)...
- E a rocha dura aqueceu
- Ao calor dos nossos beijos!
-
-
-Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol,
-atirou para l um gesto triste, e murmurou:
-
---Foi alli.
-
-E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chapo panam, com o leno
-branco na mo. Cruges, que aquelles romantismos impressionavam, ficou a
-olhar para os penedos como para um sitio historico. Carlos sorria. E
-quando ambos deixaram esse recanto do terrao--o poeta, agachado junto
-do arco, estava apertando o atilho da ceroula.
-
-Endireitou-se logo, j toda a emoo o deixara, mostrava os maus dentes
-n'um sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco:
-
---Agora, Cruges, filho, repara tu n'aquella tela sublime.
-
-O maestro embasbacou. No vo do arco, como dentro de uma pesada moldura
-de pedra, brilhava, luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma
-composio quasi phantastica, como a illustrao de uma bella lenda de
-cavallaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e
-verdejando, todo salpicado de botes amarellos; ao fundo, o renque
-cerrado de antigas arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da
-grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente d'essa
-copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia,
-destacando vigorosamente n'um relevo nitido sobre o fundo de cu azul
-claro, o cume airoso da serra, toda cr de violeta escura, coroada pelo
-castello da Pena, romantico e solitario no alto, com o seu parque
-sombrio aos ps, a torre esbelta perdida no ar, e as cupulas brilhando
-ao sol como se fossem feitas de ouro...
-
-Cruges achou aquelle quadro digno de Gustavo Dor. Alencar teve uma
-bella phrase sobre a imaginao dos arabes. Carlos, impaciente, foi-os
-apressando para diante.
-
-Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir Pena.
-Alencar, por si, a tambem com prazer. A Pena para elle era outro ninho
-de recordaes. Ninho? Devia antes dizer cemiterio... Carlos hesitava,
-parado junto da grade. Estaria ella na Pena? E olhava a estrada, olhava
-as arvores, como se podesse adivinhar pelas pegadas no p, ou pelo mover
-das folhas, que direco tinham tomado os passos que elle seguia... Por
-fim teve uma ida.
-
---Vamos indo primeiro Lawrence. E depois se quizermos ir Pena,
-arranjam-se l os burros...
-
-E nem mesmo quiz escutar o Alencar, que tivera, tambem uma ida, fallava
-de Collares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; accelerou o passo
-para a Lawrence, emquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da
-ceroula, e o maestro, n'um enthusiasmo bucolico, ornava o chapo de
-folhas de hera.
-
-Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na bocca, no
-tendo podido apoderar-se dos inglezes, preguiavam ao sol.
-
---Vocs sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma familia, que est aqui no
-hotel, foi para a Pena?...
-
-Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se.
-
---Sim, senhor, foram para l ha bocado, e aqui est o burrinho tambem
-para v. ex.^a, meu amo!
-
-Mas o outro, mais honesto, negou. No senhor, a gente que fra para a
-Pena estava no Nunes...
-
---A familia que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palacio...
-
---Uma senhora alta?
-
---Sim senhor.
-
---Com um sujeito de barba preta?
-
---Sim senhor.
-
---E uma cadellinha?
-
---Sim senhor.
-
---Tu conheces o sr. Damaso Salcede?
-
---No senhor... o que tira retratos?
-
---No, no tira retratos... Tomae l.
-
-Deu-lhes uma placa de cinco tostes; e voltou ao encontro dos outros,
-declarando que realmente era tarde para subirem Pena.
-
---Agora o que tu deves vr, Cruges, o palacio. Isso que tem
-originalidade e cachet! No verdade, Alencar?...
-
---Eu vos digo, filhos, comeou o auctor de _Elvira_, historicamente
-fallando...
-
---E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou Cruges.
-
---Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas; necessario no
-perder tempo; a caminho!
-
-Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palacio, em quatro
-largas passadas estava l. E logo da praa avistou, saindo j o porto,
-passando rente da sentinella, a famosa familia hospedada na Lawrence e a
-sua cadellinha de luxo. Era, com effeito, um sujeito de barba preta, e
-de sapatos de lona branca; e, ao lado d'elle, uma matrona enorme, com um
-mantelete de seda, cousas de ouro pelo pescoo e pelo peito, e o
-cosinho felpudo ao collo. Vinham ambos rosnando o quer que fosse, com
-mau modo um para o outro, e em hespanhol.
-
-Carlos ficou a olhar para aquelle par com a melancolia de quem contempla
-os pedaos d'um bello marmore quebrado. No esperou mais pelos outros,
-nem os quiz encontrar. Correu Lawrence por um caminho differente,
-avido de uma certeza:--e ahi, o criado que lhe appareceu, disse-lhe que
-o sr. Salcede e os srs. Castro Gomes tinham partido na vespera para
-Mafra...
-
---E de l?...
-
-O criado ouvira dizer ao sr. Damaso que de l voltavam a Lisboa.
-
---Bem, disse Carlos atirando o chapo para cima da meza, traga-me voc
-um calice de cognac, e uma pouca d'agua fresca.
-
-Cintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. No
-teve animo de voltar ao palacio, nem quiz sahir mais d'ali; e arrancando
-as luvas passeiando em volta da meza de jantar, onde murchavam os ramos
-da vespera, sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr
-ao Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vl-a, saciar os seus olhos
-n'ella!... Porque, o que o irritava agora era no poder encontrar, na
-pequenez de Lisboa, onde toda a gente se acotovella, aquella mulher que
-elle procurava anciosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um co
-perdido: fizera perigrinaes ridiculas de theatro em theatro: n'uma
-manh de domingo percorrera as missas! E no a tornara a vr. Agora
-sabia-a em Cintra, voava a Cintra, e no a via tambem. Ella cruzava-o
-uma tarde, bella como uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cahir
-n'alma por accaso um dos seus olhares negros, e desapparecia,
-evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao co, d'ora em
-diante invisivel e sobrenatural: e elle ali ficava, com aquelle olhar no
-corao, perturbando todo o seu ser, orientando surdamente os seus
-pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, para uma
-adoravel desconhecida, de quem elle nada sabia seno que era alta e
-loira, e que tinha uma cadellinha escosseza... Assim acontece com as
-estrellas d'acaso! Ellas no so d'uma essencia diferente, nem contem
-mais luz que as outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e
-se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento
-que deixam nos olhos mais perturbador e mais longo... Elle no a
-tornara a vr. Outros viam-n'a. O Taveira vira-a. No Gremio, ouvira um
-alferes de lanceiros fallar d'ella, perguntar quem era, porque a
-encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os dias. Elle no
-a via, e no socegava...
-
-O criado trouxe o cognac. Ento Carlos, preparando vagarosamente o seu
-refresco, conversou com elle, fallou um momento dos dois rapazes
-inglezes, depois da hespanhola obesa... Emfim, dominando uma timidez,
-quasi crando, fez, atravez de grandes silencios, perguntas sobre os
-Castro Gomes. E cada resposta lhe parecia uma acquisio preciosa. A
-senhora era muito madrugadora, dizia o criado: s sete horas tinha
-tomado banho, estava vestida, e sahia s. O sr. Castro Gomes, que dormia
-n'um quarto separado, nunca se mexia antes do meio dia; e, noite,
-ficava uma eternidade meza, fumando cigarettes e molhando os beios em
-copinhos de cognac e agua. Elle e o sr. Damaso jogavam o domin. A
-senhora tinha montes de flres no quarto; e tencionavam ficar at
-domingo, mas fra ella que apressra a partida...
-
---Ah, disse Carlos depois de um silencio, foi a senhora que apressou a
-partida?...
-
---Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa... V.
-ex.^a toma mais cognac?
-
-Com um gesto Carlos recusou, e veiu sentar-se no terrao. A tarde
-descia, calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem, cheia de
-claridade dourada, n'uma larga serenidade que penetrava a alma. Elle
-tel-a-hia pois encontrado, ali mesmo n'aquelle terrao, vendo tambem
-cahir a tarde--se ella no estivesse impaciente por tornar a vr a
-filha, algum bbsinho loiro que ficra s com a ama. Assim, a brilhante
-deusa era tambem uma boa mam; e isto dava-lhe um encanto mais profundo,
-era assim que elle gostava mais d'ella, com este terno estremecimento
-humano nas suas bellas frmas de marmore. Agora, j ella estava em
-Lisboa; e imaginava-a nas rendas do seu _peignoir_, com o cabello
-enrolado pressa, grande e branca, erguendo ao ar o bb nos seus
-explendidos braos de Juno, e fallando-lhe com um riso d'ouro. Achava-a
-assim adoravel, todo o seu corao fugia para ella... Ah! poder ter o
-direito de estar junto d'ella, n'essas horas d'intimidade, bem junto,
-sentindo o aroma da sua pelle, e sorrindo tambem a um bb. E, pouco a
-pouco, foi-lhe surgindo na alma um romance, radiante e absurdo: um sopro
-de paixo, mais forte que as leis humanas, enrolava violentamente,
-levava juntos o seu destino e o d'ella; depois, que divina existencia,
-escondida n'um ninho de flres e de sol, longe, n'algum canto da
-Italia... E, toda a sorte de idas d'amor, de devoo absoluta, de
-sacrificio, invadiam-n'o deliciosamente--emquanto os seus olhos se
-esqueciam, se perdiam, enlevados na religiosa solemnidade d'aquelle
-bello fim da tarde. Do lado do mar subia uma maravilhosa cr d'ouro
-pallido, que ia no alto diluir o azul, dava-lhe um branco indeciso e
-opalino, um tom de desmaio doce; e o arvoredo cobria-se todo de uma
-tinta loura, delicada e dormente. Todos os rumores tomavam uma suavidade
-de suspiro perdido. Nenhum contorno se movia como na immobilidade de um
-extase. E as casas, voltadas para o poente, com uma ou outra janella
-accesa em braza, os cimos redondos das arvores apinhadas, descendo a
-serra n'uma espessa debandada para o valle, tudo parecera ficar de
-repente parado n'um recolhimento melancolico e grave, olhando a partida
-do sol, que mergulhava lentamente no mar...
-
---Oh Carlos, tu ests ahi?
-
-Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando por elle.
-Carlos appareceu varanda do terrao.
-
---Que diabo ests tu ahi a fazer, rapaz? exclamou Alencar, agitando
-alegremente o seu panam. Ns l estivemos espera, no covil real...
-Fomos ao Nunes... Iamos agora procurar-te cadeia!
-
-E o poeta riu largamente da sua pilheria--emquanto Cruges, ao lado, de
-mos atraz das costas, e a face erguida para o terrao, bocejava
-desconsoladamente.
-
---Vim _refrescar_, como tu dizes, tomar um pouco de cognac, que estava
-com sde.
-
-Cognac? eis ahi o mimo por que o pobre Alencar estivera anciando toda a
-tarde, desde Sitiaes. E galgou logo as escadas do terrao--depois de ter
-gritado para dentro, para a sua velha Lawrence, que lhe mandasse acima
-_meia da fina_.
-
---Viste o Pao, hein, Cruges? perguntou Carlos ao maestro, quando elle
-appareceu, arrastando os passos. Ento, parece-me que o que nos resta a
-fazer jantar, e abalar...
-
-Cruges concordou. Voltava do palacio com um ar murcho, fatigado
-d'aquelle vasto casaro historico, da voz monotona do cicerone mostrando
-a cama de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha,
-melhores que as de Mafra, o tira-botas de S. A.; e trazia de l uma
-pouca d'essa melancolia que erra, como uma atmosphera propria, nas
-residencias reaes.
-
-E aquella natureza de Cintra, ao escurecer, dizia elle, comeava a
-entristecel-o.
-
-Ento concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectaculo
-torpe do Palma e das damas, mandar vir porta o break, e partir depois
-ao nascer do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia tambem a
-Lisboa.
-
---E, para ser festa completa, exclamou elle, limpando os bigodes do
-cognac, emquanto vocs vo ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o
-break, eu vou-me entender l abaixo cosinha com a velha Lawrence, e
-preparar-vos um _bacalhau Alencar_, recipe meu... E vocs vero o que
- um bacalhau! Porque, l isso, rapazes, versos os faro outros melhor;
-bacalhau, no!
-
-Atravessando a praa, Cruges pedia a Deus que no encontrassem mais o
-Eusebiosinho. Mas, apenas pozeram os ps nos primeiros degraus do Nunes,
-ouviram em cima o chalrar da sucia. Estavam na ante-sala, j todos
-reconciliados, a Concha contente--e installados aos dois cantos de uma
-meza, com cartas. O Palma, munido d'uma garrafa de genebra, fazia uma
-_batotinha_ para o Eusebio; e as duas hespanholas, de cigarro na bocca,
-jogavam languidamente a bisca.
-
-O viuvo, enfiado, perdia. No monte, que comera miseravelmente com duas
-coras, j luzia ouro; e Palma triumphava, chalaceiando, dando beijocas
-na sua moa. Mas, ao mesmo tempo, fazia de cavalheiro, fallava de dar a
-desforra, ficar ali, sendo necessario, at de madrugada.
-
---Ento vv. ex.^{as} no se tentam? Isto para passar o tempo... Em
-Cintra tudo serve... Valete! Perdeu voc outro mico no rei. Deve a libra
-mais quinze tostes, s Silveira!
-
-Carlos passra, sem responder, seguido pelo criado--no momento em que
-Euzebiosinho, furioso, j desconfiado, quiz verificar, com as lunetas
-negras sobre o baralho, se l estavam todos os reis.
-
-Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar. Entre amigos, que
-diabo, tudo se admittia! A sua hespanhola, essa sim, escandalisou-se,
-defendendo a honra do seu homem: ento Palmita havia de ter empalmado o
-rei? Mas, a Concha, zelava o dinheiro do seu viuvo, exclamava que o rei
-podia estar perdido... Os reis estavam l.
-
-Palma atirou um calice de genebra s goelas, e recomeou a baralhar
-magestosamente.
-
---Ento v. ex.^a no se tenta? repetia elle para o maestro.
-
-Cruges, com effeito, parra, roando-se pela meza, com o olho nas cartas
-e no ouro do monte, j sem fora, remexendo o dinheiro nas algibeiras.
-Subitamente um az decidiu-o. Com a mo nervosa, escorregou-lhe uma libra
-por baixo, jogando cinco tostes, e de porta. Perdeu logo. Quando Carlos
-voltou do quarto com o criado que descia as malas, o maestro estava em
-pleno vicio, com a libra entalada, os olhos accezos, o ar esguedelhado.
-
---Ento tu?...--exclamou Carlos com severidade.
-
---J deso, rosnou o maestro.
-
-E, pressa, foi paz da libra, n'um terno contra o rei. Cartada de
-colicas! como disse o Palma: e foi com emoo que elle comeou a puxar
-as cartas, espremendo-as uma a uma, n'um vagar mortal. A appario de um
-bico arrancou-lhe uma praga. Era apenas um duque, Eusebiosinho perdia
-mais uma placa. Palma teve um suspirinho de alivio; e, escondendo com
-ambas as mos o baralho, erguendo as lunetas faiscantes para o maestro:
-
---Ento, sempre contina toda a libra?
-
---Toda.
-
-Palma teve outro suspiro, d'anciedade; e, mais pallido, voltou
-bruscamente as cartas.
-
---Rei! gritou elle, empolgando o ouro.
-
-Era o rei de paus, a sua hespanhola bateu as palmas, o maestro abalou
-furioso.
-
-Na Lawrence o jantar prolongou-se at s oito horas, com luzes;--e o
-Alencar fallou sempre. Tinha esquecido n'esse dia as desilluses da
-vida, todos os rancores litterarios, estava n'uma veia excellente; e
-foram historias dos velhos tempos de Cintra, recordaes da sua famosa
-ida a Paris, cousas picantes de mulheres, bocados da chronica intima da
-Regenerao... Tudo isto com estridencias de voz, e _filhos isto!_ e
-_rapazes aquillo!_ e gestos que faziam oscillar as chammas das vellas, e
-grandes copos de Collares emborcados de um trago. Do outro lado da meza,
-os dois inglezes, correctos nos seus fraques negros, de cravos brancos
-na botoeira, pasmavam, com um ar embaraado a que se misturava desdem,
-para esta desordenada exhuberancia de meridional.
-
-A appario do bacalhau foi um triumpho:--e a satisfao do poeta to
-grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!
-
---Sempre queria que elle provasse este bacalhau! J que me no aprecia
-os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto um bacalhau de
-artista em toda a parte!... N'outro dia fil-o l em casa dos meus
-Cohens; e a Rachel, coitadinha, veiu para mim e abraou-me... Isto,
-filhos, a poesia e a cozinha so irms! Vejam vocs Alexandre Dumas...
-Diro vocs que o pae Dumas no um poeta... E ento d'Artagnan?
-D'Artagnan um poema... a faisca a phantasia, a inspirao, o
-sonho, o arrobo! Ento, po, j vem vocs, que poeta!... Pois
-vocs ho-de vir um dia d'estes jantar commigo, e ha-de vir o Ega, e
-hei-de-vos arranjar umas perdizes hespanhola, que vos ho-de nascer
-castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! L essas cousas de
-realismo e romantismo, historias... Um lyrio to natural como um
-persevejo... Uns preferem fedr de sargeta; perfeitamente, destape-se o
-cano publico... Eu prefiro ps de marechala n'um seio branco; a mim o
-seio, e, l vae vossa. O que se quer, corao. E o Ega tem-n'o. E
-tem faisca, tem rasgo, tem estylo... Pois, assim que elles se querem,
-e, l vae saude do Ega!
-
-Pousou o copo, passou a mo pelos bigodes, e rosnou mais baixo:
-
---E, se aquelles inglezes continuam a embasbacar para mim, vae-lhes um
-copo na cara, e aqui um vendaval, que ha-de a Gran-Bretanha ficar
-sabendo o que um poeta portuguez!...
-
-Mas no houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou sem saber o que um poeta
-portuguez, e o jantar terminou n'um caf tranquillo. Eram nove horas,
-fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break.
-
-Alencar, embuado n'um capote, um verdadeiro capote de padre de alda,
-levava na mo um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panam na
-maleta, trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um
-comeo de _spleen_, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na
-gola do paletot, com a manta da mam sobre os joelhos. Partiram. Cintra
-ficava dormindo ao luar.
-
-Algum tempo o break rodou em silencio, na belleza da noite. A espaos, a
-estrada apparecia banhada d'uma claridade quente que faiscava. Fachadas
-de casas, caladas e pallidas, surgiam, d'entre as arvores com um ar de
-melancolia romantica. Murmurios de agoas perdiam-se na sombra; e, junto
-dos muros enramados, o ar estava cheio d'aroma. Alencar accendera o
-cachimbo, e olhava a lua.
-
-Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada,
-silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou tambem para a lua, e
-murmurou d'entre os seus agasalhos:
-
---Oh Alencar, recita para ahi alguma cousa...
-
-O poeta condescendeu logo--apesar de um dos criados ir ali ao lado
-d'elles, dentro do break. Mas, que havia elle de recitar, sob o encanto
-da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua!
-Emfim, a dizer-lhe uma historia bem verdadeira e bem triste... Veiu
-sentar-se ao p do Cruges, dentro do seu grande capoto, esvaziou os
-restos do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os bigodes,
-comeou, n'um tom familiar e simples:
-
-
- Era o jardim d'uma vivenda antiga,
- Sem arrebiques d'arte ou flres de luxo;
- Ruas singellas d'alfazema e buxo,
- Cravos, roseiras...
-
-
---Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da
-manta, com um berro que emmudeceu o poeta, fez voltar Carlos na
-almofada, assustou o trintanario.
-
-O break parra, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silencio da
-charneca, sob a paz do luar, Cruges, succumbido, exclamou:
-
---Esqueceram-me as queijadas!
-
-
-
-
-IX
-
-
-O dia famoso da soire dos Cohens, ao fim d'essa semana to luminosa e
-to doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janella
-sobre o jardim, vira um cu baixo que pesava como se fosse feito de
-algodo em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arripiado e humido;
-ao longe o rio estava turvo, e no ar molle errava um halito morno de
-sudoeste. Decidira no sahir--e desde as nove horas, sentado banca,
-embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de velludo azul, que lhe dava o
-bello ar de um principe artista da Renascena, tentava trabalhar: mas,
-apesar de duas chavenas de caf, de cigarettes sem fim, o cerebro, como
-o cu fra, conservava-se-lhe n'essa manh afogado em nevoas. Tinha
-d'estes dias terriveis; julgava-se ento uma besta; e a quantidade de
-folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete
-aos ps, davam-lhe a sensao de ser todo elle uma ruina.
-
-Foi realmente um allivio, uma tregoa n'aquella lucta com as idas
-rebeldes, quando Baptista annunciou Villaa, que lhe vinha fallar de uma
-venda de montados no Alemtejo, pertencentes sua legitima.
-
---Negociosinho, disse o administrador, pousando o chapo a um canto da
-mesa e dentro um rolo de papeis, que lhe mette na algibeira para cima de
-dois contos de ris... E no mau presente, logo assim pela manh...
-
-Carlos espreguiou-se, crusando fortemente as mos por trs da cabea:
-
---Pois olhe, Villaa, preciso bem de dous contos de ris, mas preferia
-que me trouxesse ahi alguma lucidez de espirito... Estou hoje d'uma
-estupidez!
-
-Villaa considerou-o um momento, com malicia.
-
---Quer v. ex.^a dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que
-receber assim perto de quinhentas libras? So gostos, meu senhor, so
-gostos... Elle bom sahir-se a gente um Herculano ou um Garrett, mas
-dous contos de ris, so dous contos de ris... Olhe que sempre valem um
-folhetim. Emfim, o negocio este.
-
-Explicou-lh'o, sem se sentar, apressado, emquanto Carlos, de braos
-cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que Villaa
-trazia (um macaco de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia
-vagamente, atravez da sua neblina mental, que se tratava de um visconde
-de Torral e de porcos... Quando Villaa lhe apresentou os papeis,
-assignou-os com um ar moribundo.
-
---Ento no fica para almoar, Villaa? disse elle, vendo o procurador
-metter o seu rolo de papeis debaixo do brao.
-
---Muito agradecido a v. ex.^a Tenho de me encontrar com o nosso amigo
-Eusebio... Vamos ao ministerio do reino, elle tem l uma perteno...
-Quer a commenda da Conceio... Mas este governo est desgostoso com
-elle.
-
---Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez d'um bocejo, o governo no
-est contente com o Eusebiosinho?
-
---No se portou bem nas eleies. Ainda ha dias, o ministro do reino me
-dizia, em confidencia: O Eusebio rapaz de merecimento, mas
-atravessado... V. Ex.^a n'outro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o em
-Cintra.
-
---Sim, l estava a fazer jus commenda da Conceio.
-
-Quando Villaa saiu Carlos retomou lentamente a penna, e ficou um
-momento, com os olhos na pagina meio-escripta, coando a barba,
-desanimado e esteril. Mas quasi em seguida appareeu Affonso da Maia,
-ainda de chapo, volta do seu passeio matinal no bairro, e com uma
-carta na mo, que era para Carlos, e que elle achara no escriptorio
-misturada ao seu correio. Alm d'isso, esperava encontrar ali o Villaa.
-
---Esteve ahi, mas deitou a correr, para ir arranjar uma commenda para o
-Eusebiosinho--disse Carlos, abrindo a carta.
-
-E teve uma surpreza, vendo no papel--que cheirava a verbena como a
-condessa de Gouvarinho--um convite do conde para jantar no sabbado
-seguinte, feito em termos de sympathia to escolhidos que eram quasi
-poeticos; tinha mesmo uma phrase sobre a amisade, fallava dos _atomos em
-gancho_ de Descartes. Carlos desatou a rir, contou ao av que era um par
-do reino que o convidava a jantar, citando Descartes...
-
---So capazes de tudo, murmurou o velho.
-
-E dando um olhar risonho, aos manuscriptos espalhados sobre a banca:
-
---Ento, aqui, trabalha-se, hein?
-
-Carlos encolheu os hombros:
-
---Se que se pde chamar a isto trabalhar... Olhe ahi para o cho. Veja
-esses destroos... Em quanto se trata de tomar notas, colligir
-documentos, reunir materiaes, bem, l vou indo. Mas quando se trata de
-pr as idas, a observao, n'uma frma de gosto e de symetria, dar-lhe
-cr, dar-lhe relevo, ento... Ento foi-se!
-
---Preoccupao peninsular, filho, disse Affonso sentando-se ao p da
-mesa, com o seu chapo desabado na mo. Desembaraa-te d'ella. o que
-eu dizia n'outro dia ao Craft, e elle concordava... O portuguez nunca
-pde ser homem de idas, por causa da paixo da frma. A sua mania
-fazer bellas phrases vr-lhes o brilho, sentir-lhes a musica. Se fr
-necessario falsear a ida, deixal-a incompleta, exageral-a, para a
-phrase ganhar em belleza, o desgraado no hesita... V-se pela agoa
-abaixo o pensamento, mas salve-se a bella phrase.
-
---Questo de temperamento, disse Carlos. Ha sres inferiores, para quem
-a sonoridade de um adjectivo mais importante que a exactido de um
-systema... Eu sou d'esses monstros.
-
---Diabo! ento s um rhetorico...
-
---Quem o no ? E resta saber por fim se o estylo no uma disciplina
-do pensamento. Em verso, o av sabe, muitas vezes a necessidade de uma
-rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o
-esforo para completar bem a cadencia de uma phrase, no poder trazer
-desenvolvimentos novos e inesperados de uma ida... Viva a bella phrase!
-
---O sr. Ega annunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando comeava
-justamente a tocar a sineta do almoo.
-
---Fallae na phrase...--disse Affonso, rindo.
-
---Hein? Que phrase? O que?..--exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com
-o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletot levantada. Oh! por
-aqui a esta hora sr. Affonso da Maia! Como est v. ex.^a? Dize-me c,
-Carlos, tu que me podes tirar d'uma atrapalhao... Tu ters por acaso
-uma espada que me sirva?
-
-E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, j impaciente:
-
---Sim, homem, uma espada! No para me batter, estou em paz com toda a
-humanidade... para esta noute, para o fato de mascara.
-
-O Mattos, aquelle animal, s na vespera lhe dera o costume para o baile:
-e, qual o seu horror, ao vr que lhe arranjara, em logar de uma espada
-artistica, um sabre da guarda municipal! Tivera vontade de lh'o passar
-atravez das entranhas. Correu ao tio Abraho, que s tinha espadins de
-crte, reles e pelintras como a propria crte! Lembrara-se do Craft e da
-sua colleco; vinha de l; mas ahi eram uns espades de ferro, catanas
-pesando arrobas, as durindanas tremendas dos brutos que conquistaram a
-India... Nada que lhe servisse. Fra ento que lhe tinham vindo ida
-as panoplias antigas do Ramalhete.
-
---Tu que deves ter... Eu preciso uma espada longa e fina, com os copos
-em concha, d'ao rendilhado, forrados de velludo escarlate. E sem cruz,
-sobretudo sem cruz!
-
-Affonso, tomando logo um interesse paternal por aquella difficuldade do
-John, lembrou que havia no corredor, em cima, umas espadas
-hespanholas...
-
---Em cima, no corredor? exclamou Ega, j com a mo no reposteiro.
-
-Inutil precipitar-se, o bom John no as poderia encontrar. No estavam
-vista, arranjadas em panoplia, conservavam-se ainda nos caixes em que
-tinham vindo de Bemfica.
-
---Eu l vou, homem fatal, eu l vou, disse Carlos, erguendo-se com
-resignao. Mas olha que ellas no tem bainhas.
-
-Ega ficou succumbido. E foi ainda Affonso que achou uma ida, o salvou.
-
---Manda fazer uma simples bainha de velludo negro; isso faz-se n'uma
-hora. E manda-lhe cozer ao comprido rodellas de velludo escarlate...
-
---Explendido, gritou Ega: o que ter gosto!
-
-E apenas Carlos sahiu, trovejou contra o Mattos.
-
---Veja v. ex.^a isto, um sabre da guarda municipal! E quem faz ahi os
-fatos para todos os theatros! Que idiota!.. E tudo assim, isto um
-paiz insensato!...
-
---Meu bom Ega, tu no queres tornar de certo Portugal inteiro, o Estado,
-sete milhes d'almas, responsaveis por esse comportamento do Mattos?
-
---Sim senhor, exclamava o Ega passeiando pelo gabinete, com as mos
-enterradas nos bolsos do paletot; sim senhor, tudo isso se prende. O
-_costumier_ com um fato do seculo XIV manda um sabre da guarda
-municipal; por seu lado o ministro, a proposito de impostos, cita as
-_Meditaes_ de Lamartine; e o litterato, essa besta suprema...
-
-Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na mo, uma folha do
-seculo XVI, de grande tempera, fina e vibrante, com copos trabalhado
-como uma renda--e tendo gravado no ao o nome illustre do espadeiro,
-Francisco Ruy de Toledo.
-
-Embrulhou-a logo n'um jornal, recusou pressa o almoo, que lhe
-offereciam, deu dous vivos _shake-hands_, atirou o chapu para a nuca,
-ia abalar, quando a voz de Affonso o deteve:
-
---Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso uma espada c da
-casa, que nunca brilhou sem gloria, creio eu... V como te serves
-d'ella!
-
-Ao p do resposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contra o peito
-do paletot o ferro, enrolado, no _Jornal do Commercio_:
-
---No a sacarei sem justia, nem a embainharei sem honra. _Au revoir!_
-
---Que vida, que mocidade! murmurou Affonso. Muito feliz este John!...
-Pois vae-te arranjando filho, que j tocou a primeira vez para o almoo.
-
-Carlos ainda se demorou um instante a reler, com um sorriso, a
-apparatosa carta do Gouvarinho; e ia emfim chamar o Baptista para se
-vestir, quando em baixo, entrada particular, o timbre electrico
-comeou a vibrar violentamente. Um passo ancioso ressoou na ante-camara,
-o Damaso appareceu esbaforido, d'olho esgazeado, com a face em braza. E,
-sem dar tempo a que Carlos exprimisse a surpreza de o ver emfim no
-Ramalhete, exclamou, lanando os braos ao ar:
-
---Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas d'ahi, que me
-venhas ver um doente... Eu te explicarei... aquella gente brazileira.
-Mas pelo amor de Deus, vem depressa, menino!
-
-Carlos erguera-se, pallido:
-
--- ella?
-
---No, a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos,
-veste-te, que a responsabilidade minha!
-
--- um bb, no ?
-
---Qual bb!... uma pequena crescida, de seis annos... Anda d'ahi!
-
-Carlos, j em mangas de camisa, estendia o p ao Baptista, que, com um
-joelho em terra, apressado tambem, quasi fez saltar os botes da bota. E
-Damaso, de chapu na cabea, agitava-se, exagerando a sua impaciencia, a
-estalar de importancia.
-
---Sempre a gente se v em coisas!.. Olha que responsabilidade a minha!
-Vou visital-os, como costumo s vezes, de manh... E vae, tinham partido
-para Queluz.
-
-Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meia vestida:
-
---Mas ento?..
-
---Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a
-governanta... Depois do almoo deu-lhe uma dr. A governante queria um
-medico inglez, porque no falla seno inglez... Do hotel foram procurar
-o Smith, que no appareceu... E a pequena a morrer!... Felizmente,
-cheguei eu, e lembrei-me logo de ti... Foi sorte encontrar-te, caramba!
-
-E acrescentou, dando um olhar ao jardim:
-
---Tambem, irem a Queluz com um dia d'estes! Ho-de-se divertir... Ests
-prompto, hein? Eu tenho l em baixo o coup... Deixa as luvas, vaes
-muito bem sem luvas!
-
---O av que no me espere para almoar, gritou Carlos ao Baptista, j do
-fundo da escada.
-
-Dentro do coup, um ramo enorme enchia quasi o assento.
-
---Era para ella, disse o Damaso, pondo-o sobre os joelhos. Pela-se por
-flores.
-
-Apenas o coup partiu, Carlos cerrando a vidraa, fez a pergunta que
-desde a appario do Damaso lhe faiscava nos labios.
-
---Mas ento tu, que querias quebrar a cara a esse Castro Gomes?..
-
-O Damaso contou logo tudo, triumphante. Fra tudo um equivoco! Ah, as
-explicaes do Castro Gomes tinham sido d'um gentleman. Seno
-quebrava-lhe a cara. Isso no, desconsideraes, a ninguem! a ninguem!
-Mas fra assim: os bilhetes de visita que elle lhe deixara conservavam o
-seu adresse do _Grand Hotel_ em Paris. E o Castro Gomes, suppondo que
-elle vivia l, obdecendo indicao, mandara para l os seus cartes!
-Curioso, hein? E de estupdo... E a falta de resposta aos telegrammas
-fra culpa de Madame, descuido, n'aquelle momento de afflico, vendo o
-marido com o brao escavacado... Ah, tinham-lhe dado satisfaes
-humildes. E agora eram intimos, estava l quasi sempre...
-
---Emfim, menino, um romance... Mas isso para mais tarde!
-
-O coup parara porta do Hotel Central. Damaso saltou, correu ao guarda
-porto.
-
---Mandou o telegramma, Antonio?
-
---J l vae...
-
---Tu comprehendes, dizia elle a Carlos, galgando as escadas, mandei-lhes
-logo um telegramma para o hotel em Queluz. No estou para ter mais
-responsabilidades!...
-
-No corredor, defronte do escriptorio, um criado passava, com um
-guardanapo debaixo do brao:
-
---Como est a menina? gritou-lhe o Damaso.
-
-O criado encolheu os hombros, sem comprehender.
-
-Mas Damaso j trepava o outro lano de escada, soprando, gritando:
-
---Por aqui Carlos, eu conheo isto a palmos! Numero 26!
-
-Abriu com estrondo a porta do numero 26. Uma criada, que estava
-janella, voltou-se.
-
-Ah _bonjour_, Melanie! exclamava Damaso, no seu extraordinario francez.
-A creana estava melhor? _l'enfant etait meilleur?_ Ali lhe trazia o
-doutor, _monsieur le docteur Maia_.
-
-Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que Mademoiselle estava
-mais socegada, e ella ia avisar miss Sarah, a governanta. Passou o
-espanador pelo marmore d'uma console, ageitou os livros sobre a meza, e
-sahiu, dardejando a Carlos um olhar vivo como uma faisca.
-
-A sala era espaosa, com uma mobilia de rps azul, e um grande espelho
-sobre a console dourada, entre as duas janellas: a meza estava coberta
-de jornaes, de caixas de charutos, e de romances de Cappendu; sobre uma
-cadeira, ao lado, ficra enrolado um bordado.
-
---Esta Melanie, esta desleixada, murmurava o Damaso, fechando a janella
-com um esforo sobre o feixo perro. Deixar assim tudo aberto! Jesus, que
-gente!
-
---Este cavalheiro bonapartista, disse Carlos vendo sobre a meza os
-numeros do _Pays_.
-
---Isso, temos questes terriveis! exclamou o Damaso. E eu enterro-o
-sempre... bom rapaz, mas tem pouco fundo.
-
-Melanie voltou pedindo a _Monsieur le Docteur_ para entrar um instante
-no gabinete de toilette. E ahi, depois de apanhar uma toalha cahida, de
-dardejar a Carlos outro olharsinho petulante, disse que Miss Sarah vinha
-immediatamente, e retirou-se na ponta dos sapatos. Fra, na sala,
-ergueu-se logo a voz do Damaso, fallando a Melanie de _sa
-responsabilit, et que il etait trs afflig_.
-
-Carlos ficou s, na intimidade d'aquelle gabinete de toilette, que
-n'essa manh ainda no fra arrumado. Duas malas, pertencentes de certo
-a Madame, enormes, magnificas, com fecharias e cantos de ao polido,
-estavam abertas: d'uma trasbordava uma cauda rica, de seda forte cr de
-vinho: e na outra era um delicado alvejar de roupa branca, todo um luxo
-secreto e raro de rendas e _baptistes_, d'um brilho de neve, macio pelo
-uso e cheirando bem. Sobre uma cadeira alastrava-se um monte de meias de
-seda, de todos os tons, unidas, bordadas, abertas em renda e to leves,
-que uma aragem as faria voar; e, no cho corria uma fila de sapatinhos
-de verniz, todos do mesmo estylo, longos, com o taco baixo e grandes
-fitas de laar. A um canto estava um cesto acolchoado de seda cr de
-rosa, onde de certo viajara a cadellinha.
-
-Mas o olhar de Carlos prendia-se sobre tudo a um soph onde ficar
-estendido, com as duas mangas abertas, maneira de dous braos que se
-offerecem, o casaco branco de velludo lavrado de Genova com que elle a
-vira, a primeira vez, apear-se porta do hotel. O forro, de setim
-branco, no tinha o menor acolxoado, to perfeito devia ser o corpo que
-vestia: e assim, deitado sobre o soph, n'essa attitude viva, n'um
-desabotoado de semi-nudez, adiantando em vago relevo o cheio de dois
-seios, com os braos alargando-se, dando-se todos, aquelle estofo
-parecia exhalar um calor humano, e punha ali a frma d'um corpo amoroso,
-desfallecendo n'um silencio d'alcova. Carlos sentiu bater o corao. Um
-perfume indefinido e forte de jasmim, de marechala, de tanglewood,
-elevava-se de todas aquellas cousas intimas, passava-lhe pela face com
-um bafo suave de caricia...
-
-Ento desviou os olhos, approximou-se da janella, que tinha por
-perspectiva a fachada enxovalhada do hotel _Shneid_. Quando se voltou,
-miss Sarah estava diante d'elle, vestida de preto e muito crada: era
-uma pessoa sympathica, redondinha e pequena, com um ar de rola farta, os
-olhos sentimentaes, e uma testa de virgem sob bands lisos e louros.
-Balbuciava umas palavras em francez, em que Carlos s percebeu
-_docteur_.
-
---_Yes, I am the doctor_, disse elle.
-
-A face da boa ingleza illuminou-se. Oh! era to bom, ter emfim com quem
-se entender! A menina estava muito melhor! Oh, o doutor vinha livral-a
-d'uma responsabilidade!...
-
-Abriu o reposteiro, fl-o penetrar n'um quarto com as janellas todas
-cerradas, onde elle apenas distinguiu a frma d'um grande leito e o
-brilho de cristaes n'um toucador. Perguntou para que eram aquellas
-trevas?
-
-Miss Sarah pensara que a escurido faria bem menina, e a adormeceria.
-E trouxera-a ali para o quarto da mam, por ser mais largo e mais
-arejado.
-
-Carlos fez abrir as janellas: e, quando a grande luz entrou, ao avistar
-a pequena no leito, sob os cortinados abertos, no conteve a sua
-admirao.
-
---Que linda creana!
-
-E ficou um instante a contemplal-a, n'um enlevo d'artista, pensando que
-os brancos mais mimosos, mais ricos, sob a mais sabia combinao de luz,
-no egualariam a pallidez eburnea d'aquella pelle maravilhosa: e esta
-adoravel brancura era ainda realada por um cabello negro, tenebroso,
-forte, que reluzia sob a rede. Os seus por dois olhos grandes, d'um azul
-profundo e liquido, pareciam n'esse instante maiores, muito serios, e
-muito abertos para elle.
-
-Estava encostada a um grande travesseiro, toda quieta, com o susto ainda
-da dr, perdida n'aquelle vasto leito, e apertando nos braos uma enorme
-boneca paramentada, de pello riado, d'olhos tambem azues e arregalados
-tambem.
-
-Carlos tomou-lhe a mosinha e beijou-lh'a,--perguntando se a boneca
-tambem estava doente.
-
---Cri-cri tambem teve dr, respondeu ella muito sria, sem tirar d'elle
-os seus magnificos olhos. Eu j no tenho...
-
-Estava com effeito fresca como uma flor, com a lingoasinha muito rosada,
-e a sua vontade j de lunchar.
-
-Carlos tranquillisou miss Sarah. Oh, ella via bem que mademoiselle
-estava boa. O que a assustara fra achar-se ali s, sem a mam, com
-aquella responsabilidade. Por isso a tinha deitado... Oh se fosse uma
-creana ingleza saa com ella para o ar... Mas estas meninas
-estrangeiras, to debeis, to delicadas... E o labiosinho gordo da
-ingleza trahia um desdem compassivo por estas raas inferiores e
-deterioradas.
-
---Mas a mam no doente?
-
-Oh, no! Madame era muito forte. O senhor, esse sim, parecia mais
-fraco...
-
---E, como se chama a minha querida amiga? perguntou Carlos, sentado
-cabeceira do leito.
-
---Esta Cri-cri, disse a pequena, apresentando outra vez a boneca. Eu
-chamo-me Rosa, mas o pap diz que eu que sou Rosicler.
-
---Rosicler? realmente? disse Carlos sorrindo d'aquelle nome de livro de
-cavallaria, rescendente a torneios, e a bosques de fadas.
-
-Ento, como colhendo simplesmente informaes de medico, perguntou a
-miss Sarah se a menina sentira a mudana de clima. Habitavam
-ordinariamente Paris, no verdade?
-
-Sim, viviam em Paris no inverno, no parque Monceaux; de vero iam para
-uma quinta da Touraine ao p mesmo de Tours, onde ficavam at ao comeo
-da caa; e iam sempre passar um mez a Dieppe. Pelo menos fora assim, nos
-ultimos tres annos, desde que ella estava com Madame.
-
-Emquanto a ingleza fallava, Rosa, com a sua boneca nos braos, no
-cessava de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Elle, de vez em
-quando sorria-lhe, ou acariciava-lhe a mosinha. Os olhos da me eram
-negros: os do pae d'azeviche e pequeninos: de quem herdara ella aquellas
-maravilhosas pupillas d'um azul to rico, liquido e doce.
-
-Mas a sua visita de medico findara, ergueu-se para receitar um calmante.
-Emquanto a ingleza preparava muito cuidadosamente o papel, e
-experimentava a pena, elle examinou um momento o quarto. N'aquella
-installao banal d'hotel, certos retoques d'uma elegancia delicada
-revelavam a mulher de gosto e de luxo: sobre a commoda e sobre a meza
-havia grandes ramos de flores: os travesseiros e os lenoes no eram do
-hotel, mas proprios, de bretanha fina, com rendas e largos monogrammas
-bordados a duas cres. Na poltrona que ella usava uma cachemira de
-Tarnah disfarava o medonho reps desbotado.
-
-Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a meza alguns
-livros de encadernaes ricas, romances e poetas inglezes: mas destoava
-ali, estranhamente, uma brochura singular--o _Manual de interpretao
-dos sonhos_. E ao lado, em cima do toucador, entre os marfins das
-escovas, os cristaes dos frascos, as tartarugas finas, havia outro
-objecto estravagante, uma enorme caixa de p de arroz, toda de prata
-dourada, com uma magnifica safira engastada na tampa dentro d'um circulo
-de brilhantes miudos, uma joia exagerada de cocotte, pondo ali uma
-dissonancia audaz de explendor brutal.
-
-Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler: ella
-estendeu-lhe logo a boquinha fresca como um boto de rosa; elle no
-ousou beijal-a assim n'aquelle grande leito da me, e tocou-lhe apenas
-na testa.
-
---Quando vens tu outra vez? perguntou ella agarrando-o pela manga do
-casaco.
-
---No necessario vir outra vez, minha querida. Tu ests boa, e Cri-cri
-tambem.
-
---Mas eu quero o meu lunch... Dize a Sarah que eu posso tomar o meu
-lunch... E Cri-cri tambem.
-
---Sim j podeis ambas petiscar alguma cousa... Fez as suas
-recommendaes mestra, e depois, apertando a mosinha da pequena:
-
---E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que s Rosicler...
-
-E no quiz ser menos amavel com a boneca, deu-lhe tambem um
-_shake-hands_.
-
-Isto pareceu captivar Rosa ainda mais. A ingleza, ao lado, sorria, com
-duas covinhas na face.
-
-No era necessario, lembrou Carlos, conservar a creana na cama, nem
-tortural-a com cautellas exageradas...
-
---Oh, n, sir!
-
-E se a dr reapparecesse, ainda que ligeira, mandal-o logo chamar...
-
---Oh yes, sir!
-
-E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse.
-
---Oh thank you, sir!
-
-Ao voltar sala, o Damaso saltou do soph, onde percorria um jornal,
-como uma fra a quem se abre a jaula.
-
---Credo, imaginei que ias l ficar toda a vida! Que estivestes tu a
-fazer? Irra, que estopada!
-
-Carlos, calando as luvas, sorria, sem responder.
-
---Ento, cousa de cuidado?
-
---No tem nada. Tem uns lindos olhos... E um nome extraordinario.
-
---Ah, Rosicler, murmurou Damaso, agarrando o chapo com mau modo; muito
-ridiculo, no verdade?
-
-A creada franceza appareceu outra vez a abrir a porta da
-sala,--dardejando para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Damaso
-recommendou-lhe muito que dissesse aos senhores, que elle tinha vindo
-logo com o medico; e que havia de voltar noite para lhes fazer uma
-surpreza, e para saber se tinham gostado de Queluz--_si ils avaient aim
-Queluz_.
-
-Depois, ao passar diante do escriptorio, metteu a cabea, para dizer ao
-guarda-livros, que a menina estava boa, tudo ficava em socego.
-
-O guarda livros sorrio, e cortejou.
-
---Queres que te v levar a casa? perguntou elle a Carlos, em baixo,
-abrindo a porta do coup, ainda com um resto de mau humor.
-
-Carlos preferia ir a p.
-
---E acompanha-me tu um bocado, Damaso, tu agora no tens que fazer.
-
-Damaso hesitou, olhando o cu aspero, as nuvens pesadas de chuva. Mas
-Carlos tomara-lhe o brao, arrastava-o, amavel e gracejando.
-
---Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero o _romance_... Tu
-disseste que tinhas um _romance_. No te largo. s meu. Venha o
-_romance_. Eu sei que os tens sempre bons. Quero o _romance_!
-
-Pouco a pouco Damaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe de
-satisfao.
-
---Vae-se fazendo pela vida, disse elle a estoirar de jactancia.
-
---Vocs estiveram em Cintra?...
-
---Estivemos, mas isso no foi divertido... O romance outro!
-
-Desprendeu-se do brao de Carlos, fez um signal ao cocheiro para que os
-seguisse, e regalou-se pelo Aterro fra de contar o seu _romance_.
-
---A coisa esta... O marido d'aqui a dias vai para o Brazil, tem l
-negocios. E ella fica! Fica com as criadas e com a pequena, espera,
-dois ou tres mezes. Diz que j andaram at a vr casas mobiladas, que
-ella no quer estar no hotel... E eu, intimo, a unica pessoa que ella
-conhece, mettido de dentro... Hein, percebes agora?
-
---Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe o charuto, com um
-gesto nervoso. E de certo, a pobre creatura j est fascinada! J lhe
-dste, como costumas, um beijo ardente entre duas portas! J a
-desgraada se surtiu da caixa de phosphoros, para mais tarde quando a
-abandonares!
-
-Damaso enfiava.
-
---No venhas j tu com o espirito e com a chufasinha... No lhe dei
-beijos que ainda no houve occasio... Mas, o que te posso dizer, que
-tenho mulher!
-
---Pois j era tempo, exclamou Carlos, sem conter um gesto brusco, e
-atirando-lhe as palavras como chicotadas. J era tempo! Andavas ahi
-mettido com umas creaturas ignobeis, uma ral de lupanar. Emfim, agora
-ha progresso. E eu gosto que os meus amigos vivam n'uma ordem de
-sentimentos decentes... Mas v l... No sejas o costumado Damaso! No
-te vs pr a alardear isso pelo Gremio e pela casa Havaneza!
-
-D'esta vez Damaso estacou, suffocado, sem comprehender aquelle modo,
-semelhante azedume. E terminou por balbuciar, livido:
-
---Tu podes entender muito de medicina e de bric-a-brac, mas l a
-respeito de mulheres, e da maneira de fazer as cousas, no me ds
-lices...
-
-Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E de repente,
-sentio-o to innofensivo, to insignificante, com o seu ar bochechudo, e
-molle, que se envergonhou do surdo despeito que o atravessara, tomou-lhe
-o brao, teve duas palavras amaveis.
-
---Damaso, tu no me comprehendeste. Eu no te quiz fazer zangar...
-para teu bem... O que eu receava que tu, imprudente, arrebatado,
-apaixonado, fosses perder essa bella aventura por uma indiscrio...
-
-E o outro ficou logo contente, sorrindo j, abandonando-se ao brao do
-seu amigo, certo que o desejo do Maia era que elle tivesse uma amante
-_chic_. No, elle no se tinha zangado, nunca se zangava com os
-intimos... Comprehendia bem que o que Carlos dizia era por amisade...
-
---Mas tu, s vezes, tens essa cousa que te pegou o Ega, gostas do teu
-bocadinho de espirito...
-
-E ento tranquillisou-o. No, por imprudencia no havia elle de perder
-a cousa. Aquillo ia com todas as regras. L n'isso sobrava-lhe
-experiencia. A Melanie j a tinha na mo; j lhe dera duas libras.
-
---Isto de mais a mais uma cousa muito seria... Ella conhece meu tio,
-intima d'elle desde pequena, tratam-se at por _tu_...
-
---Que tio?
-
---Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimares. Mr. de Guimaran, o que
-vive em Paris, o amigo de Gambetta...
-
---Ah sim, o communista...
-
---Qual communista, at tem carruagem!
-
-Subitamente lembrou-lhe outra cousa, um ponto de toilette em que queria
-consultar Carlos.
-
---manh vou jantar com elles, e vo tambem dois brazileiros, amigos
-d'elle, que chegaram ahi ha dias, e que partem pelo mesmo paquete... Um
- _chic_, da Legao do Brazil em Londres. De maneira que jantar de
-ceremonia. O Castro Gomes no me disse nada; mas que te parece, achas
-que v de casaca?...
-
---Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapella.
-
-O Damaso olhou-o, pensativo.
-
---A mim tinha-me lembrado o habito de Christo.
-
---O habito de Christo... Sim, pe o habito de Christo ao pescoo, e pe
-a rosa na botoeira.
-
---Ser talvez de mais, Carlos!
-
---No, fica bem ao teu typo.
-
-Damaso fizera parar o coup que os tinha seguido a passo. E no ultimo
-aperto de mo a Carlos:
-
---Tu sempre vaes noite, aos Cohens, de domin? O meu fato de selvagem
-ficou divino. Eu venho mostral-o noite brazileira... Entro no Hotel
-embrulhado n'um capote, e appareo-lhes de repente na sala, de selvagem,
-de Nelusko, a cantar:
-
-
- Alerta, marinari,
- Il vento cangia...
-
-
-_Chic_ a valer!... _Good bye!_
-
-
-s dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. Fra, a noite
-fizera-se tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas d'agoa, que a cada
-instante batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinete de toilette,
-errava no ar tepido um vago aroma de sabonete e de bom charuto. Sobre
-duas commodas de pau preto, marchetadas a marfim, duas serpentinas de
-velho bronze erguiam os seus molhos de vellas accezas, pondo largos
-reflexos doces sobre a seda castanha das paredes. Ao lado do alto
-espelho-psych alastrava-se, em cima d'uma poltrona, o domin de j
-setim negro com um grande lao azul-claro.
-
-Baptista, com a casaca na mo, esperava que Carlos acabasse a chavena de
-ch preto que elle estava bebendo aos golos, de p, em mangas de camisa,
-e de gravata branca.
-
-De repente, o timbre electrico da porta particular reteniu, apressado e
-violento.
-
---Talvez outra surpreza, murmurou Carlos, hoje o dia das surprezas...
-
-Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir--quando em baixo vibrou
-outro repique brutal, d'uma impaciencia phrenetica.
-
-Ento Carlos, curioso, sahiu ante-camara: e ahi, meia luz das
-lampadas Carcel, ainda quebrantada pelo tom dos velludos cr de cereja,
-viu, ao abrir-se a porta por onde entrou um sopro aspero da noite,
-apparecer vivamente uma frma esguia e vermelha, com um confuso tinir de
-ferro. Depois, pela escada acima, duas pennas negras de gallo ondearam,
-um manto escarlate esvoaou--e o Ega estava diante d'elle,
-caracterisado, vestido de Mephistopheles!
-
-Carlos apenas poude dizer _bravo_--o aspecto do Ega emmudeceu-o. Apezar
-dos toques de caracterisao que quasi o mascaravam, sobrancelhas de
-diabo, guias de bigode ferozmente exageradas--sentia-se bem a afflico
-em que vinha, com os olhos injectados, perdido, n'uma terrivel pallidez.
-Fez um gesto a Carlos, arremessou-se pelo gabinete dentro. Baptista,
-logo, discretamente, retirou-se cerrando o reposteiro.
-
-Estavam ss. Ento Ega, apertando desesperadamente as mos, n'uma voz
-rouca e d'agonia:
-
---Tu sabes o que me succedeu, Carlos?
-
-Mas no poude dizer mais, suffocado, tremendo todo; e diante d'elle,
-devorando-o com os olhos, Carlos tremia tambem, enfiado.
-
---Cheguei a casa dos Cohens, continuou Ega por fim com esforo e quasi
-balbuciando, mais cedo, como tinhamos combinado. Ao entrar na sala, j
-estavam duas ou tres pessoas... Elle vem direito a mim, e diz-me: Voc,
-seu infame, ponha-se j no meio da rua... J no meio da rua seno,
-diante d'esta gente, corro-o a pontaps! E eu, Carlos...
-
-Mas a colera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve um momento mordendo os
-beios, recalcando os soluos, com os olhos reluzentes de lagrimas.
-
-Quando as palavras voltaram, foi uma exploso selvagem:
-
---Quero-me batter em duello com aquelle malvado, a cinco passos,
-metter-lhe uma bala no corao!
-
-Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da garganta; e, batendo
-furiosamente o p, esmurrando o ar, berrava, sem cessar, como cevando-se
-na estridencia da propria voz.
-
---Quero matal-o! Quero matal-o! Quero matal-o!
-
-Depois, allucinado, sem ver Carlos, rompeu a passear desabridamente pelo
-quarto, s patadas, com o manto deitado para traz, a espada mal
-afivelada batendo-lhe as canellas escarlates.
-
---Ento descobriu tudo, murmurou Carlos.
-
---Est claro que descobriu tudo! exclamou o Ega, no seu passear
-arrebatado, atirando os braos ao ar. Como descobriu, no sei. Sei isto,
-j no pouco. Poz-me fra!... Hei-de-lhe metter uma bala no corpo!
-Pela alma de meu pae, hei-de-lhe varar o corao!... Quero que vs l
-logo pela manh com o Craft... E as condies so estas: pistolla, a
-quinze passos!
-
-Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chavena de ch. Depois
-disse muito simplesmente:
-
---Meu querido Ega, tu no podes mandar desafiar o Cohen.
-
-O outro estacou de repello, atirando pelos olhos dois relampagos
-d'ira--a que as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas pennas de gallo
-ondeando na gorra, davam uma ferocidade theatral e comica.
-
---No o posso mandar desafiar?
-
---No.
-
---Ento pe-me fra de casa...
-
---Estava no seu direito.
-
---No seu direito!... Diante de toda a gente?...
-
---E tu, no eras amante da mulher diante de toda a gente?...
-
-O Ega ficou a olhar um momento para Carlos, como atordoado. Depois fez
-um grande gesto:
-
---No se trata da mulher!... no se fallou da mulher!... uma questo
-d'honra para mim, quero mandal-o desafiar, quero matal-o...
-
-Carlos encolheu os hombros.
-
---Tu no ests em ti. Tens s uma coisa a fazer; ficar manh em casa,
-a vr se elle te manda desafiar a ti...
-
---O que, o Cohen! exclamou Ega. um covarde, um canalha!... Ou o
-mato, ou lhe rasgo a cara com um chicote. Desafiar-me! Olha quem... Tu
-ests doido...
-
-E recomeou o seu passear desabalado do espelho para a janella,
-soprando, rilhando os dentes, com repelles para traz ao manto que
-faziam oscillar, nas serpentinas, as chammas altas das vellas.
-
-Carlos no dizia nada, de p junto da meza, enchendo lentamente de novo
-a sua chavena. Tudo aquillo comeava a parecer-lhe pouco serio, pouco
-digno, as ameaas de pontaps do marido, os furores melodramaticos do
-Ega:--e mesmo no podia deixar de sorrir diante d'aquelle Mephistopheles
-esgouroviado, espalhando pelo quarto o brilho escarlate do seu manto de
-velludo, e a fallar furiosamente d'honra e de morte, com sobrancelhas
-postias, e escarcella de coiro cinta.
-
---Vamos fallar ao Craft! exclamou de repente Ega, parando, com esta
-brusca resoluo. Quero vr o que diz o Craft. Tenho l em baixo uma
-tipoia; estamos l n'um instante!
-
---Ir agora quinta, aos Olivaes? disse Carlos, olhando o relogio.
-
---Se s meu amigo, Carlos!...
-
-Carlos immediatamente, sem chamar o Baptista, acabou de se vestir.
-
-Ega, no entanto, ia preparando uma chavena de ch, deitando-lhe rhum,
-ainda to nervoso, que mal podia segurar a garrafa. Depois, com um
-grande suspiro, accendeu uma cigarrete. Carlos entrra na alcova de
-banho, ao lado, allumiada por um forte jacto de gaz que assobiava. Fra,
-a chuva continuava seguida e monotona, as goteiras escoavam-se no cho
-molle do jardim.
-
---Achas que a tipoia aguentar? perguntou Carlos de dentro.
-
---Aguenta, o _Canhto_, disse Ega.
-
-Agora reparara no domin, fra erguel-o, examinava-lhe o setim rico, o
-bello lao azul claro. Depois, tendo encontrado diante de si o grande
-espelho-psych, entalou o monoculo no olho, recuou um passo,
-contemplou-se d'alto a baixo;--e terminou por pousar uma das mos na
-cinta, appoiar a outra, galhardamente, sobre os copos da espada.
-
---Eu no estava mal, oh Carlos, hein?
-
---Estavas explendido, respondeu o outro de dentro da alcova. Foi pena
-estragar-se tudo... Como estava ella?
-
---Devia estar de Margarida.
-
---E elle?
-
---A besta? De beduino.
-
-E continuou ao espelho, gosando a sua figura esguia, as pennas da gorra,
-os sapatos bicudos de velludo, e a ponta flamante da espada erguendo o
-manto por traz, n'uma prega fidalga.
-
---Mas ento, disse Carlos, apparecendo a enxugar as mos, tu no fazes
-ida do que se passou, o que elle diria mulher, o escandalo...
-
---No fao ida nenhuma, disse o Ega, agora mais sereno. Quando entrei
-na primeira sala estava elle, de beduino; estava um outro sujeito
-d'urso, e uma senhora no sei de que, de Tyrollesa creio eu... Elle veiu
-para mim, e disse-me aquillo: ponha-se fra! No sei mais nada... Nem
-posso perceber... O canalha, se descobriu, naturalmente, para no
-estragar a festa, no disse nada a Rachel... Depois que ellas so!
-
-Ergueu as mos para o ceu, murmurou:
-
--- horroroso!
-
-Deu ainda uma volta pelo quarto, e depois n'uma outra voz, franzindo a
-face:
-
---No sei que diabo aquelle Godefroy me deu para collar as sobrancelhas,
-que me picam que tem diabo!
-
---Tira-as...
-
-Deante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu semblante feroz de
-Santanaz. Mas arrancou-as por fim--e a gorra emplumada, muito justa, que
-lhe escaldava a cabea. Ento Carlos lembrou-lhe que, para ir a casa do
-Craft, se desembaraasse do manto e da espada, se agasalhasse n'um
-paletot d'elle. Ega deu ainda um longo e mudo olhar ao seu flamejante
-traje infernal, e com um profundo suspiro comeou a desafivelar o talim.
-Mas o paletot era muito largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra
-nas mangas. Depois Carlos metteu-lhe um bonet escossez na cabea.--E
-assim arranjado, com as canellas vermelhas de diabo apparecendo sob o
-paletot, a gargantilha escarlate Carlos IX emergindo da gola, a velha
-casqueta de viagem na nuca, o pobre Ega tinha o ar lamentavel d'um
-Satanaz pelintra, agasalhado pela caridade d'um gentleman, e usando-lhe
-o fato velho.
-
-Baptista allumiou, grave e discreto. Ega ao passar por elle, murmurou:
-
---Isto vae mal, Baptista, isto vae mal...
-
-O velho creado teve um movimento triste d'hombros, como significando que
-nada no mundo ia bem.
-
-Na rua negra, a parelha quieta dobrava a cabea sob a chuva. O
-_Canhoto_, ao ouvir fallar d'uma gorgeta de libra, fez um grande
-espalhafato, rompeu s chicotadas; e a velha traquitana l partiu a
-galope, a escorrer d'agua, atroando a calada.
-
-Por vezes um coup particular crusava-os, os casacos de gutta-perche dos
-criados branquejavam luz das lanternas. Ento a ida da festa que
-devia agora resplandecer; Margarida ignorando tudo, walsando nos braos
-d'outros, anciosa, espera d'elle; a ceia depois, o champagne, as
-cousas brilhantes que elle teria dito--todas estas delicias perdidas se
-vinham cravar no corao do pobre Ega, arrancavam-lhe pragas surdas,
-Carlos fumava silenciosamente, com o pensamento no Hotel Central.
-
-Depois de Santa Apolonia a estrada comeou, infindavel, desabrigada,
-batida pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra, cada um para o
-seu canto, arripiados na friagem que entrava pelas gretas da tipoia.
-Carlos no cessava de vr o casaco branco de velludo, com as duas mangas
-abertas, como dois braos que se offereciam...
-
-Passava da uma hora quando chegaram quinta, a sineta do porto, aos
-puxes do cocheiro encharcado, retumbou lugubre n'aquelle silencio
-escuro de aldeia. Um co ladrou furiosamente: outros latidos ao longe
-responderam; e ainda esperaram muito, antes que um creado, somnolento e
-resmungo, apparecesse com uma lanterna. Uma rua d'acacias conduzia
-casa: o Ega praguejava, enterrando os seus bellos sapatos de velludo no
-cho lamacento.
-
-Craft, surprehendido com aquelle tumulto, veiu-lhes ao encontro no
-corredor, de robe-de-chambre, e a _Revista dos Dois Mundos_ debaixo do
-brao. Percebeu logo que havia desastre. Levou-os em silencio para o seu
-gabinete onde um bom lume de carvo na chamin aquecia, alegrava o
-aposento todo estofado de cretones claros. Ambos foram direitos ao lume.
-
-Ega rompera logo a contar o seu caso--emquanto Craft, sem espanto nem
-exclamaes, ia preparando methodicamente sobre a meza tres grogs de
-cognac e limo. Carlos, sentado ao p do fogo, aquecia os ps: e Craft
-veiu acabar de ouvir o Ega, accommodando-se tambem na sua poltrona, do
-outro lado da chamin, com o seu cachimbo na bocca.
-
---Emfim, exclamou Ega, de p, cruzando os braos, que me aconselhas tu
-agora?
-
---Tens a fazer s isto, disse Craft: esperar manh em casa que elle te
-mande os seus padrinhos... Que tenho a certeza que no manda... E
-depois, se vos baterdes, deixar-te ferir ou matar.
-
---Perfeitamente o que eu disse, murmurou Carlos, provando o seu grog.
-
-Ega olhou-os a ambos, successivamente, petrificado. E logo, n'um fluxo
-de palavras desordenadas, queixou-se de no ter amigos. Ali estava,
-n'aquella crise, a maior da sua vida: e em logar de encontrar, nos seus
-camaradas de infancia e de Coimbra, apoio, solidariedade, lealdade _
-tort et travers_, abandonavam-n'o, pareciam querer enterral-o, e
-expol-o a irrises maiores... Ia-se commovendo; os olhos
-vermelhejavam-lhe sob as lagrimas. E quando algum d'elles ia
-interrompel-o, n'uma palavra de senso, batia o p, persistia na sua
-teima--um desafio, matar o Cohen, vingar-se! Tinha sido insultado. No
-existia outra cousa. No se tinha fallado na mulher. Era elle que devia
-primeiro mandar padrinhos, lavar a sua honra. Havia pessoas na sala,
-quando o outro o insultou. Havia um urso, e uma tyrolesa... E emquanto a
-deixar-se varar por uma bala, no! Tinha mais direito a viver que o
-Cohen, que era um burguez, e um agiota... E elle era um homem de estudo
-e de arte! Tinha na cabea livros, idas, cousas grandes. Devia-se ao
-paiz, civilisao!... Se fosse ao campo, era para fazer a sua
-pontaria, e abater o Cohen, ali, como uma besta immunda...
-
---Mas o que , que no tenho amigos! gritou elle exhausto por fim,
-cahindo para o canto d'um soph.
-
-Craft bebia em silencio, e aos golos, o seu cognac.
-
-Foi Carlos que se ergueu, serio e aspero. Elle no tinha direito de
-duvidar da sua amisade. Quando lhe tinha ella faltado? Mas era
-necessario no ser pueril; nem theatral... A questo estava simplesmente
-em que o Cohen o surprehendera, amando-lhe a mulher. Logo, podia
-matal-o, podia entregal-o aos tribunaes, podia escavacal-o na sala a
-pontaps...
-
---Ou peor, interrompeu Craft. Mandar-te a senhora, com este bilhetinho:
-Guarde-a.
-
---Ou isso! continuava Carlos. No, senhor: limita-se a prohibir-te a
-entrada em casa, um pouco asperamente, sim, mas indicando que, depois de
-ter feito isto, no quer nada mais violento, nem mais dramatico. Teve
-portanto um acto de moderao. E tu queres mandal-o desafiar por
-isso?...
-
-Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pela sala, sem
-paletot agora, esguedelhado, parecendo mais phantastico n'aquelle
-simples gibo escarlate, com os sapatos de velludo enlameados, as longas
-pernas de cegonha cobertas de malha de seda vermelha. E teimava que se
-no tratava d'isso! No, no se tratava da mulher! A questo era
-outra...
-
-Carlos ento zangou-se.
-
---Para que diabo te expulsou elle de casa ento? No disparates, homem!
-Ns estamos-te a dizer o que faz um homem de senso. E triste, que te
-custe tanto a perceber o que manda o senso. Trahiste um amigo teu...
-Nada de equivocos! tu declaravas bem alto a tua amisade pelo Cohen.
-Trahistel-o, tens de acceitar a lei: se elle te quizer matar tens de
-morrer. Se elle no quizer fazer nada, tens de ficar de braos cruzados.
-Se elle te quizer chamar ahi por essas ruas um infame, tens de baixar a
-cabea, e reconhecer-te infame...
-
---Ento tenho de engolir a affronta?
-
-Os dois amigos explicaram-lhe que aquelle fato de Satanaz lhe perturbava
-a lucidez do criterio mundano--e que chegava a ser torpe fallar elle,
-Ega, de _affronta_.
-
-Ega, outra vez acabrunhado sobre o soph, conservou um momento a cabea
-enterrada nas mos.
-
---Eu j nem sei, disse elle por fim. Vocs devem ter raso... Eu
-estou-me a sentir idiota ... Ento, vamos, que hei de eu fazer?
-
---Vocs teem a tipoia espera? perguntou tranquillamente Craft.
-
-Carlos mandara desapparelhar, recolher o gado esfalfado.
-
---Excellente! Ento, meu caro Ega, tens outra cousa a fazer, antes de
-morrer manh talvez, cear esta noite. Eu ia ceiar, e por motivos
-longos d'explicar, ha n'esta casa um peru frio. E ha-de haver uma
-garrafa de Bourgonhe...
-
-D'ahi a pouco estavam mesa--n'aquella bella sala de jantar do Craft,
-que encantava sempre Carlos, com as suas tapearias ovaes representando
-bocados solitarios d'arvoredo, as severas faenas da Persia, e a sua
-original chamin flanqueada por duas figuras negras de Nubios com olhos
-rutilantes de crystal. Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava j
-o per, emquanto Craft, desarrolhava, com venerao, duas garrafas do
-seu velho Chambertin, para reconfortar Mephistopheles.
-
-Mas Mephistopheles, sombrio e com os olhos avermelhados, repelliu o
-prato, desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o
-Chambertin.
-
---Pois eu, dizia Craft empunhando o talher, quando vocs chegaram,
-estava a lr um artigo interessante sobre a decadencia do protestantismo
-em Inglaterra...
-
---Que aquillo, alm, n'aquella lata? perguntou Ega, com uma voz
-moribunda.
-
-Um _pt de foie-gras_. Mephistopheles escolheu com tedio uma trufa.
-
---Bem bom, este teu Chambertin, suspirou elle.
-
---Anda come e bebe com franqueza, gritou-lhe Craft. No te romantises.
-Tu o que tens fome. Todas as tuas idas esta noite se ressentem da
-debilidade!
-
-Ento Ega confessou que devia estar fraco. Com aquella excitao do seu
-trage de Satanaz nem jantra, contando ceiar bem em casa do outro...
-Sim, com effeito, tinha appetite! Excellente _foie-gras_...
-
-E d'ahi a pouco devorava: foram talhadas de per, uma poro immensa de
-lingua d'Oxford, duas vezes presunto d'York, todas aquellas boas cousas
-inglezas que havia sempre em casa do Craft. E elle s bebeu quasi toda
-uma garrafa de Chambertin.
-
-O escudeiro fra preparar o caf: e, no entanto, ia-se discutindo, em
-todas as hypotheses, a attitude provavel do Cohen com a mulher. Que
-faria elle? Talvez lhe perdoasse. Ega affirmava que no: era vaidoso, e
-de rancores longos! N'um convento tambem no a fechava, sendo judia...
-
---Talvez a mate, disse Craft, com toda a seriedade.
-
-Ega, j com os olhos brilhantes do Bourgogne, declarou tragicamente que
-elle ento entrava n'um mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em
-que mosteiro queria elle entrar? Nenhum era congenere com o Ega! Para
-dominicano era muito magro, para trapista muito lascivo, muito palrador
-para jesuita, e para benedictino muito ignorante... Era necessario crear
-uma ordem para elle! Craft lembrou a _Santa Blague_!
-
---Vocs no teem corao, exclamou Ega, enchendo outro grande copo.
-Vocs no sabem, eu adorava aquella mulher!
-
-Ento largou a fallar de Rachel. E teve alli, de certo, os momentos
-melhores de toda aquella paixo,--porque poude, sem escrupulo, fazer
-reluzir a sua aureola de amante, banhar-se no mar de leite das
-confidencias vaidosas. Comeou por contar o encontro com ella na
-Foz--emquanto Craft, sem perder uma palavra, como quem se instrue, se
-erguera a abrir uma garrafa de Champagne. Disse depois os passeios na
-Cantareira; as cartinhas ainda hesitantes e platonicas, trocadas entre
-folhas de livros emprestados, em que ella se assignava _Violetta de
-Parma_; o primeiro beijo, o melhor, surripiado entre duas portas,
-emquanto o marido correra acima a buscar-lhe charutos especiaes; os
-rendez-vous no Porto, no Cemiterio do Repouso, as presses ardentes de
-mos sombra dos cyprestes, e os planos de voluptuosidade combinados
-entre as lapides funebres...
-
---Muito curioso! dizia o Craft.
-
-Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o caf. Emquanto se
-enchiam as chavenas, e Craft fra buscar uma caixa de charutos, elle
-acabou a garrafa de Champagne, j pallido, com o nariz afilado.
-
-O criado sahiu, correndo o reposteiro de tapearia: e logo Ega, com o
-calice de cognac ao lado, recomeou as confidencias, contou a volta a
-Lisboa, a Villa Balzac, as manhs deliciosas passadas l com ella no
-calor d'um ninho d'amor...
-
-Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enterrando um
-momento a cabea entre os punhos. Depois l vinha outro detalhe, os
-nomes lubricos que ella lhe dava, uma certa coberta de seda preta onde
-ella brilhava como um jaspe... Duas lagrimas embaciaram-lhe os olhos,
-jurou que queria morrer!
-
---Se vocs soubessem que corpo de mulher! gritou elle de repente. Oh
-meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocs um peito...
-
---No queremos saber, disse Carlos. Cala-te, tu ests bebado, miseravel!
-
-Ega ergueu-se, retezando a perna, arrimado de lado meza.
-
-Bebado! Elle? Ora essa!... Era cousa que no podia, era empiteirar-se.
-Tinha feito o possivel, bebido tudo, at agua raz. Nunca! No podia...
-
---Olha, vou pr aquella garrafa boca, tu vers. E fico frio, fico
-impassivel. A discutir philosophia... Queres que te diga o que penso de
-Darwin? uma besta... Ora ahi tens. D c a garrafa.
-
-Mas Craft recusou-lh'a; e, um momento Ega ficou oscillando, a olhar para
-elle, com a face livida.
-
---Ou me ds a garrafa... ou me ds a garrafa, ou te metto uma bala no
-corao... No, nem vales a bala... Vou-te dar uma bolacha!
-
-De repente os olhos cerraram-se-lhe, abatteu-se sobre a cadeira, d'ahi
-sobre o cho, como um fardo.
-
---Terra! disse tranquillamente Craft.
-
-Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam Joo da Ega. E emquanto
-o levavam para o quarto dos hospedes e lhe despiam o fato de Satanaz,
-no cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas mos de Carlos,
-balbuciando:
-
---Rachelsinha!... Racaqu, minha Raquesinha! gostas do teu
-bibichinho?...
-
-Quando Carlos partiu na tipoia para Lisboa, no chovia, um vento frio ia
-varrendo o ceu, j clareava a alvorada.
-
-Ao outro dia, s dez horas, Carlos voltou aos Olivaes. Achou Craft
-dormindo, e subiu ao quarto do Ega. As janellas tinham ficado abertas,
-um largo raio de sol dourava o leito; e elle ressonava ainda, no meio
-d'aquella aureola, deitado de lado, com os joelhos contra o estomago, o
-nariz dentro dos lenoes.
-
-Quando Carlos o sacudio, o pobre John abriu um olho triste, e
-bruscamente ergueu-se sobre o cotovello, espantado para o quarto, para
-os cortinados de damasco verde, para um retrato de dama empoada que lhe
-sorria de dentro da sua moldura dourada. De certo as memorias da vespera
-o assaltaram, porque se enterrou para baixo, com os lenoes at ao
-queixo; e a sua face esverdeada, envelhecida, exprimiu a desconsolao
-de deixar aquelles fofos colxes, a paz confortavel da quinta--para ir
-affrontar a Lisboa toda a sorte de cousas amargas.
-
---Est frio l fra? perguntou elle melancholicamente.
-
---No, est um dia adoravel. Mas levanta-te, depressa! Se l fr alguem
-da parte do Cohen, podem imaginar que fugiste...
-
-Ega deu immediatamente um pulo da cama, e atordoado, esguedelhado,
-procurava a roupa, com as canellas nuas, tropeando contra os moveis. S
-achou o gibo de Satanaz. Chamaram o criado, que trouxe umas calas de
-Craft. Ega enfiou-as pressa: e sem se lavar, com a barba por fazer, a
-gola do paletot erguida, enterrou emfim na cabea o bonet escossez,
-voltou-se para Carlos, disse com um ar tragico:
-
---Vamos a isso!
-
-Craft, que se erguera, foi acompanhal-os ao porto, onde esperava o
-coup de Carlos. Na alameda de acacias, to tenebrosa na vespera sob a
-chuva, cantavam agora os passaros. A quinta, fresca e lavada, verdejava
-ao sol. O grande Terra-nova do Craft pulava em roda d'elles.
-
---Doe-te a cabea, Ega? perguntou Craft.
-
---No, respondeu o outro, acabando de abotoar o paletot. Eu hontem no
-estava bebado... O que estava era fraco.
-
-Mas, ao entrar para o coup, fez, com um ar profundo e philosophico,
-esta reflexo:
-
---O que a gente beber bons vinhos... Estou como se no fosse nada!
-
-Craft recommendou que se houvesse novidade, lhe mandassem um telegramma;
-fechou a portinhola, o coup partiu.
-
-Durante a manh no veiu telegramma quinta; e quando Craft appareceu
-na Villa Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperava porta, j
-escurecera, duas vlas ardiam na triste sala verde. Carlos, estirado no
-soph, dormitava, com um livro aberto sobre o estomago: e Ega passeiava
-d'um lado para outro, todo vestido de preto, pallido, com uma rosa na
-botoeira. Tinham estado alli na sala, n'aquella scca, esperando todo o
-dia as testemunhas do Cohen.
-
---Que te dizia eu? No ha nada, nem podia haver, murmurou Craft.
-
-Mas Ega, agora agitado de idas negras, temia que elle tivesse
-assassinado a mulher! O sorriso sceptico de Craft indignou-o. Quem
-conhecia melhor o Cohen do que elle? Sob a apparencia burgueza, era um
-monstro! Tinha-lhe visto matar um gato, s por capricho de derramar
-sangue...
-
---Tenho um presentimento de desgraa, balbuciou elle aterrado.
-
-E logo n'esse momento a campainha retiniu. Ega acordou precipitadamente
-Carlos, empurrou os dois amigos para o quarto de cama. Craft ainda lhe
-disse que, quella hora, no podiam ser os amigos do Cohen. Mas elle
-queria estar s na sala: e l ficou, mais pallido, rigido, muito
-abotoado na sobrecasaca, com os olhos cravados na porta.
-
---Que massada! dizia Carlos dentro, tenteando a escurido do quarto.
-
-Craft accendeu no toucador um resto de vella. Uma luz triste
-espalhou-se, tudo appareceu n'um desarranjo: no meio do cho estava
-cahida uma camisa de dormir; a um canto ficara a bacia de banho com agoa
-de sabo; e, no centro, o enorme leito, envolto nas suas cortinas de
-seda vermelha, conservava uma magestade de tabernaculo.
-
-Um momento estiveram callados. Craft methodico, e como quem se instrue,
-examinava o toucador, onde havia um mao de ganchos de cabello, uma liga
-com o fecho quebrado, um ramo de violetas murchas. Depois foi olhar o
-marmore da commoda; ahi ficara um prato com ossos de frango, e ao lado
-uma meia folha de papel escripta a lapis, toda emendada, de certo
-trabalho litterario do Ega. Elle achava tudo isto muito curioso.
-
-Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e intimo. Carlos
-escutando, julgou sentir uma falla abafada de mulher... Impaciente, foi
- cozinha. A criada estava sentada meza, com a mo mettida pelos
-cabellos, sem fazer nada, a olhar para a luz: o pagem, espaparrado n'uma
-cadeira, chupava o seu cigarro.
-
---Quem foi que entrou? perguntou Carlos.
-
---Foi a criada do sr. Cohen, disse o garoto, escondendo o cigarro atraz
-das costas.
-
-Carlos voltou ao quarto, annunciando:
-
--- a confidente. As cousas terminam amavelmente.
-
---E como queria voc que terminassem? disse Craft. O Cohen tem o seu
-Banco, os seus negocios, as suas letras a vencer, o seu credito, a sua
-respeitabilidade, todo um arranjo de cousas a que no convm um
-escandalo... isto que calma os maridos. Alm d'isso, j se satisfez,
-j lhe offereceu pontaps...
-
-N'esse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta.
-
---No ha nada, exclamou elle, deu-lhe uma coa, e vo manh para
-Inglaterra!
-
-Carlos olhou para o Craft--que movia a cabea, como vendo todas as suas
-previses realisadas, e approvando plenamente.
-
---Uma coa, dizia o Ega, com os olhos chammejantes e n'uma voz que
-sibillava. E depois fizeram as pazes... Vem ainda a ser um _menage_
-modelo! A bengala purifica tudo... Que canalha!
-
-Estava furioso. N'esse momento odiava Rachel--no perdoando ao seu idolo
-ter-se deixado desfazer paulada. Lembrava-se justamente da bengala do
-Cohen, um junco da India, com uma cabea de galgo por casto. E aquillo
-zurzira as carnes que elle tinha apertado com paixo! Aquillo pozera
-verges roxos onde os seus labios tinham avivado signaes cr de rosa! E
-tinham _feito as pazes_. E assim terminava, relles e chinfrim, o romance
-melhor da sua vida! Preferiria sabel-a morta, a sabel-a espancada. Mas
-no! levava a sova, deitava-se depois com o marido, e elle mesmo,
-decerto arrependido, chamando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a
-fazer as applicaes de arnica! Aquillo acabava em arnica!
-
---Entre vocemec para aqui, sr.^a Adelia, gritou elle para a sala, entre
-para aqui! Aqui s ha amigos. O segredo acabou, o pudor acabou! Isto so
-amigos! Somos tres, mas somos um! Tem vocemec diante de si o grande
-mysterio da Santissima Trindade. Sente-se, sr.^a Adelia, sente-se... No
-faa ceremonia... E pde contar... Aqui a sr.^a Adelia, meninos, viu
-tudo, viu a coa!
-
-A sr.^a Adelia, uma moa gordinha e baixa, de bonitos olhos, com um
-chapo de flres vermelhas, veiu logo da sala rectificando. No, ella
-no vira... Ento o sr. Ega no tinha percebido bem... Ella s _ouvira_.
-
---Aqui est como foi, meus senhores... Eu tinha ficado a p,
-naturalmente, at ao fim do baile, que estava que nem me tinha nas
-pernas. Era j dia claro, quando o senhor, ainda vestido de moiro, se
-fechou no quarto com a senhora. Eu fiquei na cozinha com o Domingos
-espera que elles tocassem a campainha. De repente ouvimos gritos!... Eu
-fiquei estarrecida, pensei at que eram ladres. Corremos, eu e o
-Domingos, mas a porta do quarto estava fechada, e os dois estavam por
-dentro, l para o fundo da alcova. Eu ainda puz o olho fechadura, mas
-no pude vr nada... L o estalar de bofetadas, e trambulhes, e sons de
-bengalada, isso sim, isso ouvia-se perfeitamente; e os gritos. Eu disse
-logo ao Domingos ai que uma questo, ai que l se foi tudo. Mas de
-repente, silencio geral! Ns voltmos para a cozinha; d'ahi a pouco o
-sr. Cohen appareceu, todo esguedelhado, em mangas de camisa, a dizer que
-nos podiamos deitar, que elles no precisavam nada, e que amanh
-fallariamos!... Depois l ficaram toda a noite, e pela manh parece que
-estavam muito amiguinhos... Que eu no puz os olhos na senhora. O sr.
-Cohen, apenas se levantou, veiu cozinha, fez-me elle as contas, e
-pz-me fra; muito mal creado, at me ameaou com a policia... Foi pelo
-Domingos, que eu soube agora, quando fui buscar o bah com um gallego,
-que o sr. Cohen a com a senhora para Inglaterra. Emfim, um chinfrim...
-Eu at tenho estado todo o dia com o estomago embrulhado.
-
-A sr.^a Adelia com um suspiro, pondo os olhos no cho, calou-se. Ega,
-com os braos cruzados, olhava amargamente para os seus amigos. Que lhes
-parecia aquillo? Uma coa!.. Se um covarde d'aquelles no merecia uma
-bala no corao! Mas ella tambem, deixar-se tocar, no ter fugido,
-consentir ainda depois em dormir com elle!.. Tudo uma corja!
-
---E a sr.^a Adelia, perguntava Craft, no tem ida de como elle
-descobriu?..
-
---Isso que prodigioso! gritou Ega, apertando as mos na cabea.
-
-Sim, prodigioso! No fra carta apanhada: elles no se escreviam. No
-podia ter surprehendido as visitas Villa Balzac: as cousas estavam
-combinadas com uma arte muito subtil, perfeitamente impenetraveis. Para
-vir ali, nunca ella commettera a indiscripo de se servir da sua
-carruagem. Nunca ella claramente entrara pela porta. Os criados d'elle
-nunca a tinham visto, no sabiam quem era a senhora que o visitava...
-Tantos cuidados, e tudo estragado!
-
---Estranho, estranho! murmurava Craft.
-
-Houve um silencio. A sr.^a Adelia terminara por descanar familiarmente
-n'uma cadeira, com a sua trouxasinha no regao.
-
---Pois olhe, sr. Ega, disse ella, depois de reflectir creia ento uma
-cousa, que foi em sonhos. J tem acontecido... Foi a senhora que
-sonhou alto com v. ex.^a, disse tudo, o sr. Cohen ouviu, ficou de pedra
-no sapato, espreitou-a, e descobriu a marosca... E eu sei que ella sonha
-alto.
-
-Ega, diante da sr.^a Adelia, percorria-a desde as flres do chapo at
-roda das saias, com os olhos faiscantes.
-
---Como possivel que elle ouvisse? Se elles tinham quartos
-separados!... Eu sei que tinham.
-
-A sr.^a Adelia baixou as palpebras, acariciou com os dedos calados de
-luvas pretas a sua trouxasinha redonda, e disse mais baixo estas
-palavras:
-
---No tinham, no senhor. Nem a senhora consentia em tal arranjo... A
-senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciumes d'elle.
-
-Houve um silencio embaraado e desagradavel. Sobre o toucador o resto da
-vella acabava, com uma luz lugubre. E Ega, que affectara sorrir,
-encolher os hombros, dava pelo quarto passos lentos e murchos,
-triturando o bigode com a mo tremula.
-
-Ento Carlos enojado, canado d'aquelle episodio que durava desde a
-vespera, e onde constantemente se remexera em lodo, declarou que era
-necessario findar! Eram oito horas, e elle queria jantar...
-
---Sim, vamos todos jantar, murmurou o Ega, com o ar confuso e embaado.
-
-De repente fez um signal sr.^a Adelia, arrastou-a para a sala,
-fechou-se l outra vez.
-
---Voc no est farto d'isto, Craft? exclamou Carlos, desesperado.
-
---No. Acho um estudo curioso.
-
-Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vella extinguiu-se. Carlos,
-furioso, gritou pelo pagem. E o garoto entrava com um immundo candieiro
-de petroleo--quando Ega, mais composto, voltou da sala. Tudo acabara, a
-sr.^a Adelia partira.
-
---Vamos l jantar, disse elle. Mas aonde, a esta hora?
-
-E elle mesmo lembrou o Andr, ao Chiado. Em baixo, alem do coup de
-Carlos, esperava a tipoia do Craft. As duas carruagens partiram. A Villa
-Balzac ficava apagada, muda, d'ora em diante inutil.
-
-No Andr tiveram de esperar muito tempo, n'um gabinete triste, com um
-papel de estrellinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas
-de reps azul, e dois bicos de gaz que silvavam. Ega, enterrado no soph
-de mollas gastas e lassas, cerrara os olhos, parecia exhausto. Carlos a
-contemplando as gravuras pela parede, todas relativas a hespanholas: uma
-sando da egreja; outra saltando uma pocinha de agua; outra, de olhos
-baixos, escutando os conselhos de um canonico. Craft, j meza, com a
-cabea entre os punhos, percorria um _Diario da Manh_, que o criado
-offerecera para os senhores se entreterem.
-
-De repente o Ega deu um murro no soph, que rangeu lamentavelmente.
-
---Eu o que no percebo, gritou elle, como aquelle malvado descobriu!..
-
---A hypothese da sr.^a Adelia, disse Craft erguendo os olhos do jornal,
-parece provavel. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre senhora descahiu-se.
-Ou talvez uma denuncia anonyma. Ou talvez apenas um acaso... O facto
-que o homem desconfiou, espreitou-a, e apanhou-a.
-
-Ega erguera-se:
-
---Eu no vos quiz dizer diante da Adelia, que no estava no segredo
-todo. Mas vocs sabem a casa defronte da minha, do outro lado da viella,
-uma casa com um grande quintal? Ahi mora uma tia do Gouvarinho, a D.
-Maria Lima, uma pessoa respeitavel. A Rachel a vl-a de vez em quando.
-So intimas, a D. Maria Lima intima de todo o mundo. Depois sahia por
-uma portinha do quintal, atravessava a viella, e estava porta da minha
-casa, porta escusa, porta da escada que vae ter ao cacifro de banho.
-J vocs vem... Os criados nem a avistavam. Quando ella l lunchava, o
-lunch estava j posto no meu quarto, as portas fechadas. Mesmo se alguem
-visse, era uma senhora com um vo preto, que vinha de casa da Lima...
-Como podia o homem apanhal-a?.. Alm d'isso, em casa da Lima, ella
-mudava de chapo, e punha um waterproof...
-
-Craft cumprimentou.
-
--- brilhante! Parece de Scribe.
-
---Ento, disse Carlos sorrindo, essa respeitavel fidalga...
-
---A D. Maria, coitada... Eu te digo, uma excellente velha, recebida em
-toda a parte, mas pobre, e faz d'estes favores... s vezes mesmo em casa
-d'ella.
-
---Leva caro por esses servios? perguntou tranquillamente Craft, que em
-todo aquelle caso procurava instruir-se.
-
---No, coitada, disse o Ega. Do-se-lhe de vez em quando cinco libras.
-
-O criado entrava com uma travessa de camares, os tres em silencio
-accommodaram-se meza.
-
-Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega a l dormir, receiando,
-com os nervos to excitados, a solido da villa Balzac. Partiram, de
-charutos accesos, n'uma caleche descoberta, sob a noite estrellada e
-doce.
-
-Felizmente no estava ninguem no Ramalhete; Ega, canado, poude
-retirar-se logo para o seu quarto, um aposento d'hospedes no segundo
-andar, onde havia um bello leito antigo de pau preto. Ahi, apenas o
-criado o deixou, Ega approximou-se do trem onde ardiam as luzes, e
-tirou do pescoo, de sob a camiza, um medalho de ouro. Tinha dentro uma
-photographia de Rachel:--e a sua inteno agora era queimal-a, deitar ao
-balde das agoas sujas as cinzas d'aquella paixo. Mas, ao abrir o
-medalho, a face bonita, banhada n'um sorriso, sob o vidro oval, pareceu
-olhar para elle com uma tristeza no velludo das pupillas languidas... A
-photographia mostrava apenas a cabea, com uma abertura de decote no
-comeo do vestido: e as recordaes de Ega alargaram aquelle decote uma
-vez mais, revendo o collo, o extraordinario setim da pelle, o
-signalsinho sobre o seio esquerdo... O sabor dos seus beijos passou-lhe
-de novo nos labios, sentiu n'alma outra vez como o ecco dos suspiros
-canados que ella soltara nos seus braos. E ella ia-se embora, _nunca
-mais_ a veria! Esta desolada amargura do _nunca mais_ revolveu-o todo--e
-com a face enterrada no travesseiro, o pobre demagogo, o grande
-phraseador soluou muito tempo no segredo da noite.
-
-Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Damaso
-apparecera no Ramalhete, e por elle ouviram os rumores de Lisboa. J se
-sabia no Gremio, no Chiado, por toda a parte, que elle fra expulso da
-casa dos Cohens. O urso, a pastora do Tyrol, testemunhas do episodio,
-tinham-n'o badallado com enthusiasmo. Dizia-se mesmo que o Cohen lhe
-dera um pontap. Os amigos da casa, esses, sobretudo o Alencar, prgavam
-com fervor a innocencia da sr.^a D. Rachel. O Alencar contava
-publicamente que o Ega, provinciano inexperiente e leo de Celorico,
-tendo tomado por evidencias de paixo os sorrisos de amabilidade de uma
-senhora que recebe,--escrevera sr.^a D. Rachel uma carta quasi
-obscena, que ella, coitadinha, toda em lagrimas, viera mostrar ao
-marido.
-
---Ento do-me para baixo, hein, Damaso? murmurou Ega que, no gabinete
-de Carlos, embrulhado n'uma velha ulster, e encolhido n'uma poltrona,
-escutava estas cousas com um ar canado e doente.
-
-Damaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo.
-
-Ah, elle sabia-o bem! tinha antipathias em Lisboa. Ninguem lhe perdoara
-ainda a pelissa. A sua verve, toda em sarcasmos, offendia. E era
-desagradavel para muita gente que um homem, com esse espirito to
-perigoso de ferro em braza, tivesse uma me rica, e fosse independente.
-
-Depois, no sabbado seguinte, Carlos, ao voltar do jantar dos
-Gouvarinhos--que fra excellente--contou-lhe a conversa que tivera com a
-sr.^a condessa. A condessa fallara-lhe muito livremente, como um homem,
-d'aquelle desastre do Ega. Tinha-se affligido muito, no s pela Rachel,
-coitada, de quem era amiga, mas pelo Ega, que ella apreciava tanto, to
-interessante, to brilhante, e que sahia de tudo aquillo enxovalhado! O
-Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gouvarinho) que ameara o Ega de
-pontaps, por elle ter escripto a sua mulher uma carta immunda. Os que
-no sabiam nada, como o Gouvarinho, acreditavam, apertavam as mos na
-cabea; e os que sabiam, os que havia seis mezes sorriam da intimidade
-do Ega com os Cohens, affectavam tambem acreditar, cerravam os punhos de
-indignao. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa, que vive entre o
-Gremio e a casa Havaneza, folgava em enterrar o Ega.
-
-Ega, com effeito, sentia-se enterrado. E n'essa noite declarou a
-Carlos que decidira recolher-se quinta da me, passar l um anno a
-acabar as _Memorias d'um Atomo_, e reapparecer em Lisboa com o seu livro
-publicado, triumphando sobre a cidade, esmagando os mediocres. Carlos
-no perturbou esta radiante illuso.
-
-Mas quando Ega, antes de partir, fo a recapitular os seus negocios de
-casa, de dinheiro, encontrou-se diante de cousas abominaveis. Devia a
-todo o mundo, desde o estofador at ao padeiro; tinha tres letras a
-vencer; aquellas dividas, se as deixasse, soltas e ladrando,
-juntar-se-iam, na tagarallice publica, ao caso dos Cohens--e elle seria,
-alm do amante ameaado de pontaps, o pelintra perseguido pelos
-credores! Que havia de fazer, seno valer-se de Carlos? Carlos, para
-regular tudo, emprestou-lhe dois contos de ris.
-
-Depois, tendo despedido os criados da Villa Balzac, surgiram-lhe outras
-complicaes. A me do pagem veiu d'ahi a dias ao Ramalhete, muito
-insolente, gritando que o filho lhe desapparecera! E era exacto: o
-famoso pagem, pervertido pela cozinheira, sumira-se com ella para as
-viellas da Mouraria, a comear ahi uma divertida carreira de _faia_.
-
-Ega recusou-se a attender s reclamaes da matrona. Que diabo tinha
-elle com essas torpezas?
-
-Ento o amante da creatura interveiu, ameaadoramente, Era um policia,
-um esteio da ordem: e deu a entender que lhe seria facil provar como na
-Villa Balzac se passavam cousas contra a natureza, e que o pagem no
-era s para servir meza... Nauseado at morte, Ega pacteou com a
-intrugice, largou cinco libras ao policia. Quando n'essa noite, uma
-noite triste d'agoa, Carlos e Craft o acompanharam a Santa Apolonia,
-elle disse-lhes na carruagem estas palavras, triste resumo d'um amor
-romantico:
-
---Sinto-me como se a alma me tivesse cahido a uma latrina! Preciso um
-banho por dentro!
-
-
-Affonso da Maia ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com
-tristeza:
-
---M estreia, filho, pessima estreia!
-
-E n'essa noite, depois de voltar de Santa Apolonia, Carlos pensava
-n'estas palavras, dizia tambem comsigo:--Pessima estreia!... E nem s a
-estreia do Ega era pessima; tambem a sua. E talvez, por pensar n'isso,
-as palavras do av tinham tido aquella tristeza. Pessimas estreias!
-Havia seis mezes que o Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande
-pellissa, preparado a deslumbrar Lisboa com as _Memorias d'um Atomo_, a
-dominal-a com a influencia de uma Revista, a ser uma luz, uma fora, mil
-outras cousas... E agora, cheio de dividas e cheio de ridiculo, l
-voltava para Celorico, escorraado. Pessima estreia! Elle, por seu lado,
-desembarcara em Lisboa, com idas collossaes de trabalho, armado como um
-luctador: era o consultorio, o laboratorio, um livro iniciador, mil
-cousas fortes... E, que tinha feito? Dois artigos de jornal, uma duzia
-de receitas, e esse melancolico capitulo da _Medicina entre os Gregos_.
-Pessima estreia!
-
-No, a vida no lhe parecia promettedora, n'esse instante, passeiando na
-sala de bilhar com as mos nos bolsos, emquanto ao lado os amigos
-conversavam, e fra uivava o sudoeste. Pobre Ega, que infeliz elle iria,
-encolhido ao canto do seu wagon!.. Mas os outros, ali, no estavam mais
-alegres. Craft e o Marquez tinham comeado uma conversa sobre a vida,
-soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, no se sendo
-um Livingstone ou um Bismark? E o Marquez, com um ar philosophico,
-achava que o mundo se ia tornando estupido. Depois chegou o Taveira com
-a historia horrivel d'um collega d'elle, cujo filho cahira pela escada,
-se despedaara, no momento em que a mulher estava a morrer d'uma
-pleurisia. Cruges resmungou o quer que fosse sobre suicidio. As palavras
-arrastavam-se, melancolicas. Instinctivamente, Carlos, de vez em quando,
-ia despertar as lampadas.
-
-Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando d'ahi a instantes Damaso
-chegou, e lhe disse que o Castro Gomes estava incommodado, e de cama.
-
---Naturalmente, accrescentou o Damaso, mandam-te chamar, por teres j
-visto a pequena...
-
-Carlos ao outro dia no sahiu de casa, esperando um recado, faiscando
-d'impaciencia. Nenhum recado veiu. E, duas tardes depois, ao descer para
-o Aterro--o primeiro encontro que teve, s Janellas Verdes, foi o Castro
-Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadellinha no
-collo.
-
-Ella passou, sem o vr. E logo ali Carlos decidiu findar aquella
-tortura, pedir muito simplesmente ao Damaso que o apresentasse ao Castro
-Gomes, antes d'elle partir para o Brazil... No podia mais, precisava
-ouvir a voz d'ella, vr o que os seus olhos diziam quando eram
-interrogados de perto.
-
-Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na
-companhia dos Gouvarinhos. Comeou por encontrar o conde, que lhe travou
-do brao, arrastou-o rua de S. Maral, installou-o n'uma poltrona, no
-seu escriptorio, e leu-lhe um artigo que destinava ao _Jornal do
-Commercio_ sobre a situao dos partidos em Portugal: depois convidou-o
-a jantar. Na tarde seguinte elles tinham uma partida de _croquet_.
-Carlos foi. E, a uma janella, aberta sobre o jardim, teve um momento de
-intimidade com a condessa, contou-lhe, rindo, como os cabellos d'ella o
-tinham encantado, a primeira vez que a vira. N'essa noite, ella fallou
-d'um livro de Tennyson, que no lera; Carlos offereceu-lh'o, foi-lh'o
-levar ao outro dia, de manh. Encontrou-a s, toda vestida de branco: e
-riam, baixavam j a voz, as duas cadeias estavam mais juntas--quando o
-escudeiro annunciou a sr.^a D. Maria da Cunha. Era uma cousa to
-extraordinaria, a D. Maria da Cunha quella hora! Carlos, de resto,
-gostava muito da D. Maria da Cunha, uma velha engraada, toda bondade,
-cheia de sympathia por todos os peccados--e ella mesma muito peccadora
-quando era a linda Cunha. D. Maria era muito falladora, parecia ter que
-dizer em particular condessa; e Carlos deixou-as, promettendo voltar
-uma d'essas tardes tomar ch, e fallar de Tennyson.
-
-Na tarde em que elle se vestia para l ir, Damaso appareceu-lhe no
-quarto, a dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e de ferro. O
-telhudo do Castro Gomes mudra de ida, j no ia ao Brazil! Ficava ali,
-no Central, at ao meiado do vero! De sorte que estava tudo
-estragado...
-
-Carlos pensou logo em fallar da sua apresentao ao Castro Gomes. Mas,
-como em Cintra, sem saber porqu, veiu-lhe uma repugnancia de a conhecer
-por meio do Damaso. E foi-se vestindo em silencio.
-
-Damaso no entanto maldizia a sua _chance_:
-
---E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse occasio. Mas que
-diabo queres tu, assim?...
-
-Queixou-se ento do Castro Gomes. Em resumo, era um telhudo. E a vida
-d'aquelle homem era mysteriosa... Que diabo estava elle a fazer em
-Lisboa? Ali havia difficuldades de dinheiro... E elles no se davam bem.
-Na vespera houvera de certo questo. Quando elle entrara, ella estava
-com os olhos vermelhos, e enfiada; e elle, nervoso, a passeiar pela
-sala, a retorcer a barba... Ambos contrafeitos, uma palavra cada quarto
-d'hora...
-
---Sabes tu? exclamou elle. Tenho minha vontade de os mandar fava.
-
-Queixou-se tambem d'ella. Era sobretudo muito desegual. Ora bom modo,
-ora regelada; e, s vezes, elle dizia qualquer cousa muito natural,
-d'estas cousas de conversa de sociedade, e ella punha-se a rir. Era de
-encavacar, hein? Emfim, gente muito exquisita.
-
---Onde vaes tu? disse elle, com um suspiro de aborrecimento, vendo
-Carlos pr o chapeu.
-
-Ia tomar ch com a Gouvarinho.
-
---Pois olha, vou comtigo... Estou d'uma secca!
-
-Carlos hesitou um instante, terminou por dizer:
-
---Vem, fazes-me at favor...
-
-A tarde estava lindissima, Carlos ia no dog-cart.
-
---Ha que tempos que no damos assim um passeio juntos, disse Damaso.
-
---Tu andas l mettido com estrangeiros!...
-
-Damaso deu outro suspiro, e no tornou a dizer mais nada. Depois,
-porta dos Gouvarinhos, quando soube que a sr.^a condessa recebia,
-resolveu subitamente no entrar. No, no entrava. Estava muito
-estupido, incapaz de achar uma palavra...
-
---Ah, e outra cousa que me lembrou agora, exclamou elle, demorando ainda
-Carlos diante do porto. O Castro Gomes, hontem, perguntou-me o que te
-havia de mandar pela visita pequena... Eu disse que tu tinhas ido l
-por favor, como meu amigo. E elle disse que te havia de vir deixar um
-bilhete... Naturalmente vens a conhecel-os.
-
-No era, pois, necessario que Damaso o apresentasse!
-
---Apparece noite, Damasosinho, vai l jantar manh! exclamou Carlos,
-subitamente radiante, dando um ardente aperto de mo ao seu amigo.
-
-Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir ch. A sala,
-forrada d'um papel severo, verde e ouro, com retratos de familia em
-caixilhos pesados, abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim.
-Em cima das mezas havia cestos de flres. No soph, duas senhoras de
-chapeu, ambas de preto, conversavam, com a chavena na mo. A condessa,
-ao estender os dedos a Carlos, ficara to cr de rosa--como a seda
-acolchoada da cadeira em que estava recostada, ao p d'um velador de pau
-santo. Notou logo, sorrindo, o ar radiante de Carlos. Que lhe tinha
-acontecido de bom? Carlos sorriu tambem, disse que no era possivel
-entrar ali com outro ar. Depois perguntou pelo conde...
-
-O conde ainda no apparecera, detido de certo na camara dos pares, onde
-se discutia o projecto sobre a Reforma da Instruco Publica.
-
-Uma das senhoras de preto fazia votos para que se alliviassem os
-estudos. As pobres creanas succumbiam verdadeiramente quantidade
-exaggerada de materias, de cousas a decorar: o d'ella, o Joosinho,
-andava to pallido e to desfigurado, que ella s vezes tinha vontade de
-o deixar ficar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chavena sobre
-um console ao lado, e passando sobre os labios a renda do leno,
-queixou-se sobretudo dos examinadores. Era um escandalo as exigencias,
-as difficuldades que punham, s para poder deitar RR... Ao pequeno
-d'ella tinham feito as perguntas mais estupidas, as mais reles; assim,
-por exemplo, o que era o sabo, porque lavava o sabo?...
-
-A outra senhora e a condessa apertaram as mos contra o peito,
-consternadas. E Carlos, muito amavel, concordou que era uma abominao.
-O marido d'ella--continuava a dama de preto--ficara to desesperado que,
-encontrando o examinador no Chiado, o ameaou de lhe dar bengaladas. Uma
-imprudencia, de certo; mas, emfim, o homem fra malvado!... No havia
-verdadeiramente seno uma cousa digna de se estudar, eram as linguas.
-Parecia insensato que se torturasse uma creana com botanica,
-astronomia, physica... Para que? Cousas inuteis na sociedade. Assim, o
-pequeno d'ella, agora, tinha lies de chimica... Que absurdo! Era o que
-o pae dizia--para que, se elle o no queria para boticario?
-
-Depois d'um silencio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmo tempo; e
-houve um murmurio de beijos, um frou-frou de sedas.
-
-Carlos ficou s com a sr.^a condessa, que reoccupara a sua cadeira cr
-de rosa.
-
-Immediatamente ella perguntou pelo Ega.
-
---Coitado, l est para Celorico.
-
-Ella protestou, com um lindo riso, contra aquella phrase to feia l
-est para Celorico No, no queria... Coitado do Ega! Merecia uma
-melhor orao funebre. Celorico era horrvel para um fim de romance...
-
---De certo, exclamou Carlos, rindo tambem, era mais bello dizer-se: _l
-est para Jerusalem!_
-
-N'esse momento o criado annunciou um nome, e appareceu o amigo Telles da
-Gama, um intimo da casa. Quando soube que o conde devia estar ainda
-batalhando sobre a Reforma da Instruco, levou as mos cabea como
-lamentando um to feio desperdicio de tempo, e no se quiz demorar. No,
-nem mesmo o excellente ch da sr.^a condessa o tentava. A verdade era
-que estava to abandonado da graa de Deus, perdera de tal modo o
-sentimento das cousas bellas, que entrara, no para vr a sr.^a
-condessa--mas simplesmente fallar ao conde. Ento ella teve um bonito ar
-de princeza offendida, perguntou a Carlos se uma to rude sinceridade de
-montanhez no fazia saudades das maneiras polidas do antigo regimen. E
-Telles da Gama, gingando de leve, declarava-se democrata, homem da
-natureza, com um riso que lhe mostrava dentes magnificos. Depois, ao
-sair, dando um _shake-hands_ ao amigo Maia, quiz saber quando o principe
-de S.^t Olavia lhe dava emfim a honra de vir jantar com elle. A sr.^a
-condessa indignou-se. No, era realmente de mais! Fazer convites, na sua
-sala, diante d'ella,--um homem que fallava tanto da sua cozinheira
-allem, e nem sequer lhe offerecera jmais um prato de chou-crute!
-
-Telles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava a arranjar a
-sua sala de jantar para dar sr.^a condessa uma festa, que havia de
-ficar nos annaes do reino! Agora com o Maia era differente: jantavam
-ambos na cozinha, com os pratos sobre os joelhos. E abalou, gingando
-sempre, rindo ainda da porta, mostrando os dentes magnificos.
-
---Muito alegre, este Gama, no verdade? disse a condessa.
-
---Muito alegre, disse Carlos.
-
-Ento a condessa olhou o relogio. Eram cinco e meia, quella hora ella
-j no recebia: podiam, emfim, conversar um momento, em boa camaradagem.
-E, o que houve, foi um silencio lento, em que os olhos de ambos se
-encontraram. Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo doente.
-No estava bem, com uma ligeira tosse apanhada no passeio da Estrella.
-Ah, aquella creana nunca deixava de lhe dar o cuidado! Ficou callada,
-com o olhar esquecido no tapete, movendo languidamente o leque: tinha
-n'essa tarde uma toilette exaggerada, d'um tom de folha de outono
-amarellada, d'uma seda grossa, que ao menor movimento fazia um ruge-ruge
-de folhas seccas.
-
---Que lindo tempo tem feito! exclamou ella de repente, como acordando.
-
---Lindo! disse Carlos. Eu estive ha dias em Cintra, e no imagina... Era
-d'uma belleza de idyllio.
-
-E immediatamente arrependeu-se, quiz-se mal por ter fallado da sua ida a
-Cintra, n'aquella sala.
-
-Mas a condessa mal o escutra. Tinha-se erguido, fallando de algumas
-canes que essa manh recebera de Inglaterra, as novidades frescas da
-_season_. Depois, sentou-se ao piano, correu os dedos no teclado,
-perguntou a Carlos se conhecia aquella melodia--_The pale star_. No,
-Carlos no conhecia. Mas todas essas canes inglezas se parecem, sempre
-do mesmo tom dolente, romanesco, e muito _miss_. E trata-se sempre d'um
-parque melancolico, um regato lento, um beijo sob os castanheiros...
-
-Ento a condessa leu alto a letra da _Pale star_. E era a mesma cousa,
-uma estrellinha de amor palpitando no crepusculo, um lago pallido, um
-timido beijo sob as arvores...
-
--- sempre o mesmo, disse Carlos, e sempre delicioso.
-
-Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquillo estupido.
-Comeou a remexer entre os papeis de musica, nervosa, e com um olhar que
-escurecia. Para quebrar o silencio, Carlos gabou-lhe as suas lindas
-flores.
-
---Ah, vou-lhe dar uma rosa! exclamou ella logo, deixando as musicas.
-
-Mas, a flr que ella lhe queria dar estava no _boudoir_, ao lado. Carlos
-seguiu a sua grande cauda, onde corria um reflexo dourado de folhagem de
-outono batida do sol. Era um gabinete forrado de azul, com um bonito
-trem do seculo XVIII, e sobre um forte pedestal de carvalho, o busto em
-barro do conde, na sua expresso de orador, a fronte erguida, a gravata
-desmanchada, o labio fremente...
-
-A condessa escolheu um boto com duas folhas, e ella mesmo lhe veiu
-florir a sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o calor que
-subia do seu seio arfando com fora. E ella no acabava de prender a
-flr, com os dedos tremulos, lentos, que pareciam collar-se, deixar-se
-adormecer sobre o panno...
-
---_Voila!_ murmurou emfim, muito baixo. Ahi est o meu bello cavalleiro
-da Rosa Vermelha... E agora, no me agradea!
-
-Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os labios nos
-labios d'ella. A seda do vestido roava-lhe, com um fino ruge-ruge entre
-os braos;--e ella pendia para traz a cabea, branca como uma cera, com
-as palpebras docemente cerradas. Elle deu um passo, tendo-a assim
-enlaada, e como morta; o seu joelho encontrou um soph baixo, que rolou
-e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos ps, Carlos seguiu,
-tropeando, o largo soph, que rolou, fugiu ainda, at que esbarrou
-contra o pedestal onde o sr. conde erguia a fronte inspirada. E um longo
-suspiro morreu, n'um rumor de saias amarrotadas.
-
-D'ahi a um momento estavam ambos de p: Carlos, junto do busto, coando
-a barba, com o ar embaraado, e j vagamente arrependido: ella, diante
-do trem Luiz XV, compondo, com os dedos tremulos, o frisado do cabello.
-De repente, na antecamara, ouviu-se a voz do conde. Ella, bruscamente,
-voltou-se, correu a Carlos, e, com os longos dedos cobertos de
-pedrarias, agarrou-lhe o rosto, atirou-lhe dois beijos faiscantes ao
-cabello e aos olhos. Depois, sentou-se largamente no soph--e estava
-fallando de Cintra, rindo alto, quando o conde entrou, seguido de um
-velho calvo, que se vinha a assoar a um enorme leno de seda da India.
-
-Ao vr Carlos no _boudoir_, o conde teve uma bella surpreza, esteve-lhe
-apertando as mos muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda
-n'essa manh, na camara, se lembrara d'elle...
-
---Ento, por que vieram to tarde? exclamou a condessa, que se apoderara
-logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amavel.
-
---O nosso conde fallou! disse o velho, ainda com o olho brilhante de
-enthusiasmo.
-
---Fallaste? exclamou ela, voltando-se com um interesse encantador.
-
- verdade, fallara; e desprevenido! Quando ouvira porm o Torres Valente
-(homem de litteratura, mas um doido, sem senso pratico) quando o ouvira
-defender a gymnastica obrigatoria nos collegios--erguera-se. Mas no
-imaginasse o amigo Maia, que elle tinha feito um discurso.
-
---Ora essa! exclamou o velho, agitando o leno. E um dos melhores que eu
-tenho ouvido na camara! Dos de arromba!
-
-O Conde modestamente protestou. No: tinha simplesmente lanado uma
-palavra de bom senso, e de bom principio. Perguntara apenas ao seu
-illustre amigo, o sr. Torres Valente, se na sua ida, os nossos filhos,
-os herdeiros das nossas casas, estavam destinados para palhaos!...
-
---Ah, esta piada, sr.^a condessa! exclamou o velho. Eu s queria que v.
-ex.^a ouvisse esta piada... E como elle a disse! com um _chic!_
-
-O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe
-aquillo. E, respondendo a outras reflexes do Torres Valente, que no
-queria nos lyceus, nem nos collegios, um ensino todo impregnado de
-cathecismo, elle lanara-lhe uma palavra cruel.
-
---Terrivel, exclamou o velho n'um tom cavo, preparando o leno para se
-assoar outra vez.
-
---Sim, terrivel... Voltei-me para elle, e disse-lhe isto... Creia o
-digno par, que nunca este paiz retomar o seu logar testa da
-civilisao, se, nos lyceus, nos collegios, nos estabelecimentos de
-instruco, ns outros os legisladores formos, com mo impia, substituir
-a cruz pelo trapezio...
-
---Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do leno.
-
-Carlos, erguendo-se, declarou aquillo d'uma ironia adoravel.
-
-E o conde, quando elle se despediu, no se contentou com um simples
-aperto de mo, passou-lhe o brao pela cinta, chamou-lhe o seu querido
-Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda humido, um resto de pallidez,
-movendo o leque languidamente, recostada em duas almofadas do
-soph--debaixo do busto do marido que erguia a fronte inspirada.
-
-
-
-
-X
-
-
-Tres semanas depois, por uma tarde quente, com um ceu triste de
-trovoada, e no momento em que estavam cahindo algumas gotas grossas de
-chuva,--Carlos apeava-se d'um coup de praa, que viera parar, de vagar,
- esquina da Patriarchal, com os stores verdes mysteriosamente corridos.
-Dous sujeitos que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se
-desgeitosamente d'uma portinha suspeita. E com effeito a velha
-traquitana de rodas amarellas acabava de ser uma alcova d'amor,
-perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro
-d'ella, pela estrada de Queluz, com a sr.^a condessa de Gouvarinho.
-
-A condessa tinha descido no largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a
-solido da Patriarchal para se desembaraar do calhambeque d'assento
-duro, onde durante a ultima hora suffocra, sem ousar descer as
-vidraas, com as pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas
-amarrotadas e dos beijos interminaveis que ella lhe dava na barba...
-
-At ahi, durante essas tres semanas, tinham-se encontrado n'uma casa da
-rua de Santa Izabel, pertencente a uma tia da condessa que fra para o
-Porto com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato. A
-boa titi, uma velha pequenina, chamada miss Jones, era uma santa, uma
-apostola militante da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da
-Propaganda; e todos os mezes fazia assim uma viagem de cathechisao
-provincia, distribuindo Biblias, arrancando almas treva catholica,
-purificando (como ella dizia) o tremedal papista... J na escada havia
-um cheirinho adocicado e triste a devoo e a virgem velha: e no patamar
-pendia um largo carto, com um distico em letras de ouro entrelaadas de
-lyrios roxos, rogando aos que entravam que preserverassem nas vias do
-Senhor! Carlos entrou, tropeando logo n'um monto de Biblias. O quarto
-todo era um ninho de Biblias; havia-as s pilhas por cima dos moveis,
-transbordando de velhas chapelleiras, misturadas a pares de galochas,
-cahidas para o fundo da bacia d'assento, todas do mesmo formato,
-entaladas n'uma encadernao negra como n'uma armadura de combate,
-carrancudas e aggressivas! As paredes resplandeciam, forradas de
-cartonagens impressas em lettras de cr, irradiando versiculos duros da
-Biblia, asperos conselhos de moral, gritos dos psalmos, ameaas
-insolentes do inferno... E no meio d'esta religiosidade anglicana,
-cabeceira d'um leitosinho de ferro, rigido e virginal, duas garrafas
-quasi vasias de cognac e de gin, Carlos bebeu o gin da santa; e o leito
-rigido ficou revolto como um campo de batalha.
-
-Depois a condessa comeou a ter medo d'uma visinha, uma Borges, que
-visitava a titi, e era viuva de um antigo procurador dos Gouvarinhos.
-Uma occasio em que, no casto leito de miss Jones, elles fumavam
-languidamente cigarrilhas, tres enormes argoladas porta atroaram a
-casa. A pobre condessa quasi desmaiou; Carlos, correndo janella, viu
-um homem que se affastava, com uma estatueta de gesso na mo, outras
-dentro d'um cesto. Mas a condessa jurava que fra a Borges quem mandra
-o italiano das imagens atirar-lhes para dentro aquellas aldrabadas, como
-tres avisos, tres rebates da Moral... No quizera voltar mais ao
-beatifico cut da titi. E n'essa tarde, como no havia ainda outro
-escondrijo, tinham abrigado os seus amores dentro d'aquella tipoia de
-praa.
-
-Mas Carlos vinha de l enervado, amollecido, sentindo j na alma os
-primeiros bocejos da saciedade. Havia tres semanas apenas que aquelles
-braos perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pescoo,--e agora,
-pelo passeio de S. Pedro d'Alcantara, sob o ligeiro chuvisco que batia
-as folhagens da alameda, elle a pensando como se poderia desembaraar
-da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso... que a condessa a-se
-tornando absurda com aquella determinao anciosa e audaz de invadir
-toda a sua vida, tomar n'ella o logar mais largo e mais profundo--como
-se o primeiro beijo trocado tivesse unido no s os labios de ambos um
-momento, mas os seus destinos tambem e para sempre. N'essa tarde l
-tinham voltado as palavras que ella balbuciava, cahida sobre o seu
-peito, com os olhos affogados n'uma ternura supplicante: _Se tu
-quizesses! que felizes que seriamos! que vida adoravel! ambos ss!_... E
-isto era claro--a condessa concebera a ida extravagante de fugir com
-elle, ir viver n'um sonho eterno de amor lyrico, n'algum canto do mundo,
-o mais longe possivel da rua de S. Maral! _Se tu quizesses!_ No, com
-mil demonios, no queria fugir com a sr.^a condessa de Gouvarinho!...
