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You may copy it, give it away or -re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included -with this eBook or online at www.gutenberg.org - - -Title: Os Maias - episodios da vida romantica - -Author: José Maria Eça de Queirós - -Release Date: October 16, 2012 [EBook #40409] -Last updated: June 10, 2019 - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS *** - - - - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brand„o Simıes, -GraÁa Horta and the Online Distributed Proofreading Team -at http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal) and Biblioteca Dulce -Ferr„o -- Biblioteca-Museu Rep˙blica e ResistÍncia.) - - - - - - *Nota de editor:* Devido ‡ existÍncia de erros tipogr·ficos neste - texto, foram tomadas v·rias decisıes quanto ‡ vers„o final. Em caso - de d˙vida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final - deste livro encontrar· a lista de erros corrigidos. - - Na vers„o original, esta obra È uma compilaÁ„o de dois volumes, com - capÌtulos e paginaÁ„o independentes, publicadas numa sÛ obra. - Respeitando o original, compil·mos num sÛ ficheiro ambas as partes: - - Primeiro Volume - - Segundo Volume - - - Rita Farinha (Agosto 2012) - - - - -Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70 - - - - - -E«A DE QUEIROZ - -OS MAIAS - -EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA - -VOLUME I - -PORTO - - -Livraria Internacional de Ernesto Chardron -CASA EDITORA -LUGAN & GENELIOUX, Successores - - -1888 - -Todos os direitos reservados - - - - -OBRAS DO MESMO AUCTOR - - - O Crime do Padre Amaro, ediÁ„o inteiramente refundida, recomposta, - e differente na fÛrma e na acÁ„o da ediÁ„o primitiva. 1 grosso vol. - 1$200 - - O Primo Bazilio. 3.^a ediÁ„o. 1 grosso vol. 1$000 - - O Mandarim. 2.^a ediÁ„o. 1 vol. 500 - - A Reliquia. 1 grosso vol. 1$000 - - - - -OS MAIAS - -VOLUME I - - - - -OS MAIAS - - - - -I - - -A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era -conhecida na visinhanÁa da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o -bairro das Janellas Verdes, pela _casa do Ramalhete_ ou simplesmente o -_Ramalhete_. Apesar d'este fresco nome de vivenda campestre, o -_Ramalhete_, sombrio casar„o de paredes severas, com um renque de -estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida -fila de janellinhas abrigadas · beira do telhado, tinha o aspecto -tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificaÁ„o do -reinado da sr.^a D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo -assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas. O nome de Ramalhete -provinha de certo d'um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel -no logar heraldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser collocado, -e representando um grande ramo de girasoes atado por uma fita onde se -distinguiam letras e numeros d'uma data. - -Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado, com teias d'aranha -pelas grades dos postigos terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em -1858 Monsenhor Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o com idÈa -d'installar l· a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do -edificio e pela paz dormente do bairro: e o interior do casar„o -agradara-lhe tambem, com a sua disposiÁ„o apalaÁada, os tectos -apainelados, as paredes cobertas de _frescos_ onde j· desmaiavam as -rosas das grinaldas e as faces dos Cupidinhos. Mas Monsenhor, com os -seus habitos de rico prelado romano, necessitava na sua vivenda os -arvoredos e as agoas d'um jardim de luxo: e o Ramalhete possuia apenas, -ao fundo d'um terraÁo de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado ·s -hervas bravas, com um cypreste, um cedro, uma cascatasinha secca, um -tanque entulhado, e uma estatua de marmore (onde Monsenhor reconheceu -logo Venus CitherÍa) ennegrecendo a um canto na lenta humidade das -ramagens silvestres. AlÈm d'isso, a renda que pedio o velho VillaÁa, -procurador dos Maias, pareceu t„o exagerada a Monsenhor, que lhe -perguntou sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos de Le„o X. -VillaÁa respondeu--que tambem a nobreza n„o estava nos tempos do sr. D. -Jo„o V. E o Ramalhete continuou deshabitado. - -Este inutil pardieiro (como lhe chamava VillaÁa Junior, agora por morte -de seu pae administrador dos Maias) sÛ veio a servir, nos fins de 1870, -para l· se arrecadaram as mobilias e as louÁas provenientes do palacete -de familia em Bemfica, morada quasi historica, que, depois de andar -annos em praÁa, fÙra ent„o comprada por um commendador brazileiro. -N'essa occasi„o vendera-se outra propriedade dos Maias, a _Tojeira_; e -algumas raras pessoas que em Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e -sabiam que desde a RegeneraÁ„o elles viviam retirados na sua quinta de -Santa Olavia, nas margens do Douro, tinham perguntado a VillaÁa se essa -gente estava atrapalhada. - ---Ainda teem um pedaÁo de p„o, disse VillaÁa sorrindo, e a manteiga para -lhe barrar por cima. - -Os Maias eram uma antiga familia da Beira, sempre pouco numerosa, sem -linhas collateraes, sem parentellas--e agora reduzida a dois varıes, o -senhor da casa, Affonso da Maia, um velho j·, quasi um antepassado, mais -edoso que o seculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra. -Quando Affonso se retirara definitivamente para Santa Olavia, o -rendimento da casa excedia j· cincoenta mil cruzados: mas desde ent„o -tinham-se accumulado as economias de vinte annos de aldÍa; viera tambem -a heranÁa d'um ultimo parente, Sebasti„o da Maia, que desde 1830 vivia -em Napoles, sÛ, occupando-se de numismatica;--e o procurador podia -certamente sorrir com seguranÁa quando fallava dos Maias e da sua fatia -de p„o. - -A venda da _Tojeira_ fÙra realmente aconselhada por VillaÁa: mas nunca -elle approvara que Affonso se desfizesse de Bemfica--sÛ pela ras„o -d'aquelles muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso, como -dizia VillaÁa, acontecia a todos os muros. O resultado era que os Maias, -com o Ramalhete inhabitavel, n„o possuiam agora uma casa em Lisboa; e se -Affonso n'aquella edade amava o socego de Santa Olavia, seu neto, rapaz -de gosto e de luxo que passava as ferias em Paris e Londres, n„o -quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro. E -com effeito, mezes antes de elle deixar Coimbra, Affonso assombrou -VillaÁa annunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O -procurador compoz logo um relatorio a enumerar os inconvenientes do -casar„o: o maior era necessitar tantas obras e tantas despezas; depois, -a falta d'um jardim devia ser muito sensivel a quem sahia dos arvoredos -de Santa Olavia; e por fim alludia mesmo a uma lenda, segundo a qual -eram sempre fataes aos Maias as paredes do Ramalhete, ´ainda que -(acrescentava elle n'uma phrase meditada) atÈ me envergonho de mencionar -taes frioleiras n'este seculo de Voltaire, Guisot e outros philosophos -liberaes...ª - -Affonso riu muito da phrase, e respondeu que aquellas razıes eram -excellentes--mas elle desejava habitar sob tectos tradiccionalmente -seus; se eram necessarias obras, que se fizessem e largamente; e -emquanto a lendas e agoiros, bastaria abrir de par em par as janellas e -deixar entrar o sol. - -S. ex.^a mandava:--e, como esse inverno ia secco, as obras comeÁaram -logo, sob a direcÁ„o d'um Esteves, architecto, politico, e compadre de -VillaÁa. Este artista enthusiasm·ra o procurador com um projecto de -escada apparatosa, flanqueada por duas figuras symbolisando as -conquistas da GuinÈ e da India. E estava ideando tambem uma cascata de -louÁa na sala de jantar--quando, inesperadamente, Carlos appareceu em -Lisboa com um architecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com -elle · pressa algumas ornamentaÁıes e alguns tons de estofos, -entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para elle ali crear, -exercendo o seu gosto, um interior confortavel, de luxo intelligente e -sobrio. - -VillaÁa resentiu amargamente esta desconsideraÁ„o pelo artista nacional; -Esteves foi berrar ao seu Centro politico que isto era um paiz perdido. -E Affonso lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves, exigiu -mesmo que o encarregassem da construcÁ„o das cocheiras. O artista ia -acceitar--quando foi nomeado governador civil. - -Ao fim d'um anno, durante o qual Carlos viera frequentemente a Lisboa -collaborar nos trabalhos, ´dar os seus retoques estheticosª--do antigo -Ramalhete sÛ restava a fachada tristonha, que Affonso n„o quizera -alterada por constituir a phisionomia da casa. E VillaÁa n„o duvidou -declarar que Jones Bule (como elle chamava ao inglez) sem despender -despropositadamente, aproveitando atÈ as antigualhas de Bemfica, fizera -do Ramalhete ´um museu.ª - -O que surprehendia logo era o pateo, outr'ora t„o lobrego, n˙, lageado -de pedregulho--agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de -marmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vazos de Quimper, e -dois longos bancos feudaes que Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados -em talha, solemnes como cÛros de cathedral. Em cima, na antecamara, -revestida como uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos -morria: e ornavam-n'a divans cobertos de tapetes persas, largos pratos -mouriscos com reflexos metalicos de cobre, uma harmonia de tons severos, -onde destacava, na brancura immaculada do marmore, uma figura de -rapariga friorenta, arripiando-se, rindo, ao metter o pÈsinho n'agoa. -D'ahi partia um amplo corredor, ornado com as peÁas ricas de Bemfica, -arcas gothicas, jarrıes da India, e antigos quadros devotos. As melhores -salas do Ramalhete abriam para essa galeria. No sal„o nobre, raramente -usado, todo em brocados de velludo cÙr de musgo d'outono, havia uma -bella tÈla de Constable, o retrato da sogra de Affonso, a condessa de -Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de caÁadora ingleza, -sobre um fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado, -onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII com seus moveis -enramelhetados d'ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas -tapeÁarias de Gobelins, desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as -paredes de pastores e d'arvoredos. - -Defronte era o bilhar, forrado d'um couro moderno trazido por Jones -Bule, onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaÁavam -cegonhas prateadas. E, ao lado, achava-se o _fumoir_, a sala mais -commoda do Ramalhete: as ottomanas tinham a fÙfa vastid„o de leitos; e o -conchego quente, e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era -alegrado pelas cores cantantes de velhas faienÁas hollandezas. - -Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso, revestido de -damascos vermelhos como uma velha camara de prelado. A macissa meza de -pau preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne luxo das -encadernaÁıes, tudo tinha ali uma feiÁ„o austera de paz -estudiosa--realÁada ainda por um quadro attribuido a Rubens, antiga -reliquia da casa, um Christo na Cruz, destacando a sua nudez de athleta -sobre um ceu de poente revolto e rubro. Ao lado do fog„o Carlos -arranjara um canto para o avÙ com um biombo japonez bordado a ouro, uma -pelle d'urso branco, e uma veneravel cadeira de braÁos, cuja tapeÁaria -mostrava ainda as armas dos Maias no desmaio da trama de sÍda. - -No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de familia, -estavam os quartos de Affonso. Carlos despozera os seus, n'um angulo da -casa, com uma entrada particular, e janellas sobre o jardim: eram tres -gabinetes a seguir, sem portas, unidos pelo mesmo tapete: e, os recostos -acolchoados, a sÍda que forrava as paredes, faziam dizer ao VillaÁa que -aquillo n„o eram aposentos de medico--mas de danÁarina! - -A casa, depois de arranjada, ficou vazia emquanto Carlos, j· formado, -fazia uma longa viagem pela Europa;--e foi sÛ nas vesperas da sua -chegada, n'esse lindo outono de 1875, que Affonso se resolveu emfim a -deixar Santa Olavia e vir installar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco -annos que elle n„o via Lisboa; e, ao fim de alguns curtos dias, -confessou ao VillaÁa que estava suspirando outra vez pelas suas sombras -de Santa Olavia. Mas, que remedio! N„o queria viver muito separado do -neto; e Carlos agora, com idÈas sÈrias de carreira activa, devia -necessariamente habitar Lisboa... De resto, n„o desgostava do Ramalhete, -apezar de Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos climas frios, ter -prodigalisado de mais as tapeÁarias, os pesados reposteiros, e os -velludos. Agradava-lhe tambem muito a visinhanÁa, aquella dÙce quietaÁ„o -de suburbio adormecido ao sol. E gostava atÈ do seu quintalejo. N„o era -de certo o jardim de Santa Olavia: mas tinha o ar sympathico, com os -seus girasoes perfilados ao pÈ dos degraus do terraÁo, o cypreste e o -cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Venus CytherÍa -parecendo agora, no seu tom claro de estatua de parque, ter chegado de -Versalhes, do fundo do grande seculo... E desde que a agoa abundava, a -cascatasinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus tres -pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucolico, melancolisando aquelle -fundo de quintal soalheiro com um pranto de nayade domestica, esfiado -gota a gota na bacia de marmore. - -O que desconsolara Affonso, ao principio, fÙra a vista do -terraÁo--d'onde outr'ora, de certo, se abrangia atÈ ao mar. Mas as casas -edificadas em redor, nos ultimos annos, tinham tapado esse horizonte -explendido. Agora, uma estreita tira de agoa e monte que se avistava -entre dois predios de cinco andares, separados por um cÛrte de rua, -formava toda a paizagem defronte do Ramalhete. E, todavia, Affonso -terminou por lhe descobrir um encanto intimo. Era como uma tÈla marinha, -encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do cÈu azul em face do -terraÁo, mostrando, nas variedades infinitas de cÙr e luz, os episodios -fugitivos d'uma pacata vida de rio: ·s vezes uma vÈla de barco da -Trafaria fugindo airosamente · bolina; outras vezes uma galera toda em -panno, entrando n'um favor da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou -ent„o a melancolia d'um grande paquete, descendo, fechado e preparado -para a vaga, entrevisto um momento, desapparecendo logo, como j· -devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no pÛ d'ouro das -sestas silenciosas, o vulto negro de um couraÁado inglez... E sempre ao -fundo o pedaÁo de monte verde-negro, com um moinho parado no alto, e -duas casas brancas ao rez d'agoa, cheias de express„o--ora faiscantes e -despedindo raios das vidraÁas accezas em braza; ora tomando aos fins de -tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de poente, quasi -similhantes a um rubor humano; e d'uma tristeza arripiada nos dias de -chuva, t„o sÛs, t„o brancas, como nuas, sob o tempo agreste. - -O terraÁo communicava por tres portas envidraÁadas com o escriptorio--e -foi n'essa bella camara de prelado que Affonso se acostumou logo a -passar os seus dias, no recanto aconchegado que o neto lhe preparara -ternamente, ao lado do fog„o. A sua longa residencia em Inglaterra -dera-lhe o amor dos suaves vagares junto do lume. Em Santa Olavia as -chaminÈs ficavam accezas atÈ Abril; depois ornavam-se de braÁadas de -flÙres, como um altar domestico; e era ainda ahi, n'esse aroma e n'essa -frescura, que elle gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tacito, ou o seu -querido Rabelais. - -Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho -borralheiro. N'aquella edade, de ver„o ou de inverno, ao romper do sol, -estava a pÈ, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa oraÁ„o da -manh„ que era um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor -supersticioso da agoa; e costumava dizer que nada havia melhor para o -homem--que sabor d'agoa, som d'agoa, e vista d'agoa. O que o prendera -mais a Santa Olavia fÙra a sua grande riqueza d'agoas vivas, nascentes, -repuxos, tranquillo espelhar d'agoas paradas, fresco murmurio de agoas -regantes... E a esta viva tonificaÁ„o da agoa attribuia elle o ter vindo -assim, desde o comeÁo do seculo, sem uma dÙr e sem uma doenÁa, mantendo -a rica tradiÁ„o de saude da sua familia, duro, resistente aos desgostos -e annos--que passavam por elle, t„o em v„o, como passavam em v„o, pelos -seus robles de Santa Olavia, annos e vendavaes. - -Affonso era um pouco baixo, macisso, de hombros quadrados e fortes: e -com a sua face larga de nariz aquilino, a pelle cÛrada, quasi vermelha, -o cabello branco todo cortado · escovinha, e a barba de neve aguda e -longa--lembrava, como dizia Carlos, um var„o esforÁado das edades -heroicas, um D. Duarte de Menezes ou um Affonso d'Albuquerque. E isto -fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando, quanto as -apparencias illudem! - -N„o, n„o era Menezes, nem Albuquerque; apenas um antepassado bonacheir„o -que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o seu _whist_ ao -canto do fog„o. Elle mesmo costumava dizer, que era simplesmente um -egoista:--mas nunca, como agora na velhice, as generosidades do seu -coraÁ„o tinham sido t„o profundas e largas. Parte do seu rendimento -ia-se-lhe por entre os dedos, esparsamente, n'uma caridade enternecida. -Cada vez amava mais o que È pobre e o que È fraco. Em Santa Olavia, as -creanÁas corriam para elle, dos portaes, sentindo-o acariciador e -paciente. Tudo o que vive lhe merecia amor:--e era dos que n„o pisam um -formigueiro, e se compadece da sÍde d'uma planta. - -VillaÁa costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se conta dos -patriarchas, quando o vinha encontrar ao canto da chaminÈ, na sua coÁada -quinzena de velludilho, sereno, risonho, com um livro na m„o, o seu -velho gato aos pÈs. Este pesado e enorme angor·, branco com malhas -louras, era agora (desde a morte de _Tobias_, o soberbo c„o de S. -Bernardo) o fiel companheiro de Affonso. Tinha nascido em Santa Olavia, -e recebera ent„o o nome de Bonifacio: depois, ao chegar · edade do amor -e da caÁa, fora-lhe dado o appellido mais cavalheiresco de D. Bonifacio -de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no -remanso das dignidades ecclesiasticas, e era o Reverendo Bonifacio... - - -Esta existencia nem sempre assim correra com a tranquillidade larga e -clara d'um bello rio de ver„o. O antepassado, cujos olhos se enchiam -agora d'uma luz de ternura diante das suas rosas, e que ao canto do lume -relia com gosto o seu Guisot, fÙra, na opini„o de seu pae, algum tempo, -o mais feroz Jacobino de Portugal! E todavia, o furor revolucionario do -pobre moÁo consistira em lÍr Rousseau, Volney, Helvetius, e a -Encyclopedia; em atirar foguetes de lagrimas · ConstituiÁ„o; e ir, de -chapeu · liberal e alta gravata azul, recitando pelas lojas maÁonicas -Odes abominaveis ao Supremo Architecto do Universo. Isto, porÈm, bast·ra -para indignar o pae. Caetano da Maia era um portuguez antigo e fiel que -se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apathia de fidalgo beato -e doente, tinha sÛ um sentimento vivo--o horror, o odio ao Jacobino, -aquem attribuia todos os males, os da patria e os seus, desde a perda -das colonias atÈ ·s crises da sua gota. Para extirpar da naÁ„o o -Jacobino, dÈra elle o seu amor ao sr. infante D. Miguel, Messias forte e -Restaurador providencial... E ter justamente por filho um Jacobino, -parecia-lhe uma provaÁ„o comparavel sÛ ·s de Job! - -Ao principio, na esperanÁa que o menino se emendasse, contentou-se em -lhe mostrar um car„o severo e chamar-lhe com sarcasmo--_cidad„o_! Mas -quando soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara · turba que, -n'uma noite de festa civica e de luminarias, tinha apedrejado as -vidraÁas apagadas do sr. Legado d'¡ustria, enviado da Santa -AllianÁa--considerou o rapaz um Marat e toda a sua colera rompeu. A gota -cruel, cravando-o na poltrona, n„o lhe deixou espancar o maÁ„o, com a -sua bengala da India, · lei de bom pae portuguez: mas decidiu expulsal-o -de sua casa, sem mezada e sem benÁ„o, renegado como um bastardo! Que -aquelle pedreiro livre n„o podia ser do seu sangue! - -As lagrimas da mam„ amolleceram-n'o; sobretudo as razıes d'uma cunhada -de sua mulher, que vivia com elles em Bemfica, senhora irlandeza de alta -instrucÁ„o, Minerva respeitada e tutelar, que ensinara inglez ao menino -e o adorava como um bÈbÈ. Caetano da Maia limitou-se a desterrar o filho -para a quinta de Santa Olavia; mas n„o cessou de chorar no seio dos -padres, que vinham a Bemfica, a desgraÁa da sua casa. E esses santos l· -o consolavam, affirmando-lhe que Deus, o velho Deus d'Ourique, n„o -permittiria j·mais que um Maia pactuasse com Belzebut e com a RevoluÁ„o! -E, · falta de Deus Padre, l· estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira -da casa e madrinha do menino, para fazer o bom milagre. - -E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa -Olavia um pouco contricto, enfastiado sobretudo d'aquella solid„o, onde -os ch·s do brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o terÁo das -primas Cunhas. Vinha pedir ao pae a benÁ„o, e alguns mil cruzados, para -ir a Inglaterra, esse paiz de vivos prados e de cabellos d'ouro de que -lhe fallara tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em lagrimas, accedeu -a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercess„o de -Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da ConceiÁ„o seu -confessor, declarou este milagre--n„o inferior ao de Carnaxide. - -Affonso partiu. Era na primavera--e a Inglaterra toda verde, os seus -parques de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus -nobres costumes, aquella raÁa t„o sÈria e t„o forte--encantaram-n'o. Bem -depressa esqueceu o seu odio aos sorumbaticos padres da CongregaÁ„o, as -horas ardentes passadas no cafÈ dos Romulares a recitar Mirabeau, e a -Republica que quizera fundar, classica e voltarianna, com um triumvirato -de Scipiıes e festas ao Ente Supremo. Durante os dias da _Abrilada_ -estava elle nas corridas d'Epsom, no alto d'uma sege de posta, com um -grande nariz postiÁo, dando _hurrahs_ medonhos--bem indifferente aos -seus irm„os de MaÁonaria, que a essas horas o sr. infante espicaÁava a -chuÁo, pelas viellas do Bairro Alto, no seu rijo cavallo d'Alter. - -Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar a Lisboa. Foi ent„o que -conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda -morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ella. Teve -um filho, desejou outros; e comeÁou logo, com bellas idÈas de patriarcha -moÁo, a fazer obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor -arvoredos, preparando tectos e sombras · descendencia amada que lhe -encantaria a velhice. - -Mas n„o esquecia a Inglaterra:--e tornava-lh'a mais appetecida essa -Lisboa miguelista que elle via, desordenada como uma Tunis barbaresca; -essa rude conjuraÁ„o apostolica de frades e bolieiros, atroando tavernas -e capellas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do _lausperenne_ -para o curro, e anciando tumultuosamente pelo principe que lhe encarnava -t„o bem os vicios e as paixıes... - -Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas vezes, na paz do -ser„o, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignaÁ„o da -sua alma honesta. J· n„o exigia de certo, como em rapaz, uma Lisboa de -Catıes e de Mucios-Scevolas. J· admittia mesmo o esforÁo d'uma nobreza -para manter o seu privilegio historico; mas ent„o queria uma nobreza -intelligente e digna, como a Aristocracia tory (que o seu amor pela -Inglaterra lhe fazia idealisar), dando em tudo a direcÁ„o moral, -formando os costumes e inspirando a litteratura, vivendo com fausto e -fallando com gosto, exemplo de idÈas altas e espelho de maneiras -patricias... O que n„o tolerava era o mundo de Queluz, bestial e -sordido. - -Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as -cÙrtes geraes, a policia invadiu Bemfica, ´a procurar papeis e armas -escondidas.ª - -Affonso da Maia, com o seu filho nos braÁos e a mulher tremendo ao -lado--viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas -arrombadas pela coronha das escopetas, as m„os sujas do malsim -rebuscando os colxıes do seu leito. O sr. juiz de fÛra n„o descobriu -nada: acceitou mesmo na copa um calice de vinho, e confessou ao mordomo -´que os tempos iam bem duros...ª Desde essa manh„ as janellas do -palacete conservaram-se cerradas; n„o se abriu mais o port„o nobre para -sahir o coche da senhora; e d'ahi a semanas, com a mulher e com o filho, -Affonso da Maia partia para Inglaterra e para o exilio. - -Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de -Londres, junto a Richmond, ao fundo d'um parque, entre as suaves e -calmas paisagens de Surrey. - -Os seus bens, graÁas ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de D. -Carlota Joaquina, hoje conselheiro rispido do sr. D. Miguel, n„o tinham -sido confiscados; e Affonso da Maia podia viver largamente. - -Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do _Belfast_, -ainda o vieram desassocegar e consumir. A sua alma recta n„o tardou a -protestar vendo a separaÁ„o de castas, de gerarchias, mantidas ali na -terra estranha entre os vencidos da mesma idÈa--os fidalgos e os -desembargadores vivendo no luxo de Londres · forra, e a plebe, o -exercito, depois dos padecimentos da Galliza, succumbindo agora · fome, -· vermina, · febre nos barracıes de Plymouth. Teve logo conflictos com -os chefes liberaes; foi accusado de vintista e demagogo; descreu por fim -do liberalismo. Isolou-se ent„o--sem fechar todavia a sua bolsa, d'onde -sahiam ·s cincoenta, ·s cem moedas... Mas quando a primeira expediÁ„o -partiu, e pouco a pouco se foram vasando os depositos de emigrados, -respirou emfim--e, como elle disse, pela primeira vez lhe soube bem o ar -d'Inglaterra! - -Mezes depois sua m„e, que ficara em Bemfica, morria d'uma apoplexia: e a -tia Fanny veiu para Richmond completar a felicidade d'Affonso, com o seu -claro juizo, os seus caracÛes brancos, os seus modos de discreta -Minerva. Alli estava elle pois no seu sonho, n'uma digna residencia -ingleza, entre arvores seculares, vendo em redor nas vastas relvas -dormirem ou pastarem os gados de luxo, e sentindo em torno de si tudo -s„o, forte, livre e solido,--como o amava o seu coraÁ„o. - -Teve relaÁıes; estudou a nobre e rica litteratura ingleza; -interessou-se, como convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura, -pela cria dos cavallos, pela pratica da caridade;--e pensava com prazer -em ficar ali para sempre n'aquella paz e n'aquella ordem. - -SÛmente Affonso sentia que sua mulher n„o era feliz. Pensativa e triste, -tossia sempre pelas salas. ¡ noite sentava-se ao fog„o, suspirava e -ficava calada... - -Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a -minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e -sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo -·quella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada, -abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas -arvores, o seu coraÁ„o n„o estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa, -nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoÁ„o (a devoÁ„o dos -Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se ·quella hostilidade -ambiente que ella sentia em redor contra os ´papistasª. E sÛ se -satisfazia · noite, indo refugiar-se no sot„o com as creadas -portuguezas, para resar o _terÁo_ agachada n'uma esteira--gosando ali, -n'esse murmurio _d'ave-marias_ em paiz protestante, o encanto de uma -conjuraÁ„o catholica! - -Odiando tudo o que era inglez, n„o consentira que seu filho, o Pedrinho, -fosse estudar ao collegio de Richmond. Debalde Affonso lhe provou que -era um collegio catholico. N„o queria: aquelle catholicismo sem -romarias, sem fogueiras pelo S. Jo„o, sem imagens do Senhor dos Passos, -sem frades nas ruas--n„o lhe parecia a religi„o. A alma do seu Pedrinho -n„o abandonaria ella · heresia;--e para o educar mandou vir de Lisboa o -padre Vasques, capell„o do Conde de Runa. - -O Vasques ensinava-lhe as declinaÁıes latinas, sobretudo a cartilha: e a -face d'Affonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d'alguma -caÁada ou das ruas de Londres, d'entre o forte rumor da vida -livre--ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo, -perguntando como do fundo d'uma treva: - ---Quantos s„o os inimigos da alma? - -E o pequeno, mais dormente, l· ia murmurando: - ---Tres. Mundo, Diabo e Carne... - -Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma sÛ havia alli o reverendo Vasques, -obeso e sordido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o lenÁo do rapÈ -sobre o joelho... - -¡s vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina, -agarrava a m„o do Pedrinho--para o levar, correr com elle sob as arvores -do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da -cartilha. Mas a mam„ accudia de dentro, em terror, a abafal-o n'uma -grande manta: depois l· fÛra o menino, acostumado ao collo das creadas e -aos recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores: e pouco a -pouco, n'um passo desconsolado, os dois iam pisando em silencio as -folhas seccas--o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pae -vergando os hombros pensativo, triste d'aquella fraqueza do filho... - -Mas o menor esforÁo d'elle para arrancar o rapaz ·quelles braÁos de m„e -que o amolleciam, ·quella cartilha mortal do padre Vasques--trazia logo -· delicada senhora accessos de febre. E Affonso n„o se atrevia j· a -contrariar a pobre doente, t„o virtuosa, e que o amava tanto! Ia ent„o -lamentar-se para o pÈ da tia Fanny: a sabia irlandeza mettia os oculos -entre as folhas do seu livro, tratado d'Addisson ou poema de Pope, e -encolhia melancolicamente os hombros. Que podia ella fazer!... - -Por fim a tosse de Maria Eduarda foi augmentando--como a tristeza das -suas palavras. J· fallava da ´sua ambiÁ„o derradeiraª, que era ver o sol -uma vez mais! Por que n„o voltariam a Bemfica, ao seu lar, agora que o -sr. Infante estava tambem desterrado e que havia uma grande paz? Mas a -isso Affonso n„o cedeu: n„o queria ver outra vez as suas gavetas -arrombadas a coronhadas--e os soldados do sr. D. Pedro n„o lhe davam -mais garantias que os malsins do sr. D. Miguel. - -Por esse tempo veio um grave desgosto · casa: a tia Fanny morreu, d'uma -pneumonia, nos frios de marÁo; e isto ennegreceu mais a melancolia de -Maria Eduarda, que a amava muito tambem--por ser irlandeza e catholica. - -Para a distrahir, Affonso levou-a para a Italia, para uma deliciosa -_villa_ ao pÈ de Roma. Ahi n„o lhe faltava o sol: tinha-o ponctual e -generoso todas as manh„s, banhando largamente os terraÁos, dourando -loureiraes e myrtos. E depois, l· em baixo, entre marmores, estava a -coisa preciosa e santa, o Papa! - -Mas a triste senhora continuava a choramigar. O que realmente appetecia -era Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as -procissıes passando n'um rumor de pachorrenta penitencia por tardes de -sol e de poeira... - -Foi necessario calmal-a, voltar a Bemfica. - -Ahi comeÁou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava lentamente, -todos os dias mais pallida, levando semanas immovel sobre um canapÈ, com -as m„os transparentes cruzadas sobre as suas grossas pelles -d'Inglaterra. O padre Vasques, apoderando-se d'aquella alma aterrada -para quem Deus era um amo feroz, torn·ra-se o grande homem da casa. De -resto Affonso encontrava a cada momento pelos corredores outras figuras -canonicas, de capote e solideo, em que reconhecia antigos franciscanos, -ou algum magro capuchinho parasitando no bairro; a casa tinha um bafio -de sachristia; e dos quartos da senhora vinha constantemente, dolente e -vago, um rumor de ladainha. - -Todos aquelles santos varıes comiam, bebiam o seu vinho do Porto na -copa. As contas do administrador appareciam sobrecarregadas com as -mesadas piedosas que dava a senhora: um Frei Patricio surripi·ra-lhe -duzentas missas de cruzado por alma do Sr. D. JosÈ I... - -Esta carolice que o cercava ia lançando Affonso n'um atheismo rancoroso: -quereria as egrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a -machado, uma matança de reverendos... Quando sentia na casa a voz de -resas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante, -ler o seu Voltaire: ou então partia a desabafar com o seu velho amigo, o -coronel Sequeira, que vivia n'uma quinta a Queluz. - -O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso -como Maria Eduarda, tendo pouco da raÁa, da forÁa dos Maias; a sua linda -face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e -irresistiveis; promptos sempre a humedecer-se, faziam-n'o assemelhar a -um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, -indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum desejo -forte parecera j·mais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva: -sÛ ·s vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tom·ra -birra ao Padre Vasques, mas n„o ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um -fraco; e esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a -espaÁos em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, -murcho, amarello, com as olheiras fundas e j· velho. O seu unico -sentimento vivo, intenso, atÈ ahi, fÙra a paix„o pela m„e. - -Affonso quizera-o mandar para Coimbra. Mas, · idÈa de se separar do seu -Pedro, a pobre senhora cahira de joelhos deante d'Affonso, balbuciando e -tremendo: e elle, naturalmente, l· cedeu perante essas m„os -supplicantes, essas lagrimas que cahiam quatro a quatro pela pobre face -de cera. O menino continuou em Bemfica dando os seus lentos passeios a -cavallo, de creado de farda atraz, comeÁando j· a ir beber a sua genebra -aos botequins de Lisboa... Depois foi despontando n'aquella organisaÁ„o -uma grande tendencia amorosa: aos dezenove annos teve o seu -bastardosinho. - -Affonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de t„o desgraÁados -mimos, n„o faltavam ao rapaz qualidades: era muito esperto, s„o, e, como -todos os Maias, valente: n„o havia muito que elle sÛ, com um chicote, -dispersara na estrada tres saloios de varapau que lhe tinham chamado -_palmito_. - -Quando a m„e morreu, n'uma agonia terrivel de devota, debatendo-se dias -nos pavores do inferno, Pedro teve na sua dÙr os arrebatamentos d'uma -loucura. Fizera a promessa hysterica, se ella escapasse, de dormir -durante um anno sobre as lageas do pateo: e levado o caix„o, sahidos os -padres, cahio n'uma angustia soturna, obtusa, sem lagrimas, de que n„o -queria emergir, estirado de bruÁos sobre a cama n'uma obstinaÁ„o de -penitente. Muitos mezes ainda n„o o deixou uma tristeza vaga: e Affonso -da Maia j· se desesperava de ver aquelle rapaz, seu filho e seu -herdeiro, sahir todos os dias a passos de monge, lugubre no seu luto -pesado, para ir visitar a sepultura da mam„... - -Esta dÙr exagerada e morbida cessou por fim; e succedeu-lhe, quasi sem -transiÁ„o, um periodo de vida dissipada e turbulenta, estroinice banal, -em que Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava affogar em -lupanares e botequins as saudades da mam„. Mas essa exhuberancia anciosa -que se desencadeara t„o subitamente, t„o tumultuosamente, na sua -natureza desequilibrada, gastou-se depressa tambem. - -Ao fim d'um anno de disturbios no Marrare, de faÁanhas nas esperas de -toiros, de cavallos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, comeÁaram a -reapparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias -taciturnos, longos como desertos, passados em casa a bocejar pelas -salas, ou sob alguma arvore da quinta todo estirado de bruÁos, como -despenhado n'um fundo de amargura. N'esses periodos tornava-se tambem -devoto: lia Vidas de Santos, visitava o Lausperenne: eram d'esses -bruscos abatimentos d'alma que outr'ora levavam os fracos aos mosteiros. - -Isto penalisava Affonso da Maia: preferia saber que elle recolhera de -Lisboa, de madrugada, exhausto e bebedo,--do que vel-o, de ripanÁo -debaixo do braÁo, com um ar velho, marchando para a Egreja de Bemfica. - -E havia agora uma idÈa que, a seu pesar, ‡s vezes o torturava: -descobrira a grande parecenÁa de Pedro com um avÙ de sua mulher, um -Runa, de quem existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinario, -com que na casa se mettia medo ·s creanÁas, enlouquecera--e julgando-se -Judas enforcara-se n'uma figueira... - -Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava! Era um amor -· Romeu, vindo de repente n'uma troca de olhares fatal e deslumbradora, -uma d'essas paixıes que assaltam uma existencia, a assolam como um -furac„o, arrancando a vontade, a ras„o, os respeitos humanos e -empurrando-os de rold„o aos abysmos. - -N'uma tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, · porta de M.^{me} -Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapÈo branco, e uma -senhora loira, embrulhada n'um chale de Cashmira. - -O velho, baixote e reforÁado, de barba muito grisalha talhada por baixo -do queixo, uma face tisnada d'antigo embarcadiÁo e o ar gÙche, desceu -todo encostado ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse, entrou -arrastando a perna o portal da modista; e ella voltando de vagar a -cabeÁa olhou um momento o Marrare. - -Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto os cabellos loiros, d'um -oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e classica: os olhos -maravilhosos illuminavam-n'a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida a -carnaÁ„o de marmore: e com o seu perfil grave de estatua, o modelado -nobre dos hombros e dos braÁos que o chale cingia--pareceu a Pedro -n'esse instante alguma cousa d'immortal e superior · terra. - -N„o a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido -de negro, que fumava encostado · outra hombreira, n'uma _pose_ de -tedio--vendo o violento interesse de Pedro, o olhar acceso e perturbado -com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veiu tomar-lhe o braÁo, -murmurou-lhe junto · face na sua voz grossa e lenta: - ---Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e -os feitos principaes? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso -Alencar, uma garrafa de Champagne? - -Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos -anneis da cabelleira e pelas pontas do bigode, comeÁou, todo recostado e -dando um puch„o aos punhos: - ---Por uma dourada tarde d'outomno... - ---AndrÈ, gritou Pedro ao creado, martellando o marmore da mesa, retira o -Champagne! - -O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio: - ---O quÍ! Sem saciar a avidez de meu labio?... - -Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o -poeta das _Vozes d'Aurora_, explicaria aquella gente da caleche azul -n'uma linguagem christ„ e pratica!... - ---Ahi vae, meu Pedro, ahi vae! - -Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera a mam„, aquelle velho, -o pap· Monforte, uma manh„ rompera subitamente pelas ruas e pela -sociedade de Lisboa n'aquella mesma caleche com essa bella filha ao seu -lado. Ninguem os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no -palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a apparecer em S. Carlos, -fazendo uma impress„o--uma impress„o de causar aneurismas, dizia o -Alencar! Quando ella atravessava o sal„o os hombros vergavam-se no -deslumbramento de aurÈola que vinha d'aquella magnifica creatura, -arrastando com um passo de Deusa a sua cauda de cÙrte, sempre decotada -como em noites de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias. O -pap· nunca lhe dava o braÁo: seguia atraz, entalado n'uma grande gravata -branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadiÁo na -claridade loira que sahia da filha, encolhido e quasi apavorado, -trazendo nas m„os o oculo, o _libretto_, um saco de _bonbons_, o leque e -o seu proprio guardachuva. Mas era no camarote, quando a luz cahia sobre -o seu collo eburneo e as suas tranÁas de oiro, que ella offerecia -verdadeiramente a encarnaÁ„o d'um ideal da RenascenÁa, um modelo de -Ticiano... Elle, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara, -mostrando-a a ella e ·s outras, ·s trigueirotas da assignatura: - ---Rapazes! È como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo -do Sr. D. Jo„o VI! - -O Magalh„es, esse torpe pirata, pozera o dito n'um folhetim do -_Portuguez_. Mas o dito era d'elle, Alencar! - -Os rapazes, naturalmente, comeÁaram logo a rondar o palacete de Arroios. -Mas nunca n'aquella casa se abria uma janella. Os criados interrogados -disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava -Manoel. Emfim uma creada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem -era taciturno, tremia deante da filha, e dormia n'uma rÍde; a senhora, -essa, vivia n'um ninho de sedas todo azul-ferrÍte, e passava o seu dia a -ler novellas. Isto n„o podia satisfazer a sofreguid„o de Lisboa. Fez-se -uma devassa methodica, habil, paciente... Elle, Alencar, pertencera · -devassa. - -E souberam-se horrores. O pap· Monforte era dos AÁores; muito moÁo, uma -facada n'uma rixa, um cadaver a uma esquina tinham-n'o forÁado a fugir a -bordo d'um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da -casa de Taveira, que o conhecera nos AÁores, estando na Havana a estudar -a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas -encontr·ra l· o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando -pelo caes, de chinellas de esparto, · procura de embarque para a -Nova-Orleans. Aqui havia uma treva na historia do Monforte. Parece que -servira algum tempo de feitor n'uma plantaÁ„o da Virginia... Emfim, -quando reappareceu · face dos cÈos commandava o brigue _Nova Linda_, e -levava cargas de pretos para o Brazil, para a Havana e para a Nova -Orleans. - -Escapara aos cruzeiros inglezes, arranc·ra uma fortuna da pelle do -africano, e agora rico, homem de bem, proprietario, ia ouvir a Corelli a -S. Carlos. Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar, obscura -e mal provada, claudicava aqui e alÈm... - ---E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, serio e pallido. - -Mas isso n„o o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim t„o loira e -bella? Quem fÙra a mam„? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com -aquelle gesto real no seu chale de Cashmira?... - ---Isso, meu Pedro, s„o - - - mysterios que j·mais poude Lisboa - astuta devassar e sÛ Deus sabe! - - -Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquella legenda de sangue e -negros, o enthusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue -de assassino, a _belt‡_ do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras, -deliciando-se em villipendiar uma mulher t„o loira, t„o linda e com -tantas joias, chamaram-lhe logo a _negreira_! Quando ella apparecia -agora no theatro, D. Maria da Gama affectava esconder a face detraz do -leque, porque lhe parecia ver na rapariga (sobretudo quando ella usava -os seus bellos rubis) o sangue das facadas que dera o pap·zinho! E -tinham-n'a calumniado abominavelmente. Assim, depois de passarem em -Lisboa o primeiro inverno, os Monfortes sumiram-se: pois disse-se logo, -com furor, que estavam arruinados, que a policia perseguia o velho, mil -perversidades... O excellente Monforte, que soffre de rheumatismos -articulares, achava-se tranquillamente, ricamente, tomando as aguas dos -Piryneus... Fora l· que o Mello os conhecera... - ---Ah! o Mello conhece-os? exclamou Pedro. - ---Sim, meu Pedro, o Mello os conhece. - -Pedro d'ahi a um momento deixou o Marrare; e n'essa noite, antes de -recolher, apesar da chuva fria e miuda, andou rondando uma hora, com a -imaginaÁ„o toda accesa, o palacete dos Vargas apagado e mudo. Depois, -d'ahi a duas semanas o Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro -acto do _Barbeiro_, ficou assombrado ao ver Pedro da Maia installado na -frisa da Monforte, · frente, ao lado de Maria, com uma camelia escarlate -na casaca--egual ·s d'um ramo pousado no rebordo de velludo. - -Nunca Maria Monforte apparecera mais bella: tinha uma d'essas -_toilettes_ excessivas e theatraes que offendiam Lisboa, e faziam dizer -·s senhoras que ella se vestia ´como uma comicaª. Estava de seda cÙr de -trigo, com duas rosas amarellas e uma espiga nas tranÁas, opalas sobre o -collo e nos braÁos; e estes tons de ceara madura batida do sol, -fundindo-se com o ouro dos cabellos, illuminando-lhe a carnaÁ„o eburnea, -banhando as suas fÛrmas de estatua, davam-lhe o esplendor d'uma Ceres. -Ao fundo entreviam-se os grandes bigodes loiros do Mello, que conversava -de pÈ com o pap· Monforte--escondido como sempre no canto negro da -frisa. - -O Alencar foi observar ´o casoª do camarote dos Gamas. Pedro volt·ra · -sua cadeira, e de braÁos cruzados contemplava Maria. Ella conservou -algum tempo a sua attitude de Deusa insensivel; mas, depois, no duetto -de Rosina e Lindor, duas vezes os seus olhos azues e profundos se -fixaram n'elle, gravemente e muito tempo. O Alencar, correu ao Marrare, -de braÁos ao ar, a berrar a novidade. - -N„o tardou de resto a fallar-se em toda a Lisboa da paix„o de Pedro da -Maia pela _negreira_. Elle tambem namorou-a publicamente, · antiga, -plantado a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos -cravados na janella d'ella, immovel e pallido d'extasi. - -Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel--poemas -desordenados que ia compÙr para o Marrare: e ninguem l· ignorava o -destino d'aquellas paginas de linhas encruzadas que se accumulavam -deante d'elle sobre o taboleiro da genebra. Se algum amigo vinha · porta -do cafÈ perguntar por Pedro da Maia, os criados j· respondiam muito -naturalmente: - ---O sr. D. Pedro? Est· a escrever · menina. - -E elle mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a m„o, exclamava -radiante, com o seu bello e franco sorriso: - ---Espera ahi um bocado, rapaz, estou a escrever · Maria! - -Os velhos amigos de Affonso da Maia que vinham fazer o seu _whist_ a -Bemfica, sobretudo o VillaÁa, o administrador dos Maias, muito zeloso da -dignidade da casa, n„o tardaram em lhe trazer a nova d'aquelles amores -do Pedrinho. Affonso j· os suspeitava: via todos os dias um criado da -quinta partir com um grande ramo das melhores camelias do jardim; todas -as manh„s cedo encontrava no corredor o escudeiro, dirigindo-se ao -quarto do menino, a cheirar regaladamente o perfume d'um enveloppe com -sinete de lacre dourado;--e n„o lhe desagradava que um sentimento -qualquer, humano e forte, lhe fosse arrancando o filho · estroinice -bulhenta, ao jogo, ·s melancolias sem ras„o em que reapparecia o negro -ripanÁo... - -Mas ignorava o nome, a existencia sequer dos Monfortes; e as -particularidades que os amigos lhe revelaram, aquella facada nos AÁores, -o chicote de feitor na Virginia, o brigue _Nova Linda_, toda a sinistra -legenda do velho contrariou muito Affonso da Maia. - -Uma noite que o coronel Sequeira, · mesa do _whist_, contava que vira -Maria Monforte e Pedro passeando a cavallo, ´ambos muito bem e muito -_distinguÈs_ª, Affonso, depois d'um silencio, disse com um ar -enfastiado: - ---Emfim, todos os rapazes teem as suas amantes... Os costumes s„o assim, -a vida È assim, e seria absurdo querer reprimir taes cousas. Mas essa -mulher, com um pae d'esses, mesmo para amante acho m·. - -O VillaÁa suspendeu o baralhar das cartas, e ageitando os oculos d'ouro -exclamou com espanto: - ---Amante! Mas a rapariga È solteira, meu senhor, È uma menina -honesta!... - -Affonso da Maia enchia o seu cachimbo; as m„os comeÁaram a tremer-lhe; e -voltando-se para o administrador, n'uma voz que tremia um pouco tambem: - ---O VillaÁa de certo n„o suppıe que meu filho queira casar com essa -creatura... - -O outro emmudeceu. E foi o Sequeira que murmurou: - ---Isso n„o, est· claro que n„o... - -E o jogo continuou algum tempo em silencio. - -Mas Affonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas -que Pedro n„o jantava em Bemfica. De manh„, se o via, era um momento, -quando elle descia ao almoÁo, j· com uma luva calÁada, apressado e -radiante, gritando para dentro se estava sellado o cavallo; depois, -mesmo de pÈ, bebia um gole de ch·, perguntava a correr ´se o pap· queria -alguma cousaª, dava um geito ao bigode deante do grande espelho de -Veneza sobre o fog„o, e l· partia, enlevado. Outras vezes todo o dia n„o -sahia do quarto: a tarde descia, accendiam-se as luzes; atÈ que o pae, -inquieto, subia, ia encontral-o estirado sobre o leito, com a cabeÁa -enterrada nos braÁos. - ---Que tens tu?--perguntava-lhe. - ---Enchaqueca,--respondia n'um tom surdo e rouco. - -E Affonso descia indignado, vendo em toda aquella angustia covarde -alguma carta que n„o viera, ou talvez uma rosa offerecida que n„o fÙra -posta nos cabellos... - -Depois, por vezes, entre dois _robbers_ ou conversando em volta da -bandeja do ch·, os seus amigos tinham observaÁıes que o inquietavam, -partindo d'aquelles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os -rumores--emquanto elle passava alli, inverno e ver„o, entre os seus -livros e as suas rosas. Era o excellente Sequeira que perguntava porque -n„o faria Pedro uma viagem longa, para se instruir, · Allemanha, ao -Oriente? Ou o velho Luiz Runa, o primo d'Affonso, que, a proposito de -cousas indifferentes, rompia lamentando os tempos em que o Intendente da -policia podia livremente expulsar de Lisboa as pessoas importunas... -Evidentemente alludiam · Monforte, evidentemente julgavam-n'a perigosa. - -No ver„o, Pedro partiu para Cintra; Affonso soube que os Monfortes -tinham l· alugado uma casa. Dias depois o VillaÁa appareceu em Bemfica, -muito preoccupado: na vespera Pedro visitara-o no cartorio, pedira-lhe -informaÁıes sobre as suas propriedades, sobre o meio de levantar -dinheiro. Elle l· lhe dissera que em setembro, chegando · sua -maioridade, tinha a legitima da mam„... - ---Mas n„o gostei d'isto, meu senhor, n„o gostei d'isto... - ---E porque, VillaÁa? O rapaz querer· dinheiro, querer· dar presentes · -creatura... O amor È um luxo caro, VillaÁa. - ---Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o ouÁa! - -E aquella confianÁa t„o nobre de Affonso da Maia no orgulho patricio, -nos brios de raÁa de seu filho, chegava a tranquillisar VillaÁa. - -D'ahi a dias, Affonso da Maia viu emfim Maria Monforte. Tinha jantado na -quinta do Sequeira ao pÈ de Queluz, e tomavam ambos o seu cafÈ no -mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche -azul com os cavallos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma -sombrinha escarlate, trazia um vestido cÙr de rosa cuja roda, toda em -folhos, quasi cobria os joelhos de Pedro sentado ao seu lado: as fitas -do seu chapÈo, apertadas n'um grande laÁo que lhe enchia o peito, eram -tambem cÙr de rosa: e a sua face, grave e pura como um marmore grego, -apparecia realmente adoravel, illuminada pelos olhos d'um azul sombrio, -entre aquelles tons rosados. No assento defronte, quasi todo tomado por -cartıes de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapÈo panam·, -calÁa de ganga, o mantelete da filha no braÁo, o guarda sol entre os -joelhos. Iam callados, n„o viram o mirante; e, no caminho verde e -fresco, a caleche passou com balanÁos lentos, sob os ramos que roÁavam a -sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chavena de cafÈ junto aos -labios, de olho esgazeado, murmurando: - ---Caramba! … bonita! - -Affonso n„o respondeu: olhava cabisbaixo aquella sombrinha escarlate, -que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvel-o -todo--como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde -triste das ramas. - -O outono passou, chegou o inverno, frigidissimo. Uma manh„, Pedro entrou -na livraria onde o pae estava lendo junto ao fog„o; recebeu-lhe a -benÁ„o, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se -bruscamente para elle: - ---Meu pae,--disse, esforÁando-se por ser claro e decidido--venho -pedir-lhe licenÁa para casar com uma senhora que se chama Maria -Monforte. - -Affonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e n'uma voz grave e -lenta: - ---N„o me tinhas fallado d'isso... Creio que È a filha d'um assassino, -d'um negreiro, a quem chamam tambem a _negreira_... - ---Meu pae!... - -Affonso ergueu-se diante d'elle, rigido e inexoravel como a encarnaÁ„o -mesma da honra domestica. - ---Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha. - -Pedro, mais branco que o lenÁo que tinha na m„o, exclamou todo a tremer, -quasi em soluÁos: - ---Pois pÛde estar certo, meu pae, que hei de casar! - -Sahiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo -escudeiro, muito alto para que o pae ouvisse, e deu-lhe ordem para levar -as suas malas ao hotel da Europa. - -Dois dias depois VillaÁa entrou em Bemfica, com as lagrimas nos olhos, -contando que o menino cas·ra n'essa madrugada--e segundo lhe dissera o -Sergio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Italia. - -Affonso da Maia sent·ra-se n'esse instante · mesa do almoÁo, posta ao pÈ -do fog„o: ao centro, um ramo esfolhava-se n'um vaso do Jap„o, · chamma -forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o numero da -_Grinalda_, jornal de versos que elle costumava receber... Affonso ouviu -o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente o seu -guardanapo. - ---J· almoÁou, VillaÁa? - -O procurador, assombrado d'aquella serenidade, balbuciou: - ---J· almocei, meu senhor... - -Ent„o Affonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro: - ---PÛde tirar d'alli esse talher, Teixeira. D'aqui por diante ha sÛ um -talher · mesa... Sente-se, VillaÁa, sente-se. - -O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indifferenÁa o talher do -menino. VillaÁa sent·ra-se. Tudo em redor era correto e calmo como nas -outras manh„s em que almoÁara em Bemfica. Os passos do escudeiro n„o -faziam ruido no tapete fofo; o lume estalava alegremente, pondo retoques -d'ouro nas pratas polidas; o sol discreto que brilhava fÛra no azul -d'inverno fazia scintillar crystaes de geada nas ramas seccas; e · -janella o papagaio, muito patulÍa e educado por Pedro, rosnava injurias -aos Cabraes. - -Por fim Affonso ergueu-se; esteve olhando abstrahidamente a quinta, os -pavıes no terrasso; depois ao sahir da sala tomou o braÁo de VillaÁa, -apoiou-se n'elle com forÁa, como se lhe tivesse chegado a primeira -tremura da velhice, e no seu abandono sentisse alli uma amizade segura. -Seguiram o corredor, callados. Na livraria Affonso foi occupar a sua -poltrona ao pÈ da janella, comeÁou a encher de vagar o seu cachimbo. -VillaÁa, de cabeÁa baixa, passeava ao comprido das altas estantes, nas -pontas dos pÈs, como no quarto d'um doente. Um bando de pardaes veiu -gralhar um momento nos ramos d'uma alta arvore que roÁava a varanda. -Depois houve um silencio, e Affonso da Maia disse: - ---Ent„o, VillaÁa, o Saldanha l· foi demittido do PaÁo?... - -O outro respondeu, vaga e machinalmente: - ---… verdade, meu senhor, È verdade... - -E n„o se fallou mais de Pedro da Maia. - - - - -II - - -Pedro e Maria, no entanto, n'uma felicidade de novella, iam descendo a -Italia, a pequenas jornadas, de cidade em cidade, n'essa via sagrada que -vae desde as flores e das messes da planicie lombarda atÈ ao molle paiz -de romanza, Napoles, branca sob o azul. Era l· que tencionavam passar o -inverno, n'esse ar sempre tepido junto a um mar sempre manso, onde as -preguiÁas de noivado teem uma suavidade mais longa... Mas um dia, em -Roma, Maria sentiu o appetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar -assim, aos balouÁos das caleÁas, sÛ para ir ver _lazzaroni_ engolir fios -de macarr„o. Quanto melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos -Elyseos, e gozarem alli um lindo inverno de amor! Paris estava seguro, -agora, com o principe Luiz Napole„o... AlÈm d'isso, aquella velha Italia -classica enfastiava-a j·: tantos marmores eternos, tantas _madonas_ -comeÁavam (como ella dizia pendurada languidamente do pescoÁo de Pedro) -a dar tonturas · sua pobre cabeÁa! Suspirava por uma boa loja de modas, -sob as chammas do gaz, ao rumor do boulevard... Depois tinha medo da -Italia onde todo mundo conspirava. - -Foram para FranÁa. - -Mas por fim aquelle Paris ainda agitado, onde parecia restar um vago -cheiro de polvora pelas ruas, onde cada face conservava um calor de -batalha, desagradou a Maria. De noite accordava com a _Marselheza_; -achava um ar feroz · policia; tudo permanecia triste; e as duquezas, -pobres anjos, ainda n„o ousavam vir ao _Bois_, com medo dos operarios, -corja insaciavel! Emfim demoraram-se l· atÈ a primavera, no ninho que -ella sonh·ra, todo de velludo azul, abrindo sobre os Campos Elyseos. - -Depois principiou a fallar-se de novo em revoluÁ„o, em golpe d'estado. A -admiraÁ„o absurda de Maria pelos novos uniformes da _garde-mobile_ fazia -Pedro nervoso. E quando ella appareceu gravida, anciou por a tirar -d'aquelle Paris batalhador e fascinante, vir abrigal-a na pacata Lisboa -adormecida ao sol. - -Antes de partir porÈm escreveu ao pae. - -FÙra um conselho, quasi uma exigencia de Maria. A recusa de Affonso da -Maia ao principio desesperara-a. N„o a affligia a desuni„o domestica: -mas aquelle _n„o_ affrontoso de fidalgo puritano marcara muito -publicamente, muito brutalmente, a sua origem suspeita! Odiou o velho: e -tinha apressado o casamento, aquella partida triumphante para Italia, -para lhe mostrar bem que nada valiam genealogias, avÛs godos, brios de -familia--deante dos seus braÁos nus... Agora porÈm que ia voltar a -Lisboa, dar _soirÈes_, crear cÙrte, a reconciliaÁ„o tornava-se -indispensavel; aquelle pae retirado em Bemfica, com o rigido orgulho de -outras edades, faria lembrar constantemente, mesmo entre os seus -espelhos e os seus estofos, o brigue _Nova Linda_ carregado de negros... -E queria mostrar-se a Lisboa pelo braÁo d'esse sogro t„o nobre e t„o -ornamental, com as suas barbas de Viso-rei. - ---Dize-lhe que j· o adoro, murmurava ella curvada sobre a escrivaninha -acariciando os cabellos de Pedro. Dize-lhe que se tiver um pequeno lhe -hei de pÙr o nome d'elle... Escreve-lhe uma carta bonita, hein! - -E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao pap·. O pobre rapaz amava-o. -Fallou-lhe commovido da esperanÁa de ter um filho var„o; as -desintelligencias deviam findar em torno do berÁo d'aquelle pequeno Maia -que alli vinha, morgado e herdeiro do nome... Contava-lhe a sua -felicidade, com uma effus„o de namorado indiscreto: a historia da -bondade de Maria, das suas graÁas, da sua instrucÁ„o, enchia duas -paginas: e jurava-lhe que apenas chegasse n„o tardaria uma hora em ir -atirar-se aos seus pÈs... - -Com effeito, apenas desembarcou, correu n'um trem a Bemfica. Dois dias -antes o pae partira para S.^{ta} Olavia: isto pareceu-lhe uma -desfeita--e feriu-o acerbamente. - -Fez-se ent„o entre o pae e o filho uma grande separaÁ„o. Quando lhe -nasceu uma filha Pedro n„o lh'o participou--dizendo dramaticamente ao -VillaÁa ´que j· n„o tinha pae!ª Era uma linda bÈbÈ, muito gorda, loira e -cÙr de rosa, com os bellos olhos negros dos Maias. Apesar do desejo de -Pedro, Maria n„o a quiz crear; mas adorava-a com phrenesi; passava dias -de joelhos ao pÈ do berÁo, em extasi, correndo as suas m„os cheias de -pedrarias pelas carninhas tenras; pondo-lhe beijos de devota nos -pÈsinhos, na rosquinha das cÙxas, balbuciando-lhe n'um enlevo nomes de -grande amor, e perfumando-a j·, enchendo-a j· de laÁarotes. - -E n'estes delirios pela filha, brotava, mais amarga, a sua colera contra -Affonso da Maia. Considerava-se ent„o insultada em si mesma e n'aquelle -cherubim que lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe -o _D. Fuas_, o _Barbatanas_... - -Pedro um dia ouviu isto, e escandalisou-se: ella replicou -desabridamente: e deante d'aquella face abrazada, onde entre lagrimas os -olhos azues pareciam negros de colera, elle sÛ poude balbuciar -timidamente: - ---… meu pae, Maria... - -Seu pae! E · face de toda a Lisboa tratava-a ent„o como uma concubina! -Podia ser um fidalgo, as maneiras eram de vill„o. Um _D. Fuas_, um -_Barbatanas_, nada mais!... - -Arrebatou a filha, e abraÁada n'ella, romperam as queixas por entre os -prantos: - ---Ninguem nos ama, meu anjo! Ninguem te quer! Tens sÛ a tua m„e! -Tratam-te como se fosses bastarda! - -A bebÈ, sacudida nos braÁos da m„e, desatou a gritar. Pedro correu, -envolveu-as ambas no mesmo abraÁo, j· enternecido, j· humilde; e tudo -terminou n'um longo beijo. - -E elle, por fim, no seu coraÁ„o, justificava aquella colera de m„e que -vÍ desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos de Pedro, o -Alencar, o D. Jo„o da Cunha, que comeÁavam agora a frequentar Arroios, -riam d'aquella obstinaÁ„o de pae gothico, amuado na provincia, porque -sua nora n„o tivera avÛs mortos em Aljubarrota! E onde havia outra em -Lisboa, com aquellas _toilettes_, aquella graÁa, recebendo t„o bem? Que -diabo, o mundo marchara, sahira-se j· das attitudes empertigadas do -seculo XVI! - -E o proprio VillaÁa, um dia que Pedro lhe fÙra mostrar a pequerruchinha -adormecida entre as rendas do seu berÁo, sensibilisou-se, veio-lhe uma -das suas faceis lagrimas, declarou, com a m„o no coraÁ„o, que aquillo -era uma caturrice do sr. Affonso da Maia! - ---Pois peior para elle! n„o querer ver um anjo d'estes! disse Maria, -dando deante do espelho um lindo geito ·s flores do cabello. Tambem n„o -faz c· falta... - -E n„o fazia falta. N'esse outubro, quando a pequena completou o seu -primeiro anno, houve um grande baile na casa de Arroios, que elles agora -occupavam toda, e que fÙra ricamente remobilada. E as senhoras que -outr'ora tinham horror · _negreira_, a D. Maria da Gama que escondia a -face por traz do leque, l· vieram todas, amaveis e decotadas, com o -beijinho prompto, chamando-lhe ´queridaª, admirando as grinaldas de -camelias que emmolduravam os espelhos de quatrocentos mil rÈis, e -gozando muito os gelados. - -ComeÁara ent„o uma existencia festiva e luxuosa, que, segundo dizia o -Alencar, o intimo da casa, o cortes„o de Madame, ´tinham um saborsinho -d'orgia _distinguÈe_ como os poemas de Byron.ª Eram realmente as -_soirÈes_ mais alegres de Lisboa: ceiava-se · uma hora com Champagne; -talhava-se atÈ tarde um _monte_ forte; inventavam-se quadros vivos, em -que Maria se mostrara soberanamente bella sob as roupagens classicas de -Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites mais -intimas, ella costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha -perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a -bater · carambola franceza D. Jo„o da Cunha, o grande taco da epoca. - -E no meio d'esta festanÁa, atravessada pelo sopro romantico da -RegeneraÁ„o, l· se via sempre, taciturno e encolhido, o pap· Monforte, -d'alta gravata branca, com as m„os atraz das costas, rondando pelos -cantos, refugiado pelos v„os das janellas, mostrando-se sÛ para salvar -alguma bobËche que Ìa estalar--e n„o desprendendo nunca da filha o olho -embevecido e senil. - -Nunca Maria fÙra t„o formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais -copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz ·quellas altas salas de -Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das -tranÁas, o eburneo e o lacteo do collo nu, e o rumor das grandes sedas. -Com ras„o, querendo ter, · maneira das damas da RenascenÁa, uma flÙr que -a symbolisasse, escolhera a tulipa real opulenta e ardente. - -Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do valor de -propriedades!... Podia fazel-o! o marido era rico, e ella sem escrupulo -arruinal-o-hia, a elle e ao pap· Monforte... - -Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar esse -proclamava-se com alarido seu ´cavalleiro e seu poetaª. Estava sempre em -Arroios, tinha l· o seu talher: por aquellas salas soltava as suas -phrases ressoantes, por esses soph·s arrastava as suas _poses_ de -melancolia. Ia dedicar a Maria (e nada havia mais extraordinario que o -tom langoroso e plangente, o olho turvo, fatal, com que elle pronunciava -este nome--Maria!) ia dedicar-lhe o seu poema, t„o annunciado, t„o -esperado--Flor de Martyrio! E citavam-se as estrophes que lhe fizera ao -gosto cantante do tempo: - - - Vi-te essa noite no explendor das sallas - Com as loiras tranÁas volteando louca... - - -A paix„o do Alencar era innocente: mas, dos outros intimos da casa, mais -d'um de certo balbuciara j· a sua declaraÁ„o no _boudoir_ azul em que -ella recebia ·s tres horas, entre os seus vasos de tulipas; as suas -amigas porÈm, mesmo as peiores, affirmavam que os seus favores nunca -teriam passado de alguma rosa dada n'um v„o de janella, ou de algum -longo e suave olhar por traz do leque. Pedro todavia comeÁava a ter -horas sombrias. Sem sentir ciumes, vinha-lhe ·s vezes, de repente, um -tedio d'aquella existencia de luxo e de festa, um desejo violento de -sacudir da sala esses homens, os seus intimos, que se atropellavam assim -t„o ardentemente em volta dos hombros decotados de Maria. - -Refugiava-se ent„o n'algum canto, trincando com furor o charuto: e ahi, -era em toda a sua alma um tropel de cousas dolorosas e sem nome... - -Maria sabia perceber bem na face do marido ´estas nuvensª, como ella -dizia. Corria para elle, tomava-lhe ambas as m„os, com forÁa, com -dominio: - ---Que tens tu, amor? Est·s amuado! - ---N„o, n„o estou amuado... - ---Olha ent„o para mim!... - -Collava o seu bello seio contra o peito d'elle; as suas m„os corriam-lhe -os braÁos n'uma caricia lenta e quente, dos pulsos aos hombros; depois, -com um lindo olhar, estendia-lhe os labios. Pedro colhia n'elles um -longo beijo, e ficava consolado de tudo. - -Durante esse tempo Affonso da Maia n„o sahia das sombras de St.^a -Olavia, t„o esquecido para l· como se estivesse no seu jazigo. J· se n„o -fallava d'Èlle; em Arroios, _D. Fuas_ estava roendo a teima. SÛ Pedro ·s -vezes perguntava a VillaÁa ´como ia o pap·.ª E as noticias do -administrador enfureciam sempre Maria: o pap· estava optimo; tinha agora -um cosinheiro francez explendido; St.^a Olavia enchera-se de hospedes, o -Sequeira, AndrÈ da Ega, D. Diogo Coutinho... - ---O _Barbatanas_ trata-se! ia elle dizer ao pae com rancor. - -E o velho negreiro esfregava as m„os, satisfeito de o saber assim feliz -em St.^a Olavia; porque nunca cessara de tremer · idÈa de ver em -Arroios, deante de si, aquelle fidalgo t„o severo e de vida t„o pura. - -Quando porÈm Maria teve outro filho, um pequeno, o socego que ent„o se -fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao coraÁ„o de Pedro a -imagem do pae abandonado n'aquella tristeza do Douro. Fallou a Maria de -reconciliaÁ„o, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescenÁa. E a sua -alegria foi grande, quando Maria, depois de ficar um momento pensativa, -respondeu: - ---Creio que me havia de fazer feliz tel-o aqui... - -Pedro, enthusiasmado com um assentimento t„o inesperado, pensou em -abalar para St.^a Olavia. Mas ella tinha um plano melhor: Affonso, -segundo dizia o VillaÁa, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem, -ella iria l· com o pequeno, toda vestida de preto, e de repente, -atirando-se-lhe aos pÈs, pedir-lhe-hia a benÁ„o para seu neto! N„o podia -falhar! N„o podia, realmente; e Pedro viu alli uma alta inspiraÁ„o de -maternidade... - -Para abrandar desde j‡ o pap·, Pedro quiz dar ao pequeno o nome de -Affonso. Mas n'isso Maria n„o consentiu. Andava lendo uma novella de que -era heroe o ultimo Stuart, o romanesco principe Carlos Eduardo; e, -namorada d'elle, das suas aventuras e desgraÁas, queria dar esse nome a -seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo -um destino de amores e faÁanhas. - -O baptisado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi -muito benigna porÈm; e d'ahi a duas semanas Pedro podia j· sahir para -uma caÁada na sua quinta da _Tojeira_, adiante d'Almada. Devia -demorar-se dois dias. A partida arranjara-se unicamente para obsequiar -um italiano, chegado por ent„o a Lisboa, distincto rapaz que lhe fÙra -apresentado pelo secretario da LegaÁ„o Ingleza, e com quem Pedro -sympathisara vivamente; dizia-se sobrinho dos Principes de Soria; e -vinha fugido de Napoles, onde conspir·ra contra os Bourbons e fÙra -condemnado · morte. O Alencar e D. Jo„o Coutinho iam tambem · caÁada--e -a partida foi de madrugada. - -N'essa tarde, Maria jantava sÛ no seu quarto, quando sentiu carruagens -parando · porta, um grande rumor encher a escada; quasi immediatamente -Pedro apparecia-lhe tremulo e enfiado: - ---Uma grande desgraÁa, Maria! - ---Jesus! - ---Feri o rapaz, feri o napolitano!... - ---Como? - -Um desastre estupido!... Ao saltar um barranco, a espingarda -dispara-se-lhe, e a carga, z·s, vae cravar-se no napolitano! N„o era -possivel fazer curativos na _Tojeira_, e voltaram logo a Lisboa. Elle -naturalmËnte n„o consentira que o homem que tinha ferido recolhesse ao -hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verde por cima, mandara -chamar o medico, duas enfermeiras para o velar, e elle mesmo l· ia -passar a noite... - ---E elle? - ---Um heroe!... Sorri, diz que n„o È nada, mas eu vejo-o pallido como um -morto. Um rapaz adoravel! Isto sÛ a mim, Senhor! E ent„o o Alencar que -ia mesmo ao pÈ d'elle... Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz -intimo, de confianÁa! atÈ a gente se ria. Mas n„o, z·s, logo o outro, o -de cerimonia... - -Uma sege, n'esse instante, entrava o pateo. - ---… o medico! - -E Pedro abalou. - -Voltou, d'ahi a pouco mais tranquillo. O Dr. Guedes quasi rira d'aquella -bagatella, uma chumbada no braÁo, e alguns gr„os perdidos nas costas. -Promettera-lhe que d'ahi a duas semanas podia caÁar outra vez na -_Tojeira_; e o principe estava j· fumando o seu charuto. Bello rapaz! -Parecia sympathisar com o pap· Monforte... - -Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitaÁ„o vaga que lhe dava aquella -idÈa d'um principe enthusiasta, conspirador, condemnado · morte, ferido -agora por cima do seu quarto. - -Logo de manh„ cedo--apenas Pedro sahira a fazer transportar, elle mesmo, -do hotel, as bagagens do napolitano--Maria mandou a sua criada franceza -de quarto, uma bella moÁa d'Arles, acima, saber da parte d'ella como S. -Alteza passara, e ´ver que figura tinhaª. A arlesiana appareceu, com os -olhos brilhantes, a dizer · senhora, nos seus grandes gestos de -ProvenÁal, que nunca vira um homem t„o formoso! Era uma pintura de Nosso -Senhor Jesus Christo! Que pescoÁo, que brancura de marmore! Estava muito -pallido ainda; agradecia enternecido os cuidados de Madame Maia; e -ficara a ler o jornal encostado aos travesseiros... - -Maria, desde ent„o, n„o pareceu interessar-se mais pelo ferido. Era -Pedro que vinha, a cada instante, fallar-lhe d'elle, enthusiasmado por -aquella existencia pathetica de principe conspirador, partilhando j· o -seu odio aos Bourbons, encantado com a similitude de gostos que -encontrava n'elle, o mesmo amor da caÁa, dos cavallos, das armas. Agora -logo de manh„, subia para o quarto do Principe, de _robe-de-chambre_, e -cachimbo na boca, e passava l· horas n'uma camaradagem, fazendo _grogs_ -quentes--permittidos pelo Dr. Guedes. Levava mesmo para l· os seus -amigos, o Alencar, o D. Jo„o da Cunha. Maria sentia-lhes por cima as -risadas. ¡s vezes tocava-se viola. E o velho Monforte, pasmado para o -heroe, n„o cessava de lhe rondar o leito. - -A Arlesiana, essa, tambem a cada momento apparecia l· a levar toalhas de -rendas, um assucareiro que ninguem reclamara, ou algum vaso com flores -para alegrar a alcova... Maria, por fim, perguntou a Pedro, muito seria, -se alÈm de todos os amigos da casa, duas enfermeiras, dois escudeiros, o -pap· e elle Pedro--era necessaria tambem constantemente a sua propria -criada no quarto de Sua Alteza! - -N„o era. Mas Pedro riu muito · idea de que a Arlesiana se tivesse -namorado do principe. N'esse caso Venus era-lhe propicia! O napolitano -tambem a achava picante: _un trËs joli brin de femme_, tinha elle dito. - -A bella face de Maria impallideceu de colera. Julgava tudo isso de mau -gosto, grosseiro, impudente! Pedro fÙra realmente um doido em trazer -assim para a intimidade de Arroios um estrangeiro, um fugido, um -aventureiro! Demais, aquella troÁa em cima, entre grogs quentes, com -guitarra, sem respeito por ella ainda toda nervosa, toda fraca da -convalescenÁa, indignava-a! Apenas Sua Alteza podesse accommodar-se com -almofadas n'uma sege, queria-o fÛra, na estalagem... - ---O que ahi vae! Jesus! o que ahi vae!... disse Pedro. - ---… assim. - -E de certo foi muito severa tambem com a Arlesianna, por que n'essa -tarde Pedro encontrou a moÁa aos ais no corredor, limpando ao avental os -olhos affogueados. - -D'ahi a dias, porÈm, o napolitano, j· convalescente, quiz recolher ao -seu hotel. N„o vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade -mandou-lhe um admiravel ramo, e, com uma galanteria de principe artista -da RenascenÁa, um soneto em italiano enrolado entre as flores e t„o -perfumado como ellas: comparava-a a uma nobre dama da Syria dando a gota -de agua da sua bilha ao cavalleiro arabe, ferido na estrada ardente; -comparava-a · Beatriz do Dante. - -Isto affigurou-se a todos de uma rara distincÁ„o, e, como disse o -Alencar, um rasgo · Byron. - -Depois, na _soirÈe_ do baptisado de Carlos Eduardo, dada d'ahi a uma -semana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um homem -esplendido, feito como um Apollo, de uma pallidez de marmore rico: a sua -barba curta e frisada, os seus longos cabellos castanhos, cabellos de -mulher, ondeados e com reflexos de ouro, apartados · nazarena--davam-lhe -realmente, como dizia a Arlesianna, uma physionomia de bello Christo. - -DanÁou apenas uma contradanÁa com Maria, e pareceu, na verdade, um pouco -taciturno e orgulhoso: mas tudo n'elle fascinava, a sua figura, o seu -mysterio, atÈ o seu nome de Tancredo. Muitos coraÁıes de mulher -palpitavam quando elle, encostado a uma hombreira, de claque na m„o, uma -melancolia na face, exhalando o encanto pathetico de um condemnado · -morte, derramava lentamente pela sala o langor sombrio do seu olhar de -velludo. A marqueza d'Alvenga, para o examinar de perto, pediu o braÁo a -Pedro, e foi applicar-lhe, como a um marmore de museo, a sua luneta de -ouro. - ---… de appetite! exclamou ella. … uma imagem!... E s„o amigos, s„o -amigos, Pedro? - ---Somos como dois irm„os d'armas, minha senhora. - -N'essa mesma soirÈe, o VillaÁa inform·ra Pedro que o pae era esperado no -dia seguinte em Bemfica. E Pedro, logo que se recolheram, fallou a Maria -em ´irem fazer a grande scena ao pap·.ª Ella, porÈm, recusou, e com as -razıes mais imprevistas, as mais sensatas. Tinha cogitado muito! -Reconhecia agora que um dos motivos d'aquella teima do pap·--ultimamente -chamava-lhe sempre o pap·--era essa extraordinaria existencia de -Arroios... - ---Mas filha, disse Pedro, escuta, nÛs n„o vivemos tambem em plena -orgia... Alguns amigos que veem. - -Pois sim, pois sim... Mas, realmente, estava decidida a ter um interior -mais calmo e mais domestico. Era mesmo melhor p'ra os bÈbÈs. Pois bem, -queria que o pap· estivesse convencido d'essa transformaÁ„o, para que as -pazes fossem mais faceis e eternas. - ---Deixa passar dois ou tres mezes... Quando elle souber como nÛs vivemos -quietinhos, eu o trarei, socega... … bom tambem que seja quando meu pae -partir para as aguas, para os Pyrineos. Que o pobre pap·, coitado, tem -medo do teu... Filho, n„o achas assim melhor? - ---…s um anjo, foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas as m„os. - -Toda a antiga maneira de Maria pareceu com effeito ir mudando. -Suspendera as _soirÈes_. ComeÁou a passar as noites muito recolhidas, -com alguns intimos, no seu _boudoir_ azul. J· n„o fumava; abandonara o -bilhar; e vestida de preto, com uma flÙr nos cabellos, fazia _crochet_ -ao pÈ do candieiro. Estudava-se musica classica quando vinha o velho -Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua dama, entrara tambem na -gravidade, recitava traducÁıes de Klopstock. Fallava-se com sisudez de -politica; Maria era muito regeneradora. - -E todas essas noites, Tancredo l· estava, indolente e bello, desenhando -alguma flÙr para ella bordar, ou tangendo ‡ guitarra canÁıes populares -de Napoles. Todos alli o adoravam; mas ninguem mais que o velho -Monforte, que passava horas, enterrado na sua alta gravata, contemplando -o Principe com enternecimento. Depois, de repente, erguia-se, -atravessava a sala, ia-se debruÁar sobre elle, palpal-o, sentil-o, -respiral-o, murmurando no seu francez de embarcadiÁo: - ---_«a aller bien... Hein? Beaucoup bien..._ Ora estimo... - -E estas correntes bruscas de affecto communicavam-se decerto, porque -n'esse momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sorrisos para o -pap· ou vinha beijal-o na testa. - -De dia occupava-se de cousas serias. Organisara uma util associaÁ„o de -caridade, a _Obra pia dos cobertores_, com o fim de fazer no inverno ·s -familias necessitadas distribuiÁıes de agasalhos; e presidia no sal„o de -Arroios, com uma campainha, as reuniıes em que se elaboravam os -estatutos. Visitava os pobres. Ia tambem amiudadas vezes a uma devoÁ„o -·s Egrejas, toda vestida de preto, a pÈ, com um vÈo muito espesso no -rosto. - -O esplendor da sua belleza apparecia agora velado por uma sombra tocante -de ternura grave: a Deusa idealisava-se em Madona; e n„o era raro -ouvil-a de repente suspirar sem raz„o. - -Ao mesmo tempo a sua paix„o pela filha crescia. Tinha ent„o dois annos e -estava realmente adoravel; vinha todas as noites um momento · sala, -vestida com um luxo de princeza; e as exclamaÁıes, os extasis de -Tancredo n„o findavam! Fizera-lhe o retrato a carv„o, a esfuminho, a -aguarella; ajoelhava-se para lhe beijar a m„osinha cÙr de rosa, como ao -_bambino_ sagrado. E Maria, agora, apesar dos protestos de Pedro, dormia -sempre com ella entre os braÁos. - -Ao comeÁo d'esse setembro o velho Monforte partiu para os Pyrineos. -Maria chorou, dependurada do pescoÁo do velho, como se elle largasse de -novo para as travessias de Africa. - -Ao jantar, porÈm, chegou j· consolada e radiante; e Pedro voltou a -fallar da reconciliaÁ„o, parecendo-lhe bom o momento de ir a Bemfica -recuperar para sempre aquelle pap· t„o teimoso... - ---Ainda n„o, disse ella reflectindo, olhando o seu calice de Bordeus. -Teu pae È uma especie de santo, ainda o n„o merecemos... Mais para o -inverno. - - -Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Affonso da Maia estava -no seu escriptorio lendo, quando a porta se abriu violentamente, e, -alÁando os olhos do livro, viu Pedro deante de si. Vinha todo enlameado, -desalinhado, e na sua face livida, sob os cabellos revoltos, luzia um -olhar de loucura. O velho ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra -atirou-se aos braÁos do pae, rompeu a chorar perdidamente. - ---Pedro! que succedeu, filho? - -Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, · idÈa do filho -livre para sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo · sua solid„o os -dois netos, toda uma descendencia para amar! E repetia, tremulo tambem, -desprendendo-o de si com grande amor: - ---Socega, filho, que foi? - -Pedro ent„o cahiu para o canapÈ, como cae um corpo morto; e levantando -para o pae um rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra, -n'uma voz surda: - ---Estive fÛra de Lisboa dois dias... Voltei esta manh„... A Maria tinha -fugido de casa com a pequena... Partiu com um homem, um italiano... E -aqui estou! - -Affonso da Maia ficou deante do filho, quedo, mudo, como uma figura de -pedra; e a sua bella face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a -pouco, de uma grande colera. Viu, n'um relance, o escandalo, a cidade -galhofando, as compaixıes, o seu nome pela lama. E era aquelle filho -que, despresando a sua auctoridade, ligando-se a essa creatura, -estragara o sangue da raÁa, cobria agora a sua casa de vexame. E alli -estava! alli jazia sem um grito, sem um furor, um arranque brutal de -homem trahido! Vinha atirar-se para um soph·, chorando miseravelmente! -Isto indignou-o, e rompeu a passeiar pela sala, rigido e aspero, -cerrando os labios para que n„o lhe escapassem as palavras de ira e de -injuria que lhe enchiam o peito em tumulto...--Mas era pae: ouvia, alli -ao seu lado, aquelle soluÁar de funda dÙr; via tremer aquelle pobre -corpo desgraÁado que elle outr'ora emballara nos braÁos;--parou junto de -Pedro, tomou-lhe gravemente a cabeÁa entre as m„os, e beijou-o na testa, -uma vez, outra vez, como se elle fosse ainda creanÁa, restituindo-lhe -alli e para sempre a sua ternura inteira. - ---Tinha raz„o, meu pae, tinha raz„o, murmurava Pedro entre lagrimas. - -Depois ficaram callados. FÛra, as pancadas successivas da chuva batiam a -casa, a quinta, n'um clamor prolongado; e as arvores, sob as janellas, -ramalhavam n'um vasto vento de inverno. - -Foi Affonso que quebrou o silencio: - ---Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? N„o È sÛ chorar... - ---N„o sei nada, respondeu Pedro n'um longo esforÁo. Sei que fugiu. Eu -sahi de Lisboa na segunda feira. N'essa mesma noite, ella partiu de casa -n'uma carruagem, com uma maleta, o cofre de joias, uma creada italiana -que tinha agora, e a pequena. Disse · governante e · ama do pequeno que -ia ter comigo. Ellas estranharam, mas que haviam de dizer?... Quando -voltei, achei esta carta. - -Era um papel j· sujo, e desde essa manh„ de certo muitas vezes relido, -amarrotado com furia. Continha estas palavras: - -´… uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que n„o -sou digna de ti, e levo a Maria que me n„o posso separar d'ella.ª - ---E o pequeno, onde est· o pequeno? exclamou Affonso. - -Pedro pareceu recordar-se: - ---Est· l· dentro com a ama, trouxe-o na sege. - -O velho correu, logo; e d'ahi a pouco apparecia, erguendo nos braÁos o -pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas. -Era gordo, de olhos muito negros, com uma adoravel bochecha fresca e cÙr -de rosa. Todo elle ria, grulhando, agitando o seu guiso de prata. A ama -n„o passou da porta, tristonha, com os olhos no tapete e uma trouxasinha -na m„o. - -Affonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e accommodou o neto no -collo. Os olhos enchiam-se-lhe de uma bella luz de ternura; parecia -esquecer a agonia do filho, a vergonha domestica; agora sÛ havia ali -aquella facesinha tenra, que se lhe babava nos braÁos... - ---Como se chama elle? - ---Carlos Eduardo, murmurou a ama. - ---Carlos Eduardo, hein? - -Ficou a olhal-o muito tempo, como procurando n'elle os signaes da sua -raÁa: depois tomou-lhe na sua as duas m„osinhas vermelhas que n„o -largavam o guiso, e muito grave, como se a creanÁa o percebesse, -disse-lhe: - ---Olha bem para mim. Eu sou o avÙ. … necessario amar o avÙ! - -E ·quella forte voz, o pequeno, com effeito, abriu os seus lindos olhos -para elle, serios de repente, muito fixos, sem medo das barbas -grisalhas: depois rompeu a pular-lhe nos braÁos, desprendeu a m„osinha, -e martellou-lhe furiosamente a cabeÁa com o guiso. - -Toda a face do velho sorria ·quella viÁosa alegria; apertou-o ao seu -largo peito muito tempo, poz-lhe na face um beijo longo, consolado, -enternecido, o seu primeiro beijo d'avÙ; depois, com todo o cuidado, foi -collocal-o nos braÁos da ama. - ---V·, ama, v·... A Gertrudes j· l· anda a arranjar-lhe o quarto, v· vÍr -o que È necessario. - -Fechou a porta, e veiu sentar-se junto do filho que se n„o movera do -canto do soph·, nem despreg·ra os olhos do ch„o. - ---Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos n„o vemos ha tres -annos, filho... - ---Ha mais de tres annos, murmurou Pedro. - -Ergueu-se, allongou a vista · quinta, t„o triste sob a chuva; depois, -derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu -proprio retrato, feito em Roma aos doze annos, todo de velludo azul, com -uma rosa na m„o. E repetia ainda amargamente: - ---Tinha raz„o, meu pae, tinha raz„o... - -E pouco a pouco, passeiando e suspirando, comeÁou a fallar d'aquelles -ultimos annos, o inverno passado em Paris, a vida em Arroios, a -intimidade do italiano na casa, os planos de reconciliaÁ„o, por fim -aquella carta infame, sem pudor, invocando a fatalidade, -arremessando-lhe o nome do outro!... No primeiro momento tivera sÛ idÈas -de sangue e quizera perseguil-os. Mas conservava um clar„o de raz„o. -Seria ridiculo, n„o È verdade? De certo a fuga fora d'antem„o preparada, -e n„o havia de ir correndo as estalagens da Europa · busca de sua -mulher... Ir lamentar-se · policia, fazel-os prender? Uma imbecillidade; -nem impedia que ella fosse j· por esses caminhos fÛra dormindo com -outro... Restava-lhe sÛmente o desprezo. Era uma bonita amante que -tivera alguns annos, e fugira com um homem. Adeus! Ficava-lhe um filho, -sem m„e, com um mau nome. Paciencia! Necessitava esquecer, partir para -uma longa viagem, para a America talvez; e o pae veria, havia de voltar -consolado e forte. - -Dizia estas cousas sensatas, passeiando devagar, com o charuto apagado -nos dedos, n'uma voz que se calmava. Mas de repente parou deante do pae, -com um riso secco, um brilho-feroz nos olhos. - ---Sempre desejei ver a America, e È boa occasi„o agora... … uma occasi„o -famosa, hein? Posso atÈ naturalisar-me, chegar a presidente, ou -rebentar... Ah! Ah! - ---Sim, mais tarde, depois pensar·s n'isso, filho, accudiu o velho -assustado. - -N'esse momento a sineta do jantar comeÁou a tocar lentamente, ao fundo -do corredor. - ---Ainda janta cedo, hein? disse Pedro. - -Teve um suspiro canÁado e lento, murmurou: - ---NÛs jantavamos ·s sete... - -Quiz ent„o que o pae fosse para a mesa. N„o havia motivo para que se n„o -jantasse. Elle ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro... -Ainda l· tinha a cama, n„o È verdade? N„o, n„o queria tomar nada... - ---O Teixeira que me leve um calice de genebra... Ainda c· est· o -Teixeira, coitado! - -E vendo Affonso sentado, repetiu, j· impaciente: - ---V· jantar meu pae, v· jantar, pelo amor de Deus... - -Saiu. O pae ouviu-lhe os passos por cima, e o ruido de janellas -desabridamente abertas. Foi ent„o andando para a sala de jantar, onde os -criados que pela ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de -pÈs, com a lentid„o contristada d'uma casa onde ha morte. Affonso -sentou-se · mesa sÛ; mas j· l· estava outra vez o talher de Pedro; rosas -de inverno esfolhavam-se n'um vaso do Jap„o; e o velho papagaio agitado -com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro. ' - -Affonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto -do fog„o; e ali ficou envolvido pouco a pouco n'aquelle melancolico -crepusculo de dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste -contra as vidraÁas, pensando em todas as cousas terriveis que assim -invadiam n'um tropel pathetico · sua paz de velho. Mas no meio da sua -dÙr, funda como era, elle percebia um ponto, um recanto do seu coraÁ„o -onde alguma cousa de muito doce, de muito novo, palpitava com uma -frescura de renascimento, como se algures, no seu ser, estivesse -rompendo, burbulhando uma nascente rica de alegrias futuras; e toda a -sua face sorria · chama alegre, revendo a bochechinha rosada, sob as -rendas brancas da touca... - -Pela casa no entanto tinham-se accendido as luzes. J· inquieto subiu ao -quarto do filho; estava tudo escuro, t„o humido e frio, como se a chuva -caisse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de -Pedro veiu do negro da janella; estava l·, com a vidraÁa aberta, sentado -fÛra na varanda, voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das -ramagens, recebendo na face o vento, a agua, toda a invernia agreste. - ---Pois est·s aqui filho! exclamou Affonso. Os criados h„o de querer -arranjar o quarto, desce um momento... Est·s todo molhado, Pedro! - -Apalpava-lhe os joelhos, as m„os regeladas. Pedro ergueu-se com um -estremeÁ„o, desprendeu-se, impaciente d'aquella ternura do velho. - ---Querem arranjar o quarto, hein? Faz-me bem o ar, faz-me t„o bem! - -O Teixeira trouxe luzes, e atraz d'elle appareceu o criado de Pedro, que -cheg·ra n'esse momento de Arroios, com um largo estojo de viagem -recoberto de oleado. As malas tinha-as deixado em baixo; e o cocheiro -viera tambem, como nenhum dos senhores estava em casa... - ---Bem, bem, interrompeu Affonso. O sr. VillaÁa l· ir· amanh„, e elle -dar· as ordens. - -O criado ent„o, em bicos de pÈs, foi depÙr o estojo sobre o marmore da -commoda: ainda l· restavam antigos frascos de toilette de Pedro: e os -castiÁaes sobre a meza allumiavam o grande leito triste de solteiro com -os colxıes dobrados ao meio. - -A Gertrudes toda atarefada entrara com os braÁos carregados de roupa de -cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; o criado d'Arroios -pousando o chapÈo a um canto, e sempre em ponta de pÈs, veiu ajudal-os -tambem. Pedro no entanto, como somnambulo, voltara para a varanda, com a -cabeÁa · chuva, attraido por aquella treva da quinta que se cavava em -baixo com um rumor de mar bravo. - -Affonso, ent„o, puxou-lhe o braÁo quasi com aspereza. - ---Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento. - -Elle seguiu maquinalmente o pae · livraria, mordendo o charuto apagado -que desde tarde conservava na m„o. Sentou-se longe da luz, ao canto do -soph·, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo sÛ os passos lentos do -velho, ao comprido das altas estantes, quebraram o silencio em que toda -a sala ia adormecendo. Uma braza morria no fog„o. A noite parecia mais -aspera. Eram de repente vergastadas d'agua contra as vidraÁas, trazidas -n'uma rajada, que longamente, n'um clamor teimoso, faziam escoar um -diluvio dos telhados; depois havia uma calma tenebroza, com uma -susurraÁ„o distante de vento fugindo entre ramagens: n'esse silencio as -goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria -mais furioso, envolvia a casa n'um bater de janellas, redomoinhava, -partia com silvos desolados. - ---Est· uma noite de Inglaterra, disse Affonso, debruÁando-se a espertar -o lume. - -Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. De certo o ferira a -idÈa de Maria, longe, n'um quarto alheio, agazalhando-se-lhe no leito do -adulterio entre os braÁos do outro. Apertou um instante a cabeÁa nas -m„os, depois veiu junto do pae, com o passo mal firme, mas a voz muito -calma. - ---Estou realmente canÁado, meu pae, vou-me deitar. Boa noite... Amanh„ -conversaremos mais. - -Beijou-lhe a m„o e saiu de vagar. - -Affonso demorou-se ainda ali, com um livro na m„o, sem ler, attento sÛ a -algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silencio. - -Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizera a -cama da ama. A Gertrudes o criado de Arroios, o Teixeira, estavam l· -cochichando ao pÈ da commoda, na penumbra que dava um folio posto deante -do candieiro; todos se esquivaram em pontas de pÈs quando lhe sentiram -os passos, e a ama continuou a arrumar em silencio os gavetıes. No vasto -leito, o pequeno dormia como um Menino Jesus canÁado, com o seu guiso -apertado na m„o. Affonso n„o ousou beijal-o, para o n„o acordar com as -barbas asperas; mas tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa -contra a parede, deu um geito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a -sua dÙr calmar-se n'aquella sombra de alcova onde o seu neto dormia. - ---… necessario alguma cousa, ama? perguntou, abafando a voz. - ---N„o, meu senhor... - -Ent„o, sem ruido, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara, -entreabriu a porta. O filho escrevia, · luz de duas vellas, com o estojo -aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pae: e na face que ergueu, -envelhecida e livida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais -refulgentes e duros. - ---Estou a escrever, disse elle. - -Esfregou as m„os, como arripiado da friagem do quarto, e accrescentou: - ---Amanh„ cedo È necessario que o VillaÁa v· a Arroios... Est„o l· os -criados, tenho l· dois cavalos meus, emfim uma porÁ„o de arranjos. Eu -estou-lhe a escrever. … numero 32 a casa d'elle, n„o È? O Teixeira ha de -saber... Boas noites, pap·, boas noites. - -No seu quarto, ao lado da livraria, Affonso n„o poude socegar, n'uma -oppress„o, uma inquietaÁ„o que a cada momento o faziam erguer sobre o -travesseiro escutar: agora, no silencio da casa e do vento que calmara, -ressoavam por cima lentos e continuos os passos de Pedro. - -A madrugada clareava, Affonso ia adormecendo--quando de repente um tiro -atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um creado -acudia tambem com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto -vinha um cheiro de polvora; e aos pÈs da cama, caido de bruÁos, n'uma -poÁa de sangue que se ensopava no tapete, Affonso encontrou seu filho -morto, apertando uma pistola na m„o. - -Entre as duas vÈlas que se extinguiam, com fogachos lividos, deix·ra-lhe -uma carta lacrada com estas palavras sobre o enveloppe, n'uma letra -firme: _Para o pap·_. - -D'ahi a dias fechou-se a casa de Bemfica. Affonso da Maia partia com o -neto e com todos os criados para a quinta de S.^{ta} Olavia. - - -Quando VillaÁa, em fevereiro, foi l· acompanhar o corpo de Pedro, que ia -ser depositado no jazigo de familia, n„o pÙde conter as lagrimas ao -avistar aquella vivenda onde pass·ra t„o alegres nataes. Um baet„o preto -recobria o braz„o d'armas, e esse panno de esquife parecia ter -distingido todo o seu negrume sobre a fachada muda, sobre os -castanheiros que ornavam o pateo; dentro os criados abafavam a voz, -carregados de luto; n„o havia uma flor nas jarras; o proprio encanto de -S.^{ta} Olavia, o fresco cantar das aguas vivas por tanques e repuchos, -vinha agora com a cadencia saudosa de um choro. E VillaÁa foi encontrar -Affonso na livraria, com as janellas cerradas ao lindo sol de inverno, -caido para uma poltrona, a face cavada sob os cabellos crescidos e -brancos, as m„os magras e ociosas sobre os joelhos. - -O procurador veiu dizer para Lisboa que o velho n„o durava um anno. - - - - -III - - -Mas esse anno passou, outros annos passaram. - -Por uma manh„ de abril, nas vesperas de Paschoa, VillaÁa chegava de novo -a S.^{ta} Olavia. - -N„o o esperavam t„o cedo; e como era o primeiro dia bonito d'essa -primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o -Teixeira, que ia j· embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o -sr. administrador com quem ·s vezes se correspondia, e conduziu-o · sala -de jantar onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza, -deixou cair uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pescoÁo. - -As tres portas envidraÁadas estavam abertas para o terraÁo, que se -estendia ao sol, com a sua balustrada de marmore coberta de trepadeiras: -e VillaÁa, adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal -poude reconhecer Affonso da Maia n'aquelle velho de barba de neve, mas -t„o robusto e corado, que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu -neto pela m„o. - -Carlos, ao avistar no terraÁo um desconhecido, de chapÈo alto, abafado -n'um cache-nez de pelucia, correu a miral-o, curioso--e achou-se -arrebatado nos braÁos do bom VillaÁa, que largara o guarda sol, o -beijava pelo cabello, pela face, balbuciando: - ---Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que est·! que crescido -que est·... - ---Ent„o, sem avisar, VillaÁa? exclamava Affonso da Maia, chegando de -braÁos abertos. NÛs sÛ o esperavamos para a semana, creatura! - -Os dois velhos abraÁaram-se; depois um momento os seus olhos -encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram a apertar-se commovidos. - -Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as m„os enterradas nos -bolsos das suas largas bragas de flanella branca, o casquete da mesma -flanella posta de lado sobre os bellos anneis do cabello -negro--continuava a mirar o VillaÁa, que com o beiÁo tremulo, tendo -tirado a luva, limpava os olhos por baixo dos oculos. - ---E ninguem a esperal-o, nem um criado l· em baixo no rio! dizia -Affonso. Emfim, c· o temos, È o essencial... E como vocÍ est· rijo, -VillaÁa! - ---E v. ex.^a meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um soluÁo. -Nem uma ruga! Branco sim, mas uma cara de moÁo... Eu nem o conhecia!... -Quando me lembro, a ultima vez que o vi... E c· isto! c· esta linda -flor!... - -Ia abraÁar Carlos outra vez enthusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com uma -bella risada, saltou do terraÁo, foi pendurar-se d'um trapesio armado -entre as arvores, e ficou l·, balanÁando-se em cadencia, forte e airoso, -gritando: ´tu Ès o VillaÁa!ª - -O VillaÁa, de guarda sol debaixo do braÁo, contemplava-o embevecido. - ---Est· uma linda creanÁa! Faz gosto! E parece-se com o pae. Os mesmos -olhos, olhos dos Maias, o cabello encaracolado... Mas ha de ser muito -mais homem! - ---… s„o, È rijo, dizia o velho risonho, anediando as barbas. E como -ficou o seu rapaz, o Manuel? Quando È esse casamento? Venha vocÍ c· para -dentro, VillaÁa, que ha muito que conversar... - -Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chaminÈ de -azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas -resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canarios pareciam doudos -de alegria. - -A Gertrudes, que fic·ra a observar, acercou-se, com as m„os cruzadas sob -o avental branco, familiar, terna. - ---Ent„o, meu senhor, aqui est· um regalo, vÍr outra vez este ingrato em -S.^{ta} Olavia! - -E, com um clar„o de sympathia na face, alva e redonda como uma velha -lua, ornada j· de um buÁo branco: - ---Ah! sr. VillaÁa, isto agora È outra cousa! AtÈ os canarios cantam! E -tambem eu cantava, se ainda podesse... - -E foi saindo, subitamente commovida, j· com vontade de chorar. - -O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia d'uma · -outra ponta dos seus altos collarinhos de mordomo. - ---Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. VillaÁa, hein? disse -Affonso. No quarto em que vocÍ costumava ficar dorme agora a -viscondessa... - -Ent„o o VillaÁa apressou-se a perguntar pela sr.^a viscondessa. Era uma -Runa, uma prima da mulher de Affonso, que, no tempo em que os poetas de -Caminha a cantavam, cas·ra com um fidalgote gallego, o sr. visconde de -Urigo-de-la-Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viuva -e pobre, Affonso recolhera-a por dever de parentella, e para haver uma -senhora em S.^{ta} Olavia. - -Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relogio, Affonso interrompeu a -relaÁ„o d'esses achaques. - ---VillaÁa, v·-se arranjar, depressa, que d'aqui a pouco È o jantar. - -O administrador surprehendido olhou tambem o relogio, depois a mesa j· -posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto. - ---Ent„o v. ex.^a agora janta de manh„? Eu pensei que era o almoÁo... - ---Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen. De madrugada est· j· -na quinta; almoÁa ·s sete; e janta · uma hora. E eu, emfim, para vigiar -as maneiras do rapaz... - ---E o sr. Affonso da Maia, exclamou VillaÁa, a mudar de habitos, n'essa -edade! O que È ser avÙ, meu senhor! - ---Tolice! n„o È isso... … que me faz bem. Olhe que me faz bem!... Mas -avie-se VillaÁa, avie-se que Carlos n„o gosta de esperar... Talvez -tenhamos o abbade. - ---O Custodio? Rica cousa! Ent„o, se v. ex.^a me d· licenÁa... - -Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar com o sr. -administrador, perguntou-lhe, desembaraÁando-o do guarda sol e do -chale-manta: - ---Com franqueza, como nos acha por c·, pela quinta sr. VillaÁa? - ---Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a -S.^{ta} Olavia. - -E, pousando familiarmente a m„o no hombro do escudeiro, piscando o olho -ainda humido: - ---Tudo isto È o menino. Fez reviver o patr„o! - -O Teixeira riu respeitosamente. O menino realmente era a alegria da -casa... - ---Ol·! Quem toca por c·? exclamou VillaÁa, parando nos degraus da -escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rebeca. - ---… o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino... Muito habilidoso, È -um regalo ouvil-o; toca ·s vezes · noite na sala, o sr. juiz de direito -acompanha-o na concertina... Aqui, sr. VillaÁa, o quarto de v. s.^a... - ---Muito bonito, sim senhor! - -O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janellas, sobre o -tapete alvadio semeado de florsinhas azues: e as bambinellas, os -reposteiros de cretÛne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre -fundo claro. Este conforto fresco e campestre deleitou o bom VillaÁa. - -Foi logo apalpar os cretÛnes, esfregou o marmore da commoda, provou a -solidez das cadeiras. Eram as mobilias compradas no Porto, hein? Pois, -elegantes. E, realmente, n„o tinham sido caras. Nem elle fazia idÈa! -Ficou ainda em bicos de pÈs a examinar duas aguarellas inglezas -representando vaccas de luxo, deitadas na relva, · sombra de ruinas -romanticas. O Teixeira, observou-lhe, com o relogio na m„o: - ---Olhe que v. s.^a tem sÛ dez minutos... O menino n„o gosta de esperar. - -Ent„o o VillaÁa decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou o seu -pesado collete de malha de l„; e pela camisa entreaberta via-se ainda -uma flanella escarlate por causa dos rheumatismos, e os bentinhos de -seda bordada. O Teixeira desapertava as correias da maleta; ao fundo do -corredor, a rebeca atacara o _Carnaval de Veneza_; e atravez das -janellas fechadas sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos campos, -todo o verde d'abril. - -VillaÁa, sem oculos, um pouco arripiado, passava a ponta da toalha -molhada pelo pescoÁo, por traz da orelha, e ia dizendo: - ---Ent„o, o nosso Carlinhos n„o gosta de esperar, hein? J· se sabe, È -elle quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente... - -Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desilludiu o sr. administrador. -Mimos e mais mimos, dizia s. s.^a? Coitadinho d'elle, que tinha sido -educado com uma vara de ferro! Se elle fosse a contar ao sr. VillaÁa! -N„o tinha a creanÁa cinco annos j· dormia n'um quarto sÛ, sem lamparina; -e todas as manh„s, z·s, para dentro d'uma tina d'agua fria, ·s vezes a -gear l· fÛra... E outras barbaridades. Se n„o se soubesse a grande -paix„o do avÙ pela creanÁa, havia de se dizer que a queria morta. Deus -lhe perdoe, elle, Teixeira, chegara a pensal-o... Mas n„o, parece que -era systema inglez! Deixava-o correr, cair, trepar ·s arvores, -molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o -rigor com as comidas! SÛ a certas horas e de certas cousas... E ·s vezes -a creancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza. - -E o Teixeira accrescentou: - ---Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que nÛs approvassemos a -educaÁ„o que tem levado, isso nunca approv·mos, nem eu, nem a Gertrudes. - -Olhou outra vez o relogio, preso por uma fita negra sobre o collete -branco, deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a -cama a sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola, -de leve e por amabilidade, em quanto dizia, junto ao toucador onde o -VillaÁa acamava as duas longas repas sobre a calva: - ---Sabe v. s.^a, apenas veiu o mestre inglez, o que lhe ensinou? A remar! -A remar, sr. VillaÁa, como um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as -habilidades de palhaÁo; eu n'isso nem gosto de fallar... Que eu sou o -primeiro a dizel-o: o Brown È boa pessoa, calado, asseado, excellente -musico. Mas È o que eu tenho repetido · Gertrudes: pÛde ser muito bom -para inglez, n„o È para ensinar um fidalgo portuguez... N„o È. V· v. -s.^a fallar a esse respeito com a sr.^a D. Anna Silveira... - -Bateram de manso · porta, o Teixeira emmudeceu. Um escudeiro entrou, fez -um signal ao mordomo, tirou-lhe do braÁo respeitosamente a sobrecasaca, -e ficou com ella junto do toucador, onde o VillaÁa, vermelho e -apressado, luctava ainda com as repas rebeldes. - -O Teixeira, da porta, disse com o relogio na m„o: - ---… o jantar. Tem v. s.^a dois minutos, sr. VillaÁa. - -E o administrador d'ahi a um momento abalava tambem, abotoando ainda o -casaco pelas escadas. - -Os senhores j· estavam todos na sala. Junto do fog„o, onde as achas -consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o _Times_. Carlos, -a cavallo nos joelhos do avÙ, contava-lhe uma grande historia de rapazes -e de bulhas; e ao pÈ o bom abbade Custodio, com o lenÁo de rapÈ -esquecido nas m„os, escutava, de bocca aberta, n'um riso paternal e -terno. - ---Olhe quem alli vem, abbade, disse-lhe Affonso. - -O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada na cÙxa: - ---Esta È nova! Ent„o È o nosso VillaÁa? E n„o me tinham dito nada! -Venham de l· esses ossos, homem!... - -Carlos pulava nos joelhos do avÙ, muito divertido com aquelles longos -abraÁos que juntavam as duas cabeÁas dos velhos--uma com as repas -achatadas sobre a calva, outra com uma grande corÙa aberta n'uma matta -de cabello branco. E como elles, de m„os dadas, continuavam a -admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dos annos, Affonso disse: - ---VillaÁa! a sr.^a viscondessa... - -O administrador porÈm procurou-a debalde, com os olhos abertos pela -sala. Carlos ria, batendo as m„os:--e VillaÁa descobriu-a emfim a um -canto, entre o aparador e a janella, sentada n'uma cadeirinha baixa, -vestida de preto, timida e queda, com os braÁos rechonchudos pousados -sobre a obesidade da cinta. O rosto anafado e molle, branco como papel, -as roscas do pescoÁo, cobriram-se-lhe subitamente de rubor; n„o achou -uma palavra para dizer ao VillaÁa, e estendeu-lhe a m„o papuda e -pallida, com um dedo embrulhado n'um pedaÁo de seda negra. Depois ficou -a abanar-se com um grande leque de lentejoulas, o seio a arfar, os olhos -no regaÁo, como exhausta d'aquelle esforÁo. - -Dois escudeiros tinham comeÁado a servir a sopa, o Teixeira esperava, -perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Affonso. - -Mas Carlos cavalgava ainda o avÙ, querendo acabar outra historia. Era o -Manuel, trazia uma pedra na m„o... Elle primeiro pens·ra ir ·s boas; mas -os dois rapazes comeÁaram a rir... De maneira que os correu a todos... - ---E maiores que tu? - ---Tres rapagıes, vÙvÙ, pÛde perguntar · tia Pedra... Ella viu, que -estava na eira. Um d'elles trazia uma foice... - ---Est· bom, senhor, est· bom, ficamos inteirados... V·, desmonte, que -est· a sopa a esfriar. Upa! upa! - -E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarcha feliz, veiu -sentar-se ao alto da meza, sorrindo e dizendo: - ---J· se vae fazendo pesado, j· n„o est· para collo... - -Mas reparou ent„o no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresentaÁ„o do -procurador. - ---O sr. Brown, o amigo VillaÁa... PeÁo perd„o, descuidei-me, foi culpa -d'aquelle cavalheiro l· ao fundo da meza, o sr. D. Carlos de mata-sete! - -O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu -toda a volta · meza, rigido e teso, para vir sacudir o VillaÁa n'um -tremendo _shake-hands_; depois, sem uma palavra, reoccupou o seu logar, -desdobrou o guardanapo, cofiou os formidaveis bigodes, e foi ent„o que -disse ao VillaÁa, com o seu forte accento inglez: - ---_Muito bello dia... glorioso!_ - ---Tempo de rosas, respondeu o VillaÁa, comprimentando, intimidado diante -d'aquelle athleta. - -Naturalmente, n'esse dia, fallou-se da jornada de Lisboa, do bom serviÁo -da malla-posta, do caminho de ferro que se ia abrir... O VillaÁa j· -viera no comboyo atÈ ao Carregado. - ---De causar horror, hein? perguntou o abbade, suspendendo a colher que -ia levar · bocca. - -O excellente homem nunca saira de Resende; e todo o largo mundo, que -ficava para alÈm da penumbra da sua sachristia e das arvores do seu -passal, lhe dava o terror d'uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro, -de que tanto se fallava... - ---Faz arripiar um bocado, affirmou com experiencia VillaÁa. Digam o que -disserem, faz arripiar! - -Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgraÁas -d'essas machinas! - -O VillaÁa ent„o lembrou os desastres da mala-posta. No de AlcobaÁa, -quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irm„s de caridade! Emfim de -todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no -quarto... - -O abbade gostava do progresso... Achava atÈ necessario o progresso. Mas -parecia-lhe que se queria fazer tudo · lufa-lufa... O paiz n„o estava -para essas invenÁıes; o que precisava eram boas estradinhas... - ---E economia! disse o VillaÁa, puxando para si os pimentıes. - ---Bucellas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro. - -O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe · luz a cÙr -rica, provou-o com a ponta do labio, e piscando o olho para Affonso: - ---… do nosso! - ---Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom -nectar? - ---_Magnificente!_ exclamou o perceptor com uma energia fogosa. - -Ent„o Carlos, estendendo o braÁo por cima da meza, reclamou tambem -Bucellas. E a sua raz„o era haver festa por ter chegado o VillaÁa. O avÙ -n„o consentiu; o menino teria o seu calice de Collares, como de costume, -e um sÛ. Carlos crusou os braÁos sobre o guardanapo que lhe pendia do -pescoÁo, espantado de tanta injustiÁa! Ent„o nem para festejar o VillaÁa -poderia apanhar uma gotinha de Bucellas? Ahi estava uma linda maneira de -receber os hospedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera -o sr. administrador, havia de pÙr · noite para o ch· o fato novo de -velludo. Agora observavam-lhe que n„o era festa, nem caso para -Bucellas... Ent„o n„o entendia. - -O avÙ, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um car„o -severo. - ---Parece-me que o senhor est· palrando de mais. As pessoas grandes È que -palram ‡ meza. - -Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente: - ---Est· bom, vovÙ, n„o te zangues. Esperarei para quando for grande... - -Houve um sorriso em volta da meza. A propria viscondessa, deleitada, -agitou preguiÁosamente o leque: o abbade, com a sua boa face banhada em -extasi para o menino, apertava as m„os cabelludas contra o peito, tanto -aquillo lhe parecia engraÁado: e Affonso tossia por traz do guardanapo, -como limpando as barbas--a esconder o riso, a admiraÁ„o que lhe brilhava -nos olhos. - -Tanta vivacidade surprehendeu tambem VillaÁa. Quiz ouvir mais o menino, -e pousando o seu talher: - ---E diga-me, Carlinhos, j· vae adiantado nos seus estudos? - -O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as m„os pelo cÛs das -flanellas, e respondeu com um tom superior: - ---J· faÁo ladear a _Brigida_. - -Ent„o o avÙ, sem se conter, largou a rir, cahido para o espaldar da -cadeira: - ---Essa È boa! Eh! Eh! J· faz ladear a _Brigida_! E È verdade, VillaÁa, -j· a faz ladear... Pergunte ao Brown; n„o È verdade, Brown? E a eguasita -È uma piorrita, mas fina... - ---Oh vovÙ, gritou Carlos j· excitado, dize ao VillaÁa, anda. N„o È -verdade que eu era capaz de governar o _dog-cart_? - -Affonso reassumio um ar severo. - ---N„o o nego... Talvez o governasse, se lh'o consentissem. Mas faÁa-me -favor de se n„o gabar das suas faÁanhas, porque um bom cavalleiro deve -ser modesto... E sobre tudo n„o enterrar assim as m„os pela barriga -abaixo... - -O bom VillaÁa, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma -observaÁ„o. N„o se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavallo -com as regras... Mas elle queria dizer se o Carlinhos j· entrava com o -seu Phedro, o seu Tito Liviosinho... - ---VillaÁa, VillaÁa, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de -santa malicia, n„o se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo... -N„o admitte, acha que È antigo... Elle, antigo È... - ---Ora sirva-se d'esse fricassÈ, ande abbade, disse Affonso, que eu sei -que È o seu fraco, e deixe l· o latim... - -O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons -pedaÁos de ave, ia murmurando: - ---Deve-se comeÁar pelo latimsinho, deve-se comeÁar por l·... … a base; È -a basesinha! - ---N„o! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante. -Prrimeiro forrÁa! ForrÁa! Musculo... - -E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos: - ---Prrimeiro musculo, musculo!... - -Affonso appoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era -um luxo d'erudito... Nada mais absurdo que comeÁar a ensinar a uma -creanÁa n'uma lingua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos -Grachos, e outros negocios d'uma naÁ„o extincta, deixando-o ao mesmo -tempo sem saber o que È a chuva que o molha, como se faz o p„o que come, -e todas as outras cousas do Universo em que vive... - ---Mas emfim os classicos, arriscou timidamente o abbade. - ---Qual classicos! O primeiro dever do homem È viver. E para isso È -necessario ser s„o, e ser forte. Toda a educaÁ„o sensata consiste -n'isto: crear a saude, a forÁa e os seus habitos, desenvolver -exclusivamente o animal, armal-o d'uma grande superioridade physica. Tal -qual como se n„o tivesse alma. A alma vem depois... A alma È outro luxo. -… um luxo de gente grande... - -O abbade coÁava a cabeÁa, com o ar arripiado. - ---A instrucÁ„osinha È necessaria, disse elle. VocÍ n„o acha, VillaÁa? -Que v. ex^a, sr. Affonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas -emfim a instrucÁ„osinha... - ---A instrucÁ„o para uma creanÁa n„o È recitar _Tityre, tu patulae -recubans_... … saber factos, noÁıes, cousas uteis, cousas praticas... - -Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, n'um signal ao VillaÁa, -mostrou-lhe o neto que palrava inglez com o Brown. Eram de certo feitos -de forÁa, uma historia de briga com rapazes que elle lhe estava a -contar, animado e jogando com os punhos. O perceptor approvava, -retorcendo os bigodes. E · mesa os senhores com os garfos suspensos, por -traz os escudeiros de pÈ e guardanapo no braÁo, todos, n'um silencio -reverente, admiravam o menino a fallar inglez. - ---Grande prenda, grande prenda, murmurou VillaÁa, inclinando-se para a -Viscondessa. - -A excellente senhora cÛrou, atravez d'um sorriso. Parecia assim mais -gorda, toda acaÁapada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a cada -gole de Bucellas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque -negro e lentejoulado. - -Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso fez uma _saude_ ao -VillaÁa. Todos os copos se ergueram n'um rumor de amizade. Carlos quiz -gritar _Hurrah!_ O avÙ, com um gesto reprehensivo, immobilisou-o; e na -pausa satisfeita que se fez, o pequeno disse com uma grande convicÁ„o: - ---Oh avÙ, eu gosto do VillaÁa. O VillaÁa È nosso amigo. - ---Muito, e ha muitos annos, meu senhor! exclamou o velho procurador, t„o -commovido que mal podia erguer o calice na m„o. - -O jantar findava. FÛra, o sol deix·ra o terrasso e a quinta verdejava na -grande doÁura do ar tranquillo, sob o azul ferrete. Na chaminÈ sÛ -restava uma cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam um aroma vivo, -a que se misturava o do creme queimado, tocado de um fio de lim„o: os -creados, de colletes brancos, moviam o serviÁo d'onde se escapava algum -som argentino: e toda a alva toalha adamascada desapparecia sob a -confus„o da sobremesa onde os tons dourados do vinho do Porto brilhavam -entre as compoteiras de crystal. A Viscondessa affogueada abanava-se. -Padre Custodio enrolava devagar o guardanapo, a sua batina coÁada luzia -nas pregas das mangas. - -Ent„o Affonso, sorrindo ternamente, fez a ultima saude. - ---Viva v. s.^a, snr. Carlos de Matta-sete! - ---Sr. VÙvÙ! dizia o pequeno escorropichando o copo. - -A cabeÁinha de cabellos negros, a velha face de barbas de neve, -saudavam-se das extremidades da mesa--em quanto todos sorriam, no -enternecimento d'aquella cerimonia. Depois o abbade, de palito na bocca, -murmurou as _graÁas_. A Viscondessa, cerrando os olhos, juntou tambem as -m„os. E VillaÁa que tinha crenÁas religiosas n„o gostou de vÍr Carlos, -sem se importar com as graÁas, saltar da cadeira, vir atirar-se ao -pescoÁo do avÙ, fallar-lhe ao ouvido. - ---N„o senhor! n„o senhor! dizia o velho. - -Mas o rapaz, abraÁando-o mais forte, dava-lhe grandes razıes, n'um -murmurio de mimo dÙce como um beijo, que ia pondo na face do velho uma -fraqueza indulgente. - ---… por ser festa, disse elle emfim vencido. Mas veja l·, veja l·... - -O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou VillaÁa pelos braÁos, fÍl-o -redemoinhar, e foi cantando n'um rythmo seu: - ---Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Therezinha, inha, -inha, inha! - ---… a noiva, disse o avÙ, erguendo-se da mesa. J· tem amores, È a -pequena das Silveiras... O cafÈ para o terraÁo, Teixeira. - -O dia fÛra convidava, adoravel, d'um azul suave, muito puro e muito -alto, sem uma nuvem. Defronte do terraÁo os geranios vermelhos estavam -j· abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, d'uma -delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um -vago cheiro de violetas, misturado ao perfume adocicado das flÙres do -campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos -baixos, a areia fina faiscava de leve ·quelle sol timido de primavera -tardia, que ao longe envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa -hora de sesta n'uma luz fresca e loura. - -Os tres homens sentaram-se · mesa do cafÈ. Defronte do terraÁo, o Brown, -de bonet escossez posto ao lado e grande cachimbo na bocca, puchava ao -alto a barra do trapezio para Carlos se balouÁar. Ent„o o bom VillaÁa -pedio para voltar as costas. N„o gostava de vÍr gymnasticas; bem sabia -que n„o havia perigo; mas mesmo nos cavallinhos, as cabriolas, os arcos, -atordoavam-n'o; sahia sempre com o estomago embrulhado... - ---E parece-me imprudente, sobre o jantar... - ---Qual! È sÛ balouÁar-se... Olhe para aquillo! - -Mas VillaÁa n„o se moveu, com a face sobre a chavena. - -O abbade, esse, admirava, de labios entreabertos, e o pires cheio de -cafÈ esquecido na m„o. - ---Olhe para aquillo VillaÁa, repetio Affonso. N„o lhe faz mal, homem! - -O bom VillaÁa voltou-se, com esforÁo. O pequeno muito alto no ar, com as -pernas retesadas contra a barra do trapezio, as m„os ·s cordas, descia -sobre o terraÁo, cavando o espaÁo largamente, com os cabellos ao vento; -depois elevava-se, serenamente, crescendo em pleno sol; todo elle -sorria; a sua blusa, os calÁıes enfunavam-se · aragem; e via-se passar, -fugir, o brilho dos seus olhos muito negros e muito abertos. - ---N„o est· mais na minha m„o, n„o gosto, disse o VillaÁa. Acho -imprudente! - -Ent„o Affonso bateu as palmas, o abbade gritou _bravo, bravo_. VillaÁa -voltou-se para applaudir, mas Carlos tinha j· desapparecido; o trapezio -parava, em oscillaÁıes lentas; e o Brown, retomando o _Times_ que pozera -ao lado sobre o pedestal d'um busto, foi descendo para a quinta -envolvido n'uma nuvem de fumo do cachimbo. - ---Bella cousa, a gymnastica! exclamou Affonso da Maia, accendendo com -satisfaÁ„o outro charuto. - -VillaÁa j· ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abbade, depois de -dar um sorvo ao cafÈ, de lamber os beiÁos, soltou a sua bella phrase, -arranjada em maxima: - ---Esta educaÁ„o faz athletas mas n„o faz christ„os. J· o tenho dito... - ---J· o tem dito abbade, j·! exclamou Affonso alegremente. Diz-m'o todas -as semanas... Quer vocÍ saber, VillaÁa? O nosso Custodio matta-me o -bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!... - -Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com uma face desconsolada e a -caixa de rapÈ aberta na m„o; a irreligi„o d'aquelle velho fidalgo, -senhor de quasi toda a freguezia, era uma das suas dÙres: - ---A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex.^a o diga assim com esse -modo escarnica... A cartilha. Mas j· n„o quero fallar na cartilha... Ha -outras cousas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia, È pelo -amor que tenho ao menino. - -E recomeÁou a discuss„o, que voltava sempre ao cafÈ, quando Custodio -jantava na quinta. - -O bom homem achava horroroso que n'aquella edade um t„o lindo moÁo, -herdeiro d'uma casa t„o grande, com futuras responsabilidades na -sociedade, n„o soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao VillaÁa a -historia da D. Cecilia Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do -escriv„o, tendo passado deante do port„o da quinta, avistara o -Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de creanÁas como era, e -pedira-lhe que lhe dissesse o _acto de contricÁ„o_. E que respondeu o -menino? _Que nunca em tal ouvira fallar!_ Estas cousas entristeciam. E o -sr. Affonso da Maia achava-lhe graÁa, ria-se! Ora alli estava o amigo -VillaÁa que podia dizer se era caso para jubilar. N„o, o sr. Affonso da -Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas d'uma cousa n„o o -podia convencer, a elle pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda, È -que houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do -cathecismo. - -E Affonso da Maia respondia com bom humor: - ---Ent„o que lhe ensinava vocÍ, abbade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que -se n„o deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar -os inferiores, por que isso È contra os mandamentos da lei de Deus, e -leva ao inferno, hein? … isso?... - ---Ha mais alguma cousa... - ---Bem sei. Mas tudo isso que vocÍ lhe ensinaria que se n„o deve fazer, -por ser um peccado que offende a Deus, j· elle sabe que se n„o deve -praticar, por que È indigno d'um cavalheiro e d'um homem de bem... - ---Mas, meu senhor... - ---OuÁa abbade. Toda a differenÁa È essa. Eu quero que o rapaz seja -virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas n„o por -medo ·s caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino -do cÈu... - -E accrescentou, erguendo-se e sorrindo: - ---Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade, È quando vem, depois -de semanas de chuva, um dia d'estes, ir respirar pelos campos e n„o -estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o VillaÁa n„o est· -muito canÁado, vamos dar ahi um giro pelas fazendas... - -O abbade suspirou como um santo que vÍ a negra impiedade dos tempos e -Belzebut arrebatando as melhores rezes do rebanho; depois olhou a -chavena e sorveu com delicias o resto do seu cafÈ. - -Quando Affonso da Maia, VillaÁa e o abbade recolheram do seu passeio -pela freguezia, escurecera, havia luzes pelas salas, e tinham chegado j· -as Silveiras, senhoras ricas da quinta da _LagoaÁa_. - -D. Anna Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da -familia, e era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande -auctoridade em Resende. A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma -excellente e pachorrenta senhora, de agradavel nutriÁ„o, trigueirota e -pestanuda; tinha dois filhos, a Theresinha, a _noiva_ de Carlos, uma -rapariguinha magra e viva com cabellos negros como tinta, e o -morgadinho, o Eusebiosinho, uma maravilha muito fallada n'aquelles -sitios. - -Quasi desde o berÁo este notavel menino revelara um edificante amor por -alfarrabios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e j· a sua -alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado n'um -cobertor, folheando _in-folios_, com o craneosinho calvo de sabio -curvado sobre as lettras garrafaes de boa doutrina: depois de -crescidinho tinha tal proposito que permanecia horas immovel n'uma -cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca appetecera um -tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce -letrado, entre o pasmo da mam„ e da titi, passava dias a traÁar -algarismos, com a lingoasinha de fora. - -Assim na familia tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser -primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia, -a tia Annica installava-o logo · mesa, ao pÈ do candieiro, a admirar as -pinturas d'um enorme e rico volume, os _Costumes de todos os Povos do -Universo_. J· l· estava essa noite, vestido como sempre de escossez, com -o _plaid_ de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracollo e -preso ao hombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre d'um -Stuart, d'um valoroso cavalleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o -bonet onde se arqueava com heroismo uma rutilante penna de gallo; e nada -havia mais melancolico que a sua facesinha trombuda, a que o excesso de -lombrigas dava uma molleza e uma amarellid„o de manteiga, os seus -olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a sciencia lh'as tivesse -j· consummido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e -para os guerreiros ferozes do Montenegro appoiados a escupetas, em -pincaros de serranias. - -Deante do canapÈ das senhoras l· se achava tambem o fiel amigo, o dr. -delegado, grave e digno homem, que havia cinco annos andava ponderando e -meditando o casamento com a Silveira viuva, sem se -decidir--contentando-se em comprar todos os annos mais meia duzia de -lenÁoes, ou uma peÁa mais de bretanha, para arredondar o bragal. Estas -compras eram discutidas em casa das Silveiras, · brazeira: e as allusıes -recatadas, mas inevitaveis, ·s duas fronhasinhas, ao tamanho dos -lenÁoes, aos cobertores de papa para os conchegos de janeiro--em logar -de inflammar o magistrado, inquietavam-n'o. Nos dias seguintes apparecia -preoccupado--como se a perspectiva da santa consummaÁ„o do matrimonio -lhe dÈsse o arrepio de uma faÁanha a emprehender, o ter de agarrar um -toiro, ou nadar nos cachıes do Douro. Ent„o, por qualquer ras„o -especiosa, adiava-se o casamento atÈ ao S. Miguel seguinte. E alliviado, -tranquillo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar as Silveiras a -ch·s, festas de egreja ou pezames, vestido de preto, affavel, serviÁal, -sorrindo a D. Eugenia, n„o desejando mais prazeres que os d'essa -convivencia paternal. - -Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o -dr. juiz de direito e a senhora n„o podiam vir, por que o magistrado -tivera a dÙr; e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se, -coitadas, que era dia de tristeza em casa, por fazer desesete annos que -morrera o mano Manuel... - ---Bem, disse Affonso, bem. A dÙr, a tristeza, o mano Manuel... Fazemos -nÛs um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado? - -O excellente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que ´estava ·s -ordens.ª - ---Ent„o ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as m„os, -no ardor j· da partida. - -Os parceiros dirigiram-se · saleta do jogo--que um reposteiro de damasco -separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos -circulos de luz que cahiam dos _abat-jour_ os baralhos abertos em leque. -D'ahi a um momento o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que ´os -deixara para um roquesinho de tresª; e retomou o seu logar ao lado de D. -Eugenia, cruzando os pÈs debaixo da cadeira e as m„os em cima do ventre. -As senhoras estavam fallando da dÙr do dr. juiz de direito. Costumava -dar-lhe todos os tres mezes: e era condemnavel a sua teima em n„o querer -consultar medicos. Quanto mais que elle andava acabado, ressequindo, -amarellando--e a D. Augusta, a mulher, a nutrir · larga, a ganhar -cÙres!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua gordura ao canto do -canapÈ, com o leque aberto sobre o peito, contou que em Hespanha vira um -caso egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa; -e ao principio fÙra o contrario; atÈ sobre isso se tinham feito uns -versos... - ---Humores, disse com melancolia o dr. delegado. - -Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco, -coitadinho, na flor de idade! E que perfeiÁ„o de rapaz! E que rapaz de -juizo! D. Anna Silveira n„o se esquecera, como todos os annos, de lhe -accender uma lamparina por alma, e de lhe resar tres padre-nossos. A -viscondessa pareceu toda afflicta por se n„o ter lembrado... E ella que -tinha o proposito feito! - ---Pois estive para t'o mandar dizer! exclamou D. Anna. E as Brancos que -tanto o agradecem, filha! - ---Ainda est· a tempo, observou o magistrado. - -D. Eugenia deu uma malha indolente no _crochet_ de que nunca se -separava, e murmurou com um suspiro: - ---Cada um tem os seus mortos. - -E no silencio que se fez, saiu do canto do canapÈ outro suspiro, o da -viscondessa, que de certo se record·ra do fidalgo d'Urigo de la Sierra, -e murmurava: - ---Cada um tem os seus mortos... - -E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar -reflectidamente a m„o pela calva: - ---Cada um tem os seus mortos! - -Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles, -as chammas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava -com cautella e arte as estampas dos _Costumes de todos os Povos_. E na -saleta de jogo, atravez do reposteiro aberto, sentia-se a voz j· -arrenegada do abbade, rosnando com um rancor tranquillo, ´passo, que È o -que tenho feito toda a santa noite!ª - -N'esse momento Carlos arremettia pela sala dentro arrastando a sua -noiva, a Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada -das suas vozes reanimou o canapÈ dormente. - -Os noivos tinham chegado d'uma pittoresca e perigosa viagem, e Carlos -parecia descontente de sua mulher; comportara-se d'uma maneira atroz; -quando elle ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirar-se ao pÈ -d'elle na almofada... Ora senhoras n„o viajam na almofada. - ---E elle atirou-me ao ch„o, titi! - ---N„o È verdade! De mais a mais È mentirosa! Foi como quando cheg·mos · -estalagem... Ella quiz-se deitar, e eu n„o quiz... A gente, quando se -apeia de viagem, a primeira cousa que faz È tratar do gado... E os -cavallos vinham a escorrer... - -A voz de D. Anna interrompeu, muito severa: - ---Est· bom, est· bom, basta de tolices! J· cavallaram bastante. Senta-te -ahi ao pÈ da sr.^a Viscondessa, Thereza... Olhe essa travessa do -cabello... Que desproposito! - -Sempre detest·ra ver a sobrinha, uma menina delicada de dez annos, -brincar assim com o Carlinhos. Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem -doutrina e sem proposito, aterrava-a; e pela sua imaginaÁ„o de -solteirona passavam sem cessar idÈas, suspeitas de ultrages que elle -poderia fazer · menina. Em casa, ao agasalhal-a antes de vir para S.^ta -Olavia, recommendava-lhe com forÁa que n„o fosse com o Carlos para os -recantos escuros! que o n„o deixasse mecher-lhe nos vestidos!... A -menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia: ´Sim, titi.ª Mas, -apenas na quinta, gostava de abraÁar o seu maridinho. Se eram casados, -por que n„o haviam de fazer nÈnÈ, ou ter uma loja e ganharem a sua vida -aos beijinhos? Mas o violento rapaz sÛ queria guerras, quatro cadeiras -lanÁadas a galope, viagens a terras de nomes barbaros que o Brown lhe -ensinava. Ella, despeitada, vendo o seu coraÁ„o mal comprehendido, -chamava-lhe _arrieiro_; elle ameaÁava boxal-a, · ingleza;--e -separavam-se sempre arrenegados. - -Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as -m„os no regaÁo--Carlos veiu logo estirar-se ao pÈ d'ella, meio deitado -para as costas do canapÈ, bamboleando as pernas. - ---Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito secca D. Anna. - ---Estou canÁado, governei quatro cavallos, replicou elle, insolente e -sem a olhar. - -De repente porÈm, d'um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho. -Queria-o levar · Africa, a combatter os selvagens: e puchava-o j· pelo -seu bello _plaid_ de cavalleiro d'Escossia, quando a mam„ accudiu -atterrada. - ---N„o, com o Eusebiosinho n„o, filho! N„o tem saude para essas -cavalladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o avÙ! - -Mas o Eusebiosinho, a um repell„o mais forte, rolara no ch„o, soltando -gritos medonhos. Foi um alvoroÁo, um levantamento. A m„e, tremula, -agachada junto d'elle, punha-o de pÈ sobre as perninhas molles, -limpando-lhe as grossas lagrimas, j· com o lenÁo, j· com beijos, quasi a -chorar tambem. O delegado, consternado, apanhara o bonet escossez, e -cofiava melancolicamente a bella pena de gallo. E a Viscondessa apertava -·s m„os ambas o enorme seio, como se as palpitaÁıes a suffocassem. - -O Eusebiosinho foi ent„o preciosamente collocado ao lado da titi; e a -severa senhora, com um fulgÙr de colera na face magra, apertando o leque -fechado como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos que, de m„os -atraz das costas e aos pulos em roda do canapÈ, ria, arreganhando para o -Eusebiosinho um labio feroz. Mas n'esse momento davam nove horas, e a -desempenada figura do Brown appareceu · porta. - -Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detraz da Viscondessa, -gritando: - ---Ainda È muito cedo, Brown, hoje È festa, n„o me vou deitar! - -Ent„o Affonso da Maia, que se n„o movera aos uivos lacinantes do -Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade: - ---Carlos, tenha a bondade de marchar j· para a cama. - ---Oh vÙvÙ, È festa, que est· c· o VillaÁa! - -Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra, -agarrou o rapaz pelo braÁo, e arrastou-o pelo corredor--em quanto elle, -de calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero: - ---… festa, vÙvÙ... … uma maldade!... O VillaÁa pÛde-se escandalisar... -Oh vÙvÙ, eu n„o tenho somno! - -Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo -aquella rigidez: ahi estava uma cousa incomprehensivel; o avÙ -deixava-lhe fazer todos os horrores, e recusava-lhe ent„o o bocadinho da -soirÈe... - ---Oh sr. Affonso da Maia, por que n„o deixou estar a creanÁa? - ---… necessario methodo, È necessario methodo, balbuciou elle, entrando, -todo pallido do seu rigor. - -E · mesa do voltarete, apanhando as cartas com as m„os tremulas, repetia -ainda: - ---… necessario methodo. CreanÁas · noite dormem. - -D. Anna Silveira voltando-se para o VillaÁa--que cedera o seu lugar ao -dr. delegado e vinha palestrar com as senhoras--teve aquelle sorriso -mudo que lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia fallava em -´methodos.ª - -Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque, -declarou, a transbordar d'ironia, que, talvez por ter a intelligencia -curta, nunca comprehendera a vantagem dos ´methodosª... Era · ingleza, -segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ella estava -enganada, ou S.^ta Olavia era no reino de Portugal... - -E como VillaÁa inclinava timidamente a cabeÁa, com a sua pitada nos -dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro n„o ouvisse, -desabafou. O sr. VillaÁa naturalmente n„o sabia, mas aquella educaÁ„o do -Carlinhos nunca fÙra approvada pelos amigos da casa. J· a presenÁa do -Brown, um heretico, um protestante, como perceptor na familia dos Maias, -causara desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso tinha -aquelle santo do abbade Custodio, t„o estimado, homem de tanto saber... -N„o ensinaria · creanÁa habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar -uma educaÁ„o de fidalgo, preparal-o para fazer boa figura em Coimbra. - -N'esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente d'ar, erguera-se da -mesa de jogo a fechar o reposteiro: ent„o, como Affonso j· n„o podia -ouvir, D. Anna ergueu a voz: - ---E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. VillaÁa. Que o Carlinhos, -coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar -o que succedeu com a Macedo. - -VillaÁa j· sabia. - ---Ah j· sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do acto de -contricÁ„o... - -A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao ceu atravez do tecto. - ---Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher chegou l· a nossa casa -embuchada... E eu fez-me impress„o. AtÈ sonhei com aquillo tres noites a -fio... - -Calou-se um momento. VillaÁa, embaraÁado, acanhado, fazia girar a caixa -de rapÈ nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de -somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas, fazia -de vez em quando uma malha molle no _crochet_; e a noiva de Carlos, -estirada para o canto do soph·, j· dormia, com a boquinha aberta, os -seus lindos cabellos negros caindo-lhe pelo pescoÁo. - -D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua idÈa: - ---Sem contar que o pequeno est· muito atrazado. A n„o ser um bocado de -inglez, n„o sabe nada... Nem tem prenda nenhuma! - ---Mas È muito esperto, minha rica senhora! accudiu VillaÁa. - ---… possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira. - -E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d'ella, -quieto como se fosse de gesso: - ---Oh filho, dize tu aqui ao sr. VillaÁa aquelles lindos versos que -sabes... N„o sejas atado, anda!... V·, Euzebio, filho, sÍ bonito... - -Mas o menino, molleng„o e tristonho, n„o se descollava das saias da -titi: teve ella de o pÙr de pÈ, amparal-o, para que o tenro prodigio n„o -alluisse sobre as perninhas flacidas; e a mam„ prometteu-lhe que, se -dissesse os versinhos, dormia essa noite com ella... - -Isto decidio-o: abrio a bocca, e como d'uma torneira lassa veio de l· -escorrendo, n'um fio de voz, um recitativo lento e babujado: - - - … noite, o astro saudoso - Rompe a custo um plumbeo cÈu, - Tolda-lhe o rosto formoso - Alvacento, humido vÈo... - - -Disse-a toda--sem se mexer, com as m„osinhas pendentes, os olhos -mortiÁos pregados na titi. A mam„ fazia o compasso com a agulha do -_crochet_; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto, -banhada no langor da melopea, ia cerrando as palpebras. - ---Muito bem, muito bem! exclamou o VillaÁa, impressionado, quando o -Euzebiosinho findou coberto de suor. Que memoria! Que memoria! … um -prodigio!... - -Os creados entravam com o ch·. Os parceiros tinham findado a partida; e -o bom Custodio, de pÈ, com a sua chavena na m„o, queixava-se amargamente -da maneira porque aquelles senhores o tinham esfollado. - -Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senhoras -retiraram-se ·s nove e meia. O serviÁal dr. delegado dava o braÁo a D. -Eugenia; um creado da quinta allumiava adiante com o lampe„o; e o moÁo -das Silveiras levava ao collo o Eusebiosinho que parecia um fardo -escuro, abafado em mantas, com um chale amarrado na cabeÁa. - - -Depois da ceia VillaÁa acompanhou ainda um momento Affonso da Maia · -livraria, onde, antes de recolher, elle tomava sempre · ingleza o seu -cognac e soda. - -O aposento, a que as velhas estantes de pau preto davam um ar severo, -estava adormecido tepidamente, na penumbra suave, com as cortinas bem -fechadas, um resto de lume na chaminÈ, e o globo do candieiro pondo a -sua claridade serena na mesa coberta de livros. Em baixo, os repuchos -cantavam alto no silencio da noite. - -Emquanto o escudeiro rolava para o pÈ da poltrona de Affonso, n'uma mesa -baixa, os crystaes e as garrafas de soda, VillaÁa, com as m„os nos -bolsos, de pÈ e pensativo, olhava a braza da acha que morria na cinza -branca. Depois ergueu a cabeÁa, para murmurar, como ao acaso: - ---Aquelle rapazito È esperto... - ---Quem? O Euzebiosinho? disse Affonso, que se accomodava junto ao fog„o, -enchendo alegremente o cachimbo. Eu tremo de o ver c·, VillaÁa! O Carlos -n„o gosta d'elle, e tivemos ahi um desgosto horroroso... Foi j· ha -mezes. Havia uma prociss„o e o Eusebiosinho ia de anjo... As Silveiras, -excellentes mulheres, coitadas, mandaram-n'o c· para o mostrar · -viscondessa, j· vestido de anjo. Pois senhores, distrahimo-nos, e o -Carlos que o andava a rondar apodera-se d'elle, leva-o para o sot„o, e, -meu caro VillaÁa... Em primeiro logar ia-o matando porque embirra com -anjos... Mas o peior n„o foi isso. Imagine vocÍ o nosso terror, quando -nos apparece o Eusebiosinho aos berros pela titi, todo desfrizado, sem -uma aza, com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um -barbante, a corÙa de rosas enterrada atÈ ao pescoÁo, e os galıes de -ouro, os tulles, as lentejoulas, toda a vestimenta celeste em -frangalhos!... Emfim, um anjo depennado e sovado... Eu ia dando cabo do -Carlos. - -Bebeu metade da sua soda, e passando a m„o pelas barbas, accrescentou, -com uma satisfaÁ„o profunda: - ---… levado do diabo, VillaÁa! - -O administrador, sentado agora · borda de uma cadeira, esboÁou uma -risadinha muda; depois ficou calado, olhando Affonso, com as m„os nos -joelhos, como esquecido e vago. Ia abrir os labios, hesitou ainda, -tossio de leve; e continuou a seguir pensativamente as faiscas que -erravam sobre as achas. - -Affonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume, -recomeÁara a fallar do Silveirinha. Tinha tres ou quatro mezes mais que -Carlos, mas estava enfesado, estiolado, por uma educaÁ„o · portugueza: -d'aquella edade ainda dormia no chÙco com as criadas, nunca o lavavam -para o n„o constiparem, andava couraÁado de rolos de flanellas! Passava -os dias nas saias da titi a decorar versos, paginas inteiras do -_Cathecismo de PerseveranÁa_. Elle por curiosidade um dia abrira este -livreco e vira l·, ´que o sol È que anda em volta da terra (como antes -de Galileu), e que Nosso Senhor todas as manh„s d· as ordens ao sol, -para onde ha d'ir e onde ha de parar, etc., etc.ª E assim lhe estavam -arranjando uma almasinha de bacharel... - -VillaÁa teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamente -decidido, ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras: - ---V. Ex.^a sabe que appareceu a Monforte? - -Affonso, sem mover a cabeÁa, reclinado para as costas da poltrona, -perguntou tranquillamente, envolvido no fumo do cachimbo: - ---Em Lisboa? - ---N„o senhor, em Paris. Viu-a l· o Alencar, esse rapaz que escreve, e -que era muito de Arroios... Esteve atÈ em casa d'ella. - -E ficaram calados. Havia annos que entre elles se n„o pronunciara o nome -de Maria Monforte. Ao principio, quando se retirara para Santa Olavia, a -preoccupaÁ„o ardente de Affonso da Maia fÙra tirar-lhe a filha que ella -levara. Mas a esse tempo ninguem sabia onde Maria se refugiara com o seu -principe: nem pela influencia das legaÁıes, nem pagando regiamente a -policia secreta de Paris, de Londres, de Madrid, se poude descobrir a -´toca da feraª como disia ent„o o VillaÁa. Ambos decerto tinham mudado -de nome; e, dadas essas naturezas bohemias, quem sabe se n„o errariam -agora pela America, pela India, em regiıes mais exoticas? Depois, pouco -a pouco, Affonso da Maia descorÁoado com aquelles esforÁos v„os, todo -occupado do neto que crescia bello e forte ao seu lado, no -enternecimento continuo que elle lhe dava foi esquecendo a Monforte e a -sua outra neta, t„o distante, t„o vaga, a quem ignorava as feiÁıes, de -quem mal sabia o nome. E agora de repente a Monforte apparecia outra vez -em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto! e aquella creanÁa que dormia -ao fundo do corredor nunca vira sua m„e... - -Erguera-se, passeiava na livraria, pesado e lento, com a cabeÁa baixa. -Junto · mesa, ao pÈ do candieiro, o VillaÁa ia percorrendo um a um os -papeis da sua carteira. - ---E est· em Paris com o italiano? perguntou Affonso do fundo sombrio do -aposento. - -O VillaÁa ergueu a cabeÁa de sobre a carteira, e disse: - ---N„o senhor, est· com quem lhe paga. - -E como Affonso se aproximava da mesa, sem uma palavra, VillaÁa, -dando-lhe um papel dobrado, accrescentou: - ---Todas estas cousas s„o muito graves, sr. Affonso da Maia, e eu n„o -quiz fiar-me sÛ na minha memoria. Por isso pedi ao Alencar, que È um -excellente rapaz, que me escrevesse n'uma carta tudo o que me contou. -Assim temos um documento. Eu n„o sei mais do que ahi est· escripto. PÛde -V. Ex.^a ler... - -Affonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma historia simples, que -o Alencar, o poeta das _Vozes d'Aurora_, o estylista de _Elvira_, orn·ra -de flores e de galıes dourados como uma capella em dia de festa. - -Uma noite, ao sahir da _Maison d'Or_, elle vira a Monforte saltar d'um -_coupÈ_ com dois homens de gravata branca; tinham-se logo reconhecido; e -um momento ficaram hesitando, um defronte do outro, debaixo do candieiro -de gaz, no _trottoir_. Foi ella que, muito decidida, rindo, estendeu a -m„o ao Alencar, pediu-lhe que a visitasse, deu-lhe a _adresse_, o nome -por que devia perguntar: M.^{me} de l'Estorade. E no seu _boudoir_, na -manh„ seguinte a Monforte fallou largamente de si: vivera tres annos em -Vienna d'Austria com Tancredo, e com o pap· que se lhes fÙra reunir--e -que l· continuava de certo, como em Arroios, refugiando-se pelos cantos -das salas, pagando as _toilettes_ da filha, e dando palmadinhas ternas -no hombro do amante como outr'ora no hombro do marido. Depois tinham -estado em Monaco; e ahi, dizia o Alencar, ´n'um drama sombrio de paix„o -que ella me fez entreverª o napolitano fora morto em duello. O pap· -morrera tambem n'esse anno, deixando apenas da sua fortuna uns magros -contos de rÈis, e a mobilia da casa em Vienna: o velho arruinara-se com -o luxo da filha, com as viagens, com as perdas de Tancredo ao -_baccarat_. Pass·ra ent„o um tempo em Londres: e d'ahi viera habitar -Paris, com Mr. de l'Estorade, um jogador, um espadachim, que acabou de a -arrasar, e que a abandonou legando-lhe esse nome de l'Estorade, que lhe -era a elle d'ora em diante inutil porque passava a adoptar outro mais -sonoro de _Vicomte de Manderville_. Emfim, pobre, formosa, doida, -excessiva, lanÁara-se na existencia d'aquellas mulheres de quem, dizia o -Alencar, ´a pallida Margarida Gautier, a gentil _Dama das Camelias_ È o -typo sublime, o symbolo poetico, a quem muito ser· perdoado porque muito -amaram.ª E o poeta terminava: ´ella est· ainda no esplendor da belleza, -mas as rugas vir„o, e ent„o que avistar· em redor de si? As rosas seccas -e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi d'aquelle _boudoir_ -perfumado, com a alma dilacerada, meu VillaÁa! Pensava no meu pobre -Pedro, que l· jaz sob o raio de luar, entre as raizes dos cyprestes. E, -desilludido d'esta cruel vida, vim pedir ao absintho, no _boulevard_, -uma hora de esquecimento.ª - -Affonso da Maia deu um repell„o · carta, menos enojado das torpezas da -historia, que d'aquelles lyrismos relambidos. - -E recomeÁou a passear, emquanto o VillaÁa recolhia religiosamente o -documento que tinha relido muitas vezes, na admiraÁ„o do sentimento, do -estylo, do ideal d'aquella pagina. - ---E a pequena? perguntou Affonso. - ---Isso n„o sei. O Alencar n„o lhe fallarÌa na filha, nem elle mesmo sabe -que ella a levou. Ninguem o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que passou -desapercebido no grande escandalo. Mas emquanto a mim, a pequena morreu. -Sen„o, siga V. Ex.^a o meu raciocinio... Se a menina fosse viva, a m„e -podia reclamar a legitima que cabe · creanÁa... Ella sabe a casa que V. -Ex.^a tem; ha de haver dias, e s„o frequentes na vida d'essas mulheres, -em que lhe falte uma libra... Com o pretexto da educaÁ„o da menina, ou -de alimentos, j· nos tinha importunado... Escrupulos n„o tem ella. Se o -n„o faz È que a filha morreu. N„o lhe parece a V. Ex.^a? - ---Talvez, disse Affonso. - -E accrescentou, parando deante de VillaÁa--que olhava outra vez a braza -morta tirando estalinhos dos dedos: - ---Talvez... SopÙnhamos que morreram ambas, e n„o se falle mais n'isso. - -Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias -que VillaÁa passou em S.^{ta} Olavia n„o se proferiu mais o nome de -Maria Monforte. - -Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Affonso subio -ao quarto d'elle, a entregar-lha as amendoas da Paschoa que Carlos -mandava a VillaÁa Junior, um alfinete de peito com uma magnifica -saphira--e disse-lhe em quanto o outro, sensibilisado, balbuciava os -agradecimentos: - ---Agora outra cousa, VillaÁa. Tenho estado a pensar. Vou escrever a meu -primo Noronha, ao AndrÈ que vive em Paris como vocÍ sabe, pedir-lhe que -procure essa creatura, e que lhe offereÁa dez ou quinze contos de rÈis, -se ella me quizer entregar a filha... No caso, est· claro, que esteja -viva... E quero que vocÍ saiba d'esse Alencar a morada da mulher em -Paris. - -O VillaÁa n„o respondeu, occupado a metter entre as camisas, bem no -fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou -deante d'Affonso, a coÁar reflectidamente o queixo. - ---Ent„o que lhe parece, VillaÁa? - ---Parece-me arriscado. - -E deu as suas razıes. A menina devia ir nos seus treze annos. Estava uma -mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus -habitos... Nem fallaria o portuguez. As saudades da m„e haviam de ser -terriveis... Emfim, o sr. Affonso de Maia trazia uma extranha para -casa... - ---VocÍ tem ras„o, VillaÁa. Mas a mulher È uma prostituta, e a pequena È -do meu sangue. - -N'esse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vovÙ, -precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma rom„.--O Brown -tinha achado uma corujasinha pequena! Queria que o vovÙ viesse, ver, -andara a buscal-o por toda a casa... Era de morrer a rir... Muito -pequena, muito feia, toda pellada, e com dois olhos de gente grande! E -sabiam onde havia o ninho... - ---Vem depressa, Û vovÙ! Depressa, que È necessario ir pol-a no ninho, -por causa da coruja velha que se pÛde affligir... O Brown est·-lhe a dar -azeite. Oh VillaÁa vem ver! O vovÙ, pelo amor de Deus! Tem uma cara t„o -engraÁada! Mas depressa, depressa, que a coruja velha pÛde dar pela -falta!... - -E impaciente com a lentid„o risonha do vÙvo, tanta indifferenÁa pela -inquietaÁ„o da coruja velha, abalou atirando com a porta. - ---Que bom coraÁ„o! exclamou o VillaÁa commovido. A pensar nas saudades -da coruja... A m„e d'elle È que n„o tem saudades! Sempre o disse, È uma -fera! - -Afonso encolheu tristemente os hombros. Iam j· no corredor quando elle, -parando um momento, baixando a voz: - ---Tem-me esquecido de lhe contar, VillaÁa, o Carlos sabe que o pae que -se matou... - -VillaÁa arredondou os olhos d'espanto. Era verdade. Uma manh„ -entrara-lhe pela livraria, e dissera-lhe:--Û vovÙ, o pap· matou-se com -uma pistola!--Naturalmente algum creado que lh'o contara... - ---E vossa excellencia? - ---Eu... Que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenho obedecido -ao que Pedro me pediu, n'essas quatro ou cinco linhas da carta que me -deixou. Quiz ser enterrado em S.{ta} Olavia, ahi est·. N„o queria que o -filho j·mais soubesse da fuga da m„e; e por mim, de certo, nunca o -saber·. Quiz que dois retratos que havia d'ella em Arroios fossem -destruidos; como vocÍ sabe, obtiveram-se e destruiram-se. Mas n„o me -pedio que occultasse ao rapaz o seu fim. E por isso, disse ao pequeno a -verdade: disse-lhe que n'um momento de loucura, o pap· tinha dado um -tiro em si... - ---E elle? - ---E elle, replicou Affonso sorrindo, perguntou-me quem lhe tinha dado a -pistola, e torturou-me toda uma manh„ para lhe dar tambem uma pistola... -E ahi est· o resultado d'essa revelaÁ„o: È que tive de mandar vir do -Porto uma pistÛla de vento... - -Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo avÛ, os dois -apressaram-se a ir admirar a corujazinha. - -VillaÁa ao outro dia partiu para Lisboa. - -Passadas duas semanas, Affonso recebia uma carta do administrador, -trasendo-lhe, com a _adresse_ da Monforte, uma revelaÁ„o imprevista. -Tinha voltado a casa do Alencar; e o poeta, recordando outros incidentes -da sua visita a M.^{me} de l'Estorade, contara-lhe que no _boudoir_ -d'ella havia um adoravel retrato de creanÁa, de olhos negros, cabello -d'azeviche, e uma pallidez de nacar. Esta pintura ferira-o, n„o sÛ por -ser d'um grande pintor inglez, mas por ter, pendente sob o caixilho como -um voto funerario, uma linda coroa de flores de cera brancas e roxas. -N„o havia outro quadro no _boudoir_: e elle perguntara · Monforte se era -um retrato ou uma phantasia. Ella respondera que era o retrato da filha -que lhe morrera em Londres. ´Est„o assim dissipadas todas as duvidas, -accrescentava o VillaÁa. O pobre anjinho est· n'uma patria. melhor. E -para ella, _bem melhor_!ª - -Affonso, todavia, escreveu a AndrÈ de Noronha. A resposta tardou. Quando -o primo AndrÈ procurara M.^{me} de l'Estorade, havia semanas que ella -partira para Allemanha, depois de vender mobilia e cavallos. E no _Club -Imperial_, a que elle pertencia, um amigo que conhecia bem M.^{me} de -l'Estorade e a vida galante de Paris, contara-lhe que a doida fugira com -um certo Catanni, acrobata do Circo d'Inverno nos Campos Elyseos, homem -de fÛrmas magnificas, um Appolo de feira, que todas as cocottes se -disputavam e que a Monforte empolg·ra. Naturalmente corria agora a -Allemanha com a companhia de cavallinhos. - -Affonso da Maia, enojado, remetteu esta carta ao VillaÁa sem um -commentario. E o honrado homem respondeu: ´Tem V. Ex.^a ras„o, È atroz: -e mais vale suppor que todos morreram, e n„o gastar mais cera com t„o -ruins defuntos...ª E depois n'um post-scriptum accrescentava: ´Parece -certo abrir-se em breve o caminho de ferro atÈ ao Porto: em tal caso, -com permiss„o de V. Ex.^a, ahi irei e o meu rapaz a pedirmos-lhe alguns -dias d'hospitalidade.ª - -Esta carta foi recebida em S.^{ta} Olavia um domingo, ao jantar. Affonso -lera alto o P. S. Todos se alegraram, na esperanÁa de ver o bom VillaÁa -em breve na quinta; e fallou-se mesmo em arranjar um grande pic-nic, rio -acima. - -Mas, terÁa feira · noite, chegava um telegramma de Manuel VillaÁa -annunciando que o pae morrera, n'essa manh„, d'uma apoplexia: dois dias -depois vinham mais longos e tristes pormenores. Fora depois do almoÁo -que, de repente, VillaÁa se sentira muito suffocado, e com tonturas: -ainda tivera forÁas d'ir ao quarto respirar um pouco d'ether: mas ao -voltar · sala cambaleava, queixava-se de vÍr tudo amarello, e caiu de -bruÁos, como um fardo, sobre o canapÈ. O seu pensamento, que se -extinguia para sempre, ainda n'esse momento se occupou da casa que ha -trinta annos administrava: balbuciou, a respeito d'uma venda de cortiÁa, -recomendaÁıes que o filho j· n„o poude perceber: depois deu um grande -ai; e sÛ tornou a abrir os olhos, para murmurar no derradeiro sopro -estas derradeiras palavras: _Saudades ao patr„o!_ - -Affonso da Maia ficou profundamente afectado, e em S.^{ta} Olavia, mesmo -entre os creados, a morte de VillaÁa foi como um lucto domestico. Uma -d'essas tardes, o velho, muito melancolico, estava na livraria com um -jornal esquecido nas m„os, os olhos cerrados--quando Carlos, que ao lado -rabiscava carantonhas n'um papel, veio passar-lhe um braÁo pelo pescoÁo, -e como comprehendendo os seus pensamentos perguntou-lhe se o VillaÁa n„o -voltaria a vel-os ‡ quinta. - ---N„o filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a vÍr. - -O pequeno, entre os joelhos e os braÁos do velho, olhava o tapete, e, -como recordando-se, murmurou tristemente: - ---O VillaÁa, coitado... Dava estalinhos com os dedos... Oh vovÙ, para -onde o levaram? - ---Para o cemiterio, filho, para debaixo da terra. - -Ent„o Carlos desprendeu-se devagar do abraÁo do avÙ, e muito sÈrio, com -os olhos n'elle: - ---” vovÙ! porque n„o lhe mandas fazer uma capellinha bonita, toda de -pedra, com uma figura, como tem o pap·? - -O velho achegou-o ao peito, beijou-o, commovido: - ---Tens raz„o, filho. Tens mais coraÁ„o que eu! - -Assim o bom VillaÁa teve no cemiterio dos Prazeres o seu jazigo--que -fÙra a alta ambiÁ„o da sua existÍncia modesta. - - -Outros annos tranquillos passaram sobre Santa Olavia. - -Depois uma manh„ de julho, em Coimbra, Manuel VillaÁa (agora -administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Affonso -se hosped·ra com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando, -berrando: - ---_NeminË! NeminË!_ - -Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha -acompanhado os senhores de Santa Olavia correu · porta, abraÁou-se quasi -chorando no menino, agora mais alto que elle, e muito formoso na sua -batina nova. - -Em cima no quarto, Manuel VillaÁa, soprando ainda, limpando as bagas de -suor, exclamava: - ---Ficou tudo espantado, snr. Affonso da Maia! Os lentes atÈ estavam -commovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem, È o que -todo o mundo disse... E que faculdade vai elle seguir, meu senhor? - -Affonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso: - ---N„o sei, VillaÁa... Talvez nos formemos ambos em Direito. - -Carlos assomou · porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro -escudeiro--que trazia _champagne_ n'uma salva. - ---Ent„o venha c·, seu maroto, disse Affonso muito branco, com os braÁos -abertos. Bom exame, hein?... Eu... - -Mas n„o pÙde proseguir: as lagrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba -branca. - - - - -IV - - -Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera -sempre n'aquelle menino realmente uma ´vocaÁ„o para Esculapioª. - -A ´vocaÁ„oª revel·ra-se bruscamente um dia que elle descobriu no sot„o, -entre rumas de velhos alfarrabios, um rolo manchado e antiquado de -estampas anatomicas; tinha passado dias a recortal-as, pregando pelas -paredes do quarto figados, liaÁas de intestinos, cabeÁas de perfil ´com -o recheio · mostraª. Uma noite mesmo rompera pela sala em triumpho, a -mostrar ·s Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa lithographia de um feto de -seis mezes no utero materno. D. Anna recuou, com um grito, collando o -leque · face: e o dr. delegado, escarlate tambem, arrebatou -prudentemente Euzebiosinho para entre os joelhos, tapou-lhe a face com a -m„o. Mas o que escandalisou mais as senhoras foi a indulgencia de -Affonso. - ---Ent„o que tem, ent„o que tem? dizia elle sorrindo. - ---Que tem, snr. Affonso da Maia!? exclamou D. Anna. S„o indecencias! - ---N„o ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente È a -ignorancia... Deixar l· o rapaz. Tem curiosidade de saber como È esta -pobre machina por dentro, n„o ha nada mais louvavel... - -D. Anna abanava-se, suffocada. Consentir taes horrores nas m„os da -crianÁa!... Carlos comeÁou a apparecer-lhe como um libertino ´que j· -sabia coisasª; e n„o consentiu mais que a Therezinha brincasse sÛ com -elle pelos corredores de Santa Olavia. - -As pessoas sÈrias porÈm, o dr. juiz de direito, o proprio abbade, -lamentando, sim, que n„o houvesse mais recato, concordavam que aquillo -mostrava no pequeno uma grande queda para a medicina. - ---Se pÈga, dizia ent„o com um gesto prophetico o dr. Trigueiros, temos -d'alli coisa grande! - -E parecia pegar. - -Em Coimbra, estudante do Lyceu, Carlos deixava os seus compendios de -logica e rhetorica para se occupar de anatomia: n'umas ferias, ao abrir -das malas, a Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras -d'um casaco o riso d'uma caveira: e se algum criado da quinta adoecia, -l· estava Carlos logo revolvendo o caso em velhos livros de medicina da -livraria, sem lhe largar a beira do catre, fazendo diagnosticos que o -bom dr. Trigueiros escutava respeitoso e pensativo. Diante do avÙ j· -chamava mesmo ao menino ´o seu talentoso collegaª. - -Esta inesperada carreira de Carlos (pens·ra-se sempre que elle tomaria -capello em Direito) era pouco approvada entre os fieis amigos de Santa -Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo -t„o formoso, t„o bom cavalleiro, viesse a estragar a vida receitando -emplastros, e sujando as m„os no jorro das sangrias. O dr. juiz de -direito confessou mesmo um dia a sua descrenÁa de que o snr. Carlos da -Maia quizesse ´ser medico a sÈrioª. - ---Ora essa! exclamou Affonso. E porque n„o ha de ser medico a sÈrio? Se -escolhe uma profiss„o È para a exercer com sinceridade e com ambiÁ„o, -como os outros. Eu n„o o educo para vadio, muito menos para amador; -educo-o para ser util ao seu paiz... - ---Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, n„o lhe -parece a v. exc.^a que ha outras coisas, importantes tambem, e mais -proprias talvez, em que seu neto se poderia tornar util?... - ---N„o vejo, replicou Affonso da Maia. N'um paiz em que a occupaÁ„o geral -È estar doente, o maior serviÁo patriotico È incontestavelmente saber -curar. - ---V. exc.^a tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o -magistrado. - -E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida ´a sÈrioª, -pratica e util, as escadas de doentes galgadas · pressa no fogo de uma -vasta clinica, as existencias que se salvam com um golpe de bisturÌ, as -noites veladas · beira de um leito, entre o terror de uma familia, dando -grandes batalhas · morte. Como em pequeno o tinham encantado as fÛrmas -pittorescas das vÌsceras--attrahiam-no agora estes lados militantes e -heroicos da sciencia. - -Matriculou-se realmente com enthusiasmo. Para esses longos annos de -quieto estudo o avÙ prepar·ra-lhe uma linda casa em Cellas, isolada, com -graÁas de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca entre -as arvores. Um amigo de Carlos (um certo Jo„o da Ega) poz-lhe o nome de -´PaÁos de Cellasª, por causa de luxos ent„o raros na Academia, um tapete -na sala, poltronas de marroquim, panoplias d'armas, e um escudeiro de -librÈ. - -Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas -suspeito aos democratas; quando se soube porÈm que o dono d'estes -confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava -tambem o paiz uma _choldra ignobil_--os mais rigidos revolucionarios -comeÁaram a vir aos PaÁos de Cellas t„o familiarmente como ao quarto do -Trov„o, o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobilia -uma enxerga e uma Biblia. - -Ao fim d'alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, concili·ra Dandys e -Philosophos: e trazia muitas vezes no seu _break_, lado a lado, o Serra -Torres, um monstro que j· era addido honorario em Berlim e todas as -noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a _Morte de -Satanaz_, encolhido no seu gab„o d'Aveiro, com o seu grande barrete de -lontra. - -Os PaÁos de Cellas, sob a sua apparencia preguiÁosa e campestre, -tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma -gymnastica scientifica. Uma velha cozinha fÙra convertida em sala -d'armas--porque n'aquelle grupo a esgrima passava como uma necessidade -social. ¡ noite, na sala de jantar, moÁos sÈrios faziam um _whist_ -sÈrio: e no sal„o, sob o lustre de crystal, com o _Figaro_, o _Times_ e -as _Revistas_ de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao -piano tocando Chopin ou Mozart, os litteratos estirados pelas -poltronas--havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a -Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a -EvoluÁ„o, tudo por seu turno flammejava no fumo do tabaco, tudo t„o -ligeiro e vago como o fumo. E as discussıes metaphysicas, as proprias -certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a -presenÁa do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo -croquettes. - -Carlos, naturalmente, n„o tardou a deixar pelas mesas, com as folhas -intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob -todas as fÛrmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no -_Instituto_--e um artigo sobre o Parthenon: tentou, n'um _atelier_ -improvisado, a pintura a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a -influencia da _SalammbÙ_. AlÈm d'isso todas as tardes passeava os seus -dois cavallos. No segundo anno levaria um _R_ se n„o fosse t„o conhecido -e rico. Tremeu, pensando no desgosto do avÙ: moderou a dissipaÁ„o -intellectual, acantoou-se mais na sciencia que escolhera: immediatamente -lhe deram um _accessit_. Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo: -e estava destinado, como dizia Jo„o da Ega, a ser um d'esses medicos -litterarios que inventam doenÁas de que a humanidade papalva se presta -logo a morrer! - -O avÙ, ·s vezes, vinha passar uma, duas semanas a Cellas. Nos primeiros -tempos a sua presenÁa, agradavel aos cavalheiros da partilha de _whist_, -desorganisou o cavaco litterario. Os rapazes mal ousavam estender o -braÁo para o copo da cerveja; e os _vossa excellencia_ isto, _vossa -excellencia_ aquillo, regelavam a sala. Pouco a pouco, porÈm, vendo-o -apparecer em chinelas e de cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com -ares sympathicos de patriarcha bohemio, discutir arte e litteratura, -contar anecdotas do seu tempo d'Inglaterra e d'Italia, comeÁaram a -consideral-o como um camarada de barbas brancas. Diante d'elle j· se -fallava de mulheres e de estroinices. Aquelle velho fidalgo, t„o rico, -que lÍra Michelet e o admirava--chegou mesmo a enthusiasmar os -democratas. E Affonso gozava alli tambem horas felizes, vendo o seu -Carlos centro d'aquelles moÁos de estudo, de ideal e de veia. - -Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, ·s vezes em Paris ou -Londres; mas por Nataes e Pascoas vinha sempre a Santa Olavia, que o avÙ -mais sÛ se entretinha a embellezar com amor. As salas tinham agora -soberbos pannos d'Arraz, paizagens de Rousseau e Daubigny, alguns moveis -de luxo e d'arte. Das janellas a quinta offerecia aspectos nobres de -parque inglez: atravÈs dos macios taboleiros de relva, davam curvas -airosas as ruas areadas: havia marmores entre as verduras; e gordos -carneiros de luxo dormiam sob os castanheiros. Mas a existencia n'este -meio rico n„o era agora t„o alegre: a viscondessa, cada dia mais -nutrida, cahia em somnos congestivos logo depois do jantar; o Teixeira -primeiro, a Gertrudes depois, tinham morrido, ambos de pleurizes, ambos -no entrudo: e j· se n„o via tambem · mesa a bondosa face do abbade, que -l· jazia sob uma cruz de pedra, entre os goivos e as rosas de todo o -anno. O dr. juiz de direito com a sua concertina pass·ra para a RelaÁ„o -do Porto; D. Anna Silveira, muito doente, nunca sahia; a Therezinha -fizera-se uma rapariguinha feia, amarella como uma cidra; o -Euzebiosinho, molleng„o e tristonho, j· sem vestigios sequer do seu -primeiro amor aos alfarrabios e ·s letras, ia casar na Regoa. SÛ o dr. -delegado, esquecido n'aquella comarca, estava o mesmo, mais calvo -talvez, sempre affavel, amando sempre a pachorrenta Eugenia. E quasi -todas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da sua egoa branca ao -port„o para vir cavaquear com o collega. - -As ferias, realmente, sÛ eram divertidas para Carlos quando trazia para -a quinta o seu intimo, o grande Jo„o da Ega, a quem Affonso da Maia se -affeiÁo·ra muito, por elle e pela sua originalidade, e por ser sobrinho -d'AndrÈ da Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas vezes outr'ora, -hospede tambem em Santa Olavia. - -Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente--ora -reprovado, ora perdendo o anno. Sua m„i, rica, viuva e beata, retirada -n'uma quinta ao pÈ de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e -rica tambem, tinha apenas uma noÁ„o vaga do que o Jo„ozinho fizera, todo -esse tempo, em Coimbra. O capell„o affirmava-lhe que tudo havia de -acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o pap· e como -o titi: e esta promessa bastava · boa senhora, que se occupava sobretudo -da sua doenÁa de entranhas e dos confortos d'esse padre Seraphim. -Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da -quinta, que elle escandalisava com a sua irreligi„o e as suas facecias -hereticas. - -Jo„o da Ega, com effeito, era considerado n„o sÛ em Celorico, mas tambem -na Academia que elle espantava pela audacia e pelos ditos, como o maior -atheu, o maior demagogo, que j·mais apparecera nas sociedades humanas. -Isto lisonjeava-o: por systema exagerou o seu odio · Divindade, e a toda -a Ordem social: queria o massacre das classes-mÈdias, o amor livre das -ficÁıes do matrimonio, a repartiÁ„o das terras, o culto de Satanaz. O -esforÁo da intelligencia n'este sentido terminou por lhe influenciar as -maneiras e a physionomia; e, com a sua figura esgrouviada e sÍcca, os -pÍllos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro -entalado no olho direito--tinha realmente alguma coisa de rebelde e de -satanico. Desde a sua entrada na Universidade renov·ra as tradiÁıes da -antiga Bohemia: trazia os rasgıes da batina cozidos a linha branca; -embebedava-se com carrasc„o; · noite, na Ponte, com o braÁo erguido, -atirava injurias a Deus. E no fundo muito sentimental, enleado sempre em -amores por meninas de quinze annos, filhas de empregados, com quem ·s -vezes ia passar a soirÈe, levando-lhes cartuchinhos de dÙce. A sua fama -de fidalgote rico tornava-o appetecido nas familias. - -Carlos escarnecia estes idyllios futricas; mas tambem elle terminou por -se enredar n'um episodio romantico com a mulher d'um empregado do -governo civil, uma lisboetasinha, que o seduziu pela graÁa d'um corpo de -boneca e por uns lindos olhos verdes. A ella o que a fanatis·ra fÙra o -luxo, o _groom_, a egoa ingleza de Carlos. Trocaram-se cartas; e elle -viveu semanas banhado na poesia aspera e tumultuosa do primeiro amor -adultero. Infelizmente a rapariga tinha o nome barbaro de Hermengarda; e -os amigos de Carlos, descoberto o segredo, chamavam-lhe j· _Eurico o -presbytero_, dirigiam para Cellas missivas pelo correio com este nome -odioso. - -Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do -governo civil passou junto d'elle com o filhinho pela m„o. Pela primeira -vez via t„o de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e -macilento. Mas o pequerrucho era adoravel, muito gordo, parecendo mais -roliÁo por aquelle dia de janeiro sob os agasalhos de l„ azul, -tremelicando nas pobres perninhas rÙxas de frio, e rindo na clara -luz--rindo todo elle, pelos olhos, pelas covinhas do queixo, pelas duas -rosas das faces. O pae amparava-o; e o encanto, o cuidado com que o -rapaz ia assim guiando os passos do seu filho, impressionou Carlos. Era -no momento em que elle lia Michelet--e enchia-lhe a alma a veneraÁ„o -litteraria da santidade domestica. Sentiu-se canalha em andar alli de -cima do seu _dog-cart_, a preparar friamente a vergonha, e as lagrimas -d'aquelle pobre pae t„o inoffensivo no seu paletot coÁado! Nunca mais -respondeu ·s cartas em que Hermengarda lhe chamava _seu ideal_. Decerto -a rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo civil, -d'ahi por diante, dardejava sobre elle olhares sangrentos. - -Mas a grande ´topada sentimental de Carlosª, como disse o Ega, foi -quando elle, ao fim d'umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga -hespanhola, e a installou n'uma casa ao pÈ de Cellas. Chamava-se -Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mez uma vittoria com um cavallo branco -e Encarnacion fanatisou Coimbra como a appariÁ„o d'uma _Dama das -Camelias_, uma flÙr de luxo das civilisaÁıes superiores. Pela CalÁada, -pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pallidos de emoÁ„o, quando -ella passava, reclinada na vittoria, mostrando o sapato de setim, um -pouco da meia de sÍda, languida e desdenhosa, com um c„osinho branco no -regaÁo. - -Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada -_Lirio d'Israel_, _Pomba da Arca_, e _Nuvem da Manh„_. Um estudante de -theologia, rude e sebento transmontano, quiz casar com ella. Apesar das -instancias de Carlos, Encarnacion recusou; e o theologo comeÁou a rondar -Cellas, com um navalh„o, para ´beber o sangueª ao Maia. Carlos teve de -lhe dar bengaladas. - -Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intoleravel, fallando sem cessar -d'outras paixıes que inspir·ra em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe -dera o conde de tal, o marquez sicrano, da grande posiÁ„o da sua familia -ainda aparentada com os Medina-C[oe]li: os seus sapatos de setim verde -eram t„o antipathicos como a sua voz estridula: e quando tentava -elevar-se ·s conversaÁıes que ouvia, rompia a chamar ladrıes aos -republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua _gracia_, o seu -_salero_--sendo muito conservadora como todas as prostitutas. Jo„o da -Ega odiava-a. E Craveiro declarou que n„o voltava aos PaÁos de Cellas -emquanto por l· apparecesse aquelle mont„o de carne, pago ao arratel, -como a de vacca. - -Emfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos -surprehendeu-a com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ahi -estava, emfim, um pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos -Medina-C[oe]li, o _Lirio d'Israel_, a admiradora dos Bourbons, foi -recambiada a Lisboa e · rua de S. Roque, seu elemento natural. - -Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em -Cellas. Affonso viera de Santa Olavia, VillaÁa de Lisboa; toda a tarde -no quintal, d'entre as acacias e as bella-sombras, subiram ao ar mÛlhos -de foguetes; e Jo„o da Ega, que lev·ra o seu ultimo _R_ no seu ultimo -anno, n„o descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas -venezianas pelos ramos, no trapesio e em roda do poÁo, para a -illuminaÁ„o da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, VillaÁa, -enfiado e tremulo, fez um _speech_; ia citar o nosso _immortal Castilho_ -quando sob as janellas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o -_Hymno Academico_. Era uma serenata.--Ega, vermelho, de batina -desabotoada, a luneta para traz das costas, correu · sacada, a perorar: - ---Ahi temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, comeÁando a sua -gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma--ou acabar -de a matar, segundo as circumstancias! A que parte remota d'estes reinos -n„o chegou j· a fama do seu genio, do seu _dog-cart_, do sebaceo -_accessit_ que lhe ennodÙa o passado, e d'este vinho do Porto, -contemporaneo dos heroes de 20, que eu, homem de revoluÁ„o e homem de -carraspana, eu, Jo„o da Ega, Johanes ab Ega... - -O grupo escuro em baixo desatou aos _vivas_. A philarmonica, outros -estudantes, invadiram os PaÁos. AtÈ tarde, sob as arvores do quintal, na -sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de -dÙce, n„o cessou d'estalar o _champagne_. E VillaÁa, limpando a testa, o -pescoÁo, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo tambem: - ---Grande coisa, ter um curso! - - -E ent„o Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um -anno passou. Cheg·ra esse outono de 1875: e o avÙ installado emfim no -Ramalhete esperava por elle anciosamente. A ultima carta de Carlos viera -de Inglaterra, onde andava, dizia elle, a estudar a admiravel -organisaÁ„o dos hospitaes de crianÁas. Assim era: mas passeava tambem -por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idyllio -errante pelos lagos da Escocia, com uma senhora hollandeza, separada de -seu marido, veneravel magistrado da Haya, uma M.^{me} Rughel, soberba -creatura de cabellos d'ouro fulvo, grande e branca como uma nympha de -Rubens. - -Depois comeÁaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas successivas de -livros, outras de instrumentos e apparelhos, toda uma bibliotheca e todo -um laboratorio--que trazia o VillaÁa, manh„s inteiras, aturdido pelos -armazens da alfandega. - ---O meu rapaz vem com grandes idÈas de trabalho, dizia Affonso aos -amigos. - -Havia quatorze mezes que elle o n„o via, o ´seu rapazª, a n„o ser n'uma -photographia mandada de Mil„o, em que todos o acharam magro e triste. E -o coraÁ„o batia-lhe forte, na linda manh„ de outono, quando do terraÁo -do Ramalhete, de binoculo na m„o, viu assomar vagarosamente, por traz do -alto predio fronteiro, um grande paquete do _Royal Mail_ que, lhe trazia -o seu neto. - -¡ noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o -VillaÁa--n„o se fartavam d'admirar ´o bem que a viagem fizera a Carlosª. -Que differenÁa da photographia! Que forte, que saudavel! - -Era decerto um formoso e magnifico moÁo, alto, bem feito, de hombros -largos, com uma testa de marmore sob os anneis dos cabellos pretos, e os -olhos dos Maias, aquelles irresistiveis olhos do pai, de um negro -liquido, ternos como os d'elle e mais graves. Trazia a barba toda, muito -fina, castanho-escura, rente na face, aguÁada no queixo--o que lhe dava, -com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma physionomia de -bello cavalleiro da RenascenÁa. E o avÙ, cujo olhar risonho e humido -transbordava d'emoÁ„o, todo se orgulhava de o vÍr, de o ouvir, n'uma -larga veia, fallando da viagem, dos bellos dias de Roma, do seu mau -humor na Prussia, da originalidade de Moscow, das paizagens da -Hollanda... - ---E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio em -que Carlos estivera bebendo o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu -fazer? - ---Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo. -DescanÁar primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional! - -Ao outro dia, com effeito, Affonso veiu encontral-o na sala de -bilhar--onde tinham sido collocados os caixotes--a despregar, a -desempacotar, em mangas de camisa e assobiando com enthusiasmo. Pelo -ch„o, pelos soph·s, alastrava-se toda uma litteratura em rumas de -volumes graves; e aqui e alÈm, por entre a palha, atravÈs das lonas -descozidas, a luz faiscava n'um crystal, ou reluziam os vernizes, os -metaes polidos de apparelhos. Affonso pasmava em silencio para aquelle -pomposo apparato do saber. - ---E onde vaes tu accommodar este museo? - -Carlos pensara em arranjar um vasto laboratorio alli perto no bairro, -com fornos para trabalhos chimicos, uma sala disposta para estudos -anatomicos e physiologicos, a sua bibliotheca, os seus apparelhos, uma -concentraÁ„o methodica de todos os instrumentos de estudo... - -Os olhos do avÙ illuminavam-se ouvindo este plano grandioso. - ---E que n„o te prendam questıes de dinheiro, Carlos! NÛs fizemos n'estes -ultimos annos de Santa Olavia algumas economias... - ---Boas e grandes palavras, avÙ! Repita-as ao VillaÁa. - -As semanas foram passando n'estes planos de installaÁ„o. Carlos trazia -realmente resoluÁıes sinceras de trabalho: a sciencia como mera -ornamentaÁ„o interior do espirito, mais inutil para os outros que as -proprias tapessarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de -solitario: desejava ser util. Mas as suas ambiÁıes fluctuavam, intensas -e vagas; ora pensava n'uma larga clinica; ora na composiÁ„o macissa de -um livro iniciador; algumas vezes em experiencias physiologicas, -pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou suppunha sentir, o tumulto -de uma forÁa, sem lhe discernir a linha d'applicaÁ„o. ´Alguma cousa de -brilhante,ª como elle dizia: e isto para elle, homem de luxo e homem -d'estudo, significava um conjuncto de representaÁ„o social e de -actividade scientifica; o remecher profundo de idÈas entre as -influencias delicadas da riqueza; os elevados vagares da philosophia -entremeados com requintes de _sport_ e de gosto; um Claude Bernard que -fosse tambem um Morny... No fundo era um _dilletante_. - -VillaÁa fÙra consultado sobre a localidade propria para o laboratorio; e -o procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incanÁavel. -Primeira cousa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?... - -Carlos n„o decidira fazer _exclusivamente_ clinica: mas desejava de -certo dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica. -Ent„o VillaÁa suggeriu que o consultorio estivesse separado do -laboratorio. - ---E a minha raz„o È esta: a vista de apparelhos, machinas, cousas, faz -esmorecer os doentes... - ---Tem vocÍ raz„o, VillaÁa! exclamou Affonso. J· meu pae dizia: poupe-se -ao boi a vista do malho. - ---Separados, separados, meu senhor, affirmou o procurador n'um tom -profundo. - -Carlos concordou. E VillaÁa bem depressa descobriu, para o laboratorio, -um antigo armazem, vasto e retirado, ao fundo de um pateo, junto ao -largo das Necessidades. - ---E o consultorio, meu senhor, n„o È aqui, nem acol·; È no Rocio, alli -em pleno Rocio! - -Esta idÈa do VillaÁa n„o era desinteressada. Grande enthusiasta da -_Fus„o_, membro do Centro progressista, VillaÁa Junior aspirava a ser -vereador da camara, e mesmo em dias de satisfaÁ„o superior (como quando -o seu anniversario natalicio vinha annunciado no _Illustrado_, ou quando -no Centro citava com applauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptidıes -mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultorio -gratuito, no Rocio, o consultorio do dr. Maia, ´do seu Maiaª reluziu-lhe -logo vagamente como um elemento de influencia. E tanto se agitou, que -d'ahi a dois dias tinha l· alugado um primeiro andar d'esquina. - -Carlos mobilou-o com luxo. N'uma antecamara, guarnecida de banquetas de -marroquim, devia estacionar, · franceza, um creado de librÈ. A sala de -espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas, -as plantas em vasos de Rouen, quadros de muita cÙr, e ricas poltronas -cercando a jardineira coberta de collecÁıes do _Charivari_, de vistas -estereoscopicas, d'albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente -o ar triste de consultorio atÈ um piano mostrava o seu teclado branco. - -O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quasi austero, todo em -velludo verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que -comeÁavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do -Ramalhete, o Cruges, o marquez de Souzellas, com quem percorrera a -Italia--vieram vÍr estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano -e achou-o abominavel; Taveira absorveu-se nas photographias d'actrizes; -e a unica approvaÁ„o franca veiu do marquez, que depois de contemplar o -divan do gabinete, verdadeiro movel de serralho, vasto, voluptuoso, -fÙfo, experimentou-lhe a doÁura das molas e disse, piscando o olho a -Carlos: - ---A calhar. - -N„o pareciam acreditar n'estes preparativos. E todavia eram sinceros. -Carlos atÈ fizera annunciar o consultorio nos jornaes; quando viu porem -o seu nome em letras grossas, entre o de uma engommadeira · Boa Hora e -um reclamo de casa de hospedes,--encarregou VillaÁa de retirar o -annuncio. - -Occupava-se ent„o mais do laboratorio, que decidira installar no -armazem, ·s Necessidades. Todas as manh„s, antes de almoÁo, Ìa visitar -as obras. Entrava-se por um grande pateo, onde uma bella sombra cobria -um poÁo, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam -ao muro. Carlos j· decidira transformar aquelle espaÁo em fresco -jardinete inglez; e a porta do casar„o encantava-o, ogival e nobre, -resto de fachada d'ermida, fazendo um accesso veneravel para o seu -sanctuario de sciencia. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim; -sempre um vago martellar preguiÁoso n'uma poeira alvadia; sempre as -mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um -carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar alli, desde seculos, -aplainando uma taboa eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os -trabalhadores que andavam alargando a claraboia, n„o cessavam de -assobiar, no sol d'inverno, alguma lamuria de fado. - -Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d'obras, que lhe asseverava -invariavelmente ´como d'ahi a dois dias havia de s. ex.^a vÍr a -differenÁa.ª Era um homem de meia edade, risonho, de fallar doce, muito -barbeado, muito lavado, que morava ao pÈ do Ramalhete, e tinha no bairro -fama de republicano. Carlos, por sympathia, como visinho, apertava-lhe -sempre a m„o: e o sr. Vicente, considerando-o por isso um ´avanÁadoª, um -democrata, confiava-lhe as suas esperanÁas. O que elle desejava primeiro -que tudo era um 93, como em FranÁa... - ---O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada, e roliÁa face -do demagogo. - ---N„o, senhor, um navio, um simples navio... - ---Um navio? - ---Sim, senhor, um navio fretado · custa da naÁ„o, em que se mandasse -pela barra fÛra o rei, a familia real, a _cambada_ dos ministros, dos -politicos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc. - -Carlos sorria, ·s vezes argumentava com elle. - ---Mas est· o sr. Vicente bem certo, que apenas a _cambada_, como t„o -exactamente diz, desapparecesse pela barra fÛra, ficavam resolvidas -todas as cousas e tudo atolado em felicidade? - -N„o, o sr. Vicente n„o era t„o ´burroª que assim pensasse. Mas, -supprimida a cambada, n„o via s. ex.^a? Ficava o paiz desatravancado; e -podiam ent„o comeÁar a governar os homens de saber e de progresso... - ---Sabe v. ex.^a qual È o nosso mal? N„o È m· vontade d'essa gente; È -muita somma de ignorancia. N„o sabem. N„o sabem nada. Elles n„o s„o -maus, mas s„o umas cavalgaduras! - ---Bem, ent„o essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando o -relogio e despedindo-se d'elle com um valente _shakehands_, veja se me -andam. N„o lh'o peÁo como proprietario, È como correligionario. - ---D'aqui a dois dias ha de v. ex.^a vÍr a differenÁa, respondia o mestre -d'obras, desbarretando-se. - -No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almoÁo. -Carlos encontrava quasi sempre o avÙ j· na sala de jantar, acabando de -percorrer algum jornal junto ao fog„o, onde a tepida suavidade d'aquelle -fim de outono n„o permittia accender lume, mas verdejando todo de -plantas d'estufa. - -Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no -seu luxo macisso e sobrio, as baixellas antigas; pelas tapeÁarias ovaes -dos muros apainelados corriam scenas de ballada, caÁadores medivaes -soltando o falc„o, uma dama entre pagens alimentando os cysnes de um -lago, um cavalleiro de viseira callada seguindo ao longo d'um rio; e -contrastando com o tecto escuro de castanho entalhado a meza -resplandecia com as flÙres entre os crystaes. - -O reverendo Bonifacio, que desde que se tornara dignatario da Egreja -comia com os senhores, l· estava j·, magestosamente sentado sobre a -alvura nevada da toalha, · sombra de algum grande ramo. Era alli, no -aroma das rosas, que o veneravel gato gostava de lamber, com o seu vagar -estupido, as sopas de leite servidas n'um covilhete de Strasburgo, -depois agachava-se, traÁava por diante do peito a fofa pluma da sua -cauda, e, de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo elle uma bola -entufada de pello branco malhado de ouro, gosava de leve uma sesta -macia. - -Affonso,--como confessava, sorrindo e humilhado--Ìa-se tornando com a -velhice um _gourmet_ exigente; e acolhia, com uma concentraÁ„o de -critico, as obras d'arte do _chef_ francez que tinham agora, um -cavalheiro de mau genio, todo bonapartista, muito parecido com o -imperador, e que se chamava Mr. Theodore. Os almoÁos no Ramalhete eram -sempre delicados e longos; depois, ao cafÈ, ficavam ainda conversando; e -passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamaÁ„o, -precipitando-se sobre relogio, se lembrava do seu consultorio. Bebia um -calice de Chartreuse, accendia · pressa um charuto: - ---Ao trabalho, ao trabalho! exclamava. - -E o avÙ, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquella -occupaÁ„o, emquanto elle ficava alli a vadiar toda a manh„... - ---Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez v· para l· -passar um bocado, occupar-me de chimica. - ---E ser talvez um grande chimico. O avÙ tem j· a feitio. - -O velho sorria. - ---Esta carcassa j· n„o d· nada, filho. Est· pedindo eternidade! - ---Quer alguma cousa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos, abotoando -· pressa as suas luvas de governar. - ---Bom dia de trabalho. - ---Pouco provavel... - -E no _dog-cart_, com aquella linda egoa, a _Tunante_, ou no _phaeton_ -com que maravilhava Lisboa, Carlos l· partia em grande estylo para a -Baixa, para ´o trabalho.ª - -O seu gabinete, no consultorio, dormia n'uma paz tepida entre os -espessos velludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda -verde corridas. Na sala, porÈm, as tres janellas abertas bebiam · farta -a luz; tudo alli parecia festivo; as poltronas em torno da jardineira -estendiam os seus braÁos, amaveis e convidativas; o teclado branco do -piano ria e esperava, tendo abertas por cima as _CanÁıes de Gounod_; mas -n„o apparecia j·mais um doente. E Carlos,--exactamente como o creado -que, na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o _Diario de -Noticias_, acaÁapado na banqueta--accendia um cigarro Laferme, tomava -uma Revista, e estendia-se no divan. A prosa porÈm dos artigos estava -como embebida do tedio moroso do gabinete: bem depressa bocejava, -deixava caÌr o volume. - -Do Rocio, o ruido das carroÁas, os gritos errantes de pregıes, o rolar -dos americanos, subiam, n'uma vibraÁ„o mais clara, por aquelle ar fino -de novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete, -vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as cÛpas mesquinhas das arvores -de municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurraÁ„o lenta de -cidade preguiÁosa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam ir -penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando pelos -velludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos n'uma -indolencia e n'uma dormencia... Com a cabeÁa na almofada, fumando, alli -ficava, n'essa quietaÁ„o de sesta, n'um scismar que se Ìa desprendendo, -vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que se eleva d'uma brazeira meia -apagada; atÈ que com um esforÁo sacudia este torpor, passeiava na sala, -abria aqui e alÈm pelas estantes um livro, tocava no piano dois -compassos de walsa, espriguiÁava-se--e, com os olhos nas flores do -tapete, terminava por decidir que aquellas duas horas de consultorio -eram estupidas! - ---Est· ahi o carro? Ìa perguntar ao creado. - -Accendia bem depressa outro charuto, calÁava as luvas, descia, bebia um -largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo: - ---Dia perdido! - - -Foi uma d'essas manh„s que preguiÁando assim no soph· com a _Revista dos -Dois Mundos_ na m„o, elle ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz -bem conhecida, bem querida, que dizia por tr·s do reposteiro: - ---Sua Alteza Real est· visivel? - ---Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do soph·. - -E cahiram nos braÁos um do outro, beijando-se na face, enternecidos. - ---Quando chegaste tu? - ---Esta manh„. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos -hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba! -Tu vens esplendido d'esses Londres, d'essas civilisaÁıes superiores. -Est·s com um ar RenascenÁa, um ar Valois... N„o ha nada como a barba -toda! - -Carlos ria, abraÁando-o outra vez. - ---E d'onde vens tu, de Celorico? - ---Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O figado, o baÁo, -uma infinidade de visceras compromettidas. Emfim, doze annos de vinhos e -aguas ardentes... - -Depois fallaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em -Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, ·s -varzeas de Celorico, o adeus de eternidade. - ---Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me succede com -minha m„e... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir -viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, n„o -caÌu! Fiquei na quinta, fazendo epigrammas ao padre Seraphim e a toda a -cÙrte do cÈu. Chega julho, e apparece nos arredores uma epidemia de -anginas. Um horror, creio que vocÍs lhe chamam diphtericas... A mam„ -salta immediatamente ‡ conclus„o que È a minha presenÁa, a presenÁa do -atheo, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que offendeu Nosso Senhor e -attrahiu o flagello. Minha irm„ concorda. Consultam o padre Seraphim. O -homem, que n„o gosta de me vÍr na quinta, diz que È possivel que haja -indignaÁ„o do Senhor--e minha m„e vem pedir-me quasi de joelhos, com a -bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que n„o esteja -alli chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz... - ---E a epidemia... - ---Desappareceu logo, disse o Ega, comeÁando a puxar devagar dos dedos -magros uma longa luva cÙr de canario. - -Carlos mirava aquellas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o -cabello que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na -gravata de setim uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dandy, -vistoso, paramentado, artificial e com pÛ d'arroz--e Carlos deixou emfim -escapar a exclamaÁ„o impaciente que lhe bailava nos labios: - ---Ega, que extraordinario casaco! - -Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o -antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pelliÁa, uma sumptuosa -pelliÁa de principe russo, agasalho de trenÚ e de neve, ampla, longa, -com alamares trespassados · Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoÁo -esganiÁado e dos pulsos de thisico uma rica e fÙfa espessura de pelles -de marta. - ---… uma boa pelliÁa, hein? disse elle logo, erguendo-se, abrindo-a, -exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss... Beneficios -da epidemia. - ---Como podes tu supportar isso? - ---… um bocado pesada, mas tenho andado constipado. - -Tornou a recostar-se no soph·, adiantando o sapato de verniz muito -bicudo, e, de monocolo no olho, examinou o gabinete. - ---E tu que fazes? conta-me l·... Tens isto explendido! - -Carlos fallou dos seus planos, de altas idÈas de trabalho, das obras do -laboratorio... - ---Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega -interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o velludo dos reposteiros, -mirar os torneados da secret·ria de pau preto. - ---N„o sei. O VillaÁa È que deve saber... - -E Ega, com as m„os enterradas nos vastos bolsos da pelliÁa, -inventariando o gabinete, fazia consideraÁıes: - ---O velludo d· seriedade... E o verde escuro È a cÙr suprema, È a cÙr -esthetica... Tem a sua express„o propria, enternece e faz pensar... -Gosto d'este divan. Movel de amor... - -Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho, -estudando os ornatos. - ---Tu Ès o grandioso Salom„o, Carlos! O papel È bonito... E o -cretonesinho agrada-me. - -Apalpou-o tambem. Uma begonia, manchada da sua ferrugem de prata, n'um -vaso de Rouen, interessou-o. Queria saber o preÁo de tudo; e diante do -piano, olhando o livro de musica aberto, as _CanÁıes de Gounod_, teve -uma surpreza enternecida: - ---Homem, È curioso... C· me apparece! A _Barcarolla_! … deliciosa, -hein?... - - - Dites, la jeune belle, - Ou voulez-vous aller? - La voile... - - -Estou um bocado rouco... Era a nossa canÁ„o na Foz! - -Carlos teve outra exclamaÁ„o, e crusando os braÁos diante d'elle: - ---Tu est·s extraordinario, Ega! Tu Ès outro Ega!... A proposito da -Foz... Quem È essa Madame Cohen, que estava tambem na Foz, de quem tu, -em cartas successivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin, na -Haia, em Londres, me fallavas como os arrobos do _Cantico dos Canticos_? - -Um leve rubor subiu ·s faces do Ega. E limpando negligentemente o -monocolo ao lenÁo de seda branca: - ---Uma judia. Por isso usei o lyrismo biblico. … a mulher do Cohen, has -de conhecer, um que È director do _Banco Nacional_... DÈmos-nos -bastante. … sympathica... Mas o marido È uma besta... Foi uma -_flitartion_ de praia. _Voila tout_. - -Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o lume ao charuto, e -ainda cÛrado. - ---Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocÍs no Ramalhete? O avÙ -Affonso? Quem vae por l·?... - -No Ramalhete, o avÙ fazia o seu _whist_ com os velhos parceiros. Ia o D. -Diogo, o decrepito le„o, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os -bigodes... Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de -sangue, · espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbroken... - ---N„o conheÁo. Refugiado?... Polaco?... - ---N„o, ministro da Filandia... Queria-nos alugar umas cocheiras e -complicou esta simples transacÁ„o com tantas finuras diplomaticas, -tantos documentos, tantas cousas com o sello real da Filandia, que o -pobre VillaÁa aturdido, para se desembaraÁar, remetteu-o ao avÙ. O avÙ, -desnorteado tambem, offereceu-lhe as cocheiras de graÁa. Steinbroken -considera isto um serviÁo feito ao rei da Filandia, · Filandia, vae -visitar o avÙ, em grande estado, com o secretario da legaÁ„o, o consul, -o vice-consul... - ---Isso È sublime! - ---O avÙ convida-o a jantar... E como o homem È muito fino, um gentleman, -enthusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma auctoridade -no wisth, o avÙ adopta-o. N„o sae do Ramalhete. - ---E de rapazes? - -De rapazes, apparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no -Tribunal de Contas: um Cruges, que o Ega n„o conhecia, um diabo -adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de genio; o marquez de -Souzellas... - ---N„o ha mulheres? - ---N„o ha quem as receba. … um covil de solteirıes. A viscondessa, -coitada... - ---Bem sei. Um apopletÈ... - ---Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem o Silveirinha, -chegou-nos ultimamente o Silveirinha... - ---O de Resende, o cretino? - ---O cretino. Enviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado thisico, todo -carregado de luto... Um funebre. - -O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e solida felicidade que -Carlos j· notara, disse puchando lentamente os punhos: - ---… necessario reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo, -uma bohemiasinha dourada, umas _soirÈes_ de inverno, com arte, com -litteratura... Tu conheces o Craft? - ---Sim, creio que tenho ouvido fallar... - -Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer o Craft! O Craft -era simplesmente a melhor cousa que havia em Portugal... - ---… um inglez, uma especie de doido?... - -Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era essa a opini„o da rua dos -Fanqueiros; o indigena, vendo uma originalidade t„o forte como a de -Craft, n„o podia explical-a sen„o pela doidice. O Craft era um rapaz -extraordinario!... Agora tinha elle chegado da Suecia, de passar tres -mezes com os estudantes de Upsala. Estava tambem na Foz... Uma -individualidade de primeira ordem! - ---… um negociante do Porto, n„o È? - ---Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a -face, enojado de tanta ignorancia. O Craft È filho d'um _clergiman_ da -egreja ingleza do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcut· ou -d'Australia, um Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna. -Mas n„o negoceia, nem sabe o que isso È. D· largas ao seu temperamento -byroneano, È o que faz. Tem viajado por todo o universo, collecciona -obras d'arte, bateu-se como voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim -vive, _vive_ na grande, na forte, na heroica accepÁ„o da palavra. … -necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar por elle... Tens raz„o, -caramba, est· calor. - -DesembaraÁou-se da opulenta pelliÁa, e appareceu em peitilho de camisa. - ---O que! tu n„o trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem collete? - ---N„o; ent„o n„o a podia aguentar... Isto È para o effeito moral, para -impressionar o indigena... Mas, n„o ha negal-o, È pesada! - -E immediatamente voltou · sua idÈa: apenas Craft chegasse do Porto -relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron d'arte e -dilletantismo, rapazes e mulheres--tres ou quatro mulheres para -cortarem, com a graÁa dos decotes, a severidade das philosophias... - -Carlos ria-se d'esta idÈa do Ega. Tres mulheres de gosto e de luxo, em -Lisboa, para adornar um cenaculo! Lamentavel illus„o de um homem de -Celorico! O marquez de Souzella tinha tentado, e para uma vez sÛ, uma -cousa bem mais simples--um jantar no campo com actrizes. Pois fÙra o -escandalo mais engraÁado e mais caracteristico: uma n„o tinha creada e -queria levar comsigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia -que, acceitando, o brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas o -amante, quando soube, deu-lhe uma cÛÁa. Esta n„o tinha vestido para ir; -aquella pretendia que lhe garantissem uma libra; houve uma que se -escandalisou com o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os -queridos, os pÙlhos, complicaram medonhamente a quest„o; uns exigiam ser -convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos, -fizeram-se intrigas,--emfim esta cousa banal, um jantar com actrizes, -resultou em o Tarquinio do Gymnasio levar uma facada... - ---E aqui tens tu Lisboa. - ---Emfim, exclamou o Ega, se n„o apparecerem mulheres, importam-se, que È -em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, -idÈas, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo, -industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo -paquete. A civilisaÁ„o custa-nos carissima com os direitos da alfandega: -e È em segunda m„o, n„o foi feita para nÛs, fica-nos curta nas mangas... -NÛs julgamo-nos civilisados como os negros de S. ThomÈ se suppıem -cavalheiros, se suppıem mesmo _brancos_, por usarem com a tanga uma -casaca velha do patr„o... Isto È uma choldra torpe. Onde puz eu a -charuteira? - -DesembaraÁado da magestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega -reapparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em -verve, lanÁando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas -grandes phrases, n'uma lucta constante com o monocolo, que lhe caÌa do -olho, que elle procurava pelo peito, pelos hombros, pelos rins, -retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se -tambem, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo, Gambetta, o -Nihilismo; depois, com ferocidade e · uma, malharam sobre o paiz... - -Mas o relogio ao lado bateu quatro horas; immediatamente Ega saltou -sobre a pelissa, sepultou-se n'ella, aguÁou o bigode ao espelho, -verificou a _pose_, e, encouraÁado nos seus alamares, sahio com um -arsinho de luxo e d'aventura. - ---John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar, -onde est·s tu? - ---No _Universal_, esse sanctuario! - -Carlos abominava o _Universal_, queria que elle viesse para o Ramalhete. - ---N„o me convÈm... - ---Em todo o caso vaes hoje l· jantar, vÍr o avÙ. - ---N„o posso. Estou compromettido com a besta do Cohen... Mas vou l· -·manh„ almoÁar. - -J· nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo, gritou para -cima: - ---Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro! - ---O quÍ! est· prompto? exclamou Carlos, espantado. - ---Est· esboÁado, · brocha larga... - -O _Livro do Ega_! FÙra em Coimbra, nos dois ultimos annos, que elle -comeÁ·ra a fallar do seu livro, contando o plano, soltando titulos de -capitulos, citando pelos cafÈs phrases de grande sonoridade. E entre os -amigos do Ega discutia-se j· o livro do Ega como devendo iniciar, pela -fÛrma e pela idÈa, uma evoluÁ„o litteraria. Em Lisboa (onde elle vinha -passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fÙra annunciado como um -acontecimento. Bachareis, contemporaneos ou seus condiscipulos, tinham -levado de Coimbra, espalhado pelas provincias e pelas ilhas a fama do -livro do Ega. J· de qualquer modo essa noticia cheg·ra ao Brazil... E -sentindo esta anciosa espectativa em torno do seu livro--o Ega -decidira-se emfim a escrevel-o. - -Devia ser uma epopÍa em prosa, como elle dizia, dando, sob episodios -symbolicos, a historia das grandes phases do Universo e da Humanidade. -Intitulava-se _Memorias d'um Atomo_, e tinha a fÛrma d'uma -autobiographia. Este atomo (o atomo do Ega, como se lhe chamava a serio -em Coimbra) apparecia no primeiro capitulo, rolando ainda no vago das -Nebuloses primitivas: depois vinha embrulhado, faisca candente, na massa -de fogo que devia ser mais tarde a Terra: emfim, fazia parte da primeira -folha de planta que surgiu da crosta ainda molle do globo. Desde ent„o, -viajando nas incessantes transformaÁıes da substancia, o atomo do Ega -entrava na rude structura do Orango, pae da humanidade--e mais tarde -vivia nos labios de Plat„o. Negrejava no burel dos santos, refulgia na -espada dos heroes, palpitava no coraÁ„o dos poetas. Gota de agua nos -lagos de GalilÈa, ouvira o fallar de Jesus, aos fins da tarde, quando os -apostolos recolhiam as redes; nÛ de madeira na tribuna da ConvenÁ„o, -sentira o frio da m„o de Robespierre. Errara nos vastos anneis de -Saturno; e as madrugadas da terra tinham-n'o orvalhado, petala -resplandecente de um dormente e languido lyrio. FÙra omnipresente, era -omnisciente. Achando-se finalmente no bico da penna do Ega, e canÁado -d'esta jornada atravez do Ser, repousava--escrevendo as suas -_Memorias_... Tal era este formidavel trabalho--de que os admiradores do -Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de respeito: - ---… uma Biblia! - - - - -V - - -No escriptorio de Affonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a -partida de whist. A mesa estava ao lado da chaminÈ, onde a chamma morria -nos carvıes escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo -japonez, por causa da bronchite de D. Diogo e do seu horror ao ar. - -Esse velho dandy,--a quem as damas de outras eras chamavam o ´Lindo -Diogoª, gentil toureiro que dormira n'um leito real--acabava justamente -de ter um dos seus accessos de tosse, cavernosa, aspera, dolorosa, que o -sacudiam como uma ruina, que elle abafava no lenÁo, com as veias -inchadas, rÙxo atÈ · raiz dos cabellos. - -Mas pass·ra. Com a m„o ainda tremula, o decrepito le„o limpou as -lagrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compoz a rosa de -musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um golo da sua agua chasada, e -perguntou a Affonso, seu parceiro, n'uma voz rouca e surda: - ---Paus, hein? - -E de novo, sobre o panno verde, as cartas foram cahindo n'um d'aquelles -silencios que se seguiam ·s tosses de D. Diogo. Sentia-se sÛ a -respiraÁ„o assobiada, quasi silvante, do general Sequeira, muito infeliz -essa noite, desesperado com o VillaÁa seu parceiro, resing„o, e com todo -o sangue na face. - -Um tom fino retiniu, o relogio Luiz XV foi ferindo. alegremente, -vivamente, a meia noite;--depois a toada argentina do seu minuete vibrou -um momento e morreu. Houve de novo um silencio. Uma renda vermelha -recobria os globos de dois grandes candieiros Carcel; e a luz assim -coada, cahindo sobre os damascos vermelhos das paredes, dos assentos, -fazia como uma doce refracÁ„o cÙr de rosa, um vaporoso de nuvem em que a -sala se banhava e dormia: sÛ, aqui e alÈm, sobre os carvalhos sombrios -das estantes, rebrilhava em silencio o ouro d'um SËvres, uma pallidez de -marfim, ou algum tom esmaltado de velha majolica. - ---O que! ainda encarniÁados! exclamou Carlos que abrira o reposteiro, -entrava, e com elle o rumor distante de bolas de bilhar. - -Affonso, que recolhia a sua vasa, voltou logo a cabeÁa, a perguntar com -interesse: - ---Como vae ella? Est· socegada? - ---Est· muito melhor! - -Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga de origem -alsacianna, casada com o Marcellino padeiro, muito conhecida no bairro -pelos seus bellos cabellos, loiros, e penteados sempre em tranÁas -soltas. Tinha estado · morte com uma pneumonia; e apesar de melhor, como -a padaria ficava defronte, Carlos ainda ·s vezes · noite atravessava a -rua para a ir vÍr, tranquillisar o Marcellino, que, defronte do leito e -de gab„o pelos hombros, suffocava soluÁos d'amante, escrevinhando no -livro de contas. - -Affonso interessara-se anciosamente por aquella pneumonia; e agora -estava realmente agradecido · Marcellina por ter sido salva por Carlos. -Fallava d'ella commovido; gabava-lhe a linda figura, o aceio alsacianno, -a prosperidade que trouxera · padaria... Para a convalescenÁa, que se -approximava, j· lhe mand·ra atÈ seis garrafas de Chateau-Margaux. - ---Ent„o fÛra de perigo, inteiramente fÛra de perigo?--perguntou VillaÁa, -com os dedos na caixa do rapÈ, sublinhando muito a sua sollicitude. - ---Sim, quasi rija--disse Carlos, que se approximara da chaminÈ, -esfregando as m„os, arrepiado. - -… que a noite, fÛra, estava regelada! Desde o anoitecer geava, d'um cÈu -fino e duro, transbordando de estrellas que rebrilhavam como pontas -afiadas d'aÁo; e nenhum d'aquelles cavalheiros, desde que se entendia, -conhecera j·mais o thermometro t„o baixo. Sim, VillaÁa lembrava-se d'um -janeiro peor no inverno de 64... - ---… necessario carregar no _punch_, hein, general!--exclamou Carlos, -batendo galhofeiramente nos hombros macissos do Sequeira. - ---N„o me opponho, rosnou o outro, que fixava com concentraÁ„o e rancor -um valete de copas sobre a meza. - -Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carvıes: uma chuva d'oiro -cahiu por baixo, uma chamma mais forte ressaltou, rugiu, alegrando tudo, -avermelhando em redor as pelles de urso onde o Reverendo Bonifacio, -espapado, torrava ao calor, ronronava de gÙso. - ---O Ega deve estar radiante, dizia Carlos com os pÈs · chamma. Tem, -emfim, justificada a pellissa. A proposito, algum dos senhores tem visto -o Ega estes ultimos dias? - -Ninguem respondeu, no interesse subito que causava a cartada. A longa -m„o de D. Diogo recolhia de vagar a vasa--e languidamente, no mesmo -silencio, soltou uma carta de paus. - ---” Diogo! Û Diogo! gritou Affonso, estorcendo-se, como se o -trespassasse um ferro. - -Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam faiscas, collocou o seu -valete; Affonso, profundamente infeliz, separou-se do rei de paus; -VillaÁa bateu de estalo com o az. E immediatamente foi em redor uma -discuss„o tremenda sobre a puchada de D. Diogo--em quanto Carlos, a quem -as cartas sempre enfastiavam, se debruÁava a coÁar o ventre fofo do -veneravel Reverendo. - ---Que perguntavas tu, filho? disse emfim Affonso erguendo-se, ainda -irritado, a buscar tabaco para o cachimbo, sua consolaÁ„o nas derrotas. -O Ega? N„o, ninguem o viu, n„o tornou a apparecer! Est· tambem um bom -ingrato, esse John... - -Ao nome do Ega, VillaÁa, parando de baralhar as cartas, erguera a face -curiosa: - ---Ent„o sempre È certo que elle vae montar casa? - -Foi Affonso que respondeu, sorrindo e accendendo o cachimbo: - ---Montar casa, comprar _coupÈ_, deitar librÈ, dar _soirÈes_ litterarias, -publicar um poema, o diabo! - ---Elle esteve l· no escriptorio, dizia VillaÁa recomeÁando a baralhar. -Esteve l· a indagar o que tinha custado o consultorio, a mobilia de -velludo, etc. O velludo verde deu-lhe no gÙto... Eu, como È um amigo da -casa, l· lhe prestei informaÁıes, atÈ lhe mostrei as contas.--E -respondendo a uma pergunta do Sequeira:--Sim, a m„e tem dinheiro, e -creio que lhe d· o bastante. Que em quanto a mim, elle vem-se metter na -politica. Tem talento, falla bem, o pae j· era muito regenerador... Alli -ha ambiÁ„o. - ---Alli ha mulher, disse D. Diogo, collocando com peso esta decis„o e -accentuando-a com uma caricia languida · ponta frisada dos bigodes -brancos. LÍ-se-lhe na cara, basta vÍr-lhe a cara... Alli ha mulher. - -Carlos sorria, gabando a penetraÁ„o de D. Diogo, o seu fino olho · -Balzac; e Sequeira, logo, franco como velho soldado, quiz saber quem era -a Dulcinea. Mas o velho dandy declarou, da profundidade da sua -experiencia, que essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel n„o se -saberem. Depois passando os dedos magros e lentos pela face, deixou -cahir d'alto e com condescendencia este juizo: - ---Eu gosto do Ega, tem apresentaÁ„o; sobretudo tem _degagË_... - -Tinham recebido as cartas, fez-se um silencio na meza. O general, vendo -o seu jogo, soltou um grunhido surdo, arrebatou o cigarro do cinzeiro, e -puxou-lhe uma fumaÁa furiosa. - ---Os senhores s„o muito viciosos, vou vÍr a gente do bilhar, disse -Carlos. Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marquez, a perder j· -quatro mil rÈis. Querem o _punch_ aqui? - -Nenhum dos parceiros respondeu. - -E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silencio de solemnidade. O -marquez, estirado sobre a tabella, com a perna meia no ar, o comeÁo de -calva alvejando · luz crua que cahia dos _abat-jours_, de porcelana, -preparava a carambola decisiva. Cruges, que apost·ra por elle, deix·ra o -divan, o cachimbo turco, e, coÁando com um gesto nervoso a grenha crespa -que lhe ondeava atÈ · gola do jaquet„o, vigiava a bola inquieto, com os -olhinhos piscos, o nariz espetado. Do fundo da sala, destacando em -preto, o Silveirinha, o Eusebiosinho de S.^{ta} Olavia, estendia tambem -o pescoÁo, affogado n'uma gravata de viuvo de merino negro e sem -collarinho, sempre macambuzio, mais mollengo que outr'ora, com as m„os -enterradas nos bolsos--t„o funebre que tudo n'elle parecia complemento -do luto pesado, atÈ o preto do cabello chato, atÈ o preto das lunetas de -fumo. Junto ao bilhar, o parceiro do marquez, o conde Steinbroken, -esperava: e apesar do susto, da emoÁ„o d'homem do norte aferrado ao -dinheiro, conservava-se correcto, encostado ao taco, sorrindo, sem -desmanchar a sua linha britanica,--vestido como um inglez, inglez -tradicional d'estampa, com uma sobrecasaca justa de manga um pouco -curta, e largas calÁas de xadrez sobre sapatıes de tac„o raso. - ---Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tostıesinhos para c·, -Silveirinha! - -O marquez carambol·ra, ganhando a partida, e triumphava tambem: - ---VocÍ trouxe-me a sorte, Carlos! - -Steinbroken depozera logo o taco, e alinhava j· sobre a tabella, -lentamente, uma a uma, as quatro placas perdidas. - -Mas o marquez, de giz na m„o, reclamava-o para outras refregas, -esfaimado d'ouro filandez. - ---Nada mach!... VÙcÍ hoje 'st· tÍrivÍl! dizia o diplomata, no seu -portuguez fluente, mas de accento barbaro. - -O marquez insistia, plantado diante d'elle, de taco ao hombro como uma -vara de campino, dominando-o com a sua macissa, desempenada estatura. E -ameaÁava-o de destinos medonhos n'uma voz possante habituada a ressoar -nas lezirias; queria-o arruinar ao bilhar, forÁal-o a empenhar aquelles -bellos anneis, leval-o elle, ministro da Filandia e representante d'uma -raÁa de reis fortes, a vender senhas · porta da Rua dos Condes! - -Todos riam; e Steinbroken tambem, mas com um riso franzido e difficil, -fixando no marquez o olhar azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo -da sua myopia a dureza d'um metal. Apesar da sua sympathia pela illustre -casa de Souzella, achava estas familiaridades, estas tremendas chalaÁas, -incompativeis com a sua dignidade e com a dignidade da Filandia. O -marquez, porÈm, coraÁ„o d'ouro, abraÁava-o j· pela cinta, com expans„o: - ---Ent„o se n„o quereis mais bilhar, um bocadinho de canto, Steinbroken -amigo! - -A isto o ministro accedeu, affavel, preparando-se logo, dando caricias -ligeiras ·s suissas, e aos anneis do cabello d'um loiro de espiga -desbotada. - -Todos os Steinbrokens, de paes a filhos (como elle dissera a Affonso) -eram bons barytonos: e isso trouxera · familia n„o poucos proventos -sociaes. Pela voz captivara seu pae o velho rei Rudolpho III, que o -fizera chefe das caudelarias, e o tinha noites inteiras nos seus -quartos, ao piano, cantando psalmos lutheranos, coraes escolares, sagas -da Dallecarlia--em quanto o taciturno monarcha cachimbava e bebia, atÈ -que saturado de emoÁ„o religiosa, saturado de cerveja preta, tombava do -soph·, soluÁando e babando-se. Elle mesmo, Steinbroken, levara parte da -sua carreira ao piano, j· como addido, j· como segundo secretario. Feito -chefe de miss„o, absteve-se: foi sÛ quando vio o _Figaro_ celebrar -repetidamente as walsas do principe Artoff, embaixador da Russia em -Paris, e a voz de _basso_ do conde de Baspt, embaixador d'Austria em -Londres, que elle, seguindo t„o altos exemplos, arriscou, aqui e alem, -em _soirÈes_ mais intimas, algumas melodias filandezas. Emfim cantou no -PaÁo. E desde ent„o exerceu com zelo, com formalidades, com praxes, o -seu cargo de ´barytono plenipotenciario,ª como dizia o Ega. Entre -homens, e com os reposteiros corridos, Steinbroken n„o duvidava todavia -cantarolar o que elle chamava ´canÁonetas brejÍrasª--o _Amant d'Amanda_, -ou uma certa ballada ingleza: - - - On the Serpentine, - Oh my Caroline... - Oh! - - -Este _oh_! como elle o expellia, gemido, bem puxado, n'um movimento de -batuque, expressivo e todavia digno... Isto entre rapazes e com os -reposteiros fechados. - -N'essa noite, porÈm, o marquez, que o conduzia pelo braÁo · sala do -piano, exigia uma d'aquellas canÁıes da Filandia, de tanto sentimento e -que lhe faziam t„o bem · alma... - ---Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, _frisk_, _gluzk_... La -ra l·, l·, l·! - ---A Primavera, disse o diplomata sorrindo. - -Mas antes de entrar na sala, o marquez soltou o braÁo de Steinbroken, -fez um signal ao Silveirinha para o fundo do corredor--e ahi, sob um -sombrio painel de _Santa Magdalena no deserto_ penitenciando-se e -mostrando nudezas ricas de nympha lubrica, interpellou-o quasi com -aspereza: - ---Vamos nÛs a saber. Ent„o, decide-se ou n„o? - -Era uma negociaÁ„o que havia semanas se arrastava entre elles, a -respeito d'uma parelha d'egoas. Silveirinha nutria o desejo de montar -carruagem; e o marquez procurava vender-lhe umas egoas brancas, a que -elle dizia ´ter tomado enguiÁo, apesar de serem dois nobres animaesª. -Pedia por ellas um conto e quinhentos mil rÈis. Silveirinha fÙra avisado -pelo Sequeira, por Travassos, por outros entendedores, que era _uma -espiga_: o marquez tinha a sua moral propria para negocios de gado, e -exultaria em _intrujar um pichote_. Apesar de advertido, Eusebio cedendo -· influencia da grossa voz do marquez, da robustez do seu phisico, da -antiguidade do seu titulo, n„o ousava recusar. Mas hesitava; e n'essa -noite deu a resposta usual de forreta, coÁando o queixo, cosido ao muro: - ---Eu verei, marquez... Um conto e quinhentos È dinheiro... - -O marquez ergueu dois braÁos ameaÁadores como duas trancas: - ---Homem, sim ou n„o! Que diabo... Dois animaes que s„o duas estampas... -Irra! Sim ou n„o! - -Eusebio ageitou as lunetas, rosnou: - ---Eu verei... Elle È dinheiro. Sempre È dinheiro... - ---Queria vocÍ, talvez, pagal-as com feijıes? VocÍ leva-me a commetter um -excesso! - -O piano resoou, em dois accordes cheios, sob os dedos do Cruges; e o -marquez, baboso por musica, immediatamente largou a quest„o das egoas, -recolheu em pontas de pÈs. Eusebiosinho ainda ficou a remoer, a coÁar o -queixo; emfim, ·s primeiras notas de Steinbroken, veiu pousar como uma -sombra silenciosa entre a hombreira e o reposteiro. - -Afastado do piano segundo o seu costume, curvado, com a cabelleira como -pousada ·s costas, Cruges feria o acompanhamento, d'olhos cravados no -livro de _Melodias Filandezas_. Ao lado, empertigado, quasi official, -com o lenÁo de seda na m„o, a m„o fincada contra o peito, Steinbroken -soltava um canto festivo, n'um movimento de tarantella triumphante, em -que passavam, como um entrechocar de seixos, esses bocados de palavras -de que o marquez gostava, _frisk_, _slÈcht_, _clikst_, _glukst_. Era a -_Primavera_--fresca e silvestre, primavera do norte em paiz de -montanhas, quando toda uma aldÍa danÁa em cÛros sob os fuscos abetos, a -neve se derrete em cascatas, um sol pallido avelluda os musgos, e a -brisa traz o aroma das resinas... Nos graves e cheios, as cantoneiras de -Steinbroken ruborisavam-se, inchavam. Nos tons agudos todo elle se Ìa -alÁando sobre a ponta dos pÈs, como levado no compasso vivo; despegava -ent„o a m„o do peito, alargava um gesto, as bellas joias dos seus anneis -faiscavam. - -O marquez, com as m„os esquecidas nos joelhos, parecia beber o canto. Na -face de Carlos passava um sorriso enternecido pensando em Madame Rughel, -que viajara na Filandia, e cantava ·s vezes aquella _Primavera_ nas suas -horas de sentimentalismo flamengo... - -Steinbroken soltou um _stacato_ agudo, isolado como uma voz n'um -alto,--e immediatamente, afastando-se do piano, passou o lenÁo sobre as -fontes, sobre o pescoÁo, rectificou com um puch„o a linha da -sobrecasaca, e agradeceu o acompanhamento ao Cruges n'um silencioso -_shake-hands_. - ---Bravo! bravo! berrava o marquez, batendo as m„os como malhos. - -E outros applausos resoaram · porta, dos parceiros do whist, que tinham -findado a partida. Quasi immediatamente os escudeiros entravam com um -serviÁo frio de croquettes e sandwiches, offerecendo St. Emilion ou -Porto; e sobre uma meza, entre os renques de calices, a puncheira -fumegou n'um aroma doce e quente de cognac e lim„o. - ---Ent„o, meu pobre Steinbroken, exclamou Affonso, vindo-lhe bater -amavelmente no hombro, ainda d· d'esses bellos cantos a estes bandidos, -que o maltratam assim ao bilhar? - ---Fui essfÙladito, si, essfÙladito. Agradecido, nÙ, prefiro um copita -Porto... - ---Hoje fomos nÛs as victimas, disse-lhe o general respirando com delicia -o seu punch. - ---VocÍ t„bem, meu genÍral? - ---Sim, senhor, tambem me cascaram... - -E que dizia o amigo Steinbroken ·s noticias da manh„? perguntava -Affonso. A queda de Mac-Mahon, a eleiÁ„o de Grevy... O que o alegrava -n'isto, era o desapparecimento definitivo do antipathico senhor de -Broglie e da sua _clique_. A impertinencia d'aquelle academico estreito, -querendo impÙr a opini„o de dois ou tres salıes doutrinarios · FranÁa -inteira, a toda uma Democracia! Ah, o _Times_ cantava-lh'as! - ---E o _Punch_? N„o viu o _Punch_? Oh, delicioso!... - -O ministro pousara o calice, e esfregando cautelosamente as m„os disse -n'uma meia voz grave a sua phrase, a phrase definitiva com que julgava -todos os acontecimentos que apparecem em telegrammas: - ---… gr‡ve... … eqsessivemente gr‡ve... - -Depois fallou-se de Gambetta; e como Affonso lhe attribuia uma dictadura -proxima, o diplomata tomou mysteriosamente o braÁo de Sequeira, murmurou -a palavra suprema com que definia todas as personalidades superiores, -homens d'estado, poetas, viajantes ou tenores. - ---… um hom[~e] m˚to forte. … um hom[~e] eqsessivemente forte! - ---O que elle È, È um ronha! exclamou o general, escorropichando o seu -calice. - -E todos tres deixaram a sala, discutindo ainda a republica--em quanto -Cruges continuava ao piano, vagueando por Mendelsshon e por Choppin, -depois de ter devorado um prato de croquettes. - -O marquez e D. Diogo, sentados no mesmo soph‡, um com a sua chasada -d'invalido, outro com um copo de S.^t Emilion, a que aspirava o -_bouquet_, fallavam tambem de Gambetta. O marquez gostava de Gambetta: -fÙra o unico que durante a guerra mostrara ventas de homem; l· que -tivesse ´comidoª ou que ´quizesse comerª como diziam,--n„o sabia nem lhe -importava. Mas era teso! E o sr. Grevy tambem lhe parecia um cidad„o -serio, optimo para chefe do Estado... - ---Homem de sala? perguntou languidamente o velho le„o. - -O marquez sÛ o vira na AssemblÈa, presidindo e muito digno... - -D. Diogo murmurou, com um melancolico desdem na voz, no gesto, no olhar: - ---O que eu queria a toda essa canalha era a saude, marquez! - -O marquez consolou-o, galhofeiro e amavel. Toda essa gente, parecendo -forte por se occupar de cousas fortes, no fundo tinha asthma, tinha -pedra, tinha gota... E o Dioguinho era um Hercules... - ---Um Hercules! O que È, È que vocÍ apaparica-se muito... A doenÁa È um -mau habito em que a gente se pıe. … necessario reagir... VocÍ devia -fazer gymnastica, e muita agua fria por essa espinha. VocÍ, na -realidade, È de ferro! - ---Enferrujadote, enferrujadote...--replicou o outro, sorrindo e -desvanecido. - ---Qual enferrujadote! Se eu fosse cavallo ou mulher, antes o queria a -vocÍ que a esses badamecos que por ahi andam meio podres... J· n„o ha -homens da sua tempera, Dioguinho! - ---J· n„o ha nada, disse o outro grave e convencido, e como o derradeiro -homem nas ruinas d'um mundo. - -Mas era tarde, Ìa-se agasalhar, recolher, depois de acabar a sua -chasada. O marquez ainda se demorou, preguiÁando no soph·, enchendo -lentamente o cachimbo, dando um olhar ·quella sala que o encantava com o -seu luxo Luiz XV, os seus florÌdos e os seus dourados, as cerimoniosas -poltronas de Beauvais feitas para a amplid„o das anquinhas, as -tapeÁarias de Gobelins de tons desmaiados, cheias de galantes pastoras, -longes de parques, laÁos e l„s de cordeiros, sombras d'idyllios mortos, -transparecendo n'uma trama de seda... ¡quella hora, no adormecimento que -Ìa pesando, sob a luz suave e quente das velas que findavam, havia ali a -harmonia e o ar de um outro seculo: e o marquez reclamou do Cruges um -minuete, uma gavotta, alguma cousa que evocasse Versalhes, Maria -Antonietta, o rythmo das bellas maneiras e o aroma dos empoados. Cruges -deixou morrer sob os dedos a melodia vaga que estava diluindo em -suspiros, preparou-se, alargou os braÁos--e atacou, com um pedal -solemne, o _Hymno da Carta_. O marquez fugiu. - -VillaÁa e Euzebiozinho conversavam no corredor, sentados n'uma das arcas -baixas de carvalho lavrado. - ---A fazer politica? perguntou-lhes o marquez ao passar. - -Ambos sorriram; VillaÁa respondeu jocosamente: - ---… necessario salvar a patria! - -Eusebio pertencia tambem ao centro progressista, aspirava a influencia -eleitoral no circulo de Resende, e alli ·s noites no Ramalhete faziam -conciliabulos. N'esse momento porÈm fallavam dos Maias: VillaÁa n„o -duvidava confiar ao Silveirinha, homem de propriedade, visinho de -S.^{ta} Olavia, quasi creado com Carlos, certas cousas que lhe -desagradavam na casa, onde a auctoridade da sua palavra parecia -diminuir; assim, por exemplo, n„o podia approvar o ter Carlos tomado uma -frisa de assignatura. - ---Para que, exclamava o digno procurador, para que, meu caro senhor? -Para l· n„o pÙr os pÈs, para passar aqui as noites... Hoje diz que ha -enthusiasmo, e elle ahi esteve. Tem ido l·, eu sei? duas ou trÍs -vezes... E para isto d· c· uns poucos de centos de mil rÈis. Podia fazer -o mesmo com meia duzia de libras! N„o, n„o È governo. No fim a frisa È -para o Ega, para o Taveira, para o Cruges... Olhe, eu n„o me utiliso -d'ella; nem o amigo. … verdade, que o amigo est· de luto. - -Eusebio pensou, com despeito, que se podia metter para o fundo da -frisa--se tivesse sido convidado. E murmurou, sem conter um sorriso -molle: - ---Indo assim, atÈ se podem encalacrar... - -Uma tal palavra, t„o humilhante, applicada aos Maias, · casa que elle -administrava, escandalisou VillaÁa. Encalacrar! Ora essa! - ---O amigo n„o me comprehendeu... Ha despezas inuteis, sim, mas, louvado -Deus, a casa pÛde bem com ellas! … verdade que o rendimento gasta-se -todo, atÈ o ultimo ceitil; os cheques voam, voam, como folhas seccas; e -atÈ aqui o costume da casa foi pÙr de lado, fazer bolo, fazer reserva. -Agora o dinheiro derrete-se... - -Eusebio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, os nove -cavallos, o cocheiro inglez, os grooms... O procurador acudiu: - ---Isso, amigo, È de raz„o. Uma gente d'estas deve ter a sua -representaÁ„o, as suas cousas bem montadas. Ha deveres na sociedade... … -como o sr. Affonso... Gasta muito, sim, come dinheiro. N„o È com elle, -que lhe conheÁo aquelle casaco ha vinte annos... Mas s„o esmolas, s„o -pensıes, s„o emprestimos que nunca mais vÍ... - ---Desperdicios... - ---N„o lh'o censuro... … o costume da casa; nunca da porta dos Maias, j· -meu pae dizia, sahiu ninguem descontente... Mas uma frisa, de que -ninguem usa! sÛ para o Cruges, sÛ para o Taveira!... - -Teve de se callar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira, -abafado atÈ aos olhos na gola d'uma ulster, d'onde sahiam as pontas d'um -_cachenez_ de seda clara. O escudeiro desembaraÁou-o dos agasalhos; e -elle, de casaca e collete branco, limpando o bonito bigode humido da -geada, veiu apertar a m„o ao caro VillaÁa, ao amigo Eusebio, arrepiado, -mas achando o frio elegante, desejando a neve e o seu _chic_... - ---Nada, nada, dizia VillaÁa todo amavel, c· o nosso solzinho portuguez -sempre È melhor... - -E foram entrando no _fumoir_, onde se ouviam as vozes do marquez, de -Carlos, n'uma das suas sabias e prolixas cavaqueiras sobre cavallos e -sport. - ---Ent„o? que tal? A mulher? foi a interrogaÁ„o que acolheu o Taveira. - -Mas antes de dar noticia da estreia da Morelli, a dama nova, Taveira -reclamou alguma cousa quente. E enterrado n'uma poltrona junto do fog„o, -com os sapatos de verniz estendidos para as brazas, respirando o aroma -do punch, saboreando uma cigarette, declarou emfim que n„o tinha sido um -_fiasco_. - ---Que ella, a meu vÍr, È uma insignificancia, n„o tem nada, nem voz, nem -escola. Mas, coitada, estava t„o atrapalhada, que nos fez pena. Houve -indulgencia, deram-se-lhe umas palmas... Quando fui ao palco, ella -estava contente... - ---Vamos a saber, Taveira, que tal È ella? inquiria o marquez. - ---Cheia, dizia o Taveira collocando as palavras como pinceladas; alta; -muito branca; bons olhos; bons dentes... - ---E o pÈsinho?--E o marquez, j· com os olhos accesos, passava de vagar a -m„o pela calva. - -Taveira n„o reparara no pÈ. N„o era amador de pÈs... - ---Quem estava? perguntou Carlos, indolente e bocejando. - ---A gente do costume... … verdade, sabes quem tomou a frisa ao lado da -tua? Os Gouvarinhos. L· appareceram hoje... - -Carlos n„o conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe: o conde de -Gouvarinho, o par do reino, um homem alto, de lunetas, _poseur_... E a -condessa, uma senhora inglesada, de cabello cÙr de cenoura, muito bem -feita... Emfim, Carlos n„o conhecia. - -VillaÁa encontrava o conde no centro progressista, onde elle era uma -columna do partido. Rapaz de talento, segundo o VillaÁa. O que o -espantava È que elle podesse ter assim frisa de assignatura, atrapalhado -como estava: ainda n„o havia tres mezes lhe tinham protestado uma letra -de oitocentos mil rÈis, no tribunal do commercio... - ---Um asno, um caloteiro! disse o marquez com nojo. - ---Passa-se l· bem, ·s terÁas feiras...--disse Taveira, mirando a sua -meia de seda. - -Depois fallou-se do duello do Azevedo da _Opini„o_ com o S· Nunes, -auctor d'_El-Rei Bolacha_, a grande magica da Rua dos Condes, e -ultimamente ministro da marinha: tinham-se tratado furiosamente nos -jornaes de _pulhas_ e de _ladrıes_: e havia dez interminaveis dias que -estavam desafiados e que Lisboa, em pasmaceira, esperava o sangue. -Cruges ouvira que S· Nunes n„o se queria bater, por estar de luto por -uma tia; dizia-se tambem que o Azevedo partira precipitadamente para o -Algarve. Mas a verdade, segundo VillaÁa, era que o ministro do reino, -primo do Azevedo, para evitar o recontro, conservava a casa dos dois -cavalheiros bloqueada pela policia... - ---Uma canalha! exclamou o marquez com um dos seus resumos brutaes que -varriam tudo. - ---O ministro n„o deixa de ter raz„o, observou VillaÁa. Isto ·s vezes, em -duellos, pÛde bem succeder uma desgraÁa... - -Houve um curto silencio. Carlos, que caÌa de somno, perguntou ao -Taveira, atravez d'outro bocejo, se vira o Ega no theatro. - ---Podera! La estava de serviÁo, no seu posto, na frisa dos Cohens, todo -puxado... - ---Ent„o essa cousa do Ega com a mulher do Cohen, disse o marquez, parece -clara... - ---Transparente, diaphana! um crystal!... - -Carlos, que se erguera a accender uma cigarette para despertar, lembrou -logo a grande maxima de D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era -preferivel n„o se saberem! Mas o marquez, a isto, lanÁou-se em -consideraÁıes pesadas. Estimava que o Ega _se atirasse_; e via ahi um -facto de represalia social, por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral -n„o gostava de judeus; mas nada lhe offendia tanto o gosto e a raz„o -como a especie _banqueiro_. Comprehendia o salteador de clavina, n'um -pinheiral; admittia o communista, arriscando a pelle sobre uma -barricada. Mas os argentarios, os _Fulanos e C.^{as}_ faziam-n'o -encavacar... E achava que destruir-lhes a paz domestica era acto -meritorio! - ---Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relogio. E eu -aqui, empregado publico, tendo deveres para com o Estado, logo ·s dez -horas da manh„. - ---Que diabo, se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se? -Cavaquea-se? - ---Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo... AtÈ contas! - -Affonso da Maia j· estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham -partido; e D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, l· fÙra tambem a -tomar ainda gemada, a pÙr ainda o emplastro, sob o olho solicito da -Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro amor. E os outros n„o -tardaram a deixar o Ramalhete. Taveira, de novo sepultado na _ulster_, -trotou atÈ casa, uma vivendasinha perto com um bonito jardim. O marquez -conseguiu levar Cruges no _coupÈ_, para lhe ir fazer musica a casa, no -org„o, atÈ ·s tres ou quatro horas, musica religiosa e triste, que o -fazia chorar, pensando nos seus amores e comendo frango frio com fatias -de salame. E o viuvo, o Eusebiosinho, esse, batendo o queixo, t„o morosa -e soturnamente como se caminhasse para a sua propria sepultura, l· se -dirigiu ao lupanar onde tinha uma _paix„o_. - - -O laboratorio de Carlos estava prompto--e muito convidativo, com o seu -soalho novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta meza de marmore, um -amplo divan de clina para o repouso depois das grandes descobertas, e em -redor, por sobre peanhas e prateleiras, um rico brilho de metaes e -crystaes; mas as semanas passavam, e todo esse bello material de -experimentaÁ„o, sob a luz branca da claraboia, jazia virgem e ocioso. SÛ -pela manh„ um servente Ìa ganhar o seu tost„o diario, dando l· uma volta -preguiÁosa com um espanador na m„o. - -Carlos realmente n„o tinha tempo de se occupar do laboratorio; e -deixaria a Deus mais algumas semanas o privilegio exclusivo de saber o -segredo das cousas--como elle dizia rindo ao avÙ. Logo pela manh„ cedo -Ìa fazer as suas duas horas d'armas com o velho Randon; depois via -alguns doentes no bairro onde se espalhara, com um brilho de legenda, a -cura da Marcellina--e as garrafas de Bordeus que lhe mandara Affonso. -ComeÁava a ser conhecido como medico. Tinha visitas no -consultorio--ordinariamente bachareis, seus contemporaneos, que -sabendo-o rico o consideravam gratuito, e l· entravam, murchos e com m· -cara, a contar a velha e mal disfarÁada historia de ternuras funestas. -Salvara d'um garrotilho a filha d'um brazileiro, ao Aterro--e ganhara -ahi a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um -homem da sua familia. O dr. Barbedo convidara-o a assistir a uma -operaÁ„o ovariotomica. E emfim (mas esta consagraÁ„o n„o a esperava -realmente Carlos t„o cedo) alguns dos seus bons collegas, que atÈ ahi, -vendo-o sÛ a governar os seus cavallos inglezes, fallavam do ´talento do -Maiaª--agora percebendo-lhe estas migalhas de clientella, comeÁavam a -dizer ´que o Maia era um asno.ª Carlos j· fallava a serio da sua -carreira. Escrevera, com laboriosos requintes d'estylista, dois artigos -para a _Gazeta Medica_; e pensava em fazer um livro d'idÈas geraes, que -se devia chamar _Medicina Antiga e Moderna_. De resto occupava-se sempre -dos seus cavallos, do seu luxo, do seu bric-a-brac. E atravez de tudo -isto, em virtude d'essa fatal dispers„o de curiosidade que, no meio do -caso mais interessante de pathologia, lhe fazia voltar a cabeÁa, se -ouvia fallar d'uma estatua ou d'um poeta, attrahia-o singularmente a -antiga idÈa do Ega, a creaÁ„o d'uma Revista, que dirigisse o gosto, -pezasse na politica, regulasse a sociedade, fosse a forÁa pensante de -Lisboa... - -Era porÈm inutil lembrar ao Ega este bello plano. Abria um olho vago, -respondia: - ---Ah, a Revista... Sim, est· claro, pensar n'isso! Havemos de fallar, eu -apparecerei... - -Mas n„o apparecia no Ramalhete, nem no consultorio; apenas se avistavam, -·s vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo que n„o passava no -camarote dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se no fundo da frisa -de Carlos, por tr·s de Taveira ou do Cruges; d'onde podesse olhar de vez -em quando Rachel Cohen--e ali ficava, silencioso, com a cabeÁa appoiada -ao tabique, repousando e como saturado de felicidade... - -O dia (dizia elle) tinha-o todo tomado: andava procurando casa, andava -estudando mobilias... Mas era facil encontral-o pelo Chiado e pelo -Loreto, a rondar e a farejar--ou ent„o no fundo de tipoias de praÁa, -batendo a meio galope, n'um espalhafato de aventura. - -O seu dandysmo requintava; arvorara, com o desplante soberbo d'um -Brummel, casaca de botıes amarellos sobre collete de setim branco; e -Carlos entrando uma manh„ cedo no _Universal_, deu com elle pallido de -colera, a despropositar com um creado, por causa d'uns sapatos mal -envernisados. Os seus companheiros constantes, agora, eram um Damaso -Salcede, amigo do Cohen, e um primo da Rachel Cohen, mocinho imberbe, -d'olho esperto e duro, j· com ares de emprestar a trinta por cento. - -Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se ·s vezes -Rachel, e as opiniıes discordavam. Taveira achava-a ´deliciosa!ª--e -dizia-o rilhando o dente: ao marquez n„o deixava de parecer appetitosa, -para uma vez, aquella carnezinha _faisandÈe_ de mulher de trinta annos: -Cruges chamava-lhe uma ´lambisgoia relamboriaª. Nos jornaes, na secÁ„o -do _High-life_, ella era ´uma das nossas primeiras elegantesª: e toda a -Lisboa a conhecia, e a sua luneta d'ouro presa por um fio d'ouro, e a -sua caleche azul com cavallos pretos. Era alta, muito pallida, sobre -tudo ·s luzes, delicada de saude, com um quebranto nos olhos pisados, -uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lyrio -meio murcho: a sua maior belleza estava nos cabellos, magnificamente -negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ella -deixava habilmente cahir n'uma massa meia solta sobre as costas, como -n'um desalinho de nudez. Dizia-se que tinha litteratura, e fazia -phrases. O seu sorriso lasso, pallido, constante, dava-lhe um ar de -insignificancia. O pobre Ega adorava-a. - -Conhecera-a na Foz, na AssemblÈa; n'essa noite, cervejando com os -rapazes, ainda lhe chamou _camelia melada_; dias depois j· adulava o -marido; e agora esse demagogo, que queria o massacre em massa das -classes medias, soluÁava muita vez por causa d'ella, horas inteiras, -cahido para cima da cama. - -Em Lisboa, entre o Gremio e a Casa Havaneza, j· se comeÁava a fallar ´do -arranjinho do Egaª. Elle todavia procurava pÙr a sua felicidade ao -abrigo de todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas -precauÁıes tanta sinceridade como prazer romantico do mysterio: e era -nos sitios mais desageitados, fÛra de portas, para os lados do -Matadouro, que Ìa furtivamente encontrar a creada que lhe trazia as -cartas d'ella... Mas em todos os seus modos (mesmo no disfarce affectado -com que espreitava as horas) transbordava a immensa vaidade d'aquelle -adulterio elegante. De resto sentia bem que os seus amigos conheciam a -gloriosa aventura, o sabiam em pleno drama: era mesmo talvez por isso, -que, diante de Carlos e dos outros, nunca atÈ ahi mencionara o nome -d'ella, nem deixara j·mais escapar um lampejo de exaltaÁ„o. - -Uma noite, porÈm, acompanhando Carlos atÈ ao Ramalhete, noite de lua -calma e branca, em que caminhavam ambos callados, Ega, invadido decerto -por uma onda interior de paix„o, soltou desabafadamente um suspiro, -alargou os braÁos, declamou com os olhos no astro, um tremor na voz: - - - Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l'amour c'est la vie! - - -Isto fugira-lhe dos labios como um comeÁo de confiss„o; Carlos ao lado -n„o disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto. - -Mas Ega sentiu-se decerto ridiculo, porque se calmou, refugiou-se -immediatamente no puro interesse litterario: - ---No fim de contas, menino, digam l· o que disserem, n„o ha sen„o o -velho Hugo... - -Carlos, comsigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindo contra -Hugo, chamando-lhe ´saco-roto de espiritualismoª, ´boca-aberta de -sombraª, ´avÙsinho lyricoª, injurias peiores. - -Mas n'essa noite o grande phraseador continuou: - ---Ah o velho Hugo! o velho Hugo È o campe„o heroico de verdades -eternas... … necessario um bocado d'ideal, que diabo!... De resto o -ideal pÛde ser real... - -E foi, com esta palinodia, acordando os silencios do Aterro. - -Dias depois Carlos, no consultorio, acabava de despedir um doente, um -Viegas, que todas as semanas vinha alli fazer a fastidiosa chronica da -sua dyspepsia--quando do reposteiro da sala d'espera lhe surgiu o Ega, -de sobrecasaca azul, luva _gris-perle_ e um rolo de papel na m„o. - ---Tens que fazer, doutor? - ---N„o, Ìa a sahir, janota! - ---Bem. Venho-te impingir prosa... Um bocado do _Atomo_... Senta-te ahi. -Ouve l·. - -Immediatamente abancou, afastou papeis e livros, desenrolou o -manuscripto, espalmou-o, deu um pux„o ao collarinho--e Carlos, que se -pousara · borda do divan, com a face espantada e as m„os nos joelhos, -achou-se quasi sem transiÁ„o transportado dos rugidos do ventre do -Viegas para um rumor de populaÁa, n'um bairro de judeus, na velha cidade -de Heidelberg. - ---Mas espera l·! exclamou elle. Deixa-me respirar. Isso n„o È o comeÁo -do livro! Isso n„o È o cahos... - -Ega ent„o recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tambem. - ---N„o, n„o È o primeiro episodio... N„o È o cahos. … j· no seculo XV... -Mas n'um livro d'estes pÛde-se comeÁar pelo fim... Conveiu-me fazer este -episodio: chama-se a _Hebrea_. - -A Cohen! pensou Carlos. - -Ega tornou a alargar o collarinho--e foi lendo, animando-se, ferindo as -palavras para as fazer viver, soltando grandes cheios de voz nas -sonoridades finaes dos periodos. Depois da sombria pintura d'um bairro -medival de Heidelberg, o famoso Atomo, o _Atomo do Ega_, apparecia -alojado no coraÁ„o do esplendido principe Franck, poeta, cavalleiro, e -bastardo do imperador Maximiliano. E todo esse coraÁ„o de heroe -palpitava pela judia Esther, perola maravilhosa do Oriente, filha do -velho rabbino Salom„o, um grande doutor da Lei, perseguido pelo odio -theologico do Geral dos Dominicanos. - -Isto contava-o o Atomo n'um monologo, t„o recamado d'imagens como um -manto da Virgem est· recamado d'estrellas--e que era uma declaraÁ„o -d'elle, Ega, · mulher do Cohen. Depois abria-se um intermedio -pantheista: rompiam coros de flores, coros de astros, cantando na -linguagem da luz, ou na eloquencia dos perfumes, a belleza, a graÁa, a -pureza, a alma celeste de Esther--e de Rachel... Emfim, chegava o negro -drama da perseguiÁ„o: a fuga da familia hebraica, atravÈz de bosques de -bruxas e brutas aldÍas feudaes; a appariÁ„o, n'uma encrusilhada, do -principe Franck que vem proteger Esther, de lanÁa alta, no seu grande -corcel; o tropel da turba fanatica, correndo a queimar o rabbino e os -seus livros herejes; a batalha, e o principe atravessado pelo chuÁo d'um -_reitre_, indo morrer no peito d'Esther, que morre com elle n'um beijo. -Tudo isto se precipitava como um sonoro e tumultuoso soluÁo; e era -tratado com as maneiras modernas d'estylo, o esforÁo atormentado -inchando a express„o, as camadas de cÙr atiradas · larga para fazer -ressaltar o tom de vida... - -Ao findar o _Atomo_ exclamava, com a vasta solemnidade d'um cheio -d'org„o:--´assim arrefeceu, parou, aquelle coraÁ„o de heroe que eu -habitava; e evaporado o principio de vida, eu, agora livre, remontei aos -astros, levando comigo a essencia pura d'esse amor immortal.ª - ---Ent„o?...--disse Ega, esfalfado, quasi tremulo. - -Carlos sÛ poude responder: - ---Est· ardente. - -Depois elogiou a serio alguns lances, o coro das florestas, a leitura do -_Ecclesiastes_, de noite, entre as ruinas da torre d'Othon, certas -imagens d'um grande vÙo lyrico. - -Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscripto, reabotoou a -sobrecasaca, e j· de chapÈu na m„o: - ---Ent„o, parece-te apresentavel?... - ---Vaes publicar? - ---N„o, mas emfim...--e ficou n'esta reticencia, fazendo-se corado. - -Carlos comprehendeu tudo dias depois, encontrando na _Gazeta do Chiado_ -uma descripÁ„o ´da leitura feita em casa do ex.^{mo} sr. Jacob Cohen, -pelo nosso amigo Jo„o da Ega, de um dos mais brilhantes episodios do seu -livro--_As memorias d'um atomo_.