-
-E no era s isto--mas ainda exigencias, egoismos, exploses tumultuosas
-d'um temperamento cioso: j mais de uma vez, n'essas duas curtas
-semanas, por pieguices, ella despropositra, fallara de morrer,
-debulhada em lagrimas... Ah! nas lagrimas havia ainda uma
-voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o setim do seu collo! O que o
-inquietava eram certos clares que lhe sulcavam o rosto, um dardejar
-nervoso dos olhos seccos, revelando a paixo que se accendera n'aquelles
-nervos de mulher de trinta e tres annos, e a queimava at s
-profundidades do seu ser... Certamente este amor punha na sua vida um
-luxo mais, e um perfume. Mas o seu encanto estava em conservar-se facil,
-sereno, sem penetrar mais fundo que a epiderme. Se ella, por qualquer
-cousa, tinha os olhos turvos d'agua, e fallava em morrer, e torcia os
-braos, e queria fugir com elle--ento adeus! Tudo estava estragado; e a
-sr.^a condessa com a sua verbena, os seus cabellos cr de braza, e o seu
-pranto, era apenas um trambolho!
-
-O chuveiro parara, um bocado d'azul lavado appareceu entre nuvens. E
-Carlos descia a rua de S. Roque--quando encontrou o marquez, sahindo
-d'uma confeitaria, tristonho, com um embrulho na mo, e o pescoo
-abafado n'um enorme cache-nez de seda branca.
-
---Que isso? Constipao? perguntou Carlos.
-
---Tudo, disse o marquez, pondo-se a caminhar ao lado d'elle com uma
-lentido de moribundo. Deitei-me tarde. Canasso. Oppresso no peito.
-Pigarreira. Dres no lado. Um horror... Levo j aqui rebuados.
-
---No seja piegas, homem! Voc o que precisa roast-beef e uma garrafa
-de Borgonha... No hoje que voc janta l no Ramalhete?... , at tem
-l o Craft e o Damaso... Ento descemos por essa rua do Alecrim, que j
-no chove, depois pelo Aterro fra, a passo gymnastico, e em chegando l
-voc est curado.
-
-O pobre marquez encolheu os hombros. Apenas sentia o menor encommodo,
-uma dr, um arrepio, considerava-se logo, como elle dizia, _liquidado_.
-O mundo comeava a findar para elle: tomavam-no terrores catholicos, uma
-preoccupao angustiosa da Eternidade. N'esses dias fechava-se no quarto
-com o padre capello--com quem s vezes, todavia, terminava por jogar as
-damas.
-
---Em todo o caso, disse elle, tirando cautelosamente o chapeu ao passar
-pela porta aberta da egreja dos Martyres, deixe-me voc ir primeiro ao
-Gremio... Quero escrever Manoeleta que no conte comigo esta noite...
-
-Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou noticias d'esse devasso
-do Ega. Esse devasso do Ega l estava em Celorico, na quinta materna,
-ouvindo arrotar o padre Seraphim, e refugiando-se, segundo dizia, na
-grande arte: andava a compor uma comedia em cinco actos, que se devia
-chamar o _Lodaal_--escripta para se vingar de Lisboa.
-
---O peor, murmurou o marquez, depois de um silencio, e abafando-se mais
-no cache-nez, se eu estou assim no domingo para as corridas!
-
---O qu! exclamou Carlos, ento as corridas so j no domingo?
-
-O marquez foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as
-corridas se tinham apressado a pedido do Clifford, o grande _sportman_
-de Cordova, que devia trazer dois cavallos inglezes... Era um bocado
-humilhante depender do Clifford. Mas emfim o Clifford era um _gentleman_
-e com os seus cavallos de raa, os seus jockeys inglezes, constituia a
-unica feio sria do Hyppodromo de Belem. Sem o Clifford aquillo era
-uma brincadeira de pilecas e d'_abas_...
-
---Voc no conhece o Clifford?.. Bello rapaz! Um pouco _poseur_, mas
-oiro de lei.
-
-Tinham entrado no pateo do Gremio, o marquez estendeu o brao a Carlos.
-
---Veja esse pulso!
-
---O pulso est excellente... V voc dar l esse golpe Manoela, que eu
-fico aqui espera.
-
-No domingo pois, d'ahi a cinco dias, eram as corridas... E _ella_
-estaria l, elle ia conhecel-a, emfim! Durante essas tres ultimas
-semanas vira-a duas vezes: uma occasio, estando a conversar com o
-Taveira porta do hotel Central, ella chegara a uma das varandas, de
-chapeu, calando uma grande luva preta; d'outra vez, havia dias, por uma
-tarde de chuva, ella viera parar porta do Mouro, ao Chiado, n'um
-coup da Companhia, e ficara esperando emquanto o trintanario levava
-dentro loja um embrulho que tinha a frma d'um cofre, apertado com uma
-fita vermelha. D'ambas as vezes ella vira-o, demorara os olhos n'elle um
-momento: e parecera a Carlos que o ultimo olhar se prolongara mais, como
-abandonando-se, humedecendo-se, n'uma leve doura, ao pousar no seu...
-Era talvez uma illuso; mas isto decidiu-o, na sua impaciencia, a
-realisar a antiga ida (ainda que desagradavel) de ser apresentado pelo
-Damaso ao Castro Gomes. O pobre Damaso, ao principio, diante d'esta
-exigencia, ficou perturbado; e com um ar de co que defende o seu osso,
-lembrou logo a Carlos o deploravel comportamento do Castro Gomes, que
-no viera como lh'o annunciara, havia tres semanas, deixar o seu carto
-ao Ramalhete... Mas Carlos desdenhava essas formalidades estreitas entre
-rapazes: o Castro Gomes parecia-lhe um homem de gosto e de _sport_; nem
-todos os dias apparecia em Lisboa quem soubesse dar com correco o n
-da gravata; e seria agradavel, mesmo para elle Damaso, reunirem-se todos
-de vez em quando, com o Craft, com o marquez, a fumar um charuto e a
-fallar de cavallos. Isto decidiu Damaso, que terminou por propr a
-Carlos o leval-o uma tarde ao hotel Central. Carlos porm no queria
-entrar pelo hotel dentro, de chapeu na mo, atraz do Damaso. Resolveram
-ento esperar pelas corridas, onde os Castro Gomes tencionavam ir. Ahi,
-no recinto da pesagem, disse o Damaso, a apresentao mais _chic_...
-mesmo pdre de _chic_.
-
---Deus queira com effeito que no chova no domingo, murmurou Carlos
-quando o marquez desceu, mais tristonho, mais abafado no seu cache-nez.
-
-Foram seguindo pelo meio da rua, em direco ao Ferregial. Adiante do
-Gremio, encostado ao passeio, estava um coup da Companhia, com um
-trintanario de luvas brancas esperando junto ao portal. Carlos olhou,
-casualmente; e viu, debruado portinhola, um rosto de creana, d'uma
-brancura adoravel sorrindo-lhe, com um bello sorriso que lhe punha duas
-covinhas na face. Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ella no
-se contentou em sorrr, com o seu doce olhar azul fugindo todo para
-elle,--deitou a mosinha de fra, atirou-lhe um grande adeus. No fundo
-do coup, forrado de negro, destacava um perfil claro d'estatua, um tom
-ondeado de cabello louro. Carlos tirou profundamente o chapeu, to
-perturbado, que os seus passos hesitaram. _Ella_ abaixou a cabea, de
-leve; alguma cousa de luminoso, um confuso rubor d'emoo,
-espalhou-se-lhe no rosto. E fugitivamente foi como se, da me e da
-filha, ao mesmo tempo, viesse para elle uma suave e quente emanao de
-sympathia.
-
---Caramba, aquillo pertence-lhe? perguntou o marquez, que notara a
-impresso de Madame Gomes.
-
-Carlos crou.
-
---No, uma senhora brazileira a quem eu curei aquella pequerrucha...
-
---Irra! que gratido! rosnou o outro de dentro das dobras do seu
-cachenez.
-
-Caminhando em silencio pelo Ferregial, Carlos revolvia uma ida que lhe
-viera de repente, ao receber aquelle doce olhar. Por que que Damaso
-no levaria uma manh o Castro Gomes aos Olivaes, a vr as colleces do
-Craft?... Elle estaria l, abria-se uma garrafa de Champagne, discutiam
-_bric--brac_. Depois, muito naturalmente, elle convidava Castro Gomes a
-almoar no Ramalhete, para lhe mostrar o grande Rubens, e as suas velhas
-colxas da India. E assim, j antes das corridas existiria entre elles
-uma camaradagem, talvez um tratamento de _voc_.
-
-No Aterro, temendo o ar do rio, o marquez quiz tomar uma tipoia; e, at
-ao Ramalhete, continuaram callados. O marquez, outra vez inquieto,
-apalpava a garganta. Carlos discutia complicadamente comsigo aquella
-lenta inclinao de cabea, o olhar d'ella, o vivo rubor fugitivo...
-Ella at ahi no o conhecia talvez. Mas, depois de atirar o seu grande
-_adeus_, Rosa, ainda sorrindo, voltara-se para a me, a dizer-lhe
-decerto que aquelle era o medico que a curara, a ella e boneca... E
-ento a linda cr que lhe enternecera o rosto tomava uma significao
-mais profunda--era como a surpreza feliz, o enleio casto, ao saber que o
-homem que ella notra j de algum modo tinha penetrado na sua
-intimidade, beijara a sua filha, se tinha mesmo sentado beira do seu
-leito...
-
-Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes, mais largo agora,
-mais brilhante. Porque no iria ella tambem vr as curiosidades do
-Craft? Que tarde encantadora, que festa, que lindo idyllio! O Craft
-arranjava um _lunch_ delicado no seu velho servio de Wedgewood. Elle
-ficava meza junto d'ella. Depois iam vr o jardim j em flr; ou
-tomavam ch no pavilho japonez, forrado de esteiras. Mas, o que mais
-lhe appetecia era percorrer com ella as duas salas de Craft, parando
-ambos diante d'uma bella faiena ou d'um movel raro, e sentindo, atravez
-da concordancia dos seus gostos, subir, como um perfume, a sympathia dos
-seus coraes... Nunca a vira to formosa como n'essa tarde, dentro do
-coup forrado de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura do seu
-perfil. Sobre o regao do vestido negro pousava o tom claro das suas
-luvas; e no chapo frisava-se a ponta de uma penna cor de neve.
-
-A tipoia parara ao porto do Ramalhete, estavam agora entre as
-silenciosas tapessarias da ante-camara.
-
---Como que ella conhece os Cruges? perguntou de repente o marquez, com
-um tom desconfiado, desembaraando-se do cache-nez.
-
-Carlos olhou para elle, como mal acordado.
-
---Ella quem? Aquella senhora? Como conhece o Cruges?... Homem, sim, tem
-voc razo!.. Aquella era a casa do Cruges! a carruagem estava parada
-porta do Cruges!.. Talvez alguem que mre n'outro andar.
-
---No mra ninguem, disse o marquez, dando um passo para o corredor. Em
-todo o caso, um mulhero.
-
-Carlos achou a palavra odosa.
-
-Do corredor ouvia-se j no escriptorio de Affonso, atravez da porta
-aberta, a voz petulante do Damaso fallando alto d'_handicap_ e de
-_dead-beat_... E foram-n'o encontrar discursando sobre as corridas, com
-convico, com auctoridade, como membro do Jockey-Club. Affonso, na sua
-velha poltrona, escutava-o, cortez e risonho, com o reverendo Bonifacio
-no collo. Ao canto do soph, Craft folheava um livro.
-
-E o Damaso appellou logo para o marquez. No era verdade, como elle
-estivera dizendo ao sr. Affonso da Maia, que iam ser as melhores
-corridas que se tinham feito em Lisboa? S para o grande premio nacional
-de seiscentos mil ris havia oito cavallos inscriptos! E alm d'isso, o
-Clifford trazia a _Mist_.
-
---Ah, verdade, oh marquez, necessario que voc apparea sexta-feira
- noite no Jockey-Club, para acabarmos o _handicap_!
-
-O marquez arrastara uma cadeira para o p de Affonso, para lhe fazer a
-confidencia dos seus achaques; mas como Damaso se mettia entre elles,
-fallando ainda da _Mist_, decidindo que a _Mist_ era chic, querendo
-apostar cinco libras pela _Mist_ contra o campo--o marquez terminou por
-se voltar, enfastiado, dizendo que o sr. Damazosinho se estava a dar
-ares patuscos... Apostar pela _Mist_! Todo o patriota devia apostar
-pelos cavallos do visconde de Darque, que era o unico criador
-portuguez!...
-
---Pois no verdade, sr. Affonso da Maia?
-
-O velho sorrio, amaciando o seu gato.
-
---O verdadeiro patriotismo talvez, disse elle, seria, em logar de
-corridas, fazer uma boa tourada.
-
-Damazo levou as mos cabea. Uma tourada! Ento o sr. Affonso da Maia
-preferia touros a corridas de cavallos? O sr. Affonso da Maia, um
-inglez!...
-
---Um simples beiro, sr. Salcede, um simples beiro, e que faz gosto
-n'isso; se habitei a Inglaterra que o meu rei, que era ento, me pz
-fra do meu paiz... Pois verdade, tenho esse fraco portuguez, prefiro
-touros. Cada raa possue o seu _sport_ proprio, e o nosso o toiro: o
-toiro com muito sol, ar de dia santo, agua fresca, e foguetes... Mas
-sabe o sr. Salcede qual a vantagem da toirada? ser uma grande escola
-de fora, de coragem e de destreza... Em Portugal no ha instituio que
-tenha uma importancia egual tourada de curiosos. E acredite uma cousa:
- que se n'esta triste gerao moderna ainda ha em Lisboa uns rapazes
-com certo musculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom socco,
-deve-se isso ao touro e tourada de curiosos...
-
-O marquez enthusiasmado bateu as palmas. Aquillo que era fallar!
-Aquillo que era dar a philosophia do toiro! Est claro que a tourada
-era uma grande educao phisica! E havia imbecis que fallavam em acabar
-com os touros! Oh, estupidos, acabaes ento com a coragem portugueza!...
-
---Ns no temos os jogos de destresa das outras naes, exclamava elle,
-bracejando pela sala e esquecido dos seus males. No temos o _cricket_,
-nem o _foot-ball_, nem o _running_, como os inglezes: no temos a
-gymnastica como ella se faz em Frana; no temos o servio militar
-obrigatorio que o que torna o allemo solido... No temos nada capaz
-de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos s a tourada... Tirem a
-tourada, e no ficam seno badamecos derreados da espinha, a mellarem-se
-pelo Chiado! Pois voc no acha, Craft?
-
-Craft, do canto do soph, onde Carlos se fra sentar e lhe fallava
-baixo, respondeu, convencido:
-
---O que, o touro? Est claro! o touro devia ser n'este paiz como o
-ensino l fra: gratuito e obrigatorio.
-
-Damazo no entanto jurava a Affonso compenetradamente que gostava tambem
-muito de touros. Ah l n'essas cousas de patriotismo ninguem lhe levava
-a palma... Mas as corridas tinham outro _chic_! Aquelles _Bois de
-Boulogne_, n'um dia de _Grand-Prix_, hein!... Era de embatucar!
-
---Sabes o que pena? exclamou elle voltando-se de repente para Carlos.
- que tu no tenhas um _four-in-hand_, um _mail coach_. Iamos todos
-d'aqui, cahia tudo de chic!
-
-Carlos pensou tambem comsigo que era uma pena no ter um _four-in-hand_.
-Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockey Club da travessa da
-Conceio irem todos dentro d'um omnibus.
-
-Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os braos, descoroado:
-
---Ahi est, sr. Affonso da Maia! Ahi est por que em Portugal nunca se
-faz nada em termos! por que ninguem quer concorrer para que as cousas
-saiam bem... Assim no possivel! Eu c entendo isto: que n'um paiz,
-cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para a civilisao.
-
---Muito bem, sr. Salcede! disse Affonso da Maia. Eis ahi uma nobre, uma
-grande palavra!
-
---Pois no verdade? gritou Damazo, triumphante, a estoirar de goso.
-Assim eu, por exemplo...
-
---Tu, o qu? exclamaram dos lados. Que fizeste, tu pela civilisao?...
-
---Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca... E vou
-de vo azul no chapo!
-
-Um escudeiro entrou com uma carta para Affonso, n'uma salva. O velho,
-sorrindo ainda das idas de Damaso sobre a civilisao, puxou a luneta,
-leu as primeiras linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se
-logo, tendo depositado cuidadosamente sobre a sua almofada o pesado
-Bonifacio.
-
---Isto que ter gosto, isto que comprehender as cousas! exclamava
-o Damaso, agitando os braos para Carlos, quando o velho desappareceu
-atravez do reposteiro de damasco. Este teu av, menino, podre de
-chic!..
-
---Deixa l o chic do av... Anda c, que te quero dizer uma cousa.
-
-Abriu uma das janellas do terrao, levou para l o Damaso, e disse-lhe
-ahi, pressa, o seu plano da visita aos Olivaes, e a linda tarde que
-poderiam passar na quinta com os Castro Gomes... Elle j fallara ao
-Craft, que estava de accordo, achava delicioso, ia encher tudo de
-flores. E agora s restava que Damaso amigo, como amabilidade sua,
-convidasse os Castro Gomes...
-
---Caramba! murmurou Damaso desconfiado, ests com furor de a conhecer!
-
-Mas emfim concordou que era chic a valer! E via ahi uma bella occasio
-para elle!... Em quanto Carlos e Craft andassem mostrando as
-curiosidades ao Castro Gomes e lhe fallassem de cavallos, elle, zs, ia
-para a quinta passear com ella... A calhar!
-
---Pois vou manh j fallar-lhes... Estou convencido que aceitam logo.
-Ella pela-se por bric-a-brac!
-
---E vens dizer-me se acceitaram ou no...
-
---Venho dizer-te... Tu vaes gostar d'ella; tem lido muito, entende
-tambem de litteratura; e olha que s vezes a conversar atrapalha...
-
-O marquez veiu chamal-os para dentro, impaciente, querendo fechar a
-porta envidraada, outra vez preoccupado com a garganta. E desejava
-antes de jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar com agua e sal...
-
---E isto um portuguez forte! exclamou Carlos, travando-lhe alegremente
-do brao.
-
---Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marquez, desprendendo-se
-d'elle e olhando-o com ferocidade. E voc -o no sentimento. E o Craft
--o na respeitabilidade. E o Damasosinho -o na tolice. Em Portugal
-tudo Pieguice e Companhia!
-
-Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na
-ante-camara, deram com Affonso fallando a uma mulher, carregada de luto,
-que lhe beijava a mo, meia de joelhos, suffocada de lagrimas: e ao lado
-outra mulher, com os olhos turvos d'agua tambem, embalava dentro do
-chaile uma criancinha que parecia doente e gemia. Carlos parara
-embaraado; o marquez instinctivamente levou a mo algibeira. Mas o
-velho, assim surprehendido na sua caridade, foi logo empurrando as duas
-mulheres para a escada: ellas desciam, encolhidas, abenoando-o, n'um
-murmurio de soluos; e elle voltando-se para Carlos, quasi se desculpou
-n'uma voz que ainda tremia:
-
---Sempre estes peditorios... Caso bem triste todavia... E o que peior
- que por mais que se d nunca se d bastante. Mundo muito mal feito,
-marquez.
-
---Mundo muito mal feito, sr. Affonso da Maia, respondeu o marquez
-commovido.
-
-No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu phaeton de oito
-molas, levando ao lado Craft que durante os dois dias de corridas se
-installara no Ramalhete, parou ao fim do largo de Belem, no momento em
-que para o lado do Hyppodromo estavam j estalando foguetes. Um dos
-criados desceu a comprar o bilhete de pesagem para o Craft, n'uma tosca
-guarita de madeira, armada alli de vespera, onde se mexia um homemsinho
-de grandes barbas grisalhas.
-
-Era um dia j quente, azul ferrete, com um d'esses rutilantes soes de
-festa que enflammam as pedras da rua, doiram a poeirada baa do ar, poem
-fulgores d'espelho pelas vidraas, do a toda a cidade essa branca
-faiscao de cal, d'um vivo monotono e implacavel, que na lentido das
-horas de vero cana a alma, e vagamente entristece. No largo dos
-Jeronymos silencioso, e a escaldar na luz, um omnibus esperava,
-desatrelado, junto ao portal da Egreja. Um trabalhador com o filho ao
-collo, e a mulher ao lado no seu chaile de ramagens, andava alli,
-pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gosar ociosamente o seu
-domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente programmas das
-corridas que ninguem comprava. A mulher da agua fresca, sem freguezes,
-sentara-se com a sua bilha sombra, a catar um pequeno. Quatro pesados
-municipaes a cavallo patrulhavam a passo aquella solido. E a distancia,
-sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente.
-
-No entanto o tritanario continuava debruado na guarita, sem poder
-arranjar l dentro o troco d'uma libra. Foi necessario Craft saltar da
-almofada, ir l parlamentar--emquanto Carlos, impaciente, raspando com o
-chicote as ancas das egoas, luzidias como um setim castanho, riscava no
-largo uma volta brusca e nervosa. Desde o Ramalhete viera assim
-governando, irritadamente, sem descerrar os labios. que toda aquella
-semana, desde a tarde em que combinara com o Damaso a visita aos
-Olivaes, fra desconsoladora. O Damaso tinha desapparecido, sem mandar a
-resposta dos Castro Gomes. Elle, por orgulho, no procurara o Damaso. Os
-dias tinham passado, vazios; no se realisara o alegre idyllio dos
-Olivaes; ainda no conhecia Madame Gomes; no a tornara a ver; no a
-esperava nas corridas. E aquelle domingo de festa, o grande sol, a gente
-pelas ruas, vestida de casimiras e de sedas de missa, enchiam-n'o de
-melancolia e de malestar.
-
-Uma caleche de praa passou, com dous sujeitos de flores ao peito,
-acabando de calar as luvas; depois um dog-cart, governado por um homem
-gordo, de lunetas pretas, quasi foi esbarrar contra o Arco. Emfim, Craft
-voltou com o seu bilhete, tendo sido descomposto pelo homem de barbas
-propheticas.
-
-Para alm do arco, a poeira suffocava. Pelas janellas havia senhoras
-debruadas, olhando por debaixo de sombrinhas. Outros municipaes, a
-cavallo, atravancavam a rua.
-
- entrada para o hyppodromo, abertura escalavrada n'um muro de
-quintarola, o phaeton teve de parar atrz do dog-cart do homem
-gordo--que no podia tambem avanar porque a porta estava tomada pela
-caleche de praa, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava
-furiosamente com um policia. Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O
-sr. Savedra, que era do Jockey-Club, tinha-lhe dito que elle podia
-entrar sem pagar a carruagem! Ainda lh'o dissra na vespera, na botica
-do Azevedo! Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O policia
-bracejava, enfiado. E o cavalleiro, tirando as luvas, ia abrir a
-portinhola, esmurrar o homem--quando, trotando na sua grande horsa, um
-municipal de punho alado correu, gritou, injuriou o cavalleiro gordo,
-fez rodar para ra a caleche. Outro municipal entrometteu-se,
-brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um
-portal, espavoridas. E atravez do rebolio, da poeira, sentia-se
-adiante, melancolicamente, um realejo tocando a _Traviata_.
-
-O phaeton entrou--atraz do dog-cart, onde o homem gordo, a estoirar de
-furia, voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do
-municipal:
-
---Tudo isto est arranjado com decencia, murmurou Craft.
-
-Diante d'elles, o hyppodromo elevava-se suavemente em colina, parecendo,
-depois da poeirada quente da calada e das cruas reverberaes da cal,
-mais fresco, mais vasto, com a sua relva j um pouco crestada pelo sol
-de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e alm. Uma aragem
-larga e repousante chegava vagarosamente do rio.
-
-No centro, como perdido no largo espao verde, negrejava, no brilho do
-sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio,
-d'onde sobresahiam tons claros de sombrinhas, o faiscar d'um vidro de
-lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. Para alm, dos dois lados da
-tribuna real forrada de um baeto vermelho de mesa de Repartio,
-erguiam-se as duas tribunas publicas, com o feitio de traves mal
-pregadas, como palanques d'arraial. A da esquerda vasia, por pintar,
-mostrava luz as fendas do taboado. Na da direita, bezuntada por fra
-d'azul claro, havia uma fila de senhoras quasi todas de escuro
-encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o
-resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, d'um tom alvadio
-de madeira, que abafava as cres alegres dos raros vestidos de vero.
-Por vezes a briza lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das
-bandeirolas. Um grande silencio caa do ceu faiscante.
-
-Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia
-mais soldados de infanteria, com as bayonetas lampejando ao sol. E no
-homem triste que estava entrada, recebendo os bilhetes, mettido dentro
-d'um enorme collete branco, reteso de gomma, e que lhe chegava at aos
-joelhos--Carlos reconheceu o servente do seu laboratorio.
-
-Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira porta do buffete
-onde se estivera reconfortando com uma cerveja. Tinha um molho de cravos
-amarellos ao peito, polainas brancas,--e queria animar as corridas. J
-vira a _Mist_, a egoa de Clifford, e decidira apostar pela _Mist_. Que
-cabea d'animal, meninos, que finura de pernas!...
-
---Palavra que me enthusiasmou! E est decidido, um dia no so dias,
-necessario animar isto! Aposto trez mil ris. Quer voc Craft?
-
---Pois sim, talvez, depois... Vamos primeiro vr o aspecto geral.
-
-No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia s homens, a
-gente do Gremio, das Secretarias e da Casa Havaneza; a maior parte
-vontade, com jaquetes claros, e de chapo cco; outros mais em estylo,
-de sobrecasaca e binoculo a tiracollo, pareciam embaraados e quasi
-arrependidos do seu chic. Fallava-se baixo, com passos lentos pela
-relva, entre leves fumaraas de cigarro. Aqui e alm um cavalheiro,
-parado, de mos atraz das costas, pasmava languidamente para as
-senhoras. Ao lado de Carlos dois brazileiros queixavam-se do preo dos
-bilhetes, achando aquillo uma semsaboria de rachar.
-
-Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por
-soldados: e junto corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente,
-com as carruagens pelo meio, sem um rumor, n'uma pasmaceira tristonha,
-sob o peso do sol de junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoava
-agua fresca. L ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, to azul como
-o ceu, n'uma pulverisao fina de luz.
-
-O visconde de Darque, com o seu ar placido de gentleman louro que comea
-a engordar, veio apertar a mo a Carlos e a Craft. E mal elles lhe
-fallaram dos seus cavallos (_Rabbino_, o favorito, e o outro potro)
-encolheu os hombros, cerrou os olhos, como um homem que se sacrifica.
-Ento, que diabo, os rapazes tinham querido!... Mas elle, realmente, no
-podia apresentar um cavallo decente, com as suas cres, seno d'ahi a
-quatro annos. De resto no apurava cavallos para aquella melancolia de
-Belem, no imaginassem os amigos que elle era to patriota: o seu fim
-era ir a Hespanha, bater os cavallos de Caldillo...
-
---Emfim, vamos a vr... D voc c lume. Isto est um horror. E depois,
-que diabo, para corridas necessario cocottes e Champagne. Com esta
-gente seria, e agua fresca, no vae!
-
-N'esse momento um dos commissarios das corridas, um rapago sem barba,
-vermelho como uma papoula, a pingar de suor sob o chapo branco deitado
-para a nuca, veio arrebatar o Darque, que era muito preciso, l na
-pesagem, para uma duvidasinha.
-
---Eu sou o diccionario, dizia o Darque, tornando a encolher os hombros
-resignadamente. De vez em quando vem um d'estes senhores do Jockey-Club,
-e folheia-me... Veja voc, Maia, em que estado eu fico depois das
-corridas! Ha-de ser necessario encadernar-me de novo...
-
-E l foi, rindo da sua pilheria--empurrado para diante pelo commissario,
-que lhe dava palmadas familiares nas costas, e lhe chamava _catita_.
-
---Vamos ns vr as mulheres, disse Carlos.
-
-Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruadas no rebordo, n'uma
-fila muda, olhando vagamente, como d'uma janella em dia de procisso,
-estavam ali todas as senhoras que vem no high-life dos jornaes, as dos
-camarotes de S. Carlos, as das teras-feiras dos Gouvarinhos. A maior
-parte tinha vestidos serios de missa. Aqui e alm um d'esses grandes
-chapos emplumados Gainsborough, que ento se comeavam a usar,
-carregava d'uma sombra maior o tom trigueiro d'uma carinha miuda. E na
-luz franca da tarde, no grande ar da collina descoberta, as pelles
-appareciam murchas, gastas, molles, com um bao de p de arroz.
-
-Carlos cumprimentou as duas irms do Taveira, magrinhas, loirinhas,
-ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa
-d'Alvim, nedia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos,
-tendo ao lado a sua terna inseparavel, a Joaninha Villar, cada vez mais
-cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante
-eram as Pedrosos, as banqueiras, de cres claras, interessando-se pelas
-corridas, uma de programma na mo, a outra de p e de binoculo estudando
-a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal,
-desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. N'uma bancada isolada, em
-silencio, Villaa com duas damas de preto.
-
-A condessa de Gouvarinho ainda no viera. E no estava tambem aquella
-que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperana.
-
--- um canteirinho de camelias meladas, disse o Taveira, repetindo um
-dito do Ega.
-
-Carlos, no entanto, fra fallar sua velha amiga D. Maria da Cunha que,
-havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de
-ba mam. Era a unica senhora que ousara descer do retiro ajanellado da
-tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ella
-disse, no aturara a sca de estar l em cima perfilada, espera da
-passagem do Senhor dos Passos. E, bella ainda sob os seus cabellos j
-grisalhos, s ella parecia divertir-se alli, muito vontade, com os ps
-pousados na travessa d'uma cadeira, o binoculo no regao, cumprimentada
-a cada instante, tratando os rapazes por _meninos_... Tinha comsigo uma
-parenta que apresentou a Carlos, uma senhora hespanhola, que seria
-bonita se no fossem as olheiras negras, cavadas at ao meio da face.
-Apenas Carlos se sentou ao p d'ella, D. Maria perguntou-lhe logo por
-esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava em
-Celorico compondo uma comedia para se vingar de Lisboa, chamada o
-_Lodaal_...
-
---Entra o Cohen? perguntou ella, rindo.
-
---Entramos todos, sr.^a D. Maria. Todos ns somos lodaal...
-
-N'esse momento, por traz do recinto, rompia, com um taran-tan-tan
-mollengo de tambores e pratos, o hymno da Carta, a que se misturou uma
-voz de official e o bater de coronhas. E, entre dourados de dragonas,
-El-rei appareceu na tribuna, sorrindo, de quinzena de velludo, e chapo
-branco. Aqui e alm, raros sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a
-senhora hespanhola, essa, tomou o oculo do regao de D. Maria, e de p,
-muito descanadamente, poz-se a examinar o rei. D. Maria achava ridicula
-a musica, dando s corridas um ar de arraial... Alm d'isso, que tolice,
-o hymno, como n'um dia de parada!
-
---E este hymno, ento, que medonho, dizia Carlos. A sr.^a D. Maria no
-sabe a definio do Ega, e a sua theoria dos hymnos? Maravilhosa!
-
---Aquelle Ega! dizia ella sorrindo, j encantada.
-
---O Ega diz que o hymno a definio pela musica do caracter d'um povo.
-Tal o compasso do hymno nacional, diz elle, tal o movimento moral da
-nao. Agora veja a sr.^a D. Maria os differentes hymnos, segundo o Ega.
-A _Marselheza_ avana com uma espada na. O _God save the queen_
-adianta-se, arrastando um manto real...
-
---E o hymno da Carta?
-
---O hymno da Carta ginga, de rabona.
-
-E D. Maria ria ainda, quando a hespanhola, sentando-se e repousando-lhe
-tranquillamente o binoculo no regao, murmurou:
-
---Tiene cara de buena persona.
-
---Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos. Excellente!
-
-No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E no quadro indicador
-subiram os numeros dos dois cavallos que corriam o primeiro premio dos
-_Productos_. Eram o n.^o 1 e o n.^o 4. D. Maria Telles quiz-lhe saber os
-nomes, com o appetite de apostar e ganhar cinco tostes a Carlos. E como
-Carlos se erguia para arranjar um programma:
-
---Deixe estar o menino, disse ella, tocando-lhe no brao. Ahi vem o
-nosso Alencar, com o programma... Olhe para aquillo! Veja se ainda hoje
-os ha por ahi com aquelle ar de sentimento e de poesia...
-
-Com um fato novo de cheviote claro que o remoava, de luvas gris-perle,
-o seu bilhete de pezagem na botoeira, o poeta vinha-se abanando com o
-programma, e j de longe sorrindo sua boa amiga D. Maria. Quando
-chegou junto d'ella, descoberto, bem penteado n'esse dia, com um lustre
-d'oleo na grenha, levou-lhe a mo aos labios, fidalgamente.
-
-D. Maria fra uma das suas lindas contemporaneas. Tinham danado muita
-ardente mazurka nos sales de Arroios. Ella tratava-o por _tu_. Elle
-dizia sempre _boa amiga_, e _querida Maria_.
-
---Deixa vr os nomes d'esses cavallos, Alencar... Senta-t'ahi, anda,
-faze companhia.
-
-Elle puchou uma cadeira, rindo do interesse que ella tomava pelas
-corridas. E elle que a conhecera sempre uma enthusiasta de toiros!...
-Pois os nomes dos cavallos eram _Jupiter_ e _Escossez_...
-
---Nenhum d'esses nomes me agrada, no aposto. E ento que te parece tudo
-isto, Alencar?... A nossa Lisboa vae-se sahindo da concha...
-
-Alencar, pousando o chapo sobre uma cadeira, e passando a mo pela sua
-vasta fronte de bardo, confessou que aquillo tinha realmente um certo ar
-de elegancia, um perfume de crte... Depois, l em baixo, aquelle
-maravilhoso Tejo... Sem fallar na importancia do apuramento das raas
-cavallares...
-
---Pois no verdade, meu Carlos? Tu que entendes superiormente d'isso,
-que s um mestre em todos os _sports_, sabes bem que o apuramento...
-
---Sim, com effeito, o apuramento, muito importante...--disse Carlos,
-vagamente, erguendo-se a olhar outra vez tribuna.
-
-Eram quasi tres horas, e agora, de certo, _ella_ j no vinha: e a
-condessa de Gouvarinho no apparecia tambem... Comeava a invadil-o uma
-grande lassitude. Respondendo, com um leve movimento de cabea, ao
-sorriso doce que lhe dava da tribuna a Joaninha Villar, pensava em
-voltar para o Ramalhete, acabar tranquillamente a tarde dentro do seu
-robe-de-chambre, com um livro, longe de todo aquelle tdio.
-
-No entanto, ainda entravam senhoras. A menina S Videira, filha do rico
-negociante de sapatos d'ourello, passou pelo brao do irmo, abonecada,
-com o arsinho petulante e enojado de tudo, fallando alto inglez. Depois
-foi a ministra da Baviera, a baroneza de Craben, enorme, empavoada, com
-uma face macissa de matrona romana, a pelle cheia de manchas cr de
-tomate, a estalar dentro d'um vestido de gorgoro azul com riscas
-brancas: e atraz o baro, pequenino, amavel, aos pulinhos, com um grande
-chapo de palha.
-
-D. Maria da Cunha erguera-se para lhes fallar: e durante um momento
-ouviu-se, como um glou-glou grosso de per, a voz da baroneza achando
-_que c'tait charmant, c'tait trs beau_. O baro, aos pulinhos, aos
-risinhos, _trouvait a ravissant_. E o Alencar, diante d'aquelles
-estrangeiros que o no tinham saudado, apurava a sua attitude de grande
-homem nacional, retorcendo a ponta dos bigodes, alando mais a fronte
-na.
-
-Quando elles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tornou a
-sentar, o poeta, indignado, declarou que abominava allemes! O ar de
-sobranceria com que aquella ministra, com feitio de barrica deixando
-sahir o cebo por todas as costuras do vestido, o olhra, a elle! Ora, a
-insolente baleia!
-
-D. Maria sorria, olhando com sympathia o poeta. E voltando-se de repente
-para a senhora hespanhola:
-
---Concha, deja-me presentar-te D. Thomaz de Alencar, nuestro gran poeta
-lyrico...
-
-N'esse momento, algum dos rapazes mais amadores, dos que traziam
-binoculos a tiracollo, apressaram o passo para a corda da pista. Dois
-cavallos passavam n'um galope sereno, quasi juntos, sob as vergastadas
-estonteadas de dois jockeys de grande bigode. Uma voz erguendo-se disse
-que tinha ganhado _Escossez_. Outros affirmavam que fra _Jupiter_. E no
-silencio que se fez, de lassido e de desapontamento, ondeou mais viva
-no ar, lanada pelos flautins da banda, a valsa de _madame Angot_.
-Alguns sujeitos tinham-se conservado de costas para a pista, fumando,
-olhando a tribuna--onde as senhoras continuavam debruadas no parapeito,
- espera do Senhor dos Passos. Ao lado de Carlos, um cavalheiro resumiu
-as impresses, dizendo que tudo _aquillo era uma intrujice_.
-
-E quando Carlos se ergueu para ir procurar o Damaso, Alencar, muito
-animado com a hespanhola, fallava de Sevilha, de malagueas e do corao
-d'Espronceda.
-
-O desejo de Carlos agora era achar Damazo, saber porque falhara a visita
-aos Olivaes--e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquella
-melancolia que o enevoava, estranha e pueril, misturada de
-irritabilidade, fazendo-lhe detestar as vozes que lhe fallavam, os
-rantatans da musica, at a belleza calma da tarde... Mas ao dobrar a
-esquina da tribuna, topou com Craft, que o deteve, o apresentou a um
-rapaz loiro e forte com quem estava fallando alegremente. Era o famoso
-Clifford, o grande sportman de Cordova. Em redor sujeitos tinham parado,
-embasbacados para aquelle inglez legendario em Lisboa, dono de cavallos
-de corridas, amigo do rei d'Hespanha, homem de todos os _chics_. Elle,
-muito vontade, um pouco _poseur_, com um simples veston de flanella
-azul como no campo, ria alto com o Craft do tempo em que tinham estado
-no collegio de Rugby. Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos, amavelmente.
-No se tinham encontrado havia quasi um anno, em Madrid, n'um jantar, em
-casa de Pancho Calderon? E assim era. O aperto de mo que repetiram foi
-mais intimo--e Craft quiz que fossem regar aquella flor d'amisade com
-uma garrafa de mau Champagne. Em roda crescera a pasmaceira.
-
-O buffete estava installado debaixo da tribuna, sob o taboado n, sem
-sobrado, sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de
-taberna com garrafas e pratos de bolos. E, no balco tosco, dois
-criados, estonteados e sujos, achatavam pressa as fatias de sandwiches
-com as mos humidas da espuma da cerveja.
-
-Quando Carlos e os seus amigos entraram, havia junto d'um dos barrotes
-que especavam os degraus da tribuna, n'um grupo animado, com copos de
-champagne na mo, o marquez, o visconde de Darque, o Taveira, um rapaz
-pallido de barba preta, que tinha debaixo do brao enrolada a bandeira
-vermelha de _Starter_, e o commissario imberbe, com o chapo branco cada
-vez mais atirado para a nuca, a face mais esbrazeada, o collarinho j
-molle de suor. Era elle que offerecia o champagne; e apenas viu entrar
-Clifford, rompeu para elle, de taa no ar, fez tremer as vigas, soltando
-o seu vozeiro:
-
--- saude do amigo Clifford! o primeiro sportman da pennsula, e rapaz
-c dos nossos!... Hip hip, hurrah!
-
-Os copos ergueram-se, n'um clamor d'hurrahs, onde destacou, vibrante e
-enthusiasta, a voz do _starter_. Clifford agradecia, risonho, tirando
-lentamente as luvas--em quanto o marquez, puxando Carlos pelo brao para
-o lado, lhe apresentava rapidamente o commissario, seu primo D. Pedro
-Vargas.
-
---Muito gosto em conhecer...
-
---Qual historias! Eu que fazia furor! exclamou o commissario. C a
-rapaziada do sport deve-se conhecer toda... Porque isto c a
-confraria, e todo o resto chinfrinada!
-
-E immediatamente arrebatou o copo ao ar, berrou com um impeto que lhe
-trazia mais sangue face:
-
--- saude de Carlos da Maia, o primeiro elegante c da patria! a melhor
-mo de redea... Hip, hip, hurrah...
-
---Hip, hip, hip... Hurrah!
-
-E foi ainda a voz do starter que deu o _hurrah_ mais vibrante e mais
-enthusiasta.
-
-Um empregado assomou porta do buffete, e chamou o sr. commissario. O
-Vargas atirou uma libra para o balco, abalou, gritando j de fra, com
-o olho acceso:
-
---Isto vae-se animando, rapazes! Caramba! carregar no liquido! E voc,
-oh l de baixo, o patro, s Manuel, mande vir esse gelo... Est a gente
-aqui a tomar a bebida quente... Despache um proprio, v voc, rebente!
-Irra!
-
-No entanto em quanto se desarrolhava o champagne de Craft, Carlos tinha
-convidado Clifford a jantar n'essa noite no Ramalhete. O outro acceitou,
-molhando os labios no copo, achando excellente que se continuasse a
-tradio de jantarem juntos, sempre que se encontravam.
-
---Ol! o general por aqui! exclamou Craft.
-
-Os outros voltaram-se. Era o Sequeira, com a face como um pimento,
-entalado n'uma sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapeu
-branco sobre o olho, e grande chicote debaixo do brao.
-
-Acceitou um copo de Champagne, e teve muito prazer em conhecer o sr.
-Clifford...
-
---E que me diz voc a esta semsaboria? exclamou elle logo, voltando-se
-para Carlos.
-
-Em quanto a si estava contente, pulava... Aquella corrida insipida, sem
-cavallos, sem jockeys, com meia duzia de pessoas a bocejar em roda,
-dava-lhe a certeza que eram talvez as ultimas, e que o _Jockey-Club_
-rebentava... E ainda bem! Via-se a gente livre d'um divertimento que no
-estava nos habitos do paiz. Corridas era para se apostar. Tinha-se
-apostado? No, ento historias!... Em Inglaterra e em Frana, sim! Ahi
-eram um jogo como a roletta, ou como o monte... At havia banqueiros,
-que eram os _bookmakers_... Ento j viam!
-
-E como o marquez, pousando o copo, e querendo calmar o general, fallava
-do apuramento das raas, e da remonta,--o outro ergueu os hombros, com
-indignao:
-
---Que me est voc a cantar! Quer voc dizer que se apura a raa para a
-remonta da cavallaria?... Ora v l montar o exercito com cavallos de
-corridas!... Em servio o que se quer no o cavallo que corra mais,
-o cavallo que aguente mais... O resto uma historia... Cavallos de
-corridas so phenomenos! So como o boi com duas cabeas... Ento
-historias!... Em Frana at lhe do Champagne, homem!... Ento veja l!
-
-E a cada phrase, sacudia os hombros, furiosamente. Depois, d'um trago,
-esvasiou o seu copo de Champagne, repetiu que tinha muito prazer em
-conhecer o sr. Clifford, rodou sobre os taces, sahiu, bufando,
-entalando mais debaixo do brao o chicote--que tremia na ponta como
-avido de vergastar alguem.
-
-Craft sorria, batia no hombro de Clifford.
-
---Veja voc! c ns, velhos portuguezes, no gostamos de novidades, e de
-_sports_... Somos pelo toiro...
-
---Com razo, dizia o outro, serio e aprumando-se sobre o collarinho.
-Ainda ha dias me contava na Granja, o Rei de Hespanha...
-
-De repente, fra, houve um rebolio, e vozes sobresaltadas gritando
-_ordem_! Uma senhora, que atravessava com um pequenito, fugiu para
-dentro do buffete, enfiada. Um policia passou, correndo.
-
-Era uma desordem!
-
-Carlos e os outros, sahindo pressa, viram ao p da tribuna real um
-magote de homens--onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os
-rapazes corriam com curiosidade, j excitados, apinhando-se, alando-se
-em bicos de ps; do recinto das carruagens acudiam outros, saltando as
-cordas da pista, apesar dos repelles dos policias:--e agora era uma
-massa tumultuosa de chapos altos, de fatos claros, empurrando-se contra
-as escadas da tribuna real, onde um ajudante d'el-rei, reluzente de
-agulhetas e em cabello, olhava tranquillamente.
-
-E Carlos, furando, poude emfim avistar no meio do monto um dos sujeitos
-que correra no premio dos Productos, o que montava _Jupiter_, ainda de
-botas, com um paletot alvadio por cima da jaqueta de jockey, furioso,
-perdido, injuriando o juiz das corridas, o Mendona, que arregalava os
-olhos, aturdido e sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-n'o,
-queriam que elle fizesse um protesto. Mas elle batia o p, tremulo,
-livido, gritando que no se importava nada com protestos! Perdera a
-corrida por uma pouca vergonha! O protesto alli era um arrocho! Porque o
-que havia n'aquelle hyppodromo era compadrice e ladroeira!
-
-Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade.
-
---Fra! Fra!
-
-Alguns tomavam o partido do jockey; j aos lados outras questes
-surgiam, desabridas. Um sujeito vestido de cinzento berrava que o
-Mendona decidira pelo Pinheiro, que montava _Escossez_, por ser intimo
-d'elle; outro cavalheiro, de binoculo a tiracollo, achava aquella
-insinuao infame; e os dois, frente a frente, com os punhos fechados,
-tratavam-se furiosamente de _pulhas_.
-
-E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes collarinhos de
-pintinhas, procurava romper, erguia os braos, exclamava, n'uma voz
-supplicante e rouca:
-
---Por quem so, meus senhores... Um momento... Eu tenho experiencia...
-Eu tenho experiencia!
-
-De repente o vozeiro do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro.
-Diante do jockey, sem chapo, com a face a estoirar de sangue,
-gritava-lhe que era indigno de estar alli, entre gente decente! Quando
-um gentleman duvida do juiz da corrida, faz um protesto! Mas vir dizer
-que ha ladres, era s d'um canalha e d'um fadista, como elle, que nunca
-devia ter pertencido ao Jockey-Club!--O outro, agarrado pelos amigos,
-esticando o pescoo magro como para lhe morder, atirou-lhe um nome sujo.
-Ento o Vargas, com um encontro para os lados, abriu espao, repuxou as
-mangas, berrou:
-
---Repita l isso! repita l isso!
-
-E immediatamente aquella massa de gente oscillou, embateu contra o
-taboado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de _ordem_ e
-_morra_, chapos pelo ar, baques surdos de murros.
-
-Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da policia;
-senhoras, com as saias apanhadas, fugiam atravez da pista, procurando
-espavoridamente as carruagens;--e um sopro grosseiro de desordem relles
-passava sobre o hyppodromo, desmanchando a linha postia de civilisao
-e a attitude forada de decoro...
-
-Carlos achou-se ao p do marquez, que exclamava, pallido:
-
---Isto incrivel, isto incrivel!...
-
-Carlos, pelo contrario, achava pittoresco.
-
---Qual pittoresco, homem! uma vergonha, com todos esses estrangeiros!
-
-No entanto a massa de gente dispersava, lentamente, obedecendo ao
-official de guarda, um moo pequenino mas decidido, que, em bicos de
-ps, aconselhava para os lados, n'uma voz de orador, cavalheirismo e
-prudencia... O jockey de paletot alvadio affastou-se, apoiado ao brao
-d'um amigo, cocheando, com o nariz a pingar sangue: e o commissario
-desceu para a pista, com um cortejo atraz, triumphante, sem collarinho,
-arranjando o chapo achatado n'uma pasta. A musica tocava a marcha do
-_Propheta_; em quanto o desgraado juiz das corridas, o Mendona,
-encostado tribuna real, com os braos cahidos, aparvalhado, balbuciava
-n'um resto d'assombro:
-
---Isto s a mim! Isto s a mim!
-
-O marquez, n'um grupo a que se juntra o Clifford, Craft, e Taveira,
-continuava a vociferar:
-
---Ento, esto convencidos? Que lhes tenho eu sempre dito? Isto um
-paiz que s supporta hortas e arraiaes... Corridas, como muitas outras
-coisas civilisadas l de fra, necessitam primeiro gente educada. No
-fundo todos ns somos fadistas! Do que gostamos de vinhaa, e viola, e
-bordoada, e viva l seu compadre! Ahi est o que !
-
-Ao lado d'elle Clifford, que no meio d'aquelle desmancho todo esticava
-mais correctamente a sua linha de gentleman, mordia um sorriso,
-assegurando, com um ar de consolao, que conflictos eguaes succedem em
-toda a parte... Mas no fundo parecia achar tudo aquillo ignobil.
-Dizia-se mesmo que elle ia retirar a _Mist_. E alguns davam-lhe razo.
-Que diabo! Era aviltante para um bello animal de raa correr n'um
-hyppodromo sem ordem e sem decencia, onde a todo o momento podiam
-reluzir navalhas.
-
---Ouve c, tu viste por acaso esse animal do Damaso? perguntou Carlos,
-chamando para o lado o Taveira. Ha uma hora que ando a farejal-o...
-
---Estava ainda ha pouco do outro lado, no recinto das carruagens, com a
-Josephina do Salazar... Anda extraordinario, de sobrecasaca branca, e de
-vo no chapo!
-
-Mas, quando d'ahi a pouco, Carlos quiz atravessar, a pista estava
-fechada. Ia-se correr o _Grande premio nacional_. Os numeros j tinham
-subido ao indicador, um tom de sineta morria no ar. Um cavallo do
-Darque, o _Rabbino_, com o seu jockey de encarnado e branco, descia,
-trazido redea por um groom e acompanhado pelo Darque: alguns sujeitos
-paravam a examinar-lhe as pernas, com o olho serio, affectando entender.
-Carlos demorou-se um momento tambem, admirando-o: era d'um bonito
-castanho escuro, nervoso e ligeiro, mas com o peito estreito.
-
-Depois, ao voltar-se, viu de repente a Gouvarinho, que acabava de certo
-de chegar, e conversava de p com D. Maria da Cunha. Estava com uma
-toilette ingleza, justa e simples, toda de cazimira branca, d'um branco
-de creme, onde as grandes luvas negras mosqueteira punham um contraste
-audaz: e o chapo preto tambem desapparecia sob as pregas finas d'um vo
-branco, enrolado em volta da cabea, cobrindo-lhe metade do rosto, com
-um ar oriental que no a bem ao seu narizinho curto, ao seu cabello cr
-de braza. Mas em redor os homens olhavam para ella como para um quadro.
-
-Ao avistar Carlos, a condessa no conteve um sorriso, um brilho de olhos
-que a illuminou. Instinctivamente deu um passo para elle: e ficaram um
-instante isolados, fallando baixo, em quanto D. Maria os observava,
-sorrindo, cheia j de benevolencia, prompta j a abenoal-os
-maternalmente.
-
---Estive para no vir, dizia a condessa, que parecia nervosa. O Gasto
-fez-se to desagradavel hoje! E naturalmente tenho d'ir manh para o
-Porto.
-
---Para o Porto?...
-
---O pap quer que eu l v, so os annos d'elle... Coitado, vae-se
-fazendo velho, escreveu-me uma carta to triste... Ha dois annos que me
-no v...
-
---O conde vae?
-
---No.
-
-E a condessa, depois de dar um sorriso ao ministro da Baviera, que a
-cumprimentava de passagem, aos pulinhos, acrescentou, mergulhando o
-olhar nos olhos de Carlos:
-
---E quero uma coisa.
-
---O que?
-
---Que venhas tambem.
-
-Justamente n'esse instante, Telles da Gama, de programma e lapis na mo,
-parou junto d'elles:
-
---Voc quer entrar n'uma _poule_ monstro, Maia? Quinze bilhetes, dez
-tostes cada um... L em cima ao canto da tribuna est-se apostando
-ferozmente... A desordem fez bem, sacudiu os nervos, todo o mundo
-acordou... Quer v. ex.^a tambem, sr.^a condessa?
-
-Sim, a condessa tambem entrava na _poule_. Telles da Gama inscreveu-a, e
-abalou atarefado. Depois foi Steinbroken que se acercou, todo flordo,
-de chapo branco, ferradura de rubis na gravata, mais esticado, mais
-loiro, mais inglez, n'este dia solemne de _sport_ official.
-
---Ah, comme vous tes belle, comtesse!... Voil une toilette
-merveilleuse, n'est ce pas, Maia?... Est ce que nous n'allons pas parier
-quelque chose?
-
-A condessa contrariada, querendo fallar a Carlos, risonha todavia,
-lamentou-se de ter j uma fortuna compromettida... Emfim sempre apostava
-cinco tostes com a Filandia. Que cavallo tomava elle?
-
---Ah, je ne sais pas, je ne connais pas les chevaux... D'abord, quand on
-parie...
-
-Ella, impaciente, offereceu-lhe _Vladimiro_. E teve de estender a mo a
-outro filandez, o secretario de Steinbroken, um moo loiro, lento,
-languido, que se curvara em silencio diante d'ella, deixando escorregar
-do olho claro e vago o seu monoculo d'ouro. Quasi immediatamente Taveira
-excitado veiu dizer que Clifford retirara a _Mist_.
-
-Vendo-a, assim cercada, Carlos affastou-se. Justamente o olhar de D.
-Maria, que o no deixara, chamava-o agora, mais carinhoso e vivo. Quando
-elle se chegou, ella puxou-lhe pela manga, fel-o debruar, para lhe
-murmurar ao ouvido, deliciada:
-
---Est hoje to galante!
-
---Quem?
-
-D. Maria encolheu os hombros, impaciente.
-
---Ora quem! Quem ha-de ser? O menino sabe perfeitamente. A condessa...
-Est de appetite.
-
---Muito galante, com effeito, disse Carlos friamente.
-
-De p, junto de D. Maria, tirando de vagar uma cigarrette, elle
-ruminava, quasi com indignao, as palavras da condessa. Ir com ella
-para o Porto!... E via alli outra exigencia audaz, a mesma tendencia
-impertinente a dispr do seu tempo, dos seus passos, da sua vida! Tinha
-um desejo de voltar junto d'ella, dizer-lhe que _no_, seccamente,
-desabridamente, sem motivos, sem explicaes, como um brutal.
-
-Acompanhada em silencio pelo esguio secretario de Steinbroken, ella
-vinha agora caminhando lentamente para elle: e o olhar alegre com que o
-envolvia irritou-o mais, sentindo no seu brilho sereno, no sorrir calmo,
-quanto ella estava certa da sua submisso.
-
-E estava. Apenas o filandez se affastou languidamente--ella, muito
-tranquilla, alli mesmo junto de D. Maria, fallando em inglez, e
-apontando para a pista como se commentasse os cavallos do Darque,
-explicou-lhe um plano que imaginara, encantador. Em logar de partir na
-tera feira para o Porto--ia na segunda noite, s com a criada
-escocessa, sua confidente, n'um compartimento reservado. Carlos tomava o
-mesmo comboio. Em Santarem, desciam ambos, muito simplesmente, e iam
-passar a noite ao hotel. No dia seguinte ella seguia para o Porto, elle
-recolhia a Lisboa...
-
-Carlos abria os olhos para ella, assombrado, emmudecido. No esperava
-aquella extravagancia. Suppozera que ella o queria no Porto, escondido
-no _Francfort_, para passeios romanticos Foz, ou visitas furtivas a
-algum casebre da Aguardente... Mas a ida d'uma noite, n'um hotel, em
-Santarem!
-
-Terminou por encolher os hombros, indignado. Como queria ella, n'uma
-linha de caminho de ferro em que se encontra constantemente gente
-conhecida, apear-se com elle na estao de Santarem, dar-lhe o brao,
-maritalmente, e enfiarem para uma estalagem? Ella, porm, pensra em
-todos os detalhes. Ninguem a conheceria, disfarada n'um grande
-_water-proof_, e com uma cabelleira postia.
-
---Com uma cabelleira!?
-
---O Gasto! murmurou ella de repente.
-
-Era o conde, por traz d'elle, abraando-o ternamente pela cintura. E
-quiz logo saber a opinio do amigo Maia sobre as corridas. Bastante
-animao, no verdade? E bonitas _toilettes_, certo ar de luxo...
-Emfim, no envergonhavam. E ahi estava provado o que elle sempre
-dissera, que todos os requintes da civilisao se aclimatavam bem em
-Portugal...
-
---O nosso solo moral, Maia, como o nosso solo physico, um solo
-abenoado!
-
-A condessa voltara para o p de D. Maria. E Telles da Gama, passando de
-novo, n'aquella faina ruidosa em que o trazia a formao da sua _poule_,
-chamou Carlos para a tribuna, para elle tirar o seu bilhete, e apostar
-com as senhoras...
-
---Oh Gouvarinho! venha tambem d'ahi, homem! exclamou elle. Que diabo!
-necessario animar isto, at patriotico.
-
-E o conde condescendeu, por patriotismo.
-
--- bom, dizia elle, travando do brao de Carlos, fomentar os
-divertimentos elegantes. J uma vez o disse na camara: o luxo
-conservador.
-
-Em cima, a um canto, n'um grupo de senhoras, foram com effeito encontrar
-uma animao--que quasi fazia escandalo n'aquella tribuna silenciosa e
-espera do Senhor dos Passos. A viscondessa de Alvim dobrava
-atarefadamente os bilhetes da _poule_: uma secretariasinha da Russia, de
-bonitos olhos garos, apostava desesperadamente placas de cinco tostes,
-estonteada, j embrulhada, rabiscando com phrenesi o seu programma. A
-Pinheiro, a mais magra, com um vestido leve de raminhos Pompadour que
-lhe fazia covas nas claviculas, dava opinies pretenciosas sobre os
-cavallos, em inglez: emquanto o Taveira, de olhos humidos no meio de
-todas aquellas saias, fallava de arruinar as senhoras, de viver custa
-das senhoras... E todos os homens, acotovelando-se, queriam fazer uma
-aposta com a Joanninha Villar, que, de costas contra o rebordo da
-tribuna, gordinha e languida, sorrindo, com a cabea deitada para traz,
-as pestanas mortas, parecia offerecer a todas aquellas mos, que se
-estendiam gulosamente para ella, o seu appetitoso peito de rola.
-
-Telles da Gama, no entanto, ia organisando a confuso alegre. Os
-bilhetes estavam dobrados, era necessario um chapo... Ento os
-cavalheiros affectaram um amor desordenado pelos seus chapos, no os
-querendo confiar s mos nervosas das senhoras; um rapaz, todo de luto,
-excedeu-se mesmo, agarrando as abas do seu, com ambas as mos, aos
-gritos.
-
-A secretariasinha da Russia, impaciente, terminou por offerecer o
-barrete de marujo do seu pequeno--uma creana obesa, pousada alli para
-um lado como uma trouxa. Foi a Joanninha Villar que levou em roda os
-bilhetes, rindo e chocalhando-os preguiosamente; emquanto o secretario
-de Steinbroken, grave, como exercendo uma funco, recolhia no seu
-grande chapo as placas cahindo uma a uma com um som argentino. E a
-tiragem foi o lindo divertimento da _poule_. Como estavam s quatro
-cavallos inscriptos, e as entradas eram quinze, havia onze bilhetes
-brancos que aterravam. Todos ambicionavam tirar o numero tres, o de
-_Rabbino_, o cavallo de Darque, favorito do _Premio Nacional_. Assim
-cada mosinha soffrega que se demorava no fundo do barrete, remexendo,
-tenteando os papeis, causava uma indignao folgas, n'um exagero de
-risos.
-
---A sr.^a viscondessa procura de mais!... E dobrou os numeros,
-conhece-os... necessario probidade, sr.^a viscondessa!
-
---Oh, mon Dieu, j'ai _Minhoto_, cette rosse!
-
---Je vous l'achette, madame!
-
--- sr.^a D. Maria Pinheiro, v. ex.^a leva dous numeros!...
-
---Ah! je suis perdue... Blanc!
-
---E eu! necessario fazer outra _poule_! Vamos fazer outra _poule_!
-
---Isso! Outra _poule_, outra _poule_!
-
-No entanto a enorme baroneza de Craben, n'um degrau mais elevado, que
-ella occupava s, como um throno, erguera-se, com o seu bilhete na mo.
-Tinha tirado _Rabbino_: e affectava superiormente no comprehender esta
-fortuna, perguntava o que era _Rabbino_. Quando o conde de Gouvarinho
-lhe explicou muito serio a importancia de _Rabbino_, e que _Rabbino_ era
-quasi uma gloria publica, ella mostrou a dentua, condescendeu em rosnar
-do fundo do papo que _c'etait charmant_. Todo o mundo a invejava; e a
-vasta baleia alastrou-se de novo sobre o seu throno, abanando-se, com
-magestade.
-
-E subitamente houve uma surpreza: em quanto elles tiravam os bilhetes,
-os cavallos tinham partido, passavam juntos diante da tribuna. Todos se
-ergueram, de binoculos na mo. O _starter_ ainda estava na pista, com a
-bandeira vermelha inclinada ao cho: e as ancas de cavallos fugiam na
-curva, lustrosos luz, sob as jaquetas enfunadas dos jockeys.
-
-Ento todo o rumor de vozes caiu; e no silencio a bella tarde pareceu
-alargar-se em redor, mais suave e mais calma. Atravez do ar sem poeira,
-sem a vibrao dos raios fortes, tudo tomava uma nitidez delicada:
-defronte da tribuna, na collina, a relva era d'um louro quente; no grupo
-de carruagens scintillava por vezes o vidro de uma lanterna, o metal de
-um arreio, ou de p, sobre uma almofada, destacava em escuro alguma
-figura de chapeo alto; e pela pista verde, os cavallos corriam, mais
-pequenos, finamente recortados na luz. Ao fundo, a cal das casas
-cobria-se de uma leve agoada cr de rosa: e o distante horisonte
-resplandecia, com dourados de sol, brilhos de rio vidrado, fundindo-se
-n'uma nevoa luminosa, onde as collinas, nos seus tons azulados, tinham
-quasi transparencia, como feitas d'uma substancia preciosa...
-
--- _Rabbino_! exclamou por traz de Carlos, um sugeito, de p n'um
-degrau.
-
-As cres encarnadas e brancas do Darque corriam com effeito na frente.
-Os dous outros cavallos iam juntos; e, o ultimo, n'um galope que
-adormecia, era _Vladimiro_, outro potro do Darque, baio-claro, quasi
-louro luz.
-
-Ento, a secretaria da Russia bateu as palmas, interpellou Carlos, que
-justamente tirara na poule o numero de _Vladimiro_. A ella coubera
-_Minhoto_, uma pileca melancolica do Manoel Godinho; e tinham feito
-sobre os dous cavallos uma aposta complicada de luvas e de amendoas. J
-umas poucas de vezes os seus lindos olhos garos tinham procurado os de
-Carlos; e agora tocava-lhe no brao com o leque, gracejava,
-triumphava...
-
---Ah, vous avez perdu, vous avez perdu! Mais c'est un vieux cheval de
-fiacre, vtre _Vladimir_.
-
-Como um cavallo de fiacre? _Vladimiro_ era o melhor potro do Darque!
-Talvez ainda viesse a ser a unica gloria de Portugal, como outr'ora o
-_Gladiador_ fra a unica gloria da Frana! Talvez ainda substituisse
-Cames...
-
---Ah, vous plaisantez...
-
-No, Carlos no gracejava. Estava at prompto a apostar tudo por
-_Vladimiro_.
-
---Voc aposta por _Vladimiro_? gritou Telles da Gama, voltando-se
-vivamente.
-
-Carlos, por divertimento, sem mesmo saber por qu, declarou que tomava
-_Vladimiro_. Ento, em roda, foi uma surpreza; e todo o mundo quiz
-apostar, aproveitar-se d'aquella phantasia de homem rico, que sustentava
-um potro verde, de tres quartos de sangue, a que o proprio Darque
-chamava _pileca_. Elle sorria, aceitava; terminou ate por erguer a voz,
-proclamar _Vladimiro contra o campo_. E de todos os lados o chamavam,
-n'uma sofreguido de saque.
-
---Mr. de Maia, dix tostons.
-
---Parfaitement, madame.
-
---Oh Maia, voc quer meia libra?
-
---s ordens.
-
---Maia, tambem eu! Oua l... Tambem eu!... Dous mil ris.
-
--- sr. Maia, eu vou dez tostes...
-
---Com o maior prazer, minha senhora...
-
-Ao longe os cavallos davam a volta, na subida do terreno. _Rabbino_ j
-desapparecera,--e _Vladimiro_ n'um galope a que se sentia o canasso,
-corria s na pista. Uma voz elevou-se, dizendo que elle manquejava.
-Ento Carlos, que continuava a tomar _Vladimiro_ contra o campo, sentiu
-que lhe puxavam de vagar pela manga; voltou-se; era o secretario de
-Steinbroken, chegando subtilmente a tomar tambem parte no saque bolsa
-do Maia, propondo dous soberanos, em seu nome e em nome do seu chefe,
-como uma aposta collectiva da legao, a aposta do reino da Filandia.
-
---C'est fait, monsieur! exclamou Carlos, rindo.
-
-Agora comeava a divertir-se. Apenas vira de relance _Vladimiro_, e
-gostara da cabea ligeira do potro, do seu peito largo e fundo; mas
-apostava sobre tudo para animar mais aquelle recanto da tribuna, ver
-brilhar gulosamente os olhos interesseiros das mulheres. Telles da Gama
-ao lado approvava-o, achava aquillo patriotico e _chic_.
-
--- _Minhoto_! gritou de repente Taveira.
-
-Na volta, com effeito, fizera-se uma mudana. Subitamente _Rabbino_
-perdera terreno, resistindo subida, com o folego curto. E agora era
-_Minhoto_, o cavallicoque obscuro de Manuel Godinho, que se arremessava
-para a frente, vinha devorando a pista, n'um esforo continuo,
-admiravelmente montado por um jockey hespanhol. E logo atraz vinham as
-cres escarlates e brancas de Darque: ao principio ainda pareceu que era
-_Rabbino_: mas, apanhado de repente n'um raio oblquo de sol, o cavallo
-cobriu-se de tons lustrosos de baio claro, e foi uma surpreza ao
-reconhecer-se que era _Vladimiro_! A corrida travava-se entre elle e
-_Minhoto_.
-
-Os amigos de Godinho, precipitando-se para a pista, bradavam, de chapos
-no ar:
-
---_Minhoto, Minhoto!_
-
-E, em redor de Carlos, os que tinham apostado pelo campo contra
-_Vladimiro_ faziam tambem votos por _Minhoto_, em bicos de ps, junto do
-parapeito da tribuna, estendendo o brao para elle, animando-o:
-
---Anda _Minhoto_!... Isso, assim!... Aguenta, rapaz!... Bravo!...
-_Minhoto! Minhoto!_
-
-A russa, toda nervosa, na esperana de ganhar a _poule_, batia as
-palmas. At a enorme Craben se erguera, dominando a tribuna, enchendo-a
-com os seus gorgores azues e brancos:--em quanto que, ao lado d'ella, o
-conde de Gouvarinho, tambem de p, sorria, contente no seu peito de
-patriota, vendo n'aquelles jockeys desfilada, nos chapos que se
-agitavam, brilhar civilisao...
-
-De repente, de baixo, d'ao p da tribuna, d'entre os rapazes que
-cercavam o Darque, uma exclamao partiu.
-
---_Vladimiro! Vladimiro!_
-
-Com um arranque desesperado o potro viera juntar-se a _Minhoto_: e agora
-chegavam furiosamente, com brilhos vivos de cres claras, os focinhos
-juntos, os olhos esbogalhados, sob uma chuva de vergastadas.
-
-Telles da Gama, esquecido da sua aposta, todo pelo Darque, seu intimo,
-berrava por _Vladimiro_. A russa, de p n'um degrau, apoiada sobre o
-hombro de Carlos, pallida, excitada, animava _Minhoto_ com gritinhos,
-com pancadas de leque. A agitao d'aquelle canto da tribuna
-estendera-se em baixo ao recinto--onde se via uma linha de homens,
-contra a corda da pista, bracejando. Do outro lado, era uma fila de
-rostos pallidos, fixos n'uma curta anciedade. Algumas senhoras tinham-se
-posto de p nas carruagens. E atravez da collina, para ver a chegada,
-dous cavalleiros, segurando com as mos os chapos baixos, corriam
-desfilada.
-
---_Vladimiro! Vladimiro!_ foram de novo os gritos isolados, aqui, alm.
-
-Os dous cavallos approximavam-se, com um som surdo das patas, trazendo
-um ar de rajada.
-
---_Minhoto! Minhoto!_
-
---_Vladimiro! Vladimiro!_
-
-Chegavam... De repente o jockey inglez de _Vladimiro_, todo em fogo,
-levantando o potro que lhe parecia fugir d'entre as pernas, esticado e
-lustroso, fez silvar triumphantemente o chicote, e d'um arremesso
-directo lanou-o alm da meta, duas cabeas adiante de _Minhoto_, todo
-coberto d'espuma.
-
-Ento em volta de Carlos foi uma desconsolao, um longo murmurio de
-lassido. Todos perdiam; elle apanhava a _poule_, ganhava as apostas,
-empolgava tudo. Que sorte! Que chance! Um addido italiano, thesoureiro
-da _poule_, empallideceu ao separar-se do leno cheio de prata: e de
-todos os lados mosinhas caladas de gris-perle, ou de castanho,
-atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de placas que
-elle recolhia, rindo, no chapo.
-
---Ah, monsieur, exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa,
-mefiez-vous... Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu...
-
---Helas! madame! disse Carlos, resignado, estendendo-lhe o chapo.
-
-E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no brao. Era o secretario de
-Steinbroken, lento e silencioso, que lhe trazia o seu dinheiro e o
-dinheiro do seu chefe, a aposta do reino da Filandia.
-
---Quanto ganha voc? exclamou Telles da Gama, assombrado.
-
-Carlos no sabia. No fundo do chapo j reluzia ouro. Telles contou, com
-o olho brilhante.
-
---Voc ganha doze libras! disse elle maravilhado, e olhando Carlos com
-respeito.
-
-Doze libras! Esta somma espalhou-se em redor, n'um rumor de espanto.
-Doze libras! Em baixo os amigos de Darque, agitando os chapos, davam
-ainda _hurrahs_. Mas uma indifferena, um tedio lento, ia pesando outra
-vez, desconsoladoramente. Os rapazes vinham-se deixar cahir nas
-cadeiras, bocejando, com um ar exhausto. A musica, desanimada tambem,
-tocava cousas plangentes da _Norma_.
-
-Carlos, no entanto, n'um degrau da tribuna, com a ida de descobrir o
-Damaso, sondava de binoculo o recinto das carruagens. A gente, agora, ia
-dispersando pela collina. As senhoras tinham retomado a immobilidade
-melancolica, no fundo das caleches, de mos no regao. Aqui e alm um
-dog-cart, mal arranjado, dava um trote curto pela relva. N'uma vittoria
-estavam as duas hespanholas do Eusebiosinho, a Concha e a Carmen, de
-sombrinhas escarlates. E sujeitos, de mos atrs das costas, pasmavam
-para um char--bancs a quatro attrelado Daumont onde, entre uma
-familia triste, uma ama de leno de lavradeira dava de mamar a uma
-creana cheia de rendas. Dous garotos esganiados passeavam bilhas
-d'agua fresca.
-
-Carlos descia da tribuna, sem ter descoberto o Damaso--quando deu
-justamente de frente com elle, dirigindo-se para a escada, affogueado,
-flamante, na sua famosa sobrecasaca branca.
-
---Onde diabo tens tu estado, creatura?
-
-O Damaso agarrou-o pelo brao, alou-se em bicos de ps, para lhe contar
-ao ouvido que tinha estado do outro lado com uma gaja divina, a
-Josephina do Zalazar... Chic a valer! lindamente vestida! parecia-lhe
-que tinha mulher!
-
---Ah, Sardanapalo!...
-
---Faz-se pela vida... Volta c acima tribuna, anda. Eu ainda hoje no
-pude cavaquear com o _high-life_!... Mas estou furioso, sabes?
-Implicaram com o meu veo azul. Isto um paiz de bestas! Logo troa, e
-_olhe no creste a pelle_, e _onde mora, catitinha?_ e chalaa... Uma
-canalha! Tive de tirar o veo ... Mas j resolvi. Para as outras corridas
-venho n. Palavra, venho n! Isto a vergonha da civilisao, esta
-terra! No vens d'ahi? Ento at j.
-
-Carlos deteve-o.
-
---Escuta l homem, tenho que te dizer... Ento, essa visita aos
-Olivaes?... Nunca mais appareceste... Tinhamos combinado que fosses
-convidar o Castro Gomes, que viesses dar a resposta... No vens, no
-mandas... O Craft espera... Emfim um procedimento de selvagem.
-
-Damaso atirou os braos ao ar. Ento Carlos no sabia? Havia grandes
-novidades! Elle no voltara ao Ramalhete, como estava combinado, porque
-o Carlos Gomes no podia ir aos Olivaes. Ia partir para o Brazil. J
-partir mesmo, na quarta feira. A coisa mais extraordinaria... Elle
-chega l, para fazer o convite, e s. ex.^a declara-lhe que sente muito,
-mas que parte no dia seguinte para o Rio... E j de mala feita, j
-alugada uma casa para a mulher ficar aqui espera tres mezes, j a
-passagem no bolso. Tudo de repente, feito de sabbado para segunda
-feira... Telhudo, aquelle Castro Gomes.
-
---E l partiu, exclamou elle, voltando-se a cumprimentar a viscondessa
-d'Alvim e Joanninha Villar que desciam das tribunas. L partiu, e ella
-j est installada. At j antes de hontem a fui visitar, mas no estava
-em casa... Sabes do que tenho medo? que ella, n'estes primeiros
-tempos, por causa da visinhana, como est s, no queira que eu l v
-muito... Que te parece?
-
---Talvez... E onde mora ella?
-
-Em quatro palavras, Damaso explicou a installao de madame. Era muito
-engraado, morava no predio do Cruges! A mam Cruges, havia j annos,
-alugava aquelle primeiro andar mobilado: o inverno passado estivera l o
-Bertonni, o tenor, com a familia. Casa bem arranjada, o Castro Gomes
-tinha tido dedo...
-
---E para mim, muito commodo, ali ao p do Gremio... Ento no voltas c
-acima, a cavaquear com o femeao? At logo... Est hoje chic a valer a
-Gouvarinho! E est a pedir homem! _Good-bye_.
-
-Defronte de Carlos a condessa de Gouvarinho, no grupo de D. Maria a que
-se viera juntar a Alvim e Joanninha Villar, no cessava de o chamar com
-o olhar inquieto, torturando o seu grande leque negro. Mas elle no
-obedeceu logo, parado ao p dos degraus da tribuna, accendendo vagamente
-uma cigarrette, perturbado por todas aquellas palavras do Damaso que lhe
-deixavam n'alma um sulco luminoso. Agora que a sabia s em Lisboa,
-vivendo na mesma casa do Cruges, parecia-lhe que j a conhecia,
-sentia-se muito perto d'ella--podendo assim a todo o momento entrar os
-hombraes da sua porta, pisar os degraus que ella pisava. Na sua
-imaginao transluziam j possibilidades d'um encontro, alguma palavra
-trocada, cousas pequeninas, subtis como fios, mas por onde os seus
-destinos se comeariam a prender... E immediatamente veio-lhe a tentao
-pueril de ir l, logo n'essa mesma tarde, n'esse instante, gosar como
-amigo do Cruges o direito de subir a escada d'ella, parar diante da
-porta d'ella--e surprehender uma voz, um som de piano, um rumor qualquer
-da sua vida.
-
-O olhar da condessa no o deixava. Elle approximou-se, emfim,
-contrariado: ella ergueu-se logo, deixou o seu grupo, e dando alguns
-passos com elle pela relva, recomeou a fallar na ida a Santarem.
-Carlos, ento, muito seccamente, declarou toda essa inveno insensata.
-
---Porque?...
-
-Ora porque! Por tudo. Pelo perigo, pelos desconfortos, pelo ridiculo...
-Emfim, a ella como mulher ficava-lhe bem ter phantasias pittorescas de
-romance; mas a elle competia-lhe ter bom senso.
-
-Ella mordia o beio, com todo o sangue na face. E no via alli bom
-senso. Via s frieza. Quando ella arriscava tanto, elle podia bem, por
-uma noite, affrontar os desconfortos da estalagem...
-
---Mas no isso!...
-
-Ento que era? Tinha medo? No havia mais perigo do que nas idas a casa
-da titi. Ninguem a podia conhecer, com outra cr de cabello, toda a
-sorte de vos, disfarada n'um grande water-proof. Chegavam de noite,
-entravam para o quarto, d'onde no sahiam mais, servidos apenas pela
-escosseza. No dia seguinte, no comboio da noite, ella seguia para o
-Porto, todo acabava... E n'aquella insistencia ella era o homem, o
-seductor, com a sua vehemencia de paixo activa, tentando-o,
-soprando-lhe o desejo; emquanto elle parecia a mulher, hesitante e
-assustada. E Carlos sentia isto. A sua resistencia a uma noite de amor,
-prolongando-se assim, ameaava ser grotesca: ao mesmo tempo o calor de
-voluptuosidade que emanava d'aquelle seio, arfando junto d'elle e por
-elle, ia-o amollecendo lentamente. Terminou por a olhar de certo modo;
-e, como se o desejo se lhe accendesse emfim de repente curta chamma
-que faiscava nas pupillas d'ella, negras, humidas, avidas, promettendo
-mil cousas, disse, um pouco pallido:
-
---Pois bem, perfeitamente... manh noite, na estao.
-
-N'esse momento, em redor, romperam exclamaes de troa: era um cavallo
-solitario que chegava, n'um galope pacato, passara a meta sem se
-apressar, como se descesse uma avenida do Campo Grande n'uma tarde de
-domingo. E em redor perguntava-se que corrida era aquella d'um cavallo
-s--quando ao longe, como sahindo da claridade loura do sol que descia
-sobre o rio, appareceu uma pobre pileca branca, empurrando-se,
-arquejando, n'um esforo doloroso, sob as chicotadas atarantadas d'um
-jockey de roxo e preto. Quando ella chegou, emfim, j o outro
-_gentleman-rider_ voltara da meta, a passo, pachorrentamente,--e estava
-conversando com os amigos, encostado corda da pista.
-
-Todo o mundo ria. E a corrida do Premio d'El-rei terminou assim,
-grotescamente.
-
-Ainda havia o Premio de Consolao--mas agora desapparecera todo o
-interesse ficticio pelos cavallos. Perante a calma e radiante belleza da
-tarde, algumas senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a
-pesagem, canadas da immobilidade da tribuna. Arranjaram-se mais
-cadeiras: aqui e alm, sobre a relva pisada, formavam-se grupos
-alegrados por algum vestido claro ou por uma pluma viva de chapo: e
-palrava-se, como n'uma sala de inverno, fumando-se familiarmente. Em
-redor de D. Maria e da Alvim projectava-se um grande pic-nic a Queluz.
-Alencar e o Gouvarinho discutiam a reforma de instruco. A horrivel
-Craben, entre outros diplomatas e moos de binoculo a tiracolo, dava do
-fundo grosso do papo, opinies sobre Daudet, que elle achava _trs
-agreable_. E, quando Carlos emfim abalou, o recinto, esquecidas as
-corridas, tomava um tom de _soire_, no ar claro e fresco da collina,
-com o murmurio de vozes, um mover de leques, e ao fundo a musica tocando
-uma valsa de Strauss.
-
-Carlos, depois de procurar muito Craft, encontrou-o no buffete com o
-Darque, com outros, bebendo mais champagne.
-
---Eu tenho de ir ainda a Lisboa, disse-lhe elle, e vou no phaeton.
-Abandono torpemente. Voc v para o Ramalhete como poder...
-
---Eu o levo! gritou logo o Vargas, que tinha j a gravata toda
-desmanchada. Levo-o no dog-cart. Eu me encarrego d'elle... O Craft fica
-por minha conta... necessario recibo? saude do Craft, inglez c dos
-meus... Hurrah!
-
---Hurrah! Hip, hip, hurrah!
-
-D'ahi a pouco, a trote largo no phaeton, Carlos descia o Chiado, dava a
-volta para a rua de S. Francisco. Ia n'uma perturbao deliciosa e
-singular, com aquella certeza de que ella estava s na casa do Cruges: o
-ultimo olhar que ella lhe dra parecia ir adiante d'elle, chamando-o: e
-um despertar tumultuoso de esperanas sem nome atirava-lhe a alma para o
-azul.
-
-Quando parou diante do porto--alguem, por dentro das janellas d'ella,
-a correndo lentamente os stores. Na rua silenciosa cahia j uma sombra
-de crepusculo. Atirou as redeas ao cocheiro, atravessou o pateo. Nunca
-viera visitar o Cruges, nunca subira esta escada; e pareceu-lhe
-horrorosa, com os seus frios degraus de pedra, sem tapete, as paredes
-nuas e enxovalhadas alvejando tristemente no comeo de escurido. No
-patamar do primeiro andar parou. Era alli que ella vivia. E ficou
-olhando, com uma devoo ingenua, para as tres portas pintadas d'azul: a
-do centro estava inutilisada por um banco comprido de palhinha, e na do
-lado direito pendia, com uma enorme bola, o cordo da campainha. De
-dentro no vinha um rumor:--e este pesado silencio, juntando-se ao
-movimento de stores que elle vira fechar-se, parecia cercar as pessoas
-que alli viviam de solido e de impenetrabilidade. Uma desconsolao
-passou-lhe na alma. Se ella agora, s, sem o marido, comeasse uma vida
-reclusa e solitaria? Se elle no tornasse mais a encontrar os seus
-olhos?
-
-Foi subindo de vagar at ao andar do Cruges. E mal sabia o que havia de
-dizer ao maestro para explicar aquella visita extranha, deslocada... Foi
-um allivio quando a criadita lhe veiu dizer que o menino Victorino tinha
-sahido.
-
-Em baixo, Carlos tomou as redeas, e foi levando lentamente o phaeton at
-ao largo da Bibliotheca. Depois retrocedeu, a passo. Agora, por traz do
-store branco, havia uma vaga claridade de luz. Elle olhou-a como se olha
-uma estrella.
-
-Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de p, estava-se justamente apeando
-de uma calecha de praa. Um momento ficaram alli porta, em quanto
-Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas.
-No _Premio de Consolao_, um dos cavalleiros tinha cahido, quasi ao p
-da meta, sem se magoar: e, por ultimo, j partida, o Vargas, que ia na
-sua terceira garrafa de champagne, esmurrara um criado do buffete, com
-ferocidade.
-
---Assim, disse Craft completando o seu troco, estas corridas foram boas
-pelo velho principe Shakespereano de que _tudo bom quanto acaba bem_.
-
---Um murro, disse Carlos rindo, com effeito um bello ponto final.
-
-No peristillo, o velho guarda-porto esperava, descoberto, com uma carta
-na mo para Carlos. Um criado tinha-a trazido, instantes antes de s.
-ex.^a chegar.
-
-Era uma letra ingleza de mulher, n'um envelope largo, lacrado com um
-sinete d'armas. Carlos alli mesmo abriu-a: e, logo primeira linha,
-teve um movimento to vivo, de to bella surpreza, illuminando-se-lhe
-tanto o rosto, que Craft do lado perguntou sorrindo:
-
---Aventura? Herana?...
-
-Carlos, vermelho, metteu a carta no bolso, e murmurou:
-
---Um bilhete apenas, um doente...
-
-Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas comeava
-assim:--Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos
-da Maia, e roga-lhe o obsequio...--depois, em duas breves palavras,
-pedia-lhe para ir ver na manh seguinte, o mais cedo possivel, uma
-pessoa de familia, que se achava incommodada.
-
---Bem, eu vou-me vestir, disse Craft... Jantar s sete e meia, hein?
-
---Sim, o jantar...--respondeu Carlos, sem saber o qu, banhado todo n'um
-sorriso, como em extase.
-
-Correu aos seus aposentos: e junto da janella, sem mesmo tirar o chapo,
-leu uma vez mais o bilhete, outra vez ainda, contemplando enlevadamente
-a forma da letra, procurando voluptuosamente o perfume do papel.
-
-Era datada d'esse mesmo dia tarde. Assim, quando elle passara defronte
-da sua porta, j ella a escrevera, j o seu pensamento se demorara
-n'elle--quando mais no fosse seno ao traar as lettras simples do seu
-nome. No era ella que estava doente. Se fosse Rosa, ella no diria to
-friamente uma pessoa de familia. Era talvez o esplendido preto de
-carapinha grisalha. Talvez miss Sarah, abenoada fosse ella para sempre,
-que queria um medico que entendesse inglez... Emfim havia l uma pessoa
-n'uma cama, junto da qual ella mesma o conduziria, atravez dos
-corredores interiores d'aquella casa--que havia apenas instantes sentira
-to fechada, e como impenetravel para sempre!... E depois este adorado
-bilhete, este delicioso pedido para ir a sua casa, agora que ella o
-conhecia, que vira Rosa atirar-lhe um grande adeus--tomava uma
-significao profunda, perturbadora...
-
-Se ella no quizesse comprehender, nem acceitar o distante amor que os
-seus olhos lhe tinham offerecido claramente, o mais luminosamente que
-tinham podido, n'esses fugitivos instantes que se tinham cruzado com os
-d'ella--ento poderia ter mandado chamar outro medico, um clinico
-qualquer, um estranho. Mas no: o seu olhar respondera ao d'elle, e ella
-abria-lhe a sua porta...--E o que sentia a esta ida era uma gratido
-ineffavel, um impulso tumultuoso de todo o seu ser a cahir-lhe aos ps,
-ficar-lhe beijando a orla do vestido, devotamente, eternamente, sem
-querer mais nada, sem pedir mais nada...
-
-Quando Craft d'alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado,
-correcto--achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chapo na
-cabea passeando o quarto, n'esta agitao radiante.
-
---Voc est a faiscar, homem! disse Craft, parando deante d'elle, com as
-mos nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu
-resplandecente collarinho. Voc flameja!... Voc parece que tem uma
-aurola na nuca!... Voc succedeu-lhe o quer que seja de muito bom!
-
-Carlos espreguiou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em
-silencio, encolheu os hombros, e murmurou:
-
---A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe succede , em definitivo, bom
-ou mau.
-
---Ordinariamente mau, disse o outro friamente, aproximando-se do
-espelho a retocar com mais correco o n da gravata branca.
-
-FIM DO PRIMEIRO VOLUME
-
-
-
-
-EA DE QUEIROZ
-
-OS MAIAS
-
-EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA
-
-VOLUME II
-
-PORTO
-
-
-Livraria Internacional de Ernesto Chardron
-CASA EDITORA
-LUGAN & GENELIOUX, Successores
-
-
-1888
-
-Todos os direitos reservados
-
-
-
-
-OS MAIAS
-
-VOLUME I
-
-
-
-
-OS MAIAS
-
-
-
-
-I
-
-
-Na manh seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a p do Ramalhete
-at rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde
-morria em penumbra a luz distante da claraboia, uma velha de leno na
-cabea, encolhida n'um chalesinho preto, esperava, sentada
-melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava
-uma parede feia de corredor, forrada de papel amarello. Dentro um
-relogio ronceiro estava batendo dez horas.
-
---A senhora j tocou? perguntou Carlos, erguendo o chapo.
-
-A velha murmurou, d'entre a sombra do leno que lhe cahia para os olhos,
-n'um tom canado e doente:
-
---J, sim, meu senhor. J fizeram o favor de me fallar. O criado, o snr.
-Domingos, no tarda...
-
-Carlos esperou, passeando lentamente no patamar. Do segundo andar vinha
-um barulho alegre de crianas brincando; por cima, o moo do Cruges
-esfregava a escada com estrondo, assobiando desesperadamente o fado. Um
-longo minuto arrastou-se, depois outro, infindavel. A velha, d'entre a
-negrura do leno, deu um suspirosinho abatido. L ao fundo um canario
-rompera a cantar; e ento Carlos, impaciente, puxou o cordo da
-campainha.
-
-Um criado de suissas ruivas, correctamente abotoado n'um jaqueto de
-flanella, appareceu correndo, com uma travessa na mo, abafada n'um
-guardanapo; e ao vr Carlos ficou to atarantado, bambaleando porta,
-que um pouco de molho de assado escorregou, cahiu sobre o soalho.
-
---Oh snr. D. Carlos Eduardo, faz favor d'entrar!... Ora esta! Tem a
-bondade d'esperar um instantinho, que eu abro j a sala... Tome l,
-snr.^a Augusta, tome l, olhe no entorne mais! A senhora diz que l
-manda logo o vinho do Porto... Desculpe v. exc.^a, snr. D. Carlos... Por
-aqui, meu senhor...
-
-Correu um reposteiro de reps vermelho, introduziu Carlos n'uma sala
-alta, espaosa, com um papel de ramagens azues, e duas varandas para a
-rua de S. Francisco; e erguendo pressa os dois transparentes de
-paninho branco, perguntava a Carlos se s. exc.^a no se lembrava j do
-Domingos. Quando elle se voltou, risonho, descendo precipitadamente os
-canhes das mangas, Carlos reconheceu-o pelas suissas ruivas. Era com
-effeito o Domingos, escudeiro excellente, que no comeo do inverno
-estivera no Ramalhete, e se despedira por birras patrioticas, birras
-ciumentas, com o cozinheiro francez.
-
---No o tinha visto bem, Domingos, disse Carlos. O patamar um pouco
-escuro... Lembro-me perfeitamente... E ento voss agora aqui, hein? E
-est contente?
-
---Eu parece-me que estou muito contente, meu senhor... O snr. Cruges
-tambem mora c por cima...
-
---Bem sei, bem sei...
-
---Tenha v. exc.^a a paciencia de esperar um instantinho que eu vou dar
-parte snr.^a D. Maria Eduarda...
-
-Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome d'ella; e
-pareceu-lhe perfeito, condizendo bem com a sua belleza serena. Maria
-Eduarda, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem
-sabe se no presagiava a concordancia dos seus destinos!
-
-Domingos, no entanto, j porta da sala, com a mo no reposteiro, parou
-ainda, para dizer n'um tom de confidencia e sorrindo:
-
--- a governante ingleza que est doente...
-
---Ah! a governante?
-
---Sim, meu senhor, tem uma febresita desde hontem, peso no peito...
-
---Ah!...
-
-O Domingos deu outro movimento lento ao reposteiro, sem se apressar,
-contemplando Carlos com admirao:
-
---E o avsinho de v. exc.^a passa bem?
-
---Obrigado, Domingos, passa bem.
-
---Aquillo que um grande senhor!... No ha, no ha outro assim em
-Lisboa!
-
---Obrigado, Domingos, obrigado...
-
-Quando elle finalmente sahiu, Carlos, tirando as luvas, deu uma volta
-curiosa e lenta pela sala. O soalho fra esteirado de novo. Ao p da
-porta havia um piano antigo de cauda, coberto com um pano alvadio; sobre
-uma estante ao lado, cheia de partituras, de musicas, de jornaes
-illustrados, pousava um vaso do Japo onde murchavam tres bellos lirios
-brancos; todas as cadeiras eram forradas de reps vermelho; e aos ps do
-sof estirava-se uma velha pelle de tigre. Como no Hotel Central, esta
-intallao summaria de casa alugada recebera retoques de conforto e de
-gosto: cortinas novas de cretone, combinando com o papel azul da parede,
-tinham substituido as classicas bambinellas de cassa: um pequeno
-contador arabe, que Carlos se lembrava de ter visto havia dias no tio
-Abraho, viera encher um lado mais desguarnecido da parede: o tapete de
-pellucia d'uma mesa oval, collocada ao centro, desapparecia sob lindas
-encadernaes de livros, albuns, duas taas japonezas de bronze, um
-cesto para flres de porcelana de Dresde, objectos delicados d'arte que
-no pertenciam decerto mi Cruges. E parecia errar alli, acariciando a
-ordem das coisas e marcando-as com um encanto particular, aquelle
-indefinido perfume que Carlos j sentira nos quartos do Hotel Central, e
-em que dominava o jasmim.
-
-Mas o que attrahiu Carlos foi um bonito biombo de linho cr, com
-ramalhetes bordados, desdobrado ao p da janella, fazendo um recanto
-mais resguardado e mais intimo. Havia l uma cadeirinha baixa de setim
-escarlate, uma grande almofada para os ps, uma mesa de costura com todo
-um trabalho de mulher interrompido, numeros de jornaes de modas, um
-bordado enrolado, mlhos de l de cres transbordando de um aafate. E,
-confortavelmente enroscada no macio da cadeira, achava-se ahi, n'esse
-momento, a famosa cadellinha escosseza, que tantas vezes passra nos
-sonhos de Carlos, trotando ligeiramente atraz de uma radiante figura
-pelo Aterro fra, ou aninhada e adormecida n'um doce regao...
-
---Bonjour, Mademoiselle, disse-lhe elle, baixinho, querendo captar-lhe
-as sympathias.
-
-A cadellinha erguera-se logo bruscamente na cadeira, d'orelhas fitas,
-dardejando para aquelle estranho, por entre as repas esguedelhadas, dois
-bellos olhos de azeviche, desconfiados, d'uma penetrao quasi humana.
-Um instante Carlos receou que ella rompesse a ladrar. Mas a cadellinha
-de repente namorra-se d'elle, deitada j na cadeira, de patas ao ar,
-descomposta, abandonando o ventresinho s suas caricias. Carlos ia
-coal-a e amimal-a, quando um passo leve pizou a esteira. Voltou-se, viu
-Maria Eduarda diante de si.
-
-Foi como uma inesperada appario--e vergou profundamente os hombros,
-menos a saudal-a, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia
-abrazar-lhe o rosto. Ella, com um vestido simples e justo de sarja
-preta, um collarinho direito de homem, um boto de rosa e duas folhas
-verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval,
-acabando de desdobrar um pequeno leno de renda. Obedecendo ao seu gesto
-risonho, Carlos pousou-se embaraadamente borda do sof de reps. E
-depois d'um instante de silencio, que lhe pareceu profundo, quasi
-solemne, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, d'um
-tom d'ouro que acariciava.
-
-Atravs do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ella lhe agradecia
-os cuidados que elle tivera com Rosa: e, de cada vez que o seu olhar se
-demorava n'ella um instante mais, descobria logo um encanto novo e outra
-frma da sua perfeio. Os cabellos no eram louros, como julgra de
-longe claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e
-castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na
-grande luz escura dos seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de
-muito grave e de muito dce. Por um geito familiar cruzava s vezes, ao
-fallar, as mos sobre os joelhos. E atravs da manga justa de sarja,
-terminando n'um punho branco, elle sentia a belleza, a brancura, o
-macio, quasi o calor dos seus braos.
-
-Ella calra-se. Carlos, ao levantar a voz, sentiu outra vez o sangue
-abrazar-lhe o rosto. E, apesar de saber j pelo Domingos que a doente
-era a governante, s achou, na sua perturbao, esta pergunta timida:
-
---No sua filha que est doente, minha senhora?
-
---Oh no! graas a Deus!
-
-E Maria Eduarda contou-lhe, justamente como o Domingos, que a governante
-ingleza havia dois dias se achava incommodada, com difficuldade de
-respirar, tosse, uma ponta de febre...
-
---Imaginmos ao principio que era uma constipao passageira; mas hontem
- tarde estava peor, e estou agora impaciente que a veja...
-
-Ergueu-se, foi puxar um enorme cordo de campainha que pendia ao lado do
-piano. O seu cabello por traz, repuxado para o alto da cabea, deixava
-uma pennugem d'ouro frisar-se delicadamente sobre a brancura lactea do
-pescoo. Entre aquelles moveis de reps, sob o tecto banal d'estuque
-enxovalhado, toda a sua pessoa parecia a Carlos mais radiante, d'uma
-belleza mais nobre, e quasi inaccessivel; e pensava que nunca alli
-ousaria olhal-a to francamente, com uma to clara adorao, como quando
-a encontrava na rua.
-
---Que linda cadellinha v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, quando
-Maria Eduarda se tornou a sentar, e pondo j n'estas palavras simples,
-ditas a sorrir, um accento de ternura.
-
-Ella sorriu tambem com um lindo sorriso, que lhe fazia uma covinha no
-queixo, dava uma doura mais mimosa s suas feies srias. E
-alegremente, batendo as palmas, chamando para dentro do biombo:
-
---_Niniche!_ esto-te a fazer elogios, vem agradecer!
-
-_Niniche_ appareceu a bocejar. Carlos achava lindo este nome de
-_Niniche_. E era curioso, tinha tido tambem uma galguinha italiana que
-se chamava _Niniche_...
-
-N'esse instante a criada entrou--a rapariga magra e sardenta, d'olhar
-petulante, que Carlos vira j no Hotel Central.
-
---Melanie vai-lhe ensinar o quarto de miss Sarah, disse Maria Eduarda.
-Eu no o acompanho, porque ella to timida, tem tanto escrupulo em
-incommodar, que diante de mim capaz de negar tudo, dizer que no tem
-nada...
-
---Perfeitamente, perfeitamente, murmurava Carlos, sorrindo, n'um encanto
-de tudo.
-
-E pareceu-lhe ento que no olhar d'ella alguma coisa brilhra, fugira
-para elle, de mais vivo, de mais dce.
-
-Com o seu chapo na mo, pisando familiarmente aquelle corredor intimo,
-surprehendendo detalhes de vida domestica, Carlos sentia como a alegria
-d'uma posse. Por uma porta meio aberta pde entrevr uma banheira, e ao
-lado dependurados grandes roupes turcos de banho. Adiante, sobre uma
-mesa, estavam alinhadas, e como desencaixotadas recentemente, garrafas
-d'aguas mineraes de Saint-Galmier e de Vals. Elle deduzia logo d'estas
-coisas to simples, to banaes, evidencias de vida delicada.
-
-Melanie correu um reposteiro de linho cr, fl-o entrar n'um quarto
-claro e fresco: e ahi foi encontrar a pobre miss Sarah n'um leitosinho
-de ferro, sentada, com um lao de sda azul ao pescoo, e os bands to
-lisos, to acamados pela escova, como se fosse sahir n'um domingo para a
-capella presbyteriana. Na mesinha de cabeceira os seus jornaes inglezes
-estavam escrupulosamente dobrados, junto d'um copo com duas bellas
-rosas; e tudo no quarto resplandecia de severo arranjo, desde os
-retratos da familia real d'Inglaterra, expostos sobre a toalha de renda
-que cobria a commoda, at s suas botinas bem engraxadas, classificadas,
-perfiladas n'uma prateleira de pinho.
-
-Apenas Carlos se sentou, ella immediatamente, com duas rosetas de
-vergonha na face, entre frouxos de tosse, declarou que no tinha nada.
-Era a senhora, to boa, to cautelosa, que a forra a metter-se na
-cama... E para ella era um desgosto vr-se alli ociosa, inutil, agora
-que Madame estava to s, n'uma casa sem jardim. Onde havia a menina de
-brincar? Quem havia de sahir com ella? Ah! Era uma priso para
-Madame!...
-
-Carlos consolava-a, tomando-lhe o pulso. Depois, quando elle se ergueu
-para a auscultar, a pobre miss cobriu-se toda d'um rubor afflicto,
-apertando mais a roupa contra o peito, querendo saber se era
-_absolutamente_ necessario... Sim, decerto, era necessario... Achou-lhe
-o pulmo direito um pouco tomado; e, em quanto a agasalhava, fez-lhe
-algumas perguntas sobre a sua familia. Ella contou que era de York,
-filha de um _clergyman_, e tinha quatorze irmos: os rapazes estavam na
-Nova Zelandia, e todos eram d'uma robustez de athletas. Ella sahira a
-mais fraca; tanto que o pai, vendo que ella aos dezesete annos pesava s
-oito arrobas, ensinou-lhe logo latim, destinando-a para governante.
-
-Em todo o caso, dizia Carlos, nunca houvera na sua familia doenas de
-peito? Ella sorriu. Oh! nunca! A mam ainda vivia. O pap, j muito
-velho, morrera do couce de uma egua.
-
-Carlos, no entanto, j de p, com o chapo na mo, continuava a
-observal-a, reflectindo. Ento, de repente, sem motivo, ella
-enterneceu-se, os seus olhos pequeninos ennevoaram-se de agua. E quando
-ouviu que eram precisos tantos agasalhos, que teria de estar alli no
-quarto ainda quinze dias, perturbou-se mais, duas lagrimasinhas timidas
-quasi lhe fugiram das pestanas. Carlos terminou por lhe afagar
-paternalmente a mo.
-
---_Oh! Thank you sir!_ murmurou ella, commovida de todo.
-
-Na sala, Carlos veio encontrar Maria Eduarda sentada junto da mesa,
-arranjando ramos, com uma grande cesta de flres pousada ao lado d'uma
-cadeira, e o regao cheio de cravos. Uma bella restea de sol, estendida
-na esteira, vinha morrer-lhe aos ps; e _Niniche_, deitada alli, reluzia
-como se fosse feita de fios de prata. Na rua, sob as janellas, um
-realejo ia tocando, na alegria da linda manh de sol, a walsa da _Madame
-Angot_. Pelo andar de cima tinham recomeado as correrias de crianas
-brincando.
-
---Ento? exclamou ella, voltando-se logo, com um mlho de cravos na mo.
-
-Carlos tranquillisou-a. A pobre miss Sarah tinha uma bronchite ligeira,
-com pouca febre. Em todo o caso necessitava resguardo, toda a cautela...
-
---Certamente! E ha de tomar algum remedio, no verdade?
-
-Atirou logo o resto dos cravos do regao para o cesto, foi abrir uma
-secretariasinha de pau preto collocada entre as janellas. Ella mesmo
-arranjou o papel para elle receitar, metteu um bico novo na penna. E
-estes cuidados perturbavam Carlos como caricias.
-
---Oh minha senhora... murmurava elle, um lapis basta...
-
-Quando se sentou, os seus olhos demoraram-se com uma curiosidade
-enternecida n'esses objectos familiares onde pousava a doura das mos
-d'ella--um sinete d'agatha sobre um velho livro de contas, uma faca de
-marfim com monogramma de prata ao lado d'uma taasinha de Saxe cheia
-d'estampilhas; e em tudo havia a ordem clara que to bem condizia com o
-seu puro perfil. Na rua o realejo calra-se, por cima do tecto j no
-cavallavam as crianas. E, em quanto escrevia devagar, Carlos sentia-a
-abafar sobre a esteira o som dos seus passos, mover os seus vasos mais
-de leve.
-
---Que bonitas flres v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, voltando
-a cabea, em quanto ia seccando distrahida e lentamente a receita.
-
-De p, junto do contador arabe, onde pousava um vaso amarello da India,
-ella arranjava folhas em volta de duas rosas.
-
---Do frescura, disse ella. Mas imaginei que em Lisboa havia mais
-bonitas flres. No ha nada que se compare s flres de Frana... Pois
-no verdade?
-
-Elle no respondeu logo, esquecido a olhar para ella, pensando na doura
-de ficar alli eternamente n'aquella sala de reps vermelho, cheia de
-claridade e cheia de silencio, a vl-a pr folhas verdes em torno de ps
-de rosa!
-
---Em Cintra ha lindas flres, murmurou por fim.
-
---Oh, Cintra um encanto! disse ella, sem erguer os olhos do seu ramo.
-Vale a pena vir a Portugal s por causa de Cintra.
-
-N'esse momento, o reposteiro de reps esvoaou, e Rosa entrou de dentro,
-correndo, vestida de branco, com meiasinhas de sda preta, uma onda
-negra de cabello a bater-lhe as costas, e trazendo ao collo a sua grande
-boneca. Ao vr Carlos parou bruscamente, com os bellos olhos muito
-abertos para elle, toda encantada, e apertando mais nos braos Cri-cri
-que vinha em camisa.
-
---No conheces? perguntou-lhe a mi, indo sentar-se outra vez diante do
-seu cesto de flres.
-
-Rosa comeava j a sorrir, o seu rostosinho cobria-se d'uma linda cr. E
-assim, toda d'alvo e negro como uma andorinha, tinha um encanto raro,
-com o seu dce mimo de frma, a sua graa ligeira, os seus grandes olhos
-cheios d'azul, e um ruborzinho de mulher na face. Quando Carlos se
-adiantou com a mo estendida para renovar o antigo conhecimento--ella
-ergueu-se na ponta dos ps, estendeu-lhe vivamente a boquinha, fresca
-como um boto de rosa. Carlos ousou apenas tocar-lhe de leve na testa.
-
-Depois quiz apertar a mo sua velha amiga Cri-cri. E ento, de
-repente, Rosa recordou-se do que a trouxera alli a correr.
-
--- o robe-de-chambre, mam! No posso achar o robe-de-chambre de
-Cri-cri... Ainda a no pude vestir... Dize, sabes onde que est o
-robe-de-chambre?
-
---Vejam esta desarranjada! murmurava a mi olhando-a com um sorriso
-lento e terno. Se Cri-cri tem uma commoda particular, o seu
-guarda-vestidos, no se lhe deviam perder as coisas... Pois no
-verdade, snr. Carlos da Maia?
-
-Elle, ainda com a sua receita na mo, sorria tambem, sem dizer nada,
-todo no enternecimento d'aquella intimidade em que se sentia penetrar
-dcemente.
-
-A pequena ento veio encostar-se mi, roando-se pelo seu brao, com
-uma vozinha languida, lenta, e de mimo:
-
---Anda, dize... No sejas m... Anda... Onde est o robe-de-chambre?
-Dize...
-
-Levemente, com a ponta dos dedos, Maria Eduarda arranjou-lhe o pequenino
-lao de sda branca que lhe prendia no alto o cabello. Depois ficou mais
-sria:
-
---Est bem, est quieta... Tu sabes que no sou eu que trato dos
-arranjos da Cri-cri. Devias ter mais ordem... Vai perguntar a Melanie.
-
-E Rosa obedeceu logo, sria tambem, comprimentando agora Carlos ao
-passar, com um arzinho senhoril:
-
---Bonjour, Monsieur...
-
--- encantadora! murmurou elle.
-
-A mi sorriu. Tinha acabado de compr o seu ramo de cravos;--e
-immediatamente attendeu a Carlos, que pousra a receita sobre a mesa, e
-sem se apressar, installando-se n'uma poltrona, lhe foi fallando da
-dieta que devia ter miss Sarah, das colheres de xarope de codeina que se
-lhe deviam dar de tres em tres horas...
-
---Pobre Sarah! dizia ella. E curioso, no verdade? Veio com o
-presentimento, quasi com a certeza, que havia de adoecer em Portugal...
-
---Ento vem a detestar Portugal!
-
---Oh! tem-lhe j horror! Acha muito calor, por toda a parte maus
-cheiros, a gente hedionda... Tem medo de ser insultada na rua... Emfim
-infelicissima, est ardendo por se ir embora...
-
-Carlos ria d'aquellas antipathias saxonias. De resto em muitas coisas a
-boa miss Sarah tinha talvez razo...
-
---E v. exc.^a tem-se dado bem em Portugal, minha senhora?
-
-Ella encolheu os hombros, indecisa.
-
---Sim... Devo dar-me bem... o meu paiz
-
-O _seu_ paiz!... E elle que a julgava brazileira!
-
---No, sou portugueza.
-
-E, durante um momento, houve um silencio. Ella tomra de sobre a mesa,
-abria lentamente um grande leque negro pintado de flres vermelhas. E
-Carlos sentia, sem saber porque, uma doura nova penetrar-lhe no
-corao. Depois ella fallou da sua viagem que fra muito agradavel;
-adorava andar no mar; tinha sido um encanto a manh da chegada a Lisboa,
-com um co azul-ferrete, o mar todo azul tambem, e j um calorzinho do
-clima dce... Mas depois, apenas desembarcados, tudo correra
-desagradavelmente. Tinham ficado mal alojados no Central. _Niniche_, uma
-noite, assustra-os muito com uma indigesto. Em seguida no Porto viera
-aquelle desastre...
-
---Sim, disse Carlos, o marido de v. exc.^a, na Praa Nova...
-
-Ella pareceu surprehendida. Como sabia elle? Ah! sim, sabia de certo
-pelo Damaso...
-
---So muito amigos, creio eu.
-
-Depois d'uma leve hesitao, que ella comprehendeu, Carlos murmurou:
-
---Sim... O Damaso vai bastante ao Ramalhete... de resto um rapaz que
-eu conheo apenas ha mezes...
-
-Ella abriu os olhos, pasmada.
-
---O Damaso? Mas elle disse-me que se conheciam desde pequeninos, que
-eram at parentes...
-
-Carlos encolheu simplesmente os hombros, sorrindo.
-
--- uma bella illuso... E se isso o faz feliz!...
-
-Ella sorriu tambem, encolhendo tambem ligeiramente os hombros.
-
---E v. exc.^a, minha senhora, continuou logo Carlos no querendo fallar
-mais do Damaso, como acha Lisboa?
-
-Gostava bastante, achava muito bonito este tom azul e branco de cidade
-meridional... Mas, havia to poucos confortos!... A vida tinha aqui um
-ar que ella no pudera perceber ainda--se era de simplicidade ou de
-pobreza.
-
---Simplicidade, minha senhora. Temos a simplicidade dos selvagens...
-
-Ella riu.
-
---No direi isso. Mas supponho que so como os gregos: contentam-se em
-comer uma azeitona, olhando o co que bonito...
-
-Isto pareceu adoravel a Carlos, todo o seu corao fugiu para ella.
-
-Maria Eduarda queixava-se sobretudo das casas, to faltas de
-commodidade, to despidas de gosto, to desleixadas. Aquella em que
-vivia fazia a sua desgraa. A cozinha era atroz, as portas no fechavam.
-Na sala de jantar havia sobre a parede umas pinturas de barquinhos e
-collinas que lhe tiravam o appetite...
-
---Alm d'isso, acrescentou, um horror no ter um quintal, um jardim,
-onde a pequena possa correr, ir brincar...
-
---No facil encontrar assim uma casa nas condies d'esta e com
-jardim, disse Carlos.
-
-Deu um olhar s paredes, ao estuque enxovalhado do tecto--e lembrou-lhe
-de repente a quinta do Craft, com a sua vista de rio, o ar largo, as
-frescas ruas de acacias.
-
-Felizmente, Maria Eduarda tomra a casa apenas ao mez, e estava pensando
-em ir passar beira-mar o tempo que tivesse de ficar ainda em Portugal.
-
---De resto, disse ella, foi o que me aconselhou o meu medico em Paris, o
-dr. Chaplain.
-
-O dr. Chaplain? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain.
-Ouvira-lhe as lies, visitra-o at intimamente na sua propriedade de
-Maisonnettes, ao p de Saint-Germain. Era um grande mestre, era um
-espirito bem superior!
-
---E to bom corao! disse ella com um claro sorriso, um olhar que
-brilhou.
-
-E este sentimento commum pareceu de repente aproximal-os mais dcemente:
-cada um n'esse instante adorou o dr. Chaplain: e continuaram ainda
-fallando d'elle prolongadamente, gozando, atravs d'essa trivial
-sympathia por um velho clinico, a nascente concordancia dos seus
-coraes.
-
-O bom dr. Chaplain! Que physionomia to amavel, to fina!... Sempre com
-o seu barretinho de sda... E sempre com a sua grande flr na casaca...
-De resto, o pratico maior que sahira da gerao de Trousseau.
-
---E Madame Chaplain, acrescentou Carlos, uma pessoa encantadora... No
- verdade?
-
-Mas Maria Eduarda no conhecia Madame Chaplain.
-
-Dentro o relogio ronceiro comera a bater onze horas. E Carlos ento
-ergueu-se, findando a sua fugitiva, inolvidavel, deliciosa visita...
-
-Quando ella lhe estendeu a mo, um pouco de sangue subiu-lhe de novo
-face ao tocar aquella palma to macia e to fresca. Pediu os seus
-comprimentos para Mademoiselle Rosa. Depois, porta, j com o
-reposteiro na mo, voltou-se ainda, uma vez mais, n'uma ultima saudao,
-a receber o olhar suave com que ella o seguia...
-
---At manh, est claro! exclamou ella de repente, com o seu lindo
-sorriso.
-
---At manh, decerto!
-
-O Domingos estava j no patamar, de casaca, risonho e bem penteado.
-
--- coisa de cuidado, meu senhor?
-
---No nada, Domingos... Estimei vl-o por aqui.
-
---E eu muito a v. exc.^a. At manh, meu senhor.
-
---At manh.
-
-_Niniche_ appareceu tambem no patamar. Elle abaixou-se ternamente a
-afagal-a, e disse-lhe tambem, radiante:
-
---At manh, _Niniche_!
-
-
-At manh! Voltando para o Ramalhete, era esta a unica ida que elle
-sentia distinctamente atravs da nevoa luminosa que lhe afogava a alma.
-Agora o seu dia estava findo:--mas, passadas as longas horas, terminada
-a longa noite, elle penetraria outra vez n'aquella sala de reps
-vermelho, onde ella o esperava, com o mesmo vestido de sarja, enrolando
-ainda folhas verdes em torno de ps de rosa...
-
-Pelo Aterro, por entre a poeira de vero e o ruido das carroas, o que
-elle via era essa sala, esteirada de novo, fresca, silenciosa e clara:
-por vezes uma phrase que ella dissera cantava-lhe na memoria, com o tom
-d'ouro da sua voz; ou luziam-lhe diante dos olhos as pedras dos seus
-anneis entremettidos pelos pllos de _Niniche_. Parecia-lhe mais linda,
-agora que conhecia o seu sorriso d'uma graa to delicada; era cheia de
-inteligencia, era cheia de gosto; e a pobre velha porta, esse doente a
-quem ella mandava vinho do Porto, revelavam a sua bondade... E o que o
-encantava que no tornaria mais a farejar a cidade como um rafeiro
-perdido, busca dos seus olhos negros; agora bastava-lhe subir alguns
-degraus, abria-se diante d'elle a porta da sua casa; e tudo de repente
-na vida parecia tornar-se facil, equilibrado, sem duvidas e sem
-impaciencias.
-
-No seu quarto, no Ramalhete, Baptista entregou-lhe uma carta.
-
---Trouxe-a a escosseza, j v. exc.^a tinha sahido.
-
-Era da Gouvarinho! Meia folha de papel, tendo simplesmente escripto a
-lapis--_all rigth_. Carlos amarrotou-a, furioso. A Gouvarinho!... No se
-tornra quasi a lembrar d'ella, desde a vespera, no radiante tumulto em
-que andra o seu corao. E era no comboio d'essa noite, d'ahi a horas,
-que deviam ambos partir para Santarem, a amarem-se, escondidos n'uma
-estalagem! Elle promettera-lh'o, a srio; j ella se preparra decerto,
-com a atroz cabelleira postia, com o _water-proof_ de grande roda; tudo
-estava _all rigth_... Achou-a n'esse instante ridicula, reles,
-estupida... Oh, era claro como a luz que no ia, que nunca iria, jmais!
-Mas tinha d'apparecer na estao de Santa Apolonia, balbuciar uma
-desculpa tosca, assistir sua desconsolao, vr-lhe os olhos marejados
-de lagrimas. Que massada!... Teve-lhe odio.
-
-Quando chegou mesa do almoo Craft e Affonso, j sentados, fallavam
-justamente do Gouvarinho, e dos artigos que elle continuava gravemente a
-publicar no _Jornal do Commercio_.
-
---Que besta essa! exclamou Carlos n'uma voz que sibilava, desabafando
-sobre a litteratura politica do marido a colera que lhe davam as
-importunidades amorosas da mulher.
-
-Affonso e Craft olharam-n'o, pasmados de tanta violencia. E Craft
-censurou-lhe a ingratido. Porque, realmente, no havia em toda a terra
-um enthusiasmo como o que aquelle desventuroso homem d'estado tinha por
-Carlos...
-
---V. exc.^a no faz ida, snr. Affonso da Maia. um culto. uma
-idolatria!
-
-Carlos encolhia os hombros, impaciente. E Affonso, j bem disposto para
-com o homem que assim admirava to prodigamente o seu neto, murmurou com
-bondade:
-
---Coitado, supponho que inoffensivo...
-
-Craft fez uma ovao ao velho:
-
---_Inoffensivo!_ Admiravel, snr. Affonso da Maia! _Inoffensivo_,
-applicado a um homem d'estado, a um par, a um ministro, a um legislador,
- um achado! E com effeito o que elle , _inoffensivo_... E o que
-elles so...
-
---Chablis? murmurou o escudeiro.
-
---No, tomo ch.
-
-E acrescentou:
-
---Aquelle champagne que hontem bebemos nas corridas, por patriotismo,
-arrasou-me... Tenho de me pr uma semana a regimen de leite.
-
-Ento fallou-se ainda das corridas, dos ganhos de Carlos, do Clifford, e
-do vo azul do Damaso.
-
---Ora quem estava hontem muito bem vestida era a Gouvarinho, disse Craft
-remexendo o seu ch. Ficava-lhe admiravelmente aquelle branco creme,
-tocado de tons negros. Uma verdadeira toilette de corridas... _C'tait
-un [oe]illet blanc panach de noir_... Voss no achou, Carlos?
-
---Sim, rosnou Carlos, estava bem.
-
-Outra vez a Gouvarinho! Parecia-lhe agora que no haveria na sua vida
-conversa em que no surgisse a Gouvarinho, e que no haveria caminho na
-sua vida que o no atravancasse a Gouvarinho! E alli mesmo, mesa,
-decidiu comsigo no a tornar a vr, escrever-lhe um bilhete curto,
-polido, recusando-se a ir a Santarem, sem razes...
-
-Mas no seu quarto, diante da folha de papel, fumou uma longa cigarrette,
-sem achar phrase que no fosse pueril ou brutal. Nem tinha a sympathia
-precisa para lhe dar o banal tratamento de _querida_. Vinha-lhe at por
-ella uma indefinida repulso physica: devia ser intoleravel toda uma
-noite o seu cheiro exagerado de verbena;--e lembrava-se que aquella
-pelle do seu pescoo, que se lhe afigurava outr'ora um setim, tinha um
-tom pegajoso, um tom amarellado, para alm da linha de ps d'arroz.
-Decidiu no lhe escrever. Iria noite a Santa Apolonia, e no momento do
-comboio partir correria portinhola, a balbuciar fugitivamente uma
-desculpa; no lhe daria tempo de choramigar, nem de recriminar; um
-rapido aperto de mo, e adeus, para nunca mais...
-
- noite, porm, hora de ir estao, que sacrificio em se arrancar
-aos confortos da sua poltrona, e do seu charuto!... Atirou-se para o
-coup desesperado, maldizendo essa tarde no boudoir azul em que, por
-causa d'uma rosa e d'um certo vestido cr de folha morta que lhe ficava
-bem, elle se'achra cahido com ella n'um sof...
-
-Ao chegar a Santa Apolonia faltavam, para a partida do expresso, dois
-minutos. Precipitou-se para a extremidade da sala, j quasi vazia
-quella hora, a comprar uma _admisso_; e ainda ahi esperou uma
-eternidade, vendo dentro do postigo duas mos lentas e molles arranjar
-laboriosamente os patacos d'um troco.
-
-Penetrava emfim na sala d'espera--quando esbarrou com o Damaso, de
-chapo desabado e saccola de viagem a tiracollo. Damaso agarrou-lhe as
-mos, enternecido:
-
--- menino! pois tiveste o incommodo?... E como soubeste tu que eu
-partia?
-
-Carlos no o desilludiu, balbuciando que lh'o dissera o Taveira, que
-encontrra o Taveira...
-
---Pois eu estava mais longe d'uma d'estas! exclamou o Damaso. Esta
-manh, muito regalado na cama, quando me vem o telegramma... Fiquei
-furioso! Isto , imagina tu como eu fiquei, um desgosto assim!...
-
-Foi ento que Carlos reparou que elle estava carregado de luto, com fumo
-no chapo, luvas pretas, polainas pretas, barra preta no leno...
-Murmurou, embaraado:
-
---O Taveira disse-me que ias, mas no me disse mais nada... Morreu-te
-alguem?
-
---Meu tio Guimares.
-
---O communista? o de Paris?
-
---No, o irmo d'elle, o mais velho, o de Penafiel... Espera ahi que eu
-volto j, vou alli ao caf encher o frasco de cognac. Com a afflico
-esquecia-me o cognac...
-
-Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos, de guarda-p, com
-chapeleiras na mo. Os guardas rolavam pachorrentamente as bagagens.
-D'uma portinhola, onde se exhibia um cavalheiro barrigudo, com um bonet
-bordado a retroz, pendia todo um cacho d'amigos politicos,
-respeitosamente e em silencio. A um canto uma senhora soluava por baixo
-do vo.
-
-Carlos, vendo um wagon com a papeleta de _reservado_, imaginou l a
-condessa. Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a profanao
-d'um santuario. Que queria elle, que queria elle d'alli? No sabia que
-era o _reservado_ do snr. Carneiro?
-
---No sabia.
-
---Perguntasse, devia saber! ficou o outro a resmungar, ainda tremulo.
-
-Carlos correu ainda outros wagons, onde a gente se apinhava,
-atabafadamente, na amontoao dos embrulhos; n'um, dois sujeitos, a
-proposito de lugares, tratavam-se de _malcriados_; adiante, uma criana
-esperneava no collo da ama, aos gritos.
-
--- menino, quem diabo andas tu a procurar? exclamou Damaso alegremente,
-surgindo por traz d'elle, e passando-lhe o brao pela cinta.
-
---Ninguem... Imaginei que tinha visto o marquez.
-
-Immediatamente Damaso queixou-se d'aquella lgubre massada de ter d'ir a
-Penafiel!
-
---E ento agora que eu precisava tanto estar em Lisboa! Que tenho andado
-com uma sorte para mulheres, menino!... Uma sorte damnada!
-
-Uma sineta badalou. Damaso deu logo um abrao terno a Carlos, saltou
-para o seu wagon, enterrou na cabea um barretinho de sda--e depois
-debruado da portinhola continuou ainda as confidencias. O que mais o
-contrariava era deixar aquelle arranjinho da rua de S. Francisco. Que
-ferro! agora que aquillo ia to bem, o gajo no Brazil, e ella alli,
-mo, a dois passos do Gremio!...
-
-Carlos mal o escutava, distrahido, olhando o grande relogio
-transparente. De repente Damaso, portinhola, deu um salto de surpreza:
-
---Olha os Gouvarinhos!
-
-Carlos deu um salto tambem. O conde, de cco de viagem, de paletot
-alvadio, sem se apressar, como competia a um director da Companhia,
-vinha conversando com um empregado superior da estao, agaloado de
-ouro, que se encarregra da chapeleira de papelo de s. exc.^a E a
-condessa, com um rico guarda-p de foulard cr de castanho, um vo
-cinzento que lhe cobria a face e o chapo, seguia atraz, com a criada
-escosseza, trazendo na mo um ramo de rosas.
-
-Carlos correu para elles, foi todo um assombro.
-
---Por aqui, Maia?
-
---De viagem, conde?
-
- verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos annos do pap...
-Resoluo da ultima hora, quasi iam perdendo o comboio.
-
---Ento temol-o por companheiro, Maia? Teremos esse grande prazer, Maia?
-
-Carlos contou rapidamente que viera apenas apertar a mo ao pobre
-Damaso, de jornada para Penafiel, por causa da morte do tio.
-
-Debruado da portinhola, com as mos de fra caladas de negro, o pobre
-Damaso estava saudando a senhora condessa, gravemente, funebremente. E o
-bom Gouvarinho no quiz deixar de lhe ir dar logo o seu _shake-hands_ e
-o seu pezame.
-
-Ssinho n'esse curto instante com a condessa, Carlos murmurou apenas:
-
---Que ferro!
-
---Este maldito homem! exclamou ella, entre dentes, com um olhar que
-fuzilou atravs do vo. Tudo to bem arranjado, e ultima hora teima em
-vir!...
-
-Carlos acompanhou-os at ao _reservado_, n'um outro wagon que se
-estivera mettendo de novo para s. exc.^a A condessa tomou o lugar do
-canto junto da portinhola. E como o conde, n'um tom de polidez acida, a
-aconselhava a que se sentasse antes com o rosto para a machina, ella
-teve um gesto de aborrecimento, atirou o ramo para o lado
-desabridamente, enterrou-se com mais fora na almofada; e um duro olhar
-de colera passou entre ambos. Carlos, embaraado, perguntava:
-
---Ento vo com demora?
-
-O conde respondeu, sorrindo, disfarando o seu mau humor:
-
---Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas ferias.
-
---Tres dias, o mais, replicou ella n'uma voz fria e afiada como uma
-navalha.
-
-O conde no respondeu, livido.
-
-Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silencio cahira sobre a
-plataforma. O apito da machina varou o ar; e o comprido trem, n'um ruido
-secco de freios retesados, comeou a rolar, com gente s portinholas,
-que ainda se debruava, estendendo a mo para um ultimo aperto. Aqui e
-alm esvoaava um leno branco. O olhar da condessa para o lado de
-Carlos teve a doura de um beijo, o Damaso gritou saudades para o
-Ramalhete. O compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro
-dilacerante silvo o comboio mergulhou na noite...
-
-Carlos, s, dentro do coup, voltando Baixa, sentia uma alegria
-triumphante com aquella partida da condessa, e a inesperada jornada do
-Damaso. Era como uma disperso providencial de todos os importunos: e
-assim se fazia em torno da rua de S. Francisco uma solido--com todos os
-seus encantos, e todas as suas cumplicidades.
-
-No caes do Sodr deixou a carruagem, subiu a p pelo Ferregial, veio
-passar diante das janellas na rua de S. Francisco. S pde vr uma vaga
-tira de claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto bastava-lhe.
-Podia agora imaginar com preciso o sero calmo que ella estava passando
-na larga sala de reps vermelho. Sabia o nome dos livros que ella lia, e
-as partituras que tinha sobre o piano; e as flres que espalhavam alli o
-seu aroma vira-as elle arranjar n'essa manh. Poria ella um instante o
-seu pensamento n'elle? Decerto; a doena em casa forava-a a lembrar as
-horas do remedio, as explicaes que elle dera, e o som da sua voz; e
-fallando com miss Sarah pronunciaria decerto o seu nome. Duas vezes
-percorreu a rua de S. Francisco; e recolheu para casa, sob a noite
-estrellada, devagar, ruminando a doura d'aquelle grande amor.
-
-
-Ento todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa,
-esplendida, perfeita, a visita ingleza.
-
-Saltava do leito, cantando como um canario, e penetrava no seu dia como
-n'uma aco triumphal. O correio chegava; e invariavelmente lhe trazia
-uma carta da Gouvarinho, tres folhas de papel d'onde cahia sempre alguma
-pequena flr meio murcha. Elle deixava ficar a flr no tapete: e mal
-podia dizer o que havia n'aquellas longas linhas cruzadas. Sabia apenas
-vagamente que, tres dias depois d'ella chegar ao Porto, o pai, o velho
-Thompson, tivera uma apoplexia. Ella l estava, d'enfermeira. Depois,
-levando duas ou tres bellas flres do jardim embrulhadas n'um papel de
-sda, partia para a rua de S. Francisco, sempre no seu coup--porque o
-tempo mudra, e os dias seguiam-se, tristonhos, cheios de sudoeste e de
-chuva.
-
- porta o Domingos acolhia-o com um sorriso cada vez mais enternecido.
-_Niniche_ corria de dentro, a pular d'amizade; elle erguia-a nos braos
-para a beijar. Esperava um instante na sala, de p, saudando com o olhar
-os moveis, os ramos, a clara ordem das coisas; ia examinar no piano a
-musica que ella tocra essa manh, ou o livro que deixra interrompido,
-com a faca de marfim entre as folhas.
-
-Ella entrava. O seu sorriso ao dar-lhe os bons dias, a sua voz d'ouro
-tinham cada dia para Carlos um encanto novo e mais penetrante. Trazia
-ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas s vezes uma gravata
-de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivella era cravejada de pedras,
-avivavam este traje sobrio, quasi severo, que parecia a Carlos o mais
-bello, e como uma expresso do seu espirito.
-
-Comeavam por fallar de miss Sarah, d'aquelle tempo agreste e humido que
-lhe era to desfavoravel. Conversando, ainda de p, ella dava aqui e
-alm um arranjo melhor a um livro, ou ia mover uma cadeira que no
-estava no seu alinho; tinha o habito inquieto de recompr constantemente
-a symetria das coisas;--e, machinalmente, ao passar, sacudia a
-superficie de moveis j perfeitamente espanejados com as magnificas
-rendas do seu leno.
-
-Agora acompanhava-o sempre ao quarto de miss Sarah. Pelo corredor
-amarello, caminhando ao seu lado, Carlos perturbava-se sentindo a
-caricia d'esse intimo perfume em que havia jasmim, e que parecia sahir
-do movimento das suas saias. Ella s vezes abria familiarmente a porta
-de um quarto, apenas mobilado com um velho sof: era alli que Rosa
-brincava, e que tinha os arranjos de Cri-cri, as carruagens de Cri-cri,
-a cozinha de Cri-cri. Encontravam-na vestindo e conversando
-profundamente com a boneca; ou ento, ao canto do sof, com os psinhos
-cruzados, immovel, perdida na admirao d'algum livro d'estampas aberto
-sobre os joelhos. Ella corria, estendia a boquinha a Carlos; e toda a
-sua pessoa tinha a frescura de uma linda flr.
-
-No quarto da governante, Maria Eduarda sentava-se aos ps do leito
-branco; e logo a pobre miss Sarah, ainda cheia de tosse, confusa,
-verificando a cada instante se o leno de sda lhe cobria correctamente
-o pescoo, affirmava que estava boa. Carlos gracejava com ella,
-provando-lhe que n'esse feio tempo d'inverno, a felicidade era estar
-alli na cama, com bons cuidados em redor, alguns romances patheticos, e
-appetitosa dieta portugueza. Ella voltava os olhos gratos para Madame,
-com um suspiro. Depois murmurava:
-
---_Oh yes, I am very comfortable!_
-
-E enternecia-se.
-
-Logo nos primeiros dias, ao voltar sala, Maria Eduarda tinha-se
-sentado na sua cadeira escarlate, e, conversando com Carlos, retomra
-muito naturalmente o seu bordado como na presena familiar de um velho
-amigo. Com que felicidade profunda elle viu desdobrar-se essa talagara!
-Devia ser um faiso de plumagens rutilantes: mas por ora s estava
-bordado o galho de macieira em que elle pousava, galho fresco de
-primavera, coberto de florzinhas brancas, como n'um pomar da Normandia.
-
-Carlos, junto da linda secretariasinha de pau preto, occupava a mais
-velha, a mais commoda das poltronas de reps vermelho, cujas molas
-rangiam de leve. Entre elles ficava a mesa de costura com as
-_Illustraes_ ou algum jornal de modas; s vezes, um instante calado,
-elle folheava as gravuras, em quanto as lindas mos de Maria, com
-brilhos de joias, iam puxando os fios de l. Aos ps d'ella _Niniche_
-dormitava, espreitando-os a espaos, atravs das repas do focinho, com o
-seu bello olho grave e negro. E n'esses escuros dias de chuva, cheios de
-friagem l fra e do rumor das goteiras, aquelle canto da janella, com a
-paz do vagaroso trabalho na talagara, as vozes lentas e amigas, e s
-vezes um dce silencio, tinha um ar intimo e carinhoso...
-
-Mas no que diziam no havia intimidades. Fallavam de Paris e do seu
-encanto, de Londres onde ella estivera durante quatro lugubres mezes de
-inverno, da Italia que era o seu sonho vr, de livros, de coisas d'arte.
-Os romances que preferia eram os de Dickens; e agradava-lhe menos
-Feuillet, por cobrir tudo de p d'arroz, mesmo as feridas do corao.
-Apesar de educada n'um convento severo d'Orleans, lra Michelet e lra
-Renan. De resto no era catholica praticante; as igrejas apenas a
-attrahiam pelos lados graciosos e artisticos do culto, a musica, as
-luzes, ou os lindos mezes de Maria, em Frana, na doura das flres de
-maio. Tinha um pensar muito recto e muito so--com um fundo de ternura
-que a inclinava para tudo o que soffre e fraco. Assim gostava da
-Republica por lhe parecer o regimen em que ha mais solicitude pelos
-humildes. Carlos provava-lhe rindo que ella era socialista.
-
---Socialista, legitimista, orleanista, dizia ella, qualquer coisa,
-comtanto que no haja gente que tenha fome!
-
-Mas era isso possivel? J Jesus, mesmo, que tinha to dces illuses,
-declarra que pobres sempre os haveria...
-
---Jesus viveu ha muito tempo, Jesus no sabia tudo... Hoje sabe-se mais,
-os senhores sabem muito mais... necessario arranjar-se outra
-sociedade, e depressa, em que no haja miseria. Em Londres, s vezes,
-por aquellas grandes neves, ha criancinhas pelos portaes a tiritar, a
-gemer de fome... um horror! E em Paris ento! que se no v seno o
-boulevard; mas quanta pobreza, quanta necessidade...
-
-Os seus bellos olhos quasi se enchiam de lagrimas. E cada uma d'estas
-palavras trazia todas as complexas bondades da sua alma--como n'um s
-sopro podem vir todos os aromas esparsos de um jardim.
-
-Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou s suas caridades,
-pedindo-lhe para ir vr a irm da sua engommadeira que tinha
-rheumatismo, e o filho da snr.^a Augusta, a velha do patamar, que estava
-tisico. Carlos cumpria esses encargos com o fervor de aces religiosas.
-E n'estas piedades achava-lhe semelhanas com o av. Como Affonso, todo
-o soffrimento dos animaes a consternava. Um dia viera indignada da Praa
-da Figueira, quasi com idas de vingana, por ter visto nas tendas dos
-gallinheiros aves e coelhos apinhados em cestos, soffrendo durante dias
-as torturas da immobilidade e a anciedade da fome. Carlos levava estes
-bellas coleras para o Ramalhete, increpava violentamente o marquez, que
-era membro da _Sociedade protectora dos animaes_. O marquez, indignado
-tambem, jurava justia, fallava em cadas, em costa d'Africa... E
-Carlos, commovido, ficava a pensar quanta larga e distante influencia
-pde ter, mesmo isolado de tudo, um corao que justo.
-
-Uma tarde fallaram do Damaso. Ella achava-o insupportavel, com a sua
-petulancia, os olhos bugalhudos, as perguntas nescias. V. exc.^a acha
-Nice elegante? V. exc.^a prefere a capella de S. Joo Baptista a
-_Notre-Dame_?...
-
---E ento a insistencia de fallar de pessoas que eu no conheo! A
-snr.^a condessa de Gouvarinho, e os chs da snr.^a condessa de
-Gouvarinho, e a frisa da snr.^a condessa de Gouvarinho, e a preferencia
-que a snr.^a condessa de Gouvarinho tem por elle... E isto horas! Eu s
-vezes tinha medo de adormecer...
-
-Carlos fez-se escarlate. Porque trouxera ella, entre todos, o nome da
-Gouvarinho? Tranquillisou-se, vendo-a rir simples e limpidamente.
-Decerto no sabia quem era Gouvarinho. Mas, para sacudir logo d'entre
-elles esse nome, comeou a fallar de Mr. Guimares, o famoso tio do
-Damaso, o amigo de Gambetta, o influente da Republica...
-
---O Damaso tem-me dito que v. exc.^a o conhece muito...
-
-Ella erguera os olhos, com um fugitivo rubor no rosto.
-
---Mr. Guimares?... Sim, conheo muito... Ultimamente viamo-nos menos,
-mas elle era muito amigo da mam.
-
-E depois d'um silencio, d'um curto sorriso, recomeando a puxar o seu
-longo fio de l:
-
---Pobre Guimares, coitado! A sua influencia na Republica traduzir
-noticias dos jornaes hespanhoes e italianos para o _Rappel_, que d'isso
- que vive... Se amigo de Gambetta, no sei, Gambetta tem amigos to
-extraordinarios... Mas o Guimares, alis bom homem e homem honrado,
-um grutesco, uma especie de Calino republicano. E to pobre, coitado! O
-Damaso, que rico, se tivesse decencia, ou o menor sentimento, no o
-deixava viver assim to miseravelmente.
-
---Mas ento essas carruagens do tio, esse luxo do tio, de que falla o
-Damaso...?
-
-Ella encolheu mudamente os hombros; e Carlos sentiu pelo Damaso um asco
-intoleravel.
-
-Pouco a pouco nas suas conversas foi havendo uma intimidade mais
-penetrante. Ella quiz saber a idade de Carlos, elle fallou-lhe do av. E
-durante essas horas suaves em que ella, silenciosa, ia picando a
-talagara, elle contou-lhe a sua vida passada, os planos de carreira, os
-amigos, e as viagens... Agora ella conhecia a paizagem de Santa Olavia,
-o reverendo Bonifacio, as excentricidades do Ega. Um dia quiz que Carlos
-lhe explicasse longamente a ida do seu livro _A medicina antiga e
-moderna_. Approvou, com sympathia, que elle pintasse as figuras dos
-grandes medicos, bemfeitores da humanidade. Porque se glorificariam s
-guerreiros e fortes? A vida salva a uma criana parecia-lhe coisa bem
-mais bella que a batalha de Austerlitz. E estas palavras que dizia com
-simplicidade, sem mesmo erguer os olhos do seu bordado, cahiam no
-corao de Carlos e ficavam l muito tempo, palpitando e brilhando...
-
-Elle tinha-lhe feito assim largamente todas as confisses;--e ainda no
-sabia nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer
-a rua que habitava em Paris. No lhe ouvira murmurar jmais o nome do
-marido, nem fallar d'um amigo ou d'uma alegria da sua casa. Parecia no
-ter em Frana, onde vivia, nem interesses, nem lar;--e era realmente
-como a deusa que elle idera, sem contactos anteriores com a terra,
-descida da sua nuvem d'oiro para vir ter alli, n'aquelle andar alugado
-da rua de S. Francisco, o seu primeiro estremecimento humano.
-
-Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham faltado
-d'affeies. Ella acreditava candidamente que podesse haver, entre uma
-mulher e um homem, uma amizade pura, immaterial, feita da concordancia
-amavel de dois espiritos delicados. Carlos jurou que tambem tinha f
-n'essas bellas unies, todas d'estima, todas de razo--comtanto que se
-lhes misturasse, ao de leve que fosse, uma ponta de ternura... Isso
-perfumava-as d'um grande encanto--e no lhes diminuia a sinceridade. E,
-sob estas palavras um pouco diffusas, murmuradas por entre as malhas do
-bordado e com lentos sorrisos, ficra subtilmente estabelecido que entre
-elles s deveria haver um sentimento assim, casto, legitimo, cheio de
-suavidade e sem tormentos.
-
-Que importava a Carlos? Comtanto que podesse passar aquella hora na
-poltrona de cretone, contemplando-a a bordar, e conversando em coisas
-interessantes, ou tornadas interessantes pela graa da sua pessoa;
-comtanto que visse o seu rosto, ligeiramente crado, baixar-se, com a
-lenta attraco d'uma caricia, sobre as flres que lhe trazia; comtanto
-que lhe afagasse a alma a certeza de que o pensamento d'ella o ficava
-seguindo sympathicamente atravs do seu dia, mal elle deixava aquella
-adorada sala de reps vermelho--o seu corao estava satisfeito,
-esplendidamente.
-
-No pensava mesmo que aquella ideal amizade, d'inteno casta, era o
-caminho mais seguro para a trazer, brandamente enganada, aos seus braos
-ardentes d'homem. No deslumbramento que o tomra ao vr-se de repente
-admittido a uma intimidade que julgra impenetravel,--os seus desejos
-desappareciam: longe d'ella, s vezes, ainda ousavam ir temerariamente
-at esperana d'um beijo, ou d'uma fugitiva caricia com a ponta dos
-dedos; mas apenas transpunha a sua porta, e recebia o calmo raio do seu
-olhar negro, cahia em devoo, e julgaria um ultraje bestial roar
-sequer as prgas do seu vestido.
-
-Foi aquelle decerto o periodo mais delicado da sua vida. Sentia em si
-mil coisas finas, novas, d'uma tocante frescura. Nunca imaginra que
-houvesse tanta felicidade em olhar para as estrellas quando o co est
-limpo; ou em descer de manh ao jardim para escolher uma rosa mais
-aberta. Tinha na alma um constante sorriso--que os seus labios repetiam.
-O marquez achava-lhe o ar baboso e abenoador...
-
-s vezes, passeando s no seu quarto, perguntava a si mesmo onde o
-levaria aquelle grande amor. No sabia. Tinha diante de si os tres mezes
-em que ella estaria em Lisboa, e em que ninguem mais seno elle
-occuparia a velha cadeira ao lado do seu bordado. O marido andava longe,
-separado por legoas de mar incerto. Depois elle era rico, e o mundo era
-largo...
-
-Conservava sempre as suas grandes idas do trabalho, querendo que no seu
-dia s houvesse horas nobres,--e que aquellas que no pertenciam s
-puras felicidades do amor, pertencessem s alegrias fortes do estudo. Ia
-ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscripto. Mas antes da
-visita rua de S. Francisco no podia disciplinar o espirito, inquieto,
-n'um tumulto d'esperanas; e depois de voltar de l, passava o dia a
-recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a
-graa de certo sorriso... Fumava ento cigarrettes, lia os poetas.
-
-Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de
-_whist_. O marquez batia-se ao domin com o Taveira, enfronhados ambos
-n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias.
-Depois das corridas, o secretario de Steinbroken comera a vir ao
-Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as
-balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de
-vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus
-longos bigodes tristes.
-
-O amigo que Carlos gostava de vr entrar era o Cruges--que vinha da rua
-de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava.
-O maestro sabia que Carlos ia todas as manhs ao predio vr a miss
-ingleza; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de
-corao com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da
-visinha...
-
---A visinha l ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execuo, tem
-expresso, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin.
-
-Se elle no apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam
-no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da
-visinha; Cruges achava-lhe um verdadeiro typo de _grande dame_.
-
-Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como elle
-dizia a faiscar d'ironia) o que se passava no paiz do snr. Gambetta.
-Parecera remoar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade
-d'esperana nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela
-condessa. L estava no Porto, nos seus deveres de filha...
-
---E seu sogro?
-
-O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente:
-
---Mal.
-
-
-Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando _Niniche_
-que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Romo entreabriu
-discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraado, um
-ar de cumplicidade, murmurou:
-
--- o snr. Damaso!...
-
-Ella olhou o Romo, surprehendida d'aquelles modos, e quasi
-escandalisada.
-
---Pois bem, mande entrar!
-
-E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flr ao peito,
-gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na mo, trazendo dependurado
-por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vr Carlos
-alli, intimamente, de cadellinha no collo, estacou assombrado, com o
-olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraou as mos, veio
-comprimentar Maria Eduarda quasi de leve,--e voltando-se logo para
-Carlos, de braos abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente:
-
---Ento tu aqui, homem? Isto que uma surpreza! Ora quem me diria!...
-Eu estava mais longe...
-
-Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente
-uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle
-tinha chegado.
-
---Perfeitamente, minha senhora... Um bocado canado, como natural...
-Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.^a v--e mostrou o seu luto
-pesado--acabo de passar por um grande desgosto.
-
-Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso
-pousra os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de cr, cheio de
-sangue; e como cortra a barba (que havia mezes deixra crescer para
-imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As cxas
-rolias estalavam-lhe de gordura dentro da cala de casimira preta.
-
---E ento, perguntou Maria Eduarda, temol-o por c algum tempo?
-
-Elle deu um puxosinho cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez
-risonho:
-
---Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer...
-Isto , credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero
-dizer que ha de custar a arrancar-me d'aqui!
-
-Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pllos da
-_Niniche_. E houve ento um pequeno silencio. Maria Eduarda retomra o
-bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao
-bigode, estendeu a mo para acariciar tambem _Niniche_ sobre os joelhos
-de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho
-desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa.
-
---_C'est moi, Niniche!_ dizia Damaso, recuando a cadeira. _C'est moi,
-ami... Alors, Niniche_...
-
-Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente _Niniche_. E,
-aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso,
-rosnando, e com rancor.
-
---J me no conhece, dizia elle embaado, curioso...
-
---Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito sria. Mas no sei
-o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. sempre este
-escandalo.
-
-Damaso balbuciava, escarlate:
-
---Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre
-caricias...
-
-E ento no se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades
-novas de Mademoiselle _Niniche_. Alli estava nos braos d'outro,
-emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto...
-
-Carlos ria.
-
--- Damaso, no a accuses de ingratido... Pois se a snr.^a D. Maria
-Eduarda est a dizer que ella sempre te teve odio...
-
---Sempre! exclamou Maria.
-
-Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um leno de barra
-negra, limpando os beios e mesmo o suor do pescoo, lembrou a Maria
-Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a
-tarde espera...
-
---Eram vesperas de partida, disse ella.
-
---Sim, bem sei, o marido de v. exc.^a... E como vai o snr. Castro Gomes?
-V. exc.^a j recebeu noticias?
-
---No, respondeu ella com o rosto sobre o bordado.
-
-Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa.
-Depois por Cri-cri. Era necessario no esquecer Cri-cri...
-
---Pois v. exc.^a--continuou elle, cheio subitamente de
-loquacidade--perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... Ns ainda
-no nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na
-estao... Pois no verdade que estiveram muito _chics_? Olhe, minha
-senhora, d'uma coisa pde v. exc.^a estar certa, que hippodromo mais
-bonito no ha l fra. Uma vista at barra, que d'appetite... At se
-vem entrar os navios... Pois no assim, Carlos?
-
---Sim, disse Carlos, sorrindo. No propriamente um campo de
-corridas... verdade que no ha tambem propriamente cavallos de
-corridas... Verdade seja que no ha jockeys... Ora verdade que no ha
-apostas... Mas verdade tambem que no ha publico...
-
-Maria Eduarda ria, alegremente.
-
---Mas ento?
-
---Vem-se entrar os navios, minha senhora...
-
-Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer
-mal fora... No senhor, no senhor!... Eram muito boas corridas. Tal
-qual como l fra, as mesmas regras, tudo...
-
---At na pesagem, acrescentou elle muito srio, fallamos sempre inglez!
-
-Repetiu ainda que as corridas eram _chics_. Depois no achou mais
-nada:--e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se
-forado a ficar em casa, estupidamente, a lr...
-
---Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um
-bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas
-de p descalo, no tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v.
-exc.^a, no tolero...
-
-Carlos corra: mas Maria Eduarda parecia no ter ouvido, occupada a
-contar attentamente as malhas do seu bordado.
-
-De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a
-snr.^a D. Maria Eduarda. Mas no imaginasse que era alguma
-preciosidade... Verdadeiramente at o presente era para Mademoiselle
-Rosa.
-
---Olhe, para no estar com mysterios, sabe o que ? Tenho-o alli no
-embrulhosinho de papel pardo... So seis barrilinhos d'ovos molles
-d'Aveiro. um dce muito clebre, mesmo l fra. S o de Aveiro que
-tem _chic_... Pergunte v. exc.^a ao Carlos. Pois no verdade, Carlos,
-que uma delicia, at conhecido l fra?
-
---Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente...
-
-Pousra _Niniche_ no cho, erguera-se, fra buscar o seu chapo.
-
---J?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era s para
-elle. At manh, ento!
-
-E voltou-se logo para o Damaso, esperando vl-o erguer-se tambem. Elle
-conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a
-perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos.
-
---_Au revoir_, disse o outro. Recados l no Ramalhete; hei de
-apparecer!...
-
-Carlos desceu as escadas, furioso.
-
-Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente,
-to obtuso que no percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E
-para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em
-calo, e de perna traada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe
-dissera na noite do jantar do Ega, porta do Hotel Central, a respeito
-da propria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres que era o
-_atraco_. Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse
-um ultraje? A supposio era insensata, talvez--mas reteve-o no pateo,
-applicando o ouvido para cima, com idas ferozes de esperar alli o
-Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, menor
-reflexo d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages...
-
-Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser
-assim surprehendido escuta. O coup do Damaso estacionava na rua.
-Ento veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle
-ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao Gremio; e apenas abrira uma
-vidraa--viu logo o Damaso sahir do porto, saltar para o coup, bater
-com fora a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraado, e
-subitamente teve d d'aquelle grutesco...
-
-N'essa noite, depois de jantar, Carlos s no seu quarto fumava,
-enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida n'essa
-manh,--quando appareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapo, logo da
-porta, exclamou, com o mesmo espanto da manh:
-
---Ento dize-me c! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a
-brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi isso?
-
-Sem mover a cabea do espaldar da poltrona, cruzando as mos sobre os
-joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor,
-disse, com uma dce reprehenso paternal:
-
---Pois ento tu vaes expr a uma senhora as tuas opinies lubricas sobre
-as lavradeiras de Penafiel!
-
---No se trata d'isso, sei muito bem o que hei de expr! exclamou o
-outro, vermelho. Conta l, anda... Que diabo! Parece-me que tenho
-direito a saber... Como a conheceste tu?
-
-Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar, comeou,
-n'um tom lento e solemne de recitativo:
-
---Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens
-d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete.
-Via-se-lhe na mo uma carta, lacrada com sello heraldico; e a expresso
-do seu semblante...
-
-Damaso, j zangado, atirou com o chapo para cima da mesa.
-
---Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios!
-
---Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde
-existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado,
-petrificado, ao encontrar l o medico! Quem esperavas tu vr l? Um
-photographo?
-
---Ento quem est doente?
-
-Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza--emquanto o
-Damaso, sentado beira do sof, mordendo o charuto sem lume, olhava
-para elle desconfiado.
-
---E como soube ella onde tu moravas?
-
---Como se sabe onde mora o rei; onde a alfandega; de que lado luz a
-estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se
-aprendem nas aulas de instruco primaria...
-
-O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as mos nos
-bolsos.
-
---Ella tem agora l o Romo, o que foi meu criado, murmurou depois d'um
-silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu
-lhe digo...
-
---Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi terra. Vai mandal-o
-embora, um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado ms maneiras...
-
-Ento Damaso atirou-se para o canto do sof e confessou que ao entrar na
-sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, ficra
-furioso... Emfim, agora que sabia que era por doena, bem, tudo se
-explicava... Mas primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... S com
-ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que no fosse
-delicado; e alm d'isso ella estava de mau humor...
-
-E acrescentou logo, accendendo o charuto:
-
---Que apenas tu sahiste, pz-se melhor, mais vontade... Rimos muito...
-Eu fiquei ainda at tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco
-quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim?
-
---No. uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, no se
-atreveria a dizer-me mal de ti.
-
-Damaso olhou-o, esgazeado:
-
---Ora essa!... Mas podia ter dito bem!
-
---No; uma pessoa de bom senso, no se atreveria tambem.
-
-E erguendo-se vivamente, Carlos abraou Damaso pela cinta,
-acariciando-o, perguntando-lhe pela herana do titi, e em que amores, em
-que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhes...
-
-Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o
-de revez.
-
---Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um
-traste... No ha a gente fiar-se em ninguem!
-
---Tudo na terra, meu Damaso, apparencia e engano!
-
-Seguiram d'alli sala do bilhar fazer a partida de reconciliao. E
-pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o
-Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho j, gozando de novo a sua
-intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo srio, e tratando-o outra
-vez por menino. Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o
-bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?...
-
---Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez c no
-sabbado.
-
-Foi um espanto para o Damaso.
-
---Homem! essa curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha
-dois dias de Southampton... Jgo eu?
-
-Jogou, falhou a carambola.
-
---Pois verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a
-Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma _toilette_ ingleza com
-coisas brancas, coisas cr de rosa... _Chic_ a valer, parecia um
-moranguinho! E ento o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos
-escandalo!
-
-
-
-
-II
-
-
-No sabbado, com effeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da rua
-de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, mettido n'um fato de
-cheviotte claro, e com o cabello muito crescido.
-
---No faas espalhafato, gritou-lhe elle, que eu estou em Lisboa
-_incognito_!
-
-E em seguida aos primeiros abraos declarou que vinha a Lisboa, s por
-alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava
-com Carlos para lhe fornecer esses requintes, alli, no Ramalhete...
-
---Ha c um quarto para mim? Eu por ora estou no _Hotel Hespanhol_, mas
-ainda nem mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de
-pinho, larga bastante para se escrever uma obra sublime.
-
-Decerto! Havia o quarto em cima, onde elle estivera depois de deixar a
-Villa Balzac. E mais sumptuoso agora, com um bello leito da Renascena,
-e uma cpia dos _Borrachos_ de Velasquez.
-
---Optimo covil para a arte! Velasquez um dos Santos Padres do
-naturalismo... A proposito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho. O
-pai Tompson esteve morte, arribou, depois o conde foi buscal-a.
-Achei-a magra; mas com um ar ardente; e fallou-me constantemente de ti.
-
---Ah! murmurou Carlos.
-
-Ega, de monoculo no olho e mos nos bolsos, contemplava Carlos.
-
--- verdade. Fallou de ti constantemente, irresistivelmente,
-immoderadamente! No me tinhas mandado contar isso... Sempre seguiste o
-meu conselho, hein? Muito bem feita de corpo, no verdade? E que tal,
-no acto d'amor?
-
-Carlos crou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a
-Gouvarinho seno relaes superficiaes. Ia l s vezes tomar uma chavena
-de ch; e hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar
-com o conde sobre as miserias publicas, esquina do Loreto. Nada mais.
-
---Tu ests-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas no importa. Eu hei de
-descobrir tudo isso com o meu olho de Balzac, na segunda-feira....
-Porque ns vamos l jantar na segunda-feira.
-
---Ns... Ns, quem?
-
---Ns. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me no comboio. E o
-Gouvarinho, como compete ao individuo d'aquella especie, acrescentou
-logo que haviamos de ter tambem o nosso Maia. O Maia d'elle, e o Maia
-d'ella... Santo accordo! Suavissimo arranjo!
-
-Carlos olhou-o com severidade.
-
---Tu vens obsceno de Celorico, Ega.
-
--- o que se aprende no seio da Santa Madre Igreja.
-
-Mas tambem Carlos tinha uma novidade que o devia fazer estremecer. O Ega
-porm j sabia. A chegada dos Cohens, no verdade? Lra-o logo n'essa
-manh, na _Gazeta Illustrada_, no _high-life_. L se dizia
-respeitosamente que s. exc.^{as} tinham regressado do seu passeio pelo
-estrangeiro.
-
---E que impresso te fez? perguntou Carlos rindo.
-
-O outro encolheu brutalmente os hombros:
-
---Fez-me o effeito de haver um cabro mais na cidade.
-
-E, como Carlos o accusava outra vez de trazer de Celorico uma lingua
-immunda, o Ega, um pouco crado, arrependido talvez, lanou-se em
-consideraes criticas, clamando pela necessidade social de dar s
-coisas o nome exacto. Para que servia ento o grande movimento
-naturalista do seculo? Se o vicio se perpetuava, porque a sociedade,
-indulgente e romanesca, lhe dava nomes que o embellezavam, que o
-idealisavam... Que escrupulo pde ter uma mulher em beijocar um terceiro
-entre os lenoes conjugaes, se o mundo chama a isso sentimentalmente um
-romance, e os poetas o cantam em estrophes d'ouro?
-
---E a proposito, a tua comedia, o _Lodaal_? perguntou Carlos, que
-entrra um instante para a alcova de banho.
-
---Abandonei-a, disse o Ega. Era feroz de mais... E alm d'isso fazia-me
-remexer na podrido lisboeta, mergulhar outra vez na sargeta humana...
-Affligia-me...
-
-Parou diante do grande espelho, deu um olhar descontente ao seu jaqueto
-claro e s botas com mau verniz.
-
---Preciso enfardelar-me de novo, Carlinhos... O Poole naturalmente
-mandou-te fato de vero, hei de querer examinar esses crtes da alta
-civilisao... No ha negal-o, diabo, esta minha linha est chinfrim!
-
-Passou uma escova pelo bigode, e continuou fallando para dentro, para a
-alcova de banho:
-
---Pois, menino, eu agora o que necessito o regimen da Chimera. Vou-me
-atirar outra vez s _Memorias_. Ha de se fazer ahi uma quantidade d'arte
-colossal n'esse quarto que me destinas, diante de Velasquez... E a
-proposito, necessario ir comprimentar o velho Affonso, uma vez que
-elle me vai dar o po, o tecto, e a enxerga...
-
-Foram encontrar Affonso da Maia no escriptorio, na sua velha poltrona,
-com um antigo volume da _Illustrao franceza_ aberto sobre os joelhos,
-mostrando as estampas a um pequeno bonito, muito moreno, d'olho vivo, e
-cabello encarapinhado. O velho ficou contentissimo ao saber que o Ega
-vinha por algum tempo alegrar o Ramalhete com a sua bella phantasia.
-
---J no tenho phantasia, snr. Affonso da Maia!
-
---Ento esclarecl-o com a tua clara razo, disse o velho rindo. Estamos
-c precisando d'ambas as coisas, John.
-
-Depois apresentou-lhe aquelle pequeno cavalheiro, o snr. Manoelinho,
-rapazinho amavel da visinhana, filho do Vicente, mestre d'obras; o
-Manoelinho vinha s vezes animar a solido d'Affonso--e alli folheavam
-ambos livros d'estampas e tinham conversas philosophicas. Agora,
-justamente, estava elle muito embaraado por no lhe saber explicar como
- que o general Canrobert (de quem estavam admirando o garbo sobre o seu
-cavallo empinado) tendo mandado matar gente, muita gente, em batalhas,
-no era mettido na cada...
-
---Est visto! exclamou o pequeno, esperto e desembaraado, com as mos
-cruzadas atraz das costas. Se mandou matar gente deviam-no ferrar na
-cada!
-
---Hein, amigo Ega! dizia Affonso rindo. Que se ha de responder a esta
-bella logica? Olha, filho, agora que esto aqui estes dois senhores que
-so formados em Coimbra, eu vou estudar esse caso... Vai tu vr os
-bonecos alli para cima da mesa... E depois vo sendo horas d'ires l
-dentro Joanna, para merendares.
-
-Carlos, ajudando o pequeno a accommodar-se mesa com o seu grande
-volume d'estampas, pensava quanto o av, com aquelle seu amor por
-crianas, gostaria de conhecer Rosa!
-
-Affonso no emtanto perguntava tambem ao Ega pela comedia. O qu! J
-abandonada? Quando acabaria ento o bravo John de fazer bocados
-incompletos d'obras-primas?...--Ega queixou-se do paiz, da sua
-indifferena pela arte. Que espirito original no esmoreceria, vendo em
-torno de si esta espessa massa de burguezes, amodorrada e crassa,
-desdenhando a intelligencia, incapaz de se interessar por uma ida
-nobre, por uma phrase bem feita?
-
---No vale a pena, snr. Affonso da Maia. N'este paiz, no meio d'esta
-prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve
-limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano...
-
---Pois ento, acudiu o velho, planta os teus legumes. um servio
-alimentao publica. Mas tu nem isso fazes!
-
-Carlos, muito srio, apoiava o Ega.
-
---A unica coisa a fazer em Portugal, dizia elle, plantar legumes,
-emquanto no ha uma revoluo que faa subir superficie alguns dos
-elementos originaes, fortes, vivos, que isto ainda encerre l no fundo.
-E se se vir ento que no encerra nada, demittamo-nos logo
-voluntariamente da nossa posio de paiz para que no temos elementos,
-passemos a ser uma fertil e estupida provincia hespanhola, e plantemos
-mais legumes!
-
-O velho escutava com melancolia estas palavras do neto em que sentia
-como uma decomposio da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a
-glorificao da sua inercia. Terminou por dizer:
-
---Pois ento faam vocs essa revoluo. Mas pelo amor de Deus, faam
-alguma coisa!
-
---O Carlos j no faz pouco, exclamou Ega, rindo. Passeia a sua pessoa,
-a sua toilette e o seu phaeton, e por esse facto educa o gosto!
-
-O relogio Luiz XV interrompeu-os--lembrando ao Ega que devia ainda,
-antes de jantar, ir buscar a sua mala ao Hotel Hespanhol. Depois no
-corredor confessou a Carlos que, antes d'ir ao Hespanhol, queria correr
-ao Fillon, ao photographo, vr se podia tirar um bonito retrato.
-
---Um retrato?
-
---Uma surpreza que tem d'ir d'aqui a tres dias para Celorico, para o dia
-d'annos d'uma creaturinha que me adoou o exilio.
-
---Oh Ega!
-
--- horroroso, mas ento? a filha do padre Corra, filha conhecida
-como tal; alm d'isso casada com um proprietario rico da visinhana,
-reaccionario odioso... De modo que, bem vs, esta dupla pea a pregar
-Religio e Propriedade...
-
---Ah! n'esse caso...
-
---Ninguem se deve eximir, amigo, aos seus grandes deveres democraticos!
-
-
-Na segunda-feira seguinte choviscava quando Carlos e Ega, no coup
-fechado, partiram para o jantar dos Gouvarinhos. Desde a chegada da
-condessa Carlos vira-a s uma vez, em casa d'ella; e fra uma meia hora
-desagradavel, cheia de malestar, com um ou outro beijo frio, e
-recriminaes infindaveis. Ella queixra-se das cartas d'elle, to
-raras, to seccas. No se puderam entender sobre os planos d'esse vero,
-ella devendo ir para Cintra onde j alugra casa, Carlos fallando no
-dever de acompanhar o av a Santa Olavia. A condessa achava-o
-distrahido: elle achou-a exigente. Depois ella sentou-se um instante
-sobre os seus joelhos e aquelle leve e delicado corpo pareceu a Carlos
-de um fastidioso peso de bronze.
-
-Por fim a condessa arrancra-lhe a promessa de a ir encontrar,
-justamente n'essa segunda-feira de manh, a casa da titi, que estava em
-Santarem;--porque tinha sempre o appetite perverso e requintado de o
-apertar nos braos ns, em dias que o devesse receber na sua sala, mais
-tarde, e com ceremonia. Mas Carlos faltra,--e agora, rodando para casa
-d'ella, impacientavam-n'o j as queixas que teria de ouvir nos vos de
-janella, e as mentiras chchas que teria de balbuciar...
-
-De repente o Ega, que fumava em silencio, abotoado no seu paletot de
-vero, bateu no joelho de Carlos, e entre risonho e srio:
-
---Dize-me uma coisa, se no um segredo sacrosanto... Quem essa
-brazileira com quem tu agora passas todas as tuas manhs?
-
-Carlos ficou um instante aturdido, com os olhos no Ega.
-
---Quem te fallou n'isso?
-
---Foi o Damaso que m'o disse. Isto , o Damaso que m'o rugiu... Porque
-foi de dentes rilhados, a dar murros surdos n'um sof do Gremio, e com
-uma cr d'apoplexia, que elle me contou tudo...
-
---Tudo o qu?
-
---Tudo. Que te apresentra a uma brazileira a quem se atirava, e que tu,
-aproveitando a sua ausencia, te metteras l, no sahias de l...
-
---Tudo isso mentira! exclamou o outro, j impaciente.
-
-E Ega, sempre risonho:
-
---Ento que a verdade, como perguntava o velho Pilatus ao chamado
-Jesus Christo?
-
--- que ha uma senhora a quem o Damaso suppunha ter inspirado uma
-paixo, como suppe sempre, e que, tendo-lhe adoecido a governante
-ingleza com uma bronchite, me mandou chamar para eu a tratar. Ainda no
-est melhor, eu vou vl-a todos os dias. E Madame Gomes, que o nome da
-senhora, que nem brazileira , no podendo tolerar o Damaso, como
-ninguem o tolera, tem-lhe fechado a sua porta. Esta a verdade; mas
-talvez eu arranque as orelhas ao Damaso!
-
-Ega contentou-se em murmurar:
-
---E ahi est como se escreve a historia... v-se l a gente fiar em
-Guizot!
-
-Em silencio, at casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a sua clera
-contra o Damaso. Ahi estava pois rasgada por aquelle imbecil a penumbra
-suave e favoravel em que se abrigra o seu amor! Agora j se pronunciava
-o nome de Maria Eduarda no Gremio: o que o Damaso dissera ao Ega,
-repetil-o-hia a outros, na Casa Havaneza, no restaurante Silva, talvez
-nos lupanares: e assim o interesse supremo da sua vida seria d'ahi por
-diante constantemente perturbado, estragado, sujo pela tagarellice reles
-do Damaso!
-
---Parece-me que temos c mais gente, disse o Ega, ao penetrarem na
-ante-camara dos Gouvarinhos, vendo sobre o canap um paletot cinzento e
-capas de sonhem.
-
-A condessa esperava-os na salinha ao fundo, chamada do busto, vestida
-de preto, com uma tira de velludo em volta do pescoo picada de tres
-estrellas de diamantes. Uma cesta de esplendidas flres quasi enchia a
-mesa, onde se accumulavam tambem romances inglezes, e uma Revista dos
-Dois Mundos em evidencia, com a faca de marfim entre as folhas. Alm da
-boa D. Maria da Cunha e da baroneza d'Alvim, havia uma outra senhora,
-que nem Carlos nem Ega conheciam, gorda e vestida d'escarlate; e de p,
-conversando baixo com o conde, de mos atraz das costas, um cavalheiro
-alto, escaveirado, grave, com uma barba rala, e a commenda da Conceio.
-
-A condessa, um pouco crada, estendeu a Carlos a mo amuada e frouxa:
-todos os seus sorrisos foram para o Ega. E o conde apoderou-se logo do
-querido Maia, para o apresentar ao seu amigo o snr. Sousa Netto. O snr.
-Sousa Netto j tinha o prazer de conhecer muito Carlos da Maia, como um
-medico distincto, uma honra da Universidade... E era esta a vantagem de
-Lisboa, disse logo o conde, o conhecerem-se todos de reputao, o
-poder-se ter assim uma apreciao mais justa dos caracteres. Em Paris,
-por exemplo, era impossivel; por isso havia tanta immoralidade, tanta
-relaxao...
-
---Nunca sabe a gente quem mette em casa.
-
-O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no divan, mostrando as
-estrellinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a historia do seu
-exilio em Celorico, onde se distrahia compondo sermes para o abbade: o
-abbade recitava-os; e os sermes, sob uma frma mystica, eram de facto
-affirmaes revolucionarias que o santo varo lanava com fervor,
-esmurrando o pulpito... A senhora de vermelho, sentada defronte, de mos
-no regao, escutava o Ega, com o olhar espantado.
-
---Imaginei que v. exc.^a tinha ido j para Cintra, veio dizer Carlos
-senhora baroneza, sentando-se junto d'ella. V. exc.^a sempre a
-primeira...
-
---Como quer o senhor que se v para Cintra com um tempo d'estes?
-
---Com effeito, est infernal...
-
---E que conta de novo? perguntou ella, abrindo lentamente o seu grande
-leque preto.
-
---Creio que no ha nada de novo em Lisboa, minha senhora, desde a morte
-do snr. D. Joo VI.
-
---Agora ha o seu amigo Ega, por exemplo.
-
--- verdade, ha o Ega... Como o acha v. exc.^a, senhora baroneza?
-
-Ella nem baixou a voz para dizer:
-
---Olhe, eu como o achei sempre um grande presumido e no gosto d'elle,
-no posso dizer nada...
-
---Oh senhora baroneza, que falta de caridade!
-
-O escudeiro annuncira o jantar. A condessa tomou o brao de Carlos,--e,
-ao atravessar o salo, entre o frouxo murmurio de vozes e o rumor lento
-das caudas de sda, pde dizer-lhe asperamente:
-
---Esperei meia hora; mas comprehendi logo que estaria entretido com a
-brazileira...
-
-Na sala de jantar, um pouco sombria, forrada de papel cr de vinho,
-escurecida ainda por dois antigos paineis de paizagem tristonha, a mesa
-oval, cercada de cadeiras de carvalho lavrado, resaltava alva e fresca,
-com um esplendido cesto de rosas entre duas serpentinas douradas. Carlos
-ficou direita da condessa, tendo ao lado D. Maria da Cunha, que n'esse
-dia parecia um pouco mais velha, e sorria com um ar cansado.
-
---Que tem feito todo este tempo, que ninguem o tem visto? perguntou-lhe
-ella, desdobrando o guardanapo.
-
---Por esse mundo, minha senhora, vagamente...
-
-Defronte de Carlos, o snr. Sousa Netto, que tinha tres enormes coraes no
-peitilho da camisa, estava j observando, emquanto remexia a sopa, que a
-senhora condessa, na sua viagem ao Porto, devia ter encontrado nas ruas
-e nos edificios grandes mudanas... A condessa, infelizmente, mal tinha
-sahido durante o tempo que estivera no Porto. O conde, esse, que
-admirara os progressos da cidade. E especificou-os: elogiou a vista do
-Palacio de Crystal; lembrou o fecundo antagonismo que existe entre
-Lisboa e Porto; mais uma vez o comparou ao dualismo da Austria e da
-Hungria. E atravs d'estas coisas graves, lanadas d'alto, com
-superioridade e com peso, a baroneza e a senhora d'escarlate, aos dois
-lados d'elle, fallavam do convento das Selesias.
-
-Carlos, no emtanto, comendo em silencio a sua sopa, ruminava as palavras
-da condessa. Tambem ella conhecia j a sua intimidade com a
-brazileira. Era evidente pois que j andava alli, diffamante e torpe,
-a tagarellice do Damaso. E quando o criado lhe offereceu Sauterne,
-estava decidido a bater no Damaso.
-
-De repente ouviu o seu nome. Do fim da mesa uma voz dizia, pachorrenta e
-cantada:
-
---O snr. Maia que deve saber... O snr. Maia j l esteve.
-
-Carlos pousou vivamente o copo. Era a senhora d'escarlate que lhe
-fallava, sorrindo, mostrando uns bonitos dentes sob o buo forte de
-quarentona pallida. Ninguem lh'a apresentra, elle no sabia quem era.
-Sorriu tambem, perguntou:
-
---Onde, minha senhora?
-
---Na Russia.
-
---Na Russia?... No, minha senhora, nunca estive na Russia.
-
-Ella pareceu um pouco desapontada.
-
---Ah, que me tinham dito... No sei j quem me disse, mas era pessoa
-que sabia...
-
-O conde ao fundo explicava-lhe amavelmente que o amigo Maia estivera
-apenas na Hollanda.
-
---Paiz de grande prosperidade, a Hollanda!... Em nada inferior ao
-nosso... J conheci mesmo um hollandez que era excessivamente
-instruido...
-
-A condessa baixra os olhos, partindo vagamente um bocadinho de po,
-mais sria de repente, mais secca, como se a voz de Carlos, erguendo-se
-to tranquilla ao seu lado, tivesse avivado os seus despeitos. Elle,
-ento, depois de provar devagar o seu Sauterne, voltou-se para ella,
-muito naturalmente e risonho:
-
---Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo ida d'ir Russia. Ha
-assim uma infinidade de coisas que se dizem e que no so exactas... E
-se se faz uma alluso ironica a ellas, ninguem comprehende a alluso nem
-a ironia...
-
-A condessa no respondeu logo, dando com o olhar uma ordem muda ao
-escudeiro. Depois, com um sorriso pallido:
-
---No fundo de tudo que se diz ha sempre um facto, ou um bocado de facto
-que verdadeiro. E isso basta... Pelo menos a mim basta-me...
-
---A senhora condessa tem ento uma credulidade infantil. Estou vendo que
-acredita que era uma vez uma filha d'um rei que tinha uma estrella na
-testa...
-
-Mas o conde interpellava-o, o conde queria a opinio do seu amigo Maia.
-Tratava-se do livro de um inglez, o major Bratt, que atravessra a
-Africa, e dizia coisas perfidamente desagradaveis para Portugal. O conde
-via alli s inveja--a inveja que nos tm todas as naes por causa da
-importancia das nossas colonias, e da nossa vasta influencia na
-Africa...
-
---Est claro, dizia o conde, que no temos nem os milhes, nem a marinha
-dos inglezes. Mas temos grandes glorias; o infante D. Henrique de
-primeira ordem; e a tomada d'Ormuz um primor... E eu que conheo
-alguma coisa de systemas coloniaes, posso affirmar que no ha hoje
-colonias nem mais susceptiveis de riqueza, nem mais crentes no
-progresso, nem mais liberaes que as nossas! No lhe parece, Maia?
-
---Sim, talvez, possivel... Ha muita verdade n'isso...
-
-Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o
-monoculo no olho e sorrindo para a baroneza, pronunciou-se alegremente
-contra todas essas exploraes da Africa, e essas longas misses
-geographicas... Porque no se deixaria o preto socegado, na calma posse
-dos seus manipansos? Que mal fazia ordem das coisas que houvesse
-selvagens? Pelo contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de
-pittoresco! Com a mania franceza e burgueza de reduzir todas as regies
-e todas as raas ao mesmo typo de civilisao, o mundo ia tornar-se
-d'uma monotonia abominavel. Dentro em breve um touriste faria enormes
-sacrificios, despezas sem fim, para ir a Tombuctu--para qu? Para
-encontrar l pretos de chapo alto, a lr o _Jornal dos Debates_!
-
-O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, sahindo do seu vago
-abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada:
-
---Este Ega! Este Ega! Que graa! Que _chic_!
-
-Ento Sousa Netto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta
-pergunta grave:
-
---V. exc.^a pois em favor da escravatura?
-
-Ega declarou muito decididamente ao snr. Sousa Netto que era pela
-escravatura. Os desconfortos da vida, segundo elle, tinham comeado com
-a libertao dos negros. S podia ser sriamente obedecido, quem era
-sriamente temido... Por isso ninguem agora lograva ter os seus sapatos
-bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde
-que no tinha criados pretos em quem fosse licito dar vergastadas... S
-houvera duas civilisaes em que o homem conseguira viver com razoavel
-commodidade: a civilisao romana, e a civilisao especial dos
-plantadores da Nova Orleans. Porque? porque n'uma e n'outra existira a
-escravatura absoluta, a srio, com o direito de morte!...
-
-Durante um momento o snr. Sousa Netto ficou como desorganisado. Depois
-passou o guardanapo sobre os beios, preparou-se, encarou o Ega:
-
---Ento v. exc.^a n'essa idade, com a sua intelligencia, no acredita no
-Progresso?
-
---Eu no senhor.
-
-O conde interveio, affavel e risonho:
-
---O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem razo, tem
-realmente razo, porque os faz brilhantes...
-
-Estava-se servindo _Jambon aux pinards_. Durante um momento fallou-se
-de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia tambem brilhantes e
-difficeis de sustentar, excessivamente difficeis, era o Barros, o
-ministro do reino...
-
---Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Netto.
-
---Sim, pujante, disse o conde.
-
-Mas elle agora no fallava tanto do talento do Barros como parlamentar,
-como homem d'estado. Fallava do seu espirito de sociedade, do seu
-_esprit_...
-
---Ainda este inverno ns lhe ouvimos um paradoxo brilhante! At foi em
-casa da snr.^a D. Maria da Cunha... V. exc.^a no se lembra, snr.^a D.
-Maria? Esta minha desgraada memoria! Thereza, lembras-te d'aquelle
-paradoxo do Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Emfim, um paradoxo
-muito difficil de sustentar... Esta minha memoria!... Pois no te
-lembras, Thereza?
-
-A condessa no se lembrava. E emquanto o conde ficava remexendo
-anciosamente, com a mo na testa, as suas recordaes,--a senhora
-d'escarlate voltou a fallar de pretos, e de escudeiros pretos, e d'uma
-cozinheira preta que tivera uma tia d'ella, a tia Villar... Depois
-queixou-se amargamente dos criados modernos: desde que lhe morrera a
-Joanna, que estava em casa havia quinze annos, no sabia que fazer,
-andava como tonta, tinha s desgostos. Em seis mezes j vira quatro
-caras novas. E umas desleixadas, umas pretenciosas, uma immoralidade!...
-Quasi lhe fugiu um suspiro do peito, e trincando desconsoladamente uma
-migalhinha de po:
-
--- baroneza, ainda tens a Vicenta?
-
---Pois ento no havia de ter a Vicenta?... Sempre a Vicenta... A snr.^a
-D. Vicenta, se faz favor.
-
-A outra contemplou-a um instante, com inveja d'aquella felicidade.
-
---E a Vicenta que te penteia?
-
-Sim, era a Vicenta que a penteava. Ia-se fazendo velha, coitada... Mas
-sempre caturra. Agora andava com a mania de aprender francez. J sabia
-verbos. Era de morrer, a Vicenta a dizer _j'aime_, _tu aimes_...
-
---E a senhora baroneza, acudiu o Ega, comeou por lhe mandar ensinar os
-verbos mais necessarios.
-
-Est claro, dizia a baroneza, que aquelle era o mais necessario. Mas na
-idade da Vicenta j de pouco lhe poderia servir!
-
---Ah! gritou de repente o conde, deixando quasi cahir o talher. Agora me
-lembro!
-
-Tinha-se lembrado emfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros
-que os ces, quanto mais ensinados... Pois, no, no era isto!
-
---Esta minha desgraada memoria!... E era sobre ces. Uma coisa
-brilhante, philosophica at!
-
-E, por se fallar de ces, a baroneza lembrou-se do _Tommy_, o galgo da
-condessa; perguntou por _Tommy_. J o no via ha que tempos, esse bravo
-_Tommy_! A condessa nem queria que se fallasse no _Tommy_, coitado!
-Tinham-lhe nascido umas coisas nos ouvidos, um horror... Mandra-o para
-o Instituto, l morrera.
-
---Est deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha, inclinando-se
-para Carlos.
-
---Deliciosa.
-
-E a baroneza, do lado, declarou tambem a galantine uma perfeio. Com um
-olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine: e
-apressou-se a responder ao snr. Sousa Netto, que, a proposito de ces,
-lhe estava fallando da _Sociedade protectora dos animaes_. O snr. Sousa
-Netto approvava-a, considerava-a como um progresso... E, segundo elle,
-no seria mesmo de mais que o governo lhe dsse um subsidio.
-
---Que eu creio que ella vai prosperando... E merece-o, acredite a
-senhora condessa que o merece... Estudei essa questo, e de todas as
-sociedades que ultimamente se tm fundado entre ns, imitao do que
-se faz l fra, como a _Sociedade de Geographia_ e outras, a _Protectora
-dos animaes_ parece-me decerto uma das mais uteis.
-
-Voltou-se para o lado, para o Ega:
-
---V. exc.^a pertence?
-
--- _Sociedade protectora dos animaes_?... No senhor, perteno a outra,
- de _Geographia_. Sou dos protegidos.
-
-A baroneza teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se
-extremamente srio: pertencia _Sociedade de Geographia_, considerava-a
-um pilar do Estado, acreditava na sua misso civilisadora, detestava
-aquellas irreverencias. Mas a condessa e Carlos tinham rido tambem:--e
-de repente a frialdade que at ahi os conservra ao lado um do outro
-reservados, n'uma ceremonia affectada, pareceu dissipar-se ao calor
-d'esse riso trocado, no brilho dos dois olhares encontrando-se
-irresistivelmente. Servira-se o Champagne, ella tinha uma crzinha no
-rosto. O seu p, sem ella saber como, roou pelo p de Carlos; sorriram
-ainda outra vez;--e, como no resto da mesa se conversava sobre uns
-concertos classicos que ia haver no Price, Carlos perguntou-lhe, baixo,
-com uma reprehenso amavel:
-
---Que tolice foi essa da _brazileira_?... Quem lhe disse isso?
-
-Ella confessou-lhe logo que fra o Damaso... O Damaso viera contar-lhe o
-enthusiasmo de Carlos por essa senhora, e as manhs inteiras que l
-passava, todos os dias, mesma hora... Emfim o Damaso fizera-lhe
-claramente entrevr uma _liaison_.
-
-Carlos encolheu os hombros. Como podia ella acreditar no Damaso? Devia
-conhecer-lhe bem a tagarellice, a imbecilidade...
-
--- perfeitamente verdade que eu vou a casa d'essa senhora, que nem
-brazileira , que to portugueza como eu; mas porque ella tem a
-governante muito doente com uma bronchite, e eu sou o medico da casa.
-Foi at o Damaso, elle proprio, que l me levou como medico!
-
-No rosto da condessa espalhava-se um riso, uma claridade vinda do dce
-allivio que se fazia no seu corao.
-
---Mas o Damaso disse-me que era to linda!...
-
-Sim, era muito linda. E ento? Um medico, por fidelidade s suas
-affeies, e para as no inquietar, no podia realmente, antes de
-penetrar na casa d'uma doente, exigir-lhe um certificado de hediondez!
-
---Mas que est ella c a fazer?...
-
---Est espera do marido que foi a negocios ao Brazil, e vem ahi...
-uma gente muito distincta, e creio que muito rica... Vo-se brevemente
-embora, de resto, e eu pouco sei d'elles. As minhas visitas so de
-medico; tenho apenas conversado com ella sobre Paris, sobre Londres,
-sobre as suas impresses de Portugal...
-
-A condessa bebia estas palavras, deliciosamente, dominada pelo bello
-olhar com que elle lh'as murmurava: e o seu p apertava o de Carlos
-n'uma reconciliao apaixonada, com a fora que desejaria pr n'um
-abrao--se alli lh'o podesse dar.
-
-A senhora d'escarlate, no emtanto, recomera a fallar da Russia. O que
-a assustava que o paiz era to caro, corriam-se tantos perigos por
-causa da dynamite, e uma constituio fraca devia soffrer muito com a
-neve nas ruas. E foi ento que Carlos percebeu que ella era a esposa de
-Sousa Netto, e que se tratava d'um filho d'elles, filho unico,
-despachado segundo secretario para a legao de S. Petersburgo.
-
---O menino conhece-o? perguntou D. Maria ao ouvido de Carlos, por traz
-do leque. um horror d'estupidez... Nem francez sabe! De resto no
-peor que os outros... Que a quantidade de mnos, de semsabores e de
-tolos que nos representam l fra at faz chorar... Pois o menino no
-acha? Isto um paiz desgraado.
-
---Peor, minha cara senhora, muito peor. Isto um paiz _cursi_.
-
-Tinha findado a sobremesa. D. Maria olhou para a condessa com o seu
-sorriso cansado; a senhora de escarlate calra-se, j preparada, tendo
-mesmo afastado um pouco a cadeira; e as senhoras ergueram-se, no momento
-em que o Ega, ainda cerca da Russia, acabava de contar uma historia
-ouvida a um polaco, e em que se provava que o Czar era um estupido...
-
---Liberal todavia, gostando bastante do progresso! murmurou ainda o
-conde, j de p.
-
-Os homens, ss, accenderam os seus charutos; o escudeiro serviu o caf.
-Ento o snr. Sousa Netto, com a sua chavena na mo, aproximou-se de
-Carlos para lhe exprimir de novo o prazer que tivera em fazer o seu
-conhecimento...
-
---Eu tive tambem em tempos o prazer de conhecer o pai de v. exc.^a...
-Pedro, creio que era justamente o snr. Pedro da Maia. Comeava eu ento
-a minha carreira publica... E o av de v. exc.^a, bom?
-
---Muito agradecido a v. exc.^a
-
---Pessoa muito respeitavel... O pai de v. exc.^a era... Emfim, era o que
-se chama um elegante. Tive tambem o prazer de conhecer a mi de v.
-exc.^a...
-
-E de repente calou-se, embaraado, levando a chavena aos labios. Depois,
-lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia
-com o Gouvarinho sobre mulheres. Era a proposito da secretria da
-legao da Russia, com quem elle encontrra n'essa manh o conde
-conversando ao Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho
-nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garos... E o conde, que a
-admirava tambem, gabava-lhe sobretudo o espirito, a instruco. Isso,
-segundo o Ega, prejudicava-a: porque o dever da mulher era primeiro ser
-bella, e depois ser estupida... O conde affirmou logo com exuberancia
-que no gostava tambem de litteratas: sim, decerto o lugar da mulher era
-junto do bero, no na bibliotheca...
-
---No emtanto agradavel que uma senhora possa conversar sobre coisas
-amenas, sobre o artigo d'uma Revista, sobre... Por exemplo, quando se
-publica um livro... Emfim, no direi quando se trata d'um Guizot, ou
-d'um Jules Simon... Mas, por exemplo, quando se trata d'um Feuillet,
-d'um... Emfim, uma senhora deve ser prendada. No lhe parece, Netto?
-
-Netto, grave, murmurou:
-
---Uma senhora, sobretudo quando ainda nova, deve ter algumas
-prendas...
-
-Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas
-litterarias, sabendo dizer coisas sobre o snr. Thiers, ou sobre o snr.
-Zola, um monstro, um phenomeno que cumpria recolher a uma companhia de
-cavallinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher s devia
-ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem.
-
---V. exc.^a decerto, snr. Sousa Netto, sabe o que diz Proudhon?
-
---No me recordo textualmente, mas...
-
---Em todo o caso v. exc.^a conhece perfeitamente o seu Proudhon?
-
-O outro, muito seccamente, no gostando decerto d'aquelle
-interrogatorio, murmurou que Proudhon era um author de muita nomeada.
-
-Mas o Ega insistia, com uma impertinencia perfida:
-
---V. exc.^a leu evidentemente, como ns todos, as grandes paginas de
-Proudhon sobre o amor?
-
-O snr. Netto, j vermelho, pousou a chavena sobre a mesa. E quiz ser
-sarcastico, esmagar aquelle moo, to litterario, to audaz.
-
---No sabia, disse elle com um sorriso infinitamente superior, que esse
-philosopho tivesse escripto sobre assumptos escabrosos!
-
-Ega atirou os braos ao ar, consternado:
-
---Oh snr. Sousa Netto! Ento v. exc.^a, um chefe de familia, acha o amor
-um assumpto escabroso?!
-
-O snr. Netto encordoou. E muito direito, muito digno, fallando do alto
-da sua consideravel posio burocratica:
-
--- meu costume, snr. Ega, no entrar nunca em discusses, e acatar
-todas as opinies alheias, mesmo quando ellas sejam absurdas...
-
-E quasi voltou as costas ao Ega, dirigindo-se outra vez a Carlos,
-desejando saber, n'uma voz ainda um pouco alterada, se elle agora se
-fixava algum tempo mais em Portugal. Ento, durante um momento, acabando
-os charutos, os dois fallaram de viagens. O snr. Netto lamentava que os
-seus muitos deveres no lhe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno
-fra esse o seu ideal; mas agora, com tantas occupaes publicas, via-se
-forado a no deixar a carteira. E alli estava, sem ter visto sequer
-Badajoz...
-
---E v. exc.^a de que gostou mais, de Paris ou de Londres?
-
-Carlos realmente no sabia, nem se podia comparar... Duas cidades to
-differentes, duas civilisaes to originaes...
-
---Em Londres, observou o conselheiro, tudo carvo...
-
-Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carvo, sobretudo nos foges,
-quando havia frio...
-
-O snr. Sousa Netto murmurou:
-
---E o frio alli deve ser sempre consideravel... Clima to ao norte!...
-
-Esteve um momento mamando o charuto, de palpebra cerrada. Depois, fez
-esta observao sagaz e profunda:
-
---Povo pratico, povo essencialmente pratico.
-
---Sim, bastante pratico, disse vagamente Carlos, dando um passo para a
-sala, onde se sentiam as risadas cantantes da baroneza.
-
---E diga-me outra coisa, proseguiu o snr. Sousa Netto, com interesse,
-cheio de curiosidade intelligente. Encontra-se por l, em Inglaterra,
-d'esta litteratura amena, como entre ns, folhetinistas, poetas de
-pulso?...
-
-Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com
-descaro:
-
---No, no ha d'isso.
-
---Logo vi, murmurou Sousa Netto. Tudo gente de negocio.
-
-E penetraram na sala. Era o Ega que assim fazia rir a baroneza, sentado
-defronte d'ella, fallando outra vez de Celorico, contando-lhe uma soire
-de Celorico, com detalhes picarescos sobre as authoridades, e sobre um
-abbade que tinha morto um homem e cantava fados sentimentaes ao piano. A
-senhora d'escarlate, no sof ao lado, com os braos cahidos no regao,
-pasmava para aquella veia do Ega como para as destrezas d'um palhao. D.
-Maria, junto da mesa, folheava com o seu ar cansado uma _Illustrao_; e
-vendo que Carlos ao entrar procurra com o olhar a condessa, chamou-o,
-disse-lhe baixo que ella fra dentro vr Charlie, o pequeno...
-
--- verdade, perguntou Carlos, sentando-se ao lado d'ella, que feito
-d'elle, d'esse lindo Charlie?
-
---Diz que tem estado hoje constipado, e um pouco murcho...
-
---A snr.^a D. Maria tambem me parece hoje um pouco murcha.
-
--- do tempo. Eu j estou na idade em que o bom humor ou o aborrecimento
-vm s das influencias do tempo... Na sua idade vem d'outras coisas. E a
-proposito d'outras coisas: ento a Cohen tambem chegou?
-
---Chegou, disse Carlos, mas no _tambem_. O _tambem_ implica
-combinao... E a Cohen e o Ega chegaram realmente ambos por acaso... De
-resto isso historia antiga, como os amores de Helena e de Pris.
-
-N'esse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada, e
-trazendo aberto um grande leque negro. Sem se sentar, fallando sobretudo
-para a mulher do snr. Sousa Netto, queixou-se logo de no ter achado
-Charlie bem... Estava to quente, to inquieto... Tinha quasi medo que
-fosse sarampo.--E voltando-se vivamente para Carlos, com um sorriso:
-
---Eu estou com vergonha... Mas se o snr. Carlos da Maia quizesse ter o
-incommodo de o vir vr um instante... odioso, realmente, pedir-lhe
-logo depois de jantar para examinar um doente...
-
---Oh senhora condessa! exclamou elle, j de p.
-
-Seguiu-a. N'uma saleta, ao lado, o conde e o snr. Sousa Netto,
-enterrados n'um sof, conversavam fumando.
-
---Levo o snr. Carlos da Maia para vr o pequeno...
-
-O conde erguera-se um pouco do sof, sem comprehender bem. J ella
-passra. Carlos seguiu em silencio a sua longa cauda de sda preta
-atravs do bilhar, deserto, com o gaz acceso, ornado de quatro retratos
-de damas, da familia dos Gouvarinhos, empoadas e sorumbaticas. Ao lado,
-por traz de um pesado reposteiro de fazenda verde, era um gabinete, com
-uma velha poltrona, alguns livros n'uma estante envidraada, e uma
-escrevaninha onde pousava um candieiro sob o abat-jour de renda cr de
-rosa. E ahi, bruscamente, ella parou, atirou os braos ao pescoo de
-Carlos, os seus labios prenderam-se aos d'elle n'um beijo sfrego,
-penetrante, completo, findando n'um soluo de desmaio... Elle sentia
-aquelle lindo corpo estremecer, escorregar-lhe entre os braos, sobre os
-joelhos sem fora.
-
---manh, em casa da titi, s onze, murmurou ella quando pde fallar.
-
---Pois sim.
-
-Desprendida d'elle, a condessa ficou um momento com as mos sobre os
-olhos, deixando desvanecer aquella languida vertigem, que a fizera cr
-de cra. Depois, cansada e sorrindo:
-
---Que doida que eu sou... Vamos vr Charlie.
-
-O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. E ahi, n'uma caminha de
-ferro, junto do leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco,
-com um bracinho cahido para o lado, os seus lindos caracoes loiros
-espalhados no travesseiro como uma aureola d'anjo. Carlos tocou-lhe
-apenas no pulso; e a criada escosseza, que trouxera uma luz de sobre a
-commoda, disse, sorrindo tranquillamente:
-
---O menino n'estes ultimos dias tem andado muitissimo bem...
-
-Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa, j com a
-mo no reposteiro, estendeu ainda a Carlos os seus labios insaciaveis.
-Elle colheu um rapido beijo. E, ao passar na antecamara, onde Sousa
-Netto e o conde continuavam enfronhados n'uma conversa grave, ella disse
-ao marido:
-
---O pequeno est a dormir... O snr. Carlos da Maia achou-o bem.
-
-O conde de Gouvarinho bateu no hombro de Carlos, carinhosamente. E
-durante um momento a condessa ficou alli conversando, de p, a deixar-se
-serenar, pouco a pouco, n'aquella penumbra favoravel, antes de affrontar
-a luz forte da sala. Depois, por se fallar em hygiene, convidou o snr.
-Sousa Netto para uma partida de bilhar; mas o snr. Netto, desde Coimbra,
-desde a Universidade, no pegra n'um taco. E ia-se chamar o Ega quando
-appareceu Telles da Gama, que chegava do Price. Logo atraz d'elle entrou
-o conde de Steinbroken. Ento o resto da noite passou-se no salo, em
-redor do piano. O ministro cantou melodias da Filandia. Telles da Gama
-tocou _fados_.
-
-Carlos e Ega foram os derradeiros a sahir, depois de um _brandy and
-soda_, de que a condessa partilhou, como ingleza forte. E em baixo, no
-pateo, acabando de abotoar o paletot, Carlos pde emfim soltar a
-pergunta que lhe faiscra nos labios toda a noite:
-
--- Ega, quem aquelle homem, aquelle Sousa Netto, que quiz saber se em
-Inglaterra havia tambem litteratura?
-
-Ega olhou-o com espanto:
-
---Pois no adivinhaste? No deduziste logo? No viste immediatamente
-quem n'este paiz capaz de fazer essa pergunta?
-
---No sei... Ha tanta gente capaz...
-
-E o Ega radiante:
-
---Official superior d'uma grande repartio do Estado!
-
---De qual?
-
---Ora de qual! De qual ha de ser?... Da Instruco publica!
-
-
-Na tarde seguinte, s cinco horas, Carlos, que se demorra de mais em
-casa da titi com a condessa, retido pelos seus beijos interminaveis, fez
-voar o coup at rua de S. Francisco, olhando a cada momento o
-relogio, n'um receio de que Maria Eduarda tivesse sahido por aquelle
-lindo dia de vero, luminoso e sem calor. Com effeito porta d'ella
-estava a carruagem da Companhia; e Carlos galgou as escadas, desesperado
-com a condessa, sobretudo comsigo mesmo, to fraco, to passivo, que
-assim se deixra retomar por aquelles braos exigentes, cada vez mais
-pesados, e j incapazes de o commover...
-
---A senhora chegou agora mesmo, disse-lhe o Domingos, que voltra da
-terra havia tres dias, e ainda no cessra de lhe sorrir.
-
-Sentada no sof, de chapo, tirando as luvas, ella acolheu-o com uma
-dce cr no rosto, e uma carinhosa reprehenso:
-
---Estive espera mais de meia hora antes de sahir... uma ingratido!
-Imaginei que nos tinha abandonado!
-
---Porqu? Est peor, miss Sarah?
-
-Ella olhou-o, risonhamente escandalisada. Ora, miss Sarah! Miss Sarah ia
-seguindo perfeitamente na sua convalescena... Mas agora j no eram as
-visitas de medico que se esperavam, eram as de amigo; e essa tinha-lhe
-faltado.
-
-Carlos, sem responder, perturbado, voltou-se para Rosa, que folheava
-junto da mesa um livro novo d'estampas; e a ternura, a gratido infinita
-do seu corao, que no ousava mostrar me, pl-a toda na longa
-caricia em que envolveu a filha.
-
---So historias que a mam agora comprou, dizia Rosa, sria e presa ao
-seu livro. Hei de t'as contar depois... So historias de bichos.
-
-Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do chapo.
-
---Quer tomar uma chavena de ch comnosco, snr. Carlos da Maia? Eu vinha
-morrendo por uma chavena de ch... Que lindo dia, no verdade? Rosa,
-fica tu a contar o nosso passeio emquanto eu vou tirar o chapo...
-
-Carlos, s com Rosa, sentou-se junto d'ella, desviando-a do livro,
-tomando-lhe ambas as mos.
-
---Fomos ao Passeio da Estrella, dizia a pequena. Mas a mam no se
-queria demorar, porque tu podias ter vindo!
-
-Carlos beijou, uma depois da outra, as duas mosinhas de Rosa.
-
---E ento que fizeste no Passeio? perguntou elle, depois d'um leve
-suspiro de felicidade que lhe fugira do peito.
-
---Andei a correr, havia uns patinhos novos...
-
---Bonitos?...
-
-A pequena encolheu os hombros:
-
---Chinfrinzitos.
-
-Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa to feia?
-
-Rosa sorriu. Fra o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras coisas
-assim, engraadas... Dizia que a Melanie era uma _gaja_... O Domingos
-tinha muita graa.
-
-Ento Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com to bonitos vestidos,
-no devia dizer aquellas palavras... Assim fallava a gente rta.
-
---O Domingos no anda rto, disse Rosa muito sria.
-
-E subitamente, com outra ida, bateu as palmas, pulou-lhe entre os
-joelhos, radiante:
-
---E trouxe-me uns grillos da Praa! O Domingos trouxe-me uns grillos...
-Se tu soubesses! _Niniche_ tem medo dos grillos! Parece incrivel, hein?
-Eu nunca vi ninguem mais medrosa...
-
-Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave:
-
--- a mam que lhe d tanto mimo. uma pena!
-
-Maria Eduarda entrava, ageitando ainda de leve o ondeado do cabello: e,
-ouvindo assim fallar de mimo, quiz saber quem que ella estragava com
-mimo... _Niniche_? Pobre _Niniche_, coitada, ainda essa manh fra
-castigada!
-
-Ento Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as mos:
-
---Sabes como a mam a castiga? exclamava ella, puxando a manga de
-Carlos. Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em inglez: _Bad dog!
-dreadful dog!_
-
-Era encantadora assim, imitando a voz severa da mam, com o dedinho
-erguido, a ameaar _Niniche_. A pobre _Niniche_, imaginando com effeito
-que a estavam a reprehender, arrastou-se, vexada, para debaixo do sof.
-E foi necessario que Rosa a tranquillisasse, de joelhos sobre a pelle de
-tigre, jurando-lhe, por entre abraos, que ella nem era mau co, nem
-feio co; fra s para contar como fazia a mam...
-
---Vai-lhe dar agua, que ella deve estar com sde, disse ento Maria
-Eduarda, indo sentar-se na sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que
-nos traga o ch.
-
-Rosa e _Niniche_ partiram correndo. Carlos veio occupar, junto da
-janella, a costumada poltrona de reps. Mas pela primeira vez, desde a
-sua intimidade, houve entre elles um silencio difficil. Depois ella
-queixou-se de calor, desenrolando distrahidamente o bordado; e Carlos
-permanecia mudo, como se para elle, n'esse dia, apenas houvesse encanto,
-apenas houvesse significao n'uma certa palavra de que os seus labios
-estavam cheios e que no ousavam murmurar, que quasi receava que fosse
-adivinhada apesar d'ella suffocar o seu corao.
-
---Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse elle por fim,
-impaciente de a vr, to serena, a occupar-se das suas ls.
-
-Com a talagara desdobrada sobre os joelhos, ella respondeu, sem erguer
-os olhos:
-
---E para que se ha de acabar? O grande prazer andal-o a fazer, pois
-no acha? Uma malha hoje, outra malha manh, torna-se assim uma
-companhia... Para que se ha de querer chegar logo ao fim das coisas?
-
-Uma sombra passou no rosto de Carlos. N'estas palavras, ditas de leve
-cerca do bordado, elle sentia uma desanimadora alluso ao seu
-amor,--esse amor que lhe fra enchendo o corao maneira que a l
-cobria aquella talagara, e que era obra simultanea das mesmas brancas
-mos. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o bordado,
-sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no cesto da
-costura, para ser o desafogo da sua solido?
-
-Disse-lhe ento, commovido:
-
---No assim. Ha coisas que s existem quando se completam, e que s
-ento do a felicidade que se procurava n'ellas.
-
--- muito complicado isso, murmurou ella, crando. muito subtil...
-
---Quer que lh'o diga mais claramente?
-
-N'esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava
-alli o snr. Damaso...
-
-Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia:
-
---Diga que no recebo!
-
-Fra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto,
-lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o
-seu coup. Santo Deus! O que elle iria tagarellar agora, com os seus
-pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe pareceu n'esse instante
-a existencia do Damaso incompativel com a tranquillidade do seu amor.
-
---Ahi est outro inconveniente d'esta casa, dizia no emtanto Maria
-Eduarda. Aqui ao lado d'esse Gremio, a dois passos do Chiado,
-demasiadamente accessivel aos importunos. Tenho agora de repellir quasi
-todos os dias este assalto minha porta! intoleravel.
-
-E com uma subita ida, atirando o bordado para o aafate, cruzando as
-mos sobre os joelhos:
-
---Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... No me seria
-possivel arranjar por ahi uma casinhola, um cottage, onde eu fosse
-passar os mezes de vero?... Era to bom para a pequena! Mas no conheo
-ninguem, no sei a quem me hei de dirigir...
-
-Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes--como j
-n'outra occasio em que ella mostrra desejos d'ir para o campo.
-Justamente, n'esses ultimos tempos, Craft voltra a fallar, e mais
-decidido, no antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das suas
-colleces. Que deliciosa vivenda para ella, artistica e campestre,
-condizendo to bem com os seus gostos! Uma tentao atravessou-o,
-irresistivel.
-
---Eu sei com effeito d'uma casa... E to bem situada, que lhe convinha
-tanto!...
-
---Que se aluga?
-
-Carlos no hesitou:
-
---Sim, possivel arranjar-se...
-
---Isso era um encanto!
-
-Ella tinha dito--era um encanto. E isto decidiu-o logo, parecendo-lhe
-desamoravel e mesquinho o ter-lhe suggerido uma esperana, e no lh'a
-realisar com fervor.
-
-O Domingos entrra com o taboleiro do ch. E emquanto o collocava sobre
-uma pequena mesa, defronte de Maria Eduarda, ao p da janella, Carlos,
-erguendo-se, dando alguns passos pela sala, pensava em comear
-immediatamente negociaes com o Craft, comprar-lhe as colleces,
-alugar-lhe a casa por um anno, e offerecel-a a Maria Eduarda para os
-mezes de vero. E no considerava, n'esse instante, nem as
-difficuldades, nem o dinheiro. Via s a alegria d'ella passeando com a
-pequena, entre as bellas arvores do jardim. E como Maria Eduarda deveria
-ser mais grandemente formosa no meio d'esses moveis da Renascena,
-severos e nobres!
-
---Muito assucar? perguntou ella.
-
---No... Perfeitamente, basta.
-
-Viera sentar-se na sua velha poltrona; e, recebendo a chavena de
-porcelana ordinaria com um filetesinho azul, recordava o magnifico
-servio que tinha o Craft, de velho Wedgewood, oiro e cr de fogo. Pobre
-senhora! to delicada, e alli enterrada entre aquelles reps, maculando a
-graa das suas mos nas coisas reles da mi Cruges!
-
---E onde essa casa? perguntou Maria Eduarda.
-
---Nos Olivaes, muito perto d'aqui, vai-se l n'uma hora de carruagem...
-
-Explicou-lhe detalhadamente o sitio,--acrescentando, com os olhos
-n'ella, e com um sorriso inquieto:
-
---Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se fr para l
-installar-se, e depois vier o calor, quem que a torna a vr?
-
-Ella pareceu surprehendida:
-
---Mas que lhe custa, a si, que tem cavallos, que tem carruagens, que no
-tem quasi nada que fazer?...
-
-Assim ella achava natural que elle continuasse nos Olivaes as suas
-visitas de Lisboa! E pareceu-lhe logo impossivel renunciar ao encanto
-d'esta intimidade, to largamente offerecida, e decerto mais dce na
-solido d'alda. Quando acabou a sua chavena de ch--era como se a casa,
-os moveis, as arvores fossem j seus, fossem j d'ella. E teve alli um
-momento delicioso, descrevendo-lhe a quietao da quinta, a entrada por
-uma rua d'acacias, e a belleza da sala de jantar com duas janellas
-abrindo sobre o rio...
-
-Ella escutava-o, encantada:
-
---Oh! isso era o meu sonho! Vou ficar agora toda alterada, cheia
-d'esperanas... Quando poderei ter uma resposta?
-
-Carlos olhou o relogio. Era j tarde para ir aos Olivaes. Mas logo na
-manh seguinte cedo, ia fallar com o dono da casa, seu amigo...
-
---Quanto incommodo por minha causa! disse ella. Realmente! como lhe hei
-de eu agradecer?...
-
-Calou-se; mas os seus bellos olhos ficaram um instante pousados nos de
-Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do
-segredo que ella retinha no seu corao.
-
-Elle murmurou:
-
---Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra
-vez assim.
-
-Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda.
-
---No diga isso...
-
---E que necessidade ha que eu lh'o diga? Pois no sabe perfeitamente que
-a adoro, que a adoro, que a adoro!
-
-Ella ergueu-se bruscamente, elle tambem:--e assim ficaram, mudos, cheios
-d'anciedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma
-grande alterao no Universo, e elles esperassem, suspensos, o desfecho
-supremo dos seus destinos... E foi ella que fallou, a custo, quasi
-desfallecida, estendendo para elle, como se o quizesse afastar, as mos
-inquietas e tremulas:
-
---Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute... Antes que seja
-tarde ha uma coisa que lhe quero dizer...
-
-Carlos via-a assim tremer, via-a toda pallida... E nem a escutra, nem a
-comprehendera. Sentia apenas, n'um deslumbramento, que o amor comprimido
-at ahi no seu corao irrompera por fim, triumphante, e embatendo no
-corao d'ella, atravs do apparente marmore do seu peito, fizera de l
-resaltar uma chamma igual... S via que ella tremia, s via que ella o
-amava... E, com a gravidade forte d'um acto de posse, tomou-lhe
-lentamente as mos, que ella lhe abandonou, submissa de repente, j sem
-fora, e vencida. E beijava-lh'as ora uma ora outra, e as palmas, e os
-dedos, devagar, murmurando apenas:
-
---Meu amor! meu amor! meu amor!
-
-Maria Eduarda cahira pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem retirar as
-mos, erguendo para elle os olhos cheios de paixo, ennevoados de
-lagrimas, balbuciou ainda, debilmente, n'uma derradeira supplicao:
-
---Ha uma coisa que eu lhe queria dizer!...
-
-Carlos estava j ajoelhado aos seus ps.
-
---Eu sei o que ! exclamou, ardentemente, junto do rosto d'ella, sem a
-deixar fallar mais, certo de que adivinhra o seu pensamento. Escusa de
-dizer, sei perfeitamente. o que eu tenho pensado tantas vezes! que
-um amor como o nosso no pde viver nas condies em que vivem outros
-amores vulgares... que desde que eu lhe digo que a amo, como se lhe
-pedisse para ser minha esposa diante de Deus...
-
-Ella recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se no
-comprehendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as mos d'ella
-presas, penetrando-a toda da emoo que o fazia tremer:
-
---Sempre que pensava em si, era j com esta esperana d'uma existencia
-toda nossa, longe d'aqui, longe de todos, tendo quebrado todos os laos
-presentes, pondo a nossa paixo acima de todas as fices humanas, indo
-ser felizes para algum canto do mundo, solitariamente e para sempre...
-Levamos Rosa, est claro, sei que no se pde separar d'ella... E assim
-viveriamos ss, todos tres, n'um encanto!
-
---Meu Deus! Fugirmos? murmurou ella, assombrada.
-
-Carlos erguera-se.
-
---E que podemos fazer? Que outra coisa podemos ns fazer, digna do nosso
-amor?
-
-Maria no respondeu, immovel, a face erguida para elle, branca de cera.
-E pouco a pouco uma ida parecia surgir n'ella, inesperada e
-perturbadora, revolvendo todo o seu sr. Os seus olhos alargavam-se,
-anciosos e refulgentes.
-
-Carlos ia fallar-lhe... Um leve rumor de passos na esteira da sala
-deteve-o. Era o Domingos que vinha recolher a bandeja do ch: e durante
-um momento, quasi interminavel, houve entre aquelles dois sres,
-sacudidos por um ardente vendaval de paixo, a caseira passagem d'um
-criado arrumando chavenas vazias. Maria Eduarda, bruscamente,
-refugiou-se detraz das bambinellas de cretone com o rosto contra a
-vidraa. Carlos foi sentar-se no sof, a folhear ao acaso uma
-_Illustrao_, que lhe tremia nas mos. E no pensava em nada, nem sabia
-onde estava... Ainda na vespera, havia ainda instantes, conversando com
-ella, dizia ceremoniosamente minha cara senhora: depois houvera um
-olhar; e agora deviam fugir ambos, e ella tornra-se o cuidado supremo
-da sua vida, e a esposa secreta do seu corao.
-
---V. exc.^a quer mais alguma coisa? perguntou o Domingos.
-
-Maria Eduarda respondeu sem se voltar:
-
---No.
-
-O Domingos sahiu, a porta ficou cerrada. Ella ento atravessou a sala,
-veio para Carlos, que a esperava no sof, com os braos estendidos. E
-era como se obedecesse s ao impulso da sua ternura, calmadas j todas
-as incertezas. Mas hesitou de novo diante d'aquella paixo, to prompta
-a apoderar-se de todo o seu sr, e murmurou, quasi triste:
-
---Mas conhece-me to pouco!... Conhece-me to pouco, para irmos assim
-ambos, quebrando por tudo, crear um destino que irreparavel...
-
-Carlos tomou-lhe as mos, fazendo-a sentar ao seu lado, brandamente:
-
---O bastante para a adorar acima de tudo, e sem querer mais nada na
-vida!
-
-Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do
-seu corao, escutando-lhe as derradeiras agitaes. Depois soltou um
-longo suspiro.
-
---Pois seja assim! Seja assim... Havia uma coisa que eu lhe queria
-dizer, mas no importa... melhor assim!...
-
-E que outra coisa podiam fazer? perguntava Carlos radiante. Era a unica
-soluo digna, sria... E nada os podia embaraar; amavam-se, confiavam
-absolutamente um no outro; elle era rico, o mundo era largo...
-
-E ella repetia, mais firme agora, j decidida, e como se aquella
-resoluo a cada momento se cravasse mais fundo na sua alma,
-penetrando-a toda e para sempre:
-
---Pois seja assim! melhor assim!
-
-Um momento ficaram calados, olhando-se arrebatadamente.
-
---Dize-me ao menos que s feliz, murmurou Carlos.
-
-Ella lanou-lhe os braos ao pescoo: e os seus labios uniram-se n'um
-beijo profundo, infinito, quasi immaterial pelo seu extasi. Depois Maria
-Eduarda descerrou lentamente as palpebras, e disse-lhe, muito baixo:
-
---Adeus, deixa-me s, vai.
-
-Elle tomou o chapo, e sahiu.
-
-
-No dia seguinte Craft, que havia uma semana no ia ao Ramalhete,
-passeava na quinta antes d'almoo--quando appareceu Carlos. Apertaram as
-mos, fallaram um instante do Ega, da chegada dos Cohens. Depois,
-Carlos, fazendo um gesto largo que abrangia a quinta, a casa, todo o
-horisonte, perguntou rindo:
-
---Voc quer-me vender tudo isto, Craft?
-
-O outro respondeu, sem pestanejar, e com as mos nas algibeiras:
-
---A la disposicion de ustd...
-
-E alli mesmo concluiram a negociao, passeando n'uma ruasinha de buxo
-por entre os geranios em flr.
-
-Craft cedia a Carlos todos os seus moveis antigos e modernos por duas
-mil e quinhentas libras, pagas em prestaes: s reservava algumas raras
-peas do tempo de Luiz XV, que deviam fazer parte d'essa nova colleco
-que planeava, homogenea, e toda do seculo XVIII. E como Carlos no tinha
-no Ramalhete lugar para este vasto _bric--brac_, Craft alugava-lhe por
-um anno a casa dos Olivaes, com a quinta.
-
-Depois foram almoar. Carlos nem por um momento pensou na larga despeza
-que fazia, s para offerecer uma residencia de vero, por dois curtos
-mezes--a quem se contentaria com um simples cottage, entre arvores de
-quintal. Pelo contrario! quando repercorreu as salas do Craft, j com
-olhos de dono, achou tudo mesquinho, pensou em obras, em retoques de
-gosto.
-
-Com que alegria, ao deixar os Olivaes, correu rua de S. Francisco, a
-annunciar a Maria Eduarda que lhe arranjra emfim definitivamente uma
-linda casa no campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu
-encontro ao patamar: elle ergueu-a nos braos, entrou assim na sala, com
-ella ao collo, em triumpho. E no se conteve; foi pequena que deu logo
-a grande novidade, annunciando-lhe que ia ter duas vaccas, e uma
-cabra, e flres, e arvores para se balouar...
-
---Onde ? Dize, onde ? exclamava Rosa, com os lindos olhos
-resplandecentes, e a facesinha cheia de riso.
-
---D'aqui muito longe... Vai-se n'uma carruagem... Vem-se passar os
-barcos no rio... E entra-se por um grande porto onde ha um co de fila.
-
-Maria Eduarda appareceu, com _Niniche_ ao collo.
-
---Mam, mam! gritou Rosa correndo para ella, dependurando-se-lhe do
-vestido. Diz que vou ter duas cabrinhas, e um balouo... verdade?
-Dize, deixa vr, onde ? Dize... E vamos j para l?
-
-Maria e Carlos apertaram a mo, com um longo olhar, sem uma palavra. E
-logo junto da mesa, com Rosa encostada aos seus joelhos, Carlos contou a
-sua ida aos Olivaes... O dono da casa estava prompto a alugar, j, n'uma
-semana... E assim se achava ella de repente com uma vivenda pittoresca,
-mobilada n'um bello estylo, deliciosamente saudavel...
-
-Maria Eduarda parecia surprehendida, quasi desconfiada.
-
---Ha de ser necessario levar roupas de cama, roupas de mesa...
-
---Mas ha tudo! exclamou Carlos alegremente, ha quasi tudo! tal qual
-como n'um conto de fadas... As luzes esto accsas, as jarras esto
-cheias de flres... s tomar uma carruagem e chegar.
-
---Smente, necessario saber o que esse paraiso me vae custar...
-
-Carlos fez-se vermelho. No previra que se fallasse em dinheiro--e que
-ella quereria decerto pagar a casa que habitasse... Ento preferiu
-confessar-lhe tudo. Disse-lhe como o Craft, havia quasi um anno, andava
-desejando desfazer-se das suas colleces, e alugar a quinta: o av e
-elle tinham repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e
-das faienas, para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais
-Santa Olavia; e elle emfim decidira-se a fazer essa compra desde que
-entrevira a felicidade de lhe poder offerecer, por alguns mezes de
-vero, uma residencia to graciosa, e to confortavel...
-
---Rosa, vai l para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de
-silencio... Miss Sarah est tua espera.
-
-Depois, olhando para Carlos, muito sria:
-
---De sorte que, se eu no mostrasse desejos de ir para o campo, no
-tinha feito essa despeza...
-
---Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambem alugado a casa por seis
-mezes ou por um anno... Onde possuia eu agora de repente um sitio para
-metter as coisas do Craft? O que no fazia talvez era comprar
-conjuntamente roupas de cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos
-criados, etc....
-
-E acrescentou, rindo:
-
---Ora se me quizer indemnisar d'isso podemos debater esse negocio...
-
-Ella baixou os olhos, reflectindo, lentamente.
-
---Em todo o caso seu av e os seus amigos devem saber d'aqui a dias que
-me vou installar n'essa casa... E devem comprehender que a comprou para
-que eu l me installasse...
-
-Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado d'elle. E
-isto inquietou-o--o vl-a assim retrahir-se quella absoluta communho
-d'interesses em que a queria envolver, como esposa do seu corao.
-
---No approva ento o que fiz? Seja franca...
-
---Decerto... Como no hei de eu approvar tudo quanto faz, tudo quanto
-vem de si? Mas...
-
-Elle acudiu, apoderando-se das suas mos, sentindo-se triumphar:
-
---No ha _mas_! O av e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no
-campo, inutil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto,
-se quizer, metteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga,
-se fosse possivel que a nossa affeio se passasse fra do mundo,
-distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria
-delicioso... Mas no pde ser!... Alguem tem de saber sempre alguma
-coisa; quando no seja seno o cocheiro que me leva todos os dias a sua
-casa, quando no seja seno o criado que me abre todos os dias a sua
-porta... Ha sempre alguem que surprehende o encontro de dois olhares; ha
-sempre alguem que adivinha d'onde se vem a certas horas... Os deuses
-antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os
-tornava invisiveis. Ns no somos deuses, felizmente...
-
-Ella sorriu.
-
---Quantas palavras para converter uma convertida!
-
-E tudo ficou harmonisado n'um grande beijo.
-
-
-Affonso da Maia approvou plenamente a compra das colleces do Craft.
-um valor, disse elle ao Villaa, e acabamos d'encher com boa arte
-Santa-Olavia e o Ramalhete.
-
-Mas o Ega indignou-se, chegou a fallar em desvario,--despeitado por
-essa transaco secreta para que no fra consultado. O que o irritava
-sobretudo era vr, n'esta acquisio inesperada de uma casa de campo,
-outro symptoma do grave e do fundo segredo que presentia na vida de
-Carlos: e havia j duas semanas que elle habitava o Ramalhete e Carlos
-ainda no lhe fizera uma confidencia!... Desde a sua ligao de rapazes
-em Coimbra, nos Paos de Cella, fra elle o confessor secular de Carlos:
-mesmo em viagem, Carlos no tinha uma aventura banal d'hotel, de que no
-mandasse ao Ega um relatorio. O romance com a Gouvarinho, de que
-Carlos ao principio tentra, frouxamente, guardar um mysterio delicado,
-j o conhecia todo, j lra as cartas da Gouvarinho, j passra pela
-casa da titi...
-
-Mas do outro segredo no sabia nada--e considerava-se ultrajado. Via
-todas as manhs Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando
-flres; via-o chegar de l, como elle dizia, besuntado d'extasi;
-via-lhe os silencios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao
-mesmo tempo srio e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente
-amado... E no sabia nada.
-
-Justamente alguns dias depois, estando ambos ss, a fallar de planos de
-vero, Carlos alludiu aos Olivaes, com enthusiasmo, relembrando algumas
-das preciosidades do Craft, o dce socego da casa, a clara vista do
-Tejo... Aquillo realmente fra obter por uma mo cheia de libras um
-pedao do paraiso...
-
-Era noite, no quarto de Carlos, j tarde. E o Ega, que passeava com as
-mos nas algibeiras do robe-de-chambre, encolheu os hombros, impaciente,
-farto d'aquelles louvores eternos casinhola do Craft.
-
---Essa concepo do paraiso, exclamou elle, parece-me d'um estofador da
-rua Augusta! Como natureza, couves gallegas; como decorao, os velhos
-cretones do gabinete, desbotados j por tres barrelas... Um quarto de
-dormir lugubre como uma capella de santuario... Um salo confuso como o
-armazem d'um cara-de-pau, e onde no possivel conversar... A no ser o
-armario hollandez, e um ou outro prato, tudo aquillo um lixo
-archeologico... Jesus! o que eu odeio _bric--brac_!
-
-Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquillamente, e como
-reflectindo:
-
---Com effeito esses cretones so medonhos... Mas eu vou mandar
-remobilar, tornar aquillo mais habitavel.
-
-Ega estacou no meio do quarto, com o monoculo a faiscar sobre Carlos.
-
---Habitavel? Vaes ter hospedes?
-
---Vou alugar.
-
---Vaes alugar! A quem?
-
-E o silencio de Carlos, que soprava o fumo da cigarrette com os olhos no
-tecto, enfureceu Ega. Comprimentou quasi at ao cho, disse
-sarcasticamente:
-
---Peo perdo. A pergunta foi brutal. Tive agora o ar de querer arrombar
-uma gaveta fechada... O aluguel d'um predio sempre um d'esses
-delicados segredos de sentimento e de honra em que no deve roar nem a
-aza da imaginao... Fui rude... Irra! Fui bestialmente rude!
-
-Carlos continuava calado. Comprehendia bem o Ega--e quasi sentia um
-remorso d'aquella sua rigida reserva. Mas era como um pudor que o
-enleava, lhe impedia de pronunciar sequer o nome de Maria Eduarda. Todas
-as suas outras aventuras as contra ao Ega; e essas confidencias
-constituiam talvez mesmo o prazer mais solido que ellas lhe davam. Isto,
-porm, no era uma aventura. Ao seu amor misturava-se alguma coisa de
-religioso; e, como os verdadeiros devotos, repugnava-lhe conversar sobre
-a sua f... Todavia, ao mesmo tempo, sentia uma tentao de fallar
-d'_ella_ ao Ega, e de tornar vivas, e como visiveis aos seus proprios
-olhos, dando-lhes o contorno das palavras e o seu relevo, as coisas
-divinas e confusas que lhe enchiam o corao. Alm d'isso, Ega no
-saberia tudo, mais tarde ou mais cedo, pela tagarellice alheia? Antes
-lh'o dissesse elle, fraternalmente. Mas hesitou ainda, accendeu outra
-cigarrette. Justamente o Ega tomra o seu castial, e comeava a
-accendel-o a uma serpentina, devagar e com um ar amuado.
-
---No sejas tolo, no te vs deitar, senta-te ahi, disse Carlos.
-
-E contou-lhe tudo miudamente, diffusamente, desde o primeiro encontro,
-entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen.
-
-Ega escutava-o, sem uma palavra, enterrado no fundo do sof. Suppuzera
-um romancesinho, d'esses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo:
-e agora, s pelo modo como Carlos fallava d'aquelle grande amor, elle
-sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal
-tornando-se d'ahi por diante, e para sempre, o seu irreparavel destino.
-Imaginra uma brazileira polida por Paris, bonita e futil, que tendo o
-marido longe, no Brazil, e um formoso rapaz ao lado, no sof, obedecia
-simplesmente e alegremente disposio das coisas: e sahia-lhe uma
-creatura cheia de caracter, cheia de paixo, capaz de sacrificios, capaz
-de heroismos. Como sempre, diante d'estas coisas patheticas,
-murchava-lhe a veia, faltava-lhe a phrase; e quando Carlos se calou, o
-bom Ega teve esta pergunta chcha:
-
---Ento ests decidido a safar-te com ella?
-
---A _safar-me_, no; a ir viver com ella longe d'aqui, decididissimo!
-
-Ega ficou um momento a olhar para Carlos como para um phenomeno
-prodigioso, e murmurou:
-
--- d'arromba!
-
-Mas que outra coisa podiam elles fazer? D'ahi a tres mezes talvez,
-Castro Gomes chegava do Brazil. Ora nem Carlos, nem ella, aceitariam
-nunca uma d'essas situaes atrozes e reles em que a mulher do amante
-e do marido, a horas diversas... S lhes restava uma soluo digna,
-decente, sria--fugir.
-
-Ega, depois de um silencio, disse pensativamente:
-
---Para o marido que no talvez divertido perder assim, de uma vez, a
-mulher, a filha, e a cadellinha...
-
-Carlos ergueu-se, deu alguns passos pelo quarto. Sim, tambem elle j
-pensra n'isso... E no sentia remorsos--mesmo quando os podesse haver
-no absoluto egoismo da paixo... Elle no conhecia intimamente Castro
-Gomes: mas tinha podido adivinhar o typo, reconstruil-o, pelo que lhe
-dissera o Damaso, e por algumas conversas com miss Sarah. Castro Gomes
-no era um esposo a srio: era um dandy, um futil, um _gommeux_, um
-homem de sport e de cocottes... Casra com uma mulher bella, sacira a
-paixo, e recomera a sua vida de club e de bastidores... Bastava olhar
-para elle, para a sua toilette, para os seus modos--e comprehendia-se
-logo a trivialidade d'aquelle caracter...
-
---Que tal , como homem? perguntou Ega.
-
---Um brazileirito trigueiro, com um ar espartilhado... Um
-_rastaquoure_, o verdadeiro typosinho do _Caf de la Paix_...
-possivel que sinta, quando isto vier a succeder, um certo ardor na
-vaidade ferida... Mas um corao que se ha de consolar facilmente nas
-_Folies Bergres_.
-
-Ega no dizia nada. Mas pensava que um homem de club, e mesmo consolavel
-nas _Folies Bergres_, pde no se importar muito com sua mulher, mas
-pde todavia amar muito sua filha... Depois, atravessado por uma outra
-ida, acrescentou:
-
---E teu av?
-
-Carlos encolheu os hombros:
-
---O av tem de se affligir um pouco para eu poder ser profundamente
-feliz; como eu teria de ser desgraado toda a minha vida se quizesse
-poupar ao av essa contrariedade... O mundo assim, Ega... E eu, n'esse
-ponto, no estou decidido a fazer sacrificios.
-
-Ega esfregou lentamente as mos, com os olhos no cho, repetindo a mesma
-palavra, a unica que lhe suggeria todo o seu espirito perante aquellas
-coisas vehementes:
-
--- d'arromba!
-
-
-
-
-III
-
-
-Carlos, que almora cedo, estava para sahir no coup, e j de
-chapo--quando Baptista veio dizer que o snr. Ega, desejando fallar-lhe
-n'uma coisa grave, lhe pedia para esperar um instante. O snr. Ega ficra
-a fazer a barba.
-
-Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que ella
-chegra a Lisboa, Ega ainda a no vira, e fallava d'ella raramente. Mas
-Carlos sentia-o nervoso e desassocegado. Todas as manhs o pobre Ega
-mostrava um desapontamento ao receber o correio, que s lhe trazia algum
-jornal cintado, ou cartas de Celorico. noite percorria dois, tres
-theatros, j quasi vazios n'aquelle comeo de vero; e ao recolher era
-outra desconsolao, quando os criados lhe affirmavam, com certeza, que
-no viera carta alguma para s. exc.^a Decerto Ega no se resignava a
-perder Rachel, anciava por a encontrar; e roa-o o despeito de que ella,
-de qualquer modo, lhe no tivesse mostrado que no seu corao permanecia
-ao menos a saudade das antigas felicidades... Justamente na vespera Ega
-apparecera hora do jantar, transtornado: cruzra-se com o Cohen na rua
-do Ouro, e parecera-lhe que esse canalha lhe atirra de lado um olhar
-atrevido, sacudindo a bengala; o Ega jurava que se esse canalha
-ousasse outra vez fital-o, espedaava-o, sem piedade, publicamente, a
-uma esquina da Baixa.
-
-Na ante-camara o relogio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir
-ao quarto do Ega. Mas n'esse instante o correio chegava, com a _Revista
-dos Dois Mundos_, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos
-acabava de a lr--quando o Ega appareceu, de jaqueto, e em chinelas.
-
---Tenho a fallar-te n'uma coisa grave, menino.
-
---L isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da Gouvarinho.
-
-A Gouvarinho, n'um tom amargo, queixava-se que, j por duas vezes,
-Carlos faltra ao _rendez-vous_ em casa da titi, sem lhe ter sequer
-escripto uma palavra; ella vira n'isto uma offensa, uma brutalidade; e
-vinha agora intimal-o, em nome de todos os sacrificios que por elle
-fizera, a que apparecesse na rua de S. Maral, domingo ao meio dia,
-para terem uma explicao definitiva antes d'ella partir para Cintra.
-
---Excellente occasio d'acabar! exclamou Ega, entregando a carta a
-Carlos, depois de respirar o perfume do papel. No vs, nem respondas...
-Ella parte para Cintra, tu para Santa Olavia, no vos vdes mais, e
-assim finda o romance. Finda como todas as coisas grandes, como o
-Imperio Romano, e como o Rheno, por disperso, insensivelmente...
-
--- o que eu vou fazer, disse Carlos, comeando a calar as luvas.
-Jesus! Que mulher massadora!
-
---E que desavergonhada! Chamar a essas coisas sacrificios!...
-Arrasta-te duas vezes por semana a casa da titi, regala-se l de
-extravagancias, bebe champagne, fuma cigarrettes, sobe ao setimo co,
-delira, e depois pe dolorosamente os olhos no cho, e chama a isso
-sacrificios... S com um chicote!...
-
-Carlos encolheu os hombros, com resignao, como se nas condessas de
-Gouvarinho, e no mundo, s houvesse incoherencia e dlo.
-
---E que isso que tu me tinhas a dizer?
-
-Ega ento tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma
-cigarrette, abotoou devagar o jaqueto.
-
---Tu no tens visto o Damaso?
-
---Nunca mais me appareceu, disse Carlos. Creio que est amuado... Eu
-sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois
-dedos...
-
---Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda ahi, por toda a parte,
-fallando de ti e d'essa senhora, tua amiga... A ti chama-te _pulha_, a
-ella peor ainda. a velha historia; diz que te apresentou, que te
-metteste de dentro, e como para essa senhora uma questo de dinheiro,
-e tu s o mais rico, ella lhe passou o p... Vs d'ahi a infamiasinha. E
-isto tagarellado pelo Gremio, pela Casa Havaneza, com detalhes torpes,
-envolvendo sempre a questo de dinheiro. Tudo isto atroz. Trata de lhe
-pr cobro.
-
-Carlos, muito pallido, disse simplesmente:
-
---Ha de se fazer justia.
-
-Desceu, indignado. Aquella torpe insinuao sobre dinheiro parecia-lhe
-poder ser castigada s com a morte. E um instante mesmo, com a mo no
-fecho da portinhola do coup, pensou em correr a casa do Damaso, tomar
-um desforo brutal.
-
-Mas eram quasi onze horas, e elle tinha d'ir aos Olivaes. No dia
-seguinte, sabbado, dia bello entre todos e solemne para o seu corao,
-Maria Eduarda devia emfim visitar a quinta do Craft: e ficra combinado,
-na vespera, que passariam l as horas do calor, at tarde, ss,
-n'aquella casa solitaria e sem criados, escondida entre as arvores. Elle
-pedira-lh'o assim, hesitante e a tremer: ella consentira logo, sorrindo
-e naturalmente. N'essa manh elle mandra aos Olivaes dois criados para
-arejar as salas, espanejar, encher tudo de flres. Agora ia l, como um
-devoto, vr se estava bem enfeitado o sacrario da sua deusa... E era
-atravs d'estes deliciosos cuidados, em plena ventura, que lhe apparecia
-outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a tagarellice do
-Damaso!
-
-At aos Olivaes, no cessou de ruminar coisas vagas e violentas que
-faria para aniquilar o Damaso. No seu amor no haveria paz, emquanto
-aquelle villo o andasse commentando sordidamente pelas esquinas das
-ruas. Era necessario enxovalhal-o de tal modo, com tal publicidade, que
-elle no ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil...
-Quando o coup parou porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas
-no Damaso, uma tarde, no Chiado, com apparato...
-
-Mas depois, ao regressar da quinta, vinha j mais calmo. Pisra a linda
-rua d'acacias que os ps d'ella pisariam na manh seguinte: dera um
-longo olhar ao leito que seria o leito d'ella, rico, alado sobre um
-estrado, envolto em cortinados de brocatel cr d'ouro, com um esplendor
-srio d'altar profano... D'ahi a poucas horas, encontrar-se-hiam ss
-n'aquella casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o vero os seus
-amores viveriam escondidos n'esse fresco retiro d'alda; e d'ahi a tres
-mezes estariam longe, na Italia, beira d'um claro lago, entre as
-flres d'Isola Bella... No meio d'estas voluptuosidades magnificas, que
-lhe podia importar o Damaso, gorducho e reles, palrando em calo nos
-bilhares do Gremio! Quando chegou rua de S. Francisco resolvera, se
-visse o Damaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos.
-
-Maria Eduarda fra passear a Belem com Rosa deixando-lhe um bilhete, em
-que lhe pedia para vir noite _faire un bout de causerie_. Carlos
-desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na
-carteira como uma dce reliquia; e sahia o porto, no momento em que o
-Alencar desembocava defronte, da travessa da Parreirinha, todo de preto,
-moroso e pensativo. Ao avistar Carlos, parou de braos abertos; depois
-vivamente, como recordando-se, ergueu os olhos para o primeiro andar.
-
-No se tinham visto desde as corridas, o poeta abraou com effuso o seu
-Carlos. E fallou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Cintra,
-em Collares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembrra do rico dia
-passado com Carlos e com o maestro em Sitiaes!... Cintra uma belleza.
-Elle, um pouco constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, to
-erudito e to profundo, apesar da excellente musica da mulher, da
-Julinha (que para elle era como uma irm), tinha-se aborrecido. Questo
-de velhice...
-
---Com effeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te o
-teu ar aureolado.
-
-O poeta encolheu os hombros.
-
---O Evangelho l o diz bem claro... Ou a Biblia que o diz...? No;
-S. Paulo... S. Paulo ou Santo Agostinho?... Emfim a authoridade no faz
-ao caso. N'um d'esses santos livros se affirma que este mundo um valle
-de lagrimas...
-
---Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente.
-
-O poeta tornou a encolher os hombros. Lagrimas ou risos, que
-importava?... Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na vespera elle
-dissera isso mesmo em casa dos Cohens...
-
-E de repente, estacando no meio da rua, tocando no brao de Carlos:
-
---E agora por fallar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza, meu
-rapaz. Eu sei que tu s intimo do Ega, e, que diabo, ninguem lhe admira
-mais o talento do que eu!... Mas, realmente, tu approvas que elle,
-apenas soube da chegada dos Cohens, se viesse metter em Lisboa? Depois
-do que houve!...
-
-Carlos afianou ao poeta que o Ega s no dia mesmo da chegada, horas
-depois, soubera pela _Gazeta Illustrada_ a vinda dos Cohens... E de
-resto se no podessem habitar, conjuntas na mesma cidade, as pessoas
-entre as quaes tivesse havido attritos desagradaveis, as sociedades
-humanas tinham de se desfazer...
-
-Alencar no respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com a cabea baixa.
-Depois parou de novo, franzindo a testa:
-
---Outra coisa em que te quero fallar. Houve entre ti e o Damaso alguma
-pga? Eu pergunto-te isto porque n'outro dia, l em casa dos Cohens,
-elle veio com uns ditos, umas insinuaes... Eu declarei-lhe logo:
-Damaso, Carlos da Maia, filho de Pedro da Maia, como se fosse meu
-irmo. E o Damaso calou-se... Calou-se, porque me conhece, e sabe que
-eu n'estas coisas de lealdade e de corao sou uma fera!
-
-Carlos disse simplesmente:
-
---No, no ha nada, no sei nada... Nem sequer tenho visto o Damaso.
-
---Pois verdade, continuou Alencar tomando o brao de Carlos,
-lembrei-me muito de ti em Cintra. At fiz l um coisita que me no sahiu
-m, e que te dediquei... Um simples soneto, uma paizagem, um quadrosinho
-de Cintra ao pr do sol. Quiz provar ahi a esses da Ida Nova, que,
-sendo necessario, tambem por c se sabe cinzelar o verso moderno e dar o
-trao realista. Ora espera ahi, eu te digo, se me lembrar. A coisa
-chama-se--_Na estrada dos Capuchos_...
-
-Tinham parado esquina do Seixas; e o poeta tossira j de leve, antes
-de recitar,--quando justamente lhes appareceu o Ega, vindo de baixo,
-vestido de campo, com uma bella rosa branca no jaqueto de flanella
-azul.
-
-Alencar e elle no se encontravam desde a fatal soire dos Cohens. E ao
-passo que o Ega conservava um resentimento feroz contra o poeta vendo
-n'elle o inventor d'essa perfida lenda da carta obscena--Alencar
-odiava-o pela certeza secreta de que elle fra o amante amado da sua
-divina Rachel. Ambos se fizeram pallidos; o aperto de mo que deram foi
-incerto e regelado; e ficaram calados, todos tres, emquanto Ega nervoso
-levava uma eternidade a accender o charuto no lume de Carlos. Mas foi
-elle que fallou, por entre uma fumaa, affectando uma superioridade
-amavel:
-
---Acho-te com boa cr, Alencar!
-
-O poeta foi amavel tambem, um pouco d'alto, passando os dedos no bigode:
-
---Vai-se andando. E tu que fazes? Quando nos ds essas _Memorias_,
-homem?
-
---Estou espera que o paiz aprenda a lr.
-
---Tens que esperar! Pede ao teu amigo Gouvarinho que apresse isso, elle
-occupa-se da Instruco publica... Olha, alli o tens tu, grave e co
-como uma columna do _Diario do Governo_...