ª E o jornalista accrescentava, dando a -sua impress„o pessoal: ´È uma pintura dos sofrimentos porque passaram, -nos tempos da intolerancia religiosa, aquelles que seguem a Lei -d'Israel. Que poder de imaginaÁ„o! Que fluencia d'estylo! O effeito foi -extraordinario, e quando o nosso amigo fechou o manuscripto ao succumbir -da protagonista--vimos lagrimas em todos os olhos da numerosa e -estimavel colonia hebraica!ª - -Oh, furor do Ega! Rompeu n'essa tarde pelo consultorio, pallido, -desorientado... - ---Estas bestas! Estas bestas d'estes jornalistas! Leste? _Lagrimas em -todos os olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica!_ Faz cahir a -cousa em ridiculo... E depois a _fluencia d'estylo_. Que burros! Que -idiotas! - -Carlos, que cortava as folhas d'um livro, consolou-o. Aquella era a -maneira nacional de fallar d'obras d'arte... N„o valia a pena bramar... - ---N„o, palavra, tinha vontade de quebrar a cara ·quelle folliculario! - ---E porque lh'a n„o quebras? - ---… um amigo dos Cohens. - -E foi grunhindo improperios contra a imprensa, a passos de tigre pelo -gabinete. Por fim irritado com a indifferenÁa de Carlos: - ---Que diabo est·s tu ahi a ler? _Nature parasitaire des accidents de -l'impaludisme_... Que blague, a medicina! Dize-me uma cousa. Que diabo -ser„o umas picadas que me veem aos braÁos, sempre que vou a -adormecer?... - ---Pulgas, bichos, vermina...--murmurou Carlos com os olhos no livro. - ---Animal! rosnou Ega, arrebatando o chapÈu. - ---Vaes-te, John? - ---Vou, tenho que fazer!--E junto do reposteiro, ameaÁando o cÈu com o -guarda-chuva, chorando quasi de raiva:--Estes burros d'estes -jornalistas! S„o a escoria da sociedade! - -D'ahi a dez minutos reappareceu, bruscamente: e j· com outra voz, n'um -tom de caso serio: - ---Ouve c·. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aos -Gouvarinhos? - ---N„o tenho um interesse especÌal, respondeu Carlos, erguendo os olhos -do livro, depois de um silencio. Mas n„o tenho tambem uma repugnancia -especial. - ---Bem, disse Ega. Elles desejam conhecer-te, sobretudo a condessa faz -empenho... Gente intelligente, passa-se l· bem... Ent„o, decidido! TerÁa -feira vou-te buscar ao Ramalhete, e vamo-nos _gouvarinhar_. - -Carlos ficou pensando n'aquella proposta do Ega, na maneira como elle -sublinh·ra o _empenho_ da condessa. Lembrava-se agora que ella era muito -intima da Cohen: e ultimamente, em S. Carlos, n'aquella facil visinhanÁa -de frisa, surprehendera certos olhares d'ella... Mesmo, segundo o -Taveira, ella realmente _fazia-lhe um olh„o_. E Carlos achava-a picante, -com os seus cabellos crespos e ruivos, o narizinho petulante, e os olhos -escuros, d'um grande brilho, dizendo mil cousas. Era deliciosamente bem -feita--e tinha uma pelle muito clara, fina e doce · vista, a que se -sentia mesmo de longe o setim. - -Depois d'aquelle dia tristÙnho de aguaceiros, elle resolvera passar um -bom ser„o de trabalho, ao canto do fog„o, no conforto do seu -robe-de-chambre. Mas ao cafÈ, os olhos da Gouvarinho comeÁaram a -faiscar-lhe por entre o fumo do charuto, a fazer-lhe _um olh„o_, -collocando-se tentadoramente entre elle e a sua noite d'estudo, -pondo-lhe nas veias um vivo calor de mocidade... Tudo culpa do Ega, esse -Mephistopheles de Celorico! - -Vestiu-se, foi a S. Carlos. Ao sentar-se porÈm · boca da frisa, -preparado, de collete branco e perola negra na camisa,--em logar dos -cabellos crespos e ruivos, avistou a carapinha retinta de um preto, um -preto de doze annos, trombudo e lusidio, de grande collarinho · mam„ -sobre uma jaqueta de botıes amarellos; ao lado outro preto, mais -pequeno, com o mesmo uniforme de collegio, enterrava pela venta aberta o -dedo calÁado de pellica branca. Ambos elles lhe relancearam os olhos -bogalhudos, cÙr de prata embaciada. A pessoa que os acompanhava, -escondida para o fundo, parecia ter um catharro ascoroso. - -Dava-se a _Lucia_ em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens n„o tinham -vindo--nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza -do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de -sudoeste, parecia penetrar alli, derramando o seu pesadume, a morna -sensaÁ„o da sua humidade. Nas cadeiras, vasias, havia uma mulher -solitaria, vestida de setim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gaz -dormia, e os arcos das rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo -tambem. - ---Isto est· lugubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que occupava o escuro -da frisa. - -Cruges, amodorroado n'um accesso de _spleen_, com o cotovello sobre as -costas da cadeira, os dedos por entre a cabelleira, todo elle embrulhado -em crepes, sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo d'um -sepulchro: - ---Pesadote. - -Por indolencia, Carlos ficou. E pouco a pouco, aquelle preto de que os -seus olhos se n„o podiam despegar, alli enthronisado na poltrona de reps -verde da Gouvarinho, com a manga da jaqueta plantada no rebordo onde -costumava alvejar um lindo braÁo,--foi-lhe arrastando, a seu pesar, a -imaginaÁ„o para a pessoa d'ella; relembrou _toilettes_ com que ella alli -estivera; e nunca lhe pareceram t„o picantes, como agora que os n„o via, -os seus cabellos ruivos, cÙr de braza ·s luzes, d'um encrespado forte, -como crestados da chamma interna. A carapinha do preto, essa, em logar -de risca tinha um sulco cavado · thesoura na massa de l„ espessa. Quem -seriam, por que estavam alli, aquelles africanos de perfil trombudo? - ---Tu j· reparaste n'esta extraordinaria carapinha, Cruges? - -O outro, que se n„o mexera da sua attitude de estatua tumular, grunhiu -da sombra um monosyllabo surdo. - -Carlos respeitou-lhe os nervos. - -De repente, ao desafinar mais aspero d'um coro, Cruges deu um salto. - ---Isto sÛ a pontapÈ... Que empreza esta! rugio elle, envergando -furiosamente o paletot. - -Carlos foi leval-o no coupÈ · rua das Flores, onde elle morava com a m„e -e uma irm„; e atÈ ao Ramalhete n„o cessou de lamentar comsigo o seu -ser„o d'estudo perdido. - -O creado de Carlos, o Baptista, (familiarmente, o _Tista_) esperava-o, -lendo o jornal, na confortavel antecamara dos ´quartos do meninoª, -forrada de velludo cÙr de cereja, ornada de retratos de cavallos e -panoplias de velhas armas, com divans do mesmo velludo, e muito -allumiada a essa hora por dois candieiros de globo pousados sobre -columnas de carvalho, onde se enrolavam lavores de ramos de vide. - -Carlos tinha desde os onze annos este creado de quarto, que viera com o -Brown para S.^{ta} Olavia, depois de ter servido em Lisboa, na LegaÁ„o -ingleza, e ter acompanhado o ministro, sir Hercules Morrisson, varias -vezes a Londres. Foi em Coimbra, nos PaÁos de Cellas, que Baptista -comeÁou a ser um personagem: Affonso correspondia-se com elle de S.^{ta} -Olavia. Depois viajou com Carlos; enjoaram nos mesmos paquetes, -partilharam dos mesmos _sandwiches_ no buffete das gares; Tista -tornou-se um confidente. Era hoje um homem de cincoenta annos, -desempenado, robusto, com um collar de barba grisalha por baixo do -queixo, e o ar excessivamente _gentleman_. Na rua, muito direito na sua -sobrecasaca, com o par de luvas amarellas espetado na m„o, a sua bengala -de cana da India, os sapatos bem envernisados, tinha a consideravel -apparencia de um alto funccionario. Mas conservava-se t„o fino e t„o -desembaraÁado, como quando em Londres aprendera a walsar e a _boxar_ na -rude balburdia dos salıes-danÁantes, ou como quando mais tarde, durante -as ferias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e o ajudava a saltar o -muro do quintal do sr. escriv„o de fazenda--aquelle que tinha uma mulher -t„o garota. - -Carlos foi buscar um livro ao gabinete d'estudo, entrou no quarto, -estendeu-se, canÁado, n'uma poltrona. ¡ luz opalina dos globos, o leito -entre-aberto mostrava, sob a seda dos cortinados, um luxo effeminado de -bretanhas, bordados e rendas. - ---Que ha hoje no _Jornal da Noite_? perguntou elle bocejando, em quanto -Baptista o descalÁava. - ---Eu li-o todo, meu senhor, e n„o me pareceu que houvesse cousa alguma. -Em FranÁa contin˙a socego... Mas a gente nunca pÛde saber, porque estes -jornaes portuguezes imprimem sempre os nomes estrangeiros errados. - ---S„o umas bestas. O sr. Ega hoje estava furioso com elles... - -Depois, em quanto Baptista preparava com esmero um _grog_ quente, Carlos -j· deitado, aconchegado, abriu preguiÁosamente o livro, voltou duas -folhas, fechou-o, tomou uma cigarette, e ficou fumando com as palpebras -cerradas, n'uma immensa beatitude. AtravÈz das cortinas pesadas -sentia-se o sudoeste que batia o arvoredo, e os aguaceiros alagando os -vidros. - ---Tu conheces os srs. condes de Gouvarinho, Tista? - ---ConheÁo o Pimenta, meu senhor, que È creado de quarto do sr. conde... -Creado de quarto e serve a meza. - ---E que diz ent„o esse Tormenta? perguntou Carlos, n'uma voz indolente, -depois d'um silencio. - ---Pimenta, meu senhor! O Manuel È Pimenta. O sr. Gouvarinho chama-lhe -Rom„o, por que estava acostumado ao outro creado que era Rom„o. E j· -isto n„o È bonito, porque cada um tem o seu nome. O Manuel È Pimenta. O -Pimenta n„o est· contente... - -E Baptista, depois de collocar junto da cabeceira a salva com o _grog_, -o assucareiro, as cigarettes, transmittiu as revelaÁıes do Pimenta. O -conde de Gouvarinho, alÈm de muito massador e muito pequinhento, n„o -tinha nada de cavalheiro: dera um fato de cheviot claro ao Rom„o (ao -Pimenta), mas t„o coÁado e t„o cheio de riscas de tinta, de limpar a -penna · perna e ao hombro, que o Pimenta deitou o presente fÛra. O conde -e a senhora n„o se davam bem: j· no tempo do Pimenta, uma occasi„o, · -mesa, tinham-se pegado de tal modo que ella agarrou do copo e do prato, -e esmigalhou-os no ch„o. E outra qualquer teria feito o mesmo; por que o -sr. conde, quando comeÁava a repisar, a remoer, n„o se podia aturar. As -questıes eram sempre por causa de dinheiro. O Tompson velho estava farto -de abrir os cordıes · bolsa... - ---Quem È esse Tompson velho, que nos apparece agora, a esta hora da -noite? perguntou Carlos, a seu pesar interessado. - ---O Tompson velho È o pae da sr.^a condessa. A sr.^a condessa era uma -miss Tompson, dos Tompson do Porto. O sr. Tompson n„o tem querido -ultimamente emprestar nem mais um real ao genro: de sorte que, uma vez, -j· no tempo do Pimenta tambem, o sr. conde, furioso, disse · senhora que -ella e o pae se deviam lembrar que eram gente de commercio e que fora -elle que fizera d'ella uma condessa; e com perd„o de v. ex.^a, a senhora -condessa ali mesmo · mesa mandou o condado · tab˙a... Estas cousas n„o -est„o no genero do Pimenta. - -Carlos bebeu um gole de grog. Bailava-lhe nos labios uma pergunta, mas -hesitava. Depois reflectiu na puerilidade de t„o rigidos escrupulos, a -respeito d'uma gente, que ao jantar, diante do escudeiro, quebrava a -porcelana, mandava · tabua o titulo dos antepassados. E perguntou: - ---Que diz o sr. Pimenta da senhora condessa, Baptista? Ella diverte-se? - ---Creio que n„o, meu senhor. Mas a creada de confianÁa d'ella, uma -escosseza, essa È desobstinada. E n„o fica bem · senhora condessa ser -assim t„o intima com ella... - -Houve um silencio no quarto, a chuva cantou mais forte nos vidros. - ---Passando a outro assumpto, Baptista. Vamos a saber, ha quanto tempo, -n„o escrevo eu a madame Rughel? - -Baptista tirou do bolso interior da sua casaca um livro de apontamentos, -aproximou-se da luz, encavalou a luneta no nariz, e verificou, com -methodo, estas datas:--´Dia 1 de janeiro, telegramma expedido com -felicitaÁıes do comeÁo d'anno a madame Rughel, Hotel d'Albe, Champs -…lyseÈs, Paris. Dia 3, telegramma recebido de madame Rughel, -reciprocando comprimentos, exprimindo amizade, annunciando partida para -Hamburgo. Dia 15, carta lanÁada ao correio, para madame Rughel, -_William-Strasse, Hamburgo, Allemagne_. Depois--mais nada. De modo que -havia j· cinco semanas que o menino n„o escrevia a madame Rughel... - ---… necessario escrever ·manh„, disse Carlos.. - -Baptista tomou uma nota. - -Depois, entre uma fumaÁa languida, a voz de Carlos ergueu-se de novo na -paz dormente do quarto: - ---Madame Rughel era muito bonita, n„o È verdade, Baptista? … a mulher -mais bonita que tu tens visto na tua vida! - -O velho creado metteu o livro no bolso da casaca, e respondeu, sem -hesitar, muito certo de si: - ---Madame Rughel era uma senhora de muita vista. Mas a mulher mais linda -em que tenho posto os olhos, se o menino d· licenÁa, era aquella senhora -do coronel de hussards que vinha ao quarto do hotel em Vienna. - -Carlos atirou a cigarette para a salva--e escorregando pela roupa -abaixo, todo invadido por uma onda de recordaÁıes alegres, exclamou da -profundidade do seu conforto, no antigo tom de emphase bohemia dos PaÁos -de Cellas. - ---O sr. Baptista n„o tem gosto nenhum! Madame Rughel era uma nympha de -Rubens, senhor! Madame Rughel tinha o explendor d'uma deusa da -RenascenÁa, senhor! Madame Rughel devia ter dormido no leito imperial de -Carlos Quinto...--Retire-se, senhor! - -Baptista entalou mais o _couvre-pieds_, relanceou pelo quarto um olhar -solicito, e, contente, da ordem em que as cousas adormeciam, saÌu, -levando o candieiro. Carlos n„o dormia: e n„o pensava na coronela de -hussards, nem em madame Rughel. A figura que no escuro dos cortinados -lhe apparecia, n'um vago dourado que provinha do reflexo de seus -cabellos soltos, era a Gouvarinho--a Gouvarinho que n„o tinha o -explendor d'uma deusa da RenascenÁa como madame Rughel, nem era a mulher -mais linda em que Baptista pozera os seus olhos como a coronela de -hussards: mas, com o seu nariz petulante e a sua boca grande, brilhava -mais e melhor que todas na imaginaÁ„o de Carlos--porque elle esperara-a -essa noite e ella n„o tinha apparecido. - -Na terÁa-feira promettida Ega n„o veiu buscar Carlos para se irem -_gouvarinhar_. E foi Carlos que d'ahi a dias, entrando como por acaso no -_Universal_, perguntou rindo ao Ega: - ---Ent„o quando nos _gouvarinhamos_? - -N'essa noite, em S. Carlos, n'um entre-acto dos _Huguenotes_, Ega -apresentou-o ao sr. conde de Gouvarinho, no corredor das frizas. O -conde, muito amavel, lembrou logo que j· tivera, mais de uma vez, o -prazer de passar pela porta de S.^{ta} Olavia, quando ia vÍr os seus -velhos amigos, os Tedins, a Entre-Rios--uma formosa vivenda tambem. -Fallaram ent„o do Douro, da Beira, compararam outras paisagens. Para o -conde, nada havia, no nosso Portugal, como os campos do Mondego: mas a -sua parcialidade era perdoavel, pois n'esses ferteis vales nascera e se -creara: e fallou um momento de Formozelha, onde tinha casa, onde vivia -edosa e doente sua m„e, a sr.^a condessa viuva... - -Ega, que affectara beber as palavras do conde, comeÁou ent„o uma -controversia, sustentando como se se tratasse dos dogmas d'uma fÈ, a -belleza superior do Minho, ´esse paraiso idillico.ª O conde sorria: via -ali, como elle observou a Carlos, batendo amavelmente no hombro do Ega, -a rivalidade das duas provincias. EmulaÁ„o fecunda, de resto, no seu -pensar... - ---Ahi est·, por exemplo, dizia elle, o ciume entre Lisboa e Porto. … uma -verdadeira dualidade como a que existe entre a Hungria e a Austria... -OuÁo por ali lamental-a. Pois bem, eu, se fosse poder, instigal-a-hia, -acirral-a-hia, se v. ex.^{as} me permittem a express„o. N'esta lucta das -duas grandes cidades do reino, podem outros vÍr despeitos mesquinhos, eu -vejo elementos de progresso. Vejo civilisaÁ„o! - -Proferia estas cousas como do alto d'um pedestal, muito acima dos -homens, deixando-as providamente caÌr dos thesouros do seu intellecto · -maneira de dons inestimaveis. A voz era lenta e rotunda; os cristaes da -sua luneta d'ouro faiscavam vistosamente; e no bigode encerado, na pera -curta, havia ao mesmo tempo alguma cousa de doutoral e de casquilho. - -Carlos dizia: ´Tem v. ex.^a raz„o, sr. conde.ª O Ega dizia: ´VocÍ vÍ -essas cousas d'alto, Gouvarinhoª. Elle cruzara as m„os por baixo das -abas da casaca--e estavam todos tres muito serios. - -Depois o conde abriu a porta da friza, Ega desappareceu. E d'ahi a um -momento, Carlos, apresentado como ´visinho de camaroteª, recebia da -sr.^a condessa um grande _shake-hand_, em que tilintaram uma infinidade -d'aros de prata e de _blangles_ indios sobre a sua luva preta de doze -botıes. - -A sr.^a condessa, um pouco corada, ligeiramente nervosa, lembrou logo a -Carlos que o vira no ver„o passado em Paris, no sal„o baixo do CafÈ -Inglez: atÈ por signal estava n'essa noite um velho abominavel com duas -garrafas vazias diante de si, e contando alto, para uma meza defronte, -historias horrorosas do sr. Gambetta: um sujeito ao lado protestou; o -outro n„o fez caso, era o velho duque de Grammont. O conde passou os -dedos lentos pela testa, com um ar quasi angustioso: n„o se lembrava de -nada d'isso! Queixou-se logo amargamente da sua falta de memoria. Uma -cousa t„o indispensavel em quem segue a vida publica, a memoria! e elle -desgraÁadamente, n„o possuia nem um atomo. Por exemplo, lera (como todo -o homem devia lÍr) os vinte volumes da _Historia Universal de Cesar -Cantu_; lÍra-os com attenÁ„o, fechado no seu gabinete, absorvendo-se na -obra. Pois, senhores, escapara-lhe tudo--e ali estava sem saber -historia! - ---V. ex.^a tem boa memoria, sr. Maia? - ---Tenho uma rasoavel memoria. - ---Inapreciavel bem de que goza! - -A condessa voltara-se para a platÈa, coberta com o leque, com o ar -constrangido, como se aquellas palavras pueris do marido a diminuissem, -a desfeiassem... Carlos ent„o fallou da opera. Que bello escudeiro -huguenote fazia o Pandolli! A condessa n„o aturava o Corcelli, o tenor, -com as suas notas asperas e aquella obesidade que o tornava _buffo_. Mas -tambem (lembrava Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande -raÁa dos Marios, homens de belleza, de inspiraÁ„o, realisando os grandes -typos lyricos. Nicolini era j· uma degeneraÁ„o... Isto fez lembrar a -Patti. A condessa adorava-a, e a sua graÁa de fada, e a sua voz -semelhante a uma chuva d'ouro!... - -Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil cousas; em certos movimentos, o -cabello crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno -d'ella errava, no calor do gaz e da enchente, um aroma exagerado de -verbena. Estava de preto, com uma gargantilha, de rendas negras, · -Valois, affogando-lhe o pescoÁo onde pousavam duas rosas escarlates. E -toda a sua pessoa tinha um arsinho de provocaÁ„o e de ataque. De pÈ, -callado, grave, o conde batia a coxa com a claque fechada. - -O quarto acto comeÁara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram -defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binoculo, observando-o, mirando a -condessa e fallando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar -dolente e vago. - ---NÛs recebemos ·s terÁas feiras, disse a condessa a Carlos--e o resto -da phrase perdeu-se n'um murmurio e n'um sorriso. - -O conde acompanhou-o fÛra, ao corredor. - ---… sempre uma honra para mim, dizia elle caminhando ao lado de Carlos, -fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma cousa n'este paiz ... -V. ex.^a È d'esse numero, bem raro infelizmente. - -Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda: - ---N„o o lisongeio. Eu nunca lisongeio... Mas a v. ex.^a podem-se dizer -estas cousas, porque pertence · _elite_: a desgraÁa de Portugal È a -falta de gente, Isto È um paiz sem pessoal. Quer-se um bispo? N„o ha um -bispo. Quer-se um economista? N„o ha um economista. Tudo assim! Veja v. -ex.^a mesmo nas profissıes subalternas. Quer-se um bom estofador? N„o ha -um bom estofador... - -Um cheio de instrumentos e vozes, d'um tom sublime, passando pela porta -da frisa entreaberta, cortou-lhe umas ultimas palavras sobre a -defficiencia dos photographos... Escutou, com a m„o no ar: - ---… o _coro dos punhaes_, n„o? Ah vamos a ouvir... Ouve-se sempre isto -com proveito. Ha philosophia n'esta musica... … pena que lembre t„o -vivamente os tempos da intolerancia religiosa, mas ha alli -incontestavelmente philosophia! - - - - -VI - - -Carlos, n'essa manh„, ia visitar de surpreza a casa do Ega, a famosa -´Villa Balzacª, que esse phantasista and·ra meditando e dispondo desde a -sua chegada a Lisboa, e onde se tinha emfim installado. - -Ega dera-lhe esta denominaÁ„o litteraria, pelos mesmos motivos porque a -alug·ra n'um suburbio longiquo, na solid„o da Penha de FranÁa,--para que -o nome de Balzac, seu padroeiro, o silencio campestre, os ares limpos, -tudo alli fosse favoravel ao estudo, ·s horas d'arte e d'ideal. Por que -ia fechar-se l·, como n'um claustro de lettras, a findar as _Memorias -d'um Atomo!_ SÛmente, por causa das distancias, tinha tomado ao mez um -coupÈ da companhia. - -Carlos teve difficuldades em encontrar a ´Villa Balzacª: n„o era, como -tinha dito Ega no Ramalhete, logo adiante do largo da GraÁa um -_chaletsinho_ retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre arvores. -Passava-se primeiro a Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se -n'uma vereda larga, entre quintaes, descendo pelo pendor da collina, mas -accessivel a carruagens; e ahi, n'um recanto, ladeada de muros, -apparecia emfim uma cazota de paredes enxovalhadas, com dois degraus de -pedra · porta, e transparentes novos d'um escarlate estridente. - -N'essa manh„, porÈm, debalde Carlos deu puxıes desesperados · corda da -campainha, martellou a aldrava da porta, gritou a toda a voz por cima do -muro do quintal e das copas das arvores o nome do Ega:--a ´Villa Balzacª -permaneceu muda, como deshabitada, no seu retiro rustico. E todavia -pareceu a Carlos que, justamente antes de bater, ouvira o estalar de -rolhas de _Champagne_. - -Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com os criados, -que assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeito de Torre de -Nesle... - ---Vae l· ·manh„, se ninguem responder, escala as janellas, pega fogo ao -predio, como se fossem apenas as Tulherias. - -Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, j· a ´Villa Balzacª o -esperava, toda em festa: · porta ´o pagemª, um garoto de feiÁıes -horrÌvelmente viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botıes de -metal, com uma gravata muito branca e muito teza; as duas janellas em -cima, abertas, mostrando o reps verde das bambinellas, bebiam · larga -todo o ar do campo e o sol de inverno: e no topo da estreita escada, -tapetada de vermelho, Ega, n'um prodigioso robe-de-chambre, de um estofo -adamascado do seculo dezoito, vestido de cÙrte de alguma das suas avÛs, -exclamou dobrando a fronte ao ch„o: - ---Bem vindo, meu principe, ao humilde tegurio do philosopho! - -Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de reps verde, d'um verde -feio e triste, e introduziu o ´principeª na sala onde tudo era verde -tambem: o reps que recobria uma mobilia de nogueira, o tecto de taboado, -as listas verticaes do papel da parede, o pano franjado da mesa, e o -reflexo d'um espelho redondo, inclinado sobre o soph·. - -N„o havia um quadro, uma flÙr, um ornato, um livro--apenas sobre a -jardineira uma estatueta de Napole„o I, de pÈ, equilibrado sobre o orbe -terrestre, n'essa conhecida attitude em que o heroe, com um ar pansudo e -fatal, esconde uma das m„os por traz das costas, e enterra a outra nas -profundidades do seu collete. Ao lado uma garrafa de _Champagne_, -encarapuÁada de papel dourado, esperava entre dois copos esguios. - ---Para que tens tu aqui Napole„o, John? - ---Como alvo de injurias, disse Ega. Exercito-me sobre elle a fallar dos -tyrannos... - -Esfregou as m„os, radiante. Estava n'essa manh„ em alegria e em verve. E -quiz immediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: ahi reinava -um cretone de ramagens alvadias sobre fundo vermelho; e o leito enchia, -esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da ´Villa Balzacª; e -n'elle se esgotara a imaginaÁ„o artistica do Ega. Era de madeira, baixo -como um divan, com a barra alta, um roda-pÈ de renda, e d'ambos os lados -um luxo de tapetes de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da -India avermelhada envolvia-o n'um apparato de tabernaculo; e dentro, · -cabeceira, como n'um lupanar, reluzia um espelho. - -Carlos, muito seriamente, aconselhou-lhe que tirasse o espelho. Ega deu -a todo o leito um olhar silencioso e dÙce, e disse depois de passar uma -pontinha de lingua pelo beiÁo: - ---Tem seu chic... - -Sobre a mesinha de cabeceira erguia-se um mont„o de livros: a _EducaÁ„o_ -de Spencer ao lado de BeaudelaÌre, a _Logica_ de Stuart Mill por cima do -_Cavalleiro da Casa Vermelha_. No marmore da commoda havia outra garrafa -de Champagne entre dous copos; o toucador, um pouco em desordem, -mostrava uma enorme caixa de pÛ d'arroz no meio de plastrons e gravatas -brancas do Ega, e um masso de ganchos do cabello ao lado de ferros de -frisar. - ---E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte? - ---Alli! disse o Ega, alegremente, apontando para o leito. - -Mas foi mostrar logo o seu recantosinho estudioso, formado por um -biombo, ao lado da janella, e tomado todo por uma mesa de pÈ de gallo, -onde Carlos assombrado descobriu, entre o bello papel de cartas do Ega, -um _Diccionario de Rimas_... - -E a visita · casa continuou. - -Na sala de jantar, quasi nua, caiada de amarello, um armario de pinho -envidraÁado abrigava melancolicamente um serviÁo barato de louÁa nova; e -do fecho da janella pendia um vestuario vermelho, que parecia roup„o de -mulher. - ---… sobrio e simples--exclamou o Ega--como compete ·quelle que se -alimenta d'uma codea d'Ideal e duas garfadas de Philosophia. Agora, · -cosinha!... - -Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas janellas abertas; -e entreviam-se arvores de quintal, um verde de terrenos vagos, depois l· -em baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol; uma rapariga muito -sardenta e muito forte sacudiu o gato do collo, ergueu-se, com o _Jornal -de Noticias_ na m„o. Ega apresentou-a, n'um tom de farÁa: - ---A sr.^a Josepha, solteira, de temperamento sanguineo, artista -culinaria da ´Villa Balzacª, e como se pÛde observar pelo papel que lhe -pende das garras, cultora das boas letras! - -A moÁa sorria, sem embaraÁo, habituada de certo a estas familiaridades -bohemias. - ---Eu hoje n„o janto c·, senhora Josepha, continuava o Ega no mesmo tom. -Este formoso mancebo que me acompanha, duque do Ramalhete, e principe de -Santa Olavia, d· hoje de papar ao seu amigo e philosopho... E, como -quando eu recolher, talvez a senhora Josepha esteja entregue ao somno da -innocencia, ou · vigilia da devassid„o, aqui lhe ordeno que me tenha -amanh„ para meu _lunch_ duas formosas perdizes. - -E subitamente, n'uma outra voz, com um olhar que ella devia perceber: - ---Duas perdizesinhas bem assadas e bem cÛradinhas. Frias, est· claro... -O costume. - -Travou do braÁo de Carlos, voltaram · sala. - ---Com franqueza, Carlos, que te parece a ´Villa Balzacª? - -Carlos respondeu como a respeito do episodio da _Hebrea_: - ---Est· ardente. - -Mas elogiou o aceio, a vista da casa e a frescura dos cretones. De -resto, para um rapaz, para uma cella de trabalho... - ---Eu, dizia o Ega, passeiando pela sala, com as m„os enterradas nos -bolsos do seu prodigioso robe de chambre, eu n„o tolero o _bibelot_, o -_bric-‡-brac_, a cadeira archeologica, essas mobilias d'arte... Que -diabo, o movel deve estar em harmonia com a idÈa e o sentir do homem que -o usa! Eu n„o penso, nem sinto como um cavalleiro do seculo XVI, para -que me hei de cercar de cousas do seculo XVI? N„o ha nada que me faÁa -tanta melancolia, como ver n'uma sala um veneravel contador do tempo de -Francisco I recebendo pela face conversas sobre eleiÁıes e altas de -fundos. Faz-me o effeito d'um bello heroe de armadura d'aÁo, viseira -cahida e crenÁas profundas no peito, sentado a uma mesa de voltarete a -jogar copas. Cada seculo tem o seu genio proprio e a sua attitude -propria. O seculo XIX concebeu a Democracia e a sua attitude È -esta...--E enterrando-se d'estalo n'uma poltrona, espetou as pernas -magras para o ar.--Ora esta attitude È impossivel n'um escabello do -tempo do Prior do Crato. Menino, toca a beber o _Champagne_. - -E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega accudiu: - ---… excellente, que pensas tu? Vem directamente da melhor casa -d'Epernay, arranjou-m'o o Jacob. - ---Que Jacob? - ---O Jacob Cohen, o Jacob. - -Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma subita recordaÁ„o, -e pousando a garrafa outra vez, entalando o monocolo no olho: - ---… verdade! Ent„o, n'outro dia, que tal, em casa dos Gouvarinhos? Eu -infelizmente n„o poude ir. - -Carlos contou a _soirÈe_. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas -salas, n'um zum-zum dormente, · meia luz dos candieiros. O conde -massara-o indiscretamente com a politica, admiraÁıes idiotas por um -grande orador, um deputado de Mes„o Frio, e explicaÁıes sem fim sobre a -reforma da instrucÁ„o. A condessa, que estava muito constipada, -horrorisou-o, dando sobre a Inglaterra, apesar de ingleza, as opiniıes -da rua de Cedofeita. Imaginava que a Inglaterra È um paiz sem poetas, -sem artistas, sem ideaes, occupando-se sÛ de amontoar libras... Emfim, -seccara-se. - ---Que diabo! murmurou o Ega n'um tom de viva desconsolaÁ„o. - -A rolha estalou, elle encheu os copos em silencio; e n'uma _saude_ muda -os dois amigos beberam o _Champagne_--que Jacob arranjara ao Ega, para o -Ega se regalar com Rachel. - -Depois, de pÈ, com os olhos no tapete, agitando de vagar o copo -novamente cheio onde a espuma morria, Ega tornou a murmurar, n'aquella -entoaÁ„o triste de inesperado desapontamento: - ---Que ferro!... - -E apÛs um momento: - ---Pois menino, pensei que a Gouvarinho te appetecÌa... - -Carlos confessou que nos primeiros dias, quando Ega lhe fallara d'ella, -tivera um caprichosinho, interessara-se por aquelles cabellos cÙr de -brasa... - ---Mas agora, mal a conheci, o capricho foi-se... - -Ega sentara-se, com o copo na m„o; e depois de contemplar algum tempo as -suas meias de seda, escarlates como as d'um prelado, deixou cair, muito -serio, estas palavras: - ---… uma mulher deliciosa, Carlinhos. - -E, como Carlos encolhia os hombros, Ega insistio: a Gouvarinho era uma -senhora de intelligencia e de gosto; tinha originalidade, tinha audacia, -uma pontinha de romantismo muito picante... - ---E, como corpinho de mulher, n„o ha melhor que aquillo de Badajoz para -c·! - ---Vae-te d'ahi, Mephistopheles de Celorico! - -E Ega, divertido, cantarolou: - - - Je suis Mephisto... - Je suis Mephisto... - - -Carlos no entanto, fumando preguiÁosamente, continuava a fallar na -Gouvarinho e n'essa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com -ella tres palavras n'uma sala. E n„o era a primeira vez que tinha -d'estes falsos arranques de desejo, vindo quasi com as formas do amor, -ameaÁando absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e -resolvendo-se em tedio, em ´seccaª. Eram como os fogachos de polvora -sobre uma pedra; uma fagulha atÍa-os, n'um momento tornam-se chamma -vehemente que parece que vae consumir o Universo, e por fim fazem apenas -um rastro negro que suja a pedra. Seria o seu um d'esses coraÁıes de -fraco, molles e flaccidos, que n„o podem conservar um sentimento, o -deixam fugir, escoar-se pelas malhas lassas do tecido relles? - ---Sou um ressequido! disse elle sorrindo. Sou um impotente de -sentimento, como Satanaz... Segundo os padres da Egreja, a grande -tortura de Satanaz È que n„o pÛde amar... - ---Que phrases essas, menino! murmurou Ega. - -Como phrases? Era uma atroz realidade! Passava a vida a ver as paixıes -falharem-lhe nas m„os como phosphoros. Por exemplo, com a coronela de -hussards em Vienna! Quando ella faltou ao primeiro _rendez-vous_, -chorara lagrimas como punhos, com a cabeÁa enterrada no travesseiro e -aos coices · roupa. E d'ahi a duas semanas, mandava postar o Baptista · -janella do hotel, para elle se safar, mal a pobre coronela dobrasse a -esquina! E com a hollandeza, com Madame Rughel, peior ainda. Nos -primeiros dias foi uma insensatez: queria-se estabelecer para sempre na -Hollanda, casar com ella (apenas ella se divorciasse), outras loucuras; -depois os braÁos que ella lhe deitava ao pescoÁo, e que lindos braÁos, -pareciam-lhe pesados como chumbo... - ---Passa fÛra, pedante! E ainda lhe escreves! gritou Ega. - ---Isso È outra cousa. Ficamos amigos, puras relaÁıes de intelligencia. -Madame Rughel È uma mulher de muito espirito. Escreveu um romance, um -d'esses estudos intimos e delicados, como os de Miss Brougthon: chama-se -as _Rosas Murchas_. Eu nunca li, È em hollandez... - ---As _Rosas Murchas_! em hollandez! exclamou Ega apertando as m„os na -cabeÁa. - -Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monocolo no olho: - ---Tu Ès extraordinario, menino!... Mas o teu caso È simples, È o caso de -D. Juan. D. Juan tambem tinha essas alternaÁıes de chamma e cinza. -Andava · busca do seu ideal, da _sua mulher_, procurando-a -principalmente, como de justiÁa, entre as mulheres dos outros. E _aprËs -avoir couchÈ_, declarava que se tinha enganado, que n„o era aquella. -Pedia desculpa e retirava-se. Em Hespanha experimentou assim mil e tres. -Tu Ès simplesmente, como elle, um devasso; e has de vir a acabar -desgraÁadamente como elle, n'uma tragedia infernal! - -Esvasiou outro copo de _Champagne_, e a grandes passadas pela sala: - ---Carlinhos da minha alma, È inutil que ninguem ande · busca da _sua -mulher_. Ella vir·. Cada um tem a _sua mulher_, e necessariamente tem de -a encontrar. Tu est·s aqui, na Cruz dos Quatro Caminhos, ella est· -talvez em Pekin: mas tu, ahi a raspar o meu reps com o verniz dos -sapatos, e ella a orar no templo de Confucio, estaes ambos -insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente, marchando um para o -outro!... Estou eloquentissimo hoje, e temos dito cousas idiotas. Toca a -vestir. E, em quanto eu adorno a carcassa, prepara mais phrases sobre -Satanaz! - -Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto--em quanto dentro o Ega -batia com as gavetas, lanÁando, a todo o desafinado da sua voz roufenha, -a _Barcarolla_ de Gounod. Quando appareceu, vinha de casaca, gravata -branca, enfiando o paletot--com o olho brilhante do _Champagne_. - -Desceram. O pagem l· estava · porta perfilado, ao pÈ do coupÈ de Carlos, -que esperara. E a sua fardeta azul de botıes amarellos, a magnifica -parelha baia reluzindo como um setim vivo, as pratas dos arreios, a -magestade do cocheiro louro com o seu ramo na librÈ, tudo alli fazia, -junto da ´Villa Balzacª, um quadro rico que deleitou o Ega. - ---A vida È agradavel, disse elle. - -O coupÈ partiu, ia entrar no largo da GraÁa, quando uma caleche de -praÁa, aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapÈo baixo -Ìa lendo um grande jornal. - ---… o Craft! gritou Ega, debruÁando-se pela portinhola. - -O coupÈ parou. Ega de um pulo estava na calÁada, correndo, bradando: - ---Oh Craft! oh Craft! - -Quando, d'ahi a um momento, sentiu duas vozes approximarem-se, Carlos -desceu tambem do coupÈ, achou-se em face d'um homem baixo, louro, de -pelle rosada e fresca, e apparencia fria. Sob o fraque correcto -percebia-se-lhe uma musculatura de athleta. - ---O Carlos, o Craft, gritou o Ega, lanÁando esta apresentaÁ„o com uma -simplicidade classica. - -Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a m„o. E Ega insistia para -que voltassem todos · Villa Balzac, fossem beber a outra garrafa de -_Champagne_, a celebrar o _advento do Justo_! Craft recusou, com o seu -modo calmo e placido; chegara na vespera do Porto, abraÁara j· o nobre -Ega, e aproveitava agora a viagem ·quelle bairro longinquo para ir vÍr o -velho Shlegen, um allem„o que vivia · Penha de FranÁa. - ---Ent„o outra cousa! exclamou Ega. Para conversarmos, para que vocÍs se -conheÁam mais, venham vocÍs jantar comigo amanh„ ao Hotel Central. Dito, -hein? Perfeitamente. ¡s seis. - -Apenas o coupÈ partiu de novo, Ega rompeu nas costumadas admiraÁıes pelo -Craft, encantado com aquelle encontro que dava mais um retoque luminoso -· sua alegria. O que o enthusiasmava no Craft era aquelle ar -imperturbavel de gentleman correcto, com que elle egualmente jogaria uma -partida de bilhar, entraria n'uma batalha, arremetteria com uma mulher, -ou partiria para a Patagonia... - ---… das melhores cousas que tem Lisboa. Vaes-te morrer por elle... E que -casa que elle tem nos Olivaes, que sublime bric-a-brac! - -Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma ruga na testa: - ---Como diabo soube elle da _Villa Balzac_? - ---Tu n„o fazes segredo d'ella, hein? - ---N„o... Mas tambem n„o a puz nos annuncios! E o Craft chegou hontem, -ainda n„o esteve com ninguem que eu conheÁa... … curioso! - ---Em Lisboa sabe-se tudo... - ---Canalha de terra! murmurou Ega. - - -O jantar no Central foi addiado, porque o Ega, alargando pouco a pouco a -idÈa, convertera-o agora n'uma festa de ceremonia em honra do Cohen. - ---Janto l· muitas vezes, disse elle a Carlos, estou l· todas as -noites... … necessario repagar a hospitalidade... Um jantar no Central È -o que basta. E para o effeito moral, pespego-lhe · meza o marquez e a -besta do Steinbroken. O Cohen gosta de gente assim... - -Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marquez partira para a -Golleg„, e o pobre Steinbroken estava soffrendo d'um incommodo de -entranhas. Ega pensou no Cruges e no Taveira--mas receiou a cabelleira -desleixada do Cruges, e alguns dos seus ataques de amargo _spleen_ que -estragaria o jantar. Terminou por convidar dois intimos do Cohen; mas -teve ent„o de supprimir o Taveira, que estava de mal com um d'esses -cavalheiros por palavras que tinham trocado em casa da ´Lola gordaª. - -Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda feira, Ega -teve uma conferencia com o _maitre de hotel_ do Central, em que lhe -recommendou muita flÙr, dois ananazes para enfeitar a meza, e exigiu que -um dos pratos do _menu_, qualquer d'elles, fosse _‡ la Cohen_; e elle -mesmo suggeriu uma idÈa: _tomates farcies ‡ la Cohen_... - -N'essa tarde, ·s seis horas, Carlos, ao descer a rua do Alecrim para o -Hotel Central, avistou Craft dentro da loja de bric-a-brac do tio -Abrah„o. - -Entrou. O velho judeo, que estava mostrando a Craft uma falsa faienÁa do -Rato, arrancou logo da cabeÁa o sujo barrete de borla, e ficou curvado -em dois, diante de Carlos, com as duas m„os sobre o coraÁ„o. - -Depois, n'uma linguagem exotica, misturada d'inglez, pediu ao seu bom -senhor D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seu _beautiful -gentleman_, que se dignasse examinar uma maravilhasinha que lhe tinha -reservada; e o seu muito _generous gentleman_ tinha sÛ a voltar os -olhos, a maravilhasinha estava alli ao lado, n'uma cadeira. Era um -retrato d'hespanhola, apanhado a fortes brochadellas de primeira -impress„o, e pondo, sobre um fundo audaz de cÙr de rosa murcha, uma face -gasta de velha garÁa, picada das bexigas, cai·da, ressudando vicio, com -um sorriso bestial que promettia tudo. - -Carlos, tranquillamente, offereceu dez tostıes. Craft pasmou d'uma tal -prodigalidade; e o bom Abrah„o, n'um riso mudo que lhe abria entre a -barba grisalha uma grande boca d'um sÛ dente, saboreou muito a ´chalaÁa -dos seus ricos senhores.ª Dez tostıesinhos! Se o quadrinho tivesse por -baixo o nomesinho de Fortuny, valia dez continhos de rÈis. Mas n„o tinha -esse nomesinho bemdito... Ainda assim valia dez notasinhas de vinte mil -rÈis... - ---Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma! exclamou Carlos. - -E sahiram, deixando o velho intruj„o · porta, curvado em dois, com as -m„os sobre o coraÁ„o, desejando mil felicidades aos seus generosos -fidalgos... - ---N„o tem uma unica cousa boa, este velho Abrah„o, disse Carlos. - ---Tem a filha, disse o Craft. - -Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja. Ent„o, a proposito do -Abrah„o, fallou a Craft d'essas bellas collecÁıes dos Olivaes, que o -Ega, apesar do desdem que affectava pelo _bibelot_ e pelo movel d'arte, -lhe descrevera como sublimes. - -Craft encolheu os hombros. - ---O Ega n„o entende nada. Mesmo em Lisboa, n„o se pÛde chamar ao que eu -tenho uma collecÁ„o. … um bric-a-brac d'acaso... De que, de resto, me -vou desfazer! - -Isto surprehendeu Carlos. Comprehendera das palavras do Ega ser essa uma -collecÁ„o formada com amor, no laborioso decurso de annos, orgulho e -cuidado d'uma existencia de homem... - -Craft sorrio d'aquella legenda. A verdade era que sÛ em 1872, elle -comeÁara a interessar-se pelo bric-a-brac; chegava ent„o da America do -Sul; e o que fora comprando, descobrindo aqui e alÈm, accumulara-o -n'essa casa dos Olivaes, alugada ent„o por phantasia, uma manh„ que -aquelle pardieiro, com o seu bocado de quintal em redor, lhe parecera -pittoresco, sob o sol de abril. Mas agora se podesse desfazer-se do que -tinha, ia dedicar-se ent„o a formar uma collecÁ„o homogenea e compacta -d'arte do seculo desoito. - ---Aqui nos Olivaes? - ---N„o. N'uma quinta que tenho ao pÈ do Porto, junto mesmo ao rio. - -Entravam ent„o no peristilo do Hotel Central--e n'esse momento um coupÈ -da Companhia, chegando a largo trote do lado da rua do Arsenal, veiu -estacar · porta. - -Um esplendido preto, j· grisalho, de casaca e calÁ„o, correu logo · -portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, -passou-lhe para os braÁos uma deliciosa cadelinha escosseza, de pellos -esguedelhados, finos como seda e cÙr de prata; depois apeando-se, -indolente e _poseur_, offereceu a m„o a uma senhora alta, loura, com um -meio vÈo muito apertado e muito escuro que realÁava o explendor da sua -carnaÁ„o eburnea. Craft e Carlos affastaram-se, ella passou diante -d'elles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, -deixando atraz de si como uma claridade, um reflexo de cabellos d'ouro, -e um aroma no ar. Trazia um casaco collante de velludo branco de Genova, -e um momento sobre as lages do peristillo brilhou o verniz das suas -bottinas. O rapaz ao lado, esticado n'um fato de xadresinho inglez, -abria negligentemente um telegramma; o preto seguia com a cadelhinha nos -braÁos. E no silencio a voz de Craft murmurou: - ---_TrÈs chic_. - -Em cima, no gabinete que o creado lhes indicou, Ega esperava, sentado no -divan de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado -como um noivo de provincia, de camelia ao peito e plastron azul celeste. -O Craft conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o sr. Damaso SalcÍde, e -mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse -requinte litterario e satanico do _absintho_... - -FÙra um dia d'inverno suave e luminoso, as duas janellas estavam ainda -abertas. Sobre o rio, no cÈu largo, a tarde morria, sem uma aragem, -n'uma paz elysea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas de cÙr -de rosa; as terras, os longes da outra banda j· se iam affogando n'um -vapor avelludado, do tom de violeta; a agoa jazia liza e luzidia como -uma bella chapa d'aÁo novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro, -grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraÁados -inglezes, dormiam, com as mastreaÁıes immoveis, como tomados de -preguiÁa, cedendo ao affago do clima doce... - ---Vimos agora l· em baixo, disse Craft indo sentar-se no divan, uma -esplendida mulher, com uma esplendida cadellinha _griffon_, e servida -por um esplendido preto! - -O sr. Damaso SalcÍde, que n„o despegava os olhos de Carlos, acudiu logo: - ---Bem sei! Os Castro Gomes... ConheÁo-os muito... Vim com elles de -Bordeus... Uma gente muito chic que vive em Paris. - -Carlos voltou-se, reparou mais n'elle, perguntou-lhe, affavel e -interessando-se: - ---O senhor SalcÍde chegou agora de Bordeus? - -Estas palavras pareceram deleitar Damaso como um favor celeste: -ergueu-se immediatamente, approximou-se do Maia, banhado n'um sorriso: - ---Vim aqui ha quinze dias, no _Orenoque_. Vim de Paris... Que eu em -podendo È l· que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordeus. Isto È, -verdadeiramente conheci-a a bordo. Mas estavamos todos no _Hotel de -Nantes_... Gente muito chic: creado de quarto, governanta ingleza para a -filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chic a valer! Parece -incrivel, uns brazileiros... Que ella na voz n„o tem _sutaque_ nenhum, -falla como nÛs. Elle sim, elle muito _sutaque_... Mas elegante tambem, -v. ex.^a n„o lhe pareceu? - ---Vermouth? perguntou-lhe o creado, offerecendo a salva. - ---Sim, uma gotinha para o appetite. V. ex.^a n„o toma, sr. Maia? Pois -eu, assim que posso, È direitinho para Paris! Aquillo È que È terra! -Isto aqui È um chiqueiro... Eu, em n„o indo l· todos os annos, acredite -v. ex.^a, atÈ comeÁo a andar doente. Aquelle _boulevarsinho_, hein!... -Ai, eu goso aquillo!... E sei gosar, sei gosar, que eu conheÁo aquillo a -palmo... Tenho atÈ um tio em Paris. - ---E que tio! exclamou Ega, approximando-se. Intimo do Gambetta, governa -a FranÁa... O tio do Damaso governa a FranÁa, menino! - -Damaso, escarlate, estourava de gÙso. - ---Ah, l· isso influencia tem. Intimo do Gambetta, tratam-se por tu, atÈ -vivem quasi juntos... E n„o È sÛ com o Gambetta; È com o Mac-Mahon, com -o Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os -republicanos, emfim!... … tudo quanto elle queira. V. ex.^a n„o o -conhece? … um homem de barbas brancas... Era irm„o de minha m„e, -chama-se Guimar„es. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran... - -N'esse momento a porta envidraÁada abriu-se de golpe, Ega exclamou: -´Saude ao poetaª! - -E appareceu um individuo muito alto, todo abotoado n'uma sobrecasaca -preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz -aquilino, longos, espessos, romanticos bigodes grisalhos: j· todo calvo -na frente, os anneis fÙfos d'uma grenha muito secca cahiam-lhe -inspiradamente sobre a golla: e em toda a sua pessoa havia alguma cousa -de antiquado, de artificial e de lugubre. - -Estendeu silenciosamente dous dedos ao Damaso, e abrindo os braÁos -lentos para Craft, disse n'uma voz arrastada, cavernosa, atheatrada: - ---Ent„o Ès tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? D·-me c· esses -ossos honrados, honrado inglez! - -Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os: - ---N„o sei se s„o relaÁıes. Carlos da Maia... Thomaz d'Alencar, o nosso -poeta... - -Era elle! o illustre cantor das _Vozes d'Aurora_, o estylista de -_Elvira_, o dramaturgo do _Segredo do Commendador_. Deu dois passos -graves para Carlos, esteve-lhe apertando muito tempo a m„o em -silencio--e sensibilisado, mais cavernoso: - ---V. ex.^a, j· que as etiquetas sociaes querem que eu lhe dÍ -excellencia, mal sabe a quem apertou agora a m„o... - -Carlos, surprehendido, murmurou: - ---Eu conheÁo muito de nome... - -E o outro com o olho cavo, o labio tremulo: - ---Ao camarada, ao inseparavel, ao intimo de Pedro da Maia, do meu pobre, -do meu valente Pedro! - ---Ent„o, que diabo, abracem-se! gritou Ega. Abracem-se, com um berro, -segundo as regras... - -Alencar j· tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou, -retomando-lhe as m„os, sacudindo-lh'as, com uma ternura ruidosa: - ---E deixemo-nos j· de excellencias! que eu vi-te nascer, meu rapaz! -trouxe-te muito ao collo! sujaste-me muita calÁa! Co'os diabos, d· c· -outro abraÁo! - -Craft olhava estas cousas vehementes, impassivel; Damaso parecia -impressionado; Ega apresentou um copo de _vermouth_ ao poeta: - ---Que grande scena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para te recuperares da -emoÁ„o... - -Alencar esgotou-o d'um trago: e declarou aos amigos que n„o era a -primeira vez que via Carlos. J· o admirara no seu phaeton, muitas vezes, -e aos seus bellos cavallos inglezes. Mas n„o se quizera dar a conhecer. -Elle nunca se atirava aos braÁos de ninguem, a n„o ser das mulheres... -Foi encher outro calice de _vermouth_, e com elle na m„o, plantado -diante de Carlos, comeÁou, n'um tom pathetico: - ---A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estava eu no -Rodrigues, esquadrinhando alguma d'essa velha litteratura, hoje t„o -despresada... Lembro-me atÈ que era um volume das _Eclogas_ do nosso -delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da natureza, esse -rouxinol t„o portuguez, hoje, est· claro, mettido a um canto, desde que -para ahi appareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros -esterquilinios em _ismo_... N'esse momento passaste, disseram-me quem -eras, e cahiu-me o livro da m„o... Fiquei alli uma hora, acredita, a -pensar, a rever o passado... - -E atirou o _vermouth_ ·s goellas. Ega, impaciente, olhava o relogio. Um -creado, entrando, accendeu o gaz; a mesa surgiu da penumbra, com um -brilho de cristaes e louÁas, um luxo de camelias em ramos. - -No entanto Alencar (que · luz viva parecia mais gasto e mais velho) -comeÁara uma grande historia, e como fÙra elle o primeiro que vira -Carlos depois de nascer, e como fÙra elle que lhe dera o nome. - ---Teu pae, dizia elle, o meu Pedro, queria-te pÙr o nome d'Affonso, -d'esse santo, d'esse var„o d'outras edades, Affonso da Maia! Mas tua m„e -que tinha l· as suas idÈas teimou em que havias de ser Carlos. E -justamente por causa d'um romance que eu lhe emprest·ra; n'esses tempos -podiam-se emprestar romances a senhoras, ainda n„o havia a pustula e o -puz... Era um romance sobre o ultimo Stuart, aquelle bello typo do -principe Carlos Eduardo, que vocÍs, filhos, conhecem todos bem, e que na -Escossia, no tempo de Luiz XIV... Emfim, adiante! Tua m„e, devo dizel-o, -tinha litteratura e da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre, -n'esse tempo eu era _alguem_, e lembro-me de lhe ter respondido... -(Lembro-me apesar de j· l· irem vinte e cinco annos... Que digo eu? -Vinte e sete! Vejam vocÍs isto, filhos, vinte e sete annos!) Emfim, -voltei-me para tua m„e, e disse-lhe, palavras textuaes: ´Ponha-lhe o -nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que È o -verdadeiro nome para o frontespicio d'um poema, para a fama d'um -heroismo ou para o labio d'uma mulher!ª - -Damaso, que continuava a admirar Carlos, deu _bravos_ estrondosos; Craft -bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de -relogio na m„o, soltou de l· um _muito bem_ desenxabido. - -Alencar, radiante com o seu effeito, derramava em roda um sorriso que -lhe mostrava os dentes estragados. AbraÁou outra vez Carlos, atirou uma -palmada ao coraÁ„o, exclamou: - ---Caramba, filhos, sinto uma luz c· dentro! - -A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-se logo da -sua demora--emquanto Ega, que se precipitara para elle, lhe ajudava a -despir o palletot. Depois apresentou-o a Carlos--a unica pessoa alli de -quem o Cohen n„o era intimo. E dizia, tocando o bot„o da campainha -electrica: - ---O marquez n„o pÙde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coitado, est· -com a sua gÙtta, a gÙtta de diplomata, de lord e de banqueiro... A gÙtta -que tu has de ter, velhaco! - -Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suissas t„o pretas e -luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria, descalÁando as luvas, -dizendo, que, segundo os inglezes, havia tambem a gÙtta de gente pobre; -e era essa naturalmente a que lhe competia a elle... - -Ega, no entanto, travara-lhe do braÁo, collocara-o preciosamente · mesa, -· sua direita: depois offereceu-lhe um bot„o de camelia d'um ramo: o -Alencar florio-se tambem--e os creados serviram as ostras. - -Fallou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impressionava -Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado · navalha por uma companheira, -vindo morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma -viella em sangue--uma _sarrabulhada_ como disse o Cohen, sorrindo e -provando o Bucellas. - -Damaso teve a satisfaÁ„o de poder dar detalhes; conhecera a rapariga, a -que dera as facadas, quando ella era amante do visconde da Ermidinha... -Se era bonita? Muito bonita. Umas m„os de duqueza... E como aquillo -cantava o _fado_! O peior era que mesmo no tempo do visconde, quando -ella era chic, j· se empiteirava... E o visconde, honra lhe seja, nunca -lhe perdera a amisade; respeitava-a, mesmo depois de casado Ìa vel-a, e -tinha-lhe promettido que se ella quizesse deixar o _fado_ lhe punha uma -confeitaria para os lados da SÈ. Mas ella n„o queria. Gostava d'aquillo, -do Bairro Alto, dos cafÈs de _lepes_, dos chulos... - -Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um -romance... Isto levou logo a fallar-se do _Assommoir_, de Zola e do -realismo:--e o Alencar immediatmente, limpando os bigodes dos pingos de -sÙpa, supplicou que se n„o discutisse, · hora aceada do jantar, essa -litteratura _latrinaria_. Alli todos eram homens d'aceio, de sala, hein? -Ent„o, que se n„o mencionasse o _excremento_! - -Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados -a milhares de ediÁıes; essas rudes analyses, apoderando-se da Egreja, da -Realeza, da Bureocracia, da FinanÁa, de todas as cousas santas, -dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a les„o, como a cadaveres -n'um amphitheatro; esses estylos novos, t„o precisos e t„o ducteis, -apanhando em flagrante a linha, a cÙr, a palpitaÁ„o mesma da vida; tudo -isso (que elle, na sua confus„o mental, chamava a _IdÈa nova_) caindo -assim de chofre e escangalhando a cathedral romantica, sob a qual tantos -annos elle tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado o pobre -Alencar e tornara-se o desgosto litterario da sua velhice. Ao principio -reagiu. ´Para pÙr um dique definitivo · torpe marȪ, como elle disse em -plena Academia, escreveu dois folhetins crueis; ninguem os leu; a ´marÈ -torpeª alastrou-se, mais profunda, mais larga. Ent„o Alencar refugiou-se -na _moralidade_ como n'uma rocha solida. O naturalismo, com as suas -alluviıes de obscenidade, ameaÁava corromper o pudor social? Pois bem. -Elle, Alencar, seria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes. -Ent„o o poeta das _Vozes d'Aurora_, que durante vinte annos, em -canÁoneta e ode, propozera commercios lubricos a todas as damas da -capital; ent„o o romancista de _Elvira_ que, em novella e drama, fizera -a propaganda do amor illegitimo, representando os deveres conjugaes como -montanhas de tedio, dando a todos os maridos formas gordurosas e -bestiaes, e a todos os amantes a belleza, o esplendor e o genio dos -antigos Apollos; ent„o Thomaz Alencar que (a acreditarem-se as -confissıes autobiographicas da _FlÙr de Martyrio_) passava elle proprio -uma existencia medonha de adulterios, lubricidades, orgias, entre -velludos e vinhos de Chypre--d'ora em diante austero, incorruptivel, -todo elle uma torre de pudicicia, passou a vigiar attentamente o jornal, -o livro, o theatro. E mal lobrigava symptomas nascentes de realismo n'um -beijo que estalava mais alto, n'uma brancura de saia que se arregaÁava -de mais--eis o nosso Alencar que soltava por sobre o paiz um grande -grito de alarme, corria · penna, e as suas imprecaÁıes lembravam (a -academicos faceis de contentar) o rugir de Isaias. Um dia porÈm, Alencar -teve uma d'estas revelaÁıes que prostram os mais fortes; quanto mais -elle denunciava um livro como immoral, mais o livro se vendia como -agradavel! O Universo pareceu-lhe cousa torpe, e o auctor de _Elvira_ -encavacou... - -Desde ent„o reduziu a express„o do seu rancor ao minimo, a essa phrase -curta, lanÁada com nojo: - ---Rapazes, n„o se mencione o _excremento_! - -Mas n'essa noite teve o regosijo de encontrar alliados. Craft n„o -admittia tambem o naturalismo, a realidade feia das cousas e da -sociedade estatelada nua n'um livro. A arte era uma idealisaÁ„o! Bem: -ent„o que mostrasse os typos superiores d'uma humanidade aperfeiÁoada, -as fÛrmas mais bellas do viver e do sentir... Ega horrorisado apertava -as m„os na cabeÁa--quando do outro lado Carlos declarou que o mais -intoleravel no realismo eram os seus grandes ares scientificos, a sua -pretenciosa esthetica deduzida d'uma philosophia alheia, e a invocaÁ„o -de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e -de Darwin, a proposito d'uma lavadeira que dorme com um carpinteiro! - -Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do -realismo estava em ser ainda pouco scientifico, inventar enredos, crear -dramas, abandonar-se · phantasia litteraria! a fÛrma pura da arte -naturalista devia ser a monographia, o estudo secco d'um typo, d'um -vicio, d'uma paix„o, tal qual como se se tratasse d'um caso pathologico, -sem pittoresco e sem estylo!... - ---Isso È absurdo, dizia Carlos, os caracteres sÛ se podem manifestar -pela acÁ„o... - ---E a obra d'arte, accrescentou Craft, vive apenas pela fÛrma... - -Alencar interrompeu-os, exclamando que n„o eram necessarias tantas -philosophias. - ---VocÍs est„o gastando cÍra com ruins defuntos, filhos. O realismo -critica-se d'este modo: m„o no nariz! Eu quando vejo um d'esses livros, -enfrasco-me logo em agua de colonia. N„o discutamos o _excremento_. - ---_Sole normande_? perguntou-lhe o creado, adiantando a travessa. - -Ega Ìa fulminal-o. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e -superior a estas controversias de litteraturas, calou-se; occupou-se sÛ -d'elle, quiz saber que tal elle achava aquelle S.^t Emilion; e, quando o -viu confortavelmente servido de _sole normande_, lanÁou com grande -alarde de interesse esta pergunta: - ---Ent„o, Cohen, diga-nos vocÍ, conte-nos c·... O emprestimo faz-se ou -n„o se faz? - -E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquella quest„o do -emprestimo era grave. Uma operaÁ„o tremenda, um verdadeiro episodio -historico!... - -O Cohen collocou uma pitada de sal · beira do prato, e respondeu, com -auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar _absolutamente_. Os -emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, t„o -regular, t„o indispensavel, t„o sabida como o imposto. A unica occupaÁ„o -mesmo dos ministerios era esta--_cobrar o imposto_ e _fazer o -emprestimo_. E assim se havia de continuar... - -Carlos n„o entendia de finanÁas: mas parecia-lhe que, d'esse modo, o -paiz ia alegremente e lindamente para a _banca-rota_. - ---N'um galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen, -sorrindo. Ah, sobre isso, ninguem tem illusıes, meu caro senhor. Nem os -proprios ministros da fazenda!... A _banca-rota_ È inevitavel: È como -quem faz uma somma... - -Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos -escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o calice de novo, fincara -os cotovellos na meza para lhe beber melhor as palavras. - ---A _banca-rota_ È t„o certa, as cousas est„o t„o dispostas para -ella--continuava o Cohen--que seria mesmo facil a qualquer, em dois ou -tres annos, fazer fallir o paiz... - -Ega gritou sofregamente pela _receita_. Simplesmente isto: manter uma -agitaÁ„o revolucionaria constante; nas vesperas de se lanÁarem os -emprestimos haver duzentos maganıes decididos que cahissem · pancada na -municipal e quebrassem os candieiros com vivas · Republica; telegraphar -isto em letras bem gordas para os jornaes de Paris, Londres e do Rio de -Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro, e a _banca-rota_ -estalava. SÛmente, como elle disse, isto n„o convinha a ninguem. - -Ent„o Ega protestou com vehemencia. Como n„o convinha a ninguem? Ora -essa! Era justamente o que convinha a todos! ¡ _banca-rota_ seguia-se -uma revoluÁ„o, evidentemente. Um paiz que vive da _inscripÁ„o_, em n„o -lh'a pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou -procedendo apenas por vinganÁa--o primeiro cuidado que tem È varrer a -monarchia que lhe representa o _calote_, e com ella o crasso pessoal do -constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha divida, -da velha gente, d'essa collecÁ„o grotesca de bestas... - -A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados de _grotescos_, de -_bestas_, os homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou -a m„o no braÁo do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, elle -era o primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia -mediocres e patetas,--mas tambem homens de grande valor! - ---Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de experiencia. VocÍ deve -reconhecel-o, Ega... VocÍ È muito exagerado! N„o senhor, ha talento, ha -saber. - -E, lembrando-se que algumas d'essas _bestas_ eram amigos do Cohen, Ega -reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porÈm cofiava sombriamente o -bigode. Ultimamente pendia para idÈas radicaes, para a democracia -humanitaria de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas -letras, refugiava-se no romantismo politico, como n'um asylo paralello: -queria uma republica governada por genios, a fraternisaÁ„o dos povos, os -Estados Unidos da Europa... AlÈm d'isso, tinha longas queixas d'esses -politiquotes, agora gente de Poder, outr'ora seus camaradas de redacÁ„o, -de cafÈ e de _batota_... - ---Isso, disse elle, l· a respeito de talento e de saber, historias... Eu -conheÁo-os bem, meu Cohen... - -O Cohen acudiu: - ---N„o senhor, Alencar, n„o senhor! VocÍ tambem È dos taes... AtÈ lhe -fica mal dizer isso... … exageraÁ„o. N„o senhor, ha talento, ha saber. - -E o Alencar, peranta esta intimaÁ„o do Cohen, o respeitado director do -_Banco Nacional_, o marido da divina Rachel, o dono d'essa hospitaleira -casa da rua do Ferregial onde se jantava t„o bem, recalcou o -despeito--admittiu que n„o deixava de haver talento e saber. - -Ent„o, tendo assim, pela influencia do seu Banco, dos bellos olhos da -sua mulher e da excellencia do seu cosinheiro, chamado estes espiritos -rebeldes ao respeito dos Parlamentares e · veneraÁ„o da Ordem, Cohen -condescendeu em dizer, no tom mais suave da sua voz, que o paiz -necessitava reformas... - -Ega porÈm, incorrigivel n'esse dia, soltou outra enormidade: - ---Portugal n„o necessita refÛrmas, Cohen, Portugal o que precisa È a -invas„o hespanhola. - -Alencar, patriota ‡ antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso -indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, vio -alli apenas ´um dos paradoxos do nosso Ega.ª Mas o Ega fallava com -seriedade, cheio de razıes. Evidentemente, dizia elle, invas„o n„o -significa perda absoluta de independencia. Um receio t„o estupido È -digno sÛ de uma sociedade t„o estupida como a do _Primeiro de Dezembro_. -N„o havia exemplo de seis milhıes de habitantes serem engolidos, de um -sÛ trago, por um paiz que tem apenas quinze milhıes de homens. Depois -ninguem consentiria em deixar cahir nas m„os de Hespanha, naÁ„o militar -e maritima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as -allianÁas que teriamos, a troco das colonias--das colonias que sÛ nos -servem, como a prata de familia aos morgados arruinados, para ir -empenhando em casos de crise... N„o havia perigo; o que nos aconteceria, -dada uma invas„o, n'um momento de guerra europea, seria levarmos uma -sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisaÁ„o, perdermos uma ou duas -provincias, ver talvez a Galliza estendida atÈ ao Douro... - ---_Poulet aux champignons_, murmurou o creado, apresentando-lhe a -travessa. - -E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a -_salvaÁ„o do paiz_, n'essa catastrophe que tornaria povoaÁ„o hespanhola -Celorico de Basto, a nobre Celorico, berÁo de heroes, berÁo dos Egas... - ---N'isto: no ressuscitar do espirito publico e do genio portuguez! -Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um -esforÁo desesperado para viver. E em que bella situaÁ„o nos achavamos! -Sem monarchia, sem essa caterva de politicos, sem esse tortulho da -_inscripÁ„o_, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha, -limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeÁava-se -uma historia nova, um outro Portugal, um Portugal serio e intelligente, -forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilisaÁ„o como -outr'ora... Meninos, nada regenera uma naÁ„o como uma medonha tarÍa... -Oh Deus d'Ourique, manda-nos o castelhano! E vocÍ, Cohen, passe-me o -S.^t Emilion. - -Agora, n'um rumor animado, discutia-se a invas„o. Ah, podia-se fazer uma -bella resistencia! Cohen affianÁava o dinheiro. Armas, artilheria, iam -comprar-se · America--e Craft offereceu logo a sua collecÁ„o de espadas -do seculo XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia -estar barato... - ---O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega. - ---¡s ordens, meu coronel. - ---O Alencar, continuava Ega, È encarregado de ir despertar pela -provincia o patriotismo, com cantos e com odes! - -Ent„o o poeta, pousando o calice, teve um movimento de le„o que sacode a -juba: - ---Isto È uma velha carcassa, meu rapaz, mas n„o est· sÛ para odes! Ainda -se agarra uma espingarda, e como a pontaria È boa, ainda v„o a terra um -par de gallegos... Caramba, rapazes, sÛ a idÈa d'essas cousas me pıe o -coraÁ„o negro! E como vocÈs podem fallar n'isso, a rir, quando se trata -do paiz, d'esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja m·, de -accordo, mas, caramba! È a unica que temos, n„o temos outra! … aqui que -vivemos, È aqui que rebentamos... Irra, fallemos d'outra cousa, fallemos -de mulheres! - -Dera um repell„o ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paix„o -patriotica... - -E no silencio que se fez Damaso, que desde as informaÁıes sobre a -rapariga do Ermidinha emmudecera, occupado a observar Carlos com -religi„o, ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de -finura: - ---Se as cousas chegassem a esse ponto, se pozessem assim feias, eu c·, · -cautela, Ìa-me raspando para Paris... - -Ega triumphou, pulou de gosto na cadeira. Eis alli, no labio synthetico -de Damaso, o grito espontaneo e genuino do brio portuguez! Raspar-se, -pirar-se!... Era assim que d'alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa, -a malta constitucional, desde El-Rei nosso Senhor atÈ aos cretinos de -secretaria!... - ---Meninos, ao primeiro soldado hespanhol que appareÁa · fronteira, o -paiz em massa foge como uma lebre! Vae ser uma debandada unica na -historia! - -Houve uma indignaÁ„o, Alencar gritou: - ---Abaixo o traidor! - -Cohen interveiu, declarou que o soldado portuguez era valente, · maneira -dos turcos--sem disciplina, mas teso. O proprio Carlos disse, muito -serio: - ---N„o senhor... Ninguem ha de fugir, e ha de se morrer bem. - -Ega rugiu. Para quem estavam elles fazendo essa _pose_ heroica? Ent„o -ignoravam que esta raÁa, depois de cincoenta annos de -constitucionalismo, creada por esses saguıes da Baixa, educada na -piolhice dos lyceus, roÌda de syphlis, apodrecida no bolÙr das -secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o -musculo como perdera o caracter, e era a mais fraca, a mais covarde raÁa -da Europa?... - ---Isso s„o os lisboetas, disse Craft. - ---Lisboa È Portugal, gritou o outro. FÛra de Lisboa n„o ha nada. O paiz -est· todo entre a Arcada e S. Bento!... - -A mais miseravel raÁa da Europa! continuava elle a berrar. E que -exercito! Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em -massa no hospital! Com seus olhos tinha elle visto, no dia da abertura -das CÙrtes, um marujo sueco, um rapag„o do Norte, fazer debandar, a -soccos, uma companhia de soldados; as praÁas tinham litteralmente -largado a fugir, com a patrona a batter-lhe os rins; e o official, -enfiado de terror, metteu-se para uma escada, a vomitar!... - -Todos protestaram. N„o, n„o era possivel... Mas se elle tinha visto, que -diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos fallazes da phantasia... - ---Juro pela saude da mam„! gritou Ega furioso. - -Mas emmudeceu. O Cohen tocara-lhe no braÁo. O Cohen Ìa fallar. - -O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os hespanhoes -porÈm pensassem na invas„o isso parecia-lhe certo--sobretudo se viessem, -como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lh'o dissera. J· -havia mesmo negocios de fornecimentos entabolados... - ---Hespanholadas, gallegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e -torcendo os bigodes. - ---No _Hotel de Paris_, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um -magistrado, que me disse com um certo ar que n„o perdia a esperanÁa de -se vir estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa, -quando c· estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que ha muitos -hespanhoes que est„o · espera d'este augmento de territorio para se -empregarem! - -Ent„o Ega cahiu em extasi, apertou as m„os contra o peito. Oh que -delicioso traÁo! Oh que admiravelmente observado! - ---Este Cohen! exclamava elle para os lados. Que finamente observado! Que -traÁo adoravel! Hein, Craft? Hein, Carlos? Delicioso! - -Todos cortezmente admiraram a finura do Cohen. Elle agradecia, com o -olho enternecido, passando pelas suissas a m„o onde reluzia um diamante. -E n'esse momento os creados serviam um prato de ervilhas n'um molho -branco, murmurando: - ---_Petits pois a la Cohen_. - -_A la Cohen?_ Cada um verificou o seu _menu_ mais attentamente. E l· -estava, era o legume: _petits pois a la Cohen!_ Damaso, enthusiasmado, -declarou isto ´chic a valer!ª E fez-se, com o Champagne que se abria, a -primeira saude ao Cohen! - -Esquecera-se a banca rota, a invas„o, a patria--o jantar terminava -alegremente. Outras _saudes_ crusaram-se, ardentes e loquazes: o proprio -Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de creanÁa, bebeu · -RevoluÁ„o e · Anarchia, brinde complicado, que o Ega erguera, j· com o -olho muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremeza alastrava-se, -destroÁada; no prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a -bocados de ananaz mastigado. Damaso, todo debruÁado sobre Carlos, -fazia-lhe o elogio da parelha ingleza, e d'aquelle _phaeton_ que era a -cousa mais linda que passeiava Lisboa. E logo depois do seu brinde de -demagogo, sem raz„o, Ega arremettera contra Craft, injuriando a -Inglaterra, querendo excluil-a d'entre as naÁıes pensantes, ameaÁando-a -de uma revoluÁ„o social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com -acenos de cabeÁa, imperturbavel, partindo nozes. - -Os creados serviram o cafÈ. E como havia j· tres longas horas que -estavam · meza, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na -animaÁ„o viva que dera o _Champagne_. A sala, de tecto baixo, com os -cinco bicos de gaz ardendo largamente, enchera-se de um calor pesado, -onde se ia espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores -por entre a nevoa alvadia do fumo. - -Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e ahi -recomeÁou logo, n'aquella communidade de gostos que os comeÁava a ligar, -a conversa da rua do Alecrim sobre a bella collecÁ„o dos Olivaes. Craft -dava detalhes; a cousa rica e rara que tinha era um armario hollandez do -seculo XVI; de resto, alguns bronzes, faianÁas e boas armas... - -Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto · meza, -estridencias de voz, e como um conflicto que rompia: Alencar, sacudindo -a grenha, gritava contra a _palhada philosophica_; e do outro lado, com -o calice de cognac na m„o, Ega, pallido e affectando uma tranquillidade -superior, declarava toda essa babuge lyrica que por ahi se publica digna -da policia correccional... - ---Pegaram-se outra vez, veiu dizer Damaso a Carlos, approximando-se da -varanda. … por causa do Craveiro. Est„o ambos divinos! - -Era com effeito a proposito de poesia moderna, de Sim„o Craveiro, do seu -poema a _Morte de Satanaz_. Ega estivera citando, com enthusiasmo, -estrophes do episodio da _Morte_, quando o grande esqueleto symbolico -passa em pleno sol no Boulevard, vestido como uma cocotte, arrastando -sedas rumorosas - - - ´E entre duas costellas, no decotte, - Tinha um bouquet de rosas!ª - - -E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da _IdÈa nova_, o -paladino do Realismo, triumphara, cascalhara, denunciando logo n'essa -simples estrophe dois erros de grammatica, um verso errado, e uma imagem -roubada a Beaudelaire! - -Ent„o Ega, que bebera um sobre outro dois calices de cognac, tornou-se -muito provocante, muito pessoal. - ---Eu bem sei por que tu fallas, Alencar, dizia elle agora. E o motivo -n„o È nobre. … por causa do epigramma que elle te fez: - - - O Alencar d'Alemquer, - Acceso com a primavera... - - ---Ah, vocÍs nunca ouviram isto? continuou elle voltando-se, chamando os -outros. … delicioso, È das melhores cousas do Craveiro. Nunca ouviste, -Carlos? … sublime, sobre tudo esta estrophe: - - - O Alencar d'Alemquer - Que quer? Na verde campina - N„o colhe a tenra bonina - Nem consulta o malmequer... - Que quer? Na verde campina - O Alencar d'Alemquer - Quer menina! - - -Eu n„o me lembro do resto, mas termina com um grito de bom senso, que È -a verdadeira critica de todo esse lyrismo pandilha: - - - O Alencar d'Alemquer - Quer cacete! - - -Alencar passou a m„o pela testa livida, e com o olho cavo fito no outro, -a voz rouca e lenta: - ---Olha, Jo„o da Ega, deixa-me dizer-te uma cousa, meu rapaz... Todos -esses epigrammas, esses dichotes lorpas do rachitico e dos que o -admiram, passam-me pelos pÈs como um enxurro de cloaca... O que faÁo È -arregaÁar as calÁas! ArregaÁo as calÁas... Mais nada, meu Ega. ArregaÁo -as calÁas! - -E arregaÁou-as realmente, mostrando a ceroula, n'um gesto brusco e de -delirio. - ---Pois quando encontrares enchurros d'esses, gritou-lhe o Ega, agacha-te -e bebe-os! D„o-te sangue e forÁa ao lyrismo! - -Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar: - ---Eu, se esse Craveirete n„o fosse um rachitico, talvez me entretivesse -a rolal-o aos pontapÈs por esse Chiado abaixo, a elle e · versalhada, a -essa lambisgonhice excrementicia com que seringou Satanaz! E depois de o -besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o craneo! - ---N„o se esborracham assim craneos, disse de l· o Ega n'um tom frio de -troÁa. - -Alencar voltou para elle uma face medonha. A colera e o cognac -incendiavam-lhe o olhar; todo elle tremia: - ---Esborrachava-lh'o, sim, esborrachava, Jo„o da Ega! Esborrachava-lh'o -assim, olha, assim mesmo!--Rompeu a atirar patadas ao soalho, abalando a -sala, fazendo tilintar crystaes e louÁas.--Mas n„o quero, rapazes! -Dentro d'aquelle craneo sÛ ha excremento, vomito, puz, materia verde, e -se lh'o esborrachasse, por que lh'o esborrachava, rapazes, todo o miollo -podre sahia, empestava a cidade, tinhamos o cholera! Irra! Tinhamos a -peste! - -Carlos, vendo-o t„o excitado, tornou-lhe o braÁo, quiz calmal-o: - ---Ent„o, Alencar! Que tolice... Isso vale l· a pena!... - -O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o -ultimo desabafo: - ---Com effeito, n„o vale a pena ninguem zangar-se por causa d'esse -Craveirote da _IdÈa nova_, esse caloteiro, que se n„o lembra que a porca -da irm„ È uma meretriz de doze vintens em Marco de Canavezes! - ---N„o, isso agora È de mais, pulha! gritou Ega, arremeÁando-se, de -punhos fechados. - -Cohen e Damaso, assustados, agarraram-n'o. Carlos puchara logo para o -v„o da janella o Alencar que se debatia, com os olhos chammejantes, a -gravata solta. Tinha cahido uma cadeira; a correcta sala, com os seus -divans de marroquim, os seus ramos de camelias, tomava um ar de taverna, -n'uma bulha de faias, entre a fumaraÁa de cigarros. Damaso, muito -pallido, quasi sem voz, Ìa d'um a outro: - ---Oh meninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no -Hotel Central!... - -E, d'entre os braÁos do Cohen, Ega berrava, j· rouco: - ---Esse pulha, esse covarde... Deixe-me, Cohen! N„o, isso hei de -esbofeteal-o!... A D. Anna Craveiro, uma santa!... Esse calumniador... -N„o, isso hei de esganal-o!... - -Craft, no entanto, impassivel, bebia aos golos a sua chartreuse. J· -presence·ra, mais vezes, duas litteraturas rivaes engalphinhando-se, -rolando no ch„o, n'um latir de injurias: a torpeza do Alencar sobre a -irm„ do outro fazia parte dos costumes de critica em Portugal: tudo isso -o deixava indifferente, com um sorriso de desdem. AlÈm d'isso sabia que -a reconciliaÁ„o n„o tardaria, ardente e com abraÁos. E n„o tardou. -Alencar sahiu do v„o da janella, atraz de Carlos, abotoando a -sobrecasaca, grave e como arrependido. A um canto da sala, Cohen fallava -ao Ega com auctoridade, severo, · maneira d'um pae: depois voltou-se, -ergueu a m„o, ergueu a voz, disse que alli todos eram cavalheiros: e -como homens de talento e de coraÁ„o fidalgo os dois deviam abraÁar-se... - ---V·, um _shake-hands_, Ega, faÁa isso por mim!... Alencar, vamos, -peÁo-lh'o eu! - -O auctor de _Elvira_ deu um passo, o auctor das _Memorias d'um Atomo_ -estendeu a m„o: mas o primeiro aperto foi gÙche e molle. Ent„o Alencar, -generoso e rasgado, exclamou que entre elle e o Ega n„o devia _ficar uma -nuvem!_ Tinha-se excedido... FÙra o seu desgraÁado genio, esse calor de -sangue, que durante toda a existencia sÛ lhe trouxera lagrimas! E alli -declarava bem alto que Anna Craveiro era uma santa! Tinha-a conhecido em -Marco de Canavezes, em casa dos Peixotos... Como esposa, como m„e, Anna -Craveiro era impeccavel. E reconhecia, do fundo d'alma, que o Craveiro -tinha carradas de talento!... - -Encheu um copo de _Champagne_, ergueu-o alto, diante do Ega, como um -calice de altar: - ---¡ tua, Jo„o! - -Ega, generoso tambem, respondeu: - ---¡ tua, Thomaz! - -AbraÁaram-se. Alencar jurou que ainda na vespera, em casa de D. Joanna -Coutinho, elle dissera que n„o conhecia ninguem mais scintillante que o -Ega! Ega affirmou logo que em poemas nenhuns corria, como nos do -Alencar, uma t„o bella veia lyrica. Apertaram-se outra vez, com palmadas -pelos hombros. Trataram-se de _irm„os na arte_, trataram-se de -_genios_!... - ---S„o extraordinarios, disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapÈo. -Desorganisam-me, preciso ar!... - -A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais cognac. Depois -Cohen sahiu levando o Ega. Damaso e Alencar desceram com Carlos--que ia -recolher a pÈ pelo Aterro. - -¡ porta, o poeta parou com solemnidade. - ---Filhos, exclamou elle tirando o chapÈo e refrescando largamente a -fronte, ent„o? Parece-me que me portei como um gentleman! - -Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade... - ---Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que È ser -gentleman! E agora vamos l· por esse Aterro fÛra... Mas deixa-me ir alli -primeiro comprar um pacote de tabaco... - ---Que typo! exclamou Damaso, vendo-o affastar-se. E a cousa Ìa-se pondo -feia... - -E immediatamente, sem transiÁ„o, comeÁou a fazer elogios a Carlos. O sr. -Maia n„o imaginava ha quanto tempo elle desejava conhecel-o! - ---Oh senhor... - ---Creia v. ex.^a... Eu n„o sou de sabujices... Mas pode v. ex.^a -perguntar ao Ega, quantas vezes o tenho dito: v. ex.^a È a cousa melhor -que ha em Lisboa! - -Carlos, baixava a cabeÁa, mordendo o riso. Damaso, repetia, do fundo do -peito. - ---Olhe que isto È sincero, sr. Maia! Acredite v. ex.^a que isto È do -coraÁ„o! - -Era realmente sincero. Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera alli, -n'aquelle moÁo gordo e bochechudo, sem o saber, uma adoraÁ„o muda e -profunda; o proprio verniz dos seus sapatos, a cÙr das suas luvas eram -para o Damaso motivo de veneraÁ„o, e t„o importantes como principios. -Considerava Carlos um typo supremo de _chic_, do seu querido _chic_, um -Brummel, um d'Orsay, um Morny,--uma ´d'estas cousas que sÛ se vÍem l· -fÛraª, como elle dizia arregalando os olhos. N'essa tarde sabendo que -vinha jantar com o Maia, conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho -experimentando gravatas, perfumara-se como para os braÁos d'uma -mulher;--e por causa de Carlos mandara estacionar alli o coupÈ, ·s dez -horas, com o cocheiro de ramo ao peito. - ---Ent„o essa senhora brazileira vive aqui? perguntou Carlos, que dera -dous passos, olhava uma janella allumiada no segundo andar. - -Damaso seguiu-lhe o olhar. - ---Vive l· do outro lado. Est„o aqui ha quinze dias... Gente _chic_... E -ella È de appetecer, v. ex.^a reparou? Eu a bordo atirei-me... E ella -dava cavaco! Mas tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar -aqui, soirÈe acol·, umas aventurasitas... N„o tenho podido c· vir, -deixei-lhes sÛ bilhetes; mas trago-a d'olho, que ella demora-se... -Talvez venha c· ·manh„, estou c· agora a sentir umas cocegas... E se me -pilho sÛ com ella, z·s, ferro-lhe logo um beijo! Que eu c·, n„o sei se -v. ex.^a È a mesma cousa, mas eu c·, com mulheres, a minha theoria È -esta: attrac„o! Eu c·, È logo: attrac„o! - -N'esse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca. Damaso -despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para que Carlos ouvisse, a -adresse da Morelli, a segunda dama de S. Carlos. - ---Bom rapaz, este Damaso, dizia Alencar, travando de braÁo de Carlos, ao -seguirem ambos pelo Aterro. … l· muito dos Cohens, muito querido na -sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou -muito teu pae; e a mim tambem. Mas elle assigna Salcede; talvez nome da -m„e; ou talvez inventado. Bom rapaz... O pae era um velhaco! Parece que -estou a ouvir o Pedro dizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e -do grande: ´Silva judeu, dinheiro, e a rÙdo!ª... Outros tempos, meu -Carlos, grandes tempos. Tempos de gente! - -E ent„o por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gaz -dormente luzindo em fila d'enterro, Alencar foi fallando d'esses -´grandes temposª da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, atravÈz das -suas phrases de lyrico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado d'esse -mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor -das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou -rebentando pilecas de sejes em galopadas para Cintra. Cintra era ent„o -um ninho de amores, e sob as suas romanticas ramagens as fidalgas -abandonavam-se aos braÁos dos poetas. Ellas eram Elviras, elles eram -Antonys. O dinheiro abundava; a cÙrte era alegre; a RegeneraÁ„o -litterata e galante ia engrandecer o paiz, bello jardim da Europa; os -bachareis chegavam de Coimbra, frementes de eloquencia; os ministros da -corÙa recitavam ao piano; o mesmo sopro lyrico inchava as odes e os -projectos de lei... - ---Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos. - ---Era outra cousa, meu Carlos! Vivia-se! N„o existiriam esses ares -scientificos, toda essa palhada philosophica, esses badamecos -positivistas... Mas havia coraÁ„o, rapaz! Tinha-se faisca! Mesmo n'essas -cousas da politica... VÍ esse chiqueiro agora ahi, essa malta de -bandalhos... N'esse tempo Ìa-se alli · camara e sentia-se a inspiraÁ„o, -sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeÁas!... E depois, menino, havia -muitissimo boas mulheres. - -Os hombros descahiam-lhe na saudade d'esse mundo perdido. E parecia mais -lugubre, com a sua grenha d'inspirado sahindo-lhe de sob as abas largas -do chapÈo velho, a sobrecasaca coÁada e mal feita collando-se-lhe -lamentavelmente ·s ilhargas. - -Um momento caminharam em silencio. Depois, na rua das Janellas Verdes, o -Alencar _quiz refrescar_. Entraram n'uma pequena venda, onde a mancha -amarella d'um candieiro de petroleo destacava n'uma penumbra de -subterraneo, allumiando o zinco humido do balc„o, garrafas nas -prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenÁo amarrado nos -queixos. Alencar parecia intimo no estabelecimento: apenas soube que a -sr.^a Candida estava com dÙr de dentes, aconselhou logo remedios, -familiar, descido das nuvens romanticas, com os cotovellos sobre o -balc„o. E quando Carlos quiz pagar a canna branca zangou-se, bateu a sua -placa de dois tostıes sobre o zinco polido, exclamou, com nobreza: - ---Eu È que faÁo a honra da bodega, meu Carlos! Nos palacios os outros -pagar„o... C· na taberna pago eu! - -¡ porta tomou o braÁo de Carlos. Depois d'alguns passos lentos no -silencio da rua, parou de novo, e murmurou n'uma voz vaga, -contemplativa, como repassada da vasta solemnidade da noite: - ---Aquella Rachel Cohen È divinamente bella, menino! Tu conhecel'a? - ---De vista. - ---N„o te faz lembrar uma mulher da Biblia? N„o digo l· uma d'essas -viragos, uma Judith, uma Dalila... Mas um d'esses lyrios poeticos da -Biblia... … seraphica! - -Era agora a paix„o platonica do Alencar, a sua dama, a sua Beatriz... - ---Tu viste ha tempos, no _Diario Nacional_, os versos que eu lhe fiz? - - - ´Abril chegou! SÍ minhaª - Dizia o vento · rosa. - - -N„o me sahiu mau! Aqui ha uma maliciasinha: _Abril chegou, sÍ minha_... -Mas logo: _dizia o vento · rosa_. Comprehendes? Calhou bem este effeito. -Mas n„o imagines l· outras cousas, ou que lhe faÁo a cÙrte... Basta ser -a mulher do Cohen, um amigo, um irm„o... E a Rachel, para mim, -coitadinha, È como uma irm„... Mas È divina. Aquelles olhos, filho, um -velludo liquido!... - -Tirou o chapeu, refrescou a fronte vasta. Depois n'outro tom, e como a -custo: - ---Aquelle Ega tem muito talento... Vae l· muito aos Cohens... A Rachel -acha-lhe graÁa... - -Carlos par·ra, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar · -severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz. - ---Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou -andando por aqui para a minha toca. E quando quizeres, filho, l· me tens -na rua do Carvalho, 52, 3.^o andar. O predio È meu, mas eu occupo o -terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido -trepando... A unica cousa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, È de -andares... - -Teve um gesto, como desdenhando essas miserias. - ---E has de ir l· jantar um dia. N„o te posso dar um banquete, mas has de -ter uma sopa e um assado... O meu Matheus, um preto, (um amigo!) que me -serve ha muito anno, quando ha que cosinhar, sabe cosinhar! Fez muito -jantar a teu pae, ao meu pobre Pedro... Que aquillo foi casa de alegria, -meu rapaz. Dei l· cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita -d'essa canalha que hoje por ahi trota em coupÈ da companhia e de correio -atraz... E agora, quando me avistam, voltam para o lado o focinho... - ---Isso s„o imaginaÁıes, disse Carlos com amisade. - ---N„o s„o, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. N„o -s„o. Tu n„o sabes a minha vida. Tenho soffrido muito repell„o, rapaz. E -n„o o merecia! Palavra, que o n„o merecia. - -Agarrou o braÁo de Carlos, e com a voz abalada: - ---Olha que esses homens que por ahi figuram embebedavam-se comigo, -emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora s„o -ministros, s„o embaixadores, s„o personagens, s„o o diabo. Pois -offereceram-te elles um bocado do _bolo_ agora que o teem na m„o? N„o. -Nem a mim. Isto È duro, Carlos, isto È muito duro, meu Carlos. E que -diabo, eu n„o queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma -embaixada... Mas ahi alguma cousa n'uma secretaria... Nem um chavelho! -Emfim, ainda h· para o bocado do p„o, e para a meia onÁa do tabaco... -Mas esta ingratid„o tem-me feito cabellos brancos... Pois n„o te quero -massar mais, e que Deus te faÁa feliz como tu mereces, meu Carlos! - ---Tu n„o queres subir um bocado, Alencar? - -Tanta franqueza enterneceu o poeta. - ---Obrigado, rapaz, disse elle, abraÁando Carlos. E agradeÁo-te isso, -porque sei que vem do coraÁ„o... Todos vocÍs teem coraÁ„o... J· teu pae -o tinha, e largo, e grande como o d'um le„o! E agora crÍ uma cousa: È -que tens aqui um amigo. Isto n„o È palavriado, isto vem de dentro... -Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto? - -Carlos acceitou logo, como um presente do ceu. - ---Ent„o ahi tens um charuto, filho! exclamou Alencar com enthusiasmo. - -E aquelle charuto dado a um homem t„o rico, ao dono do Ramalhete, -fazia-o por um momento voltar aos tempos em que n'esse Marrare elle -estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo -triste. Interessou-se ent„o pelo charuto. Accendeu elle mesmo um -phosphoro. Verificou se ficava bem acceso. E que tal, charuto rasoavel? -Carlos achava um excellente charuto! - ---Pois ainda bem que te dei um bom charuto! - -AbraÁou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando elle emfim se -affastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de -_fado_. - - -Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o pessimo charuto do -Alencar estirado n'uma chaise-longue, em quanto Baptista lhe fazia uma -chavena de ch·, ficou pensando n'esse estranho passado que lhe evocara o -velho lyrico... - -E era sympathico o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao fallar -de Pedro, d'Arroios, dos amigos e dos amores d'então, elle evitara -pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro -fóra, estivera para lhe dizer:—pódes fallar da mamã, amigo Alencar, que -eu sei perfeitamente que ella fugiu com um italiano! - -E isto fÍl-o insensivelmente recordar da maneira como essa lamentavel -historia lhe fÙra revelada, em Coimbra, n'uma noite de troÁa, quasi -grotescamente. Por que o avÙ, obdecendo · carta testamentaria de Pedro, -contara-lhe um romance decente: um casamento de paix„o, -incompatibilidades de naturezas, uma separaÁ„o cortez, depois a retirada -da mam„ com a filha para a FranÁa, onde tinham morrido ambas. Mais nada. -A morte de seu pae fÙra-lhe apresentada sempre como o brusco remate -d'uma longa nevrose... - -Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceiado ambos; Ega -muito bebedo, e n'um accesso de idealismo, lanÁara-se n'um paradoxo -tremendo, condemnando a honestidade das mulheres como origem da -decadencia das raÁas: e dava por prova os bastardos, sempre -intelligentes, bravos, gloriosos! Elle, Ega, teria orgulho se sua m„e, -sua propria m„e, em logar de ser a santa burgueza que resava o terÁo · -lareira, fosse como a m„e de Carlos, uma inspirada, que por amor d'um -exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir -isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas n„o -poude interrogar o Ega, que j· taramellava, agoniado, e que n„o tardou a -vomitar-lhe ignobilmente nos braÁos. Teve de o arrastar · casa das -Seixas, despil-o, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, atÈ que o -deixou abraÁado ao travesseiro, babando-se, balbuciando--´que queria ser -bastardo, que queria que a mam„ fosse uma marafona!...ª - -E elle mal podera dormir essa noite, com a idÈa d'aquella m„e, t„o outra -do que lhe haviam contado, fugindo nos braÁos d'um desterrado--um polaco -talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe, -pela sua grande amisade, a verdade toda... - -Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenÁo que tinha amarrado -na cabeÁa com pannos de agua sedativa: e n„o achava uma palavra, -coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco, -tranquillisou-o. N„o vinha alli offendido, vinha alli curioso! -Tinham-lhe occultado um episodio extraordinario da sua gente, que diabo, -queria sabel-o! Havia romance? Para alli o romance! - -Ega, ent„o, l· ganhou animo, l· balbuciou a sua historia--a que ouvira -ao tio Ega--a paix„o de Maria por um principe, a fuga, o longo silencio -d'annos que se fizera sobre ella... - -Justamente as ferias chegavam. Apenas em S.^{ta} Olavia, Carlos contou -ao avÙ a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquella revelaÁ„o -vinda entre arrotos. Pobre avÙ! Um momento nem poude fallar--e a voz por -fim veiu-lhe t„o debil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse -morrendo o coraÁ„o. Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance -todo atÈ ·quella tarde em que Pedro lhe apparecera, livido, coberto de -lama, a cahir-lhe nos braÁos, chorando a sua dÙr com a fraqueza d'uma -creanÁa.--E o desfecho d'esse amor culpado, accrescentara o avÙ, fÙra a -morte da m„e em Vienna d'Austria, e a morte da pequenita, da neta que -elle nunca vira, e que a Monforte levara... E eis ahi tudo. E assim, -aquella vergonha domestica estava agora enterrada, alli, no jazigo de -S.^{ta} Olavia, e em duas sepulturas distantes, em paiz estrangeiro... - -Carlos recordava-se bem que n'essa tarde, depois da melancolica conversa -com o avÙ, devia elle experimentar uma egoa ingleza: e ao jantar n„o se -fallou sen„o da egoa que se chamava _Sultana_. E a verdade era que d'ahi -a dias tinha esquecido a mam„. Nem lhe era possivel sentir por esta -tragedia sen„o um interesse vago e como litterario. Isso passara-se -havia vinte e tantos annos, n'uma sociedade quasi desapparecida. Era -como o episodio historico de uma velha chronica de familia, um -antepassado morto em Alcacer-Kebir, ou uma das suas avÛs dormindo n'um -leito real. Aquillo n„o lhe dera uma lagrima, n„o lhe pozera um rubor na -face. De certo, prefiriria poder orgulhar-se de sua m„e, como d'uma rara -e nobre flÙr de honra: mas n„o podia ficar toda a vida a amargurar-se -com os seus erros. E porque? A sua honra d'elle n„o dependia dos -impulsos falsos ou torpes que tivera o coraÁ„o d'ella. Peccara, morrera, -acabou-se. Restava, sim, aquella idÈa do pae, findando n'uma poÁa de -sangue, no desespero d'essa traiÁ„o. Mas n„o conhecera seu pae: tudo o -que possuia d'elle e da sua memoria, para amar, era uma fria tela mal -pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moÁo moreno, de -grandes olhos, com luvas de camurÁa amarellas e um chicote na m„o... De -sua m„e n„o ficara nem um daguerreotypo, nem sequer um contorno a lapis. -O avÙ tinha-lhe dito que era loura. N„o sabia mais nada. N„o os -conhecera; n„o lhes dormira nos braÁos; nunca recebera o calor da sua -ternura. Pae, m„e, eram para elle como symbolos d'um culto convencional. -O pap·, a mam„, os seres amados, estavam alli todos--no avÙ. - -Baptista trouxera o ch·, o charuto do Alencar acabara;--e elle -continuava na chaise-longue, como amollecido n'estas recordaÁıes, e -cedendo j·, n'um meio adormecimento, · fadiga do longo jantar... E -ent„o, pouco a pouco, diante das suas palpebras cerradas, uma vis„o -surgiu, tomou cÙr, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria -n'uma paz elysia. O peristillo do Hotel Central alargava-se, claro -ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no collo. Uma mulher -passava, alta, com uma carnaÁ„o eburnea, bella como uma Deusa, n'um -casaco de velludo branco de Genova. O Craft dizia ao seu lado -_trËs-chic_. E elle sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, -tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloraÁ„o de cousas vivas. - -Eram tres horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escurid„o dos -cortinados de seda, outra vez um bello dia de inverno morria sem uma -aragem, banhado de cÙr de rosa: o banal peristillo de Hotel alargava-se, -claro ainda na tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadellinha nos -braÁos; uma mulher passava, com um casaco de velludo branco de Genova, -mais alta que uma creatura humana, caminhando sobre nuvens, com um -grande ar de Juno que remonta ao Olympo: a ponta dos seus sapatos de -verniz enterrava-se na luz do azul, por tr·s as saias batiam-lhe como -bandeiras ao vento. E passava sempre... O Craft dizia _trËs-chic_. -Depois tudo se confundia, e era sÛ o Alencar, um Alencar colossal, -enchendo todo o cÈu, tapando o brilho das estrellas com a sua -sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaÁando ao vendaval das -paixıes, alÁando os braÁos, clamando no espaÁo: - - - Abril chegou, sÍ minha! - - - - -VII - - -No Ramalhete, depois do almoÁo, com as tres janellas do escriptoro -abertas bebendo a tepida luz do bello dia de marÁo, Affonso da Maia e -Craft jogavam uma partida de xadrez ao pÈ da chaminÈ j· sem lume, agora -cheia de plantas, fresca e festiva como um altar domestico. N'uma facha -obliqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo Bonifacio, enorme e fÙfo, -dormia de leve a sua sesta. - -Craft tornara-se, em poucas semanas, intimo no Ramalhete. Carlos e elle, -tendo muitas similitudes de gosto e de idÈas, o mesmo fervor pelo -_bric-a-brac_ e pelo _bibelot_, o uso apaixonado da esgrima, egual -dilettantismo d'espirito, uniram-se immediatamente em relaÁıes de -superficie, faceis e amaveis. Affonso, por seu lado comeÁara logo a -sentir uma estima elevada por aquelle gentleman de boa raÁa ingleza, -como elle os admirava, cultivado e forte, de maneiras graves, de habitos -rijos, sentindo finamente e pensando com rectid„o. Tinham-se encontrado -ambos enthusiastas de Tacito, de Macaulay, de Burke, e atÈ dos poetas -lakistas; Craft era grande no xadrez; o seu carater ganhara nas longas e -trabalhadas viagens a rica solidez d'um bronze; para Affonso da Maia -´aquillo era deveras um homemª. Craft, madrugador, sahia cedo dos -Olivaes a cavallo, e vinha assim ·s vezes almoÁar de surpreza com os -Maias; por vontade de Affonso jantaria l· sempre;--mas ao menos as -noites passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo emfim, como elle -dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem -sentado, no meio de idÈas, e com boa educaÁ„o. - -Carlos sahia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquella revoada de -clientella que lhe dera esperanÁas d'uma carreira cheia, activa, tinha -passado miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe tres doentes no -bairro; e sentia agora que as suas carruagens, os cavallos, o Ramalhete, -os habitos de luxo, o condemnavam irremediavelmente ao _dillettantismo_. -J· o fino dr. Theodosio lhe dissera um dia, francamente: ´vocÍ È muito -elegante p'ra medico! As suas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem -È o burguez que lhe vae confiar a esposa dentro d'uma alcova?... VocÍ -aterra o pater-familias!ª O laboratorio mesmo prejudicara-o. Os collegas -diziam que o Maia, rico, intelligente, avido de innovaÁıes, de -modernismos, fazia sobre os doentes experiencias fataes. Tinha-se -troÁado muito a sua idÈa, apresentada na _Gazeta Medica_, a prevenÁ„o -das epidemias pela inoculaÁ„o dos virus. Consideravam-no um phantasista. -E elle, ent„o, refugiava-se todo n'esse livro sobre a medicina antiga e -moderna, o _seu livro_, trabalhado com vagares d'artista rico, -tornando-se o interesse intellectual de um ou dous annos. - -N'essa manh„, em quanto dentro proseguia grave e silenciosa a partida de -xadrez, Carlos no terrasso, estendido n'uma vasta cadeira india de -bambu, · sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma _Revista_ -ingleza, banhado pela caricia tepida d'aquelle bafo de primavera que -avelludava o ar, fazia j· desejar arvores e relvas... - -Ao lado d'elle, n'uma outra cadeira de bambu, tambem de charuto na boca, -o sr. Damaso Salcede percorria o _Figaro_. De perna estirada, n'uma -indolencia familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao -terrasso as rosas das roseiras de Affonso, sentindo por tr·s, atravez -das janellas abertas, o rico e nobre interior do Ramalhete--o filho do -agiota saboreava alli uma d'essas horas deliciosas que ultimamente -encontrava na intimidade dos Maias. - -Logo na manh„ seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fÙra ao -Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos, -tendo ao angulo, n'uma dobra simulada, o seu retratosinho em -photographia, um capacete com plumas por cima do nome--DAMASO CANDIDO DE -SALCEDE, por baixo as suas honras--Commendador de Christo, ao fundo a -sua adresse--_Rua de S. Domingos, · Lapa_; mas esta indicaÁ„o estava -riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais apparatosa--Grand -Hotel, Boulevard des Capucines, Chambre N.^o 103. Em seguida procurou -Carlos no consultorio, confiou ao creado outro cart„o. Emfim, uma tarde, -no Aterro, vendo passar Carlos a pÈ, correu para elle, pendurou-se -d'elle, conseguiu acompanhal-o ao Ramalhete. - -Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admiraÁıes extaticas, como dentro -d'um museu, lanÁando, diante dos tapetes, das faienÁas e dos quadros, a -sua grande phrase--´_chic_ a valer!ª Carlos levou-o para o _fumoir_, -elle aceitou um charuto; e comeÁou a explicar, de perna traÁada, algumas -das suas opiniıes e alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin, -e sÛ estava bem em Paris--sobre tudo por causa do genero ´femeaª de que -em Lisboa se passavam fomes: ainda que n'esse ponto a Providencia n„o o -tratava mal. Gostava tambem do _bric-a-brac_; mas apanhava-se muita -espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, n„o lhe pareciam commodas -para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguem o pilhava sem -livros · cabeceira da cama; ultimamente andava ·s voltas com Daudet, que -lhe diziam ser muito _chic_, mas elle achava-o confusote. Em rapaz -perdia sempre as noites, atÈ ·s quatro ou cinco da madrugada, no -delirio! Agora n„o, estava mudado e pacato; emfim, n„o dizia que de vez -em quando n„o se abandonasse a um excessozinho; mas sÛ em dias duples... -E as suas perguntas foram terriveis. O sr. Maia achava _chic_ ter um -_cab_ inglez? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade -que quizesse ir passar o ver„o l· fÛra, Nice ou Trouville?... Depois ao -sahir, muito serio, quasi commovido, perguntou ao sr. Maia (se o sr. -Maia n„o fazia segredo) quem era o seu alfaiate. - -E desde esse dia, n„o o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro, -Damaso immediatamente arrancava-se da sua cadeira, ·s vezes na -solemnidade d'uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros, -amarrotando a compostura das damas, abalava, abria d'estalo a _claque_, -vinha-se installar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada, -camelia na casaca, exhibindo os botıes de punho que eram duas enormes -bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Gremio, -Damaso abandonou logo a partida, indifferente · indignaÁ„o dos -parceiros, para se vir collar · ilharga do Maia, offerecer-lhe -marrasquino ou charutos, seguil-o de sala em sala como um rafeiro. N'uma -d'essas occasiıes, tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Damaso -rompendo em risadas soluÁantes, rebolando-se pelos soph·s, com as m„os -nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se socios; elle, -suffocado, repetia a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odial-o; -respondia-lhe sÛ com monossyllabos; dava voltas perigosas com o -_dog-cart_ se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa roliÁa. Debalde: -Damaso Candido Salcede filara-o, e para sempre. - -Depois, um dia, Taveira appareceu no Ramalhete com uma extraordinaria -historia. Na vespera, no Gremio (tinham-lhe contado, elle n„o -presenceara) um sujeito, um Gomes, n'um grupo onde se commentavam os -Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era um asno! Damaso, que -estava ao lado mergulhado na _IlustraÁ„o_, levantou-se, muito pallido, -declarou que, tendo a honra de ser amigo do sr. Carlos da Maia, quebrava -a cara com a bengala ao sr. Gomes se elle ousasse babujar outra vez esse -cavalheiro; e o sr. Gomes tragou, com os olhos no ch„o, a affronta, por -ser rachitico de nascenÁa--e porque era inquilino de Damaso e andava -muito atrasado na renda. Affonso da Maia achou este feito brilhante: e -foi por desejo seu que Carlos trouxe o sr. Salcede uma tarde a jantar ao -Ramalhete. - -Este dia pareceu bello a Damaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas -melhor ainda foi a manh„ em que Carlos, um pouco incommodado e ainda -deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... D'ahi datava a sua -intimidade: comeÁou a tratar Carlos por _vocÍ_. Depois, n'essa semana, -revelou aptidıes uteis. Foi despachar · alfandega (VillaÁa achava-se no -Alemtejo) um caixote de roupa para Carlos. Tendo apparecido n'um momento -em que Carlos copiava um artigo para a _Gazeta Medica_ offereceu a sua -boa letra, letra prodigiosa, de uma belleza lithographica; e d'ahi por -diante passava horas · banca de Carlos, applicado e vermelho, com a -ponta da lingua de fÛra, o olho redondo, copiando apontamentos, -transcripÁıes de Revistas, materiaes para o livro... Tanta dedicaÁ„o -merecia um _tu_ de familiaridade. Carlos deu-lh'o. - -Damaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde -a barba que comeÁava agora a deixar crescer atÈ · forma dos sapatos. -LanÁara-se no _bric-a-brac_. Trazia sempre o _coupÈ_ cheio de lixos -archeologicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a aza rachada de -um bule... E se avistava um conhecido, fazia parar, entreabria a -portinhola como um addito de sacrario, exhibia a preciosidade: - ---Que te parece? _Chic_ a valer!... Vou mostral-a ao Maia. Olha-me isto, -hein! Pura meia edade, do reinado de Luiz XIV. O Carlos vae-se roer de -inveja! - -N'esta intimidade de rosas havia todavia para Damaso horas pesadas. N„o -era divertido assistir em silencio, do fundo d'uma poltrona, ·s -infindaveis discussıes de Carlos e de Craft sobre arte e sobre sciencia. -E, como elle confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o -levaram ao laboratorio para fazer no seu corpo experiencias de -electricidade...--´Pareciam dois demonios engalphinhados em mim, disse -elle · sr.^a condessa de Gouvarinho; e eu ent„o que embirro com o -spiritismo!...ª - -Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando · noite, n'um soph·, -do Gremio, ou ao ch· n'uma casa amiga, elle podia dizer, correndo a m„o -pelo cabello: - ---Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, _bric-a-brac_, -discutimos... Um dia, _chic_! ¡manh„ tenho uma manh„ de trabalho com o -Maia... Vamos ·s colxas. - -N'esse domingo, justamente, deviam ir ·s colxas, ao Lumiar. Carlos -concebera um _boudoir_, todo revestido de colxas antigas de setim, -bordadas a dous tons especiaes, perola e bot„o d'ouro. O tio Abrah„o -esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos suburbios; e n'essa manh„ -viera annunciar a Carlos a existencia de duas preciosidades, _so -beautiful! oh! so lovely!_ em casa de umas senhoras Medeiros que -esperavam o sr. Maia ·s duas horas... - -J· tres vezes Damaso tossira, olhara o relogio,--mas, vendo Carlos -confortavelmente mergulhado na _Revista_, recahia tambem na sua -indolencia de homem _chic_, investigando o _Figaro_. Emfim, dentro, o -relogio Luiz XV cantou argentinamente as duas... - ---Esta È boa, exclamou Damaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa. -Olha quem aqui me apparece! A Suzanna! A minha Suzanna! - -Carlos n„o despegara os olhos da pagina. - ---Oh Carlos, accrescentou elle, fazes favor? Ouve. Ouve esta que È boa. -Esta Suzanna È uma pequena que eu tive em Paris... Um romance! -Apaixonou-se por mim, quiz-se envenenar, o diabo!... Pois diz aqui o -_Figaro_ que debutou nas _Folies-Bergeres_. Falla n'ella... … boa, hein? -E era rapariguita _chic_... E o _Figaro_ diz que ella teve aventuras, -naturalmente sabia o que se passou comigo... Todo o mundo sabia em -Paris. Ora a Suzanna!... Tinha bonitas pernas. E custou-me a vÍr livre -d'ella! - ---Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da _Revista_. - -Damaso era interminavel, torrencial, inundante a fallar das ´suas -conquistasª, n'aquella solida satisfaÁ„o em que vivia de que todas as -mulheres, desgraÁadas d'ellas, soffriam a fascinaÁ„o da sua pessoa e da -sua toilette. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na -sociedade, com _coupË_ e parelha, todas as meninas tinham para elle um -olhar doce. E no _dÈmi-monde_, como elle dizia, ´tinha prestigio a -valer.ª Desde moÁo fÙra celebre, na capital, por pÙr casas a -hespanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mez; e este fausto -excepcional tornara-o bem depressa o D. Jo„o V dos prostibulos. -Conhecia-se tambem a sua ligaÁ„o com a viscondessa da Gafanha, uma -carcassa esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens validos -do paiz: Ìa nos cincoenta annos, quando chegou a vez do Damaso--e n„o -era decerto uma delicia ter nos braÁos aquelle esqueleto rangente e -lubrico; mas dizia-se que em nova dormira n'um leito real, e que -augustos bigodes a tinham lambuzado; tanta honra fascinou Damaso, e -collou-se-lhe ·s saias com uma fidelidade t„o sabuja, que a decrepita -creatura, farta, enojada j·, teve de o enxotar · forÁa e com desfeitas. -Depois gozou uma tragedia: uma actriz do _Principe Real_, uma montanha -de carne, apaixonada por elle, n'uma noite de ciume e de genebra, -engoliu uma caixa de phosphoros; naturalmente d'ahi a horas estava boa, -tendo vomitado abominavelmente sobre o collete do Damaso que chorava ao -lado--mas desde ent„o este homem de amor julgou-se fatal! Como elle -dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida quasi tremia, tremia -verdadeiramente de fitar uma mulher... - ---Passaram-se scenas com esta Suzanna! murmurou elle depois de um -silencio em que estivera catando pelliculas nos beiÁos. - -E, com um suspiro, retomou o _Figaro_. Houve outra vez um silencio no -terrasso. Dentro, a partida continuava. Para l· da sombra do toldo, -agora, o sol Ìa aquecendo, batendo a pedra, os vasos de louÁa branca, -n'uma refracÁ„o d'ouro claro em que palpitavam as azas das primeiras -borboletas voando em redor dos craveiros sem flor: em baixo, o jardim -verdejava, immovel na luz, sem um bolir de ramo, refrescado pelo cantar -do repuxo, pelo brilho liquido da agoa do tanque, avivado, aqui e alÈm, -pelo vermelho ou o amarello das rosas, pela carnaÁ„o das ultimas -camelias... O bocado de rio que se avistava entre os predios era azul -ferrete como o cÈu: e entre rio e cÈu o monte punha uma grossa barra -verde-escura, quasi negra no resplendor do dia, com os dois moinhos -parados no alto, as duas casinhas alvejando em baixo, t„o luminosas e -cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o -bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique d'um sino. - ---O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Damaso n'um tom entendido e -traÁando a perna. O duque de Norfolk È _chic_, n„o È verdade, Û Carlos? - -Carlos, sem erguer os olhos, lanÁou para os cÈus um gesto, como -exprimindo o infinito do _chic_! - -Damaso largara o _Figaro_ para metter um charuto na boquilha; depois -desapertou os ultimos botıes do collete, deu um puch„o · camisa para -mostrar melhor a marca que era um S enorme sob uma corÙa de conde, e de -palpebra cerrada, com o beiÁo trombudo, ficou mamando gravemente a -boquilha... - ---Tu est·s hoje em belleza, Damaso, disse-lhe Carlos que deixara tambem -a _Revista_ e o contemplava com melancolia. - -Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, · meia -cÙr de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da orbita: - ---Eu agora ando bem... Mas, muito _blazË_. - -E foi realmente com um ar _blazË_ que se ergueu a ir buscar a uma mesa -de jardim, ao lado, onde estavam jornaes e charutos, a _Gazeta -Illustrada_, ´para vÍr o que ia pela patria.ª Apenas lhe deitou os olhos -soltou uma exclamaÁ„o. - ---Outro debute? perguntou Carlos. - ---N„o, È a besta do Castro Gomes! - -A _Gazeta Illustrada_ annunciava que ´o sr. Castro Gomes, o cavalheiro -brasileiro que no Porto fÙra victima da sua dedicaÁ„o por occasi„o da -desgraÁa occorrida na PraÁa Nova, e de que o nosso correspondente J. T. -nos deu uma descripÁ„o t„o opulenta de colorido realista, acha-se -restabelecido e È hoje esperado no Hotel Central. Os nossos parabens ao -arrojado gentleman.ª - ---Ora est· s. ex.^a restabelecida! exclamou Damaso, atirando para o lado -o jornal. Pois deixa estar, que agora È a occasi„o de lhe dizer na cara -o que penso... Aquelle pulha! - ---Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e -relia a noticia. - ---Ora essa! exclamou Damaso, erguendo-se. Ora essa! Queria vÍr, se fosse -comtigo... … uma besta! … um selvagem! - -E repetiu mais uma vez a Carlos essa historia que o magoava. Desde a sua -chegada de Bordeus, logo que o Castro Gomes se installara no Hotel -Central elle fÙra deixar-lhe bilhetes duas vezes--a ultima na manh„ -seguinte ao jantar do Ega. Pois bem, s. ex.^a n„o se dignara agradecer a -visita! Depois elles tinham partido para o Porto; fÙra ahi que, -passeiando sÛ na PraÁa Nova, vendo a parelha de uma caleche desbocada, -duas senhoras em gritos, Castro Gomes se lanÁ·ra ao freio dos -cavallos--e, cuspido contra as grades, tinha deslocado um braÁo. Teve de -ficar no Porto, no Hotel, cinco semanas. E elle immediatamente (sempre -com o olho na mulher) mandara-lhe dois telegrammas: um de sentimento, -lamentando; outro de interesse, pedindo noticias. Nem a um, nem a outro, -o animal respondeu! - ---N„o, isso--exclamava Salcede, passeiando pelo terraÁo, e recordando -estas injurias--hei de lhe fazer uma desfeita!... N„o pensei ainda o -quÍ, mas ha de amargar-lhe... L· isso, desconsideraÁıes n„o admitto a -ninguem! a ninguem! - -Arredondava o olho, ameaÁador. Desde o seu feito no Gremio, quando o -rachitico apavorado emmudecera diante d'elle, Damaso ia-se tornando -feroz. Pela menor cousa fallava em ´quebrar caras.ª - ---A ninguem! repetia elle, com puxıes ao collete. DesconsideraÁıes, a -ninguem! - -N'esse momento ouviu-se dentro, no escriptorio, a voz rapida do Ega--e -quasi immediatamente elle appareceu, com um ar de pressa, e atarantado. - ---Ol·, Damasosinho!... Carlos, d·s-me aqui em baixo uma palavra? - -Desceram do terraÁo, penetraram no jardim, atÈ junto de duas olaias em -flÙr. - ---Tu tens dinheiro?--foi ahi logo a exclamaÁ„o anciosa do Ega. - -E contou a sua terrivel atrapalhaÁ„o. Tinha uma letra de noventa libras -que se vencia no dia seguinte. AlÈm d'isso, vinte e cinco libras que -devia ao Eusebiosinho, e que elle lhe reclamara n'uma carta indecente: e -era isto que desesperava o Ega... - ---Quero pagar a esse canalha, e quando o vir collar-lhe a carta · cara -com um escarro. AlÈm d'isso a letra! E tenho para tudo isto quinze -tostıes... - ---O Eusebiosinho È homem de ordem... Emfim, queres cento e quinze -libras, disse Carlos. - -Ega hesitou, com uma cÙr no rosto. J· devia dinheiro a Carlos. Estava-se -sempre dirigindo ·quella amisade, como a um cofre inexgotavel... - ---N„o, bastam-me oitenta. Ponho o relogio no prego, e a pelissa, que j· -n„o faz frio... - -Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque--em quanto Ega -procurava cuidadosamente um bonito bot„o de rosa para florir a -sobrecasaca. Carlos n„o tardou, trazendo na m„o o cheque, que alargara -atÈ cento e vinte libras, para o Ega ficar _armado_... - ---Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com -um bello suspiro de allivio. - -Immediatamente trovejou contra o Eusebiosinho, esse vill„o! Mas tinha j· -uma vinganÁa. Ia remetter-lhe a somma toda em cobre, n'um sacco de -carv„o, com um rato morto dentro, e um bilhete, comeÁando -assim:--_ascorosa lombriga e immunda osga, ahi te atiro ao focinho_, -etc... - ---Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o -teu ar, aquelle ser repulsivo!... - -Mas era atÈ sujo mencionar o Eusebiosinho!... Quiz saber dos trabalhos -de Carlos, do grande livro. Fallou tambem do seu _Atomo_:--e, por fim, -n'uma voz differente, applicando o monocolo a Carlos: - ---Dize-me outra cousa. Porque n„o tens tu voltado aos Gouvarinhos? - -Carlos tinha sÛ esta ras„o: n„o se divertia l·. - -Ega encolheu os hombros. Parecia-lhe aquillo uma puerilidade... - ---Tu n„o percebeste nada, exclamou elle. Aquella mulher tem uma paix„o -por ti... Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue · -cara. - -E como Carlos ria, incredulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de -honra. Ainda na vespera, estava-se fallando de Carlos, e elle -espreitara-a. Sem ser um Balzac, nem uma broca de observaÁ„o, tinha a -vis„o correcta: pois bem, l· lhe vira na face, nos olhos, toda a -express„o de um sentimento sincero... - ---N„o estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra! Tenl-a -quando quiseres. - -Carlos achava deliciosa aquella naturalidade mephistophelica com que Ega -o induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, moraes, sociaes, -domesticas... - ---Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa _blague_ da cartilha e do -codigo, ent„o n„o fallemos mais n'isso! Se apanhaste a sarna da virtude, -com comichıes por qualquer cousa, ent„o era uma vez um homem, vae para a -Trappa commentar o _Ecclesiastes_... - ---N„o--disse Carlos, sentando-se n'um banco sob as arvores, ainda com -uns restos da preguiÁa do terraÁo--o meu motivo n„o È t„o nobre. N„o vou -l·, porque acho o Gouvarinho um massador. - -Ega teve um sorriso mudo. - ---Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos massadores... - -Sentou-se ao lado de Carlos, comeÁou a riscar em silencio o ch„o areado; -e sem erguer os olhos, deixando cahir as palavras, uma a uma, com -melancolia: - ---Antes de hontem, toda a noite, a pÈ firme, das dez · uma, estive a -ouvir a historia da demanda do Banco Nacional! - -Era quasi uma confidencia, e como o desabafo dos tedios secretos em que -se debatia, n'aquelle mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista. -Carlos enterneceu-se. - ---Meu pobre Ega, ent„o toda a demanda? - ---Toda! E a leitura do relatorio da assemblÈa geral! E interessei-me! E -tive opiniıes!... A vida È um inferno. - -Subiram ao terraÁo. Damaso reoccupara a sua cadeira de vime, e, com um -canivetesinho de madreperola, estava tratando das unhas. - ---Ent„o decidiu-se? perguntou elle logo ao Ega. - ---Decidiu-se hontem! N„o ha _cotillon_. - -Tratava-se de uma grande soirÈe mascarada que Ìam dar os Cohens, no dia -dos annos de Rachel. A idÈa d'esta festa sugerira-a o Ega, ao principio -com grandes proporÁıes de gala artistica, a ressurreiÁ„o historica de um -sarau no tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa era -irrealisavel em Lisboa--e desceu-se a um plano mais sobrio, um simples -baile _costumÈ_, a capricho... - ---Tu, Carlos, j· decidiste como vaes? - ---De dominÛ, um severo dominÛ preto, como convÈm a um homem de -sciencia... - ---Ent„o, exclamou Ega se se trata de sciencia, vae de rabona e chinellas -de ourello!... A sciencia faz-se em casa e de chinellas... Nunca ninguem -descobriu uma lei do Universo mettido dentro de um dominÛ... Que -sensaboria, um dominÛ!... - -Justamente a sr.^a D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa -monotonia dos dominÛs. E em Carlos n„o havia desculpa. N„o o prendiam -vinte ou trinta libras; e, com aquelle esplendido physico de cavalleiro -da RenascenÁa, devia ornar a sala pelo menos com um soberbo Francisco I. - ---… n'isto, ajuntava elle com fogo, que est· a belleza de uma soirÈe de -mascaras! N„o lhe parece, vocÍ, Damaso? Cada um deve aproveitar a sua -figura... Por exemplo, a Gouvarinho vae muito bem. Teve uma inspiraÁ„o: -com aquelle cabello ruivo, o nariz curto, as maÁ„s do rosto salientes, È -Margarida de Navarra... - ---Quem È Margarida de Navarra? perguntou Affonso da Maia, apparecendo no -terraÁo com Craft. - ---Margarida, a duqueza d'Angouleme, a irm„ de Francisco I, a Margarida -das Margaridas, a perola dos Valois, a padroeira da RenascenÁa, a sr.^a -condessa de Gouvarinho!... - -Rio muito, foi abraÁar Affonso, explicou-lhe que se discutia o baile dos -Cohens. E appellou logo para elle, para o Craft tambem, acerca do -nefando dominÛ de Carlos. N„o estava aquelle mocet„o, com os seus ares -de homem d'armas, talhado para um soberbo Francisco I, em toda a gloria -de Marignan? - -O velho deu um olhar enternecido · belleza do neto. - ---Eu te digo, John, talvez tenhas raz„o; mas Francisco I, rei de FranÁa, -n„o se pÛde apear de uma tipoia e entrar n'uma sala, sÛ. Precisa cÙrte, -arautos, cavalleiros, damas, bobos, poetas... Tudo isso È difficil. - -Ega curvou-se. Sim senhor, d'accordo! Alli estava uma maneira -intelligente de comprehender o baile dos Cohens! - ---E tu, de que vaes? perguntou-lhe Affonso. - -Era um segredo. Tinha a theoria de que, n'aquellas festas, um dos -encantos consistia na surpreza: dois sujeitos por exemplo que tendo -jantado juntos, de jaquet„o, no BraganÁa, se encontram · noite, um na -purpura imperial de Carlos V, outro com a escopeta de bandido da -Calabria... - ---Eu c· n„o faÁo segredo, disse ruidosamente Damaso. Eu c· vou de -selvagem. - ---N˙? - ---N„o. De Nelusko na _Africana_. Oh sr. Affonso da Maia, que lhe parece? -Acha _chic_? - ---_Chic_ n„o exprime bem, disse Affonso sorrindo. Mas _grandioso_, È, -decerto. - -Quizeram ent„o saber como Ìa Craft. Craft n„o Ìa de cousa nenhuma; Craft -ficava nos Olivaes, de robe de chambre. - -Ega encolheu os hombros com tedio, quasi com colera. Aquellas -indifferenÁas pelo baile dos Cohens feriam-n'o como injurias pessoaes. -Elle estava dando a essa festa o seu tempo, estudos na bibliotheca, um -trabalho fumegante de imaginaÁ„o; e pouco a pouco ella tomava aos seus -olhos a importancia de uma celebraÁ„o d'arte, provando o genio de uma -cidade. Os ´dominÛsª, as abstenÁıes, pareciam-lhe evidencias de -inferioridade de espirito. Citou ent„o o exemplo do Gouvarinho: alli -estava um homem de occupaÁıes, de posiÁ„o politica, nas vesperas de ser -ministro, que n„o sÛ Ìa ao baile, mas estudara o seu _costume_: -estudara, e Ìa muito bem, Ìa de _marquez de Pombal_! - ---Reclame para ser ministro, disse Carlos. - ---N„o o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condiÁıes para ser ministro: -tem voz sonora, leu Mauricio Block, est· encalacrado, e È um asno!... - -E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um -cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo: - ---Mas È muito bom rapaz, e n„o se d· ares nenhuns! … um anjo! - -Affonso reprehendia-o, risonho e paternal: - ---Ora tu, John, que n„o respeitas nada... - ---O desacato È a condiÁ„o do progresso, sr. Affonso da Maia. Quem -respeita decahe. ComeÁa-se por admirar o Gouvarinho, vae-se a gente -esquecendo, chega a reverenciar o monarcha, e quando mal se precata tem -descido a venerar o Todo-Poderoso!... … necessario cautela! - ---Vae-te embora, John, vae-te embora! Tu Ès o proprio Anti-Christo... - -Ega Ìa responder, exhuberante e em veia--mas dentro o tinir argentino do -relogio Luiz XV, com o seu gentil minuete, emmudeceu-o. - ---O que? quatro horas! - -Ficou aterrado, verificou no seu proprio relogio, deu em redor rapidos, -silenciosos apertos de m„o, desappareceu como um sopro. - -Todos de resto estavam pasmados de ser t„o tarde! E assim passara a hora -de ir ao Lumiar vÍr as colxas antigas das senhoras Medeiros... - ---Quer vocÍ ent„o meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos. - ---Seja: e È necessario dar a liÁ„o ao Damaso... - ---… verdade, a liÁ„o...--murmurou Damaso, sem enthusiasmo, com um -sorriso murcho. - -A sala de esgrima era uma casa terrea, debaixo dos quartos de Carlos, -com janellas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, atravez das -arvores, uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era necessario accender -os quatro bicos de gaz. Damaso seguiu, atraz dos dois, com uma lentid„o -de rez desconfiada. - -Aquellas liÁıes, que elle sollicitara por amor do _chic_, Ìam-se-lhe -tornando odiosas. E n'essa tarde, como sempre, apenas se enchumaÁou com -o plastr„o d'anta, se cobriu com a caraÁa de arame, comeÁou a -transpirar, a fazer-se branco. Diante d'elle Craft, de florete na m„o, -parecia-lhe cruel e bestial, com aquelles seus hombros de Hercules -sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros rasparam. Damaso estremeceu -todo. - ---Firme, gritou-lhe Carlos. - -O desgraÁado equilibrava-se sobre a perna roliÁa; o florete de Craft -vibrou, rebrilhou, voou sobre elle; Damaso recuou, suffocado, -cambaleando e com o braÁo frouxo... - ---Firme! berrava-lhe Carlos. - -Damaso, exhausto, abaixou a arma. - ---Ent„o que querem vocÍs, È nervoso! … por ser a brincar... Se fosse a -valer, vocÍs veriam. - -Assim acabava sempre a liÁ„o; e ficava depois abatido sobre uma banqueta -de marroquim, arejando-se com o lenÁo, pallido como a cal dos muros. - ---Vou-me atÈ casa, disse elle d'ahi a pouco, fatigado de tanto crusar de -ferro. Queres alguma cousa, Carlinhos? - ---Quero que venhas c· jantar ·manh„... Tens o marquez. - ---_Chic_ a valer... N„o faltarei. - -Mas faltou. E, como toda essa semana aquelle moÁo ponctual n„o appareceu -no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo, foi -uma manh„ a casa d'elle, · Lapa. Mas ahi, o creado (um gallego -achavascado e triste, que, desde as suas relaÁıes com os Maias, Damaso -trazia entalado n'uma casaca e mortalmente aperreado em sapatos de -verniz) affirmou-lhe que o sr. Damasosinho estava de boa saude, e atÈ -sahira a cavallo. Carlos veiu ent„o ao tio Abrah„o; o tio Abrah„o tambem -n„o avistara, havia dias, aquelle bom senhor Salcede, _that beautiful -gentleman!_ A curiosidade de Carlos levou-o ao Gremio: no Gremio nenhum -creado vira ultimamente o sr. Salcede. ´Est· por ahi de lua de mel com -alguma bella andaluzaª pensou Carlos. - -Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que -se dirigia ao Aterro, a pÈ, seguido da sua vittoria a passo. Era a -segunda vez que o diplomata fazia exercicio depois do seu desgraÁado -ataque de entranhas. Mas n„o tinha j· vestigios da doenÁa: vinha todo -rosado e loiro, muito solido na sua sobrecasaca, e com uma bella rosa de -ch· na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava ´m·s forrteª. E n„o -lamentava os soffrimentos, porque elles lhe tinham dado o meio de -apreciar as sympathias que gosava em Lisboa. Estava enternecido. Sobre -tudo o cuidado de S. M.--o augusto cuidado de S. M.--fizera-lhe melhor -que ´todos os drogues de botiqueª! Realmente nunca as relaÁıes entre -esses dois paizes, t„o estreitamente alliados, Portugal e a Filandia, -tinham sido ´m‡s firmes, pur assi dizerre, m‡s intimes, que durrante seu -ataque de intestinaesª! - -Depois, travando do braÁo a Carlos, alludiu commovido ao offerecimento -de Affonso da Maia, que pozera · sua disposiÁ„o S.^ta Olavia, para elle -se restabelecer n'esses ares fortes e limpos do Douro. Oh, esse convite -tocara-o _au plus profond de son c[oe]ur_. Mas, infelizmente, S.^{ta} -Olavia era longe, t„o longe!... Tinha de se contentar com Cintra, d'onde -podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a LegaÁ„o. _C'Ètait -ennuyeux, mais_... A Europa estava n'um d'esses momentos de crise, em -que homens d'estado, diplomatas, n„o podiam affastar-se, gosar as -menores ferias. Precisavam estar alli, na brecha, observando, -informando... - ---C'est trËs grave, murmurou elle, parando, com um pavor vago no olhar -azulado... C'est excessivement grave! - -Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a -parte uma confus„o, um _gachis_. Aqui a quest„o do Oriente; alem o -socialismo; por cima o Papa, a complicar tudo... Oh, trËs grave! - ---Tenez, la France, par exemple... D'abord Gambetta. Oh, je ne dis pas -non, il est trËs fort, il est excessivement fort... Mais... Voil‡! C'est -trËs grave... - -Por outro lado os radicaes, _les nouvelles couches_... Era -excessivamente grave... - ---Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous! - -Mas Carlos n„o escutava, nem sorria j·. Do fim do Aterro approximava-se, -caminhando depressa, uma senhora--que elle reconheceu logo, por esse -andar que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadellinha cÙr -de prata que lhe trotava junto ·s saias, e por aquelle corpo -maravilhoso, onde vibrava, sob linhas ricas de marmore antigo, uma graÁa -quente, ondeante e nervosa. Vinha toda vestida de escuro, n'uma toilette -de _serge_ muito simples que era como o complemento natural da sua -pessoa, collando-se bem sobre ella, dando-lhe, na sua correcÁ„o, um ar -casto e forte; trazia na m„o um guarda-sol inglez, apertado e fino como -uma cana; e toda ella, adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha, -n'aquelle caes triste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como -o requinte raro de civilisaÁıes superiores. Nenhum vÈo, n'essa tarde, -lhe assombreava o rosto. Mas Carlos n„o poude detalhar-lhe as feiÁıes; -apenas d'entre o esplendor eburneo da carnaÁ„o sentiu o negro profundo -de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo para -a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem vÍr nada, estava achando Bismarch -assustador. ¡ maneira que ella se affastava, parecia-lhe maior, mais -bella: e aquella imagem falsa e litteraria de uma deusa marchando pela -terra prendia-se-lhe · imaginaÁ„o. Steinbroken ficara aterrado com o -discurso do Chanceller no Reichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o -chapÈo, n'uma fÛrma de tranÁa enrolada, apparecia o tom do seu cabello -castanho, quasi louro · luz; a cadelinha trotava ao lado, com as orelhas -direitas. - ---Evidentemente, disse Carlos, Bismarck È inquietador... - -Steinbroken porÈm j· deixara Bismarck. Steinbroken agora atacava lord -Beaconsfield. - ---Il est trËs fort... Oui, je vous l'accorde, il est excessivement -fort... Mais voil‡... Ou va-t-il? - -Carlos olhava para o caes de SodrÈ. Mas tudo lhe parecia deserto. -Steinbroken antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos -negocios estrangeiros aquillo mesmo: lord Beaconsfield È muito forte, -mas para onde vae elle? O que queria elle?... E s. ex.^a tinha encolhido -os hombros... S. ex.^a n„o sabia... - ---Eh, oui! Beaconsfield est trËs fort... Vous avez lu son speech chez le -Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voil‡... O˘ va-t-il? - ---Steinbroken, n„o me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a -arrefecer no Aterro... - ---DevÈrras? exclamou o diplomata, passando logo a m„o rapidamente pelo -estomago e pelo ventre. - -E n„o se quiz demorar um instante mais! Como Carlos Ìa recolher tambem, -offereceu-lhe um logar na vittoria atÈ ao Ramalhete. - ---Venha ent„o jantar comnosco, Steinbroken. - ---CharmÈ, mon cher, charmÈ... - -A vittoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago n'um -grande plaid escossez: - ---PÙs, Maia, fezemos um bello passÍo... Mas este AtÍrro no È deverrtido. - -N„o era divertido o Aterro!... Carlos achara-o n'essa tarde o mais -delicioso logar da terra! - -Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as -arvores, viu-a logo. Mas n„o vinha sÛ; ao seu lado o marido, esticado, -apurado n'uma jaqueta de casimira quasi branca, com uma ferradura de -diamantes no setim negro da gravata, fumava, indolente e languido, e -trazia a cadellinha debaixo do braÁo. Ao passar, deu um olhar -surprehendido a Carlos--como descobrindo emfim entre os barbaros um ser -de linha civilisada, e disse-lhe algumas palavras baixo, a ella. - -Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e serios: mas n„o -lhe parecera t„o bella; trazia uma outra toilette menos simples, de dois -tons, cÙr de chumbo e cÙr de creme, e no chapÈo, d'abas grandes · -ingleza, vermelhava alguma cousa, flÙr ou penna. N'essa tarde n„o era a -deusa descendo das nuvens d'ouro que se enrolavam alem sobre o mar; era -uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel. - -Voltou ainda tres vezes ao Aterro, n„o a tornou a vÍr; e ent„o -envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o -trazia assim, n'uma inquietaÁ„o de rafeiro perdido, farejando o Aterro, -da rampa de Santos ao caes de SodrÈ, · espera de uns olhos negros e de -uns cabellos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da _Royal -Mail_ levaria uma d'essas manh„s... - -E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a -meza! E que todas as tardes, antes de sahir, se demorava ao espelho, -estudando a gravata! Ah, miseravel, miseravel natureza... - - -Ao fim d'essa semana, Carlos estava no consultorio, j· para sahir, -calÁando as luvas, quando o creado entreabriu o reposteiro, e murmurou -com alvoroÁo: - ---Uma senhora! - -Appareceu um menino muito pallido, de caracoes louros, vestido de -velludo preto--e atraz uma mulher, toda de negro, com um vÈo justo e -espesso como uma mascara. - ---Creio que vim tarde, disse ella, hesitando, junto da porta. O sr. -Carlos da Maia Ìa sahir... - -Carlos reconheceu a Gouvarinho. - ---Oh senhora condessa! - -DesembaraÁou logo o divan dos jornaes e das brochuras; ella olhou um -momento, como indecisa, aquelle amplo e molle assento de serralho; -depois sentou-se · borda e de leve, com o pequeno junto de si. - ---Venho trazer-lhe um doente, disse ella sem erguer o vÈu, como fallando -do fundo d'aquella toilette negra que a dissimulava. N„o o mandei -chamar, por que realmente pouco È, e tinha hoje de passar por aqui... -AlÈm d'isso, o meu pequeno È muito nervoso; se vÍ entrar o medico, -parece-lhe que vae morrer. Assim È como uma visita que se faz... E n„o -tens medo, n„o È verdade, Charlie? - -O pequeno n„o respondeu; de pÈ, quedo ao lado da mam„; mimoso e debil -sob os caracoes d'anjo que lhe cahiam atÈ aos hombros, devorava Carlos -com uns grandes olhos tristes. - -Carlos poz um interesse quasi terno na sua pergunta: - ---Que tem elle? - -Havia dias, apparecera-lhe uma empigem no pescoÁo. AlÈm disso, por traz -da orelha, tinha como uma dureza de caroÁo. Aquillo inquietava-a. Ella -era forte, de uma boa raÁa, que dera athletas e velhos de grande edade. -Mas na familia do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia -hereditaria. O conde mesmo, com aquella solida apparencia, era um -achacado. E ella, receiando que a influencia debilitante de Lisboa n„o -conviesse a Charlie, estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar -algum tempo ao campo, em Formoselha, a casa da avÛ. - -Carlos, approximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braÁos a -Charlie: - ---Ora venha c· o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico -cabello elle tem, senhora condessa!... - -Ella sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquelle terror do -medico de que fallara a mam„, veio logo, desapertou delicadamente o seu -grande collarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoÁo -macio e alvo como um lyrio. - -Carlos vio apenas uma pequena mancha cÙr de rosa desvanecendo-se; do -´caroÁoª n„o havia vestigio; e ent„o uma ligeira vermelhid„o subiu-lhe -ao rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como comprehendendo -tudo, querendo vÍr n'elles a confiss„o do sentimento que a trouxera alli -com um pretexto pueril, sob aquella toilette negra, aquelles vÈos que a -mascaravam... - -Mas ella permaneceu impenetravel, sentada · borda do divan, com as m„os -crusadas, attenta, como esperando as suas palavras, n'um vago susto de -m„e. - -Carlos abotoou o collarinho do pequeno, e disse: - ---N„o È absolutamente nada, minha senhora. - -No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de -Charlie. A condessa, n'um tom pesaroso, queixou-se de que a educaÁ„o da -creanÁa n„o fosse, como ella desejava, mais forte e mais viril; mas o -pae oppunha-se ao que elle chamava ´a aberraÁ„o inglezaª, a agua fria, -os exercicios a todo o ar, a gymnastica... - ---A agoa fria e a gymnastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor -reputaÁ„o do que merecem... … o seu unico filho, senhora condessa? - ---…, tem os mimos de morgado, disse ella passando a m„o pelos cabellos -louros do pequeno. - -Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado, -Charlie n„o devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar -para os ares de Formoselha... Depois ficaram um momento callados. - ---N„o imagina como me tranquillisou, disse ella, erguendo-se, dando um -geito ao veu. De mais a mais È um gosto vir consultal-o... N„o ha aqui o -menor ar de doenÁa, nem de remedios... E realmente tem isto muito -bonito...--accrescentou, dando um olhar lento em redor aos velludos do -gabinete. - ---Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. N„o inspira nenhum -respeito pela minha sciencia... Eu estou com idÍas d'alterar tudo, pÙr -aqui um crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas -d'in-folios... - ---A cella de Fausto. - ---Justamente, a cella de Fausto. - ---Falta-lhe Mephistopheles, disse ella alegremente, com um olhar que -brilhou sob o vÈo. - ---O que me falta È Margarida! - -A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os hombros, como -duvidando discretamente; depois tomou a m„o de Charlie, e deu um passo -lento para a porta, puxando outra vez o vÈo. - ---Como v. ex.^a se interessa pela minha installaÁ„o, acudiu Carlos -querendo retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala. - -Correu o reposteiro. Ella approximou-se, murmurou algumas palavras, -approvando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o -piano fel-a sorrir. - ---Os seus doentes danÁam quadrilhas? - ---Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, n„o s„o bastante -numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para -uma valsa... O piano est· simplesmente alli para dar idÍas alegres; È -como uma promessa tacita de saude, de futuras _soirËes_, de bonitas -arias do _Trovador_, em familia... - ---… engenhoso, disse ella dando familiarmente alguns passos na sala, com -Charlie collado aos vestidos. - -E Carlos, caminhando ao lado d'ella: - ---V. ex.^a n„o imagina como eu sou engenhoso! - ---J· n'outro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito -inventivo quando odiava. - ---Muito mais quando amo, disse elle rindo. - -Mas ella n„o respondeu: par·ra junto do piano, remexeu um momento as -musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado. - ---… um chocalho. - ---Oh, senhora condessa! - -Ella seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer--um -focinho de c„o de S. Bernardo, macisso e bonacheir„o, adormecido sobre -as patas. Quasi roÁando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de -verbena que ella usava sempre exageradamente: e, entre aquelles tons -negros que a cobriam, a sua pelle parecia mais clara, mais doce · vista, -e attrahindo como um setim. - ---Este È um horror, murmurou ella, voltando-se; mas disse-me o Ega que -ha quadros lindos no Ramalhete... Fallou-me sobretudo d'um Greuze e d'um -Rubens... … pena que se n„o possam vÍr essas maravilhas. - -Carlos lamentava tambem que uma existencia de solteirıes lhes impedisse, -a elle e ao avÙ, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma -melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns mezes, sem que -se sentisse alli um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer -a herva pelos tapetes. - ---… por isso, accrescentou elle muito serio, que eu vou obrigar o avÙ a -casar-se. - -A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do -vÈo. - ---Gosto da sua alegria, disse ella. - ---… uma quest„o de regimen. V. ex.^a n„o È alegre? - -Ella encolheu os hombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do -guarda-sol na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro, -murmurou com os olhos baixos, deixando ir as palavras, n'um tom -d'intimidade e de confidencia: - ---Dizem que n„o, que sou triste, que tenho _spleen_... - -O olhar de Carlos seguira o d'ella, pousara-se na botina de verniz que -calÁava delicadamente um pÈ fino e comprido: Charlie, entretido, mexia -nas teclas do piano--e elle baixou a voz para lhe dizer: - ---… que a senhora condessa tem um mau regimen. … necessario tratar-se, -voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer! - -Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle os olhos, d'onde se -escapou um clar„o de ternura e de triumpho: - ---Venha-m'o antes dizer um d'estes dias, tomar ch· comigo, ·s cinco -horas... Charlie! - -O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do braÁo. - -Carlos, acompanhando-a abaixo · rua, lamentava a fealdade da sua escada -de pedra: - ---Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a -dar-me a honra de me vir consultar... - -Ella gracejou, toda risonha: - ---Ah n„o! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a todos a saude... E -naturalmente n„o espera que seja eu que venha c· tomar ch· comsigo... - ---Oh, minha senhora, eu quando comeÁo a esperar, n„o ponho limites -nenhuns ·s minhas esperanÁas... - -Ella parou, com o pequeno pela m„o, olhou para elle, como pasmada, -encantada com aquella grandiosa certeza de si mesmo. - ---Ent„o vae por ahi alÈm, por ahi alÈm...? - ---Vou por ahi alÈm, por ahi alÈm, minha senhora! - -Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua. - ---Mande-me chegar um coupÈ. - -Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lanÁou logo a tipoia. - ---E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir · egreja da GraÁa. - ---A senhora condessa vai beijar o pÈ do Senhor dos Passos? - -Ella corou de leve, murmurou: - ---Ando fazendo as minhas devoÁıes... - -Depois saltou ligeiramente para o coupÈ--deixando Charlie, que Carlos -ergueu nos braÁos e lhe collocou ao lado, paternalmente. - ---Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa! - -Ella agradeceu com um olhar, um movimento de cabeÁa--ambos t„o doces -como caricias. - -Carlos subio: e, sem tirar o chapÈo, ficou ainda enrolando uma -cigarrette, passeando n'aquella sala sempre deserta, sempre fria, onde -ella deixara agora alguma cousa do seu calor e do seu aroma... - -Realmente gostava d'aquella audacia d'ella--ter vindo assim ao -consultorio, toda escondida, quasi mascarada n'uma grande toilette -negra, inventando um caroÁo no pescocinho s„o de Charlie, para o vÍr, -para dar um nÛ brusco e mais apertado n'aquelle leve fio de relaÁıes que -elle t„o negligentemente deixara cahir e quebrar... - -O Ega d'esta vez n„o phantasiara: aquelle bonito corpo offerecia-se, t„o -claramente como se se despisse. Ah! se ella fosse de sentimentos -errantes e faceis--que bella flÙr a colher, a respirar, a deitar fÛra -depois! Mas n„o: como dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se -tinha divertido. E o que elle n„o queria era achar-se envolvido n'uma -paix„o ciosa, uma d'essas ternuras tumultuosas de mulher de trinta -annos, de que depois se desembaraÁaria difficilmente... Nos braÁos -d'ella o seu coraÁ„o ficaria mudo: e apenas esgotada a primeira -curiosidade, comeÁaria o tedio dos beijos que se n„o desejam, a horrivel -massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da casa, receber -pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa -distillando doutrina... Tudo isto o assustava... E, todavia, gostara -d'aquella audacia! Havia ali uma pontinha de romantismo, muito -irregular, e pÌcante... E devia ser deliciosamente bem feita... A sua -imaginaÁ„o despia-a, enrolava-se-lhe no setim das fÛrmas onde sentia ao -mesmo tempo alguma cousa de maduro e de virginal... E outra vez, como -nas primeiras noites que os vira em S. Carlos, aquelles cabellos -tentavam-n'o, assim avermelhados, t„o crespos e quentes... - -Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou -o Damaso, n'um coupÈ lanÁado a grande trote, que o chamava, mandava -parar, com a face · portinhola, vermelho e radiante: - ---N„o tenho podido l· ir, exclamou elle, apoderando-se-lhe da m„o, -apenas Carlos se approximou, e apertando-lh'a com enthusiasmo. Tenho -andado n'um turbilh„o!.. Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te -contarei!.. Tem cuidado com a roda! Bate l·, Û _CalÁ„o_! - -A parelha abalou; elle ainda se debruÁou da portinhola, agitou a m„o, -gritou no rumor da rua: - ---Um romance divino, _chic_ a valer! - -Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que -acabava de ´baterª o marquez, perguntou, pousando o taco e accendendo o -cachimbo: - ---E noticias do nosso Damaso? J· se esclareceu esse lamentavel -desapparecimento?... - -Carlos ent„o contou como o encontr·ra, afogueado e triumphante, -atirando-lhe da portinhola do coupÈ, em plena rua Nova do Almada, a -noticia de um _romance divino_! - ---Bem sei, disse o Taveira. - ---Como sabes?... exclamou Carlos. - -Taveira vira-o na vespera, n'um grande landeau da Companhia, com uma -esplendida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira... - ---Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza? - ---Exactamente, uma cadelinha escoceza, um _griffon_ cÙr de prata... Quem -s„o? - ---E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglezado? - ---Justamente... Muito correcto, um ar _sport_... Que gente È? - ---Uma gente brazileira, penso eu. - -Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia -apenas duas semanas que no terraÁo o Damaso, de punhos fechados, bramara -contra os Castro Gomes e as suas ´desconsideraÁıesª! Ia pedir outros -pormenores ao Taveira--mas o marquez ergueu a voz do fundo da poltrona -onde se estir·ra, e quiz saber a opini„o de Carlos sobre o grande -acontecimento d'essa manh„ na _Gazeta Illustrada_.--Na _Gazeta -Illustrada_?... Carlos n„o sabia, essa manh„ n„o vira jornal nenhum. - ---Ent„o n„o lhe digam nada, gritou o marquez. Venha a surpreza! C· ha a -_Gazeta_? Manda buscar a _Gazeta_! - -Taveira puxou o cord„o da campainha;--e quando o escudeiro trouxe a -_Gazeta_, elle apoderou-se d'ella, quiz fazer uma leitura solemne. - ---Deixa-lhe vÍr primeiro o retrato, berrou o marquez, erguendo-se. - ---Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal -atraz das costas. - -Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos, largamente, como um -sudario desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a -prosa que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas -retintas, era um trabalho de seis columnas, em estylo emplumado e -cantante, celebrando atÈ aos cÈus as virtudes domesticas do Cohen, o -genio financeiro do Cohen, os ditos d'espirito do Cohen, a mobilia das -salas do Cohen; havia ainda um paragrapho alludindo · festa proxima, ao -grande sarau de mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assignado--J. da -E.--as iniciaes de Jo„o da Ega! - ---Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando o jornal para cima do -bilhar. - ---… mais que tolice, observou Craft; È uma falta de senso moral. - -O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de -velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso -moral?... - ---VocÍ, Craft, n„o conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural. -… intimo da casa, celebra os donos. … admirador da mulher, lisongea o -marido. Est· na logica c· da terra... VocÍ ver· que successo isto vae -ter... E l· que o artigo est· lindo, isso est·! - -Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir cÙr de rosa -de madame Cohen: ´respira-se alli (dizia o Ega) alguma cousa de -perfumado, intimo e casto, como se todo aquelle cÙr de rosa exhalasse de -si o aroma que a rosa temª! - ---Isto, caramba, È lindo em toda a parte! exclamou o marquez. Tem muito -talento, aquelle diabo! Tomara eu ter o talento que elle tem!... - ---Nada d'isso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquillamente, que -seja uma extraordinaria falta de senso moral. - ---Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto -d'um soph·, para deixar cahir ·s syilabas esta pesada opini„o. - -O marquez investiu com elle. - ---Que entende vocÍ d'isso, seu maestro? O artigo È sublime! E saiba -mais: È de finorio! - -O maestro, com preguiÁa de argumentar, foi-se enroscar em silencio ao -outro canto do soph·. - -E ent„o o marquez, de pÈ e bracejando, appellou para Carlos, e quiz -saber o que È que Craft em principio entendia por _senso moral_. - -Carlos, que dava pela sala passos impacientes, n„o respondeu, tomou o -braÁo do Taveira, levou-o para o corredor. - ---Dize-me uma cousa: onde viste tu o Damaso, com essa gente? Para que -lado iam? - ---Iam pelo Chiado abaixo; ante-hontem, ·s duas horas... Estou convencido -que iam para Cintra. Levavam uma maleta no landau, e atraz ia uma criada -n'um coupÈ com uma mala maior... Aquillo cheirava a ida a Cintra. E a -mulher È divina! Que toilette, que ar, que chic!.. … uma Venus, -menino!... Como conheceria elle aquillo?... - ---Em Bordeus, n'um paquete, n„o sei onde! - ---Eu do que gostei foi dos ares que elle se ia dando por aquelle Chiado! -Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A -debruÁar-se, a fallar muito baixo para a mulher, com olho terno, -alardeando conquista... - ---Que besta! exclamou Carlos, batendo com o pÈ no tapete. - ---Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher -civilisada e decente, e È elle que a conhece, e È elle que vae com ella -para Cintra! Chama-lhe besta!... Anda d'ahi, vamos · partidinha de -dominÛ. - -Taveira ultimamente introduzira o dominÛ no Ramalhete--e havia agora -alli, ·s vezes, partidas ardentes, sobretudo quando apparecia o marquez. -Porque a paix„o do Taveira era bater o marquez. - -Mas foi necessario que o marquez acabasse de bracejar, de desenrolar o -arrazoado com que estava acabrunhando o Craft--que do fundo da poltrona, -de cachimbo na m„o e com um ar de somno, respondia por monossyllabos. -Era ainda a proposito do artigo do Ega, da definiÁ„o de _senso moral_. -J· tinha fallado de Deus, de Garibaldi, atÈ do seu famoso perdigueiro -_Finorio_; e agora definia a Consciencia... Segundo elle, era o medo da -policia. Tinha o amigo Craft visto j· alguem com remorsos? N„o, a n„o -ser no theatro da Rua dos Condes, em dramalhıes... - ---Acredite vocÍ uma cousa, Craft--terminou elle por dizer, cedendo ao -Taveira que o puchava para a meza--isto de consciencia È uma quest„o de -educaÁ„o. Adquire-se como as boas maneiras; soffrer em silencio por ter -trahido um amigo, aprende-se exactamente como se aprende a n„o metter os -dedos no nariz. Quest„o d'educaÁ„o... No resto da gente È apenas medo da -cadeia, ou da bengala... Ah! vocÍs querem levar outra sova ao dominÛ -como a de sabbado passado? Perfeitamente, sou todo vosso... - -Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega, -approximou-se tambem da meza. E estavam sentados, remexiam as -pedras--quando · porta da sala appareceu o conde de Steinbroken, de -casaca e crach·, gran-cruz sobre o colete branco, loiro como uma espiga, -esticado e resplandecente. Tinha jantado no PaÁo, e vinha acabar no -Ramalhete a sua soirÈe, em familia... - -Ent„o o marquez que o n„o via desde o famoso ataque de intestinos, -abandonou o dominÛ, correu a abraÁal-o ruidosamente--e sem o deixar -sequer sentar, nem estender a m„o aos outros, implorou-lhe logo uma das -suas bellas canÁıes filandezas, uma sÛ, d'aquellas que lhe faziam t„o -bem · alma!... - ---SÛ a _Ballada_, Steinbroken... Eu tambem n„o me posso demorar, que -tenho aqui a partida · espera. SÛ a _Ballada_!... V·, salta l· para -dentro para o piano, Cruges... - -O diplomata sorria, dizia-se canÁado, tendo j· feito musica deliciosa no -PaÁo com Sua Magestade. Mas nunca sabia resistir ·quelle modo folgaz„o -do marquez--e l· foram para a sala do piano, de braÁo dado, seguidos -pelo Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se do canto do -soph·. E d'ahi a um momento, atravez dos resposteiros meio corridos, a -bella voz de barytono do diplomata espalhava pelas salas, entre os -suspiros do piano, a emballadora melancolia da _Ballada_, com a sua -lettra traduzida em francez, que o marquez adorava, e em que se fallava -das nevoas tristes do Norte, de lagos frios e de fadas loiras... - -Taveira e Carlos, no entanto, tinham comeÁado uma grande partida de -dominÛ, a tost„o o ponto. Mas Carlos n'essa noite n„o se interessava, -jogando distrahido, a cantarolar tambem baixo bocados tristes da -_Ballada_: depois, quando j· Taveira tinha sÛ uma pedra diante de si, e -elle estava comprando interminavelmente as que restavam, voltou-se para -o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em Cintra, -estava aberto todo o anno... - ---A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente. -Anda, joga! - -Carlos, sem responder, pousou mollemente uma pedra. - ---DominÛ! gritou Taveira. - -E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os sessenta e oito pontos -que Carlos perdia. - -Justamente o marquez entrava, e a victoria do Taveira indignou-o. - ---Agora nÛs, exclamou elle, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos, -deixe-me vocÍ dar aqui uma sova n'este ladr„o. Depois jogamos de tres... -Como queres tu isto, Taveirete? A dous tostıes o ponto? Ah, queres sÛ a -tost„o... Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraÁa-te j· d'esse -dÙble-seis, miseravel... - -Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarette apagada -nos dedos, o mesmo ar distrahido: de repente, pareceu tomar uma decis„o, -atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken fÙra ao -escriptorio vÍr Affonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges sÛ, -entre as duas vÈlas do piano, com os olhos errantes pelo tecto, -improvisava para si, melancolicamente. - ---Dize c·, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir ·manh„ a Cintra? - -O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar espantado! Carlos nem o -deixou fallar. - ---Est· claro que queres, n„o te faz sen„o bem vir a Cintra... ¡manh„ l· -estou · porta, com o break. Mette sempre uma camisa n'uma maleta, que -talvez passemos l· a noite... ¡s oito em ponto, hein?... E n„o digas -nada l· dentro. - -Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de dominÛ. Agora -havia um largo silencio. O marquez e Taveira moviam lentamente as -pedras, sem uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano -verde do bilhar as bolas brancas dormiam juntas, sob a luz que cahia dos -abat-jours de porcelana. Um som de piano, dolente e vago, passava por -vezes. E Craft, com o braÁo descahido ao longo da poltrona, dormitava, -beatificamente. - - - - -VIII - - -Na manh„ seguinte, ·s oito horas pontualmente, Carlos parava o break na -rua das Flores, diante do conhecido port„o da casa do Cruges. Mas o -trintanario, que elle mandara acima bater · campainha do terceiro andar, -desceu com a estranha nova de que o sr. Cruges j· n„o morava ali. Onde -diabo morava ent„o o sr. Cruges? A criada dissera que o sr. Cruges vivia -agora na rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Gremio. Durante -um momento, Carlos, desesperado, pensou em partir sÛ para Cintra. Depois -l· largou para a rua de S. Francisco, amaldiÁoando o maestro, que mudara -de casa sem avisar, sempre vago, sempre tenebroso!... E era em tudo -assim. Carlos nada sabia do seu passado, do seu interior, das suas -affeiÁıes, dos seus habitos. O marquez uma noite levara-o ao Ramalhete, -dizendo ao ouvido de Carlos que estava alli um genio. Elle encantara -logo todo o mundo pela modestia das suas maneiras e a sua arte -maravilhosa ao piano: e todo o mundo no Ramalhete comeÁou a tratar -Cruges por _maestro_, a fallar tambem do Cruges como de um genio, a -declarar que Choppin nunca fizera obra egual · _MeditaÁ„o de Outono_ do -Cruges. E ninguem sabia mais nada. FÙra pelo Damaso que Carlos conhecera -a casa do Cruges e soubera que elle vivia l· com a m„e, uma senhora -viuva, ainda fresca, e dona de predios na Baixa. - -Ao port„o da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto de -hora. Primeiro appareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em -cabello, que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos -degraus acima. Depois veiu um creado em mangas de camisa trazer a maleta -do senhor e um chaile manta. Emfim, o maestro desceu, a correr, quasi -aos trambulhıes, com um cache-nez de seda na m„o o guarda-chuva debaixo -do braÁo, abotoando atarantadamente o paletot. - -Quando vinha pulando os ultimos degraus, uma voz esganiÁada de mulher -gritou-lhe de cima: - ---Olha n„o te esqueÁam as queijadas! - -E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o lado de Carlos, -rosnando que, com a preoccupaÁ„o de se levantar t„o cedo, tivera uma -insomnia abominavel... - ---Mas que diabo de idÈa È essa de mudar de casa, sem avisar a gente, -homem?--exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dos joelhos um bocado do -_plaid_ que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado. - ---… que esta casa tambem È nossa, disse simplesmente Cruges. - ---Est· claro, ahi est· uma raz„o! murmurou Carlos rindo e encolhendo os -hombros. - -Partiram. - -Era uma manh„ muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um -lindo sol que n„o aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas, -barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as -saloias ainda andavam pelas portas com os seus ceirıes d'hortaliÁas: -varria-se de vagar a testada das lojas: no ar macio morria a distancia -um toque fino de missa. - -Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas, -estendeu um olhar · esplendida parelha baia reluzindo como um setim sob -o faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas -librÈs, a todo aquelle luxo correcto e rolando em cadencia--onde fazia -mancha o seu paletot: mas o que o impressionou foi o aspecto -resplandecente de Carlos, o olhar acceso, as bellas cÙres, o bello riso, -o quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob o seu simples -veston de xadrezinho castanho, n'aquella almofada burgueza de break, lhe -dava um arranque de heroe jovial, lanÁando o seu carro de guerra... -Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta que desde a vespera -lhe ficara nos labios. - ---Com franqueza, aqui para nÛs, que idÈa foi esta de ir a Cintra? - -Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de -Mozart, e pelas _fugas_ de Bach? Pois bem, a idÈa era vir a Cintra, -respirar o ar de Cintra, passar o dia em Cintra... Mas, pelo amor de -Deus, que o n„o revelasse a ninguem! - -E accrescentou, rindo: - ---Deixa-te levar, que n„o te has de arrepender... - -N„o, Cruges n„o se arrependia. AtÈ achava delicioso o passeio, gostara -sempre muito de Cintra... Todavia n„o se lembrava bem, tinha apenas uma -vaga idÈa de grandes rochas e de nascentes d'aguas vivas... E terminou -por confessar que desde os nove annos n„o voltara a Cintra. - -O que! o maestro n„o conhecia Cintra?... Ent„o era necessario ficarem -l·, fazer as peregrinaÁıes classicas, subir · Pena, ir beber agua · -Fonte dos Amores, barquejar na varzea... - ---A mim o que me est· a appetecer muito È Sitiaes; e a manteiga fresca. - ---Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros... Emfim, -uma ecloga! - -O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de -quintas, casarıes tristonhos de vidraÁas quebradas, vendas com o seu -masso de cigarros · porta dependurado de uma guita: e a menor arvore, -qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de collina -verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle n„o via o campo! - -Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraÁou-se do seu grande -cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletot--e declarou-se morto de -fome. - -Felizmente estavam chegando · Porcalhota. - -O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado,--mas, como era -cedo para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma -bella pratada de ovos com chouriÁo. Era uma cousa que n„o provava havia -annos, e que lhe daria a sensaÁ„o de estar na aldÍa... Quando o patr„o, -com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre a meza sem -toalha a enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as m„os, achando -aquillo deliciosamente campestre. - ---A gente em Lisboa estraga a saude! disse elle. puxando para o prato -uma montanha de ovo e chouriÁo. Tu n„o tomas nada?... - -Carlos, para lhe fazer companhia, acceitou uma chavena de cafÈ. - -D'ahi a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a bocca cheia: - ---O Rheno tambem deve ser magnifico! - -Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora alli o Rheno?... … -que o maestro, desde que sahira as portas, estava cheio de idÈas de -viagens e de paisagens; queria vÍr as grandes montanhas onde ha neve, os -rios de que se falla na Historia. O seu ideal seria ir · Allemanha, -percorrer a pÈ, com uma mochilla, aquella patria sagrada dos seus -deuses, de Beethoven, de Mozart, de Wagner... - ---N„o te appetecia mais ir · Italia? perguntou Carlos accendendo o -charuto. - -O maestro esboÁou um gesto de desdem, teve uma das suas phrases -sybillinas: - ---Tudo contradanÁas!... - -Carlos ent„o fallou de um certo plano de ir · Italia, com o Ega, no -inverno. Ir · Italia, para o Ega, era uma hygiene intellectual: -precisava calmar aquella imaginaÁ„o tumultuosa de nervoso peninsular -entre a placida magestade dos marmores... - ---O que elle precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges. - -E voltou a fallar do caso da vespera, do famoso artigo da _Gazeta_. -Achava aquillo, como elle dissera, pura e simplesmente insensato, e de -uma sabujice indecorosa. E o que o affligia È que o Ega, com aquelle -talento, aquella verve fumegante, n„o fizesse nada... - ---Ninguem faz nada, disse Carlos espreguiÁando-se. Tu, por exemplo, que -fazes? - -Cruges, depois de um silencio, rosnou encolhendo os hombros: - ---Se eu fizesse uma boa opera, quem È que m'a representava? - ---E se o Ega fizesse um bello livro, quem È que lh'o lia? - -O maestro terminou por dizer: - ---Isto È um paiz impossivel... Parece-me que tambem vou tomar cafÈ. - -Os cavallos tinham descanÁado, Cruges pagou a conta, partiram. D'ahi a -pouco entravam na charneca que lhes pareceu infindavel. D'ambos os -lados, a perder de vista, era um ch„o escuro e triste; e por cima um -azul sem fim, que n'aquella solid„o parecia triste tambem. O trote -compassado dos cavallos batia monotonamente a estrada. N„o havia um -rumor: por vezes um passaro cortava o ar, n'um vÙo brusco, fugindo do -ermo agreste. Dentro do break um dos criados dormia; Cruges, pesado dos -ovos com chouriÁo, olhava, vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas -dos cavallos. - -Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Cintra. E realmente -n„o sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que elle n„o avistava -certa figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que n„o -encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus: -agora suppunha que ella estava em Cintra, corria a Cintra. N„o esperava -nada, n„o desejava nada. N„o sabia se a veria, talvez ella tivesse j· -partido. Mas vinha: e era j· delicioso o pensar n'ella assim por aquella -estrada fÛra, penetrar, com essa doÁura no coraÁ„o, sob as bellas -arvores de Cintra... Depois, era possivel que d'ahi a pouco, na velha -Lawrence, elle a cruzasse de repente no corredor, roÁasse talvez o seu -vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ella l· estivesse, decerto viria -jantar · sala, aquella sala que elle conhecia t„o bem, que j· lhe estava -appetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, os ramos -toscos sobre a meza, e os dois grandes candieiros de lat„o antigo... -Ella entraria alli, com o seu bello ar claro de Diana loira; o bom -Damaso, apresentaria o seu amigo Maia; aquelles olhos negros que elle -vira passar de longe como duas estrellas, pousariam mais de vagar nos -seus; e, muito simplesmente, · ingleza, ella estender-lhe-hia a m„o... - ---Ora atÈ que finalmente! exclamou Cruges, com um suspiro de allivio e -respirando melhor. - -Chegavam ·s primeiras casas de Cintra, havia j· verduras na estrada, e -batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra. - -E a passo, o break foi penetrando sob as arvores do Ramalh„o. Com a paz -das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e emballadora -sussurraÁ„o de ramagens, e como o diffuso e vago murmurio de agoas -correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: atravez da -folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e avelludado -circulava, rescendendo ·s verduras novas; aqui e alÈm, nos ramos mais -sombrios, passaros chilreavam de leve; e n'aquelle simples bocado de -estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se j·, sem se vÍr, a -religiosa solemnidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das -nascentes vivas, a tristeza que cae das penedias e o repouso fidalgo das -quintas de ver„o... Cruges respirava largamente, voluptuosamente. - ---A Lawrence onde È? Na serra?--perguntou elle com a idÈa repentina de -ficar alli um mez n'aquelle paraiso. - ---NÛs n„o vamos para a Lawrence, disse Carlos sahindo bruscamente do seu -silencio, e espertando os cavallos. Vamos para o Nunes, estamos l· muito -melhor! - -Era uma idÈa que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas -de S. Pedro, e o break comeÁara a rolar n'aquellas estradas onde a cada -momento elle a poderia encontrar. Tomara-o uma timidez, a que se -misturava um laivo de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto, -seguindo-a assim a Cintra, ainda que ella o n„o reconhecesse, indo -installar-se sob as mesmas telhas, apoderando-se de um logar · mesma -meza... E ao mesmo tempo repugnou-lhe a idÈa de lhe ser apresentado pelo -Damaso: via-o j·, bochechudo e vestido de campo, a esboÁar um gesto de -ceremonia, a mostrar o _seu amigo Maia_, a tratal-o por tu, affectando -intimidades com ella, cocando-a com um olho terno... Isto seria -intoleravel. - ---Vamos para o Nunes, que se come melhor! - -Cruges n„o respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impress„o -religiosa de todo aquelle esplendor sombrio de arvoredo, dos altos -fragosos da serra entrevistos um instante l· em cima nas nuvens, d'esse -aroma que elle sorvia deliciosamente, e do sussurro doce de aguas -descendo para os valles... - -SÛ ao avistar o PaÁo descerrou os labios: - ---Sim senhor, tem _cachet_! - -E foi o que mais lhe agradou--este macisso e silencioso palacio, sem -florıes e sem torres, patriarchalmente assentado entre o casario da -villa, com as suas bellas janellas manuelinas que lhe fazem um nobre -semblante real, o valle aos pÈs, frondoso e fresco, e no alto as duas -chaminÈs collossaes, disformes, resumindo tudo, como se essa residencia -fosse toda ella uma cosinha talhada ·s proporÁıes de uma gula de Rei que -cada dia come todo um Reino... - -E apenas o break parou · porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar, -timido e de longe--receiando alguma palavra rude da sentinella. - -Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou · parte o criado do -hotel, que descera a recolher as maletas. - ---VossÍ conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se elle est· em Cintra? - -O creado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede. Ainda na vespera pela -manh„ o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas -pretas... Devia estar na Lawrence, porque sÛ com raparigas e em pandiga -È que o sr. Damaso vinha para o Nunes. - ---Ent„o, depressa, dous quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de -creanÁa, certo agora que _ella_ estava em Cintra. E uma sala particular, -sÛ para nÛs, para almoÁarmos! - -Cruges, que se approximava, protestou contra esta sala solitaria. -Preferia a meza redonda. Ordinariamente na meza redonda encontram-se -typos... - ---Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as m„os, pıe o almoÁo na sala -de jantar, pıe-n'o atÈ na PraÁa... E muita manteiga fresca para o sr. -Cruges! - -O cocheiro levou o break, o creado sobraÁou as maletas. Cruges, -enthusiasmado com Cintra, rompeu pela escada acima, a -assobiar--conservando aos hombros o chaile-manta, de que se n„o queria -separar, porque lh'o emprestara a mam„. E apenas chegou · porta da sala -do jantar, estacou, ergueu os braÁos, teve um grito. - ---Oh Euzebiosinho! - -Carlos correu, olhou... Era elle, o viuvo, acabando de almoÁar, com duas -raparigas hespanholas. - -Estava no topo da meza, como presidindo, diante de uns restos de pudim e -de pratos de fructa, amarellado, despenteado, carregado de luto, com a -larga fita das lunetas pretas passada por traz da orelha, e uma rodela -de taffet· negro sobre o pescoÁo tapando alguma espinha rebentada. - -Uma das hespanholas era um mulher„o trigueiro, com signaes de bexigas na -cara; a outra muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de -febre, que o pÛ de arroz n„o desfarÁava. Ambas vestiam de setim preto, e -fumavam cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janella, -pareciam mais gastas, mais molles, ainda pegajosas da lentura morna dos -colxıes, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo · sucia havia um -outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoÁo, com as costas para a porta e a -cabeÁa sobre o prato, babujando uma metade de laranja. - -Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito com o garfo no ar; -depois l· se ergueu, de guardanapo na m„o, veiu apertar os dedos aos -amigos, balbuciando logo uma justificaÁ„o embrulhada, a ordem do medico -para mudar de ares, aquelle rapaz que o acompanhara, e que quizera -trazer raparigas... E nunca parecera t„o funebre, t„o relles, como -resmungando estas cousas hypocritas, encolhido · sombra de Carlos. - ---Fizeste muito bem, Eusebiosinho, disse Carlos por fim, batendo-lhe no -hombro. Lisboa est· um horror, e o amor È cousa doce. - -O outro continuava a justificar-se. Ent„o a hespanhola magrita, que -fumava, afastada da meza e com a perna traÁada, elevou a voz, perguntou -ao Cruges se elle n„o lhe fallava. O maestro affirmou-se um momento, e -partiu de braÁos abertos para a sua amiga Lolla. E foi, n'esse canto da -meza, uma grulhada em hespanhol, grandes apertos de m„o, e _hombre, que -no se le ha visto! e mira, que me he accordado de ti!_ e _caramba, que -reguapa estas_... Depois a Lolla, tomando um arsinho espremido, -apresentou o outro mulher„o, la seÒorita Concha... - -Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade--o sujeito obeso, que -apenas levantara um instante a cabeÁa do prato, decidiu-se a examinar -mais attentamente os amigos do Euzebio: crusou o talher, limpou com o -guardanapo a bocca, a testa e o pescoÁo, encavallou laboriosamente no -nariz uma grande luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga, -balofa e cÙr de cidra, examinou detidamente Cruges, e depois Carlos, com -uma impudencia tranquilla. - -Eusebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigo Palma, ouvindo -o nome conhecido de Carlos da Maia, quiz logo mostrar diante de um -gentleman, que era um gentleman tambem. Arrojou para longe o guardanapo, -arredou para fÛra a cadeira; e de pÈ, estendendo a Carlos os dedos -molles e de unhas roidas, exclamou, com um gesto para os restos da -sobremeza: - ---Se. v. ex.^a È servido, È sem ceremonia... Que isto quando a gente vem -a Cintra, È para abrir o appetite e fazer bem · barriga... - -Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animava e -gracejava com a Lolla, fez tambem do outro lado da meza a sua -apresentaÁ„o: - ---Carlos, quero que conheÁas aqui a lindissima Lolla, relaÁıes antigas, -e a seÒorita Concha, que eu tive agora o prazer... - -Carlos saudou respeitosamente as damas. - -O mulher„o da Concha rosnou seccamente os _buenos dias_: parecia de mau -humor, pesada do almoÁo, amodorrada para alli, sem dizer uma palavra, -com os cotovellos fincados na meza, os olhos pestanudos meio cerrados, -ora fumando, ora palitando os dentes. Mas a Lolla foi amavel, fez de -senhora, ergueu-se, offereceu a Carlos a m„osita suada. Depois retomando -o cigarro, dando um geito ·s pulseiras de ouro, declarou com um requebro -d'olhos, que conhecia de ha muito Carlos... - ---No ha estado ustÍd con Encarnacion? - -Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito d'ella, d'essa bella -Encarnacion? - -A Lolla sorriu com finura, tocou no cotovello do maestro. N„o acreditava -que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion... Emfim, terminou -por dizer que a Encarnacion estava agora com o Saldanha. - ---Mas olhe que n„o È com o duque de Saldanha! exclamou Palma, que se -conservara de pÈ, com a bolsa do tabaco aberta sobre a meza, fazendo um -grande cigarro. - -A Lolita, com um modo secco, replicou que o Saldanha n„o seria duque, -mas era um _chico muy decente_... - ---Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na bocca e tirando a isca -da algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda n„o ha tres -semanas... Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu... Foi atÈ no -Montanha... Duas bofetadas que lhe foi logo o chapÈo parar ao meio da -rua... O sr. Maia ha de conhecer o Saldanha... Ha de conhecer, que elle -tambem tem um carrito e um cavallo. - -Carlos fez um gesto indicando que n„o; e despedia-se de novo, saudando -as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em -quanto satisfazia uma curiosidade: queria saber qual d'aquellas meninas -era a _esposa do amigo Eusebio_. - -Assim interpellado, o viuvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem -erguer as lunetas da laranja que descascava, que estava alli de passeio, -n„o tinha esposa, e ambas aquellas meninas pertenciam ao amigo Palma... - -E ainda elle mascava as ultimas palavras, quando Concha, que digeria de -perna estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou -um murro · borda da meza, e com os olhos chammejantes, desafiou o -Eusebio a que repetisse aquillo! Queria que elle repetisse! Queria que -dissesse se tinha vergonha d'ella, e de dizer que a tinha trazido a -Cintra!... E como o Eusebio, j· enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma -festa--ella despropositou, atirou-lhe os peiores nomes, dando sempre -punhadas na meza, com uma furia que lhe torcia a bocca, lhe punha duas -manchas de sangue no car„o trigueiro. A Lolita, vexada, puchava-lhe pelo -braÁo: a outra deu-lhe um repell„o; e, mais excitada com a estridencia -da propria voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco, accusou-o -de forreta, usou-o como um trapo vil. - -Palma afflicto, debruÁado sobre a meza, exclamava n'um tom ancioso: - ---” Concha, escuta l·!... Ouve l·!... Concha, eu te explico... - -De repente, ella ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulher„o -abalou pela sala fÛra, a grande cauda de setim varreu desabridamente o -soalho, ouviu-se dentro estalar uma porta. No ch„o ficara caindo um -pedaÁo da mantilha de renda. - -O creado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o -olho curioso, farejando o escandalo; depois, calado e seccamente, foi -servindo em roda o cafÈ. - -Durante um momento houve um silencio. Apenas porÈm o criado sahiu--a -Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho. -Elle portara-se muito mal! Aquillo n„o fÙra de cavalheiro! Tinha trazido -a rapariga a Cintra, devia-a respeitar, n„o a ter renegado assim, · -bruta, diante de todos... - ---_Esto no se hace_, dizia a Lolita, de pÈ, gesticulando, com os olhos -brilhantes, voltada para Carlos, _ha sido una cosa muy fÍa!_.. - -E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntaria da -catastrophe--ella baixou a voz, contou que a Concha era uma furia, viera -a Cintra com pouca vontade, e desde manh„ estava de _muy malo humor_... -Pero lo de Silbeira habia sido una gran pulhice... - -Elle, coitado, com a cabeÁa cahida e as orelhas em braza, remexia -desoladamente o seu cafÈ; n„o se lhe viam os olhos escondidos pelas -lunetas pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluÁo que lhe affogava a -garganta. Ent„o Palma pouzou a chavena, lambeu os beiÁos, e de pÈ no -meio da sala, com a face luzidia, o collete desabotoado, fez n'um tom -entendido o resumo d'aquelle desgosto. - ---Tudo provÈm d'isto, e desculpe-me vocÍ dizel-o, Silveira: È que vocÍ -n„o sabe tratar com hespanholas! - -A esta cruel palavra o viuvo succumbiu. A colher cahiu-lhe dos dedos. -Ergueu-se, acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se n'elles, -vindo reconfortar-se ao calor da sua amizade,—e desabafou, estas -palavras angustiosas escaparam-se-lhe dos labios: - ---Vejam vocÍs! vem a gente a um sitio d'estes para gosar um bocado de -poesia, e no fim È uma d'estas!... - -Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro: - ---A vida È assim, Eusebiosinho. - -Cruges fez-lhe uma festa nas costas: - ---N„o se pÛde contar com prazeres, Silveirinha. - -Mas Palma, mais pratico, declarou que era forÁoso arranjarem-se as -cousas. Virem a Cintra, para questıes e amuos, isso n„o! N'aquellas -pandegas queria-se harmonia, chalaÁa, e gosar. Couces, n„o. Ent„o -ficava-se em Lisboa, que era mais barato. - -Chegou-se a Lolla, passou-lhe os dedos pela face, com amor: - ---Anda Lolita, vae tu l· dentro · Concha, dize-lhe que se n„o faÁa tola, -que venha tomar cafÈ... Anda, que tu sabe-l'a levar... Dize-lhe que peÁo -eu! - -Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um geito -ao cabello diante do espelho, apanhou a cauda--e sahiu, atirando a -Carlos, ao passar, um olhar e um sorrisinho. - -Apenas ficaram sÛs, Palma voltou-se para o Eusebio, e deu-lhe conselhos -muito serios sobre o systema de tratar hespanholas. Era necessario -leval-as por bons modos; por isso È que ellas se pellavam por -portuguezes, porque l· em Hespanha era · bordoada... Emfim, elle n„o -dizia que em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de -bengaladas, n„o fossem uteis... Sabiam, por exemplo, os amigos, quando -se devia bater? Quando ellas n„o gostavam da gente, e se faziam ariscas. -Ent„o, sim. Ent„o z·s, tapona, que ellas ficavam logo pelo beiÁo... Mas -depois bons modos, delicadeza, tal qual como com francezas... - ---Acredite vocÍ isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiencia. E o sr. -Maia que lhe diga se isto n„o È verdade, elle que tem tambem experiencia -e sabe viver com hespanholas! - -E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito--que Cruges desatou a -rir, fez rir Carlos tambem. - -O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as lunetas, e olhou para -elles: - ---Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que eu -comecei a lidar com hespanholas aos quinze annos! N„o, escusam de rir, -que n'isso ninguem me ganha! L· o que se chama ter geito para -hespanholas, c· o meco! E, vamos l·, que n„o È facil! … necessario ter -um certo talento!... Olhem, o Herculano È capaz de fazer bellos artigos -e estylo catita... Agora tragam-n'o c· para lidar com hespanholas e -veremos! N„o d· meia... - -Eusebiosinho no entanto fÙra duas vezes escutar · porta. Todo o hotel -cahira n'um grande silencio, a Lolita n„o voltava. Ent„o Palma -aconselhou um grande passo: - ---V· vocÍ l· dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim sem mais nem -menos, chegue-se ao pÈ d'ella... - ---E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gosando o Palma. - ---Qual tapona! Ajoelhe e peÁa perd„o... N'este caso È pedir perd„o... E -como pretexto, Silveira, leve-lhe vocÍ mesmo o cafÈ. - -Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou os seus amigos. Mas -o seu coraÁ„o j· decidira: e d'ahi a um momento, com o pedaÁo de -mantilha n'uma das m„os, a chavena de cafÈ na outra, enfiado e -commovido, l· partia a passos lentos pelo corredor a pedir perd„o · -Concha. - -E, logo atraz d'elle, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem -do sr. Palma--que de resto, indifferente tambem, j· se accommodara ‡ -meza a preparar regaladamente o seu grog. - - -Eram duas horas quando os dous amigos sahiram emfim do hotel, a fazer -esse passeio a Sitiaes--que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na -praÁa, por defronte das lojas vasias e silenciosas, c„es vadios dormiam -ao sol: atravez das grades da cadÍa os presos pediam esmola. CreanÁas, -enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas -tinham ainda as janellas fechadas, continuando o seu somno de inverno, -entre as arvores j· verdes. De vez em quando apparecia um bocado da -serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se -o castello da Pena, solitario, l· no alto. E por toda a parte o luminoso -ar de abril punha a doÁura do seu velludo. - -Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao -Cruges. - ---Tem o ar mais sympathico, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir -para o Nunes, sÛ para vÍr aquella scena... E ent„o com quÍ o sr. Carlos -da Maia tem experiencia de hespanholas? - -Carlos n„o respondeu, os seus olhos n„o se despegavam d'aquella fachada -banal, onde sÛ uma janella estava aberta com um par de botinas de -duraque seccando ao ar. ¡ porta, dous rapazes inglezes, ambos de -knicker-bokers, cachimbavam em silencio; e defronte, sentados sobre um -banco de pedra, dous burriqueiros ao lado dos burros, n„o lhes tiravam o -olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa. - -Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancolico, sahindo -do silencio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as -suas recordaÁıes, quasi certo de Damaso lhe ter dito que a bordo Castro -Gomes tocava flauta... - ---Isto È sublime! exclamou do lado o Cruges, commovido. - -Parara diante da grade d'onde se domina o valle. E d'ali olhava, -enlevadamente, a rica vastid„o de arvoredo cerrado, a que sÛ se veem os -cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, -e tendo aquella distancia, no brilho da luz, a suavidade macia de um -grande musgo escuro. E n'esta espessura verde-negra havia uma frontaria -de casa que o interessava, branquejando, affogada entre a folhagem, com -um ar de nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve -uma idÈa de artista: desejou habital-a com uma mulher, um piano e um c„o -da Terra-nova. - -Mas o que o encantava era o ar. Abria os braÁos, respirava a tragos -deliciosos: - ---Que ar! Isto d· saude, menino! Isto faz reviver!... - -Para o gosar mais docemente, sentou-se adiante, n'um bocado de muro -baixo, defronte de um alto terraÁo gradeado, onde velhas arvores -assombreiam bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das -suas ramagens, cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o -relogio, as horas que fugiam para ir vÍr o palacio, a Pena, as outras -bellezas de Cintra--o maestro declarou que preferia estar ali, ouvindo -correr a agua, a vÍr monumentos caturras... - ---Cintra n„o s„o pedras velhas, nem cousas gothicas... Cintra È isto, -uma pouca de agua, um bocado de musgo... Isto È um paraiso!... - -E, n'aquella satisfaÁ„o que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo a -sua chalaÁa: - ---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de -hespanholas!... - ---Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos, que riscava -pensativamente o ch„o com a bengala. - -Ficaram callados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em -que estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores -e arvores, suffocando-se n'uma prodigalidade de bosque silvestre, -deixando apenas espaÁo para um tanquesinho redondo, onde uma pouca de -agua, immovel e gelada, com dous ou tres nenufares, se esverdinhava sob -a sombra d'aquella ramaria profusa. Aqui e alem, entre a bella desordem -da folhagem, distinguiam-se arranjos de gosto burguez, uma volta de -ruasita estreita como uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de -um gesso. N'outros recantos, aquelle jardim de gente rica, exposto ·s -vistas, tinha retoques pretenciosos de estufa rara, aloes e cactos, -braÁos aguardasolados de auraucarias erguendo-se d'entre as agulhas -negras dos pinheiros bravos, laminas de palmeira, com o seu ar triste de -planta exilada, roÁando a rama leve e perfumada das olaias floridas de -cÙr de rosa. A espaÁos, com uma graÁa discreta, branquejava um grande pÈ -de margaridas; ou em torno de uma rosa, solitaria na sua haste, -palpitavam borboletas aos pares. - ---Que pena que isto n„o pertenÁa a um artista! murmurou o maestro. SÛ um -artista saberia amar estas flores, estas arvores, estes rumores... - -Carlos sorriu. Os artistas, dizia elle, sÛ amam na natureza os effeitos -de linha e cÙr; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para -cuidar de que um craveiro n„o soffra sede, para sentir magoa de que a -geada tenha queimado os primeiros rebentıes das acacias--para isso sÛ o -burguez, o burguez que todas as manh„s desce ao seu quintal com um -chapÈo velho e um regador, e vÍ nas arvores e nas plantas uma outra -familia muda, por que elle È tambem responsavel... - -Cruges, que escutara distrahidamente, exclamou: - ---Diabo! … necessario que n„o me esqueÁam as queijadas! - -Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a -trote do lado de Sitiaes. Carlos ergueu-se logo, certo de que era -_ella_, e que elle ia vÍr os seus bellos olhos brilhar e fugir como duas -estrellas. A caleche passou, levando um anci„o de barbas de patriarcha, -e uma velha ingleza com o regaÁo cheio de flores, e o vÈo azul -fluctuando ao ar. E logo atraz, quasi no pÛ que as rodas tinham erguido, -appareceu, caminhando pensativamente, de m„os atraz das costas, um homem -alto, todo de preto, com um grande chapÈo Panam· sobre os olhos. Foi -Cruges que reconheceu os longos bigodes romanticos, que gritou: - ---Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!... - -Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braÁos abertos, no -meio da estrada. Depois, com a mesma effus„o ruidosa, apertou Carlos -contra o coraÁ„o, beijou o Cruges na face--porque conhecia Cruges desde -pequeno, Cruges era para elle como um filho. Caramba! Eis ahi uma -surpreza que elle n„o trocava pelo titulo de duque! Ora o alegr„o de os -vÍr ali! Como diabo tinham elles vindo ali parar? - -E n„o esperou a resposta, contou elle logo a sua historia. Tivera um dos -seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Mello, o bom -Mello, recommendara-lhe mudanÁa d'ares. Ora elle, bons ares, sÛ -comprehendia os de Cintra: porque alli n„o eram sÛ os pulmıes que lhe -respiravam bem, era tambem o coraÁ„o, rapazes!... De sorte que viera na -vespera, no omnibus. - ---E onde est·s tu, Alencar? perguntou logo Carlos. - ---Pois onde queres tu que eu esteja, filho? L· estou com a minha velha -Lawrence. Coitada! est· bem velha! mas para mim È sempre uma amiga, È -quasi uma irm„!... E vocÍs, que diabo? Para onde v„o vocÍs, com essas -flores nas lapellas? - ---A Sitiaes. Vou mostrar Sitiaes ao maestro. - -Ent„o tambem elle voltava a Sitiaes! N„o tinha nada que fazer sen„o -sorver bom ar, e scismar... Toda a manh„ andara alli, vagamente, -pendurando sonhos dos ramos das arvores. Mas agora j· os n„o largava; -era mesmo um dever ir elle proprio fazer ao maestro as honras de -Sitiaes... - ---Que aquillo È sitio muito meu, filhos! N„o ha alli arvore que me n„o -conheÁa... Eu n„o vos quero comeÁar j· a impingir versos; mas emfim, -vocÍs lembram-se de uma cousa que eu fiz a Sitiaes, e de que por ahi se -gostou... - - - Quantos luares eu l· vi! - Que doces manh„s d'abril! - E os ais que soltei alli - N„o foram sete, mas mil! - - -Pois ent„o j· vocÍs vÍem, rapazes, que tenho raz„o para conhecer -Sitiaes... - -O poeta lanÁou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam -todos tres callados. - ---Dize-me uma cousa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando -no braÁo do poeta. O Damaso est· na Lawrence? - -N„o, que elle o tivesse visto. Verdade seja que na vespera, apenas -chegara, fÙra-se deitar, fatigado; e n'essa manh„ almoÁara sÛ com dois -rapazes inglezes. O unico animal que avistara fÙra um lindo c„osinho de -luxo, ladrando no corredor... - ---E vocÍs onde est„o? - ---No Nunes. - -Ent„o o poeta parando de novo, contemplando Carlos com sympathia: - ---Que bem que fizeste em arrastar c· o maestro, filho!... Quantas vezes -eu tenho dito ·quelle diabo, que se mettesse no omnibus, viesse passar -dous dias a Cintra. Mas ninguem o tira de martelar o piano. E olha tu -que mesmo para a musica, para compor, para entender um Mozart, um -Choppin, È necessario ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia -da ramagem... - -Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado: - ---Tem muito talento, tem muita idÈa melodica!... Olha que andei com -aquillo ·s cabritas... E a m„e, menino, foi muitissimo boa mulher. - ---Vejam vocÍs isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto È -sublime. - -Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre dous velhos muros -cobertos d'hera, assombreada por grandes arvores entrelaÁadas, que lhe -faziam um toldo de folhagem aberto · luz como uma renda: no ch„o tremiam -manchas de sol: e, na frescura e no silencio, uma agoa que se n„o via ia -fugindo e cantando. - ---Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, ent„o tens de subir · -serra. Ahi tens o espaÁo, tens a nuvem, tens a arte... - ---N„o sei, talvez goste mais d'isto, murmurou o maestro. - -A sua natureza de timido preferiria, de certo, estes humildes recantos, -feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedaÁo de muro musgoso, -logares de quietaÁ„o e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o -scismar dos indolentes... - ---De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra È divino. N„o ha -cantinho que n„o seja um poema... Olha, alli tens tu, por exemplo, -aquella linda florinha azul...--e, ternamente, apanhou-a. - ---Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora, -desde que o poeta fallara do c„osinho de luxo, mais certo de que ella -estava na Lawrence, e que a ia brevemente encontrar. - -Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desillus„o diante d'aquelle -vasto terreiro coberto de herva, com o palacete ao fundo, enxovalhado, -de vidraÁas partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno -ceu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a idÈa, de pequeno, que -Sitiaes era um mont„o pittoresco de rochedos, dominando a profundidade -de um valle; e a isto misturava-se vagamente uma recordaÁ„o de luar e de -guitarras... Mas aquillo que elle alli via era um desapontamento. - ---A vida È feita de desapontamentos, disse Carlos, Anda para diante! - -E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto o maestro, cada vez -mais animado, lhe gritava a chalaÁa do dia: - ---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiÍncia de -hespanholas!... - -Alencar, que se demorara atraz a accender o cigarro, estendeu o ouvido, -curioso, quiz saber o que era isso de hespanholas? O maestro contou-lhe -o encontro no Nunes e os furores da Concha. - -Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes, verde e fresca, de -uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava -deserto; a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrellada de -botıes de ouro brilhando ao sol, e de malmequersinhos brancos. Nenhuma -folha se movia: atravez da ramaria ligeira o sol atirava mÛlhos de raios -de ouro. O azul parecia recuado a uma distancia infinita, repassado de -silencio luminoso; e sÛ se ouvia, ·s vezes, monotona e dormente, a voz -de um cuco nos castanheiros. - -Toda aquella vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os -seus florıes de pedra roÌdos da chuva, o pesado braz„o rococÛ, as -janellas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia -estar-se deixando morrer voluntariamente n'aquella verde -solid„o,--amuada com a vida, desde que d'alli tinham desapparecido as -ultimas graÁas do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de -anquinhas tinham roÁado essas relvas... Agora Cruges Ìa descrevendo ao -Alencar a figura do Eusebiosinho, com a chavena de cafÈ na m„o, a ir -pedir perd„o · Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande chapÈo -panam·, se agachava a colher florinhas silvestres. - -Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado n'um dos bancos de -pedra, fumando pensativamente a sua cigarette. O palacete deitava sobre -aquelle bocado de terraÁo a sombra dos seus muros tristes; do valle -subia uma frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o -prantear de um repuxo. Ent„o o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo, -fallou com nojo do Eusebiosinho.--Ahi est· uma torpeza que elle nunca -commettera, trazer meretrizes a Cintra! Nem a Cintra, nem a parte -nenhuma... Mas muito menos a Cintra! Sempre tivera, todo o mundo devia -ter, a religi„o d'aquellas arvores e o amor d'aquellas sombras... - ---E esse Palma, accrescentou elle, È um traste! Eu conheÁo-o; elle teve -uma especie de jornal, e j· lhe dei muita bofetada na rua do Alecrim. -Foi uma historia curiosa... Ora eu t'a conto Carlos... Aquelle canalha! -quando me lembro!... Aquella vil bolinha de materia putrida!... Aquelle -chouricinho de pus! - -Levantou-se, passando a m„o nervosa sobre os bigodes, j· excitado pela -lembranÁa d'aquella velha desordem, vergastando o Palma com nomes -ferozes, todo n'uma d'essas fervuras de sangue que eram a sua desgraÁa. - -Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planicie de -lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em -quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um panno -feito de remendos assim que elle tinha na meza do seu quarto. Tiras -brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e alÈm, n'uma massa de -arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, n'aquelle solo onde as -aguas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro, -correndo e reluzindo entre as hervas. O mar ficava ao fundo, n'uma linha -unida, esbatida na tenuidade diffusa da bruma azulada: e por cima -arredondava-se um grande azul lustroso como um bello esmalte, tendo -apenas, l· no alto, um farraposinho de nevoa, que ficara alli esquecido, -e que dormia enovellado e suspenso na luz... - ---Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua historia. -Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos pÈs, crusei os braÁos e -disse-lhe: ahi tem vocÍ a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as m„os! - ---Que diabo, n„o me h„o de esquecer as queijadas! murmurou Cruges, para -si mesmo, affastando-se do parapeito. - -Carlos erguera-se tambem, olhava o relogio. Mas antes de deixar Sitiaes, -Cruges quiz explorar o outro terraÁo ao lado: e, apenas subira os dous -velhos degraus de pedra, soltou de l· um grito alegre: - ---Bem dizia eu! c· est„o elles... E vocÍs a dizer que n„o! - -Foram-n'o encontrar triumphante, diante de um mont„o de penedos, polidos -pelo uso, j· com um vago feitio de assentos, deixados ali outr'ora, -poeticamente, para dar ao terraÁo uma graÁa agreste de selva brava. -Ent„o, n„o dizia elle? Bem dizia elle que em Sitiaes havia penedos! - ---Se eu me lembrava perfeitamente! _Penedo da Saudade_, n„o È que se -chama, Alencar? - -Mas o poeta n„o respondeu. Diante d'aquellas pedras crusara os braÁos, -sorria dolorosamente; e immovel, sombrio no seu fato negro, com o panam· -carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto n'um olhar lento e -triste. - -Depois, no silencio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente: - ---VocÍs lembram-se, rapazes, nas _FlÙres e Martyrios_, de uma das cousas -melhores que l· tenho, em rimas livres, chamada _6 de Agosto_? N„o se -lembram talvez... Pois eu vol-a digo, rapazes! - -Machinalmente tirara do bolso o lenÁo branco. E com elle fluctuante na -m„o, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges, -baixou a voz como n'uma confidencia sagrada, recitou, com um ardor -surdo, mordendo as syllabas, tremulo, n'uma paix„o ephemera de nervoso: - - - Vieste! Cingi-te ao peito. - Em redor que noite escura! - N„o tinha rendas o leito, - Nem tinha lavores na barra - Que era sÛ a rocha dura... - Muito ao longe uma guitarra - Gemia vagos harpejos... - (VÍ tu que n„o me esqueceu)... - E a rocha dura aqueceu - Ao calor dos nossos beijos! - - -Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol, -atirou para l· um gesto triste, e murmurou: - ---Foi alli. - -E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chapÈo panam·, com o lenÁo -branco na m„o. Cruges, que aquelles romantismos impressionavam, ficou a -olhar para os penedos como para um sitio historico. Carlos sorria. E -quando ambos deixaram esse recanto do terraÁo--o poeta, agachado junto -do arco, estava apertando o atilho da ceroula. - -Endireitou-se logo, j· toda a emoÁ„o o deixara, mostrava os maus dentes -n'um sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco: - ---Agora, Cruges, filho, repara tu n'aquella tela sublime. - -O maestro embasbacou. No v„o do arco, como dentro de uma pesada moldura -de pedra, brilhava, · luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma -composiÁ„o quasi phantastica, como a illustraÁ„o de uma bella lenda de -cavallaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e -verdejando, todo salpicado de botıes amarellos; ao fundo, o renque -cerrado de antigas arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da -grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente d'essa -copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, -destacando vigorosamente n'um relevo nitido sobre o fundo de cÈu azul -claro, o cume airoso da serra, toda cÙr de violeta escura, coroada pelo -castello da Pena, romantico e solitario no alto, com o seu parque -sombrio aos pÈs, a torre esbelta perdida no ar, e as cupulas brilhando -ao sol como se fossem feitas de ouro... - -Cruges achou aquelle quadro digno de Gustavo DorÈ. Alencar teve uma -bella phrase sobre a imaginaÁ„o dos arabes. Carlos, impaciente, foi-os -apressando para diante. - -Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir · Pena. -Alencar, por si, Ìa tambem com prazer. A Pena para elle era outro ninho -de recordaÁıes. Ninho? Devia antes dizer cemiterio... Carlos hesitava, -parado junto da grade. Estaria ella na Pena? E olhava a estrada, olhava -as arvores, como se podesse adivinhar pelas pegadas no pÛ, ou pelo mover -das folhas, que direcÁ„o tinham tomado os passos que elle seguia... Por -fim teve uma idÈa. - ---Vamos indo primeiro · Lawrence. E depois se quizermos ir · Pena, -arranjam-se l· os burros... - -E nem mesmo quiz escutar o Alencar, que tivera, tambem uma idÈa, fallava -de Collares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; accelerou o passo -para a Lawrence, emquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da -ceroula, e o maestro, n'um enthusiasmo bucolico, ornava o chapÈo de -folhas de hera. - -Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na bocca, n„o -tendo podido apoderar-se dos inglezes, preguiÁavam ao sol. - ---VocÍs sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma familia, que est· aqui no -hotel, foi para a Pena?... - -Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se. - ---Sim, senhor, foram para l· ha bocado, e aqui est· o burrinho tambem -para v. ex.^a, meu amo! - -Mas o outro, mais honesto, negou. N„o senhor, a gente que fÙra para a -Pena estava no Nunes... - ---A familia que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palacio... - ---Uma senhora alta? - ---Sim senhor. - ---Com um sujeito de barba preta? - ---Sim senhor. - ---E uma cadellinha? - ---Sim senhor. - ---Tu conheces o sr. Damaso Salcede? - ---N„o senhor... … o que tira retratos? - ---N„o, n„o tira retratos... Tomae l·. - -Deu-lhes uma placa de cinco tostıes; e voltou ao encontro dos outros, -declarando que realmente era tarde para subirem · Pena. - ---Agora o que tu deves vÍr, Cruges, È o palacio. Isso È que tem -originalidade e cachet! N„o È verdade, Alencar?... - ---Eu vos digo, filhos, comeÁou o auctor de _Elvira_, historicamente -fallando... - ---E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou Cruges. - ---Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas; È necessario n„o -perder tempo; a caminho! - -Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palacio, em quatro -largas passadas estava l·. E logo da praÁa avistou, saindo j· o port„o, -passando rente da sentinella, a famosa familia hospedada na Lawrence e a -sua cadellinha de luxo. Era, com effeito, um sujeito de barba preta, e -de sapatos de lona branca; e, ao lado d'elle, uma matrona enorme, com um -mantelete de seda, cousas de ouro pelo pescoÁo e pelo peito, e o -c„osinho felpudo ao collo. Vinham ambos rosnando o quer que fosse, com -mau modo um para o outro, e em hespanhol. - -Carlos ficou a olhar para aquelle par com a melancolia de quem contempla -os pedaÁos d'um bello marmore quebrado. N„o esperou mais pelos outros, -nem os quiz encontrar. Correu · Lawrence por um caminho differente, -avido de uma certeza:--e ahi, o criado que lhe appareceu, disse-lhe que -o sr. Salcede e os srs. Castro Gomes tinham partido na vespera para -Mafra... - ---E de l·?... - -O criado ouvira dizer ao sr. Damaso que de l· voltavam a Lisboa. - ---Bem, disse Carlos atirando o chapÈo para cima da meza, traga-me vocÍ -um calice de cognac, e uma pouca d'agua fresca. - -Cintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. N„o -teve animo de voltar ao palacio, nem quiz sahir mais d'ali; e arrancando -as luvas passeiando em volta da meza de jantar, onde murchavam os ramos -da vespera, sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr -ao Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vÍl-a, saciar os seus olhos -n'ella!... Porque, o que o irritava agora era n„o poder encontrar, na -pequenez de Lisboa, onde toda a gente se acotovella, aquella mulher que -elle procurava anciosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um c„o -perdido: fizera perigrinaÁıes ridiculas de theatro em theatro: n'uma -manh„ de domingo percorrera as missas! E n„o a tornara a vÍr. Agora -sabia-a em Cintra, voava a Cintra, e n„o a via tambem. Ella cruzava-o -uma tarde, bella como uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cahir -n'alma por accaso um dos seus olhares negros, e desapparecia, -evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao cÈo, d'ora em -diante invisivel e sobrenatural: e elle ali ficava, com aquelle olhar no -coraÁ„o, perturbando todo o seu ser, orientando surdamente os seus -pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, para uma -adoravel desconhecida, de quem elle nada sabia sen„o que era alta e -loira, e que tinha uma cadellinha escosseza... Assim acontece com as -estrellas d'acaso! Ellas n„o s„o d'uma essencia diferente, nem contÈem -mais luz que as outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e -se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento -que deixam nos olhos È mais perturbador e mais longo... Elle n„o a -tornara a vÍr. Outros viam-n'a. O Taveira vira-a. No Gremio, ouvira um -alferes de lanceiros fallar d'ella, perguntar quem era, porque a -encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os dias. Elle n„o -a via, e n„o socegava... - -O criado trouxe o cognac. Ent„o Carlos, preparando vagarosamente o seu -refresco, conversou com elle, fallou um momento dos dois rapazes -inglezes, depois da hespanhola obesa... Emfim, dominando uma timidez, -quasi cÛrando, fez, atravez de grandes silencios, perguntas sobre os -Castro Gomes. E cada resposta lhe parecia uma acquisiÁ„o preciosa. A -senhora era muito madrugadora, dizia o criado: ·s sete horas tinha -tomado banho, estava vestida, e sahia sÛ. O sr. Castro Gomes, que dormia -n'um quarto separado, nunca se mexia antes do meio dia; e, · noite, -ficava uma eternidade · meza, fumando cigarettes e molhando os beiÁos em -copinhos de cognac e agua. Elle e o sr. Damaso jogavam o dominÛ. A -senhora tinha montıes de flÙres no quarto; e tencionavam ficar atÈ -domingo, mas fÙra ella que apress·ra a partida... - ---Ah, disse Carlos depois de um silencio, foi a senhora que apressou a -partida?... - ---Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa... V. -ex.^a toma mais cognac? - -Com um gesto Carlos recusou, e veiu sentar-se no terraÁo. A tarde -descia, calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem, cheia de -claridade dourada, n'uma larga serenidade que penetrava a alma. Elle -tel-a-hia pois encontrado, ali mesmo n'aquelle terraÁo, vendo tambem -cahir a tarde--se ella n„o estivesse impaciente por tornar a vÍr a -filha, algum bÈbÈsinho loiro que fic·ra sÛ com a ama. Assim, a brilhante -deusa era tambem uma boa mam„; e isto dava-lhe um encanto mais profundo, -era assim que elle gostava mais d'ella, com este terno estremecimento -humano nas suas bellas fÛrmas de marmore. Agora, j· ella estava em -Lisboa; e imaginava-a nas rendas do seu _peignoir_, com o cabello -enrolado ‡ pressa, grande e branca, erguendo ao ar o bÈbÈ nos seus -explendidos braÁos de Juno, e fallando-lhe com um riso d'ouro. Achava-a -assim adoravel, todo o seu coraÁ„o fugia para ella... Ah! poder ter o -direito de estar junto d'ella, n'essas horas d'intimidade, bem junto, -sentindo o aroma da sua pelle, e sorrindo tambem a um bÈbÈ. E, pouco a -pouco, foi-lhe surgindo na alma um romance, radiante e absurdo: um sopro -de paix„o, mais forte que as leis humanas, enrolava violentamente, -levava juntos o seu destino e o d'ella; depois, que divina existencia, -escondida n'um ninho de flÙres e de sol, longe, n'algum canto da -Italia... E, toda a sorte de idÈas d'amor, de devoÁ„o absoluta, de -sacrificio, invadiam-n'o deliciosamente--emquanto os seus olhos se -esqueciam, se perdiam, enlevados na religiosa solemnidade d'aquelle -bello fim da tarde. Do lado do mar subia uma maravilhosa cÙr d'ouro -pallido, que ia no alto diluir o azul, dava-lhe um branco indeciso e -opalino, um tom de desmaio doce; e o arvoredo cobria-se todo de uma -tinta loura, delicada e dormente. Todos os rumores tomavam uma suavidade -de suspiro perdido. Nenhum contorno se movia como na immobilidade de um -extase. E as casas, voltadas para o poente, com uma ou outra janella -accesa em braza, os cimos redondos das arvores apinhadas, descendo a -serra n'uma espessa debandada para o valle, tudo parecera ficar de -repente parado n'um recolhimento melancolico e grave, olhando a partida -do sol, que mergulhava lentamente no mar... - ---Oh Carlos, tu est·s ahi? - -Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando por elle. -Carlos appareceu · varanda do terraÁo. - ---Que diabo est·s tu ahi a fazer, rapaz? exclamou Alencar, agitando -alegremente o seu panam·. NÛs l· estivemos ‡ espera, no covil real... -Fomos ao Nunes... Iamos agora procurar-te · cadeia! - -E o poeta riu largamente da sua pilheria--emquanto Cruges, ao lado, de -m„os atraz das costas, e a face erguida para o terraÁo, bocejava -desconsoladamente. - ---Vim _refrescar_, como tu dizes, tomar um pouco de cognac, que estava -com sÍde. - -Cognac? eis ahi o mimo por que o pobre Alencar estivera anciando toda a -tarde, desde Sitiaes. E galgou logo as escadas do terraÁo--depois de ter -gritado para dentro, para a sua velha Lawrence, que lhe mandasse acima -_meia da fina_. - ---Viste o PaÁo, hein, Cruges? perguntou Carlos ao maestro, quando elle -appareceu, arrastando os passos. Ent„o, parece-me que o que nos resta a -fazer È jantar, e abalar... - -Cruges concordou. Voltava do palacio com um ar murcho, fatigado -d'aquelle vasto casar„o historico, da voz monotona do cicerone mostrando -a cama de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha, -´melhores que as de Mafra,ª o tira-botas de S. A.; e trazia de l· uma -pouca d'essa melancolia que erra, como uma atmosphera propria, nas -residencias reaes. - -E aquella natureza de Cintra, ao escurecer, dizia elle, comeÁava a -entristecel-o. - -Ent„o concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectaculo -torpe do Palma e das damas, mandar vir · porta o break, e partir depois -ao nascer do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia tambem a -Lisboa. - ---E, para ser festa completa, exclamou elle, limpando os bigodes do -cognac, emquanto vocÍs v„o ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o -break, eu vou-me entender l· abaixo · cosinha com a velha Lawrence, e -preparar-vos um _bacalhau · Alencar_, recipe meu... E vocÍs ver„o o que -È um bacalhau! Porque, l· isso, rapazes, versos os far„o outros melhor; -bacalhau, n„o! - -Atravessando a praÁa, Cruges pedia a Deus que n„o encontrassem mais o -Eusebiosinho. Mas, apenas pozeram os pÈs nos primeiros degraus do Nunes, -ouviram em cima o chalrar da sucia. Estavam na ante-sala, j· todos -reconciliados, a Concha contente--e installados aos dois cantos de uma -meza, com cartas. O Palma, munido d'uma garrafa de genebra, fazia uma -_batotinha_ para o Eusebio; e as duas hespanholas, de cigarro na bocca, -jogavam languidamente a bisca. - -O viuvo, enfiado, perdia. No monte, que comeÁ·ra miseravelmente com duas -corÙas, j· luzia ouro; e Palma triumphava, chalaceiando, dando beijocas -na sua moÁa. Mas, ao mesmo tempo, fazia de cavalheiro, fallava de dar a -desforra, ficar ali, sendo necessario, atÈ de madrugada. - ---Ent„o vv. ex.^{as} n„o se tentam? Isto È para passar o tempo... Em -Cintra tudo serve... Valete! Perdeu vocÍ outro mico no rei. Deve a libra -mais quinze tostıes, sÙ Silveira! - -Carlos pass·ra, sem responder, seguido pelo criado--no momento em que -Euzebiosinho, furioso, j· desconfiado, quiz verificar, com as lunetas -negras sobre o baralho, se l· estavam todos os reis. - -Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar. Entre amigos, que -diabo, tudo se admittia! A sua hespanhola, essa sim, escandalisou-se, -defendendo a honra do seu homem: ent„o Palmita havia de ter empalmado o -rei? Mas, a Concha, zelava o dinheiro do seu viuvo, exclamava que o rei -podia estar perdido... Os reis estavam l·. - -Palma atirou um calice de genebra ·s goelas, e recomeÁou a baralhar -magestosamente. - ---Ent„o v. ex.^a n„o se tenta? repetia elle para o maestro. - -Cruges, com effeito, par·ra, roÁando-se pela meza, com o olho nas cartas -e no ouro do monte, j· sem forÁa, remexendo o dinheiro nas algibeiras. -Subitamente um az decidiu-o. Com a m„o nervosa, escorregou-lhe uma libra -por baixo, jogando cinco tostıes, e de porta. Perdeu logo. Quando Carlos -voltou do quarto com o criado que descia as malas, o maestro estava em -pleno vicio, com a libra entalada, os olhos accezos, o ar esguedelhado. - ---Ent„o tu?...--exclamou Carlos com severidade. - ---J· desÁo, rosnou o maestro. - -E, · pressa, foi · paz da libra, n'um terno contra o rei. Cartada de -colicas! como disse o Palma: e foi com emoÁ„o que elle comeÁou a puxar -as cartas, espremendo-as uma a uma, n'um vagar mortal. A appariÁ„o de um -bico arrancou-lhe uma praga. Era apenas um duque, Eusebiosinho perdia -mais uma placa. Palma teve um suspirinho de alivio; e, escondendo com -ambas as m„os o baralho, erguendo as lunetas faiscantes para o maestro: - ---Ent„o, sempre contin˙a toda a libra? - ---Toda. - -Palma teve outro suspiro, d'anciedade; e, mais pallido, voltou -bruscamente as cartas. - ---Rei! gritou elle, empolgando o ouro. - -Era o rei de paus, a sua hespanhola bateu as palmas, o maestro abalou -furioso. - -Na Lawrence o jantar prolongou-se atÈ ·s oito horas, com luzes;--e o -Alencar fallou sempre. Tinha esquecido n'esse dia as desillusıes da -vida, todos os rancores litterarios, estava n'uma veia excellente; e -foram historias dos velhos tempos de Cintra, recordaÁıes da sua famosa -ida a Paris, cousas picantes de mulheres, bocados da chronica intima da -RegeneraÁ„o... Tudo isto com estridencias de voz, e _filhos isto!_ e -_rapazes aquillo!_ e gestos que faziam oscillar as chammas das vellas, e -grandes copos de Collares emborcados de um trago. Do outro lado da meza, -os dois inglezes, correctos nos seus fraques negros, de cravos brancos -na botoeira, pasmavam, com um ar embaraÁado a que se misturava desdem, -para esta desordenada exhuberancia de meridional. - -A appariÁ„o do bacalhau foi um triumpho:--e a satisfaÁ„o do poeta t„o -grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega! - ---Sempre queria que elle provasse este bacalhau! J· que me n„o aprecia -os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto È um bacalhau de -artista em toda a parte!... N'outro dia fil-o l· em casa dos meus -Cohens; e a Rachel, coitadinha, veiu para mim e abraÁou-me... Isto, -filhos, a poesia e a cozinha s„o irm„s! Vejam vocÍs Alexandre Dumas... -Dir„o vocÍs que o pae Dumas n„o È um poeta... E ent„o d'Artagnan? -D'Artagnan È um poema... … a faisca È a phantasia, È a inspiraÁ„o, È o -sonho, È o arrobo! Ent„o, pÙÁo, j· vÍem vocÍs, que È poeta!... Pois -vocÍs h„o-de vir um dia d'estes jantar commigo, e ha-de vir o Ega, e -hei-de-vos arranjar umas perdizes · hespanhola, que vos h„o-de nascer -castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! L· essas cousas de -realismo e romantismo, historias... Um lyrio È t„o natural como um -persevejo... Uns preferem fedÙr de sargeta; perfeitamente, destape-se o -cano publico... Eu prefiro pÛs de marechala n'um seio branco; a mim o -seio, e, l· vae · vossa. O que se quer, È coraÁ„o. E o Ega tem-n'o. E -tem faisca, tem rasgo, tem estylo... Pois, assim È que elles se querem, -e, l· vae · saude do Ega! - -Pousou o copo, passou a m„o pelos bigodes, e rosnou mais baixo: - ---E, se aquelles inglezes continuam a embasbacar para mim, vae-lhes um -copo na cara, e È aqui um vendaval, que ha-de a Gran-Bretanha ficar -sabendo o que È um poeta portuguez!... - -Mas n„o houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou sem saber o que È um poeta -portuguez, e o jantar terminou n'um cafÈ tranquillo. Eram nove horas, -fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break. - -Alencar, embuÁado n'um capote, um verdadeiro capote de padre de aldÍa, -levava na m„o um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panam· na -maleta, trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um -comeÁo de _spleen_, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na -gola do paletot, com a manta da mam„ sobre os joelhos. Partiram. Cintra -ficava dormindo ao luar. - -Algum tempo o break rodou em silencio, na belleza da noite. A espaÁos, a -estrada apparecia banhada d'uma claridade quente que faiscava. Fachadas -de casas, caladas e pallidas, surgiam, d'entre as arvores com um ar de -melancolia romantica. Murmurios de agoas perdiam-se na sombra; e, junto -dos muros enramados, o ar estava cheio d'aroma. Alencar accendera o -cachimbo, e olhava a lua. - -Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada, -silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou tambem para a lua, e -murmurou d'entre os seus agasalhos: - ---Oh Alencar, recita para ahi alguma cousa... - -O poeta condescendeu logo--apesar de um dos criados ir ali ao lado -d'elles, dentro do break. Mas, que havia elle de recitar, sob o encanto -da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua! -Emfim, Ìa dizer-lhe uma historia bem verdadeira e bem triste... Veiu -sentar-se ao pÈ do Cruges, dentro do seu grande capot„o, esvaziou os -restos do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os bigodes, -comeÁou, n'um tom familiar e simples: - - - Era o jardim d'uma vivenda antiga, - Sem arrebiques d'arte ou flÙres de luxo; - Ruas singellas d'alfazema e buxo, - Cravos, roseiras... - - ---Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da -manta, com um berro que emmudeceu o poeta, fez voltar Carlos na -almofada, assustou o trintanario. - -O break par·ra, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silencio da -charneca, sob a paz do luar, Cruges, succumbido, exclamou: - ---Esqueceram-me as queijadas! - - - - -IX - - -O dia famoso da soirÈe dos Cohens, ao fim d'essa semana t„o luminosa e -t„o doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janella -sobre o jardim, vira um cÈu baixo que pesava como se fosse feito de -algod„o em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arripiado e humido; -ao longe o rio estava turvo, e no ar molle errava um halito morno de -sudoeste. Decidira n„o sahir--e desde as nove horas, sentado · banca, -embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de velludo azul, que lhe dava o -bello ar de um principe artista da RenascenÁa, tentava trabalhar: mas, -apesar de duas chavenas de cafÈ, de cigarettes sem fim, o cerebro, como -o cÈu fÛra, conservava-se-lhe n'essa manh„ afogado em nevoas. Tinha -d'estes dias terriveis; julgava-se ent„o ´uma bestaª; e a quantidade de -folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete -aos pÈs, davam-lhe a sensaÁ„o de ser todo elle uma ruina. - -Foi realmente um allivio, uma tregoa n'aquella lucta com as idÈas -rebeldes, quando Baptista annunciou VillaÁa, que lhe vinha fallar de uma -venda de montados no Alemtejo, pertencentes · sua legitima. - ---Negociosinho, disse o administrador, pousando o chapÈo a um canto da -mesa e dentro um rolo de papeis, que lhe mette na algibeira para cima de -dois contos de rÈis... E n„o È mau presente, logo assim pela manh„... - -Carlos espreguiÁou-se, crusando fortemente as m„os por tr·s da cabeÁa: - ---Pois olhe, VillaÁa, preciso bem de dous contos de rÈis, mas preferia -que me trouxesse ahi alguma lucidez de espirito... Estou hoje d'uma -estupidez! - -VillaÁa considerou-o um momento, com malicia. - ---Quer v. ex.^a dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que -receber assim perto de quinhentas libras? S„o gostos, meu senhor, s„o -gostos... Elle È bom sahir-se a gente um Herculano ou um Garrett, mas -dous contos de rÈis, s„o dous contos de rÈis... Olhe que sempre valem um -folhetim. Emfim, o negocio È este. - -Explicou-lh'o, sem se sentar, apressado, emquanto Carlos, de braÁos -cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que VillaÁa -trazia (um macac„o de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia -vagamente, atravez da sua neblina mental, que se tratava de um visconde -de Torral e de porcos... Quando VillaÁa lhe apresentou os papeis, -assignou-os com um ar moribundo. - ---Ent„o n„o fica para almoÁar, VillaÁa? disse elle, vendo o procurador -metter o seu rolo de papeis debaixo do braÁo. - ---Muito agradecido a v. ex.^a Tenho de me encontrar com o nosso amigo -Eusebio... Vamos ao ministerio do reino, elle tem l· uma pertenÁ„o... -Quer a commenda da ConceiÁ„o... Mas este governo est· desgostoso com -elle. - ---Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez d'um bocejo, o governo n„o -est· contente com o Eusebiosinho? - ---N„o se portou bem nas eleiÁıes. Ainda ha dias, o ministro do reino me -dizia, em confidencia: ´O Eusebio È rapaz de merecimento, mas -atravessado...ª V. Ex.^a n'outro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o em -Cintra. - ---Sim, l· estava a fazer jus · commenda da ConceiÁ„o. - -Quando VillaÁa saiu Carlos retomou lentamente a penna, e ficou um -momento, com os olhos na pagina meio-escripta, coÁando a barba, -desanimado e esteril. Mas quasi em seguida appareÁeu Affonso da Maia, -ainda de chapÈo, · volta do seu passeio matinal no bairro, e com uma -carta na m„o, que era para Carlos, e que elle achara no escriptorio -misturada ao seu correio. AlÈm d'isso, esperava encontrar ali o VillaÁa. - ---Esteve ahi, mas deitou a correr, para ir arranjar uma commenda para o -Eusebiosinho--disse Carlos, abrindo a carta. - -E teve uma surpreza, vendo no papel--que cheirava a verbena como a -condessa de Gouvarinho--um convite do conde para jantar no sabbado -seguinte, feito em termos de sympathia t„o escolhidos que eram quasi -poeticos; tinha mesmo uma phrase sobre a amisade, fallava dos _atomos em -gancho_ de Descartes. Carlos desatou a rir, contou ao avÙ que era um par -do reino que o convidava a jantar, citando Descartes... - ---S„o capazes de tudo, murmurou o velho. - -E dando um olhar risonho, aos manuscriptos espalhados sobre a banca: - ---Ent„o, aqui, trabalha-se, hein? - -Carlos encolheu os hombros: - ---Se È que se pÛde chamar a isto trabalhar... Olhe ahi para o ch„o. Veja -esses destroÁos... Em quanto se trata de tomar notas, colligir -documentos, reunir materiaes, bem, l· vou indo. Mas quando se trata de -pÙr as idÈas, a observaÁ„o, n'uma fÛrma de gosto e de symetria, dar-lhe -cÙr, dar-lhe relevo, ent„o... Ent„o foi-se! - ---PreoccupaÁ„o peninsular, filho, disse Affonso sentando-se ao pÈ da -mesa, com o seu chapÈo desabado na m„o. DesembaraÁa-te d'ella. … o que -eu dizia n'outro dia ao Craft, e elle concordava... O portuguez nunca -pÛde ser homem de idÈas, por causa da paix„o da fÛrma. A sua mania È -fazer bellas phrases vÍr-lhes o brilho, sentir-lhes a musica. Se fÙr -necessario falsear a idÈa, deixal-a incompleta, exageral-a, para a -phrase ganhar em belleza, o desgraÁado n„o hesita... V·-se pela agoa -abaixo o pensamento, mas salve-se a bella phrase. - ---Quest„o de temperamento, disse Carlos. Ha sÍres inferiores, para quem -a sonoridade de um adjectivo È mais importante que a exactid„o de um -systema... Eu sou d'esses monstros. - ---Diabo! ent„o Ès um rhetorico... - ---Quem o n„o È? E resta saber por fim se o estylo n„o È uma disciplina -do pensamento. Em verso, o avÙ sabe, È muitas vezes a necessidade de uma -rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o -esforÁo para completar bem a cadencia de uma phrase, n„o poder· trazer -desenvolvimentos novos e inesperados de uma idÈa... Viva a bella phrase! - ---O sr. Ega annunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando comeÁava -justamente a tocar a sineta do almoÁo. - ---Fallae na phrase...--disse Affonso, rindo. - ---Hein? Que phrase? O que?..--exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com -o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletot levantada. Oh! por -aqui a esta hora sr. Affonso da Maia! Como est· v. ex.^a? Dize-me c·, -Carlos, tu È que me podes tirar d'uma atrapalhaÁ„o... Tu ter·s por acaso -uma espada que me sirva? - -E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, j· impaciente: - ---Sim, homem, uma espada! N„o È para me batter, estou em paz com toda a -humanidade... … para esta noute, para o fato de mascara. - -O Mattos, aquelle animal, sÛ na vespera lhe dera o costume para o baile: -e, qual È o seu horror, ao vÍr que lhe arranjara, em logar de uma espada -artistica, um sabre da guarda municipal! Tivera vontade de lh'o passar -atravez das entranhas. Correu ao tio Abrah„o, que sÛ tinha espadins de -cÙrte, reles e pelintras como a propria cÙrte! Lembrara-se do Craft e da -sua collecÁ„o; vinha de l·; mas ahi eram uns espadıes de ferro, catanas -pesando arrobas, as durindanas tremendas dos brutos que conquistaram a -India... Nada que lhe servisse. FÙra ent„o que lhe tinham vindo · idÈa -as panoplias antigas do Ramalhete. - ---Tu È que deves ter... Eu preciso uma espada longa e fina, com os copos -em concha, d'aÁo rendilhado, forrados de velludo escarlate. E sem cruz, -sobretudo sem cruz! - -Affonso, tomando logo um interesse paternal por aquella difficuldade do -John, lembrou que havia no corredor, em cima, umas espadas -hespanholas... - ---Em cima, no corredor? exclamou Ega, j· com a m„o no reposteiro. - -Inutil precipitar-se, o bom John n„o as poderia encontrar. N„o estavam · -vista, arranjadas em panoplia, conservavam-se ainda nos caixıes em que -tinham vindo de Bemfica. - ---Eu l· vou, homem fatal, eu l· vou, disse Carlos, erguendo-se com -resignaÁ„o. Mas olha que ellas n„o tÍem bainhas. - -Ega ficou succumbido. E foi ainda Affonso que achou uma idÈa, o salvou. - ---Manda fazer uma simples bainha de velludo negro; isso faz-se n'uma -hora. E manda-lhe cozer ao comprido rodellas de velludo escarlate... - ---Explendido, gritou Ega: o que È ter gosto! - -E apenas Carlos sahiu, trovejou contra o Mattos. - ---Veja v. ex.^a isto, um sabre da guarda municipal! E È quem faz ahi os -fatos para todos os theatros! Que idiota!.. E È tudo assim, isto È um -paiz insensato!... - ---Meu bom Ega, tu n„o queres tornar de certo Portugal inteiro, o Estado, -sete milhıes d'almas, responsaveis por esse comportamento do Mattos? - ---Sim senhor, exclamava o Ega passeiando pelo gabinete, com as m„os -enterradas nos bolsos do paletot; sim senhor, tudo isso se prende. O -_costumier_ com um fato do seculo XIV manda um sabre da guarda -municipal; por seu lado o ministro, a proposito de impostos, cita as -_MeditaÁıes_ de Lamartine; e o litterato, essa besta suprema... - -Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na m„o, uma folha do -seculo XVI, de grande tempera, fina e vibrante, com copos trabalhado -como uma renda--e tendo gravado no aÁo o nome illustre do espadeiro, -Francisco Ruy de Toledo. - -Embrulhou-a logo n'um jornal, recusou · pressa o almoÁo, que lhe -offereciam, deu dous vivos _shake-hands_, atirou o chapÈu para a nuca, -ia abalar, quando a voz de Affonso o deteve: - ---Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso È uma espada c· da -casa, que nunca brilhou sem gloria, creio eu... VÍ como te serves -d'ella! - -Ao pÈ do resposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contra o peito -do paletot o ferro, enrolado, no _Jornal do Commercio_: - ---N„o a sacarei sem justiÁa, nem a embainharei sem honra. _Au revoir!_ - ---Que vida, que mocidade! murmurou Affonso. Muito feliz È este John!... -Pois vae-te arranjando filho, que j· tocou a primeira vez para o almoÁo. - -Carlos ainda se demorou um instante a reler, com um sorriso, a -apparatosa carta do Gouvarinho; e ia emfim chamar o Baptista para se -vestir, quando em baixo, · entrada particular, o timbre electrico -comeÁou a vibrar violentamente. Um passo ancioso ressoou na ante-camara, -o Damaso appareceu esbaforido, d'olho esgazeado, com a face em braza. E, -sem dar tempo a que Carlos exprimisse a surpreza de o ver emfim no -Ramalhete, exclamou, lanÁando os braÁos ao ar: - ---Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas d'ahi, que me -venhas ver um doente... Eu te explicarei... … aquella gente brazileira. -Mas pelo amor de Deus, vem depressa, menino! - -Carlos erguera-se, pallido: - ---… ella? - ---N„o, È a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos, -veste-te, que a responsabilidade È minha! - ---… um bÈbÈ, n„o È? - ---Qual bÈbÈ!... … uma pequena crescida, de seis annos... Anda d'ahi! - -Carlos, j· em mangas de camisa, estendia o pÈ ao Baptista, que, com um -joelho em terra, apressado tambem, quasi fez saltar os botıes da bota. E -Damaso, de chapÈu na cabeÁa, agitava-se, exagerando a sua impaciencia, a -estalar de importancia. - ---Sempre a gente se vÍ em coisas!.. Olha que responsabilidade a minha! -Vou visital-os, como costumo ·s vezes, de manh„... E vae, tinham partido -para Queluz. - -Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meia vestida: - ---Mas ent„o?.. - ---Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a -governanta... Depois do almoÁo deu-lhe uma dÙr. A governante queria um -medico inglez, porque n„o falla sen„o inglez... Do hotel foram procurar -o Smith, que n„o appareceu... E a pequena a morrer!... Felizmente, -cheguei eu, e lembrei-me logo de ti... Foi sorte encontrar-te, caramba! - -E acrescentou, dando um olhar ao jardim: - ---Tambem, irem a Queluz com um dia d'estes! H„o-de-se divertir... Est·s -prompto, hein? Eu tenho l· em baixo o coupÈ... Deixa as luvas, vaes -muito bem sem luvas! - ---O avÙ que n„o me espere para almoÁar, gritou Carlos ao Baptista, j· do -fundo da escada. - -Dentro do coupÈ, um ramo enorme enchia quasi o assento. - ---Era para ella, disse o Damaso, pondo-o sobre os joelhos. Pela-se por -flores. - -Apenas o coupÈ partiu, Carlos cerrando a vidraÁa, fez a pergunta que -desde a appariÁ„o do Damaso lhe faiscava nos labios. - ---Mas ent„o tu, que querias quebrar a cara a esse Castro Gomes?.. - -O Damaso contou logo tudo, triumphante. FÙra tudo um equivoco! Ah, as -explicaÁıes do Castro Gomes tinham sido d'um gentleman. Sen„o -quebrava-lhe a cara. Isso n„o, desconsideraÁıes, a ninguem! a ninguem! -Mas fÙra assim: os bilhetes de visita que elle lhe deixara conservavam o -seu adresse do _Grand Hotel_ em Paris. E o Castro Gomes, suppondo que -elle vivia l·, obdecendo · indicaÁ„o, mandara para l· os seus cartıes! -Curioso, hein? E de estupÌdo... E a falta de resposta aos telegrammas -fÙra culpa de Madame, descuido, n'aquelle momento de afflicÁ„o, vendo o -marido com o braÁo escavacado... Ah, tinham-lhe dado satisfaÁıes -humildes. E agora eram intimos, estava l· quasi sempre... - ---Emfim, menino, um romance... Mas isso È para mais tarde! - -O coupÈ parara · porta do Hotel Central. Damaso saltou, correu ao guarda -port„o. - ---Mandou o telegramma, Antonio? - ---J· l· vae... - ---Tu comprehendes, dizia elle a Carlos, galgando as escadas, mandei-lhes -logo um telegramma para o hotel em Queluz. N„o estou para ter mais -responsabilidades!... - -No corredor, defronte do escriptorio, um criado passava, com um -guardanapo debaixo do braÁo: - ---Como est· a menina? gritou-lhe o Damaso. - -O criado encolheu os hombros, sem comprehender. - -Mas Damaso j· trepava o outro lanÁo de escada, soprando, gritando: - ---Por aqui Carlos, eu conheÁo isto a palmos! Numero 26! - -Abriu com estrondo a porta do numero 26. Uma criada, que estava · -janella, voltou-se. - -Ah _bonjour_, Melanie! exclamava Damaso, no seu extraordinario francez. -A creanÁa estava melhor? _l'enfant etait meilleur?_ Ali lhe trazia o -doutor, _monsieur le docteur Maia_. - -Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que Mademoiselle estava -mais socegada, e ella ia avisar miss Sarah, a governanta. Passou o -espanador pelo marmore d'uma console, ageitou os livros sobre a meza, e -sahiu, dardejando a Carlos um olhar vivo como uma faisca. - -A sala era espaÁosa, com uma mobilia de rÈps azul, e um grande espelho -sobre a console dourada, entre as duas janellas: a meza estava coberta -de jornaes, de caixas de charutos, e de romances de Cappendu; sobre uma -cadeira, ao lado, fic·ra enrolado um bordado. - ---Esta Melanie, esta desleixada, murmurava o Damaso, fechando a janella -com um esforÁo sobre o feixo perro. Deixar assim tudo aberto! Jesus, que -gente! - ---Este cavalheiro È bonapartista, disse Carlos vendo sobre a meza os -numeros do _Pays_. - ---Isso, temos questıes terriveis! exclamou o Damaso. E eu enterro-o -sempre... … bom rapaz, mas tem pouco fundo. - -Melanie voltou pedindo a _Monsieur le Docteur_ para entrar um instante -no gabinete de toilette. E ahi, depois de apanhar uma toalha cahida, de -dardejar a Carlos outro olharsinho petulante, disse que Miss Sarah vinha -immediatamente, e retirou-se na ponta dos sapatos. FÛra, na sala, -ergueu-se logo a voz do Damaso, fallando a Melanie de _sa -responsabilitÈ, et que il etait trËs affligÈ_. - -Carlos ficou sÛ, na intimidade d'aquelle gabinete de toilette, que -n'essa manh„ ainda n„o fÙra arrumado. Duas malas, pertencentes de certo -a Madame, enormes, magnificas, com fecharias e cantos de aÁo polido, -estavam abertas: d'uma trasbordava uma cauda rica, de seda forte cÙr de -vinho: e na outra era um delicado alvejar de roupa branca, todo um luxo -secreto e raro de rendas e _baptistes_, d'um brilho de neve, macio pelo -uso e cheirando bem. Sobre uma cadeira alastrava-se um monte de meias de -seda, de todos os tons, unidas, bordadas, abertas em renda e t„o leves, -que uma aragem as faria voar; e, no ch„o corria uma fila de sapatinhos -de verniz, todos do mesmo estylo, longos, com o tac„o baixo e grandes -fitas de laÁar. A um canto estava um cesto acolchoado de seda cÙr de -rosa, onde de certo viajara a cadellinha. - -Mas o olhar de Carlos prendia-se sobre tudo a um soph· onde ficar· -estendido, com as duas mangas abertas, · maneira de dous braÁos que se -offerecem, o casaco branco de velludo lavrado de Genova com que elle a -vira, a primeira vez, apear-se · porta do hotel. O forro, de setim -branco, n„o tinha o menor acolxoado, t„o perfeito devia ser o corpo que -vestia: e assim, deitado sobre o soph·, n'essa attitude viva, n'um -desabotoado de semi-nudez, adiantando em vago relevo o cheio de dois -seios, com os braÁos alargando-se, dando-se todos, aquelle estofo -parecia exhalar um calor humano, e punha ali a fÛrma d'um corpo amoroso, -desfallecendo n'um silencio d'alcova. Carlos sentiu bater o coraÁ„o. Um -perfume indefinido e forte de jasmim, de marechala, de tanglewood, -elevava-se de todas aquellas cousas intimas, passava-lhe pela face com -um bafo suave de caricia... - -Ent„o desviou os olhos, approximou-se da janella, que tinha por -perspectiva a fachada enxovalhada do hotel _Shneid_. Quando se voltou, -miss Sarah estava diante d'elle, vestida de preto e muito cÛrada: era -uma pessoa sympathica, redondinha e pequena, com um ar de rola farta, os -olhos sentimentaes, e uma testa de virgem sob bandÛs lisos e louros. -Balbuciava umas palavras em francez, em que Carlos sÛ percebeu -_docteur_. - ---_Yes, I am the doctor_, disse elle. - -A face da boa ingleza illuminou-se. Oh! era t„o bom, ter emfim com quem -se entender! A menina estava muito melhor! Oh, o doutor vinha livral-a -d'uma responsabilidade!... - -Abriu o reposteiro, fÍl-o penetrar n'um quarto com as janellas todas -cerradas, onde elle apenas distinguiu a fÛrma d'um grande leito e o -brilho de cristaes n'um toucador. Perguntou para que eram aquellas -trevas? - -Miss Sarah pensara que a escurid„o faria bem ‡ menina, e a adormeceria. -E trouxera-a ali para o quarto da mam„, por ser mais largo e mais -arejado. - -Carlos fez abrir as janellas: e, quando a grande luz entrou, ao avistar -a pequena no leito, sob os cortinados abertos, n„o conteve a sua -admiraÁ„o. - ---Que linda creanÁa! - -E ficou um instante a contemplal-a, n'um enlevo d'artista, pensando que -os brancos mais mimosos, mais ricos, sob a mais sabia combinaÁ„o de luz, -n„o egualariam a pallidez eburnea d'aquella pelle maravilhosa: e esta -adoravel brancura era ainda realÁada por um cabello negro, tenebroso, -forte, que reluzia sob a rede. Os seus por dois olhos grandes, d'um azul -profundo e liquido, pareciam n'esse instante maiores, muito serios, e -muito abertos para elle. - -Estava encostada a um grande travesseiro, toda quieta, com o susto ainda -da dÙr, perdida n'aquelle vasto leito, e apertando nos braÁos uma enorme -boneca paramentada, de pello riÁado, d'olhos tambem azues e arregalados -tambem. - -Carlos tomou-lhe a m„osinha e beijou-lh'a,--perguntando se a boneca -tambem estava doente. - ---Cri-cri tambem teve dÙr, respondeu ella muito sÈria, sem tirar d'elle -os seus magnificos olhos. Eu j· n„o tenho... - -Estava com effeito fresca como uma flor, com a lingoasinha muito rosada, -e a sua vontade j· de lunchar. - -Carlos tranquillisou miss Sarah. Oh, ella via bem que mademoiselle -estava boa. O que a assustara fÙra achar-se ali sÛ, sem a mam„, com -aquella responsabilidade. Por isso a tinha deitado... Oh se fosse uma -creanÁa ingleza saÌa com ella para o ar... Mas estas meninas -estrangeiras, t„o debeis, t„o delicadas... E o labiosinho gordo da -ingleza trahia um desdem compassivo por estas raÁas inferiores e -deterioradas. - ---Mas a mam„ n„o È doente? - -Oh, n„o! Madame era muito forte. O senhor, esse sim, parecia mais -fraco... - ---E, como se chama a minha querida amiga? perguntou Carlos, sentado ‡ -cabeceira do leito. - ---Esta È Cri-cri, disse a pequena, apresentando outra vez a boneca. Eu -chamo-me Rosa, mas o pap· diz que eu que sou Rosicler. - ---Rosicler? realmente? disse Carlos sorrindo d'aquelle nome de livro de -cavallaria, rescendente a torneios, e a bosques de fadas. - -Ent„o, como colhendo simplesmente informaÁıes de medico, perguntou a -miss Sarah se a menina sentira a mudanÁa de clima. Habitavam -ordinariamente Paris, n„o È verdade? - -Sim, viviam em Paris no inverno, no parque Monceaux; de ver„o iam para -uma quinta da Touraine ao pÈ mesmo de Tours, onde ficavam atÈ ao comeÁo -da caÁa; e iam sempre passar um mez a Dieppe. Pelo menos fora assim, nos -ultimos tres annos, desde que ella estava com Madame. - -Emquanto a ingleza fallava, Rosa, com a sua boneca nos braÁos, n„o -cessava de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Elle, de vez em -quando sorria-lhe, ou acariciava-lhe a m„osinha. Os olhos da m„e eram -negros: os do pae d'azeviche e pequeninos: de quem herdara ella aquellas -maravilhosas pupillas d'um azul t„o rico, liquido e doce. - -Mas a sua visita de medico findara, ergueu-se para receitar um calmante. -Emquanto a ingleza preparava muito cuidadosamente o papel, e -experimentava a pena, elle examinou um momento o quarto. N'aquella -installaÁ„o banal d'hotel, certos retoques d'uma elegancia delicada -revelavam a mulher de gosto e de luxo: sobre a commoda e sobre a meza -havia grandes ramos de flores: os travesseiros e os lenÁoes n„o eram do -hotel, mas proprios, de bretanha fina, com rendas e largos monogrammas -bordados a duas cÙres. Na poltrona que ella usava uma cachemira de -Tarnah disfarÁava o medonho reps desbotado. - -Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a meza alguns -livros de encadernaÁıes ricas, romances e poetas inglezes: mas destoava -ali, estranhamente, uma brochura singular--o _Manual de interpretaÁ„o -dos sonhos_. E ao lado, em cima do toucador, entre os marfins das -escovas, os cristaes dos frascos, as tartarugas finas, havia outro -objecto estravagante, uma enorme caixa de pÛ de arroz, toda de prata -dourada, com uma magnifica safira engastada na tampa dentro d'um circulo -de brilhantes miudos, uma joia exagerada de cocotte, pondo ali uma -dissonancia audaz de explendor brutal. - -Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler: ella -estendeu-lhe logo a boquinha fresca como um bot„o de rosa; elle n„o -ousou beijal-a assim n'aquelle grande leito da m„e, e tocou-lhe apenas -na testa. - ---Quando vens tu outra vez? perguntou ella agarrando-o pela manga do -casaco. - ---N„o È necessario vir outra vez, minha querida. Tu est·s boa, e Cri-cri -tambem. - ---Mas eu quero o meu lunch... Dize a Sarah que eu posso tomar o meu -lunch... E Cri-cri tambem. - ---Sim j· podeis ambas petiscar alguma cousa... Fez as suas -recommendaÁıes · mestra, e depois, apertando a m„osinha da pequena: - ---E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que Ès Rosicler... - -E n„o quiz ser menos amavel com a boneca, deu-lhe tambem um -_shake-hands_. - -Isto pareceu captivar Rosa ainda mais. A ingleza, ao lado, sorria, com -duas covinhas na face. - -N„o era necessario, lembrou Carlos, conservar a creanÁa na cama, nem -tortural-a com cautellas exageradas... - ---Oh, nÚ, sir! - -E se a dÙr reapparecesse, ainda que ligeira, mandal-o logo chamar... - ---Oh yes, sir! - -E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse. - ---Oh thank you, sir! - -Ao voltar · sala, o Damaso saltou do soph·, onde percorria um jornal, -como uma fÈra a quem se abre a jaula. - ---Credo, imaginei que ias l· ficar toda a vida! Que estivestes tu a -fazer? Irra, que estopada! - -Carlos, calÁando as luvas, sorria, sem responder. - ---Ent„o, È cousa de cuidado? - ---N„o tem nada. Tem uns lindos olhos... E um nome extraordinario. - ---Ah, Rosicler, murmurou Damaso, agarrando o chapÈo com mau modo; muito -ridiculo, n„o È verdade? - -A creada franceza appareceu outra vez a abrir a porta da -sala,--dardejando para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Damaso -recommendou-lhe muito que dissesse aos senhores, que elle tinha vindo -logo com o medico; e que havia de voltar · noite para lhes fazer uma -surpreza, e para saber se tinham gostado de Queluz--_si ils avaient aimË -Queluz_. - -Depois, ao passar diante do escriptorio, metteu a cabeÁa, para dizer ao -guarda-livros, que a menina estava boa, tudo ficava em socego. - -O guarda livros sorrio, e cortejou. - ---Queres que te v· levar a casa? perguntou elle a Carlos, em baixo, -abrindo a porta do coupÈ, ainda com um resto de mau humor. - -Carlos preferia ir a pÈ. - ---E acompanha-me tu um bocado, Damaso, tu agora n„o tens que fazer. - -Damaso hesitou, olhando o cÈu aspero, as nuvens pesadas de chuva. Mas -Carlos tomara-lhe o braÁo, arrastava-o, amavel e gracejando. - ---Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero o _romance_... Tu -disseste que tinhas um _romance_. N„o te largo. …s meu. Venha o -_romance_. Eu sei que os tens sempre bons. Quero o _romance_! - -Pouco a pouco Damaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe de -satisfaÁ„o. - ---Vae-se fazendo pela vida, disse elle a estoirar de jactancia. - ---VocÍs estiveram em Cintra?... - ---Estivemos, mas isso n„o foi divertido... O romance È outro! - -Desprendeu-se do braÁo de Carlos, fez um signal ao cocheiro para que os -seguisse, e regalou-se pelo Aterro fÛra de contar o seu _romance_. - ---A coisa È esta... O marido d'aqui a dias vai para o Brazil, tem l· -negocios. E ella fica! Fica com as criadas e com a pequena, · espera, -dois ou tres mezes. Diz que j· andaram atÈ a vÍr casas mobiladas, que -ella n„o quer estar no hotel... E eu, intimo, a unica pessoa que ella -conhece, mettido de dentro... Hein, percebes agora? - ---Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe o charuto, com um -gesto nervoso. E de certo, a pobre creatura j· est· fascinada! J· lhe -dÈste, como costumas, um beijo ardente entre duas portas! J· a -desgraÁada se surtiu da caixa de phosphoros, para mais tarde quando a -abandonares! - -Damaso enfiava. - ---N„o venhas j· tu com o espirito e com a chufasinha... N„o lhe dei -beijos que ainda n„o houve occasi„o... Mas, o que te posso dizer, È que -tenho mulher! - ---Pois j· era tempo, exclamou Carlos, sem conter um gesto brusco, e -atirando-lhe as palavras como chicotadas. J· era tempo! Andavas ahi -mettido com umas creaturas ignobeis, uma ralÈ de lupanar. Emfim, agora -ha progresso. E eu gosto que os meus amigos vivam n'uma ordem de -sentimentos decentes... Mas vÍ l·... N„o sejas o costumado Damaso! N„o -te v·s pÙr a alardear isso pelo Gremio e pela casa Havaneza! - -D'esta vez Damaso estacou, suffocado, sem comprehender aquelle modo, -semelhante azedume. E terminou por balbuciar, livido: - ---Tu podes entender muito de medicina e de bric-a-brac, mas l· a -respeito de mulheres, e da maneira de fazer as cousas, n„o me d·s -licÁıes... - -Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E de repente, -sentio-o t„o innofensivo, t„o insignificante, com o seu ar bochechudo, e -molle, que se envergonhou do surdo despeito que o atravessara, tomou-lhe -o braÁo, teve duas palavras amaveis. - ---Damaso, tu n„o me comprehendeste. Eu n„o te quiz fazer zangar... … -para teu bem... O que eu receava È que tu, imprudente, arrebatado, -apaixonado, fosses perder essa bella aventura por uma indiscriÁ„o... - -E o outro ficou logo contente, sorrindo j·, abandonando-se ao braÁo do -seu amigo, certo que o desejo do Maia era que elle tivesse uma amante -_chic_. N„o, elle n„o se tinha zangado, nunca se zangava com os -intimos... Comprehendia bem que o que Carlos dizia era por amisade... - ---Mas tu, ·s vezes, tens essa cousa que te pegou o Ega, gostas do teu -bocadinho de espirito... - -E ent„o tranquillisou-o. N„o, por imprudencia n„o havia elle de ´perder -a cousaª. Aquillo ia com todas as regras. L· n'isso sobrava-lhe -experiencia. A Melanie j· a tinha na m„o; j· lhe dera duas libras. - ---Isto de mais a mais È uma cousa muito seria... Ella conhece meu tio, È -intima d'elle desde pequena, tratam-se atÈ por _tu_... - ---Que tio? - ---Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimar„es. Mr. de Guimaran, o que -vive em Paris, o amigo de Gambetta... - ---Ah sim, o communista... - ---Qual communista, atÈ tem carruagem! - -Subitamente lembrou-lhe outra cousa, um ponto de toilette em que queria -consultar Carlos. - ---¡manh„ vou jantar com elles, e v„o tambem dois brazileiros, amigos -d'elle, que chegaram ahi ha dias, e que partem pelo mesmo paquete... Um -È _chic_, È da LegaÁ„o do Brazil em Londres. De maneira que È jantar de -ceremonia. O Castro Gomes n„o me disse nada; mas que te parece, achas -que v· de casaca?... - ---Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapella. - -O Damaso olhou-o, pensativo. - ---A mim tinha-me lembrado o habito de Christo. - ---O habito de Christo... Sim, pıe o habito de Christo ao pescoÁo, e pıe -a rosa na botoeira. - ---Ser· talvez de mais, Carlos! - ---N„o, fica bem ao teu typo. - -Damaso fizera parar o coupÈ que os tinha seguido a passo. E no ultimo -aperto de m„o a Carlos: - ---Tu sempre vaes · noite, aos Cohens, de dominÛ? O meu fato de selvagem -ficou divino. Eu venho mostral-o · noite · brazileira... Entro no Hotel -embrulhado n'um capote, e appareÁo-lhes de repente na sala, de selvagem, -de Nelusko, a cantar: - - - Alerta, marinari, - Il vento cangia... - - -_Chic_ a valer!... _Good bye!