-
-O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde o
-Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao lado
-d'elles, de chapo branco, de collete branco, o Damaso deitava olhares
-pelo Chiado, risonho, ovante, barrigudo, como um conquistador nos seus
-dominios. J aquelle arzinho gordo de tranquillo triumpho irritou
-Carlos. Mas quando o Damaso parou defronte, no outro passeio, todo de
-costas para elle, ostentando rir alto com o Gouvarinho, no se conteve,
-atravessou a rua.
-
-Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mo do Gouvarinho, saudou de leve o
-Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Damaso friamente:
-
---Ouve l. Se continas a fallar de mim e de pessoas das minhas
-relaes, do modo como tens fallado, e que no me convm, arranco-te as
-orelhas.
-
-O conde acudiu, mettendo-se entre elles:
-
---Maia, por quem ! Aqui no Chiado...
-
---No nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o, muito srio e muito
-sereno. apenas um aviso a este imbecil.
-
---Eu no quero questes, eu no quero questes!... balbuciou o Damaso,
-livido, enfiando para dentro d'uma tabacaria.
-
-E Carlos voltou, com socego, para junto dos seus amigos, depois de ter
-saudado o Cohen e sacudir a mo ao Gouvarinho.
-
-Vinha apenas um pouco pallido: mais perturbado estava o Ega, que julgra
-vr de novo, n'um olhar do Cohen, uma provocao intoleravel. S o
-Alencar no reparra em nada: continuava a discursar sobre coisas
-litterarias, explicando ao Ega as concesses que se podiam fazer ao
-naturalismo...
-
---Fiquei aqui a dizer ao Ega... evidente que quando se trata de
-paizagem necessario copiar a realidade... No se pode descrever um
-castanheiro _a priori_, como se descreveria uma alma... E l isso fao
-eu... Ahi est esse soneto de Cintra que eu te dediquei, Carlos.
-realista, est claro que realista... Pudra, se paizagem! Ora eu
-vol-o digo... Ia justamente dizel-o, quando tu appareceste, Ega... Mas
-vejam l vocs se isto os massa...
-
-Qual massava! E at, para o escutarem melhor, penetraram na rua de S.
-Francisco, mais silenciosa. Ahi, dando um passo lento, depois outro, o
-poeta murmurou a sua ecloga. Era em Cintra, ao pr do sol: uma ingleza,
-de cabellos soltos, toda de branco, desce n'um burrinho por uma vereda
-que domina um valle; as aves cantam de leve, ha borboletas em torno das
-madresilvas; ento a ingleza pra, deixa o burrinho, olha enlevada o
-co, os arvoredos, a paz das casas;--e ahi, no ultimo terceto, vinha a
-nota realista de que se ufanava o Alencar:
-
-
- Ella olha a flr dormente, a nuvem casta,
- Emquanto o fumo dos casaes se eleva
- E ao lado o burro, pensativo, pasta.
-
-
---Ahi tm vocs o trao, a nota naturalista... _Ao lado o burro,
-pensativo, pasta_... Eis ahi a realidade, est-se a vr o burro
-pensativo... No ha nada mais pensativo que um burro... E so estas
-pequeninas coisas da natureza que necessario observar... J vem vocs
-que se pde fazer realismo, e do bom, sem vir logo com obscenidades...
-Vocs que lhes parece o sonetito?
-
-Ambos o elogiaram profundamente--Carlos arrependido de no ter
-completado a humilhao do Damaso, dando-lhe bengaladas; Ega pensando
-que decerto, n'uma d'essas tardes, no Chiado, teria de esbofetear o
-Cohen. Como elles recolhiam ao Ramalhete, Alencar, j desanuviado, foi
-acompanhal-os pelo Aterro. E fallou sempre, contando o plano de um
-romance historico, em que elle queria pintar a grande figura d'Affonso
-d'Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais intimo: Affonso
-d'Albuquerque namorado: Affonso d'Albuquerque, s, de noite, na ppa do
-seu galeo, diante d'Ormuz incendiada, beijando uma flr secca, entre
-soluos. Alencar achava isto sublime.
-
-Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir rua de S. Francisco--quando
-o Baptista veio dizer que o snr. Telles da Gama lhe desejava fallar com
-urgencia. No o querendo receber, alli, em mangas de camisa, mandou-o
-entrar para o gabinete escarlate e preto. E veio d'ahi a um instante
-encontrar Telles da Gama admirando as bellas faianas hollandezas.
-
---Voc, Maia, tem isto lindissimo, exclamou elle logo. Eu pello-me por
-porcelanas... Hei de voltar um dia d'estes, com mais vagar, vr tudo
-isto, de dia... Mas hoje venho com pressa, venho com uma misso... Voc
-no adivinha?
-
-Carlos no adivinhava.
-
-E o outro, recuando um passo, com uma gravidade em que transparecia um
-sorriso:
-
---Eu venho aqui perguntar-lhe da parte do Damaso, se voc hoje,
-n'aquillo que lhe disse, tinha teno de o offender. s isto... A
-minha misso apenas esta: perguntar-lhe se voc tinha inteno de o
-offender.
-
-Carlos olhou-o, muito srio:
-
---O qu!? Se tinha inteno de offender o Damaso quando o ameacei de lhe
-arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha s inteno de lhe arrancar
-as orelhas!
-
-Telles da Gama saudou, rasgadamente:
-
---Foi isso mesmo o que eu respondi ao Damaso: que voc no tinha seno
-essa inteno. Em todo o caso, desde este momento, a minha misso est
-finda... Como voc tem isto bonito!... O que aquelle prato grande,
-majolica?
-
---No, um velho Nevers. Veja voc ao p... Thetis conduzindo as armas
-d'Achilles... esplendido; e muito raro... Veja voc esse Deft, com
-as duas tulipas amarellas... um encanto!
-
-Telles da Gama dava um olhar lento a todas estas preciosidades, tomando
-o chapo de sobre o sof.
-
---Lindissimo tudo isto!... Ento s inteno de lhe arrancar as orelhas?
-nenhuma de o offender?...
-
---Nenhuma de o offender, toda de lhe arrancar as orelhas... Fume voc um
-charuto.
-
---No, obrigado...
-
---Calice de cognac?
-
---No! absteno total de bebidas e aguas ardentes... Pois adeus, meu
-bom Maia!
-
---Adeus, meu bom Telles...
-
-
-Ao outro dia, por uma radiante manh de julho, Carlos saltava do coup,
-com um mlho de chaves, diante do porto da quinta do Craft. Maria
-Eduarda devia chegar s dez horas, s, na sua carruagem da Companhia. O
-hortelo, dispensado por dois dias, fra a Villa Franca; no havia ainda
-criados na casa; as janellas estavam fechadas. E pesava alli, envolvendo
-a estrada e a vivenda, um d'esses altos e graves silencios d'alda, em
-que se sente, dormente no ar, o zumbir dos moscardos.
-
-Logo depois do porto, penetrava-se n'uma fresca rua d'acacias, onde
-cheirava bem. A um lado, por entre a ramagem, apparecia o kiosque, com
-tecto de madeira, pintado de vermelho, que fra o capricho de Craft, e
-que elle mobilra japoneza. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com
-janellas de peitoril, persianas verdes, e a portinha ao centro sobre
-tres degraus, flanqueados por vasos de loua azul cheios de cravos.
-
-S o metter a chave devagar e com uma inutil cautela na fechadura
-d'aquella morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janellas:
-e a larga luz que entrava pareceu-lhe trazer uma doura rara, e uma
-alegria maior que a dos outros dias, como preparada especialmente pelo
-bom Deus para alumiar a festa do seu corao. Correu logo sala de
-jantar, a verificar se, na mesa posta para o _lunch_, se conservavam
-ainda viosas as flres que l deixra na vespera. Depois voltou ao
-coup a tirar o caixote de gelo, que trouxera de Lisboa, embrulhado em
-flanella, entre serradura. Na estrada, silenciosa por ora, ia s
-passando uma saloia montada na sua egua.
-
-Mas apenas accommodra o gelo--sentiu fra o ruido lento da carruagem.
-Veio para o gabinete forrado de cretones, que abria sobre o corredor; e
-ficou alli, espreitando da porta, mas escondido, por causa do cocheiro
-da Companhia. D'ahi a um instante viu-a emfim chegar, pela rua de
-acacias, alta e bella, vestida de preto, e com um meio-vo espesso como
-uma mascara. Os seus psinhos subiram os tres degraus de pedra. Elle
-sentiu a sua voz inquieta perguntar de leve:
-
---_tes-vous l?_
-
-Appareceu--e ficaram um instante, porta do gabinete, apertando
-sofregamente as mos, sem fallar, commovidos, deslumbrados.
-
---Que linda manh! disse ella por fim, rindo e toda vermelha.
-
---Linda manh, linda! repetia Carlos, contemplando-a, enlevado.
-
-Maria Eduarda resvalra sobre uma cadeira, junto da porta, n'um cansao
-delicioso, deixando calmar o alvoroo do seu corao.
-
--- muito confortavel, encantador tudo isto, dizia ella olhando
-lentamente em redor os cretones do gabinete, o divan turco coberto com
-um tapete de Brousse, a estante envidraada cheia de livros. Vou ficar
-aqui adoravelmente...
-
---Mas ainda nem lhe agradeci o ter vindo, murmurou Carlos, esquecido, a
-olhar para ella. Ainda nem lhe beijei a mo...
-
-Maria Eduarda comeou a tirar o vo, depois as luvas, fallando da
-estrada. Achra-a longa, fatigante. Mas que lhe importava? Apenas se
-accommodasse n'aquelle fresco ninho nunca mais voltava a Lisboa!
-
-Atirou o chapo para cima do divan--ergueu-se, toda alegre e luminosa.
-
---Vamos vr a casa, estou morta por vr essas maravilhas do seu amigo
-Craft!... Craft que se chama? _Craft_ quer dizer industria!
-
---Mas ainda nem sequer lhe beijei a mo! tornou Carlos, sorrindo e
-supplicante.
-
-Ella estendeu-lhe os labios, e ficou presa nos seus braos.
-
-E Carlos, beijando-lhe devagar os olhos, o cabello, dizia-lhe quanto era
-feliz e quanto a sentia agora mais sua entre estes velhos muros de
-quinta que a separavam do resto do mundo...
-
-Ella deixava-se beijar, sria e grave:
-
---E verdade isso? realmente verdade?...
-
-Se era verdade! Carlos teve um suspiro quasi triste:
-
---Que lhe hei de eu responder? Tenho de lhe repetir essa coisa antiga
-que j Hamlet disse: que duvide de tudo, que duvide do sol, mas que no
-duvide de mim...
-
-Maria Eduarda desprendeu-se, lentamente e perturbada.
-
---Vamos vr a casa, disse ella.
-
-Comearam pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos
-em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papeis claros, abriam
-sobre o rio e sobre os campos.
-
---Os seus aposentos, disse Carlos, ho de ser em baixo, est visto,
-entre as coisas ricas... Mas Rosa e miss Sarah ficam aqui
-esplendidamente. No lhe parece?
-
-E ella percorria os quartos, devagar, examinando a accommodao dos
-armarios, palpando a elasticidade dos colxes, attenta, cuidadosa, toda
-no desvelo de alojar bem a sua gente. Por vezes mesmo exigia uma
-alterao. E era realmente como se aquelle homem que a seguia,
-enternecido e radiante, fosse apenas um velho senhorio.
-
---O quarto com as duas janellas, ao fundo do corredor, seria o melhor
-para Rosa. Mas a pequena no pde dormir n'aquelle enorme leito de pau
-preto...
-
---Muda-se!
-
---Sim, pde mudar-se... E falta uma sala larga para ella brincar, s
-horas do calor... Se no houvesse o tabique entre os dois quartos
-pequenos...
-
---Deita-se abaixo!
-
-Elle esfregava as mos, encantado, prompto a refundir toda a casa; e
-ella no recusava nada, para conforto mais perfeito dos seus.
-
-Desceram sala de jantar. E ahi, diante da famosa chamin de carvalho
-lavrado, flanqueada maneira de cariatides pelas duas negras figuras de
-Nubios, com olhos rutilantes de crystal, Maria Eduarda comeou a achar o
-gosto do Craft excentrico, quasi exotico... Tambem Carlos no lhe dizia
-que Craft tivesse o gosto correcto d'um atheniense. Era um saxonio
-batido d'um raio de sol meridional: mas havia muito talento na sua
-excentricidade...
-
---Oh, a vista que deliciosa! exclamou ella chegando-se janella.
-
-Junto do peitoril crescia um p de margaridas, e ao lado outro de
-baunilha que perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete de relva, mal
-aparada, um pouco amarellada j pelo calor de julho; e entre duas
-grandes arvores que lhe faziam sombra, havia alli, para os vagares da
-ssta, um largo banco de cortia. Um renque de arbustos cerrados parecia
-fechar a quinta d'aquelle lado como uma sebe. Depois a collina descia,
-com outras quintarolas, casas que se no viam, e uma chamin de fabrica;
-e l no fundo o rio rebrilhava, vidrado de azul, mudo e cheio de sol,
-at s montanhas d'alm-Tejo, azuladas tambem na faiscao clara do co
-de vero.
-
---Isto encantador! repetia ella.
-
--- um paraiso! Pois no lhe dizia eu? necessario pr um nome a esta
-casa... Como se ha de chamar? _Villa-Marie?_ No. _Chteau-Rose_...
-Tambem no, crdo! Parece o nome d'um vinho. O melhor baptisal-a
-definitivamente com o nome que ns lhe davamos. Ns chamavamos-lhe a
-_Tca_.
-
-Maria Eduarda achou originalissimo o nome de _Tca_. Devia-se at pintar
-em letras vermelhas sobre o porto.
-
---Justamente, e com uma divisa de bicho, disse Carlos rindo. Uma divisa
-de bicho egoista na sua felicidade e no seu buraco: _No me mexam!_
-
-Mas ella parra, com um lindo riso de surpreza, diante da mesa posta,
-cheia de fruta, com as duas cadeiras j chegadas, e os crystaes
-brilhando entre as flres.
-
---So as bodas de Cann!
-
-Os olhos de Carlos resplandeceram.
-
---So as nossas!
-
-Maria Eduarda fez-se muito vermelha; e baixou o rosto a escolher um
-morango, depois a escolher uma rosa.
-
---Quer uma gota de champagne? exclamou Carlos. Com um pouco de gelo? Ns
-temos gelo, temos tudo! No nos falta nada, nem a beno de Deus... Uma
-gotinha de champagne, v!
-
-Ella aceitou: beberam pelo mesmo copo; outra vez os seus labios se
-encontraram, apaixonadamente.
-
-Carlos accendeu uma cigarrette, continuaram a percorrer a casa. A
-cozinha agradou-lhe muito, arranjada ingleza, toda em azulejos. No
-corredor Maria Eduarda demorou-se diante de uma panoplia de tourada, com
-uma cabea negra de touro, espadas e garrochas, mantos de sda vermelha,
-conservando nas suas pregas uma graa ligeira, e ao lado o cartaz
-amarello _de la corrida_, com o nome de Lagartijo. Isto encantou-a como
-um quente lampejo de festa e de sol peninsular...
-
-Mas depois o quarto que devia ser o seu, quando Carlos lh'o foi mostrar,
-desagradou-lhe com o seu luxo estridente e sensual. Era uma alcova,
-recebendo a claridade d'uma sala forrada de tapearias, onde desmaiavam
-na trama de l os amores de Venus e Marte: da porta de communicao,
-arredondada em arco de capella, pendia uma pesada lampada da Renascena,
-de ferro forjado: e, quella hora, batida por uma larga facha de sol, a
-alcova resplandecia como o interior de um tabernaculo profanado,
-convertido em retiro lascivo de serralho... Era toda forrada, paredes e
-tectos, de um brocado amarello, cr de boto d'ouro; um tapete de
-velludo do mesmo tom rico fazia um pavimento d'ouro vivo sobre que
-poderiam correr ns os ps ardentes d'uma deusa amorosa--e o leito de
-docel, alado sobre um estrado, coberto com uma colcha de setim amarello
-bordada a flres d'ouro, envolto em solemnes cortinas tambem amarellas
-de velho brocatel,--enchia a alcova, esplendido e severo, e como erguido
-para as voluptuosidades grandiosas de uma paixo tragica do tempo de
-Lucrecia ou de Romeu. E era alli que o bom Craft, com um leno de sda
-da India amarrado na cabea, resonava as suas sete horas, pacata e
-solitariamente.
-
-Mas Maria Eduarda no gostou d'estes amarellos excessivos. Depois
-impressionou-se, ao reparar n'um painel antigo, defumado, resaltando em
-negro do fundo de todo aquelle ouro--onde apenas se distinguia uma
-cabea degolada, livida, gelada no seu sangue, dentro d'um prato de
-cobre. E para maior excentricidade, a um canto, de cima de uma columna
-de carvalho, uma enorme coruja empalhada fixava no leito d'amor, com um
-ar de meditao sinistra, os seus dois olhos redondos e agourentos...
-Maria Eduarda achava impossivel ter alli sonhos suaves.
-
-Carlos agarrou logo na columna e no mocho, atirou-os para um canto do
-corredor; e propoz-lhe mudar aquelles brocados, forrar a alcova de um
-setim cr de rosa e risonho.
-
---No, venho-me a acostumar a todos esses ouros... Smente aquelle
-quadro, com a cabea, e com o sangue... Jesus, que horror!
-
---Reparando bem, disse Carlos, creio que o nosso velho amigo S. Joo
-Baptista.
-
-Para desfazer essa impresso desconsolada levou-a ao salo nobre, onde
-Craft concentrra as suas preciosidades. Maria Eduarda, porm, ainda
-descontente, achou-lhe um ar atulhado e frio de museu.
-
--- para vr de p, e de passagem... No se pde ficar aqui sentado, a
-conversar.
-
---Mas esta materia-prima! exclamou Carlos. Com isto depois faz-se uma
-sala adoravel... Para que serve o nosso genio decorativo?... Olhe o
-armario, veja que centro! Que belleza!
-
-Enchendo quasi a parede do fundo, o famoso armario, o movel divino do
-Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseatica, luxuoso e sombrio,
-tinha uma magestade architectural: na base quatro guerreiros, armados
-como Marte, flanqueavam as portas, mostrando cada uma em baixo-relevo o
-assalto de uma cidade ou as tendas de um acampamento; a pea superior
-era guardada aos quatro cantos pelos quatro evangelistas, Joo, Marcos,
-Lucas e Matheus, imagens rigidas, envolvidas n'essas roupagens violentas
-que um vento de prophecia parece agitar: depois na cornija erguia-se um
-tropho agricola com mlhos d'espigas, fouces, cachos d'uvas e rabias
-d'arados; e, sombra d'estas coisas de labor e fartura, dois Faunos,
-recostados em symetria, indifferentes aos heroes e aos santos, tocavam
-n'um desafio bucolico a frauta de quatro tubos.
-
---Ento, hein? dizia Carlos. Que movel! todo um poema da Renascena,
-Faunos e Apostolos, guerras e georgicas... Que se pde metter dentro
-d'este armario? Eu se tivesse cartas suas era aqui que as depositava,
-como n'um altar-mr.
-
-Ella no respondeu, sorrindo, caminhando devagar entre essas coisas do
-passado, d'uma belleza fria, e exhalando a indefinida tristeza de um
-luxo morto: finos moveis da Renascena italiana, exilados dos seus
-palacios de marmore, com embutidos de cornalina e agatha que punham um
-brilho suave de joia sobre a negrura dos ebanos ou setim das madeiras
-cr de rosa; cofres nupciaes, longos como bahs, onde se guardavam os
-presentes dos Papas e dos Principes, pintados a purpura e ouro, com
-graas de miniatura; contadores hespanhoes impertigados, revestidos de
-ferro brunido e de velludo vermelho, e com interiores mysteriosos, em
-frma de capella, cheios de nichos, de claustros de tartaruga... Aqui e
-alm, sobre a pintura verde-escura das paredes, resplandecia uma colcha
-de setim toda recamada de flres e d'aves d'ouro; ou sobre um bocado de
-tapete do Oriente de tons severos, com versiculos do Alcoro,
-desdobrava-se a pastoral gentil d'um minuete em Cythera sobre a sda de
-um leque aberto...
-
-Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, n'uma poltrona Luiz XV,
-ampla e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta de
-tapearia de Beauvais, d'onde parecia exhalar-se ainda um vago aroma
-d'empoado.
-
-Carlos triumphava, vendo a admirao de Maria. Ento, ainda considerava
-uma extravagancia aquella compra, feita n'um rasgo de enthusiasmo?
-
---No, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei a viver
-uma vida pacata de alda no meio de todas estas raridades...
-
---No diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pgo fogo a tudo!
-
-Mas o que lhe agradou mais foram as bellas faianas, toda uma arte
-immortal e fragil espalhada por sobre o marmore das consolas. Uma
-sobretudo attrahiu-a, uma esplendida taa persa, d'um desenho raro, com
-um renque de negros cyprestes, cada um abrigando uma flr de cr viva: e
-aquillo fazia lembrar breves sorrisos reapparecendo entre longas
-tristezas. Depois eram as apparatosas majolicas, de tons estridentes e
-desencontrados, cheias de grandes personagens, Carlos V passando o Elba,
-Alexandre coroando Roxane; os lindos Nevers, ingenuos e srios; os
-Marselhas, onde se abre voluptuosamente, como uma nudez que se mostra,
-uma grossa rosa vermelha; os Derby, com as suas rendas de ouro sobre o
-azul-ferrete de co tropical; os Wedgewood, cr de leite e cr de rosa,
-com transparencias fugitivas de concha na agua...
-
---S um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez sentar-se,
-necessario saudar o genio tutelar da casa!
-
-Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze, um
-deus bestial, n, pelado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso,
-com o ventre vante, distendido na indigesto de todo um universo--e as
-duas perninhas bambas, molles e flaccidas como as pelles mortas d'um
-feto. E este monstro triumphava, encanchado sobre um animal fabuloso, de
-ps humanos, que dobrava para a terra o pescoo submisso, mostrando no
-focinho e no olho obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhao...
-
---E pensarmos, dizia Carlos, que geraes inteiras vieram ajoelhar-se
-diante d'este rato, rezar-lhe, beijar-lhe o embigo, offerecer-lhe
-riquezas, morrer por elle...
-
---O amor que se tem por um monstro, disse Maria, mais meritorio, no
-verdade?
-
---Por isso no acha talvez meritorio o amor que se tem por si...
-
-Sentaram-se ao p da janella, n'um divan baixo e largo, cheio de
-almofadas, cercado por um biombo de sda branca, que fazia entre aquelle
-luxo do passado um ffo recanto de conforto moderno: e como ella se
-queixava um pouco de calor, Carlos abriu a janella. Junto do peitoril
-crescia tambem um grande p de margaridas; adiante, n'um velho vaso de
-pedra, pousado sobre a relva, vermelhejava a flr d'um cacto; e dos
-ramos de uma nogueira cahia uma fina frescura.
-
-Maria Eduarda veio encostar-se janella, Carlos seguiu-a; e ficaram
-alli juntos, calados, profundamente felizes, penetrados pela doura
-d'aquella solido. Um passaro cantou de leve no ramo da arvore; depois
-calou-se. Ella quiz saber o nome de uma povoao que branquejava ao
-longe ao sol na collina azulada. Carlos no se lembrava. Depois
-brincando, colheu uma margarida, para a interrogar: _Elle m'aime, un
-peu, beaucoup_... Ella arrancou-lh'a das mos.
-
---Para que precisa perguntar s flres?
-
---Porque ainda m'o no disse claramente, absolutamente, como eu quero
-que m'o diga...
-
-Abraou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Ento Carlos, com os olhos
-mergulhados nos d'ella, disse-lhe baixnho e implorando:
-
---Ainda no vimos a saleta de banho...
-
-Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaada pelo salo, depois atravs
-da sala de tapearias onde Marte e Venus se amavam entre os bosques. Os
-banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho
-tapete vermelho da Caramania. Elle, tendo-a sempre abraada, pousou-lhe
-no pescoo um beijo longo e lento. Ella abandonou-se mais, os seus olhos
-cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e cr
-d'ouro: Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capella,
-feitas de uma sda leve que coava para dentro uma claridade loura: e um
-instante ficaram immoveis, ss emfim, desatado o abrao, sem se tocarem,
-como suspensos e suffocados pela abundancia da sua felicidade.
-
---Aquella horrivel cabea! murmurou ella.
-
-Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E ento
-todo o rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida entre as
-arvores, n'uma demorada ssta, sob a calma de julho...
-
-
-Os annos de Affonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo.
-Quasi todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tomra-se o
-caf no escriptorio d'Affonso, onde as janellas se conservavam abertas.
-A noite estava tepida, estrellada e serenissima. Craft, Sequeira e o
-Taveira passeavam fumando no terrao. Ao canto d'um sof Cruges escutava
-religiosamente Steinbroken que lhe contava, com gravidade, os progressos
-da musica na Filandia. E em redor de Affonso, estendido na sua velha
-poltrona, de cachimbo na mo, fallava-se do campo.
-
-Ao jantar Affonso annuncira a inteno de ir visitar, para o meado do
-mez, as velhas arvores de Santa Olavia; e combinra-se logo uma grande
-romaria de amizade s margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam
-Affonso. O marquez promettera uma visita para agosto na companhia
-melodiosa, dizia elle, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com
-receio da longa jornada, da humidade da alda. E agora tratava-se de
-persuadir Ega a ir tambem, com Carlos--quando Carlos acabasse emfim de
-reunir esses materiaes do seu livro que o retinham em Lisboa banca do
-labor... Mas o Ega resistia. O campo, dizia elle, era bom para os
-selvagens. O homem, maneira que se civilisa, afasta-se da natureza; e
-a realisao do progresso, o paraiso na Terra, que presagiam os
-Idealistas, concebia-o elle como uma vasta cidade occupando totalmente o
-Globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e alm um
-bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes
-para perfumar o altar da Justia...
-
---E o milho? A bella fruta? A hortaliasinha? perguntava Villaa, rindo
-com malicia.
-
-Imaginava ento Villaa, replicava o outro, que d'aqui a seculos ainda
-se comeriam hortalias? O habito dos vegetaes era um resto da rude
-animalidade do homem. Com os tempos o sr civilisado e completo vinha a
-alimentar-se unicamente de productos artificiaes, em frasquinhos e em
-pilulas, feitos nos laboratorios do Estado...
-
---O campo, disse ento D. Diogo, passando gravemente os dedos pelos
-bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer um bonito
-_pic-nic_, para uma burricada, para uma partida de croquet... Sem campo
-no ha sociedade.
-
---Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambem ha arvores ainda se
-admitte...
-
-Enterrado n'uma poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em
-silencio. Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente a
-tudo, com um ar luminoso e de deliciosa lassido. E ento o marquez, que
-j duas vezes, dirigindo-se a elle, encontrra a mesma abstraco
-radiosa, impacientou-se:
-
---Homem, falle, diga alguma coisa!... Voc est hoje com um ar
-extraordinario, um arzinho de beato que se regalou de papar o
-Santissimo!
-
-Todos em redor, com sympathia, se affirmaram em Carlos: Villaa
-achava-lhe agora melhor cara, cr d'alegria: D. Diogo, com um ar
-entendido, sentindo mulher, invejou-lhe os annos, invejou-lhe o vigor. E
-Affonso reenchendo o cachimbo olhava o neto, enternecido.
-
-Carlos ergueu-se immediatamente, fugindo quelle exame affectuoso.
-
---Com effeito, disse elle, espreguiando-se de leve, tenho estado hoje
-languido e mono... o comeo do vero... Mas necessario sacudir-me...
-Quer voc fazer uma partida de bilhar, marquez?
-
---V l, homem. Se isso o resuscita...
-
-Foram, Ega seguiu-os. E apenas no corredor o marquez parando, e como
-recordando-se, perguntou sem rebuo ao Ega noticias dos Cohens.
-Tinham-se encontrado? Estava tudo acabado? Para o marquez, uma flr de
-lealdade, no havia segredos: Ega contou-lhe que o romance findra, e
-agora o Cohen, quando o cruzava, baixava prudentemente os olhos...
-
---Eu perguntei isto, disse o marquez, porque j vi a Cohen duas vezes...
-
---Onde? foi a exclamao sfrega do Ega.
-
---No Price, e sempre com o Damaso. A ultima vez foi j esta semana. E l
-estava o Damaso, muito chegadinho, palrando muito... Depois veio
-sentar-se um bocado ao p de mim, e sempre d'olho n'ella... E ella de
-l, com aquelle ar de lambisgoia, de luneta n'elle... No havia que
-duvidar, era um namoro... Aquelle Cohen um predestinado.
-
-Ega fez-se livido, torceu nervosamente o bigode, terminou por dizer:
-
---O Damaso muito intimo d'elles... Mas talvez se atire, no duvido...
-So dignos um do outro.
-
-No bilhar, emquanto os dois carambolavam preguiosamente, elle no
-cessou de passear, n'uma agitao, trincando o charuto apagado. De
-repente estacou em frente do marquez, com os olhos chammejantes:
-
---Quando que voc a viu ultimamente no Price, essa torpe filha
-d'Israel?
-
---Tera-feira, creio eu.
-
-O Ega recomeou a passear, sombrio.
-
-N'esse instante Baptista, apparecendo porta do bilhar, chamou Carlos
-em silencio, com um leve olhar. Carlos veio, surprehendido.
-
--- um cocheiro de praa, murmurou Baptista. Diz que est alli uma
-senhora dentro d'uma carruagem que lhe quer fallar.
-
---Que senhora?
-
-Baptista encolheu os hombros. Carlos, de taco na mo, olhava para elle,
-aterrado. Uma senhora! Era decerto Maria... Que teria succedido, santo
-Deus, para ella vir n'uma tipoia, s nove da noite, ao Ramalhete!
-
-Mandou Baptista, a correr, buscar-lhe um chapo baixo; e assim mesmo, de
-casaca, sem paletot, desceu n'uma grande anciedade. No peristyllo topou
-com Eusebiosinho que chegava, e sacudia cuidadosamente com o leno a
-poeira dos botins. Nem fallou ao Eusebiosinho. Correu ao coup, parado
-porta particular dos seus quartos, mudo, fechado, mysterioso,
-aterrador...
-
-Abriu a portinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro,
-abafado n'uma mantilha de renda, debruou-se, perturbado, balbuciou:
-
--- s um instante! Quero-lhe fallar!
-
-Que allivio! Era a Gouvarinho! Ento, na sua indignao, Carlos foi
-brutal.
-
---Que diabo de tolice esta? Que quer?
-
-Ia bater com a portinhola; ella empurrou-a para fra, desesperada; e no
-se conteve, desabafou logo alli, diante do cocheiro, que mexia
-tranquillamente na fivela d'um tirante.
-
---De quem a culpa? Para que me trata d'este modo?... s um instante,
-entre, tenho de lhe fallar!...
-
-Carlos saltou para dentro, furioso:
-
---D uma volta pelo Aterro, gritou ao cocheiro. Devagar!
-
-O velho calhambeque desceu a calada; e durante um momento, na
-escurido, recuando um do outro no assento estreito, tiveram as mesmas
-palavras, bruscas e colericas, atravs do barulho das vidraas.
-
---Que imprudencia! que tolice!...
-
---E de quem a culpa? De quem a culpa?
-
-Depois, na rampa de Santos, o coup rolou mais silenciosamente no
-macadam. Carlos ento, arrependido da sua dureza, voltou-se para ella, e
-com brandura, quasi no tom carinhoso d'outr'ora, reprehendeu-a por
-aquella imprudencia... Pois no era melhor ter-lhe escripto?
-
---Para qu? exclamou ella. Para no me responder? Para no fazer caso
-das minhas cartas, como se fossem as de um importuno a pedir-lhe uma
-esmola!...
-
-Suffocava, arrancou a mantilha da cabea. No vagaroso rolar do coup,
-sem ruido, ao longo do rio, Carlos sentia a respirao d'ella,
-tumultuosa e cheia d'angustia. E no dizia nada, immovel, n'um infinito
-mal-estar, entrevendo confusamente, atravs do vidro embaciado, na
-sombra triste do rio adormecido, as mastreaes vagas de falas. A
-parelha parecia ir adormecendo; e as queixas d'ella desenrolavam-se,
-profundas, mordentes, repassadas d'amargura.
-
---Peo-lhe que venha a Santa Isabel, no vem... Escrevo-lhe, no me
-responde... Quero ter uma explicao franca comsigo, no apparece...
-Nada, nem um bilhete, nem uma palavra, nem um aceno... Um desprezo
-brutal, um desprezo grosseiro... Eu nem devia ter vindo... Mas no pude,
-no pude!... Quiz saber o que lhe tinha feito. O que isto? Que lhe fiz
-eu?
-
-Carlos percebia os olhos d'ella, faiscantes sob a nevoa de lagrimas
-retidas, supplicando e procurando os seus. E sem coragem sequer de a
-fitar, murmurou, torturado:
-
---Realmente, minha amiga... As coisas fallam bem por si, no so
-necessarias explicaes.
-
---So! necessario saber se isto uma coisa passageira, um amuo, ou se
- uma coisa definitiva, um rompimento!
-
-Elle agitava-se no seu canto, sem achar uma maneira suave, affectuosa
-ainda, de lhe dizer que todo o seu desejo d'ella findra. Terminou por
-affirmar que no era um amuo. Os seus sentimentos tinham sido sempre
-elevados, no cahiria agora na pieguice de ter um amuo...
-
---Ento um rompimento?...
-
---No, tambem no... Um rompimento absoluto, para sempre, no...
-
---Ento um amuo? Porqu?
-
-Carlos no respondeu. Ella, perdida, sacudiu-o pelo brao.
-
---Mas falle! Diga alguma coisa, santo Deus! No seja cobarde, tenha a
-coragem de dizer o que !
-
-Sim, ella tinha razo... Era uma cobardia, era uma indignidade,
-continuar alli, gchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar coisas
-mesquinhas. Quiz ser claro, quiz ser forte.
-
---Pois bem, ahi est. Eu entendi que as nossas relaes deviam ser
-alteradas...
-
-E outra vez hesitou, a verdade amolleceu-lhe nos labios, sentindo
-aquella mulher ao seu lado a tremer d'agonia.
-
---Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado,
-que no podia durar, n'uma amizade agradavel, e mais nobre...
-
-E pouco a pouco as palavras voltavam-lhe faceis, habeis, persuasivas,
-atravs do rumor lento das rodas. Onde os podia levar aquella ligao?
-Ao resultado costumado. A que a um dia se descobrisse tudo, e o seu
-bello romance acabasse no escandalo e na vergonha; ou a que,
-envolvendo-os por muito tempo o segredo, elle viesse a descahir na
-banalidade d'uma unio quasi conjugal, sem interesse e sem requinte. De
-resto era certo que, continuando a encontrarem-se, aqui, em Cintra,
-n'outros sitios, a sociedadesinha curiosa e mexeriqueira viria a
-perceber a sua affeio. E havia por acaso nada mais horroroso, para
-quem tem orgulho e delicadeza d'alma, do que uns amores que todo o
-publico conhece, at os cocheiros de praa? No... O bom senso, o bom
-gosto mesmo, tudo indicava a necessidade d'uma separao. Ella mesmo
-mais tarde lhe seria grata... Decerto, esta primeira interrupo d'um
-habito dce era desagradavel, e elle estava bem longe de se sentir
-feliz. Fra por isso que no tivera a coragem de lhe escrever... Emfim
-deviam ser fortes, e no se vrem pelo menos durante alguns mezes...
-Depois, pouco a pouco, o que era capricho fragil, cheio de inquietao,
-tornar-se-hia uma boa amizade, bem segura e bem duradoura.
-
-Calou-se; e ento, no silencio, sentiu que ella, cahida para o canto do
-coup, como uma coisa miseravel e meio morta, encolhida no seu vo,
-estava chorando baixo.
-
-Foi um momento intoleravel. Ella chorava sem violencia, mansamente, com
-um chro lento, que parecia no dever findar. E Carlos s achava esta
-palavra banal e desenxabida:
-
---Que tolice, que tolice!
-
-Vinham rodando ao comprido das casas, por diante da fabrica do gaz. Um
-americano passou alumiado, com senhoras vestidas de claro. N'aquella
-noite de vero e d'estrellas, havia gente vagueando tranquillamente
-entre as arvores. Ella continuava a chorar.
-
-Aquelle pranto triste, lento, correndo a seu lado, comeou a commovel-o;
-e ao mesmo tempo quasi lhe queria mal por ella no reter essas lagrimas
-infindaveis que laceravam o seu corao... E elle que estava to
-tranquillo, no Ramalhete, na sua poltrona, sorrindo a tudo, n'uma
-deliciosa lassido!
-
-Tomou-lhe a mo, querendo calmal-a, apiedado, e j impaciente.
-
---Realmente no tem razo. absurdo... Tudo isto para seu bem...
-
-Ella teve emfim um movimento, enxugou os olhos, assoou-se doloridamente
-por entre os seus longos soluos... E de repente, n'um arranque de
-paixo, atirou-lhe os braos ao pescoo, prendendo-se a elle com
-desespero, esmagando-o contra o seu seio.
-
---Oh meu amor, no me deixes, no me deixes! Se tu soubesses! s a unica
-felicidade que eu tenho na vida... Eu morro, eu mato-me!... Que te fiz
-eu? Ninguem sabe do nosso amor... E que soubesse! Por ti sacrifico tudo,
-vida, honra, tudo! tudo!...
-
-Molhava-lhe a face com o resto das suas lagrimas; e elle abandonava-se,
-sentindo aquelle corpo sem collete, quente e como n, subir-lhe para os
-joelhos, collar-se ao seu, n'um furor de o repossuir, com beijos
-sfregos, furiosos, que o suffocavam... Subitamente a tipoia parou. E um
-momento ficaram assim--Carlos immovel, ella cahida sobre elle e
-arquejando.
-
-Mas a tipoia no continuava. Ento Carlos desprendeu um brao, desceu o
-vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete. O homem, obedecendo
-ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar, subira a rampa, retrocedera
-porta da casa. Durante um instante Carlos teve a tentao de descer,
-acabar alli bruscamente aquelle longo tormento. Mas pareceu-lhe uma
-brutalidade. E desesperado, detestando-a, berrou ao cocheiro:
-
---Outra vez ao Aterro, anda sempre!...
-
-A tipoia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar; de
-novo as pedras da calada fizeram tilintir os vidros; de novo, mais
-suavemente, desceram a rampa de Santos.
-
-Ella recomera os seus beijos. Mas tinham perdido a chamma que um
-instante os fizera quasi irresistiveis. Agora Carlos sentia s uma
-fadiga, um desejo infinito de voltar ao seu quarto, ao repouso de que
-ella o arrancra para o torturar com estas recriminaes, estes ardores
-entre lagrimas... E de repente, emquanto a condessa balbuciava, como
-tonta, pendurada do seu pescoo,--elle viu surgir n'alma, viva e
-resplandecente, a imagem de Maria Eduarda, tranquilla quella hora na
-sua sala de reps vermelho, fazendo sero, confiando n'elle, pensando
-n'elle, relembrando as felicidades da vespera, quando a _Toca_, cheia de
-seus amores, dormia, branca entre as arvores... Teve ento horror
-Gouvarinho; brutalmente, sem piedade, repelliu-a para o canto do coup.
-
---Basta! Tudo isto absurdo... As nossas relaes esto acabadas, no
-temos mais nada que nos dizer!
-
-Ella ficou um instante como atordoada. Depois estremeceu, teve um riso
-nervoso, reppelliu-o tambem, phreneticamente, pisando-lhe o brao.
-
---Pois bem! Vai, deixa-me! Vai para a outra, para a brazileira! Eu
-conheo-a, uma aventureira que tem o marido arruinado, e precisa quem
-lhe pague as modistas!...
-
-Elle voltou-se, com os punhos fechados, como para a espancar; e na
-tipoia escura, onde j havia um vago cheiro de verbena, os olhos
-d'ambos, sem se vrem, dardejavam o odio que os enchia... Carlos bateu
-raivosamente no vidro. A tipoia no parou. E a Gouvarinho, do outro
-lado, furiosa, magoando os dedos, procurava descer a vidraa.
-
--- melhor que sia! dizia ella suffocada. Tenho horror de me achar
-aqui, ao seu lado! Tenho horror! Cocheiro! cocheiro!
-
-O calhambeque parou. Carlos pulou para fra, fechou d'estalo a
-portinhola; e sem uma palavra, sem erguer o chapo, virou costas, abalou
-a grandes passadas para o Ramalhete, tremulo ainda, cheio d'idas de
-rancor, sob a paz da noite estrellada.
-
-
-
-
-IV
-
-
-Foi n'um sabbado que Affonso da Maia partiu para Santa Olavia. Cedo
-n'esse mesmo dia, Maria Eduarda, que o escolhera por ser de boa estreia,
-installra-se nos Olivaes. E Carlos, voltando de Santa Apolonia, onde
-fra acompanhar o av, com o Ega, dizia-lhe alegremente:
-
---Ento aqui ficamos ns ss a torrar, _na cidade de marmore_ e de
-lixo...
-
---Antes isso, respondeu o Ega, que andar de sapatos brancos, a scismar,
-por entre a poeirada de Cintra!
-
-Mas no domingo, quando Carlos recolheu ao Ramalhete ao
-anoitecer--Baptista annunciou que o snr. Ega tinha partido n'esse
-momento para Cintra, levando apenas livros e umas escovas embrulhadas
-n'um jornal... O snr. Ega tinha deixado uma carta. E tinha dito:
-Baptista, vou pastar.
-
-A carta, a lapis, n'uma larga folha d'almasso, dizia: Assaltou-me de
-repente, amigo, juntamente com um horror calia de Lisboa, uma saudade
-infinita da natureza e do verde. A poro d'animalidade que ainda resta
-no meu sr civilisado e recivilisado precisa urgentemente
-d'espolinhar-se na relva, beber no fio dos regatos, e dormir balanada
-n'um ramo de castanheiro. O solcito Baptista que me remetta manh pelo
-omnibus a mala com que eu no quiz sobrecarregar a tipoia do _Mulato_.
-Eu demoro-me apenas tres ou quatro dias. O tempo de cavaquear um bocado
-com o Absoluto no alto dos _Capuchos_, e vr o que esto fazendo os
-myosotis junto meiga _fonte dos Amores_...
-
---Pedante! rosnou Carlos, indignado com o abandono ingrato em que o
-deixava o Ega.
-
-E atirando a carta:
-
---Baptista! O snr. Ega diz ahi que lhe mandem uma caixa de charutos, dos
-_Imperiales_. Manda-lhe antes dos _Flr de Cuba_. Os _Imperiales_ so um
-veneno. Esse animal nem fumar sabe!
-
-Depois de jantar Carlos percorreu o _Figaro_, folheou um volume de
-Byron, bateu carambolas solitarias no bilhar, assobiou _malagueas_ no
-terrasso--e terminou por sahir, sem destino, para os lados do Aterro. O
-Ramalhete entristecia-o, assim mudo, apagado, todo aberto ao calor da
-noite. Mas insensivelmente, fumando, achou-se na rua de S. Francisco. As
-janellas de Maria Eduarda estavam tambem abertas e negras. Subiu ao
-andar do Cruges. O menino Victorino no estava em casa...
-
-Amaldioando o Ega, entrou no Gremio. Encontrou o Taveira, de paletot ao
-hombro, lendo os telegrammas. No havia nada novo por essa velha Europa;
-apenas mais uns Nihilistas enforcados; e elle Taveira ia ao Price...
-
---Vem tu tambem d'ahi, Carlinhos! Tens l uma mulher bonita que se mette
-na agua com cobras e crocodilos... Eu pello-me por estas mulheres de
-bichos!... Que esta difficil, traz um _chulo_... Mas eu j lhe
-escrevi: e ella faz-me um bocado d'olho de dentro da tina.
-
-Arrastou Carlos: e pelo Chiado abaixo fallou-lhe logo do Damaso. No
-tornra a ver essa flr? Pois essa flr andava apregoando por toda a
-parte que o Maia, depois do caso do Chiado, lhe dera por um amigo
-explicaes humildes, covardes... Terrivel, aquelle Damaso! Tinha
-figura, interior, e natureza de plla! Com quanto mais fora se atirava
-ao cho, mais elle resaltava para o ar, triumphante!...
-
---Em todo o caso uma rez traioeira, e deves ter cautela com elle...
-
-Carlos encolheu os hombros, rindo.
-
-No, no, dizia o Taveira muito srio, eu conheo o meu Damaso. Quando
-foi da nossa pga, em casa da Lola Gorda, elle portou-se como um
-poltro, mas depois ia-me atrapalhando a vida... capaz de tudo...
-Antes d'hontem estava eu a cear no Silva, elle veio sentar-se um bocado
-ao p de mim, e comeou logo com umas coisas a teu respeito, umas
-ameaas...
-
---Ameaas! Que disse elle?
-
---Diz que te ds ares de espadachim e de valento, mas has de encontrar
-dentro em pouco quem te ensine... Que se est ahi preparando um
-escandalo monumental... Que se no admirar de te vr brevemente com uma
-boa bala na cabea...
-
---Uma bala?
-
---Assim o disse. Tu ris, mas eu que sei... Eu, se fosse a ti, ia-me ao
-Damaso e dizia-lhe: Damasosinho, flr, fique avisado que, d'ora em
-diante, cada vez que me succeder uma coisa desagradavel, venho aqui e
-parto-lhe uma costella; tome as suas medidas...
-
-Tinham chegado ao Price. Uma multido de domingo, alegre e pasmada,
-apinhava-se at s ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de
-camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os
-requebros do palhao, rebocado de cio e vermelho, que tocava nos
-psinhos d'uma _voltigeuse_ e lambia os dedos, d'olhos em alvo, n'um
-gosto de mel... Descanando na sella larga de xairel dourado, a
-creatura, magrinha e sria, com flres nas tranas, dava a volta
-devagar, ao passo d'um cavallo branco, que mordia o freio, levado mo
-por um estribeiro; e pela arena o palhao lambo e nescio acompanhava-a,
-com as mos ambas apertadas ao corao, n'uma supplica babosa, rebolando
-languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de
-lantejoulas. Um dos escudeiros, de cala listrada d'ouro, empurrava-o,
-n'um arremedo de ciumes; e o palhao cahia, estatelado, com um estoiro
-de nadegas, entre os risos das crianas e os rantantans da charanga. O
-calor suffocava; e as fumaraas de charuto, subindo sem cessar, faziam
-uma neva onde tremiam as chammas largas do gaz. Carlos, incommodado,
-abalou.
-
---Espera ao menos para vr a mulher dos crocodilos! gritou ainda o
-Taveira.
-
---No posso, cheira mal, morro!
-
-Mas porta, de repente, foi detido pelos braos abertos do Alencar, que
-chegava--com outro sujeito, velho e alto, de barbas brancas, todo
-vestido de luto. O poeta ficou pasmado de vr alli o de seu Carlos.
-Fazia-o no seu solar Santa de Olavia! Vira at nos papeis publicos...
-
---No, disse Carlos, o av que foi hontem... Eu no me sinto ainda em
-disposio do ir communicar com a natureza...
-
-Alencar riu, levemente afogueado, com um brilho de genebra no olho cavo.
-Ao lado, grave, o ancio de barbas calava as suas luvas pretas.
-
---Pois eu o contrario! exclamava o poeta.
-
-Estou precisado d'um banho de pantheismo! A bella natureza! O prado! O
-bosque!... De modo que talvez me mimoseie com Cintra, para a semana.
-Esto l os Cohens, alugaram uma casita muito bonita, logo adiante do
-Victor...
-
-Os Cohens! Carlos comprehendeu ento a fuga do Ega e a sua saudade do
-verde.
-
---Ouve l, dizia-lhe o poeta baixo, e puxando-o pela manga, para o lado.
-Tu no conheces este meu amigo? Pois foi muito de teu pai, fizemos muita
-troa juntos... No era nenhum personagem, era apenas um alquilador de
-cavallos... Mas tu sabes, c em Portugal, sobretudo n'esses tempos,
-havia muita bonhomia, o fidalgo dava-se com o arrieiro... Mas, que
-diabo, tu deves conhecel-o! o tio do Damaso!
-
-Carlos no se recordava.
-
---O Guimares, o que est em Paris!
-
---Ah, o communista!
-
---Sim, muito republicano, homem de idas humanitarias, amigo do
-Gambetta, escreve no _Rappel_... Homem interessante!... Veio ahi por
-causa d'umas terras que herdou do irmo, d'esse outro tio do Damaso que
-morreu ha mezes... E demora-se, creio eu... Pois jantamos hoje juntos,
-beberam-se uns liquidos, e at estivemos a fallar de teu pai... Queres
-tu que eu t'o apresente?
-
-Carlos hesitou. Seria melhor n'outra occasio mais intima, quando
-podessem fumar um charuto tranquillo, e conversar do passado...
-
---Valeu! Has de gostar d'elle. Conhece muito Victor Hugo, detesta a
-padraria... Espirito largo, espirito muito largo!
-
-O poeta sacudiu ardentemente as duas mos de Carlos. O snr. Guimares
-ergueu de leve o seu chapo, carregado de crepe.
-
-Todo o caminho, at ao Ramalhete, Carlos foi pensando em seu pai e
-n'esse passado, assim rememorado e estranhamente resurgido pela presena
-d'aquelle patriarcha, antigo alquilador, que fizera com elle tantas
-troas! E isto trazia conjuntamente outra ida, que n'esses ultimos dias
-j o atravessra, pertinaz e torturante, dando-lhe, no meio da sua
-radiante felicidade, um sombrio arripio de dr... Carlos pensava no av.
-
-Estava agora decidido que Maria Eduarda e elle partiriam para Italia,
-nos fins de outubro. Castro Gomes, na sua ultima carta do Brazil, scca
-e pretenciosa, fallava em apparecer por Lisboa, com as elegancias do
-frio, l para meado de novembro; e era necessario antes d'isso que
-estivessem j longe, entre as verduras d'Isola Bella, escondidos no seu
-amor e separados por elle do mundo como pelos muros d'um claustro. Tudo
-isto era facil, considerado quasi legtimo pelo seu corao, e enchia a
-sua vida d'esplendor... Smente havia n'isto um espinho--o av!
-
-Sim, o av! Elle partia com Maria, elle entrava na ventura absoluta; mas
-ia destruir de uma vez e para sempre a alegria d'Affonso, e a nobre paz
-que lhe tornava to bella a velhice. Homem de outras eras, austero e
-puro, como uma d'essas fortes almas que nunca desfalleceram--o av,
-n'esta franca, viril, rasgada soluo d'um amor indominavel, s veria
-libertinagem! Para elle nada significava o esponsal natural das almas,
-acima e fra das fices civis; e nunca comprehenderia essa subtil
-ideologia sentimental, com que elles, como todos os transviados,
-procuravam azular o seu erro. Para Affonso haveria apenas um homem que
-leva a mulher d'outro, leva a filha d'outro, dispersa uma familia, apaga
-um lar, e se atola para sempre na concubinagem: todas as subtilezas da
-paixo, por mais finas, por mais fortes, quebrar-se-hiam, como bolas de
-sabo, contra as tres ou quatro idas fundamentaes de Dever, de Justia,
-de Sociedade, de Familia, duras como blocos de marmore, sobre que
-assentra a sua vida quasi durante um seculo... E seria para elle como o
-horror d'uma fatalidade! J a mulher de seu filho fugira com um homem,
-deixando atraz de si um cadaver; seu neto agora fugia tambem,
-arrebatando a familia d'outro:--e a historia da sua casa tornava-se
-assim uma repetio d'adulterios, de fugas, de disperses, sob o bruto
-aguilho da carne!... Depois as esperanas que Affonso fundra
-n'elle--consideral-as-hia tombadas, mortas no lodo! Elle passava a ser
-para sempre, na imaginao angustiada do av, um foragido, um
-inutilisado, tendo partido todas as raizes que o prendiam ao seu slo,
-tendo abdicado toda a aco que o elevaria no seu paiz, vivendo por
-hoteis de refugio, fallando linguas estranhas, entre uma familia
-equivoca crescida em torno d'elle como as plantas de uma ruina...
-Sombrio tormento, implacavel e sempre presente, que consumiria os
-derradeiros annos do pobre av!... Mas, que podia elle fazer? J o
-dissera ao Ega. A vida assim! Elle no tinha o heroismo nem a
-santidade que tornam facil o sacrificio... E depois os dissabores do
-av, de que provinham? De preconceitos. E a sua felicidade, justo Deus,
-tinha direitos mais largos, fundados na natureza!...
-
-Chegra ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escurido. Por
-alli entraria em breve do Brazil, o _outro_--que nas suas cartas se
-esquecia de mandar um beijo a sua filha! Ah, se elle no voltasse! Uma
-onda providencial podia leval-o... Tudo se tornaria to facil, perfeito
-e limpido! De que servia na vida esse resequido? Era como um sacco vazio
-que cahisse ao mar! Ah, se _elle_ morresse!... E esquecia-se, enlevado
-n'uma viso em que a imagem de Maria o chamava, o esperava, livre,
-serena, sorrindo e coberta de luto...
-
-No seu quarto, Baptista, vendo-o atirar-se para uma poltrona com um
-suspiro de fadiga, de desconsolao,--disse, depois de tossir
-risonhamente, e dando mais luz ao candieiro:
-
---Isto agora, sem o snr. Ega, parece um bocadinho mais s...
-
---Est s, est triste, murmurou Carlos. necessario sacudirmo-nos...
-Eu j te disse que talvez fossemos viajar este inverno...
-
-O menino no lhe tinha dito nada.
-
---Pois talvez vamos a Italia... Appetece-te voltar a Italia?
-
-Baptista reflectiu.
-
---Eu, da outra vez no vi o Papa... E antes de morrer no se me dava de
-vr o Papa...
-
---Pois sim, ha de se arranjar isso, has de vr o Papa.
-
-Baptista, depois d'um silencio, perguntou, lanando um olhar ao espelho:
-
---Para vr o Papa vai-se de casaca, creio eu?
-
---Sim, recommendo-te a casaca... O que tu devias ter, para esses casos,
-era um habito de Christo... Hei de vr se te arranjo um habito de
-Christo.
-
-Baptista ficou um instante assombrado. Depois fez-se escarlate,
-d'emoo:
-
---Muito agradecido a v. exc.^a Ha por ahi gente que o tem, ainda talvez
-com menos merecimentos que eu... Dizem que at ha barbeiros...
-
---Tens razo, replicou Carlos muito srio. Era uma vergonha. O que hei
-de vr se te arranjo com effeito a commenda da Conceio.
-
-
-Todas as manhs, agora, Carlos percorria o poeirento caminho dos
-Olivaes. Para poupar aos seus cavallos a soalheira ia na tipoia do
-_Mulato_, o batedor favorito do Ega--que recolhia a parelha na velha
-cavalharia da _Toca_, e, at hora em que Carlos voltava ao Ramalhete,
-vadiava pelas tabernas.
-
-Ordinariamente ao meio dia, ao acabar de almoar, Maria Eduarda, ouvindo
-rodar o trem na estrada silenciosa, vinha esperar Carlos porta da
-casa, no topo dos degraus ornados de vasos e resguardados por um fresco
-toldo de fazenda cr de rosa. Na quinta usava sempre vestidos claros; s
-vezes trazia, antiga moda hespanhola, uma flr entre os cabellos; o
-forte e fresco ar do campo avivava com um brilho mais quente o mate
-eburneo do seu rosto;--e assim, simples e radiante, entre sol e verdura,
-ella deslumbrava Carlos cada dia com um encanto inesperado e maior.
-Cerrando o porto d'entrada, que rangia nos gonzos, Carlos sentia-se
-logo envolvido n'um extraordinario conforto moral, como elle dizia, em
-que todo o seu sr se movia mais facilmente, fluidamente, n'uma
-permanente impresso de harmonia e doura... Mas o seu primeiro beijo
-era para Rosa, que corria pela rua de acacias ao seu encontro, com uma
-onda de cabello negro a bater-lhe os hombros, e _Niniche_ ao lado,
-pulando e ladrando de alegria. Elle erguia Rosa ao collo. Maria de longe
-sorria-lhes, sob o toldo cr de rosa. Em redor tudo era luminoso,
-familiar e cheio de paz.
-
-A casa dentro resplandecia com um arranjo mais delicado. J se podia
-usar o salo nobre, que perdera o seu ar rigido de museu, exhalando a
-tristeza d'um luxo morto: as flres que Maria punha nos vasos, um jornal
-esquecido, as ls de um bordado, o simples roar dos seus frescos
-vestidos, tinham communicado j um subtil calor de vida e de conchego
-aos mais impertigados contadores do tempo de Carlos V, revestidos de
-ferro brunido:--e era alli que elles ficavam conversando emquanto no
-chegava a hora das lies de Rosa.
-
-A essa hora apparecia miss Sarah, sria e recolhida--sempre de preto,
-com uma ferradura de prata em broche sobre o collarinho direito de
-homem. Recuperra as suas cres fortes de boneca, e as pestanas baixas
-tinham uma timidez mais virginal sob o liso dos bands puritanos.
-Gordinha, com o peito de pomba farta estalando dentro do corpete severo,
-mostrava-se toda contente da vida calma e lenta de alda. Mas aquellas
-terras trigueiras d'olivedo no lhe pareciam campo: muito scco,
-muito duro, dizia ella, com uma indefinida saudade dos verdes molhados
-da sua Inglaterra, e dos cos de nevoa, cinzentos e vagos.
-
-Davam duas horas; e comeavam logo nos quartos de cima as longas lies
-de Rosa. Carlos e Maria iam ento refugiar-se n'uma intimidade mais
-livre, no kiosque japonez, que uma phantasia de Craft, o seu amor do
-Japo, construira ao p da rua d'acacias, aproveitando a sombra e o
-retiro bucolico de dois velhos castanheiros. Maria affeioara-se quelle
-recanto, chamava-lhe o seu _pensadoiro_. Era todo de madeira, com uma s
-janellinha redonda, e um telhado agudo japoneza, onde roavam os
-ramos--to leve que atravs d'elle nos momentos de silencio se sentiam
-piar as aves. Craft forrra-o todo de esteiras finas da India; uma mesa
-de xaro, algumas faianas do Japo, ornavam-no sobriamente; o tecto no
-se via, occulto por uma colcha de sda amarella, suspensa pelos quatro
-cantos, em laos, como o rico docel de uma tenda;--e todo o ligeiro
-kiosque parceia ter sido armado s com o fim d'abrigar um divan baixo e
-ffo, d'uma languidez de serralho, profundo para todos os sonhos, amplo
-para todas as preguias...
-
-Elles entravam, Carlos com algum livro que escolhera na presena de miss
-Sarah, Maria Eduarda com um bordado ou uma costura. Mas bordado e livro
-cahiam logo no cho--e os seus labios, os seus braos uniam-se
-arrebatadamente. Ella escorregava sobre o divan: Carlos ajoelhava n'uma
-almofada, tremulo, impaciente depois da forada reserva diante de Rosa e
-diante de Sarah--e alli ficava, abraado sua cintura, balbuciando mil
-coisas pueris e ardentes, por entre longos beijos que os deixavam
-frouxos, com os olhos cerrados, n'uma doura de desmaio. Ella queria
-saber o que elle tinha feito durante a longa, longa noite de separao.
-E Carlos nada tinha a contar seno que pensra n'ella, que sonhra com
-ella... Depois era um silencio: os pardaes piaram, as pombas arrulhavam
-por cima do leve telhado: e _Niniche_, que os acompanhava sempre, seguia
-os seus murmurios, os seus silencios, enroscada a um canto, com um olho
-negro, reluzindo desconfiadamente por entre as repas prateadas.
-
-Fra, por aquelles dias de calma, sem aragem, a quinta scca, d'um verde
-empoeirado, dormia com as folhagens immoveis, sob o peso do sol. Da casa
-branca, atravs das persianas fechadas, vinha apenas o som amodorrado
-das escalas que Rosa fazia no piano. E no kiosque hava tambem um
-silencio satisfeito e pleno--smente quebrado por algum dce suspiro de
-lassido que sahia do divan, d'entre as almofadas de sda, ou algum
-beijo mais longo e d'um remate mais profundo... Era _Niniche_ que os
-tirava d'aquelle suave entorpecimento, farta de estar alli quieta,
-encerrada entre as madeiras quentes, n'um ar molle j repassado d'esse
-aroma indefinido em que havia jasmim.
-
-Lenta, e passando as mos no rosto Maria erguia-se--mas para cahir logo
-aos ps de Carlos, no seu reconhecimento infinito... Meu Deus, o que lhe
-custava ento esse momento de separao! Para que havia de ser assim?
-Parecia to pouco natural, esposos como eram, que ella ficasse alli toda
-a noite, ssinha, com o seu desejo d'elle, e elle fosse, sem as suas
-carcias, dormir solitariamente ao Ramalhete!... E ainda se demoravam
-muito tempo, n'uma mudez d'extasi, em que os olhos humidos,
-trespassando-se, continuavam o beijo insaciado que morrera nos seus
-labios canados. Era _Niniche_ que os fazia sahir por fim trotando
-impacientemente da porta para o divan, rosnando, ameaando ladrar.
-
-Muitas vezes ao recolherem Maria tinha uma inquietao. Que pensaria
-miss Sarah d'esta ssta assim enclausurada, sem um rumor, com a janella
-do pavilho cerrada? Melanie, desde pequena ao servio de Maria, era uma
-confidente: o bom Domingos, um imbecil, no contava: mas miss Sarah?...
-Maria confessava sorrindo que se sentia um pouco humilhada, ao encontrar
-depois mesa os candidos olhos da ingleza sob os seus bands
-virginaes... Est claro! se a boa miss tivesse a ousadia de resmungar ou
-franzir de leve a testa, recebia logo seccamente a sua passagem no
-_Royal Mail_ para Southampton! Rosa no a lamentaria, Rosa no lhe tinha
-affeio. Mas, emfim, era to sria, admirava tanto a senhora! Ella no
-gostava de perder a admirao d'uma rapariga to sria. E assim
-decidiram despedir miss Sarah, rgiamente paga, e substituil-a, mais
-tarde, em Italia, por uma governante allem, para quem elles fossem como
-casados, Monsieur et Madame...
-
-Mas pouco a pouco o desejo d'uma felicidade mais intima, mais completa,
-foi crescendo n'elles. No lhes bastava j essa curta manh no divan com
-os passaros cantando por cima, a quinta cheia de sol, tudo acordado em
-redor: appeteciam o longo contentamento d'uma longa noite, quando os
-seus braos se podessem enlaar sem encontrar o estofo dos vestidos, e
-tudo dormisse em torno, os campos, a gente e a luz... De resto era bem
-facil! A sala de tapearias, communicando com a alcova de Maria, abria
-sobre o jardim por uma porta envidraada; a governante, os criados,
-subiam s dez horas para os seus quartos no andar alto; a casa adormecia
-profundamente; Carlos tinha uma chave do porto; e o unico co,
-_Niniche_, era o confidente fiel dos seus beijos...
-
-Maria desejava essa noite to ardentemente como elle. Uma tarde ao
-escurecer, voltando d'um fresco passeio nos campos, experimentaram ambos
-essa dupla chave--que Carlos j promettia mandar dourar: e elle ficou
-surprehendido ao vr que o velho porto, que ouvira sempre ranger
-abominavelmente, rolava agora nos gonzos com um silencio oleoso.
-
-Veio n'essa mesma noite--tendo deixado na villa para o levar ao
-amanhecer a caleche do _Mulato_, um batedor discreto, que elle cevava de
-gorgetas. O co, molle e abafado, no tinha uma estrella; e sobre o mar
-lampejava a espaos, mudamente, a lividez d'um relampago. Caminhando com
-inuteis cautelas rente do muro Carlos sentia, n'esta proximidade d'uma
-posse to desejada, uma melancolia, cortada de anciedade, que vagamente
-o acobardava. Abriu quasi a tremer o porto: e mal dra alguns passos
-estacou, ouvindo ao fundo _Niniche_ ladrar furiosamente. Mas tudo
-emmudeceu; e da janella do canto, sobre o jardim, surgiu uma claridade
-que o socegou. Foi encontrar Maria, com um roupo de rendas, junto da
-porta envidraada, suffocando quasi entre os braos _Niniche_ que ainda
-rosnava. Estava toda medrosa, n'uma impaciencia de o sentir ao seu lado:
-e no quiz recolher logo: um momento ficaram alli, sentados nos degraus,
-com _Niniche_ que aquietra e lambia Carlos. Tudo em redor era como uma
-infinita mancha de tinta; s l em baixo, perdida e mortia, surdia da
-treva alguma luzinha vacillando no alto d'um mastro. Maria, conchegada a
-Carlos, refugiada n'elle, deu um longo suspiro: e os seus olhos
-mergulhavam inquietos n'aquella mudez negra, onde os arbustos familiares
-do jardim, toda a quinta, parecia perder a realidade, sumida, diluida na
-sombra.
-
---Porque no havemos de partir j para a Italia? perguntou ella de
-repente, procurando a mo de Carlos. Se tem de ser, porque no ha de ser
-j?... Escusavamos de ter estes segredos, estes sustos!
-
---Sustos de que, meu amor? Estamos aqui to seguros como na Italia, como
-na China... De resto podemos partir mais depressa, se quizeres... Dize
-tu um dia, marca um dia!
-
-Ella no respondeu, deixando cahir dcemente a cabea sobre o hombro de
-Carlos. Elle acrescentou, devagar:
-
---Em todo o caso, comprehendes bem, preciso primeiro ir a Santa Olavia,
-vr o av...
-
-Os olhos de Maria perdiam-se outra vez na escurido--como recebendo
-d'ella o presagio d'um futuro, onde tudo seria confuso e escuro tambem.
-
---Tu tens Santa Olavia, tens teu av, tens os teus amigos... Eu no
-tenho ninguem!
-
-Carlos estreitou-a a si, enternecido.
-
---No tens ninguem! Isso dito a mim! Nem chega a ser injustia, nem
-chega a ser ingratido! nervoso; e tambem o que os inglezes chamam a
-impudente adulterao d'um facto.
-
-Ella ficra aninhada no peito de Carlos, como desfallecida.
-
---No sei porque, queria morrer...
-
-Um largo brilho de relampago alumiou o rio. Maria teve medo, entraram na
-alcova. Os mlhos de velas de duas serpentinas, batendo os damascos e os
-setins amarellos, embebiam o ar tepido, onde errava um perfume, n'uma
-refulgencia ardente de sacrario: e as bretanhas, as rendas do leito j
-aberto punham uma casta alvura de neve fresca n'esse luxo amoroso e cr
-de chamma. Fra, para os lados do mar, um trovo rolou lento e surdo.
-Mas Maria j o no ouviu, cahida nos braos de Carlos. Nunca o desejra,
-nunca o adorra tanto! Os seus beijos anciosos pareciam tender mais
-longe que a carne, trespassal-o, querer sorver-lhe a vontade e a
-alma:--e toda a noite, entre esses brocados radiantes, com os cabellos
-soltos, divina na sua nudez, ella lhe appareceu realmente como a Deusa
-que elle sempre imaginra, que o arrebatava emfim, apertado ao seu seio
-immortal, e com elle pairava n'uma celebrao d'amor, muito alto, sobre
-nuvens de ouro...
-
-Quando sahiu, ao amanhecer, chovia. Foi encontrar o _Mulato_ a dormir
-n'uma taberna, bebedo. Teve de o metter dentro do carro; e foi elle que
-governou at ao Ramalhete, embrulhado n'uma manta do taberneiro,
-encharcado, cantarolando, esplendidamente feliz.
-
-Passados dias, passeando com Maria nos arredores da _Toca_, Carlos
-reparou n'uma casita, beira da estrada, com escriptos: e veio-lhe logo
-a ida de a alugar, para evitar aquella desagradavel partida de
-madrugada com o _Mulato_ estremunhado, borracho, despedaando o trem
-pelas caladas. Visitaram-na: havia um quarto largo, que com tapete e
-cortinas podia dar um refugio confortavel. Tomou-a logo--e Baptista veio
-ao outro dia, com moveis n'uma carroa, arranjar este novo ninho. Maria
-disse, quasi triste:
-
---Mais outra casa!
-
---Esta, exclamou Carlos rindo, a ultima! No, a penultima... Temos
-ainda a outra, a nossa, a verdadeira, l longe, no sei onde...
-
-Comearam a encontrar-se todas as noites. s nove e meia, pontualmente,
-Carlos deixava a _Toca_, com o seu charuto accso: e Domingos, adiante,
-de lanterna, vinha fechar o porto, tirar a chave. Elle recolhia devagar
- sua choupana onde o servia um criadito, filho do jardineiro do
-Ramalhete. Sobre um tapete solto, deitado no velho soalho, havia apenas,
-alm do leito, uma mesa, um sof de riscadinho, duas cadeiras de palha;
-e Carlos entretinha as horas que o separavam ainda de Maria, escrevendo
-para Santa Olavia e sobretudo ao Ega, que se eternisava em Cintra.
-
-Recebera duas cartas d'elle, fallando quasi smente do Damaso. O Damaso
-apparecia em toda a parte com a Cohen; o Damaso tornra-se grutesco em
-Cintra, n'uma corrida de burros; o Damaso arvorra capacete e vo em
-Sitiaes; o Damaso era uma besta immunda; o Damaso, no pateo do Victor,
-de perna traada, dizia familiarmente a Rachel; era um dever de
-moralidade publica dar bengaladas no Damaso!... Carlos encolhia os
-hombros, achando estes ciumes indignos do corao do Ega. E ento por
-quem! Por aquella lambisgoia d'Israel, melada e mollenga, sovada a
-bengala! Se com effeito, escrevera elle ao Ega, ella desceu de ti at
-ao Damaso, tens s a fazer como se fosse um charuto que te cahisse
-lama: no o pdes naturalmente levantar: deves deixar fumal-o em paz ao
-garoto que o apanhou: enfurecer-te com o garoto ou com o charuto,
-d'imbecil. Mas ordinariamente, quando respondia, fallava s ao Ega dos
-Olivaes, dos seus passeios com Maria, das conversas d'ella, do encanto
-d'ella, da superioridade d'ella... Ao av no achava que dizer; nas dez
-linhas que lhe destinava, descrevia o calor, recommendava-lhe que no se
-fatigasse, mandava saudades para os hospedes, e dava-lhe recados do
-Manoelzinho--que elle nunca via.
-
-Quando no tinha que escrever, estirava-se no sof, com um livro aberto,
-os olhos no ponteiro do relogio. meia noite sahia, encafuado n'um
-gabo d'Aveiro, e de varapau. Os seus passos resoavam, solitarios na
-mudez dos campos, com uma indefinida melancolia de segredo e de culpa...
-
-N'uma d'essas noites, de grande calor, Carlos canado adormeceu no sof:
-e s despertou, em sobresalto, quando o relogio na parede dava
-tristemente duas horas. Que desespero! Ahi ficava perdida a sua noite de
-amor! E Maria decerto espera, angustiada, imaginando desastres!...
-Agarrou o cajado, abalou, correndo pela estrada. Depois, ao abrir
-subtilmente o porto da quinta, pensou que Maria teria adormecido:
-_Niniche_ podia ladrar: os seus passos, entre as acacias, abafaram-se,
-mais cautelosos. E de repente sentiu ao lado, sob as ramagens, vindo do
-cho, d'entre a herva, um resfolgar ardente d'homem, a que se misturavam
-beijos. Parou, varado: e o seu impeto logo foi esmagar a cacete aquelles
-dois animaes, enroscados na relva, sujando brutamente o poetico retiro
-dos seus amores. Uma alvura de saia moveu-se no escuro: uma voz
-soluava, desfalecida--_oh yes, oh yes_... Era a ingleza!
-
-Oh santo Deus, era a ingleza, era miss Sarah! Apagando os passos,
-atordoado, Carlos escoou-se pelo porto, cerrou-o mansamente, foi
-esperar adiante, n'um recanto do muro, sob as ramarias d'uma faia,
-sumido na sombra. E tremia de indignao. Era preciso contar
-immediatamente a Maria aquelle grande _horror_! No queria que ella
-consentisse um momento mais essa impura fmea, junto de Rosa, roando a
-candidez do seu anjo... Oh, era pavorosa uma tal hypocrisia, assim
-astuta e methodica, sem se desconcertar jmais! Havia dias apenas, vira
-a creatura desviar os olhos d'uma gravura d'_Illustrao_, onde dois
-castos pastores se beijavam n'um arvoredo bucolico! E agora rugia,
-estirada na herva!
-
-Na estrada escura, do lado do porto, brilhou um lume de cigarro. Um
-homem passou, forte e pesado, com uma manta aos hombros. Parecia um
-jornaleiro. A boa miss Sarah no escolhera! Bem lavada, toda correcta,
-com os seus bands puritanos, aceitava _um qualquer_, rude e sujo, desde
-que era um macho! E assim os embara, mezes, com aquellas suas duas
-existencias, to separadas, to completas! De dia virginal, severa,
-crando sempre, com a Biblia no cesto da costura: noite a pequena
-adormecia, todos os seus deveres srios acabavam, a santa
-transformava-se em cabra, chale aos hombros, e l ia para a relva, com
-qualquer!... Que bello romance para o Ega!
-
-Voltou; tornou a abrir devagarinho o porto: de novo subiu, amollecendo
-os passos, a sombria rua d'acacias. Mas agora ia sentindo uma hesitao
-em contar a Maria _aquelle horror_. A seu pezar pensava que tambem Maria
-o esperava, com o leito aberto, no silencio da casa adormecida; e que
-tambem elle penetrava alli, s escondidas, como o homem da manta... De
-certo era bem differente! Toda a immensuravel differena que vai do
-divino ao bestial... E todavia receava despertar os melindrosos
-escrupulos de Maria, mostrando-lhe, parallelo ao seu amor cheio de
-requintes e passado entre brocados cr d'ouro, aquelle outro rude amor,
-secreto e illegitimo como o d'ella, e arrastado brutamente na relva...
-Era como mostrar-lhe um reflexo da sua propria culpa, um pouco esfumada,
-mais grosseira, mas parecida nos seus contornos, lamentavelmente
-parecida... No, no diria nada. E a pequena?... Oh, nas suas relaes
-com Rosa a creatura continuaria a ser, como sempre, a puritana
-laboriosa, grave e cheia d'ordem.
-
-A porta envidraada sobre o jardim tinha ainda luz: elle atirou aos
-vidros uma pouca de terra solta, depois bateu de leve. Maria appareceu,
-mal embrulhada n'um roupo, juntando os cabellos que se tinham
-desenrolado, e meia adormecida.
-
---Porque vieste to tarde?
-
-Carlos beijou longamente os seus bellos olhos pesados, quasi cerrados.
-
---Adormeci estupidamente, a lr... Depois, quando entrei pareceu-me
-ouvir passos na quinta, andei a rebuscar... Era imaginao, tudo
-deserto.
-
---Precisavamos ter um co de fila, murmurou ella, espreguiando-se.
-
-Sentada beira do leito, com os braos cahidos e adormentados, sorria
-da sua preguia.
-
---Ests to fatigada, filha! queres tu que me v embora ?...
-
-Ella puxou-o para o seu seio perfumado e quente.
-
---Je veux que tu m'aimes beaucoup, beaucoup, et longtemps...
-
-Ao outro dia Carlos no fra a Lisboa, e appareceu cedo na _Toca_.
-Melanie, que andava espanejando o kiosque, disse-lhe que Madame, um
-pouco canada, tinha justamente tomado o seu chocolate na cama. Elle
-entrou no salo: defronte da janella aberta, sentada no banco de
-cortia, miss Sarah costurava, sombra das arvores.
-
---_Good morning_, disse-lhe Carlos, chegando-se ao peitoril, todo
-curioso de a observar.
-
---_Good morning, sir_, respondeu ella com o seu ar modesto e tmido.
-
-Carlos fallou do calor. Miss Sarah j quella hora o achava intoleravel.
-Felizmente a vista do rio, l em baixo, refrescava...
-
-Sobretudo a noite passada, insistiu Carlos accendendo a cigarrette, fra
-to abafada! Elle mal pudera dormir. E ella?
-
-Oh, ella dormira d'um somno s. Carlos quiz saber se tivera bonitos
-sonhos.
-
---_Oh yes, sir_.
-
-_Oh yes!_ mas agora um yes pudico, sem gemidos, com os olhos baixos. E
-to correcta, to pregada, fresca como se nunca tivesse servido!...
-Positivamente era extraordinaria! E Carlos, torcendo o bigode, pensava
-que ella devia ter um seiosinho bem alvo e bem redondinho!
-
-
-
-Assim ia passando o vero nos Olivaes. No comeo de setembro, Carlos
-soube por uma carta do av que Craft devia chegar a Lisboa, n'um
-sabbado, ao Hotel Central: e correu l cedo, logo n'essa manh, a ouvir
-as novidades de Santa Olavia. Achou Craft j a p, diante do espelho,
-fazendo a barba. A um canto do sof, Eusebiosinho, que viera na vespera
- noite de Cintra e estava tambem no Hotel, limpava as unhas com um
-canivete, em silencio, coberto de negro.
-
-Craft vinha encantado com Santa Olavia. Nem comprehendia como Affonso,
-beiro forte, tolerava a rua de S. Francisco, e o quintalejo abafado do
-Ramalhete. Tinha-se passado rgiamente! O av, cheio de saude, d'uma
-hospitalidade que lembrava Abraho e a Biblia. O Sequeira optimo comendo
-tanto que ficava inutil depois de jantar, a estoirar e a gemer no fundo
-d'uma poltrona. L conhecera o velho Travassos, que fallava sempre com
-os olhos cheios de lagrimas do talento do seu caro collega Carlos. E o
-marquez esplendido, com abraos de primo a todos os fidalgotes de
-Lamego, e apaixonado por uma barqueira... De resto soberbos jantares,
-alguns tiros aos coelhos, uma romaria, danas de raparigas no adro,
-guitarradas, esfolhadas, todo o dce idyllio portuguez...
-
---Mas a respeito de Santa Olavia temos a fallar mais sriamente, disse
-por fim Craft, entrando na alcova, a ensaboar a cabea.
-
---E tu, perguntou ento Carlos, voltando-se para o Eusebiosinho. Tens
-estado em Cintra, hein? Que se faz l?... O Ega?
-
-O outro ergueu-se guardando o canivete, ageitando as lunetas.
-
---L est no Victor, muito engraado, comprou um burro... L est o
-Damaso tambem... Mas esse pouco se v, no larga os Cohens... Emfim
-tem-se passado menos mal, com bastante calor...
-
---Tu estavas outra vez com a mesma prostituta, a Lola?
-
-Eusebiosinho fez-se escarlate. Credo! estava no Victor, muito srio! O
-Palma que l tinha apparecido com uma rapariga portugueza... Tinha
-agora um jornal, _A Corneta do Diabo_.
-
---_A Corneta...?_
-
---Sim, _do Diabo_, disse o Eusebiosinho. um jornal de pilherias, de
-picuinhas... Elle j existia, chamava-se o _Apito_; mas agora passou
-para o Palma; elle vae-lhe augmentar o formato, e metter-lhe mais
-chalaa...
-
---Emfim, disse Carlos, qualquer coisa sebacea e immunda como elle...
-
-Craft reappareceu, enxugando a cabea. E emquanto se vestia, fallou de
-uma viagem que agora o tentava, que estivera planeando em Santa Olavia.
-Como j no tinha a _Toca_, e a sua casa ao p do Porto necessitava
-longas obras, ia passar o inverno ao Egypto, subindo o Nilo, em
-communicao espiritual com a antiguidade Pharaonica. Depois talvez se
-adiantasse at Bagdad, a vr o Euphrates, e os sitios de Babylonia...
-
---Por isso eu lhe vi alli, na mesa, exclamou Carlos, um livro, _Ninive e
-Babylonia_... Que diabo, voc gosta d'isso? Eu tenho horror a raas e a
-civilisaes defuntas... No me interessa seno a Vida.
-
--- que voc um sensual, disse Craft. E a proposito de sensualidade e
-de Babylonia, quer vir voc almoar ao Bragana? Eu tenho de l
-encontrar um inglez, o meu homem das minas... Mas havemos d'ir pela rua
-do Ouro, que quero trepar um instante caverna do meu procurador... E a
-caminho, que meio dia!
-
-Deixaram o Eusebiosinho, em baixo na sala, ageitando as suas lugubres
-lunetas negras diante dos telegrammas. E apenas sahira o pateo, Craft
-travou do brao de Carlos, e disse-lhe que as coisas srias a respeito
-de Santa Olavia--era o visivel, profundo desgosto do av por elle no
-ter l apparecido.
-
---Seu av no me disse nada, mas eu sei que elle est muitissimo magoado
-com voc. No ha desculpa, so umas horas de viagem... Voc sabe como
-elle o adora... Que diabo! _Est modus in rebus_.
-
---Com effeito, murmurou Carlos. Eu devia ter l ido... Que quer voc,
-amigo?... Emfim acabou-se, necessario fazer um esforo!... Talvez
-parta para a semana com o Ega.
-
---Sim, homem, d-lhe esse alegro... Esteja l umas semanas...
-
---_Est modus in rebus_. Hei de vr se l estou uns dias.
-
-A caverna do procurador era defronte do Monte-Pio. Carlos esperava,
-havia momentos, dando por diante das lojas uma volta lenta--quando de
-repente avistou Melanie, a sahir o porto do Monte-Pio, com uma matrona
-gorda, de chapo rxo. Surprehendido, atravessou a rua. Ella estacou
-como apanhada, fazendo-se toda vermelha; e nem deixou vir a pergunta;
-balbuciou logo que Madame lhe dra licena para vir a Lisboa, e ella
-andava acompanhando aquella amiga... Uma velha caleche, de parelha
-branca, estava encalhada alli, contra o passeio. Melanie saltou para
-dentro, pressa. A traquitana rodou aos solavancos para o Terreiro do
-Pao.
-
-Carlos via-a desapparecer, pasmado. E Craft, que voltra, olhando
-tambem, reconheceu no lamentavel calhambeque a caleche do _Torto_, dos
-Olivaes, onde elle s vezes costumava vir janotar a Lisboa.
-
---Era alguem l da _Toca_? perguntou.
-
-Uma criada, disse Carlos, ainda espantado d'aquelle estranho embarao de
-Melanie.
-
-E mal tinham dado alguns passos, Carlos, parando, baixando a voz no
-rumor da rua:
-
---Oua l! O Eusebiosinho disse-lhe alguma coisa a meu respeito, Craft?
-
-O outro confessou que Eusebiosinho, apenas lhe apparecera no quarto,
-rompera logo, mascando as palavras, a informal-o da mysteriosa vida de
-Carlos nos Olivaes...
-
---Mas eu fil-o calar, acrescentou Craft, declarando-lhe que era to
-pouco curioso que nem mesmo quizera lr nunca a _Historia Romana_... Em
-todo o caso voc deve ir a Santa Olavia.
-
-Carlos, com effeito, logo n'essa noite fallou a Maria da visita que
-devia ao av. Ella, muito sria, aconselhou-lh'a tambem, arrependida de
-o ter retido assim, egoisticamente e tanto tempo, longe dos outros que o
-amavam.
-
---Mas ouve, querido, no por muito tempo, no?
-
---Por dois ou tres dias, quando muito. E naturalmente, trago at o av.
-No est l a fazer nada, e eu no estou para a massada de voltar l...
-
-Maria ento lanou-lhe os braos ao pescoo, e baixo, timidamente,
-confessou-lhe um grande desejo que tinha... Era vr o Ramalhete! Queria
-visitar os quartos d'elle, o jardim, todos esses recantos, onde tantas
-vezes elle pensara n'ella, e se desesperra, sentindo-a distante e
-inaccessivel...
-
---Dize, queres? Mas necessario que seja antes de vir teu av. Queres?
-
---Acho um encanto! Ha s um perigo. eu no te deixar sahir mais e
-ficar a devorar-te na minha caverna.
-
---Prouvera a Deus!
-
-Combinaram ento que ella fosse jantar ao Ramalhete, no dia da partida
-de Carlos para Santa Olavia. noitinha levava-o no coup a Santa
-Apolonia; depois seguia para os Olivaes.
-
-Foi no sabbado. Carlos veio muito cedo para o Ramalhete: e o seu corao
-batia com a deliciosa perturbao d'um primeiro encontro, quando sentiu
-parar a carruagem de Maria e os seus vestidos escuros roarem o velludo
-cr de cereja que forrava a escada discreta dos seus quartos. O beijo
-que trocaram, na ante-camara, teve a profunda doura d'um primeiro
-beijo!
-
-Ella foi logo ao toucador tirar o chapo, dar um geito ao cabello. Elle
-no cessava de a beijar; abraava-a pela cinta; e com os rostos juntos
-sorriam para o espelho, enlevados no brilho da sua mocidade. Depois,
-impaciente, curiosa, ella percorreu os quartos, miudamente, at alcova
-de banho; leu os titulos dos livros, respirou o perfume dos frascos,
-abriu os cortinados de sda do leito... Sobre uma commoda Luiz XV havia
-uma salva de prata, transbordando de retratos que Carlos se esquecera de
-esconder, a coronella d'hussards d'amazona, madame Rughel decotada,
-outras ainda. Ella mergulhou as mos, com um sorriso triste, na profuso
-d'aquellas recordaes... Carlos, rindo, pediu-lhe que no olhasse
-esses enganos do seu corao.
-
-Porque no? dizia Maria, sria. Sabia bem que elle no descera das
-nuvens, puro como um seraphim. Havia sempre photographias no passado
-d'um homem. De resto tinha a certeza que nunca amra as outras como a
-sabia amar a ella.
-
---At uma profanao fallar em _amor_ quando se trata d'essas coisas
-d'acaso, murmurou Carlos. So quartos de estalagem onde se dorme uma
-vez...
-
-No emtanto Maria considerava longamente a photographia da coronella
-d'hussards. Parecia-lhe bem linda! Quem era? Uma franceza?
-
---No, de Vienna. Mulher d'um correspondente meu, homem de negocios...
-Gente tranquilla, que vivia no campo...
-
---Ah, Viennense... Dizem que tem um grande encanto as mulheres de
-Vienna!
-
-Carlos tirou-lhe a photographia da mo. Para que haviam de fallar
-d'outras mulheres? Existia em todo o vasto mundo uma mulher unica, e
-elle tinha-a alli abraada sobre o seu corao.
-
-Foram ento percorrer todo o Ramalhete, at ao terrao. Ella gostou
-sobretudo do escriptorio d'Affonso, com os seus damascos de camara de
-prelado, a sua feio severa de paz estudiosa.
-
---No sei porque, murmurou dando um olhar lento s estantes pesadas e ao
-Christo na cruz, no sei porque, mas teu av faz-me medo!
-
-Carlos riu. Que tonteria! O av se a conhecesse, fazia-lhe logo a crte
-rasgadamente... O av era um santo! E um lindo velho!
-
---Teve paixes?
-
---No sei, talvez... Mas creio que o av foi sempre um puritano.
-
-Desceram ao jardim, que lhe agradou tambem, quieto e burguez, com a sua
-cascatasinha chorando n'um rythmo dce. Sentaram-se um instante sob o
-velho cedro, junto a uma mesa rustica de pedra, onde estavam entalhadas
-letras mal distinctas e uma data antiga; o chalrar das aves nos ramos
-pareceu a Maria mais dce que o de todas as outras aves que ouvira;
-depois arranjou um ramo para levar como reliquia.
-
-Mesmo em cabello foram vr defronte as cocheiras: o guarda-porto ficou
-de bon na mo, embasbacado para aquella senhora to linda, to loira, a
-primeira que via entrar no Ramalhete! Maria acariciou os cavallos, e fez
-uma festa grata e mais longa _Tunante_, que tantas vezes levra Carlos
- rua de S. Francisco. Elle via n'estas simples coisas as graas
-incomparaveis d'uma esposa perfeita.
-
-Recolheram pela escada particular de Carlos--que Maria achava
-mysteriosa com aquelles velludos grossos cr de cereja, forrando-a
-como um cofre, e abafando todo o rumor de saias. Carlos jurou que nunca
-alli passra outro vestido--a no ser o do Ega, uma vez, mascarado de
-varina.
-
-Depois deixou-a no quarto, um momento para ir dar ordens ao Baptista:
-mas quando voltou encontrou-a a um canto do sof, to descahida, to
-desanimada, que lhe arrebatou as mos, cheio d'inquietao.
-
---Que tens, amor? Ests doente?
-
-Ella ergueu lentamente os olhos que brilhavam n'uma nevoa de lagrimas.
-
-Pensar que tu vaes deixar por mim esta linda casa, o teu conforto, a tua
-paz, os teus amigos... uma tristeza, tenho remorsos!
-
-Carlos ajoelhra ao seu lado, sorrindo dos seus escrupulos, chamando-lhe
-tonta, seccando-lhe n'um beijo as lagrimas que rolavam... Considerava-se
-ella ento valendo menos que a cascata do jardim e alguns tapetes
-usados?...
-
---O que eu tenho pena de te sacrificar to pouco, minha querida Maria,
-quando tu sacrificas tanto!
-
-Ella encolheu os hombros, amargamente.
-
---Eu!
-
-Passou-lhe as mos entre os cabellos, puxou-o brandamente para o seu
-seio--e dizia, baixo, como fallando ao seu proprio corao, calmando-lhe
-as incertezas e as duvidas:
-
---No, com effeito, nada vale no mundo seno o nosso amor! Nada mais
-vale! Se elle verdadeiro, se profundo, tudo mais vo, nada mais
-importa...
-
-A sua voz morreu entre os beijos de Carlos, que a levava abraada para o
-leito--onde tentas vezes desesperava d'ella como d'uma deusa intangivel.
-
-s cinco horas pensaram em jantar. A mesa fra posta n'uma saleta que
-Carlos quizera em tempo revestir de colxas de setim cr de perola e
-boto d'ouro. Mas no estava ainda arranjada; as paredes conservavam o
-seu papel verde-escuro; e Carlos puzera alli ultimamente o retrato de
-seu pai--uma teia banal, representando um moo pallido, de grandes
-olhos, com luvas de camura amarella e um chicote na mo.
-
-Era Baptista que os servia, j com um fato claro de viagem. A mesa,
-redonda e pequena, parecia uma cesta de flres; o champagne gelava
-dentro dos baldes de prata; no aparador a travessa d'arroz dce tinha as
-iniciaes de Maria.
-
-Aquelles lindos cuidados fizeram-na sorrir, enternecida. Depois reparou
-no retrato de Pedro da Maia: e interressou-se, ficou a contemplar
-aquella face descrada, que o tempo fizera livida, e onde pareciam mais
-tristes os grandes olhos d'arabe, negros e languidos.
-
---Quem ? perguntou.
-
--- meu pai.
-
-Ella examinou-o mais de perto, erguendo uma vela. No achava que Carlos
-se parecesse com elle. E voltando-se muito sria, emquanto Carlos
-desarrolhava com venerao uma garrafa de velho Chambertin:
-
---Sabes tu com quem te pareces s vezes?... extraordinario, mas
-verdade. Pareces-te com minha mi!
-
-Carlos riu, encantado d'uma parecena que os aproximava mais, e que o
-lisonjeava.
-
---Tens razo, disse ella, que a mam era formosa... Pois verdade, ha
-um no sei qu na testa, no nariz... Mas sobretudo certos geitos, uma
-maneira de sorrir... Outra maneira que tu tens de ficar assim um pouco
-vago, esquecido... Tenho pensado n'isto muitas vezes...
-
-Baptista entrava com uma terrina de loua do Japo. E Carlos,
-alegremente, annunciou um jantar portugueza. Mr. Antoine, o _chef
-francez_, fra com o av. Ficra a Michaela, outra cozinheira de casa,
-que elle achava magnifica, e que conservava a tradio da antiga cozinha
-freiratica do tempo do snr. D. Joo V.
-
---Assim, para comear, minha querida Maria, ahi tens tu um caldo de
-gallinha, como s se comia em Odivellas, na cella da madre Paula, em
-noites de noivado mystico...
-
-E o jantar foi encantador. Quando Baptista se retirava, elles
-apertavam-se rapidamente a mo por cima das flres. Nunca Carlos a
-achra to linda, to perfeita: os seus olhos pareciam- lhe irradiar uma
-ternura maior: na singela rosa que lhe ornava o peito via a
-superioridade do seu gosto. E o mesmo desejo invadiu-os a ambos, de
-ficarem alli eternamente, n'aquelle quarto de rapaz, com jantarinhos
-portuguezes moda de D. Joo V, servidos pelo Baptista de jaqueto.
-
---Estou com uma vontade de perder o comboio! disse Carlos como
-implorando a sua approvao.
-
---No, deves ir... necessario no sermos egoistas... Smente no te
-descuides, manda-me todos os dias um grande telegramma... Que os
-telegraphos foram unicamente inventados para quem se ama e est longe,
-como dizia a mam.
-
-Ento Carlos gracejou de novo sobre a sua parecena com a mi d'ella. E
-baixando-se a remexer a garrafa de champagne dentro do gelo:
-
--- curioso no m'o teres dito antes... Tambem tu nunca me fallaste de
-tua mi...
-
-Um pouco de sangue roseou a face de Maria Eduarda. Oh, nunca fallra da
-mam, porque nunca viera a proposito...
-
---De resto no havia coisas muito interessantes a contar, acrescentou. A
-mam era uma senhora da ilha da Madeira, no tinha fortuna, casou...
-
---Casou em Paris?
-
---No, casou na Madeira com um austriaco que fra l acompanhar um irmo
-tisico... Era um homem muito distincto, viu a mam, que era lindssima,
-gostaram um do outro, _et voil_...
-
-Dissera isto sem erguer os olhos do prato, lentamente, cortando uma aza
-de frango.
-
---Mas ento, exclamou Carlos, se teu pai era austriaco, meu amor, tu s
-tambem austriaca... s talvez uma d'essas viennenses que tu dizes que
-tem um to grande encanto...
-
-Sim, talvez, segundo essas coisas dos codigos, era austriaca. Mas nunca
-conhecera o pai, vivera sempre com a mam, fallra sempre portuguez,
-considerava-se portugueza. Nunca estivera na Austria, nem sabia mesmo
-allemo...
-
---No tiveste irmos?
-
---Sim, tive, uma irmsinha que morreu em pequena... Mas no me lembra.
-Tenho em Paris o retrato d'ella... Bem linda!
-
-N'esse momento em baixo, na calada, uma carruagem, a trote largo,
-estacou. Carlos, surprehendido, correu janella com o guardanapo na
-mo.
-
--- o Ega! exclamou. aquelle velhaco que chega de Cintra!
-
-Maria erguera-se, inquieta. E um momento, de p, ambos se olharam,
-hesitando... Mas o Ega era como um irmo de Carlos. Elle esperava s que
-o Ega recolhesse de Cintra para o levar _Toca_. Melhor seria que o
-encontro se dsse alli, natural, franco e simples...
-
---Baptista! gritou Carlos, sem vacillar mais. Dize ao snr. Ega que estou
-a jantar, que entre para aqui.
-
-Maria sentra-se, vermelha, dando um geito rapido aos ganchos do
-cabello, arranjado pressa, um pouco desmanchado.
-
-A porta abriu-se,--e o Ega parou, assombrado, intimidado, de chapo
-branco, de guarda-sol branco, e com um embrulho de papel pardo na mo.
-
---Maria, disse Carlos, aqui tens emfim o meu grande amigo Ega.
-
-E ao Ega disse simplesmente:
-
---Maria Eduarda.
-
-Ega ia largar atarantadamente o embrulho para apertar a mo que Maria
-Eduarda lhe estendia, crada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado,
-desfez-se; e uma proviso fresca de queijadas de Cintra rolou,
-esmagando-se, sobre as flres do tapete. Ento todo o embarao findou
-atravs d'uma risada alegre--emquanto o Ega, desolado, abria os braos
-sobre as ruinas do seu dce.
-
---Tu j jantaste? perguntou Carlos.
-
-No, no tinha jantado. E via j alli uns ovos molles nacionaes, que o
-encantavam, enfastiado como vinha da horrivel cozinha do Victor. Oh, que
-cozinha! Pratos lugubres, traduzidos do francez em calo, como as
-comedias do Gymnasio!
-
---Ento avana! exclamou Carlos. Depressa, Baptista!... Traze o caldo de
-gallinha! Oh, ainda temos tempo!... Tu sabes que vou hoje para Santa
-Olavia?
-
-Est claro que sabia, recebera a carta d'elle, e por isso viera... Mas
-no podia jantar ainda, assim coberto do p da estrada, e com um
-jaqueto de bucolica...
-
---Dize que me guardem o caldo, Baptista! Olha, dize que me guardem tudo,
-que eu trago uma fome de pastor da Arcadia!...
-
-O Baptista servira o caf. E a carruagem da senhora, que os devia levar
-a Santa Apolonia, esperava j porta com a maleta. Mas Ega agora queria
-conversar, affirmou que tinham tempo, tirou o relogio. Estava parado. E
-elle declarou logo que no campo se regulava pelo sol, como as flres e
-como as aves...
-
---Fica agora em Lisboa? perguntou-lhe Maria Eduarda.
-
---No, minha senhora, s o tempo de cumprir o meu dever de cidado,
-subindo duas ou tres vezes o Chiado... Depois volto para a relva. Cintra
-comea a ser interessante para mim, agora que no est ninguem...
-Cintra, de vero, com burguezes, parece-me um idyllio com nodoas de
-sebo.
-
-Mas Baptista offerecia a Carlos a _chartreuse_--dizendo que s. exc.^a
-no se devia demorar se no tencionava perder o comboio, de proposito.
-Maria ergueu-se logo para ir dentro pr o chapo. E os dois amigos, ss,
-ficaram um momento calados, emquanto Carlos accendia devagar o charuto.
-
---Tu quanto tempo te demoras? perguntou por fim o Ega.
-
---Tres ou quatro dias. E tu no voltes para Cintra antes que eu chegue,
-precisamos communicar... Que diabo tens tu feito l?
-
-O outro encolheu os hombros.
-
---Tenho sorvido ar puro, colhido florinhas, murmurado de vez em quando
-que lindo que isto ! etc.
-
-Depois, debruado sobre a mesa, picando com um palito uma azeitona:
-
---De resto, nada... O Damaso l est! Sempre com a Cohen, como te mandei
-dizer... Est claro que no ha nada entre elles, aquillo s para mim,
-para me irritar... um canalha aquelle Damaso! Eu s quero um pretexto.
-Esgano-o!
-
-Deu um puxo forte aos punhos, com uma cr de clera no rosto queimado:
-
---Eu, est claro, fallo-lhe, aperto-lhe a mo, chamo-lhe amigo Damaso,
-etc. Mas s quero um pretexto! necessario aniquilar aquelle animal.
-um dever de moralidade, d'aceio publico, de gosto varrer aquella bola de
-lama humana!
-
---Quem esteve por l mais? perguntou Carlos.
-
---Que te interesse?... A Gouvarinho. Mas vi-a uma s vez. Apparecia
-pouco, coitada, agora que andava de luto.
-
---De luto?
-
---Por ti.
-
-Calou-se. Maria entrava, com o vu descido, acabando de apertar as
-luvas. Ento Carlos, suspirando, resignado, estendeu os braos ao
-Baptista para elle lhe vestir um casaco leve de jornada. Ega ajudava,
-pedindo um abrao filial para Affonso, e recados para o gordo Sequeira.
-
-Foi acompanhal-os a baixo, em cabello: e fechou elle a portinhola,
-promettendo a Maria Eduarda uma visita _Toca_, apenas Carlos voltasse
-d'esses penhascos do Douro...
-
---No vs para Cintra antes de eu voltar! gritou-lhe ainda Carlos. E a
-Michaela que tome conta em ti!
-
---_All right, all right_, dizia o Ega. Boa jornada! Criado de v. exc.^a,
-minha senhora... At _Toca_!
-
-O coup partiu. Ega subiu ao seu quarto, onde outro criado lhe estava
-preparando o banho. Na saleta deserta, entre as flres e os restos do
-jantar, as velas continuavam a arder solitarias, fazendo resaltar no
-painel escuro a pallidez de Pedro da Maia, e a melancolia dos seus
-olhos.
-
-
-
-No sabbado seguinte, perto das duas horas, Carlos e Ega, ainda mesa do
-almoo, acabavam os seus charutos, fallando de Santa Olavia. Carlos
-chegra de l essa madrugada, s. O av decidira ficar entre as suas
-velhas arvores at ao fim do outono que ia to luminoso e to macio...
-
-Carlos fra-o encontrar muito alegre, muito forte--apesar de ter sido
-obrigado, por causa d'um toque de rheumatismo, a abandonar emfim o seu
-culto da agua fria. E esta macissa, resplandecente saude do velho fra
-um allivio para o corao de Carlos: parecia-lhe assim mais facil, menos
-ingrata, a sua partida com Maria para Italia, em outubro. Alm d'isso
-achra um _truc_, como elle dizia ao Ega, para realisar o supremo desejo
-da sua vida sem magoar o av, sem lhe turbar a paz da velhice. Era um
-_truc_, simples. Consistia em partir elle s para Madrid, no comeo
-d'uma certa viagem d'estudo, para que j preparra o av em Santa
-Olavia. Maria ficava na _Toca_, durante um mez. Depois tomava o paquete
-para Bordeus: e era ahi que Carlos se reunia com ella, a comearem essa
-existencia de felicidade e romance que as flres da Italia deviam
-perfumar... Na primavera elle voltava a Lisboa, deixando Maria
-installada no seu ninho: e ento, pouco a pouco, ia revelando ao av
-aquella ligao, a que o prendia a honra, e que o foraria agora a viver
-regularmente longos mezes n'uma outra terra que se tornra a patria do
-seu corao. E que havia de dizer o av? Aceitar esse romance, a que no
-veria os lados desagradaveis, esbatido assim pela distancia e pela nevoa
-da paixo. Seria para Affonso uma vaga e mal sabida coisa d'amor que se
-passava em Italia... Poderia lamental-a apenas por lhe levar
-pontualmente todos os annos o neto para longe; e cada anno se consolaria
-pensando na curta durao dos idyllios humanos. De resto Carlos contava
-com essa larga benevolencia que amollece as almas mais rigidas quando
-apenas alguns passos as separam do tumulo... Emfim o seu _truc_
-parecia-lhe bom. Ega, em resumo, approvou o _truc_.
-
-Depois, mais alegremente, fallaram da installao d'esse amor. Carlos
-permanecia na sua ida romantica--um cottage beira d'um lago. Mas Ega
-no approvava o lago. Ter todos os dias diante dos olhos uma agua sempre
-mansa e sempre azul, parecia-lhe perigoso para a durabilidade da paixo.
-Na quietao continua d'uma paizagem igual, dois amantes solitarios,
-dizia elle, no sendo botanicos nem pescando linha, vem-se forados a
-viver exclusivamente do desejo um do outro, e a tirar d'ahi todas as
-suas idas, sensaes, occupaes, gracejos e silencios... E, que diabo,
-o mais forte sentimento no pde dar para tanto! Dois amantes, cuja
-unica profisso amarem-se, deviam procurar uma cidade, uma vasta
-cidade, tumultuosa e creadora, onde o homem tenha durante o dia os
-clubs, o cavaco, os museus, as idas, o sorriso d'outras mulheres--e a
-mulher tenha as ruas, as compras, os theatros, a atteno d'outros
-homens; de sorte que noite, quando se reunam, no tendo passado o
-infindavel dia a observarem-se um no outro e a si proprios, trazendo
-cada um a vibrao da vida forte que atravessaram--achem um encanto novo
-e verdadeiro no conchego da sua solido, e um sabor sempre renovado na
-repetio dos seus beijos...
-
---Eu, continuava Ega, erguendo-se, se levasse para longe uma mulher, no
-era para um lago, nem para a Suissa, nem para os montes da Sicilia; era
-para Paris, para o boulevard dos Italianos, alli esquina do
-Vaudeville, com janellas deitando para a grande vida, a um passo do
-_Figaro_, do Louvre, da Philosophia e da _blague_... Aqui tens tu a
-minha doutrina!... E ahi temos ns o amigo Baptista com o correio.
-
-No era o correio. Era apenas um bilhete que o Baptista trazia n'uma
-salva: e vinha to perturbado que annunciou um sujeito, alli fra, na
-antecamara, n'uma carruagem, espera...
-
-Carlos olhou o bilhete, empallideceu terrivelmente. E ficou a reviral-o,
-lento e como atordoado, entre os dedos que tremiam... Depois, em
-silencio, atirou-o ao Ega por cima da mesa.
-
---Caramba! murmurou Ega, assombrado.
-
-Era Castro Gomes!
-
-Bruscamente Carlos erguera-se, decidido.
-
---Manda entrar... Para o salo grande!
-
-Baptista apontou para o jaqueto de flanella com que Carlos tinha
-almoado, e perguntou baixo se s. exc.^a queria uma sobrecasaca.
-
---Traze.
-
-Ss, Ega e Carlos olharam-se um instante, anciosamente.
-
---No um desafio, est claro, balbuciou Ega.
-
-Carlos no respondeu. Examinava outra vez o bilhete: o homem chamava-se
-Joaquim Alvares de Castro Gomes: por baixo tinha escripto a lapis Hotel
-Bragana... Baptista voltra com a sobrecasaca: e Carlos, abotoando-a
-devagar, sahiu sem outra mais palavra ao Ega, que ficra de p junto da
-mesa, limpando estupidamente as mos ao guardanapo.
-
-No salo nobre, forrado de brocados cr de musgo d'outono, Castro Gomes
-examinava curiosamente, com um joelho apoiado borda do sof, a
-esplendida tela de Constable, o retrato da condessa de Runa, bella e
-forte no seu vestido de velludo escarlate de caadora ingleza. Ao rumor
-dos passos de Carlos sobre o tapete, voltou-se, de chapo branco na mo,
-sorrindo, pedindo perdo de estar assim a pasmar familiarmente para
-aquelle soberbo Constable... Com um gesto rigido, Carlos, muito pallido,
-indicou-lhe o sof. Saudando e risonho Castro Gomes sentou-se
-vagarosamente. No peito da sobrecasaca muito justa trazia um boto de
-rosas, os seus sapatos de verniz resplandeciam sob as polainas de linho;
-no rosto chupado, queimado, a barba negra, terminava em bico; os
-cabellos rareavam-lhe na risca; e mesmo a sorrir tinha um ar de seccura,
-de fadiga.
-
---Eu possuo tambem em Paris um Constable muito _chic_, disse elle, sem
-embarao, n'um tom arrastado, cheio de _rr_, que o _sutaque_ brazileiro
-adocicava. Mas apenas uma pequena paizagem, com duas figurinhas. um
-pintor que no me diverte, a dizer a verdade... Todavia d muito tom a
-uma galeria. necessario tel-o.
-
-Carlos, defronte n'uma cadeira, com os punhos fortemente fechados sobre
-os joelhos, conservava a immobilidade d'um marmore. E, perante aquelle
-modo affavel, uma ida ia-o atravessando, lacerante, angustiosa,
-pondo-lhe j nos olhos largos que no tirava de sobre o outro, uma
-irreprimivel chamma de clera. Carlos Gomes decerto _no sabia nada_!
-Chegra, desembarcra, correra aos Olivaes, dormira nos Olivaes! Era o
-marido, era novo, tivera-a j nos braos--a ella! E agora alli estava,
-tranquillo, de flr ao peito, fallando de Constable! O unico desejo de
-Carlos, n'esse instante, era que aquelle homem o insultasse.
-
-No emtanto Castro Gomes, amavelmente, desculpava-se de se apresentar
-assim, sem o conhecer, sem ao menos ter pedido por um bilhete uma
-entrevista...
-
---O motivo porm que me traz to urgente, que cheguei esta manh s
-dez horas do Rio de Janeiro, ou antes do Lazareto, e estou aqui!... E
-esta mesma noite, se puder, parto para Madrid.
-
-Fez-se um allivio infinito no corao de Carlos. Ainda no vira ento
-Maria Eduarda, aquelles seccos labios no a tinham tocado! E sahiu emfim
-da sua rigidez de marmore, teve um movimento attento, aproximando de
-leve a cadeira.
-
-Castro Gomes no emtanto, tendo pousado o chapo, tirra do bolso
-interior da sobrecasaca uma carteira com um largo monogramma de ouro; e,
-vagaroso, procurava entre os papeis uma carta... Depois, com ella na
-mo, muito tranquillamente:
-
---Eu recebi no Rio de Janeiro, antes de partir, este escripto anonymo...
-Mas no creia v. exc.^a que foi elle que me levou a atravessar pressa
-o Atlantico. Seria o maior dos ridiculos... E desejo tambem affirmar-lhe
-que todo o conteudo d'elle me deixou perfeitamente indifferente... Aqui
-o tem. Quer v. exc.^a ll-o, ou quer que eu leia?
-
-Carlos murmurou com um esforo:
-
---Leia v. exc.^a
-
-Castro Gomes desdobrou o papel, e revirou-o um instante entre os dedos.
-
---Como v. exc.^a v, a carta anonyma em todo o seu horror: papel de
-mercearia, pautadinho de azul; calligraphia reles; tinta reles; cheiro
-reles. Um documento odioso. E aqui est como elle se exprime: Um homem
-que teve a honra de apertar a mo de v. exc.^a Eu dispensava a
-honra... que teve a hora de apertar a mo de v. exc.^a e d'apreciar o
-seu cavalheirismo, julga dever prevenil-o que sua mulher , vista de
-toda a Lisboa, a amante d'um rapaz muito conhecido aqui, Carlos Eduardo
-da Maia, que vive n'uma casa s Janelas Verdes, chamada o Ramalhete.
-Este heroe, que muito rico, comprou expressamente uma quinta nos
-Olivaes, onde installou a mulher de v. exc.^a e onde a vai vr todos os
-dias, ficando s vezes, com escandalo da visinhana, at de madrugada.
-Assim o nome honrado de v. exc.^a anda pelas lamas da capital. tudo o
-que diz a carta; e eu s devo acrescentar, porque o sei, que tudo quanto
-ella diz incontestavelmente exacto... O snr. Carlos da Maia pois
-publicamente, com conhecimento de toda a Lisboa, o amante d'essa
-senhora.
-
-Carlos ergueu-se, muito sereno. E abrindo de leve os braos, n'uma
-aceitao inteira de todas as responsabilidades:
-
---No tenho ento nada a dizer a v. exc.^a seno que estou s suas
-ordens!...
-
-Uma fugitiva onda de sangue avivou a pallidez morena de Castro Gomes.
-Dobrou a carta, guardou-a com todo o vagar na carteira. Depois, sorrindo
-friamente:
-
---Perdo... O snr. Carlos da Maia sabe, to bem como eu, que se isto
-tivesse de ter uma soluo, violenta, eu no viria aqui pessoalmente, a
-sua casa, lr-lhe este papel... A coisa inteiramente outra.
-
-Carlos recahira na cadeira, assombrado. E agora a lentido adocicada
-d'aquella voz ia-se-lhe tornando intoleravel. Um confuso terror do que
-viria d'esses labios, que sorriam com uma pallidez impertinente, quasi
-fazia estalar o seu pobre corao. E era um desejo brutal de lhe gritar
-que acabasse, que o matasse, ou que sahisse d'aquella sala, onde a sua
-presena era uma inutilidade ou uma torpeza!...
-
-O outro passou os dedos no bigode, e proseguiu, devagar, arranjando as
-suas palavras com cuidado e com preciso:
-
---O meu caso este, snr. Carlos da Maia. Ha pessoas em Lisboa que me
-no conhecem decerto, mas que sabem a esta hora que existe algures, em
-Paris, no Brazil ou no inferno, um certo Castro Gomes, que tem uma
-mulher bonita, e que a mulher d'esse Castro Gomes tem em Lisboa um
-amante. Isto desagradavel, sobretudo por ser falso. E v. exc.^a
-comprehende que eu no devo continuar a arrastar por mais tempo a fama
-de _marido infeliz_, visto que a no mereo, e que a no posso
-_legalmente_ ter... por isso que aqui venho, muito francamente, de
-_gentleman_ para _gentleman_, dizer-lhe, como tenho teno de dizer a
-outros, que aquella senhora no minha mulher.
-
-Durante um momento Castro Gomes esperou a voz de Carlos da Maia. Mas
-elle conservava uma face muda, impenetravel, onde apenas os olhos
-brilhavam angustiosamente na lividez que a cobrira. Por fim, com um
-esforo, baixou de leve a cabea, como acolhendo placidamente aquella
-revelao, que tornava outra qualquer palavra entre elles desnecessaria
-e v.
-
-Mas Castro Gomes encolhera de leve os hombros, com uma languida
-resignao, como quem attribue tudo malicia dos Destinos.
-
---So as ridiculas scenas da vida... O snr. Carlos da Maia est d'ahi a
-vr as coisas. a velha, a classica historia... Ha tres annos que eu
-vivo com essa senhora; quando tive o inverno passado d'ir ao Brazil,
-trouxe-a a Lisboa para no vir ssinho. Fmos para o hotel Central. V.
-exc.^a comprehende perfeitamente que eu no fui fazer confidencias ao
-gerente do estabelecimento. Aquella senhora vinha commigo, dormia
-commigo, portanto, para todos os effeitos do hotel, era minha mulher.
-Como mulher de Castro Gomes ficou no Central; como mulher de Castro
-Gomes alugou depois uma casa na rua de S. Francisco; como mulher de
-Castro Gomes tomou emfim um amante... Deu-se sempre como mulher de
-Castro Gomes, mesmo nas circumstancias mais particularmente
-desagradaveis para Castro Gomes... E, meu Deus! no podemos realmente
-condemnal-a muito... Achava-se por acaso revestida d'uma excellente
-posio social e d'um nome puro, seria mais que humano que o seu amor da
-verdade a levasse, apenas conhecia alguem, a declarar que posio e nome
-eram de emprestimo e ella era apenas Fulana de tal, amigada... De
-resto, sejamos justos, ella no era moralmente obrigada a dar
-semelhantes explicaes ao tendeiro que lhe vendia a manteiga, ou
-matrona que lhe alugava a casa: nem mesmo, penso eu, a ninguem, a no
-ser a um pai que lhe quizesse apresentar sua filha, sahida do
-convento... Demais a mais sou eu que tenho um pouco a culpa; muitas
-vezes, em coisas relativamente delicadas lhe deixei usar o meu nome.
-Foi, por exemplo, com o nome de Castro Gomes que ella tomou a governante
-ingleza. As inglezas so to exigentes!... Aquella, sobretudo, uma
-rapariga to sria... Emfim tudo isso passou... O que importa agora
-que eu lhe retiro solemnemente o nome que lhe emprestra; e ella fica
-apenas com o seu, que Madame Mac-Gren.
-
-Carlos ergueu-se, livido. E com as mos fincadas nas costas da cadeira
-to fortemente, que quasi lhe esgaava o estofo:
-
---Mais nada, creio eu?
-
-Castro Gomes mordeu de leve os beios perante este remate brutal que o
-despediu.
-
---Mais nada, disse elle tomando o chapo e levantando-se muito
-vagarosamente. Devo apenas acrescentar, para evitar a v. exc.^a
-suspeitas injustas, que aquella senhora no uma menina que eu tivesse
-seduzido, e a quem recuse uma reparao. A pequerruchinha que alli anda
-no minha filha... Eu conheo a mi smente ha tres annos... Vinha dos
-braos d'um qualquer, passou para os meus... Posso pois dizer, sem
-injuria, que era uma mulher que eu pagava.
-
-Completra com esta palavra a humilhao do outro. Estava deliciosamente
-desforrado. Carlos, mudo, abrira o reposteiro da sala, n'uma sacudidella
-brusca. E, diante d'esta nova rudeza que revelava s mortificao,
-Castro Gomes foi perfeito: saudou, sorriu, murmurou:
-
---Parto esta noite mesmo para Madrid, e levo o pezar de ter feito o
-conhecimento de v. exc.^a por um motivo to desagradavel... To
-desagradavel para mim.
-
-Os seus passos desafogados e leves perderam-se na ante-camara, entre as
-tapearias. Depois em baixo uma portinhola bateu, uma carruagem rodou na
-calada...
-
-Carlos ficra cahido n'uma cadeira, junto da porta, com a cabea entre
-as mos. E de todas aquellas palavras de Castro Gomes, que ainda lhe
-resoavam em redor, adocicadas e lentas, s lhe restava o sentimento
-atordoado de uma coisa muito bella, resplandecendo muito alto, e que
-cahia de repente, se fazia em pedaos na lama, salpicando-o todo de
-nodoas intoleraveis... No soffria: era simplesmente um assombro de todo
-o seu sr perante este fim immundo d'um sonho divino... Unira a sua alma
-arrebatadamente a outra alma nobre e perfeita, longe nas alturas, entre
-nuvens d'ouro; de repente uma voz passava, cheia de _rr_; as duas almas
-rolavam, batiam n'um charco; e elle achava-se tendo nos braos uma
-mulher que no conhecia, e que se chamava Mac-Gren!
-
-Mac-Gren! era a Mac-Gren!
-
-Ergueu-se, com os punhos fechados; e veio-lhe uma revolta furiosa de
-todo o seu orgulho contra essa ingenuidade que o trouxera mezes timido,
-tremulo, ancioso, seguindo maneira d'uma estrella aquella mulher, que
-qualquer em Paris, com mil francos no bolso, poderia ter sobre um sof,
-facil e na! Era horrivel! E recordava agora, afogueado de vergonha, a
-emoo religiosa com que entrava na sala de reps vermelho da rua de S.
-Francisco: o encanto enternecido com que via aquellas mos, que elle
-julgava as mais castas da terra, puxarem os fios de l no bordado, n'um
-constante trabalho de mi laboriosa e recolhida; a venerao espiritual
-com que se afastava da orla do seu vestido, igual para elle tunica
-d'uma Virgem cujas pregas rigidas nem a mais rude bestialidade ousaria
-desmanchar de leve! Oh imbecil, imbecil!... E todo esse tempo ella
-sorria comsigo d'aquella simpleza de provinciano do Douro! Oh! tinha
-vergonha agora das flres apaixonadas que lhe trouxera! Tinha vergonha
-das excellencias que lhe dra!
-
-E seria to facil, desde o primeiro dia no Aterro, ter percebido que
-aquella deusa, descida das nuvens, estava amigada com um brazileiro! Mas
-qu! a sua paixo absurda de romantico puzera-lhe logo, entre os olhos e
-as coisas flagrantes e reveladoras, uma d'essas nevoas douradas que do
-s montanhas mais rugosas e negras um brilho polido de pedra preciosa!
-Porque escolhera ella precisamente para seu medico, na sua casa e na sua
-intimidade, o homem que na rua a fitra com um fulgor de desejo na face?
-Porque que nas suas longas conversas, nas manhs da rua de S.
-Francisco, no fallra jmais de Paris, dos seus amigos e das coisas da
-sua casa? Porque que ao fim de dois mezes, sem preparao, sem todas
-essas progressivas evidencias do amor que cresce e desabrocha como uma
-flr, se lhe abandonra de chofre, toda prompta, apenas elle lhe disse o
-primeiro amo-te?... Porque lhe aceitra uma casa j mobilada, com a
-facilidade com que lhe aceitava os ramos? E outras coisas ainda,
-pequeninas, mas que no teriam escapado ao mais simples: joias brutaes,
-d'um luxo grosseiro de _cocotte_: o livro da _Explicao de sonhos_,
-cabeceira da cama; a sua familiaridade com Melanie... E agora at o
-ardor dos seus beijos lhe parecia vir menos da sinceridade da
-paixo--que da sciencia da voluptuosidade!... Mas tudo acabra,
-providencialmente! A mulher que elle amra e as suas seduces
-esvaam-se de repente no ar como um sonho, radiante e impuro, de que
-aquelle brazileiro o viera acordar por caridade! Esta mulher era apenas
-a Mac-Gren... O seu amor fra, desde que a vira, como o proprio sangue
-das suas veias; e escoava-se agora todo atravs da ferida incuravel e
-que nunca mais fecharia, feita no seu orgulho!
-
-Ega appareceu porta do salo, ainda pallido:
-
---Ento?
-
-Toda a clera de Carlos fez exploso:
-
---Extraordinario, Ega, extraordinario! A coisa mais abjecta, a coisa
-mais immunda!
-
---O homem pediu-te dinheiro?
-
---Peor!
-
-E, passeando arrebatadamente, Carlos desabafou, contou tudo, sem
-reticencias, com as mesmas palavras cruas do outro,--que assim repetidas
-e avivadas pelos seus labios, lhe descobriam motivos novos de humilhao
-e de nojo.
-
---J por acaso sucedeu a alguem coisa mais horrivel? exclamou por fim,
-cruzando violentamente os braos diante do Ega, que se abatera no sof,
-assombrado. Pdes tu conceber um caso mais sordido? E tambem mais
-burlesco? para estalar o corao. E para rebentar a rir. Estupendo!
-Ahi, n'esse sof, ahi onde tu ests, o homemzinho, muito amavel, de flr
-ao peito, a dizer: Olhe que aquella creatura no minha mulher, uma
-creatura que eu pago... Comprehendes isto bem! Aquelle sujeito
-paga-a... Quanto o beijo? Cem francos. Ahi esto cem francos... de
-morrer!
-
-E recomeou no seu passeio, desvairado, desabafando mais, recontando
-tudo, sempre com as palavras do Castro Gomes, que elle deformava ainda
-n'uma brutalidade maior...
-
---Que te parece, Ega? Dize l. Que fazias tu? horrivel, heim?
-
-Ega, que limpava pensativamente o vidro do monoculo, hesitou, terminou
-por dizer que, considerando as coisas com superioridade, como homens do
-seu tempo e do seu mundo, ellas no offereciam nem motivos de clera,
-nem motivos de dr...
-
---Ento no comprehendes nada! gritou Carlos, no percebes o meu caso!
-
-Sim, sim, Ega comprehendia claramente que era horrivel para um homem, no
-momento em que ia ligar com adorao o seu destino ao d'uma mulher,
-saber que outros a tinham tido a tanto por noite... Mas isso mesmo
-simplificava e amenisava as coisas. O que fra um drama complicado
-tornava-se uma distraco bonanosa. Ficava Carlos, desde logo,
-alliviado do remorso de ter desorganisado uma familia: j no tinha de
-se exilar, a esconder o seu erro, n'um buraco florido da Italia; j o
-no prendia a honra para sempre a uma mulher a quem talvez no o
-prenderia para sempre o amor. Tudo isto, que diabo! eram vantagens.
-
---E a dignidade d'ella! exclamou Carlos.
-
-Sim, mas a diminuio de dignidade e pureza no era na verdade grande,
-porque antes da visita de Castro Gomes j ella era uma mulher que foge
-do seu marido--o que, sem mesmo usar termos austeros, nem muito puro
-nem muito digno... Decerto, tudo isso era uma humilhao irritante--no
-superior todavia d'um homem que tem uma _Madona_ que contempla com
-religio, suppondo-a de Raphael, e que descobre um dia que a tela divina
-foi fabricada na Bahia por um sujeito chamado Castro Gomes! Mas o
-resultado intimo e social parecia-lhe ser este: Carlos at ahi tivera
-uma bella amante com inconvenientes, e agora tinha sem inconvenientes
-uma bella amante...
-
---O que tu deves fazer, meu caro Carlos...
-
---O que eu vou fazer escrever-lhe uma carta, remettendo-lhe o preo de
-dois mezes que dormi com ella...
-
---Brutalidade romantica!... Isso j vem na _Dama das Camelias_...
-Sobretudo no vr com boa philosophia as _nuances_.
-
-O outro atalhou, impaciente:
-
---Bem, Ega, no fallemos mais n'isso... Eu estou horrivelmente
-nervoso!... At logo. Tu jantas em casa, no verdade? Bem, at logo.
-
-Sahia atirando a porta, quando Ega, agora tranquillo, disse, erguendo-se
-muito lentamente do sof:
-
---O homemzinho foi para l.
-
-Carlos voltou-se, com os olhos chammejantes:
-
---Foi para os Olivaes? Foi ter com ella?
-
-Sim, pelo menos mandra a tipoia quinta do Craft. Ega, para conhecer
-esse snr. Castro Gomes, fra metter-se no cubiculo do guarda-porto. E
-vira-o descer, accender um charuto... Era com effeito um d'esses
-_rastaquouros_ que, n'esse infeliz Paris que tudo tolera, veem ao _Caf
-de la Paix_ s duas horas para tomar a sua groseille, tesos e
-embrutecidos... E fra o guarda-porto que lhe dissera que o sujeito
-parecia muito alegre e mandra o cocheiro bater para os Olivaes...
-
-Carlos parecia aniquilado:
-
---Tudo isso nojento!... No fim talvez at se entendam ambos... Estou
-como tu dizias aqui h tempos: Cahiu-me a alma a uma latrina, preciso
-um banho por dentro!
-
-Ega murmurou melancolicamente:
-
---Essa necessidade de banhos moraes est-se tornando com effeito to
-frequente!... Devia haver na cidade um estabelecimento para elles.
-
-
-
-Carlos, no seu quarto, passeava diante da mesa onde a folha branca de
-papel, em que ia escrever a Maria Eduarda, j tinha a data d'esse dia,
-depois--_Minha senhora_, n'uma letra que elle se esforra por traar
-firme e serena:--e no achava outra palavra. Estava bem decidido a
-mandar-lhe um cheque de duzentas libras, paga esplendidamente ultrajante
-das semanas que passra no seu leito. Mas queria juntar duas linhas
-regeladas, impassiveis, que a ferissem mais que o dinheiro: no
-encontrava seno phrases de grande clera, revelando um grande amor.
-
-Olhava a folha branca: e a banal expresso _Minha senhora_ dava-lhe uma
-saudade dilacerante por aquella a quem na vespera ainda dizia _minha
-adorada_, pela mulher que se no chamava ainda Mac-Gren, que era
-perfeita, e que uma paixo indomavel, superior razo, entontecera e
-vencera. E o seu amor por essa Maria Eduarda, nobre e amante, que se
-transformra na Mac-Gren, amigada e falsa, era agora maior
-infinitamente, desesperado por ser irrealisavel--como o que se tem por
-uma morta e que palpita mais ardente junto da frialdade da cova. Oh! se
-ella pudesse resurgir outra vez, limpa, clara, do lodo em que afundra,
-outra vez Maria Eduarda, com o seu casto bordado!... De que amor mais
-delicado a cercaria, para a compensar das affeies domesticas que ella
-deixasse de merecer! Que venerao maior lhe consagraria--para supprir o
-respeito que o mundo superficial e affectado lhe retirasse! E ella tinha
-tudo para reter amor e respeito--tinha a belleza, a graa, a
-intelligencia, a alegria, a maternidade, a bondade, um incomparavel
-gosto... E com todas estas qualidades dces e fortes--era apenas uma
-intrujona!
-
-Mas porque? porque? Porque entrra ella n'esta longa fraude, tramada dia
-a dia, mentindo em tudo, desde o pudor que fingia at ao nome que usava!
-
-Apertava a cabea entre as mos, achava a vida intoleravel. Se ella
-mentia--onde havia ento a verdade? Se ella o trahia assim, com aquelles
-olhos claros, o universo podia bem ser todo uma immensa traio muda.
-Punha-se um mlho de rosas n'um vaso, exhalava-se d'elle a peste!
-Caminhava-se para uma relva fresca, ella escondia um lamaal! E para
-que, para que mentira ella? Se, desde o primeiro dia em que o vira,
-tremulo e rendido, a contemplar o seu bordado como se contempla uma
-aco de santidade--lhe tivesse dito que no era esposa do snr. Castro
-Gomes, mas s amante do snr. Castro Gomes--teria a sua paixo sido menos
-viva, menos profunda? No era a estola do padre que dava belleza ao seu
-corpo e valor s suas caricias... Para que fra ento essa mentira
-tenebrosa e descarada--que lhe fazia suppr agora que eram imposturas os
-seus mesmos beijos, imposturas os seus mesmos suspiros!... E com este
-longo embuste o levava a expatriar-se, dando a sua vida inteira por um
-corpo por que outros davam apenas um punhado de libras! E por esta
-mulher, tarifada s horas como as caleches da Companhia, elle ia
-amarguarar a velhice do av, estragar irreparavelmente o seu destino,
-cortar a sua livre aco de homem!
-
-Mas porque? Porque fra esta fara banal, arrastada por todos os palcos
-de opera comica, da _cocotte que se finge senhora_? Porque o fizera
-ella, com aquelle fallar honesto, o puro perfil e a doura de mi? Por
-interesse? No. Castro Gomes era mais rico do que elle, mais largamente
-lhe podia satisfazer o appetite mundano de toilettes, de carruagens...
-Sentia ella que Castro Gomes a ia abandonar, e queria ter ao lado aberta
-e prompta outra bolsa rica? Ento mais simples teria sido dizer-lhe: eu
-sou livre, gsto de ti, toma-me livremente, como eu me dou. No! Havia
-alli alguma coisa secreta, tortuosa, impenetravel... O que daria por a
-conhecer!
-
-E ento pouco a pouco foi surgindo n'elle o desejo de ir aos Olivaes...
-Sim, no lhe bastaria desforrar-se arrogantemente, atirando-lhe ao
-regao um cheque embrulhado n'uma insolencia! O que precisava, para sua
-plena tranquillidade, era arrancar do fundo d'aquella turva alma o
-segredo d'aquella torpe fara... S isso amansaria o seu incomparavel
-tormento. Queria entrar outra vez na _Tca_, vr como era aquella outra
-mulher que se chamava Mac-Gren, e ouvir as suas palavras. Oh! iria sem
-violencia, sem recriminaes, muito calmo, sorrindo! S para que ella
-lhe dissesse qual fra a razo d'aquella mentira to laboriosa, to
-v... S para lhe perguntar serenamente: Minha rica senhora para quer
-foi toda esta intrujice? E depois vl-a chorar... Sim, tinha esta
-anciedade cheia d'amor de a vr chorar. A agonia que elle sentira no
-salo cr de musgo do outono, emquanto o outro arrastava os _rr_, queria
-vl-a repetida n'esse seio, onde elle at ahi dormira to dcemente,
-esquecido de tudo, e que era bello, to divinamente bello!...
-
-Bruscamente, decidido, deu um puxo campainha. Baptista appareceu todo
-abotoado na sua sobrecasaca, com um ar resoluto, como armado e prompto a
-ser util n'aquella crise que adivinhava...
-
---Baptista, corre ao hotel Central e pergunta se j entrou o snr. Castro
-Gomes!... No, escuta... Pe-te porta do Central, e espera at que
-entre aquelle sujeito que aqui esteve... No, melhor perguntar!...
-Emfim, certifica-te de que o sujeito ou voltou ou est no hotel. E
-apenas estejas bem certo d'isso, volta aqui, desfilada, n'uma
-tipoia... Um batedor seguro, que para me levar depois aos Olivaes!...
-
-Immediatamente, dada esta ordem, serenou. Era j um allivio immenso no
-ter de escrever a carta, e achar palavras acerbas que a deviam
-dilacerar. Rasgou o papel devagar. Depois fez o cheque de duzentas
-libras, ao _portador_. Elle mesmo lh'o levaria... Oh, decerto, no lh'o
-atirava romanticamente ao regao... Deixal-o-hia sobre uma mesa,
-sobrescriptado a Madame Mac-Gren... E de repente sentiu uma compaixo
-por ella. Via-a j, abrindo o enveloppe com duas grandes lagrimas,
-lentas, caladas, a rolarem-lhe na face... E os seus proprios olhos se
-humedeceram.
-
-N'esse momento Ega, de fra, perguntou se era importuno.
-
---Entra! gritou.
-
-E continuou passeando, calado, com as mos nos bolsos: o outro, em
-silencio tambem, foi encostar-se janella sobre o jardim.
-
---Preciso escrever ao av a dizer-lhe que cheguei, murmurou Carlos por
-fim, parando junto da mesa.
-
---D-lhe recados meus.
-
-Carlos sentra-se, tomra languidamente a penna: mas bem depressa a
-arremessou: cruzou as mos por detraz da cabea no espaldar da cadeira,
-cerrou os olhos, como exhausto.
-
---Sabes uma coisa que me parece certa? disse de repente o Ega da
-janella. Quem escreveu a carta anonyma ao Castro Gomes foi o Damaso!
-
-Carlos olhou para elle:
-
---Achas?... Sim, talvez... Com effeito quem havia de ser?
-
---No foi mais ninguem, menino. foi o Damaso!
-
-Carlos ento recordou o que lhe contra o Taveira--as alluses
-mysteriosas do Damaso a um escandalo que se estava armando, uma bala que
-elle devia receber na cabea... O Damaso, portanto, tinha como certa a
-vinda do brazileiro, depois um duello...
-
--- necessario esmagar esse infame! exclamou Ega, subitamente furioso.
-No ha segurana, no ha paz na nossa vida emquanto esse bandido
-viver!...
-
-Carlos no respondeu. E o outro proseguia, transtornado, j todo
-pallido, deixando transbordar odios cada dia accumulados:
-
---Eu no o mato porque no tenho um pretexto!... Se tivesse um pretexto,
-uma insolencia d'elle, um olhar atrevido, era meu, esborrachava-o!...
-Mas tu precisas fazer alguma coisa, isto no pde ficar assim! No pde!
- necessario sangue... V tu que infamia, uma carta anonyma!... Temos a
-nossa paz, a nossa felicidade, tudo exposto constantemente aos ataques
-do snr. Damaso. No pde ser. Eu o que tenho pena de no ter um
-pretexto! Mas tenl-o tu, aproveita, e esmaga-o!
-
-Carlos encolheu vagamente os hombros:
-
---Merecia chicotadas, com effeito... Mas elle realmente s tem sido
-velhaco commigo por causa das minhas relaes com essa senhora; e como
-isso um caso acabado, tudo o que se prende com elle finda tambem.
-_Parce sepultis_... E no fim era elle que tinha razo, quando dizia que
-ella era uma intrujona...
-
-Atirou uma punhada mesa, ergueu-se, e com um sorriso amargo, n'um
-tedio infinito de tudo:
-
---Era elle, era o snr. Damaso Salcede que tinha razo!...
-
-Toda a sua clera revivera, mais aspera, a esta ida. Olhou o relogio.
-Tinha pressa de a vr, tinha pressa de a injuriar!...
-
---Escreveste-lhe? perguntou o Ega.
-
---No, vou l eu mesmo.
-
-Ega pareceu espantado. Depois recomeou a passear, calado, com os olhos
-no tapete.
-
-Ia escurecendo quando Baptista voltou. Vira o snr. Castro Gomes apear-se
-no hotel e mandar descer as suas bagagens:--e a tipoia, para levar o
-menino aos Olivaes, esperava em baixo.
-
---Bem, adeus! disse Carlos procurando atarantadamente um par de luvas.
-
---No jantas?
-
---No.
-
-D'ahi a pouco rodava pela estrada dos Olivaes. J se accendera o gaz. E
-inquieto, no estreito assento, accendendo nervosamente _cigarettes_ que
-no fumava, soffria j a perturbao d'aquelle encontro difficil e
-doloroso... Nem sabia mesmo como a havia de tratar, se por minha
-senhora, se por minha boa amiga, com uma superior indifferena. E ao
-mesmo tempo sentia por ella uma compaixo indefinida, que o amollecia.
-Diante d'estes seus modos regelados, via-a j toda pallida, a tremer,
-com os olhos cheios d'agua. E estas lagrimas que appetecera, agora que
-estava to perto de as vr correr, enchiam-no s de commoo e de d...
-Durante um momento mesmo pensou em retroceder. Por fim seria muito mais
-digno escrever-lhe duas linhas altivas, sacudindo-a de si para sempre e
-seccamente! Poderia no lhe mandar o cheque,--affronta brutal d'homem
-rico. Apesar d'embusteira era mulher, cheia de nervos, cheia de
-phantasia, e amra-o talvez com desinteresse... Mas uma carta era mais
-digno. E agora acudiam-lhe as palavras que lhe deveria ter dirigido,
-incisivas e precisas. Sim, devia-lhe ter dito--que se estava prompto a
-dar a sua vida a uma mulher que se lhe abandonra _por paixo_, estava
-decidido a no sacrificar nem os seus vagares a uma mulher que lhe
-cedera _por profisso_. Era mais simples, era terminante... E depois no
-a via, no teria de supportar a tortura das explicaes e das lagrimas.
-
-Ento veio-lhe uma fraqueza. Bateu nos vidros para fazer parar,
-reflectir um instante, mais calmamente, no silencio das rodas. O
-cocheiro no ouviu: o trote largo da parelha continuou batendo a estrada
-escura. E Carlos deixou seguir, outra vez hesitante. Depois, maneira
-que reconhecia, esbatidos na sombra, aquelles sitios onde tantas vezes
-passra com o corao em festa, quando a sua paixo estava em flr, uma
-clera nova voltava--menos contra a pessoa de Maria Eduarda, que contra
-essa _mentira_ que fra obra d'ella, e que vinha estragar
-irremediavelmente o encanto divino da sua vida. Era essa _mentira_ que
-agora odiava--vendo-a como uma coisa material e tangivel, de um peso
-enorme, feia e cr de ferro, esmagando-lhe o corao. Oh! Se no fosse
-_essa coisa_ pequenina e inolvidavel que estava entre elles, como um
-indestructivel bloco de granito, poderia abrir-lhe novamente os seus
-braos, seno com a mesma crena pelo menos com o mesmo ardor! Esposa do
-outro ou amante do outro--no fim que importava? No era por faltar aos
-beijos que lhe dera esse a consagrao d'um padre, rosnada em latim--que
-a sua pelle estava mais polluida por elles, ou tinha a menos frescura?
-Mas havia a _mentira_, a _mentira_ inicial, dita no primeiro dia em que
-fra rua de S. Francisco, e que como um fermento podre ficava
-estragando tudo d'ahi por diante, dces conversas, silencios, passeios,
-sestas no calor da quinta, murmurios de beijos morrendo entre os
-cortinados cr d'ouro... Tudo manchado, tudo contaminado por aquella
-_mentira_ primeira que ella dissera sorrindo, com os seus tranquillos
-olhos limpidos...
-
-Abafava. Ia a descer a vidraa que faltava a correia--quando a tipoia
-parou de repente, na estrada solitaria... Abriu a portinhola. Uma mulher
-com um chale pela cabea fallava ao cocheiro.
-
---Melanie!
-
---Ah, monsieur!
-
-Carlos saltou precipitadamente. Era j proximo da quinta, na volta
-d'estrada, onde o muro fazia um recanto sob uma faia, defronte de sebes
-de piteiras resguardando campos d'olivedo. Carlos gritou ao cocheiro que
-seguisse e esperasse no porto da quinta. E ficou alli, no escuro, com
-Melanie encolhida no seu chale.
-
-Que estava ella alli a fazer? Melanie parecia transtornada: contou que
-vinha procurar villa uma carruagem, porque a senhora queria ir a
-Lisboa, ao Ramalhete... Ella julgra a tipoia vazia.
-
-E apertava as mos, dando as graas, com um immenso allivio. Ah! que
-felicidade, que felicidade ter elle vindo!... A senhora estava afflicta,
-nem jantra, perdida de chro. O snr. Castro Gomes apparecera l
-inesperadamente... A senhora, coitadinha, queria morrer!
-
-Ento Carlos, caminhando rente ao muro, interrogou Melanie. Como viera o
-outro? que dissera? como se despedira?... Melanie no ouvira nada. O
-Snr. Castro Gomes e a senhora tinham conversado ss no pavilho japonez.
- sahida que vira o snr. Castro Gomes dizer adeus a madame, muito
-socegado, muito amavel, rindo, fallando de _Niniche_... A senhora, essa,
-parecia como morta, to pallida! Quando o outro partiu, ia tendo um
-desmaio.
-
-Estavam proximo do porto da _Toca_. Carlos retrocedeu, respirando
-fortemente, com o chapo na mo. E agora todo o seu orgulho se ia
-sumindo sob a violencia da sua anciedade. Queria saber! E perguntava,
-deixava Melanie nas coisas dolorosas da sua paixo... Dites toujours,
-Melanie, dites! Sabia a senhora que Castro Gomes estivera com elle no
-Ramalhete, lhe confessra tudo?...
-
-Claramente que sabia, por isso chorava--dizia Melanie. Ah, ella bem
-repetira senhora que era melhor contar a verdade! Era muito amiga
-d'ella, servia-a desde pequena, vira nascer a menina... E tinha-lh'o
-dito, at j nos Olivaes!
-
-Carlos curvava a cabea na escurido do muro. Melanie _tinha-lh'o dito_!
-Assim ella e a criada discutiam ambas, acamaradadas, o embuste em que
-andava presa a sua vida! E aquellas revelaes de Melanie, que suspirava
-com o chale sobre o rosto, abatiam os ultimos pedaos d'esse sonho, que
-elle erguera to alto, entre nuvens d'ouro. Nada restava. Tudo jazia em
-estilhaos, no lodo immundo.
-
-Um momento, com o corao cheio de fadiga, pensou em voltar a Lisboa.
-Mas para alm d'aquelle negro muro estava _ella_, perdida de chro,
-querendo morrer... E lentamente recomeou a caminhar para o porto.
-
-E agora, sem resistencia nenhuma do orgulho, fazia perguntas mais
-intimas a Melanie. Porque que Maria Eduarda no lhe dissera a verdade?
-
-Melanie encolheu os hombros. No sabia: nem a senhora sabia! Estivera no
-Central como madame Gomes; alugra a casa da rua de S. Francisco como
-madame Gomes; recebera-o como madame Gomes... E assim se deixra ir,
-insensivelmente, conversando com elle, gostando d'elle, vindo para os
-Olivaes... E depois era tarde, j no se atrevera a confessar, toda
-enterrada assim na _mentira_, com medo do desgosto...
-
-Mas, exclamava Carlos, nunca imaginra ella que fatalmente tudo se
-descobriria um dia?
-
---Je ne sais pas, monsieur, je ne sais pas, murmurou Melanie quasi a
-chorar.
-
-Depois eram outras curiosidades. Ella no esperava Castro Gomes? no
-suppunha que elle voltasse? no costumava fallar d'elle?...
-
---Oh non, monsieur, oh non!
-
-Madame, desde que o senhor comera a ir todos os dias rua de S.
-Francisco, considerra-se para sempre desligada do snr. Castro Gomes,
-nem fallava n'elle, nem queria que se fallasse... Antes d'isso a menina
-chamava sempre ao snr. Castro Gomes _petit ami_. Agora no lhe chamava
-nada. Tinham-lhe dito que j no havia _petit ami_...
-
---Ella escrevia-lhe ainda, dizia Carlos, eu sei que ella lhe escrevia...
-
-Sim, Melanie julgava que sim... Mas cartas indifferentes. A senhora
-levra o seu escrupulo a ponto de que, desde que viera para os Olivaes,
-nunca mais gastra um ceitil das quantias que lhe mandava o snr. Castro
-Gomes. As letras para receber dinheiro conservava-as intactas,
-entregara-lh'as n'essa tarde... No se lembrava elle de a ter encontrado
-uma manh porta do Monte-Pio? Pois bem! Fra l, com uma amiga
-franceza, empenhar uma pulseira de brilhantes da senhora. A senhora
-vivia agora das suas joias; tinha j outras no prgo.
-
-Carlos parra, commovido. Mas ento para que tinha ella mentido?
-
---Je ne sais pas, dizia Melanie, je ne sais pas... Mais elle vous aime
-bien, allez!
-
-Estavam defronte do porto. A tipoia esperava. E, ao fundo da rua
-d'acacias, a porta da casa aberta deixava passar a luz do corredor,
-frouxa e triste. Carlos julgou vr mesmo a figura de Maria Eduarda,
-embrulhada n'uma capa escura, de chapo, atravessar n'essa claridade...
-Ouvira decerto rodar a carruagem. Que afflicta paciencia seria a sua!
-
---Vai-lhe dizer que vim, Melanie, vai! murmurou Carlos.
-
-A rapariga correu. E elle, caminhando devagar sob as acacias, sentia no
-sombrio silencio as pancadas desordenandas do seu corao. Subiu os tres
-degraus de pedra--que lhe pareciam j d'uma casa estranha. Dentro, o
-corredor estava deserto, com a sua lampada mourisca alumiando as
-panoplias de touros... Alli ficou. Melanie, com o chale na mo, veio
-dizer-lhe que a senhora estava na sala das tapearias...
-
-Carlos entrou.
-
-L estava, ainda de capa, esperando de p, palida, com toda a alma
-concentrada nos olhos que refulgiam entre as lagrimas. E correu para
-elle, arrebatou-lhe as mos, sem poder fallar, soluando, tremendo toda.
-
-Na sua terrivel perturbao, Carlos achava s esta palavra,
-melancolicamente estupida:
-
---No sei porque chora, no sei, no h razo para chorar...
-
-Ella pde emfim balbuciar:
-
---Escuta-me, pelo amor de Deus! no digas nada, deixa contar-te... Eu ia
-l, tinha mandado Melanie por uma carruagem. Ia vr-te... Nunca tive a
-coragem de te dizer! Fiz mal, foi horrivel... Mas escuta, no digas nada
-ainda, perda, que eu no tenho culpa!
-
-De novo os soluos a suffocaram. E cahiu ao canto do sof, n'um chro
-brusco e nervoso, que a sacudiu toda, lhe fazia rolar sobre os hombros
-os cabellos mal atados.
-
-Carlos ficra diante d'ella, immovel. O seu corao parecia parado de
-surpreza e de duvida, sem fora para desafogar. Apenas agora sentia
-quanto baixo e brutal deixar-lhe o cheque--que tinha alli na carteira e
-que o enchia de vergonha... Ella ergueu o rosto, todo molhado, murmurou
-com um grande esforo:
-
---Escuta-me!... Nem sei como hei de dizer... Oh, so tantas coisas, so
-tantas coisas!... Tu no te vaes j embora, senta-te, escuta...
-
-Carlos puxou uma cadeira, lentamente.
-
---No, aqui ao p de mim... Para eu ter mais coragem... Por quem s, tem
-pena, faze-me isso!
-
-Elle cedeu supplicao humilde e enternecedora dos seus olhos
-arrazados d'agua: e sentou-se ao outro canto do sof, afastado d'ella,
-n'uma desconsolao infinita. Ento, muito baixo, enrouquecida pelo
-chro, sem o olhar, e como n'um confessionario--Maria comeou a fallar
-do seu passado, desmanchadamente, hesitando, balbuciando, entre grandes
-soluos que a afogavam, e pudores amargos que lhe faziam enterrar nas
-mos a face afflicta.
-
-A culpa no fra d'ella! no fra d'ella! Elle devia ter perguntado
-quelle homem que sabia toda a sua vida... Fra sua mi... Era horroroso
-dizel-o, mas fra por causa d'ella que conhecera e que fugira com o
-primeiro homem, o outro, um irlandez... E tinha vivido com elle quatro
-annos, como sua esposa, to fiel, to retirada de tudo e s occupada da
-sua casa, que elle ia casar com ella! Mas morrera na guerra com os
-allemes, na batalha de Saint-Privat. E ella ficra com Rosa, com a mi
-j doente, sem recursos, depois de vender tudo... Ao principio
-trabalhra... Em Londres tinha procurado dar lies de piano... Tudo
-falhra, dois dias vivera sem lume, de peixe salgado, vendo Rosa com
-fome! com fome! Ah, elle no podia perceber o que isto era!... Quasi
-fra por caridade que as tinha repatriado para Paris... E ahi conhecera
-Castro Gomes. Era horrivel, mas que havia d'ella fazer! Estava
-perdida...
-
-Lentamente escorregra do sof, cahira aos ps de Carlos. E elle
-permanecia immovel, mudo, com o corao rasgado por angustias
-differentes: era uma compaixo tremula por todas aquellas miserias
-soffridas, dr de mi, trabalho procurado, fome, que lh'a tornavam
-confusamente mais querida; e era o horror d'esse outro homem, o
-irlandez, que surgia agora, e que lh'a tornava de repente mais
-maculada...
-
-Ella continuava fallando de Castro Gomes. Vivera tres annos com elle,
-honestamente, sem um desvio, sem um pensamento mau. O seu desejo era
-estar quieta em casa. Elle que a forava a andar em ceias, em
-noitadas...
-
-E Carlos no podia ouvir mais, torturado. Repeliu-lhe as mos, que
-procuravam as suas. Queria fugir, queria findar!...
-
---Oh no, no me mandes embora! gritou ella prendendo-se a elle
-anciosamente. Eu sei que no mereo nada! Sou uma desgraada... Mas no
-tive coragem, meu amor! Tu s homem, no comprehendes estas coisas...
-Olha para mim! porque no olhas para mim? Um instante s, no voltes o
-rosto, tem pena de mim...
-
-No! elle no queria olhar. Temia aquellas lagrimas, o rosto cheio
-d'agonia. Ao calor do seio que arquejava sobre os seus joelhos, j tudo
-n'elle comeava a oscillar, orgulhos, despeitos, dignidade, ciume... E
-ento, sem saber, a seu pezar, as suas mos apertaram as d'ella. Ella
-cobriu-lhe logo de beijos os dedos, as mangas, arrebatadamente: e
-anciosa implorava do fundo da sua miseria um instante de misericordia.
-
---Oh, dize que me perdas! Tu s to bom! Uma palavra s... Dize s que
-no me odeias, e depois deixo-te ir... Mas dize primeiro... Olha ao
-menos para mim como d'antes, uma s vez!...
-
-E eram agora os seus labios que procuravam os d'elle. Ento a fraqueza
-em que sentia afundar-se todo o seu sr encheu Carlos de clera, contra
-si e contra ella. Sacudiu-a brutalmente, gritou:
-
---Mas porque no me disseste, porque no me disseste? Para que foi essa
-longa mentira? Eu tinha-te amado do mesmo modo! Para que mentiste, tu?
-
-Largra-a, prostrada no cho. E de p, deixava cahir sobre ella a sua
-queixa desesperada:
-
--- a tua mentira que nos separa, a tua horrivel mentira, a tua mentira
-smente!
-
-Ella ergueu-se pouco a pouco, mal se sustendo, e com uma pallidez de
-desmaio.
-
---Mas eu queria dizer-t'o, murmurou muito baixo, muito quebrado diante
-d'elle, deixando cahir os braos. Eu queria dizer-t'o... No te lembras,
-n'aquelle dia em que vieste tarde, quando eu fallei da casa de campo, e
-que tu pela primeira vez declaraste que gostavas de mim? Eu disse-te
-logo: ha uma coisa que te quero contar... Tu nem me deixaste acabar.
-Imaginavas o que era, que eu queria ser s tua, longe de tudo... E
-disseste ento que haviamos d'ir, com Rosa, ser felizes para algum canto
-do mundo... No te lembras?... Foi ento que me veio uma tentao! Era
-no dizer nada, deixar-me levar, e depois, mais tarde, annos depois,
-quando te tivesse provado bem que boa mulher eu era, digna da tua
-estima, confessar-te tudo e dizer-te: agora, se queres, manda-me
-embora. Oh! foi mal feito, bem sei... Mas foi uma tentao, no
-resisti... Se tu no fallasses em fugirmos, tinha-te dito tudo... Mas
-mal fallaste em fugirmos, vi uma outra vida, uma grande esperana, nem
-sei que! E alm d'isso adiava aquella horrivel confisso! Emfim, nem
-posso explicar, era como o co que se abria, via-me comtigo n'uma casa
-nossa... Foi uma tentao!... E depois era horrivel, no momento em que
-tu me querias tanto, ir dizer-te no faas tudo isso por mim, olha que
-eu sou uma desgraada, nem marido tenho... Que te hei de explicar mais?
-No me resignava a perder o teu respeito. Era to bom ser assim
-estimada... Emfim foi um mal, foi um grande mal... E agora ahi est,
-vejo-me perdida, tudo acabou!
-
-Atirou-se para o cho, como uma creatura vencida e finda, escondendo a
-face no sof. E Carlos, indo lentamente ao fundo da sala, voltando
-bruscamente at junto d'ella, tinha s a mesma recriminao, a
-_mentira_, a _mentira_, pertinaz e de cada dia... S os soluos d'ella
-lhe respondiam.
-
---Porque no me disseste ao menos depois, aqui nos Olivaes, quando
-sabias que tu eras tudo para mim?...
-
-Ella ergueu a cabea fatigada:
-
---Que queres tu? Tive medo que o teu amor mudasse, que fosse d'outro
-modo... Via-te j a tratar-me sem respeito. Via-te a entrar por ahi
-dentro de chapo na cabea, a perder a affeio pequena, a querer
-pagar as despezas da casa... Depois tinha remorsos, ia adiando. Dizia
-hoje no, um dia s mais de felicidade, manh ser... E assim ia
-indo! Emfim, nem eu sei, um horror!
-
-Houve um silencio. E ento Carlos sentiu porta _Niniche_ que queria
-entrar e que gania baixinho e doloridamente. Abriu. A cadellinha correu,
-pulou para o sof, onde Maria permanecia soluando, enrodilhando a um
-canto: procurava lamber-lhe as mos, inquieta: depois ficou plantada
-junto d'ella, como a guarda-l'a, desconfiada, seguindo, com os seus
-vivos olhos d'azeviche, Carlos que recomera a passear sombriamente.
-
-Um ai mais longo e mais triste de Maria fel-o parar. Esteve um momento
-olhando para aquella dr humilhada... Todo abalado, com os labios a
-tremer, murmurou:
-
---Mesmo que te pudesse perdoar, como te poderia acreditar agora nunca
-mais? Ha esta mentira horrivel sempre entre ns a separar-nos! No teria
-um unico dia de confiana e de paz...
-
---Nunca te menti seno n'uma coisa, e por amor de ti! disse ella
-gravemente do fundo da sua prostrao.
-
---No, mentiste em tudo! Tudo era falso, falso o teu casamento, falso o
-teu nome, falsa a tua vida toda... Nunca mais te poderia acreditar...
-Como havia de ser, se agora mesmo quasi que nem acredito no motivo das
-tuas lagrimas?
-
-Uma indignao ergueu-a, direita e soberba. Os seus olhos de repente
-seccos rebrilharam, revoltados e largos, no marmore da sua pallidez.
-
---Que queres tu dizer? Que estas lagrimas tem outro motivo, estas
-supplicas so fingidas? Que finjo tudo para te reter, para no te
-perder, ter outro homem, agora que estou abandonada?...
-
-Elle balbuciou:
-
---No, no! No isso!
-
---E eu? exclamou ella, caminhando para elle, dominando-o, magnifica e
-com um esplendor de verdade na face. E eu? porque hei de eu acreditar
-n'essa grande paixo que me juravas? O que que tu amavas ento em mim?
-Dize l! Era a mulher d'outro, o nome, o requinte do adulterio, as
-_toilletes_?... Ou era eu propria, o meu corpo, a minha alma e o meu
-amor por ti?... Eu sou a mesma, olha bem para mim!... Estes braos so
-os mesmos, este peito o mesmo... S uma coisa differente: a minha
-paixo! Essa maior, desgraadamente, infinitamente maior.
-
---Oh! se isso fosse verdade! gritou Carlos, apertando as mos.
-
-N'um instante Maria estava cahida a seus ps, com os braos abertos para
-elle.
-
---Juro-t'o por alma de minha filha, por alma de Rosa! Amo-te, adoro-te
-doidamente, absurdamente, at morte!
-
-Carlos tremia. Todo o seu sr pendia para ella; e era um impulso
-irresistivel de se deixar cahir sobre aquelle seio que arfava a seus
-ps, ainda que elle fosse o abysmo da sua vida inteira... Mas outra vez
-a idia da _mentira_ passou, regeladora. E afastou-se d'ella, levando os
-punhos cabea, n'um desespero, revoltado contra aquella coisa
-pequenina e indestructivel que no queria sumir-se, e que se interpunha
-como uma barra de ferro entre elle e a sua felicidade divina!
-
-Ella ficra ajoelhada, immovel, com os olhos esgazeados para o tapete.
-Depois, no silencio estofado da sala, a sua voz ergueu-se dolente e
-tremula:
-
---Tens razo, acabou-se! Tu no me acreditas, tudo se acabou!...
-melhor que te vs embora... Ninguem me torna a acreditar... Acabou tudo
-para mim, no tenho ninguem mais no mundo... manh sio d'aqui,
-deixo-te tudo... Has de me dar tempo para arranjar... Depois, que hei de
-fazer, vou-me embora!
-
-E no pde mais, tombou para o cho, com os braos estirados, perdida de
-chro.
-
-Carlos voltou-se, ferido no corao. Com o seu vestido escuro, para alli
-cahida e abandonada, parecia j uma pobre creatura, arremessada para
-fra de todo o lar, ssinha a um canto, entre a inclemencia do mundo...
-Ento respeitos humanos, orgulho, dignidade humana, tudo n'elle foi
-levado como por um grande vento de piedade. Viu s, offuscando todas as
-fragilidades, a sua belleza, a sua dr, a sua alma sublimemente amante.
-Um delirio generoso, de grandiosa bondade, misturou-se sua paixo. E,
-debruando-se, disse-lhe baixo, com os braos abertos:
-
---Maria, queres casar commigo?
-
-Ella ergueu a cabea, sem comprehender, com os olhos desvairados. Mas
-Carlos tinha os braos abertos; e estava esperando para a fechar dentro
-d'elles outra vez, como sua e para sempre... Ento levantou-se,
-tropeando nos vestidos, veio cahir sobre o peito d'elle, cobrindo-o de
-beijos, entre soluos e risos, tonta, n'um deslumbramento:
-
---Casar comtigo, comtigo? Oh Carlos... E viver sempre, sempre
-comtigo?... Oh meu amor, meu amor! E tratar de ti, e servir-te, e
-adorar-te, e ser s tua? E a pobre Rosa tambem... No, no cases
-commigo, no possivel, no valho nada! Mas se tu queres, porque
-no?... Vamos para longe, juntos, e Rosa e eu sobre o teu corao! E has
-de ser nosso amigo, meu e d'ella, que no temos ninguem no mundo... Oh!
-meu Deus, meu Deus!...
-
-Empallideceu, escorregando pesadamente entre os braos d'elle,
-desmaiada: e os seus longos cabellos desprendido rojavam o cho, tocados
-pela luz de tons d'ouro.
-
-
-
-
-V
-
-
-Maria Eduarda e Carlos, que ficra essa noite nos Olivaes na sua
-casinhola, acabavam de almoar. O Domingos servira o caf, e antes de
-sahir deixra ao lado de Carlos a caixa de cigarettes e o _Figaro_. As
-duas janellas estavam abertas. Nem uma folha se movia no ar pesado da
-manh encoberta, entristecida ainda por um dobre lento de sinos que
-morria ao longe nos campos. No banco de cortia, sob as arvores, miss
-Sarah costurava preguiosamente; Rosa ao lado brincava na relva. E
-Carlos, que viera n'uma intimidade conjugal, com uma simples camisa de
-sda e um jaqueto de flanella, chegou ento a cadeira para junto de
-Maria, tomou-lhe a mo, brincando-lhe com os anneis, n'uma lenta
-caricia:
-
---Vamos a saber, meu amor... Decidiste, por fim? Quando queres partir?
-
-N'essa noite, entre os seus primeiros beijos de noiva, ella mostrra o
-desejo enternecido de no alterar o plano da Italia e d'um ninho
-romantico entre as flres d'Isola-bella: smente agora no iam esconder
-a inquietao d'uma felicidade culpada, mas gozar o repouso d'uma
-felicidade legitima. E, depois de todas as incertezas e tormentos que o
-tinham agitado desde o dia em que cruzra Maria Eduarda no Aterro,
-Carlos anhelava tambem pelo momento de se installar emfim no conforto
-d'um amor sem duvidas e sem sobresaltos:
-
---Eu por mim abalava manh. Estou sfrego de paz. Estou at sfrego de
-preguia... Mas tu, dize, quando queres?
-
-Maria no respondeu; apenas o seu olhar sorriu, reconhecido e
-apaixonado. Depois, sem retirar a mo que a longa caricia de Carlos
-ainda prendia, chamou Rosa atravs da janella.
-
---Mam, espera, j vou! Passa-me umas migalhas... Andam aqui uns pardaes
-que ainda no almoaram...
-
---No, vem c.
-
-Quando ella appareceu porta, toda de branco, crada, com uma das
-ultimas rosas de vero mettida no cinto--Maria quil-a mais perto, entre
-elles, encostada aos seus joelhos. E, arranjando-lhe a fita solta do
-cabello, perguntou, muito sria, muito commovida, se ella gostaria que
-Carlos viesse viver com ellas de todo e ficar alli na _Toca_... Os olhos
-da pequena encheram-se de surpreza e de riso:
-
---O qu! estar sempre, sempre aqui, mesmo de noite, toda a noite?... E
-ter aqui as suas malas, as suas coisas?...
-
-Ambos murmuraram--sim.
-
-Rosa ento pulou, bateu as palmas, radiante, querendo que Carlos fosse
-j, j, buscar as suas malas e as suas coisas...
-
---Escuta, disse-lhe ainda Maria gravemente, retendo-a sobre os joelhos.
-E gostavas que elle fosse como o pap, e que andasse sempre comnosco, e
-que lhe obedecessemos ambas, e que gostassemos muito d'elle ?
-
-Rosa ergueu para a me uma facesinha compenetrada, onde todo o sorriso
-se apagra.
-
---Mas eu no posso gostar mais d'elle do que gsto!...
-
-Ambos a beijaram, n'um enternecimento que lhes humedecia os olhos. E
-Maria Eduarda, pela primeira vez diante de Rosa debruando-se sobre
-ella, beijou de leve a testa de Carlos. A pequena ficou pasmada para o
-seu amigo, depois para a mi. E pareceu comprehender tudo; escorregou
-dos joelhos de Maria, veio encostar-se a Carlos com uma meiguice
-humilde:
-
---Queres que te chame pap, s a ti?
-
---S a mim, disse elle, fechando-a toda nos braos.
-
-E assim obtiveram o consentimento de Rosa--que fugiu, atirando a porta,
-com as mos cheias de bolos para os pardaes.
-
-Carlos levantou-se, tomou a cabea de Maria entre as mos, e
-contemplando-a profundamente, at alma, murmurou n'um enlevo:
-
---s perfeita!
-
-Ella desprendeu-se, com melancolia, d'aquella adorao que a perturbava.
-
---Escuta... Tenho ainda muito, muito que te dizer, infelizmente. Vamos
-para o nosso kiosque... Tu no tens nada que fazer, no? E que tenhas,
-hoje s meu... Vou j ter comtigo. Leva as tuas cigarettes.
-
-Nos degraus do jardim, Carlos parou a olhar, a sentir a doura velada do
-co cinzento... E a vida pareceu-lhe adoravel, d'uma poesia fina e
-triste,assim envolta n'aquella nevoa macia onde nada resplandecia e nada
-cantava, e que to favoravel era para que dois coraes, desinteressados
-do mundo e em desharmonia com elle, se abandonassem juntos ao contnuo
-encanto de estremecerem juntos na mudez e na sombra.
-
---Vamos ter chuva, tio Andr, disse elle, passando junto do velho
-jardineiro que aparava o buxo.
-
-O tio Andr, atarantado, arrancou o chapo. Ah! uma gota d'agua era bem
-necessaria, depois da estiagem! O torrosinho j estava com sde! E em
-casa todos bons? A senhora? A menina?
-
---Tudo bom, tio Andr, obrigado.
-
-E no seu desejo de vr todos em torno de si felizes como elle e como a
-terra sequiosa que ia ser consolada--Carlos metteu uma libra na mo do
-tio Andr, que ficou deslumbrado, sem ousar fechar os dedos sobre aquelle
-ouro extraordinario que reluziu.
-
-Quando Maria entrou no kiosque trazia um cofre de sandalo. Atirou-o para
-o divan: fez sentar Carlos ao lado, bem confortavel, entre almofadas:
-accendeu-lhe uma cigarrete. Depois agachou-se aos seus ps, sobre o
-tapete, como na humildade de uma confisso.
-
---Ests bem assim? Queres que o Domingos te traga agua e cognac?... No?
-Ento ouve agora, quero-te contar tudo...
-
-Era toda a sua existencia que ella desejava contar. Pensra mesmo em
-lh'a escrever n'uma carta interminavel, como nos romances. Mas decidira
-antes tagarellar alli uma manh inteira, aninhada aos seus ps.
-
---Ests bem, no ests?
-
-Carlos esperava, commovido. Sabia que aquelles labios amados iam fazer
-revelaes pungentes para o seu corao--e amargas para o seu orgulho.
-Mas a confidencia da sua vida completava a posse da sua pessoa: quando a
-conhecesse toda no seu passado sentil-a-hia mais sua inteiramente. E no
-fundo tinha uma curiosidade insaciavel d'essas coisas que o deviam
-pungir e que o deviam humilhar.
-
---Sim, conta... Depois esquecemos tudo e para sempre. Mas agora dize,
-conta... Onde nasceste tu por fim?
-
-Nascera em Vienna: mas pouco se recordava dos tempos de criana, quasi
-nada sabia do pap, a no ser a sua grande nobreza e a sua grande
-belleza. Tivera uma irmsinha que morrera de dois annos e que se chamava
-Heloisa. A mam, mais tarde, quando ella era j rapariga, no tolerava
-que lhe perguntassem pelo passado; e dizia sempre que remexer a memoria
-das coisas antigas prejudicava tanto como sacudir uma garrafa de vinho
-velho... De Vienna apenas recordava confusamente largos passeios
-d'arvores, militares vestidos de branco, e uma casa espelhada e dourada
-onde se danava: s vezes durante tempos ella ficava l s com o av, um
-velhinho triste e timido, mettido pelos cantos, que lhe contara
-historias de navios. Depois tinham ido a Inglaterra: mas lembrava-se
-smente de ter atravessado um grande rumor de ruas, n'um dia de chuva,
-embrulhada em pelles, sobre os joelhos d'um escudeiro. As suas primeiras
-memorias mais nitidas datavam de Paris; a mam, j viuva, andava de luto
-pelo av; e ella tinha uma aia italiana que a levava todas as manhs,
-com um arco e com uma plla, brincar aos Campos Elyseos. A noite
-costumava vr a mam decotada, n'um quarto cheio de setins e de luzes; e
-um homem louro, um pouco brusco, que fumava sempre estirado pelos sofs,
-trazia-lhe de vez em quando uma boneca, e chamava-lhe mademoiselle
-_Triste-c[oe]ur_ por causa do seu arzinho sisudo. Emfim a mam mettera-a
-n'um convento ao p de Tours--porque n'essa idade, apesar de cantar j
-ao piano as walsas da _Belle Helne_, ainda no sabia soletrar. Fra nos
-jardins do convento, onde havia lindos lilazes, que a mam se separra
-d'ella n'uma paixo de lagrimas; e ao lado esperava, para a consolar
-decerto, um sujeito muito grave, de bigodes encerados, a quem a Madre
-Superiora fallara com venerao.
-
-A mam ao principio vinha vl-a todos os mezes, demorando-se em Tours
-dois, tres dias; trazia-lhe uma profuso de presentes, bonecas, bonbons,
-lenos bordados, vestidos ricos, que lhe no permittia usar a regra
-severa do convento. Davam ento passeios de carruagem pelos arredores de
-Tours: e havia sempre officiaes a cavallo, que escoltavam a caleche--e
-tratavam a mam por _tu_. No convento as mestras, a Madre Superiora no
-gostavam d'estas sahidas--nem mesmo que a mam viesse acordar os
-corredores devotos com as suas risadas e o ruido das suas sdas; ao
-mesmo tempo pareciam temel-a; chamavam-lhe _Madame la Comtesse_. A mam
-era muito amiga do general que commandava em Tours, e visitava o bispo.
-Monsenhor, quando vinha ao convento, fazia-lhe uma festinha especial na
-face e alludia risonhamente a _son excellente mre_. Depois a mam
-comeou a apparecer menos em Tours. Esteve um anno longe, quasi sem
-escrever, viajando na Allemanha; voltou um dia, magra e coberta de luto,
-e ficou toda a manh abraada a ella a chorar.
-
-Mas na visita seguinte vinha mais moa, mais brilhante, mais ligeira,
-com dois grandes galgos brancos, annunciando uma romagem poetica Terra
-Santa e a todo o remoto Oriente. Ella tinha ento quasi dezeseis annos:
-pela sua applicao, os seus modos dces e graves, ganhra a affeio da
-Madre Superiora--que s vezes, olhando-a com tristeza, acariciando-lhe o
-cabello cahido em duas tranas segundo a regra, lhe mostrava o desejo de
-a conservar sempre ao seu lado. _Le monde_, dizia ella, _ne vous sera
-bon rien, mon enfant!_... Um dia, porm, appareceu para a levar para
-Paris, para a mam, uma Madame de Chavigny, fidalga pobre, de caracoes
-brancos, que era como uma estampa de severidade e de virtude.
-
-O que ella chorra ao deixar o convento! Mais choraria se soubesse o que
-ia encontrar em Paris!
-
-A casa da mam, no Parc Monceaux, era na realidade uma casa de jogo--mas
-recoberta de um luxo srio e fino. Os escudeiros tinham meias de sda;
-os convidados, com grandes nomes no Nobiliario de Frana, conversavam de
-corridas, das Tulherias, dos discursos do Senado; e as mesas de jogo
-armavam-se depois como uma distraco mais picante. Ella recolhia sempre
-ao seu quarto s dez horas: Madame de Chavigny, que ficra como sua dama
-de companhia, ia com ella cedo ao Bois n'um coup estufo de
-_douairire_. Pouco a pouco, porm, este grande verniz comeou a
-estalar. A pobre mam cahira sob o jugo d'um Mr. de Trevernnes, homem
-perigoso pela sua seduco pessoal e por uma desoladora falta de honra e
-de senso. A casa descahiu rapidamente n'uma bohemia mal dourada e
-ruidosa. Quando ella madrugava, com os seus habitos saudaveis do
-convento, encontrava paletots d'homens por cima dos sofs: no marmore
-das consoles restavam pontas de charuto entre nodoas de champagne; e
-n'algum quarto mais retirado ainda tinia o dinheiro d'um _baccarat_
-talhado claridade do sol. Depois uma noite, estando deitada, sentira
-de repente gritos, uma debandada brusca na escada; veio encontrar a mam
-estirada no tapete, desmaiada; ella dissera-lhe apenas mais tarde,
-alagada em lagrimas, que tinha havido uma desgraa...
-
-Mudaram ento para um terceiro andar da Chausse-d'Antin. Ahi comeou a
-apparecer uma gente desconhecida e suspeita. Eram Valachos de grandes
-bigodes, Peruanos com diamantes falsos, e condes romanos que escondiam
-para dentro das mangas os punhos enxovalhados... Por vezes entre esta
-malta vinha algum _gentleman_--que no tirava o paletot, como n'um
-caf-concerto. Um d'esses foi um irlandez, muito moo, Mac-Gren...
-Madame de Champigny deixra-as desde que faltra o coup severo,
-acolchoado de setim; e ella, s com a mi, insensivelmente, fatalmente,
-fra-se misturando a essa vida tresnoitada de grogs e de _baccarat_.
-
-A mam chamava a Mac-Gren o bb. Era com effeito uma criana
-estouvada e feliz. Namorra-se d'ella logo com o ardor, a effuso, o
-impeto d'um irlandez; e prometteu-lhe fazel-a sua esposa apenas se
-emancipasse--porque Mac-Gren, menor ainda, vivia sobretudo das
-liberalidades de uma av excentrica e rica que o adorava, e que habitava
-a Provena n'uma vasta quinta onde tinha feras em jaulas... E no entanto
-induzia-a sem cessar a fugir com elle, desesperado de a vr entre
-aquelles Valachos que cheiravam a genebra. O seu desejo era leval-a para
-Fontainebleau, para um _cottage_ com trepadeiras de que fallava sempre,
-e esperar ahi tranquillamente a maioridade que lhe traria duas mil
-libras de renda. Decerto, era uma situao falsa: mas preferivel a
-permanecer n'aquelle meio depravado e brutal onde ella a cada instante
-crava... A esse tempo a mam parcela ir perdendo todo o senso,
-desarranjada de nervos, quasi irresponsavel. As difficuldades crescentes
-estonteavam-n'a; brigava com as criadas; bebia champagne _pour
-s'tourdir_. Para satisfazer as exigencias de Mr. de Trevernnes
-empenhra as suas joias, e quasi todos os dias chorava com ciumes
-d'elle. Por fim houve uma penhora: uma noite tiveram d'enfardelar
-pressa roupa n'um sacco, e ir dormir a um hotel. E, peor, peor que tudo!
-Mr. de Trevernnes comeava a olhar para ella d'um modo que a
-assustava...
-
---Minha pobre Maria! murmurou Carlos, pallido, agarrando-lhe as mos.
-
-Ella permaneceu um momento suffocada, com o rosto cahido nos joelhos
-d'elle. Depois limpando as lagrimas que a ennevoavam:
-
---Ahi esto as cartas de Mac-Gren, n'esse cofre... Tenho-as guardado
-sempre para me justificar a mim mesma, se me possivel... Pede-me em
-todas que v para Fontainebleau; chama-me sua esposa; jura que apenas
-juntos iremos ajoelhar-nos diante da av, obter a sua indulgencia... Mil
-promessas! E era sincero... Que queres que te diga? A mam uma manh
-partiu com uma sucia para Baden. Fiquei em Paris s, n'um hotel... Tinha
-um palpite, um terror que Trevernnes apparecia... E eu s! Estava to
-transtornada que pensei em comprar um rewolver... Mas quem veio foi
-Mac-Gren.
-
-E partira com elle, sem precipitao, como sua esposa, levando todas as
-suas malas. A mam de volta de Baden correu a Fontainebleau, desvairada
-e tragica, amaldioando Mac-Gren, ameaando-o com a priso de Mazas,
-querendo esbofeteal-o; depois rompeu a chorar. Mac-Gren, como um bb,
-agarrou-se a ella aos beijos, chorando tambem. A mam terminou por os
-apertar a ambos contra o corao, j rendida, perdoando tudo,
-chamando-lhes filhos da sua alma. Passou o dia em Fontainebleau,
-radiante, contando a patuscada de Baden, j com o plano de vir
-installar-se no _cottage_, viver junto d'elles n'uma felicidade calma e
-nobre de avsinha... Era em maio; Mac-Gren, noite, deitou um fogo
-preso no jardim.
-
-Comeou um anno quieto e facil. O seu unico desejo era que a mam
-vivesse com elles socegadamente. Diante das suas supplicas ella ficava
-pensativa, dizia: Tens razo, veremos! Depois remergulhava no
-torvelinho de Paris, d'onde resurgia uma manh, n'um _fiacre_,
-estremunhada e afflicta, com uma rica pellia sobre uma velha saia, a
-pedir-lhe cem francos... Por fim nascera Rosa. Toda a sua anciedade
-desde ento fra legitimar a sua unio. Mas Mac-Gren adiava,
-levianamente, com um medo pueril da av. Era um perfeito bb!
-Entretinha as manhs a caar passaros com visco! E ao mesmo tempo
-terrivelmente teimoso: ella pouco a pouco perdera-lhe todo o respeito.
-No comeo da primavera a mam um dia appareceu em Fontainebleau com as
-suas malas, succumbida, enojada da vida. Rompera emfim com Trevernnes.
-Mas quasi immediatamente se consolou: e comeou d'ahi a adorar Mac-Gren
-com uma to larga effuso de caricias, e achando-o to lindo, que era s
-vezes embaraadora. Os dois passavam o dia, com copinhos de cognac,
-jogando o _bezigue_.
-
-De repente rebentou a guerra com a Prussia. Mac-Gren enthusiasmado, e
-apesar das supplicas d'ellas, corrra a alistar-se no batalho de Zuavos
-de Charette; a av de resto approvra este rasgo d'amor pela Frana, e
-fizera-lhe n'uma carta em verso, em que celebrava Jeanne d'Arc, uma
-larga remessa de dinheiro. Por esse tempo Rosa teve o garrotilho. Ella,
-sem lhe largar o leito, mal attendia s noticias da guerra. Sabia apenas
-confusamente das primeiras batalhas perdidas na fronteira. Uma manh a
-mam rompeu-lhe no quarto, estonteada, em camisa: o exercito capitulra
-em Sdan, o imperador estava prisioneiro! o fim de tudo, o fim de
-tudo! dizia a mam espavorida. Ella veio a Paris procurar noticias de
-Mac-Gren: na rua Royale teve de se refugiar n'um porto, diante do
-tumulto d'um povo em delirio, acclamando, cantando a Marselheza, em
-torno de uma caleche onde ia um homem, pallido como cera, com um
-cache-nez escarlate ao pescoo. E um sujeito ao lado, aterrado,
-disse-lhe que o povo fra buscar Rochefort priso e que estava,
-proclamada a Republica.
-
-Nada soubera de Mac-Gren. Comearam ento dias d'infinito sobresalto.
-Felizmente Rosa convalescia. Mas a pobre mam causava d, envelhecida de
-repente, sombria, prostrada n'uma cadeira, murmurando apenas: o fim
-de tudo, o fim de tudo! E parecia na verdade o fim da Frana. Cada
-dia uma batalha perdida; regimentos presos, apinhados em wagons de gado,
-internados a todo o vapor para os presidios d'Allemanha; os prussianos
-marchando sobre Paris... No podiam permanecer em Fontainebleau; o duro
-inverno comeava; e com o que venderam pressa, com o dinheiro que
-Mac-Gren deixra, partiram para Londres.
-
-Fra uma exigencia da mam. E em Londres ella, desorientada na enorme e
-estranha cidade, doente tambem, deixra-se levar pelas tontas idas da
-me. Tomaram uma casa mobilada, muito cara, nos bairros de luxo, ao p
-de Mayfair. A mam fallava em organisar alli o centro de resistencia dos
-bonapartistas refugiados; no fundo, a desgraada pensava em crear uma
-casa de jogo em Londres. Mas ai! eram outros tempos... Os imperialistas,
-sem imperio, no jogavam j o _baccarat_. E ellas em breve, sem
-rendimentos, gastando sempre, tinham-se achado com aquella dispendiosa
-casa, tres criados, contas colossaes e uma nota de cinco libras no fundo
-d'uma gaveta. E Mac-Gren mettido dentro de Paris, com meio milho de
-prussianos em redor. Foi necessario vender todas as joias, vestidos, at
-as pellias. Alugaram ento, no bairro pobre de Soho, tres quartos mal
-mobilados. Era o _lodging_ de Londres em toda a sua suja, solitaria
-tristeza; uma criadita unica, enfarruscada como um trapo; alguns carves
-humidos fumegando mal na chamin; e para jantar um pouco de carneiro
-frio e cerveja da esquina. Por fim faltra mesmo o escasso shilling para
-pagar o _lodging_. A mam no sahia do catre, doente, succumbida,
-chorando. Ella s vezes ao anoitecer, escondida n'um water-proof, levava
-ao _prgo_ embrulhos de roupa (at roupa branca, at camisas!) para que
-ao menos no faltasse a Rosa a sua chicara de leite. As cartas que a
-mam escrevia a alguns antigos companheiros de ceias na _Maison d'Or_
-ficavam sem resposta: outras traziam, embrulhada n'um bocado de papel,
-alguma meia-libra que tinha o pavoroso sabor d'uma esmola. Uma noite, um
-sabbado de grande nevoeiro, indo empenhar um chambre de rendas da mam,
-perdera-se, errra na vasta Londres n'uma treva amarellada, a tiritar de
-frio, quasi com fome, perseguida por dois brutos que empestavam a
-alcool. Para lhes fugir atirou-se para dentro d'um _cab_ que a levou a
-casa. Mas no tinha um penny para pagar ao cocheiro; e a patra roncava
-no seu cacifro, bebeda. O homem resmungou; ella, succumbida, alli mesmo
-na porta rompeu a chorar. Ento o cocheiro desceu da almofada,
-commovido, offereceu-se para a levar de graa ao _prgo_, onde
-ajustariam as suas contas. Foi; o pobre homem s aceitou um _schilling_;
-at mesmo suppondo-a franceza grunhiu blasphemias contra os prussianos,
-e teimou em lhe offerecer uma bebida.
-
-Ella no emtanto procurava uma occupao qualquer costura, bordados,
-traduces, cpias de manuscriptos... No achava nada. N'aquelle duro
-inverno o trabalho escasseava em Londres; surgira uma multido de
-francezes, pobres como ella, luctando pelo po... A mam no cessava de
-chorar; e havia alguma coisa mais terrivel que as suas lagrimas--eram as
-suas alluses constantes facilidade de se ter em Londres dinheiro,
-conforto e luxo, quando se nova e se bonita...
-
---Que te parece esta vida, meu amor? exclamou ella, apertando as mos
-amargamente.
-
-Carlos beijou-a em silencio, com os olhos humedecidos.
-
---Emfim tudo passou, continuou Maria Eduarda. Fez-se a paz, o crco
-acabou. Paris estava de novo aberto... Smente a difficuldade era
-voltar.
-
---Como voltaste?
-
-Um dia por acaso, em Regent-Street, encontrra um amigo de Mac-Gren,
-outro irlandez, que muitas vezes jantra com elles em Fontainebleau.
-Veio vl-as a Soho; diante d'aquella miseria, do bule de ch aguado, dos
-ossos de carneiro requentando sobre tres brazas mortas, comeou, como
-bom irlandez, por accusar o governo d'Inglaterra e jurar uma desforra de
-sangue. Depois offereceu, com os beios j a tremer, toda a sua
-dedicao. O pobre rapaz batia tambem o lagedo n'uma lucta tormentosa
-pela vida. Mas era irlandez; e partiu logo generosamente, armado de
-todos os seus ardis, a conquistar atravs de Londres o pouco que ellas
-necessitavam para recolher a Frana. Com effeito appareceu n'essa mesma
-noite, derreado e triumphante, brandindo tres notas de banco e uma
-garrafa de _champagne_. A mam ao vr, depois de tantos mezes de ch
-preto, a garrafa de _Clicquot_ encarapuada de ouro--quasi desmaiou, de
-enternecimento. Enfardelaram os trapos. Ao partirem, na estao de
-_Charing-Cross_, o irlandez levou-a para um canto, e engasgado, torcendo
-os bigodes, disse-lhe que Mac-Gren tinha morrido na batalha de
-Saint-Privat...
-
---Para que te hei de eu contar o resto? Em Paris recomecei a procurar
-trabalho. Mas tudo estava ainda em confuso... Quasi immediatamente veio
-a Communa... Pdes acreditar que muitas vezes tivemos fome. Mas emfim j
-no era Londres, nem o inverno, nem o exilio. Estavamos em Paris,
-soffriamos de companhia com amigos d'outros tempos. J no parecia to
-terrivel... Com todas estas privaes a pobre Rosa comeava a
-definhar... Era um supplicio vl-a perder as cres, tristinha, mal
-vestida, mettida n'uma trapeira... A mam j se queixava da doena de
-corao que a matou... O trabalho que eu encontrava, mal pago, dava-nos
-apenas para a renda da casa, e para no morrer absolutamente de
-necessidade... Principiei a adoecer de anciedade, de desespero. Luctei
-ainda. A mam fazia d. E Rosa morria se no tivesse outro regimen, bom
-ar, algum conforto... Conheci ento Castro Gomes em casa d'uma antiga
-amiga da mam, que no perdera nada com a guerra, nem com os prussianos,
-e que me dava trabalhos de costura... E o resto sbel-o... Nem eu me
-lembro... Fui levada... Via s vezes Rosa, coitadinha, embrulhada n'um
-chale, muito quietinha ao seu canto, depois de rapada a sua magra tigela
-de sopas, e ainda com fome...
-
-No pde continuar; rompeu a chorar, cahida sobre os joelhos de Carlos.
-E elle na sua emoo s lhe podia dizer, passando-lhe as mos tremulas
-pelos cabellos, que a havia de desforrar bem de todas as miserias
-passadas...
-
---Escuta ainda, murmurou ella, limpando as lagrimas. Ha s uma coisa
-mais que te quero dizer. E a santa verdade, juro-te pela alma de Rosa!
- que n'estas duas relaes que tive o meu corao conservou-se
-adormecido... Dormiu sempre, sempre, sem sentir nada, sem desejar nada,
-at que te vi... E ainda te quero dizer outra coisa...
-
-Um momento hesitou, coberta de rubor. Passra os braos em torno de
-Carlos, pendurada toda d'elle, com os olhos mergulhados nos seus. E foi
-mais baixo que balbuciou na derradeira, na absoluta confisso de todo o
-seu sr:
-
---Alm de ter o corao adormecido, o meu corpo permaneceu sempre frio,
-frio como um marmore...
-
-Elle estreitou-a a si arrebatadamente: e os seus labios ficaram collados
-muito tempo, em silencio, completando, n'uma emoo nova e quasi
-virginal, a communho perfeita das suas almas.
-
-
-
-D'ahi a dias Carlos e Ega vinham n'uma victoria, pela estrada dos
-Olivaes, em caminho da _Toca_.
-
-Toda essa manh, no Ramalhete, Carlos estivera emfim contando ao Ega o
-impulso de paixo que o lanra de novo e para sempre, como esposo, nos
-braos de Maria; e, na confiana absoluta que o prendia ao Ega,
-revelra-lhe mesmo miudamente a historia d'ella, dolorosa e
-justificadora. Depois, ao acalmar o calor, propoz que fossem comer as
-sopas _Toca_. Ega deu uma volta pelo quarto, hesitando. Por fim
-comeou a passar devagar a escova pelo paletot, murmurando, como durante
-as longas confidencias de Carlos: prodigioso!... Que estranha coisa,
-a vida!
-
-E agora pela estrada, na aragem dce do rio, Carlos fallava ainda de
-Maria, da vida na _Toca_, deixando escapar do corao muito cheio o
-interminavel cantico da sua felicidade.
-
--- facto, Egasinho, conheo quasi a felicidade perfeita!
-
---E c na _Toca_ ainda ninguem sabe nada?
-
-Ninguem--a no ser Melanie, a confidente--suspeitava a profunda
-alterao que se fizera nas suas relaes: e tinham assentado que miss
-Sarah e o Domingos, primeiras testemunhas da sua amizade, seriam
-rgiamente recompensados e despedidos quando em fins de outubro elles
-partissem para Italia.
-
---E ides ento casar a Roma?...
-
---Sim... Em qualquer logar onde haja um altar e uma estola. Isso no
-falta em Italia... E ento, Ega, que reapparece o espinho de toda esta
-felicidade. por isso que eu disse quasi. O terrivel espinho, o av!
-
--- verdade, o velho Affonso. Tu no tens ida como lhe has de fazer
-conhecer esse caso?...
-
-Carlos no tinha ida nenhuma. Sentia s que lhe faltava absolutamente a
-coragem de dizer ao av: esta mulher, com quem vou casar, teve na sua
-vida estes erros... E alm d'isso, j reflectira, era inutil. O av
-nunca comprehenderia os motivos complicados, fataes, inilludiveis que
-tinham arrastado Maria. Se lh'os contasse miudamente--o av veria alli
-um romance confuso e fragil, antipathico sua natureza forte e candida.
-A fealdade das culpas feril-o-hia, exclusivamente; e no lhe deixaria
-apreciar, com serenidade, a irresistibilidade das causas. Para perceber
-este caso d'um caracter nobre apanhado dentro d'uma implacavel rede de
-fatalidades, seria necessario um espirito mais ductil, mais mundano que
-o do av... O velho Affonso era um bloco de granito: no se podiam
-esperar d'elle as subtis discriminaes d'um casuista moderno. Da
-existencia de Maria s veria o facto tangivel:--cahira successivamente
-nos braos de dois homens. E d'ahi decorreria toda a sua attitude de
-chefe de familia. Para que havia elle pois de fazer ao velho uma
-confisso, que necessariamente originaria um conflicto de sentimentos e
-uma irreparavel separao domestica?...
-
---Pois no te parece, Ega?
-
---Falla mais baixo, olha o cocheiro.
-
---No percebe bem o portuguez, sobretudo o nosso estylo... Pois no te
-parece?
-
-Ega raspava phosphoros na sola para accender o charuto. E resmungava:
-
---Sim, o velho Affonso granitico...
-
-Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder
-ao av o passado de Maria--e fazer-lhe conhecer a pessoa de Maria.
-Casavam secretamente em Italia. Regressavam: ella para a rua de S.
-Francisco, elle filialmente para o Ramalhete. Depois Carlos levava o av
-a casa da sua boa amiga, que conhecera em Italia, M.^{me} de Mac-Gren.
-Para o prender logo l estavam os encantos de Maria, todas as graas
-d'um interior delicado e srio, jantarinhos perfeitos, idas justas,
-Chopin, Beethoven, etc. E, para completar a conquista de quem to
-enternecidamente adorava crianas, l estava Rosa... Emfim, quando o av
-estivesse namorado de Maria, da pequena, de tudo--elle, uma manh,
-dizia-lhe francamente: Esta creatura superior e adoravel teve uma quda
-no seu passado; mas eu casei com ella; e, sendo tal como , no fiz bem,
-apesar de tudo, em a escolher para minha esposa? E o av, perante esta
-terrivel irremediabilidade do facto consummado, com toda a sua
-indulgencia de velho enternecido a defender Maria--seria o primeiro a
-pensar que, se esse casamento no era o melhor segundo as regras do
-mundo, era decerto o melhor segundo os interesses do corao...
-
---Pois no te parece, Ega?
-
-Ega, absorvido, sacudia a cinza do charuto. E pensava que Carlos, em
-resumo, adoptra para com o av a complicada combinao que Maria
-Eduarda tentra para com elle--e imitava sem o sentir os subtis
-raciocinios d'ella.
-
---E acabou-se, continuava Carlos. Se elle na sua indulgencia aceitar
-tudo, bravo! d-se uma grande festa no Ramalhete... Seno, foi-se!
-passaremos a viver cada um para seu lado, fazendo ambos prevalecer a
-superioridade de duas coisas excellentes: o av as tradies do sangue,
-eu os direitos do corao.
-
-E, vendo o Ega ainda silencioso:
-
---Que te parece? Dize l. Tu andas to falto de idas, homem!
-
-O outro sacudiu a cabea, como despertando.
-
---Queres que te diga o que me parece, com franqueza? Que diabo, ns
-somos dois homens fallando como homens!... Ento aqui est: teu av tem
-quasi oitenta annos, tu tens vinte e sete ou o quer que seja...
-doloroso dizel-o, ninguem o diz com mais dr que eu, mas teu av ha de
-morrer... Pois bem, espera at l. No cases. Suppe que ella tem um pae
-muito velho, teimoso e caturra, que detesta o snr. Carlos da Maia e a
-sua barba em bico. Espera; contina a vir _Toca_, na tipoia do Mulato;
-e deixa teu av acabar a sua velhice calma, sem desilluses e sem
-desgostos...
-
-Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca,
-n'esses dias de inquietao, lhe acudira ida to sensata, to facil!
-Sim, era isso, esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre av toda
-a dr?... Maria de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a
-converso do amante no marido pelo lao d'estola que tudo purifica e
-nenhuma fora desata. Mas ella mesma preferiria uma consagrao
-legal--que no fosse assim precipitada, dissimulada... Depois, to recta
-e generosa, comprehenderia bem a obrigao suprema de no mortificar
-aquelle santo velho. De resto, no conhecia ella a sua lealdade solida e
-pura como um diamante? Recebera a sua palavra: desde esse momento
-estavam casados, no diante do sacrario e nos registos da sacristia--mas
-diante da honra e na inabalavel communho dos seus coraes...
-
---Tens razo! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens
-immensamente razo! Essa ida genial! Devo esperar... E emquanto
-espero?...
-
---Como, emquanto esperas? acudiu Ega, rindo. Que diabo! Isso no
-commigo!
-
-E mais srio:
-
---Emquanto esperas tens esse metal vil que faz a existencia nobre.
-Installas tua mulher, porque desde hoje tua mulher, aqui nos Olivaes
-ou n'outro sitio, com o gosto, o conforto e a dignidade que competem a
-tua mulher... E deixas-te ir! Nada impede que faaes essa viagem nupcial
- Italia... Voltas, continas a fumar a tua _cigarette_ e a deixar-te
-ir. Este o bom senso: assim que pensaria o grande Sancho Pansa...
-Que diabo tens tu n'aquelle embrulho que cheira to bem?
-
---Um ananaz... Pois isso, querido: esperar, deixar-me ir. uma ida!
-
-Uma ida! e a mais grata ao temperamento de Carlos. Para que iria com
-effeito enredar-se n'uma meada de amarguras domesticas, por um excesso
-de cavalheirismo romantico? Maria confiava n'elle; era rico, era moo; o
-mundo abria-se ante elles facil e cheio de indulgencias. No tinha seno
-a deixar-se ir.
-
---Tens razo, Ega! E Maria a primeira a achar isto cheio de senso e
-d'_opportunismo_. Eu tenho uma certa pena em adiar a installao da
-minha vida e do meu _home_. Mas, acabou-se! Antes de tudo que o av seja
-feliz... E para celebrar o advento d'esta ida, Deus queira que Maria
-nos tenha um bom jantar!
-
-Agora, ao aproximar-se da _Toca_, Ega ia receando o primeiro encontro
-com Maria Eduarda. Incommodava-o esse enleio, esse rubor que ella no
-poderia occultar--certa que, como confidente de Carlos, elle conhecia a
-sua vida, as suas miserias, as suas relaes com Castro Gomes. Por isso
-hesitra em vir _Toca_. Mas tambem, no apparecer mais a Maria Eduarda
-seria marcar com um relevo quasi offensivo o desejo caridoso de no
-molestar o seu pudor... Por isso decidira dar o mergulho d'uma vez.
-Quem, seno elle, deveria ser o mais apressado em estender a mo noiva
-de Carlos?... Alm d'isso tinha uma infinita curiosidade de vr no seu
-interior, sua mesa, essa creatura to bella, com a sua graa nobre de
-Deusa moderna! Mas saltou da victoria muito embaraado.
-
-Por fim tudo se passou com uma facilidade risonha. Maria bordava,
-sentada nos degraus do jardim. Teve um sobresalto, crou toda, com
-effeito, ao avistar o Ega que procurava atarantadamente o monoculo: o
-aperto de mo que trocaram foi mudo e timido: mas Carlos, alegremente,
-desembrulhra o ananaz--e na admirao d'elle todo o constrangimento se
-dissipou.
-
---Oh! magnifico!
-
---Que cr, que luxo de tons!
-
---E que aroma! Veio perfumando toda a estrada.
-
-Ega no voltra _Toca_ desde a noite fatal da _soire_ dos Cohens em
-que elle alli tanto bebera e delirra tanto. E lembrou logo a Carlos a
-jornada na velha traquitana, debaixo d'um temporal, o _grog_ do Craft, a
-ceia de per...
-
---J aqui soffri muito, minha senhora, vestido de Mephistopheles!...
-
---Por causa de Margarida?
-
---Por quem se ha de soffrer n'este apaixonado mundo, minha senhora,
-seno por Margarida ou por Fausto?
-
-Mas Carlos quiz que elle admirasse os esplendores novos da _Toca_. E foi
-j com familiaridade que Maria o levou pelas salas, lamentando que s
-viesse assim _Toca_ no fim do vero e no fim das flres. Ega
-extasiou-se ruidosamente. Emfim, perdera a _Toca_ o seu ar regelado e
-triste de museu! J alli se podia palrar livremente!
-
---Isto um barbaro, Maria! exclamava Carlos radiante. Tem horror
-arte! um Ibero, um Semita...
-
-Semita? Ega prezava-se de ser um luminoso Aryano! E por isso mesmo no
-podia viver n'uma casa, em que cada cadeira tinha a solemnidade
-sorumbatica de antepassados com cabelleira...
-
---Mas, dizia Maria rindo, rodas estas lindas coisas do seculo dezoito
-lembram antes a ligeireza, o espirito, a graa de maneiras...
-
---V. exc.^a acha? acudiu Ega. A mim todos esses dourados, esses
-enramalhetados, esses rococs lembram-me uma vivacidade estouvada e
-sirigaita... Nada! ns vivemos n'uma Democracia! E no ha para exprimir
-a alegria simples, slida e bonacheirona da Democracia, como largas
-poltronas de marroquim, e o mogno envernizado!...
-
-Assim n'uma risonha, ligeira discusso sobre bric--brac, desceram ao
-jardim.
-
-Miss Sarah passeava entre o buxo, de olhos baixos, com um livro fechado
-na mo. Ega, que conhecia j os seus ardores nocturnos, cravou-lhe
-sfregamente o monoculo; e emquanto Maria se abaixra a cortar um
-geranio, exprimiu a Carlos n'um gesto mudo a sua admirao por aquelle
-beicinho escarlate, aquelle seiosinho redondo de rola farta... Depois,
-ao fundo, junto do caramancho, encontraram Rosa que se balouava. Ega
-pareceu deslumbrado com a sua belleza, a sua frescura mate de camelia
-branca. Pediu-lhe um beijo. Ella exigiu primeiro, muito sria, que elle
-tirasse o vidro do olho.
-
---Mas para te vr melhor! para te vr melhor!...
-
---Ento porque no trazes um em cada olho? Assim s me vs metade...
-
-Encantadora! encantadora! murmurava Ega. No fundo achava a pequena
-espevitada e impudente. Maria resplandecia.
-
-E o jantar alargou mais esta intimidade risonha. Carlos, logo sopa,
-fallando-se de campo e d'um _chalet_ que elle desejava construir em
-Cintra, nos Capuchos, dissera--quando nos casarmos. E Ega alludiu a
-esse futuro do modo mais grato ao corao de Maria. Agora que Carlos se
-installava para sempre n'uma felicidade estavel (dizia elle) era
-necessario trabalhar! E relembrou ento a sua velha ida do Cenaculo,
-representado por uma _Revista_ que dirigisse a litteratura, educasse o
-gosto, elevasse a politica, fizesse a civilisao, remoasse o
-carunchoso Portugal... Carlos, pelo seu espirito, pela sua fortuna (at
-pela sua figura, ajuntava o Ega rindo) devia tomar a direco d'este
-movimento. E que profunda alegria para o velho Affonso da Maia!
-
-Maria escutava, presa e sria. Sentia bem quanto Carlos, com uma vida
-toda de intelligencia e de actividade, rehabilitaria supremamente
-aquella unio mostrando-lhe a influencia fecunda e purificadora.
-
---Tem razo, tem bem razo! exclamava ella com ardor.
-
---Sem contar, acrescentava o Ega, que o paiz precisa de ns! Como muito
-bem diz o nosso querido e imbecilissimo Gouvarinho, o paiz no tem
-pessoal... Como ha de tel-o, se ns, que possuimos as aptides, nos
-contentamos em governar os nossos dog-carts e escrever a vida intima dos
-atomos? Sou eu, minha senhora, sou eu que ando a escrever essa
-biographia d'um atomo!... No fim, este dilettantismo absurdo. Clamamos
-por ahi, em botequins e livros, que o paiz uma choldra. Mas que
-diabo! Porque que no trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso
-gosto e pelo molde perfeito das nossas idas?... V. exc.^a no conhece
-este paiz, minha senhora. admiravel! uma pouca de cera inerte de
-primeira qualidade. A questo toda est em quem a trabalha. At aqui a
-cera tem estado em mos brutas, banaes, toscas, reles, rotineiras...
-necessario pl-a em mos d'artistas, nas nossas. Vamos fazer d'isto um
-_bijou_!...
-
-Carlos ria, preparando n'uma travessa o ananaz com sumo de laranja e
-vinho da Madeira. Mas Maria no queria que elle risse. A ida do Ega
-parecia-lhe superior, inspirada n'um alto dever. Quasi tinha remorsos,
-dizia ella, d'aquella preguia de Carlos. E agora, que ia ser cercado de
-affeio serena, queria-o vr trabalhar, mostrar-se, dominar...
-
---Com effeito, disse o Ega recostado e sorrindo, a era do romance
-findou. E agora...
-
-Mas o Domingos servia o ananaz. E o Ega provou e rompeu em clamores de
-enthusiasmo. Oh que maravilha! Oh que delicia!
-
---Como fazes tu isto? Com Madeira...
-
---E genio! exclamou Carlos. Delicioso, no verdade? Ora digam-me se
-tudo o que eu pudesse fazer pela civilisao valeria este prato de
-ananaz! para estas coisas que eu vivo! Eu no nasci para fazer
-civilisao...
-
---Nasceste, acudiu o Ega, para colher as flres d'essa planta da
-civilisao que a multido rega com o seu suor! No fundo tambem eu,
-menino!
-
-No, no! Maria no queria que fallassem assim!
-
---Esses ditos estragam tudo. E o snr. Ega, em logar de corromper Carlos,
-devia inspiral-o...
-
-Ega protestou requebrando o olho, j languido. Se Carlos necessitava uma
-musa inspiradora e benefica--no podia ser elle, bicho com barbas e
-bacharel em leis... A musa estava _toute trouve_!
-
---Ah, com effeito!... Quantas paginas bellas, quantas nobres idas se
-no podem produzir n'um paraiso d'estes!...
-
-E o seu gesto molle e acariciador indicava a _Toca_, a quietao dos
-arvoredos, a belleza de Maria. Depois na sala, emquanto Maria tocava um
-nocturno de Chopin e Carlos e elle acabavam os charutos porta do
-jardim vendo nascer a lua--Ega declarou que, desde o comeo do jantar,
-estava com idas de casar!... Realmente no havia nada como o casamento,
-o interior, o ninho...
-
---Quando penso, menino, murmurou elle mordendo sombriamente o charuto,
-que quasi todo um anno da minha vida foi dado quella israelita devassa
-que gosta de levar bordoada...
-
---Que faz ella em Cintra? perguntou Carlos.
-
---Ensopa-se na crapula. No ha a menor duvida que d todo o seu corao
-ao Damaso... Tu sabes o que n'estes casos significa o termo _corao_...
-Viste j immundicie igual? simplesmente obscena!
-
---E tu adral-a, disse Carlos.
-
-O outro no respondeu. Depois, dentro, n'um odio repentino da bohemia e
-do romantismo, entoou louvores sonoros familia, ao trabalho, aos altos
-deveres humanos--bebendo copinhos de cognac. meia noite, ao sahir,
-tropeou duas vezes na rua d'acacias, j vago, citando Proudhon. E
-quando Carlos o ajudou a subir para a victoria, que elle quiz descoberta
-para ir communicando com a lua, Ega ainda lhe agarrou o brao para lhe
-fallar da _Revista_, d'um forte vento de espiritualidade e de virtude
-viril que se devia fazer soprar sobre o paiz... Por fim, j estirado no
-assento, tirando o chapo aragem da noite:
-
---E outra coisa, Carlinhos. V se me arranjas a ingleza... Ha vicios
-deliciosos n'aquellas pestanas baixas... V se m'a arranjas... V l,
-bate l, cocheiro! Caramba, que belleza de noite!
-
-
-
-Carlos ficra encantado com este primeiro jantar d'amizade na _Toca_.
-Elle tencionava no apresentar Maria aos seus intimos seno depois de
-casado e volta de Italia. Mas agora a unio legal estava j no seu
-pensamento adiada, remota, quasi dispersa no vago. Como dizia o Ega,
-devia esperar, deixar-se ir... E no emtanto, Maria e elle no poderiam
-isolar-se alli todo um longo inverno, sem o calor sociavel d'alguns
-amigos em redor. Por isso uma manh, encontrando o Cruges, que fra o
-visinho de Maria e outr'ora lhe dava noticias da lady ingleza,
-pediu-lhe para vir jantar _Toca_ no domingo.
-
-O maestro appareceu n'uma tipoia, tardinha, de lao branco e de
-casaca: e os fatos claros de campo com que encontrou Carlos e Ega
-comearam logo a enchel-o de mal-estar. Toda a mulher, alm das Lolas e
-Conchas, o atarantava, o emmudecia: Maria, com o seu porte de
-_grande-dame_, como elle dizia, intimidou-o a tal ponto que ficou
-diante d'ella, sem uma palavra, escarlate, torcendo o forro das
-algibeiras. Antes de jantar, por lembrana de Carlos, foram-lhe mostrar
-a quinta. O pobre maestro, roando a casaca mal feita pela folhagem dos
-arbustos, fazia esforos anciosos por murmurar algum elogio belleza
-do sitio; mas escapavam-lhe ento inexplicavelmente coisas reles, em
-calo: vista catita! pitada! Depois ficava furioso, coberto de
-suor, sem comprehender como se lhe babavam dos labios esses ditos
-abominaveis, to contrarios ao seu gosto fino d'artista. Quando se
-sentou mesa soffria um negrissimo accesso de _spleen_ e mudez! Nem uma
-controversia que Maria arranjra caridosamente para elle sobre Wagner e
-Verdi pde descerrar-lhe os labios empedernidos. Carlos ainda tentou
-envolvel-o na alegria da mesa--contando a ida a Cintra, quando elle
-procurava Maria na Lawrence, e em vez d'ella achra uma matrona obesa,
-de bigode, de cosinho ao collo, ralhando com o homem em hespanhol. Mas
-a cada exclamao de Carlos--Lembras-te, Cruges?, No verdade,
-Cruges?--o maestro, rubro, grunhia apenas um _sim_ avaro. Terminou por
-estar alli, ao lado de Maria, como um trambolho funebre. Estragou o
-jantar.
-
-Combinra-se para depois do caf um passeio pelos arredores, n'um break.
-E Carlos j tomra as guias, Maria na almofada acabava de abotoar as
-luvas--quando Ega, que receava a friagem da tarde, saltou do break,
-correu a buscar o paletot. N'esse mesmo momento sentiram um trote de
-cavallo na estrada--e appareceu o marquez.
-
-Foi uma surpreza para Carlos, que o no vira durante esse vero. O
-marquez parou logo, tirando profundamente, ao vr Maria, o seu largo
-chapo desabado.
-
---Imaginava-o pela Golleg! exclamou Carlos. Foi at o Cruges que me
-disse... Quando chegou voss?
-
-Chegra na vespera. L fra ao Ramalhete; tudo deserto. Agora vinha aos
-Olivaes vr um dos Vargas que tinha casado, se installra alli perto, a
-passar o noivado...
-
---Quem, o gordo, o das corridas?
-
---No, o magro, o das regatas.
-
-Carlos, debruado da almofada, examinava a egoasita do marquez, pequena,
-bem estampada, d'um baio escuro e bonito.
-
---Isso novo?
-
---Uma facasita do Darque... Quer-m'a voss comprar? Sou j um pouco
-pesado para ella, e isto mette-se a um dog-cart...
-
---D l uma volta.
-
-O marquez deu a volta, bem posto na sella, avantajando a egoa. Carlos
-achou-lhe boas aces. Maria murmurou--Muito bonita, uma cabea
-fina... Ento Carlos apresentou o marquez de Souzella a madame
-Mac-Gren. Elle chegou a egoa roda, descoberto, para apertar a mo a
-Maria: e espera do Ega que se eternisava l dentro, ficaram fallando
-do vero, de Santa Olavia, dos Olivaes, da _Toca_... Ha que tempos o
-marquez alli no passava! A ultima vez fra victima da excentricidade do
-Craft...
-
---Imagine v. exc.^a, disse elle a Maria Eduarda, que esse Craft me
-convida a almoar. Venho, e o hortelo diz-me que o snr. Craft, criado e
-cozinheiro, tudo partira para o Porto; mas que o snr. Craft deixra um
-cartaz na sala... Vou sala, e vejo dependurado ao pescoo d'um idolo
-japonez uma folha de papel com estas palavras pouco mais ou menos: O
-deus Tchi tem a honra de convidar o snr. marquez, em nome de seu amo
-ausente, a passar sala de jantar onde encontrar, n'um aparador,
-queijo e vinho, que o almoo que basta ao homem forte. E foi com
-effeito o meu almoo... Para no estar s, partilhei-o com o hortelo.
-
---Espero que se tivesse vingado! exclamou Maria rindo.
-
---Pde crr, minha senhora... Convidei-o a jantar, e quando elle
-appareceu, vindo d'aqui da _Toca_, o meu guarda-porto disse-lhe que o
-snr. marquez fra para longe, e que no havia nem po nem queijo...
-Resultado: o Craft mandou-me uma duzia de magnificas garrafas de
-Chambertin. Esse deus Tchi nunca mais o tornei a vr...
-
-O deus Tchi l estava, obeso e medonho. E, muito naturalmente, Carlos
-convidou o marquez a revisitar n'essa noite, volta da casa do Vargas,
-o seu velho amigo Tchi.
-
-O marquez veio, s dez horas--e foi um sero encantador. Conseguiu
-sacudir logo a melancolia do Cruges, arrastando-o com mo de ferro para
-o piano; Maria cantou; palrou-se com graa; e aquelle escondrijo d'amor
-ficou alumiado at tarde, na sua primeira festa de amizade.
-
-Estas reunies alegres foram ao principio, como dizia o Ega,
-_dominicaes_: mas o outono arrefecia, bem depressa se despiriam as
-arvores da _Toca_, e Carlos accumulou-as duas vezes por semana, nos
-velhos dias feriados da Universidade, domingos e quintas. Tinha
-descoberto uma admiravel cozinheira alsaciana, educada nas grandes
-tradies, que servira o bispo de Strasburgo, e a quem as extravagancias
-d'um filho e outras desgraas tinham arrojado a Lisboa. Maria, de resto,
-punha na composio dos seus jantares uma sciencia delicada: o dia de
-vir _Toca_ era considerado pelo marquez dia de civilisao.
-
-A mesa resplandecia; e as tapearias representando massas d'arvoredos
-punham em redor como a sombra escura d'um retiro silvestre onde por um
-capricho se tivessem accendido candelabros de prata. Os vinhos sahiam da
-frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da terra e do co
-se grulhava com phantasia--menos de politica portugueza, considerada
-conversa indecorosa entre pessoas de gosto.
-
-Rosa apparecia ao caf, exhalando do seu sorriso, dos bracinhos ns, dos
-vestidos brancos tufados sobre as meias de sda preta, um bom aroma de
-flr. O marquez adorava-a, disputando-a ao Ega, que a pedira a Maria em
-casamento e lhe andava compondo havia tempo um soneto. Ella preferia o
-marquez: achava o Ega muito...--e completava o seu pensamento com um
-gestosinho do dedo ondeado no ar, como a exprimir que o Ega era muito
-retorcido.
-
---Ahi est! exclamava elle. Porque eu sou mais civilisado que o outro!
-a simplicidade no comprehendendo o requinte.
-
---No, desgraado! exclamavam do lado. porque s impresso!... a
-natureza repellindo a conveno!...
-
-Bebia-se saude de Maria: ella sorria, feliz entre os seus novos
-amigos, divinamente bella, quasi sempre de escuro, com um curto decote
-onde resplandecia o incomparavel esplendor do seu collo.
-
-Depois organisaram-se solemnidades. N'um domingo, em que os sinos
-repicavam e a distancia foguetes esfuziavam no ar--Ega lamentou que os
-seus austeros principios philosophicos o impedissem de festejar tambem
-aquelle santo d'aldeia, que fra decerto em vida um caturra encantador,
-cheio d'illuses e doura... Mas de resto, acrescentou, no teria sido
-n'um dia assim, fino e secco, sob um grande co cheio de sol, que se
-feriu a batalha das Thermopylas? Porque no se atiraria uma girandola de
-foguetes em honra de Leonidas e dos trezentos? E atirou-se a girandola
-pela eterna gloria de Sparta.
-
-Depois celebraram-se outras datas historicas. O anniversario da
-descoberta da Venus de Milo foi commemorado com um balo que ardeu.
-N'outra occasio o marquez trouxe de Lisboa, apinhados n'uma tipoia,
-fadistas famosos, o _Pintado_, o _Vira-vira_ e o _Gago_: e depois de
-jantar, at tarde, com o luar sobre o rio, cinco guitarras choraram os
-ais mais tristes dos fados de Portugal.
-
-Quando estavam ss, Carlos e Maria passavam as suas manhs no kiosque
-japonez--affeioados quelle primeiro retiro dos seus amores, pequeno e
-apertado, onde os seus coraes batiam mais perto um do outro. Em logar
-das esteiras de palha Carlos revestira-o com as suas formosas colchas da
-India, cr de palha e cr de perola. Um dos maiores cuidados d'elle,
-agora, era embellezar a _Toca_: nunca voltava de Lisboa sem trazer
-alguma figurinha de Saxe, um marfim, uma faiana, como noivo feliz que
-aperfeia o seu ninho.
-
-Maria no emtanto no cessava de lembrar os planos intellectuaes do Ega:
-queria que elle trabalhasse, ganhasse um nome: seria isso o orgulho
-intimo d'ella, e sobretudo a alegria suprema do av. Para a contentar
-(mais que para satisfazer as suas necessidades de espirito) Carlos
-recomera a compr alguns dos seus artigos de medicina litteraria para
-a _Gazeta Medica_. Trabalhava no kiosque, de manh. Trouxera para l
-rascunhos, livros, o seu famoso manuscripto da _Medicina antiga e
-moderna_. E por fim achra um grande encanto em estar alli, com um leve
-casaco de sda, as suas cigarettes ao lado, um fresco murmurio de
-arvoredo em redor--cinzelando as suas phrases, emquanto ella ao lado
-bordava silenciosa. As suas idas surgiam com mais originalidade, a sua
-frma ganhava em colorido, n'aquelle estreito kiosque assetinado que
-ella perfumava com a sua presena. Maria respeitava este trabalho como
-coisa nobre e sagrada. De manh, ella mesma espanejava os livros do leve
-p que a aragem soprava pela janella; dispunha o papel branco, punha
-cuidadosamente pennas novas; e andava bordando uma almofada de pennas e
-setim para que o trabalhador estivesse mais confortavel na sua vasta
-cadeira de couro lavrado.
-
-Um dia offerecera-se a passar a limpo um artigo. Carlos, enthusiasmado
-com a letra d'ella, quasi comparavel lendaria letra do Damaso,
-occupava-a agora incessantemente como copista, sentindo mais amor por um
-trabalho a que ella se associava. Quantos cuidados se dava a dce
-creatura! Tinha para isso um papel especial, d'um tom macio de marfim:
-e, com o dedinho no ar, ia desenrolando as pesadas consideraes de
-Carlos sobre o Vitalismo e o Transformismo na graa delicada d'uma
-renda... Um beijo pagava-a de tudo.
-
-s vezes Carlos dava lies a Rosa--ora de historia, contando-lh'a
-familiarmente como um conto de fadas; ora de geographia, interessando-a
-pelas terras onde vivem gentes negras, e pelos velhos rios que correm
-entre as ruinas dos santuarios. Isto era o prazer mais alto de Maria.
-Sria, muda, cheia de religio, escutava aquelle sr bem-amado ensinando
-sua filha. Deixava escapar das mos o trabalho--e o interesse de Carlos,
-a enlevada atteno de Rosa sentada aos ps d'elle, bebendo aquellas
-bellas historias de Joanna d'Arc ou das caravellas que foram India,
-fazia resplandecer nos seus olhos uma nevoa de lagrimas felizes...
-
-
-
-Desde o meado d'outubro Affonso da Maia fallava da sua partida de Santa
-Olavia, retardada apenas por algumas obras que comera na parte velha
-da casa e nas cocheiras: porque ultimamente invadira-o a paixo de
-edificar--sentindo-se remoar, como elle dizia, no contacto das madeiras
-novas e no cheiro vivo das tintas. Carlos e Maria pensavam tambem em
-abandonar os Olivaes. Carlos no poderia por dever domestico permanecer
-alli installado desde que o av recolhesse ao Ramalhete. Alm d'isso
-aquelle fim d'outono ia escuro e agreste; e a _Toca_ era agora pouco
-bucolica, com a quinta desfolhada e alagada, uma nevoa sobre o rio, e um
-fogo unico no gabinete de cretones--alm da sumptuosa chamin da sala
-de jantar, que, por entre os seus Nubios d'olhos de crystal, soltava uma
-fumaraa odiosa quando o Domingos a tentava accender.
-
-N'uma d'essas manhs, Carlos, que ficra at tarde com Maria, e depois
-no seu delgado casebre mal pudera dormir com um temporal de vento e agua
-desencadeado de madrugada--ergueu-se s nove horas, veio _Toca_. As
-janellas do quarto de Maria conservavam-se ainda cerradas; a manh
-clarera; a quinta lavada, meio despida, no ar fino e azul, tinha uma
-linda e silenciosa graa d'inverno. Carlos passeava, olhando os vasos
-onde os chrysanthemos floriam, quando retiniu a sineta do porto. Era o
-toque do carteiro. Justamente elle escrevera dias antes ao Cruges,
-perguntando se estaria desoccupado para os primeiros frios de dezembro o
-andar da rua de S. Francisco: e, esperando carta do maestro, foi abrir,
-acompanhado por _Niniche_. Mas o correio, n'essa manh, consistia apenas
-n'uma carta do Ega e dois numeros de jornal cintados--um para elle,
-outro para Madame Castro Gomes, na quinta do snr. Craft, aos Olivaes.
-
-Caminhando sob as acacias, Carlos abriu a carta do Ega. Era da vespera,
-com a data noite, pressa. E dizia: --L, n'esse trapo que te
-mando, esse superior pedao de prosa que lembra Tacito. Mas no te
-assustes; eu supprimi, mediante pecunia, toda a tiragem, com excepo de
-dois numeros mais que foram, um para a _Toca_, outro (oh logica suprema
-dos habitos constitucionaes!) para o Pao, para o chefe do Estado!...
-Mas esse mesmo no chegar ao seu destino. Em todo o caso desconfio de
-que esgto sahiu esse enxurro e precisamos providenciar! Vem j!
-Espero-te at s duas. E, como Iago dizia a Cassio--_mette dinheiro na
-bolsa_.
-
-Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se a _Corneta do Diabo_: e
-na impresso, no papel, na abundancia dos _italicos_, no typo gasto,
-todo elle revelava immundicie e malandrice. Logo na primeira pagina duas
-cruzes a lapis marcavam um artigo que Carlos, n'um relance, viu
-salpicado com o seu nome. E leu isto: --Ora viva, _s_ Maia! Ento j
-se no vai ao consultorio, nem se vem os doentes do bairro, _s_
-janota?--Esta piada era botada no Chiado, porta da Havaneza, ao Maia,
-ao Maia dos cavallos inglezes, um tal Maia do Ramalhete, que abarrota
-por ahi de _catita_; e o pai Paulino _que tem olho_ e que passava n'essa
-occasio ouviu a seguinte _cornetada_:-- que o _s_ Maia acha _que
-mais quente_ viver nas fraldas d'uma _brazileira casada_, que nem
-brazileira nem casada, e a quem o papalvo poz casa, ahi para o lado
-dos Olivaes, para _estar ao fresco_! Sempre os ha n'este mundo!... Pensa
-o homem que botou conquista; e c a rapaziada de gosto ri-se, porque o
-que a gaja lhe quer no so os lindos olhos, so as lindas _louras_... O
-simplorio, que bate ahi pilecas _bifes_, que nem que fosse o _marquez_,
-o verdadeiro Marquez, imaginava que se estava abiscoitando com uma
-senhora do _chic_, e do boulevard de Paris, e casada, e titular!... E no
-fim (no, esta para a gente deixar estoirar o bandulho a rir!) no fim
-descobre-se que a typa era uma _cocotte_ safada, que trouxe para ahi um
-brazileiro _j farto d'ella_ para a passar c aos bellos lusitanos... E
-cahiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! Ainda assim o _s_ Maia s
-apanhou os restos d'outro, porque a _typa_, j antes d'elle se enfeitar,
-tinha _pandegado larga_, ahi para a rua de S. Francisco, com um rapaz
-da fina, que se safou tambem, porque c como ns s _aprecia a bella
-hespanhola_. Mas no obsta a que o _s_ Maia seja traste!--Pois se assim
-, dissemos ns, cautelinha, porque o diabo c tem a sua _Corneta_
-preparada para cornetear por esse mundo as faanhas do _Maia das
-conquistas_. Ora viva, _s_ Maia!
-
-Carlos ficou immovel entre as acacias, com o jornal na mo, no espanto
-furioso e mudo d'um homem que subitamente recebe na face uma grossa
-chapada de ldo! No era a clera de vr o seu amor assim aviltado na
-publicidade chula d'um jornal sordido: era o horror de sentir aquellas
-phrases em calo, pandilhas, afadistadas, como s Lisboa as pde crear,
-pingando fetidamente, maneira de sebo, sobre si, sobre Maria, sobre o
-esplendor da sua paixo... Sentia-se todo emporcalhado. E uma unica ida
-surgia atravs da sua confuso--matar o bruto que escrevera aquillo.
-
-Matal-o! Ega sustra a tiragem da folha, Ega pois conhecia o
-folliculario. Nada importava que aquelles numeros, que tinha na mo,
-fossem os unicos impressos. Recebera lama na face. Que a injuria fosse
-espalhada nas praas n'uma profusa publicidade ou lhe fosse atirada s a
-elle escondidamente n'um papel unico, era igual... Quem tanto ousra
-tinha de cahir, esmagado!
-
-Decidiu ir logo ao Ramalhete. O Domingos janella da cozinha areava
-pratas, assobiando. Mas quando Carlos lhe fallou de ir buscar um
-calhambeque aos Olivaes, o bom Domingos consultou o relogio:
-
---V. exc.^a tem s onze horas a caleche do _Torto_ que a senhora mandou
-c estar para ir a Lisboa...
-
-Carlos, com effeito, recordou-se que Maria na vespera planera ir
-Aline e aos livreiros. Uma contrariedade, justamente n'esse dia em que
-elle precisava ficar livre--elle e a sua bengala! Mas Melanie, passando
-ento com um jarro d'agua quente, disse que a senhora ainda se no
-vestira, que talvez nem fosse a Lisboa... E Carlos recomeou a passear,
-no tapete de relva, entre as nogueiras.
-
-Sentou-se por fim no banco de cortia, descintou a _Corneta_
-sobrescriptada para Maria, releu lentamente a prosa immunda: e, n'esse
-numero que lhe fra destinado a ella, todo aquelle calo lhe pareceu
-mais ultrajante, intoleravel, punivel s com sangue. Era monstruoso, na
-verdade, que sobre uma mulher, quieta, innoffensiva no silencio da sua
-casa, alguem ousasse to brutalmente arremessar esse ldo s mos
-cheias! E a sua indignao alargava-se do folliculario que babra
-aquillo--at sociedade que, na sua decomposio, produzira o
-folliculario. Decerto toda a cidade soffria a sua vermina... Mas s
-Lisboa, s a horrivel Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu
-rebaixamento social, a perda inteira do bom-senso, o desvio profundo do
-bom gosto, a sua pulhice e o seu calo, podia produzir uma _Corneta do
-Diabo_.
-
-E, no meio d'esta alta clera de moralista, uma dr perpassava, precisa
-e dilacerante. Sim, toda a sociedade de Lisboa fazia um monturo sordido
-n'este canto do mundo--mas, em summa, havia no artigo da _Corneta_ uma
-calumnia? No. Era o passado de Maria, que ella arrancra de si como um
-vestido rto e sujo, que elle mesmo enterrra muito fundo, deitando-lhe
-por cima o seu amor e o seu nome--e que alguem desenterrava para o
-mostrar bem alto ao sol, com as suas manchas e os seus rasges... E isto
-agora ameaava para sempre a sua vida como um terror sobre ella
-suspenso. Debalde elle perdora, debalde elle esquecera. O mundo em
-redor sabia. E a todo o tempo o interesse ou a perversidade poderiam
-refazer o artigo da _Corneta_.
-
-Ergueu-se, abalado. E ento alli, sob essas arvores desfolhadas, onde
-durante o vero, quando ellas se enchiam de sombra e de murmurio, elle
-passera com Maria, esposa eleita da sua vida--Carlos perguntou pela vez
-primeira a si mesmo se a honra domestica, a honra social, a pureza dos
-homens de quem descendia, a dignidade dos homens que d'elle descendessem
-lhe permittiam em verdade casar com ella...
-
-Dedicar-lhe toda a sua affeio, toda a sua fortuna, certamente! Mas
-casar... E se tivesse um filho? O seu filho, j homem, altivo e puro,
-poderia um dia lr n'uma _Corneta do Diabo_ que sua mi fra amante d'um
-brazileiro, depois de ser amante d'um irlandez. E se seu filho lhe
-viesse gritar, n'uma bella indignao, uma calumnia?--elle teria de
-baixar a cabea, murmurar-- uma verdade! E seu filho veria para
-sempre collada a si aquella mi de quem o mundo ignorava os martyrios e
-os encantos--mas de quem conhecia cruelmente os erros.
-
-E ella mesma! Se elle appellasse para a sua razo, alta e to recta,
-mostrando-lhe as zombarias e as affrontas de que uma vil _Corneta do
-Diabo_ poderia um dia trespassar o filho que d'elles nascesse--ella
-mesma o desligaria alegremente do seu voto, contente em entrar no
-Ramalhete pela escadinha secreta forrada de velludo cr de cereja,
-comtanto que em cima a esperasse um amor constante e forte... Nunca ella
-tornra, em todo o vero, a alludir a uma unio differente d'essa em que
-os seus coraes viviam to lealmente, to confortavelmente. No, Maria
-no era uma devota, preoccupada do peccado mortal! Que lhe podia
-importar a estola banal do padre?...
-
-Sim; mas elle que lhe pedira essa consagrao na hora mais commovida do
-seu longo amor, iria dizer-lhe agora--foi uma criancice, no pensemos
-mais n'isso, desculpa? No; nem o seu corao o desejava! Antes pendia
-todo para ella... Pendia todo para ella, n'um enternecimento mais
-generoso e mais quente--emquanto a sua razo assim arengava, cautelosa e
-austera. Elle tinha n'aquella alma o seu culto perfeito, n'aquelles
-braos a sua voluptuosidade magnifica; fra d'alli no havia felicidade;
-a unica sabedoria era prender-se a ella pelo derradeiro elo, o mais
-forte, o seu nome, embora as _Cornetas do Diabo_ atroassem todo o ar. E
-assim affrontaria o mundo n'uma soberba revolta, affirmando a
-omnipotencia, o reino unico da Paixo... Mas primeiro mataria o
-folliculario!--Passeava, esmagava a relva. E todos os seus pensamentos
-se resolviam por fim em furia contra o infame que babra sobre o seu
-amor, e durante um instante introduzia na sua vida tanta incerteza e
-tanto tormento!
-
-Maria ao lado abriu a janella. Estava vestida d'escuro para sahir; e
-bastou o brilho terno do seu sorriso, aquelles hombros a que o estofo
-justo modelava a belleza cheia e quente--para que Carlos detestasse logo
-as duvidas desleaes e covardes, a que se abandonra um momento sob as
-arvores desfolhadas... Correu para ella. O beijo que lhe deu, lento e
-mudo, teve a humildade d'um perdo que se implora.
-
---Que tens tu, que ests to srio?
-
-Elle sorriu. Srio, no sentido de solemne, no estava. Talvez seccado.
-Recebera uma carta do Ega, uma das eternas complicaes do Ega. E
-precisava ir a Lisboa, ficar l naturalmente toda a noite...
-
---Toda a noite? exclamou ella com um desapontamento, pousando-lhe as
-mos sobre os hombros.
-
---Sim, bem possivel, um horror! Nos negocios do Ega ha fatalmente o
-inesperado... Tu com effeito vaes a Lisboa?
-
---Agora, com mais razo... Se me queres.
-
---O dia est bonito... Mas ha de fazer frio na estrada.
-
-Maria justamente gostava d'esses dias d'inverno, cheios de sol, com um
-arzinho vivo e arripiado. Tornavam-n'a mais leve, mais esperta.
-
---Bem, bem, disse Carlos atirando o cigarro. Vamos ao almoo, minha
-filha... O pobre Ega deve estar a uivar de impaciencia.
-
-Emquanto Maria correra a apressar o Domingos--Carlos, atravs da relva
-humida, foi ainda lentamente at ao renque baixo d'arbustos que
-d'aquelle lado fechava a _Toca_ como uma sebe. Ahi a collina descia, com
-quintarolas, muros brancos, olivedos, uma grande chamin de fabrica que
-fumegava: para alm era o azul fino e frio do rio: depois os montes,
-d'um azul mais carregado, com a casaria branca da povoao aninhada
-beira da agua, nitida e suave na transparencia do ar macio. Parou um
-momento, olhando. E aquella aldeia de que nunca soubera o nome, to
-quieta e feliz na luz, deu a Carlos um desejo repentino de socego e de
-obscuridade, n'um canto assim do mundo, beira d'agua, onde ninguem o
-conhecesse nem houvesse _Cornetas do Diabo_, e elle pudesse ter a paz
-d'um simples e d'um pobre debaixo de quatro telhas, no seio de quem
-amava...
-
-Maria gritou por elle da janella da sala de jantar, onde se debrura a
-apanhar uma das ultimas rosas trepadeiras que ainda floriam.
-
---Que lindo tempo para viajar, Maria!--disse Carlos chegando, atravs da
-relva.
-
---Lisboa tambem muito linda, agora, havendo sol...
-
---Pois sim, mas o Chiado, a coscovilhice, os politiquetes, as gazetas,
-todos os horrores... A mim est-me positivamente a appetecer uma cubata
-na Africa!
-
-O almoo, por fim, foi demorado. Ia bater uma hora quando a caleche do
-_Torto_ comeou a rolar na estrada, ainda encharcada da chuva da noite.
-Logo adiante da villa, na descida, cruzaram um coup que trepava n'um
-trote esfalfado. Maria julgou avistar n'elle de relance o chapo branco
-e o monoculo do Ega... Pararam. E era com effeito o Ega, que reconhecera
-tambem a caleche da _Toca_, vinha j saltitando as lamas com longas
-pernadas de cegonha, chamando por Carlos.
-
-Ao vr Maria ficou atrapalhado:
-
---Que bella surpreza! Eu ia para l... Vi o dia to bonito, disse
-commigo...
-
---Bem, paga a tua tipoia, vem comnosco! atalhou Carlos que trespassava o
-Ega, com os olhos inquietos, querendo adivinhar o motivo d'aquella
-brusca chegada aos Olivaes.
-
-Quando entrou para a caleche, tendo pago o batedor, Ega, embaraado, sem
-poder desabafar diante de Maria sobre o caso da _Corneta_, comeou, sob
-os olhos de Carlos que o no deixavam, a fallar do inverno, das
-inundaes do Riba-Tejo... Maria lra. Uma desgraa, duas crianas
-afogadas nos beros, gados perdidos, uma grande miseria! Por fim Carlos
-no se conteve:
-
---Eu l recebi a tua carta...
-
-Ega acudiu:
-
---Arranja-se tudo! Est tudo combinado! E com effeito eu no vim seno
-por um sentimento bucolico...
-
-Muito discretamente Maria olhra para o rio. Ega fez ento um gesto
-rapido com os dedos significando dinheiro, s questo de dinheiro.
-Carlos socegou: e Ega voltou a fallar dos inundados do Riba-Tejo e do
-sarau litterario e artistico que em beneficio d'elles se ia commetter
-no salo da Trindade... Era uma vasta solemnidade official. Tenores do
-parlamento, rouxinoes da litteratura, pianistas ornados com o habito de
-S. Thiago, todo o pessoal canoro e sentimental do constitucionalismo _ia
-entrar em fogo_. Os reis assistiam, j se teciam grinaldas de camelias
-para pendurar na sala. Elle, apesar de demagogo, fra convidado para lr
-um episodio das _Memorias d'um Atomo_: recusra-se, por modestia, por
-no encontrar nas _Memorias_ nada to sufficientemente palerma que
-agradasse capital. Mas lembrra o Cruges; e o _maestro_ ia ribombar ou
-arrulhar uma das suas _Meditaes_. Alm d'isso havia uma poesia social
-pelo Alencar. Emfim, tudo prenunciava uma immensa orgia...
-
---E a snr.^a D. Maria, acrescentou elle, devia ir!... summamente
-pittoresco. Tinha v. exc.^a occasio de vr todo o Portugal romantico e
-liberal, _ la besogne_, engravatado de branco, dando tudo que tem
-n'alma!
-
---Com effeito devias ir, disse Carlos, rindo. Demais a mais se o Cruges
-toca, se o Alencar recita, uma festa nossa...
-
---Pois est claro! gritou Ega, procurando o monoculo, j excitado. Ha
-duas coisas que necessario vr em Lisboa... Uma procisso do Senhor
-dos Passos e um sarau poetico!
-
-Rolavam ento pelo largo do Pelourinho. Carlos gritou ao cocheiro que
-parasse no comeo da rua do Alecrim: elles apeavam-se e tomavam de l o
-americano para o Ramalhete.
-
-Mas a tipoia estacou antes da calada, rente ao passeio, em frente d'uma
-loja de alfaiate. E n'esse instante achava-se ahi parado, calando as
-suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas d'apostolo, todo
-vestido de luto. Ao vr Maria, que se inclinra portinhola, o homem
-pareceu assombrado; depois, com uma leve cr na face larga e pallida,
-tirou gravemente o chapo, um immenso chapo de abas recurvas, moda de
-1830, carregado de crepe.
-
---Quem ? perguntou Carlos.
-
--- o tio do Damaso, o Guimares, disse Maria, que crra tambem.
-curioso, elle aqui!
-
-Ah, sim! o famoso Mr. Guimares, o do _Rappel_, o intimo de Gambetta!
-Carlos recordava-se de ter j encontrado aquelle patriarcha no Price com
-o Alencar. Comprimentou-o tambem; o outro ergueu de novo com uma
-gravidade maior o seu sombrio chapo de carbonario. Ega entalra
-vivamente o monoculo para examinar esse lendario tio do Damaso, que
-ajudava a governar a Frana: e depois de se despedirem de Maria, quando
-a caleche j subia a rua do Alecrim e elles atravessavam para o Hotel
-Central, ainda se voltou seduzido por aquelles modos, aquellas barbas
-austeras de revolucionario...
-
---Bom typo! E que magnifico chapo, hein! D'onde diabo o conhece a
-snr.^a D. Maria?
-
---De Paris... Este Mr. Guimares era muito da mi d'ella. A Maria j me
-tinha fallado n'elle. um pobre diabo. Nem amigo de Gambetta, nem coisa
-nenhuma... Traduz noticias dos jornaes hespanhoes para o _Rappel_, e
-morre de fome...
-
---Mas ento, o Damaso?
-
---O Damaso um trapalho. Vamos ns ao nosso caso... Essa immundicie
-que me mandaste, a _Corneta_? Dize l.
-
-Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a historia da immundicie. Fra
-na vespera tarde que recebera no Ramalhete a _Corneta_. Elle j
-conhecia o papelucho, j privra mesmo com o proprietario e redactor--o
-Palma, chamado Palma _Cavallo_ para se distinguir d'outro benemerito
-chamado Palma _Cavallinho_. Comprehendeu logo que se a prosa era do
-Palma a inspirao era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de
-Maria, nem da casa da rua de S. Francisco, nem da _Toca_... No era
-natural que escrevesse por deleite intellectual um documento que s lhe
-podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois, fra-lhe
-simplesmente encommendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre
-quem tem mais dinheiro. Por este solido principio correra a procurar o
-Palma _Cavallo_ no seu antro.
-
---Tambem lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror.
-
---Tanto no... Fui perguntar secretaria da Justia a um sujeito que
-esteve associado com elle n'um negocio de _Almanachs religiosos_...
-
-Fra pois ao antro. E encontrra as coisas dispostas pelas mos habeis
-d'uma Providencia amiga. Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis
-numeros, a machina, esfalfada na pratica d'aquellas maroteiras,
-desmanchra-se. Alm d'isso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro
-que lhe encommendra o artigo, por divergencia na seriissima questo de
-pecunia. De sorte que apenas elle propz comprar a tiragem do jornal--o
-jornalista estendeu logo a mo larga, d'unhas rodas, tremendo de
-reconhecimento e de esperana. Dera-lhe cinco libras que tinha, e a
-promessa de mais dez...
-
--- caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me atarantar, no
-regateei bastante... E emquanto a dizer quem o cavalheiro que
-encommendou o artigo, o Palma, coitado, affirma que tem uma rapariga
-hespanhola a sustentar, que o senhorio lhe levantou o aluguer da casa,
-que Lisboa est carissima, que a litteratura n'este desgraado paiz...