_ - - -¡s dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. FÛra, a noite -fizera-se tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas d'agoa, que a cada -instante batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinete de toilette, -errava no ar tepido um vago aroma de sabonete e de bom charuto. Sobre -duas commodas de pau preto, marchetadas a marfim, duas serpentinas de -velho bronze erguiam os seus molhos de vellas accezas, pondo largos -reflexos doces sobre a seda castanha das paredes. Ao lado do alto -espelho-psychÈ alastrava-se, em cima d'uma poltrona, o dominÛ de j· -setim negro com um grande laÁo azul-claro. - -Baptista, com a casaca na m„o, esperava que Carlos acabasse a chavena de -ch· preto que elle estava bebendo aos golos, de pÈ, em mangas de camisa, -e de gravata branca. - -De repente, o timbre electrico da porta particular reteniu, apressado e -violento. - ---Talvez outra surpreza, murmurou Carlos, hoje È o dia das surprezas... - -Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir--quando em baixo vibrou -outro repique brutal, d'uma impaciencia phrenetica. - -Ent„o Carlos, curioso, sahiu · ante-camara: e ahi, · meia luz das -lampadas Carcel, ainda quebrantada pelo tom dos velludos cÙr de cereja, -viu, ao abrir-se a porta por onde entrou um sopro aspero da noite, -apparecer vivamente uma fÛrma esguia e vermelha, com um confuso tinir de -ferro. Depois, pela escada acima, duas pennas negras de gallo ondearam, -um manto escarlate esvoaÁou--e o Ega estava diante d'elle, -caracterisado, vestido de Mephistopheles! - -Carlos apenas poude dizer _bravo_--o aspecto do Ega emmudeceu-o. Apezar -dos toques de caracterisaÁ„o que quasi o mascaravam, sobrancelhas de -diabo, guias de bigode ferozmente exageradas--sentia-se bem a afflicÁ„o -em que vinha, com os olhos injectados, perdido, n'uma terrivel pallidez. -Fez um gesto a Carlos, arremessou-se pelo gabinete dentro. Baptista, -logo, discretamente, retirou-se cerrando o reposteiro. - -Estavam sÛs. Ent„o Ega, apertando desesperadamente as m„os, n'uma voz -rouca e d'agonia: - ---Tu sabes o que me succedeu, Carlos? - -Mas n„o poude dizer mais, suffocado, tremendo todo; e diante d'elle, -devorando-o com os olhos, Carlos tremia tambem, enfiado. - ---Cheguei a casa dos Cohens, continuou Ega por fim com esforÁo e quasi -balbuciando, mais cedo, como tinhamos combinado. Ao entrar na sala, j· -estavam duas ou tres pessoas... Elle vem direito a mim, e diz-me: ´VocÍ, -seu infame, ponha-se j· no meio da rua... J· no meio da rua sen„o, -diante d'esta gente, corro-o a pontapÈs!ª E eu, Carlos... - -Mas a colera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve um momento mordendo os -beiÁos, recalcando os soluÁos, com os olhos reluzentes de lagrimas. - -Quando as palavras voltaram, foi uma explos„o selvagem: - ---Quero-me batter em duello com aquelle malvado, a cinco passos, -metter-lhe uma bala no coraÁ„o! - -Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da garganta; e, batendo -furiosamente o pÈ, esmurrando o ar, berrava, sem cessar, como cevando-se -na estridencia da propria voz. - ---Quero matal-o! Quero matal-o! Quero matal-o! - -Depois, allucinado, sem ver Carlos, rompeu a passear desabridamente pelo -quarto, ·s patadas, com o manto deitado para traz, a espada mal -afivelada batendo-lhe as canellas escarlates. - ---Ent„o descobriu tudo, murmurou Carlos. - ---Est· claro que descobriu tudo! exclamou o Ega, no seu passear -arrebatado, atirando os braÁos ao ar. Como descobriu, n„o sei. Sei isto, -j· n„o È pouco. Poz-me fÛra!... Hei-de-lhe metter uma bala no corpo! -Pela alma de meu pae, hei-de-lhe varar o coraÁ„o!... Quero que v·s l· -logo pela manh„ com o Craft... E as condiÁıes s„o estas: · pistolla, a -quinze passos! - -Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chavena de ch·. Depois -disse muito simplesmente: - ---Meu querido Ega, tu n„o podes mandar desafiar o Cohen. - -O outro estacou de repell„o, atirando pelos olhos dois relampagos -d'ira--a que as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas pennas de gallo -ondeando na gorra, davam uma ferocidade theatral e comica. - ---N„o o posso mandar desafiar? - ---N„o. - ---Ent„o pıe-me fÛra de casa... - ---Estava no seu direito. - ---No seu direito!... Diante de toda a gente?... - ---E tu, n„o eras amante da mulher diante de toda a gente?... - -O Ega ficou a olhar um momento para Carlos, como atordoado. Depois fez -um grande gesto: - ---N„o se trata da mulher!... n„o se fallou da mulher!... … uma quest„o -d'honra para mim, quero mandal-o desafiar, quero matal-o... - -Carlos encolheu os hombros. - ---Tu n„o est·s em ti. Tens sÛ uma coisa a fazer; È ficar ·manh„ em casa, -a vÍr se elle te manda desafiar a ti... - ---O que, o Cohen! exclamou Ega. … um covarde, È um canalha!... Ou o -mato, ou lhe rasgo a cara com um chicote. Desafiar-me! Olha quem... Tu -est·s doido... - -E recomeÁou o seu passear desabalado do espelho para a janella, -soprando, rilhando os dentes, com repellıes para traz ao manto que -faziam oscillar, nas serpentinas, as chammas altas das vellas. - -Carlos n„o dizia nada, de pÈ junto da meza, enchendo lentamente de novo -a sua chavena. Tudo aquillo comeÁava a parecer-lhe pouco serio, pouco -digno, as ameaÁas de pontapÈs do marido, os furores melodramaticos do -Ega:--e mesmo n„o podia deixar de sorrir diante d'aquelle Mephistopheles -esgouroviado, espalhando pelo quarto o brilho escarlate do seu manto de -velludo, e a fallar furiosamente d'honra e de morte, com sobrancelhas -postiÁas, e escarcella de coiro · cinta. - ---Vamos fallar ao Craft! exclamou de repente Ega, parando, com esta -brusca resoluÁ„o. Quero vÍr o que diz o Craft. Tenho l· em baixo uma -tipoia; estamos l· n'um instante! - ---Ir agora · quinta, aos Olivaes? disse Carlos, olhando o relogio. - ---Se Ès meu amigo, Carlos!... - -Carlos immediatamente, sem chamar o Baptista, acabou de se vestir. - -Ega, no entanto, ia preparando uma chavena de ch·, deitando-lhe rhum, -ainda t„o nervoso, que mal podia segurar a garrafa. Depois, com um -grande suspiro, accendeu uma cigarrete. Carlos entr·ra na alcova de -banho, ao lado, allumiada por um forte jacto de gaz que assobiava. FÛra, -a chuva continuava seguida e monotona, as goteiras escoavam-se no ch„o -molle do jardim. - ---Achas que a tipoia aguentar·? perguntou Carlos de dentro. - ---Aguenta, È o _CanhÙto_, disse Ega. - -Agora reparara no dominÛ, fÙra erguel-o, examinava-lhe o setim rico, o -bello laÁo azul claro. Depois, tendo encontrado diante de si o grande -espelho-psychÈ, entalou o monoculo no olho, recuou um passo, -contemplou-se d'alto a baixo;--e terminou por pousar uma das m„os na -cinta, appoiar a outra, galhardamente, sobre os copos da espada. - ---Eu n„o estava mal, oh Carlos, hein? - ---Estavas explendido, respondeu o outro de dentro da alcova. Foi pena -estragar-se tudo... Como estava ella? - ---Devia estar de Margarida. - ---E elle? - ---A besta? De beduino. - -E continuou ao espelho, gosando a sua figura esguia, as pennas da gorra, -os sapatos bicudos de velludo, e a ponta flamante da espada erguendo o -manto por traz, n'uma prega fidalga. - ---Mas ent„o, disse Carlos, apparecendo a enxugar as m„os, tu n„o fazes -idÈa do que se passou, o que elle diria · mulher, o escandalo... - ---N„o faÁo idÈa nenhuma, disse o Ega, agora mais sereno. Quando entrei -na primeira sala estava elle, de beduino; estava um outro sujeito -d'urso, e uma senhora n„o sei de que, de Tyrollesa creio eu... Elle veiu -para mim, e disse-me aquillo: ponha-se fÛra! N„o sei mais nada... Nem -posso perceber... O canalha, se descobriu, naturalmente, para n„o -estragar a festa, n„o disse nada a Rachel... Depois È que ellas s„o! - -Ergueu as m„os para o ceu, murmurou: - ---… horroroso! - -Deu ainda uma volta pelo quarto, e depois n'uma outra voz, franzindo a -face: - ---N„o sei que diabo aquelle Godefroy me deu para collar as sobrancelhas, -que me picam que tem diabo! - ---Tira-as... - -Deante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu semblante feroz de -Santanaz. Mas arrancou-as por fim--e a gorra emplumada, muito justa, que -lhe escaldava a cabeÁa. Ent„o Carlos lembrou-lhe que, para ir a casa do -Craft, se desembaraÁasse do manto e da espada, se agasalhasse n'um -paletot d'elle. Ega deu ainda um longo e mudo olhar ao seu flamejante -traje infernal, e com um profundo suspiro comeÁou a desafivelar o talim. -Mas o paletot era muito largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra -nas mangas. Depois Carlos metteu-lhe um bonet escossez na cabeÁa.--E -assim arranjado, com as canellas vermelhas de diabo apparecendo sob o -paletot, a gargantilha escarlate · Carlos IX emergindo da gola, a velha -casqueta de viagem na nuca, o pobre Ega tinha o ar lamentavel d'um -Satanaz pelintra, agasalhado pela caridade d'um gentleman, e usando-lhe -o fato velho. - -Baptista allumiou, grave e discreto. Ega ao passar por elle, murmurou: - ---Isto vae mal, Baptista, isto vae mal... - -O velho creado teve um movimento triste d'hombros, como significando que -nada no mundo ia bem. - -Na rua negra, a parelha quieta dobrava a cabeÁa sob a chuva. O -_Canhoto_, ao ouvir fallar d'uma gorgeta de libra, fez um grande -espalhafato, rompeu ·s chicotadas; e a velha traquitana l· partiu a -galope, a escorrer d'agua, atroando a calÁada. - -Por vezes um coupÈ particular crusava-os, os casacos de gutta-perche dos -criados branquejavam · luz das lanternas. Ent„o a idÈa da festa que -devia agora resplandecer; Margarida ignorando tudo, walsando nos braÁos -d'outros, anciosa, · espera d'elle; a ceia depois, o champagne, as -cousas brilhantes que elle teria dito--todas estas delicias perdidas se -vinham cravar no coraÁ„o do pobre Ega, arrancavam-lhe pragas surdas, -Carlos fumava silenciosamente, com o pensamento no Hotel Central. - -Depois de Santa Apolonia a estrada comeÁou, infindavel, desabrigada, -batida pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra, cada um para o -seu canto, arripiados na friagem que entrava pelas gretas da tipoia. -Carlos n„o cessava de vÍr o casaco branco de velludo, com as duas mangas -abertas, como dois braÁos que se offereciam... - -Passava da uma hora quando chegaram · quinta, a sineta do port„o, aos -puxıes do cocheiro encharcado, retumbou lugubre n'aquelle silencio -escuro de aldeia. Um c„o ladrou furiosamente: outros latidos ao longe -responderam; e ainda esperaram muito, antes que um creado, somnolento e -resmung„o, apparecesse com uma lanterna. Uma rua d'acacias conduzia · -casa: o Ega praguejava, enterrando os seus bellos sapatos de velludo no -ch„o lamacento. - -Craft, surprehendido com aquelle tumulto, veiu-lhes ao encontro no -corredor, de robe-de-chambre, e a _Revista dos Dois Mundos_ debaixo do -braÁo. Percebeu logo que havia desastre. Levou-os em silencio para o seu -gabinete onde um bom lume de carv„o na chaminÈ aquecia, alegrava o -aposento todo estofado de cretones claros. Ambos foram direitos ao lume. - -Ega rompera logo a contar o seu caso--emquanto Craft, sem espanto nem -exclamaÁıes, ia preparando methodicamente sobre a meza tres grogs de -cognac e lim„o. Carlos, sentado ao pÈ do fog„o, aquecia os pÈs: e Craft -veiu acabar de ouvir o Ega, accommodando-se tambem na sua poltrona, do -outro lado da chaminÈ, com o seu cachimbo na bocca. - ---Emfim, exclamou Ega, de pÈ, cruzando os braÁos, que me aconselhas tu -agora? - ---Tens a fazer sÛ isto, disse Craft: esperar ·manh„ em casa que elle te -mande os seus padrinhos... Que tenho a certeza que n„o manda... E -depois, se vos baterdes, deixar-te ferir ou matar. - ---Perfeitamente o que eu disse, murmurou Carlos, provando o seu grog. - -Ega olhou-os a ambos, successivamente, petrificado. E logo, n'um fluxo -de palavras desordenadas, queixou-se de n„o ter amigos. Ali estava, -n'aquella crise, a maior da sua vida: e em logar de encontrar, nos seus -camaradas de infancia e de Coimbra, apoio, solidariedade, lealdade _‡ -tort et ‡ travers_, abandonavam-n'o, pareciam querer enterral-o, e -expol-o a irrisıes maiores... Ia-se commovendo; os olhos -vermelhejavam-lhe sob as lagrimas. E quando algum d'elles ia -interrompel-o, n'uma palavra de senso, batia o pÈ, persistia na sua -teima--um desafio, matar o Cohen, vingar-se! Tinha sido insultado. N„o -existia outra cousa. N„o se tinha fallado na mulher. Era elle que devia -primeiro mandar padrinhos, lavar a sua honra. Havia pessoas na sala, -quando o outro o insultou. Havia um urso, e uma tyrolesa... E emquanto a -deixar-se varar por uma bala, n„o! Tinha mais direito a viver que o -Cohen, que era um burguez, e um agiota... E elle era um homem de estudo -e de arte! Tinha na cabeÁa livros, idÈas, cousas grandes. Devia-se ao -paiz, · civilisaÁ„o!... Se fosse ao campo, era para fazer a sua -pontaria, e abater o Cohen, ali, como uma besta immunda... - ---Mas o que È, È que n„o tenho amigos! gritou elle exhausto por fim, -cahindo para o canto d'um soph·. - -Craft bebia em silencio, e aos golos, o seu cognac. - -Foi Carlos que se ergueu, serio e aspero. Elle n„o tinha direito de -duvidar da sua amisade. Quando lhe tinha ella faltado? Mas era -necessario n„o ser pueril; nem theatral... A quest„o estava simplesmente -em que o Cohen o surprehendera, amando-lhe a mulher. Logo, podia -matal-o, podia entregal-o aos tribunaes, podia escavacal-o na sala a -pontapÈs... - ---Ou peor, interrompeu Craft. Mandar-te a senhora, com este bilhetinho: -´Guarde-aª. - ---Ou isso! continuava Carlos. N„o, senhor: limita-se a prohibir-te a -entrada em casa, um pouco asperamente, sim, mas indicando que, depois de -ter feito isto, n„o quer nada mais violento, nem mais dramatico. Teve -portanto um acto de moderaÁ„o. E tu queres mandal-o desafiar por -isso?... - -Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pela sala, sem -paletot agora, esguedelhado, parecendo mais phantastico n'aquelle -simples gib„o escarlate, com os sapatos de velludo enlameados, as longas -pernas de cegonha cobertas de malha de seda vermelha. E teimava que se -n„o tratava d'isso! N„o, n„o se tratava da mulher! A quest„o era -outra... - -Carlos ent„o zangou-se. - ---Para que diabo te expulsou elle de casa ent„o? N„o disparates, homem! -NÛs estamos-te a dizer o que faz um homem de senso. E È triste, que te -custe tanto a perceber o que manda o senso. Trahiste um amigo teu... -Nada de equivocos! tu declaravas bem alto a tua amisade pelo Cohen. -Trahistel-o, tens de acceitar a lei: se elle te quizer matar tens de -morrer. Se elle n„o quizer fazer nada, tens de ficar de braÁos cruzados. -Se elle te quizer chamar ahi por essas ruas um infame, tens de baixar a -cabeÁa, e reconhecer-te infame... - ---Ent„o tenho de engolir a affronta? - -Os dois amigos explicaram-lhe que aquelle fato de Satanaz lhe perturbava -a lucidez do criterio mundano--e que chegava a ser torpe fallar elle, -Ega, de _affronta_. - -Ega, outra vez acabrunhado sobre o soph·, conservou um momento a cabeÁa -enterrada nas m„os. - ---Eu j· nem sei, disse elle por fim. VocÍs devem ter ras„o... Eu -estou-me a sentir idiota ... Ent„o, vamos, que hei de eu fazer? - ---VocÍs teem a tipoia · espera? perguntou tranquillamente Craft. - -Carlos mandara desapparelhar, recolher o gado esfalfado. - ---Excellente! Ent„o, meu caro Ega, tens outra cousa a fazer, antes de -morrer ·manh„ talvez, È cear esta noite. Eu ia ceiar, e por motivos -longos d'explicar, ha n'esta casa um peru frio. E ha-de haver uma -garrafa de Bourgonhe... - -D'ahi a pouco estavam · mesa--n'aquella bella sala de jantar do Craft, -que encantava sempre Carlos, com as suas tapeÁarias ovaes representando -bocados solitarios d'arvoredo, as severas faenÁas da Persia, e a sua -original chaminÈ flanqueada por duas figuras negras de Nubios com olhos -rutilantes de crystal. Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava j· -o per˙, emquanto Craft, desarrolhava, com veneraÁ„o, duas garrafas do -seu velho Chambertin, para reconfortar Mephistopheles. - -Mas Mephistopheles, sombrio e com os olhos avermelhados, repelliu o -prato, desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o -Chambertin. - ---Pois eu, dizia Craft empunhando o talher, quando vocÍs chegaram, -estava a lÍr um artigo interessante sobre a decadencia do protestantismo -em Inglaterra... - ---Que È aquillo, alÈm, n'aquella lata? perguntou Ega, com uma voz -moribunda. - -Um _p‚tÍ de foie-gras_. Mephistopheles escolheu com tedio uma trufa. - ---Bem bom, este teu Chambertin, suspirou elle. - ---Anda come e bebe com franqueza, gritou-lhe Craft. N„o te romantises. -Tu o que tens È fome. Todas as tuas idÈas esta noite se ressentem da -debilidade! - -Ent„o Ega confessou que devia estar fraco. Com aquella excitaÁ„o do seu -trage de Satanaz nem jant·ra, contando ceiar bem em casa do outro... -Sim, com effeito, tinha appetite! Excellente _foie-gras_... - -E d'ahi a pouco devorava: foram talhadas de per˙, uma porÁ„o immensa de -lingua d'Oxford, duas vezes presunto d'York, todas aquellas boas cousas -inglezas que havia sempre em casa do Craft. E elle sÛ bebeu quasi toda -uma garrafa de Chambertin. - -O escudeiro fÙra preparar o cafÈ: e, no entanto, ia-se discutindo, em -todas as hypotheses, a attitude provavel do Cohen com a mulher. Que -faria elle? Talvez lhe perdoasse. Ega affirmava que n„o: era vaidoso, e -de rancores longos! N'um convento tambem n„o a fechava, sendo judia... - ---Talvez a mate, disse Craft, com toda a seriedade. - -Ega, j· com os olhos brilhantes do Bourgogne, declarou tragicamente que -elle ent„o entrava n'um mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em -que mosteiro queria elle entrar? Nenhum era congenere com o Ega! Para -dominicano era muito magro, para trapista muito lascivo, muito palrador -para jesuita, e para benedictino muito ignorante... Era necessario crear -uma ordem para elle! Craft lembrou a _Santa Blague_! - ---VocÍs n„o teem coraÁ„o, exclamou Ega, enchendo outro grande copo. -VocÍs n„o sabem, eu adorava aquella mulher! - -Ent„o largou a fallar de Rachel. E teve alli, de certo, os momentos -melhores de toda aquella paix„o,--porque poude, sem escrupulo, fazer -reluzir a sua aureola de amante, banhar-se no mar de leite das -confidencias vaidosas. ComeÁou por contar o encontro com ella na -Foz--emquanto Craft, sem perder uma palavra, como quem se instrue, se -erguera a abrir uma garrafa de Champagne. Disse depois os passeios na -Cantareira; as cartinhas ainda hesitantes e platonicas, trocadas entre -folhas de livros emprestados, em que ella se assignava _Violetta de -Parma_; o primeiro beijo, o melhor, surripiado entre duas portas, -emquanto o marido correra acima a buscar-lhe charutos especiaes; os -rendez-vous no Porto, no Cemiterio do Repouso, as pressıes ardentes de -m„os · sombra dos cyprestes, e os planos de voluptuosidade combinados -entre as lapides funebres... - ---Muito curioso! dizia o Craft. - -Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o cafÈ. Emquanto se -enchiam as chavenas, e Craft fÙra buscar uma caixa de charutos, elle -acabou a garrafa de Champagne, j· pallido, com o nariz afilado. - -O criado sahiu, correndo o reposteiro de tapeÁaria: e logo Ega, com o -calice de cognac ao lado, recomeÁou as confidencias, contou a volta a -Lisboa, a Villa Balzac, as manh„s deliciosas passadas l· com ella no -calor d'um ninho d'amor... - -Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enterrando um -momento a cabeÁa entre os punhos. Depois l· vinha outro detalhe, os -nomes lubricos que ella lhe dava, uma certa coberta de seda preta onde -ella brilhava como um jaspe... Duas lagrimas embaciaram-lhe os olhos, -jurou que queria morrer! - ---Se vocÍs soubessem que corpo de mulher! gritou elle de repente. Oh -meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocÍs um peito... - ---N„o queremos saber, disse Carlos. Cala-te, tu est·s bebado, miseravel! - -Ega ergueu-se, retezando a perna, arrimado de lado · meza. - -Bebado! Elle? Ora essa!... Era cousa que n„o podia, era empiteirar-se. -Tinha feito o possivel, bebido tudo, atÈ agua raz. Nunca! N„o podia... - ---Olha, vou pÙr aquella garrafa · boca, tu ver·s. E fico frio, fico -impassivel. A discutir philosophia... Queres que te diga o que penso de -Darwin? … uma besta... Ora ahi tens. D· c· a garrafa. - -Mas Craft recusou-lh'a; e, um momento Ega ficou oscillando, a olhar para -elle, com a face livida. - ---Ou me d·s a garrafa... ou me d·s a garrafa, ou te metto uma bala no -coraÁ„o... N„o, nem vales a bala... Vou-te dar uma bolacha! - -De repente os olhos cerraram-se-lhe, abatteu-se sobre a cadeira, d'ahi -sobre o ch„o, como um fardo. - ---Terra! disse tranquillamente Craft. - -Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam Jo„o da Ega. E emquanto -o levavam para o quarto dos hospedes e lhe despiam o fato de Satanaz, -n„o cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas m„os de Carlos, -balbuciando: - ---Rachelsinha!... RacaquÈ, minha Raquesinha! gostas do teu -bibichinho?... - -Quando Carlos partiu na tipoia para Lisboa, n„o chovia, um vento frio ia -varrendo o ceu, j· clareava a alvorada. - -Ao outro dia, ·s dez horas, Carlos voltou aos Olivaes. Achou Craft -dormindo, e subiu ao quarto do Ega. As janellas tinham ficado abertas, -um largo raio de sol dourava o leito; e elle ressonava ainda, no meio -d'aquella aureola, deitado de lado, com os joelhos contra o estomago, o -nariz dentro dos lenÁoes. - -Quando Carlos o sacudio, o pobre John abriu um olho triste, e -bruscamente ergueu-se sobre o cotovello, espantado para o quarto, para -os cortinados de damasco verde, para um retrato de dama empoada que lhe -sorria de dentro da sua moldura dourada. De certo as memorias da vespera -o assaltaram, porque se enterrou para baixo, com os lenÁoes atÈ ao -queixo; e a sua face esverdeada, envelhecida, exprimiu a desconsolaÁ„o -de deixar aquelles fofos colxıes, a paz confortavel da quinta--para ir -affrontar a Lisboa toda a sorte de cousas amargas. - ---Est· frio l· fÛra? perguntou elle melancholicamente. - ---N„o, est· um dia adoravel. Mas levanta-te, depressa! Se l· fÙr alguem -da parte do Cohen, podem imaginar que fugiste... - -Ega deu immediatamente um pulo da cama, e atordoado, esguedelhado, -procurava a roupa, com as canellas nuas, tropeÁando contra os moveis. SÛ -achou o gib„o de Satanaz. Chamaram o criado, que trouxe umas calÁas de -Craft. Ega enfiou-as · pressa: e sem se lavar, com a barba por fazer, a -gola do paletot erguida, enterrou emfim na cabeÁa o bonet escossez, -voltou-se para Carlos, disse com um ar tragico: - ---Vamos a isso! - -Craft, que se erguera, foi acompanhal-os ao port„o, onde esperava o -coupÈ de Carlos. Na alameda de acacias, t„o tenebrosa na vespera sob a -chuva, cantavam agora os passaros. A quinta, fresca e lavada, verdejava -ao sol. O grande Terra-nova do Craft pulava em roda d'elles. - ---Doe-te a cabeÁa, Ega? perguntou Craft. - ---N„o, respondeu o outro, acabando de abotoar o paletot. Eu hontem n„o -estava bebado... O que estava era fraco. - -Mas, ao entrar para o coupÈ, fez, com um ar profundo e philosophico, -esta reflex„o: - ---O que È a gente beber bons vinhos... Estou como se n„o fosse nada! - -Craft recommendou que se houvesse novidade, lhe mandassem um telegramma; -fechou a portinhola, o coupÈ partiu. - -Durante a manh„ n„o veiu telegramma · quinta; e quando Craft appareceu -na Villa Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperava · porta, j· -escurecera, duas vÈlas ardiam na triste sala verde. Carlos, estirado no -soph·, dormitava, com um livro aberto sobre o estomago: e Ega passeiava -d'um lado para outro, todo vestido de preto, pallido, com uma rosa na -botoeira. Tinham estado alli na sala, n'aquella sÈcca, esperando todo o -dia as testemunhas do Cohen. - ---Que te dizia eu? N„o ha nada, nem podia haver, murmurou Craft. - -Mas Ega, agora agitado de idÈas negras, temia que elle tivesse -assassinado a mulher! O sorriso sceptico de Craft indignou-o. Quem -conhecia melhor o Cohen do que elle? Sob a apparencia burgueza, era um -monstro! Tinha-lhe visto matar um gato, sÛ por capricho de derramar -sangue... - ---Tenho um presentimento de desgraÁa, balbuciou elle aterrado. - -E logo n'esse momento a campainha retiniu. Ega acordou precipitadamente -Carlos, empurrou os dois amigos para o quarto de cama. Craft ainda lhe -disse que, ·quella hora, n„o podiam ser os amigos do Cohen. Mas elle -queria estar sÛ na sala: e l· ficou, mais pallido, rigido, muito -abotoado na sobrecasaca, com os olhos cravados na porta. - ---Que massada! dizia Carlos dentro, tenteando a escurid„o do quarto. - -Craft accendeu no toucador um resto de vella. Uma luz triste -espalhou-se, tudo appareceu n'um desarranjo: no meio do ch„o estava -cahida uma camisa de dormir; a um canto ficara a bacia de banho com agoa -de sab„o; e, no centro, o enorme leito, envolto nas suas cortinas de -seda vermelha, conservava uma magestade de tabernaculo. - -Um momento estiveram callados. Craft methodico, e como quem se instrue, -examinava o toucador, onde havia um maÁo de ganchos de cabello, uma liga -com o fecho quebrado, um ramo de violetas murchas. Depois foi olhar o -marmore da commoda; ahi ficara um prato com ossos de frango, e ao lado -uma meia folha de papel escripta a lapis, toda emendada, de certo -trabalho litterario do Ega. Elle achava tudo isto muito curioso. - -Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e intimo. Carlos -escutando, julgou sentir uma falla abafada de mulher... Impaciente, foi -· cozinha. A criada estava sentada · meza, com a m„o mettida pelos -cabellos, sem fazer nada, a olhar para a luz: o pagem, espaparrado n'uma -cadeira, chupava o seu cigarro. - ---Quem foi que entrou? perguntou Carlos. - ---Foi a criada do sr. Cohen, disse o garoto, escondendo o cigarro atraz -das costas. - -Carlos voltou ao quarto, annunciando: - ---… a confidente. As cousas terminam amavelmente. - ---E como queria vocÍ que terminassem? disse Craft. O Cohen tem o seu -Banco, os seus negocios, as suas letras a vencer, o seu credito, a sua -respeitabilidade, todo um arranjo de cousas a que n„o convÈm um -escandalo... … isto que calma os maridos. AlÈm d'isso, j· se satisfez, -j· lhe offereceu pontapÈs... - -N'esse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta. - ---N„o ha nada, exclamou elle, deu-lhe uma coÁa, e v„o ·manh„ para -Inglaterra! - -Carlos olhou para o Craft--que movia a cabeÁa, como vendo todas as suas -previsıes realisadas, e approvando plenamente. - ---Uma coÁa, dizia o Ega, com os olhos chammejantes e n'uma voz que -sibillava. E depois fizeram as pazes... Vem ainda a ser um _menage_ -modelo! A bengala purifica tudo... Que canalha! - -Estava furioso. N'esse momento odiava Rachel--n„o perdoando ao seu idolo -ter-se deixado desfazer · paulada. Lembrava-se justamente da bengala do -Cohen, um junco da India, com uma cabeÁa de galgo por cast„o. E aquillo -zurzira as carnes que elle tinha apertado com paix„o! Aquillo pozera -vergıes roxos onde os seus labios tinham avivado signaes cÙr de rosa! E -tinham _feito as pazes_. E assim terminava, relles e chinfrim, o romance -melhor da sua vida! Preferiria sabel-a morta, a sabel-a espancada. Mas -n„o! levava a sova, deitava-se depois com o marido, e elle mesmo, -decerto arrependido, chamando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a -fazer as applicaÁıes de arnica! Aquillo acabava em arnica! - ---Entre vocemecÍ para aqui, sr.^a Adelia, gritou elle para a sala, entre -para aqui! Aqui sÛ ha amigos. O segredo acabou, o pudor acabou! Isto s„o -amigos! Somos tres, mas somos um! Tem vocemecÍ diante de si o grande -mysterio da Santissima Trindade. Sente-se, sr.^a Adelia, sente-se... N„o -faÁa ceremonia... E pÛde contar... Aqui a sr.^a Adelia, meninos, viu -tudo, viu a coÁa! - -A sr.^a Adelia, uma moÁa gordinha e baixa, de bonitos olhos, com um -chapÈo de flÙres vermelhas, veiu logo da sala rectificando. N„o, ella -n„o vira... Ent„o o sr. Ega n„o tinha percebido bem... Ella sÛ _ouvira_. - ---Aqui est· como foi, meus senhores... Eu tinha ficado a pÈ, -naturalmente, atÈ ao fim do baile, que estava que nem me tinha nas -pernas. Era j· dia claro, quando o senhor, ainda vestido de moiro, se -fechou no quarto com a senhora. Eu fiquei na cozinha com o Domingos · -espera que elles tocassem a campainha. De repente ouvimos gritos!... Eu -fiquei estarrecida, pensei atÈ que eram ladrıes. Corremos, eu e o -Domingos, mas a porta do quarto estava fechada, e os dois estavam por -dentro, l· para o fundo da alcova. Eu ainda puz o olho · fechadura, mas -n„o pude vÍr nada... L· o estalar de bofetadas, e trambulhıes, e sons de -bengalada, isso sim, isso ouvia-se perfeitamente; e os gritos. Eu disse -logo ao Domingos ´ai que È uma quest„o, ai que l· se foi tudo.ª Mas de -repente, silencio geral! NÛs volt·mos para a cozinha; d'ahi a pouco o -sr. Cohen appareceu, todo esguedelhado, em mangas de camisa, a dizer que -nos podiamos deitar, que elles n„o precisavam nada, e que amanh„ -fallariamos!... Depois l· ficaram toda a noite, e pela manh„ parece que -estavam muito amiguinhos... Que eu n„o puz os olhos na senhora. O sr. -Cohen, apenas se levantou, veiu · cozinha, fez-me elle as contas, e -pÙz-me fÛra; muito mal creado, atÈ me ameaÁou com a policia... Foi pelo -Domingos, que eu soube agora, quando fui buscar o bah˙ com um gallego, -que o sr. Cohen Ìa com a senhora para Inglaterra. Emfim, um chinfrim... -Eu atÈ tenho estado todo o dia com o estomago embrulhado. - -A sr.^a Adelia com um suspiro, pondo os olhos no ch„o, calou-se. Ega, -com os braÁos cruzados, olhava amargamente para os seus amigos. Que lhes -parecia aquillo? Uma coÁa!.. Se um covarde d'aquelles n„o merecia uma -bala no coraÁ„o! Mas ella tambem, deixar-se tocar, n„o ter fugido, -consentir ainda depois em dormir com elle!.. Tudo uma corja! - ---E a sr.^a Adelia, perguntava Craft, n„o tem idÈa de como elle -descobriu?.. - ---Isso È que È prodigioso! gritou Ega, apertando as m„os na cabeÁa. - -Sim, prodigioso! N„o fÙra carta apanhada: elles n„o se escreviam. N„o -podia ter surprehendido as visitas · Villa Balzac: as cousas estavam -combinadas com uma arte muito subtil, perfeitamente impenetraveis. Para -vir ali, nunca ella commettera a indiscripÁ„o de se servir da sua -carruagem. Nunca ella claramente entrara pela porta. Os criados d'elle -nunca a tinham visto, n„o sabiam quem era a senhora que o visitava... -Tantos cuidados, e tudo estragado! - ---Estranho, estranho! murmurava Craft. - -Houve um silencio. A sr.^a Adelia terminara por descanÁar familiarmente -n'uma cadeira, com a sua trouxasinha no regaÁo. - ---Pois olhe, sr. Ega, disse ella, depois de reflectir creia ent„o uma -cousa, È que foi em sonhos. J· tem acontecido... Foi a senhora que -sonhou alto com v. ex.^a, disse tudo, o sr. Cohen ouviu, ficou de pedra -no sapato, espreitou-a, e descobriu a marosca... E eu sei que ella sonha -alto. - -Ega, diante da sr.^a Adelia, percorria-a desde as flÙres do chapÈo atÈ · -roda das saias, com os olhos faiscantes. - ---Como È possivel que elle ouvisse? Se elles tinham quartos -separados!... Eu sei que tinham. - -A sr.^a Adelia baixou as palpebras, acariciou com os dedos calÁados de -luvas pretas a sua trouxasinha redonda, e disse mais baixo estas -palavras: - ---N„o tinham, n„o senhor. Nem a senhora consentia em tal arranjo... A -senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciumes d'elle. - -Houve um silencio embaraÁado e desagradavel. Sobre o toucador o resto da -vella acabava, com uma luz lugubre. E Ega, que affectara sorrir, -encolher os hombros, dava pelo quarto passos lentos e murchos, -triturando o bigode com a m„o tremula. - -Ent„o Carlos enojado, canÁado d'aquelle episodio que durava desde a -vespera, e onde constantemente se remexera em lodo, declarou que era -necessario findar! Eram oito horas, e elle queria jantar... - ---Sim, vamos todos jantar, murmurou o Ega, com o ar confuso e embaÁado. - -De repente fez um signal · sr.^a Adelia, arrastou-a para a sala, -fechou-se l· outra vez. - ---VocÍ n„o est· farto d'isto, Craft? exclamou Carlos, desesperado. - ---N„o. Acho um estudo curioso. - -Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vella extinguiu-se. Carlos, -furioso, gritou pelo pagem. E o garoto entrava com um immundo candieiro -de petroleo--quando Ega, mais composto, voltou da sala. Tudo acabara, a -sr.^a Adelia partira. - ---Vamos l· jantar, disse elle. Mas aonde, a esta hora? - -E elle mesmo lembrou o AndrÈ, ao Chiado. Em baixo, alem do coupÈ de -Carlos, esperava a tipoia do Craft. As duas carruagens partiram. A Villa -Balzac ficava apagada, muda, d'ora em diante inutil. - -No AndrÈ tiveram de esperar muito tempo, n'um gabinete triste, com um -papel de estrellinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas -de reps azul, e dois bicos de gaz que silvavam. Ega, enterrado no soph· -de mollas gastas e lassas, cerrara os olhos, parecia exhausto. Carlos Ìa -contemplando as gravuras pela parede, todas relativas a hespanholas: uma -saÌndo da egreja; outra saltando uma pocinha de agua; outra, de olhos -baixos, escutando os conselhos de um canonico. Craft, j· · meza, com a -cabeÁa entre os punhos, percorria um _Diario da Manh„_, que o criado -offerecera para os senhores se entreterem. - -De repente o Ega deu um murro no soph·, que rangeu lamentavelmente. - ---Eu o que n„o percebo, gritou elle, È como aquelle malvado descobriu!.. - ---A hypothese da sr.^a Adelia, disse Craft erguendo os olhos do jornal, -parece provavel. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre senhora descahiu-se. -Ou talvez uma denuncia anonyma. Ou talvez apenas um acaso... O facto È -que o homem desconfiou, espreitou-a, e apanhou-a. - -Ega erguera-se: - ---Eu n„o vos quiz dizer diante da Adelia, que n„o estava no segredo -todo. Mas vocÍs sabem a casa defronte da minha, do outro lado da viella, -uma casa com um grande quintal? Ahi mora uma tia do Gouvarinho, a D. -Maria Lima, uma pessoa respeitavel. A Rachel Ìa vÍl-a de vez em quando. -S„o intimas, a D. Maria Lima È intima de todo o mundo. Depois sahia por -uma portinha do quintal, atravessava a viella, e estava · porta da minha -casa, · porta escusa, · porta da escada que vae ter ao cacifro de banho. -J· vocÍs vÍem... Os criados nem a avistavam. Quando ella l· lunchava, o -lunch estava j· posto no meu quarto, as portas fechadas. Mesmo se alguem -visse, era uma senhora com um vÈo preto, que vinha de casa da Lima... -Como podia o homem apanhal-a?.. AlÈm d'isso, em casa da Lima, ella -mudava de chapÈo, e punha um waterproof... - -Craft cumprimentou. - ---… brilhante! Parece de Scribe. - ---Ent„o, disse Carlos sorrindo, essa respeitavel fidalga... - ---A D. Maria, coitada... Eu te digo, È uma excellente velha, recebida em -toda a parte, mas pobre, e faz d'estes favores... ¡s vezes mesmo em casa -d'ella. - ---Leva caro por esses serviÁos? perguntou tranquillamente Craft, que em -todo aquelle caso procurava instruir-se. - ---N„o, coitada, disse o Ega. D„o-se-lhe de vez em quando cinco libras. - -O criado entrava com uma travessa de camarıes, os tres em silencio -accommodaram-se · meza. - -Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega Ìa l· dormir, receiando, -com os nervos t„o excitados, a solid„o da villa Balzac. Partiram, de -charutos accesos, n'uma caleche descoberta, sob a noite estrellada e -doce. - -Felizmente n„o estava ninguem no Ramalhete; Ega, canÁado, poude -retirar-se logo para o seu quarto, um aposento d'hospedes no segundo -andar, onde havia um bello leito antigo de pau preto. Ahi, apenas o -criado o deixou, Ega approximou-se do tremÛ onde ardiam as luzes, e -tirou do pescoÁo, de sob a camiza, um medalh„o de ouro. Tinha dentro uma -photographia de Rachel:--e a sua intenÁ„o agora era queimal-a, deitar ao -balde das agoas sujas as cinzas d'aquella paix„o. Mas, ao abrir o -medalh„o, a face bonita, banhada n'um sorriso, sob o vidro oval, pareceu -olhar para elle com uma tristeza no velludo das pupillas languidas... A -photographia mostrava apenas a cabeÁa, com uma abertura de decote no -comeÁo do vestido: e as recordaÁıes de Ega alargaram aquelle decote uma -vez mais, revendo o collo, o extraordinario setim da pelle, o -signalsinho sobre o seio esquerdo... O sabor dos seus beijos passou-lhe -de novo nos labios, sentiu n'alma outra vez como o ecco dos suspiros -canÁados que ella soltara nos seus braÁos. E ella ia-se embora, _nunca -mais_ a veria! Esta desolada amargura do _nunca mais_ revolveu-o todo--e -com a face enterrada no travesseiro, o pobre demagogo, o grande -phraseador soluÁou muito tempo no segredo da noite. - -Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Damaso -apparecera no Ramalhete, e por elle ouviram os rumores de Lisboa. J· se -sabia no Gremio, no Chiado, por toda a parte, que elle fÙra expulso da -casa dos Cohens. O urso, a pastora do Tyrol, testemunhas do episodio, -tinham-n'o badallado com enthusiasmo. Dizia-se mesmo que o Cohen lhe -dera um pontapÈ. Os amigos da casa, esses, sobretudo o Alencar, prÈgavam -com fervor a innocencia da sr.^a D. Rachel. O Alencar contava -publicamente que o Ega, provinciano inexperiente e le„o de Celorico, -tendo tomado por evidencias de paix„o os sorrisos de amabilidade de uma -senhora que recebe,--escrevera · sr.^a D. Rachel uma carta quasi -obscena, que ella, coitadinha, toda em lagrimas, viera mostrar ao -marido. - ---Ent„o d„o-me para baixo, hein, Damaso? murmurou Ega que, no gabinete -de Carlos, embrulhado n'uma velha ulster, e encolhido n'uma poltrona, -escutava estas cousas com um ar canÁado e doente. - -Damaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo. - -Ah, elle sabia-o bem! tinha antipathias em Lisboa. Ninguem lhe perdoara -ainda a pelissa. A sua verve, toda em sarcasmos, offendia. E era -desagradavel para muita gente que um homem, com esse espirito t„o -perigoso de ferro em braza, tivesse uma m„e rica, e fosse independente. - -Depois, no sabbado seguinte, Carlos, ao voltar do jantar dos -Gouvarinhos--que fÙra excellente--contou-lhe a conversa que tivera com a -sr.^a condessa. A condessa fallara-lhe muito livremente, como um homem, -d'aquelle desastre do Ega. Tinha-se affligido muito, n„o sÛ pela Rachel, -coitada, de quem era amiga, mas pelo Ega, que ella apreciava tanto, t„o -interessante, t„o brilhante, e que sahia de tudo aquillo enxovalhado! O -Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gouvarinho) que ameaÁ·ra o Ega de -pontapÈs, por elle ter escripto a sua mulher uma carta immunda. Os que -n„o sabiam nada, como o Gouvarinho, acreditavam, apertavam as m„os na -cabeÁa; e os que sabiam, os que havia seis mezes sorriam da intimidade -do Ega com os Cohens, affectavam tambem acreditar, cerravam os punhos de -indignaÁ„o. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa, que vive entre o -Gremio e a casa Havaneza, folgava em ´enterrarª o Ega. - -Ega, com effeito, sentia-se ´enterradoª. E n'essa noite declarou a -Carlos que decidira recolher-se · quinta da m„e, passar l· um anno a -acabar as _Memorias d'um Atomo_, e reapparecer em Lisboa com o seu livro -publicado, triumphando sobre a cidade, esmagando os mediocres. Carlos -n„o perturbou esta radiante illus„o. - -Mas quando Ega, antes de partir, foÌ a recapitular os seus negocios de -casa, de dinheiro, encontrou-se diante de cousas abominaveis. Devia a -todo o mundo, desde o estofador atÈ ao padeiro; tinha tres letras a -vencer; aquellas dividas, se as deixasse, soltas e ladrando, -juntar-se-iam, na tagarallice publica, ao caso dos Cohens--e elle seria, -alÈm do amante ameaÁado de pontapÈs, o pelintra perseguido pelos -credores! Que havia de fazer, sen„o valer-se de Carlos? Carlos, para -regular tudo, emprestou-lhe dois contos de rÈis. - -Depois, tendo despedido os criados da Villa Balzac, surgiram-lhe outras -complicaÁıes. A m„e do pagem veiu d'ahi a dias ao Ramalhete, muito -insolente, gritando que o filho lhe desapparecera! E era exacto: o -famoso pagem, pervertido pela cozinheira, sumira-se com ella para as -viellas da Mouraria, a comeÁar ahi uma divertida carreira de _faia_. - -Ega recusou-se a attender ·s reclamaÁıes da matrona. Que diabo tinha -elle com essas torpezas? - -Ent„o o amante da creatura interveiu, ameaÁadoramente, Era um policia, -um esteio da ordem: e deu a entender que lhe seria facil provar como na -Villa Balzac se passavam ´cousas contra a naturezaª, e que o pagem n„o -era sÛ para servir · meza... Nauseado atÈ · morte, Ega pacteou com a -intrugice, largou cinco libras ao policia. Quando n'essa noite, uma -noite triste d'agoa, Carlos e Craft o acompanharam a Santa Apolonia, -elle disse-lhes na carruagem estas palavras, triste resumo d'um amor -romantico: - ---Sinto-me como se a alma me tivesse cahido a uma latrina! Preciso um -banho por dentro! - - -Affonso da Maia ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com -tristeza: - ---M· estreia, filho, pessima estreia! - -E n'essa noite, depois de voltar de Santa Apolonia, Carlos pensava -n'estas palavras, dizia tambem comsigo:--Pessima estreia!... E nem sÛ a -estreia do Ega era pessima; tambem a sua. E talvez, por pensar n'isso, -as palavras do avÙ tinham tido aquella tristeza. Pessimas estreias! -Havia seis mezes que o Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande -pellissa, preparado a deslumbrar Lisboa com as _Memorias d'um Atomo_, a -dominal-a com a influencia de uma Revista, a ser uma luz, uma forÁa, mil -outras cousas... E agora, cheio de dividas e cheio de ridiculo, l· -voltava para Celorico, escorraÁado. Pessima estreia! Elle, por seu lado, -desembarcara em Lisboa, com idÈas collossaes de trabalho, armado como um -luctador: era o consultorio, o laboratorio, um livro iniciador, mil -cousas fortes... E, que tinha feito? Dois artigos de jornal, uma duzia -de receitas, e esse melancolico capitulo da _Medicina entre os Gregos_. -Pessima estreia! - -N„o, a vida n„o lhe parecia promettedora, n'esse instante, passeiando na -sala de bilhar com as m„os nos bolsos, emquanto ao lado os amigos -conversavam, e fÛra uivava o sudoeste. Pobre Ega, que infeliz elle iria, -encolhido ao canto do seu wagon!.. Mas os outros, ali, n„o estavam mais -alegres. Craft e o Marquez tinham comeÁado uma conversa sobre a vida, -soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, n„o se sendo -um Livingstone ou um Bismark? E o Marquez, com um ar philosophico, -achava que o mundo se ia tornando estupido. Depois chegou o Taveira com -a historia horrivel d'um collega d'elle, cujo filho cahira pela escada, -se despedaÁara, no momento em que a mulher estava a morrer d'uma -pleurisia. Cruges resmungou o quer que fosse sobre suicidio. As palavras -arrastavam-se, melancolicas. Instinctivamente, Carlos, de vez em quando, -ia despertar as lampadas. - -Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando d'ahi a instantes Damaso -chegou, e lhe disse que o Castro Gomes estava incommodado, e de cama. - ---Naturalmente, accrescentou o Damaso, mandam-te chamar, por teres j· -visto a pequena... - -Carlos ao outro dia n„o sahiu de casa, esperando um recado, faiscando -d'impaciencia. Nenhum recado veiu. E, duas tardes depois, ao descer para -o Aterro--o primeiro encontro que teve, ·s Janellas Verdes, foi o Castro -Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadellinha no -collo. - -Ella passou, sem o vÍr. E logo ali Carlos decidiu findar aquella -tortura, pedir muito simplesmente ao Damaso que o apresentasse ao Castro -Gomes, antes d'elle partir para o Brazil... N„o podia mais, precisava -ouvir a voz d'ella, vÍr o que os seus olhos diziam quando eram -interrogados de perto. - -Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na -companhia dos Gouvarinhos. ComeÁou por encontrar o conde, que lhe travou -do braÁo, arrastou-o · rua de S. MarÁal, installou-o n'uma poltrona, no -seu escriptorio, e leu-lhe um artigo que destinava ao _Jornal do -Commercio_ sobre a situaÁ„o dos partidos em Portugal: depois convidou-o -a jantar. Na tarde seguinte elles tinham uma partida de _croquet_. -Carlos foi. E, a uma janella, aberta sobre o jardim, teve um momento de -intimidade com a condessa, contou-lhe, rindo, como os cabellos d'ella o -tinham encantado, a primeira vez que a vira. N'essa noite, ella fallou -d'um livro de Tennyson, que n„o lera; Carlos offereceu-lh'o, foi-lh'o -levar ao outro dia, de manh„. Encontrou-a sÛ, toda vestida de branco: e -riam, baixavam j· a voz, as duas cadeias estavam mais juntas--quando o -escudeiro annunciou a sr.^a D. Maria da Cunha. Era uma cousa t„o -extraordinaria, a D. Maria da Cunha ·quella hora! Carlos, de resto, -gostava muito da D. Maria da Cunha, uma velha engraÁada, toda bondade, -cheia de sympathia por todos os peccados--e ella mesma muito peccadora -quando era a linda Cunha. D. Maria era muito falladora, parecia ter que -dizer em particular · condessa; e Carlos deixou-as, promettendo voltar -uma d'essas tardes tomar ch·, e fallar de Tennyson. - -Na tarde em que elle se vestia para l· ir, Damaso appareceu-lhe no -quarto, a dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e de ´ferroª. O -telhudo do Castro Gomes mud·ra de idÈa, j· n„o ia ao Brazil! Ficava ali, -no Central, atÈ ao meiado do ver„o! De sorte que estava tudo -estragado... - -Carlos pensou logo em fallar da sua apresentaÁ„o ao Castro Gomes. Mas, -como em Cintra, sem saber porquÍ, veiu-lhe uma repugnancia de a conhecer -por meio do Damaso. E foi-se vestindo em silencio. - -Damaso no entanto maldizia a sua _chance_: - ---E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse occasi„o. Mas que -diabo queres tu, assim?... - -Queixou-se ent„o do Castro Gomes. Em resumo, era um telhudo. E a vida -d'aquelle homem era mysteriosa... Que diabo estava elle a fazer em -Lisboa? Ali havia difficuldades de dinheiro... E elles n„o se davam bem. -Na vespera houvera de certo quest„o. Quando elle entrara, ella estava -com os olhos vermelhos, e enfiada; e elle, nervoso, a passeiar pela -sala, a retorcer a barba... Ambos contrafeitos, uma palavra cada quarto -d'hora... - ---Sabes tu? exclamou elle. Tenho minha vontade de os mandar · fava. - -Queixou-se tambem d'ella. Era sobretudo muito desegual. Ora bom modo, -ora regelada; e, ·s vezes, elle dizia qualquer cousa muito natural, -d'estas cousas de conversa de sociedade, e ella punha-se a rir. Era de -encavacar, hein? Emfim, gente muito exquisita. - ---Onde vaes tu? disse elle, com um suspiro de aborrecimento, vendo -Carlos pÙr o chapeu. - -Ia tomar ch· com a Gouvarinho. - ---Pois olha, vou comtigo... Estou d'uma secca! - -Carlos hesitou um instante, terminou por dizer: - ---Vem, fazes-me atÈ favor... - -A tarde estava lindissima, Carlos ia no dog-cart. - ---Ha que tempos que n„o damos assim um passeio juntos, disse Damaso. - ---Tu andas l· mettido com estrangeiros!... - -Damaso deu outro suspiro, e n„o tornou a dizer mais nada. Depois, · -porta dos Gouvarinhos, quando soube que a sr.^a condessa recebia, -resolveu subitamente n„o entrar. N„o, n„o entrava. Estava muito -estupido, incapaz de achar uma palavra... - ---Ah, e outra cousa que me lembrou agora, exclamou elle, demorando ainda -Carlos diante do port„o. O Castro Gomes, hontem, perguntou-me o que te -havia de mandar pela visita · pequena... Eu disse que tu tinhas ido l· -por favor, como meu amigo. E elle disse que te havia de vir deixar um -bilhete... Naturalmente vens a conhecel-os. - -N„o era, pois, necessario que Damaso o apresentasse! - ---Apparece · noite, Damasosinho, vai l· jantar ·manh„! exclamou Carlos, -subitamente radiante, dando um ardente aperto de m„o ao seu amigo. - -Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir ch·. A sala, -forrada d'um papel severo, verde e ouro, com retratos de familia em -caixilhos pesados, abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim. -Em cima das mezas havia cestos de flÙres. No soph·, duas senhoras de -chapeu, ambas de preto, conversavam, com a chavena na m„o. A condessa, -ao estender os dedos a Carlos, ficara t„o cÙr de rosa--como a seda -acolchoada da cadeira em que estava recostada, ao pÈ d'um velador de pau -santo. Notou logo, sorrindo, o ar radiante de Carlos. Que lhe tinha -acontecido de bom? Carlos sorriu tambem, disse que n„o era possivel -entrar ali com outro ar. Depois perguntou pelo conde... - -O conde ainda n„o apparecera, detido de certo na camara dos pares, onde -se discutia o projecto sobre a Reforma da InstrucÁ„o Publica. - -Uma das senhoras de preto fazia votos para que se alliviassem os -estudos. As pobres creanÁas succumbiam verdadeiramente · quantidade -exaggerada de materias, de cousas a decorar: o d'ella, o Jo„osinho, -andava t„o pallido e t„o desfigurado, que ella ·s vezes tinha vontade de -o deixar ficar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chavena sobre -um console ao lado, e passando sobre os labios a renda do lenÁo, -queixou-se sobretudo dos examinadores. Era um escandalo as exigencias, -as difficuldades que punham, sÛ para poder deitar RR... Ao pequeno -d'ella tinham feito as perguntas mais estupidas, as mais reles; assim, -por exemplo, o que era o sab„o, porque lavava o sab„o?... - -A outra senhora e a condessa apertaram as m„os contra o peito, -consternadas. E Carlos, muito amavel, concordou que era uma abominaÁ„o. -O marido d'ella--continuava a dama de preto--ficara t„o desesperado que, -encontrando o examinador no Chiado, o ameaÁou de lhe dar bengaladas. Uma -imprudencia, de certo; mas, emfim, o homem fÙra malvado!... N„o havia -verdadeiramente sen„o uma cousa digna de se estudar, eram as linguas. -Parecia insensato que se torturasse uma creanÁa com botanica, -astronomia, physica... Para que? Cousas inuteis na sociedade. Assim, o -pequeno d'ella, agora, tinha liÁıes de chimica... Que absurdo! Era o que -o pae dizia--para que, se elle o n„o queria para boticario? - -Depois d'um silencio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmo tempo; e -houve um murmurio de beijos, um frou-frou de sedas. - -Carlos ficou sÛ com a sr.^a condessa, que reoccupara a sua cadeira cÙr -de rosa. - -Immediatamente ella perguntou pelo Ega. - ---Coitado, l· est· para Celorico. - -Ella protestou, com um lindo riso, contra aquella phrase t„o feia ´l· -est· para Celoricoª N„o, n„o queria... Coitado do Ega! Merecia uma -melhor oraÁ„o funebre. Celorico era horrÌvel para um fim de romance... - ---De certo, exclamou Carlos, rindo tambem, era mais bello dizer-se: _l· -est· para Jerusalem!_ - -N'esse momento o criado annunciou um nome, e appareceu o amigo Telles da -Gama, um intimo da casa. Quando soube que o conde devia estar ainda -batalhando sobre a Reforma da InstrucÁ„o, levou as m„os · cabeÁa como -lamentando um t„o feio desperdicio de tempo, e n„o se quiz demorar. N„o, -nem mesmo o excellente ch· da sr.^a condessa o tentava. A verdade era -que estava t„o abandonado da graÁa de Deus, perdera de tal modo o -sentimento das cousas bellas, que entrara, n„o para vÍr a sr.^a -condessa--mas simplesmente fallar ao conde. Ent„o ella teve um bonito ar -de princeza offendida, perguntou a Carlos se uma t„o rude sinceridade de -montanhez n„o fazia saudades das maneiras polidas do antigo regimen. E -Telles da Gama, gingando de leve, declarava-se democrata, homem da -natureza, com um riso que lhe mostrava dentes magnificos. Depois, ao -sair, dando um _shake-hands_ ao amigo Maia, quiz saber quando o principe -de S.^t Olavia lhe dava emfim a honra de vir jantar com elle. A sr.^a -condessa indignou-se. N„o, era realmente de mais! Fazer convites, na sua -sala, diante d'ella,--um homem que fallava tanto da sua cozinheira -allem„, e nem sequer lhe offerecera j·mais um prato de chou-crÙute! - -Telles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava a arranjar a -sua sala de jantar para dar · sr.^a condessa uma festa, que havia de -ficar nos annaes do reino! Agora com o Maia era differente: jantavam -ambos na cozinha, com os pratos sobre os joelhos. E abalou, gingando -sempre, rindo ainda da porta, mostrando os dentes magnificos. - ---Muito alegre, este Gama, n„o È verdade? disse a condessa. - ---Muito alegre, disse Carlos. - -Ent„o a condessa olhou o relogio. Eram cinco e meia, ·quella hora ella -j· n„o recebia: podiam, emfim, conversar um momento, em boa camaradagem. -E, o que houve, foi um silencio lento, em que os olhos de ambos se -encontraram. Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo doente. -N„o estava bem, com uma ligeira tosse apanhada no passeio da Estrella. -Ah, aquella creanÁa nunca deixava de lhe dar o cuidado! Ficou callada, -com o olhar esquecido no tapete, movendo languidamente o leque: tinha -n'essa tarde uma toilette exaggerada, d'um tom de folha de outono -amarellada, d'uma seda grossa, que ao menor movimento fazia um ruge-ruge -de folhas seccas. - ---Que lindo tempo tem feito! exclamou ella de repente, como acordando. - ---Lindo! disse Carlos. Eu estive ha dias em Cintra, e n„o imagina... Era -d'uma belleza de idyllio. - -E immediatamente arrependeu-se, quiz-se mal por ter fallado da sua ida a -Cintra, n'aquella sala. - -Mas a condessa mal o escut·ra. Tinha-se erguido, fallando de algumas -canÁıes que essa manh„ recebera de Inglaterra, as novidades frescas da -_season_. Depois, sentou-se ao piano, correu os dedos no teclado, -perguntou a Carlos se conhecia aquella melodia--_The pale star_. N„o, -Carlos n„o conhecia. Mas todas essas canÁıes inglezas se parecem, sempre -do mesmo tom dolente, romanesco, e muito _miss_. E trata-se sempre d'um -parque melancolico, um regato lento, um beijo sob os castanheiros... - -Ent„o a condessa leu alto a letra da _Pale star_. E era a mesma cousa, -uma estrellinha de amor palpitando no crepusculo, um lago pallido, um -timido beijo sob as arvores... - ---… sempre o mesmo, disse Carlos, e È sempre delicioso. - -Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquillo estupido. -ComeÁou a remexer entre os papeis de musica, nervosa, e com um olhar que -escurecia. Para quebrar o silencio, Carlos gabou-lhe as suas lindas -flores. - ---Ah, vou-lhe dar uma rosa! exclamou ella logo, deixando as musicas. - -Mas, a flÙr que ella lhe queria dar estava no _boudoir_, ao lado. Carlos -seguiu a sua grande cauda, onde corria um reflexo dourado de folhagem de -outono batida do sol. Era um gabinete forrado de azul, com um bonito -tremÛ do seculo XVIII, e sobre um forte pedestal de carvalho, o busto em -barro do conde, na sua express„o de orador, a fronte erguida, a gravata -desmanchada, o labio fremente... - -A condessa escolheu um bot„o com duas folhas, e ella mesmo lhe veiu -florir a sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o calor que -subia do seu seio arfando com forÁa. E ella n„o acabava de prender a -flÙr, com os dedos tremulos, lentos, que pareciam collar-se, deixar-se -adormecer sobre o panno... - ---_Voila!_ murmurou emfim, muito baixo. Ahi est· o meu bello cavalleiro -da Rosa Vermelha... E agora, n„o me agradeÁa! - -Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os labios nos -labios d'ella. A seda do vestido roÁava-lhe, com um fino ruge-ruge entre -os braÁos;--e ella pendia para traz a cabeÁa, branca como uma cera, com -as palpebras docemente cerradas. Elle deu um passo, tendo-a assim -enlaÁada, e como morta; o seu joelho encontrou um soph· baixo, que rolou -e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos pÈs, Carlos seguiu, -tropeÁando, o largo soph·, que rolou, fugiu ainda, atÈ que esbarrou -contra o pedestal onde o sr. conde erguia a fronte inspirada. E um longo -suspiro morreu, n'um rumor de saias amarrotadas. - -D'ahi a um momento estavam ambos de pÈ: Carlos, junto do busto, coÁando -a barba, com o ar embaraÁado, e j· vagamente arrependido: ella, diante -do tremÛ Luiz XV, compondo, com os dedos tremulos, o frisado do cabello. -De repente, na antecamara, ouviu-se a voz do conde. Ella, bruscamente, -voltou-se, correu a Carlos, e, com os longos dedos cobertos de -pedrarias, agarrou-lhe o rosto, atirou-lhe dois beijos faiscantes ao -cabello e aos olhos. Depois, sentou-se largamente no soph·--e estava -fallando de Cintra, rindo alto, quando o conde entrou, seguido de um -velho calvo, que se vinha a assoar a um enorme lenÁo de seda da India. - -Ao vÍr Carlos no _boudoir_, o conde teve uma bella surpreza, esteve-lhe -apertando as m„os muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda -n'essa manh„, na camara, se lembrara d'elle... - ---Ent„o, por que vieram t„o tarde? exclamou a condessa, que se apoderara -logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amavel. - ---O nosso conde fallou! disse o velho, ainda com o olho brilhante de -enthusiasmo. - ---Fallaste? exclamou ela, voltando-se com um interesse encantador. - -… verdade, fallara; e desprevenido! Quando ouvira porÈm o Torres Valente -(homem de litteratura, mas um doido, sem senso pratico) quando o ouvira -defender a gymnastica obrigatoria nos collegios--erguera-se. Mas n„o -imaginasse o amigo Maia, que elle tinha feito um discurso. - ---Ora essa! exclamou o velho, agitando o lenÁo. E um dos melhores que eu -tenho ouvido na camara! Dos de arromba! - -O Conde modestamente protestou. N„o: tinha simplesmente lanÁado uma -palavra de bom senso, e de bom principio. Perguntara apenas ao seu -illustre amigo, o sr. Torres Valente, se na sua idÈa, os nossos filhos, -os herdeiros das nossas casas, estavam destinados para palhaÁos!... - ---Ah, esta piada, sr.^a condessa! exclamou o velho. Eu sÛ queria que v. -ex.^a ouvisse esta piada... E como elle a disse! com um _chic!_ - -O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe -aquillo. E, respondendo a outras reflexıes do Torres Valente, que n„o -queria nos lyceus, nem nos collegios, um ensino ´todo impregnado de -cathecismoª, elle lanÁara-lhe uma palavra cruel. - ---Terrivel, exclamou o velho n'um tom cavo, preparando o lenÁo para se -assoar outra vez. - ---Sim, terrivel... Voltei-me para elle, e disse-lhe isto... ´Creia o -digno par, que nunca este paiz retomar· o seu logar ‡ testa da -civilisaÁ„o, se, nos lyceus, nos collegios, nos estabelecimentos de -instrucÁ„o, nÛs outros os legisladores formos, com m„o impia, substituir -a cruz pelo trapezio... - ---Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do lenÁo. - -Carlos, erguendo-se, declarou aquillo d'uma ironia adoravel. - -E o conde, quando elle se despediu, n„o se contentou com um simples -aperto de m„o, passou-lhe o braÁo pela cinta, chamou-lhe o seu querido -Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda humido, um resto de pallidez, -movendo o leque languidamente, recostada em duas almofadas do -soph·--debaixo do busto do marido que erguia a fronte inspirada. - - - - -X - - -Tres semanas depois, por uma tarde quente, com um ceu triste de -trovoada, e no momento em que estavam cahindo algumas gotas grossas de -chuva,--Carlos apeava-se d'um coupÈ de praÁa, que viera parar, de vagar, -· esquina da Patriarchal, com os stores verdes mysteriosamente corridos. -Dous sujeitos que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se -desgeitosamente d'uma portinha suspeita. E com effeito a velha -traquitana de rodas amarellas acabava de ser uma alcova d'amor, -perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro -d'ella, pela estrada de Queluz, com a sr.^a condessa de Gouvarinho. - -A condessa tinha descido no largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a -solid„o da Patriarchal para se desembaraÁar do calhambeque d'assento -duro, onde durante a ultima hora suffoc·ra, sem ousar descer as -vidraÁas, com as pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas -amarrotadas e dos beijos interminaveis que ella lhe dava na barba... - -AtÈ ahi, durante essas tres semanas, tinham-se encontrado n'uma casa da -rua de Santa Izabel, pertencente a uma tia da condessa que fÙra para o -Porto com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato. A -boa titi, uma velha pequenina, chamada miss Jones, era uma santa, uma -apostola militante da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da -Propaganda; e todos os mezes fazia assim uma viagem de cathechisaÁ„o · -provincia, distribuindo Biblias, arrancando almas · treva catholica, -purificando (como ella dizia) o tremedal papista... J· na escada havia -um cheirinho adocicado e triste a devoÁ„o e a virgem velha: e no patamar -pendia um largo cart„o, com um distico em letras de ouro entrelaÁadas de -lyrios roxos, rogando aos que entravam que preserverassem nas vias do -Senhor! Carlos entrou, tropeÁando logo n'um mont„o de Biblias. O quarto -todo era um ninho de Biblias; havia-as ·s pilhas por cima dos moveis, -transbordando de velhas chapelleiras, misturadas a pares de galochas, -cahidas para o fundo da bacia d'assento, todas do mesmo formato, -entaladas n'uma encadernaÁ„o negra como n'uma armadura de combate, -carrancudas e aggressivas! As paredes resplandeciam, forradas de -cartonagens impressas em lettras de cÙr, irradiando versiculos duros da -Biblia, asperos conselhos de moral, gritos dos psalmos, ameaÁas -insolentes do inferno... E no meio d'esta religiosidade anglicana, · -cabeceira d'um leitosinho de ferro, rigido e virginal, duas garrafas -quasi vasias de cognac e de gin, Carlos bebeu o gin da santa; e o leito -rigido ficou revolto como um campo de batalha. - -Depois a condessa comeÁou a ter medo d'uma visinha, uma Borges, que -visitava a titi, e era viuva de um antigo procurador dos Gouvarinhos. -Uma occasi„o em que, no casto leito de miss Jones, elles fumavam -languidamente cigarrilhas, tres enormes argoladas · porta atroaram a -casa. A pobre condessa quasi desmaiou; Carlos, correndo · janella, viu -um homem que se affastava, com uma estatueta de gesso na m„o, outras -dentro d'um cesto. Mas a condessa jurava que fÙra a Borges quem mand·ra -o italiano das imagens atirar-lhes para dentro aquellas aldrabadas, como -tres avisos, tres rebates da Moral... N„o quizera voltar mais ao -beatifico cutÈ da titi. E n'essa tarde, como n„o havia ainda outro -escondrijo, tinham abrigado os seus amores dentro d'aquella tipoia de -praÁa. - -Mas Carlos vinha de l· enervado, amollecido, sentindo j· na alma os -primeiros bocejos da saciedade. Havia tres semanas apenas que aquelles -braÁos perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pescoÁo,--e agora, -pelo passeio de S. Pedro d'Alcantara, sob o ligeiro chuvisco que batia -as folhagens da alameda, elle Ìa pensando como se poderia desembaraÁar -da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso... … que a condessa Ìa-se -tornando absurda com aquella determinaÁ„o anciosa e audaz de invadir -toda a sua vida, tomar n'ella o logar mais largo e mais profundo--como -se o primeiro beijo trocado tivesse unido n„o sÛ os labios de ambos um -momento, mas os seus destinos tambem e para sempre. N'essa tarde l· -tinham voltado as palavras que ella balbuciava, cahida sobre o seu -peito, com os olhos affogados n'uma ternura supplicante: _Se tu -quizesses! que felizes que seriamos! que vida adoravel! ambos sÛs!_... E -isto era claro--a condessa concebera a idÈa extravagante de fugir com -elle, ir viver n'um sonho eterno de amor lyrico, n'algum canto do mundo, -o mais longe possivel da rua de S. MarÁal! _Se tu quizesses!_ N„o, com -mil demonios, n„o queria fugir com a sr.^a condessa de Gouvarinho!... - -E n„o era sÛ isto--mas ainda exigencias, egoismos, explosıes tumultuosas -d'um temperamento cioso: j· mais de uma vez, n'essas duas curtas -semanas, por pieguices, ella desproposit·ra, fallara de morrer, -debulhada em lagrimas... Ah! nas lagrimas havia ainda uma -voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o setim do seu collo! O que o -inquietava eram certos clarıes que lhe sulcavam o rosto, um dardejar -nervoso dos olhos seccos, revelando a paix„o que se accendera n'aquelles -nervos de mulher de trinta e tres annos, e a queimava atÈ ·s -profundidades do seu ser... Certamente este amor punha na sua vida um -luxo mais, e um perfume. Mas o seu encanto estava em conservar-se facil, -sereno, sem penetrar mais fundo que a epiderme. Se ella, por qualquer -cousa, tinha os olhos turvos d'agua, e fallava em morrer, e torcia os -braÁos, e queria fugir com elle--ent„o adeus! Tudo estava estragado; e a -sr.^a condessa com a sua verbena, os seus cabellos cÙr de braza, e o seu -pranto, era apenas um trambolho! - -O chuveiro parara, um bocado d'azul lavado appareceu entre nuvens. E -Carlos descia a rua de S. Roque--quando encontrou o marquez, sahindo -d'uma confeitaria, tristonho, com um embrulho na m„o, e o pescoÁo -abafado n'um enorme cache-nez de seda branca. - ---Que È isso? ConstipaÁ„o? perguntou Carlos. - ---Tudo, disse o marquez, pondo-se a caminhar ao lado d'elle com uma -lentid„o de moribundo. Deitei-me tarde. CanÁasso. Oppress„o no peito. -Pigarreira. DÙres no lado. Um horror... Levo j· aqui rebuÁados. - ---N„o seja piegas, homem! VocÍ o que precisa È roast-beef e uma garrafa -de Borgonha... N„o È hoje que vocÍ janta l· no Ramalhete?... …, atÈ tem -l· o Craft e o Damaso... Ent„o descemos por essa rua do Alecrim, que j· -n„o chove, depois pelo Aterro fÛra, a passo gymnastico, e em chegando l· -vocÍ est· curado. - -O pobre marquez encolheu os hombros. Apenas sentia o menor encommodo, -uma dÙr, um arrepio, considerava-se logo, como elle dizia, _liquidado_. -O mundo comeÁava a findar para elle: tomavam-no terrores catholicos, uma -preoccupaÁ„o angustiosa da Eternidade. N'esses dias fechava-se no quarto -com o padre capell„o--com quem ·s vezes, todavia, terminava por jogar as -damas. - ---Em todo o caso, disse elle, tirando cautelosamente o chapeu ao passar -pela porta aberta da egreja dos Martyres, deixe-me vocÍ ir primeiro ao -Gremio... Quero escrever · Manoeleta que n„o conte comigo esta noite... - -Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou noticias d'esse devasso -do Ega. Esse devasso do Ega l· estava em Celorico, na quinta materna, -ouvindo arrotar o padre Seraphim, e refugiando-se, segundo dizia, na -grande arte: andava a compor uma comedia em cinco actos, que se devia -chamar o _LodaÁal_--escripta para se vingar de Lisboa. - ---O peor, murmurou o marquez, depois de um silencio, e abafando-se mais -no cache-nez, È se eu estou assim no domingo para as corridas! - ---O quÍ! exclamou Carlos, ent„o as corridas s„o j· no domingo? - -O marquez foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as -corridas se tinham apressado a pedido do Clifford, o grande _sportman_ -de Cordova, que devia trazer dois cavallos inglezes... Era um bocado -humilhante depender do Clifford. Mas emfim o Clifford era um _gentleman_ -e com os seus cavallos de raÁa, os seus jockeys inglezes, constituia a -unica feiÁ„o sÈria do Hyppodromo de Belem. Sem o Clifford aquillo era -uma brincadeira de pilecas e d'_abas_... - ---VocÍ n„o conhece o Clifford?.. Bello rapaz! Um pouco _poseur_, mas -oiro de lei. - -Tinham entrado no pateo do Gremio, o marquez estendeu o braÁo a Carlos. - ---Veja esse pulso! - ---O pulso est· excellente... V· vocÍ dar l· esse golpe · Manoela, que eu -fico aqui · espera. - -No domingo pois, d'ahi a cinco dias, eram as corridas... E _ella_ -estaria l·, elle ia conhecel-a, emfim! Durante essas tres ultimas -semanas vira-a duas vezes: uma occasi„o, estando a conversar com o -Taveira · porta do hotel Central, ella chegara a uma das varandas, de -chapeu, calÁando uma grande luva preta; d'outra vez, havia dias, por uma -tarde de chuva, ella viera parar · porta do Mour„o, ao Chiado, n'um -coupÈ da Companhia, e ficara esperando emquanto o trintanario levava -dentro · loja um embrulho que tinha a fÛrma d'um cofre, apertado com uma -fita vermelha. D'ambas as vezes ella vira-o, demorara os olhos n'elle um -momento: e parecera a Carlos que o ultimo olhar se prolongara mais, como -abandonando-se, humedecendo-se, n'uma leve doÁura, ao pousar no seu... -Era talvez uma illus„o; mas isto decidiu-o, na sua impaciencia, a -realisar a antiga idÈa (ainda que desagradavel) de ser apresentado pelo -Damaso ao Castro Gomes. O pobre Damaso, ao principio, diante d'esta -exigencia, ficou perturbado; e com um ar de c„o que defende o seu osso, -lembrou logo a Carlos o deploravel comportamento do Castro Gomes, que -n„o viera como lh'o annunciara, havia tres semanas, deixar o seu cart„o -ao Ramalhete... Mas Carlos desdenhava essas formalidades estreitas entre -rapazes: o Castro Gomes parecia-lhe um homem de gosto e de _sport_; nem -todos os dias apparecia em Lisboa quem soubesse dar com correcÁ„o o nÛ -da gravata; e seria agradavel, mesmo para elle Damaso, reunirem-se todos -de vez em quando, com o Craft, com o marquez, a fumar um charuto e a -fallar de cavallos. Isto decidiu Damaso, que terminou por propÙr a -Carlos o leval-o uma tarde ao hotel Central. Carlos porÈm n„o queria -entrar pelo hotel dentro, de chapeu na m„o, atraz do Damaso. Resolveram -ent„o esperar pelas corridas, onde os Castro Gomes tencionavam ir. ´Ahi, -no recinto da pesagem, disse o Damaso, a apresentaÁ„o È mais _chic_... … -mesmo pÙdre de _chic_.ª - ---Deus queira com effeito que n„o chova no domingo, murmurou Carlos -quando o marquez desceu, mais tristonho, mais abafado no seu cache-nez. - -Foram seguindo pelo meio da rua, em direcÁ„o ao Ferregial. Adiante do -Gremio, encostado ao passeio, estava um coupÈ da Companhia, com um -trintanario de luvas brancas esperando junto ao portal. Carlos olhou, -casualmente; e viu, debruÁado · portinhola, um rosto de creanÁa, d'uma -brancura adoravel sorrindo-lhe, com um bello sorriso que lhe punha duas -covinhas na face. Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ella n„o -se contentou em sorrÌr, com o seu doce olhar azul fugindo todo para -elle,--deitou a m„osinha de fÛra, atirou-lhe um grande adeus. No fundo -do coupÈ, forrado de negro, destacava um perfil claro d'estatua, um tom -ondeado de cabello louro. Carlos tirou profundamente o chapeu, t„o -perturbado, que os seus passos hesitaram. _Ella_ abaixou a cabeÁa, de -leve; alguma cousa de luminoso, um confuso rubor d'emoÁ„o, -espalhou-se-lhe no rosto. E fugitivamente foi como se, da m„e e da -filha, ao mesmo tempo, viesse para elle uma suave e quente emanaÁ„o de -sympathia. - ---Caramba, aquillo pertence-lhe? perguntou o marquez, que notara a -impress„o de Madame Gomes. - -Carlos cÛrou. - ---N„o, È uma senhora brazileira a quem eu curei aquella pequerrucha... - ---Irra! que gratid„o! rosnou o outro de dentro das dobras do seu -cachenez. - -Caminhando em silencio pelo Ferregial, Carlos revolvia uma idÈa que lhe -viera de repente, ao receber aquelle doce olhar. Por que È que Damaso -n„o levaria uma manh„ o Castro Gomes aos Olivaes, a vÍr as collecÁıes do -Craft?... Elle estaria l·, abria-se uma garrafa de Champagne, discutiam -_bric-‡-brac_. Depois, muito naturalmente, elle convidava Castro Gomes a -almoÁar no Ramalhete, para lhe mostrar o grande Rubens, e as suas velhas -colxas da India. E assim, j· antes das corridas existiria entre elles -uma camaradagem, talvez um tratamento de _vocÍ_. - -No Aterro, temendo o ar do rio, o marquez quiz tomar uma tipoia; e, atÈ -ao Ramalhete, continuaram callados. O marquez, outra vez inquieto, -apalpava a garganta. Carlos discutia complicadamente comsigo aquella -lenta inclinaÁ„o de cabeÁa, o olhar d'ella, o vivo rubor fugitivo... -Ella atÈ ahi n„o o conhecia talvez. Mas, depois de atirar o seu grande -_adeus_, Rosa, ainda sorrindo, voltara-se para a m„e, a dizer-lhe -decerto que aquelle era o medico que a curara, a ella e · boneca... E -ent„o a linda cÙr que lhe enternecera o rosto tomava uma significaÁ„o -mais profunda--era como a surpreza feliz, o enleio casto, ao saber que o -homem que ella not·ra j· de algum modo tinha penetrado na sua -intimidade, beijara a sua filha, se tinha mesmo sentado · beira do seu -leito... - -Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes, mais largo agora, -mais brilhante. Porque n„o iria ella tambem vÍr as curiosidades do -Craft? Que tarde encantadora, que festa, que lindo idyllio! O Craft -arranjava um _lunch_ delicado no seu velho serviÁo de Wedgewood. Elle -ficava · meza junto d'ella. Depois iam vÍr o jardim j· em flÙr; ou -tomavam ch· no pavilh„o japonez, forrado de esteiras. Mas, o que mais -lhe appetecia era percorrer com ella as duas salas de Craft, parando -ambos diante d'uma bella faienÁa ou d'um movel raro, e sentindo, atravez -da concordancia dos seus gostos, subir, como um perfume, a sympathia dos -seus coraÁıes... Nunca a vira t„o formosa como n'essa tarde, dentro do -coupÈ forrado de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura do seu -perfil. Sobre o regaÁo do vestido negro pousava o tom claro das suas -luvas; e no chapÈo frisava-se a ponta de uma penna cor de neve. - -A tipoia parara ao port„o do Ramalhete, estavam agora entre as -silenciosas tapessarias da ante-camara. - ---Como È que ella conhece os Cruges? perguntou de repente o marquez, com -um tom desconfiado, desembaraÁando-se do cache-nez. - -Carlos olhou para elle, como mal acordado. - ---Ella quem? Aquella senhora? Como conhece o Cruges?... Homem, sim, tem -vocÍ raz„o!.. Aquella era a casa do Cruges! a carruagem estava parada ‡ -porta do Cruges!.. Talvez alguem que mÛre n'outro andar. - ---N„o mÛra ninguem, disse o marquez, dando um passo para o corredor. Em -todo o caso, È um mulher„o. - -Carlos achou a palavra odÌosa. - -Do corredor ouvia-se j· no escriptorio de Affonso, atravez da porta -aberta, a voz petulante do Damaso fallando alto d'_handicap_ e de -_dead-beat_... E foram-n'o encontrar discursando sobre as corridas, com -convicÁ„o, com auctoridade, como membro do Jockey-Club. Affonso, na sua -velha poltrona, escutava-o, cortez e risonho, com o reverendo Bonifacio -no collo. Ao canto do soph·, Craft folheava um livro. - -E o Damaso appellou logo para o marquez. N„o era verdade, como elle -estivera dizendo ao sr. Affonso da Maia, que iam ser as melhores -corridas que se tinham feito em Lisboa? SÛ para o grande premio nacional -de seiscentos mil rÈis havia oito cavallos inscriptos! E alÈm d'isso, o -Clifford trazia a _Mist_. - ---Ah, È verdade, oh marquez, È necessario que vocÍ appareÁa sexta-feira -· noite no Jockey-Club, para acabarmos o _handicap_! - -O marquez arrastara uma cadeira para o pÈ de Affonso, para lhe fazer a -confidencia dos seus achaques; mas como Damaso se mettia entre elles, -fallando ainda da _Mist_, decidindo que a _Mist_ era chic, querendo -apostar cinco libras pela _Mist_ contra o campo--o marquez terminou por -se voltar, enfastiado, dizendo que o sr. Damazosinho se estava a dar -ares patuscos... Apostar pela _Mist_! Todo o patriota devia apostar -pelos cavallos do visconde de Darque, que era o unico criador -portuguez!... - ---Pois n„o È verdade, sr. Affonso da Maia? - -O velho sorrio, amaciando o seu gato. - ---O verdadeiro patriotismo talvez, disse elle, seria, em logar de -corridas, fazer uma boa tourada. - -Damazo levou as m„os · cabeÁa. Uma tourada! Ent„o o sr. Affonso da Maia -preferia touros a corridas de cavallos? O sr. Affonso da Maia, um -inglez!... - ---Um simples beir„o, sr. Salcede, um simples beir„o, e que faz gosto -n'isso; se habitei a Inglaterra È que o meu rei, que era ent„o, me pÙz -fÛra do meu paiz... Pois È verdade, tenho esse fraco portuguez, prefiro -touros. Cada raÁa possue o seu _sport_ proprio, e o nosso È o toiro: o -toiro com muito sol, ar de dia santo, agua fresca, e foguetes... Mas -sabe o sr. Salcede qual È a vantagem da toirada? … ser uma grande escola -de forÁa, de coragem e de destreza... Em Portugal n„o ha instituiÁ„o que -tenha uma importancia egual · tourada de curiosos. E acredite uma cousa: -È que se n'esta triste geraÁ„o moderna ainda ha em Lisboa uns rapazes -com certo musculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom socco, -deve-se isso ao touro e · tourada de curiosos... - -O marquez enthusiasmado bateu as palmas. Aquillo È que era fallar! -Aquillo È que era dar a philosophia do toiro! Est· claro que a tourada -era uma grande educaÁ„o phisica! E havia imbecis que fallavam em acabar -com os touros! Oh, estupidos, acabaes ent„o com a coragem portugueza!... - ---NÛs n„o temos os jogos de destresa das outras naÁıes, exclamava elle, -bracejando pela sala e esquecido dos seus males. N„o temos o _cricket_, -nem o _foot-ball_, nem o _running_, como os inglezes: n„o temos a -gymnastica como ella se faz em FranÁa; n„o temos o serviÁo militar -obrigatorio que È o que torna o allem„o solido... N„o temos nada capaz -de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos sÛ a tourada... Tirem a -tourada, e n„o ficam sen„o badamecos derreados da espinha, a mellarem-se -pelo Chiado! Pois vocÍ n„o acha, Craft? - -Craft, do canto do soph·, onde Carlos se fÙra sentar e lhe fallava -baixo, respondeu, convencido: - ---O que, o touro? Est· claro! o touro devia ser n'este paiz como o -ensino È l· fÛra: gratuito e obrigatorio. - -Damazo no entanto jurava a Affonso compenetradamente que gostava tambem -muito de touros. Ah l· n'essas cousas de patriotismo ninguem lhe levava -a palma... Mas as corridas tinham outro _chic_! Aquelles _Bois de -Boulogne_, n'um dia de _Grand-Prix_, hein!... Era de embatucar! - ---Sabes o que È pena? exclamou elle voltando-se de repente para Carlos. -… que tu n„o tenhas um _four-in-hand_, um _mail coach_. Iamos todos -d'aqui, cahia tudo de chic! - -Carlos pensou tambem comsigo que era uma pena n„o ter um _four-in-hand_. -Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockey Club da travessa da -ConceiÁ„o irem todos dentro d'um omnibus. - -Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os braÁos, descorÁoado: - ---Ahi est·, sr. Affonso da Maia! Ahi est· por que em Portugal nunca se -faz nada em termos! … por que ninguem quer concorrer para que as cousas -saiam bem... Assim n„o È possivel! Eu c· entendo isto: que n'um paiz, -cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para a civilisaÁ„o. - ---Muito bem, sr. Salcede! disse Affonso da Maia. Eis ahi uma nobre, uma -grande palavra! - ---Pois n„o È verdade? gritou Damazo, triumphante, a estoirar de goso. -Assim eu, por exemplo... - ---Tu, o quÍ? exclamaram dos lados. Que fizeste, tu pela civilisaÁ„o?... - ---Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca... E vou -de vÈo azul no chapÈo! - -Um escudeiro entrou com uma carta para Affonso, n'uma salva. O velho, -sorrindo ainda das idÈas de Damaso sobre a civilisaÁ„o, puxou a luneta, -leu as primeiras linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se -logo, tendo depositado cuidadosamente sobre a sua almofada o pesado -Bonifacio. - ---Isto È que È ter gosto, isto È que È comprehender as cousas! exclamava -o Damaso, agitando os braÁos para Carlos, quando o velho desappareceu -atravez do reposteiro de damasco. Este teu avÙ, menino, È podre de -chic!.. - ---Deixa l· o chic do avÙ... Anda c·, que te quero dizer uma cousa. - -Abriu uma das janellas do terraÁo, levou para l· o Damaso, e disse-lhe -ahi, · pressa, o seu plano da visita aos Olivaes, e a linda tarde que -poderiam passar na quinta com os Castro Gomes... Elle j· fallara ao -Craft, que estava de accordo, achava delicioso, ia encher tudo de -flores. E agora sÛ restava que Damaso amigo, como amabilidade sua, -convidasse os Castro Gomes... - ---Caramba! murmurou Damaso desconfiado, est·s com furor de a conhecer! - -Mas emfim concordou que era chic a valer! E via ahi uma bella occasi„o -para elle!... Em quanto Carlos e Craft andassem mostrando as -curiosidades ao Castro Gomes e lhe fallassem de cavallos, elle, z·s, ia -para a quinta passear com ella... A calhar! - ---Pois vou ·manh„ j· fallar-lhes... Estou convencido que aceitam logo. -Ella pela-se por bric-a-brac! - ---E vens dizer-me se acceitaram ou n„o... - ---Venho dizer-te... Tu vaes gostar d'ella; tem lido muito, entende -tambem de litteratura; e olha que ·s vezes a conversar atrapalha... - -O marquez veiu chamal-os para dentro, impaciente, querendo fechar a -porta envidraÁada, outra vez preoccupado com a garganta. E desejava -antes de jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar com agua e sal... - ---E È isto um portuguez forte! exclamou Carlos, travando-lhe alegremente -do braÁo. - ---Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marquez, desprendendo-se -d'elle e olhando-o com ferocidade. E vocÍ È-o no sentimento. E o Craft -È-o na respeitabilidade. E o Damasosinho È-o na tolice. Em Portugal È -tudo Pieguice e Companhia! - -Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na -ante-camara, deram com Affonso fallando a uma mulher, carregada de luto, -que lhe beijava a m„o, meia de joelhos, suffocada de lagrimas: e ao lado -outra mulher, com os olhos turvos d'agua tambem, embalava dentro do -chaile uma criancinha que parecia doente e gemia. Carlos parara -embaraÁado; o marquez instinctivamente levou a m„o · algibeira. Mas o -velho, assim surprehendido na sua caridade, foi logo empurrando as duas -mulheres para a escada: ellas desciam, encolhidas, abenÁoando-o, n'um -murmurio de soluÁos; e elle voltando-se para Carlos, quasi se desculpou -n'uma voz que ainda tremia: - ---Sempre estes peditorios... Caso bem triste todavia... E o que È peior -È que por mais que se dÍ nunca se d· bastante. Mundo muito mal feito, -marquez. - ---Mundo muito mal feito, sr. Affonso da Maia, respondeu o marquez -commovido. - -No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu phaeton de oito -molas, levando ao lado Craft que durante os dois dias de corridas se -installara no Ramalhete, parou ao fim do largo de Belem, no momento em -que para o lado do Hyppodromo estavam j· estalando foguetes. Um dos -criados desceu a comprar o bilhete de pesagem para o Craft, n'uma tosca -guarita de madeira, armada alli de vespera, onde se mexia um homemsinho -de grandes barbas grisalhas. - -Era um dia j· quente, azul ferrete, com um d'esses rutilantes soes de -festa que enflammam as pedras da rua, doiram a poeirada baÁa do ar, poem -fulgores d'espelho pelas vidraÁas, d„o a toda a cidade essa branca -faiscaÁ„o de cal, d'um vivo monotono e implacavel, que na lentid„o das -horas de ver„o canÁa a alma, e vagamente entristece. No largo dos -Jeronymos silencioso, e a escaldar na luz, um omnibus esperava, -desatrelado, junto ao portal da Egreja. Um trabalhador com o filho ao -collo, e a mulher ao lado no seu chaile de ramagens, andava alli, -pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gosar ociosamente o seu -domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente programmas das -corridas que ninguem comprava. A mulher da agua fresca, sem freguezes, -sentara-se com a sua bilha · sombra, a catar um pequeno. Quatro pesados -municipaes a cavallo patrulhavam a passo aquella solid„o. E a distancia, -sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente. - -No entanto o tritanario continuava debruÁado na guarita, sem poder -arranjar l· dentro o troco d'uma libra. Foi necessario Craft saltar da -almofada, ir l· parlamentar--emquanto Carlos, impaciente, raspando com o -chicote as ancas das egoas, luzidias como um setim castanho, riscava no -largo uma volta brusca e nervosa. Desde o Ramalhete viera assim -governando, irritadamente, sem descerrar os labios. … que toda aquella -semana, desde a tarde em que combinara com o Damaso a visita aos -Olivaes, fÙra desconsoladora. O Damaso tinha desapparecido, sem mandar a -resposta dos Castro Gomes. Elle, por orgulho, n„o procurara o Damaso. Os -dias tinham passado, vazios; n„o se realisara o alegre idyllio dos -Olivaes; ainda n„o conhecia Madame Gomes; n„o a tornara a ver; n„o a -esperava nas corridas. E aquelle domingo de festa, o grande sol, a gente -pelas ruas, vestida de casimiras e de sedas de missa, enchiam-n'o de -melancolia e de malestar. - -Uma caleche de praÁa passou, com dous sujeitos de flores ao peito, -acabando de calÁar as luvas; depois um dog-cart, governado por um homem -gordo, de lunetas pretas, quasi foi esbarrar contra o Arco. Emfim, Craft -voltou com o seu bilhete, tendo sido descomposto pelo homem de barbas -propheticas. - -Para alÈm do arco, a poeira suffocava. Pelas janellas havia senhoras -debruÁadas, olhando por debaixo de sombrinhas. Outros municipaes, a -cavallo, atravancavam a rua. - -¡ entrada para o hyppodromo, abertura escalavrada n'um muro de -quintarola, o phaeton teve de parar atr·z do dog-cart do homem -gordo--que n„o podia tambem avanÁar porque a porta estava tomada pela -caleche de praÁa, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava -furiosamente com um policia. Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O -sr. Savedra, que era do Jockey-Club, tinha-lhe dito que elle podia -entrar sem pagar a carruagem! Ainda lh'o dissÈra na vespera, na botica -do Azevedo! Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O policia -bracejava, enfiado. E o cavalleiro, tirando as luvas, ia abrir a -portinhola, esmurrar o homem--quando, trotando na sua grande horsa, um -municipal de punho alÁado correu, gritou, injuriou o cavalleiro gordo, -fez rodar para Ûra a caleche. Outro municipal entrometteu-se, -brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um -portal, espavoridas. E atravez do reboliÁo, da poeira, sentia-se -adiante, melancolicamente, um realejo tocando a _Traviata_. - -O phaeton entrou--atraz do dog-cart, onde o homem gordo, a estoirar de -furia, voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do -municipal: - ---Tudo isto est· arranjado com decencia, murmurou Craft. - -Diante d'elles, o hyppodromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, -depois da poeirada quente da calÁada e das cruas reverberaÁıes da cal, -mais fresco, mais vasto, com a sua relva j· um pouco crestada pelo sol -de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e alÈm. Uma aragem -larga e repousante chegava vagarosamente do rio. - -No centro, como perdido no largo espaÁo verde, negrejava, no brilho do -sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio, -d'onde sobresahiam tons claros de sombrinhas, o faiscar d'um vidro de -lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. Para alÈm, dos dois lados da -tribuna real forrada de um baet„o vermelho de mesa de RepartiÁ„o, -erguiam-se as duas tribunas publicas, com o feitio de traves mal -pregadas, como palanques d'arraial. A da esquerda vasia, por pintar, -mostrava · luz as fendas do taboado. Na da direita, bezuntada por fÛra -d'azul claro, havia uma fila de senhoras quasi todas de escuro -encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o -resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, d'um tom alvadio -de madeira, que abafava as cÙres alegres dos raros vestidos de ver„o. -Por vezes a briza lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das -bandeirolas. Um grande silencio caÌa do ceu faiscante. - -Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia -mais soldados de infanteria, com as bayonetas lampejando ao sol. E no -homem triste que estava · entrada, recebendo os bilhetes, mettido dentro -d'um enorme collete branco, reteso de gomma, e que lhe chegava atÈ aos -joelhos--Carlos reconheceu o servente do seu laboratorio. - -Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira · porta do buffete -onde se estivera reconfortando com uma cerveja. Tinha um molho de cravos -amarellos ao peito, polainas brancas,--e queria animar as corridas. J· -vira a _Mist_, a egoa de Clifford, e decidira apostar pela _Mist_. Que -cabeÁa d'animal, meninos, que finura de pernas!... - ---Palavra que me enthusiasmou! E est· decidido, um dia n„o s„o dias, È -necessario animar isto! Aposto trez mil rÈis. Quer vocÍ Craft? - ---Pois sim, talvez, depois... Vamos primeiro vÍr o aspecto geral. - -No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia sÛ homens, a -gente do Gremio, das Secretarias e da Casa Havaneza; a maior parte · -vontade, com jaquetıes claros, e de chapÈo cÙco; outros mais em estylo, -de sobrecasaca e binoculo a tiracollo, pareciam embaraÁados e quasi -arrependidos do seu chic. Fallava-se baixo, com passos lentos pela -relva, entre leves fumaraÁas de cigarro. Aqui e alÈm um cavalheiro, -parado, de m„os atraz das costas, pasmava languidamente para as -senhoras. Ao lado de Carlos dois brazileiros queixavam-se do preÁo dos -bilhetes, achando aquillo ´uma semsaboria de rachar.ª - -Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por -soldados: e junto · corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente, -com as carruagens pelo meio, sem um rumor, n'uma pasmaceira tristonha, -sob o peso do sol de junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoava -agua fresca. L· ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, t„o azul como -o ceu, n'uma pulverisaÁ„o fina de luz. - -O visconde de Darque, com o seu ar placido de gentleman louro que comeÁa -a engordar, veio apertar a m„o a Carlos e a Craft. E mal elles lhe -fallaram dos seus cavallos (_Rabbino_, o favorito, e o outro potro) -encolheu os hombros, cerrou os olhos, como um homem que se sacrifica. -Ent„o, que diabo, os rapazes tinham querido!... Mas elle, realmente, n„o -podia apresentar um cavallo decente, com as suas cÙres, sen„o d'ahi a -quatro annos. De resto n„o apurava cavallos para aquella melancolia de -Belem, n„o imaginassem os amigos que elle era t„o patriota: o seu fim -era ir a Hespanha, bater os cavallos de Caldillo... - ---Emfim, vamos a vÍr... DÍ vocÍ c· lume. Isto est· um horror. E depois, -que diabo, para corridas È necessario cocottes e Champagne. Com esta -gente seria, e agua fresca, n„o vae! - -N'esse momento um dos commissarios das corridas, um rapag„o sem barba, -vermelho como uma papoula, a pingar de suor sob o chapÈo branco deitado -para a nuca, veio arrebatar o Darque, ´que era muito preciso, l· na -pesagem, para uma duvidasinha.ª - ---Eu sou o diccionario, dizia o Darque, tornando a encolher os hombros -resignadamente. De vez em quando vem um d'estes senhores do Jockey-Club, -e folheia-me... Veja vocÍ, Maia, em que estado eu fico depois das -corridas! Ha-de ser necessario encadernar-me de novo... - -E l· foi, rindo da sua pilheria--empurrado para diante pelo commissario, -que lhe dava palmadas familiares nas costas, e lhe chamava _catita_. - ---Vamos nÛs vÍr as mulheres, disse Carlos. - -Seguiram devagar ao comprido da tribuna. DebruÁadas no rebordo, n'uma -fila muda, olhando vagamente, como d'uma janella em dia de prociss„o, -estavam ali todas as senhoras que vÍem no high-life dos jornaes, as dos -camarotes de S. Carlos, as das terÁas-feiras dos Gouvarinhos. A maior -parte tinha vestidos serios de missa. Aqui e alÈm um d'esses grandes -chapÈos emplumados · Gainsborough, que ent„o se comeÁavam a usar, -carregava d'uma sombra maior o tom trigueiro d'uma carinha miuda. E na -luz franca da tarde, no grande ar da collina descoberta, as pelles -appareciam murchas, gastas, molles, com um baÁo de pÛ de arroz. - -Carlos cumprimentou as duas irm„s do Taveira, magrinhas, loirinhas, -ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa -d'Alvim, nedia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos, -tendo ao lado a sua terna inseparavel, a Joaninha Villar, cada vez mais -cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante -eram as Pedrosos, as banqueiras, de cÙres claras, interessando-se pelas -corridas, uma de programma na m„o, a outra de pÈ e de binoculo estudando -a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal, -desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. N'uma bancada isolada, em -silencio, VillaÁa com duas damas de preto. - -A condessa de Gouvarinho ainda n„o viera. E n„o estava tambem aquella -que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperanÁa. - ---… um canteirinho de camelias meladas, disse o Taveira, repetindo um -dito do Ega. - -Carlos, no entanto, fÙra fallar · sua velha amiga D. Maria da Cunha que, -havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de -bÙa mam„. Era a unica senhora que ousara descer do retiro ajanellado da -tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ella -disse, n„o aturara a sÈca de estar l· em cima perfilada, · espera da -passagem do Senhor dos Passos. E, bella ainda sob os seus cabellos j· -grisalhos, sÛ ella parecia divertir-se alli, muito · vontade, com os pÈs -pousados na travessa d'uma cadeira, o binoculo no regaÁo, cumprimentada -a cada instante, tratando os rapazes por _meninos_... Tinha comsigo uma -parenta que apresentou a Carlos, uma senhora hespanhola, que seria -bonita se n„o fossem as olheiras negras, cavadas atÈ ao meio da face. -Apenas Carlos se sentou ao pÈ d'ella, D. Maria perguntou-lhe logo por -esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava em -Celorico compondo uma comedia para se vingar de Lisboa, chamada o -_LodaÁal_... - ---Entra o Cohen? perguntou ella, rindo. - ---Entramos todos, sr.^a D. Maria. Todos nÛs somos lodaÁal... - -N'esse momento, por traz do recinto, rompia, com um taran-tan-tan -molleng„o de tambores e pratos, o hymno da Carta, a que se misturou uma -voz de official e o bater de coronhas. E, entre dourados de dragonas, -El-rei appareceu na tribuna, sorrindo, de quinzena de velludo, e chapÈo -branco. Aqui e alÈm, raros sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a -senhora hespanhola, essa, tomou o oculo do regaÁo de D. Maria, e de pÈ, -muito descanÁadamente, poz-se a examinar o rei. D. Maria achava ridicula -a musica, dando ·s corridas um ar de arraial... AlÈm d'isso, que tolice, -o hymno, como n'um dia de parada! - ---E este hymno, ent„o, que È medonho, dizia Carlos. A sr.^a D. Maria n„o -sabe a definiÁ„o do Ega, e a sua theoria dos hymnos? Maravilhosa! - ---Aquelle Ega! dizia ella sorrindo, j· encantada. - ---O Ega diz que o hymno È a definiÁ„o pela musica do caracter d'um povo. -Tal È o compasso do hymno nacional, diz elle, tal È o movimento moral da -naÁ„o. Agora veja a sr.^a D. Maria os differentes hymnos, segundo o Ega. -A _Marselheza_ avanÁa com uma espada n˙a. O _God save the queen_ -adianta-se, arrastando um manto real... - ---E o hymno da Carta? - ---O hymno da Carta ginga, de rabona. - -E D. Maria ria ainda, quando a hespanhola, sentando-se e repousando-lhe -tranquillamente o binoculo no regaÁo, murmurou: - ---Tiene cara de buena persona. - ---Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos. Excellente! - -No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E no quadro indicador -subiram os numeros dos dois cavallos que corriam o primeiro premio dos -_Productos_. Eram o n.^o 1 e o n.^o 4. D. Maria Telles quiz-lhe saber os -nomes, com o appetite de apostar e ganhar cinco tostıes a Carlos. E como -Carlos se erguia para arranjar um programma: - ---Deixe estar o menino, disse ella, tocando-lhe no braÁo. Ahi vem o -nosso Alencar, com o programma... Olhe para aquillo! Veja se ainda hoje -os ha por ahi com aquelle ar de sentimento e de poesia... - -Com um fato novo de cheviote claro que o remoÁava, de luvas gris-perle, -o seu bilhete de pezagem na botoeira, o poeta vinha-se abanando com o -programma, e j· de longe sorrindo · sua boa amiga D. Maria. Quando -chegou junto d'ella, descoberto, bem penteado n'esse dia, com um lustre -d'oleo na grenha, levou-lhe a m„o aos labios, fidalgamente. - -D. Maria fÙra uma das suas lindas contemporaneas. Tinham danÁado muita -ardente mazurka nos salıes de Arroios. Ella tratava-o por _tu_. Elle -dizia sempre _boa amiga_, e _querida Maria_. - ---Deixa vÍr os nomes d'esses cavallos, Alencar... Senta-t'ahi, anda, -faze companhia. - -Elle puchou uma cadeira, rindo do interesse que ella tomava pelas -corridas. E elle que a conhecera sempre uma enthusiasta de toiros!... -Pois os nomes dos cavallos eram _Jupiter_ e _Escossez_... - ---Nenhum d'esses nomes me agrada, n„o aposto. E ent„o que te parece tudo -isto, Alencar?... A nossa Lisboa vae-se sahindo da concha... - -Alencar, pousando o chapÈo sobre uma cadeira, e passando a m„o pela sua -vasta fronte de bardo, confessou que aquillo tinha realmente um certo ar -de elegancia, um perfume de cÙrte... Depois, l· em baixo, aquelle -maravilhoso Tejo... Sem fallar na importancia do apuramento das raÁas -cavallares... - ---Pois n„o È verdade, meu Carlos? Tu que entendes superiormente d'isso, -que Ès um mestre em todos os _sports_, sabes bem que o apuramento... - ---Sim, com effeito, o apuramento, muito importante...--disse Carlos, -vagamente, erguendo-se a olhar outra vez · tribuna. - -Eram quasi tres horas, e agora, de certo, _ella_ j· n„o vinha: e a -condessa de Gouvarinho n„o apparecia tambem... ComeÁava a invadil-o uma -grande lassitude. Respondendo, com um leve movimento de cabeÁa, ao -sorriso doce que lhe dava da tribuna a Joaninha Villar, pensava em -voltar para o Ramalhete, acabar tranquillamente a tarde dentro do seu -robe-de-chambre, com um livro, longe de todo aquelle tÈdio. - -No entanto, ainda entravam senhoras. A menina S· Videira, filha do rico -negociante de sapatos d'ourello, passou pelo braÁo do irm„o, abonecada, -com o arsinho petulante e enojado de tudo, fallando alto inglez. Depois -foi a ministra da Baviera, a baroneza de Craben, enorme, empavoada, com -uma face macissa de matrona romana, a pelle cheia de manchas cÙr de -tomate, a estalar dentro d'um vestido de gorgor„o azul com riscas -brancas: e atraz o bar„o, pequenino, amavel, aos pulinhos, com um grande -chapÈo de palha. - -D. Maria da Cunha erguera-se para lhes fallar: e durante um momento -ouviu-se, como um glou-glou grosso de per˙, a voz da baroneza achando -_que c'Ètait charmant, c'Ètait trËs beau_. O bar„o, aos pulinhos, aos -risinhos, _trouvait Áa ravissant_. E o Alencar, diante d'aquelles -estrangeiros que o n„o tinham saudado, apurava a sua attitude de grande -homem nacional, retorcendo a ponta dos bigodes, alÁando mais a fronte -n˙a. - -Quando elles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tornou a -sentar, o poeta, indignado, declarou que abominava allem„es! O ar de -sobranceria com que aquella ministra, com feitio de barrica deixando -sahir o cebo por todas as costuras do vestido, o olh·ra, a elle! Ora, a -insolente baleia! - -D. Maria sorria, olhando com sympathia o poeta. E voltando-se de repente -para a senhora hespanhola: - ---Concha, deja-me presentar-te D. Thomaz de Alencar, nuestro gran poeta -lyrico... - -N'esse momento, algum dos rapazes mais amadores, dos que traziam -binoculos a tiracollo, apressaram o passo para a corda da pista. Dois -cavallos passavam n'um galope sereno, quasi juntos, sob as vergastadas -estonteadas de dois jockeys de grande bigode. Uma voz erguendo-se disse -que tinha ganhado _Escossez_. Outros affirmavam que fÙra _Jupiter_. E no -silencio que se fez, de lassid„o e de desapontamento, ondeou mais viva -no ar, lanÁada pelos flautins da banda, a valsa de _madame Angot_. -Alguns sujeitos tinham-se conservado de costas para a pista, fumando, -olhando a tribuna--onde as senhoras continuavam debruÁadas no parapeito, -· espera do Senhor dos Passos. Ao lado de Carlos, um cavalheiro resumiu -as impressıes, dizendo que tudo _aquillo era uma intrujice_. - -E quando Carlos se ergueu para ir procurar o Damaso, Alencar, muito -animado com a hespanhola, fallava de Sevilha, de malagueÒas e do coraÁ„o -d'Espronceda. - -O desejo de Carlos agora era achar Damazo, saber porque falhara a visita -aos Olivaes--e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquella -melancolia que o enevoava, estranha e pueril, misturada de -irritabilidade, fazendo-lhe detestar as vozes que lhe fallavam, os -rantatans da musica, atÈ a belleza calma da tarde... Mas ao dobrar a -esquina da tribuna, topou com Craft, que o deteve, o apresentou a um -rapaz loiro e forte com quem estava fallando alegremente. Era o famoso -Clifford, o grande sportman de Cordova. Em redor sujeitos tinham parado, -embasbacados para aquelle inglez legendario em Lisboa, dono de cavallos -de corridas, amigo do rei d'Hespanha, homem de todos os _chics_. Elle, -muito · vontade, um pouco _poseur_, com um simples veston de flanella -azul como no campo, ria alto com o Craft do tempo em que tinham estado -no collegio de Rugby. Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos, amavelmente. -N„o se tinham encontrado havia quasi um anno, em Madrid, n'um jantar, em -casa de Pancho Calderon? E assim era. O aperto de m„o que repetiram foi -mais intimo--e Craft quiz que fossem regar aquella flor d'amisade com -uma garrafa de mau Champagne. Em roda crescera a pasmaceira. - -O buffete estava installado debaixo da tribuna, sob o taboado n˙, sem -sobrado, sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de -taberna com garrafas e pratos de bolos. E, no balc„o tosco, dois -criados, estonteados e sujos, achatavam · pressa as fatias de sandwiches -com as m„os humidas da espuma da cerveja. - -Quando Carlos e os seus amigos entraram, havia junto d'um dos barrotes -que especavam os degraus da tribuna, n'um grupo animado, com copos de -champagne na m„o, o marquez, o visconde de Darque, o Taveira, um rapaz -pallido de barba preta, que tinha debaixo do braÁo enrolada a bandeira -vermelha de _Starter_, e o commissario imberbe, com o chapÈo branco cada -vez mais atirado para a nuca, a face mais esbrazeada, o collarinho j· -molle de suor. Era elle que offerecia o champagne; e apenas viu entrar -Clifford, rompeu para elle, de taÁa no ar, fez tremer as vigas, soltando -o seu vozeir„o: - ---¡ saude do amigo Clifford! o primeiro sportman da penÌnsula, e rapaz -c· dos nossos!... Hip hip, hurrah! - -Os copos ergueram-se, n'um clamor d'hurrahs, onde destacou, vibrante e -enthusiasta, a voz do _starter_. Clifford agradecia, risonho, tirando -lentamente as luvas--em quanto o marquez, puxando Carlos pelo braÁo para -o lado, lhe apresentava rapidamente o commissario, seu primo D. Pedro -Vargas. - ---Muito gosto em conhecer... - ---Qual historias! Eu È que fazia furor! exclamou o commissario. C· a -rapaziada do sport deve-se conhecer toda... Porque isto c· È a -confraria, e todo o resto È chinfrinada! - -E immediatamente arrebatou o copo ao ar, berrou com um impeto que lhe -trazia mais sangue · face: - ---¡ saude de Carlos da Maia, o primeiro elegante c· da patria! a melhor -m„o de redea... Hip, hip, hurrah... - ---Hip, hip, hip... Hurrah! - -E foi ainda a voz do starter que deu o _hurrah_ mais vibrante e mais -enthusiasta. - -Um empregado assomou · porta do buffete, e chamou o sr. commissario. O -Vargas atirou uma libra para o balc„o, abalou, gritando j· de fÛra, com -o olho acceso: - ---Isto vae-se animando, rapazes! Caramba! … carregar no liquido! E vocÍ, -oh l· de baixo, o patr„o, sÙ Manuel, mande vir esse gelo... Est· a gente -aqui a tomar a bebida quente... Despache um proprio, v· vocÍ, rebente! -Irra! - -No entanto em quanto se desarrolhava o champagne de Craft, Carlos tinha -convidado Clifford a jantar n'essa noite no Ramalhete. O outro acceitou, -molhando os labios no copo, achando excellente que se continuasse a -tradiÁ„o de jantarem juntos, sempre que se encontravam. - ---Ol·! o general por aqui! exclamou Craft. - -Os outros voltaram-se. Era o Sequeira, com a face como um piment„o, -entalado n'uma sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapeu -branco sobre o olho, e grande chicote debaixo do braÁo. - -Acceitou um copo de Champagne, e teve muito prazer em conhecer o sr. -Clifford... - ---E que me diz vocÍ a esta semsaboria? exclamou elle logo, voltando-se -para Carlos. - -Em quanto a si estava contente, pulava... Aquella corrida insipida, sem -cavallos, sem jockeys, com meia duzia de pessoas a bocejar em roda, -dava-lhe a certeza que eram talvez as ultimas, e que o _Jockey-Club_ -rebentava... E ainda bem! Via-se a gente livre d'um divertimento que n„o -estava nos habitos do paiz. Corridas era para se apostar. Tinha-se -apostado? N„o, ent„o historias!... Em Inglaterra e em FranÁa, sim! Ahi -eram um jogo como a roletta, ou como o monte... AtÈ havia banqueiros, -que eram os _bookmakers_... Ent„o j· viam! - -E como o marquez, pousando o copo, e querendo calmar o general, fallava -do apuramento das raÁas, e da remonta,--o outro ergueu os hombros, com -indignaÁ„o: - ---Que me est· vocÍ a cantar! Quer vocÍ dizer que se apura a raÁa para a -remonta da cavallaria?... Ora v· l· montar o exercito com cavallos de -corridas!... Em serviÁo o que se quer n„o È o cavallo que corra mais, È -o cavallo que aguente mais... O resto È uma historia... Cavallos de -corridas s„o phenomenos! S„o como o boi com duas cabeÁas... Ent„o -historias!... Em FranÁa atÈ lhe d„o Champagne, homem!... Ent„o veja l·! - -E a cada phrase, sacudia os hombros, furiosamente. Depois, d'um trago, -esvasiou o seu copo de Champagne, repetiu que tinha muito prazer em -conhecer o sr. Clifford, rodou sobre os tacıes, sahiu, bufando, -entalando mais debaixo do braÁo o chicote--que tremia na ponta como -avido de vergastar alguem. - -Craft sorria, batia no hombro de Clifford. - ---Veja vocÍ! c· nÛs, velhos portuguezes, n„o gostamos de novidades, e de -_sports_... Somos pelo toiro... - ---Com raz„o, dizia o outro, serio e aprumando-se sobre o collarinho. -Ainda ha dias me contava na Granja, o Rei de Hespanha... - -De repente, fÛra, houve um reboliÁo, e vozes sobresaltadas gritando -_ordem_! Uma senhora, que atravessava com um pequenito, fugiu para -dentro do buffete, enfiada. Um policia passou, correndo. - -Era uma desordem! - -Carlos e os outros, sahindo · pressa, viram ao pÈ da tribuna real um -magote de homens--onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os -rapazes corriam com curiosidade, j· excitados, apinhando-se, alÁando-se -em bicos de pÈs; do recinto das carruagens acudiam outros, saltando as -cordas da pista, apesar dos repellıes dos policias:--e agora era uma -massa tumultuosa de chapÈos altos, de fatos claros, empurrando-se contra -as escadas da tribuna real, onde um ajudante d'el-rei, reluzente de -agulhetas e em cabello, olhava tranquillamente. - -E Carlos, furando, poude emfim avistar no meio do mont„o um dos sujeitos -que correra no premio dos Productos, o que montava _Jupiter_, ainda de -botas, com um paletot alvadio por cima da jaqueta de jockey, furioso, -perdido, injuriando o juiz das corridas, o MendonÁa, que arregalava os -olhos, aturdido e sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-n'o, -queriam que elle fizesse um protesto. Mas elle batia o pÈ, tremulo, -livido, gritando que n„o se importava nada com protestos! Perdera a -corrida por uma pouca vergonha! O protesto alli era um arrocho! Porque o -que havia n'aquelle hyppodromo era compadrice e ladroeira! - -Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade. - ---FÛra! FÛra! - -Alguns tomavam o partido do jockey; j· aos lados outras questıes -surgiam, desabridas. Um sujeito vestido de cinzento berrava que o -MendonÁa decidira pelo Pinheiro, que montava _Escossez_, por ser intimo -d'elle; outro cavalheiro, de binoculo a tiracollo, achava aquella -insinuaÁ„o infame; e os dois, frente a frente, com os punhos fechados, -tratavam-se furiosamente de _pulhas_. - -E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes collarinhos de -pintinhas, procurava romper, erguia os braÁos, exclamava, n'uma voz -supplicante e rouca: - ---Por quem s„o, meus senhores... Um momento... Eu tenho experiencia... -Eu tenho experiencia! - -De repente o vozeir„o do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro. -Diante do jockey, sem chapÈo, com a face a estoirar de sangue, -gritava-lhe que era indigno de estar alli, entre gente decente! Quando -um gentleman duvida do juiz da corrida, faz um protesto! Mas vir dizer -que ha ladrıes, era sÛ d'um canalha e d'um fadista, como elle, que nunca -devia ter pertencido ao Jockey-Club!--O outro, agarrado pelos amigos, -esticando o pescoÁo magro como para lhe morder, atirou-lhe um nome sujo. -Ent„o o Vargas, com um encontr„o para os lados, abriu espaÁo, repuxou as -mangas, berrou: - ---Repita l· isso! repita l· isso! - -E immediatamente aquella massa de gente oscillou, embateu contra o -taboado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de _ordem_ e -_morra_, chapÈos pelo ar, baques surdos de murros. - -Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da policia; -senhoras, com as saias apanhadas, fugiam atravez da pista, procurando -espavoridamente as carruagens;--e um sopro grosseiro de desordem relles -passava sobre o hyppodromo, desmanchando a linha postiÁa de civilisaÁ„o -e a attitude forÁada de decoro... - -Carlos achou-se ao pÈ do marquez, que exclamava, pallido: - ---Isto È incrivel, isto È incrivel!... - -Carlos, pelo contrario, achava pittoresco. - ---Qual pittoresco, homem! … uma vergonha, com todos esses estrangeiros! - -No entanto a massa de gente dispersava, lentamente, obedecendo ao -official de guarda, um moÁo pequenino mas decidido, que, em bicos de -pÈs, aconselhava para os lados, n'uma voz de orador, ´cavalheirismoª e -´prudencia...ª O jockey de paletot alvadio affastou-se, apoiado ao braÁo -d'um amigo, cocheando, com o nariz a pingar sangue: e o commissario -desceu para a pista, com um cortejo atraz, triumphante, sem collarinho, -arranjando o chapÈo achatado n'uma pasta. A musica tocava a marcha do -_Propheta_; em quanto o desgraÁado juiz das corridas, o MendonÁa, -encostado · tribuna real, com os braÁos cahidos, aparvalhado, balbuciava -n'um resto d'assombro: - ---Isto sÛ a mim! Isto sÛ a mim! - -O marquez, n'um grupo a que se junt·ra o Clifford, Craft, e Taveira, -continuava a vociferar: - ---Ent„o, est„o convencidos? Que lhes tenho eu sempre dito? Isto È um -paiz que sÛ supporta hortas e arraiaes... Corridas, como muitas outras -coisas civilisadas l· de fÛra, necessitam primeiro gente educada. No -fundo todos nÛs somos fadistas! Do que gostamos È de vinhaÁa, e viola, e -bordoada, e viva l· seu compadre! Ahi est· o que È! - -Ao lado d'elle Clifford, que no meio d'aquelle desmancho todo esticava -mais correctamente a sua linha de gentleman, mordia um sorriso, -assegurando, com um ar de consolaÁ„o, que conflictos eguaes succedem em -toda a parte... Mas no fundo parecia achar tudo aquillo ignobil. -Dizia-se mesmo que elle ia retirar a _Mist_. E alguns davam-lhe raz„o. -Que diabo! Era aviltante para um bello animal de raÁa correr n'um -hyppodromo sem ordem e sem decencia, onde a todo o momento podiam -reluzir navalhas. - ---Ouve c·, tu viste por acaso esse animal do Damaso? perguntou Carlos, -chamando para o lado o Taveira. Ha uma hora que ando a farejal-o... - ---Estava ainda ha pouco do outro lado, no recinto das carruagens, com a -Josephina do Salazar... Anda extraordinario, de sobrecasaca branca, e de -vÈo no chapÈo! - -Mas, quando d'ahi a pouco, Carlos quiz atravessar, a pista estava -fechada. Ia-se correr o _Grande premio nacional_. Os numeros j· tinham -subido ao indicador, um tom de sineta morria no ar. Um cavallo do -Darque, o _Rabbino_, com o seu jockey de encarnado e branco, descia, -trazido · redea por um groom e acompanhado pelo Darque: alguns sujeitos -paravam a examinar-lhe as pernas, com o olho serio, affectando entender. -Carlos demorou-se um momento tambem, admirando-o: era d'um bonito -castanho escuro, nervoso e ligeiro, mas com o peito estreito. - -Depois, ao voltar-se, viu de repente a Gouvarinho, que acabava de certo -de chegar, e conversava de pÈ com D. Maria da Cunha. Estava com uma -toilette ingleza, justa e simples, toda de cazimira branca, d'um branco -de creme, onde as grandes luvas negras · mosqueteira punham um contraste -audaz: e o chapÈo preto tambem desapparecia sob as pregas finas d'um vÈo -branco, enrolado em volta da cabeÁa, cobrindo-lhe metade do rosto, com -um ar oriental que n„o Ìa bem ao seu narizinho curto, ao seu cabello cÙr -de braza. Mas em redor os homens olhavam para ella como para um quadro. - -Ao avistar Carlos, a condessa n„o conteve um sorriso, um brilho de olhos -que a illuminou. Instinctivamente deu um passo para elle: e ficaram um -instante isolados, fallando baixo, em quanto D. Maria os observava, -sorrindo, cheia j· de benevolencia, prompta j· a abenÁoal-os -maternalmente. - ---Estive para n„o vir, dizia a condessa, que parecia nervosa. O Gast„o -fez-se t„o desagradavel hoje! E naturalmente tenho d'ir ·manh„ para o -Porto. - ---Para o Porto?... - ---O pap· quer que eu l· v·, s„o os annos d'elle... Coitado, vae-se -fazendo velho, escreveu-me uma carta t„o triste... Ha dois annos que me -n„o vÍ... - ---O conde vae? - ---N„o. - -E a condessa, depois de dar um sorriso ao ministro da Baviera, que a -cumprimentava de passagem, aos pulinhos, acrescentou, mergulhando o -olhar nos olhos de Carlos: - ---E quero uma coisa. - ---O que? - ---Que venhas tambem. - -Justamente n'esse instante, Telles da Gama, de programma e lapis na m„o, -parou junto d'elles: - ---VocÍ quer entrar n'uma _poule_ monstro, Maia? Quinze bilhetes, dez -tostıes cada um... L· em cima ao canto da tribuna est·-se apostando -ferozmente... A desordem fez bem, sacudiu os nervos, todo o mundo -acordou... Quer v. ex.^a tambem, sr.^a condessa? - -Sim, a condessa tambem entrava na _poule_. Telles da Gama inscreveu-a, e -abalou atarefado. Depois foi Steinbroken que se acercou, todo florÌdo, -de chapÈo branco, ferradura de rubis na gravata, mais esticado, mais -loiro, mais inglez, n'este dia solemne de _sport_ official. - ---Ah, comme vous Ítes belle, comtesse!... Voil· une toilette -merveilleuse, n'est ce pas, Maia?... Est ce que nous n'allons pas parier -quelque chose? - -A condessa contrariada, querendo fallar a Carlos, risonha todavia, -lamentou-se de ter j· uma fortuna compromettida... Emfim sempre apostava -cinco tostıes com a Filandia. Que cavallo tomava elle? - ---Ah, je ne sais pas, je ne connais pas les chevaux... D'abord, quand on -parie... - -Ella, impaciente, offereceu-lhe _Vladimiro_. E teve de estender a m„o a -outro filandez, o secretario de Steinbroken, um moÁo loiro, lento, -languido, que se curvara em silencio diante d'ella, deixando escorregar -do olho claro e vago o seu monoculo d'ouro. Quasi immediatamente Taveira -excitado veiu dizer que Clifford retirara a _Mist_. - -Vendo-a, assim cercada, Carlos affastou-se. Justamente o olhar de D. -Maria, que o n„o deixara, chamava-o agora, mais carinhoso e vivo. Quando -elle se chegou, ella puxou-lhe pela manga, fel-o debruÁar, para lhe -murmurar ao ouvido, deliciada: - ---Est· hoje t„o galante! - ---Quem? - -D. Maria encolheu os hombros, impaciente. - ---Ora quem! Quem ha-de ser? O menino sabe perfeitamente. A condessa... -Est· de appetite. - ---Muito galante, com effeito, disse Carlos friamente. - -De pÈ, junto de D. Maria, tirando de vagar uma cigarrette, elle -ruminava, quasi com indignaÁ„o, as palavras da condessa. Ir com ella -para o Porto!... E via alli outra exigencia audaz, a mesma tendencia -impertinente a dispÙr do seu tempo, dos seus passos, da sua vida! Tinha -um desejo de voltar junto d'ella, dizer-lhe que _n„o_, seccamente, -desabridamente, sem motivos, sem explicaÁıes, como um brutal. - -Acompanhada em silencio pelo esguio secretario de Steinbroken, ella -vinha agora caminhando lentamente para elle: e o olhar alegre com que o -envolvia irritou-o mais, sentindo no seu brilho sereno, no sorrir calmo, -quanto ella estava certa da sua submiss„o. - -E estava. Apenas o filandez se affastou languidamente--ella, muito -tranquilla, alli mesmo junto de D. Maria, fallando em inglez, e -apontando para a pista como se commentasse os cavallos do Darque, -explicou-lhe um plano que imaginara, encantador. Em logar de partir na -terÁa feira para o Porto--ia na segunda · noite, sÛ com a criada -escocessa, sua confidente, n'um compartimento reservado. Carlos tomava o -mesmo comboio. Em Santarem, desciam ambos, muito simplesmente, e iam -passar a noite ao hotel. No dia seguinte ella seguia para o Porto, elle -recolhia a Lisboa... - -Carlos abria os olhos para ella, assombrado, emmudecido. N„o esperava -aquella extravagancia. Suppozera que ella o queria no Porto, escondido -no _Francfort_, para passeios romanticos · Foz, ou visitas furtivas a -algum casebre da Aguardente... Mas a idÈa d'uma noite, n'um hotel, em -Santarem! - -Terminou por encolher os hombros, indignado. Como queria ella, n'uma -linha de caminho de ferro em que se encontra constantemente gente -conhecida, apear-se com elle na estaÁ„o de Santarem, dar-lhe o braÁo, -maritalmente, e enfiarem para uma estalagem? Ella, porÈm, pens·ra em -todos os detalhes. Ninguem a conheceria, disfarÁada n'um grande -_water-proof_, e com uma cabelleira postiÁa. - ---Com uma cabelleira!? - ---O Gast„o! murmurou ella de repente. - -Era o conde, por traz d'elle, abraÁando-o ternamente pela cintura. E -quiz logo saber a opini„o do amigo Maia sobre as corridas. Bastante -animaÁ„o, n„o È verdade? E bonitas _toilettes_, certo ar de luxo... -Emfim, n„o envergonhavam. E ahi estava provado o que elle sempre -dissera, que todos os requintes da civilisaÁ„o se aclimatavam bem em -Portugal... - ---O nosso solo moral, Maia, como o nosso solo physico, È um solo -abenÁoado! - -A condessa voltara para o pÈ de D. Maria. E Telles da Gama, passando de -novo, n'aquella faina ruidosa em que o trazia a formaÁ„o da sua _poule_, -chamou Carlos para a tribuna, para elle tirar o seu bilhete, e apostar -com as senhoras... - ---Oh Gouvarinho! venha tambem d'ahi, homem! exclamou elle. Que diabo! … -necessario animar isto, È atÈ patriotico. - -E o conde condescendeu, por patriotismo. - ---… bom, dizia elle, travando do braÁo de Carlos, fomentar os -divertimentos elegantes. J· uma vez o disse na camara: o luxo È -conservador. - -Em cima, a um canto, n'um grupo de senhoras, foram com effeito encontrar -uma animaÁ„o--que quasi fazia escandalo n'aquella tribuna silenciosa e · -espera do Senhor dos Passos. A viscondessa de Alvim dobrava -atarefadamente os bilhetes da _poule_: uma secretariasinha da Russia, de -bonitos olhos garÁos, apostava desesperadamente placas de cinco tostıes, -estonteada, j· embrulhada, rabiscando com phrenesi o seu programma. A -Pinheiro, a mais magra, com um vestido leve de raminhos Pompadour que -lhe fazia covas nas claviculas, dava opiniıes pretenciosas sobre os -cavallos, em inglez: emquanto o Taveira, de olhos humidos no meio de -todas aquellas saias, fallava de arruinar as senhoras, de viver · custa -das senhoras... E todos os homens, acotovelando-se, queriam fazer uma -aposta com a Joanninha Villar, que, de costas contra o rebordo da -tribuna, gordinha e languida, sorrindo, com a cabeÁa deitada para traz, -as pestanas mortas, parecia offerecer a todas aquellas m„os, que se -estendiam gulosamente para ella, o seu appetitoso peito de rola. - -Telles da Gama, no entanto, ia organisando a confus„o alegre. Os -bilhetes estavam dobrados, era necessario um chapÈo... Ent„o os -cavalheiros affectaram um amor desordenado pelos seus chapÈos, n„o os -querendo confiar ·s m„os nervosas das senhoras; um rapaz, todo de luto, -excedeu-se mesmo, agarrando as abas do seu, com ambas as m„os, aos -gritos. - -A secretariasinha da Russia, impaciente, terminou por offerecer o -barrete de marujo do seu pequeno--uma creanÁa obesa, pousada alli para -um lado como uma trouxa. Foi a Joanninha Villar que levou em roda os -bilhetes, rindo e chocalhando-os preguiÁosamente; emquanto o secretario -de Steinbroken, grave, como exercendo uma funcÁ„o, recolhia no seu -grande chapÈo as placas cahindo uma a uma com um som argentino. E a -tiragem foi o lindo divertimento da _poule_. Como estavam sÛ quatro -cavallos inscriptos, e as entradas eram quinze, havia onze bilhetes -brancos que aterravam. Todos ambicionavam tirar o numero tres, o de -_Rabbino_, o cavallo de Darque, favorito do _Premio Nacional_. Assim -cada m„osinha soffrega que se demorava no fundo do barrete, remexendo, -tenteando os papeis, causava uma indignaÁ„o folgas„, n'um exagero de -risos. - ---A sr.^a viscondessa procura de mais!... E dobrou os numeros, -conhece-os... … necessario probidade, sr.^a viscondessa! - ---Oh, mon Dieu, j'ai _Minhoto_, cette rosse! - ---Je vous l'achette, madame! - ---” sr.^a D. Maria Pinheiro, v. ex.^a leva dous numeros!... - ---Ah! je suis perdue... Blanc! - ---E eu! … necessario fazer outra _poule_! Vamos fazer outra _poule_! - ---Isso! Outra _poule_, outra _poule_! - -No entanto a enorme baroneza de Craben, n'um degrau mais elevado, que -ella occupava sÛ, como um throno, erguera-se, com o seu bilhete na m„o. -Tinha tirado _Rabbino_: e affectava superiormente n„o comprehender esta -fortuna, perguntava o que era _Rabbino_. Quando o conde de Gouvarinho -lhe explicou muito serio a importancia de _Rabbino_, e que _Rabbino_ era -quasi uma gloria publica, ella mostrou a dentuÁa, condescendeu em rosnar -do fundo do papo que _c'etait charmant_. Todo o mundo a invejava; e a -vasta baleia alastrou-se de novo sobre o seu throno, abanando-se, com -magestade. - -E subitamente houve uma surpreza: em quanto elles tiravam os bilhetes, -os cavallos tinham partido, passavam juntos diante da tribuna. Todos se -ergueram, de binoculos na m„o. O _starter_ ainda estava na pista, com a -bandeira vermelha inclinada ao ch„o: e as ancas de cavallos fugiam na -curva, lustrosos · luz, sob as jaquetas enfunadas dos jockeys. - -Ent„o todo o rumor de vozes caiu; e no silencio a bella tarde pareceu -alargar-se em redor, mais suave e mais calma. Atravez do ar sem poeira, -sem a vibraÁ„o dos raios fortes, tudo tomava uma nitidez delicada: -defronte da tribuna, na collina, a relva era d'um louro quente; no grupo -de carruagens scintillava por vezes o vidro de uma lanterna, o metal de -um arreio, ou de pÈ, sobre uma almofada, destacava em escuro alguma -figura de chapeo alto; e pela pista verde, os cavallos corriam, mais -pequenos, finamente recortados na luz. Ao fundo, a cal das casas -cobria-se de uma leve agoada cÙr de rosa: e o distante horisonte -resplandecia, com dourados de sol, brilhos de rio vidrado, fundindo-se -n'uma nevoa luminosa, onde as collinas, nos seus tons azulados, tinham -quasi transparencia, como feitas d'uma substancia preciosa... - ---… _Rabbino_! exclamou por traz de Carlos, um sugeito, de pÈ n'um -degrau. - -As cÙres encarnadas e brancas do Darque corriam com effeito na frente. -Os dous outros cavallos iam juntos; e, o ultimo, n'um galope que -adormecia, era _Vladimiro_, outro potro do Darque, baio-claro, quasi -louro · luz. - -Ent„o, a secretaria da Russia bateu as palmas, interpellou Carlos, que -justamente tirara na poule o numero de _Vladimiro_. A ella coubera -_Minhoto_, uma pileca melancolica do Manoel Godinho; e tinham feito -sobre os dous cavallos uma aposta complicada de luvas e de amendoas. J· -umas poucas de vezes os seus lindos olhos garÁos tinham procurado os de -Carlos; e agora tocava-lhe no braÁo com o leque, gracejava, -triumphava... - ---Ah, vous avez perdu, vous avez perdu! Mais c'est un vieux cheval de -fiacre, vÙtre _Vladimir_. - -Como um cavallo de fiacre? _Vladimiro_ era o melhor potro do Darque! -Talvez ainda viesse a ser a unica gloria de Portugal, como outr'ora o -_Gladiador_ fÙra a unica gloria da FranÁa! Talvez ainda substituisse -Camıes... - ---Ah, vous plaisantez... - -N„o, Carlos n„o gracejava. Estava atÈ prompto a apostar tudo por -_Vladimiro_. - ---VocÍ aposta por _Vladimiro_? gritou Telles da Gama, voltando-se -vivamente. - -Carlos, por divertimento, sem mesmo saber por quÍ, declarou que tomava -_Vladimiro_. Ent„o, em roda, foi uma surpreza; e todo o mundo quiz -apostar, aproveitar-se d'aquella phantasia de homem rico, que sustentava -um potro verde, de tres quartos de sangue, a que o proprio Darque -chamava _pileca_. Elle sorria, aceitava; terminou ate por erguer a voz, -proclamar _Vladimiro contra o campo_. E de todos os lados o chamavam, -n'uma sofreguid„o de saque. - ---Mr. de Maia, dix tostons. - ---Parfaitement, madame. - ---Oh Maia, vocÍ quer meia libra? - ---¡s ordens. - ---Maia, tambem eu! OuÁa l·... Tambem eu!... Dous mil rÈis. - ---” sr. Maia, eu vou dez tostıes... - ---Com o maior prazer, minha senhora... - -Ao longe os cavallos davam a volta, na subida do terreno. _Rabbino_ já -desapparecera,--e _Vladimiro_ n'um galope a que se sentia o canÁasso, -corria só na pista. Uma voz elevou-se, dizendo que elle manquejava. -Então Carlos, que continuava a tomar _Vladimiro_ contra o campo, sentiu -que lhe puxavam de vagar pela manga; voltou-se; era o secretario de -Steinbroken, chegando subtilmente a tomar tambem parte no saque á bolsa -do Maia, propondo dous soberanos, em seu nome e em nome do seu chefe, -como uma aposta collectiva da legação, a aposta do reino da Filandia. - ---C'est fait, monsieur! exclamou Carlos, rindo. - -Agora comeÁava a divertir-se. Apenas vira de relance _Vladimiro_, e -gostara da cabeÁa ligeira do potro, do seu peito largo e fundo; mas -apostava sobre tudo para animar mais aquelle recanto da tribuna, ver -brilhar gulosamente os olhos interesseiros das mulheres. Telles da Gama -ao lado approvava-o, achava aquillo patriotico e _chic_. - ---… _Minhoto_! gritou de repente Taveira. - -Na volta, com effeito, fizera-se uma mudanÁa. Subitamente _Rabbino_ -perdera terreno, resistindo · subida, com o folego curto. E agora era -_Minhoto_, o cavallicoque obscuro de Manuel Godinho, que se arremessava -para a frente, vinha devorando a pista, n'um esforÁo continuo, -admiravelmente montado por um jockey hespanhol. E logo atraz vinham as -cÙres escarlates e brancas de Darque: ao principio ainda pareceu que era -_Rabbino_: mas, apanhado de repente n'um raio oblÌquo de sol, o cavallo -cobriu-se de tons lustrosos de baio claro, e foi uma surpreza ao -reconhecer-se que era _Vladimiro_! A corrida travava-se entre elle e -_Minhoto_. - -Os amigos de Godinho, precipitando-se para a pista, bradavam, de chapÈos -no ar: - ---_Minhoto, Minhoto!_ - -E, em redor de Carlos, os que tinham apostado pelo campo contra -_Vladimiro_ faziam tambem votos por _Minhoto_, em bicos de pÈs, junto do -parapeito da tribuna, estendendo o braÁo para elle, animando-o: - ---Anda _Minhoto_!... Isso, assim!... Aguenta, rapaz!... Bravo!... -_Minhoto! Minhoto!_ - -A russa, toda nervosa, na esperanÁa de ganhar a _poule_, batia as -palmas. AtÈ a enorme Craben se erguera, dominando a tribuna, enchendo-a -com os seus gorgorıes azues e brancos:--em quanto que, ao lado d'ella, o -conde de Gouvarinho, tambem de pÈ, sorria, contente no seu peito de -patriota, vendo n'aquelles jockeys · desfilada, nos chapÈos que se -agitavam, brilhar civilisaÁ„o... - -De repente, de baixo, d'ao pÈ da tribuna, d'entre os rapazes que -cercavam o Darque, uma exclamaÁ„o partiu. - ---_Vladimiro! Vladimiro!_ - -Com um arranque desesperado o potro viera juntar-se a _Minhoto_: e agora -chegavam furiosamente, com brilhos vivos de cÙres claras, os focinhos -juntos, os olhos esbogalhados, sob uma chuva de vergastadas. - -Telles da Gama, esquecido da sua aposta, todo pelo Darque, seu intimo, -berrava por _Vladimiro_. A russa, de pÈ n'um degrau, apoiada sobre o -hombro de Carlos, pallida, excitada, animava _Minhoto_ com gritinhos, -com pancadas de leque. A agitaÁ„o d'aquelle canto da tribuna -estendera-se em baixo ao recinto--onde se via uma linha de homens, -contra a corda da pista, bracejando. Do outro lado, era uma fila de -rostos pallidos, fixos n'uma curta anciedade. Algumas senhoras tinham-se -posto de pÈ nas carruagens. E atravez da collina, para ver a chegada, -dous cavalleiros, segurando com as m„os os chapÈos baixos, corriam · -desfilada. - ---_Vladimiro! Vladimiro!_ foram de novo os gritos isolados, aqui, alÈm. - -Os dous cavallos approximavam-se, com um som surdo das patas, trazendo -um ar de rajada. - ---_Minhoto! Minhoto!_ - ---_Vladimiro! Vladimiro!_ - -Chegavam... De repente o jockey inglez de _Vladimiro_, todo em fogo, -levantando o potro que lhe parecia fugir d'entre as pernas, esticado e -lustroso, fez silvar triumphantemente o chicote, e d'um arremesso -directo lanÁou-o alÈm da meta, duas cabeÁas adiante de _Minhoto_, todo -coberto d'espuma. - -Ent„o em volta de Carlos foi uma desconsolaÁ„o, um longo murmurio de -lassid„o. Todos perdiam; elle apanhava a _poule_, ganhava as apostas, -empolgava tudo. Que sorte! Que chance! Um addido italiano, thesoureiro -da _poule_, empallideceu ao separar-se do lenÁo cheio de prata: e de -todos os lados m„osinhas calÁadas de gris-perle, ou de castanho, -atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de placas que -elle recolhia, rindo, no chapÈo. - ---Ah, monsieur, exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa, -mefiez-vous... Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu... - ---Helas! madame! disse Carlos, resignado, estendendo-lhe o chapÈo. - -E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no braÁo. Era o secretario de -Steinbroken, lento e silencioso, que lhe trazia o seu dinheiro e o -dinheiro do seu chefe, a aposta do reino da Filandia. - ---Quanto ganha vocÍ? exclamou Telles da Gama, assombrado. - -Carlos n„o sabia. No fundo do chapÈo j· reluzia ouro. Telles contou, com -o olho brilhante. - ---VocÍ ganha doze libras! disse elle maravilhado, e olhando Carlos com -respeito. - -Doze libras! Esta somma espalhou-se em redor, n'um rumor de espanto. -Doze libras! Em baixo os amigos de Darque, agitando os chapÈos, davam -ainda _hurrahs_. Mas uma indifferenÁa, um tedio lento, ia pesando outra -vez, desconsoladoramente. Os rapazes vinham-se deixar cahir nas -cadeiras, bocejando, com um ar exhausto. A musica, desanimada tambem, -tocava cousas plangentes da _Norma_. - -Carlos, no entanto, n'um degrau da tribuna, com a idÈa de descobrir o -Damaso, sondava de binoculo o recinto das carruagens. A gente, agora, ia -dispersando pela collina. As senhoras tinham retomado a immobilidade -melancolica, no fundo das caleches, de m„os no regaÁo. Aqui e alÈm um -dog-cart, mal arranjado, dava um trote curto pela relva. N'uma vittoria -estavam as duas hespanholas do Eusebiosinho, a Concha e a Carmen, de -sombrinhas escarlates. E sujeitos, de m„os atr·s das costas, pasmavam -para um char-‡-bancs a quatro attrelado · Daumont onde, entre uma -familia triste, uma ama de lenÁo de lavradeira dava de mamar a uma -creanÁa cheia de rendas. Dous garotos esganiÁados passeavam bilhas -d'agua fresca. - -Carlos descia da tribuna, sem ter descoberto o Damaso--quando deu -justamente de frente com elle, dirigindo-se para a escada, affogueado, -flamante, na sua famosa sobrecasaca branca. - ---Onde diabo tens tu estado, creatura? - -O Damaso agarrou-o pelo braÁo, alÁou-se em bicos de pÈs, para lhe contar -ao ouvido que tinha estado do outro lado com uma gaja divina, a -Josephina do Zalazar... Chic a valer! lindamente vestida! parecia-lhe -que tinha mulher! - ---Ah, Sardanapalo!... - ---Faz-se pela vida... Volta c· acima · tribuna, anda. Eu ainda hoje n„o -pude cavaquear com o _high-life_!... Mas estou furioso, sabes? -Implicaram com o meu veo azul. Isto È um paiz de bestas! Logo troÁa, e -_olhe n„o creste a pelle_, e _onde mora, Û catitinha?_ e chalaÁa... Uma -canalha! Tive de tirar o veo ... Mas j· resolvi. Para as outras corridas -venho n˙. Palavra, venho n˙! Isto È a vergonha da civilisaÁ„o, esta -terra! N„o vens d'ahi? Ent„o atÈ j·. - -Carlos deteve-o. - ---Escuta l· homem, tenho que te dizer... Ent„o, essa visita aos -Olivaes?... Nunca mais appareceste... Tinhamos combinado que fosses -convidar o Castro Gomes, que viesses dar a resposta... N„o vens, n„o -mandas... O Craft · espera... Emfim um procedimento de selvagem. - -Damaso atirou os braÁos ao ar. Ent„o Carlos n„o sabia? Havia grandes -novidades! Elle n„o voltara ao Ramalhete, como estava combinado, porque -o Carlos Gomes n„o podia ir aos Olivaes. Ia partir para o Brazil. J· -partir· mesmo, na quarta feira. A coisa mais extraordinaria... Elle -chega l·, para fazer o convite, e s. ex.^a declara-lhe que sente muito, -mas que parte no dia seguinte para o Rio... E j· de mala feita, j· -alugada uma casa para a mulher ficar aqui · espera tres mezes, j· a -passagem no bolso. Tudo de repente, feito de sabbado para segunda -feira... Telhudo, aquelle Castro Gomes. - ---E l· partiu, exclamou elle, voltando-se a cumprimentar a viscondessa -d'Alvim e Joanninha Villar que desciam das tribunas. L· partiu, e ella -j· est· installada. AtÈ j· antes de hontem a fui visitar, mas n„o estava -em casa... Sabes do que tenho medo? … que ella, n'estes primeiros -tempos, por causa da visinhanÁa, como est· sÛ, n„o queira que eu l· v· -muito... Que te parece? - ---Talvez... E onde mora ella? - -Em quatro palavras, Damaso explicou a installaÁ„o de madame. Era muito -engraÁado, morava no predio do Cruges! A mam„ Cruges, havia j· annos, -alugava aquelle primeiro andar mobilado: o inverno passado estivera l· o -Bertonni, o tenor, com a familia. Casa bem arranjada, o Castro Gomes -tinha tido dedo... - ---E para mim, muito commodo, ali ao pÈ do Gremio... Ent„o n„o voltas c· -acima, a cavaquear com o femeaÁo? AtÈ logo... Est· hoje chic a valer a -Gouvarinho! E est· a pedir homem! _Good-bye_. - -Defronte de Carlos a condessa de Gouvarinho, no grupo de D. Maria a que -se viera juntar a Alvim e Joanninha Villar, n„o cessava de o chamar com -o olhar inquieto, torturando o seu grande leque negro. Mas elle n„o -obedeceu logo, parado ao pÈ dos degraus da tribuna, accendendo vagamente -uma cigarrette, perturbado por todas aquellas palavras do Damaso que lhe -deixavam n'alma um sulco luminoso. Agora que a sabia sÛ em Lisboa, -vivendo na mesma casa do Cruges, parecia-lhe que j· a conhecia, -sentia-se muito perto d'ella--podendo assim a todo o momento entrar os -hombraes da sua porta, pisar os degraus que ella pisava. Na sua -imaginaÁ„o transluziam j· possibilidades d'um encontro, alguma palavra -trocada, cousas pequeninas, subtis como fios, mas por onde os seus -destinos se comeÁariam a prender... E immediatamente veio-lhe a tentaÁ„o -pueril de ir l·, logo n'essa mesma tarde, n'esse instante, gosar como -amigo do Cruges o direito de subir a escada d'ella, parar diante da -porta d'ella--e surprehender uma voz, um som de piano, um rumor qualquer -da sua vida. - -O olhar da condessa n„o o deixava. Elle approximou-se, emfim, -contrariado: ella ergueu-se logo, deixou o seu grupo, e dando alguns -passos com elle pela relva, recomeÁou a fallar na ida a Santarem. -Carlos, ent„o, muito seccamente, declarou toda essa invenÁ„o insensata. - ---Porque?... - -Ora porque! Por tudo. Pelo perigo, pelos desconfortos, pelo ridiculo... -Emfim, a ella como mulher ficava-lhe bem ter phantasias pittorescas de -romance; mas a elle competia-lhe ter bom senso. - -Ella mordia o beiÁo, com todo o sangue na face. E n„o via alli bom -senso. Via sÛ frieza. Quando ella arriscava tanto, elle podia bem, por -uma noite, affrontar os desconfortos da estalagem... - ---Mas n„o È isso!... - -Ent„o que era? Tinha medo? N„o havia mais perigo do que nas idas a casa -da titi. Ninguem a podia conhecer, com outra cÙr de cabello, toda a -sorte de vÈos, disfarÁada n'um grande water-proof. Chegavam de noite, -entravam para o quarto, d'onde n„o sahiam mais, servidos apenas pela -escosseza. No dia seguinte, no comboio da noite, ella seguia para o -Porto, todo acabava... E n'aquella insistencia ella era o homem, o -seductor, com a sua vehemencia de paix„o activa, tentando-o, -soprando-lhe o desejo; emquanto elle parecia a mulher, hesitante e -assustada. E Carlos sentia isto. A sua resistencia a uma noite de amor, -prolongando-se assim, ameaÁava ser grotesca: ao mesmo tempo o calor de -voluptuosidade que emanava d'aquelle seio, arfando junto d'elle e por -elle, ia-o amollecendo lentamente. Terminou por a olhar de certo modo; -e, como se o desejo se lhe accendesse emfim de repente · curta chamma -que faiscava nas pupillas d'ella, negras, humidas, avidas, promettendo -mil cousas, disse, um pouco pallido: - ---Pois bem, perfeitamente... ¡manh„ · noite, na estaÁ„o. - -N'esse momento, em redor, romperam exclamaÁıes de troÁa: era um cavallo -solitario que chegava, n'um galope pacato, passara a meta sem se -apressar, como se descesse uma avenida do Campo Grande n'uma tarde de -domingo. E em redor perguntava-se que corrida era aquella d'um cavallo -sÛ--quando ao longe, como sahindo da claridade loura do sol que descia -sobre o rio, appareceu uma pobre pileca branca, empurrando-se, -arquejando, n'um esforÁo doloroso, sob as chicotadas atarantadas d'um -jockey de roxo e preto. Quando ella chegou, emfim, j· o outro -_gentleman-rider_ voltara da meta, a passo, pachorrentamente,--e estava -conversando com os amigos, encostado · corda da pista. - -Todo o mundo ria. E a corrida do Premio d'El-rei terminou assim, -grotescamente. - -Ainda havia o Premio de ConsolaÁ„o--mas agora desapparecera todo o -interesse ficticio pelos cavallos. Perante a calma e radiante belleza da -tarde, algumas senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a -pesagem, canÁadas da immobilidade da tribuna. Arranjaram-se mais -cadeiras: aqui e alÈm, sobre a relva pisada, formavam-se grupos -alegrados por algum vestido claro ou por uma pluma viva de chapÈo: e -palrava-se, como n'uma sala de inverno, fumando-se familiarmente. Em -redor de D. Maria e da Alvim projectava-se um grande pic-nic a Queluz. -Alencar e o Gouvarinho discutiam a reforma de instrucÁ„o. A horrivel -Craben, entre outros diplomatas e moÁos de binoculo a tiracolo, dava do -fundo grosso do papo, opiniıes sobre Daudet, que elle achava _trËs -agreable_. E, quando Carlos emfim abalou, o recinto, esquecidas as -corridas, tomava um tom de _soirÈe_, no ar claro e fresco da collina, -com o murmurio de vozes, um mover de leques, e ao fundo a musica tocando -uma valsa de Strauss. - -Carlos, depois de procurar muito Craft, encontrou-o no buffete com o -Darque, com outros, bebendo mais champagne. - ---Eu tenho de ir ainda a Lisboa, disse-lhe elle, e vou no phaeton. -Abandono torpemente. VocÍ v· para o Ramalhete como poder... - ---Eu o levo! gritou logo o Vargas, que tinha j· a gravata toda -desmanchada. Levo-o no dog-cart. Eu me encarrego d'elle... O Craft fica -por minha conta... … necessario recibo? ¡ saude do Craft, inglez c· dos -meus... Hurrah! - ---Hurrah! Hip, hip, hurrah! - -D'ahi a pouco, a trote largo no phaeton, Carlos descia o Chiado, dava a -volta para a rua de S. Francisco. Ia n'uma perturbaÁ„o deliciosa e -singular, com aquella certeza de que ella estava sÛ na casa do Cruges: o -ultimo olhar que ella lhe dÈra parecia ir adiante d'elle, chamando-o: e -um despertar tumultuoso de esperanÁas sem nome atirava-lhe a alma para o -azul. - -Quando parou diante do port„o--alguem, por dentro das janellas d'ella, -Ìa correndo lentamente os stores. Na rua silenciosa cahia j· uma sombra -de crepusculo. Atirou as redeas ao cocheiro, atravessou o pateo. Nunca -viera visitar o Cruges, nunca subira esta escada; e pareceu-lhe -horrorosa, com os seus frios degraus de pedra, sem tapete, as paredes -nuas e enxovalhadas alvejando tristemente no comeÁo de escurid„o. No -patamar do primeiro andar parou. Era alli que ella vivia. E ficou -olhando, com uma devoÁ„o ingenua, para as tres portas pintadas d'azul: a -do centro estava inutilisada por um banco comprido de palhinha, e na do -lado direito pendia, com uma enorme bola, o cord„o da campainha. De -dentro n„o vinha um rumor:--e este pesado silencio, juntando-se ao -movimento de stores que elle vira fechar-se, parecia cercar as pessoas -que alli viviam de solid„o e de impenetrabilidade. Uma desconsolaÁ„o -passou-lhe na alma. Se ella agora, sÛ, sem o marido, comeÁasse uma vida -reclusa e solitaria? Se elle n„o tornasse mais a encontrar os seus -olhos? - -Foi subindo de vagar atÈ ao andar do Cruges. E mal sabia o que havia de -dizer ao maestro para explicar aquella visita extranha, deslocada... Foi -um allivio quando a criadita lhe veiu dizer que o menino Victorino tinha -sahido. - -Em baixo, Carlos tomou as redeas, e foi levando lentamente o phaeton atÈ -ao largo da Bibliotheca. Depois retrocedeu, a passo. Agora, por traz do -store branco, havia uma vaga claridade de luz. Elle olhou-a como se olha -uma estrella. - -Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de pÛ, estava-se justamente apeando -de uma calecha de praÁa. Um momento ficaram alli · porta, em quanto -Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas. -No _Premio de ConsolaÁ„o_, um dos cavalleiros tinha cahido, quasi ao pÈ -da meta, sem se magoar: e, por ultimo, j· · partida, o Vargas, que ia na -sua terceira garrafa de champagne, esmurrara um criado do buffete, com -ferocidade. - ---Assim, disse Craft completando o seu troco, estas corridas foram boas -pelo velho principe Shakespereano de que _tudo È bom quanto acaba bem_. - ---Um murro, disse Carlos rindo, È com effeito um bello ponto final. - -No peristillo, o velho guarda-port„o esperava, descoberto, com uma carta -na m„o para Carlos. Um criado tinha-a trazido, instantes antes de s. -ex.^a chegar. - -Era uma letra ingleza de mulher, n'um envelope largo, lacrado com um -sinete d'armas. Carlos alli mesmo abriu-a: e, logo · primeira linha, -teve um movimento t„o vivo, de t„o bella surpreza, illuminando-se-lhe -tanto o rosto, que Craft do lado perguntou sorrindo: - ---Aventura? HeranÁa?... - -Carlos, vermelho, metteu a carta no bolso, e murmurou: - ---Um bilhete apenas, um doente... - -Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas comeÁava -assim:--´Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos -da Maia, e roga-lhe o obsequio...ª--depois, em duas breves palavras, -pedia-lhe para ir ver na manh„ seguinte, o mais cedo possivel, uma -pessoa de familia, que se achava incommodada. - ---Bem, eu vou-me vestir, disse Craft... Jantar ·s sete e meia, hein? - ---Sim, o jantar...--respondeu Carlos, sem saber o quÍ, banhado todo n'um -sorriso, como em extase. - -Correu aos seus aposentos: e junto da janella, sem mesmo tirar o chapÈo, -leu uma vez mais o bilhete, outra vez ainda, contemplando enlevadamente -a forma da letra, procurando voluptuosamente o perfume do papel. - -Era datada d'esse mesmo dia · tarde. Assim, quando elle passara defronte -da sua porta, j· ella a escrevera, j· o seu pensamento se demorara -n'elle--quando mais n„o fosse sen„o ao traÁar as lettras simples do seu -nome. N„o era ella que estava doente. Se fosse Rosa, ella n„o diria t„o -friamente ´uma pessoa de familia.ª Era talvez o esplendido preto de -carapinha grisalha. Talvez miss Sarah, abenÁoada fosse ella para sempre, -que queria um medico que entendesse inglez... Emfim havia l· uma pessoa -n'uma cama, junto da qual ella mesma o conduziria, atravez dos -corredores interiores d'aquella casa--que havia apenas instantes sentira -t„o fechada, e como impenetravel para sempre!... E depois este adorado -bilhete, este delicioso pedido para ir a sua casa, agora que ella o -conhecia, que vira Rosa atirar-lhe um grande adeus--tomava uma -significaÁ„o profunda, perturbadora... - -Se ella n„o quizesse comprehender, nem acceitar o distante amor que os -seus olhos lhe tinham offerecido claramente, o mais luminosamente que -tinham podido, n'esses fugitivos instantes que se tinham cruzado com os -d'ella--ent„o poderia ter mandado chamar outro medico, um clinico -qualquer, um estranho. Mas n„o: o seu olhar respondera ao d'elle, e ella -abria-lhe a sua porta...--E o que sentia a esta idÈa era uma gratid„o -ineffavel, um impulso tumultuoso de todo o seu ser a cahir-lhe aos pÈs, -ficar-lhe beijando a orla do vestido, devotamente, eternamente, sem -querer mais nada, sem pedir mais nada... - -Quando Craft d'alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado, -correcto--achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chapÈo na -cabeÁa passeando o quarto, n'esta agitaÁ„o radiante. - ---VocÍ est· a faiscar, homem! disse Craft, parando deante d'elle, com as -m„os nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu -resplandecente collarinho. VocÍ flameja!... VocÍ parece que tem uma -aurÈola na nuca!... VocÍ succedeu-lhe o quer que seja de muito bom! - -Carlos espreguiÁou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em -silencio, encolheu os hombros, e murmurou: - ---A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe succede È, em definitivo, bom -ou mau. - ---Ordinariamente È mau, disse o outro friamente, aproximando-se do -espelho a retocar com mais correcÁ„o o nÛ da gravata branca. - -FIM DO PRIMEIRO VOLUME - - - - -E«A DE QUEIROZ - -OS MAIAS - -EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA - -VOLUME II - -PORTO - - -Livraria Internacional de Ernesto Chardron -CASA EDITORA -LUGAN & GENELIOUX, Successores - - -1888 - -Todos os direitos reservados - - - - -OS MAIAS - -VOLUME I - - - - -OS MAIAS - - - - -I - - -Na manh„ seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a pÈ do Ramalhete -atÈ · rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde -morria em penumbra a luz distante da claraboia, uma velha de lenÁo na -cabeÁa, encolhida n'um chalesinho preto, esperava, sentada -melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava -uma parede feia de corredor, forrada de papel amarello. Dentro um -relogio ronceiro estava batendo dez horas. - ---A senhora j· tocou? perguntou Carlos, erguendo o chapÈo. - -A velha murmurou, d'entre a sombra do lenÁo que lhe cahia para os olhos, -n'um tom canÁado e doente: - ---J·, sim, meu senhor. J· fizeram o favor de me fallar. O criado, o snr. -Domingos, n„o tarda... - -Carlos esperou, passeando lentamente no patamar. Do segundo andar vinha -um barulho alegre de crianÁas brincando; por cima, o moÁo do Cruges -esfregava a escada com estrondo, assobiando desesperadamente o fado. Um -longo minuto arrastou-se, depois outro, infindavel. A velha, d'entre a -negrura do lenÁo, deu um suspirosinho abatido. L· ao fundo um canario -rompera a cantar; e ent„o Carlos, impaciente, puxou o cord„o da -campainha. - -Um criado de suissas ruivas, correctamente abotoado n'um jaquet„o de -flanella, appareceu correndo, com uma travessa na m„o, abafada n'um -guardanapo; e ao vÍr Carlos ficou t„o atarantado, bambaleando · porta, -que um pouco de molho de assado escorregou, cahiu sobre o soalho. - ---Oh snr. D. Carlos Eduardo, faz favor d'entrar!... Ora esta! Tem a -bondade d'esperar um instantinho, que eu abro j· a sala... Tome l·, -snr.^a Augusta, tome l·, olhe n„o entorne mais! A senhora diz que l· -manda logo o vinho do Porto... Desculpe v. exc.^a, snr. D. Carlos... Por -aqui, meu senhor... - -Correu um reposteiro de reps vermelho, introduziu Carlos n'uma sala -alta, espaÁosa, com um papel de ramagens azues, e duas varandas para a -rua de S. Francisco; e erguendo · pressa os dois transparentes de -paninho branco, perguntava a Carlos se s. exc.^a n„o se lembrava j· do -Domingos. Quando elle se voltou, risonho, descendo precipitadamente os -canhıes das mangas, Carlos reconheceu-o pelas suissas ruivas. Era com -effeito o Domingos, escudeiro excellente, que no comeÁo do inverno -estivera no Ramalhete, e se despedira por birras patrioticas, birras -ciumentas, com o cozinheiro francez. - ---N„o o tinha visto bem, Domingos, disse Carlos. O patamar È um pouco -escuro... Lembro-me perfeitamente... E ent„o vossÍ agora aqui, hein? E -est· contente? - ---Eu parece-me que estou muito contente, meu senhor... O snr. Cruges -tambem mora c· por cima... - ---Bem sei, bem sei... - ---Tenha v. exc.^a a paciencia de esperar um instantinho que eu vou dar -parte · snr.^a D. Maria Eduarda... - -Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome d'ella; e -pareceu-lhe perfeito, condizendo bem com a sua belleza serena. Maria -Eduarda, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem -sabe se n„o presagiava a concordancia dos seus destinos! - -Domingos, no entanto, j· · porta da sala, com a m„o no reposteiro, parou -ainda, para dizer n'um tom de confidencia e sorrindo: - ---… a governante ingleza que est· doente... - ---Ah! È a governante? - ---Sim, meu senhor, tem uma febresita desde hontem, peso no peito... - ---Ah!... - -O Domingos deu outro movimento lento ao reposteiro, sem se apressar, -contemplando Carlos com admiraÁ„o: - ---E o avÙsinho de v. exc.^a passa bem? - ---Obrigado, Domingos, passa bem. - ---Aquillo È que È um grande senhor!... N„o ha, n„o ha outro assim em -Lisboa! - ---Obrigado, Domingos, obrigado... - -Quando elle finalmente sahiu, Carlos, tirando as luvas, deu uma volta -curiosa e lenta pela sala. O soalho fÙra esteirado de novo. Ao pÈ da -porta havia um piano antigo de cauda, coberto com um pano alvadio; sobre -uma estante ao lado, cheia de partituras, de musicas, de jornaes -illustrados, pousava um vaso do Jap„o onde murchavam tres bellos lirios -brancos; todas as cadeiras eram forradas de reps vermelho; e aos pÈs do -sof· estirava-se uma velha pelle de tigre. Como no Hotel Central, esta -intallaÁ„o summaria de casa alugada recebera retoques de conforto e de -gosto: cortinas novas de cretone, combinando com o papel azul da parede, -tinham substituido as classicas bambinellas de cassa: um pequeno -contador arabe, que Carlos se lembrava de ter visto havia dias no tio -Abrah„o, viera encher um lado mais desguarnecido da parede: o tapete de -pellucia d'uma mesa oval, collocada ao centro, desapparecia sob lindas -encadernaÁıes de livros, albuns, duas taÁas japonezas de bronze, um -cesto para flÙres de porcelana de Dresde, objectos delicados d'arte que -n„o pertenciam decerto · m„i Cruges. E parecia errar alli, acariciando a -ordem das coisas e marcando-as com um encanto particular, aquelle -indefinido perfume que Carlos j· sentira nos quartos do Hotel Central, e -em que dominava o jasmim. - -Mas o que attrahiu Carlos foi um bonito biombo de linho cr˙, com -ramalhetes bordados, desdobrado ao pÈ da janella, fazendo um recanto -mais resguardado e mais intimo. Havia l· uma cadeirinha baixa de setim -escarlate, uma grande almofada para os pÈs, uma mesa de costura com todo -um trabalho de mulher interrompido, numeros de jornaes de modas, um -bordado enrolado, mÛlhos de l„ de cÙres transbordando de um aÁafate. E, -confortavelmente enroscada no macio da cadeira, achava-se ahi, n'esse -momento, a famosa cadellinha escosseza, que tantas vezes pass·ra nos -sonhos de Carlos, trotando ligeiramente atraz de uma radiante figura -pelo Aterro fÛra, ou aninhada e adormecida n'um doce regaÁo... - ---Bonjour, Mademoiselle, disse-lhe elle, baixinho, querendo captar-lhe -as sympathias. - -A cadellinha erguera-se logo bruscamente na cadeira, d'orelhas fitas, -dardejando para aquelle estranho, por entre as repas esguedelhadas, dois -bellos olhos de azeviche, desconfiados, d'uma penetraÁ„o quasi humana. -Um instante Carlos receou que ella rompesse a ladrar. Mas a cadellinha -de repente namor·ra-se d'elle, deitada j· na cadeira, de patas ao ar, -descomposta, abandonando o ventresinho ·s suas caricias. Carlos ia -coÁal-a e amimal-a, quando um passo leve pizou a esteira. Voltou-se, viu -Maria Eduarda diante de si. - -Foi como uma inesperada appariÁ„o--e vergou profundamente os hombros, -menos a saudal-a, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia -abrazar-lhe o rosto. Ella, com um vestido simples e justo de sarja -preta, um collarinho direito de homem, um bot„o de rosa e duas folhas -verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval, -acabando de desdobrar um pequeno lenÁo de renda. Obedecendo ao seu gesto -risonho, Carlos pousou-se embaraÁadamente · borda do sof· de reps. E -depois d'um instante de silencio, que lhe pareceu profundo, quasi -solemne, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, d'um -tom d'ouro que acariciava. - -AtravÈs do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ella lhe agradecia -os cuidados que elle tivera com Rosa: e, de cada vez que o seu olhar se -demorava n'ella um instante mais, descobria logo um encanto novo e outra -fÛrma da sua perfeiÁ„o. Os cabellos n„o eram louros, como julg·ra de -longe · claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e -castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na -grande luz escura dos seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de -muito grave e de muito dÙce. Por um geito familiar cruzava ·s vezes, ao -fallar, as m„os sobre os joelhos. E atravÈs da manga justa de sarja, -terminando n'um punho branco, elle sentia a belleza, a brancura, o -macio, quasi o calor dos seus braÁos. - -Ella cal·ra-se. Carlos, ao levantar a voz, sentiu outra vez o sangue -abrazar-lhe o rosto. E, apesar de saber j· pelo Domingos que a doente -era a governante, sÛ achou, na sua perturbaÁ„o, esta pergunta timida: - ---N„o È sua filha que est· doente, minha senhora? - ---Oh n„o! graÁas a Deus! - -E Maria Eduarda contou-lhe, justamente como o Domingos, que a governante -ingleza havia dois dias se achava incommodada, com difficuldade de -respirar, tosse, uma ponta de febre... - ---Imagin·mos ao principio que era uma constipaÁ„o passageira; mas hontem -· tarde estava peor, e estou agora impaciente que a veja... - -Ergueu-se, foi puxar um enorme cord„o de campainha que pendia ao lado do -piano. O seu cabello por traz, repuxado para o alto da cabeÁa, deixava -uma pennugem d'ouro frisar-se delicadamente sobre a brancura lactea do -pescoÁo. Entre aquelles moveis de reps, sob o tecto banal d'estuque -enxovalhado, toda a sua pessoa parecia a Carlos mais radiante, d'uma -belleza mais nobre, e quasi inaccessivel; e pensava que nunca alli -ousaria olhal-a t„o francamente, com uma t„o clara adoraÁ„o, como quando -a encontrava na rua. - ---Que linda cadellinha v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, quando -Maria Eduarda se tornou a sentar, e pondo j· n'estas palavras simples, -ditas a sorrir, um accento de ternura. - -Ella sorriu tambem com um lindo sorriso, que lhe fazia uma covinha no -queixo, dava uma doÁura mais mimosa ·s suas feiÁıes sÈrias. E -alegremente, batendo as palmas, chamando para dentro do biombo: - ---_Niniche!_ est„o-te a fazer elogios, vem agradecer! - -_Niniche_ appareceu a bocejar. Carlos achava lindo este nome de -_Niniche_. E era curioso, tinha tido tambem uma galguinha italiana que -se chamava _Niniche_... - -N'esse instante a criada entrou--a rapariga magra e sardenta, d'olhar -petulante, que Carlos vira j· no Hotel Central. - ---Melanie vai-lhe ensinar o quarto de miss Sarah, disse Maria Eduarda. -Eu n„o o acompanho, porque ella È t„o timida, tem tanto escrupulo em -incommodar, que diante de mim È capaz de negar tudo, dizer que n„o tem -nada... - ---Perfeitamente, perfeitamente, murmurava Carlos, sorrindo, n'um encanto -de tudo. - -E pareceu-lhe ent„o que no olhar d'ella alguma coisa brilh·ra, fugira -para elle, de mais vivo, de mais dÙce. - -Com o seu chapÈo na m„o, pisando familiarmente aquelle corredor intimo, -surprehendendo detalhes de vida domestica, Carlos sentia como a alegria -d'uma posse. Por uma porta meio aberta pÙde entrevÍr uma banheira, e ao -lado dependurados grandes roupıes turcos de banho. Adiante, sobre uma -mesa, estavam alinhadas, e como desencaixotadas recentemente, garrafas -d'aguas mineraes de Saint-Galmier e de Vals. Elle deduzia logo d'estas -coisas t„o simples, t„o banaes, evidencias de vida delicada. - -Melanie correu um reposteiro de linho cr˙, fÍl-o entrar n'um quarto -claro e fresco: e ahi foi encontrar a pobre miss Sarah n'um leitosinho -de ferro, sentada, com um laÁo de sÍda azul ao pescoÁo, e os bandÛs t„o -lisos, t„o acamados pela escova, como se fosse sahir n'um domingo para a -capella presbyteriana. Na mesinha de cabeceira os seus jornaes inglezes -estavam escrupulosamente dobrados, junto d'um copo com duas bellas -rosas; e tudo no quarto resplandecia de severo arranjo, desde os -retratos da familia real d'Inglaterra, expostos sobre a toalha de renda -que cobria a commoda, atÈ ·s suas botinas bem engraxadas, classificadas, -perfiladas n'uma prateleira de pinho. - -Apenas Carlos se sentou, ella immediatamente, com duas rosetas de -vergonha na face, entre frouxos de tosse, declarou que n„o tinha nada. -Era a senhora, t„o boa, t„o cautelosa, que a forÁ·ra a metter-se na -cama... E para ella era um desgosto vÍr-se alli ociosa, inutil, agora -que Madame estava t„o sÛ, n'uma casa sem jardim. Onde havia a menina de -brincar? Quem havia de sahir com ella? Ah! Era uma pris„o para -Madame!... - -Carlos consolava-a, tomando-lhe o pulso. Depois, quando elle se ergueu -para a auscultar, a pobre miss cobriu-se toda d'um rubor afflicto, -apertando mais a roupa contra o peito, querendo saber se era -_absolutamente_ necessario... Sim, decerto, era necessario... Achou-lhe -o pulm„o direito um pouco tomado; e, em quanto a agasalhava, fez-lhe -algumas perguntas sobre a sua familia. Ella contou que era de York, -filha de um _clergyman_, e tinha quatorze irm„os: os rapazes estavam na -Nova Zelandia, e todos eram d'uma robustez de athletas. Ella sahira a -mais fraca; tanto que o pai, vendo que ella aos dezesete annos pesava sÛ -oito arrobas, ensinou-lhe logo latim, destinando-a para governante. - -Em todo o caso, dizia Carlos, nunca houvera na sua familia doenÁas de -peito? Ella sorriu. Oh! nunca! A mam„ ainda vivia. O pap·, j· muito -velho, morrera do couce de uma egua. - -Carlos, no entanto, j· de pÈ, com o chapÈo na m„o, continuava a -observal-a, reflectindo. Ent„o, de repente, sem motivo, ella -enterneceu-se, os seus olhos pequeninos ennevoaram-se de agua. E quando -ouviu que eram precisos tantos agasalhos, que teria de estar alli no -quarto ainda quinze dias, perturbou-se mais, duas lagrimasinhas timidas -quasi lhe fugiram das pestanas. Carlos terminou por lhe afagar -paternalmente a m„o. - ---_Oh! Thank you sir!_ murmurou ella, commovida de todo. - -Na sala, Carlos veio encontrar Maria Eduarda sentada junto da mesa, -arranjando ramos, com uma grande cesta de flÙres pousada ao lado d'uma -cadeira, e o regaÁo cheio de cravos. Uma bella restea de sol, estendida -na esteira, vinha morrer-lhe aos pÈs; e _Niniche_, deitada alli, reluzia -como se fosse feita de fios de prata. Na rua, sob as janellas, um -realejo ia tocando, na alegria da linda manh„ de sol, a walsa da _Madame -Angot_. Pelo andar de cima tinham recomeÁado as correrias de crianÁas -brincando. - ---Ent„o? exclamou ella, voltando-se logo, com um mÛlho de cravos na m„o. - -Carlos tranquillisou-a. A pobre miss Sarah tinha uma bronchite ligeira, -com pouca febre. Em todo o caso necessitava resguardo, toda a cautela... - ---Certamente! E ha de tomar algum remedio, n„o È verdade? - -Atirou logo o resto dos cravos do regaÁo para o cesto, foi abrir uma -secretariasinha de pau preto collocada entre as janellas. Ella mesmo -arranjou o papel para elle receitar, metteu um bico novo na penna. E -estes cuidados perturbavam Carlos como caricias. - ---Oh minha senhora... murmurava elle, um lapis basta... - -Quando se sentou, os seus olhos demoraram-se com uma curiosidade -enternecida n'esses objectos familiares onde pousava a doÁura das m„os -d'ella--um sinete d'agatha sobre um velho livro de contas, uma faca de -marfim com monogramma de prata ao lado d'uma taÁasinha de Saxe cheia -d'estampilhas; e em tudo havia a ordem clara que t„o bem condizia com o -seu puro perfil. Na rua o realejo cal·ra-se, por cima do tecto j· n„o -cavallavam as crianÁas. E, em quanto escrevia devagar, Carlos sentia-a -abafar sobre a esteira o som dos seus passos, mover os seus vasos mais -de leve. - ---Que bonitas flÙres v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, voltando -a cabeÁa, em quanto ia seccando distrahida e lentamente a receita. - -De pÈ, junto do contador arabe, onde pousava um vaso amarello da India, -ella arranjava folhas em volta de duas rosas. - ---D„o frescura, disse ella. Mas imaginei que em Lisboa havia mais -bonitas flÙres. N„o ha nada que se compare ·s flÙres de FranÁa... Pois -n„o È verdade? - -Elle n„o respondeu logo, esquecido a olhar para ella, pensando na doÁura -de ficar alli eternamente n'aquella sala de reps vermelho, cheia de -claridade e cheia de silencio, a vÍl-a pÙr folhas verdes em torno de pÈs -de rosa! - ---Em Cintra ha lindas flÙres, murmurou por fim. - ---Oh, Cintra È um encanto! disse ella, sem erguer os olhos do seu ramo. -Vale a pena vir a Portugal sÛ por causa de Cintra. - -N'esse momento, o reposteiro de reps esvoaÁou, e Rosa entrou de dentro, -correndo, vestida de branco, com meiasinhas de sÍda preta, uma onda -negra de cabello a bater-lhe as costas, e trazendo ao collo a sua grande -boneca. Ao vÍr Carlos parou bruscamente, com os bellos olhos muito -abertos para elle, toda encantada, e apertando mais nos braÁos Cri-cri -que vinha em camisa. - ---N„o conheces? perguntou-lhe a m„i, indo sentar-se outra vez diante do -seu cesto de flÙres. - -Rosa comeÁava j· a sorrir, o seu rostosinho cobria-se d'uma linda cÙr. E -assim, toda d'alvo e negro como uma andorinha, tinha um encanto raro, -com o seu dÙce mimo de fÛrma, a sua graÁa ligeira, os seus grandes olhos -cheios d'azul, e um ruborzinho de mulher na face. Quando Carlos se -adiantou com a m„o estendida para renovar o antigo conhecimento--ella -ergueu-se na ponta dos pÈs, estendeu-lhe vivamente a boquinha, fresca -como um bot„o de rosa. Carlos ousou apenas tocar-lhe de leve na testa. - -Depois quiz apertar a m„o · sua velha amiga Cri-cri. E ent„o, de -repente, Rosa recordou-se do que a trouxera alli a correr. - ---… o robe-de-chambre, mam„! N„o posso achar o robe-de-chambre de -Cri-cri... Ainda a n„o pude vestir... Dize, sabes onde È que est· o -robe-de-chambre? - ---Vejam esta desarranjada! murmurava a m„i olhando-a com um sorriso -lento e terno. Se Cri-cri tem uma commoda particular, o seu -guarda-vestidos, n„o se lhe deviam perder as coisas... Pois n„o È -verdade, snr. Carlos da Maia? - -Elle, ainda com a sua receita na m„o, sorria tambem, sem dizer nada, -todo no enternecimento d'aquella intimidade em que se sentia penetrar -dÙcemente. - -A pequena ent„o veio encostar-se · m„i, roÁando-se pelo seu braÁo, com -uma vozinha languida, lenta, e de mimo: - ---Anda, dize... N„o sejas m·... Anda... Onde est· o robe-de-chambre? -Dize... - -Levemente, com a ponta dos dedos, Maria Eduarda arranjou-lhe o pequenino -laÁo de sÍda branca que lhe prendia no alto o cabello. Depois ficou mais -sÈria: - ---Est· bem, est· quieta... Tu sabes que n„o sou eu que trato dos -arranjos da Cri-cri. Devias ter mais ordem... Vai perguntar a Melanie. - -E Rosa obedeceu logo, sÈria tambem, comprimentando agora Carlos ao -passar, com um arzinho senhoril: - ---Bonjour, Monsieur... - ---… encantadora! murmurou elle. - -A m„i sorriu. Tinha acabado de compÙr o seu ramo de cravos;--e -immediatamente attendeu a Carlos, que pous·ra a receita sobre a mesa, e -sem se apressar, installando-se n'uma poltrona, lhe foi fallando da -dieta que devia ter miss Sarah, das colheres de xarope de codeina que se -lhe deviam dar de tres em tres horas... - ---Pobre Sarah! dizia ella. E È curioso, n„o È verdade? Veio com o -presentimento, quasi com a certeza, que havia de adoecer em Portugal... - ---Ent„o vem a detestar Portugal! - ---Oh! tem-lhe j· horror! Acha muito calor, por toda a parte maus -cheiros, a gente hedionda... Tem medo de ser insultada na rua... Emfim È -infelicissima, est· ardendo por se ir embora... - -Carlos ria d'aquellas antipathias saxonias. De resto em muitas coisas a -boa miss Sarah tinha talvez raz„o... - ---E v. exc.^a tem-se dado bem em Portugal, minha senhora? - -Ella encolheu os hombros, indecisa. - ---Sim... Devo dar-me bem... … o meu paiz - -O _seu_ paiz!... E elle que a julgava brazileira! - ---N„o, sou portugueza. - -E, durante um momento, houve um silencio. Ella tom·ra de sobre a mesa, -abria lentamente um grande leque negro pintado de flÙres vermelhas. E -Carlos sentia, sem saber porque, uma doÁura nova penetrar-lhe no -coraÁ„o. Depois ella fallou da sua viagem que fÙra muito agradavel; -adorava andar no mar; tinha sido um encanto a manh„ da chegada a Lisboa, -com um cÈo azul-ferrete, o mar todo azul tambem, e j· um calorzinho do -clima dÙce... Mas depois, apenas desembarcados, tudo correra -desagradavelmente. Tinham ficado mal alojados no Central. _Niniche_, uma -noite, assust·ra-os muito com uma indigest„o. Em seguida no Porto viera -aquelle desastre... - ---Sim, disse Carlos, o marido de v. exc.^a, na PraÁa Nova... - -Ella pareceu surprehendida. Como sabia elle? Ah! sim, sabia de certo -pelo Damaso... - ---S„o muito amigos, creio eu. - -Depois d'uma leve hesitaÁ„o, que ella comprehendeu, Carlos murmurou: - ---Sim... O Damaso vai bastante ao Ramalhete... … de resto um rapaz que -eu conheÁo apenas ha mezes... - -Ella abriu os olhos, pasmada. - ---O Damaso? Mas elle disse-me que se conheciam desde pequeninos, que -eram atÈ parentes... - -Carlos encolheu simplesmente os hombros, sorrindo. - ---… uma bella illus„o... E se isso o faz feliz!... - -Ella sorriu tambem, encolhendo tambem ligeiramente os hombros. - ---E v. exc.^a, minha senhora, continuou logo Carlos n„o querendo fallar -mais do Damaso, como acha Lisboa? - -Gostava bastante, achava muito bonito este tom azul e branco de cidade -meridional... Mas, havia t„o poucos confortos!... A vida tinha aqui um -ar que ella n„o pudera perceber ainda--se era de simplicidade ou de -pobreza. - ---Simplicidade, minha senhora. Temos a simplicidade dos selvagens... - -Ella riu. - ---N„o direi isso. Mas supponho que s„o como os gregos: contentam-se em -comer uma azeitona, olhando o cÈo que È bonito... - -Isto pareceu adoravel a Carlos, todo o seu coraÁ„o fugiu para ella. - -Maria Eduarda queixava-se sobretudo das casas, t„o faltas de -commodidade, t„o despidas de gosto, t„o desleixadas. Aquella em que -vivia fazia a sua desgraÁa. A cozinha era atroz, as portas n„o fechavam. -Na sala de jantar havia sobre a parede umas pinturas de barquinhos e -collinas que lhe tiravam o appetite... - ---AlÈm d'isso, acrescentou, È um horror n„o ter um quintal, um jardim, -onde a pequena possa correr, ir brincar... - ---N„o È facil encontrar assim uma casa nas condiÁıes d'esta e com -jardim, disse Carlos. - -Deu um olhar ·s paredes, ao estuque enxovalhado do tecto--e lembrou-lhe -de repente a quinta do Craft, com a sua vista de rio, o ar largo, as -frescas ruas de acacias. - -Felizmente, Maria Eduarda tom·ra a casa apenas ao mez, e estava pensando -em ir passar · beira-mar o tempo que tivesse de ficar ainda em Portugal. - ---De resto, disse ella, foi o que me aconselhou o meu medico em Paris, o -dr. Chaplain. - -O dr. Chaplain? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain. -Ouvira-lhe as liÁıes, visit·ra-o atÈ intimamente na sua propriedade de -Maisonnettes, ao pÈ de Saint-Germain. Era um grande mestre, era um -espirito bem superior! - ---E t„o bom coraÁ„o! disse ella com um claro sorriso, um olhar que -brilhou. - -E este sentimento commum pareceu de repente aproximal-os mais dÙcemente: -cada um n'esse instante adorou o dr. Chaplain: e continuaram ainda -fallando d'elle prolongadamente, gozando, atravÈs d'essa trivial -sympathia por um velho clinico, a nascente concordancia dos seus -coraÁıes. - -O bom dr. Chaplain! Que physionomia t„o amavel, t„o fina!... Sempre com -o seu barretinho de sÍda... E sempre com a sua grande flÙr na casaca... -De resto, o pratico maior que sahira da geraÁ„o de Trousseau. - ---E Madame Chaplain, acrescentou Carlos, È uma pessoa encantadora... N„o -È verdade? - -Mas Maria Eduarda n„o conhecia Madame Chaplain. - -Dentro o relogio ronceiro comeÁ·ra a bater onze horas. E Carlos ent„o -ergueu-se, findando a sua fugitiva, inolvidavel, deliciosa visita... - -Quando ella lhe estendeu a m„o, um pouco de sangue subiu-lhe de novo · -face ao tocar aquella palma t„o macia e t„o fresca. Pediu os seus -comprimentos para Mademoiselle Rosa. Depois, · porta, j· com o -reposteiro na m„o, voltou-se ainda, uma vez mais, n'uma ultima saudaÁ„o, -a receber o olhar suave com que ella o seguia... - ---AtÈ ·manh„, est· claro! exclamou ella de repente, com o seu lindo -sorriso. - ---AtÈ ·manh„, decerto! - -O Domingos estava j· no patamar, de casaca, risonho e bem penteado. - ---… coisa de cuidado, meu senhor? - ---N„o È nada, Domingos... Estimei vÍl-o por aqui. - ---E eu muito a v. exc.^a. AtÈ ·manh„, meu senhor. - ---AtÈ ·manh„. - -_Niniche_ appareceu tambem no patamar. Elle abaixou-se ternamente a -afagal-a, e disse-lhe tambem, radiante: - ---AtÈ ·manh„, _Niniche_! - - -AtÈ ·manh„! Voltando para o Ramalhete, era esta a unica idÈa que elle -sentia distinctamente atravÈs da nevoa luminosa que lhe afogava a alma. -Agora o seu dia estava findo:--mas, passadas as longas horas, terminada -a longa noite, elle penetraria outra vez n'aquella sala de reps -vermelho, onde ella o esperava, com o mesmo vestido de sarja, enrolando -ainda folhas verdes em torno de pÈs de rosa... - -Pelo Aterro, por entre a poeira de ver„o e o ruido das carroÁas, o que -elle via era essa sala, esteirada de novo, fresca, silenciosa e clara: -por vezes uma phrase que ella dissera cantava-lhe na memoria, com o tom -d'ouro da sua voz; ou luziam-lhe diante dos olhos as pedras dos seus -anneis entremettidos pelos pÍllos de _Niniche_. Parecia-lhe mais linda, -agora que conhecia o seu sorriso d'uma graÁa t„o delicada; era cheia de -inteligencia, era cheia de gosto; e a pobre velha · porta, esse doente a -quem ella mandava vinho do Porto, revelavam a sua bondade... E o que o -encantava È que n„o tornaria mais a farejar a cidade como um rafeiro -perdido, · busca dos seus olhos negros; agora bastava-lhe subir alguns -degraus, abria-se diante d'elle a porta da sua casa; e tudo de repente -na vida parecia tornar-se facil, equilibrado, sem duvidas e sem -impaciencias. - -No seu quarto, no Ramalhete, Baptista entregou-lhe uma carta. - ---Trouxe-a a escosseza, j· v. exc.^a tinha sahido. - -Era da Gouvarinho! Meia folha de papel, tendo simplesmente escripto a -lapis--_all rigth_. Carlos amarrotou-a, furioso. A Gouvarinho!... N„o se -torn·ra quasi a lembrar d'ella, desde a vespera, no radiante tumulto em -que and·ra o seu coraÁ„o. E era no comboio d'essa noite, d'ahi a horas, -que deviam ambos partir para Santarem, a amarem-se, escondidos n'uma -estalagem! Elle promettera-lh'o, a sÈrio; j· ella se prepar·ra decerto, -com a atroz cabelleira postiÁa, com o _water-proof_ de grande roda; tudo -estava _all rigth_... Achou-a n'esse instante ridicula, reles, -estupida... Oh, era claro como a luz que n„o ia, que nunca iria, j·mais! -Mas tinha d'apparecer na estaÁ„o de Santa Apolonia, balbuciar uma -desculpa tosca, assistir · sua desconsolaÁ„o, vÍr-lhe os olhos marejados -de lagrimas. Que massada!... Teve-lhe odio. - -Quando chegou · mesa do almoÁo Craft e Affonso, j· sentados, fallavam -justamente do Gouvarinho, e dos artigos que elle continuava gravemente a -publicar no _Jornal do Commercio_. - ---Que besta essa! exclamou Carlos n'uma voz que sibilava, desabafando -sobre a litteratura politica do marido a colera que lhe davam as -importunidades amorosas da mulher. - -Affonso e Craft olharam-n'o, pasmados de tanta violencia. E Craft -censurou-lhe a ingratid„o. Porque, realmente, n„o havia em toda a terra -um enthusiasmo como o que aquelle desventuroso homem d'estado tinha por -Carlos... - ---V. exc.^a n„o faz idÈa, snr. Affonso da Maia. … um culto. … uma -idolatria! - -Carlos encolhia os hombros, impaciente. E Affonso, j· bem disposto para -com o homem que assim admirava t„o prodigamente o seu neto, murmurou com -bondade: - ---Coitado, supponho que È inoffensivo... - -Craft fez uma ovaÁ„o ao velho: - ---_Inoffensivo!_ Admiravel, snr. Affonso da Maia! _Inoffensivo_, -applicado a um homem d'estado, a um par, a um ministro, a um legislador, -È um achado! E È com effeito o que elle È, _inoffensivo_... E È o que -elles s„o... - ---Chablis? murmurou o escudeiro. - ---N„o, tomo ch·. - -E acrescentou: - ---Aquelle champagne que hontem bebemos nas corridas, por patriotismo, -arrasou-me... Tenho de me pÙr uma semana a regimen de leite. - -Ent„o fallou-se ainda das corridas, dos ganhos de Carlos, do Clifford, e -do vÈo azul do Damaso. - ---Ora quem estava hontem muito bem vestida era a Gouvarinho, disse Craft -remexendo o seu ch·. Ficava-lhe admiravelmente aquelle branco creme, -tocado de tons negros. Uma verdadeira toilette de corridas... _C'Ètait -un [oe]illet blanc panachÈ de noir_... VossÍ n„o achou, Carlos? - ---Sim, rosnou Carlos, estava bem. - -Outra vez a Gouvarinho! Parecia-lhe agora que n„o haveria na sua vida -conversa em que n„o surgisse a Gouvarinho, e que n„o haveria caminho na -sua vida que o n„o atravancasse a Gouvarinho! E alli mesmo, · mesa, -decidiu comsigo n„o a tornar a vÍr, escrever-lhe um bilhete curto, -polido, recusando-se a ir a Santarem, sem razıes... - -Mas no seu quarto, diante da folha de papel, fumou uma longa cigarrette, -sem achar phrase que n„o fosse pueril ou brutal. Nem tinha a sympathia -precisa para lhe dar o banal tratamento de _querida_. Vinha-lhe atÈ por -ella uma indefinida repuls„o physica: devia ser intoleravel toda uma -noite o seu cheiro exagerado de verbena;--e lembrava-se que aquella -pelle do seu pescoÁo, que se lhe afigurava outr'ora um setim, tinha um -tom pegajoso, um tom amarellado, para alÈm da linha de pÛs d'arroz. -Decidiu n„o lhe escrever. Iria · noite a Santa Apolonia, e no momento do -comboio partir correria · portinhola, a balbuciar fugitivamente uma -desculpa; n„o lhe daria tempo de choramigar, nem de recriminar; um -rapido aperto de m„o, e adeus, para nunca mais... - -¡ noite, porÈm, · hora de ir · estaÁ„o, que sacrificio em se arrancar -aos confortos da sua poltrona, e do seu charuto!... Atirou-se para o -coupÈ desesperado, maldizendo essa tarde no boudoir azul em que, por -causa d'uma rosa e d'um certo vestido cÙr de folha morta que lhe ficava -bem, elle se'ach·ra cahido com ella n'um sof·... - -Ao chegar a Santa Apolonia faltavam, para a partida do expresso, dois -minutos. Precipitou-se para a extremidade da sala, j· quasi vazia -·quella hora, a comprar uma _admiss„o_; e ainda ahi esperou uma -eternidade, vendo dentro do postigo duas m„os lentas e molles arranjar -laboriosamente os patacos d'um troco. - -Penetrava emfim na sala d'espera--quando esbarrou com o Damaso, de -chapÈo desabado e saccola de viagem a tiracollo. Damaso agarrou-lhe as -m„os, enternecido: - ---” menino! pois tiveste o incommodo?... E como soubeste tu que eu -partia? - -Carlos n„o o desilludiu, balbuciando que lh'o dissera o Taveira, que -encontr·ra o Taveira... - ---Pois eu estava mais longe d'uma d'estas! exclamou o Damaso. Esta -manh„, muito regalado na cama, quando me vem o telegramma... Fiquei -furioso! Isto È, imagina tu como eu fiquei, um desgosto assim!... - -Foi ent„o que Carlos reparou que elle estava carregado de luto, com fumo -no chapÈo, luvas pretas, polainas pretas, barra preta no lenÁo... -Murmurou, embaraÁado: - ---O Taveira disse-me que ias, mas n„o me disse mais nada... Morreu-te -alguem? - ---Meu tio Guimar„es. - ---O communista? o de Paris? - ---N„o, o irm„o d'elle, o mais velho, o de Penafiel... Espera ahi que eu -volto j·, vou alli ao cafÈ encher o frasco de cognac. Com a afflicÁ„o -esquecia-me o cognac... - -Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos, de guarda-pÛ, com -chapeleiras na m„o. Os guardas rolavam pachorrentamente as bagagens. -D'uma portinhola, onde se exhibia um cavalheiro barrigudo, com um bonet -bordado a retroz, pendia todo um cacho d'amigos politicos, -respeitosamente e em silencio. A um canto uma senhora soluÁava por baixo -do vÈo. - -Carlos, vendo um wagon com a papeleta de _reservado_, imaginou l· a -condessa. Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a profanaÁ„o -d'um santuario. Que queria elle, que queria elle d'alli? N„o sabia que -era o _reservado_ do snr. Carneiro? - ---N„o sabia. - ---Perguntasse, devia saber! ficou o outro a resmungar, ainda tremulo. - -Carlos correu ainda outros wagons, onde a gente se apinhava, -atabafadamente, na amontoaÁ„o dos embrulhos; n'um, dois sujeitos, a -proposito de lugares, tratavam-se de _malcriados_; adiante, uma crianÁa -esperneava no collo da ama, aos gritos. - ---” menino, quem diabo andas tu a procurar? exclamou Damaso alegremente, -surgindo por traz d'elle, e passando-lhe o braÁo pela cinta. - ---Ninguem... Imaginei que tinha visto o marquez. - -Immediatamente Damaso queixou-se d'aquella l˙gubre massada de ter d'ir a -Penafiel! - ---E ent„o agora que eu precisava tanto estar em Lisboa! Que tenho andado -com uma sorte para mulheres, menino!... Uma sorte damnada! - -Uma sineta badalou. Damaso deu logo um abraÁo terno a Carlos, saltou -para o seu wagon, enterrou na cabeÁa um barretinho de sÍda--e depois -debruÁado da portinhola continuou ainda as confidencias. O que mais o -contrariava era deixar aquelle arranjinho da rua de S. Francisco. Que -ferro! agora que aquillo ia t„o bem, o gajo no Brazil, e ella alli, · -m„o, a dois passos do Gremio!... - -Carlos mal o escutava, distrahido, olhando o grande relogio -transparente. De repente Damaso, · portinhola, deu um salto de surpreza: - ---Olha os Gouvarinhos! - -Carlos deu um salto tambem. O conde, de cÙco de viagem, de paletot -alvadio, sem se apressar, como competia a um director da Companhia, -vinha conversando com um empregado superior da estaÁ„o, agaloado de -ouro, que se encarreg·ra da chapeleira de papel„o de s. exc.^a E a -condessa, com um rico guarda-pÛ de foulard cÙr de castanho, um vÈo -cinzento que lhe cobria a face e o chapÈo, seguia atraz, com a criada -escosseza, trazendo na m„o um ramo de rosas. - -Carlos correu para elles, foi todo um assombro. - ---Por aqui, Maia? - ---De viagem, conde? - -… verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos annos do pap·... -ResoluÁ„o da ultima hora, quasi iam perdendo o comboio. - ---Ent„o temol-o por companheiro, Maia? Teremos esse grande prazer, Maia? - -Carlos contou rapidamente que viera apenas apertar a m„o ao pobre -Damaso, de jornada para Penafiel, por causa da morte do tio. - -DebruÁado da portinhola, com as m„os de fÛra calÁadas de negro, o pobre -Damaso estava saudando a senhora condessa, gravemente, funebremente. E o -bom Gouvarinho n„o quiz deixar de lhe ir dar logo o seu _shake-hands_ e -o seu pezame. - -SÛsinho n'esse curto instante com a condessa, Carlos murmurou apenas: - ---Que ferro! - ---Este maldito homem! exclamou ella, entre dentes, com um olhar que -fuzilou atravÈs do vÈo. Tudo t„o bem arranjado, e · ultima hora teima em -vir!... - -Carlos acompanhou-os atÈ ao _reservado_, n'um outro wagon que se -estivera mettendo de novo para s. exc.^a A condessa tomou o lugar do -canto junto da portinhola. E como o conde, n'um tom de polidez acida, a -aconselhava a que se sentasse antes com o rosto para a machina, ella -teve um gesto de aborrecimento, atirou o ramo para o lado -desabridamente, enterrou-se com mais forÁa na almofada; e um duro olhar -de colera passou entre ambos. Carlos, embaraÁado, perguntava: - ---Ent„o v„o com demora? - -O conde respondeu, sorrindo, disfarÁando o seu mau humor: - ---Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas ferias. - ---Tres dias, o mais, replicou ella n'uma voz fria e afiada como uma -navalha. - -O conde n„o respondeu, livido. - -Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silencio cahira sobre a -plataforma. O apito da machina varou o ar; e o comprido trem, n'um ruido -secco de freios retesados, comeÁou a rolar, com gente ·s portinholas, -que ainda se debruÁava, estendendo a m„o para um ultimo aperto. Aqui e -alÈm esvoaÁava um lenÁo branco. O olhar da condessa para o lado de -Carlos teve a doÁura de um beijo, o Damaso gritou saudades para o -Ramalhete. O compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro -dilacerante silvo o comboio mergulhou na noite... - -Carlos, sÛ, dentro do coupÈ, voltando · Baixa, sentia uma alegria -triumphante com aquella partida da condessa, e a inesperada jornada do -Damaso. Era como uma dispers„o providencial de todos os importunos: e -assim se fazia em torno da rua de S. Francisco uma solid„o--com todos os -seus encantos, e todas as suas cumplicidades. - -No caes do SodrÈ deixou a carruagem, subiu a pÈ pelo Ferregial, veio -passar diante das janellas na rua de S. Francisco. SÛ pÙde vÍr uma vaga -tira de claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto bastava-lhe. -Podia agora imaginar com precis„o o ser„o calmo que ella estava passando -na larga sala de reps vermelho. Sabia o nome dos livros que ella lia, e -as partituras que tinha sobre o piano; e as flÙres que espalhavam alli o -seu aroma vira-as elle arranjar n'essa manh„. Poria ella um instante o -seu pensamento n'elle? Decerto; a doenÁa em casa forÁava-a a lembrar as -horas do remedio, as explicaÁıes que elle dera, e o som da sua voz; e -fallando com miss Sarah pronunciaria decerto o seu nome. Duas vezes -percorreu a rua de S. Francisco; e recolheu para casa, sob a noite -estrellada, devagar, ruminando a doÁura d'aquelle grande amor. - - -Ent„o todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa, -esplendida, perfeita, ´a visita · inglezaª. - -Saltava do leito, cantando como um canario, e penetrava no seu dia como -n'uma acÁ„o triumphal. O correio chegava; e invariavelmente lhe trazia -uma carta da Gouvarinho, tres folhas de papel d'onde cahia sempre alguma -pequena flÙr meio murcha. Elle deixava ficar a flÙr no tapete: e mal -podia dizer o que havia n'aquellas longas linhas cruzadas. Sabia apenas -vagamente que, tres dias depois d'ella chegar ao Porto, o pai, o velho -Thompson, tivera uma apoplexia. Ella l· estava, d'enfermeira. Depois, -levando duas ou tres bellas flÙres do jardim embrulhadas n'um papel de -sÍda, partia para a rua de S. Francisco, sempre no seu coupÈ--porque o -tempo mud·ra, e os dias seguiam-se, tristonhos, cheios de sudoeste e de -chuva. - -¡ porta o Domingos acolhia-o com um sorriso cada vez mais enternecido. -_Niniche_ corria de dentro, a pular d'amizade; elle erguia-a nos braÁos -para a beijar. Esperava um instante na sala, de pÈ, saudando com o olhar -os moveis, os ramos, a clara ordem das coisas; ia examinar no piano a -musica que ella toc·ra essa manh„, ou o livro que deix·ra interrompido, -com a faca de marfim entre as folhas. - -Ella entrava. O seu sorriso ao dar-lhe os bons dias, a sua voz d'ouro -tinham cada dia para Carlos um encanto novo e mais penetrante. Trazia -ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas ·s vezes uma gravata -de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivella era cravejada de pedras, -avivavam este traje sobrio, quasi severo, que parecia a Carlos o mais -bello, e como uma express„o do seu espirito. - -ComeÁavam por fallar de miss Sarah, d'aquelle tempo agreste e humido que -lhe era t„o desfavoravel. Conversando, ainda de pÈ, ella dava aqui e -alÈm um arranjo melhor a um livro, ou ia mover uma cadeira que n„o -estava no seu alinho; tinha o habito inquieto de recompÙr constantemente -a symetria das coisas;--e, machinalmente, ao passar, sacudia a -superficie de moveis j· perfeitamente espanejados com as magnificas -rendas do seu lenÁo. - -Agora acompanhava-o sempre ao quarto de miss Sarah. Pelo corredor -amarello, caminhando ao seu lado, Carlos perturbava-se sentindo a -caricia d'esse intimo perfume em que havia jasmim, e que parecia sahir -do movimento das suas saias. Ella ·s vezes abria familiarmente a porta -de um quarto, apenas mobilado com um velho sof·: era alli que Rosa -brincava, e que tinha os arranjos de Cri-cri, as carruagens de Cri-cri, -a cozinha de Cri-cri. Encontravam-na vestindo e conversando -profundamente com a boneca; ou ent„o, ao canto do sof·, com os pÈsinhos -cruzados, immovel, perdida na admiraÁ„o d'algum livro d'estampas aberto -sobre os joelhos. Ella corria, estendia a boquinha a Carlos; e toda a -sua pessoa tinha a frescura de uma linda flÙr. - -No quarto da governante, Maria Eduarda sentava-se aos pÈs do leito -branco; e logo a pobre miss Sarah, ainda cheia de tosse, confusa, -verificando a cada instante se o lenÁo de sÍda lhe cobria correctamente -o pescoÁo, affirmava que estava boa. Carlos gracejava com ella, -provando-lhe que n'esse feio tempo d'inverno, a felicidade era estar -alli na cama, com bons cuidados em redor, alguns romances patheticos, e -appetitosa dieta portugueza. Ella voltava os olhos gratos para Madame, -com um suspiro. Depois murmurava: - ---_Oh yes, I am very comfortable!_ - -E enternecia-se. - -Logo nos primeiros dias, ao voltar · sala, Maria Eduarda tinha-se -sentado na sua cadeira escarlate, e, conversando com Carlos, retom·ra -muito naturalmente o seu bordado como na presenÁa familiar de um velho -amigo. Com que felicidade profunda elle viu desdobrar-se essa talagarÁa! -Devia ser um fais„o de plumagens rutilantes: mas por ora sÛ estava -bordado o galho de macieira em que elle pousava, galho fresco de -primavera, coberto de florzinhas brancas, como n'um pomar da Normandia. - -Carlos, junto da linda secretariasinha de pau preto, occupava a mais -velha, a mais commoda das poltronas de reps vermelho, cujas molas -rangiam de leve. Entre elles ficava a mesa de costura com as -_IllustraÁıes_ ou algum jornal de modas; ·s vezes, um instante calado, -elle folheava as gravuras, em quanto as lindas m„os de Maria, com -brilhos de joias, iam puxando os fios de l„. Aos pÈs d'ella _Niniche_ -dormitava, espreitando-os a espaÁos, atravÈs das repas do focinho, com o -seu bello olho grave e negro. E n'esses escuros dias de chuva, cheios de -friagem l· fÛra e do rumor das goteiras, aquelle canto da janella, com a -paz do vagaroso trabalho na talagarÁa, as vozes lentas e amigas, e ·s -vezes um dÙce silencio, tinha um ar intimo e carinhoso... - -Mas no que diziam n„o havia intimidades. Fallavam de Paris e do seu -encanto, de Londres onde ella estivera durante quatro lugubres mezes de -inverno, da Italia que era o seu sonho vÍr, de livros, de coisas d'arte. -Os romances que preferia eram os de Dickens; e agradava-lhe menos -Feuillet, por cobrir tudo de pÛ d'arroz, mesmo as feridas do coraÁ„o. -Apesar de educada n'um convento severo d'Orleans, lÍra Michelet e lÍra -Renan. De resto n„o era catholica praticante; as igrejas apenas a -attrahiam pelos lados graciosos e artisticos do culto, a musica, as -luzes, ou os lindos mezes de Maria, em FranÁa, na doÁura das flÙres de -maio. Tinha um pensar muito recto e muito s„o--com um fundo de ternura -que a inclinava para tudo o que soffre e È fraco. Assim gostava da -Republica por lhe parecer o regimen em que ha mais solicitude pelos -humildes. Carlos provava-lhe rindo que ella era socialista. - ---Socialista, legitimista, orleanista, dizia ella, qualquer coisa, -comtanto que n„o haja gente que tenha fome! - -Mas era isso possivel? J· Jesus, mesmo, que tinha t„o dÙces illusıes, -declar·ra que pobres sempre os haveria... - ---Jesus viveu ha muito tempo, Jesus n„o sabia tudo... Hoje sabe-se mais, -os senhores sabem muito mais... … necessario arranjar-se outra -sociedade, e depressa, em que n„o haja miseria. Em Londres, ·s vezes, -por aquellas grandes neves, ha criancinhas pelos portaes a tiritar, a -gemer de fome... … um horror! E em Paris ent„o! … que se n„o vÍ sen„o o -boulevard; mas quanta pobreza, quanta necessidade... - -Os seus bellos olhos quasi se enchiam de lagrimas. E cada uma d'estas -palavras trazia todas as complexas bondades da sua alma--como n'um sÛ -sopro podem vir todos os aromas esparsos de um jardim. - -Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou ·s suas caridades, -pedindo-lhe para ir vÍr a irm„ da sua engommadeira que tinha -rheumatismo, e o filho da snr.^a Augusta, a velha do patamar, que estava -tisico. Carlos cumpria esses encargos com o fervor de acÁıes religiosas. -E n'estas piedades achava-lhe semelhanÁas com o avÙ. Como Affonso, todo -o soffrimento dos animaes a consternava. Um dia viera indignada da PraÁa -da Figueira, quasi com idÈas de vinganÁa, por ter visto nas tendas dos -gallinheiros aves e coelhos apinhados em cestos, soffrendo durante dias -as torturas da immobilidade e a anciedade da fome. Carlos levava estes -bellas coleras para o Ramalhete, increpava violentamente o marquez, que -era membro da _Sociedade protectora dos animaes_. O marquez, indignado -tambem, jurava justiÁa, fallava em cadÍas, em costa d'Africa... E -Carlos, commovido, ficava a pensar quanta larga e distante influencia -pÛde ter, mesmo isolado de tudo, um coraÁ„o que È justo. - -Uma tarde fallaram do Damaso. Ella achava-o insupportavel, com a sua -petulancia, os olhos bugalhudos, as perguntas nescias. V. exc.^a acha -Nice elegante? V. exc.^a prefere a capella de S. Jo„o Baptista a -_Notre-Dame_?... - ---E ent„o a insistencia de fallar de pessoas que eu n„o conheÁo! A -snr.^a condessa de Gouvarinho, e os ch·s da snr.^a condessa de -Gouvarinho, e a frisa da snr.^a condessa de Gouvarinho, e a preferencia -que a snr.^a condessa de Gouvarinho tem por elle... E isto horas! Eu ·s -vezes tinha medo de adormecer... - -Carlos fez-se escarlate. Porque trouxera ella, entre todos, o nome da -Gouvarinho? Tranquillisou-se, vendo-a rir simples e limpidamente. -Decerto n„o sabia quem era Gouvarinho. Mas, para sacudir logo d'entre -elles esse nome, comeÁou a fallar de Mr. Guimar„es, o famoso tio do -Damaso, o amigo de Gambetta, o influente da Republica... - ---O Damaso tem-me dito que v. exc.^a o conhece muito... - -Ella erguera os olhos, com um fugitivo rubor no rosto. - ---Mr. Guimar„es?... Sim, conheÁo muito... Ultimamente viamo-nos menos, -mas elle era muito amigo da mam„. - -E depois d'um silencio, d'um curto sorriso, recomeÁando a puxar o seu -longo fio de l„: - ---Pobre Guimar„es, coitado! A sua influencia na Republica È traduzir -noticias dos jornaes hespanhoes e italianos para o _Rappel_, que d'isso -È que vive... Se È amigo de Gambetta, n„o sei, Gambetta tem amigos t„o -extraordinarios... Mas o Guimar„es, ali·s bom homem e homem honrado, È -um grutesco, uma especie de Calino republicano. E t„o pobre, coitado! O -Damaso, que È rico, se tivesse decencia, ou o menor sentimento, n„o o -deixava viver assim t„o miseravelmente. - ---Mas ent„o essas carruagens do tio, esse luxo do tio, de que falla o -Damaso...? - -Ella encolheu mudamente os hombros; e Carlos sentiu pelo Damaso um asco -intoleravel. - -Pouco a pouco nas suas conversas foi havendo uma intimidade mais -penetrante. Ella quiz saber a idade de Carlos, elle fallou-lhe do avÙ. E -durante essas horas suaves em que ella, silenciosa, ia picando a -talagarÁa, elle contou-lhe a sua vida passada, os planos de carreira, os -amigos, e as viagens... Agora ella conhecia a paizagem de Santa Olavia, -o reverendo Bonifacio, as excentricidades do Ega. Um dia quiz que Carlos -lhe explicasse longamente a idÈa do seu livro _A medicina antiga e -moderna_. Approvou, com sympathia, que elle pintasse as figuras dos -grandes medicos, bemfeitores da humanidade. Porque se glorificariam sÛ -guerreiros e fortes? A vida salva a uma crianÁa parecia-lhe coisa bem -mais bella que a batalha de Austerlitz. E estas palavras que dizia com -simplicidade, sem mesmo erguer os olhos do seu bordado, cahiam no -coraÁ„o de Carlos e ficavam l· muito tempo, palpitando e brilhando... - -Elle tinha-lhe feito assim largamente todas as confissıes;--e ainda n„o -sabia nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer -a rua que habitava em Paris. N„o lhe ouvira murmurar j·mais o nome do -marido, nem fallar d'um amigo ou d'uma alegria da sua casa. Parecia n„o -ter em FranÁa, onde vivia, nem interesses, nem lar;--e era realmente -como a deusa que elle ide·ra, sem contactos anteriores com a terra, -descida da sua nuvem d'oiro para vir ter alli, n'aquelle andar alugado -da rua de S. Francisco, o seu primeiro estremecimento humano. - -Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham faltado -d'affeiÁıes. Ella acreditava candidamente que podesse haver, entre uma -mulher e um homem, uma amizade pura, immaterial, feita da concordancia -amavel de dois espiritos delicados. Carlos jurou que tambem tinha fÈ -n'essas bellas uniıes, todas d'estima, todas de raz„o--comtanto que se -lhes misturasse, ao de leve que fosse, uma ponta de ternura... Isso -perfumava-as d'um grande encanto--e n„o lhes diminuia a sinceridade. E, -sob estas palavras um pouco diffusas, murmuradas por entre as malhas do -bordado e com lentos sorrisos, fic·ra subtilmente estabelecido que entre -elles sÛ deveria haver um sentimento assim, casto, legitimo, cheio de -suavidade e sem tormentos. - -Que importava a Carlos? Comtanto que podesse passar aquella hora na -poltrona de cretone, contemplando-a a bordar, e conversando em coisas -interessantes, ou tornadas interessantes pela graÁa da sua pessoa; -comtanto que visse o seu rosto, ligeiramente cÛrado, baixar-se, com a -lenta attracÁ„o d'uma caricia, sobre as flÙres que lhe trazia; comtanto -que lhe afagasse a alma a certeza de que o pensamento d'ella o ficava -seguindo sympathicamente atravÈs do seu dia, mal elle deixava aquella -adorada sala de reps vermelho--o seu coraÁ„o estava satisfeito, -esplendidamente. - -N„o pensava mesmo que aquella ideal amizade, d'intenÁ„o casta, era o -caminho mais seguro para a trazer, brandamente enganada, aos seus braÁos -ardentes d'homem. No deslumbramento que o tom·ra ao vÍr-se de repente -admittido a uma intimidade que julg·ra impenetravel,--os seus desejos -desappareciam: longe d'ella, ·s vezes, ainda ousavam ir temerariamente -atÈ · esperanÁa d'um beijo, ou d'uma fugitiva caricia com a ponta dos -dedos; mas apenas transpunha a sua porta, e recebia o calmo raio do seu -olhar negro, cahia em devoÁ„o, e julgaria um ultraje bestial roÁar -sequer as prÈgas do seu vestido. - -Foi aquelle decerto o periodo mais delicado da sua vida. Sentia em si -mil coisas finas, novas, d'uma tocante frescura. Nunca imagin·ra que -houvesse tanta felicidade em olhar para as estrellas quando o cÈo est· -limpo; ou em descer de manh„ ao jardim para escolher uma rosa mais -aberta. Tinha na alma um constante sorriso--que os seus labios repetiam. -O marquez achava-lhe o ar baboso e abenÁoador... - -¡s vezes, passeando sÛ no seu quarto, perguntava a si mesmo onde o -levaria aquelle grande amor. N„o sabia. Tinha diante de si os tres mezes -em que ella estaria em Lisboa, e em que ninguem mais sen„o elle -occuparia a velha cadeira ao lado do seu bordado. O marido andava longe, -separado por legoas de mar incerto. Depois elle era rico, e o mundo era -largo... - -Conservava sempre as suas grandes idÈas do trabalho, querendo que no seu -dia sÛ houvesse horas nobres,--e que aquellas que n„o pertenciam ·s -puras felicidades do amor, pertencessem ·s alegrias fortes do estudo. Ia -ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscripto. Mas antes da -visita · rua de S. Francisco n„o podia disciplinar o espirito, inquieto, -n'um tumulto d'esperanÁas; e depois de voltar de l·, passava o dia a -recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a -graÁa de certo sorriso... Fumava ent„o cigarrettes, lia os poetas. - -Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de -_whist_. O marquez batia-se ao dominÛ com o Taveira, enfronhados ambos -n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias. -Depois das corridas, o secretario de Steinbroken comeÁ·ra a vir ao -Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as -balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de -vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus -longos bigodes tristes. - -O amigo que Carlos gostava de vÍr entrar era o Cruges--que vinha da rua -de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. -O maestro sabia que Carlos ia todas as manh„s ao predio vÍr a ´miss -inglezaª; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de -coraÁ„o com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da -visinha... - ---A visinha l· ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execuÁ„o, tem -express„o, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin. - -Se elle n„o apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam -no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da -visinha; Cruges achava-lhe ´um verdadeiro typo de _grande dame_ª. - -Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como elle -dizia a faiscar d'ironia) o que se passava ´no paiz do snr. Gambettaª. -Parecera remoÁar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade -d'esperanÁa nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela -condessa. L· estava no Porto, nos seus deveres de filha... - ---E seu sogro? - -O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente: - ---Mal. - - -Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando _Niniche_ -que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Rom„o entreabriu -discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraÁado, um -ar de cumplicidade, murmurou: - ---… o snr. Damaso!... - -Ella olhou o Rom„o, surprehendida d'aquelles modos, e quasi -escandalisada. - ---Pois bem, mande entrar! - -E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flÙr ao peito, -gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na m„o, trazendo dependurado -por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vÍr Carlos -alli, intimamente, de cadellinha no collo, estacou assombrado, com o -olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraÁou as m„os, veio -comprimentar Maria Eduarda quasi de leve,--e voltando-se logo para -Carlos, de braÁos abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente: - ---Ent„o tu aqui, homem? Isto È que È uma surpreza! Ora quem me diria!... -Eu estava mais longe... - -Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente -uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle -tinha chegado. - ---Perfeitamente, minha senhora... Um bocado canÁado, como È natural... -Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.^a vÍ--e mostrou o seu luto -pesado--acabo de passar por um grande desgosto. - -Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso -pous·ra os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de cÙr, cheio de -sangue; e como cort·ra a barba (que havia mezes deix·ra crescer para -imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As cÙxas -roliÁas estalavam-lhe de gordura dentro da calÁa de casimira preta. - ---E ent„o, perguntou Maria Eduarda, temol-o por c· algum tempo? - -Elle deu um pux„osinho · cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez -risonho: - ---Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer... -Isto È, credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero -dizer È que ha de custar a arrancar-me d'aqui! - -Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pÍllos da -_Niniche_. E houve ent„o um pequeno silencio. Maria Eduarda retom·ra o -bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao -bigode, estendeu a m„o para acariciar tambem _Niniche_ sobre os joelhos -de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho -desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa. - ---_C'est moi, Niniche!_ dizia Damaso, recuando a cadeira. _C'est moi, -ami... Alors, Niniche_... - -Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente _Niniche_. E, -aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso, -rosnando, e com rancor. - ---J· me n„o conhece, dizia elle embaÁado, È curioso... - ---Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito sÈria. Mas n„o sei -o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. … sempre este -escandalo. - -Damaso balbuciava, escarlate: - ---Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre -caricias... - -E ent„o n„o se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades -novas de Mademoiselle _Niniche_. Alli estava nos braÁos d'outro, -emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto... - -Carlos ria. - ---” Damaso, n„o a accuses de ingratid„o... Pois se a snr.^a D. Maria -Eduarda est· a dizer que ella sempre te teve odio... - ---Sempre! exclamou Maria. - -Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um lenÁo de barra -negra, limpando os beiÁos e mesmo o suor do pescoÁo, lembrou a Maria -Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a -tarde · espera... - ---Eram vesperas de partida, disse ella. - ---Sim, bem sei, o marido de v. exc.^a... E como vai o snr. Castro Gomes? -V. exc.^a j· recebeu noticias? - ---N„o, respondeu ella com o rosto sobre o bordado. - -Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa. -Depois por Cri-cri. Era necessario n„o esquecer Cri-cri... - ---Pois v. exc.^a--continuou elle, cheio subitamente de -loquacidade--perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... NÛs ainda -n„o nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na -estaÁ„o... Pois n„o È verdade que estiveram muito _chics_? Olhe, minha -senhora, d'uma coisa pÛde v. exc.^a estar certa, È que hippodromo mais -bonito n„o ha l· fÛra. Uma vista atÈ · barra, que È d'appetite... AtÈ se -vÍem entrar os navios... Pois n„o È assim, Carlos? - ---Sim, disse Carlos, sorrindo. N„o È propriamente um campo de -corridas... … verdade que n„o ha tambem propriamente cavallos de -corridas... Verdade seja que n„o ha jockeys... Ora È verdade que n„o ha -apostas... Mas È verdade tambem que n„o ha publico... - -Maria Eduarda ria, alegremente. - ---Mas ent„o? - ---VÍem-se entrar os navios, minha senhora... - -Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer -mal · forÁa... N„o senhor, n„o senhor!... Eram muito boas corridas. Tal -qual como l· fÛra, as mesmas regras, tudo... - ---AtÈ na pesagem, acrescentou elle muito sÈrio, fallamos sempre inglez! - -Repetiu ainda que as corridas eram _chics_. Depois n„o achou mais -nada:--e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se -forÁado a ficar em casa, estupidamente, a lÍr... - ---Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um -bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas -de pÈ descalÁo, n„o tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v. -exc.^a, n„o tolero... - -Carlos cor·ra: mas Maria Eduarda parecia n„o ter ouvido, occupada a -contar attentamente as malhas do seu bordado. - -De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a -snr.^a D. Maria Eduarda. Mas n„o imaginasse que era alguma -preciosidade... Verdadeiramente atÈ o presente era para Mademoiselle -Rosa. - ---Olhe, para n„o estar com mysterios, sabe o que È? Tenho-o alli no -embrulhosinho de papel pardo... S„o seis barrilinhos d'ovos molles -d'Aveiro. … um dÙce muito cÈlebre, mesmo l· fÛra. SÛ o de Aveiro È que -tem _chic_... Pergunte v. exc.^a ao Carlos. Pois n„o È verdade, Carlos, -que È uma delicia, atÈ conhecido l· fÛra? - ---Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente... - -Pous·ra _Niniche_ no ch„o, erguera-se, fÙra buscar o seu chapÈo. - ---J·?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era sÛ para -elle. AtÈ ·manh„, ent„o! - -E voltou-se logo para o Damaso, esperando vÍl-o erguer-se tambem. Elle -conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a -perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos. - ---_Au revoir_, disse o outro. Recados l· no Ramalhete; hei de -apparecer!... - -Carlos desceu as escadas, furioso. - -Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente, -t„o obtuso que n„o percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E -para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em -cal„o, e de perna traÁada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe -dissera na noite do jantar do Ega, · porta do Hotel Central, a respeito -da propria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres ´que era o -_atrac„o_ª. Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse -um ultraje? A supposiÁ„o era insensata, talvez--mas reteve-o no pateo, -applicando o ouvido para cima, com idÈas ferozes de esperar alli o -Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, · menor -reflex„o d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages... - -Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser -assim surprehendido · escuta. O coupÈ do Damaso estacionava na rua. -Ent„o veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle -ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao Gremio; e apenas abrira uma -vidraÁa--viu logo o Damaso sahir do port„o, saltar para o coupÈ, bater -com forÁa a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraÁado, e -subitamente teve dÛ d'aquelle grutesco... - -N'essa noite, depois de jantar, Carlos sÛ no seu quarto fumava, -enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida n'essa -manh„,--quando appareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapÈo, logo da -porta, exclamou, com o mesmo espanto da manh„: - ---Ent„o dize-me c·! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a -brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi isso? - -Sem mover a cabeÁa do espaldar da poltrona, cruzando as m„os sobre os -joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor, -disse, com uma dÙce reprehens„o paternal: - ---Pois ent„o tu vaes expÙr a uma senhora as tuas opiniıes lubricas sobre -as lavradeiras de Penafiel! - ---N„o se trata d'isso, sei muito bem o que hei de expÙr! exclamou o -outro, vermelho. Conta l·, anda... Que diabo! Parece-me que tenho -direito a saber... Como a conheceste tu? - -Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar, comeÁou, -n'um tom lento e solemne de recitativo: - ---Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens -d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete. -Via-se-lhe na m„o uma carta, lacrada com sello heraldico; e a express„o -do seu semblante... - -Damaso, j· zangado, atirou com o chapÈo para cima da mesa. - ---Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios! - ---Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde -existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado, -petrificado, ao encontrar l· o medico! Quem esperavas tu vÍr l·? Um -photographo? - ---Ent„o quem est· doente? - -Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza--emquanto o -Damaso, sentado · beira do sof·, mordendo o charuto sem lume, olhava -para elle desconfiado. - ---E como soube ella onde tu moravas? - ---Como se sabe onde mora o rei; onde È a alfandega; de que lado luz a -estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se -aprendem nas aulas de instrucÁ„o primaria... - -O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as m„os nos -bolsos. - ---Ella tem agora l· o Rom„o, o que foi meu criado, murmurou depois d'um -silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu -lhe digo... - ---Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi · terra. Vai mandal-o -embora, È um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado m·s maneiras... - -Ent„o Damaso atirou-se para o canto do sof· e confessou que ao entrar na -sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, fic·ra -furioso... Emfim, agora que sabia que era por doenÁa, bem, tudo se -explicava... Mas primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... SÛ com -ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que n„o fosse -delicado; e alÈm d'isso ella estava de mau humor... - -E acrescentou logo, accendendo o charuto: - ---Que apenas tu sahiste, pÙz-se melhor, mais · vontade... Rimos muito... -Eu fiquei ainda atÈ tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco -quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim? - ---N„o. … uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, n„o se -atreveria a dizer-me mal de ti. - -Damaso olhou-o, esgazeado: - ---Ora essa!... Mas podia ter dito bem! - ---N„o; È uma pessoa de bom senso, n„o se atreveria tambem. - -E erguendo-se vivamente, Carlos abraÁou Damaso pela cinta, -acariciando-o, perguntando-lhe pela heranÁa do titi, e em que amores, em -que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhıes... - -Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o -de revez. - ---Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um -traste... N„o ha a gente fiar-se em ninguem! - ---Tudo na terra, meu Damaso, È apparencia e engano! - -Seguiram d'alli · sala do bilhar fazer ´a partida de reconciliaÁ„oª. E -pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o -Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho j·, gozando de novo a sua -intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo sÈrio, e tratando-o outra -vez por ´meninoª. Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o -bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?... - ---Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez c· no -sabbado. - -Foi um espanto para o Damaso. - ---Homem! essa È curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha -dois dias de Southampton... JÛgo eu? - -Jogou, falhou a carambola. - ---Pois È verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a -Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma _toilette_ ingleza com -coisas brancas, coisas cÙr de rosa... _Chic_ a valer, parecia um -moranguinho! E ent„o o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos -escandalo! - - - - -II - - -No sabbado, com effeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da rua -de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, mettido n'um fato de -cheviotte claro, e com o cabello muito crescido. - ---N„o faÁas espalhafato, gritou-lhe elle, que eu estou em Lisboa -_incognito_! - -E em seguida aos primeiros abraÁos declarou que vinha a Lisboa, sÛ por -alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava -com Carlos para lhe fornecer esses requintes, alli, no Ramalhete... - ---Ha c· um quarto para mim? Eu por ora estou no _Hotel Hespanhol_, mas -ainda nem mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de -pinho, larga bastante para se escrever uma obra sublime. - -Decerto! Havia o quarto em cima, onde elle estivera depois de deixar a -Villa Balzac. E mais sumptuoso agora, com um bello leito da RenascenÁa, -e uma cÛpia dos _Borrachos_ de Velasquez. - ---Optimo covil para a arte! Velasquez È um dos Santos Padres do -naturalismo... A proposito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho. O -pai Tompson esteve · morte, arribou, depois o conde foi buscal-a. -Achei-a magra; mas com um ar ardente; e fallou-me constantemente de ti. - ---Ah! murmurou Carlos. - -Ega, de monoculo no olho e m„os nos bolsos, contemplava Carlos. - ---… verdade. Fallou de ti constantemente, irresistivelmente, -immoderadamente! N„o me tinhas mandado contar isso... Sempre seguiste o -meu conselho, hein? Muito bem feita de corpo, n„o È verdade? E que tal, -no acto d'amor? - -Carlos cÛrou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a -Gouvarinho sen„o relaÁıes superficiaes. Ia l· ·s vezes tomar uma chavena -de ch·; e · hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar -com o conde sobre as miserias publicas, · esquina do Loreto. Nada mais. - ---Tu est·s-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas n„o importa. Eu hei de -descobrir tudo isso com o meu olho de Balzac, na segunda-feira.... -Porque nÛs vamos l· jantar na segunda-feira. - ---NÛs... NÛs, quem? - ---NÛs. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me no comboio. E o -Gouvarinho, como compete ao individuo d'aquella especie, acrescentou -logo que haviamos de ter tambem ´o nosso Maiaª. O Maia d'elle, e o Maia -d'ella... Santo accordo! Suavissimo arranjo! - -Carlos olhou-o com severidade. - ---Tu vens obsceno de Celorico, Ega. - ---… o que se aprende no seio da Santa Madre Igreja. - -Mas tambem Carlos tinha uma novidade que o devia fazer estremecer. O Ega -porÈm j· sabia. A chegada dos Cohens, n„o È verdade? LÍra-o logo n'essa -manh„, na _Gazeta Illustrada_, no _high-life_. L· se dizia -respeitosamente que s. exc.^{as} tinham regressado do seu passeio pelo -estrangeiro. - ---E que impress„o te fez? perguntou Carlos rindo. - -O outro encolheu brutalmente os hombros: - ---Fez-me o effeito de haver um cabr„o mais na cidade. - -E, como Carlos o accusava outra vez de trazer de Celorico uma lingua -immunda, o Ega, um pouco cÛrado, arrependido talvez, lanÁou-se em -consideraÁıes criticas, clamando pela necessidade social de dar ·s -coisas o nome exacto. Para que servia ent„o o grande movimento -naturalista do seculo? Se o vicio se perpetuava, È porque a sociedade, -indulgente e romanesca, lhe dava nomes que o embellezavam, que o -idealisavam... Que escrupulo pÛde ter uma mulher em beijocar um terceiro -entre os lenÁoes conjugaes, se o mundo chama a isso sentimentalmente um -romance, e os poetas o cantam em estrophes d'ouro? - ---E a proposito, a tua comedia, o _LodaÁal_? perguntou Carlos, que -entr·ra um instante para a alcova de banho. - ---Abandonei-a, disse o Ega. Era feroz de mais... E alÈm d'isso fazia-me -remexer na podrid„o lisboeta, mergulhar outra vez na sargeta humana... -Affligia-me... - -Parou diante do grande espelho, deu um olhar descontente ao seu jaquet„o -claro e ·s botas com mau verniz. - ---Preciso enfardelar-me de novo, Carlinhos... O Poole naturalmente -mandou-te fato de ver„o, hei de querer examinar esses cÛrtes da alta -civilisaÁ„o... N„o ha negal-o, diabo, esta minha linha est· chinfrim! - -Passou uma escova pelo bigode, e continuou fallando para dentro, para a -alcova de banho: - ---Pois, menino, eu agora o que necessito È o regimen da Chimera. Vou-me -atirar outra vez ·s _Memorias_. Ha de se fazer ahi uma quantidade d'arte -colossal n'esse quarto que me destinas, diante de Velasquez... E a -proposito, È necessario ir comprimentar o velho Affonso, uma vez que -elle me vai dar o p„o, o tecto, e a enxerga... - -Foram encontrar Affonso da Maia no escriptorio, na sua velha poltrona, -com um antigo volume da _IllustraÁ„o franceza_ aberto sobre os joelhos, -mostrando as estampas a um pequeno bonito, muito moreno, d'olho vivo, e -cabello encarapinhado. O velho ficou contentissimo ao saber que o Ega -vinha por algum tempo alegrar o Ramalhete com a sua bella phantasia. - ---J· n„o tenho phantasia, snr. Affonso da Maia! - ---Ent„o esclarecÍl-o com a tua clara raz„o, disse o velho rindo. Estamos -c· precisando d'ambas as coisas, John. - -Depois apresentou-lhe aquelle pequeno cavalheiro, o snr. Manoelinho, -rapazinho amavel da visinhanÁa, filho do Vicente, mestre d'obras; o -Manoelinho vinha ·s vezes animar a solid„o d'Affonso--e alli folheavam -ambos livros d'estampas e tinham conversas philosophicas. Agora, -justamente, estava elle muito embaraÁado por n„o lhe saber explicar como -È que o general Canrobert (de quem estavam admirando o garbo sobre o seu -cavallo empinado) tendo mandado matar gente, muita gente, em batalhas, -n„o era mettido na cadÍa... - ---Est· visto! exclamou o pequeno, esperto e desembaraÁado, com as m„os -cruzadas atraz das costas. Se mandou matar gente deviam-no ferrar na -cadÍa! - ---Hein, amigo Ega! dizia Affonso rindo. Que se ha de responder a esta -bella logica? Olha, filho, agora que est„o aqui estes dois senhores que -s„o formados em Coimbra, eu vou estudar esse caso... Vai tu vÍr os -bonecos alli para cima da mesa... E depois v„o sendo horas d'ires l· -dentro · Joanna, para merendares. - -Carlos, ajudando o pequeno a accommodar-se · mesa com o seu grande -volume d'estampas, pensava quanto o avÙ, com aquelle seu amor por -crianÁas, gostaria de conhecer Rosa! - -Affonso no emtanto perguntava tambem ao Ega pela comedia. O quÍ! J· -abandonada? Quando acabaria ent„o o bravo John de fazer bocados -incompletos d'obras-primas?...--Ega queixou-se do paiz, da sua -indifferenÁa pela arte. Que espirito original n„o esmoreceria, vendo em -torno de si esta espessa massa de burguezes, amodorrada e crassa, -desdenhando a intelligencia, incapaz de se interessar por uma idÈa -nobre, por uma phrase bem feita? - ---N„o vale a pena, snr. Affonso da Maia. N'este paiz, no meio d'esta -prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve -limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano... - ---Pois ent„o, acudiu o velho, planta os teus legumes. … um serviÁo · -alimentaÁ„o publica. Mas tu nem isso fazes! - -Carlos, muito sÈrio, apoiava o Ega. - ---A unica coisa a fazer em Portugal, dizia elle, È plantar legumes, -emquanto n„o ha uma revoluÁ„o que faÁa subir · superficie alguns dos -elementos originaes, fortes, vivos, que isto ainda encerre l· no fundo. -E se se vir ent„o que n„o encerra nada, demittamo-nos logo -voluntariamente da nossa posiÁ„o de paiz para que n„o temos elementos, -passemos a ser uma fertil e estupida provincia hespanhola, e plantemos -mais legumes! - -O velho escutava com melancolia estas palavras do neto em que sentia -como uma decomposiÁ„o da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a -glorificaÁ„o da sua inercia. Terminou por dizer: - ---Pois ent„o faÁam vocÍs essa revoluÁ„o. Mas pelo amor de Deus, faÁam -alguma coisa! - ---O Carlos j· n„o faz pouco, exclamou Ega, rindo. Passeia a sua pessoa, -a sua toilette e o seu phaeton, e por esse facto educa o gosto! - -O relogio Luiz XV interrompeu-os--lembrando ao Ega que devia ainda, -antes de jantar, ir buscar a sua mala ao Hotel Hespanhol. Depois no -corredor confessou a Carlos que, antes d'ir ao Hespanhol, queria correr -ao Fillon, ao photographo, vÍr se podia tirar um bonito retrato. - ---Um retrato? - ---Uma surpreza que tem d'ir d'aqui a tres dias para Celorico, para o dia -d'annos d'uma creaturinha que me adoÁou o exilio. - ---Oh Ega! - ---… horroroso, mas ent„o? … a filha do padre CorrÍa, filha conhecida -como tal; alÈm d'isso casada com um proprietario rico da visinhanÁa, -reaccionario odioso... De modo que, bem vÍs, esta dupla peÁa a pregar · -Religi„o e · Propriedade... - ---Ah! n'esse caso... - ---Ninguem se deve eximir, amigo, aos seus grandes deveres democraticos! - - -Na segunda-feira seguinte choviscava quando Carlos e Ega, no coupÈ -fechado, partiram para o jantar dos Gouvarinhos. Desde a chegada da -condessa Carlos vira-a sÛ uma vez, em casa d'ella; e fÙra uma meia hora -desagradavel, cheia de malestar, com um ou outro beijo frio, e -recriminaÁıes infindaveis. Ella queix·ra-se das cartas d'elle, t„o -raras, t„o seccas. N„o se puderam entender sobre os planos d'esse ver„o, -ella devendo ir para Cintra onde j· alug·ra casa, Carlos fallando no -dever de acompanhar o avÙ a Santa Olavia. A condessa achava-o -distrahido: elle achou-a exigente. Depois ella sentou-se um instante -sobre os seus joelhos e aquelle leve e delicado corpo pareceu a Carlos -de um fastidioso peso de bronze. - -Por fim a condessa arranc·ra-lhe a promessa de a ir encontrar, -justamente n'essa segunda-feira de manh„, a casa da titi, que estava em -Santarem;--porque tinha sempre o appetite perverso e requintado de o -apertar nos braÁos n˙s, em dias que o devesse receber na sua sala, mais -tarde, e com ceremonia. Mas Carlos falt·ra,--e agora, rodando para casa -d'ella, impacientavam-n'o j· as queixas que teria de ouvir nos v„os de -janella, e as mentiras chÙchas que teria de balbuciar... - -De repente o Ega, que fumava em silencio, abotoado no seu paletot de -ver„o, bateu no joelho de Carlos, e entre risonho e sÈrio: - ---Dize-me uma coisa, se n„o È um segredo sacrosanto... Quem È essa -brazileira com quem tu agora passas todas as tuas manh„s? - -Carlos ficou um instante aturdido, com os olhos no Ega. - ---Quem te fallou n'isso? - ---Foi o Damaso que m'o disse. Isto È, o Damaso que m'o rugiu... Porque -foi de dentes rilhados, a dar murros surdos n'um sof· do Gremio, e com -uma cÙr d'apoplexia, que elle me contou tudo... - ---Tudo o quÍ? - ---Tudo. Que te apresent·ra a uma brazileira a quem se atirava, e que tu, -aproveitando a sua ausencia, te metteras l·, n„o sahias de l·... - ---Tudo isso È mentira! exclamou o outro, j· impaciente. - -E Ega, sempre risonho: - ---Ent„o ´que È a verdadeª, como perguntava o velho Pilatus ao chamado -Jesus Christo? - ---… que ha uma senhora a quem o Damaso suppunha ter inspirado uma -paix„o, como suppıe sempre, e que, tendo-lhe adoecido a governante -ingleza com uma bronchite, me mandou chamar para eu a tratar. Ainda n„o -est· melhor, eu vou vÍl-a todos os dias. E Madame Gomes, que È o nome da -senhora, que nem brazileira È, n„o podendo tolerar o Damaso, como -ninguem o tolera, tem-lhe fechado a sua porta. Esta È a verdade; mas -talvez eu arranque as orelhas ao Damaso! - -Ega contentou-se em murmurar: - ---E ahi est· como se escreve a historia... v·-se l· a gente fiar em -Guizot! - -Em silencio, atÈ casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a sua cÛlera -contra o Damaso. Ahi estava pois rasgada por aquelle imbecil a penumbra -suave e favoravel em que se abrig·ra o seu amor! Agora j· se pronunciava -o nome de Maria Eduarda no Gremio: o que o Damaso dissera ao Ega, -repetil-o-hia a outros, na Casa Havaneza, no restaurante Silva, talvez -nos lupanares: e assim o interesse supremo da sua vida seria d'ahi por -diante constantemente perturbado, estragado, sujo pela tagarellice reles -do Damaso! - ---Parece-me que temos c· mais gente, disse o Ega, ao penetrarem na -ante-camara dos Gouvarinhos, vendo sobre o canapÈ um paletot cinzento e -capas de sonhem. - -A condessa esperava-os na salinha ao fundo, chamada ´do bustoª, vestida -de preto, com uma tira de velludo em volta do pescoÁo picada de tres -estrellas de diamantes. Uma cesta de esplendidas flÙres quasi enchia a -mesa, onde se accumulavam tambem romances inglezes, e uma Revista dos -Dois Mundos em evidencia, com a faca de marfim entre as folhas. AlÈm da -boa D. Maria da Cunha e da baroneza d'Alvim, havia uma outra senhora, -que nem Carlos nem Ega conheciam, gorda e vestida d'escarlate; e de pÈ, -conversando baixo com o conde, de m„os atraz das costas, um cavalheiro -alto, escaveirado, grave, com uma barba rala, e a commenda da ConceiÁ„o. - -A condessa, um pouco cÛrada, estendeu a Carlos a m„o amuada e frouxa: -todos os seus sorrisos foram para o Ega. E o conde apoderou-se logo do -querido Maia, para o apresentar ao seu amigo o snr. Sousa Netto. O snr. -Sousa Netto j· tinha o prazer de conhecer muito Carlos da Maia, como um -medico distincto, uma honra da Universidade... E era esta a vantagem de -Lisboa, disse logo o conde, o conhecerem-se todos de reputaÁ„o, o -poder-se ter assim uma apreciaÁ„o mais justa dos caracteres. Em Paris, -por exemplo, era impossivel; por isso havia tanta immoralidade, tanta -relaxaÁ„o... - ---Nunca sabe a gente quem mette em casa. - -O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no divan, mostrando as -estrellinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a historia do seu -exilio em Celorico, onde se distrahia compondo sermıes para o abbade: o -abbade recitava-os; e os sermıes, sob uma fÛrma mystica, eram de facto -affirmaÁıes revolucionarias que o santo var„o lanÁava com fervor, -esmurrando o pulpito... A senhora de vermelho, sentada defronte, de m„os -no regaÁo, escutava o Ega, com o olhar espantado. - ---Imaginei que v. exc.^a tinha ido j· para Cintra, veio dizer Carlos · -senhora baroneza, sentando-se junto d'ella. V. exc.^a È sempre a -primeira... - ---Como quer o senhor que se v· para Cintra com um tempo d'estes? - ---Com effeito, est· infernal... - ---E que conta de novo? perguntou ella, abrindo lentamente o seu grande -leque preto. - ---Creio que n„o ha nada de novo em Lisboa, minha senhora, desde a morte -do snr. D. Jo„o VI. - ---Agora ha o seu amigo Ega, por exemplo. - ---… verdade, ha o Ega... Como o acha v. exc.^a, senhora baroneza? - -Ella nem baixou a voz para dizer: - ---Olhe, eu como o achei sempre um grande presumido e n„o gosto d'elle, -n„o posso dizer nada... - ---Oh senhora baroneza, que falta de caridade! - -O escudeiro annunci·ra o jantar. A condessa tomou o braÁo de Carlos,--e, -ao atravessar o sal„o, entre o frouxo murmurio de vozes e o rumor lento -das caudas de sÍda, pÙde dizer-lhe asperamente: - ---Esperei meia hora; mas comprehendi logo que estaria entretido com a -brazileira... - -Na sala de jantar, um pouco sombria, forrada de papel cÙr de vinho, -escurecida ainda por dois antigos paineis de paizagem tristonha, a mesa -oval, cercada de cadeiras de carvalho lavrado, resaltava alva e fresca, -com um esplendido cesto de rosas entre duas serpentinas douradas. Carlos -ficou · direita da condessa, tendo ao lado D. Maria da Cunha, que n'esse -dia parecia um pouco mais velha, e sorria com um ar cansado. - ---Que tem feito todo este tempo, que ninguem o tem visto? perguntou-lhe -ella, desdobrando o guardanapo. - ---Por esse mundo, minha senhora, vagamente... - -Defronte de Carlos, o snr. Sousa Netto, que tinha tres enormes coraes no -peitilho da camisa, estava j· observando, emquanto remexia a sopa, que a -senhora condessa, na sua viagem ao Porto, devia ter encontrado nas ruas -e nos edificios grandes mudanÁas... A condessa, infelizmente, mal tinha -sahido durante o tempo que estivera no Porto. O conde, esse, È que -admirara os progressos da cidade. E especificou-os: elogiou a vista do -Palacio de Crystal; lembrou o fecundo antagonismo que existe entre -Lisboa e Porto; mais uma vez o comparou ao dualismo da Austria e da -Hungria. E atravÈs d'estas coisas graves, lanÁadas d'alto, com -superioridade e com peso, a baroneza e a senhora d'escarlate, aos dois -lados d'elle, fallavam do convento das Selesias. - -Carlos, no emtanto, comendo em silencio a sua sopa, ruminava as palavras -da condessa. Tambem ella conhecia j· a sua intimidade com a -´brazileiraª. Era evidente pois que j· andava alli, diffamante e torpe, -a tagarellice do Damaso. E quando o criado lhe offereceu Sauterne, -estava decidido a bater no Damaso. - -De repente ouviu o seu nome. Do fim da mesa uma voz dizia, pachorrenta e -cantada: - ---O snr. Maia È que deve saber... O snr. Maia j· l· esteve. - -Carlos pousou vivamente o copo. Era a senhora d'escarlate que lhe -fallava, sorrindo, mostrando uns bonitos dentes sob o buÁo forte de -quarentona pallida. Ninguem lh'a apresent·ra, elle n„o sabia quem era. -Sorriu tambem, perguntou: - ---Onde, minha senhora? - ---Na Russia. - ---Na Russia?... N„o, minha senhora, nunca estive na Russia. - -Ella pareceu um pouco desapontada. - ---Ah, È que me tinham dito... N„o sei j· quem me disse, mas era pessoa -que sabia... - -O conde ao fundo explicava-lhe amavelmente que o amigo Maia estivera -apenas na Hollanda. - ---Paiz de grande prosperidade, a Hollanda!... Em nada inferior ao -nosso... J· conheci mesmo um hollandez que era excessivamente -instruido... - -A condessa baix·ra os olhos, partindo vagamente um bocadinho de p„o, -mais sÈria de repente, mais secca, como se a voz de Carlos, erguendo-se -t„o tranquilla ao seu lado, tivesse avivado os seus despeitos. Elle, -ent„o, depois de provar devagar o seu Sauterne, voltou-se para ella, -muito naturalmente e risonho: - ---Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo idÈa d'ir · Russia. Ha -assim uma infinidade de coisas que se dizem e que n„o s„o exactas... E -se se faz uma allus„o ironica a ellas, ninguem comprehende a allus„o nem -a ironia... - -A condessa n„o respondeu logo, dando com o olhar uma ordem muda ao -escudeiro. Depois, com um sorriso pallido: - ---No fundo de tudo que se diz ha sempre um facto, ou um bocado de facto -que È verdadeiro. E isso basta... Pelo menos a mim basta-me... - ---A senhora condessa tem ent„o uma credulidade infantil. Estou vendo que -acredita que era uma vez uma filha d'um rei que tinha uma estrella na -testa... - -Mas o conde interpellava-o, o conde queria a opini„o do seu amigo Maia. -Tratava-se do livro de um inglez, o major Bratt, que atravess·ra a -Africa, e dizia coisas perfidamente desagradaveis para Portugal. O conde -via alli sÛ inveja--a inveja que nos tÍm todas as naÁıes por causa da -importancia das nossas colonias, e da nossa vasta influencia na -Africa... - ---Est· claro, dizia o conde, que n„o temos nem os milhıes, nem a marinha -dos inglezes. Mas temos grandes glorias; o infante D. Henrique È de -primeira ordem; e a tomada d'Ormuz È um primor... E eu que conheÁo -alguma coisa de systemas coloniaes, posso affirmar que n„o ha hoje -colonias nem mais susceptiveis de riqueza, nem mais crentes no -progresso, nem mais liberaes que as nossas! N„o lhe parece, Maia? - ---Sim, talvez, È possivel... Ha muita verdade n'isso... - -Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o -monoculo no olho e sorrindo para a baroneza, pronunciou-se alegremente -contra todas essas exploraÁıes da Africa, e essas longas missıes -geographicas... Porque n„o se deixaria o preto socegado, na calma posse -dos seus manipansos? Que mal fazia · ordem das coisas que houvesse -selvagens? Pelo contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de -pittoresco! Com a mania franceza e burgueza de reduzir todas as regiıes -e todas as raÁas ao mesmo typo de civilisaÁ„o, o mundo ia tornar-se -d'uma monotonia abominavel. Dentro em breve um touriste faria enormes -sacrificios, despezas sem fim, para ir a Tombuctu--para quÍ? Para -encontrar l· pretos de chapÈo alto, a lÍr o _Jornal dos Debates_! - -O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, sahindo do seu vago -abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada: - ---Este Ega! Este Ega! Que graÁa! Que _chic_! - -Ent„o Sousa Netto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta -pergunta grave: - ---V. exc.^a pois È em favor da escravatura? - -Ega declarou muito decididamente ao snr. Sousa Netto que era pela -escravatura. Os desconfortos da vida, segundo elle, tinham comeÁado com -a libertaÁ„o dos negros. SÛ podia ser sÈriamente obedecido, quem era -sÈriamente temido... Por isso ninguem agora lograva ter os seus sapatos -bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde -que n„o tinha criados pretos em quem fosse licito dar vergastadas... SÛ -houvera duas civilisaÁıes em que o homem conseguira viver com razoavel -commodidade: a civilisaÁ„o romana, e a civilisaÁ„o especial dos -plantadores da Nova Orleans. Porque? porque n'uma e n'outra existira a -escravatura absoluta, a sÈrio, com o direito de morte!... - -Durante um momento o snr. Sousa Netto ficou como desorganisado. Depois -passou o guardanapo sobre os beiÁos, preparou-se, encarou o Ega: - ---Ent„o v. exc.^a n'essa idade, com a sua intelligencia, n„o acredita no -Progresso? - ---Eu n„o senhor. - -O conde interveio, affavel e risonho: - ---O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem raz„o, tem -realmente raz„o, porque os faz brilhantes... - -Estava-se servindo _Jambon aux Èpinards_. Durante um momento fallou-se -de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia tambem brilhantes e -difficeis de sustentar, excessivamente difficeis, era o Barros, o -ministro do reino... - ---Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Netto. - ---Sim, pujante, disse o conde. - -Mas elle agora n„o fallava tanto do talento do Barros como parlamentar, -como homem d'estado. Fallava do seu espirito de sociedade, do seu -_esprit_... - ---Ainda este inverno nÛs lhe ouvimos um paradoxo brilhante! AtÈ foi em -casa da snr.^a D. Maria da Cunha... V. exc.^a n„o se lembra, snr.^a D. -Maria? Esta minha desgraÁada memoria! ” Thereza, lembras-te d'aquelle -paradoxo do Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Emfim, um paradoxo -muito difficil de sustentar... Esta minha memoria!... Pois n„o te -lembras, Thereza? - -A condessa n„o se lembrava. E emquanto o conde ficava remexendo -anciosamente, com a m„o na testa, as suas recordaÁıes,--a senhora -d'escarlate voltou a fallar de pretos, e de escudeiros pretos, e d'uma -cozinheira preta que tivera uma tia d'ella, a tia Villar... Depois -queixou-se amargamente dos criados modernos: desde que lhe morrera a -Joanna, que estava em casa havia quinze annos, n„o sabia que fazer, -andava como tonta, tinha sÛ desgostos. Em seis mezes j· vira quatro -caras novas. E umas desleixadas, umas pretenciosas, uma immoralidade!... -Quasi lhe fugiu um suspiro do peito, e trincando desconsoladamente uma -migalhinha de p„o: - ---” baroneza, ainda tens a Vicenta? - ---Pois ent„o n„o havia de ter a Vicenta?... Sempre a Vicenta... A snr.^a -D. Vicenta, se faz favor. - -A outra contemplou-a um instante, com inveja d'aquella felicidade. - ---E È a Vicenta que te penteia? - -Sim, era a Vicenta que a penteava. Ia-se fazendo velha, coitada... Mas -sempre caturra. Agora andava com a mania de aprender francez. J· sabia -verbos. Era de morrer, a Vicenta a dizer _j'aime_, _tu aimes_... - ---E a senhora baroneza, acudiu o Ega, comeÁou por lhe mandar ensinar os -verbos mais necessarios. - -Est· claro, dizia a baroneza, que aquelle era o mais necessario. Mas na -idade da Vicenta j· de pouco lhe poderia servir! - ---Ah! gritou de repente o conde, deixando quasi cahir o talher. Agora me -lembro! - -Tinha-se lembrado emfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros -que os c„es, quanto mais ensinados... Pois, n„o, n„o era isto! - ---Esta minha desgraÁada memoria!... E era sobre c„es. Uma coisa -brilhante, philosophica atÈ! - -E, por se fallar de c„es, a baroneza lembrou-se do _Tommy_, o galgo da -condessa; perguntou por _Tommy_. J· o n„o via ha que tempos, esse bravo -_Tommy_! A condessa nem queria que se fallasse no _Tommy_, coitado! -Tinham-lhe nascido umas coisas nos ouvidos, um horror... Mand·ra-o para -o Instituto, l· morrera. - ---Est· deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha, inclinando-se -para Carlos. - ---Deliciosa. - -E a baroneza, do lado, declarou tambem a galantine uma perfeiÁ„o. Com um -olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine: e -apressou-se a responder ao snr. Sousa Netto, que, a proposito de c„es, -lhe estava fallando da _Sociedade protectora dos animaes_. O snr. Sousa -Netto approvava-a, considerava-a como um progresso... E, segundo elle, -n„o seria mesmo de mais que o governo lhe dÈsse um subsidio. - ---Que eu creio que ella vai prosperando... E merece-o, acredite a -senhora condessa que o merece... Estudei essa quest„o, e de todas as -sociedades que ultimamente se tÍm fundado entre nÛs, · imitaÁ„o do que -se faz l· fÛra, como a _Sociedade de Geographia_ e outras, a _Protectora -dos animaes_ parece-me decerto uma das mais uteis. - -Voltou-se para o lado, para o Ega: - ---V. exc.^a pertence? - ---¡ _Sociedade protectora dos animaes_?... N„o senhor, pertenÁo a outra, -· de _Geographia_. Sou dos protegidos. - -A baroneza teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se -extremamente sÈrio: pertencia · _Sociedade de Geographia_, considerava-a -um pilar do Estado, acreditava na sua miss„o civilisadora, detestava -aquellas irreverencias. Mas a condessa e Carlos tinham rido tambem:--e -de repente a frialdade que atÈ ahi os conserv·ra ao lado um do outro -reservados, n'uma ceremonia affectada, pareceu dissipar-se ao calor -d'esse riso trocado, no brilho dos dois olhares encontrando-se -irresistivelmente. Servira-se o Champagne, ella tinha uma cÙrzinha no -rosto. O seu pÈ, sem ella saber como, roÁou pelo pÈ de Carlos; sorriram -ainda outra vez;--e, como no resto da mesa se conversava sobre uns -concertos classicos que ia haver no Price, Carlos perguntou-lhe, baixo, -com uma reprehens„o amavel: - ---Que tolice foi essa da _brazileira_?... Quem lhe disse isso? - -Ella confessou-lhe logo que fÙra o Damaso... O Damaso viera contar-lhe o -enthusiasmo de Carlos por essa senhora, e as manh„s inteiras que l· -passava, todos os dias, · mesma hora... Emfim o Damaso fizera-lhe -claramente entrevÍr uma _liaison_. - -Carlos encolheu os hombros. Como podia ella acreditar no Damaso? Devia -conhecer-lhe bem a tagarellice, a imbecilidade... - ---… perfeitamente verdade que eu vou a casa d'essa senhora, que nem -brazileira È, que È t„o portugueza como eu; mas È porque ella tem a -governante muito doente com uma bronchite, e eu sou o medico da casa. -Foi atÈ o Damaso, elle proprio, que l· me levou como medico! - -No rosto da condessa espalhava-se um riso, uma claridade vinda do dÙce -allivio que se fazia no seu coraÁ„o. - ---Mas o Damaso disse-me que era t„o linda!... - -Sim, era muito linda. E ent„o? Um medico, por fidelidade ·s suas -affeiÁıes, e para as n„o inquietar, n„o podia realmente, antes de -penetrar na casa d'uma doente, exigir-lhe um certificado de hediondez! - ---Mas que est· ella c· a fazer?... - ---Est· · espera do marido que foi a negocios ao Brazil, e vem ahi... … -uma gente muito distincta, e creio que muito rica... V„o-se brevemente -embora, de resto, e eu pouco sei d'elles. As minhas visitas s„o de -medico; tenho apenas conversado com ella sobre Paris, sobre Londres, -sobre as suas impressıes de Portugal... - -A condessa bebia estas palavras, deliciosamente, dominada pelo bello -olhar com que elle lh'as murmurava: e o seu pÈ apertava o de Carlos -n'uma reconciliaÁ„o apaixonada, com a forÁa que desejaria pÙr n'um -abraÁo--se alli lh'o podesse dar. - -A senhora d'escarlate, no emtanto, recomeÁ·ra a fallar da Russia. O que -a assustava È que o paiz era t„o caro, corriam-se tantos perigos por -causa da dynamite, e uma constituiÁ„o fraca devia soffrer muito com a -neve nas ruas. E foi ent„o que Carlos percebeu que ella era a esposa de -Sousa Netto, e que se tratava d'um filho d'elles, filho unico, -despachado segundo secretario para a legaÁ„o de S. Petersburgo. - ---O menino conhece-o? perguntou D. Maria ao ouvido de Carlos, por traz -do leque. … um horror d'estupidez... Nem francez sabe! De resto n„o È -peor que os outros... Que a quantidade de mÙnos, de semsaborıes e de -tolos que nos representam l· fÛra atÈ faz chorar... Pois o menino n„o -acha? Isto È um paiz desgraÁado. - ---Peor, minha cara senhora, muito peor. Isto È um paiz _cursi_. - -Tinha findado a sobremesa. D. Maria olhou para a condessa com o seu -sorriso cansado; a senhora de escarlate cal·ra-se, j· preparada, tendo -mesmo afastado um pouco a cadeira; e as senhoras ergueram-se, no momento -em que o Ega, ainda ·cerca da Russia, acabava de contar uma historia -ouvida a um polaco, e em que se provava que o Czar era um estupido... - ---Liberal todavia, gostando bastante do progresso! murmurou ainda o -conde, j· de pÈ. - -Os homens, sÛs, accenderam os seus charutos; o escudeiro serviu o cafÈ. -Ent„o o snr. Sousa Netto, com a sua chavena na m„o, aproximou-se de -Carlos para lhe exprimir de novo o prazer que tivera em fazer o seu -conhecimento... - ---Eu tive tambem em tempos o prazer de conhecer o pai de v. exc.^a... -Pedro, creio que era justamente o snr. Pedro da Maia. ComeÁava eu ent„o -a minha carreira publica... E o avÙ de v. exc.^a, bom? - ---Muito agradecido a v. exc.^a - ---Pessoa muito respeitavel... O pai de v. exc.^a era... Emfim, era o que -se chama ´um eleganteª. Tive tambem o prazer de conhecer a m„i de v. -exc.^a... - -E de repente calou-se, embaraÁado, levando a chavena aos labios. Depois, -lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia -com o Gouvarinho sobre mulheres. Era a proposito da secret·ria da -legaÁ„o da Russia, com quem elle encontr·ra n'essa manh„ o conde -conversando ao Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho -nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garÁos... E o conde, que a -admirava tambem, gabava-lhe sobretudo o espirito, a instrucÁ„o. Isso, -segundo o Ega, prejudicava-a: porque o dever da mulher era primeiro ser -bella, e depois ser estupida... O conde affirmou logo com exuberancia -que n„o gostava tambem de litteratas: sim, decerto o lugar da mulher era -junto do berÁo, n„o na bibliotheca... - ---No emtanto È agradavel que uma senhora possa conversar sobre coisas -amenas, sobre o artigo d'uma Revista, sobre... Por exemplo, quando se -publica um livro... Emfim, n„o direi quando se trata d'um Guizot, ou -d'um Jules Simon... Mas, por exemplo, quando se trata d'um Feuillet, -d'um... Emfim, uma senhora deve ser prendada. N„o lhe parece, Netto? - -Netto, grave, murmurou: - ---Uma senhora, sobretudo quando ainda È nova, deve ter algumas -prendas... - -Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas -litterarias, sabendo dizer coisas sobre o snr. Thiers, ou sobre o snr. -Zola, È um monstro, um phenomeno que cumpria recolher a uma companhia de -cavallinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher sÛ devia -ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem. - ---V. exc.^a decerto, snr. Sousa Netto, sabe o que diz Proudhon? - ---N„o me recordo textualmente, mas... - ---Em todo o caso v. exc.^a conhece perfeitamente o seu Proudhon? - -O outro, muito seccamente, n„o gostando decerto d'aquelle -interrogatorio, murmurou que Proudhon era um author de muita nomeada. - -Mas o Ega insistia, com uma impertinencia perfida: - ---V. exc.^a leu evidentemente, como nÛs todos, as grandes paginas de -Proudhon sobre o amor? - -O snr. Netto, j· vermelho, pousou a chavena sobre a mesa. E quiz ser -sarcastico, esmagar aquelle moÁo, t„o litterario, t„o audaz. - ---N„o sabia, disse elle com um sorriso infinitamente superior, que esse -philosopho tivesse escripto sobre assumptos escabrosos! - -Ega atirou os braÁos ao ar, consternado: - ---Oh snr. Sousa Netto! Ent„o v. exc.^a, um chefe de familia, acha o amor -um assumpto escabroso?! - -O snr. Netto encordoou. E muito direito, muito digno, fallando do alto -da sua consideravel posiÁ„o burocratica: - ---… meu costume, snr. Ega, n„o entrar nunca em discussıes, e acatar -todas as opiniıes alheias, mesmo quando ellas sejam absurdas... - -E quasi voltou as costas ao Ega, dirigindo-se outra vez a Carlos, -desejando saber, n'uma voz ainda um pouco alterada, se elle agora se -fixava algum tempo mais em Portugal. Ent„o, durante um momento, acabando -os charutos, os dois fallaram de viagens. O snr. Netto lamentava que os -seus muitos deveres n„o lhe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno -fÙra esse o seu ideal; mas agora, com tantas occupaÁıes publicas, via-se -forÁado a n„o deixar a carteira. E alli estava, sem ter visto sequer -Badajoz... - ---E v. exc.^a de que gostou mais, de Paris ou de Londres? - -Carlos realmente n„o sabia, nem se podia comparar... Duas cidades t„o -differentes, duas civilisaÁıes t„o originaes... - ---Em Londres, observou o conselheiro, tudo carv„o... - -Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carv„o, sobretudo nos fogıes, -quando havia frio... - -O snr. Sousa Netto murmurou: - ---E o frio alli deve ser sempre consideravel... Clima t„o ao norte!... - -Esteve um momento mamando o charuto, de palpebra cerrada. Depois, fez -esta observaÁ„o sagaz e profunda: - ---Povo pratico, povo essencialmente pratico. - ---Sim, bastante pratico, disse vagamente Carlos, dando um passo para a -sala, onde se sentiam as risadas cantantes da baroneza. - ---E diga-me outra coisa, proseguiu o snr. Sousa Netto, com interesse, -cheio de curiosidade intelligente. Encontra-se por l·, em Inglaterra, -d'esta litteratura amena, como entre nÛs, folhetinistas, poetas de -pulso?... - -Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com -descaro: - ---N„o, n„o ha d'isso. - ---Logo vi, murmurou Sousa Netto. Tudo gente de negocio. - -E penetraram na sala. Era o Ega que assim fazia rir a baroneza, sentado -defronte d'ella, fallando outra vez de Celorico, contando-lhe uma soirÈe -de Celorico, com detalhes picarescos sobre as authoridades, e sobre um -abbade que tinha morto um homem e cantava fados sentimentaes ao piano. A -senhora d'escarlate, no sof· ao lado, com os braÁos cahidos no regaÁo, -pasmava para aquella veia do Ega como para as destrezas d'um palhaÁo. D. -Maria, junto da mesa, folheava com o seu ar cansado uma _IllustraÁ„o_; e -vendo que Carlos ao entrar procur·ra com o olhar a condessa, chamou-o, -disse-lhe baixo que ella fÙra dentro vÍr Charlie, o pequeno... - ---… verdade, perguntou Carlos, sentando-se ao lado d'ella, que È feito -d'elle, d'esse lindo Charlie? - ---Diz que tem estado hoje constipado, e um pouco murcho... - ---A snr.