-
---Quanto quer elle?
-
---Cem mil reis. Mas, ameaando-o com a policia, talvez desa a quarenta.
-
---Promette os cem, promette tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem
-te parece que seja?
-
-Ega encolheu os hombros, deu um risco lento no cho com a bengala. E
-mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da _Corneta_
-devia ser alguem familiar com Castro Gomes; alguem frequentador da rua
-de S. Francisco; alguem conhecedor da _Toca_; alguem que tinha, por
-ciume ou vingana, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguem que sabia
-a historia de Maria; e emfim alguem que era um covarde...
-
---Ests a descrever o Damaso! exclamou Carlos, pallido e parando.
-
-Ega encolheu de novo os hombros, tornou a riscar o cho:
-
---Talvez no... Quem sabe! Emfim, ns vamos averigual-o com certeza,
-porque, para terminar a negociao, fiquei de me ir encontrar com o
-Palma s tres horas no _Lisbonense_... E o melhor vires tambem. Trazes
-tu dinheiro?
-
---Se fr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos.
-
-E no trazia sufficiente dinheiro. Tomaram uma tipoia para correr ao
-escriptorio do Villaa. O procurador fra a Mafra, a um baptisado.
-Carlos teve de ir pedir cem mil reis ao velho Cortez, alfaiate do av.
-Quando perto das quatro horas se apearam entrada do _Lisbonense_, no
-largo de Santa Justa, o Palma no portal, com um jaqueto de velludo
-coado e cala de casimira clara collada cxa, accendia um cigarro.
-Estendeu logo rasgadamente a mo a Carlos--que lhe no tocou. E Palma
-_Cavallo_, sem se offender, com a mo abandonada no ar, declarou que ia
-justamente sahir, canado j de esperar em cima diante d'um _grog_ frio.
-De resto sentia que o snr. Maia se incommodasse em vir alli...
-
---Eu arranjava c o negociosinho com o amigo Ega... Em todo o caso, se
-os senhores querem, vamos l p'ra cima para um gabinete, que se est
-mais vontade, e toma-se outra bebida.
-
-Subindo a escada lobrega, Carlos recordava-se de ter j visto aquella
-luneta de vidros grossos, aquella cara balofa cr de cidra... Sim, fra
-em Cintra, com o Eusebiosinho e duas hespanholas, n'esse dia em que elle
-farejra pelas estradas silenciosas, como um co abandonado, procurando
-Maria!... Isto tornou-lhe mais odioso o snr. Palma. Em cima entraram
-n'um cubiculo, com uma janella gradeada por onde resvalava uma luz suja
-de saguo. Na toalha da mesa, salpicada de gordura e vinho, alguns
-pratos rodeavam um galheteiro que tinha moscas no azeite. O snr. Palma
-bateu as palmas, mandou vir genebra. Depois dando um grande puxo s
-calas:
-
---Pois eu espero que me acho aqui entre cavalheiros. Como eu j disse c
-ao amigo Ega, em todo este negocio...
-
-Carlos atalhou-o, tocando muito significativamente com a ponteira da
-bengala na borda da mesa.
-
---Vamos ao ponto essencial... Quanto quer o snr. Palma por me dizer quem
-lhe encommendou o artigo da _Corneta_?
-
---Dizer quem o encommendou, e proval-o! acudiu o Ega, que examinava na
-parede uma gravura onde havia mulheres nas beira d'agua. No nos
-basta o nome... O amigo Palma, est claro, de toda a confiana... Mas
-emfim, que diabo, no natural que ns acreditassemos se o amigo nos
-dissesse que tinha sido o snr. D. Luiz de Bragana!
-
-Palma encolheu os hombros. Est visto que havia de dar provas. Elle
-podia ter outros defeitos, trapalho no! Em negocios era todo franqueza
-e lisura... E, se se entendessem, alli as entregava logo, essas provas
-que lhe estavam enchendo o bolsinho, pimponas e d'escachar! Tinha a
-carta do amigo que lhe encommendra a piada: a lista das pessoas a quem
-se devia mandar a _Corneta_: o rascunho do artigo a lapis...
-
---Quer cem mil reis por tudo isso? perguntou Carlos.
-
-O Palma ficou um momento indeciso, ageitando as lunetas com os dedos
-molles. Mas o criado veio trazer a garrafa da genebra: e ento o
-redactor da _Corneta_ offereceu a bebida rasgadamente, puxou mesmo
-cadeiras para aquelles cavalheiros abancarem. Ambos recusaram--Carlos de
-p junto da mesa onde terminra por pousar a bengala, Ega passando a
-outra gravura onde dois frades se emborrachavam. Depois, quando o criado
-sahiu, Ega acercou-se, tocou com bonhomia no hombro do jornalista:
-
---Cem mil reis so uma linda somma, Palma amigo! E olhe que se lhe
-offerecem por delicadeza comsigo. Porque artiguinhos como este da
-_Corneta_, apresentados na Boa-Hora, levam grilheta!... Est claro,
-este caso outro, voss no teve inteno d'offender; mas levam
-grilheta!... Foi assim que o Severino marchou para a Africa. Alli no
-porosinho d'um navio, com rao de marujo e chibatadas. Desagradavel,
-muito desagradavel. Por isso eu quiz que tratassemos isto aqui, entre
-cavalheiros, e em amizade.
-
-Palma, com a cabea baixa, desfazia torres de assucar dentro do copo de
-genebra. E suspirou, findou por dizer, um pouco murcho, que era por ser
-entre cavalheiros, e com amizade, que aceitava os cem mil reis...
-
-Immediatamente Carlos tirou da algibeira das calas um punhado de
-libras, que comeou a deixar cahir em silencio uma a uma dentro d'um
-prato. E Palma _Cavallo_, agitado com o tinir do ouro, desabotoou logo
-o jaqueto, sacou uma carteira onde reluzia um pesado monogramma de
-prata sob uma enorme cora de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim
-desdobrou, estendeu tres papeis sobre a mesa. Ega, que esperava, com o
-monoculo sfrego, teve um brado de triumpho. Reconhecera a letra do
-Damaso!
-
-Carlos examinou os papeis lentamente. Era uma carta do Damaso ao Palma,
-curta e em calo, remettendo o artigo, recommendando-lhe que o
-apimentasse. Era o rascunho do artigo, laboriosamente trabalhado pelo
-Damaso, com entrelinhas. Era a lista, escripta pelo Damaso, das pessoas
-que deviam receber a _Corneta_: vinha l a Gouvarinho, o ministro do
-Brazil, D. Maria da Cunha, El-Rei, todos os amigos do Ramalhete, o
-Cohen, varias authoridades, e a Fancelli prima-donna...
-
-Palma no emtanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao
-prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de
-relancear os olhos aos documentos por cima do hombro de Carlos:
-
---Recolha o bago, amigo Palma! Negocios so negocios, e o baguinho est
-ahi a arrefecer!
-
-Ento, ao palpar o ouro, Palma _Cavallo_ commoveu-se. Palavra, caramba,
-se soubesse que se tratava d'um cavalheiro como o snr. Maia no tinha
-aceitado o artigo! Mas ento!... Fra o Eusebio Silveira, rapaz amigo,
-que lhe viera fallar. Depois o Salcede. E ambos com muitas lrias, e que
-era uma brincadeira, e que o Maia no se importava, e isto e aquillo, e
-muita promessa... Emfim deixra-se tentar. E tanto o Salcede como o
-Silveira se tinham portado pulhamente.
-
---Foi uma sorte que se escangalhasse a machina! Seno estava agora
-entalado, irra! E tinha desgosto, palavra, caramba, tinha desgosto! Mas
-acabou-se! O mal no foi grande, e sempre se fez alguma coisa pela porca
-da vida.
-
-Vivamente, com um olhar, recontra o dinheiro na palma da mo: depois
-esvaziou a genebra, d'um trago consolado e ruidoso. Carlos guardra as
-cartas do Damaso, levantava j o fecho da porta. Mas voltou-se ainda,
-n'uma derradeira averiguao:
-
---Ento esse meu amigo Eusebio Silveira tambem se metteu no negocio?...
-
-O snr. Palma, muito lealmente, afianou que o Eusebio lhe fallra apenas
-em nome do Damaso!
-
---O Eusebio, coitado, veio s como embaixador... Que o Damaso e eu no
-vamos muito na mesma bola. Ficmos exquisitos, desde uma pga em casa da
-Biscainha. Aqui p'ra ns, eu prometti-lhe dois estalos na cara, e elle
-embuchou. Passados tempos tornmos a fallar, quando eu fazia o
-_High-life_ na _Verdade_. Elle veio-me pedir com bons modos, em nome do
-conde de Landim, para eu dar umas piadas catitas sobre um baile
-d'annos... Depois, quando o Damaso fez tambem annos, eu dei outra
-piadita. Elle pagou a ceia, ficmos mais calhados... Mas traste... E
-l o Eusebiosinho, coitado, veio s d'embaixador.
-
-Sem uma palavra, sem um aceno ao Palma, Carlos virou as costas, deixou o
-cubiculo. O redactor da _Corneta_ ainda baixou a cabea para a porta;
-depois, sem se offender, voltou alegremente genebra, dando outro puxo
-s calas. Ega no emtanto accendia devagar o charuto.
-
---Voss agora que redige o jornal todo, Palma?
-
---O Silvestre, tambem...
-
---Que Silvestre?
-
---O que est com a _Pingada_. Voss no conhece, creio eu. Um rapazola
-magro, que no feio... Semsaboro, escreve uma palhada... Mas sabe
-coisas da sociedade. Esteve um tempo com a viscondessa de Cabellas, que
-elle chama a sua _cabelluda_... Que o Silvestre s vezes tem graa! E
-sabe, sabe coisas da sociedade, assim maroteiras de fidalgos, amigaes,
-pulhices... Voss nunca leu nada d'elle? Chcho. Tenho sempre de lhe
-arranjar o estylo... N'este numero que havia um folhetimzito meu,
-catita, c moderna, como eu gsto, alli com a piadinha realista a
-bater... Emfim fica para outra vez. E outra coisa, Ega, olhe que lhe
-agradeo. Quando quizer, eu e a _Corneta_ s ordens!
-
-Ega estendeu-lhe a mo:
-
---Obrigado, digno Palma! E _adis_!
-
---Pues vaya usted con Dios, Don Juanito! exclamou logo o benemerito
-homem com infinito _salero_.
-
-Em baixo Carlos esperava, dentro do coup.
-
---E agora? perguntou Ega, portinhola.
-
---Agora salta para dentro e vamos liquidar com o Damaso...
-
-Carlos j esbora summariamente o plano d'essa liquidao. Queria
-mandar desafiar o Damaso como author comprovado d'um artigo de jornal
-que o injuriava. O duello devia ser espada ou ao florete, um d'esses
-ferros cujo lampejo, na sala d'armas do Ramalhete, fazia empallidecer o
-Damaso. Se contra toda a verosimilhana elle se batesse, Carlos
-fazia-lhe algures, entre a bochecha e o ventre, um furo que o cravasse
-mezes na cama. Seno a unica explicao que Carlos aceitaria do snr.
-Salcede seria um documento em que elle escrevesse esta coisa simples:
-Eu abaixo assignado declaro que sou um infame. E para estes servios
-Carlos contava com o Ega.
-
---Agradeo! agradeo! Vamos a isso! exclamava o Ega esfregando as mos,
-faiscando de jubilo.
-
-No emtanto, dizia elle, a etiqueta funebre reclamava outro padrinho; e
-lembrou o Cruges, moo passivo e malleavel. Mas era impossivel encontrar
-o _maestro_, porque invariavelmente a criada affirmava que o menino
-Victorino no estava em casa... Decidiram ir ao Gremio, mandar de l um
-bilhete chamando o Cruges--para um caso urgente d'amizade e d'arte.
-
---Com qu, dizia o Ega continuando a esfregar as mos emquanto a tipoia
-trotava para a rua de S. Francisco, com qu, demolir o nosso Damaso?
-
---Sim, necessario acabar com esta perseguio. Chega a ser ridiculo...
-E com uma estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por
-algum tempo. Eu preferia a estocada. Seno deixo-te a ti arranjar os
-termos d'uma carta forte...
-
---Has de ter uma boa carta! disse o Ega com um sorriso de ferocidade.
-
-No Gremio, depois de redigirem o bilhete ao Cruges, vieram esperar por
-elle na sala das _Illustraes_. O conde de Gouvarinho e Steinbroken
-conversavam de p, no vo d'uma janella. E foi uma surpreza. O ministro
-da Filandia abriu os braos para o _cher Maia_, que elle no vira desde
-a partida d'Affonso para Santa Olavia. Gouvarinho acolheu o Ega
-risonhamente, reatando uma certa camaradagem que entre elles se formra
-n'esse vero, em Cintra: mas o aperto de mo a Carlos foi scco e curto.
-J dias antes, tendo-se encontrado no Loreto, o Gouvarinho murmurra de
-leve e de passagem um como est, Maia? em que se sentia arrefecimento.
-Ah! j no eram essas effuses, essas palmadas enternecidas pelos
-hombros, dos tempos em que Carlos e a condessa fumavam cigarettes na
-cama da titi em Santa Isabel. Agora que Carlos abandonra a snr.^a
-condessa de Gouvarinho, a rua de S. Maral e o commodo sof em que ella
-cahia com um rumor de saias amarrotadas--o marido amuava, como
-abandonado tambem.
-
---Tenho tido saudade das nossas bellas discusses em Cintra! disse elle,
-dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outr'ora pertencia ao
-Maia. Tivemol-as de primeira ordem!
-
-Eram realmente pgas tremendas no pateo do Victor sobre litteratura,
-sobre religio, sobre moral... Uma noite mesmo tinham-se zangado por
-causa da divindade de Jesus.
-
--- verdade! acudiu o Ega. Voss n'essa noite parecia ter s costas uma
-opa de irmo do Senhor dos Passos!
-
-O conde sorriu. Irmo do Senhor dos Passos no, graas a Deus! Ninguem
-melhor do que elle sabia que n'esses sublimes episodios do Evangelho
-reinava bastante lenda... Mas emfim eram lendas que serviam para
-consolar a alma humana. o que elle objectra n'essa noite ao amigo
-Ega... Sentiam-se a philosophia e o racionalismo capazes de consolar a
-mi que chora? No. Ento...
-
---Em todo o caso, tivemol-as brilhantes! concluiu elle olhando o
-relogio. E, eu confesso, uma discusso elevada sobre religio, sobre
-metaphysica, encanta-me... Se a politica me deixasse vagares dedicava-me
- philosophia... Nasci para isso, para aprofundar problemas.
-
-Steinbroken no emtanto, esticado na sua sobrecasaca azul, com um raminho
-d'alecrim ao peito, tomra as mos de Carlos:
-
---Mais vous tes encore devenu plus fort!... Et Affonso da Maia,
-toujours dans ses terres?... Est-ce qu'on ne va pas le voir un peu cet
-hiver?
-
-E immediatamente lamentou no ter visitado Santa Olavia. Mas qu! a
-familia real installra-se em Cintra; elle fra forado a acompanhal-a,
-fazer a sua crte... Depois necessitra ir de fugida a Inglaterra d'onde
-acabava de chegar, havia dias.
-
-Sim, Carlos sabia, vira na _Gazeta Illustrada_...
-
---Vous avez lu a? Oh oui, on a t trs aimable, trs aimable pour moi
- la _Gazette_...
-
-Tinham-lhe annunciado a partida, depois a chegada, com palavras de
-amizade particularmente bem escolhidas. Nem podia deixar de ser, dada
-esta affeio sincera que liga Portugal e a Filandia... Mais enfin on
-avait t charmant, charmant!...
-
---Seulement--ajuntou elle, sorrindo com finura e voltando-se tambem para
-o Gouvarinho--on a fait une petite erreur... On a dit que j'tais venu
-de Southampton par le _Royal Mail_... Ce n'est pas vrai, non! Je me suis
-embarqu Bordeaux dans les _Messageries_. J'ai mme pens crire
-Mr. Pinto, redacteur de la _Gazette_, qui est un charmant garon...
-Puis, j'ai reflechi, je me suis dit: Mon Dieu, on va croire que je veux
-donner une leon d'exactitude la _Gazette_, c'est trs grave...
-Alors, voil, trs prudemment, j'ai gard le silence... Mais enfin c'est
-une erreur: je me suis embarqu Bordeaux.
-
-Ega murmurou que a Historia se encarregaria um dia de rectificar esse
-facto. O ministro sorria modestamente, fazendo um gesto em que parecia
-desejar, por polidez, que a Historia se no incommodasse. E ento o
-Gouvarinho, que accendra o charuto, espreitra outra vez o relogio,
-perguntou se os amigos tinham ouvido alguma coisa do ministerio e da
-crise.
-
-Foi uma surpreza para ambos, que no tinham lido os jornaes... Mas,
-exclamou logo o Ega, crise porqu, assim em pleno remanso, com as
-camaras fechadas, tudo contente, um to lindo tempo d'outono?
-
-O Gouvarinho encolheu os hombros com reserva. Houvera na vespera,
-noitinha, uma reunio de ministros; n'essa manh o presidente do
-conselho fra ao pao, fardado, determinado a largar o poder... No
-sabia mais. No conferencira com os seus amigos, nem mesmo fra ao seu
-Centro. Como n'outras occasies de crise, conservra-se retirado,
-calado, esperando... Alli estivera toda a manh, com o seu charuto, e a
-_Revista dos Dois Mundos_.
-
-Isto parecia a Carlos uma absteno pouco patriotica...
-
---Porque emfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem...
-
---Exactamente por isso, acudiu o conde com uma cr viva na face, no
-desejo pr-me em evidencia... Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o
-ter... Se a minha experiencia, a minha palavra, o meu nome so
-necessarios, os meus correligionarios sabem onde eu estou, venham
-pedir-m'os...
-
-Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas
-coisas politicas, comeou logo a retrahir-se para o fundo da janella,
-limpando os vidros da luneta, recolhido, j impenetravel, no grande
-recato neutral que competia Filandia. Ega no emtanto no sahia do seu
-espanto. Mas porque cahia, porque cahia assim um governo com maioria nas
-camaras, socego no paiz, o apoio do exercito, a beno da Igreja, a
-proteco do _Comptoir d'Escompte_?...
-
-O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pera, e murmurou esta razo:
-
---O ministerio estava gasto.
-
---Como uma vela de sebo? exclamou Ega, rindo.
-
-O conde hesitou. Como uma vela de sebo no diria... Sebo subentendia
-obtusidade... Ora n'este ministerio sobrava o talento.
-Incontestavelmente havia l talentos pujantes...
-
---Essa outra! gritou Ega atirando os braos ao ar. extraordinario!
-N'este abenoado paiz todos os politicos tm _immenso talento_. A
-opposio confessa sempre que os ministros, que ella cobre d'injurias,
-tm, parte os disparates que fazem, um _talento de primeira ordem_!
-Por outro lado a maioria admitte que a opposio, a quem ella
-constantemente recrimina pelos disparates que fez, est cheia de
-_robustissimos talentos_! De resto todo o mundo concorda que o paiz
-uma choldra. E resulta portanto este facto supra-comico: um paiz
-governado _com immenso talento_, que de todos na Europa, segundo o
-consenso unanime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a
-vr: que como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os
-imbecis!
-
-O conde sorria com bonhomia e superioridade a estes exageros de
-phantasista. E Carlos, ancioso por ser amavel, atalhou, accendendo o
-charuto no d'elle:
-
---Que pasta preferiria voc, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A
-dos Estrangeiros, est claro...
-
-O conde fez um largo gesto d'abnegao. Era pouco natural que os seus
-amigos necessitassem da sua experiencia politica. Elle tornra-se
-sobretudo um homem d'estudo e de theoria. Alm d'isso no sabia bem se
-as occupaes da sua casa, a sua saude, os seus habitos lhe permittiriam
-tomar o fardo do governo. Em todo o caso, decerto, a pasta dos
-Estrangeiros no o tentava...
-
---Essa, nunca! proseguiu elle, muito compenetrado. Para se poder fallar
-d'alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, necessario ter por
-traz um exercito de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos.
-Ns, infelizmente, somos fracos... E eu, para papeis subalternos, para
-que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me ha de ser assim, no
-estou!... Pois no acha, Steinbroken?
-
-O ministro tossiu, balbuciou:
-
---Certainement... C'est trs grave... C'est excessivement grave...
-
-Ega ento affirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interresse
-geographico pela Africa, faria um ministro da Marinha iniciador,
-original, rasgado...
-
-Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer.
-
---Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colonias todas as
-coisas bellas, todas as coisas grandes esto feitas. Libertaram-se j os
-escravos; deu-se-lhes j uma sufficiente noo da moral christ;
-organisaram-se j os servios aduaneiros... Emfim o melhor est feito.
-Em todo o caso ha ainda detalhes interessantes a terminar... Por
-exemplo, em Loanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque
-mais de progresso a dar. Em Loanda precisava-se bem um theatro normal
-como elemento civilisador!
-
-N'esse momento um criado veio annunciar a Carlos--que o snr. Cruges
-estava em baixo, no portal, espera. Immediatamente os dois amigos
-desceram.
-
---Extraordinario, este Gouvarinho! dizia o Ega na escada.
-
---E este, observou Carlos com um immenso desdem de mundano, um dos
-melhores que ha na politica. Pensando mesmo bem, e mettendo a roupa
-branca em linha de conta, este talvez o melhor!
-
-Acharam o Cruges porta, de jaqueto claro, embrulhando um cigarro. E
-Carlos pediu-lhe logo que voltasse a casa vestir uma sobrecasaca preta.
-O maestro arregalava os olhos.
-
--- jantar?
-
--- enterro.
-
-E rapidamente, sem alludir a Maria, contaram ao maestro que o Damaso
-publicra n'um jornal, a _Corneta do Diabo_ (cuja tiragem elles tinham
-supprimido, no sendo possivel por isso mostrar o numero immundo) um
-artigo em que a coisa mais dce que se chamava a Carlos era _pulha_.
-Portanto Ega e elle Cruges iam a casa do Damaso pedir-lhe a honra ou a
-vida.
-
---Bem, rosnou o maestro. Que tenho eu a fazer?... Que eu d'essas coisas
-no entendo.
-
---Tens, explicou Ega, d'ir vestir uma sobrecasaca preta e franzir o
-sobr'olho. Depois vir commigo; no dizer nada; tratar o Damaso por v.
-exc.^a; assentar em tudo o que eu propuzer; e nunca desfranzir o
-sobr'olho nem despir a sobrecasaca...
-
-Sem outra observao, Cruges partiu a cobrir-se de ceremonia e de negro.
-Mas no meio da rua retrocedeu:
-
--- Carlos, olha que eu fallei l em casa. Os quartos do primeiro andar
-esto livres, e forrados de papel novo...
-
---Obrigado. Vai-te fazer sombrio, depressa!...
-
-O maestro abalra, quando diante do Gremio estacou a todo o trote uma
-caleche. De dentro saltou o Telles da Gama que, ainda com a mo no fecho
-da portinhola, gritou aos dois amigos:
-
---O Gouvarinho? est l em cima?
-
---Est... Novidade fresca?
-
---Os homens cahiram. Foi chamado o S Nunes!
-
-E enfiou pelo pateo, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar at ao
-porto do Cruges. As janellas do primeiro andar estavam abertas, sem
-cortinas. Carlos, erguendo para l os olhos, pensava n'essa tarde das
-corridas em que elle viera no phaeton, de Belem, para vr aquellas
-janellas: ia ento escurecendo, por traz dos _stores_ fechados surgira
-uma luz, elle contemplra-a como uma estrella inaccessivel... Como tudo
-passa!
-
-Retrocederam para o Gremio. Justamente o Gouvarinho e Telles atiravam-se
- pressa para dentro da caleche que esperra. Ega parou, deixou cahir os
-braos:
-
---L vae o Gouvarinho batendo para o Poder, a mandar representar a _Dama
-das Camelias_ no serto! Deus se amerceie de ns!
-
-Mas o Cruges appareceu emfim de chapo alto, entalado n'uma sobrecasaca
-solemne, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipoia
-estreita e dura. Carlos ia leval-os a casa do Damaso. E como queria
-ainda jantar nos Olivaes, esperaria por elles, para saber o resultado
-do chinfrin, no jardim da Estrella, junto ao coreto.
-
---Sde rapidos e medonhos!
-
-
-
-A casa do Damaso, velha e d'um andar s, tinha um enorme porto verde,
-com um arame pendente que fez resoar dentro uma sineta triste de
-convento: e os dois amigos esperaram muito antes que apparecesse,
-arrastando as chinelas, o gallego achavascado que o Damaso (agora livre
-de Carlos e das suas pompas) j no trazia torturado em botins crueis de
-verniz. A um canto do pateo uma portinha abria sobre a luz d'um quintal,
-que parecia ser um deposito de caixotes, de garrafas vazias e de lixo.
-
-O gallego, que reconhecera o snr. Ega, conduziu-os logo, por uma
-escadinha esteirada, a um corredor largo, escuro, com cheiro a mfo.
-Depois, batendo o chinelo, correu ao fundo, onde alvejava a claridade
-d'uma porta entreaberta. Quasi immediatamente Damaso gritou de l:
-
--- Ega, voc? Entre para aqui, homem! Que diabo!... Eu estou-me a
-vestir...
-
-Embaraado com estes brados de intimidade e tanta effuso, Ega ergueu a
-voz da sombra do corredor, gravemente:
-
---No tem duvida, ns esperamos...
-
-O Damaso insistia, porta, em mangas de camisa, cruzando os
-suspensorios:
-
---Venha voc, homem! Que diabo, eu no tenho vergonha, j estou de
-calas!
-
---Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar.
-
-A porta ao fundo cerrou-se, o gallego veio abrir a sala. O tapete era
-exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor
-abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de Carlos
-a cavallo, n'um vistoso caixilho de flres em faiana: uma das colchas
-da India das senhoras Medeiros, branca e verde, enroupando o piano,
-arranjada por Carlos com alfinetes: e sobre um contador hespanhol,
-debaixo de redoma, um sapatinho de setim de mulher, novo, que o Damaso
-comprra no Serra, por ter ouvido um dia a Carlos que em todo o quarto
-de rapaz deve apparecer, discretamente disposta, alguma reliquia
-d'amor...
-
-Sob estes retoques de _chic_, dados pressa sob a influencia do Maia,
-impertigava-se a slida mobilia do pai Salcede, de mogno e velludo azul;
-a console de marmore, com um relogio de bronze dourado, onde Diana
-acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no
-caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de
-convites para _soires_. E Cruges ia examinar estes documentos, quando
-os passos alegres do Damaso soaram no corredor. O maestro correu logo a
-perfilar-se ao lado do Ega, diante do canap de velludo, teso, commodo,
-com o seu chapo alto na mo.
-
-Ao vl-o, o bom Damaso, que se abotora todo n'uma sobrecasaca azul,
-florida por um boto de camelia, atirou risonhamente os braos ao ar:
-
---Ento esta que a pessoa de ceremonia? Sempre vocs tm coisas! E
-eu a pr sobrecasaca... Por pouco que no lhe afinfo com o habito de
-Christo!...
-
-Ega atalhou, muito srio:
-
---O Cruges no de ceremonia, mas o motivo que aqui nos traz delicado
-e grave, Damaso.
-
-Damaso arregalou os olhos, reparando emfim n'aquelle estranho modo dos
-seus amigos, ambos de negro, seccos, to solemnes. E recuou, todo o
-sorriso se lhe apagou na face.
-
---Que diabo isso? Sentem-se, sentem-se vocs...
-
-A voz apagava-se-lhe tambem. Pousado borda d'uma poltrona baixa, junto
-d'uma mesa coberta d'encadernaes ricas, com as mos nos joelhos, ficou
-esperando, n'uma anciedade.
-
---Ns vimos aqui, comeou Ega, em nome do nosso amigo Carlos da Maia...
-
-Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso at
-risca do cabello encaracolado a ferro. E no achou uma palavra,
-attonito, suffocado, esfregando estupidamente os joelhos.
-
-Ega proseguiu, lento, direito no canap:
-
---O nosso amigo Carlos da Maia queixa-se de que o Damaso publicou, ou
-fez publicar, um artigo extremamente injurioso para elle e para uma
-senhora das relaes d'elle na _Corneta do Diabo_...
-
---Na _Corneta_, eu? acudiu o Damaso, balbuciando. Que _Corneta_? Nunca
-escrevi em jornaes, graas a Deus! Ora essa, a _Corneta_!...
-
-Ega, muito friamente, tirou do bolso um masso de papeis. E veio
-collocal-os um por um, ao lado do Damaso, na mesa, sobre um magnifico
-volume da _Biblia_ de Dor.
-
---Aqui est a sua carta remettendo ao Palma Cavallo o rascunho do
-artigo... Aqui est, pela sua letra igualmente, a lista das pessoas a
-quem se devia mandar a _Corneta_, desde o Rei at Fancelli... Alm
-d'isso ns temos as declaraes do Palma. O Damaso no s o
-inspirador, mas materialmente o auctor do artigo... O nosso amigo Carlos
-da Maia exige, pois, como injuriado, uma reparao pelas armas...
-
-Damaso deu um salto da poltrona, to arrebatado--que involuntariamente
-Ega recuou, no receio d'uma brutalidade. Mas j o Damaso estava no meio
-da sala, esgazeado, com os braos tremulos no ar:
-
---Ento o Carlos manda-me desafiar? A mim?... Que lhe fiz eu? Elle a mim
- que me pregou uma partida!... Foi elle, vocs sabem perfeitamente que
-foi elle!...
-
-E desabafou, n'um prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmadas ao
-peito, com os olhos marejados de lagrimas. Fra Carlos, Carlos, que o
-desfeitira a elle, mortalmente! Durante todo o inverno tinha-o
-perseguido para que elle o apresentasse a uma senhora brazileira muito
-_chic_, que vivia em Paris, e que lhe fazia olho... E elle, bondoso como
-era, promettia, dizia: Deixa estar, eu te apresento! Pois, senhores,
-que faz Carlos? Aproveita uma occasio sagrada, um momento de luto,
-quando elle Damaso fra ao Norte por causa da morte do tio, e mette-se
-dentro da casa da brazileira... E tanto intriga, que leva a pobre
-senhora a fechar-lhe a sua porta, a elle, Damaso, que era intimo do
-marido, intimo de _tu_! Caramba, elle que devia mandar desafiar
-Carlos! Mas no! fra prudente, evitra o escandalo por causa do snr.
-Affonso da Maia... Queixra-se de Carlos, verdade... Mas no Gremio, na
-Casa Havaneza, entre rapaziada amiga... E no fim Carlos prga-lhe uma
-d'estas!
-
---Mandar-me desafiar, a mim! A mim, que todo o mundo conhece!...
-
-Calou-se, engasgado. E Ega, estendendo a mo, observou placidamente que
-se desviavam do ponto vivo da questo. O Damaso concebera, rascunhra,
-pagra o artigo da _Corneta_. Isso no o negava, nem o podia negar: as
-provas estavam alli, abertas sobre a mesa: elles tinham alm d'isso a
-declarao do Palma...
-
---Esse desavergonhado! gritou o Damaso, levado n'outra rajada
-d'indignao que o fez redemoinhar, estonteado, tropeando nos moveis.
-Esse descarado do Palma! Com esse que eu me quero vr!... L a questo
-com o Carlos no vale nada, arranja-se, somos todos rapazes finos... Com
-o Palma que ! Esse traidor que eu quero rachar! Um homem a quem eu
-tenho dado s meias libras, aos sete mil reis! E ceias, e tipoias! Um
-ladro que pediu o relogio ao Zeferino para figurar n'um baptisado, e
-pl-o no prgo!... E faz-me uma d'estas!... Mas hei de escavacal-o! Onde
- que voc o viu, Ega? Diga l, homem! Que quero ir procural-o, hoje
-mesmo, correl-o a chicotadas... Traies no, no admitto a ninguem!
-
-Ega, com a tranquillidade paciente de quem sente a prsa certa, lembrou
-de novo a inutilidade d'aquellas divagaes:
-
---Assim nunca acabamos, Damaso... O nosso ponto este: o Damaso
-injuriou Carlos da Maia: ou se retracta publicamente d'essa injuria, ou
-d uma reparao pelas armas...
-
-Mas o Damaso, sem escutar, appellava desesperadamente para o Cruges, que
-se no movera do sof de velludo, esfregando, um contra o outro, com um
-ar arripiado e de dr, os dois sapatos novos de verniz.
-
---Aquelle Carlos! Um homem que se dizia meu amigo intimo! Um homem que
-fazia de mim tudo! At lhe copiava coisas... Voc bem viu, Cruges. Diga!
-Falle, homem! No sejam vocs todos contra mim!... At s vezes ia
-alfandega despachar-lhe caixotes...
-
-O maestro baixava os olhos, vermelho, n'um infinito mal-estar. E Ega,
-por fim, j farto, lanou uma intimao derradeira:
-
---Em resumo, Damaso, desdiz-se ou bate-se?
-
---Desdizer-me? tartamudeou o outro, impertigando-se, n'um penoso esforo
-de dignidade, a tremer todo. E de qu? Ora essa! boa! Eu sou l homem
-que me desdiga!
-
---Perfeitamente, ento bate-se...
-
-Damaso cambaleou para traz, desvairado:
-
---Qual bater-me! Eu sou l homem que me bata! Eu c a scco. Que venha
-para c, no tenho medo d'elle, arrombo-o...
-
-Dava pulinhos curtos de gordo, atravs do tapete, com os punhos fechados
-e em riste. E queria Carlos alli para o escavacar! No lhe faltava mais
-seno bater-se... E ento duellos em Portugal, que acabavam sempre por
-troa!
-
-Ega no emtanto, como se a sua misso estivesse finda, abotora a
-sobrecasaca e recolhia os papeis espalhados sobre a _Biblia_. Depois,
-serenamente, fez a ultima declarao de que fra incumbido. Como o snr.
-Damaso Salcede recusava retractar-se e rejeitava tambem uma reparao
-pelas armas, Carlos da Maia prevenia-o de que em qualquer parte que o
-encontrasse d'ahi por diante, fosse uma rua, fosse um theatro, lhe
-escarraria na face...
-
---Escarrar-me! berrou o outro, livido, recuando, como se o escarro j
-viesse no ar.
-
-E de repente, espavorido, coberto de bagas de suor, precipitou-se sobre
-o Ega, agarrando-lhe as mos, n'uma agonia:
-
--- Joo, Joo, tu, que s meu amigo, por quem s, livra-me d'esta
-entaladella!
-
-Ega foi generoso. Desprendeu-se d'elle, empurrou-o brandamente para a
-poltrona, calmando-o com palmadinhas fraternaes pelo hombro. E declarou
-que, desde que Damaso appellava para a sua amizade, desapparecia o
-enviado de Carlos necessariamente exigente, ficava s o camarada, como
-no tempo dos Cohens e da _villa_ Balzac. Queria pois o amigo Damaso um
-conselho? Era assignar uma carta affirmando que tudo o que fizera
-publicar na _Corneta_ sobre o snr. Carlos da Maia e certa senhora fra
-inveno falsa e gratuita. S isto o salvava. D'outro modo, Carlos um
-dia, no Chiado, em S. Carlos, escarrava-lhe na cara. E, dado esse
-desastre, Damasosinho, a no querer ser apontado em Lisboa como um
-incomparavel cobarde, tinha de se bater espada ou pistola...
-
---Ora, em qualquer d'esses casos, voc era um homem morto.
-
-O outro escutava, esbarrondado no fundo do assento de velludo, com a
-face emparvecida para o Ega. Alargou mollemente os braos, murmurou da
-profundidade do seu terror:
-
---Pois sim, eu assigno, Joo, eu assigno...
-
--- o que lhe convm... Arranje ento papel. Voc est perturbado, eu
-mesmo redijo.
-
-Damaso ergueu-se, com as pernas frouxas, atirando um olhar tonto e vago
-por sobre os moveis:
-
---Papel de carta? para carta?
-
---Sim, est claro, uma carta ao Carlos!
-
-Os passos do desgraado perderam-se emfim no corredor, pesados e
-succumbidos.
-
---Coitado! suspirou o Cruges levando de novo, com um ar de arripio, a
-mo aos sapatos.
-
-Ega lanou-lhe um _chut_ severo. Damaso voltava com o seu sumptuoso
-papel de monogramma e cora. Para envolver em silencio e segredo aquelle
-transe amargo, cerrou o reposteiro; e o vasto pano de velludo,
-desdobrando-se, mostrou o brazo de Salcede, onde havia um leo, uma
-torre, um brao armado, e por baixo, a letras d'ouro, a sua formidavel
-divisa: Sou forte! Immediatamente Ega afastou os livros na mesa,
-abancou, atirou largamente ao papel a data e a adresse do Damaso...
-
---Eu fao o rascunho, voc depois copa...
-
---Pois sim! gemeu o outro, de novo, aluido na poltrona, passando o leno
-pelo pescoo e pela face.
-
-Ega no emtanto escrevia muito lentamente, com amor. E n'aquelle
-silencio, que o embaraava, Cruges terminou por se erguer, foi coxeando
-at ao espelho onde se desenrolavam, entalados na frincha do caixilho,
-bilhetes e photographias. Eram as glorias sociaes do Damaso, os
-documentos do _chic a valer_ que era a paixo da sua vida: bilhetes com
-titulos, retratos de cantoras, convites para bailes, cartas de entrada
-no Hippodromo, diplomas de membro do Club Naval, de membro do Jockey
-Club, de membro do Tiro aos Pombos:--at pedaos cortados de jornaes
-annunciando os annos, as partidas, as chegadas do snr. Salcede, um dos
-nossos mais distinctos _sportmen_.
-
-Desventuroso _sportman_! Aquella folha de papel, onde o Ega rascunhava,
-ia-o enchendo pouco a pouco d'um terror angustioso. Santo Deus! Para que
-eram tantos apuros n'uma carta ao Carlos, um rapaz intimo? Uma linha
-bastaria:--Meu querido Carlos, no te zangues, desculpa, foi
-brincadeira. Mas no! Toda uma pagina de letra miuda com entrelinhas!
-J mesmo Ega voltava a folha, molhava a penna, como se d'ella devessem
-escorrer sem cessar coisas humilhadoras! No se conteve, estendeu a face
-por sobre a mesa, at o papel:
-
--- Ega, isso no para publicar, pois no verdade?
-
-Ega reflectiu, com a penna no ar:
-
---Talvez no... Estou certo que no. Naturalmente Carlos, vendo o seu
-arrependimento, deixa isto esquecido no fundo d'uma gaveta.
-
-Damaso respirou com allivio. Ah, bem! Isso parecia-lhe mais decente
-entre amigos! Que l isso, mostrar o seu arrependimento, at elle
-desejava! Com effeito o artigo fra uma tolice... Mas ento! Em questes
-de mulheres era assim, assomado, um leo...
-
-Abanou-se com o leno, desanuviado, recomeando a achar sabr vida.
-Findou mesmo por accender um charuto, levantar-se sem rumor, acercar-se
-do Cruges--que, coxeando atravs das curiosidades da sala, encalhra
-sobre o piano e sobre os livros de musica, com o p dorido no ar.
-
---Ento tem-se feito alguma coisa de novo, Cruges?
-
-Cruges, muito vermelho, resmungou que no tinha feito nada.
-
-Damaso ficou alli um momento, a mascar o charuto. Depois, atirando um
-olhar inquieto mesa onde o Ega rascunhava interminavelmente, murmurou,
-sobre o hombro do maestro:
-
---Uma entaladella assim! Eu por causa da gente conhecida... Seno no
-me importava! Mas veja voc tambem se arranja as coisas e se o Carlos
-deixa aquillo na gaveta...
-
-Justamente Ega erguera-se com o papel na mo e caminhava para o piano,
-devagar, relendo baixo.
-
---Ficou optimo, salva tudo! exclamou por fim. Vai em frma de carta ao
-Carlos, mais correcto. Voc depois copa e assigna. Oua l:
-Exc.^{mo} snr.... Est claro, voc d-lhe excellencia, porque um
-documento d'honra... Exc.^{mo} snr.--Tendo-me v. exc.^a, por intermdio
-dos seus amigos Joo da Ega e Victorino Cruges, manifestado a indignao
-que lhe causra um certo artigo da _Corneta do Diabo_ de que eu escrevi
-o rascunho e de que promovi a publicao, venho declarar francamente a
-v. exc.^a que esse artigo, como agora reconheo, no continha seno
-falsidades e incoherencias: e a minha desculpa unica est em que o
-compuz e enviei redaco da _Corneta_ no momento de me achar no mais
-completo estado d'embriaguez...
-
-Parou. E nem se voltou para o Damaso, que deixra pender os braos,
-rolar o charuto no tapete, varado. Foi ao Cruges que se dirigiu,
-entalando o monoculo:
-
---Achas talvez forte?... Pois eu redigi assim por ser justamente a unica
-maneira de resalvar a dignidade do nosso Damaso.
-
-E desenvolveu a sua ida, mostrando quanto era generosa e
-habil--emquanto o Damaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos
-nem elle queriam que o Damaso n'uma carta (que se podia tornar publica)
-declarasse que calumnira por ser calumniador. Era necessario, pois,
-dar calumnia uma d'essas causas fortuitas e ingovernaveis que tiram a
-responsabilidade s aces. E que melhor, tratando-se d'um rapaz mundano
-e femeeiro, do que estar bebedo?... No era vergonha para ninguem
-embebedar-se... O proprio Carlos, todos elles alli, homens de gosto e de
-honra, se tinham embebedado. Sem remontar aos romanos, onde isso era uma
-hygiene e um luxo, muitos grandes homens na Historia bebiam de mais. Em
-Inglaterra era to _chic_, que Pitt, Fox e outros nunca fallavam na
-Camara dos communs seno aos bordos. Musset, por exemplo, que bebedo!
-Emfim a Historia, a Litteratura, a Politica, tudo fervilhava de
-piteiras... Ora, desde que o Damaso se declarava borracho, a sua honra
-ficava salva. Era um homem de bem que apanhra uma carraspana e que
-commettera uma indiscrio... Nada mais!
-
---Pois no te parece, Cruges?
-
---Sim, talvez, que estava bebedo, murmurou o maestro timidamente.
-
---Pois no lhe parece a voc, francamente, Damaso?
-
---Sim, que estava bebedo, balbuciou o desgraado.
-
-Immediatamente Ega retomou a leitura: Agora que voltei a mim reconheo,
-como sempre reconheci e proclamei, que v. exc.^a um caracter
-absolutamente nobre; e as outras pessoas, que n'esse momento
-d'embriaguez ousei salpicar de lama, so-me s merecedoras de venerao
-e louvor. Mais declaro que se por acaso tornasse a succeder soltar eu
-alguma palavra offensiva para v. exc.^a, no lhe devia dar v. exc.^a, ou
-aquelles que a escutassem, mais importancia do que a que se d a uma
-involuntaria baforada d'alcool--pois que, por um habito hereditario que
-reapparece frequentemente na minha familia, me acho repetidas vezes em
-estado de embriaguez... De v. exc.^a, com toda a estima etc.... Rodou
-sobre os taces, pousou o rascunho na mesa--e accendendo o charuto ao
-lume do Damaso, explicou com amizade, com bonhomia, o que o determinra
-quella confisso de bebedeira incorrigivel e palreira. Fra ainda o
-desejo de garantir a tranquillidade do nosso Damaso. Attribuindo todas
-as imprudencias em que pudesse cahir a um habito d'intemperana
-hereditaria, de que tinha to pouca culpa como de ser baixo e gordo, o
-Damaso punha-se _para sempre_ ao abrigo das provocaes de Carlos...
-
---Voc, Damaso, tem genio, tem lingua... Um dia esquece-se, e no Gremio,
-sem querer, na cavaqueira depois do theatro, l lhe escapa uma palavra
-contra Carlos... Sem esta precauo, ahi recomea a questo, o escarro,
-o duello... Assim j Carlos no se pde queixar. L tem a explicao que
-tudo cobre, uma gotta de mais, a gotta tomada por impulso de borrachice
-hereditaria... Voc alcana d'este modo a coisa que mais se appetece
-n'este nosso seculo XIX--a irresponsabilidade!... E depois para a sua
-familia no vergonha, porque voc no tem familia. Em resumo,
-convem-lhe?
-
-O pobre Damaso escutava-o, esmagado, enervado, sem comprehender aquellas
-roncantes phrases sobre a hereditariedade, sobre o seculo XIX. E um
-unico sentimento vivo o dominava, acabar, reentrar na sua paz
-pachorrenta, livre de floretes e de escarros. Encolheu os hombros, sem
-fora:
-
---Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar fallatorios.
-
-E abancou, metteu um bico novo na penna, escolheu uma folha de papel em
-que o monogramma luzia mais largo, comeou a copiar a carta na sua
-maravilhosa letra, com finos e grossos, d'uma nitidez de gravura em ao.
-
-Ega no emtanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava
-em torno da mesa, seguindo sfregamente as linhas que traava a mo
-applicada do Damaso, ornada d'um grosso annel d'armas. E durante um
-momento atravessou-o um susto... Damaso parra, com a penna indecisa.
-Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquella gordura balofa, um
-resto escondido de dignidade, de revolta?... Damaso alou para elle os
-olhos embaciados:
-
---Embriaguez com _n_ ou com _m_?
-
---Com um _m_, um _m_ s, Damaso! acudiu Ega affectuosamente. Vai muito
-bem... Que linda letra voc tem, caramba!
-
-E o infeliz sorriu sua propria letra--pondo a cabea de lado, no
-orgulho sincero d'aquella soberba prenda.
-
-Quando findou a cpia foi Ega que conferiu, pz a pontuao. Era
-necessario que o documento fosse _chic_ e perfeito.
-
---Quem o seu tabellio, Damaso?
-
---O Nunes, na rua do Ouro... Porque?
-
---Oh! nada. um detalhe que n'estes casos se pergunta sempre. Mera
-ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como estylo, est
-d'appetite a cartinha!
-
-Metteu-a logo n'um enveloppe onde rebrilhava a divisa Sou Forte,
-sepultou-a preciosamente no interior da sobrecasaca. Depois, agarrando o
-chapo, batendo no hombro do Damaso com uma familiaridade folgaz e
-leve:
-
---Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fra de portas,
-n'uma poa de sangue! Assim uma delicia. E adeus... No se incommode
-voc. Ento o grande sarau sempre na segunda-feira? Vai l tudo, hein!
-No venha c, homem... Adeus!
-
-Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor, mudo, murcho, cabisbaixo. E no
-patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietao que o assaltra:
-
---Isso no se mostra a ninguem, no verdade, Ega?
-
-Ega encolheu os hombros. O documento pertencia a Carlos... Mas emfim
-Carlos era to bom rapaz, to generoso!
-
-Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso:
-
---E chamei eu quelle homem _meu amigo_!
-
---Tudo na vida so desapontamentos, meu Damaso! foi a observao do Ega,
-saltando alegremente os degraus.
-
-Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrella, Carlos j esperava ao
-porto de ferro, n'uma impaciencia, por causa do jantar na _Toca_.
-Enfiou logo para dentro atropellando o maestro, bradou ao cocheiro que
-voasse ao Loreto.
-
---E ento, meus senhores, temos sangue?
-
---Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o
-enveloppe.
-
-Carlos leu a carta do Damaso. E foi um immenso assombro:
-
---Isto incrivel!... Chega a ser humilhante para a natureza humana!
-
---O Damaso no o genero humano, acudiu Ega. Que diabo esperavas tu?
-Que elle se batesse?
-
---No sei, corta o corao... Que se ha de fazer a isto?
-
-Segundo o Ega no se devia publicar; seria crear curiosidade e escandalo
-em torno do artigo da _Corneta_ que custra trinta libras a suffocar.
-Mas convinha conservar aquillo como uma ameaa pairando sobre o Damaso,
-tornando-o para longos annos nullo e inoffensivo.
-
---Eu estou mais que vingado, concluiu Carlos. Guarda o papel: obra
-tua, usa-o como quizeres...
-
-Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos, batendo no joelho do maestro,
-queria saber como elle se portra n'aquelle lance d'honra...
-
---Pessimamente! gritou Ega. Com expresses de compaixo; sem linha
-nenhuma; estendido por cima do piano; agarrando com a mo no sapato...
-
---Pudera! exclamou Cruges desafogando emfim. Vocs dizem-me que me ponha
-de ceremonia, calo uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde
-n'um tormento!
-
-E no se conteve mais, arrancou o sapato, pallido, com um medonho
-suspiro de consolao.
-
-
-No dia seguinte, depois do almoo, emquanto uma chuva grossa alagava os
-vidros sob as lufadas de sudoeste, Ega, no _fumoir_, enterrado n'uma
-poltrona, com os ps para o lume, relia a carta do Damaso: e pouco a
-pouco subia n'elle a mgoa de que esse colossal documento de cobardia
-humana, to interessante para a physiologia e para a arte, ficasse para
-sempre inaproveitado no escuro d'uma gaveta!... Que effeito, que soberbo
-effeito se aquella confisso do nosso distincto _sportman_ surgisse um
-dia na _Gazeta Illustrada_ ou no novo jornal _A Tarde_, nas columnas do
-_High-life_, sob este titulo--Pendencia d'honra! E que lio, que
-meritorio acto de justia social!
-
-Todo esse vero, Ega detestra o Damaso, certo, desde Cintra, de que
-elle era o amante da Cohen--e de que, por esse imbecil de grossas
-nadegas, esquecera ella para sempre a _villa_ Balzac, as manhs na
-colcha de setim preto, os seus beijos delicados, os versos de Musset que
-lhe lia, os lunchesinhos de perdiz, tantos encantos poeticos. Mas o que
-lhe tornra o Damaso intoleravel--fra a sua farofia radiante de homem
-preferido; o ar de posse com que passeava ao lado de Rachel pelas
-estradas de Cintra, vestido de flanella branca; os segredinhos que tinha
-sempre a cochichar-lhe sobre o hombro; e o acnosinho desdenhoso, com um
-dedo, que lhe atirava de lado, ao passar, a elle proprio, Ega... Era
-odioso! Odiava-o: e atravs d'esse odio ruminra sempre o desejo d'uma
-vingana--pancada, deshonra ou ridiculo que tornasse o snr. Salcede, aos
-olhos de Rachel, desprezivel, grutesco, chato como um balo furado...
-
-E agora alli tinha essa carta providencial, em que o homem solemnemente
-se declarava bebedo. Sou um bebedo, estou sempre bebedo! Assim o
-dizia, no seu papel de monogramma d'ouro, o snr. Salcede, n'um medo vil
-de co gso, rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer
-pau!... Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia d'encafuar to
-decisivo documento no fundo d'um gaveto?
-
-Publical-o na _Gazeta Illustrada_ ou na _Tarde_ no podia, infelizmente,
-por interesse de Carlos. Mas porque o no mostraria em segredo, como
-uma curiosidade psychologica, ao Craft, ao marquez, ao Telles, ao
-Gouvarinho, ao primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cpia ao Taveira
-que, resentido eternamente da questo com o Damaso em casa da Lola
-Gorda, correria a ll-a _em segredo_ na Casa Havaneza, no bilhar do
-Gremio, no Silva, nos camarins de cantoras... E ao fim de uma semana a
-snr.^a D. Rachel saberia inevitavelmente que o escolhido do seu corao
-era por confisso propria um calumniador e um bebedo!... Delicioso!
-
-To delicioso que no hesitou mais, subiu ao quarto para copiar a carta
-do Damaso. Mas quasi immediatamente um criado trouxe-lhe um telegramma
-de Affonso da Maia annunciando que chegava no dia seguinte ao Ramalhete.
-Ega teve de sahir, telegraphar para os Olivaes, avisar Carlos.
-
-Carlos appareceu n'essa noite, j tarde, transido de frio, com um monte
-de bagagens--porque abandonra definitivamente os Olivaes. Maria Eduarda
-regressava tambem a Lisboa, para o primeiro andar da rua de S.
-Francisco, tomado agora por seis mezes, tapetado de novo pela mi
-Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com profundas saudades da
-_Toca_. Depois de cear, ao fogo, acabando o charuto, relembrou
-infindavelmente esses dias alegres, a sua casinhola, o banho da manh
-tomado dentro d'uma dorna, a festa do deus Tchi, as guitarradas do
-marquez, as longas cavaqueiras ao caf com as janellas abertas e as
-borboletas voando em torno aos candieiros... Fra as cordas d'agua, sob
-o vento d'inverno, batiam os vidros na mudez da noite negra. Ambos
-terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no lume.
-
---Quando esta tarde dei pela ultima vez uma volta na quinta, disse por
-fim Carlos, j no havia uma unica folha nas arvores... Tu no sentes
-sempre uma grande melancolia n'estes fins de outono?...
-
---Immensa! murmurou Ega lugubremente.
-
-Ao outro dia a manh clareava, limpa e branca, quando Ega e Carlos,
-ainda estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolonia. O comboio
-acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de gente que
-se escoava das portinholas abertas, Affonso, com o seu velho capote de
-gola de velludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre homens de
-bon agaloado que lhe offereciam o _Hotel Terreirense_ e a _Pomba
-d'Ouro_. Atraz Mr. Antoine, o chefe francez, grave, de chapo alto,
-trazia o cesto em que viajra o reverendo Bonifacio.
-
-Carlos e Ega acharam Affonso mais acabado, mais pesado. Todavia
-gabaram-lhe muito, entre os primeiros abraos, a sua robustez de
-patriarcha. Elle encolheu os hombros, queixando-se de ter sentido desde
-o fim do vero vertigens, um cansao vago...
-
---Vocs que esto excellentes, acrescentou abraando outra vez Carlos
-e sorrindo ao Ega. E que ingratido foi essa tua, John, mettido aqui
-todo um vero sem me ir visitar?... Que tens tu feito? Que tm vocs
-feito?
-
---Mil coisas! acudiu Ega alegremente. Planos, ideias, titulos... Temos
-sobretudo o projecto d'uma _Revista_, um apparelho d'educao superior
-que vamos montar com uma fora de mil cavallos!... Emfim logo se lhe
-conta tudo ao almoo.
-
-E ao almoo, com effeito, para justificarem as suas occupaes em
-Lisboa, fallaram da _Revista_ como se ella j estivesse organisada e os
-artigos a imprimir na officina--tanta foi a preciso com que lhe
-descreveram as tendencias, a feio critica, as linhas de pensamento
-sobre que ella devia rolar... Ega j preparra um trabalho para o
-primeiro numero--_A capital dos portuguezes_. Carlos meditava uma srie
-d'_ensaios_ ingleza, sob este titulo--_Porque falhou entre ns o
-systema constitucional_. E Affonso escutava, encantado com aquellas
-bellas ambies de lucta, querendo partilhar da grande obra como socio
-capitalista... Mas Ega entendia que o snr. Affonso da Maia devia descer
- arena, lanar tambem a palavra do seu saber e da sua experiencia.
-Ento o velho riu. O qu! compr prosa, elle, que hesitava para traar
-uma carta ao feitor? De resto o que teria a dizer ao seu paiz, como
-fructo da sua experiencia, reduzia-se pobremente a tres conselhos em
-tres phrases: aos politicos--menos liberalismo e mais caracter; aos
-homens de letras--menos eloquencia e mais ideia; aos cidados em
-geral--menos progresso e mais moral.
-
-Isto enthusiasmou o Ega! Justamente, ahi estavam as verdadeiras feies
-da reforma espiritual que a _Revista_ devia prgar! Era necessario
-tomal-as como moto symbolico, inscrevel-as em letras gothicas no
-frontispicio--porque Ega queria que a _Revista_ fosse original logo na
-capa. E ento a conversao desviou para o exterior da _Revista_--Carlos
-pretendendo que fosse azul-claro com typo Renascena, Ega exigindo uma
-cpia exacta da _Revista dos Dois Mundos_, n'uma nuance mais cr de
-canario. E, levados pela sua imaginao de meridionaes, j no era s
-para agradar a Affonso da Maia que iam levantando e dando frma quelle
-confuso plano.
-
-Carlos exclamava para o Ega, com os olhos j apaixonados:
-
---Isto agora srio. Precisamos arranjar immediatamente a casa para a
-redaco!
-
-Ega bracejava:
-
---Pudera! E moveis! E machinas!
-
-Toda a manh, no escriptorio d'Affonso, azafamados, com papel e lapis,
-se occuparam em fixar uma lista de collaboradores. Mas j as
-difficuldades surgiam. Quasi todos os escriptores suggeridos
-desagradavam ao Ega, por lhes faltar no estylo aquelle requinte plastico
-e parnasiano de que elle desejava que a _Revista_ fosse o impeccavel
-modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam _impossiveis_--sem
-querer confessar que n'elles lhe repugnava exclusivamente a falta de
-linha e o fato mal feito...
-
-Uma coisa porm ficou decidida: a casa da redaco. Devia ser mobilada
-luxuosamente, com sofs do consultorio de Carlos e algum _bric--brac_
-da _Toca_: e sobre a porta (ornada d'um guarda-porto de libr) a
-taboleta de verniz preto, com _Revista de Portugal_ em altas letras a
-ouro. Carlos sorria, esfregava as mos, pensando na alegria de Maria ao
-saber esta deciso que o lanava, como era o desejo d'ella, na
-actividade, n'uma lucta interessante d'ideias. Ega, esse, via j a
-brochura cr de canario aos montes nas vitrines dos livreiros,
-discutida nas _soires_ do Gouvarinho, folheada na camara com espanto
-pelos politicos...
-
---Vai-se remexer Lisboa este inverno, snr. Affonso da Maia! gritou elle
-atirando um gesto immenso at ao tecto.
-
-E o mais contente era o velho.
-
-Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com elle rua de S.
-Francisco (onde Maria se installra n'essa manh) levarem a nova da
-grande obra. Mas encontraram porta uma carroa descarregando malas; e
-a senhora, contou o Domingos que ajudava os carroceiros, estava ainda
-jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confuso na casa,
-Ega no quiz subir.
-
---At logo, disse elle. Vou talvez procurar o Simo Craveiro e
-fallar-lhe da _Revista_.
-
-Subiu lentamente o Chiado, leu os telegrammas na Casa Havaneza. Depois
-esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido n'um paletot,
-offereceu-lhe uma senhasinha. Outros, em volta, gritavam na sombra do
-_Hotel Alliana_:
-
---Bilhete para o Gymnasio! Mais barato... Bilhete para o Gymnasio! Quem
-vende?...
-
-Havia um cruzar animado de carruagens com librs. Os bicos de gaz do
-Gymnasio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que
-atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e flr no paletot.
-
---Que isto?
-
---Festa de beneficencia, no sei, disse o Craft. Uma coisa promovida por
-senhoras, a baroneza d'Alvim mandou-me um bilhete... Venha voc d'ahi
-ajudar-me a levar esta caridade ao Calvario.
-
-E na esperana de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No
-perystilo do Gymnasio encontraram Taveira passeando e fumando
-solitariamente, espera que findasse a primeira comedia, o _Fructo
-prohibido_. Ento Craft propz botequim e genebra.
-
---E que ha do ministerio? perguntou elle, apenas abancaram a um canto.
-
-O Taveira no sabia. Todos esses dois longos dias se intrigra
-desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Publicas: o Videira
-tambem. E fallava-se d'uma scena terrivel por causa de syndicatos, em
-casa do presidente do conselho, o S Nunes, que terminra por dar um
-murro na mesa, gritar: Irra! que isto no o pinhal d'Azambuja!
-
---Canalha! rosnou Ega com odio.
-
-Depois fallaram do Ramalhete, da volta d'Affonso, da reappario de
-Carlos. Craft louvou Deus por haver outra vez n'esse inverno uma casa
-com foges, onde se passasse uma hora civilisada e intelligente.
-
-Taveira acudiu com o olho brilhante:
-
---Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na rua
-de S. Francisco! Foi o marquez que me disse. Madame Mac-Gren vai
-receber.
-
-Craft no sabia mesmo que ella j tivesse recolhido da _Toca_.
-
---Voltou hoje, disse o Ega. Voc ainda no a conhece?... Encantadora.
-
---Creio que sim.
-
-O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma belleza. E um ar
-to sympathico!
-
---Encantadora! repetiu Ega.
-
-Mas o _Fructo prohibido_ findra, os homens enchiam o peristylo, n'um
-rumor lento, accendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira
-com a genebra, correu plateia para descobrir o camarote da Alvim.
-
-Mal erguera porm a cortina e assestra o monoculo--avistou defronte, na
-primeira ordem, a Cohen, toda de preto, com um grande leque de rendas
-brancas; por traz negrejavam as suissas fortes do marido; e em face
-d'ella, recostado no velludo da grade, de casaca, com a bochecha
-risonha, uma grossa perola no peitilho da camisa, o Damaso, o bebedo!
-
-Ega cahiu mollemente, ao acaso, na borda d'uma cadeira: e perturbado, j
-esquecido da Alvim, alli ficou a olhar o panno coberto d'annuncios,
-correndo os dedos tremulos pelo bigode.
-
-No emtanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na
-plateia. Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeou no joelho do Ega:
-outro, de luvas claras, com uma polidez adocicada, pediu permisso a s.
-exc.^a Elle no escutava, no percebia: os seus olhos, um momento
-errantes, tinham-se emfim cravado no camarote da Cohen e no se
-desviaram de l, n'uma emoo que o empallidecia.
-
-No a tornra a encontrar desde Cintra, onde s a via de longe, com
-vestidos claros sob o verde das arvores; e agora alli, toda de preto, em
-cabello, com um decote curto onde brilhava a perfeita brancura do seu
-collo, ella era outra vez a _sua_ Rachel, dos tempos divinos da _villa_
-Balzac. Era assim que elle, todas as noites em S. Carlos, a contemplava
-do fundo da frisa de Carlos, com a cabea encostada ao tabique, saturado
-de felicidade. L tinha a sua luneta d'ouro, presa por um fio d'ouro.
-Parecia mais pallida, mais delicada, com o longo quebranto dos olhos
-pisados, o seu ar de romance e de lirio meio murcho: e como ento os
-seus cabellos magnificos e pesados cahiam habilmente n'uma massa meia
-solta sobre as costas, n'um desalinho de nudez. Pouco a pouco, entre o
-afinar de rebecas e o rumor das cadeiras Ega revia, n'uma onda de
-recordaes que o suffocava, o grande leito da _villa_ Balzac, certos
-beijos e certos risos, as perdizes comidas em camisa borda do sof, e
-a melancolia deliciosa das tardes, quando ella sahia furtivamente,
-coberta de vos, e elle ficava, cansado, no crepusculo poetico do
-quarto, cantarolando a _Traviata_...
-
---V. exc.^a d licena, snr. Ega?
-
-Era um sujeito escaveirado, de barba rala, que reclamava a sua cadeira.
-Ega ergueu-se, confusamente, sem reconhecer o snr. Sousa Netto. O panno
-subira. borda da rampa um lacaio, piscando o olho Plateia, fazia
-confidencias sobre a patra, de espanejador debaixo do brao. E Cohen,
-agora de p, enchia o meio do camarote, cofiando as suissas com um
-correr lento da mo bem tratada, onde reluzia um diamante.
-
-Ega ento, n'um soberbo alarde d'indifferena, cravou o monoculo no
-palco. O lacaio abalra espavorido, a um repique furioso de sineta; e
-uma megera azeda, de roupo verde e touca banda, rompera de dentro,
-meneando desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida
-que batia o taco, se esganiava: Pois hei de amal-o sempre! hei de
-amal-o sempre!
-
-Irresistivelmente Ega revirou o canto do olho para o camarote: Rachel e
-o Damaso, com as cabeas chegadas como em Cintra, cochichavam n'um
-sorriso. E tudo logo dentro do Ega se resumiu n'um immenso odio ao
-Damaso! Collado umbreira da porta, rilhava os dentes, n'um desejo de
-subir, escarrar-lhe na bochecha gorda.
-
-E no desviava d'elle os olhos, que dardejavam. Na scena, um velho
-general, gottoso e resmungo, sacudia um jornal, gritava pela sua
-tapioca. A Plateia ria, o Cohen ria. E n'esse momento Damaso, que se
-debrura no camarote com as mos de fra, caladas de _gris-perle_,
-descobriu o Ega, sorriu, atirou-lhe como em Cintra um acenosinho
-petulante, muito d'alto, na ponta dos dedos. Isto feriu o Ega como um
-insulto. E ainda na vespera aquelle covarde se lhe agarrra s mos,
-tremendo todo, a gritar que o salvasse!...
-
-Subitamente, com uma ida, palpou por sobre o bolso a carteira onde na
-vespera guardra a carta do Damaso... Eu t'arranjo! murmurou elle. E
-abalou, desceu a rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que
-rola, enfiou, ao fundo da praa de Cames, n'um grande porto que uma
-lanterna alumiava. Era a redaco da _Tarde_.
-
-Dentro do pateo d'esse jornal elegante fedia. Na escadaria de pedra, sem
-luz, cruzou um sujeito encatarrhoado que lhe disse que o Neves estava em
-cima ao cavaco. O Neves, deputado, politico, director da _Tarde_, fra,
-havia annos, n'umas ferias, seu companheiro de casa no largo do Carmo; e
-desde esse vero alegre em que o Neves lhe ficra sempre devendo tres
-moedas, os dois tratavam-se por _tu_.
-
-Foi encontral-o n'uma vasta sala alumiada por bicos de gaz sem globo,
-sentado na borda d'uma mesa atulhada de jornaes, com o chapo para a
-nuca, discursando a alguns cavalheiros de provincia que o escutavam de
-p, n'um respeito de crentes. N'um vo de janella, com dois homens
-d'idade, um rapaz esgalgado, de jaqueto de cheviote claro e uma
-cabelleira crespa que parecia erguida n'uma rajada de vento, bracejava
-como um moinho na crista d'um monte. E, abancado, outro sujeito j calvo
-rascunhava laboriosamente uma tira de papel.
-
-Ao vr o Ega (um intimo do Gouvarinho) alli na redaco, n'aquella noite
-de intriga e de crise, Neves cravou n'elle os olhos to curiosos, to
-inquietos, que o Ega apressou-se a dizer:
-
---Nada de politica, negocio particular... No te interrompas. Depois
-fallaremos.
-
-O outro findou a injuria que estava lanando ao Jos Bento, essa grande
-besta que fra metter tudo no bico da amiga do Sousa e S, o par do
-reino--e na sua impaciencia saltou da mesa, travou do brao do Ega
-arrastando-o para um canto:
-
---Ento que ?
-
--- isto, em quatro palavras. O Carlos da Maia foi offendido ahi por um
-sujeito muito conhecido. Nada d'interessante. Um paragrapho immundo na
-_Corneta do Diabo_, por uma questo de cavallos... O Maia pediu-lhe
-explicaes. O outro deu-as, chatas, medonhas, n'uma carta que quero que
-vocs publiquem.
-
-A curiosidade do Neves flammejou:
-
---Quem ?
-
---O Damaso.
-
-O Neves recuou d'assombro:
-
---O Damaso!? Ora essa! Isso extraordinario! Ainda esta tarde jantei
-com elle! Que diz a carta?
-
---Tudo. Pede perdo, declara que estava bebedo, que de profisso um
-bebedo...
-
-O Neves agitou as mos com indignao:
-
---E tu querias que eu publicasse isso, homem? O Damaso, nosso amigo
-politico!... E que no fosse, no questo de partido, de decencia!
-Eu fao l isso!... Se fosse uma acta de duello, uma coisa honrosa,
-explicaes dignas... Mas uma carta em que um homem se declara bebedo!
-Tu ests a mangar!
-
-Ega, j furioso, franzia a testa. Mas o Neves, com todo o sangue na
-face, teve ainda uma revolta quella ida do Damaso se declarar bebedo!
-
---Isso no pde ser! absurdo! Ahi ha historia... Deixa vr a carta.
-
-E, mal relancera os olhos ao papel, larga assignatura floreada,
-rompeu n'um alarido:
-
---Isto no o Damaso nem letra do Damaso!... Salcede! Quem diabo
-Salcede? Nunca foi o _meu_ Damaso!
-
--- o _meu_ Damaso, disse o Ega. O Damaso Salcede, um gordo...
-
-O outro atirou os braos ao ar:
-
---O meu o Guedes, homem, o Damaso Guedes! No ha outro! Que diabo,
-quando se diz o Damaso o Guedes!...
-
-Respirou com grande allivio:
-
---Irra, que me assustaste! Olha agora n'este momento, com estas coisas
-de ministerio, uma carta d'essas escripta pelo Guedes... Se o Salcede,
-bem, acabou-se! Espera l... No um gordalhufo, um janota que tem uma
-propriedade em Cintra? Isso! Um magano que nos entalou na eleio
-passada, fez gastar ao Silverio mais de trezentos mil reis...
-Perfeitamente, s ordens... Pereirinha, olhe aqui o snr. Ega. Tem ahi
-uma carta para sahir manh, na primeira pagina, typo largo...
-
-O snr. Pereirinha lembrou o artigo do snr. Vieira da Costa sobre a
-Reforma das Pautas.
-
---Vai depois! gritou o Neves. As questes de honra antes de tudo!
-
-E voltou ao seu grupo onde agora se fallava do conde de Gouvarinho,
-saltou para a borda da mesa, lanou logo o seu vozeiro de chefe,
-affirmando no Gouvarinho enormes dotes de parlamentar!
-
-Ega accendeu o charuto, ficou um momento considerando aquelles sujeitos
-que pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise
-arrastra a Lisboa, arrancra quietao das villas e das quintas. O
-mais novo parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face
-a estourar de sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de
-porco. Outro, esguio, com o paletot solto sobre as costas em arco, tinha
-um queixo duro e macisso de cavallo: e dois padres muito rapados, muito
-morenos, fumavam pontas de cigarro. Em todos havia esse ar,
-conjunctamente apagado e desconfiado, que marca os homens de provincia,
-perdidos entre as tipoias e as intrigas da Capital. Vinham alli s
-noites, quelle jornal do partido, saber as novas, _beber do fino_, uns
-com esperanas de empregos, outros por interesses de terriola, alguns
-por ociosidade. Para todos o Neves era um robusto talento;
-admiravam-lhe a verbosidade e a tactica; decerto gostavam de citar nas
-lojas das suas villas o amigo Neves, o jornalista, o da _Tarde_... Mas,
-atravs d'essa admirao e do prazer de roar por elle, percebia-se-lhes
-um vago medo que aquelle robusto talento lhes pedisse, n'um vo de
-janella, duas ou tres moedas. O Neves no emtanto celebrava o Gouvarinho
-como orador. No que tivesse os rasgos, a pureza, as bellas syntheses
-historicas do Jos Clemente! Nem a poesia do Rufino! Mas no havia outro
-para as piadas que ferem e que ficam cravadas, alli a arder, na pelle do
-touro! E era a grande coisa na Camara--ter a farpa, sabl-a ferrar!
-
--- Gonalo, tu lembras-te da piada do Gouvarinho, a do trapezio? gritou
-elle virando-se para a janella, para o rapaz de jaqueto claro.
-
-O Gonalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e malicia, estendeu
-o pescoo magro n'um collarinho muito decotado, lanou de l:
-
---A do trapezio? Divina! Conta rapaziada!
-
-A rapaziada arregalou os olhos para o Neves, espera da do trapezio.
-Fra na Camara dos Pares, na reforma da instruco. Estava fallando o
-Torres Valente, esse maluco que defendia a gymnastica dos collegios e
-queria as meninas a fazerem a prancha. Gouvarinho ergue-se e atira-lhe
-esta:
-
-Snr. presidente, direi uma palavra s. Portugal sahir para sempre da
-senda do progresso, em que tanto se tem illustrado, no dia em que ns
-frmos ao ensino, com mo impia, substituir a cruz pelo trapezio!
-
---Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito.
-
-E no murmurio de admirao que se ergueu destacou um ganido--o do rapaz
-mais grosso que um pote, que mexia os hombros, chasqueava com uma risota
-na bochecha cr de tomate:
-
---Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae um grandissimo
-carola!
-
-E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provincia, liberaes
-e finorios, que achavam aquelle fidalgo excessivamente apegado cruz.
-Mas j o Neves, de p, bravejava:
-
---Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho
-carola! Est claro que tem toda a orientao mental do seculo, um
-racionalista, um positivista... Mas a questo aqui a rplica, a
-tactica parlamentar! Desde que o typo da maioria vem de l com a
-descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo, ainda que fosse to atheu como
-Renan, zs! atira-lhe logo para cima com a cruz!... Isto que a
-estrategia parlamentar! Pois no assim, Ega?
-
-Ega murmurou, atravs do fumo do charuto:
-
---Sim, com effeito a cruz para isso ainda serve...
-
-Mas n'esse momento o sujeito calvo, que repellira a tira de papel e se
-espreguiava, cahido para as costas da cadeira, exhausto, pediu ao snr.
-Joo da Ega--que fallasse gente e guardasse o seu dinheiro...
-
-Ega acercou-se logo d'aquelle sympathico homem, to engraado, to
-querido de todos:
-
---Ento, na grande faina, Melchior?
-
---Estou aqui a vr se fao uma coisa sobre o livro do Craveiro, os
-_Cantos da Serra_, e no me sae nada em termos... No sei o que hei de
-dizer!
-
-Ega gracejou, de mos nos bolsos, muito risonho, muito camarada com o
-Melchior:
-
---Nada! Vocs aqui so simples localistas, noticiaristas, annunciadores.
-D'um livro como o do Craveiro tm s respeitosamente a dizer onde se
-vende e quanto custa.
-
-O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz da
-nuca:
-
---Ento onde queria voc que se fallasse dos livros?... Nos reportorios?
-
-No, nas Revistas Criticas: ou ento nos jornaes--que fossem jornaes,
-no papeluchos volantes, tendo em cima uma cataplasma de politica em
-estylo mazorro ou em estylo fadista, um romance mal traduzido do francez
-por baixo e o resto cheio com annos, despachos, parte de policia e
-loteria da Misericordia. E como em Portugal no havia nem jornaes srios
-nem Revistas Criticas--que se no fallasse em parte nenhuma.
-
---Com effeito, murmurou Melchior, ninguem falla de nada, ninguem parece
-pensar em nada...
-
-E com toda a razo, affirmou Ega. Certamente muito d'esse silencio
-provinha do natural desejo que tm os que so mediocres de que se no
-alluda muito aos que so grandes. a invejasinha reles e rastejante!
-Mas em geral o silencio dos jornaes para com os livros provm sobretudo
-d'elles terem abdicado todas as funces elevadas d'estudo e de critica,
-de se terem tornado folhas rasteiras d'informao caseira, e de sentirem
-por isso a sua incompetencia...
-
---Est claro, no fallo por voc, Melchior, que dos nossos e de
-primeira ordem! Mas os seus collegas, menino, calam-se por se saberem
-incompetentes...
-
-O Melchior ergueu os hombros com um ar canado e descrente:
-
---Calam-se tambem porque o publico no se importa, ninguem se importa...
-
-Ega protestou, j excitado. O Publico no se importava!? Essa era
-curiosa! O Publico ento no se importa que lhe fallem de livros que
-elle compra aos tres mil, aos seis mil exemplares? E isto, dada a
-populao de Portugal, caramba, igual aos grandes successos de Paris e
-de Londres... No, Melchiorzinho amigo, no! Esse silencio diz ainda
-mais claramente e retumbantemente que as palavras: Ns somos
-incompetentes. Ns estamos bestialisados pela noticia do snr.
-conselheiro que chegou ou do snr. conselheiro que partiu, pelos
-_High-lifes_, pela amabilidade dos donos da casa, pelo artigo de fundo
-em descompostura e calo, por toda esta prosa chula em que nos
-atolamos... Ns no sabemos, no podemos j fallar d'uma obra d'arte ou
-d'uma obra de historia, d'este bello livro de versos ou d'este bello
-livro de viagens. No temos nem phrases nem idas. No somos talvez
-cretinos--mas estamos cretinisados. A obra de litteratura passa muito
-alto--ns chafurdamos aqui muito em baixo...
-
---E aqui tem voc, Melchior, o que diz, atravs do silencio dos jornaes,
-o cro dos jornalistas!
-
-Melchior sorria, enlevado, com a cabea deitada para traz, como quem
-goza uma bella ria. Depois com uma palmada na mesa:
-
---Caramba, Ega, muito bem falla voc!... Voc nunca pensou em ser
-deputado? Eu ainda outro dia dizia ao Neves: O Ega! O Ega que era,
-para atirar alli na camara a piadinha Rochefort. Ardia Troia!
-
-E immediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a accender o
-charuto--Melchior arrebatou a penna:
-
---Voc est em veia! Diga l, dicte l... Que hei de eu aqui pr sobre o
-livro do Craveiro?
-
-Ega quiz saber o que escrevera j o amigo Melchior. Apenas tres linhas:
-Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta Simo Craveiro. O
-precioso volume, onde scintillam em caprichosos relevos todas as joias
-d'este prestigioso escriptor, publicado pelos activos editores... E
-aqui o Melchior emperrra. Melchior no gostava d'aquelle frouxo
-termo--_activos_. Ega ento suggeriu--_emprehendedores_. Melchior
-emendou, leu:
-
---...publicado pelos emprehendedores editores... Ora sbo, rima!
-
-Arrojou a penna, descoroado. Acabou-se! No estava em _verve_. E alm
-d'isso era tarde, tinha a rapariga espera...
-
---Fica para manh... O peor que j ando n'isto ha cinco dias! Irra!
-Voc tem razo, a gente bestialisa-se. E faz-me raiva! No l pelo
-livro, no me importa o livro... pelo Craveiro, que bom rapaz, e
-demais a mais pertence c ao partido!
-
-Abriu um gaveto, sacou uma escova, rompeu a escovar-se com desespero. E
-Ega ia ajudal-o, limpar-lhe as costas cheias de cal--quando entre elles
-surgiu a face chupada e nervosa do Gonalo, com a sua gaforinha
-perpetuamente erguida como por uma rajada de vento.
-
---Que est o Egasinho a fazer n'este covil da noticia?
-
---Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambem a ouvir o Neves, a grande
-phrase do Gouvarinho...
-
-O Gonalo pulou, com uma faisca de malicia nos olhos negros de algarvio
-esperto.
-
---A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor!
-
-Travou do brao do Ega, puxou-o para um canto da janella:
-
--- necessario fallar baixo por causa da rapaziada de provincia... Ha
-outra deliciosa. Eu no me lembro bem, o Neves que sabe! uma coisa
-da Liberdade conduzindo mo o corcel do Progresso... O quer que seja
-assim, uma imagem equestre! A Liberdade com cales de jockey, o
-Progresso com um grande freio... Espantoso! Que besta, aquelle
-Gouvarinho! E os outros, menino, os outros! Voc no foi camara quando
-se discutiu a questo de Tondella? Extraordinario! O que se disse! Foi
-de morrer! E eu morro! Esta politica, este S. Bento, esta eloquencia,
-estes bachareis matam-me. Querem dizer agora ahi que isto por fim no
-peor que a Bulgaria. Historias! Nunca houve uma choldra assim no
-universo!
-
---Choldra em que voc chafurda! observou o Ega rindo.
-
-O outro recuou com um grande gesto:
-
---Distingamos! Chafurdo por necessidade, como politico: e tro por
-gosto, como artista!
-
-Mas Ega justamente achava uma desgraa incomparavel para o paiz--esse
-immoral desaccordo entre a intelligencia e o caracter. Assim, alli
-estava o amigo Gonalo, como homem de intelligencia, considerando o
-Gouvarinho um imbecil...
-
---Uma cavalgadura, corrigiu o outro.
-
---Perfeitamente! E todavia, como politico, voc quer essa cavalgadura
-para ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos sempre que ella
-rinche ou escoucinhe.
-
-Gonalo correu lentamente a mo pela gaforinha, com a face franzida:
-
--- necessario, homem! Razes de disciplina e de solidariedade
-partidaria... Ha uns compromissos... O pao quer, gosta d'elle...
-
-Espreitou em roda, murmurou, collado ao Ega:
-
---Ha ahi umas questes de syndicatos, de banqueiros, de concesses em
-Moambique... Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro!
-
-E como Ega se curvava, vencido, cheio s de respeito--o outro, faiscando
-todo de finura e cynismo, atirou-lhe uma palmada ao hombro:
-
---Meu caro, a politica hoje uma coisa muito differente! Ns fizemos
-como vocs os litteratos. Antigamente a litteratura era a imaginao, a
-phantasia, o ideal... Hoje a realidade, a experiencia, o facto
-positivo, o documento. Pois c a politica em Portugal tambem se lanou
-na corrente realista. No tempo da Regenerao e dos Historicos a
-politica era o progresso, a viao, a liberdade, o palavrorio... Ns
-mudamos tudo isso. Hoje o facto positivo,--o dinheiro, o dinheiro! o
-bago! a _massa_! A rica _massinha_ da nossa alma, menino! O divino
-dinheiro!
-
-E de repente emmudeceu, sentindo na sala um silencio--onde o seu grito
-de dinheiro! dinheiro! parecera ficar vibrando, no ar quente do gaz,
-com a prolongao de um toque de rebate acordando as cubias, chamando
-ao longe e ao largo todos os habeis para o saque da Patria inerte!...
-
-O Neves desapparecera. Os cavalheiros de provincia dispersavam, uns
-enfiando o paletot, outros sem pressa dando um olhar amortecido aos
-jornaes sobre a mesa. E o Gonalo bruscamente disse adeus ao Ega, rodou
-nos taces, desappareceu tambem, abraando ao passar um dos padres a
-quem tratou de malandro!
-
-Era meia noite, Ega sahiu. E na tipoia que o levava ao Ramalhete, j
-mais calmo, comeou logo a reflectir que o resultado da publicao da
-carta seria despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. A questo
-de cavallos com que o Neves se contentra promptamente, distrahido e
-absorvido n'essa noite pela crise,--ninguem mais a acreditaria... O
-Damaso decerto, interrogado, para se desculpar, contaria horrores de
-Maria e de Carlos: e uma intoleravel luz d'escandalo ia bater coisas que
-deviam permanecer na sombra. Eram talvez apoquentaes, desesperos que
-elle assim estivera preparando a Carlos--por causa d'um odiosinho ao
-Damaso. Nada mais egoista e pequeno!... E subindo para o quarto Ega
-decidia correr depois d'almoo redaco da _Tarde_, suster a
-publicao da carta.
-
-Mas toda essa noite sonhou com Rachel e com Damaso. Via-os rolando por
-uma estrada sem fim, entre pomares e vinhedos, deitados n'uma carroa de
-bois, sobre um enxergo onde se desdobrava, lasciva e rica, a sua colcha
-de setim preto da _villa_ Balzac: os dois beijavam-se, enroscados, sem
-pudor, sob a fresca sombra que cahia dos ramos, ao chiar lento das
-rodas. E por um requinte do sonho cruel, elle Ega, sem perder a
-consciencia e o orgulho d'homem, era um dos bois que puxava ao carro! Os
-moscardos picavam-no, a canga pesava-lhe; e, a cada beijo mais cantado
-que atraz soava no carro, elle erguia o focinho a escorrer de baba,
-sacudia os cornos, mugia lamentavelmente para os cos!
-
-Acordou n'estes urros d'agonia: e a sua clera contra o Damaso resurgiu,
-mais nutrida pelas incoherencias do sonho. Alm d'isso chovia. E decidiu
-no voltar _Tarde_, deixar imprimir a carta. Que importava, de resto,
-o que dissesse o Damaso? O artigo da _Corneta_ estava extincto, o Palma
-bem pago.--E quem jmais acreditaria n'um homem que nos jornaes se
-declara calumniador e bebedo?
-
-E Carlos assim pensou tambem--quando, depois d'almoo, Ega lhe contou a
-sua resoluo da vespera ao vr o Damaso no camarote, d'olho trocista
-posto n'elle, a segredar com os Cohens...
-
---Percebi claramente, sem erro possivel, que estava a fallar de ti, da
-snr.^a D. Maria, de ns todos, contando horrores... E ento acabou-se,
-no hesitei mais. Era necessario deixar passar a justia de Deus! No
-tinhamos paz emquanto o no aniquilassemos!
-
-Sim, concordou Carlos, talvez. Smente receava que o av, sabendo o
-escandalo, se desgostasse de vr o seu nome misturado a toda aquella
-sordidez de _Corneta_ e de bebedeira...
-
---Elle no l a _Tarde_, acudiu Ega. O rumor, se lhe chegar, j vago e
-desfigurado.
-
-Com effeito Affonso soube apenas confusamente que o Damaso soltra no
-Gremio algumas palavras desagradaveis para Carlos, e declarra depois
-n'um jornal que, n'esse momento, estava bebedo. E a opinio do velho
-foi--que se o Damaso estava embriagado (e d'outro modo como teria
-injuriado Carlos, seu antigo amigo?) a sua declarao revelava extrema
-lealdade e um amor quasi heroico da verdade!
-
---Por esta no esperavamos ns! exclamou depois Ega no quarto de Carlos.
-O Damaso torna-se um justo!
-
-De resto os amigos da casa, sem conhecer o artigo da _Corneta_,
-approvavam a aniquilao do Damaso. S o Craft sustentou que Carlos lhe
-devia ter antes dado bengaladas secretas; e o Taveira achou cruel que
-se dissesse ao desgraado, com um florete ao peito--ou a dignidade ou a
-vida!
-
-Mas dias depois no se fallava mais n'esse escandalo. Outras coisas
-interessavam o Chiado e a Casa Havaneza. O ministerio fra formado,
-finalmente! Gouvarinho entrava na Marinha--Neves no Tribunal de Contas.
-J os jornaes do governo cahido comeavam, segundo a pratica
-constitucional, a achar o paiz irremediavelmente perdido, e a alludir ao
-rei com azedume... E o derradeiro, esvado echo da carta do Damaso foi,
-na vespera do sarau da Trindade, um paragrapho da propria _Tarde_ onde
-ella fra publicada, n'estas amaveis palavras:
-
---O nosso amigo e distincto _sportman_ Damaso Salcede parte brevemente
-para uma viagem de recreio a Italia. Desejamos ao elegante _touriste_
-todas as prosperidades na sua bella excurso ao paiz do canto e das
-artes.
-
-
-
-
-VI
-
-
-Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demorra no
-corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletot, entrou na
-sala, perguntando a Maria, j sentada ao piano:
-
---Ento, definitivamente, v. exc.^a no vem ao sarau da Trindade?...
-
-Ella voltou-se para dizer, preguiosamente, por entre a walsa lenta que
-lhe cantava entre os dedos:
-
---No me interessa, estou muito canada...
-
--- uma scca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se
-estirra consoladamente, fumando, d'olhos cerrados.
-
-Ega protestou. Tambem era uma massada subir s Pyramides no Egypto. E no
-emtanto soffria-se invariavelmente, porque nem todos os dias pde um
-christo trepar a um monumento que tem cinco mil annos de existencia...
-Ora a snr.^a D. Maria, n'este sarau, ia vr por dez tostes uma coisa
-tambem rara,--a alma sentimental d'um povo exhibindo-se n'um palco, ao
-mesmo tempo nua e de casaca.
-
---V, coragem! um chapo, um par de luvas, e a caminho!
-
-Ella sorria, queixando-se de fadiga e preguia.
-
---Bem, exclamou Ega, eu que no quero perder o Rufino... Vamos l,
-Carlos, mexe-te!
-
-Mas Carlos implorou clemencia:
-
---Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do _Hamlet_.
-Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, s gorgeiam mais
-tarde...
-
-Ento Ega, cedendo tambem a todo aquelle conchego tepido e amavel,
-enterrou-se no sof com o charuto, para escutar a cano d'_Ophelia_, de
-que Maria j murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes:
-
-
- Ple et blonde,
- Dort sous l'eau profonde...
-
-
-Ega adorava esta velha ballada escandinavia. Mais porm o encantava
-Maria que nunca lhe parecera to bella: o vestido claro que tinha n'essa
-noite modelava-a com a perfeio d'um marmore: e entre as velas do
-piano, que lhe punham um trao de luz no perfil puro e tons d'ouro
-esfiado no cabello--o incomparavel eburneo da sua pelle ganhava em
-esplendor e mimo... Tudo n'ella era harmonioso, so, perfeito... E
-quanto aquella serenidade da sua frma devia tornar delicioso o ardor da
-sua paixo! Carlos era positivamente o homem mais feliz d'estes reinos!
-Em torno d'elle s havia facilidades, douras. Era rico, intelligente,
-d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; s
-tinha o numero d'inimigos que necessario para confirmar uma
-superioridade; nunca soffrera de dyspepsia; jogava as armas bastante
-para ser temido; e na sua complacencia de forte nem a tolice publica o
-irritava. Sr verdadeiramente ditoso!
-
---Quem por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os ps
-pelo tapete, quando Maria findou a cano d'_Ophelia_.
-
-Ega no sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado...
-
-Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se:
-
--- esse grande orador de que fallavam na _Toca_?
-
-No, no! Esse era outro, a srio, um amigo de Coimbra, o Jos Clemente,
-homem d'eloquencia e de pensamento... Este Rufino era um rato de pera
-grande, deputado por Mono, e sublime n'essa arte, antigamente nacional
-e hoje mais particularmente provinciana, de arranjar, n'uma voz de
-theatro e de papo, combinaes sonoras de palavras...
-
---Detesto isso! rosnou Carlos.
-
-Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idas, como
-um passaro n'um galho d'arvore...
-
--- conforme a occasio, observou Ega, olhando o relogio. Uma walsa de
-Strauss tambem no tem idas, e noite, com mulheres n'uma sala,
-deliciosa...
-
-No, no! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava sempre a
-palavra humana, que, pela sua natureza mesma, s pde servir para dar
-frma s idas. A musica, essa, falla aos nervos. Se se cantar uma
-marcha a uma criana, ella ri-se e salta no collo...
-
---E se lhe lres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho
-secca-se e berra!
-
---Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos
-costumes que ella cria. No ha inglez, por mais culto e espiritualista,
-que no tenha um fraco pela fora, pelos athletas, pelo _sport_, pelos
-musculos de ferro. E ns, os meridionaes, por mais criticos, gostamos do
-palavriadinho mavioso. Eu c pelo menos, noite, com mulheres, luzes,
-um piano e gente de casaca, pello-me por um bocado de rhetorica.
-
-E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot,
-voar _Trindade_, n'um receio de perder o Rufino.
-
-Carlos deteve-o ainda, com uma grande ida:
-
---Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beethoven;
-ns declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se
-te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma medonha orgia
-d'ideal!...
-
---E ha melhores cadeiras, acudiu Maria.
-
---Melhores poetas, affirmou Carlos.
-
---Bons charutos!
-
---Bom cognac!
-
-Ega alou os braos ao ar, desolado. Ahi est como se pervertia um
-cidado, impedindo-o de proteger as letras patrias--com promessas
-perfidas de tabaco e de bebidas!... Mas de resto elle no tinha s uma
-razo litteraria para ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas
-_Meditaes d'Outono_, e era necessario dar palmas ao Cruges.
-
---No digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona. Esquecia-me
-o Cruges!... um dever d'honra! Abalemos.
-
-E d'ahi a pouco, tendo beijado a mo de Maria que ficava ao piano, os
-dois, surprehendidos com a belleza d'essa noite d'inverno, to clara e
-dce, seguiam devagar pela rua--onde Carlos ainda duas vezes se voltou
-para olhar as janellas alumiadas.
-
---Estou bem contente, exclamou elle travando do brao do Ega, em ter
-deixado os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos para um bocado
-de cavaco e de litteratura...
-
-Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o quarto
-ao lado n'um _fumoir_ forrado com as suas colchas da India, depois ter
-um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim se realisava o velho
-sonho, o cenaculo de dilettantismo e d'arte... Alm d'isso havia a
-lanar a _Revista_, que era a suprema pandega intellectual. Tudo isto
-annunciava um inverno _chic a valer_, como dizia o defunto Damaso.
-
---E tudo isto, resumiu o Ega, dar civilisao ao paiz. Positivamente,
-menino, vamo-nos tornar grandes cidados!...
-
---Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja
-aqui na rua de S. Francisco... Que belleza de noite!
-
-
-
-Pararam porta do theatro da Trindade no momento em que, d'uma tipoia
-de praa, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com
-um chapo de largas abas recurvas moda de 1830. Passou junto dos dois
-amigos sem os vr, recolhendo um troco bolsa. Mas Ega reconheceu-o.
-
--- o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo!
-
---E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos rindo.
-
-Por cima, de repente, no salo, estalaram grandes palmas. Carlos, que
-dava o paletot ao porteiro, receou que j fosse o Cruges...
-
---Qual! disse o Ega. Aquillo applaudir de rhetorica!
-
-E com effeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao
-ante-salo, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de ps,
-segredando--sentiram logo um vozeiro tumido, garganteado, provinciano,
-de vogaes arrastadas em canto, invocando l do fundo, do estrado, a
-alma religiosa de Lamartine!...
-
--- o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Telles da Gama que no
-passra da porta, com o charuto escondido atraz das costas.
-
-Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Telles. Mas Ega, esguio e magro,
-foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D'ambos os lados se
-cerravam filas de cabeas, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de
-palhinha at junto ao tablado, onde dominavam os chapos de senhoras
-picados por manchas claras de plumas ou flres. Em volta, de p,
-encostados aos pilares ligeiros que sustm a galeria, reflectidos pelos
-espelhos, estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das
-Secretarias, uns de gravata branca, outros de jaquetes. Ega avistou o
-snr. Sousa Netto, pensativo, sustentando entre dois dedos a face
-escaveirada, de barba rala; adiante o Gonalo, com a sua gaforinha ao
-vento; depois o marquez atabafado n'um cache-nez de sda branca; e, n'um
-grupo, mais longe, rapazes do Jockey Club, os dois Vargas, o Mendona, o
-Pinheiro, assistindo quelle _sport_ da eloquencia com uma mistura
-d'assombro e tedio. Por cima, no parapeito de velludo da galeria, corria
-outra linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se mollemente; por
-traz alava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava o Neves, o
-novo Conselheiro, grave, de braos cruzados, com um boto de camelia na
-casaca mal feita.
-
-O gaz suffocava, vibrando cruamente n'aquella sala clara, d'um tom
-desmaiado de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e alm uma
-tosse timida de catarrho desmanchava o silencio, logo abafada no leno.
-E na extremidade da galeria, n'um camarote feito de tabiques, com
-sanefas de velludo cr de cereja, duas cadeiras de espaldar dourado
-permaneciam vazias, na solemnidade real do seu damasco escarlate.
-
-No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito
-trigueiro, de pera, alargava os braos, celebrava um anjo, o _Anjo da
-Esmola_ que elle entrevira, alm no azul, batendo as azas de setim...
-Ega no comprehendia bem--entalado entre um padre muito gordo que
-pingava de suor, e um alferes de lunetas escuras. Por fim no se
-conteve:--Sobre que est elle a fallar? E foi o padre que o informou,
-com a face luzidia, inflammada de enthusiasmo:
-
---Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime...
-Infelizmente est a acabar!
-
-Parecia ser, com effeito, a perorao. O Rufino arrebatra o leno,
-limpava a testa lentamente; depois arremetteu para a borda do tablado,
-voltando-se para as cadeiras reaes com um to ardente gesto
-d'inspirao--que o collete repuxado descobriu o comeo da ceroula. Foi
-ento que Ega comprehendeu. Rufino estava exaltando uma princeza que
-dera seiscentos mil reis para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio
-d'elles organisar um bazar na Tapada. Mas no era s essa soberba esmola
-que deslumbrava o Rufino--porque elle, como todos os homens educados
-pela philosophia e que tm a verdadeira orientao mental do seu tempo,
-via nos grandes factos da historia no s a sua belleza poetica, mas a
-sua influencia social. A multido, essa, sorria simplesmente, enlevada,
-para a incomparavel poesia da mo calada de fina luva que se estende
-para o pobre. Elle porm, philosopho, antevia j, sahindo d'esses
-delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo e formoso... O
-qu, meus senhores? O renascimento da F!
-
-De repente, um leque que escorregra da galeria, arrancando em baixo um
-berro a uma senhora gorda, creou um susurro, uma curta emoo. Um
-commissario do sarau, D. Jos Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do
-tablado, com o seu laarote de sda vermelha na casaca, dardejando
-severamente os olhos vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos
-risos esfusiavam. Outros cavalheiros, indignados, gritavam _chut,
-silencio,_ _fra!_ E das cadeiras da frente surgiu a face ministerial
-do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as lunetas brilhando
-duramente... Ento Ega procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim
-mais longe, com um chapo azul, entre a Alvim toda de preto e umas
-vastas espdoas cobertas de setim malva que eram as da baroneza de
-Craben. Todo o rumor findava--e o Rufino, que molhra lentamente os
-labios no copo, avanou um passo, sorrindo, com o leno branco na mo:
-
---Dizia eu, meus senhores, que dada a orientao mental d'este seculo...
-
-Mas o Ega suffocava, esmagado, farto do Rufino, com a impresso de que o
-padre ao lado cheirava mal. E no aturou mais, furou para traz, para
-desabafar com Carlos.
-
---Tu imaginavas uma besta assim?
-
---Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocar o Cruges?
-
-Ega no sabia, todo o programma fra alterado.
-
---E tens c a Gouvarinho! Est l adiante, d'azul... Hei de querer vr
-logo esse encontro!
-
-Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente
-_bonsoir, messieurs_... Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de
-casaca, em pontas de ps, com as claques fechadas. E immediatamente
-Steinbroken queixou-se da ausencia da familia real...
-
---Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assur que la
-reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas, toute
-cette musique, ces vers?... Voil pourquoi je suis venu. C'est trs
-ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours en sant?
-
---Merci...
-
-Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traa n'uma
-tela linhas lentas e nobres, descrevia a doura d'uma aldeia, a aldeia
-em que elle nascera, ao pr do sol. E o seu vozeiro velava-se,
-enternecido, morrendo n'um rumor de crepusculo. Ento Steinbroken,
-subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria saber se era esse o grande
-orador de que lhe tinham fallado...
-
-Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa!
-
---Em qual gnerro?...
-
---Genero sublime, genero de Demosthenes!
-
-Steinbroken alou as sobrancelhas com admirao, fallou em filandez ao
-seu secretario que entalou languidamente o monoculo: e com as claques
-debaixo do brao, cerrados os olhos, recolhidos como n'um templo, os
-dois enviados da Filandia ficaram escutando, espera do sublime.
-
-Ruffino, no entanto, com as mos descahidas, confessava uma fragilidade
-de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia natal, onde a
-violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus
-irrefutavelmente,--elle fra dilacerado pelo espinho da descrena! Sim,
-quantas vezes, ao cahir da tarde, quando os sinos da velha torre
-choravam no ar a Ave-Maria e no valle cantavam as ceifeiras, elle
-passra junto da cruz do adro e da cruz do cemiterio, atirando-lhes de
-lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire!...
-
-Um largo fremito d'emoo passou. Vozes suffocadas de gozo mal podiam
-murmurar _muito bem, muito bem_...
-
-Pois fra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino ouvira um
-grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que succedera? Era a
-Natureza que atacava seus filhos!--E lanando os braos, como quem se
-debate n'uma catastrophe, Rufino pintou a inundao... Aqui aluia um
-casal, ninho florido d'amores; alm, na quebrada, passava o balar
-choroso dos gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando
-um boto de rosa e um bero!...
-
-Os _bravos_ partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em
-torno de Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns para
-os outros, com um brilho na face, commungando no mesmo enthusiasmo: Que
-rajadas!... Caramba!... Sublime!...
-
-Rufino sorria, bebendo esta commoo, que era a obra do seu verbo.
-Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras reaes, solemnes e
-vazias...
-
-Vendo que a clera da Natureza rugia implacavel, elle erguera os olhos
-para o natural abrigo, para o exaltado logar d'onde desce a salvao,
-para o Throno de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre
-elle estenderem-se as azas brancas d'um anjo! Era o anjo da esmola, meus
-senhores! E d'onde vinha? d'onde recebera a inspirao da caridade?
-d'onde sahia assim, com os seus cabellos d'ouro? Dos livros da sciencia?
-dos laboratorios chimicos? d'esses amphitheatros d'anatomia onde se nega
-covardemente a alma? das sccas esclas de philosophia que fazem de
-Jesus um precursor de Robespierre? No! Elle ousra interrogar o anjo,
-submisso, com o joelho em terra. E o anjo da esmola, apontando o espao
-divino, murmurra: Venho d'alm!
-
-Ento pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo. Era como se os
-estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto. Um
-estremecimento devoto e poetico arrepiava as cuias das senhoras.
-
-E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores!
-Desde esse momento, a duvida fra n'elle como a nevoa que o sol, este
-radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora, apesar de todas as
-ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos d'um Renan, d'um
-Littr e d'um Spencer, elle, que recebera a confidencia divina, podia
-alli, com a mo sobre o corao, affirmar a todos bem alto--havia um
-co!
-
---Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento.
-
-E por todo o salo, no aperto e no calor do gaz, os cavalheiros das
-Secretarias, da Arcada, da Casa Havaneza, berrando, batendo as mos,
-affirmaram soberbamente o co!
-
-O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de clera. Era o
-Alencar, de paletot, de gravata branca, cofiando sombriamente os
-bigodes.
-
---Que te parece, Thomaz?
-
---Faz nojo! rugiu surdamente o poeta.
-
-Tremia, revoltado! N'uma noite d'aquellas, toda de poesia, quando os
-homens de letras se deviam mostrar como so, filhos da democracia e da
-liberdade, vir aquelle pulha pr-se alli a lamber os ps familia
-real... Era simplesmente ascoroso!
-
-L ao fundo, junto aos degraus do tablado, ia um tumulto d'abraos, de
-comprimentos, em torno do Rufino, que reluzia todo de orgulho e suor. E
-pela porta os homens escoavam-se, afogueados, commovidos ainda, puxando
-das charuteiras. Ento o poeta travou do brao do Ega:
-
---Ouve l, eu vinha justamente procurar-te. o Guimares, o tio do
-Damaso, que me pediu para te ser apresentado... Diz que uma coisa
-sria, muito sria... Est l em baixo no botequim, com um _grog_.
-
-Ega pareceu surprehendido... Coisa sria!?
-
---Bem, vamos ns l baixo tomar tambem um _grog_! E que recitas tu logo,
-Alencar?
-
---_A Democracia_, foi dizendo o poeta pela escada, com certa reserva.
-Uma coisita nova, tu vers... So algumas verdades duras a toda essa
-burguezia...
-
-Estavam porta do botequim--e precisamente o snr. Guimares sahia, com
-o chapo sobre o olho, de charuto accso, abotoando a sobrecasaca.
-Alencar lanou a apresentao, com immensa gravidade:
-
---O meu amigo Joo da Ega... O meu velho amigo Guimares, um bravo c
-dos nossos, um veterano da Democracia.
-
-Ega acercou-se d'uma mesa, puxou cortezmente um banco para o veterano da
-Democracia, quiz saber se elle preferia cognac ou cerveja.
-
---Tomei agora o meu _grog_ de guerra, disse o snr. Guimares com
-seccura, tenho para toda a noite.
-
-Um criado dava uma limpadella lenta sobre o marmore da mesa. Ega ordenou
-cerveja. E directamente, largando o charuto, passando a mo pelas barbas
-a retocar a magestade da face, o snr. Guimares comeou com lentido e
-solemnidade:
-
---Eu sou tio do Damaso Salcede, e pedi aqui ao meu velho amigo Alencar
-para me apresentar a v. exc.^a, com o fim de o intimar a que olhe bem
-para mim e que diga se me acha cara de bebedo...
-
-Ega comprehendeu, atalhou logo, cheio de franqueza e bonhomia:
-
---V. exc.^a refere-se a uma carta que seu sobrinho me escreveu...
-
---Carta que v. exc.^a dictou! Carta que v. exc.^a o forou a assignar!
-
---Eu?...
-
---Affirmou-m'o elle, senhor!
-
-Alencar interveio:
-
---Fallem vocs baixo, que diabo!... Isto terra de curiosos...
-
-O snr. Guimares tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa. Tinha
-estado, contou elle, havia semanas fra de Lisboa por negocios da
-herana de seu irmo. No vira o sobrinho, porque s por necessidade se
-encontrava com esse imbecil. Na vespera, em casa d'um antigo amigo, o
-Vaz Forte, deitra por acaso os olhos ao _Futuro_, um jornal
-republicano, bem escripto, mas frouxo de idas. E avistra logo na
-primeira pagina, em typo enorme, sob esta rubrica alis justa _Coisas do
-high-life_, a carta do sobrinho... Imagine o snr. Ega o seu furor! Alli
-mesmo, em casa do Forte, escrevera ao Damaso pouco mais ou menos n'estes
-termos: Li a tua infame declarao. Se manh no fazes outra, em todos
-os jornaes, dizendo que no tinhas inteno de me incluir entre os
-bebedos da tua familia, vou ahi e quebro-te os ossos um por um. Treme!
-Assim lhe escrevera. E sabia o snr. Joo da Ega qual fra a resposta do
-snr. Damaso?
-
---Tenho-a aqui, um _documento humano_, como diz o amigo Zola! Aqui
-est... Grande papel, monogramma d'ouro, cora de conde. Aquelle asno!
-Quer v. exc.^a que eu leia?
-
-A um gesto risonho do Ega, elle mesmo leu, lentamente, e sublinhando:
-
---Meu caro tio! A carta de que falla foi escripta pelo snr. Joo da
-Ega. Eu era incapaz de tal desacato nossa querida familia. Foi elle
-que me agarrou na mo, fora, para eu assignar: e eu, n'aquella
-atrapalhao, sem saber o que fazia, assignei para evitar fallatorios.
-Foi um lao que me armaram os meus inimigos. O meu querido tio, que sabe
-como eu gsto de si, que at estava o anno passado com teno, se
-soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de
-Collares, no fique pois zangado commigo. Bem infeliz j eu sou! E se
-quizer procure esse Joo da Ega que me perdeu! Mas acredite que hei de
-tirar uma vingana que ha de ser fallada! Ainda no decidi qual, n'esta
-atarantao; mas em todo o caso a nossa familia ha de ficar
-desenxovalhada, porque eu nunca admitti que ninguem brincasse com a
-minha dignidade... E se o no fiz j antes de partir para Italia, se
-ainda no pugnei pela minha honra, porque ha dias, com todos estes
-abalos, veio-me uma tremenda dysenteria, que estou que me no tenho nas
-pernas. Isto por cima dos meus males moraes!... V. exc.^a ri-se, snr.
-Ega?
-
---Pois que quer v. exc.^a que eu faa? balbuciou o Ega por fim,
-suffocado, com os olhos em lagrimas. Rio-me eu, ri-se o Alencar, ri-se
-v. exc.^a Isso extraordinario! Essa dignidade, essa dysenteria...
-
-O snr. Guimares, embaado, olhou o Ega, olhou o poeta que fungava sob
-os longos bigodes, e terminou por dizer:
-
---Com effeito, a carta d'uma cavalgadura... Mas o facto permanece...
-
-Ento Ega appellou para o bom senso do snr. Guimares, para a sua
-experiencia das coisas d'honra. Comprehendia elle que dois cavalheiros,
-indo desafiar um homem a sua casa, lhe agarrem no pulso, o forcem
-violentamente a assignar uma carta em que elle se declara bebedo?...
-
-O snr. Guimares, agradado com aquella deferencia pelo seu tacto e pela
-sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em Paris, seria pouco
-natural.
-
---E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto no a Cafraria! E diga-me o
-snr. Guimares outra coisa, de gentleman para gentleman: como considera
-seu sobrinho? um homem irreprehensivelmente veridico?
-
-O snr. Guimares cofiou as barbas, declarou lealmente:
-
---Um refinado mentiroso.
-
---Ento! gritou Ega em triumpho, atirando os braos ao ar.
-
-De novo Alencar interveio. A questo parecia-lhe satisfactoriamente
-finda. E no restava seno os dois apertarem-se a mo fraternalmente,
-como bons democratas...
-
-J de p, atirou a genebra s guelas. Ega sorria, estendia a mo ao snr.
-Guimares. Mas o velho demagogo, ainda com uma sombra na face enrugada,
-desejou que o snr. Joo da Ega (se n'isso no tinha duvida) declarasse,
-alli diante do amigo Alencar, que no lhe achava a elle, Guimares, cara
-de bebedo...
-
---Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa para
-chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar diante do
-Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara d'um perfeito
-cavalheiro e d'um patriota!
-
-Ento trocaram um rasgado aperto de mos--emquanto o snr. Guimares
-affirmava a sua satisfao por conhecer o snr. Joo da Ega, moo de
-tantos dotes e to liberal. E quando s. exc.^a quizesse qualquer coisa,
-politica ou litteraria, era escrever este endereo bem conhecido no
-mundo:--_Redaction du_ Rappel, _Paris!_
-
-Alencar abalra. E os dois deixaram o botequim, trocando impresses do
-sarau. O snr. Guimares estava enojado com a carolice, a sabujice d'esse
-Rufino. Quando o ouvira palrar das azas da princeza e da cruz do adro,
-quasi lhe gritra c do fundo: Quanto te pagam para isso, miseravel?
-
-Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapo:
-
---Oh snr.^a baroneza, ento j nos abandona?
-
-Era a Alvim que descia devagar, com a Joanninha Villar, atando as largas
-fitas d'uma capa de pellucia verde. Queixou-se d'uma dr de cabea que a
-torturava, apesar de ter gostado loucamente do Rufino... Mas uma noite
-toda de litteratura, que estafa! E agora, para mais, ficra l um
-homemzinho a fazer musica classica...
-
--- o meu amigo Cruges!
-
---Ah! seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse antes o
-_Pirolito_.
-
---V. exc.^a afflige-me com esse desdem pelos grandes mestres... No quer
-que a v acompanhar carruagem? Paciencia... Muito boa noite, snr.^a D.
-Joanna!... Um servo seu, snr.^a baroneza! E Deus lhe tire a sua dr de
-cabea!
-
-Ella voltou-se ainda no degrau, para o ameaar risonhamente com o leque:
-
---No seja impostor! O snr. Ega no acredita em Deus.
-
---Perdo... Que o Diabo lhe tire a sua dr de cabea, snr.^a baroneza!
-
-O velho democrata desapparecera discretamente. E da ante-sala Ega
-avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um mcho muito baixo que lhe
-fazia roar pelo cho as longas abas da casaca--o Cruges, com o nariz
-bicudo contra o caderno da Sonata, martellando sabiamente o teclado. Foi
-ento subindo em pontas de ps pela coxia tapetada de vermelho, agora
-desafogada, quasi vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras,
-canadas, bocejavam por traz dos leques.
-
-Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um
-rancho intimo, a marqueza de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza Darque.
-E a boa D. Maria tocou-lhe logo no brao para saber quem era aquelle
-musico de cabelleira.
-
---Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges.
-
-O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o no conheciam. E era
-composio d'elle, aquella coisa triste?
-
--- de Beethoven, snr.^a D. Maria da Cunha, a _Sonata pathetica_.
-
-Uma das Pedrosos no percebera bem o nome da Sonata. E a marqueza de
-Soutal, muito sria, muito bella, cheirando devagar um frasquinho de
-saes, disse que era a _Sonata pateta_. Por toda a bancada foi um
-rastilho de risos suffocados. A _Sonata pateta_! Aquillo parecia divino!
-Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face enorme,
-imberbe e cr de papoula:
-
---Muito bem, snr.^a marqueza, muito catita!
-
-E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam
-marqueza, entre o _frou-frou_ dos leques. Ella triumphava, bella e
-sria, com um velho vestido de velludo preto, respirando os
-saes--emquanto adiante um amador de barba grisalha cravava n'aquelle
-rancho ruidoso dois grandes oculos d'ouro que faiscavam de clera.
-
-No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarrhoados
-tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a _Tarde_. E cahido
-sobre o teclado, com a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre
-Cruges, suando, estonteado por aquella desatteno rumorosa, atabalhoava
-as notas, n'uma debandada.
-
---Fiasco completo, declarou Carlos que se aproximra do Ega e do rancho.
-
-Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! At que emfim se
-via o snr. Carlos da Maia, o Principe Tenebroso! Que fizera elle durante
-esse vero? Todo o mundo a esperal-o em Cintra, alguem mesmo com
-anciedade... Um _chut_ furioso do amador de barbas grisalhas
-emmudeceu-a. E justamente Cruges, depois de bater dois accordes bruscos,
-arredra o mcho, esgueirava-se do estrado, enxugando as mos ao leno.
-Aqui e alm algumas palmas resoaram, molles e de cortezia, entre um
-grande murmurio d'allivio. E o Ega e Carlos correram porta, onde j
-esperavam o marquez, o Craft, o Taveira--para abraar, consolar o pobre
-Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados.
-
-E immediatamente, no silencio attento que redominava, um sujeito muito
-magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscripto na mo. Alguem
-ao lado do Ega disse que era o Prata, que ia fallar sobre o _Estado
-agricola da provincia do Minho_. Atraz, um criado veio collocar sobre a
-mesa um candelabro de duas velas: o Prata, d'ilharga para a luz,
-mergulhou no caderno: e d'entre o perfil triste e as folhas largas um
-rumor lento foi escorrendo, rumor de reza n'uma somnolencia de novena,
-onde por vezes destacavam como gemidos--riqueza dos gados...,
-esphacelamento da propriedade..., fertil e desprotegida regio...
-
-Comeou ento uma debandada sorrateira e formigueira, que nem os _chuts_
-do commissario do sarau, vigilante e de p sobre um degrau do estrado,
-podiam conter. S as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata idoso,
-que se inclinava zelosamente para o murmurio de reza, com a mo em
-concha sobre a orelha.
-
-Ega, que fugia tambem ao vecejante paraiso do Minho, achou-se em
-frente do snr. Guimares.
-
---Que massada, hein?
-
-O democrata concordou que aquelle preopinante no lhe parecia
-divertido... Depois, mais srio, com outra ida, segurando um boto da
-casaca do Ega:
-
----Eu espero que v. exc.^a ha pouco no ficasse com a impresso de que
-eu sou solidario ou me importo com meu sobrinho...
-
-Oh! decerto que no! Ega vira bem que o snr. Guimares no tinha pelo
-Damaso nenhum enthusiasmo de familia.
-
---Asco, senhor, s asco! Quando elle foi a primeira vez a Paris, e soube
-que eu morava n'uma trapeira, nunca me procurou! Porque aquelle imbecil
-d-se ares d'aristocrata... E como v. exc.^a sabe, filho d'um agiota!
-
-Puxou a charuteira, ajuntou gravemente:
-
---A mi, sim! Minha irm era d'uma boa familia. Fez aquelle desgraado
-casamento, mas era d'uma boa familia! Que, com os meus principios, j v.
-exc.^a v que tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brazes, so para mim
-_blague_ e mais _blague_! Mas emfim os factos so os factos, a historia
-de Portugal ahi est... Os Guimares da Bairrada eram de sangue azul.
-
-Ega sorriu, n'um assentimento cortez:
-
---E v. exc.^a ento parte brevemente para Paris?
-
---manh mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada do marechal
-de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi pelos ares, j se
-pde l respirar...
-
-N'esse instante Telles e o Taveira, passando de brao dado, voltaram-se,
-a observar curiosamente aquelle velho austero, todo de preto, que
-fallava alto com o Ega de marechaes e de duques. Ega reparou: o
-democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira nova; o seu
-altivo chapo reluzia; e Ega ficou de bom grado a conversar com aquelle
-gentleman correcto e venerando que impressionava os seus amigos.
-
---A republica com effeito, observou elle, dando alguns passos ao lado do
-snr. Guimares, esteve alli um momento compromettida!
-
---Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me v, para ser expulso por
-causa d'umas verdadesinhas que soltei n'uma reunio anarchista. At me
-affirmaram que n'um conselho de ministros o marechal de Mac-Mahon, que
-um tarimbeiro, batera um murro na mesa e dissera: _Ce sacr Guimaran, il
-nous embte, faut lui donner du pied dans le derrire!_ Eu no estava
-l, no sei, mas affirmaram-me... Em Paris, como os francezes no sabem
-pronunciar Guimares, e eu embirro que me estropiem o nome, assigno _Mr.
-Guimaran_. Ha dois annos, quando fui Italia, era _Mr. Guimarini_. E se
-fr agora Russia, c por coisas, hei de ser _Mr. Guimaroff_... Embirro
-que me estropiem o nome!
-
-Tinham voltado porta do salo. Longas bancadas vazias punham dentro,
-no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono e tedio; e no estrado
-o Prata continuava, de mo no bolso, com o nariz sobre o manuscripto,
-sem que se sentisse agora surdir um som d'aquelle espantalho esguio. Mas
-o marquez, que descia do fundo, atabafando-se no seu cache-nez de sda,
-disse ao Ega ao passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da
-pda, e l tinha ficado s voltas com Proudhon.
-
-Ega e o democrata recomearam ento os seus passos lentos na ante-sala
-onde o susurro de conversas mal abafadas crescia, como n'um pateo, entre
-fumaas furtivas de cigarro. E o snr. Guimares chasqueava, achando uma
-boa _btise_ que se citasse Proudhon, alli n'aquelle theatreco, a
-proposito d'estrumes do Minho...
-
---Oh, Proudhon entre ns, acudiu Ega rindo, cita-se muito, j um
-monstro classico. At os conselheiros d'Estado j sabem que para elle a
-propriedade era um roubo, e Deus era o mal...
-
-O democrata encolheu os hombros:
-
---Grande homem, senhor! Homem immenso! So os tres grandes pimpes
-d'este seculo: Proudhon, Garibaldi, e o compadre!
-
---O compadre! exclamou Ega, attonito.
-
-Era o nome d'amizade que o snr. Guimares dava em Paris a Gambetta.
-Gambetta nunca o via, que no lhe gritasse de longe, em hespanhol:
-_Hombre, compadre!_ E elle tambem, logo: _Compadre, caramba!_ D'ahi
-ficra a alcunha, e Gambetta ria. Porque l isso, bom rapaz, e amigo
-d'esta franqueza do sul, e patriota, at alli!
-
---Immenso, meu caro senhor! O maior de todos!
-
-Pois Ega imaginaria que o snr. Guimares, com as suas relaes do
-_Rappel_, devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo...
-
---Esse, meu caro senhor, no um homem, um mundo!
-
-E o snr. Guimares ergueu mais a face, ajuntou infinitamente grave:
-
--- um mundo! .. E aqui onde me v, ainda no ha tres mezes que elle me
-disse uma coisa que me foi direita ao corao!
-
-Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata contou
-largamente esse glorioso lance que ainda o commovia:
-
---Foi uma noite no _Rappel_. Eu estava a escrever, elle appareceu, j um
-pouco trpego, mas com o olho a luzir, e aquella bondade, aquella
-magestade!... Eu ergui-me, como se entrasse um rei... Isto , no! que
-se fosse um rei tinha-lhe dado com a bota no rabiosque. Levantei-me como
-se elle fosse um Deus! Qual Deus! no ha Deus que me fizesse
-levantar!... Emfim, acabou-se, levantei-me! Elle olhou para mim, fez
-assim um gesto com a mo, e disse, a sorrir, com aquelle ar de genio que
-tinha sempre: _Bonsoir, mon ami!_
-
-E o snr. Guimares deu alguns passos dignos, em silencio, como se
-aquelle _bonsoir_, aquelle _mon ami_, assim recordados, lhe fizessem
-mais vivamente sentir a sua importancia no mundo.
-
-De repente Alencar, que bracejava n'um grupo, rompeu para elles,
-pallido, d'olhos chammejantes:
-
---Que me dizem vocs a esta pouca vergonha? Aquelle infame alli ha meia
-hora, com o in-folio, a rosnar, a rosnar... E toda a gente a sahir, no
-fica ninguem! Tenho de recitar aos bancos de palhinha!...
-
-E abalou, rilhando os dentes, a exhalar mais longe o seu furor.
-
-Mas algumas palmas canadas, dentro, fizeram voltar o Ega. O estrado
-ficra novamente vazio, com as duas velas ardendo no candelabro. Um
-carto em grossas letras, que um criado collocra no piano, annunciava
-um intervallo de dez minutos como n'um circo. E n'esse instante a
-snr.^a condessa de Gouvarinho sahira pelo brao do marido, deixando
-atraz um sulco largo de comprimentos, d'espinhas que se vergavam, de
-chapos de burocratas rasgadamente erguidos. O commissario do sarau
-azafamava-se procurando duas cadeiras para ss. exc.^{as} A condessa
-porm foi reunir-se a D. Maria da Cunha, que ella vira, com as Pedrosos
-e a marqueza de Soutal, refugiada n'um vo de janella. Ega
-immediatamente acercou-se do rancho intimo, esperando que as senhoras se
-beijocassem.
-
---Ento, snr.^a condessa, ainda muito commovida com a eloquencia do
-Rufino?
-
---Muito canada... E que calor, hein?
-
---Horrivel. A snr.^a baroneza d'Alvim sahiu ha pouco, com uma dor de
-cabea...
-
-A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos cantos
-da boca, murmurou:
-
---No admira, isto no divertido... Emfim, j agora necessario levar
-a cruz ao Calvario.
-
---Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente uma
-lyra!
-
-Ella riu. E D. Maria da Cunha, n'essa noite mais remoada e viva, ficou
-logo toda banhada n'um sorriso, com aquella carinhosa admirao pelo
-Ega, que era um dos seus sentimentos.
-
---Este Ega!... No ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra coisa, que
- feito do seu amigo Maia?
-
-Ega vira-a momentos antes, no salo, puxar pela manga de Carlos,
-cochichar com Carlos. Mas conservou um ar innocente:
-
---Est ahi, anda por ahi, assistindo a toda essa litteratura.
-
-De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha
-rebrilharam com uma faisca de malicia:
-
---Fallai no mau... N'este caso seria fallar do bom. Emfim ahi nos vem o
-Principe Tenebroso!
-
-E era com effeito Carlos que passava, se encontrra diante dos braos do
-conde de Gouvarinho, estendidos para elle com uma effuso em que parecia
-renascer o antigo affecto. Pela primeira vez Carlos via a condessa,
-desde a noite em que no Aterro, abandonando-a para sempre, fechra com
-odio a portinhola da tipoia onde ella ficava chorando. Ambos baixaram os
-olhos, ao adiantar a mo um para o outro, lentamente. E foi ella que
-findou o embarao, abrindo o seu grande leque de pennas de avestruz:
-
---Que calor, no verdade?
-
---Atroz! disse Carlos. No v v. exc.^a apanhar ar d'essa janella.
-
-Ella forou os labios brancos a um sorriso:
-
--- conselho de medico?
-
---Oh, minha senhora, no so as horas da minha consulta! apenas
-caridade de christo.
-
-Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido, com a
-marqueza de Soutal, para o reprehender por elle no ter apparecido
-tera-feira na rua de S. Maral. Surprehendido com tanto interesse,
-tanta familiaridade, o Taveira, muito vermelho, balbuciou que nem sabia,
-fra o seu infortunio, tinham-se mettido umas coisas...
-
---Alm d'isso no imaginei que v. exc.^a comeasse a receber to cedo...
-V. exc.^a antigamente era s depois da Cerrao da Velha. At me lembro
-que o anno passado...
-
-Mas emmudeceu. O conde de Gouvarinho voltra-se, pousando a mo
-carinhosa no hombro de Carlos, desejando a sua impresso sobre o nosso
-Rufino. Elle conde estava encantado! Encantado sobretudo com a
-_variedade d'escala_, aquella arte to difficil de passar do solemne
-para o ameno, de descer das grandes rajadas para os brincados de
-linguagem. Extraordinario!
-
---Tenho ouvido grandes parlamentares, o Rouher, o Gladstone, o Canovas,
-outros muitos. Mas no so estes vos, esta opulencia... tudo muito
-scco, idas e factos. No entra n'alma! Vejam os amigos aquella imagem
-to pujante, to respeitosa, do Anjo da Esmola, descendo devagar, com as
-azas de setim... de primeira ordem.
-
-Ega no se conteve:
-
---Eu acho esse genio um imbecil.
-
-O conde sorriu, como tonteria d'uma criana:
-
---So opinies...
-
-E estendeu em redor as mos ao Sousa Netto, ao Darque, ao Telles da
-Gama, a outros que se juntavam ao rancho intimo--emquanto os seus
-correligionarios, os seus collegas do Centro e da Camara, o Gonalo, o
-Neves, o Vieira da Costa rondavam de longe, sem poder roar pelo
-ministro que tinham creado, agora que elle conversava e ria com rapazes
-e senhoras da sociedade. O Darque, que era parente do Gouvarinho, quiz
-saber como o amigo Gasto se ia dando com os encargos do Poder... O
-conde declarou para os lados que no fizera mais por ora do que passar
-em revista os elementos com que contava para atacar os problemas... De
-resto, em questes de trabalho, o ministerio fra infelicissimo! O
-presidente do conselho de cama com uma catarrheira, inutil para uma
-semana. Agora o collega da fazenda com as febres do Aterro...
-
---Est melhor? J sae? foi em torno a pergunta cheia de cuidado.
-
---Est na mesma, vai manh para o Dfundo. Mas realmente esse no se
-acha de todo inutilisado. Ainda hontem eu lhe dizia: Voc parte para o
-Dfundo, leva os seus papeis, os seus documentos... Pela manh d os
-seus passeios, respira o bom ar... E noite, depois de jantar, luz do
-candieiro, entretem-se a resolver a questo de fazenda!
-
-Uma campainha retiniu. D. Jos Sequeira, escarlate d'azafama, veio,
-furando, annunciar a s. exc.^a o fim do intervallo--offerecer o brao
-snr.^a condessa. Ao passar, ella lembrou a Carlos as suas
-teras-feiras, com a delicada simplicidade d'um dever. Elle curvou-se
-em silencio. Era como se todo o passado, o sof que rolava, a casa da
-titi em Santa Isabel, as tipoias em que ella deixava o seu cheiro de
-verbena--fossem coisas lidas por ambos n'um livro e por ambos
-esquecidas. Atraz, o marido seguia, erguendo alto a cabea e as lunetas,
-como representante do Poder n'aquella festa da Intelligencia.
-
---Pois senhores, disse o Ega afastando-se com Carlos, a mulherzinha tem
-topete!
-
---Que diabo queres tu? Atravessou a sua hora de tolice e de paixo, e
-agora contina tranquillamente na rotina da vida.
-
---E na rotina da vida, concluiu Ega, encontra-se a cada passo comtigo,
-que a viste em camisa!... Bonito mundo!
-
-Mas o Alencar appareceu no alto da escada, voltando do botequim e da
-genebra, com um brilho maior no olho cavo, de paletot no brao, j
-preparado para gorgear. E o marquez juntou-se a elles, abafado no
-cache-nez de sda branca, mais rouco, queixando-se de que a cada minuto
-a garganta se lhe punha peor... Aquella canalha d'aquella garganta ainda
-lhe vinha a pregar uma!...
-
-Depois, muito srio, considerando o Alencar:
-
---Ouve l, isso que tu vaes recitar, a _Democracia_, politica ou
-sentimento? Se politica, raspo-me. Mas se sentimento, e a
-humanidade, e o santo operario, e a fraternidade, ento fico, que d'isso
-gsto e at talvez me faa bem.
-
-Os outros affirmaram que era sentimento. O poeta tirou o chapo, passou
-os dedos pelos anneis ffos da grenha inspirada:
-
---Eu vos digo, rapazes... Uma coisa no vai sem a outra, vejam vocs
-Danton!... Mas j no fallo emfim d'esses lees da Revoluo. Vejam
-vocs o Passos Manoel! Est claro, necessario logica... Mas, tambem,
-caramba, sbo para uma politica sem entranhas e sem um bocado de
-infinito!
-
-Subitamente, por sobre o novo silencio da sala, um vozeiro mais forte
-que o do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D. Joo de Castro e de
-Affonso d'Albuquerque... Todos se acercaram da porta, curiosamente. Era
-um magano gordo, de barba em bico e camelia na casaca, que, de mo
-fechada no ar como se agitasse o pendo das Quinas, lamentava aos berros
-que ns portuguezes, possuindo este nobre estuario do Tejo e to
-formosas tradies de gloria, deixassemos esbanjar, ao vento do
-indifferentismo, a sublime herana dos avs!...
-
--- patriotismo, disse o Ega. Fujamos!
-
-Mas o marquez reteve-os, gostando tambem de um bocado de Quinas. E foi o
-pobre marquez que o patriota pareceu interpellar, alando na ponta dos
-botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora ahi, que,
-agarrando n'uma das mos a espada e na outra a cruz, saltasse para o
-convs d'uma caravella a ir levar o nome portuguez atravs dos mares
-desconhecidos? Quem havia ahi, heroico bastante, para imitar o grande
-Joo de Castro, que na sua quinta de Cintra arrancra todas as arvores
-de fructo, tal a era a iseno da sua alma de poeta?...
-
---Aquelle miseravel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega.
-
-Em torno correram risos alegres. O marquez virou costas, enojado com
-aquella patriotice reles. Outros bocejavam por traz da mo, n'um tedio
-completo de todas as nossas glorias. E Carlos, enervado, preso alli
-pelo dever de applaudir o Alencar, chamava o Ega para irem abaixo ao
-botequim espairecer a impaciencia--quando viu o Eusebiosinho que descia
-a escada, enfiando pressa um paletot alvadio. No o encontrra mais
-desde a infamia da _Corneta_, em que elle fra embaixador. E a clera
-que tivera contra elle n'esse dia reviveu logo n'um desejo irresistivel
-de o espancar. Disse ao Ega:
-
---Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar as
-orelhas quelle maroto!
-
---Deixa l, acudiu Ega, um irresponsavel!
-
-Mas j Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz, inquieto, temendo
-uma violencia. Quando chegaram porta, Eusebio mettera para os lados do
-Carmo. E alcanaram-no no largo da Abegoaria, quella hora deserto,
-mudo, com dois bicos de gaz mortios. Ao vr Carlos fender assim sobre
-elle, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusebio,
-encolhido, balbuciou atarantadamente: Ol, por aqui...
-
---Ouve c, estupr! rugiu Carlos, baixo. Ento tambem andaste mettido
-n'essa maroteira da _Corneta_? Eu devia rachar-te os ossos um a um!
-
-Agarrra-lhe o brao, ainda sem odio. Mas, apenas sentiu na sua mo de
-forte aquella carne mollenga e tremula, resurgiu n'elle essa averso
-nunca apagada--que j em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho,
-esfrangalhal-o, sempre que as Silveiras o traziam quinta. E ento
-abanou-o, como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre
-viuvo, no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapo coberto de
-luto que lhe rolra nas lages, danava, escanifrado e desengonado. Por
-fim Carlos atirou-o contra a porta d'uma cocheira.
-
---Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraado.
-
-J a mo de Carlos lhe empolgra as guelas. Mas Ega interveio:
-
---Alto! Basta! O nosso querido amigo j recebeu a sua dse...
-
-Elle mesmo lhe apanhou o chapo. Tremendo, arquejando, de bruos,
-Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para findar, a bota de
-Carlos, atirada com nojo, estatelou-o nas pedras, para cima d'uma
-sargeta onde restavam immundicies e humidade de cavallo.
-
-O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros baos.
-Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No peristylo, cheio de luz
-e plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado
-d'amigos, em caminho para o botequim, limpando ao leno o pescoo e a
-face, exclamando com o cansao radiante d'um triumphador:
-
---Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda!
-
-J o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a escada. E com
-effeito Alencar apparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de
-duas velas.
-
-Esguio, mais sombrio n'aquelle fundo cr de canario, o poeta derramou
-pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento:
-e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de
-tanta solemnidade.
-
---_A Democracia!_ annunciou o auctor d'_Elvira_, com a pompa d'uma
-revelao.
-
-Duas vezes passou pelos bigodes o leno branco, que depois atirou para a
-mesa. E levantando a mo n'um gesto demorado e largo:
-
-
- Era n'um parque. O luar
- Sobre os vastos arvoredos,
- Cheios de amor e segredos...
-
-
---Que lhe disse eu? exclamou o Ega, tocando no cotovlo do marquez.
-sentimento... Aposto que o festim!
-
-E era com effeito o festim, j cantado na _Flr de Martyrio_, festim
-romantico, n'um vago jardim onde vinhos de Chypre circulam, caudas de
-brocado rojam entre macissos de magnolias, e das aguas do lago sobem
-cantos ao gemer dos violoncellos... Mas bem depressa transpareceu a
-severa ida social da Poesia. Emquanto, sob as arvores radiantes de
-luar, tudo so risos, brindes, lascivos murmurios--fra, junto s
-grades douradas do parque, assustada com o latir dos molossos, uma
-mulher macilenta, em farrapos, chora, aconchegando ao seio magro o filho
-que pede po... E o poeta, sacudindo os cabellos para traz, perguntava
-porque havia ainda esfomeados n'este orgulhoso seculo XIX? De que
-servira ento, desde Spartacus, o esforo desesperado dos homens para a
-Justia e para a Igualdade? De que servira ento a cruz do grande
-Martyr, erguida alm na collina, onde, por entre os abetos
-
-
- Os raios do sol se somem,
- O vento triste se cala...
- E as aguias revolteando
- D'entre as nuvens esto olhando
- Morrer o filho do Homem!
-
-
-A sala permanecia muda e desconfiada. E o Alencar, com as mos tremendo
-no ar, desolava-se de que todo o Genio das geraes fosse impotente para
-esta coisa simples--dar po criana que chora!
-
-
- Martyrio do corao!
- Espanto da consciencia!
- Que toda a humana sciencia
- No solva a negra questo!
- Que os tempos passem e rolem
- E nenhuma luz assome,
- E eu veja d'um lado a fome
- E do outro a indigesto!
-
-
-Ega torcia-se, fungando dentro do leno, jurando que rebentava. _E do
-outro a indigesto!_ Nunca, nas alturas lyricas, se gritra nada to
-extraordinario! E sujeitos graves, em redor, sorriam d'aquelle
-_realismo_ sujo. Um jocoso lembrou que para indigestes j havia o
-bi-carbonato de potassa.
-
---Quando no so das minhas! rosnou um cavalheiro esverdinhado, que
-alargava a fivela do collete.
-
-Mas tudo emmudeceu ante um _chut_ terrivel do marquez, que desapertra o
-cache-nez, j excitado, no enternecimento que sempre lhe davam estes
-humanitarismos poeticos. E entretanto, no estrado, o Alencar achra a
-soluo do soffrimento humano! Fra uma Voz que lh'a ensinra! Uma Voz
-sahida do fundo dos seculos, e que atravs d'elles, sempre suffocada,
-viera crescendo todavia irresistivelmente desde o Golgotha at
-Bastilha! E ento, mais solemne por traz da mesa, com um arranque de
-Precursor e uma firmeza de Soldado, como se aquelle honesto movel de
-mogno fosse um pulpito e uma barricada--o Alencar, alando a fronte
-n'uma grande audacia Danton, soltou o brado temeroso. Alencar queria a
-Republica!
-
-Sim, a Republica! No a do Terror e a do odio, mas a da mansido e do
-Amor. Aquella em que o Millionario sorrindo abre os braos ao Operario!
-Aquella que Aurora, Consolao, Refugio, Estrella mystica e Pomba...
-
-
- Pomba da Fraternidade,
- Que estendendo as brancas azas
- Por sobre os humanos lodos,
- Envolve os seus filhos todos
- Na mesma santa Igualdade!...
-
-
-Em cima, na galeria, resoou um _bravo_ ardente. E immediatamente, para o
-suffocar, sujeitos srios lanaram, aqui e alm: Chut, silencio! Ento
-Ega ergueu as mos magras, bem alto, berrou com um destaque atrevido:
-
---Bravo! Muito bem! Bravo!
-
-E todo pallido da sua audacia, entalando o monoculo, declarou para os
-lados:
-
---Aquella democracia absurda... Mas que os burguezes se dem ares
-intolerantes, isso no! Ento applaudo eu!
-
-E as suas mos magras de novo se ergueram, bem alto, junto das do
-marquez que retumbavam como malhos. Outros em volta, immediatamente, no
-se querendo mostrar menos democratas que o Ega e aquelle fidalgo de to
-grande linhagem, reforaram os _bravos_ com calor. J pela sala se
-voltavam olhares inquietos para aquelle grupo cheio de revoluo. Mas um
-silencio cahiu, mais commovido e grave, quando o Alencar (que
-inspiradamente previra a intolerancia burgueza) perguntou em estrophes
-iradas o que detestavam, o que receavam elles, no advento sublime da
-Republica? Era o po carinhoso dado criana? Era a mo justa estendida
-ao proletario? Era a esperana? Era a aurora?
-
-
- Receaes a grande luz?
- Tendes medo do Abec?...
- Ento castigai quem l,
- Voltai plebe soez!
- Recuai sempre na Historia,
- Apagai o gaz nas ruas,
- Deixai as crianas nuas,
- E venha a forca outra vez!
-
-
-Palmas, mais numerosas, j sinceras, estalaram pela sala, que cedia
-emfim ao repetido encanto d'aquelle lyrismo humanitario e sonoro. J no
-importava a Republica, os seus perigos. Os versos rolavam, cantantes e
-claros; e a sua onda larga arrastava os espiritos mais positivos. Sob
-aquelle bafo de sympathia Alencar sorria, com os braos abertos,
-annunciando uma a uma, como perolas que se desfiam, todas as dadivas que
-traria a Republica. Debaixo da sua bandeira, no vermelha mas branca,
-elle via a terra coberta de searas, todas as fomes satisfeitas, as
-naes cantando nos valles sob o olhar risonho de Deus. Sim, porque
-Alencar no queria uma Republica sem Deus! A Democracia e o
-Christianismo, como um lirio que se abraa a uma espiga, completavam-se,
-estreitando os seios! A rocha do Golgotha tornava-se a tribuna da
-Conveno! E para to dce ideal no se necessitavam cardeaes, nem
-missaes, nem novenas, nem igrejas. A Republica, feita s de pureza e de
-f, reza nos campos; a lua cheia hostia; os rouxinoes entoam o _tantum
-ergo_ nos ramos dos loureiraes. E tudo prospra, tudo refulge--ao mundo
-do Conflicto substitue-se o mundo do Amor...
-
-
- espada succede o arado,
- A Justia ri da Morte,
- A escla est livre e forte,
- E a Bastilha derrocada.
- Rla a tira no lodo,
- Brota o lirio da Igualdade,
- E uma nova Humanidade
- Planta a cruz na barricada!
-
-
-Uma rajada farta e franca de _bravos_ fez oscillar as chammas do gaz!
-Era a paixo meridional do verso, da sonoridade, do Liberalismo
-romantico, da imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de
-foguete, conquistando emfim tudo, pondo uma palpitao em cada peito,
-levando chefes de repartio a berrarem, estirados por cima das damas,
-no enthusiasmo d'aquella republica onde havia rouxinoes! E quando
-Alencar, alando os braos ao tecto, com modulaes de _preghiera_ na
-voz roufenha, chamou para a terra essa pomba da Democracia, que erguera
-o vo do Calvario, e vinha com largos sulcos de luz--foi um
-enternecimento banhando as almas, um fundo arrepio d'extasi. As senhoras
-amolleciam nas cadeiras, com a face meia voltada ao co. No salo
-abrazado perpassavam frescuras de capella. As rimas fundiam-se n'um
-murmurio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de setim
-cobrissem, estrellas d'ouro coroassem. E mal se sabia j se Essa, que se
-invocava e se esperava, era a deusa da Liberdade--ou Nossa Senhora das
-Dres.
-
-Alencar no emtanto via-a descer, espalhando um perfume. J Ella tocava
-com os seus ps divinos os valles humanos. J do seu seio fecundo
-trasbordava a universal abundancia. Tudo reflorescia, tudo rejuvenescia:
-
-
- As rosas tm mais aroma!
- Os fructos tm mais doura!
- Brilha a alma clara e pura,
- Solta de sombras e vos...
- Foge a dr espavorida,
- Foi-se a fome, foi-se a guerra,
- O homem canta na terra,
- E Christo sorri nos cos!...
-
-
-Uma acclamao rompeu, immensa e rouca, abalando os muros cr de
-canario. Moos exaltados treparam s cadeiras, dois lenos brancos
-fluctuavam. E o poeta, tremulo, exhausto, rolou pela escada at aos
-braos que se lhe estendiam frementes. Elle suffocava, murmurava:
-filhos! rapazes!... Quando Ega correu do fundo, com Carlos,
-gritando--Fste extraordinario, Thomaz!--as lagrimas saltaram dos
-olhos do Alencar, quebrado todo d'emoo.
-
-E ao longo da coxia a ovao continuou, feita de palmadinhas pelo
-hombro, de _shake-hands_ da gente sria, de muitos parabens a v.
-exc.^a! Pouco a pouco elle erguia a cabea, n'um altivo sorriso que lhe
-mostrava os dentes maus, sentindo-se o poeta da Democracia, consagrado,
-ungido pelo triumpho, com a inesperada misso de libertar almas! D.
-Maria da Cunha puxou-lhe pela manga quando elle passou, para murmurar,
-encantada, que achra--lindissimo, lindissimo. E o poeta, estonteado,
-exclamou: Maria, necessario luz! Telles da Gama veio bater-lhe nas
-costas affirmando-lhe que pira esplendidamente. E Alencar,
-inteiramente perdido, balbuciou: _Sursum corda_, meu Telles, _sursum
-corda_!
-
-Ega no emtanto, atravs do tumulto, farejava buscando Carlos que
-desapparecera depois dos abraos ao Alencar. Taveira assegurou-lhe que
-Carlos passra para o botequim. Depois em baixo um garoto jurou que o
-snr. D. Carlos tomra uma tipoia e ia j virando o Chiado...
-
-Ega ficou porta hesitando se aturaria o resto do sarau. N'esse momento
-o Gouvarinho, trazendo a condessa pelo brao, descia rapidamente, com a
-face toda contrariada e sombria. O trintanario de ss. exc.^{as} correu a
-chamar o coup. E quando o Ega se acercou, sorrindo, para saber que
-impresso lhes deixra o grande triumpho democratico do Alencar--a
-profunda clera do Gouvarinho escapou-se-lhe, mal contida, por entre os
-dentes cerrados:
-
---Versos admiraveis, mas indecentes!
-
-O coup avanou. Elle teve apenas tempo de rosnar ainda, surdamente,
-apertando a mo ao Ega:
-
---N'uma festa de sociedade, sob a proteco da rainha, diante d'um
-ministro da cora, fallar de barricadas, prometter mundos e fundos s
-classes proletarias... perfeitamente indecente!
-
-J a condessa enfira a portinhola, apanhando a larga cauda de sda. O
-ministro mergulhou tambem furiosamente na sombra do coup. Junto s
-rodas passou choutando, n'uma pileca branca, o correio agaloado.
-
-Ega ia subir. Mas o marquez appareceu, abafado n'um gabo d'Aveiro,
-fugindo a um poeta de grandes bigodes que ficra em cima a recitar
-quadrinhas miudinhas a uns olhinhos galantinhos: e o marquez detestava
-versos feitos a partes do corpo humano. Depois foi o Cruges que surgiu
-do botequim, abotoando o paletot. Ento, perante essa debandada de todos
-os amigos, Ega decidiu abalar tambem, ir tomar o seu _grog_ ao Gremio
-com o maestro.
-
-Metteram o marquez n'uma tipoia--e elle e Cruges desceram a rua Nova da
-Trindade, devagar, no encanto estranho d'aquella noite d'inverno, sem
-estrellas, mas to macia que n'ella parecia andar perdido um bafo de
-maio.
-
-Passavam porta do _Hotel Alliana_ quando Ega sentiu alguem, que se
-apressava, chamar atraz: snr. Ega! V. exc.^a faz favor, snr.
-Ega?...--Parou, reconheceu o chapo recurvo, as barbas brancas do snr.
-Guimares.
-
---V. exc.^a desculpe! exclamou o demagogo esbaforido. Mas vi-o descer,
-queria-lhe dar duas palavras, e como me vou embora manh...
-
---Perfeitamente... Cruges, vai andando, j te apanho!
-
-O maestro estacionou esquina do Chiado. O snr. Guimares pedia de novo
-desculpa. De resto eram duas curtas palavras...
-
---V. exc.^a, segundo me disseram, o grande amigo do snr. Carlos da
-Maia... So como irmos...
-
---Sim, muito amigos...
-
-A rua estava deserta, com alguns garotos apenas porta alumiada da
-Trindade. Na noite escura a alta fachada do _Alliana_ lanava sobre
-elles uma sombra maior. Todavia o snr. Guimares baixou a voz cautelosa:
-
---Aqui est o que ... V. exc.^a sabe, ou talvez no saiba, que eu fui
-em Paris intimo da mi do snr. Carlos da Maia... V. exc.^a tem pressa, e
-no vem agora a proposito essa historia. Basta dizer que aqui ha annos
-ella entregou-me, para eu guardar, um cofre que, segundo dizia, continha
-papeis importantes... Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras
-coisas em que pensar, os annos correram, ella morreu. N'uma palavra,
-porque v. exc.^a est com pressa: eu conservo ainda em meu poder esse
-deposito, e trouxe-o por acaso quando vim agora a Portugal por negocios
-da herana de meu irmo... Ora hoje justamente, alli no theatro, comecei
-a reflectir que o melhor era entregal-o familia...
-
-O Cruges mexeu-se impaciente:
-
---Ainda te demoras?
-
---Um instante! gritou Ega, j interessado por aquelles papeis e pelo
-cofre. Vai andando.
-
-Ento o snr. Guimares, pressa, resumiu o pedido. Como sabia a
-intimidade do snr. Joo da Ega e de Carlos da Maia, lembrra-se de lhe
-entregar o cofresinho para que elle o restituisse familia...
-
---Perfeitamente! acudiu Ega. Eu estou mesmo em casa dos Maias, no
-Ramalhete.
-
---Ah, muito bem! Ento v. exc.^a manda um criado de confiana manh
-buscal-o... Eu estou no _Hotel de Paris_, no Pelourinho. Ou melhor
-ainda: levo-lh'o eu, no me d incommodo nenhum, apesar de ser dia de
-partida...
-
---No, no, eu mando um criado! insistiu o Ega estendendo a mo ao
-democrata.
-
-Elle estreitou-lh'a com calor.
-
---Muito agradecido a v. exc.^a! Eu junto-lhe ento um bilhete e v.
-exc.^a entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou irm.
-
-Ega teve um movimento d'espanto:
-
--- irm!... A que irm?
-
-O snr. Guimares considerou Ega tambem com assombro. E abandonando-lhe
-lentamente a mo:
-
---A que irm!? irm d'elle, unica que tem, Maria!
-
-Cruges, que batia as solas no lagedo, enfastiado gritou da esquina:
-
---Bem, eu vou andando para o Gremio.
-
---At logo!
-
-O snr. Guimares, no emtanto, passava os dedos calados de pellica preta
-pelos longos fios da barba, fitando o Ega, n'um esforo de penetrao. E
-quando Ega lhe travou do brao, pedindo-lhe para conversarem um pouco
-at ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentido
-desconfiada.
-
---Eu parece-me, dizia o Ega sorrindo, mas nervoso, que ns estamos aqui
-a enrodilhar-nos n'um equivoco... Eu conheo o Maia desde pequeno, vivo
-at agora em casa d'elle, posso afianar-lhe que no tem irm nenhuma...
-
-Ento o snr. Guimares comeou a rosnar umas desculpas embrulhadas que
-mais enervavam, torturavam o Ega. O snr. Guimares imaginava que no era
-segredo, que todas essas coisas da irm estavam esquecidas, desde que
-houvera reconciliao...
-
---Como vi, ainda no ha muitos dias, o snr. Carlos da Maia com a irm e
-com v. exc.^a, na mesma carruagem, no caes do Sodr...
-
---O qu! Aquella senhora! A que ia na carruagem?
-
---Sim! exclamou o snr. Guimares irritado, farto emfim d'essa confuso
-em que se debatiam. Aquella mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria
-Eduarda Maia, como quizer, que eu conheci de pequena, com quem andei
-muitas vezes ao collo, que fugiu com o Mac-Gren, que esteve depois com a
-besta do Castro Gomes... Essa mesma!
-
-Era ao meio do Loreto sob o lampeo de gaz. E o snr. Guimares de
-repente estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror, uma
-terrivel pallidez cobrir-lhe a face.
-
---V. exc.^a no sabia nada d'isto?
-
-Ega respirou fortemente, arredando o chapo da testa sem responder.
-Ento o outro, embaado, terminou por encolher os hombros. Bem, via que
-tinha feito uma tolice! A gente nunca se devia intrometter nos negocios
-alheios! Mas acabou-se! Imaginasse o snr. Ega que aquillo fra um
-pesadlo, depois da versalhada do sarau! Pedia desculpa sinceramente--e
-desejava ao snr. Joo da Ega muitissimo boas noites.
-
-Ega, como a um claro de relampago, entrevira toda a catastrophe: e
-agarrou avidamente o brao do snr. Guimares, n'um terror que elle
-abalasse, desapparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses
-papeis, o cofre da Monforte, e com elles a certeza--a certeza por que
-agora anciava. E atravs do Loreto, vagamente, foi balbuciando,
-justificando a sua emoo, para tranquillisar o homem, poder lentamente
-arrancar-lhe as coisas que soubesse, as provas, a verdade inteira.
-
---O snr. Guimares comprehende... Isto so coisas muito delicadas, que
-eu suppunha absolutamente ignoradas de todos... De modo que fiquei
-embatucado, fiquei tonto, quando o ouvi assim de repente fallar d'ellas
-com essa simplicidade... Porque emfim, aqui para ns, essa senhora no
-passa em Lisboa por irm de Carlos.
-
-O snr. Guimares atirou logo a mo n'um grande gesto. Ah, bem! Ento era
-jogo com elle? Pois tinha feito o snr. Ega perfeitamente... Com certeza
-eram coisas muito srias, que necessitavam toda a sorte de vos... Elle
-comprehendia, comprehendia muito bem!... E realmente, dada a posio dos
-Maias em Lisboa, na sociedade, aquella senhora no era irm que se
-apresentasse.
-
---Mas a culpa no a teve ella, meu caro senhor! Foi a mi, foi aquella
-extraordinaria mi que o Diabo lhe deu!...
-
-Desciam o Chiado. Ega parou um momento, devorando o velho com olhos de
-febre:
-
---O snr. Guimares conheceu muito essa senhora, a Monforte?
-
-Intimamente! J a conhecera em Lisboa--mas de longe, como mulher de
-Pedro da Maia. Depois viera essa tragedia, ella fugira com o italiano.
-Elle abalra tambem para Paris n'esse anno, com uma Clemence, uma
-costureira da Levaillant: e, umas coisas enfiando n'outras, negocios e
-desgraas, por l ficra para sempre! Emfim, no era a sua vida que lhe
-ia contar... S mais tarde encontrra a Monforte, uma noite, no baile
-Laborde: e d'ahi datavam as suas relaes. A esse tempo j o italiano
-morrera n'um duello, e o velho Monforte espichra da bexiga. Ella estava
-ento com um rapaz chamado Trevernnes--n'uma casa bonita, no Parc
-Monceaux, em grande chic... Mulher extraordinaria! E no se envergonhava
-de confessar que lhe devia obrigaes! Quando essa rapariga, a Clemence,
-que era um encanto, adoecera do peito, a Monforte trazia-lhe flres,
-frutas, vinhos, fazia-lhe companhia, velava-a como um anjo... Porque l
-isso corao largo e generoso at alli! Esta, a filha, a D. Maria, tinha
-ento sete ou oito annos, linda como os amores... E houvera uma outra
-pequena do italiano, muito galantinha tambem. Oh! muito galantinha
-tambem! Mas morrera em Londres, essa...
-
---E com esta Maria andei muitas vezes ao collo, meu caro senhor... No
-sei se ella ainda se lembra d'uma boneca que eu lhe dei, que fallava,
-dizia _Napolon_... Era no bello tempo do Imperio, at as
-desavergonhadas das bonecas eram imperialistas! Depois, quando ella
-estava em Tours, no convento, fui l duas vezes com a mi. J ento os
-meus principios me no permittiam entrar n'esses covis religiosos: mas
-emfim fui acompanhar a mi... E quando ella fugiu com o irlandez, o
-Mac-Gren, foi commigo que a mi veio ter, furiosa, a querer que eu
-chamasse o commissario de policia para se prender o irlandez. Por fim
-metteu-se n'um _fiacre_, foi para Fontainebleau, l fez as pazes, viviam
-at juntos... Emfim uma srie de trapalhadas.
-
-Um suspiro cansado escapou-se do peito do Ega, que arrastava os passos,
-succumbido:
-
---E esta senhora, est claro, no sabia ento de quem era filha...
-
-O snr. Guimares encolheu os hombros:
-
---Nem suspeitava que existissem Maias sobre a face da terra! A Monforte
-dissera-lhe sempre que o pai era um fidalgo austriaco com quem ella
-casra na Madeira... Uma mixordia, meu caro senhor, uma mixordia!
-
--- horrivel! murmurou Ega.
-
-Mas, dizia o snr. Guimares, que podia tambem fazer a Monforte? Que
-diabo, era duro confessar filha: Olha que eu fugi a teu pai, e elle
-por causa d'isso matou-se! No tanto pela questo de pudor; a rapariga
-devia perceber que a mi tinha amantes, ella mesma aos dezoito annos,
-coitadinha, j tinha um; mas por causa do tiro, do cadaver, do sangue...
-
---A mim mesmo! exclamou o snr. Guimares, parando, alargando os braos
-na rua deserta. A mim mesmo nunca ella fallou do marido, nem de Lisboa,
-nem de Portugal. Lembra-me at uma occasio em casa da Clemence, que eu
-alludi a um cavallo lazo, um cavallo de Pedro da Maia, em que ella
-costumava montar. Animal soberbo! Mas nem mencionei o marido, fallei s
-do cavallo. Pois senhores, bate com o leque em cima da mesa, grita como
-uma bicha:--_Dites donc, mon cher, vous m'embtez avec ces histoires de
-l'autre monde_!... Com effeito, bem o podia dizer, eram historias do
-outro mundo! Para encurtar: estou convencido que nos ultimos tempos ella
-mesmo julgava que Pedro da Maia nunca existira. Uma insensata! Por fim
-at bebia... Mas acabou-se! Tinha grande corao, e portou-se muito bem
-com a Clemence. _Parce sepultis!_
-
--- horrivel! murmurou outra vez o Ega, tirando o chapo, correndo a mo
-tremula pela testa.
-
-E agora o seu unico desejo era a accumulao incessante de provas, de
-detalhes. Fallou ento d'esses papeis, d'esse cofre da Monforte. O snr.
-Guimares no sabia o que elles continham; e no se admiraria se fossem
-apenas contas de modista, ou pedaos velhos do _Figaro_ em que se
-fallava d'ella...
-
--- uma caixita pequena que a Monforte me deu, na vespera de partir para
-Londres com a filha. Era no tempo da guerra... J a Maria vivia com o
-irlandez, tinha mesmo uma pequena, a Rosa. Depois veio a Communa, todos
-aquelles desastres. Quando a Monforte voltou de Londres eu estava em
-Marselha. Foi ento que a pobre Maria se metteu com o Castro Gomes,
-creio que para no morrer de fome... Eu recolhi a Paris, mas no vi mais
-a Monforte, que j estava muito doente... Maria, collada ento a essa
-besta do Castro Gomes, um pedante, um _rastaquoure_ mesmo a calhar para
-a guilhotina, no tornei tambem a fallar. Se a encontrava era um
-comprimento de longe, como n'outro dia, quando a vi na carruagem com v.
-exc.^a e com o irmo... De sorte que fui ficando com os papeis. Nem a
-fallar a verdade, com estas coisas todas de politica, me lembrei mais
-d'elles. E agora ahi esto, s ordens da familia.
-
---Se isso no fosse incommodo para v. exc.^a, acudiu Ega, eu passava
-agora pelo seu hotel e levava-os logo commigo...
-
---Incommodo nenhum! Estamos em caminho, negocio que fica feito!
-
-Algum tempo seguiram calados. O sarau decerto acabra. Um bater de
-carruagens atroava as descidas do Chiado. Junto d'elles passaram duas
-senhoras, com um rapaz que bracejava, fallando alto do Alencar. O snr.
-Guimares tirra lentamente do bolso a charuteira: depois parando, para
-raspar um phosphoro:
-
---Ento a D. Maria passa simplesmente por parenta?... E como soube ella?
-Como foi isso?
-
-Ega, que caminhava com a cabea cahida, estremeceu como se acordasse. E
-comeou a tartamudear uma historia confusa, de que elle mesmo crava na
-sombra. Sim, Maria Eduarda passava por parenta. Fra o procurador que
-descobrira. Ella rompera com o Castro Gomes, com todo o passado. Os
-Maias davam-lhe uma mezada; e vivia nos Olivaes, muito retirada, como
-filha d'um Maia que morrera na Italia. Todos gostavam muito d'ella,
-Affonso da Maia tinha grande ternura pela pequena...
-
-E de repente indignou-se com estas invenes por onde arrastava j o
-nome do nobre velho, exclamou como se abafasse:
-
---Emfim, nem eu sei, um horror!
-
---Um drama! resumiu gravemente o snr. Guimares.
-
-E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento
-emquanto elle corria acima buscar os papeis da Monforte.
-
-S, no largo, Ega ergueu as mos ao co n'um desabafo mudo d'aquella
-angustia em que caminhava, como um somnambulo, desde o Loreto. E a sua
-unica sensao, bem clara--era a indestructivel certeza da historia do
-Guimares, to compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse
-e se fizesse cahir aos pedaos. O homem conhecera Maria Monforte em
-Lisboa, ainda mulher de Pedro da Maia, brilhando no seu cavallo lazo;
-encontrra-a em Paris j fugida, depois da morte do primeiro amante,
-vivendo com outros; andra ento ao collo com Maria Eduarda a quem se
-davam bonecas... E desde ento no deixra mais de vr Maria Eduarda, de
-a seguir: em Paris; no convento de Tours; em Fontainebleau com o
-irlandez; nos braos de Castro Gomes; n'uma tipoia de praa emfim com
-elle e com Carlos da Maia, havia dias, no caes do Sodr! Tudo isto se
-encadeava, concordando com a historia contada por Maria Eduarda. E de
-tudo resaltava esta certeza monstruosa:--Carlos amante da irm!
-
-Guimares no descia. No segundo andar surgira uma luz viva, n'uma
-janella aberta. Ega recomeou a passear lentamente pelo meio do largo. E
-agora, pouco a pouco, subia n'elle uma incredulidade contra esta
-catastrophe de dramalho. Era acaso verosimil que tal se passasse, com
-um amigo seu, n'uma rua de Lisboa, n'uma casa alugada mi Cruges?...
-No podia ser! Esses horrores s se produziam na confuso social, no
-tumulto da Meia-Idade! Mas n'uma sociedade burgueza, bem policiada, bem
-escripturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papeis,
-com tanto registro de baptismo, com tanta certido de casamento, no
-podia ser! No! No estava no feitio da vida contemporanea que duas
-crianas separadas por uma loucura da mi, depois de dormirem um
-instante no mesmo bero, cresam em terras distantes, se eduquem,
-descrevam as parabolas remotas dos seus destinos--para qu? Para virem
-tornar a dormir juntas no mesmo ponto, n'um leito de concubinagem! No
-era possivel. Taes coisas pertencem s aos livros, onde vm, como
-invenes subtis da arte, para dar alma humana um terror novo...
-Depois levantava os olhos para a janella alumiada--onde o snr. Guimares
-decerto rebuscava os papeis na mala. Alli estava porm esse homem com a
-sua historia--em que no havia uma discordancia por onde ella pudesse
-ser abalada!... E pouco a pouco aquella luz viva, sahida do alto,
-parecia ao Ega penetrar n'essa intrincada desgraa, aclaral-a toda,
-mostrar-lhe bem a lenta evoluo. Sim, tudo isso era provavel no fundo!
-Essa criana, filha d'uma senhora que a levra comsigo, cresce, amante
-d'um brazileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. N'um bairro visinho vive
-outro filho d'essa mulher, por ella deixado, que cresceu, um homem.
-Pela sua figura, o seu luxo, elle destaca n'esta cidade provinciana e
-pelintra. Ella por seu lado, loura, alta, esplendida, vestida pela
-Laferrire, flr d'uma civilisao superior, faz relvo n'esta multido
-de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde
-todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho
-pessoal, muito fatalmente se attrahem! Ha nada mais natural? Se ella
-fosse feia e trouxesse aos hombros uma confeco barata da loja da
-America, se elle fosse um mocinho encolhido de chapo cco, nunca se
-notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o
-conhecerem-se era certo, o amarem-se era provavel... E um dia o snr.
-Guimares passa, a verdade terrivel estala!
-
-A porta do hotel rangeu no escuro, o snr. Guimares adiantou-se, de bon
-de sda na cabea, com o embrulho na mo.
-
---No podia dar com a chave da mala, desculpe v. exc.^a sempre assim
-quando ha pressa... E aqui temos o famoso cofre!
-
---Perfeitamente, perfeitamente...
-
-Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulhra n'um
-velho numero do _Rappel_. Ega metteu-a no bolso largo do seu paletot: e
-immediatamente, como se qualquer outra palavra entre elles fosse v,
-estendeu a mo ao snr. Guimares. Mas o outro insistiu em o acompanhar
-at esquina da rua do Arsenal, apesar de estar de bon. A noite, para
-quem vinha de Paris, tinha uma doura oriental--e elle, com os seus
-habitos de jornalista, nunca se deitava seno tarde, s duas, tres horas
-da madrugada...
-
-E ento, caminhando devagar, com as mos nos bolsos e o charuto entre os
-dentes, o snr. Guimares voltou politica e ao sarau. A poesia do
-Alencar (de que esperra muito por causa do titulo, _A Democracia_)
-sahira-lhe consideravelmente chcha.
-
---Muita flr, muita farofia, muita liberdade, mas no havia alli um
-ataque em frma, duas ou tres boas estocadas n'esta choldra da monarchia
-e da crte... Pois no verdade?
-
---Sim, com effeito...--murmurou Ega, olhando ao longe, na esperana
-d'uma tipoia.
-
--- como os jornaes republicanos que por ahi ha... Tudo uma palhada,
-senhores, tudo uma balofice!... o que eu lhes digo a elles:-- almas
-do diabo, atacai as questes sociaes!
-
-Felizmente um trem avanava, rolando devagar, do lado do Terreiro do
-Pao. Ega, precipitadamente, deu um aperto de mo ao democrata,
-desejou-lhe uma boa viagem, atirou ao cocheiro a adresse do Ramalhete.
-Mas o snr. Guimares ainda se apoderou da portinhola--para aconselhar ao
-Ega que fosse a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o
-apresentar a toda aquella gente... E o snr. Ega veria! No era c a
-grande _pose_ portugueza, d'estes imbecis, d'estes pelintras a darem-se
-ares, torcendo os bigodes. L, na primeira nao do mundo, tudo era
-alegria e fraternidade e espirito a rodos...
-
---E a minha adresse, na redaco do _Rappel_! Bem conhecida no mundo!
-Emquanto ao embrulhosinho fico descanado...
-
---Pde v. exc.^a ficar descanado!
-
---Criado de v. exc.^a... Os meus comprimentos snr.^a D. Maria!
-
-Na carruagem, atravs do Aterro, a anciosa interrogao do Ega a si
-mesmo foi--que hei de fazer? Que faria, santo Deus, com aquelle
-segredo terrivel que possuia, de que s elle era senhor, agora que o
-Guimares partia, desapparecia para sempre? E antevendo com terror todas
-as angustias em que essa revelao ia lanar o homem que mais estimava
-no mundo--a sua instinctiva ida foi guardar para sempre o segredo,
-deixal-o morrer dentro em si. No diria nada; o Guimares sumia-se em
-Paris; e quem se amava continuava a amar-se!... No crearia assim uma
-crise atroz na vida de Carlos--nem soffreria elle, como companheiro, a
-sua parte d'essas afflices. Que coisa mais impiedosa, de resto, que
-estragar a vida de duas innocentes e adoraveis creaturas, atirando-lhes
- face uma prova de incesto!...
-
-Mas, a esta ida de _incesto_, todas as consequencias d'esse silencio
-lhe appareceram, como coisas vivas e pavorosas, flammejando no escuro
-diante dos seus olhos. Poderia elle tranquillamente testemunhar a vida
-dos dois--desde que a sabia _incestuosa_? Ir rua de S. Francisco,
-sentar-se-lhes alegremente mesa, entrevr atravs do reposteiro a cama
-em que ambos dormiam--e saber que esta sordidez de peccado era obra do
-seu silencio? No podia ser... Mas teria tambem coragem de entrar ao
-outro dia no quarto de Carlos, e dizer-lhe em face--Olha que tu s
-amante de tua irm?
-
-A carruagem parra no Ramalhete. Ega subiu, como costumava, pela escada
-particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. Accendeu a sua
-palmatoria; entreabriu o reposteiro dos aposentos de Carlos; deu alguns
-passos timidos no tapete, que pareceram j soar tristemente. Um reflexo
-d'espelho alvejou ao fundo na sombra da alcova. E a luz cahiu sobre o
-leito intacto, com a sua longa colcha lisa, entre os cortinados de sda.
-Ento a ida que Carlos estava quella hora na rua de S. Francisco,
-dormindo com uma mulher que era sua irm, atravessou-o com uma cruel
-nitidez, n'uma imagem material, to viva e real, que elle viu-os
-claramente, de braos enlaados, e em camisa... Toda a belleza de Maria,
-todo o requinte de Carlos desappareciam. Ficavam s dois animaes,
-nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como ces, sob o
-impulso bruto do cio!
-
-Correu para o seu quarto, fugindo quella viso a que o escuro do
-corredor, mal dissipado pela luz tremula, accentuava mais o relvo.
-Aferrolhou a porta; accendeu pressa sobre o toucador, uma depois da
-outra, com a mo agitada, as seis velas dos candelabros. E agora
-apparecia-lhe mais urgente, inevitavel, a necessidade de contar _tudo_ a
-Carlos. Mas ao mesmo tempo sentia em si, a cada instante, menos animo
-para chegar, encarar Carlos, e destruir-lhe a felicidade e a vida com
-uma revelao d'incesto. No podia! Outro que lh'o dissesse! Elle l
-estava depois para o consolar, tomar metade da sua dr, carinhoso e
-fiel. Mas o desgosto supremo da vida de Carlos no viria de palavras
-cahidas da sua boca!... Outro que lh'o dissesse! Mas quem? Mil idas
-passavam na sua pobre cabea, incoherentes e tontas. Pedir a Maria que
-fugisse, desapparecesse... Escrever uma carta anonyma a Carlos, com a
-detalhada historia do Guimares... E esta confuso, esta anciedade ia-se
-resolvendo lentamente em odio ao snr. Guimares. Para que fallra
-quelle imbecil? Para que insistira em lhe confiar papeis alheios? Para
-que lh'o apresentra o Alencar? Ah! se no fosse a carta do Damaso...
-Tudo provinha do maldito Damaso!
-
-Agitando-se pelo quarto, ainda de chapo, os seus olhos cahiram n'um
-sobrescripto pousado sobre a mesa de cabeceira. Reconheceu a letra do
-Villaa. E nem a abriu... Uma ida sulcra-o de repente. Contar tudo ao
-Villaa!... Porque no? Era o procurador dos Maias. Nunca para elle
-houvera segredos n'aquella casa. E esta complicao singular d'uma
-senhora da familia, considerada morta e que surge inesperadamente--a
-quem a pertencia aclarar seno ao fiel procurador, ao velho confidente,
-ao homem que, por herana e por destino, recebera sempre todos os
-segredos e partilhra todos os interesses domesticos?... E sem pensar,
-sem aprofundar mais, fixou-se logo n'esta deciso salvadora,--que ao
-menos o socegava, lhe tirava j do corao um peso de ferro, suffocante
-e intoleravel...
-
-Devia acordar cedo, procurar Villaa em casa. Escreveu n'uma folha de
-papel--Acorda-me s sete. E desceu abaixo, ao longo corredor de pedra
-onde dormiam os criados, dependurou este recado na chave do quarto do
-escudeiro.
-
-Quando subiu, mais calmo,--abriu ento a carta do Villaa. Era uma curta
-linha lembrando ao amigo Ega que a letrinha de duzentos mil reis, no
-Banco Popular, se vencia d'ahi a dois dias...
-
---Sbo, tudo se junta! exclamou Ega furioso, atirando a carta amarrotada
-para o cho.
-
-
-
-
-VII
-
-
-Pontual, s sete horas, o escudeiro acordou Ega. Ao rumor da porta elle
-sentou-se na cama com um salto--e logo todos os negros cuidados da
-vespera, Carlos, a irm, a felicidade d'aquella casa acabada para
-sempre, se lhe ergueram n'alma em sobresalto, como despertando tambem. A
-portada da varanda ficra aberta; um ar silencioso e livido de madrugada
-clareava atravs do transparente de fazenda branca. Durante um momento
-Ega ficou olhando em redor, arrepiado; depois, sem coragem, remergulhou
-nos lenoes, gozando aquelle bocado de calor e de conchgo antes d'ir
-affrontar fra as amarguras do dia.
-
-E pouco a pouco, sob o tepido conchgo dos cobertores em que se
-atabafra, comeou a afigurar-se-lhe menos urgente, e menos util, essa
-correria estremunhada a casa do Villaa... De que servia procurar o
-Villaa? No se tratava alli de dinheiro, nem de demandas, nem de
-legalidade--de nada que reclamasse a experiencia d'um procurador. Era
-apenas introduzir um burguez mais n'um segredo to terrivelmente
-delicado que elle mesmo se assustava de o saber. E acochado mais sob a
-roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava comsigo: uma tolice ir
-ao Villaa!
-
-De resto no poderia elle ajuntar em si bastante coragem para contar
-tudo a Carlos, logo, n'essa manh, claramente, virilmente? Era por fim
-aquelle caso to pavoroso como lhe parecera na vespera--um irreparavel
-desabamento d'uma vida de homem?... Ao p da quinta da me, em Celorico,
-no logar de Vouzeias, houvera um successo parecido, dois irmos que
-innocentemente iam casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para
-os _banhos_. Os noivos ficaram uns dias embatucados, como dizia o
-padre Seraphim; mas por fim j riam, muito amigos, muito divertidos,
-quando se tratavam de manos. O noivo, um rapago bonito, contava
-depois que ia havendo uma mixordia na familia. Aqui o engano seguira
-mais longe, as sensibilidades eram mais requintadas; mas os seus
-coraes permaneciam livres de toda a culpa, innocentes absolutamente.
-Porque ficaria pois a existencia de Carlos para sempre estragada? A
-inconsciencia impedia-lhe o remorso: e passado o primeiro horror, de que
-lhe podia, na realidade, vir a definitiva dr? Smente do prazer ter
-findado. Era ento como outro qualquer desgosto d'amor. Bem menos atroz
-do que se Maria o tivesse trahido com o Damaso!
-
-De repente a porta abriu-se, Carlos appareceu exclamando:
-
---Ento que madrugada foi esta? Disse-me agora l em baixo o Baptista...
- aventura? duello?
-
-Trazia o paletot todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a
-gravata branca da vespera; e decerto chegra da rua de S. Francisco na
-tipoia que havia instantes Ega sentira parar na calada.
-
-Elle sentra-se bruscamente na cama; e estendendo a mo para os
-cigarros, sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na vspera
-combinra uma ida a Cintra com o Taveira... Por precauo mandra-se
-chamar... Mas no sabia, acordra cansado...
-
---Que tal est o dia?
-
-Justamente Carlos fra correr o transparente da janella. Ahi, na mesa de
-trabalho, collocada em plena luz, ficra a caixa da Monforte embrulhada
-no _Rappel_. E Ega pensou n'um relance:--Se elle repara, se pergunta,
-digo tudo!--O seu pobre corao pz-se a bater anciosamente no terror
-d'aquella deciso. Mas o transparente um pouco prro subiu, uma facha de
-sol banhou a mesa--e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um immenso
-allivio para o Ega.
-
---Ento, Cintra? disse Carlos, sentando-se aos ps da cama. Com effeito
-no m ida... A Maria ainda hontem esteve tambem a fallar d'ir a
-Cintra... Espera! Podiamos fazer a patuscada juntos... Iamos no break, a
-quatro!
-
-E olhava j o relogio, calculando o tempo para atrellar, avisar Maria.
-
---O peor, acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monoculo,
- que o Taveira fallou em irmos com umas raparigas...
-
-Carlos encolheu os hombros com horror. Que sordidez, ir com mulheres
-para Cintra, de dia!... De noite, nas trevas, por bebedeira, v... Mas
-luz do Senhor! Talvez com a Lola gorda, hein?...
-
-Ega embrulhou-se n'uma complicada historia, limpando o monoculo ponta
-do lenol. No eram hespanholas... Pelo contrario, umas costureiras,
-raparigas srias... Elle tinha um compromisso antigo d'ir a Cintra com
-uma d'ellas, filha d'um Simes, um estofador que fallira... Gente muito
-sria!...
-
-Perante estes compromissos, tanta seriedade, Carlos desistiu logo da
-ida de Cintra.
-
---Bem, acabou-se!... Vou ento tomar banho e depois a negocios... E tu,
-se fres, traze-me umas queijadas para a Rosa, que ella gosta!...
-
-Apenas Carlos sahiu, Ega cruzou os braos desanimado, descoroado,
-sentindo bem que no teria coragem nunca de dizer tudo. Que havia de
-fazer?... E de novo, insensivelmente, se refugiou na ida de procurar o
-Villaa, entregar-lhe o cofre da Monforte. No havia homem mais honesto,
-nem mais pratico; e, pela mesma mediocridade do seu espirito burguez,
-quem melhor para encarar aquella catastrophe sem paixo e sem nervos?...
-E esta _falta de nervos_ do Villaa fixou-o definitivamente.
-
-Saltou ento da cama, n'uma impaciencia, repicou a campainha. E emquanto
-o criado no entrava, foi, com o robe-de-chambre aos hombros, examinar o
-cofre da Monforte. Parecia com effeito uma velha caixa de charutos,
-embrulhada n'um papel de dobras j sujas e gastas, com marcas de lacre
-onde se distinguia uma divisa que seria decerto a da Monforte--_Pro
-amore_. Na tampa tinha escripto n'uma letra de mulher
-mal-ensinada--_Monsieur Guimaran, Paris_. Ao sentir os passos do
-criado deitou-lhe por cima uma toalha, que pendia ao lado, n'uma
-cadeira. E d'ahi a meia hora rolava pelo Aterro n'uma tipoia descoberta,
-mais animado, respirando largamente aquelle bello ar da manh, fino e
-fresco, que elle to raras vezes gozava.
-
-Comeou por uma contrariedade. Villaa j sahira: e a criada no sabia
-bem se elle fra para o escriptorio, se a uma vistoria ao Alfeite... Ega
-largou para o escriptorio, na rua da Prata. O snr. Villaa ainda no
-viera...
-
---E a que horas vir?
-
-O escrevente, um rapaz macilento que torcia nervosamente sobre o collete
-uma corrente de coral, balbuciou que o snr. Villaa no devia tardar, se
-no tivesse atravessado, no vapor das nove, para o Alfeite... Ega desceu
-desesperado.
-
---Bem, gritou ao cocheiro, vai ao caf Tavares...
-
-No Tavares, ainda solitario quella hora, um moo areava o sobrado. E
-emquanto esperava o almoo Ega percorreu os jornaes. Todos fallavam do
-sarau, em linhas curtas, promettendo detalhes criticos, mais tarde,
-sobre esse brilhante torneio artistico. S a _Gazeta Illustrada_ se
-alargava, com phrases srias, tratando o Rufino de _grandioso_ o Cruges
-de _esperanoso:_ no Alencar a _Gazeta_ separava o philosopho do poeta;
-ao philosopho a _Gazeta_ lembrava com respeito que nem todas as
-aspiraes ideaes da philosophia, bellas como miragens de deserto, so
-realisaveis na pratica social; mas ao poeta, ao creador de to formosas
-imagens, de to inspiradas estancias, a _Gazeta_ desafogadamente
-bradava--bravo! bravo! Havia ainda outras abominaveis sandices. Depois
-seguia-se a lista das pessoas que a _Gazeta_ se recordava de ter visto,
-entre as quaes destacava com o seu monoculo o fino perfil de Joo da
-Ega, sempre brilhante de _verve_. Ega sorriu, cofiando o bigode.
-Justamente o bife chegava, fumegante, chiando na frigideirinha de barro.
-Ega pousou a _Gazeta_ ao lado, dizendo comsigo: No nada mal feito,
-este jornal!
-
-O bife era excellente:--e depois d'uma perdiz fria, d'um pouco de dce
-de ananaz, d'um caf forte, Ega sentiu adelgaar-se emfim aquelle
-negrume que desde a vespera lhe pesava n'alma. No fim, pensava elle,
-accendendo o charuto e lanando os olhos ao relogio, n'aquelle desastre
-praticamente encarado s havia para Carlos a perda d'uma bella amante. E
-essa perda, que agora o angustiava, no traria depois compensaes? O
-futuro de Carlos at ahi tinha uma sombra--aquella promessa de casamento
-que irreparavelmente o collava pela honra a uma mulher muito
-interessante, mas com um passado cheio de brazileiros e de irlandezes...
-A sua belleza poetisava tudo: mas quanto tempo mais duraria esse
-encanto, o seu brilho de deusa pisando a terra?... No seria por fim
-aquella descoberta do Guimares uma libertao providencial? D'ahi a
-annos Carlos estaria consolado, sereno como se nunca tivesse sofrido--e
-livre, e rico, com o largo mundo diante de si!
-
-O relogio do caf deu dez horas. Bem, vamos a isto, pensou Ega.
-
-De novo a tipoia bateu para a rua da Prata. O snr. Villaa ainda no
-viera, o escrevente estava realmente pensando que o snr. Villaa fra ao
-Alfeite. E diante d'esta incerteza, de repente, Ega ficou de novo
-descoroado, sem coragem. Despediu a tipoia: com o embrulho do cofre na
-mo foi andando pela rua do Ouro, depois at ao Rocio, parando
-distrahidamente diante d'um ourives, lendo aqui e alm a capa d'um livro
-na vitrine dos livreiros. Pouco a pouco o negrume da vespera, um momento
-adelgaado, recahia-lhe n'alma mais denso. J no via as libertaes
-nem as compensaes. S sentia em torno de si, como fluctuando no ar,
-aquelle horror--Carlos a dormir com a irm.
-
-Voltou pela rua da Prata, de novo subiu a suja escadaria de pedra; e
-logo no patamar, diante da porta de baeta verde, deu com o Villaa que
-sahia, atarefado, calando as luvas.
-
---Homem, at que emfim!
-
---Ah! Era o amigo que me tinha procurado?... Pois tenha paciencia, que
-est o visconde do Torral minha espera...
-
-Ega quasi o empurrou. Qual visconde!... Tratava-se d'uma coisa muito
-urgente, muito sria! Mas o outro no se arredava da porta, acabando de
-calar a luva, com o mesmo ar vivo de negocio e de pressa.
-
---O amigo bem v... Est o homem espera! um _rendez-vous_ para as
-onze!
-
-Ega, j furioso, agarrou-lhe a manga, murmurou-lhe junto face,
-tragicamente, que se tratava de Carlos, d'um caso de vida ou de morte!
-Ento o Villaa, n'um grande espanto, atravessou bruscamente o
-escriptorio, fez entrar Ega n'um cubiculo ao lado, estreito como um
-corredor, com um canap de palhinha, uma mesa onde os livros tinham p,
-e um armario ao fundo. Fechou a porta, atirou o chapo para a nuca:
-
---Ento que ?
-
-Ega, com um gesto, indicou fra o escrevente que podia escutar. O
-procurador abriu a porta, gritou ao rapazola que voasse ao Hotel
-Pelicano pedir ao snr. visconde do Torral a fineza de esperar meia
-hora... Depois, fechada a porta no ferrolho, foi a mesma exclamao
-anciosa:
-
---Ento que ?
-
--- um horror, Villaa, um grande horror... Nem eu sei por onde hei de
-comear.
-
-Villaa, j muito pallido, pousou lentamente o guardachuva sobre a mesa.
-
--- duello?
-
---No... isto... Voc sabia que o Carlos tinha relaes com uma snr.^a
-Mac-Gren que veio o inverno passado a Portugal, ficou ahi?...
-
-Uma senhora brazileira, mulher d'um brazileiro, que passra o vero nos
-Olivaes?... Sim, Villaa sabia. Fallra at n'isso com o Eusebiosinho.
-
---Ah, com o Eusebio?... Pois no brazileira! portugueza, e irm
-d'elle!
-
-Villaa cahiu para o canap, batendo as mos n'um assombro.
-
---Irm do Eusebio!
-
---Qual do Eusebio, homem!... Irm de Carlos!
-
-Villaa ficra mudo, sem comprehender, com os olhos terrivelmente
-arregalados para o outro, que se movia pelo cubiculo, repetindo: irm!
-irm legtima! Ega por fim sentou-se no canap de palhinha; e baixo,
-muito baixo, apesar da solido do escriptorio, contou o seu encontro com
-o Guimares no sarau, e como a verdade terrivel estalra casualmente,
-n'uma palavra, esquina do _Alliana_... Mas quando fallou dos papeis,
-entregues pela Monforte ao Guimares, ha tantos annos guardados, nunca
-reclamados, e que o democrata agora, to de repente, to urgentemente,
-queria restituir familia--Villaa, at ahi esmagado e como
-emparvecido, despertou, teve uma exploso:
-
---Ahi ha marosca! Tudo isso para apanhar dinheiro!...
-
---Apanhar dinheiro! Quem?
-
---Quem!? exclamou Villaa de p, arrebatadamente. Essa senhora, esse
-Guimares, essa tropa!... que o amigo no percebe! Se apparecer uma
-irm do Maia, legitima e authentica, so quatrocentos contos e pico que
-cabem irm do Maia!...
-
-Ento os dois ficaram-se devorando com os olhos, na forte impresso
-d'aquella ida inesperada que a seu pezar abalava o Ega. Mas como o
-procurador, tremulo, voltava grande somma de quatrocentos contos,
-lembrava a _Companhia do Olho Vivo_, Ega terminou por encolher os
-hombros:
-
---Isso no tem verosimilhana nenhuma! Ella incapaz, absolutamente
-incapaz, de semelhante intriga. Alm d'isso, se uma questo de
-dinheiro, que necessidade tinha de se fazer passar como irm desde que
-Carlos lhe promettera casar com ella?
-
-Casar com ella! Villaa erguia as mos, no queria acreditar. O qu! o
-snr. Carlos da Maia dar a sua mo, o seu nome, a essa creatura amigada
-com um brazileiro!?... Santissimo nome de Deus! E atravs do assombro
-recrescia-lhe a desconfiana, via ahi um novo feito do _Olho Vivo_.
-
---No senhor, Villaa, no senhor! insistiu Ega, j impaciente. Se a
-questo de documentos e se ella os tinha, verdadeiros ou falsificados,
-apresentava-os logo, no ia primeiro dormir com o irmo!
-
-Villaa baixou lentamente os olhos para o sobrado. Um terror invadia-o
-diante d'aquella grande casa, que era o seu orgulho, partida em metade,
-empolgada por uma aventureira... Mas como o Ega, muito nervoso, lembrava
-que de resto a questo no era de documentos, nem de legalidade, nem de
-fortuna--o procurador teve outro grito, com a face de novo alumiada:
-
---Espere, homem, ha outra coisa!... Talvez ella seja filha do italiano!
-
---E ento?... Vem a dar na mesma.
-
---Alto l! berrou o procurador, batendo com o punho na mesa. No tem
-direito legitima do pai, e no apanha um real d'esta casa!... Irra,
-ahi que est o ponto!
-
-Ega teve um gesto desolado. No, nem isso, desgraadamente! Esta era a
-filha do Pedro da Maia. O Guimares conhecia-a de a trazer ao collo, de
-lhe dar bonecas quando ella tinha sete annos, e quando apenas havia
-quatro ou cinco annos que o italiano estivera em Arroios, de cama, com
-uma chumbada... A filha d'esse morrera em Londres, pequenina.
-
-Villaa recahiu no canap, succumbido.
-
---Quatrocentos contos, que bolada!
-
-Ento Ega resumiu. Se no existia ainda uma certeza legal, havia j uma
-forte suspeita. E desde logo no se podia deixar o pobre Carlos,
-innocentemente, a chafurdar n'aquella sordidez. Era pois indispensavel
-revelar tudo a Carlos n'essa noite...
-
---E voc, Villaa, que tem de lh'o dizer.
-
-Villaa deu um salto que fez bater o canap contra a parede.
-
---Eu!?
-
---Voc, que o procurador da casa!
-
-Que havia alli, seno uma questo de filiao, portanto de legitima? A
-quem pertenciam esses detalhes legaes seno ao procurador?
-
-Villaa murmurou com todo o sangue na face:
-
---Homem, o amigo mette-me n'uma!...
-
-No. Ega mettia-o apenas n'aquillo em que o Villaa, como procurador,
-logicamente e profissionalmente devia estar.
-
-O outro protestou, to perturbado que gaguejava. Que diabo! No era
-esquivar-se aos seus deveres! Mas que elle no sabia nada! Que podia
-dizer ao snr. Carlos da Maia? O amigo Ega veio-me contar isto, que lhe
-contou um tal Guimares hontem noite no Loreto... No tinha a dizer
-mais nada...
-
---Pois diga isso.
-
-O outro encarou Ega com olhos que chammejavam:
-
---Diga isso, diga isso... Que diabo, senhor, necessario ter topete!
-
-Deu um puxo desesperado ao collete, foi bufando at ao fundo do
-cubiculo, onde esbarrou com o armario. Voltou, tornou a encarar o Ega:
-
---No se vai a um homem com uma coisa d'essas sem provas... Onde esto
-as provas?...
-
--- Villaa, desculpe, voc est obtuso!... A que vim eu aqui seno
-trazer-lhe as provas, as que ha, boas ou ms, a historia do Guimares,
-essa caixa com os papeis da Monforte?...
-
-Villaa, que resmungava, foi examinar a caixa, virando-a nas mos,
-decifrando o mote do sinete _Pro amore_.
-
---Ento, abrimol-a?
-
-J Ega puxra uma cadeira para a mesa. Villaa cortou o papel, gasto nos
-cantos, que envolvia o cofre. E appareceu effectivamente uma velha caixa
-de charutos pregada com duas taxas, cheia de papeis, alguns em maos
-apertados por fitas, outros soltos dentro de sobrescriptos abertos que
-tinham o monogramma da Monforte sob uma cora de marquez. Ega
-desembrulhou o primeiro mao. Eram cartas em allemo, que elle no
-percebia, datadas de Buda-Pesth e de Carlsruhe.
-
---Bem, isto no nos diz nada... Adiante!
-
-Outro embrulho, a que Villaa cuidadosamente desapertou o n cr de
-rosa, resguardava uma caixa oval com a miniatura d'um homem de bigodes e
-suissas ruivas, entalado na alta gola dourada d'uma farda branca.
-Villaa achou a pintura linda.
-
---Algum official austriaco, rosnou Ega. Outro amante... _a marche_.
-
-Iam tirando os papeis por ordem, com a ponta dos dedos, como tocando em
-reliquias. Um largo enveloppe atulhado de contas de modistas, algumas
-pagas, outras sem recibo, interessou profundamente o Villaa--que
-percorria os _items_, espantado dos preos, das infinitas invenes do
-luxo. Contas de seis mil francos! Um s vestido, dois mil francos!...
-Outro mao trouxe uma surpreza. Eram cartas de Maria Eduarda mi,
-escriptas do convento, n'uma letra redonda e trabalhada como um desenho,
-com phrasesinhas cheias de gravidade devota, dictadas decerto pelas boas
-Irms; e n'estas composies, virtuosas e frias como themas, o sincero
-corao da rapariga s transparecia n'alguma florzinha, agora scca,
-pregada no alto do papel com um alfinete.
-
---Isto pe-se de parte, murmurou Villaa.
-
-Ento Ega, j impaciente, esvaziou toda a caixa sobre a mesa, alastrou
-os papeis. E entre cartas, outras contas, bilhetes de visita, um grande
-sobrescripto destacou com esta linha a tinta azul:--_Pertence a minha
-filha Maria Eduarda_. Foi Villaa que lanou os olhos rapidamente
-enorme folha de papel que elle continha, luxuosa e documental, com o
-monogramma d'ouro sob a cora de marquez. Quando o passou em silencio
-para a mo do Ega parecia suffocado, com todo o sangue nas orelhas.
-
-Ega leu-o alto, devagar. Dizia:--Como a Maria teve a pequena e anda
-muito fraca, e eu tambem me no sinto nada boa com umas pontadas,
-parece-me prudente, para o que possa vir a succeder, fazer aqui uma
-declarao que te pertence a ti, minha querida filha, e que s sabe o
-padre Talloux (_Mr. l'abb Talloux, coadjuteur Saint-Roch_) porque
-lh'o disse ha dois annos quando tive a pneumonia. E o seguinte:
-Declaro que minha filha Maria Eduarda, que costuma assignar Maria
-Calzaski, por suppr ser esse o nome de seu pai, portugueza e filha de
-meu marido Pedro da Maia, de quem me separei voluntariamente, trazendo-a
-commigo para Vienna, depois para Paris, e que agora vive em companhia de
-Patrick Mac-Gren, em Fontainebleau, com quem vai casar. E o pai de meu
-marido era meu sogro Affonso da Maia, viuvo, que vivia em Bemfica e
-tambem em Santa Olavia ao p do rio Douro. O que tudo se pde verificar
-em Lisboa pois devem l estar os papeis; e os meus erros de que vejo
-agora as consequencias no devem impedir que tu, minha querida filha,
-tenhas a posio e fortuna que te pertencem. E por isso aqui declaro
-tudo isto que assigno, no caso que o no possa fazer diante d'um
-tabellio, o que tenciono logo que esteja melhor. E de tudo, se eu vier
-a morrer, o que Deus no permitta, peo perdo a minha filha. E assigno
-com o meu nome de casada--_Maria Monforte da Maia_.
-
-Ega ficou a olhar para o Villaa. O procurador s pde murmurar, com as
-mos cruzadas sobre a mesa:
-
---Que bolada! Que bolada!
-
-Ento Ega ergueu-se. Bem! Agora tudo se simplificava. Havia unicamente a
-entregar aquelle documento a Carlos, sem commentarios. Mas o Villaa
-coava a cabea, retomado por uma duvida:
-
---Eu no sei se este papelinho faria f em juizo...
-
---Qual f, qual juizo! exclamou Ega violentamente. o bastante para que
-elle no torne a dormir com ella!...
-
-Uma pancada timida na porta do cubiculo fl-o estacar, inquieto.
-Desandou a chave. Era o escrevente, que segredou atravs da frincha:
-
---O snr. Carlos da Maia ficou agora l em baixo no carrinho quando eu
-entrei, perguntou pelo snr. Villaa.
-
-Houve um pnico! Ega, atarantado, agarrra o chapo do Villaa. O
-procurador atirava s mos ambas, para dentro d'uma gaveta, os papeis da
-Monforte.
-
--- talvez melhor dizer que no est, lembrou o escrevente.
-
---Sim, que no est! foi o grito abafado de ambos.
-
-Ficaram escuta, ainda pallidos. O dog-cart de Carlos rolou na calada;
-os dois amigos respiraram. Mas agora Ega arrependia-se de no terem
-mandado subir Carlos--e alli mesmo, sem outras vacillaes nem
-pieguices, corajosamente, contarem-lhe tudo, diante d'aquelles papeis
-bem abertos. E estava saltado o barranco!
-
---Homem, dizia o Villaa passando o leno pela testa, as coisas
-querem-se devagar, com methodo. necessario preparar-se a gente,
-respirar para dar bem o mergulho...
-
-Em todo o caso, concluiu o Ega, eram ociosas mais conversas. Os outros
-papeis da caixa perdiam o interesse depois d'aquella confisso da
-Monforte. S restava que Villaa apparecesse noite no Ramalhete s
-oito e meia, ou nove horas, antes de Carlos sahir para a rua de S.
-Francisco.
-
---Mas o amigo ha de l estar! exclamou o procurador, j aterrado.
-
-Ega prometteu. Villaa teve um pequeno suspiro. Depois, no patamar, onde
-viera acompanhar o outro:
-
---Uma d'estas, uma d'estas!... E eu ainda, to contente, a jantar no
-Ramalhete...
-
---E eu, com elles, na rua de S. Francisco!...
-
---Emfim, at noite!
-
---At noite.
-
-Ega no se atreveu n'esse dia a voltar ao Ramalhete, a jantar diante de
-Carlos, a vr-lhe a alegria e a paz--sentindo aquella negra desgraa que
-descia sobre elle maneira que a noite descia. Foi pedir as sopas ao
-marquez, que desde o sarau se conservava em casa, de garganta entrapada.
-Depois, s oito e meia, quando calculou que Villaa devia estar j no
-Ramalhete, deixou o marquez que se enfronhra com o capello n'uma
-partida de damas.
-
-Aquelle lindo dia, toldado de tarde, findra n'uma chuvinha miuda que
-transia as ruas. Ega tomou uma tipoia. E parava no Ramalhete, j
-terrivelmente nervoso, quando avistou Villaa no portal, de guardachuva
-sob o brao, arregaando as calas para sahir.
-
---Ento? gritou-lhe o Ega.
-
-Villaa abriu o guardachuva, para murmurar debaixo, mas em segredo:
-
---No foi possivel... Disse que tinha muita pressa, que no me podia
-ouvir.
-
-Ega bateu o p, desesperado:
-
---Oh homem!
-
---Que quer o amigo? Havia de o agarrar fora? Ficou para manh...
-Tenho de c estar manh s onze horas.
-
-Ega galgou as escadas, rosnando entre dentes: Irra! no sahimos
-d'esta! Foi at ao escriptorio de Affonso. Mas no entrou. Atravs
-d'uma fenda larga do reposteiro meio franzido, um canto da sala
-apparecia, quente e cheio de conchgo, no dce tom cr de rosa da luz
-cahindo sobre os damascos: as cartas esperavam na mesa do whist: no sof
-bordado a matiz D. Diogo, murcho e molle, olhava o lume, cofiando os
-bigodes. E, travadas n'alguma questo, a voz do Craft, que perpassou de
-cachimbo na mo, e a voz mais lenta de Affonso, tranquillo na sua
-poltrona, misturavam-se, abafadas pela do Sequeira, que berrava
-furiosamente:--Mas se manh houvesse uma bernarda, esse exercito com
-que os senhores querem acabar por ser uma escla de vadiagem que lhes
-havia de guardar as costas... bom fallar, ter muita philosophia! Mas
-quando ellas chegam, se no ha meia duzia de baionetas promptas, ento
-so as clicas!...
-
-Ega foi d'alli aos quartos de Carlos. As velas ardiam ainda nas
-serpentinas: um aroma errava de agua de Lubin e charuto: e o Baptista
-disse-lhe que o snr. D. Carlos sahira havia dez minutos. Fra para a
-rua de S. Francisco! Ia l dormir! Ento enervado, com a longa e triste
-noite diante de si, Ega teve um appetite de se atordoar, dissipar n'uma
-excitao forte as idas que o torturavam. No despedira a tipoia,
-abalou para S. Carlos. E findou por ir cear ao Augusto com o Taveira e
-duas raparigas, a Paca e a Carmen Philosopha, prodigalisando o
-champagne. s quatro da manh estava bebedo, estatelado sobre o sof,
-gemendo sentimentalmente, s para si, as estrophes de Musset
-Malibran... O Taveira e a Paca, juntinhos na mesma cadeira, elle com o
-seu ar terno de chulo, ella _muy caliente_ tambem, debicavam copinhos de
-gelatina. E a Carmen Philosopha, empanturrada, desapertada, com o
-collete embrulhado j n'um _Diario de Noticias_, repicava a faca na
-borda do prato, cantarolando d'olhos perdidos nos bicos de gaz:
-
-
- Seor Alcalde mayor,
- No prenda usted los ladrones...
-
-
-
-
-Acordou ao outro dia s nove horas, ao lado da Carmen Philosopha, n'um
-quarto de grandes janellas rasgadas por onde entrava toda a melancolia
-da escura manh de chuva. E, emquanto no vinha a tipoia fechada que a
-servente correra a chamar, o pobre Ega enojado, vexado, com a lingua
-pastosa, os ps ns sobre o tapete, reunindo o fato espalhado, tinha s
-uma ida clara--fugir d'alli para um grande banho, bem perfumado e bem
-fresco, onde se purificasse d'uma sensao viscosa de Carmen e d'orgia
-que o arrepiava.
-
-Esse banho lustral foi tomal-o ao _Hotel Braganza_, para se encontrar
-com Carlos e com Villaa s onze horas j lavado e preparado. Mas
-precisou esperar pela roupa branca que o cocheiro, com um bilhete para o
-Baptista, vora a buscar ao Ramalhete: depois almoou: e j batera meio
-dia quando se apeou porta particular dos quartos de Carlos, com a
-roupa suja n'uma trouxa.
-
-Justamente Baptista atravessava o patamar com camelias n'um aafate.
-
---O Villaa j veio? perguntou-lhe Ega baixo, andando em pontas de ps.
-
---O snr. Villaa j l est dentro ha bocado. V. exc.^a recebeu a roupa
-branca?... Eu tambem mandei um fato, porque n'esses casos sempre d mais
-frescura...
-
---Obrigado, Baptista, obrigado!
-
-E Ega pensava:--Bem, Carlos j sabe tudo, o barranco est passado! Mas
-demorou-se ainda, tirando as luvas e o paletot com uma lentido cobarde.
-Por fim, sentindo bater alto o corao, puxou o reposteiro de velludo.
-Na ante-camara pesava um silencio; a chuva grossa fustigava a porta
-envidraada, por onde se viam as arvores do jardim esfumadas na nevoa.
-Ega levantou o outro reposteiro que tinha bordadas as armas dos Maias.
-
---Ah! s tu? exclamou Carlos, erguendo-se da mesa de trabalho com uns
-papeis na mo.
-
-Parecia ter conservado um animo viril e firme: apenas os olhos lhe
-rebrilhavam, com um fulgor scco, anciosos e mais largos na pallidez que
-o cobria. Villaa, sentado defronte, passava vagarosamente pela testa,
-n'um movimento cansado, o leno de sda da India. Sobre a mesa
-alastravam-se os papeis da Monforte.
-
---Que diabo de embrulhada esta que me vem contar o Villaa? rompeu
-Carlos, cruzando os braos diante do Ega, n'uma voz que apenas de leve
-tremia.
-
-Ega balbuciou:
-
---Eu no tive coragem de te dizer...
-
---Mas tenho eu para ouvir!... Que diabo te contou esse homem?
-
-Villaa ergueu-se immediatamente. Ergueu-se com a pressa d'um galucho
-timido que rendido n'um posto arriscado, pediu licena, se no
-precisavam d'elle, para voltar ao escriptorio. Os amigos decerto
-preferiam conversar mais livremente. De resto, alli ficavam os papeis da
-snr.^a D. Maria Monforte. E se elle fosse necessario um recado
-encontrava-o na rua da Prata ou em casa...
-
---E v. exc.^a comprehende, acrescentou elle enrolando nas mos o leno
-de sda, eu tomei a iniciativa de vir fallar, por ser o meu dever, como
-amigo confidencial da casa... Foi essa tambem a opinio do nosso Ega...
-
---Perfeitamente, Villaa, obrigado! acudiu Carlos. Se fr necessario l
-mando...
-
-O procurador, com o leno na mo, lanou em redor um olhar lento. Depois
-espreitou debaixo da mesa. Parecia muito surprehendido. E Carlos seguia
-com impaciencia os passos timidos que elle dava pelo quarto,
-procurando...
-
---Que , homem?
-
---O meu chapo. Imaginei que o tinha posto aqui... Naturalmente ficou l
-fra... Bem, se fr necessario alguma coisa...
-
-Mal elle sahiu, atirando ainda os olhos inquietos pelos cantos, Carlos
-fechou violentamente o reposteiro. E voltando para o Ega, cahindo
-pesadamente n'uma cadeira:
-
---Dize l!
-
-Ega, sentado no sof, comeou por contar o encontro com o snr.
-Guimares, em baixo no botequim da Trindade, depois de ter fallado o
-Rufino. O homem queria explicaes sobre a carta do Damaso, sobre a
-bebedeira hereditaria... Tudo se aclarra, ficando d'ahi entre elles um
-comeo de familiaridade...
-
-Mas o reposteiro mexeu de leve--e surdiu de novo a face do Villaa:
-
---Peo desculpa, mas o meu chapo... No o acho, havia de jurar que o
-deixei aqui...
-
-Carlos conteve uma praga. Ento Ega procurou tambem, por traz do sof,
-no vo da janella. Carlos, desesperado, para findar, foi vr entre os
-cortinados da cama. E Villaa, escarlate, afflicto, esquadrinhava at a
-alcova do banho...
-
---Um sumio assim! Emfim, talvez me esquecesse na ante-camara!... Vou
-vr outra vez... O que peo desculpa.
-
-Os dois ficaram ss. E Ega recomeou, detalhando como Guimares, duas ou
-tres vezes nos intervallos, lhe viera fallar de coisas indifferentes, do
-sarau, de politica, do pap Hugo, etc. Depois elle procurra Carlos para
-irem um bocado ao Gremio. Terminra por sahir com o Cruges. E passavam
-defronte do Alliana...
-
-Novamente o reposteiro franziu, Baptista pediu perdo a suas
-excellencias:
-
--- o snr. Villaa que no acha o chapo, diz que o deixou aqui...
-
-Carlos ergueu-se furioso, agarrando a cadeira pelas costas como para
-despedaar o Baptista.
-
---Vai para o diabo tu e o snr. Villaa!... Que sia sem chapo! D-lhe
-um chapo meu! Irra!
-
-Baptista recuou, muito grave.
-
---V, acaba l! exclamou Carlos, recahindo no assento, mais pallido.
-
-E Ega, miudamente, contou a sua longa, terrivel conversa com o
-Guimares, desde o momento em que o homem por acaso, j ao despedir-se,
-j ao estender-lhe a mo, fallra da irm do Maia. Depois
-entregra-lhe os papeis da Monforte porta do _Hotel de Paris_, no
-Pelourinho...
-
---E aqui est, no sei mais nada. Imagina tu que noite eu passei! Mas
-no tive coragem de te dizer. Fui ao Villaa... Fui ao Villaa com a
-esperana sobretudo de elle saber algum facto, ter algum documento que
-atirasse por terra toda esta historia do Guimares... No tinha nada,
-no sabia nada. Ficou to aniquilado como eu!
-
-No curto silencio que cahiu, um chuveiro mais largo, alagando o arvoredo
-do jardim, cantou nas vidraas. Carlos ergueu-se arrebatadamente, n'uma
-revolta de todo o sr:
-
---E tu acreditas que isso seja possivel? Acreditas que succeda a um
-homem como eu, como tu, n'uma rua de Lisboa? Encontro uma mulher, lho
-para ella, conheo-a, durmo com ella e, entre todas as mulheres do
-mundo, essa justamente ha de ser minha irm! impossivel... No ha
-Guimares, no ha papeis, no ha documentos que me convenam!
-
-E como Ega permanecia mudo, a um canto do sof, com os olhos no cho:
-
---Dize alguma coisa, gritou-lhe Carlos. Duvda tambem, homem, duvda
-commigo!... extraordinario! Todos vocs acreditam, como se isto fosse
-a coisa mais natural do mundo, e no houvesse por essa cidade fra seno
-irmos a dormir juntos!
-
-Ega murmurou:
-
---J ia succedendo um caso assim, l ao p da quinta, em Celorico...
-
-E n'esse momento, sem que um rumor os prevenisse, Affonso da Maia
-appareceu n'uma abertura do reposteiro, encostado bengala, sorrindo
-todo com alguma ida que decerto o divertia. Era ainda o chapo do
-Villaa.
-
---Que diabo fizeram vocs ao chapo do Villaa? O pobre homem andou por
-ahi afflicto... Teve de levar um chapo meu. Cahia-lhe pela cabea
-abaixo, enchumaaram-lh'o com lenos...
-
-Mas subitamente reparou na face transtornada do neto. Reparou na
-atarantao do Ega cujos olhos mal se fixavam, fugindo anciosamente
-d'elle para Carlos. Todo o sorriso se lhe apagou, deu no quarto um passo
-lento:
-
---Que isso, que tm vocs?... Ha alguma coisa?
-
-Ento Carlos, no ardente egoismo da sua paixo, sem pensar no abalo
-cruel que ia dar ao pobre velho, cheio s de esperana que elle, seu
-av, testemunha do passado, soubesse algum facto, possuisse alguma
-certeza contraria a toda essa historia do Guimares, a todos esses
-papeis da Monforte--veio para elle, desabafou:
-
---Ha uma coisa extraordinaria, av! O av talvez saiba... O av deve
-saber alguma coisa que nos tire d'esta afflico!... Aqui est, em duas
-palavras. Eu conheo ahi uma senhora que chegou ha tempos a Lisboa, mora
-na rua de S. Francisco. Agora de repente descobre-se que minha irm
-legitima!... Passou ahi um homem que a conhecia, que tinha uns papeis...
-Os papeis ahi esto. So cartas, uma declarao de minha me... Emfim
-uma trapalhada, um monto de provas... Que significa tudo isto? Essa
-minha irm, a que foi levada em pequena, no morreu?... O av deve
-saber!
-
-Affonso da Maia, que um tremor tomra, agarrou-se um momento com fora
-bengala, cahiu por fim pesadamente n'uma poltrona, junto do reposteiro.
-E ficou devorando o neto, o Ega, com um olhar esgazeado e mudo.
-
---Esse homem, exclamou Carlos, um Guimares, um tio do Damaso...
-Fallou com o Ega, foi ao Ega que entregou os papeis... Conta tu ao av,
-Ega, conta tu do comeo!
-
-Ega, com um suspiro, resumiu a sua longa historia. E findou por dizer
-que o importante, o decisivo alli era este homem, o Guimares, que no
-tinha interesse em mentir e s por acaso, puramente por acaso, fallra
-em taes coisas--conhecia essa senhora, desde pequenina, como filha de
-Pedro da Maia e de Maria Monforte. E nunca a perdera de vista. Vira-a
-crescer em Paris, andra com ella ao collo, dera-lhe bonecas. Visitra-a
-com a mi no convento. Frequentra a casa que ella habitava em
-Fontainebleau, como casada...
-
---Emfim, interrompeu Carlos, viu-a ainda ha dias, n'uma carruagem,
-commigo e com o Ega... Que lhe parece, av?
-
-O velho murmurou, n'um grande esforo, como se as palavras sahindo lhe
-rasgassem o corao:
-
---Essa senhora, est claro, no sabe nada...
-
-Ega e Carlos, a um tempo, gritaram:--No sabe nada! Segundo affirmava
-o Guimares, a mi escondera-lhe sempre a verdade. Ella julgava-se filha
-d'um austriaco. Assignava-se ao principio Calzaski...
-
-Carlos, que remexera sobre a mesa, adiantou-se com um papel na mo:
-
---Aqui tem o av a declarao de minha mi.
-
-O velho levou muito tempo a procurar, a tirar a luneta d'entre o collete
-com os seus pobres dedos que tremiam; leu o papel devagar,
-empallidecendo mais a cada linha, respirando penosamente; ao findar
-deixou cahir sobre os joelhos as mos, que ainda agarravam o papel,
-ficou como esmagado e sem fora. As palavras por fim vieram-lhe
-apagadas, morosas. Elle nada sabia... O que a Monforte alli assegurava,
-elle no o podia destruir... Essa senhora da rua de S. Francisco era
-talvez na verdade sua neta... No sabia mais...
-
-E Carlos diante d'elle vergava os hombros, esmagado tambem sob a certeza
-da sua desgraa. O av, testemunha do passado, nada sabia! Aquella
-declarao, toda a historia do Guimares ahi permaneciam inteiras,
-irrefutaveis. Nada havia, nem memoria de homem, nem documento escripto,
-que as pudesse abalar. Maria Eduarda era, pois, sua irm!... E um
-defronte do outro, o velho e o neto pareciam dobrados por uma mesma
-dr--nascida da mesma ida.
-
-Por fim Affonso ergueu-se, fortemente encostado bengala, foi pousar
-sobre a mesa o papel da Monforte. Deu um olhar, sem lhes tocar, s
-cartas espalhadas em volta da caixa de charutos. Depois, lentamente,
-passando a mo pela testa:
-
---Nada mais sei... Sempre pensamos que essa criana tinha morrido...
-Fizeram-se todas as pesquizas... Ella mesma disse que lhe tinha morrido
-a filha, mostrou j no sei a quem um retrato...
-
---Era outra mais nova, a filha do italiano, disse o Ega. O Guimares
-fallou-me n'isso... Foi esta que viveu. Esta, que tinha j sete a oito
-annos, quando havia apenas quatro ou cinco que esse sujeito italiano
-apparecera em Lisboa... Foi esta.
-
---Foi esta, murmurou o velho.
-
-Teve um gesto vago de resignao, acrescentou, depois de respirar
-fortemente:
-
---Bem! Tudo isto tem de ser mais pensado... Parece-me bom tornar a
-chamar o Villaa... Talvez seja necessario que elle v a Paris... E
-antes de tudo precisamos socegar... De resto no ha aqui morte
-d'homem... No ha aqui morte d'homem!
-
-A voz sumia-se-lhe, toda tremula. Estendeu a mo a Carlos que lh'a
-beijou, suffocado; e o velho, puxando o neto para si, pousou-lhe os
-labios na testa. Depois deu dois passos para a porta, to lentos e
-incertos que Ega correu para elle:
-
---Tome v. exc.^a o meu brao...
-
-Affonso apoiou-se n'elle, pesadamente. Atravessaram a ante-camara
-silenciosa onde a chuva contnua batia os vidros. Por traz d'elles cahiu
-o grande reposteiro com as armas dos Maias. E ento Affonso, de repente,
-soltando o brao do Ega, murmurou-lhe, junto face, no desabafo de toda
-a sua dr:
-
---Eu sabia d'essa mulher!... Vive na rua de S. Francisco, passou todo o
-vero nos Olivaes... a amante d'elle!
-
-Ega ainda balbuciou: No, no, snr. Affonso da Maia! Mas o velho pz o
-dedo nos labios, indicou Carlos dentro que podia ouvir... E afastou-se,
-todo dobrado sobre a bengala, vencido emfim por aquelle implacavel
-destino que depois de o ter ferido na idade de fora com a desgraa do
-filho--o esmagava ao fim da velhice com a desgraa do neto.
-
-Ega enervado, exhausto, voltou para o quarto--onde Carlos recomera
-n'aquelle agitado passeio que abalava o soalho, fazia tilintar finamente
-os frascos de crystal sobre o marmore da console. Calado, junto da mesa,
-Ega ficou percorrendo outros papeis da Monforte--cartas, um livrinho de
-marroquim com adresses, bilhetes de visita de membros do Jockey Club e
-de senadores do imperio. Subitamente Carlos parou diante d'elle,
-apertando desesperadamente as mos:
-
---Estarem duas creaturas em pleno co, passar um quidam, um idiota, um
-Guimares, dizer duas palavras, entregar uns papeis e quebrar para
-sempre duas existencias!... Olha que isto horrivel, Ega!
-
-Ega arriscou uma consolao banal:
-
---Era peor se ella morresse...
-
---Peor porque? exclamou Carlos. Se ella morresse, ou eu, acabava o
-motivo d'esta paixo, restava a dr e a saudade, era outra coisa...
-Assim estamos vivos, mas mortos um para o outro, e viva a paixo que nos
-unia!... Pois tu imaginas que por me virem provar que ella minha irm,
-eu gsto menos d'ella do que gostava hontem, ou gsto d'um modo
-differente? Est claro que no! O meu amor no se vai d'uma hora para a
-outra accommodar a novas circumstancias, e transformar-se em amizade...
-Nunca! Nem eu quero!
-
-Era uma brutal revolta--o seu amor defendendo-se, no querendo morrer,
-s porque as revelaes d'um Guimares e uma caixa de charutos cheia de
-papeis velhos o declaravam impossivel, e lhe ordenavam que morresse!
-
-Houve outro melancolico silencio. Ega accendeu uma cigarette, foi-se
-enterrar ao canto do sof. Uma fadiga ia-o vencendo, feita de toda
-aquella emoo, da noitada no Augusto, da estremunhada manh na alcova
-da Carmen. Todo o quarto ia entristecendo, luz mais triste da tarde
-d'inverno que descia. Ega terminou por cerrar os olhos. Mas bem depressa
-o sacudiu outra exclamao de Carlos, que de novo, diante d'elle,
-apertava as mos com desespero:
-
---E o peor ainda no isto, Ega! O peor que temos de lhe dizer tudo,
-de lhe contar tudo, a ella!...
-
-Ega j pensra n'isso... E era necessario que se lhe dissesse
-immediatamente, sem hesitaes.
-
---Vou-lhe eu mesmo contar tudo, murmurou Carlos.
-
---Tu!?
-
---Pois quem, ento? Querias que fosse o Villaa?...
-
-Ega franzia a testa:
-
---O que tu devias fazer era metter-te esta noite no comboio, e partir
-para Santa Olavia. De l contavas-lhe tudo. Estavas assim mais seguro.
-
-Carlos atirou-se para uma poltrona, com um grande suspiro de fadiga:
-
---Sim, talvez, manh, no comboio da noite... J pensei n'isso, era o
-melhor... Agora o que estou muito cansado!
-
---Tambem eu, disse o Ega espreguiando-se. E j no adiantamos nada,
-atolamo-nos mais na confuso. O melhor serenar... Eu vou-me estirar um
-bocado na cama.
-
---At logo!
-
-Ega subiu ao quarto, deitou-se por cima da roupa; e no seu immenso
-cansao bem depressa adormeceu. Acordou tarde a um rumor da porta. Era
-Carlos que entrava, raspando um phosphoro. Anoitecera, em baixo tocava a
-campainha para o jantar.
-
---Demais a mais esta massada do jantar! dizia Carlos accendendo as velas
-no toucador. No termos um pretexto para irmos fra, a uma taverna,
-conversar em socego! Ainda por cima convidei hontem o Steinbroken.
-
-Depois voltando-se:
-
--- Ega, tu achas que o av sabe tudo?
-
-O outro saltra da cama, e diante do lavatorio arregaava as mangas:
-
---Eu te digo... Parece-me que teu av desconfia... O caso fez-lhe a
-impresso d'uma catastrophe... E, se no suspeitasse o que ha, devia-lhe
-causar simplesmente a surpreza de quem descobre uma neta perdida.
-
-Carlos teve um lento suspiro. D'ahi a um instante desciam para o jantar.
-
-Em baixo encontraram, alm de Steinbroken e de D. Diogo--o Craft, que
-viera pedir as sopas. E em trno quella mesa, sempre alegre, coberta
-de flres e de luzes, uma melancolia fluctuava n'essa tarde atravs
-d'uma conversa dormente sobre doenas,--o Sequeira que tinha
-rheumatismo, o pobre marquez peorra.
-
-De resto Affonso, no escriptorio, queixra-se d'uma forte dr de cabea,
-que justificava o seu ar consumido e _pallido_. Carlos, a quem
-Steinbroken achra m cara, explicou tambem que passra uma noite
-abominavel. Ento Ega, para desanuviar o jantar, pediu ao amigo
-Steinbroken as suas impresses sobre o grande orador do sarau da
-Trindade, o Rufino. O diplomata hesitou. Surprehendera-o bastante saber
-que o Rufino era um politico, um parlamentar... Aquelles gestos, o
-bocado da camisa a vr-se-lhe no estomago, a pera, a grenha, as botas,
-no lhe pareciam realmente d'um Homem d'Estado:
-
---Mais cependant, cependant... Dans ce genre l, dans le genre sublime,
-dans le genre de Demosthnes, il m'a paru trs fort... Oh, il m'a paru
-excessivement fort!
-
---E voc, Craft?
-
-Craft, no sarau, s gostra do Alencar. Ega encolheu violentamente os
-hombros. Ora historias! Nada podia haver mais comico que a Democracia
-romantica do Alencar, aquella Republica meiga e loura, vestida de branco
-como Ophelia, orando no prado, sob o olhar de Deus... Mas Craft
-justamente achava tudo isso excellente por ser sincero. O que feria
-sempre nas exhibies da litteratura portugueza? A escandalosa falta de
-sinceridade. Ninguem, em verso ou prosa, parecia jmais acreditar
-n'aquillo que declamava com ardor, esmurrando o peito. E assim fra na
-vespera. Nem o Rufino parecia acreditar na influencia da religio; nem o
-homem da barba bicuda no heroismo dos Castros e dos Albuquerques; nem
-mesmo o poeta dos olhinhos bonitos na bonitice dos olhinhos... Tudo
-contrafeito e postio! Com o Alencar, que differena! Esse tinha uma f
-real no que cantava, na Fraternidade dos povos, no Christo republicano,
-na Democracia devota e coroada d'estrellas...
-
---J deve ser bem velho esse Alencar, observou D. Diogo que rolava
-bolinhas de po entre os longos dedos pallidos.
-
-Carlos, ao lado, emergiu emfim do seu silencio:
-
---O Alencar deve ter bons cincoenta annos.
-
-Ega jurou pelo menos sessenta. J em 1836 o Alencar publicava coisas
-delirantes, e chamava pela morte, no remorso de tantas virgens que
-seduzira...
-
---Ha que annos, com effeito, murmurou lentamente Affonso, eu ouvi fallar
-d'esse homem!
-
-D. Diogo, que levra os labios ao copo, voltou-se para Carlos:
-
---O Alencar tem a idade que havia de ter teu pai... Eram intimos, d'essa
-roda _distingue_ d'ento. O Alencar ia muito a Arroios com o pobre D.
-Joo da Cunha, que Deus haja, e com os outros. Era tudo uma fina flr, e
-regulavam pela mesma idade... J nada resta, j nada resta!
-
-Carlos baixra os olhos: todos por acaso emmudeceram: um ar de tristeza
-passou entre as flres e as luzes como vinda do fundo d'esse passado,
-cheio de sepulturas e dres.
-
---E o pobre Cruges, coitado, que fiasco! exclamou Ega, para sacudir
-aquella nevoa.
-
-Craft achava o fiasco justo. Para que fra elle dar Beethoven a uma
-gente educada pela chulice de Offenbach? Mas Ega no admittia esse
-desdem por Offenbach, uma das mais finas manifestaes modernas do
-scepticismo e da ironia! Steinbroken accusou Offenbach de no saber
-contra-ponto. Durante um momento discutiu-se musica. Ega acabou por
-sustentar que nada havia em arte to bello como o _fado_. E appellou
-para Affonso, para o despertar.
-
---Pois no verdade, snr. Affonso da Maia? V. exc.^a tambem como eu,
-um dos fieis ao fado, nossa grande creao nacional.
-
---Sim, com effeito, murmurou o velho, levando a mo testa, como a
-justificar o seu modo desinteressado e murcho. Ha muita poesia no
-fado...
-
-Craft porm atacava o fado, as _malagueas_, as _peteneras_--toda essa
-musica meridional, que lhe parecia apenas um garganteado gemebundo,
-prolongado infinitamente, em _ais_ de esterilidade e de preguia. Elle,
-por exemplo, ouvira uma noite uma _malaguea_, uma d'essas famosas
-_malagueas_, cantada em perfeito estylo por uma senhora de Malaga. Era
-em Madrid, em casa dos Villa-Rubia. A senhora pe-se ao piano, rosna uma
-coisa sobre _piedra_ e _sepultura_, e rompe a gemer n'um gemido que no
-findava--_-----ah_... Pois senhores, elle aborrece-se, passa para
-outra sala, v jogar todo um robber de whist, folheia um immenso album,
-discute a guerra carlista com o general Jovellos, e quando volta, l
-estava ainda a senhora, de cravos na trana e olhos no tecto, a gemer o
-mesmo--_-----ah!_...
-
-Todos riram. Ega protestou com impeto, j excitado. O Craft era um scco
-inglez, educado sobre o chato seio da Economia Politica, incapaz de
-comprehender todo o mundo de poesia que podia conter um ai! Mas elle no
-fallava das _malagueas_. No estava encarregado de defender a Hespanha.
-Ella possuia, para convencer o Craft e outros britannicos, bastante
-pilheria e bastante navalha... A questo era o _fado_!
-
---Onde que voc tem ouvido o fado? Ahi pelas salas, ao piano... Com
-effeito assim, concordo, chcho. Mas oua-o voc por tres ou quatro
-guitarristas, uma noite, no campo, com uma bella lua no co... Como nos
-Olivaes este vero, quando o marquez l levou o _Vira-vira_! Lembras-te,
-Carlos?...
-
-E estacou, como entalado, no arrependimento d'aquella memoria da _Toca_
-que levianamente evocra. Carlos permanecera silencioso, com uma sombra
-na face. Craft ainda rosnou que, n'uma linda noite de luar, todos os
-sons no campo eram bonitos, mesmo o chiar dos sapos. E de novo uma
-estranha desanimao amolleceu a sala; os escudeiros serviam os dces.
-
-Ento, no silencio, D. Diogo disse pensativamente, com a sua magestade
-de leo saudoso que relembra um grande passado:
-
---Uma musica tambem muito _distingue_ antigamente eram os _Sinos do
-mosteiro_. Parecia mesmo que se estavam ouvindo os sinos... J no ha
-d'isso!
-
-O jantar terminava friamente. Steinbroken voltra quella falta da
-familia real no sarau, que desde a vespera o inquietava. Ninguem alli se
-interessava pelo Pao. Depois D. Diogo surdiu com uma velha e fastidiosa
-historia sobre a infanta D. Isabel. Foi um allivio quando o escudeiro
-trouxe em volta a larga bacia de prata e o jarro d'agua perfumada.
-
-Ao fim do caf, servido no bilhar, Steinbroken e Craft comearam uma
-partida s cincoenta e a quinze tostes para interessar. Affonso e D.
-Diogo tinham recolhido ao escriptorio. Ega enterrra-se no fundo d'uma
-poltrona, com o _Figaro_. Mas bem depressa deixou escorregar a folha no
-tapete, cerrou os olhos. Ento Carlos, que passeava pensativamente
-fumando, olhou um momento o Ega adormecido, e sumiu-se por traz do
-reposteiro.
-
-
-
-Ia rua de S. Francisco.
-
-Mas no se apressava, a p pelo Aterro, abafado n'um paletot de pelles,
-acabando o charuto. A noite clarera, com um crescente de lua entre
-farrapos de nuvens brancas, que fugiam sob um norte fino.
-
-Fra n'essa tarde, s no seu quarto, que Carlos decidira ir fallar a
-Maria Eduarda--por um motivo supremo de dignidade e de razo, que elle
-descobrira e que repetia a si mesmo incessantemente para se justificar.
-Nem ella nem elle eram duas crianas frouxas, necessitando que a crise
-mais temerosa da sua vida lhes fosse resolvida e arranjada pelo Ega ou
-pelo Villaa: mas duas pessoas fortes, com o animo bastante resoluto, e
-o juizo bastante seguro, para elles mesmos acharem o caminho da
-dignidade e da razo n'aquella catastrophe que lhes desmantelava a
-existencia. Por isso elle, s elle, devia ir rua de S. Francisco.
-
-Decerto era terrivel tornar a vl-a n'aquella sala, quente ainda do seu
-amor, agora que a sabia sua irm... Mas porque no? Havia acaso alli
-dois devotos, possuidos da preoccupao do demonio, espavoridos pelo
-peccado em que se tinham atolado ainda que inconscientemente, anciosos
-por irem esconder no fundo de mosteiros distantes o horror carnal um do
-outro? No! Necessitavam elles acaso pr immediatamente entre si as
-compridas legoas que vo de Lisboa a Santa Olavia, com receio de cahir
-na antiga fragilidade, se de novo os seus olhos se encontrassem
-brilhando com a antiga chamma? No! Ambos tinham em si bastante fora
-para enterrar o corao sob a razo, como sob uma fria e dura pedra, to
-completamente que no lhe sentissem mais nem a revolta nem o chro. E
-elle podia desafogadamente voltar quella sala, toda quente ainda do seu
-amor...
-
-De resto, que precisavam appellar para a razo, para a sua coragem de
-fortes?... Elle no ia revelar bruscamente _toda_ a verdade a Maria
-Eduarda, dizer-lhe um adeus! pathetico, um adeus de theatro, affrontar
-uma crise de paixo e dr. Pelo contrario! Toda essa tarde, atravs do
-seu proprio tormento, procurra anciosamente um meio de adoar e graduar
-quella pobre creatura o horror da revelao que lhe devia. E achra um
-por fim, bem complicado, bem cobarde! Mas que! Era o unico, o unico que
-por uma preparao lenta, caridosa, lhe pouparia uma dr fulminante e
-brutal. E esse meio justamente s era praticavel indo elle, com toda a
-frieza, com todo o animo, rua de S. Francisco.
-
-Por isso ia--e ao longo do Aterro, retardando os passos, resumia,
-retocava esse plano, ensaiando mesmo comsigo, baixo, palavras que lhe
-diria. Entraria na sala, com um grande ar de pressa--e contava-lhe que
-um negocio de casa, uma complicao de feitores o obrigava a partir para
-Santa Olavia d'ahi a dias. E immediatamente sahia, com o pretexto de
-correr a casa do procurador. Podia mesmo ajuntar-- um momento, no
-tardo, at j. Uma coisa o inquietava. Se ella lhe dsse um beijo?...
-Decidia ento exagerar a sua pressa, conservando o charuto na bca, sem
-mesmo pousar o chapo... E sahia. No voltava. Pobre d'ella, coitada,
-que ia esperar at tarde, escutando cada rumor de carruagem na rua!...
-Na noite seguinte abalava para Santa Olavia com o Ega, deixando-lhe a
-ella uma carta a annunciar que infelizmente, por causa d'um telegramma,
-se vira forado a partir n'esse comboio. Podia mesmo ajuntar--volto
-d'aqui a dois ou tres dias... E ahi estava longe d'ella para sempre. De
-Santa Olavia escrevia-lhe logo, d'um modo incerto e confuso, fallando de
-documentos de familia, inesperadamente descobertos, provando entre elles
-um parentesco chegado. Tudo isto atrapalhado, curto, pressa. Por fim
-n'outra carta deixava escapar _toda_ a verdade, mandava-lhe a declarao
-da me; e mostrando a necessidade d'uma separao, emquanto se no
-esclarecessem todas as duvidas, pedia-lhe que partisse para Paris.
-Villaa ficava encarregado da questo de dinheiro, entregando-lhe logo
-para a viagem trezentas ou quatrocentas libras... Ah! tudo isto era bem
-complicado, bem covarde! Mas s havia esse meio. E quem, seno elle, o
-podia tentar com caridade e com tacto?
-
-E, entre o tumulto d'estes pensamentos, de repente achou-se na travessa
-da Parreirinha, defronte da casa de Maria. Na sala, atravs das
-cortinas, transparecia uma luz dormente. Todo o resto estava apagado--a
-janella do gabinete estreito onde ella se vestia, a varanda do quarto
-d'ella com os vasos de chrysantemos.
-
-E pouco a pouco aquella fachada muda d'onde apenas sahia, a um canto,
-uma claridade languida d'alcova adormecida, foi-o estranhamente
-penetrando da inquietao e desconfiana. Era um medo d'essa penumbra
-molle que sentia l dentro, toda cheia de calor e do perfume em que
-havia jasmim. No entrou; seguiu devagar pelo passeio fronteiro,
-pensando em certos detalhes da casa--o sof largo e profundo com
-almofadas de sda, as rendas do toucador, o cortinado branco da cama
-d'ella... Depois parou diante da larga barra de claridade que sahia do
-porto do Gremio; e foi para l, machinalmente attrahido pela
-simplicidade e segurana d'aquella entrada, lageada de pedra, com
-grossos bicos de gaz, sem penumbras e sem perfumes.
-
-Na sala, em baixo, ficou percorrendo, sem os comprehender, os
-telegrammas soltos sobre a mesa. Um criado passou, elle pediu cognac.
-Telles da Gama, que vinha de dentro assobiando, com as mos nos bolsos
-do paletot, deteve-se um momento para lhe perguntar se ia na tera-feira
-aos Gouvarinhos.
-
---Talvez, murmurou Carlos.
-
---Ento venha!... Eu ando a arrebanhar gente... So os annos do Charlie,
-de mais a mais. Cae l o peso do mundo, e ha ceia!...
-
-O criado entrou com a bandeja--e Carlos, de p junto da mesa, remexendo
-o assucar no copo, recordava, sem saber porque, aquella tarde em que a
-condessa, pondo-lhe uma rosa no casaco, lhe dera o primeiro beijo; revia
-o sof onde ella cahira com um rumor de sdas amarrotadas... Como tudo
-isto era j vago e remoto!
-
-Apenas acabou o cognac sahiu. Agora, caminhando rente das casas, no via
-aquella fachada que o perturbava com a sua claridade d'alcova morrendo
-nos vidros. O porto ficra cerrado, o gaz ardia no patamar. E subiu,
-sentindo mais pela escada de pedra as pancadas do corao que o pousar
-dos seus passos. Melanie, que veio abrir, disse-lhe que a senhora, um
-pouco cansada, se fra encostar sobre a roupa;--e a sala, com effeito,
-parecia abandonada por essa noite, com as serpentinas apagadas, o
-bordado ocioso e enrolado no seu cesto, os livros n'um frio arranjo
-orlando a mesa onde o candieiro espalhava uma luz tenue sob o abat-jour
-de renda amarella.
-
-Carlos tirava as luvas, lentamente, retomado de novo por uma inquietao
-ante aquelle recolhimento adormecido. E de repente Rosa correu de
-dentro, rindo, pulando, com os cabellos soltos nos hombros, os braos
-abertos para elle. Carlos levantou-a ao ar, dizendo como costumava: L
-vem a cabrita!...
-
-Mas ento, quando a tinha assim suspensa, batendo os
-psinhos--atravessou-o a ida de que aquella criana era sua sobrinha e
-tinha o seu nome!... Largou-a, quasi a deixou cahir--assombrado para
-ella, como se pela vez primeira visse essa facesinha eburnea e fina onde
-corria o seu sangue...
-
---Que ests tu a olhar para mim? murmurou ella, recuando e sorrindo, com
-as mosinhas cruzadas atraz das saias que tufavam.
-
-Elle no sabia, parecia-lhe outra Rosa: e sua perturbao misturava-se
-uma saudade pela antiga Rosa, a outra, a que era filha de Madame
-Mac-Gren, a quem elle contava historias de Joanna d'Arc, a quem
-balouava na _Toca_ sob as acacias em flr. Ella no emtanto sorria mais,
-com um brilho nos dentinhos miudos, uma ternura nos bellos olhos azues,
-vendo-o assim to grave e to mudo, pensando que elle ia brincar, fazer
-voz de Carlos Magno. Tinha o mesmo sorriso da mi, com a mesma covinha
-no queixo. Carlos viu n'ella de repente toda a graa de Maria, todo o
-encanto de Maria. E arrebatou-a de novo nos braos, to violentamente,
-com beijos to bruscos no cabello e nas faces, que Rosa estrebuchou,
-assustada e com um grito. Soltou-a logo, n'um receio de no ter sido
-casto... Depois, muito srio:
-
---Onde est a mam?
-
-Rosa coava o brao, com a testasinha franzida:
-
---Apre!... Magoaste-me.
-
-Carlos passou-lhe pelos cabellos a mo que ainda tremia.
-
---V, no sejas piegas, a mam no gosta. Onde est ella?
-
-A pequena, aplacada, j contente, pulava em redor, agarrando nos pulsos
-de Carlos para que elle saltasse tambem...
-
---A mam foi deitar-se... Diz que est muito cansada, depois chama-me a
-mim preguiosa... V, salta tambem. No sejas mono!...
-
-N'esse instante, do corredor, miss Sarah chamou:
-
---Mademoiselle!...
-
-Rosa pz o dedinho na bca cheia de riso:
-
---Dize-lhe que no estou aqui! A vr... Para a fazer zangar!... Dize!
-
-Miss Sarah erguera o reposteiro; e descobriu-a logo escondida, sumida
-por traz de Carlos, na pontinha dos ps, fazendo-se pequenina. Teve um
-sorriso benevolo, murmurou good night, sir. Depois lembrou que eram
-quasi nove e meia, mademoiselle tinha estado um pouco constipada e devia
-recolher-se. Ento Carlos puxou brandamente pelo brao de Rosa,
-acariciou-a ainda para que ella obedecesse a miss Sarah.
-
-Mas Rosa sacudia-o, indignada d'aquella traio.
-
---Tambem nunca fazes nada!... Semsaboro! Pois olha, nem te digo adeus!
-
-Atravessou a sala, amuada, esquivou-se com um repello governante que
-sorria e lhe estendia a mo--e pelo corredor rompeu n'um chro
-despeitado e prro. Miss Sarah risonhamente desculpou mademoiselle. Era
-a constipao que a tornava impertinente. Mas se fosse diante da mam
-no fazia aquillo, no!
-
---Good night, sir.
-
---Good night, miss Sarah...
-
-S, Carlos errou alguns momentos pela sala. Por fim ergueu o pedao de
-tapearia que cerrava o estreito gabinete onde Maria se vestia. Ahi, na
-escurido, um brilho pallido d'espelho tremia, batido por um longo raio
-do candieiro da rua. Muito de leve empurrou a porta do quarto.
-
---Maria!... Ests a dormir?
-
-No havia luz; mas o mesmo candieiro da rua, atravs do transparente
-erguido, tirava das trevas a brancura vaga do cortinado que envolvia o
-leito. E foi d'ahi que ella murmurou, mal acordada:
-
---Entra! Vim-me deitar, estava muito cansada... Que horas so?
-
-Carlos no se movera, ainda com a mo na porta:
-
--- tarde, e eu preciso sahir j a procurar o Villaa ... Vinha dizer-te
-que tenho talvez de ir a Santa Olavia, alm d'manh, por dois ou tres
-dias...
-
-Um movimento, entre os cortinados, fez ranger o leito.
-
---Para Santa Olavia?... Ora essa, porque? E assim de repente...
-Entra!... Vem c!
-
-Ento Carlos deu um passo no tapete, sem rumor. Ainda sentia o ranger
-molle do leito. E j todo aquelle aroma d'ella que to bem conhecia,
-esparso na sombra tepida, o envolvia, lhe entrava n'alma com uma
-seduco inesperada de caricia nova, que o perturbava estranhamente. Mas
-ia balbuciando, insistindo na sua pressa de encontrar essa noite o
-Villaa.
-
--- uma massada, por causa d'uns feitores, d'umas aguas...
-
-Tocou no leito; e sentou-se muito beira, n'uma fadiga que de repente o
-enlera, lhe tirava a fora para continuar essas invenes d'aguas e de
-feitores, como se ellas fossem montanhas de ferro a mover.
-
-O grande e bello corpo de Maria, embrulhado n'um roupo branco de sda,
-movia-se, espreguiava-se languidamente sobre o leito brando.
-
---Achei-me to cansada, depois de jantar, veio-me uma preguia... Mas
-ento partires assim de repente!... Que scca! D c a mo!
-
-Elle tenteava, procurando na brancura da roupa: encontrou um joelho a
-que percebia a frma e o calor suave, atravs da sda leve: e alli
-esqueceu a mo, aberta e frouxa, como morta, n'um entorpecimento onde
-toda a vontade e toda a consciencia se lhe fundiam, deixando-lhe apenas
-a sensao d'aquella pelle quente e macia onde a sua palma pousava. Um
-suspiro, um pequenino suspiro de criana, fugiu dos labios de Maria,
-morreu na sombra. Carlos sentiu a quentura de desejo que vinha d'ella,
-que o entontecia, terrivel como o bafo ardente d'um abysmo, escancarado
-na terra a seus ps. Ainda balbuciou: no, no... Mas ella estendeu os
-braos, envolveu-lhe o pescoo, puxando-o para si, n'um murmurio que era
-como a continuao do suspiro, e em que o nome de _querido_ susurrava e
-tremia. Sem resistencia, como um corpo morto que um sopro impelle, elle
-cahiu-lhe sobre o seio. Os seus labios seccos acharam-se collados n'um
-beijo aberto que os humedecia. E de repente, Carlos enlaou-a
-furiosamente, esmagando-a e sugando-a, n'uma paixo e n'um desespero que
-fez tremer todo o leito.