^a D. Maria tambem me parece hoje um pouco murcha. - ---… do tempo. Eu j· estou na idade em que o bom humor ou o aborrecimento -vÍm sÛ das influencias do tempo... Na sua idade vem d'outras coisas. E a -proposito d'outras coisas: ent„o a Cohen tambem chegou? - ---Chegou, disse Carlos, mas n„o _tambem_. O _tambem_ implica -combinaÁ„o... E a Cohen e o Ega chegaram realmente ambos por acaso... De -resto isso È historia antiga, È como os amores de Helena e de P·ris. - -N'esse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada, e -trazendo aberto um grande leque negro. Sem se sentar, fallando sobretudo -para a mulher do snr. Sousa Netto, queixou-se logo de n„o ter achado -Charlie bem... Estava t„o quente, t„o inquieto... Tinha quasi medo que -fosse sarampo.--E voltando-se vivamente para Carlos, com um sorriso: - ---Eu estou com vergonha... Mas se o snr. Carlos da Maia quizesse ter o -incommodo de o vir vÍr um instante... … odioso, realmente, pedir-lhe -logo depois de jantar para examinar um doente... - ---Oh senhora condessa! exclamou elle, j· de pÈ. - -Seguiu-a. N'uma saleta, ao lado, o conde e o snr. Sousa Netto, -enterrados n'um sof·, conversavam fumando. - ---Levo o snr. Carlos da Maia para vÍr o pequeno... - -O conde erguera-se um pouco do sof·, sem comprehender bem. J· ella -pass·ra. Carlos seguiu em silencio a sua longa cauda de sÍda preta -atravÈs do bilhar, deserto, com o gaz acceso, ornado de quatro retratos -de damas, da familia dos Gouvarinhos, empoadas e sorumbaticas. Ao lado, -por traz de um pesado reposteiro de fazenda verde, era um gabinete, com -uma velha poltrona, alguns livros n'uma estante envidraÁada, e uma -escrevaninha onde pousava um candieiro sob o abat-jour de renda cÙr de -rosa. E ahi, bruscamente, ella parou, atirou os braÁos ao pescoÁo de -Carlos, os seus labios prenderam-se aos d'elle n'um beijo sÙfrego, -penetrante, completo, findando n'um soluÁo de desmaio... Elle sentia -aquelle lindo corpo estremecer, escorregar-lhe entre os braÁos, sobre os -joelhos sem forÁa. - ---¡manh„, em casa da titi, ·s onze, murmurou ella quando pÙde fallar. - ---Pois sim. - -Desprendida d'elle, a condessa ficou um momento com as m„os sobre os -olhos, deixando desvanecer aquella languida vertigem, que a fizera cÙr -de cÍra. Depois, cansada e sorrindo: - ---Que doida que eu sou... Vamos vÍr Charlie. - -O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. E ahi, n'uma caminha de -ferro, junto do leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco, -com um bracinho cahido para o lado, os seus lindos caracoes loiros -espalhados no travesseiro como uma aureola d'anjo. Carlos tocou-lhe -apenas no pulso; e a criada escosseza, que trouxera uma luz de sobre a -commoda, disse, sorrindo tranquillamente: - ---O menino n'estes ultimos dias tem andado muitissimo bem... - -Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa, j· com a -m„o no reposteiro, estendeu ainda a Carlos os seus labios insaciaveis. -Elle colheu um rapido beijo. E, ao passar na antecamara, onde Sousa -Netto e o conde continuavam enfronhados n'uma conversa grave, ella disse -ao marido: - ---O pequeno est· a dormir... O snr. Carlos da Maia achou-o bem. - -O conde de Gouvarinho bateu no hombro de Carlos, carinhosamente. E -durante um momento a condessa ficou alli conversando, de pÈ, a deixar-se -serenar, pouco a pouco, n'aquella penumbra favoravel, antes de affrontar -a luz forte da sala. Depois, por se fallar em hygiene, convidou o snr. -Sousa Netto para uma partida de bilhar; mas o snr. Netto, desde Coimbra, -desde a Universidade, n„o peg·ra n'um taco. E ia-se chamar o Ega quando -appareceu Telles da Gama, que chegava do Price. Logo atraz d'elle entrou -o conde de Steinbroken. Ent„o o resto da noite passou-se no sal„o, em -redor do piano. O ministro cantou melodias da Filandia. Telles da Gama -tocou _fados_. - -Carlos e Ega foram os derradeiros a sahir, depois de um _brandy and -soda_, de que a condessa partilhou, como ingleza forte. E em baixo, no -pateo, acabando de abotoar o paletot, Carlos pÙde emfim soltar a -pergunta que lhe faisc·ra nos labios toda a noite: - ---” Ega, quem È aquelle homem, aquelle Sousa Netto, que quiz saber se em -Inglaterra havia tambem litteratura? - -Ega olhou-o com espanto: - ---Pois n„o adivinhaste? N„o deduziste logo? N„o viste immediatamente -quem n'este paiz È capaz de fazer essa pergunta? - ---N„o sei... Ha tanta gente capaz... - -E o Ega radiante: - ---Official superior d'uma grande repartiÁ„o do Estado! - ---De qual? - ---Ora de qual! De qual ha de ser?... Da InstrucÁ„o publica! - - -Na tarde seguinte, ·s cinco horas, Carlos, que se demor·ra de mais em -casa da titi com a condessa, retido pelos seus beijos interminaveis, fez -voar o coupÈ atÈ · rua de S. Francisco, olhando a cada momento o -relogio, n'um receio de que Maria Eduarda tivesse sahido por aquelle -lindo dia de ver„o, luminoso e sem calor. Com effeito · porta d'ella -estava a carruagem da Companhia; e Carlos galgou as escadas, desesperado -com a condessa, sobretudo comsigo mesmo, t„o fraco, t„o passivo, que -assim se deix·ra retomar por aquelles braÁos exigentes, cada vez mais -pesados, e j· incapazes de o commover... - ---A senhora chegou agora mesmo, disse-lhe o Domingos, que volt·ra da -terra havia tres dias, e ainda n„o cess·ra de lhe sorrir. - -Sentada no sof·, de chapÈo, tirando as luvas, ella acolheu-o com uma -dÙce cÙr no rosto, e uma carinhosa reprehens„o: - ---Estive · espera mais de meia hora antes de sahir... … uma ingratid„o! -Imaginei que nos tinha abandonado! - ---PorquÍ? Est· peor, miss Sarah? - -Ella olhou-o, risonhamente escandalisada. Ora, miss Sarah! Miss Sarah ia -seguindo perfeitamente na sua convalescenÁa... Mas agora j· n„o eram as -visitas de medico que se esperavam, eram as de amigo; e essa tinha-lhe -faltado. - -Carlos, sem responder, perturbado, voltou-se para Rosa, que folheava -junto da mesa um livro novo d'estampas; e a ternura, a gratid„o infinita -do seu coraÁ„o, que n„o ousava mostrar · m„e, pÙl-a toda na longa -caricia em que envolveu a filha. - ---S„o historias que a mam„ agora comprou, dizia Rosa, sÈria e presa ao -seu livro. Hei de t'as contar depois... S„o historias de bichos. - -Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do chapÈo. - ---Quer tomar uma chavena de ch· comnosco, snr. Carlos da Maia? Eu vinha -morrendo por uma chavena de ch·... Que lindo dia, n„o È verdade? Rosa, -fica tu a contar o nosso passeio emquanto eu vou tirar o chapÈo... - -Carlos, sÛ com Rosa, sentou-se junto d'ella, desviando-a do livro, -tomando-lhe ambas as m„os. - ---Fomos ao Passeio da Estrella, dizia a pequena. Mas a mam„ n„o se -queria demorar, porque tu podias ter vindo! - -Carlos beijou, uma depois da outra, as duas m„osinhas de Rosa. - ---E ent„o que fizeste no Passeio? perguntou elle, depois d'um leve -suspiro de felicidade que lhe fugira do peito. - ---Andei a correr, havia uns patinhos novos... - ---Bonitos?... - -A pequena encolheu os hombros: - ---Chinfrinzitos. - -Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa t„o feia? - -Rosa sorriu. FÙra o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras coisas -assim, engraÁadas... Dizia que a Melanie era uma _gaja_... O Domingos -tinha muita graÁa. - -Ent„o Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com t„o bonitos vestidos, -n„o devia dizer aquellas palavras... Assim fallava a gente rÙta. - ---O Domingos n„o anda rÙto, disse Rosa muito sÈria. - -E subitamente, com outra idÈa, bateu as palmas, pulou-lhe entre os -joelhos, radiante: - ---E trouxe-me uns grillos da PraÁa! O Domingos trouxe-me uns grillos... -Se tu soubesses! _Niniche_ tem medo dos grillos! Parece incrivel, hein? -Eu nunca vi ninguem mais medrosa... - -Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave: - ---… a mam„ que lhe d· tanto mimo. … uma pena! - -Maria Eduarda entrava, ageitando ainda de leve o ondeado do cabello: e, -ouvindo assim fallar de mimo, quiz saber quem È que ella estragava com -mimo... _Niniche_? Pobre _Niniche_, coitada, ainda essa manh„ fÙra -castigada! - -Ent„o Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as m„os: - ---Sabes como a mam„ a castiga? exclamava ella, puxando a manga de -Carlos. Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em inglez: _Bad dog! -dreadful dog!_ - -Era encantadora assim, imitando a voz severa da mam„, com o dedinho -erguido, a ameaÁar _Niniche_. A pobre _Niniche_, imaginando com effeito -que a estavam a reprehender, arrastou-se, vexada, para debaixo do sof·. -E foi necessario que Rosa a tranquillisasse, de joelhos sobre a pelle de -tigre, jurando-lhe, por entre abraÁos, que ella nem era mau c„o, nem -feio c„o; fÙra sÛ para contar como fazia a mam„... - ---Vai-lhe dar agua, que ella deve estar com sÍde, disse ent„o Maria -Eduarda, indo sentar-se na sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que -nos traga o ch·. - -Rosa e _Niniche_ partiram correndo. Carlos veio occupar, junto da -janella, a costumada poltrona de reps. Mas pela primeira vez, desde a -sua intimidade, houve entre elles um silencio difficil. Depois ella -queixou-se de calor, desenrolando distrahidamente o bordado; e Carlos -permanecia mudo, como se para elle, n'esse dia, apenas houvesse encanto, -apenas houvesse significaÁ„o n'uma certa palavra de que os seus labios -estavam cheios e que n„o ousavam murmurar, que quasi receava que fosse -adivinhada apesar d'ella suffocar o seu coraÁ„o. - ---Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse elle por fim, -impaciente de a vÍr, t„o serena, a occupar-se das suas l„s. - -Com a talagarÁa desdobrada sobre os joelhos, ella respondeu, sem erguer -os olhos: - ---E para que se ha de acabar? O grande prazer È andal-o a fazer, pois -n„o acha? Uma malha hoje, outra malha ·manh„, torna-se assim uma -companhia... Para que se ha de querer chegar logo ao fim das coisas? - -Uma sombra passou no rosto de Carlos. N'estas palavras, ditas de leve -·cerca do bordado, elle sentia uma desanimadora allus„o ao seu -amor,--esse amor que lhe fÙra enchendo o coraÁ„o · maneira que a l„ -cobria aquella talagarÁa, e que era obra simultanea das mesmas brancas -m„os. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o bordado, -sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no cesto da -costura, para ser o desafogo da sua solid„o? - -Disse-lhe ent„o, commovido: - ---N„o È assim. Ha coisas que sÛ existem quando se completam, e que sÛ -ent„o d„o a felicidade que se procurava n'ellas. - ---… muito complicado isso, murmurou ella, cÛrando. … muito subtil... - ---Quer que lh'o diga mais claramente? - -N'esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava -alli o snr. Damaso... - -Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia: - ---Diga que n„o recebo! - -FÛra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto, -lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o -seu coupÈ. Santo Deus! O que elle iria tagarellar agora, com os seus -pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe pareceu n'esse instante -a existencia do Damaso incompativel com a tranquillidade do seu amor. - ---Ahi est· outro inconveniente d'esta casa, dizia no emtanto Maria -Eduarda. Aqui ao lado d'esse Gremio, a dois passos do Chiado, È -demasiadamente accessivel aos importunos. Tenho agora de repellir quasi -todos os dias este assalto · minha porta! … intoleravel. - -E com uma subita idÈa, atirando o bordado para o aÁafate, cruzando as -m„os sobre os joelhos: - ---Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... N„o me seria -possivel arranjar por ahi uma casinhola, um cottage, onde eu fosse -passar os mezes de ver„o?... Era t„o bom para a pequena! Mas n„o conheÁo -ninguem, n„o sei a quem me hei de dirigir... - -Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes--como j· -n'outra occasi„o em que ella mostr·ra desejos d'ir para o campo. -Justamente, n'esses ultimos tempos, Craft volt·ra a fallar, e mais -decidido, no antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das suas -collecÁıes. Que deliciosa vivenda para ella, artistica e campestre, -condizendo t„o bem com os seus gostos! Uma tentaÁ„o atravessou-o, -irresistivel. - ---Eu sei com effeito d'uma casa... E t„o bem situada, que lhe convinha -tanto!... - ---Que se aluga? - -Carlos n„o hesitou: - ---Sim, È possivel arranjar-se... - ---Isso era um encanto! - -Ella tinha dito--´era um encantoª. E isto decidiu-o logo, parecendo-lhe -desamoravel e mesquinho o ter-lhe suggerido uma esperanÁa, e n„o lh'a -realisar com fervor. - -O Domingos entr·ra com o taboleiro do ch·. E emquanto o collocava sobre -uma pequena mesa, defronte de Maria Eduarda, ao pÈ da janella, Carlos, -erguendo-se, dando alguns passos pela sala, pensava em comeÁar -immediatamente negociaÁıes com o Craft, comprar-lhe as collecÁıes, -alugar-lhe a casa por um anno, e offerecel-a a Maria Eduarda para os -mezes de ver„o. E n„o considerava, n'esse instante, nem as -difficuldades, nem o dinheiro. Via sÛ a alegria d'ella passeando com a -pequena, entre as bellas arvores do jardim. E como Maria Eduarda deveria -ser mais grandemente formosa no meio d'esses moveis da RenascenÁa, -severos e nobres! - ---Muito assucar? perguntou ella. - ---N„o... Perfeitamente, basta. - -Viera sentar-se na sua velha poltrona; e, recebendo a chavena de -porcelana ordinaria com um filetesinho azul, recordava o magnifico -serviÁo que tinha o Craft, de velho Wedgewood, oiro e cÙr de fogo. Pobre -senhora! t„o delicada, e alli enterrada entre aquelles reps, maculando a -graÁa das suas m„os nas coisas reles da m„i Cruges! - ---E onde È essa casa? perguntou Maria Eduarda. - ---Nos Olivaes, muito perto d'aqui, vai-se l· n'uma hora de carruagem... - -Explicou-lhe detalhadamente o sitio,--acrescentando, com os olhos -n'ella, e com um sorriso inquieto: - ---Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se fÙr para l· -installar-se, e depois vier o calor, quem È que a torna a vÍr? - -Ella pareceu surprehendida: - ---Mas que lhe custa, a si, que tem cavallos, que tem carruagens, que n„o -tem quasi nada que fazer?... - -Assim ella achava natural que elle continuasse nos Olivaes as suas -visitas de Lisboa! E pareceu-lhe logo impossivel renunciar ao encanto -d'esta intimidade, t„o largamente offerecida, e decerto mais dÙce na -solid„o d'aldÍa. Quando acabou a sua chavena de ch·--era como se a casa, -os moveis, as arvores fossem j· seus, fossem j· d'ella. E teve alli um -momento delicioso, descrevendo-lhe a quietaÁ„o da quinta, a entrada por -uma rua d'acacias, e a belleza da sala de jantar com duas janellas -abrindo sobre o rio... - -Ella escutava-o, encantada: - ---Oh! isso era o meu sonho! Vou ficar agora toda alterada, cheia -d'esperanÁas... Quando poderei ter uma resposta? - -Carlos olhou o relogio. Era j· tarde para ir aos Olivaes. Mas logo na -manh„ seguinte cedo, ia fallar com o dono da casa, seu amigo... - ---Quanto incommodo por minha causa! disse ella. Realmente! como lhe hei -de eu agradecer?... - -Calou-se; mas os seus bellos olhos ficaram um instante pousados nos de -Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do -segredo que ella retinha no seu coraÁ„o. - -Elle murmurou: - ---Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra -vez assim. - -Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda. - ---N„o diga isso... - ---E que necessidade ha que eu lh'o diga? Pois n„o sabe perfeitamente que -a adoro, que a adoro, que a adoro! - -Ella ergueu-se bruscamente, elle tambem:--e assim ficaram, mudos, cheios -d'anciedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma -grande alteraÁ„o no Universo, e elles esperassem, suspensos, o desfecho -supremo dos seus destinos... E foi ella que fallou, a custo, quasi -desfallecida, estendendo para elle, como se o quizesse afastar, as m„os -inquietas e tremulas: - ---Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute... Antes que seja -tarde ha uma coisa que lhe quero dizer... - -Carlos via-a assim tremer, via-a toda pallida... E nem a escut·ra, nem a -comprehendera. Sentia apenas, n'um deslumbramento, que o amor comprimido -atÈ ahi no seu coraÁ„o irrompera por fim, triumphante, e embatendo no -coraÁ„o d'ella, atravÈs do apparente marmore do seu peito, fizera de l· -resaltar uma chamma igual... SÛ via que ella tremia, sÛ via que ella o -amava... E, com a gravidade forte d'um acto de posse, tomou-lhe -lentamente as m„os, que ella lhe abandonou, submissa de repente, j· sem -forÁa, e vencida. E beijava-lh'as ora uma ora outra, e as palmas, e os -dedos, devagar, murmurando apenas: - ---Meu amor! meu amor! meu amor! - -Maria Eduarda cahira pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem retirar as -m„os, erguendo para elle os olhos cheios de paix„o, ennevoados de -lagrimas, balbuciou ainda, debilmente, n'uma derradeira supplicaÁ„o: - ---Ha uma coisa que eu lhe queria dizer!... - -Carlos estava j· ajoelhado aos seus pÈs. - ---Eu sei o que È! exclamou, ardentemente, junto do rosto d'ella, sem a -deixar fallar mais, certo de que adivinh·ra o seu pensamento. Escusa de -dizer, sei perfeitamente. … o que eu tenho pensado tantas vezes! … que -um amor como o nosso n„o pÛde viver nas condiÁıes em que vivem outros -amores vulgares... … que desde que eu lhe digo que a amo, È como se lhe -pedisse para ser minha esposa diante de Deus... - -Ella recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se n„o -comprehendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as m„os d'ella -presas, penetrando-a toda da emoÁ„o que o fazia tremer: - ---Sempre que pensava em si, era j· com esta esperanÁa d'uma existencia -toda nossa, longe d'aqui, longe de todos, tendo quebrado todos os laÁos -presentes, pondo a nossa paix„o acima de todas as ficÁıes humanas, indo -ser felizes para algum canto do mundo, solitariamente e para sempre... -Levamos Rosa, est· claro, sei que n„o se pÛde separar d'ella... E assim -viveriamos sÛs, todos tres, n'um encanto! - ---Meu Deus! Fugirmos? murmurou ella, assombrada. - -Carlos erguera-se. - ---E que podemos fazer? Que outra coisa podemos nÛs fazer, digna do nosso -amor? - -Maria n„o respondeu, immovel, a face erguida para elle, branca de cera. -E pouco a pouco uma idÈa parecia surgir n'ella, inesperada e -perturbadora, revolvendo todo o seu sÍr. Os seus olhos alargavam-se, -anciosos e refulgentes. - -Carlos ia fallar-lhe... Um leve rumor de passos na esteira da sala -deteve-o. Era o Domingos que vinha recolher a bandeja do ch·: e durante -um momento, quasi interminavel, houve entre aquelles dois sÍres, -sacudidos por um ardente vendaval de paix„o, a caseira passagem d'um -criado arrumando chavenas vazias. Maria Eduarda, bruscamente, -refugiou-se detraz das bambinellas de cretone com o rosto contra a -vidraÁa. Carlos foi sentar-se no sof·, a folhear ao acaso uma -_IllustraÁ„o_, que lhe tremia nas m„os. E n„o pensava em nada, nem sabia -onde estava... Ainda na vespera, havia ainda instantes, conversando com -ella, dizia ceremoniosamente ´minha cara senhoraª: depois houvera um -olhar; e agora deviam fugir ambos, e ella torn·ra-se o cuidado supremo -da sua vida, e a esposa secreta do seu coraÁ„o. - ---V. exc.^a quer mais alguma coisa? perguntou o Domingos. - -Maria Eduarda respondeu sem se voltar: - ---N„o. - -O Domingos sahiu, a porta ficou cerrada. Ella ent„o atravessou a sala, -veio para Carlos, que a esperava no sof·, com os braÁos estendidos. E -era como se obedecesse sÛ ao impulso da sua ternura, calmadas j· todas -as incertezas. Mas hesitou de novo diante d'aquella paix„o, t„o prompta -a apoderar-se de todo o seu sÍr, e murmurou, quasi triste: - ---Mas conhece-me t„o pouco!... Conhece-me t„o pouco, para irmos assim -ambos, quebrando por tudo, crear um destino que È irreparavel... - -Carlos tomou-lhe as m„os, fazendo-a sentar ao seu lado, brandamente: - ---O bastante para a adorar acima de tudo, e sem querer mais nada na -vida! - -Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do -seu coraÁ„o, escutando-lhe as derradeiras agitaÁıes. Depois soltou um -longo suspiro. - ---Pois seja assim! Seja assim... Havia uma coisa que eu lhe queria -dizer, mas n„o importa... … melhor assim!... - -E que outra coisa podiam fazer? perguntava Carlos radiante. Era a unica -soluÁ„o digna, sÈria... E nada os podia embaraÁar; amavam-se, confiavam -absolutamente um no outro; elle era rico, o mundo era largo... - -E ella repetia, mais firme agora, j· decidida, e como se aquella -resoluÁ„o a cada momento se cravasse mais fundo na sua alma, -penetrando-a toda e para sempre: - ---Pois seja assim! … melhor assim! - -Um momento ficaram calados, olhando-se arrebatadamente. - ---Dize-me ao menos que Ès feliz, murmurou Carlos. - -Ella lanÁou-lhe os braÁos ao pescoÁo: e os seus labios uniram-se n'um -beijo profundo, infinito, quasi immaterial pelo seu extasi. Depois Maria -Eduarda descerrou lentamente as palpebras, e disse-lhe, muito baixo: - ---Adeus, deixa-me sÛ, vai. - -Elle tomou o chapÈo, e sahiu. - - -No dia seguinte Craft, que havia uma semana n„o ia ao Ramalhete, -passeava na quinta antes d'almoÁo--quando appareceu Carlos. Apertaram as -m„os, fallaram um instante do Ega, da chegada dos Cohens. Depois, -Carlos, fazendo um gesto largo que abrangia a quinta, a casa, todo o -horisonte, perguntou rindo: - ---VocÍ quer-me vender tudo isto, Craft? - -O outro respondeu, sem pestanejar, e com as m„os nas algibeiras: - ---A la disposicion de ustÍd... - -E alli mesmo concluiram a negociaÁ„o, passeando n'uma ruasinha de buxo -por entre os geranios em flÙr. - -Craft cedia a Carlos todos os seus moveis antigos e modernos por duas -mil e quinhentas libras, pagas em prestaÁıes: sÛ reservava algumas raras -peÁas do tempo de Luiz XV, que deviam fazer parte d'essa nova collecÁ„o -que planeava, homogenea, e toda do seculo XVIII. E como Carlos n„o tinha -no Ramalhete lugar para este vasto _bric-‡-brac_, Craft alugava-lhe por -um anno a casa dos Olivaes, com a quinta. - -Depois foram almoÁar. Carlos nem por um momento pensou na larga despeza -que fazia, sÛ para offerecer uma residencia de ver„o, por dois curtos -mezes--a quem se contentaria com um simples cottage, entre arvores de -quintal. Pelo contrario! quando repercorreu as salas do Craft, j· com -olhos de dono, achou tudo mesquinho, pensou em obras, em retoques de -gosto. - -Com que alegria, ao deixar os Olivaes, correu · rua de S. Francisco, a -annunciar a Maria Eduarda que lhe arranj·ra emfim definitivamente uma -linda casa no campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu -encontro ao patamar: elle ergueu-a nos braÁos, entrou assim na sala, com -ella ao collo, em triumpho. E n„o se conteve; foi · pequena que deu logo -´a grande novidadeª, annunciando-lhe que ia ter duas vaccas, e uma -cabra, e flÙres, e arvores para se balouÁar... - ---Onde È? Dize, onde È? exclamava Rosa, com os lindos olhos -resplandecentes, e a facesinha cheia de riso. - ---D'aqui muito longe... Vai-se n'uma carruagem... VÍem-se passar os -barcos no rio... E entra-se por um grande port„o onde ha um c„o de fila. - -Maria Eduarda appareceu, com _Niniche_ ao collo. - ---Mam„, mam„! gritou Rosa correndo para ella, dependurando-se-lhe do -vestido. Diz que vou ter duas cabrinhas, e um balouÁo... … verdade? -Dize, deixa vÍr, onde È? Dize... E vamos j· para l·? - -Maria e Carlos apertaram a m„o, com um longo olhar, sem uma palavra. E -logo junto da mesa, com Rosa encostada aos seus joelhos, Carlos contou a -sua ida aos Olivaes... O dono da casa estava prompto a alugar, j·, n'uma -semana... E assim se achava ella de repente com uma vivenda pittoresca, -mobilada n'um bello estylo, deliciosamente saudavel... - -Maria Eduarda parecia surprehendida, quasi desconfiada. - ---Ha de ser necessario levar roupas de cama, roupas de mesa... - ---Mas ha tudo! exclamou Carlos alegremente, ha quasi tudo! … tal qual -como n'um conto de fadas... As luzes est„o accÍsas, as jarras est„o -cheias de flÙres... … sÛ tomar uma carruagem e chegar. - ---SÛmente, È necessario saber o que esse paraiso me vae custar... - -Carlos fez-se vermelho. N„o previra que se fallasse em dinheiro--e que -ella quereria decerto pagar a casa que habitasse... Ent„o preferiu -confessar-lhe tudo. Disse-lhe como o Craft, havia quasi um anno, andava -desejando desfazer-se das suas collecÁıes, e alugar a quinta: o avÙ e -elle tinham repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e -das faienÁas, para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais -Santa Olavia; e elle emfim decidira-se a fazer essa compra desde que -entrevira a felicidade de lhe poder offerecer, por alguns mezes de -ver„o, uma residencia t„o graciosa, e t„o confortavel... - ---Rosa, vai l· para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de -silencio... Miss Sarah est· · tua espera. - -Depois, olhando para Carlos, muito sÈria: - ---De sorte que, se eu n„o mostrasse desejos de ir para o campo, n„o -tinha feito essa despeza... - ---Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambem alugado a casa por seis -mezes ou por um anno... Onde possuia eu agora de repente um sitio para -metter as coisas do Craft? O que n„o fazia talvez era comprar -conjuntamente roupas de cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos -criados, etc.... - -E acrescentou, rindo: - ---Ora se me quizer indemnisar d'isso podemos debater esse negocio... - -Ella baixou os olhos, reflectindo, lentamente. - ---Em todo o caso seu avÙ e os seus amigos devem saber d'aqui a dias que -me vou installar n'essa casa... E devem comprehender que a comprou para -que eu l· me installasse... - -Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado d'elle. E -isto inquietou-o--o vÍl-a assim retrahir-se ·quella absoluta communh„o -d'interesses em que a queria envolver, como esposa do seu coraÁ„o. - ---N„o approva ent„o o que fiz? Seja franca... - ---Decerto... Como n„o hei de eu approvar tudo quanto faz, tudo quanto -vem de si? Mas... - -Elle acudiu, apoderando-se das suas m„os, sentindo-se triumphar: - ---N„o ha _mas_! O avÙ e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no -campo, inutil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto, -se quizer, metteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga, -se fosse possivel que a nossa affeiÁ„o se passasse fÛra do mundo, -distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria -delicioso... Mas n„o pÛde ser!... Alguem tem de saber sempre alguma -coisa; quando n„o seja sen„o o cocheiro que me leva todos os dias a sua -casa, quando n„o seja sen„o o criado que me abre todos os dias a sua -porta... Ha sempre alguem que surprehende o encontro de dois olhares; ha -sempre alguem que adivinha d'onde se vem a certas horas... Os deuses -antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os -tornava invisiveis. NÛs n„o somos deuses, felizmente... - -Ella sorriu. - ---Quantas palavras para converter uma convertida! - -E tudo ficou harmonisado n'um grande beijo. - - -Affonso da Maia approvou plenamente a compra das collecÁıes do Craft. ´… -um valor, disse elle ao VillaÁa, e acabamos d'encher com boa arte -Santa-Olavia e o Ramalhete.ª - -Mas o Ega indignou-se, chegou a fallar em ´desvarioª,--despeitado por -essa transacÁ„o secreta para que n„o fÙra consultado. O que o irritava -sobretudo era vÍr, n'esta acquisiÁ„o inesperada de uma casa de campo, -outro symptoma do grave e do fundo segredo que presentia na vida de -Carlos: e havia j· duas semanas que elle habitava o Ramalhete e Carlos -ainda n„o lhe fizera uma confidencia!... Desde a sua ligaÁ„o de rapazes -em Coimbra, nos PaÁos de Cella, fÙra elle o confessor secular de Carlos: -mesmo em viagem, Carlos n„o tinha uma aventura banal d'hotel, de que n„o -mandasse ao Ega ´um relatorioª. O romance com a Gouvarinho, de que -Carlos ao principio tent·ra, frouxamente, guardar um mysterio delicado, -j· o conhecia todo, j· lÍra as cartas da Gouvarinho, j· pass·ra pela -casa da titi... - -Mas do outro segredo n„o sabia nada--e considerava-se ultrajado. Via -todas as manh„s Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando -flÙres; via-o chegar de l·, como elle dizia, ´besuntado d'extasiª; -via-lhe os silencios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao -mesmo tempo sÈrio e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente -amado... E n„o sabia nada. - -Justamente alguns dias depois, estando ambos sÛs, a fallar de planos de -ver„o, Carlos alludiu aos Olivaes, com enthusiasmo, relembrando algumas -das preciosidades do Craft, o dÙce socego da casa, a clara vista do -Tejo... Aquillo realmente fÙra obter por uma m„o cheia de libras um -pedaÁo do paraiso... - -Era · noite, no quarto de Carlos, j· tarde. E o Ega, que passeava com as -m„os nas algibeiras do robe-de-chambre, encolheu os hombros, impaciente, -farto d'aquelles louvores eternos · casinhola do Craft. - ---Essa concepÁ„o do paraiso, exclamou elle, parece-me d'um estofador da -rua Augusta! Como natureza, couves gallegas; como decoraÁ„o, os velhos -cretones do gabinete, desbotados j· por tres barrelas... Um quarto de -dormir lugubre como uma capella de santuario... Um sal„o confuso como o -armazem d'um cara-de-pau, e onde n„o È possivel conversar... A n„o ser o -armario hollandez, e um ou outro prato, tudo aquillo È um lixo -archeologico... Jesus! o que eu odeio _bric-‡-brac_! - -Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquillamente, e como -reflectindo: - ---Com effeito esses cretones s„o medonhos... Mas eu vou mandar -remobilar, tornar aquillo mais habitavel. - -Ega estacou no meio do quarto, com o monoculo a faiscar sobre Carlos. - ---Habitavel? Vaes ter hospedes? - ---Vou alugar. - ---Vaes alugar! A quem? - -E o silencio de Carlos, que soprava o fumo da cigarrette com os olhos no -tecto, enfureceu Ega. Comprimentou quasi atÈ ao ch„o, disse -sarcasticamente: - ---PeÁo perd„o. A pergunta foi brutal. Tive agora o ar de querer arrombar -uma gaveta fechada... O aluguel d'um predio È sempre um d'esses -delicados segredos de sentimento e de honra em que n„o deve roÁar nem a -aza da imaginaÁ„o... Fui rude... Irra! Fui bestialmente rude! - -Carlos continuava calado. Comprehendia bem o Ega--e quasi sentia um -remorso d'aquella sua rigida reserva. Mas era como um pudor que o -enleava, lhe impedia de pronunciar sequer o nome de Maria Eduarda. Todas -as suas outras aventuras as cont·ra ao Ega; e essas confidencias -constituiam talvez mesmo o prazer mais solido que ellas lhe davam. Isto, -porÈm, n„o era ´uma aventuraª. Ao seu amor misturava-se alguma coisa de -religioso; e, como os verdadeiros devotos, repugnava-lhe conversar sobre -a sua fÈ... Todavia, ao mesmo tempo, sentia uma tentaÁ„o de fallar -d'_ella_ ao Ega, e de tornar vivas, e como visiveis aos seus proprios -olhos, dando-lhes o contorno das palavras e o seu relevo, as coisas -divinas e confusas que lhe enchiam o coraÁ„o. AlÈm d'isso, Ega n„o -saberia tudo, mais tarde ou mais cedo, pela tagarellice alheia? Antes -lh'o dissesse elle, fraternalmente. Mas hesitou ainda, accendeu outra -cigarrette. Justamente o Ega tom·ra o seu castiÁal, e comeÁava a -accendel-o a uma serpentina, devagar e com um ar amuado. - ---N„o sejas tolo, n„o te v·s deitar, senta-te ahi, disse Carlos. - -E contou-lhe tudo miudamente, diffusamente, desde o primeiro encontro, · -entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen. - -Ega escutava-o, sem uma palavra, enterrado no fundo do sof·. Suppuzera -um romancesinho, d'esses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo: -e agora, sÛ pelo modo como Carlos fallava d'aquelle grande amor, elle -sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal -tornando-se d'ahi por diante, e para sempre, o seu irreparavel destino. -Imagin·ra uma brazileira polida por Paris, bonita e futil, que tendo o -marido longe, no Brazil, e um formoso rapaz ao lado, no sof·, obedecia -simplesmente e alegremente · disposiÁ„o das coisas: e sahia-lhe uma -creatura cheia de caracter, cheia de paix„o, capaz de sacrificios, capaz -de heroismos. Como sempre, diante d'estas coisas patheticas, -murchava-lhe a veia, faltava-lhe a phrase; e quando Carlos se calou, o -bom Ega teve esta pergunta chÙcha: - ---Ent„o est·s decidido a safar-te com ella? - ---A _safar-me_, n„o; a ir viver com ella longe d'aqui, decididissimo! - -Ega ficou um momento a olhar para Carlos como para um phenomeno -prodigioso, e murmurou: - ---… d'arromba! - -Mas que outra coisa podiam elles fazer? D'ahi a tres mezes talvez, -Castro Gomes chegava do Brazil. Ora nem Carlos, nem ella, aceitariam -nunca uma d'essas situaÁıes atrozes e reles em que a mulher È do amante -e do marido, a horas diversas... SÛ lhes restava uma soluÁ„o digna, -decente, sÈria--fugir. - -Ega, depois de um silencio, disse pensativamente: - ---Para o marido È que n„o È talvez divertido perder assim, de uma vez, a -mulher, a filha, e a cadellinha... - -Carlos ergueu-se, deu alguns passos pelo quarto. Sim, tambem elle j· -pens·ra n'isso... E n„o sentia remorsos--mesmo quando os podesse haver -no absoluto egoismo da paix„o... Elle n„o conhecia intimamente Castro -Gomes: mas tinha podido adivinhar o typo, reconstruil-o, pelo que lhe -dissera o Damaso, e por algumas conversas com miss Sarah. Castro Gomes -n„o era um esposo a sÈrio: era um dandy, um futil, um _gommeux_, um -homem de sport e de cocottes... Cas·ra com uma mulher bella, saci·ra a -paix„o, e recomeÁ·ra a sua vida de club e de bastidores... Bastava olhar -para elle, para a sua toilette, para os seus modos--e comprehendia-se -logo a trivialidade d'aquelle caracter... - ---Que tal È, como homem? perguntou Ega. - ---Um brazileirito trigueiro, com um ar espartilhado... Um -_rastaquouËre_, o verdadeiro typosinho do _CafÈ de la Paix_... … -possivel que sinta, quando isto vier a succeder, um certo ardor na -vaidade ferida... Mas È um coraÁ„o que se ha de consolar facilmente nas -_Folies BergËres_. - -Ega n„o dizia nada. Mas pensava que um homem de club, e mesmo consolavel -nas _Folies BergËres_, pÛde n„o se importar muito com sua mulher, mas -pÛde todavia amar muito sua filha... Depois, atravessado por uma outra -idÈa, acrescentou: - ---E teu avÙ? - -Carlos encolheu os hombros: - ---O avÙ tem de se affligir um pouco para eu poder ser profundamente -feliz; como eu teria de ser desgraÁado toda a minha vida se quizesse -poupar ao avÙ essa contrariedade... O mundo È assim, Ega... E eu, n'esse -ponto, n„o estou decidido a fazer sacrificios. - -Ega esfregou lentamente as m„os, com os olhos no ch„o, repetindo a mesma -palavra, a unica que lhe suggeria todo o seu espirito perante aquellas -coisas vehementes: - ---… d'arromba! - - - - -III - - -Carlos, que almoÁ·ra cedo, estava para sahir no coupÈ, e j· de -chapÈo--quando Baptista veio dizer que o snr. Ega, desejando fallar-lhe -n'uma coisa grave, lhe pedia para esperar um instante. O snr. Ega fic·ra -a fazer a barba. - -Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que ella -cheg·ra a Lisboa, Ega ainda a n„o vira, e fallava d'ella raramente. Mas -Carlos sentia-o nervoso e desassocegado. Todas as manh„s o pobre Ega -mostrava um desapontamento ao receber o correio, que sÛ lhe trazia algum -jornal cintado, ou cartas de Celorico. ¡ noite percorria dois, tres -theatros, j· quasi vazios n'aquelle comeÁo de ver„o; e ao recolher era -outra desconsolaÁ„o, quando os criados lhe affirmavam, com certeza, que -n„o viera carta alguma para s. exc.^a Decerto Ega n„o se resignava a -perder Rachel, anciava por a encontrar; e roÌa-o o despeito de que ella, -de qualquer modo, lhe n„o tivesse mostrado que no seu coraÁ„o permanecia -ao menos a saudade das antigas felicidades... Justamente na vespera Ega -apparecera · hora do jantar, transtornado: cruz·ra-se com o Cohen na rua -do Ouro, e parecera-lhe que ´esse canalhaª lhe atir·ra de lado um olhar -atrevido, sacudindo a bengala; o Ega jurava que se ´esse canalhaª -ousasse outra vez fital-o, espedaÁava-o, sem piedade, publicamente, a -uma esquina da Baixa. - -Na ante-camara o relogio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir -ao quarto do Ega. Mas n'esse instante o correio chegava, com a _Revista -dos Dois Mundos_, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos -acabava de a lÍr--quando o Ega appareceu, de jaquet„o, e em chinelas. - ---Tenho a fallar-te n'uma coisa grave, menino. - ---LÍ isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da Gouvarinho. - -A Gouvarinho, n'um tom amargo, queixava-se que, j· por duas vezes, -Carlos falt·ra ao _rendez-vous_ em casa da titi, sem lhe ter sequer -escripto uma palavra; ella vira n'isto uma offensa, uma brutalidade; e -vinha agora intimal-o, ´em nome de todos os sacrificios que por elle -fizeraª, a que apparecesse na rua de S. MarÁal, domingo ao meio dia, -para terem uma explicaÁ„o definitiva antes d'ella partir para Cintra. - ---Excellente occasi„o d'acabar! exclamou Ega, entregando a carta a -Carlos, depois de respirar o perfume do papel. N„o v·s, nem respondas... -Ella parte para Cintra, tu para Santa Olavia, n„o vos vÍdes mais, e -assim finda o romance. Finda como todas as coisas grandes, como o -Imperio Romano, e como o Rheno, por dispers„o, insensivelmente... - ---… o que eu vou fazer, disse Carlos, comeÁando a calÁar as luvas. -Jesus! Que mulher massadora! - ---E que desavergonhada! Chamar a essas coisas ´sacrificios!...ª -Arrasta-te duas vezes por semana a casa da titi, regala-se l· de -extravagancias, bebe champagne, fuma cigarrettes, sobe ao setimo cÈo, -delira, e depois pıe dolorosamente os olhos no ch„o, e chama a isso -´sacrificios...ª SÛ com um chicote!... - -Carlos encolheu os hombros, com resignaÁ„o, como se nas condessas de -Gouvarinho, e no mundo, sÛ houvesse incoherencia e dÛlo. - ---E que È isso que tu me tinhas a dizer? - -Ega ent„o tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma -cigarrette, abotoou devagar o jaquet„o. - ---Tu n„o tens visto o Damaso? - ---Nunca mais me appareceu, disse Carlos. Creio que est· amuado... Eu -sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois -dedos... - ---Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda ahi, por toda a parte, -fallando de ti e d'essa senhora, tua amiga... A ti chama-te _pulha_, a -ella peor ainda. … a velha historia; diz que te apresentou, que te -metteste de dentro, e como para essa senhora È uma quest„o de dinheiro, -e tu Ès o mais rico, ella lhe passou o pÈ... VÍs d'ahi a infamiasinha. E -isto tagarellado pelo Gremio, pela Casa Havaneza, com detalhes torpes, -envolvendo sempre a quest„o de dinheiro. Tudo isto È atroz. Trata de lhe -pÙr cobro. - -Carlos, muito pallido, disse simplesmente: - ---Ha de se fazer justiÁa. - -Desceu, indignado. Aquella torpe insinuaÁ„o sobre ´dinheiroª parecia-lhe -poder ser castigada sÛ com a morte. E um instante mesmo, com a m„o no -fecho da portinhola do coupÈ, pensou em correr a casa do Damaso, tomar -um desforÁo brutal. - -Mas eram quasi onze horas, e elle tinha d'ir aos Olivaes. No dia -seguinte, sabbado, dia bello entre todos e solemne para o seu coraÁ„o, -Maria Eduarda devia emfim visitar a quinta do Craft: e fic·ra combinado, -na vespera, que passariam l· as horas do calor, atÈ tarde, sÛs, -n'aquella casa solitaria e sem criados, escondida entre as arvores. Elle -pedira-lh'o assim, hesitante e a tremer: ella consentira logo, sorrindo -e naturalmente. N'essa manh„ elle mand·ra aos Olivaes dois criados para -arejar as salas, espanejar, encher tudo de flÙres. Agora ia l·, como um -devoto, vÍr se estava bem enfeitado o sacrario da sua deusa... E era -atravÈs d'estes deliciosos cuidados, em plena ventura, que lhe apparecia -outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a tagarellice do -Damaso! - -AtÈ aos Olivaes, n„o cessou de ruminar coisas vagas e violentas que -faria para aniquilar o Damaso. No seu amor n„o haveria paz, emquanto -aquelle vill„o o andasse commentando sordidamente pelas esquinas das -ruas. Era necessario enxovalhal-o de tal modo, com tal publicidade, que -elle n„o ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... -Quando o coupÈ parou · porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas -no Damaso, uma tarde, no Chiado, com apparato... - -Mas depois, ao regressar da quinta, vinha j· mais calmo. Pis·ra a linda -rua d'acacias que os pÈs d'ella pisariam na manh„ seguinte: dera um -longo olhar ao leito que seria o leito d'ella, rico, alÁado sobre um -estrado, envolto em cortinados de brocatel cÙr d'ouro, com um esplendor -sÈrio d'altar profano... D'ahi a poucas horas, encontrar-se-hiam sÛs -n'aquella casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o ver„o os seus -amores viveriam escondidos n'esse fresco retiro d'aldÍa; e d'ahi a tres -mezes estariam longe, na Italia, · beira d'um claro lago, entre as -flÙres d'Isola Bella... No meio d'estas voluptuosidades magnificas, que -lhe podia importar o Damaso, gorducho e reles, palrando em cal„o nos -bilhares do Gremio! Quando chegou · rua de S. Francisco resolvera, se -visse o Damaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos. - -Maria Eduarda fÙra passear a Belem com Rosa deixando-lhe um bilhete, em -que lhe pedia para vir · noite _faire un bout de causerie_. Carlos -desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na -carteira como uma dÙce reliquia; e sahia o port„o, no momento em que o -Alencar desembocava defronte, da travessa da Parreirinha, todo de preto, -moroso e pensativo. Ao avistar Carlos, parou de braÁos abertos; depois -vivamente, como recordando-se, ergueu os olhos para o primeiro andar. - -N„o se tinham visto desde as corridas, o poeta abraÁou com effus„o o seu -Carlos. E fallou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Cintra, -em Collares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembr·ra do rico dia -passado com Carlos e com o maestro em Sitiaes!... Cintra uma belleza. -Elle, um pouco constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, t„o -erudito e t„o profundo, apesar da excellente musica da mulher, da -Julinha (que para elle era como uma irm„), tinha-se aborrecido. Quest„o -de velhice... - ---Com effeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te o -teu ar aureolado. - -O poeta encolheu os hombros. - ---O Evangelho l· o diz bem claro... Ou È a Biblia que o diz...? N„o; È -S. Paulo... S. Paulo ou Santo Agostinho?... Emfim a authoridade n„o faz -ao caso. N'um d'esses santos livros se affirma que este mundo È um valle -de lagrimas... - ---Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente. - -O poeta tornou a encolher os hombros. Lagrimas ou risos, que -importava?... Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na vespera elle -dissera isso mesmo em casa dos Cohens... - -E de repente, estacando no meio da rua, tocando no braÁo de Carlos: - ---E agora por fallar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza, meu -rapaz. Eu sei que tu Ès intimo do Ega, e, que diabo, ninguem lhe admira -mais o talento do que eu!... Mas, realmente, tu approvas que elle, -apenas soube da chegada dos Cohens, se viesse metter em Lisboa? Depois -do que houve!... - -Carlos afianÁou ao poeta que o Ega sÛ no dia mesmo da chegada, horas -depois, soubera pela _Gazeta Illustrada_ a vinda dos Cohens... E de -resto se n„o podessem habitar, conjuntas na mesma cidade, as pessoas -entre as quaes tivesse havido attritos desagradaveis, as sociedades -humanas tinham de se desfazer... - -Alencar n„o respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com a cabeÁa baixa. -Depois parou de novo, franzindo a testa: - ---Outra coisa em que te quero fallar. Houve entre ti e o Damaso alguma -pÈga? Eu pergunto-te isto porque n'outro dia, l· em casa dos Cohens, -elle veio com uns ditos, umas insinuaÁıes... Eu declarei-lhe logo: -´Damaso, Carlos da Maia, filho de Pedro da Maia, È como se fosse meu -irm„o.ª E o Damaso calou-se... Calou-se, porque me conhece, e sabe que -eu n'estas coisas de lealdade e de coraÁ„o sou uma fera! - -Carlos disse simplesmente: - ---N„o, n„o ha nada, n„o sei nada... Nem sequer tenho visto o Damaso. - ---Pois È verdade, continuou Alencar tomando o braÁo de Carlos, -lembrei-me muito de ti em Cintra. AtÈ fiz l· um coisita que me n„o sahiu -m·, e que te dediquei... Um simples soneto, uma paizagem, um quadrosinho -de Cintra ao pÙr do sol. Quiz provar ahi a esses da IdÈa Nova, que, -sendo necessario, tambem por c· se sabe cinzelar o verso moderno e dar o -traÁo realista. Ora espera ahi, eu te digo, se me lembrar. A coisa -chama-se--_Na estrada dos Capuchos_... - -Tinham parado · esquina do Seixas; e o poeta tossira j· de leve, antes -de recitar,--quando justamente lhes appareceu o Ega, vindo de baixo, -vestido de campo, com uma bella rosa branca no jaquet„o de flanella -azul. - -Alencar e elle n„o se encontravam desde a fatal soirÈe dos Cohens. E ao -passo que o Ega conservava um resentimento feroz contra o poeta vendo -n'elle o inventor d'essa perfida lenda da ´carta obscenaª--Alencar -odiava-o pela certeza secreta de que elle fÙra o amante amado da sua -divina Rachel. Ambos se fizeram pallidos; o aperto de m„o que deram foi -incerto e regelado; e ficaram calados, todos tres, emquanto Ega nervoso -levava uma eternidade a accender o charuto no lume de Carlos. Mas foi -elle que fallou, por entre uma fumaÁa, affectando uma superioridade -amavel: - ---Acho-te com boa cÙr, Alencar! - -O poeta foi amavel tambem, um pouco d'alto, passando os dedos no bigode: - ---Vai-se andando. E tu que fazes? Quando nos d·s essas _Memorias_, -homem? - ---Estou · espera que o paiz aprenda a lÍr. - ---Tens que esperar! Pede ao teu amigo Gouvarinho que apresse isso, elle -occupa-se da InstrucÁ„o publica... Olha, alli o tens tu, grave e Ùco -como uma columna do _Diario do Governo_... - -O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde o -Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao lado -d'elles, de chapÈo branco, de collete branco, o Damaso deitava olhares -pelo Chiado, risonho, ovante, barrigudo, como um conquistador nos seus -dominios. J· aquelle arzinho gordo de tranquillo triumpho irritou -Carlos. Mas quando o Damaso parou defronte, no outro passeio, todo de -costas para elle, ostentando rir alto com o Gouvarinho, n„o se conteve, -atravessou a rua. - -Foi breve, e foi cruel: sacudiu a m„o do Gouvarinho, saudou de leve o -Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Damaso friamente: - ---Ouve l·. Se contin˙as a fallar de mim e de pessoas das minhas -relaÁıes, do modo como tens fallado, e que n„o me convÈm, arranco-te as -orelhas. - -O conde acudiu, mettendo-se entre elles: - ---Maia, por quem È! Aqui no Chiado... - ---N„o È nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o, muito sÈrio e muito -sereno. … apenas um aviso a este imbecil. - ---Eu n„o quero questıes, eu n„o quero questıes!... balbuciou o Damaso, -livido, enfiando para dentro d'uma tabacaria. - -E Carlos voltou, com socego, para junto dos seus amigos, depois de ter -saudado o Cohen e sacudir a m„o ao Gouvarinho. - -Vinha apenas um pouco pallido: mais perturbado estava o Ega, que julg·ra -vÍr de novo, n'um olhar do Cohen, uma provocaÁ„o intoleravel. SÛ o -Alencar n„o repar·ra em nada: continuava a discursar sobre coisas -litterarias, explicando ao Ega as concessıes que se podiam fazer ao -naturalismo... - ---Fiquei aqui a dizer ao Ega... … evidente que quando se trata de -paizagem È necessario copiar a realidade... N„o se pode descrever um -castanheiro _a priori_, como se descreveria uma alma... E l· isso faÁo -eu... Ahi est· esse soneto de Cintra que eu te dediquei, Carlos. … -realista, est· claro que È realista... PudÈra, se È paizagem! Ora eu -vol-o digo... Ia justamente dizel-o, quando tu appareceste, Ega... Mas -vejam l· vocÍs se isto os massa... - -Qual massava! E atÈ, para o escutarem melhor, penetraram na rua de S. -Francisco, mais silenciosa. Ahi, dando um passo lento, depois outro, o -poeta murmurou a sua ecloga. Era em Cintra, ao pÙr do sol: uma ingleza, -de cabellos soltos, toda de branco, desce n'um burrinho por uma vereda -que domina um valle; as aves cantam de leve, ha borboletas em torno das -madresilvas; ent„o a ingleza p·ra, deixa o burrinho, olha enlevada o -cÈo, os arvoredos, a paz das casas;--e ahi, no ultimo terceto, vinha ´a -nota realistaª de que se ufanava o Alencar: - - - Ella olha a flÙr dormente, a nuvem casta, - Emquanto o fumo dos casaes se eleva - E ao lado o burro, pensativo, pasta. - - ---Ahi tÍm vocÍs o traÁo, a nota naturalista... _Ao lado o burro, -pensativo, pasta_... Eis ahi a realidade, est·-se a vÍr o burro -pensativo... N„o ha nada mais pensativo que um burro... E s„o estas -pequeninas coisas da natureza que È necessario observar... J· vÍem vocÍs -que se pÛde fazer realismo, e do bom, sem vir logo com obscenidades... -VocÍs que lhes parece o sonetito? - -Ambos o elogiaram profundamente--Carlos arrependido de n„o ter -completado a humilhaÁ„o do Damaso, dando-lhe bengaladas; Ega pensando -que decerto, n'uma d'essas tardes, no Chiado, teria de esbofetear o -Cohen. Como elles recolhiam ao Ramalhete, Alencar, j· desanuviado, foi -acompanhal-os pelo Aterro. E fallou sempre, contando o plano de um -romance historico, em que elle queria pintar a grande figura d'Affonso -d'Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais intimo: Affonso -d'Albuquerque namorado: Affonso d'Albuquerque, sÛ, de noite, na pÙpa do -seu gale„o, diante d'Ormuz incendiada, beijando uma flÙr secca, entre -soluÁos. Alencar achava isto sublime. - -Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir · rua de S. Francisco--quando -o Baptista veio dizer que o snr. Telles da Gama lhe desejava fallar com -urgencia. N„o o querendo receber, alli, em mangas de camisa, mandou-o -entrar para o gabinete escarlate e preto. E veio d'ahi a um instante -encontrar Telles da Gama admirando as bellas faianÁas hollandezas. - ---VocÍ, Maia, tem isto lindissimo, exclamou elle logo. Eu pello-me por -porcelanas... Hei de voltar um dia d'estes, com mais vagar, vÍr tudo -isto, de dia... Mas hoje venho com pressa, venho com uma miss„o... VocÍ -n„o adivinha? - -Carlos n„o adivinhava. - -E o outro, recuando um passo, com uma gravidade em que transparecia um -sorriso: - ---Eu venho aqui perguntar-lhe da parte do Damaso, se vocÍ hoje, -n'aquillo que lhe disse, tinha tenÁ„o de o offender. … sÛ isto... A -minha miss„o È apenas esta: perguntar-lhe se vocÍ tinha intenÁ„o de o -offender. - -Carlos olhou-o, muito sÈrio: - ---O quÍ!? Se tinha intenÁ„o de offender o Damaso quando o ameacei de lhe -arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha sÛ intenÁ„o de lhe arrancar -as orelhas! - -Telles da Gama saudou, rasgadamente: - ---Foi isso mesmo o que eu respondi ao Damaso: que vocÍ n„o tinha sen„o -essa intenÁ„o. Em todo o caso, desde este momento, a minha miss„o est· -finda... Como vocÍ tem isto bonito!... O que È aquelle prato grande, -majolica? - ---N„o, um velho Nevers. Veja vocÍ ao pÈ... … Thetis conduzindo as armas -d'Achilles... … esplendido; e È muito raro... Veja vocÍ esse Deft, com -as duas tulipas amarellas... … um encanto! - -Telles da Gama dava um olhar lento a todas estas preciosidades, tomando -o chapÈo de sobre o sof·. - ---Lindissimo tudo isto!... Ent„o sÛ intenÁ„o de lhe arrancar as orelhas? -nenhuma de o offender?... - ---Nenhuma de o offender, toda de lhe arrancar as orelhas... Fume vocÍ um -charuto. - ---N„o, obrigado... - ---Calice de cognac? - ---N„o! abstenÁ„o total de bebidas e aguas ardentes... Pois adeus, meu -bom Maia! - ---Adeus, meu bom Telles... - - -Ao outro dia, por uma radiante manh„ de julho, Carlos saltava do coupÈ, -com um mÛlho de chaves, diante do port„o da quinta do Craft. Maria -Eduarda devia chegar ·s dez horas, sÛ, na sua carruagem da Companhia. O -hortel„o, dispensado por dois dias, fÙra a Villa Franca; n„o havia ainda -criados na casa; as janellas estavam fechadas. E pesava alli, envolvendo -a estrada e a vivenda, um d'esses altos e graves silencios d'aldÍa, em -que se sente, dormente no ar, o zumbir dos moscardos. - -Logo depois do port„o, penetrava-se n'uma fresca rua d'acacias, onde -cheirava bem. A um lado, por entre a ramagem, apparecia o kiosque, com -tecto de madeira, pintado de vermelho, que fÙra o capricho de Craft, e -que elle mobil·ra · japoneza. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com -janellas de peitoril, persianas verdes, e a portinha ao centro sobre -tres degraus, flanqueados por vasos de louÁa azul cheios de cravos. - -SÛ o metter a chave devagar e com uma inutil cautela na fechadura -d'aquella morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janellas: -e a larga luz que entrava pareceu-lhe trazer uma doÁura rara, e uma -alegria maior que a dos outros dias, como preparada especialmente pelo -bom Deus para alumiar a festa do seu coraÁ„o. Correu logo · sala de -jantar, a verificar se, na mesa posta para o _lunch_, se conservavam -ainda viÁosas as flÙres que l· deix·ra na vespera. Depois voltou ao -coupÈ a tirar o caixote de gelo, que trouxera de Lisboa, embrulhado em -flanella, entre serradura. Na estrada, silenciosa por ora, ia sÛ -passando uma saloia montada na sua egua. - -Mas apenas accommod·ra o gelo--sentiu fÛra o ruido lento da carruagem. -Veio para o gabinete forrado de cretones, que abria sobre o corredor; e -ficou alli, espreitando da porta, mas escondido, por causa do cocheiro -da Companhia. D'ahi a um instante viu-a emfim chegar, pela rua de -acacias, alta e bella, vestida de preto, e com um meio-vÈo espesso como -uma mascara. Os seus pÈsinhos subiram os tres degraus de pedra. Elle -sentiu a sua voz inquieta perguntar de leve: - ---_ tes-vous l‡?_ - -Appareceu--e ficaram um instante, · porta do gabinete, apertando -sofregamente as m„os, sem fallar, commovidos, deslumbrados. - ---Que linda manh„! disse ella por fim, rindo e toda vermelha. - ---Linda manh„, linda! repetia Carlos, contemplando-a, enlevado. - -Maria Eduarda resval·ra sobre uma cadeira, junto da porta, n'um cansaÁo -delicioso, deixando calmar o alvoroÁo do seu coraÁ„o. - ---… muito confortavel, È encantador tudo isto, dizia ella olhando -lentamente em redor os cretones do gabinete, o divan turco coberto com -um tapete de Brousse, a estante envidraÁada cheia de livros. Vou ficar -aqui adoravelmente... - ---Mas ainda nem lhe agradeci o ter vindo, murmurou Carlos, esquecido, a -olhar para ella. Ainda nem lhe beijei a m„o... - -Maria Eduarda comeÁou a tirar o vÈo, depois as luvas, fallando da -estrada. Ach·ra-a longa, fatigante. Mas que lhe importava? Apenas se -accommodasse n'aquelle fresco ninho nunca mais voltava a Lisboa! - -Atirou o chapÈo para cima do divan--ergueu-se, toda alegre e luminosa. - ---Vamos vÍr a casa, estou morta por vÍr essas maravilhas do seu amigo -Craft!... … Craft que se chama? _Craft_ quer dizer industria! - ---Mas ainda nem sequer lhe beijei a m„o! tornou Carlos, sorrindo e -supplicante. - -Ella estendeu-lhe os labios, e ficou presa nos seus braÁos. - -E Carlos, beijando-lhe devagar os olhos, o cabello, dizia-lhe quanto era -feliz e quanto a sentia agora mais sua entre estes velhos muros de -quinta que a separavam do resto do mundo... - -Ella deixava-se beijar, sÈria e grave: - ---E È verdade isso? … realmente verdade?... - -Se era verdade! Carlos teve um suspiro quasi triste: - ---Que lhe hei de eu responder? Tenho de lhe repetir essa coisa antiga -que j· Hamlet disse: que duvide de tudo, que duvide do sol, mas que n„o -duvide de mim... - -Maria Eduarda desprendeu-se, lentamente e perturbada. - ---Vamos vÍr a casa, disse ella. - -ComeÁaram pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos -em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papeis claros, abriam -sobre o rio e sobre os campos. - ---Os seus aposentos, disse Carlos, h„o de ser em baixo, est· visto, -entre as coisas ricas... Mas Rosa e miss Sarah ficam aqui -esplendidamente. N„o lhe parece? - -E ella percorria os quartos, devagar, examinando a accommodaÁ„o dos -armarios, palpando a elasticidade dos colxıes, attenta, cuidadosa, toda -no desvelo de alojar bem a sua gente. Por vezes mesmo exigia uma -alteraÁ„o. E era realmente como se aquelle homem que a seguia, -enternecido e radiante, fosse apenas um velho senhorio. - ---O quarto com as duas janellas, ao fundo do corredor, seria o melhor -para Rosa. Mas a pequena n„o pÛde dormir n'aquelle enorme leito de pau -preto... - ---Muda-se! - ---Sim, pÛde mudar-se... E falta uma sala larga para ella brincar, ·s -horas do calor... Se n„o houvesse o tabique entre os dois quartos -pequenos... - ---Deita-se abaixo! - -Elle esfregava as m„os, encantado, prompto a refundir toda a casa; e -ella n„o recusava nada, para conforto mais perfeito dos seus. - -Desceram · sala de jantar. E ahi, diante da famosa chaminÈ de carvalho -lavrado, flanqueada · maneira de cariatides pelas duas negras figuras de -Nubios, com olhos rutilantes de crystal, Maria Eduarda comeÁou a achar o -gosto do Craft excentrico, quasi exotico... Tambem Carlos n„o lhe dizia -que Craft tivesse o gosto correcto d'um atheniense. Era um saxonio -batido d'um raio de sol meridional: mas havia muito talento na sua -excentricidade... - ---Oh, a vista È que È deliciosa! exclamou ella chegando-se · janella. - -Junto do peitoril crescia um pÈ de margaridas, e ao lado outro de -baunilha que perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete de relva, mal -aparada, um pouco amarellada j· pelo calor de julho; e entre duas -grandes arvores que lhe faziam sombra, havia alli, para os vagares da -sÈsta, um largo banco de cortiÁa. Um renque de arbustos cerrados parecia -fechar a quinta d'aquelle lado como uma sebe. Depois a collina descia, -com outras quintarolas, casas que se n„o viam, e uma chaminÈ de fabrica; -e l· no fundo o rio rebrilhava, vidrado de azul, mudo e cheio de sol, -atÈ ·s montanhas d'alÈm-Tejo, azuladas tambem na faiscaÁ„o clara do cÈo -de ver„o. - ---Isto È encantador! repetia ella. - ---… um paraiso! Pois n„o lhe dizia eu? … necessario pÙr um nome a esta -casa... Como se ha de chamar? _Villa-Marie?_ N„o. _Ch‚teau-Rose_... -Tambem n„o, crÈdo! Parece o nome d'um vinho. O melhor È baptisal-a -definitivamente com o nome que nÛs lhe davamos. NÛs chamavamos-lhe a -_TÛca_. - -Maria Eduarda achou originalissimo o nome de _TÛca_. Devia-se atÈ pintar -em letras vermelhas sobre o port„o. - ---Justamente, e com uma divisa de bicho, disse Carlos rindo. Uma divisa -de bicho egoista na sua felicidade e no seu buraco: _N„o me mexam!_ - -Mas ella par·ra, com um lindo riso de surpreza, diante da mesa posta, -cheia de fruta, com as duas cadeiras j· chegadas, e os crystaes -brilhando entre as flÙres. - ---S„o as bodas de Cann·! - -Os olhos de Carlos resplandeceram. - ---S„o as nossas! - -Maria Eduarda fez-se muito vermelha; e baixou o rosto a escolher um -morango, depois a escolher uma rosa. - ---Quer uma gota de champagne? exclamou Carlos. Com um pouco de gelo? NÛs -temos gelo, temos tudo! N„o nos falta nada, nem a benÁ„o de Deus... Uma -gotinha de champagne, v·! - -Ella aceitou: beberam pelo mesmo copo; outra vez os seus labios se -encontraram, apaixonadamente. - -Carlos accendeu uma cigarrette, continuaram a percorrer a casa. A -cozinha agradou-lhe muito, arranjada · ingleza, toda em azulejos. No -corredor Maria Eduarda demorou-se diante de uma panoplia de tourada, com -uma cabeÁa negra de touro, espadas e garrochas, mantos de sÍda vermelha, -conservando nas suas pregas uma graÁa ligeira, e ao lado o cartaz -amarello _de la corrida_, com o nome de Lagartijo. Isto encantou-a como -um quente lampejo de festa e de sol peninsular... - -Mas depois o quarto que devia ser o seu, quando Carlos lh'o foi mostrar, -desagradou-lhe com o seu luxo estridente e sensual. Era uma alcova, -recebendo a claridade d'uma sala forrada de tapeÁarias, onde desmaiavam -na trama de l„ os amores de Venus e Marte: da porta de communicaÁ„o, -arredondada em arco de capella, pendia uma pesada lampada da RenascenÁa, -de ferro forjado: e, ·quella hora, batida por uma larga facha de sol, a -alcova resplandecia como o interior de um tabernaculo profanado, -convertido em retiro lascivo de serralho... Era toda forrada, paredes e -tectos, de um brocado amarello, cÙr de bot„o d'ouro; um tapete de -velludo do mesmo tom rico fazia um pavimento d'ouro vivo sobre que -poderiam correr n˙s os pÈs ardentes d'uma deusa amorosa--e o leito de -docel, alÁado sobre um estrado, coberto com uma colcha de setim amarello -bordada a flÙres d'ouro, envolto em solemnes cortinas tambem amarellas -de velho brocatel,--enchia a alcova, esplendido e severo, e como erguido -para as voluptuosidades grandiosas de uma paix„o tragica do tempo de -Lucrecia ou de Romeu. E era alli que o bom Craft, com um lenÁo de sÍda -da India amarrado na cabeÁa, resonava as suas sete horas, pacata e -solitariamente. - -Mas Maria Eduarda n„o gostou d'estes amarellos excessivos. Depois -impressionou-se, ao reparar n'um painel antigo, defumado, resaltando em -negro do fundo de todo aquelle ouro--onde apenas se distinguia uma -cabeÁa degolada, livida, gelada no seu sangue, dentro d'um prato de -cobre. E para maior excentricidade, a um canto, de cima de uma columna -de carvalho, uma enorme coruja empalhada fixava no leito d'amor, com um -ar de meditaÁ„o sinistra, os seus dois olhos redondos e agourentos... -Maria Eduarda achava impossivel ter alli sonhos suaves. - -Carlos agarrou logo na columna e no mocho, atirou-os para um canto do -corredor; e propoz-lhe mudar aquelles brocados, forrar a alcova de um -setim cÙr de rosa e risonho. - ---N„o, venho-me a acostumar a todos esses ouros... SÛmente aquelle -quadro, com a cabeÁa, e com o sangue... Jesus, que horror! - ---Reparando bem, disse Carlos, creio que È o nosso velho amigo S. Jo„o -Baptista. - -Para desfazer essa impress„o desconsolada levou-a ao sal„o nobre, onde -Craft concentr·ra as suas preciosidades. Maria Eduarda, porÈm, ainda -descontente, achou-lhe um ar atulhado e frio de museu. - ---… para vÍr de pÈ, e de passagem... N„o se pÛde ficar aqui sentado, a -conversar. - ---Mas esta È materia-prima! exclamou Carlos. Com isto depois faz-se uma -sala adoravel... Para que serve o nosso genio decorativo?... Olhe o -armario, veja que centro! Que belleza! - -Enchendo quasi a parede do fundo, o famoso armario, o ´movel divinoª do -Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseatica, luxuoso e sombrio, -tinha uma magestade architectural: na base quatro guerreiros, armados -como Marte, flanqueavam as portas, mostrando cada uma em baixo-relevo o -assalto de uma cidade ou as tendas de um acampamento; a peÁa superior -era guardada aos quatro cantos pelos quatro evangelistas, Jo„o, Marcos, -Lucas e Matheus, imagens rigidas, envolvidas n'essas roupagens violentas -que um vento de prophecia parece agitar: depois na cornija erguia-se um -trophÈo agricola com mÛlhos d'espigas, fouces, cachos d'uvas e rabiÁas -d'arados; e, · sombra d'estas coisas de labor e fartura, dois Faunos, -recostados em symetria, indifferentes aos heroes e aos santos, tocavam -n'um desafio bucolico a frauta de quatro tubos. - ---Ent„o, hein? dizia Carlos. Que movel! … todo um poema da RenascenÁa, -Faunos e Apostolos, guerras e georgicas... Que se pÛde metter dentro -d'este armario? Eu se tivesse cartas suas era aqui que as depositava, -como n'um altar-mÛr. - -Ella n„o respondeu, sorrindo, caminhando devagar entre essas coisas do -passado, d'uma belleza fria, e exhalando a indefinida tristeza de um -luxo morto: finos moveis da RenascenÁa italiana, exilados dos seus -palacios de marmore, com embutidos de cornalina e agatha que punham um -brilho suave de joia sobre a negrura dos ebanos ou setim das madeiras -cÙr de rosa; cofres nupciaes, longos como bah˙s, onde se guardavam os -presentes dos Papas e dos Principes, pintados a purpura e ouro, com -graÁas de miniatura; contadores hespanhoes impertigados, revestidos de -ferro brunido e de velludo vermelho, e com interiores mysteriosos, em -fÛrma de capella, cheios de nichos, de claustros de tartaruga... Aqui e -alÈm, sobre a pintura verde-escura das paredes, resplandecia uma colcha -de setim toda recamada de flÙres e d'aves d'ouro; ou sobre um bocado de -tapete do Oriente de tons severos, com versiculos do Alcor„o, -desdobrava-se a pastoral gentil d'um minuete em Cythera sobre a sÍda de -um leque aberto... - -Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, n'uma poltrona Luiz XV, -ampla e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta de -tapeÁaria de Beauvais, d'onde parecia exhalar-se ainda um vago aroma -d'empoado. - -Carlos triumphava, vendo a admiraÁ„o de Maria. Ent„o, ainda considerava -uma extravagancia aquella compra, feita n'um rasgo de enthusiasmo? - ---N„o, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei a viver -uma vida pacata de aldÍa no meio de todas estas raridades... - ---N„o diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pÈgo fogo a tudo! - -Mas o que lhe agradou mais foram as bellas faianÁas, toda uma arte -immortal e fragil espalhada por sobre o marmore das consolas. Uma -sobretudo attrahiu-a, uma esplendida taÁa persa, d'um desenho raro, com -um renque de negros cyprestes, cada um abrigando uma flÙr de cÙr viva: e -aquillo fazia lembrar breves sorrisos reapparecendo entre longas -tristezas. Depois eram as apparatosas majolicas, de tons estridentes e -desencontrados, cheias de grandes personagens, Carlos V passando o Elba, -Alexandre coroando Roxane; os lindos Nevers, ingenuos e sÈrios; os -Marselhas, onde se abre voluptuosamente, como uma nudez que se mostra, -uma grossa rosa vermelha; os Derby, com as suas rendas de ouro sobre o -azul-ferrete de cÈo tropical; os Wedgewood, cÙr de leite e cÙr de rosa, -com transparencias fugitivas de concha na agua... - ---SÛ um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez sentar-se, È -necessario saudar o genio tutelar da casa! - -Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze, um -deus bestial, n˙, pelado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso, -com o ventre Ûvante, distendido na indigest„o de todo um universo--e as -duas perninhas bambas, molles e flaccidas como as pelles mortas d'um -feto. E este monstro triumphava, encanchado sobre um animal fabuloso, de -pÈs humanos, que dobrava para a terra o pescoÁo submisso, mostrando no -focinho e no olho obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhaÁ„o... - ---E pensarmos, dizia Carlos, que geraÁıes inteiras vieram ajoelhar-se -diante d'este rat„o, rezar-lhe, beijar-lhe o embigo, offerecer-lhe -riquezas, morrer por elle... - ---O amor que se tem por um monstro, disse Maria, È mais meritorio, n„o È -verdade? - ---Por isso n„o acha talvez meritorio o amor que se tem por si... - -Sentaram-se ao pÈ da janella, n'um divan baixo e largo, cheio de -almofadas, cercado por um biombo de sÍda branca, que fazia entre aquelle -luxo do passado um fÙfo recanto de conforto moderno: e como ella se -queixava um pouco de calor, Carlos abriu a janella. Junto do peitoril -crescia tambem um grande pÈ de margaridas; adiante, n'um velho vaso de -pedra, pousado sobre a relva, vermelhejava a flÙr d'um cacto; e dos -ramos de uma nogueira cahia uma fina frescura. - -Maria Eduarda veio encostar-se · janella, Carlos seguiu-a; e ficaram -alli juntos, calados, profundamente felizes, penetrados pela doÁura -d'aquella solid„o. Um passaro cantou de leve no ramo da arvore; depois -calou-se. Ella quiz saber o nome de uma povoaÁ„o que branquejava ao -longe ao sol na collina azulada. Carlos n„o se lembrava. Depois -brincando, colheu uma margarida, para a interrogar: _Elle m'aime, un -peu, beaucoup_... Ella arrancou-lh'a das m„os. - ---Para que precisa perguntar ·s flÙres? - ---Porque ainda m'o n„o disse claramente, absolutamente, como eu quero -que m'o diga... - -AbraÁou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Ent„o Carlos, com os olhos -mergulhados nos d'ella, disse-lhe baixÌnho e implorando: - ---Ainda n„o vimos a saleta de banho... - -Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaÁada pelo sal„o, depois atravÈs -da sala de tapeÁarias onde Marte e Venus se amavam entre os bosques. Os -banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho -tapete vermelho da Caramania. Elle, tendo-a sempre abraÁada, pousou-lhe -no pescoÁo um beijo longo e lento. Ella abandonou-se mais, os seus olhos -cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e cÙr -d'ouro: Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capella, -feitas de uma sÍda leve que coava para dentro uma claridade loura: e um -instante ficaram immoveis, sÛs emfim, desatado o abraÁo, sem se tocarem, -como suspensos e suffocados pela abundancia da sua felicidade. - ---Aquella horrivel cabeÁa! murmurou ella. - -Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E ent„o -todo o rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida entre as -arvores, n'uma demorada sÈsta, sob a calma de julho... - - -Os annos de Affonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo. -Quasi todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tom·ra-se o -cafÈ no escriptorio d'Affonso, onde as janellas se conservavam abertas. -A noite estava tepida, estrellada e serenissima. Craft, Sequeira e o -Taveira passeavam fumando no terraÁo. Ao canto d'um sof· Cruges escutava -religiosamente Steinbroken que lhe contava, com gravidade, os progressos -da musica na Filandia. E em redor de Affonso, estendido na sua velha -poltrona, de cachimbo na m„o, fallava-se do campo. - -Ao jantar Affonso annunci·ra a intenÁ„o de ir visitar, para o meado do -mez, as velhas arvores de Santa Olavia; e combin·ra-se logo uma grande -romaria de amizade ·s margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam -Affonso. O marquez promettera uma visita para agosto ´na companhia -melodiosaª, dizia elle, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com -receio da longa jornada, da humidade da aldÍa. E agora tratava-se de -persuadir Ega a ir tambem, com Carlos--quando Carlos acabasse emfim de -reunir esses materiaes do seu livro que o retinham em Lisboa ´· banca do -labor...ª Mas o Ega resistia. O campo, dizia elle, era bom para os -selvagens. O homem, · maneira que se civilisa, afasta-se da natureza; e -a realisaÁ„o do progresso, o paraiso na Terra, que presagiam os -Idealistas, concebia-o elle como uma vasta cidade occupando totalmente o -Globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e alÈm um -bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes -para perfumar o altar da JustiÁa... - ---E o milho? A bella fruta? A hortaliÁasinha? perguntava VillaÁa, rindo -com malicia. - -Imaginava ent„o VillaÁa, replicava o outro, que d'aqui a seculos ainda -se comeriam hortaliÁas? O habito dos vegetaes era um resto da rude -animalidade do homem. Com os tempos o sÍr civilisado e completo vinha a -alimentar-se unicamente de productos artificiaes, em frasquinhos e em -pilulas, feitos nos laboratorios do Estado... - ---O campo, disse ent„o D. Diogo, passando gravemente os dedos pelos -bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer um bonito -_pic-nic_, para uma burricada, para uma partida de croquet... Sem campo -n„o ha sociedade. - ---Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambem ha arvores ainda se -admitte... - -Enterrado n'uma poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em -silencio. Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente a -tudo, com um ar luminoso e de deliciosa lassid„o. E ent„o o marquez, que -j· duas vezes, dirigindo-se a elle, encontr·ra a mesma abstracÁ„o -radiosa, impacientou-se: - ---Homem, falle, diga alguma coisa!... VocÍ est· hoje com um ar -extraordinario, um arzinho de beato que se regalou de papar o -Santissimo! - -Todos em redor, com sympathia, se affirmaram em Carlos: VillaÁa -achava-lhe agora melhor cara, cÙr d'alegria: D. Diogo, com um ar -entendido, sentindo mulher, invejou-lhe os annos, invejou-lhe o vigor. E -Affonso reenchendo o cachimbo olhava o neto, enternecido. - -Carlos ergueu-se immediatamente, fugindo ·quelle exame affectuoso. - ---Com effeito, disse elle, espreguiÁando-se de leve, tenho estado hoje -languido e mono... … o comeÁo do ver„o... Mas È necessario sacudir-me... -Quer vocÍ fazer uma partida de bilhar, Û marquez? - ---V· l·, homem. Se isso o resuscita... - -Foram, Ega seguiu-os. E apenas no corredor o marquez parando, e como -recordando-se, perguntou sem rebuÁo ao Ega noticias dos Cohens. -Tinham-se encontrado? Estava tudo acabado? Para o marquez, uma flÙr de -lealdade, n„o havia segredos: Ega contou-lhe que o romance find·ra, e -agora o Cohen, quando o cruzava, baixava prudentemente os olhos... - ---Eu perguntei isto, disse o marquez, porque j· vi a Cohen duas vezes... - ---Onde? foi a exclamaÁ„o sÙfrega do Ega. - ---No Price, e sempre com o Damaso. A ultima vez foi j· esta semana. E l· -estava o Damaso, muito chegadinho, palrando muito... Depois veio -sentar-se um bocado ao pÈ de mim, e sempre d'olho n'ella... E ella de -l·, com aquelle ar de lambisgoia, de luneta n'elle... N„o havia que -duvidar, era um namoro... Aquelle Cohen È um predestinado. - -Ega fez-se livido, torceu nervosamente o bigode, terminou por dizer: - ---O Damaso È muito intimo d'elles... Mas talvez se atire, n„o duvido... -S„o dignos um do outro. - -No bilhar, emquanto os dois carambolavam preguiÁosamente, elle n„o -cessou de passear, n'uma agitaÁ„o, trincando o charuto apagado. De -repente estacou em frente do marquez, com os olhos chammejantes: - ---Quando È que vocÍ a viu ultimamente no Price, essa torpe filha -d'Israel? - ---TerÁa-feira, creio eu. - -O Ega recomeÁou a passear, sombrio. - -N'esse instante Baptista, apparecendo · porta do bilhar, chamou Carlos -em silencio, com um leve olhar. Carlos veio, surprehendido. - ---… um cocheiro de praÁa, murmurou Baptista. Diz que est· alli uma -senhora dentro d'uma carruagem que lhe quer fallar. - ---Que senhora? - -Baptista encolheu os hombros. Carlos, de taco na m„o, olhava para elle, -aterrado. Uma senhora! Era decerto Maria... Que teria succedido, santo -Deus, para ella vir n'uma tipoia, ·s nove da noite, ao Ramalhete! - -Mandou Baptista, a correr, buscar-lhe um chapÈo baixo; e assim mesmo, de -casaca, sem paletot, desceu n'uma grande anciedade. No peristyllo topou -com Eusebiosinho que chegava, e sacudia cuidadosamente com o lenÁo a -poeira dos botins. Nem fallou ao Eusebiosinho. Correu ao coupÈ, parado · -porta particular dos seus quartos, mudo, fechado, mysterioso, -aterrador... - -Abriu a portinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro, -abafado n'uma mantilha de renda, debruÁou-se, perturbado, balbuciou: - ---… sÛ um instante! Quero-lhe fallar! - -Que allivio! Era a Gouvarinho! Ent„o, na sua indignaÁ„o, Carlos foi -brutal. - ---Que diabo de tolice È esta? Que quer? - -Ia bater com a portinhola; ella empurrou-a para fÛra, desesperada; e n„o -se conteve, desabafou logo alli, diante do cocheiro, que mexia -tranquillamente na fivela d'um tirante. - ---De quem È a culpa? Para que me trata d'este modo?... … sÛ um instante, -entre, tenho de lhe fallar!... - -Carlos saltou para dentro, furioso: - ---D· uma volta pelo Aterro, gritou ao cocheiro. Devagar! - -O velho calhambeque desceu a calÁada; e durante um momento, na -escurid„o, recuando um do outro no assento estreito, tiveram as mesmas -palavras, bruscas e colericas, atravÈs do barulho das vidraÁas. - ---Que imprudencia! que tolice!... - ---E de quem È a culpa? De quem È a culpa? - -Depois, na rampa de Santos, o coupÈ rolou mais silenciosamente no -macadam. Carlos ent„o, arrependido da sua dureza, voltou-se para ella, e -com brandura, quasi no tom carinhoso d'outr'ora, reprehendeu-a por -aquella imprudencia... Pois n„o era melhor ter-lhe escripto? - ---Para quÍ? exclamou ella. Para n„o me responder? Para n„o fazer caso -das minhas cartas, como se fossem as de um importuno a pedir-lhe uma -esmola!... - -Suffocava, arrancou a mantilha da cabeÁa. No vagaroso rolar do coupÈ, -sem ruido, ao longo do rio, Carlos sentia a respiraÁ„o d'ella, -tumultuosa e cheia d'angustia. E n„o dizia nada, immovel, n'um infinito -mal-estar, entrevendo confusamente, atravÈs do vidro embaciado, na -sombra triste do rio adormecido, as mastreaÁıes vagas de fal˙as. A -parelha parecia ir adormecendo; e as queixas d'ella desenrolavam-se, -profundas, mordentes, repassadas d'amargura. - ---PeÁo-lhe que venha a Santa Isabel, n„o vem... Escrevo-lhe, n„o me -responde... Quero ter uma explicaÁ„o franca comsigo, n„o apparece... -Nada, nem um bilhete, nem uma palavra, nem um aceno... Um desprezo -brutal, um desprezo grosseiro... Eu nem devia ter vindo... Mas n„o pude, -n„o pude!... Quiz saber o que lhe tinha feito. O que È isto? Que lhe fiz -eu? - -Carlos percebia os olhos d'ella, faiscantes sob a nevoa de lagrimas -retidas, supplicando e procurando os seus. E sem coragem sequer de a -fitar, murmurou, torturado: - ---Realmente, minha amiga... As coisas fallam bem por si, n„o s„o -necessarias explicaÁıes. - ---S„o! … necessario saber se isto È uma coisa passageira, um amuo, ou se -È uma coisa definitiva, um rompimento! - -Elle agitava-se no seu canto, sem achar uma maneira suave, affectuosa -ainda, de lhe dizer que todo o seu desejo d'ella find·ra. Terminou por -affirmar que n„o era um amuo. Os seus sentimentos tinham sido sempre -elevados, n„o cahiria agora na pieguice de ter um amuo... - ---Ent„o È um rompimento?... - ---N„o, tambem n„o... Um rompimento absoluto, para sempre, n„o... - ---Ent„o È um amuo? PorquÍ? - -Carlos n„o respondeu. Ella, perdida, sacudiu-o pelo braÁo. - ---Mas falle! Diga alguma coisa, santo Deus! N„o seja cobarde, tenha a -coragem de dizer o que È! - -Sim, ella tinha raz„o... Era uma cobardia, era uma indignidade, -continuar alli, gÙchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar coisas -mesquinhas. Quiz ser claro, quiz ser forte. - ---Pois bem, ahi est·. Eu entendi que as nossas relaÁıes deviam ser -alteradas... - -E outra vez hesitou, a verdade amolleceu-lhe nos labios, sentindo -aquella mulher ao seu lado a tremer d'agonia. - ---Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado, -que n„o podia durar, n'uma amizade agradavel, e mais nobre... - -E pouco a pouco as palavras voltavam-lhe faceis, habeis, persuasivas, -atravÈs do rumor lento das rodas. Onde os podia levar aquella ligaÁ„o? -Ao resultado costumado. A que a um dia se descobrisse tudo, e o seu -bello romance acabasse no escandalo e na vergonha; ou a que, -envolvendo-os por muito tempo o segredo, elle viesse a descahir na -banalidade d'uma uni„o quasi conjugal, sem interesse e sem requinte. De -resto era certo que, continuando a encontrarem-se, aqui, em Cintra, -n'outros sitios, a sociedadesinha curiosa e mexeriqueira viria a -perceber a sua affeiÁ„o. E havia por acaso nada mais horroroso, para -quem tem orgulho e delicadeza d'alma, do que uns amores que todo o -publico conhece, atÈ os cocheiros de praÁa? N„o... O bom senso, o bom -gosto mesmo, tudo indicava a necessidade d'uma separaÁ„o. Ella mesmo -mais tarde lhe seria grata... Decerto, esta primeira interrupÁ„o d'um -habito dÙce era desagradavel, e elle estava bem longe de se sentir -feliz. FÙra por isso que n„o tivera a coragem de lhe escrever... Emfim -deviam ser fortes, e n„o se vÍrem pelo menos durante alguns mezes... -Depois, pouco a pouco, o que era capricho fragil, cheio de inquietaÁ„o, -tornar-se-hia uma boa amizade, bem segura e bem duradoura. - -Calou-se; e ent„o, no silencio, sentiu que ella, cahida para o canto do -coupÈ, como uma coisa miseravel e meio morta, encolhida no seu vÈo, -estava chorando baixo. - -Foi um momento intoleravel. Ella chorava sem violencia, mansamente, com -um chÙro lento, que parecia n„o dever findar. E Carlos sÛ achava esta -palavra banal e desenxabida: - ---Que tolice, que tolice! - -Vinham rodando ao comprido das casas, por diante da fabrica do gaz. Um -americano passou alumiado, com senhoras vestidas de claro. N'aquella -noite de ver„o e d'estrellas, havia gente vagueando tranquillamente -entre as arvores. Ella continuava a chorar. - -Aquelle pranto triste, lento, correndo a seu lado, comeÁou a commovel-o; -e ao mesmo tempo quasi lhe queria mal por ella n„o reter essas lagrimas -infindaveis que laceravam o seu coraÁ„o... E elle que estava t„o -tranquillo, no Ramalhete, na sua poltrona, sorrindo a tudo, n'uma -deliciosa lassid„o! - -Tomou-lhe a m„o, querendo calmal-a, apiedado, e j· impaciente. - ---Realmente n„o tem raz„o. … absurdo... Tudo isto È para seu bem... - -Ella teve emfim um movimento, enxugou os olhos, assoou-se doloridamente -por entre os seus longos soluÁos... E de repente, n'um arranque de -paix„o, atirou-lhe os braÁos ao pescoÁo, prendendo-se a elle com -desespero, esmagando-o contra o seu seio. - ---Oh meu amor, n„o me deixes, n„o me deixes! Se tu soubesses! …s a unica -felicidade que eu tenho na vida... Eu morro, eu mato-me!... Que te fiz -eu? Ninguem sabe do nosso amor... E que soubesse! Por ti sacrifico tudo, -vida, honra, tudo! tudo!... - -Molhava-lhe a face com o resto das suas lagrimas; e elle abandonava-se, -sentindo aquelle corpo sem collete, quente e como n˙, subir-lhe para os -joelhos, collar-se ao seu, n'um furor de o repossuir, com beijos -sÙfregos, furiosos, que o suffocavam... Subitamente a tipoia parou. E um -momento ficaram assim--Carlos immovel, ella cahida sobre elle e -arquejando. - -Mas a tipoia n„o continuava. Ent„o Carlos desprendeu um braÁo, desceu o -vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete. O homem, obedecendo · -ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar, subira a rampa, retrocedera · -porta da casa. Durante um instante Carlos teve a tentaÁ„o de descer, -acabar alli bruscamente aquelle longo tormento. Mas pareceu-lhe uma -brutalidade. E desesperado, detestando-a, berrou ao cocheiro: - ---Outra vez ao Aterro, anda sempre!... - -A tipoia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar; de -novo as pedras da calÁada fizeram tilintir os vidros; de novo, mais -suavemente, desceram a rampa de Santos. - -Ella recomeÁ·ra os seus beijos. Mas tinham perdido a chamma que um -instante os fizera quasi irresistiveis. Agora Carlos sentia sÛ uma -fadiga, um desejo infinito de voltar ao seu quarto, ao repouso de que -ella o arranc·ra para o torturar com estas recriminaÁıes, estes ardores -entre lagrimas... E de repente, emquanto a condessa balbuciava, como -tonta, pendurada do seu pescoÁo,--elle viu surgir n'alma, viva e -resplandecente, a imagem de Maria Eduarda, tranquilla ·quella hora na -sua sala de reps vermelho, fazendo ser„o, confiando n'elle, pensando -n'elle, relembrando as felicidades da vespera, quando a _Toca_, cheia de -seus amores, dormia, branca entre as arvores... Teve ent„o horror · -Gouvarinho; brutalmente, sem piedade, repelliu-a para o canto do coupÈ. - ---Basta! Tudo isto È absurdo... As nossas relaÁıes est„o acabadas, n„o -temos mais nada que nos dizer! - -Ella ficou um instante como atordoada. Depois estremeceu, teve um riso -nervoso, reppelliu-o tambem, phreneticamente, pisando-lhe o braÁo. - ---Pois bem! Vai, deixa-me! Vai para a outra, para a brazileira! Eu -conheÁo-a, È uma aventureira que tem o marido arruinado, e precisa quem -lhe pague as modistas!... - -Elle voltou-se, com os punhos fechados, como para a espancar; e na -tipoia escura, onde j· havia um vago cheiro de verbena, os olhos -d'ambos, sem se vÍrem, dardejavam o odio que os enchia... Carlos bateu -raivosamente no vidro. A tipoia n„o parou. E a Gouvarinho, do outro -lado, furiosa, magoando os dedos, procurava descer a vidraÁa. - ---… melhor que s·ia! dizia ella suffocada. Tenho horror de me achar -aqui, ao seu lado! Tenho horror! Cocheiro! cocheiro! - -O calhambeque parou. Carlos pulou para fÛra, fechou d'estalo a -portinhola; e sem uma palavra, sem erguer o chapÈo, virou costas, abalou -a grandes passadas para o Ramalhete, tremulo ainda, cheio d'idÈas de -rancor, sob a paz da noite estrellada. - - - - -IV - - -Foi n'um sabbado que Affonso da Maia partiu para Santa Olavia. Cedo -n'esse mesmo dia, Maria Eduarda, que o escolhera por ser de boa estreia, -install·ra-se nos Olivaes. E Carlos, voltando de Santa Apolonia, onde -fÙra acompanhar o avÙ, com o Ega, dizia-lhe alegremente: - ---Ent„o aqui ficamos nÛs sÛs a torrar, _na cidade de marmore_ e de -lixo... - ---Antes isso, respondeu o Ega, que andar de sapatos brancos, a scismar, -por entre a poeirada de Cintra! - -Mas no domingo, quando Carlos recolheu ao Ramalhete ao -anoitecer--Baptista annunciou que o snr. Ega tinha partido n'esse -momento para Cintra, levando apenas livros e umas escovas embrulhadas -n'um jornal... O snr. Ega tinha deixado uma carta. E tinha dito: -´Baptista, vou pastar.ª - -A carta, a lapis, n'uma larga folha d'almasso, dizia: ´Assaltou-me de -repente, amigo, juntamente com um horror · caliÁa de Lisboa, uma saudade -infinita da natureza e do verde. A porÁ„o d'animalidade que ainda resta -no meu sÍr civilisado e recivilisado precisa urgentemente -d'espolinhar-se na relva, beber no fio dos regatos, e dormir balanÁada -n'um ramo de castanheiro. O solÌcito Baptista que me remetta ·manh„ pelo -omnibus a mala com que eu n„o quiz sobrecarregar a tipoia do _Mulato_. -Eu demoro-me apenas tres ou quatro dias. O tempo de cavaquear um bocado -com o Absoluto no alto dos _Capuchos_, e vÍr o que est„o fazendo os -myosotis junto · meiga _fonte dos Amores_...ª - ---Pedante! rosnou Carlos, indignado com o abandono ingrato em que o -deixava o Ega. - -E atirando a carta: - ---Baptista! O snr. Ega diz ahi que lhe mandem uma caixa de charutos, dos -_Imperiales_. Manda-lhe antes dos _FlÙr de Cuba_. Os _Imperiales_ s„o um -veneno. Esse animal nem fumar sabe! - -Depois de jantar Carlos percorreu o _Figaro_, folheou um volume de -Byron, bateu carambolas solitarias no bilhar, assobiou _malagueÒas_ no -terrasso--e terminou por sahir, sem destino, para os lados do Aterro. O -Ramalhete entristecia-o, assim mudo, apagado, todo aberto ao calor da -noite. Mas insensivelmente, fumando, achou-se na rua de S. Francisco. As -janellas de Maria Eduarda estavam tambem abertas e negras. Subiu ao -andar do Cruges. O menino Victorino n„o estava em casa... - -AmaldiÁoando o Ega, entrou no Gremio. Encontrou o Taveira, de paletot ao -hombro, lendo os telegrammas. N„o havia nada novo por essa velha Europa; -apenas mais uns Nihilistas enforcados; e elle Taveira ia ao Price... - ---Vem tu tambem d'ahi, Carlinhos! Tens l· uma mulher bonita que se mette -na agua com cobras e crocodilos... Eu pello-me por estas mulheres de -bichos!... Que esta È difficil, traz um _chulo_... Mas eu j· lhe -escrevi: e ella faz-me um bocado d'olho de dentro da tina. - -Arrastou Carlos: e pelo Chiado abaixo fallou-lhe logo do Damaso. N„o -torn·ra a ver essa flÙr? Pois essa flÙr andava apregoando por toda a -parte que o Maia, depois do caso do Chiado, lhe dera por um amigo -explicaÁıes humildes, covardes... Terrivel, aquelle Damaso! Tinha -figura, interior, e natureza de pÈlla! Com quanto mais forÁa se atirava -ao ch„o, mais elle resaltava para o ar, triumphante!... - ---Em todo o caso È uma rez traiÁoeira, e deves ter cautela com elle... - -Carlos encolheu os hombros, rindo. - -N„o, n„o, dizia o Taveira muito sÈrio, eu conheÁo o meu Damaso. Quando -foi da nossa pÈga, em casa da Lola Gorda, elle portou-se como um -poltr„o, mas depois ia-me atrapalhando a vida... … capaz de tudo... -Antes d'hontem estava eu a cear no Silva, elle veio sentar-se um bocado -ao pÈ de mim, e comeÁou logo com umas coisas a teu respeito, umas -ameaÁas... - ---AmeaÁas! Que disse elle? - ---Diz que te d·s ares de espadachim e de valent„o, mas has de encontrar -dentro em pouco quem te ensine... Que se est· ahi preparando um -escandalo monumental... Que se n„o admirar· de te vÍr brevemente com uma -boa bala na cabeÁa... - ---Uma bala? - ---Assim o disse. Tu ris, mas eu È que sei... Eu, se fosse a ti, ia-me ao -Damaso e dizia-lhe: ´Damasosinho, flÙr, fique avisado que, d'ora em -diante, cada vez que me succeder uma coisa desagradavel, venho aqui e -parto-lhe uma costella; tome as suas medidas...ª - -Tinham chegado ao Price. Uma multid„o de domingo, alegre e pasmada, -apinhava-se atÈ ·s ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de -camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os -requebros do palhaÁo, rebocado de c·io e vermelh„o, que tocava nos -pÈsinhos d'uma _voltigeuse_ e lambia os dedos, d'olhos em alvo, n'um -gosto de mel... DescanÁando na sella larga de xairel dourado, a -creatura, magrinha e sÈria, com flÙres nas tranÁas, dava a volta -devagar, ao passo d'um cavallo branco, que mordia o freio, levado · m„o -por um estribeiro; e pela arena o palhaÁo lamb„o e nescio acompanhava-a, -com as m„os ambas apertadas ao coraÁ„o, n'uma supplica babosa, rebolando -languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de -lantejoulas. Um dos escudeiros, de calÁa listrada d'ouro, empurrava-o, -n'um arremedo de ciumes; e o palhaÁo cahia, estatelado, com um estoiro -de nadegas, entre os risos das crianÁas e os rantantans da charanga. O -calor suffocava; e as fumaraÁas de charuto, subindo sem cessar, faziam -uma neva onde tremiam as chammas largas do gaz. Carlos, incommodado, -abalou. - ---Espera ao menos para vÍr a mulher dos crocodilos! gritou ainda o -Taveira. - ---N„o posso, cheira mal, morro! - -Mas · porta, de repente, foi detido pelos braÁos abertos do Alencar, que -chegava--com outro sujeito, velho e alto, de barbas brancas, todo -vestido de luto. O poeta ficou pasmado de vÍr alli o de seu Carlos. -Fazia-o no seu solar Santa de Olavia! Vira atÈ nos papeis publicos... - ---N„o, disse Carlos, o avÙ È que foi hontem... Eu n„o me sinto ainda em -disposiÁ„o do ir communicar com a natureza... - -Alencar riu, levemente afogueado, com um brilho de genebra no olho cavo. -Ao lado, grave, o anci„o de barbas calÁava as suas luvas pretas. - ---Pois eu È o contrario! exclamava o poeta. - -Estou precisado d'um banho de pantheismo! A bella natureza! O prado! O -bosque!... De modo que talvez me mimoseie com Cintra, para a semana. -Est„o l· os Cohens, alugaram uma casita muito bonita, logo adiante do -Victor... - -Os Cohens! Carlos comprehendeu ent„o a fuga do Ega e a ´sua saudade do -verde.ª - ---Ouve l·, dizia-lhe o poeta baixo, e puxando-o pela manga, para o lado. -Tu n„o conheces este meu amigo? Pois foi muito de teu pai, fizemos muita -troÁa juntos... N„o era nenhum personagem, era apenas um alquilador de -cavallos... Mas tu sabes, c· em Portugal, sobretudo n'esses tempos, -havia muita bonhomia, o fidalgo dava-se com o arrieiro... Mas, que -diabo, tu deves conhecel-o! … o tio do Damaso! - -Carlos n„o se recordava. - ---O Guimar„es, o que est· em Paris! - ---Ah, o communista! - ---Sim, muito republicano, homem de idÈas humanitarias, amigo do -Gambetta, escreve no _Rappel_... Homem interessante!... Veio ahi por -causa d'umas terras que herdou do irm„o, d'esse outro tio do Damaso que -morreu ha mezes... E demora-se, creio eu... Pois jantamos hoje juntos, -beberam-se uns liquidos, e atÈ estivemos a fallar de teu pai... Queres -tu que eu t'o apresente? - -Carlos hesitou. Seria melhor n'outra occasi„o mais intima, quando -podessem fumar um charuto tranquillo, e conversar do passado... - ---Valeu! Has de gostar d'elle. Conhece muito Victor Hugo, detesta a -padraria... Espirito largo, espirito muito largo! - -O poeta sacudiu ardentemente as duas m„os de Carlos. O snr. Guimar„es -ergueu de leve o seu chapÈo, carregado de crepe. - -Todo o caminho, atÈ ao Ramalhete, Carlos foi pensando em seu pai e -n'esse passado, assim rememorado e estranhamente resurgido pela presenÁa -d'aquelle patriarcha, antigo alquilador, que fizera com elle tantas -troÁas! E isto trazia conjuntamente outra idÈa, que n'esses ultimos dias -j· o atravess·ra, pertinaz e torturante, dando-lhe, no meio da sua -radiante felicidade, um sombrio arripio de dÙr... Carlos pensava no avÙ. - -Estava agora decidido que Maria Eduarda e elle partiriam para Italia, -nos fins de outubro. Castro Gomes, na sua ultima carta do Brazil, sÍcca -e pretenciosa, fallava ´em apparecer por Lisboa, com as elegancias do -frio, l· para meado de novembroª; e era necessario antes d'isso que -estivessem j· longe, entre as verduras d'Isola Bella, escondidos no seu -amor e separados por elle do mundo como pelos muros d'um claustro. Tudo -isto era facil, considerado quasi legÌtimo pelo seu coraÁ„o, e enchia a -sua vida d'esplendor... SÛmente havia n'isto um espinho--o avÙ! - -Sim, o avÙ! Elle partia com Maria, elle entrava na ventura absoluta; mas -ia destruir de uma vez e para sempre a alegria d'Affonso, e a nobre paz -que lhe tornava t„o bella a velhice. Homem de outras eras, austero e -puro, como uma d'essas fortes almas que nunca desfalleceram--o avÙ, -n'esta franca, viril, rasgada soluÁ„o d'um amor indominavel, sÛ veria -libertinagem! Para elle nada significava o esponsal natural das almas, -acima e fÛra das ficÁıes civis; e nunca comprehenderia essa subtil -ideologia sentimental, com que elles, como todos os transviados, -procuravam azular o seu erro. Para Affonso haveria apenas um homem que -leva a mulher d'outro, leva a filha d'outro, dispersa uma familia, apaga -um lar, e se atola para sempre na concubinagem: todas as subtilezas da -paix„o, por mais finas, por mais fortes, quebrar-se-hiam, como bolas de -sab„o, contra as tres ou quatro idÈas fundamentaes de Dever, de JustiÁa, -de Sociedade, de Familia, duras como blocos de marmore, sobre que -assent·ra a sua vida quasi durante um seculo... E seria para elle como o -horror d'uma fatalidade! J· a mulher de seu filho fugira com um homem, -deixando atraz de si um cadaver; seu neto agora fugia tambem, -arrebatando a familia d'outro:--e a historia da sua casa tornava-se -assim uma repetiÁ„o d'adulterios, de fugas, de dispersıes, sob o bruto -aguilh„o da carne!... Depois as esperanÁas que Affonso fund·ra -n'elle--consideral-as-hia tombadas, mortas no lodo! Elle passava a ser -para sempre, na imaginaÁ„o angustiada do avÙ, um foragido, um -inutilisado, tendo partido todas as raizes que o prendiam ao seu sÛlo, -tendo abdicado toda a acÁ„o que o elevaria no seu paiz, vivendo por -hoteis de refugio, fallando linguas estranhas, entre uma familia -equivoca crescida em torno d'elle como as plantas de uma ruina... -Sombrio tormento, implacavel e sempre presente, que consumiria os -derradeiros annos do pobre avÙ!... Mas, que podia elle fazer? J· o -dissera ao Ega. A vida È assim! Elle n„o tinha o heroismo nem a -santidade que tornam facil o sacrificio... E depois os dissabores do -avÙ, de que provinham? De preconceitos. E a sua felicidade, justo Deus, -tinha direitos mais largos, fundados na natureza!... - -Cheg·ra ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escurid„o. Por -alli entraria em breve do Brazil, o _outro_--que nas suas cartas se -esquecia de mandar um beijo a sua filha! Ah, se elle n„o voltasse! Uma -onda providencial podia leval-o... Tudo se tornaria t„o facil, perfeito -e limpido! De que servia na vida esse resequido? Era como um sacco vazio -que cahisse ao mar! Ah, se _elle_ morresse!... E esquecia-se, enlevado -n'uma vis„o em que a imagem de Maria o chamava, o esperava, livre, -serena, sorrindo e coberta de luto... - -No seu quarto, Baptista, vendo-o atirar-se para uma poltrona com um -suspiro de fadiga, de desconsolaÁ„o,--disse, depois de tossir -risonhamente, e dando mais luz ao candieiro: - ---Isto agora, sem o snr. Ega, parece um bocadinho mais sÛ... - ---Est· sÛ, est· triste, murmurou Carlos. … necessario sacudirmo-nos... -Eu j· te disse que talvez fossemos viajar este inverno... - -O menino n„o lhe tinha dito nada. - ---Pois talvez vamos a Italia... Appetece-te voltar a Italia? - -Baptista reflectiu. - ---Eu, da outra vez n„o vi o Papa... E antes de morrer n„o se me dava de -vÍr o Papa... - ---Pois sim, ha de se arranjar isso, has de vÍr o Papa. - -Baptista, depois d'um silencio, perguntou, lanÁando um olhar ao espelho: - ---Para vÍr o Papa vai-se de casaca, creio eu? - ---Sim, recommendo-te a casaca... O que tu devias ter, para esses casos, -era um habito de Christo... Hei de vÍr se te arranjo um habito de -Christo. - -Baptista ficou um instante assombrado. Depois fez-se escarlate, -d'emoÁ„o: - ---Muito agradecido a v. exc.^a Ha por ahi gente que o tem, ainda talvez -com menos merecimentos que eu... Dizem que atÈ ha barbeiros... - ---Tens raz„o, replicou Carlos muito sÈrio. Era uma vergonha. O que hei -de vÍr se te arranjo com effeito È a commenda da ConceiÁ„o. - - -Todas as manh„s, agora, Carlos percorria o poeirento caminho dos -Olivaes. Para poupar aos seus cavallos a soalheira ia na tipoia do -_Mulato_, o batedor favorito do Ega--que recolhia a parelha na velha -cavalhariÁa da _Toca_, e, atÈ · hora em que Carlos voltava ao Ramalhete, -vadiava pelas tabernas. - -Ordinariamente ao meio dia, ao acabar de almoÁar, Maria Eduarda, ouvindo -rodar o trem na estrada silenciosa, vinha esperar Carlos · porta da -casa, no topo dos degraus ornados de vasos e resguardados por um fresco -toldo de fazenda cÙr de rosa. Na quinta usava sempre vestidos claros; ·s -vezes trazia, · antiga moda hespanhola, uma flÙr entre os cabellos; o -forte e fresco ar do campo avivava com um brilho mais quente o mate -eburneo do seu rosto;--e assim, simples e radiante, entre sol e verdura, -ella deslumbrava Carlos cada dia com um encanto inesperado e maior. -Cerrando o port„o d'entrada, que rangia nos gonzos, Carlos sentia-se -logo envolvido n'um ´extraordinario conforto moralª, como elle dizia, em -que todo o seu sÍr se movia mais facilmente, fluidamente, n'uma -permanente impress„o de harmonia e doÁura... Mas o seu primeiro beijo -era para Rosa, que corria pela rua de acacias ao seu encontro, com uma -onda de cabello negro a bater-lhe os hombros, e _Niniche_ ao lado, -pulando e ladrando de alegria. Elle erguia Rosa ao collo. Maria de longe -sorria-lhes, sob o toldo cÙr de rosa. Em redor tudo era luminoso, -familiar e cheio de paz. - -A casa dentro resplandecia com um arranjo mais delicado. J· se podia -usar o sal„o nobre, que perdera o seu ar rigido de museu, exhalando a -tristeza d'um luxo morto: as flÙres que Maria punha nos vasos, um jornal -esquecido, as l„s de um bordado, o simples roÁar dos seus frescos -vestidos, tinham communicado j· um subtil calor de vida e de conchego -aos mais impertigados contadores do tempo de Carlos V, revestidos de -ferro brunido:--e era alli que elles ficavam conversando emquanto n„o -chegava a hora das liÁıes de Rosa. - -A essa hora apparecia miss Sarah, sÈria e recolhida--sempre de preto, -com uma ferradura de prata em broche sobre o collarinho direito de -homem. Recuper·ra as suas cÙres fortes de boneca, e as pestanas baixas -tinham uma timidez mais virginal sob o liso dos bandÛs puritanos. -Gordinha, com o peito de pomba farta estalando dentro do corpete severo, -mostrava-se toda contente da vida calma e lenta de aldÍa. Mas aquellas -terras trigueiras d'olivedo n„o lhe pareciam campo: ´È muito sÍcco, È -muito duro,ª dizia ella, com uma indefinida saudade dos verdes molhados -da sua Inglaterra, e dos cÈos de nevoa, cinzentos e vagos. - -Davam duas horas; e comeÁavam logo nos quartos de cima as longas liÁıes -de Rosa. Carlos e Maria iam ent„o refugiar-se n'uma intimidade mais -livre, no kiosque japonez, que uma phantasia de Craft, o seu amor do -Jap„o, construira ao pÈ da rua d'acacias, aproveitando a sombra e o -retiro bucolico de dois velhos castanheiros. Maria affeiÁoara-se ·quelle -recanto, chamava-lhe o seu _pensadoiro_. Era todo de madeira, com uma sÛ -janellinha redonda, e um telhado agudo · japoneza, onde roÁavam os -ramos--t„o leve que atravÈs d'elle nos momentos de silencio se sentiam -piar as aves. Craft forr·ra-o todo de esteiras finas da India; uma mesa -de xar„o, algumas faianÁas do Jap„o, ornavam-no sobriamente; o tecto n„o -se via, occulto por uma colcha de sÍda amarella, suspensa pelos quatro -cantos, em laÁos, como o rico docel de uma tenda;--e todo o ligeiro -kiosque parceia ter sido armado sÛ com o fim d'abrigar um divan baixo e -fÙfo, d'uma languidez de serralho, profundo para todos os sonhos, amplo -para todas as preguiÁas... - -Elles entravam, Carlos com algum livro que escolhera na presenÁa de miss -Sarah, Maria Eduarda com um bordado ou uma costura. Mas bordado e livro -cahiam logo no ch„o--e os seus labios, os seus braÁos uniam-se -arrebatadamente. Ella escorregava sobre o divan: Carlos ajoelhava n'uma -almofada, tremulo, impaciente depois da forÁada reserva diante de Rosa e -diante de Sarah--e alli ficava, abraÁado · sua cintura, balbuciando mil -coisas pueris e ardentes, por entre longos beijos que os deixavam -frouxos, com os olhos cerrados, n'uma doÁura de desmaio. Ella queria -saber o que elle tinha feito durante a longa, longa noite de separaÁ„o. -E Carlos nada tinha a contar sen„o que pens·ra n'ella, que sonh·ra com -ella... Depois era um silencio: os pardaes piaram, as pombas arrulhavam -por cima do leve telhado: e _Niniche_, que os acompanhava sempre, seguia -os seus murmurios, os seus silencios, enroscada a um canto, com um olho -negro, reluzindo desconfiadamente por entre as repas prateadas. - -FÛra, por aquelles dias de calma, sem aragem, a quinta sÍcca, d'um verde -empoeirado, dormia com as folhagens immoveis, sob o peso do sol. Da casa -branca, atravÈs das persianas fechadas, vinha apenas o som amodorrado -das escalas que Rosa fazia no piano. E no kiosque havÌa tambem um -silencio satisfeito e pleno--sÛmente quebrado por algum dÙce suspiro de -lassid„o que sahia do divan, d'entre as almofadas de sÍda, ou algum -beijo mais longo e d'um remate mais profundo... Era _Niniche_ que os -tirava d'aquelle suave entorpecimento, farta de estar alli quieta, -encerrada entre as madeiras quentes, n'um ar molle j· repassado d'esse -aroma indefinido em que havia jasmim. - -Lenta, e passando as m„os no rosto Maria erguia-se--mas para cahir logo -aos pÈs de Carlos, no seu reconhecimento infinito... Meu Deus, o que lhe -custava ent„o esse momento de separaÁ„o! Para que havia de ser assim? -Parecia t„o pouco natural, esposos como eram, que ella ficasse alli toda -a noite, sÛsinha, com o seu desejo d'elle, e elle fosse, sem as suas -carÌcias, dormir solitariamente ao Ramalhete!... E ainda se demoravam -muito tempo, n'uma mudez d'extasi, em que os olhos humidos, -trespassando-se, continuavam o beijo insaciado que morrera nos seus -labios canÁados. Era _Niniche_ que os fazia sahir por fim trotando -impacientemente da porta para o divan, rosnando, ameaÁando ladrar. - -Muitas vezes ao recolherem Maria tinha uma inquietaÁ„o. Que pensaria -miss Sarah d'esta sÈsta assim enclausurada, sem um rumor, com a janella -do pavilh„o cerrada? Melanie, desde pequena ao serviÁo de Maria, era uma -confidente: o bom Domingos, um imbecil, n„o contava: mas miss Sarah?... -Maria confessava sorrindo que se sentia um pouco humilhada, ao encontrar -depois · mesa os candidos olhos da ingleza sob os seus bandÛs -virginaes... Est· claro! se a boa miss tivesse a ousadia de resmungar ou -franzir de leve a testa, recebia logo seccamente a sua passagem no -_Royal Mail_ para Southampton! Rosa n„o a lamentaria, Rosa n„o lhe tinha -affeiÁ„o. Mas, emfim, era t„o sÈria, admirava tanto a senhora! Ella n„o -gostava de perder a admiraÁ„o d'uma rapariga t„o sÈria. E assim -decidiram despedir miss Sarah, rÈgiamente paga, e substituil-a, mais -tarde, em Italia, por uma governante allem„, para quem elles fossem como -casados, ´Monsieur et Madame...ª - -Mas pouco a pouco o desejo d'uma felicidade mais intima, mais completa, -foi crescendo n'elles. N„o lhes bastava j· essa curta manh„ no divan com -os passaros cantando por cima, a quinta cheia de sol, tudo acordado em -redor: appeteciam o longo contentamento d'uma longa noite, quando os -seus braÁos se podessem enlaÁar sem encontrar o estofo dos vestidos, e -tudo dormisse em torno, os campos, a gente e a luz... De resto era bem -facil! A sala de tapeÁarias, communicando com a alcova de Maria, abria -sobre o jardim por uma porta envidraÁada; a governante, os criados, -subiam ·s dez horas para os seus quartos no andar alto; a casa adormecia -profundamente; Carlos tinha uma chave do port„o; e o unico c„o, -_Niniche_, era o confidente fiel dos seus beijos... - -Maria desejava essa noite t„o ardentemente como elle. Uma tarde ao -escurecer, voltando d'um fresco passeio nos campos, experimentaram ambos -essa dupla chave--que Carlos j· promettia mandar dourar: e elle ficou -surprehendido ao vÍr que o velho port„o, que ouvira sempre ranger -abominavelmente, rolava agora nos gonzos com um silencio oleoso. - -Veio n'essa mesma noite--tendo deixado na villa para o levar ao -amanhecer a caleche do _Mulato_, um batedor discreto, que elle cevava de -gorgetas. O cÈo, molle e abafado, n„o tinha uma estrella; e sobre o mar -lampejava a espaÁos, mudamente, a lividez d'um relampago. Caminhando com -inuteis cautelas rente do muro Carlos sentia, n'esta proximidade d'uma -posse t„o desejada, uma melancolia, cortada de anciedade, que vagamente -o acobardava. Abriu quasi a tremer o port„o: e mal dÈra alguns passos -estacou, ouvindo ao fundo _Niniche_ ladrar furiosamente. Mas tudo -emmudeceu; e da janella do canto, sobre o jardim, surgiu uma claridade -que o socegou. Foi encontrar Maria, com um roup„o de rendas, junto da -porta envidraÁada, suffocando quasi entre os braÁos _Niniche_ que ainda -rosnava. Estava toda medrosa, n'uma impaciencia de o sentir ao seu lado: -e n„o quiz recolher logo: um momento ficaram alli, sentados nos degraus, -com _Niniche_ que aquiet·ra e lambia Carlos. Tudo em redor era como uma -infinita mancha de tinta; sÛ l· em baixo, perdida e mortiÁa, surdia da -treva alguma luzinha vacillando no alto d'um mastro. Maria, conchegada a -Carlos, refugiada n'elle, deu um longo suspiro: e os seus olhos -mergulhavam inquietos n'aquella mudez negra, onde os arbustos familiares -do jardim, toda a quinta, parecia perder a realidade, sumida, diluida na -sombra. - ---Porque n„o havemos de partir j· para a Italia? perguntou ella de -repente, procurando a m„o de Carlos. Se tem de ser, porque n„o ha de ser -j·?... Escusavamos de ter estes segredos, estes sustos! - ---Sustos de que, meu amor? Estamos aqui t„o seguros como na Italia, como -na China... De resto podemos partir mais depressa, se quizeres... Dize -tu um dia, marca um dia! - -Ella n„o respondeu, deixando cahir dÙcemente a cabeÁa sobre o hombro de -Carlos. Elle acrescentou, devagar: - ---Em todo o caso, comprehendes bem, preciso primeiro ir a Santa Olavia, -vÍr o avÙ... - -Os olhos de Maria perdiam-se outra vez na escurid„o--como recebendo -d'ella o presagio d'um futuro, onde tudo seria confuso e escuro tambem. - ---Tu tens Santa Olavia, tens teu avÙ, tens os teus amigos... Eu n„o -tenho ninguem! - -Carlos estreitou-a a si, enternecido. - ---N„o tens ninguem! Isso dito a mim! Nem chega a ser injustiÁa, nem -chega a ser ingratid„o! … nervoso; e È tambem o que os inglezes chamam a -´impudente adulteraÁ„o d'um facto.ª - -Ella fic·ra aninhada no peito de Carlos, como desfallecida. - ---N„o sei porque, queria morrer... - -Um largo brilho de relampago alumiou o rio. Maria teve medo, entraram na -alcova. Os mÛlhos de velas de duas serpentinas, batendo os damascos e os -setins amarellos, embebiam o ar tepido, onde errava um perfume, n'uma -refulgencia ardente de sacrario: e as bretanhas, as rendas do leito j· -aberto punham uma casta alvura de neve fresca n'esse luxo amoroso e cÙr -de chamma. FÛra, para os lados do mar, um trov„o rolou lento e surdo. -Mas Maria j· o n„o ouviu, cahida nos braÁos de Carlos. Nunca o desej·ra, -nunca o ador·ra tanto! Os seus beijos anciosos pareciam tender mais -longe que a carne, trespassal-o, querer sorver-lhe a vontade e a -alma:--e toda a noite, entre esses brocados radiantes, com os cabellos -soltos, divina na sua nudez, ella lhe appareceu realmente como a Deusa -que elle sempre imagin·ra, que o arrebatava emfim, apertado ao seu seio -immortal, e com elle pairava n'uma celebraÁ„o d'amor, muito alto, sobre -nuvens de ouro... - -Quando sahiu, ao amanhecer, chovia. Foi encontrar o _Mulato_ a dormir -n'uma taberna, bebedo. Teve de o metter dentro do carro; e foi elle que -governou atÈ ao Ramalhete, embrulhado n'uma manta do taberneiro, -encharcado, cantarolando, esplendidamente feliz. - -Passados dias, passeando com Maria nos arredores da _Toca_, Carlos -reparou n'uma casita, · beira da estrada, com escriptos: e veio-lhe logo -a idÈa de a alugar, para evitar aquella desagradavel partida de -madrugada com o _Mulato_ estremunhado, borracho, despedaÁando o trem -pelas calÁadas. Visitaram-na: havia um quarto largo, que com tapete e -cortinas podia dar um refugio confortavel. Tomou-a logo--e Baptista veio -ao outro dia, com moveis n'uma carroÁa, arranjar este novo ninho. Maria -disse, quasi triste: - ---Mais outra casa! - ---Esta, exclamou Carlos rindo, È a ultima! N„o, È a penultima... Temos -ainda a outra, a nossa, a verdadeira, l· longe, n„o sei onde... - -ComeÁaram a encontrar-se todas as noites. ¡s nove e meia, pontualmente, -Carlos deixava a _Toca_, com o seu charuto accÍso: e Domingos, adiante, -de lanterna, vinha fechar o port„o, tirar a chave. Elle recolhia devagar -· sua ´choupanaª onde o servia um criadito, filho do jardineiro do -Ramalhete. Sobre um tapete solto, deitado no velho soalho, havia apenas, -alÈm do leito, uma mesa, um sof· de riscadinho, duas cadeiras de palha; -e Carlos entretinha as horas que o separavam ainda de Maria, escrevendo -para Santa Olavia e sobretudo ao Ega, que se eternisava em Cintra. - -Recebera duas cartas d'elle, fallando quasi sÛmente do Damaso. O Damaso -apparecia em toda a parte com a Cohen; o Damaso torn·ra-se grutesco em -Cintra, n'uma corrida de burros; o Damaso arvor·ra capacete e vÈo em -Sitiaes; o Damaso era uma besta immunda; o Damaso, no pateo do Victor, -de perna traÁada, dizia familiarmente ´a Rachelª; era um dever de -moralidade publica dar bengaladas no Damaso!... Carlos encolhia os -hombros, achando estes ciumes indignos do coraÁ„o do Ega. E ent„o por -quem! Por aquella lambisgoia d'Israel, melada e mollenga, sovada a -bengala! ´Se com effeito, escrevera elle ao Ega, ella desceu de ti atÈ -ao Damaso, tens sÛ a fazer como se fosse um charuto que te cahisse · -lama: n„o o pÛdes naturalmente levantar: deves deixar fumal-o em paz ao -garoto que o apanhou: enfurecer-te com o garoto ou com o charuto, È -d'imbecil.ª Mas ordinariamente, quando respondia, fallava sÛ ao Ega dos -Olivaes, dos seus passeios com Maria, das conversas d'ella, do encanto -d'ella, da superioridade d'ella... Ao avÙ n„o achava que dizer; nas dez -linhas que lhe destinava, descrevia o calor, recommendava-lhe que n„o se -fatigasse, mandava saudades para os hospedes, e dava-lhe recados do -Manoelzinho--que elle nunca via. - -Quando n„o tinha que escrever, estirava-se no sof·, com um livro aberto, -os olhos no ponteiro do relogio. ¡ meia noite sahia, encafuado n'um -gab„o d'Aveiro, e de varapau. Os seus passos resoavam, solitarios na -mudez dos campos, com uma indefinida melancolia de segredo e de culpa... - -N'uma d'essas noites, de grande calor, Carlos canÁado adormeceu no sof·: -e sÛ despertou, em sobresalto, quando o relogio na parede dava -tristemente duas horas. Que desespero! Ahi ficava perdida a sua noite de -amor! E Maria decerto · espera, angustiada, imaginando desastres!... -Agarrou o cajado, abalou, correndo pela estrada. Depois, ao abrir -subtilmente o port„o da quinta, pensou que Maria teria adormecido: -_Niniche_ podia ladrar: os seus passos, entre as acacias, abafaram-se, -mais cautelosos. E de repente sentiu ao lado, sob as ramagens, vindo do -ch„o, d'entre a herva, um resfolgar ardente d'homem, a que se misturavam -beijos. Parou, varado: e o seu impeto logo foi esmagar a cacete aquelles -dois animaes, enroscados na relva, sujando brutamente o poetico retiro -dos seus amores. Uma alvura de saia moveu-se no escuro: uma voz -soluÁava, desfalecida--_oh yes, oh yes_... Era a ingleza! - -Oh santo Deus, era a ingleza, era miss Sarah! Apagando os passos, -atordoado, Carlos escoou-se pelo port„o, cerrou-o mansamente, foi -esperar adiante, n'um recanto do muro, sob as ramarias d'uma faia, -sumido na sombra. E tremia de indignaÁ„o. Era preciso contar -immediatamente a Maria aquelle grande _horror_! N„o queria que ella -consentisse um momento mais essa impura fÍmea, junto de Rosa, roÁando a -candidez do seu anjo... Oh, era pavorosa uma tal hypocrisia, assim -astuta e methodica, sem se desconcertar j·mais! Havia dias apenas, vira -a creatura desviar os olhos d'uma gravura d'_IllustraÁ„o_, onde dois -castos pastores se beijavam n'um arvoredo bucolico! E agora rugia, -estirada na herva! - -Na estrada escura, do lado do port„o, brilhou um lume de cigarro. Um -homem passou, forte e pesado, com uma manta aos hombros. Parecia um -jornaleiro. A boa miss Sarah n„o escolhera! Bem lavada, toda correcta, -com os seus bandÛs puritanos, aceitava _um qualquer_, rude e sujo, desde -que era um macho! E assim os embaÌra, mezes, com aquellas suas duas -existencias, t„o separadas, t„o completas! De dia virginal, severa, -cÛrando sempre, com a Biblia no cesto da costura: · noite a pequena -adormecia, todos os seus deveres sÈrios acabavam, a santa -transformava-se em cabra, chale aos hombros, e l· ia para a relva, com -qualquer!... Que bello romance para o Ega! - -Voltou; tornou a abrir devagarinho o port„o: de novo subiu, amollecendo -os passos, a sombria rua d'acacias. Mas agora ia sentindo uma hesitaÁ„o -em contar a Maria _aquelle horror_. A seu pezar pensava que tambem Maria -o esperava, com o leito aberto, no silencio da casa adormecida; e que -tambem elle penetrava alli, ·s escondidas, como o homem da manta... De -certo era bem differente! Toda a immensuravel differenÁa que vai do -divino ao bestial... E todavia receava despertar os melindrosos -escrupulos de Maria, mostrando-lhe, parallelo ao seu amor cheio de -requintes e passado entre brocados cÙr d'ouro, aquelle outro rude amor, -secreto e illegitimo como o d'ella, e arrastado brutamente na relva... -Era como mostrar-lhe um reflexo da sua propria culpa, um pouco esfumada, -mais grosseira, mas parecida nos seus contornos, lamentavelmente -parecida... N„o, n„o diria nada. E a pequena?... Oh, nas suas relaÁıes -com Rosa a creatura continuaria a ser, como sempre, a puritana -laboriosa, grave e cheia d'ordem. - -A porta envidraÁada sobre o jardim tinha ainda luz: elle atirou aos -vidros uma pouca de terra solta, depois bateu de leve. Maria appareceu, -mal embrulhada n'um roup„o, juntando os cabellos que se tinham -desenrolado, e meia adormecida. - ---Porque vieste t„o tarde? - -Carlos beijou longamente os seus bellos olhos pesados, quasi cerrados. - ---Adormeci estupidamente, a lÍr... Depois, quando entrei pareceu-me -ouvir passos na quinta, andei a rebuscar... Era imaginaÁ„o, tudo -deserto. - ---Precisavamos ter um c„o de fila, murmurou ella, espreguiÁando-se. - -Sentada · beira do leito, com os braÁos cahidos e adormentados, sorria -da sua preguiÁa. - ---Est·s t„o fatigada, filha! queres tu que me v· embora ?... - -Ella puxou-o para o seu seio perfumado e quente. - ---Je veux que tu m'aimes beaucoup, beaucoup, et longtemps... - -Ao outro dia Carlos n„o fÙra a Lisboa, e appareceu cedo na _Toca_. -Melanie, que andava espanejando o kiosque, disse-lhe que Madame, um -pouco canÁada, tinha justamente tomado o seu chocolate na cama. Elle -entrou no sal„o: defronte da janella aberta, sentada no banco de -cortiÁa, miss Sarah costurava, · sombra das arvores. - ---_Good morning_, disse-lhe Carlos, chegando-se ao peitoril, todo -curioso de a observar. - ---_Good morning, sir_, respondeu ella com o seu ar modesto e tÌmido. - -Carlos fallou do calor. Miss Sarah j· ·quella hora o achava intoleravel. -Felizmente a vista do rio, l· em baixo, refrescava... - -Sobretudo a noite passada, insistiu Carlos accendendo a cigarrette, fÙra -t„o abafada! Elle mal pudera dormir. E ella? - -Oh, ella dormira d'um somno sÛ. Carlos quiz saber se tivera bonitos -sonhos. - ---_Oh yes, sir_. - -_Oh yes!_ mas agora um yes pudico, sem gemidos, com os olhos baixos. E -t„o correcta, t„o pregada, fresca como se nunca tivesse servido!... -Positivamente era extraordinaria! E Carlos, torcendo o bigode, pensava -que ella devia ter um seiosinho bem alvo e bem redondinho! - - - -Assim ia passando o ver„o nos Olivaes. No comeÁo de setembro, Carlos -soube por uma carta do avÙ que Craft devia chegar a Lisboa, n'um -sabbado, ao Hotel Central: e correu l· cedo, logo n'essa manh„, a ouvir -as novidades de Santa Olavia. Achou Craft j· a pÈ, diante do espelho, -fazendo a barba. A um canto do sof·, Eusebiosinho, que viera na vespera -· noite de Cintra e estava tambem no Hotel, limpava as unhas com um -canivete, em silencio, coberto de negro. - -Craft vinha encantado com Santa Olavia. Nem comprehendia como Affonso, -beir„o forte, tolerava a rua de S. Francisco, e o quintalejo abafado do -Ramalhete. Tinha-se passado rÈgiamente! O avÙ, cheio de saude, d'uma -hospitalidade que lembrava Abrah„o e a Biblia. O Sequeira optimo comendo -tanto que ficava inutil depois de jantar, a estoirar e a gemer no fundo -d'uma poltrona. L· conhecera o velho Travassos, que fallava sempre com -os olhos cheios de lagrimas do ´talento do seu caro collega Carlos.ª E o -marquez esplendido, com abraÁos de primo a todos os fidalgotes de -Lamego, e apaixonado por uma barqueira... De resto soberbos jantares, -alguns tiros aos coelhos, uma romaria, danÁas de raparigas no adro, -guitarradas, esfolhadas, todo o dÙce idyllio portuguez... - ---Mas a respeito de Santa Olavia temos a fallar mais sÈriamente, disse -por fim Craft, entrando na alcova, a ensaboar a cabeÁa. - ---E tu, perguntou ent„o Carlos, voltando-se para o Eusebiosinho. Tens -estado em Cintra, hein? Que se faz l·?... O Ega? - -O outro ergueu-se guardando o canivete, ageitando as lunetas. - ---L· est· no Victor, muito engraÁado, comprou um burro... L· est· o -Damaso tambem... Mas esse pouco se vÍ, n„o larga os Cohens... Emfim -tem-se passado menos mal, com bastante calor... - ---Tu estavas outra vez com a mesma prostituta, a Lola? - -Eusebiosinho fez-se escarlate. Credo! estava no Victor, muito sÈrio! O -Palma È que l· tinha apparecido com uma rapariga portugueza... Tinha -agora um jornal, _A Corneta do Diabo_. - ---_A Corneta...?_ - ---Sim, _do Diabo_, disse o Eusebiosinho. … um jornal de pilherias, de -picuinhas... Elle j· existia, chamava-se o _Apito_; mas agora passou -para o Palma; elle vae-lhe augmentar o formato, e metter-lhe mais -chalaÁa... - ---Emfim, disse Carlos, qualquer coisa sebacea e immunda como elle... - -Craft reappareceu, enxugando a cabeÁa. E emquanto se vestia, fallou de -uma viagem que agora o tentava, que estivera planeando em Santa Olavia. -Como j· n„o tinha a _Toca_, e a sua casa ao pÈ do Porto necessitava -longas obras, ia passar o inverno ao Egypto, subindo o Nilo, em -communicaÁ„o espiritual com a antiguidade Pharaonica. Depois talvez se -adiantasse atÈ Bagdad, a vÍr o Euphrates, e os sitios de Babylonia... - ---Por isso eu lhe vi alli, na mesa, exclamou Carlos, um livro, _Ninive e -Babylonia_... Que diabo, vocÍ gosta d'isso? Eu tenho horror a raÁas e a -civilisaÁıes defuntas... N„o me interessa sen„o a Vida. - ---… que vocÍ È um sensual, disse Craft. E a proposito de sensualidade e -de Babylonia, quer vir vocÍ almoÁar ao BraganÁa? Eu tenho de l· -encontrar um inglez, o meu homem das minas... Mas havemos d'ir pela rua -do Ouro, que quero trepar um instante · caverna do meu procurador... E a -caminho, que È meio dia! - -Deixaram o Eusebiosinho, em baixo na sala, ageitando as suas lugubres -lunetas negras diante dos telegrammas. E apenas sahira o pateo, Craft -travou do braÁo de Carlos, e disse-lhe que as coisas sÈrias a respeito -de Santa Olavia--era o visivel, profundo desgosto do avÙ por elle n„o -ter l· apparecido. - ---Seu avÙ n„o me disse nada, mas eu sei que elle est· muitissimo magoado -com vocÍ. N„o ha desculpa, s„o umas horas de viagem... VocÍ sabe como -elle o adora... Que diabo! _Est modus in rebus_. - ---Com effeito, murmurou Carlos. Eu devia ter l· ido... Que quer vocÍ, -amigo?... Emfim acabou-se, È necessario fazer um esforÁo!... Talvez -parta para a semana com o Ega. - ---Sim, homem, dÍ-lhe esse alegr„o... Esteja l· umas semanas... - ---_Est modus in rebus_. Hei de vÍr se l· estou uns dias. - -A caverna do procurador era defronte do Monte-Pio. Carlos esperava, -havia momentos, dando por diante das lojas uma volta lenta--quando de -repente avistou Melanie, a sahir o port„o do Monte-Pio, com uma matrona -gorda, de chapÈo rÙxo. Surprehendido, atravessou a rua. Ella estacou -como apanhada, fazendo-se toda vermelha; e nem deixou vir a pergunta; -balbuciou logo que Madame lhe dÈra licenÁa para vir a Lisboa, e ella -andava acompanhando aquella amiga... Uma velha caleche, de parelha -branca, estava encalhada alli, contra o passeio. Melanie saltou para -dentro, · pressa. A traquitana rodou aos solavancos para o Terreiro do -PaÁo. - -Carlos via-a desapparecer, pasmado. E Craft, que volt·ra, olhando -tambem, reconheceu no lamentavel calhambeque a caleche do _Torto_, dos -Olivaes, onde elle ·s vezes costumava vir ´janotar a Lisboaª. - ---Era alguem l· da _Toca_? perguntou. - -Uma criada, disse Carlos, ainda espantado d'aquelle estranho embaraÁo de -Melanie. - -E mal tinham dado alguns passos, Carlos, parando, baixando a voz no -rumor da rua: - ---OuÁa l·! O Eusebiosinho disse-lhe alguma coisa a meu respeito, Craft? - -O outro confessou que Eusebiosinho, apenas lhe apparecera no quarto, -rompera logo, mascando as palavras, a informal-o da mysteriosa vida de -Carlos nos Olivaes... - ---Mas eu fil-o calar, acrescentou Craft, declarando-lhe que era t„o -pouco curioso que nem mesmo quizera lÍr nunca a _Historia Romana_... Em -todo o caso vocÍ deve ir a Santa Olavia. - -Carlos, com effeito, logo n'essa noite fallou a Maria da visita que -devia ao avÙ. Ella, muito sÈria, aconselhou-lh'a tambem, arrependida de -o ter retido assim, egoisticamente e tanto tempo, longe dos outros que o -amavam. - ---Mas ouve, querido, n„o È por muito tempo, n„o? - ---Por dois ou tres dias, quando muito. E naturalmente, trago atÈ o avÙ. -N„o est· l· a fazer nada, e eu n„o estou para a massada de voltar l·... - -Maria ent„o lanÁou-lhe os braÁos ao pescoÁo, e baixo, timidamente, -confessou-lhe um grande desejo que tinha... Era vÍr o Ramalhete! Queria -visitar os quartos d'elle, o jardim, todos esses recantos, onde tantas -vezes elle pensara n'ella, e se desesper·ra, sentindo-a distante e -inaccessivel... - ---Dize, queres? Mas È necessario que seja antes de vir teu avÙ. Queres? - ---Acho um encanto! Ha sÛ um perigo. … eu n„o te deixar sahir mais e -ficar a devorar-te na minha caverna. - ---Prouvera a Deus! - -Combinaram ent„o que ella fosse jantar ao Ramalhete, no dia da partida -de Carlos para Santa Olavia. ¡ noitinha levava-o no coupÈ a Santa -Apolonia; depois seguia para os Olivaes. - -Foi no sabbado. Carlos veio muito cedo para o Ramalhete: e o seu coraÁ„o -batia com a deliciosa perturbaÁ„o d'um primeiro encontro, quando sentiu -parar a carruagem de Maria e os seus vestidos escuros roÁarem o velludo -cÙr de cereja que forrava a escada discreta dos seus quartos. O beijo -que trocaram, na ante-camara, teve a profunda doÁura d'um primeiro -beijo! - -Ella foi logo ao toucador tirar o chapÈo, dar um geito ao cabello. Elle -n„o cessava de a beijar; abraÁava-a pela cinta; e com os rostos juntos -sorriam para o espelho, enlevados no brilho da sua mocidade. Depois, -impaciente, curiosa, ella percorreu os quartos, miudamente, atÈ · alcova -de banho; leu os titulos dos livros, respirou o perfume dos frascos, -abriu os cortinados de sÍda do leito... Sobre uma commoda Luiz XV havia -uma salva de prata, transbordando de retratos que Carlos se esquecera de -esconder, a coronella d'hussards d'amazona, madame Rughel decotada, -outras ainda. Ella mergulhou as m„os, com um sorriso triste, na profus„o -d'aquellas recordaÁıes... Carlos, rindo, pediu-lhe que n„o olhasse -´esses enganos do seu coraÁ„oª. - -Porque n„o? dizia Maria, sÈria. Sabia bem que elle n„o descera das -nuvens, puro como um seraphim. Havia sempre photographias no passado -d'um homem. De resto tinha a certeza que nunca am·ra as outras como a -sabia amar a ella. - ---AtÈ È uma profanaÁ„o fallar em _amor_ quando se trata d'essas coisas -d'acaso, murmurou Carlos. S„o quartos de estalagem onde se dorme uma -vez... - -No emtanto Maria considerava longamente a photographia da coronella -d'hussards. Parecia-lhe bem linda! Quem era? Uma franceza? - ---N„o, de Vienna. Mulher d'um correspondente meu, homem de negocios... -Gente tranquilla, que vivia no campo... - ---Ah, Viennense... Dizem que tem um grande encanto as mulheres de -Vienna! - -Carlos tirou-lhe a photographia da m„o. Para que haviam de fallar -d'outras mulheres? Existia em todo o vasto mundo uma mulher unica, e -elle tinha-a alli abraÁada sobre o seu coraÁ„o. - -Foram ent„o percorrer todo o Ramalhete, atÈ ao terraÁo. Ella gostou -sobretudo do escriptorio d'Affonso, com os seus damascos de camara de -prelado, a sua feiÁ„o severa de paz estudiosa. - ---N„o sei porque, murmurou dando um olhar lento ·s estantes pesadas e ao -Christo na cruz, n„o sei porque, mas teu avÙ faz-me medo! - -Carlos riu. Que tonteria! O avÙ se a conhecesse, fazia-lhe logo a cÙrte -rasgadamente... O avÙ era um santo! E um lindo velho! - ---Teve paixıes? - ---N„o sei, talvez... Mas creio que o avÙ foi sempre um puritano. - -Desceram ao jardim, que lhe agradou tambem, quieto e burguez, com a sua -cascatasinha chorando n'um rythmo dÙce. Sentaram-se um instante sob o -velho cedro, junto a uma mesa rustica de pedra, onde estavam entalhadas -letras mal distinctas e uma data antiga; o chalrar das aves nos ramos -pareceu a Maria mais dÙce que o de todas as outras aves que ouvira; -depois arranjou um ramo para levar como reliquia. - -Mesmo em cabello foram vÍr defronte as cocheiras: o guarda-port„o ficou -de bonÈ na m„o, embasbacado para aquella senhora t„o linda, t„o loira, a -primeira que via entrar no Ramalhete! Maria acariciou os cavallos, e fez -uma festa grata e mais longa · _Tunante_, que tantas vezes lev·ra Carlos -· rua de S. Francisco. Elle via n'estas simples coisas as graÁas -incomparaveis d'uma esposa perfeita. - -Recolheram pela escada particular de Carlos--que Maria achava -´mysteriosaª com aquelles velludos grossos cÙr de cereja, forrando-a -como um cofre, e abafando todo o rumor de saias. Carlos jurou que nunca -alli pass·ra outro vestido--a n„o ser o do Ega, uma vez, mascarado de -varina. - -Depois deixou-a no quarto, um momento para ir dar ordens ao Baptista: -mas quando voltou encontrou-a a um canto do sof·, t„o descahida, t„o -desanimada, que lhe arrebatou as m„os, cheio d'inquietaÁ„o. - ---Que tens, amor? Est·s doente? - -Ella ergueu lentamente os olhos que brilhavam n'uma nevoa de lagrimas. - -Pensar que tu vaes deixar por mim esta linda casa, o teu conforto, a tua -paz, os teus amigos... … uma tristeza, tenho remorsos! - -Carlos ajoelh·ra ao seu lado, sorrindo dos seus escrupulos, chamando-lhe -tonta, seccando-lhe n'um beijo as lagrimas que rolavam... Considerava-se -ella ent„o valendo menos que a cascata do jardim e alguns tapetes -usados?... - ---O que eu tenho pena È de te sacrificar t„o pouco, minha querida Maria, -quando tu sacrificas tanto! - -Ella encolheu os hombros, amargamente. - ---Eu! - -Passou-lhe as m„os entre os cabellos, puxou-o brandamente para o seu -seio--e dizia, baixo, como fallando ao seu proprio coraÁ„o, calmando-lhe -as incertezas e as duvidas: - ---N„o, com effeito, nada vale no mundo sen„o o nosso amor! Nada mais -vale! Se elle È verdadeiro, se È profundo, tudo mais È v„o, nada mais -importa... - -A sua voz morreu entre os beijos de Carlos, que a levava abraÁada para o -leito--onde tentas vezes desesperava d'ella como d'uma deusa intangivel. - -¡s cinco horas pensaram em jantar. A mesa fÙra posta n'uma saleta que -Carlos quizera em tempo revestir de colxas de setim cÙr de perola e -bot„o d'ouro. Mas n„o estava ainda arranjada; as paredes conservavam o -seu papel verde-escuro; e Carlos puzera alli ultimamente o retrato de -seu pai--uma teia banal, representando um moÁo pallido, de grandes -olhos, com luvas de camurÁa amarella e um chicote na m„o. - -Era Baptista que os servia, j· com um fato claro de viagem. A mesa, -redonda e pequena, parecia uma cesta de flÙres; o champagne gelava -dentro dos baldes de prata; no aparador a travessa d'arroz dÙce tinha as -iniciaes de Maria. - -Aquelles lindos cuidados fizeram-na sorrir, enternecida. Depois reparou -no retrato de Pedro da Maia: e interressou-se, ficou a contemplar -aquella face descÛrada, que o tempo fizera livida, e onde pareciam mais -tristes os grandes olhos d'arabe, negros e languidos. - ---Quem È? perguntou. - ---… meu pai. - -Ella examinou-o mais de perto, erguendo uma vela. N„o achava que Carlos -se parecesse com elle. E voltando-se muito sÈria, emquanto Carlos -desarrolhava com veneraÁ„o uma garrafa de velho Chambertin: - ---Sabes tu com quem te pareces ·s vezes?... … extraordinario, mas È -verdade. Pareces-te com minha m„i! - -Carlos riu, encantado d'uma parecenÁa que os aproximava mais, e que o -lisonjeava. - ---Tens raz„o, disse ella, que a mam„ era formosa... Pois È verdade, ha -um n„o sei quÍ na testa, no nariz... Mas sobretudo certos geitos, uma -maneira de sorrir... Outra maneira que tu tens de ficar assim um pouco -vago, esquecido... Tenho pensado n'isto muitas vezes... - -Baptista entrava com uma terrina de louÁa do Jap„o. E Carlos, -alegremente, annunciou um jantar · portugueza. Mr. Antoine, o _chef -francez_, fÙra com o avÙ. Fic·ra a Michaela, outra cozinheira de casa, -que elle achava magnifica, e que conservava a tradiÁ„o da antiga cozinha -freiratica do tempo do snr. D. Jo„o V. - ---Assim, para comeÁar, minha querida Maria, ahi tens tu um caldo de -gallinha, como sÛ se comia em Odivellas, na cella da madre Paula, em -noites de noivado mystico... - -E o jantar foi encantador. Quando Baptista se retirava, elles -apertavam-se rapidamente a m„o por cima das flÙres. Nunca Carlos a -ach·ra t„o linda, t„o perfeita: os seus olhos pareciam- lhe irradiar uma -ternura maior: na singela rosa que lhe ornava o peito via a -superioridade do seu gosto. E o mesmo desejo invadiu-os a ambos, de -ficarem alli eternamente, n'aquelle quarto de rapaz, com jantarinhos -portuguezes · moda de D. Jo„o V, servidos pelo Baptista de jaquet„o. - ---Estou com uma vontade de perder o comboio! disse Carlos como -implorando a sua approvaÁ„o. - ---N„o, deves ir... È necessario n„o sermos egoistas... SÛmente n„o te -descuides, manda-me todos os dias um grande telegramma... Que os -telegraphos foram unicamente inventados para quem se ama e est· longe, -como dizia a mam„. - -Ent„o Carlos gracejou de novo sobre a sua parecenÁa com a m„i d'ella. E -baixando-se a remexer a garrafa de champagne dentro do gelo: - ---… curioso n„o m'o teres dito antes... Tambem tu nunca me fallaste de -tua m„i... - -Um pouco de sangue roseou a face de Maria Eduarda. Oh, nunca fall·ra da -mam„, porque nunca viera a proposito... - ---De resto n„o havia coisas muito interessantes a contar, acrescentou. A -mam„ era uma senhora da ilha da Madeira, n„o tinha fortuna, casou... - ---Casou em Paris? - ---N„o, casou na Madeira com um austriaco que fÙra l· acompanhar um irm„o -tisico... Era um homem muito distincto, viu a mam„, que era lindÌssima, -gostaram um do outro, _et voil‡_... - -Dissera isto sem erguer os olhos do prato, lentamente, cortando uma aza -de frango. - ---Mas ent„o, exclamou Carlos, se teu pai era austriaco, meu amor, tu Ès -tambem austriaca... …s talvez uma d'essas viennenses que tu dizes que -tem um t„o grande encanto... - -Sim, talvez, segundo essas coisas dos codigos, era austriaca. Mas nunca -conhecera o pai, vivera sempre com a mam„, fall·ra sempre portuguez, -considerava-se portugueza. Nunca estivera na Austria, nem sabia mesmo -allem„o... - ---N„o tiveste irm„os? - ---Sim, tive, uma irm„sinha que morreu em pequena... Mas n„o me lembra. -Tenho em Paris o retrato d'ella... Bem linda! - -N'esse momento em baixo, na calÁada, uma carruagem, a trote largo, -estacou. Carlos, surprehendido, correu · janella com o guardanapo na -m„o. - ---… o Ega! exclamou. … aquelle velhaco que chega de Cintra! - -Maria erguera-se, inquieta. E um momento, de pÈ, ambos se olharam, -hesitando... Mas o Ega era como um irm„o de Carlos. Elle esperava sÛ que -o Ega recolhesse de Cintra para o levar · _Toca_. Melhor seria que o -encontro se dÈsse alli, natural, franco e simples... - ---Baptista! gritou Carlos, sem vacillar mais. Dize ao snr. Ega que estou -a jantar, que entre para aqui. - -Maria sent·ra-se, vermelha, dando um geito rapido aos ganchos do -cabello, arranjado · pressa, um pouco desmanchado. - -A porta abriu-se,--e o Ega parou, assombrado, intimidado, de chapÈo -branco, de guarda-sol branco, e com um embrulho de papel pardo na m„o. - ---Maria, disse Carlos, aqui tens emfim o meu grande amigo Ega. - -E ao Ega disse simplesmente: - ---Maria Eduarda. - -Ega ia largar atarantadamente o embrulho para apertar a m„o que Maria -Eduarda lhe estendia, cÛrada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado, -desfez-se; e uma provis„o fresca de queijadas de Cintra rolou, -esmagando-se, sobre as flÙres do tapete. Ent„o todo o embaraÁo findou -atravÈs d'uma risada alegre--emquanto o Ega, desolado, abria os braÁos -sobre as ruinas do seu dÙce. - ---Tu j· jantaste? perguntou Carlos. - -N„o, n„o tinha jantado. E via j· alli uns ovos molles nacionaes, que o -encantavam, enfastiado como vinha da horrivel cozinha do Victor. Oh, que -cozinha! Pratos lugubres, traduzidos do francez em cal„o, como as -comedias do Gymnasio! - ---Ent„o avanÁa! exclamou Carlos. Depressa, Baptista!... Traze o caldo de -gallinha! Oh, ainda temos tempo!... Tu sabes que vou hoje para Santa -Olavia? - -Est· claro que sabia, recebera a carta d'elle, e por isso viera... Mas -n„o podia jantar ainda, assim coberto do pÛ da estrada, e com um -jaquet„o de bucolica... - ---Dize que me guardem o caldo, Baptista! Olha, dize que me guardem tudo, -que eu trago uma fome de pastor da Arcadia!... - -O Baptista servira o cafÈ. E a carruagem da senhora, que os devia levar -a Santa Apolonia, esperava j· · porta com a maleta. Mas Ega agora queria -conversar, affirmou que tinham tempo, tirou o relogio. Estava parado. E -elle declarou logo que no campo se regulava pelo sol, como as flÙres e -como as aves... - ---Fica agora em Lisboa? perguntou-lhe Maria Eduarda. - ---N„o, minha senhora, sÛ o tempo de cumprir o meu dever de cidad„o, -subindo duas ou tres vezes o Chiado... Depois volto para a relva. Cintra -comeÁa a ser interessante para mim, agora que n„o est· ninguem... -Cintra, de ver„o, com burguezes, parece-me um idyllio com nodoas de -sebo. - -Mas Baptista offerecia a Carlos a _chartreuse_--dizendo que s. exc.^a -n„o se devia demorar se n„o tencionava perder o comboio, de proposito. -Maria ergueu-se logo para ir dentro pÙr o chapÈo. E os dois amigos, sÛs, -ficaram um momento calados, emquanto Carlos accendia devagar o charuto. - ---Tu quanto tempo te demoras? perguntou por fim o Ega. - ---Tres ou quatro dias. E tu n„o voltes para Cintra antes que eu chegue, -precisamos communicar... Que diabo tens tu feito l·? - -O outro encolheu os hombros. - ---Tenho sorvido ar puro, colhido florinhas, murmurado de vez em quando -´que lindo que isto È!ª etc. - -Depois, debruÁado sobre a mesa, picando com um palito uma azeitona: - ---De resto, nada... O Damaso l· est·! Sempre com a Cohen, como te mandei -dizer... Est· claro que n„o ha nada entre elles, aquillo È sÛ para mim, -para me irritar... … um canalha aquelle Damaso! Eu sÛ quero um pretexto. -Esgano-o! - -Deu um pux„o forte aos punhos, com uma cÙr de cÛlera no rosto queimado: - ---Eu, est· claro, fallo-lhe, aperto-lhe a m„o, chamo-lhe ´amigo Damasoª, -etc. Mas sÛ quero um pretexto! … necessario aniquilar aquelle animal. … -um dever de moralidade, d'aceio publico, de gosto varrer aquella bola de -lama humana! - ---Quem esteve por l· mais? perguntou Carlos. - ---Que te interesse?... A Gouvarinho. Mas vi-a uma sÛ vez. Apparecia -pouco, coitada, agora que andava de luto. - ---De luto? - ---Por ti. - -Calou-se. Maria entrava, com o vÈu descido, acabando de apertar as -luvas. Ent„o Carlos, suspirando, resignado, estendeu os braÁos ao -Baptista para elle lhe vestir um casaco leve de jornada. Ega ajudava, -pedindo um abraÁo filial para Affonso, e recados para o gordo Sequeira. - -Foi acompanhal-os a baixo, em cabello: e fechou elle a portinhola, -promettendo a Maria Eduarda uma visita · _Toca_, apenas Carlos voltasse -d'esses penhascos do Douro... - ---N„o v·s para Cintra antes de eu voltar! gritou-lhe ainda Carlos. E a -Michaela que tome conta em ti! - ---_All right, all right_, dizia o Ega. Boa jornada! Criado de v. exc.^a, -minha senhora... AtÈ · _Toca_! - -O coupÈ partiu. Ega subiu ao seu quarto, onde outro criado lhe estava -preparando o banho. Na saleta deserta, entre as flÙres e os restos do -jantar, as velas continuavam a arder solitarias, fazendo resaltar no -painel escuro a pallidez de Pedro da Maia, e a melancolia dos seus -olhos. - - - -No sabbado seguinte, perto das duas horas, Carlos e Ega, ainda · mesa do -almoÁo, acabavam os seus charutos, fallando de Santa Olavia. Carlos -cheg·ra de l· essa madrugada, sÛ. O avÙ decidira ficar entre as suas -velhas arvores atÈ ao fim do outono que ia t„o luminoso e t„o macio... - -Carlos fÙra-o encontrar muito alegre, muito forte--apesar de ter sido -obrigado, por causa d'um toque de rheumatismo, a abandonar emfim o seu -culto da agua fria. E esta macissa, resplandecente saude do velho fÙra -um allivio para o coraÁ„o de Carlos: parecia-lhe assim mais facil, menos -ingrata, a sua partida com Maria para Italia, em outubro. AlÈm d'isso -ach·ra um _truc_, como elle dizia ao Ega, para realisar o supremo desejo -da sua vida sem magoar o avÙ, sem lhe turbar a paz da velhice. Era um -_truc_, simples. Consistia em partir elle sÛ para Madrid, no comeÁo -d'uma certa ´viagem d'estudoª, para que j· prepar·ra o avÙ em Santa -Olavia. Maria ficava na _Toca_, durante um mez. Depois tomava o paquete -para Bordeus: e era ahi que Carlos se reunia com ella, a comeÁarem essa -existencia de felicidade e romance que as flÙres da Italia deviam -perfumar... Na primavera elle voltava a Lisboa, deixando Maria -installada no seu ninho: e ent„o, pouco a pouco, ia revelando ao avÙ -aquella ligaÁ„o, a que o prendia a honra, e que o forÁaria agora a viver -regularmente longos mezes n'uma outra terra que se torn·ra a patria do -seu coraÁ„o. E que havia de dizer o avÙ? Aceitar esse romance, a que n„o -veria os lados desagradaveis, esbatido assim pela distancia e pela nevoa -da paix„o. Seria para Affonso uma vaga e mal sabida coisa d'amor que se -passava em Italia... Poderia lamental-a apenas por lhe levar -pontualmente todos os annos o neto para longe; e cada anno se consolaria -pensando na curta duraÁ„o dos idyllios humanos. De resto Carlos contava -com essa larga benevolencia que amollece as almas mais rigidas quando -apenas alguns passos as separam do tumulo... Emfim o seu _truc_ -parecia-lhe bom. Ega, em resumo, approvou o _truc_. - -Depois, mais alegremente, fallaram da installaÁ„o d'esse amor. Carlos -permanecia na sua idÈa romantica--um cottage · beira d'um lago. Mas Ega -n„o approvava o lago. Ter todos os dias diante dos olhos uma agua sempre -mansa e sempre azul, parecia-lhe perigoso para a durabilidade da paix„o. -Na quietaÁ„o continua d'uma paizagem igual, dois amantes solitarios, -dizia elle, n„o sendo botanicos nem pescando · linha, vÍem-se forÁados a -viver exclusivamente do desejo um do outro, e a tirar d'ahi todas as -suas idÈas, sensaÁıes, occupaÁıes, gracejos e silencios... E, que diabo, -o mais forte sentimento n„o pÛde dar para tanto! Dois amantes, cuja -unica profiss„o È amarem-se, deviam procurar uma cidade, uma vasta -cidade, tumultuosa e creadora, onde o homem tenha durante o dia os -clubs, o cavaco, os museus, as idÈas, o sorriso d'outras mulheres--e a -mulher tenha as ruas, as compras, os theatros, a attenÁ„o d'outros -homens; de sorte que · noite, quando se reunam, n„o tendo passado o -infindavel dia a observarem-se um no outro e a si proprios, trazendo -cada um a vibraÁ„o da vida forte que atravessaram--achem um encanto novo -e verdadeiro no conchego da sua solid„o, e um sabor sempre renovado na -repetiÁ„o dos seus beijos... - ---Eu, continuava Ega, erguendo-se, se levasse para longe uma mulher, n„o -era para um lago, nem para a Suissa, nem para os montes da Sicilia; era -para Paris, para o boulevard dos Italianos, alli · esquina do -Vaudeville, com janellas deitando para a grande vida, a um passo do -_Figaro_, do Louvre, da Philosophia e da _blague_... Aqui tens tu a -minha doutrina!... E ahi temos nÛs o amigo Baptista com o correio. - -N„o era o correio. Era apenas um bilhete que o Baptista trazia n'uma -salva: e vinha t„o perturbado que annunciou ´um sujeito, alli fÛra, na -antecamara, n'uma carruagem, · espera...ª - -Carlos olhou o bilhete, empallideceu terrivelmente. E ficou a reviral-o, -lento e como atordoado, entre os dedos que tremiam... Depois, em -silencio, atirou-o ao Ega por cima da mesa. - ---Caramba! murmurou Ega, assombrado. - -Era Castro Gomes! - -Bruscamente Carlos erguera-se, decidido. - ---Manda entrar... Para o sal„o grande! - -Baptista apontou para o jaquet„o de flanella com que Carlos tinha -almoÁado, e perguntou baixo se s. exc.^a queria uma sobrecasaca. - ---Traze. - -SÛs, Ega e Carlos olharam-se um instante, anciosamente. - ---N„o È um desafio, est· claro, balbuciou Ega. - -Carlos n„o respondeu. Examinava outra vez o bilhete: o homem chamava-se -Joaquim Alvares de Castro Gomes: por baixo tinha escripto a lapis ´Hotel -BraganÁaª... Baptista volt·ra com a sobrecasaca: e Carlos, abotoando-a -devagar, sahiu sem outra mais palavra ao Ega, que fic·ra de pÈ junto da -mesa, limpando estupidamente as m„os ao guardanapo. - -No sal„o nobre, forrado de brocados cÙr de musgo d'outono, Castro Gomes -examinava curiosamente, com um joelho apoiado · borda do sof·, a -esplendida tela de Constable, o retrato da condessa de Runa, bella e -forte no seu vestido de velludo escarlate de caÁadora ingleza. Ao rumor -dos passos de Carlos sobre o tapete, voltou-se, de chapÈo branco na m„o, -sorrindo, pedindo perd„o de estar assim a pasmar familiarmente para -aquelle soberbo Constable... Com um gesto rigido, Carlos, muito pallido, -indicou-lhe o sof·. Saudando e risonho Castro Gomes sentou-se -vagarosamente. No peito da sobrecasaca muito justa trazia um bot„o de -rosas, os seus sapatos de verniz resplandeciam sob as polainas de linho; -no rosto chupado, queimado, a barba negra, terminava em bico; os -cabellos rareavam-lhe na risca; e mesmo a sorrir tinha um ar de seccura, -de fadiga. - ---Eu possuo tambem em Paris um Constable muito _chic_, disse elle, sem -embaraÁo, n'um tom arrastado, cheio de _rr_, que o _sutaque_ brazileiro -adocicava. Mas È apenas uma pequena paizagem, com duas figurinhas. … um -pintor que n„o me diverte, a dizer a verdade... Todavia d· muito tom a -uma galeria. … necessario tel-o. - -Carlos, defronte n'uma cadeira, com os punhos fortemente fechados sobre -os joelhos, conservava a immobilidade d'um marmore. E, perante aquelle -modo affavel, uma idÈa ia-o atravessando, lacerante, angustiosa, -pondo-lhe j· nos olhos largos que n„o tirava de sobre o outro, uma -irreprimivel chamma de cÛlera. Carlos Gomes decerto _n„o sabia nada_! -Cheg·ra, desembarc·ra, correra aos Olivaes, dormira nos Olivaes! Era o -marido, era novo, tivera-a j· nos braÁos--a ella! E agora alli estava, -tranquillo, de flÙr ao peito, fallando de Constable! O unico desejo de -Carlos, n'esse instante, era que aquelle homem o insultasse. - -No emtanto Castro Gomes, amavelmente, desculpava-se de se apresentar -assim, sem o conhecer, sem ao menos ter pedido por um bilhete uma -entrevista... - ---O motivo porÈm que me traz È t„o urgente, que cheguei esta manh„ ·s -dez horas do Rio de Janeiro, ou antes do Lazareto, e estou aqui!... E -esta mesma noite, se puder, parto para Madrid. - -Fez-se um allivio infinito no coraÁ„o de Carlos. Ainda n„o vira ent„o -Maria Eduarda, aquelles seccos labios n„o a tinham tocado! E sahiu emfim -da sua rigidez de marmore, teve um movimento attento, aproximando de -leve a cadeira. - -Castro Gomes no emtanto, tendo pousado o chapÈo, tir·ra do bolso -interior da sobrecasaca uma carteira com um largo monogramma de ouro; e, -vagaroso, procurava entre os papeis uma carta... Depois, com ella na -m„o, muito tranquillamente: - ---Eu recebi no Rio de Janeiro, antes de partir, este escripto anonymo... -Mas n„o creia v. exc.^a que foi elle que me levou a atravessar · pressa -o Atlantico. Seria o maior dos ridiculos... E desejo tambem affirmar-lhe -que todo o conteudo d'elle me deixou perfeitamente indifferente... Aqui -o tem. Quer v. exc.^a lÍl-o, ou quer que eu leia? - -Carlos murmurou com um esforÁo: - ---Leia v. exc.^a - -Castro Gomes desdobrou o papel, e revirou-o um instante entre os dedos. - ---Como v. exc.^a vÍ, È a carta anonyma em todo o seu horror: papel de -mercearia, pautadinho de azul; calligraphia reles; tinta reles; cheiro -reles. Um documento odioso. E aqui est· como elle se exprime: ´Um homem -´que teve a honra de apertar a m„o de v. exc.^aª Eu dispensava a -honra... ´que teve a hora de apertar a m„o de v. exc.^a e d'apreciar o -seu cavalheirismo, julga dever prevenil-o que sua mulher È, · vista de -toda a Lisboa, a amante d'um rapaz muito conhecido aqui, Carlos Eduardo -da Maia, que vive n'uma casa ·s Janelas Verdes, chamada o Ramalhete. -Este heroe, que È muito rico, comprou expressamente uma quinta nos -Olivaes, ´onde installou a mulher de v. exc.^a e onde a vai vÍr todos os -dias, ficando ·s vezes, com escandalo da visinhanÁa, atÈ de madrugada. -Assim o nome honrado de v. exc.^a anda pelas lamas da capital.ª … tudo o -que diz a carta; e eu sÛ devo acrescentar, porque o sei, que tudo quanto -ella diz È incontestavelmente exacto... O snr. Carlos da Maia È pois -publicamente, com conhecimento de toda a Lisboa, o amante d'essa -senhora. - -Carlos ergueu-se, muito sereno. E abrindo de leve os braÁos, n'uma -aceitaÁ„o inteira de todas as responsabilidades: - ---N„o tenho ent„o nada a dizer a v. exc.^a sen„o que estou ·s suas -ordens!... - -Uma fugitiva onda de sangue avivou a pallidez morena de Castro Gomes. -Dobrou a carta, guardou-a com todo o vagar na carteira. Depois, sorrindo -friamente: - ---Perd„o... O snr. Carlos da Maia sabe, t„o bem como eu, que se isto -tivesse de ter uma soluÁ„o, violenta, eu n„o viria aqui pessoalmente, a -sua casa, lÍr-lhe este papel... A coisa È inteiramente outra. - -Carlos recahira na cadeira, assombrado. E agora a lentid„o adocicada -d'aquella voz ia-se-lhe tornando intoleravel. Um confuso terror do que -viria d'esses labios, que sorriam com uma pallidez impertinente, quasi -fazia estalar o seu pobre coraÁ„o. E era um desejo brutal de lhe gritar -que acabasse, que o matasse, ou que sahisse d'aquella sala, onde a sua -presenÁa era uma inutilidade ou uma torpeza!... - -O outro passou os dedos no bigode, e proseguiu, devagar, arranjando as -suas palavras com cuidado e com precis„o: - ---O meu caso È este, snr. Carlos da Maia. Ha pessoas em Lisboa que me -n„o conhecem decerto, mas que sabem a esta hora que existe algures, em -Paris, no Brazil ou no inferno, um certo Castro Gomes, que tem uma -mulher bonita, e que a mulher d'esse Castro Gomes tem em Lisboa um -amante. Isto È desagradavel, sobretudo por ser falso. E v. exc.^a -comprehende que eu n„o devo continuar a arrastar por mais tempo a fama -de _marido infeliz_, visto que a n„o mereÁo, e que a n„o posso -_legalmente_ ter... … por isso que aqui venho, muito francamente, de -_gentleman_ para _gentleman_, dizer-lhe, como tenho tenÁ„o de dizer a -outros, que aquella senhora n„o È minha mulher. - -Durante um momento Castro Gomes esperou a voz de Carlos da Maia. Mas -elle conservava uma face muda, impenetravel, onde apenas os olhos -brilhavam angustiosamente na lividez que a cobrira. Por fim, com um -esforÁo, baixou de leve a cabeÁa, como acolhendo placidamente aquella -revelaÁ„o, que tornava outra qualquer palavra entre elles desnecessaria -e v„. - -Mas Castro Gomes encolhera de leve os hombros, com uma languida -resignaÁ„o, como quem attribue tudo · malicia dos Destinos. - ---S„o as ridiculas scenas da vida... O snr. Carlos da Maia est· d'ahi a -vÍr as coisas. … a velha, a classica historia... Ha tres annos que eu -vivo com essa senhora; quando tive o inverno passado d'ir ao Brazil, -trouxe-a a Lisboa para n„o vir sÛsinho. FÙmos para o hotel Central. V. -exc.^a comprehende perfeitamente que eu n„o fui fazer confidencias ao -gerente do estabelecimento. Aquella senhora vinha commigo, dormia -commigo, portanto, para todos os effeitos do hotel, era minha mulher. -Como mulher de Castro Gomes ficou no Central; como mulher de Castro -Gomes alugou depois uma casa na rua de S. Francisco; como mulher de -Castro Gomes tomou emfim um amante... Deu-se sempre como mulher de -Castro Gomes, mesmo nas circumstancias mais particularmente -desagradaveis para Castro Gomes... E, meu Deus! n„o podemos realmente -condemnal-a muito... Achava-se por acaso revestida d'uma excellente -posiÁ„o social e d'um nome puro, seria mais que humano que o seu amor da -verdade a levasse, apenas conhecia alguem, a declarar que posiÁ„o e nome -eram de emprestimo e ella era apenas ´Fulana de tal, amigada...ª De -resto, sejamos justos, ella n„o era moralmente obrigada a dar -semelhantes explicaÁıes ao tendeiro que lhe vendia a manteiga, ou · -matrona que lhe alugava a casa: nem mesmo, penso eu, a ninguem, a n„o -ser a um pai que lhe quizesse apresentar sua filha, sahida do -convento... Demais a mais sou eu que tenho um pouco a culpa; muitas -vezes, em coisas relativamente delicadas lhe deixei usar o meu nome. -Foi, por exemplo, com o nome de Castro Gomes que ella tomou a governante -ingleza. As inglezas s„o t„o exigentes!... Aquella, sobretudo, uma -rapariga t„o sÈria... Emfim tudo isso passou... O que importa agora È -que eu lhe retiro solemnemente o nome que lhe emprest·ra; e ella fica -apenas com o seu, que È Madame Mac-Gren. - -Carlos ergueu-se, livido. E com as m„os fincadas nas costas da cadeira -t„o fortemente, que quasi lhe esgaÁava o estofo: - ---Mais nada, creio eu? - -Castro Gomes mordeu de leve os beiÁos perante este remate brutal que o -despediu. - ---Mais nada, disse elle tomando o chapÈo e levantando-se muito -vagarosamente. Devo apenas acrescentar, para evitar a v. exc.^a -suspeitas injustas, que aquella senhora n„o È uma menina que eu tivesse -seduzido, e a quem recuse uma reparaÁ„o. A pequerruchinha que alli anda -n„o È minha filha... Eu conheÁo a m„i sÛmente ha tres annos... Vinha dos -braÁos d'um qualquer, passou para os meus... Posso pois dizer, sem -injuria, que era uma mulher que eu pagava. - -Complet·ra com esta palavra a humilhaÁ„o do outro. Estava deliciosamente -desforrado. Carlos, mudo, abrira o reposteiro da sala, n'uma sacudidella -brusca. E, diante d'esta nova rudeza que revelava sÛ mortificaÁ„o, -Castro Gomes foi perfeito: saudou, sorriu, murmurou: - ---Parto esta noite mesmo para Madrid, e levo o pezar de ter feito o -conhecimento de v. exc.^a por um motivo t„o desagradavel... T„o -desagradavel para mim. - -Os seus passos desafogados e leves perderam-se na ante-camara, entre as -tapeÁarias. Depois em baixo uma portinhola bateu, uma carruagem rodou na -calÁada... - -Carlos fic·ra cahido n'uma cadeira, junto da porta, com a cabeÁa entre -as m„os. E de todas aquellas palavras de Castro Gomes, que ainda lhe -resoavam em redor, adocicadas e lentas, sÛ lhe restava o sentimento -atordoado de uma coisa muito bella, resplandecendo muito alto, e que -cahia de repente, se fazia em pedaÁos na lama, salpicando-o todo de -nodoas intoleraveis... N„o soffria: era simplesmente um assombro de todo -o seu sÍr perante este fim immundo d'um sonho divino... Unira a sua alma -arrebatadamente a outra alma nobre e perfeita, longe nas alturas, entre -nuvens d'ouro; de repente uma voz passava, cheia de _rr_; as duas almas -rolavam, batiam n'um charco; e elle achava-se tendo nos braÁos uma -mulher que n„o conhecia, e que se chamava Mac-Gren! - -Mac-Gren! era a Mac-Gren! - -Ergueu-se, com os punhos fechados; e veio-lhe uma revolta furiosa de -todo o seu orgulho contra essa ingenuidade que o trouxera mezes timido, -tremulo, ancioso, seguindo · maneira d'uma estrella aquella mulher, que -qualquer em Paris, com mil francos no bolso, poderia ter sobre um sof·, -facil e n˙a! Era horrivel! E recordava agora, afogueado de vergonha, a -emoÁ„o religiosa com que entrava na sala de reps vermelho da rua de S. -Francisco: o encanto enternecido com que via aquellas m„os, que elle -julgava as mais castas da terra, puxarem os fios de l„ no bordado, n'um -constante trabalho de m„i laboriosa e recolhida; a veneraÁ„o espiritual -com que se afastava da orla do seu vestido, igual para elle · tunica -d'uma Virgem cujas pregas rigidas nem a mais rude bestialidade ousaria -desmanchar de leve! Oh imbecil, imbecil!... E todo esse tempo ella -sorria comsigo d'aquella simpleza de provinciano do Douro! Oh! tinha -vergonha agora das flÙres apaixonadas que lhe trouxera! Tinha vergonha -das ´excellenciasª que lhe dÈra! - -E seria t„o facil, desde o primeiro dia no Aterro, ter percebido que -aquella deusa, descida das nuvens, estava amigada com um brazileiro! Mas -quÍ! a sua paix„o absurda de romantico puzera-lhe logo, entre os olhos e -as coisas flagrantes e reveladoras, uma d'essas nevoas douradas que d„o -·s montanhas mais rugosas e negras um brilho polido de pedra preciosa! -Porque escolhera ella precisamente para seu medico, na sua casa e na sua -intimidade, o homem que na rua a fit·ra com um fulgor de desejo na face? -Porque È que nas suas longas conversas, nas manh„s da rua de S. -Francisco, n„o fall·ra j·mais de Paris, dos seus amigos e das coisas da -sua casa? Porque È que ao fim de dois mezes, sem preparaÁ„o, sem todas -essas progressivas evidencias do amor que cresce e desabrocha como uma -flÙr, se lhe abandon·ra de chofre, toda prompta, apenas elle lhe disse o -primeiro ´amo-teª?... Porque lhe aceit·ra uma casa j· mobilada, com a -facilidade com que lhe aceitava os ramos? E outras coisas ainda, -pequeninas, mas que n„o teriam escapado ao mais simples: joias brutaes, -d'um luxo grosseiro de _cocotte_: o livro da _ExplicaÁ„o de sonhos_, · -cabeceira da cama; a sua familiaridade com Melanie... E agora atÈ o -ardor dos seus beijos lhe parecia vir menos da sinceridade da -paix„o--que da sciencia da voluptuosidade!... Mas tudo acab·ra, -providencialmente! A mulher que elle am·ra e as suas seducÁıes -esvaÌam-se de repente no ar como um sonho, radiante e impuro, de que -aquelle brazileiro o viera acordar por caridade! Esta mulher era apenas -a Mac-Gren... O seu amor fÙra, desde que a vira, como o proprio sangue -das suas veias; e escoava-se agora todo atravÈs da ferida incuravel e -que nunca mais fecharia, feita no seu orgulho! - -Ega appareceu · porta do sal„o, ainda pallido: - ---Ent„o? - -Toda a cÛlera de Carlos fez explos„o: - ---Extraordinario, Ega, extraordinario! A coisa mais abjecta, a coisa -mais immunda! - ---O homem pediu-te dinheiro? - ---Peor! - -E, passeando arrebatadamente, Carlos desabafou, contou tudo, sem -reticencias, com as mesmas palavras cruas do outro,--que assim repetidas -e avivadas pelos seus labios, lhe descobriam motivos novos de humilhaÁ„o -e de nojo. - ---J· por acaso sucedeu a alguem coisa mais horrivel? exclamou por fim, -cruzando violentamente os braÁos diante do Ega, que se abatera no sof·, -assombrado. PÛdes tu conceber um caso mais sordido? E tambem mais -burlesco? … para estalar o coraÁ„o. E È para rebentar a rir. Estupendo! -Ahi, n'esse sof·, ahi onde tu est·s, o homemzinho, muito amavel, de flÙr -ao peito, a dizer: ´Olhe que aquella creatura n„o È minha mulher, È uma -creatura que eu pago...ª Comprehendes isto bem! Aquelle sujeito -paga-a... Quanto È o beijo? Cem francos. Ahi est„o cem francos... … de -morrer! - -E recomeÁou no seu passeio, desvairado, desabafando mais, recontando -tudo, sempre com as palavras do Castro Gomes, que elle deformava ainda -n'uma brutalidade maior... - ---Que te parece, Ega? Dize l·. Que fazias tu? … horrivel, heim? - -Ega, que limpava pensativamente o vidro do monoculo, hesitou, terminou -por dizer que, considerando as coisas com superioridade, como homens do -seu tempo e ´do seu mundoª, ellas n„o offereciam nem motivos de cÛlera, -nem motivos de dÙr... - ---Ent„o n„o comprehendes nada! gritou Carlos, n„o percebes o meu caso! - -Sim, sim, Ega comprehendia claramente que era horrivel para um homem, no -momento em que ia ligar com adoraÁ„o o seu destino ao d'uma mulher, -saber que outros a tinham tido a tanto por noite... Mas isso mesmo -simplificava e amenisava as coisas. O que fÙra um drama complicado -tornava-se uma distracÁ„o bonanÁosa. Ficava Carlos, desde logo, -alliviado do remorso de ter desorganisado uma familia: j· n„o tinha de -se exilar, a esconder o seu erro, n'um buraco florido da Italia; j· o -n„o prendia a honra para sempre a uma mulher a quem talvez n„o o -prenderia para sempre o amor. Tudo isto, que diabo! eram vantagens. - ---E a dignidade d'ella! exclamou Carlos. - -Sim, mas a diminuiÁ„o de dignidade e pureza n„o era na verdade grande, -porque antes da visita de Castro Gomes j· ella era uma mulher que foge -do seu marido--o que, sem mesmo usar termos austeros, nem È muito puro -nem muito digno... Decerto, tudo isso era uma humilhaÁ„o irritante--n„o -superior todavia · d'um homem que tem uma _Madona_ que contempla com -religi„o, suppondo-a de Raphael, e que descobre um dia que a tela divina -foi fabricada na Bahia por um sujeito chamado Castro Gomes! Mas o -resultado intimo e social parecia-lhe ser este: Carlos atÈ ahi tivera -uma bella amante com inconvenientes, e agora tinha sem inconvenientes -uma bella amante... - ---O que tu deves fazer, meu caro Carlos... - ---O que eu vou fazer È escrever-lhe uma carta, remettendo-lhe o preÁo de -dois mezes que dormi com ella... - ---Brutalidade romantica!... Isso j· vem na _Dama das Camelias_... -Sobretudo È n„o vÍr com boa philosophia as _nuances_. - -O outro atalhou, impaciente: - ---Bem, Ega, n„o fallemos mais n'isso... Eu estou horrivelmente -nervoso!... AtÈ logo. Tu jantas em casa, n„o È verdade? Bem, atÈ logo. - -Sahia atirando a porta, quando Ega, agora tranquillo, disse, erguendo-se -muito lentamente do sof·: - ---O homemzinho foi para l·. - -Carlos voltou-se, com os olhos chammejantes: - ---Foi para os Olivaes? Foi ter com ella? - -Sim, pelo menos mand·ra a tipoia · quinta do Craft. Ega, para conhecer -esse snr. Castro Gomes, fÙra metter-se no cubiculo do guarda-port„o. E -vira-o descer, accender um charuto... Era com effeito um d'esses -_rastaquouËros_ que, n'esse infeliz Paris que tudo tolera, veem ao _CafÈ -de la Paix_ ·s duas horas para tomar a sua groseille, tesos e -embrutecidos... E fÙra o guarda-port„o que lhe dissera que o sujeito -parecia muito alegre e mand·ra o cocheiro bater para os Olivaes... - -Carlos parecia aniquilado: - ---Tudo isso È nojento!... No fim talvez atÈ se entendam ambos... Estou -como tu dizias aqui h· tempos: ´Cahiu-me a alma a uma latrina, preciso -um banho por dentro!ª - -Ega murmurou melancolicamente: - ---Essa necessidade de banhos moraes est·-se tornando com effeito t„o -frequente!... Devia haver na cidade um estabelecimento para elles. - - - -Carlos, no seu quarto, passeava diante da mesa onde a folha branca de -papel, em que ia escrever a Maria Eduarda, j· tinha a data d'esse dia, -depois--_Minha senhora_, n'uma letra que elle se esforÁ·ra por traÁar -firme e serena:--e n„o achava outra palavra. Estava bem decidido a -mandar-lhe um cheque de duzentas libras, paga esplendidamente ultrajante -das semanas que pass·ra no seu leito. Mas queria juntar duas linhas -regeladas, impassiveis, que a ferissem mais que o dinheiro: n„o -encontrava sen„o phrases de grande cÛlera, revelando um grande amor. - -Olhava a folha branca: e a banal express„o _Minha senhora_ dava-lhe uma -saudade dilacerante por aquella a quem na vespera ainda dizia ´_minha -adorada_ª, pela mulher que se n„o chamava ainda Mac-Gren, que era -perfeita, e que uma paix„o indomavel, superior · raz„o, entontecera e -vencera. E o seu amor por essa Maria Eduarda, nobre e amante, que se -transform·ra na Mac-Gren, amigada e falsa, era agora maior -infinitamente, desesperado por ser irrealisavel--como o que se tem por -uma morta e que palpita mais ardente junto da frialdade da cova. Oh! se -ella pudesse resurgir outra vez, limpa, clara, do lodo em que afund·ra, -outra vez Maria Eduarda, com o seu casto bordado!... De que amor mais -delicado a cercaria, para a compensar das affeiÁıes domesticas que ella -deixasse de merecer! Que veneraÁ„o maior lhe consagraria--para supprir o -respeito que o mundo superficial e affectado lhe retirasse! E ella tinha -tudo para reter amor e respeito--tinha a belleza, a graÁa, a -intelligencia, a alegria, a maternidade, a bondade, um incomparavel -gosto... E com todas estas qualidades dÙces e fortes--era apenas uma -intrujona! - -Mas porque? porque? Porque entr·ra ella n'esta longa fraude, tramada dia -a dia, mentindo em tudo, desde o pudor que fingia atÈ ao nome que usava! - -Apertava a cabeÁa entre as m„os, achava a vida intoleravel. Se ella -mentia--onde havia ent„o a verdade? Se ella o trahia assim, com aquelles -olhos claros, o universo podia bem ser todo uma immensa traiÁ„o muda. -Punha-se um mÛlho de rosas n'um vaso, exhalava-se d'elle a peste! -Caminhava-se para uma relva fresca, ella escondia um lamaÁal! E para -que, para que mentira ella? Se, desde o primeiro dia em que o vira, -tremulo e rendido, a contemplar o seu bordado como se contempla uma -acÁ„o de santidade--lhe tivesse dito que n„o era esposa do snr. Castro -Gomes, mas sÛ amante do snr. Castro Gomes--teria a sua paix„o sido menos -viva, menos profunda? N„o era a estola do padre que dava belleza ao seu -corpo e valor ·s suas caricias... Para que fÙra ent„o essa mentira -tenebrosa e descarada--que lhe fazia suppÙr agora que eram imposturas os -seus mesmos beijos, imposturas os seus mesmos suspiros!... E com este -longo embuste o levava a expatriar-se, dando a sua vida inteira por um -corpo por que outros davam apenas um punhado de libras! E por esta -mulher, tarifada ·s horas como as caleches da Companhia, elle ia -amarguarar a velhice do avÙ, estragar irreparavelmente o seu destino, -cortar a sua livre acÁ„o de homem! - -Mas porque? Porque fÙra esta farÁa banal, arrastada por todos os palcos -de opera comica, da _cocotte que se finge senhora_? Porque o fizera -ella, com aquelle fallar honesto, o puro perfil e a doÁura de m„i? Por -interesse? N„o. Castro Gomes era mais rico do que elle, mais largamente -lhe podia satisfazer o appetite mundano de toilettes, de carruagens... -Sentia ella que Castro Gomes a ia abandonar, e queria ter ao lado aberta -e prompta outra bolsa rica? Ent„o mais simples teria sido dizer-lhe: ´eu -sou livre, gÛsto de ti, toma-me livremente, como eu me dou.ª N„o! Havia -alli alguma coisa secreta, tortuosa, impenetravel... O que daria por a -conhecer! - -E ent„o pouco a pouco foi surgindo n'elle o desejo de ir aos Olivaes... -Sim, n„o lhe bastaria desforrar-se arrogantemente, atirando-lhe ao -regaÁo um cheque embrulhado n'uma insolencia! O que precisava, para sua -plena tranquillidade, era arrancar do fundo d'aquella turva alma o -segredo d'aquella torpe farÁa... SÛ isso amansaria o seu incomparavel -tormento. Queria entrar outra vez na _TÛca_, vÍr como era aquella outra -mulher que se chamava Mac-Gren, e ouvir as suas palavras. Oh! iria sem -violencia, sem recriminaÁıes, muito calmo, sorrindo! SÛ para que ella -lhe dissesse qual fÙra a raz„o d'aquella mentira t„o laboriosa, t„o -v„... SÛ para lhe perguntar serenamente: ´Minha rica senhora para quer -foi toda esta intrujice?ª E depois vÍl-a chorar... Sim, tinha esta -anciedade cheia d'amor de a vÍr chorar. A agonia que elle sentira no -sal„o cÙr de musgo do outono, emquanto o outro arrastava os _rr_, queria -vÍl-a repetida n'esse seio, onde elle atÈ ahi dormira t„o dÙcemente, -esquecido de tudo, e que era bello, t„o divinamente bello!... - -Bruscamente, decidido, deu um pux„o · campainha. Baptista appareceu todo -abotoado na sua sobrecasaca, com um ar resoluto, como armado e prompto a -ser util n'aquella crise que adivinhava... - ---Baptista, corre ao hotel Central e pergunta se j· entrou o snr. Castro -Gomes!... N„o, escuta... Pıe-te · porta do Central, e espera atÈ que -entre aquelle sujeito que aqui esteve... N„o, È melhor perguntar!... -Emfim, certifica-te de que o sujeito ou voltou ou est· no hotel. E -apenas estejas bem certo d'isso, volta aqui, · desfilada, n'uma -tipoia... Um batedor seguro, que È para me levar depois aos Olivaes!... - -Immediatamente, dada esta ordem, serenou. Era j· um allivio immenso n„o -ter de escrever a carta, e achar palavras acerbas que a deviam -dilacerar. Rasgou o papel devagar. Depois fez o cheque de duzentas -libras, ao _portador_. Elle mesmo lh'o levaria... Oh, decerto, n„o lh'o -atirava romanticamente ao regaÁo... Deixal-o-hia sobre uma mesa, -sobrescriptado a Madame Mac-Gren... E de repente sentiu uma compaix„o -por ella. Via-a j·, abrindo o enveloppe com duas grandes lagrimas, -lentas, caladas, a rolarem-lhe na face... E os seus proprios olhos se -humedeceram. - -N'esse momento Ega, de fÛra, perguntou se era importuno. - ---Entra! gritou. - -E continuou passeando, calado, com as m„os nos bolsos: o outro, em -silencio tambem, foi encostar-se · janella sobre o jardim. - ---Preciso escrever ao avÙ a dizer-lhe que cheguei, murmurou Carlos por -fim, parando junto da mesa. - ---D·-lhe recados meus. - -Carlos sent·ra-se, tom·ra languidamente a penna: mas bem depressa a -arremessou: cruzou as m„os por detraz da cabeÁa no espaldar da cadeira, -cerrou os olhos, como exhausto. - ---Sabes uma coisa que me parece certa? disse de repente o Ega da -janella. Quem escreveu a carta anonyma ao Castro Gomes foi o Damaso! - -Carlos olhou para elle: - ---Achas?... Sim, talvez... Com effeito quem havia de ser? - ---N„o foi mais ninguem, menino. foi o Damaso! - -Carlos ent„o recordou o que lhe cont·ra o Taveira--as allusıes -mysteriosas do Damaso a um escandalo que se estava armando, uma bala que -elle devia receber na cabeÁa... O Damaso, portanto, tinha como certa a -vinda do brazileiro, depois um duello... - ---… necessario esmagar esse infame! exclamou Ega, subitamente furioso. -N„o ha seguranÁa, n„o ha paz na nossa vida emquanto esse bandido -viver!... - -Carlos n„o respondeu. E o outro proseguia, transtornado, j· todo -pallido, deixando transbordar odios cada dia accumulados: - ---Eu n„o o mato porque n„o tenho um pretexto!... Se tivesse um pretexto, -uma insolencia d'elle, um olhar atrevido, era meu, esborrachava-o!... -Mas tu precisas fazer alguma coisa, isto n„o pÛde ficar assim! N„o pÛde! -… necessario sangue... VÍ tu que infamia, uma carta anonyma!... Temos a -nossa paz, a nossa felicidade, tudo exposto constantemente aos ataques -do snr. Damaso. N„o pÛde ser. Eu o que tenho pena È de n„o ter um -pretexto! Mas tenl-o tu, aproveita, e esmaga-o! - -Carlos encolheu vagamente os hombros: - ---Merecia chicotadas, com effeito... Mas elle realmente sÛ tem sido -velhaco commigo por causa das minhas relaÁıes com essa senhora; e como -isso È um caso acabado, tudo o que se prende com elle finda tambem. -_Parce sepultis_... E no fim era elle que tinha raz„o, quando dizia que -ella era uma intrujona... - -Atirou uma punhada · mesa, ergueu-se, e com um sorriso amargo, n'um -tedio infinito de tudo: - ---Era elle, era o snr. Damaso Salcede que tinha raz„o!... - -Toda a sua cÛlera revivera, mais aspera, a esta idÈa. Olhou o relogio. -Tinha pressa de a vÍr, tinha pressa de a injuriar!... - ---Escreveste-lhe? perguntou o Ega. - ---N„o, vou l· eu mesmo. - -Ega pareceu espantado. Depois recomeÁou a passear, calado, com os olhos -no tapete. - -Ia escurecendo quando Baptista voltou. Vira o snr. Castro Gomes apear-se -no hotel e mandar descer as suas bagagens:--e a tipoia, para levar o -menino aos Olivaes, esperava em baixo. - ---Bem, adeus! disse Carlos procurando atarantadamente um par de luvas. - ---N„o jantas? - ---N„o. - -D'ahi a pouco rodava pela estrada dos Olivaes. J· se accendera o gaz. E -inquieto, no estreito assento, accendendo nervosamente _cigarettes_ que -n„o fumava, soffria j· a perturbaÁ„o d'aquelle encontro difficil e -doloroso... Nem sabia mesmo como a havia de tratar, se por ´minha -senhoraª, se por ´minha boa amigaª, com uma superior indifferenÁa. E ao -mesmo tempo sentia por ella uma compaix„o indefinida, que o amollecia. -Diante d'estes seus modos regelados, via-a j· toda pallida, a tremer, -com os olhos cheios d'agua. E estas lagrimas que appetecera, agora que -estava t„o perto de as vÍr correr, enchiam-no sÛ de commoÁ„o e de dÛ... -Durante um momento mesmo pensou em retroceder. Por fim seria muito mais -digno escrever-lhe duas linhas altivas, sacudindo-a de si para sempre e -seccamente! Poderia n„o lhe mandar o cheque,--affronta brutal d'homem -rico. Apesar d'embusteira era mulher, cheia de nervos, cheia de -phantasia, e am·ra-o talvez com desinteresse... Mas uma carta era mais -digno. E agora acudiam-lhe as palavras que lhe deveria ter dirigido, -incisivas e precisas. Sim, devia-lhe ter dito--que se estava prompto a -dar a sua vida a uma mulher que se lhe abandon·ra _por paix„o_, estava -decidido a n„o sacrificar nem os seus vagares a uma mulher que lhe -cedera _por profiss„o_. Era mais simples, era terminante... E depois n„o -a via, n„o teria de supportar a tortura das explicaÁıes e das lagrimas. - -Ent„o veio-lhe uma fraqueza. Bateu nos vidros para fazer parar, -reflectir um instante, mais calmamente, no silencio das rodas. O -cocheiro n„o ouviu: o trote largo da parelha continuou batendo a estrada -escura. E Carlos deixou seguir, outra vez hesitante. Depois, · maneira -que reconhecia, esbatidos na sombra, aquelles sitios onde tantas vezes -pass·ra com o coraÁ„o em festa, quando a sua paix„o estava em flÙr, uma -cÛlera nova voltava--menos contra a pessoa de Maria Eduarda, que contra -essa _mentira_ que fÙra obra d'ella, e que vinha estragar -irremediavelmente o encanto divino da sua vida. Era essa _mentira_ que -agora odiava--vendo-a como uma coisa material e tangivel, de um peso -enorme, feia e cÙr de ferro, esmagando-lhe o coraÁ„o. Oh! Se n„o fosse -_essa coisa_ pequenina e inolvidavel que estava entre elles, como um -indestructivel bloco de granito, poderia abrir-lhe novamente os seus -braÁos, sen„o com a mesma crenÁa pelo menos com o mesmo ardor! Esposa do -outro ou amante do outro--no fim que importava? N„o era por faltar aos -beijos que lhe dera esse a consagraÁ„o d'um padre, rosnada em latim--que -a sua pelle estava mais polluida por elles, ou tinha a menos frescura? -Mas havia a _mentira_, a _mentira_ inicial, dita no primeiro dia em que -fÙra · rua de S. Francisco, e que como um fermento podre ficava -estragando tudo d'ahi por diante, dÙces conversas, silencios, passeios, -sestas no calor da quinta, murmurios de beijos morrendo entre os -cortinados cÙr d'ouro... Tudo manchado, tudo contaminado por aquella -_mentira_ primeira que ella dissera sorrindo, com os seus tranquillos -olhos limpidos... - -Abafava. Ia a descer a vidraÁa que faltava a correia--quando a tipoia -parou de repente, na estrada solitaria... Abriu a portinhola. Uma mulher -com um chale pela cabeÁa fallava ao cocheiro. - ---Melanie! - ---Ah, monsieur! - -Carlos saltou precipitadamente. Era j· proximo da quinta, na volta -d'estrada, onde o muro fazia um recanto sob uma faia, defronte de sebes -de piteiras resguardando campos d'olivedo. Carlos gritou ao cocheiro que -seguisse e esperasse no port„o da quinta. E ficou alli, no escuro, com -Melanie encolhida no seu chale. - -Que estava ella alli a fazer? Melanie parecia transtornada: contou que -vinha procurar · villa uma carruagem, porque a senhora queria ir a -Lisboa, ao Ramalhete... Ella julg·ra a tipoia vazia. - -E apertava as m„os, dando as graÁas, com um immenso allivio. Ah! que -felicidade, que felicidade ter elle vindo!... A senhora estava afflicta, -nem jant·ra, perdida de chÙro. O snr. Castro Gomes apparecera l· -inesperadamente... A senhora, coitadinha, queria morrer! - -Ent„o Carlos, caminhando rente ao muro, interrogou Melanie. Como viera o -outro? que dissera? como se despedira?... Melanie n„o ouvira nada. O -Snr. Castro Gomes e a senhora tinham conversado sÛs no pavilh„o japonez. -¡ sahida È que vira o snr. Castro Gomes dizer adeus a madame, muito -socegado, muito amavel, rindo, fallando de _Niniche_... A senhora, essa, -parecia como morta, t„o pallida! Quando o outro partiu, ia tendo um -desmaio. - -Estavam proximo do port„o da _Toca_. Carlos retrocedeu, respirando -fortemente, com o chapÈo na m„o. E agora todo o seu orgulho se ia -sumindo sob a violencia da sua anciedade. Queria saber! E perguntava, -deixava Melanie nas coisas dolorosas da sua paix„o... Dites toujours, -Melanie, dites! Sabia a senhora que Castro Gomes estivera com elle no -Ramalhete, lhe confess·ra tudo?... - -Claramente que sabia, por isso chorava--dizia Melanie. Ah, ella bem -repetira · senhora que era melhor contar a verdade! Era muito amiga -d'ella, servia-a desde pequena, vira nascer a menina... E tinha-lh'o -dito, atÈ j· nos Olivaes! - -Carlos curvava a cabeÁa na escurid„o do muro. Melanie _tinha-lh'o dito_! -Assim ella e a criada discutiam ambas, acamaradadas, o embuste em que -andava presa a sua vida! E aquellas revelaÁıes de Melanie, que suspirava -com o chale sobre o rosto, abatiam os ultimos pedaÁos d'esse sonho, que -elle erguera t„o alto, entre nuvens d'ouro. Nada restava. Tudo jazia em -estilhaÁos, no lodo immundo. - -Um momento, com o coraÁ„o cheio de fadiga, pensou em voltar a Lisboa. -Mas para alÈm d'aquelle negro muro estava _ella_, perdida de chÙro, -querendo morrer... E lentamente recomeÁou a caminhar para o port„o. - -E agora, sem resistencia nenhuma do orgulho, fazia perguntas mais -intimas a Melanie. Porque È que Maria Eduarda n„o lhe dissera a verdade? - -Melanie encolheu os hombros. N„o sabia: nem a senhora sabia! Estivera no -Central como madame Gomes; alug·ra a casa da rua de S. Francisco como -madame Gomes; recebera-o como madame Gomes... E assim se deix·ra ir, -insensivelmente, conversando com elle, gostando d'elle, vindo para os -Olivaes... E depois era tarde, j· n„o se atrevera a confessar, toda -enterrada assim na _mentira_, com medo do desgosto... - -Mas, exclamava Carlos, nunca imagin·ra ella que fatalmente tudo se -descobriria um dia? - ---Je ne sais pas, monsieur, je ne sais pas, murmurou Melanie quasi a -chorar. - -Depois eram outras curiosidades. Ella n„o esperava Castro Gomes? n„o -suppunha que elle voltasse? n„o costumava fallar d'elle?... - ---Oh non, monsieur, oh non! - -Madame, desde que o senhor comeÁ·ra a ir todos os dias · rua de S. -Francisco, consider·ra-se para sempre desligada do snr. Castro Gomes, -nem fallava n'elle, nem queria que se fallasse... Antes d'isso a menina -chamava sempre ao snr. Castro Gomes _petit ami_. Agora n„o lhe chamava -nada. Tinham-lhe dito que j· n„o havia _petit ami_... - ---Ella escrevia-lhe ainda, dizia Carlos, eu sei que ella lhe escrevia... - -Sim, Melanie julgava que sim... Mas cartas indifferentes. A senhora -lev·ra o seu escrupulo a ponto de que, desde que viera para os Olivaes, -nunca mais gast·ra um ceitil das quantias que lhe mandava o snr. Castro -Gomes. As letras para receber dinheiro conservava-as intactas, -entregara-lh'as n'essa tarde... N„o se lembrava elle de a ter encontrado -uma manh„ · porta do Monte-Pio? Pois bem! FÙra l·, com uma amiga -franceza, empenhar uma pulseira de brilhantes da senhora. A senhora -vivia agora das suas joias; tinha j· outras no prÈgo. - -Carlos par·ra, commovido. Mas ent„o para que tinha ella mentido? - ---Je ne sais pas, dizia Melanie, je ne sais pas... Mais elle vous aime -bien, allez! - -Estavam defronte do port„o. A tipoia esperava. E, ao fundo da rua -d'acacias, a porta da casa aberta deixava passar a luz do corredor, -frouxa e triste. Carlos julgou vÍr mesmo a figura de Maria Eduarda, -embrulhada n'uma capa escura, de chapÈo, atravessar n'essa claridade... -Ouvira decerto rodar a carruagem. Que afflicta paciencia seria a sua! - ---Vai-lhe dizer que vim, Melanie, vai! murmurou Carlos. - -A rapariga correu. E elle, caminhando devagar sob as acacias, sentia no -sombrio silencio as pancadas desordenandas do seu coraÁ„o. Subiu os tres -degraus de pedra--que lhe pareciam j· d'uma casa estranha. Dentro, o -corredor estava deserto, com a sua lampada mourisca alumiando as -panoplias de touros... Alli ficou. Melanie, com o chale na m„o, veio -dizer-lhe que a senhora estava na sala das tapeÁarias... - -Carlos entrou. - -L· estava, ainda de capa, esperando de pÈ, palida, com toda a alma -concentrada nos olhos que refulgiam entre as lagrimas. E correu para -elle, arrebatou-lhe as m„os, sem poder fallar, soluÁando, tremendo toda. - -Na sua terrivel perturbaÁ„o, Carlos achava sÛ esta palavra, -melancolicamente estupida: - ---N„o sei porque chora, n„o sei, n„o h· raz„o para chorar... - -Ella pÙde emfim balbuciar: - ---Escuta-me, pelo amor de Deus! n„o digas nada, deixa contar-te... Eu ia -l·, tinha mandado Melanie por uma carruagem. Ia vÍr-te... Nunca tive a -coragem de te dizer! Fiz mal, foi horrivel... Mas escuta, n„o digas nada -ainda, perdÙa, que eu n„o tenho culpa! - -De novo os soluÁos a suffocaram. E cahiu ao canto do sof·, n'um chÙro -brusco e nervoso, que a sacudiu toda, lhe fazia rolar sobre os hombros -os cabellos mal atados. - -Carlos fic·ra diante d'ella, immovel. O seu coraÁ„o parecia parado de -surpreza e de duvida, sem forÁa para desafogar. Apenas agora sentia -quanto baixo e brutal deixar-lhe o cheque--que tinha alli na carteira e -que o enchia de vergonha... Ella ergueu o rosto, todo molhado, murmurou -com um grande esforÁo: - ---Escuta-me!... Nem sei como hei de dizer... Oh, s„o tantas coisas, s„o -tantas coisas!... Tu n„o te vaes j· embora, senta-te, escuta... - -Carlos puxou uma cadeira, lentamente. - ---N„o, aqui ao pÈ de mim... Para eu ter mais coragem... Por quem Ès, tem -pena, faze-me isso! - -Elle cedeu · supplicaÁ„o humilde e enternecedora dos seus olhos -arrazados d'agua: e sentou-se ao outro canto do sof·, afastado d'ella, -n'uma desconsolaÁ„o infinita. Ent„o, muito baixo, enrouquecida pelo -chÙro, sem o olhar, e como n'um confessionario--Maria comeÁou a fallar -do seu passado, desmanchadamente, hesitando, balbuciando, entre grandes -soluÁos que a afogavam, e pudores amargos que lhe faziam enterrar nas -m„os a face afflicta. - -A culpa n„o fÙra d'ella! n„o fÙra d'ella! Elle devia ter perguntado -·quelle homem que sabia toda a sua vida... FÙra sua m„i... Era horroroso -dizel-o, mas fÙra por causa d'ella que conhecera e que fugira com o -primeiro homem, o outro, um irlandez... E tinha vivido com elle quatro -annos, como sua esposa, t„o fiel, t„o retirada de tudo e sÛ occupada da -sua casa, que elle ia casar com ella! Mas morrera na guerra com os -allem„es, na batalha de Saint-Privat. E ella fic·ra com Rosa, com a m„i -j· doente, sem recursos, depois de vender tudo... Ao principio -trabalh·ra... Em Londres tinha procurado dar liÁıes de piano... Tudo -falh·ra, dois dias vivera sem lume, de peixe salgado, vendo Rosa com -fome! com fome! Ah, elle n„o podia perceber o que isto era!... Quasi -fÙra por caridade que as tinha repatriado para Paris... E ahi conhecera -Castro Gomes. Era horrivel, mas que havia d'ella fazer! Estava -perdida... - -Lentamente escorreg·ra do sof·, cahira aos pÈs de Carlos. E elle -permanecia immovel, mudo, com o coraÁ„o rasgado por angustias -differentes: era uma compaix„o tremula por todas aquellas miserias -soffridas, dÙr de m„i, trabalho procurado, fome, que lh'a tornavam -confusamente mais querida; e era o horror d'esse outro homem, o -irlandez, que surgia agora, e que lh'a tornava de repente mais -maculada... - -Ella continuava fallando de Castro Gomes. Vivera tres annos com elle, -honestamente, sem um desvio, sem um pensamento mau. O seu desejo era -estar quieta em casa. Elle È que a forÁava a andar em ceias, em -noitadas... - -E Carlos n„o podia ouvir mais, torturado. Repeliu-lhe as m„os, que -procuravam as suas. Queria fugir, queria findar!... - ---Oh n„o, n„o me mandes embora! gritou ella prendendo-se a elle -anciosamente. Eu sei que n„o mereÁo nada! Sou uma desgraÁada... Mas n„o -tive coragem, meu amor! Tu Ès homem, n„o comprehendes estas coisas... -Olha para mim! porque n„o olhas para mim? Um instante sÛ, n„o voltes o -rosto, tem pena de mim... - -N„o! elle n„o queria olhar. Temia aquellas lagrimas, o rosto cheio -d'agonia. Ao calor do seio que arquejava sobre os seus joelhos, j· tudo -n'elle comeÁava a oscillar, orgulhos, despeitos, dignidade, ciume... E -ent„o, sem saber, a seu pezar, as suas m„os apertaram as d'ella. Ella -cobriu-lhe logo de beijos os dedos, as mangas, arrebatadamente: e -anciosa implorava do fundo da sua miseria um instante de misericordia. - ---Oh, dize que me perdÙas! Tu Ès t„o bom! Uma palavra sÛ... Dize sÛ que -n„o me odeias, e depois deixo-te ir... Mas dize primeiro... Olha ao -menos para mim como d'antes, uma sÛ vez!... - -E eram agora os seus labios que procuravam os d'elle. Ent„o a fraqueza -em que sentia afundar-se todo o seu sÍr encheu Carlos de cÛlera, contra -si e contra ella. Sacudiu-a brutalmente, gritou: - ---Mas porque n„o me disseste, porque n„o me disseste? Para que foi essa -longa mentira? Eu tinha-te amado do mesmo modo! Para que mentiste, tu? - -Larg·ra-a, prostrada no ch„o. E de pÈ, deixava cahir sobre ella a sua -queixa desesperada: - ---… a tua mentira que nos separa, a tua horrivel mentira, a tua mentira -sÛmente! - -Ella ergueu-se pouco a pouco, mal se sustendo, e com uma pallidez de -desmaio. - ---Mas eu queria dizer-t'o, murmurou muito baixo, muito quebrado diante -d'elle, deixando cahir os braÁos. Eu queria dizer-t'o... N„o te lembras, -n'aquelle dia em que vieste tarde, quando eu fallei da casa de campo, e -que tu pela primeira vez declaraste que gostavas de mim? Eu disse-te -logo: ´ha uma coisa que te quero contar...ª Tu nem me deixaste acabar. -Imaginavas o que era, que eu queria ser sÛ tua, longe de tudo... E -disseste ent„o que haviamos d'ir, com Rosa, ser felizes para algum canto -do mundo... N„o te lembras?... Foi ent„o que me veio uma tentaÁ„o! Era -n„o dizer nada, deixar-me levar, e depois, mais tarde, annos depois, -quando te tivesse provado bem que boa mulher eu era, digna da tua -estima, confessar-te tudo e dizer-te: ´agora, se queres, manda-me -embora.ª Oh! foi mal feito, bem sei... Mas foi uma tentaÁ„o, n„o -resisti... Se tu n„o fallasses em fugirmos, tinha-te dito tudo... Mas -mal fallaste em fugirmos, vi uma outra vida, uma grande esperanÁa, nem -sei que! E alÈm d'isso adiava aquella horrivel confiss„o! Emfim, nem -posso explicar, era como o cÈo que se abria, via-me comtigo n'uma casa -nossa... Foi uma tentaÁ„o!... E depois era horrivel, no momento em que -tu me querias tanto, ir dizer-te ´n„o faÁas tudo isso por mim, olha que -eu sou uma desgraÁada, nem marido tenho...ª Que te hei de explicar mais? -N„o me resignava a perder o teu respeito. Era t„o bom ser assim -estimada... Emfim foi um mal, foi um grande mal... E agora ahi est·, -vejo-me perdida, tudo acabou! - -Atirou-se para o ch„o, como uma creatura vencida e finda, escondendo a -face no sof·. E Carlos, indo lentamente ao fundo da sala, voltando -bruscamente atÈ junto d'ella, tinha sÛ a mesma recriminaÁ„o, a -_mentira_, a _mentira_, pertinaz e de cada dia... SÛ os soluÁos d'ella -lhe respondiam. - ---Porque n„o me disseste ao menos depois, aqui nos Olivaes, quando -sabias que tu eras tudo para mim?... - -Ella ergueu a cabeÁa fatigada: - ---Que queres tu? Tive medo que o teu amor mudasse, que fosse d'outro -modo... Via-te j· a tratar-me sem respeito. Via-te a entrar por ahi -dentro de chapÈo na cabeÁa, a perder a affeiÁ„o · pequena, a querer -pagar as despezas da casa... Depois tinha remorsos, ia adiando. Dizia -´hoje n„o, um dia sÛ mais de felicidade, ·manh„ ser·...ª E assim ia -indo! Emfim, nem eu sei, um horror! - -Houve um silencio. E ent„o Carlos sentiu · porta _Niniche_ que queria -entrar e que gania baixinho e doloridamente. Abriu. A cadellinha correu, -pulou para o sof·, onde Maria permanecia soluÁando, enrodilhando a um -canto: procurava lamber-lhe as m„os, inquieta: depois ficou plantada -junto d'ella, como a guarda-l'a, desconfiada, seguindo, com os seus -vivos olhos d'azeviche, Carlos que recomeÁ·ra a passear sombriamente. - -Um ai mais longo e mais triste de Maria fel-o parar. Esteve um momento -olhando para aquella dÙr humilhada... Todo abalado, com os labios a -tremer, murmurou: - ---Mesmo que te pudesse perdoar, como te poderia acreditar agora nunca -mais? Ha esta mentira horrivel sempre entre nÛs a separar-nos! N„o teria -um unico dia de confianÁa e de paz... - ---Nunca te menti sen„o n'uma coisa, e por amor de ti! disse ella -gravemente do fundo da sua prostraÁ„o. - ---N„o, mentiste em tudo! Tudo era falso, falso o teu casamento, falso o -teu nome, falsa a tua vida toda... Nunca mais te poderia acreditar... -Como havia de ser, se agora mesmo quasi que nem acredito no motivo das -tuas lagrimas? - -Uma indignaÁ„o ergueu-a, direita e soberba. Os seus olhos de repente -seccos rebrilharam, revoltados e largos, no marmore da sua pallidez. - ---Que queres tu dizer? Que estas lagrimas tem outro motivo, estas -supplicas s„o fingidas? Que finjo tudo para te reter, para n„o te -perder, ter outro homem, agora que estou abandonada?... - -Elle balbuciou: - ---N„o, n„o! N„o È isso! - ---E eu? exclamou ella, caminhando para elle, dominando-o, magnifica e -com um esplendor de verdade na face. E eu? porque hei de eu acreditar -n'essa grande paix„o que me juravas? O que È que tu amavas ent„o em mim? -Dize l·! Era a mulher d'outro, o nome, o requinte do adulterio, as -_toilletes_?... Ou era eu propria, o meu corpo, a minha alma e o meu -amor por ti?... Eu sou a mesma, olha bem para mim!... Estes braÁos s„o -os mesmos, este peito È o mesmo... SÛ uma coisa È differente: a minha -paix„o! Essa È maior, desgraÁadamente, infinitamente maior. - ---Oh! se isso fosse verdade! gritou Carlos, apertando as m„os. - -N'um instante Maria estava cahida a seus pÈs, com os braÁos abertos para -elle. - ---Juro-t'o por alma de minha filha, por alma de Rosa! Amo-te, adoro-te -doidamente, absurdamente, atÈ · morte! - -Carlos tremia. Todo o seu sÍr pendia para ella; e era um impulso -irresistivel de se deixar cahir sobre aquelle seio que arfava a seus -pÈs, ainda que elle fosse o abysmo da sua vida inteira... Mas outra vez -a idÈia da _mentira_ passou, regeladora. E afastou-se d'ella, levando os -punhos · cabeÁa, n'um desespero, revoltado contra aquella coisa -pequenina e indestructivel que n„o queria sumir-se, e que se interpunha -como uma barra de ferro entre elle e a sua felicidade divina! - -Ella fic·ra ajoelhada, immovel, com os olhos esgazeados para o tapete. -Depois, no silencio estofado da sala, a sua voz ergueu-se dolente e -tremula: - ---Tens raz„o, acabou-se! Tu n„o me acreditas, tudo se acabou!... … -melhor que te v·s embora... Ninguem me torna a acreditar... Acabou tudo -para mim, n„o tenho ninguem mais no mundo... ¡manh„ s·io d'aqui, -deixo-te tudo... Has de me dar tempo para arranjar... Depois, que hei de -fazer, vou-me embora! - -E n„o pÙde mais, tombou para o ch„o, com os braÁos estirados, perdida de -chÙro. - -Carlos voltou-se, ferido no coraÁ„o. Com o seu vestido escuro, para alli -cahida e abandonada, parecia j· uma pobre creatura, arremessada para -fÛra de todo o lar, sÛsinha a um canto, entre a inclemencia do mundo... -Ent„o respeitos humanos, orgulho, dignidade humana, tudo n'elle foi -levado como por um grande vento de piedade. Viu sÛ, offuscando todas as -fragilidades, a sua belleza, a sua dÙr, a sua alma sublimemente amante. -Um delirio generoso, de grandiosa bondade, misturou-se · sua paix„o. E, -debruÁando-se, disse-lhe baixo, com os braÁos abertos: - ---Maria, queres casar commigo? - -Ella ergueu a cabeÁa, sem comprehender, com os olhos desvairados. Mas -Carlos tinha os braÁos abertos; e estava esperando para a fechar dentro -d'elles outra vez, como sua e para sempre... Ent„o levantou-se, -tropeÁando nos vestidos, veio cahir sobre o peito d'elle, cobrindo-o de -beijos, entre soluÁos e risos, tonta, n'um deslumbramento: - ---Casar comtigo, comtigo? Oh Carlos... E viver sempre, sempre -comtigo?... Oh meu amor, meu amor! E tratar de ti, e servir-te, e -adorar-te, e ser sÛ tua? E a pobre Rosa tambem... N„o, n„o cases -commigo, n„o È possivel, n„o valho nada! Mas se tu queres, porque -n„o?... Vamos para longe, juntos, e Rosa e eu sobre o teu coraÁ„o! E has -de ser nosso amigo, meu e d'ella, que n„o temos ninguem no mundo... Oh! -meu Deus, meu Deus!... - -Empallideceu, escorregando pesadamente entre os braÁos d'elle, -desmaiada: e os seus longos cabellos desprendido rojavam o ch„o, tocados -pela luz de tons d'ouro. - - - - -V - - -Maria Eduarda e Carlos, que fic·ra essa noite nos Olivaes na sua -casinhola, acabavam de almoÁar. O Domingos servira o cafÈ, e antes de -sahir deix·ra ao lado de Carlos a caixa de cigarettes e o _Figaro_. As -duas janellas estavam abertas. Nem uma folha se movia no ar pesado da -manh„ encoberta, entristecida ainda por um dobre lento de sinos que -morria ao longe nos campos. No banco de cortiÁa, sob as arvores, miss -Sarah costurava preguiÁosamente; Rosa ao lado brincava na relva. E -Carlos, que viera n'uma intimidade conjugal, com uma simples camisa de -sÍda e um jaquet„o de flanella, chegou ent„o a cadeira para junto de -Maria, tomou-lhe a m„o, brincando-lhe com os anneis, n'uma lenta -caricia: - ---Vamos a saber, meu amor... Decidiste, por fim? Quando queres partir? - -N'essa noite, entre os seus primeiros beijos de noiva, ella mostr·ra o -desejo enternecido de n„o alterar o plano da Italia e d'um ninho -romantico entre as flÙres d'Isola-bella: sÛmente agora n„o iam esconder -a inquietaÁ„o d'uma felicidade culpada, mas gozar o repouso d'uma -felicidade legitima. E, depois de todas as incertezas e tormentos que o -tinham agitado desde o dia em que cruz·ra Maria Eduarda no Aterro, -Carlos anhelava tambem pelo momento de se installar emfim no conforto -d'um amor sem duvidas e sem sobresaltos: - ---Eu por mim abalava ·manh„. Estou sÙfrego de paz. Estou atÈ sÙfrego de -preguiÁa... Mas tu, dize, quando queres? - -Maria n„o respondeu; apenas o seu olhar sorriu, reconhecido e -apaixonado. Depois, sem retirar a m„o que a longa caricia de Carlos -ainda prendia, chamou Rosa atravÈs da janella. - ---Mam„, espera, j· vou! Passa-me umas migalhas... Andam aqui uns pardaes -que ainda n„o almoÁaram... - ---N„o, vem c·. - -Quando ella appareceu · porta, toda de branco, cÛrada, com uma das -ultimas rosas de ver„o mettida no cinto--Maria quil-a mais perto, entre -elles, encostada aos seus joelhos. E, arranjando-lhe a fita solta do -cabello, perguntou, muito sÈria, muito commovida, se ella gostaria que -Carlos viesse viver com ellas de todo e ficar alli na _Toca_... Os olhos -da pequena encheram-se de surpreza e de riso: - ---O quÍ! estar sempre, sempre aqui, mesmo de noite, toda a noite?... E -ter aqui as suas malas, as suas coisas?... - -Ambos murmuraram--´simª. - -Rosa ent„o pulou, bateu as palmas, radiante, querendo que Carlos fosse -j·, j·, buscar as suas malas e as suas coisas... - ---Escuta, disse-lhe ainda Maria gravemente, retendo-a sobre os joelhos. -E gostavas que elle fosse como o pap·, e que andasse sempre comnosco, e -que lhe obedecessemos ambas, e que gostassemos muito d'elle ? - -Rosa ergueu para a m„e uma facesinha compenetrada, onde todo o sorriso -se apag·ra. - ---Mas eu n„o posso gostar mais d'elle do que gÛsto!... - -Ambos a beijaram, n'um enternecimento que lhes humedecia os olhos. E -Maria Eduarda, pela primeira vez diante de Rosa debruÁando-se sobre -ella, beijou de leve a testa de Carlos. A pequena ficou pasmada para o -seu amigo, depois para a m„i. E pareceu comprehender tudo; escorregou -dos joelhos de Maria, veio encostar-se a Carlos com uma meiguice -humilde: - ---Queres que te chame pap·, sÛ a ti? - ---SÛ a mim, disse elle, fechando-a toda nos braÁos. - -E assim obtiveram o consentimento de Rosa--que fugiu, atirando a porta, -com as m„os cheias de bolos para os pardaes. - -Carlos levantou-se, tomou a cabeÁa de Maria entre as m„os, e -contemplando-a profundamente, atÈ · alma, murmurou n'um enlevo: - ---…s perfeita! - -Ella desprendeu-se, com melancolia, d'aquella adoraÁ„o que a perturbava. - ---Escuta... Tenho ainda muito, muito que te dizer, infelizmente. Vamos -para o nosso kiosque... Tu n„o tens nada que fazer, n„o? E que tenhas, -hoje Ès meu... Vou j· ter comtigo. Leva as tuas cigarettes. - -Nos degraus do jardim, Carlos parou a olhar, a sentir a doÁura velada do -cÈo cinzento... E a vida pareceu-lhe adoravel, d'uma poesia fina e -triste,assim envolta n'aquella nevoa macia onde nada resplandecia e nada -cantava, e que t„o favoravel era para que dois coraÁıes, desinteressados -do mundo e em desharmonia com elle, se abandonassem juntos ao contÌnuo -encanto de estremecerem juntos na mudez e na sombra. - ---Vamos ter chuva, tio AndrÈ, disse elle, passando junto do velho -jardineiro que aparava o buxo. - -O tio AndrÈ, atarantado, arrancou o chapÈo. Ah! uma gota d'agua era bem -necessaria, depois da estiagem! O torr„osinho j· estava com sÍde! E em -casa todos bons? A senhora? A menina? - ---Tudo bom, tio AndrÈ, obrigado. - -E no seu desejo de vÍr todos em torno de si felizes como elle e como a -terra sequiosa que ia ser consolada--Carlos metteu uma libra na m„o do -tio AndrÈ, que ficou deslumbrado, sem ousar fechar os dedos sobre aquelle -ouro extraordinario que reluziu. - -Quando Maria entrou no kiosque trazia um cofre de sandalo. Atirou-o para -o divan: fez sentar Carlos ao lado, bem confortavel, entre almofadas: -accendeu-lhe uma cigarrete. Depois agachou-se aos seus pÈs, sobre o -tapete, como na humildade de uma confiss„o. - ---Est·s bem assim? Queres que o Domingos te traga agua e cognac?... N„o? -Ent„o ouve agora, quero-te contar tudo... - -Era toda a sua existencia que ella desejava contar. Pens·ra mesmo em -lh'a escrever n'uma carta interminavel, como nos romances. Mas decidira -antes tagarellar alli uma manh„ inteira, aninhada aos seus pÈs. - ---Est·s bem, n„o est·s? - -Carlos esperava, commovido. Sabia que aquelles labios amados iam fazer -revelaÁıes pungentes para o seu coraÁ„o--e amargas para o seu orgulho. -Mas a confidencia da sua vida completava a posse da sua pessoa: quando a -conhecesse toda no seu passado sentil-a-hia mais sua inteiramente. E no -fundo tinha uma curiosidade insaciavel d'essas coisas que o deviam -pungir e que o deviam humilhar. - ---Sim, conta... Depois esquecemos tudo e para sempre. Mas agora dize, -conta... Onde nasceste tu por fim? - -Nascera em Vienna: mas pouco se recordava dos tempos de crianÁa, quasi -nada sabia do pap·, a n„o ser a sua grande nobreza e a sua grande -belleza. Tivera uma irm„sinha que morrera de dois annos e que se chamava -Heloisa. A mam„, mais tarde, quando ella era j· rapariga, n„o tolerava -que lhe perguntassem pelo passado; e dizia sempre que remexer a memoria -das coisas antigas prejudicava tanto como sacudir uma garrafa de vinho -velho... De Vienna apenas recordava confusamente largos passeios -d'arvores, militares vestidos de branco, e uma casa espelhada e dourada -onde se danÁava: ·s vezes durante tempos ella ficava l· sÛ com o avÙ, um -velhinho triste e timido, mettido pelos cantos, que lhe contara -historias de navios. Depois tinham ido a Inglaterra: mas lembrava-se -sÛmente de ter atravessado um grande rumor de ruas, n'um dia de chuva, -embrulhada em pelles, sobre os joelhos d'um escudeiro. As suas primeiras -memorias mais nitidas datavam de Paris; a mam„, j· viuva, andava de luto -pelo avÙ; e ella tinha uma aia italiana que a levava todas as manh„s, -com um arco e com uma pÈlla, brincar aos Campos Elyseos. A noite -costumava vÍr a mam„ decotada, n'um quarto cheio de setins e de luzes; e -um homem louro, um pouco brusco, que fumava sempre estirado pelos sof·s, -trazia-lhe de vez em quando uma boneca, e chamava-lhe mademoiselle -_Triste-c[oe]ur_ por causa do seu arzinho sisudo. Emfim a mam„ mettera-a -n'um convento ao pÈ de Tours--porque n'essa idade, apesar de cantar j· -ao piano as walsas da _Belle HelËne_, ainda n„o sabia soletrar. FÙra nos -jardins do convento, onde havia lindos lilazes, que a mam„ se separ·ra -d'ella n'uma paix„o de lagrimas; e ao lado esperava, para a consolar -decerto, um sujeito muito grave, de bigodes encerados, a quem a Madre -Superiora fallara com veneraÁ„o. - -A mam„ ao principio vinha vÍl-a todos os mezes, demorando-se em Tours -dois, tres dias; trazia-lhe uma profus„o de presentes, bonecas, bonbons, -lenÁos bordados, vestidos ricos, que lhe n„o permittia usar a regra -severa do convento. Davam ent„o passeios de carruagem pelos arredores de -Tours: e havia sempre officiaes a cavallo, que escoltavam a caleche--e -tratavam a mam„ por _tu_. No convento as mestras, a Madre Superiora n„o -gostavam d'estas sahidas--nem mesmo que a mam„ viesse acordar os -corredores devotos com as suas risadas e o ruido das suas sÍdas; ao -mesmo tempo pareciam temel-a; chamavam-lhe _Madame la Comtesse_. A mam„ -era muito amiga do general que commandava em Tours, e visitava o bispo. -Monsenhor, quando vinha ao convento, fazia-lhe uma festinha especial na -face e alludia risonhamente a _son excellente mËre_. Depois a mam„ -comeÁou a apparecer menos em Tours. Esteve um anno longe, quasi sem -escrever, viajando na Allemanha; voltou um dia, magra e coberta de luto, -e ficou toda a manh„ abraÁada a ella a chorar. - -Mas na visita seguinte vinha mais moÁa, mais brilhante, mais ligeira, -com dois grandes galgos brancos, annunciando uma romagem poetica · Terra -Santa e a todo o remoto Oriente. Ella tinha ent„o quasi dezeseis annos: -pela sua applicaÁ„o, os seus modos dÙces e graves, ganh·ra a affeiÁ„o da -Madre Superiora--que ·s vezes, olhando-a com tristeza, acariciando-lhe o -cabello cahido em duas tranÁas segundo a regra, lhe mostrava o desejo de -a conservar sempre ao seu lado. _Le monde_, dizia ella, _ne vous sera -bon ‡ rien, mon enfant!_... Um dia, porÈm, appareceu para a levar para -Paris, para a mam„, uma Madame de Chavigny, fidalga pobre, de caracoes -brancos, que era como uma estampa de severidade e de virtude. - -O que ella chor·ra ao deixar o convento! Mais choraria se soubesse o que -ia encontrar em Paris! - -A casa da mam„, no Parc Monceaux, era na realidade uma casa de jogo--mas -recoberta de um luxo sÈrio e fino. Os escudeiros tinham meias de sÍda; -os convidados, com grandes nomes no Nobiliario de FranÁa, conversavam de -corridas, das Tulherias, dos discursos do Senado; e as mesas de jogo -armavam-se depois como uma distracÁ„o mais picante. Ella recolhia sempre -ao seu quarto ·s dez horas: Madame de Chavigny, que fic·ra como sua dama -de companhia, ia com ella cedo ao Bois n'um coupÈ estufo de -_douairiËre_. Pouco a pouco, porÈm, este grande verniz comeÁou a -estalar. A pobre mam„ cahira sob o jugo d'um Mr. de Trevernnes, homem -perigoso pela sua seducÁ„o pessoal e por uma desoladora falta de honra e -de senso. A casa descahiu rapidamente n'uma bohemia mal dourada e -ruidosa. Quando ella madrugava, com os seus habitos saudaveis do -convento, encontrava paletots d'homens por cima dos sof·s: no marmore -das consoles restavam pontas de charuto entre nodoas de champagne; e -n'algum quarto mais retirado ainda tinia o dinheiro d'um _baccarat_ -talhado · claridade do sol. Depois uma noite, estando deitada, sentira -de repente gritos, uma debandada brusca na escada; veio encontrar a mam„ -estirada no tapete, desmaiada; ella dissera-lhe apenas mais tarde, -alagada em lagrimas, ´que tinha havido uma desgraÁaª... - -Mudaram ent„o para um terceiro andar da ChaussÈe-d'Antin. Ahi comeÁou a -apparecer uma gente desconhecida e suspeita. Eram Valachos de grandes -bigodes, Peruanos com diamantes falsos, e condes romanos que escondiam -para dentro das mangas os punhos enxovalhados... Por vezes entre esta -malta vinha algum _gentleman_--que n„o tirava o paletot, como n'um -cafÈ-concerto. Um d'esses foi um irlandez, muito moÁo, Mac-Gren... -Madame de Champigny deix·ra-as desde que falt·ra o coupÈ severo, -acolchoado de setim; e ella, sÛ com a m„i, insensivelmente, fatalmente, -fÙra-se misturando a essa vida tresnoitada de grogs e de _baccarat_. - -A mam„ chamava a Mac-Gren o ´bÈbȪ. Era com effeito uma crianÁa -estouvada e feliz. Namor·ra-se d'ella logo com o ardor, a effus„o, o -impeto d'um irlandez; e prometteu-lhe fazel-a sua esposa apenas se -emancipasse--porque Mac-Gren, menor ainda, vivia sobretudo das -liberalidades de uma avÛ excentrica e rica que o adorava, e que habitava -a ProvenÁa n'uma vasta quinta onde tinha feras em jaulas... E no entanto -induzia-a sem cessar a fugir com elle, desesperado de a vÍr entre -aquelles Valachos que cheiravam a genebra. O seu desejo era leval-a para -Fontainebleau, para um _cottage_ com trepadeiras de que fallava sempre, -e esperar ahi tranquillamente a maioridade que lhe traria duas mil -libras de renda. Decerto, era uma situaÁ„o falsa: mas preferivel a -permanecer n'aquelle meio depravado e brutal onde ella a cada instante -cÛrava... A esse tempo a mam„ parcela ir perdendo todo o senso, -desarranjada de nervos, quasi irresponsavel. As difficuldades crescentes -estonteavam-n'a; brigava com as criadas; bebia champagne ´_pour -s'Ètourdir_ª. Para satisfazer as exigencias de Mr. de Trevernnes -empenh·ra as suas joias, e quasi todos os dias chorava com ciumes -d'elle. Por fim houve uma penhora: uma noite tiveram d'enfardelar · -pressa roupa n'um sacco, e ir dormir a um hotel. E, peor, peor que tudo! -Mr. de Trevernnes comeÁava a olhar para ella d'um modo que a -assustava... - ---Minha pobre Maria! murmurou Carlos, pallido, agarrando-lhe as m„os. - -Ella permaneceu um momento suffocada, com o rosto cahido nos joelhos -d'elle. Depois limpando as lagrimas que a ennevoavam: - ---Ahi est„o as cartas de Mac-Gren, n'esse cofre... Tenho-as guardado -sempre para me justificar a mim mesma, se me È possivel... Pede-me em -todas que v· para Fontainebleau; chama-me sua esposa; jura que apenas -juntos iremos ajoelhar-nos diante da avÛ, obter a sua indulgencia... Mil -promessas! E era sincero... Que queres que te diga? A mam„ uma manh„ -partiu com uma sucia para Baden. Fiquei em Paris sÛ, n'um hotel... Tinha -um palpite, um terror que Trevernnes apparecia... E eu sÛ! Estava t„o -transtornada que pensei em comprar um rewolver... Mas quem veio foi -Mac-Gren. - -E partira com elle, sem precipitaÁ„o, como sua esposa, levando todas as -suas malas. A mam„ de volta de Baden correu a Fontainebleau, desvairada -e tragica, amaldiÁoando Mac-Gren, ameaÁando-o com a pris„o de Mazas, -querendo esbofeteal-o; depois rompeu a chorar. Mac-Gren, como um bÈbÈ, -agarrou-se a ella aos beijos, chorando tambem. A mam„ terminou por os -apertar a ambos contra o coraÁ„o, j· rendida, perdoando tudo, -chamando-lhes ´filhos da sua almaª. Passou o dia em Fontainebleau, -radiante, contando ´a patuscada de Badenª, j· com o plano de vir -installar-se no _cottage_, viver junto d'elles n'uma felicidade calma e -nobre de avÛsinha... Era em maio; Mac-Gren, · noite, deitou um ´fogo -presoª no jardim. - -ComeÁou um anno quieto e facil. O seu unico desejo era que a mam„ -vivesse com elles socegadamente. Diante das suas supplicas ella ficava -pensativa, dizia: ´Tens raz„o, veremos!ª Depois remergulhava no -torvelinho de Paris, d'onde resurgia uma manh„, n'um _fiacre_, -estremunhada e afflicta, com uma rica pelliÁa sobre uma velha saia, a -pedir-lhe cem francos... Por fim nascera Rosa. Toda a sua anciedade -desde ent„o fÙra legitimar a sua uni„o. Mas Mac-Gren adiava, -levianamente, com um medo pueril da avÛ. Era um perfeito bÈbÈ! -Entretinha as manh„s a caÁar passaros com visco! E ao mesmo tempo -terrivelmente teimoso: ella pouco a pouco perdera-lhe todo o respeito. -No comeÁo da primavera a mam„ um dia appareceu em Fontainebleau com as -suas malas, succumbida, enojada da vida. Rompera emfim com Trevernnes. -Mas quasi immediatamente se consolou: e comeÁou d'ahi a adorar Mac-Gren -com uma t„o larga effus„o de caricias, e achando-o t„o lindo, que era ·s -vezes embaraÁadora. Os dois passavam o dia, com copinhos de cognac, -jogando o _bezigue_. - -De repente rebentou a guerra com a Prussia. Mac-Gren enthusiasmado, e -apesar das supplicas d'ellas, corrÍra a alistar-se no batalh„o de Zuavos -de Charette; a avÛ de resto approv·ra este rasgo d'amor pela FranÁa, e -fizera-lhe n'uma carta em verso, em que celebrava Jeanne d'Arc, uma -larga remessa de dinheiro. Por esse tempo Rosa teve o garrotilho. Ella, -sem lhe largar o leito, mal attendia ·s noticias da guerra. Sabia apenas -confusamente das primeiras batalhas perdidas na fronteira. Uma manh„ a -mam„ rompeu-lhe no quarto, estonteada, em camisa: o exercito capitul·ra -em SÈdan, o imperador estava prisioneiro! ´… o fim de tudo, È o fim de -tudo!ª dizia a mam„ espavorida. Ella veio a Paris procurar noticias de -Mac-Gren: na rua Royale teve de se refugiar n'um port„o, diante do -tumulto d'um povo em delirio, acclamando, cantando a Marselheza, em -torno de uma caleche onde ia um homem, pallido como cera, com um -cache-nez escarlate ao pescoÁo. E um sujeito ao lado, aterrado, -disse-lhe que o povo fÙra buscar Rochefort · pris„o e que estava, -proclamada a Republica. - -Nada soubera de Mac-Gren. ComeÁaram ent„o dias d'infinito sobresalto. -Felizmente Rosa convalescia. Mas a pobre mam„ causava dÛ, envelhecida de -repente, sombria, prostrada n'uma cadeira, murmurando apenas: ´… o fim -de tudo, È o fim de tudo!ª E parecia na verdade o fim da FranÁa. Cada -dia uma batalha perdida; regimentos presos, apinhados em wagons de gado, -internados a todo o vapor para os presidios d'Allemanha; os prussianos -marchando sobre Paris... N„o podiam permanecer em Fontainebleau; o duro -inverno comeÁava; e com o que venderam · pressa, com o dinheiro que -Mac-Gren deix·ra, partiram para Londres. - -FÙra uma exigencia da mam„. E em Londres ella, desorientada na enorme e -estranha cidade, doente tambem, deix·ra-se levar pelas tontas idÈas da -m„e. Tomaram uma casa mobilada, muito cara, nos bairros de luxo, ao pÈ -de Mayfair. A mam„ fallava em organisar alli o centro de resistencia dos -bonapartistas refugiados; no fundo, a desgraÁada pensava em crear uma -casa de jogo em Londres. Mas ai! eram outros tempos... Os imperialistas, -sem imperio, n„o jogavam j· o _baccarat_. E ellas em breve, sem -rendimentos, gastando sempre, tinham-se achado com aquella dispendiosa -casa, tres criados, contas colossaes e uma nota de cinco libras no fundo -d'uma gaveta. E Mac-Gren mettido dentro de Paris, com meio milh„o de -prussianos em redor. Foi necessario vender todas as joias, vestidos, atÈ -as pelliÁas. Alugaram ent„o, no bairro pobre de Soho, tres quartos mal -mobilados. Era o _lodging_ de Londres em toda a sua suja, solitaria -tristeza; uma criadita unica, enfarruscada como um trapo; alguns carvıes -humidos fumegando mal na chaminÈ; e para jantar um pouco de carneiro -frio e cerveja da esquina. Por fim falt·ra mesmo o escasso shilling para -pagar o _lodging_. A mam„ n„o sahia do catre, doente, succumbida, -chorando. Ella ·s vezes ao anoitecer, escondida n'um water-proof, levava -ao _prÈgo_ embrulhos de roupa (atÈ roupa branca, atÈ camisas!) para que -ao menos n„o faltasse a Rosa a sua chicara de leite. As cartas que a -mam„ escrevia a alguns antigos companheiros de ceias na _Maison d'Or_ -ficavam sem resposta: outras traziam, embrulhada n'um bocado de papel, -alguma meia-libra que tinha o pavoroso sabor d'uma esmola. Uma noite, um -sabbado de grande nevoeiro, indo empenhar um chambre de rendas da mam„, -perdera-se, err·ra na vasta Londres n'uma treva amarellada, a tiritar de -frio, quasi com fome, perseguida por dois brutos que empestavam a -alcool. Para lhes fugir atirou-se para dentro d'um _cab_ que a levou a -casa. Mas n„o tinha um penny para pagar ao cocheiro; e a patrÙa roncava -no seu cacifro, bebeda. O homem resmungou; ella, succumbida, alli mesmo -na porta rompeu a chorar. Ent„o o cocheiro desceu da almofada, -commovido, offereceu-se para a levar de graÁa ao _prÈgo_, onde -ajustariam as suas contas. Foi; o pobre homem sÛ aceitou um _schilling_; -atÈ mesmo suppondo-a franceza grunhiu blasphemias contra os prussianos, -e teimou em lhe offerecer uma bebida. - -Ella no emtanto procurava uma occupaÁ„o qualquer costura, bordados, -traducÁıes, cÛpias de manuscriptos... N„o achava nada. N'aquelle duro -inverno o trabalho escasseava em Londres; surgira uma multid„o de -francezes, pobres como ella, luctando pelo p„o... A mam„ n„o cessava de -chorar; e havia alguma coisa mais terrivel que as suas lagrimas--eram as -suas allusıes constantes · facilidade de se ter em Londres dinheiro, -conforto e luxo, quando se È nova e se È bonita... - ---Que te parece esta vida, meu amor? exclamou ella, apertando as m„os -amargamente. - -Carlos beijou-a em silencio, com os olhos humedecidos. - ---Emfim tudo passou, continuou Maria Eduarda. Fez-se a paz, o cÍrco -acabou. Paris estava de novo aberto... SÛmente a difficuldade era -voltar. - ---Como voltaste? - -Um dia por acaso, em Regent-Street, encontr·ra um amigo de Mac-Gren, -outro irlandez, que muitas vezes jant·ra com elles em Fontainebleau. -Veio vÍl-as a Soho; diante d'aquella miseria, do bule de ch· aguado, dos -ossos de carneiro requentando sobre tres brazas mortas, comeÁou, como -bom irlandez, por accusar o governo d'Inglaterra e jurar uma desforra de -sangue. Depois offereceu, com os beiÁos j· a tremer, toda a sua -dedicaÁ„o. O pobre rapaz batia tambem o lagedo n'uma lucta tormentosa -pela vida. Mas era irlandez; e partiu logo generosamente, armado de -todos os seus ardis, a conquistar atravÈs de Londres o pouco que ellas -necessitavam para recolher a FranÁa. Com effeito appareceu n'essa mesma -noite, derreado e triumphante, brandindo tres notas de banco e uma -garrafa de _champagne_. A mam„ ao vÍr, depois de tantos mezes de ch· -preto, a garrafa de _Clicquot_ encarapuÁada de ouro--quasi desmaiou, de -enternecimento. Enfardelaram os trapos. Ao partirem, na estaÁ„o de -_Charing-Cross_, o irlandez levou-a para um canto, e engasgado, torcendo -os bigodes, disse-lhe que Mac-Gren tinha morrido na batalha de -Saint-Privat... - ---Para que te hei de eu contar o resto? Em Paris recomecei a procurar -trabalho. Mas tudo estava ainda em confus„o... Quasi immediatamente veio -a Communa... PÛdes acreditar que muitas vezes tivemos fome. Mas emfim j· -n„o era Londres, nem o inverno, nem o exilio. Estavamos em Paris, -soffriamos de companhia com amigos d'outros tempos. J· n„o parecia t„o -terrivel... Com todas estas privaÁıes a pobre Rosa comeÁava a -definhar... Era um supplicio vÍl-a perder as cÙres, tristinha, mal -vestida, mettida n'uma trapeira... A mam„ j· se queixava da doenÁa de -coraÁ„o que a matou... O trabalho que eu encontrava, mal pago, dava-nos -apenas para a renda da casa, e para n„o morrer absolutamente de -necessidade... Principiei a adoecer de anciedade, de desespero. Luctei -ainda. A mam„ fazia dÛ. E Rosa morria se n„o tivesse outro regimen, bom -ar, algum conforto... Conheci ent„o Castro Gomes em casa d'uma antiga -amiga da mam„, que n„o perdera nada com a guerra, nem com os prussianos, -e que me dava trabalhos de costura... E o resto s·bel-o... Nem eu me -lembro... Fui levada... Via ·s vezes Rosa, coitadinha, embrulhada n'um -chale, muito quietinha ao seu canto, depois de rapada a sua magra tigela -de sopas, e ainda com fome... - -N„o pÙde continuar; rompeu a chorar, cahida sobre os joelhos de Carlos. -E elle na sua emoÁ„o sÛ lhe podia dizer, passando-lhe as m„os tremulas -pelos cabellos, que a havia de desforrar bem de todas as miserias -passadas... - ---Escuta ainda, murmurou ella, limpando as lagrimas. Ha sÛ uma coisa -mais que te quero dizer. E È a santa verdade, juro-te pela alma de Rosa! -… que n'estas duas relaÁıes que tive o meu coraÁ„o conservou-se -adormecido... Dormiu sempre, sempre, sem sentir nada, sem desejar nada, -atÈ que te vi... E ainda te quero dizer outra coisa... - -Um momento hesitou, coberta de rubor. Pass·ra os braÁos em torno de -Carlos, pendurada toda d'elle, com os olhos mergulhados nos seus. E foi -mais baixo que balbuciou na derradeira, na absoluta confiss„o de todo o -seu sÍr: - ---AlÈm de ter o coraÁ„o adormecido, o meu corpo permaneceu sempre frio, -frio como um marmore... - -Elle estreitou-a a si arrebatadamente: e os seus labios ficaram collados -muito tempo, em silencio, completando, n'uma emoÁ„o nova e quasi -virginal, a communh„o perfeita das suas almas. - - - -D'ahi a dias Carlos e Ega vinham n'uma victoria, pela estrada dos -Olivaes, em caminho da _Toca_. - -Toda essa manh„, no Ramalhete, Carlos estivera emfim contando ao Ega o -impulso de paix„o que o lanÁ·ra de novo e para sempre, como esposo, nos -braÁos de Maria; e, na confianÁa absoluta que o prendia ao Ega, -revel·ra-lhe mesmo miudamente a historia d'ella, dolorosa e -justificadora. Depois, ao acalmar o calor, propoz que fossem comer as -sopas · _Toca_. Ega deu uma volta pelo quarto, hesitando. Por fim -comeÁou a passar devagar a escova pelo paletot, murmurando, como durante -as longas confidencias de Carlos: ´… prodigioso!... Que estranha coisa, -a vida!ª - -E agora pela estrada, na aragem dÙce do rio, Carlos fallava ainda de -Maria, da vida na _Toca_, deixando escapar do coraÁ„o muito cheio o -interminavel cantico da sua felicidade. - ---… facto, Egasinho, conheÁo quasi a felicidade perfeita! - ---E c· na _Toca_ ainda ninguem sabe nada? - -Ninguem--a n„o ser Melanie, a confidente--suspeitava a profunda -alteraÁ„o que se fizera nas suas relaÁıes: e tinham assentado que miss -Sarah e o Domingos, primeiras testemunhas da sua amizade, seriam -rÈgiamente recompensados e despedidos quando em fins de outubro elles -partissem para Italia. - ---E ides ent„o casar a Roma?... - ---Sim... Em qualquer logar onde haja um altar e uma estola. Isso n„o -falta em Italia... E È ent„o, Ega, que reapparece o espinho de toda esta -felicidade. … por isso que eu disse ´quasi.ª O terrivel espinho, o avÙ! - ---… verdade, o velho Affonso. Tu n„o tens idÈa como lhe has de fazer -conhecer esse caso?... - -Carlos n„o tinha idÈa nenhuma. Sentia sÛ que lhe faltava absolutamente a -coragem de dizer ao avÙ: ´esta mulher, com quem vou casar, teve na sua -vida estes errosª... E alÈm d'isso, j· reflectira, era inutil. O avÙ -nunca comprehenderia os motivos complicados, fataes, inilludiveis que -tinham arrastado Maria. Se lh'os contasse miudamente--o avÙ veria alli -um romance confuso e fragil, antipathico · sua natureza forte e candida. -A fealdade das culpas feril-o-hia, exclusivamente; e n„o lhe deixaria -apreciar, com serenidade, a irresistibilidade das causas. Para perceber -este caso d'um caracter nobre apanhado dentro d'uma implacavel rede de -fatalidades, seria necessario um espirito mais ductil, mais mundano que -o do avÙ... O velho Affonso era um bloco de granito: n„o se podiam -esperar d'elle as subtis discriminaÁıes d'um casuista moderno. Da -existencia de Maria sÛ veria o facto tangivel:--cahira successivamente -nos braÁos de dois homens. E d'ahi decorreria toda a sua attitude de -chefe de familia. Para que havia elle pois de fazer ao velho uma -confiss„o, que necessariamente originaria um conflicto de sentimentos e -uma irreparavel separaÁ„o domestica?... - ---Pois n„o te parece, Ega? - ---Falla mais baixo, olha o cocheiro. - ---N„o percebe bem o portuguez, sobretudo o nosso estylo... Pois n„o te -parece? - -Ega raspava phosphoros na sola para accender o charuto. E resmungava: - ---Sim, o velho Affonso È granitico... - -Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder -ao avÙ o passado de Maria--e fazer-lhe conhecer a pessoa de Maria. -Casavam secretamente em Italia. Regressavam: ella para a rua de S. -Francisco, elle filialmente para o Ramalhete. Depois Carlos levava o avÙ -a casa da sua boa amiga, que conhecera em Italia, M.^{me} de Mac-Gren. -Para o prender logo l· estavam os encantos de Maria, todas as graÁas -d'um interior delicado e sÈrio, jantarinhos perfeitos, idÈas justas, -Chopin, Beethoven, etc. E, para completar a conquista de quem t„o -enternecidamente adorava crianÁas, l· estava Rosa... Emfim, quando o avÙ -estivesse namorado de Maria, da pequena, de tudo--elle, uma manh„, -dizia-lhe francamente: ´Esta creatura superior e adoravel teve uma quÈda -no seu passado; mas eu casei com ella; e, sendo tal como È, n„o fiz bem, -apesar de tudo, em a escolher para minha esposa?ª E o avÙ, perante esta -terrivel irremediabilidade do facto consummado, com toda a sua -indulgencia de velho enternecido a defender Maria--seria o primeiro a -pensar que, se esse casamento n„o era o melhor segundo as regras do -mundo, era decerto o melhor segundo os interesses do coraÁ„o... - ---Pois n„o te parece, Ega? - -Ega, absorvido, sacudia a cinza do charuto. E pensava que Carlos, em -resumo, adopt·ra para com o avÙ a complicada combinaÁ„o que Maria -Eduarda tent·ra para com elle--e imitava sem o sentir os subtis -raciocinios d'ella. - ---E acabou-se, continuava Carlos. Se elle na sua indulgencia aceitar -tudo, bravo! d·-se uma grande festa no Ramalhete... Sen„o, foi-se! -passaremos a viver cada um para seu lado, fazendo ambos prevalecer a -superioridade de duas coisas excellentes: o avÙ as tradiÁıes do sangue, -eu os direitos do coraÁ„o. - -E, vendo o Ega ainda silencioso: - ---Que te parece? Dize l·. Tu andas t„o falto de idÈas, homem! - -O outro sacudiu a cabeÁa, como despertando. - ---Queres que te diga o que me parece, com franqueza? Que diabo, nÛs -somos dois homens fallando como homens!... Ent„o aqui est·: teu avÙ tem -quasi oitenta annos, tu tens vinte e sete ou o quer que seja... … -doloroso dizel-o, ninguem o diz com mais dÙr que eu, mas teu avÙ ha de -morrer... Pois bem, espera atÈ l·. N„o cases. Suppıe que ella tem um pae -muito velho, teimoso e caturra, que detesta o snr. Carlos da Maia e a -sua barba em bico. Espera; contin˙a a vir · _Toca_, na tipoia do Mulato; -e deixa teu avÙ acabar a sua velhice calma, sem desillusıes e sem -desgostos... - -Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca, -n'esses dias de inquietaÁ„o, lhe acudira idÈa t„o sensata, t„o facil! -Sim, era isso, esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre avÙ toda -a dÙr?... Maria de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a -convers„o do amante no marido pelo laÁo d'estola que tudo purifica e -nenhuma forÁa desata. Mas ella mesma preferiria uma consagraÁ„o -legal--que n„o fosse assim precipitada, dissimulada... Depois, t„o recta -e generosa, comprehenderia bem a obrigaÁ„o suprema de n„o mortificar -aquelle santo velho. De resto, n„o conhecia ella a sua lealdade solida e -pura como um diamante? Recebera a sua palavra: desde esse momento -estavam casados, n„o diante do sacrario e nos registos da sacristia--mas -diante da honra e na inabalavel communh„o dos seus coraÁıes... - ---Tens raz„o! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens -immensamente raz„o! Essa idÈa È genial! Devo esperar... E emquanto -espero?... - ---Como, emquanto esperas? acudiu Ega, rindo. Que diabo! Isso n„o È -commigo! - -E mais sÈrio: - ---Emquanto esperas tens esse metal vil que faz a existencia nobre. -Installas tua mulher, porque desde hoje È tua mulher, aqui nos Olivaes -ou n'outro sitio, com o gosto, o conforto e a dignidade que competem a -tua mulher... E deixas-te ir! Nada impede que faÁaes essa viagem nupcial -· Italia... Voltas, contin˙as a fumar a tua _cigarette_ e a deixar-te -ir. Este È o bom senso: È assim que pensaria o grande Sancho Pansa... -Que diabo tens tu n'aquelle embrulho que cheira t„o bem? - ---Um ananaz... Pois È isso, querido: esperar, deixar-me ir. … uma idÈa! - -Uma idÈa! e a mais grata ao temperamento de Carlos. Para que iria com -effeito enredar-se n'uma meada de amarguras domesticas, por um excesso -de cavalheirismo romantico? Maria confiava n'elle; era rico, era moÁo; o -mundo abria-se ante elles facil e cheio de indulgencias. N„o tinha sen„o -a deixar-se ir. - ---Tens raz„o, Ega! E Maria È a primeira a achar isto cheio de senso e -d'_opportunismo_. Eu tenho uma certa pena em adiar a installaÁ„o da -minha vida e do meu _home_. Mas, acabou-se! Antes de tudo que o avÙ seja -feliz... E para celebrar o advento d'esta idÈa, Deus queira que Maria -nos tenha um bom jantar! - -Agora, ao aproximar-se da _Toca_, Ega ia receando o primeiro encontro -com Maria Eduarda. Incommodava-o esse enleio, esse rubor que ella n„o -poderia occultar--certa que, como confidente de Carlos, elle conhecia a -sua vida, as suas miserias, as suas relaÁıes com Castro Gomes. Por isso -hesit·ra em vir · _Toca_. Mas tambem, n„o apparecer mais a Maria Eduarda -seria marcar com um relevo quasi offensivo o desejo caridoso de n„o -molestar o seu pudor... Por isso decidira ´dar o mergulho d'uma vezª. -Quem, sen„o elle, deveria ser o mais apressado em estender a m„o · noiva -de Carlos?... AlÈm d'isso tinha uma infinita curiosidade de vÍr no seu -interior, · sua mesa, essa creatura t„o bella, com a sua graÁa nobre de -Deusa moderna! Mas saltou da victoria muito embaraÁado. - -Por fim tudo se passou com uma facilidade risonha. Maria bordava, -sentada nos degraus do jardim. Teve um sobresalto, cÛrou toda, com -effeito, ao avistar o Ega que procurava atarantadamente o monoculo: o -aperto de m„o que trocaram foi mudo e timido: mas Carlos, alegremente, -desembrulh·ra o ananaz--e na admiraÁ„o d'elle todo o constrangimento se -dissipou. - ---Oh! È magnifico! - ---Que cÙr, que luxo de tons! - ---E que aroma! Veio perfumando toda a estrada. - -Ega n„o volt·ra · _Toca_ desde a noite fatal da _soirÈe_ dos Cohens em -que elle alli tanto bebera e delir·ra tanto. E lembrou logo a Carlos a -jornada na velha traquitana, debaixo d'um temporal, o _grog_ do Craft, a -ceia de per˙... - ---J· aqui soffri muito, minha senhora, vestido de Mephistopheles!... - ---Por causa de Margarida? - ---Por quem se ha de soffrer n'este apaixonado mundo, minha senhora, -sen„o por Margarida ou por Fausto? - -Mas Carlos quiz que elle admirasse os esplendores novos da _Toca_. E foi -j· com familiaridade que Maria o levou pelas salas, lamentando que sÛ -viesse assim · _Toca_ no fim do ver„o e no fim das flÙres. Ega -extasiou-se ruidosamente. Emfim, perdera a _Toca_ o seu ar regelado e -triste de museu! J· alli se podia palrar livremente! - ---Isto È um barbaro, Maria! exclamava Carlos radiante. Tem horror · -arte! … um Ibero, È um Semita... - -Semita? Ega prezava-se de ser um luminoso Aryano! E por isso mesmo n„o -podia viver n'uma casa, em que cada cadeira tinha a solemnidade -sorumbatica de antepassados com cabelleira... - ---Mas, dizia Maria rindo, rodas estas lindas coisas do seculo dezoito -lembram antes a ligeireza, o espirito, a graÁa de maneiras... - ---V. exc.^a acha? acudiu Ega. A mim todos esses dourados, esses -enramalhetados, esses rococÛs lembram-me uma vivacidade estouvada e -sirigaita... Nada! nÛs vivemos n'uma Democracia! E n„o ha para exprimir -a alegria simples, sÛlida e bonacheirona da Democracia, como largas -poltronas de marroquim, e o mogno envernizado!... - -Assim n'uma risonha, ligeira discuss„o sobre bric-‡-brac, desceram ao -jardim. - -Miss Sarah passeava entre o buxo, de olhos baixos, com um livro fechado -na m„o. Ega, que conhecia j· os seus ardores nocturnos, cravou-lhe -sÙfregamente o monoculo; e emquanto Maria se abaix·ra a cortar um -geranio, exprimiu a Carlos n'um gesto mudo a sua admiraÁ„o por aquelle -beicinho escarlate, aquelle seiosinho redondo de rola farta... Depois, -ao fundo, junto do caramanch„o, encontraram Rosa que se balouÁava. Ega -pareceu deslumbrado com a sua belleza, a sua frescura mate de camelia -branca. Pediu-lhe um beijo. Ella exigiu primeiro, muito sÈria, que elle -tirasse o vidro do olho. - ---Mas È para te vÍr melhor! È para te vÍr melhor!... - ---Ent„o porque n„o trazes um em cada olho? Assim sÛ me vÍs metade... - -Encantadora! encantadora! murmurava Ega. No fundo achava a pequena -espevitada e impudente. Maria resplandecia. - -E o jantar alargou mais esta intimidade risonha. Carlos, logo · sopa, -fallando-se de campo e d'um _chalet_ que elle desejava construir em -Cintra, nos Capuchos, dissera--´quando nos casarmosª. E Ega alludiu a -esse futuro do modo mais grato ao coraÁ„o de Maria. Agora que Carlos se -installava para sempre n'uma felicidade estavel (dizia elle) era -necessario trabalhar! E relembrou ent„o a sua velha idÈa do Cenaculo, -representado por uma _Revista_ que dirigisse a litteratura, educasse o -gosto, elevasse a politica, fizesse a civilisaÁ„o, remoÁasse o -carunchoso Portugal... Carlos, pelo seu espirito, pela sua fortuna (atÈ -pela sua figura, ajuntava o Ega rindo) devia tomar a direcÁ„o d'este -movimento. E que profunda alegria para o velho Affonso da Maia! - -Maria escutava, presa e sÈria. Sentia bem quanto Carlos, com uma vida -toda de intelligencia e de actividade, rehabilitaria supremamente -aquella uni„o mostrando-lhe a influencia fecunda e purificadora. - ---Tem raz„o, tem bem raz„o! exclamava ella com ardor. - ---Sem contar, acrescentava o Ega, que o paiz precisa de nÛs! Como muito -bem diz o nosso querido e imbecilissimo Gouvarinho, o paiz n„o tem -pessoal... Como ha de tel-o, se nÛs, que possuimos as aptidıes, nos -contentamos em governar os nossos dog-carts e escrever a vida intima dos -atomos? Sou eu, minha senhora, sou eu que ando a escrever essa -biographia d'um atomo!... No fim, este dilettantismo È absurdo. Clamamos -por ahi, em botequins e livros, ´que o paiz È uma choldraª. Mas que -diabo! Porque È que n„o trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso -gosto e pelo molde perfeito das nossas idÈas?... V. exc.^a n„o conhece -este paiz, minha senhora. … admiravel! … uma pouca de cera inerte de -primeira qualidade. A quest„o toda est· em quem a trabalha. AtÈ aqui a -cera tem estado em m„os brutas, banaes, toscas, reles, rotineiras... … -necessario pÙl-a em m„os d'artistas, nas nossas. Vamos fazer d'isto um -_bijou_!... - -Carlos ria, preparando n'uma travessa o ananaz com sumo de laranja e -vinho da Madeira. Mas Maria n„o queria que elle risse. A idÈa do Ega -parecia-lhe superior, inspirada n'um alto dever. Quasi tinha remorsos, -dizia ella, d'aquella preguiÁa de Carlos. E agora, que ia ser cercado de -affeiÁ„o serena, queria-o vÍr trabalhar, mostrar-se, dominar... - ---Com effeito, disse o Ega recostado e sorrindo, a era do romance -findou. E agora... - -Mas o Domingos servia o ananaz. E o Ega provou e rompeu em clamores de -enthusiasmo. Oh que maravilha! Oh que delicia! - ---Como fazes tu isto? Com Madeira... - ---E genio! exclamou Carlos. Delicioso, n„o È verdade? Ora digam-me se -tudo o que eu pudesse fazer pela civilisaÁ„o valeria este prato de -ananaz! … para estas coisas que eu vivo! Eu n„o nasci para fazer -civilisaÁ„o... - ---Nasceste, acudiu o Ega, para colher as flÙres d'essa planta da -civilisaÁ„o que a multid„o rega com o seu suor! No fundo tambem eu, -menino! - -N„o, n„o! Maria n„o queria que fallassem assim! - ---Esses ditos estragam tudo. E o snr. Ega, em logar de corromper Carlos, -devia inspiral-o... - -Ega protestou requebrando o olho, j· languido. Se Carlos necessitava uma -musa inspiradora e benefica--n„o podia ser elle, bicho com barbas e -bacharel em leis... A musa estava _toute trouvÈe_! - ---Ah, com effeito!... Quantas paginas bellas, quantas nobres idÈas se -n„o podem produzir n'um paraiso d'estes!... - -E o seu gesto molle e acariciador indicava a _Toca_, a quietaÁ„o dos -arvoredos, a belleza de Maria. Depois na sala, emquanto Maria tocava um -nocturno de Chopin e Carlos e elle acabavam os charutos · porta do -jardim vendo nascer a lua--Ega declarou que, desde o comeÁo do jantar, -estava com idÈas de casar!... Realmente n„o havia nada como o casamento, -o interior, o ninho... - ---Quando penso, menino, murmurou elle mordendo sombriamente o charuto, -que quasi todo um anno da minha vida foi dado ·quella israelita devassa -que gosta de levar bordoada... - ---Que faz ella em Cintra? perguntou Carlos. - ---Ensopa-se na crapula. N„o ha a menor duvida que d· todo o seu coraÁ„o -ao Damaso... Tu sabes o que n'estes casos significa o termo _coraÁ„o_... -Viste j· immundicie igual? … simplesmente obscena! - ---E tu adÛral-a, disse Carlos. - -O outro n„o respondeu. Depois, dentro, n'um odio repentino da bohemia e -do romantismo, entoou louvores sonoros · familia, ao trabalho, aos altos -deveres humanos--bebendo copinhos de cognac. ¡ meia noite, ao sahir, -tropeÁou duas vezes na rua d'acacias, j· vago, citando Proudhon. E -quando Carlos o ajudou a subir para a victoria, que elle quiz descoberta -para ir communicando com a lua, Ega ainda lhe agarrou o braÁo para lhe -fallar da _Revista_, d'um forte vento de espiritualidade e de virtude -viril que se devia fazer soprar sobre o paiz... Por fim, j· estirado no -assento, tirando o chapÈo · aragem da noite: - ---E outra coisa, Carlinhos. VÍ se me arranjas a ingleza... Ha vicios -deliciosos n'aquellas pestanas baixas... VÍ se m'a arranjas... V· l·, -bate l·, cocheiro! Caramba, que belleza de noite! - - - -Carlos fic·ra encantado com este primeiro jantar d'amizade na _Toca_. -Elle tencionava n„o apresentar Maria aos seus intimos sen„o depois de -casado e · volta de Italia. Mas agora a ´uni„o legalª estava j· no seu -pensamento adiada, remota, quasi dispersa no vago. Como dizia o Ega, -devia esperar, deixar-se ir... E no emtanto, Maria e elle n„o poderiam -isolar-se alli todo um longo inverno, sem o calor sociavel d'alguns -amigos em redor. Por isso uma manh„, encontrando o Cruges, que fÙra o -visinho de Maria e outr'ora lhe dava noticias da ´lady inglezaª, -pediu-lhe para vir jantar · _Toca_ no domingo. - -O maestro appareceu n'uma tipoia, · tardinha, de laÁo branco e de -casaca: e os fatos claros de campo com que encontrou Carlos e Ega -comeÁaram logo a enchel-o de mal-estar. Toda a mulher, alÈm das Lolas e -Conchas, o atarantava, o emmudecia: Maria, ´com o seu porte de -_grande-dame_ª, como elle dizia, intimidou-o a tal ponto que ficou -diante d'ella, sem uma palavra, escarlate, torcendo o forro das -algibeiras. Antes de jantar, por lembranÁa de Carlos, foram-lhe mostrar -a quinta. O pobre maestro, roÁando a casaca mal feita pela folhagem dos -arbustos, fazia esforÁos anciosos por murmurar algum elogio ´· belleza -do sitioª; mas escapavam-lhe ent„o inexplicavelmente coisas reles, em -cal„o: ´vista catitaª! ´È pitadaª! Depois ficava furioso, coberto de -suor, sem comprehender como se lhe babavam dos labios esses ditos -abominaveis, t„o contrarios ao seu gosto fino d'artista. Quando se -sentou · mesa soffria um negrissimo accesso de _spleen_ e mudez! Nem uma -controversia que Maria arranj·ra caridosamente para elle sobre Wagner e -Verdi pÙde descerrar-lhe os labios empedernidos. Carlos ainda tentou -envolvel-o na alegria da mesa--contando a ida a Cintra, quando elle -procurava Maria na Lawrence, e em vez d'ella ach·ra uma matrona obesa, -de bigode, de c„osinho ao collo, ralhando com o homem em hespanhol. Mas -a cada exclamaÁ„o de Carlos--´Lembras-te, Cruges?ª, ´N„o È verdade, -Cruges?ª--o maestro, rubro, grunhia apenas um _sim_ avaro. Terminou por -estar alli, ao lado de Maria, como um trambolho funebre. Estragou o -jantar. - -Combin·ra-se para depois do cafÈ um passeio pelos arredores, n'um break. -E Carlos j· tom·ra as guias, Maria na almofada acabava de abotoar as -luvas--quando Ega, que receava a friagem da tarde, saltou do break, -correu a buscar o paletot. N'esse mesmo momento sentiram um trote de -cavallo na estrada--e appareceu o marquez. - -Foi uma surpreza para Carlos, que o n„o vira durante esse ver„o. O -marquez parou logo, tirando profundamente, ao vÍr Maria, o seu largo -chapÈo desabado. - ---Imaginava-o pela Golleg„! exclamou Carlos. Foi atÈ o Cruges que me -disse... Quando chegou vossÍ? - -Cheg·ra na vespera. L· fÙra ao Ramalhete; tudo deserto. Agora vinha aos -Olivaes vÍr um dos Vargas que tinha casado, se install·ra alli perto, a -passar o noivado... - ---Quem, o gordo, o das corridas? - ---N„o, o magro, o das regatas. - -Carlos, debruÁado da almofada, examinava a egoasita do marquez, pequena, -bem estampada, d'um baio escuro e bonito. - ---Isso È novo? - ---Uma facasita do Darque... Quer-m'a vossÍ comprar? Sou j· um pouco -pesado para ella, e isto mette-se a um dog-cart... - ---DÍ l· uma volta. - -O marquez deu a volta, bem posto na sella, avantajando a egoa. Carlos -achou-lhe ´boas acÁıesª. Maria murmurou--´Muito bonita, uma cabeÁa -fina...ª Ent„o Carlos apresentou o marquez de Souzella a madame -Mac-Gren. Elle chegou a egoa · roda, descoberto, para apertar a m„o a -Maria: e · espera do Ega que se eternisava l· dentro, ficaram fallando -do ver„o, de Santa Olavia, dos Olivaes, da _Toca_... Ha que tempos o -marquez alli n„o passava! A ultima vez fÙra victima da excentricidade do -Craft... - ---Imagine v. exc.^a, disse elle a Maria Eduarda, que esse Craft me -convida a almoÁar. Venho, e o hortel„o diz-me que o snr. Craft, criado e -cozinheiro, tudo partira para o Porto; mas que o snr. Craft deix·ra um -cartaz na sala... Vou · sala, e vejo dependurado ao pescoÁo d'um idolo -japonez uma folha de papel com estas palavras pouco mais ou menos: ´O -deus Tchi tem a honra de convidar o snr. marquez, em nome de seu amo -ausente, a passar · sala de jantar onde encontrar·, n'um aparador, -queijo e vinho, que È o almoÁo que basta ao homem forte.ª E foi com -effeito o meu almoÁo... Para n„o estar sÛ, partilhei-o com o hortel„o. - ---Espero que se tivesse vingado! exclamou Maria rindo. - ---PÛde crÍr, minha senhora... Convidei-o a jantar, e quando elle -appareceu, vindo d'aqui da _Toca_, o meu guarda-port„o disse-lhe que o -snr. marquez fÙra para longe, e que n„o havia nem p„o nem queijo... -Resultado: o Craft mandou-me uma duzia de magnificas garrafas de -Chambertin. Esse deus Tchi nunca mais o tornei a vÍr... - -O deus Tchi l· estava, obeso e medonho. E, muito naturalmente, Carlos -convidou o marquez a revisitar n'essa noite, · volta da casa do Vargas, -o seu velho amigo Tchi. - -O marquez veio, ·s dez horas--e foi um ser„o encantador. Conseguiu -sacudir logo a melancolia do Cruges, arrastando-o com m„o de ferro para -o piano; Maria cantou; palrou-se com graÁa; e aquelle escondrijo d'amor -ficou alumiado atÈ tarde, na sua primeira festa de amizade. - -Estas reuniıes alegres foram ao principio, como dizia o Ega, -_dominicaes_: mas o outono arrefecia, bem depressa se despiriam as -arvores da _Toca_, e Carlos accumulou-as duas vezes por semana, nos -velhos dias feriados da Universidade, domingos e quintas. Tinha -descoberto uma admiravel cozinheira alsaciana, educada nas grandes -tradiÁıes, que servira o bispo de Strasburgo, e a quem as extravagancias -d'um filho e outras desgraÁas tinham arrojado a Lisboa. Maria, de resto, -punha na composiÁ„o dos seus jantares uma sciencia delicada: o dia de -vir · _Toca_ era considerado pelo marquez ´dia de civilisaÁ„oª. - -A mesa resplandecia; e as tapeÁarias representando massas d'arvoredos -punham em redor como a sombra escura d'um retiro silvestre onde por um -capricho se tivessem accendido candelabros de prata. Os vinhos sahiam da -frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da terra e do cÈo -se grulhava com phantasia--menos de ´politica portuguezaª, considerada -conversa indecorosa entre pessoas de gosto. - -Rosa apparecia ao cafÈ, exhalando do seu sorriso, dos bracinhos n˙s, dos -vestidos brancos tufados sobre as meias de sÍda preta, um bom aroma de -flÙr. O marquez adorava-a, disputando-a ao Ega, que a pedira a Maria em -casamento e lhe andava compondo havia tempo um soneto. Ella preferia o -marquez: achava o Ega ´muito...ª--e completava o seu pensamento com um -gestosinho do dedo ondeado no ar, como a exprimir que o Ega ´era muito -retorcidoª. - ---Ahi est·! exclamava elle. Porque eu sou mais civilisado que o outro! … -a simplicidade n„o comprehendendo o requinte. - ---N„o, desgraÁado! exclamavam do lado. … porque Ès impresso!... … a -natureza repellindo a convenÁ„o!... - -Bebia-se · saude de Maria: ella sorria, feliz entre os seus novos -amigos, divinamente bella, quasi sempre de escuro, com um curto decote -onde resplandecia o incomparavel esplendor do seu collo. - -Depois organisaram-se solemnidades. N'um domingo, em que os sinos -repicavam e a distancia foguetes esfuziavam no ar--Ega lamentou que os -seus austeros principios philosophicos o impedissem de festejar tambem -aquelle santo d'aldeia, que fÙra decerto em vida um caturra encantador, -cheio d'illusıes e doÁura... Mas de resto, acrescentou, n„o teria sido -n'um dia assim, fino e secco, sob um grande cÈo cheio de sol, que se -feriu a batalha das Thermopylas? Porque n„o se atiraria uma girandola de -foguetes em honra de Leonidas e dos trezentos? E atirou-se a girandola -pela eterna gloria de Sparta. - -Depois celebraram-se outras datas historicas. O anniversario da -descoberta da Venus de Milo foi commemorado com um bal„o que ardeu. -N'outra occasi„o o marquez trouxe de Lisboa, apinhados n'uma tipoia, -fadistas famosos, o _Pintado_, o _Vira-vira_ e o _Gago_: e depois de -jantar, atÈ tarde, com o luar sobre o rio, cinco guitarras choraram os -ais mais tristes dos fados de Portugal. - -Quando estavam sÛs, Carlos e Maria passavam as suas manh„s no kiosque -japonez--affeiÁoados ·quelle primeiro retiro dos seus amores, pequeno e -apertado, onde os seus coraÁıes batiam mais perto um do outro. Em logar -das esteiras de palha Carlos revestira-o com as suas formosas colchas da -India, cÙr de palha e cÙr de perola. Um dos maiores cuidados d'elle, -agora, era embellezar a _Toca_: nunca voltava de Lisboa sem trazer -alguma figurinha de Saxe, um marfim, uma faianÁa, como noivo feliz que -aperfeiÁÙa o seu ninho. - -Maria no emtanto n„o cessava de lembrar os planos intellectuaes do Ega: -queria que elle trabalhasse, ganhasse um nome: seria isso o orgulho -intimo d'ella, e sobretudo a alegria suprema do avÙ. Para a contentar -(mais que para satisfazer as suas necessidades de espirito) Carlos -recomeÁ·ra a compÙr alguns dos seus artigos de medicina litteraria para -a _Gazeta Medica_. Trabalhava no kiosque, de manh„. Trouxera para l· -rascunhos, livros, o seu famoso manuscripto da _Medicina antiga e -moderna_. E por fim ach·ra um grande encanto em estar alli, com um leve -casaco de sÍda, as suas cigarettes ao lado, um fresco murmurio de -arvoredo em redor--cinzelando as suas phrases, emquanto ella ao lado -bordava silenciosa. As suas idÈas surgiam com mais originalidade, a sua -fÛrma ganhava em colorido, n'aquelle estreito kiosque assetinado que -ella perfumava com a sua presenÁa. Maria respeitava este trabalho como -coisa nobre e sagrada. De manh„, ella mesma espanejava os livros do leve -pÛ que a aragem soprava pela janella; dispunha o papel branco, punha -cuidadosamente pennas novas; e andava bordando uma almofada de pennas e -setim para que o trabalhador estivesse mais confortavel na sua vasta -cadeira de couro lavrado. - -Um dia offerecera-se a passar a limpo um artigo. Carlos, enthusiasmado -com a letra d'ella, quasi comparavel · lendaria letra do Damaso, -occupava-a agora incessantemente como copista, sentindo mais amor por um -trabalho a que ella se associava. Quantos cuidados se dava a dÙce -creatura! Tinha para isso um papel especial, d'um tom macio de marfim: -e, com o dedinho no ar, ia desenrolando as pesadas consideraÁıes de -Carlos sobre o Vitalismo e o Transformismo na graÁa delicada d'uma -renda... Um beijo pagava-a de tudo. - -¡s vezes Carlos dava liÁıes a Rosa--ora de historia, contando-lh'a -familiarmente como um conto de fadas; ora de geographia, interessando-a -pelas terras onde vivem gentes negras, e pelos velhos rios que correm -entre as ruinas dos santuarios. Isto era o prazer mais alto de Maria. -SÈria, muda, cheia de religi„o, escutava aquelle sÍr bem-amado ensinando -sua filha. Deixava escapar das m„os o trabalho--e o interesse de Carlos, -a enlevada attenÁ„o de Rosa sentada aos pÈs d'elle, bebendo aquellas -bellas historias de Joanna d'Arc ou das caravellas que foram · India, -fazia resplandecer nos seus olhos uma nevoa de lagrimas felizes... - - - -Desde o meado d'outubro Affonso da Maia fallava da sua partida de Santa -Olavia, retardada apenas por algumas obras que comeÁ·ra na parte velha -da casa e nas cocheiras: porque ultimamente invadira-o a paix„o de -edificar--sentindo-se remoÁar, como elle dizia, no contacto das madeiras -novas e no cheiro vivo das tintas. Carlos e Maria pensavam tambem em -abandonar os Olivaes. Carlos n„o poderia por dever domestico permanecer -alli installado desde que o avÙ recolhesse ao Ramalhete. AlÈm d'isso -aquelle fim d'outono ia escuro e agreste; e a _Toca_ era agora pouco -bucolica, com a quinta desfolhada e alagada, uma nevoa sobre o rio, e um -fog„o unico no gabinete de cretones--alÈm da sumptuosa chaminÈ da sala -de jantar, que, por entre os seus Nubios d'olhos de crystal, soltava uma -fumaraÁa odiosa quando o Domingos a tentava accender. - -N'uma d'essas manh„s, Carlos, que fic·ra atÈ tarde com Maria, e depois -no seu delgado casebre mal pudera dormir com um temporal de vento e agua -desencadeado de madrugada--ergueu-se ·s nove horas, veio · _Toca_. As -janellas do quarto de Maria conservavam-se ainda cerradas; a manh„ -clare·ra; a quinta lavada, meio despida, no ar fino e azul, tinha uma -linda e silenciosa graÁa d'inverno. Carlos passeava, olhando os vasos -onde os chrysanthemos floriam, quando retiniu a sineta do port„o. Era o -toque do carteiro. Justamente elle escrevera dias antes ao Cruges, -perguntando se estaria desoccupado para os primeiros frios de dezembro o -andar da rua de S. Francisco: e, esperando carta do maestro, foi abrir, -acompanhado por _Niniche_. Mas o correio, n'essa manh„, consistia apenas -n'uma carta do Ega e dois numeros de jornal cintados--um para elle, -outro para ´Madame Castro Gomes, na quinta do snr. Craft, aos Olivaesª. - -Caminhando sob as acacias, Carlos abriu a carta do Ega. Era da vespera, -com a data ´· noite, · pressaª. E dizia: ´--LÍ, n'esse trapo que te -mando, esse superior pedaÁo de prosa que lembra Tacito. Mas n„o te -assustes; eu supprimi, mediante pecunia, toda a tiragem, com excepÁ„o de -dois numeros mais que foram, um para a _Toca_, outro (oh logica suprema -dos habitos constitucionaes!) para o PaÁo, para o chefe do Estado!... -Mas esse mesmo n„o chegar· ao seu destino. Em todo o caso desconfio de -que esgÙto sahiu esse enxurro e precisamos providenciar! Vem j·! -Espero-te atÈ ·s duas. E, como Iago dizia a Cassio--_mette dinheiro na -bolsa_.