-
-
-
-A essa hora Ega acordava no bilhar, ainda estirado na poltrona onde o
-cansao o prostrra. Bocejando, estremunhado, arrastou os passos at ao
-escriptorio de Affonso.
-
-Ahi ardia um lume alegre, a que o reverendo Bonifacio se deixava torrar,
-enrolado sobre a pelle d'urso. Affonso fazia a partida de whist com
-Steinbroken e com o Villaa: mas to distrahido, to confuso, que j
-duas vezes D. Diogo, infeliz e irritado, rosnra que se a dr de cabea
-assim o estonteava melhor seria findarem! Quando Ega appareceu, o velho
-levantou os olhos inquietos:
-
---O Carlos? Sahiu?...
-
---Sim, creio que sahiu com o Craft, disse o Ega. Tinham fallado em ir
-vr o marquez.
-
-Villaa, que baralhava com a sua lentido meticulosa, deitou tambem para
-o Ega um olhar curioso e vivo. Mas j D. Diogo batia com os dedos no
-pano da mesa, resmungando:--Vamos l, vamos l... No se ganha nada em
-saber dos outros! Ento Ega ficou alli um momento, com bocejos vagos,
-seguindo o cahir lento das cartas. Por fim, molle e seccado, decidiu ir
-lr para a cama, hesitou por diante das estantes, sahiu com um velho
-numero do _Panorama_.
-
-Ao outro dia, hora do almoo, entrou no quarto de Carlos. E ficou
-pasmado quando o Baptista--tristonho desde a vespera, farejando
-desgosto--lhe disse que Carlos fra para a Tapada, muito cedo, a
-cavallo...
-
---Ora essa!... E no deixou ordens nenhumas, no fallou em ir para Santa
-Olavia?...
-
-Baptista olhou Ega, espantado:
-
---Para Santa Olavia!... No senhor, no fallou em semelhante coisa. Mas
-deixou uma carta para v. exc.^a vr. Creio que do snr. marquez. E diz
-que l apparecia depois, s seis... Acho que jantar.
-
-N'um bilhete de visita, o marquez, com effeito, lembrava que esse dia
-era o seu fausto natalicio, e esperava Carlos e o Ega s seis, para
-lhe ajudarem a comer a gallinha de dieta.
-
---Bem, l nos encontraremos, murmurou Ega, descendo para o jardim.
-
-Aquillo parecia-lhe extraordinario! Carlos passeando a cavallo, Carlos
-jantando com o marquez, como se nada houvesse perturbado a sua vida
-facil de rapaz feliz!... Estava agora certo de que elle na vespera fra
- rua de S. Francisco. Justos cos! Que se teria l passado? Subiu,
-ouvindo a sineta do almoo. O escudeiro annunciou-lhe que o snr. Affonso
-da Maia tomra uma chavena de ch no quarto e ainda estava recolhido.
-Todos sumidos! Pela primeira vez no Ramalhete Ega almoou solitariamente
-na larga mesa, lendo a _Gazeta Illustrada_.
-
-De tarde, s seis, no quarto do marquez (que tinha o pescoo enrolado
-n'uma _boa_ de senhora de pelle de marta), encontrou Carlos, o Darque, o
-Craft, em torno d'um rapaz gordo que tocava guitarra--emquanto ao lado o
-procurador do marquez, um bello homem de barba preta, se batia com o
-Telles n'uma partida de damas.
-
---Viste o av? perguntou Carlos, quando o Ega lhe estendeu a mo.
-
---No, almocei s.
-
-O jantar, d'ahi a pouco, foi muito divertido, largamente regado com os
-soberbos vinhos da casa. E ninguem decerto bebeu mais, ninguem riu mais
-do que Carlos, resurgido quasi de repente d'uma desanimao sombria a
-uma alegria nervosa--que incommodava o Ega, sentindo n'ella um timbre
-falso e como um som de crystal rachado. O proprio Ega por fim
-sobremesa se excitou consideravelmente com um esplendido Porto de 1815.
-Depois houve um _baccarat_ em que Carlos, outra vez sombrio, deitando a
-cada instante os olhos ao relogio, teve uma sorte triumphante, uma
-sorte de cabro, como a classificou o Darque, indignado, ao trocar a
-sua ultima nota de vinte mil reis. meia noite porm, inexoravelmente,
-o procurador do marquez lembrou as ordens do medico que marcra esse
-limite ao natalicio. Foi ento um enfiar de paletots, em debandada,
-por entre os queixumes do Darque e do Craft, que sahiam escorridos, sem
-sequer um troco para o americano. Fez-se-lhes uma subscripo de
-caridade, que elles recolheram nos chapos, rosnando bnos aos
-bemfeitores.
-
-Na tipoia que os levava ao Ramalhete, Carlos e Ega permaneceram muito
-tempo em silencio, cada um enterrado ao seu canto, fumando. Foi j ao
-meio do Aterro que Ega pareceu despertar:
-
---E ento por fim?... Sempre vaes para Santa Olavia, ou que fazes?
-
-Carlos mexeu-se no escuro da tipoia. Depois, lentamente, como cheio de
-cansao:
-
---Talvez v manh... Ainda no disse nada, ainda no fiz nada... Decidi
-dar-me quarenta e oito horas para acalmar, para reflectir... No se pde
-agora fallar com este barulho das rodas.
-
-De novo cada um recahiu na sua mudez, ao seu canto.
-
-Em casa, subindo a escadinha forrada de velludo, Carlos declarou-se
-exhausto e com uma intoleravel dr de cabea:
-
---manh fallamos, Ega... Boa noite, sim?
-
---At manh.
-
-Alta noite Ega acordou com uma grande sde. Saltra da cama, esvazira a
-garrafa no toucador, quando julgou sentir por baixo, no quarto de
-Carlos, uma porta bater. Escutou. Depois, arrepiado, remergulhou nos
-lenoes. Mas espertra inteiramente, com uma ida estranha, insensata,
-que o assaltra sem motivo, o agitava, lhe fazia palpitar o corao no
-grande silencio da noite. Ouviu assim dar tres horas. A porta de novo
-batera, depois uma janella: era decerto vento que se erguera. No podia
-porm readormecer, s voltas, n'um terrivel mal-estar, com aquella ida
-cravada na imaginao que o torturava. Ento, desesperado, pulou da
-cama, enfiou um paletot, e em pontas de chinelas, com a mo diante da
-luz, desceu surdamente ao quarto de Carlos. Na ante-sala parou,
-tremendo, com o ouvido contra o reposteiro, na esperana de perceber
-algum calmo rumor de respirao. O silencio era pesado e pleno. Ousou
-entrar... A cama estava feita e vazia, Carlos sahira.
-
-Elle ficou a olhar estupidamente para aquella colcha lisa, com a dobra
-do lenol de renda cuidadosamente entreaberta pelo Baptista. E agora no
-duvidava. Carlos fra findar a noite rua de S. Francisco!... Estava
-l, dormia l! E s uma ida surgia atravs do seu horror--fugir,
-safar-se para Celorico, no ser testemunha d'aquella incomparavel
-infamia!...
-
-E o dia seguinte, tera-feira, foi desolador para o pobre Ega. Vexado,
-n'um terror de encontrar Carlos ou Affonso, levantou-se cedo,
-esgueirou-se pelas escadas com cautelas de ladro, foi almoar ao
-Tavares. De tarde, na rua do Ouro, viu passar Carlos, que levava no
-break o Cruges e o Taveira--arrebanhados certamente para elle se no
-encontrar s mesa com o av. Ega jantou melancolicamente no Universal.
-S entrou no Ramalhete s nove horas, vestir-se para a _soire_ da
-Gouvarinho, que pela manh no Loreto parra a carruagem para lhe lembrar
-que era a festa do Charlie. E foi j de paletot, de _claque_ na mo,
-que appareceu emfim na salinha Luiz xv onde Cruges tocava Chopin, e
-Carlos se installra n'uma partida de bezigue com o Craft. Vinha saber
-se os amigos queriam alguma coisa para os nobres condes de Gouvarinho...
-
---Diverte-te!
-
---S faiscante!
-
---Eu l appareo para a ceia! prometteu Taveira, estirado n'uma poltrona
-com o _Figaro_.
-
-Eram duas horas da manh quando Ega recolheu da _soire_--onde por fim
-se divertira n'uma desesperada flirtao com a baroneza d'Alvim, que
-ceia, depois do champagne, vencida por tanta graa e tanta audacia, lhe
-tinha dado duas rosas. Diante do quarto de Carlos, accendendo a vela,
-Ega hesitou, mordido por uma curiosidade... Estaria l? Mas teve
-vergonha d'aquella espionagem, e subiu, bem decidido como na vespera a
-fugir para Celorico. No seu quarto, diante do espelho, pz
-cuidadosamente n'um copo as rosas da Alvim. E comeava a despir-se,
-quando ouviu passos no negro corredor, passos muito lentos, muito
-pesados, que se adiantavam, findaram sua porta em suspenso e
-silencio. Assustado, gritou: Que l? A porta rangeu. E appareceu
-Afonso da Maia, pallido, com um jaqueto sobre a camisa de dormir, e um
-castial onde a vela ia morrendo. No entrou. N'uma voz enrouquecida,
-que tremia:
-
---O Carlos? esteve l?
-
-Ega balbuciou, atarantado, em mangas de camisa. No sabia... Estivera
-apenas um momento nos Gouvarinhos... Era provavel que Carlos tivesse ido
-mais tarde com o Taveira, para a ceia.
-
-O velho cerrra os olhos, como se desfallecesse, estendendo a mo para
-se apoiar. Ega correu para elle:
-
---No se afflija, snr. Affonso da Maia!
-
---Que queres ento que faa? Onde est elle? L mettido, com essa
-mulher... Escusas de dizer, eu sei, mandei espreitar... Desci a isso,
-mas quiz acabar esta angustia... E esteve l hontem at de manh, est
-l a dormir n'este instante... E foi para este horror que Deus me deixou
-viver at agora!
-
-Teve um grande gesto de revolta e de dr. De novo os seus passos, mais
-pesados, mais lentos, se sumiram no corredor.
-
-Ega ficou junto da porta, um momento, estarrecido. Depois foi-se
-despindo devagar, decidido a dizer a Carlos muito simplesmente, ao outro
-dia, antes de partir para Celorico, que a sua infamia estava matando o
-av, e o forava a elle, seu melhor amigo, a fugir para a no
-testemunhar por mais tempo.
-
-Mal acordou, puxou a mala para o meio do quarto, atirou para cima da
-cama, s braadas, a roupa que ia emmalar. E durante meia hora, em
-mangas de camisa, lidou n'esta tarefa, misturando aos seus pensamentos
-de clera lembranas da _sire_ da vespera, certos olhares da Alvim,
-certas esperanas que lhe tornavam saudosa a partida. Um alegre sol
-dourava a varanda. Terminou por abrir a vidraa, respirar, olhar o bello
-azul d'inverno. Lisboa ganhava tanto com aquelle tempo! E j Celorico, a
-quinta, o padre Seraphim, lhe estendiam de longe a sua sombra n'alma. Ao
-baixar os olhos viu o dog-cart de Carlos atrellado com a _Tunante_, que
-escarvava a calada animada pelo ar vivo. Era Carlos decerto que ia
-sahir cedo--para no se encontrar com elle e com o av!
-
-N'um receio de o no apanhar n'esse dia, desceu correndo. Carlos
-aferrolhra-se na alcova de banho. Ega chamou, o outro no tugiu. Por
-fim Ega bateu, gritou atravs da porta, sem esconder a sua irritao:
-
---Tem a bondade d'escutar!... Ento partes para Santa Olavia, ou qu?
-
-Depois d'um instante, Carlos lanou de l, entre um rumor d'agua que
-cahia:
-
---No sei... Talvez... Logo te digo...
-
-O outro no se conteve mais:
-
--- que se no pde ficar assim eternamente... Recebi uma carta de minha
-mi... E se no partes para Santa Olavia, eu vou para Celorico...
-absurdo! J estamos n'isto ha tres dias!
-
-E quasi se arrependia j da sua violencia, quando a voz de Carlos se
-arrastou de dentro, humilde e cansada, n'uma supplica:
-
---Por quem s, Ega! Tem um bocado de paciencia commigo. Eu logo te
-digo...
-
-N'uma d'aquellas subitas emoes de nervoso, que o sacudiam--os olhos do
-Ega humedeceram. Balbuciou logo:
-
---Bem, bem! Eu fallei alto por ser atravs da porta... No ha pressa!
-
-E fugiu para o quarto, cheio s de compaixo e ternura, com uma grossa
-lagrima nas pestanas. Sentia agora bem a tortura em que o pobre Carlos
-se debatera, sob o despotismo d'uma paixo at ahi legitima, e que n'uma
-hora amarga se tornava de repente monstruosa, sem nada perder de seu
-encanto e da sua intensidade... Humano e fragil, elle no pudera estacar
-n'aquelle violento impulso de amor e de desejo que o levava como n'um
-vendaval! Cedera, cedera, continura a rolar quelles braos, que
-innocentemente o continuavam a chamar. E ahi andava agora, aterrado,
-escorraado, fugindo occultamente de casa, passando o dia longe dos
-seus, n'uma vadiagem tragica, como um excommungado que receia encontrar
-olhos puros onde sinta o horror do seu peccado... E ao lado, o pobre
-Affonso, sabendo tudo, morrendo d'aquella dr! Podia elle, hospede
-querido dos tempos alegres, partir, agora que uma onda de desgraa
-quebrra sobre essa casa, onde o acolhiam affeies mais largas que na
-sua propria? Seria ignobil! Tornou logo a desfazer a mala; e, furioso no
-seu egoismo com todas aquellas amarguras que o abalavam, arranjava outra
-vez a roupa dentro da commoda, com a mesma clera com que a desmanchra,
-rosnando:
-
---Diabo levem as mulheres, e a vida, e tudo!...
-
-Quando desceu, j vestido, Carlos desapparecera! Mas Baptista,
-tristonho, carrancudo, certo agora de que havia um grande desgosto,
-deteve-o para lhe murmurar:
-
---Tinha v. exc.^a razo... Partimos manh para Santa Olavia e levamos
-roupa para muito tempo... Este inverno comea mal!
-
-
-
-N'essa madrugada, s quatro horas, em plena escurido, Carlos cerrra de
-manso o porto da rua de S. Francisco. E, mais pungente, apoderava-se
-d'elle, na frialdade da rua, o medo que j o rora, ao vestir-se na
-penumbra do quarto, ao lado de Maria adormecida--o medo de voltar ao
-Ramalhete! Era esse medo que j na vespera o trouxera todo o dia por
-fra no dog-cart, findando por jantar lugubremente com o Cruges,
-escondido n'um gabinete do Augusto. Era medo do av, medo do Ega, medo
-do Villaa; medo d'aquella sineta do jantar que os chamava, os juntava;
-medo do seu quarto, onde a cada momento qualquer d'elles podia erguer o
-reposteiro, entrar, cravar os olhos na sua alma e no seu segredo...
-Tinha agora a certeza _que elles sabiam tudo_. E mesmo que n'essa noite
-fugisse para Santa Olavia, pondo entre si e Maria uma separao to alta
-como o muro d'um claustro, nunca mais do espirito d'aquelles homens, que
-eram os seus amigos melhores, sahiria a memoria e a dr da infamia em
-que elle se despenhra. A sua vida moral estava estragada... Ento, para
-que partiria--abandonando a paixo, sem que por isso encontrasse a paz?
-No seria mais logico calcar desesperadamente todas as leis humanas e
-divinas, arrebatar para longe Maria na sua innocencia, e para todo o
-sempre abysmar-se n'esse crime que se tornra a sua sombria partilha na
-terra?
-
-J assim pensra na vespera. J assim pensra... Mas antevira ento um
-outro horror, um supremo castigo, a esperal-o na solido onde se
-sepultasse. J lhe percebera mesmo a aproximao; j n'outra noite
-recebera d'elle um arrepio; j n'essa noite, deitado junto de Maria, que
-adormecera cansada, o presentira, apoderando-se d'elle, com um primeiro
-frio d'agonia.
-
-Era, surgindo do fundo do seu sr, ainda tenue mas j perceptivel, uma
-saciedade, uma repugnancia por ella desde que a sabia do seu sangue!...
-Uma repugnancia material, carnal, flr da pelle, que passava como um
-arrepio. Fra primeiramente aquelle aroma que a envolvia, fluctuava
-entre os cortinados, lhe ficava a elle na pelle e no fato, o excitava
-tanto outr'ora, o impacientava tanto agora--que ainda na vespera se
-encharcra em agua de Colonia para o dissipar. Fra depois aquelle corpo
-d'ella, adorado sempre como um marmore ideal, que de repente lhe
-apparecera, como era na sua realidade, forte de mais, musculoso, de
-grossos membros de Amazona barbara, com todas as bellezas copiosas do
-animal de prazer. Nos seus cabellos d'um lustre to macio, sentia agora
-inesperadamente uma rudeza de juba. Os seus movimentos na cama, ainda
-n'essa noite, o tinham assustado como se fossem os de uma fera, lenta e
-ciosa, que se estirava para o devorar... Quando os seus braos o
-enlaavam, o esmagavam contra os seus rijos peitos tumidos de seiva,
-ainda decerto lhe punham nas veias uma chamma que era toda bestial. Mas,
-apenas o ultimo suspiro lhe morria nos labios, ahi comeava
-insensivelmente a recuar para a borda do colcho, com um susto estranho:
-e immovel, encolhido na roupa, perdido no fundo d'uma infinita tristeza,
-esquecia-se pensando n'uma outra vida que podia ter, longe d'alli, n'uma
-casa simples, toda aberta ao sol, com sua mulher, legitimamente sua,
-flr de graa domestica, pequenina, timida, pudica, que no soltasse
-aquelles gritos lascivos, e no usasse esse aroma to quente! E
-desgraadamente agora j no duvidava... Se partisse com ella, seria
-para bem cedo se debater no indizivel horror de um nojo physico. E que
-lhe restaria ento, morta a paixo que fra a desculpa do crime, ligado
-para sempre a uma mulher que o enojava--e que era... S lhe restava
-matar-se!
-
-Mas, tendo por um s dia dormido com ella, na plena consciencia da
-consanguinidade que os separava, poderia recomear a vida
-tranquillamente? Ainda que possuisse frieza e fora para apagar dentro
-em si essa memoria--ella no morreria no corao do av, e do seu amigo.
-Aquelle ascoroso segredo ficaria entre elles, estragando, maculando
-tudo. A existencia d'ora vante s lhe offerecia intoleravel amargr...
-Que fazer, santo Deus, que fazer! Ah, se alguem o podesse aconselhar, o
-podesse consolar! Quando chegou porta de casa o seu desejo unico era
-atirar-se aos ps d'um padre, aos ps d'um santo, abrir-lhe as miserias
-do seu corao, implorar-lhe a doura da sua misericordia! Mas ai! onde
-havia um santo?
-
-Defronte do Ramalhete os candieiros ainda ardiam. Abriu de leve a porta.
-P ante p, subiu as escadas ensurdecidas pelo velludo cr de cereja. No
-patamar tacteava, procurava a vela--quando, atravs do reposteiro
-entreaberto, avistou uma claridade que se movia no fundo do quarto.
-Nervoso, recuou, parou no recanto. O claro chegava, crescendo: passos
-lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete: a luz surgiu--e com ella o
-av em mangas de camisa, livido, mudo, grande, espectral. Carlos no se
-moveu, suffocado; e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados,
-cheios de horror, cahiram sobre elle, ficaram sobre elle, varando-o at
-s profundidades d'alma, lendo l o seu segredo. Depois, sem uma
-palavra, com a cabea branca a tremer, Affonso atravessou o patamar,
-onde a luz sobre o velludo espalhava um tom de sangue:--e os seus passos
-perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais
-sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida!
-
-Carlos entrou no quarto s escuras, tropeou n'um sof. E alli se deixou
-cahir, com a cabea enterrada nos braos, sem pensar, sem sentir, vendo
-o velho livido passar, repassar diante d'elle como um longo phantasma,
-com a luz avermelhada na mo. Pouco a pouco foi-o tomando um cansao,
-uma inercia, uma infinita lassido da vontade, onde um desejo apenas
-transparecia, se alongava--o desejo de interminavelmente repousar
-algures n'uma grande mudez e n'uma grande treva... Assim escorregou ao
-pensamento da morte. Ella seria a perfeita cura, o asylo seguro. Porque
-no iria ao seu encontro? Alguns gros de laudano n'essa noite e
-penetrava na absoluta paz...
-
-Ficou muito tempo, embebendo-se n'esta ida que lhe dava allivio e
-consolo, como se, escorraado por uma tormenta ruidosa, visse diante dos
-seus passos abrir-se uma porta d'onde sahisse calor e silencio. Um
-rumor, o chilrear d'um passaro na janella, fez-lhe sentir o sol e o dia.
-Ergueu-se, despiu-se muito devagar, n'uma immensa molleza. E mergulhou
-na cama, enterrou a cabea no travesseiro para recahir na doura
-d'aquella inercia, que era um antegosto da morte, e no sentir mais nas
-horas que lhe restavam nenhuma luz, nenhuma coisa da terra.
-
-
-
-O sol ia alto, um barulho passou, o Baptista rompeu pelo quarto:
-
--- snr. D. Carlos, meu menino! O av achou-se mal no jardim, no d
-accordo!...
-
-Carlos pulou do leito, enfiando um paletot que agarrra. Na ante-camara
-a governante, debruada no corrimo, gritava, afflicta:--Adiante, homem
-de Deus, ao p da padaria, o snr. dr. Azevedo! E um moo que corria,
-com que esbarrou no corredor, atirou, sem parar:
-
---Ao fundo, ao p da cascata, snr. D. Carlos, na mesa de pedra!...
-
-Affonso da Maia l estava, n'esse recanto do quintal, sob os ramos do
-cedro, sentado no banco de cortia, tombado por sobre a tosca mesa, com
-a face cahida entre os braos. O chapo desabado rolra para o cho; nas
-costas, com a gola erguida, conservava o seu velho capote azul. Em
-volta, nas folhas das camelias, nas aleas areadas, refulgia, cr d'ouro,
-o sol fino d'inverno. Por entre as conchas da cascata o fio d'agua punha
-o seu choro lento.
-
-Arrebatadamente, Carlos levantra-lhe a face, j rigida, cr de cera,
-com os olhos cerrados, e um fio de sangue aos cantos da longa barba de
-neve. Depois cahiu de joelhos no cho humido, sacudia-lhe as mos,
-murmurando:-- av! av!--Correu ao tanque, borrifou-o d'agua:
-
---Chamem alguem! chamem alguem!
-
-Outra vez lhe palpava o corao... Mas estava morto. Estava morto, j
-frio, aquelle corpo que, mais velho que o seculo, resistira to
-formidavelmente, como um grande roble, aos annos e aos vendavaes. Alli
-morrera solitariamente, j o sol ia alto, n'aquella tosca mesa de pedra
-onde deixra pender a cabea cansada.
-
-Quando Carlos se ergueu, Ega apparecia, esguedelhado, embrulhado no
-robe-de-chambre. Carlos abraou-se n'elle, tremendo todo, n'um chro
-despedaado. Os criados em redor olhavam, aterrados. E a governante,
-como tonta, entre as ruas de roseiras, gemia com as mos na cabea:--Ai
-o meu rico senhor, ai o meu rico senhor!
-
-Mas o porteiro, esbaforido, chegava com o medico, o dr. Azevedo, que
-felizmente encontrra na rua. Era um rapaz, apenas sahido da Escla,
-magrinho e nervoso, com as pontas do bigode muito frisadas. Deu em
-redor, atarantadamente, um comprimento aos criados, ao Ega, e a Carlos,
-que procurava serenar com a face lavada de lagrimas. Depois, tendo
-descalado a luva, estudou todo o corpo de Affonso com uma lentido, uma
-minuciosidade que exagerava, medida que sentia em volta, mais anciosos
-e attentos n'elle, todos aquelles olhos humedecidos. Por fim, diante de
-Carlos, passando nervosamente os dedos no bigode, murmurou termos
-technicos... De resto, dizia, j o collega se teria compenetrado de que
-tudo infelizmente findra. Elle sentia das vras da alma o desgosto...
-Se para alguma coisa fosse necessario, com o maximo prazer...
-
---Muito agradecido a v. exc.^a, balbuciou Carlos.
-
-Ega, em chinelas, deu alguns passos com o snr. dr. Azevedo, para lhe
-indicar a porta do jardim.
-
-Carlos no emtanto ficra defronte do velho, sem chorar, perdido apenas
-no espanto d'aquelle brusco fim! Imagens do av, do av vivo e forte,
-cachimbando ao canto do fogo, regando de manh as roseiras,
-passavam-lhe n'alma, em tropel, deixando-lh'a cada vez mais dorida e
-negra... E era ento um desejo de findar tambem, encostar-se como elle
-quella mesa de pedra, e sem outro esforo, nenhuma outra dr da vida,
-cahir como elle na sempiterna paz. Uma restea de sol, entre os ramos
-grossos do cedro, batia a face morta de Affonso. No silencio os
-passaros, um momento espantados, tinham recomeado a chalrar. Ega veio a
-Carlos, tocou-lhe no brao:
-
--- necessario leval-o para cima.
-
-Carlos beijou a mo fria que pendia. E, devagar, com os beios a tremer,
-levantou o av pelos hombros carinhosamente. Baptista correra a ajudar;
-Ega, embaraado no seu largo roupo, segurava os ps do velho. Atravs
-do jardim, do terrao cheio de sol, do escriptorio onde a sua poltrona
-esperava diante do lume accso, foram-o transportando n'um silencio s
-quebrado pelos passos dos criados, que corriam a abrir as portas,
-acudiam quando Carlos, na sua perturbao, ou o Ega fraquejavam sob o
-peso do grande corpo. A governante j estava no quarto d'Affonso com uma
-colcha de sda para estender na singela cama de ferro, sem cortinado. E
-alli o depuzeram emfim sobre as ramagens claras bordadas na sda azul.
-
-Ega accendera dois castiaes de prata: a governante, de joelhos beira
-do leito, esfiava o rosario: e Mr. Antoine, com o seu barrete branco de
-cozinheiro na mo, ficra porta, junto d'um cesto que trouxera, cheio
-de camelias e palmas de estufa. Carlos, no emtanto, movendo-se pelo
-quarto, com longos soluos que o sacudiam, voltava a cada instante,
-n'uma derradeira e absurda esperana, palpar as mos ou o corao do
-velho. Com o jaqueto de velludilho, os seus grossos sapatos brancos,
-Affonso parecia mais forte e maior, na sua rigidez, sobre o leito
-estreito: entre o cabello de neve cortado escovinha e a longa barba
-desleixada, a pelle ganhra um tom de marfim velho, onde as rugas
-tomavam a dureza d'entalhaduras a cinzel: as palpebras engelhadas, de
-pestanas brancas, pousavam com a consolada serenidade de quem emfim
-descana; e ao deitarem-no uma das mos ficra-lhe aberta e posta sobre
-o corao, na simples e natural attitude de quem tanto pelo corao
-vivra!
-
-Carlos perdia-se n'esta contemplao dolorosa. E o seu desespero era que
-o av assim tivesse partido para sempre, sem que entre elles houvesse um
-adeus, uma dce palavra trocada. Nada! Apenas aquelle olhar angustiado,
-quando passra com a vela accsa na mo. J ento elle ia andando para a
-morte. O av sabia tudo, d'isso morrera! E esta certeza sem cessar lhe
-batia n'alma, com uma longa pancada repetida e lugubre. O av sabia
-tudo, d'isso morrera!
-
-Ega veio com um gesto indicar-lhe o estado em que estavam--elle de
-robe-de-chambre, Carlos com o paletot sobre a camisa de dormir:
-
--- necessario descer, necessario vestir-nos.
-
-Carlos balbuciou:
-
---Sim, vamo-nos vestir...
-
-Mas no se arredava. Ega levou-o brandamente pelo brao. Elle caminhava
-como um somnambulo, passando o leno devagar pela testa e pela barba. E
-de repente no corredor, apertando desesperadamente as mos, outra vez
-coberto de lagrimas, n'um agoniado desabafo de toda a sua culpa:
-
---Ega, meu querido Ega! O av viu-me esta manh quando entrei! E passou,
-no me disse nada... Sabia tudo, foi isso que o matou!...
-
-Ega arrastou-o, consolou-o, repellindo tal ida. Que tolice! O av tinha
-quasi oitenta annos, e uma doena de corao... Desde a volta de Santa
-Olavia, quantas vezes elles tinham fallado n'isso, aterrados! Era
-absurdo ir agora fazer-se mais desgraado com semelhante imaginao!
-
-Carlos murmurou, devagar, como para si mesmo, com os olhos postos no
-cho:
-
---No! estranho, no me fao mais desgraado! Aceito isto como um
-castigo... Quero que seja um castigo... E sinto-me s muito pequeno,
-muito humilde diante de quem assim me castiga. Esta manh pensava em
-matar-me. E agora no! o meu castigo viver, esmagado para sempre... O
-que me custa que elle no me tivesse dito _adeus_!!
-
-De novo as lagrimas lhe correram, mas lentas, mansamente, sem desespero.
-Ega levou-o para o quarto, como uma criana. E assim o deixou a um canto
-do sof, com o leno sobre a face, n'um chro contnuo e quieto, que lhe
-ia lavando, alliviando o corao de todas as angustias confusas e sem
-nome que n'esses dias derradeiros o traziam suffocado.
-
-Ao meio dia, em cima, Ega acabava de vestir-se quando Villaa lhe rompeu
-pelo quarto de braos abertos.
-
---Ento como foi isto, como foi isto?
-
-Baptista mandra-o chamar pelo trintanario, mas o rapazola pouco lhe
-soubera contar. Agora em baixo o pobre Carlos abrara-o, coitadinho,
-lavado em lagrimas, sem poder dizer nada, pedindo-lhe s para se
-entender em tudo com o Ega... E alli estava.
-
---Mas como foi, como foi, assim de repente?...
-
-Ega contou, brevemente, como tinham encontrado Affonso de manh no
-jardim, tombado para cima da mesa de pedra. Viera o dr. Azevedo, mas
-tudo acabra!
-
-Villaa levou as mos cabea:
-
---Uma coisa assim! Creia o amigo! Foi essa mulher, essa mulher que ahi
-appareceu, que o matou! Nunca foi o mesmo depois d'aquelle abalo! No
-foi mais nada! Foi isso!
-
-Ega murmurava, deitando machinalmente agua de Colonia no leno:
-
---Sim, talvez, esse abalo, e oitenta annos, e poucas cautelas, e uma
-doena de corao.
-
-Fallaram ento do enterro, que devia ser simples como convinha quelle
-homem simples. Para depositar o corpo, emquanto no fosse trasladado
-para Santa Olavia, Ega lembrra-se do jazigo do marquez.
-
-Villaa coava o queixo, hesitando:
-
---Eu tambem tenho um jazigo. Foi o proprio snr. Affonso da Maia que o
-mandou erguer para meu pai, que Deus haja... Ora parece-me que por uns
-dias ficava l perfeitamente. Assim no se pedia a ninguem, e eu tinha
-n'isso muita honra...
-
-Ega concordou. Depois fixaram outros detalhes de convite, de hora, de
-chave do caixo. Por fim Villaa, olhando o relogio, ergueu-se com um
-grande suspiro:
-
---Bem, vou dar esses tristes passos! E c appareo logo, que o quero vr
-pela ultima vez, quando o tiverem vestido. Quem me havia de dizer! Ainda
-antes de hontem a jogar com elle... At lhe ganhei tres mil reis,
-coitadinho!
-
-Uma onda de saudade suffocou-o, fugiu com o leno nos olhos.
-
-Quando Ega desceu, Carlos, todo de luto, estava sentado escrivaninha,
-diante d'uma folha de papel. Immediatamente ergueu-se, arrojou a penna.
-
---No posso!... Escreve-lhe tu ahi, a ella, duas palavras.
-
-Em silencio, Ega tomou a penna, redigiu um bilhete muito curto. Dizia:
-Minha senhora. O snr. Affonso da Maia morreu esta madrugada, de
-repente, com uma apoplexia. V. exc.^a comprehende que, n'este momento,
-Carlos nada mais pde do que pedir-me para eu transmittir a v. exc.^a
-esta desgraada noticia. Creia-me, etc. No o leu a Carlos. E como
-Baptista entrava n'esse momento, todo de preto, com o almoo n'uma
-bandeja, Ega pediu-lhe para mandar o trintanario com aquelle bilhete
-rua de S. Francisco. Baptista segredou sobre o hombro do Ega:
-
--- bom no esquecer as fardas de luto para os criados...
-
---O snr. Villaa j sabe.
-
-Tomaram ch pressa em cima do taboleiro. Depois Ega escreveu bilhetes
-a D. Diogo e ao Sequeira, os mais velhos amigos d'Affonso: e davam duas
-horas quando chegaram os homens com o caixo para amortalhar o corpo.
-Mas Carlos no permittiu que mos mercenarias tocassem no av. Foi elle
-e o Ega, ajudados pelo Baptista, que, corajosamente, recalcando a emoo
-sob o dever, o lavaram, o vestiram, o depuzeram dentro do grande cofre
-de carvalho, forrado de setim claro, onde Carlos collocou uma miniatura
-de sua av Runa. tarde, com auxilio de Villaa, que voltra para dar
-o ultimo olhar ao patro, desceram-no ao escriptorio, que Ega no
-quizera alterar nem ornar, e que, com os damascos escarlates, as
-estantes lavradas, os livros juncando a carteira de pau preto,
-conservava a sua feio austera de paz estudiosa. Smente, para depr o
-caixo, tinham juntado duas largas mesas, recobertas por um panno de
-velludo negro que havia na casa, com as armas bordadas a ouro. Por cima
-o Christo de Rubens abria os braos sobre a vermelhido do poente. Aos
-lados ardiam doze castiaes de prata. Largas palmas d'estufa cruzavam-se
- cabeceira do esquife, entre ramos de camelias. E Ega accendeu um pouco
-de incenso em dois perfumadores de bronze.
-
- noite o primeiro dos velhos amigos a apparecer foi D. Diogo, solemne,
-de casaca. Encostado ao Ega, aterrado diante do caixo, s pde
-murmurar:--E tinha menos sete mezes que eu! O marquez veio j tarde,
-abafado em mantas, trazendo um grande cesto de flres. Craft e o Cruges
-nada sabiam, tinham-se encontrado na rampa de Santos;--e receberam a
-primeira surpreza ao vr fechado o porto do Ramalhete. O ultimo a
-chegar foi o Sequeira, que passra o dia na quinta, e se abraou em
-Carlos, depois no Craft ao acaso, entontecido, com uma lagrima nos olhos
-injectados, balbuciando:--Foi-se o companheiro de muitos annos. Tambem
-no tardo!...
-
-E a noite de vigilia e pezames comeou, lenta e silenciosa. As doze
-chammas das velas ardiam, muito altas, n'uma solemnidade funeraria. Os
-amigos trocavam algum murmurio abafado, com as cadeiras chegadas. Pouco
-a pouco, o calor, o aroma do incenso, a exhalao das flres foraram o
-Baptista a abrir uma das janellas do terrao. O co estava cheio
-d'estrellas. Um vento fino susurrava nas ramagens do jardim.
-
-J tarde Sequeira, que no se movera d'uma poltrona, com os braos
-cruzados, teve uma tontura. Ega levou-o sala de jantar, a
-reconfortal-o com um calice de cognac. Havia l uma ceia fria, com
-vinhos e dces. E Craft veio tambem--com o Taveira, que soubera a
-desgraa na redaco da _Tarde_, e correra quasi sem jantar. Tomando um
-pouco de Bordeus, uma _sandwich_, Sequeira reanimava-se, lembrava o
-passado, os tempos brilhantes, quando Affonso e elle eram novos. Mas
-emmudeceu vendo apparecer Carlos, pallido e vagaroso como um somnambulo,
-que balbuciou: Tomem alguma coisa, sim, tomem alguma coisa...
-
-Mexeu n'um prato, deu uma volta mesa, sahiu. Assim vagamente foi at
-ante-camara, onde todos os candelabros ardiam. Uma figura esguia e negra
-surgiu da escada. Dois braos enlaaram-no. Era o Alencar.
-
---Nunca vim c nos dias felizes, aqui estou na hora triste!
-
-E o poeta seguiu pelo corredor, em pontas de ps, como pela nave d'um
-templo.
-
-Carlos no emtanto deu ainda alguns passos pela ante-camara. Ao canto
-d'um divan ficra um grande cesto com uma cora de flres, sobre que
-pousava uma carta. Reconheceu a letra de Maria. No lhe tocou, recolheu
-ao escriptorio. Alencar, diante do caixo, com a mo pousada no hombro
-do Ega, murmurava: Foi-se uma alma de heroe!
-
-As velas iam-se consumindo. Um cansao pesava. Baptista fez servir caf
-no bilhar. E ahi, apenas recebeu a sua chavena, Alencar, cercado do
-Cruges, do Taveira, do Villaa, rompeu a fallar tambem do passado, dos
-tempos brilhantes d'Arroios, dos rapazes ardentes d'ento:
-
---Vejam vocs, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias,
-almas de lees, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo n'este
-desgraado paiz!... Foi-se a faisca, foi-se a paixo... Affonso da Maia!
-Parece que o estou a vr, janella do palacio em Bemfica, com a sua
-grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora... E
-l vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba, at se me faz a alma
-negra!
-
-Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac.
-
-Ega, depois de beber um gole de caf, voltra ao escriptorio, onde o
-cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de capella. D. Diogo, estirado
-no sof, resonava; Sequeira defronte dormitava tambem, descahido sobre
-os braos cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve.
-Os dois velhos amigos, depois d'um abrao a Carlos, partiram na mesma
-carruagem, com os charutos accsos. Os outros, pouco a pouco, iam tambem
-abraar Carlos, enfiavam os paletots. O ultimo a sahir foi Alencar, que,
-no pateo, beijou o Ega, n'um impulso d'emoo, lamentando ainda o
-passado, os companheiros desapparecidos:
-
---O que me vale agora so vocs, rapazes, a gente nova. No me deitem
-margem! Seno, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao
-cemiterio. Adeus, no apanhes frio!
-
-O enterro foi ao outro dia, uma hora. O Ega, o marquez, o Craft, o
-Sequeira levaram o caixo at porta, seguidos pelo grupo d'amigos,
-onde destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O
-conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na mo uma cora de
-violetas. Na calada estreita os trens apertavam-se, n'uma longa fila
-que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as
-janellas do bairro se apinhava gente: os policias berravam com os
-cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas
-carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos vos
-de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os trens da Companhia
-com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a
-friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coup. O
-correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a
-rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o porto do
-Ramalhete.
-
-Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando
-papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava
-uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava as
-mos, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o
-_fumoir_ onde havia lume.
-
-Apenas l entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega:
-
---Tens duvida em lhe ir fallar, a ella?
-
---No. Para que?... Para lhe dizer o que?
-
---Tudo.
-
-Ega rolou uma poltrona para junto da chamin, despertou as brazas. E
-Carlos, ao lado, proseguiu devagar, olhando o lume:
-
---Alm d'isso, desejo que ella parta, que parta j para Paris... Seria
-absurdo ficar em Lisboa... Emquanto se no liquidar o que lhe pertence,
-ha-de-se-lhe estabelecer uma mezada, uma larga mezada... Villaa vem
-d'aqui a bocado para fallar d'esses detalhes... Em todo o caso, manh,
-para ella partir, levas-lhe quinhentas libras.
-
-Ega murmurou:
-
---Talvez para essas questes de dinheiro fosse melhor ir l o Villaa...
-
---No, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer crar a pobre creatura
-diante do Villaa?...
-
-Houve um silencio. Ambos olhavam a chamma clara que bailava.
-
---Custa-te muito, no verdade, meu pobre Ega?...
-
---No... Comeo a estar embotado. fechar os olhos, tragar mais essa m
-hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia?
-
-Carlos no sabia. Contava que Ega, terminada essa misso rua de S.
-Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com elle a Santa Olavia. Mais
-tarde era necessario trasladar para l o corpo do av...
-
---E passado isso, vou viajar... Vou America, vou ao Japo, vou fazer
-esta coisa estupida e sempre efficaz que se chama _distrahir_...
-
-Encolheu os hombros, foi devagar at janella, onde morria pallidamente
-um raio de sol na tarde que clarera. Depois voltando para o Ega, que de
-novo remexia os carves:
-
---Eu, est claro, no me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava
-bem, mas no me atrevo!
-
-Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braos para Carlos,
-commovido:
-
---Atreve, que diabo... Porque no?
-
---Ento vem!
-
-Carlos puzera n'isto toda a sua alma. E ao abraar o Ega corriam-lhe na
-face duas grandes lagrimas.
-
-Ento Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma
-romagem quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar
-mi algumas letras de credito... E como Carlos pretendia ter bastante
-para o luxo d'ambos, Ega atalhou muito srio:
-
---No, no! Minha mi tambem rica. Uma viagem America e ao Japo so
-frmas de educao. E a mam tem o dever de completar a minha educao.
-O que acceito, sim, uma das tuas malas de couro...
-
-Quando n'essa noite, acompanhados pelo Villaa, Carlos e Ega chegaram
-estao de Santa Apolonia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de
-saltar para o seu compartimento reservado--emquanto o Baptista, abraado
-s mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se iava desesperadamente
-para outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O
-trem immediatamente rolou. Carlos debruou-se portinhola, gritando ao
-Ega:--Manda um telegramma manh a dizer o que houve!
-
-Recolhendo ao Ramalhete com o Villaa, que ia n'essa noite colligir e
-sellar os papeis de Affonso da Maia, Ega fallou logo nas quinhentas
-libras que elle devia entregar na manh seguinte a Maria Eduarda.
-Villaa recebera com effeito essa ordem de Carlos. Mas francamente,
-entre amigos, no lhe parecia excessiva a somma, para uma jornada? Alm
-d'isso Carlos fallra em estabelecer a essa senhora uma mezada de quatro
-mil francos, cento e sessenta libras! No achava tambem exagerado? Para
-uma mulher, uma simples mulher...
-
-Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais...
-
---Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem
-ainda de ser muito estudado. No fallemos n'isso. Eu nem gsto de fallar
-d'isso!...
-
-Depois como Ega alludia fortuna que deixava Affonso da Maia--Villaa
-deu detalhes. Era decerto uma das boas casas de Portugal. S o que viera
-da herana de Sebastio da Maia, representava bem quinze contos de
-renda. As propriedades do Alemtejo, com os trabalhos que l fizera o pai
-d'elle Villaa, tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma
-despeza. Mas as quintas ao p de Lamego, um condado.
-
---Ha muito dinheiro! exclamou elle com satisfao, batendo no joelho do
-Ega. E isto, amigo, digam l o que disserem, sempre consola de tudo.
-
---Consola de muito, com effeito.
-
-Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar
-feliz e amavel que alli houvera e que para sempre se apagra. Na
-ante-camara, os seus passos j lhe pareceram soar tristemente como os
-que se do n'uma casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso
-e de phenol. No lustre do corredor havia uma luz s e dormente.
-
---J anda aqui um ar de ruina, Villaa.
-
---Ruinasinha bem confortavel, todavia! murmurou o procurador dando um
-olhar s tapearias e aos divans, e esfregando as mos, arrepiado da
-friagem da noite.
-
-Entraram no escriptorio de Affonso, onde durante um momento se ficaram
-aquecendo ao lume. O relogio Luiz XV bateu finalmente as nove
-horas--depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e
-morreu. Villaa preparou-se para comear a sua tarefa. Ega declarou que
-ia para o quarto arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final
-de dois annos de mocidade...
-
-Subiu. E pousra apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu ao fundo,
-no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d'uma tristeza
-infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo arrastava-se,
-gemia no escuro, para o lado dos aposentos d'Affonso da Maia. Por fim,
-reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de
-luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castial na mo
-tremula.
-
-Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d'Affonso,
-arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraou-o,
-furioso. O pobre Bonifacio fugiu, obeso e lento, com a cauda ffa a
-roar o cho: mas voltou logo, e esgatanhando a porta, roando-se pelas
-pernas do Ega, recomeou a miar, n'um lamento agudo, saudoso como o
-d'uma dr humana, chorando o dono perdido que o acariciava no collo e
-que no tornra a apparecer.
-
-Ega correu ao escriptorio a pedir ao Villaa que dormisse essa noite no
-Ramalhete. O procurador accedeu, impressionado com aquelle horror do
-gato a chorar. Deixra o monto de papeis sobre a mesa, voltra a
-aquecer os ps ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se
-sentra, ainda todo pallido, no sof bordado a matiz, antigo logar de D.
-Diogo, murmurou devagar, gravemente:
-
---Ha tres annos, quando o snr. Affonso me encommendou aqui as primeiras
-obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes
-aos Maias as paredes do Ramalhete. O snr. Affonso da Maia riu d'agouros
-e lendas... Pois fataes foram!
-
-
-
-No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e
-libras que Villaa lhe entregra porta do Banco de Portugal, Ega, com
-o corao aos pulos, mas decidido a ser forte, a affrontar a crise
-serenamente, subia ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos,
-de gravata preta, movendo-se em pontas de ps, abriu o reposteiro da
-sala. E Ega pousra apenas sobre o sof a velha caixa de charutos da
-Monforte--quando Maria Eduarda entrou, pallida, toda coberta de negro,
-estendendo-lhe as mos ambas.
-
---Ento Carlos?
-
-Ega balbuciou:
-
---Como v. exc.^a pde imaginar, n'um momento d'estes... Foi horrivel,
-assim de surpreza...
-
-Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ella no conhecia o snr.
-Affonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas soffria realmente por
-sentir bem o soffrimento de Carlos... O que aquelle rapaz estremecia o
-av!
-
---Foi de repente, no?
-
-Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a cora que ella mandra.
-Contou os gemidos, a afflico do pobre Bonifacio...
-
---E Carlos? repetiu ella.
-
---Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora.
-
-Ella apertou as mos, n'uma surpreza que a acabrunhava. Para Santa
-Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empallidecia-a
-mais, diante d'aquella partida to arrebatada, quasi parecida com um
-abandono. Terminou por murmurar, com um ar de resignao e de confiana
-que no sentia:
-
---Sim, com effeito, n'este momento no se pensa nos outros...
-
-Duas lagrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante d'esta dr, to
-humilde e to muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os
-dedos tremulos no bigode, viu Maria chorar em silencio. Por fim
-ergueu-se, foi janella, voltou, abriu os braos diante d'ella n'uma
-afflico:
-
---No, no isso, minha querida senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra
-coisa! Tem sido para ns dias terriveis! Tem sido dias d'angustia...
-
-Outra coisa!?... Ella esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma
-toda suspensa.
-
-Ega respirou fortemente:
-
---V. exc.^a lembra-se d'um Guimares, que vive em Paris, um tio do
-Damaso?
-
-Maria, espantada, moveu lentamente a cabea.
-
---Esse Guimares era muito conhecido da mi de v. exc.^a, no verdade?
-
-Ella teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava
-ainda, com a face arrepanhada e branca, n'um embarao que o dilacerava:
-
---Eu fallo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu...
-Deus sabe o que me custa!... E horrivel, nem sei por onde hei de
-comear...
-
-Ella juntou as mos, n'uma supplica, n'uma angustia:
-
---Pelo amor de Deus!
-
-E n'esse instante, muito socegadamente, Rosa erguia uma ponta do
-reposteiro, com _Niniche_ ao lado e a sua boneca nos braos. A mi teve
-um grito impaciente:
-
---Vai l p'ra dentro! deixa-me!
-
-Assustada, a pequena no se moveu mais, com os lindos olhos de repente
-cheios de agua. O reposteiro cahiu, do fundo do corredor veio um grande
-chro magoado.
-
-Ento Ega teve s um desejo, o desesperado desejo de findar.
-
---V. exc.^a conhece a letra de sua mi, no verdade?... Pois bem! Eu
-trago aqui uma declarao d'ella a seu respeito... Esse Guimares que
-tinha este documento, com outros papeis que ella lhe entregou em 71, nas
-vesperas da guerra... Elle conservou-os at agora, e queria
-restituir-lh'os, mas no sabia onde v. exc.^a vivia. Viu-a ha dias n'uma
-carruagem, commigo, e com o Carlos... Foi ao p do Aterro, v. exc.^a
-deve lembrar-se, defronte do alfaiate, quando vinhamos da _Toca_... Pois
-bem! o Guimares veio immediatamente ao procurador dos Maias, deu-lhe
-esses papeis, para que os entregasse a v. exc.^a... E nas primeiras
-palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se entreviu que
-v. exc.^a era parenta de Carlos, e parenta muito chegada...
-
-Atabalhora esta historia de p, quasi d'um flego, com bruscos gestos
-de nervoso. Ella mal comprehendia, livida, n'um indefinido terror. S
-pde murmurar muito debilmente: Mas... E de novo emmudeceu,
-assombrada, devorando os movimentos do Ega que, debruado sobre o sof,
-desembrulhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por fim voltou
-para ella com um papel na mo, atropellando as palavras n'uma debandada:
-
---A mi de v. exc.^a nunca lh'o disse... Havia um motivo muito grave...
-Ella tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim
-brutalmente, perde-me v. exc.^a, mas no o momento de attenuar as
-coisas... Aqui est! V. exc.^a conhece a letra de sua mi. d'ella esta
-letra, no verdade?
-
---! exclamou Maria, indo arrebatar o papel.
-
---Perdo! gritou Ega, retirando-lh'o violentamente. Eu sou um estranho!
-E v. exc.^a no se pde inteirar de tudo isto emquanto eu no sahir
-d'aqui.
-
-Fra uma inspirao providencial, que o salvava de testemunhar o choque
-terrivel, o horror das coisas que ella ia saber. E insistiu. Deixava-lhe
-alli todos os papeis que eram de sua mi. Ella lera, quando elle
-sahisse, comprehenderia a realidade atroz... Depois, tirando do bolso os
-dois pesados rlos de libras, o sobrescripto que continha a letra sobre
-Paris, pz tudo em cima da mesa, com a declarao da Monforte.
-
---Agora s mais duas palavras. Carlos pensa que o que v. exc.^a deve
-fazer j partir para Paris. V. exc.^a tem direito, como sua filha ha
-de ter, a uma parte da fortuna d'esta familia dos Maias, que agora a
-sua... N'este masso que lhe deixo est uma letra sobre Paris para as
-despezas immediatas... O procurador de Carlos tomou j um wagon-salo.
-Quando v. exc.^a decidir partir, peo-lhe que mande um recado ao
-Ramalhete para eu estar na _gare_... Creio que tudo. E agora devo
-deixal-a...
-
-Agarrra rapidamente o chapo, veio tomar-lhe a mo inerte e fria:
-
---Tudo uma fatalidade! V. exc.^a nova, ainda lhe resta muita coisa
-na vida, tem a sua filha a consolal-a de tudo... Nem lhe sei dizer mais
-nada!
-
-Suffocado, beijou-lhe a mo que ella lhe abandonou, sem consciencia e
-sem voz, de p, direita no seu negro luto, com a lividez parada d'um
-marmore. E fugiu.
-
---Ao telegrapho! gritou em baixo ao cocheiro.
-
-Foi s na rua do Ouro que comeou a serenar, tirando o chapo,
-respirando largamente. E ia ento repetindo a si mesmo todas as
-consolaes que se poderiam dar a Maria Eduarda: era nova e formosa; o
-seu peccado fra inconsciente; o tempo acalma toda a dr; e em breve, j
-resignada, encontrar-se-hia com uma familia sria, uma larga fortuna,
-n'esse amavel Paris, onde uns lindos olhos, com algumas notas de mil
-francos, tm sempre um reinado seguro...
-
--- uma situao de viuva bonita e rica, terminou elle por dizer alto no
-coup. Ha peor na vida.
-
-Ao sahir do telegrapho despediu a tipoia. Por aquella luz consoladora do
-dia de inverno, recolheu a p para o Ramalhete, a escrever a longa carta
-que promettera a Carlos. Villaa j l estava installado, com um bon de
-velludilho na cabea, emmassando ainda os papeis de Affonso, liquidando
-as contas dos criados. Jantaram tarde. E fumavam junto do lume, na sala
-Luiz XV, quando o escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, n'uma
-carruagem, procurava o snr. Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria,
-alguma resoluo desesperada. Villaa ainda teve a esperana d'ella
-trazer alguma nova revelao, que tudo mudasse, salvasse da bolada...
-Ega desceu a tremer. Era Melanie n'uma tipoia de praa, abafada n'uma
-grande _ulster_, com uma carta de Madame.
-
- luz da lanterna Ega abriu o enveloppe, que trazia apenas um carto
-branco, com estas palavras a lapis: Decidi partir manh para Paris.
-
-Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo
-as escadas: e seguido de Villaa, que ficra na ante-camara espreita,
-correu ao escriptorio d'Affonso, a escrever a Maria. N'um papel tarjado
-de luto dizia-lhe (alm de detalhes sobre bagagens)--que o wagon-salo
-estava tomado at Paris, e que elle teria a honra de a vr em Santa
-Apolonia. Depois, ao fazer o sobrescripto, ficou com a penna no ar, n'um
-embarao. Devia pr Madame Mac-Gren ou D. Maria Eduarda da Maia?
-Villaa achava preferivel o antigo nome, porque ella legalmente ainda
-no era Maia. Mas, dizia o Ega atrapalhado, tambem j no era
-Mac-Gren...
-
---Acabou-se! Vae sem nome. Imagina-se que foi esquecimento...
-
-Levou assim a carta, dentro do sobrescripto em branco. Melanie guardou-a
-no regalo. E, debruada portinhola, entristecendo a voz, desejou
-saber, da parte de Madame, onde estava enterrado o av do senhor...
-
-Ega ficou com o monoculo sobre ella, sem sentir bem se aquella
-curiosidade de Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma
-indicao. Era nos Prazeres, direita, ao fundo, onde havia um anjo com
-uma tocha. O melhor seria perguntar ao guarda pelo jazigo dos snrs.
-Villaas.
-
---Merci, monsieur, bien le bonsoir.
-
---Bonsoir, Melanie!
-
-No dia seguinte, na estao de Santa Apolonia, Ega, que viera cedo com o
-Villaa, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou
-Maria que entrava trazendo Rosa pela mo. Vinha toda envolta n'uma
-grande pellia escura, com um vo dobrado, espesso como uma mascara: e a
-mesma gaze de luto escondia o rostosinho da pequena, fazendo-lhe um lao
-sobre a touca. Miss Sarah, n'uma _ulster_ clara de quadrados, sobraava
-um masso de livros. Atraz o Domingos, com os olhos muito vermelhos,
-segurava um rlo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto que
-levava _Niniche_ ao collo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a
-pelo brao, em silencio, ao wagon-salo que tinha todas as cortinas
-cerradas. Junto do estribo ella tirou devagar a luva. E muda,
-estendeu-lhe a mo.
-
---Ainda nos vemos no Entroncamento, murmurou Ega. Eu sigo tambem para o
-Norte.
-
-Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao vr sumir-se n'aquella
-carruagem de luxo, fechada, mysteriosa, uma senhora que parecia to
-bella, d'ar to triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a
-portinhola, o Neves, o da _Tarde_ e do Tribunal de Contas, rompeu
-d'entre um rancho, arrebatou-lhe o brao com sofreguido:
-
---Quem ?
-
-Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cahir no ouvido, j
-muito adiante, tragicamente:
-
---Cleopatra!
-
-O politico, furioso, ficou rosnando: Que asno!... Ega abalra. Junto
-do seu compartimento Villaa esperava, ainda deslumbrado com aquella
-figura de Maria Eduarda, to melancolica e nobre. Nunca a vira antes. E
-parecia-lhe uma rainha de romance.
-
---Acredite o amigo, fez-me impresso! Caramba, bella mulher! D-nos uma
-bolada, mas uma soberba praa!
-
-O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um leno de cres
-sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda
-furioso, vendo o Ega portinhola, atirou-lhe de lado, disfaradamente,
-um gesto obsceno.
-
-No Entroncamento Ega veio bater nos vidros do salo que se conservava
-fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sarah lia a um
-canto, com a cabea n'uma almofada. E _Niniche_ assustada ladrou.
-
---Quer tomar alguma coisa, minha senhora?
-
---No, obrigada...
-
-Ficaram calados, emquanto Ega com o p no estribo tirava lentamente a
-charuteira. Na estao mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados
-em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a machina
-resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salo, com
-olhares curiosos e j languidos para aquella magnifica mulher, to grave
-e sombria, envolta na sua pellia negra.
-
---Vai para o Porto? murmurou ella.
-
---Para Santa Olavia...
-
---Ah!
-
-Ento Ega balbuciou com os beios a tremer:
-
---Adeus!
-
-Ella apertou-lhe a mo com muita fora, em silencio, suffocada.
-
-Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a
-tiracollo que corriam a beber cantina. porta do buffete voltou-se
-ainda, ergueu o chapo. Ella, de p, moveu de leve o brao n'um lento
-adeus. E foi assim que elle pela derradeira vez na vida viu Maria
-Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, portinhola d'aquelle
-wagon que para sempre a levava.
-
-
-
-
-VIII
-
-
-Semanas depois, nos primeiros dias d'anno novo, a _Gazeta Illustrada_
-trazia na sua columna do _High-life_ esta noticia: O distincto e
-brilhante _sportman_, o snr. Carlos da Maia, e o nosso amigo e
-collaborador Joo da Ega, partiram hontem para Londres, d'onde seguiro
-em breve para a America do Norte, devendo d'ahi prolongar a sua
-interessante viagem at ao Japo. Numerosos amigos foram a bordo do
-_Tamar_ despedir-se dos sympathicos _touristes_. Vimos entre outros os
-snrs, ministro da Filandia e seu secretario, o marquez de Souzella,
-conde de Gouvarinho, visconde de Darque, Guilherme Craft, Telles da
-Gama, Cruges, Taveira, Villaa, general Sequeira, o glorioso poeta
-Thomaz d'Alencar, etc. etc. O nosso amigo e collaborador Joo da Ega
-fez-nos, no ultimo _shake-hands_, a promessa de nos mandar algumas
-cartas com as suas impresses do Japo, esse delicioso paiz d'onde nos
-vem o sol e a moda! uma boa nova para todos os que prezam a observao
-e o espirito. _Au revoir!_
-
-Depois d'estas linhas affectuosas (em que o Alencar collaborra) as
-primeiras noticias dos viajantes vieram, n'uma carta do Ega para o
-Villaa, de New-York. Era curta, toda de negocios. Mas elle ajuntava um
-_post-scriptum_ com o titulo de _Informaes geraes para os amigos_.
-Contava ahi a medonha travessia desde Liverpool, a persistente tristeza
-de Carlos, e New-York coberta de neve sob um sol rutilante. E
-acrescentava ainda: Est-se apossando de ns a embriaguez das viagens,
-decididos a trilhar este estreito Universo at que _cancem as nossas
-tristezas_. Planeamos ir a Pekin, passar a Grande Muralha, atravessar a
-Asia Central, o oasis de Merv, Khiva, e penetrar na Russia; d'ahi, pela
-Armenia e pela Syria, descer ao Egypto a retemperar-nos no sagrado Nilo;
-subir depois a Athenas, lanar sobre a Acropole uma saudao a Minerva;
-passar a Napoles; dar um olhar a Argelia e a Marrocos; e cahir emfim ao
-comprido em Santa Olavia l para os meados de 79 a descanar os membros
-fatigados. No escrevinho mais porque tarde, e vamos Opera vr a
-Patti no _Barbeiro_. Larga distribuio d'abraos a todos os amigos
-queridos
-
-Villaa copiou este paragrapho, e trazia-o na carteira para mostrar aos
-fieis amigos do Ramalhete. Todos approvaram, com admirao, to bellas,
-aventurosas jornadas. S Cruges, aterrado com aquella vastido do
-Universo, murmurou tristemente: No voltam c!
-
-Mas, passado anno e meio, n'um lindo dia de maro, Ega reappareceu no
-Chiado. E foi uma sensao! Vinha esplendido, mais forte, mais
-trigueiro, soberbo de _verve_, n'um alto apuro de toilette, cheio de
-historias e de aventuras do Oriente, no tolerando nada em arte ou
-poesia que no fosse do Japo ou da China, e annunciando um grande
-livro, o seu livro, sob este titulo grave de chronica
-heroica--_Jornadas da Asia_.
-
---E Carlos?...
-
---Magnifico! Installado em Paris, n'um delicioso appartamento dos
-Campos-Elyseos, fazendo a vida larga d'um principe artista da
-Renascena...
-
-Ao Villaa porm, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos ficra
-ainda _abalado_. Vivia, ria, governava o seu phaeton no Bois--mas l no
-fundo do seu corao permanecia, pesada e negra, a memoria da semana
-terrivel.
-
---Todavia os annos vo passando, Villaa, acrescentou elle. E com os
-annos, a no ser a China, tudo na terra passa...
-
-E esse anno passou. Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram,
-arvoredos murcharam. Outros annos passaram.
-
-
-
-Nos fins de 1886, Carlos veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa
-d'um amigo seu de Paris, o marquez de Villa-Medina. E d'essa propriedade
-dos Villa-Medina, chamada _La Soledad_, escreveu para Lisboa ao Ega
-annunciando que--depois d'um exilio de quasi dez annos, resolvera vir ao
-velho Portugal vr as arvores de Santa Olavia e as maravilhas da
-Avenida. De resto tinha uma formidavel nova, que assombraria o bom Ega:
-e se elle j ardia em curiosidade, que viesse ao seu encontro com o
-Villaa, comer o porco a Santa Olavia.
-
---Vae casar! pensou Ega.
-
-Havia tres annos (desde a sua ultima estada em Paris) que elle no via
-Carlos. Infelizmente no pde correr a Santa Olavia, retido n'um quarto
-do _Braganza_ com uma angina, desde uma ceia prodigiosamente divertida
-com que celebrra no Silva a noite de Reis. Villaa, porm, levou a
-Carlos para Santa Olavia uma carta em que o Ega, contando a sua angina,
-lhe supplicava que se no retardasse com o porco n'esses penhascos do
-Douro, e que voasse grande Capital a trazer a grande nova.
-
-Com effeito, Carlos pouco se demorou em Rezende. E n'uma luminosa e
-macia manh de janeiro de 1887, os dois amigos emfim juntos almoavam
-n'um salo do _Hotel Braganza_, com as duas janellas abertas para o rio.
-
-Ega, j curado, radiante, n'uma excitao que no se calmava,
-alagando-se de caf, entalava a cada instante o monoculo para admirar
-Carlos e a sua immutabilidade.
-
---Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso
-Paris, menino!... Lisboa arraza. Olha para mim, olha para isto!
-
-Com o dedo magro apontava os dois vincos fundos ao lado do nariz, na
-face chupada. E o que o aterrava sobretudo era a calva, uma calva que
-comera havia dois annos, alastrra, j reluzia no alto.
-
---Olha este horror! A sciencia para tudo acha um remedio, menos para a
-calva! Transformam-se as civilisaes, a calva fica!... J tem tons de
-bola de bilhar, no verdade?... De que ser?
-
--- a ociosidade, lembrou Carlos rindo.
-
---A ociosidade!... E tu, ento?
-
-De resto, que podia elle fazer n'este paiz?... Quando voltra de Frana,
-ultimamente, pensra em entrar na diplomacia. Para isso sempre tivera a
-_blague_: e agora que a mam, coitada, l estava no seu grande jazigo em
-Celorico, tinha a _massa_. Mas depois reflectira. Por fim, em que
-consistia a diplomacia portugueza? N'uma outra frma da ociosidade,
-passada no estrangeiro, com o sentimento constante da propria
-insignificancia. Antes o Chiado!
-
-E como Carlos lembrava a Politica, occupao dos inuteis, Ega trovejou.
-A politica! Isso tornra-se moralmente e physicamente nojento, desde que
-o negocio atacra o constitucionalismo como uma phylloxera! Os politicos
-hoje eram bonecos de engonos, que faziam gestos e tomavam attitudes
-porque dois ou tres financeiros por traz lhes puxavam pelos cordeis...
-Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas
-qual! Ahi que estava o horror. No tinham feitio, no tinham maneiras,
-no se lavavam, no limpavam as unhas... Coisa extraordinaria, que em
-paiz algum succedia, nem na Romelia, nem na Bulgaria! Os tres ou quatro
-sales que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem fr, largamente,
-excluem a maioria dos politicos. E porque? Porque as _senhoras tm
-njo_!
-
---Olha o Gouvarinho! V l se elle recebe s teras-feiras os seus
-correligionarios...
-
-Carlos que sorria, encantado com aquella veia acerba do Ega, saltou na
-cadeira:
-
--- verdade, e a Gouvarinho, a nossa boa Gouvarinho?
-
-Ega, passeando pela sala, deu as novas dos Gouvarinhos. A condessa
-herdra uns sessenta contos de uma tia excentrica que vivia a Santa
-Isabel, tinha agora melhores carruagens, recebia sempre s
-teras-feiras. Mas soffria uma doena qualquer, grave, no figado ou no
-pulmo. Ainda elegante todavia, muito sria, uma terrivel flr de
-_pruderie_... Elle, o Gouvarinho, ahi continuava, palrador,
-escrevinhador, politicote, impertigadote, j grisalho, duas vezes
-ministro, e coberto de gran-cruzes...
-
---Tu no os viste em Paris, ultimamente?
-
---No. Quando soube fui-lhes deixar bilhetes, mas tinham partido na
-vespera para Vichy...
-
-A porta abriu-se, um brado cavo resoou:
-
---At que emfim, meu rapaz!
-
---Oh Alencar! gritou Carlos, atirando o charuto.
-
-E foi um infinito abrao, com palmadas arrebatadas pelos hombros, e um
-beijo ruidoso--o beijo paternal do Alencar, que tremia, commovido. Ega
-arrastra uma cadeira, berrava pelo escudeiro:
-
---Que tomas tu, Thomaz? Cognac? Curao? Em todo o caso caf! Mais caf!
-Muito forte, para o snr. Alencar!
-
-O poeta, no emtanto, abysmado na contemplao de Carlos, agarrra-o
-pelas mos, com um sorriso largo, que lhe descobria os dentes mais
-estragados. Achava-o magnifico, varo soberbo, honra da raa... Ah!
-Paris, com o seu espirito, a sua vida ardente, conserva...
-
---E Lisboa arraza! acudiu Ega. J c tive essa phrase. V, abanca, ahi
-tens o cafsinho e a bebida!
-
-Mas Carlos agora tambem contemplava o Alencar. E parecia-lhe mais
-bonito, mais poetico, com a sua grenha inspirada e toda branca, e
-aquellas rugas fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela
-tumultuosa passagem das emoes...
-
---Ests typico, Alencar! Ests a preceito para a gravura e para a
-estatua!...
-
-O poeta sorria, passando os dedos com complacencia pelos longos bigodes
-romanticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarellra. Que diabo,
-algumas compensaes havia de ter a velhice!... Em todo o caso o
-estomago no era mau, e conservava-se, caramba, filhos, um bocado de
-corao.
-
---O que no impede, meu Carlos, que isto por c esteja cada vez peor!
-Mas acabou-se... A gente queixa-se sempre do seu paiz, habito humano.
-J Horacio se queixava. E vocs, intelligencias superiores, sabeis bem,
-filhos, que no tempo de Augusto... Sem fallar, claro, na quda da
-republica, n'aquelle desabamento das velhas instituies... Emfim
-deixemos l os Romanos! Que est alli n'aquella garrafa? Chablis... No
-desgosto, no outono, com as ostras. Pois v l o Chablis. E tua
-chegada, meu Carlos! e tua, meu Joo, e que Deus vos d as glorias que
-mereceis, meus rapazes!...
-
-Bebeu. Rosnou: bom Chablis, _bouquet_ fino. E acabou por abancar,
-ruidosamente, sacudindo para traz a juba branca.
-
---Este Thomaz! exclamava Ega, pousando-lhe a mo no hombro com carinho.
-No ha outro, unico! O bom Deus fel-o n'um dia de grande _verve_, e
-depois quebrou a frma.
-
-Ora, historias! murmurava o poeta radiante. Havia-os to bons como elle.
-A humanidade viera toda do mesmo barro como pretendia a Biblia--ou do
-mesmo macaco como affirmava o Darwin...
-
---Que, l essas coisas d'evoluo, origem das especies, desenvolvimento
-da cellula, c para mim... Est claro, o Darwin, o Lamarck, o Spencer, o
-Claudio Bernard, o Littr, tudo isso, gente de primeira ordem. Mas
-acabou-se, irra! Ha uns poucos de mil annos que o homem prova
-sublimemente que tem alma!
-
---Toma o cafsinho, Thomaz! aconselhou o Ega, empurrando-lhe a chavena.
-Toma o cafsinho!
-
---Obrigado!... E verdade, Joo, l dei a tua boneca pequena. Comeou
-logo a beijal-a, a embalal-a, com aquelle profundo instincto de mi,
-aquelle _quid_ divino... uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem
-mi, coitadinha, l a tenho, l vou tratando de fazer d'ella uma
-mulher... Has de vl-a. Quero que vocs l vo jantar um dia, para vos
-dar umas perdizes hespanhola... Tu demoras-te, Carlos?
-
---Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da patria.
-
---Tens razo, meu rapaz! exclamou o poeta, puxando a garrafa do cognac.
-Isto ainda no to mau como se diz... Olha tu para isso, para esse
-co, para esse rio, homem!
-
---Com effeito encantador!
-
-Todos tres, durante um momento, pasmaram para a incomparavel belleza do
-rio, vasto, lustroso, sereno, to azul como o co, esplendidamente
-coberto de sol.
-
---E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta.
-Abandonaste a lingua divina?
-
-Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia j a lingua divina? O
-novo Portugal s comprehendia a lingua da libra, da massa. Agora,
-filho, tudo eram syndicatos!
-
---Mas ainda s vezes me passa uma coisa c por dentro, o velho homem
-estremece... Tu no viste nos jornaes?... Est claro, no ls c esses
-trapos que por ahi chamam gazetas... Pois veio ahi uma coisita, dedicada
-aqui ao Joo. Ora eu t'a digo se me lembrar...
-
-Correu a mo aberta pela face escaveirada, lanou a estrophe n'um tom de
-lamento:
-
-
- Luz d'esperana, luz d'amor,
- Que vento vos desfolhou?
- Que a alma que vos seguia
- Nunca mais vos encontrou!
-
-
-Carlos murmurou: Lindo! Ega murmurou: Muito fino! E o poeta,
-aquecendo, j commovido, esboou um movimento d'aza que foge:
-
-
- Minh'alma em tempos d'outr'ora,
- Quando nascia o luar,
- Como um rouxinol que acorda
- Punha-se logo a cantar.
-
- Pensamentos eram flres,
- Que a aragem lenta de Maio...
-
-
---O snr. Cruges! annunciou o criado, entreabrindo a porta.
-
-Carlos ergueu os braos. E o maestro, todo abotoado n'um paletot claro,
-abandonou-se effuso de Carlos, balbuciando:
-
---Eu s hontem que soube. Queria-te ir esperar, mas no me
-acordaram...
-
---Ento contina o mesmo desleixo? exclamava Carlos, alegremente. Nunca
-te acordam?
-
-Cruges encolhia os hombros, muito vermelho, acanhado, depois d'aquella
-longa separao. E foi Carlos que o obrigou a sentar-se ao lado,
-enternecido com o seu velho maestro, sempre esguio, com o nariz mais
-agudo, a grenha cahindo mais crespa sobre a gola do paletot.
-
---E deixa-me dar-te os parabens! L soube pelos jornaes, o triumpho, a
-linda opera-comica, a _Flr de Sevilha_...
-
---_De Granada_! acudiu o maestro. Sim, uma coisita para ahi, no
-desgostaram.
-
---Uma belleza! gritou Alencar, enchendo outro copo de cognac. Uma musica
-toda do sul, cheia de luz, cheirando a laranjeira... Mas j lhe tenho
-dito: Deixa l a opereta, rapaz, va mais alto, faze uma grande
-symphonia historica! Ainda ha dias lhe dei uma ida. A partida de D.
-Sebastio para a Africa. Cantos de marinheiros, atabales, o chro do
-povo, as ondas batendo... Sublime! Qual, pe-se-me l com castanholas...
-Emfim, acabou-se, tem muito talento, e como se fosse meu filho porque
-me sujou muita cala!...
-
-Mas o maestro, inquieto, passava os dedos pela grenha. Por fim confessou
-a Carlos que no se podia demorar, tinha um _rendez-vous_...
-
---D'amor?
-
---No... o Barradas que me anda a tirar o retrato a oleo.
-
---Com a lyra na mo?
-
---No, respondeu o maestro, muito srio. Com a batuta... E estou de
-casaca.
-
-E desabotoou o paletot, mostrou-se em todo o seu esplendor, com dois
-coraes no peitilho da camisa, e a batuta de marfim mettida na abertura
-do collete.
-
---Ests magnifico! affirmou Carlos. Ento outra coisa, vem c jantar
-logo. Alencar, tu tambem, hein? Quero ouvir esses bellos versos com
-socego... s seis, em ponto, sem falhar. Tenho um jantarinho
-portugueza que encommendei de manh, com cozido, arroz de forno, gro de
-bico, etc., para matar saudades...
-
-Alencar lanou um gesto immenso de desdem. Nunca o cozinheiro do
-_Braganza_, francelhote miseravel, estaria altura d'esses nobres
-petiscos do velho Portugal. Emfim acabou-se. Seria pontual s seis para
-uma grande saude ao seu Carlos!
-
---Vocs vo sahir, rapazes?
-
-Carlos e Ega iam ao Ramalhete visitar o casaro.
-
-O poeta declarou logo que isso era romagem sagrada. Ento elle partia
-com o maestro. O seu caminho ficava tambem para o lado do Barradas...
-Moo de talento, esse Barradas!... Um pouco pardo de cr, tudo por
-acabar, esborratado, mas uma bella ponta de faisca.
-
---E teve uma tia, filhos, a Leonor Barradas! Que olhos, que corpo! E no
-era s o corpo! Era a alma, a poesia, o sacrificio!... J no ha d'isso,
-j l vai tudo. Emfim, acabou-se, s seis!
-
---s seis, em ponto, sem falhar!
-
-Alencar e o maestro partiram, depois de se munirem de charutos. E d'ahi
-a pouco Carlos e Ega seguiam tambem pela rua do Thesouro Velho, de brao
-dado, muito lentamente.
-
-Iam conversando de Paris, de rapazes e de mulheres que o Ega conhecra,
-havia quatro annos, quando l passra um to alegre inverno nos
-appartamentos de Carlos. E a surpreza do Ega, a cada nome evocado, era o
-curto brilho, o fim brusco de toda essa mocidade estouvada. A Lucy Gray,
-morta. A Conrad, morta... E a Maria Blond? Gorda, emburguezada, casada
-com um fabricante de velas de estearina. O polaco, o louro? Fugido,
-desapparecido. Mr. de Menant, esse D. Juan? Sub-prefeito no departamento
-do Doubs. E o rapaz que morava ao lado, o belga? Arruinado na Bolsa... E
-outros ainda, mortos, sumidos, afundados no lodo de Paris!
-
---Pois tudo sommado, menino, observou Ega, esta nossa vidinha de Lisboa,
-simples, pacata, corredia, infinitamente preferivel.
-
-Estavam no Loreto; e Carlos parra, olhando, reentrando na intimidade
-d'aquelle velho corao da capital. Nada mudra. A mesma sentinella
-somnolenta rondava em torno estatua triste de Cames. Os mesmos
-reposteiros vermelhos, com brazes ecclesiasticos, pendiam nas portas
-das duas igrejas. O _Hotel Alliance_ conservava o mesmo ar mudo e
-deserto. Um lindo sol dourava o lagedo; batedores de chapo faia
-fustigavam as pilecas; tres varinas, de canastra cabea, meneavam os
-quadris, fortes e ageis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos
-fumavam; e na esquina defronte na Havaneza, fumavam tambem outros
-vadios, de sobrecasaca, politicando.
-
---Isto horrivel quando se vem de fra! exclamou Carlos. No a
-cidade, a gente. Uma gente feiissima, encardida, mollenga, reles,
-amarellada, acabrunhada!...
-
---Todavia Lisboa faz differena, affirmou Ega, muito srio. Oh, faz
-muita differena! Has de vr a Avenida... Antes do Ramalhete vamos dar
-uma volta Avenida.
-
-Foram descendo o Chiado. Do outro lado os toldos das lojas estendiam no
-cho uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados s
-mesmas portas, sujeitos que l deixra havia dez annos, j assim
-encostados, j assim melancolicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas l
-estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas humbreiras, com
-collarinhos moda. Depois, diante da livraria Bertrand, Ega, rindo,
-tocou no brao de Carlos:
-
---Olha quem alli est, porta do Baltresqui!
-
-Era o Damaso. O Damaso, barrigudo, nedio, mais pesado, de flr ao peito,
-mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente
-embrutecido d'um ruminante farto e feliz. Ao avistar tambem os seus dois
-velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar,
-refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente,
-achou-se em frente de Carlos, com a mo aberta e um sorriso na bochecha,
-que se lhe esbrazera.
-
---Ol, por c!... Que grande surpreza!
-
-Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo tambem, indifferente e
-esquecido.
-
--- verdade, Damaso... Como vai isso?
-
---Por aqui, n'esta semsaboria... E ento com demora?
-
---Umas semanas.
-
---Ests no Ramalhete?
-
---No _Braganza_. Mas no te incommodes, eu ando sempre por fra.
-
---Pois sim senhor!... Eu tambem estive em Paris, ha tres mezes, no
-_Continental_...
-
---Ah!... Bem, estimei vr-te, at sempre!
-
---Adeus, rapazes. Tu ests bom, Carlos, ests com boa cara!
-
--- dos teus olhos, Damaso.
-
-E nos olhos do Damaso, com effeito, parecia reviver a antiga admirao,
-arregalados, acompanhando Carlos, estudando-lhe por traz a sobrecasaca,
-o chapo, o andar, como no tempo em que o Maia era para elle o typo
-supremo do seu querido _chic_, uma d'essas coisas que s se vem l
-fra...
-
---Sabes que o nosso Damaso casou? disse o Ega um pouco adiante, travando
-outra vez do brao de Carlos.
-
-E foi um espanto para Carlos. O qu! O nosso Damaso! Casado!?... Sim,
-casado com uma filha dos condes d'Agueda, uma gente arruinada, com um
-rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o optimo
-Damaso, verdadeira sorte grande para aquella distincta familia, pagava
-agora os vestidos, das mais velhas.
-
--- bonita?
-
---Sim, bonitinha... Faz ahi a felicidade d'um rapazote sympathico,
-chamado Barroso.
-
---O qu, o Damaso, coitado!...
-
---Sim, coitado, coitadinho, coitadissimo... Mas como vs, immensamente
-ditoso, at tem engordado com a perfidia!
-
-Carlos parra. Olhava, pasmado para as varandas extraordinarias d'um
-primeiro andar, recobertas, como em dia de procisso, de sanefas de pano
-vermelho onde se entrelaavam monogrammas. E ia indagar--quando, d'entre
-um grupo que estacionava ao portal d'esse predio festivo, um rapaz d'ar
-estouvado, com a face imberbe cheia d'espinhas carnaes, atravessou
-rapidamente a rua para gritar ao Ega, suffocado de riso:
-
---Se voc for depressa ainda a encontra ahi abaixo! Corra!
-
---Quem?
-
---A Adosinda!... De vestido azul, com plumas brancas no chapo... V
-depressa... O Joo Elyseu metteu-lhe a bengala entre as pernas, ia-a
-fazendo estatelar no cho, foi uma scena... V depressa, homem!
-
-Com duas pernadas esguias o rapaz recolheu ao seu rancho--onde todos, j
-calados, com uma curiosidade de provincia, examinavam aquelle homem de
-to alta elegancia que acompanhava o Ega, e que nenhum conhecia. E Ega,
-no emtanto, explicava a Carlos as varandas e o grupo:
-
---So rapazes do _Turf_. um club novo, o antigo Jockey da travessa da
-Palha. Faz-se l uma batotinha barata, tudo gente muito sympathica... E
-como vs esto sempre assim preparados, com sanefas e tudo, para se
-acaso passar por ahi o Senhor dos Passos.
-
-Depois, descendo para a rua Nova do Almada, contou o caso da Adosinda.
-Fra no Silva, havia duas semanas, estando elle a cear com rapazes
-depois de S. Carlos, que lhes apparecera essa mulher inverosimil,
-vestida de vermelho, carregando insensatamente nos _rr_, mettendo _rr_
-em todas as palavras, e perguntando pelo snr. _virrsconde_... Qual
-_virrsconde_? Ella no sabia bem. _Erra um virrsconde que encontrrrra
-no Crrolyseu_. Senta-se, offerecem-lhe champagne, e D. Adosinda comea a
-revelar-se um sr prodigioso. Fallavam de politica, do ministerio e do
-_deficit_. D. Adosinda declara logo que conhece muito bem o _deficit_, e
-que um bello rapaz... O _deficit_ bello rapaz--immensa gargalhada! D.
-Adosinda zanga-se, exclama que j fra com elle a Cintra, que um
-perfeito cavalheiro, e empregado no Banco Inglez... O _deficit_
-empregado no Banco Inglez--gritos, uivos, urros! E no cessou esta
-gargalhada contnua, estrondosa, phrenetica, at s cinco da manh em
-que D. Adosinda fra rifada e sahira ao Telles!... Noite soberba!
-
---Com effeito, disse Carlos rindo, uma orgia grandiosa, lembra
-Heliogabalo e o Conde d'Orsay...
-
-Ento Ega defendeu calorosamente a sua orgia. Onde havia melhor, na
-Europa, em qualquer civilisao? Sempre queria vr que se passasse uma
-noite mais alegre em Paris, na desoladora banalidade do _Grand-Treize_,
-ou em Londres, n'aquella correcta e massuda semsaboria do _Bristol_! O
-que ainda tornava a vida toleravel era de vez em quando uma boa risada.
-Ora na Europa o homem requintado j no ri,--sorri regeladamente,
-lividamente. S ns aqui, n'este canto do mundo barbaro, conservamos
-ainda esse dom supremo, essa coisa bemdita e consoladora--a barrigada de
-riso!...
-
---Que diabo ests tu a olhar?
-
-Era o consultorio, o antigo consultorio de Carlos--onde agora, pela
-taboleta, parecia existir um pequeno _atelier_ de modista. Ento
-bruscamente os dois amigos recahiram nas recordaes do passado. Que
-estupidas horas Carlos alli arrastra, com a _Revista dos Dois Mundos_,
-na espera v dos doentes, cheio ainda de f nas alegrias do trabalho!...
-E a manh em que o Ega l apparecera com a sua esplendida pellia,
-preparando-se para transformar, n'um s inverno, todo o velho e
-rotineiro Portugal!
-
---Em que tudo ficou!
-
---Em que tudo ficou! Mas rimos bastante! Lembras-te d'aquella noite em
-que o pobre marquez queria levar ao consultorio a Paca, para utilisar
-emfim o divan, movel de serralho?...
-
-Carlos teve uma exclamao de saudade. Pobre marquez! Fra uma das suas
-fortes impresses, n'esses ultimos annos--aquella morte do marquez,
-sabida de repente ao almoo, n'uma banal noticia de jornal!... E atravs
-do Rocio, andando mais devagar, recordavam outros desapparecimentos: a
-D. Maria da Cunha, coitada, que acabara hydropica; o D. Diogo, casado
-por fim com a cozinheira; o bom Sequeira, morto uma noite n'uma tipoia
-ao sahir dos cavallinhos...
-
---E outra coisa, perguntou Ega. Tens visto o Craft em Londres?
-
---Tenho, disse Carlos. Arranjou uma casa muito bonita ao p de
-Richmond... Mas est muito avelhado, queixa-se muito do figado. E,
-desgraadamente, carrega de mais nos alcools. uma pena!
-
-Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moo, contou o Ega, tinha
-agora por cima mais dez annos de Secretaria e de Chiado. Mas sempre
-apurado, j um bocado grisalho, mettido continuamente com alguma
-hespanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e murmurando todas as
-tardes na Havaneza, com um ar dce e contente--isto um paiz perdido!
-Enfim um bom typosinho de lisboeta fino.
-
---E a besta do Steinbroken?
-
---Ministro em Athenas, exclamou Carlos, entre as ruinas classicas!
-
-E esta ida do Steinbroken, na velha Grecia, divertiu-os infinitamente.
-Ega imaginava j o bom Steinbroken, tso nos seus altos collarinhos,
-affirmando a respeito de Socrates, com prudencia: Oh, il est trs fort,
-il est excessivement fort! Ou ainda, a proposito da batalha das
-Thermopylas, rosnando, com medo de se comprometter: C'est trs grave,
-c'est excessivement grave! Valia a pena ir Grecia para vr!
-
-Subitamente Ega parou:
-
---Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?... J no mau!
-
-N'um claro espao rasgado, onde Carlos deixra o Passeio Publico pacato
-e frondoso--um obelisco, com borres de bronze no pedestal, erguia um
-trao cr d'assucar na vibrao fina da luz de inverno: e os largos
-globos dos candieiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam,
-transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabo suspensas no ar.
-Dos dois lados seguiam, em alturas desiguaes, os pesados predios, lisos
-e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde
-negrejavam piteiras de zinco, e pateos de pedra, quadrilhados a branco e
-preto, onde guarda-portes chupavam o cigarro: e aquelles dois hirtos
-renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as familias que outr'ora
-se immobilisavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa
-da uma, ouvindo a Banda, com casimiras e sdas, no catitismo
-domingueiro. Todo o lagedo reluzia como cal nova. Aqui e alm um arbusto
-encolhia na aragem a sua folhagem pallida e rara. E ao fundo a collina
-verde, salpicada d'arvores, os terrenos de Valle de Pereiro, punham um
-brusco remate campestre quelle curto rompante de luxo barato--que
-partira para transformar a velha cidade, e estacra logo, com o flego
-curto, entre montes de cascalho.
-
-Mas um ar lavado e largo circulava; o sol dourava a calia; a divina
-serenidade do azul sem igual tudo cobria e adoava. E os dois amigos
-sentaram-se n'um banco, junto de uma verdura que orlava a agua d'um
-tanque esverdinhada e molle.
-
-Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flres na
-lapella, a cala apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro.
-Era toda uma gerao nova e miuda que Carlos no conhecia. Por vezes Ega
-murmurava um _l!_, acenava com a bengala. E elles iam, repassavam, com
-um arzinho timido e contrafeito, como mal acostumados quelle vasto
-espao, a tanta luz, ao seu proprio _chic_. Carlos pasmava. Que faziam
-alli, s horas de trabalho, aquelles moos tristes, de cala esguia? No
-havia mulheres. Apenas n'um banco adiante uma creatura adoentada, de
-leno e chale, tomava o sol; e duas matronas, com vidrilhos no
-mantelete, donas de casa de hospedes, arejavam um cosinho felpudo. O
-que attrahia pois alli aquella mocidade pallida? E o que sobretudo o
-espantava eram as botas d'esses cavalheiros, botas despropositadamente
-compridas, rompendo para fra da cala collante com pontas aguadas e
-reviradas como pras de barcos varinos...
-
---Isto phantastico, Ega!
-
-Ega esfregava as mos. Sim, mas precioso! Porque essa simples frma de
-botas explicava todo o Portugal contemporaneo. Via-se por alli como a
-coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, D. Joo VI, que to
-bem lhe ficava, este desgraado Portugal decidira arranjar-se moderna:
-mas sem originalidade, sem fora, sem caracter para crear um feitio seu,
-um feitio proprio, manda vir modelos do estrangeiro--modelos d'idas, de
-calas, de costumes, de leis, d'arte, de cozinha... Smente, como lhe
-falta o sentimento da proporo, e ao mesmo tempo o domina a impaciencia
-de parecer muito moderno e muito civilisado--exagera o modelo,
-deforma-o, estraga-o at caricatura. O figurino da bota que veio de
-fra era levemente estreito na ponta;--immediatamente o janota estica-o
-e agua-o at ao bico d'alfinete. Por seu lado o escriptor l uma pagina
-de Goncourt ou de Verlaine em estylo precioso e
-cinzelado;--immediatamente retorce, emmaranha, desengona a sua pobre
-phrase at descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o
-legislador ouve dizer que l fra se levanta o nivel da
-instruco;--immediatamente pe no programma dos exames de primeiras
-letras a metaphysica, a astronomia, a philologia, a egyptologia, a
-chresmatica, a critica das religies comparadas, e outros infinitos
-terrores. E tudo por ahi adiante assim, em todas as classes e
-profisses, desde o orador at ao photographo, desde o jurisconsulto at
-ao _sportman_... o que succede com os pretos j corrompidos de S.
-Thom, que vem os europeus de lunetas--e imaginam que n'isso consiste
-ser civilisado e ser branco. Que fazem ento? Na sua sofreguido de
-progresso e de brancura acavallam no nariz tres ou quatro lunetas,
-claras, defumadas, at de cr. E assim andam pela cidade, de tanga, de
-nariz no ar, aos tropees, no desesperado e angustioso esforo de
-equilibrarem todos estes vidros--para serem immensamente civilisados e
-immensamente brancos...
-
-Carlos ria:
-
---De modo que isto est cada vez peor...
-
---Medonho! d'um reles, d'um postio! Sobretudo postio! J no ha nada
-genuino n'este miseravel paiz, nem mesmo o po que comemos!
-
-Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, n'um gesto lento:
-
---Resta aquillo, que genuino...
-
-E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graa e da Penha,
-com o seu casario escorregando pelas encostas resequidas e tisnadas do
-sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as
-atarracadas vivendas ecclesiasticas, lembrando o frade pingue e
-pachorrento, beatas de mantilha, tardes de procisso, irmandades d'opa
-atulhando os adros, herva dce juncando as ruas, tremoo e fava-rica
-apregoada s esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto
-ainda, recortando no radiante azul a miseria da sua muralha, era o
-castello, sordido e tarimbeiro, d'onde outr'ora, ao som do hymno tocado
-em fagotes, descia a tropa de cala branca a fazer a _bernarda_! E
-abrigados por elle, no escuro bairro de S. Vicente e da S, os palacetes
-decrepitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brazes nas
-paredes rachadas, onde entre a maledicencia, a devoo e a bisca,
-arrasta os seus derradeiros dias, cachetica e caturra, a velha Lisboa
-fidalga!
-
-Ega olhou um momento, pensativo:
-
---Sim, com effeito, talvez mais genuino. Mas to estupido, to
-sebento! No sabe a gente para onde se ha de voltar... E se nos voltamos
-para ns mesmos, ainda peor!
-
-E de repente bateu no joelho de Carlos, com um brilho na face:
-
---Espera... Olha quem ahi vem!
-
-Era uma vittoria, bem posta e correcta, avanando com lentido e estylo,
-ao trote esteppado de duas egoas inglezas. Mas foi um desapontamento.
-Vinha l smente um rapaz muito louro, d'uma brancura de camelia, com
-uma pennugem no beio, languidamente recostado. Fez um aceno ao Ega, com
-um lindo sorriso de virgem. A vittoria passou.
-
---No conheces?
-
-Carlos procurava, com uma recordao.
-
---O teu antigo doente! O Charlie!
-
-O outro bateu as mos. O Charlie! O seu Charlie! Como aquillo o fazia
-velho!... E era bonitinho!
-
---Sim, muito bonitinho. Tem ahi uma amizade com um velho, anda sempre
-com um velho... Mas elle vinha decerto com a mi, estou convencido que
-ella ficou por ahi a passear a p. Vamos ns vr?
-
-Subiram ao comprido da Avenida, procurando. E quem avistaram logo foi o
-Eusebiosinho. Parecia mais funebre, mais tisico, dando o brao a uma
-senhora muito forte, muito crada, que estalava n'um vestido de sda cor
-de pinho. Iam devagar, tomando o sol. E o Eusebio nem os viu, descahido
-e mollengo, seguindo com as grossas lunetas pretas o marchar lento da
-sua sombra.
-
---Aquella aventesma a mulher, contou Ega. Depois de varias paixes em
-lupanares, o nosso Eusebio teve este namoro. O pai da creatura, que
-dono d'um prego, apanhou-o uma noite na escada com ella a surripiar-lhe
-uns prazeres... Foi o diabo, obrigaram-no a casar. E desappareceu, no o
-tornei a vr... Diz que a mulher que o derreia pancada.
-
---Deus a conserve!
-
---Amen!
-
-E ento Carlos, que recordava a coa no Eusebio, o caso da _Corneta_,
-quiz saber do Palma Cavallo. Ainda deshonrava o Universo com a sua
-presena, esse benemerito? Ainda o deshonrava, disse o Ega. Smente
-deixra a litteratura, e tornra-se _factotum_ do Carneiro, o que fra
-ministro; levava-lhe a hespanhola ao theatro pelo brao; e era um bom
-empenho em politica.
-
---Ainda ha de ser deputado, acrescentou Ega. E, da frma que as coisas
-vo, ainda ha de ser ministro... E isto est-se fazendo tarde,
-Carlinhos. Vamos ns tomar esta tipoia e abalar para o Ramalhete?
-
-Eram quatro horas, o sol curto de inverno tinha j um tom pallido.
-
-Tomaram a tipoia. No Rocio, Alencar que passava, que os viu--parou,
-sacudiu ardentemente a mo no ar. E ento Carlos exclamou, com uma
-surpreza que j o assaltra essa manh no _Braganza_:
-
---Ouve c, Ega! Tu agora pareces intimo do Alencar! Que transformao
-foi essa?
-
-Ega confessou que realmente agora apreciava immensamente o Alencar. Em
-primeiro logar no meio d'esta Lisboa toda postia, Alencar permanecia o
-unico portuguez genuino. Depois, atravs da contagiosa intrujice,
-conservava uma honestidade resistente. Alm d'isso havia n'elle
-lealdade, bondade, generosidade. O seu comportamento com a sobrinhita
-era tocante. Tinha mais cortezia, melhores maneiras que os novos. Um
-bocado de piteirice no lhe ia mal ao seu feitio lyrico. E por fim, no
-estado a que descambra a litteratura, a versalhada do Alencar tomava
-relevo pela correco, pela simplicidade, por um resto de sincera
-emoo. Em resumo, um bardo infinitamente estimavel.
-
---E aqui tens tu, Carlinhos, a que ns chegamos! No ha nada com efeito
-que caracterise melhor a pavorosa decadencia de Portugal, nos ultimos
-trinta annos, do que este simples facto: to profundamente tem baixado o
-caracter e o talento, que de repente o nosso velho Thomaz, o homem da
-_Flr de Martyrio_, o Alencar d'Alemquer, apparece com as propores
-d'um Genio e d'um Justo!
-
-Ainda fallavam de Portugal e dos seus males quando a tipoia parou. Com
-que commoo Carlos avistou a fachada severa do Ramalhete, as
-janellinhas abrigadas beira do telhado, o grande ramo de girasoes
-fazendo painel no logar do escudo d'armas! Ao ruido da carruagem,
-Villaa appareceu porta, calando luvas amarellas. Estava mais gordo o
-Villaa--e tudo na sua pessoa, desde o chapo novo at ao casto de
-prata da bengala, revelava a sua importancia como administrador, quasi
-directo senhor durante o longo desterro de Carlos, d'aquella vasta casa
-dos Maias. Apresentou logo o jardineiro, um velho, que alli vivia com a
-mulher e o filho, guardando o casaro deserto. Depois felicitou-se de
-vr emfim os dois amigos juntos. E ajuntou, batendo com carinho familiar
-no hombro de Carlos:
-
---Pois eu, depois de nos separarmos em Santa Apolonia, fui tomar um
-banho ao Central e no me deitei. Olhe que uma grande commodidade o
-tal _sleeping-car_! Ah l isso, em progresso, o nosso Portugal j no
-est atraz de ninguem!... E v. exc.^a agora precisa de mim?
-
---No, obrigado, Villaa. Vamos dar uma volta pelas salas... V jantar
-comnosco. s seis! Mas s seis em ponto, que ha petiscos especiaes.
-
-E os dois amigos atravessaram o perystillo. Ainda l se conservavam os
-bancos feudaes de carvalho lavrado, solemnes como coros de cathedral. Em
-cima porm a ante-camara entristecia, toda despida, sem um movel, sem um
-estofo, mostrando a cal lascada dos muros. Tapearias orientaes que
-pendiam como n'uma tenda, pratos mouriscos de reflexos de cobre, a
-estatua da _Friorenta_ rindo e arrepiando-se, na sua nudez de marmore,
-ao metter o psinho na agua--tudo ornava agora os aposentos de Carlos em
-Paris: e outros caixes apilhavam-se a um canto, promptos a embarcar,
-levando as melhores faianas da _Toca_. Depois no amplo corredor, sem
-tapete, os seus passos soaram como n'um claustro abandonado. Nos quadros
-devotos, d'um tom mais negro, destacava aqui e alm, sob a luz escassa,
-um hombro descarnado de eremita, a mancha livida d'uma caveira. Uma
-friagem regelava. Ega levantra a gola do paletot.
-
-No salo nobre os moveis de brocado cr de musgo estavam embrulhados em
-lenoes d'algodo, como amortalhados, exhalando um cheiro de mumia a
-terebinthina e camphora. E no cho, na tela de Constable, encostada
-parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caadora
-ingleza, parecia ir dar um passo, sahir do caixilho dourado, para partir
-tambem, consummar a disperso da sua raa...
-
---Vamos embora, exclamou Ega. Isto est lugubre!...
-
-Mas Carlos, pallido e calado, abriu adiante a porta do bilhar. Ahi, que
-era a maior sala do Ramalhete, tinham sido recentemente accumulados na
-confuso das artes e dos seculos, como n'um armazem de _bric--brac_,
-todos os moveis ricos da _Toca_. Ao fundo, tapando o fogo, dominando
-tudo na sua magestade architectural, erguia-se o famoso armario do tempo
-da Liga Hanseatica, com os seus Martes armados, as portas lavradas, os
-quatro Evangelistas prgando aos cantos, envoltos n'essas roupagens
-violentas que um vento de prophecia parece agitar. E Carlos
-immediatamente descobriu um desastre na cornija, nos dois faunos que
-entre trophos agricolas tocavam ao desafio. Um partira o seu p de
-cabra, outro perdera a sua frauta bucolica...
-
---Que brutos! exclamou elle furioso, ferido no seu amor da coisa d'arte.
-Um movel d'estes!...
-
-Trepou a uma cadeira para examinar os estragos. E Ega, no emtanto,
-errava entre os outros moveis, cofres nupciaes, contadores hespanhoes,
-bufetes da Renascena italiana, recordando a alegre casa dos Olivaes que
-tinham ornado, as bellas noites de cavaco, os jantares, os foguetes
-atirados em honra de Leonidas... Como tudo passra! De repente deu com o
-p n'uma caixa de chapo sem tampa, atulhada de coisas velhas--um vo,
-luvas desirmanadas, uma meia de sda, fitas, flres artificiaes. Eram
-objectos de Maria, achados n'algum canto da _Toca_, para alli atirados,
-no momento de se esvaziar a casa! E, coisa lamentavel, entre estes
-restos d'ella, misturados como na promiscuidade d'um lixo, apparecia uma
-chinela de velludo bordada a matiz, uma velha chinela de Affonso da
-Maia! Ega escondeu a caixa rapidamente debaixo d'um pedao solto de
-tapearia. Depois, como Carlos saltava da cadeira, sacudindo as mos,
-ainda indignado, Ega apressou aquella peregrinao, que lhe estragava a
-alegria do dia.
-
---Vamos ao terrao! D-se um olhar ao jardim, e abalamos!
-
-Mas deviam atravessar ainda a memoria mais triste, o escriptorio de
-Affonso da Maia. A fechadura estava prra. No esforo de abrir a mo de
-Carlos tremia. E Ega, commovido tambem, revia toda a sala tal como
-outr'ora, com os seus candieiros Carcel dando um tom cr de rosa, o lume
-crepitando, o reverendo Bonifacio sobre a pelle d'urso, e Affonso na sua
-velha poltrona, de casaco de velludo, sacudindo a cinza do cachimbo
-contra a palma da mo. A porta cedeu: e toda a emoo de repente findou,
-na grutesca, absurda surpreza de romperem ambos a espirrar,
-desesperadamente, suffocados pelo cheiro acre d'um p vago que lhes
-picava os olhos, os estonteava. Fra o Villaa, que, seguindo uma
-receita d'almanach, fizera espalhar s mos cheias, sobre os moveis,
-sobre os lenoes que os resguardavam, camadas espessas de pimenta
-branca! E estrangulados, sem vr, sob uma nevoa de lagrimas, os dois
-continuavam, um defronte do outro, em espirros afflictivos que os
-desengonavam.
-
-Carlos por fim conseguiu abrir largamente as duas portadas d'uma
-janella. No terrao morria um resto de sol. E, revivendo um pouco ao ar
-puro, alli ficaram de p, calados, limpando os olhos, sacudidos ainda
-por um ou outro espirro retardado.
-
---Que infernal inveno! exclamou Carlos, indignado.
-
-Ega, ao fugir com o leno na face, tropera, batera contra um sof,
-coava a canella:
-
---Estupida coisa! E que bordoada que eu dei!...
-
-Voltou a olhar para a sala, onde todos os moveis desappareciam sob os
-largos sudarios brancos. E reconheceu que tropera na antiga almofada
-de velludo do velho Bonifacio. Pobre Bonifacio! Que fra feito d'elle?
-
-Carlos, que se sentra no parapeito baixo do terrao, entre os vasos sem
-flr, contou o fim do reverendo Bonifacio. Morrera em Santa Olavia,
-resignado, e to obeso que se no movia. E o Villaa, com uma ida
-poetica, a unica da sua vida de procurador, mandra-lhe fazer um
-mausolo, uma simples pedra de marmore branco, sob uma roseira, debaixo
-das janellas do quarto do av.
-
-Ega sentra-se tambem no parapeito, ambos se esqueceram n'um silencio.
-Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez d'inverno,
-tinha a melancolia de um retiro esquecido que j ninguem ama: uma
-ferrugem verde de humidade cobria os grossos membros da Venus Citherea;
-o cypreste e o cedro envelheciam juntos como dois amigos n'um ermo; e
-mais lento corria o prantosinho da cascata, esfiado saudosamente gotta a
-gotta na bacia de marmore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela
-marinha nas cantarias dos dois altos predios, a curta paizagem do
-Ramalhete, um pedao de Tejo e monte, tomava n'aquelle fim de tarde um
-tom mais pensativo e triste: na tira de rio um paquete fechado,
-preparado para a vaga, ia descendo, desapparecendo logo, como j
-devorado pelo mar incerto; no alto da collina o moinho parra, transido
-na larga friagem do ar; e nas janellas das casas beira d'agua um raio
-de sol morria, lentamente sumido, esvado na primeira cinza do
-crepusculo, como um resto d'esperana n'uma face que se anuvia.
-
-Ento, n'aquella mudez de soledade e d'abandono, Ega, com os olhos para
-o longe, murmurou devagar:
-
---Mas tu d'esse casamento no tinhas a menor indicao, a menor
-suspeita?
-
---Nenhuma... Soube-o de repente pela carta d'ella em Sevilha.
-
-E era esta a formidavel nova annunciada por Carlos, a nova que elle logo
-contra de madrugada ao Ega, depois dos primeiros abraos, em Santa
-Apolonia. Maria Eduarda ia casar.
-
-Assim o annuncira ella a Carlos n'uma carta muito simples, que elle
-recebera na quinta dos Villa-Medina. Ia casar. E no parecia ser uma
-resoluo tomada arrebatadamente sob um impulso do corao; mas antes um
-proposito lento, longamente amadurecido. Ella alludia n'essa carta a ter
-pensado muito, reflectido muito... De resto o noivo devia ir perto dos
-cincoenta annos. E Carlos portanto via alli a unio de dois sres
-desilludidos da vida, maltratados por ella, cansados ou assustados do
-seu isolamento, que, sentindo um no outro qualidades srias de corao e
-de espirito, punham em commum o seu resto de calor, d'alegria e de
-coragem para affrontar juntos a velhice...
-
---Que idade tem ella?
-
-Carlos pensava que ella devia ter quarenta e um ou quarenta e dois
-annos. Ella dizia na carta sou apenas mais nova que o meu noivo seis
-annos e tres mezes. Elle chamava-se Mr. de Trelain. E era evidentemente
-um homem d'espirito largo, desembaraado de prejuizos, d'uma
-benevolencia quasi misericordiosa, porque quizera Maria, conhecendo bem
-os seus erros.
-
---Sabe tudo? exclamou Ega, que saltra do parapeito.
-
---Tudo no. Ella diz que Mr. de Trelain conhecia do seu passado todos
-aquelles erros em que ella cahira inconscientemente. Isto d a entender
-que no sabe tudo... Vamos andando, que se faz tarde, e quero ainda vr
-os meus quartos.
-
-Desceram ao jardim. Um momento seguiram calados pela alea onde cresciam
-outr'ora as roseiras de Affonso. Sob as duas olaias ainda existia o
-banco de cortia; Maria sentra-se alli, na sua visita ao Ramalhete, a
-atar n'um ramo flres que ia levar como reliquia. Ao passar Ega cortou
-uma pequenina margarida que ainda floria solitariamente.
-
---Ella contina a viver em Orlans, no verdade?
-
-Sim, disse Carlos, vivia ao p d'Orlans, n'uma quinta que l comprra,
-chamada _Les Rosires_. O noivo devia habitar nos arredores algum
-pequeno _chteau_. Ella chamava-lhe visinho. E era naturalmente um
-_gentilhomme campagnard_, de familia sria, com fortuna...
-
---Ella s tem o que tu lhe ds, est claro.
-
---Creio que te mandei contar tudo isso, murmurou Carlos. Emfim ella
-recusou-se a receber parte alguma da sua herana... E o Villaa arranjou
-as coisas por meio d'uma doao que lhe fiz, correspondente a doze
-contos de reis de renda...
-
--- bonito. Ella fallava de Rosa na carta?
-
---Sim, de passagem, que ia bem... Deve estar uma mulher.
-
---E bem linda!
-
-Iam subindo a escadinha de ferro torneada que levava do jardim aos
-quartos de Carlos. Com a mo na porta da vidraa, Ega parou ainda, n'uma
-derradeira curiosidade:
-
---E que effeito te fez isso?
-
-Carlos accendia o charuto. Depois atirando o phosphoro por cima da
-varandinha de ferro onde uma trepadeira se enlaava:
-
---Um effeito de concluso, de absoluto remate. como se ella morresse,
-morrendo com ella todo o passado, e agora renascesse sob outra frma. J
-no Maria Eduarda. Madame de Trelain, uma senhora franceza. Sob este
-nome, tudo o que houve fica sumido, enterrado a mil braas, findo para
-sempre, sem mesmo deixar memoria... Foi o effeito que me fez.
-
---Tu nunca encontraste em Paris o snr. Guimares?
-
---Nunca. Naturalmente morreu.
-
-Entraram no quarto. Villaa, na supposio de Carlos vir para o
-Ramalhete, mandra-o preparar; e todo elle regelava--com o marmore das
-commodas espanejado e vazio, uma vela intacta n'um castial solitario, a
-colcha de fusto vincada de dobras sobre o leito sem cortinados. Carlos
-pousou o chapo e a bengala em cima da sua antiga mesa de trabalho.
-Depois, como dando um resumo:
-
---E aqui tens tu a vida, meu Ega! N'este quarto, durante noites, soffri
-a certeza de que tudo no mundo acabra para mim... Pensei em me matar.
-Pensei em ir para a Trappa. E tudo isto friamente, com uma concluso
-logica. Por fim dez annos passaram, e aqui estou outra vez...
-
-Parou diante do alto espelho suspenso entre as duas columnas de carvalho
-lavrado, deu um geito ao bigode, concluiu, sorrindo melancolicamente:
-
---E mais gordo!
-
-Ega espalhava tambem pelo quarto um olhar pensativo:
-
---Lembras-te quando appareci aqui uma noite, n'uma agonia, vestido de
-Mephistopheles?
-
-Ento Carlos teve um grito. E a Rachel, verdade! A Rachel? Que era
-feito da Rachel, esse lirio d'Israel?
-
-Ega encolheu os hombros:
-
---Para ahi anda, estuporada...
-
-Carlos murmurou--coitada! E foi tudo o que disseram sobre a grande
-paixo romantica do Ega.
-
-Carlos no emtanto fra examinar, junto da janella, um quadro que pousava
-no cho, para alli esquecido e voltado para a parede. Era o retrato do
-pai, de Pedro da Maia, com as suas luvas de camura na mo, os grandes
-olhos arabes na face triste e pallida que o tempo amarellra mais.
-Collocou-o em cima d'uma commoda. E atirando-lhe uma leve sacudidella
-com o leno:
-
---No ha nada que me faa mais pena do que no ter um retrato do av!...
-Em todo o caso este sempre o vou levar para Paris.
-
-Ento Ega perguntou, do fundo do sof onde se enterrra, se, n'esses
-ultimos annos, elle no tivera a ida, o vago desejo de voltar para
-Portugal...
-
-Carlos considerou Ega com espanto. Para que? Para arrastar os passos
-tristes desde o Gremio at Casa Havaneza? No! Paris era o unico logar
-da terra congenere com o typo definitivo em que elle se fixra:--o
-homem rico que vive bem. Passeio a cavallo no Bois; almo no Bignon;
-uma volta pelo _boulevard_; uma hora no club com os jornaes; um bocado
-de florete na sala d'armas; noite a _Comdie Franaise_ ou uma
-_soire_; Trouville no vero, alguns tiros s lebres no inverno; e
-atravs do anno as mulheres, as corridas, certo interesse pela sciencia,
-o _bric--brac_, e uma pouca de _blague_. Nada mais inoffensivo, mais
-nullo, e mais agradavel.
-
---E aqui tens tu uma existencia d'homem! Em dez annos no me tem
-succedido nada, a no ser quando se me quebrou o phaeton na estrada de
-Saint-Cloud... Vim no _Figaro_.
-
-Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado:
-
---Falhmos a vida, menino!
-
---Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto ,
-falha-se sempre na realidade aquella vida que se planeou com a
-imaginao. Diz-se: vou ser assim, porque a belleza est em ser assim.
-E nunca se assim, -se invariavelmente _assado_, como dizia o pobre
-marquez. s vezes melhor, mas sempre differente.
-
-Ega concordou, com um suspiro mudo, comeando a calar as luvas.
-
-O quarto escurecia no crepusculo frio e melancolico d'inverno. Carlos
-pz tambem o chapo: e desceram pelas escadas forradas de velludo cr de
-cereja, onde ainda pendia, com um ar bao de ferrugem, a panoplia de
-velhas armas. Depois na rua Carlos parou, deu um longo olhar ao sombrio
-casaro, que n'aquella primeira penumbra tomava um aspecto mais
-carregado de residencia ecclesiastica, com as suas paredes severas, a
-sua fila de janellinhas fechadas, as grades dos postigos terreos cheias
-de treva, mudo, para sempre deshabitado, cobrindo-se j de tons de
-ruina.
-
-Uma commoo passou-lhe n'alma, murmurou, travando do brao do Ega:
-
--- curioso! S vivi dois annos n'esta casa, e n'ella que me parece
-estar mettida a minha vida inteira!
-
-Ega no se admirava. S alli no Ramalhete elle vivera realmente
-d'aquillo que d sabr e relevo vida--a paixo.
-
---Muitas outras coisas do valor vida... Isso uma velha ida de
-romantico, meu Ega!
-
---E que somos ns? exclamou Ega. Que temos ns sido desde o collegio,
-desde o exame de latim? Romanticos: isto , individuos inferiores que se
-governam na vida pelo sentimento e no pela razo...
-
-Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses
-que se dirigiam s pela razo, no se desviando nunca d'ella,
-torturando-se para se manter na sua linha inflexivel, sccos, hirtos,
-logicos, sem emoo at ao fim...
-
---Creio que no, disse o Ega. Por fra, vista, so desconsoladores. E
-por dentro, para elles mesmos, so talvez desconsolados. O que prova que
-n'este lindo mundo ou tem de se ser insensato ou semsabor...
-
---Resumo: no vale a pena viver...
-
---Depende inteiramente do estomago! atalhou Ega.
-
-Riram ambos. Depois Carlos, outra vez srio, deu a sua theoria da vida,
-a theoria definitiva que elle deduzira da experiencia e que agora o
-governava. Era o fatalismo musulmano. Nada desejar e nada recear... No
-se abandonar a uma esperana--nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o
-que vem e o que foge, com a tranquillidade com que se acolhem as
-naturaes mudanas de dias agrestes e de dias suaves. E, n'esta placidez,
-deixar esse pedao de materia organisada, que se chama o Eu, ir-se
-deteriorando e decompondo at reentrar e se perder no infinito
-Universo... Sobretudo no ter appetites. E, mais que tudo, no ter
-contrariedades.
-
-Ega, em summa, concordava. Do que elle principalmente se convencera,
-n'esses estreitos annos de vida, era da inutilidade de todo o esforo.
-No valia a pena dar um passo para alcanar coisa alguma na
-terra--porque tudo se resolve, como j ensinra o sabio do
-_Ecclesiastes_, em desilluso e poeira.
-
---Se me dissessem que alli em baixo estava uma fortuna como a dos
-Rothschilds ou a cora imperial de Carlos V, minha espera, para serem
-minhas se eu para l corresse, eu no apressava o passo... No! No
-sahia d'este passinho lento, prudente, correcto, seguro, que o unico
-que se deve ter na vida.
-
---Nem eu! acudiu Carlos com uma convico decisiva.
-
-E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se
-aquelle fosse em verdade o caminho da vida, onde elles, certos de s
-encontrar ao fim desilluso e poeira, no devessem jmais avanar seno
-com lentido e desdem. J avistavam o Aterro, a sua longa fila de luzes.
-De repente Carlos teve um largo gesto de contrariedade:
-
---Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este appetite! Esqueci-me de
-mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas.
-
-E agora j era tarde, lembrou Ega. Ento Carlos, at ahi esquecido em
-memorias do passado e syntheses da existencia, pareceu ter
-inesperadamente consciencia da noite que cahira, dos candieiros accsos.
-A um bico de gaz tirou o relogio. Eram seis e um quarto!
-
---Oh, diabo!... E eu que disse ao Villaa e aos rapazes para estarem no
-_Braganza_ pontualmente s seis! No apparecer por ahi uma tipoia!...
-
---Espera! exclamou Ega. L vem um americano, ainda o apanhamos.
-
---Ainda o apanhamos!
-
-Os dois amigos lanaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojra o
-charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face:
-
---Que raiva ter esquecido o paiosinho! Emfim, acabou-se. Ao menos
-assentamos a theoria definitiva da existencia. Com effeito, no vale a
-pena fazer um esforo, correr com ancia para coisa alguma...
-
-Ega, ao lado, ajuntava, offegante, atirando as pernas magras:
-
---Nem para o amor, nem para a gloria, nem para o dinheiro, nem para o
-poder...
-
-A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parra. E foi
-em Carlos e em Joo da Ega uma esperana, outro esforo:
-
---Ainda o apanhamos!
-
---Ainda o apanhamos!
-
-De novo a lanterna deslisou e fugiu. Ento, para apanhar o americano,
-os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e
-pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia.
-
-FIM DO SEGUNDO VOLUME
-
-
-
-
-Lista de erros corrigidos
-
-
-Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
-
-+-----------+-------------------------+---------------------------+
-| | Original | Correco |
-+-----------+-------------------------+---------------------------+
-| Vol I. | | |
-| | | |
-| #pg. 11 | d'um planta | d'uma planta |
-| #pg. 25 | n'eses | n'esse |
-| #pg. 64 | dehruando-se | debruando-se |
-| #pg. 71 | mesmo olhos | mesmos olhos |
-| #pg. 82 | o o que | o que |
-| #pg. 151 | appproximava | approximava |
-| #pg. 220 | ningnem | ninguem |
-| #pg. 222 | pararello | paralello |
-| #pg. 290 | quas? | quasi |
-| #pg. 326 | pohre | pobre |
-| #pg. 345 | extraordinrio | extraordinario |
-| #pg. 416 | luvar | luvas |
-| #pg. 423 | hespanhla | hespanhola |
-| #pg. 428 | o os deus | e os seus |
-| | | |
-| Vol II. | | |
-| | | |
-| #pg. 84 | ?uvas | luvas |
-| #pg. 276 | o o monoculo | o monoculo |
-| #pg. 324 | a? suissas | as suissas |
-| #pg. 343 | n'um voz | n'uma voz |
-| #pg. 432 | moresse | morresse |
-| #pg. 456 | Celerico | Celorico |
-| #pg. 475 | n'um longa | n'uma longa |
-+-----------+-------------------------+---------------------------+
-
-As variaes de vv (vvo ou vov) foram mantidas de acordo com o
-original. As variaes de nomes prprios foram mantidas de acordo
-com o original.
-
-No original esto presentes dois captulos VII (no volume I),
-rectificados nesta verso.
-
-No volume II verificamos que se passa do captulo IV para o VII e
-a numerao dos captulos fica alterada a partir desse momento.
-Uma vez que no h pginas em falta, rectificmos nesta verso.
-
-
-
-
-
-End of the Project Gutenberg EBook of Os Maias, by Jos Maria Ea de Queirs
-
-*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS ***
-
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-works.
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-Professor Michael S. Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm
-concept of a library of electronic works that could be freely shared
-with anyone. For forty years, he produced and distributed Project
-Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support.
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-Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed
-editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S.
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