ª - -Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se a _Corneta do Diabo_: e -na impress„o, no papel, na abundancia dos _italicos_, no typo gasto, -todo elle revelava immundicie e malandrice. Logo na primeira pagina duas -cruzes a lapis marcavam um artigo que Carlos, n'um relance, viu -salpicado com o seu nome. E leu isto: ´--Ora viva, _sÙ_ Maia! Ent„o j· -se n„o vai ao consultorio, nem se vÍem os doentes do bairro, _sÙ_ -janota?--Esta piada era botada no Chiado, · porta da Havaneza, ao Maia, -ao Maia dos cavallos inglezes, um tal Maia do Ramalhete, que abarrota -por ahi de _catita_; e o pai Paulino _que tem olho_ e que passava n'essa -occasi„o ouviu a seguinte _cornetada_:--… que o _sÙ_ Maia acha _que È -mais quente_ viver nas fraldas d'uma _brazileira casada_, que nem È -brazileira nem È casada, e a quem o papalvo poz casa, ahi para o lado -dos Olivaes, para _estar ao fresco_! Sempre os ha n'este mundo!... Pensa -o homem que botou conquista; e c· a rapaziada de gosto ri-se, porque o -que a gaja lhe quer n„o s„o os lindos olhos, s„o as lindas _louras_... O -simplorio, que bate ahi pilecas _bifes_, que nem que fosse o _marquez_, -o verdadeiro Marquez, imaginava que se estava abiscoitando com uma -senhora do _chic_, e do boulevard de Paris, e casada, e titular!... E no -fim (n„o, esta È para a gente deixar estoirar o bandulho a rir!) no fim -descobre-se que a typa era uma _cocotte_ safada, que trouxe para ahi um -brazileiro _j· farto d'ella_ para a passar c· aos bellos lusitanos... E -cahiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! Ainda assim o _sÙ_ Maia sÛ -apanhou os restos d'outro, porque a _typa_, j· antes d'elle se enfeitar, -tinha _pandegado · larga_, ahi para a rua de S. Francisco, com um rapaz -da fina, que se safou tambem, porque c· como nÛs sÛ _aprecia a bella -hespanhola_. Mas n„o obsta a que o _sÙ_ Maia seja traste!--Pois se assim -È, dissemos nÛs, cautelinha, porque o diabo c· tem a sua _Corneta_ -preparada para cornetear por esse mundo as faÁanhas do _Maia das -conquistas_. Ora viva, _sÙ_ Maia!ª - -Carlos ficou immovel entre as acacias, com o jornal na m„o, no espanto -furioso e mudo d'um homem que subitamente recebe na face uma grossa -chapada de lÙdo! N„o era a cÛlera de vÍr o seu amor assim aviltado na -publicidade chula d'um jornal sordido: era o horror de sentir aquellas -phrases em cal„o, pandilhas, afadistadas, como sÛ Lisboa as pÛde crear, -pingando fetidamente, · maneira de sebo, sobre si, sobre Maria, sobre o -esplendor da sua paix„o... Sentia-se todo emporcalhado. E uma unica idÈa -surgia atravÈs da sua confus„o--matar o bruto que escrevera aquillo. - -Matal-o! Ega sust·ra a tiragem da folha, Ega pois conhecia o -folliculario. Nada importava que aquelles numeros, que tinha na m„o, -fossem os unicos impressos. Recebera lama na face. Que a injuria fosse -espalhada nas praÁas n'uma profusa publicidade ou lhe fosse atirada sÛ a -elle escondidamente n'um papel unico, era igual... Quem tanto ous·ra -tinha de cahir, esmagado! - -Decidiu ir logo ao Ramalhete. O Domingos · janella da cozinha areava -pratas, assobiando. Mas quando Carlos lhe fallou de ir buscar um -calhambeque aos Olivaes, o bom Domingos consultou o relogio: - ---V. exc.^a tem ·s onze horas a caleche do _Torto_ que a senhora mandou -c· estar para ir a Lisboa... - -Carlos, com effeito, recordou-se que Maria na vespera plane·ra ir · -Aline e aos livreiros. Uma contrariedade, justamente n'esse dia em que -elle precisava ficar livre--elle e a sua bengala! Mas Melanie, passando -ent„o com um jarro d'agua quente, disse que a senhora ainda se n„o -vestira, que talvez nem fosse a Lisboa... E Carlos recomeÁou a passear, -no tapete de relva, entre as nogueiras. - -Sentou-se por fim no banco de cortiÁa, descintou a _Corneta_ -sobrescriptada para Maria, releu lentamente a prosa immunda: e, n'esse -numero que lhe fÙra destinado a ella, todo aquelle cal„o lhe pareceu -mais ultrajante, intoleravel, punivel sÛ com sangue. Era monstruoso, na -verdade, que sobre uma mulher, quieta, innoffensiva no silencio da sua -casa, alguem ousasse t„o brutalmente arremessar esse lÙdo ·s m„os -cheias! E a sua indignaÁ„o alargava-se do folliculario que bab·ra -aquillo--atÈ · sociedade que, na sua decomposiÁ„o, produzira o -folliculario. Decerto toda a cidade soffria a sua vermina... Mas sÛ -Lisboa, sÛ a horrivel Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu -rebaixamento social, a perda inteira do bom-senso, o desvio profundo do -bom gosto, a sua pulhice e o seu cal„o, podia produzir uma _Corneta do -Diabo_. - -E, no meio d'esta alta cÛlera de moralista, uma dÙr perpassava, precisa -e dilacerante. Sim, toda a sociedade de Lisboa fazia um monturo sordido -n'este canto do mundo--mas, em summa, havia no artigo da _Corneta_ uma -calumnia? N„o. Era o passado de Maria, que ella arranc·ra de si como um -vestido rÙto e sujo, que elle mesmo enterr·ra muito fundo, deitando-lhe -por cima o seu amor e o seu nome--e que alguem desenterrava para o -mostrar bem alto ao sol, com as suas manchas e os seus rasgıes... E isto -agora ameaÁava para sempre a sua vida como um terror sobre ella -suspenso. Debalde elle perdo·ra, debalde elle esquecera. O mundo em -redor sabia. E a todo o tempo o interesse ou a perversidade poderiam -refazer o artigo da _Corneta_. - -Ergueu-se, abalado. E ent„o alli, sob essas arvores desfolhadas, onde -durante o ver„o, quando ellas se enchiam de sombra e de murmurio, elle -passe·ra com Maria, esposa eleita da sua vida--Carlos perguntou pela vez -primeira a si mesmo se a honra domestica, a honra social, a pureza dos -homens de quem descendia, a dignidade dos homens que d'elle descendessem -lhe permittiam em verdade casar com ella... - -Dedicar-lhe toda a sua affeiÁ„o, toda a sua fortuna, certamente! Mas -casar... E se tivesse um filho? O seu filho, j· homem, altivo e puro, -poderia um dia lÍr n'uma _Corneta do Diabo_ que sua m„i fÙra amante d'um -brazileiro, depois de ser amante d'um irlandez. E se seu filho lhe -viesse gritar, n'uma bella indignaÁ„o, ´È uma calumnia?ª--elle teria de -baixar a cabeÁa, murmurar--´È uma verdade!ª E seu filho veria para -sempre collada a si aquella m„i de quem o mundo ignorava os martyrios e -os encantos--mas de quem conhecia cruelmente os erros. - -E ella mesma! Se elle appellasse para a sua raz„o, alta e t„o recta, -mostrando-lhe as zombarias e as affrontas de que uma vil _Corneta do -Diabo_ poderia um dia trespassar o filho que d'elles nascesse--ella -mesma o desligaria alegremente do seu voto, contente em entrar no -Ramalhete pela escadinha secreta forrada de velludo cÙr de cereja, -comtanto que em cima a esperasse um amor constante e forte... Nunca ella -torn·ra, em todo o ver„o, a alludir a uma uni„o differente d'essa em que -os seus coraÁıes viviam t„o lealmente, t„o confortavelmente. N„o, Maria -n„o era uma devota, preoccupada ´do peccado mortalª! Que lhe podia -importar a estola banal do padre?... - -Sim; mas elle que lhe pedira essa consagraÁ„o na hora mais commovida do -seu longo amor, iria dizer-lhe agora--´foi uma criancice, n„o pensemos -mais n'isso, desculpa?ª N„o; nem o seu coraÁ„o o desejava! Antes pendia -todo para ella... Pendia todo para ella, n'um enternecimento mais -generoso e mais quente--emquanto a sua raz„o assim arengava, cautelosa e -austera. Elle tinha n'aquella alma o seu culto perfeito, n'aquelles -braÁos a sua voluptuosidade magnifica; fÛra d'alli n„o havia felicidade; -a unica sabedoria era prender-se a ella pelo derradeiro elo, o mais -forte, o seu nome, embora as _Cornetas do Diabo_ atroassem todo o ar. E -assim affrontaria o mundo n'uma soberba revolta, affirmando a -omnipotencia, o reino unico da Paix„o... Mas primeiro mataria o -folliculario!--Passeava, esmagava a relva. E todos os seus pensamentos -se resolviam por fim em furia contra o infame que bab·ra sobre o seu -amor, e durante um instante introduzia na sua vida tanta incerteza e -tanto tormento! - -Maria ao lado abriu a janella. Estava vestida d'escuro para sahir; e -bastou o brilho terno do seu sorriso, aquelles hombros a que o estofo -justo modelava a belleza cheia e quente--para que Carlos detestasse logo -as duvidas desleaes e covardes, a que se abandon·ra um momento sob as -arvores desfolhadas... Correu para ella. O beijo que lhe deu, lento e -mudo, teve a humildade d'um perd„o que se implora. - ---Que tens tu, que est·s t„o sÈrio? - -Elle sorriu. SÈrio, no sentido de solemne, n„o estava. Talvez seccado. -Recebera uma carta do Ega, uma das eternas complicaÁıes do Ega. E -precisava ir a Lisboa, ficar l· naturalmente toda a noite... - ---Toda a noite? exclamou ella com um desapontamento, pousando-lhe as -m„os sobre os hombros. - ---Sim, È bem possivel, um horror! Nos negocios do Ega ha fatalmente o -inesperado... Tu com effeito vaes a Lisboa? - ---Agora, com mais raz„o... Se me queres. - ---O dia est· bonito... Mas ha de fazer frio na estrada. - -Maria justamente gostava d'esses dias d'inverno, cheios de sol, com um -arzinho vivo e arripiado. Tornavam-n'a mais leve, mais esperta. - ---Bem, bem, disse Carlos atirando o cigarro. Vamos ao almoÁo, minha -filha... O pobre Ega deve estar a uivar de impaciencia. - -Emquanto Maria correra a apressar o Domingos--Carlos, atravÈs da relva -humida, foi ainda lentamente atÈ ao renque baixo d'arbustos que -d'aquelle lado fechava a _Toca_ como uma sebe. Ahi a collina descia, com -quintarolas, muros brancos, olivedos, uma grande chaminÈ de fabrica que -fumegava: para alÈm era o azul fino e frio do rio: depois os montes, -d'um azul mais carregado, com a casaria branca da povoaÁ„o aninhada · -beira da agua, nitida e suave na transparencia do ar macio. Parou um -momento, olhando. E aquella aldeia de que nunca soubera o nome, t„o -quieta e feliz na luz, deu a Carlos um desejo repentino de socego e de -obscuridade, n'um canto assim do mundo, · beira d'agua, onde ninguem o -conhecesse nem houvesse _Cornetas do Diabo_, e elle pudesse ter a paz -d'um simples e d'um pobre debaixo de quatro telhas, no seio de quem -amava... - -Maria gritou por elle da janella da sala de jantar, onde se debruÁ·ra a -apanhar uma das ultimas rosas trepadeiras que ainda floriam. - ---Que lindo tempo para viajar, Maria!--disse Carlos chegando, atravÈs da -relva. - ---Lisboa È tambem muito linda, agora, havendo sol... - ---Pois sim, mas o Chiado, a coscovilhice, os politiquetes, as gazetas, -todos os horrores... A mim est·-me positivamente a appetecer uma cubata -na Africa! - -O almoÁo, por fim, foi demorado. Ia bater uma hora quando a caleche do -_Torto_ comeÁou a rolar na estrada, ainda encharcada da chuva da noite. -Logo adiante da villa, na descida, cruzaram um coupÈ que trepava n'um -trote esfalfado. Maria julgou avistar n'elle de relance o chapÈo branco -e o monoculo do Ega... Pararam. E era com effeito o Ega, que reconhecera -tambem a caleche da _Toca_, vinha j· saltitando as lamas com longas -pernadas de cegonha, chamando por Carlos. - -Ao vÍr Maria ficou atrapalhado: - ---Que bella surpreza! Eu ia para l·... Vi o dia t„o bonito, disse -commigo... - ---Bem, paga a tua tipoia, vem comnosco! atalhou Carlos que trespassava o -Ega, com os olhos inquietos, querendo adivinhar o motivo d'aquella -brusca chegada aos Olivaes. - -Quando entrou para a caleche, tendo pago o batedor, Ega, embaraÁado, sem -poder desabafar diante de Maria sobre o caso da _Corneta_, comeÁou, sob -os olhos de Carlos que o n„o deixavam, a fallar do inverno, das -inundaÁıes do Riba-Tejo... Maria lÍra. Uma desgraÁa, duas crianÁas -afogadas nos berÁos, gados perdidos, uma grande miseria! Por fim Carlos -n„o se conteve: - ---Eu l· recebi a tua carta... - -Ega acudiu: - ---Arranja-se tudo! Est· tudo combinado! E com effeito eu n„o vim sen„o -por um sentimento bucolico... - -Muito discretamente Maria olh·ra para o rio. Ega fez ent„o um gesto -rapido com os dedos significando ´dinheiro, sÛ quest„o de dinheiroª. -Carlos socegou: e Ega voltou a fallar dos inundados do Riba-Tejo e do -sarau litterario e artistico que em beneficio d'elles se ´ia commetterª -no sal„o da Trindade... Era uma vasta solemnidade official. Tenores do -parlamento, rouxinoes da litteratura, pianistas ornados com o habito de -S. Thiago, todo o pessoal canoro e sentimental do constitucionalismo _ia -entrar em fogo_. Os reis assistiam, j· se teciam grinaldas de camelias -para pendurar na sala. Elle, apesar de demagogo, fÙra convidado para lÍr -um episodio das _Memorias d'um Atomo_: recus·ra-se, por modestia, por -n„o encontrar nas _Memorias_ nada t„o sufficientemente palerma que -agradasse · capital. Mas lembr·ra o Cruges; e o _maestro_ ia ribombar ou -arrulhar uma das suas _MeditaÁıes_. AlÈm d'isso havia uma poesia social -pelo Alencar. Emfim, tudo prenunciava uma immensa orgia... - ---E a snr.^a D. Maria, acrescentou elle, devia ir!... … summamente -pittoresco. Tinha v. exc.^a occasi„o de vÍr todo o Portugal romantico e -liberal, _‡ la besogne_, engravatado de branco, dando tudo que tem -n'alma! - ---Com effeito devias ir, disse Carlos, rindo. Demais a mais se o Cruges -toca, se o Alencar recita, È uma festa nossa... - ---Pois est· claro! gritou Ega, procurando o monoculo, j· excitado. Ha -duas coisas que È necessario vÍr em Lisboa... Uma prociss„o do Senhor -dos Passos e um sarau poetico! - -Rolavam ent„o pelo largo do Pelourinho. Carlos gritou ao cocheiro que -parasse no comeÁo da rua do Alecrim: elles apeavam-se e tomavam de l· o -americano para o Ramalhete. - -Mas a tipoia estacou antes da calÁada, rente ao passeio, em frente d'uma -loja de alfaiate. E n'esse instante achava-se ahi parado, calÁando as -suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas d'apostolo, todo -vestido de luto. Ao vÍr Maria, que se inclin·ra · portinhola, o homem -pareceu assombrado; depois, com uma leve cÙr na face larga e pallida, -tirou gravemente o chapÈo, um immenso chapÈo de abas recurvas, · moda de -1830, carregado de crepe. - ---Quem È? perguntou Carlos. - ---… o tio do Damaso, o Guimar„es, disse Maria, que cÛr·ra tambem. … -curioso, elle aqui! - -Ah, sim! o famoso Mr. Guimar„es, o do _Rappel_, o intimo de Gambetta! -Carlos recordava-se de ter j· encontrado aquelle patriarcha no Price com -o Alencar. Comprimentou-o tambem; o outro ergueu de novo com uma -gravidade maior o seu sombrio chapÈo de carbonario. Ega ental·ra -vivamente o monoculo para examinar esse lendario tio do Damaso, que -ajudava a governar a FranÁa: e depois de se despedirem de Maria, quando -a caleche j· subia a rua do Alecrim e elles atravessavam para o Hotel -Central, ainda se voltou seduzido por aquelles modos, aquellas barbas -austeras de revolucionario... - ---Bom typo! E que magnifico chapÈo, hein! D'onde diabo o conhece a -snr.^a D. Maria? - ---De Paris... Este Mr. Guimar„es era muito da m„i d'ella. A Maria j· me -tinha fallado n'elle. … um pobre diabo. Nem amigo de Gambetta, nem coisa -nenhuma... Traduz noticias dos jornaes hespanhoes para o _Rappel_, e -morre de fome... - ---Mas ent„o, o Damaso? - ---O Damaso È um trapalh„o. Vamos nÛs ao nosso caso... Essa immundicie -que me mandaste, a _Corneta_? Dize l·. - -Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a historia da immundicie. FÙra -na vespera · tarde que recebera no Ramalhete a _Corneta_. Elle j· -conhecia o papelucho, j· priv·ra mesmo com o proprietario e redactor--o -Palma, chamado Palma _Cavall„o_ para se distinguir d'outro benemerito -chamado Palma _Cavallinho_. Comprehendeu logo que se a prosa era do -Palma a inspiraÁ„o era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de -Maria, nem da casa da rua de S. Francisco, nem da _Toca_... N„o era -natural que escrevesse por deleite intellectual um documento que sÛ lhe -podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois, fÙra-lhe -simplesmente encommendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre -quem tem mais dinheiro. Por este solido principio correra a procurar o -Palma _Cavall„o_ no seu antro. - ---Tambem lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror. - ---Tanto n„o... Fui perguntar · secretaria da JustiÁa a um sujeito que -esteve associado com elle n'um negocio de _Almanachs religiosos_... - -FÙra pois ao antro. E encontr·ra as coisas dispostas pelas m„os habeis -d'uma Providencia amiga. Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis -numeros, a machina, esfalfada na pratica d'aquellas maroteiras, -desmanch·ra-se. AlÈm d'isso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro -que lhe encommend·ra o artigo, por divergencia na seriissima quest„o de -pecunia. De sorte que apenas elle propÙz comprar a tiragem do jornal--o -jornalista estendeu logo a m„o larga, d'unhas roÌdas, tremendo de -reconhecimento e de esperanÁa. Dera-lhe cinco libras que tinha, e a -promessa de mais dez... - ---… caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me atarantar, n„o -regateei bastante... E emquanto a dizer quem È o cavalheiro que -encommendou o artigo, o Palma, coitado, affirma que tem uma rapariga -hespanhola a sustentar, que o senhorio lhe levantou o aluguer da casa, -que Lisboa est· carissima, que a litteratura n'este desgraÁado paiz... - ---Quanto quer elle? - ---Cem mil reis. Mas, ameaÁando-o com a policia, talvez desÁa a quarenta. - ---Promette os cem, promette tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem -te parece que seja? - -Ega encolheu os hombros, deu um risco lento no ch„o com a bengala. E -mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da _Corneta_ -devia ser alguem familiar com Castro Gomes; alguem frequentador da rua -de S. Francisco; alguem conhecedor da _Toca_; alguem que tinha, por -ciume ou vinganÁa, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguem que sabia -a historia de Maria; e emfim alguem que era um covarde... - ---Est·s a descrever o Damaso! exclamou Carlos, pallido e parando. - -Ega encolheu de novo os hombros, tornou a riscar o ch„o: - ---Talvez n„o... Quem sabe! Emfim, nÛs vamos averigual-o com certeza, -porque, para terminar a negociaÁ„o, fiquei de me ir encontrar com o -Palma ·s tres horas no _Lisbonense_... E o melhor È vires tambem. Trazes -tu dinheiro? - ---Se fÙr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos. - -E n„o trazia sufficiente dinheiro. Tomaram uma tipoia para correr ao -escriptorio do VillaÁa. O procurador fÙra a Mafra, a um baptisado. -Carlos teve de ir pedir cem mil reis ao velho Cortez, alfaiate do avÙ. -Quando perto das quatro horas se apearam · entrada do _Lisbonense_, no -largo de Santa Justa, o Palma no portal, com um jaquet„o de velludo -coÁado e calÁa de casimira clara collada · cÙxa, accendia um cigarro. -Estendeu logo rasgadamente a m„o a Carlos--que lhe n„o tocou. E Palma -_Cavall„o_, sem se offender, com a m„o abandonada no ar, declarou que ia -justamente sahir, canÁado j· de esperar em cima diante d'um _grog_ frio. -De resto sentia que o snr. Maia se incommodasse em vir alli... - ---Eu arranjava c· o negociosinho com o amigo Ega... Em todo o caso, se -os senhores querem, vamos l· p'ra cima para um gabinete, que se est· -mais · vontade, e toma-se outra bebida. - -Subindo a escada lobrega, Carlos recordava-se de ter j· visto aquella -luneta de vidros grossos, aquella cara balofa cÙr de cidra... Sim, fÙra -em Cintra, com o Eusebiosinho e duas hespanholas, n'esse dia em que elle -farej·ra pelas estradas silenciosas, como um c„o abandonado, procurando -Maria!... Isto tornou-lhe mais odioso o snr. Palma. Em cima entraram -n'um cubiculo, com uma janella gradeada por onde resvalava uma luz suja -de sagu„o. Na toalha da mesa, salpicada de gordura e vinho, alguns -pratos rodeavam um galheteiro que tinha moscas no azeite. O snr. Palma -bateu as palmas, mandou vir genebra. Depois dando um grande pux„o ·s -calÁas: - ---Pois eu espero que me acho aqui entre cavalheiros. Como eu j· disse c· -ao amigo Ega, em todo este negocio... - -Carlos atalhou-o, tocando muito significativamente com a ponteira da -bengala na borda da mesa. - ---Vamos ao ponto essencial... Quanto quer o snr. Palma por me dizer quem -lhe encommendou o artigo da _Corneta_? - ---Dizer quem o encommendou, e proval-o! acudiu o Ega, que examinava na -parede uma gravura onde havia mulheres n˙as · beira d'agua. N„o nos -basta o nome... O amigo Palma, est· claro, È de toda a confianÁa... Mas -emfim, que diabo, n„o È natural que nÛs acreditassemos se o amigo nos -dissesse que tinha sido o snr. D. Luiz de BraganÁa! - -Palma encolheu os hombros. Est· visto que havia de dar provas. Elle -podia ter outros defeitos, trapalh„o n„o! Em negocios era todo franqueza -e lisura... E, se se entendessem, alli as entregava logo, essas provas -que lhe estavam enchendo o bolsinho, pimponas e d'escachar! Tinha a -carta do amigo que lhe encommend·ra a piada: a lista das pessoas a quem -se devia mandar a _Corneta_: o rascunho do artigo a lapis... - ---Quer cem mil reis por tudo isso? perguntou Carlos. - -O Palma ficou um momento indeciso, ageitando as lunetas com os dedos -molles. Mas o criado veio trazer a garrafa da genebra: e ent„o o -redactor da _Corneta_ offereceu a ´bebidaª rasgadamente, puxou mesmo -cadeiras para aquelles cavalheiros abancarem. Ambos recusaram--Carlos de -pÈ junto da mesa onde termin·ra por pousar a bengala, Ega passando a -outra gravura onde dois frades se emborrachavam. Depois, quando o criado -sahiu, Ega acercou-se, tocou com bonhomia no hombro do jornalista: - ---Cem mil reis s„o uma linda somma, Palma amigo! E olhe que se lhe -offerecem por delicadeza comsigo. Porque artiguinhos como este da -_Corneta_, apresentados na Boa-Hora, levam · grilheta!... Est· claro, -este caso È outro, vossÍ n„o teve intenÁ„o d'offender; mas levam · -grilheta!... Foi assim que o Severino marchou para a Africa. Alli no -por„osinho d'um navio, com raÁ„o de marujo e chibatadas. Desagradavel, -muito desagradavel. Por isso eu quiz que tratassemos isto aqui, entre -cavalheiros, e em amizade. - -Palma, com a cabeÁa baixa, desfazia torrıes de assucar dentro do copo de -genebra. E suspirou, findou por dizer, um pouco murcho, que era por ser -entre cavalheiros, e com amizade, que aceitava os cem mil reis... - -Immediatamente Carlos tirou da algibeira das calÁas um punhado de -libras, que comeÁou a deixar cahir em silencio uma a uma dentro d'um -prato. E Palma _Cavall„o_, agitado com o tinir do ouro, desabotoou logo -o jaquet„o, sacou uma carteira onde reluzia um pesado monogramma de -prata sob uma enorme corÙa de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim -desdobrou, estendeu tres papeis sobre a mesa. Ega, que esperava, com o -monoculo sÙfrego, teve um brado de triumpho. Reconhecera a letra do -Damaso! - -Carlos examinou os papeis lentamente. Era uma carta do Damaso ao Palma, -curta e em cal„o, remettendo o artigo, recommendando-lhe ´que o -apimentasseª. Era o rascunho do artigo, laboriosamente trabalhado pelo -Damaso, com entrelinhas. Era a lista, escripta pelo Damaso, das pessoas -que deviam receber a _Corneta_: vinha l· a Gouvarinho, o ministro do -Brazil, D. Maria da Cunha, El-Rei, todos os amigos do Ramalhete, o -Cohen, varias authoridades, e a Fancelli prima-donna... - -Palma no emtanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao -prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de -relancear os olhos aos documentos por cima do hombro de Carlos: - ---Recolha o bago, amigo Palma! Negocios s„o negocios, e o baguinho est· -ahi a arrefecer! - -Ent„o, ao palpar o ouro, Palma _Cavall„o_ commoveu-se. Palavra, caramba, -se soubesse que se tratava d'um cavalheiro como o snr. Maia n„o tinha -aceitado o artigo! Mas ent„o!... FÙra o Eusebio Silveira, rapaz amigo, -que lhe viera fallar. Depois o Salcede. E ambos com muitas lÈrias, e que -era uma brincadeira, e que o Maia n„o se importava, e isto e aquillo, e -muita promessa... Emfim deix·ra-se tentar. E tanto o Salcede como o -Silveira se tinham portado pulhamente. - ---Foi uma sorte que se escangalhasse a machina! Sen„o estava agora -entalado, irra! E tinha desgosto, palavra, caramba, tinha desgosto! Mas -acabou-se! O mal n„o foi grande, e sempre se fez alguma coisa pela porca -da vida. - -Vivamente, com um olhar, recont·ra o dinheiro na palma da m„o: depois -esvaziou a genebra, d'um trago consolado e ruidoso. Carlos guard·ra as -cartas do Damaso, levantava j· o fecho da porta. Mas voltou-se ainda, -n'uma derradeira averiguaÁ„o: - ---Ent„o esse meu amigo Eusebio Silveira tambem se metteu no negocio?... - -O snr. Palma, muito lealmente, afianÁou que o Eusebio lhe fall·ra apenas -em nome do Damaso! - ---O Eusebio, coitado, veio sÛ como embaixador... Que o Damaso e eu n„o -vamos muito na mesma bola. Fic·mos exquisitos, desde uma pÈga em casa da -Biscainha. Aqui p'ra nÛs, eu prometti-lhe dois estalos na cara, e elle -embuchou. Passados tempos torn·mos a fallar, quando eu fazia o -_High-life_ na _Verdade_. Elle veio-me pedir com bons modos, em nome do -conde de Landim, para eu dar umas piadas catitas sobre um baile -d'annos... Depois, quando o Damaso fez tambem annos, eu dei outra -piadita. Elle pagou a ceia, fic·mos mais calhados... Mas È traste... E -l· o Eusebiosinho, coitado, veio sÛ d'embaixador. - -Sem uma palavra, sem um aceno ao Palma, Carlos virou as costas, deixou o -cubiculo. O redactor da _Corneta_ ainda baixou a cabeÁa para a porta; -depois, sem se offender, voltou alegremente · genebra, dando outro pux„o -·s calÁas. Ega no emtanto accendia devagar o charuto. - ---VossÍ agora È que redige o jornal todo, Palma? - ---O Silvestre, tambem... - ---Que Silvestre? - ---O que est· com a _Pingada_. VossÍ n„o conhece, creio eu. Um rapazola -magro, que n„o È feio... Semsabor„o, escreve uma palhada... Mas sabe -coisas da sociedade. Esteve um tempo com a viscondessa de Cabellas, que -elle chama a sua _cabelluda_... Que o Silvestre ·s vezes tem graÁa! E -sabe, sabe coisas da sociedade, assim maroteiras de fidalgos, amigaÁıes, -pulhices... VossÍ nunca leu nada d'elle? ChÙcho. Tenho sempre de lhe -arranjar o estylo... N'este numero È que havia um folhetimzito meu, -catita, c· · moderna, como eu gÛsto, alli com a piadinha realista a -bater... Emfim fica para outra vez. E outra coisa, Ega, olhe que lhe -agradeÁo. Quando quizer, eu e a _Corneta_ ·s ordens! - -Ega estendeu-lhe a m„o: - ---Obrigado, digno Palma! E _adiÛs_! - ---Pues vaya usted con Dios, Don Juanito! exclamou logo o benemerito -homem com infinito _salero_. - -Em baixo Carlos esperava, dentro do coupÈ. - ---E agora? perguntou Ega, · portinhola. - ---Agora salta para dentro e vamos liquidar com o Damaso... - -Carlos j· esboÁ·ra summariamente o plano d'essa liquidaÁ„o. Queria -mandar desafiar o Damaso como author comprovado d'um artigo de jornal -que o injuriava. O duello devia ser · espada ou ao florete, um d'esses -ferros cujo lampejo, na sala d'armas do Ramalhete, fazia empallidecer o -Damaso. Se contra toda a verosimilhanÁa elle se batesse, Carlos -fazia-lhe algures, entre a bochecha e o ventre, um furo que o cravasse -mezes na cama. Sen„o a unica explicaÁ„o que Carlos aceitaria do snr. -Salcede seria um documento em que elle escrevesse esta coisa simples: -´Eu abaixo assignado declaro que sou um infame.ª E para estes serviÁos -Carlos contava com o Ega. - ---AgradeÁo! agradeÁo! Vamos a isso! exclamava o Ega esfregando as m„os, -faiscando de jubilo. - -No emtanto, dizia elle, a etiqueta funebre reclamava outro padrinho; e -lembrou o Cruges, moÁo passivo e malleavel. Mas era impossivel encontrar -o _maestro_, porque invariavelmente a criada affirmava que o menino -Victorino n„o estava em casa... Decidiram ir ao Gremio, mandar de l· um -bilhete chamando o Cruges--´para um caso urgente d'amizade e d'arteª. - ---Com quÍ, dizia o Ega continuando a esfregar as m„os emquanto a tipoia -trotava para a rua de S. Francisco, com quÍ, demolir o nosso Damaso? - ---Sim, È necessario acabar com esta perseguiÁ„o. Chega a ser ridiculo... -E com uma estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por -algum tempo. Eu preferia a estocada. Sen„o deixo-te a ti arranjar os -termos d'uma carta forte... - ---Has de ter uma boa carta! disse o Ega com um sorriso de ferocidade. - -No Gremio, depois de redigirem o bilhete ao Cruges, vieram esperar por -elle na sala das _IllustraÁıes_. O conde de Gouvarinho e Steinbroken -conversavam de pÈ, no v„o d'uma janella. E foi uma surpreza. O ministro -da Filandia abriu os braÁos para o _cher Maia_, que elle n„o vira desde -a partida d'Affonso para Santa Olavia. Gouvarinho acolheu o Ega -risonhamente, reatando uma certa camaradagem que entre elles se form·ra -n'esse ver„o, em Cintra: mas o aperto de m„o a Carlos foi sÍcco e curto. -J· dias antes, tendo-se encontrado no Loreto, o Gouvarinho murmur·ra de -leve e de passagem ´um como est·, Maia?ª em que se sentia arrefecimento. -Ah! j· n„o eram essas effusıes, essas palmadas enternecidas pelos -hombros, dos tempos em que Carlos e a condessa fumavam cigarettes na -cama da titi em Santa Isabel. Agora que Carlos abandon·ra a snr.^a -condessa de Gouvarinho, a rua de S. MarÁal e o commodo sof· em que ella -cahia com um rumor de saias amarrotadas--o marido amuava, como -abandonado tambem. - ---Tenho tido saudade das nossas bellas discussıes em Cintra! disse elle, -dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outr'ora pertencia ao -Maia. Tivemol-as de primeira ordem! - -Eram realmente ´pÈgas tremendasª no pateo do Victor sobre litteratura, -sobre religi„o, sobre moral... Uma noite mesmo tinham-se zangado por -causa da divindade de Jesus. - ---… verdade! acudiu o Ega. VossÍ n'essa noite parecia ter ·s costas uma -opa de irm„o do Senhor dos Passos! - -O conde sorriu. Irm„o do Senhor dos Passos n„o, graÁas a Deus! Ninguem -melhor do que elle sabia que n'esses sublimes episodios do Evangelho -reinava bastante lenda... Mas emfim eram lendas que serviam para -consolar a alma humana. … o que elle object·ra n'essa noite ao amigo -Ega... Sentiam-se a philosophia e o racionalismo capazes de consolar a -m„i que chora? N„o. Ent„o... - ---Em todo o caso, tivemol-as brilhantes! concluiu elle olhando o -relogio. E, eu confesso, uma discuss„o elevada sobre religi„o, sobre -metaphysica, encanta-me... Se a politica me deixasse vagares dedicava-me -· philosophia... Nasci para isso, para aprofundar problemas. - -Steinbroken no emtanto, esticado na sua sobrecasaca azul, com um raminho -d'alecrim ao peito, tom·ra as m„os de Carlos: - ---Mais vous Ítes encore devenu plus fort!... Et Affonso da Maia, -toujours dans ses terres?... Est-ce qu'on ne va pas le voir un peu cet -hiver? - -E immediatamente lamentou n„o ter visitado Santa Olavia. Mas quÍ! a -familia real install·ra-se em Cintra; elle fÙra forÁado a acompanhal-a, -fazer a sua cÙrte... Depois necessit·ra ir de fugida a Inglaterra d'onde -acabava de chegar, havia dias. - -Sim, Carlos sabia, vira na _Gazeta Illustrada_... - ---Vous avez lu Áa? Oh oui, on a ÈtÈ trËs aimable, trËs aimable pour moi -‡ la _Gazette_... - -Tinham-lhe annunciado a partida, depois a chegada, com palavras de -amizade particularmente bem escolhidas. Nem podia deixar de ser, dada -esta affeiÁ„o sincera que liga Portugal e a Filandia... ´Mais enfin on -avait ÈtÈ charmant, charmant!...ª - ---Seulement--ajuntou elle, sorrindo com finura e voltando-se tambem para -o Gouvarinho--on a fait une petite erreur... On a dit que j'Ètais venu -de Southampton par le _Royal Mail_... Ce n'est pas vrai, non! Je me suis -embarquÈ ‡ Bordeaux dans les _Messageries_. J'ai mÍme pensÈ ‡ Ècrire ‡ -Mr. Pinto, redacteur de la _Gazette_, qui est un charmant garÁon... -Puis, j'ai reflechi, je me suis dit: ´Mon Dieu, on va croire que je veux -donner une leÁon d'exactitude ‡ la _Gazette_, c'est trËs grave...ª -Alors, voil‡, trËs prudemment, j'ai gardÈ le silence... Mais enfin c'est -une erreur: je me suis embarquÈ ‡ Bordeaux. - -Ega murmurou que a Historia se encarregaria um dia de rectificar esse -facto. O ministro sorria modestamente, fazendo um gesto em que parecia -desejar, por polidez, que a Historia se n„o incommodasse. E ent„o o -Gouvarinho, que accendÍra o charuto, espreit·ra outra vez o relogio, -perguntou se os amigos tinham ouvido alguma coisa do ministerio e da -crise. - -Foi uma surpreza para ambos, que n„o tinham lido os jornaes... Mas, -exclamou logo o Ega, crise porquÍ, assim em pleno remanso, com as -camaras fechadas, tudo contente, um t„o lindo tempo d'outono? - -O Gouvarinho encolheu os hombros com reserva. Houvera na vespera, · -noitinha, uma reuni„o de ministros; n'essa manh„ o presidente do -conselho fÙra ao paÁo, fardado, determinado a ´largar o poderª... N„o -sabia mais. N„o conferenci·ra com os seus amigos, nem mesmo fÙra ao seu -Centro. Como n'outras occasiıes de crise, conserv·ra-se retirado, -calado, esperando... Alli estivera toda a manh„, com o seu charuto, e a -_Revista dos Dois Mundos_. - -Isto parecia a Carlos uma abstenÁ„o pouco patriotica... - ---Porque emfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem... - ---Exactamente por isso, acudiu o conde com uma cÙr viva na face, n„o -desejo pÙr-me em evidencia... Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o -ter... Se a minha experiencia, a minha palavra, o meu nome s„o -necessarios, os meus correligionarios sabem onde eu estou, venham -pedir-m'os... - -Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas -coisas politicas, comeÁou logo a retrahir-se para o fundo da janella, -limpando os vidros da luneta, recolhido, j· impenetravel, no grande -recato neutral que competia · Filandia. Ega no emtanto n„o sahia do seu -espanto. Mas porque cahia, porque cahia assim um governo com maioria nas -camaras, socego no paiz, o apoio do exercito, a benÁ„o da Igreja, a -protecÁ„o do _Comptoir d'Escompte_?... - -O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pera, e murmurou esta raz„o: - ---O ministerio estava gasto. - ---Como uma vela de sebo? exclamou Ega, rindo. - -O conde hesitou. Como uma vela de sebo n„o diria... Sebo subentendia -obtusidade... Ora n'este ministerio sobrava o talento. -Incontestavelmente havia l· talentos pujantes... - ---Essa È outra! gritou Ega atirando os braÁos ao ar. … extraordinario! -N'este abenÁoado paiz todos os politicos tÍm _immenso talento_. A -opposiÁ„o confessa sempre que os ministros, que ella cobre d'injurias, -tÍm, · parte os disparates que fazem, um _talento de primeira ordem_! -Por outro lado a maioria admitte que a opposiÁ„o, a quem ella -constantemente recrimina pelos disparates que fez, est· cheia de -_robustissimos talentos_! De resto todo o mundo concorda que o paiz È -uma choldra. E resulta portanto este facto supra-comico: um paiz -governado _com immenso talento_, que È de todos na Europa, segundo o -consenso unanime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a -vÍr: que como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os -imbecis! - -O conde sorria com bonhomia e superioridade a estes exageros de -phantasista. E Carlos, ancioso por ser amavel, atalhou, accendendo o -charuto no d'elle: - ---Que pasta preferiria vocÍ, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A -dos Estrangeiros, est· claro... - -O conde fez um largo gesto d'abnegaÁ„o. Era pouco natural que os seus -amigos necessitassem da sua experiencia politica. Elle torn·ra-se -sobretudo um homem d'estudo e de theoria. AlÈm d'isso n„o sabia bem se -as occupaÁıes da sua casa, a sua saude, os seus habitos lhe permittiriam -tomar o fardo do governo. Em todo o caso, decerto, a pasta dos -Estrangeiros n„o o tentava... - ---Essa, nunca! proseguiu elle, muito compenetrado. Para se poder fallar -d'alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, È necessario ter por -traz um exercito de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos. -NÛs, infelizmente, somos fracos... E eu, para papeis subalternos, para -que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me ´ha de ser assimª, n„o -estou!... Pois n„o acha, Steinbroken? - -O ministro tossiu, balbuciou: - ---Certainement... C'est trËs grave... C'est excessivement grave... - -Ega ent„o affirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interresse -geographico pela Africa, faria um ministro da Marinha iniciador, -original, rasgado... - -Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer. - ---Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colonias todas as -coisas bellas, todas as coisas grandes est„o feitas. Libertaram-se j· os -escravos; deu-se-lhes j· uma sufficiente noÁ„o da moral christ„; -organisaram-se j· os serviÁos aduaneiros... Emfim o melhor est· feito. -Em todo o caso ha ainda detalhes interessantes a terminar... Por -exemplo, em Loanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque -mais de progresso a dar. Em Loanda precisava-se bem um theatro normal -como elemento civilisador! - -N'esse momento um criado veio annunciar a Carlos--que o snr. Cruges -estava em baixo, no portal, · espera. Immediatamente os dois amigos -desceram. - ---Extraordinario, este Gouvarinho! dizia o Ega na escada. - ---E este, observou Carlos com um immenso desdem de mundano, È um dos -melhores que ha na politica. Pensando mesmo bem, e mettendo a roupa -branca em linha de conta, este È talvez o melhor! - -Acharam o Cruges · porta, de jaquet„o claro, embrulhando um cigarro. E -Carlos pediu-lhe logo que voltasse a casa vestir uma sobrecasaca preta. -O maestro arregalava os olhos. - ---… jantar? - ---… enterro. - -E rapidamente, sem alludir a Maria, contaram ao maestro que o Damaso -public·ra n'um jornal, a _Corneta do Diabo_ (cuja tiragem elles tinham -supprimido, n„o sendo possivel por isso mostrar o numero immundo) um -artigo em que a coisa mais dÙce que se chamava a Carlos era _pulha_. -Portanto Ega e elle Cruges iam a casa do Damaso pedir-lhe a honra ou a -vida. - ---Bem, rosnou o maestro. Que tenho eu a fazer?... Que eu d'essas coisas -n„o entendo. - ---Tens, explicou Ega, d'ir vestir uma sobrecasaca preta e franzir o -sobr'olho. Depois vir commigo; n„o dizer nada; tratar o Damaso por ´v. -exc.^aª; assentar em tudo o que eu propuzer; e nunca desfranzir o -sobr'olho nem despir a sobrecasaca... - -Sem outra observaÁ„o, Cruges partiu a cobrir-se de ceremonia e de negro. -Mas no meio da rua retrocedeu: - ---” Carlos, olha que eu fallei l· em casa. Os quartos do primeiro andar -est„o livres, e forrados de papel novo... - ---Obrigado. Vai-te fazer sombrio, depressa!... - -O maestro abal·ra, quando diante do Gremio estacou a todo o trote uma -caleche. De dentro saltou o Telles da Gama que, ainda com a m„o no fecho -da portinhola, gritou aos dois amigos: - ---O Gouvarinho? est· l· em cima? - ---Est·... Novidade fresca? - ---Os homens cahiram. Foi chamado o S· Nunes! - -E enfiou pelo pateo, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar atÈ ao -port„o do Cruges. As janellas do primeiro andar estavam abertas, sem -cortinas. Carlos, erguendo para l· os olhos, pensava n'essa tarde das -corridas em que elle viera no phaeton, de Belem, para vÍr aquellas -janellas: ia ent„o escurecendo, por traz dos _stores_ fechados surgira -uma luz, elle contempl·ra-a como uma estrella inaccessivel... Como tudo -passa! - -Retrocederam para o Gremio. Justamente o Gouvarinho e Telles atiravam-se -· pressa para dentro da caleche que esper·ra. Ega parou, deixou cahir os -braÁos: - ---L· vae o Gouvarinho batendo para o Poder, a mandar representar a _Dama -das Camelias_ no sert„o! Deus se amerceie de nÛs! - -Mas o Cruges appareceu emfim de chapÈo alto, entalado n'uma sobrecasaca -solemne, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipoia -estreita e dura. Carlos ia leval-os a casa do Damaso. E como queria -ainda jantar nos Olivaes, esperaria por elles, para saber o resultado -´do chinfrinª, no jardim da Estrella, junto ao coreto. - ---SÍde rapidos e medonhos! - - - -A casa do Damaso, velha e d'um andar sÛ, tinha um enorme port„o verde, -com um arame pendente que fez resoar dentro uma sineta triste de -convento: e os dois amigos esperaram muito antes que apparecesse, -arrastando as chinelas, o gallego achavascado que o Damaso (agora livre -de Carlos e das suas pompas) j· n„o trazia torturado em botins crueis de -verniz. A um canto do pateo uma portinha abria sobre a luz d'um quintal, -que parecia ser um deposito de caixotes, de garrafas vazias e de lixo. - -O gallego, que reconhecera o snr. Ega, conduziu-os logo, por uma -escadinha esteirada, a um corredor largo, escuro, com cheiro a mÙfo. -Depois, batendo o chinelo, correu ao fundo, onde alvejava a claridade -d'uma porta entreaberta. Quasi immediatamente Damaso gritou de l·: - ---” Ega, È vocÍ? Entre para aqui, homem! Que diabo!... Eu estou-me a -vestir... - -EmbaraÁado com estes brados de intimidade e tanta effus„o, Ega ergueu a -voz da sombra do corredor, gravemente: - ---N„o tem duvida, nÛs esperamos... - -O Damaso insistia, · porta, em mangas de camisa, cruzando os -suspensorios: - ---Venha vocÍ, homem! Que diabo, eu n„o tenho vergonha, j· estou de -calÁas! - ---Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar. - -A porta ao fundo cerrou-se, o gallego veio abrir a sala. O tapete era -exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor -abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de Carlos -a cavallo, n'um vistoso caixilho de flÙres em faianÁa: uma das colchas -da India das senhoras Medeiros, branca e verde, enroupando o piano, -arranjada por Carlos com alfinetes: e sobre um contador hespanhol, -debaixo de redoma, um sapatinho de setim de mulher, novo, que o Damaso -compr·ra no Serra, por ter ouvido um dia a Carlos que ´em todo o quarto -de rapaz deve apparecer, discretamente disposta, alguma reliquia -d'amor...ª - -Sob estes retoques de _chic_, dados · pressa sob a influencia do Maia, -impertigava-se a sÛlida mobilia do pai Salcede, de mogno e velludo azul; -a console de marmore, com um relogio de bronze dourado, onde Diana -acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no -caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de -convites para _soirÈes_. E Cruges ia examinar estes documentos, quando -os passos alegres do Damaso soaram no corredor. O maestro correu logo a -perfilar-se ao lado do Ega, diante do canapÈ de velludo, teso, commodo, -com o seu chapÈo alto na m„o. - -Ao vÍl-o, o bom Damaso, que se aboto·ra todo n'uma sobrecasaca azul, -florida por um bot„o de camelia, atirou risonhamente os braÁos ao ar: - ---Ent„o esta È que È a pessoa de ceremonia? Sempre vocÍs tÍm coisas! E -eu a pÙr sobrecasaca... Por pouco que n„o lhe afinfo com o habito de -Christo!... - -Ega atalhou, muito sÈrio: - ---O Cruges n„o È de ceremonia, mas o motivo que aqui nos traz È delicado -e grave, Damaso. - -Damaso arregalou os olhos, reparando emfim n'aquelle estranho modo dos -seus amigos, ambos de negro, seccos, t„o solemnes. E recuou, todo o -sorriso se lhe apagou na face. - ---Que diabo È isso? Sentem-se, sentem-se vocÍs... - -A voz apagava-se-lhe tambem. Pousado · borda d'uma poltrona baixa, junto -d'uma mesa coberta d'encadernaÁıes ricas, com as m„os nos joelhos, ficou -esperando, n'uma anciedade. - ---NÛs vimos aqui, comeÁou Ega, em nome do nosso amigo Carlos da Maia... - -Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso atÈ · -risca do cabello encaracolado a ferro. E n„o achou uma palavra, -attonito, suffocado, esfregando estupidamente os joelhos. - -Ega proseguiu, lento, direito no canapÈ: - ---O nosso amigo Carlos da Maia queixa-se de que o Damaso publicou, ou -fez publicar, um artigo extremamente injurioso para elle e para uma -senhora das relaÁıes d'elle na _Corneta do Diabo_... - ---Na _Corneta_, eu? acudiu o Damaso, balbuciando. Que _Corneta_? Nunca -escrevi em jornaes, graÁas a Deus! Ora essa, a _Corneta_!... - -Ega, muito friamente, tirou do bolso um masso de papeis. E veio -collocal-os um por um, ao lado do Damaso, na mesa, sobre um magnifico -volume da _Biblia_ de DorÈ. - ---Aqui est· a sua carta remettendo ao Palma Cavall„o o rascunho do -artigo... Aqui est·, pela sua letra igualmente, a lista das pessoas a -quem se devia mandar a _Corneta_, desde o Rei atÈ · Fancelli... AlÈm -d'isso nÛs temos as declaraÁıes do Palma. O Damaso È n„o sÛ o -inspirador, mas materialmente o auctor do artigo... O nosso amigo Carlos -da Maia exige, pois, como injuriado, uma reparaÁ„o pelas armas... - -Damaso deu um salto da poltrona, t„o arrebatado--que involuntariamente -Ega recuou, no receio d'uma brutalidade. Mas j· o Damaso estava no meio -da sala, esgazeado, com os braÁos tremulos no ar: - ---Ent„o o Carlos manda-me desafiar? A mim?... Que lhe fiz eu? Elle a mim -È que me pregou uma partida!... Foi elle, vocÍs sabem perfeitamente que -foi elle!... - -E desabafou, n'um prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmadas ao -peito, com os olhos marejados de lagrimas. FÙra Carlos, Carlos, que o -desfeiti·ra a elle, mortalmente! Durante todo o inverno tinha-o -perseguido para que elle o apresentasse a uma senhora brazileira muito -_chic_, que vivia em Paris, e que lhe fazia olho... E elle, bondoso como -era, promettia, dizia: ´Deixa estar, eu te apresento!ª Pois, senhores, -que faz Carlos? Aproveita uma occasi„o sagrada, um momento de luto, -quando elle Damaso fÙra ao Norte por causa da morte do tio, e mette-se -dentro da casa da brazileira... E tanto intriga, que leva a pobre -senhora a fechar-lhe a sua porta, a elle, Damaso, que era intimo do -marido, intimo de _tu_! Caramba, elle È que devia mandar desafiar -Carlos! Mas n„o! fÙra prudente, evit·ra o escandalo por causa do snr. -Affonso da Maia... Queix·ra-se de Carlos, È verdade... Mas no Gremio, na -Casa Havaneza, entre rapaziada amiga... E no fim Carlos prÈga-lhe uma -d'estas! - ---Mandar-me desafiar, a mim! A mim, que todo o mundo conhece!... - -Calou-se, engasgado. E Ega, estendendo a m„o, observou placidamente que -se desviavam do ponto vivo da quest„o. O Damaso concebera, rascunh·ra, -pag·ra o artigo da _Corneta_. Isso n„o o negava, nem o podia negar: as -provas estavam alli, abertas sobre a mesa: elles tinham alÈm d'isso a -declaraÁ„o do Palma... - ---Esse desavergonhado! gritou o Damaso, levado n'outra rajada -d'indignaÁ„o que o fez redemoinhar, estonteado, tropeÁando nos moveis. -Esse descarado do Palma! Com esse È que eu me quero vÍr!... L· a quest„o -com o Carlos n„o vale nada, arranja-se, somos todos rapazes finos... Com -o Palma È que È! Esse traidor È que eu quero rachar! Um homem a quem eu -tenho dado ·s meias libras, aos sete mil reis! E ceias, e tipoias! Um -ladr„o que pediu o relogio ao Zeferino para figurar n'um baptisado, e -pÙl-o no prÈgo!... E faz-me uma d'estas!... Mas hei de escavacal-o! Onde -È que vocÍ o viu, Ega? Diga l·, homem! Que quero ir procural-o, hoje -mesmo, correl-o a chicotadas... TraiÁıes n„o, n„o admitto a ninguem! - -Ega, com a tranquillidade paciente de quem sente a prÍsa certa, lembrou -de novo a inutilidade d'aquellas divagaÁıes: - ---Assim nunca acabamos, Damaso... O nosso ponto È este: o Damaso -injuriou Carlos da Maia: ou se retracta publicamente d'essa injuria, ou -d· uma reparaÁ„o pelas armas... - -Mas o Damaso, sem escutar, appellava desesperadamente para o Cruges, que -se n„o movera do sof· de velludo, esfregando, um contra o outro, com um -ar arripiado e de dÙr, os dois sapatos novos de verniz. - ---Aquelle Carlos! Um homem que se dizia meu amigo intimo! Um homem que -fazia de mim tudo! AtÈ lhe copiava coisas... VocÍ bem viu, Cruges. Diga! -Falle, homem! N„o sejam vocÍs todos contra mim!... AtÈ ·s vezes ia · -alfandega despachar-lhe caixotes... - -O maestro baixava os olhos, vermelho, n'um infinito mal-estar. E Ega, -por fim, j· farto, lanÁou uma intimaÁ„o derradeira: - ---Em resumo, Damaso, desdiz-se ou bate-se? - ---Desdizer-me? tartamudeou o outro, impertigando-se, n'um penoso esforÁo -de dignidade, a tremer todo. E de quÍ? Ora essa! … boa! Eu sou l· homem -que me desdiga! - ---Perfeitamente, ent„o bate-se... - -Damaso cambaleou para traz, desvairado: - ---Qual bater-me! Eu sou l· homem que me bata! Eu c· È a sÙcco. Que venha -para c·, n„o tenho medo d'elle, arrombo-o... - -Dava pulinhos curtos de gordo, atravÈs do tapete, com os punhos fechados -e em riste. E queria Carlos alli para o escavacar! N„o lhe faltava mais -sen„o bater-se... E ent„o duellos em Portugal, que acabavam sempre por -troÁa! - -Ega no emtanto, como se a sua miss„o estivesse finda, aboto·ra a -sobrecasaca e recolhia os papeis espalhados sobre a _Biblia_. Depois, -serenamente, fez a ultima declaraÁ„o de que fÙra incumbido. Como o snr. -Damaso Salcede recusava retractar-se e rejeitava tambem uma reparaÁ„o -pelas armas, Carlos da Maia prevenia-o de que em qualquer parte que o -encontrasse d'ahi por diante, fosse uma rua, fosse um theatro, lhe -escarraria na face... - ---Escarrar-me! berrou o outro, livido, recuando, como se o escarro j· -viesse no ar. - -E de repente, espavorido, coberto de bagas de suor, precipitou-se sobre -o Ega, agarrando-lhe as m„os, n'uma agonia: - ---” Jo„o, Û Jo„o, tu, que Ès meu amigo, por quem Ès, livra-me d'esta -entaladella! - -Ega foi generoso. Desprendeu-se d'elle, empurrou-o brandamente para a -poltrona, calmando-o com palmadinhas fraternaes pelo hombro. E declarou -que, desde que Damaso appellava para a sua amizade, desapparecia o -enviado de Carlos necessariamente exigente, ficava sÛ o camarada, como -no tempo dos Cohens e da _villa_ Balzac. Queria pois o amigo Damaso um -conselho? Era assignar uma carta affirmando que tudo o que fizera -publicar na _Corneta_ sobre o snr. Carlos da Maia e certa senhora fÙra -invenÁ„o falsa e gratuita. SÛ isto o salvava. D'outro modo, Carlos um -dia, no Chiado, em S. Carlos, escarrava-lhe na cara. E, dado esse -desastre, Damasosinho, a n„o querer ser apontado em Lisboa como um -incomparavel cobarde, tinha de se bater · espada ou · pistola... - ---Ora, em qualquer d'esses casos, vocÍ era um homem morto. - -O outro escutava, esbarrondado no fundo do assento de velludo, com a -face emparvecida para o Ega. Alargou mollemente os braÁos, murmurou da -profundidade do seu terror: - ---Pois sim, eu assigno, Jo„o, eu assigno... - ---… o que lhe convÈm... Arranje ent„o papel. VocÍ est· perturbado, eu -mesmo redijo. - -Damaso ergueu-se, com as pernas frouxas, atirando um olhar tonto e vago -por sobre os moveis: - ---Papel de carta? … para carta? - ---Sim, est· claro, uma carta ao Carlos! - -Os passos do desgraÁado perderam-se emfim no corredor, pesados e -succumbidos. - ---Coitado! suspirou o Cruges levando de novo, com um ar de arripio, a -m„o aos sapatos. - -Ega lanÁou-lhe um _chut_ severo. Damaso voltava com o seu sumptuoso -papel de monogramma e corÙa. Para envolver em silencio e segredo aquelle -transe amargo, cerrou o reposteiro; e o vasto pano de velludo, -desdobrando-se, mostrou o braz„o de Salcede, onde havia um le„o, uma -torre, um braÁo armado, e por baixo, a letras d'ouro, a sua formidavel -divisa: Sou forte! Immediatamente Ega afastou os livros na mesa, -abancou, atirou largamente ao papel a data e a adresse do Damaso... - ---Eu faÁo o rascunho, vocÍ depois copÌa... - ---Pois sim! gemeu o outro, de novo, aluido na poltrona, passando o lenÁo -pelo pescoÁo e pela face. - -Ega no emtanto escrevia muito lentamente, com amor. E n'aquelle -silencio, que o embaraÁava, Cruges terminou por se erguer, foi coxeando -atÈ ao espelho onde se desenrolavam, entalados na frincha do caixilho, -bilhetes e photographias. Eram as glorias sociaes do Damaso, os -documentos do _chic a valer_ que era a paix„o da sua vida: bilhetes com -titulos, retratos de cantoras, convites para bailes, cartas de entrada -no Hippodromo, diplomas de membro do Club Naval, de membro do Jockey -Club, de membro do Tiro aos Pombos:--atÈ pedaÁos cortados de jornaes -annunciando os annos, as partidas, as chegadas do snr. Salcede, ´um dos -nossos mais distinctos _sportmen_ª. - -Desventuroso _sportman_! Aquella folha de papel, onde o Ega rascunhava, -ia-o enchendo pouco a pouco d'um terror angustioso. Santo Deus! Para que -eram tantos apuros n'uma carta ao Carlos, um rapaz intimo? Uma linha -bastaria:--´Meu querido Carlos, n„o te zangues, desculpa, foi -brincadeira.ª Mas n„o! Toda uma pagina de letra miuda com entrelinhas! -J· mesmo Ega voltava a folha, molhava a penna, como se d'ella devessem -escorrer sem cessar coisas humilhadoras! N„o se conteve, estendeu a face -por sobre a mesa, atÈ o papel: - ---” Ega, isso n„o È para publicar, pois n„o È verdade? - -Ega reflectiu, com a penna no ar: - ---Talvez n„o... Estou certo que n„o. Naturalmente Carlos, vendo o seu -arrependimento, deixa isto esquecido no fundo d'uma gaveta. - -Damaso respirou com allivio. Ah, bem! Isso parecia-lhe mais decente -entre amigos! Que l· isso, mostrar o seu arrependimento, atÈ elle -desejava! Com effeito o artigo fÙra uma tolice... Mas ent„o! Em questıes -de mulheres era assim, assomado, um le„o... - -Abanou-se com o lenÁo, desanuviado, recomeÁando a achar sabÙr · vida. -Findou mesmo por accender um charuto, levantar-se sem rumor, acercar-se -do Cruges--que, coxeando atravÈs das curiosidades da sala, encalh·ra -sobre o piano e sobre os livros de musica, com o pÈ dorido no ar. - ---Ent„o tem-se feito alguma coisa de novo, Cruges? - -Cruges, muito vermelho, resmungou que n„o tinha feito nada. - -Damaso ficou alli um momento, a mascar o charuto. Depois, atirando um -olhar inquieto · mesa onde o Ega rascunhava interminavelmente, murmurou, -sobre o hombro do maestro: - ---Uma entaladella assim! Eu È por causa da gente conhecida... Sen„o n„o -me importava! Mas veja vocÍ tambem se arranja as coisas e se o Carlos -deixa aquillo na gaveta... - -Justamente Ega erguera-se com o papel na m„o e caminhava para o piano, -devagar, relendo baixo. - ---Ficou optimo, salva tudo! exclamou por fim. Vai em fÛrma de carta ao -Carlos, È mais correcto. VocÍ depois copÌa e assigna. OuÁa l·: -´Exc.^{mo} snr....ª Est· claro, vocÍ d·-lhe excellencia, porque È um -documento d'honra... ´Exc.^{mo} snr.--Tendo-me v. exc.^a, por intermÈdio -dos seus amigos Jo„o da Ega e Victorino Cruges, manifestado a indignaÁ„o -que lhe caus·ra um certo artigo da _Corneta do Diabo_ de que eu escrevi -o rascunho e de que promovi a publicaÁ„o, venho declarar francamente a -v. exc.^a que esse artigo, como agora reconheÁo, n„o continha sen„o -falsidades e incoherencias: e a minha desculpa unica est· em que o -compuz e enviei · redacÁ„o da _Corneta_ no momento de me achar no mais -completo estado d'embriaguez...ª - -Parou. E nem se voltou para o Damaso, que deix·ra pender os braÁos, -rolar o charuto no tapete, varado. Foi ao Cruges que se dirigiu, -entalando o monoculo: - ---Achas talvez forte?... Pois eu redigi assim por ser justamente a unica -maneira de resalvar a dignidade do nosso Damaso. - -E desenvolveu a sua idÈa, mostrando quanto era generosa e -habil--emquanto o Damaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos -nem elle queriam que o Damaso n'uma carta (que se podia tornar publica) -declarasse ´que calumni·ra por ser calumniadorª. Era necessario, pois, -dar · calumnia uma d'essas causas fortuitas e ingovernaveis que tiram a -responsabilidade ·s acÁıes. E que melhor, tratando-se d'um rapaz mundano -e femeeiro, do que estar bebedo?... N„o era vergonha para ninguem -embebedar-se... O proprio Carlos, todos elles alli, homens de gosto e de -honra, se tinham embebedado. Sem remontar aos romanos, onde isso era uma -hygiene e um luxo, muitos grandes homens na Historia bebiam de mais. Em -Inglaterra era t„o _chic_, que Pitt, Fox e outros nunca fallavam na -Camara dos communs sen„o aos bordos. Musset, por exemplo, que bebedo! -Emfim a Historia, a Litteratura, a Politica, tudo fervilhava de -piteiras... Ora, desde que o Damaso se declarava borracho, a sua honra -ficava salva. Era um homem de bem que apanh·ra uma carraspana e que -commettera uma indiscriÁ„o... Nada mais! - ---Pois n„o te parece, Cruges? - ---Sim, talvez, que estava bebedo, murmurou o maestro timidamente. - ---Pois n„o lhe parece a vocÍ, francamente, Damaso? - ---Sim, que estava bebedo, balbuciou o desgraÁado. - -Immediatamente Ega retomou a leitura: ´Agora que voltei a mim reconheÁo, -como sempre reconheci e proclamei, que È v. exc.^a um caracter -absolutamente nobre; e as outras pessoas, que n'esse momento -d'embriaguez ousei salpicar de lama, s„o-me sÛ merecedoras de veneraÁ„o -e louvor. Mais declaro que se por acaso tornasse a succeder soltar eu -alguma palavra offensiva para v. exc.^a, n„o lhe devia dar v. exc.^a, ou -aquelles que a escutassem, mais importancia do que a que se d· a uma -involuntaria baforada d'alcool--pois que, por um habito hereditario que -reapparece frequentemente na minha familia, me acho repetidas vezes em -estado de embriaguez... De v. exc.^a, com toda a estima etc....ª Rodou -sobre os tacıes, pousou o rascunho na mesa--e accendendo o charuto ao -lume do Damaso, explicou com amizade, com bonhomia, o que o determin·ra -·quella confiss„o de bebedeira incorrigivel e palreira. FÙra ainda o -desejo de garantir a tranquillidade do ´nosso Damasoª. Attribuindo todas -as imprudencias em que pudesse cahir a um habito d'intemperanÁa -hereditaria, de que tinha t„o pouca culpa como de ser baixo e gordo, o -Damaso punha-se _para sempre_ ao abrigo das provocaÁıes de Carlos... - ---VocÍ, Damaso, tem genio, tem lingua... Um dia esquece-se, e no Gremio, -sem querer, na cavaqueira depois do theatro, l· lhe escapa uma palavra -contra Carlos... Sem esta precauÁ„o, ahi recomeÁa a quest„o, o escarro, -o duello... Assim j· Carlos n„o se pÛde queixar. L· tem a explicaÁ„o que -tudo cobre, uma gotta de mais, a gotta tomada por impulso de borrachice -hereditaria... VocÍ alcanÁa d'este modo a coisa que mais se appetece -n'este nosso seculo XIX--a irresponsabilidade!... E depois para a sua -familia n„o È vergonha, porque vocÍ n„o tem familia. Em resumo, -convem-lhe? - -O pobre Damaso escutava-o, esmagado, enervado, sem comprehender aquellas -roncantes phrases sobre ´a hereditariedadeª, sobre ´o seculo XIXª. E um -unico sentimento vivo o dominava, acabar, reentrar na sua paz -pachorrenta, livre de floretes e de escarros. Encolheu os hombros, sem -forÁa: - ---Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar fallatorios. - -E abancou, metteu um bico novo na penna, escolheu uma folha de papel em -que o monogramma luzia mais largo, comeÁou a copiar a carta na sua -maravilhosa letra, com finos e grossos, d'uma nitidez de gravura em aÁo. - -Ega no emtanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava -em torno da mesa, seguindo sÙfregamente as linhas que traÁava a m„o -applicada do Damaso, ornada d'um grosso annel d'armas. E durante um -momento atravessou-o um susto... Damaso par·ra, com a penna indecisa. -Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquella gordura balofa, um -resto escondido de dignidade, de revolta?... Damaso alÁou para elle os -olhos embaciados: - ---Embriaguez È com _n_ ou com _m_? - ---Com um _m_, um _m_ sÛ, Damaso! acudiu Ega affectuosamente. Vai muito -bem... Que linda letra vocÍ tem, caramba! - -E o infeliz sorriu · sua propria letra--pondo a cabeÁa de lado, no -orgulho sincero d'aquella soberba prenda. - -Quando findou a cÛpia foi Ega que conferiu, pÙz a pontuaÁ„o. Era -necessario que o documento fosse _chic_ e perfeito. - ---Quem È o seu tabelli„o, Damaso? - ---O Nunes, na rua do Ouro... Porque? - ---Oh! nada. … um detalhe que n'estes casos se pergunta sempre. Mera -ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como estylo, est· -d'appetite a cartinha! - -Metteu-a logo n'um enveloppe onde rebrilhava a divisa ´Sou Forteª, -sepultou-a preciosamente no interior da sobrecasaca. Depois, agarrando o -chapÈo, batendo no hombro do Damaso com uma familiaridade folgaz„ e -leve: - ---Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fÛra de portas, -n'uma poÁa de sangue! Assim È uma delicia. E adeus... N„o se incommode -vocÍ. Ent„o o grande sarau sempre È na segunda-feira? Vai l· tudo, hein! -N„o venha c·, homem... Adeus! - -Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor, mudo, murcho, cabisbaixo. E no -patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietaÁ„o que o assalt·ra: - ---Isso n„o se mostra a ninguem, n„o È verdade, Ega? - -Ega encolheu os hombros. O documento pertencia a Carlos... Mas emfim -Carlos era t„o bom rapaz, t„o generoso! - -Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso: - ---E chamei eu ·quelle homem _meu amigo_! - ---Tudo na vida s„o desapontamentos, meu Damaso! foi a observaÁ„o do Ega, -saltando alegremente os degraus. - -Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrella, Carlos j· esperava ao -port„o de ferro, n'uma impaciencia, por causa do jantar na _Toca_. -Enfiou logo para dentro atropellando o maestro, bradou ao cocheiro que -voasse ao Loreto. - ---E ent„o, meus senhores, temos sangue? - ---Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o -enveloppe. - -Carlos leu a carta do Damaso. E foi um immenso assombro: - ---Isto È incrivel!... Chega a ser humilhante para a natureza humana! - ---O Damaso n„o È o genero humano, acudiu Ega. Que diabo esperavas tu? -Que elle se batesse? - ---N„o sei, corta o coraÁ„o... Que se ha de fazer a isto? - -Segundo o Ega n„o se devia publicar; seria crear curiosidade e escandalo -em torno do artigo da _Corneta_ que cust·ra trinta libras a suffocar. -Mas convinha conservar aquillo como uma ameaÁa pairando sobre o Damaso, -tornando-o para longos annos nullo e inoffensivo. - ---Eu estou mais que vingado, concluiu Carlos. Guarda o papel: È obra -tua, usa-o como quizeres... - -Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos, batendo no joelho do maestro, -queria saber como elle se port·ra n'aquelle lance d'honra... - ---Pessimamente! gritou Ega. Com expressıes de compaix„o; sem linha -nenhuma; estendido por cima do piano; agarrando com a m„o no sapato... - ---Pudera! exclamou Cruges desafogando emfim. VocÍs dizem-me que me ponha -de ceremonia, calÁo uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde -n'um tormento! - -E n„o se conteve mais, arrancou o sapato, pallido, com um medonho -suspiro de consolaÁ„o. - - -No dia seguinte, depois do almoÁo, emquanto uma chuva grossa alagava os -vidros sob as lufadas de sudoeste, Ega, no _fumoir_, enterrado n'uma -poltrona, com os pÈs para o lume, relia a carta do Damaso: e pouco a -pouco subia n'elle a m·goa de que esse colossal documento de cobardia -humana, t„o interessante para a physiologia e para a arte, ficasse para -sempre inaproveitado no escuro d'uma gaveta!... Que effeito, que soberbo -effeito se aquella confiss„o do ´nosso distincto _sportman_ª surgisse um -dia na _Gazeta Illustrada_ ou no novo jornal _A Tarde_, nas columnas do -_High-life_, sob este titulo--Pendencia d'honra! E que liÁ„o, que -meritorio acto de justiÁa social! - -Todo esse ver„o, Ega detest·ra o Damaso, certo, desde Cintra, de que -elle era o amante da Cohen--e de que, por esse imbecil de grossas -nadegas, esquecera ella para sempre a _villa_ Balzac, as manh„s na -colcha de setim preto, os seus beijos delicados, os versos de Musset que -lhe lia, os lunchesinhos de perdiz, tantos encantos poeticos. Mas o que -lhe torn·ra o Damaso intoleravel--fÙra a sua farofia radiante de homem -preferido; o ar de posse com que passeava ao lado de Rachel pelas -estradas de Cintra, vestido de flanella branca; os segredinhos que tinha -sempre a cochichar-lhe sobre o hombro; e o acÍnosinho desdenhoso, com um -dedo, que lhe atirava de lado, ao passar, a elle proprio, Ega... Era -odioso! Odiava-o: e atravÈs d'esse odio rumin·ra sempre o desejo d'uma -vinganÁa--pancada, deshonra ou ridiculo que tornasse o snr. Salcede, aos -olhos de Rachel, desprezivel, grutesco, chato como um bal„o furado... - -E agora alli tinha essa carta providencial, em que o homem solemnemente -se declarava bebedo. ´Sou um bebedo, estou sempre bebedoª! Assim o -dizia, no seu papel de monogramma d'ouro, o snr. Salcede, n'um medo vil -de c„o gÙso, rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer -pau!... Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia d'encafuar t„o -decisivo documento no fundo d'um gavet„o? - -Publical-o na _Gazeta Illustrada_ ou na _Tarde_ n„o podia, infelizmente, -por interesse de Carlos. Mas porque o n„o mostraria ´em segredoª, como -uma curiosidade psychologica, ao Craft, ao marquez, ao Telles, ao -Gouvarinho, ao primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cÛpia ao Taveira -que, resentido eternamente da quest„o com o Damaso em casa da Lola -Gorda, correria a lÍl-a _em segredo_ na Casa Havaneza, no bilhar do -Gremio, no Silva, nos camarins de cantoras... E ao fim de uma semana a -snr.^a D. Rachel saberia inevitavelmente que o escolhido do seu coraÁ„o -era por confiss„o propria um calumniador e um bebedo!... Delicioso! - -T„o delicioso que n„o hesitou mais, subiu ao quarto para copiar a carta -do Damaso. Mas quasi immediatamente um criado trouxe-lhe um telegramma -de Affonso da Maia annunciando que chegava no dia seguinte ao Ramalhete. -Ega teve de sahir, telegraphar para os Olivaes, avisar Carlos. - -Carlos appareceu n'essa noite, j· tarde, transido de frio, com um monte -de bagagens--porque abandon·ra definitivamente os Olivaes. Maria Eduarda -regressava tambem a Lisboa, para o primeiro andar da rua de S. -Francisco, tomado agora por seis mezes, tapetado de novo pela m„i -Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com profundas saudades da -_Toca_. Depois de cear, ao fog„o, acabando o charuto, relembrou -infindavelmente esses dias alegres, a sua casinhola, o banho da manh„ -tomado dentro d'uma dorna, a festa do deus Tchi, as guitarradas do -marquez, as longas cavaqueiras ao cafÈ com as janellas abertas e as -borboletas voando em torno aos candieiros... FÛra as cordas d'agua, sob -o vento d'inverno, batiam os vidros na mudez da noite negra. Ambos -terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no lume. - ---Quando esta tarde dei pela ultima vez uma volta na quinta, disse por -fim Carlos, j· n„o havia uma unica folha nas arvores... Tu n„o sentes -sempre uma grande melancolia n'estes fins de outono?... - ---Immensa! murmurou Ega lugubremente. - -Ao outro dia a manh„ clareava, limpa e branca, quando Ega e Carlos, -ainda estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolonia. O comboio -acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de gente que -se escoava das portinholas abertas, Affonso, com o seu velho capote de -gola de velludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre homens de -bonÈ agaloado que lhe offereciam o _Hotel Terreirense_ e a _Pomba -d'Ouro_. Atraz Mr. Antoine, o chefe francez, grave, de chapÈo alto, -trazia o cesto em que viaj·ra o reverendo Bonifacio. - -Carlos e Ega acharam Affonso mais acabado, mais pesado. Todavia -gabaram-lhe muito, entre os primeiros abraÁos, a sua robustez de -patriarcha. Elle encolheu os hombros, queixando-se de ter sentido desde -o fim do ver„o vertigens, um cansaÁo vago... - ---VocÍs È que est„o excellentes, acrescentou abraÁando outra vez Carlos -e sorrindo ao Ega. E que ingratid„o foi essa tua, John, mettido aqui -todo um ver„o sem me ir visitar?... Que tens tu feito? Que tÍm vocÍs -feito? - ---Mil coisas! acudiu Ega alegremente. Planos, ideias, titulos... Temos -sobretudo o projecto d'uma _Revista_, um apparelho d'educaÁ„o superior -que vamos montar com uma forÁa de mil cavallos!... Emfim logo se lhe -conta tudo ao almoÁo. - -E ao almoÁo, com effeito, para justificarem as suas occupaÁıes em -Lisboa, fallaram da _Revista_ como se ella j· estivesse organisada e os -artigos a imprimir na officina--tanta foi a precis„o com que lhe -descreveram as tendencias, a feiÁ„o critica, as linhas de pensamento -sobre que ella devia rolar... Ega j· prepar·ra um trabalho para o -primeiro numero--_A capital dos portuguezes_. Carlos meditava uma sÈrie -d'_ensaios_ · ingleza, sob este titulo--_Porque falhou entre nÛs o -systema constitucional_. E Affonso escutava, encantado com aquellas -bellas ambiÁıes de lucta, querendo partilhar da grande obra como socio -capitalista... Mas Ega entendia que o snr. Affonso da Maia devia descer -· arena, lanÁar tambem a palavra do seu saber e da sua experiencia. -Ent„o o velho riu. O quÍ! compÙr prosa, elle, que hesitava para traÁar -uma carta ao feitor? De resto o que teria a dizer ao seu paiz, como -fructo da sua experiencia, reduzia-se pobremente a tres conselhos em -tres phrases: aos politicos--´menos liberalismo e mais caracterª; aos -homens de letras--´menos eloquencia e mais ideiaª; aos cidad„os em -geral--´menos progresso e mais moralª. - -Isto enthusiasmou o Ega! Justamente, ahi estavam as verdadeiras feiÁıes -da reforma espiritual que a _Revista_ devia prÈgar! Era necessario -tomal-as como moto symbolico, inscrevel-as em letras gothicas no -frontispicio--porque Ega queria que a _Revista_ fosse original logo na -capa. E ent„o a conversaÁ„o desviou para o exterior da _Revista_--Carlos -pretendendo que fosse azul-claro com typo RenascenÁa, Ega exigindo uma -cÛpia exacta da _Revista dos Dois Mundos_, n'uma nuance mais cÙr de -canario. E, levados pela sua imaginaÁ„o de meridionaes, j· n„o era sÛ -para agradar a Affonso da Maia que iam levantando e dando fÛrma ·quelle -confuso plano. - -Carlos exclamava para o Ega, com os olhos j· apaixonados: - ---Isto agora È sÈrio. Precisamos arranjar immediatamente a casa para a -redacÁ„o! - -Ega bracejava: - ---Pudera! E moveis! E machinas! - -Toda a manh„, no escriptorio d'Affonso, azafamados, com papel e lapis, -se occuparam em fixar uma lista de collaboradores. Mas j· as -difficuldades surgiam. Quasi todos os escriptores suggeridos -desagradavam ao Ega, por lhes faltar no estylo aquelle requinte plastico -e parnasiano de que elle desejava que a _Revista_ fosse o impeccavel -modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam _impossiveis_--sem -querer confessar que n'elles lhe repugnava exclusivamente a falta de -linha e o fato mal feito... - -Uma coisa porÈm ficou decidida: a casa da redacÁ„o. Devia ser mobilada -luxuosamente, com sof·s do consultorio de Carlos e algum _bric-‡-brac_ -da _Toca_: e sobre a porta (ornada d'um guarda-port„o de librÈ) a -taboleta de verniz preto, com _Revista de Portugal_ em altas letras a -ouro. Carlos sorria, esfregava as m„os, pensando na alegria de Maria ao -saber esta decis„o que o lanÁava, como era o desejo d'ella, na -actividade, n'uma lucta interessante d'ideias. Ega, esse, via j· a -brochura cÙr de canario aos montıes nas vitrines dos livreiros, -discutida nas _soirÈes_ do Gouvarinho, folheada na camara com espanto -pelos politicos... - ---Vai-se remexer Lisboa este inverno, snr. Affonso da Maia! gritou elle -atirando um gesto immenso atÈ ao tecto. - -E o mais contente era o velho. - -Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com elle · rua de S. -Francisco (onde Maria se install·ra n'essa manh„) levarem a nova da -grande obra. Mas encontraram · porta uma carroÁa descarregando malas; e -a senhora, contou o Domingos que ajudava os carroceiros, estava ainda -jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confus„o na casa, -Ega n„o quiz subir. - ---AtÈ logo, disse elle. Vou talvez procurar o Sim„o Craveiro e -fallar-lhe da _Revista_. - -Subiu lentamente o Chiado, leu os telegrammas na Casa Havaneza. Depois · -esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido n'um paletot, -offereceu-lhe uma ´senhasinhaª. Outros, em volta, gritavam na sombra do -_Hotel AllianÁa_: - ---Bilhete para o Gymnasio! Mais barato... Bilhete para o Gymnasio! Quem -vende?... - -Havia um cruzar animado de carruagens com librÈs. Os bicos de gaz do -Gymnasio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que -atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e flÙr no paletot. - ---Que È isto? - ---Festa de beneficencia, n„o sei, disse o Craft. Uma coisa promovida por -senhoras, a baroneza d'Alvim mandou-me um bilhete... Venha vocÍ d'ahi -ajudar-me a levar esta caridade ao Calvario. - -E na esperanÁa de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No -perystilo do Gymnasio encontraram Taveira passeando e fumando -solitariamente, · espera que findasse a primeira comedia, o _Fructo -prohibido_. Ent„o Craft propÙz ´botequim e genebraª. - ---E que ha do ministerio? perguntou elle, apenas abancaram a um canto. - -O Taveira n„o sabia. Todos esses dois longos dias se intrig·ra -desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Publicas: o Videira -tambem. E fallava-se d'uma scena terrivel por causa de syndicatos, em -casa do presidente do conselho, o S· Nunes, que termin·ra por dar um -murro na mesa, gritar: ´Irra! que isto n„o È o pinhal d'Azambuja!ª - ---Canalha! rosnou Ega com odio. - -Depois fallaram do Ramalhete, da volta d'Affonso, da reappariÁ„o de -Carlos. Craft louvou Deus por haver outra vez n'esse inverno uma casa -com fogıes, onde se passasse uma hora civilisada e intelligente. - -Taveira acudiu com o olho brilhante: - ---Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na rua -de S. Francisco! Foi o marquez que me disse. Madame Mac-Gren vai -receber. - -Craft n„o sabia mesmo que ella j· tivesse recolhido da _Toca_. - ---Voltou hoje, disse o Ega. VocÍ ainda n„o a conhece?... Encantadora. - ---Creio que sim. - -O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma belleza. E um ar -t„o sympathico! - ---Encantadora! repetiu Ega. - -Mas o _Fructo prohibido_ find·ra, os homens enchiam o peristylo, n'um -rumor lento, accendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira -com a genebra, correu · plateia para descobrir o camarote da Alvim. - -Mal erguera porÈm a cortina e assest·ra o monoculo--avistou defronte, na -primeira ordem, a Cohen, toda de preto, com um grande leque de rendas -brancas; por traz negrejavam as suissas fortes do marido; e em face -d'ella, recostado no velludo da grade, de casaca, com a bochecha -risonha, uma grossa perola no peitilho da camisa, o Damaso, o bebedo! - -Ega cahiu mollemente, ao acaso, na borda d'uma cadeira: e perturbado, j· -esquecido da Alvim, alli ficou a olhar o panno coberto d'annuncios, -correndo os dedos tremulos pelo bigode. - -No emtanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na -plateia. Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeÁou no joelho do Ega: -outro, de luvas claras, com uma polidez adocicada, pediu permiss„o a s. -exc.^a Elle n„o escutava, n„o percebia: os seus olhos, um momento -errantes, tinham-se emfim cravado no camarote da Cohen e n„o se -desviaram de l·, n'uma emoÁ„o que o empallidecia. - -N„o a torn·ra a encontrar desde Cintra, onde sÛ a via de longe, com -vestidos claros sob o verde das arvores; e agora alli, toda de preto, em -cabello, com um decote curto onde brilhava a perfeita brancura do seu -collo, ella era outra vez a _sua_ Rachel, dos tempos divinos da _villa_ -Balzac. Era assim que elle, todas as noites em S. Carlos, a contemplava -do fundo da frisa de Carlos, com a cabeÁa encostada ao tabique, saturado -de felicidade. L· tinha a sua luneta d'ouro, presa por um fio d'ouro. -Parecia mais pallida, mais delicada, com o longo quebranto dos olhos -pisados, o seu ar de romance e de lirio meio murcho: e como ent„o os -seus cabellos magnificos e pesados cahiam habilmente n'uma massa meia -solta sobre as costas, n'um desalinho de nudez. Pouco a pouco, entre o -afinar de rebecas e o rumor das cadeiras Ega revia, n'uma onda de -recordaÁıes que o suffocava, o grande leito da _villa_ Balzac, certos -beijos e certos risos, as perdizes comidas em camisa · borda do sof·, e -a melancolia deliciosa das tardes, quando ella sahia furtivamente, -coberta de vÈos, e elle ficava, cansado, no crepusculo poetico do -quarto, cantarolando a _Traviata_... - ---V. exc.^a d· licenÁa, snr. Ega? - -Era um sujeito escaveirado, de barba rala, que reclamava a sua cadeira. -Ega ergueu-se, confusamente, sem reconhecer o snr. Sousa Netto. O panno -subira. ¡ borda da rampa um lacaio, piscando o olho · Plateia, fazia -confidencias sobre a patrÙa, de espanejador debaixo do braÁo. E Cohen, -agora de pÈ, enchia o meio do camarote, cofiando as suissas com um -correr lento da m„o bem tratada, onde reluzia um diamante. - -Ega ent„o, n'um soberbo alarde d'indifferenÁa, cravou o monoculo no -palco. O lacaio abal·ra espavorido, a um repique furioso de sineta; e -uma megera azeda, de roup„o verde e touca · banda, rompera de dentro, -meneando desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida -que batia o tac„o, se esganiÁava: ´Pois hei de amal-o sempre! hei de -amal-o sempre!ª - -Irresistivelmente Ega revirou o canto do olho para o camarote: Rachel e -o Damaso, com as cabeÁas chegadas como em Cintra, cochichavam n'um -sorriso. E tudo logo dentro do Ega se resumiu n'um immenso odio ao -Damaso! Collado · umbreira da porta, rilhava os dentes, n'um desejo de -subir, escarrar-lhe na bochecha gorda. - -E n„o desviava d'elle os olhos, que dardejavam. Na scena, um velho -general, gottoso e resmung„o, sacudia um jornal, gritava pela sua -tapioca. A Plateia ria, o Cohen ria. E n'esse momento Damaso, que se -debruÁ·ra no camarote com as m„os de fÛra, calÁadas de _gris-perle_, -descobriu o Ega, sorriu, atirou-lhe como em Cintra um acenosinho -petulante, muito d'alto, na ponta dos dedos. Isto feriu o Ega como um -insulto. E ainda na vespera aquelle covarde se lhe agarr·ra ·s m„os, -tremendo todo, a gritar ´que o salvasse!...ª - -Subitamente, com uma idÈa, palpou por sobre o bolso a carteira onde na -vespera guard·ra a carta do Damaso... ´Eu t'arranjo!ª murmurou elle. E -abalou, desceu a rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que -rola, enfiou, ao fundo da praÁa de Camıes, n'um grande port„o que uma -lanterna alumiava. Era a redacÁ„o da _Tarde_. - -Dentro do pateo d'esse jornal elegante fedia. Na escadaria de pedra, sem -luz, cruzou um sujeito encatarrhoado que lhe disse que o Neves estava em -cima ao cavaco. O Neves, deputado, politico, director da _Tarde_, fÙra, -havia annos, n'umas ferias, seu companheiro de casa no largo do Carmo; e -desde esse ver„o alegre em que o Neves lhe fic·ra sempre devendo tres -moedas, os dois tratavam-se por _tu_. - -Foi encontral-o n'uma vasta sala alumiada por bicos de gaz sem globo, -sentado na borda d'uma mesa atulhada de jornaes, com o chapÈo para a -nuca, discursando a alguns cavalheiros de provincia que o escutavam de -pÈ, n'um respeito de crentes. N'um v„o de janella, com dois homens -d'idade, um rapaz esgalgado, de jaquet„o de cheviote claro e uma -cabelleira crespa que parecia erguida n'uma rajada de vento, bracejava -como um moinho na crista d'um monte. E, abancado, outro sujeito j· calvo -rascunhava laboriosamente uma tira de papel. - -Ao vÍr o Ega (um intimo do Gouvarinho) alli na redacÁ„o, n'aquella noite -de intriga e de crise, Neves cravou n'elle os olhos t„o curiosos, t„o -inquietos, que o Ega apressou-se a dizer: - ---Nada de politica, negocio particular... N„o te interrompas. Depois -fallaremos. - -O outro findou a injuria que estava lanÁando ao JosÈ Bento, ´essa grande -besta que fÙra metter tudo no bico da amiga do Sousa e S·, o par do -reinoª--e na sua impaciencia saltou da mesa, travou do braÁo do Ega -arrastando-o para um canto: - ---Ent„o que È? - ---… isto, em quatro palavras. O Carlos da Maia foi offendido ahi por um -sujeito muito conhecido. Nada d'interessante. Um paragrapho immundo na -_Corneta do Diabo_, por uma quest„o de cavallos... O Maia pediu-lhe -explicaÁıes. O outro deu-as, chatas, medonhas, n'uma carta que quero que -vocÍs publiquem. - -A curiosidade do Neves flammejou: - ---Quem È? - ---O Damaso. - -O Neves recuou d'assombro: - ---O Damaso!? Ora essa! Isso È extraordinario! Ainda esta tarde jantei -com elle! Que diz a carta? - ---Tudo. Pede perd„o, declara que estava bebedo, que È de profiss„o um -bebedo... - -O Neves agitou as m„os com indignaÁ„o: - ---E tu querias que eu publicasse isso, homem? O Damaso, nosso amigo -politico!... E que n„o fosse, n„o È quest„o de partido, È de decencia! -Eu faÁo l· isso!... Se fosse uma acta de duello, uma coisa honrosa, -explicaÁıes dignas... Mas uma carta em que um homem se declara bebedo! -Tu est·s a mangar! - -Ega, j· furioso, franzia a testa. Mas o Neves, com todo o sangue na -face, teve ainda uma revolta ·quella idÈa do Damaso se declarar bebedo! - ---Isso n„o pÛde ser! … absurdo! Ahi ha historia... Deixa vÍr a carta. - -E, mal relance·ra os olhos ao papel, · larga assignatura floreada, -rompeu n'um alarido: - ---Isto n„o È o Damaso nem È letra do Damaso!... ´Salcedeª! Quem diabo È -´Salcedeª? Nunca foi o _meu_ Damaso! - ---… o _meu_ Damaso, disse o Ega. O Damaso Salcede, um gordo... - -O outro atirou os braÁos ao ar: - ---O meu È o Guedes, homem, o Damaso Guedes! N„o ha outro! Que diabo, -quando se diz o Damaso È o Guedes!... - -Respirou com grande allivio: - ---Irra, que me assustaste! Olha agora n'este momento, com estas coisas -de ministerio, uma carta d'essas escripta pelo Guedes... Se È o Salcede, -bem, acabou-se! Espera l·... N„o È um gordalhufo, um janota que tem uma -propriedade em Cintra? Isso! Um magan„o que nos entalou na eleiÁ„o -passada, fez gastar ao Silverio mais de trezentos mil reis... -Perfeitamente, ·s ordens... ” Pereirinha, olhe aqui o snr. Ega. Tem ahi -uma carta para sahir ·manh„, na primeira pagina, typo largo... - -O snr. Pereirinha lembrou o artigo do snr. Vieira da Costa sobre a -´Reforma das Pautasª. - ---Vai depois! gritou o Neves. As questıes de honra antes de tudo! - -E voltou ao seu grupo onde agora se fallava do conde de Gouvarinho, -saltou para a borda da mesa, lanÁou logo o seu vozeir„o de chefe, -affirmando no Gouvarinho enormes dotes de parlamentar! - -Ega accendeu o charuto, ficou um momento considerando aquelles sujeitos -que pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise -arrast·ra a Lisboa, arranc·ra · quietaÁ„o das villas e das quintas. O -mais novo parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face -a estourar de sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de -porco. Outro, esguio, com o paletot solto sobre as costas em arco, tinha -um queixo duro e macisso de cavallo: e dois padres muito rapados, muito -morenos, fumavam pontas de cigarro. Em todos havia esse ar, -conjunctamente apagado e desconfiado, que marca os homens de provincia, -perdidos entre as tipoias e as intrigas da Capital. Vinham alli ·s -noites, ·quelle jornal do partido, saber as novas, _beber do fino_, uns -com esperanÁas de empregos, outros por interesses de terriola, alguns -por ociosidade. Para todos o Neves era um ´robusto talentoª; -admiravam-lhe a verbosidade e a tactica; decerto gostavam de citar nas -lojas das suas villas o amigo Neves, o jornalista, o da _Tarde_... Mas, -atravÈs d'essa admiraÁ„o e do prazer de roÁar por elle, percebia-se-lhes -um vago medo que aquelle ´robusto talentoª lhes pedisse, n'um v„o de -janella, duas ou tres moedas. O Neves no emtanto celebrava o Gouvarinho -como orador. N„o que tivesse os rasgos, a pureza, as bellas syntheses -historicas do JosÈ Clemente! Nem a poesia do Rufino! Mas n„o havia outro -para as piadas que ferem e que ficam cravadas, alli a arder, na pelle do -touro! E era a grande coisa na Camara--ter a farpa, sabÍl-a ferrar! - ---” GonÁalo, tu lembras-te da piada do Gouvarinho, a do trapezio? gritou -elle virando-se para a janella, para o rapaz de jaquet„o claro. - -O GonÁalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e malicia, estendeu -o pescoÁo magro n'um collarinho muito decotado, lanÁou de l·: - ---A do trapezio? Divina! Conta · rapaziada! - -A rapaziada arregalou os olhos para o Neves, · espera da ´do trapezioª. -FÙra na Camara dos Pares, na reforma da instrucÁ„o. Estava fallando o -Torres Valente, esse maluco que defendia a gymnastica dos collegios e -queria as meninas a fazerem a prancha. Gouvarinho ergue-se e atira-lhe -esta: - -´Snr. presidente, direi uma palavra sÛ. Portugal sahir· para sempre da -senda do progresso, em que tanto se tem illustrado, no dia em que nÛs -fÙrmos ao ensino, com m„o impia, substituir a cruz pelo trapezio!ª - ---Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito. - -E no murmurio de admiraÁ„o que se ergueu destacou um ganido--o do rapaz -mais grosso que um pote, que mexia os hombros, chasqueava com uma risota -na bochecha cÙr de tomate: - ---Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae È um grandissimo -carola! - -E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provincia, liberaes -e finorios, que achavam aquelle fidalgo excessivamente apegado · cruz. -Mas j· o Neves, de pÈ, bravejava: - ---Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho -carola! Est· claro que tem toda a orientaÁ„o mental do seculo, È um -racionalista, um positivista... Mas a quest„o aqui È a rÈplica, a -tactica parlamentar! Desde que o typo da maioria vem de l· com a -descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo, ainda que fosse t„o atheu como -Renan, z·s! atira-lhe logo para cima com a cruz!... Isto È que È a -estrategia parlamentar! Pois n„o È assim, Ega? - -Ega murmurou, atravÈs do fumo do charuto: - ---Sim, com effeito a cruz para isso ainda serve... - -Mas n'esse momento o sujeito calvo, que repellira a tira de papel e se -espreguiÁava, cahido para as costas da cadeira, exhausto, pediu ao snr. -Jo„o da Ega--que fallasse · gente e guardasse o seu dinheiro... - -Ega acercou-se logo d'aquelle sympathico homem, t„o engraÁado, t„o -querido de todos: - ---Ent„o, na grande faina, Melchior? - ---Estou aqui a vÍr se faÁo uma coisa sobre o livro do Craveiro, os -_Cantos da Serra_, e n„o me sae nada em termos... N„o sei o que hei de -dizer! - -Ega gracejou, de m„os nos bolsos, muito risonho, muito camarada com o -Melchior: - ---Nada! VocÍs aqui s„o simples localistas, noticiaristas, annunciadores. -D'um livro como o do Craveiro tÍm sÛ respeitosamente a dizer onde se -vende e quanto custa. - -O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz da -nuca: - ---Ent„o onde queria vocÍ que se fallasse dos livros?... Nos reportorios? - -N„o, nas Revistas Criticas: ou ent„o nos jornaes--que fossem jornaes, -n„o papeluchos volantes, tendo em cima uma cataplasma de politica em -estylo mazorro ou em estylo fadista, um romance mal traduzido do francez -por baixo e o resto cheio com ´annosª, despachos, parte de policia e -loteria da Misericordia. E como em Portugal n„o havia nem jornaes sÈrios -nem Revistas Criticas--que se n„o fallasse em parte nenhuma. - ---Com effeito, murmurou Melchior, ninguem falla de nada, ninguem parece -pensar em nada... - -E com toda a raz„o, affirmou Ega. Certamente muito d'esse silencio -provinha do natural desejo que tÍm os que s„o mediocres de que se n„o -alluda muito aos que s„o grandes. … a invejasinha reles e rastejante! -Mas em geral o silencio dos jornaes para com os livros provÈm sobretudo -d'elles terem abdicado todas as funcÁıes elevadas d'estudo e de critica, -de se terem tornado folhas rasteiras d'informaÁ„o caseira, e de sentirem -por isso a sua incompetencia... - ---Est· claro, n„o fallo por vocÍ, Melchior, que È dos nossos e de -primeira ordem! Mas os seus collegas, menino, calam-se por se saberem -incompetentes... - -O Melchior ergueu os hombros com um ar canÁado e descrente: - ---Calam-se tambem porque o publico n„o se importa, ninguem se importa... - -Ega protestou, j· excitado. O Publico n„o se importava!? Essa era -curiosa! O Publico ent„o n„o se importa que lhe fallem de livros que -elle compra aos tres mil, aos seis mil exemplares? E isto, dada a -populaÁ„o de Portugal, caramba, È igual aos grandes successos de Paris e -de Londres... N„o, Melchiorzinho amigo, n„o! Esse silencio diz ainda -mais claramente e retumbantemente que as palavras: ´NÛs somos -incompetentes. NÛs estamos bestialisados pela noticia do snr. -conselheiro que chegou ou do snr. conselheiro que partiu, pelos -_High-lifes_, pela amabilidade dos donos da casa, pelo artigo de fundo -em descompostura e cal„o, por toda esta prosa chula em que nos -atolamos... NÛs n„o sabemos, n„o podemos j· fallar d'uma obra d'arte ou -d'uma obra de historia, d'este bello livro de versos ou d'este bello -livro de viagens. N„o temos nem phrases nem idÈas. N„o somos talvez -cretinos--mas estamos cretinisados. A obra de litteratura passa muito -alto--nÛs chafurdamos aqui muito em baixo...ª - ---E aqui tem vocÍ, Melchior, o que diz, atravÈs do silencio dos jornaes, -o cÙro dos jornalistas! - -Melchior sorria, enlevado, com a cabeÁa deitada para traz, como quem -goza uma bella ·ria. Depois com uma palmada na mesa: - ---Caramba, Û Ega, muito bem falla vocÍ!... VocÍ nunca pensou em ser -deputado? Eu ainda outro dia dizia ao Neves: ´O Ega! O Ega È que era, -para atirar alli na camara a piadinha · Rochefort. Ardia Troia!ª - -E immediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a accender o -charuto--Melchior arrebatou a penna: - ---VocÍ est· em veia! Diga l·, dicte l·... Que hei de eu aqui pÙr sobre o -livro do Craveiro? - -Ega quiz saber o que escrevera j· o amigo Melchior. Apenas tres linhas: -´Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta Sim„o Craveiro. O -precioso volume, onde scintillam em caprichosos relevos todas as joias -d'este prestigioso escriptor, È publicado pelos activos editores...ª E -aqui o Melchior emperr·ra. Melchior n„o gostava d'aquelle frouxo -termo--_activos_. Ega ent„o suggeriu--_emprehendedores_. Melchior -emendou, leu: - ---´...publicado pelos emprehendedores editores...ª Ora sÍbo, rima! - -Arrojou a penna, descorÁoado. Acabou-se! N„o estava em _verve_. E alÈm -d'isso era tarde, tinha a rapariga · espera... - ---Fica para ·manh„... O peor È que j· ando n'isto ha cinco dias! Irra! -VocÍ tem raz„o, a gente bestialisa-se. E faz-me raiva! N„o È l· pelo -livro, n„o me importa o livro... … pelo Craveiro, que È bom rapaz, e -demais a mais pertence c· ao partido! - -Abriu um gavet„o, sacou uma escova, rompeu a escovar-se com desespero. E -Ega ia ajudal-o, limpar-lhe as costas cheias de cal--quando entre elles -surgiu a face chupada e nervosa do GonÁalo, com a sua gaforinha -perpetuamente erguida como por uma rajada de vento. - ---Que est· o Egasinho a fazer n'este covil da noticia? - ---Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambem a ouvir o Neves, a grande -phrase do Gouvarinho... - -O GonÁalo pulou, com uma faisca de malicia nos olhos negros de algarvio -esperto. - ---A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor! - -Travou do braÁo do Ega, puxou-o para um canto da janella: - ---… necessario fallar baixo por causa da rapaziada de provincia... Ha -outra deliciosa. Eu n„o me lembro bem, o Neves È que sabe! … uma coisa -da Liberdade conduzindo · m„o o corcel do Progresso... O quer que seja -assim, uma imagem equestre! A Liberdade com calÁıes de jockey, o -Progresso com um grande freio... Espantoso! Que besta, aquelle -Gouvarinho! E os outros, menino, os outros! VocÍ n„o foi · camara quando -se discutiu a quest„o de Tondella? Extraordinario! O que se disse! Foi -de morrer! E eu morro! Esta politica, este S. Bento, esta eloquencia, -estes bachareis matam-me. Querem dizer agora ahi que isto por fim n„o È -peor que a Bulgaria. Historias! Nunca houve uma choldra assim no -universo! - ---Choldra em que vocÍ chafurda! observou o Ega rindo. - -O outro recuou com um grande gesto: - ---Distingamos! Chafurdo por necessidade, como politico: e trÛÁo por -gosto, como artista! - -Mas Ega justamente achava uma desgraÁa incomparavel para o paiz--esse -immoral desaccordo entre a intelligencia e o caracter. Assim, alli -estava o amigo GonÁalo, como homem de intelligencia, considerando o -Gouvarinho um imbecil... - ---Uma cavalgadura, corrigiu o outro. - ---Perfeitamente! E todavia, como politico, vocÍ quer essa cavalgadura -para ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos sempre que ella -rinche ou escoucinhe. - -GonÁalo correu lentamente a m„o pela gaforinha, com a face franzida: - ---… necessario, homem! Razıes de disciplina e de solidariedade -partidaria... Ha uns compromissos... O paÁo quer, gosta d'elle... - -Espreitou em roda, murmurou, collado ao Ega: - ---Ha ahi umas questıes de syndicatos, de banqueiros, de concessıes em -MoÁambique... Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro! - -E como Ega se curvava, vencido, cheio sÛ de respeito--o outro, faiscando -todo de finura e cynismo, atirou-lhe uma palmada ao hombro: - ---Meu caro, a politica hoje È uma coisa muito differente! NÛs fizemos -como vocÍs os litteratos. Antigamente a litteratura era a imaginaÁ„o, a -phantasia, o ideal... Hoje È a realidade, a experiencia, o facto -positivo, o documento. Pois c· a politica em Portugal tambem se lanÁou -na corrente realista. No tempo da RegeneraÁ„o e dos Historicos a -politica era o progresso, a viaÁ„o, a liberdade, o palavrorio... NÛs -mudamos tudo isso. Hoje È o facto positivo,--o dinheiro, o dinheiro! o -bago! a _massa_! A rica _massinha_ da nossa alma, menino! O divino -dinheiro! - -E de repente emmudeceu, sentindo na sala um silencio--onde o seu grito -de ´dinheiro! dinheiro!ª parecera ficar vibrando, no ar quente do gaz, -com a prolongaÁ„o de um toque de rebate acordando as cubiÁas, chamando -ao longe e ao largo todos os habeis para o saque da Patria inerte!... - -O Neves desapparecera. Os cavalheiros de provincia dispersavam, uns -enfiando o paletot, outros sem pressa dando um olhar amortecido aos -jornaes sobre a mesa. E o GonÁalo bruscamente disse adeus ao Ega, rodou -nos tacıes, desappareceu tambem, abraÁando ao passar um dos padres a -quem tratou de ´malandro!ª - -Era meia noite, Ega sahiu. E na tipoia que o levava ao Ramalhete, j· -mais calmo, comeÁou logo a reflectir que o resultado da publicaÁ„o da -carta seria despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. A ´quest„o -de cavallosª com que o Neves se content·ra promptamente, distrahido e -absorvido n'essa noite pela crise,--ninguem mais a acreditaria... O -Damaso decerto, interrogado, para se desculpar, contaria horrores de -Maria e de Carlos: e uma intoleravel luz d'escandalo ia bater coisas que -deviam permanecer na sombra. Eram talvez apoquentaÁıes, desesperos que -elle assim estivera preparando a Carlos--por causa d'um odiosinho ao -Damaso. Nada mais egoista e pequeno!... E subindo para o quarto Ega -decidia correr depois d'almoÁo · redacÁ„o da _Tarde_, suster a -publicaÁ„o da carta. - -Mas toda essa noite sonhou com Rachel e com Damaso. Via-os rolando por -uma estrada sem fim, entre pomares e vinhedos, deitados n'uma carroÁa de -bois, sobre um enxerg„o onde se desdobrava, lasciva e rica, a sua colcha -de setim preto da _villa_ Balzac: os dois beijavam-se, enroscados, sem -pudor, sob a fresca sombra que cahia dos ramos, ao chiar lento das -rodas. E por um requinte do sonho cruel, elle Ega, sem perder a -consciencia e o orgulho d'homem, era um dos bois que puxava ao carro! Os -moscardos picavam-no, a canga pesava-lhe; e, a cada beijo mais cantado -que atraz soava no carro, elle erguia o focinho a escorrer de baba, -sacudia os cornos, mugia lamentavelmente para os cÈos! - -Acordou n'estes urros d'agonia: e a sua cÛlera contra o Damaso resurgiu, -mais nutrida pelas incoherencias do sonho. AlÈm d'isso chovia. E decidiu -n„o voltar · _Tarde_, deixar imprimir a carta. Que importava, de resto, -o que dissesse o Damaso? O artigo da _Corneta_ estava extincto, o Palma -bem pago.--E quem j·mais acreditaria n'um homem que nos jornaes se -declara calumniador e bebedo? - -E Carlos assim pensou tambem--quando, depois d'almoÁo, Ega lhe contou a -sua resoluÁ„o da vespera ao vÍr o Damaso no camarote, d'olho trocista -posto n'elle, a segredar com os Cohens... - ---Percebi claramente, sem erro possivel, que estava a fallar de ti, da -snr.^a D. Maria, de nÛs todos, contando horrores... E ent„o acabou-se, -n„o hesitei mais. Era necessario deixar passar a justiÁa de Deus! N„o -tinhamos paz emquanto o n„o aniquilassemos! - -Sim, concordou Carlos, talvez. SÛmente receava que o avÙ, sabendo o -escandalo, se desgostasse de vÍr o seu nome misturado a toda aquella -sordidez de _Corneta_ e de bebedeira... - ---Elle n„o lÍ a _Tarde_, acudiu Ega. O rumor, se lhe chegar, È j· vago e -desfigurado. - -Com effeito Affonso soube apenas confusamente que o Damaso solt·ra no -Gremio algumas palavras desagradaveis para Carlos, e declar·ra depois -n'um jornal que, n'esse momento, estava bebedo. E a opini„o do velho -foi--que se o Damaso estava embriagado (e d'outro modo como teria -injuriado Carlos, seu antigo amigo?) a sua declaraÁ„o revelava extrema -lealdade e um amor quasi heroico da verdade! - ---Por esta n„o esperavamos nÛs! exclamou depois Ega no quarto de Carlos. -O Damaso torna-se um justo! - -De resto os amigos da casa, sem conhecer o artigo da _Corneta_, -approvavam a aniquilaÁ„o do Damaso. SÛ o Craft sustentou que Carlos lhe -devia ter antes dado ´bengaladas secretasª; e o Taveira achou cruel que -se dissesse ao desgraÁado, com um florete ao peito--´ou a dignidade ou a -vida!ª - -Mas dias depois n„o se fallava mais n'esse escandalo. Outras coisas -interessavam o Chiado e a Casa Havaneza. O ministerio fÙra formado, -finalmente! Gouvarinho entrava na Marinha--Neves no Tribunal de Contas. -J· os jornaes do governo cahido comeÁavam, segundo a pratica -constitucional, a achar o paiz irremediavelmente perdido, e a alludir ao -rei com azedume... E o derradeiro, esvaÌdo echo da carta do Damaso foi, -na vespera do sarau da Trindade, um paragrapho da propria _Tarde_ onde -ella fÙra publicada, n'estas amaveis palavras: - ---´O nosso amigo e distincto _sportman_ Damaso Salcede parte brevemente -para uma viagem de recreio a Italia. Desejamos ao elegante _touriste_ -todas as prosperidades na sua bella excurs„o ao paiz do canto e das -artes.ª - - - - -VI - - -Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demor·ra no -corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletot, entrou na -sala, perguntando a Maria, j· sentada ao piano: - ---Ent„o, definitivamente, v. exc.^a n„o vem ao sarau da Trindade?... - -Ella voltou-se para dizer, preguiÁosamente, por entre a walsa lenta que -lhe cantava entre os dedos: - ---N„o me interessa, estou muito canÁada... - ---… uma sÈcca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se -estir·ra consoladamente, fumando, d'olhos cerrados. - -Ega protestou. Tambem era uma massada subir ·s Pyramides no Egypto. E no -emtanto soffria-se invariavelmente, porque nem todos os dias pÛde um -christ„o trepar a um monumento que tem cinco mil annos de existencia... -Ora a snr.^a D. Maria, n'este sarau, ia vÍr por dez tostıes uma coisa -tambem rara,--a alma sentimental d'um povo exhibindo-se n'um palco, ao -mesmo tempo nua e de casaca. - ---V·, coragem! um chapÈo, um par de luvas, e a caminho! - -Ella sorria, queixando-se de fadiga e preguiÁa. - ---Bem, exclamou Ega, eu È que n„o quero perder o Rufino... Vamos l·, -Carlos, mexe-te! - -Mas Carlos implorou clemencia: - ---Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do _Hamlet_. -Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, sÛ gorgeiam mais -tarde... - -Ent„o Ega, cedendo tambem a todo aquelle conchego tepido e amavel, -enterrou-se no sof· com o charuto, para escutar a canÁ„o d'_Ophelia_, de -que Maria j· murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes: - - - P‚le et blonde, - Dort sous l'eau profonde... - - -Ega adorava esta velha ballada escandinavia. Mais porÈm o encantava -Maria que nunca lhe parecera t„o bella: o vestido claro que tinha n'essa -noite modelava-a com a perfeiÁ„o d'um marmore: e entre as velas do -piano, que lhe punham um traÁo de luz no perfil puro e tons d'ouro -esfiado no cabello--o incomparavel eburneo da sua pelle ganhava em -esplendor e mimo... Tudo n'ella era harmonioso, s„o, perfeito... E -quanto aquella serenidade da sua fÛrma devia tornar delicioso o ardor da -sua paix„o! Carlos era positivamente o homem mais feliz d'estes reinos! -Em torno d'elle sÛ havia facilidades, doÁuras. Era rico, intelligente, -d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; sÛ -tinha o numero d'inimigos que È necessario para confirmar uma -superioridade; nunca soffrera de dyspepsia; jogava as armas bastante -para ser temido; e na sua complacencia de forte nem a tolice publica o -irritava. SÍr verdadeiramente ditoso! - ---Quem È por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os pÈs -pelo tapete, quando Maria findou a canÁ„o d'_Ophelia_. - -Ega n„o sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado... - -Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se: - ---… esse grande orador de que fallavam na _Toca_? - -N„o, n„o! Esse era outro, a sÈrio, um amigo de Coimbra, o JosÈ Clemente, -homem d'eloquencia e de pensamento... Este Rufino era um rat„o de pera -grande, deputado por MonÁ„o, e sublime n'essa arte, antigamente nacional -e hoje mais particularmente provinciana, de arranjar, n'uma voz de -theatro e de papo, combinaÁıes sonoras de palavras... - ---Detesto isso! rosnou Carlos. - -Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idÈas, como -um passaro n'um galho d'arvore... - ---… conforme a occasi„o, observou Ega, olhando o relogio. Uma walsa de -Strauss tambem n„o tem idÈas, e · noite, com mulheres n'uma sala, È -deliciosa... - -N„o, n„o! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava sempre a -palavra humana, que, pela sua natureza mesma, sÛ pÛde servir para dar -fÛrma ·s idÈas. A musica, essa, falla aos nervos. Se se cantar uma -marcha a uma crianÁa, ella ri-se e salta no collo... - ---E se lhe lÍres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho -secca-se e berra! - ---Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos -costumes que ella cria. N„o ha inglez, por mais culto e espiritualista, -que n„o tenha um fraco pela forÁa, pelos athletas, pelo _sport_, pelos -musculos de ferro. E nÛs, os meridionaes, por mais criticos, gostamos do -palavriadinho mavioso. Eu c· pelo menos, · noite, com mulheres, luzes, -um piano e gente de casaca, pello-me por um bocado de rhetorica. - -E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot, -voar · _Trindade_, n'um receio de perder o Rufino. - -Carlos deteve-o ainda, com uma grande idÈa: - ---Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beethoven; -nÛs declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se -te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma medonha orgia -d'ideal!... - ---E ha melhores cadeiras, acudiu Maria. - ---Melhores poetas, affirmou Carlos. - ---Bons charutos! - ---Bom cognac! - -Ega alÁou os braÁos ao ar, desolado. Ahi est· como se pervertia um -cidad„o, impedindo-o de proteger as letras patrias--com promessas -perfidas de tabaco e de bebidas!... Mas de resto elle n„o tinha sÛ uma -raz„o litteraria para ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas -_MeditaÁıes d'Outono_, e era necessario dar palmas ao Cruges. - ---N„o digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona. Esquecia-me -o Cruges!... … um dever d'honra! Abalemos. - -E d'ahi a pouco, tendo beijado a m„o de Maria que ficava ao piano, os -dois, surprehendidos com a belleza d'essa noite d'inverno, t„o clara e -dÙce, seguiam devagar pela rua--onde Carlos ainda duas vezes se voltou -para olhar as janellas alumiadas. - ---Estou bem contente, exclamou elle travando do braÁo do Ega, em ter -deixado os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos para um bocado -de cavaco e de litteratura... - -Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o quarto -ao lado n'um _fumoir_ forrado com as suas colchas da India, depois ter -um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim se realisava o velho -sonho, o cenaculo de dilettantismo e d'arte... AlÈm d'isso havia a -lanÁar a _Revista_, que era a suprema pandega intellectual. Tudo isto -annunciava um inverno _chic a valer_, como dizia o defunto Damaso. - ---E tudo isto, resumiu o Ega, È dar civilisaÁ„o ao paiz. Positivamente, -menino, vamo-nos tornar grandes cidad„os!... - ---Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja -aqui na rua de S. Francisco... Que belleza de noite! - - - -Pararam · porta do theatro da Trindade no momento em que, d'uma tipoia -de praÁa, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com -um chapÈo de largas abas recurvas · moda de 1830. Passou junto dos dois -amigos sem os vÍr, recolhendo um troco · bolsa. Mas Ega reconheceu-o. - ---… o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo! - ---E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos rindo. - -Por cima, de repente, no sal„o, estalaram grandes palmas. Carlos, que -dava o paletot ao porteiro, receou que j· fosse o Cruges... - ---Qual! disse o Ega. Aquillo È applaudir de rhetorica! - -E com effeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao -ante-sal„o, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de pÈs, -segredando--sentiram logo um vozeir„o tumido, garganteado, provinciano, -de vogaes arrastadas em canto, invocando l· do fundo, do estrado, ´a -alma religiosa de Lamartine!...ª - ---… o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Telles da Gama que n„o -pass·ra da porta, com o charuto escondido atraz das costas. - -Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Telles. Mas Ega, esguio e magro, -foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D'ambos os lados se -cerravam filas de cabeÁas, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de -palhinha atÈ junto ao tablado, onde dominavam os chapÈos de senhoras -picados por manchas claras de plumas ou flÙres. Em volta, de pÈ, -encostados aos pilares ligeiros que sustÍm a galeria, reflectidos pelos -espelhos, estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das -Secretarias, uns de gravata branca, outros de jaquetıes. Ega avistou o -snr. Sousa Netto, pensativo, sustentando entre dois dedos a face -escaveirada, de barba rala; adiante o GonÁalo, com a sua gaforinha ao -vento; depois o marquez atabafado n'um cache-nez de sÍda branca; e, n'um -grupo, mais longe, rapazes do Jockey Club, os dois Vargas, o MendonÁa, o -Pinheiro, assistindo ·quelle _sport_ da eloquencia com uma mistura -d'assombro e tedio. Por cima, no parapeito de velludo da galeria, corria -outra linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se mollemente; por -traz alÁava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava o Neves, o -novo Conselheiro, grave, de braÁos cruzados, com um bot„o de camelia na -casaca mal feita. - -O gaz suffocava, vibrando cruamente n'aquella sala clara, d'um tom -desmaiado de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e alÈm uma -tosse timida de catarrho desmanchava o silencio, logo abafada no lenÁo. -E na extremidade da galeria, n'um camarote feito de tabiques, com -sanefas de velludo cÙr de cereja, duas cadeiras de espaldar dourado -permaneciam vazias, na solemnidade real do seu damasco escarlate. - -No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito -trigueiro, de pera, alargava os braÁos, celebrava um anjo, ´o _Anjo da -Esmola_ que elle entrevira, alÈm no azul, batendo as azas de setim...ª -Ega n„o comprehendia bem--entalado entre um padre muito gordo que -pingava de suor, e um alferes de lunetas escuras. Por fim n„o se -conteve:--´Sobre que est· elle a fallar?ª E foi o padre que o informou, -com a face luzidia, inflammada de enthusiasmo: - ---Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime... -Infelizmente est· a acabar! - -Parecia ser, com effeito, a peroraÁ„o. O Rufino arrebat·ra o lenÁo, -limpava a testa lentamente; depois arremetteu para a borda do tablado, -voltando-se para as cadeiras reaes com um t„o ardente gesto -d'inspiraÁ„o--que o collete repuxado descobriu o comeÁo da ceroula. Foi -ent„o que Ega comprehendeu. Rufino estava exaltando uma princeza que -dera seiscentos mil reis para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio -d'elles organisar um bazar na Tapada. Mas n„o era sÛ essa soberba esmola -que deslumbrava o Rufino--porque elle, ´como todos os homens educados -pela philosophia e que tÍm a verdadeira orientaÁ„o mental do seu tempo, -via nos grandes factos da historia n„o sÛ a sua belleza poetica, mas a -sua influencia social. A multid„o, essa, sorria simplesmente, enlevada, -para a incomparavel poesia da m„o calÁada de fina luva que se estende -para o pobre. Elle porÈm, philosopho, antevia j·, sahindo d'esses -delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo e formoso... O -quÍ, meus senhores? O renascimento da FÈ!ª - -De repente, um leque que escorreg·ra da galeria, arrancando em baixo um -berro a uma senhora gorda, creou um susurro, uma curta emoÁ„o. Um -commissario do sarau, D. JosÈ Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do -tablado, com o seu laÁarote de sÍda vermelha na casaca, dardejando -severamente os olhos vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos -risos esfusiavam. Outros cavalheiros, indignados, gritavam ´_chut, -silencio,_ _fÛra!_ª E das cadeiras da frente surgiu a face ministerial -do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as lunetas brilhando -duramente... Ent„o Ega procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim -mais longe, com um chapÈo azul, entre a Alvim toda de preto e umas -vastas esp·doas cobertas de setim malva que eram as da baroneza de -Craben. Todo o rumor findava--e o Rufino, que molh·ra lentamente os -labios no copo, avanÁou um passo, sorrindo, com o lenÁo branco na m„o: - ---Dizia eu, meus senhores, que dada a orientaÁ„o mental d'este seculo... - -Mas o Ega suffocava, esmagado, farto do Rufino, com a impress„o de que o -padre ao lado cheirava mal. E n„o aturou mais, furou para traz, para -desabafar com Carlos. - ---Tu imaginavas uma besta assim? - ---Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocar· o Cruges? - -Ega n„o sabia, todo o programma fÙra alterado. - ---E tens c· a Gouvarinho! Est· l· adiante, d'azul... Hei de querer vÍr -logo esse encontro! - -Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente -´_bonsoir, messieurs_...ª Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de -casaca, em pontas de pÈs, com as claques fechadas. E immediatamente -Steinbroken queixou-se da ausencia da familia real... - ---Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assurÈ que la -reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas, toute -cette musique, ces vers?... Voil‡ pourquoi je suis venu. C'est trËs -ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours en santÈ? - ---Merci... - -Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traÁa n'uma -tela linhas lentas e nobres, descrevia a doÁura d'uma aldeia, a aldeia -em que elle nascera, ao pÙr do sol. E o seu vozeir„o velava-se, -enternecido, morrendo n'um rumor de crepusculo. Ent„o Steinbroken, -subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria saber se era esse o grande -orador de que lhe tinham fallado... - -Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa! - ---Em qual gÈnerro?... - ---Genero sublime, genero de Demosthenes! - -Steinbroken alÁou as sobrancelhas com admiraÁ„o, fallou em filandez ao -seu secretario que entalou languidamente o monoculo: e com as claques -debaixo do braÁo, cerrados os olhos, recolhidos como n'um templo, os -dois enviados da Filandia ficaram escutando, · espera do sublime. - -Ruffino, no entanto, com as m„os descahidas, confessava uma fragilidade -de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia natal, onde a -violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus -irrefutavelmente,--elle fÙra dilacerado pelo espinho da descrenÁa! Sim, -quantas vezes, ao cahir da tarde, quando os sinos da velha torre -choravam no ar a Ave-Maria e no valle cantavam as ceifeiras, elle -pass·ra junto da cruz do adro e da cruz do cemiterio, atirando-lhes de -lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire!... - -Um largo fremito d'emoÁ„o passou. Vozes suffocadas de gozo mal podiam -murmurar ´_muito bem, muito bem_...ª - -Pois fÙra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino ouvira um -grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que succedera? Era a -Natureza que atacava seus filhos!--E lanÁando os braÁos, como quem se -debate n'uma catastrophe, Rufino pintou a inundaÁ„o... Aqui aluia um -casal, ninho florido d'amores; alÈm, na quebrada, passava o balar -choroso dos gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando -um bot„o de rosa e um berÁo!... - -Os _bravos_ partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em -torno de Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns para -os outros, com um brilho na face, commungando no mesmo enthusiasmo: ´Que -rajadas!... Caramba!... Sublime!...ª - -Rufino sorria, bebendo esta commoÁ„o, que era a obra do seu verbo. -Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras reaes, solemnes e -vazias... - -Vendo que a cÛlera da Natureza rugia implacavel, elle erguera os olhos -para o natural abrigo, para o exaltado logar d'onde desce a salvaÁ„o, -para o Throno de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre -elle estenderem-se as azas brancas d'um anjo! Era o anjo da esmola, meus -senhores! E d'onde vinha? d'onde recebera a inspiraÁ„o da caridade? -d'onde sahia assim, com os seus cabellos d'ouro? Dos livros da sciencia? -dos laboratorios chimicos? d'esses amphitheatros d'anatomia onde se nega -covardemente a alma? das sÍccas escÛlas de philosophia que fazem de -Jesus um precursor de Robespierre? N„o! Elle ous·ra interrogar o anjo, -submisso, com o joelho em terra. E o anjo da esmola, apontando o espaÁo -divino, murmur·ra: ´Venho d'alÈm!ª - -Ent„o pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo. Era como se os -estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto. Um -estremecimento devoto e poetico arrepiava as cuias das senhoras. - -E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores! -Desde esse momento, a duvida fÙra n'elle como a nevoa que o sol, este -radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora, apesar de todas as -ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos d'um Renan, d'um -LittrÈ e d'um Spencer, elle, que recebera a confidencia divina, podia -alli, com a m„o sobre o coraÁ„o, affirmar a todos bem alto--havia um -cÈo! - ---Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento. - -E por todo o sal„o, no aperto e no calor do gaz, os cavalheiros das -Secretarias, da Arcada, da Casa Havaneza, berrando, batendo as m„os, -affirmaram soberbamente o cÈo! - -O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de cÛlera. Era o -Alencar, de paletot, de gravata branca, cofiando sombriamente os -bigodes. - ---Que te parece, Thomaz? - ---Faz nojo! rugiu surdamente o poeta. - -Tremia, revoltado! N'uma noite d'aquellas, toda de poesia, quando os -homens de letras se deviam mostrar como s„o, filhos da democracia e da -liberdade, vir aquelle pulha pÙr-se alli a lamber os pÈs · familia -real... Era simplesmente ascoroso! - -L· ao fundo, junto aos degraus do tablado, ia um tumulto d'abraÁos, de -comprimentos, em torno do Rufino, que reluzia todo de orgulho e suor. E -pela porta os homens escoavam-se, afogueados, commovidos ainda, puxando -das charuteiras. Ent„o o poeta travou do braÁo do Ega: - ---Ouve l·, eu vinha justamente procurar-te. … o Guimar„es, o tio do -Damaso, que me pediu para te ser apresentado... Diz que È uma coisa -sÈria, muito sÈria... Est· l· em baixo no botequim, com um _grog_. - -Ega pareceu surprehendido... Coisa sÈria!? - ---Bem, vamos nÛs l· baixo tomar tambem um _grog_! E que recitas tu logo, -Alencar? - ---_A Democracia_, foi dizendo o poeta pela escada, com certa reserva. -Uma coisita nova, tu ver·s... S„o algumas verdades duras a toda essa -burguezia... - -Estavam · porta do botequim--e precisamente o snr. Guimar„es sahia, com -o chapÈo sobre o olho, de charuto accÍso, abotoando a sobrecasaca. -Alencar lanÁou a apresentaÁ„o, com immensa gravidade: - ---O meu amigo Jo„o da Ega... O meu velho amigo Guimar„es, um bravo c· -dos nossos, um veterano da Democracia. - -Ega acercou-se d'uma mesa, puxou cortezmente um banco para o veterano da -Democracia, quiz saber se elle preferia cognac ou cerveja. - ---Tomei agora o meu _grog_ de guerra, disse o snr. Guimar„es com -seccura, tenho para toda a noite. - -Um criado dava uma limpadella lenta sobre o marmore da mesa. Ega ordenou -cerveja. E directamente, largando o charuto, passando a m„o pelas barbas -a retocar a magestade da face, o snr. Guimar„es comeÁou com lentid„o e -solemnidade: - ---Eu sou tio do Damaso Salcede, e pedi aqui ao meu velho amigo Alencar -para me apresentar a v. exc.^a, com o fim de o intimar a que olhe bem -para mim e que diga se me acha cara de bebedo... - -Ega comprehendeu, atalhou logo, cheio de franqueza e bonhomia: - ---V. exc.^a refere-se a uma carta que seu sobrinho me escreveu... - ---Carta que v. exc.^a dictou! Carta que v. exc.^a o forÁou a assignar! - ---Eu?... - ---Affirmou-m'o elle, senhor! - -Alencar interveio: - ---Fallem vocÍs baixo, que diabo!... Isto È terra de curiosos... - -O snr. Guimar„es tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa. Tinha -estado, contou elle, havia semanas fÛra de Lisboa por negocios da -heranÁa de seu irm„o. N„o vira o sobrinho, porque sÛ por necessidade se -encontrava com esse imbecil. Na vespera, em casa d'um antigo amigo, o -Vaz Forte, deit·ra por acaso os olhos ao _Futuro_, um jornal -republicano, bem escripto, mas frouxo de idÈas. E avist·ra logo na -primeira pagina, em typo enorme, sob esta rubrica ali·s justa _Coisas do -high-life_, a carta do sobrinho... Imagine o snr. Ega o seu furor! Alli -mesmo, em casa do Forte, escrevera ao Damaso pouco mais ou menos n'estes -termos: ´Li a tua infame declaraÁ„o. Se ·manh„ n„o fazes outra, em todos -os jornaes, dizendo que n„o tinhas intenÁ„o de me incluir entre os -bebedos da tua familia, vou ahi e quebro-te os ossos um por um. Treme!ª -Assim lhe escrevera. E sabia o snr. Jo„o da Ega qual fÙra a resposta do -snr. Damaso? - ---Tenho-a aqui, È um _documento humano_, como diz o amigo Zola! Aqui -est·... Grande papel, monogramma d'ouro, corÙa de conde. Aquelle asno! -Quer v. exc.^a que eu leia? - -A um gesto risonho do Ega, elle mesmo leu, lentamente, e sublinhando: - ---´Meu caro tio! A carta de que falla foi escripta pelo snr. Jo„o da -Ega. Eu era incapaz de tal desacato · nossa querida familia. Foi elle -que me agarrou na m„o, · forÁa, para eu assignar: e eu, n'aquella -atrapalhaÁ„o, sem saber o que fazia, assignei para evitar fallatorios. -Foi um laÁo que me armaram os meus inimigos. O meu querido tio, que sabe -como eu gÛsto de si, que atÈ estava o anno passado com tenÁ„o, se -soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de -Collares, n„o fique pois zangado commigo. Bem infeliz j· eu sou! E se -quizer procure esse Jo„o da Ega que me perdeu! Mas acredite que hei de -tirar uma vinganÁa que ha de ser fallada! Ainda n„o decidi qual, n'esta -atarantaÁ„o; mas em todo o caso a nossa familia ha de ficar -desenxovalhada, porque eu nunca admitti que ninguem brincasse com a -minha dignidade... E se o n„o fiz j· antes de partir para Italia, se -ainda n„o pugnei pela minha honra, È porque ha dias, com todos estes -abalos, veio-me uma tremenda dysenteria, que estou que me n„o tenho nas -pernas. Isto por cima dos meus males moraes!...ª V. exc.^a ri-se, snr. -Ega? - ---Pois que quer v. exc.^a que eu faÁa? balbuciou o Ega por fim, -suffocado, com os olhos em lagrimas. Rio-me eu, ri-se o Alencar, ri-se -v. exc.^a Isso È extraordinario! Essa dignidade, essa dysenteria... - -O snr. Guimar„es, embaÁado, olhou o Ega, olhou o poeta que fungava sob -os longos bigodes, e terminou por dizer: - ---Com effeito, a carta È d'uma cavalgadura... Mas o facto permanece... - -Ent„o Ega appellou para o bom senso do snr. Guimar„es, para a sua -experiencia das coisas d'honra. Comprehendia elle que dois cavalheiros, -indo desafiar um homem a sua casa, lhe agarrem no pulso, o forcem -violentamente a assignar uma carta em que elle se declara bebedo?... - -O snr. Guimar„es, agradado com aquella deferencia pelo seu tacto e pela -sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em Paris, seria pouco -natural. - ---E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto n„o È a Cafraria! E diga-me o -snr. Guimar„es outra coisa, de gentleman para gentleman: como considera -seu sobrinho? um homem irreprehensivelmente veridico? - -O snr. Guimar„es cofiou as barbas, declarou lealmente: - ---Um refinado mentiroso. - ---Ent„o! gritou Ega em triumpho, atirando os braÁos ao ar. - -De novo Alencar interveio. A quest„o parecia-lhe satisfactoriamente -finda. E n„o restava sen„o os dois apertarem-se a m„o fraternalmente, -como bons democratas... - -J· de pÈ, atirou a genebra ·s guelas. Ega sorria, estendia a m„o ao snr. -Guimar„es. Mas o velho demagogo, ainda com uma sombra na face enrugada, -desejou que o snr. Jo„o da Ega (se n'isso n„o tinha duvida) declarasse, -alli diante do amigo Alencar, que n„o lhe achava a elle, Guimar„es, cara -de bebedo... - ---Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa para -chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar diante do -Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara d'um perfeito -cavalheiro e d'um patriota! - -Ent„o trocaram um rasgado aperto de m„os--emquanto o snr. Guimar„es -affirmava a sua satisfaÁ„o por conhecer o snr. Jo„o da Ega, moÁo de -tantos dotes e t„o liberal. E quando s. exc.^a quizesse qualquer coisa, -politica ou litteraria, era escrever este endereÁo bem conhecido no -mundo:--_Redaction du_ Rappel, _Paris!_ - -Alencar abal·ra. E os dois deixaram o botequim, trocando impressıes do -sarau. O snr. Guimar„es estava enojado com a carolice, a sabujice d'esse -Rufino. Quando o ouvira palrar das azas da princeza e da cruz do adro, -quasi lhe grit·ra c· do fundo: ´Quanto te pagam para isso, miseravel?ª - -Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapÈo: - ---Oh snr.^a baroneza, ent„o j· nos abandona? - -Era a Alvim que descia devagar, com a Joanninha Villar, atando as largas -fitas d'uma capa de pellucia verde. Queixou-se d'uma dÙr de cabeÁa que a -torturava, apesar de ter gostado loucamente do Rufino... Mas uma noite -toda de litteratura, que estafa! E agora, para mais, fic·ra l· um -homemzinho a fazer musica classica... - ---… o meu amigo Cruges! - ---Ah! È seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse antes o -_Pirolito_. - ---V. exc.^a afflige-me com esse desdem pelos grandes mestres... N„o quer -que a v· acompanhar · carruagem? Paciencia... Muito boa noite, snr.^a D. -Joanna!... Um servo seu, snr.^a baroneza! E Deus lhe tire a sua dÙr de -cabeÁa! - -Ella voltou-se ainda no degrau, para o ameaÁar risonhamente com o leque: - ---N„o seja impostor! O snr. Ega n„o acredita em Deus. - ---Perd„o... Que o Diabo lhe tire a sua dÙr de cabeÁa, snr.^a baroneza! - -O velho democrata desapparecera discretamente. E da ante-sala Ega -avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um mÙcho muito baixo que lhe -fazia roÁar pelo ch„o as longas abas da casaca--o Cruges, com o nariz -bicudo contra o caderno da Sonata, martellando sabiamente o teclado. Foi -ent„o subindo em pontas de pÈs pela coxia tapetada de vermelho, agora -desafogada, quasi vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras, -canÁadas, bocejavam por traz dos leques. - -Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um -rancho intimo, a marqueza de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza Darque. -E a boa D. Maria tocou-lhe logo no braÁo para saber quem era aquelle -musico de cabelleira. - ---Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges. - -O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o n„o conheciam. E era -composiÁ„o d'elle, aquella coisa triste? - ---… de Beethoven, snr.^a D. Maria da Cunha, a _Sonata pathetica_. - -Uma das Pedrosos n„o percebera bem o nome da Sonata. E a marqueza de -Soutal, muito sÈria, muito bella, cheirando devagar um frasquinho de -saes, disse que era a _Sonata pateta_. Por toda a bancada foi um -rastilho de risos suffocados. A _Sonata pateta_! Aquillo parecia divino! -Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face enorme, -imberbe e cÙr de papoula: - ---Muito bem, snr.^a marqueza, muito catita! - -E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam · -marqueza, entre o _frou-frou_ dos leques. Ella triumphava, bella e -sÈria, com um velho vestido de velludo preto, respirando os -saes--emquanto adiante um amador de barba grisalha cravava n'aquelle -rancho ruidoso dois grandes oculos d'ouro que faiscavam de cÛlera. - -No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarrhoados -tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a _Tarde_. E cahido -sobre o teclado, com a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre -Cruges, suando, estonteado por aquella desattenÁ„o rumorosa, atabalhoava -as notas, n'uma debandada. - ---Fiasco completo, declarou Carlos que se aproxim·ra do Ega e do rancho. - -Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! AtÈ que emfim se -via o snr. Carlos da Maia, o Principe Tenebroso! Que fizera elle durante -esse ver„o? Todo o mundo a esperal-o em Cintra, alguem mesmo com -anciedade... Um _chut_ furioso do amador de barbas grisalhas -emmudeceu-a. E justamente Cruges, depois de bater dois accordes bruscos, -arred·ra o mÙcho, esgueirava-se do estrado, enxugando as m„os ao lenÁo. -Aqui e alÈm algumas palmas resoaram, molles e de cortezia, entre um -grande murmurio d'allivio. E o Ega e Carlos correram · porta, onde j· -esperavam o marquez, o Craft, o Taveira--para abraÁar, consolar o pobre -Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados. - -E immediatamente, no silencio attento que redominava, um sujeito muito -magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscripto na m„o. Alguem -ao lado do Ega disse que era o Prata, que ia fallar sobre o _Estado -agricola da provincia do Minho_. Atraz, um criado veio collocar sobre a -mesa um candelabro de duas velas: o Prata, d'ilharga para a luz, -mergulhou no caderno: e d'entre o perfil triste e as folhas largas um -rumor lento foi escorrendo, rumor de reza n'uma somnolencia de novena, -onde por vezes destacavam como gemidos--´riqueza dos gados..., -esphacelamento da propriedade..., fertil e desprotegida regi„o...ª - -ComeÁou ent„o uma debandada sorrateira e formigueira, que nem os _chuts_ -do commissario do sarau, vigilante e de pÈ sobre um degrau do estrado, -podiam conter. SÛ as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata idoso, -que se inclinava zelosamente para o murmurio de reza, com a m„o em -concha sobre a orelha. - -Ega, que fugia tambem ´ao vecejante paraiso do Minhoª, achou-se em -frente do snr. Guimar„es. - ---Que massada, hein? - -O democrata concordou que aquelle preopinante n„o lhe parecia -divertido... Depois, mais sÈrio, com outra idÈa, segurando um bot„o da -casaca do Ega: - ----Eu espero que v. exc.^a ha pouco n„o ficasse com a impress„o de que -eu sou solidario ou me importo com meu sobrinho... - -Oh! decerto que n„o! Ega vira bem que o snr. Guimar„es n„o tinha pelo -Damaso nenhum enthusiasmo de familia. - ---Asco, senhor, sÛ asco! Quando elle foi a primeira vez a Paris, e soube -que eu morava n'uma trapeira, nunca me procurou! Porque aquelle imbecil -d·-se ares d'aristocrata... E como v. exc.^a sabe, È filho d'um agiota! - -Puxou a charuteira, ajuntou gravemente: - ---A m„i, sim! Minha irm„ era d'uma boa familia. Fez aquelle desgraÁado -casamento, mas era d'uma boa familia! Que, com os meus principios, j· v. -exc.^a vÍ que tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brazıes, s„o para mim -_blague_ e mais _blague_! Mas emfim os factos s„o os factos, a historia -de Portugal ahi est·... Os Guimar„es da Bairrada eram de sangue azul. - -Ega sorriu, n'um assentimento cortez: - ---E v. exc.^a ent„o parte brevemente para Paris? - ---¡manh„ mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada do marechal -de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi pelos ares, j· se -pÛde l· respirar... - -N'esse instante Telles e o Taveira, passando de braÁo dado, voltaram-se, -a observar curiosamente aquelle velho austero, todo de preto, que -fallava alto com o Ega de marechaes e de duques. Ega reparou: o -democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira nova; o seu -altivo chapÈo reluzia; e Ega ficou de bom grado a conversar com aquelle -gentleman correcto e venerando que impressionava os seus amigos. - ---A republica com effeito, observou elle, dando alguns passos ao lado do -snr. Guimar„es, esteve alli um momento compromettida! - ---Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me vÍ, para ser expulso por -causa d'umas verdadesinhas que soltei n'uma reuni„o anarchista. AtÈ me -affirmaram que n'um conselho de ministros o marechal de Mac-Mahon, que È -um tarimbeiro, batera um murro na mesa e dissera: _Ce sacrÈ Guimaran, il -nous embÍte, faut lui donner du pied dans le derriËre!_ Eu n„o estava -l·, n„o sei, mas affirmaram-me... Em Paris, como os francezes n„o sabem -pronunciar Guimar„es, e eu embirro que me estropiem o nome, assigno _Mr. -Guimaran_. Ha dois annos, quando fui · Italia, era _Mr. Guimarini_. E se -fÙr agora · Russia, c· por coisas, hei de ser _Mr. Guimaroff_... Embirro -que me estropiem o nome! - -Tinham voltado · porta do sal„o. Longas bancadas vazias punham dentro, -no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono e tedio; e no estrado -o Prata continuava, de m„o no bolso, com o nariz sobre o manuscripto, -sem que se sentisse agora surdir um som d'aquelle espantalho esguio. Mas -o marquez, que descia do fundo, atabafando-se no seu cache-nez de sÍda, -disse ao Ega ao passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da -pÛda, e l· tinha ficado ·s voltas com Proudhon. - -Ega e o democrata recomeÁaram ent„o os seus passos lentos na ante-sala -onde o susurro de conversas mal abafadas crescia, como n'um pateo, entre -fumaÁas furtivas de cigarro. E o snr. Guimar„es chasqueava, achando uma -boa _bÍtise_ que se citasse Proudhon, alli n'aquelle theatreco, a -proposito d'estrumes do Minho... - ---Oh, Proudhon entre nÛs, acudiu Ega rindo, cita-se muito, È j· um -monstro classico. AtÈ os conselheiros d'Estado j· sabem que para elle a -propriedade era um roubo, e Deus era o mal... - -O democrata encolheu os hombros: - ---Grande homem, senhor! Homem immenso! S„o os tres grandes pimpıes -d'este seculo: Proudhon, Garibaldi, e o compadre! - ---O compadre! exclamou Ega, attonito. - -Era o nome d'amizade que o snr. Guimar„es dava em Paris a Gambetta. -Gambetta nunca o via, que n„o lhe gritasse de longe, em hespanhol: -_´Hombre, compadre!_ª E elle tambem, logo: ´_Compadre, caramba!_ª D'ahi -fic·ra a alcunha, e Gambetta ria. Porque l· isso, bom rapaz, e amigo -d'esta franqueza do sul, e patriota, atÈ alli! - ---Immenso, meu caro senhor! O maior de todos! - -Pois Ega imaginaria que o snr. Guimar„es, com as suas relaÁıes do -_Rappel_, devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo... - ---Esse, meu caro senhor, n„o È um homem, È um mundo! - -E o snr. Guimar„es ergueu mais a face, ajuntou infinitamente grave: - ---… um mundo! .. E aqui onde me vÍ, ainda n„o ha tres mezes que elle me -disse uma coisa que me foi direita ao coraÁ„o! - -Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata contou -largamente esse glorioso lance que ainda o commovia: - ---Foi uma noite no _Rappel_. Eu estava a escrever, elle appareceu, j· um -pouco trÙpego, mas com o olho a luzir, e aquella bondade, aquella -magestade!... Eu ergui-me, como se entrasse um rei... Isto È, n„o! que -se fosse um rei tinha-lhe dado com a bota no rabiosque. Levantei-me como -se elle fosse um Deus! Qual Deus! n„o ha Deus que me fizesse -levantar!... Emfim, acabou-se, levantei-me! Elle olhou para mim, fez -assim um gesto com a m„o, e disse, a sorrir, com aquelle ar de genio que -tinha sempre: _Bonsoir, mon ami!_ - -E o snr. Guimar„es deu alguns passos dignos, em silencio, como se -aquelle _bonsoir_, aquelle _mon ami_, assim recordados, lhe fizessem -mais vivamente sentir a sua importancia no mundo. - -De repente Alencar, que bracejava n'um grupo, rompeu para elles, -pallido, d'olhos chammejantes: - ---Que me dizem vocÍs a esta pouca vergonha? Aquelle infame alli ha meia -hora, com o in-folio, a rosnar, a rosnar... E toda a gente a sahir, n„o -fica ninguem! Tenho de recitar aos bancos de palhinha!... - -E abalou, rilhando os dentes, a exhalar mais longe o seu furor. - -Mas algumas palmas canÁadas, dentro, fizeram voltar o Ega. O estrado -fic·ra novamente vazio, com as duas velas ardendo no candelabro. Um -cart„o em grossas letras, que um criado colloc·ra no piano, annunciava -um ´intervallo de dez minutosª como n'um circo. E n'esse instante a -snr.^a condessa de Gouvarinho sahira pelo braÁo do marido, deixando -atraz um sulco largo de comprimentos, d'espinhas que se vergavam, de -chapÈos de burocratas rasgadamente erguidos. O commissario do sarau -azafamava-se procurando duas cadeiras para ss. exc.^{as} A condessa -porÈm foi reunir-se a D. Maria da Cunha, que ella vira, com as Pedrosos -e a marqueza de Soutal, refugiada n'um v„o de janella. Ega -immediatamente acercou-se do rancho intimo, esperando que as senhoras se -beijocassem. - ---Ent„o, snr.^a condessa, ainda muito commovida com a eloquencia do -Rufino? - ---Muito canÁada... E que calor, hein? - ---Horrivel. A snr.^a baroneza d'Alvim sahiu ha pouco, com uma dor de -cabeÁa... - -A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos cantos -da boca, murmurou: - ---N„o admira, isto n„o È divertido... Emfim, j· agora È necessario levar -a cruz ao Calvario. - ---Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente È uma -lyra! - -Ella riu. E D. Maria da Cunha, n'essa noite mais remoÁada e viva, ficou -logo toda banhada n'um sorriso, com aquella carinhosa admiraÁ„o pelo -Ega, que era um dos seus sentimentos. - ---Este Ega!... N„o ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra coisa, que -È feito do seu amigo Maia? - -Ega vira-a momentos antes, no sal„o, puxar pela manga de Carlos, -cochichar com Carlos. Mas conservou um ar innocente: - ---Est· ahi, anda por ahi, assistindo a toda essa litteratura. - -De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha -rebrilharam com uma faisca de malicia: - ---Fallai no mau... N'este caso seria fallar do bom. Emfim ahi nos vem o -Principe Tenebroso! - -E era com effeito Carlos que passava, se encontr·ra diante dos braÁos do -conde de Gouvarinho, estendidos para elle com uma effus„o em que parecia -renascer o antigo affecto. Pela primeira vez Carlos via a condessa, -desde a noite em que no Aterro, abandonando-a para sempre, fech·ra com -odio a portinhola da tipoia onde ella ficava chorando. Ambos baixaram os -olhos, ao adiantar a m„o um para o outro, lentamente. E foi ella que -findou o embaraÁo, abrindo o seu grande leque de pennas de avestruz: - ---Que calor, n„o È verdade? - ---Atroz! disse Carlos. N„o v· v. exc.^a apanhar ar d'essa janella. - -Ella forÁou os labios brancos a um sorriso: - ---… conselho de medico? - ---Oh, minha senhora, n„o s„o as horas da minha consulta! … apenas -caridade de christ„o. - -Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido, com a -marqueza de Soutal, para o reprehender por elle n„o ter apparecido -terÁa-feira na rua de S. MarÁal. Surprehendido com tanto interesse, -tanta familiaridade, o Taveira, muito vermelho, balbuciou que nem sabia, -fÙra o seu infortunio, tinham-se mettido umas coisas... - ---AlÈm d'isso n„o imaginei que v. exc.^a comeÁasse a receber t„o cedo... -V. exc.^a antigamente era sÛ depois da CerraÁ„o da Velha. AtÈ me lembro -que o anno passado... - -Mas emmudeceu. O conde de Gouvarinho volt·ra-se, pousando a m„o -carinhosa no hombro de Carlos, desejando a sua impress„o sobre o ´nosso -Rufinoª. Elle conde estava encantado! Encantado sobretudo com a -_variedade d'escala_, aquella arte t„o difficil de passar do solemne -para o ameno, de descer das grandes rajadas para os brincados de -linguagem. Extraordinario! - ---Tenho ouvido grandes parlamentares, o Rouher, o Gladstone, o Canovas, -outros muitos. Mas n„o s„o estes vÙos, esta opulencia... … tudo muito -sÍcco, idÈas e factos. N„o entra n'alma! Vejam os amigos aquella imagem -t„o pujante, t„o respeitosa, do Anjo da Esmola, descendo devagar, com as -azas de setim... … de primeira ordem. - -Ega n„o se conteve: - ---Eu acho esse genio um imbecil. - -O conde sorriu, como · tonteria d'uma crianÁa: - ---S„o opiniıes... - -E estendeu em redor as m„os ao Sousa Netto, ao Darque, ao Telles da -Gama, a outros que se juntavam ao rancho intimo--emquanto os seus -correligionarios, os seus collegas do Centro e da Camara, o GonÁalo, o -Neves, o Vieira da Costa rondavam de longe, sem poder roÁar pelo -ministro que tinham creado, agora que elle conversava e ria com rapazes -e senhoras da ´sociedadeª. O Darque, que era parente do Gouvarinho, quiz -saber como o amigo Gast„o se ia dando com os encargos do Poder... O -conde declarou para os lados que n„o fizera mais por ora do que passar -em revista os elementos com que contava para atacar os problemas... De -resto, em questıes de trabalho, o ministerio fÙra infelicissimo! O -presidente do conselho de cama com uma catarrheira, inutil para uma -semana. Agora o collega da fazenda com as febres do Aterro... - ---Est· melhor? J· sae? foi em torno a pergunta cheia de cuidado. - ---Est· na mesma, vai ·manh„ para o D·fundo. Mas realmente esse n„o se -acha de todo inutilisado. Ainda hontem eu lhe dizia: ´VocÍ parte para o -D·fundo, leva os seus papeis, os seus documentos... Pela manh„ d· os -seus passeios, respira o bom ar... E · noite, depois de jantar, · luz do -candieiro, entretem-se a resolver a quest„o de fazenda!ª - -Uma campainha retiniu. D. JosÈ Sequeira, escarlate d'azafama, veio, -furando, annunciar a s. exc.^a o fim do intervallo--offerecer o braÁo · -snr.^a condessa. Ao passar, ella lembrou a Carlos as suas -´terÁas-feirasª, com a delicada simplicidade d'um dever. Elle curvou-se -em silencio. Era como se todo o passado, o sof· que rolava, a casa da -titi em Santa Isabel, as tipoias em que ella deixava o seu cheiro de -verbena--fossem coisas lidas por ambos n'um livro e por ambos -esquecidas. Atraz, o marido seguia, erguendo alto a cabeÁa e as lunetas, -como representante do Poder n'aquella festa da Intelligencia. - ---Pois senhores, disse o Ega afastando-se com Carlos, a mulherzinha tem -topete! - ---Que diabo queres tu? Atravessou a sua hora de tolice e de paix„o, e -agora contin˙a tranquillamente na rotina da vida. - ---E na rotina da vida, concluiu Ega, encontra-se a cada passo comtigo, -que a viste em camisa!... Bonito mundo! - -Mas o Alencar appareceu no alto da escada, voltando do botequim e da -genebra, com um brilho maior no olho cavo, de paletot no braÁo, j· -preparado para gorgear. E o marquez juntou-se a elles, abafado no -cache-nez de sÍda branca, mais rouco, queixando-se de que a cada minuto -a garganta se lhe punha peor... Aquella canalha d'aquella garganta ainda -lhe vinha a pregar uma!... - -Depois, muito sÈrio, considerando o Alencar: - ---Ouve l·, isso que tu vaes recitar, a _Democracia_, È politica ou -sentimento? Se È politica, raspo-me. Mas se È sentimento, e a -humanidade, e o santo operario, e a fraternidade, ent„o fico, que d'isso -gÛsto e atÈ talvez me faÁa bem. - -Os outros affirmaram que era sentimento. O poeta tirou o chapÈo, passou -os dedos pelos anneis fÙfos da grenha inspirada: - ---Eu vos digo, rapazes... Uma coisa n„o vai sem a outra, vejam vocÍs -Danton!... Mas j· n„o fallo emfim d'esses leıes da RevoluÁ„o. Vejam -vocÍs o Passos Manoel! Est· claro, È necessario logica... Mas, tambem, -caramba, sÍbo para uma politica sem entranhas e sem um bocado de -infinito! - -Subitamente, por sobre o novo silencio da sala, um vozeir„o mais forte -que o do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D. Jo„o de Castro e de -Affonso d'Albuquerque... Todos se acercaram da porta, curiosamente. Era -um magan„o gordo, de barba em bico e camelia na casaca, que, de m„o -fechada no ar como se agitasse o pend„o das Quinas, lamentava aos berros -que nÛs portuguezes, possuindo este nobre estuario do Tejo e t„o -formosas tradiÁıes de gloria, deixassemos esbanjar, ao vento do -indifferentismo, a sublime heranÁa dos avÛs!... - ---… patriotismo, disse o Ega. Fujamos! - -Mas o marquez reteve-os, gostando tambem de um bocado de Quinas. E foi o -pobre marquez que o patriota pareceu interpellar, alÁando na ponta dos -botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora ahi, que, -agarrando n'uma das m„os a espada e na outra a cruz, saltasse para o -convÈs d'uma caravella a ir levar o nome portuguez atravÈs dos mares -desconhecidos? Quem havia ahi, heroico bastante, para imitar o grande -Jo„o de Castro, que na sua quinta de Cintra arranc·ra todas as arvores -de fructo, tal a era a isenÁ„o da sua alma de poeta?... - ---Aquelle miseravel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega. - -Em torno correram risos alegres. O marquez virou costas, enojado com -aquella patriotice reles. Outros bocejavam por traz da m„o, n'um tedio -completo de ´todas as nossas gloriasª. E Carlos, enervado, preso alli -pelo dever de applaudir o Alencar, chamava o Ega para irem abaixo ao -botequim espairecer a impaciencia--quando viu o Eusebiosinho que descia -a escada, enfiando · pressa um paletot alvadio. N„o o encontr·ra mais -desde a infamia da _Corneta_, em que elle fÙra ´embaixadorª. E a cÛlera -que tivera contra elle n'esse dia reviveu logo n'um desejo irresistivel -de o espancar. Disse ao Ega: - ---Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar as -orelhas ·quelle maroto! - ---Deixa l·, acudiu Ega, È um irresponsavel! - -Mas j· Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz, inquieto, temendo -uma violencia. Quando chegaram · porta, Eusebio mettera para os lados do -Carmo. E alcanÁaram-no no largo da Abegoaria, ·quella hora deserto, -mudo, com dois bicos de gaz mortiÁos. Ao vÍr Carlos fender assim sobre -elle, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusebio, -encolhido, balbuciou atarantadamente: ´Ol·, por aqui...ª - ---Ouve c·, estupÙr! rugiu Carlos, baixo. Ent„o tambem andaste mettido -n'essa maroteira da _Corneta_? Eu devia rachar-te os ossos um a um! - -Agarr·ra-lhe o braÁo, ainda sem odio. Mas, apenas sentiu na sua m„o de -forte aquella carne mollenga e tremula, resurgiu n'elle essa avers„o -nunca apagada--que j· em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho, -esfrangalhal-o, sempre que as Silveiras o traziam · quinta. E ent„o -abanou-o, como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre -viuvo, no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapÈo coberto de -luto que lhe rol·ra nas lages, danÁava, escanifrado e desengonÁado. Por -fim Carlos atirou-o contra a porta d'uma cocheira. - ---Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraÁado. - -J· a m„o de Carlos lhe empolg·ra as guelas. Mas Ega interveio: - ---Alto! Basta! O nosso querido amigo j· recebeu a sua dÛse... - -Elle mesmo lhe apanhou o chapÈo. Tremendo, arquejando, de bruÁos, -Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para findar, a bota de -Carlos, atirada com nojo, estatelou-o nas pedras, para cima d'uma -sargeta onde restavam immundicies e humidade de cavallo. - -O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros baÁos. -Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No peristylo, cheio de luz -e plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado -d'amigos, em caminho para o botequim, limpando ao lenÁo o pescoÁo e a -face, exclamando com o cansaÁo radiante d'um triumphador: - ---Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda! - -J· o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a escada. E com -effeito Alencar apparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de -duas velas. - -Esguio, mais sombrio n'aquelle fundo cÙr de canario, o poeta derramou -pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento: -e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de -tanta solemnidade. - ---_A Democracia!_ annunciou o auctor d'_Elvira_, com a pompa d'uma -revelaÁ„o. - -Duas vezes passou pelos bigodes o lenÁo branco, que depois atirou para a -mesa. E levantando a m„o n'um gesto demorado e largo: - - - Era n'um parque. O luar - Sobre os vastos arvoredos, - Cheios de amor e segredos... - - ---Que lhe disse eu? exclamou o Ega, tocando no cotovÍlo do marquez. … -sentimento... Aposto que È o festim! - -E era com effeito o festim, j· cantado na _FlÙr de Martyrio_, festim -romantico, n'um vago jardim onde vinhos de Chypre circulam, caudas de -brocado rojam entre macissos de magnolias, e das aguas do lago sobem -cantos ao gemer dos violoncellos... Mas bem depressa transpareceu a -severa idÈa social da Poesia. Emquanto, sob as arvores radiantes de -luar, tudo s„o ´risos, brindes, lascivos murmuriosª--fÛra, junto ·s -grades douradas do parque, assustada com o latir dos molossos, uma -mulher macilenta, em farrapos, chora, aconchegando ao seio magro o filho -que pede p„o... E o poeta, sacudindo os cabellos para traz, perguntava -porque havia ainda esfomeados n'este orgulhoso seculo XIX? De que -servira ent„o, desde Spartacus, o esforÁo desesperado dos homens para a -JustiÁa e para a Igualdade? De que servira ent„o a cruz do grande -Martyr, erguida alÈm na collina, onde, por entre os abetos - - - Os raios do sol se somem, - O vento triste se cala... - E as aguias revolteando - D'entre as nuvens est„o olhando - Morrer o filho do Homem! - - -A sala permanecia muda e desconfiada. E o Alencar, com as m„os tremendo -no ar, desolava-se de que todo o Genio das geraÁıes fosse impotente para -esta coisa simples--dar p„o · crianÁa que chora! - - - Martyrio do coraÁ„o! - Espanto da consciencia! - Que toda a humana sciencia - N„o solva a negra quest„o! - Que os tempos passem e rolem - E nenhuma luz assome, - E eu veja d'um lado a fome - E do outro a indigest„o! - - -Ega torcia-se, fungando dentro do lenÁo, jurando que rebentava. ´_E do -outro a indigest„o!_ª Nunca, nas alturas lyricas, se grit·ra nada t„o -extraordinario! E sujeitos graves, em redor, sorriam d'aquelle -_realismo_ sujo. Um jocoso lembrou que para indigestıes j· havia o -bi-carbonato de potassa. - ---Quando n„o s„o das minhas! rosnou um cavalheiro esverdinhado, que -alargava a fivela do collete. - -Mas tudo emmudeceu ante um _chut_ terrivel do marquez, que desapert·ra o -cache-nez, j· excitado, no enternecimento que sempre lhe davam estes -humanitarismos poeticos. E entretanto, no estrado, o Alencar ach·ra a -soluÁ„o do soffrimento humano! FÙra uma Voz que lh'a ensin·ra! Uma Voz -sahida do fundo dos seculos, e que atravÈs d'elles, sempre suffocada, -viera crescendo todavia irresistivelmente desde o Golgotha atÈ · -Bastilha! E ent„o, mais solemne por traz da mesa, com um arranque de -Precursor e uma firmeza de Soldado, como se aquelle honesto movel de -mogno fosse um pulpito e uma barricada--o Alencar, alÁando a fronte -n'uma grande audacia · Danton, soltou o brado temeroso. Alencar queria a -Republica! - -Sim, a Republica! N„o a do Terror e a do odio, mas a da mansid„o e do -Amor. Aquella em que o Millionario sorrindo abre os braÁos ao Operario! -Aquella que È Aurora, ConsolaÁ„o, Refugio, Estrella mystica e Pomba... - - - Pomba da Fraternidade, - Que estendendo as brancas azas - Por sobre os humanos lodos, - Envolve os seus filhos todos - Na mesma santa Igualdade!... - - -Em cima, na galeria, resoou um _bravo_ ardente. E immediatamente, para o -suffocar, sujeitos sÈrios lanÁaram, aqui e alÈm: ´Chut, silencio!ª Ent„o -Ega ergueu as m„os magras, bem alto, berrou com um destaque atrevido: - ---Bravo! Muito bem! Bravo! - -E todo pallido da sua audacia, entalando o monoculo, declarou para os -lados: - ---Aquella democracia È absurda... Mas que os burguezes se dÍem ares -intolerantes, isso n„o! Ent„o applaudo eu! - -E as suas m„os magras de novo se ergueram, bem alto, junto das do -marquez que retumbavam como malhos. Outros em volta, immediatamente, n„o -se querendo mostrar menos democratas que o Ega e aquelle fidalgo de t„o -grande linhagem, reforÁaram os _bravos_ com calor. J· pela sala se -voltavam olhares inquietos para aquelle grupo cheio de revoluÁ„o. Mas um -silencio cahiu, mais commovido e grave, quando o Alencar (que -inspiradamente previra a intolerancia burgueza) perguntou em estrophes -iradas o que detestavam, o que receavam elles, no advento sublime da -Republica? Era o p„o carinhoso dado · crianÁa? Era a m„o justa estendida -ao proletario? Era a esperanÁa? Era a aurora? - - - Receaes a grande luz? - Tendes medo do AbecÍ?... - Ent„o castigai quem lÍ, - Voltai · plebe soez! - Recuai sempre na Historia, - Apagai o gaz nas ruas, - Deixai as crianÁas nuas, - E venha a forca outra vez! - - -Palmas, mais numerosas, j· sinceras, estalaram pela sala, que cedia -emfim ao repetido encanto d'aquelle lyrismo humanitario e sonoro. J· n„o -importava a Republica, os seus perigos. Os versos rolavam, cantantes e -claros; e a sua onda larga arrastava os espiritos mais positivos. Sob -aquelle bafo de sympathia Alencar sorria, com os braÁos abertos, -annunciando uma a uma, como perolas que se desfiam, todas as dadivas que -traria a Republica. Debaixo da sua bandeira, n„o vermelha mas branca, -elle via a terra coberta de searas, todas as fomes satisfeitas, as -naÁıes cantando nos valles sob o olhar risonho de Deus. Sim, porque -Alencar n„o queria uma Republica sem Deus! A Democracia e o -Christianismo, como um lirio que se abraÁa a uma espiga, completavam-se, -estreitando os seios! A rocha do Golgotha tornava-se a tribuna da -ConvenÁ„o! E para t„o dÙce ideal n„o se necessitavam cardeaes, nem -missaes, nem novenas, nem igrejas. A Republica, feita sÛ de pureza e de -fÈ, reza nos campos; a lua cheia È hostia; os rouxinoes entoam o _tantum -ergo_ nos ramos dos loureiraes. E tudo prospÈra, tudo refulge--ao mundo -do Conflicto substitue-se o mundo do Amor... - - - ¡ espada succede o arado, - A JustiÁa ri da Morte, - A escÛla est· livre e forte, - E a Bastilha derrocada. - RÛla a ti·ra no lodo, - Brota o lirio da Igualdade, - E uma nova Humanidade - Planta a cruz na barricada! - - -Uma rajada farta e franca de _bravos_ fez oscillar as chammas do gaz! -Era a paix„o meridional do verso, da sonoridade, do Liberalismo -romantico, da imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de -foguete, conquistando emfim tudo, pondo uma palpitaÁ„o em cada peito, -levando chefes de repartiÁ„o a berrarem, estirados por cima das damas, -no enthusiasmo d'aquella republica onde havia rouxinoes! E quando -Alencar, alÁando os braÁos ao tecto, com modulaÁıes de _preghiera_ na -voz roufenha, chamou para a terra essa pomba da Democracia, que erguera -o vÙo do Calvario, e vinha com largos sulcos de luz--foi um -enternecimento banhando as almas, um fundo arrepio d'extasi. As senhoras -amolleciam nas cadeiras, com a face meia voltada ao cÈo. No sal„o -abrazado perpassavam frescuras de capella. As rimas fundiam-se n'um -murmurio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de setim -cobrissem, estrellas d'ouro coroassem. E mal se sabia j· se Essa, que se -invocava e se esperava, era a deusa da Liberdade--ou Nossa Senhora das -DÙres. - -Alencar no emtanto via-a descer, espalhando um perfume. J· Ella tocava -com os seus pÈs divinos os valles humanos. J· do seu seio fecundo -trasbordava a universal abundancia. Tudo reflorescia, tudo rejuvenescia: - - - As rosas tÍm mais aroma! - Os fructos tÍm mais doÁura! - Brilha a alma clara e pura, - Solta de sombras e vÈos... - Foge a dÙr espavorida, - Foi-se a fome, foi-se a guerra, - O homem canta na terra, - E Christo sorri nos cÈos!... - - -Uma acclamaÁ„o rompeu, immensa e rouca, abalando os muros cÙr de -canario. MoÁos exaltados treparam ·s cadeiras, dois lenÁos brancos -fluctuavam. E o poeta, tremulo, exhausto, rolou pela escada atÈ aos -braÁos que se lhe estendiam frementes. Elle suffocava, murmurava: -´filhos! rapazes!...ª Quando Ega correu do fundo, com Carlos, -gritando--´FÙste extraordinario, Thomaz!ª--as lagrimas saltaram dos -olhos do Alencar, quebrado todo d'emoÁ„o. - -E ao longo da coxia a ovaÁ„o continuou, feita de palmadinhas pelo -hombro, de _shake-hands_ da gente sÈria, de ´muitos parabens a v. -exc.^a!ª Pouco a pouco elle erguia a cabeÁa, n'um altivo sorriso que lhe -mostrava os dentes maus, sentindo-se o poeta da Democracia, consagrado, -ungido pelo triumpho, com a inesperada miss„o de libertar almas! D. -Maria da Cunha puxou-lhe pela manga quando elle passou, para murmurar, -encantada, que ach·ra--´lindissimo, lindissimoª. E o poeta, estonteado, -exclamou: ´Maria, È necessario luz!ª Telles da Gama veio bater-lhe nas -costas affirmando-lhe que ´pi·ra esplendidamenteª. E Alencar, -inteiramente perdido, balbuciou: ´_Sursum corda_, meu Telles, _sursum -corda_!ª - -Ega no emtanto, atravÈs do tumulto, farejava buscando Carlos que -desapparecera depois dos abraÁos ao Alencar. Taveira assegurou-lhe que -Carlos pass·ra para o botequim. Depois em baixo um garoto jurou que o -snr. D. Carlos tom·ra uma tipoia e ia j· virando o Chiado... - -Ega ficou · porta hesitando se aturaria o resto do sarau. N'esse momento -o Gouvarinho, trazendo a condessa pelo braÁo, descia rapidamente, com a -face toda contrariada e sombria. O trintanario de ss. exc.^{as} correu a -chamar o coupÈ. E quando o Ega se acercou, sorrindo, para saber que -impress„o lhes deix·ra o grande triumpho democratico do Alencar--a -profunda cÛlera do Gouvarinho escapou-se-lhe, mal contida, por entre os -dentes cerrados: - ---Versos admiraveis, mas indecentes! - -O coupÈ avanÁou. Elle teve apenas tempo de rosnar ainda, surdamente, -apertando a m„o ao Ega: - ---N'uma festa de sociedade, sob a protecÁ„o da rainha, diante d'um -ministro da corÙa, fallar de barricadas, prometter mundos e fundos ·s -classes proletarias... … perfeitamente indecente! - -J· a condessa enfi·ra a portinhola, apanhando a larga cauda de sÍda. O -ministro mergulhou tambem furiosamente na sombra do coupÈ. Junto ·s -rodas passou choutando, n'uma pileca branca, o correio agaloado. - -Ega ia subir. Mas o marquez appareceu, abafado n'um gab„o d'Aveiro, -fugindo a um poeta de grandes bigodes que fic·ra em cima a recitar -quadrinhas miudinhas a uns olhinhos galantinhos: e o marquez detestava -versos feitos a partes do corpo humano. Depois foi o Cruges que surgiu -do botequim, abotoando o paletot. Ent„o, perante essa debandada de todos -os amigos, Ega decidiu abalar tambem, ir tomar o seu _grog_ ao Gremio -com o maestro. - -Metteram o marquez n'uma tipoia--e elle e Cruges desceram a rua Nova da -Trindade, devagar, no encanto estranho d'aquella noite d'inverno, sem -estrellas, mas t„o macia que n'ella parecia andar perdido um bafo de -maio. - -Passavam · porta do _Hotel AllianÁa_ quando Ega sentiu alguem, que se -apressava, chamar atraz: ´” snr. Ega! V. exc.^a faz favor, snr. -Ega?...ª--Parou, reconheceu o chapÈo recurvo, as barbas brancas do snr. -Guimar„es. - ---V. exc.^a desculpe! exclamou o demagogo esbaforido. Mas vi-o descer, -queria-lhe dar duas palavras, e como me vou embora ·manh„... - ---Perfeitamente... ” Cruges, vai andando, j· te apanho! - -O maestro estacionou · esquina do Chiado. O snr. Guimar„es pedia de novo -desculpa. De resto eram duas curtas palavras... - ---V. exc.^a, segundo me disseram, È o grande amigo do snr. Carlos da -Maia... S„o como irm„os... - ---Sim, muito amigos... - -A rua estava deserta, com alguns garotos apenas · porta alumiada da -Trindade. Na noite escura a alta fachada do _AllianÁa_ lanÁava sobre -elles uma sombra maior. Todavia o snr. Guimar„es baixou a voz cautelosa: - ---Aqui est· o que È... V. exc.^a sabe, ou talvez n„o saiba, que eu fui -em Paris intimo da m„i do snr. Carlos da Maia... V. exc.^a tem pressa, e -n„o vem agora a proposito essa historia. Basta dizer que aqui ha annos -ella entregou-me, para eu guardar, um cofre que, segundo dizia, continha -papeis importantes... Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras -coisas em que pensar, os annos correram, ella morreu. N'uma palavra, -porque v. exc.^a est· com pressa: eu conservo ainda em meu poder esse -deposito, e trouxe-o por acaso quando vim agora a Portugal por negocios -da heranÁa de meu irm„o... Ora hoje justamente, alli no theatro, comecei -a reflectir que o melhor era entregal-o · familia... - -O Cruges mexeu-se impaciente: - ---Ainda te demoras? - ---Um instante! gritou Ega, j· interessado por aquelles papeis e pelo -cofre. Vai andando. - -Ent„o o snr. Guimar„es, · pressa, resumiu o pedido. Como sabia a -intimidade do snr. Jo„o da Ega e de Carlos da Maia, lembr·ra-se de lhe -entregar o cofresinho para que elle o restituisse · familia... - ---Perfeitamente! acudiu Ega. Eu estou mesmo em casa dos Maias, no -Ramalhete. - ---Ah, muito bem! Ent„o v. exc.^a manda um criado de confianÁa ·manh„ -buscal-o... Eu estou no _Hotel de Paris_, no Pelourinho. Ou melhor -ainda: levo-lh'o eu, n„o me d· incommodo nenhum, apesar de ser dia de -partida... - ---N„o, n„o, eu mando um criado! insistiu o Ega estendendo a m„o ao -democrata. - -Elle estreitou-lh'a com calor. - ---Muito agradecido a v. exc.^a! Eu junto-lhe ent„o um bilhete e v. -exc.^a entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou · irm„. - -Ega teve um movimento d'espanto: - ---¡ irm„!... A que irm„? - -O snr. Guimar„es considerou Ega tambem com assombro. E abandonando-lhe -lentamente a m„o: - ---A que irm„!? ¡ irm„ d'elle, · unica que tem, · Maria! - -Cruges, que batia as solas no lagedo, enfastiado gritou da esquina: - ---Bem, eu vou andando para o Gremio. - ---AtÈ logo! - -O snr. Guimar„es, no emtanto, passava os dedos calÁados de pellica preta -pelos longos fios da barba, fitando o Ega, n'um esforÁo de penetraÁ„o. E -quando Ega lhe travou do braÁo, pedindo-lhe para conversarem um pouco -atÈ ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentid„o -desconfiada. - ---Eu parece-me, dizia o Ega sorrindo, mas nervoso, que nÛs estamos aqui -a enrodilhar-nos n'um equivoco... Eu conheÁo o Maia desde pequeno, vivo -atÈ agora em casa d'elle, posso afianÁar-lhe que n„o tem irm„ nenhuma... - -Ent„o o snr. Guimar„es comeÁou a rosnar umas desculpas embrulhadas que -mais enervavam, torturavam o Ega. O snr. Guimar„es imaginava que n„o era -segredo, que todas essas coisas da irm„ estavam esquecidas, desde que -houvera reconciliaÁ„o... - ---Como vi, ainda n„o ha muitos dias, o snr. Carlos da Maia com a irm„ e -com v. exc.^a, na mesma carruagem, no caes do SodrÈ... - ---O quÍ! Aquella senhora! A que ia na carruagem? - ---Sim! exclamou o snr. Guimar„es irritado, farto emfim d'essa confus„o -em que se debatiam. Aquella mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria -Eduarda Maia, como quizer, que eu conheci de pequena, com quem andei -muitas vezes ao collo, que fugiu com o Mac-Gren, que esteve depois com a -besta do Castro Gomes... Essa mesma! - -Era ao meio do Loreto sob o lampe„o de gaz. E o snr. Guimar„es de -repente estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror, uma -terrivel pallidez cobrir-lhe a face. - ---V. exc.^a n„o sabia nada d'isto? - -Ega respirou fortemente, arredando o chapÈo da testa sem responder. -Ent„o o outro, embaÁado, terminou por encolher os hombros. Bem, via que -tinha feito uma tolice! A gente nunca se devia intrometter nos negocios -alheios! Mas acabou-se! Imaginasse o snr. Ega que aquillo fÙra um -pesadÍlo, depois da versalhada do sarau! Pedia desculpa sinceramente--e -desejava ao snr. Jo„o da Ega muitissimo boas noites. - -Ega, como a um clar„o de relampago, entrevira toda a catastrophe: e -agarrou avidamente o braÁo do snr. Guimar„es, n'um terror que elle -abalasse, desapparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses -papeis, o cofre da Monforte, e com elles a certeza--a certeza por que -agora anciava. E atravÈs do Loreto, vagamente, foi balbuciando, -justificando a sua emoÁ„o, para tranquillisar o homem, poder lentamente -arrancar-lhe as coisas que soubesse, as provas, a verdade inteira. - ---O snr. Guimar„es comprehende... Isto s„o coisas muito delicadas, que -eu suppunha absolutamente ignoradas de todos... De modo que fiquei -embatucado, fiquei tonto, quando o ouvi assim de repente fallar d'ellas -com essa simplicidade... Porque emfim, aqui para nÛs, essa senhora n„o -passa em Lisboa por irm„ de Carlos. - -O snr. Guimar„es atirou logo a m„o n'um grande gesto. Ah, bem! Ent„o era -jogo com elle? Pois tinha feito o snr. Ega perfeitamente... Com certeza -eram coisas muito sÈrias, que necessitavam toda a sorte de vÈos... Elle -comprehendia, comprehendia muito bem!... E realmente, dada a posiÁ„o dos -Maias em Lisboa, na sociedade, aquella senhora n„o era irm„ que se -apresentasse. - ---Mas a culpa n„o a teve ella, meu caro senhor! Foi a m„i, foi aquella -extraordinaria m„i que o Diabo lhe deu!... - -Desciam o Chiado. Ega parou um momento, devorando o velho com olhos de -febre: - ---O snr. Guimar„es conheceu muito essa senhora, a Monforte? - -Intimamente! J· a conhecera em Lisboa--mas de longe, como mulher de -Pedro da Maia. Depois viera essa tragedia, ella fugira com o italiano. -Elle abal·ra tambem para Paris n'esse anno, com uma Clemence, uma -costureira da Levaillant: e, umas coisas enfiando n'outras, negocios e -desgraÁas, por l· fic·ra para sempre! Emfim, n„o era a sua vida que lhe -ia contar... SÛ mais tarde encontr·ra a Monforte, uma noite, no baile -Laborde: e d'ahi datavam as suas relaÁıes. A esse tempo j· o italiano -morrera n'um duello, e o velho Monforte espich·ra da bexiga. Ella estava -ent„o com um rapaz chamado Trevernnes--n'uma casa bonita, no Parc -Monceaux, em grande chic... Mulher extraordinaria! E n„o se envergonhava -de confessar que lhe devia obrigaÁıes! Quando essa rapariga, a Clemence, -que era um encanto, adoecera do peito, a Monforte trazia-lhe flÙres, -frutas, vinhos, fazia-lhe companhia, velava-a como um anjo... Porque l· -isso coraÁ„o largo e generoso atÈ alli! Esta, a filha, a D. Maria, tinha -ent„o sete ou oito annos, linda como os amores... E houvera uma outra -pequena do italiano, muito galantinha tambem. Oh! muito galantinha -tambem! Mas morrera em Londres, essa... - ---E com esta Maria andei muitas vezes ao collo, meu caro senhor... N„o -sei se ella ainda se lembra d'uma boneca que eu lhe dei, que fallava, -dizia _NapolÈon_... Era no bello tempo do Imperio, atÈ as -desavergonhadas das bonecas eram imperialistas! Depois, quando ella -estava em Tours, no convento, fui l· duas vezes com a m„i. J· ent„o os -meus principios me n„o permittiam entrar n'esses covis religiosos: mas -emfim fui acompanhar a m„i... E quando ella fugiu com o irlandez, o -Mac-Gren, foi commigo que a m„i veio ter, furiosa, a querer que eu -chamasse o commissario de policia para se prender o irlandez. Por fim -metteu-se n'um _fiacre_, foi para Fontainebleau, l· fez as pazes, viviam -atÈ juntos... Emfim uma sÈrie de trapalhadas. - -Um suspiro cansado escapou-se do peito do Ega, que arrastava os passos, -succumbido: - ---E esta senhora, est· claro, n„o sabia ent„o de quem era filha... - -O snr. Guimar„es encolheu os hombros: - ---Nem suspeitava que existissem Maias sobre a face da terra! A Monforte -dissera-lhe sempre que o pai era um fidalgo austriaco com quem ella -cas·ra na Madeira... Uma mixordia, meu caro senhor, uma mixordia! - ---… horrivel! murmurou Ega. - -Mas, dizia o snr. Guimar„es, que podia tambem fazer a Monforte? Que -diabo, era duro confessar · filha: ´Olha que eu fugi a teu pai, e elle -por causa d'isso matou-se!ª N„o tanto pela quest„o de pudor; a rapariga -devia perceber que a m„i tinha amantes, ella mesma aos dezoito annos, -coitadinha, j· tinha um; mas por causa do tiro, do cadaver, do sangue... - ---A mim mesmo! exclamou o snr. Guimar„es, parando, alargando os braÁos -na rua deserta. A mim mesmo nunca ella fallou do marido, nem de Lisboa, -nem de Portugal. Lembra-me atÈ uma occasi„o em casa da Clemence, que eu -alludi a um cavallo laz„o, um cavallo de Pedro da Maia, em que ella -costumava montar. Animal soberbo! Mas nem mencionei o marido, fallei sÛ -do cavallo. Pois senhores, bate com o leque em cima da mesa, grita como -uma bicha:--_Dites donc, mon cher, vous m'embÍtez avec ces histoires de -l'autre monde_!... Com effeito, bem o podia dizer, eram historias do -outro mundo! Para encurtar: estou convencido que nos ultimos tempos ella -mesmo julgava que Pedro da Maia nunca existira. Uma insensata! Por fim -atÈ bebia... Mas acabou-se! Tinha grande coraÁ„o, e portou-se muito bem -com a Clemence. _Parce sepultis!_ - ---… horrivel! murmurou outra vez o Ega, tirando o chapÈo, correndo a m„o -tremula pela testa. - -E agora o seu unico desejo era a accumulaÁ„o incessante de provas, de -detalhes. Fallou ent„o d'esses papeis, d'esse cofre da Monforte. O snr. -Guimar„es n„o sabia o que elles continham; e n„o se admiraria se fossem -apenas contas de modista, ou pedaÁos velhos do _Figaro_ em que se -fallava d'ella... - ---… uma caixita pequena que a Monforte me deu, na vespera de partir para -Londres com a filha. Era no tempo da guerra... J· a Maria vivia com o -irlandez, tinha mesmo uma pequena, a Rosa. Depois veio a Communa, todos -aquelles desastres. Quando a Monforte voltou de Londres eu estava em -Marselha. Foi ent„o que a pobre Maria se metteu com o Castro Gomes, -creio que para n„o morrer de fome... Eu recolhi a Paris, mas n„o vi mais -a Monforte, que j· estava muito doente... ¡ Maria, collada ent„o a essa -besta do Castro Gomes, um pedante, um _rastaquouËre_ mesmo a calhar para -a guilhotina, n„o tornei tambem a fallar. Se a encontrava era um -comprimento de longe, como n'outro dia, quando a vi na carruagem com v. -exc.^a e com o irm„o... De sorte que fui ficando com os papeis. Nem a -fallar a verdade, com estas coisas todas de politica, me lembrei mais -d'elles. E agora ahi est„o, ·s ordens da familia. - ---Se isso n„o fosse incommodo para v. exc.^a, acudiu Ega, eu passava -agora pelo seu hotel e levava-os logo commigo... - ---Incommodo nenhum! Estamos em caminho, È negocio que fica feito! - -Algum tempo seguiram calados. O sarau decerto acab·ra. Um bater de -carruagens atroava as descidas do Chiado. Junto d'elles passaram duas -senhoras, com um rapaz que bracejava, fallando alto do Alencar. O snr. -Guimar„es tir·ra lentamente do bolso a charuteira: depois parando, para -raspar um phosphoro: - ---Ent„o a D. Maria passa simplesmente por parenta?... E como soube ella? -Como foi isso? - -Ega, que caminhava com a cabeÁa cahida, estremeceu como se acordasse. E -comeÁou a tartamudear uma historia confusa, de que elle mesmo cÛrava na -sombra. Sim, Maria Eduarda passava por parenta. FÙra o procurador que -descobrira. Ella rompera com o Castro Gomes, com todo o passado. Os -Maias davam-lhe uma mezada; e vivia nos Olivaes, muito retirada, como -filha d'um Maia que morrera na Italia. Todos gostavam muito d'ella, -Affonso da Maia tinha grande ternura pela pequena... - -E de repente indignou-se com estas invenÁıes por onde arrastava j· o -nome do nobre velho, exclamou como se abafasse: - ---Emfim, nem eu sei, um horror! - ---Um drama! resumiu gravemente o snr. Guimar„es. - -E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento -emquanto elle corria acima buscar os papeis da Monforte. - -SÛ, no largo, Ega ergueu as m„os ao cÈo n'um desabafo mudo d'aquella -angustia em que caminhava, como um somnambulo, desde o Loreto. E a sua -unica sensaÁ„o, bem clara--era a indestructivel certeza da historia do -Guimar„es, t„o compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse -e se fizesse cahir aos pedaÁos. O homem conhecera Maria Monforte em -Lisboa, ainda mulher de Pedro da Maia, brilhando no seu cavallo laz„o; -encontr·ra-a em Paris j· fugida, depois da morte do primeiro amante, -vivendo com outros; and·ra ent„o ao collo com Maria Eduarda a quem se -davam bonecas... E desde ent„o n„o deix·ra mais de vÍr Maria Eduarda, de -a seguir: em Paris; no convento de Tours; em Fontainebleau com o -irlandez; nos braÁos de Castro Gomes; n'uma tipoia de praÁa emfim com -elle e com Carlos da Maia, havia dias, no caes do SodrÈ! Tudo isto se -encadeava, concordando com a historia contada por Maria Eduarda. E de -tudo resaltava esta certeza monstruosa:--Carlos amante da irm„! - -Guimar„es n„o descia. No segundo andar surgira uma luz viva, n'uma -janella aberta. Ega recomeÁou a passear lentamente pelo meio do largo. E -agora, pouco a pouco, subia n'elle uma incredulidade contra esta -catastrophe de dramalh„o. Era acaso verosimil que tal se passasse, com -um amigo seu, n'uma rua de Lisboa, n'uma casa alugada · m„i Cruges?... -N„o podia ser! Esses horrores sÛ se produziam na confus„o social, no -tumulto da Meia-Idade! Mas n'uma sociedade burgueza, bem policiada, bem -escripturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papeis, -com tanto registro de baptismo, com tanta certid„o de casamento, n„o -podia ser! N„o! N„o estava no feitio da vida contemporanea que duas -crianÁas separadas por uma loucura da m„i, depois de dormirem um -instante no mesmo berÁo, cresÁam em terras distantes, se eduquem, -descrevam as parabolas remotas dos seus destinos--para quÍ? Para virem -tornar a dormir juntas no mesmo ponto, n'um leito de concubinagem! N„o -era possivel. Taes coisas pertencem sÛ aos livros, onde vÍm, como -invenÁıes subtis da arte, para dar · alma humana um terror novo... -Depois levantava os olhos para a janella alumiada--onde o snr. Guimar„es -decerto rebuscava os papeis na mala. Alli estava porÈm esse homem com a -sua historia--em que n„o havia uma discordancia por onde ella pudesse -ser abalada!... E pouco a pouco aquella luz viva, sahida do alto, -parecia ao Ega penetrar n'essa intrincada desgraÁa, aclaral-a toda, -mostrar-lhe bem a lenta evoluÁ„o. Sim, tudo isso era provavel no fundo! -Essa crianÁa, filha d'uma senhora que a lev·ra comsigo, cresce, È amante -d'um brazileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. N'um bairro visinho vive -outro filho d'essa mulher, por ella deixado, que cresceu, È um homem. -Pela sua figura, o seu luxo, elle destaca n'esta cidade provinciana e -pelintra. Ella por seu lado, loura, alta, esplendida, vestida pela -LaferriËre, flÙr d'uma civilisaÁ„o superior, faz relÍvo n'esta multid„o -de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde -todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho -pessoal, muito fatalmente se attrahem! Ha nada mais natural? Se ella -fosse feia e trouxesse aos hombros uma confecÁ„o barata da loja da -America, se elle fosse um mocinho encolhido de chapÈo cÙco, nunca se -notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o -conhecerem-se era certo, o amarem-se era provavel... E um dia o snr. -Guimar„es passa, a verdade terrivel estala! - -A porta do hotel rangeu no escuro, o snr. Guimar„es adiantou-se, de bonÈ -de sÍda na cabeÁa, com o embrulho na m„o. - ---N„o podia dar com a chave da mala, desculpe v. exc.^a … sempre assim -quando ha pressa... E aqui temos o famoso cofre! - ---Perfeitamente, perfeitamente... - -Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulh·ra n'um -velho numero do _Rappel_. Ega metteu-a no bolso largo do seu paletot: e -immediatamente, como se qualquer outra palavra entre elles fosse v„, -estendeu a m„o ao snr. Guimar„es. Mas o outro insistiu em o acompanhar -atÈ · esquina da rua do Arsenal, apesar de estar de bonÈ. A noite, para -quem vinha de Paris, tinha uma doÁura oriental--e elle, com os seus -habitos de jornalista, nunca se deitava sen„o tarde, ·s duas, tres horas -da madrugada... - -E ent„o, caminhando devagar, com as m„os nos bolsos e o charuto entre os -dentes, o snr. Guimar„es voltou · politica e ao sarau. A poesia do -Alencar (de que esper·ra muito por causa do titulo, _A Democracia_) -sahira-lhe consideravelmente chÙcha. - ---Muita flÙr, muita farofia, muita liberdade, mas n„o havia alli um -ataque em fÛrma, duas ou tres boas estocadas n'esta choldra da monarchia -e da cÙrte... Pois n„o È verdade? - ---Sim, com effeito...--murmurou Ega, olhando ao longe, na esperanÁa -d'uma tipoia. - ---… como os jornaes republicanos que por ahi ha... Tudo uma palhada, -senhores, tudo uma balofice!... … o que eu lhes digo a elles:--´” almas -do diabo, atacai as questıes sociaes!ª - -Felizmente um trem avanÁava, rolando devagar, do lado do Terreiro do -PaÁo. Ega, precipitadamente, deu um aperto de m„o ao democrata, -desejou-lhe uma ´boa viagemª, atirou ao cocheiro a adresse do Ramalhete. -Mas o snr. Guimar„es ainda se apoderou da portinhola--para aconselhar ao -Ega que fosse a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o -apresentar a toda aquella gente... E o snr. Ega veria! N„o era c· a -grande _pose_ portugueza, d'estes imbecis, d'estes pelintras a darem-se -ares, torcendo os bigodes. L·, na primeira naÁ„o do mundo, tudo era -alegria e fraternidade e espirito a rodos... - ---E a minha adresse, na redacÁ„o do _Rappel_! Bem conhecida no mundo! -Emquanto ao embrulhosinho fico descanÁado... - ---PÛde v. exc.^a ficar descanÁado! - ---Criado de v. exc.^a... Os meus comprimentos · snr.^a D. Maria! - -Na carruagem, atravÈs do Aterro, a anciosa interrogaÁ„o do Ega a si -mesmo foi--´que hei de fazer?ª Que faria, santo Deus, com aquelle -segredo terrivel que possuia, de que sÛ elle era senhor, agora que o -Guimar„es partia, desapparecia para sempre? E antevendo com terror todas -as angustias em que essa revelaÁ„o ia lanÁar o homem que mais estimava -no mundo--a sua instinctiva idÈa foi guardar para sempre o segredo, -deixal-o morrer dentro em si. N„o diria nada; o Guimar„es sumia-se em -Paris; e quem se amava continuava a amar-se!... N„o crearia assim uma -crise atroz na vida de Carlos--nem soffreria elle, como companheiro, a -sua parte d'essas afflicÁıes. Que coisa mais impiedosa, de resto, que -estragar a vida de duas innocentes e adoraveis creaturas, atirando-lhes -· face uma prova de incesto!... - -Mas, a esta idÈa de _incesto_, todas as consequencias d'esse silencio -lhe appareceram, como coisas vivas e pavorosas, flammejando no escuro -diante dos seus olhos. Poderia elle tranquillamente testemunhar a vida -dos dois--desde que a sabia _incestuosa_? Ir · rua de S. Francisco, -sentar-se-lhes alegremente · mesa, entrevÍr atravÈs do reposteiro a cama -em que ambos dormiam--e saber que esta sordidez de peccado era obra do -seu silencio? N„o podia ser... Mas teria tambem coragem de entrar ao -outro dia no quarto de Carlos, e dizer-lhe em face--´Olha que tu Ès -amante de tua irm„?ª - -A carruagem par·ra no Ramalhete. Ega subiu, como costumava, pela escada -particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. Accendeu a sua -palmatoria; entreabriu o reposteiro dos aposentos de Carlos; deu alguns -passos timidos no tapete, que pareceram j· soar tristemente. Um reflexo -d'espelho alvejou ao fundo na sombra da alcova. E a luz cahiu sobre o -leito intacto, com a sua longa colcha lisa, entre os cortinados de sÍda. -Ent„o a idÈa que Carlos estava ·quella hora na rua de S. Francisco, -dormindo com uma mulher que era sua irm„, atravessou-o com uma cruel -nitidez, n'uma imagem material, t„o viva e real, que elle viu-os -claramente, de braÁos enlaÁados, e em camisa... Toda a belleza de Maria, -todo o requinte de Carlos desappareciam. Ficavam sÛ dois animaes, -nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como c„es, sob o -impulso bruto do cio! - -Correu para o seu quarto, fugindo ·quella vis„o a que o escuro do -corredor, mal dissipado pela luz tremula, accentuava mais o relÍvo. -Aferrolhou a porta; accendeu · pressa sobre o toucador, uma depois da -outra, com a m„o agitada, as seis velas dos candelabros. E agora -apparecia-lhe mais urgente, inevitavel, a necessidade de contar _tudo_ a -Carlos. Mas ao mesmo tempo sentia em si, a cada instante, menos animo -para chegar, encarar Carlos, e destruir-lhe a felicidade e a vida com -uma revelaÁ„o d'incesto. N„o podia! Outro que lh'o dissesse! Elle l· -estava depois para o consolar, tomar metade da sua dÙr, carinhoso e -fiel. Mas o desgosto supremo da vida de Carlos n„o viria de palavras -cahidas da sua boca!... Outro que lh'o dissesse! Mas quem? Mil idÈas -passavam na sua pobre cabeÁa, incoherentes e tontas. Pedir a Maria que -fugisse, desapparecesse... Escrever uma carta anonyma a Carlos, com a -detalhada historia do Guimar„es... E esta confus„o, esta anciedade ia-se -resolvendo lentamente em odio ao snr. Guimar„es. Para que fall·ra -·quelle imbecil? Para que insistira em lhe confiar papeis alheios? Para -que lh'o apresent·ra o Alencar? Ah! se n„o fosse a carta do Damaso... -Tudo provinha do maldito Damaso! - -Agitando-se pelo quarto, ainda de chapÈo, os seus olhos cahiram n'um -sobrescripto pousado sobre a mesa de cabeceira. Reconheceu a letra do -VillaÁa. E nem a abriu... Uma idÈa sulc·ra-o de repente. Contar tudo ao -VillaÁa!... Porque n„o? Era o procurador dos Maias. Nunca para elle -houvera segredos n'aquella casa. E esta complicaÁ„o singular d'uma -senhora da familia, considerada morta e que surge inesperadamente--a -quem a pertencia aclarar sen„o ao fiel procurador, ao velho confidente, -ao homem que, por heranÁa e por destino, recebera sempre todos os -segredos e partilh·ra todos os interesses domesticos?... E sem pensar, -sem aprofundar mais, fixou-se logo n'esta decis„o salvadora,--que ao -menos o socegava, lhe tirava j· do coraÁ„o um peso de ferro, suffocante -e intoleravel... - -Devia acordar cedo, procurar VillaÁa em casa. Escreveu n'uma folha de -papel--´Acorda-me ·s seteª. E desceu abaixo, ao longo corredor de pedra -onde dormiam os criados, dependurou este recado na chave do quarto do -escudeiro. - -Quando subiu, mais calmo,--abriu ent„o a carta do VillaÁa. Era uma curta -linha lembrando ao amigo Ega que a letrinha de duzentos mil reis, no -Banco Popular, se vencia d'ahi a dois dias... - ---SÍbo, tudo se junta! exclamou Ega furioso, atirando a carta amarrotada -para o ch„o. - - - - -VII - - -Pontual, ·s sete horas, o escudeiro acordou Ega. Ao rumor da porta elle -sentou-se na cama com um salto--e logo todos os negros cuidados da -vespera, Carlos, a irm„, a felicidade d'aquella casa acabada para -sempre, se lhe ergueram n'alma em sobresalto, como despertando tambem. A -portada da varanda fic·ra aberta; um ar silencioso e livido de madrugada -clareava atravÈs do transparente de fazenda branca. Durante um momento -Ega ficou olhando em redor, arrepiado; depois, sem coragem, remergulhou -nos lenÁoes, gozando aquelle bocado de calor e de conchÍgo antes d'ir -affrontar fÛra as amarguras do dia. - -E pouco a pouco, sob o tepido conchÍgo dos cobertores em que se -atabaf·ra, comeÁou a afigurar-se-lhe menos urgente, e menos util, essa -correria estremunhada a casa do VillaÁa... De que servia procurar o -VillaÁa? N„o se tratava alli de dinheiro, nem de demandas, nem de -legalidade--de nada que reclamasse a experiencia d'um procurador. Era -apenas introduzir um burguez mais n'um segredo t„o terrivelmente -delicado que elle mesmo se assustava de o saber. E acochado mais sob a -roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava comsigo: ´… uma tolice ir -ao VillaÁa!ª - -De resto n„o poderia elle ajuntar em si bastante coragem para contar -tudo a Carlos, logo, n'essa manh„, claramente, virilmente? Era por fim -aquelle caso t„o pavoroso como lhe parecera na vespera--um irreparavel -desabamento d'uma vida de homem?... Ao pÈ da quinta da m„e, em Celorico, -no logar de Vouzeias, houvera um successo parecido, dois irm„os que -innocentemente iam casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para -os _banhos_. Os noivos ficaram uns dias ´embatucadosª, como dizia o -padre Seraphim; mas por fim j· riam, muito amigos, muito divertidos, -quando se tratavam de ´manosª. O noivo, um rapag„o bonito, contava -depois ´que ia havendo uma mixordia na familiaª. Aqui o engano seguira -mais longe, as sensibilidades eram mais requintadas; mas os seus -coraÁıes permaneciam livres de toda a culpa, innocentes absolutamente. -Porque ficaria pois a existencia de Carlos para sempre estragada? A -inconsciencia impedia-lhe o remorso: e passado o primeiro horror, de que -lhe podia, na realidade, vir a definitiva dÙr? SÛmente do prazer ter -findado. Era ent„o como outro qualquer desgosto d'amor. Bem menos atroz -do que se Maria o tivesse trahido com o Damaso! - -De repente a porta abriu-se, Carlos appareceu exclamando: - ---Ent„o que madrugada foi esta? Disse-me agora l· em baixo o Baptista... -… aventura? duello? - -Trazia o paletot todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a -gravata branca da vespera; e decerto cheg·ra da rua de S. Francisco na -tipoia que havia instantes Ega sentira parar na calÁada. - -Elle sent·ra-se bruscamente na cama; e estendendo a m„o para os -cigarros, sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na vÈspera -combin·ra uma ida a Cintra com o Taveira... Por precauÁ„o mand·ra-se -chamar... Mas n„o sabia, acord·ra cansado... - ---Que tal est· o dia? - -Justamente Carlos fÙra correr o transparente da janella. Ahi, na mesa de -trabalho, collocada em plena luz, fic·ra a caixa da Monforte embrulhada -no _Rappel_. E Ega pensou n'um relance:--´Se elle repara, se pergunta, -digo tudo!ª--O seu pobre coraÁ„o pÙz-se a bater anciosamente no terror -d'aquella decis„o. Mas o transparente um pouco pÍrro subiu, uma facha de -sol banhou a mesa--e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um immenso -allivio para o Ega. - ---Ent„o, Cintra? disse Carlos, sentando-se aos pÈs da cama. Com effeito -n„o È m· idÈa... A Maria ainda hontem esteve tambem a fallar d'ir a -Cintra... Espera! Podiamos fazer a patuscada juntos... Iamos no break, a -quatro! - -E olhava j· o relogio, calculando o tempo para atrellar, avisar Maria. - ---O peor, acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monoculo, -È que o Taveira fallou em irmos com umas raparigas... - -Carlos encolheu os hombros com horror. Que sordidez, ir com mulheres -para Cintra, de dia!... De noite, nas trevas, por bebedeira, v·... Mas · -luz do Senhor! Talvez com a Lola gorda, hein?... - -Ega embrulhou-se n'uma complicada historia, limpando o monoculo · ponta -do lenÁol. N„o eram hespanholas... Pelo contrario, umas costureiras, -raparigas sÈrias... Elle tinha um compromisso antigo d'ir a Cintra com -uma d'ellas, filha d'um Simıes, um estofador que fallira... Gente muito -sÈria!... - -Perante estes compromissos, tanta seriedade, Carlos desistiu logo da -idÈa de Cintra. - ---Bem, acabou-se!... Vou ent„o tomar banho e depois a negocios... E tu, -se fÙres, traze-me umas queijadas para a Rosa, que ella gosta!... - -Apenas Carlos sahiu, Ega cruzou os braÁos desanimado, descorÁoado, -sentindo bem que n„o teria coragem nunca de ´dizer tudoª. Que havia de -fazer?... E de novo, insensivelmente, se refugiou na idÈa de procurar o -VillaÁa, entregar-lhe o cofre da Monforte. N„o havia homem mais honesto, -nem mais pratico; e, pela mesma mediocridade do seu espirito burguez, -quem melhor para encarar aquella catastrophe sem paix„o e sem nervos?... -E esta _falta de nervos_ do VillaÁa fixou-o definitivamente. - -Saltou ent„o da cama, n'uma impaciencia, repicou a campainha. E emquanto -o criado n„o entrava, foi, com o robe-de-chambre aos hombros, examinar o -cofre da Monforte. Parecia com effeito uma velha caixa de charutos, -embrulhada n'um papel de dobras j· sujas e gastas, com marcas de lacre -onde se distinguia uma divisa que seria decerto a da Monforte--_Pro -amore_. Na tampa tinha escripto n'uma letra de mulher -mal-ensinada--_Monsieur Guimaran, ‡ Paris_. Ao sentir os passos do -criado deitou-lhe por cima uma toalha, que pendia ao lado, n'uma -cadeira. E d'ahi a meia hora rolava pelo Aterro n'uma tipoia descoberta, -mais animado, respirando largamente aquelle bello ar da manh„, fino e -fresco, que elle t„o raras vezes gozava. - -ComeÁou por uma contrariedade. VillaÁa j· sahira: e a criada n„o sabia -bem se elle fÙra para o escriptorio, se a uma vistoria ao Alfeite... Ega -largou para o escriptorio, na rua da Prata. O snr. VillaÁa ainda n„o -viera... - ---E a que horas vir·? - -O escrevente, um rapaz macilento que torcia nervosamente sobre o collete -uma corrente de coral, balbuciou que o snr. VillaÁa n„o devia tardar, se -n„o tivesse atravessado, no vapor das nove, para o Alfeite... Ega desceu -desesperado. - ---Bem, gritou ao cocheiro, vai ao cafÈ Tavares... - -No Tavares, ainda solitario ·quella hora, um moÁo areava o sobrado. E -emquanto esperava o almoÁo Ega percorreu os jornaes. Todos fallavam do -sarau, em linhas curtas, promettendo detalhes criticos, mais tarde, -sobre esse brilhante torneio artistico. SÛ a _Gazeta Illustrada_ se -alargava, com phrases sÈrias, tratando o Rufino de _grandioso_ o Cruges -de _esperanÁoso:_ no Alencar a _Gazeta_ separava o philosopho do poeta; -ao philosopho a _Gazeta_ lembrava com respeito que nem todas as -aspiraÁıes ideaes da philosophia, bellas como miragens de deserto, s„o -realisaveis na pratica social; mas ao poeta, ao creador de t„o formosas -imagens, de t„o inspiradas estancias, a _Gazeta_ desafogadamente -bradava--´bravo! bravo!ª Havia ainda outras abominaveis sandices. Depois -seguia-se a lista das pessoas que a _Gazeta_ se recordava de ter visto, -entre as quaes ´destacava com o seu monoculo o fino perfil de Jo„o da -Ega, sempre brilhante de _verve_.ª Ega sorriu, cofiando o bigode. -Justamente o bife chegava, fumegante, chiando na frigideirinha de barro. -Ega pousou a _Gazeta_ ao lado, dizendo comsigo: ´N„o È nada mal feito, -este jornal!ª - -O bife era excellente:--e depois d'uma perdiz fria, d'um pouco de dÙce -de ananaz, d'um cafÈ forte, Ega sentiu adelgaÁar-se emfim aquelle -negrume que desde a vespera lhe pesava n'alma. No fim, pensava elle, -accendendo o charuto e lanÁando os olhos ao relogio, n'aquelle desastre -praticamente encarado sÛ havia para Carlos a perda d'uma bella amante. E -essa perda, que agora o angustiava, n„o traria depois compensaÁıes? O -futuro de Carlos atÈ ahi tinha uma sombra--aquella promessa de casamento -que irreparavelmente o collava pela honra a uma mulher muito -interessante, mas com um passado cheio de brazileiros e de irlandezes... -A sua belleza poetisava tudo: mas quanto tempo mais duraria esse -encanto, o seu brilho de deusa pisando a terra?... N„o seria por fim -aquella descoberta do Guimar„es uma libertaÁ„o providencial? D'ahi a -annos Carlos estaria consolado, sereno como se nunca tivesse sofrido--e -livre, e rico, com o largo mundo diante de si! - -O relogio do cafÈ deu dez horas. ´Bem, vamos a istoª, pensou Ega. - -De novo a tipoia bateu para a rua da Prata. O snr. VillaÁa ainda n„o -viera, o escrevente estava realmente pensando que o snr. VillaÁa fÙra ao -Alfeite. E diante d'esta incerteza, de repente, Ega ficou de novo -descorÁoado, sem coragem. Despediu a tipoia: com o embrulho do cofre na -m„o foi andando pela rua do Ouro, depois atÈ ao Rocio, parando -distrahidamente diante d'um ourives, lendo aqui e alÈm a capa d'um livro -na vitrine dos livreiros. Pouco a pouco o negrume da vespera, um momento -adelgaÁado, recahia-lhe n'alma mais denso. J· n„o via as ´libertaÁıesª -nem as ´compensaÁıesª. SÛ sentia em torno de si, como fluctuando no ar, -aquelle horror--Carlos a dormir com a irm„. - -Voltou pela rua da Prata, de novo subiu a suja escadaria de pedra; e -logo no patamar, diante da porta de baeta verde, deu com o VillaÁa que -sahia, atarefado, calÁando as luvas. - ---Homem, atÈ que emfim! - ---Ah! Era o amigo que me tinha procurado?... Pois tenha paciencia, que -est· o visconde do Torral · minha espera... - -Ega quasi o empurrou. Qual visconde!... Tratava-se d'uma coisa muito -urgente, muito sÈria! Mas o outro n„o se arredava da porta, acabando de -calÁar a luva, com o mesmo ar vivo de negocio e de pressa. - ---O amigo bem vÍ... Est· o homem · espera! … um _rendez-vous_ para as -onze! - -Ega, j· furioso, agarrou-lhe a manga, murmurou-lhe junto · face, -tragicamente, que se tratava de Carlos, d'um caso de vida ou de morte! -Ent„o o VillaÁa, n'um grande espanto, atravessou bruscamente o -escriptorio, fez entrar Ega n'um cubiculo ao lado, estreito como um -corredor, com um canapÈ de palhinha, uma mesa onde os livros tinham pÛ, -e um armario ao fundo. Fechou a porta, atirou o chapÈo para a nuca: - ---Ent„o que È? - -Ega, com um gesto, indicou fÛra o escrevente que podia escutar. O -procurador abriu a porta, gritou ao rapazola que voasse ao Hotel -Pelicano pedir ao snr. visconde do Torral a fineza de esperar meia -hora... Depois, fechada a porta no ferrolho, foi a mesma exclamaÁ„o -anciosa: - ---Ent„o que È? - ---… um horror, VillaÁa, um grande horror... Nem eu sei por onde hei de -comeÁar. - -VillaÁa, j· muito pallido, pousou lentamente o guardachuva sobre a mesa. - ---… duello? - ---N„o... … isto... VocÍ sabia que o Carlos tinha relaÁıes com uma snr.^a -Mac-Gren que veio o inverno passado a Portugal, ficou ahi?... - -Uma senhora brazileira, mulher d'um brazileiro, que pass·ra o ver„o nos -Olivaes?... Sim, VillaÁa sabia. Fall·ra atÈ n'isso com o Eusebiosinho. - ---Ah, com o Eusebio?... Pois n„o È brazileira! … portugueza, e È irm„ -d'elle! - -VillaÁa cahiu para o canapÈ, batendo as m„os n'um assombro. - ---Irm„ do Eusebio! - ---Qual do Eusebio, homem!... Irm„ de Carlos! - -VillaÁa fic·ra mudo, sem comprehender, com os olhos terrivelmente -arregalados para o outro, que se movia pelo cubiculo, repetindo: ´irm„! -irm„ legÌtima!ª Ega por fim sentou-se no canapÈ de palhinha; e baixo, -muito baixo, apesar da solid„o do escriptorio, contou o seu encontro com -o Guimar„es no sarau, e como a verdade terrivel estal·ra casualmente, -n'uma palavra, · esquina do _AllianÁa_... Mas quando fallou dos papeis, -entregues pela Monforte ao Guimar„es, ha tantos annos guardados, nunca -reclamados, e que o democrata agora, t„o de repente, t„o urgentemente, -queria restituir · familia--VillaÁa, atÈ ahi esmagado e como -emparvecido, despertou, teve uma explos„o: - ---Ahi ha marosca! Tudo isso È para apanhar dinheiro!... - ---Apanhar dinheiro! Quem? - ---Quem!? exclamou VillaÁa de pÈ, arrebatadamente. Essa senhora, esse -Guimar„es, essa tropa!... … que o amigo n„o percebe! Se apparecer uma -irm„ do Maia, legitima e authentica, s„o quatrocentos contos e pico que -cabem · irm„ do Maia!... - -Ent„o os dois ficaram-se devorando com os olhos, na forte impress„o -d'aquella idÈa inesperada que a seu pezar abalava o Ega. Mas como o -procurador, tremulo, voltava · grande somma de quatrocentos contos, -lembrava a _Companhia do Olho Vivo_, Ega terminou por encolher os -hombros: - ---Isso n„o tem verosimilhanÁa nenhuma! Ella È incapaz, absolutamente -incapaz, de semelhante intriga. AlÈm d'isso, se È uma quest„o de -dinheiro, que necessidade tinha de se fazer passar como irm„ desde que -Carlos lhe promettera casar com ella? - -Casar com ella! VillaÁa erguia as m„os, n„o queria acreditar. O quÍ! o -snr. Carlos da Maia dar a sua m„o, o seu nome, a essa creatura amigada -com um brazileiro!?... Santissimo nome de Deus! E atravÈs do assombro -recrescia-lhe a desconfianÁa, via ahi um novo feito do _Olho Vivo_. - ---N„o senhor, VillaÁa, n„o senhor! insistiu Ega, j· impaciente. Se a -quest„o È de documentos e se ella os tinha, verdadeiros ou falsificados, -apresentava-os logo, n„o ia primeiro dormir com o irm„o! - -VillaÁa baixou lentamente os olhos para o sobrado. Um terror invadia-o -diante d'aquella grande casa, que era o seu orgulho, partida em metade, -empolgada por uma aventureira... Mas como o Ega, muito nervoso, lembrava -que de resto a quest„o n„o era de documentos, nem de legalidade, nem de -fortuna--o procurador teve outro grito, com a face de novo alumiada: - ---Espere, homem, ha outra coisa!... Talvez ella seja filha do italiano! - ---E ent„o?... Vem a dar na mesma. - ---Alto l·! berrou o procurador, batendo com o punho na mesa. N„o tem -direito · legitima do pai, e n„o apanha um real d'esta casa!... Irra, -ahi È que est· o ponto! - -Ega teve um gesto desolado. N„o, nem isso, desgraÁadamente! Esta era a -filha do Pedro da Maia. O Guimar„es conhecia-a de a trazer ao collo, de -lhe dar bonecas quando ella tinha sete annos, e quando apenas havia -quatro ou cinco annos que o italiano estivera em Arroios, de cama, com -uma chumbada... A filha d'esse morrera em Londres, pequenina. - -VillaÁa recahiu no canapÈ, succumbido. - ---Quatrocentos contos, que bolada! - -Ent„o Ega resumiu. Se n„o existia ainda uma certeza legal, havia j· uma -forte suspeita. E desde logo n„o se podia deixar o pobre Carlos, -innocentemente, a chafurdar n'aquella sordidez. Era pois indispensavel -revelar tudo a Carlos n'essa noite... - ---E vocÍ, VillaÁa, È que tem de lh'o dizer. - -VillaÁa deu um salto que fez bater o canapÈ contra a parede. - ---Eu!? - ---VocÍ, que È o procurador da casa! - -Que havia alli, sen„o uma quest„o de filiaÁ„o, portanto de legitima? A -quem pertenciam esses detalhes legaes sen„o ao procurador? - -VillaÁa murmurou com todo o sangue na face: - ---Homem, o amigo mette-me n'uma!... - -N„o. Ega mettia-o apenas n'aquillo em que o VillaÁa, como procurador, -logicamente e profissionalmente devia estar. - -O outro protestou, t„o perturbado que gaguejava. Que diabo! N„o era -esquivar-se aos seus deveres! Mas È que elle n„o sabia nada! Que podia -dizer ao snr. Carlos da Maia? ´O amigo Ega veio-me contar isto, que lhe -contou um tal Guimar„es hontem · noite no Loreto...ª N„o tinha a dizer -mais nada... - ---Pois diga isso. - -O outro encarou Ega com olhos que chammejavam: - ---Diga isso, diga isso... Que diabo, senhor, È necessario ter topete! - -Deu um pux„o desesperado ao collete, foi bufando atÈ ao fundo do -cubiculo, onde esbarrou com o armario. Voltou, tornou a encarar o Ega: - ---N„o se vai a um homem com uma coisa d'essas sem provas... Onde est„o -as provas?... - ---” VillaÁa, desculpe, vocÍ est· obtuso!... A que vim eu aqui sen„o -trazer-lhe as provas, as que ha, boas ou m·s, a historia do Guimar„es, -essa caixa com os papeis da Monforte?... - -VillaÁa, que resmungava, foi examinar a caixa, virando-a nas m„os, -decifrando o mote do sinete _Pro amore_. - ---Ent„o, abrimol-a? - -J· Ega pux·ra uma cadeira para a mesa. VillaÁa cortou o papel, gasto nos -cantos, que envolvia o cofre. E appareceu effectivamente uma velha caixa -de charutos pregada com duas taxas, cheia de papeis, alguns em maÁos -apertados por fitas, outros soltos dentro de sobrescriptos abertos que -tinham o monogramma da Monforte sob uma corÙa de marquez. Ega -desembrulhou o primeiro maÁo. Eram cartas em allem„o, que elle n„o -percebia, datadas de Buda-Pesth e de Carlsruhe. - ---Bem, isto n„o nos diz nada... Adiante! - -Outro embrulho, a que VillaÁa cuidadosamente desapertou o nÛ cÙr de -rosa, resguardava uma caixa oval com a miniatura d'um homem de bigodes e -suissas ruivas, entalado na alta gola dourada d'uma farda branca. -VillaÁa achou a pintura ´lindaª. - ---Algum official austriaco, rosnou Ega. Outro amante... _«a marche_. - -Iam tirando os papeis por ordem, com a ponta dos dedos, como tocando em -reliquias. Um largo enveloppe atulhado de contas de modistas, algumas -pagas, outras sem recibo, interessou profundamente o VillaÁa--que -percorria os _items_, espantado dos preÁos, das infinitas invenÁıes do -luxo. Contas de seis mil francos! Um sÛ vestido, dois mil francos!... -Outro maÁo trouxe uma surpreza. Eram cartas de Maria Eduarda · m„i, -escriptas do convento, n'uma letra redonda e trabalhada como um desenho, -com phrasesinhas cheias de gravidade devota, dictadas decerto pelas boas -Irm„s; e n'estas composiÁıes, virtuosas e frias como themas, o sincero -coraÁ„o da rapariga sÛ transparecia n'alguma florzinha, agora sÍcca, -pregada no alto do papel com um alfinete. - ---Isto pıe-se de parte, murmurou VillaÁa. - -Ent„o Ega, j· impaciente, esvaziou toda a caixa sobre a mesa, alastrou -os papeis. E entre cartas, outras contas, bilhetes de visita, um grande -sobrescripto destacou com esta linha a tinta azul:--_Pertence a minha -filha Maria Eduarda_. Foi VillaÁa que lanÁou os olhos rapidamente · -enorme folha de papel que elle continha, luxuosa e documental, com o -monogramma d'ouro sob a corÙa de marquez. Quando o passou em silencio -para a m„o do Ega parecia suffocado, com todo o sangue nas orelhas. - -Ega leu-o alto, devagar. Dizia:--´Como a Maria teve a pequena e anda -muito fraca, e eu tambem me n„o sinto nada boa com umas pontadas, -parece-me prudente, para o que possa vir a succeder, fazer aqui uma -declaraÁ„o que te pertence a ti, minha querida filha, e que sÛ sabe o -padre Talloux (_Mr. l'abbÈ Talloux, coadjuteur ‡ Saint-Roch_) porque -lh'o disse ha dois annos quando tive a pneumonia. E È o seguinte: -Declaro que minha filha Maria Eduarda, que costuma assignar Maria -Calzaski, por suppÙr ser esse o nome de seu pai, È portugueza e filha de -meu marido Pedro da Maia, de quem me separei voluntariamente, trazendo-a -commigo para Vienna, depois para Paris, e que agora vive em companhia de -Patrick Mac-Gren, em Fontainebleau, com quem vai casar. E o pai de meu -marido era meu sogro Affonso da Maia, viuvo, que vivia em Bemfica e -tambem em Santa Olavia ao pÈ do rio Douro. O que tudo se pÛde verificar -em Lisboa pois devem l· estar os papeis; e os meus erros de que vejo -agora as consequencias n„o devem impedir que tu, minha querida filha, -tenhas a posiÁ„o e fortuna que te pertencem. E por isso aqui declaro -tudo isto que assigno, no caso que o n„o possa fazer diante d'um -tabelli„o, o que tenciono logo que esteja melhor. E de tudo, se eu vier -a morrer, o que Deus n„o permitta, peÁo perd„o a minha filha. E assigno -com o meu nome de casada--_Maria Monforte da Maia_.ª - -Ega ficou a olhar para o VillaÁa. O procurador sÛ pÙde murmurar, com as -m„os cruzadas sobre a mesa: - ---Que bolada! Que bolada! - -Ent„o Ega ergueu-se. Bem! Agora tudo se simplificava. Havia unicamente a -entregar aquelle documento a Carlos, sem commentarios. Mas o VillaÁa -coÁava a cabeÁa, retomado por uma duvida: - ---Eu n„o sei se este papelinho faria fÈ em juizo... - ---Qual fÈ, qual juizo! exclamou Ega violentamente. … o bastante para que -elle n„o torne a dormir com ella!... - -Uma pancada timida na porta do cubiculo fÍl-o estacar, inquieto. -Desandou a chave. Era o escrevente, que segredou atravÈs da frincha: - ---O snr. Carlos da Maia ficou agora l· em baixo no carrinho quando eu -entrei, perguntou pelo snr. VillaÁa. - -Houve um p‚nico! Ega, atarantado, agarr·ra o chapÈo do VillaÁa. O -procurador atirava ·s m„os ambas, para dentro d'uma gaveta, os papeis da -Monforte. - ---… talvez melhor dizer que n„o est·, lembrou o escrevente. - ---Sim, que n„o est·! foi o grito abafado de ambos. - -Ficaram · escuta, ainda pallidos. O dog-cart de Carlos rolou na calÁada; -os dois amigos respiraram. Mas agora Ega arrependia-se de n„o terem -mandado subir Carlos--e alli mesmo, sem outras vacillaÁıes nem -pieguices, corajosamente, contarem-lhe tudo, diante d'aquelles papeis -bem abertos. E estava saltado o barranco! - ---Homem, dizia o VillaÁa passando o lenÁo pela testa, as coisas -querem-se devagar, com methodo. … necessario preparar-se a gente, -respirar para dar bem o mergulho... - -Em todo o caso, concluiu o Ega, eram ociosas mais conversas. Os outros -papeis da caixa perdiam o interesse depois d'aquella confiss„o da -Monforte. SÛ restava que VillaÁa apparecesse · noite no Ramalhete ·s -oito e meia, ou nove horas, antes de Carlos sahir para a rua de S. -Francisco. - ---Mas o amigo ha de l· estar! exclamou o procurador, j· aterrado. - -Ega prometteu. VillaÁa teve um pequeno suspiro. Depois, no patamar, onde -viera acompanhar o outro: - ---Uma d'estas, uma d'estas!... E eu ainda, t„o contente, a jantar no -Ramalhete... - ---E eu, com elles, na rua de S. Francisco!... - ---Emfim, atÈ · noite! - ---AtÈ · noite. - -Ega n„o se atreveu n'esse dia a voltar ao Ramalhete, a jantar diante de -Carlos, a vÍr-lhe a alegria e a paz--sentindo aquella negra desgraÁa que -descia sobre elle · maneira que a noite descia. Foi pedir as sopas ao -marquez, que desde o sarau se conservava em casa, de garganta entrapada. -Depois, ·s oito e meia, quando calculou que VillaÁa devia estar j· no -Ramalhete, deixou o marquez que se enfronh·ra com o capell„o n'uma -partida de damas. - -Aquelle lindo dia, toldado de tarde, find·ra n'uma chuvinha miuda que -transia as ruas. Ega tomou uma tipoia. E parava no Ramalhete, j· -terrivelmente nervoso, quando avistou VillaÁa no portal, de guardachuva -sob o braÁo, arregaÁando as calÁas para sahir. - ---Ent„o? gritou-lhe o Ega. - -VillaÁa abriu o guardachuva, para murmurar debaixo, mas em segredo: - ---N„o foi possivel... Disse que tinha muita pressa, que n„o me podia -ouvir. - -Ega bateu o pÈ, desesperado: - ---Oh homem! - ---Que quer o amigo? Havia de o agarrar · forÁa? Ficou para ·manh„... -Tenho de c· estar ·manh„ ·s onze horas. - -Ega galgou as escadas, rosnando entre dentes: ´Irra! n„o sahimos -d'esta!ª Foi atÈ ao escriptorio de Affonso. Mas n„o entrou. AtravÈs -d'uma fenda larga do reposteiro meio franzido, um canto da sala -apparecia, quente e cheio de conchÍgo, no dÙce tom cÙr de rosa da luz -cahindo sobre os damascos: as cartas esperavam na mesa do whist: no sof· -bordado a matiz D. Diogo, murcho e molle, olhava o lume, cofiando os -bigodes. E, travadas n'alguma quest„o, a voz do Craft, que perpassou de -cachimbo na m„o, e a voz mais lenta de Affonso, tranquillo na sua -poltrona, misturavam-se, abafadas pela do Sequeira, que berrava -furiosamente:--´Mas se ·manh„ houvesse uma bernarda, esse exercito com -que os senhores querem acabar por ser uma escÛla de vadiagem È que lhes -havia de guardar as costas... … bom fallar, ter muita philosophia! Mas -quando ellas chegam, se n„o ha meia duzia de baionetas promptas, ent„o -s„o as cÛlicas!...ª - -Ega foi d'alli aos quartos de Carlos. As velas ardiam ainda nas -serpentinas: um aroma errava de agua de Lubin e charuto: e o Baptista -disse-lhe que o snr. D. Carlos ´sahira havia dez minutosª. FÙra para a -rua de S. Francisco! Ia l· dormir! Ent„o enervado, com a longa e triste -noite diante de si, Ega teve um appetite de se atordoar, dissipar n'uma -excitaÁ„o forte as idÈas que o torturavam. N„o despedira a tipoia, -abalou para S. Carlos. E findou por ir cear ao Augusto com o Taveira e -duas raparigas, a Paca e a Carmen Philosopha, prodigalisando o -champagne. ¡s quatro da manh„ estava bebedo, estatelado sobre o sof·, -gemendo sentimentalmente, sÛ para si, as estrophes de Musset · -Malibran... O Taveira e a Paca, juntinhos na mesma cadeira, elle com o -seu ar terno de chulo, ella _muy caliente_ tambem, debicavam copinhos de -gelatina. E a Carmen Philosopha, empanturrada, desapertada, com o -collete embrulhado j· n'um _Diario de Noticias_, repicava a faca na -borda do prato, cantarolando d'olhos perdidos nos bicos de gaz: - - - SeÒor Alcalde mayor, - No prenda usted los ladrones... - - - - -Acordou ao outro dia ·s nove horas, ao lado da Carmen Philosopha, n'um -quarto de grandes janellas rasgadas por onde entrava toda a melancolia -da escura manh„ de chuva. E, emquanto n„o vinha a tipoia fechada que a -servente correra a chamar, o pobre Ega enojado, vexado, com a lingua -pastosa, os pÈs n˙s sobre o tapete, reunindo o fato espalhado, tinha sÛ -uma idÈa clara--fugir d'alli para um grande banho, bem perfumado e bem -fresco, onde se purificasse d'uma sensaÁ„o viscosa de Carmen e d'orgia -que o arrepiava. - -Esse banho lustral foi tomal-o ao _Hotel Braganza_, para se encontrar -com Carlos e com VillaÁa ·s onze horas j· lavado e preparado. Mas -precisou esperar pela roupa branca que o cocheiro, com um bilhete para o -Baptista, vo·ra a buscar ao Ramalhete: depois almoÁou: e j· batera meio -dia quando se apeou · porta particular dos quartos de Carlos, com a -roupa suja n'uma trouxa. - -Justamente Baptista atravessava o patamar com camelias n'um aÁafate. - ---O VillaÁa j· veio? perguntou-lhe Ega baixo, andando em pontas de pÈs. - ---O snr. VillaÁa j· l· est· dentro ha bocado. V. exc.^a recebeu a roupa -branca?... Eu tambem mandei um fato, porque n'esses casos sempre d· mais -frescura... - ---Obrigado, Baptista, obrigado! - -E Ega pensava:--´Bem, Carlos j· sabe tudo, o barranco est· passado!ª Mas -demorou-se ainda, tirando as luvas e o paletot com uma lentid„o cobarde. -Por fim, sentindo bater alto o coraÁ„o, puxou o reposteiro de velludo. -Na ante-camara pesava um silencio; a chuva grossa fustigava a porta -envidraÁada, por onde se viam as arvores do jardim esfumadas na nevoa. -Ega levantou o outro reposteiro que tinha bordadas as armas dos Maias. - ---Ah! Ès tu? exclamou Carlos, erguendo-se da mesa de trabalho com uns -papeis na m„o. - -Parecia ter conservado um animo viril e firme: apenas os olhos lhe -rebrilhavam, com um fulgor sÍcco, anciosos e mais largos na pallidez que -o cobria. VillaÁa, sentado defronte, passava vagarosamente pela testa, -n'um movimento cansado, o lenÁo de sÍda da India. Sobre a mesa -alastravam-se os papeis da Monforte. - ---Que diabo de embrulhada È esta que me vem contar o VillaÁa? rompeu -Carlos, cruzando os braÁos diante do Ega, n'uma voz que apenas de leve -tremia. - -Ega balbuciou: - ---Eu n„o tive coragem de te dizer... - ---Mas tenho eu para ouvir!... Que diabo te contou esse homem? - -VillaÁa ergueu-se immediatamente. Ergueu-se com a pressa d'um galucho -timido que È rendido n'um posto arriscado, pediu licenÁa, se n„o -precisavam d'elle, para voltar ao escriptorio. Os amigos decerto -preferiam conversar mais livremente. De resto, alli ficavam os papeis da -snr.^a D. Maria Monforte. E se elle fosse necessario um recado -encontrava-o na rua da Prata ou em casa... - ---E v. exc.^a comprehende, acrescentou elle enrolando nas m„os o lenÁo -de sÍda, eu tomei a iniciativa de vir fallar, por ser o meu dever, como -amigo confidencial da casa... Foi essa tambem a opini„o do nosso Ega... - ---Perfeitamente, VillaÁa, obrigado! acudiu Carlos. Se fÙr necessario l· -mando... - -O procurador, com o lenÁo na m„o, lanÁou em redor um olhar lento. Depois -espreitou debaixo da mesa. Parecia muito surprehendido. E Carlos seguia -com impaciencia os passos timidos que elle dava pelo quarto, -procurando... - ---Que È, homem? - ---O meu chapÈo. Imaginei que o tinha posto aqui... Naturalmente ficou l· -fÛra... Bem, se fÙr necessario alguma coisa... - -Mal elle sahiu, atirando ainda os olhos inquietos pelos cantos, Carlos -fechou violentamente o reposteiro. E voltando para o Ega, cahindo -pesadamente n'uma cadeira: - ---Dize l·! - -Ega, sentado no sof·, comeÁou por contar o encontro com o snr. -Guimar„es, em baixo no botequim da Trindade, depois de ter fallado o -Rufino. O homem queria explicaÁıes sobre a carta do Damaso, sobre a -bebedeira hereditaria... Tudo se aclar·ra, ficando d'ahi entre elles um -comeÁo de familiaridade... - -Mas o reposteiro mexeu de leve--e surdiu de novo a face do VillaÁa: - ---PeÁo desculpa, mas È o meu chapÈo... N„o o acho, havia de jurar que o -deixei aqui... - -Carlos conteve uma praga. Ent„o Ega procurou tambem, por traz do sof·, -no v„o da janella. Carlos, desesperado, para findar, foi vÍr entre os -cortinados da cama. E VillaÁa, escarlate, afflicto, esquadrinhava atÈ a -alcova do banho... - ---Um sumiÁo assim! Emfim, talvez me esquecesse na ante-camara!... Vou -vÍr outra vez... O que peÁo È desculpa. - -Os dois ficaram sÛs. E Ega recomeÁou, detalhando como Guimar„es, duas ou -tres vezes nos intervallos, lhe viera fallar de coisas indifferentes, do -sarau, de politica, do pap· Hugo, etc. Depois elle procur·ra Carlos para -irem um bocado ao Gremio. Termin·ra por sahir com o Cruges. E passavam -defronte do AllianÁa... - -Novamente o reposteiro franziu, Baptista pediu perd„o a suas -excellencias: - ---… o snr. VillaÁa que n„o acha o chapÈo, diz que o deixou aqui... - -Carlos ergueu-se furioso, agarrando a cadeira pelas costas como para -despedaÁar o Baptista. - ---Vai para o diabo tu e o snr. VillaÁa!... Que s·ia sem chapÈo! D·-lhe -um chapÈo meu! Irra! - -Baptista recuou, muito grave. - ---V·, acaba l·! exclamou Carlos, recahindo no assento, mais pallido. - -E Ega, miudamente, contou a sua longa, terrivel conversa com o -Guimar„es, desde o momento em que o homem por acaso, j· ao despedir-se, -j· ao estender-lhe a m„o, fall·ra da ´irm„ do Maiaª. Depois -entreg·ra-lhe os papeis da Monforte · porta do _Hotel de Paris_, no -Pelourinho... - ---E aqui est·, n„o sei mais nada. Imagina tu que noite eu passei! Mas -n„o tive coragem de te dizer. Fui ao VillaÁa... Fui ao VillaÁa com a -esperanÁa sobretudo de elle saber algum facto, ter algum documento que -atirasse por terra toda esta historia do Guimar„es... N„o tinha nada, -n„o sabia nada. Ficou t„o aniquilado como eu! - -No curto silencio que cahiu, um chuveiro mais largo, alagando o arvoredo -do jardim, cantou nas vidraÁas. Carlos ergueu-se arrebatadamente, n'uma -revolta de todo o sÍr: - ---E tu acreditas que isso seja possivel? Acreditas que succeda a um -homem como eu, como tu, n'uma rua de Lisboa? Encontro uma mulher, Ûlho -para ella, conheÁo-a, durmo com ella e, entre todas as mulheres do -mundo, essa justamente ha de ser minha irm„! … impossivel... N„o ha -Guimar„es, n„o ha papeis, n„o ha documentos que me convenÁam! - -E como Ega permanecia mudo, a um canto do sof·, com os olhos no ch„o: - ---Dize alguma coisa, gritou-lhe Carlos. DuvÌda tambem, homem, duvÌda -commigo!... … extraordinario! Todos vocÍs acreditam, como se isto fosse -a coisa mais natural do mundo, e n„o houvesse por essa cidade fÛra sen„o -irm„os a dormir juntos! - -Ega murmurou: - ---J· ia succedendo um caso assim, l· ao pÈ da quinta, em Celorico... - -E n'esse momento, sem que um rumor os prevenisse, Affonso da Maia -appareceu n'uma abertura do reposteiro, encostado · bengala, sorrindo -todo com alguma idÈa que decerto o divertia. Era ainda o chapÈo do -VillaÁa. - ---Que diabo fizeram vocÍs ao chapÈo do VillaÁa? O pobre homem andou por -ahi afflicto... Teve de levar um chapÈo meu. Cahia-lhe pela cabeÁa -abaixo, enchumaÁaram-lh'o com lenÁos... - -Mas subitamente reparou na face transtornada do neto. Reparou na -atarantaÁ„o do Ega cujos olhos mal se fixavam, fugindo anciosamente -d'elle para Carlos. Todo o sorriso se lhe apagou, deu no quarto um passo -lento: - ---Que È isso, que tÍm vocÍs?... Ha alguma coisa? - -Ent„o Carlos, no ardente egoismo da sua paix„o, sem pensar no abalo -cruel que ia dar ao pobre velho, cheio sÛ de esperanÁa que elle, seu -avÙ, testemunha do passado, soubesse algum facto, possuisse alguma -certeza contraria a toda essa historia do Guimar„es, a todos esses -papeis da Monforte--veio para elle, desabafou: - ---Ha uma coisa extraordinaria, avÙ! O avÙ talvez saiba... O avÙ deve -saber alguma coisa que nos tire d'esta afflicÁ„o!... Aqui est·, em duas -palavras. Eu conheÁo ahi uma senhora que chegou ha tempos a Lisboa, mora -na rua de S. Francisco. Agora de repente descobre-se que È minha irm„ -legitima!... Passou ahi um homem que a conhecia, que tinha uns papeis... -Os papeis ahi est„o. S„o cartas, uma declaraÁ„o de minha m„e... Emfim -uma trapalhada, um mont„o de provas... Que significa tudo isto? Essa -minha irm„, a que foi levada em pequena, n„o morreu?... O avÙ deve -saber! - -Affonso da Maia, que um tremor tom·ra, agarrou-se um momento com forÁa · -bengala, cahiu por fim pesadamente n'uma poltrona, junto do reposteiro. -E ficou devorando o neto, o Ega, com um olhar esgazeado e mudo. - ---Esse homem, exclamou Carlos, È um Guimar„es, um tio do Damaso... -Fallou com o Ega, foi ao Ega que entregou os papeis... Conta tu ao avÙ, -Ega, conta tu do comeÁo! - -Ega, com um suspiro, resumiu a sua longa historia. E findou por dizer -que o importante, o decisivo alli era este homem, o Guimar„es, que n„o -tinha interesse em mentir e sÛ por acaso, puramente por acaso, fall·ra -em taes coisas--conhecia essa senhora, desde pequenina, como filha de -Pedro da Maia e de Maria Monforte. E nunca a perdera de vista. Vira-a -crescer em Paris, and·ra com ella ao collo, dera-lhe bonecas. Visit·ra-a -com a m„i no convento. Frequent·ra a casa que ella habitava em -Fontainebleau, como casada... - ---Emfim, interrompeu Carlos, viu-a ainda ha dias, n'uma carruagem, -commigo e com o Ega... Que lhe parece, avÙ? - -O velho murmurou, n'um grande esforÁo, como se as palavras sahindo lhe -rasgassem o coraÁ„o: - ---Essa senhora, est· claro, n„o sabe nada... - -Ega e Carlos, a um tempo, gritaram:--´N„o sabe nada!ª Segundo affirmava -o Guimar„es, a m„i escondera-lhe sempre a verdade. Ella julgava-se filha -d'um austriaco. Assignava-se ao principio Calzaski... - -Carlos, que remexera sobre a mesa, adiantou-se com um papel na m„o: - ---Aqui tem o avÙ a declaraÁ„o de minha m„i. - -O velho levou muito tempo a procurar, a tirar a luneta d'entre o collete -com os seus pobres dedos que tremiam; leu o papel devagar, -empallidecendo mais a cada linha, respirando penosamente; ao findar -deixou cahir sobre os joelhos as m„os, que ainda agarravam o papel, -ficou como esmagado e sem forÁa. As palavras por fim vieram-lhe -apagadas, morosas. Elle nada sabia... O que a Monforte alli assegurava, -elle n„o o podia destruir... Essa senhora da rua de S. Francisco era -talvez na verdade sua neta... N„o sabia mais... - -E Carlos diante d'elle vergava os hombros, esmagado tambem sob a certeza -da sua desgraÁa. O avÙ, testemunha do passado, nada sabia! Aquella -declaraÁ„o, toda a historia do Guimar„es ahi permaneciam inteiras, -irrefutaveis. Nada havia, nem memoria de homem, nem documento escripto, -que as pudesse abalar. Maria Eduarda era, pois, sua irm„!... E um -defronte do outro, o velho e o neto pareciam dobrados por uma mesma -dÙr--nascida da mesma idÈa. - -Por fim Affonso ergueu-se, fortemente encostado · bengala, foi pousar -sobre a mesa o papel da Monforte. Deu um olhar, sem lhes tocar, ·s -cartas espalhadas em volta da caixa de charutos. Depois, lentamente, -passando a m„o pela testa: - ---Nada mais sei... Sempre pensamos que essa crianÁa tinha morrido... -Fizeram-se todas as pesquizas... Ella mesma disse que lhe tinha morrido -a filha, mostrou j· n„o sei a quem um retrato... - ---Era outra mais nova, a filha do italiano, disse o Ega. O Guimar„es -fallou-me n'isso... Foi esta que viveu. Esta, que tinha j· sete a oito -annos, quando havia apenas quatro ou cinco que esse sujeito italiano -apparecera em Lisboa... Foi esta. - ---Foi esta, murmurou o velho. - -Teve um gesto vago de resignaÁ„o, acrescentou, depois de respirar -fortemente: - ---Bem! Tudo isto tem de ser mais pensado... Parece-me bom tornar a -chamar o VillaÁa... Talvez seja necessario que elle v· a Paris... E -antes de tudo precisamos socegar... De resto n„o ha aqui morte -d'homem... N„o ha aqui morte d'homem! - -A voz sumia-se-lhe, toda tremula. Estendeu a m„o a Carlos que lh'a -beijou, suffocado; e o velho, puxando o neto para si, pousou-lhe os -labios na testa. Depois deu dois passos para a porta, t„o lentos e -incertos que Ega correu para elle: - ---Tome v. exc.^a o meu braÁo... - -Affonso apoiou-se n'elle, pesadamente. Atravessaram a ante-camara -silenciosa onde a chuva contÌnua batia os vidros. Por traz d'elles cahiu -o grande reposteiro com as armas dos Maias. E ent„o Affonso, de repente, -soltando o braÁo do Ega, murmurou-lhe, junto · face, no desabafo de toda -a sua dÙr: - ---Eu sabia d'essa mulher!... Vive na rua de S. Francisco, passou todo o -ver„o nos Olivaes... … a amante d'elle! - -Ega ainda balbuciou: ´N„o, n„o, snr. Affonso da Maia!ª Mas o velho pÙz o -dedo nos labios, indicou Carlos dentro que podia ouvir... E afastou-se, -todo dobrado sobre a bengala, vencido emfim por aquelle implacavel -destino que depois de o ter ferido na idade de forÁa com a desgraÁa do -filho--o esmagava ao fim da velhice com a desgraÁa do neto. - -Ega enervado, exhausto, voltou para o quarto--onde Carlos recomeÁ·ra -n'aquelle agitado passeio que abalava o soalho, fazia tilintar finamente -os frascos de crystal sobre o marmore da console. Calado, junto da mesa, -Ega ficou percorrendo outros papeis da Monforte--cartas, um livrinho de -marroquim com adresses, bilhetes de visita de membros do Jockey Club e -de senadores do imperio. Subitamente Carlos parou diante d'elle, -apertando desesperadamente as m„os: - ---Estarem duas creaturas em pleno cÈo, passar um quidam, um idiota, um -Guimar„es, dizer duas palavras, entregar uns papeis e quebrar para -sempre duas existencias!... Olha que isto È horrivel, Ega! - -Ega arriscou uma consolaÁ„o banal: - ---Era peor se ella morresse... - ---Peor porque? exclamou Carlos. Se ella morresse, ou eu, acabava o -motivo d'esta paix„o, restava a dÙr e a saudade, era outra coisa... -Assim estamos vivos, mas mortos um para o outro, e viva a paix„o que nos -unia!... Pois tu imaginas que por me virem provar que ella È minha irm„, -eu gÛsto menos d'ella do que gostava hontem, ou gÛsto d'um modo -differente? Est· claro que n„o! O meu amor n„o se vai d'uma hora para a -outra accommodar a novas circumstancias, e transformar-se em amizade... -Nunca! Nem eu quero! - -Era uma brutal revolta--o seu amor defendendo-se, n„o querendo morrer, -sÛ porque as revelaÁıes d'um Guimar„es e uma caixa de charutos cheia de -papeis velhos o declaravam impossivel, e lhe ordenavam que morresse! - -Houve outro melancolico silencio. Ega accendeu uma cigarette, foi-se -enterrar ao canto do sof·. Uma fadiga ia-o vencendo, feita de toda -aquella emoÁ„o, da noitada no Augusto, da estremunhada manh„ na alcova -da Carmen. Todo o quarto ia entristecendo, · luz mais triste da tarde -d'inverno que descia. Ega terminou por cerrar os olhos. Mas bem depressa -o sacudiu outra exclamaÁ„o de Carlos, que de novo, diante d'elle, -apertava as m„os com desespero: - ---E o peor ainda n„o È isto, Ega! O peor È que temos de lhe dizer tudo, -de lhe contar tudo, a ella!... - -Ega j· pens·ra n'isso... E era necessario que se lhe dissesse -immediatamente, sem hesitaÁıes. - ---Vou-lhe eu mesmo contar tudo, murmurou Carlos. - ---Tu!? - ---Pois quem, ent„o? Querias que fosse o VillaÁa?... - -Ega franzia a testa: - ---O que tu devias fazer era metter-te esta noite no comboio, e partir -para Santa Olavia. De l· contavas-lhe tudo. Estavas assim mais seguro. - -Carlos atirou-se para uma poltrona, com um grande suspiro de fadiga: - ---Sim, talvez, ·manh„, no comboio da noite... J· pensei n'isso, era o -melhor... Agora o que estou È muito cansado! - ---Tambem eu, disse o Ega espreguiÁando-se. E j· n„o adiantamos nada, -atolamo-nos mais na confus„o. O melhor È serenar... Eu vou-me estirar um -bocado na cama. - ---AtÈ logo! - -Ega subiu ao quarto, deitou-se por cima da roupa; e no seu immenso -cansaÁo bem depressa adormeceu. Acordou tarde a um rumor da porta. Era -Carlos que entrava, raspando um phosphoro. Anoitecera, em baixo tocava a -campainha para o jantar. - ---Demais a mais esta massada do jantar! dizia Carlos accendendo as velas -no toucador. N„o termos um pretexto para irmos fÛra, a uma taverna, -conversar em socego! Ainda por cima convidei hontem o Steinbroken. - -Depois voltando-se: - ---” Ega, tu achas que o avÙ sabe tudo? - -O outro salt·ra da cama, e diante do lavatorio arregaÁava as mangas: - ---Eu te digo... Parece-me que teu avÙ desconfia... O caso fez-lhe a -impress„o d'uma catastrophe... E, se n„o suspeitasse o que ha, devia-lhe -causar simplesmente a surpreza de quem descobre uma neta perdida. - -Carlos teve um lento suspiro. D'ahi a um instante desciam para o jantar. - -Em baixo encontraram, alÈm de Steinbroken e de D. Diogo--o Craft, que -viera ´pedir as sopasª. E em tÙrno ·quella mesa, sempre alegre, coberta -de flÙres e de luzes, uma melancolia fluctuava n'essa tarde atravÈs -d'uma conversa dormente sobre doenÁas,--o Sequeira que tinha -rheumatismo, o pobre marquez peor·ra. - -De resto Affonso, no escriptorio, queix·ra-se d'uma forte dÙr de cabeÁa, -que justificava o seu ar consumido e _pallido_. Carlos, a quem -Steinbroken ach·ra ´m· caraª, explicou tambem que pass·ra uma noite -abominavel. Ent„o Ega, para desanuviar o jantar, pediu ao amigo -Steinbroken as suas impressıes sobre o grande orador do sarau da -Trindade, o Rufino. O diplomata hesitou. Surprehendera-o bastante saber -que o Rufino era um politico, um parlamentar... Aquelles gestos, o -bocado da camisa a vÍr-se-lhe no estomago, a pera, a grenha, as botas, -n„o lhe pareciam realmente d'um Homem d'Estado: - ---Mais cependant, cependant... Dans ce genre l‡, dans le genre sublime, -dans le genre de DemosthËnes, il m'a paru trËs fort... Oh, il m'a paru -excessivement fort! - ---E vocÍ, Craft? - -Craft, no sarau, sÛ gost·ra do Alencar. Ega encolheu violentamente os -hombros. Ora historias! Nada podia haver mais comico que a Democracia -romantica do Alencar, aquella Republica meiga e loura, vestida de branco -como Ophelia, orando no prado, sob o olhar de Deus... Mas Craft -justamente achava tudo isso excellente por ser sincero. O que feria -sempre nas exhibiÁıes da litteratura portugueza? A escandalosa falta de -sinceridade. Ninguem, em verso ou prosa, parecia j·mais acreditar -n'aquillo que declamava com ardor, esmurrando o peito. E assim fÙra na -vespera. Nem o Rufino parecia acreditar na influencia da religi„o; nem o -homem da barba bicuda no heroismo dos Castros e dos Albuquerques; nem -mesmo o poeta dos olhinhos bonitos na bonitice dos olhinhos... Tudo -contrafeito e postiÁo! Com o Alencar, que differenÁa! Esse tinha uma fÈ -real no que cantava, na Fraternidade dos povos, no Christo republicano, -na Democracia devota e coroada d'estrellas... - ---J· deve ser bem velho esse Alencar, observou D. Diogo que rolava -bolinhas de p„o entre os longos dedos pallidos. - -Carlos, ao lado, emergiu emfim do seu silencio: - ---O Alencar deve ter bons cincoenta annos. - -Ega jurou pelo menos sessenta. J· em 1836 o Alencar publicava coisas -delirantes, e chamava pela morte, no remorso de tantas virgens que -seduzira... - ---Ha que annos, com effeito, murmurou lentamente Affonso, eu ouvi fallar -d'esse homem! - -D. Diogo, que lev·ra os labios ao copo, voltou-se para Carlos: - ---O Alencar tem a idade que havia de ter teu pai... Eram intimos, d'essa -roda _distinguÈe_ d'ent„o. O Alencar ia muito a Arroios com o pobre D. -Jo„o da Cunha, que Deus haja, e com os outros. Era tudo uma fina flÙr, e -regulavam pela mesma idade... J· nada resta, j· nada resta! - -Carlos baix·ra os olhos: todos por acaso emmudeceram: um ar de tristeza -passou entre as flÙres e as luzes como vinda do fundo d'esse passado, -cheio de sepulturas e dÙres. - ---E o pobre Cruges, coitado, que fiasco! exclamou Ega, para sacudir -aquella nevoa. - -Craft achava o fiasco justo. Para que fÙra elle dar Beethoven a uma -gente educada pela chulice de Offenbach? Mas Ega n„o admittia esse -desdem por Offenbach, uma das mais finas manifestaÁıes modernas do -scepticismo e da ironia! Steinbroken accusou Offenbach de n„o saber -contra-ponto. Durante um momento discutiu-se musica. Ega acabou por -sustentar que nada havia em arte t„o bello como o _fado_. E appellou -para Affonso, para o despertar. - ---Pois n„o È verdade, snr. Affonso da Maia? V. exc.^a tambem È como eu, -um dos fieis ao fado, · nossa grande creaÁ„o nacional. - ---Sim, com effeito, murmurou o velho, levando a m„o · testa, como a -justificar o seu modo desinteressado e murcho. Ha muita poesia no -fado... - -Craft porÈm atacava o fado, as _malagueÒas_, as _peteneras_--toda essa -musica meridional, que lhe parecia apenas um garganteado gemebundo, -prolongado infinitamente, em _ais_ de esterilidade e de preguiÁa. Elle, -por exemplo, ouvira uma noite uma _malagueÒa_, uma d'essas famosas -_malagueÒas_, cantada em perfeito estylo por uma senhora de Malaga. Era -em Madrid, em casa dos Villa-Rubia. A senhora pıe-se ao piano, rosna uma -coisa sobre _piedra_ e _sepultura_, e rompe a gemer n'um gemido que n„o -findava--_„-„-„-„-„-ah_... Pois senhores, elle aborrece-se, passa para -outra sala, vÍ jogar todo um robber de whist, folheia um immenso album, -discute a guerra carlista com o general Jovellos, e quando volta, l· -estava ainda a senhora, de cravos na tranÁa e olhos no tecto, a gemer o -mesmo--_„-„-„-„-„-ah!_... - -Todos riram. Ega protestou com impeto, j· excitado. O Craft era um sÍcco -inglez, educado sobre o chato seio da Economia Politica, incapaz de -comprehender todo o mundo de poesia que podia conter um ai! Mas elle n„o -fallava das _malagueÒas_. N„o estava encarregado de defender a Hespanha. -Ella possuia, para convencer o Craft e outros britannicos, bastante -pilheria e bastante navalha... A quest„o era o _fado_! - ---Onde È que vocÍ tem ouvido o fado? Ahi pelas salas, ao piano... Com -effeito assim, concordo, È chÙcho. Mas ouÁa-o vocÍ por tres ou quatro -guitarristas, uma noite, no campo, com uma bella lua no cÈo... Como nos -Olivaes este ver„o, quando o marquez l· levou o _Vira-vira_! Lembras-te, -Carlos?... - -E estacou, como entalado, no arrependimento d'aquella memoria da _Toca_ -que levianamente evoc·ra. Carlos permanecera silencioso, com uma sombra -na face. Craft ainda rosnou que, n'uma linda noite de luar, todos os -sons no campo eram bonitos, mesmo o chiar dos sapos. E de novo uma -estranha desanimaÁ„o amolleceu a sala; os escudeiros serviam os dÙces. - -Ent„o, no silencio, D. Diogo disse pensativamente, com a sua magestade -de le„o saudoso que relembra um grande passado: - ---Uma musica tambem muito _distinguÈe_ antigamente eram os _Sinos do -mosteiro_. Parecia mesmo que se estavam ouvindo os sinos... J· n„o ha -d'isso! - -O jantar terminava friamente. Steinbroken volt·ra ·quella falta da -familia real no sarau, que desde a vespera o inquietava. Ninguem alli se -interessava pelo PaÁo. Depois D. Diogo surdiu com uma velha e fastidiosa -historia sobre a infanta D. Isabel. Foi um allivio quando o escudeiro -trouxe em volta a larga bacia de prata e o jarro d'agua perfumada. - -Ao fim do cafÈ, servido no bilhar, Steinbroken e Craft comeÁaram uma -partida ´·s cincoentaª e a quinze tostıes para interessar. Affonso e D. -Diogo tinham recolhido ao escriptorio. Ega enterr·ra-se no fundo d'uma -poltrona, com o _Figaro_. Mas bem depressa deixou escorregar a folha no -tapete, cerrou os olhos. Ent„o Carlos, que passeava pensativamente -fumando, olhou um momento o Ega adormecido, e sumiu-se por traz do -reposteiro. - - - -Ia · rua de S. Francisco. - -Mas n„o se apressava, a pÈ pelo Aterro, abafado n'um paletot de pelles, -acabando o charuto. A noite clare·ra, com um crescente de lua entre -farrapos de nuvens brancas, que fugiam sob um norte fino. - -FÙra n'essa tarde, sÛ no seu quarto, que Carlos decidira ir fallar a -Maria Eduarda--por um motivo supremo de dignidade e de raz„o, que elle -descobrira e que repetia a si mesmo incessantemente para se justificar. -Nem ella nem elle eram duas crianÁas frouxas, necessitando que a crise -mais temerosa da sua vida lhes fosse resolvida e arranjada pelo Ega ou -pelo VillaÁa: mas duas pessoas fortes, com o animo bastante resoluto, e -o juizo bastante seguro, para elles mesmos acharem o caminho da -dignidade e da raz„o n'aquella catastrophe que lhes desmantelava a -existencia. Por isso elle, sÛ elle, devia ir · rua de S. Francisco. - -Decerto era terrivel tornar a vÍl-a n'aquella sala, quente ainda do seu -amor, agora que a sabia sua irm„... Mas porque n„o? Havia acaso alli -dois devotos, possuidos da preoccupaÁ„o do demonio, espavoridos pelo -peccado em que se tinham atolado ainda que inconscientemente, anciosos -por irem esconder no fundo de mosteiros distantes o horror carnal um do -outro? N„o! Necessitavam elles acaso pÙr immediatamente entre si as -compridas legoas que v„o de Lisboa a Santa Olavia, com receio de cahir -na antiga fragilidade, se de novo os seus olhos se encontrassem -brilhando com a antiga chamma? N„o! Ambos tinham em si bastante forÁa -para enterrar o coraÁ„o sob a raz„o, como sob uma fria e dura pedra, t„o -completamente que n„o lhe sentissem mais nem a revolta nem o chÙro. E -elle podia desafogadamente voltar ·quella sala, toda quente ainda do seu -amor... - -De resto, que precisavam appellar para a raz„o, para a sua coragem de -fortes?... Elle n„o ia revelar bruscamente _toda_ a verdade a Maria -Eduarda, dizer-lhe um ´adeus!ª pathetico, um adeus de theatro, affrontar -uma crise de paix„o e dÙr. Pelo contrario! Toda essa tarde, atravÈs do -seu proprio tormento, procur·ra anciosamente um meio de adoÁar e graduar -·quella pobre creatura o horror da revelaÁ„o que lhe devia. E ach·ra um -por fim, bem complicado, bem cobarde! Mas que! Era o unico, o unico que -por uma preparaÁ„o lenta, caridosa, lhe pouparia uma dÙr fulminante e -brutal. E esse meio justamente sÛ era praticavel indo elle, com toda a -frieza, com todo o animo, · rua de S. Francisco. - -Por isso ia--e ao longo do Aterro, retardando os passos, resumia, -retocava esse plano, ensaiando mesmo comsigo, baixo, palavras que lhe -diria. Entraria na sala, com um grande ar de pressa--e contava-lhe que -um negocio de casa, uma complicaÁ„o de feitores o obrigava a partir para -Santa Olavia d'ahi a dias. E immediatamente sahia, com o pretexto de -correr a casa do procurador. Podia mesmo ajuntar--´È um momento, n„o -tardo, atÈ j·.ª Uma coisa o inquietava. Se ella lhe dÈsse um beijo?... -Decidia ent„o exagerar a sua pressa, conservando o charuto na bÙca, sem -mesmo pousar o chapÈo... E sahia. N„o voltava. Pobre d'ella, coitada, -que ia esperar atÈ tarde, escutando cada rumor de carruagem na rua!... -Na noite seguinte abalava para Santa Olavia com o Ega, deixando-lhe a -ella uma carta a annunciar que infelizmente, por causa d'um telegramma, -se vira forÁado a partir n'esse comboio. Podia mesmo ajuntar--´volto -d'aqui a dois ou tres dias...ª E ahi estava longe d'ella para sempre. De -Santa Olavia escrevia-lhe logo, d'um modo incerto e confuso, fallando de -documentos de familia, inesperadamente descobertos, provando entre elles -um parentesco chegado. Tudo isto atrapalhado, curto, ´· pressaª. Por fim -n'outra carta deixava escapar _toda_ a verdade, mandava-lhe a declaraÁ„o -da m„e; e mostrando a necessidade d'uma separaÁ„o, emquanto se n„o -esclarecessem todas as duvidas, pedia-lhe que partisse para Paris. -VillaÁa ficava encarregado da quest„o de dinheiro, entregando-lhe logo -para a viagem trezentas ou quatrocentas libras... Ah! tudo isto era bem -complicado, bem covarde! Mas sÛ havia esse meio. E quem, sen„o elle, o -podia tentar com caridade e com tacto? - -E, entre o tumulto d'estes pensamentos, de repente achou-se na travessa -da Parreirinha, defronte da casa de Maria. Na sala, atravÈs das -cortinas, transparecia uma luz dormente. Todo o resto estava apagado--a -janella do gabinete estreito onde ella se vestia, a varanda do quarto -d'ella com os vasos de chrysantemos. - -E pouco a pouco aquella fachada muda d'onde apenas sahia, a um canto, -uma claridade languida d'alcova adormecida, foi-o estranhamente -penetrando da inquietaÁ„o e desconfianÁa. Era um medo d'essa penumbra -molle que sentia l· dentro, toda cheia de calor e do perfume em que -havia jasmim. N„o entrou; seguiu devagar pelo passeio fronteiro, -pensando em certos detalhes da casa--o sof· largo e profundo com -almofadas de sÍda, as rendas do toucador, o cortinado branco da cama -d'ella... Depois parou diante da larga barra de claridade que sahia do -port„o do Gremio; e foi para l·, machinalmente attrahido pela -simplicidade e seguranÁa d'aquella entrada, lageada de pedra, com -grossos bicos de gaz, sem penumbras e sem perfumes. - -Na sala, em baixo, ficou percorrendo, sem os comprehender, os -telegrammas soltos sobre a mesa. Um criado passou, elle pediu cognac. -Telles da Gama, que vinha de dentro assobiando, com as m„os nos bolsos -do paletot, deteve-se um momento para lhe perguntar se ia na terÁa-feira -aos Gouvarinhos. - ---Talvez, murmurou Carlos. - ---Ent„o venha!... Eu ando a arrebanhar gente... S„o os annos do Charlie, -de mais a mais. Cae l· o peso do mundo, e ha ceia!... - -O criado entrou com a bandeja--e Carlos, de pÈ junto da mesa, remexendo -o assucar no copo, recordava, sem saber porque, aquella tarde em que a -condessa, pondo-lhe uma rosa no casaco, lhe dera o primeiro beijo; revia -o sof· onde ella cahira com um rumor de sÍdas amarrotadas... Como tudo -isto era j· vago e remoto! - -Apenas acabou o cognac sahiu. Agora, caminhando rente das casas, n„o via -aquella fachada que o perturbava com a sua claridade d'alcova morrendo -nos vidros. O port„o fic·ra cerrado, o gaz ardia no patamar. E subiu, -sentindo mais pela escada de pedra as pancadas do coraÁ„o que o pousar -dos seus passos. Melanie, que veio abrir, disse-lhe que a senhora, um -pouco cansada, se fÙra encostar sobre a roupa;--e a sala, com effeito, -parecia abandonada por essa noite, com as serpentinas apagadas, o -bordado ocioso e enrolado no seu cesto, os livros n'um frio arranjo -orlando a mesa onde o candieiro espalhava uma luz tenue sob o abat-jour -de renda amarella. - -Carlos tirava as luvas, lentamente, retomado de novo por uma inquietaÁ„o -ante aquelle recolhimento adormecido. E de repente Rosa correu de -dentro, rindo, pulando, com os cabellos soltos nos hombros, os braÁos -abertos para elle. Carlos levantou-a ao ar, dizendo como costumava: ´L· -vem a cabrita!...ª - -Mas ent„o, quando a tinha assim suspensa, batendo os -pÈsinhos--atravessou-o a idÈa de que aquella crianÁa era sua sobrinha e -tinha o seu nome!... Largou-a, quasi a deixou cahir--assombrado para -ella, como se pela vez primeira visse essa facesinha eburnea e fina onde -corria o seu sangue... - ---Que est·s tu a olhar para mim? murmurou ella, recuando e sorrindo, com -as m„osinhas cruzadas atraz das saias que tufavam. - -Elle n„o sabia, parecia-lhe outra Rosa: e · sua perturbaÁ„o misturava-se -uma saudade pela antiga Rosa, a outra, a que era filha de Madame -Mac-Gren, a quem elle contava historias de Joanna d'Arc, a quem -balouÁava na _Toca_ sob as acacias em flÙr. Ella no emtanto sorria mais, -com um brilho nos dentinhos miudos, uma ternura nos bellos olhos azues, -vendo-o assim t„o grave e t„o mudo, pensando que elle ia brincar, fazer -´voz de Carlos Magnoª. Tinha o mesmo sorriso da m„i, com a mesma covinha -no queixo. Carlos viu n'ella de repente toda a graÁa de Maria, todo o -encanto de Maria. E arrebatou-a de novo nos braÁos, t„o violentamente, -com beijos t„o bruscos no cabello e nas faces, que Rosa estrebuchou, -assustada e com um grito. Soltou-a logo, n'um receio de n„o ter sido -casto... Depois, muito sÈrio: - ---Onde est· a mam„? - -Rosa coÁava o braÁo, com a testasinha franzida: - ---Apre!... Magoaste-me. - -Carlos passou-lhe pelos cabellos a m„o que ainda tremia. - ---V·, n„o sejas piegas, a mam„ n„o gosta. Onde est· ella? - -A pequena, aplacada, j· contente, pulava em redor, agarrando nos pulsos -de Carlos para que elle saltasse tambem... - ---A mam„ foi deitar-se... Diz que est· muito cansada, depois chama-me a -mim preguiÁosa... V·, salta tambem. N„o sejas mono!... - -N'esse instante, do corredor, miss Sarah chamou: - ---Mademoiselle!... - -Rosa pÙz o dedinho na bÙca cheia de riso: - ---Dize-lhe que n„o estou aqui! A vÍr... Para a fazer zangar!... Dize! - -Miss Sarah erguera o reposteiro; e descobriu-a logo escondida, sumida -por traz de Carlos, na pontinha dos pÈs, fazendo-se pequenina. Teve um -sorriso benevolo, murmurou ´good night, sirª. Depois lembrou que eram -quasi nove e meia, mademoiselle tinha estado um pouco constipada e devia -recolher-se. Ent„o Carlos puxou brandamente pelo braÁo de Rosa, -acariciou-a ainda para que ella obedecesse a miss Sarah. - -Mas Rosa sacudia-o, indignada d'aquella traiÁ„o. - ---Tambem nunca fazes nada!... Semsabor„o! Pois olha, nem te digo adeus! - -Atravessou a sala, amuada, esquivou-se com um repell„o · governante que -sorria e lhe estendia a m„o--e pelo corredor rompeu n'um chÙro -despeitado e pÍrro. Miss Sarah risonhamente desculpou mademoiselle. Era -a constipaÁ„o que a tornava impertinente. Mas se fosse diante da mam„ -n„o fazia aquillo, n„o! - ---Good night, sir. - ---Good night, miss Sarah... - -SÛ, Carlos errou alguns momentos pela sala. Por fim ergueu o pedaÁo de -tapeÁaria que cerrava o estreito gabinete onde Maria se vestia. Ahi, na -escurid„o, um brilho pallido d'espelho tremia, batido por um longo raio -do candieiro da rua. Muito de leve empurrou a porta do quarto. - ---Maria!... Est·s a dormir? - -N„o havia luz; mas o mesmo candieiro da rua, atravÈs do transparente -erguido, tirava das trevas a brancura vaga do cortinado que envolvia o -leito. E foi d'ahi que ella murmurou, mal acordada: - ---Entra! Vim-me deitar, estava muito cansada... Que horas s„o? - -Carlos n„o se movera, ainda com a m„o na porta: - ---… tarde, e eu preciso sahir j· a procurar o VillaÁa ... Vinha dizer-te -que tenho talvez de ir a Santa Olavia, alÈm d'·manh„, por dois ou tres -dias... - -Um movimento, entre os cortinados, fez ranger o leito. - ---Para Santa Olavia?... Ora essa, porque? E assim de repente... -Entra!... Vem c·! - -Ent„o Carlos deu um passo no tapete, sem rumor. Ainda sentia o ranger -molle do leito. E j· todo aquelle aroma d'ella que t„o bem conhecia, -esparso na sombra tepida, o envolvia, lhe entrava n'alma com uma -seducÁ„o inesperada de caricia nova, que o perturbava estranhamente. Mas -ia balbuciando, insistindo na sua pressa de encontrar essa noite o -VillaÁa. - ---… uma massada, por causa d'uns feitores, d'umas aguas... - -Tocou no leito; e sentou-se muito · beira, n'uma fadiga que de repente o -enle·ra, lhe tirava a forÁa para continuar essas invenÁıes d'aguas e de -feitores, como se ellas fossem montanhas de ferro a mover. - -O grande e bello corpo de Maria, embrulhado n'um roup„o branco de sÍda, -movia-se, espreguiÁava-se languidamente sobre o leito brando. - ---Achei-me t„o cansada, depois de jantar, veio-me uma preguiÁa... Mas -ent„o partires assim de repente!... Que sÈcca! D· c· a m„o! - -Elle tenteava, procurando na brancura da roupa: encontrou um joelho a -que percebia a fÛrma e o calor suave, atravÈs da sÍda leve: e alli -esqueceu a m„o, aberta e frouxa, como morta, n'um entorpecimento onde -toda a vontade e toda a consciencia se lhe fundiam, deixando-lhe apenas -a sensaÁ„o d'aquella pelle quente e macia onde a sua palma pousava. Um -suspiro, um pequenino suspiro de crianÁa, fugiu dos labios de Maria, -morreu na sombra. Carlos sentiu a quentura de desejo que vinha d'ella, -que o entontecia, terrivel como o bafo ardente d'um abysmo, escancarado -na terra a seus pÈs. Ainda balbuciou: ´n„o, n„o...ª Mas ella estendeu os -braÁos, envolveu-lhe o pescoÁo, puxando-o para si, n'um murmurio que era -como a continuaÁ„o do suspiro, e em que o nome de _querido_ susurrava e -tremia. Sem resistencia, como um corpo morto que um sopro impelle, elle -cahiu-lhe sobre o seio. Os seus labios seccos acharam-se collados n'um -beijo aberto que os humedecia. E de repente, Carlos enlaÁou-a -furiosamente, esmagando-a e sugando-a, n'uma paix„o e n'um desespero que -fez tremer todo o leito. - - - -A essa hora Ega acordava no bilhar, ainda estirado na poltrona onde o -cansaÁo o prostr·ra. Bocejando, estremunhado, arrastou os passos atÈ ao -escriptorio de Affonso. - -Ahi ardia um lume alegre, a que o reverendo Bonifacio se deixava torrar, -enrolado sobre a pelle d'urso. Affonso fazia a partida de whist com -Steinbroken e com o VillaÁa: mas t„o distrahido, t„o confuso, que j· -duas vezes D. Diogo, infeliz e irritado, rosn·ra que se a dÙr de cabeÁa -assim o estonteava melhor seria findarem! Quando Ega appareceu, o velho -levantou os olhos inquietos: - ---O Carlos? Sahiu?... - ---Sim, creio que sahiu com o Craft, disse o Ega. Tinham fallado em ir -vÍr o marquez. - -VillaÁa, que baralhava com a sua lentid„o meticulosa, deitou tambem para -o Ega um olhar curioso e vivo. Mas j· D. Diogo batia com os dedos no -pano da mesa, resmungando:--´Vamos l·, vamos l·... N„o se ganha nada em -saber dos outros!ª Ent„o Ega ficou alli um momento, com bocejos vagos, -seguindo o cahir lento das cartas. Por fim, molle e seccado, decidiu ir -lÍr para a cama, hesitou por diante das estantes, sahiu com um velho -numero do _Panorama_. - -Ao outro dia, · hora do almoÁo, entrou no quarto de Carlos. E ficou -pasmado quando o Baptista--tristonho desde a vespera, farejando -desgosto--lhe disse que Carlos fÙra para a Tapada, muito cedo, a -cavallo... - ---Ora essa!... E n„o deixou ordens nenhumas, n„o fallou em ir para Santa -Olavia?... - -Baptista olhou Ega, espantado: - ---Para Santa Olavia!... N„o senhor, n„o fallou em semelhante coisa. Mas -deixou uma carta para v. exc.^a vÍr. Creio que È do snr. marquez. E diz -que l· apparecia depois, ·s seis... Acho que È jantar. - -N'um bilhete de visita, o marquez, com effeito, lembrava que esse dia -era ´o seu fausto natalicioª, e esperava Carlos e o Ega ·s seis, para -lhe ajudarem a comer a gallinha de dieta. - ---Bem, l· nos encontraremos, murmurou Ega, descendo para o jardim. - -Aquillo parecia-lhe extraordinario! Carlos passeando a cavallo, Carlos -jantando com o marquez, como se nada houvesse perturbado a sua vida -facil de rapaz feliz!... Estava agora certo de que elle na vespera fÙra -· rua de S. Francisco. Justos cÈos! Que se teria l· passado? Subiu, -ouvindo a sineta do almoÁo. O escudeiro annunciou-lhe que o snr. Affonso -da Maia tom·ra uma chavena de ch· no quarto e ainda estava recolhido. -Todos sumidos! Pela primeira vez no Ramalhete Ega almoÁou solitariamente -na larga mesa, lendo a _Gazeta Illustrada_. - -De tarde, ·s seis, no quarto do marquez (que tinha o pescoÁo enrolado -n'uma _boa_ de senhora de pelle de marta), encontrou Carlos, o Darque, o -Craft, em torno d'um rapaz gordo que tocava guitarra--emquanto ao lado o -procurador do marquez, um bello homem de barba preta, se batia com o -Telles n'uma partida de damas. - ---Viste o avÙ? perguntou Carlos, quando o Ega lhe estendeu a m„o. - ---N„o, almocei sÛ. - -O jantar, d'ahi a pouco, foi muito divertido, largamente regado com os -soberbos vinhos da casa. E ninguem decerto bebeu mais, ninguem riu mais -do que Carlos, resurgido quasi de repente d'uma desanimaÁ„o sombria a -uma alegria nervosa--que incommodava o Ega, sentindo n'ella um timbre -falso e como um som de crystal rachado. O proprio Ega por fim · -sobremesa se excitou consideravelmente com um esplendido Porto de 1815. -Depois houve um _baccarat_ em que Carlos, outra vez sombrio, deitando a -cada instante os olhos ao relogio, teve uma sorte triumphante, uma -´sorte de cabr„oª, como a classificou o Darque, indignado, ao trocar a -sua ultima nota de vinte mil reis. ¡ meia noite porÈm, inexoravelmente, -o procurador do marquez lembrou as ordens do medico que marc·ra esse -limite ´ao natalicioª. Foi ent„o um enfiar de paletots, em debandada, -por entre os queixumes do Darque e do Craft, que sahiam escorridos, sem -sequer um troco para o ´americanoª. Fez-se-lhes uma subscripÁ„o de -caridade, que elles recolheram nos chapÈos, rosnando bÍnÁ„os aos -bemfeitores. - -Na tipoia que os levava ao Ramalhete, Carlos e Ega permaneceram muito -tempo em silencio, cada um enterrado ao seu canto, fumando. Foi j· ao -meio do Aterro que Ega pareceu despertar: - ---E ent„o por fim?... Sempre vaes para Santa Olavia, ou que fazes? - -Carlos mexeu-se no escuro da tipoia. Depois, lentamente, como cheio de -cansaÁo: - ---Talvez v· ·manh„... Ainda n„o disse nada, ainda n„o fiz nada... Decidi -dar-me quarenta e oito horas para acalmar, para reflectir... N„o se pÛde -agora fallar com este barulho das rodas. - -De novo cada um recahiu na sua mudez, ao seu canto. - -Em casa, subindo a escadinha forrada de velludo, Carlos declarou-se -exhausto e com uma intoleravel dÙr de cabeÁa: - ---¡manh„ fallamos, Ega... Boa noite, sim? - ---AtÈ ·manh„. - -Alta noite Ega acordou com uma grande sÍde. Salt·ra da cama, esvazi·ra a -garrafa no toucador, quando julgou sentir por baixo, no quarto de -Carlos, uma porta bater. Escutou. Depois, arrepiado, remergulhou nos -lenÁoes. Mas espert·ra inteiramente, com uma idÈa estranha, insensata, -que o assalt·ra sem motivo, o agitava, lhe fazia palpitar o coraÁ„o no -grande silencio da noite. Ouviu assim dar tres horas. A porta de novo -batera, depois uma janella: era decerto vento que se erguera. N„o podia -porÈm readormecer, ·s voltas, n'um terrivel mal-estar, com aquella idÈa -cravada na imaginaÁ„o que o torturava. Ent„o, desesperado, pulou da -cama, enfiou um paletot, e em pontas de chinelas, com a m„o diante da -luz, desceu surdamente ao quarto de Carlos. Na ante-sala parou, -tremendo, com o ouvido contra o reposteiro, na esperanÁa de perceber -algum calmo rumor de respiraÁ„o. O silencio era pesado e pleno. Ousou -entrar... A cama estava feita e vazia, Carlos sahira. - -Elle ficou a olhar estupidamente para aquella colcha lisa, com a dobra -do lenÁol de renda cuidadosamente entreaberta pelo Baptista. E agora n„o -duvidava. Carlos fÙra findar a noite · rua de S. Francisco!... Estava -l·, dormia l·! E sÛ uma idÈa surgia atravÈs do seu horror--fugir, -safar-se para Celorico, n„o ser testemunha d'aquella incomparavel -infamia!... - -E o dia seguinte, terÁa-feira, foi desolador para o pobre Ega. Vexado, -n'um terror de encontrar Carlos ou Affonso, levantou-se cedo, -esgueirou-se pelas escadas com cautelas de ladr„o, foi almoÁar ao -Tavares. De tarde, na rua do Ouro, viu passar Carlos, que levava no -break o Cruges e o Taveira--arrebanhados certamente para elle se n„o -encontrar sÛ · mesa com o avÙ. Ega jantou melancolicamente no Universal. -SÛ entrou no Ramalhete ·s nove horas, vestir-se para a _soirÈe_ da -Gouvarinho, que pela manh„ no Loreto par·ra a carruagem para lhe lembrar -´que era a festa do Charlieª. E foi j· de paletot, de _claque_ na m„o, -que appareceu emfim na salinha Luiz xv onde Cruges tocava Chopin, e -Carlos se install·ra n'uma partida de bezigue com o Craft. Vinha saber -se os amigos queriam alguma coisa para os nobres condes de Gouvarinho... - ---Diverte-te! - ---SÍ faiscante! - ---Eu l· appareÁo para a ceia! prometteu Taveira, estirado n'uma poltrona -com o _Figaro_. - -Eram duas horas da manh„ quando Ega recolheu da _soirÈe_--onde por fim -se divertira n'uma desesperada flirtaÁ„o com a baroneza d'Alvim, que · -ceia, depois do champagne, vencida por tanta graÁa e tanta audacia, lhe -tinha dado duas rosas. Diante do quarto de Carlos, accendendo a vela, -Ega hesitou, mordido por uma curiosidade... Estaria l·? Mas teve -vergonha d'aquella espionagem, e subiu, bem decidido como na vespera a -fugir para Celorico. No seu quarto, diante do espelho, pÙz -cuidadosamente n'um copo as rosas da Alvim. E comeÁava a despir-se, -quando ouviu passos no negro corredor, passos muito lentos, muito -pesados, que se adiantavam, findaram · sua porta em suspens„o e -silencio. Assustado, gritou: ´Que È l·?ª A porta rangeu. E appareceu -Afonso da Maia, pallido, com um jaquet„o sobre a camisa de dormir, e um -castiÁal onde a vela ia morrendo. N„o entrou. N'uma voz enrouquecida, -que tremia: - ---O Carlos? esteve l·? - -Ega balbuciou, atarantado, em mangas de camisa. N„o sabia... Estivera -apenas um momento nos Gouvarinhos... Era provavel que Carlos tivesse ido -mais tarde com o Taveira, para a ceia. - -O velho cerr·ra os olhos, como se desfallecesse, estendendo a m„o para -se apoiar. Ega correu para elle: - ---N„o se afflija, snr. Affonso da Maia! - ---Que queres ent„o que faÁa? Onde est· elle? L· mettido, com essa -mulher... Escusas de dizer, eu sei, mandei espreitar... Desci a isso, -mas quiz acabar esta angustia... E esteve l· hontem atÈ de manh„, est· -l· a dormir n'este instante... E foi para este horror que Deus me deixou -viver atÈ agora! - -Teve um grande gesto de revolta e de dÙr. De novo os seus passos, mais -pesados, mais lentos, se sumiram no corredor. - -Ega ficou junto da porta, um momento, estarrecido. Depois foi-se -despindo devagar, decidido a dizer a Carlos muito simplesmente, ao outro -dia, antes de partir para Celorico, que a sua infamia estava matando o -avÙ, e o forÁava a elle, seu melhor amigo, a fugir para a n„o -testemunhar por mais tempo. - -Mal acordou, puxou a mala para o meio do quarto, atirou para cima da -cama, ·s braÁadas, a roupa que ia emmalar. E durante meia hora, em -mangas de camisa, lidou n'esta tarefa, misturando aos seus pensamentos -de cÛlera lembranÁas da _sÛirÈe_ da vespera, certos olhares da Alvim, -certas esperanÁas que lhe tornavam saudosa a partida. Um alegre sol -dourava a varanda. Terminou por abrir a vidraÁa, respirar, olhar o bello -azul d'inverno. Lisboa ganhava tanto com aquelle tempo! E j· Celorico, a -quinta, o padre Seraphim, lhe estendiam de longe a sua sombra n'alma. Ao -baixar os olhos viu o dog-cart de Carlos atrellado com a _Tunante_, que -escarvava a calÁada animada pelo ar vivo. Era Carlos decerto que ia -sahir cedo--para n„o se encontrar com elle e com o avÙ! - -N'um receio de o n„o apanhar n'esse dia, desceu correndo. Carlos -aferrolh·ra-se na alcova de banho. Ega chamou, o outro n„o tugiu. Por -fim Ega bateu, gritou atravÈs da porta, sem esconder a sua irritaÁ„o: - ---Tem a bondade d'escutar!... Ent„o partes para Santa Olavia, ou quÍ? - -Depois d'um instante, Carlos lanÁou de l·, entre um rumor d'agua que -cahia: - ---N„o sei... Talvez... Logo te digo... - -O outro n„o se conteve mais: - ---… que se n„o pÙde ficar assim eternamente... Recebi uma carta de minha -m„i... E se n„o partes para Santa Olavia, eu vou para Celorico... … -absurdo! J· estamos n'isto ha tres dias! - -E quasi se arrependia j· da sua violencia, quando a voz de Carlos se -arrastou de dentro, humilde e cansada, n'uma supplica: - ---Por quem Ès, Ega! Tem um bocado de paciencia commigo. Eu logo te -digo... - -N'uma d'aquellas subitas emoÁıes de nervoso, que o sacudiam--os olhos do -Ega humedeceram. Balbuciou logo: - ---Bem, bem! Eu fallei alto por ser atravÈs da porta... N„o ha pressa! - -E fugiu para o quarto, cheio sÛ de compaix„o e ternura, com uma grossa -lagrima nas pestanas. Sentia agora bem a tortura em que o pobre Carlos -se debatera, sob o despotismo d'uma paix„o atÈ ahi legitima, e que n'uma -hora amarga se tornava de repente monstruosa, sem nada perder de seu -encanto e da sua intensidade... Humano e fragil, elle n„o pudera estacar -n'aquelle violento impulso de amor e de desejo que o levava como n'um -vendaval! Cedera, cedera, continu·ra a rolar ·quelles braÁos, que -innocentemente o continuavam a chamar. E ahi andava agora, aterrado, -escorraÁado, fugindo occultamente de casa, passando o dia longe dos -seus, n'uma vadiagem tragica, como um excommungado que receia encontrar -olhos puros onde sinta o horror do seu peccado... E ao lado, o pobre -Affonso, sabendo tudo, morrendo d'aquella dÙr! Podia elle, hospede -querido dos tempos alegres, partir, agora que uma onda de desgraÁa -quebr·ra sobre essa casa, onde o acolhiam affeiÁıes mais largas que na -sua propria? Seria ignobil! Tornou logo a desfazer a mala; e, furioso no -seu egoismo com todas aquellas amarguras que o abalavam, arranjava outra -vez a roupa dentro da commoda, com a mesma cÛlera com que a desmanch·ra, -rosnando: - ---Diabo levem as mulheres, e a vida, e tudo!... - -Quando desceu, j· vestido, Carlos desapparecera! Mas Baptista, -tristonho, carrancudo, certo agora de que havia um grande desgosto, -deteve-o para lhe murmurar: - ---Tinha v. exc.^a raz„o... Partimos ·manh„ para Santa Olavia e levamos -roupa para muito tempo... Este inverno comeÁa mal! - - - -N'essa madrugada, ·s quatro horas, em plena escurid„o, Carlos cerr·ra de -manso o port„o da rua de S. Francisco. E, mais pungente, apoderava-se -d'elle, na frialdade da rua, o medo que j· o roÁ·ra, ao vestir-se na -penumbra do quarto, ao lado de Maria adormecida--o medo de voltar ao -Ramalhete! Era esse medo que j· na vespera o trouxera todo o dia por -fÛra no dog-cart, findando por jantar lugubremente com o Cruges, -escondido n'um gabinete do Augusto. Era medo do avÙ, medo do Ega, medo -do VillaÁa; medo d'aquella sineta do jantar que os chamava, os juntava; -medo do seu quarto, onde a cada momento qualquer d'elles podia erguer o -reposteiro, entrar, cravar os olhos na sua alma e no seu segredo... -Tinha agora a certeza _que elles sabiam tudo_. E mesmo que n'essa noite -fugisse para Santa Olavia, pondo entre si e Maria uma separaÁ„o t„o alta -como o muro d'um claustro, nunca mais do espirito d'aquelles homens, que -eram os seus amigos melhores, sahiria a memoria e a dÙr da infamia em -que elle se despenh·ra. A sua vida moral estava estragada... Ent„o, para -que partiria--abandonando a paix„o, sem que por isso encontrasse a paz? -N„o seria mais logico calcar desesperadamente todas as leis humanas e -divinas, arrebatar para longe Maria na sua innocencia, e para todo o -sempre abysmar-se n'esse crime que se torn·ra a sua sombria partilha na -terra? - -J· assim pens·ra na vespera. J· assim pens·ra... Mas antevira ent„o um -outro horror, um supremo castigo, a esperal-o na solid„o onde se -sepultasse. J· lhe percebera mesmo a aproximaÁ„o; j· n'outra noite -recebera d'elle um arrepio; j· n'essa noite, deitado junto de Maria, que -adormecera cansada, o presentira, apoderando-se d'elle, com um primeiro -frio d'agonia. - -Era, surgindo do fundo do seu sÍr, ainda tenue mas j· perceptivel, uma -saciedade, uma repugnancia por ella desde que a sabia do seu sangue!... -Uma repugnancia material, carnal, · flÙr da pelle, que passava como um -arrepio. FÙra primeiramente aquelle aroma que a envolvia, fluctuava -entre os cortinados, lhe ficava a elle na pelle e no fato, o excitava -tanto outr'ora, o impacientava tanto agora--que ainda na vespera se -encharc·ra em agua de Colonia para o dissipar. FÙra depois aquelle corpo -d'ella, adorado sempre como um marmore ideal, que de repente lhe -apparecera, como era na sua realidade, forte de mais, musculoso, de -grossos membros de Amazona barbara, com todas as bellezas copiosas do -animal de prazer. Nos seus cabellos d'um lustre t„o macio, sentia agora -inesperadamente uma rudeza de juba. Os seus movimentos na cama, ainda -n'essa noite, o tinham assustado como se fossem os de uma fera, lenta e -ciosa, que se estirava para o devorar... Quando os seus braÁos o -enlaÁavam, o esmagavam contra os seus rijos peitos tumidos de seiva, -ainda decerto lhe punham nas veias uma chamma que era toda bestial. Mas, -apenas o ultimo suspiro lhe morria nos labios, ahi comeÁava -insensivelmente a recuar para a borda do colch„o, com um susto estranho: -e immovel, encolhido na roupa, perdido no fundo d'uma infinita tristeza, -esquecia-se pensando n'uma outra vida que podia ter, longe d'alli, n'uma -casa simples, toda aberta ao sol, com sua mulher, legitimamente sua, -flÙr de graÁa domestica, pequenina, timida, pudica, que n„o soltasse -aquelles gritos lascivos, e n„o usasse esse aroma t„o quente! E -desgraÁadamente agora j· n„o duvidava... Se partisse com ella, seria -para bem cedo se debater no indizivel horror de um nojo physico. E que -lhe restaria ent„o, morta a paix„o que fÙra a desculpa do crime, ligado -para sempre a uma mulher que o enojava--e que era... SÛ lhe restava -matar-se! - -Mas, tendo por um sÛ dia dormido com ella, na plena consciencia da -consanguinidade que os separava, poderia recomeÁar a vida -tranquillamente? Ainda que possuisse frieza e forÁa para apagar dentro -em si essa memoria--ella n„o morreria no coraÁ„o do avÙ, e do seu amigo. -Aquelle ascoroso segredo ficaria entre elles, estragando, maculando -tudo. A existencia d'ora ·vante sÛ lhe offerecia intoleravel amargÙr... -Que fazer, santo Deus, que fazer! Ah, se alguem o podesse aconselhar, o -podesse consolar! Quando chegou · porta de casa o seu desejo unico era -atirar-se aos pÈs d'um padre, aos pÈs d'um santo, abrir-lhe as miserias -do seu coraÁ„o, implorar-lhe a doÁura da sua misericordia! Mas ai! onde -havia um santo? - -Defronte do Ramalhete os candieiros ainda ardiam. Abriu de leve a porta. -PÈ ante pÈ, subiu as escadas ensurdecidas pelo velludo cÙr de cereja. No -patamar tacteava, procurava a vela--quando, atravÈs do reposteiro -entreaberto, avistou uma claridade que se movia no fundo do quarto. -Nervoso, recuou, parou no recanto. O clar„o chegava, crescendo: passos -lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete: a luz surgiu--e com ella o -avÙ em mangas de camisa, livido, mudo, grande, espectral. Carlos n„o se -moveu, suffocado; e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, -cheios de horror, cahiram sobre elle, ficaram sobre elle, varando-o atÈ -·s profundidades d'alma, lendo l· o seu segredo. Depois, sem uma -palavra, com a cabeÁa branca a tremer, Affonso atravessou o patamar, -onde a luz sobre o velludo espalhava um tom de sangue:--e os seus passos -perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais -sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida! - -Carlos entrou no quarto ·s escuras, tropeÁou n'um sof·. E alli se deixou -cahir, com a cabeÁa enterrada nos braÁos, sem pensar, sem sentir, vendo -o velho livido passar, repassar diante d'elle como um longo phantasma, -com a luz avermelhada na m„o. Pouco a pouco foi-o tomando um cansaÁo, -uma inercia, uma infinita lassid„o da vontade, onde um desejo apenas -transparecia, se alongava--o desejo de interminavelmente repousar -algures n'uma grande mudez e n'uma grande treva... Assim escorregou ao -pensamento da morte. Ella seria a perfeita cura, o asylo seguro. Porque -n„o iria ao seu encontro? Alguns gr„os de laudano n'essa noite e -penetrava na absoluta paz... - -Ficou muito tempo, embebendo-se n'esta idÈa que lhe dava allivio e -consolo, como se, escorraÁado por uma tormenta ruidosa, visse diante dos -seus passos abrir-se uma porta d'onde sahisse calor e silencio. Um -rumor, o chilrear d'um passaro na janella, fez-lhe sentir o sol e o dia. -Ergueu-se, despiu-se muito devagar, n'uma immensa molleza. E mergulhou -na cama, enterrou a cabeÁa no travesseiro para recahir na doÁura -d'aquella inercia, que era um antegosto da morte, e n„o sentir mais nas -horas que lhe restavam nenhuma luz, nenhuma coisa da terra. - - - -O sol ia alto, um barulho passou, o Baptista rompeu pelo quarto: - ---” snr. D. Carlos, Û meu menino! O avÙ achou-se mal no jardim, n„o d· -accordo!... - -Carlos pulou do leito, enfiando um paletot que agarr·ra. Na ante-camara -a governante, debruÁada no corrim„o, gritava, afflicta:--´Adiante, homem -de Deus, ao pÈ da padaria, o snr. dr. Azevedo!ª E um moÁo que corria, -com que esbarrou no corredor, atirou, sem parar: - ---Ao fundo, ao pÈ da cascata, snr. D. Carlos, na mesa de pedra!... - -Affonso da Maia l· estava, n'esse recanto do quintal, sob os ramos do -cedro, sentado no banco de cortiÁa, tombado por sobre a tosca mesa, com -a face cahida entre os braÁos. O chapÈo desabado rol·ra para o ch„o; nas -costas, com a gola erguida, conservava o seu velho capote azul. Em -volta, nas folhas das camelias, nas aleas areadas, refulgia, cÙr d'ouro, -o sol fino d'inverno. Por entre as conchas da cascata o fio d'agua punha -o seu choro lento. - -Arrebatadamente, Carlos levant·ra-lhe a face, j· rigida, cÙr de cera, -com os olhos cerrados, e um fio de sangue aos cantos da longa barba de -neve. Depois cahiu de joelhos no ch„o humido, sacudia-lhe as m„os, -murmurando:--´” avÙ! Û avÙ!ª--Correu ao tanque, borrifou-o d'agua: - ---Chamem alguem! chamem alguem! - -Outra vez lhe palpava o coraÁ„o... Mas estava morto. Estava morto, j· -frio, aquelle corpo que, mais velho que o seculo, resistira t„o -formidavelmente, como um grande roble, aos annos e aos vendavaes. Alli -morrera solitariamente, j· o sol ia alto, n'aquella tosca mesa de pedra -onde deix·ra pender a cabeÁa cansada. - -Quando Carlos se ergueu, Ega apparecia, esguedelhado, embrulhado no -robe-de-chambre. Carlos abraÁou-se n'elle, tremendo todo, n'um chÙro -despedaÁado. Os criados em redor olhavam, aterrados. E a governante, -como tonta, entre as ruas de roseiras, gemia com as m„os na cabeÁa:--´Ai -o meu rico senhor, ai o meu rico senhor!ª - -Mas o porteiro, esbaforido, chegava com o medico, o dr. Azevedo, que -felizmente encontr·ra na rua. Era um rapaz, apenas sahido da EscÛla, -magrinho e nervoso, com as pontas do bigode muito frisadas. Deu em -redor, atarantadamente, um comprimento aos criados, ao Ega, e a Carlos, -que procurava serenar com a face lavada de lagrimas. Depois, tendo -descalÁado a luva, estudou todo o corpo de Affonso com uma lentid„o, uma -minuciosidade que exagerava, · medida que sentia em volta, mais anciosos -e attentos n'elle, todos aquelles olhos humedecidos. Por fim, diante de -Carlos, passando nervosamente os dedos no bigode, murmurou termos -technicos... De resto, dizia, j· o collega se teria compenetrado de que -tudo infelizmente find·ra. Elle sentia das vÈras da alma o desgosto... -Se para alguma coisa fosse necessario, com o maximo prazer... - ---Muito agradecido a v. exc.^a, balbuciou Carlos. - -Ega, em chinelas, deu alguns passos com o snr. dr. Azevedo, para lhe -indicar a porta do jardim. - -Carlos no emtanto fic·ra defronte do velho, sem chorar, perdido apenas -no espanto d'aquelle brusco fim! Imagens do avÙ, do avÙ vivo e forte, -cachimbando ao canto do fog„o, regando de manh„ as roseiras, -passavam-lhe n'alma, em tropel, deixando-lh'a cada vez mais dorida e -negra... E era ent„o um desejo de findar tambem, encostar-se como elle -·quella mesa de pedra, e sem outro esforÁo, nenhuma outra dÙr da vida, -cahir como elle na sempiterna paz. Uma restea de sol, entre os ramos -grossos do cedro, batia a face morta de Affonso. No silencio os -passaros, um momento espantados, tinham recomeÁado a chalrar. Ega veio a -Carlos, tocou-lhe no braÁo: - ---… necessario leval-o para cima. - -Carlos beijou a m„o fria que pendia. E, devagar, com os beiÁos a tremer, -levantou o avÙ pelos hombros carinhosamente. Baptista correra a ajudar; -Ega, embaraÁado no seu largo roup„o, segurava os pÈs do velho. AtravÈs -do jardim, do terraÁo cheio de sol, do escriptorio onde a sua poltrona -esperava diante do lume accÍso, foram-o transportando n'um silencio sÛ -quebrado pelos passos dos criados, que corriam a abrir as portas, -acudiam quando Carlos, na sua perturbaÁ„o, ou o Ega fraquejavam sob o -peso do grande corpo. A governante j· estava no quarto d'Affonso com uma -colcha de sÍda para estender na singela cama de ferro, sem cortinado. E -alli o depuzeram emfim sobre as ramagens claras bordadas na sÍda azul. - -Ega accendera dois castiÁaes de prata: a governante, de joelhos · beira -do leito, esfiava o rosario: e Mr. Antoine, com o seu barrete branco de -cozinheiro na m„o, fic·ra · porta, junto d'um cesto que trouxera, cheio -de camelias e palmas de estufa. Carlos, no emtanto, movendo-se pelo -quarto, com longos soluÁos que o sacudiam, voltava a cada instante, -n'uma derradeira e absurda esperanÁa, palpar as m„os ou o coraÁ„o do -velho. Com o jaquet„o de velludilho, os seus grossos sapatos brancos, -Affonso parecia mais forte e maior, na sua rigidez, sobre o leito -estreito: entre o cabello de neve cortado · escovinha e a longa barba -desleixada, a pelle ganh·ra um tom de marfim velho, onde as rugas -tomavam a dureza d'entalhaduras a cinzel: as palpebras engelhadas, de -pestanas brancas, pousavam com a consolada serenidade de quem emfim -descanÁa; e ao deitarem-no uma das m„os fic·ra-lhe aberta e posta sobre -o coraÁ„o, na simples e natural attitude de quem tanto pelo coraÁ„o -vivÍra! - -Carlos perdia-se n'esta contemplaÁ„o dolorosa. E o seu desespero era que -o avÙ assim tivesse partido para sempre, sem que entre elles houvesse um -adeus, uma dÙce palavra trocada. Nada! Apenas aquelle olhar angustiado, -quando pass·ra com a vela accÍsa na m„o. J· ent„o elle ia andando para a -morte. O avÙ sabia tudo, d'isso morrera! E esta certeza sem cessar lhe -batia n'alma, com uma longa pancada repetida e lugubre. O avÙ sabia -tudo, d'isso morrera! - -Ega veio com um gesto indicar-lhe o estado em que estavam--elle de -robe-de-chambre, Carlos com o paletot sobre a camisa de dormir: - ---… necessario descer, È necessario vestir-nos. - -Carlos balbuciou: - ---Sim, vamo-nos vestir... - -Mas n„o se arredava. Ega levou-o brandamente pelo braÁo. Elle caminhava -como um somnambulo, passando o lenÁo devagar pela testa e pela barba. E -de repente no corredor, apertando desesperadamente as m„os, outra vez -coberto de lagrimas, n'um agoniado desabafo de toda a sua culpa: - ---Ega, meu querido Ega! O avÙ viu-me esta manh„ quando entrei! E passou, -n„o me disse nada... Sabia tudo, foi isso que o matou!... - -Ega arrastou-o, consolou-o, repellindo tal idÈa. Que tolice! O avÙ tinha -quasi oitenta annos, e uma doenÁa de coraÁ„o... Desde a volta de Santa -Olavia, quantas vezes elles tinham fallado n'isso, aterrados! Era -absurdo ir agora fazer-se mais desgraÁado com semelhante imaginaÁ„o! - -Carlos murmurou, devagar, como para si mesmo, com os olhos postos no -ch„o: - ---N„o! … estranho, n„o me faÁo mais desgraÁado! Aceito isto como um -castigo... Quero que seja um castigo... E sinto-me sÛ muito pequeno, -muito humilde diante de quem assim me castiga. Esta manh„ pensava em -matar-me. E agora n„o! … o meu castigo viver, esmagado para sempre... O -que me custa È que elle n„o me tivesse dito _adeus_!! - -De novo as lagrimas lhe correram, mas lentas, mansamente, sem desespero. -Ega levou-o para o quarto, como uma crianÁa. E assim o deixou a um canto -do sof·, com o lenÁo sobre a face, n'um chÙro contÌnuo e quieto, que lhe -ia lavando, alliviando o coraÁ„o de todas as angustias confusas e sem -nome que n'esses dias derradeiros o traziam suffocado. - -Ao meio dia, em cima, Ega acabava de vestir-se quando VillaÁa lhe rompeu -pelo quarto de braÁos abertos. - ---Ent„o como foi isto, como foi isto? - -Baptista mand·ra-o chamar pelo trintanario, mas o rapazola pouco lhe -soubera contar. Agora em baixo o pobre Carlos abraÁ·ra-o, coitadinho, -lavado em lagrimas, sem poder dizer nada, pedindo-lhe sÛ para se -entender em tudo com o Ega... E alli estava. - ---Mas como foi, como foi, assim de repente?... - -Ega contou, brevemente, como tinham encontrado Affonso de manh„ no -jardim, tombado para cima da mesa de pedra. Viera o dr. Azevedo, mas -tudo acab·ra! - -VillaÁa levou as m„os · cabeÁa: - ---Uma coisa assim! Creia o amigo! Foi essa mulher, essa mulher que ahi -appareceu, que o matou! Nunca foi o mesmo depois d'aquelle abalo! N„o -foi mais nada! Foi isso! - -Ega murmurava, deitando machinalmente agua de Colonia no lenÁo: - ---Sim, talvez, esse abalo, e oitenta annos, e poucas cautelas, e uma -doenÁa de coraÁ„o. - -Fallaram ent„o do enterro, que devia ser simples como convinha ·quelle -homem simples. Para depositar o corpo, emquanto n„o fosse trasladado -para Santa Olavia, Ega lembr·ra-se do jazigo do marquez. - -VillaÁa coÁava o queixo, hesitando: - ---Eu tambem tenho um jazigo. Foi o proprio snr. Affonso da Maia que o -mandou erguer para meu pai, que Deus haja... Ora parece-me que por uns -dias ficava l· perfeitamente. Assim n„o se pedia a ninguem, e eu tinha -n'isso muita honra... - -Ega concordou. Depois fixaram outros detalhes de convite, de hora, de -chave do caix„o. Por fim VillaÁa, olhando o relogio, ergueu-se com um -grande suspiro: - ---Bem, vou dar esses tristes passos! E c· appareÁo logo, que o quero vÍr -pela ultima vez, quando o tiverem vestido. Quem me havia de dizer! Ainda -antes de hontem a jogar com elle... AtÈ lhe ganhei tres mil reis, -coitadinho! - -Uma onda de saudade suffocou-o, fugiu com o lenÁo nos olhos. - -Quando Ega desceu, Carlos, todo de luto, estava sentado · escrivaninha, -diante d'uma folha de papel. Immediatamente ergueu-se, arrojou a penna. - ---N„o posso!... Escreve-lhe tu ahi, a ella, duas palavras. - -Em silencio, Ega tomou a penna, redigiu um bilhete muito curto. Dizia: -´Minha senhora. O snr. Affonso da Maia morreu esta madrugada, de -repente, com uma apoplexia. V. exc.^a comprehende que, n'este momento, -Carlos nada mais pÛde do que pedir-me para eu transmittir a v. exc.^a -esta desgraÁada noticia. Creia-me, etc.ª N„o o leu a Carlos. E como -Baptista entrava n'esse momento, todo de preto, com o almoÁo n'uma -bandeja, Ega pediu-lhe para mandar o trintanario com aquelle bilhete · -rua de S. Francisco. Baptista segredou sobre o hombro do Ega: - ---… bom n„o esquecer as fardas de luto para os criados... - ---O snr. VillaÁa j· sabe. - -Tomaram ch· · pressa em cima do taboleiro. Depois Ega escreveu bilhetes -a D. Diogo e ao Sequeira, os mais velhos amigos d'Affonso: e davam duas -horas quando chegaram os homens com o caix„o para amortalhar o corpo. -Mas Carlos n„o permittiu que m„os mercenarias tocassem no avÙ. Foi elle -e o Ega, ajudados pelo Baptista, que, corajosamente, recalcando a emoÁ„o -sob o dever, o lavaram, o vestiram, o depuzeram dentro do grande cofre -de carvalho, forrado de setim claro, onde Carlos collocou uma miniatura -de sua avÛ Runa. ¡ tarde, com auxilio de VillaÁa, que volt·ra ´para dar -o ultimo olhar ao patr„oª, desceram-no ao escriptorio, que Ega n„o -quizera alterar nem ornar, e que, com os damascos escarlates, as -estantes lavradas, os livros juncando a carteira de pau preto, -conservava a sua feiÁ„o austera de paz estudiosa. SÛmente, para depÙr o -caix„o, tinham juntado duas largas mesas, recobertas por um panno de -velludo negro que havia na casa, com as armas bordadas a ouro. Por cima -o Christo de Rubens abria os braÁos sobre a vermelhid„o do poente. Aos -lados ardiam doze castiÁaes de prata. Largas palmas d'estufa cruzavam-se -· cabeceira do esquife, entre ramos de camelias. E Ega accendeu um pouco -de incenso em dois perfumadores de bronze. - -¡ noite o primeiro dos velhos amigos a apparecer foi D. Diogo, solemne, -de casaca. Encostado ao Ega, aterrado diante do caix„o, sÛ pÙde -murmurar:--´E tinha menos sete mezes que eu!ª O marquez veio j· tarde, -abafado em mantas, trazendo um grande cesto de flÙres. Craft e o Cruges -nada sabiam, tinham-se encontrado na rampa de Santos;--e receberam a -primeira surpreza ao vÍr fechado o port„o do Ramalhete. O ultimo a -chegar foi o Sequeira, que pass·ra o dia na quinta, e se abraÁou em -Carlos, depois no Craft ao acaso, entontecido, com uma lagrima nos olhos -injectados, balbuciando:--´Foi-se o companheiro de muitos annos. Tambem -n„o tardo!...ª - -E a noite de vigilia e pezames comeÁou, lenta e silenciosa. As doze -chammas das velas ardiam, muito altas, n'uma solemnidade funeraria. Os -amigos trocavam algum murmurio abafado, com as cadeiras chegadas. Pouco -a pouco, o calor, o aroma do incenso, a exhalaÁ„o das flÙres forÁaram o -Baptista a abrir uma das janellas do terraÁo. O cÈo estava cheio -d'estrellas. Um vento fino susurrava nas ramagens do jardim. - -J· tarde Sequeira, que n„o se movera d'uma poltrona, com os braÁos -cruzados, teve uma tontura. Ega levou-o · sala de jantar, a -reconfortal-o com um calice de cognac. Havia l· uma ceia fria, com -vinhos e dÙces. E Craft veio tambem--com o Taveira, que soubera a -desgraÁa na redacÁ„o da _Tarde_, e correra quasi sem jantar. Tomando um -pouco de Bordeus, uma _sandwich_, Sequeira reanimava-se, lembrava o -passado, os tempos brilhantes, quando Affonso e elle eram novos. Mas -emmudeceu vendo apparecer Carlos, pallido e vagaroso como um somnambulo, -que balbuciou: ´Tomem alguma coisa, sim, tomem alguma coisa...ª - -Mexeu n'um prato, deu uma volta · mesa, sahiu. Assim vagamente foi atÈ · -ante-camara, onde todos os candelabros ardiam. Uma figura esguia e negra -surgiu da escada. Dois braÁos enlaÁaram-no. Era o Alencar. - ---Nunca vim c· nos dias felizes, aqui estou na hora triste! - -E o poeta seguiu pelo corredor, em pontas de pÈs, como pela nave d'um -templo. - -Carlos no emtanto deu ainda alguns passos pela ante-camara. Ao canto -d'um divan fic·ra um grande cesto com uma corÙa de flÙres, sobre que -pousava uma carta. Reconheceu a letra de Maria. N„o lhe tocou, recolheu -ao escriptorio. Alencar, diante do caix„o, com a m„o pousada no hombro -do Ega, murmurava: ´Foi-se uma alma de heroe!ª - -As velas iam-se consumindo. Um cansaÁo pesava. Baptista fez servir cafÈ -no bilhar. E ahi, apenas recebeu a sua chavena, Alencar, cercado do -Cruges, do Taveira, do VillaÁa, rompeu a fallar tambem do passado, dos -tempos brilhantes d'Arroios, dos rapazes ardentes d'ent„o: - ---Vejam vocÍs, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias, -almas de leıes, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo n'este -desgraÁado paiz!... Foi-se a faisca, foi-se a paix„o... Affonso da Maia! -Parece que o estou a vÍr, · janella do palacio em Bemfica, com a sua -grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora... E -l· vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba, atÈ se me faz a alma -negra! - -Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac. - -Ega, depois de beber um gole de cafÈ, volt·ra ao escriptorio, onde o -cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de capella. D. Diogo, estirado -no sof·, resonava; Sequeira defronte dormitava tambem, descahido sobre -os braÁos cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve. -Os dois velhos amigos, depois d'um abraÁo a Carlos, partiram na mesma -carruagem, com os charutos accÍsos. Os outros, pouco a pouco, iam tambem -abraÁar Carlos, enfiavam os paletots. O ultimo a sahir foi Alencar, que, -no pateo, beijou o Ega, n'um impulso d'emoÁ„o, lamentando ainda o -passado, os companheiros desapparecidos: - ---O que me vale agora s„o vocÍs, rapazes, a gente nova. N„o me deitem · -margem! Sen„o, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao -cemiterio. Adeus, n„o apanhes frio! - -O enterro foi ao outro dia, · uma hora. O Ega, o marquez, o Craft, o -Sequeira levaram o caix„o atÈ · porta, seguidos pelo grupo d'amigos, -onde destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O -conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na m„o uma corÙa de -violetas. Na calÁada estreita os trens apertavam-se, n'uma longa fila -que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as -janellas do bairro se apinhava gente: os policias berravam com os -cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas -carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos vÈos -de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os trens da Companhia -com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a -friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coupÈ. O -correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a -rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o port„o do -Ramalhete. - -Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando -papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava -uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava as -m„os, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o -_fumoir_ onde havia lume. - -Apenas l· entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega: - ---Tens duvida em lhe ir fallar, a ella? - ---N„o. Para que?... Para lhe dizer o que? - ---Tudo. - -Ega rolou uma poltrona para junto da chaminÈ, despertou as brazas. E -Carlos, ao lado, proseguiu devagar, olhando o lume: - ---AlÈm d'isso, desejo que ella parta, que parta j· para Paris... Seria -absurdo ficar em Lisboa... Emquanto se n„o liquidar o que lhe pertence, -ha-de-se-lhe estabelecer uma mezada, uma larga mezada... VillaÁa vem -d'aqui a bocado para fallar d'esses detalhes... Em todo o caso, ·manh„, -para ella partir, levas-lhe quinhentas libras. - -Ega murmurou: - ---Talvez para essas questıes de dinheiro fosse melhor ir l· o VillaÁa... - ---N„o, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer cÛrar a pobre creatura -diante do VillaÁa?... - -Houve um silencio. Ambos olhavam a chamma clara que bailava. - ---Custa-te muito, n„o È verdade, meu pobre Ega?... - ---N„o... ComeÁo a estar embotado. … fechar os olhos, tragar mais essa m· -hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia? - -Carlos n„o sabia. Contava que Ega, terminada essa miss„o · rua de S. -Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com elle a Santa Olavia. Mais -tarde era necessario trasladar para l· o corpo do avÙ... - ---E passado isso, vou viajar... Vou · America, vou ao Jap„o, vou fazer -esta coisa estupida e sempre efficaz que se chama _distrahir_... - -Encolheu os hombros, foi devagar atÈ · janella, onde morria pallidamente -um raio de sol na tarde que clare·ra. Depois voltando para o Ega, que de -novo remexia os carvıes: - ---Eu, est· claro, n„o me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava -bem, mas n„o me atrevo! - -Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braÁos para Carlos, -commovido: - ---Atreve, que diabo... Porque n„o? - ---Ent„o vem! - -Carlos puzera n'isto toda a sua alma. E ao abraÁar o Ega corriam-lhe na -face duas grandes lagrimas. - -Ent„o Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma -romagem · quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar · -m„i algumas letras de credito... E como Carlos pretendia ter ´bastante -para o luxo d'ambosª, Ega atalhou muito sÈrio: - ---N„o, n„o! Minha m„i tambem È rica. Uma viagem · America e ao Jap„o s„o -fÛrmas de educaÁ„o. E a mam„ tem o dever de completar a minha educaÁ„o. -O que acceito, sim, È uma das tuas malas de couro... - -Quando n'essa noite, acompanhados pelo VillaÁa, Carlos e Ega chegaram · -estaÁ„o de Santa Apolonia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de -saltar para o seu compartimento reservado--emquanto o Baptista, abraÁado -·s mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se iÁava desesperadamente -para outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O -trem immediatamente rolou. Carlos debruÁou-se · portinhola, gritando ao -Ega:--´Manda um telegramma ·manh„ a dizer o que houve!ª - -Recolhendo ao Ramalhete com o VillaÁa, que ia n'essa noite colligir e -sellar os papeis de Affonso da Maia, Ega fallou logo nas quinhentas -libras que elle devia entregar na manh„ seguinte a Maria Eduarda. -VillaÁa recebera com effeito essa ordem de Carlos. Mas francamente, -entre amigos, n„o lhe parecia excessiva a somma, para uma jornada? AlÈm -d'isso Carlos fall·ra em estabelecer a essa senhora uma mezada de quatro -mil francos, cento e sessenta libras! N„o achava tambem exagerado? Para -uma mulher, uma simples mulher... - -Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais... - ---Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem -ainda de ser muito estudado. N„o fallemos n'isso. Eu nem gÛsto de fallar -d'isso!... - -Depois como Ega alludia · fortuna que deixava Affonso da Maia--VillaÁa -deu detalhes. Era decerto uma das boas casas de Portugal. SÛ o que viera -da heranÁa de Sebasti„o da Maia, representava bem quinze contos de -renda. As propriedades do Alemtejo, com os trabalhos que l· fizera o pai -d'elle VillaÁa, tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma -despeza. Mas as quintas ao pÈ de Lamego, um condado. - ---Ha muito dinheiro! exclamou elle com satisfaÁ„o, batendo no joelho do -Ega. E isto, amigo, digam l· o que disserem, sempre consola de tudo. - ---Consola de muito, com effeito. - -Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar -feliz e amavel que alli houvera e que para sempre se apag·ra. Na -ante-camara, os seus passos j· lhe pareceram soar tristemente como os -que se d„o n'uma casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso -e de phenol. No lustre do corredor havia uma luz sÛ e dormente. - ---J· anda aqui um ar de ruina, VillaÁa. - ---Ruinasinha bem confortavel, todavia! murmurou o procurador dando um -olhar ·s tapeÁarias e aos divans, e esfregando as m„os, arrepiado da -friagem da noite. - -Entraram no escriptorio de Affonso, onde durante um momento se ficaram -aquecendo ao lume. O relogio Luiz XV bateu finalmente as nove -horas--depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e -morreu. VillaÁa preparou-se para comeÁar a sua tarefa. Ega declarou que -ia para o quarto arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final -de dois annos de mocidade... - -Subiu. E pous·ra apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu ao fundo, -no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d'uma tristeza -infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo arrastava-se, -gemia no escuro, para o lado dos aposentos d'Affonso da Maia. Por fim, -reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de -luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castiÁal na m„o -tremula. - -Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d'Affonso, -arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraÁou-o, -furioso. O pobre Bonifacio fugiu, obeso e lento, com a cauda fÙfa a -roÁar o ch„o: mas voltou logo, e esgatanhando a porta, roÁando-se pelas -pernas do Ega, recomeÁou a miar, n'um lamento agudo, saudoso como o -d'uma dÙr humana, chorando o dono perdido que o acariciava no collo e -que n„o torn·ra a apparecer. - -Ega correu ao escriptorio a pedir ao VillaÁa que dormisse essa noite no -Ramalhete. O procurador accedeu, impressionado com aquelle horror do -gato a chorar. Deix·ra o mont„o de papeis sobre a mesa, volt·ra a -aquecer os pÈs ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se -sent·ra, ainda todo pallido, no sof· bordado a matiz, antigo logar de D. -Diogo, murmurou devagar, gravemente: - ---Ha tres annos, quando o snr. Affonso me encommendou aqui as primeiras -obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes -aos Maias as paredes do Ramalhete. O snr. Affonso da Maia riu d'agouros -e lendas... Pois fataes foram! - - - -No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e -libras que VillaÁa lhe entreg·ra · porta do Banco de Portugal, Ega, com -o coraÁ„o aos pulos, mas decidido a ser forte, a affrontar a crise -serenamente, subia ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos, -de gravata preta, movendo-se em pontas de pÈs, abriu o reposteiro da -sala. E Ega pous·ra apenas sobre o sof· a velha caixa de charutos da -Monforte--quando Maria Eduarda entrou, pallida, toda coberta de negro, -estendendo-lhe as m„os ambas. - ---Ent„o Carlos? - -Ega balbuciou: - ---Como v. exc.^a pÛde imaginar, n'um momento d'estes... Foi horrivel, -assim de surpreza... - -Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ella n„o conhecia o snr. -Affonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas soffria realmente por -sentir bem o soffrimento de Carlos... O que aquelle rapaz estremecia o -avÙ! - ---Foi de repente, n„o? - -Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a corÙa que ella mand·ra. -Contou os gemidos, a afflicÁ„o do pobre Bonifacio... - ---E Carlos? repetiu ella. - ---Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora. - -Ella apertou as m„os, n'uma surpreza que a acabrunhava. Para Santa -Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empallidecia-a -mais, diante d'aquella partida t„o arrebatada, quasi parecida com um -abandono. Terminou por murmurar, com um ar de resignaÁ„o e de confianÁa -que n„o sentia: - ---Sim, com effeito, n'este momento n„o se pensa nos outros... - -Duas lagrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante d'esta dÙr, t„o -humilde e t„o muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os -dedos tremulos no bigode, viu Maria chorar em silencio. Por fim -ergueu-se, foi · janella, voltou, abriu os braÁos diante d'ella n'uma -afflicÁ„o: - ---N„o, n„o È isso, minha querida senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra -coisa! Tem sido para nÛs dias terriveis! Tem sido dias d'angustia... - -Outra coisa!?... Ella esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma -toda suspensa. - -Ega respirou fortemente: - ---V. exc.^a lembra-se d'um Guimar„es, que vive em Paris, um tio do -Damaso? - -Maria, espantada, moveu lentamente a cabeÁa. - ---Esse Guimar„es era muito conhecido da m„i de v. exc.^a, n„o È verdade? - -Ella teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava -ainda, com a face arrepanhada e branca, n'um embaraÁo que o dilacerava: - ---Eu fallo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu... -Deus sabe o que me custa!... E È horrivel, nem sei por onde hei de -comeÁar... - -Ella juntou as m„os, n'uma supplica, n'uma angustia: - ---Pelo amor de Deus! - -E n'esse instante, muito socegadamente, Rosa erguia uma ponta do -reposteiro, com _Niniche_ ao lado e a sua boneca nos braÁos. A m„i teve -um grito impaciente: - ---Vai l· p'ra dentro! deixa-me! - -Assustada, a pequena n„o se moveu mais, com os lindos olhos de repente -cheios de agua. O reposteiro cahiu, do fundo do corredor veio um grande -chÙro magoado. - -Ent„o Ega teve sÛ um desejo, o desesperado desejo de findar. - ---V. exc.^a conhece a letra de sua m„i, n„o È verdade?... Pois bem! Eu -trago aqui uma declaraÁ„o d'ella a seu respeito... Esse Guimar„es È que -tinha este documento, com outros papeis que ella lhe entregou em 71, nas -vesperas da guerra... Elle conservou-os atÈ agora, e queria -restituir-lh'os, mas n„o sabia onde v. exc.^a vivia. Viu-a ha dias n'uma -carruagem, commigo, e com o Carlos... Foi ao pÈ do Aterro, v. exc.^a -deve lembrar-se, defronte do alfaiate, quando vinhamos da _Toca_... Pois -bem! o Guimar„es veio immediatamente ao procurador dos Maias, deu-lhe -esses papeis, para que os entregasse a v. exc.^a... E nas primeiras -palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se entreviu que -v. exc.^a era parenta de Carlos, e parenta muito chegada... - -Atabalho·ra esta historia de pÈ, quasi d'um fÙlego, com bruscos gestos -de nervoso. Ella mal comprehendia, livida, n'um indefinido terror. SÛ -pÙde murmurar muito debilmente: ´Mas...ª E de novo emmudeceu, -assombrada, devorando os movimentos do Ega que, debruÁado sobre o sof·, -desembrulhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por fim voltou -para ella com um papel na m„o, atropellando as palavras n'uma debandada: - ---A m„i de v. exc.^a nunca lh'o disse... Havia um motivo muito grave... -Ella tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim -brutalmente, perdÙe-me v. exc.^a, mas n„o È o momento de attenuar as -coisas... Aqui est·! V. exc.^a conhece a letra de sua m„i. … d'ella esta -letra, n„o È verdade? - ---…! exclamou Maria, indo arrebatar o papel. - ---Perd„o! gritou Ega, retirando-lh'o violentamente. Eu sou um estranho! -E v. exc.^a n„o se pÛde inteirar de tudo isto emquanto eu n„o sahir -d'aqui. - -FÙra uma inspiraÁ„o providencial, que o salvava de testemunhar o choque -terrivel, o horror das coisas que ella ia saber. E insistiu. Deixava-lhe -alli todos os papeis que eram de sua m„i. Ella lerÌa, quando elle -sahisse, comprehenderia a realidade atroz... Depois, tirando do bolso os -dois pesados rÙlos de libras, o sobrescripto que continha a letra sobre -Paris, pÙz tudo em cima da mesa, com a declaraÁ„o da Monforte. - ---Agora sÛ mais duas palavras. Carlos pensa que o que v. exc.^a deve -fazer j· È partir para Paris. V. exc.^a tem direito, como sua filha ha -de ter, a uma parte da fortuna d'esta familia dos Maias, que agora È a -sua... N'este masso que lhe deixo est· uma letra sobre Paris para as -despezas immediatas... O procurador de Carlos tomou j· um wagon-sal„o. -Quando v. exc.^a decidir partir, peÁo-lhe que mande um recado ao -Ramalhete para eu estar na _gare_... Creio que È tudo. E agora devo -deixal-a... - -Agarr·ra rapidamente o chapÈo, veio tomar-lhe a m„o inerte e fria: - ---Tudo È uma fatalidade! V. exc.^a È nova, ainda lhe resta muita coisa -na vida, tem a sua filha a consolal-a de tudo... Nem lhe sei dizer mais -nada! - -Suffocado, beijou-lhe a m„o que ella lhe abandonou, sem consciencia e -sem voz, de pÈ, direita no seu negro luto, com a lividez parada d'um -marmore. E fugiu. - ---Ao telegrapho! gritou em baixo ao cocheiro. - -Foi sÛ na rua do Ouro que comeÁou a serenar, tirando o chapÈo, -respirando largamente. E ia ent„o repetindo a si mesmo todas as -consolaÁıes que se poderiam dar a Maria Eduarda: era nova e formosa; o -seu peccado fÙra inconsciente; o tempo acalma toda a dÙr; e em breve, j· -resignada, encontrar-se-hia com uma familia sÈria, uma larga fortuna, -n'esse amavel Paris, onde uns lindos olhos, com algumas notas de mil -francos, tÍm sempre um reinado seguro... - ---… uma situaÁ„o de viuva bonita e rica, terminou elle por dizer alto no -coupÈ. Ha peor na vida. - -Ao sahir do telegrapho despediu a tipoia. Por aquella luz consoladora do -dia de inverno, recolheu a pÈ para o Ramalhete, a escrever a longa carta -que promettera a Carlos. VillaÁa j· l· estava installado, com um bonÈ de -velludilho na cabeÁa, emmassando ainda os papeis de Affonso, liquidando -as contas dos criados. Jantaram tarde. E fumavam junto do lume, na sala -Luiz XV, quando o escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, n'uma -carruagem, procurava o snr. Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria, -alguma resoluÁ„o desesperada. VillaÁa ainda teve a esperanÁa d'ella -trazer alguma nova revelaÁ„o, que tudo mudasse, salvasse da ´boladaª... -Ega desceu a tremer. Era Melanie n'uma tipoia de praÁa, abafada n'uma -grande _ulster_, com uma carta de Madame. - -¡ luz da lanterna Ega abriu o enveloppe, que trazia apenas um cart„o -branco, com estas palavras a lapis: ´Decidi partir ·manh„ para Paris.ª - -Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo -as escadas: e seguido de VillaÁa, que fic·ra na ante-camara · espreita, -correu ao escriptorio d'Affonso, a escrever a Maria. N'um papel tarjado -de luto dizia-lhe (alÈm de detalhes sobre bagagens)--que o wagon-sal„o -estava tomado atÈ Paris, e que elle teria a honra de a vÍr em Santa -Apolonia. Depois, ao fazer o sobrescripto, ficou com a penna no ar, n'um -embaraÁo. Devia pÙr ´Madame Mac-Grenª ou ´D. Maria Eduarda da Maia?ª -VillaÁa achava preferivel o antigo nome, porque ella legalmente ainda -n„o era Maia. Mas, dizia o Ega atrapalhado, tambem j· n„o era -Mac-Gren... - ---Acabou-se! Vae sem nome. Imagina-se que foi esquecimento... - -Levou assim a carta, dentro do sobrescripto em branco. Melanie guardou-a -no regalo. E, debruÁada · portinhola, entristecendo a voz, desejou -saber, da parte de Madame, onde estava enterrado o avÙ do senhor... - -Ega ficou com o monoculo sobre ella, sem sentir bem se aquella -curiosidade de Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma -indicaÁ„o. Era nos Prazeres, · direita, ao fundo, onde havia um anjo com -uma tocha. O melhor seria perguntar ao guarda pelo jazigo dos snrs. -VillaÁas. - ---Merci, monsieur, bien le bonsoir. - ---Bonsoir, Melanie! - -No dia seguinte, na estaÁ„o de Santa Apolonia, Ega, que viera cedo com o -VillaÁa, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou -Maria que entrava trazendo Rosa pela m„o. Vinha toda envolta n'uma -grande pelliÁa escura, com um vÈo dobrado, espesso como uma mascara: e a -mesma gaze de luto escondia o rostosinho da pequena, fazendo-lhe um laÁo -sobre a touca. Miss Sarah, n'uma _ulster_ clara de quadrados, sobraÁava -um masso de livros. Atraz o Domingos, com os olhos muito vermelhos, -segurava um rÙlo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto que -levava _Niniche_ ao collo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a -pelo braÁo, em silencio, ao wagon-sal„o que tinha todas as cortinas -cerradas. Junto do estribo ella tirou devagar a luva. E muda, -estendeu-lhe a m„o. - ---Ainda nos vemos no Entroncamento, murmurou Ega. Eu sigo tambem para o -Norte. - -Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao vÍr sumir-se n'aquella -carruagem de luxo, fechada, mysteriosa, uma senhora que parecia t„o -bella, d'ar t„o triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a -portinhola, o Neves, o da _Tarde_ e do Tribunal de Contas, rompeu -d'entre um rancho, arrebatou-lhe o braÁo com sofreguid„o: - ---Quem È? - -Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cahir no ouvido, j· -muito adiante, tragicamente: - ---Cleopatra! - -O politico, furioso, ficou rosnando: ´Que asno!...ª Ega abal·ra. Junto -do seu compartimento VillaÁa esperava, ainda deslumbrado com aquella -figura de Maria Eduarda, t„o melancolica e nobre. Nunca a vira antes. E -parecia-lhe uma rainha de romance. - ---Acredite o amigo, fez-me impress„o! Caramba, bella mulher! D·-nos uma -bolada, mas È uma soberba praÁa! - -O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um lenÁo de cÙres -sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda -furioso, vendo o Ega · portinhola, atirou-lhe de lado, disfarÁadamente, -um gesto obsceno. - -No Entroncamento Ega veio bater nos vidros do sal„o que se conservava -fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sarah lia a um -canto, com a cabeÁa n'uma almofada. E _Niniche_ assustada ladrou. - ---Quer tomar alguma coisa, minha senhora? - ---N„o, obrigada... - -Ficaram calados, emquanto Ega com o pÈ no estribo tirava lentamente a -charuteira. Na estaÁ„o mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados -em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a machina -resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do sal„o, com -olhares curiosos e j· languidos para aquella magnifica mulher, t„o grave -e sombria, envolta na sua pelliÁa negra. - ---Vai para o Porto? murmurou ella. - ---Para Santa Olavia... - ---Ah! - -Ent„o Ega balbuciou com os beiÁos a tremer: - ---Adeus! - -Ella apertou-lhe a m„o com muita forÁa, em silencio, suffocada. - -Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a -tiracollo que corriam a beber · cantina. ¡ porta do buffete voltou-se -ainda, ergueu o chapÈo. Ella, de pÈ, moveu de leve o braÁo n'um lento -adeus. E foi assim que elle pela derradeira vez na vida viu Maria -Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, · portinhola d'aquelle -wagon que para sempre a levava. - - - - -VIII - - -Semanas depois, nos primeiros dias d'anno novo, a _Gazeta Illustrada_ -trazia na sua columna do _High-life_ esta noticia: ´ O distincto e -brilhante _sportman_, o snr. Carlos da Maia, e o nosso amigo e -collaborador Jo„o da Ega, partiram hontem para Londres, d'onde seguir„o -em breve para a America do Norte, devendo d'ahi prolongar a sua -interessante viagem atÈ ao Jap„o. Numerosos amigos foram a bordo do -_Tamar_ despedir-se dos sympathicos _touristes_. Vimos entre outros os -snrs, ministro da Filandia e seu secretario, o marquez de Souzella, -conde de Gouvarinho, visconde de Darque, Guilherme Craft, Telles da -Gama, Cruges, Taveira, VillaÁa, general Sequeira, o glorioso poeta -Thomaz d'Alencar, etc. etc. O nosso amigo e collaborador Jo„o da Ega -fez-nos, no ultimo _shake-hands_, a promessa de nos mandar algumas -cartas com as suas impressıes do Jap„o, esse delicioso paiz d'onde nos -vem o sol e a moda! … uma boa nova para todos os que prezam a observaÁ„o -e o espirito. _Au revoir!_ª - -Depois d'estas linhas affectuosas (em que o Alencar collabor·ra) as -primeiras noticias dos ´viajantesª vieram, n'uma carta do Ega para o -VillaÁa, de New-York. Era curta, toda de negocios. Mas elle ajuntava um -_post-scriptum_ com o titulo de _InformaÁıes geraes para os amigos_. -Contava ahi a medonha travessia desde Liverpool, a persistente tristeza -de Carlos, e New-York coberta de neve sob um sol rutilante. E -acrescentava ainda: ´Est·-se apossando de nÛs a embriaguez das viagens, -decididos a trilhar este estreito Universo atÈ que _cancem as nossas -tristezas_. Planeamos ir a Pekin, passar a Grande Muralha, atravessar a -Asia Central, o oasis de Merv, Khiva, e penetrar na Russia; d'ahi, pela -Armenia e pela Syria, descer ao Egypto a retemperar-nos no sagrado Nilo; -subir depois a Athenas, lanÁar sobre a Acropole uma saudaÁ„o a Minerva; -passar a Napoles; dar um olhar a Argelia e a Marrocos; e cahir emfim ao -comprido em Santa Olavia l· para os meados de 79 a descanÁar os membros -fatigados. N„o escrevinho mais porque È tarde, e vamos · Opera vÍr a -Patti no _Barbeiro_. Larga distribuiÁ„o d'abraÁos a todos os amigos -queridosª - -VillaÁa copiou este paragrapho, e trazia-o na carteira para mostrar aos -fieis amigos do Ramalhete. Todos approvaram, com admiraÁ„o, t„o bellas, -aventurosas jornadas. SÛ Cruges, aterrado com aquella vastid„o do -Universo, murmurou tristemente: ´N„o voltam c·!ª - -Mas, passado anno e meio, n'um lindo dia de marÁo, Ega reappareceu no -Chiado. E foi uma sensaÁ„o! Vinha esplendido, mais forte, mais -trigueiro, soberbo de _verve_, n'um alto apuro de toilette, cheio de -historias e de aventuras do Oriente, n„o tolerando nada em arte ou -poesia que n„o fosse do Jap„o ou da China, e annunciando um grande -livro, o ´seu livroª, sob este titulo grave de chronica -heroica--_Jornadas da Asia_. - ---E Carlos?... - ---Magnifico! Installado em Paris, n'um delicioso appartamento dos -Campos-Elyseos, fazendo a vida larga d'um principe artista da -RenascenÁa... - -Ao VillaÁa porÈm, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos fic·ra -ainda _abalado_. Vivia, ria, governava o seu phaeton no Bois--mas l· no -fundo do seu coraÁ„o permanecia, pesada e negra, a memoria da ´semana -terrivelª. - ---Todavia os annos v„o passando, VillaÁa, acrescentou elle. E com os -annos, a n„o ser a China, tudo na terra passa... - -E esse anno passou. Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram, -arvoredos murcharam. Outros annos passaram. - - - -Nos fins de 1886, Carlos veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa -d'um amigo seu de Paris, o marquez de Villa-Medina. E d'essa propriedade -dos Villa-Medina, chamada _La Soledad_, escreveu para Lisboa ao Ega -annunciando que--depois d'um exilio de quasi dez annos, resolvera vir ao -velho Portugal vÍr as arvores de Santa Olavia e as maravilhas da -Avenida. De resto tinha uma formidavel nova, que assombraria o bom Ega: -e se elle j· ardia em curiosidade, que viesse ao seu encontro com o -VillaÁa, comer o porco a Santa Olavia. - ---Vae casar! pensou Ega. - -Havia tres annos (desde a sua ultima estada em Paris) que elle n„o via -Carlos. Infelizmente n„o pÙde correr a Santa Olavia, retido n'um quarto -do _Braganza_ com uma angina, desde uma ceia prodigiosamente divertida -com que celebr·ra no Silva a noite de Reis. VillaÁa, porÈm, levou a -Carlos para Santa Olavia uma carta em que o Ega, contando a sua angina, -lhe supplicava que se n„o retardasse com o porco n'esses penhascos do -Douro, e que voasse · grande Capital a trazer a grande nova. - -Com effeito, Carlos pouco se demorou em Rezende. E n'uma luminosa e -macia manh„ de janeiro de 1887, os dois amigos emfim juntos almoÁavam -n'um sal„o do _Hotel Braganza_, com as duas janellas abertas para o rio. - -Ega, j· curado, radiante, n'uma excitaÁ„o que n„o se calmava, -alagando-se de cafÈ, entalava a cada instante o monoculo para admirar -Carlos e a sua ´immutabilidadeª. - ---Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso È -Paris, menino!... Lisboa arraza. Olha para mim, olha para isto! - -Com o dedo magro apontava os dois vincos fundos ao lado do nariz, na -face chupada. E o que o aterrava sobretudo era a calva, uma calva que -comeÁ·ra havia dois annos, alastr·ra, j· reluzia no alto. - ---Olha este horror! A sciencia para tudo acha um remedio, menos para a -calva! Transformam-se as civilisaÁıes, a calva fica!... J· tem tons de -bola de bilhar, n„o È verdade?... De que ser·? - ---… a ociosidade, lembrou Carlos rindo. - ---A ociosidade!... E tu, ent„o? - -De resto, que podia elle fazer n'este paiz?... Quando volt·ra de FranÁa, -ultimamente, pens·ra em entrar na diplomacia. Para isso sempre tivera a -_blague_: e agora que a mam„, coitada, l· estava no seu grande jazigo em -Celorico, tinha a _massa_. Mas depois reflectira. Por fim, em que -consistia a diplomacia portugueza? N'uma outra fÛrma da ociosidade, -passada no estrangeiro, com o sentimento constante da propria -insignificancia. Antes o Chiado! - -E como Carlos lembrava a Politica, occupaÁ„o dos inuteis, Ega trovejou. -A politica! Isso torn·ra-se moralmente e physicamente nojento, desde que -o negocio atac·ra o constitucionalismo como uma phylloxera! Os politicos -hoje eram bonecos de engonÁos, que faziam gestos e tomavam attitudes -porque dois ou tres financeiros por traz lhes puxavam pelos cordeis... -Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas -qual! Ahi È que estava o horror. N„o tinham feitio, n„o tinham maneiras, -n„o se lavavam, n„o limpavam as unhas... Coisa extraordinaria, que em -paiz algum succedia, nem na Romelia, nem na Bulgaria! Os tres ou quatro -salıes que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem fÙr, largamente, -excluem a maioria dos politicos. E porque? Porque as _senhoras tÍm -nÙjo_! - ---Olha o Gouvarinho! VÍ l· se elle recebe ·s terÁas-feiras os seus -correligionarios... - -Carlos que sorria, encantado com aquella veia acerba do Ega, saltou na -cadeira: - ---… verdade, e a Gouvarinho, a nossa boa Gouvarinho? - -Ega, passeando pela sala, deu as novas dos Gouvarinhos. A condessa -herd·ra uns sessenta contos de uma tia excentrica que vivia a Santa -Isabel, tinha agora melhores carruagens, recebia sempre ·s -terÁas-feiras. Mas soffria uma doenÁa qualquer, grave, no figado ou no -pulm„o. Ainda elegante todavia, muito sÈria, uma terrivel flÙr de -_pruderie_... Elle, o Gouvarinho, ahi continuava, palrador, -escrevinhador, politicote, impertigadote, j· grisalho, duas vezes -ministro, e coberto de gran-cruzes... - ---Tu n„o os viste em Paris, ultimamente? - ---N„o. Quando soube fui-lhes deixar bilhetes, mas tinham partido na -vespera para Vichy... - -A porta abriu-se, um brado cavo resoou: - ---AtÈ que emfim, meu rapaz! - ---Oh Alencar! gritou Carlos, atirando o charuto. - -E foi um infinito abraÁo, com palmadas arrebatadas pelos hombros, e um -beijo ruidoso--o beijo paternal do Alencar, que tremia, commovido. Ega -arrast·ra uma cadeira, berrava pelo escudeiro: - ---Que tomas tu, Thomaz? Cognac? CuraÁ·o? Em todo o caso cafÈ! Mais cafÈ! -Muito forte, para o snr. Alencar! - -O poeta, no emtanto, abysmado na contemplaÁ„o de Carlos, agarr·ra-o -pelas m„os, com um sorriso largo, que lhe descobria os dentes mais -estragados. Achava-o magnifico, var„o soberbo, honra da raÁa... Ah! -Paris, com o seu espirito, a sua vida ardente, conserva... - ---E Lisboa arraza! acudiu Ega. J· c· tive essa phrase. V·, abanca, ahi -tens o cafÈsinho e a bebida! - -Mas Carlos agora tambem contemplava o Alencar. E parecia-lhe mais -bonito, mais poetico, com a sua grenha inspirada e toda branca, e -aquellas rugas fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela -tumultuosa passagem das emoÁıes... - ---Est·s typico, Alencar! Est·s a preceito para a gravura e para a -estatua!... - -O poeta sorria, passando os dedos com complacencia pelos longos bigodes -romanticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarell·ra. Que diabo, -algumas compensaÁıes havia de ter a velhice!... Em todo o caso o -estomago n„o era mau, e conservava-se, caramba, filhos, um bocado de -coraÁ„o. - ---O que n„o impede, meu Carlos, que isto por c· esteja cada vez peor! -Mas acabou-se... A gente queixa-se sempre do seu paiz, È habito humano. -J· Horacio se queixava. E vocÍs, intelligencias superiores, sabeis bem, -filhos, que no tempo de Augusto... Sem fallar, È claro, na quÈda da -republica, n'aquelle desabamento das velhas instituiÁıes... Emfim -deixemos l· os Romanos! Que est· alli n'aquella garrafa? Chablis... N„o -desgosto, no outono, com as ostras. Pois v· l· o Chablis. E · tua -chegada, meu Carlos! e · tua, meu Jo„o, e que Deus vos dÍ as glorias que -mereceis, meus rapazes!... - -Bebeu. Rosnou: ´bom Chablis, _bouquet_ finoª. E acabou por abancar, -ruidosamente, sacudindo para traz a juba branca. - ---Este Thomaz! exclamava Ega, pousando-lhe a m„o no hombro com carinho. -N„o ha outro, È unico! O bom Deus fel-o n'um dia de grande _verve_, e -depois quebrou a fÙrma. - -Ora, historias! murmurava o poeta radiante. Havia-os t„o bons como elle. -A humanidade viera toda do mesmo barro como pretendia a Biblia--ou do -mesmo macaco como affirmava o Darwin... - ---Que, l· essas coisas d'evoluÁ„o, origem das especies, desenvolvimento -da cellula, c· para mim... Est· claro, o Darwin, o Lamarck, o Spencer, o -Claudio Bernard, o LittrÈ, tudo isso, È gente de primeira ordem. Mas -acabou-se, irra! Ha uns poucos de mil annos que o homem prova -sublimemente que tem alma! - ---Toma o cafÈsinho, Thomaz! aconselhou o Ega, empurrando-lhe a chavena. -Toma o cafÈsinho! - ---Obrigado!... E È verdade, Jo„o, l· dei a tua boneca · pequena. ComeÁou -logo a beijal-a, a embalal-a, com aquelle profundo instincto de m„i, -aquelle _quid_ divino... … uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem -m„i, coitadinha, l· a tenho, l· vou tratando de fazer d'ella uma -mulher... Has de vÍl-a. Quero que vocÍs l· v„o jantar um dia, para vos -dar umas perdizes · hespanhola... Tu demoras-te, Carlos? - ---Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da patria. - ---Tens raz„o, meu rapaz! exclamou o poeta, puxando a garrafa do cognac. -Isto ainda n„o È t„o mau como se diz... Olha tu para isso, para esse -cÈo, para esse rio, homem! - ---Com effeito È encantador! - -Todos tres, durante um momento, pasmaram para a incomparavel belleza do -rio, vasto, lustroso, sereno, t„o azul como o cÈo, esplendidamente -coberto de sol. - ---E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta. -Abandonaste a lingua divina? - -Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia j· a lingua divina? O -novo Portugal sÛ comprehendia a lingua da libra, da ´massaª. Agora, -filho, tudo eram syndicatos! - ---Mas ainda ·s vezes me passa uma coisa c· por dentro, o velho homem -estremece... Tu n„o viste nos jornaes?... Est· claro, n„o lÍs c· esses -trapos que por ahi chamam gazetas... Pois veio ahi uma coisita, dedicada -aqui ao Jo„o. Ora eu t'a digo se me lembrar... - -Correu a m„o aberta pela face escaveirada, lanÁou a estrophe n'um tom de -lamento: - - - Luz d'esperanÁa, luz d'amor, - Que vento vos desfolhou? - Que a alma que vos seguia - Nunca mais vos encontrou! - - -Carlos murmurou: ´Lindo!ª Ega murmurou: ´Muito fino!ª E o poeta, -aquecendo, j· commovido, esboÁou um movimento d'aza que foge: - - - Minh'alma em tempos d'outr'ora, - Quando nascia o luar, - Como um rouxinol que acorda - Punha-se logo a cantar. - - Pensamentos eram flÙres, - Que a aragem lenta de Maio... - - ---O snr. Cruges! annunciou o criado, entreabrindo a porta. - -Carlos ergueu os braÁos. E o maestro, todo abotoado n'um paletot claro, -abandonou-se · effus„o de Carlos, balbuciando: - ---Eu sÛ hontem È que soube. Queria-te ir esperar, mas n„o me -acordaram... - ---Ent„o contin˙a o mesmo desleixo? exclamava Carlos, alegremente. Nunca -te acordam? - -Cruges encolhia os hombros, muito vermelho, acanhado, depois d'aquella -longa separaÁ„o. E foi Carlos que o obrigou a sentar-se ao lado, -enternecido com o seu velho maestro, sempre esguio, com o nariz mais -agudo, a grenha cahindo mais crespa sobre a gola do paletot. - ---E deixa-me dar-te os parabens! L· soube pelos jornaes, o triumpho, a -linda opera-comica, a _FlÙr de Sevilha_... - ---_De Granada_! acudiu o maestro. Sim, uma coisita para ahi, n„o -desgostaram. - ---Uma belleza! gritou Alencar, enchendo outro copo de cognac. Uma musica -toda do sul, cheia de luz, cheirando a laranjeira... Mas j· lhe tenho -dito: ´Deixa l· a opereta, rapaz, vÙa mais alto, faze uma grande -symphonia historica!ª Ainda ha dias lhe dei uma idÈa. A partida de D. -Sebasti„o para a Africa. Cantos de marinheiros, atabales, o chÙro do -povo, as ondas batendo... Sublime! Qual, pıe-se-me l· com castanholas... -Emfim, acabou-se, tem muito talento, e È como se fosse meu filho porque -me sujou muita calÁa!... - -Mas o maestro, inquieto, passava os dedos pela grenha. Por fim confessou -a Carlos que n„o se podia demorar, tinha um _rendez-vous_... - ---D'amor? - ---N„o... … o Barradas que me anda a tirar o retrato a oleo. - ---Com a lyra na m„o? - ---N„o, respondeu o maestro, muito sÈrio. Com a batuta... E estou de -casaca. - -E desabotoou o paletot, mostrou-se em todo o seu esplendor, com dois -coraes no peitilho da camisa, e a batuta de marfim mettida na abertura -do collete. - ---Est·s magnifico! affirmou Carlos. Ent„o outra coisa, vem c· jantar -logo. Alencar, tu tambem, hein? Quero ouvir esses bellos versos com -socego... ¡s seis, em ponto, sem falhar. Tenho um jantarinho · -portugueza que encommendei de manh„, com cozido, arroz de forno, gr„o de -bico, etc., para matar saudades... - -Alencar lanÁou um gesto immenso de desdem. Nunca o cozinheiro do -_Braganza_, francelhote miseravel, estaria · altura d'esses nobres -petiscos do velho Portugal. Emfim acabou-se. Seria pontual ·s seis para -uma grande saude ao seu Carlos! - ---VocÍs v„o sahir, rapazes? - -Carlos e Ega iam ao Ramalhete visitar o casar„o. - -O poeta declarou logo que isso era romagem sagrada. Ent„o elle partia -com o maestro. O seu caminho ficava tambem para o lado do Barradas... -MoÁo de talento, esse Barradas!... Um pouco pardo de cÙr, tudo por -acabar, esborratado, mas uma bella ponta de faisca. - ---E teve uma tia, filhos, a Leonor Barradas! Que olhos, que corpo! E n„o -era sÛ o corpo! Era a alma, a poesia, o sacrificio!... J· n„o ha d'isso, -j· l· vai tudo. Emfim, acabou-se, ·s seis! - ---¡s seis, em ponto, sem falhar! - -Alencar e o maestro partiram, depois de se munirem de charutos. E d'ahi -a pouco Carlos e Ega seguiam tambem pela rua do Thesouro Velho, de braÁo -dado, muito lentamente. - -Iam conversando de Paris, de rapazes e de mulheres que o Ega conhecÍra, -havia quatro annos, quando l· pass·ra um t„o alegre inverno nos -appartamentos de Carlos. E a surpreza do Ega, a cada nome evocado, era o -curto brilho, o fim brusco de toda essa mocidade estouvada. A Lucy Gray, -morta. A Conrad, morta... E a Maria Blond? Gorda, emburguezada, casada -com um fabricante de velas de estearina. O polaco, o louro? Fugido, -desapparecido. Mr. de Menant, esse D. Juan? Sub-prefeito no departamento -do Doubs. E o rapaz que morava ao lado, o belga? Arruinado na Bolsa... E -outros ainda, mortos, sumidos, afundados no lodo de Paris! - ---Pois tudo sommado, menino, observou Ega, esta nossa vidinha de Lisboa, -simples, pacata, corredia, È infinitamente preferivel. - -Estavam no Loreto; e Carlos par·ra, olhando, reentrando na intimidade -d'aquelle velho coraÁ„o da capital. Nada mud·ra. A mesma sentinella -somnolenta rondava em torno · estatua triste de Camıes. Os mesmos -reposteiros vermelhos, com brazıes ecclesiasticos, pendiam nas portas -das duas igrejas. O _Hotel Alliance_ conservava o mesmo ar mudo e -deserto. Um lindo sol dourava o lagedo; batedores de chapÈo · faia -fustigavam as pilecas; tres varinas, de canastra · cabeÁa, meneavam os -quadris, fortes e ageis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos -fumavam; e na esquina defronte na Havaneza, fumavam tambem outros -vadios, de sobrecasaca, politicando. - ---Isto È horrivel quando se vem de fÛra! exclamou Carlos. N„o È a -cidade, È a gente. Uma gente feiissima, encardida, mollenga, reles, -amarellada, acabrunhada!... - ---Todavia Lisboa faz differenÁa, affirmou Ega, muito sÈrio. Oh, faz -muita differenÁa! Has de vÍr a Avenida... Antes do Ramalhete vamos dar -uma volta · Avenida. - -Foram descendo o Chiado. Do outro lado os toldos das lojas estendiam no -ch„o uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados ·s -mesmas portas, sujeitos que l· deix·ra havia dez annos, j· assim -encostados, j· assim melancolicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas l· -estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas humbreiras, com -collarinhos · moda. Depois, diante da livraria Bertrand, Ega, rindo, -tocou no braÁo de Carlos: - ---Olha quem alli est·, · porta do Baltresqui! - -Era o Damaso. O Damaso, barrigudo, nedio, mais pesado, de flÙr ao peito, -mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente -embrutecido d'um ruminante farto e feliz. Ao avistar tambem os seus dois -velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar, -refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente, -achou-se em frente de Carlos, com a m„o aberta e um sorriso na bochecha, -que se lhe esbraze·ra. - ---Ol·, por c·!... Que grande surpreza! - -Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo tambem, indifferente e -esquecido. - ---… verdade, Damaso... Como vai isso? - ---Por aqui, n'esta semsaboria... E ent„o com demora? - ---Umas semanas. - ---Est·s no Ramalhete? - ---No _Braganza_. Mas n„o te incommodes, eu ando sempre por fÛra. - ---Pois sim senhor!... Eu tambem estive em Paris, ha tres mezes, no -_Continental_... - ---Ah!... Bem, estimei vÍr-te, atÈ sempre! - ---Adeus, rapazes. Tu est·s bom, Carlos, est·s com boa cara! - ---… dos teus olhos, Damaso. - -E nos olhos do Damaso, com effeito, parecia reviver a antiga admiraÁ„o, -arregalados, acompanhando Carlos, estudando-lhe por traz a sobrecasaca, -o chapÈo, o andar, como no tempo em que o Maia era para elle o typo -supremo do seu querido _chic_, ´uma d'essas coisas que sÛ se vÍem l· -fÛra...ª - ---Sabes que o nosso Damaso casou? disse o Ega um pouco adiante, travando -outra vez do braÁo de Carlos. - -E foi um espanto para Carlos. O quÍ! O nosso Damaso! Casado!?... Sim, -casado com uma filha dos condes d'Agueda, uma gente arruinada, com um -rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o optimo -Damaso, verdadeira sorte grande para aquella distincta familia, pagava -agora os vestidos, das mais velhas. - ---… bonita? - ---Sim, bonitinha... Faz ahi a felicidade d'um rapazote sympathico, -chamado Barroso. - ---O quÍ, o Damaso, coitado!... - ---Sim, coitado, coitadinho, coitadissimo... Mas como vÍs, immensamente -ditoso, atÈ tem engordado com a perfidia! - -Carlos par·ra. Olhava, pasmado para as varandas extraordinarias d'um -primeiro andar, recobertas, como em dia de prociss„o, de sanefas de pano -vermelho onde se entrelaÁavam monogrammas. E ia indagar--quando, d'entre -um grupo que estacionava ao portal d'esse predio festivo, um rapaz d'ar -estouvado, com a face imberbe cheia d'espinhas carnaes, atravessou -rapidamente a rua para gritar ao Ega, suffocado de riso: - ---Se vocÍ for depressa ainda a encontra ahi abaixo! Corra! - ---Quem? - ---A Adosinda!... De vestido azul, com plumas brancas no chapÈo... V· -depressa... O Jo„o Elyseu metteu-lhe a bengala entre as pernas, ia-a -fazendo estatelar no ch„o, foi uma scena... V· depressa, homem! - -Com duas pernadas esguias o rapaz recolheu ao seu rancho--onde todos, j· -calados, com uma curiosidade de provincia, examinavam aquelle homem de -t„o alta elegancia que acompanhava o Ega, e que nenhum conhecia. E Ega, -no emtanto, explicava a Carlos as varandas e o grupo: - ---S„o rapazes do _Turf_. … um club novo, o antigo Jockey da travessa da -Palha. Faz-se l· uma batotinha barata, tudo gente muito sympathica... E -como vÍs est„o sempre assim preparados, com sanefas e tudo, para se -acaso passar por ahi o Senhor dos Passos. - -Depois, descendo para a rua Nova do Almada, contou o caso da Adosinda. -FÙra no Silva, havia duas semanas, estando elle a cear com rapazes -depois de S. Carlos, que lhes apparecera essa mulher inverosimil, -vestida de vermelho, carregando insensatamente nos _rr_, mettendo _rr_ -em todas as palavras, e perguntando pelo snr. _virrsconde_... Qual -_virrsconde_? Ella n„o sabia bem. _Erra um virrsconde que encontrr·rra -no Crrolyseu_. Senta-se, offerecem-lhe champagne, e D. Adosinda comeÁa a -revelar-se um sÍr prodigioso. Fallavam de politica, do ministerio e do -_deficit_. D. Adosinda declara logo que conhece muito bem o _deficit_, e -que È um bello rapaz... O _deficit_ bello rapaz--immensa gargalhada! D. -Adosinda zanga-se, exclama que j· fÙra com elle a Cintra, que È um -perfeito cavalheiro, e empregado no Banco Inglez... O _deficit_ -empregado no Banco Inglez--gritos, uivos, urros! E n„o cessou esta -gargalhada contÌnua, estrondosa, phrenetica, atÈ ·s cinco da manh„ em -que D. Adosinda fÙra rifada e sahira ao Telles!... Noite soberba! - ---Com effeito, disse Carlos rindo, È uma orgia grandiosa, lembra -Heliogabalo e o Conde d'Orsay... - -Ent„o Ega defendeu calorosamente a sua orgia. Onde havia melhor, na -Europa, em qualquer civilisaÁ„o? Sempre queria vÍr que se passasse uma -noite mais alegre em Paris, na desoladora banalidade do _Grand-Treize_, -ou em Londres, n'aquella correcta e massuda semsaboria do _Bristol_! O -que ainda tornava a vida toleravel era de vez em quando uma boa risada. -Ora na Europa o homem requintado j· n„o ri,--sorri regeladamente, -lividamente. SÛ nÛs aqui, n'este canto do mundo barbaro, conservamos -ainda esse dom supremo, essa coisa bemdita e consoladora--a barrigada de -riso!... - ---Que diabo est·s tu a olhar? - -Era o consultorio, o antigo consultorio de Carlos--onde agora, pela -taboleta, parecia existir um pequeno _atelier_ de modista. Ent„o -bruscamente os dois amigos recahiram nas recordaÁıes do passado. Que -estupidas horas Carlos alli arrast·ra, com a _Revista dos Dois Mundos_, -na espera v„ dos doentes, cheio ainda de fÈ nas alegrias do trabalho!... -E a manh„ em que o Ega l· apparecera com a sua esplendida pelliÁa, -preparando-se para transformar, n'um sÛ inverno, todo o velho e -rotineiro Portugal! - ---Em que tudo ficou! - ---Em que tudo ficou! Mas rimos bastante! Lembras-te d'aquella noite em -que o pobre marquez queria levar ao consultorio a Paca, para utilisar -emfim o divan, movel de serralho?... - -Carlos teve uma exclamaÁ„o de saudade. Pobre marquez! FÙra uma das suas -fortes impressıes, n'esses ultimos annos--aquella morte do marquez, -sabida de repente ao almoÁo, n'uma banal noticia de jornal!... E atravÈs -do Rocio, andando mais devagar, recordavam outros desapparecimentos: a -D. Maria da Cunha, coitada, que acabara hydropica; o D. Diogo, casado -por fim com a cozinheira; o bom Sequeira, morto uma noite n'uma tipoia -ao sahir dos cavallinhos... - ---E outra coisa, perguntou Ega. Tens visto o Craft em Londres? - ---Tenho, disse Carlos. Arranjou uma casa muito bonita ao pÈ de -Richmond... Mas est· muito avelhado, queixa-se muito do figado. E, -desgraÁadamente, carrega de mais nos alcools. … uma pena! - -Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moÁo, contou o Ega, tinha -agora por cima mais dez annos de Secretaria e de Chiado. Mas sempre -apurado, j· um bocado grisalho, mettido continuamente com alguma -hespanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e murmurando todas as -tardes na Havaneza, com um ar dÙce e contente--´isto È um paiz perdidoª! -Enfim um bom typosinho de lisboeta fino. - ---E a besta do Steinbroken? - ---Ministro em Athenas, exclamou Carlos, entre as ruinas classicas! - -E esta idÈa do Steinbroken, na velha Grecia, divertiu-os infinitamente. -Ega imaginava j· o bom Steinbroken, tÍso nos seus altos collarinhos, -affirmando a respeito de Socrates, com prudencia: ´Oh, il est trËs fort, -il est excessivement fort!ª Ou ainda, a proposito da batalha das -Thermopylas, rosnando, com medo de se comprometter: ´C'est trËs grave, -c'est excessivement grave!ª Valia a pena ir · Grecia para vÍr! - -Subitamente Ega parou: - ---Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?... J· n„o È mau! - -N'um claro espaÁo rasgado, onde Carlos deix·ra o Passeio Publico pacato -e frondoso--um obelisco, com borrıes de bronze no pedestal, erguia um -traÁo cÙr d'assucar na vibraÁ„o fina da luz de inverno: e os largos -globos dos candieiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, -transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sab„o suspensas no ar. -Dos dois lados seguiam, em alturas desiguaes, os pesados predios, lisos -e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde -negrejavam piteiras de zinco, e pateos de pedra, quadrilhados a branco e -preto, onde guarda-portıes chupavam o cigarro: e aquelles dois hirtos -renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as familias que outr'ora -se immobilisavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa -´da umaª, ouvindo a Banda, com casimiras e sÍdas, no catitismo -domingueiro. Todo o lagedo reluzia como cal nova. Aqui e alÈm um arbusto -encolhia na aragem a sua folhagem pallida e rara. E ao fundo a collina -verde, salpicada d'arvores, os terrenos de Valle de Pereiro, punham um -brusco remate campestre ·quelle curto rompante de luxo barato--que -partira para transformar a velha cidade, e estac·ra logo, com o fÙlego -curto, entre montıes de cascalho. - -Mas um ar lavado e largo circulava; o sol dourava a caliÁa; a divina -serenidade do azul sem igual tudo cobria e adoÁava. E os dois amigos -sentaram-se n'um banco, junto de uma verdura que orlava a agua d'um -tanque esverdinhada e molle. - -Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flÙres na -lapella, a calÁa apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. -Era toda uma geraÁ„o nova e miuda que Carlos n„o conhecia. Por vezes Ega -murmurava um _Ûl·!_, acenava com a bengala. E elles iam, repassavam, com -um arzinho timido e contrafeito, como mal acostumados ·quelle vasto -espaÁo, a tanta luz, ao seu proprio _chic_. Carlos pasmava. Que faziam -alli, ·s horas de trabalho, aquelles moÁos tristes, de calÁa esguia? N„o -havia mulheres. Apenas n'um banco adiante uma creatura adoentada, de -lenÁo e chale, tomava o sol; e duas matronas, com vidrilhos no -mantelete, donas de casa de hospedes, arejavam um c„osinho felpudo. O -que attrahia pois alli aquella mocidade pallida? E o que sobretudo o -espantava eram as botas d'esses cavalheiros, botas despropositadamente -compridas, rompendo para fÛra da calÁa collante com pontas aguÁadas e -reviradas como prÙas de barcos varinos... - ---Isto È phantastico, Ega! - -Ega esfregava as m„os. Sim, mas precioso! Porque essa simples fÙrma de -botas explicava todo o Portugal contemporaneo. Via-se por alli como a -coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, · D. Jo„o VI, que t„o -bem lhe ficava, este desgraÁado Portugal decidira arranjar-se · moderna: -mas sem originalidade, sem forÁa, sem caracter para crear um feitio seu, -um feitio proprio, manda vir modelos do estrangeiro--modelos d'idÈas, de -calÁas, de costumes, de leis, d'arte, de cozinha... SÛmente, como lhe -falta o sentimento da proporÁ„o, e ao mesmo tempo o domina a impaciencia -de parecer muito moderno e muito civilisado--exagera o modelo, -deforma-o, estraga-o atÈ · caricatura. O figurino da bota que veio de -fÛra era levemente estreito na ponta;--immediatamente o janota estica-o -e aguÁa-o atÈ ao bico d'alfinete. Por seu lado o escriptor lÍ uma pagina -de Goncourt ou de Verlaine em estylo precioso e -cinzelado;--immediatamente retorce, emmaranha, desengonÁa a sua pobre -phrase atÈ descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o -legislador ouve dizer que l· fÛra se levanta o nivel da -instrucÁ„o;--immediatamente pıe no programma dos exames de primeiras -letras a metaphysica, a astronomia, a philologia, a egyptologia, a -chresmatica, a critica das religiıes comparadas, e outros infinitos -terrores. E tudo por ahi adiante assim, em todas as classes e -profissıes, desde o orador atÈ ao photographo, desde o jurisconsulto atÈ -ao _sportman_... … o que succede com os pretos j· corrompidos de S. -ThomÈ, que vÍem os europeus de lunetas--e imaginam que n'isso consiste -ser civilisado e ser branco. Que fazem ent„o? Na sua sofreguid„o de -progresso e de brancura acavallam no nariz tres ou quatro lunetas, -claras, defumadas, atÈ de cÙr. E assim andam pela cidade, de tanga, de -nariz no ar, aos tropeÁıes, no desesperado e angustioso esforÁo de -equilibrarem todos estes vidros--para serem immensamente civilisados e -immensamente brancos... - -Carlos ria: - ---De modo que isto est· cada vez peor... - ---Medonho! … d'um reles, d'um postiÁo! Sobretudo postiÁo! J· n„o ha nada -genuino n'este miseravel paiz, nem mesmo o p„o que comemos! - -Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, n'um gesto lento: - ---Resta aquillo, que È genuino... - -E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da GraÁa e da Penha, -com o seu casario escorregando pelas encostas resequidas e tisnadas do -sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as -atarracadas vivendas ecclesiasticas, lembrando o frade pingue e -pachorrento, beatas de mantilha, tardes de prociss„o, irmandades d'opa -atulhando os adros, herva dÙce juncando as ruas, tremoÁo e fava-rica -apregoada ·s esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto -ainda, recortando no radiante azul a miseria da sua muralha, era o -castello, sordido e tarimbeiro, d'onde outr'ora, ao som do hymno tocado -em fagotes, descia a tropa de calÁa branca a fazer a _bernarda_! E -abrigados por elle, no escuro bairro de S. Vicente e da SÈ, os palacetes -decrepitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brazıes nas -paredes rachadas, onde entre a maledicencia, a devoÁ„o e a bisca, -arrasta os seus derradeiros dias, cachetica e caturra, a velha Lisboa -fidalga! - -Ega olhou um momento, pensativo: - ---Sim, com effeito, È talvez mais genuino. Mas t„o estupido, t„o -sebento! N„o sabe a gente para onde se ha de voltar... E se nos voltamos -para nÛs mesmos, ainda peor! - -E de repente bateu no joelho de Carlos, com um brilho na face: - ---Espera... Olha quem ahi vem! - -Era uma vittoria, bem posta e correcta, avanÁando com lentid„o e estylo, -ao trote esteppado de duas egoas inglezas. Mas foi um desapontamento. -Vinha l· sÛmente um rapaz muito louro, d'uma brancura de camelia, com -uma pennugem no beiÁo, languidamente recostado. Fez um aceno ao Ega, com -um lindo sorriso de virgem. A vittoria passou. - ---N„o conheces? - -Carlos procurava, com uma recordaÁ„o. - ---O teu antigo doente! O Charlie! - -O outro bateu as m„os. O Charlie! O seu Charlie! Como aquillo o fazia -velho!... E era bonitinho! - ---Sim, muito bonitinho. Tem ahi uma amizade com um velho, anda sempre -com um velho... Mas elle vinha decerto com a m„i, estou convencido que -ella ficou por ahi a passear a pÈ. Vamos nÛs vÍr? - -Subiram ao comprido da Avenida, procurando. E quem avistaram logo foi o -Eusebiosinho. Parecia mais funebre, mais tisico, dando o braÁo a uma -senhora muito forte, muito cÛrada, que estalava n'um vestido de sÍda cor -de pinh„o. Iam devagar, tomando o sol. E o Eusebio nem os viu, descahido -e mollengo, seguindo com as grossas lunetas pretas o marchar lento da -sua sombra. - ---Aquella aventesma È a mulher, contou Ega. Depois de varias paixıes em -lupanares, o nosso Eusebio teve este namoro. O pai da creatura, que È -dono d'um prego, apanhou-o uma noite na escada com ella a surripiar-lhe -uns prazeres... Foi o diabo, obrigaram-no a casar. E desappareceu, n„o o -tornei a vÍr... Diz que a mulher que o derreia · pancada. - ---Deus a conserve! - ---Amen! - -E ent„o Carlos, que recordava a coÁa no Eusebio, o caso da _Corneta_, -quiz saber do Palma Cavall„o. Ainda deshonrava o Universo com a sua -presenÁa, esse benemerito? Ainda o deshonrava, disse o Ega. SÛmente -deix·ra a litteratura, e torn·ra-se _factotum_ do Carneiro, o que fÙra -ministro; levava-lhe a hespanhola ao theatro pelo braÁo; e era um bom -empenho em politica. - ---Ainda ha de ser deputado, acrescentou Ega. E, da fÛrma que as coisas -v„o, ainda ha de ser ministro... E isto est·-se fazendo tarde, -Carlinhos. Vamos nÛs tomar esta tipoia e abalar para o Ramalhete? - -Eram quatro horas, o sol curto de inverno tinha j· um tom pallido. - -Tomaram a tipoia. No Rocio, Alencar que passava, que os viu--parou, -sacudiu ardentemente a m„o no ar. E ent„o Carlos exclamou, com uma -surpreza que j· o assalt·ra essa manh„ no _Braganza_: - ---Ouve c·, Ega! Tu agora pareces intimo do Alencar! Que transformaÁ„o -foi essa? - -Ega confessou que realmente agora apreciava immensamente o Alencar. Em -primeiro logar no meio d'esta Lisboa toda postiÁa, Alencar permanecia o -unico portuguez genuino. Depois, atravÈs da contagiosa intrujice, -conservava uma honestidade resistente. AlÈm d'isso havia n'elle -lealdade, bondade, generosidade. O seu comportamento com a sobrinhita -era tocante. Tinha mais cortezia, melhores maneiras que os novos. Um -bocado de piteirice n„o lhe ia mal ao seu feitio lyrico. E por fim, no -estado a que descamb·ra a litteratura, a versalhada do Alencar tomava -relevo pela correcÁ„o, pela simplicidade, por um resto de sincera -emoÁ„o. Em resumo, um bardo infinitamente estimavel. - ---E aqui tens tu, Carlinhos, a que nÛs chegamos! N„o ha nada com efeito -que caracterise melhor a pavorosa decadencia de Portugal, nos ultimos -trinta annos, do que este simples facto: t„o profundamente tem baixado o -caracter e o talento, que de repente o nosso velho Thomaz, o homem da -_FlÙr de Martyrio_, o Alencar d'Alemquer, apparece com as proporÁıes -d'um Genio e d'um Justo! - -Ainda fallavam de Portugal e dos seus males quando a tipoia parou. Com -que commoÁ„o Carlos avistou a fachada severa do Ramalhete, as -janellinhas abrigadas · beira do telhado, o grande ramo de girasoes -fazendo painel no logar do escudo d'armas! Ao ruido da carruagem, -VillaÁa appareceu · porta, calÁando luvas amarellas. Estava mais gordo o -VillaÁa--e tudo na sua pessoa, desde o chapÈo novo atÈ ao cast„o de -prata da bengala, revelava a sua importancia como administrador, quasi -directo senhor durante o longo desterro de Carlos, d'aquella vasta casa -dos Maias. Apresentou logo o jardineiro, um velho, que alli vivia com a -mulher e o filho, guardando o casar„o deserto. Depois felicitou-se de -vÍr emfim os dois amigos juntos. E ajuntou, batendo com carinho familiar -no hombro de Carlos: - ---Pois eu, depois de nos separarmos em Santa Apolonia, fui tomar um -banho ao Central e n„o me deitei. Olhe que È uma grande commodidade o -tal _sleeping-car_! Ah l· isso, em progresso, o nosso Portugal j· n„o -est· atraz de ninguem!... E v. exc.^a agora precisa de mim? - ---N„o, obrigado, VillaÁa. Vamos dar uma volta pelas salas... V· jantar -comnosco. ¡s seis! Mas ·s seis em ponto, que ha petiscos especiaes. - -E os dois amigos atravessaram o perystillo. Ainda l· se conservavam os -bancos feudaes de carvalho lavrado, solemnes como coros de cathedral. Em -cima porÈm a ante-camara entristecia, toda despida, sem um movel, sem um -estofo, mostrando a cal lascada dos muros. TapeÁarias orientaes que -pendiam como n'uma tenda, pratos mouriscos de reflexos de cobre, a -estatua da _Friorenta_ rindo e arrepiando-se, na sua nudez de marmore, -ao metter o pÈsinho na agua--tudo ornava agora os aposentos de Carlos em -Paris: e outros caixıes apilhavam-se a um canto, promptos a embarcar, -levando as melhores faianÁas da _Toca_. Depois no amplo corredor, sem -tapete, os seus passos soaram como n'um claustro abandonado. Nos quadros -devotos, d'um tom mais negro, destacava aqui e alÈm, sob a luz escassa, -um hombro descarnado de eremita, a mancha livida d'uma caveira. Uma -friagem regelava. Ega levant·ra a gola do paletot. - -No sal„o nobre os moveis de brocado cÙr de musgo estavam embrulhados em -lenÁoes d'algod„o, como amortalhados, exhalando um cheiro de mumia a -terebinthina e camphora. E no ch„o, na tela de Constable, encostada · -parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caÁadora -ingleza, parecia ir dar um passo, sahir do caixilho dourado, para partir -tambem, consummar a dispers„o da sua raÁa... - ---Vamos embora, exclamou Ega. Isto est· lugubre!... - -Mas Carlos, pallido e calado, abriu adiante a porta do bilhar. Ahi, que -era a maior sala do Ramalhete, tinham sido recentemente accumulados na -confus„o das artes e dos seculos, como n'um armazem de _bric-‡-brac_, -todos os moveis ricos da _Toca_. Ao fundo, tapando o fog„o, dominando -tudo na sua magestade architectural, erguia-se o famoso armario do tempo -da Liga Hanseatica, com os seus Martes armados, as portas lavradas, os -quatro Evangelistas prÈgando aos cantos, envoltos n'essas roupagens -violentas que um vento de prophecia parece agitar. E Carlos -immediatamente descobriu um desastre na cornija, nos dois faunos que -entre trophÈos agricolas tocavam ao desafio. Um partira o seu pÈ de -cabra, outro perdera a sua frauta bucolica... - ---Que brutos! exclamou elle furioso, ferido no seu amor da coisa d'arte. -Um movel d'estes!... - -Trepou a uma cadeira para examinar os estragos. E Ega, no emtanto, -errava entre os outros moveis, cofres nupciaes, contadores hespanhoes, -bufetes da RenascenÁa italiana, recordando a alegre casa dos Olivaes que -tinham ornado, as bellas noites de cavaco, os jantares, os foguetes -atirados em honra de Leonidas... Como tudo pass·ra! De repente deu com o -pÈ n'uma caixa de chapÈo sem tampa, atulhada de coisas velhas--um vÈo, -luvas desirmanadas, uma meia de sÍda, fitas, flÙres artificiaes. Eram -objectos de Maria, achados n'algum canto da _Toca_, para alli atirados, -no momento de se esvaziar a casa! E, coisa lamentavel, entre estes -restos d'ella, misturados como na promiscuidade d'um lixo, apparecia uma -chinela de velludo bordada a matiz, uma velha chinela de Affonso da -Maia! Ega escondeu a caixa rapidamente debaixo d'um pedaÁo solto de -tapeÁaria. Depois, como Carlos saltava da cadeira, sacudindo as m„os, -ainda indignado, Ega apressou aquella peregrinaÁ„o, que lhe estragava a -alegria do dia. - ---Vamos ao terraÁo! D·-se um olhar ao jardim, e abalamos! - -Mas deviam atravessar ainda a memoria mais triste, o escriptorio de -Affonso da Maia. A fechadura estava pÍrra. No esforÁo de abrir a m„o de -Carlos tremia. E Ega, commovido tambem, revia toda a sala tal como -outr'ora, com os seus candieiros Carcel dando um tom cÙr de rosa, o lume -crepitando, o reverendo Bonifacio sobre a pelle d'urso, e Affonso na sua -velha poltrona, de casaco de velludo, sacudindo a cinza do cachimbo -contra a palma da m„o. A porta cedeu: e toda a emoÁ„o de repente findou, -na grutesca, absurda surpreza de romperem ambos a espirrar, -desesperadamente, suffocados pelo cheiro acre d'um pÛ vago que lhes -picava os olhos, os estonteava. FÙra o VillaÁa, que, seguindo uma -receita d'almanach, fizera espalhar ·s m„os cheias, sobre os moveis, -sobre os lenÁoes que os resguardavam, camadas espessas de pimenta -branca! E estrangulados, sem vÍr, sob uma nevoa de lagrimas, os dois -continuavam, um defronte do outro, em espirros afflictivos que os -desengonÁavam. - -Carlos por fim conseguiu abrir largamente as duas portadas d'uma -janella. No terraÁo morria um resto de sol. E, revivendo um pouco ao ar -puro, alli ficaram de pÈ, calados, limpando os olhos, sacudidos ainda -por um ou outro espirro retardado. - ---Que infernal invenÁ„o! exclamou Carlos, indignado. - -Ega, ao fugir com o lenÁo na face, tropeÁ·ra, batera contra um sof·, -coÁava a canella: - ---Estupida coisa! E que bordoada que eu dei!... - -Voltou a olhar para a sala, onde todos os moveis desappareciam sob os -largos sudarios brancos. E reconheceu que tropeÁ·ra na antiga almofada -de velludo do velho Bonifacio. Pobre Bonifacio! Que fÙra feito d'elle? - -Carlos, que se sent·ra no parapeito baixo do terraÁo, entre os vasos sem -flÙr, contou o fim do reverendo Bonifacio. Morrera em Santa Olavia, -resignado, e t„o obeso que se n„o movia. E o VillaÁa, com uma idÈa -poetica, a unica da sua vida de procurador, mand·ra-lhe fazer um -mausolÈo, uma simples pedra de marmore branco, sob uma roseira, debaixo -das janellas do quarto do avÙ. - -Ega sent·ra-se tambem no parapeito, ambos se esqueceram n'um silencio. -Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez d'inverno, -tinha a melancolia de um retiro esquecido que j· ninguem ama: uma -ferrugem verde de humidade cobria os grossos membros da Venus Citherea; -o cypreste e o cedro envelheciam juntos como dois amigos n'um ermo; e -mais lento corria o prantosinho da cascata, esfiado saudosamente gotta a -gotta na bacia de marmore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela -marinha nas cantarias dos dois altos predios, a curta paizagem do -Ramalhete, um pedaÁo de Tejo e monte, tomava n'aquelle fim de tarde um -tom mais pensativo e triste: na tira de rio um paquete fechado, -preparado para a vaga, ia descendo, desapparecendo logo, como j· -devorado pelo mar incerto; no alto da collina o moinho par·ra, transido -na larga friagem do ar; e nas janellas das casas · beira d'agua um raio -de sol morria, lentamente sumido, esvaÌdo na primeira cinza do -crepusculo, como um resto d'esperanÁa n'uma face que se anuvia. - -Ent„o, n'aquella mudez de soledade e d'abandono, Ega, com os olhos para -o longe, murmurou devagar: - ---Mas tu d'esse casamento n„o tinhas a menor indicaÁ„o, a menor -suspeita? - ---Nenhuma... Soube-o de repente pela carta d'ella em Sevilha. - -E era esta a formidavel nova annunciada por Carlos, a nova que elle logo -cont·ra de madrugada ao Ega, depois dos primeiros abraÁos, em Santa -Apolonia. Maria Eduarda ia casar. - -Assim o annunci·ra ella a Carlos n'uma carta muito simples, que elle -recebera na quinta dos Villa-Medina. Ia casar. E n„o parecia ser uma -resoluÁ„o tomada arrebatadamente sob um impulso do coraÁ„o; mas antes um -proposito lento, longamente amadurecido. Ella alludia n'essa carta a ter -´pensado muito, reflectido muito...ª De resto o noivo devia ir perto dos -cincoenta annos. E Carlos portanto via alli a uni„o de dois sÍres -desilludidos da vida, maltratados por ella, cansados ou assustados do -seu isolamento, que, sentindo um no outro qualidades sÈrias de coraÁ„o e -de espirito, punham em commum o seu resto de calor, d'alegria e de -coragem para affrontar juntos a velhice... - ---Que idade tem ella? - -Carlos pensava que ella devia ter quarenta e um ou quarenta e dois -annos. Ella dizia na carta ´sou apenas mais nova que o meu noivo seis -annos e tres mezesª. Elle chamava-se Mr. de Trelain. E era evidentemente -um homem d'espirito largo, desembaraÁado de prejuizos, d'uma -benevolencia quasi misericordiosa, porque quizera Maria, conhecendo bem -os seus erros. - ---Sabe tudo? exclamou Ega, que salt·ra do parapeito. - ---Tudo n„o. Ella diz que Mr. de Trelain conhecia do seu passado ´todos -aquelles erros em que ella cahira inconscientementeª. Isto d· a entender -que n„o sabe tudo... Vamos andando, que se faz tarde, e quero ainda vÍr -os meus quartos. - -Desceram ao jardim. Um momento seguiram calados pela alea onde cresciam -outr'ora as roseiras de Affonso. Sob as duas olaias ainda existia o -banco de cortiÁa; Maria sent·ra-se alli, na sua visita ao Ramalhete, a -atar n'um ramo flÙres que ia levar como reliquia. Ao passar Ega cortou -uma pequenina margarida que ainda floria solitariamente. - ---Ella contin˙a a viver em OrlÈans, n„o È verdade? - -Sim, disse Carlos, vivia ao pÈ d'OrlÈans, n'uma quinta que l· compr·ra, -chamada _Les RosiËres_. O noivo devia habitar nos arredores algum -pequeno _ch‚teau_. Ella chamava-lhe ´visinhoª. E era naturalmente um -_gentilhomme campagnard_, de familia sÈria, com fortuna... - ---Ella sÛ tem o que tu lhe d·s, est· claro. - ---Creio que te mandei contar tudo isso, murmurou Carlos. Emfim ella -recusou-se a receber parte alguma da sua heranÁa... E o VillaÁa arranjou -as coisas por meio d'uma doaÁ„o que lhe fiz, correspondente a doze -contos de reis de renda... - ---… bonito. Ella fallava de Rosa na carta? - ---Sim, de passagem, que ia bem... Deve estar uma mulher. - ---E bem linda! - -Iam subindo a escadinha de ferro torneada que levava do jardim aos -quartos de Carlos. Com a m„o na porta da vidraÁa, Ega parou ainda, n'uma -derradeira curiosidade: - ---E que effeito te fez isso? - -Carlos accendia o charuto. Depois atirando o phosphoro por cima da -varandinha de ferro onde uma trepadeira se enlaÁava: - ---Um effeito de conclus„o, de absoluto remate. … como se ella morresse, -morrendo com ella todo o passado, e agora renascesse sob outra fÛrma. J· -n„o È Maria Eduarda. … Madame de Trelain, uma senhora franceza. Sob este -nome, tudo o que houve fica sumido, enterrado a mil braÁas, findo para -sempre, sem mesmo deixar memoria... Foi o effeito que me fez. - ---Tu nunca encontraste em Paris o snr. Guimar„es? - ---Nunca. Naturalmente morreu. - -Entraram no quarto. VillaÁa, na supposiÁ„o de Carlos vir para o -Ramalhete, mand·ra-o preparar; e todo elle regelava--com o marmore das -commodas espanejado e vazio, uma vela intacta n'um castiÁal solitario, a -colcha de fust„o vincada de dobras sobre o leito sem cortinados. Carlos -pousou o chapÈo e a bengala em cima da sua antiga mesa de trabalho. -Depois, como dando um resumo: - ---E aqui tens tu a vida, meu Ega! N'este quarto, durante noites, soffri -a certeza de que tudo no mundo acab·ra para mim... Pensei em me matar. -Pensei em ir para a Trappa. E tudo isto friamente, com uma conclus„o -logica. Por fim dez annos passaram, e aqui estou outra vez... - -Parou diante do alto espelho suspenso entre as duas columnas de carvalho -lavrado, deu um geito ao bigode, concluiu, sorrindo melancolicamente: - ---E mais gordo! - -Ega espalhava tambem pelo quarto um olhar pensativo: - ---Lembras-te quando appareci aqui uma noite, n'uma agonia, vestido de -Mephistopheles? - -Ent„o Carlos teve um grito. E a Rachel, È verdade! A Rachel? Que era -feito da Rachel, esse lirio d'Israel? - -Ega encolheu os hombros: - ---Para ahi anda, estuporada... - -Carlos murmurou--´coitada!ª E foi tudo o que disseram sobre a grande -paix„o romantica do Ega. - -Carlos no emtanto fÙra examinar, junto da janella, um quadro que pousava -no ch„o, para alli esquecido e voltado para a parede. Era o retrato do -pai, de Pedro da Maia, com as suas luvas de camurÁa na m„o, os grandes -olhos arabes na face triste e pallida que o tempo amarell·ra mais. -Collocou-o em cima d'uma commoda. E atirando-lhe uma leve sacudidella -com o lenÁo: - ---N„o ha nada que me faÁa mais pena do que n„o ter um retrato do avÙ!... -Em todo o caso este sempre o vou levar para Paris. - -Ent„o Ega perguntou, do fundo do sof· onde se enterr·ra, se, n'esses -ultimos annos, elle n„o tivera a idÈa, o vago desejo de voltar para -Portugal... - -Carlos considerou Ega com espanto. Para que? Para arrastar os passos -tristes desde o Gremio atÈ · Casa Havaneza? N„o! Paris era o unico logar -da terra congenere com o typo definitivo em que elle se fix·ra:--´o -homem rico que vive bemª. Passeio a cavallo no Bois; almÛÁo no Bignon; -uma volta pelo _boulevard_; uma hora no club com os jornaes; um bocado -de florete na sala d'armas; · noite a _ComÈdie FranÁaise_ ou uma -_soirÈe_; Trouville no ver„o, alguns tiros ·s lebres no inverno; e -atravÈs do anno as mulheres, as corridas, certo interesse pela sciencia, -o _bric-‡-brac_, e uma pouca de _blague_. Nada mais inoffensivo, mais -nullo, e mais agradavel. - ---E aqui tens tu uma existencia d'homem! Em dez annos n„o me tem -succedido nada, a n„o ser quando se me quebrou o phaeton na estrada de -Saint-Cloud... Vim no _Figaro_. - -Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado: - ---Falh·mos a vida, menino! - ---Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto È, -falha-se sempre na realidade aquella vida que se planeou com a -imaginaÁ„o. Diz-se: ´vou ser assim, porque a belleza est· em ser assimª. -E nunca se È assim, È-se invariavelmente _assado_, como dizia o pobre -marquez. ¡s vezes melhor, mas sempre differente. - -Ega concordou, com um suspiro mudo, comeÁando a calÁar as luvas. - -O quarto escurecia no crepusculo frio e melancolico d'inverno. Carlos -pÙz tambem o chapÈo: e desceram pelas escadas forradas de velludo cÙr de -cereja, onde ainda pendia, com um ar baÁo de ferrugem, a panoplia de -velhas armas. Depois na rua Carlos parou, deu um longo olhar ao sombrio -casar„o, que n'aquella primeira penumbra tomava um aspecto mais -carregado de residencia ecclesiastica, com as suas paredes severas, a -sua fila de janellinhas fechadas, as grades dos postigos terreos cheias -de treva, mudo, para sempre deshabitado, cobrindo-se j· de tons de -ruina. - -Uma commoÁ„o passou-lhe n'alma, murmurou, travando do braÁo do Ega: - ---… curioso! SÛ vivi dois annos n'esta casa, e È n'ella que me parece -estar mettida a minha vida inteira! - -Ega n„o se admirava. SÛ alli no Ramalhete elle vivera realmente -d'aquillo que d· sabÙr e relevo · vida--a paix„o. - ---Muitas outras coisas d„o valor · vida... Isso È uma velha idÈa de -romantico, meu Ega! - ---E que somos nÛs? exclamou Ega. Que temos nÛs sido desde o collegio, -desde o exame de latim? Romanticos: isto È, individuos inferiores que se -governam na vida pelo sentimento e n„o pela raz„o... - -Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses -que se dirigiam sÛ pela raz„o, n„o se desviando nunca d'ella, -torturando-se para se manter na sua linha inflexivel, sÍccos, hirtos, -logicos, sem emoÁ„o atÈ ao fim... - ---Creio que n„o, disse o Ega. Por fÛra, · vista, s„o desconsoladores. E -por dentro, para elles mesmos, s„o talvez desconsolados. O que prova que -n'este lindo mundo ou tem de se ser insensato ou semsabor... - ---Resumo: n„o vale a pena viver... - ---Depende inteiramente do estomago! atalhou Ega. - -Riram ambos. Depois Carlos, outra vez sÈrio, deu a sua theoria da vida, -a theoria definitiva que elle deduzira da experiencia e que agora o -governava. Era o fatalismo musulmano. Nada desejar e nada recear... N„o -se abandonar a uma esperanÁa--nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o -que vem e o que foge, com a tranquillidade com que se acolhem as -naturaes mudanÁas de dias agrestes e de dias suaves. E, n'esta placidez, -deixar esse pedaÁo de materia organisada, que se chama o Eu, ir-se -deteriorando e decompondo atÈ reentrar e se perder no infinito -Universo... Sobretudo n„o ter appetites. E, mais que tudo, n„o ter -contrariedades. - -Ega, em summa, concordava. Do que elle principalmente se convencera, -n'esses estreitos annos de vida, era da inutilidade de todo o esforÁo. -N„o valia a pena dar um passo para alcanÁar coisa alguma na -terra--porque tudo se resolve, como j· ensin·ra o sabio do -_Ecclesiastes_, em desillus„o e poeira. - ---Se me dissessem que alli em baixo estava uma fortuna como a dos -Rothschilds ou a corÙa imperial de Carlos V, · minha espera, para serem -minhas se eu para l· corresse, eu n„o apressava o passo... N„o! N„o -sahia d'este passinho lento, prudente, correcto, seguro, que È o unico -que se deve ter na vida. - ---Nem eu! acudiu Carlos com uma convicÁ„o decisiva. - -E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se -aquelle fosse em verdade o caminho da vida, onde elles, certos de sÛ -encontrar ao fim desillus„o e poeira, n„o devessem j·mais avanÁar sen„o -com lentid„o e desdem. J· avistavam o Aterro, a sua longa fila de luzes. -De repente Carlos teve um largo gesto de contrariedade: - ---Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este appetite! Esqueci-me de -mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas. - -E agora j· era tarde, lembrou Ega. Ent„o Carlos, atÈ ahi esquecido em -memorias do passado e syntheses da existencia, pareceu ter -inesperadamente consciencia da noite que cahira, dos candieiros accÍsos. -A um bico de gaz tirou o relogio. Eram seis e um quarto! - ---Oh, diabo!... E eu que disse ao VillaÁa e aos rapazes para estarem no -_Braganza_ pontualmente ·s seis! N„o apparecer por ahi uma tipoia!... - ---Espera! exclamou Ega. L· vem um ´americanoª, ainda o apanhamos. - ---Ainda o apanhamos! - -Os dois amigos lanÁaram o passo, largamente. E Carlos, que arroj·ra o -charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face: - ---Que raiva ter esquecido o paiosinho! Emfim, acabou-se. Ao menos -assentamos a theoria definitiva da existencia. Com effeito, n„o vale a -pena fazer um esforÁo, correr com ancia para coisa alguma... - -Ega, ao lado, ajuntava, offegante, atirando as pernas magras: - ---Nem para o amor, nem para a gloria, nem para o dinheiro, nem para o -poder... - -A lanterna vermelha do ´americanoª, ao longe, no escuro, par·ra. E foi -em Carlos e em Jo„o da Ega uma esperanÁa, outro esforÁo: - ---Ainda o apanhamos! - ---Ainda o apanhamos! - -De novo a lanterna deslisou e fugiu. Ent„o, para apanhar o ´americanoª, -os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e -pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia. - -FIM DO SEGUNDO VOLUME - - - - -Lista de erros corrigidos - - -Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: - -+-----------+-------------------------+---------------------------+ -| | Original | CorrecÁ„o | -+-----------+-------------------------+---------------------------+ -| Vol I. | | | -| | | | -| #p·g. 11 | d'um planta | d'uma planta | -| #p·g. 25 | n'eses | n'esse | -| #p·g. 64 | dehruÁando-se | debruÁando-se | -| #p·g. 71 | mesmo olhos | mesmos olhos | -| #p·g. 82 | o o que | o que | -| #p·g. 151 | appproximava | approximava | -| #p·g. 220 | ningnem | ninguem | -| #p·g. 222 | pararello | paralello | -| #p·g. 290 | quas? | quasi | -| #p·g. 326 | pohre | pobre | -| #p·g. 345 | extraordinrio | extraordinario | -| #p·g. 416 | luvar | luvas | -| #p·g. 423 | hespanhla | hespanhola | -| #p·g. 428 | o os deus | e os seus | -| | | | -| Vol II. | | | -| | | | -| #p·g. 84 | ?uvas | luvas | -| #p·g. 276 | o o monoculo | o monoculo | -| #p·g. 324 | a? suissas | as suissas | -| #p·g. 343 | n'um voz | n'uma voz | -| #p·g. 432 | moresse | morresse | -| #p·g. 456 | Celerico | Celorico | -| #p·g. 475 | n'um longa | n'uma longa | -+-----------+-------------------------+---------------------------+ - -As variaÁıes de vÙvÙ (vÙvo ou vovÙ) foram mantidas de acordo com o -original. As variaÁıes de nomes prÛprios foram mantidas de acordo -com o original. - -No original est„o presentes dois capÌtulos VII (no volume I), -rectificados nesta vers„o. - -No volume II verificamos que se passa do capÌtulo IV para o VII e -a numeraÁ„o dos capÌtulos fica alterada a partir desse momento. -Uma vez que n„o h· p·ginas em falta, rectific·mos nesta vers„o. - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Os Maias, by JosÈ Maria EÁa de QueirÛs - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS *** - -***** This file should be named 40409-0.txt or 40409-0.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/4/0/4/0/40409/ - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brand„o Simıes, -GraÁa Horta and the Online Distributed Proofreading Team -at http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal) and Biblioteca Dulce -Ferr„o -- Biblioteca-Museu Rep˙blica e ResistÍncia.) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions -will be renamed. - -Creating the works from public domain print editions means that no -one owns a United States copyright in these works, so the Foundation -(and you!) can copy and distribute it in the United States without -permission and without paying copyright royalties. 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You may copy it, give it away or -re-use it under the terms of the Project Gutenberg License included -with this eBook or online at www.gutenberg.org - - -Title: Os Maias - episodios da vida romantica - -Author: Jos Maria Ea de Queirs - -Release Date: October 16, 2012 [EBook #40409] - -Language: Portuguese - -Character set encoding: ISO-8859-1 - -*** START OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS *** - - - - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brando Simes, -Graa Horta and the Online Distributed Proofreading Team -at http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal) and Biblioteca Dulce -Ferro -- Biblioteca-Museu Repblica e Resistncia.) - - - - - - *Nota de editor:* Devido existncia de erros tipogrficos neste - texto, foram tomadas vrias decises quanto verso final. Em caso - de dvida, a grafia foi mantida de acordo com o original. No final - deste livro encontrar a lista de erros corrigidos. - - Na verso original, esta obra uma compilao de dois volumes, com - captulos e paginao independentes, publicadas numa s obra. - Respeitando o original, compilmos num s ficheiro ambas as partes: - - Primeiro Volume - - Segundo Volume - - - Rita Farinha (Agosto 2012) - - - - -Porto: Typ. de A. J. da Silva Teixeira, Cancella Velha, 70 - - - - - -EA DE QUEIROZ - -OS MAIAS - -EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA - -VOLUME I - -PORTO - - -Livraria Internacional de Ernesto Chardron -CASA EDITORA -LUGAN & GENELIOUX, Successores - - -1888 - -Todos os direitos reservados - - - - -OBRAS DO MESMO AUCTOR - - - O Crime do Padre Amaro, edio inteiramente refundida, recomposta, - e differente na frma e na aco da edio primitiva. 1 grosso vol. - 1$200 - - O Primo Bazilio. 3.^a edio. 1 grosso vol. 1$000 - - O Mandarim. 2.^a edio. 1 vol. 500 - - A Reliquia. 1 grosso vol. 1$000 - - - - -OS MAIAS - -VOLUME I - - - - -OS MAIAS - - - - -I - - -A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa, no outono de 1875, era -conhecida na visinhana da rua de S. Francisco de Paula, e em todo o -bairro das Janellas Verdes, pela _casa do Ramalhete_ ou simplesmente o -_Ramalhete_. Apesar d'este fresco nome de vivenda campestre, o -_Ramalhete_, sombrio casaro de paredes severas, com um renque de -estreitas varandas de ferro no primeiro andar, e por cima uma timida -fila de janellinhas abrigadas beira do telhado, tinha o aspecto -tristonho de Residencia Ecclesiastica que competia a uma edificao do -reinado da sr.^a D. Maria I: com uma sineta e com uma cruz no topo -assimilhar-se-hia a um Collegio de Jesuitas. O nome de Ramalhete -provinha de certo d'um revestimento quadrado de azulejos fazendo painel -no logar heraldico do Escudo d'Armas, que nunca chegara a ser collocado, -e representando um grande ramo de girasoes atado por uma fita onde se -distinguiam letras e numeros d'uma data. - -Longos annos o Ramalhete permanecera deshabitado, com teias d'aranha -pelas grades dos postigos terreos, e cobrindo-se de tons de ruina. Em -1858 Monsenhor Buccarini, Nuncio de S. Santidade, visitara-o com ida -d'installar l a Nunciatura, seduzido pela gravidade clerical do -edificio e pela paz dormente do bairro: e o interior do casaro -agradara-lhe tambem, com a sua disposio apalaada, os tectos -apainelados, as paredes cobertas de _frescos_ onde j desmaiavam as -rosas das grinaldas e as faces dos Cupidinhos. Mas Monsenhor, com os -seus habitos de rico prelado romano, necessitava na sua vivenda os -arvoredos e as agoas d'um jardim de luxo: e o Ramalhete possuia apenas, -ao fundo d'um terrao de tijolo, um pobre quintal inculto, abandonado s -hervas bravas, com um cypreste, um cedro, uma cascatasinha secca, um -tanque entulhado, e uma estatua de marmore (onde Monsenhor reconheceu -logo Venus Cithera) ennegrecendo a um canto na lenta humidade das -ramagens silvestres. Alm d'isso, a renda que pedio o velho Villaa, -procurador dos Maias, pareceu to exagerada a Monsenhor, que lhe -perguntou sorrindo se ainda julgava a Egreja nos tempos de Leo X. -Villaa respondeu--que tambem a nobreza no estava nos tempos do sr. D. -Joo V. E o Ramalhete continuou deshabitado. - -Este inutil pardieiro (como lhe chamava Villaa Junior, agora por morte -de seu pae administrador dos Maias) s veio a servir, nos fins de 1870, -para l se arrecadaram as mobilias e as louas provenientes do palacete -de familia em Bemfica, morada quasi historica, que, depois de andar -annos em praa, fra ento comprada por um commendador brazileiro. -N'essa occasio vendera-se outra propriedade dos Maias, a _Tojeira_; e -algumas raras pessoas que em Lisboa ainda se lembravam dos Maias, e -sabiam que desde a Regenerao elles viviam retirados na sua quinta de -Santa Olavia, nas margens do Douro, tinham perguntado a Villaa se essa -gente estava atrapalhada. - ---Ainda teem um pedao de po, disse Villaa sorrindo, e a manteiga para -lhe barrar por cima. - -Os Maias eram uma antiga familia da Beira, sempre pouco numerosa, sem -linhas collateraes, sem parentellas--e agora reduzida a dois vares, o -senhor da casa, Affonso da Maia, um velho j, quasi um antepassado, mais -edoso que o seculo, e seu neto Carlos que estudava medicina em Coimbra. -Quando Affonso se retirara definitivamente para Santa Olavia, o -rendimento da casa excedia j cincoenta mil cruzados: mas desde ento -tinham-se accumulado as economias de vinte annos de alda; viera tambem -a herana d'um ultimo parente, Sebastio da Maia, que desde 1830 vivia -em Napoles, s, occupando-se de numismatica;--e o procurador podia -certamente sorrir com segurana quando fallava dos Maias e da sua fatia -de po. - -A venda da _Tojeira_ fra realmente aconselhada por Villaa: mas nunca -elle approvara que Affonso se desfizesse de Bemfica--s pela raso -d'aquelles muros terem visto tantos desgostos domesticos. Isso, como -dizia Villaa, acontecia a todos os muros. O resultado era que os Maias, -com o Ramalhete inhabitavel, no possuiam agora uma casa em Lisboa; e se -Affonso n'aquella edade amava o socego de Santa Olavia, seu neto, rapaz -de gosto e de luxo que passava as ferias em Paris e Londres, no -quereria, depois de formado, ir sepultar-se nos penhascos do Douro. E -com effeito, mezes antes de elle deixar Coimbra, Affonso assombrou -Villaa annunciando-lhe que decidira vir habitar o Ramalhete! O -procurador compoz logo um relatorio a enumerar os inconvenientes do -casaro: o maior era necessitar tantas obras e tantas despezas; depois, -a falta d'um jardim devia ser muito sensivel a quem sahia dos arvoredos -de Santa Olavia; e por fim alludia mesmo a uma lenda, segundo a qual -eram sempre fataes aos Maias as paredes do Ramalhete, ainda que -(acrescentava elle n'uma phrase meditada) at me envergonho de mencionar -taes frioleiras n'este seculo de Voltaire, Guisot e outros philosophos -liberaes... - -Affonso riu muito da phrase, e respondeu que aquellas razes eram -excellentes--mas elle desejava habitar sob tectos tradiccionalmente -seus; se eram necessarias obras, que se fizessem e largamente; e -emquanto a lendas e agoiros, bastaria abrir de par em par as janellas e -deixar entrar o sol. - -S. ex.^a mandava:--e, como esse inverno ia secco, as obras comearam -logo, sob a direco d'um Esteves, architecto, politico, e compadre de -Villaa. Este artista enthusiasmra o procurador com um projecto de -escada apparatosa, flanqueada por duas figuras symbolisando as -conquistas da Guin e da India. E estava ideando tambem uma cascata de -loua na sala de jantar--quando, inesperadamente, Carlos appareceu em -Lisboa com um architecto-decorador de Londres, e, depois de estudar com -elle pressa algumas ornamentaes e alguns tons de estofos, -entregou-lhe as quatro paredes do Ramalhete, para elle ali crear, -exercendo o seu gosto, um interior confortavel, de luxo intelligente e -sobrio. - -Villaa resentiu amargamente esta desconsiderao pelo artista nacional; -Esteves foi berrar ao seu Centro politico que isto era um paiz perdido. -E Affonso lamentou tambem que se tivesse despedido o Esteves, exigiu -mesmo que o encarregassem da construco das cocheiras. O artista ia -acceitar--quando foi nomeado governador civil. - -Ao fim d'um anno, durante o qual Carlos viera frequentemente a Lisboa -collaborar nos trabalhos, dar os seus retoques estheticos--do antigo -Ramalhete s restava a fachada tristonha, que Affonso no quizera -alterada por constituir a phisionomia da casa. E Villaa no duvidou -declarar que Jones Bule (como elle chamava ao inglez) sem despender -despropositadamente, aproveitando at as antigualhas de Bemfica, fizera -do Ramalhete um museu. - -O que surprehendia logo era o pateo, outr'ora to lobrego, n, lageado -de pedregulho--agora resplandecente, com um pavimento quadrilhado de -marmores brancos e vermelhos, plantas decorativas, vazos de Quimper, e -dois longos bancos feudaes que Carlos trouxera de Hespanha, trabalhados -em talha, solemnes como cros de cathedral. Em cima, na antecamara, -revestida como uma tenda de estofos do Oriente, todo o rumor de passos -morria: e ornavam-n'a divans cobertos de tapetes persas, largos pratos -mouriscos com reflexos metalicos de cobre, uma harmonia de tons severos, -onde destacava, na brancura immaculada do marmore, uma figura de -rapariga friorenta, arripiando-se, rindo, ao metter o psinho n'agoa. -D'ahi partia um amplo corredor, ornado com as peas ricas de Bemfica, -arcas gothicas, jarres da India, e antigos quadros devotos. As melhores -salas do Ramalhete abriam para essa galeria. No salo nobre, raramente -usado, todo em brocados de velludo cr de musgo d'outono, havia uma -bella tla de Constable, o retrato da sogra de Affonso, a condessa de -Runa, de tricorne de plumas e vestido escarlate de caadora ingleza, -sobre um fundo de paisagem enevoada. Uma sala mais pequena, ao lado, -onde se fazia musica, tinha um ar de seculo XVIII com seus moveis -enramelhetados d'ouro, as suas sedas de ramagens brilhantes: duas -tapearias de Gobelins, desmaiadas, em tons cinzentos, cobriam as -paredes de pastores e d'arvoredos. - -Defronte era o bilhar, forrado d'um couro moderno trazido por Jones -Bule, onde, por entre a desordem de ramagens verde-garrafa, esvoaavam -cegonhas prateadas. E, ao lado, achava-se o _fumoir_, a sala mais -commoda do Ramalhete: as ottomanas tinham a ffa vastido de leitos; e o -conchego quente, e um pouco sombrio dos estofos escarlates e pretos era -alegrado pelas cores cantantes de velhas faienas hollandezas. - -Ao fundo do corredor ficava o escriptorio de Affonso, revestido de -damascos vermelhos como uma velha camara de prelado. A macissa meza de -pau preto, as estantes baixas de carvalho lavrado, o solemne luxo das -encadernaes, tudo tinha ali uma feio austera de paz -estudiosa--realada ainda por um quadro attribuido a Rubens, antiga -reliquia da casa, um Christo na Cruz, destacando a sua nudez de athleta -sobre um ceu de poente revolto e rubro. Ao lado do fogo Carlos -arranjara um canto para o av com um biombo japonez bordado a ouro, uma -pelle d'urso branco, e uma veneravel cadeira de braos, cuja tapearia -mostrava ainda as armas dos Maias no desmaio da trama de sda. - -No corredor do segundo andar, guarnecido com retratos de familia, -estavam os quartos de Affonso. Carlos despozera os seus, n'um angulo da -casa, com uma entrada particular, e janellas sobre o jardim: eram tres -gabinetes a seguir, sem portas, unidos pelo mesmo tapete: e, os recostos -acolchoados, a sda que forrava as paredes, faziam dizer ao Villaa que -aquillo no eram aposentos de medico--mas de danarina! - -A casa, depois de arranjada, ficou vazia emquanto Carlos, j formado, -fazia uma longa viagem pela Europa;--e foi s nas vesperas da sua -chegada, n'esse lindo outono de 1875, que Affonso se resolveu emfim a -deixar Santa Olavia e vir installar-se no Ramalhete. Havia vinte e cinco -annos que elle no via Lisboa; e, ao fim de alguns curtos dias, -confessou ao Villaa que estava suspirando outra vez pelas suas sombras -de Santa Olavia. Mas, que remedio! No queria viver muito separado do -neto; e Carlos agora, com idas srias de carreira activa, devia -necessariamente habitar Lisboa... De resto, no desgostava do Ramalhete, -apezar de Carlos, com o seu fervor pelo luxo dos climas frios, ter -prodigalisado de mais as tapearias, os pesados reposteiros, e os -velludos. Agradava-lhe tambem muito a visinhana, aquella dce quietao -de suburbio adormecido ao sol. E gostava at do seu quintalejo. No era -de certo o jardim de Santa Olavia: mas tinha o ar sympathico, com os -seus girasoes perfilados ao p dos degraus do terrao, o cypreste e o -cedro envelhecendo juntos como dois amigos tristes, e a Venus Cythera -parecendo agora, no seu tom claro de estatua de parque, ter chegado de -Versalhes, do fundo do grande seculo... E desde que a agoa abundava, a -cascatasinha era deliciosa, dentro do nicho de conchas, com os seus tres -pedregulhos arranjados em despenhadeiro bucolico, melancolisando aquelle -fundo de quintal soalheiro com um pranto de nayade domestica, esfiado -gota a gota na bacia de marmore. - -O que desconsolara Affonso, ao principio, fra a vista do -terrao--d'onde outr'ora, de certo, se abrangia at ao mar. Mas as casas -edificadas em redor, nos ultimos annos, tinham tapado esse horizonte -explendido. Agora, uma estreita tira de agoa e monte que se avistava -entre dois predios de cinco andares, separados por um crte de rua, -formava toda a paizagem defronte do Ramalhete. E, todavia, Affonso -terminou por lhe descobrir um encanto intimo. Era como uma tla marinha, -encaixilhada em cantarias brancas, suspensa do cu azul em face do -terrao, mostrando, nas variedades infinitas de cr e luz, os episodios -fugitivos d'uma pacata vida de rio: s vezes uma vla de barco da -Trafaria fugindo airosamente bolina; outras vezes uma galera toda em -panno, entrando n'um favor da aragem, vagarosa, no vermelho da tarde; ou -ento a melancolia d'um grande paquete, descendo, fechado e preparado -para a vaga, entrevisto um momento, desapparecendo logo, como j -devorado pelo mar incerto; ou ainda durante dias, no p d'ouro das -sestas silenciosas, o vulto negro de um couraado inglez... E sempre ao -fundo o pedao de monte verde-negro, com um moinho parado no alto, e -duas casas brancas ao rez d'agoa, cheias de expresso--ora faiscantes e -despedindo raios das vidraas accezas em braza; ora tomando aos fins de -tarde um ar pensativo, cobertas dos rosados tenros de poente, quasi -similhantes a um rubor humano; e d'uma tristeza arripiada nos dias de -chuva, to ss, to brancas, como nuas, sob o tempo agreste. - -O terrao communicava por tres portas envidraadas com o escriptorio--e -foi n'essa bella camara de prelado que Affonso se acostumou logo a -passar os seus dias, no recanto aconchegado que o neto lhe preparara -ternamente, ao lado do fogo. A sua longa residencia em Inglaterra -dera-lhe o amor dos suaves vagares junto do lume. Em Santa Olavia as -chamins ficavam accezas at Abril; depois ornavam-se de braadas de -flres, como um altar domestico; e era ainda ahi, n'esse aroma e n'essa -frescura, que elle gozava melhor o seu cachimbo, o seu Tacito, ou o seu -querido Rabelais. - -Todavia, Affonso ainda ia longe, como elle dizia, de ser um velho -borralheiro. N'aquella edade, de vero ou de inverno, ao romper do sol, -estava a p, sahindo logo para a quinta, depois da sua boa orao da -manh que era um grande mergulho na agoa fria. Sempre tivera o amor -supersticioso da agoa; e costumava dizer que nada havia melhor para o -homem--que sabor d'agoa, som d'agoa, e vista d'agoa. O que o prendera -mais a Santa Olavia fra a sua grande riqueza d'agoas vivas, nascentes, -repuxos, tranquillo espelhar d'agoas paradas, fresco murmurio de agoas -regantes... E a esta viva tonificao da agoa attribuia elle o ter vindo -assim, desde o comeo do seculo, sem uma dr e sem uma doena, mantendo -a rica tradio de saude da sua familia, duro, resistente aos desgostos -e annos--que passavam por elle, to em vo, como passavam em vo, pelos -seus robles de Santa Olavia, annos e vendavaes. - -Affonso era um pouco baixo, macisso, de hombros quadrados e fortes: e -com a sua face larga de nariz aquilino, a pelle crada, quasi vermelha, -o cabello branco todo cortado escovinha, e a barba de neve aguda e -longa--lembrava, como dizia Carlos, um varo esforado das edades -heroicas, um D. Duarte de Menezes ou um Affonso d'Albuquerque. E isto -fazia sorrir o velho, recordar ao neto, gracejando, quanto as -apparencias illudem! - -No, no era Menezes, nem Albuquerque; apenas um antepassado bonacheiro -que amava os seus livros, o conchego da sua poltrona, o seu _whist_ ao -canto do fogo. Elle mesmo costumava dizer, que era simplesmente um -egoista:--mas nunca, como agora na velhice, as generosidades do seu -corao tinham sido to profundas e largas. Parte do seu rendimento -ia-se-lhe por entre os dedos, esparsamente, n'uma caridade enternecida. -Cada vez amava mais o que pobre e o que fraco. Em Santa Olavia, as -creanas corriam para elle, dos portaes, sentindo-o acariciador e -paciente. Tudo o que vive lhe merecia amor:--e era dos que no pisam um -formigueiro, e se compadece da sde d'uma planta. - -Villaa costumava dizer que lhe lembrava sempre o que se conta dos -patriarchas, quando o vinha encontrar ao canto da chamin, na sua coada -quinzena de velludilho, sereno, risonho, com um livro na mo, o seu -velho gato aos ps. Este pesado e enorme angor, branco com malhas -louras, era agora (desde a morte de _Tobias_, o soberbo co de S. -Bernardo) o fiel companheiro de Affonso. Tinha nascido em Santa Olavia, -e recebera ento o nome de Bonifacio: depois, ao chegar edade do amor -e da caa, fora-lhe dado o appellido mais cavalheiresco de D. Bonifacio -de Calatrava: agora, dorminhoco e obeso, entrara definitivamente no -remanso das dignidades ecclesiasticas, e era o Reverendo Bonifacio... - - -Esta existencia nem sempre assim correra com a tranquillidade larga e -clara d'um bello rio de vero. O antepassado, cujos olhos se enchiam -agora d'uma luz de ternura diante das suas rosas, e que ao canto do lume -relia com gosto o seu Guisot, fra, na opinio de seu pae, algum tempo, -o mais feroz Jacobino de Portugal! E todavia, o furor revolucionario do -pobre moo consistira em lr Rousseau, Volney, Helvetius, e a -Encyclopedia; em atirar foguetes de lagrimas Constituio; e ir, de -chapeu liberal e alta gravata azul, recitando pelas lojas maonicas -Odes abominaveis ao Supremo Architecto do Universo. Isto, porm, bastra -para indignar o pae. Caetano da Maia era um portuguez antigo e fiel que -se benzia ao nome de Robespierre, e que, na sua apathia de fidalgo beato -e doente, tinha s um sentimento vivo--o horror, o odio ao Jacobino, -aquem attribuia todos os males, os da patria e os seus, desde a perda -das colonias at s crises da sua gota. Para extirpar da nao o -Jacobino, dra elle o seu amor ao sr. infante D. Miguel, Messias forte e -Restaurador providencial... E ter justamente por filho um Jacobino, -parecia-lhe uma provao comparavel s s de Job! - -Ao principio, na esperana que o menino se emendasse, contentou-se em -lhe mostrar um caro severo e chamar-lhe com sarcasmo--_cidado_! Mas -quando soube que seu filho, o seu herdeiro, se misturara turba que, -n'uma noite de festa civica e de luminarias, tinha apedrejado as -vidraas apagadas do sr. Legado d'ustria, enviado da Santa -Alliana--considerou o rapaz um Marat e toda a sua colera rompeu. A gota -cruel, cravando-o na poltrona, no lhe deixou espancar o mao, com a -sua bengala da India, lei de bom pae portuguez: mas decidiu expulsal-o -de sua casa, sem mezada e sem beno, renegado como um bastardo! Que -aquelle pedreiro livre no podia ser do seu sangue! - -As lagrimas da mam amolleceram-n'o; sobretudo as razes d'uma cunhada -de sua mulher, que vivia com elles em Bemfica, senhora irlandeza de alta -instruco, Minerva respeitada e tutelar, que ensinara inglez ao menino -e o adorava como um bb. Caetano da Maia limitou-se a desterrar o filho -para a quinta de Santa Olavia; mas no cessou de chorar no seio dos -padres, que vinham a Bemfica, a desgraa da sua casa. E esses santos l -o consolavam, affirmando-lhe que Deus, o velho Deus d'Ourique, no -permittiria jmais que um Maia pactuasse com Belzebut e com a Revoluo! -E, falta de Deus Padre, l estava Nossa Senhora da Soledade, padroeira -da casa e madrinha do menino, para fazer o bom milagre. - -E o milagre fez-se. Mezes depois, o Jacobino, o Marat, voltava de Santa -Olavia um pouco contricto, enfastiado sobretudo d'aquella solido, onde -os chs do brigadeiro Senna eram ainda mais tristes que o tero das -primas Cunhas. Vinha pedir ao pae a beno, e alguns mil cruzados, para -ir a Inglaterra, esse paiz de vivos prados e de cabellos d'ouro de que -lhe fallara tanto a tia Fanny. O pae beijou-o, todo em lagrimas, accedeu -a tudo fervorosamente, vendo ali a evidente, a gloriosa intercesso de -Nossa Senhora da Soledade! E o mesmo Frei Jeronymo da Conceio seu -confessor, declarou este milagre--no inferior ao de Carnaxide. - -Affonso partiu. Era na primavera--e a Inglaterra toda verde, os seus -parques de luxo, os copiosos confortos, a harmonia penetrante dos seus -nobres costumes, aquella raa to sria e to forte--encantaram-n'o. Bem -depressa esqueceu o seu odio aos sorumbaticos padres da Congregao, as -horas ardentes passadas no caf dos Romulares a recitar Mirabeau, e a -Republica que quizera fundar, classica e voltarianna, com um triumvirato -de Scipies e festas ao Ente Supremo. Durante os dias da _Abrilada_ -estava elle nas corridas d'Epsom, no alto d'uma sege de posta, com um -grande nariz postio, dando _hurrahs_ medonhos--bem indifferente aos -seus irmos de Maonaria, que a essas horas o sr. infante espicaava a -chuo, pelas viellas do Bairro Alto, no seu rijo cavallo d'Alter. - -Seu pae morreu de subito, elle teve de regressar a Lisboa. Foi ento que -conheceu D. Maria Eduarda Runa, filha do conde de Runa, uma linda -morena, mimosa e um pouco adoentada. Ao fim do luto casou com ella. Teve -um filho, desejou outros; e comeou logo, com bellas idas de patriarcha -moo, a fazer obras no palacete de Bemfica, a plantar em redor -arvoredos, preparando tectos e sombras descendencia amada que lhe -encantaria a velhice. - -Mas no esquecia a Inglaterra:--e tornava-lh'a mais appetecida essa -Lisboa miguelista que elle via, desordenada como uma Tunis barbaresca; -essa rude conjurao apostolica de frades e bolieiros, atroando tavernas -e capellas; essa plebe beata, suja e feroz, rolando do _lausperenne_ -para o curro, e anciando tumultuosamente pelo principe que lhe encarnava -to bem os vicios e as paixes... - -Este espectaculo indignava Affonso da Maia; e muitas vezes, na paz do -sero, entre amigos, com o pequeno nos joelhos, exprimiu a indignao da -sua alma honesta. J no exigia de certo, como em rapaz, uma Lisboa de -Cates e de Mucios-Scevolas. J admittia mesmo o esforo d'uma nobreza -para manter o seu privilegio historico; mas ento queria uma nobreza -intelligente e digna, como a Aristocracia tory (que o seu amor pela -Inglaterra lhe fazia idealisar), dando em tudo a direco moral, -formando os costumes e inspirando a litteratura, vivendo com fausto e -fallando com gosto, exemplo de idas altas e espelho de maneiras -patricias... O que no tolerava era o mundo de Queluz, bestial e -sordido. - -Taes palavras, apenas soltas, voavam a Queluz. E quando se reuniram as -crtes geraes, a policia invadiu Bemfica, a procurar papeis e armas -escondidas. - -Affonso da Maia, com o seu filho nos braos e a mulher tremendo ao -lado--viu, impassivelmente e sem uma palavra, a busca, as gavetas -arrombadas pela coronha das escopetas, as mos sujas do malsim -rebuscando os colxes do seu leito. O sr. juiz de fra no descobriu -nada: acceitou mesmo na copa um calice de vinho, e confessou ao mordomo -que os tempos iam bem duros... Desde essa manh as janellas do -palacete conservaram-se cerradas; no se abriu mais o porto nobre para -sahir o coche da senhora; e d'ahi a semanas, com a mulher e com o filho, -Affonso da Maia partia para Inglaterra e para o exilio. - -Ahi installou-se, com luxo, para uma longa demora, nos arredores de -Londres, junto a Richmond, ao fundo d'um parque, entre as suaves e -calmas paisagens de Surrey. - -Os seus bens, graas ao credito do conde de Runa, antigo mimoso de D. -Carlota Joaquina, hoje conselheiro rispido do sr. D. Miguel, no tinham -sido confiscados; e Affonso da Maia podia viver largamente. - -Ao principio os emigrados liberaes, Palmella e a gente do _Belfast_, -ainda o vieram desassocegar e consumir. A sua alma recta no tardou a -protestar vendo a separao de castas, de gerarchias, mantidas ali na -terra estranha entre os vencidos da mesma ida--os fidalgos e os -desembargadores vivendo no luxo de Londres forra, e a plebe, o -exercito, depois dos padecimentos da Galliza, succumbindo agora fome, - vermina, febre nos barraces de Plymouth. Teve logo conflictos com -os chefes liberaes; foi accusado de vintista e demagogo; descreu por fim -do liberalismo. Isolou-se ento--sem fechar todavia a sua bolsa, d'onde -sahiam s cincoenta, s cem moedas... Mas quando a primeira expedio -partiu, e pouco a pouco se foram vasando os depositos de emigrados, -respirou emfim--e, como elle disse, pela primeira vez lhe soube bem o ar -d'Inglaterra! - -Mezes depois sua me, que ficara em Bemfica, morria d'uma apoplexia: e a -tia Fanny veiu para Richmond completar a felicidade d'Affonso, com o seu -claro juizo, os seus caraces brancos, os seus modos de discreta -Minerva. Alli estava elle pois no seu sonho, n'uma digna residencia -ingleza, entre arvores seculares, vendo em redor nas vastas relvas -dormirem ou pastarem os gados de luxo, e sentindo em torno de si tudo -so, forte, livre e solido,--como o amava o seu corao. - -Teve relaes; estudou a nobre e rica litteratura ingleza; -interessou-se, como convinha a um fidalgo em Inglaterra, pela cultura, -pela cria dos cavallos, pela pratica da caridade;--e pensava com prazer -em ficar ali para sempre n'aquella paz e n'aquella ordem. - -Smente Affonso sentia que sua mulher no era feliz. Pensativa e triste, -tossia sempre pelas salas. noite sentava-se ao fogo, suspirava e -ficava calada... - -Pobre senhora! a nostalgia do paiz, da parentella, das egrejas, ia-a -minando. Verdadeira lisboeta, pequenina e trigueira, sem se queixar e -sorrindo pallidamente, tinha vivido desde que chegara n'um odio surdo -quella terra d'herejes e ao seu idioma barbaro: sempre arripiada, -abafada em pelles, olhando com pavor os ceus fuscos ou a neve nas -arvores, o seu corao no estivera nunca alli, mas longe, em Lisboa, -nos adros, nos bairros batidos do sol. A sua devoo (a devoo dos -Runas!) sempre grande, exaltara-se, exacerbara-se quella hostilidade -ambiente que ella sentia em redor contra os papistas. E s se -satisfazia noite, indo refugiar-se no soto com as creadas -portuguezas, para resar o _tero_ agachada n'uma esteira--gosando ali, -n'esse murmurio _d'ave-marias_ em paiz protestante, o encanto de uma -conjurao catholica! - -Odiando tudo o que era inglez, no consentira que seu filho, o Pedrinho, -fosse estudar ao collegio de Richmond. Debalde Affonso lhe provou que -era um collegio catholico. No queria: aquelle catholicismo sem -romarias, sem fogueiras pelo S. Joo, sem imagens do Senhor dos Passos, -sem frades nas ruas--no lhe parecia a religio. A alma do seu Pedrinho -no abandonaria ella heresia;--e para o educar mandou vir de Lisboa o -padre Vasques, capello do Conde de Runa. - -O Vasques ensinava-lhe as declinaes latinas, sobretudo a cartilha: e a -face d'Affonso da Maia cobria-se de tristeza, quando ao voltar d'alguma -caada ou das ruas de Londres, d'entre o forte rumor da vida -livre--ouvia no quarto dos estudos a voz dormente do reverendo, -perguntando como do fundo d'uma treva: - ---Quantos so os inimigos da alma? - -E o pequeno, mais dormente, l ia murmurando: - ---Tres. Mundo, Diabo e Carne... - -Pobre Pedrinho! Inimigo da sua alma s havia alli o reverendo Vasques, -obeso e sordido, arrotando do fundo da sua poltrona, com o leno do rap -sobre o joelho... - -s vezes Affonso, indignado, vinha ao quarto, interrompia a doutrina, -agarrava a mo do Pedrinho--para o levar, correr com elle sob as arvores -do Tamisa, dissipar-lhe na grande luz do rio o pesadume crasso da -cartilha. Mas a mam accudia de dentro, em terror, a abafal-o n'uma -grande manta: depois l fra o menino, acostumado ao collo das creadas e -aos recantos estofados, tinha medo do vento e das arvores: e pouco a -pouco, n'um passo desconsolado, os dois iam pisando em silencio as -folhas seccas--o filho todo acobardado das sombras do bosque vivo, o pae -vergando os hombros pensativo, triste d'aquella fraqueza do filho... - -Mas o menor esforo d'elle para arrancar o rapaz quelles braos de me -que o amolleciam, quella cartilha mortal do padre Vasques--trazia logo - delicada senhora accessos de febre. E Affonso no se atrevia j a -contrariar a pobre doente, to virtuosa, e que o amava tanto! Ia ento -lamentar-se para o p da tia Fanny: a sabia irlandeza mettia os oculos -entre as folhas do seu livro, tratado d'Addisson ou poema de Pope, e -encolhia melancolicamente os hombros. Que podia ella fazer!... - -Por fim a tosse de Maria Eduarda foi augmentando--como a tristeza das -suas palavras. J fallava da sua ambio derradeira, que era ver o sol -uma vez mais! Por que no voltariam a Bemfica, ao seu lar, agora que o -sr. Infante estava tambem desterrado e que havia uma grande paz? Mas a -isso Affonso no cedeu: no queria ver outra vez as suas gavetas -arrombadas a coronhadas--e os soldados do sr. D. Pedro no lhe davam -mais garantias que os malsins do sr. D. Miguel. - -Por esse tempo veio um grave desgosto casa: a tia Fanny morreu, d'uma -pneumonia, nos frios de maro; e isto ennegreceu mais a melancolia de -Maria Eduarda, que a amava muito tambem--por ser irlandeza e catholica. - -Para a distrahir, Affonso levou-a para a Italia, para uma deliciosa -_villa_ ao p de Roma. Ahi no lhe faltava o sol: tinha-o ponctual e -generoso todas as manhs, banhando largamente os terraos, dourando -loureiraes e myrtos. E depois, l em baixo, entre marmores, estava a -coisa preciosa e santa, o Papa! - -Mas a triste senhora continuava a choramigar. O que realmente appetecia -era Lisboa, as suas novenas, os santos devotos do seu bairro, as -procisses passando n'um rumor de pachorrenta penitencia por tardes de -sol e de poeira... - -Foi necessario calmal-a, voltar a Bemfica. - -Ahi comeou uma vida desconsolada. Maria Eduarda definhava lentamente, -todos os dias mais pallida, levando semanas immovel sobre um canap, com -as mos transparentes cruzadas sobre as suas grossas pelles -d'Inglaterra. O padre Vasques, apoderando-se d'aquella alma aterrada -para quem Deus era um amo feroz, tornra-se o grande homem da casa. De -resto Affonso encontrava a cada momento pelos corredores outras figuras -canonicas, de capote e solideo, em que reconhecia antigos franciscanos, -ou algum magro capuchinho parasitando no bairro; a casa tinha um bafio -de sachristia; e dos quartos da senhora vinha constantemente, dolente e -vago, um rumor de ladainha. - -Todos aquelles santos vares comiam, bebiam o seu vinho do Porto na -copa. As contas do administrador appareciam sobrecarregadas com as -mesadas piedosas que dava a senhora: um Frei Patricio surripira-lhe -duzentas missas de cruzado por alma do Sr. D. Jos I... - -Esta carolice que o cercava ia lanando Affonso n'um atheismo rancoroso: -quereria as egrejas fechadas como os mosteiros, as imagens escavacadas a -machado, uma matana de reverendos... Quando sentia na casa a voz de -resas, fugia, ia para o fundo da quinta, sob as trepadeiras do mirante, -ler o seu Voltaire: ou ento partia a desabafar com o seu velho amigo, o -coronel Sequeira, que vivia n'uma quinta a Queluz. - -O Pedrinho no entanto estava quasi um homem. Ficara pequenino e nervoso -como Maria Eduarda, tendo pouco da raa, da fora dos Maias; a sua linda -face oval d'um trigueiro calido, dois olhos maravilhosos e -irresistiveis; promptos sempre a humedecer-se, faziam-n'o assemelhar a -um bello arabe. Desenvolvera-se lentamente, sem curiosidades, -indifferente a brinquedos, a animaes, a flores, a livros. Nenhum desejo -forte parecera jmais vibrar n'aquella alma meia adormecida e passiva: -s s vezes dizia que gostaria muito de voltar para a Italia. Tomra -birra ao Padre Vasques, mas no ousava desobedecer-lhe. Era em tudo um -fraco; e esse abatimento continuo de todo o seu ser resolvia-se a -espaos em crises de melancolia negra, que o traziam dias e dias mudo, -murcho, amarello, com as olheiras fundas e j velho. O seu unico -sentimento vivo, intenso, at ahi, fra a paixo pela me. - -Affonso quizera-o mandar para Coimbra. Mas, ida de se separar do seu -Pedro, a pobre senhora cahira de joelhos deante d'Affonso, balbuciando e -tremendo: e elle, naturalmente, l cedeu perante essas mos -supplicantes, essas lagrimas que cahiam quatro a quatro pela pobre face -de cera. O menino continuou em Bemfica dando os seus lentos passeios a -cavallo, de creado de farda atraz, comeando j a ir beber a sua genebra -aos botequins de Lisboa... Depois foi despontando n'aquella organisao -uma grande tendencia amorosa: aos dezenove annos teve o seu -bastardosinho. - -Affonso da Maia consolava-se pensando que, apesar de to desgraados -mimos, no faltavam ao rapaz qualidades: era muito esperto, so, e, como -todos os Maias, valente: no havia muito que elle s, com um chicote, -dispersara na estrada tres saloios de varapau que lhe tinham chamado -_palmito_. - -Quando a me morreu, n'uma agonia terrivel de devota, debatendo-se dias -nos pavores do inferno, Pedro teve na sua dr os arrebatamentos d'uma -loucura. Fizera a promessa hysterica, se ella escapasse, de dormir -durante um anno sobre as lageas do pateo: e levado o caixo, sahidos os -padres, cahio n'uma angustia soturna, obtusa, sem lagrimas, de que no -queria emergir, estirado de bruos sobre a cama n'uma obstinao de -penitente. Muitos mezes ainda no o deixou uma tristeza vaga: e Affonso -da Maia j se desesperava de ver aquelle rapaz, seu filho e seu -herdeiro, sahir todos os dias a passos de monge, lugubre no seu luto -pesado, para ir visitar a sepultura da mam... - -Esta dr exagerada e morbida cessou por fim; e succedeu-lhe, quasi sem -transio, um periodo de vida dissipada e turbulenta, estroinice banal, -em que Pedro, levado por um romantismo torpe, procurava affogar em -lupanares e botequins as saudades da mam. Mas essa exhuberancia anciosa -que se desencadeara to subitamente, to tumultuosamente, na sua -natureza desequilibrada, gastou-se depressa tambem. - -Ao fim d'um anno de disturbios no Marrare, de faanhas nas esperas de -toiros, de cavallos esfalfados, de pateadas em S. Carlos, comearam a -reapparecer as antigas crises de melancolia nervosa; voltavam esses dias -taciturnos, longos como desertos, passados em casa a bocejar pelas -salas, ou sob alguma arvore da quinta todo estirado de bruos, como -despenhado n'um fundo de amargura. N'esses periodos tornava-se tambem -devoto: lia Vidas de Santos, visitava o Lausperenne: eram d'esses -bruscos abatimentos d'alma que outr'ora levavam os fracos aos mosteiros. - -Isto penalisava Affonso da Maia: preferia saber que elle recolhera de -Lisboa, de madrugada, exhausto e bebedo,--do que vel-o, de ripano -debaixo do brao, com um ar velho, marchando para a Egreja de Bemfica. - -E havia agora uma ida que, a seu pesar, s vezes o torturava: -descobrira a grande parecena de Pedro com um av de sua mulher, um -Runa, de quem existia um retrato em Bemfica: este homem extraordinario, -com que na casa se mettia medo s creanas, enlouquecera--e julgando-se -Judas enforcara-se n'uma figueira... - -Mas um dia, excessos e crises findaram. Pedro da Maia amava! Era um amor - Romeu, vindo de repente n'uma troca de olhares fatal e deslumbradora, -uma d'essas paixes que assaltam uma existencia, a assolam como um -furaco, arrancando a vontade, a raso, os respeitos humanos e -empurrando-os de roldo aos abysmos. - -N'uma tarde, estando no Marrare, vira parar defronte, porta de M.^{me} -Levaillant, uma caleche azul onde vinha um velho de chapo branco, e uma -senhora loira, embrulhada n'um chale de Cashmira. - -O velho, baixote e reforado, de barba muito grisalha talhada por baixo -do queixo, uma face tisnada d'antigo embarcadio e o ar gche, desceu -todo encostado ao trintanario como se um rheumatismo o tolhesse, entrou -arrastando a perna o portal da modista; e ella voltando de vagar a -cabea olhou um momento o Marrare. - -Sob as rosinhas que ornavam o seu chapeu preto os cabellos loiros, d'um -oiro fulvo, ondeavam de leve sobre a testa curta e classica: os olhos -maravilhosos illuminavam-n'a toda; a friagem fazia-lhe mais pallida a -carnao de marmore: e com o seu perfil grave de estatua, o modelado -nobre dos hombros e dos braos que o chale cingia--pareceu a Pedro -n'esse instante alguma cousa d'immortal e superior terra. - -No a conhecia. Mas um rapaz alto, macilento, de bigodes negros, vestido -de negro, que fumava encostado outra hombreira, n'uma _pose_ de -tedio--vendo o violento interesse de Pedro, o olhar acceso e perturbado -com que seguia a caleche trotando Chiado acima, veiu tomar-lhe o brao, -murmurou-lhe junto face na sua voz grossa e lenta: - ---Queres que te diga o nome, meu Pedro? O nome, as origens, as datas e -os feitos principaes? E pagas ao teu amigo Alencar, ao teu sequioso -Alencar, uma garrafa de Champagne? - -Veiu o Champagne. E o Alencar, depois de passar os dedos magros pelos -anneis da cabelleira e pelas pontas do bigode, comeou, todo recostado e -dando um pucho aos punhos: - ---Por uma dourada tarde d'outomno... - ---Andr, gritou Pedro ao creado, martellando o marmore da mesa, retira o -Champagne! - -O Alencar bradou, imitando o actor Epiphanio: - ---O qu! Sem saciar a avidez de meu labio?... - -Pois bem, o Champagne ficaria: mas o amigo Alencar, esquecendo que era o -poeta das _Vozes d'Aurora_, explicaria aquella gente da caleche azul -n'uma linguagem christ e pratica!... - ---Ahi vae, meu Pedro, ahi vae! - -Havia dois annos, justamente quando Pedro perdera a mam, aquelle velho, -o pap Monforte, uma manh rompera subitamente pelas ruas e pela -sociedade de Lisboa n'aquella mesma caleche com essa bella filha ao seu -lado. Ninguem os conhecia. Tinham alugado a Arroios um primeiro andar no -palacete dos Vargas; e a rapariga principiou a apparecer em S. Carlos, -fazendo uma impresso--uma impresso de causar aneurismas, dizia o -Alencar! Quando ella atravessava o salo os hombros vergavam-se no -deslumbramento de aurola que vinha d'aquella magnifica creatura, -arrastando com um passo de Deusa a sua cauda de crte, sempre decotada -como em noites de gala, e apesar de solteira resplandecente de joias. O -pap nunca lhe dava o brao: seguia atraz, entalado n'uma grande gravata -branca de mordomo, parecendo mais tisnado e mais embarcadio na -claridade loira que sahia da filha, encolhido e quasi apavorado, -trazendo nas mos o oculo, o _libretto_, um saco de _bonbons_, o leque e -o seu proprio guardachuva. Mas era no camarote, quando a luz cahia sobre -o seu collo eburneo e as suas tranas de oiro, que ella offerecia -verdadeiramente a encarnao d'um ideal da Renascena, um modelo de -Ticiano... Elle, Alencar, na primeira noite em que a vira, exclamara, -mostrando-a a ella e s outras, s trigueirotas da assignatura: - ---Rapazes! como um ducado de ouro novo entre velhos patacos do tempo -do Sr. D. Joo VI! - -O Magalhes, esse torpe pirata, pozera o dito n'um folhetim do -_Portuguez_. Mas o dito era d'elle, Alencar! - -Os rapazes, naturalmente, comearam logo a rondar o palacete de Arroios. -Mas nunca n'aquella casa se abria uma janella. Os criados interrogados -disseram apenas que a menina se chamava Maria, e que o senhor se chamava -Manoel. Emfim uma creada, amaciada com seis pintos, soltou mais: o homem -era taciturno, tremia deante da filha, e dormia n'uma rde; a senhora, -essa, vivia n'um ninho de sedas todo azul-ferrte, e passava o seu dia a -ler novellas. Isto no podia satisfazer a sofreguido de Lisboa. Fez-se -uma devassa methodica, habil, paciente... Elle, Alencar, pertencera -devassa. - -E souberam-se horrores. O pap Monforte era dos Aores; muito moo, uma -facada n'uma rixa, um cadaver a uma esquina tinham-n'o forado a fugir a -bordo d'um brigue americano. Tempos depois um certo Silva, procurador da -casa de Taveira, que o conhecera nos Aores, estando na Havana a estudar -a cultura do tabaco que os Taveiras queriam implantar nas Ilhas -encontrra l o Monforte (que verdadeiramente se chamava Forte) rondando -pelo caes, de chinellas de esparto, procura de embarque para a -Nova-Orleans. Aqui havia uma treva na historia do Monforte. Parece que -servira algum tempo de feitor n'uma plantao da Virginia... Emfim, -quando reappareceu face dos cos commandava o brigue _Nova Linda_, e -levava cargas de pretos para o Brazil, para a Havana e para a Nova -Orleans. - -Escapara aos cruzeiros inglezes, arrancra uma fortuna da pelle do -africano, e agora rico, homem de bem, proprietario, ia ouvir a Corelli a -S. Carlos. Todavia esta terrivel chronica, como dizia o Alencar, obscura -e mal provada, claudicava aqui e alm... - ---E a filha? perguntou Pedro, que o escutara, serio e pallido. - -Mas isso no o sabia o amigo Alencar. Onde a arranjara assim to loira e -bella? Quem fra a mam? Onde estava? Quem a ensinara a embrulhar-se com -aquelle gesto real no seu chale de Cashmira?... - ---Isso, meu Pedro, so - - - mysterios que jmais poude Lisboa - astuta devassar e s Deus sabe! - - -Em todo o caso quando Lisboa descobriu aquella legenda de sangue e -negros, o enthusiasmo pela Monforte calmou. Que diabo! Juno tinha sangue -de assassino, a _belt_ do Ticiano era filha de negreiro! As senhoras, -deliciando-se em villipendiar uma mulher to loira, to linda e com -tantas joias, chamaram-lhe logo a _negreira_! Quando ella apparecia -agora no theatro, D. Maria da Gama affectava esconder a face detraz do -leque, porque lhe parecia ver na rapariga (sobretudo quando ella usava -os seus bellos rubis) o sangue das facadas que dera o papzinho! E -tinham-n'a calumniado abominavelmente. Assim, depois de passarem em -Lisboa o primeiro inverno, os Monfortes sumiram-se: pois disse-se logo, -com furor, que estavam arruinados, que a policia perseguia o velho, mil -perversidades... O excellente Monforte, que soffre de rheumatismos -articulares, achava-se tranquillamente, ricamente, tomando as aguas dos -Piryneus... Fora l que o Mello os conhecera... - ---Ah! o Mello conhece-os? exclamou Pedro. - ---Sim, meu Pedro, o Mello os conhece. - -Pedro d'ahi a um momento deixou o Marrare; e n'essa noite, antes de -recolher, apesar da chuva fria e miuda, andou rondando uma hora, com a -imaginao toda accesa, o palacete dos Vargas apagado e mudo. Depois, -d'ahi a duas semanas o Alencar, entrando em S. Carlos ao fim do primeiro -acto do _Barbeiro_, ficou assombrado ao ver Pedro da Maia installado na -frisa da Monforte, frente, ao lado de Maria, com uma camelia escarlate -na casaca--egual s d'um ramo pousado no rebordo de velludo. - -Nunca Maria Monforte apparecera mais bella: tinha uma d'essas -_toilettes_ excessivas e theatraes que offendiam Lisboa, e faziam dizer -s senhoras que ella se vestia como uma comica. Estava de seda cr de -trigo, com duas rosas amarellas e uma espiga nas tranas, opalas sobre o -collo e nos braos; e estes tons de ceara madura batida do sol, -fundindo-se com o ouro dos cabellos, illuminando-lhe a carnao eburnea, -banhando as suas frmas de estatua, davam-lhe o esplendor d'uma Ceres. -Ao fundo entreviam-se os grandes bigodes loiros do Mello, que conversava -de p com o pap Monforte--escondido como sempre no canto negro da -frisa. - -O Alencar foi observar o caso do camarote dos Gamas. Pedro voltra -sua cadeira, e de braos cruzados contemplava Maria. Ella conservou -algum tempo a sua attitude de Deusa insensivel; mas, depois, no duetto -de Rosina e Lindor, duas vezes os seus olhos azues e profundos se -fixaram n'elle, gravemente e muito tempo. O Alencar, correu ao Marrare, -de braos ao ar, a berrar a novidade. - -No tardou de resto a fallar-se em toda a Lisboa da paixo de Pedro da -Maia pela _negreira_. Elle tambem namorou-a publicamente, antiga, -plantado a uma esquina, defronte do palacete dos Vargas, com os olhos -cravados na janella d'ella, immovel e pallido d'extasi. - -Escrevia-lhe todos os dias duas cartas em seis folhas de papel--poemas -desordenados que ia compr para o Marrare: e ninguem l ignorava o -destino d'aquellas paginas de linhas encruzadas que se accumulavam -deante d'elle sobre o taboleiro da genebra. Se algum amigo vinha porta -do caf perguntar por Pedro da Maia, os criados j respondiam muito -naturalmente: - ---O sr. D. Pedro? Est a escrever menina. - -E elle mesmo, se o amigo se acercava, estendia-lhe a mo, exclamava -radiante, com o seu bello e franco sorriso: - ---Espera ahi um bocado, rapaz, estou a escrever Maria! - -Os velhos amigos de Affonso da Maia que vinham fazer o seu _whist_ a -Bemfica, sobretudo o Villaa, o administrador dos Maias, muito zeloso da -dignidade da casa, no tardaram em lhe trazer a nova d'aquelles amores -do Pedrinho. Affonso j os suspeitava: via todos os dias um criado da -quinta partir com um grande ramo das melhores camelias do jardim; todas -as manhs cedo encontrava no corredor o escudeiro, dirigindo-se ao -quarto do menino, a cheirar regaladamente o perfume d'um enveloppe com -sinete de lacre dourado;--e no lhe desagradava que um sentimento -qualquer, humano e forte, lhe fosse arrancando o filho estroinice -bulhenta, ao jogo, s melancolias sem raso em que reapparecia o negro -ripano... - -Mas ignorava o nome, a existencia sequer dos Monfortes; e as -particularidades que os amigos lhe revelaram, aquella facada nos Aores, -o chicote de feitor na Virginia, o brigue _Nova Linda_, toda a sinistra -legenda do velho contrariou muito Affonso da Maia. - -Uma noite que o coronel Sequeira, mesa do _whist_, contava que vira -Maria Monforte e Pedro passeando a cavallo, ambos muito bem e muito -_distingus_, Affonso, depois d'um silencio, disse com um ar -enfastiado: - ---Emfim, todos os rapazes teem as suas amantes... Os costumes so assim, -a vida assim, e seria absurdo querer reprimir taes cousas. Mas essa -mulher, com um pae d'esses, mesmo para amante acho m. - -O Villaa suspendeu o baralhar das cartas, e ageitando os oculos d'ouro -exclamou com espanto: - ---Amante! Mas a rapariga solteira, meu senhor, uma menina -honesta!... - -Affonso da Maia enchia o seu cachimbo; as mos comearam a tremer-lhe; e -voltando-se para o administrador, n'uma voz que tremia um pouco tambem: - ---O Villaa de certo no suppe que meu filho queira casar com essa -creatura... - -O outro emmudeceu. E foi o Sequeira que murmurou: - ---Isso no, est claro que no... - -E o jogo continuou algum tempo em silencio. - -Mas Affonso da Maia principiou a andar descontente. Passavam-se semanas -que Pedro no jantava em Bemfica. De manh, se o via, era um momento, -quando elle descia ao almoo, j com uma luva calada, apressado e -radiante, gritando para dentro se estava sellado o cavallo; depois, -mesmo de p, bebia um gole de ch, perguntava a correr se o pap queria -alguma cousa, dava um geito ao bigode deante do grande espelho de -Veneza sobre o fogo, e l partia, enlevado. Outras vezes todo o dia no -sahia do quarto: a tarde descia, accendiam-se as luzes; at que o pae, -inquieto, subia, ia encontral-o estirado sobre o leito, com a cabea -enterrada nos braos. - ---Que tens tu?--perguntava-lhe. - ---Enchaqueca,--respondia n'um tom surdo e rouco. - -E Affonso descia indignado, vendo em toda aquella angustia covarde -alguma carta que no viera, ou talvez uma rosa offerecida que no fra -posta nos cabellos... - -Depois, por vezes, entre dois _robbers_ ou conversando em volta da -bandeja do ch, os seus amigos tinham observaes que o inquietavam, -partindo d'aquelles homens que habitavam Lisboa, lhe conheciam os -rumores--emquanto elle passava alli, inverno e vero, entre os seus -livros e as suas rosas. Era o excellente Sequeira que perguntava porque -no faria Pedro uma viagem longa, para se instruir, Allemanha, ao -Oriente? Ou o velho Luiz Runa, o primo d'Affonso, que, a proposito de -cousas indifferentes, rompia lamentando os tempos em que o Intendente da -policia podia livremente expulsar de Lisboa as pessoas importunas... -Evidentemente alludiam Monforte, evidentemente julgavam-n'a perigosa. - -No vero, Pedro partiu para Cintra; Affonso soube que os Monfortes -tinham l alugado uma casa. Dias depois o Villaa appareceu em Bemfica, -muito preoccupado: na vespera Pedro visitara-o no cartorio, pedira-lhe -informaes sobre as suas propriedades, sobre o meio de levantar -dinheiro. Elle l lhe dissera que em setembro, chegando sua -maioridade, tinha a legitima da mam... - ---Mas no gostei d'isto, meu senhor, no gostei d'isto... - ---E porque, Villaa? O rapaz querer dinheiro, querer dar presentes -creatura... O amor um luxo caro, Villaa. - ---Deus queira que seja isso, meu senhor, Deus o oua! - -E aquella confiana to nobre de Affonso da Maia no orgulho patricio, -nos brios de raa de seu filho, chegava a tranquillisar Villaa. - -D'ahi a dias, Affonso da Maia viu emfim Maria Monforte. Tinha jantado na -quinta do Sequeira ao p de Queluz, e tomavam ambos o seu caf no -mirante, quando entrou pelo caminho estreito que seguia o muro a caleche -azul com os cavallos cobertos de redes. Maria, abrigada sob uma -sombrinha escarlate, trazia um vestido cr de rosa cuja roda, toda em -folhos, quasi cobria os joelhos de Pedro sentado ao seu lado: as fitas -do seu chapo, apertadas n'um grande lao que lhe enchia o peito, eram -tambem cr de rosa: e a sua face, grave e pura como um marmore grego, -apparecia realmente adoravel, illuminada pelos olhos d'um azul sombrio, -entre aquelles tons rosados. No assento defronte, quasi todo tomado por -cartes de modista, encolhia-se o Monforte, de grande chapo panam, -cala de ganga, o mantelete da filha no brao, o guarda sol entre os -joelhos. Iam callados, no viram o mirante; e, no caminho verde e -fresco, a caleche passou com balanos lentos, sob os ramos que roavam a -sombrinha de Maria. O Sequeira ficara com a chavena de caf junto aos -labios, de olho esgazeado, murmurando: - ---Caramba! bonita! - -Affonso no respondeu: olhava cabisbaixo aquella sombrinha escarlate, -que agora se inclinava sobre Pedro, quasi o escondia, parecia envolvel-o -todo--como uma larga mancha de sangue alastrando a caleche sob o verde -triste das ramas. - -O outono passou, chegou o inverno, frigidissimo. Uma manh, Pedro entrou -na livraria onde o pae estava lendo junto ao fogo; recebeu-lhe a -beno, passou um momento os olhos por um jornal aberto, e voltando-se -bruscamente para elle: - ---Meu pae,--disse, esforando-se por ser claro e decidido--venho -pedir-lhe licena para casar com uma senhora que se chama Maria -Monforte. - -Affonso pousou o livro aberto sobre os joelhos, e n'uma voz grave e -lenta: - ---No me tinhas fallado d'isso... Creio que a filha d'um assassino, -d'um negreiro, a quem chamam tambem a _negreira_... - ---Meu pae!... - -Affonso ergueu-se diante d'elle, rigido e inexoravel como a encarnao -mesma da honra domestica. - ---Que tens a dizer-me mais? Fazes-me corar de vergonha. - -Pedro, mais branco que o leno que tinha na mo, exclamou todo a tremer, -quasi em soluos: - ---Pois pde estar certo, meu pae, que hei de casar! - -Sahiu, atirando furiosamente com a porta. No corredor gritou pelo -escudeiro, muito alto para que o pae ouvisse, e deu-lhe ordem para levar -as suas malas ao hotel da Europa. - -Dois dias depois Villaa entrou em Bemfica, com as lagrimas nos olhos, -contando que o menino casra n'essa madrugada--e segundo lhe dissera o -Sergio, procurador do Monforte, ia partir com a noiva para a Italia. - -Affonso da Maia sentra-se n'esse instante mesa do almoo, posta ao p -do fogo: ao centro, um ramo esfolhava-se n'um vaso do Japo, chamma -forte da lenha: e junto ao talher de Pedro estava o numero da -_Grinalda_, jornal de versos que elle costumava receber... Affonso ouviu -o procurador, grave e mudo, continuando a desdobrar lentamente o seu -guardanapo. - ---J almoou, Villaa? - -O procurador, assombrado d'aquella serenidade, balbuciou: - ---J almocei, meu senhor... - -Ento Affonso, apontando para o talher de Pedro, disse ao escudeiro: - ---Pde tirar d'alli esse talher, Teixeira. D'aqui por diante ha s um -talher mesa... Sente-se, Villaa, sente-se. - -O Teixeira, ainda novo na casa, levantou com indifferena o talher do -menino. Villaa sentra-se. Tudo em redor era correto e calmo como nas -outras manhs em que almoara em Bemfica. Os passos do escudeiro no -faziam ruido no tapete fofo; o lume estalava alegremente, pondo retoques -d'ouro nas pratas polidas; o sol discreto que brilhava fra no azul -d'inverno fazia scintillar crystaes de geada nas ramas seccas; e -janella o papagaio, muito patula e educado por Pedro, rosnava injurias -aos Cabraes. - -Por fim Affonso ergueu-se; esteve olhando abstrahidamente a quinta, os -paves no terrasso; depois ao sahir da sala tomou o brao de Villaa, -apoiou-se n'elle com fora, como se lhe tivesse chegado a primeira -tremura da velhice, e no seu abandono sentisse alli uma amizade segura. -Seguiram o corredor, callados. Na livraria Affonso foi occupar a sua -poltrona ao p da janella, comeou a encher de vagar o seu cachimbo. -Villaa, de cabea baixa, passeava ao comprido das altas estantes, nas -pontas dos ps, como no quarto d'um doente. Um bando de pardaes veiu -gralhar um momento nos ramos d'uma alta arvore que roava a varanda. -Depois houve um silencio, e Affonso da Maia disse: - ---Ento, Villaa, o Saldanha l foi demittido do Pao?... - -O outro respondeu, vaga e machinalmente: - --- verdade, meu senhor, verdade... - -E no se fallou mais de Pedro da Maia. - - - - -II - - -Pedro e Maria, no entanto, n'uma felicidade de novella, iam descendo a -Italia, a pequenas jornadas, de cidade em cidade, n'essa via sagrada que -vae desde as flores e das messes da planicie lombarda at ao molle paiz -de romanza, Napoles, branca sob o azul. Era l que tencionavam passar o -inverno, n'esse ar sempre tepido junto a um mar sempre manso, onde as -preguias de noivado teem uma suavidade mais longa... Mas um dia, em -Roma, Maria sentiu o appetite de Paris. Parecia-lhe fatigante o viajar -assim, aos balouos das caleas, s para ir ver _lazzaroni_ engolir fios -de macarro. Quanto melhor seria habitar um ninho acolchoado nos Campos -Elyseos, e gozarem alli um lindo inverno de amor! Paris estava seguro, -agora, com o principe Luiz Napoleo... Alm d'isso, aquella velha Italia -classica enfastiava-a j: tantos marmores eternos, tantas _madonas_ -comeavam (como ella dizia pendurada languidamente do pescoo de Pedro) -a dar tonturas sua pobre cabea! Suspirava por uma boa loja de modas, -sob as chammas do gaz, ao rumor do boulevard... Depois tinha medo da -Italia onde todo mundo conspirava. - -Foram para Frana. - -Mas por fim aquelle Paris ainda agitado, onde parecia restar um vago -cheiro de polvora pelas ruas, onde cada face conservava um calor de -batalha, desagradou a Maria. De noite accordava com a _Marselheza_; -achava um ar feroz policia; tudo permanecia triste; e as duquezas, -pobres anjos, ainda no ousavam vir ao _Bois_, com medo dos operarios, -corja insaciavel! Emfim demoraram-se l at a primavera, no ninho que -ella sonhra, todo de velludo azul, abrindo sobre os Campos Elyseos. - -Depois principiou a fallar-se de novo em revoluo, em golpe d'estado. A -admirao absurda de Maria pelos novos uniformes da _garde-mobile_ fazia -Pedro nervoso. E quando ella appareceu gravida, anciou por a tirar -d'aquelle Paris batalhador e fascinante, vir abrigal-a na pacata Lisboa -adormecida ao sol. - -Antes de partir porm escreveu ao pae. - -Fra um conselho, quasi uma exigencia de Maria. A recusa de Affonso da -Maia ao principio desesperara-a. No a affligia a desunio domestica: -mas aquelle _no_ affrontoso de fidalgo puritano marcara muito -publicamente, muito brutalmente, a sua origem suspeita! Odiou o velho: e -tinha apressado o casamento, aquella partida triumphante para Italia, -para lhe mostrar bem que nada valiam genealogias, avs godos, brios de -familia--deante dos seus braos nus... Agora porm que ia voltar a -Lisboa, dar _soires_, crear crte, a reconciliao tornava-se -indispensavel; aquelle pae retirado em Bemfica, com o rigido orgulho de -outras edades, faria lembrar constantemente, mesmo entre os seus -espelhos e os seus estofos, o brigue _Nova Linda_ carregado de negros... -E queria mostrar-se a Lisboa pelo brao d'esse sogro to nobre e to -ornamental, com as suas barbas de Viso-rei. - ---Dize-lhe que j o adoro, murmurava ella curvada sobre a escrivaninha -acariciando os cabellos de Pedro. Dize-lhe que se tiver um pequeno lhe -hei de pr o nome d'elle... Escreve-lhe uma carta bonita, hein! - -E foi bonita, foi terna a carta de Pedro ao pap. O pobre rapaz amava-o. -Fallou-lhe commovido da esperana de ter um filho varo; as -desintelligencias deviam findar em torno do bero d'aquelle pequeno Maia -que alli vinha, morgado e herdeiro do nome... Contava-lhe a sua -felicidade, com uma effuso de namorado indiscreto: a historia da -bondade de Maria, das suas graas, da sua instruco, enchia duas -paginas: e jurava-lhe que apenas chegasse no tardaria uma hora em ir -atirar-se aos seus ps... - -Com effeito, apenas desembarcou, correu n'um trem a Bemfica. Dois dias -antes o pae partira para S.^{ta} Olavia: isto pareceu-lhe uma -desfeita--e feriu-o acerbamente. - -Fez-se ento entre o pae e o filho uma grande separao. Quando lhe -nasceu uma filha Pedro no lh'o participou--dizendo dramaticamente ao -Villaa que j no tinha pae! Era uma linda bb, muito gorda, loira e -cr de rosa, com os bellos olhos negros dos Maias. Apesar do desejo de -Pedro, Maria no a quiz crear; mas adorava-a com phrenesi; passava dias -de joelhos ao p do bero, em extasi, correndo as suas mos cheias de -pedrarias pelas carninhas tenras; pondo-lhe beijos de devota nos -psinhos, na rosquinha das cxas, balbuciando-lhe n'um enlevo nomes de -grande amor, e perfumando-a j, enchendo-a j de laarotes. - -E n'estes delirios pela filha, brotava, mais amarga, a sua colera contra -Affonso da Maia. Considerava-se ento insultada em si mesma e n'aquelle -cherubim que lhe nascera. Injuriava o velho grosseiramente, chamava-lhe -o _D. Fuas_, o _Barbatanas_... - -Pedro um dia ouviu isto, e escandalisou-se: ella replicou -desabridamente: e deante d'aquella face abrazada, onde entre lagrimas os -olhos azues pareciam negros de colera, elle s poude balbuciar -timidamente: - --- meu pae, Maria... - -Seu pae! E face de toda a Lisboa tratava-a ento como uma concubina! -Podia ser um fidalgo, as maneiras eram de villo. Um _D. Fuas_, um -_Barbatanas_, nada mais!... - -Arrebatou a filha, e abraada n'ella, romperam as queixas por entre os -prantos: - ---Ninguem nos ama, meu anjo! Ninguem te quer! Tens s a tua me! -Tratam-te como se fosses bastarda! - -A beb, sacudida nos braos da me, desatou a gritar. Pedro correu, -envolveu-as ambas no mesmo abrao, j enternecido, j humilde; e tudo -terminou n'um longo beijo. - -E elle, por fim, no seu corao, justificava aquella colera de me que -v desprezado o seu anjo. De resto, mesmo alguns amigos de Pedro, o -Alencar, o D. Joo da Cunha, que comeavam agora a frequentar Arroios, -riam d'aquella obstinao de pae gothico, amuado na provincia, porque -sua nora no tivera avs mortos em Aljubarrota! E onde havia outra em -Lisboa, com aquellas _toilettes_, aquella graa, recebendo to bem? Que -diabo, o mundo marchara, sahira-se j das attitudes empertigadas do -seculo XVI! - -E o proprio Villaa, um dia que Pedro lhe fra mostrar a pequerruchinha -adormecida entre as rendas do seu bero, sensibilisou-se, veio-lhe uma -das suas faceis lagrimas, declarou, com a mo no corao, que aquillo -era uma caturrice do sr. Affonso da Maia! - ---Pois peior para elle! no querer ver um anjo d'estes! disse Maria, -dando deante do espelho um lindo geito s flores do cabello. Tambem no -faz c falta... - -E no fazia falta. N'esse outubro, quando a pequena completou o seu -primeiro anno, houve um grande baile na casa de Arroios, que elles agora -occupavam toda, e que fra ricamente remobilada. E as senhoras que -outr'ora tinham horror _negreira_, a D. Maria da Gama que escondia a -face por traz do leque, l vieram todas, amaveis e decotadas, com o -beijinho prompto, chamando-lhe querida, admirando as grinaldas de -camelias que emmolduravam os espelhos de quatrocentos mil ris, e -gozando muito os gelados. - -Comeara ento uma existencia festiva e luxuosa, que, segundo dizia o -Alencar, o intimo da casa, o corteso de Madame, tinham um saborsinho -d'orgia _distingue_ como os poemas de Byron. Eram realmente as -_soires_ mais alegres de Lisboa: ceiava-se uma hora com Champagne; -talhava-se at tarde um _monte_ forte; inventavam-se quadros vivos, em -que Maria se mostrara soberanamente bella sob as roupagens classicas de -Helena ou no luxo sombrio do luto oriental de Judith. Nas noites mais -intimas, ella costumava vir fumar com os homens uma cigarrilha -perfumada. Muitas vezes, na sala de bilhar, as palmas estalaram, vendo-a -bater carambola franceza D. Joo da Cunha, o grande taco da epoca. - -E no meio d'esta festana, atravessada pelo sopro romantico da -Regenerao, l se via sempre, taciturno e encolhido, o pap Monforte, -d'alta gravata branca, com as mos atraz das costas, rondando pelos -cantos, refugiado pelos vos das janellas, mostrando-se s para salvar -alguma bobche que a estalar--e no desprendendo nunca da filha o olho -embevecido e senil. - -Nunca Maria fra to formosa. A maternidade dera-lhe um esplendor mais -copioso; e enchia verdadeiramente, dava luz quellas altas salas de -Arroios, com a sua radiante figura de Juno loira, os diamantes das -tranas, o eburneo e o lacteo do collo nu, e o rumor das grandes sedas. -Com raso, querendo ter, maneira das damas da Renascena, uma flr que -a symbolisasse, escolhera a tulipa real opulenta e ardente. - -Citavam-se os requintes do seu luxo, roupas brancas, rendas do valor de -propriedades!... Podia fazel-o! o marido era rico, e ella sem escrupulo -arruinal-o-hia, a elle e ao pap Monforte... - -Todos os amigos de Pedro, naturalmente, a amavam. O Alencar esse -proclamava-se com alarido seu cavalleiro e seu poeta. Estava sempre em -Arroios, tinha l o seu talher: por aquellas salas soltava as suas -phrases ressoantes, por esses sophs arrastava as suas _poses_ de -melancolia. Ia dedicar a Maria (e nada havia mais extraordinario que o -tom langoroso e plangente, o olho turvo, fatal, com que elle pronunciava -este nome--Maria!) ia dedicar-lhe o seu poema, to annunciado, to -esperado--Flor de Martyrio! E citavam-se as estrophes que lhe fizera ao -gosto cantante do tempo: - - - Vi-te essa noite no explendor das sallas - Com as loiras tranas volteando louca... - - -A paixo do Alencar era innocente: mas, dos outros intimos da casa, mais -d'um de certo balbuciara j a sua declarao no _boudoir_ azul em que -ella recebia s tres horas, entre os seus vasos de tulipas; as suas -amigas porm, mesmo as peiores, affirmavam que os seus favores nunca -teriam passado de alguma rosa dada n'um vo de janella, ou de algum -longo e suave olhar por traz do leque. Pedro todavia comeava a ter -horas sombrias. Sem sentir ciumes, vinha-lhe s vezes, de repente, um -tedio d'aquella existencia de luxo e de festa, um desejo violento de -sacudir da sala esses homens, os seus intimos, que se atropellavam assim -to ardentemente em volta dos hombros decotados de Maria. - -Refugiava-se ento n'algum canto, trincando com furor o charuto: e ahi, -era em toda a sua alma um tropel de cousas dolorosas e sem nome... - -Maria sabia perceber bem na face do marido estas nuvens, como ella -dizia. Corria para elle, tomava-lhe ambas as mos, com fora, com -dominio: - ---Que tens tu, amor? Ests amuado! - ---No, no estou amuado... - ---Olha ento para mim!... - -Collava o seu bello seio contra o peito d'elle; as suas mos corriam-lhe -os braos n'uma caricia lenta e quente, dos pulsos aos hombros; depois, -com um lindo olhar, estendia-lhe os labios. Pedro colhia n'elles um -longo beijo, e ficava consolado de tudo. - -Durante esse tempo Affonso da Maia no sahia das sombras de St.^a -Olavia, to esquecido para l como se estivesse no seu jazigo. J se no -fallava d'lle; em Arroios, _D. Fuas_ estava roendo a teima. S Pedro s -vezes perguntava a Villaa como ia o pap. E as noticias do -administrador enfureciam sempre Maria: o pap estava optimo; tinha agora -um cosinheiro francez explendido; St.^a Olavia enchera-se de hospedes, o -Sequeira, Andr da Ega, D. Diogo Coutinho... - ---O _Barbatanas_ trata-se! ia elle dizer ao pae com rancor. - -E o velho negreiro esfregava as mos, satisfeito de o saber assim feliz -em St.^a Olavia; porque nunca cessara de tremer ida de ver em -Arroios, deante de si, aquelle fidalgo to severo e de vida to pura. - -Quando porm Maria teve outro filho, um pequeno, o socego que ento se -fez em Arroios trouxe de novo muito vivamente ao corao de Pedro a -imagem do pae abandonado n'aquella tristeza do Douro. Fallou a Maria de -reconciliao, a medo, aproveitando a fraqueza da convalescena. E a sua -alegria foi grande, quando Maria, depois de ficar um momento pensativa, -respondeu: - ---Creio que me havia de fazer feliz tel-o aqui... - -Pedro, enthusiasmado com um assentimento to inesperado, pensou em -abalar para St.^a Olavia. Mas ella tinha um plano melhor: Affonso, -segundo dizia o Villaa, devia recolher em breve a Bemfica; pois bem, -ella iria l com o pequeno, toda vestida de preto, e de repente, -atirando-se-lhe aos ps, pedir-lhe-hia a beno para seu neto! No podia -falhar! No podia, realmente; e Pedro viu alli uma alta inspirao de -maternidade... - -Para abrandar desde j o pap, Pedro quiz dar ao pequeno o nome de -Affonso. Mas n'isso Maria no consentiu. Andava lendo uma novella de que -era heroe o ultimo Stuart, o romanesco principe Carlos Eduardo; e, -namorada d'elle, das suas aventuras e desgraas, queria dar esse nome a -seu filho... Carlos Eduardo da Maia! Um tal nome parecia-lhe conter todo -um destino de amores e faanhas. - -O baptisado teve de ser retardado; Maria adoecera com uma angina. Foi -muito benigna porm; e d'ahi a duas semanas Pedro podia j sahir para -uma caada na sua quinta da _Tojeira_, adiante d'Almada. Devia -demorar-se dois dias. A partida arranjara-se unicamente para obsequiar -um italiano, chegado por ento a Lisboa, distincto rapaz que lhe fra -apresentado pelo secretario da Legao Ingleza, e com quem Pedro -sympathisara vivamente; dizia-se sobrinho dos Principes de Soria; e -vinha fugido de Napoles, onde conspirra contra os Bourbons e fra -condemnado morte. O Alencar e D. Joo Coutinho iam tambem caada--e -a partida foi de madrugada. - -N'essa tarde, Maria jantava s no seu quarto, quando sentiu carruagens -parando porta, um grande rumor encher a escada; quasi immediatamente -Pedro apparecia-lhe tremulo e enfiado: - ---Uma grande desgraa, Maria! - ---Jesus! - ---Feri o rapaz, feri o napolitano!... - ---Como? - -Um desastre estupido!... Ao saltar um barranco, a espingarda -dispara-se-lhe, e a carga, zs, vae cravar-se no napolitano! No era -possivel fazer curativos na _Tojeira_, e voltaram logo a Lisboa. Elle -naturalmnte no consentira que o homem que tinha ferido recolhesse ao -hotel: trouxera-o para Arroios, para o quarto verde por cima, mandara -chamar o medico, duas enfermeiras para o velar, e elle mesmo l ia -passar a noite... - ---E elle? - ---Um heroe!... Sorri, diz que no nada, mas eu vejo-o pallido como um -morto. Um rapaz adoravel! Isto s a mim, Senhor! E ento o Alencar que -ia mesmo ao p d'elle... Podia antes ter ferido o Alencar, um rapaz -intimo, de confiana! at a gente se ria. Mas no, zs, logo o outro, o -de cerimonia... - -Uma sege, n'esse instante, entrava o pateo. - --- o medico! - -E Pedro abalou. - -Voltou, d'ahi a pouco mais tranquillo. O Dr. Guedes quasi rira d'aquella -bagatella, uma chumbada no brao, e alguns gros perdidos nas costas. -Promettera-lhe que d'ahi a duas semanas podia caar outra vez na -_Tojeira_; e o principe estava j fumando o seu charuto. Bello rapaz! -Parecia sympathisar com o pap Monforte... - -Toda essa noite Maria dormiu mal, na excitao vaga que lhe dava aquella -ida d'um principe enthusiasta, conspirador, condemnado morte, ferido -agora por cima do seu quarto. - -Logo de manh cedo--apenas Pedro sahira a fazer transportar, elle mesmo, -do hotel, as bagagens do napolitano--Maria mandou a sua criada franceza -de quarto, uma bella moa d'Arles, acima, saber da parte d'ella como S. -Alteza passara, e ver que figura tinha. A arlesiana appareceu, com os -olhos brilhantes, a dizer senhora, nos seus grandes gestos de -Provenal, que nunca vira um homem to formoso! Era uma pintura de Nosso -Senhor Jesus Christo! Que pescoo, que brancura de marmore! Estava muito -pallido ainda; agradecia enternecido os cuidados de Madame Maia; e -ficara a ler o jornal encostado aos travesseiros... - -Maria, desde ento, no pareceu interessar-se mais pelo ferido. Era -Pedro que vinha, a cada instante, fallar-lhe d'elle, enthusiasmado por -aquella existencia pathetica de principe conspirador, partilhando j o -seu odio aos Bourbons, encantado com a similitude de gostos que -encontrava n'elle, o mesmo amor da caa, dos cavallos, das armas. Agora -logo de manh, subia para o quarto do Principe, de _robe-de-chambre_, e -cachimbo na boca, e passava l horas n'uma camaradagem, fazendo _grogs_ -quentes--permittidos pelo Dr. Guedes. Levava mesmo para l os seus -amigos, o Alencar, o D. Joo da Cunha. Maria sentia-lhes por cima as -risadas. s vezes tocava-se viola. E o velho Monforte, pasmado para o -heroe, no cessava de lhe rondar o leito. - -A Arlesiana, essa, tambem a cada momento apparecia l a levar toalhas de -rendas, um assucareiro que ninguem reclamara, ou algum vaso com flores -para alegrar a alcova... Maria, por fim, perguntou a Pedro, muito seria, -se alm de todos os amigos da casa, duas enfermeiras, dois escudeiros, o -pap e elle Pedro--era necessaria tambem constantemente a sua propria -criada no quarto de Sua Alteza! - -No era. Mas Pedro riu muito idea de que a Arlesiana se tivesse -namorado do principe. N'esse caso Venus era-lhe propicia! O napolitano -tambem a achava picante: _un trs joli brin de femme_, tinha elle dito. - -A bella face de Maria impallideceu de colera. Julgava tudo isso de mau -gosto, grosseiro, impudente! Pedro fra realmente um doido em trazer -assim para a intimidade de Arroios um estrangeiro, um fugido, um -aventureiro! Demais, aquella troa em cima, entre grogs quentes, com -guitarra, sem respeito por ella ainda toda nervosa, toda fraca da -convalescena, indignava-a! Apenas Sua Alteza podesse accommodar-se com -almofadas n'uma sege, queria-o fra, na estalagem... - ---O que ahi vae! Jesus! o que ahi vae!... disse Pedro. - --- assim. - -E de certo foi muito severa tambem com a Arlesianna, por que n'essa -tarde Pedro encontrou a moa aos ais no corredor, limpando ao avental os -olhos affogueados. - -D'ahi a dias, porm, o napolitano, j convalescente, quiz recolher ao -seu hotel. No vira Maria: mas em agradecimento da sua hospitalidade -mandou-lhe um admiravel ramo, e, com uma galanteria de principe artista -da Renascena, um soneto em italiano enrolado entre as flores e to -perfumado como ellas: comparava-a a uma nobre dama da Syria dando a gota -de agua da sua bilha ao cavalleiro arabe, ferido na estrada ardente; -comparava-a Beatriz do Dante. - -Isto affigurou-se a todos de uma rara distinco, e, como disse o -Alencar, um rasgo Byron. - -Depois, na _soire_ do baptisado de Carlos Eduardo, dada d'ahi a uma -semana, o napolitano mostrou-se, e impressionou tudo. Era um homem -esplendido, feito como um Apollo, de uma pallidez de marmore rico: a sua -barba curta e frisada, os seus longos cabellos castanhos, cabellos de -mulher, ondeados e com reflexos de ouro, apartados nazarena--davam-lhe -realmente, como dizia a Arlesianna, uma physionomia de bello Christo. - -Danou apenas uma contradana com Maria, e pareceu, na verdade, um pouco -taciturno e orgulhoso: mas tudo n'elle fascinava, a sua figura, o seu -mysterio, at o seu nome de Tancredo. Muitos coraes de mulher -palpitavam quando elle, encostado a uma hombreira, de claque na mo, uma -melancolia na face, exhalando o encanto pathetico de um condemnado -morte, derramava lentamente pela sala o langor sombrio do seu olhar de -velludo. A marqueza d'Alvenga, para o examinar de perto, pediu o brao a -Pedro, e foi applicar-lhe, como a um marmore de museo, a sua luneta de -ouro. - --- de appetite! exclamou ella. uma imagem!... E so amigos, so -amigos, Pedro? - ---Somos como dois irmos d'armas, minha senhora. - -N'essa mesma soire, o Villaa informra Pedro que o pae era esperado no -dia seguinte em Bemfica. E Pedro, logo que se recolheram, fallou a Maria -em irem fazer a grande scena ao pap. Ella, porm, recusou, e com as -razes mais imprevistas, as mais sensatas. Tinha cogitado muito! -Reconhecia agora que um dos motivos d'aquella teima do pap--ultimamente -chamava-lhe sempre o pap--era essa extraordinaria existencia de -Arroios... - ---Mas filha, disse Pedro, escuta, ns no vivemos tambem em plena -orgia... Alguns amigos que veem. - -Pois sim, pois sim... Mas, realmente, estava decidida a ter um interior -mais calmo e mais domestico. Era mesmo melhor p'ra os bbs. Pois bem, -queria que o pap estivesse convencido d'essa transformao, para que as -pazes fossem mais faceis e eternas. - ---Deixa passar dois ou tres mezes... Quando elle souber como ns vivemos -quietinhos, eu o trarei, socega... bom tambem que seja quando meu pae -partir para as aguas, para os Pyrineos. Que o pobre pap, coitado, tem -medo do teu... Filho, no achas assim melhor? - ---s um anjo, foi a resposta de Pedro, beijando-lhe ambas as mos. - -Toda a antiga maneira de Maria pareceu com effeito ir mudando. -Suspendera as _soires_. Comeou a passar as noites muito recolhidas, -com alguns intimos, no seu _boudoir_ azul. J no fumava; abandonara o -bilhar; e vestida de preto, com uma flr nos cabellos, fazia _crochet_ -ao p do candieiro. Estudava-se musica classica quando vinha o velho -Cazoti. O Alencar, que, imitando a sua dama, entrara tambem na -gravidade, recitava traduces de Klopstock. Fallava-se com sisudez de -politica; Maria era muito regeneradora. - -E todas essas noites, Tancredo l estava, indolente e bello, desenhando -alguma flr para ella bordar, ou tangendo guitarra canes populares -de Napoles. Todos alli o adoravam; mas ninguem mais que o velho -Monforte, que passava horas, enterrado na sua alta gravata, contemplando -o Principe com enternecimento. Depois, de repente, erguia-se, -atravessava a sala, ia-se debruar sobre elle, palpal-o, sentil-o, -respiral-o, murmurando no seu francez de embarcadio: - ---_a aller bien... Hein? Beaucoup bien..._ Ora estimo... - -E estas correntes bruscas de affecto communicavam-se decerto, porque -n'esse momento Maria tinha sempre um dos seus lindos sorrisos para o -pap ou vinha beijal-o na testa. - -De dia occupava-se de cousas serias. Organisara uma util associao de -caridade, a _Obra pia dos cobertores_, com o fim de fazer no inverno s -familias necessitadas distribuies de agasalhos; e presidia no salo de -Arroios, com uma campainha, as reunies em que se elaboravam os -estatutos. Visitava os pobres. Ia tambem amiudadas vezes a uma devoo -s Egrejas, toda vestida de preto, a p, com um vo muito espesso no -rosto. - -O esplendor da sua belleza apparecia agora velado por uma sombra tocante -de ternura grave: a Deusa idealisava-se em Madona; e no era raro -ouvil-a de repente suspirar sem razo. - -Ao mesmo tempo a sua paixo pela filha crescia. Tinha ento dois annos e -estava realmente adoravel; vinha todas as noites um momento sala, -vestida com um luxo de princeza; e as exclamaes, os extasis de -Tancredo no findavam! Fizera-lhe o retrato a carvo, a esfuminho, a -aguarella; ajoelhava-se para lhe beijar a mosinha cr de rosa, como ao -_bambino_ sagrado. E Maria, agora, apesar dos protestos de Pedro, dormia -sempre com ella entre os braos. - -Ao comeo d'esse setembro o velho Monforte partiu para os Pyrineos. -Maria chorou, dependurada do pescoo do velho, como se elle largasse de -novo para as travessias de Africa. - -Ao jantar, porm, chegou j consolada e radiante; e Pedro voltou a -fallar da reconciliao, parecendo-lhe bom o momento de ir a Bemfica -recuperar para sempre aquelle pap to teimoso... - ---Ainda no, disse ella reflectindo, olhando o seu calice de Bordeus. -Teu pae uma especie de santo, ainda o no merecemos... Mais para o -inverno. - - -Uma sombria tarde de dezembro, de grande chuva, Affonso da Maia estava -no seu escriptorio lendo, quando a porta se abriu violentamente, e, -alando os olhos do livro, viu Pedro deante de si. Vinha todo enlameado, -desalinhado, e na sua face livida, sob os cabellos revoltos, luzia um -olhar de loucura. O velho ergueu-se aterrado. E Pedro sem uma palavra -atirou-se aos braos do pae, rompeu a chorar perdidamente. - ---Pedro! que succedeu, filho? - -Maria morrera, talvez! Uma alegria cruel invadiu-o, ida do filho -livre para sempre dos Monfortes, voltando-lhe, trazendo sua solido os -dois netos, toda uma descendencia para amar! E repetia, tremulo tambem, -desprendendo-o de si com grande amor: - ---Socega, filho, que foi? - -Pedro ento cahiu para o canap, como cae um corpo morto; e levantando -para o pae um rosto devastado, envelhecido, disse, palavra a palavra, -n'uma voz surda: - ---Estive fra de Lisboa dois dias... Voltei esta manh... A Maria tinha -fugido de casa com a pequena... Partiu com um homem, um italiano... E -aqui estou! - -Affonso da Maia ficou deante do filho, quedo, mudo, como uma figura de -pedra; e a sua bella face, onde todo o sangue subira enchia-se pouco a -pouco, de uma grande colera. Viu, n'um relance, o escandalo, a cidade -galhofando, as compaixes, o seu nome pela lama. E era aquelle filho -que, despresando a sua auctoridade, ligando-se a essa creatura, -estragara o sangue da raa, cobria agora a sua casa de vexame. E alli -estava! alli jazia sem um grito, sem um furor, um arranque brutal de -homem trahido! Vinha atirar-se para um soph, chorando miseravelmente! -Isto indignou-o, e rompeu a passeiar pela sala, rigido e aspero, -cerrando os labios para que no lhe escapassem as palavras de ira e de -injuria que lhe enchiam o peito em tumulto...--Mas era pae: ouvia, alli -ao seu lado, aquelle soluar de funda dr; via tremer aquelle pobre -corpo desgraado que elle outr'ora emballara nos braos;--parou junto de -Pedro, tomou-lhe gravemente a cabea entre as mos, e beijou-o na testa, -uma vez, outra vez, como se elle fosse ainda creana, restituindo-lhe -alli e para sempre a sua ternura inteira. - ---Tinha razo, meu pae, tinha razo, murmurava Pedro entre lagrimas. - -Depois ficaram callados. Fra, as pancadas successivas da chuva batiam a -casa, a quinta, n'um clamor prolongado; e as arvores, sob as janellas, -ramalhavam n'um vasto vento de inverno. - -Foi Affonso que quebrou o silencio: - ---Mas para onde fugiram, Pedro? Que sabes tu, filho? No s chorar... - ---No sei nada, respondeu Pedro n'um longo esforo. Sei que fugiu. Eu -sahi de Lisboa na segunda feira. N'essa mesma noite, ella partiu de casa -n'uma carruagem, com uma maleta, o cofre de joias, uma creada italiana -que tinha agora, e a pequena. Disse governante e ama do pequeno que -ia ter comigo. Ellas estranharam, mas que haviam de dizer?... Quando -voltei, achei esta carta. - -Era um papel j sujo, e desde essa manh de certo muitas vezes relido, -amarrotado com furia. Continha estas palavras: - - uma fatalidade, parto para sempre com Tancredo, esquece-me que no -sou digna de ti, e levo a Maria que me no posso separar d'ella. - ---E o pequeno, onde est o pequeno? exclamou Affonso. - -Pedro pareceu recordar-se: - ---Est l dentro com a ama, trouxe-o na sege. - -O velho correu, logo; e d'ahi a pouco apparecia, erguendo nos braos o -pequeno, na sua longa capa branca de franjas e a sua touca de rendas. -Era gordo, de olhos muito negros, com uma adoravel bochecha fresca e cr -de rosa. Todo elle ria, grulhando, agitando o seu guiso de prata. A ama -no passou da porta, tristonha, com os olhos no tapete e uma trouxasinha -na mo. - -Affonso sentou-se lentamente na sua poltrona, e accommodou o neto no -collo. Os olhos enchiam-se-lhe de uma bella luz de ternura; parecia -esquecer a agonia do filho, a vergonha domestica; agora s havia ali -aquella facesinha tenra, que se lhe babava nos braos... - ---Como se chama elle? - ---Carlos Eduardo, murmurou a ama. - ---Carlos Eduardo, hein? - -Ficou a olhal-o muito tempo, como procurando n'elle os signaes da sua -raa: depois tomou-lhe na sua as duas mosinhas vermelhas que no -largavam o guiso, e muito grave, como se a creana o percebesse, -disse-lhe: - ---Olha bem para mim. Eu sou o av. necessario amar o av! - -E quella forte voz, o pequeno, com effeito, abriu os seus lindos olhos -para elle, serios de repente, muito fixos, sem medo das barbas -grisalhas: depois rompeu a pular-lhe nos braos, desprendeu a mosinha, -e martellou-lhe furiosamente a cabea com o guiso. - -Toda a face do velho sorria quella viosa alegria; apertou-o ao seu -largo peito muito tempo, poz-lhe na face um beijo longo, consolado, -enternecido, o seu primeiro beijo d'av; depois, com todo o cuidado, foi -collocal-o nos braos da ama. - ---V, ama, v... A Gertrudes j l anda a arranjar-lhe o quarto, v vr -o que necessario. - -Fechou a porta, e veiu sentar-se junto do filho que se no movera do -canto do soph, nem despregra os olhos do cho. - ---Agora desabafa, Pedro, conta-me tudo... Olha que nos no vemos ha tres -annos, filho... - ---Ha mais de tres annos, murmurou Pedro. - -Ergueu-se, allongou a vista quinta, to triste sob a chuva; depois, -derramando-a morosamente pela livraria, considerou um momento o seu -proprio retrato, feito em Roma aos doze annos, todo de velludo azul, com -uma rosa na mo. E repetia ainda amargamente: - ---Tinha razo, meu pae, tinha razo... - -E pouco a pouco, passeiando e suspirando, comeou a fallar d'aquelles -ultimos annos, o inverno passado em Paris, a vida em Arroios, a -intimidade do italiano na casa, os planos de reconciliao, por fim -aquella carta infame, sem pudor, invocando a fatalidade, -arremessando-lhe o nome do outro!... No primeiro momento tivera s idas -de sangue e quizera perseguil-os. Mas conservava um claro de razo. -Seria ridiculo, no verdade? De certo a fuga fora d'antemo preparada, -e no havia de ir correndo as estalagens da Europa busca de sua -mulher... Ir lamentar-se policia, fazel-os prender? Uma imbecillidade; -nem impedia que ella fosse j por esses caminhos fra dormindo com -outro... Restava-lhe smente o desprezo. Era uma bonita amante que -tivera alguns annos, e fugira com um homem. Adeus! Ficava-lhe um filho, -sem me, com um mau nome. Paciencia! Necessitava esquecer, partir para -uma longa viagem, para a America talvez; e o pae veria, havia de voltar -consolado e forte. - -Dizia estas cousas sensatas, passeiando devagar, com o charuto apagado -nos dedos, n'uma voz que se calmava. Mas de repente parou deante do pae, -com um riso secco, um brilho-feroz nos olhos. - ---Sempre desejei ver a America, e boa occasio agora... uma occasio -famosa, hein? Posso at naturalisar-me, chegar a presidente, ou -rebentar... Ah! Ah! - ---Sim, mais tarde, depois pensars n'isso, filho, accudiu o velho -assustado. - -N'esse momento a sineta do jantar comeou a tocar lentamente, ao fundo -do corredor. - ---Ainda janta cedo, hein? disse Pedro. - -Teve um suspiro canado e lento, murmurou: - ---Ns jantavamos s sete... - -Quiz ento que o pae fosse para a mesa. No havia motivo para que se no -jantasse. Elle ia um bocado acima, ao seu antigo quarto de solteiro... -Ainda l tinha a cama, no verdade? No, no queria tomar nada... - ---O Teixeira que me leve um calice de genebra... Ainda c est o -Teixeira, coitado! - -E vendo Affonso sentado, repetiu, j impaciente: - ---V jantar meu pae, v jantar, pelo amor de Deus... - -Saiu. O pae ouviu-lhe os passos por cima, e o ruido de janellas -desabridamente abertas. Foi ento andando para a sala de jantar, onde os -criados que pela ama sabiam de certo o desgosto se moviam em pontas de -ps, com a lentido contristada d'uma casa onde ha morte. Affonso -sentou-se mesa s; mas j l estava outra vez o talher de Pedro; rosas -de inverno esfolhavam-se n'um vaso do Japo; e o velho papagaio agitado -com a chuva mexia-se furiosamente no poleiro. ' - -Affonso tomou uma colher de sopa, depois rolou a sua poltrona para junto -do fogo; e ali ficou envolvido pouco a pouco n'aquelle melancolico -crepusculo de dezembro, com os olhos no lume, escutando o sudoeste -contra as vidraas, pensando em todas as cousas terriveis que assim -invadiam n'um tropel pathetico sua paz de velho. Mas no meio da sua -dr, funda como era, elle percebia um ponto, um recanto do seu corao -onde alguma cousa de muito doce, de muito novo, palpitava com uma -frescura de renascimento, como se algures, no seu ser, estivesse -rompendo, burbulhando uma nascente rica de alegrias futuras; e toda a -sua face sorria chama alegre, revendo a bochechinha rosada, sob as -rendas brancas da touca... - -Pela casa no entanto tinham-se accendido as luzes. J inquieto subiu ao -quarto do filho; estava tudo escuro, to humido e frio, como se a chuva -caisse dentro. Um arrepio confrangeu o velho, e quando chamou, a voz de -Pedro veiu do negro da janella; estava l, com a vidraa aberta, sentado -fra na varanda, voltado para a noite brava, para o sombrio rumor das -ramagens, recebendo na face o vento, a agua, toda a invernia agreste. - ---Pois ests aqui filho! exclamou Affonso. Os criados ho de querer -arranjar o quarto, desce um momento... Ests todo molhado, Pedro! - -Apalpava-lhe os joelhos, as mos regeladas. Pedro ergueu-se com um -estremeo, desprendeu-se, impaciente d'aquella ternura do velho. - ---Querem arranjar o quarto, hein? Faz-me bem o ar, faz-me to bem! - -O Teixeira trouxe luzes, e atraz d'elle appareceu o criado de Pedro, que -chegra n'esse momento de Arroios, com um largo estojo de viagem -recoberto de oleado. As malas tinha-as deixado em baixo; e o cocheiro -viera tambem, como nenhum dos senhores estava em casa... - ---Bem, bem, interrompeu Affonso. O sr. Villaa l ir amanh, e elle -dar as ordens. - -O criado ento, em bicos de ps, foi depr o estojo sobre o marmore da -commoda: ainda l restavam antigos frascos de toilette de Pedro: e os -castiaes sobre a meza allumiavam o grande leito triste de solteiro com -os colxes dobrados ao meio. - -A Gertrudes toda atarefada entrara com os braos carregados de roupa de -cama; o Teixeira bateu vivamente os travesseiros; o criado d'Arroios -pousando o chapo a um canto, e sempre em ponta de ps, veiu ajudal-os -tambem. Pedro no entanto, como somnambulo, voltara para a varanda, com a -cabea chuva, attraido por aquella treva da quinta que se cavava em -baixo com um rumor de mar bravo. - -Affonso, ento, puxou-lhe o brao quasi com aspereza. - ---Pedro! Deixa arranjar o quarto! Desce um momento. - -Elle seguiu maquinalmente o pae livraria, mordendo o charuto apagado -que desde tarde conservava na mo. Sentou-se longe da luz, ao canto do -soph, ali ficou mudo e entorpecido. Muito tempo s os passos lentos do -velho, ao comprido das altas estantes, quebraram o silencio em que toda -a sala ia adormecendo. Uma braza morria no fogo. A noite parecia mais -aspera. Eram de repente vergastadas d'agua contra as vidraas, trazidas -n'uma rajada, que longamente, n'um clamor teimoso, faziam escoar um -diluvio dos telhados; depois havia uma calma tenebroza, com uma -susurrao distante de vento fugindo entre ramagens: n'esse silencio as -goteiras punham um pranto lento; e logo uma corda de vendaval corria -mais furioso, envolvia a casa n'um bater de janellas, redomoinhava, -partia com silvos desolados. - ---Est uma noite de Inglaterra, disse Affonso, debruando-se a espertar -o lume. - -Mas a esta palavra Pedro erguera-se, impetuosamente. De certo o ferira a -ida de Maria, longe, n'um quarto alheio, agazalhando-se-lhe no leito do -adulterio entre os braos do outro. Apertou um instante a cabea nas -mos, depois veiu junto do pae, com o passo mal firme, mas a voz muito -calma. - ---Estou realmente canado, meu pae, vou-me deitar. Boa noite... Amanh -conversaremos mais. - -Beijou-lhe a mo e saiu de vagar. - -Affonso demorou-se ainda ali, com um livro na mo, sem ler, attento s a -algum rumor que viesse de cima; mas tudo jazia em silencio. - -Deram dez horas. Antes de se recolher foi ao quarto onde se fizera a -cama da ama. A Gertrudes o criado de Arroios, o Teixeira, estavam l -cochichando ao p da commoda, na penumbra que dava um folio posto deante -do candieiro; todos se esquivaram em pontas de ps quando lhe sentiram -os passos, e a ama continuou a arrumar em silencio os gavetes. No vasto -leito, o pequeno dormia como um Menino Jesus canado, com o seu guiso -apertado na mo. Affonso no ousou beijal-o, para o no acordar com as -barbas asperas; mas tocou-lhe na rendinha da camisa, entalou a roupa -contra a parede, deu um geito ao cortinado, enternecido, sentindo toda a -sua dr calmar-se n'aquella sombra de alcova onde o seu neto dormia. - --- necessario alguma cousa, ama? perguntou, abafando a voz. - ---No, meu senhor... - -Ento, sem ruido, subiu ao quarto de Pedro. Havia uma fenda clara, -entreabriu a porta. O filho escrevia, luz de duas vellas, com o estojo -aberto ao lado. Pareceu espantado de ver o pae: e na face que ergueu, -envelhecida e livida, dois sulcos negros faziam-lhe os olhos mais -refulgentes e duros. - ---Estou a escrever, disse elle. - -Esfregou as mos, como arripiado da friagem do quarto, e accrescentou: - ---Amanh cedo necessario que o Villaa v a Arroios... Esto l os -criados, tenho l dois cavalos meus, emfim uma poro de arranjos. Eu -estou-lhe a escrever. numero 32 a casa d'elle, no ? O Teixeira ha de -saber... Boas noites, pap, boas noites. - -No seu quarto, ao lado da livraria, Affonso no poude socegar, n'uma -oppresso, uma inquietao que a cada momento o faziam erguer sobre o -travesseiro escutar: agora, no silencio da casa e do vento que calmara, -ressoavam por cima lentos e continuos os passos de Pedro. - -A madrugada clareava, Affonso ia adormecendo--quando de repente um tiro -atroou a casa. Precipitou-se do leito, despido e gritando: um creado -acudia tambem com uma lanterna. Do quarto de Pedro ainda entreaberto -vinha um cheiro de polvora; e aos ps da cama, caido de bruos, n'uma -poa de sangue que se ensopava no tapete, Affonso encontrou seu filho -morto, apertando uma pistola na mo. - -Entre as duas vlas que se extinguiam, com fogachos lividos, deixra-lhe -uma carta lacrada com estas palavras sobre o enveloppe, n'uma letra -firme: _Para o pap_. - -D'ahi a dias fechou-se a casa de Bemfica. Affonso da Maia partia com o -neto e com todos os criados para a quinta de S.^{ta} Olavia. - - -Quando Villaa, em fevereiro, foi l acompanhar o corpo de Pedro, que ia -ser depositado no jazigo de familia, no pde conter as lagrimas ao -avistar aquella vivenda onde passra to alegres nataes. Um baeto preto -recobria o brazo d'armas, e esse panno de esquife parecia ter -distingido todo o seu negrume sobre a fachada muda, sobre os -castanheiros que ornavam o pateo; dentro os criados abafavam a voz, -carregados de luto; no havia uma flor nas jarras; o proprio encanto de -S.^{ta} Olavia, o fresco cantar das aguas vivas por tanques e repuchos, -vinha agora com a cadencia saudosa de um choro. E Villaa foi encontrar -Affonso na livraria, com as janellas cerradas ao lindo sol de inverno, -caido para uma poltrona, a face cavada sob os cabellos crescidos e -brancos, as mos magras e ociosas sobre os joelhos. - -O procurador veiu dizer para Lisboa que o velho no durava um anno. - - - - -III - - -Mas esse anno passou, outros annos passaram. - -Por uma manh de abril, nas vesperas de Paschoa, Villaa chegava de novo -a S.^{ta} Olavia. - -No o esperavam to cedo; e como era o primeiro dia bonito d'essa -primavera chuvosa os senhores andavam para a quinta. O mordomo, o -Teixeira, que ia j embranquecendo, mostrou-se todo satisfeito de ver o -sr. administrador com quem s vezes se correspondia, e conduziu-o sala -de jantar onde a velha governante, a Gertrudes, tomada de surpreza, -deixou cair uma pilha de guardanapos e para lhe saltar ao pescoo. - -As tres portas envidraadas estavam abertas para o terrao, que se -estendia ao sol, com a sua balustrada de marmore coberta de trepadeiras: -e Villaa, adiantando-se para os degraus que desciam ao jardim, mal -poude reconhecer Affonso da Maia n'aquelle velho de barba de neve, mas -to robusto e corado, que vinha subindo a rua de romanzeiras com o seu -neto pela mo. - -Carlos, ao avistar no terrao um desconhecido, de chapo alto, abafado -n'um cache-nez de pelucia, correu a miral-o, curioso--e achou-se -arrebatado nos braos do bom Villaa, que largara o guarda sol, o -beijava pelo cabello, pela face, balbuciando: - ---Oh meu menino, meu querido menino! Que lindo que est! que crescido -que est... - ---Ento, sem avisar, Villaa? exclamava Affonso da Maia, chegando de -braos abertos. Ns s o esperavamos para a semana, creatura! - -Os dois velhos abraaram-se; depois um momento os seus olhos -encontraram-se, vivos e humidos, e tornaram a apertar-se commovidos. - -Carlos ao lado, muito serio, todo esbelto, com as mos enterradas nos -bolsos das suas largas bragas de flanella branca, o casquete da mesma -flanella posta de lado sobre os bellos anneis do cabello -negro--continuava a mirar o Villaa, que com o beio tremulo, tendo -tirado a luva, limpava os olhos por baixo dos oculos. - ---E ninguem a esperal-o, nem um criado l em baixo no rio! dizia -Affonso. Emfim, c o temos, o essencial... E como voc est rijo, -Villaa! - ---E v. ex.^a meu senhor! balbuciou o administrador, engulindo um soluo. -Nem uma ruga! Branco sim, mas uma cara de moo... Eu nem o conhecia!... -Quando me lembro, a ultima vez que o vi... E c isto! c esta linda -flor!... - -Ia abraar Carlos outra vez enthusiasmado, mas o rapaz fugiu-lhe com uma -bella risada, saltou do terrao, foi pendurar-se d'um trapesio armado -entre as arvores, e ficou l, balanando-se em cadencia, forte e airoso, -gritando: tu s o Villaa! - -O Villaa, de guarda sol debaixo do brao, contemplava-o embevecido. - ---Est uma linda creana! Faz gosto! E parece-se com o pae. Os mesmos -olhos, olhos dos Maias, o cabello encaracolado... Mas ha de ser muito -mais homem! - --- so, rijo, dizia o velho risonho, anediando as barbas. E como -ficou o seu rapaz, o Manuel? Quando esse casamento? Venha voc c para -dentro, Villaa, que ha muito que conversar... - -Tinham entrado na sala de jantar, onde um lume de lenha na chamin de -azulejo esmorecia na fina e larga luz de abril; porcelanas e pratas -resplandeciam nos aparadores de pau santo; os canarios pareciam doudos -de alegria. - -A Gertrudes, que ficra a observar, acercou-se, com as mos cruzadas sob -o avental branco, familiar, terna. - ---Ento, meu senhor, aqui est um regalo, vr outra vez este ingrato em -S.^{ta} Olavia! - -E, com um claro de sympathia na face, alva e redonda como uma velha -lua, ornada j de um buo branco: - ---Ah! sr. Villaa, isto agora outra cousa! At os canarios cantam! E -tambem eu cantava, se ainda podesse... - -E foi saindo, subitamente commovida, j com vontade de chorar. - -O Teixeira esperava, com um riso superior e mudo que lhe ia d'uma -outra ponta dos seus altos collarinhos de mordomo. - ---Eu creio que prepararam o quarto azul ao sr. Villaa, hein? disse -Affonso. No quarto em que voc costumava ficar dorme agora a -viscondessa... - -Ento o Villaa apressou-se a perguntar pela sr.^a viscondessa. Era uma -Runa, uma prima da mulher de Affonso, que, no tempo em que os poetas de -Caminha a cantavam, casra com um fidalgote gallego, o sr. visconde de -Urigo-de-la-Sierra, um borracho, um brutal que lhe batia: depois, viuva -e pobre, Affonso recolhera-a por dever de parentella, e para haver uma -senhora em S.^{ta} Olavia. - -Ultimamente passara mal... Mas, olhando o relogio, Affonso interrompeu a -relao d'esses achaques. - ---Villaa, v-se arranjar, depressa, que d'aqui a pouco o jantar. - -O administrador surprehendido olhou tambem o relogio, depois a mesa j -posta, os seis talheres, o cesto de flores, as garrafas de Porto. - ---Ento v. ex.^a agora janta de manh? Eu pensei que era o almoo... - ---Eu lhe digo, o Carlos necessita ter um regimen. De madrugada est j -na quinta; almoa s sete; e janta uma hora. E eu, emfim, para vigiar -as maneiras do rapaz... - ---E o sr. Affonso da Maia, exclamou Villaa, a mudar de habitos, n'essa -edade! O que ser av, meu senhor! - ---Tolice! no isso... que me faz bem. Olhe que me faz bem!... Mas -avie-se Villaa, avie-se que Carlos no gosta de esperar... Talvez -tenhamos o abbade. - ---O Custodio? Rica cousa! Ento, se v. ex.^a me d licena... - -Apenas no corredor, o mordomo, ancioso por conversar com o sr. -administrador, perguntou-lhe, desembaraando-o do guarda sol e do -chale-manta: - ---Com franqueza, como nos acha por c, pela quinta sr. Villaa? - ---Estou contente, Teixeira, estou contente. Pode-se vir por gosto a -S.^{ta} Olavia. - -E, pousando familiarmente a mo no hombro do escudeiro, piscando o olho -ainda humido: - ---Tudo isto o menino. Fez reviver o patro! - -O Teixeira riu respeitosamente. O menino realmente era a alegria da -casa... - ---Ol! Quem toca por c? exclamou Villaa, parando nos degraus da -escada, ao ouvir em cima um afinar gemente de rebeca. - --- o sr. Brown, o inglez, o preceptor do menino... Muito habilidoso, -um regalo ouvil-o; toca s vezes noite na sala, o sr. juiz de direito -acompanha-o na concertina... Aqui, sr. Villaa, o quarto de v. s.^a... - ---Muito bonito, sim senhor! - -O verniz dos moveis novos brilhava na luz das duas janellas, sobre o -tapete alvadio semeado de florsinhas azues: e as bambinellas, os -reposteiros de cretne, repetiam as mesmas folhagens azuladas sobre -fundo claro. Este conforto fresco e campestre deleitou o bom Villaa. - -Foi logo apalpar os cretnes, esfregou o marmore da commoda, provou a -solidez das cadeiras. Eram as mobilias compradas no Porto, hein? Pois, -elegantes. E, realmente, no tinham sido caras. Nem elle fazia ida! -Ficou ainda em bicos de ps a examinar duas aguarellas inglezas -representando vaccas de luxo, deitadas na relva, sombra de ruinas -romanticas. O Teixeira, observou-lhe, com o relogio na mo: - ---Olhe que v. s.^a tem s dez minutos... O menino no gosta de esperar. - -Ento o Villaa decidiu-se a desenrolar o cache-nez; depois tirou o seu -pesado collete de malha de l; e pela camisa entreaberta via-se ainda -uma flanella escarlate por causa dos rheumatismos, e os bentinhos de -seda bordada. O Teixeira desapertava as correias da maleta; ao fundo do -corredor, a rebeca atacara o _Carnaval de Veneza_; e atravez das -janellas fechadas sentia-se o grande ar, a frescura, a paz dos campos, -todo o verde d'abril. - -Villaa, sem oculos, um pouco arripiado, passava a ponta da toalha -molhada pelo pescoo, por traz da orelha, e ia dizendo: - ---Ento, o nosso Carlinhos no gosta de esperar, hein? J se sabe, -elle quem governa... Mimos e mais mimos, naturalmente... - -Mas o Teixeira muito grave, muito serio, desilludiu o sr. administrador. -Mimos e mais mimos, dizia s. s.^a? Coitadinho d'elle, que tinha sido -educado com uma vara de ferro! Se elle fosse a contar ao sr. Villaa! -No tinha a creana cinco annos j dormia n'um quarto s, sem lamparina; -e todas as manhs, zs, para dentro d'uma tina d'agua fria, s vezes a -gear l fra... E outras barbaridades. Se no se soubesse a grande -paixo do av pela creana, havia de se dizer que a queria morta. Deus -lhe perdoe, elle, Teixeira, chegara a pensal-o... Mas no, parece que -era systema inglez! Deixava-o correr, cair, trepar s arvores, -molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro. E depois o -rigor com as comidas! S a certas horas e de certas cousas... E s vezes -a creancinha, com os olhos abertos, a aguar! Muita, muita dureza. - -E o Teixeira accrescentou: - ---Emfim era a vontade de Deus, saiu forte. Mas que ns approvassemos a -educao que tem levado, isso nunca approvmos, nem eu, nem a Gertrudes. - -Olhou outra vez o relogio, preso por uma fita negra sobre o collete -branco, deu alguns passos lentos pelo quarto: depois, tomando de sobre a -cama a sobrecasaca do procurador, foi-lhe passando a escova pela gola, -de leve e por amabilidade, em quanto dizia, junto ao toucador onde o -Villaa acamava as duas longas repas sobre a calva: - ---Sabe v. s.^a, apenas veiu o mestre inglez, o que lhe ensinou? A remar! -A remar, sr. Villaa, como um barqueiro! Sem contar o trapesio, e as -habilidades de palhao; eu n'isso nem gosto de fallar... Que eu sou o -primeiro a dizel-o: o Brown boa pessoa, calado, asseado, excellente -musico. Mas o que eu tenho repetido Gertrudes: pde ser muito bom -para inglez, no para ensinar um fidalgo portuguez... No . V v. -s.^a fallar a esse respeito com a sr.^a D. Anna Silveira... - -Bateram de manso porta, o Teixeira emmudeceu. Um escudeiro entrou, fez -um signal ao mordomo, tirou-lhe do brao respeitosamente a sobrecasaca, -e ficou com ella junto do toucador, onde o Villaa, vermelho e -apressado, luctava ainda com as repas rebeldes. - -O Teixeira, da porta, disse com o relogio na mo: - --- o jantar. Tem v. s.^a dois minutos, sr. Villaa. - -E o administrador d'ahi a um momento abalava tambem, abotoando ainda o -casaco pelas escadas. - -Os senhores j estavam todos na sala. Junto do fogo, onde as achas -consumidas morriam na cinza branca, o Brown percorria o _Times_. Carlos, -a cavallo nos joelhos do av, contava-lhe uma grande historia de rapazes -e de bulhas; e ao p o bom abbade Custodio, com o leno de rap -esquecido nas mos, escutava, de bocca aberta, n'um riso paternal e -terno. - ---Olhe quem alli vem, abbade, disse-lhe Affonso. - -O abbade voltou-se, e deu uma grande palmada na cxa: - ---Esta nova! Ento o nosso Villaa? E no me tinham dito nada! -Venham de l esses ossos, homem!... - -Carlos pulava nos joelhos do av, muito divertido com aquelles longos -abraos que juntavam as duas cabeas dos velhos--uma com as repas -achatadas sobre a calva, outra com uma grande cora aberta n'uma matta -de cabello branco. E como elles, de mos dadas, continuavam a -admirar-se, a estudarem um no outro as rugas dos annos, Affonso disse: - ---Villaa! a sr.^a viscondessa... - -O administrador porm procurou-a debalde, com os olhos abertos pela -sala. Carlos ria, batendo as mos:--e Villaa descobriu-a emfim a um -canto, entre o aparador e a janella, sentada n'uma cadeirinha baixa, -vestida de preto, timida e queda, com os braos rechonchudos pousados -sobre a obesidade da cinta. O rosto anafado e molle, branco como papel, -as roscas do pescoo, cobriram-se-lhe subitamente de rubor; no achou -uma palavra para dizer ao Villaa, e estendeu-lhe a mo papuda e -pallida, com um dedo embrulhado n'um pedao de seda negra. Depois ficou -a abanar-se com um grande leque de lentejoulas, o seio a arfar, os olhos -no regao, como exhausta d'aquelle esforo. - -Dois escudeiros tinham comeado a servir a sopa, o Teixeira esperava, -perfilado por traz do alto espaldar da cadeira de Affonso. - -Mas Carlos cavalgava ainda o av, querendo acabar outra historia. Era o -Manuel, trazia uma pedra na mo... Elle primeiro pensra ir s boas; mas -os dois rapazes comearam a rir... De maneira que os correu a todos... - ---E maiores que tu? - ---Tres rapages, vv, pde perguntar tia Pedra... Ella viu, que -estava na eira. Um d'elles trazia uma foice... - ---Est bom, senhor, est bom, ficamos inteirados... V, desmonte, que -est a sopa a esfriar. Upa! upa! - -E o velho, com o seu aspecto resplandecente de patriarcha feliz, veiu -sentar-se ao alto da meza, sorrindo e dizendo: - ---J se vae fazendo pesado, j no est para collo... - -Mas reparou ento no Brown, e tornando a erguer-se fez a apresentao do -procurador. - ---O sr. Brown, o amigo Villaa... Peo perdo, descuidei-me, foi culpa -d'aquelle cavalheiro l ao fundo da meza, o sr. D. Carlos de mata-sete! - -O perceptor, solidamente abotoado na sua longa sobrecasaca militar, deu -toda a volta meza, rigido e teso, para vir sacudir o Villaa n'um -tremendo _shake-hands_; depois, sem uma palavra, reoccupou o seu logar, -desdobrou o guardanapo, cofiou os formidaveis bigodes, e foi ento que -disse ao Villaa, com o seu forte accento inglez: - ---_Muito bello dia... glorioso!_ - ---Tempo de rosas, respondeu o Villaa, comprimentando, intimidado diante -d'aquelle athleta. - -Naturalmente, n'esse dia, fallou-se da jornada de Lisboa, do bom servio -da malla-posta, do caminho de ferro que se ia abrir... O Villaa j -viera no comboyo at ao Carregado. - ---De causar horror, hein? perguntou o abbade, suspendendo a colher que -ia levar bocca. - -O excellente homem nunca saira de Resende; e todo o largo mundo, que -ficava para alm da penumbra da sua sachristia e das arvores do seu -passal, lhe dava o terror d'uma Babel. Sobre tudo essa estrada de ferro, -de que tanto se fallava... - ---Faz arripiar um bocado, affirmou com experiencia Villaa. Digam o que -disserem, faz arripiar! - -Mas o abbade assustava-se sobre tudo com as inevitaveis desgraas -d'essas machinas! - -O Villaa ento lembrou os desastres da mala-posta. No de Alcobaa, -quando tudo se virou, ficaram esmagadas duas irms de caridade! Emfim de -todos os modos havia perigos. Podia-se quebrar uma perna a passear no -quarto... - -O abbade gostava do progresso... Achava at necessario o progresso. Mas -parecia-lhe que se queria fazer tudo lufa-lufa... O paiz no estava -para essas invenes; o que precisava eram boas estradinhas... - ---E economia! disse o Villaa, puxando para si os pimentes. - ---Bucellas? murmurou-lhe sobre o hombro o escudeiro. - -O administrador ergueu o copo, depois de cheio, admirou-lhe luz a cr -rica, provou-o com a ponta do labio, e piscando o olho para Affonso: - --- do nosso! - ---Do velho, disse Affonso. Pergunte ao Brown... Hein, Brown, um bom -nectar? - ---_Magnificente!_ exclamou o perceptor com uma energia fogosa. - -Ento Carlos, estendendo o brao por cima da meza, reclamou tambem -Bucellas. E a sua razo era haver festa por ter chegado o Villaa. O av -no consentiu; o menino teria o seu calice de Collares, como de costume, -e um s. Carlos crusou os braos sobre o guardanapo que lhe pendia do -pescoo, espantado de tanta injustia! Ento nem para festejar o Villaa -poderia apanhar uma gotinha de Bucellas? Ahi estava uma linda maneira de -receber os hospedes na quinta... A Gertrudes dissera-lhe que como viera -o sr. administrador, havia de pr noite para o ch o fato novo de -velludo. Agora observavam-lhe que no era festa, nem caso para -Bucellas... Ento no entendia. - -O av, que lhe bebia as palavras, enlevado, fez subitamente um caro -severo. - ---Parece-me que o senhor est palrando de mais. As pessoas grandes que -palram meza. - -Carlos recolheu-se logo ao seu prato, murmurando muito mansamente: - ---Est bom, vov, no te zangues. Esperarei para quando for grande... - -Houve um sorriso em volta da meza. A propria viscondessa, deleitada, -agitou preguiosamente o leque: o abbade, com a sua boa face banhada em -extasi para o menino, apertava as mos cabelludas contra o peito, tanto -aquillo lhe parecia engraado: e Affonso tossia por traz do guardanapo, -como limpando as barbas--a esconder o riso, a admirao que lhe brilhava -nos olhos. - -Tanta vivacidade surprehendeu tambem Villaa. Quiz ouvir mais o menino, -e pousando o seu talher: - ---E diga-me, Carlinhos, j vae adiantado nos seus estudos? - -O rapaz, sem o olhar, repoltreou-se, mergulhou as mos pelo cs das -flanellas, e respondeu com um tom superior: - ---J fao ladear a _Brigida_. - -Ento o av, sem se conter, largou a rir, cahido para o espaldar da -cadeira: - ---Essa boa! Eh! Eh! J faz ladear a _Brigida_! E verdade, Villaa, -j a faz ladear... Pergunte ao Brown; no verdade, Brown? E a eguasita - uma piorrita, mas fina... - ---Oh vov, gritou Carlos j excitado, dize ao Villaa, anda. No -verdade que eu era capaz de governar o _dog-cart_? - -Affonso reassumio um ar severo. - ---No o nego... Talvez o governasse, se lh'o consentissem. Mas faa-me -favor de se no gabar das suas faanhas, porque um bom cavalleiro deve -ser modesto... E sobre tudo no enterrar assim as mos pela barriga -abaixo... - -O bom Villaa, no entanto, dando estalinhos aos dedos, preparava uma -observao. No se podia de certo ter melhor prenda que montar a cavallo -com as regras... Mas elle queria dizer se o Carlinhos j entrava com o -seu Phedro, o seu Tito Liviosinho... - ---Villaa, Villaa, advertiu o abbade, de garfo no ar e um sorriso de -santa malicia, no se deve fallar em latim aqui ao nosso nobre amigo... -No admitte, acha que antigo... Elle, antigo ... - ---Ora sirva-se d'esse fricass, ande abbade, disse Affonso, que eu sei -que o seu fraco, e deixe l o latim... - -O abbade obedeceu com deleite; e escolhendo no molho rico os bons -pedaos de ave, ia murmurando: - ---Deve-se comear pelo latimsinho, deve-se comear por l... a base; -a basesinha! - ---No! latim mais tarde! exclamou o Brown, com um gesto possante. -Prrimeiro forra! Forra! Musculo... - -E repetio, duas vezes, agitando os formidaveis punhos: - ---Prrimeiro musculo, musculo!... - -Affonso appoiava-o, gravemente. O Brown estava na verdade. O latim era -um luxo d'erudito... Nada mais absurdo que comear a ensinar a uma -creana n'uma lingua morta quem foi Fabio, rei dos Sabinos, o caso dos -Grachos, e outros negocios d'uma nao extincta, deixando-o ao mesmo -tempo sem saber o que a chuva que o molha, como se faz o po que come, -e todas as outras cousas do Universo em que vive... - ---Mas emfim os classicos, arriscou timidamente o abbade. - ---Qual classicos! O primeiro dever do homem viver. E para isso -necessario ser so, e ser forte. Toda a educao sensata consiste -n'isto: crear a saude, a fora e os seus habitos, desenvolver -exclusivamente o animal, armal-o d'uma grande superioridade physica. Tal -qual como se no tivesse alma. A alma vem depois... A alma outro luxo. - um luxo de gente grande... - -O abbade coava a cabea, com o ar arripiado. - ---A instrucosinha necessaria, disse elle. Voc no acha, Villaa? -Que v. ex^a, sr. Affonso da Maia, tem visto mais mundo do que eu... Mas -emfim a instrucosinha... - ---A instruco para uma creana no recitar _Tityre, tu patulae -recubans_... saber factos, noes, cousas uteis, cousas praticas... - -Mas suspendeu-se: e, com o olho brilhante, n'um signal ao Villaa, -mostrou-lhe o neto que palrava inglez com o Brown. Eram de certo feitos -de fora, uma historia de briga com rapazes que elle lhe estava a -contar, animado e jogando com os punhos. O perceptor approvava, -retorcendo os bigodes. E mesa os senhores com os garfos suspensos, por -traz os escudeiros de p e guardanapo no brao, todos, n'um silencio -reverente, admiravam o menino a fallar inglez. - ---Grande prenda, grande prenda, murmurou Villaa, inclinando-se para a -Viscondessa. - -A excellente senhora crou, atravez d'um sorriso. Parecia assim mais -gorda, toda acaapada na cadeira, silenciosa, comendo sempre; e, a cada -gole de Bucellas, refrescava-se languidamente com o seu grande leque -negro e lentejoulado. - -Quando o Teixeira serviu o vinho do Porto, Affonso fez uma _saude_ ao -Villaa. Todos os copos se ergueram n'um rumor de amizade. Carlos quiz -gritar _Hurrah!_ O av, com um gesto reprehensivo, immobilisou-o; e na -pausa satisfeita que se fez, o pequeno disse com uma grande convico: - ---Oh av, eu gosto do Villaa. O Villaa nosso amigo. - ---Muito, e ha muitos annos, meu senhor! exclamou o velho procurador, to -commovido que mal podia erguer o calice na mo. - -O jantar findava. Fra, o sol deixra o terrasso e a quinta verdejava na -grande doura do ar tranquillo, sob o azul ferrete. Na chamin s -restava uma cinza branca: os lilazes das jarras exhalavam um aroma vivo, -a que se misturava o do creme queimado, tocado de um fio de limo: os -creados, de colletes brancos, moviam o servio d'onde se escapava algum -som argentino: e toda a alva toalha adamascada desapparecia sob a -confuso da sobremesa onde os tons dourados do vinho do Porto brilhavam -entre as compoteiras de crystal. A Viscondessa affogueada abanava-se. -Padre Custodio enrolava devagar o guardanapo, a sua batina coada luzia -nas pregas das mangas. - -Ento Affonso, sorrindo ternamente, fez a ultima saude. - ---Viva v. s.^a, snr. Carlos de Matta-sete! - ---Sr. Vv! dizia o pequeno escorropichando o copo. - -A cabeinha de cabellos negros, a velha face de barbas de neve, -saudavam-se das extremidades da mesa--em quanto todos sorriam, no -enternecimento d'aquella cerimonia. Depois o abbade, de palito na bocca, -murmurou as _graas_. A Viscondessa, cerrando os olhos, juntou tambem as -mos. E Villaa que tinha crenas religiosas no gostou de vr Carlos, -sem se importar com as graas, saltar da cadeira, vir atirar-se ao -pescoo do av, fallar-lhe ao ouvido. - ---No senhor! no senhor! dizia o velho. - -Mas o rapaz, abraando-o mais forte, dava-lhe grandes razes, n'um -murmurio de mimo dce como um beijo, que ia pondo na face do velho uma -fraqueza indulgente. - --- por ser festa, disse elle emfim vencido. Mas veja l, veja l... - -O rapaz pulou, bateu as palmas, agarrou Villaa pelos braos, fl-o -redemoinhar, e foi cantando n'um rythmo seu: - ---Fizeste bem em vir, bem, bem, bem!... Vou buscar a Therezinha, inha, -inha, inha! - --- a noiva, disse o av, erguendo-se da mesa. J tem amores, a -pequena das Silveiras... O caf para o terrao, Teixeira. - -O dia fra convidava, adoravel, d'um azul suave, muito puro e muito -alto, sem uma nuvem. Defronte do terrao os geranios vermelhos estavam -j abertos; as verduras dos arbustos, muito tenras ainda, d'uma -delicadeza de renda, pareciam tremer ao menor sopro; vinha por vezes um -vago cheiro de violetas, misturado ao perfume adocicado das flres do -campo; o alto repuxo cantava; e nas ruas do jardim, bordadas de buxos -baixos, a areia fina faiscava de leve quelle sol timido de primavera -tardia, que ao longe envolvia os verdes da quinta, adormecida a essa -hora de sesta n'uma luz fresca e loura. - -Os tres homens sentaram-se mesa do caf. Defronte do terrao, o Brown, -de bonet escossez posto ao lado e grande cachimbo na bocca, puchava ao -alto a barra do trapezio para Carlos se balouar. Ento o bom Villaa -pedio para voltar as costas. No gostava de vr gymnasticas; bem sabia -que no havia perigo; mas mesmo nos cavallinhos, as cabriolas, os arcos, -atordoavam-n'o; sahia sempre com o estomago embrulhado... - ---E parece-me imprudente, sobre o jantar... - ---Qual! s balouar-se... Olhe para aquillo! - -Mas Villaa no se moveu, com a face sobre a chavena. - -O abbade, esse, admirava, de labios entreabertos, e o pires cheio de -caf esquecido na mo. - ---Olhe para aquillo Villaa, repetio Affonso. No lhe faz mal, homem! - -O bom Villaa voltou-se, com esforo. O pequeno muito alto no ar, com as -pernas retesadas contra a barra do trapezio, as mos s cordas, descia -sobre o terrao, cavando o espao largamente, com os cabellos ao vento; -depois elevava-se, serenamente, crescendo em pleno sol; todo elle -sorria; a sua blusa, os cales enfunavam-se aragem; e via-se passar, -fugir, o brilho dos seus olhos muito negros e muito abertos. - ---No est mais na minha mo, no gosto, disse o Villaa. Acho -imprudente! - -Ento Affonso bateu as palmas, o abbade gritou _bravo, bravo_. Villaa -voltou-se para applaudir, mas Carlos tinha j desapparecido; o trapezio -parava, em oscillaes lentas; e o Brown, retomando o _Times_ que pozera -ao lado sobre o pedestal d'um busto, foi descendo para a quinta -envolvido n'uma nuvem de fumo do cachimbo. - ---Bella cousa, a gymnastica! exclamou Affonso da Maia, accendendo com -satisfao outro charuto. - -Villaa j ouvira que enfraquecia muito o peito. E o abbade, depois de -dar um sorvo ao caf, de lamber os beios, soltou a sua bella phrase, -arranjada em maxima: - ---Esta educao faz athletas mas no faz christos. J o tenho dito... - ---J o tem dito abbade, j! exclamou Affonso alegremente. Diz-m'o todas -as semanas... Quer voc saber, Villaa? O nosso Custodio matta-me o -bicho do ouvido para que eu ensine a cartilha ao rapaz. A cartilha!... - -Custodio ficou um momento a olhar Affonso, com uma face desconsolada e a -caixa de rap aberta na mo; a irreligio d'aquelle velho fidalgo, -senhor de quasi toda a freguezia, era uma das suas dres: - ---A cartilha, sim meu senhor, ainda que v. ex.^a o diga assim com esse -modo escarnica... A cartilha. Mas j no quero fallar na cartilha... Ha -outras cousas. E se o digo tantas vezes, sr. Affonso da Maia, pelo -amor que tenho ao menino. - -E recomeou a discusso, que voltava sempre ao caf, quando Custodio -jantava na quinta. - -O bom homem achava horroroso que n'aquella edade um to lindo moo, -herdeiro d'uma casa to grande, com futuras responsabilidades na -sociedade, no soubesse a sua doutrina. E narrou logo ao Villaa a -historia da D. Cecilia Macedo: esta virtuosa senhora, mulher do -escrivo, tendo passado deante do porto da quinta, avistara o -Carlinhos, chamara-o, carinhosa e amiga de creanas como era, e -pedira-lhe que lhe dissesse o _acto de contrico_. E que respondeu o -menino? _Que nunca em tal ouvira fallar!_ Estas cousas entristeciam. E o -sr. Affonso da Maia achava-lhe graa, ria-se! Ora alli estava o amigo -Villaa que podia dizer se era caso para jubilar. No, o sr. Affonso da -Maia tinha muito saber, e correra muito mundo; mas d'uma cousa no o -podia convencer, a elle pobre padre que nem mesmo o Porto vira ainda, -que houvesse felicidade e bom comportamento na vida sem a moral do -cathecismo. - -E Affonso da Maia respondia com bom humor: - ---Ento que lhe ensinava voc, abbade, se eu lhe entregasse o rapaz? Que -se no deve roubar o dinheiro das algibeiras, nem mentir, nem maltratar -os inferiores, por que isso contra os mandamentos da lei de Deus, e -leva ao inferno, hein? isso?... - ---Ha mais alguma cousa... - ---Bem sei. Mas tudo isso que voc lhe ensinaria que se no deve fazer, -por ser um peccado que offende a Deus, j elle sabe que se no deve -praticar, por que indigno d'um cavalheiro e d'um homem de bem... - ---Mas, meu senhor... - ---Oua abbade. Toda a differena essa. Eu quero que o rapaz seja -virtuoso por amor da virtude e honrado por amor da honra; mas no por -medo s caldeiras de Pero Botelho, nem com o engodo de ir para o reino -do cu... - -E accrescentou, erguendo-se e sorrindo: - ---Mas o verdadeiro dever de homens de bem, abbade, quando vem, depois -de semanas de chuva, um dia d'estes, ir respirar pelos campos e no -estar aqui a discutir moral. Portanto arriba! e se o Villaa no est -muito canado, vamos dar ahi um giro pelas fazendas... - -O abbade suspirou como um santo que v a negra impiedade dos tempos e -Belzebut arrebatando as melhores rezes do rebanho; depois olhou a -chavena e sorveu com delicias o resto do seu caf. - -Quando Affonso da Maia, Villaa e o abbade recolheram do seu passeio -pela freguezia, escurecera, havia luzes pelas salas, e tinham chegado j -as Silveiras, senhoras ricas da quinta da _Lagoaa_. - -D. Anna Silveira, a solteira e mais velha, passava pela talentosa da -familia, e era em pontos de doutrina e de etiqueta uma grande -auctoridade em Resende. A viuva, D. Eugenia, limitava-se a ser uma -excellente e pachorrenta senhora, de agradavel nutrio, trigueirota e -pestanuda; tinha dois filhos, a Theresinha, a _noiva_ de Carlos, uma -rapariguinha magra e viva com cabellos negros como tinta, e o -morgadinho, o Eusebiosinho, uma maravilha muito fallada n'aquelles -sitios. - -Quasi desde o bero este notavel menino revelara um edificante amor por -alfarrabios e por todas as coisas do saber. Ainda gatinhava e j a sua -alegria era estar a um canto, sobre uma esteira, embrulhado n'um -cobertor, folheando _in-folios_, com o craneosinho calvo de sabio -curvado sobre as lettras garrafaes de boa doutrina: depois de -crescidinho tinha tal proposito que permanecia horas immovel n'uma -cadeira, de perninhas bambas, esfuracando o nariz: nunca appetecera um -tambor ou uma arma: mas cosiam-lhe cadernos de papel, onde o precoce -letrado, entre o pasmo da mam e da titi, passava dias a traar -algarismos, com a lingoasinha de fora. - -Assim na familia tinha a sua carreira destinada: era rico, havia de ser -primeiro bacharel, e depois desembargador. Quando vinha a Santa Olavia, -a tia Annica installava-o logo mesa, ao p do candieiro, a admirar as -pinturas d'um enorme e rico volume, os _Costumes de todos os Povos do -Universo_. J l estava essa noite, vestido como sempre de escossez, com -o _plaid_ de flamejante xadrez vermelho e negro posto a tiracollo e -preso ao hombro por uma dragona; para que conservasse o ar nobre d'um -Stuart, d'um valoroso cavalleiro de Walter Scott, nunca lhe tiravam o -bonet onde se arqueava com heroismo uma rutilante penna de gallo; e nada -havia mais melancolico que a sua facesinha trombuda, a que o excesso de -lombrigas dava uma molleza e uma amarellido de manteiga, os seus -olhinhos vagos e azulados, sem pestanas como se a sciencia lh'as tivesse -j consummido, pasmando com sisudez para as camponesas da Sicilia, e -para os guerreiros ferozes do Montenegro appoiados a escupetas, em -pincaros de serranias. - -Deante do canap das senhoras l se achava tambem o fiel amigo, o dr. -delegado, grave e digno homem, que havia cinco annos andava ponderando e -meditando o casamento com a Silveira viuva, sem se -decidir--contentando-se em comprar todos os annos mais meia duzia de -lenoes, ou uma pea mais de bretanha, para arredondar o bragal. Estas -compras eram discutidas em casa das Silveiras, brazeira: e as alluses -recatadas, mas inevitaveis, s duas fronhasinhas, ao tamanho dos -lenoes, aos cobertores de papa para os conchegos de janeiro--em logar -de inflammar o magistrado, inquietavam-n'o. Nos dias seguintes apparecia -preoccupado--como se a perspectiva da santa consummao do matrimonio -lhe dsse o arrepio de uma faanha a emprehender, o ter de agarrar um -toiro, ou nadar nos caches do Douro. Ento, por qualquer raso -especiosa, adiava-se o casamento at ao S. Miguel seguinte. E alliviado, -tranquillo, o respeitavel Dr. continuava a acompanhar as Silveiras a -chs, festas de egreja ou pezames, vestido de preto, affavel, servial, -sorrindo a D. Eugenia, no desejando mais prazeres que os d'essa -convivencia paternal. - -Apenas Affonso entrou na sala deram-lhe logo noticia do contratempo: o -dr. juiz de direito e a senhora no podiam vir, por que o magistrado -tivera a dr; e as Brancos tinham mandado recado a desculpar-se, -coitadas, que era dia de tristeza em casa, por fazer desesete annos que -morrera o mano Manuel... - ---Bem, disse Affonso, bem. A dr, a tristeza, o mano Manuel... Fazemos -ns um voltaretesinho de quatro. Que diz o nosso dr. delegado? - -O excellente homem dobrou a sua fronte calva, murmurando que estava s -ordens. - ---Ento ao dever, ao dever! exclamou logo o abbade, esfregando as mos, -no ardor j da partida. - -Os parceiros dirigiram-se saleta do jogo--que um reposteiro de damasco -separava da sala, franzido agora, deixando ver a mesa verde, e nos -circulos de luz que cahiam dos _abat-jour_ os baralhos abertos em leque. -D'ahi a um momento o dr. delegado voltou, risonho, dizendo que os -deixara para um roquesinho de tres; e retomou o seu logar ao lado de D. -Eugenia, cruzando os ps debaixo da cadeira e as mos em cima do ventre. -As senhoras estavam fallando da dr do dr. juiz de direito. Costumava -dar-lhe todos os tres mezes: e era condemnavel a sua teima em no querer -consultar medicos. Quanto mais que elle andava acabado, ressequindo, -amarellando--e a D. Augusta, a mulher, a nutrir larga, a ganhar -cres!... A Viscondessa, enterrada em toda a sua gordura ao canto do -canap, com o leque aberto sobre o peito, contou que em Hespanha vira um -caso egual: o homem chegara a parecer um esqueleto, e a mulher uma pipa; -e ao principio fra o contrario; at sobre isso se tinham feito uns -versos... - ---Humores, disse com melancolia o dr. delegado. - -Depois fallou-se nas Brancos; recordou-se a morte de Manuel Branco, -coitadinho, na flor de idade! E que perfeio de rapaz! E que rapaz de -juizo! D. Anna Silveira no se esquecera, como todos os annos, de lhe -accender uma lamparina por alma, e de lhe resar tres padre-nossos. A -viscondessa pareceu toda afflicta por se no ter lembrado... E ella que -tinha o proposito feito! - ---Pois estive para t'o mandar dizer! exclamou D. Anna. E as Brancos que -tanto o agradecem, filha! - ---Ainda est a tempo, observou o magistrado. - -D. Eugenia deu uma malha indolente no _crochet_ de que nunca se -separava, e murmurou com um suspiro: - ---Cada um tem os seus mortos. - -E no silencio que se fez, saiu do canto do canap outro suspiro, o da -viscondessa, que de certo se recordra do fidalgo d'Urigo de la Sierra, -e murmurava: - ---Cada um tem os seus mortos... - -E o digno dr. delegado terminou por dizer egualmente, depois de passar -reflectidamente a mo pela calva: - ---Cada um tem os seus mortos! - -Uma somnolencia ia pesando. Nas serpentinas douradas, sobre as consoles, -as chammas das velas erguiam-se altas e tristes. Eusebiosinho voltava -com cautella e arte as estampas dos _Costumes de todos os Povos_. E na -saleta de jogo, atravez do reposteiro aberto, sentia-se a voz j -arrenegada do abbade, rosnando com um rancor tranquillo, passo, que o -que tenho feito toda a santa noite! - -N'esse momento Carlos arremettia pela sala dentro arrastando a sua -noiva, a Theresinha, toda no ar e vermelha de brincar; e logo a grulhada -das suas vozes reanimou o canap dormente. - -Os noivos tinham chegado d'uma pittoresca e perigosa viagem, e Carlos -parecia descontente de sua mulher; comportara-se d'uma maneira atroz; -quando elle ia governando a mala-posta, ella quizera empoleirar-se ao p -d'elle na almofada... Ora senhoras no viajam na almofada. - ---E elle atirou-me ao cho, titi! - ---No verdade! De mais a mais mentirosa! Foi como quando chegmos -estalagem... Ella quiz-se deitar, e eu no quiz... A gente, quando se -apeia de viagem, a primeira cousa que faz tratar do gado... E os -cavallos vinham a escorrer... - -A voz de D. Anna interrompeu, muito severa: - ---Est bom, est bom, basta de tolices! J cavallaram bastante. Senta-te -ahi ao p da sr.^a Viscondessa, Thereza... Olhe essa travessa do -cabello... Que desproposito! - -Sempre detestra ver a sobrinha, uma menina delicada de dez annos, -brincar assim com o Carlinhos. Aquelle bello e impetuoso rapaz, sem -doutrina e sem proposito, aterrava-a; e pela sua imaginao de -solteirona passavam sem cessar idas, suspeitas de ultrages que elle -poderia fazer menina. Em casa, ao agasalhal-a antes de vir para S.^ta -Olavia, recommendava-lhe com fora que no fosse com o Carlos para os -recantos escuros! que o no deixasse mecher-lhe nos vestidos!... A -menina, que tinha os olhos muito langorosos, dizia: Sim, titi. Mas, -apenas na quinta, gostava de abraar o seu maridinho. Se eram casados, -por que no haviam de fazer nn, ou ter uma loja e ganharem a sua vida -aos beijinhos? Mas o violento rapaz s queria guerras, quatro cadeiras -lanadas a galope, viagens a terras de nomes barbaros que o Brown lhe -ensinava. Ella, despeitada, vendo o seu corao mal comprehendido, -chamava-lhe _arrieiro_; elle ameaava boxal-a, ingleza;--e -separavam-se sempre arrenegados. - -Mas quando ella se accomodou ao lado da Viscondessa, gravesinha e com as -mos no regao--Carlos veiu logo estirar-se ao p d'ella, meio deitado -para as costas do canap, bamboleando as pernas. - ---Vamos, filho, tem maneiras, rosnou-lhe muito secca D. Anna. - ---Estou canado, governei quatro cavallos, replicou elle, insolente e -sem a olhar. - -De repente porm, d'um salto, precipitou-se sobre o Eusebiosinho. -Queria-o levar Africa, a combatter os selvagens: e puchava-o j pelo -seu bello _plaid_ de cavalleiro d'Escossia, quando a mam accudiu -atterrada. - ---No, com o Eusebiosinho no, filho! No tem saude para essas -cavalladas... Carlinhos, olhe que eu chamo o av! - -Mas o Eusebiosinho, a um repello mais forte, rolara no cho, soltando -gritos medonhos. Foi um alvoroo, um levantamento. A me, tremula, -agachada junto d'elle, punha-o de p sobre as perninhas molles, -limpando-lhe as grossas lagrimas, j com o leno, j com beijos, quasi a -chorar tambem. O delegado, consternado, apanhara o bonet escossez, e -cofiava melancolicamente a bella pena de gallo. E a Viscondessa apertava -s mos ambas o enorme seio, como se as palpitaes a suffocassem. - -O Eusebiosinho foi ento preciosamente collocado ao lado da titi; e a -severa senhora, com um fulgr de colera na face magra, apertando o leque -fechado como uma arma, preparava-se a repellir o Carlinhos que, de mos -atraz das costas e aos pulos em roda do canap, ria, arreganhando para o -Eusebiosinho um labio feroz. Mas n'esse momento davam nove horas, e a -desempenada figura do Brown appareceu porta. - -Apenas o avistou, Carlos correu a refugiar-se por detraz da Viscondessa, -gritando: - ---Ainda muito cedo, Brown, hoje festa, no me vou deitar! - -Ento Affonso da Maia, que se no movera aos uivos lacinantes do -Silveirinha, disse de dentro, da mesa do voltarete, com severidade: - ---Carlos, tenha a bondade de marchar j para a cama. - ---Oh vv, festa, que est c o Villaa! - -Affonso da Maia pousou as cartas, atravessou a sala sem uma palavra, -agarrou o rapaz pelo brao, e arrastou-o pelo corredor--em quanto elle, -de calcanhares fincados no soalho, resistia, protestando com desespero: - --- festa, vv... uma maldade!... O Villaa pde-se escandalisar... -Oh vv, eu no tenho somno! - -Uma porta fechando-se abafou-lhe o clamor. As senhoras censuraram logo -aquella rigidez: ahi estava uma cousa incomprehensivel; o av -deixava-lhe fazer todos os horrores, e recusava-lhe ento o bocadinho da -soire... - ---Oh sr. Affonso da Maia, por que no deixou estar a creana? - --- necessario methodo, necessario methodo, balbuciou elle, entrando, -todo pallido do seu rigor. - -E mesa do voltarete, apanhando as cartas com as mos tremulas, repetia -ainda: - --- necessario methodo. Creanas noite dormem. - -D. Anna Silveira voltando-se para o Villaa--que cedera o seu lugar ao -dr. delegado e vinha palestrar com as senhoras--teve aquelle sorriso -mudo que lhe franzia os labios, sempre que Affonso da Maia fallava em -methodos. - -Depois, reclinando-se para as costas da cadeira e abrindo o leque, -declarou, a transbordar d'ironia, que, talvez por ter a intelligencia -curta, nunca comprehendera a vantagem dos methodos... Era ingleza, -segundo diziam: talvez provassem bem em Inglaterra; mas ou ella estava -enganada, ou S.^ta Olavia era no reino de Portugal... - -E como Villaa inclinava timidamente a cabea, com a sua pitada nos -dedos, a esperta senhora, baixo para que Affonso dentro no ouvisse, -desabafou. O sr. Villaa naturalmente no sabia, mas aquella educao do -Carlinhos nunca fra approvada pelos amigos da casa. J a presena do -Brown, um heretico, um protestante, como perceptor na familia dos Maias, -causara desgosto em Resende. Sobretudo quando o sr. Affonso tinha -aquelle santo do abbade Custodio, to estimado, homem de tanto saber... -No ensinaria creana habilidades de acrobata; mas havia de lhe dar -uma educao de fidalgo, preparal-o para fazer boa figura em Coimbra. - -N'esse momento, o abbade, suspeitando uma corrente d'ar, erguera-se da -mesa de jogo a fechar o reposteiro: ento, como Affonso j no podia -ouvir, D. Anna ergueu a voz: - ---E olhe que o Custodio teve desgosto, sr. Villaa. Que o Carlinhos, -coitadinho, nem uma palavra sabe de doutrina... Sempre lhe quero contar -o que succedeu com a Macedo. - -Villaa j sabia. - ---Ah j sabe? Lembras-te viscondessa? Com a Macedo, do acto de -contrico... - -A viscondessa suspirou, erguendo um olhar mudo ao ceu atravez do tecto. - ---Horroroso! continuou D. Anna. A pobre mulher chegou l a nossa casa -embuchada... E eu fez-me impresso. At sonhei com aquillo tres noites a -fio... - -Calou-se um momento. Villaa, embaraado, acanhado, fazia girar a caixa -de rap nos dedos, com os olhos postos no tapete. Outro langor de -somnolencia passou na sala; D. Eugenia, com as palpebras pesadas, fazia -de vez em quando uma malha molle no _crochet_; e a noiva de Carlos, -estirada para o canto do soph, j dormia, com a boquinha aberta, os -seus lindos cabellos negros caindo-lhe pelo pescoo. - -D. Anna, depois de bocejar de leve, retomou a sua ida: - ---Sem contar que o pequeno est muito atrazado. A no ser um bocado de -inglez, no sabe nada... Nem tem prenda nenhuma! - ---Mas muito esperto, minha rica senhora! accudiu Villaa. - --- possivel, respondeu seccamente a intelligente Silveira. - -E, voltando-se para Euzebiosinho, que se conservava ao lado d'ella, -quieto como se fosse de gesso: - ---Oh filho, dize tu aqui ao sr. Villaa aquelles lindos versos que -sabes... No sejas atado, anda!... V, Euzebio, filho, s bonito... - -Mas o menino, mollengo e tristonho, no se descollava das saias da -titi: teve ella de o pr de p, amparal-o, para que o tenro prodigio no -alluisse sobre as perninhas flacidas; e a mam prometteu-lhe que, se -dissesse os versinhos, dormia essa noite com ella... - -Isto decidio-o: abrio a bocca, e como d'uma torneira lassa veio de l -escorrendo, n'um fio de voz, um recitativo lento e babujado: - - - noite, o astro saudoso - Rompe a custo um plumbeo cu, - Tolda-lhe o rosto formoso - Alvacento, humido vo... - - -Disse-a toda--sem se mexer, com as mosinhas pendentes, os olhos -mortios pregados na titi. A mam fazia o compasso com a agulha do -_crochet_; e a viscondessa, pouco a pouco, com um sorriso de quebranto, -banhada no langor da melopea, ia cerrando as palpebras. - ---Muito bem, muito bem! exclamou o Villaa, impressionado, quando o -Euzebiosinho findou coberto de suor. Que memoria! Que memoria! um -prodigio!... - -Os creados entravam com o ch. Os parceiros tinham findado a partida; e -o bom Custodio, de p, com a sua chavena na mo, queixava-se amargamente -da maneira porque aquelles senhores o tinham esfollado. - -Como ao outro dia era domingo, e havia missa cedo, as senhoras -retiraram-se s nove e meia. O servial dr. delegado dava o brao a D. -Eugenia; um creado da quinta allumiava adiante com o lampeo; e o moo -das Silveiras levava ao collo o Eusebiosinho que parecia um fardo -escuro, abafado em mantas, com um chale amarrado na cabea. - - -Depois da ceia Villaa acompanhou ainda um momento Affonso da Maia -livraria, onde, antes de recolher, elle tomava sempre ingleza o seu -cognac e soda. - -O aposento, a que as velhas estantes de pau preto davam um ar severo, -estava adormecido tepidamente, na penumbra suave, com as cortinas bem -fechadas, um resto de lume na chamin, e o globo do candieiro pondo a -sua claridade serena na mesa coberta de livros. Em baixo, os repuchos -cantavam alto no silencio da noite. - -Emquanto o escudeiro rolava para o p da poltrona de Affonso, n'uma mesa -baixa, os crystaes e as garrafas de soda, Villaa, com as mos nos -bolsos, de p e pensativo, olhava a braza da acha que morria na cinza -branca. Depois ergueu a cabea, para murmurar, como ao acaso: - ---Aquelle rapazito esperto... - ---Quem? O Euzebiosinho? disse Affonso, que se accomodava junto ao fogo, -enchendo alegremente o cachimbo. Eu tremo de o ver c, Villaa! O Carlos -no gosta d'elle, e tivemos ahi um desgosto horroroso... Foi j ha -mezes. Havia uma procisso e o Eusebiosinho ia de anjo... As Silveiras, -excellentes mulheres, coitadas, mandaram-n'o c para o mostrar -viscondessa, j vestido de anjo. Pois senhores, distrahimo-nos, e o -Carlos que o andava a rondar apodera-se d'elle, leva-o para o soto, e, -meu caro Villaa... Em primeiro logar ia-o matando porque embirra com -anjos... Mas o peior no foi isso. Imagine voc o nosso terror, quando -nos apparece o Eusebiosinho aos berros pela titi, todo desfrizado, sem -uma aza, com a outra a bater-lhe os calcanhares dependurada de um -barbante, a cora de rosas enterrada at ao pescoo, e os gales de -ouro, os tulles, as lentejoulas, toda a vestimenta celeste em -frangalhos!... Emfim, um anjo depennado e sovado... Eu ia dando cabo do -Carlos. - -Bebeu metade da sua soda, e passando a mo pelas barbas, accrescentou, -com uma satisfao profunda: - --- levado do diabo, Villaa! - -O administrador, sentado agora borda de uma cadeira, esboou uma -risadinha muda; depois ficou calado, olhando Affonso, com as mos nos -joelhos, como esquecido e vago. Ia abrir os labios, hesitou ainda, -tossio de leve; e continuou a seguir pensativamente as faiscas que -erravam sobre as achas. - -Affonso da Maia, no entanto, com as pernas estiradas para o lume, -recomeara a fallar do Silveirinha. Tinha tres ou quatro mezes mais que -Carlos, mas estava enfesado, estiolado, por uma educao portugueza: -d'aquella edade ainda dormia no chco com as criadas, nunca o lavavam -para o no constiparem, andava couraado de rolos de flanellas! Passava -os dias nas saias da titi a decorar versos, paginas inteiras do -_Cathecismo de Perseverana_. Elle por curiosidade um dia abrira este -livreco e vira l, que o sol que anda em volta da terra (como antes -de Galileu), e que Nosso Senhor todas as manhs d as ordens ao sol, -para onde ha d'ir e onde ha de parar, etc., etc. E assim lhe estavam -arranjando uma almasinha de bacharel... - -Villaa teve outra risadinha silenciosa. Depois, como subitamente -decidido, ergueu-se, fez estalar os dedos, disse estas palavras: - ---V. Ex.^a sabe que appareceu a Monforte? - -Affonso, sem mover a cabea, reclinado para as costas da poltrona, -perguntou tranquillamente, envolvido no fumo do cachimbo: - ---Em Lisboa? - ---No senhor, em Paris. Viu-a l o Alencar, esse rapaz que escreve, e -que era muito de Arroios... Esteve at em casa d'ella. - -E ficaram calados. Havia annos que entre elles se no pronunciara o nome -de Maria Monforte. Ao principio, quando se retirara para Santa Olavia, a -preoccupao ardente de Affonso da Maia fra tirar-lhe a filha que ella -levara. Mas a esse tempo ninguem sabia onde Maria se refugiara com o seu -principe: nem pela influencia das legaes, nem pagando regiamente a -policia secreta de Paris, de Londres, de Madrid, se poude descobrir a -toca da fera como disia ento o Villaa. Ambos decerto tinham mudado -de nome; e, dadas essas naturezas bohemias, quem sabe se no errariam -agora pela America, pela India, em regies mais exoticas? Depois, pouco -a pouco, Affonso da Maia descoroado com aquelles esforos vos, todo -occupado do neto que crescia bello e forte ao seu lado, no -enternecimento continuo que elle lhe dava foi esquecendo a Monforte e a -sua outra neta, to distante, to vaga, a quem ignorava as feies, de -quem mal sabia o nome. E agora de repente a Monforte apparecia outra vez -em Paris! e o seu pobre Pedro estava morto! e aquella creana que dormia -ao fundo do corredor nunca vira sua me... - -Erguera-se, passeiava na livraria, pesado e lento, com a cabea baixa. -Junto mesa, ao p do candieiro, o Villaa ia percorrendo um a um os -papeis da sua carteira. - ---E est em Paris com o italiano? perguntou Affonso do fundo sombrio do -aposento. - -O Villaa ergueu a cabea de sobre a carteira, e disse: - ---No senhor, est com quem lhe paga. - -E como Affonso se aproximava da mesa, sem uma palavra, Villaa, -dando-lhe um papel dobrado, accrescentou: - ---Todas estas cousas so muito graves, sr. Affonso da Maia, e eu no -quiz fiar-me s na minha memoria. Por isso pedi ao Alencar, que um -excellente rapaz, que me escrevesse n'uma carta tudo o que me contou. -Assim temos um documento. Eu no sei mais do que ahi est escripto. Pde -V. Ex.^a ler... - -Affonso desdobrou as duas folhas de papel. Era uma historia simples, que -o Alencar, o poeta das _Vozes d'Aurora_, o estylista de _Elvira_, ornra -de flores e de gales dourados como uma capella em dia de festa. - -Uma noite, ao sahir da _Maison d'Or_, elle vira a Monforte saltar d'um -_coup_ com dois homens de gravata branca; tinham-se logo reconhecido; e -um momento ficaram hesitando, um defronte do outro, debaixo do candieiro -de gaz, no _trottoir_. Foi ella que, muito decidida, rindo, estendeu a -mo ao Alencar, pediu-lhe que a visitasse, deu-lhe a _adresse_, o nome -por que devia perguntar: M.^{me} de l'Estorade. E no seu _boudoir_, na -manh seguinte a Monforte fallou largamente de si: vivera tres annos em -Vienna d'Austria com Tancredo, e com o pap que se lhes fra reunir--e -que l continuava de certo, como em Arroios, refugiando-se pelos cantos -das salas, pagando as _toilettes_ da filha, e dando palmadinhas ternas -no hombro do amante como outr'ora no hombro do marido. Depois tinham -estado em Monaco; e ahi, dizia o Alencar, n'um drama sombrio de paixo -que ella me fez entrever o napolitano fora morto em duello. O pap -morrera tambem n'esse anno, deixando apenas da sua fortuna uns magros -contos de ris, e a mobilia da casa em Vienna: o velho arruinara-se com -o luxo da filha, com as viagens, com as perdas de Tancredo ao -_baccarat_. Passra ento um tempo em Londres: e d'ahi viera habitar -Paris, com Mr. de l'Estorade, um jogador, um espadachim, que acabou de a -arrasar, e que a abandonou legando-lhe esse nome de l'Estorade, que lhe -era a elle d'ora em diante inutil porque passava a adoptar outro mais -sonoro de _Vicomte de Manderville_. Emfim, pobre, formosa, doida, -excessiva, lanara-se na existencia d'aquellas mulheres de quem, dizia o -Alencar, a pallida Margarida Gautier, a gentil _Dama das Camelias_ o -typo sublime, o symbolo poetico, a quem muito ser perdoado porque muito -amaram. E o poeta terminava: ella est ainda no esplendor da belleza, -mas as rugas viro, e ento que avistar em redor de si? As rosas seccas -e ensanguentadas da sua coroa de esposa. Sahi d'aquelle _boudoir_ -perfumado, com a alma dilacerada, meu Villaa! Pensava no meu pobre -Pedro, que l jaz sob o raio de luar, entre as raizes dos cyprestes. E, -desilludido d'esta cruel vida, vim pedir ao absintho, no _boulevard_, -uma hora de esquecimento. - -Affonso da Maia deu um repello carta, menos enojado das torpezas da -historia, que d'aquelles lyrismos relambidos. - -E recomeou a passear, emquanto o Villaa recolhia religiosamente o -documento que tinha relido muitas vezes, na admirao do sentimento, do -estylo, do ideal d'aquella pagina. - ---E a pequena? perguntou Affonso. - ---Isso no sei. O Alencar no lhe fallara na filha, nem elle mesmo sabe -que ella a levou. Ninguem o sabe em Lisboa. Foi um detalhe que passou -desapercebido no grande escandalo. Mas emquanto a mim, a pequena morreu. -Seno, siga V. Ex.^a o meu raciocinio... Se a menina fosse viva, a me -podia reclamar a legitima que cabe creana... Ella sabe a casa que V. -Ex.^a tem; ha de haver dias, e so frequentes na vida d'essas mulheres, -em que lhe falte uma libra... Com o pretexto da educao da menina, ou -de alimentos, j nos tinha importunado... Escrupulos no tem ella. Se o -no faz que a filha morreu. No lhe parece a V. Ex.^a? - ---Talvez, disse Affonso. - -E accrescentou, parando deante de Villaa--que olhava outra vez a braza -morta tirando estalinhos dos dedos: - ---Talvez... Sopnhamos que morreram ambas, e no se falle mais n'isso. - -Estava dando meia noite, os dois homens recolheram-se. E durante os dias -que Villaa passou em S.^{ta} Olavia no se proferiu mais o nome de -Maria Monforte. - -Mas, na vespera da partida do administrador para Lisboa, Affonso subio -ao quarto d'elle, a entregar-lha as amendoas da Paschoa que Carlos -mandava a Villaa Junior, um alfinete de peito com uma magnifica -saphira--e disse-lhe em quanto o outro, sensibilisado, balbuciava os -agradecimentos: - ---Agora outra cousa, Villaa. Tenho estado a pensar. Vou escrever a meu -primo Noronha, ao Andr que vive em Paris como voc sabe, pedir-lhe que -procure essa creatura, e que lhe offerea dez ou quinze contos de ris, -se ella me quizer entregar a filha... No caso, est claro, que esteja -viva... E quero que voc saiba d'esse Alencar a morada da mulher em -Paris. - -O Villaa no respondeu, occupado a metter entre as camisas, bem no -fundo da maleta, a caixinha com o alfinete. Depois, erguendo-se, ficou -deante d'Affonso, a coar reflectidamente o queixo. - ---Ento que lhe parece, Villaa? - ---Parece-me arriscado. - -E deu as suas razes. A menina devia ir nos seus treze annos. Estava uma -mulher, com o seu temperamento formado, o caracter feito, talvez os seus -habitos... Nem fallaria o portuguez. As saudades da me haviam de ser -terriveis... Emfim, o sr. Affonso de Maia trazia uma extranha para -casa... - ---Voc tem raso, Villaa. Mas a mulher uma prostituta, e a pequena -do meu sangue. - -N'esse momento Carlos, cuja voz gritava no corredor pelo vov, -precipitou-se no quarto, esguedelhado, escarlate como uma rom.--O Brown -tinha achado uma corujasinha pequena! Queria que o vov viesse, ver, -andara a buscal-o por toda a casa... Era de morrer a rir... Muito -pequena, muito feia, toda pellada, e com dois olhos de gente grande! E -sabiam onde havia o ninho... - ---Vem depressa, vov! Depressa, que necessario ir pol-a no ninho, -por causa da coruja velha que se pde affligir... O Brown est-lhe a dar -azeite. Oh Villaa vem ver! O vov, pelo amor de Deus! Tem uma cara to -engraada! Mas depressa, depressa, que a coruja velha pde dar pela -falta!... - -E impaciente com a lentido risonha do vvo, tanta indifferena pela -inquietao da coruja velha, abalou atirando com a porta. - ---Que bom corao! exclamou o Villaa commovido. A pensar nas saudades -da coruja... A me d'elle que no tem saudades! Sempre o disse, uma -fera! - -Afonso encolheu tristemente os hombros. Iam j no corredor quando elle, -parando um momento, baixando a voz: - ---Tem-me esquecido de lhe contar, Villaa, o Carlos sabe que o pae que -se matou... - -Villaa arredondou os olhos d'espanto. Era verdade. Uma manh -entrara-lhe pela livraria, e dissera-lhe:-- vov, o pap matou-se com -uma pistola!--Naturalmente algum creado que lh'o contara... - ---E vossa excellencia? - ---Eu... Que havia de fazer? Disse-lhe que sim. Em tudo tenho obedecido -ao que Pedro me pediu, n'essas quatro ou cinco linhas da carta que me -deixou. Quiz ser enterrado em S.{ta} Olavia, ahi est. No queria que o -filho jmais soubesse da fuga da me; e por mim, de certo, nunca o -saber. Quiz que dois retratos que havia d'ella em Arroios fossem -destruidos; como voc sabe, obtiveram-se e destruiram-se. Mas no me -pedio que occultasse ao rapaz o seu fim. E por isso, disse ao pequeno a -verdade: disse-lhe que n'um momento de loucura, o pap tinha dado um -tiro em si... - ---E elle? - ---E elle, replicou Affonso sorrindo, perguntou-me quem lhe tinha dado a -pistola, e torturou-me toda uma manh para lhe dar tambem uma pistola... -E ahi est o resultado d'essa revelao: que tive de mandar vir do -Porto uma pistla de vento... - -Mas, sentindo Carlos em baixo, aos berros ainda pelo av, os dois -apressaram-se a ir admirar a corujazinha. - -Villaa ao outro dia partiu para Lisboa. - -Passadas duas semanas, Affonso recebia uma carta do administrador, -trasendo-lhe, com a _adresse_ da Monforte, uma revelao imprevista. -Tinha voltado a casa do Alencar; e o poeta, recordando outros incidentes -da sua visita a M.^{me} de l'Estorade, contara-lhe que no _boudoir_ -d'ella havia um adoravel retrato de creana, de olhos negros, cabello -d'azeviche, e uma pallidez de nacar. Esta pintura ferira-o, no s por -ser d'um grande pintor inglez, mas por ter, pendente sob o caixilho como -um voto funerario, uma linda coroa de flores de cera brancas e roxas. -No havia outro quadro no _boudoir_: e elle perguntara Monforte se era -um retrato ou uma phantasia. Ella respondera que era o retrato da filha -que lhe morrera em Londres. Esto assim dissipadas todas as duvidas, -accrescentava o Villaa. O pobre anjinho est n'uma patria. melhor. E -para ella, _bem melhor_! - -Affonso, todavia, escreveu a Andr de Noronha. A resposta tardou. Quando -o primo Andr procurara M.^{me} de l'Estorade, havia semanas que ella -partira para Allemanha, depois de vender mobilia e cavallos. E no _Club -Imperial_, a que elle pertencia, um amigo que conhecia bem M.^{me} de -l'Estorade e a vida galante de Paris, contara-lhe que a doida fugira com -um certo Catanni, acrobata do Circo d'Inverno nos Campos Elyseos, homem -de frmas magnificas, um Appolo de feira, que todas as cocottes se -disputavam e que a Monforte empolgra. Naturalmente corria agora a -Allemanha com a companhia de cavallinhos. - -Affonso da Maia, enojado, remetteu esta carta ao Villaa sem um -commentario. E o honrado homem respondeu: Tem V. Ex.^a raso, atroz: -e mais vale suppor que todos morreram, e no gastar mais cera com to -ruins defuntos... E depois n'um post-scriptum accrescentava: Parece -certo abrir-se em breve o caminho de ferro at ao Porto: em tal caso, -com permisso de V. Ex.^a, ahi irei e o meu rapaz a pedirmos-lhe alguns -dias d'hospitalidade. - -Esta carta foi recebida em S.^{ta} Olavia um domingo, ao jantar. Affonso -lera alto o P. S. Todos se alegraram, na esperana de ver o bom Villaa -em breve na quinta; e fallou-se mesmo em arranjar um grande pic-nic, rio -acima. - -Mas, tera feira noite, chegava um telegramma de Manuel Villaa -annunciando que o pae morrera, n'essa manh, d'uma apoplexia: dois dias -depois vinham mais longos e tristes pormenores. Fora depois do almoo -que, de repente, Villaa se sentira muito suffocado, e com tonturas: -ainda tivera foras d'ir ao quarto respirar um pouco d'ether: mas ao -voltar sala cambaleava, queixava-se de vr tudo amarello, e caiu de -bruos, como um fardo, sobre o canap. O seu pensamento, que se -extinguia para sempre, ainda n'esse momento se occupou da casa que ha -trinta annos administrava: balbuciou, a respeito d'uma venda de cortia, -recomendaes que o filho j no poude perceber: depois deu um grande -ai; e s tornou a abrir os olhos, para murmurar no derradeiro sopro -estas derradeiras palavras: _Saudades ao patro!_ - -Affonso da Maia ficou profundamente afectado, e em S.^{ta} Olavia, mesmo -entre os creados, a morte de Villaa foi como um lucto domestico. Uma -d'essas tardes, o velho, muito melancolico, estava na livraria com um -jornal esquecido nas mos, os olhos cerrados--quando Carlos, que ao lado -rabiscava carantonhas n'um papel, veio passar-lhe um brao pelo pescoo, -e como comprehendendo os seus pensamentos perguntou-lhe se o Villaa no -voltaria a vel-os quinta. - ---No filho, nunca mais. Nunca mais o tornamos a vr. - -O pequeno, entre os joelhos e os braos do velho, olhava o tapete, e, -como recordando-se, murmurou tristemente: - ---O Villaa, coitado... Dava estalinhos com os dedos... Oh vov, para -onde o levaram? - ---Para o cemiterio, filho, para debaixo da terra. - -Ento Carlos desprendeu-se devagar do abrao do av, e muito srio, com -os olhos n'elle: - --- vov! porque no lhe mandas fazer uma capellinha bonita, toda de -pedra, com uma figura, como tem o pap? - -O velho achegou-o ao peito, beijou-o, commovido: - ---Tens razo, filho. Tens mais corao que eu! - -Assim o bom Villaa teve no cemiterio dos Prazeres o seu jazigo--que -fra a alta ambio da sua existncia modesta. - - -Outros annos tranquillos passaram sobre Santa Olavia. - -Depois uma manh de julho, em Coimbra, Manuel Villaa (agora -administrador da casa) trepava as escadas do Hotel Mondego, onde Affonso -se hospedra com o neto, e entrava-lhe pela sala, vermelho, suando, -berrando: - ---_Nemin! Nemin!_ - -Fizera Carlos o seu primeiro exame! E que exame! Teixeira que tinha -acompanhado os senhores de Santa Olavia correu porta, abraou-se quasi -chorando no menino, agora mais alto que elle, e muito formoso na sua -batina nova. - -Em cima no quarto, Manuel Villaa, soprando ainda, limpando as bagas de -suor, exclamava: - ---Ficou tudo espantado, snr. Affonso da Maia! Os lentes at estavam -commovidos. Ih Jesus! que talento! Vem a ser um grande homem, o que -todo o mundo disse... E que faculdade vai elle seguir, meu senhor? - -Affonso, que passeava, todo tremulo, respondeu com um sorriso: - ---No sei, Villaa... Talvez nos formemos ambos em Direito. - -Carlos assomou porta, radiante, seguido do Teixeira e do outro -escudeiro--que trazia _champagne_ n'uma salva. - ---Ento venha c, seu maroto, disse Affonso muito branco, com os braos -abertos. Bom exame, hein?... Eu... - -Mas no pde proseguir: as lagrimas, duas a duas, corriam-lhe pela barba -branca. - - - - -IV - - -Carlos ia formar-se em Medicina. E como dizia o dr. Trigueiros houvera -sempre n'aquelle menino realmente uma vocao para Esculapio. - -A vocao revelra-se bruscamente um dia que elle descobriu no soto, -entre rumas de velhos alfarrabios, um rolo manchado e antiquado de -estampas anatomicas; tinha passado dias a recortal-as, pregando pelas -paredes do quarto figados, liaas de intestinos, cabeas de perfil com -o recheio mostra. Uma noite mesmo rompera pela sala em triumpho, a -mostrar s Silveiras, ao Euzebio, a pavorosa lithographia de um feto de -seis mezes no utero materno. D. Anna recuou, com um grito, collando o -leque face: e o dr. delegado, escarlate tambem, arrebatou -prudentemente Euzebiosinho para entre os joelhos, tapou-lhe a face com a -mo. Mas o que escandalisou mais as senhoras foi a indulgencia de -Affonso. - ---Ento que tem, ento que tem? dizia elle sorrindo. - ---Que tem, snr. Affonso da Maia!? exclamou D. Anna. So indecencias! - ---No ha nada indecente na natureza, minha rica senhora. Indecente a -ignorancia... Deixar l o rapaz. Tem curiosidade de saber como esta -pobre machina por dentro, no ha nada mais louvavel... - -D. Anna abanava-se, suffocada. Consentir taes horrores nas mos da -criana!... Carlos comeou a apparecer-lhe como um libertino que j -sabia coisas; e no consentiu mais que a Therezinha brincasse s com -elle pelos corredores de Santa Olavia. - -As pessoas srias porm, o dr. juiz de direito, o proprio abbade, -lamentando, sim, que no houvesse mais recato, concordavam que aquillo -mostrava no pequeno uma grande queda para a medicina. - ---Se pga, dizia ento com um gesto prophetico o dr. Trigueiros, temos -d'alli coisa grande! - -E parecia pegar. - -Em Coimbra, estudante do Lyceu, Carlos deixava os seus compendios de -logica e rhetorica para se occupar de anatomia: n'umas ferias, ao abrir -das malas, a Gertrudes fugiu espavorida vendo alvejar entre as dobras -d'um casaco o riso d'uma caveira: e se algum criado da quinta adoecia, -l estava Carlos logo revolvendo o caso em velhos livros de medicina da -livraria, sem lhe largar a beira do catre, fazendo diagnosticos que o -bom dr. Trigueiros escutava respeitoso e pensativo. Diante do av j -chamava mesmo ao menino o seu talentoso collega. - -Esta inesperada carreira de Carlos (pensra-se sempre que elle tomaria -capello em Direito) era pouco approvada entre os fieis amigos de Santa -Olavia. As senhoras sobretudo lamentavam que um rapaz que ia crescendo -to formoso, to bom cavalleiro, viesse a estragar a vida receitando -emplastros, e sujando as mos no jorro das sangrias. O dr. juiz de -direito confessou mesmo um dia a sua descrena de que o snr. Carlos da -Maia quizesse ser medico a srio. - ---Ora essa! exclamou Affonso. E porque no ha de ser medico a srio? Se -escolhe uma profisso para a exercer com sinceridade e com ambio, -como os outros. Eu no o educo para vadio, muito menos para amador; -educo-o para ser util ao seu paiz... - ---Todavia, arriscou o dr. juiz de direito com um sorriso fino, no lhe -parece a v. exc.^a que ha outras coisas, importantes tambem, e mais -proprias talvez, em que seu neto se poderia tornar util?... - ---No vejo, replicou Affonso da Maia. N'um paiz em que a occupao geral - estar doente, o maior servio patriotico incontestavelmente saber -curar. - ---V. exc.^a tem resposta para tudo, murmurou respeitosamente o -magistrado. - -E o que justamente seduzia Carlos na medicina era essa vida a srio, -pratica e util, as escadas de doentes galgadas pressa no fogo de uma -vasta clinica, as existencias que se salvam com um golpe de bistur, as -noites veladas beira de um leito, entre o terror de uma familia, dando -grandes batalhas morte. Como em pequeno o tinham encantado as frmas -pittorescas das vsceras--attrahiam-no agora estes lados militantes e -heroicos da sciencia. - -Matriculou-se realmente com enthusiasmo. Para esses longos annos de -quieto estudo o av preparra-lhe uma linda casa em Cellas, isolada, com -graas de cottage inglez, ornada de persianas verdes, toda fresca entre -as arvores. Um amigo de Carlos (um certo Joo da Ega) poz-lhe o nome de -Paos de Cellas, por causa de luxos ento raros na Academia, um tapete -na sala, poltronas de marroquim, panoplias d'armas, e um escudeiro de -libr. - -Ao principio este esplendor tornou Carlos venerado dos fidalgotes, mas -suspeito aos democratas; quando se soube porm que o dono d'estes -confortos lia Proudhon, Augusto Comte, Herbert Spencer, e considerava -tambem o paiz uma _choldra ignobil_--os mais rigidos revolucionarios -comearam a vir aos Paos de Cellas to familiarmente como ao quarto do -Trovo, o poeta bohemio, o duro socialista, que tinha apenas por mobilia -uma enxerga e uma Biblia. - -Ao fim d'alguns mezes, Carlos, sympathico a todos, concilira Dandys e -Philosophos: e trazia muitas vezes no seu _break_, lado a lado, o Serra -Torres, um monstro que j era addido honorario em Berlim e todas as -noites punha casaca, e o famoso Craveiro que meditava a _Morte de -Satanaz_, encolhido no seu gabo d'Aveiro, com o seu grande barrete de -lontra. - -Os Paos de Cellas, sob a sua apparencia preguiosa e campestre, -tornaram-se uma fornalha de actividades. No quintal fazia-se uma -gymnastica scientifica. Uma velha cozinha fra convertida em sala -d'armas--porque n'aquelle grupo a esgrima passava como uma necessidade -social. noite, na sala de jantar, moos srios faziam um _whist_ -srio: e no salo, sob o lustre de crystal, com o _Figaro_, o _Times_ e -as _Revistas_ de Paris e de Londres espalhadas pelas mesas, o Gamacho ao -piano tocando Chopin ou Mozart, os litteratos estirados pelas -poltronas--havia ruidosos e ardentes cavacos, em que a Democracia, a -Arte, o Positivismo, o Realismo, o Papado, Bismark, o Amor, Hugo e a -Evoluo, tudo por seu turno flammejava no fumo do tabaco, tudo to -ligeiro e vago como o fumo. E as discusses metaphysicas, as proprias -certezas revolucionarias adquiriam um sabor mais requintado com a -presena do criado de farda desarrolhando a cerveja, ou servindo -croquettes. - -Carlos, naturalmente, no tardou a deixar pelas mesas, com as folhas -intactas, os seus expositores de medicina. A Litteratura e a Arte, sob -todas as frmas, absorveram-no deliciosamente. Publicou sonetos no -_Instituto_--e um artigo sobre o Parthenon: tentou, n'um _atelier_ -improvisado, a pintura a oleo: e compoz contos archeologicos, sob a -influencia da _Salammb_. Alm d'isso todas as tardes passeava os seus -dois cavallos. No segundo anno levaria um _R_ se no fosse to conhecido -e rico. Tremeu, pensando no desgosto do av: moderou a dissipao -intellectual, acantoou-se mais na sciencia que escolhera: immediatamente -lhe deram um _accessit_. Mas tinha nas veias o veneno do dilettantismo: -e estava destinado, como dizia Joo da Ega, a ser um d'esses medicos -litterarios que inventam doenas de que a humanidade papalva se presta -logo a morrer! - -O av, s vezes, vinha passar uma, duas semanas a Cellas. Nos primeiros -tempos a sua presena, agradavel aos cavalheiros da partilha de _whist_, -desorganisou o cavaco litterario. Os rapazes mal ousavam estender o -brao para o copo da cerveja; e os _vossa excellencia_ isto, _vossa -excellencia_ aquillo, regelavam a sala. Pouco a pouco, porm, vendo-o -apparecer em chinelas e de cachimbo na boca, estirar-se na poltrona com -ares sympathicos de patriarcha bohemio, discutir arte e litteratura, -contar anecdotas do seu tempo d'Inglaterra e d'Italia, comearam a -consideral-o como um camarada de barbas brancas. Diante d'elle j se -fallava de mulheres e de estroinices. Aquelle velho fidalgo, to rico, -que lra Michelet e o admirava--chegou mesmo a enthusiasmar os -democratas. E Affonso gozava alli tambem horas felizes, vendo o seu -Carlos centro d'aquelles moos de estudo, de ideal e de veia. - -Carlos passava as ferias grandes em Lisboa, s vezes em Paris ou -Londres; mas por Nataes e Pascoas vinha sempre a Santa Olavia, que o av -mais s se entretinha a embellezar com amor. As salas tinham agora -soberbos pannos d'Arraz, paizagens de Rousseau e Daubigny, alguns moveis -de luxo e d'arte. Das janellas a quinta offerecia aspectos nobres de -parque inglez: atravs dos macios taboleiros de relva, davam curvas -airosas as ruas areadas: havia marmores entre as verduras; e gordos -carneiros de luxo dormiam sob os castanheiros. Mas a existencia n'este -meio rico no era agora to alegre: a viscondessa, cada dia mais -nutrida, cahia em somnos congestivos logo depois do jantar; o Teixeira -primeiro, a Gertrudes depois, tinham morrido, ambos de pleurizes, ambos -no entrudo: e j se no via tambem mesa a bondosa face do abbade, que -l jazia sob uma cruz de pedra, entre os goivos e as rosas de todo o -anno. O dr. juiz de direito com a sua concertina passra para a Relao -do Porto; D. Anna Silveira, muito doente, nunca sahia; a Therezinha -fizera-se uma rapariguinha feia, amarella como uma cidra; o -Euzebiosinho, mollengo e tristonho, j sem vestigios sequer do seu -primeiro amor aos alfarrabios e s letras, ia casar na Regoa. S o dr. -delegado, esquecido n'aquella comarca, estava o mesmo, mais calvo -talvez, sempre affavel, amando sempre a pachorrenta Eugenia. E quasi -todas as tardes, o velho Trigueiros se apeava da sua egoa branca ao -porto para vir cavaquear com o collega. - -As ferias, realmente, s eram divertidas para Carlos quando trazia para -a quinta o seu intimo, o grande Joo da Ega, a quem Affonso da Maia se -affeiora muito, por elle e pela sua originalidade, e por ser sobrinho -d'Andr da Ega, velho amigo da sua mocidade e, muitas vezes outr'ora, -hospede tambem em Santa Olavia. - -Ega andava-se formando em Direito, mas devagar, muito pausadamente--ora -reprovado, ora perdendo o anno. Sua mi, rica, viuva e beata, retirada -n'uma quinta ao p de Celorico de Basto com uma filha, beata, viuva e -rica tambem, tinha apenas uma noo vaga do que o Joozinho fizera, todo -esse tempo, em Coimbra. O capello affirmava-lhe que tudo havia de -acabar a contento, e que o menino seria um dia doutor como o pap e como -o titi: e esta promessa bastava boa senhora, que se occupava sobretudo -da sua doena de entranhas e dos confortos d'esse padre Seraphim. -Estimava mesmo que o filho estivesse em Coimbra, ou algures, longe da -quinta, que elle escandalisava com a sua irreligio e as suas facecias -hereticas. - -Joo da Ega, com effeito, era considerado no s em Celorico, mas tambem -na Academia que elle espantava pela audacia e pelos ditos, como o maior -atheu, o maior demagogo, que jmais apparecera nas sociedades humanas. -Isto lisonjeava-o: por systema exagerou o seu odio Divindade, e a toda -a Ordem social: queria o massacre das classes-mdias, o amor livre das -fices do matrimonio, a repartio das terras, o culto de Satanaz. O -esforo da intelligencia n'este sentido terminou por lhe influenciar as -maneiras e a physionomia; e, com a sua figura esgrouviada e scca, os -pllos do bigode arrebitados sob o nariz adunco, um quadrado de vidro -entalado no olho direito--tinha realmente alguma coisa de rebelde e de -satanico. Desde a sua entrada na Universidade renovra as tradies da -antiga Bohemia: trazia os rasges da batina cozidos a linha branca; -embebedava-se com carrasco; noite, na Ponte, com o brao erguido, -atirava injurias a Deus. E no fundo muito sentimental, enleado sempre em -amores por meninas de quinze annos, filhas de empregados, com quem s -vezes ia passar a soire, levando-lhes cartuchinhos de dce. A sua fama -de fidalgote rico tornava-o appetecido nas familias. - -Carlos escarnecia estes idyllios futricas; mas tambem elle terminou por -se enredar n'um episodio romantico com a mulher d'um empregado do -governo civil, uma lisboetasinha, que o seduziu pela graa d'um corpo de -boneca e por uns lindos olhos verdes. A ella o que a fanatisra fra o -luxo, o _groom_, a egoa ingleza de Carlos. Trocaram-se cartas; e elle -viveu semanas banhado na poesia aspera e tumultuosa do primeiro amor -adultero. Infelizmente a rapariga tinha o nome barbaro de Hermengarda; e -os amigos de Carlos, descoberto o segredo, chamavam-lhe j _Eurico o -presbytero_, dirigiam para Cellas missivas pelo correio com este nome -odioso. - -Um dia Carlos, andava tomando o sol na Feira, quando o empregado do -governo civil passou junto d'elle com o filhinho pela mo. Pela primeira -vez via to de perto o marido de Hermengarda. Achou-o enxovalhado e -macilento. Mas o pequerrucho era adoravel, muito gordo, parecendo mais -rolio por aquelle dia de janeiro sob os agasalhos de l azul, -tremelicando nas pobres perninhas rxas de frio, e rindo na clara -luz--rindo todo elle, pelos olhos, pelas covinhas do queixo, pelas duas -rosas das faces. O pae amparava-o; e o encanto, o cuidado com que o -rapaz ia assim guiando os passos do seu filho, impressionou Carlos. Era -no momento em que elle lia Michelet--e enchia-lhe a alma a venerao -litteraria da santidade domestica. Sentiu-se canalha em andar alli de -cima do seu _dog-cart_, a preparar friamente a vergonha, e as lagrimas -d'aquelle pobre pae to inoffensivo no seu paletot coado! Nunca mais -respondeu s cartas em que Hermengarda lhe chamava _seu ideal_. Decerto -a rapariga se vingou, intrigando-o; porque o empregado do governo civil, -d'ahi por diante, dardejava sobre elle olhares sangrentos. - -Mas a grande topada sentimental de Carlos, como disse o Ega, foi -quando elle, ao fim d'umas ferias, trouxe de Lisboa uma soberba rapariga -hespanhola, e a installou n'uma casa ao p de Cellas. Chamava-se -Encarnacion. Carlos alugou-lhe ao mez uma vittoria com um cavallo branco -e Encarnacion fanatisou Coimbra como a appario d'uma _Dama das -Camelias_, uma flr de luxo das civilisaes superiores. Pela Calada, -pela estrada da Beira, os rapazes paravam, pallidos de emoo, quando -ella passava, reclinada na vittoria, mostrando o sapato de setim, um -pouco da meia de sda, languida e desdenhosa, com um cosinho branco no -regao. - -Os poetas da Academia fizeram-lhe versos em que Encarnacion foi chamada -_Lirio d'Israel_, _Pomba da Arca_, e _Nuvem da Manh_. Um estudante de -theologia, rude e sebento transmontano, quiz casar com ella. Apesar das -instancias de Carlos, Encarnacion recusou; e o theologo comeou a rondar -Cellas, com um navalho, para beber o sangue ao Maia. Carlos teve de -lhe dar bengaladas. - -Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intoleravel, fallando sem cessar -d'outras paixes que inspirra em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe -dera o conde de tal, o marquez sicrano, da grande posio da sua familia -ainda aparentada com os Medina-C[oe]li: os seus sapatos de setim verde -eram to antipathicos como a sua voz estridula: e quando tentava -elevar-se s conversaes que ouvia, rompia a chamar ladres aos -republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua _gracia_, o seu -_salero_--sendo muito conservadora como todas as prostitutas. Joo da -Ega odiava-a. E Craveiro declarou que no voltava aos Paos de Cellas -emquanto por l apparecesse aquelle monto de carne, pago ao arratel, -como a de vacca. - -Emfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos -surprehendeu-a com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ahi -estava, emfim, um pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos -Medina-C[oe]li, o _Lirio d'Israel_, a admiradora dos Bourbons, foi -recambiada a Lisboa e rua de S. Roque, seu elemento natural. - -Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em -Cellas. Affonso viera de Santa Olavia, Villaa de Lisboa; toda a tarde -no quintal, d'entre as acacias e as bella-sombras, subiram ao ar mlhos -de foguetes; e Joo da Ega, que levra o seu ultimo _R_ no seu ultimo -anno, no descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas -venezianas pelos ramos, no trapesio e em roda do poo, para a -illuminao da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Villaa, -enfiado e tremulo, fez um _speech_; ia citar o nosso _immortal Castilho_ -quando sob as janellas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o -_Hymno Academico_. Era uma serenata.--Ega, vermelho, de batina -desabotoada, a luneta para traz das costas, correu sacada, a perorar: - ---Ahi temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, comeando a sua -gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma--ou acabar -de a matar, segundo as circumstancias! A que parte remota d'estes reinos -no chegou j a fama do seu genio, do seu _dog-cart_, do sebaceo -_accessit_ que lhe ennoda o passado, e d'este vinho do Porto, -contemporaneo dos heroes de 20, que eu, homem de revoluo e homem de -carraspana, eu, Joo da Ega, Johanes ab Ega... - -O grupo escuro em baixo desatou aos _vivas_. A philarmonica, outros -estudantes, invadiram os Paos. At tarde, sob as arvores do quintal, na -sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de -dce, no cessou d'estalar o _champagne_. E Villaa, limpando a testa, o -pescoo, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo tambem: - ---Grande coisa, ter um curso! - - -E ento Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um -anno passou. Chegra esse outono de 1875: e o av installado emfim no -Ramalhete esperava por elle anciosamente. A ultima carta de Carlos viera -de Inglaterra, onde andava, dizia elle, a estudar a admiravel -organisao dos hospitaes de crianas. Assim era: mas passeava tambem -por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idyllio -errante pelos lagos da Escocia, com uma senhora hollandeza, separada de -seu marido, veneravel magistrado da Haya, uma M.^{me} Rughel, soberba -creatura de cabellos d'ouro fulvo, grande e branca como uma nympha de -Rubens. - -Depois comearam a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas successivas de -livros, outras de instrumentos e apparelhos, toda uma bibliotheca e todo -um laboratorio--que trazia o Villaa, manhs inteiras, aturdido pelos -armazens da alfandega. - ---O meu rapaz vem com grandes idas de trabalho, dizia Affonso aos -amigos. - -Havia quatorze mezes que elle o no via, o seu rapaz, a no ser n'uma -photographia mandada de Milo, em que todos o acharam magro e triste. E -o corao batia-lhe forte, na linda manh de outono, quando do terrao -do Ramalhete, de binoculo na mo, viu assomar vagarosamente, por traz do -alto predio fronteiro, um grande paquete do _Royal Mail_ que, lhe trazia -o seu neto. - - noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o -Villaa--no se fartavam d'admirar o bem que a viagem fizera a Carlos. -Que differena da photographia! Que forte, que saudavel! - -Era decerto um formoso e magnifico moo, alto, bem feito, de hombros -largos, com uma testa de marmore sob os anneis dos cabellos pretos, e os -olhos dos Maias, aquelles irresistiveis olhos do pai, de um negro -liquido, ternos como os d'elle e mais graves. Trazia a barba toda, muito -fina, castanho-escura, rente na face, aguada no queixo--o que lhe dava, -com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma physionomia de -bello cavalleiro da Renascena. E o av, cujo olhar risonho e humido -transbordava d'emoo, todo se orgulhava de o vr, de o ouvir, n'uma -larga veia, fallando da viagem, dos bellos dias de Roma, do seu mau -humor na Prussia, da originalidade de Moscow, das paizagens da -Hollanda... - ---E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio em -que Carlos estivera bebendo o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu -fazer? - ---Agora, general? respondeu Carlos, sorrindo e pousando o copo. -Descanar primeiro e depois passar a ser uma gloria nacional! - -Ao outro dia, com effeito, Affonso veiu encontral-o na sala de -bilhar--onde tinham sido collocados os caixotes--a despregar, a -desempacotar, em mangas de camisa e assobiando com enthusiasmo. Pelo -cho, pelos sophs, alastrava-se toda uma litteratura em rumas de -volumes graves; e aqui e alm, por entre a palha, atravs das lonas -descozidas, a luz faiscava n'um crystal, ou reluziam os vernizes, os -metaes polidos de apparelhos. Affonso pasmava em silencio para aquelle -pomposo apparato do saber. - ---E onde vaes tu accommodar este museo? - -Carlos pensara em arranjar um vasto laboratorio alli perto no bairro, -com fornos para trabalhos chimicos, uma sala disposta para estudos -anatomicos e physiologicos, a sua bibliotheca, os seus apparelhos, uma -concentrao methodica de todos os instrumentos de estudo... - -Os olhos do av illuminavam-se ouvindo este plano grandioso. - ---E que no te prendam questes de dinheiro, Carlos! Ns fizemos n'estes -ultimos annos de Santa Olavia algumas economias... - ---Boas e grandes palavras, av! Repita-as ao Villaa. - -As semanas foram passando n'estes planos de installao. Carlos trazia -realmente resolues sinceras de trabalho: a sciencia como mera -ornamentao interior do espirito, mais inutil para os outros que as -proprias tapessarias do seu quarto, parecia-lhe apenas um luxo de -solitario: desejava ser util. Mas as suas ambies fluctuavam, intensas -e vagas; ora pensava n'uma larga clinica; ora na composio macissa de -um livro iniciador; algumas vezes em experiencias physiologicas, -pacientes e reveladoras... Sentia em si, ou suppunha sentir, o tumulto -de uma fora, sem lhe discernir a linha d'applicao. Alguma cousa de -brilhante, como elle dizia: e isto para elle, homem de luxo e homem -d'estudo, significava um conjuncto de representao social e de -actividade scientifica; o remecher profundo de idas entre as -influencias delicadas da riqueza; os elevados vagares da philosophia -entremeados com requintes de _sport_ e de gosto; um Claude Bernard que -fosse tambem um Morny... No fundo era um _dilletante_. - -Villaa fra consultado sobre a localidade propria para o laboratorio; e -o procurador, muito lisongeado, jurou uma diligencia incanavel. -Primeira cousa a saber, o nosso doutor tencionava fazer clinica?... - -Carlos no decidira fazer _exclusivamente_ clinica: mas desejava de -certo dar consultas, mesmo gratuitas, como caridade e como pratica. -Ento Villaa suggeriu que o consultorio estivesse separado do -laboratorio. - ---E a minha razo esta: a vista de apparelhos, machinas, cousas, faz -esmorecer os doentes... - ---Tem voc razo, Villaa! exclamou Affonso. J meu pae dizia: poupe-se -ao boi a vista do malho. - ---Separados, separados, meu senhor, affirmou o procurador n'um tom -profundo. - -Carlos concordou. E Villaa bem depressa descobriu, para o laboratorio, -um antigo armazem, vasto e retirado, ao fundo de um pateo, junto ao -largo das Necessidades. - ---E o consultorio, meu senhor, no aqui, nem acol; no Rocio, alli -em pleno Rocio! - -Esta ida do Villaa no era desinteressada. Grande enthusiasta da -_Fuso_, membro do Centro progressista, Villaa Junior aspirava a ser -vereador da camara, e mesmo em dias de satisfao superior (como quando -o seu anniversario natalicio vinha annunciado no _Illustrado_, ou quando -no Centro citava com applauso a Belgica) parecia-lhe que tantas aptides -mereciam do seu partido uma cadeira em S. Bento. Um consultorio -gratuito, no Rocio, o consultorio do dr. Maia, do seu Maia reluziu-lhe -logo vagamente como um elemento de influencia. E tanto se agitou, que -d'ahi a dois dias tinha l alugado um primeiro andar d'esquina. - -Carlos mobilou-o com luxo. N'uma antecamara, guarnecida de banquetas de -marroquim, devia estacionar, franceza, um creado de libr. A sala de -espera dos doentes alegrava com o seu papel verde de ramagens prateadas, -as plantas em vasos de Rouen, quadros de muita cr, e ricas poltronas -cercando a jardineira coberta de colleces do _Charivari_, de vistas -estereoscopicas, d'albuns de actrizes semi-nuas; para tirar inteiramente -o ar triste de consultorio at um piano mostrava o seu teclado branco. - -O gabinete de Carlos ao lado era mais simples, quasi austero, todo em -velludo verde-negro, com estantes de pau preto. Alguns amigos que -comeavam a cercar Carlos, Taveira, seu contemporaneo e agora visinho do -Ramalhete, o Cruges, o marquez de Souzellas, com quem percorrera a -Italia--vieram vr estas maravilhas. O Cruges correu uma escala no piano -e achou-o abominavel; Taveira absorveu-se nas photographias d'actrizes; -e a unica approvao franca veiu do marquez, que depois de contemplar o -divan do gabinete, verdadeiro movel de serralho, vasto, voluptuoso, -ffo, experimentou-lhe a doura das molas e disse, piscando o olho a -Carlos: - ---A calhar. - -No pareciam acreditar n'estes preparativos. E todavia eram sinceros. -Carlos at fizera annunciar o consultorio nos jornaes; quando viu porem -o seu nome em letras grossas, entre o de uma engommadeira Boa Hora e -um reclamo de casa de hospedes,--encarregou Villaa de retirar o -annuncio. - -Occupava-se ento mais do laboratorio, que decidira installar no -armazem, s Necessidades. Todas as manhs, antes de almoo, a visitar -as obras. Entrava-se por um grande pateo, onde uma bella sombra cobria -um poo, e uma trepadeira se mirrava nos ganchos de ferro que a prendiam -ao muro. Carlos j decidira transformar aquelle espao em fresco -jardinete inglez; e a porta do casaro encantava-o, ogival e nobre, -resto de fachada d'ermida, fazendo um accesso veneravel para o seu -sanctuario de sciencia. Mas dentro os trabalhos arrastavam-se sem fim; -sempre um vago martellar preguioso n'uma poeira alvadia; sempre as -mesmas coifas de ferramentas jazendo nas mesmas camadas de aparas! Um -carpinteiro esgouroviado e triste parecia estar alli, desde seculos, -aplainando uma taboa eterna com uma fadiga langorosa; e no telhado os -trabalhadores que andavam alargando a claraboia, no cessavam de -assobiar, no sol d'inverno, alguma lamuria de fado. - -Carlos queixava-se ao sr. Vicente, o mestre d'obras, que lhe asseverava -invariavelmente como d'ahi a dois dias havia de s. ex.^a vr a -differena. Era um homem de meia edade, risonho, de fallar doce, muito -barbeado, muito lavado, que morava ao p do Ramalhete, e tinha no bairro -fama de republicano. Carlos, por sympathia, como visinho, apertava-lhe -sempre a mo: e o sr. Vicente, considerando-o por isso um avanado, um -democrata, confiava-lhe as suas esperanas. O que elle desejava primeiro -que tudo era um 93, como em Frana... - ---O que, sangue? dizia Carlos, olhando a fresca, honrada, e rolia face -do demagogo. - ---No, senhor, um navio, um simples navio... - ---Um navio? - ---Sim, senhor, um navio fretado custa da nao, em que se mandasse -pela barra fra o rei, a familia real, a _cambada_ dos ministros, dos -politicos, dos deputados, dos intrigantes, etc. e etc. - -Carlos sorria, s vezes argumentava com elle. - ---Mas est o sr. Vicente bem certo, que apenas a _cambada_, como to -exactamente diz, desapparecesse pela barra fra, ficavam resolvidas -todas as cousas e tudo atolado em felicidade? - -No, o sr. Vicente no era to burro que assim pensasse. Mas, -supprimida a cambada, no via s. ex.^a? Ficava o paiz desatravancado; e -podiam ento comear a governar os homens de saber e de progresso... - ---Sabe v. ex.^a qual o nosso mal? No m vontade d'essa gente; -muita somma de ignorancia. No sabem. No sabem nada. Elles no so -maus, mas so umas cavalgaduras! - ---Bem, ento essas obras, amigo Vicente, dizia-lhe Carlos, tirando o -relogio e despedindo-se d'elle com um valente _shakehands_, veja se me -andam. No lh'o peo como proprietario, como correligionario. - ---D'aqui a dois dias ha de v. ex.^a vr a differena, respondia o mestre -d'obras, desbarretando-se. - -No Ramalhete, pontualmente ao meio dia, tocava a sineta do almoo. -Carlos encontrava quasi sempre o av j na sala de jantar, acabando de -percorrer algum jornal junto ao fogo, onde a tepida suavidade d'aquelle -fim de outono no permittia accender lume, mas verdejando todo de -plantas d'estufa. - -Em redor, nos aparadores de carvalho lavrado, rebrilhavam suavemente, no -seu luxo macisso e sobrio, as baixellas antigas; pelas tapearias ovaes -dos muros apainelados corriam scenas de ballada, caadores medivaes -soltando o falco, uma dama entre pagens alimentando os cysnes de um -lago, um cavalleiro de viseira callada seguindo ao longo d'um rio; e -contrastando com o tecto escuro de castanho entalhado a meza -resplandecia com as flres entre os crystaes. - -O reverendo Bonifacio, que desde que se tornara dignatario da Egreja -comia com os senhores, l estava j, magestosamente sentado sobre a -alvura nevada da toalha, sombra de algum grande ramo. Era alli, no -aroma das rosas, que o veneravel gato gostava de lamber, com o seu vagar -estupido, as sopas de leite servidas n'um covilhete de Strasburgo, -depois agachava-se, traava por diante do peito a fofa pluma da sua -cauda, e, de olhos cerrados, os bigodes tesos, todo elle uma bola -entufada de pello branco malhado de ouro, gosava de leve uma sesta -macia. - -Affonso,--como confessava, sorrindo e humilhado--a-se tornando com a -velhice um _gourmet_ exigente; e acolhia, com uma concentrao de -critico, as obras d'arte do _chef_ francez que tinham agora, um -cavalheiro de mau genio, todo bonapartista, muito parecido com o -imperador, e que se chamava Mr. Theodore. Os almoos no Ramalhete eram -sempre delicados e longos; depois, ao caf, ficavam ainda conversando; e -passava da uma hora, da hora e meia, quando Carlos, com uma exclamao, -precipitando-se sobre relogio, se lembrava do seu consultorio. Bebia um -calice de Chartreuse, accendia pressa um charuto: - ---Ao trabalho, ao trabalho! exclamava. - -E o av, enchendo de vagar o seu cachimbo, invejava-lhe aquella -occupao, emquanto elle ficava alli a vadiar toda a manh... - ---Quando esse eterno laboratorio estiver acabado, talvez v para l -passar um bocado, occupar-me de chimica. - ---E ser talvez um grande chimico. O av tem j a feitio. - -O velho sorria. - ---Esta carcassa j no d nada, filho. Est pedindo eternidade! - ---Quer alguma cousa da Baixa, de Babylonia? perguntava Carlos, abotoando - pressa as suas luvas de governar. - ---Bom dia de trabalho. - ---Pouco provavel... - -E no _dog-cart_, com aquella linda egoa, a _Tunante_, ou no _phaeton_ -com que maravilhava Lisboa, Carlos l partia em grande estylo para a -Baixa, para o trabalho. - -O seu gabinete, no consultorio, dormia n'uma paz tepida entre os -espessos velludos escuros, na penumbra que faziam as stores de seda -verde corridas. Na sala, porm, as tres janellas abertas bebiam farta -a luz; tudo alli parecia festivo; as poltronas em torno da jardineira -estendiam os seus braos, amaveis e convidativas; o teclado branco do -piano ria e esperava, tendo abertas por cima as _Canes de Gounod_; mas -no apparecia jmais um doente. E Carlos,--exactamente como o creado -que, na ociosidade da antecamara, dormitava sobre o _Diario de -Noticias_, acaapado na banqueta--accendia um cigarro Laferme, tomava -uma Revista, e estendia-se no divan. A prosa porm dos artigos estava -como embebida do tedio moroso do gabinete: bem depressa bocejava, -deixava car o volume. - -Do Rocio, o ruido das carroas, os gritos errantes de preges, o rolar -dos americanos, subiam, n'uma vibrao mais clara, por aquelle ar fino -de novembro: uma luz macia, escorregando docemente do azul ferrete, -vinha doirar as fachadas enxovalhadas, as cpas mesquinhas das arvores -de municipio, a gente vadiando pelos bancos: e essa sussurrao lenta de -cidade preguiosa, esse ar avelludado de clima rico, pareciam ir -penetrando pouco a pouco n'aquelle abafado gabinete e resvelando pelos -velludos pesados, pelo verniz dos moveis, envolver Carlos n'uma -indolencia e n'uma dormencia... Com a cabea na almofada, fumando, alli -ficava, n'essa quietao de sesta, n'um scismar que se a desprendendo, -vago e tenue, como o tenuo e leve fumo que se eleva d'uma brazeira meia -apagada; at que com um esforo sacudia este torpor, passeiava na sala, -abria aqui e alm pelas estantes um livro, tocava no piano dois -compassos de walsa, espriguiava-se--e, com os olhos nas flores do -tapete, terminava por decidir que aquellas duas horas de consultorio -eram estupidas! - ---Est ahi o carro? a perguntar ao creado. - -Accendia bem depressa outro charuto, calava as luvas, descia, bebia um -largo sorvo de luz e ar, tomava as guias e largava, murmurando comsigo: - ---Dia perdido! - - -Foi uma d'essas manhs que preguiando assim no soph com a _Revista dos -Dois Mundos_ na mo, elle ouviu um rumor na antecamara, e logo uma voz -bem conhecida, bem querida, que dizia por trs do reposteiro: - ---Sua Alteza Real est visivel? - ---Oh Ega! gritou Carlos, dando um salto do soph. - -E cahiram nos braos um do outro, beijando-se na face, enternecidos. - ---Quando chegaste tu? - ---Esta manh. Caramba! exclamava Ega, procurando pelo peito, pelos -hombros, o seu quadrado de vidro, e entalando-o emfim no olho. Caramba! -Tu vens esplendido d'esses Londres, d'essas civilisaes superiores. -Ests com um ar Renascena, um ar Valois... No ha nada como a barba -toda! - -Carlos ria, abraando-o outra vez. - ---E d'onde vens tu, de Celorico? - ---Qual Celorico! Da Foz. Mas doente, menino, doente... O figado, o bao, -uma infinidade de visceras compromettidas. Emfim, doze annos de vinhos e -aguas ardentes... - -Depois fallaram das viagens de Carlos, do Ramalhete, da demora do Ega em -Lisboa... Ega vinha para sempre. Tinha dito do alto da diligencia, s -varzeas de Celorico, o adeus de eternidade. - ---Imagina tu, Carlos, amigo, a historia deliciosa que me succede com -minha me... Depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir -viver para Lisboa, confortavelmente, com uns dinheiros largos. Qual, no -cau! Fiquei na quinta, fazendo epigrammas ao padre Seraphim e a toda a -crte do cu. Chega julho, e apparece nos arredores uma epidemia de -anginas. Um horror, creio que vocs lhe chamam diphtericas... A mam -salta immediatamente concluso que a minha presena, a presena do -atheo, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que offendeu Nosso Senhor e -attrahiu o flagello. Minha irm concorda. Consultam o padre Seraphim. O -homem, que no gosta de me vr na quinta, diz que possivel que haja -indignao do Senhor--e minha me vem pedir-me quasi de joelhos, com a -bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruine, mas que no esteja -alli chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz... - ---E a epidemia... - ---Desappareceu logo, disse o Ega, comeando a puxar devagar dos dedos -magros uma longa luva cr de canario. - -Carlos mirava aquellas luvas do Ega; e as polainas de casemira; e o -cabello que elle trazia crescido com uma mecha frisada na testa; e na -gravata de setim uma ferradura de opalas! Era outro Ega, um Ega dandy, -vistoso, paramentado, artificial e com p d'arroz--e Carlos deixou emfim -escapar a exclamao impaciente que lhe bailava nos labios: - ---Ega, que extraordinario casaco! - -Por aquelle sol macio e morno de um fim de outono portuguez, o Ega, o -antigo bohemio de batina esfarrapada, trazia uma pellia, uma sumptuosa -pellia de principe russo, agasalho de tren e de neve, ampla, longa, -com alamares trespassados Brandeburgo, e pondo-lhe em torno do pescoo -esganiado e dos pulsos de thisico uma rica e ffa espessura de pelles -de marta. - --- uma boa pellia, hein? disse elle logo, erguendo-se, abrindo-a, -exhibindo a opulencia do forro. Mandei-a vir pelo Strauss... Beneficios -da epidemia. - ---Como podes tu supportar isso? - --- um bocado pesada, mas tenho andado constipado. - -Tornou a recostar-se no soph, adiantando o sapato de verniz muito -bicudo, e, de monocolo no olho, examinou o gabinete. - ---E tu que fazes? conta-me l... Tens isto explendido! - -Carlos fallou dos seus planos, de altas idas de trabalho, das obras do -laboratorio... - ---Um momento, quanto te custou tudo isto? exclamou o Ega -interrompendo-o, erguendo-se para ir apalpar o velludo dos reposteiros, -mirar os torneados da secretria de pau preto. - ---No sei. O Villaa que deve saber... - -E Ega, com as mos enterradas nos vastos bolsos da pellia, -inventariando o gabinete, fazia consideraes: - ---O velludo d seriedade... E o verde escuro a cr suprema, a cr -esthetica... Tem a sua expresso propria, enternece e faz pensar... -Gosto d'este divan. Movel de amor... - -Foi entrando para a sala dos doentes, de vagar, de luneta no olho, -estudando os ornatos. - ---Tu s o grandioso Salomo, Carlos! O papel bonito... E o -cretonesinho agrada-me. - -Apalpou-o tambem. Uma begonia, manchada da sua ferrugem de prata, n'um -vaso de Rouen, interessou-o. Queria saber o preo de tudo; e diante do -piano, olhando o livro de musica aberto, as _Canes de Gounod_, teve -uma surpreza enternecida: - ---Homem, curioso... C me apparece! A _Barcarolla_! deliciosa, -hein?... - - - Dites, la jeune belle, - Ou voulez-vous aller? - La voile... - - -Estou um bocado rouco... Era a nossa cano na Foz! - -Carlos teve outra exclamao, e crusando os braos diante d'elle: - ---Tu ests extraordinario, Ega! Tu s outro Ega!... A proposito da -Foz... Quem essa Madame Cohen, que estava tambem na Foz, de quem tu, -em cartas successivas, verdadeiros poemas, que recebi em Berlin, na -Haia, em Londres, me fallavas como os arrobos do _Cantico dos Canticos_? - -Um leve rubor subiu s faces do Ega. E limpando negligentemente o -monocolo ao leno de seda branca: - ---Uma judia. Por isso usei o lyrismo biblico. a mulher do Cohen, has -de conhecer, um que director do _Banco Nacional_... Dmos-nos -bastante. sympathica... Mas o marido uma besta... Foi uma -_flitartion_ de praia. _Voila tout_. - -Isto era dito aos bocados, passeiando, puchando o lume ao charuto, e -ainda crado. - ---Mas conta-me tu, que diabo, que fazem vocs no Ramalhete? O av -Affonso? Quem vae por l?... - -No Ramalhete, o av fazia o seu _whist_ com os velhos parceiros. Ia o D. -Diogo, o decrepito leo, sempre de rosa ao peito, e frisando ainda os -bigodes... Ia o Sequeira, cada vez mais atarracado, a estoirar de -sangue, espera da sua apoplexia... Ia o conde de Steinbroken... - ---No conheo. Refugiado?... Polaco?... - ---No, ministro da Filandia... Queria-nos alugar umas cocheiras e -complicou esta simples transaco com tantas finuras diplomaticas, -tantos documentos, tantas cousas com o sello real da Filandia, que o -pobre Villaa aturdido, para se desembaraar, remetteu-o ao av. O av, -desnorteado tambem, offereceu-lhe as cocheiras de graa. Steinbroken -considera isto um servio feito ao rei da Filandia, Filandia, vae -visitar o av, em grande estado, com o secretario da legao, o consul, -o vice-consul... - ---Isso sublime! - ---O av convida-o a jantar... E como o homem muito fino, um gentleman, -enthusiasta da Inglaterra, grande entendedor de vinhos, uma auctoridade -no wisth, o av adopta-o. No sae do Ramalhete. - ---E de rapazes? - -De rapazes, apparecia Taveira, sempre muito correcto, empregado agora no -Tribunal de Contas: um Cruges, que o Ega no conhecia, um diabo -adoidado, maestro, pianista, com uma pontinha de genio; o marquez de -Souzellas... - ---No ha mulheres? - ---No ha quem as receba. um covil de solteires. A viscondessa, -coitada... - ---Bem sei. Um apoplet... - ---Sim, uma hemorragia cerebral. Ah, temos tambem o Silveirinha, -chegou-nos ultimamente o Silveirinha... - ---O de Resende, o cretino? - ---O cretino. Enviuvou, vem da Madeira, ainda um bocado thisico, todo -carregado de luto... Um funebre. - -O Ega, repoltreado, com aquelle ar de tranquilla e solida felicidade que -Carlos j notara, disse puchando lentamente os punhos: - --- necessario reorganisar essa vida. Precisamos arranjar um cenaculo, -uma bohemiasinha dourada, umas _soires_ de inverno, com arte, com -litteratura... Tu conheces o Craft? - ---Sim, creio que tenho ouvido fallar... - -Ega teve um grande gesto. Era indispensavel conhecer o Craft! O Craft -era simplesmente a melhor cousa que havia em Portugal... - --- um inglez, uma especie de doido?... - -Ega encolheu os hombros. Um doido!... Sim, era essa a opinio da rua dos -Fanqueiros; o indigena, vendo uma originalidade to forte como a de -Craft, no podia explical-a seno pela doidice. O Craft era um rapaz -extraordinario!... Agora tinha elle chegado da Suecia, de passar tres -mezes com os estudantes de Upsala. Estava tambem na Foz... Uma -individualidade de primeira ordem! - --- um negociante do Porto, no ? - ---Qual negociante do Porto! exclamou o Ega erguendo-se, franzindo a -face, enojado de tanta ignorancia. O Craft filho d'um _clergiman_ da -egreja ingleza do Porto. Foi um tio, um negociante de Calcut ou -d'Australia, um Nababo, que lhe deixou a fortuna. Uma grande fortuna. -Mas no negoceia, nem sabe o que isso . D largas ao seu temperamento -byroneano, o que faz. Tem viajado por todo o universo, collecciona -obras d'arte, bateu-se como voluntario na Abyssinia e em Marrocos, emfim -vive, _vive_ na grande, na forte, na heroica accepo da palavra. -necessario conhecer o Craft. Vaes-te babar por elle... Tens razo, -caramba, est calor. - -Desembaraou-se da opulenta pellia, e appareceu em peitilho de camisa. - ---O que! tu no trazias nada por baixo? exclamou Carlos. Nem collete? - ---No; ento no a podia aguentar... Isto para o effeito moral, para -impressionar o indigena... Mas, no ha negal-o, pesada! - -E immediatamente voltou sua ida: apenas Craft chegasse do Porto -relacionavam-se, organisava-se um Cenaculo, um Decameron d'arte e -dilletantismo, rapazes e mulheres--tres ou quatro mulheres para -cortarem, com a graa dos decotes, a severidade das philosophias... - -Carlos ria-se d'esta ida do Ega. Tres mulheres de gosto e de luxo, em -Lisboa, para adornar um cenaculo! Lamentavel illuso de um homem de -Celorico! O marquez de Souzella tinha tentado, e para uma vez s, uma -cousa bem mais simples--um jantar no campo com actrizes. Pois fra o -escandalo mais engraado e mais caracteristico: uma no tinha creada e -queria levar comsigo para a festa uma tia e cinco filhos; outra temia -que, acceitando, o brazileiro lhe tirasse a mezada; uma consentiu, mas o -amante, quando soube, deu-lhe uma ca. Esta no tinha vestido para ir; -aquella pretendia que lhe garantissem uma libra; houve uma que se -escandalisou com o convite como com um insulto. Depois, os chulos, os -queridos, os plhos, complicaram medonhamente a questo; uns exigiam ser -convidados, outros tentavam desmanchar a festa; houve partidos, -fizeram-se intrigas,--emfim esta cousa banal, um jantar com actrizes, -resultou em o Tarquinio do Gymnasio levar uma facada... - ---E aqui tens tu Lisboa. - ---Emfim, exclamou o Ega, se no apparecerem mulheres, importam-se, que -em Portugal para tudo o recurso natural. Aqui importa-se tudo. Leis, -idas, philosophias, theorias, assumptos, estheticas, sciencias, estylo, -industrias, modas, maneiras, pilherias, tudo nos vem em caixotes pelo -paquete. A civilisao custa-nos carissima com os direitos da alfandega: -e em segunda mo, no foi feita para ns, fica-nos curta nas mangas... -Ns julgamo-nos civilisados como os negros de S. Thom se suppem -cavalheiros, se suppem mesmo _brancos_, por usarem com a tanga uma -casaca velha do patro... Isto uma choldra torpe. Onde puz eu a -charuteira? - -Desembaraado da magestade que lhe dava a pelissa o antigo Ega -reapparecia, perorando com os seus gestos aduncos de Mephistopheles em -verve, lanando-se pela sala como se fosse voar ao vibrar as suas -grandes phrases, n'uma lucta constante com o monocolo, que lhe caa do -olho, que elle procurava pelo peito, pelos hombros, pelos rins, -retorcendo-se, deslocando-se, como mordido por bichos. Carlos animava-se -tambem, a fria sala aquecia; discutiam o Naturalismo, Gambetta, o -Nihilismo; depois, com ferocidade e uma, malharam sobre o paiz... - -Mas o relogio ao lado bateu quatro horas; immediatamente Ega saltou -sobre a pelissa, sepultou-se n'ella, aguou o bigode ao espelho, -verificou a _pose_, e, encouraado nos seus alamares, sahio com um -arsinho de luxo e d'aventura. - ---John, disse Carlos que o achava esplendido e o ia seguindo ao patamar, -onde ests tu? - ---No _Universal_, esse sanctuario! - -Carlos abominava o _Universal_, queria que elle viesse para o Ramalhete. - ---No me convm... - ---Em todo o caso vaes hoje l jantar, vr o av. - ---No posso. Estou compromettido com a besta do Cohen... Mas vou l -manh almoar. - -J nos degraus da escada, voltou-se, entalou o monocolo, gritou para -cima: - ---Tinha-me esquecido dizer-te, vou publicar o meu livro! - ---O qu! est prompto? exclamou Carlos, espantado. - ---Est esboado, brocha larga... - -O _Livro do Ega_! Fra em Coimbra, nos dois ultimos annos, que elle -comera a fallar do seu livro, contando o plano, soltando titulos de -capitulos, citando pelos cafs phrases de grande sonoridade. E entre os -amigos do Ega discutia-se j o livro do Ega como devendo iniciar, pela -frma e pela ida, uma evoluo litteraria. Em Lisboa (onde elle vinha -passar as ferias e dava ceias no Silva) o livro fra annunciado como um -acontecimento. Bachareis, contemporaneos ou seus condiscipulos, tinham -levado de Coimbra, espalhado pelas provincias e pelas ilhas a fama do -livro do Ega. J de qualquer modo essa noticia chegra ao Brazil... E -sentindo esta anciosa espectativa em torno do seu livro--o Ega -decidira-se emfim a escrevel-o. - -Devia ser uma epopa em prosa, como elle dizia, dando, sob episodios -symbolicos, a historia das grandes phases do Universo e da Humanidade. -Intitulava-se _Memorias d'um Atomo_, e tinha a frma d'uma -autobiographia. Este atomo (o atomo do Ega, como se lhe chamava a serio -em Coimbra) apparecia no primeiro capitulo, rolando ainda no vago das -Nebuloses primitivas: depois vinha embrulhado, faisca candente, na massa -de fogo que devia ser mais tarde a Terra: emfim, fazia parte da primeira -folha de planta que surgiu da crosta ainda molle do globo. Desde ento, -viajando nas incessantes transformaes da substancia, o atomo do Ega -entrava na rude structura do Orango, pae da humanidade--e mais tarde -vivia nos labios de Plato. Negrejava no burel dos santos, refulgia na -espada dos heroes, palpitava no corao dos poetas. Gota de agua nos -lagos de Galila, ouvira o fallar de Jesus, aos fins da tarde, quando os -apostolos recolhiam as redes; n de madeira na tribuna da Conveno, -sentira o frio da mo de Robespierre. Errara nos vastos anneis de -Saturno; e as madrugadas da terra tinham-n'o orvalhado, petala -resplandecente de um dormente e languido lyrio. Fra omnipresente, era -omnisciente. Achando-se finalmente no bico da penna do Ega, e canado -d'esta jornada atravez do Ser, repousava--escrevendo as suas -_Memorias_... Tal era este formidavel trabalho--de que os admiradores do -Ega, em Coimbra, diziam, pensativos e como esmagados de respeito: - --- uma Biblia! - - - - -V - - -No escriptorio de Affonso da Maia ainda durava, apesar de ser tarde, a -partida de whist. A mesa estava ao lado da chamin, onde a chamma morria -nos carves escarlates, no seu recanto costumado, abrigada pelo biombo -japonez, por causa da bronchite de D. Diogo e do seu horror ao ar. - -Esse velho dandy,--a quem as damas de outras eras chamavam o Lindo -Diogo, gentil toureiro que dormira n'um leito real--acabava justamente -de ter um dos seus accessos de tosse, cavernosa, aspera, dolorosa, que o -sacudiam como uma ruina, que elle abafava no leno, com as veias -inchadas, rxo at raiz dos cabellos. - -Mas passra. Com a mo ainda tremula, o decrepito leo limpou as -lagrimas que lhe embaciavam os olhos avermelhados, compoz a rosa de -musgo na botoeira da sobrecasaca, tomou um golo da sua agua chasada, e -perguntou a Affonso, seu parceiro, n'uma voz rouca e surda: - ---Paus, hein? - -E de novo, sobre o panno verde, as cartas foram cahindo n'um d'aquelles -silencios que se seguiam s tosses de D. Diogo. Sentia-se s a -respirao assobiada, quasi silvante, do general Sequeira, muito infeliz -essa noite, desesperado com o Villaa seu parceiro, resingo, e com todo -o sangue na face. - -Um tom fino retiniu, o relogio Luiz XV foi ferindo. alegremente, -vivamente, a meia noite;--depois a toada argentina do seu minuete vibrou -um momento e morreu. Houve de novo um silencio. Uma renda vermelha -recobria os globos de dois grandes candieiros Carcel; e a luz assim -coada, cahindo sobre os damascos vermelhos das paredes, dos assentos, -fazia como uma doce refraco cr de rosa, um vaporoso de nuvem em que a -sala se banhava e dormia: s, aqui e alm, sobre os carvalhos sombrios -das estantes, rebrilhava em silencio o ouro d'um Svres, uma pallidez de -marfim, ou algum tom esmaltado de velha majolica. - ---O que! ainda encarniados! exclamou Carlos que abrira o reposteiro, -entrava, e com elle o rumor distante de bolas de bilhar. - -Affonso, que recolhia a sua vasa, voltou logo a cabea, a perguntar com -interesse: - ---Como vae ella? Est socegada? - ---Est muito melhor! - -Era a primeira doente grave de Carlos, uma rapariga de origem -alsacianna, casada com o Marcellino padeiro, muito conhecida no bairro -pelos seus bellos cabellos, loiros, e penteados sempre em tranas -soltas. Tinha estado morte com uma pneumonia; e apesar de melhor, como -a padaria ficava defronte, Carlos ainda s vezes noite atravessava a -rua para a ir vr, tranquillisar o Marcellino, que, defronte do leito e -de gabo pelos hombros, suffocava soluos d'amante, escrevinhando no -livro de contas. - -Affonso interessara-se anciosamente por aquella pneumonia; e agora -estava realmente agradecido Marcellina por ter sido salva por Carlos. -Fallava d'ella commovido; gabava-lhe a linda figura, o aceio alsacianno, -a prosperidade que trouxera padaria... Para a convalescena, que se -approximava, j lhe mandra at seis garrafas de Chateau-Margaux. - ---Ento fra de perigo, inteiramente fra de perigo?--perguntou Villaa, -com os dedos na caixa do rap, sublinhando muito a sua sollicitude. - ---Sim, quasi rija--disse Carlos, que se approximara da chamin, -esfregando as mos, arrepiado. - - que a noite, fra, estava regelada! Desde o anoitecer geava, d'um cu -fino e duro, transbordando de estrellas que rebrilhavam como pontas -afiadas d'ao; e nenhum d'aquelles cavalheiros, desde que se entendia, -conhecera jmais o thermometro to baixo. Sim, Villaa lembrava-se d'um -janeiro peor no inverno de 64... - --- necessario carregar no _punch_, hein, general!--exclamou Carlos, -batendo galhofeiramente nos hombros macissos do Sequeira. - ---No me opponho, rosnou o outro, que fixava com concentrao e rancor -um valete de copas sobre a meza. - -Carlos, ainda com frio, remexeu, esfuracou os carves: uma chuva d'oiro -cahiu por baixo, uma chamma mais forte ressaltou, rugiu, alegrando tudo, -avermelhando em redor as pelles de urso onde o Reverendo Bonifacio, -espapado, torrava ao calor, ronronava de gso. - ---O Ega deve estar radiante, dizia Carlos com os ps chamma. Tem, -emfim, justificada a pellissa. A proposito, algum dos senhores tem visto -o Ega estes ultimos dias? - -Ninguem respondeu, no interesse subito que causava a cartada. A longa -mo de D. Diogo recolhia de vagar a vasa--e languidamente, no mesmo -silencio, soltou uma carta de paus. - --- Diogo! Diogo! gritou Affonso, estorcendo-se, como se o -trespassasse um ferro. - -Mas conteve-se. O general, cujos olhos despediam faiscas, collocou o seu -valete; Affonso, profundamente infeliz, separou-se do rei de paus; -Villaa bateu de estalo com o az. E immediatamente foi em redor uma -discusso tremenda sobre a puchada de D. Diogo--em quanto Carlos, a quem -as cartas sempre enfastiavam, se debruava a coar o ventre fofo do -veneravel Reverendo. - ---Que perguntavas tu, filho? disse emfim Affonso erguendo-se, ainda -irritado, a buscar tabaco para o cachimbo, sua consolao nas derrotas. -O Ega? No, ninguem o viu, no tornou a apparecer! Est tambem um bom -ingrato, esse John... - -Ao nome do Ega, Villaa, parando de baralhar as cartas, erguera a face -curiosa: - ---Ento sempre certo que elle vae montar casa? - -Foi Affonso que respondeu, sorrindo e accendendo o cachimbo: - ---Montar casa, comprar _coup_, deitar libr, dar _soires_ litterarias, -publicar um poema, o diabo! - ---Elle esteve l no escriptorio, dizia Villaa recomeando a baralhar. -Esteve l a indagar o que tinha custado o consultorio, a mobilia de -velludo, etc. O velludo verde deu-lhe no gto... Eu, como um amigo da -casa, l lhe prestei informaes, at lhe mostrei as contas.--E -respondendo a uma pergunta do Sequeira:--Sim, a me tem dinheiro, e -creio que lhe d o bastante. Que em quanto a mim, elle vem-se metter na -politica. Tem talento, falla bem, o pae j era muito regenerador... Alli -ha ambio. - ---Alli ha mulher, disse D. Diogo, collocando com peso esta deciso e -accentuando-a com uma caricia languida ponta frisada dos bigodes -brancos. L-se-lhe na cara, basta vr-lhe a cara... Alli ha mulher. - -Carlos sorria, gabando a penetrao de D. Diogo, o seu fino olho -Balzac; e Sequeira, logo, franco como velho soldado, quiz saber quem era -a Dulcinea. Mas o velho dandy declarou, da profundidade da sua -experiencia, que essas cousas nunca se sabiam, e era preferivel no se -saberem. Depois passando os dedos magros e lentos pela face, deixou -cahir d'alto e com condescendencia este juizo: - ---Eu gosto do Ega, tem apresentao; sobretudo tem _degag_... - -Tinham recebido as cartas, fez-se um silencio na meza. O general, vendo -o seu jogo, soltou um grunhido surdo, arrebatou o cigarro do cinzeiro, e -puxou-lhe uma fumaa furiosa. - ---Os senhores so muito viciosos, vou vr a gente do bilhar, disse -Carlos. Deixei o Steinbroken engalfinhado com o marquez, a perder j -quatro mil ris. Querem o _punch_ aqui? - -Nenhum dos parceiros respondeu. - -E em torno do bilhar Carlos encontrou o mesmo silencio de solemnidade. O -marquez, estirado sobre a tabella, com a perna meia no ar, o comeo de -calva alvejando luz crua que cahia dos _abat-jours_, de porcelana, -preparava a carambola decisiva. Cruges, que apostra por elle, deixra o -divan, o cachimbo turco, e, coando com um gesto nervoso a grenha crespa -que lhe ondeava at gola do jaqueto, vigiava a bola inquieto, com os -olhinhos piscos, o nariz espetado. Do fundo da sala, destacando em -preto, o Silveirinha, o Eusebiosinho de S.^{ta} Olavia, estendia tambem -o pescoo, affogado n'uma gravata de viuvo de merino negro e sem -collarinho, sempre macambuzio, mais mollengo que outr'ora, com as mos -enterradas nos bolsos--to funebre que tudo n'elle parecia complemento -do luto pesado, at o preto do cabello chato, at o preto das lunetas de -fumo. Junto ao bilhar, o parceiro do marquez, o conde Steinbroken, -esperava: e apesar do susto, da emoo d'homem do norte aferrado ao -dinheiro, conservava-se correcto, encostado ao taco, sorrindo, sem -desmanchar a sua linha britanica,--vestido como um inglez, inglez -tradicional d'estampa, com uma sobrecasaca justa de manga um pouco -curta, e largas calas de xadrez sobre sapates de taco raso. - ---Hurrah! gritou de repente Cruges. Os dez tostesinhos para c, -Silveirinha! - -O marquez carambolra, ganhando a partida, e triumphava tambem: - ---Voc trouxe-me a sorte, Carlos! - -Steinbroken depozera logo o taco, e alinhava j sobre a tabella, -lentamente, uma a uma, as quatro placas perdidas. - -Mas o marquez, de giz na mo, reclamava-o para outras refregas, -esfaimado d'ouro filandez. - ---Nada mach!... Vc hoje 'st trivl! dizia o diplomata, no seu -portuguez fluente, mas de accento barbaro. - -O marquez insistia, plantado diante d'elle, de taco ao hombro como uma -vara de campino, dominando-o com a sua macissa, desempenada estatura. E -ameaava-o de destinos medonhos n'uma voz possante habituada a ressoar -nas lezirias; queria-o arruinar ao bilhar, foral-o a empenhar aquelles -bellos anneis, leval-o elle, ministro da Filandia e representante d'uma -raa de reis fortes, a vender senhas porta da Rua dos Condes! - -Todos riam; e Steinbroken tambem, mas com um riso franzido e difficil, -fixando no marquez o olhar azul-claro, claro e frio, que tinha no fundo -da sua myopia a dureza d'um metal. Apesar da sua sympathia pela illustre -casa de Souzella, achava estas familiaridades, estas tremendas chalaas, -incompativeis com a sua dignidade e com a dignidade da Filandia. O -marquez, porm, corao d'ouro, abraava-o j pela cinta, com expanso: - ---Ento se no quereis mais bilhar, um bocadinho de canto, Steinbroken -amigo! - -A isto o ministro accedeu, affavel, preparando-se logo, dando caricias -ligeiras s suissas, e aos anneis do cabello d'um loiro de espiga -desbotada. - -Todos os Steinbrokens, de paes a filhos (como elle dissera a Affonso) -eram bons barytonos: e isso trouxera familia no poucos proventos -sociaes. Pela voz captivara seu pae o velho rei Rudolpho III, que o -fizera chefe das caudelarias, e o tinha noites inteiras nos seus -quartos, ao piano, cantando psalmos lutheranos, coraes escolares, sagas -da Dallecarlia--em quanto o taciturno monarcha cachimbava e bebia, at -que saturado de emoo religiosa, saturado de cerveja preta, tombava do -soph, soluando e babando-se. Elle mesmo, Steinbroken, levara parte da -sua carreira ao piano, j como addido, j como segundo secretario. Feito -chefe de misso, absteve-se: foi s quando vio o _Figaro_ celebrar -repetidamente as walsas do principe Artoff, embaixador da Russia em -Paris, e a voz de _basso_ do conde de Baspt, embaixador d'Austria em -Londres, que elle, seguindo to altos exemplos, arriscou, aqui e alem, -em _soires_ mais intimas, algumas melodias filandezas. Emfim cantou no -Pao. E desde ento exerceu com zelo, com formalidades, com praxes, o -seu cargo de barytono plenipotenciario, como dizia o Ega. Entre -homens, e com os reposteiros corridos, Steinbroken no duvidava todavia -cantarolar o que elle chamava canonetas brejras--o _Amant d'Amanda_, -ou uma certa ballada ingleza: - - - On the Serpentine, - Oh my Caroline... - Oh! - - -Este _oh_! como elle o expellia, gemido, bem puxado, n'um movimento de -batuque, expressivo e todavia digno... Isto entre rapazes e com os -reposteiros fechados. - -N'essa noite, porm, o marquez, que o conduzia pelo brao sala do -piano, exigia uma d'aquellas canes da Filandia, de tanto sentimento e -que lhe faziam to bem alma... - ---Uma que tem umas palavrinhas de que eu gosto, _frisk_, _gluzk_... La -ra l, l, l! - ---A Primavera, disse o diplomata sorrindo. - -Mas antes de entrar na sala, o marquez soltou o brao de Steinbroken, -fez um signal ao Silveirinha para o fundo do corredor--e ahi, sob um -sombrio painel de _Santa Magdalena no deserto_ penitenciando-se e -mostrando nudezas ricas de nympha lubrica, interpellou-o quasi com -aspereza: - ---Vamos ns a saber. Ento, decide-se ou no? - -Era uma negociao que havia semanas se arrastava entre elles, a -respeito d'uma parelha d'egoas. Silveirinha nutria o desejo de montar -carruagem; e o marquez procurava vender-lhe umas egoas brancas, a que -elle dizia ter tomado enguio, apesar de serem dois nobres animaes. -Pedia por ellas um conto e quinhentos mil ris. Silveirinha fra avisado -pelo Sequeira, por Travassos, por outros entendedores, que era _uma -espiga_: o marquez tinha a sua moral propria para negocios de gado, e -exultaria em _intrujar um pichote_. Apesar de advertido, Eusebio cedendo - influencia da grossa voz do marquez, da robustez do seu phisico, da -antiguidade do seu titulo, no ousava recusar. Mas hesitava; e n'essa -noite deu a resposta usual de forreta, coando o queixo, cosido ao muro: - ---Eu verei, marquez... Um conto e quinhentos dinheiro... - -O marquez ergueu dois braos ameaadores como duas trancas: - ---Homem, sim ou no! Que diabo... Dois animaes que so duas estampas... -Irra! Sim ou no! - -Eusebio ageitou as lunetas, rosnou: - ---Eu verei... Elle dinheiro. Sempre dinheiro... - ---Queria voc, talvez, pagal-as com feijes? Voc leva-me a commetter um -excesso! - -O piano resoou, em dois accordes cheios, sob os dedos do Cruges; e o -marquez, baboso por musica, immediatamente largou a questo das egoas, -recolheu em pontas de ps. Eusebiosinho ainda ficou a remoer, a coar o -queixo; emfim, s primeiras notas de Steinbroken, veiu pousar como uma -sombra silenciosa entre a hombreira e o reposteiro. - -Afastado do piano segundo o seu costume, curvado, com a cabelleira como -pousada s costas, Cruges feria o acompanhamento, d'olhos cravados no -livro de _Melodias Filandezas_. Ao lado, empertigado, quasi official, -com o leno de seda na mo, a mo fincada contra o peito, Steinbroken -soltava um canto festivo, n'um movimento de tarantella triumphante, em -que passavam, como um entrechocar de seixos, esses bocados de palavras -de que o marquez gostava, _frisk_, _slcht_, _clikst_, _glukst_. Era a -_Primavera_--fresca e silvestre, primavera do norte em paiz de -montanhas, quando toda uma alda dana em cros sob os fuscos abetos, a -neve se derrete em cascatas, um sol pallido avelluda os musgos, e a -brisa traz o aroma das resinas... Nos graves e cheios, as cantoneiras de -Steinbroken ruborisavam-se, inchavam. Nos tons agudos todo elle se a -alando sobre a ponta dos ps, como levado no compasso vivo; despegava -ento a mo do peito, alargava um gesto, as bellas joias dos seus anneis -faiscavam. - -O marquez, com as mos esquecidas nos joelhos, parecia beber o canto. Na -face de Carlos passava um sorriso enternecido pensando em Madame Rughel, -que viajara na Filandia, e cantava s vezes aquella _Primavera_ nas suas -horas de sentimentalismo flamengo... - -Steinbroken soltou um _stacato_ agudo, isolado como uma voz n'um -alto,--e immediatamente, afastando-se do piano, passou o leno sobre as -fontes, sobre o pescoo, rectificou com um pucho a linha da -sobrecasaca, e agradeceu o acompanhamento ao Cruges n'um silencioso -_shake-hands_. - ---Bravo! bravo! berrava o marquez, batendo as mos como malhos. - -E outros applausos resoaram porta, dos parceiros do whist, que tinham -findado a partida. Quasi immediatamente os escudeiros entravam com um -servio frio de croquettes e sandwiches, offerecendo St. Emilion ou -Porto; e sobre uma meza, entre os renques de calices, a puncheira -fumegou n'um aroma doce e quente de cognac e limo. - ---Ento, meu pobre Steinbroken, exclamou Affonso, vindo-lhe bater -amavelmente no hombro, ainda d d'esses bellos cantos a estes bandidos, -que o maltratam assim ao bilhar? - ---Fui essfladito, si, essfladito. Agradecido, n, prefiro um copita -Porto... - ---Hoje fomos ns as victimas, disse-lhe o general respirando com delicia -o seu punch. - ---Voc tbem, meu genral? - ---Sim, senhor, tambem me cascaram... - -E que dizia o amigo Steinbroken s noticias da manh? perguntava -Affonso. A queda de Mac-Mahon, a eleio de Grevy... O que o alegrava -n'isto, era o desapparecimento definitivo do antipathico senhor de -Broglie e da sua _clique_. A impertinencia d'aquelle academico estreito, -querendo impr a opinio de dois ou tres sales doutrinarios Frana -inteira, a toda uma Democracia! Ah, o _Times_ cantava-lh'as! - ---E o _Punch_? No viu o _Punch_? Oh, delicioso!... - -O ministro pousara o calice, e esfregando cautelosamente as mos disse -n'uma meia voz grave a sua phrase, a phrase definitiva com que julgava -todos os acontecimentos que apparecem em telegrammas: - --- grve... eqsessivemente grve... - -Depois fallou-se de Gambetta; e como Affonso lhe attribuia uma dictadura -proxima, o diplomata tomou mysteriosamente o brao de Sequeira, murmurou -a palavra suprema com que definia todas as personalidades superiores, -homens d'estado, poetas, viajantes ou tenores. - --- um hom[~e] mto forte. um hom[~e] eqsessivemente forte! - ---O que elle , um ronha! exclamou o general, escorropichando o seu -calice. - -E todos tres deixaram a sala, discutindo ainda a republica--em quanto -Cruges continuava ao piano, vagueando por Mendelsshon e por Choppin, -depois de ter devorado um prato de croquettes. - -O marquez e D. Diogo, sentados no mesmo soph, um com a sua chasada -d'invalido, outro com um copo de S.^t Emilion, a que aspirava o -_bouquet_, fallavam tambem de Gambetta. O marquez gostava de Gambetta: -fra o unico que durante a guerra mostrara ventas de homem; l que -tivesse comido ou que quizesse comer como diziam,--no sabia nem lhe -importava. Mas era teso! E o sr. Grevy tambem lhe parecia um cidado -serio, optimo para chefe do Estado... - ---Homem de sala? perguntou languidamente o velho leo. - -O marquez s o vira na Assembla, presidindo e muito digno... - -D. Diogo murmurou, com um melancolico desdem na voz, no gesto, no olhar: - ---O que eu queria a toda essa canalha era a saude, marquez! - -O marquez consolou-o, galhofeiro e amavel. Toda essa gente, parecendo -forte por se occupar de cousas fortes, no fundo tinha asthma, tinha -pedra, tinha gota... E o Dioguinho era um Hercules... - ---Um Hercules! O que , que voc apaparica-se muito... A doena um -mau habito em que a gente se pe. necessario reagir... Voc devia -fazer gymnastica, e muita agua fria por essa espinha. Voc, na -realidade, de ferro! - ---Enferrujadote, enferrujadote...--replicou o outro, sorrindo e -desvanecido. - ---Qual enferrujadote! Se eu fosse cavallo ou mulher, antes o queria a -voc que a esses badamecos que por ahi andam meio podres... J no ha -homens da sua tempera, Dioguinho! - ---J no ha nada, disse o outro grave e convencido, e como o derradeiro -homem nas ruinas d'um mundo. - -Mas era tarde, a-se agasalhar, recolher, depois de acabar a sua -chasada. O marquez ainda se demorou, preguiando no soph, enchendo -lentamente o cachimbo, dando um olhar quella sala que o encantava com o -seu luxo Luiz XV, os seus flordos e os seus dourados, as cerimoniosas -poltronas de Beauvais feitas para a amplido das anquinhas, as -tapearias de Gobelins de tons desmaiados, cheias de galantes pastoras, -longes de parques, laos e ls de cordeiros, sombras d'idyllios mortos, -transparecendo n'uma trama de seda... quella hora, no adormecimento que -a pesando, sob a luz suave e quente das velas que findavam, havia ali a -harmonia e o ar de um outro seculo: e o marquez reclamou do Cruges um -minuete, uma gavotta, alguma cousa que evocasse Versalhes, Maria -Antonietta, o rythmo das bellas maneiras e o aroma dos empoados. Cruges -deixou morrer sob os dedos a melodia vaga que estava diluindo em -suspiros, preparou-se, alargou os braos--e atacou, com um pedal -solemne, o _Hymno da Carta_. O marquez fugiu. - -Villaa e Euzebiozinho conversavam no corredor, sentados n'uma das arcas -baixas de carvalho lavrado. - ---A fazer politica? perguntou-lhes o marquez ao passar. - -Ambos sorriram; Villaa respondeu jocosamente: - --- necessario salvar a patria! - -Eusebio pertencia tambem ao centro progressista, aspirava a influencia -eleitoral no circulo de Resende, e alli s noites no Ramalhete faziam -conciliabulos. N'esse momento porm fallavam dos Maias: Villaa no -duvidava confiar ao Silveirinha, homem de propriedade, visinho de -S.^{ta} Olavia, quasi creado com Carlos, certas cousas que lhe -desagradavam na casa, onde a auctoridade da sua palavra parecia -diminuir; assim, por exemplo, no podia approvar o ter Carlos tomado uma -frisa de assignatura. - ---Para que, exclamava o digno procurador, para que, meu caro senhor? -Para l no pr os ps, para passar aqui as noites... Hoje diz que ha -enthusiasmo, e elle ahi esteve. Tem ido l, eu sei? duas ou trs -vezes... E para isto d c uns poucos de centos de mil ris. Podia fazer -o mesmo com meia duzia de libras! No, no governo. No fim a frisa -para o Ega, para o Taveira, para o Cruges... Olhe, eu no me utiliso -d'ella; nem o amigo. verdade, que o amigo est de luto. - -Eusebio pensou, com despeito, que se podia metter para o fundo da -frisa--se tivesse sido convidado. E murmurou, sem conter um sorriso -molle: - ---Indo assim, at se podem encalacrar... - -Uma tal palavra, to humilhante, applicada aos Maias, casa que elle -administrava, escandalisou Villaa. Encalacrar! Ora essa! - ---O amigo no me comprehendeu... Ha despezas inuteis, sim, mas, louvado -Deus, a casa pde bem com ellas! verdade que o rendimento gasta-se -todo, at o ultimo ceitil; os cheques voam, voam, como folhas seccas; e -at aqui o costume da casa foi pr de lado, fazer bolo, fazer reserva. -Agora o dinheiro derrete-se... - -Eusebio rosnou algumas palavras sobre os trens de Carlos, os nove -cavallos, o cocheiro inglez, os grooms... O procurador acudiu: - ---Isso, amigo, de razo. Uma gente d'estas deve ter a sua -representao, as suas cousas bem montadas. Ha deveres na sociedade... -como o sr. Affonso... Gasta muito, sim, come dinheiro. No com elle, -que lhe conheo aquelle casaco ha vinte annos... Mas so esmolas, so -penses, so emprestimos que nunca mais v... - ---Desperdicios... - ---No lh'o censuro... o costume da casa; nunca da porta dos Maias, j -meu pae dizia, sahiu ninguem descontente... Mas uma frisa, de que -ninguem usa! s para o Cruges, s para o Taveira!... - -Teve de se callar. Justamente ao fundo do corredor assomava o Taveira, -abafado at aos olhos na gola d'uma ulster, d'onde sahiam as pontas d'um -_cachenez_ de seda clara. O escudeiro desembaraou-o dos agasalhos; e -elle, de casaca e collete branco, limpando o bonito bigode humido da -geada, veiu apertar a mo ao caro Villaa, ao amigo Eusebio, arrepiado, -mas achando o frio elegante, desejando a neve e o seu _chic_... - ---Nada, nada, dizia Villaa todo amavel, c o nosso solzinho portuguez -sempre melhor... - -E foram entrando no _fumoir_, onde se ouviam as vozes do marquez, de -Carlos, n'uma das suas sabias e prolixas cavaqueiras sobre cavallos e -sport. - ---Ento? que tal? A mulher? foi a interrogao que acolheu o Taveira. - -Mas antes de dar noticia da estreia da Morelli, a dama nova, Taveira -reclamou alguma cousa quente. E enterrado n'uma poltrona junto do fogo, -com os sapatos de verniz estendidos para as brazas, respirando o aroma -do punch, saboreando uma cigarette, declarou emfim que no tinha sido um -_fiasco_. - ---Que ella, a meu vr, uma insignificancia, no tem nada, nem voz, nem -escola. Mas, coitada, estava to atrapalhada, que nos fez pena. Houve -indulgencia, deram-se-lhe umas palmas... Quando fui ao palco, ella -estava contente... - ---Vamos a saber, Taveira, que tal ella? inquiria o marquez. - ---Cheia, dizia o Taveira collocando as palavras como pinceladas; alta; -muito branca; bons olhos; bons dentes... - ---E o psinho?--E o marquez, j com os olhos accesos, passava de vagar a -mo pela calva. - -Taveira no reparara no p. No era amador de ps... - ---Quem estava? perguntou Carlos, indolente e bocejando. - ---A gente do costume... verdade, sabes quem tomou a frisa ao lado da -tua? Os Gouvarinhos. L appareceram hoje... - -Carlos no conhecia os Gouvarinhos. Em redor explicaram-lhe: o conde de -Gouvarinho, o par do reino, um homem alto, de lunetas, _poseur_... E a -condessa, uma senhora inglesada, de cabello cr de cenoura, muito bem -feita... Emfim, Carlos no conhecia. - -Villaa encontrava o conde no centro progressista, onde elle era uma -columna do partido. Rapaz de talento, segundo o Villaa. O que o -espantava que elle podesse ter assim frisa de assignatura, atrapalhado -como estava: ainda no havia tres mezes lhe tinham protestado uma letra -de oitocentos mil ris, no tribunal do commercio... - ---Um asno, um caloteiro! disse o marquez com nojo. - ---Passa-se l bem, s teras feiras...--disse Taveira, mirando a sua -meia de seda. - -Depois fallou-se do duello do Azevedo da _Opinio_ com o S Nunes, -auctor d'_El-Rei Bolacha_, a grande magica da Rua dos Condes, e -ultimamente ministro da marinha: tinham-se tratado furiosamente nos -jornaes de _pulhas_ e de _ladres_: e havia dez interminaveis dias que -estavam desafiados e que Lisboa, em pasmaceira, esperava o sangue. -Cruges ouvira que S Nunes no se queria bater, por estar de luto por -uma tia; dizia-se tambem que o Azevedo partira precipitadamente para o -Algarve. Mas a verdade, segundo Villaa, era que o ministro do reino, -primo do Azevedo, para evitar o recontro, conservava a casa dos dois -cavalheiros bloqueada pela policia... - ---Uma canalha! exclamou o marquez com um dos seus resumos brutaes que -varriam tudo. - ---O ministro no deixa de ter razo, observou Villaa. Isto s vezes, em -duellos, pde bem succeder uma desgraa... - -Houve um curto silencio. Carlos, que caa de somno, perguntou ao -Taveira, atravez d'outro bocejo, se vira o Ega no theatro. - ---Podera! La estava de servio, no seu posto, na frisa dos Cohens, todo -puxado... - ---Ento essa cousa do Ega com a mulher do Cohen, disse o marquez, parece -clara... - ---Transparente, diaphana! um crystal!... - -Carlos, que se erguera a accender uma cigarette para despertar, lembrou -logo a grande maxima de D. Diogo: essas cousas nunca se sabiam, e era -preferivel no se saberem! Mas o marquez, a isto, lanou-se em -consideraes pesadas. Estimava que o Ega _se atirasse_; e via ahi um -facto de represalia social, por o Cohen ser judeu e banqueiro. Em geral -no gostava de judeus; mas nada lhe offendia tanto o gosto e a razo -como a especie _banqueiro_. Comprehendia o salteador de clavina, n'um -pinheiral; admittia o communista, arriscando a pelle sobre uma -barricada. Mas os argentarios, os _Fulanos e C.^{as}_ faziam-n'o -encavacar... E achava que destruir-lhes a paz domestica era acto -meritorio! - ---Duas horas e um quarto! exclamou Taveira, que olhara o relogio. E eu -aqui, empregado publico, tendo deveres para com o Estado, logo s dez -horas da manh. - ---Que diabo, se faz no tribunal de contas? perguntou Carlos. Joga-se? -Cavaquea-se? - ---Faz-se um bocado de tudo, para matar tempo... At contas! - -Affonso da Maia j estava recolhido. Sequeira e Steinbroken tinham -partido; e D. Diogo, no fundo da sua velha traquitana, l fra tambem a -tomar ainda gemada, a pr ainda o emplastro, sob o olho solicito da -Margarida, sua cozinheira e seu derradeiro amor. E os outros no -tardaram a deixar o Ramalhete. Taveira, de novo sepultado na _ulster_, -trotou at casa, uma vivendasinha perto com um bonito jardim. O marquez -conseguiu levar Cruges no _coup_, para lhe ir fazer musica a casa, no -orgo, at s tres ou quatro horas, musica religiosa e triste, que o -fazia chorar, pensando nos seus amores e comendo frango frio com fatias -de salame. E o viuvo, o Eusebiosinho, esse, batendo o queixo, to morosa -e soturnamente como se caminhasse para a sua propria sepultura, l se -dirigiu ao lupanar onde tinha uma _paixo_. - - -O laboratorio de Carlos estava prompto--e muito convidativo, com o seu -soalho novo, fornos de tijolo fresco, uma vasta meza de marmore, um -amplo divan de clina para o repouso depois das grandes descobertas, e em -redor, por sobre peanhas e prateleiras, um rico brilho de metaes e -crystaes; mas as semanas passavam, e todo esse bello material de -experimentao, sob a luz branca da claraboia, jazia virgem e ocioso. S -pela manh um servente a ganhar o seu tosto diario, dando l uma volta -preguiosa com um espanador na mo. - -Carlos realmente no tinha tempo de se occupar do laboratorio; e -deixaria a Deus mais algumas semanas o privilegio exclusivo de saber o -segredo das cousas--como elle dizia rindo ao av. Logo pela manh cedo -a fazer as suas duas horas d'armas com o velho Randon; depois via -alguns doentes no bairro onde se espalhara, com um brilho de legenda, a -cura da Marcellina--e as garrafas de Bordeus que lhe mandara Affonso. -Comeava a ser conhecido como medico. Tinha visitas no -consultorio--ordinariamente bachareis, seus contemporaneos, que -sabendo-o rico o consideravam gratuito, e l entravam, murchos e com m -cara, a contar a velha e mal disfarada historia de ternuras funestas. -Salvara d'um garrotilho a filha d'um brazileiro, ao Aterro--e ganhara -ahi a sua primeira libra, a primeira que pelo seu trabalho ganhava um -homem da sua familia. O dr. Barbedo convidara-o a assistir a uma -operao ovariotomica. E emfim (mas esta consagrao no a esperava -realmente Carlos to cedo) alguns dos seus bons collegas, que at ahi, -vendo-o s a governar os seus cavallos inglezes, fallavam do talento do -Maia--agora percebendo-lhe estas migalhas de clientella, comeavam a -dizer que o Maia era um asno. Carlos j fallava a serio da sua -carreira. Escrevera, com laboriosos requintes d'estylista, dois artigos -para a _Gazeta Medica_; e pensava em fazer um livro d'idas geraes, que -se devia chamar _Medicina Antiga e Moderna_. De resto occupava-se sempre -dos seus cavallos, do seu luxo, do seu bric-a-brac. E atravez de tudo -isto, em virtude d'essa fatal disperso de curiosidade que, no meio do -caso mais interessante de pathologia, lhe fazia voltar a cabea, se -ouvia fallar d'uma estatua ou d'um poeta, attrahia-o singularmente a -antiga ida do Ega, a creao d'uma Revista, que dirigisse o gosto, -pezasse na politica, regulasse a sociedade, fosse a fora pensante de -Lisboa... - -Era porm inutil lembrar ao Ega este bello plano. Abria um olho vago, -respondia: - ---Ah, a Revista... Sim, est claro, pensar n'isso! Havemos de fallar, eu -apparecerei... - -Mas no apparecia no Ramalhete, nem no consultorio; apenas se avistavam, -s vezes, em S. Carlos, onde o Ega, todo o tempo que no passava no -camarote dos Cohens, vinha invariavelmente refugiar-se no fundo da frisa -de Carlos, por trs de Taveira ou do Cruges; d'onde podesse olhar de vez -em quando Rachel Cohen--e ali ficava, silencioso, com a cabea appoiada -ao tabique, repousando e como saturado de felicidade... - -O dia (dizia elle) tinha-o todo tomado: andava procurando casa, andava -estudando mobilias... Mas era facil encontral-o pelo Chiado e pelo -Loreto, a rondar e a farejar--ou ento no fundo de tipoias de praa, -batendo a meio galope, n'um espalhafato de aventura. - -O seu dandysmo requintava; arvorara, com o desplante soberbo d'um -Brummel, casaca de botes amarellos sobre collete de setim branco; e -Carlos entrando uma manh cedo no _Universal_, deu com elle pallido de -colera, a despropositar com um creado, por causa d'uns sapatos mal -envernisados. Os seus companheiros constantes, agora, eram um Damaso -Salcede, amigo do Cohen, e um primo da Rachel Cohen, mocinho imberbe, -d'olho esperto e duro, j com ares de emprestar a trinta por cento. - -Entre os amigos, no Ramalhete, sobretudo na frisa, discutia-se s vezes -Rachel, e as opinies discordavam. Taveira achava-a deliciosa!--e -dizia-o rilhando o dente: ao marquez no deixava de parecer appetitosa, -para uma vez, aquella carnezinha _faisande_ de mulher de trinta annos: -Cruges chamava-lhe uma lambisgoia relamboria. Nos jornaes, na seco -do _High-life_, ella era uma das nossas primeiras elegantes: e toda a -Lisboa a conhecia, e a sua luneta d'ouro presa por um fio d'ouro, e a -sua caleche azul com cavallos pretos. Era alta, muito pallida, sobre -tudo s luzes, delicada de saude, com um quebranto nos olhos pisados, -uma infinita languidez em toda a sua pessoa, um ar de romance e de lyrio -meio murcho: a sua maior belleza estava nos cabellos, magnificamente -negros, ondeados, muito pesados, rebeldes aos ganchos, e que ella -deixava habilmente cahir n'uma massa meia solta sobre as costas, como -n'um desalinho de nudez. Dizia-se que tinha litteratura, e fazia -phrases. O seu sorriso lasso, pallido, constante, dava-lhe um ar de -insignificancia. O pobre Ega adorava-a. - -Conhecera-a na Foz, na Assembla; n'essa noite, cervejando com os -rapazes, ainda lhe chamou _camelia melada_; dias depois j adulava o -marido; e agora esse demagogo, que queria o massacre em massa das -classes medias, soluava muita vez por causa d'ella, horas inteiras, -cahido para cima da cama. - -Em Lisboa, entre o Gremio e a Casa Havaneza, j se comeava a fallar do -arranjinho do Ega. Elle todavia procurava pr a sua felicidade ao -abrigo de todas as suspeitas humanas. Havia nas suas complicadas -precaues tanta sinceridade como prazer romantico do mysterio: e era -nos sitios mais desageitados, fra de portas, para os lados do -Matadouro, que a furtivamente encontrar a creada que lhe trazia as -cartas d'ella... Mas em todos os seus modos (mesmo no disfarce affectado -com que espreitava as horas) transbordava a immensa vaidade d'aquelle -adulterio elegante. De resto sentia bem que os seus amigos conheciam a -gloriosa aventura, o sabiam em pleno drama: era mesmo talvez por isso, -que, diante de Carlos e dos outros, nunca at ahi mencionara o nome -d'ella, nem deixara jmais escapar um lampejo de exaltao. - -Uma noite, porm, acompanhando Carlos at ao Ramalhete, noite de lua -calma e branca, em que caminhavam ambos callados, Ega, invadido decerto -por uma onda interior de paixo, soltou desabafadamente um suspiro, -alargou os braos, declamou com os olhos no astro, um tremor na voz: - - - Oh! laisse-toi donc aimer, oh! l'amour c'est la vie! - - -Isto fugira-lhe dos labios como um comeo de confisso; Carlos ao lado -no disse nada, soprou ao ar o fumo do charuto. - -Mas Ega sentiu-se decerto ridiculo, porque se calmou, refugiou-se -immediatamente no puro interesse litterario: - ---No fim de contas, menino, digam l o que disserem, no ha seno o -velho Hugo... - -Carlos, comsigo, lembrava furores naturalistas do Ega, rugindo contra -Hugo, chamando-lhe saco-roto de espiritualismo, boca-aberta de -sombra, avsinho lyrico, injurias peiores. - -Mas n'essa noite o grande phraseador continuou: - ---Ah o velho Hugo! o velho Hugo o campeo heroico de verdades -eternas... necessario um bocado d'ideal, que diabo!... De resto o -ideal pde ser real... - -E foi, com esta palinodia, acordando os silencios do Aterro. - -Dias depois Carlos, no consultorio, acabava de despedir um doente, um -Viegas, que todas as semanas vinha alli fazer a fastidiosa chronica da -sua dyspepsia--quando do reposteiro da sala d'espera lhe surgiu o Ega, -de sobrecasaca azul, luva _gris-perle_ e um rolo de papel na mo. - ---Tens que fazer, doutor? - ---No, a a sahir, janota! - ---Bem. Venho-te impingir prosa... Um bocado do _Atomo_... Senta-te ahi. -Ouve l. - -Immediatamente abancou, afastou papeis e livros, desenrolou o -manuscripto, espalmou-o, deu um puxo ao collarinho--e Carlos, que se -pousara borda do divan, com a face espantada e as mos nos joelhos, -achou-se quasi sem transio transportado dos rugidos do ventre do -Viegas para um rumor de populaa, n'um bairro de judeus, na velha cidade -de Heidelberg. - ---Mas espera l! exclamou elle. Deixa-me respirar. Isso no o comeo -do livro! Isso no o cahos... - -Ega ento recostou-se, desabotoou a sobrecasaca, respirou tambem. - ---No, no o primeiro episodio... No o cahos. j no seculo XV... -Mas n'um livro d'estes pde-se comear pelo fim... Conveiu-me fazer este -episodio: chama-se a _Hebrea_. - -A Cohen! pensou Carlos. - -Ega tornou a alargar o collarinho--e foi lendo, animando-se, ferindo as -palavras para as fazer viver, soltando grandes cheios de voz nas -sonoridades finaes dos periodos. Depois da sombria pintura d'um bairro -medival de Heidelberg, o famoso Atomo, o _Atomo do Ega_, apparecia -alojado no corao do esplendido principe Franck, poeta, cavalleiro, e -bastardo do imperador Maximiliano. E todo esse corao de heroe -palpitava pela judia Esther, perola maravilhosa do Oriente, filha do -velho rabbino Salomo, um grande doutor da Lei, perseguido pelo odio -theologico do Geral dos Dominicanos. - -Isto contava-o o Atomo n'um monologo, to recamado d'imagens como um -manto da Virgem est recamado d'estrellas--e que era uma declarao -d'elle, Ega, mulher do Cohen. Depois abria-se um intermedio -pantheista: rompiam coros de flores, coros de astros, cantando na -linguagem da luz, ou na eloquencia dos perfumes, a belleza, a graa, a -pureza, a alma celeste de Esther--e de Rachel... Emfim, chegava o negro -drama da perseguio: a fuga da familia hebraica, atravz de bosques de -bruxas e brutas aldas feudaes; a appario, n'uma encrusilhada, do -principe Franck que vem proteger Esther, de lana alta, no seu grande -corcel; o tropel da turba fanatica, correndo a queimar o rabbino e os -seus livros herejes; a batalha, e o principe atravessado pelo chuo d'um -_reitre_, indo morrer no peito d'Esther, que morre com elle n'um beijo. -Tudo isto se precipitava como um sonoro e tumultuoso soluo; e era -tratado com as maneiras modernas d'estylo, o esforo atormentado -inchando a expresso, as camadas de cr atiradas larga para fazer -ressaltar o tom de vida... - -Ao findar o _Atomo_ exclamava, com a vasta solemnidade d'um cheio -d'orgo:--assim arrefeceu, parou, aquelle corao de heroe que eu -habitava; e evaporado o principio de vida, eu, agora livre, remontei aos -astros, levando comigo a essencia pura d'esse amor immortal. - ---Ento?...--disse Ega, esfalfado, quasi tremulo. - -Carlos s poude responder: - ---Est ardente. - -Depois elogiou a serio alguns lances, o coro das florestas, a leitura do -_Ecclesiastes_, de noite, entre as ruinas da torre d'Othon, certas -imagens d'um grande vo lyrico. - -Ega, que tinha pressa, como sempre, enrolou o manuscripto, reabotoou a -sobrecasaca, e j de chapu na mo: - ---Ento, parece-te apresentavel?... - ---Vaes publicar? - ---No, mas emfim...--e ficou n'esta reticencia, fazendo-se corado. - -Carlos comprehendeu tudo dias depois, encontrando na _Gazeta do Chiado_ -uma descripo da leitura feita em casa do ex.^{mo} sr. Jacob Cohen, -pelo nosso amigo Joo da Ega, de um dos mais brilhantes episodios do seu -livro--_As memorias d'um atomo_. E o jornalista accrescentava, dando a -sua impresso pessoal: uma pintura dos sofrimentos porque passaram, -nos tempos da intolerancia religiosa, aquelles que seguem a Lei -d'Israel. Que poder de imaginao! Que fluencia d'estylo! O effeito foi -extraordinario, e quando o nosso amigo fechou o manuscripto ao succumbir -da protagonista--vimos lagrimas em todos os olhos da numerosa e -estimavel colonia hebraica! - -Oh, furor do Ega! Rompeu n'essa tarde pelo consultorio, pallido, -desorientado... - ---Estas bestas! Estas bestas d'estes jornalistas! Leste? _Lagrimas em -todos os olhos da numerosa e estimavel colonia hebraica!_ Faz cahir a -cousa em ridiculo... E depois a _fluencia d'estylo_. Que burros! Que -idiotas! - -Carlos, que cortava as folhas d'um livro, consolou-o. Aquella era a -maneira nacional de fallar d'obras d'arte... No valia a pena bramar... - ---No, palavra, tinha vontade de quebrar a cara quelle folliculario! - ---E porque lh'a no quebras? - --- um amigo dos Cohens. - -E foi grunhindo improperios contra a imprensa, a passos de tigre pelo -gabinete. Por fim irritado com a indifferena de Carlos: - ---Que diabo ests tu ahi a ler? _Nature parasitaire des accidents de -l'impaludisme_... Que blague, a medicina! Dize-me uma cousa. Que diabo -sero umas picadas que me veem aos braos, sempre que vou a -adormecer?... - ---Pulgas, bichos, vermina...--murmurou Carlos com os olhos no livro. - ---Animal! rosnou Ega, arrebatando o chapu. - ---Vaes-te, John? - ---Vou, tenho que fazer!--E junto do reposteiro, ameaando o cu com o -guarda-chuva, chorando quasi de raiva:--Estes burros d'estes -jornalistas! So a escoria da sociedade! - -D'ahi a dez minutos reappareceu, bruscamente: e j com outra voz, n'um -tom de caso serio: - ---Ouve c. Tinha-me esquecido. Tu queres ser apresentado aos -Gouvarinhos? - ---No tenho um interesse especal, respondeu Carlos, erguendo os olhos -do livro, depois de um silencio. Mas no tenho tambem uma repugnancia -especial. - ---Bem, disse Ega. Elles desejam conhecer-te, sobretudo a condessa faz -empenho... Gente intelligente, passa-se l bem... Ento, decidido! Tera -feira vou-te buscar ao Ramalhete, e vamo-nos _gouvarinhar_. - -Carlos ficou pensando n'aquella proposta do Ega, na maneira como elle -sublinhra o _empenho_ da condessa. Lembrava-se agora que ella era muito -intima da Cohen: e ultimamente, em S. Carlos, n'aquella facil visinhana -de frisa, surprehendera certos olhares d'ella... Mesmo, segundo o -Taveira, ella realmente _fazia-lhe um olho_. E Carlos achava-a picante, -com os seus cabellos crespos e ruivos, o narizinho petulante, e os olhos -escuros, d'um grande brilho, dizendo mil cousas. Era deliciosamente bem -feita--e tinha uma pelle muito clara, fina e doce vista, a que se -sentia mesmo de longe o setim. - -Depois d'aquelle dia tristnho de aguaceiros, elle resolvera passar um -bom sero de trabalho, ao canto do fogo, no conforto do seu -robe-de-chambre. Mas ao caf, os olhos da Gouvarinho comearam a -faiscar-lhe por entre o fumo do charuto, a fazer-lhe _um olho_, -collocando-se tentadoramente entre elle e a sua noite d'estudo, -pondo-lhe nas veias um vivo calor de mocidade... Tudo culpa do Ega, esse -Mephistopheles de Celorico! - -Vestiu-se, foi a S. Carlos. Ao sentar-se porm boca da frisa, -preparado, de collete branco e perola negra na camisa,--em logar dos -cabellos crespos e ruivos, avistou a carapinha retinta de um preto, um -preto de doze annos, trombudo e lusidio, de grande collarinho mam -sobre uma jaqueta de botes amarellos; ao lado outro preto, mais -pequeno, com o mesmo uniforme de collegio, enterrava pela venta aberta o -dedo calado de pellica branca. Ambos elles lhe relancearam os olhos -bogalhudos, cr de prata embaciada. A pessoa que os acompanhava, -escondida para o fundo, parecia ter um catharro ascoroso. - -Dava-se a _Lucia_ em beneficio, com a segunda dama. Os Cohens no tinham -vindo--nem o Ega. Muitos camarotes estavam desertos, em toda a tristeza -do seu velho papel vermelho. A noite chuviscosa, com um bafo de -sudoeste, parecia penetrar alli, derramando o seu pesadume, a morna -sensao da sua humidade. Nas cadeiras, vasias, havia uma mulher -solitaria, vestida de setim claro; Edgardo e Lucia desafinavam; o gaz -dormia, e os arcos das rebecas, sobre as cordas, pareciam ir adormecendo -tambem. - ---Isto est lugubre, disse Carlos ao amigo Cruges, que occupava o escuro -da frisa. - -Cruges, amodorroado n'um accesso de _spleen_, com o cotovello sobre as -costas da cadeira, os dedos por entre a cabelleira, todo elle embrulhado -em crepes, sobrepostos de melancolia, respondeu, como do fundo d'um -sepulchro: - ---Pesadote. - -Por indolencia, Carlos ficou. E pouco a pouco, aquelle preto de que os -seus olhos se no podiam despegar, alli enthronisado na poltrona de reps -verde da Gouvarinho, com a manga da jaqueta plantada no rebordo onde -costumava alvejar um lindo brao,--foi-lhe arrastando, a seu pesar, a -imaginao para a pessoa d'ella; relembrou _toilettes_ com que ella alli -estivera; e nunca lhe pareceram to picantes, como agora que os no via, -os seus cabellos ruivos, cr de braza s luzes, d'um encrespado forte, -como crestados da chamma interna. A carapinha do preto, essa, em logar -de risca tinha um sulco cavado thesoura na massa de l espessa. Quem -seriam, por que estavam alli, aquelles africanos de perfil trombudo? - ---Tu j reparaste n'esta extraordinaria carapinha, Cruges? - -O outro, que se no mexera da sua attitude de estatua tumular, grunhiu -da sombra um monosyllabo surdo. - -Carlos respeitou-lhe os nervos. - -De repente, ao desafinar mais aspero d'um coro, Cruges deu um salto. - ---Isto s a pontap... Que empreza esta! rugio elle, envergando -furiosamente o paletot. - -Carlos foi leval-o no coup rua das Flores, onde elle morava com a me -e uma irm; e at ao Ramalhete no cessou de lamentar comsigo o seu -sero d'estudo perdido. - -O creado de Carlos, o Baptista, (familiarmente, o _Tista_) esperava-o, -lendo o jornal, na confortavel antecamara dos quartos do menino, -forrada de velludo cr de cereja, ornada de retratos de cavallos e -panoplias de velhas armas, com divans do mesmo velludo, e muito -allumiada a essa hora por dois candieiros de globo pousados sobre -columnas de carvalho, onde se enrolavam lavores de ramos de vide. - -Carlos tinha desde os onze annos este creado de quarto, que viera com o -Brown para S.^{ta} Olavia, depois de ter servido em Lisboa, na Legao -ingleza, e ter acompanhado o ministro, sir Hercules Morrisson, varias -vezes a Londres. Foi em Coimbra, nos Paos de Cellas, que Baptista -comeou a ser um personagem: Affonso correspondia-se com elle de S.^{ta} -Olavia. Depois viajou com Carlos; enjoaram nos mesmos paquetes, -partilharam dos mesmos _sandwiches_ no buffete das gares; Tista -tornou-se um confidente. Era hoje um homem de cincoenta annos, -desempenado, robusto, com um collar de barba grisalha por baixo do -queixo, e o ar excessivamente _gentleman_. Na rua, muito direito na sua -sobrecasaca, com o par de luvas amarellas espetado na mo, a sua bengala -de cana da India, os sapatos bem envernisados, tinha a consideravel -apparencia de um alto funccionario. Mas conservava-se to fino e to -desembaraado, como quando em Londres aprendera a walsar e a _boxar_ na -rude balburdia dos sales-danantes, ou como quando mais tarde, durante -as ferias de Coimbra, acompanhava Carlos a Lamego e o ajudava a saltar o -muro do quintal do sr. escrivo de fazenda--aquelle que tinha uma mulher -to garota. - -Carlos foi buscar um livro ao gabinete d'estudo, entrou no quarto, -estendeu-se, canado, n'uma poltrona. luz opalina dos globos, o leito -entre-aberto mostrava, sob a seda dos cortinados, um luxo effeminado de -bretanhas, bordados e rendas. - ---Que ha hoje no _Jornal da Noite_? perguntou elle bocejando, em quanto -Baptista o descalava. - ---Eu li-o todo, meu senhor, e no me pareceu que houvesse cousa alguma. -Em Frana contina socego... Mas a gente nunca pde saber, porque estes -jornaes portuguezes imprimem sempre os nomes estrangeiros errados. - ---So umas bestas. O sr. Ega hoje estava furioso com elles... - -Depois, em quanto Baptista preparava com esmero um _grog_ quente, Carlos -j deitado, aconchegado, abriu preguiosamente o livro, voltou duas -folhas, fechou-o, tomou uma cigarette, e ficou fumando com as palpebras -cerradas, n'uma immensa beatitude. Atravz das cortinas pesadas -sentia-se o sudoeste que batia o arvoredo, e os aguaceiros alagando os -vidros. - ---Tu conheces os srs. condes de Gouvarinho, Tista? - ---Conheo o Pimenta, meu senhor, que creado de quarto do sr. conde... -Creado de quarto e serve a meza. - ---E que diz ento esse Tormenta? perguntou Carlos, n'uma voz indolente, -depois d'um silencio. - ---Pimenta, meu senhor! O Manuel Pimenta. O sr. Gouvarinho chama-lhe -Romo, por que estava acostumado ao outro creado que era Romo. E j -isto no bonito, porque cada um tem o seu nome. O Manuel Pimenta. O -Pimenta no est contente... - -E Baptista, depois de collocar junto da cabeceira a salva com o _grog_, -o assucareiro, as cigarettes, transmittiu as revelaes do Pimenta. O -conde de Gouvarinho, alm de muito massador e muito pequinhento, no -tinha nada de cavalheiro: dera um fato de cheviot claro ao Romo (ao -Pimenta), mas to coado e to cheio de riscas de tinta, de limpar a -penna perna e ao hombro, que o Pimenta deitou o presente fra. O conde -e a senhora no se davam bem: j no tempo do Pimenta, uma occasio, -mesa, tinham-se pegado de tal modo que ella agarrou do copo e do prato, -e esmigalhou-os no cho. E outra qualquer teria feito o mesmo; por que o -sr. conde, quando comeava a repisar, a remoer, no se podia aturar. As -questes eram sempre por causa de dinheiro. O Tompson velho estava farto -de abrir os cordes bolsa... - ---Quem esse Tompson velho, que nos apparece agora, a esta hora da -noite? perguntou Carlos, a seu pesar interessado. - ---O Tompson velho o pae da sr.^a condessa. A sr.^a condessa era uma -miss Tompson, dos Tompson do Porto. O sr. Tompson no tem querido -ultimamente emprestar nem mais um real ao genro: de sorte que, uma vez, -j no tempo do Pimenta tambem, o sr. conde, furioso, disse senhora que -ella e o pae se deviam lembrar que eram gente de commercio e que fora -elle que fizera d'ella uma condessa; e com perdo de v. ex.^a, a senhora -condessa ali mesmo mesa mandou o condado taba... Estas cousas no -esto no genero do Pimenta. - -Carlos bebeu um gole de grog. Bailava-lhe nos labios uma pergunta, mas -hesitava. Depois reflectiu na puerilidade de to rigidos escrupulos, a -respeito d'uma gente, que ao jantar, diante do escudeiro, quebrava a -porcelana, mandava tabua o titulo dos antepassados. E perguntou: - ---Que diz o sr. Pimenta da senhora condessa, Baptista? Ella diverte-se? - ---Creio que no, meu senhor. Mas a creada de confiana d'ella, uma -escosseza, essa desobstinada. E no fica bem senhora condessa ser -assim to intima com ella... - -Houve um silencio no quarto, a chuva cantou mais forte nos vidros. - ---Passando a outro assumpto, Baptista. Vamos a saber, ha quanto tempo, -no escrevo eu a madame Rughel? - -Baptista tirou do bolso interior da sua casaca um livro de apontamentos, -aproximou-se da luz, encavalou a luneta no nariz, e verificou, com -methodo, estas datas:--Dia 1 de janeiro, telegramma expedido com -felicitaes do comeo d'anno a madame Rughel, Hotel d'Albe, Champs -lyses, Paris. Dia 3, telegramma recebido de madame Rughel, -reciprocando comprimentos, exprimindo amizade, annunciando partida para -Hamburgo. Dia 15, carta lanada ao correio, para madame Rughel, -_William-Strasse, Hamburgo, Allemagne_. Depois--mais nada. De modo que -havia j cinco semanas que o menino no escrevia a madame Rughel... - --- necessario escrever manh, disse Carlos.. - -Baptista tomou uma nota. - -Depois, entre uma fumaa languida, a voz de Carlos ergueu-se de novo na -paz dormente do quarto: - ---Madame Rughel era muito bonita, no verdade, Baptista? a mulher -mais bonita que tu tens visto na tua vida! - -O velho creado metteu o livro no bolso da casaca, e respondeu, sem -hesitar, muito certo de si: - ---Madame Rughel era uma senhora de muita vista. Mas a mulher mais linda -em que tenho posto os olhos, se o menino d licena, era aquella senhora -do coronel de hussards que vinha ao quarto do hotel em Vienna. - -Carlos atirou a cigarette para a salva--e escorregando pela roupa -abaixo, todo invadido por uma onda de recordaes alegres, exclamou da -profundidade do seu conforto, no antigo tom de emphase bohemia dos Paos -de Cellas. - ---O sr. Baptista no tem gosto nenhum! Madame Rughel era uma nympha de -Rubens, senhor! Madame Rughel tinha o explendor d'uma deusa da -Renascena, senhor! Madame Rughel devia ter dormido no leito imperial de -Carlos Quinto...--Retire-se, senhor! - -Baptista entalou mais o _couvre-pieds_, relanceou pelo quarto um olhar -solicito, e, contente, da ordem em que as cousas adormeciam, sau, -levando o candieiro. Carlos no dormia: e no pensava na coronela de -hussards, nem em madame Rughel. A figura que no escuro dos cortinados -lhe apparecia, n'um vago dourado que provinha do reflexo de seus -cabellos soltos, era a Gouvarinho--a Gouvarinho que no tinha o -explendor d'uma deusa da Renascena como madame Rughel, nem era a mulher -mais linda em que Baptista pozera os seus olhos como a coronela de -hussards: mas, com o seu nariz petulante e a sua boca grande, brilhava -mais e melhor que todas na imaginao de Carlos--porque elle esperara-a -essa noite e ella no tinha apparecido. - -Na tera-feira promettida Ega no veiu buscar Carlos para se irem -_gouvarinhar_. E foi Carlos que d'ahi a dias, entrando como por acaso no -_Universal_, perguntou rindo ao Ega: - ---Ento quando nos _gouvarinhamos_? - -N'essa noite, em S. Carlos, n'um entre-acto dos _Huguenotes_, Ega -apresentou-o ao sr. conde de Gouvarinho, no corredor das frizas. O -conde, muito amavel, lembrou logo que j tivera, mais de uma vez, o -prazer de passar pela porta de S.^{ta} Olavia, quando ia vr os seus -velhos amigos, os Tedins, a Entre-Rios--uma formosa vivenda tambem. -Fallaram ento do Douro, da Beira, compararam outras paisagens. Para o -conde, nada havia, no nosso Portugal, como os campos do Mondego: mas a -sua parcialidade era perdoavel, pois n'esses ferteis vales nascera e se -creara: e fallou um momento de Formozelha, onde tinha casa, onde vivia -edosa e doente sua me, a sr.^a condessa viuva... - -Ega, que affectara beber as palavras do conde, comeou ento uma -controversia, sustentando como se se tratasse dos dogmas d'uma f, a -belleza superior do Minho, esse paraiso idillico. O conde sorria: via -ali, como elle observou a Carlos, batendo amavelmente no hombro do Ega, -a rivalidade das duas provincias. Emulao fecunda, de resto, no seu -pensar... - ---Ahi est, por exemplo, dizia elle, o ciume entre Lisboa e Porto. uma -verdadeira dualidade como a que existe entre a Hungria e a Austria... -Ouo por ali lamental-a. Pois bem, eu, se fosse poder, instigal-a-hia, -acirral-a-hia, se v. ex.^{as} me permittem a expresso. N'esta lucta das -duas grandes cidades do reino, podem outros vr despeitos mesquinhos, eu -vejo elementos de progresso. Vejo civilisao! - -Proferia estas cousas como do alto d'um pedestal, muito acima dos -homens, deixando-as providamente car dos thesouros do seu intellecto -maneira de dons inestimaveis. A voz era lenta e rotunda; os cristaes da -sua luneta d'ouro faiscavam vistosamente; e no bigode encerado, na pera -curta, havia ao mesmo tempo alguma cousa de doutoral e de casquilho. - -Carlos dizia: Tem v. ex.^a razo, sr. conde. O Ega dizia: Voc v -essas cousas d'alto, Gouvarinho. Elle cruzara as mos por baixo das -abas da casaca--e estavam todos tres muito serios. - -Depois o conde abriu a porta da friza, Ega desappareceu. E d'ahi a um -momento, Carlos, apresentado como visinho de camarote, recebia da -sr.^a condessa um grande _shake-hand_, em que tilintaram uma infinidade -d'aros de prata e de _blangles_ indios sobre a sua luva preta de doze -botes. - -A sr.^a condessa, um pouco corada, ligeiramente nervosa, lembrou logo a -Carlos que o vira no vero passado em Paris, no salo baixo do Caf -Inglez: at por signal estava n'essa noite um velho abominavel com duas -garrafas vazias diante de si, e contando alto, para uma meza defronte, -historias horrorosas do sr. Gambetta: um sujeito ao lado protestou; o -outro no fez caso, era o velho duque de Grammont. O conde passou os -dedos lentos pela testa, com um ar quasi angustioso: no se lembrava de -nada d'isso! Queixou-se logo amargamente da sua falta de memoria. Uma -cousa to indispensavel em quem segue a vida publica, a memoria! e elle -desgraadamente, no possuia nem um atomo. Por exemplo, lera (como todo -o homem devia lr) os vinte volumes da _Historia Universal de Cesar -Cantu_; lra-os com atteno, fechado no seu gabinete, absorvendo-se na -obra. Pois, senhores, escapara-lhe tudo--e ali estava sem saber -historia! - ---V. ex.^a tem boa memoria, sr. Maia? - ---Tenho uma rasoavel memoria. - ---Inapreciavel bem de que goza! - -A condessa voltara-se para a plata, coberta com o leque, com o ar -constrangido, como se aquellas palavras pueris do marido a diminuissem, -a desfeiassem... Carlos ento fallou da opera. Que bello escudeiro -huguenote fazia o Pandolli! A condessa no aturava o Corcelli, o tenor, -com as suas notas asperas e aquella obesidade que o tornava _buffo_. Mas -tambem (lembrava Carlos) onde havia hoje tenores? Passara essa grande -raa dos Marios, homens de belleza, de inspirao, realisando os grandes -typos lyricos. Nicolini era j uma degenerao... Isto fez lembrar a -Patti. A condessa adorava-a, e a sua graa de fada, e a sua voz -semelhante a uma chuva d'ouro!... - -Os olhos brilhavam-lhe, diziam mil cousas; em certos movimentos, o -cabello crespamente ondeado, tomava tons de oiro vermelho: e em torno -d'ella errava, no calor do gaz e da enchente, um aroma exagerado de -verbena. Estava de preto, com uma gargantilha, de rendas negras, -Valois, affogando-lhe o pescoo onde pousavam duas rosas escarlates. E -toda a sua pessoa tinha um arsinho de provocao e de ataque. De p, -callado, grave, o conde batia a coxa com a claque fechada. - -O quarto acto comeara, Carlos ergueu-se; e os seus olhos encontraram -defronte, na frisa do Cohen, o Ega, de binoculo, observando-o, mirando a -condessa e fallando a Rachel, que sorria, movia o leque com um ar -dolente e vago. - ---Ns recebemos s teras feiras, disse a condessa a Carlos--e o resto -da phrase perdeu-se n'um murmurio e n'um sorriso. - -O conde acompanhou-o fra, ao corredor. - --- sempre uma honra para mim, dizia elle caminhando ao lado de Carlos, -fazer o conhecimento das pessoas que valem alguma cousa n'este paiz ... -V. ex.^a d'esse numero, bem raro infelizmente. - -Carlos protestou, risonho. E o outro, na sua voz lenta e rotunda: - ---No o lisongeio. Eu nunca lisongeio... Mas a v. ex.^a podem-se dizer -estas cousas, porque pertence _elite_: a desgraa de Portugal a -falta de gente, Isto um paiz sem pessoal. Quer-se um bispo? No ha um -bispo. Quer-se um economista? No ha um economista. Tudo assim! Veja v. -ex.^a mesmo nas profisses subalternas. Quer-se um bom estofador? No ha -um bom estofador... - -Um cheio de instrumentos e vozes, d'um tom sublime, passando pela porta -da frisa entreaberta, cortou-lhe umas ultimas palavras sobre a -defficiencia dos photographos... Escutou, com a mo no ar: - --- o _coro dos punhaes_, no? Ah vamos a ouvir... Ouve-se sempre isto -com proveito. Ha philosophia n'esta musica... pena que lembre to -vivamente os tempos da intolerancia religiosa, mas ha alli -incontestavelmente philosophia! - - - - -VI - - -Carlos, n'essa manh, ia visitar de surpreza a casa do Ega, a famosa -Villa Balzac, que esse phantasista andra meditando e dispondo desde a -sua chegada a Lisboa, e onde se tinha emfim installado. - -Ega dera-lhe esta denominao litteraria, pelos mesmos motivos porque a -alugra n'um suburbio longiquo, na solido da Penha de Frana,--para que -o nome de Balzac, seu padroeiro, o silencio campestre, os ares limpos, -tudo alli fosse favoravel ao estudo, s horas d'arte e d'ideal. Por que -ia fechar-se l, como n'um claustro de lettras, a findar as _Memorias -d'um Atomo!_ Smente, por causa das distancias, tinha tomado ao mez um -coup da companhia. - -Carlos teve difficuldades em encontrar a Villa Balzac: no era, como -tinha dito Ega no Ramalhete, logo adiante do largo da Graa um -_chaletsinho_ retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre arvores. -Passava-se primeiro a Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se -n'uma vereda larga, entre quintaes, descendo pelo pendor da collina, mas -accessivel a carruagens; e ahi, n'um recanto, ladeada de muros, -apparecia emfim uma cazota de paredes enxovalhadas, com dois degraus de -pedra porta, e transparentes novos d'um escarlate estridente. - -N'essa manh, porm, debalde Carlos deu puxes desesperados corda da -campainha, martellou a aldrava da porta, gritou a toda a voz por cima do -muro do quintal e das copas das arvores o nome do Ega:--a Villa Balzac -permaneceu muda, como deshabitada, no seu retiro rustico. E todavia -pareceu a Carlos que, justamente antes de bater, ouvira o estalar de -rolhas de _Champagne_. - -Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com os criados, -que assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeito de Torre de -Nesle... - ---Vae l manh, se ninguem responder, escala as janellas, pega fogo ao -predio, como se fossem apenas as Tulherias. - -Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, j a Villa Balzac o -esperava, toda em festa: porta o pagem, um garoto de feies -horrvelmente viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botes de -metal, com uma gravata muito branca e muito teza; as duas janellas em -cima, abertas, mostrando o reps verde das bambinellas, bebiam larga -todo o ar do campo e o sol de inverno: e no topo da estreita escada, -tapetada de vermelho, Ega, n'um prodigioso robe-de-chambre, de um estofo -adamascado do seculo dezoito, vestido de crte de alguma das suas avs, -exclamou dobrando a fronte ao cho: - ---Bem vindo, meu principe, ao humilde tegurio do philosopho! - -Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de reps verde, d'um verde -feio e triste, e introduziu o principe na sala onde tudo era verde -tambem: o reps que recobria uma mobilia de nogueira, o tecto de taboado, -as listas verticaes do papel da parede, o pano franjado da mesa, e o -reflexo d'um espelho redondo, inclinado sobre o soph. - -No havia um quadro, uma flr, um ornato, um livro--apenas sobre a -jardineira uma estatueta de Napoleo I, de p, equilibrado sobre o orbe -terrestre, n'essa conhecida attitude em que o heroe, com um ar pansudo e -fatal, esconde uma das mos por traz das costas, e enterra a outra nas -profundidades do seu collete. Ao lado uma garrafa de _Champagne_, -encarapuada de papel dourado, esperava entre dois copos esguios. - ---Para que tens tu aqui Napoleo, John? - ---Como alvo de injurias, disse Ega. Exercito-me sobre elle a fallar dos -tyrannos... - -Esfregou as mos, radiante. Estava n'essa manh em alegria e em verve. E -quiz immediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: ahi reinava -um cretone de ramagens alvadias sobre fundo vermelho; e o leito enchia, -esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da Villa Balzac; e -n'elle se esgotara a imaginao artistica do Ega. Era de madeira, baixo -como um divan, com a barra alta, um roda-p de renda, e d'ambos os lados -um luxo de tapetes de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da -India avermelhada envolvia-o n'um apparato de tabernaculo; e dentro, -cabeceira, como n'um lupanar, reluzia um espelho. - -Carlos, muito seriamente, aconselhou-lhe que tirasse o espelho. Ega deu -a todo o leito um olhar silencioso e dce, e disse depois de passar uma -pontinha de lingua pelo beio: - ---Tem seu chic... - -Sobre a mesinha de cabeceira erguia-se um monto de livros: a _Educao_ -de Spencer ao lado de Beaudelare, a _Logica_ de Stuart Mill por cima do -_Cavalleiro da Casa Vermelha_. No marmore da commoda havia outra garrafa -de Champagne entre dous copos; o toucador, um pouco em desordem, -mostrava uma enorme caixa de p d'arroz no meio de plastrons e gravatas -brancas do Ega, e um masso de ganchos do cabello ao lado de ferros de -frisar. - ---E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte? - ---Alli! disse o Ega, alegremente, apontando para o leito. - -Mas foi mostrar logo o seu recantosinho estudioso, formado por um -biombo, ao lado da janella, e tomado todo por uma mesa de p de gallo, -onde Carlos assombrado descobriu, entre o bello papel de cartas do Ega, -um _Diccionario de Rimas_... - -E a visita casa continuou. - -Na sala de jantar, quasi nua, caiada de amarello, um armario de pinho -envidraado abrigava melancolicamente um servio barato de loua nova; e -do fecho da janella pendia um vestuario vermelho, que parecia roupo de -mulher. - --- sobrio e simples--exclamou o Ega--como compete quelle que se -alimenta d'uma codea d'Ideal e duas garfadas de Philosophia. Agora, -cosinha!... - -Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas janellas abertas; -e entreviam-se arvores de quintal, um verde de terrenos vagos, depois l -em baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol; uma rapariga muito -sardenta e muito forte sacudiu o gato do collo, ergueu-se, com o _Jornal -de Noticias_ na mo. Ega apresentou-a, n'um tom de fara: - ---A sr.^a Josepha, solteira, de temperamento sanguineo, artista -culinaria da Villa Balzac, e como se pde observar pelo papel que lhe -pende das garras, cultora das boas letras! - -A moa sorria, sem embarao, habituada de certo a estas familiaridades -bohemias. - ---Eu hoje no janto c, senhora Josepha, continuava o Ega no mesmo tom. -Este formoso mancebo que me acompanha, duque do Ramalhete, e principe de -Santa Olavia, d hoje de papar ao seu amigo e philosopho... E, como -quando eu recolher, talvez a senhora Josepha esteja entregue ao somno da -innocencia, ou vigilia da devassido, aqui lhe ordeno que me tenha -amanh para meu _lunch_ duas formosas perdizes. - -E subitamente, n'uma outra voz, com um olhar que ella devia perceber: - ---Duas perdizesinhas bem assadas e bem cradinhas. Frias, est claro... -O costume. - -Travou do brao de Carlos, voltaram sala. - ---Com franqueza, Carlos, que te parece a Villa Balzac? - -Carlos respondeu como a respeito do episodio da _Hebrea_: - ---Est ardente. - -Mas elogiou o aceio, a vista da casa e a frescura dos cretones. De -resto, para um rapaz, para uma cella de trabalho... - ---Eu, dizia o Ega, passeiando pela sala, com as mos enterradas nos -bolsos do seu prodigioso robe de chambre, eu no tolero o _bibelot_, o -_bric--brac_, a cadeira archeologica, essas mobilias d'arte... Que -diabo, o movel deve estar em harmonia com a ida e o sentir do homem que -o usa! Eu no penso, nem sinto como um cavalleiro do seculo XVI, para -que me hei de cercar de cousas do seculo XVI? No ha nada que me faa -tanta melancolia, como ver n'uma sala um veneravel contador do tempo de -Francisco I recebendo pela face conversas sobre eleies e altas de -fundos. Faz-me o effeito d'um bello heroe de armadura d'ao, viseira -cahida e crenas profundas no peito, sentado a uma mesa de voltarete a -jogar copas. Cada seculo tem o seu genio proprio e a sua attitude -propria. O seculo XIX concebeu a Democracia e a sua attitude -esta...--E enterrando-se d'estalo n'uma poltrona, espetou as pernas -magras para o ar.--Ora esta attitude impossivel n'um escabello do -tempo do Prior do Crato. Menino, toca a beber o _Champagne_. - -E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega accudiu: - --- excellente, que pensas tu? Vem directamente da melhor casa -d'Epernay, arranjou-m'o o Jacob. - ---Que Jacob? - ---O Jacob Cohen, o Jacob. - -Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma subita recordao, -e pousando a garrafa outra vez, entalando o monocolo no olho: - --- verdade! Ento, n'outro dia, que tal, em casa dos Gouvarinhos? Eu -infelizmente no poude ir. - -Carlos contou a _soire_. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas -salas, n'um zum-zum dormente, meia luz dos candieiros. O conde -massara-o indiscretamente com a politica, admiraes idiotas por um -grande orador, um deputado de Meso Frio, e explicaes sem fim sobre a -reforma da instruco. A condessa, que estava muito constipada, -horrorisou-o, dando sobre a Inglaterra, apesar de ingleza, as opinies -da rua de Cedofeita. Imaginava que a Inglaterra um paiz sem poetas, -sem artistas, sem ideaes, occupando-se s de amontoar libras... Emfim, -seccara-se. - ---Que diabo! murmurou o Ega n'um tom de viva desconsolao. - -A rolha estalou, elle encheu os copos em silencio; e n'uma _saude_ muda -os dois amigos beberam o _Champagne_--que Jacob arranjara ao Ega, para o -Ega se regalar com Rachel. - -Depois, de p, com os olhos no tapete, agitando de vagar o copo -novamente cheio onde a espuma morria, Ega tornou a murmurar, n'aquella -entoao triste de inesperado desapontamento: - ---Que ferro!... - -E aps um momento: - ---Pois menino, pensei que a Gouvarinho te appeteca... - -Carlos confessou que nos primeiros dias, quando Ega lhe fallara d'ella, -tivera um caprichosinho, interessara-se por aquelles cabellos cr de -brasa... - ---Mas agora, mal a conheci, o capricho foi-se... - -Ega sentara-se, com o copo na mo; e depois de contemplar algum tempo as -suas meias de seda, escarlates como as d'um prelado, deixou cair, muito -serio, estas palavras: - --- uma mulher deliciosa, Carlinhos. - -E, como Carlos encolhia os hombros, Ega insistio: a Gouvarinho era uma -senhora de intelligencia e de gosto; tinha originalidade, tinha audacia, -uma pontinha de romantismo muito picante... - ---E, como corpinho de mulher, no ha melhor que aquillo de Badajoz para -c! - ---Vae-te d'ahi, Mephistopheles de Celorico! - -E Ega, divertido, cantarolou: - - - Je suis Mephisto... - Je suis Mephisto... - - -Carlos no entanto, fumando preguiosamente, continuava a fallar na -Gouvarinho e n'essa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com -ella tres palavras n'uma sala. E no era a primeira vez que tinha -d'estes falsos arranques de desejo, vindo quasi com as formas do amor, -ameaando absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e -resolvendo-se em tedio, em secca. Eram como os fogachos de polvora -sobre uma pedra; uma fagulha ata-os, n'um momento tornam-se chamma -vehemente que parece que vae consumir o Universo, e por fim fazem apenas -um rastro negro que suja a pedra. Seria o seu um d'esses coraes de -fraco, molles e flaccidos, que no podem conservar um sentimento, o -deixam fugir, escoar-se pelas malhas lassas do tecido relles? - ---Sou um ressequido! disse elle sorrindo. Sou um impotente de -sentimento, como Satanaz... Segundo os padres da Egreja, a grande -tortura de Satanaz que no pde amar... - ---Que phrases essas, menino! murmurou Ega. - -Como phrases? Era uma atroz realidade! Passava a vida a ver as paixes -falharem-lhe nas mos como phosphoros. Por exemplo, com a coronela de -hussards em Vienna! Quando ella faltou ao primeiro _rendez-vous_, -chorara lagrimas como punhos, com a cabea enterrada no travesseiro e -aos coices roupa. E d'ahi a duas semanas, mandava postar o Baptista -janella do hotel, para elle se safar, mal a pobre coronela dobrasse a -esquina! E com a hollandeza, com Madame Rughel, peior ainda. Nos -primeiros dias foi uma insensatez: queria-se estabelecer para sempre na -Hollanda, casar com ella (apenas ella se divorciasse), outras loucuras; -depois os braos que ella lhe deitava ao pescoo, e que lindos braos, -pareciam-lhe pesados como chumbo... - ---Passa fra, pedante! E ainda lhe escreves! gritou Ega. - ---Isso outra cousa. Ficamos amigos, puras relaes de intelligencia. -Madame Rughel uma mulher de muito espirito. Escreveu um romance, um -d'esses estudos intimos e delicados, como os de Miss Brougthon: chama-se -as _Rosas Murchas_. Eu nunca li, em hollandez... - ---As _Rosas Murchas_! em hollandez! exclamou Ega apertando as mos na -cabea. - -Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monocolo no olho: - ---Tu s extraordinario, menino!... Mas o teu caso simples, o caso de -D. Juan. D. Juan tambem tinha essas alternaes de chamma e cinza. -Andava busca do seu ideal, da _sua mulher_, procurando-a -principalmente, como de justia, entre as mulheres dos outros. E _aprs -avoir couch_, declarava que se tinha enganado, que no era aquella. -Pedia desculpa e retirava-se. Em Hespanha experimentou assim mil e tres. -Tu s simplesmente, como elle, um devasso; e has de vir a acabar -desgraadamente como elle, n'uma tragedia infernal! - -Esvasiou outro copo de _Champagne_, e a grandes passadas pela sala: - ---Carlinhos da minha alma, inutil que ninguem ande busca da _sua -mulher_. Ella vir. Cada um tem a _sua mulher_, e necessariamente tem de -a encontrar. Tu ests aqui, na Cruz dos Quatro Caminhos, ella est -talvez em Pekin: mas tu, ahi a raspar o meu reps com o verniz dos -sapatos, e ella a orar no templo de Confucio, estaes ambos -insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente, marchando um para o -outro!... Estou eloquentissimo hoje, e temos dito cousas idiotas. Toca a -vestir. E, em quanto eu adorno a carcassa, prepara mais phrases sobre -Satanaz! - -Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto--em quanto dentro o Ega -batia com as gavetas, lanando, a todo o desafinado da sua voz roufenha, -a _Barcarolla_ de Gounod. Quando appareceu, vinha de casaca, gravata -branca, enfiando o paletot--com o olho brilhante do _Champagne_. - -Desceram. O pagem l estava porta perfilado, ao p do coup de Carlos, -que esperara. E a sua fardeta azul de botes amarellos, a magnifica -parelha baia reluzindo como um setim vivo, as pratas dos arreios, a -magestade do cocheiro louro com o seu ramo na libr, tudo alli fazia, -junto da Villa Balzac, um quadro rico que deleitou o Ega. - ---A vida agradavel, disse elle. - -O coup partiu, ia entrar no largo da Graa, quando uma caleche de -praa, aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapo baixo -a lendo um grande jornal. - --- o Craft! gritou Ega, debruando-se pela portinhola. - -O coup parou. Ega de um pulo estava na calada, correndo, bradando: - ---Oh Craft! oh Craft! - -Quando, d'ahi a um momento, sentiu duas vozes approximarem-se, Carlos -desceu tambem do coup, achou-se em face d'um homem baixo, louro, de -pelle rosada e fresca, e apparencia fria. Sob o fraque correcto -percebia-se-lhe uma musculatura de athleta. - ---O Carlos, o Craft, gritou o Ega, lanando esta apresentao com uma -simplicidade classica. - -Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a mo. E Ega insistia para -que voltassem todos Villa Balzac, fossem beber a outra garrafa de -_Champagne_, a celebrar o _advento do Justo_! Craft recusou, com o seu -modo calmo e placido; chegara na vespera do Porto, abraara j o nobre -Ega, e aproveitava agora a viagem quelle bairro longinquo para ir vr o -velho Shlegen, um allemo que vivia Penha de Frana. - ---Ento outra cousa! exclamou Ega. Para conversarmos, para que vocs se -conheam mais, venham vocs jantar comigo amanh ao Hotel Central. Dito, -hein? Perfeitamente. s seis. - -Apenas o coup partiu de novo, Ega rompeu nas costumadas admiraes pelo -Craft, encantado com aquelle encontro que dava mais um retoque luminoso - sua alegria. O que o enthusiasmava no Craft era aquelle ar -imperturbavel de gentleman correcto, com que elle egualmente jogaria uma -partida de bilhar, entraria n'uma batalha, arremetteria com uma mulher, -ou partiria para a Patagonia... - --- das melhores cousas que tem Lisboa. Vaes-te morrer por elle... E que -casa que elle tem nos Olivaes, que sublime bric-a-brac! - -Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma ruga na testa: - ---Como diabo soube elle da _Villa Balzac_? - ---Tu no fazes segredo d'ella, hein? - ---No... Mas tambem no a puz nos annuncios! E o Craft chegou hontem, -ainda no esteve com ninguem que eu conhea... curioso! - ---Em Lisboa sabe-se tudo... - ---Canalha de terra! murmurou Ega. - - -O jantar no Central foi addiado, porque o Ega, alargando pouco a pouco a -ida, convertera-o agora n'uma festa de ceremonia em honra do Cohen. - ---Janto l muitas vezes, disse elle a Carlos, estou l todas as -noites... necessario repagar a hospitalidade... Um jantar no Central -o que basta. E para o effeito moral, pespego-lhe meza o marquez e a -besta do Steinbroken. O Cohen gosta de gente assim... - -Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marquez partira para a -Golleg, e o pobre Steinbroken estava soffrendo d'um incommodo de -entranhas. Ega pensou no Cruges e no Taveira--mas receiou a cabelleira -desleixada do Cruges, e alguns dos seus ataques de amargo _spleen_ que -estragaria o jantar. Terminou por convidar dois intimos do Cohen; mas -teve ento de supprimir o Taveira, que estava de mal com um d'esses -cavalheiros por palavras que tinham trocado em casa da Lola gorda. - -Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda feira, Ega -teve uma conferencia com o _maitre de hotel_ do Central, em que lhe -recommendou muita flr, dois ananazes para enfeitar a meza, e exigiu que -um dos pratos do _menu_, qualquer d'elles, fosse _ la Cohen_; e elle -mesmo suggeriu uma ida: _tomates farcies la Cohen_... - -N'essa tarde, s seis horas, Carlos, ao descer a rua do Alecrim para o -Hotel Central, avistou Craft dentro da loja de bric-a-brac do tio -Abraho. - -Entrou. O velho judeo, que estava mostrando a Craft uma falsa faiena do -Rato, arrancou logo da cabea o sujo barrete de borla, e ficou curvado -em dois, diante de Carlos, com as duas mos sobre o corao. - -Depois, n'uma linguagem exotica, misturada d'inglez, pediu ao seu bom -senhor D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seu _beautiful -gentleman_, que se dignasse examinar uma maravilhasinha que lhe tinha -reservada; e o seu muito _generous gentleman_ tinha s a voltar os -olhos, a maravilhasinha estava alli ao lado, n'uma cadeira. Era um -retrato d'hespanhola, apanhado a fortes brochadellas de primeira -impresso, e pondo, sobre um fundo audaz de cr de rosa murcha, uma face -gasta de velha gara, picada das bexigas, caida, ressudando vicio, com -um sorriso bestial que promettia tudo. - -Carlos, tranquillamente, offereceu dez tostes. Craft pasmou d'uma tal -prodigalidade; e o bom Abraho, n'um riso mudo que lhe abria entre a -barba grisalha uma grande boca d'um s dente, saboreou muito a chalaa -dos seus ricos senhores. Dez tostesinhos! Se o quadrinho tivesse por -baixo o nomesinho de Fortuny, valia dez continhos de ris. Mas no tinha -esse nomesinho bemdito... Ainda assim valia dez notasinhas de vinte mil -ris... - ---Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma! exclamou Carlos. - -E sahiram, deixando o velho intrujo porta, curvado em dois, com as -mos sobre o corao, desejando mil felicidades aos seus generosos -fidalgos... - ---No tem uma unica cousa boa, este velho Abraho, disse Carlos. - ---Tem a filha, disse o Craft. - -Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja. Ento, a proposito do -Abraho, fallou a Craft d'essas bellas colleces dos Olivaes, que o -Ega, apesar do desdem que affectava pelo _bibelot_ e pelo movel d'arte, -lhe descrevera como sublimes. - -Craft encolheu os hombros. - ---O Ega no entende nada. Mesmo em Lisboa, no se pde chamar ao que eu -tenho uma colleco. um bric-a-brac d'acaso... De que, de resto, me -vou desfazer! - -Isto surprehendeu Carlos. Comprehendera das palavras do Ega ser essa uma -colleco formada com amor, no laborioso decurso de annos, orgulho e -cuidado d'uma existencia de homem... - -Craft sorrio d'aquella legenda. A verdade era que s em 1872, elle -comeara a interessar-se pelo bric-a-brac; chegava ento da America do -Sul; e o que fora comprando, descobrindo aqui e alm, accumulara-o -n'essa casa dos Olivaes, alugada ento por phantasia, uma manh que -aquelle pardieiro, com o seu bocado de quintal em redor, lhe parecera -pittoresco, sob o sol de abril. Mas agora se podesse desfazer-se do que -tinha, ia dedicar-se ento a formar uma colleco homogenea e compacta -d'arte do seculo desoito. - ---Aqui nos Olivaes? - ---No. N'uma quinta que tenho ao p do Porto, junto mesmo ao rio. - -Entravam ento no peristilo do Hotel Central--e n'esse momento um coup -da Companhia, chegando a largo trote do lado da rua do Arsenal, veiu -estacar porta. - -Um esplendido preto, j grisalho, de casaca e calo, correu logo -portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, -passou-lhe para os braos uma deliciosa cadelinha escosseza, de pellos -esguedelhados, finos como seda e cr de prata; depois apeando-se, -indolente e _poseur_, offereceu a mo a uma senhora alta, loura, com um -meio vo muito apertado e muito escuro que realava o explendor da sua -carnao eburnea. Craft e Carlos affastaram-se, ella passou diante -d'elles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, -deixando atraz de si como uma claridade, um reflexo de cabellos d'ouro, -e um aroma no ar. Trazia um casaco collante de velludo branco de Genova, -e um momento sobre as lages do peristillo brilhou o verniz das suas -bottinas. O rapaz ao lado, esticado n'um fato de xadresinho inglez, -abria negligentemente um telegramma; o preto seguia com a cadelhinha nos -braos. E no silencio a voz de Craft murmurou: - ---_Trs chic_. - -Em cima, no gabinete que o creado lhes indicou, Ega esperava, sentado no -divan de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado -como um noivo de provincia, de camelia ao peito e plastron azul celeste. -O Craft conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o sr. Damaso Salcde, e -mandou servir vermouth, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse -requinte litterario e satanico do _absintho_... - -Fra um dia d'inverno suave e luminoso, as duas janellas estavam ainda -abertas. Sobre o rio, no cu largo, a tarde morria, sem uma aragem, -n'uma paz elysea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas de cr -de rosa; as terras, os longes da outra banda j se iam affogando n'um -vapor avelludado, do tom de violeta; a agoa jazia liza e luzidia como -uma bella chapa d'ao novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro, -grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraados -inglezes, dormiam, com as mastreaes immoveis, como tomados de -preguia, cedendo ao affago do clima doce... - ---Vimos agora l em baixo, disse Craft indo sentar-se no divan, uma -esplendida mulher, com uma esplendida cadellinha _griffon_, e servida -por um esplendido preto! - -O sr. Damaso Salcde, que no despegava os olhos de Carlos, acudiu logo: - ---Bem sei! Os Castro Gomes... Conheo-os muito... Vim com elles de -Bordeus... Uma gente muito chic que vive em Paris. - -Carlos voltou-se, reparou mais n'elle, perguntou-lhe, affavel e -interessando-se: - ---O senhor Salcde chegou agora de Bordeus? - -Estas palavras pareceram deleitar Damaso como um favor celeste: -ergueu-se immediatamente, approximou-se do Maia, banhado n'um sorriso: - ---Vim aqui ha quinze dias, no _Orenoque_. Vim de Paris... Que eu em -podendo l que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordeus. Isto , -verdadeiramente conheci-a a bordo. Mas estavamos todos no _Hotel de -Nantes_... Gente muito chic: creado de quarto, governanta ingleza para a -filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chic a valer! Parece -incrivel, uns brazileiros... Que ella na voz no tem _sutaque_ nenhum, -falla como ns. Elle sim, elle muito _sutaque_... Mas elegante tambem, -v. ex.^a no lhe pareceu? - ---Vermouth? perguntou-lhe o creado, offerecendo a salva. - ---Sim, uma gotinha para o appetite. V. ex.^a no toma, sr. Maia? Pois -eu, assim que posso, direitinho para Paris! Aquillo que terra! -Isto aqui um chiqueiro... Eu, em no indo l todos os annos, acredite -v. ex.^a, at comeo a andar doente. Aquelle _boulevarsinho_, hein!... -Ai, eu goso aquillo!... E sei gosar, sei gosar, que eu conheo aquillo a -palmo... Tenho at um tio em Paris. - ---E que tio! exclamou Ega, approximando-se. Intimo do Gambetta, governa -a Frana... O tio do Damaso governa a Frana, menino! - -Damaso, escarlate, estourava de gso. - ---Ah, l isso influencia tem. Intimo do Gambetta, tratam-se por tu, at -vivem quasi juntos... E no s com o Gambetta; com o Mac-Mahon, com -o Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os -republicanos, emfim!... tudo quanto elle queira. V. ex.^a no o -conhece? um homem de barbas brancas... Era irmo de minha me, -chama-se Guimares. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran... - -N'esse momento a porta envidraada abriu-se de golpe, Ega exclamou: -Saude ao poeta! - -E appareceu um individuo muito alto, todo abotoado n'uma sobrecasaca -preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz -aquilino, longos, espessos, romanticos bigodes grisalhos: j todo calvo -na frente, os anneis ffos d'uma grenha muito secca cahiam-lhe -inspiradamente sobre a golla: e em toda a sua pessoa havia alguma cousa -de antiquado, de artificial e de lugubre. - -Estendeu silenciosamente dous dedos ao Damaso, e abrindo os braos -lentos para Craft, disse n'uma voz arrastada, cavernosa, atheatrada: - ---Ento s tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? D-me c esses -ossos honrados, honrado inglez! - -Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os: - ---No sei se so relaes. Carlos da Maia... Thomaz d'Alencar, o nosso -poeta... - -Era elle! o illustre cantor das _Vozes d'Aurora_, o estylista de -_Elvira_, o dramaturgo do _Segredo do Commendador_. Deu dois passos -graves para Carlos, esteve-lhe apertando muito tempo a mo em -silencio--e sensibilisado, mais cavernoso: - ---V. ex.^a, j que as etiquetas sociaes querem que eu lhe d -excellencia, mal sabe a quem apertou agora a mo... - -Carlos, surprehendido, murmurou: - ---Eu conheo muito de nome... - -E o outro com o olho cavo, o labio tremulo: - ---Ao camarada, ao inseparavel, ao intimo de Pedro da Maia, do meu pobre, -do meu valente Pedro! - ---Ento, que diabo, abracem-se! gritou Ega. Abracem-se, com um berro, -segundo as regras... - -Alencar j tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou, -retomando-lhe as mos, sacudindo-lh'as, com uma ternura ruidosa: - ---E deixemo-nos j de excellencias! que eu vi-te nascer, meu rapaz! -trouxe-te muito ao collo! sujaste-me muita cala! Co'os diabos, d c -outro abrao! - -Craft olhava estas cousas vehementes, impassivel; Damaso parecia -impressionado; Ega apresentou um copo de _vermouth_ ao poeta: - ---Que grande scena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para te recuperares da -emoo... - -Alencar esgotou-o d'um trago: e declarou aos amigos que no era a -primeira vez que via Carlos. J o admirara no seu phaeton, muitas vezes, -e aos seus bellos cavallos inglezes. Mas no se quizera dar a conhecer. -Elle nunca se atirava aos braos de ninguem, a no ser das mulheres... -Foi encher outro calice de _vermouth_, e com elle na mo, plantado -diante de Carlos, comeou, n'um tom pathetico: - ---A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estava eu no -Rodrigues, esquadrinhando alguma d'essa velha litteratura, hoje to -despresada... Lembro-me at que era um volume das _Eclogas_ do nosso -delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da natureza, esse -rouxinol to portuguez, hoje, est claro, mettido a um canto, desde que -para ahi appareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros -esterquilinios em _ismo_... N'esse momento passaste, disseram-me quem -eras, e cahiu-me o livro da mo... Fiquei alli uma hora, acredita, a -pensar, a rever o passado... - -E atirou o _vermouth_ s goellas. Ega, impaciente, olhava o relogio. Um -creado, entrando, accendeu o gaz; a mesa surgiu da penumbra, com um -brilho de cristaes e louas, um luxo de camelias em ramos. - -No entanto Alencar (que luz viva parecia mais gasto e mais velho) -comeara uma grande historia, e como fra elle o primeiro que vira -Carlos depois de nascer, e como fra elle que lhe dera o nome. - ---Teu pae, dizia elle, o meu Pedro, queria-te pr o nome d'Affonso, -d'esse santo, d'esse varo d'outras edades, Affonso da Maia! Mas tua me -que tinha l as suas idas teimou em que havias de ser Carlos. E -justamente por causa d'um romance que eu lhe emprestra; n'esses tempos -podiam-se emprestar romances a senhoras, ainda no havia a pustula e o -puz... Era um romance sobre o ultimo Stuart, aquelle bello typo do -principe Carlos Eduardo, que vocs, filhos, conhecem todos bem, e que na -Escossia, no tempo de Luiz XIV... Emfim, adiante! Tua me, devo dizel-o, -tinha litteratura e da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre, -n'esse tempo eu era _alguem_, e lembro-me de lhe ter respondido... -(Lembro-me apesar de j l irem vinte e cinco annos... Que digo eu? -Vinte e sete! Vejam vocs isto, filhos, vinte e sete annos!) Emfim, -voltei-me para tua me, e disse-lhe, palavras textuaes: Ponha-lhe o -nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que o -verdadeiro nome para o frontespicio d'um poema, para a fama d'um -heroismo ou para o labio d'uma mulher! - -Damaso, que continuava a admirar Carlos, deu _bravos_ estrondosos; Craft -bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de -relogio na mo, soltou de l um _muito bem_ desenxabido. - -Alencar, radiante com o seu effeito, derramava em roda um sorriso que -lhe mostrava os dentes estragados. Abraou outra vez Carlos, atirou uma -palmada ao corao, exclamou: - ---Caramba, filhos, sinto uma luz c dentro! - -A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-se logo da -sua demora--emquanto Ega, que se precipitara para elle, lhe ajudava a -despir o palletot. Depois apresentou-o a Carlos--a unica pessoa alli de -quem o Cohen no era intimo. E dizia, tocando o boto da campainha -electrica: - ---O marquez no pde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coitado, est -com a sua gtta, a gtta de diplomata, de lord e de banqueiro... A gtta -que tu has de ter, velhaco! - -Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suissas to pretas e -luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria, descalando as luvas, -dizendo, que, segundo os inglezes, havia tambem a gtta de gente pobre; -e era essa naturalmente a que lhe competia a elle... - -Ega, no entanto, travara-lhe do brao, collocara-o preciosamente mesa, - sua direita: depois offereceu-lhe um boto de camelia d'um ramo: o -Alencar florio-se tambem--e os creados serviram as ostras. - -Fallou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impressionava -Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado navalha por uma companheira, -vindo morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma -viella em sangue--uma _sarrabulhada_ como disse o Cohen, sorrindo e -provando o Bucellas. - -Damaso teve a satisfao de poder dar detalhes; conhecera a rapariga, a -que dera as facadas, quando ella era amante do visconde da Ermidinha... -Se era bonita? Muito bonita. Umas mos de duqueza... E como aquillo -cantava o _fado_! O peior era que mesmo no tempo do visconde, quando -ella era chic, j se empiteirava... E o visconde, honra lhe seja, nunca -lhe perdera a amisade; respeitava-a, mesmo depois de casado a vel-a, e -tinha-lhe promettido que se ella quizesse deixar o _fado_ lhe punha uma -confeitaria para os lados da S. Mas ella no queria. Gostava d'aquillo, -do Bairro Alto, dos cafs de _lepes_, dos chulos... - -Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um -romance... Isto levou logo a fallar-se do _Assommoir_, de Zola e do -realismo:--e o Alencar immediatmente, limpando os bigodes dos pingos de -spa, supplicou que se no discutisse, hora aceada do jantar, essa -litteratura _latrinaria_. Alli todos eram homens d'aceio, de sala, hein? -Ento, que se no mencionasse o _excremento_! - -Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados -a milhares de edies; essas rudes analyses, apoderando-se da Egreja, da -Realeza, da Bureocracia, da Finana, de todas as cousas santas, -dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a leso, como a cadaveres -n'um amphitheatro; esses estylos novos, to precisos e to ducteis, -apanhando em flagrante a linha, a cr, a palpitao mesma da vida; tudo -isso (que elle, na sua confuso mental, chamava a _Ida nova_) caindo -assim de chofre e escangalhando a cathedral romantica, sob a qual tantos -annos elle tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado o pobre -Alencar e tornara-se o desgosto litterario da sua velhice. Ao principio -reagiu. Para pr um dique definitivo torpe mar, como elle disse em -plena Academia, escreveu dois folhetins crueis; ninguem os leu; a mar -torpe alastrou-se, mais profunda, mais larga. Ento Alencar refugiou-se -na _moralidade_ como n'uma rocha solida. O naturalismo, com as suas -alluvies de obscenidade, ameaava corromper o pudor social? Pois bem. -Elle, Alencar, seria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes. -Ento o poeta das _Vozes d'Aurora_, que durante vinte annos, em -canoneta e ode, propozera commercios lubricos a todas as damas da -capital; ento o romancista de _Elvira_ que, em novella e drama, fizera -a propaganda do amor illegitimo, representando os deveres conjugaes como -montanhas de tedio, dando a todos os maridos formas gordurosas e -bestiaes, e a todos os amantes a belleza, o esplendor e o genio dos -antigos Apollos; ento Thomaz Alencar que (a acreditarem-se as -confisses autobiographicas da _Flr de Martyrio_) passava elle proprio -uma existencia medonha de adulterios, lubricidades, orgias, entre -velludos e vinhos de Chypre--d'ora em diante austero, incorruptivel, -todo elle uma torre de pudicicia, passou a vigiar attentamente o jornal, -o livro, o theatro. E mal lobrigava symptomas nascentes de realismo n'um -beijo que estalava mais alto, n'uma brancura de saia que se arregaava -de mais--eis o nosso Alencar que soltava por sobre o paiz um grande -grito de alarme, corria penna, e as suas imprecaes lembravam (a -academicos faceis de contentar) o rugir de Isaias. Um dia porm, Alencar -teve uma d'estas revelaes que prostram os mais fortes; quanto mais -elle denunciava um livro como immoral, mais o livro se vendia como -agradavel! O Universo pareceu-lhe cousa torpe, e o auctor de _Elvira_ -encavacou... - -Desde ento reduziu a expresso do seu rancor ao minimo, a essa phrase -curta, lanada com nojo: - ---Rapazes, no se mencione o _excremento_! - -Mas n'essa noite teve o regosijo de encontrar alliados. Craft no -admittia tambem o naturalismo, a realidade feia das cousas e da -sociedade estatelada nua n'um livro. A arte era uma idealisao! Bem: -ento que mostrasse os typos superiores d'uma humanidade aperfeioada, -as frmas mais bellas do viver e do sentir... Ega horrorisado apertava -as mos na cabea--quando do outro lado Carlos declarou que o mais -intoleravel no realismo eram os seus grandes ares scientificos, a sua -pretenciosa esthetica deduzida d'uma philosophia alheia, e a invocao -de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mill e -de Darwin, a proposito d'uma lavadeira que dorme com um carpinteiro! - -Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do -realismo estava em ser ainda pouco scientifico, inventar enredos, crear -dramas, abandonar-se phantasia litteraria! a frma pura da arte -naturalista devia ser a monographia, o estudo secco d'um typo, d'um -vicio, d'uma paixo, tal qual como se se tratasse d'um caso pathologico, -sem pittoresco e sem estylo!... - ---Isso absurdo, dizia Carlos, os caracteres s se podem manifestar -pela aco... - ---E a obra d'arte, accrescentou Craft, vive apenas pela frma... - -Alencar interrompeu-os, exclamando que no eram necessarias tantas -philosophias. - ---Vocs esto gastando cra com ruins defuntos, filhos. O realismo -critica-se d'este modo: mo no nariz! Eu quando vejo um d'esses livros, -enfrasco-me logo em agua de colonia. No discutamos o _excremento_. - ---_Sole normande_? perguntou-lhe o creado, adiantando a travessa. - -Ega a fulminal-o. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e -superior a estas controversias de litteraturas, calou-se; occupou-se s -d'elle, quiz saber que tal elle achava aquelle S.^t Emilion; e, quando o -viu confortavelmente servido de _sole normande_, lanou com grande -alarde de interesse esta pergunta: - ---Ento, Cohen, diga-nos voc, conte-nos c... O emprestimo faz-se ou -no se faz? - -E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquella questo do -emprestimo era grave. Uma operao tremenda, um verdadeiro episodio -historico!... - -O Cohen collocou uma pitada de sal beira do prato, e respondeu, com -auctoridade, que o emprestimo tinha de se realisar _absolutamente_. Os -emprestimos em Portugal constituiam hoje uma das fontes de receita, to -regular, to indispensavel, to sabida como o imposto. A unica occupao -mesmo dos ministerios era esta--_cobrar o imposto_ e _fazer o -emprestimo_. E assim se havia de continuar... - -Carlos no entendia de finanas: mas parecia-lhe que, d'esse modo, o -paiz ia alegremente e lindamente para a _banca-rota_. - ---N'um galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen, -sorrindo. Ah, sobre isso, ninguem tem illuses, meu caro senhor. Nem os -proprios ministros da fazenda!... A _banca-rota_ inevitavel: como -quem faz uma somma... - -Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos -escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o calice de novo, fincara -os cotovellos na meza para lhe beber melhor as palavras. - ---A _banca-rota_ to certa, as cousas esto to dispostas para -ella--continuava o Cohen--que seria mesmo facil a qualquer, em dois ou -tres annos, fazer fallir o paiz... - -Ega gritou sofregamente pela _receita_. Simplesmente isto: manter uma -agitao revolucionaria constante; nas vesperas de se lanarem os -emprestimos haver duzentos maganes decididos que cahissem pancada na -municipal e quebrassem os candieiros com vivas Republica; telegraphar -isto em letras bem gordas para os jornaes de Paris, Londres e do Rio de -Janeiro; assustar os mercados, assustar o brazileiro, e a _banca-rota_ -estalava. Smente, como elle disse, isto no convinha a ninguem. - -Ento Ega protestou com vehemencia. Como no convinha a ninguem? Ora -essa! Era justamente o que convinha a todos! _banca-rota_ seguia-se -uma revoluo, evidentemente. Um paiz que vive da _inscripo_, em no -lh'a pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou -procedendo apenas por vingana--o primeiro cuidado que tem varrer a -monarchia que lhe representa o _calote_, e com ella o crasso pessoal do -constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha divida, -da velha gente, d'essa colleco grotesca de bestas... - -A voz do Ega sibillava... Mas, vendo assim tratados de _grotescos_, de -_bestas_, os homens d'ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou -a mo no brao do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, elle -era o primeiro a dizel-o, em toda essa gente que figurava desde 46 havia -mediocres e patetas,--mas tambem homens de grande valor! - ---Ha talento, ha saber, dizia elle com um tom de experiencia. Voc deve -reconhecel-o, Ega... Voc muito exagerado! No senhor, ha talento, ha -saber. - -E, lembrando-se que algumas d'essas _bestas_ eram amigos do Cohen, Ega -reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porm cofiava sombriamente o -bigode. Ultimamente pendia para idas radicaes, para a democracia -humanitaria de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas -letras, refugiava-se no romantismo politico, como n'um asylo paralello: -queria uma republica governada por genios, a fraternisao dos povos, os -Estados Unidos da Europa... Alm d'isso, tinha longas queixas d'esses -politiquotes, agora gente de Poder, outr'ora seus camaradas de redaco, -de caf e de _batota_... - ---Isso, disse elle, l a respeito de talento e de saber, historias... Eu -conheo-os bem, meu Cohen... - -O Cohen acudiu: - ---No senhor, Alencar, no senhor! Voc tambem dos taes... At lhe -fica mal dizer isso... exagerao. No senhor, ha talento, ha saber. - -E o Alencar, peranta esta intimao do Cohen, o respeitado director do -_Banco Nacional_, o marido da divina Rachel, o dono d'essa hospitaleira -casa da rua do Ferregial onde se jantava to bem, recalcou o -despeito--admittiu que no deixava de haver talento e saber. - -Ento, tendo assim, pela influencia do seu Banco, dos bellos olhos da -sua mulher e da excellencia do seu cosinheiro, chamado estes espiritos -rebeldes ao respeito dos Parlamentares e venerao da Ordem, Cohen -condescendeu em dizer, no tom mais suave da sua voz, que o paiz -necessitava reformas... - -Ega porm, incorrigivel n'esse dia, soltou outra enormidade: - ---Portugal no necessita refrmas, Cohen, Portugal o que precisa a -invaso hespanhola. - -Alencar, patriota antiga, indignou-se. O Cohen, com aquelle sorriso -indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, vio -alli apenas um dos paradoxos do nosso Ega. Mas o Ega fallava com -seriedade, cheio de razes. Evidentemente, dizia elle, invaso no -significa perda absoluta de independencia. Um receio to estupido -digno s de uma sociedade to estupida como a do _Primeiro de Dezembro_. -No havia exemplo de seis milhes de habitantes serem engolidos, de um -s trago, por um paiz que tem apenas quinze milhes de homens. Depois -ninguem consentiria em deixar cahir nas mos de Hespanha, nao militar -e maritima, esta bella linha de costa de Portugal. Sem contar as -allianas que teriamos, a troco das colonias--das colonias que s nos -servem, como a prata de familia aos morgados arruinados, para ir -empenhando em casos de crise... No havia perigo; o que nos aconteceria, -dada uma invaso, n'um momento de guerra europea, seria levarmos uma -sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnisao, perdermos uma ou duas -provincias, ver talvez a Galliza estendida at ao Douro... - ---_Poulet aux champignons_, murmurou o creado, apresentando-lhe a -travessa. - -E em quanto elle se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via elle a -_salvao do paiz_, n'essa catastrophe que tornaria povoao hespanhola -Celorico de Basto, a nobre Celorico, bero de heroes, bero dos Egas... - ---N'isto: no ressuscitar do espirito publico e do genio portuguez! -Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tinhamos de fazer um -esforo desesperado para viver. E em que bella situao nos achavamos! -Sem monarchia, sem essa caterva de politicos, sem esse tortulho da -_inscripo_, porque tudo desapparecia, estavamos novos em folha, -limpos, escarollados, como se nunca tivessemos servido. E recomeava-se -uma historia nova, um outro Portugal, um Portugal serio e intelligente, -forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilisao como -outr'ora... Meninos, nada regenera uma nao como uma medonha tara... -Oh Deus d'Ourique, manda-nos o castelhano! E voc, Cohen, passe-me o -S.^t Emilion. - -Agora, n'um rumor animado, discutia-se a invaso. Ah, podia-se fazer uma -bella resistencia! Cohen affianava o dinheiro. Armas, artilheria, iam -comprar-se America--e Craft offereceu logo a sua colleco de espadas -do seculo XVI. Mas generaes? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia -estar barato... - ---O Craft e eu organisamos uma guerrilha, gritou Ega. - ---s ordens, meu coronel. - ---O Alencar, continuava Ega, encarregado de ir despertar pela -provincia o patriotismo, com cantos e com odes! - -Ento o poeta, pousando o calice, teve um movimento de leo que sacode a -juba: - ---Isto uma velha carcassa, meu rapaz, mas no est s para odes! Ainda -se agarra uma espingarda, e como a pontaria boa, ainda vo a terra um -par de gallegos... Caramba, rapazes, s a ida d'essas cousas me pe o -corao negro! E como vocs podem fallar n'isso, a rir, quando se trata -do paiz, d'esta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja m, de -accordo, mas, caramba! a unica que temos, no temos outra! aqui que -vivemos, aqui que rebentamos... Irra, fallemos d'outra cousa, fallemos -de mulheres! - -Dera um repello ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paixo -patriotica... - -E no silencio que se fez Damaso, que desde as informaes sobre a -rapariga do Ermidinha emmudecera, occupado a observar Carlos com -religio, ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de -finura: - ---Se as cousas chegassem a esse ponto, se pozessem assim feias, eu c, -cautela, a-me raspando para Paris... - -Ega triumphou, pulou de gosto na cadeira. Eis alli, no labio synthetico -de Damaso, o grito espontaneo e genuino do brio portuguez! Raspar-se, -pirar-se!... Era assim que d'alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa, -a malta constitucional, desde El-Rei nosso Senhor at aos cretinos de -secretaria!... - ---Meninos, ao primeiro soldado hespanhol que apparea fronteira, o -paiz em massa foge como uma lebre! Vae ser uma debandada unica na -historia! - -Houve uma indignao, Alencar gritou: - ---Abaixo o traidor! - -Cohen interveiu, declarou que o soldado portuguez era valente, maneira -dos turcos--sem disciplina, mas teso. O proprio Carlos disse, muito -serio: - ---No senhor... Ninguem ha de fugir, e ha de se morrer bem. - -Ega rugiu. Para quem estavam elles fazendo essa _pose_ heroica? Ento -ignoravam que esta raa, depois de cincoenta annos de -constitucionalismo, creada por esses sagues da Baixa, educada na -piolhice dos lyceus, roda de syphlis, apodrecida no bolr das -secretarias, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o -musculo como perdera o caracter, e era a mais fraca, a mais covarde raa -da Europa?... - ---Isso so os lisboetas, disse Craft. - ---Lisboa Portugal, gritou o outro. Fra de Lisboa no ha nada. O paiz -est todo entre a Arcada e S. Bento!... - -A mais miseravel raa da Europa! continuava elle a berrar. E que -exercito! Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em -massa no hospital! Com seus olhos tinha elle visto, no dia da abertura -das Crtes, um marujo sueco, um rapago do Norte, fazer debandar, a -soccos, uma companhia de soldados; as praas tinham litteralmente -largado a fugir, com a patrona a batter-lhe os rins; e o official, -enfiado de terror, metteu-se para uma escada, a vomitar!... - -Todos protestaram. No, no era possivel... Mas se elle tinha visto, que -diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos fallazes da phantasia... - ---Juro pela saude da mam! gritou Ega furioso. - -Mas emmudeceu. O Cohen tocara-lhe no brao. O Cohen a fallar. - -O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os hespanhoes -porm pensassem na invaso isso parecia-lhe certo--sobretudo se viessem, -como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lh'o dissera. J -havia mesmo negocios de fornecimentos entabolados... - ---Hespanholadas, gallegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e -torcendo os bigodes. - ---No _Hotel de Paris_, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um -magistrado, que me disse com um certo ar que no perdia a esperana de -se vir estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa, -quando c estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que ha muitos -hespanhoes que esto espera d'este augmento de territorio para se -empregarem! - -Ento Ega cahiu em extasi, apertou as mos contra o peito. Oh que -delicioso trao! Oh que admiravelmente observado! - ---Este Cohen! exclamava elle para os lados. Que finamente observado! Que -trao adoravel! Hein, Craft? Hein, Carlos? Delicioso! - -Todos cortezmente admiraram a finura do Cohen. Elle agradecia, com o -olho enternecido, passando pelas suissas a mo onde reluzia um diamante. -E n'esse momento os creados serviam um prato de ervilhas n'um molho -branco, murmurando: - ---_Petits pois a la Cohen_. - -_A la Cohen?_ Cada um verificou o seu _menu_ mais attentamente. E l -estava, era o legume: _petits pois a la Cohen!_ Damaso, enthusiasmado, -declarou isto chic a valer! E fez-se, com o Champagne que se abria, a -primeira saude ao Cohen! - -Esquecera-se a banca rota, a invaso, a patria--o jantar terminava -alegremente. Outras _saudes_ crusaram-se, ardentes e loquazes: o proprio -Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de creana, bebeu -Revoluo e Anarchia, brinde complicado, que o Ega erguera, j com o -olho muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremeza alastrava-se, -destroada; no prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a -bocados de ananaz mastigado. Damaso, todo debruado sobre Carlos, -fazia-lhe o elogio da parelha ingleza, e d'aquelle _phaeton_ que era a -cousa mais linda que passeiava Lisboa. E logo depois do seu brinde de -demagogo, sem razo, Ega arremettera contra Craft, injuriando a -Inglaterra, querendo excluil-a d'entre as naes pensantes, ameaando-a -de uma revoluo social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com -acenos de cabea, imperturbavel, partindo nozes. - -Os creados serviram o caf. E como havia j tres longas horas que -estavam meza, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na -animao viva que dera o _Champagne_. A sala, de tecto baixo, com os -cinco bicos de gaz ardendo largamente, enchera-se de um calor pesado, -onde se ia espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores -por entre a nevoa alvadia do fumo. - -Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e ahi -recomeou logo, n'aquella communidade de gostos que os comeava a ligar, -a conversa da rua do Alecrim sobre a bella colleco dos Olivaes. Craft -dava detalhes; a cousa rica e rara que tinha era um armario hollandez do -seculo XVI; de resto, alguns bronzes, faianas e boas armas... - -Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto meza, -estridencias de voz, e como um conflicto que rompia: Alencar, sacudindo -a grenha, gritava contra a _palhada philosophica_; e do outro lado, com -o calice de cognac na mo, Ega, pallido e affectando uma tranquillidade -superior, declarava toda essa babuge lyrica que por ahi se publica digna -da policia correccional... - ---Pegaram-se outra vez, veiu dizer Damaso a Carlos, approximando-se da -varanda. por causa do Craveiro. Esto ambos divinos! - -Era com effeito a proposito de poesia moderna, de Simo Craveiro, do seu -poema a _Morte de Satanaz_. Ega estivera citando, com enthusiasmo, -estrophes do episodio da _Morte_, quando o grande esqueleto symbolico -passa em pleno sol no Boulevard, vestido como uma cocotte, arrastando -sedas rumorosas - - - E entre duas costellas, no decotte, - Tinha um bouquet de rosas! - - -E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da _Ida nova_, o -paladino do Realismo, triumphara, cascalhara, denunciando logo n'essa -simples estrophe dois erros de grammatica, um verso errado, e uma imagem -roubada a Beaudelaire! - -Ento Ega, que bebera um sobre outro dois calices de cognac, tornou-se -muito provocante, muito pessoal. - ---Eu bem sei por que tu fallas, Alencar, dizia elle agora. E o motivo -no nobre. por causa do epigramma que elle te fez: - - - O Alencar d'Alemquer, - Acceso com a primavera... - - ---Ah, vocs nunca ouviram isto? continuou elle voltando-se, chamando os -outros. delicioso, das melhores cousas do Craveiro. Nunca ouviste, -Carlos? sublime, sobre tudo esta estrophe: - - - O Alencar d'Alemquer - Que quer? Na verde campina - No colhe a tenra bonina - Nem consulta o malmequer... - Que quer? Na verde campina - O Alencar d'Alemquer - Quer menina! - - -Eu no me lembro do resto, mas termina com um grito de bom senso, que -a verdadeira critica de todo esse lyrismo pandilha: - - - O Alencar d'Alemquer - Quer cacete! - - -Alencar passou a mo pela testa livida, e com o olho cavo fito no outro, -a voz rouca e lenta: - ---Olha, Joo da Ega, deixa-me dizer-te uma cousa, meu rapaz... Todos -esses epigrammas, esses dichotes lorpas do rachitico e dos que o -admiram, passam-me pelos ps como um enxurro de cloaca... O que fao -arregaar as calas! Arregao as calas... Mais nada, meu Ega. Arregao -as calas! - -E arregaou-as realmente, mostrando a ceroula, n'um gesto brusco e de -delirio. - ---Pois quando encontrares enchurros d'esses, gritou-lhe o Ega, agacha-te -e bebe-os! Do-te sangue e fora ao lyrismo! - -Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar: - ---Eu, se esse Craveirete no fosse um rachitico, talvez me entretivesse -a rolal-o aos pontaps por esse Chiado abaixo, a elle e versalhada, a -essa lambisgonhice excrementicia com que seringou Satanaz! E depois de o -besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o craneo! - ---No se esborracham assim craneos, disse de l o Ega n'um tom frio de -troa. - -Alencar voltou para elle uma face medonha. A colera e o cognac -incendiavam-lhe o olhar; todo elle tremia: - ---Esborrachava-lh'o, sim, esborrachava, Joo da Ega! Esborrachava-lh'o -assim, olha, assim mesmo!--Rompeu a atirar patadas ao soalho, abalando a -sala, fazendo tilintar crystaes e louas.--Mas no quero, rapazes! -Dentro d'aquelle craneo s ha excremento, vomito, puz, materia verde, e -se lh'o esborrachasse, por que lh'o esborrachava, rapazes, todo o miollo -podre sahia, empestava a cidade, tinhamos o cholera! Irra! Tinhamos a -peste! - -Carlos, vendo-o to excitado, tornou-lhe o brao, quiz calmal-o: - ---Ento, Alencar! Que tolice... Isso vale l a pena!... - -O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o -ultimo desabafo: - ---Com effeito, no vale a pena ninguem zangar-se por causa d'esse -Craveirote da _Ida nova_, esse caloteiro, que se no lembra que a porca -da irm uma meretriz de doze vintens em Marco de Canavezes! - ---No, isso agora de mais, pulha! gritou Ega, arremeando-se, de -punhos fechados. - -Cohen e Damaso, assustados, agarraram-n'o. Carlos puchara logo para o -vo da janella o Alencar que se debatia, com os olhos chammejantes, a -gravata solta. Tinha cahido uma cadeira; a correcta sala, com os seus -divans de marroquim, os seus ramos de camelias, tomava um ar de taverna, -n'uma bulha de faias, entre a fumaraa de cigarros. Damaso, muito -pallido, quasi sem voz, a d'um a outro: - ---Oh meninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no -Hotel Central!... - -E, d'entre os braos do Cohen, Ega berrava, j rouco: - ---Esse pulha, esse covarde... Deixe-me, Cohen! No, isso hei de -esbofeteal-o!... A D. Anna Craveiro, uma santa!... Esse calumniador... -No, isso hei de esganal-o!... - -Craft, no entanto, impassivel, bebia aos golos a sua chartreuse. J -presencera, mais vezes, duas litteraturas rivaes engalphinhando-se, -rolando no cho, n'um latir de injurias: a torpeza do Alencar sobre a -irm do outro fazia parte dos costumes de critica em Portugal: tudo isso -o deixava indifferente, com um sorriso de desdem. Alm d'isso sabia que -a reconciliao no tardaria, ardente e com abraos. E no tardou. -Alencar sahiu do vo da janella, atraz de Carlos, abotoando a -sobrecasaca, grave e como arrependido. A um canto da sala, Cohen fallava -ao Ega com auctoridade, severo, maneira d'um pae: depois voltou-se, -ergueu a mo, ergueu a voz, disse que alli todos eram cavalheiros: e -como homens de talento e de corao fidalgo os dois deviam abraar-se... - ---V, um _shake-hands_, Ega, faa isso por mim!... Alencar, vamos, -peo-lh'o eu! - -O auctor de _Elvira_ deu um passo, o auctor das _Memorias d'um Atomo_ -estendeu a mo: mas o primeiro aperto foi gche e molle. Ento Alencar, -generoso e rasgado, exclamou que entre elle e o Ega no devia _ficar uma -nuvem!_ Tinha-se excedido... Fra o seu desgraado genio, esse calor de -sangue, que durante toda a existencia s lhe trouxera lagrimas! E alli -declarava bem alto que Anna Craveiro era uma santa! Tinha-a conhecido em -Marco de Canavezes, em casa dos Peixotos... Como esposa, como me, Anna -Craveiro era impeccavel. E reconhecia, do fundo d'alma, que o Craveiro -tinha carradas de talento!... - -Encheu um copo de _Champagne_, ergueu-o alto, diante do Ega, como um -calice de altar: - --- tua, Joo! - -Ega, generoso tambem, respondeu: - --- tua, Thomaz! - -Abraaram-se. Alencar jurou que ainda na vespera, em casa de D. Joanna -Coutinho, elle dissera que no conhecia ninguem mais scintillante que o -Ega! Ega affirmou logo que em poemas nenhuns corria, como nos do -Alencar, uma to bella veia lyrica. Apertaram-se outra vez, com palmadas -pelos hombros. Trataram-se de _irmos na arte_, trataram-se de -_genios_!... - ---So extraordinarios, disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapo. -Desorganisam-me, preciso ar!... - -A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais cognac. Depois -Cohen sahiu levando o Ega. Damaso e Alencar desceram com Carlos--que ia -recolher a p pelo Aterro. - - porta, o poeta parou com solemnidade. - ---Filhos, exclamou elle tirando o chapo e refrescando largamente a -fronte, ento? Parece-me que me portei como um gentleman! - -Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade... - ---Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que ser -gentleman! E agora vamos l por esse Aterro fra... Mas deixa-me ir alli -primeiro comprar um pacote de tabaco... - ---Que typo! exclamou Damaso, vendo-o affastar-se. E a cousa a-se pondo -feia... - -E immediatamente, sem transio, comeou a fazer elogios a Carlos. O sr. -Maia no imaginava ha quanto tempo elle desejava conhecel-o! - ---Oh senhor... - ---Creia v. ex.^a... Eu no sou de sabujices... Mas pode v. ex.^a -perguntar ao Ega, quantas vezes o tenho dito: v. ex.^a a cousa melhor -que ha em Lisboa! - -Carlos, baixava a cabea, mordendo o riso. Damaso, repetia, do fundo do -peito. - ---Olhe que isto sincero, sr. Maia! Acredite v. ex.^a que isto do -corao! - -Era realmente sincero. Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera alli, -n'aquelle moo gordo e bochechudo, sem o saber, uma adorao muda e -profunda; o proprio verniz dos seus sapatos, a cr das suas luvas eram -para o Damaso motivo de venerao, e to importantes como principios. -Considerava Carlos um typo supremo de _chic_, do seu querido _chic_, um -Brummel, um d'Orsay, um Morny,--uma d'estas cousas que s se vem l -fra, como elle dizia arregalando os olhos. N'essa tarde sabendo que -vinha jantar com o Maia, conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho -experimentando gravatas, perfumara-se como para os braos d'uma -mulher;--e por causa de Carlos mandara estacionar alli o coup, s dez -horas, com o cocheiro de ramo ao peito. - ---Ento essa senhora brazileira vive aqui? perguntou Carlos, que dera -dous passos, olhava uma janella allumiada no segundo andar. - -Damaso seguiu-lhe o olhar. - ---Vive l do outro lado. Esto aqui ha quinze dias... Gente _chic_... E -ella de appetecer, v. ex.^a reparou? Eu a bordo atirei-me... E ella -dava cavaco! Mas tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar -aqui, soire acol, umas aventurasitas... No tenho podido c vir, -deixei-lhes s bilhetes; mas trago-a d'olho, que ella demora-se... -Talvez venha c manh, estou c agora a sentir umas cocegas... E se me -pilho s com ella, zs, ferro-lhe logo um beijo! Que eu c, no sei se -v. ex.^a a mesma cousa, mas eu c, com mulheres, a minha theoria -esta: attraco! Eu c, logo: attraco! - -N'esse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca. Damaso -despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para que Carlos ouvisse, a -adresse da Morelli, a segunda dama de S. Carlos. - ---Bom rapaz, este Damaso, dizia Alencar, travando de brao de Carlos, ao -seguirem ambos pelo Aterro. l muito dos Cohens, muito querido na -sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou -muito teu pae; e a mim tambem. Mas elle assigna Salcede; talvez nome da -me; ou talvez inventado. Bom rapaz... O pae era um velhaco! Parece que -estou a ouvir o Pedro dizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e -do grande: Silva judeu, dinheiro, e a rdo!... Outros tempos, meu -Carlos, grandes tempos. Tempos de gente! - -E ento por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gaz -dormente luzindo em fila d'enterro, Alencar foi fallando d'esses -grandes tempos da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, atravz das -suas phrases de lyrico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado d'esse -mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor -das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou -rebentando pilecas de sejes em galopadas para Cintra. Cintra era ento -um ninho de amores, e sob as suas romanticas ramagens as fidalgas -abandonavam-se aos braos dos poetas. Ellas eram Elviras, elles eram -Antonys. O dinheiro abundava; a crte era alegre; a Regenerao -litterata e galante ia engrandecer o paiz, bello jardim da Europa; os -bachareis chegavam de Coimbra, frementes de eloquencia; os ministros da -cora recitavam ao piano; o mesmo sopro lyrico inchava as odes e os -projectos de lei... - ---Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos. - ---Era outra cousa, meu Carlos! Vivia-se! No existiriam esses ares -scientificos, toda essa palhada philosophica, esses badamecos -positivistas... Mas havia corao, rapaz! Tinha-se faisca! Mesmo n'essas -cousas da politica... V esse chiqueiro agora ahi, essa malta de -bandalhos... N'esse tempo a-se alli camara e sentia-se a inspirao, -sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeas!... E depois, menino, havia -muitissimo boas mulheres. - -Os hombros descahiam-lhe na saudade d'esse mundo perdido. E parecia mais -lugubre, com a sua grenha d'inspirado sahindo-lhe de sob as abas largas -do chapo velho, a sobrecasaca coada e mal feita collando-se-lhe -lamentavelmente s ilhargas. - -Um momento caminharam em silencio. Depois, na rua das Janellas Verdes, o -Alencar _quiz refrescar_. Entraram n'uma pequena venda, onde a mancha -amarella d'um candieiro de petroleo destacava n'uma penumbra de -subterraneo, allumiando o zinco humido do balco, garrafas nas -prateleiras, e o vulto triste da patroa com um leno amarrado nos -queixos. Alencar parecia intimo no estabelecimento: apenas soube que a -sr.^a Candida estava com dr de dentes, aconselhou logo remedios, -familiar, descido das nuvens romanticas, com os cotovellos sobre o -balco. E quando Carlos quiz pagar a canna branca zangou-se, bateu a sua -placa de dois tostes sobre o zinco polido, exclamou, com nobreza: - ---Eu que fao a honra da bodega, meu Carlos! Nos palacios os outros -pagaro... C na taberna pago eu! - - porta tomou o brao de Carlos. Depois d'alguns passos lentos no -silencio da rua, parou de novo, e murmurou n'uma voz vaga, -contemplativa, como repassada da vasta solemnidade da noite: - ---Aquella Rachel Cohen divinamente bella, menino! Tu conhecel'a? - ---De vista. - ---No te faz lembrar uma mulher da Biblia? No digo l uma d'essas -viragos, uma Judith, uma Dalila... Mas um d'esses lyrios poeticos da -Biblia... seraphica! - -Era agora a paixo platonica do Alencar, a sua dama, a sua Beatriz... - ---Tu viste ha tempos, no _Diario Nacional_, os versos que eu lhe fiz? - - - Abril chegou! S minha - Dizia o vento rosa. - - -No me sahiu mau! Aqui ha uma maliciasinha: _Abril chegou, s minha_... -Mas logo: _dizia o vento rosa_. Comprehendes? Calhou bem este effeito. -Mas no imagines l outras cousas, ou que lhe fao a crte... Basta ser -a mulher do Cohen, um amigo, um irmo... E a Rachel, para mim, -coitadinha, como uma irm... Mas divina. Aquelles olhos, filho, um -velludo liquido!... - -Tirou o chapeu, refrescou a fronte vasta. Depois n'outro tom, e como a -custo: - ---Aquelle Ega tem muito talento... Vae l muito aos Cohens... A Rachel -acha-lhe graa... - -Carlos parra, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar -severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz. - ---Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou -andando por aqui para a minha toca. E quando quizeres, filho, l me tens -na rua do Carvalho, 52, 3.^o andar. O predio meu, mas eu occupo o -terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido -trepando... A unica cousa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, de -andares... - -Teve um gesto, como desdenhando essas miserias. - ---E has de ir l jantar um dia. No te posso dar um banquete, mas has de -ter uma sopa e um assado... O meu Matheus, um preto, (um amigo!) que me -serve ha muito anno, quando ha que cosinhar, sabe cosinhar! Fez muito -jantar a teu pae, ao meu pobre Pedro... Que aquillo foi casa de alegria, -meu rapaz. Dei l cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita -d'essa canalha que hoje por ahi trota em coup da companhia e de correio -atraz... E agora, quando me avistam, voltam para o lado o focinho... - ---Isso so imaginaes, disse Carlos com amisade. - ---No so, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. No -so. Tu no sabes a minha vida. Tenho soffrido muito repello, rapaz. E -no o merecia! Palavra, que o no merecia. - -Agarrou o brao de Carlos, e com a voz abalada: - ---Olha que esses homens que por ahi figuram embebedavam-se comigo, -emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora so -ministros, so embaixadores, so personagens, so o diabo. Pois -offereceram-te elles um bocado do _bolo_ agora que o teem na mo? No. -Nem a mim. Isto duro, Carlos, isto muito duro, meu Carlos. E que -diabo, eu no queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma -embaixada... Mas ahi alguma cousa n'uma secretaria... Nem um chavelho! -Emfim, ainda h para o bocado do po, e para a meia ona do tabaco... -Mas esta ingratido tem-me feito cabellos brancos... Pois no te quero -massar mais, e que Deus te faa feliz como tu mereces, meu Carlos! - ---Tu no queres subir um bocado, Alencar? - -Tanta franqueza enterneceu o poeta. - ---Obrigado, rapaz, disse elle, abraando Carlos. E agradeo-te isso, -porque sei que vem do corao... Todos vocs teem corao... J teu pae -o tinha, e largo, e grande como o d'um leo! E agora cr uma cousa: -que tens aqui um amigo. Isto no palavriado, isto vem de dentro... -Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto? - -Carlos acceitou logo, como um presente do ceu. - ---Ento ahi tens um charuto, filho! exclamou Alencar com enthusiasmo. - -E aquelle charuto dado a um homem to rico, ao dono do Ramalhete, -fazia-o por um momento voltar aos tempos em que n'esse Marrare elle -estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo -triste. Interessou-se ento pelo charuto. Accendeu elle mesmo um -phosphoro. Verificou se ficava bem acceso. E que tal, charuto rasoavel? -Carlos achava um excellente charuto! - ---Pois ainda bem que te dei um bom charuto! - -Abraou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando elle emfim se -affastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de -_fado_. - - -Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o pessimo charuto do -Alencar estirado n'uma chaise-longue, em quanto Baptista lhe fazia uma -chavena de ch, ficou pensando n'esse estranho passado que lhe evocara o -velho lyrico... - -E era sympathico o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao fallar -de Pedro, d'Arroios, dos amigos e dos amores d'ento, elle evitara -pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro -fra, estivera para lhe dizer:--pdes fallar da mam, amigo Alencar, que -eu sei perfeitamente que ella fugiu com um italiano! - -E isto fl-o insensivelmente recordar da maneira como essa lamentavel -historia lhe fra revelada, em Coimbra, n'uma noite de troa, quasi -grotescamente. Por que o av, obdecendo carta testamentaria de Pedro, -contara-lhe um romance decente: um casamento de paixo, -incompatibilidades de naturezas, uma separao cortez, depois a retirada -da mam com a filha para a Frana, onde tinham morrido ambas. Mais nada. -A morte de seu pae fra-lhe apresentada sempre como o brusco remate -d'uma longa nevrose... - -Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceiado ambos; Ega -muito bebedo, e n'um accesso de idealismo, lanara-se n'um paradoxo -tremendo, condemnando a honestidade das mulheres como origem da -decadencia das raas: e dava por prova os bastardos, sempre -intelligentes, bravos, gloriosos! Elle, Ega, teria orgulho se sua me, -sua propria me, em logar de ser a santa burgueza que resava o tero -lareira, fosse como a me de Carlos, uma inspirada, que por amor d'um -exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir -isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas no -poude interrogar o Ega, que j taramellava, agoniado, e que no tardou a -vomitar-lhe ignobilmente nos braos. Teve de o arrastar casa das -Seixas, despil-o, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, at que o -deixou abraado ao travesseiro, babando-se, balbuciando--que queria ser -bastardo, que queria que a mam fosse uma marafona!... - -E elle mal podera dormir essa noite, com a ida d'aquella me, to outra -do que lhe haviam contado, fugindo nos braos d'um desterrado--um polaco -talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe, -pela sua grande amisade, a verdade toda... - -Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o leno que tinha amarrado -na cabea com pannos de agua sedativa: e no achava uma palavra, -coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco, -tranquillisou-o. No vinha alli offendido, vinha alli curioso! -Tinham-lhe occultado um episodio extraordinario da sua gente, que diabo, -queria sabel-o! Havia romance? Para alli o romance! - -Ega, ento, l ganhou animo, l balbuciou a sua historia--a que ouvira -ao tio Ega--a paixo de Maria por um principe, a fuga, o longo silencio -d'annos que se fizera sobre ella... - -Justamente as ferias chegavam. Apenas em S.^{ta} Olavia, Carlos contou -ao av a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquella revelao -vinda entre arrotos. Pobre av! Um momento nem poude fallar--e a voz por -fim veiu-lhe to debil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse -morrendo o corao. Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance -todo at quella tarde em que Pedro lhe apparecera, livido, coberto de -lama, a cahir-lhe nos braos, chorando a sua dr com a fraqueza d'uma -creana.--E o desfecho d'esse amor culpado, accrescentara o av, fra a -morte da me em Vienna d'Austria, e a morte da pequenita, da neta que -elle nunca vira, e que a Monforte levara... E eis ahi tudo. E assim, -aquella vergonha domestica estava agora enterrada, alli, no jazigo de -S.^{ta} Olavia, e em duas sepulturas distantes, em paiz estrangeiro... - -Carlos recordava-se bem que n'essa tarde, depois da melancolica conversa -com o av, devia elle experimentar uma egoa ingleza: e ao jantar no se -fallou seno da egoa que se chamava _Sultana_. E a verdade era que d'ahi -a dias tinha esquecido a mam. Nem lhe era possivel sentir por esta -tragedia seno um interesse vago e como litterario. Isso passara-se -havia vinte e tantos annos, n'uma sociedade quasi desapparecida. Era -como o episodio historico de uma velha chronica de familia, um -antepassado morto em Alcacer-Kebir, ou uma das suas avs dormindo n'um -leito real. Aquillo no lhe dera uma lagrima, no lhe pozera um rubor na -face. De certo, prefiriria poder orgulhar-se de sua me, como d'uma rara -e nobre flr de honra: mas no podia ficar toda a vida a amargurar-se -com os seus erros. E porque? A sua honra d'elle no dependia dos -impulsos falsos ou torpes que tivera o corao d'ella. Peccara, morrera, -acabou-se. Restava, sim, aquella ida do pae, findando n'uma poa de -sangue, no desespero d'essa traio. Mas no conhecera seu pae: tudo o -que possuia d'elle e da sua memoria, para amar, era uma fria tela mal -pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moo moreno, de -grandes olhos, com luvas de camura amarellas e um chicote na mo... De -sua me no ficara nem um daguerreotypo, nem sequer um contorno a lapis. -O av tinha-lhe dito que era loura. No sabia mais nada. No os -conhecera; no lhes dormira nos braos; nunca recebera o calor da sua -ternura. Pae, me, eram para elle como symbolos d'um culto convencional. -O pap, a mam, os seres amados, estavam alli todos--no av. - -Baptista trouxera o ch, o charuto do Alencar acabara;--e elle -continuava na chaise-longue, como amollecido n'estas recordaes, e -cedendo j, n'um meio adormecimento, fadiga do longo jantar... E -ento, pouco a pouco, diante das suas palpebras cerradas, uma viso -surgiu, tomou cr, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria -n'uma paz elysia. O peristillo do Hotel Central alargava-se, claro -ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no collo. Uma mulher -passava, alta, com uma carnao eburnea, bella como uma Deusa, n'um -casaco de velludo branco de Genova. O Craft dizia ao seu lado -_trs-chic_. E elle sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, -tomando o relevo, a linha ondeante, e a colorao de cousas vivas. - -Eram tres horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escurido dos -cortinados de seda, outra vez um bello dia de inverno morria sem uma -aragem, banhado de cr de rosa: o banal peristillo de Hotel alargava-se, -claro ainda na tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadellinha nos -braos; uma mulher passava, com um casaco de velludo branco de Genova, -mais alta que uma creatura humana, caminhando sobre nuvens, com um -grande ar de Juno que remonta ao Olympo: a ponta dos seus sapatos de -verniz enterrava-se na luz do azul, por trs as saias batiam-lhe como -bandeiras ao vento. E passava sempre... O Craft dizia _trs-chic_. -Depois tudo se confundia, e era s o Alencar, um Alencar colossal, -enchendo todo o cu, tapando o brilho das estrellas com a sua -sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaando ao vendaval das -paixes, alando os braos, clamando no espao: - - - Abril chegou, s minha! - - - - -VII - - -No Ramalhete, depois do almoo, com as tres janellas do escriptoro -abertas bebendo a tepida luz do bello dia de maro, Affonso da Maia e -Craft jogavam uma partida de xadrez ao p da chamin j sem lume, agora -cheia de plantas, fresca e festiva como um altar domestico. N'uma facha -obliqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo Bonifacio, enorme e ffo, -dormia de leve a sua sesta. - -Craft tornara-se, em poucas semanas, intimo no Ramalhete. Carlos e elle, -tendo muitas similitudes de gosto e de idas, o mesmo fervor pelo -_bric-a-brac_ e pelo _bibelot_, o uso apaixonado da esgrima, egual -dilettantismo d'espirito, uniram-se immediatamente em relaes de -superficie, faceis e amaveis. Affonso, por seu lado comeara logo a -sentir uma estima elevada por aquelle gentleman de boa raa ingleza, -como elle os admirava, cultivado e forte, de maneiras graves, de habitos -rijos, sentindo finamente e pensando com rectido. Tinham-se encontrado -ambos enthusiastas de Tacito, de Macaulay, de Burke, e at dos poetas -lakistas; Craft era grande no xadrez; o seu carater ganhara nas longas e -trabalhadas viagens a rica solidez d'um bronze; para Affonso da Maia -aquillo era deveras um homem. Craft, madrugador, sahia cedo dos -Olivaes a cavallo, e vinha assim s vezes almoar de surpreza com os -Maias; por vontade de Affonso jantaria l sempre;--mas ao menos as -noites passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo emfim, como elle -dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem -sentado, no meio de idas, e com boa educao. - -Carlos sahia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquella revoada de -clientella que lhe dera esperanas d'uma carreira cheia, activa, tinha -passado miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe tres doentes no -bairro; e sentia agora que as suas carruagens, os cavallos, o Ramalhete, -os habitos de luxo, o condemnavam irremediavelmente ao _dillettantismo_. -J o fino dr. Theodosio lhe dissera um dia, francamente: voc muito -elegante p'ra medico! As suas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem - o burguez que lhe vae confiar a esposa dentro d'uma alcova?... Voc -aterra o pater-familias! O laboratorio mesmo prejudicara-o. Os collegas -diziam que o Maia, rico, intelligente, avido de innovaes, de -modernismos, fazia sobre os doentes experiencias fataes. Tinha-se -troado muito a sua ida, apresentada na _Gazeta Medica_, a preveno -das epidemias pela inoculao dos virus. Consideravam-no um phantasista. -E elle, ento, refugiava-se todo n'esse livro sobre a medicina antiga e -moderna, o _seu livro_, trabalhado com vagares d'artista rico, -tornando-se o interesse intellectual de um ou dous annos. - -N'essa manh, em quanto dentro proseguia grave e silenciosa a partida de -xadrez, Carlos no terrasso, estendido n'uma vasta cadeira india de -bambu, sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma _Revista_ -ingleza, banhado pela caricia tepida d'aquelle bafo de primavera que -avelludava o ar, fazia j desejar arvores e relvas... - -Ao lado d'elle, n'uma outra cadeira de bambu, tambem de charuto na boca, -o sr. Damaso Salcede percorria o _Figaro_. De perna estirada, n'uma -indolencia familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao -terrasso as rosas das roseiras de Affonso, sentindo por trs, atravez -das janellas abertas, o rico e nobre interior do Ramalhete--o filho do -agiota saboreava alli uma d'essas horas deliciosas que ultimamente -encontrava na intimidade dos Maias. - -Logo na manh seguinte ao jantar do Central, o sr. Salcede fra ao -Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos, -tendo ao angulo, n'uma dobra simulada, o seu retratosinho em -photographia, um capacete com plumas por cima do nome--DAMASO CANDIDO DE -SALCEDE, por baixo as suas honras--Commendador de Christo, ao fundo a -sua adresse--_Rua de S. Domingos, Lapa_; mas esta indicao estava -riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais apparatosa--Grand -Hotel, Boulevard des Capucines, Chambre N.^o 103. Em seguida procurou -Carlos no consultorio, confiou ao creado outro carto. Emfim, uma tarde, -no Aterro, vendo passar Carlos a p, correu para elle, pendurou-se -d'elle, conseguiu acompanhal-o ao Ramalhete. - -Ahi, logo desde o pateo, rompeu em admiraes extaticas, como dentro -d'um museu, lanando, diante dos tapetes, das faienas e dos quadros, a -sua grande phrase--_chic_ a valer! Carlos levou-o para o _fumoir_, -elle aceitou um charuto; e comeou a explicar, de perna traada, algumas -das suas opinies e alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin, -e s estava bem em Paris--sobre tudo por causa do genero femea de que -em Lisboa se passavam fomes: ainda que n'esse ponto a Providencia no o -tratava mal. Gostava tambem do _bric-a-brac_; mas apanhava-se muita -espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, no lhe pareciam commodas -para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguem o pilhava sem -livros cabeceira da cama; ultimamente andava s voltas com Daudet, que -lhe diziam ser muito _chic_, mas elle achava-o confusote. Em rapaz -perdia sempre as noites, at s quatro ou cinco da madrugada, no -delirio! Agora no, estava mudado e pacato; emfim, no dizia que de vez -em quando no se abandonasse a um excessozinho; mas s em dias duples... -E as suas perguntas foram terriveis. O sr. Maia achava _chic_ ter um -_cab_ inglez? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade -que quizesse ir passar o vero l fra, Nice ou Trouville?... Depois ao -sahir, muito serio, quasi commovido, perguntou ao sr. Maia (se o sr. -Maia no fazia segredo) quem era o seu alfaiate. - -E desde esse dia, no o deixou mais. Se Carlos apparecia no theatro, -Damaso immediatamente arrancava-se da sua cadeira, s vezes na -solemnidade d'uma bella aria, e pisando os botins dos cavalheiros, -amarrotando a compostura das damas, abalava, abria d'estalo a _claque_, -vinha-se installar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada, -camelia na casaca, exhibindo os botes de punho que eram duas enormes -bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Gremio, -Damaso abandonou logo a partida, indifferente indignao dos -parceiros, para se vir collar ilharga do Maia, offerecer-lhe -marrasquino ou charutos, seguil-o de sala em sala como um rafeiro. N'uma -d'essas occasies, tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Damaso -rompendo em risadas soluantes, rebolando-se pelos sophs, com as mos -nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se socios; elle, -suffocado, repetia a pilheria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odial-o; -respondia-lhe s com monossyllabos; dava voltas perigosas com o -_dog-cart_ se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa rolia. Debalde: -Damaso Candido Salcede filara-o, e para sempre. - -Depois, um dia, Taveira appareceu no Ramalhete com uma extraordinaria -historia. Na vespera, no Gremio (tinham-lhe contado, elle no -presenceara) um sujeito, um Gomes, n'um grupo onde se commentavam os -Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era um asno! Damaso, que -estava ao lado mergulhado na _Ilustrao_, levantou-se, muito pallido, -declarou que, tendo a honra de ser amigo do sr. Carlos da Maia, quebrava -a cara com a bengala ao sr. Gomes se elle ousasse babujar outra vez esse -cavalheiro; e o sr. Gomes tragou, com os olhos no cho, a affronta, por -ser rachitico de nascena--e porque era inquilino de Damaso e andava -muito atrasado na renda. Affonso da Maia achou este feito brilhante: e -foi por desejo seu que Carlos trouxe o sr. Salcede uma tarde a jantar ao -Ramalhete. - -Este dia pareceu bello a Damaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas -melhor ainda foi a manh em que Carlos, um pouco incommodado e ainda -deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... D'ahi datava a sua -intimidade: comeou a tratar Carlos por _voc_. Depois, n'essa semana, -revelou aptides uteis. Foi despachar alfandega (Villaa achava-se no -Alemtejo) um caixote de roupa para Carlos. Tendo apparecido n'um momento -em que Carlos copiava um artigo para a _Gazeta Medica_ offereceu a sua -boa letra, letra prodigiosa, de uma belleza lithographica; e d'ahi por -diante passava horas banca de Carlos, applicado e vermelho, com a -ponta da lingua de fra, o olho redondo, copiando apontamentos, -transcripes de Revistas, materiaes para o livro... Tanta dedicao -merecia um _tu_ de familiaridade. Carlos deu-lh'o. - -Damaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde -a barba que comeava agora a deixar crescer at forma dos sapatos. -Lanara-se no _bric-a-brac_. Trazia sempre o _coup_ cheio de lixos -archeologicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a aza rachada de -um bule... E se avistava um conhecido, fazia parar, entreabria a -portinhola como um addito de sacrario, exhibia a preciosidade: - ---Que te parece? _Chic_ a valer!... Vou mostral-a ao Maia. Olha-me isto, -hein! Pura meia edade, do reinado de Luiz XIV. O Carlos vae-se roer de -inveja! - -N'esta intimidade de rosas havia todavia para Damaso horas pesadas. No -era divertido assistir em silencio, do fundo d'uma poltrona, s -infindaveis discusses de Carlos e de Craft sobre arte e sobre sciencia. -E, como elle confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o -levaram ao laboratorio para fazer no seu corpo experiencias de -electricidade...--Pareciam dois demonios engalphinhados em mim, disse -elle sr.^a condessa de Gouvarinho; e eu ento que embirro com o -spiritismo!... - -Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando noite, n'um soph, -do Gremio, ou ao ch n'uma casa amiga, elle podia dizer, correndo a mo -pelo cabello: - ---Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, _bric-a-brac_, -discutimos... Um dia, _chic_! manh tenho uma manh de trabalho com o -Maia... Vamos s colxas. - -N'esse domingo, justamente, deviam ir s colxas, ao Lumiar. Carlos -concebera um _boudoir_, todo revestido de colxas antigas de setim, -bordadas a dous tons especiaes, perola e boto d'ouro. O tio Abraho -esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos suburbios; e n'essa manh -viera annunciar a Carlos a existencia de duas preciosidades, _so -beautiful! oh! so lovely!_ em casa de umas senhoras Medeiros que -esperavam o sr. Maia s duas horas... - -J tres vezes Damaso tossira, olhara o relogio,--mas, vendo Carlos -confortavelmente mergulhado na _Revista_, recahia tambem na sua -indolencia de homem _chic_, investigando o _Figaro_. Emfim, dentro, o -relogio Luiz XV cantou argentinamente as duas... - ---Esta boa, exclamou Damaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa. -Olha quem aqui me apparece! A Suzanna! A minha Suzanna! - -Carlos no despegara os olhos da pagina. - ---Oh Carlos, accrescentou elle, fazes favor? Ouve. Ouve esta que boa. -Esta Suzanna uma pequena que eu tive em Paris... Um romance! -Apaixonou-se por mim, quiz-se envenenar, o diabo!... Pois diz aqui o -_Figaro_ que debutou nas _Folies-Bergeres_. Falla n'ella... boa, hein? -E era rapariguita _chic_... E o _Figaro_ diz que ella teve aventuras, -naturalmente sabia o que se passou comigo... Todo o mundo sabia em -Paris. Ora a Suzanna!... Tinha bonitas pernas. E custou-me a vr livre -d'ella! - ---Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da _Revista_. - -Damaso era interminavel, torrencial, inundante a fallar das suas -conquistas, n'aquella solida satisfao em que vivia de que todas as -mulheres, desgraadas d'ellas, soffriam a fascinao da sua pessoa e da -sua toilette. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na -sociedade, com _coup_ e parelha, todas as meninas tinham para elle um -olhar doce. E no _dmi-monde_, como elle dizia, tinha prestigio a -valer. Desde moo fra celebre, na capital, por pr casas a -hespanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mez; e este fausto -excepcional tornara-o bem depressa o D. Joo V dos prostibulos. -Conhecia-se tambem a sua ligao com a viscondessa da Gafanha, uma -carcassa esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens validos -do paiz: a nos cincoenta annos, quando chegou a vez do Damaso--e no -era decerto uma delicia ter nos braos aquelle esqueleto rangente e -lubrico; mas dizia-se que em nova dormira n'um leito real, e que -augustos bigodes a tinham lambuzado; tanta honra fascinou Damaso, e -collou-se-lhe s saias com uma fidelidade to sabuja, que a decrepita -creatura, farta, enojada j, teve de o enxotar fora e com desfeitas. -Depois gozou uma tragedia: uma actriz do _Principe Real_, uma montanha -de carne, apaixonada por elle, n'uma noite de ciume e de genebra, -engoliu uma caixa de phosphoros; naturalmente d'ahi a horas estava boa, -tendo vomitado abominavelmente sobre o collete do Damaso que chorava ao -lado--mas desde ento este homem de amor julgou-se fatal! Como elle -dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida quasi tremia, tremia -verdadeiramente de fitar uma mulher... - ---Passaram-se scenas com esta Suzanna! murmurou elle depois de um -silencio em que estivera catando pelliculas nos beios. - -E, com um suspiro, retomou o _Figaro_. Houve outra vez um silencio no -terrasso. Dentro, a partida continuava. Para l da sombra do toldo, -agora, o sol a aquecendo, batendo a pedra, os vasos de loua branca, -n'uma refraco d'ouro claro em que palpitavam as azas das primeiras -borboletas voando em redor dos craveiros sem flor: em baixo, o jardim -verdejava, immovel na luz, sem um bolir de ramo, refrescado pelo cantar -do repuxo, pelo brilho liquido da agoa do tanque, avivado, aqui e alm, -pelo vermelho ou o amarello das rosas, pela carnao das ultimas -camelias... O bocado de rio que se avistava entre os predios era azul -ferrete como o cu: e entre rio e cu o monte punha uma grossa barra -verde-escura, quasi negra no resplendor do dia, com os dois moinhos -parados no alto, as duas casinhas alvejando em baixo, to luminosas e -cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o -bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique d'um sino. - ---O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Damaso n'um tom entendido e -traando a perna. O duque de Norfolk _chic_, no verdade, Carlos? - -Carlos, sem erguer os olhos, lanou para os cus um gesto, como -exprimindo o infinito do _chic_! - -Damaso largara o _Figaro_ para metter um charuto na boquilha; depois -desapertou os ultimos botes do collete, deu um pucho camisa para -mostrar melhor a marca que era um S enorme sob uma cora de conde, e de -palpebra cerrada, com o beio trombudo, ficou mamando gravemente a -boquilha... - ---Tu ests hoje em belleza, Damaso, disse-lhe Carlos que deixara tambem -a _Revista_ e o contemplava com melancolia. - -Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, meia -cr de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da orbita: - ---Eu agora ando bem... Mas, muito _blaz_. - -E foi realmente com um ar _blaz_ que se ergueu a ir buscar a uma mesa -de jardim, ao lado, onde estavam jornaes e charutos, a _Gazeta -Illustrada_, para vr o que ia pela patria. Apenas lhe deitou os olhos -soltou uma exclamao. - ---Outro debute? perguntou Carlos. - ---No, a besta do Castro Gomes! - -A _Gazeta Illustrada_ annunciava que o sr. Castro Gomes, o cavalheiro -brasileiro que no Porto fra victima da sua dedicao por occasio da -desgraa occorrida na Praa Nova, e de que o nosso correspondente J. T. -nos deu uma descripo to opulenta de colorido realista, acha-se -restabelecido e hoje esperado no Hotel Central. Os nossos parabens ao -arrojado gentleman. - ---Ora est s. ex.^a restabelecida! exclamou Damaso, atirando para o lado -o jornal. Pois deixa estar, que agora a occasio de lhe dizer na cara -o que penso... Aquelle pulha! - ---Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e -relia a noticia. - ---Ora essa! exclamou Damaso, erguendo-se. Ora essa! Queria vr, se fosse -comtigo... uma besta! um selvagem! - -E repetiu mais uma vez a Carlos essa historia que o magoava. Desde a sua -chegada de Bordeus, logo que o Castro Gomes se installara no Hotel -Central elle fra deixar-lhe bilhetes duas vezes--a ultima na manh -seguinte ao jantar do Ega. Pois bem, s. ex.^a no se dignara agradecer a -visita! Depois elles tinham partido para o Porto; fra ahi que, -passeiando s na Praa Nova, vendo a parelha de uma caleche desbocada, -duas senhoras em gritos, Castro Gomes se lanra ao freio dos -cavallos--e, cuspido contra as grades, tinha deslocado um brao. Teve de -ficar no Porto, no Hotel, cinco semanas. E elle immediatamente (sempre -com o olho na mulher) mandara-lhe dois telegrammas: um de sentimento, -lamentando; outro de interesse, pedindo noticias. Nem a um, nem a outro, -o animal respondeu! - ---No, isso--exclamava Salcede, passeiando pelo terrao, e recordando -estas injurias--hei de lhe fazer uma desfeita!... No pensei ainda o -qu, mas ha de amargar-lhe... L isso, desconsideraes no admitto a -ninguem! a ninguem! - -Arredondava o olho, ameaador. Desde o seu feito no Gremio, quando o -rachitico apavorado emmudecera diante d'elle, Damaso ia-se tornando -feroz. Pela menor cousa fallava em quebrar caras. - ---A ninguem! repetia elle, com puxes ao collete. Desconsideraes, a -ninguem! - -N'esse momento ouviu-se dentro, no escriptorio, a voz rapida do Ega--e -quasi immediatamente elle appareceu, com um ar de pressa, e atarantado. - ---Ol, Damasosinho!... Carlos, ds-me aqui em baixo uma palavra? - -Desceram do terrao, penetraram no jardim, at junto de duas olaias em -flr. - ---Tu tens dinheiro?--foi ahi logo a exclamao anciosa do Ega. - -E contou a sua terrivel atrapalhao. Tinha uma letra de noventa libras -que se vencia no dia seguinte. Alm d'isso, vinte e cinco libras que -devia ao Eusebiosinho, e que elle lhe reclamara n'uma carta indecente: e -era isto que desesperava o Ega... - ---Quero pagar a esse canalha, e quando o vir collar-lhe a carta cara -com um escarro. Alm d'isso a letra! E tenho para tudo isto quinze -tostes... - ---O Eusebiosinho homem de ordem... Emfim, queres cento e quinze -libras, disse Carlos. - -Ega hesitou, com uma cr no rosto. J devia dinheiro a Carlos. Estava-se -sempre dirigindo quella amisade, como a um cofre inexgotavel... - ---No, bastam-me oitenta. Ponho o relogio no prego, e a pelissa, que j -no faz frio... - -Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque--em quanto Ega -procurava cuidadosamente um bonito boto de rosa para florir a -sobrecasaca. Carlos no tardou, trazendo na mo o cheque, que alargara -at cento e vinte libras, para o Ega ficar _armado_... - ---Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com -um bello suspiro de allivio. - -Immediatamente trovejou contra o Eusebiosinho, esse villo! Mas tinha j -uma vingana. Ia remetter-lhe a somma toda em cobre, n'um sacco de -carvo, com um rato morto dentro, e um bilhete, comeando -assim:--_ascorosa lombriga e immunda osga, ahi te atiro ao focinho_, -etc... - ---Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o -teu ar, aquelle ser repulsivo!... - -Mas era at sujo mencionar o Eusebiosinho!... Quiz saber dos trabalhos -de Carlos, do grande livro. Fallou tambem do seu _Atomo_:--e, por fim, -n'uma voz differente, applicando o monocolo a Carlos: - ---Dize-me outra cousa. Porque no tens tu voltado aos Gouvarinhos? - -Carlos tinha s esta raso: no se divertia l. - -Ega encolheu os hombros. Parecia-lhe aquillo uma puerilidade... - ---Tu no percebeste nada, exclamou elle. Aquella mulher tem uma paixo -por ti... Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue -cara. - -E como Carlos ria, incredulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de -honra. Ainda na vespera, estava-se fallando de Carlos, e elle -espreitara-a. Sem ser um Balzac, nem uma broca de observao, tinha a -viso correcta: pois bem, l lhe vira na face, nos olhos, toda a -expresso de um sentimento sincero... - ---No estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra! Tenl-a -quando quiseres. - -Carlos achava deliciosa aquella naturalidade mephistophelica com que Ega -o induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, moraes, sociaes, -domesticas... - ---Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa _blague_ da cartilha e do -codigo, ento no fallemos mais n'isso! Se apanhaste a sarna da virtude, -com comiches por qualquer cousa, ento era uma vez um homem, vae para a -Trappa commentar o _Ecclesiastes_... - ---No--disse Carlos, sentando-se n'um banco sob as arvores, ainda com -uns restos da preguia do terrao--o meu motivo no to nobre. No vou -l, porque acho o Gouvarinho um massador. - -Ega teve um sorriso mudo. - ---Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos massadores... - -Sentou-se ao lado de Carlos, comeou a riscar em silencio o cho areado; -e sem erguer os olhos, deixando cahir as palavras, uma a uma, com -melancolia: - ---Antes de hontem, toda a noite, a p firme, das dez uma, estive a -ouvir a historia da demanda do Banco Nacional! - -Era quasi uma confidencia, e como o desabafo dos tedios secretos em que -se debatia, n'aquelle mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista. -Carlos enterneceu-se. - ---Meu pobre Ega, ento toda a demanda? - ---Toda! E a leitura do relatorio da assembla geral! E interessei-me! E -tive opinies!... A vida um inferno. - -Subiram ao terrao. Damaso reoccupara a sua cadeira de vime, e, com um -canivetesinho de madreperola, estava tratando das unhas. - ---Ento decidiu-se? perguntou elle logo ao Ega. - ---Decidiu-se hontem! No ha _cotillon_. - -Tratava-se de uma grande soire mascarada que am dar os Cohens, no dia -dos annos de Rachel. A ida d'esta festa sugerira-a o Ega, ao principio -com grandes propores de gala artistica, a ressurreio historica de um -sarau no tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa era -irrealisavel em Lisboa--e desceu-se a um plano mais sobrio, um simples -baile _costum_, a capricho... - ---Tu, Carlos, j decidiste como vaes? - ---De domin, um severo domin preto, como convm a um homem de -sciencia... - ---Ento, exclamou Ega se se trata de sciencia, vae de rabona e chinellas -de ourello!... A sciencia faz-se em casa e de chinellas... Nunca ninguem -descobriu uma lei do Universo mettido dentro de um domin... Que -sensaboria, um domin!... - -Justamente a sr.^a D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa -monotonia dos domins. E em Carlos no havia desculpa. No o prendiam -vinte ou trinta libras; e, com aquelle esplendido physico de cavalleiro -da Renascena, devia ornar a sala pelo menos com um soberbo Francisco I. - --- n'isto, ajuntava elle com fogo, que est a belleza de uma soire de -mascaras! No lhe parece, voc, Damaso? Cada um deve aproveitar a sua -figura... Por exemplo, a Gouvarinho vae muito bem. Teve uma inspirao: -com aquelle cabello ruivo, o nariz curto, as mas do rosto salientes, -Margarida de Navarra... - ---Quem Margarida de Navarra? perguntou Affonso da Maia, apparecendo no -terrao com Craft. - ---Margarida, a duqueza d'Angouleme, a irm de Francisco I, a Margarida -das Margaridas, a perola dos Valois, a padroeira da Renascena, a sr.^a -condessa de Gouvarinho!... - -Rio muito, foi abraar Affonso, explicou-lhe que se discutia o baile dos -Cohens. E appellou logo para elle, para o Craft tambem, acerca do -nefando domin de Carlos. No estava aquelle moceto, com os seus ares -de homem d'armas, talhado para um soberbo Francisco I, em toda a gloria -de Marignan? - -O velho deu um olhar enternecido belleza do neto. - ---Eu te digo, John, talvez tenhas razo; mas Francisco I, rei de Frana, -no se pde apear de uma tipoia e entrar n'uma sala, s. Precisa crte, -arautos, cavalleiros, damas, bobos, poetas... Tudo isso difficil. - -Ega curvou-se. Sim senhor, d'accordo! Alli estava uma maneira -intelligente de comprehender o baile dos Cohens! - ---E tu, de que vaes? perguntou-lhe Affonso. - -Era um segredo. Tinha a theoria de que, n'aquellas festas, um dos -encantos consistia na surpreza: dois sujeitos por exemplo que tendo -jantado juntos, de jaqueto, no Bragana, se encontram noite, um na -purpura imperial de Carlos V, outro com a escopeta de bandido da -Calabria... - ---Eu c no fao segredo, disse ruidosamente Damaso. Eu c vou de -selvagem. - ---N? - ---No. De Nelusko na _Africana_. Oh sr. Affonso da Maia, que lhe parece? -Acha _chic_? - ---_Chic_ no exprime bem, disse Affonso sorrindo. Mas _grandioso_, , -decerto. - -Quizeram ento saber como a Craft. Craft no a de cousa nenhuma; Craft -ficava nos Olivaes, de robe de chambre. - -Ega encolheu os hombros com tedio, quasi com colera. Aquellas -indifferenas pelo baile dos Cohens feriam-n'o como injurias pessoaes. -Elle estava dando a essa festa o seu tempo, estudos na bibliotheca, um -trabalho fumegante de imaginao; e pouco a pouco ella tomava aos seus -olhos a importancia de uma celebrao d'arte, provando o genio de uma -cidade. Os domins, as abstenes, pareciam-lhe evidencias de -inferioridade de espirito. Citou ento o exemplo do Gouvarinho: alli -estava um homem de occupaes, de posio politica, nas vesperas de ser -ministro, que no s a ao baile, mas estudara o seu _costume_: -estudara, e a muito bem, a de _marquez de Pombal_! - ---Reclame para ser ministro, disse Carlos. - ---No o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condies para ser ministro: -tem voz sonora, leu Mauricio Block, est encalacrado, e um asno!... - -E no meio das risadas dos outros, elle, arrependido de demolir assim um -cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo: - ---Mas muito bom rapaz, e no se d ares nenhuns! um anjo! - -Affonso reprehendia-o, risonho e paternal: - ---Ora tu, John, que no respeitas nada... - ---O desacato a condio do progresso, sr. Affonso da Maia. Quem -respeita decahe. Comea-se por admirar o Gouvarinho, vae-se a gente -esquecendo, chega a reverenciar o monarcha, e quando mal se precata tem -descido a venerar o Todo-Poderoso!... necessario cautela! - ---Vae-te embora, John, vae-te embora! Tu s o proprio Anti-Christo... - -Ega a responder, exhuberante e em veia--mas dentro o tinir argentino do -relogio Luiz XV, com o seu gentil minuete, emmudeceu-o. - ---O que? quatro horas! - -Ficou aterrado, verificou no seu proprio relogio, deu em redor rapidos, -silenciosos apertos de mo, desappareceu como um sopro. - -Todos de resto estavam pasmados de ser to tarde! E assim passara a hora -de ir ao Lumiar vr as colxas antigas das senhoras Medeiros... - ---Quer voc ento meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos. - ---Seja: e necessario dar a lio ao Damaso... - --- verdade, a lio...--murmurou Damaso, sem enthusiasmo, com um -sorriso murcho. - -A sala de esgrima era uma casa terrea, debaixo dos quartos de Carlos, -com janellas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, atravez das -arvores, uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era necessario accender -os quatro bicos de gaz. Damaso seguiu, atraz dos dois, com uma lentido -de rez desconfiada. - -Aquellas lies, que elle sollicitara por amor do _chic_, am-se-lhe -tornando odiosas. E n'essa tarde, como sempre, apenas se enchumaou com -o plastro d'anta, se cobriu com a caraa de arame, comeou a -transpirar, a fazer-se branco. Diante d'elle Craft, de florete na mo, -parecia-lhe cruel e bestial, com aquelles seus hombros de Hercules -sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros rasparam. Damaso estremeceu -todo. - ---Firme, gritou-lhe Carlos. - -O desgraado equilibrava-se sobre a perna rolia; o florete de Craft -vibrou, rebrilhou, voou sobre elle; Damaso recuou, suffocado, -cambaleando e com o brao frouxo... - ---Firme! berrava-lhe Carlos. - -Damaso, exhausto, abaixou a arma. - ---Ento que querem vocs, nervoso! por ser a brincar... Se fosse a -valer, vocs veriam. - -Assim acabava sempre a lio; e ficava depois abatido sobre uma banqueta -de marroquim, arejando-se com o leno, pallido como a cal dos muros. - ---Vou-me at casa, disse elle d'ahi a pouco, fatigado de tanto crusar de -ferro. Queres alguma cousa, Carlinhos? - ---Quero que venhas c jantar manh... Tens o marquez. - ---_Chic_ a valer... No faltarei. - -Mas faltou. E, como toda essa semana aquelle moo ponctual no appareceu -no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo, foi -uma manh a casa d'elle, Lapa. Mas ahi, o creado (um gallego -achavascado e triste, que, desde as suas relaes com os Maias, Damaso -trazia entalado n'uma casaca e mortalmente aperreado em sapatos de -verniz) affirmou-lhe que o sr. Damasosinho estava de boa saude, e at -sahira a cavallo. Carlos veiu ento ao tio Abraho; o tio Abraho tambem -no avistara, havia dias, aquelle bom senhor Salcede, _that beautiful -gentleman!_ A curiosidade de Carlos levou-o ao Gremio: no Gremio nenhum -creado vira ultimamente o sr. Salcede. Est por ahi de lua de mel com -alguma bella andaluza pensou Carlos. - -Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que -se dirigia ao Aterro, a p, seguido da sua vittoria a passo. Era a -segunda vez que o diplomata fazia exercicio depois do seu desgraado -ataque de entranhas. Mas no tinha j vestigios da doena: vinha todo -rosado e loiro, muito solido na sua sobrecasaca, e com uma bella rosa de -ch na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava ms forrte. E no -lamentava os soffrimentos, porque elles lhe tinham dado o meio de -apreciar as sympathias que gosava em Lisboa. Estava enternecido. Sobre -tudo o cuidado de S. M.--o augusto cuidado de S. M.--fizera-lhe melhor -que todos os drogues de botique! Realmente nunca as relaes entre -esses dois paizes, to estreitamente alliados, Portugal e a Filandia, -tinham sido ms firmes, pur assi dizerre, ms intimes, que durrante seu -ataque de intestinaes! - -Depois, travando do brao a Carlos, alludiu commovido ao offerecimento -de Affonso da Maia, que pozera sua disposio S.^ta Olavia, para elle -se restabelecer n'esses ares fortes e limpos do Douro. Oh, esse convite -tocara-o _au plus profond de son c[oe]ur_. Mas, infelizmente, S.^{ta} -Olavia era longe, to longe!... Tinha de se contentar com Cintra, d'onde -podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a Legao. _C'tait -ennuyeux, mais_... A Europa estava n'um d'esses momentos de crise, em -que homens d'estado, diplomatas, no podiam affastar-se, gosar as -menores ferias. Precisavam estar alli, na brecha, observando, -informando... - ---C'est trs grave, murmurou elle, parando, com um pavor vago no olhar -azulado... C'est excessivement grave! - -Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a -parte uma confuso, um _gachis_. Aqui a questo do Oriente; alem o -socialismo; por cima o Papa, a complicar tudo... Oh, trs grave! - ---Tenez, la France, par exemple... D'abord Gambetta. Oh, je ne dis pas -non, il est trs fort, il est excessivement fort... Mais... Voil! C'est -trs grave... - -Por outro lado os radicaes, _les nouvelles couches_... Era -excessivamente grave... - ---Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous! - -Mas Carlos no escutava, nem sorria j. Do fim do Aterro approximava-se, -caminhando depressa, uma senhora--que elle reconheceu logo, por esse -andar que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadellinha cr -de prata que lhe trotava junto s saias, e por aquelle corpo -maravilhoso, onde vibrava, sob linhas ricas de marmore antigo, uma graa -quente, ondeante e nervosa. Vinha toda vestida de escuro, n'uma toilette -de _serge_ muito simples que era como o complemento natural da sua -pessoa, collando-se bem sobre ella, dando-lhe, na sua correco, um ar -casto e forte; trazia na mo um guarda-sol inglez, apertado e fino como -uma cana; e toda ella, adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha, -n'aquelle caes triste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como -o requinte raro de civilisaes superiores. Nenhum vo, n'essa tarde, -lhe assombreava o rosto. Mas Carlos no poude detalhar-lhe as feies; -apenas d'entre o esplendor eburneo da carnao sentiu o negro profundo -de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo para -a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem vr nada, estava achando Bismarch -assustador. maneira que ella se affastava, parecia-lhe maior, mais -bella: e aquella imagem falsa e litteraria de uma deusa marchando pela -terra prendia-se-lhe imaginao. Steinbroken ficara aterrado com o -discurso do Chanceller no Reichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o -chapo, n'uma frma de trana enrolada, apparecia o tom do seu cabello -castanho, quasi louro luz; a cadelinha trotava ao lado, com as orelhas -direitas. - ---Evidentemente, disse Carlos, Bismarck inquietador... - -Steinbroken porm j deixara Bismarck. Steinbroken agora atacava lord -Beaconsfield. - ---Il est trs fort... Oui, je vous l'accorde, il est excessivement -fort... Mais voil... Ou va-t-il? - -Carlos olhava para o caes de Sodr. Mas tudo lhe parecia deserto. -Steinbroken antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos -negocios estrangeiros aquillo mesmo: lord Beaconsfield muito forte, -mas para onde vae elle? O que queria elle?... E s. ex.^a tinha encolhido -os hombros... S. ex.^a no sabia... - ---Eh, oui! Beaconsfield est trs fort... Vous avez lu son speech chez le -Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voil... O va-t-il? - ---Steinbroken, no me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a -arrefecer no Aterro... - ---Devrras? exclamou o diplomata, passando logo a mo rapidamente pelo -estomago e pelo ventre. - -E no se quiz demorar um instante mais! Como Carlos a recolher tambem, -offereceu-lhe um logar na vittoria at ao Ramalhete. - ---Venha ento jantar comnosco, Steinbroken. - ---Charm, mon cher, charm... - -A vittoria partiu. E o diplomata agazalhando as pernas e o estomago n'um -grande plaid escossez: - ---Ps, Maia, fezemos um bello passo... Mas este Atrro no deverrtido. - -No era divertido o Aterro!... Carlos achara-o n'essa tarde o mais -delicioso logar da terra! - -Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as -arvores, viu-a logo. Mas no vinha s; ao seu lado o marido, esticado, -apurado n'uma jaqueta de casimira quasi branca, com uma ferradura de -diamantes no setim negro da gravata, fumava, indolente e languido, e -trazia a cadellinha debaixo do brao. Ao passar, deu um olhar -surprehendido a Carlos--como descobrindo emfim entre os barbaros um ser -de linha civilisada, e disse-lhe algumas palavras baixo, a ella. - -Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e serios: mas no -lhe parecera to bella; trazia uma outra toilette menos simples, de dois -tons, cr de chumbo e cr de creme, e no chapo, d'abas grandes -ingleza, vermelhava alguma cousa, flr ou penna. N'essa tarde no era a -deusa descendo das nuvens d'ouro que se enrolavam alem sobre o mar; era -uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel. - -Voltou ainda tres vezes ao Aterro, no a tornou a vr; e ento -envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o -trazia assim, n'uma inquietao de rafeiro perdido, farejando o Aterro, -da rampa de Santos ao caes de Sodr, espera de uns olhos negros e de -uns cabellos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da _Royal -Mail_ levaria uma d'essas manhs... - -E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a -meza! E que todas as tardes, antes de sahir, se demorava ao espelho, -estudando a gravata! Ah, miseravel, miseravel natureza... - - -Ao fim d'essa semana, Carlos estava no consultorio, j para sahir, -calando as luvas, quando o creado entreabriu o reposteiro, e murmurou -com alvoroo: - ---Uma senhora! - -Appareceu um menino muito pallido, de caracoes louros, vestido de -velludo preto--e atraz uma mulher, toda de negro, com um vo justo e -espesso como uma mascara. - ---Creio que vim tarde, disse ella, hesitando, junto da porta. O sr. -Carlos da Maia a sahir... - -Carlos reconheceu a Gouvarinho. - ---Oh senhora condessa! - -Desembaraou logo o divan dos jornaes e das brochuras; ella olhou um -momento, como indecisa, aquelle amplo e molle assento de serralho; -depois sentou-se borda e de leve, com o pequeno junto de si. - ---Venho trazer-lhe um doente, disse ella sem erguer o vu, como fallando -do fundo d'aquella toilette negra que a dissimulava. No o mandei -chamar, por que realmente pouco , e tinha hoje de passar por aqui... -Alm d'isso, o meu pequeno muito nervoso; se v entrar o medico, -parece-lhe que vae morrer. Assim como uma visita que se faz... E no -tens medo, no verdade, Charlie? - -O pequeno no respondeu; de p, quedo ao lado da mam; mimoso e debil -sob os caracoes d'anjo que lhe cahiam at aos hombros, devorava Carlos -com uns grandes olhos tristes. - -Carlos poz um interesse quasi terno na sua pergunta: - ---Que tem elle? - -Havia dias, apparecera-lhe uma empigem no pescoo. Alm disso, por traz -da orelha, tinha como uma dureza de caroo. Aquillo inquietava-a. Ella -era forte, de uma boa raa, que dera athletas e velhos de grande edade. -Mas na familia do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia -hereditaria. O conde mesmo, com aquella solida apparencia, era um -achacado. E ella, receiando que a influencia debilitante de Lisboa no -conviesse a Charlie, estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar -algum tempo ao campo, em Formoselha, a casa da av. - -Carlos, approximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braos a -Charlie: - ---Ora venha c o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnifico -cabello elle tem, senhora condessa!... - -Ella sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquelle terror do -medico de que fallara a mam, veio logo, desapertou delicadamente o seu -grande collarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoo -macio e alvo como um lyrio. - -Carlos vio apenas uma pequena mancha cr de rosa desvanecendo-se; do -caroo no havia vestigio; e ento uma ligeira vermelhido subiu-lhe -ao rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como comprehendendo -tudo, querendo vr n'elles a confisso do sentimento que a trouxera alli -com um pretexto pueril, sob aquella toilette negra, aquelles vos que a -mascaravam... - -Mas ella permaneceu impenetravel, sentada borda do divan, com as mos -crusadas, attenta, como esperando as suas palavras, n'um vago susto de -me. - -Carlos abotoou o collarinho do pequeno, e disse: - ---No absolutamente nada, minha senhora. - -No entanto, fez perguntas de medico sobre o regimen e a natureza de -Charlie. A condessa, n'um tom pesaroso, queixou-se de que a educao da -creana no fosse, como ella desejava, mais forte e mais viril; mas o -pae oppunha-se ao que elle chamava a aberrao ingleza, a agua fria, -os exercicios a todo o ar, a gymnastica... - ---A agoa fria e a gymnastica, disse Carlos sorrindo, teem melhor -reputao do que merecem... o seu unico filho, senhora condessa? - ---, tem os mimos de morgado, disse ella passando a mo pelos cabellos -louros do pequeno. - -Carlos assegurou-lhe que, apezar do seu aspecto nervoso e delicado, -Charlie no devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar -para os ares de Formoselha... Depois ficaram um momento callados. - ---No imagina como me tranquillisou, disse ella, erguendo-se, dando um -geito ao veu. De mais a mais um gosto vir consultal-o... No ha aqui o -menor ar de doena, nem de remedios... E realmente tem isto muito -bonito...--accrescentou, dando um olhar lento em redor aos velludos do -gabinete. - ---Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. No inspira nenhum -respeito pela minha sciencia... Eu estou com idas d'alterar tudo, pr -aqui um crocodilho empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas -d'in-folios... - ---A cella de Fausto. - ---Justamente, a cella de Fausto. - ---Falta-lhe Mephistopheles, disse ella alegremente, com um olhar que -brilhou sob o vo. - ---O que me falta Margarida! - -A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os hombros, como -duvidando discretamente; depois tomou a mo de Charlie, e deu um passo -lento para a porta, puxando outra vez o vo. - ---Como v. ex.^a se interessa pela minha installao, acudiu Carlos -querendo retel-a, deixe-me mostrar-lhe a outra sala. - -Correu o reposteiro. Ella approximou-se, murmurou algumas palavras, -approvando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o -piano fel-a sorrir. - ---Os seus doentes danam quadrilhas? - ---Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, no so bastante -numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para -uma valsa... O piano est simplesmente alli para dar idas alegres; -como uma promessa tacita de saude, de futuras _soires_, de bonitas -arias do _Trovador_, em familia... - --- engenhoso, disse ella dando familiarmente alguns passos na sala, com -Charlie collado aos vestidos. - -E Carlos, caminhando ao lado d'ella: - ---V. ex.^a no imagina como eu sou engenhoso! - ---J n'outro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito -inventivo quando odiava. - ---Muito mais quando amo, disse elle rindo. - -Mas ella no respondeu: parra junto do piano, remexeu um momento as -musicas espalhadas, feriu duas notas no teclado. - --- um chocalho. - ---Oh, senhora condessa! - -Ella seguiu, foi examinar um quadro a oleo, copiado de Landseer--um -focinho de co de S. Bernardo, macisso e bonacheiro, adormecido sobre -as patas. Quasi roando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de -verbena que ella usava sempre exageradamente: e, entre aquelles tons -negros que a cobriam, a sua pelle parecia mais clara, mais doce vista, -e attrahindo como um setim. - ---Este um horror, murmurou ella, voltando-se; mas disse-me o Ega que -ha quadros lindos no Ramalhete... Fallou-me sobretudo d'um Greuze e d'um -Rubens... pena que se no possam vr essas maravilhas. - -Carlos lamentava tambem que uma existencia de solteires lhes impedisse, -a elle e ao av, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma -melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns mezes, sem que -se sentisse alli um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer -a herva pelos tapetes. - --- por isso, accrescentou elle muito serio, que eu vou obrigar o av a -casar-se. - -A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do -vo. - ---Gosto da sua alegria, disse ella. - --- uma questo de regimen. V. ex.^a no alegre? - -Ella encolheu os hombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do -guarda-sol na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro, -murmurou com os olhos baixos, deixando ir as palavras, n'um tom -d'intimidade e de confidencia: - ---Dizem que no, que sou triste, que tenho _spleen_... - -O olhar de Carlos seguira o d'ella, pousara-se na botina de verniz que -calava delicadamente um p fino e comprido: Charlie, entretido, mexia -nas teclas do piano--e elle baixou a voz para lhe dizer: - --- que a senhora condessa tem um mau regimen. necessario tratar-se, -voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer! - -Ella interrompeu-o vivamente, erguendo para elle os olhos, d'onde se -escapou um claro de ternura e de triumpho: - ---Venha-m'o antes dizer um d'estes dias, tomar ch comigo, s cinco -horas... Charlie! - -O pequeno veiu logo dependurar-se-lhe do brao. - -Carlos, acompanhando-a abaixo rua, lamentava a fealdade da sua escada -de pedra: - ---Mas vou mandar tapetar tudo para quando a senhora condessa volte a -dar-me a honra de me vir consultar... - -Ella gracejou, toda risonha: - ---Ah no! O sr. Carlos da Maia prometteu-nos a todos a saude... E -naturalmente no espera que seja eu que venha c tomar ch comsigo... - ---Oh, minha senhora, eu quando comeo a esperar, no ponho limites -nenhuns s minhas esperanas... - -Ella parou, com o pequeno pela mo, olhou para elle, como pasmada, -encantada com aquella grandiosa certeza de si mesmo. - ---Ento vae por ahi alm, por ahi alm...? - ---Vou por ahi alm, por ahi alm, minha senhora! - -Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua. - ---Mande-me chegar um coup. - -Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lanou logo a tipoia. - ---E agora, disse ella sorrindo, mande-o ir egreja da Graa. - ---A senhora condessa vai beijar o p do Senhor dos Passos? - -Ella corou de leve, murmurou: - ---Ando fazendo as minhas devoes... - -Depois saltou ligeiramente para o coup--deixando Charlie, que Carlos -ergueu nos braos e lhe collocou ao lado, paternalmente. - ---Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa! - -Ella agradeceu com um olhar, um movimento de cabea--ambos to doces -como caricias. - -Carlos subio: e, sem tirar o chapo, ficou ainda enrolando uma -cigarrette, passeando n'aquella sala sempre deserta, sempre fria, onde -ella deixara agora alguma cousa do seu calor e do seu aroma... - -Realmente gostava d'aquella audacia d'ella--ter vindo assim ao -consultorio, toda escondida, quasi mascarada n'uma grande toilette -negra, inventando um caroo no pescocinho so de Charlie, para o vr, -para dar um n brusco e mais apertado n'aquelle leve fio de relaes que -elle to negligentemente deixara cahir e quebrar... - -O Ega d'esta vez no phantasiara: aquelle bonito corpo offerecia-se, to -claramente como se se despisse. Ah! se ella fosse de sentimentos -errantes e faceis--que bella flr a colher, a respirar, a deitar fra -depois! Mas no: como dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se -tinha divertido. E o que elle no queria era achar-se envolvido n'uma -paixo ciosa, uma d'essas ternuras tumultuosas de mulher de trinta -annos, de que depois se desembaraaria difficilmente... Nos braos -d'ella o seu corao ficaria mudo: e apenas esgotada a primeira -curiosidade, comearia o tedio dos beijos que se no desejam, a horrivel -massada do prazer a frio. Depois, teria de ser intimo da casa, receber -pelo hombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa -distillando doutrina... Tudo isto o assustava... E, todavia, gostara -d'aquella audacia! Havia ali uma pontinha de romantismo, muito -irregular, e pcante... E devia ser deliciosamente bem feita... A sua -imaginao despia-a, enrolava-se-lhe no setim das frmas onde sentia ao -mesmo tempo alguma cousa de maduro e de virginal... E outra vez, como -nas primeiras noites que os vira em S. Carlos, aquelles cabellos -tentavam-n'o, assim avermelhados, to crespos e quentes... - -Sahiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou -o Damaso, n'um coup lanado a grande trote, que o chamava, mandava -parar, com a face portinhola, vermelho e radiante: - ---No tenho podido l ir, exclamou elle, apoderando-se-lhe da mo, -apenas Carlos se approximou, e apertando-lh'a com enthusiasmo. Tenho -andado n'um turbilho!.. Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te -contarei!.. Tem cuidado com a roda! Bate l, _Calo_! - -A parelha abalou; elle ainda se debruou da portinhola, agitou a mo, -gritou no rumor da rua: - ---Um romance divino, _chic_ a valer! - -Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que -acabava de bater o marquez, perguntou, pousando o taco e accendendo o -cachimbo: - ---E noticias do nosso Damaso? J se esclareceu esse lamentavel -desapparecimento?... - -Carlos ento contou como o encontrra, afogueado e triumphante, -atirando-lhe da portinhola do coup, em plena rua Nova do Almada, a -noticia de um _romance divino_! - ---Bem sei, disse o Taveira. - ---Como sabes?... exclamou Carlos. - -Taveira vira-o na vespera, n'um grande landeau da Companhia, com uma -esplendida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira... - ---Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escoceza? - ---Exactamente, uma cadelinha escoceza, um _griffon_ cr de prata... Quem -so? - ---E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglezado? - ---Justamente... Muito correcto, um ar _sport_... Que gente ? - ---Uma gente brazileira, penso eu. - -Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia -apenas duas semanas que no terrao o Damaso, de punhos fechados, bramara -contra os Castro Gomes e as suas desconsideraes! Ia pedir outros -pormenores ao Taveira--mas o marquez ergueu a voz do fundo da poltrona -onde se estirra, e quiz saber a opinio de Carlos sobre o grande -acontecimento d'essa manh na _Gazeta Illustrada_.--Na _Gazeta -Illustrada_?... Carlos no sabia, essa manh no vira jornal nenhum. - ---Ento no lhe digam nada, gritou o marquez. Venha a surpreza! C ha a -_Gazeta_? Manda buscar a _Gazeta_! - -Taveira puxou o cordo da campainha;--e quando o escudeiro trouxe a -_Gazeta_, elle apoderou-se d'ella, quiz fazer uma leitura solemne. - ---Deixa-lhe vr primeiro o retrato, berrou o marquez, erguendo-se. - ---Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal -atraz das costas. - -Mas cedeu, e poz o papel deante dos olhos de Carlos, largamente, como um -sudario desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a -prosa que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas -retintas, era um trabalho de seis columnas, em estylo emplumado e -cantante, celebrando at aos cus as virtudes domesticas do Cohen, o -genio financeiro do Cohen, os ditos d'espirito do Cohen, a mobilia das -salas do Cohen; havia ainda um paragrapho alludindo festa proxima, ao -grande sarau de mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assignado--J. da -E.--as iniciaes de Joo da Ega! - ---Que tolice! exclamou Carlos, com tedio, atirando o jornal para cima do -bilhar. - --- mais que tolice, observou Craft; uma falta de senso moral. - -O marquez protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de -velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso -moral?... - ---Voc, Craft, no conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural. - intimo da casa, celebra os donos. admirador da mulher, lisongea o -marido. Est na logica c da terra... Voc ver que successo isto vae -ter... E l que o artigo est lindo, isso est! - -Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir cr de rosa -de madame Cohen: respira-se alli (dizia o Ega) alguma cousa de -perfumado, intimo e casto, como se todo aquelle cr de rosa exhalasse de -si o aroma que a rosa tem! - ---Isto, caramba, lindo em toda a parte! exclamou o marquez. Tem muito -talento, aquelle diabo! Tomara eu ter o talento que elle tem!... - ---Nada d'isso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquillamente, que -seja uma extraordinaria falta de senso moral. - ---Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto -d'um soph, para deixar cahir s syilabas esta pesada opinio. - -O marquez investiu com elle. - ---Que entende voc d'isso, seu maestro? O artigo sublime! E saiba -mais: de finorio! - -O maestro, com preguia de argumentar, foi-se enroscar em silencio ao -outro canto do soph. - -E ento o marquez, de p e bracejando, appellou para Carlos, e quiz -saber o que que Craft em principio entendia por _senso moral_. - -Carlos, que dava pela sala passos impacientes, no respondeu, tomou o -brao do Taveira, levou-o para o corredor. - ---Dize-me uma cousa: onde viste tu o Damaso, com essa gente? Para que -lado iam? - ---Iam pelo Chiado abaixo; ante-hontem, s duas horas... Estou convencido -que iam para Cintra. Levavam uma maleta no landau, e atraz ia uma criada -n'um coup com uma mala maior... Aquillo cheirava a ida a Cintra. E a -mulher divina! Que toilette, que ar, que chic!.. uma Venus, -menino!... Como conheceria elle aquillo?... - ---Em Bordeus, n'um paquete, no sei onde! - ---Eu do que gostei foi dos ares que elle se ia dando por aquelle Chiado! -Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A -debruar-se, a fallar muito baixo para a mulher, com olho terno, -alardeando conquista... - ---Que besta! exclamou Carlos, batendo com o p no tapete. - ---Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher -civilisada e decente, e elle que a conhece, e elle que vae com ella -para Cintra! Chama-lhe besta!... Anda d'ahi, vamos partidinha de -domin. - -Taveira ultimamente introduzira o domin no Ramalhete--e havia agora -alli, s vezes, partidas ardentes, sobretudo quando apparecia o marquez. -Porque a paixo do Taveira era bater o marquez. - -Mas foi necessario que o marquez acabasse de bracejar, de desenrolar o -arrazoado com que estava acabrunhando o Craft--que do fundo da poltrona, -de cachimbo na mo e com um ar de somno, respondia por monossyllabos. -Era ainda a proposito do artigo do Ega, da definio de _senso moral_. -J tinha fallado de Deus, de Garibaldi, at do seu famoso perdigueiro -_Finorio_; e agora definia a Consciencia... Segundo elle, era o medo da -policia. Tinha o amigo Craft visto j alguem com remorsos? No, a no -ser no theatro da Rua dos Condes, em dramalhes... - ---Acredite voc uma cousa, Craft--terminou elle por dizer, cedendo ao -Taveira que o puchava para a meza--isto de consciencia uma questo de -educao. Adquire-se como as boas maneiras; soffrer em silencio por ter -trahido um amigo, aprende-se exactamente como se aprende a no metter os -dedos no nariz. Questo d'educao... No resto da gente apenas medo da -cadeia, ou da bengala... Ah! vocs querem levar outra sova ao domin -como a de sabbado passado? Perfeitamente, sou todo vosso... - -Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega, -approximou-se tambem da meza. E estavam sentados, remexiam as -pedras--quando porta da sala appareceu o conde de Steinbroken, de -casaca e crach, gran-cruz sobre o colete branco, loiro como uma espiga, -esticado e resplandecente. Tinha jantado no Pao, e vinha acabar no -Ramalhete a sua soire, em familia... - -Ento o marquez que o no via desde o famoso ataque de intestinos, -abandonou o domin, correu a abraal-o ruidosamente--e sem o deixar -sequer sentar, nem estender a mo aos outros, implorou-lhe logo uma das -suas bellas canes filandezas, uma s, d'aquellas que lhe faziam to -bem alma!... - ---S a _Ballada_, Steinbroken... Eu tambem no me posso demorar, que -tenho aqui a partida espera. S a _Ballada_!... V, salta l para -dentro para o piano, Cruges... - -O diplomata sorria, dizia-se canado, tendo j feito musica deliciosa no -Pao com Sua Magestade. Mas nunca sabia resistir quelle modo folgazo -do marquez--e l foram para a sala do piano, de brao dado, seguidos -pelo Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se do canto do -soph. E d'ahi a um momento, atravez dos resposteiros meio corridos, a -bella voz de barytono do diplomata espalhava pelas salas, entre os -suspiros do piano, a emballadora melancolia da _Ballada_, com a sua -lettra traduzida em francez, que o marquez adorava, e em que se fallava -das nevoas tristes do Norte, de lagos frios e de fadas loiras... - -Taveira e Carlos, no entanto, tinham comeado uma grande partida de -domin, a tosto o ponto. Mas Carlos n'essa noite no se interessava, -jogando distrahido, a cantarolar tambem baixo bocados tristes da -_Ballada_: depois, quando j Taveira tinha s uma pedra diante de si, e -elle estava comprando interminavelmente as que restavam, voltou-se para -o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em Cintra, -estava aberto todo o anno... - ---A ida do Damaso para Cintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente. -Anda, joga! - -Carlos, sem responder, pousou mollemente uma pedra. - ---Domin! gritou Taveira. - -E em triumpho, aos pulos, contou elle mesmo os sessenta e oito pontos -que Carlos perdia. - -Justamente o marquez entrava, e a victoria do Taveira indignou-o. - ---Agora ns, exclamou elle, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos, -deixe-me voc dar aqui uma sova n'este ladro. Depois jogamos de tres... -Como queres tu isto, Taveirete? A dous tostes o ponto? Ah, queres s a -tosto... Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraa-te j d'esse -dble-seis, miseravel... - -Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarette apagada -nos dedos, o mesmo ar distrahido: de repente, pareceu tomar uma deciso, -atravessou o corredor, entrou na sala de musica. Steinbroken fra ao -escriptorio vr Affonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges s, -entre as duas vlas do piano, com os olhos errantes pelo tecto, -improvisava para si, melancolicamente. - ---Dize c, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir manh a Cintra? - -O teclado callou-se, o maestro ergueu um olhar espantado! Carlos nem o -deixou fallar. - ---Est claro que queres, no te faz seno bem vir a Cintra... manh l -estou porta, com o break. Mette sempre uma camisa n'uma maleta, que -talvez passemos l a noite... s oito em ponto, hein?... E no digas -nada l dentro. - -Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de domin. Agora -havia um largo silencio. O marquez e Taveira moviam lentamente as -pedras, sem uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano -verde do bilhar as bolas brancas dormiam juntas, sob a luz que cahia dos -abat-jours de porcelana. Um som de piano, dolente e vago, passava por -vezes. E Craft, com o brao descahido ao longo da poltrona, dormitava, -beatificamente. - - - - -VIII - - -Na manh seguinte, s oito horas pontualmente, Carlos parava o break na -rua das Flores, diante do conhecido porto da casa do Cruges. Mas o -trintanario, que elle mandara acima bater campainha do terceiro andar, -desceu com a estranha nova de que o sr. Cruges j no morava ali. Onde -diabo morava ento o sr. Cruges? A criada dissera que o sr. Cruges vivia -agora na rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Gremio. Durante -um momento, Carlos, desesperado, pensou em partir s para Cintra. Depois -l largou para a rua de S. Francisco, amaldioando o maestro, que mudara -de casa sem avisar, sempre vago, sempre tenebroso!... E era em tudo -assim. Carlos nada sabia do seu passado, do seu interior, das suas -affeies, dos seus habitos. O marquez uma noite levara-o ao Ramalhete, -dizendo ao ouvido de Carlos que estava alli um genio. Elle encantara -logo todo o mundo pela modestia das suas maneiras e a sua arte -maravilhosa ao piano: e todo o mundo no Ramalhete comeou a tratar -Cruges por _maestro_, a fallar tambem do Cruges como de um genio, a -declarar que Choppin nunca fizera obra egual _Meditao de Outono_ do -Cruges. E ninguem sabia mais nada. Fra pelo Damaso que Carlos conhecera -a casa do Cruges e soubera que elle vivia l com a me, uma senhora -viuva, ainda fresca, e dona de predios na Baixa. - -Ao porto da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto de -hora. Primeiro appareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em -cabello, que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos -degraus acima. Depois veiu um creado em mangas de camisa trazer a maleta -do senhor e um chaile manta. Emfim, o maestro desceu, a correr, quasi -aos trambulhes, com um cache-nez de seda na mo o guarda-chuva debaixo -do brao, abotoando atarantadamente o paletot. - -Quando vinha pulando os ultimos degraus, uma voz esganiada de mulher -gritou-lhe de cima: - ---Olha no te esqueam as queijadas! - -E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o lado de Carlos, -rosnando que, com a preoccupao de se levantar to cedo, tivera uma -insomnia abominavel... - ---Mas que diabo de ida essa de mudar de casa, sem avisar a gente, -homem?--exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dos joelhos um bocado do -_plaid_ que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado. - --- que esta casa tambem nossa, disse simplesmente Cruges. - ---Est claro, ahi est uma razo! murmurou Carlos rindo e encolhendo os -hombros. - -Partiram. - -Era uma manh muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um -lindo sol que no aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas, -barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as -saloias ainda andavam pelas portas com os seus ceires d'hortalias: -varria-se de vagar a testada das lojas: no ar macio morria a distancia -um toque fino de missa. - -Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas, -estendeu um olhar esplendida parelha baia reluzindo como um setim sob -o faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas -librs, a todo aquelle luxo correcto e rolando em cadencia--onde fazia -mancha o seu paletot: mas o que o impressionou foi o aspecto -resplandecente de Carlos, o olhar acceso, as bellas cres, o bello riso, -o quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob o seu simples -veston de xadrezinho castanho, n'aquella almofada burgueza de break, lhe -dava um arranque de heroe jovial, lanando o seu carro de guerra... -Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta que desde a vespera -lhe ficara nos labios. - ---Com franqueza, aqui para ns, que ida foi esta de ir a Cintra? - -Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de -Mozart, e pelas _fugas_ de Bach? Pois bem, a ida era vir a Cintra, -respirar o ar de Cintra, passar o dia em Cintra... Mas, pelo amor de -Deus, que o no revelasse a ninguem! - -E accrescentou, rindo: - ---Deixa-te levar, que no te has de arrepender... - -No, Cruges no se arrependia. At achava delicioso o passeio, gostara -sempre muito de Cintra... Todavia no se lembrava bem, tinha apenas uma -vaga ida de grandes rochas e de nascentes d'aguas vivas... E terminou -por confessar que desde os nove annos no voltara a Cintra. - -O que! o maestro no conhecia Cintra?... Ento era necessario ficarem -l, fazer as peregrinaes classicas, subir Pena, ir beber agua -Fonte dos Amores, barquejar na varzea... - ---A mim o que me est a appetecer muito Sitiaes; e a manteiga fresca. - ---Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros... Emfim, -uma ecloga! - -O break rodava na estrada de Bemfica: iam passando muros enramados de -quintas, casares tristonhos de vidraas quebradas, vendas com o seu -masso de cigarros porta dependurado de uma guita: e a menor arvore, -qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de collina -verde, encantavam Cruges. Ha que tempos elle no via o campo! - -Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraou-se do seu grande -cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletot--e declarou-se morto de -fome. - -Felizmente estavam chegando Porcalhota. - -O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado,--mas, como era -cedo para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma -bella pratada de ovos com chourio. Era uma cousa que no provava havia -annos, e que lhe daria a sensao de estar na alda... Quando o patro, -com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre a meza sem -toalha a enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as mos, achando -aquillo deliciosamente campestre. - ---A gente em Lisboa estraga a saude! disse elle. puxando para o prato -uma montanha de ovo e chourio. Tu no tomas nada?... - -Carlos, para lhe fazer companhia, acceitou uma chavena de caf. - -D'ahi a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a bocca cheia: - ---O Rheno tambem deve ser magnifico! - -Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora alli o Rheno?... -que o maestro, desde que sahira as portas, estava cheio de idas de -viagens e de paisagens; queria vr as grandes montanhas onde ha neve, os -rios de que se falla na Historia. O seu ideal seria ir Allemanha, -percorrer a p, com uma mochilla, aquella patria sagrada dos seus -deuses, de Beethoven, de Mozart, de Wagner... - ---No te appetecia mais ir Italia? perguntou Carlos accendendo o -charuto. - -O maestro esboou um gesto de desdem, teve uma das suas phrases -sybillinas: - ---Tudo contradanas!... - -Carlos ento fallou de um certo plano de ir Italia, com o Ega, no -inverno. Ir Italia, para o Ega, era uma hygiene intellectual: -precisava calmar aquella imaginao tumultuosa de nervoso peninsular -entre a placida magestade dos marmores... - ---O que elle precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges. - -E voltou a fallar do caso da vespera, do famoso artigo da _Gazeta_. -Achava aquillo, como elle dissera, pura e simplesmente insensato, e de -uma sabujice indecorosa. E o que o affligia que o Ega, com aquelle -talento, aquella verve fumegante, no fizesse nada... - ---Ninguem faz nada, disse Carlos espreguiando-se. Tu, por exemplo, que -fazes? - -Cruges, depois de um silencio, rosnou encolhendo os hombros: - ---Se eu fizesse uma boa opera, quem que m'a representava? - ---E se o Ega fizesse um bello livro, quem que lh'o lia? - -O maestro terminou por dizer: - ---Isto um paiz impossivel... Parece-me que tambem vou tomar caf. - -Os cavallos tinham descanado, Cruges pagou a conta, partiram. D'ahi a -pouco entravam na charneca que lhes pareceu infindavel. D'ambos os -lados, a perder de vista, era um cho escuro e triste; e por cima um -azul sem fim, que n'aquella solido parecia triste tambem. O trote -compassado dos cavallos batia monotonamente a estrada. No havia um -rumor: por vezes um passaro cortava o ar, n'um vo brusco, fugindo do -ermo agreste. Dentro do break um dos criados dormia; Cruges, pesado dos -ovos com chourio, olhava, vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas -dos cavallos. - -Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Cintra. E realmente -no sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que elle no avistava -certa figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que no -encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus: -agora suppunha que ella estava em Cintra, corria a Cintra. No esperava -nada, no desejava nada. No sabia se a veria, talvez ella tivesse j -partido. Mas vinha: e era j delicioso o pensar n'ella assim por aquella -estrada fra, penetrar, com essa doura no corao, sob as bellas -arvores de Cintra... Depois, era possivel que d'ahi a pouco, na velha -Lawrence, elle a cruzasse de repente no corredor, roasse talvez o seu -vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ella l estivesse, decerto viria -jantar sala, aquella sala que elle conhecia to bem, que j lhe estava -appetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, os ramos -toscos sobre a meza, e os dois grandes candieiros de lato antigo... -Ella entraria alli, com o seu bello ar claro de Diana loira; o bom -Damaso, apresentaria o seu amigo Maia; aquelles olhos negros que elle -vira passar de longe como duas estrellas, pousariam mais de vagar nos -seus; e, muito simplesmente, ingleza, ella estender-lhe-hia a mo... - ---Ora at que finalmente! exclamou Cruges, com um suspiro de allivio e -respirando melhor. - -Chegavam s primeiras casas de Cintra, havia j verduras na estrada, e -batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra. - -E a passo, o break foi penetrando sob as arvores do Ramalho. Com a paz -das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e emballadora -sussurrao de ramagens, e como o diffuso e vago murmurio de agoas -correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: atravez da -folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e avelludado -circulava, rescendendo s verduras novas; aqui e alm, nos ramos mais -sombrios, passaros chilreavam de leve; e n'aquelle simples bocado de -estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se j, sem se vr, a -religiosa solemnidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das -nascentes vivas, a tristeza que cae das penedias e o repouso fidalgo das -quintas de vero... Cruges respirava largamente, voluptuosamente. - ---A Lawrence onde ? Na serra?--perguntou elle com a ida repentina de -ficar alli um mez n'aquelle paraiso. - ---Ns no vamos para a Lawrence, disse Carlos sahindo bruscamente do seu -silencio, e espertando os cavallos. Vamos para o Nunes, estamos l muito -melhor! - -Era uma ida que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas -de S. Pedro, e o break comeara a rolar n'aquellas estradas onde a cada -momento elle a poderia encontrar. Tomara-o uma timidez, a que se -misturava um laivo de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto, -seguindo-a assim a Cintra, ainda que ella o no reconhecesse, indo -installar-se sob as mesmas telhas, apoderando-se de um logar mesma -meza... E ao mesmo tempo repugnou-lhe a ida de lhe ser apresentado pelo -Damaso: via-o j, bochechudo e vestido de campo, a esboar um gesto de -ceremonia, a mostrar o _seu amigo Maia_, a tratal-o por tu, affectando -intimidades com ella, cocando-a com um olho terno... Isto seria -intoleravel. - ---Vamos para o Nunes, que se come melhor! - -Cruges no respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impresso -religiosa de todo aquelle esplendor sombrio de arvoredo, dos altos -fragosos da serra entrevistos um instante l em cima nas nuvens, d'esse -aroma que elle sorvia deliciosamente, e do sussurro doce de aguas -descendo para os valles... - -S ao avistar o Pao descerrou os labios: - ---Sim senhor, tem _cachet_! - -E foi o que mais lhe agradou--este macisso e silencioso palacio, sem -flores e sem torres, patriarchalmente assentado entre o casario da -villa, com as suas bellas janellas manuelinas que lhe fazem um nobre -semblante real, o valle aos ps, frondoso e fresco, e no alto as duas -chamins collossaes, disformes, resumindo tudo, como se essa residencia -fosse toda ella uma cosinha talhada s propores de uma gula de Rei que -cada dia come todo um Reino... - -E apenas o break parou porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar, -timido e de longe--receiando alguma palavra rude da sentinella. - -Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou parte o criado do -hotel, que descera a recolher as maletas. - ---Voss conhece o sr. Damaso Salcede? Sabe se elle est em Cintra? - -O creado conhecia muito bem o sr. Damaso Salcede. Ainda na vespera pela -manh o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas -pretas... Devia estar na Lawrence, porque s com raparigas e em pandiga - que o sr. Damaso vinha para o Nunes. - ---Ento, depressa, dous quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de -creana, certo agora que _ella_ estava em Cintra. E uma sala particular, -s para ns, para almoarmos! - -Cruges, que se approximava, protestou contra esta sala solitaria. -Preferia a meza redonda. Ordinariamente na meza redonda encontram-se -typos... - ---Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as mos, pe o almoo na sala -de jantar, pe-n'o at na Praa... E muita manteiga fresca para o sr. -Cruges! - -O cocheiro levou o break, o creado sobraou as maletas. Cruges, -enthusiasmado com Cintra, rompeu pela escada acima, a -assobiar--conservando aos hombros o chaile-manta, de que se no queria -separar, porque lh'o emprestara a mam. E apenas chegou porta da sala -do jantar, estacou, ergueu os braos, teve um grito. - ---Oh Euzebiosinho! - -Carlos correu, olhou... Era elle, o viuvo, acabando de almoar, com duas -raparigas hespanholas. - -Estava no topo da meza, como presidindo, diante de uns restos de pudim e -de pratos de fructa, amarellado, despenteado, carregado de luto, com a -larga fita das lunetas pretas passada por traz da orelha, e uma rodela -de taffet negro sobre o pescoo tapando alguma espinha rebentada. - -Uma das hespanholas era um mulhero trigueiro, com signaes de bexigas na -cara; a outra muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de -febre, que o p de arroz no desfarava. Ambas vestiam de setim preto, e -fumavam cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janella, -pareciam mais gastas, mais molles, ainda pegajosas da lentura morna dos -colxes, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo sucia havia um -outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoo, com as costas para a porta e a -cabea sobre o prato, babujando uma metade de laranja. - -Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito com o garfo no ar; -depois l se ergueu, de guardanapo na mo, veiu apertar os dedos aos -amigos, balbuciando logo uma justificao embrulhada, a ordem do medico -para mudar de ares, aquelle rapaz que o acompanhara, e que quizera -trazer raparigas... E nunca parecera to funebre, to relles, como -resmungando estas cousas hypocritas, encolhido sombra de Carlos. - ---Fizeste muito bem, Eusebiosinho, disse Carlos por fim, batendo-lhe no -hombro. Lisboa est um horror, e o amor cousa doce. - -O outro continuava a justificar-se. Ento a hespanhola magrita, que -fumava, afastada da meza e com a perna traada, elevou a voz, perguntou -ao Cruges se elle no lhe fallava. O maestro affirmou-se um momento, e -partiu de braos abertos para a sua amiga Lolla. E foi, n'esse canto da -meza, uma grulhada em hespanhol, grandes apertos de mo, e _hombre, que -no se le ha visto! e mira, que me he accordado de ti!_ e _caramba, que -reguapa estas_... Depois a Lolla, tomando um arsinho espremido, -apresentou o outro mulhero, la seorita Concha... - -Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade--o sujeito obeso, que -apenas levantara um instante a cabea do prato, decidiu-se a examinar -mais attentamente os amigos do Euzebio: crusou o talher, limpou com o -guardanapo a bocca, a testa e o pescoo, encavallou laboriosamente no -nariz uma grande luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga, -balofa e cr de cidra, examinou detidamente Cruges, e depois Carlos, com -uma impudencia tranquilla. - -Eusebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigo Palma, ouvindo -o nome conhecido de Carlos da Maia, quiz logo mostrar diante de um -gentleman, que era um gentleman tambem. Arrojou para longe o guardanapo, -arredou para fra a cadeira; e de p, estendendo a Carlos os dedos -molles e de unhas roidas, exclamou, com um gesto para os restos da -sobremeza: - ---Se. v. ex.^a servido, sem ceremonia... Que isto quando a gente vem -a Cintra, para abrir o appetite e fazer bem barriga... - -Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animava e -gracejava com a Lolla, fez tambem do outro lado da meza a sua -apresentao: - ---Carlos, quero que conheas aqui a lindissima Lolla, relaes antigas, -e a seorita Concha, que eu tive agora o prazer... - -Carlos saudou respeitosamente as damas. - -O mulhero da Concha rosnou seccamente os _buenos dias_: parecia de mau -humor, pesada do almoo, amodorrada para alli, sem dizer uma palavra, -com os cotovellos fincados na meza, os olhos pestanudos meio cerrados, -ora fumando, ora palitando os dentes. Mas a Lolla foi amavel, fez de -senhora, ergueu-se, offereceu a Carlos a mosita suada. Depois retomando -o cigarro, dando um geito s pulseiras de ouro, declarou com um requebro -d'olhos, que conhecia de ha muito Carlos... - ---No ha estado ustd con Encarnacion? - -Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito d'ella, d'essa bella -Encarnacion? - -A Lolla sorriu com finura, tocou no cotovello do maestro. No acreditava -que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion... Emfim, terminou -por dizer que a Encarnacion estava agora com o Saldanha. - ---Mas olhe que no com o duque de Saldanha! exclamou Palma, que se -conservara de p, com a bolsa do tabaco aberta sobre a meza, fazendo um -grande cigarro. - -A Lolita, com um modo secco, replicou que o Saldanha no seria duque, -mas era um _chico muy decente_... - ---Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na bocca e tirando a isca -da algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda no ha tres -semanas... Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu... Foi at no -Montanha... Duas bofetadas que lhe foi logo o chapo parar ao meio da -rua... O sr. Maia ha de conhecer o Saldanha... Ha de conhecer, que elle -tambem tem um carrito e um cavallo. - -Carlos fez um gesto indicando que no; e despedia-se de novo, saudando -as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em -quanto satisfazia uma curiosidade: queria saber qual d'aquellas meninas -era a _esposa do amigo Eusebio_. - -Assim interpellado, o viuvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem -erguer as lunetas da laranja que descascava, que estava alli de passeio, -no tinha esposa, e ambas aquellas meninas pertenciam ao amigo Palma... - -E ainda elle mascava as ultimas palavras, quando Concha, que digeria de -perna estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou -um murro borda da meza, e com os olhos chammejantes, desafiou o -Eusebio a que repetisse aquillo! Queria que elle repetisse! Queria que -dissesse se tinha vergonha d'ella, e de dizer que a tinha trazido a -Cintra!... E como o Eusebio, j enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma -festa--ella despropositou, atirou-lhe os peiores nomes, dando sempre -punhadas na meza, com uma furia que lhe torcia a bocca, lhe punha duas -manchas de sangue no caro trigueiro. A Lolita, vexada, puchava-lhe pelo -brao: a outra deu-lhe um repello; e, mais excitada com a estridencia -da propria voz, esvasiou-se de toda a bilis, chamou-lhe porco, accusou-o -de forreta, usou-o como um trapo vil. - -Palma afflicto, debruado sobre a meza, exclamava n'um tom ancioso: - --- Concha, escuta l!... Ouve l!... Concha, eu te explico... - -De repente, ella ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulhero -abalou pela sala fra, a grande cauda de setim varreu desabridamente o -soalho, ouviu-se dentro estalar uma porta. No cho ficara caindo um -pedao da mantilha de renda. - -O creado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o -olho curioso, farejando o escandalo; depois, calado e seccamente, foi -servindo em roda o caf. - -Durante um momento houve um silencio. Apenas porm o criado sahiu--a -Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Eusebiosinho. -Elle portara-se muito mal! Aquillo no fra de cavalheiro! Tinha trazido -a rapariga a Cintra, devia-a respeitar, no a ter renegado assim, -bruta, diante de todos... - ---_Esto no se hace_, dizia a Lolita, de p, gesticulando, com os olhos -brilhantes, voltada para Carlos, _ha sido una cosa muy fa!_.. - -E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntaria da -catastrophe--ella baixou a voz, contou que a Concha era uma furia, viera -a Cintra com pouca vontade, e desde manh estava de _muy malo humor_... -Pero lo de Silbeira habia sido una gran pulhice... - -Elle, coitado, com a cabea cahida e as orelhas em braza, remexia -desoladamente o seu caf; no se lhe viam os olhos escondidos pelas -lunetas pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluo que lhe affogava a -garganta. Ento Palma pouzou a chavena, lambeu os beios, e de p no -meio da sala, com a face luzidia, o collete desabotoado, fez n'um tom -entendido o resumo d'aquelle desgosto. - ---Tudo provm d'isto, e desculpe-me voc dizel-o, Silveira: que voc -no sabe tratar com hespanholas! - -A esta cruel palavra o viuvo succumbiu. A colher cahiu-lhe dos dedos. -Ergueu-se, acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se n'elles, -vindo reconfortar-se ao calor da sua amizade,--e desabafou, estas -palavras angustiosas escaparam-se-lhe dos labios: - ---Vejam vocs! vem a gente a um sitio d'estes para gosar um bocado de -poesia, e no fim uma d'estas!... - -Carlos bateu-lhe melancolicamente no hombro: - ---A vida assim, Eusebiosinho. - -Cruges fez-lhe uma festa nas costas: - ---No se pde contar com prazeres, Silveirinha. - -Mas Palma, mais pratico, declarou que era foroso arranjarem-se as -cousas. Virem a Cintra, para questes e amuos, isso no! N'aquellas -pandegas queria-se harmonia, chalaa, e gosar. Couces, no. Ento -ficava-se em Lisboa, que era mais barato. - -Chegou-se a Lolla, passou-lhe os dedos pela face, com amor: - ---Anda Lolita, vae tu l dentro Concha, dize-lhe que se no faa tola, -que venha tomar caf... Anda, que tu sabe-l'a levar... Dize-lhe que peo -eu! - -Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um geito -ao cabello diante do espelho, apanhou a cauda--e sahiu, atirando a -Carlos, ao passar, um olhar e um sorrisinho. - -Apenas ficaram ss, Palma voltou-se para o Eusebio, e deu-lhe conselhos -muito serios sobre o systema de tratar hespanholas. Era necessario -leval-as por bons modos; por isso que ellas se pellavam por -portuguezes, porque l em Hespanha era bordoada... Emfim, elle no -dizia que em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de -bengaladas, no fossem uteis... Sabiam, por exemplo, os amigos, quando -se devia bater? Quando ellas no gostavam da gente, e se faziam ariscas. -Ento, sim. Ento zs, tapona, que ellas ficavam logo pelo beio... Mas -depois bons modos, delicadeza, tal qual como com francezas... - ---Acredite voc isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiencia. E o sr. -Maia que lhe diga se isto no verdade, elle que tem tambem experiencia -e sabe viver com hespanholas! - -E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito--que Cruges desatou a -rir, fez rir Carlos tambem. - -O sr. Palma, um pouco chocado, compoz mais as lunetas, e olhou para -elles: - ---Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que eu -comecei a lidar com hespanholas aos quinze annos! No, escusam de rir, -que n'isso ninguem me ganha! L o que se chama ter geito para -hespanholas, c o meco! E, vamos l, que no facil! necessario ter -um certo talento!... Olhem, o Herculano capaz de fazer bellos artigos -e estylo catita... Agora tragam-n'o c para lidar com hespanholas e -veremos! No d meia... - -Eusebiosinho no entanto fra duas vezes escutar porta. Todo o hotel -cahira n'um grande silencio, a Lolita no voltava. Ento Palma -aconselhou um grande passo: - ---V voc l dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim sem mais nem -menos, chegue-se ao p d'ella... - ---E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gosando o Palma. - ---Qual tapona! Ajoelhe e pea perdo... N'este caso pedir perdo... E -como pretexto, Silveira, leve-lhe voc mesmo o caf. - -Eusebiosinho, com um olhar ancioso e mudo, consultou os seus amigos. Mas -o seu corao j decidira: e d'ahi a um momento, com o pedao de -mantilha n'uma das mos, a chavena de caf na outra, enfiado e -commovido, l partia a passos lentos pelo corredor a pedir perdo -Concha. - -E, logo atraz d'elle, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem -do sr. Palma--que de resto, indifferente tambem, j se accommodara -meza a preparar regaladamente o seu grog. - - -Eram duas horas quando os dous amigos sahiram emfim do hotel, a fazer -esse passeio a Sitiaes--que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na -praa, por defronte das lojas vasias e silenciosas, ces vadios dormiam -ao sol: atravez das grades da cada os presos pediam esmola. Creanas, -enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas -tinham ainda as janellas fechadas, continuando o seu somno de inverno, -entre as arvores j verdes. De vez em quando apparecia um bocado da -serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se -o castello da Pena, solitario, l no alto. E por toda a parte o luminoso -ar de abril punha a doura do seu velludo. - -Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao -Cruges. - ---Tem o ar mais sympathico, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir -para o Nunes, s para vr aquella scena... E ento com qu o sr. Carlos -da Maia tem experiencia de hespanholas? - -Carlos no respondeu, os seus olhos no se despegavam d'aquella fachada -banal, onde s uma janella estava aberta com um par de botinas de -duraque seccando ao ar. porta, dous rapazes inglezes, ambos de -knicker-bokers, cachimbavam em silencio; e defronte, sentados sobre um -banco de pedra, dous burriqueiros ao lado dos burros, no lhes tiravam o -olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa. - -Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancolico, sahindo -do silencio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as -suas recordaes, quasi certo de Damaso lhe ter dito que a bordo Castro -Gomes tocava flauta... - ---Isto sublime! exclamou do lado o Cruges, commovido. - -Parara diante da grade d'onde se domina o valle. E d'ali olhava, -enlevadamente, a rica vastido de arvoredo cerrado, a que s se veem os -cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, -e tendo aquella distancia, no brilho da luz, a suavidade macia de um -grande musgo escuro. E n'esta espessura verde-negra havia uma frontaria -de casa que o interessava, branquejando, affogada entre a folhagem, com -um ar de nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve -uma ida de artista: desejou habital-a com uma mulher, um piano e um co -da Terra-nova. - -Mas o que o encantava era o ar. Abria os braos, respirava a tragos -deliciosos: - ---Que ar! Isto d saude, menino! Isto faz reviver!... - -Para o gosar mais docemente, sentou-se adiante, n'um bocado de muro -baixo, defronte de um alto terrao gradeado, onde velhas arvores -assombreiam bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das -suas ramagens, cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o -relogio, as horas que fugiam para ir vr o palacio, a Pena, as outras -bellezas de Cintra--o maestro declarou que preferia estar ali, ouvindo -correr a agua, a vr monumentos caturras... - ---Cintra no so pedras velhas, nem cousas gothicas... Cintra isto, -uma pouca de agua, um bocado de musgo... Isto um paraiso!... - -E, n'aquella satisfao que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo a -sua chalaa: - ---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experiencia de -hespanholas!... - ---Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos, que riscava -pensativamente o cho com a bengala. - -Ficaram callados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em -que estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores -e arvores, suffocando-se n'uma prodigalidade de bosque silvestre, -deixando apenas espao para um tanquesinho redondo, onde uma pouca de -agua, immovel e gelada, com dous ou tres nenufares, se esverdinhava sob -a sombra d'aquella ramaria profusa. Aqui e alem, entre a bella desordem -da folhagem, distinguiam-se arranjos de gosto burguez, uma volta de -ruasita estreita como uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de -um gesso. N'outros recantos, aquelle jardim de gente rica, exposto s -vistas, tinha retoques pretenciosos de estufa rara, aloes e cactos, -braos aguardasolados de auraucarias erguendo-se d'entre as agulhas -negras dos pinheiros bravos, laminas de palmeira, com o seu ar triste de -planta exilada, roando a rama leve e perfumada das olaias floridas de -cr de rosa. A espaos, com uma graa discreta, branquejava um grande p -de margaridas; ou em torno de uma rosa, solitaria na sua haste, -palpitavam borboletas aos pares. - ---Que pena que isto no pertena a um artista! murmurou o maestro. S um -artista saberia amar estas flores, estas arvores, estes rumores... - -Carlos sorriu. Os artistas, dizia elle, s amam na natureza os effeitos -de linha e cr; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para -cuidar de que um craveiro no soffra sede, para sentir magoa de que a -geada tenha queimado os primeiros rebentes das acacias--para isso s o -burguez, o burguez que todas as manhs desce ao seu quintal com um -chapo velho e um regador, e v nas arvores e nas plantas uma outra -familia muda, por que elle tambem responsavel... - -Cruges, que escutara distrahidamente, exclamou: - ---Diabo! necessario que no me esqueam as queijadas! - -Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a -trote do lado de Sitiaes. Carlos ergueu-se logo, certo de que era -_ella_, e que elle ia vr os seus bellos olhos brilhar e fugir como duas -estrellas. A caleche passou, levando um ancio de barbas de patriarcha, -e uma velha ingleza com o regao cheio de flores, e o vo azul -fluctuando ao ar. E logo atraz, quasi no p que as rodas tinham erguido, -appareceu, caminhando pensativamente, de mos atraz das costas, um homem -alto, todo de preto, com um grande chapo Panam sobre os olhos. Foi -Cruges que reconheceu os longos bigodes romanticos, que gritou: - ---Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!... - -Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braos abertos, no -meio da estrada. Depois, com a mesma effuso ruidosa, apertou Carlos -contra o corao, beijou o Cruges na face--porque conhecia Cruges desde -pequeno, Cruges era para elle como um filho. Caramba! Eis ahi uma -surpreza que elle no trocava pelo titulo de duque! Ora o alegro de os -vr ali! Como diabo tinham elles vindo ali parar? - -E no esperou a resposta, contou elle logo a sua historia. Tivera um dos -seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Mello, o bom -Mello, recommendara-lhe mudana d'ares. Ora elle, bons ares, s -comprehendia os de Cintra: porque alli no eram s os pulmes que lhe -respiravam bem, era tambem o corao, rapazes!... De sorte que viera na -vespera, no omnibus. - ---E onde ests tu, Alencar? perguntou logo Carlos. - ---Pois onde queres tu que eu esteja, filho? L estou com a minha velha -Lawrence. Coitada! est bem velha! mas para mim sempre uma amiga, -quasi uma irm!... E vocs, que diabo? Para onde vo vocs, com essas -flores nas lapellas? - ---A Sitiaes. Vou mostrar Sitiaes ao maestro. - -Ento tambem elle voltava a Sitiaes! No tinha nada que fazer seno -sorver bom ar, e scismar... Toda a manh andara alli, vagamente, -pendurando sonhos dos ramos das arvores. Mas agora j os no largava; -era mesmo um dever ir elle proprio fazer ao maestro as honras de -Sitiaes... - ---Que aquillo sitio muito meu, filhos! No ha alli arvore que me no -conhea... Eu no vos quero comear j a impingir versos; mas emfim, -vocs lembram-se de uma cousa que eu fiz a Sitiaes, e de que por ahi se -gostou... - - - Quantos luares eu l vi! - Que doces manhs d'abril! - E os ais que soltei alli - No foram sete, mas mil! - - -Pois ento j vocs vem, rapazes, que tenho razo para conhecer -Sitiaes... - -O poeta lanou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam -todos tres callados. - ---Dize-me uma cousa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando -no brao do poeta. O Damaso est na Lawrence? - -No, que elle o tivesse visto. Verdade seja que na vespera, apenas -chegara, fra-se deitar, fatigado; e n'essa manh almoara s com dois -rapazes inglezes. O unico animal que avistara fra um lindo cosinho de -luxo, ladrando no corredor... - ---E vocs onde esto? - ---No Nunes. - -Ento o poeta parando de novo, contemplando Carlos com sympathia: - ---Que bem que fizeste em arrastar c o maestro, filho!... Quantas vezes -eu tenho dito quelle diabo, que se mettesse no omnibus, viesse passar -dous dias a Cintra. Mas ninguem o tira de martelar o piano. E olha tu -que mesmo para a musica, para compor, para entender um Mozart, um -Choppin, necessario ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia -da ramagem... - -Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado: - ---Tem muito talento, tem muita ida melodica!... Olha que andei com -aquillo s cabritas... E a me, menino, foi muitissimo boa mulher. - ---Vejam vocs isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto -sublime. - -Era apenas um bocadito d'estrada, apertada entre dous velhos muros -cobertos d'hera, assombreada por grandes arvores entrelaadas, que lhe -faziam um toldo de folhagem aberto luz como uma renda: no cho tremiam -manchas de sol: e, na frescura e no silencio, uma agoa que se no via ia -fugindo e cantando. - ---Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, ento tens de subir -serra. Ahi tens o espao, tens a nuvem, tens a arte... - ---No sei, talvez goste mais d'isto, murmurou o maestro. - -A sua natureza de timido preferiria, de certo, estes humildes recantos, -feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedao de muro musgoso, -logares de quietao e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o -scismar dos indolentes... - ---De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Cintra divino. No ha -cantinho que no seja um poema... Olha, alli tens tu, por exemplo, -aquella linda florinha azul...--e, ternamente, apanhou-a. - ---Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora, -desde que o poeta fallara do cosinho de luxo, mais certo de que ella -estava na Lawrence, e que a ia brevemente encontrar. - -Mas, ao chegar a Sitiaes, Cruges teve uma desilluso diante d'aquelle -vasto terreiro coberto de herva, com o palacete ao fundo, enxovalhado, -de vidraas partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno -ceu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a ida, de pequeno, que -Sitiaes era um monto pittoresco de rochedos, dominando a profundidade -de um valle; e a isto misturava-se vagamente uma recordao de luar e de -guitarras... Mas aquillo que elle alli via era um desapontamento. - ---A vida feita de desapontamentos, disse Carlos, Anda para diante! - -E apressou o passo atravez do terreiro, em quanto o maestro, cada vez -mais animado, lhe gritava a chalaa do dia: - ---E v. ex.^a deve sabel-o, sr. Maia, porque tem experincia de -hespanholas!... - -Alencar, que se demorara atraz a accender o cigarro, estendeu o ouvido, -curioso, quiz saber o que era isso de hespanholas? O maestro contou-lhe -o encontro no Nunes e os furores da Concha. - -Iam ambos caminhando por uma das alamedas lateraes, verde e fresca, de -uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava -deserto; a herva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrellada de -botes de ouro brilhando ao sol, e de malmequersinhos brancos. Nenhuma -folha se movia: atravez da ramaria ligeira o sol atirava mlhos de raios -de ouro. O azul parecia recuado a uma distancia infinita, repassado de -silencio luminoso; e s se ouvia, s vezes, monotona e dormente, a voz -de um cuco nos castanheiros. - -Toda aquella vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os -seus flores de pedra rodos da chuva, o pesado brazo rococ, as -janellas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia -estar-se deixando morrer voluntariamente n'aquella verde -solido,--amuada com a vida, desde que d'alli tinham desapparecido as -ultimas graas do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de -anquinhas tinham roado essas relvas... Agora Cruges a descrevendo ao -Alencar a figura do Eusebiosinho, com a chavena de caf na mo, a ir -pedir perdo Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande chapo -panam, se agachava a colher florinhas silvestres. - -Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado n'um dos bancos de -pedra, fumando pensativamente a sua cigarette. O palacete deitava sobre -aquelle bocado de terrao a sombra dos seus muros tristes; do valle -subia uma frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o -prantear de um repuxo. Ento o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo, -fallou com nojo do Eusebiosinho.--Ahi est uma torpeza que elle nunca -commettera, trazer meretrizes a Cintra! Nem a Cintra, nem a parte -nenhuma... Mas muito menos a Cintra! Sempre tivera, todo o mundo devia -ter, a religio d'aquellas arvores e o amor d'aquellas sombras... - ---E esse Palma, accrescentou elle, um traste! Eu conheo-o; elle teve -uma especie de jornal, e j lhe dei muita bofetada na rua do Alecrim. -Foi uma historia curiosa... Ora eu t'a conto Carlos... Aquelle canalha! -quando me lembro!... Aquella vil bolinha de materia putrida!... Aquelle -chouricinho de pus! - -Levantou-se, passando a mo nervosa sobre os bigodes, j excitado pela -lembrana d'aquella velha desordem, vergastando o Palma com nomes -ferozes, todo n'uma d'essas fervuras de sangue que eram a sua desgraa. - -Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planicie de -lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em -quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um panno -feito de remendos assim que elle tinha na meza do seu quarto. Tiras -brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e alm, n'uma massa de -arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, n'aquelle solo onde as -aguas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro, -correndo e reluzindo entre as hervas. O mar ficava ao fundo, n'uma linha -unida, esbatida na tenuidade diffusa da bruma azulada: e por cima -arredondava-se um grande azul lustroso como um bello esmalte, tendo -apenas, l no alto, um farraposinho de nevoa, que ficara alli esquecido, -e que dormia enovellado e suspenso na luz... - ---Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua historia. -Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos ps, crusei os braos e -disse-lhe: ahi tem voc a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as mos! - ---Que diabo, no me ho de esquecer as queijadas! murmurou Cruges, para -si mesmo, affastando-se do parapeito. - -Carlos erguera-se tambem, olhava o relogio. Mas antes de deixar Sitiaes, -Cruges quiz explorar o outro terrao ao lado: e, apenas subira os dous -velhos degraus de pedra, soltou de l um grito alegre: - ---Bem dizia eu! c esto elles... E vocs a dizer que no! - -Foram-n'o encontrar triumphante, diante de um monto de penedos, polidos -pelo uso, j com um vago feitio de assentos, deixados ali outr'ora, -poeticamente, para dar ao terrao uma graa agreste de selva brava. -Ento, no dizia elle? Bem dizia elle que em Sitiaes havia penedos! - ---Se eu me lembrava perfeitamente! _Penedo da Saudade_, no que se -chama, Alencar? - -Mas o poeta no respondeu. Diante d'aquellas pedras crusara os braos, -sorria dolorosamente; e immovel, sombrio no seu fato negro, com o panam -carregado para a testa, envolveu todo aquelle recanto n'um olhar lento e -triste. - -Depois, no silencio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente: - ---Vocs lembram-se, rapazes, nas _Flres e Martyrios_, de uma das cousas -melhores que l tenho, em rimas livres, chamada _6 de Agosto_? No se -lembram talvez... Pois eu vol-a digo, rapazes! - -Machinalmente tirara do bolso o leno branco. E com elle fluctuante na -mo, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges, -baixou a voz como n'uma confidencia sagrada, recitou, com um ardor -surdo, mordendo as syllabas, tremulo, n'uma paixo ephemera de nervoso: - - - Vieste! Cingi-te ao peito. - Em redor que noite escura! - No tinha rendas o leito, - Nem tinha lavores na barra - Que era s a rocha dura... - Muito ao longe uma guitarra - Gemia vagos harpejos... - (V tu que no me esqueceu)... - E a rocha dura aqueceu - Ao calor dos nossos beijos! - - -Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol, -atirou para l um gesto triste, e murmurou: - ---Foi alli. - -E affastou-se, alquebrado sob o seu grande chapo panam, com o leno -branco na mo. Cruges, que aquelles romantismos impressionavam, ficou a -olhar para os penedos como para um sitio historico. Carlos sorria. E -quando ambos deixaram esse recanto do terrao--o poeta, agachado junto -do arco, estava apertando o atilho da ceroula. - -Endireitou-se logo, j toda a emoo o deixara, mostrava os maus dentes -n'um sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco: - ---Agora, Cruges, filho, repara tu n'aquella tela sublime. - -O maestro embasbacou. No vo do arco, como dentro de uma pesada moldura -de pedra, brilhava, luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma -composio quasi phantastica, como a illustrao de uma bella lenda de -cavallaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e -verdejando, todo salpicado de botes amarellos; ao fundo, o renque -cerrado de antigas arvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da -grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente d'essa -copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, -destacando vigorosamente n'um relevo nitido sobre o fundo de cu azul -claro, o cume airoso da serra, toda cr de violeta escura, coroada pelo -castello da Pena, romantico e solitario no alto, com o seu parque -sombrio aos ps, a torre esbelta perdida no ar, e as cupulas brilhando -ao sol como se fossem feitas de ouro... - -Cruges achou aquelle quadro digno de Gustavo Dor. Alencar teve uma -bella phrase sobre a imaginao dos arabes. Carlos, impaciente, foi-os -apressando para diante. - -Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir Pena. -Alencar, por si, a tambem com prazer. A Pena para elle era outro ninho -de recordaes. Ninho? Devia antes dizer cemiterio... Carlos hesitava, -parado junto da grade. Estaria ella na Pena? E olhava a estrada, olhava -as arvores, como se podesse adivinhar pelas pegadas no p, ou pelo mover -das folhas, que direco tinham tomado os passos que elle seguia... Por -fim teve uma ida. - ---Vamos indo primeiro Lawrence. E depois se quizermos ir Pena, -arranjam-se l os burros... - -E nem mesmo quiz escutar o Alencar, que tivera, tambem uma ida, fallava -de Collares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; accelerou o passo -para a Lawrence, emquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da -ceroula, e o maestro, n'um enthusiasmo bucolico, ornava o chapo de -folhas de hera. - -Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na bocca, no -tendo podido apoderar-se dos inglezes, preguiavam ao sol. - ---Vocs sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma familia, que est aqui no -hotel, foi para a Pena?... - -Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se. - ---Sim, senhor, foram para l ha bocado, e aqui est o burrinho tambem -para v. ex.^a, meu amo! - -Mas o outro, mais honesto, negou. No senhor, a gente que fra para a -Pena estava no Nunes... - ---A familia que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palacio... - ---Uma senhora alta? - ---Sim senhor. - ---Com um sujeito de barba preta? - ---Sim senhor. - ---E uma cadellinha? - ---Sim senhor. - ---Tu conheces o sr. Damaso Salcede? - ---No senhor... o que tira retratos? - ---No, no tira retratos... Tomae l. - -Deu-lhes uma placa de cinco tostes; e voltou ao encontro dos outros, -declarando que realmente era tarde para subirem Pena. - ---Agora o que tu deves vr, Cruges, o palacio. Isso que tem -originalidade e cachet! No verdade, Alencar?... - ---Eu vos digo, filhos, comeou o auctor de _Elvira_, historicamente -fallando... - ---E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou Cruges. - ---Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas; necessario no -perder tempo; a caminho! - -Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palacio, em quatro -largas passadas estava l. E logo da praa avistou, saindo j o porto, -passando rente da sentinella, a famosa familia hospedada na Lawrence e a -sua cadellinha de luxo. Era, com effeito, um sujeito de barba preta, e -de sapatos de lona branca; e, ao lado d'elle, uma matrona enorme, com um -mantelete de seda, cousas de ouro pelo pescoo e pelo peito, e o -cosinho felpudo ao collo. Vinham ambos rosnando o quer que fosse, com -mau modo um para o outro, e em hespanhol. - -Carlos ficou a olhar para aquelle par com a melancolia de quem contempla -os pedaos d'um bello marmore quebrado. No esperou mais pelos outros, -nem os quiz encontrar. Correu Lawrence por um caminho differente, -avido de uma certeza:--e ahi, o criado que lhe appareceu, disse-lhe que -o sr. Salcede e os srs. Castro Gomes tinham partido na vespera para -Mafra... - ---E de l?... - -O criado ouvira dizer ao sr. Damaso que de l voltavam a Lisboa. - ---Bem, disse Carlos atirando o chapo para cima da meza, traga-me voc -um calice de cognac, e uma pouca d'agua fresca. - -Cintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. No -teve animo de voltar ao palacio, nem quiz sahir mais d'ali; e arrancando -as luvas passeiando em volta da meza de jantar, onde murchavam os ramos -da vespera, sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr -ao Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vl-a, saciar os seus olhos -n'ella!... Porque, o que o irritava agora era no poder encontrar, na -pequenez de Lisboa, onde toda a gente se acotovella, aquella mulher que -elle procurava anciosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um co -perdido: fizera perigrinaes ridiculas de theatro em theatro: n'uma -manh de domingo percorrera as missas! E no a tornara a vr. Agora -sabia-a em Cintra, voava a Cintra, e no a via tambem. Ella cruzava-o -uma tarde, bella como uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cahir -n'alma por accaso um dos seus olhares negros, e desapparecia, -evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao co, d'ora em -diante invisivel e sobrenatural: e elle ali ficava, com aquelle olhar no -corao, perturbando todo o seu ser, orientando surdamente os seus -pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, para uma -adoravel desconhecida, de quem elle nada sabia seno que era alta e -loira, e que tinha uma cadellinha escosseza... Assim acontece com as -estrellas d'acaso! Ellas no so d'uma essencia diferente, nem contem -mais luz que as outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e -se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento -que deixam nos olhos mais perturbador e mais longo... Elle no a -tornara a vr. Outros viam-n'a. O Taveira vira-a. No Gremio, ouvira um -alferes de lanceiros fallar d'ella, perguntar quem era, porque a -encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os dias. Elle no -a via, e no socegava... - -O criado trouxe o cognac. Ento Carlos, preparando vagarosamente o seu -refresco, conversou com elle, fallou um momento dos dois rapazes -inglezes, depois da hespanhola obesa... Emfim, dominando uma timidez, -quasi crando, fez, atravez de grandes silencios, perguntas sobre os -Castro Gomes. E cada resposta lhe parecia uma acquisio preciosa. A -senhora era muito madrugadora, dizia o criado: s sete horas tinha -tomado banho, estava vestida, e sahia s. O sr. Castro Gomes, que dormia -n'um quarto separado, nunca se mexia antes do meio dia; e, noite, -ficava uma eternidade meza, fumando cigarettes e molhando os beios em -copinhos de cognac e agua. Elle e o sr. Damaso jogavam o domin. A -senhora tinha montes de flres no quarto; e tencionavam ficar at -domingo, mas fra ella que apressra a partida... - ---Ah, disse Carlos depois de um silencio, foi a senhora que apressou a -partida?... - ---Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa... V. -ex.^a toma mais cognac? - -Com um gesto Carlos recusou, e veiu sentar-se no terrao. A tarde -descia, calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem, cheia de -claridade dourada, n'uma larga serenidade que penetrava a alma. Elle -tel-a-hia pois encontrado, ali mesmo n'aquelle terrao, vendo tambem -cahir a tarde--se ella no estivesse impaciente por tornar a vr a -filha, algum bbsinho loiro que ficra s com a ama. Assim, a brilhante -deusa era tambem uma boa mam; e isto dava-lhe um encanto mais profundo, -era assim que elle gostava mais d'ella, com este terno estremecimento -humano nas suas bellas frmas de marmore. Agora, j ella estava em -Lisboa; e imaginava-a nas rendas do seu _peignoir_, com o cabello -enrolado pressa, grande e branca, erguendo ao ar o bb nos seus -explendidos braos de Juno, e fallando-lhe com um riso d'ouro. Achava-a -assim adoravel, todo o seu corao fugia para ella... Ah! poder ter o -direito de estar junto d'ella, n'essas horas d'intimidade, bem junto, -sentindo o aroma da sua pelle, e sorrindo tambem a um bb. E, pouco a -pouco, foi-lhe surgindo na alma um romance, radiante e absurdo: um sopro -de paixo, mais forte que as leis humanas, enrolava violentamente, -levava juntos o seu destino e o d'ella; depois, que divina existencia, -escondida n'um ninho de flres e de sol, longe, n'algum canto da -Italia... E, toda a sorte de idas d'amor, de devoo absoluta, de -sacrificio, invadiam-n'o deliciosamente--emquanto os seus olhos se -esqueciam, se perdiam, enlevados na religiosa solemnidade d'aquelle -bello fim da tarde. Do lado do mar subia uma maravilhosa cr d'ouro -pallido, que ia no alto diluir o azul, dava-lhe um branco indeciso e -opalino, um tom de desmaio doce; e o arvoredo cobria-se todo de uma -tinta loura, delicada e dormente. Todos os rumores tomavam uma suavidade -de suspiro perdido. Nenhum contorno se movia como na immobilidade de um -extase. E as casas, voltadas para o poente, com uma ou outra janella -accesa em braza, os cimos redondos das arvores apinhadas, descendo a -serra n'uma espessa debandada para o valle, tudo parecera ficar de -repente parado n'um recolhimento melancolico e grave, olhando a partida -do sol, que mergulhava lentamente no mar... - ---Oh Carlos, tu ests ahi? - -Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando por elle. -Carlos appareceu varanda do terrao. - ---Que diabo ests tu ahi a fazer, rapaz? exclamou Alencar, agitando -alegremente o seu panam. Ns l estivemos espera, no covil real... -Fomos ao Nunes... Iamos agora procurar-te cadeia! - -E o poeta riu largamente da sua pilheria--emquanto Cruges, ao lado, de -mos atraz das costas, e a face erguida para o terrao, bocejava -desconsoladamente. - ---Vim _refrescar_, como tu dizes, tomar um pouco de cognac, que estava -com sde. - -Cognac? eis ahi o mimo por que o pobre Alencar estivera anciando toda a -tarde, desde Sitiaes. E galgou logo as escadas do terrao--depois de ter -gritado para dentro, para a sua velha Lawrence, que lhe mandasse acima -_meia da fina_. - ---Viste o Pao, hein, Cruges? perguntou Carlos ao maestro, quando elle -appareceu, arrastando os passos. Ento, parece-me que o que nos resta a -fazer jantar, e abalar... - -Cruges concordou. Voltava do palacio com um ar murcho, fatigado -d'aquelle vasto casaro historico, da voz monotona do cicerone mostrando -a cama de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha, -melhores que as de Mafra, o tira-botas de S. A.; e trazia de l uma -pouca d'essa melancolia que erra, como uma atmosphera propria, nas -residencias reaes. - -E aquella natureza de Cintra, ao escurecer, dizia elle, comeava a -entristecel-o. - -Ento concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectaculo -torpe do Palma e das damas, mandar vir porta o break, e partir depois -ao nascer do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia tambem a -Lisboa. - ---E, para ser festa completa, exclamou elle, limpando os bigodes do -cognac, emquanto vocs vo ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o -break, eu vou-me entender l abaixo cosinha com a velha Lawrence, e -preparar-vos um _bacalhau Alencar_, recipe meu... E vocs vero o que - um bacalhau! Porque, l isso, rapazes, versos os faro outros melhor; -bacalhau, no! - -Atravessando a praa, Cruges pedia a Deus que no encontrassem mais o -Eusebiosinho. Mas, apenas pozeram os ps nos primeiros degraus do Nunes, -ouviram em cima o chalrar da sucia. Estavam na ante-sala, j todos -reconciliados, a Concha contente--e installados aos dois cantos de uma -meza, com cartas. O Palma, munido d'uma garrafa de genebra, fazia uma -_batotinha_ para o Eusebio; e as duas hespanholas, de cigarro na bocca, -jogavam languidamente a bisca. - -O viuvo, enfiado, perdia. No monte, que comera miseravelmente com duas -coras, j luzia ouro; e Palma triumphava, chalaceiando, dando beijocas -na sua moa. Mas, ao mesmo tempo, fazia de cavalheiro, fallava de dar a -desforra, ficar ali, sendo necessario, at de madrugada. - ---Ento vv. ex.^{as} no se tentam? Isto para passar o tempo... Em -Cintra tudo serve... Valete! Perdeu voc outro mico no rei. Deve a libra -mais quinze tostes, s Silveira! - -Carlos passra, sem responder, seguido pelo criado--no momento em que -Euzebiosinho, furioso, j desconfiado, quiz verificar, com as lunetas -negras sobre o baralho, se l estavam todos os reis. - -Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar. Entre amigos, que -diabo, tudo se admittia! A sua hespanhola, essa sim, escandalisou-se, -defendendo a honra do seu homem: ento Palmita havia de ter empalmado o -rei? Mas, a Concha, zelava o dinheiro do seu viuvo, exclamava que o rei -podia estar perdido... Os reis estavam l. - -Palma atirou um calice de genebra s goelas, e recomeou a baralhar -magestosamente. - ---Ento v. ex.^a no se tenta? repetia elle para o maestro. - -Cruges, com effeito, parra, roando-se pela meza, com o olho nas cartas -e no ouro do monte, j sem fora, remexendo o dinheiro nas algibeiras. -Subitamente um az decidiu-o. Com a mo nervosa, escorregou-lhe uma libra -por baixo, jogando cinco tostes, e de porta. Perdeu logo. Quando Carlos -voltou do quarto com o criado que descia as malas, o maestro estava em -pleno vicio, com a libra entalada, os olhos accezos, o ar esguedelhado. - ---Ento tu?...--exclamou Carlos com severidade. - ---J deso, rosnou o maestro. - -E, pressa, foi paz da libra, n'um terno contra o rei. Cartada de -colicas! como disse o Palma: e foi com emoo que elle comeou a puxar -as cartas, espremendo-as uma a uma, n'um vagar mortal. A appario de um -bico arrancou-lhe uma praga. Era apenas um duque, Eusebiosinho perdia -mais uma placa. Palma teve um suspirinho de alivio; e, escondendo com -ambas as mos o baralho, erguendo as lunetas faiscantes para o maestro: - ---Ento, sempre contina toda a libra? - ---Toda. - -Palma teve outro suspiro, d'anciedade; e, mais pallido, voltou -bruscamente as cartas. - ---Rei! gritou elle, empolgando o ouro. - -Era o rei de paus, a sua hespanhola bateu as palmas, o maestro abalou -furioso. - -Na Lawrence o jantar prolongou-se at s oito horas, com luzes;--e o -Alencar fallou sempre. Tinha esquecido n'esse dia as desilluses da -vida, todos os rancores litterarios, estava n'uma veia excellente; e -foram historias dos velhos tempos de Cintra, recordaes da sua famosa -ida a Paris, cousas picantes de mulheres, bocados da chronica intima da -Regenerao... Tudo isto com estridencias de voz, e _filhos isto!_ e -_rapazes aquillo!_ e gestos que faziam oscillar as chammas das vellas, e -grandes copos de Collares emborcados de um trago. Do outro lado da meza, -os dois inglezes, correctos nos seus fraques negros, de cravos brancos -na botoeira, pasmavam, com um ar embaraado a que se misturava desdem, -para esta desordenada exhuberancia de meridional. - -A appario do bacalhau foi um triumpho:--e a satisfao do poeta to -grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega! - ---Sempre queria que elle provasse este bacalhau! J que me no aprecia -os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto um bacalhau de -artista em toda a parte!... N'outro dia fil-o l em casa dos meus -Cohens; e a Rachel, coitadinha, veiu para mim e abraou-me... Isto, -filhos, a poesia e a cozinha so irms! Vejam vocs Alexandre Dumas... -Diro vocs que o pae Dumas no um poeta... E ento d'Artagnan? -D'Artagnan um poema... a faisca a phantasia, a inspirao, o -sonho, o arrobo! Ento, po, j vem vocs, que poeta!... Pois -vocs ho-de vir um dia d'estes jantar commigo, e ha-de vir o Ega, e -hei-de-vos arranjar umas perdizes hespanhola, que vos ho-de nascer -castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! L essas cousas de -realismo e romantismo, historias... Um lyrio to natural como um -persevejo... Uns preferem fedr de sargeta; perfeitamente, destape-se o -cano publico... Eu prefiro ps de marechala n'um seio branco; a mim o -seio, e, l vae vossa. O que se quer, corao. E o Ega tem-n'o. E -tem faisca, tem rasgo, tem estylo... Pois, assim que elles se querem, -e, l vae saude do Ega! - -Pousou o copo, passou a mo pelos bigodes, e rosnou mais baixo: - ---E, se aquelles inglezes continuam a embasbacar para mim, vae-lhes um -copo na cara, e aqui um vendaval, que ha-de a Gran-Bretanha ficar -sabendo o que um poeta portuguez!... - -Mas no houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou sem saber o que um poeta -portuguez, e o jantar terminou n'um caf tranquillo. Eram nove horas, -fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break. - -Alencar, embuado n'um capote, um verdadeiro capote de padre de alda, -levava na mo um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panam na -maleta, trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um -comeo de _spleen_, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na -gola do paletot, com a manta da mam sobre os joelhos. Partiram. Cintra -ficava dormindo ao luar. - -Algum tempo o break rodou em silencio, na belleza da noite. A espaos, a -estrada apparecia banhada d'uma claridade quente que faiscava. Fachadas -de casas, caladas e pallidas, surgiam, d'entre as arvores com um ar de -melancolia romantica. Murmurios de agoas perdiam-se na sombra; e, junto -dos muros enramados, o ar estava cheio d'aroma. Alencar accendera o -cachimbo, e olhava a lua. - -Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada, -silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou tambem para a lua, e -murmurou d'entre os seus agasalhos: - ---Oh Alencar, recita para ahi alguma cousa... - -O poeta condescendeu logo--apesar de um dos criados ir ali ao lado -d'elles, dentro do break. Mas, que havia elle de recitar, sob o encanto -da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua! -Emfim, a dizer-lhe uma historia bem verdadeira e bem triste... Veiu -sentar-se ao p do Cruges, dentro do seu grande capoto, esvaziou os -restos do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os bigodes, -comeou, n'um tom familiar e simples: - - - Era o jardim d'uma vivenda antiga, - Sem arrebiques d'arte ou flres de luxo; - Ruas singellas d'alfazema e buxo, - Cravos, roseiras... - - ---Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da -manta, com um berro que emmudeceu o poeta, fez voltar Carlos na -almofada, assustou o trintanario. - -O break parra, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silencio da -charneca, sob a paz do luar, Cruges, succumbido, exclamou: - ---Esqueceram-me as queijadas! - - - - -IX - - -O dia famoso da soire dos Cohens, ao fim d'essa semana to luminosa e -to doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janella -sobre o jardim, vira um cu baixo que pesava como se fosse feito de -algodo em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arripiado e humido; -ao longe o rio estava turvo, e no ar molle errava um halito morno de -sudoeste. Decidira no sahir--e desde as nove horas, sentado banca, -embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de velludo azul, que lhe dava o -bello ar de um principe artista da Renascena, tentava trabalhar: mas, -apesar de duas chavenas de caf, de cigarettes sem fim, o cerebro, como -o cu fra, conservava-se-lhe n'essa manh afogado em nevoas. Tinha -d'estes dias terriveis; julgava-se ento uma besta; e a quantidade de -folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete -aos ps, davam-lhe a sensao de ser todo elle uma ruina. - -Foi realmente um allivio, uma tregoa n'aquella lucta com as idas -rebeldes, quando Baptista annunciou Villaa, que lhe vinha fallar de uma -venda de montados no Alemtejo, pertencentes sua legitima. - ---Negociosinho, disse o administrador, pousando o chapo a um canto da -mesa e dentro um rolo de papeis, que lhe mette na algibeira para cima de -dois contos de ris... E no mau presente, logo assim pela manh... - -Carlos espreguiou-se, crusando fortemente as mos por trs da cabea: - ---Pois olhe, Villaa, preciso bem de dous contos de ris, mas preferia -que me trouxesse ahi alguma lucidez de espirito... Estou hoje d'uma -estupidez! - -Villaa considerou-o um momento, com malicia. - ---Quer v. ex.^a dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que -receber assim perto de quinhentas libras? So gostos, meu senhor, so -gostos... Elle bom sahir-se a gente um Herculano ou um Garrett, mas -dous contos de ris, so dous contos de ris... Olhe que sempre valem um -folhetim. Emfim, o negocio este. - -Explicou-lh'o, sem se sentar, apressado, emquanto Carlos, de braos -cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que Villaa -trazia (um macaco de coral comendo uma pera de ouro) e distinguia -vagamente, atravez da sua neblina mental, que se tratava de um visconde -de Torral e de porcos... Quando Villaa lhe apresentou os papeis, -assignou-os com um ar moribundo. - ---Ento no fica para almoar, Villaa? disse elle, vendo o procurador -metter o seu rolo de papeis debaixo do brao. - ---Muito agradecido a v. ex.^a Tenho de me encontrar com o nosso amigo -Eusebio... Vamos ao ministerio do reino, elle tem l uma perteno... -Quer a commenda da Conceio... Mas este governo est desgostoso com -elle. - ---Ah, murmurou Carlos com respeito e atravez d'um bocejo, o governo no -est contente com o Eusebiosinho? - ---No se portou bem nas eleies. Ainda ha dias, o ministro do reino me -dizia, em confidencia: O Eusebio rapaz de merecimento, mas -atravessado... V. Ex.^a n'outro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o em -Cintra. - ---Sim, l estava a fazer jus commenda da Conceio. - -Quando Villaa saiu Carlos retomou lentamente a penna, e ficou um -momento, com os olhos na pagina meio-escripta, coando a barba, -desanimado e esteril. Mas quasi em seguida appareeu Affonso da Maia, -ainda de chapo, volta do seu passeio matinal no bairro, e com uma -carta na mo, que era para Carlos, e que elle achara no escriptorio -misturada ao seu correio. Alm d'isso, esperava encontrar ali o Villaa. - ---Esteve ahi, mas deitou a correr, para ir arranjar uma commenda para o -Eusebiosinho--disse Carlos, abrindo a carta. - -E teve uma surpreza, vendo no papel--que cheirava a verbena como a -condessa de Gouvarinho--um convite do conde para jantar no sabbado -seguinte, feito em termos de sympathia to escolhidos que eram quasi -poeticos; tinha mesmo uma phrase sobre a amisade, fallava dos _atomos em -gancho_ de Descartes. Carlos desatou a rir, contou ao av que era um par -do reino que o convidava a jantar, citando Descartes... - ---So capazes de tudo, murmurou o velho. - -E dando um olhar risonho, aos manuscriptos espalhados sobre a banca: - ---Ento, aqui, trabalha-se, hein? - -Carlos encolheu os hombros: - ---Se que se pde chamar a isto trabalhar... Olhe ahi para o cho. Veja -esses destroos... Em quanto se trata de tomar notas, colligir -documentos, reunir materiaes, bem, l vou indo. Mas quando se trata de -pr as idas, a observao, n'uma frma de gosto e de symetria, dar-lhe -cr, dar-lhe relevo, ento... Ento foi-se! - ---Preoccupao peninsular, filho, disse Affonso sentando-se ao p da -mesa, com o seu chapo desabado na mo. Desembaraa-te d'ella. o que -eu dizia n'outro dia ao Craft, e elle concordava... O portuguez nunca -pde ser homem de idas, por causa da paixo da frma. A sua mania -fazer bellas phrases vr-lhes o brilho, sentir-lhes a musica. Se fr -necessario falsear a ida, deixal-a incompleta, exageral-a, para a -phrase ganhar em belleza, o desgraado no hesita... V-se pela agoa -abaixo o pensamento, mas salve-se a bella phrase. - ---Questo de temperamento, disse Carlos. Ha sres inferiores, para quem -a sonoridade de um adjectivo mais importante que a exactido de um -systema... Eu sou d'esses monstros. - ---Diabo! ento s um rhetorico... - ---Quem o no ? E resta saber por fim se o estylo no uma disciplina -do pensamento. Em verso, o av sabe, muitas vezes a necessidade de uma -rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o -esforo para completar bem a cadencia de uma phrase, no poder trazer -desenvolvimentos novos e inesperados de uma ida... Viva a bella phrase! - ---O sr. Ega annunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando comeava -justamente a tocar a sineta do almoo. - ---Fallae na phrase...--disse Affonso, rindo. - ---Hein? Que phrase? O que?..--exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com -o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletot levantada. Oh! por -aqui a esta hora sr. Affonso da Maia! Como est v. ex.^a? Dize-me c, -Carlos, tu que me podes tirar d'uma atrapalhao... Tu ters por acaso -uma espada que me sirva? - -E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, j impaciente: - ---Sim, homem, uma espada! No para me batter, estou em paz com toda a -humanidade... para esta noute, para o fato de mascara. - -O Mattos, aquelle animal, s na vespera lhe dera o costume para o baile: -e, qual o seu horror, ao vr que lhe arranjara, em logar de uma espada -artistica, um sabre da guarda municipal! Tivera vontade de lh'o passar -atravez das entranhas. Correu ao tio Abraho, que s tinha espadins de -crte, reles e pelintras como a propria crte! Lembrara-se do Craft e da -sua colleco; vinha de l; mas ahi eram uns espades de ferro, catanas -pesando arrobas, as durindanas tremendas dos brutos que conquistaram a -India... Nada que lhe servisse. Fra ento que lhe tinham vindo ida -as panoplias antigas do Ramalhete. - ---Tu que deves ter... Eu preciso uma espada longa e fina, com os copos -em concha, d'ao rendilhado, forrados de velludo escarlate. E sem cruz, -sobretudo sem cruz! - -Affonso, tomando logo um interesse paternal por aquella difficuldade do -John, lembrou que havia no corredor, em cima, umas espadas -hespanholas... - ---Em cima, no corredor? exclamou Ega, j com a mo no reposteiro. - -Inutil precipitar-se, o bom John no as poderia encontrar. No estavam -vista, arranjadas em panoplia, conservavam-se ainda nos caixes em que -tinham vindo de Bemfica. - ---Eu l vou, homem fatal, eu l vou, disse Carlos, erguendo-se com -resignao. Mas olha que ellas no tem bainhas. - -Ega ficou succumbido. E foi ainda Affonso que achou uma ida, o salvou. - ---Manda fazer uma simples bainha de velludo negro; isso faz-se n'uma -hora. E manda-lhe cozer ao comprido rodellas de velludo escarlate... - ---Explendido, gritou Ega: o que ter gosto! - -E apenas Carlos sahiu, trovejou contra o Mattos. - ---Veja v. ex.^a isto, um sabre da guarda municipal! E quem faz ahi os -fatos para todos os theatros! Que idiota!.. E tudo assim, isto um -paiz insensato!... - ---Meu bom Ega, tu no queres tornar de certo Portugal inteiro, o Estado, -sete milhes d'almas, responsaveis por esse comportamento do Mattos? - ---Sim senhor, exclamava o Ega passeiando pelo gabinete, com as mos -enterradas nos bolsos do paletot; sim senhor, tudo isso se prende. O -_costumier_ com um fato do seculo XIV manda um sabre da guarda -municipal; por seu lado o ministro, a proposito de impostos, cita as -_Meditaes_ de Lamartine; e o litterato, essa besta suprema... - -Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na mo, uma folha do -seculo XVI, de grande tempera, fina e vibrante, com copos trabalhado -como uma renda--e tendo gravado no ao o nome illustre do espadeiro, -Francisco Ruy de Toledo. - -Embrulhou-a logo n'um jornal, recusou pressa o almoo, que lhe -offereciam, deu dous vivos _shake-hands_, atirou o chapu para a nuca, -ia abalar, quando a voz de Affonso o deteve: - ---Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso uma espada c da -casa, que nunca brilhou sem gloria, creio eu... V como te serves -d'ella! - -Ao p do resposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contra o peito -do paletot o ferro, enrolado, no _Jornal do Commercio_: - ---No a sacarei sem justia, nem a embainharei sem honra. _Au revoir!_ - ---Que vida, que mocidade! murmurou Affonso. Muito feliz este John!... -Pois vae-te arranjando filho, que j tocou a primeira vez para o almoo. - -Carlos ainda se demorou um instante a reler, com um sorriso, a -apparatosa carta do Gouvarinho; e ia emfim chamar o Baptista para se -vestir, quando em baixo, entrada particular, o timbre electrico -comeou a vibrar violentamente. Um passo ancioso ressoou na ante-camara, -o Damaso appareceu esbaforido, d'olho esgazeado, com a face em braza. E, -sem dar tempo a que Carlos exprimisse a surpreza de o ver emfim no -Ramalhete, exclamou, lanando os braos ao ar: - ---Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas d'ahi, que me -venhas ver um doente... Eu te explicarei... aquella gente brazileira. -Mas pelo amor de Deus, vem depressa, menino! - -Carlos erguera-se, pallido: - --- ella? - ---No, a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos, -veste-te, que a responsabilidade minha! - --- um bb, no ? - ---Qual bb!... uma pequena crescida, de seis annos... Anda d'ahi! - -Carlos, j em mangas de camisa, estendia o p ao Baptista, que, com um -joelho em terra, apressado tambem, quasi fez saltar os botes da bota. E -Damaso, de chapu na cabea, agitava-se, exagerando a sua impaciencia, a -estalar de importancia. - ---Sempre a gente se v em coisas!.. Olha que responsabilidade a minha! -Vou visital-os, como costumo s vezes, de manh... E vae, tinham partido -para Queluz. - -Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meia vestida: - ---Mas ento?.. - ---Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a -governanta... Depois do almoo deu-lhe uma dr. A governante queria um -medico inglez, porque no falla seno inglez... Do hotel foram procurar -o Smith, que no appareceu... E a pequena a morrer!... Felizmente, -cheguei eu, e lembrei-me logo de ti... Foi sorte encontrar-te, caramba! - -E acrescentou, dando um olhar ao jardim: - ---Tambem, irem a Queluz com um dia d'estes! Ho-de-se divertir... Ests -prompto, hein? Eu tenho l em baixo o coup... Deixa as luvas, vaes -muito bem sem luvas! - ---O av que no me espere para almoar, gritou Carlos ao Baptista, j do -fundo da escada. - -Dentro do coup, um ramo enorme enchia quasi o assento. - ---Era para ella, disse o Damaso, pondo-o sobre os joelhos. Pela-se por -flores. - -Apenas o coup partiu, Carlos cerrando a vidraa, fez a pergunta que -desde a appario do Damaso lhe faiscava nos labios. - ---Mas ento tu, que querias quebrar a cara a esse Castro Gomes?.. - -O Damaso contou logo tudo, triumphante. Fra tudo um equivoco! Ah, as -explicaes do Castro Gomes tinham sido d'um gentleman. Seno -quebrava-lhe a cara. Isso no, desconsideraes, a ninguem! a ninguem! -Mas fra assim: os bilhetes de visita que elle lhe deixara conservavam o -seu adresse do _Grand Hotel_ em Paris. E o Castro Gomes, suppondo que -elle vivia l, obdecendo indicao, mandara para l os seus cartes! -Curioso, hein? E de estupdo... E a falta de resposta aos telegrammas -fra culpa de Madame, descuido, n'aquelle momento de afflico, vendo o -marido com o brao escavacado... Ah, tinham-lhe dado satisfaes -humildes. E agora eram intimos, estava l quasi sempre... - ---Emfim, menino, um romance... Mas isso para mais tarde! - -O coup parara porta do Hotel Central. Damaso saltou, correu ao guarda -porto. - ---Mandou o telegramma, Antonio? - ---J l vae... - ---Tu comprehendes, dizia elle a Carlos, galgando as escadas, mandei-lhes -logo um telegramma para o hotel em Queluz. No estou para ter mais -responsabilidades!... - -No corredor, defronte do escriptorio, um criado passava, com um -guardanapo debaixo do brao: - ---Como est a menina? gritou-lhe o Damaso. - -O criado encolheu os hombros, sem comprehender. - -Mas Damaso j trepava o outro lano de escada, soprando, gritando: - ---Por aqui Carlos, eu conheo isto a palmos! Numero 26! - -Abriu com estrondo a porta do numero 26. Uma criada, que estava -janella, voltou-se. - -Ah _bonjour_, Melanie! exclamava Damaso, no seu extraordinario francez. -A creana estava melhor? _l'enfant etait meilleur?_ Ali lhe trazia o -doutor, _monsieur le docteur Maia_. - -Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que Mademoiselle estava -mais socegada, e ella ia avisar miss Sarah, a governanta. Passou o -espanador pelo marmore d'uma console, ageitou os livros sobre a meza, e -sahiu, dardejando a Carlos um olhar vivo como uma faisca. - -A sala era espaosa, com uma mobilia de rps azul, e um grande espelho -sobre a console dourada, entre as duas janellas: a meza estava coberta -de jornaes, de caixas de charutos, e de romances de Cappendu; sobre uma -cadeira, ao lado, ficra enrolado um bordado. - ---Esta Melanie, esta desleixada, murmurava o Damaso, fechando a janella -com um esforo sobre o feixo perro. Deixar assim tudo aberto! Jesus, que -gente! - ---Este cavalheiro bonapartista, disse Carlos vendo sobre a meza os -numeros do _Pays_. - ---Isso, temos questes terriveis! exclamou o Damaso. E eu enterro-o -sempre... bom rapaz, mas tem pouco fundo. - -Melanie voltou pedindo a _Monsieur le Docteur_ para entrar um instante -no gabinete de toilette. E ahi, depois de apanhar uma toalha cahida, de -dardejar a Carlos outro olharsinho petulante, disse que Miss Sarah vinha -immediatamente, e retirou-se na ponta dos sapatos. Fra, na sala, -ergueu-se logo a voz do Damaso, fallando a Melanie de _sa -responsabilit, et que il etait trs afflig_. - -Carlos ficou s, na intimidade d'aquelle gabinete de toilette, que -n'essa manh ainda no fra arrumado. Duas malas, pertencentes de certo -a Madame, enormes, magnificas, com fecharias e cantos de ao polido, -estavam abertas: d'uma trasbordava uma cauda rica, de seda forte cr de -vinho: e na outra era um delicado alvejar de roupa branca, todo um luxo -secreto e raro de rendas e _baptistes_, d'um brilho de neve, macio pelo -uso e cheirando bem. Sobre uma cadeira alastrava-se um monte de meias de -seda, de todos os tons, unidas, bordadas, abertas em renda e to leves, -que uma aragem as faria voar; e, no cho corria uma fila de sapatinhos -de verniz, todos do mesmo estylo, longos, com o taco baixo e grandes -fitas de laar. A um canto estava um cesto acolchoado de seda cr de -rosa, onde de certo viajara a cadellinha. - -Mas o olhar de Carlos prendia-se sobre tudo a um soph onde ficar -estendido, com as duas mangas abertas, maneira de dous braos que se -offerecem, o casaco branco de velludo lavrado de Genova com que elle a -vira, a primeira vez, apear-se porta do hotel. O forro, de setim -branco, no tinha o menor acolxoado, to perfeito devia ser o corpo que -vestia: e assim, deitado sobre o soph, n'essa attitude viva, n'um -desabotoado de semi-nudez, adiantando em vago relevo o cheio de dois -seios, com os braos alargando-se, dando-se todos, aquelle estofo -parecia exhalar um calor humano, e punha ali a frma d'um corpo amoroso, -desfallecendo n'um silencio d'alcova. Carlos sentiu bater o corao. Um -perfume indefinido e forte de jasmim, de marechala, de tanglewood, -elevava-se de todas aquellas cousas intimas, passava-lhe pela face com -um bafo suave de caricia... - -Ento desviou os olhos, approximou-se da janella, que tinha por -perspectiva a fachada enxovalhada do hotel _Shneid_. Quando se voltou, -miss Sarah estava diante d'elle, vestida de preto e muito crada: era -uma pessoa sympathica, redondinha e pequena, com um ar de rola farta, os -olhos sentimentaes, e uma testa de virgem sob bands lisos e louros. -Balbuciava umas palavras em francez, em que Carlos s percebeu -_docteur_. - ---_Yes, I am the doctor_, disse elle. - -A face da boa ingleza illuminou-se. Oh! era to bom, ter emfim com quem -se entender! A menina estava muito melhor! Oh, o doutor vinha livral-a -d'uma responsabilidade!... - -Abriu o reposteiro, fl-o penetrar n'um quarto com as janellas todas -cerradas, onde elle apenas distinguiu a frma d'um grande leito e o -brilho de cristaes n'um toucador. Perguntou para que eram aquellas -trevas? - -Miss Sarah pensara que a escurido faria bem menina, e a adormeceria. -E trouxera-a ali para o quarto da mam, por ser mais largo e mais -arejado. - -Carlos fez abrir as janellas: e, quando a grande luz entrou, ao avistar -a pequena no leito, sob os cortinados abertos, no conteve a sua -admirao. - ---Que linda creana! - -E ficou um instante a contemplal-a, n'um enlevo d'artista, pensando que -os brancos mais mimosos, mais ricos, sob a mais sabia combinao de luz, -no egualariam a pallidez eburnea d'aquella pelle maravilhosa: e esta -adoravel brancura era ainda realada por um cabello negro, tenebroso, -forte, que reluzia sob a rede. Os seus por dois olhos grandes, d'um azul -profundo e liquido, pareciam n'esse instante maiores, muito serios, e -muito abertos para elle. - -Estava encostada a um grande travesseiro, toda quieta, com o susto ainda -da dr, perdida n'aquelle vasto leito, e apertando nos braos uma enorme -boneca paramentada, de pello riado, d'olhos tambem azues e arregalados -tambem. - -Carlos tomou-lhe a mosinha e beijou-lh'a,--perguntando se a boneca -tambem estava doente. - ---Cri-cri tambem teve dr, respondeu ella muito sria, sem tirar d'elle -os seus magnificos olhos. Eu j no tenho... - -Estava com effeito fresca como uma flor, com a lingoasinha muito rosada, -e a sua vontade j de lunchar. - -Carlos tranquillisou miss Sarah. Oh, ella via bem que mademoiselle -estava boa. O que a assustara fra achar-se ali s, sem a mam, com -aquella responsabilidade. Por isso a tinha deitado... Oh se fosse uma -creana ingleza saa com ella para o ar... Mas estas meninas -estrangeiras, to debeis, to delicadas... E o labiosinho gordo da -ingleza trahia um desdem compassivo por estas raas inferiores e -deterioradas. - ---Mas a mam no doente? - -Oh, no! Madame era muito forte. O senhor, esse sim, parecia mais -fraco... - ---E, como se chama a minha querida amiga? perguntou Carlos, sentado -cabeceira do leito. - ---Esta Cri-cri, disse a pequena, apresentando outra vez a boneca. Eu -chamo-me Rosa, mas o pap diz que eu que sou Rosicler. - ---Rosicler? realmente? disse Carlos sorrindo d'aquelle nome de livro de -cavallaria, rescendente a torneios, e a bosques de fadas. - -Ento, como colhendo simplesmente informaes de medico, perguntou a -miss Sarah se a menina sentira a mudana de clima. Habitavam -ordinariamente Paris, no verdade? - -Sim, viviam em Paris no inverno, no parque Monceaux; de vero iam para -uma quinta da Touraine ao p mesmo de Tours, onde ficavam at ao comeo -da caa; e iam sempre passar um mez a Dieppe. Pelo menos fora assim, nos -ultimos tres annos, desde que ella estava com Madame. - -Emquanto a ingleza fallava, Rosa, com a sua boneca nos braos, no -cessava de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Elle, de vez em -quando sorria-lhe, ou acariciava-lhe a mosinha. Os olhos da me eram -negros: os do pae d'azeviche e pequeninos: de quem herdara ella aquellas -maravilhosas pupillas d'um azul to rico, liquido e doce. - -Mas a sua visita de medico findara, ergueu-se para receitar um calmante. -Emquanto a ingleza preparava muito cuidadosamente o papel, e -experimentava a pena, elle examinou um momento o quarto. N'aquella -installao banal d'hotel, certos retoques d'uma elegancia delicada -revelavam a mulher de gosto e de luxo: sobre a commoda e sobre a meza -havia grandes ramos de flores: os travesseiros e os lenoes no eram do -hotel, mas proprios, de bretanha fina, com rendas e largos monogrammas -bordados a duas cres. Na poltrona que ella usava uma cachemira de -Tarnah disfarava o medonho reps desbotado. - -Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a meza alguns -livros de encadernaes ricas, romances e poetas inglezes: mas destoava -ali, estranhamente, uma brochura singular--o _Manual de interpretao -dos sonhos_. E ao lado, em cima do toucador, entre os marfins das -escovas, os cristaes dos frascos, as tartarugas finas, havia outro -objecto estravagante, uma enorme caixa de p de arroz, toda de prata -dourada, com uma magnifica safira engastada na tampa dentro d'um circulo -de brilhantes miudos, uma joia exagerada de cocotte, pondo ali uma -dissonancia audaz de explendor brutal. - -Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler: ella -estendeu-lhe logo a boquinha fresca como um boto de rosa; elle no -ousou beijal-a assim n'aquelle grande leito da me, e tocou-lhe apenas -na testa. - ---Quando vens tu outra vez? perguntou ella agarrando-o pela manga do -casaco. - ---No necessario vir outra vez, minha querida. Tu ests boa, e Cri-cri -tambem. - ---Mas eu quero o meu lunch... Dize a Sarah que eu posso tomar o meu -lunch... E Cri-cri tambem. - ---Sim j podeis ambas petiscar alguma cousa... Fez as suas -recommendaes mestra, e depois, apertando a mosinha da pequena: - ---E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que s Rosicler... - -E no quiz ser menos amavel com a boneca, deu-lhe tambem um -_shake-hands_. - -Isto pareceu captivar Rosa ainda mais. A ingleza, ao lado, sorria, com -duas covinhas na face. - -No era necessario, lembrou Carlos, conservar a creana na cama, nem -tortural-a com cautellas exageradas... - ---Oh, n, sir! - -E se a dr reapparecesse, ainda que ligeira, mandal-o logo chamar... - ---Oh yes, sir! - -E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse. - ---Oh thank you, sir! - -Ao voltar sala, o Damaso saltou do soph, onde percorria um jornal, -como uma fra a quem se abre a jaula. - ---Credo, imaginei que ias l ficar toda a vida! Que estivestes tu a -fazer? Irra, que estopada! - -Carlos, calando as luvas, sorria, sem responder. - ---Ento, cousa de cuidado? - ---No tem nada. Tem uns lindos olhos... E um nome extraordinario. - ---Ah, Rosicler, murmurou Damaso, agarrando o chapo com mau modo; muito -ridiculo, no verdade? - -A creada franceza appareceu outra vez a abrir a porta da -sala,--dardejando para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Damaso -recommendou-lhe muito que dissesse aos senhores, que elle tinha vindo -logo com o medico; e que havia de voltar noite para lhes fazer uma -surpreza, e para saber se tinham gostado de Queluz--_si ils avaient aim -Queluz_. - -Depois, ao passar diante do escriptorio, metteu a cabea, para dizer ao -guarda-livros, que a menina estava boa, tudo ficava em socego. - -O guarda livros sorrio, e cortejou. - ---Queres que te v levar a casa? perguntou elle a Carlos, em baixo, -abrindo a porta do coup, ainda com um resto de mau humor. - -Carlos preferia ir a p. - ---E acompanha-me tu um bocado, Damaso, tu agora no tens que fazer. - -Damaso hesitou, olhando o cu aspero, as nuvens pesadas de chuva. Mas -Carlos tomara-lhe o brao, arrastava-o, amavel e gracejando. - ---Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero o _romance_... Tu -disseste que tinhas um _romance_. No te largo. s meu. Venha o -_romance_. Eu sei que os tens sempre bons. Quero o _romance_! - -Pouco a pouco Damaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe de -satisfao. - ---Vae-se fazendo pela vida, disse elle a estoirar de jactancia. - ---Vocs estiveram em Cintra?... - ---Estivemos, mas isso no foi divertido... O romance outro! - -Desprendeu-se do brao de Carlos, fez um signal ao cocheiro para que os -seguisse, e regalou-se pelo Aterro fra de contar o seu _romance_. - ---A coisa esta... O marido d'aqui a dias vai para o Brazil, tem l -negocios. E ella fica! Fica com as criadas e com a pequena, espera, -dois ou tres mezes. Diz que j andaram at a vr casas mobiladas, que -ella no quer estar no hotel... E eu, intimo, a unica pessoa que ella -conhece, mettido de dentro... Hein, percebes agora? - ---Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe o charuto, com um -gesto nervoso. E de certo, a pobre creatura j est fascinada! J lhe -dste, como costumas, um beijo ardente entre duas portas! J a -desgraada se surtiu da caixa de phosphoros, para mais tarde quando a -abandonares! - -Damaso enfiava. - ---No venhas j tu com o espirito e com a chufasinha... No lhe dei -beijos que ainda no houve occasio... Mas, o que te posso dizer, que -tenho mulher! - ---Pois j era tempo, exclamou Carlos, sem conter um gesto brusco, e -atirando-lhe as palavras como chicotadas. J era tempo! Andavas ahi -mettido com umas creaturas ignobeis, uma ral de lupanar. Emfim, agora -ha progresso. E eu gosto que os meus amigos vivam n'uma ordem de -sentimentos decentes... Mas v l... No sejas o costumado Damaso! No -te vs pr a alardear isso pelo Gremio e pela casa Havaneza! - -D'esta vez Damaso estacou, suffocado, sem comprehender aquelle modo, -semelhante azedume. E terminou por balbuciar, livido: - ---Tu podes entender muito de medicina e de bric-a-brac, mas l a -respeito de mulheres, e da maneira de fazer as cousas, no me ds -lices... - -Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E de repente, -sentio-o to innofensivo, to insignificante, com o seu ar bochechudo, e -molle, que se envergonhou do surdo despeito que o atravessara, tomou-lhe -o brao, teve duas palavras amaveis. - ---Damaso, tu no me comprehendeste. Eu no te quiz fazer zangar... -para teu bem... O que eu receava que tu, imprudente, arrebatado, -apaixonado, fosses perder essa bella aventura por uma indiscrio... - -E o outro ficou logo contente, sorrindo j, abandonando-se ao brao do -seu amigo, certo que o desejo do Maia era que elle tivesse uma amante -_chic_. No, elle no se tinha zangado, nunca se zangava com os -intimos... Comprehendia bem que o que Carlos dizia era por amisade... - ---Mas tu, s vezes, tens essa cousa que te pegou o Ega, gostas do teu -bocadinho de espirito... - -E ento tranquillisou-o. No, por imprudencia no havia elle de perder -a cousa. Aquillo ia com todas as regras. L n'isso sobrava-lhe -experiencia. A Melanie j a tinha na mo; j lhe dera duas libras. - ---Isto de mais a mais uma cousa muito seria... Ella conhece meu tio, -intima d'elle desde pequena, tratam-se at por _tu_... - ---Que tio? - ---Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimares. Mr. de Guimaran, o que -vive em Paris, o amigo de Gambetta... - ---Ah sim, o communista... - ---Qual communista, at tem carruagem! - -Subitamente lembrou-lhe outra cousa, um ponto de toilette em que queria -consultar Carlos. - ---manh vou jantar com elles, e vo tambem dois brazileiros, amigos -d'elle, que chegaram ahi ha dias, e que partem pelo mesmo paquete... Um - _chic_, da Legao do Brazil em Londres. De maneira que jantar de -ceremonia. O Castro Gomes no me disse nada; mas que te parece, achas -que v de casaca?... - ---Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapella. - -O Damaso olhou-o, pensativo. - ---A mim tinha-me lembrado o habito de Christo. - ---O habito de Christo... Sim, pe o habito de Christo ao pescoo, e pe -a rosa na botoeira. - ---Ser talvez de mais, Carlos! - ---No, fica bem ao teu typo. - -Damaso fizera parar o coup que os tinha seguido a passo. E no ultimo -aperto de mo a Carlos: - ---Tu sempre vaes noite, aos Cohens, de domin? O meu fato de selvagem -ficou divino. Eu venho mostral-o noite brazileira... Entro no Hotel -embrulhado n'um capote, e appareo-lhes de repente na sala, de selvagem, -de Nelusko, a cantar: - - - Alerta, marinari, - Il vento cangia... - - -_Chic_ a valer!... _Good bye!_ - - -s dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. Fra, a noite -fizera-se tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas d'agoa, que a cada -instante batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinete de toilette, -errava no ar tepido um vago aroma de sabonete e de bom charuto. Sobre -duas commodas de pau preto, marchetadas a marfim, duas serpentinas de -velho bronze erguiam os seus molhos de vellas accezas, pondo largos -reflexos doces sobre a seda castanha das paredes. Ao lado do alto -espelho-psych alastrava-se, em cima d'uma poltrona, o domin de j -setim negro com um grande lao azul-claro. - -Baptista, com a casaca na mo, esperava que Carlos acabasse a chavena de -ch preto que elle estava bebendo aos golos, de p, em mangas de camisa, -e de gravata branca. - -De repente, o timbre electrico da porta particular reteniu, apressado e -violento. - ---Talvez outra surpreza, murmurou Carlos, hoje o dia das surprezas... - -Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir--quando em baixo vibrou -outro repique brutal, d'uma impaciencia phrenetica. - -Ento Carlos, curioso, sahiu ante-camara: e ahi, meia luz das -lampadas Carcel, ainda quebrantada pelo tom dos velludos cr de cereja, -viu, ao abrir-se a porta por onde entrou um sopro aspero da noite, -apparecer vivamente uma frma esguia e vermelha, com um confuso tinir de -ferro. Depois, pela escada acima, duas pennas negras de gallo ondearam, -um manto escarlate esvoaou--e o Ega estava diante d'elle, -caracterisado, vestido de Mephistopheles! - -Carlos apenas poude dizer _bravo_--o aspecto do Ega emmudeceu-o. Apezar -dos toques de caracterisao que quasi o mascaravam, sobrancelhas de -diabo, guias de bigode ferozmente exageradas--sentia-se bem a afflico -em que vinha, com os olhos injectados, perdido, n'uma terrivel pallidez. -Fez um gesto a Carlos, arremessou-se pelo gabinete dentro. Baptista, -logo, discretamente, retirou-se cerrando o reposteiro. - -Estavam ss. Ento Ega, apertando desesperadamente as mos, n'uma voz -rouca e d'agonia: - ---Tu sabes o que me succedeu, Carlos? - -Mas no poude dizer mais, suffocado, tremendo todo; e diante d'elle, -devorando-o com os olhos, Carlos tremia tambem, enfiado. - ---Cheguei a casa dos Cohens, continuou Ega por fim com esforo e quasi -balbuciando, mais cedo, como tinhamos combinado. Ao entrar na sala, j -estavam duas ou tres pessoas... Elle vem direito a mim, e diz-me: Voc, -seu infame, ponha-se j no meio da rua... J no meio da rua seno, -diante d'esta gente, corro-o a pontaps! E eu, Carlos... - -Mas a colera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve um momento mordendo os -beios, recalcando os soluos, com os olhos reluzentes de lagrimas. - -Quando as palavras voltaram, foi uma exploso selvagem: - ---Quero-me batter em duello com aquelle malvado, a cinco passos, -metter-lhe uma bala no corao! - -Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da garganta; e, batendo -furiosamente o p, esmurrando o ar, berrava, sem cessar, como cevando-se -na estridencia da propria voz. - ---Quero matal-o! Quero matal-o! Quero matal-o! - -Depois, allucinado, sem ver Carlos, rompeu a passear desabridamente pelo -quarto, s patadas, com o manto deitado para traz, a espada mal -afivelada batendo-lhe as canellas escarlates. - ---Ento descobriu tudo, murmurou Carlos. - ---Est claro que descobriu tudo! exclamou o Ega, no seu passear -arrebatado, atirando os braos ao ar. Como descobriu, no sei. Sei isto, -j no pouco. Poz-me fra!... Hei-de-lhe metter uma bala no corpo! -Pela alma de meu pae, hei-de-lhe varar o corao!... Quero que vs l -logo pela manh com o Craft... E as condies so estas: pistolla, a -quinze passos! - -Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chavena de ch. Depois -disse muito simplesmente: - ---Meu querido Ega, tu no podes mandar desafiar o Cohen. - -O outro estacou de repello, atirando pelos olhos dois relampagos -d'ira--a que as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas pennas de gallo -ondeando na gorra, davam uma ferocidade theatral e comica. - ---No o posso mandar desafiar? - ---No. - ---Ento pe-me fra de casa... - ---Estava no seu direito. - ---No seu direito!... Diante de toda a gente?... - ---E tu, no eras amante da mulher diante de toda a gente?... - -O Ega ficou a olhar um momento para Carlos, como atordoado. Depois fez -um grande gesto: - ---No se trata da mulher!... no se fallou da mulher!... uma questo -d'honra para mim, quero mandal-o desafiar, quero matal-o... - -Carlos encolheu os hombros. - ---Tu no ests em ti. Tens s uma coisa a fazer; ficar manh em casa, -a vr se elle te manda desafiar a ti... - ---O que, o Cohen! exclamou Ega. um covarde, um canalha!... Ou o -mato, ou lhe rasgo a cara com um chicote. Desafiar-me! Olha quem... Tu -ests doido... - -E recomeou o seu passear desabalado do espelho para a janella, -soprando, rilhando os dentes, com repelles para traz ao manto que -faziam oscillar, nas serpentinas, as chammas altas das vellas. - -Carlos no dizia nada, de p junto da meza, enchendo lentamente de novo -a sua chavena. Tudo aquillo comeava a parecer-lhe pouco serio, pouco -digno, as ameaas de pontaps do marido, os furores melodramaticos do -Ega:--e mesmo no podia deixar de sorrir diante d'aquelle Mephistopheles -esgouroviado, espalhando pelo quarto o brilho escarlate do seu manto de -velludo, e a fallar furiosamente d'honra e de morte, com sobrancelhas -postias, e escarcella de coiro cinta. - ---Vamos fallar ao Craft! exclamou de repente Ega, parando, com esta -brusca resoluo. Quero vr o que diz o Craft. Tenho l em baixo uma -tipoia; estamos l n'um instante! - ---Ir agora quinta, aos Olivaes? disse Carlos, olhando o relogio. - ---Se s meu amigo, Carlos!... - -Carlos immediatamente, sem chamar o Baptista, acabou de se vestir. - -Ega, no entanto, ia preparando uma chavena de ch, deitando-lhe rhum, -ainda to nervoso, que mal podia segurar a garrafa. Depois, com um -grande suspiro, accendeu uma cigarrete. Carlos entrra na alcova de -banho, ao lado, allumiada por um forte jacto de gaz que assobiava. Fra, -a chuva continuava seguida e monotona, as goteiras escoavam-se no cho -molle do jardim. - ---Achas que a tipoia aguentar? perguntou Carlos de dentro. - ---Aguenta, o _Canhto_, disse Ega. - -Agora reparara no domin, fra erguel-o, examinava-lhe o setim rico, o -bello lao azul claro. Depois, tendo encontrado diante de si o grande -espelho-psych, entalou o monoculo no olho, recuou um passo, -contemplou-se d'alto a baixo;--e terminou por pousar uma das mos na -cinta, appoiar a outra, galhardamente, sobre os copos da espada. - ---Eu no estava mal, oh Carlos, hein? - ---Estavas explendido, respondeu o outro de dentro da alcova. Foi pena -estragar-se tudo... Como estava ella? - ---Devia estar de Margarida. - ---E elle? - ---A besta? De beduino. - -E continuou ao espelho, gosando a sua figura esguia, as pennas da gorra, -os sapatos bicudos de velludo, e a ponta flamante da espada erguendo o -manto por traz, n'uma prega fidalga. - ---Mas ento, disse Carlos, apparecendo a enxugar as mos, tu no fazes -ida do que se passou, o que elle diria mulher, o escandalo... - ---No fao ida nenhuma, disse o Ega, agora mais sereno. Quando entrei -na primeira sala estava elle, de beduino; estava um outro sujeito -d'urso, e uma senhora no sei de que, de Tyrollesa creio eu... Elle veiu -para mim, e disse-me aquillo: ponha-se fra! No sei mais nada... Nem -posso perceber... O canalha, se descobriu, naturalmente, para no -estragar a festa, no disse nada a Rachel... Depois que ellas so! - -Ergueu as mos para o ceu, murmurou: - --- horroroso! - -Deu ainda uma volta pelo quarto, e depois n'uma outra voz, franzindo a -face: - ---No sei que diabo aquelle Godefroy me deu para collar as sobrancelhas, -que me picam que tem diabo! - ---Tira-as... - -Deante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu semblante feroz de -Santanaz. Mas arrancou-as por fim--e a gorra emplumada, muito justa, que -lhe escaldava a cabea. Ento Carlos lembrou-lhe que, para ir a casa do -Craft, se desembaraasse do manto e da espada, se agasalhasse n'um -paletot d'elle. Ega deu ainda um longo e mudo olhar ao seu flamejante -traje infernal, e com um profundo suspiro comeou a desafivelar o talim. -Mas o paletot era muito largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra -nas mangas. Depois Carlos metteu-lhe um bonet escossez na cabea.--E -assim arranjado, com as canellas vermelhas de diabo apparecendo sob o -paletot, a gargantilha escarlate Carlos IX emergindo da gola, a velha -casqueta de viagem na nuca, o pobre Ega tinha o ar lamentavel d'um -Satanaz pelintra, agasalhado pela caridade d'um gentleman, e usando-lhe -o fato velho. - -Baptista allumiou, grave e discreto. Ega ao passar por elle, murmurou: - ---Isto vae mal, Baptista, isto vae mal... - -O velho creado teve um movimento triste d'hombros, como significando que -nada no mundo ia bem. - -Na rua negra, a parelha quieta dobrava a cabea sob a chuva. O -_Canhoto_, ao ouvir fallar d'uma gorgeta de libra, fez um grande -espalhafato, rompeu s chicotadas; e a velha traquitana l partiu a -galope, a escorrer d'agua, atroando a calada. - -Por vezes um coup particular crusava-os, os casacos de gutta-perche dos -criados branquejavam luz das lanternas. Ento a ida da festa que -devia agora resplandecer; Margarida ignorando tudo, walsando nos braos -d'outros, anciosa, espera d'elle; a ceia depois, o champagne, as -cousas brilhantes que elle teria dito--todas estas delicias perdidas se -vinham cravar no corao do pobre Ega, arrancavam-lhe pragas surdas, -Carlos fumava silenciosamente, com o pensamento no Hotel Central. - -Depois de Santa Apolonia a estrada comeou, infindavel, desabrigada, -batida pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra, cada um para o -seu canto, arripiados na friagem que entrava pelas gretas da tipoia. -Carlos no cessava de vr o casaco branco de velludo, com as duas mangas -abertas, como dois braos que se offereciam... - -Passava da uma hora quando chegaram quinta, a sineta do porto, aos -puxes do cocheiro encharcado, retumbou lugubre n'aquelle silencio -escuro de aldeia. Um co ladrou furiosamente: outros latidos ao longe -responderam; e ainda esperaram muito, antes que um creado, somnolento e -resmungo, apparecesse com uma lanterna. Uma rua d'acacias conduzia -casa: o Ega praguejava, enterrando os seus bellos sapatos de velludo no -cho lamacento. - -Craft, surprehendido com aquelle tumulto, veiu-lhes ao encontro no -corredor, de robe-de-chambre, e a _Revista dos Dois Mundos_ debaixo do -brao. Percebeu logo que havia desastre. Levou-os em silencio para o seu -gabinete onde um bom lume de carvo na chamin aquecia, alegrava o -aposento todo estofado de cretones claros. Ambos foram direitos ao lume. - -Ega rompera logo a contar o seu caso--emquanto Craft, sem espanto nem -exclamaes, ia preparando methodicamente sobre a meza tres grogs de -cognac e limo. Carlos, sentado ao p do fogo, aquecia os ps: e Craft -veiu acabar de ouvir o Ega, accommodando-se tambem na sua poltrona, do -outro lado da chamin, com o seu cachimbo na bocca. - ---Emfim, exclamou Ega, de p, cruzando os braos, que me aconselhas tu -agora? - ---Tens a fazer s isto, disse Craft: esperar manh em casa que elle te -mande os seus padrinhos... Que tenho a certeza que no manda... E -depois, se vos baterdes, deixar-te ferir ou matar. - ---Perfeitamente o que eu disse, murmurou Carlos, provando o seu grog. - -Ega olhou-os a ambos, successivamente, petrificado. E logo, n'um fluxo -de palavras desordenadas, queixou-se de no ter amigos. Ali estava, -n'aquella crise, a maior da sua vida: e em logar de encontrar, nos seus -camaradas de infancia e de Coimbra, apoio, solidariedade, lealdade _ -tort et travers_, abandonavam-n'o, pareciam querer enterral-o, e -expol-o a irrises maiores... Ia-se commovendo; os olhos -vermelhejavam-lhe sob as lagrimas. E quando algum d'elles ia -interrompel-o, n'uma palavra de senso, batia o p, persistia na sua -teima--um desafio, matar o Cohen, vingar-se! Tinha sido insultado. No -existia outra cousa. No se tinha fallado na mulher. Era elle que devia -primeiro mandar padrinhos, lavar a sua honra. Havia pessoas na sala, -quando o outro o insultou. Havia um urso, e uma tyrolesa... E emquanto a -deixar-se varar por uma bala, no! Tinha mais direito a viver que o -Cohen, que era um burguez, e um agiota... E elle era um homem de estudo -e de arte! Tinha na cabea livros, idas, cousas grandes. Devia-se ao -paiz, civilisao!... Se fosse ao campo, era para fazer a sua -pontaria, e abater o Cohen, ali, como uma besta immunda... - ---Mas o que , que no tenho amigos! gritou elle exhausto por fim, -cahindo para o canto d'um soph. - -Craft bebia em silencio, e aos golos, o seu cognac. - -Foi Carlos que se ergueu, serio e aspero. Elle no tinha direito de -duvidar da sua amisade. Quando lhe tinha ella faltado? Mas era -necessario no ser pueril; nem theatral... A questo estava simplesmente -em que o Cohen o surprehendera, amando-lhe a mulher. Logo, podia -matal-o, podia entregal-o aos tribunaes, podia escavacal-o na sala a -pontaps... - ---Ou peor, interrompeu Craft. Mandar-te a senhora, com este bilhetinho: -Guarde-a. - ---Ou isso! continuava Carlos. No, senhor: limita-se a prohibir-te a -entrada em casa, um pouco asperamente, sim, mas indicando que, depois de -ter feito isto, no quer nada mais violento, nem mais dramatico. Teve -portanto um acto de moderao. E tu queres mandal-o desafiar por -isso?... - -Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pela sala, sem -paletot agora, esguedelhado, parecendo mais phantastico n'aquelle -simples gibo escarlate, com os sapatos de velludo enlameados, as longas -pernas de cegonha cobertas de malha de seda vermelha. E teimava que se -no tratava d'isso! No, no se tratava da mulher! A questo era -outra... - -Carlos ento zangou-se. - ---Para que diabo te expulsou elle de casa ento? No disparates, homem! -Ns estamos-te a dizer o que faz um homem de senso. E triste, que te -custe tanto a perceber o que manda o senso. Trahiste um amigo teu... -Nada de equivocos! tu declaravas bem alto a tua amisade pelo Cohen. -Trahistel-o, tens de acceitar a lei: se elle te quizer matar tens de -morrer. Se elle no quizer fazer nada, tens de ficar de braos cruzados. -Se elle te quizer chamar ahi por essas ruas um infame, tens de baixar a -cabea, e reconhecer-te infame... - ---Ento tenho de engolir a affronta? - -Os dois amigos explicaram-lhe que aquelle fato de Satanaz lhe perturbava -a lucidez do criterio mundano--e que chegava a ser torpe fallar elle, -Ega, de _affronta_. - -Ega, outra vez acabrunhado sobre o soph, conservou um momento a cabea -enterrada nas mos. - ---Eu j nem sei, disse elle por fim. Vocs devem ter raso... Eu -estou-me a sentir idiota ... Ento, vamos, que hei de eu fazer? - ---Vocs teem a tipoia espera? perguntou tranquillamente Craft. - -Carlos mandara desapparelhar, recolher o gado esfalfado. - ---Excellente! Ento, meu caro Ega, tens outra cousa a fazer, antes de -morrer manh talvez, cear esta noite. Eu ia ceiar, e por motivos -longos d'explicar, ha n'esta casa um peru frio. E ha-de haver uma -garrafa de Bourgonhe... - -D'ahi a pouco estavam mesa--n'aquella bella sala de jantar do Craft, -que encantava sempre Carlos, com as suas tapearias ovaes representando -bocados solitarios d'arvoredo, as severas faenas da Persia, e a sua -original chamin flanqueada por duas figuras negras de Nubios com olhos -rutilantes de crystal. Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava j -o per, emquanto Craft, desarrolhava, com venerao, duas garrafas do -seu velho Chambertin, para reconfortar Mephistopheles. - -Mas Mephistopheles, sombrio e com os olhos avermelhados, repelliu o -prato, desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o -Chambertin. - ---Pois eu, dizia Craft empunhando o talher, quando vocs chegaram, -estava a lr um artigo interessante sobre a decadencia do protestantismo -em Inglaterra... - ---Que aquillo, alm, n'aquella lata? perguntou Ega, com uma voz -moribunda. - -Um _pt de foie-gras_. Mephistopheles escolheu com tedio uma trufa. - ---Bem bom, este teu Chambertin, suspirou elle. - ---Anda come e bebe com franqueza, gritou-lhe Craft. No te romantises. -Tu o que tens fome. Todas as tuas idas esta noite se ressentem da -debilidade! - -Ento Ega confessou que devia estar fraco. Com aquella excitao do seu -trage de Satanaz nem jantra, contando ceiar bem em casa do outro... -Sim, com effeito, tinha appetite! Excellente _foie-gras_... - -E d'ahi a pouco devorava: foram talhadas de per, uma poro immensa de -lingua d'Oxford, duas vezes presunto d'York, todas aquellas boas cousas -inglezas que havia sempre em casa do Craft. E elle s bebeu quasi toda -uma garrafa de Chambertin. - -O escudeiro fra preparar o caf: e, no entanto, ia-se discutindo, em -todas as hypotheses, a attitude provavel do Cohen com a mulher. Que -faria elle? Talvez lhe perdoasse. Ega affirmava que no: era vaidoso, e -de rancores longos! N'um convento tambem no a fechava, sendo judia... - ---Talvez a mate, disse Craft, com toda a seriedade. - -Ega, j com os olhos brilhantes do Bourgogne, declarou tragicamente que -elle ento entrava n'um mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em -que mosteiro queria elle entrar? Nenhum era congenere com o Ega! Para -dominicano era muito magro, para trapista muito lascivo, muito palrador -para jesuita, e para benedictino muito ignorante... Era necessario crear -uma ordem para elle! Craft lembrou a _Santa Blague_! - ---Vocs no teem corao, exclamou Ega, enchendo outro grande copo. -Vocs no sabem, eu adorava aquella mulher! - -Ento largou a fallar de Rachel. E teve alli, de certo, os momentos -melhores de toda aquella paixo,--porque poude, sem escrupulo, fazer -reluzir a sua aureola de amante, banhar-se no mar de leite das -confidencias vaidosas. Comeou por contar o encontro com ella na -Foz--emquanto Craft, sem perder uma palavra, como quem se instrue, se -erguera a abrir uma garrafa de Champagne. Disse depois os passeios na -Cantareira; as cartinhas ainda hesitantes e platonicas, trocadas entre -folhas de livros emprestados, em que ella se assignava _Violetta de -Parma_; o primeiro beijo, o melhor, surripiado entre duas portas, -emquanto o marido correra acima a buscar-lhe charutos especiaes; os -rendez-vous no Porto, no Cemiterio do Repouso, as presses ardentes de -mos sombra dos cyprestes, e os planos de voluptuosidade combinados -entre as lapides funebres... - ---Muito curioso! dizia o Craft. - -Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o caf. Emquanto se -enchiam as chavenas, e Craft fra buscar uma caixa de charutos, elle -acabou a garrafa de Champagne, j pallido, com o nariz afilado. - -O criado sahiu, correndo o reposteiro de tapearia: e logo Ega, com o -calice de cognac ao lado, recomeou as confidencias, contou a volta a -Lisboa, a Villa Balzac, as manhs deliciosas passadas l com ella no -calor d'um ninho d'amor... - -Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enterrando um -momento a cabea entre os punhos. Depois l vinha outro detalhe, os -nomes lubricos que ella lhe dava, uma certa coberta de seda preta onde -ella brilhava como um jaspe... Duas lagrimas embaciaram-lhe os olhos, -jurou que queria morrer! - ---Se vocs soubessem que corpo de mulher! gritou elle de repente. Oh -meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocs um peito... - ---No queremos saber, disse Carlos. Cala-te, tu ests bebado, miseravel! - -Ega ergueu-se, retezando a perna, arrimado de lado meza. - -Bebado! Elle? Ora essa!... Era cousa que no podia, era empiteirar-se. -Tinha feito o possivel, bebido tudo, at agua raz. Nunca! No podia... - ---Olha, vou pr aquella garrafa boca, tu vers. E fico frio, fico -impassivel. A discutir philosophia... Queres que te diga o que penso de -Darwin? uma besta... Ora ahi tens. D c a garrafa. - -Mas Craft recusou-lh'a; e, um momento Ega ficou oscillando, a olhar para -elle, com a face livida. - ---Ou me ds a garrafa... ou me ds a garrafa, ou te metto uma bala no -corao... No, nem vales a bala... Vou-te dar uma bolacha! - -De repente os olhos cerraram-se-lhe, abatteu-se sobre a cadeira, d'ahi -sobre o cho, como um fardo. - ---Terra! disse tranquillamente Craft. - -Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam Joo da Ega. E emquanto -o levavam para o quarto dos hospedes e lhe despiam o fato de Satanaz, -no cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas mos de Carlos, -balbuciando: - ---Rachelsinha!... Racaqu, minha Raquesinha! gostas do teu -bibichinho?... - -Quando Carlos partiu na tipoia para Lisboa, no chovia, um vento frio ia -varrendo o ceu, j clareava a alvorada. - -Ao outro dia, s dez horas, Carlos voltou aos Olivaes. Achou Craft -dormindo, e subiu ao quarto do Ega. As janellas tinham ficado abertas, -um largo raio de sol dourava o leito; e elle ressonava ainda, no meio -d'aquella aureola, deitado de lado, com os joelhos contra o estomago, o -nariz dentro dos lenoes. - -Quando Carlos o sacudio, o pobre John abriu um olho triste, e -bruscamente ergueu-se sobre o cotovello, espantado para o quarto, para -os cortinados de damasco verde, para um retrato de dama empoada que lhe -sorria de dentro da sua moldura dourada. De certo as memorias da vespera -o assaltaram, porque se enterrou para baixo, com os lenoes at ao -queixo; e a sua face esverdeada, envelhecida, exprimiu a desconsolao -de deixar aquelles fofos colxes, a paz confortavel da quinta--para ir -affrontar a Lisboa toda a sorte de cousas amargas. - ---Est frio l fra? perguntou elle melancholicamente. - ---No, est um dia adoravel. Mas levanta-te, depressa! Se l fr alguem -da parte do Cohen, podem imaginar que fugiste... - -Ega deu immediatamente um pulo da cama, e atordoado, esguedelhado, -procurava a roupa, com as canellas nuas, tropeando contra os moveis. S -achou o gibo de Satanaz. Chamaram o criado, que trouxe umas calas de -Craft. Ega enfiou-as pressa: e sem se lavar, com a barba por fazer, a -gola do paletot erguida, enterrou emfim na cabea o bonet escossez, -voltou-se para Carlos, disse com um ar tragico: - ---Vamos a isso! - -Craft, que se erguera, foi acompanhal-os ao porto, onde esperava o -coup de Carlos. Na alameda de acacias, to tenebrosa na vespera sob a -chuva, cantavam agora os passaros. A quinta, fresca e lavada, verdejava -ao sol. O grande Terra-nova do Craft pulava em roda d'elles. - ---Doe-te a cabea, Ega? perguntou Craft. - ---No, respondeu o outro, acabando de abotoar o paletot. Eu hontem no -estava bebado... O que estava era fraco. - -Mas, ao entrar para o coup, fez, com um ar profundo e philosophico, -esta reflexo: - ---O que a gente beber bons vinhos... Estou como se no fosse nada! - -Craft recommendou que se houvesse novidade, lhe mandassem um telegramma; -fechou a portinhola, o coup partiu. - -Durante a manh no veiu telegramma quinta; e quando Craft appareceu -na Villa Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperava porta, j -escurecera, duas vlas ardiam na triste sala verde. Carlos, estirado no -soph, dormitava, com um livro aberto sobre o estomago: e Ega passeiava -d'um lado para outro, todo vestido de preto, pallido, com uma rosa na -botoeira. Tinham estado alli na sala, n'aquella scca, esperando todo o -dia as testemunhas do Cohen. - ---Que te dizia eu? No ha nada, nem podia haver, murmurou Craft. - -Mas Ega, agora agitado de idas negras, temia que elle tivesse -assassinado a mulher! O sorriso sceptico de Craft indignou-o. Quem -conhecia melhor o Cohen do que elle? Sob a apparencia burgueza, era um -monstro! Tinha-lhe visto matar um gato, s por capricho de derramar -sangue... - ---Tenho um presentimento de desgraa, balbuciou elle aterrado. - -E logo n'esse momento a campainha retiniu. Ega acordou precipitadamente -Carlos, empurrou os dois amigos para o quarto de cama. Craft ainda lhe -disse que, quella hora, no podiam ser os amigos do Cohen. Mas elle -queria estar s na sala: e l ficou, mais pallido, rigido, muito -abotoado na sobrecasaca, com os olhos cravados na porta. - ---Que massada! dizia Carlos dentro, tenteando a escurido do quarto. - -Craft accendeu no toucador um resto de vella. Uma luz triste -espalhou-se, tudo appareceu n'um desarranjo: no meio do cho estava -cahida uma camisa de dormir; a um canto ficara a bacia de banho com agoa -de sabo; e, no centro, o enorme leito, envolto nas suas cortinas de -seda vermelha, conservava uma magestade de tabernaculo. - -Um momento estiveram callados. Craft methodico, e como quem se instrue, -examinava o toucador, onde havia um mao de ganchos de cabello, uma liga -com o fecho quebrado, um ramo de violetas murchas. Depois foi olhar o -marmore da commoda; ahi ficara um prato com ossos de frango, e ao lado -uma meia folha de papel escripta a lapis, toda emendada, de certo -trabalho litterario do Ega. Elle achava tudo isto muito curioso. - -Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e intimo. Carlos -escutando, julgou sentir uma falla abafada de mulher... Impaciente, foi - cozinha. A criada estava sentada meza, com a mo mettida pelos -cabellos, sem fazer nada, a olhar para a luz: o pagem, espaparrado n'uma -cadeira, chupava o seu cigarro. - ---Quem foi que entrou? perguntou Carlos. - ---Foi a criada do sr. Cohen, disse o garoto, escondendo o cigarro atraz -das costas. - -Carlos voltou ao quarto, annunciando: - --- a confidente. As cousas terminam amavelmente. - ---E como queria voc que terminassem? disse Craft. O Cohen tem o seu -Banco, os seus negocios, as suas letras a vencer, o seu credito, a sua -respeitabilidade, todo um arranjo de cousas a que no convm um -escandalo... isto que calma os maridos. Alm d'isso, j se satisfez, -j lhe offereceu pontaps... - -N'esse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta. - ---No ha nada, exclamou elle, deu-lhe uma coa, e vo manh para -Inglaterra! - -Carlos olhou para o Craft--que movia a cabea, como vendo todas as suas -previses realisadas, e approvando plenamente. - ---Uma coa, dizia o Ega, com os olhos chammejantes e n'uma voz que -sibillava. E depois fizeram as pazes... Vem ainda a ser um _menage_ -modelo! A bengala purifica tudo... Que canalha! - -Estava furioso. N'esse momento odiava Rachel--no perdoando ao seu idolo -ter-se deixado desfazer paulada. Lembrava-se justamente da bengala do -Cohen, um junco da India, com uma cabea de galgo por casto. E aquillo -zurzira as carnes que elle tinha apertado com paixo! Aquillo pozera -verges roxos onde os seus labios tinham avivado signaes cr de rosa! E -tinham _feito as pazes_. E assim terminava, relles e chinfrim, o romance -melhor da sua vida! Preferiria sabel-a morta, a sabel-a espancada. Mas -no! levava a sova, deitava-se depois com o marido, e elle mesmo, -decerto arrependido, chamando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a -fazer as applicaes de arnica! Aquillo acabava em arnica! - ---Entre vocemec para aqui, sr.^a Adelia, gritou elle para a sala, entre -para aqui! Aqui s ha amigos. O segredo acabou, o pudor acabou! Isto so -amigos! Somos tres, mas somos um! Tem vocemec diante de si o grande -mysterio da Santissima Trindade. Sente-se, sr.^a Adelia, sente-se... No -faa ceremonia... E pde contar... Aqui a sr.^a Adelia, meninos, viu -tudo, viu a coa! - -A sr.^a Adelia, uma moa gordinha e baixa, de bonitos olhos, com um -chapo de flres vermelhas, veiu logo da sala rectificando. No, ella -no vira... Ento o sr. Ega no tinha percebido bem... Ella s _ouvira_. - ---Aqui est como foi, meus senhores... Eu tinha ficado a p, -naturalmente, at ao fim do baile, que estava que nem me tinha nas -pernas. Era j dia claro, quando o senhor, ainda vestido de moiro, se -fechou no quarto com a senhora. Eu fiquei na cozinha com o Domingos -espera que elles tocassem a campainha. De repente ouvimos gritos!... Eu -fiquei estarrecida, pensei at que eram ladres. Corremos, eu e o -Domingos, mas a porta do quarto estava fechada, e os dois estavam por -dentro, l para o fundo da alcova. Eu ainda puz o olho fechadura, mas -no pude vr nada... L o estalar de bofetadas, e trambulhes, e sons de -bengalada, isso sim, isso ouvia-se perfeitamente; e os gritos. Eu disse -logo ao Domingos ai que uma questo, ai que l se foi tudo. Mas de -repente, silencio geral! Ns voltmos para a cozinha; d'ahi a pouco o -sr. Cohen appareceu, todo esguedelhado, em mangas de camisa, a dizer que -nos podiamos deitar, que elles no precisavam nada, e que amanh -fallariamos!... Depois l ficaram toda a noite, e pela manh parece que -estavam muito amiguinhos... Que eu no puz os olhos na senhora. O sr. -Cohen, apenas se levantou, veiu cozinha, fez-me elle as contas, e -pz-me fra; muito mal creado, at me ameaou com a policia... Foi pelo -Domingos, que eu soube agora, quando fui buscar o bah com um gallego, -que o sr. Cohen a com a senhora para Inglaterra. Emfim, um chinfrim... -Eu at tenho estado todo o dia com o estomago embrulhado. - -A sr.^a Adelia com um suspiro, pondo os olhos no cho, calou-se. Ega, -com os braos cruzados, olhava amargamente para os seus amigos. Que lhes -parecia aquillo? Uma coa!.. Se um covarde d'aquelles no merecia uma -bala no corao! Mas ella tambem, deixar-se tocar, no ter fugido, -consentir ainda depois em dormir com elle!.. Tudo uma corja! - ---E a sr.^a Adelia, perguntava Craft, no tem ida de como elle -descobriu?.. - ---Isso que prodigioso! gritou Ega, apertando as mos na cabea. - -Sim, prodigioso! No fra carta apanhada: elles no se escreviam. No -podia ter surprehendido as visitas Villa Balzac: as cousas estavam -combinadas com uma arte muito subtil, perfeitamente impenetraveis. Para -vir ali, nunca ella commettera a indiscripo de se servir da sua -carruagem. Nunca ella claramente entrara pela porta. Os criados d'elle -nunca a tinham visto, no sabiam quem era a senhora que o visitava... -Tantos cuidados, e tudo estragado! - ---Estranho, estranho! murmurava Craft. - -Houve um silencio. A sr.^a Adelia terminara por descanar familiarmente -n'uma cadeira, com a sua trouxasinha no regao. - ---Pois olhe, sr. Ega, disse ella, depois de reflectir creia ento uma -cousa, que foi em sonhos. J tem acontecido... Foi a senhora que -sonhou alto com v. ex.^a, disse tudo, o sr. Cohen ouviu, ficou de pedra -no sapato, espreitou-a, e descobriu a marosca... E eu sei que ella sonha -alto. - -Ega, diante da sr.^a Adelia, percorria-a desde as flres do chapo at -roda das saias, com os olhos faiscantes. - ---Como possivel que elle ouvisse? Se elles tinham quartos -separados!... Eu sei que tinham. - -A sr.^a Adelia baixou as palpebras, acariciou com os dedos calados de -luvas pretas a sua trouxasinha redonda, e disse mais baixo estas -palavras: - ---No tinham, no senhor. Nem a senhora consentia em tal arranjo... A -senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciumes d'elle. - -Houve um silencio embaraado e desagradavel. Sobre o toucador o resto da -vella acabava, com uma luz lugubre. E Ega, que affectara sorrir, -encolher os hombros, dava pelo quarto passos lentos e murchos, -triturando o bigode com a mo tremula. - -Ento Carlos enojado, canado d'aquelle episodio que durava desde a -vespera, e onde constantemente se remexera em lodo, declarou que era -necessario findar! Eram oito horas, e elle queria jantar... - ---Sim, vamos todos jantar, murmurou o Ega, com o ar confuso e embaado. - -De repente fez um signal sr.^a Adelia, arrastou-a para a sala, -fechou-se l outra vez. - ---Voc no est farto d'isto, Craft? exclamou Carlos, desesperado. - ---No. Acho um estudo curioso. - -Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vella extinguiu-se. Carlos, -furioso, gritou pelo pagem. E o garoto entrava com um immundo candieiro -de petroleo--quando Ega, mais composto, voltou da sala. Tudo acabara, a -sr.^a Adelia partira. - ---Vamos l jantar, disse elle. Mas aonde, a esta hora? - -E elle mesmo lembrou o Andr, ao Chiado. Em baixo, alem do coup de -Carlos, esperava a tipoia do Craft. As duas carruagens partiram. A Villa -Balzac ficava apagada, muda, d'ora em diante inutil. - -No Andr tiveram de esperar muito tempo, n'um gabinete triste, com um -papel de estrellinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas -de reps azul, e dois bicos de gaz que silvavam. Ega, enterrado no soph -de mollas gastas e lassas, cerrara os olhos, parecia exhausto. Carlos a -contemplando as gravuras pela parede, todas relativas a hespanholas: uma -sando da egreja; outra saltando uma pocinha de agua; outra, de olhos -baixos, escutando os conselhos de um canonico. Craft, j meza, com a -cabea entre os punhos, percorria um _Diario da Manh_, que o criado -offerecera para os senhores se entreterem. - -De repente o Ega deu um murro no soph, que rangeu lamentavelmente. - ---Eu o que no percebo, gritou elle, como aquelle malvado descobriu!.. - ---A hypothese da sr.^a Adelia, disse Craft erguendo os olhos do jornal, -parece provavel. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre senhora descahiu-se. -Ou talvez uma denuncia anonyma. Ou talvez apenas um acaso... O facto -que o homem desconfiou, espreitou-a, e apanhou-a. - -Ega erguera-se: - ---Eu no vos quiz dizer diante da Adelia, que no estava no segredo -todo. Mas vocs sabem a casa defronte da minha, do outro lado da viella, -uma casa com um grande quintal? Ahi mora uma tia do Gouvarinho, a D. -Maria Lima, uma pessoa respeitavel. A Rachel a vl-a de vez em quando. -So intimas, a D. Maria Lima intima de todo o mundo. Depois sahia por -uma portinha do quintal, atravessava a viella, e estava porta da minha -casa, porta escusa, porta da escada que vae ter ao cacifro de banho. -J vocs vem... Os criados nem a avistavam. Quando ella l lunchava, o -lunch estava j posto no meu quarto, as portas fechadas. Mesmo se alguem -visse, era uma senhora com um vo preto, que vinha de casa da Lima... -Como podia o homem apanhal-a?.. Alm d'isso, em casa da Lima, ella -mudava de chapo, e punha um waterproof... - -Craft cumprimentou. - --- brilhante! Parece de Scribe. - ---Ento, disse Carlos sorrindo, essa respeitavel fidalga... - ---A D. Maria, coitada... Eu te digo, uma excellente velha, recebida em -toda a parte, mas pobre, e faz d'estes favores... s vezes mesmo em casa -d'ella. - ---Leva caro por esses servios? perguntou tranquillamente Craft, que em -todo aquelle caso procurava instruir-se. - ---No, coitada, disse o Ega. Do-se-lhe de vez em quando cinco libras. - -O criado entrava com uma travessa de camares, os tres em silencio -accommodaram-se meza. - -Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega a l dormir, receiando, -com os nervos to excitados, a solido da villa Balzac. Partiram, de -charutos accesos, n'uma caleche descoberta, sob a noite estrellada e -doce. - -Felizmente no estava ninguem no Ramalhete; Ega, canado, poude -retirar-se logo para o seu quarto, um aposento d'hospedes no segundo -andar, onde havia um bello leito antigo de pau preto. Ahi, apenas o -criado o deixou, Ega approximou-se do trem onde ardiam as luzes, e -tirou do pescoo, de sob a camiza, um medalho de ouro. Tinha dentro uma -photographia de Rachel:--e a sua inteno agora era queimal-a, deitar ao -balde das agoas sujas as cinzas d'aquella paixo. Mas, ao abrir o -medalho, a face bonita, banhada n'um sorriso, sob o vidro oval, pareceu -olhar para elle com uma tristeza no velludo das pupillas languidas... A -photographia mostrava apenas a cabea, com uma abertura de decote no -comeo do vestido: e as recordaes de Ega alargaram aquelle decote uma -vez mais, revendo o collo, o extraordinario setim da pelle, o -signalsinho sobre o seio esquerdo... O sabor dos seus beijos passou-lhe -de novo nos labios, sentiu n'alma outra vez como o ecco dos suspiros -canados que ella soltara nos seus braos. E ella ia-se embora, _nunca -mais_ a veria! Esta desolada amargura do _nunca mais_ revolveu-o todo--e -com a face enterrada no travesseiro, o pobre demagogo, o grande -phraseador soluou muito tempo no segredo da noite. - -Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Damaso -apparecera no Ramalhete, e por elle ouviram os rumores de Lisboa. J se -sabia no Gremio, no Chiado, por toda a parte, que elle fra expulso da -casa dos Cohens. O urso, a pastora do Tyrol, testemunhas do episodio, -tinham-n'o badallado com enthusiasmo. Dizia-se mesmo que o Cohen lhe -dera um pontap. Os amigos da casa, esses, sobretudo o Alencar, prgavam -com fervor a innocencia da sr.^a D. Rachel. O Alencar contava -publicamente que o Ega, provinciano inexperiente e leo de Celorico, -tendo tomado por evidencias de paixo os sorrisos de amabilidade de uma -senhora que recebe,--escrevera sr.^a D. Rachel uma carta quasi -obscena, que ella, coitadinha, toda em lagrimas, viera mostrar ao -marido. - ---Ento do-me para baixo, hein, Damaso? murmurou Ega que, no gabinete -de Carlos, embrulhado n'uma velha ulster, e encolhido n'uma poltrona, -escutava estas cousas com um ar canado e doente. - -Damaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo. - -Ah, elle sabia-o bem! tinha antipathias em Lisboa. Ninguem lhe perdoara -ainda a pelissa. A sua verve, toda em sarcasmos, offendia. E era -desagradavel para muita gente que um homem, com esse espirito to -perigoso de ferro em braza, tivesse uma me rica, e fosse independente. - -Depois, no sabbado seguinte, Carlos, ao voltar do jantar dos -Gouvarinhos--que fra excellente--contou-lhe a conversa que tivera com a -sr.^a condessa. A condessa fallara-lhe muito livremente, como um homem, -d'aquelle desastre do Ega. Tinha-se affligido muito, no s pela Rachel, -coitada, de quem era amiga, mas pelo Ega, que ella apreciava tanto, to -interessante, to brilhante, e que sahia de tudo aquillo enxovalhado! O -Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gouvarinho) que ameara o Ega de -pontaps, por elle ter escripto a sua mulher uma carta immunda. Os que -no sabiam nada, como o Gouvarinho, acreditavam, apertavam as mos na -cabea; e os que sabiam, os que havia seis mezes sorriam da intimidade -do Ega com os Cohens, affectavam tambem acreditar, cerravam os punhos de -indignao. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa, que vive entre o -Gremio e a casa Havaneza, folgava em enterrar o Ega. - -Ega, com effeito, sentia-se enterrado. E n'essa noite declarou a -Carlos que decidira recolher-se quinta da me, passar l um anno a -acabar as _Memorias d'um Atomo_, e reapparecer em Lisboa com o seu livro -publicado, triumphando sobre a cidade, esmagando os mediocres. Carlos -no perturbou esta radiante illuso. - -Mas quando Ega, antes de partir, fo a recapitular os seus negocios de -casa, de dinheiro, encontrou-se diante de cousas abominaveis. Devia a -todo o mundo, desde o estofador at ao padeiro; tinha tres letras a -vencer; aquellas dividas, se as deixasse, soltas e ladrando, -juntar-se-iam, na tagarallice publica, ao caso dos Cohens--e elle seria, -alm do amante ameaado de pontaps, o pelintra perseguido pelos -credores! Que havia de fazer, seno valer-se de Carlos? Carlos, para -regular tudo, emprestou-lhe dois contos de ris. - -Depois, tendo despedido os criados da Villa Balzac, surgiram-lhe outras -complicaes. A me do pagem veiu d'ahi a dias ao Ramalhete, muito -insolente, gritando que o filho lhe desapparecera! E era exacto: o -famoso pagem, pervertido pela cozinheira, sumira-se com ella para as -viellas da Mouraria, a comear ahi uma divertida carreira de _faia_. - -Ega recusou-se a attender s reclamaes da matrona. Que diabo tinha -elle com essas torpezas? - -Ento o amante da creatura interveiu, ameaadoramente, Era um policia, -um esteio da ordem: e deu a entender que lhe seria facil provar como na -Villa Balzac se passavam cousas contra a natureza, e que o pagem no -era s para servir meza... Nauseado at morte, Ega pacteou com a -intrugice, largou cinco libras ao policia. Quando n'essa noite, uma -noite triste d'agoa, Carlos e Craft o acompanharam a Santa Apolonia, -elle disse-lhes na carruagem estas palavras, triste resumo d'um amor -romantico: - ---Sinto-me como se a alma me tivesse cahido a uma latrina! Preciso um -banho por dentro! - - -Affonso da Maia ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com -tristeza: - ---M estreia, filho, pessima estreia! - -E n'essa noite, depois de voltar de Santa Apolonia, Carlos pensava -n'estas palavras, dizia tambem comsigo:--Pessima estreia!... E nem s a -estreia do Ega era pessima; tambem a sua. E talvez, por pensar n'isso, -as palavras do av tinham tido aquella tristeza. Pessimas estreias! -Havia seis mezes que o Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande -pellissa, preparado a deslumbrar Lisboa com as _Memorias d'um Atomo_, a -dominal-a com a influencia de uma Revista, a ser uma luz, uma fora, mil -outras cousas... E agora, cheio de dividas e cheio de ridiculo, l -voltava para Celorico, escorraado. Pessima estreia! Elle, por seu lado, -desembarcara em Lisboa, com idas collossaes de trabalho, armado como um -luctador: era o consultorio, o laboratorio, um livro iniciador, mil -cousas fortes... E, que tinha feito? Dois artigos de jornal, uma duzia -de receitas, e esse melancolico capitulo da _Medicina entre os Gregos_. -Pessima estreia! - -No, a vida no lhe parecia promettedora, n'esse instante, passeiando na -sala de bilhar com as mos nos bolsos, emquanto ao lado os amigos -conversavam, e fra uivava o sudoeste. Pobre Ega, que infeliz elle iria, -encolhido ao canto do seu wagon!.. Mas os outros, ali, no estavam mais -alegres. Craft e o Marquez tinham comeado uma conversa sobre a vida, -soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, no se sendo -um Livingstone ou um Bismark? E o Marquez, com um ar philosophico, -achava que o mundo se ia tornando estupido. Depois chegou o Taveira com -a historia horrivel d'um collega d'elle, cujo filho cahira pela escada, -se despedaara, no momento em que a mulher estava a morrer d'uma -pleurisia. Cruges resmungou o quer que fosse sobre suicidio. As palavras -arrastavam-se, melancolicas. Instinctivamente, Carlos, de vez em quando, -ia despertar as lampadas. - -Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando d'ahi a instantes Damaso -chegou, e lhe disse que o Castro Gomes estava incommodado, e de cama. - ---Naturalmente, accrescentou o Damaso, mandam-te chamar, por teres j -visto a pequena... - -Carlos ao outro dia no sahiu de casa, esperando um recado, faiscando -d'impaciencia. Nenhum recado veiu. E, duas tardes depois, ao descer para -o Aterro--o primeiro encontro que teve, s Janellas Verdes, foi o Castro -Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadellinha no -collo. - -Ella passou, sem o vr. E logo ali Carlos decidiu findar aquella -tortura, pedir muito simplesmente ao Damaso que o apresentasse ao Castro -Gomes, antes d'elle partir para o Brazil... No podia mais, precisava -ouvir a voz d'ella, vr o que os seus olhos diziam quando eram -interrogados de perto. - -Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na -companhia dos Gouvarinhos. Comeou por encontrar o conde, que lhe travou -do brao, arrastou-o rua de S. Maral, installou-o n'uma poltrona, no -seu escriptorio, e leu-lhe um artigo que destinava ao _Jornal do -Commercio_ sobre a situao dos partidos em Portugal: depois convidou-o -a jantar. Na tarde seguinte elles tinham uma partida de _croquet_. -Carlos foi. E, a uma janella, aberta sobre o jardim, teve um momento de -intimidade com a condessa, contou-lhe, rindo, como os cabellos d'ella o -tinham encantado, a primeira vez que a vira. N'essa noite, ella fallou -d'um livro de Tennyson, que no lera; Carlos offereceu-lh'o, foi-lh'o -levar ao outro dia, de manh. Encontrou-a s, toda vestida de branco: e -riam, baixavam j a voz, as duas cadeias estavam mais juntas--quando o -escudeiro annunciou a sr.^a D. Maria da Cunha. Era uma cousa to -extraordinaria, a D. Maria da Cunha quella hora! Carlos, de resto, -gostava muito da D. Maria da Cunha, uma velha engraada, toda bondade, -cheia de sympathia por todos os peccados--e ella mesma muito peccadora -quando era a linda Cunha. D. Maria era muito falladora, parecia ter que -dizer em particular condessa; e Carlos deixou-as, promettendo voltar -uma d'essas tardes tomar ch, e fallar de Tennyson. - -Na tarde em que elle se vestia para l ir, Damaso appareceu-lhe no -quarto, a dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e de ferro. O -telhudo do Castro Gomes mudra de ida, j no ia ao Brazil! Ficava ali, -no Central, at ao meiado do vero! De sorte que estava tudo -estragado... - -Carlos pensou logo em fallar da sua apresentao ao Castro Gomes. Mas, -como em Cintra, sem saber porqu, veiu-lhe uma repugnancia de a conhecer -por meio do Damaso. E foi-se vestindo em silencio. - -Damaso no entanto maldizia a sua _chance_: - ---E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse occasio. Mas que -diabo queres tu, assim?... - -Queixou-se ento do Castro Gomes. Em resumo, era um telhudo. E a vida -d'aquelle homem era mysteriosa... Que diabo estava elle a fazer em -Lisboa? Ali havia difficuldades de dinheiro... E elles no se davam bem. -Na vespera houvera de certo questo. Quando elle entrara, ella estava -com os olhos vermelhos, e enfiada; e elle, nervoso, a passeiar pela -sala, a retorcer a barba... Ambos contrafeitos, uma palavra cada quarto -d'hora... - ---Sabes tu? exclamou elle. Tenho minha vontade de os mandar fava. - -Queixou-se tambem d'ella. Era sobretudo muito desegual. Ora bom modo, -ora regelada; e, s vezes, elle dizia qualquer cousa muito natural, -d'estas cousas de conversa de sociedade, e ella punha-se a rir. Era de -encavacar, hein? Emfim, gente muito exquisita. - ---Onde vaes tu? disse elle, com um suspiro de aborrecimento, vendo -Carlos pr o chapeu. - -Ia tomar ch com a Gouvarinho. - ---Pois olha, vou comtigo... Estou d'uma secca! - -Carlos hesitou um instante, terminou por dizer: - ---Vem, fazes-me at favor... - -A tarde estava lindissima, Carlos ia no dog-cart. - ---Ha que tempos que no damos assim um passeio juntos, disse Damaso. - ---Tu andas l mettido com estrangeiros!... - -Damaso deu outro suspiro, e no tornou a dizer mais nada. Depois, -porta dos Gouvarinhos, quando soube que a sr.^a condessa recebia, -resolveu subitamente no entrar. No, no entrava. Estava muito -estupido, incapaz de achar uma palavra... - ---Ah, e outra cousa que me lembrou agora, exclamou elle, demorando ainda -Carlos diante do porto. O Castro Gomes, hontem, perguntou-me o que te -havia de mandar pela visita pequena... Eu disse que tu tinhas ido l -por favor, como meu amigo. E elle disse que te havia de vir deixar um -bilhete... Naturalmente vens a conhecel-os. - -No era, pois, necessario que Damaso o apresentasse! - ---Apparece noite, Damasosinho, vai l jantar manh! exclamou Carlos, -subitamente radiante, dando um ardente aperto de mo ao seu amigo. - -Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir ch. A sala, -forrada d'um papel severo, verde e ouro, com retratos de familia em -caixilhos pesados, abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim. -Em cima das mezas havia cestos de flres. No soph, duas senhoras de -chapeu, ambas de preto, conversavam, com a chavena na mo. A condessa, -ao estender os dedos a Carlos, ficara to cr de rosa--como a seda -acolchoada da cadeira em que estava recostada, ao p d'um velador de pau -santo. Notou logo, sorrindo, o ar radiante de Carlos. Que lhe tinha -acontecido de bom? Carlos sorriu tambem, disse que no era possivel -entrar ali com outro ar. Depois perguntou pelo conde... - -O conde ainda no apparecera, detido de certo na camara dos pares, onde -se discutia o projecto sobre a Reforma da Instruco Publica. - -Uma das senhoras de preto fazia votos para que se alliviassem os -estudos. As pobres creanas succumbiam verdadeiramente quantidade -exaggerada de materias, de cousas a decorar: o d'ella, o Joosinho, -andava to pallido e to desfigurado, que ella s vezes tinha vontade de -o deixar ficar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chavena sobre -um console ao lado, e passando sobre os labios a renda do leno, -queixou-se sobretudo dos examinadores. Era um escandalo as exigencias, -as difficuldades que punham, s para poder deitar RR... Ao pequeno -d'ella tinham feito as perguntas mais estupidas, as mais reles; assim, -por exemplo, o que era o sabo, porque lavava o sabo?... - -A outra senhora e a condessa apertaram as mos contra o peito, -consternadas. E Carlos, muito amavel, concordou que era uma abominao. -O marido d'ella--continuava a dama de preto--ficara to desesperado que, -encontrando o examinador no Chiado, o ameaou de lhe dar bengaladas. Uma -imprudencia, de certo; mas, emfim, o homem fra malvado!... No havia -verdadeiramente seno uma cousa digna de se estudar, eram as linguas. -Parecia insensato que se torturasse uma creana com botanica, -astronomia, physica... Para que? Cousas inuteis na sociedade. Assim, o -pequeno d'ella, agora, tinha lies de chimica... Que absurdo! Era o que -o pae dizia--para que, se elle o no queria para boticario? - -Depois d'um silencio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmo tempo; e -houve um murmurio de beijos, um frou-frou de sedas. - -Carlos ficou s com a sr.^a condessa, que reoccupara a sua cadeira cr -de rosa. - -Immediatamente ella perguntou pelo Ega. - ---Coitado, l est para Celorico. - -Ella protestou, com um lindo riso, contra aquella phrase to feia l -est para Celorico No, no queria... Coitado do Ega! Merecia uma -melhor orao funebre. Celorico era horrvel para um fim de romance... - ---De certo, exclamou Carlos, rindo tambem, era mais bello dizer-se: _l -est para Jerusalem!_ - -N'esse momento o criado annunciou um nome, e appareceu o amigo Telles da -Gama, um intimo da casa. Quando soube que o conde devia estar ainda -batalhando sobre a Reforma da Instruco, levou as mos cabea como -lamentando um to feio desperdicio de tempo, e no se quiz demorar. No, -nem mesmo o excellente ch da sr.^a condessa o tentava. A verdade era -que estava to abandonado da graa de Deus, perdera de tal modo o -sentimento das cousas bellas, que entrara, no para vr a sr.^a -condessa--mas simplesmente fallar ao conde. Ento ella teve um bonito ar -de princeza offendida, perguntou a Carlos se uma to rude sinceridade de -montanhez no fazia saudades das maneiras polidas do antigo regimen. E -Telles da Gama, gingando de leve, declarava-se democrata, homem da -natureza, com um riso que lhe mostrava dentes magnificos. Depois, ao -sair, dando um _shake-hands_ ao amigo Maia, quiz saber quando o principe -de S.^t Olavia lhe dava emfim a honra de vir jantar com elle. A sr.^a -condessa indignou-se. No, era realmente de mais! Fazer convites, na sua -sala, diante d'ella,--um homem que fallava tanto da sua cozinheira -allem, e nem sequer lhe offerecera jmais um prato de chou-crute! - -Telles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava a arranjar a -sua sala de jantar para dar sr.^a condessa uma festa, que havia de -ficar nos annaes do reino! Agora com o Maia era differente: jantavam -ambos na cozinha, com os pratos sobre os joelhos. E abalou, gingando -sempre, rindo ainda da porta, mostrando os dentes magnificos. - ---Muito alegre, este Gama, no verdade? disse a condessa. - ---Muito alegre, disse Carlos. - -Ento a condessa olhou o relogio. Eram cinco e meia, quella hora ella -j no recebia: podiam, emfim, conversar um momento, em boa camaradagem. -E, o que houve, foi um silencio lento, em que os olhos de ambos se -encontraram. Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo doente. -No estava bem, com uma ligeira tosse apanhada no passeio da Estrella. -Ah, aquella creana nunca deixava de lhe dar o cuidado! Ficou callada, -com o olhar esquecido no tapete, movendo languidamente o leque: tinha -n'essa tarde uma toilette exaggerada, d'um tom de folha de outono -amarellada, d'uma seda grossa, que ao menor movimento fazia um ruge-ruge -de folhas seccas. - ---Que lindo tempo tem feito! exclamou ella de repente, como acordando. - ---Lindo! disse Carlos. Eu estive ha dias em Cintra, e no imagina... Era -d'uma belleza de idyllio. - -E immediatamente arrependeu-se, quiz-se mal por ter fallado da sua ida a -Cintra, n'aquella sala. - -Mas a condessa mal o escutra. Tinha-se erguido, fallando de algumas -canes que essa manh recebera de Inglaterra, as novidades frescas da -_season_. Depois, sentou-se ao piano, correu os dedos no teclado, -perguntou a Carlos se conhecia aquella melodia--_The pale star_. No, -Carlos no conhecia. Mas todas essas canes inglezas se parecem, sempre -do mesmo tom dolente, romanesco, e muito _miss_. E trata-se sempre d'um -parque melancolico, um regato lento, um beijo sob os castanheiros... - -Ento a condessa leu alto a letra da _Pale star_. E era a mesma cousa, -uma estrellinha de amor palpitando no crepusculo, um lago pallido, um -timido beijo sob as arvores... - --- sempre o mesmo, disse Carlos, e sempre delicioso. - -Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquillo estupido. -Comeou a remexer entre os papeis de musica, nervosa, e com um olhar que -escurecia. Para quebrar o silencio, Carlos gabou-lhe as suas lindas -flores. - ---Ah, vou-lhe dar uma rosa! exclamou ella logo, deixando as musicas. - -Mas, a flr que ella lhe queria dar estava no _boudoir_, ao lado. Carlos -seguiu a sua grande cauda, onde corria um reflexo dourado de folhagem de -outono batida do sol. Era um gabinete forrado de azul, com um bonito -trem do seculo XVIII, e sobre um forte pedestal de carvalho, o busto em -barro do conde, na sua expresso de orador, a fronte erguida, a gravata -desmanchada, o labio fremente... - -A condessa escolheu um boto com duas folhas, e ella mesmo lhe veiu -florir a sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o calor que -subia do seu seio arfando com fora. E ella no acabava de prender a -flr, com os dedos tremulos, lentos, que pareciam collar-se, deixar-se -adormecer sobre o panno... - ---_Voila!_ murmurou emfim, muito baixo. Ahi est o meu bello cavalleiro -da Rosa Vermelha... E agora, no me agradea! - -Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os labios nos -labios d'ella. A seda do vestido roava-lhe, com um fino ruge-ruge entre -os braos;--e ella pendia para traz a cabea, branca como uma cera, com -as palpebras docemente cerradas. Elle deu um passo, tendo-a assim -enlaada, e como morta; o seu joelho encontrou um soph baixo, que rolou -e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos ps, Carlos seguiu, -tropeando, o largo soph, que rolou, fugiu ainda, at que esbarrou -contra o pedestal onde o sr. conde erguia a fronte inspirada. E um longo -suspiro morreu, n'um rumor de saias amarrotadas. - -D'ahi a um momento estavam ambos de p: Carlos, junto do busto, coando -a barba, com o ar embaraado, e j vagamente arrependido: ella, diante -do trem Luiz XV, compondo, com os dedos tremulos, o frisado do cabello. -De repente, na antecamara, ouviu-se a voz do conde. Ella, bruscamente, -voltou-se, correu a Carlos, e, com os longos dedos cobertos de -pedrarias, agarrou-lhe o rosto, atirou-lhe dois beijos faiscantes ao -cabello e aos olhos. Depois, sentou-se largamente no soph--e estava -fallando de Cintra, rindo alto, quando o conde entrou, seguido de um -velho calvo, que se vinha a assoar a um enorme leno de seda da India. - -Ao vr Carlos no _boudoir_, o conde teve uma bella surpreza, esteve-lhe -apertando as mos muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda -n'essa manh, na camara, se lembrara d'elle... - ---Ento, por que vieram to tarde? exclamou a condessa, que se apoderara -logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amavel. - ---O nosso conde fallou! disse o velho, ainda com o olho brilhante de -enthusiasmo. - ---Fallaste? exclamou ela, voltando-se com um interesse encantador. - - verdade, fallara; e desprevenido! Quando ouvira porm o Torres Valente -(homem de litteratura, mas um doido, sem senso pratico) quando o ouvira -defender a gymnastica obrigatoria nos collegios--erguera-se. Mas no -imaginasse o amigo Maia, que elle tinha feito um discurso. - ---Ora essa! exclamou o velho, agitando o leno. E um dos melhores que eu -tenho ouvido na camara! Dos de arromba! - -O Conde modestamente protestou. No: tinha simplesmente lanado uma -palavra de bom senso, e de bom principio. Perguntara apenas ao seu -illustre amigo, o sr. Torres Valente, se na sua ida, os nossos filhos, -os herdeiros das nossas casas, estavam destinados para palhaos!... - ---Ah, esta piada, sr.^a condessa! exclamou o velho. Eu s queria que v. -ex.^a ouvisse esta piada... E como elle a disse! com um _chic!_ - -O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe -aquillo. E, respondendo a outras reflexes do Torres Valente, que no -queria nos lyceus, nem nos collegios, um ensino todo impregnado de -cathecismo, elle lanara-lhe uma palavra cruel. - ---Terrivel, exclamou o velho n'um tom cavo, preparando o leno para se -assoar outra vez. - ---Sim, terrivel... Voltei-me para elle, e disse-lhe isto... Creia o -digno par, que nunca este paiz retomar o seu logar testa da -civilisao, se, nos lyceus, nos collegios, nos estabelecimentos de -instruco, ns outros os legisladores formos, com mo impia, substituir -a cruz pelo trapezio... - ---Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do leno. - -Carlos, erguendo-se, declarou aquillo d'uma ironia adoravel. - -E o conde, quando elle se despediu, no se contentou com um simples -aperto de mo, passou-lhe o brao pela cinta, chamou-lhe o seu querido -Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda humido, um resto de pallidez, -movendo o leque languidamente, recostada em duas almofadas do -soph--debaixo do busto do marido que erguia a fronte inspirada. - - - - -X - - -Tres semanas depois, por uma tarde quente, com um ceu triste de -trovoada, e no momento em que estavam cahindo algumas gotas grossas de -chuva,--Carlos apeava-se d'um coup de praa, que viera parar, de vagar, - esquina da Patriarchal, com os stores verdes mysteriosamente corridos. -Dous sujeitos que passavam sorriram-se, como se o vissem escoar-se -desgeitosamente d'uma portinha suspeita. E com effeito a velha -traquitana de rodas amarellas acabava de ser uma alcova d'amor, -perfumada de verbena, durante as duas horas que Carlos rolara dentro -d'ella, pela estrada de Queluz, com a sr.^a condessa de Gouvarinho. - -A condessa tinha descido no largo das Amoreiras. E Carlos aproveitara a -solido da Patriarchal para se desembaraar do calhambeque d'assento -duro, onde durante a ultima hora suffocra, sem ousar descer as -vidraas, com as pernas adormecidas, enfastiado de tantas sedas -amarrotadas e dos beijos interminaveis que ella lhe dava na barba... - -At ahi, durante essas tres semanas, tinham-se encontrado n'uma casa da -rua de Santa Izabel, pertencente a uma tia da condessa que fra para o -Porto com a criada, deixando-lhe a chave da casa e o cuidado do gato. A -boa titi, uma velha pequenina, chamada miss Jones, era uma santa, uma -apostola militante da Egreja Anglicana, missionaria da Obra da -Propaganda; e todos os mezes fazia assim uma viagem de cathechisao -provincia, distribuindo Biblias, arrancando almas treva catholica, -purificando (como ella dizia) o tremedal papista... J na escada havia -um cheirinho adocicado e triste a devoo e a virgem velha: e no patamar -pendia um largo carto, com um distico em letras de ouro entrelaadas de -lyrios roxos, rogando aos que entravam que preserverassem nas vias do -Senhor! Carlos entrou, tropeando logo n'um monto de Biblias. O quarto -todo era um ninho de Biblias; havia-as s pilhas por cima dos moveis, -transbordando de velhas chapelleiras, misturadas a pares de galochas, -cahidas para o fundo da bacia d'assento, todas do mesmo formato, -entaladas n'uma encadernao negra como n'uma armadura de combate, -carrancudas e aggressivas! As paredes resplandeciam, forradas de -cartonagens impressas em lettras de cr, irradiando versiculos duros da -Biblia, asperos conselhos de moral, gritos dos psalmos, ameaas -insolentes do inferno... E no meio d'esta religiosidade anglicana, -cabeceira d'um leitosinho de ferro, rigido e virginal, duas garrafas -quasi vasias de cognac e de gin, Carlos bebeu o gin da santa; e o leito -rigido ficou revolto como um campo de batalha. - -Depois a condessa comeou a ter medo d'uma visinha, uma Borges, que -visitava a titi, e era viuva de um antigo procurador dos Gouvarinhos. -Uma occasio em que, no casto leito de miss Jones, elles fumavam -languidamente cigarrilhas, tres enormes argoladas porta atroaram a -casa. A pobre condessa quasi desmaiou; Carlos, correndo janella, viu -um homem que se affastava, com uma estatueta de gesso na mo, outras -dentro d'um cesto. Mas a condessa jurava que fra a Borges quem mandra -o italiano das imagens atirar-lhes para dentro aquellas aldrabadas, como -tres avisos, tres rebates da Moral... No quizera voltar mais ao -beatifico cut da titi. E n'essa tarde, como no havia ainda outro -escondrijo, tinham abrigado os seus amores dentro d'aquella tipoia de -praa. - -Mas Carlos vinha de l enervado, amollecido, sentindo j na alma os -primeiros bocejos da saciedade. Havia tres semanas apenas que aquelles -braos perfumados de verbena se tinham atirado ao seu pescoo,--e agora, -pelo passeio de S. Pedro d'Alcantara, sob o ligeiro chuvisco que batia -as folhagens da alameda, elle a pensando como se poderia desembaraar -da sua tenacidade, do seu ardor, do seu peso... que a condessa a-se -tornando absurda com aquella determinao anciosa e audaz de invadir -toda a sua vida, tomar n'ella o logar mais largo e mais profundo--como -se o primeiro beijo trocado tivesse unido no s os labios de ambos um -momento, mas os seus destinos tambem e para sempre. N'essa tarde l -tinham voltado as palavras que ella balbuciava, cahida sobre o seu -peito, com os olhos affogados n'uma ternura supplicante: _Se tu -quizesses! que felizes que seriamos! que vida adoravel! ambos ss!_... E -isto era claro--a condessa concebera a ida extravagante de fugir com -elle, ir viver n'um sonho eterno de amor lyrico, n'algum canto do mundo, -o mais longe possivel da rua de S. Maral! _Se tu quizesses!_ No, com -mil demonios, no queria fugir com a sr.^a condessa de Gouvarinho!... - -E no era s isto--mas ainda exigencias, egoismos, exploses tumultuosas -d'um temperamento cioso: j mais de uma vez, n'essas duas curtas -semanas, por pieguices, ella despropositra, fallara de morrer, -debulhada em lagrimas... Ah! nas lagrimas havia ainda uma -voluptuosidade, faziam parecer mais tenro o setim do seu collo! O que o -inquietava eram certos clares que lhe sulcavam o rosto, um dardejar -nervoso dos olhos seccos, revelando a paixo que se accendera n'aquelles -nervos de mulher de trinta e tres annos, e a queimava at s -profundidades do seu ser... Certamente este amor punha na sua vida um -luxo mais, e um perfume. Mas o seu encanto estava em conservar-se facil, -sereno, sem penetrar mais fundo que a epiderme. Se ella, por qualquer -cousa, tinha os olhos turvos d'agua, e fallava em morrer, e torcia os -braos, e queria fugir com elle--ento adeus! Tudo estava estragado; e a -sr.^a condessa com a sua verbena, os seus cabellos cr de braza, e o seu -pranto, era apenas um trambolho! - -O chuveiro parara, um bocado d'azul lavado appareceu entre nuvens. E -Carlos descia a rua de S. Roque--quando encontrou o marquez, sahindo -d'uma confeitaria, tristonho, com um embrulho na mo, e o pescoo -abafado n'um enorme cache-nez de seda branca. - ---Que isso? Constipao? perguntou Carlos. - ---Tudo, disse o marquez, pondo-se a caminhar ao lado d'elle com uma -lentido de moribundo. Deitei-me tarde. Canasso. Oppresso no peito. -Pigarreira. Dres no lado. Um horror... Levo j aqui rebuados. - ---No seja piegas, homem! Voc o que precisa roast-beef e uma garrafa -de Borgonha... No hoje que voc janta l no Ramalhete?... , at tem -l o Craft e o Damaso... Ento descemos por essa rua do Alecrim, que j -no chove, depois pelo Aterro fra, a passo gymnastico, e em chegando l -voc est curado. - -O pobre marquez encolheu os hombros. Apenas sentia o menor encommodo, -uma dr, um arrepio, considerava-se logo, como elle dizia, _liquidado_. -O mundo comeava a findar para elle: tomavam-no terrores catholicos, uma -preoccupao angustiosa da Eternidade. N'esses dias fechava-se no quarto -com o padre capello--com quem s vezes, todavia, terminava por jogar as -damas. - ---Em todo o caso, disse elle, tirando cautelosamente o chapeu ao passar -pela porta aberta da egreja dos Martyres, deixe-me voc ir primeiro ao -Gremio... Quero escrever Manoeleta que no conte comigo esta noite... - -Depois, distrahida e melancolicamente, perguntou noticias d'esse devasso -do Ega. Esse devasso do Ega l estava em Celorico, na quinta materna, -ouvindo arrotar o padre Seraphim, e refugiando-se, segundo dizia, na -grande arte: andava a compor uma comedia em cinco actos, que se devia -chamar o _Lodaal_--escripta para se vingar de Lisboa. - ---O peor, murmurou o marquez, depois de um silencio, e abafando-se mais -no cache-nez, se eu estou assim no domingo para as corridas! - ---O qu! exclamou Carlos, ento as corridas so j no domingo? - -O marquez foi-lhe explicando, em quanto desciam o Chiado, que as -corridas se tinham apressado a pedido do Clifford, o grande _sportman_ -de Cordova, que devia trazer dois cavallos inglezes... Era um bocado -humilhante depender do Clifford. Mas emfim o Clifford era um _gentleman_ -e com os seus cavallos de raa, os seus jockeys inglezes, constituia a -unica feio sria do Hyppodromo de Belem. Sem o Clifford aquillo era -uma brincadeira de pilecas e d'_abas_... - ---Voc no conhece o Clifford?.. Bello rapaz! Um pouco _poseur_, mas -oiro de lei. - -Tinham entrado no pateo do Gremio, o marquez estendeu o brao a Carlos. - ---Veja esse pulso! - ---O pulso est excellente... V voc dar l esse golpe Manoela, que eu -fico aqui espera. - -No domingo pois, d'ahi a cinco dias, eram as corridas... E _ella_ -estaria l, elle ia conhecel-a, emfim! Durante essas tres ultimas -semanas vira-a duas vezes: uma occasio, estando a conversar com o -Taveira porta do hotel Central, ella chegara a uma das varandas, de -chapeu, calando uma grande luva preta; d'outra vez, havia dias, por uma -tarde de chuva, ella viera parar porta do Mouro, ao Chiado, n'um -coup da Companhia, e ficara esperando emquanto o trintanario levava -dentro loja um embrulho que tinha a frma d'um cofre, apertado com uma -fita vermelha. D'ambas as vezes ella vira-o, demorara os olhos n'elle um -momento: e parecera a Carlos que o ultimo olhar se prolongara mais, como -abandonando-se, humedecendo-se, n'uma leve doura, ao pousar no seu... -Era talvez uma illuso; mas isto decidiu-o, na sua impaciencia, a -realisar a antiga ida (ainda que desagradavel) de ser apresentado pelo -Damaso ao Castro Gomes. O pobre Damaso, ao principio, diante d'esta -exigencia, ficou perturbado; e com um ar de co que defende o seu osso, -lembrou logo a Carlos o deploravel comportamento do Castro Gomes, que -no viera como lh'o annunciara, havia tres semanas, deixar o seu carto -ao Ramalhete... Mas Carlos desdenhava essas formalidades estreitas entre -rapazes: o Castro Gomes parecia-lhe um homem de gosto e de _sport_; nem -todos os dias apparecia em Lisboa quem soubesse dar com correco o n -da gravata; e seria agradavel, mesmo para elle Damaso, reunirem-se todos -de vez em quando, com o Craft, com o marquez, a fumar um charuto e a -fallar de cavallos. Isto decidiu Damaso, que terminou por propr a -Carlos o leval-o uma tarde ao hotel Central. Carlos porm no queria -entrar pelo hotel dentro, de chapeu na mo, atraz do Damaso. Resolveram -ento esperar pelas corridas, onde os Castro Gomes tencionavam ir. Ahi, -no recinto da pesagem, disse o Damaso, a apresentao mais _chic_... -mesmo pdre de _chic_. - ---Deus queira com effeito que no chova no domingo, murmurou Carlos -quando o marquez desceu, mais tristonho, mais abafado no seu cache-nez. - -Foram seguindo pelo meio da rua, em direco ao Ferregial. Adiante do -Gremio, encostado ao passeio, estava um coup da Companhia, com um -trintanario de luvas brancas esperando junto ao portal. Carlos olhou, -casualmente; e viu, debruado portinhola, um rosto de creana, d'uma -brancura adoravel sorrindo-lhe, com um bello sorriso que lhe punha duas -covinhas na face. Reconheceu-a logo. Era Rosa, era Rosicler: e ella no -se contentou em sorrr, com o seu doce olhar azul fugindo todo para -elle,--deitou a mosinha de fra, atirou-lhe um grande adeus. No fundo -do coup, forrado de negro, destacava um perfil claro d'estatua, um tom -ondeado de cabello louro. Carlos tirou profundamente o chapeu, to -perturbado, que os seus passos hesitaram. _Ella_ abaixou a cabea, de -leve; alguma cousa de luminoso, um confuso rubor d'emoo, -espalhou-se-lhe no rosto. E fugitivamente foi como se, da me e da -filha, ao mesmo tempo, viesse para elle uma suave e quente emanao de -sympathia. - ---Caramba, aquillo pertence-lhe? perguntou o marquez, que notara a -impresso de Madame Gomes. - -Carlos crou. - ---No, uma senhora brazileira a quem eu curei aquella pequerrucha... - ---Irra! que gratido! rosnou o outro de dentro das dobras do seu -cachenez. - -Caminhando em silencio pelo Ferregial, Carlos revolvia uma ida que lhe -viera de repente, ao receber aquelle doce olhar. Por que que Damaso -no levaria uma manh o Castro Gomes aos Olivaes, a vr as colleces do -Craft?... Elle estaria l, abria-se uma garrafa de Champagne, discutiam -_bric--brac_. Depois, muito naturalmente, elle convidava Castro Gomes a -almoar no Ramalhete, para lhe mostrar o grande Rubens, e as suas velhas -colxas da India. E assim, j antes das corridas existiria entre elles -uma camaradagem, talvez um tratamento de _voc_. - -No Aterro, temendo o ar do rio, o marquez quiz tomar uma tipoia; e, at -ao Ramalhete, continuaram callados. O marquez, outra vez inquieto, -apalpava a garganta. Carlos discutia complicadamente comsigo aquella -lenta inclinao de cabea, o olhar d'ella, o vivo rubor fugitivo... -Ella at ahi no o conhecia talvez. Mas, depois de atirar o seu grande -_adeus_, Rosa, ainda sorrindo, voltara-se para a me, a dizer-lhe -decerto que aquelle era o medico que a curara, a ella e boneca... E -ento a linda cr que lhe enternecera o rosto tomava uma significao -mais profunda--era como a surpreza feliz, o enleio casto, ao saber que o -homem que ella notra j de algum modo tinha penetrado na sua -intimidade, beijara a sua filha, se tinha mesmo sentado beira do seu -leito... - -Depois ia refazendo o plano da visita aos Olivaes, mais largo agora, -mais brilhante. Porque no iria ella tambem vr as curiosidades do -Craft? Que tarde encantadora, que festa, que lindo idyllio! O Craft -arranjava um _lunch_ delicado no seu velho servio de Wedgewood. Elle -ficava meza junto d'ella. Depois iam vr o jardim j em flr; ou -tomavam ch no pavilho japonez, forrado de esteiras. Mas, o que mais -lhe appetecia era percorrer com ella as duas salas de Craft, parando -ambos diante d'uma bella faiena ou d'um movel raro, e sentindo, atravez -da concordancia dos seus gostos, subir, como um perfume, a sympathia dos -seus coraes... Nunca a vira to formosa como n'essa tarde, dentro do -coup forrado de escuro, onde brilhava mais puramente a brancura do seu -perfil. Sobre o regao do vestido negro pousava o tom claro das suas -luvas; e no chapo frisava-se a ponta de uma penna cor de neve. - -A tipoia parara ao porto do Ramalhete, estavam agora entre as -silenciosas tapessarias da ante-camara. - ---Como que ella conhece os Cruges? perguntou de repente o marquez, com -um tom desconfiado, desembaraando-se do cache-nez. - -Carlos olhou para elle, como mal acordado. - ---Ella quem? Aquella senhora? Como conhece o Cruges?... Homem, sim, tem -voc razo!.. Aquella era a casa do Cruges! a carruagem estava parada -porta do Cruges!.. Talvez alguem que mre n'outro andar. - ---No mra ninguem, disse o marquez, dando um passo para o corredor. Em -todo o caso, um mulhero. - -Carlos achou a palavra odosa. - -Do corredor ouvia-se j no escriptorio de Affonso, atravez da porta -aberta, a voz petulante do Damaso fallando alto d'_handicap_ e de -_dead-beat_... E foram-n'o encontrar discursando sobre as corridas, com -convico, com auctoridade, como membro do Jockey-Club. Affonso, na sua -velha poltrona, escutava-o, cortez e risonho, com o reverendo Bonifacio -no collo. Ao canto do soph, Craft folheava um livro. - -E o Damaso appellou logo para o marquez. No era verdade, como elle -estivera dizendo ao sr. Affonso da Maia, que iam ser as melhores -corridas que se tinham feito em Lisboa? S para o grande premio nacional -de seiscentos mil ris havia oito cavallos inscriptos! E alm d'isso, o -Clifford trazia a _Mist_. - ---Ah, verdade, oh marquez, necessario que voc apparea sexta-feira - noite no Jockey-Club, para acabarmos o _handicap_! - -O marquez arrastara uma cadeira para o p de Affonso, para lhe fazer a -confidencia dos seus achaques; mas como Damaso se mettia entre elles, -fallando ainda da _Mist_, decidindo que a _Mist_ era chic, querendo -apostar cinco libras pela _Mist_ contra o campo--o marquez terminou por -se voltar, enfastiado, dizendo que o sr. Damazosinho se estava a dar -ares patuscos... Apostar pela _Mist_! Todo o patriota devia apostar -pelos cavallos do visconde de Darque, que era o unico criador -portuguez!... - ---Pois no verdade, sr. Affonso da Maia? - -O velho sorrio, amaciando o seu gato. - ---O verdadeiro patriotismo talvez, disse elle, seria, em logar de -corridas, fazer uma boa tourada. - -Damazo levou as mos cabea. Uma tourada! Ento o sr. Affonso da Maia -preferia touros a corridas de cavallos? O sr. Affonso da Maia, um -inglez!... - ---Um simples beiro, sr. Salcede, um simples beiro, e que faz gosto -n'isso; se habitei a Inglaterra que o meu rei, que era ento, me pz -fra do meu paiz... Pois verdade, tenho esse fraco portuguez, prefiro -touros. Cada raa possue o seu _sport_ proprio, e o nosso o toiro: o -toiro com muito sol, ar de dia santo, agua fresca, e foguetes... Mas -sabe o sr. Salcede qual a vantagem da toirada? ser uma grande escola -de fora, de coragem e de destreza... Em Portugal no ha instituio que -tenha uma importancia egual tourada de curiosos. E acredite uma cousa: - que se n'esta triste gerao moderna ainda ha em Lisboa uns rapazes -com certo musculo, a espinha direita, e capazes de dar um bom socco, -deve-se isso ao touro e tourada de curiosos... - -O marquez enthusiasmado bateu as palmas. Aquillo que era fallar! -Aquillo que era dar a philosophia do toiro! Est claro que a tourada -era uma grande educao phisica! E havia imbecis que fallavam em acabar -com os touros! Oh, estupidos, acabaes ento com a coragem portugueza!... - ---Ns no temos os jogos de destresa das outras naes, exclamava elle, -bracejando pela sala e esquecido dos seus males. No temos o _cricket_, -nem o _foot-ball_, nem o _running_, como os inglezes: no temos a -gymnastica como ella se faz em Frana; no temos o servio militar -obrigatorio que o que torna o allemo solido... No temos nada capaz -de dar a um rapaz um bocado de fibra. Temos s a tourada... Tirem a -tourada, e no ficam seno badamecos derreados da espinha, a mellarem-se -pelo Chiado! Pois voc no acha, Craft? - -Craft, do canto do soph, onde Carlos se fra sentar e lhe fallava -baixo, respondeu, convencido: - ---O que, o touro? Est claro! o touro devia ser n'este paiz como o -ensino l fra: gratuito e obrigatorio. - -Damazo no entanto jurava a Affonso compenetradamente que gostava tambem -muito de touros. Ah l n'essas cousas de patriotismo ninguem lhe levava -a palma... Mas as corridas tinham outro _chic_! Aquelles _Bois de -Boulogne_, n'um dia de _Grand-Prix_, hein!... Era de embatucar! - ---Sabes o que pena? exclamou elle voltando-se de repente para Carlos. - que tu no tenhas um _four-in-hand_, um _mail coach_. Iamos todos -d'aqui, cahia tudo de chic! - -Carlos pensou tambem comsigo que era uma pena no ter um _four-in-hand_. -Mas gracejou, achando mais em harmonia com o Jockey Club da travessa da -Conceio irem todos dentro d'um omnibus. - -Damazo voltou-se para o velho, deixando cahir os braos, descoroado: - ---Ahi est, sr. Affonso da Maia! Ahi est por que em Portugal nunca se -faz nada em termos! por que ninguem quer concorrer para que as cousas -saiam bem... Assim no possivel! Eu c entendo isto: que n'um paiz, -cada pessoa deve contribuir, quanto possa, para a civilisao. - ---Muito bem, sr. Salcede! disse Affonso da Maia. Eis ahi uma nobre, uma -grande palavra! - ---Pois no verdade? gritou Damazo, triumphante, a estoirar de goso. -Assim eu, por exemplo... - ---Tu, o qu? exclamaram dos lados. Que fizeste, tu pela civilisao?... - ---Mandei fazer para o dia das corridas uma sobrecasaca branca... E vou -de vo azul no chapo! - -Um escudeiro entrou com uma carta para Affonso, n'uma salva. O velho, -sorrindo ainda das idas de Damaso sobre a civilisao, puxou a luneta, -leu as primeiras linhas; toda a alegria lhe morreu no rosto, ergueu-se -logo, tendo depositado cuidadosamente sobre a sua almofada o pesado -Bonifacio. - ---Isto que ter gosto, isto que comprehender as cousas! exclamava -o Damaso, agitando os braos para Carlos, quando o velho desappareceu -atravez do reposteiro de damasco. Este teu av, menino, podre de -chic!.. - ---Deixa l o chic do av... Anda c, que te quero dizer uma cousa. - -Abriu uma das janellas do terrao, levou para l o Damaso, e disse-lhe -ahi, pressa, o seu plano da visita aos Olivaes, e a linda tarde que -poderiam passar na quinta com os Castro Gomes... Elle j fallara ao -Craft, que estava de accordo, achava delicioso, ia encher tudo de -flores. E agora s restava que Damaso amigo, como amabilidade sua, -convidasse os Castro Gomes... - ---Caramba! murmurou Damaso desconfiado, ests com furor de a conhecer! - -Mas emfim concordou que era chic a valer! E via ahi uma bella occasio -para elle!... Em quanto Carlos e Craft andassem mostrando as -curiosidades ao Castro Gomes e lhe fallassem de cavallos, elle, zs, ia -para a quinta passear com ella... A calhar! - ---Pois vou manh j fallar-lhes... Estou convencido que aceitam logo. -Ella pela-se por bric-a-brac! - ---E vens dizer-me se acceitaram ou no... - ---Venho dizer-te... Tu vaes gostar d'ella; tem lido muito, entende -tambem de litteratura; e olha que s vezes a conversar atrapalha... - -O marquez veiu chamal-os para dentro, impaciente, querendo fechar a -porta envidraada, outra vez preoccupado com a garganta. E desejava -antes de jantar ir ao quarto de Carlos gargarejar com agua e sal... - ---E isto um portuguez forte! exclamou Carlos, travando-lhe alegremente -do brao. - ---Eu sou piegas na garganta, replicou logo o marquez, desprendendo-se -d'elle e olhando-o com ferocidade. E voc -o no sentimento. E o Craft --o na respeitabilidade. E o Damasosinho -o na tolice. Em Portugal -tudo Pieguice e Companhia! - -Carlos rindo, arrastou-o pelo corredor. E de repente, ao entrarem na -ante-camara, deram com Affonso fallando a uma mulher, carregada de luto, -que lhe beijava a mo, meia de joelhos, suffocada de lagrimas: e ao lado -outra mulher, com os olhos turvos d'agua tambem, embalava dentro do -chaile uma criancinha que parecia doente e gemia. Carlos parara -embaraado; o marquez instinctivamente levou a mo algibeira. Mas o -velho, assim surprehendido na sua caridade, foi logo empurrando as duas -mulheres para a escada: ellas desciam, encolhidas, abenoando-o, n'um -murmurio de soluos; e elle voltando-se para Carlos, quasi se desculpou -n'uma voz que ainda tremia: - ---Sempre estes peditorios... Caso bem triste todavia... E o que peior - que por mais que se d nunca se d bastante. Mundo muito mal feito, -marquez. - ---Mundo muito mal feito, sr. Affonso da Maia, respondeu o marquez -commovido. - -No domingo seguinte, pelas duas horas, Carlos no seu phaeton de oito -molas, levando ao lado Craft que durante os dois dias de corridas se -installara no Ramalhete, parou ao fim do largo de Belem, no momento em -que para o lado do Hyppodromo estavam j estalando foguetes. Um dos -criados desceu a comprar o bilhete de pesagem para o Craft, n'uma tosca -guarita de madeira, armada alli de vespera, onde se mexia um homemsinho -de grandes barbas grisalhas. - -Era um dia j quente, azul ferrete, com um d'esses rutilantes soes de -festa que enflammam as pedras da rua, doiram a poeirada baa do ar, poem -fulgores d'espelho pelas vidraas, do a toda a cidade essa branca -faiscao de cal, d'um vivo monotono e implacavel, que na lentido das -horas de vero cana a alma, e vagamente entristece. No largo dos -Jeronymos silencioso, e a escaldar na luz, um omnibus esperava, -desatrelado, junto ao portal da Egreja. Um trabalhador com o filho ao -collo, e a mulher ao lado no seu chaile de ramagens, andava alli, -pasmando para a estrada, pasmando para o rio, a gosar ociosamente o seu -domingo. Um garoto ia apregoando desconsoladamente programmas das -corridas que ninguem comprava. A mulher da agua fresca, sem freguezes, -sentara-se com a sua bilha sombra, a catar um pequeno. Quatro pesados -municipaes a cavallo patrulhavam a passo aquella solido. E a distancia, -sem cessar, o estalar alegre de foguetes morria no ar quente. - -No entanto o tritanario continuava debruado na guarita, sem poder -arranjar l dentro o troco d'uma libra. Foi necessario Craft saltar da -almofada, ir l parlamentar--emquanto Carlos, impaciente, raspando com o -chicote as ancas das egoas, luzidias como um setim castanho, riscava no -largo uma volta brusca e nervosa. Desde o Ramalhete viera assim -governando, irritadamente, sem descerrar os labios. que toda aquella -semana, desde a tarde em que combinara com o Damaso a visita aos -Olivaes, fra desconsoladora. O Damaso tinha desapparecido, sem mandar a -resposta dos Castro Gomes. Elle, por orgulho, no procurara o Damaso. Os -dias tinham passado, vazios; no se realisara o alegre idyllio dos -Olivaes; ainda no conhecia Madame Gomes; no a tornara a ver; no a -esperava nas corridas. E aquelle domingo de festa, o grande sol, a gente -pelas ruas, vestida de casimiras e de sedas de missa, enchiam-n'o de -melancolia e de malestar. - -Uma caleche de praa passou, com dous sujeitos de flores ao peito, -acabando de calar as luvas; depois um dog-cart, governado por um homem -gordo, de lunetas pretas, quasi foi esbarrar contra o Arco. Emfim, Craft -voltou com o seu bilhete, tendo sido descomposto pelo homem de barbas -propheticas. - -Para alm do arco, a poeira suffocava. Pelas janellas havia senhoras -debruadas, olhando por debaixo de sombrinhas. Outros municipaes, a -cavallo, atravancavam a rua. - - entrada para o hyppodromo, abertura escalavrada n'um muro de -quintarola, o phaeton teve de parar atrz do dog-cart do homem -gordo--que no podia tambem avanar porque a porta estava tomada pela -caleche de praa, onde um dos sujeitos de flor ao peito berrava -furiosamente com um policia. Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O -sr. Savedra, que era do Jockey-Club, tinha-lhe dito que elle podia -entrar sem pagar a carruagem! Ainda lh'o dissra na vespera, na botica -do Azevedo! Queria que se fosse chamar o sr. Savedra! O policia -bracejava, enfiado. E o cavalleiro, tirando as luvas, ia abrir a -portinhola, esmurrar o homem--quando, trotando na sua grande horsa, um -municipal de punho alado correu, gritou, injuriou o cavalleiro gordo, -fez rodar para ra a caleche. Outro municipal entrometteu-se, -brutalmente. Duas senhoras, agarrando os vestidos, fugiram para um -portal, espavoridas. E atravez do rebolio, da poeira, sentia-se -adiante, melancolicamente, um realejo tocando a _Traviata_. - -O phaeton entrou--atraz do dog-cart, onde o homem gordo, a estoirar de -furia, voltava ainda para traz a face escarlate, jurando dar parte do -municipal: - ---Tudo isto est arranjado com decencia, murmurou Craft. - -Diante d'elles, o hyppodromo elevava-se suavemente em colina, parecendo, -depois da poeirada quente da calada e das cruas reverberaes da cal, -mais fresco, mais vasto, com a sua relva j um pouco crestada pelo sol -de junho, e uma ou outra papoula vermelhejando aqui e alm. Uma aragem -larga e repousante chegava vagarosamente do rio. - -No centro, como perdido no largo espao verde, negrejava, no brilho do -sol, um magote apertado de gente, com algumas carruagens pelo meio, -d'onde sobresahiam tons claros de sombrinhas, o faiscar d'um vidro de -lanterna, ou um casaco branco de cocheiro. Para alm, dos dois lados da -tribuna real forrada de um baeto vermelho de mesa de Repartio, -erguiam-se as duas tribunas publicas, com o feitio de traves mal -pregadas, como palanques d'arraial. A da esquerda vasia, por pintar, -mostrava luz as fendas do taboado. Na da direita, bezuntada por fra -d'azul claro, havia uma fila de senhoras quasi todas de escuro -encostadas ao rebordo, outras espalhadas pelos primeiros degraus; e o -resto das bancadas permanecia deserto e desconsolado, d'um tom alvadio -de madeira, que abafava as cres alegres dos raros vestidos de vero. -Por vezes a briza lenta agitava no alto dos dois mastros o azul das -bandeirolas. Um grande silencio caa do ceu faiscante. - -Em volta do recinto da tribuna, fechado por um tapume de madeira, havia -mais soldados de infanteria, com as bayonetas lampejando ao sol. E no -homem triste que estava entrada, recebendo os bilhetes, mettido dentro -d'um enorme collete branco, reteso de gomma, e que lhe chegava at aos -joelhos--Carlos reconheceu o servente do seu laboratorio. - -Apenas tinham dado alguns passos encontraram Taveira porta do buffete -onde se estivera reconfortando com uma cerveja. Tinha um molho de cravos -amarellos ao peito, polainas brancas,--e queria animar as corridas. J -vira a _Mist_, a egoa de Clifford, e decidira apostar pela _Mist_. Que -cabea d'animal, meninos, que finura de pernas!... - ---Palavra que me enthusiasmou! E est decidido, um dia no so dias, -necessario animar isto! Aposto trez mil ris. Quer voc Craft? - ---Pois sim, talvez, depois... Vamos primeiro vr o aspecto geral. - -No recinto em declive, entre a tribuna e a pista, havia s homens, a -gente do Gremio, das Secretarias e da Casa Havaneza; a maior parte -vontade, com jaquetes claros, e de chapo cco; outros mais em estylo, -de sobrecasaca e binoculo a tiracollo, pareciam embaraados e quasi -arrependidos do seu chic. Fallava-se baixo, com passos lentos pela -relva, entre leves fumaraas de cigarro. Aqui e alm um cavalheiro, -parado, de mos atraz das costas, pasmava languidamente para as -senhoras. Ao lado de Carlos dois brazileiros queixavam-se do preo dos -bilhetes, achando aquillo uma semsaboria de rachar. - -Defronte a pista estava deserta, com a relva pisada, guardada por -soldados: e junto corda, do outro lado, apinhava-se o magote de gente, -com as carruagens pelo meio, sem um rumor, n'uma pasmaceira tristonha, -sob o peso do sol de junho. Um rapazote, com uma voz dolente, apregoava -agua fresca. L ao fundo o largo Tejo faiscava, todo azul, to azul como -o ceu, n'uma pulverisao fina de luz. - -O visconde de Darque, com o seu ar placido de gentleman louro que comea -a engordar, veio apertar a mo a Carlos e a Craft. E mal elles lhe -fallaram dos seus cavallos (_Rabbino_, o favorito, e o outro potro) -encolheu os hombros, cerrou os olhos, como um homem que se sacrifica. -Ento, que diabo, os rapazes tinham querido!... Mas elle, realmente, no -podia apresentar um cavallo decente, com as suas cres, seno d'ahi a -quatro annos. De resto no apurava cavallos para aquella melancolia de -Belem, no imaginassem os amigos que elle era to patriota: o seu fim -era ir a Hespanha, bater os cavallos de Caldillo... - ---Emfim, vamos a vr... D voc c lume. Isto est um horror. E depois, -que diabo, para corridas necessario cocottes e Champagne. Com esta -gente seria, e agua fresca, no vae! - -N'esse momento um dos commissarios das corridas, um rapago sem barba, -vermelho como uma papoula, a pingar de suor sob o chapo branco deitado -para a nuca, veio arrebatar o Darque, que era muito preciso, l na -pesagem, para uma duvidasinha. - ---Eu sou o diccionario, dizia o Darque, tornando a encolher os hombros -resignadamente. De vez em quando vem um d'estes senhores do Jockey-Club, -e folheia-me... Veja voc, Maia, em que estado eu fico depois das -corridas! Ha-de ser necessario encadernar-me de novo... - -E l foi, rindo da sua pilheria--empurrado para diante pelo commissario, -que lhe dava palmadas familiares nas costas, e lhe chamava _catita_. - ---Vamos ns vr as mulheres, disse Carlos. - -Seguiram devagar ao comprido da tribuna. Debruadas no rebordo, n'uma -fila muda, olhando vagamente, como d'uma janella em dia de procisso, -estavam ali todas as senhoras que vem no high-life dos jornaes, as dos -camarotes de S. Carlos, as das teras-feiras dos Gouvarinhos. A maior -parte tinha vestidos serios de missa. Aqui e alm um d'esses grandes -chapos emplumados Gainsborough, que ento se comeavam a usar, -carregava d'uma sombra maior o tom trigueiro d'uma carinha miuda. E na -luz franca da tarde, no grande ar da collina descoberta, as pelles -appareciam murchas, gastas, molles, com um bao de p de arroz. - -Carlos cumprimentou as duas irms do Taveira, magrinhas, loirinhas, -ambas correctamente vestidas de xadrezinho: depois a viscondessa -d'Alvim, nedia e branca, com o corpete negro reluzente de vidrilhos, -tendo ao lado a sua terna inseparavel, a Joaninha Villar, cada vez mais -cheia, com um quebranto cada vez mais doce nos olhos pestanudos. Adiante -eram as Pedrosos, as banqueiras, de cres claras, interessando-se pelas -corridas, uma de programma na mo, a outra de p e de binoculo estudando -a pista. Ao lado, conversando com Steinbroken, a condessa de Soutal, -desarranjada, com um ar de ter lama nas saias. N'uma bancada isolada, em -silencio, Villaa com duas damas de preto. - -A condessa de Gouvarinho ainda no viera. E no estava tambem aquella -que os olhos de Carlos procuravam, inquietamente e sem esperana. - --- um canteirinho de camelias meladas, disse o Taveira, repetindo um -dito do Ega. - -Carlos, no entanto, fra fallar sua velha amiga D. Maria da Cunha que, -havia momentos, o chamava com o olhar, com o leque, com o seu sorriso de -ba mam. Era a unica senhora que ousara descer do retiro ajanellado da -tribuna, e vir sentar-se em baixo, entre os homens: mas, como ella -disse, no aturara a sca de estar l em cima perfilada, espera da -passagem do Senhor dos Passos. E, bella ainda sob os seus cabellos j -grisalhos, s ella parecia divertir-se alli, muito vontade, com os ps -pousados na travessa d'uma cadeira, o binoculo no regao, cumprimentada -a cada instante, tratando os rapazes por _meninos_... Tinha comsigo uma -parenta que apresentou a Carlos, uma senhora hespanhola, que seria -bonita se no fossem as olheiras negras, cavadas at ao meio da face. -Apenas Carlos se sentou ao p d'ella, D. Maria perguntou-lhe logo por -esse aventureiro do Ega. Esse aventureiro, disse Carlos, estava em -Celorico compondo uma comedia para se vingar de Lisboa, chamada o -_Lodaal_... - ---Entra o Cohen? perguntou ella, rindo. - ---Entramos todos, sr.^a D. Maria. Todos ns somos lodaal... - -N'esse momento, por traz do recinto, rompia, com um taran-tan-tan -mollengo de tambores e pratos, o hymno da Carta, a que se misturou uma -voz de official e o bater de coronhas. E, entre dourados de dragonas, -El-rei appareceu na tribuna, sorrindo, de quinzena de velludo, e chapo -branco. Aqui e alm, raros sujeitos cumprimentaram, muito de leve: a -senhora hespanhola, essa, tomou o oculo do regao de D. Maria, e de p, -muito descanadamente, poz-se a examinar o rei. D. Maria achava ridicula -a musica, dando s corridas um ar de arraial... Alm d'isso, que tolice, -o hymno, como n'um dia de parada! - ---E este hymno, ento, que medonho, dizia Carlos. A sr.^a D. Maria no -sabe a definio do Ega, e a sua theoria dos hymnos? Maravilhosa! - ---Aquelle Ega! dizia ella sorrindo, j encantada. - ---O Ega diz que o hymno a definio pela musica do caracter d'um povo. -Tal o compasso do hymno nacional, diz elle, tal o movimento moral da -nao. Agora veja a sr.^a D. Maria os differentes hymnos, segundo o Ega. -A _Marselheza_ avana com uma espada na. O _God save the queen_ -adianta-se, arrastando um manto real... - ---E o hymno da Carta? - ---O hymno da Carta ginga, de rabona. - -E D. Maria ria ainda, quando a hespanhola, sentando-se e repousando-lhe -tranquillamente o binoculo no regao, murmurou: - ---Tiene cara de buena persona. - ---Quem, o rei? exclamaram a um tempo D. Maria e Carlos. Excellente! - -No entanto uma sineta tocava, perdida no ar. E no quadro indicador -subiram os numeros dos dois cavallos que corriam o primeiro premio dos -_Productos_. Eram o n.^o 1 e o n.^o 4. D. Maria Telles quiz-lhe saber os -nomes, com o appetite de apostar e ganhar cinco tostes a Carlos. E como -Carlos se erguia para arranjar um programma: - ---Deixe estar o menino, disse ella, tocando-lhe no brao. Ahi vem o -nosso Alencar, com o programma... Olhe para aquillo! Veja se ainda hoje -os ha por ahi com aquelle ar de sentimento e de poesia... - -Com um fato novo de cheviote claro que o remoava, de luvas gris-perle, -o seu bilhete de pezagem na botoeira, o poeta vinha-se abanando com o -programma, e j de longe sorrindo sua boa amiga D. Maria. Quando -chegou junto d'ella, descoberto, bem penteado n'esse dia, com um lustre -d'oleo na grenha, levou-lhe a mo aos labios, fidalgamente. - -D. Maria fra uma das suas lindas contemporaneas. Tinham danado muita -ardente mazurka nos sales de Arroios. Ella tratava-o por _tu_. Elle -dizia sempre _boa amiga_, e _querida Maria_. - ---Deixa vr os nomes d'esses cavallos, Alencar... Senta-t'ahi, anda, -faze companhia. - -Elle puchou uma cadeira, rindo do interesse que ella tomava pelas -corridas. E elle que a conhecera sempre uma enthusiasta de toiros!... -Pois os nomes dos cavallos eram _Jupiter_ e _Escossez_... - ---Nenhum d'esses nomes me agrada, no aposto. E ento que te parece tudo -isto, Alencar?... A nossa Lisboa vae-se sahindo da concha... - -Alencar, pousando o chapo sobre uma cadeira, e passando a mo pela sua -vasta fronte de bardo, confessou que aquillo tinha realmente um certo ar -de elegancia, um perfume de crte... Depois, l em baixo, aquelle -maravilhoso Tejo... Sem fallar na importancia do apuramento das raas -cavallares... - ---Pois no verdade, meu Carlos? Tu que entendes superiormente d'isso, -que s um mestre em todos os _sports_, sabes bem que o apuramento... - ---Sim, com effeito, o apuramento, muito importante...--disse Carlos, -vagamente, erguendo-se a olhar outra vez tribuna. - -Eram quasi tres horas, e agora, de certo, _ella_ j no vinha: e a -condessa de Gouvarinho no apparecia tambem... Comeava a invadil-o uma -grande lassitude. Respondendo, com um leve movimento de cabea, ao -sorriso doce que lhe dava da tribuna a Joaninha Villar, pensava em -voltar para o Ramalhete, acabar tranquillamente a tarde dentro do seu -robe-de-chambre, com um livro, longe de todo aquelle tdio. - -No entanto, ainda entravam senhoras. A menina S Videira, filha do rico -negociante de sapatos d'ourello, passou pelo brao do irmo, abonecada, -com o arsinho petulante e enojado de tudo, fallando alto inglez. Depois -foi a ministra da Baviera, a baroneza de Craben, enorme, empavoada, com -uma face macissa de matrona romana, a pelle cheia de manchas cr de -tomate, a estalar dentro d'um vestido de gorgoro azul com riscas -brancas: e atraz o baro, pequenino, amavel, aos pulinhos, com um grande -chapo de palha. - -D. Maria da Cunha erguera-se para lhes fallar: e durante um momento -ouviu-se, como um glou-glou grosso de per, a voz da baroneza achando -_que c'tait charmant, c'tait trs beau_. O baro, aos pulinhos, aos -risinhos, _trouvait a ravissant_. E o Alencar, diante d'aquelles -estrangeiros que o no tinham saudado, apurava a sua attitude de grande -homem nacional, retorcendo a ponta dos bigodes, alando mais a fronte -na. - -Quando elles seguiram para a tribuna, e a boa D. Maria se tornou a -sentar, o poeta, indignado, declarou que abominava allemes! O ar de -sobranceria com que aquella ministra, com feitio de barrica deixando -sahir o cebo por todas as costuras do vestido, o olhra, a elle! Ora, a -insolente baleia! - -D. Maria sorria, olhando com sympathia o poeta. E voltando-se de repente -para a senhora hespanhola: - ---Concha, deja-me presentar-te D. Thomaz de Alencar, nuestro gran poeta -lyrico... - -N'esse momento, algum dos rapazes mais amadores, dos que traziam -binoculos a tiracollo, apressaram o passo para a corda da pista. Dois -cavallos passavam n'um galope sereno, quasi juntos, sob as vergastadas -estonteadas de dois jockeys de grande bigode. Uma voz erguendo-se disse -que tinha ganhado _Escossez_. Outros affirmavam que fra _Jupiter_. E no -silencio que se fez, de lassido e de desapontamento, ondeou mais viva -no ar, lanada pelos flautins da banda, a valsa de _madame Angot_. -Alguns sujeitos tinham-se conservado de costas para a pista, fumando, -olhando a tribuna--onde as senhoras continuavam debruadas no parapeito, - espera do Senhor dos Passos. Ao lado de Carlos, um cavalheiro resumiu -as impresses, dizendo que tudo _aquillo era uma intrujice_. - -E quando Carlos se ergueu para ir procurar o Damaso, Alencar, muito -animado com a hespanhola, fallava de Sevilha, de malagueas e do corao -d'Espronceda. - -O desejo de Carlos agora era achar Damazo, saber porque falhara a visita -aos Olivaes--e depois ir-se embora para o Ramalhete, esconder aquella -melancolia que o enevoava, estranha e pueril, misturada de -irritabilidade, fazendo-lhe detestar as vozes que lhe fallavam, os -rantatans da musica, at a belleza calma da tarde... Mas ao dobrar a -esquina da tribuna, topou com Craft, que o deteve, o apresentou a um -rapaz loiro e forte com quem estava fallando alegremente. Era o famoso -Clifford, o grande sportman de Cordova. Em redor sujeitos tinham parado, -embasbacados para aquelle inglez legendario em Lisboa, dono de cavallos -de corridas, amigo do rei d'Hespanha, homem de todos os _chics_. Elle, -muito vontade, um pouco _poseur_, com um simples veston de flanella -azul como no campo, ria alto com o Craft do tempo em que tinham estado -no collegio de Rugby. Depois pareceu-lhe reconhecer Carlos, amavelmente. -No se tinham encontrado havia quasi um anno, em Madrid, n'um jantar, em -casa de Pancho Calderon? E assim era. O aperto de mo que repetiram foi -mais intimo--e Craft quiz que fossem regar aquella flor d'amisade com -uma garrafa de mau Champagne. Em roda crescera a pasmaceira. - -O buffete estava installado debaixo da tribuna, sob o taboado n, sem -sobrado, sem um ornato, sem uma flor. Ao fundo corria uma prateleira de -taberna com garrafas e pratos de bolos. E, no balco tosco, dois -criados, estonteados e sujos, achatavam pressa as fatias de sandwiches -com as mos humidas da espuma da cerveja. - -Quando Carlos e os seus amigos entraram, havia junto d'um dos barrotes -que especavam os degraus da tribuna, n'um grupo animado, com copos de -champagne na mo, o marquez, o visconde de Darque, o Taveira, um rapaz -pallido de barba preta, que tinha debaixo do brao enrolada a bandeira -vermelha de _Starter_, e o commissario imberbe, com o chapo branco cada -vez mais atirado para a nuca, a face mais esbrazeada, o collarinho j -molle de suor. Era elle que offerecia o champagne; e apenas viu entrar -Clifford, rompeu para elle, de taa no ar, fez tremer as vigas, soltando -o seu vozeiro: - --- saude do amigo Clifford! o primeiro sportman da pennsula, e rapaz -c dos nossos!... Hip hip, hurrah! - -Os copos ergueram-se, n'um clamor d'hurrahs, onde destacou, vibrante e -enthusiasta, a voz do _starter_. Clifford agradecia, risonho, tirando -lentamente as luvas--em quanto o marquez, puxando Carlos pelo brao para -o lado, lhe apresentava rapidamente o commissario, seu primo D. Pedro -Vargas. - ---Muito gosto em conhecer... - ---Qual historias! Eu que fazia furor! exclamou o commissario. C a -rapaziada do sport deve-se conhecer toda... Porque isto c a -confraria, e todo o resto chinfrinada! - -E immediatamente arrebatou o copo ao ar, berrou com um impeto que lhe -trazia mais sangue face: - --- saude de Carlos da Maia, o primeiro elegante c da patria! a melhor -mo de redea... Hip, hip, hurrah... - ---Hip, hip, hip... Hurrah! - -E foi ainda a voz do starter que deu o _hurrah_ mais vibrante e mais -enthusiasta. - -Um empregado assomou porta do buffete, e chamou o sr. commissario. O -Vargas atirou uma libra para o balco, abalou, gritando j de fra, com -o olho acceso: - ---Isto vae-se animando, rapazes! Caramba! carregar no liquido! E voc, -oh l de baixo, o patro, s Manuel, mande vir esse gelo... Est a gente -aqui a tomar a bebida quente... Despache um proprio, v voc, rebente! -Irra! - -No entanto em quanto se desarrolhava o champagne de Craft, Carlos tinha -convidado Clifford a jantar n'essa noite no Ramalhete. O outro acceitou, -molhando os labios no copo, achando excellente que se continuasse a -tradio de jantarem juntos, sempre que se encontravam. - ---Ol! o general por aqui! exclamou Craft. - -Os outros voltaram-se. Era o Sequeira, com a face como um pimento, -entalado n'uma sobrecasaca curta que o fazia mais atarracado, de chapeu -branco sobre o olho, e grande chicote debaixo do brao. - -Acceitou um copo de Champagne, e teve muito prazer em conhecer o sr. -Clifford... - ---E que me diz voc a esta semsaboria? exclamou elle logo, voltando-se -para Carlos. - -Em quanto a si estava contente, pulava... Aquella corrida insipida, sem -cavallos, sem jockeys, com meia duzia de pessoas a bocejar em roda, -dava-lhe a certeza que eram talvez as ultimas, e que o _Jockey-Club_ -rebentava... E ainda bem! Via-se a gente livre d'um divertimento que no -estava nos habitos do paiz. Corridas era para se apostar. Tinha-se -apostado? No, ento historias!... Em Inglaterra e em Frana, sim! Ahi -eram um jogo como a roletta, ou como o monte... At havia banqueiros, -que eram os _bookmakers_... Ento j viam! - -E como o marquez, pousando o copo, e querendo calmar o general, fallava -do apuramento das raas, e da remonta,--o outro ergueu os hombros, com -indignao: - ---Que me est voc a cantar! Quer voc dizer que se apura a raa para a -remonta da cavallaria?... Ora v l montar o exercito com cavallos de -corridas!... Em servio o que se quer no o cavallo que corra mais, -o cavallo que aguente mais... O resto uma historia... Cavallos de -corridas so phenomenos! So como o boi com duas cabeas... Ento -historias!... Em Frana at lhe do Champagne, homem!... Ento veja l! - -E a cada phrase, sacudia os hombros, furiosamente. Depois, d'um trago, -esvasiou o seu copo de Champagne, repetiu que tinha muito prazer em -conhecer o sr. Clifford, rodou sobre os taces, sahiu, bufando, -entalando mais debaixo do brao o chicote--que tremia na ponta como -avido de vergastar alguem. - -Craft sorria, batia no hombro de Clifford. - ---Veja voc! c ns, velhos portuguezes, no gostamos de novidades, e de -_sports_... Somos pelo toiro... - ---Com razo, dizia o outro, serio e aprumando-se sobre o collarinho. -Ainda ha dias me contava na Granja, o Rei de Hespanha... - -De repente, fra, houve um rebolio, e vozes sobresaltadas gritando -_ordem_! Uma senhora, que atravessava com um pequenito, fugiu para -dentro do buffete, enfiada. Um policia passou, correndo. - -Era uma desordem! - -Carlos e os outros, sahindo pressa, viram ao p da tribuna real um -magote de homens--onde bracejava o Vargas. Do largo da pesagem, os -rapazes corriam com curiosidade, j excitados, apinhando-se, alando-se -em bicos de ps; do recinto das carruagens acudiam outros, saltando as -cordas da pista, apesar dos repelles dos policias:--e agora era uma -massa tumultuosa de chapos altos, de fatos claros, empurrando-se contra -as escadas da tribuna real, onde um ajudante d'el-rei, reluzente de -agulhetas e em cabello, olhava tranquillamente. - -E Carlos, furando, poude emfim avistar no meio do monto um dos sujeitos -que correra no premio dos Productos, o que montava _Jupiter_, ainda de -botas, com um paletot alvadio por cima da jaqueta de jockey, furioso, -perdido, injuriando o juiz das corridas, o Mendona, que arregalava os -olhos, aturdido e sem uma palavra. Os amigos do jockey puxavam-n'o, -queriam que elle fizesse um protesto. Mas elle batia o p, tremulo, -livido, gritando que no se importava nada com protestos! Perdera a -corrida por uma pouca vergonha! O protesto alli era um arrocho! Porque o -que havia n'aquelle hyppodromo era compadrice e ladroeira! - -Individuos, mais serios, indignaram-se com esta brutalidade. - ---Fra! Fra! - -Alguns tomavam o partido do jockey; j aos lados outras questes -surgiam, desabridas. Um sujeito vestido de cinzento berrava que o -Mendona decidira pelo Pinheiro, que montava _Escossez_, por ser intimo -d'elle; outro cavalheiro, de binoculo a tiracollo, achava aquella -insinuao infame; e os dois, frente a frente, com os punhos fechados, -tratavam-se furiosamente de _pulhas_. - -E, todo este tempo, um homem baixote, de grandes collarinhos de -pintinhas, procurava romper, erguia os braos, exclamava, n'uma voz -supplicante e rouca: - ---Por quem so, meus senhores... Um momento... Eu tenho experiencia... -Eu tenho experiencia! - -De repente o vozeiro do Vargas dominou tudo, como um urro de toiro. -Diante do jockey, sem chapo, com a face a estoirar de sangue, -gritava-lhe que era indigno de estar alli, entre gente decente! Quando -um gentleman duvida do juiz da corrida, faz um protesto! Mas vir dizer -que ha ladres, era s d'um canalha e d'um fadista, como elle, que nunca -devia ter pertencido ao Jockey-Club!--O outro, agarrado pelos amigos, -esticando o pescoo magro como para lhe morder, atirou-lhe um nome sujo. -Ento o Vargas, com um encontro para os lados, abriu espao, repuxou as -mangas, berrou: - ---Repita l isso! repita l isso! - -E immediatamente aquella massa de gente oscillou, embateu contra o -taboado da tribuna real, remoinhou em tumulto, com vozes de _ordem_ e -_morra_, chapos pelo ar, baques surdos de murros. - -Por entre o alarido vibravam, furiosamente, os apitos da policia; -senhoras, com as saias apanhadas, fugiam atravez da pista, procurando -espavoridamente as carruagens;--e um sopro grosseiro de desordem relles -passava sobre o hyppodromo, desmanchando a linha postia de civilisao -e a attitude forada de decoro... - -Carlos achou-se ao p do marquez, que exclamava, pallido: - ---Isto incrivel, isto incrivel!... - -Carlos, pelo contrario, achava pittoresco. - ---Qual pittoresco, homem! uma vergonha, com todos esses estrangeiros! - -No entanto a massa de gente dispersava, lentamente, obedecendo ao -official de guarda, um moo pequenino mas decidido, que, em bicos de -ps, aconselhava para os lados, n'uma voz de orador, cavalheirismo e -prudencia... O jockey de paletot alvadio affastou-se, apoiado ao brao -d'um amigo, cocheando, com o nariz a pingar sangue: e o commissario -desceu para a pista, com um cortejo atraz, triumphante, sem collarinho, -arranjando o chapo achatado n'uma pasta. A musica tocava a marcha do -_Propheta_; em quanto o desgraado juiz das corridas, o Mendona, -encostado tribuna real, com os braos cahidos, aparvalhado, balbuciava -n'um resto d'assombro: - ---Isto s a mim! Isto s a mim! - -O marquez, n'um grupo a que se juntra o Clifford, Craft, e Taveira, -continuava a vociferar: - ---Ento, esto convencidos? Que lhes tenho eu sempre dito? Isto um -paiz que s supporta hortas e arraiaes... Corridas, como muitas outras -coisas civilisadas l de fra, necessitam primeiro gente educada. No -fundo todos ns somos fadistas! Do que gostamos de vinhaa, e viola, e -bordoada, e viva l seu compadre! Ahi est o que ! - -Ao lado d'elle Clifford, que no meio d'aquelle desmancho todo esticava -mais correctamente a sua linha de gentleman, mordia um sorriso, -assegurando, com um ar de consolao, que conflictos eguaes succedem em -toda a parte... Mas no fundo parecia achar tudo aquillo ignobil. -Dizia-se mesmo que elle ia retirar a _Mist_. E alguns davam-lhe razo. -Que diabo! Era aviltante para um bello animal de raa correr n'um -hyppodromo sem ordem e sem decencia, onde a todo o momento podiam -reluzir navalhas. - ---Ouve c, tu viste por acaso esse animal do Damaso? perguntou Carlos, -chamando para o lado o Taveira. Ha uma hora que ando a farejal-o... - ---Estava ainda ha pouco do outro lado, no recinto das carruagens, com a -Josephina do Salazar... Anda extraordinario, de sobrecasaca branca, e de -vo no chapo! - -Mas, quando d'ahi a pouco, Carlos quiz atravessar, a pista estava -fechada. Ia-se correr o _Grande premio nacional_. Os numeros j tinham -subido ao indicador, um tom de sineta morria no ar. Um cavallo do -Darque, o _Rabbino_, com o seu jockey de encarnado e branco, descia, -trazido redea por um groom e acompanhado pelo Darque: alguns sujeitos -paravam a examinar-lhe as pernas, com o olho serio, affectando entender. -Carlos demorou-se um momento tambem, admirando-o: era d'um bonito -castanho escuro, nervoso e ligeiro, mas com o peito estreito. - -Depois, ao voltar-se, viu de repente a Gouvarinho, que acabava de certo -de chegar, e conversava de p com D. Maria da Cunha. Estava com uma -toilette ingleza, justa e simples, toda de cazimira branca, d'um branco -de creme, onde as grandes luvas negras mosqueteira punham um contraste -audaz: e o chapo preto tambem desapparecia sob as pregas finas d'um vo -branco, enrolado em volta da cabea, cobrindo-lhe metade do rosto, com -um ar oriental que no a bem ao seu narizinho curto, ao seu cabello cr -de braza. Mas em redor os homens olhavam para ella como para um quadro. - -Ao avistar Carlos, a condessa no conteve um sorriso, um brilho de olhos -que a illuminou. Instinctivamente deu um passo para elle: e ficaram um -instante isolados, fallando baixo, em quanto D. Maria os observava, -sorrindo, cheia j de benevolencia, prompta j a abenoal-os -maternalmente. - ---Estive para no vir, dizia a condessa, que parecia nervosa. O Gasto -fez-se to desagradavel hoje! E naturalmente tenho d'ir manh para o -Porto. - ---Para o Porto?... - ---O pap quer que eu l v, so os annos d'elle... Coitado, vae-se -fazendo velho, escreveu-me uma carta to triste... Ha dois annos que me -no v... - ---O conde vae? - ---No. - -E a condessa, depois de dar um sorriso ao ministro da Baviera, que a -cumprimentava de passagem, aos pulinhos, acrescentou, mergulhando o -olhar nos olhos de Carlos: - ---E quero uma coisa. - ---O que? - ---Que venhas tambem. - -Justamente n'esse instante, Telles da Gama, de programma e lapis na mo, -parou junto d'elles: - ---Voc quer entrar n'uma _poule_ monstro, Maia? Quinze bilhetes, dez -tostes cada um... L em cima ao canto da tribuna est-se apostando -ferozmente... A desordem fez bem, sacudiu os nervos, todo o mundo -acordou... Quer v. ex.^a tambem, sr.^a condessa? - -Sim, a condessa tambem entrava na _poule_. Telles da Gama inscreveu-a, e -abalou atarefado. Depois foi Steinbroken que se acercou, todo flordo, -de chapo branco, ferradura de rubis na gravata, mais esticado, mais -loiro, mais inglez, n'este dia solemne de _sport_ official. - ---Ah, comme vous tes belle, comtesse!... Voil une toilette -merveilleuse, n'est ce pas, Maia?... Est ce que nous n'allons pas parier -quelque chose? - -A condessa contrariada, querendo fallar a Carlos, risonha todavia, -lamentou-se de ter j uma fortuna compromettida... Emfim sempre apostava -cinco tostes com a Filandia. Que cavallo tomava elle? - ---Ah, je ne sais pas, je ne connais pas les chevaux... D'abord, quand on -parie... - -Ella, impaciente, offereceu-lhe _Vladimiro_. E teve de estender a mo a -outro filandez, o secretario de Steinbroken, um moo loiro, lento, -languido, que se curvara em silencio diante d'ella, deixando escorregar -do olho claro e vago o seu monoculo d'ouro. Quasi immediatamente Taveira -excitado veiu dizer que Clifford retirara a _Mist_. - -Vendo-a, assim cercada, Carlos affastou-se. Justamente o olhar de D. -Maria, que o no deixara, chamava-o agora, mais carinhoso e vivo. Quando -elle se chegou, ella puxou-lhe pela manga, fel-o debruar, para lhe -murmurar ao ouvido, deliciada: - ---Est hoje to galante! - ---Quem? - -D. Maria encolheu os hombros, impaciente. - ---Ora quem! Quem ha-de ser? O menino sabe perfeitamente. A condessa... -Est de appetite. - ---Muito galante, com effeito, disse Carlos friamente. - -De p, junto de D. Maria, tirando de vagar uma cigarrette, elle -ruminava, quasi com indignao, as palavras da condessa. Ir com ella -para o Porto!... E via alli outra exigencia audaz, a mesma tendencia -impertinente a dispr do seu tempo, dos seus passos, da sua vida! Tinha -um desejo de voltar junto d'ella, dizer-lhe que _no_, seccamente, -desabridamente, sem motivos, sem explicaes, como um brutal. - -Acompanhada em silencio pelo esguio secretario de Steinbroken, ella -vinha agora caminhando lentamente para elle: e o olhar alegre com que o -envolvia irritou-o mais, sentindo no seu brilho sereno, no sorrir calmo, -quanto ella estava certa da sua submisso. - -E estava. Apenas o filandez se affastou languidamente--ella, muito -tranquilla, alli mesmo junto de D. Maria, fallando em inglez, e -apontando para a pista como se commentasse os cavallos do Darque, -explicou-lhe um plano que imaginara, encantador. Em logar de partir na -tera feira para o Porto--ia na segunda noite, s com a criada -escocessa, sua confidente, n'um compartimento reservado. Carlos tomava o -mesmo comboio. Em Santarem, desciam ambos, muito simplesmente, e iam -passar a noite ao hotel. No dia seguinte ella seguia para o Porto, elle -recolhia a Lisboa... - -Carlos abria os olhos para ella, assombrado, emmudecido. No esperava -aquella extravagancia. Suppozera que ella o queria no Porto, escondido -no _Francfort_, para passeios romanticos Foz, ou visitas furtivas a -algum casebre da Aguardente... Mas a ida d'uma noite, n'um hotel, em -Santarem! - -Terminou por encolher os hombros, indignado. Como queria ella, n'uma -linha de caminho de ferro em que se encontra constantemente gente -conhecida, apear-se com elle na estao de Santarem, dar-lhe o brao, -maritalmente, e enfiarem para uma estalagem? Ella, porm, pensra em -todos os detalhes. Ninguem a conheceria, disfarada n'um grande -_water-proof_, e com uma cabelleira postia. - ---Com uma cabelleira!? - ---O Gasto! murmurou ella de repente. - -Era o conde, por traz d'elle, abraando-o ternamente pela cintura. E -quiz logo saber a opinio do amigo Maia sobre as corridas. Bastante -animao, no verdade? E bonitas _toilettes_, certo ar de luxo... -Emfim, no envergonhavam. E ahi estava provado o que elle sempre -dissera, que todos os requintes da civilisao se aclimatavam bem em -Portugal... - ---O nosso solo moral, Maia, como o nosso solo physico, um solo -abenoado! - -A condessa voltara para o p de D. Maria. E Telles da Gama, passando de -novo, n'aquella faina ruidosa em que o trazia a formao da sua _poule_, -chamou Carlos para a tribuna, para elle tirar o seu bilhete, e apostar -com as senhoras... - ---Oh Gouvarinho! venha tambem d'ahi, homem! exclamou elle. Que diabo! -necessario animar isto, at patriotico. - -E o conde condescendeu, por patriotismo. - --- bom, dizia elle, travando do brao de Carlos, fomentar os -divertimentos elegantes. J uma vez o disse na camara: o luxo -conservador. - -Em cima, a um canto, n'um grupo de senhoras, foram com effeito encontrar -uma animao--que quasi fazia escandalo n'aquella tribuna silenciosa e -espera do Senhor dos Passos. A viscondessa de Alvim dobrava -atarefadamente os bilhetes da _poule_: uma secretariasinha da Russia, de -bonitos olhos garos, apostava desesperadamente placas de cinco tostes, -estonteada, j embrulhada, rabiscando com phrenesi o seu programma. A -Pinheiro, a mais magra, com um vestido leve de raminhos Pompadour que -lhe fazia covas nas claviculas, dava opinies pretenciosas sobre os -cavallos, em inglez: emquanto o Taveira, de olhos humidos no meio de -todas aquellas saias, fallava de arruinar as senhoras, de viver custa -das senhoras... E todos os homens, acotovelando-se, queriam fazer uma -aposta com a Joanninha Villar, que, de costas contra o rebordo da -tribuna, gordinha e languida, sorrindo, com a cabea deitada para traz, -as pestanas mortas, parecia offerecer a todas aquellas mos, que se -estendiam gulosamente para ella, o seu appetitoso peito de rola. - -Telles da Gama, no entanto, ia organisando a confuso alegre. Os -bilhetes estavam dobrados, era necessario um chapo... Ento os -cavalheiros affectaram um amor desordenado pelos seus chapos, no os -querendo confiar s mos nervosas das senhoras; um rapaz, todo de luto, -excedeu-se mesmo, agarrando as abas do seu, com ambas as mos, aos -gritos. - -A secretariasinha da Russia, impaciente, terminou por offerecer o -barrete de marujo do seu pequeno--uma creana obesa, pousada alli para -um lado como uma trouxa. Foi a Joanninha Villar que levou em roda os -bilhetes, rindo e chocalhando-os preguiosamente; emquanto o secretario -de Steinbroken, grave, como exercendo uma funco, recolhia no seu -grande chapo as placas cahindo uma a uma com um som argentino. E a -tiragem foi o lindo divertimento da _poule_. Como estavam s quatro -cavallos inscriptos, e as entradas eram quinze, havia onze bilhetes -brancos que aterravam. Todos ambicionavam tirar o numero tres, o de -_Rabbino_, o cavallo de Darque, favorito do _Premio Nacional_. Assim -cada mosinha soffrega que se demorava no fundo do barrete, remexendo, -tenteando os papeis, causava uma indignao folgas, n'um exagero de -risos. - ---A sr.^a viscondessa procura de mais!... E dobrou os numeros, -conhece-os... necessario probidade, sr.^a viscondessa! - ---Oh, mon Dieu, j'ai _Minhoto_, cette rosse! - ---Je vous l'achette, madame! - --- sr.^a D. Maria Pinheiro, v. ex.^a leva dous numeros!... - ---Ah! je suis perdue... Blanc! - ---E eu! necessario fazer outra _poule_! Vamos fazer outra _poule_! - ---Isso! Outra _poule_, outra _poule_! - -No entanto a enorme baroneza de Craben, n'um degrau mais elevado, que -ella occupava s, como um throno, erguera-se, com o seu bilhete na mo. -Tinha tirado _Rabbino_: e affectava superiormente no comprehender esta -fortuna, perguntava o que era _Rabbino_. Quando o conde de Gouvarinho -lhe explicou muito serio a importancia de _Rabbino_, e que _Rabbino_ era -quasi uma gloria publica, ella mostrou a dentua, condescendeu em rosnar -do fundo do papo que _c'etait charmant_. Todo o mundo a invejava; e a -vasta baleia alastrou-se de novo sobre o seu throno, abanando-se, com -magestade. - -E subitamente houve uma surpreza: em quanto elles tiravam os bilhetes, -os cavallos tinham partido, passavam juntos diante da tribuna. Todos se -ergueram, de binoculos na mo. O _starter_ ainda estava na pista, com a -bandeira vermelha inclinada ao cho: e as ancas de cavallos fugiam na -curva, lustrosos luz, sob as jaquetas enfunadas dos jockeys. - -Ento todo o rumor de vozes caiu; e no silencio a bella tarde pareceu -alargar-se em redor, mais suave e mais calma. Atravez do ar sem poeira, -sem a vibrao dos raios fortes, tudo tomava uma nitidez delicada: -defronte da tribuna, na collina, a relva era d'um louro quente; no grupo -de carruagens scintillava por vezes o vidro de uma lanterna, o metal de -um arreio, ou de p, sobre uma almofada, destacava em escuro alguma -figura de chapeo alto; e pela pista verde, os cavallos corriam, mais -pequenos, finamente recortados na luz. Ao fundo, a cal das casas -cobria-se de uma leve agoada cr de rosa: e o distante horisonte -resplandecia, com dourados de sol, brilhos de rio vidrado, fundindo-se -n'uma nevoa luminosa, onde as collinas, nos seus tons azulados, tinham -quasi transparencia, como feitas d'uma substancia preciosa... - --- _Rabbino_! exclamou por traz de Carlos, um sugeito, de p n'um -degrau. - -As cres encarnadas e brancas do Darque corriam com effeito na frente. -Os dous outros cavallos iam juntos; e, o ultimo, n'um galope que -adormecia, era _Vladimiro_, outro potro do Darque, baio-claro, quasi -louro luz. - -Ento, a secretaria da Russia bateu as palmas, interpellou Carlos, que -justamente tirara na poule o numero de _Vladimiro_. A ella coubera -_Minhoto_, uma pileca melancolica do Manoel Godinho; e tinham feito -sobre os dous cavallos uma aposta complicada de luvas e de amendoas. J -umas poucas de vezes os seus lindos olhos garos tinham procurado os de -Carlos; e agora tocava-lhe no brao com o leque, gracejava, -triumphava... - ---Ah, vous avez perdu, vous avez perdu! Mais c'est un vieux cheval de -fiacre, vtre _Vladimir_. - -Como um cavallo de fiacre? _Vladimiro_ era o melhor potro do Darque! -Talvez ainda viesse a ser a unica gloria de Portugal, como outr'ora o -_Gladiador_ fra a unica gloria da Frana! Talvez ainda substituisse -Cames... - ---Ah, vous plaisantez... - -No, Carlos no gracejava. Estava at prompto a apostar tudo por -_Vladimiro_. - ---Voc aposta por _Vladimiro_? gritou Telles da Gama, voltando-se -vivamente. - -Carlos, por divertimento, sem mesmo saber por qu, declarou que tomava -_Vladimiro_. Ento, em roda, foi uma surpreza; e todo o mundo quiz -apostar, aproveitar-se d'aquella phantasia de homem rico, que sustentava -um potro verde, de tres quartos de sangue, a que o proprio Darque -chamava _pileca_. Elle sorria, aceitava; terminou ate por erguer a voz, -proclamar _Vladimiro contra o campo_. E de todos os lados o chamavam, -n'uma sofreguido de saque. - ---Mr. de Maia, dix tostons. - ---Parfaitement, madame. - ---Oh Maia, voc quer meia libra? - ---s ordens. - ---Maia, tambem eu! Oua l... Tambem eu!... Dous mil ris. - --- sr. Maia, eu vou dez tostes... - ---Com o maior prazer, minha senhora... - -Ao longe os cavallos davam a volta, na subida do terreno. _Rabbino_ j -desapparecera,--e _Vladimiro_ n'um galope a que se sentia o canasso, -corria s na pista. Uma voz elevou-se, dizendo que elle manquejava. -Ento Carlos, que continuava a tomar _Vladimiro_ contra o campo, sentiu -que lhe puxavam de vagar pela manga; voltou-se; era o secretario de -Steinbroken, chegando subtilmente a tomar tambem parte no saque bolsa -do Maia, propondo dous soberanos, em seu nome e em nome do seu chefe, -como uma aposta collectiva da legao, a aposta do reino da Filandia. - ---C'est fait, monsieur! exclamou Carlos, rindo. - -Agora comeava a divertir-se. Apenas vira de relance _Vladimiro_, e -gostara da cabea ligeira do potro, do seu peito largo e fundo; mas -apostava sobre tudo para animar mais aquelle recanto da tribuna, ver -brilhar gulosamente os olhos interesseiros das mulheres. Telles da Gama -ao lado approvava-o, achava aquillo patriotico e _chic_. - --- _Minhoto_! gritou de repente Taveira. - -Na volta, com effeito, fizera-se uma mudana. Subitamente _Rabbino_ -perdera terreno, resistindo subida, com o folego curto. E agora era -_Minhoto_, o cavallicoque obscuro de Manuel Godinho, que se arremessava -para a frente, vinha devorando a pista, n'um esforo continuo, -admiravelmente montado por um jockey hespanhol. E logo atraz vinham as -cres escarlates e brancas de Darque: ao principio ainda pareceu que era -_Rabbino_: mas, apanhado de repente n'um raio oblquo de sol, o cavallo -cobriu-se de tons lustrosos de baio claro, e foi uma surpreza ao -reconhecer-se que era _Vladimiro_! A corrida travava-se entre elle e -_Minhoto_. - -Os amigos de Godinho, precipitando-se para a pista, bradavam, de chapos -no ar: - ---_Minhoto, Minhoto!_ - -E, em redor de Carlos, os que tinham apostado pelo campo contra -_Vladimiro_ faziam tambem votos por _Minhoto_, em bicos de ps, junto do -parapeito da tribuna, estendendo o brao para elle, animando-o: - ---Anda _Minhoto_!... Isso, assim!... Aguenta, rapaz!... Bravo!... -_Minhoto! Minhoto!_ - -A russa, toda nervosa, na esperana de ganhar a _poule_, batia as -palmas. At a enorme Craben se erguera, dominando a tribuna, enchendo-a -com os seus gorgores azues e brancos:--em quanto que, ao lado d'ella, o -conde de Gouvarinho, tambem de p, sorria, contente no seu peito de -patriota, vendo n'aquelles jockeys desfilada, nos chapos que se -agitavam, brilhar civilisao... - -De repente, de baixo, d'ao p da tribuna, d'entre os rapazes que -cercavam o Darque, uma exclamao partiu. - ---_Vladimiro! Vladimiro!_ - -Com um arranque desesperado o potro viera juntar-se a _Minhoto_: e agora -chegavam furiosamente, com brilhos vivos de cres claras, os focinhos -juntos, os olhos esbogalhados, sob uma chuva de vergastadas. - -Telles da Gama, esquecido da sua aposta, todo pelo Darque, seu intimo, -berrava por _Vladimiro_. A russa, de p n'um degrau, apoiada sobre o -hombro de Carlos, pallida, excitada, animava _Minhoto_ com gritinhos, -com pancadas de leque. A agitao d'aquelle canto da tribuna -estendera-se em baixo ao recinto--onde se via uma linha de homens, -contra a corda da pista, bracejando. Do outro lado, era uma fila de -rostos pallidos, fixos n'uma curta anciedade. Algumas senhoras tinham-se -posto de p nas carruagens. E atravez da collina, para ver a chegada, -dous cavalleiros, segurando com as mos os chapos baixos, corriam -desfilada. - ---_Vladimiro! Vladimiro!_ foram de novo os gritos isolados, aqui, alm. - -Os dous cavallos approximavam-se, com um som surdo das patas, trazendo -um ar de rajada. - ---_Minhoto! Minhoto!_ - ---_Vladimiro! Vladimiro!_ - -Chegavam... De repente o jockey inglez de _Vladimiro_, todo em fogo, -levantando o potro que lhe parecia fugir d'entre as pernas, esticado e -lustroso, fez silvar triumphantemente o chicote, e d'um arremesso -directo lanou-o alm da meta, duas cabeas adiante de _Minhoto_, todo -coberto d'espuma. - -Ento em volta de Carlos foi uma desconsolao, um longo murmurio de -lassido. Todos perdiam; elle apanhava a _poule_, ganhava as apostas, -empolgava tudo. Que sorte! Que chance! Um addido italiano, thesoureiro -da _poule_, empallideceu ao separar-se do leno cheio de prata: e de -todos os lados mosinhas caladas de gris-perle, ou de castanho, -atiravam-lhe com um ar amuado as apostas perdidas, chuva de placas que -elle recolhia, rindo, no chapo. - ---Ah, monsieur, exclamou a vasta ministra da Baviera, furiosa, -mefiez-vous... Vous connaissez le proverbe: heureux au jeu... - ---Helas! madame! disse Carlos, resignado, estendendo-lhe o chapo. - -E outra vez um dedo subtil tocou-lhe no brao. Era o secretario de -Steinbroken, lento e silencioso, que lhe trazia o seu dinheiro e o -dinheiro do seu chefe, a aposta do reino da Filandia. - ---Quanto ganha voc? exclamou Telles da Gama, assombrado. - -Carlos no sabia. No fundo do chapo j reluzia ouro. Telles contou, com -o olho brilhante. - ---Voc ganha doze libras! disse elle maravilhado, e olhando Carlos com -respeito. - -Doze libras! Esta somma espalhou-se em redor, n'um rumor de espanto. -Doze libras! Em baixo os amigos de Darque, agitando os chapos, davam -ainda _hurrahs_. Mas uma indifferena, um tedio lento, ia pesando outra -vez, desconsoladoramente. Os rapazes vinham-se deixar cahir nas -cadeiras, bocejando, com um ar exhausto. A musica, desanimada tambem, -tocava cousas plangentes da _Norma_. - -Carlos, no entanto, n'um degrau da tribuna, com a ida de descobrir o -Damaso, sondava de binoculo o recinto das carruagens. A gente, agora, ia -dispersando pela collina. As senhoras tinham retomado a immobilidade -melancolica, no fundo das caleches, de mos no regao. Aqui e alm um -dog-cart, mal arranjado, dava um trote curto pela relva. N'uma vittoria -estavam as duas hespanholas do Eusebiosinho, a Concha e a Carmen, de -sombrinhas escarlates. E sujeitos, de mos atrs das costas, pasmavam -para um char--bancs a quatro attrelado Daumont onde, entre uma -familia triste, uma ama de leno de lavradeira dava de mamar a uma -creana cheia de rendas. Dous garotos esganiados passeavam bilhas -d'agua fresca. - -Carlos descia da tribuna, sem ter descoberto o Damaso--quando deu -justamente de frente com elle, dirigindo-se para a escada, affogueado, -flamante, na sua famosa sobrecasaca branca. - ---Onde diabo tens tu estado, creatura? - -O Damaso agarrou-o pelo brao, alou-se em bicos de ps, para lhe contar -ao ouvido que tinha estado do outro lado com uma gaja divina, a -Josephina do Zalazar... Chic a valer! lindamente vestida! parecia-lhe -que tinha mulher! - ---Ah, Sardanapalo!... - ---Faz-se pela vida... Volta c acima tribuna, anda. Eu ainda hoje no -pude cavaquear com o _high-life_!... Mas estou furioso, sabes? -Implicaram com o meu veo azul. Isto um paiz de bestas! Logo troa, e -_olhe no creste a pelle_, e _onde mora, catitinha?_ e chalaa... Uma -canalha! Tive de tirar o veo ... Mas j resolvi. Para as outras corridas -venho n. Palavra, venho n! Isto a vergonha da civilisao, esta -terra! No vens d'ahi? Ento at j. - -Carlos deteve-o. - ---Escuta l homem, tenho que te dizer... Ento, essa visita aos -Olivaes?... Nunca mais appareceste... Tinhamos combinado que fosses -convidar o Castro Gomes, que viesses dar a resposta... No vens, no -mandas... O Craft espera... Emfim um procedimento de selvagem. - -Damaso atirou os braos ao ar. Ento Carlos no sabia? Havia grandes -novidades! Elle no voltara ao Ramalhete, como estava combinado, porque -o Carlos Gomes no podia ir aos Olivaes. Ia partir para o Brazil. J -partir mesmo, na quarta feira. A coisa mais extraordinaria... Elle -chega l, para fazer o convite, e s. ex.^a declara-lhe que sente muito, -mas que parte no dia seguinte para o Rio... E j de mala feita, j -alugada uma casa para a mulher ficar aqui espera tres mezes, j a -passagem no bolso. Tudo de repente, feito de sabbado para segunda -feira... Telhudo, aquelle Castro Gomes. - ---E l partiu, exclamou elle, voltando-se a cumprimentar a viscondessa -d'Alvim e Joanninha Villar que desciam das tribunas. L partiu, e ella -j est installada. At j antes de hontem a fui visitar, mas no estava -em casa... Sabes do que tenho medo? que ella, n'estes primeiros -tempos, por causa da visinhana, como est s, no queira que eu l v -muito... Que te parece? - ---Talvez... E onde mora ella? - -Em quatro palavras, Damaso explicou a installao de madame. Era muito -engraado, morava no predio do Cruges! A mam Cruges, havia j annos, -alugava aquelle primeiro andar mobilado: o inverno passado estivera l o -Bertonni, o tenor, com a familia. Casa bem arranjada, o Castro Gomes -tinha tido dedo... - ---E para mim, muito commodo, ali ao p do Gremio... Ento no voltas c -acima, a cavaquear com o femeao? At logo... Est hoje chic a valer a -Gouvarinho! E est a pedir homem! _Good-bye_. - -Defronte de Carlos a condessa de Gouvarinho, no grupo de D. Maria a que -se viera juntar a Alvim e Joanninha Villar, no cessava de o chamar com -o olhar inquieto, torturando o seu grande leque negro. Mas elle no -obedeceu logo, parado ao p dos degraus da tribuna, accendendo vagamente -uma cigarrette, perturbado por todas aquellas palavras do Damaso que lhe -deixavam n'alma um sulco luminoso. Agora que a sabia s em Lisboa, -vivendo na mesma casa do Cruges, parecia-lhe que j a conhecia, -sentia-se muito perto d'ella--podendo assim a todo o momento entrar os -hombraes da sua porta, pisar os degraus que ella pisava. Na sua -imaginao transluziam j possibilidades d'um encontro, alguma palavra -trocada, cousas pequeninas, subtis como fios, mas por onde os seus -destinos se comeariam a prender... E immediatamente veio-lhe a tentao -pueril de ir l, logo n'essa mesma tarde, n'esse instante, gosar como -amigo do Cruges o direito de subir a escada d'ella, parar diante da -porta d'ella--e surprehender uma voz, um som de piano, um rumor qualquer -da sua vida. - -O olhar da condessa no o deixava. Elle approximou-se, emfim, -contrariado: ella ergueu-se logo, deixou o seu grupo, e dando alguns -passos com elle pela relva, recomeou a fallar na ida a Santarem. -Carlos, ento, muito seccamente, declarou toda essa inveno insensata. - ---Porque?... - -Ora porque! Por tudo. Pelo perigo, pelos desconfortos, pelo ridiculo... -Emfim, a ella como mulher ficava-lhe bem ter phantasias pittorescas de -romance; mas a elle competia-lhe ter bom senso. - -Ella mordia o beio, com todo o sangue na face. E no via alli bom -senso. Via s frieza. Quando ella arriscava tanto, elle podia bem, por -uma noite, affrontar os desconfortos da estalagem... - ---Mas no isso!... - -Ento que era? Tinha medo? No havia mais perigo do que nas idas a casa -da titi. Ninguem a podia conhecer, com outra cr de cabello, toda a -sorte de vos, disfarada n'um grande water-proof. Chegavam de noite, -entravam para o quarto, d'onde no sahiam mais, servidos apenas pela -escosseza. No dia seguinte, no comboio da noite, ella seguia para o -Porto, todo acabava... E n'aquella insistencia ella era o homem, o -seductor, com a sua vehemencia de paixo activa, tentando-o, -soprando-lhe o desejo; emquanto elle parecia a mulher, hesitante e -assustada. E Carlos sentia isto. A sua resistencia a uma noite de amor, -prolongando-se assim, ameaava ser grotesca: ao mesmo tempo o calor de -voluptuosidade que emanava d'aquelle seio, arfando junto d'elle e por -elle, ia-o amollecendo lentamente. Terminou por a olhar de certo modo; -e, como se o desejo se lhe accendesse emfim de repente curta chamma -que faiscava nas pupillas d'ella, negras, humidas, avidas, promettendo -mil cousas, disse, um pouco pallido: - ---Pois bem, perfeitamente... manh noite, na estao. - -N'esse momento, em redor, romperam exclamaes de troa: era um cavallo -solitario que chegava, n'um galope pacato, passara a meta sem se -apressar, como se descesse uma avenida do Campo Grande n'uma tarde de -domingo. E em redor perguntava-se que corrida era aquella d'um cavallo -s--quando ao longe, como sahindo da claridade loura do sol que descia -sobre o rio, appareceu uma pobre pileca branca, empurrando-se, -arquejando, n'um esforo doloroso, sob as chicotadas atarantadas d'um -jockey de roxo e preto. Quando ella chegou, emfim, j o outro -_gentleman-rider_ voltara da meta, a passo, pachorrentamente,--e estava -conversando com os amigos, encostado corda da pista. - -Todo o mundo ria. E a corrida do Premio d'El-rei terminou assim, -grotescamente. - -Ainda havia o Premio de Consolao--mas agora desapparecera todo o -interesse ficticio pelos cavallos. Perante a calma e radiante belleza da -tarde, algumas senhoras, imitando a Alvim, tinham descido para a -pesagem, canadas da immobilidade da tribuna. Arranjaram-se mais -cadeiras: aqui e alm, sobre a relva pisada, formavam-se grupos -alegrados por algum vestido claro ou por uma pluma viva de chapo: e -palrava-se, como n'uma sala de inverno, fumando-se familiarmente. Em -redor de D. Maria e da Alvim projectava-se um grande pic-nic a Queluz. -Alencar e o Gouvarinho discutiam a reforma de instruco. A horrivel -Craben, entre outros diplomatas e moos de binoculo a tiracolo, dava do -fundo grosso do papo, opinies sobre Daudet, que elle achava _trs -agreable_. E, quando Carlos emfim abalou, o recinto, esquecidas as -corridas, tomava um tom de _soire_, no ar claro e fresco da collina, -com o murmurio de vozes, um mover de leques, e ao fundo a musica tocando -uma valsa de Strauss. - -Carlos, depois de procurar muito Craft, encontrou-o no buffete com o -Darque, com outros, bebendo mais champagne. - ---Eu tenho de ir ainda a Lisboa, disse-lhe elle, e vou no phaeton. -Abandono torpemente. Voc v para o Ramalhete como poder... - ---Eu o levo! gritou logo o Vargas, que tinha j a gravata toda -desmanchada. Levo-o no dog-cart. Eu me encarrego d'elle... O Craft fica -por minha conta... necessario recibo? saude do Craft, inglez c dos -meus... Hurrah! - ---Hurrah! Hip, hip, hurrah! - -D'ahi a pouco, a trote largo no phaeton, Carlos descia o Chiado, dava a -volta para a rua de S. Francisco. Ia n'uma perturbao deliciosa e -singular, com aquella certeza de que ella estava s na casa do Cruges: o -ultimo olhar que ella lhe dra parecia ir adiante d'elle, chamando-o: e -um despertar tumultuoso de esperanas sem nome atirava-lhe a alma para o -azul. - -Quando parou diante do porto--alguem, por dentro das janellas d'ella, -a correndo lentamente os stores. Na rua silenciosa cahia j uma sombra -de crepusculo. Atirou as redeas ao cocheiro, atravessou o pateo. Nunca -viera visitar o Cruges, nunca subira esta escada; e pareceu-lhe -horrorosa, com os seus frios degraus de pedra, sem tapete, as paredes -nuas e enxovalhadas alvejando tristemente no comeo de escurido. No -patamar do primeiro andar parou. Era alli que ella vivia. E ficou -olhando, com uma devoo ingenua, para as tres portas pintadas d'azul: a -do centro estava inutilisada por um banco comprido de palhinha, e na do -lado direito pendia, com uma enorme bola, o cordo da campainha. De -dentro no vinha um rumor:--e este pesado silencio, juntando-se ao -movimento de stores que elle vira fechar-se, parecia cercar as pessoas -que alli viviam de solido e de impenetrabilidade. Uma desconsolao -passou-lhe na alma. Se ella agora, s, sem o marido, comeasse uma vida -reclusa e solitaria? Se elle no tornasse mais a encontrar os seus -olhos? - -Foi subindo de vagar at ao andar do Cruges. E mal sabia o que havia de -dizer ao maestro para explicar aquella visita extranha, deslocada... Foi -um allivio quando a criadita lhe veiu dizer que o menino Victorino tinha -sahido. - -Em baixo, Carlos tomou as redeas, e foi levando lentamente o phaeton at -ao largo da Bibliotheca. Depois retrocedeu, a passo. Agora, por traz do -store branco, havia uma vaga claridade de luz. Elle olhou-a como se olha -uma estrella. - -Voltou ao Ramalhete. Craft, coberto de p, estava-se justamente apeando -de uma calecha de praa. Um momento ficaram alli porta, em quanto -Craft, procurando troco para o cocheiro, contava o final das corridas. -No _Premio de Consolao_, um dos cavalleiros tinha cahido, quasi ao p -da meta, sem se magoar: e, por ultimo, j partida, o Vargas, que ia na -sua terceira garrafa de champagne, esmurrara um criado do buffete, com -ferocidade. - ---Assim, disse Craft completando o seu troco, estas corridas foram boas -pelo velho principe Shakespereano de que _tudo bom quanto acaba bem_. - ---Um murro, disse Carlos rindo, com effeito um bello ponto final. - -No peristillo, o velho guarda-porto esperava, descoberto, com uma carta -na mo para Carlos. Um criado tinha-a trazido, instantes antes de s. -ex.^a chegar. - -Era uma letra ingleza de mulher, n'um envelope largo, lacrado com um -sinete d'armas. Carlos alli mesmo abriu-a: e, logo primeira linha, -teve um movimento to vivo, de to bella surpreza, illuminando-se-lhe -tanto o rosto, que Craft do lado perguntou sorrindo: - ---Aventura? Herana?... - -Carlos, vermelho, metteu a carta no bolso, e murmurou: - ---Um bilhete apenas, um doente... - -Era apenas um doente, era apenas um bilhete, mas comeava -assim:--Madame Castro Gomes apresenta os seus respeitos ao sr. Carlos -da Maia, e roga-lhe o obsequio...--depois, em duas breves palavras, -pedia-lhe para ir ver na manh seguinte, o mais cedo possivel, uma -pessoa de familia, que se achava incommodada. - ---Bem, eu vou-me vestir, disse Craft... Jantar s sete e meia, hein? - ---Sim, o jantar...--respondeu Carlos, sem saber o qu, banhado todo n'um -sorriso, como em extase. - -Correu aos seus aposentos: e junto da janella, sem mesmo tirar o chapo, -leu uma vez mais o bilhete, outra vez ainda, contemplando enlevadamente -a forma da letra, procurando voluptuosamente o perfume do papel. - -Era datada d'esse mesmo dia tarde. Assim, quando elle passara defronte -da sua porta, j ella a escrevera, j o seu pensamento se demorara -n'elle--quando mais no fosse seno ao traar as lettras simples do seu -nome. No era ella que estava doente. Se fosse Rosa, ella no diria to -friamente uma pessoa de familia. Era talvez o esplendido preto de -carapinha grisalha. Talvez miss Sarah, abenoada fosse ella para sempre, -que queria um medico que entendesse inglez... Emfim havia l uma pessoa -n'uma cama, junto da qual ella mesma o conduziria, atravez dos -corredores interiores d'aquella casa--que havia apenas instantes sentira -to fechada, e como impenetravel para sempre!... E depois este adorado -bilhete, este delicioso pedido para ir a sua casa, agora que ella o -conhecia, que vira Rosa atirar-lhe um grande adeus--tomava uma -significao profunda, perturbadora... - -Se ella no quizesse comprehender, nem acceitar o distante amor que os -seus olhos lhe tinham offerecido claramente, o mais luminosamente que -tinham podido, n'esses fugitivos instantes que se tinham cruzado com os -d'ella--ento poderia ter mandado chamar outro medico, um clinico -qualquer, um estranho. Mas no: o seu olhar respondera ao d'elle, e ella -abria-lhe a sua porta...--E o que sentia a esta ida era uma gratido -ineffavel, um impulso tumultuoso de todo o seu ser a cahir-lhe aos ps, -ficar-lhe beijando a orla do vestido, devotamente, eternamente, sem -querer mais nada, sem pedir mais nada... - -Quando Craft d'alli a pouco desceu, de casaca, fresco, alvo, engommado, -correcto--achou Carlos, ainda com toda a poeira da estrada, de chapo na -cabea passeando o quarto, n'esta agitao radiante. - ---Voc est a faiscar, homem! disse Craft, parando deante d'elle, com as -mos nos bolsos, e contemplando-o um instante do alto do seu -resplandecente collarinho. Voc flameja!... Voc parece que tem uma -aurola na nuca!... Voc succedeu-lhe o quer que seja de muito bom! - -Carlos espreguiou-se, sorrindo. Depois olhou para Craft um momento, em -silencio, encolheu os hombros, e murmurou: - ---A gente, Craft, nunca sabe se o que lhe succede , em definitivo, bom -ou mau. - ---Ordinariamente mau, disse o outro friamente, aproximando-se do -espelho a retocar com mais correco o n da gravata branca. - -FIM DO PRIMEIRO VOLUME - - - - -EA DE QUEIROZ - -OS MAIAS - -EPISODIOS DA VIDA ROMANTICA - -VOLUME II - -PORTO - - -Livraria Internacional de Ernesto Chardron -CASA EDITORA -LUGAN & GENELIOUX, Successores - - -1888 - -Todos os direitos reservados - - - - -OS MAIAS - -VOLUME I - - - - -OS MAIAS - - - - -I - - -Na manh seguinte, Carlos, que se erguera cedo, veio a p do Ramalhete -at rua de S. Francisco, a casa de Madame Gomes. No patamar, onde -morria em penumbra a luz distante da claraboia, uma velha de leno na -cabea, encolhida n'um chalesinho preto, esperava, sentada -melancolicamente ao canto do banco de palhinha. A porta aberta mostrava -uma parede feia de corredor, forrada de papel amarello. Dentro um -relogio ronceiro estava batendo dez horas. - ---A senhora j tocou? perguntou Carlos, erguendo o chapo. - -A velha murmurou, d'entre a sombra do leno que lhe cahia para os olhos, -n'um tom canado e doente: - ---J, sim, meu senhor. J fizeram o favor de me fallar. O criado, o snr. -Domingos, no tarda... - -Carlos esperou, passeando lentamente no patamar. Do segundo andar vinha -um barulho alegre de crianas brincando; por cima, o moo do Cruges -esfregava a escada com estrondo, assobiando desesperadamente o fado. Um -longo minuto arrastou-se, depois outro, infindavel. A velha, d'entre a -negrura do leno, deu um suspirosinho abatido. L ao fundo um canario -rompera a cantar; e ento Carlos, impaciente, puxou o cordo da -campainha. - -Um criado de suissas ruivas, correctamente abotoado n'um jaqueto de -flanella, appareceu correndo, com uma travessa na mo, abafada n'um -guardanapo; e ao vr Carlos ficou to atarantado, bambaleando porta, -que um pouco de molho de assado escorregou, cahiu sobre o soalho. - ---Oh snr. D. Carlos Eduardo, faz favor d'entrar!... Ora esta! Tem a -bondade d'esperar um instantinho, que eu abro j a sala... Tome l, -snr.^a Augusta, tome l, olhe no entorne mais! A senhora diz que l -manda logo o vinho do Porto... Desculpe v. exc.^a, snr. D. Carlos... Por -aqui, meu senhor... - -Correu um reposteiro de reps vermelho, introduziu Carlos n'uma sala -alta, espaosa, com um papel de ramagens azues, e duas varandas para a -rua de S. Francisco; e erguendo pressa os dois transparentes de -paninho branco, perguntava a Carlos se s. exc.^a no se lembrava j do -Domingos. Quando elle se voltou, risonho, descendo precipitadamente os -canhes das mangas, Carlos reconheceu-o pelas suissas ruivas. Era com -effeito o Domingos, escudeiro excellente, que no comeo do inverno -estivera no Ramalhete, e se despedira por birras patrioticas, birras -ciumentas, com o cozinheiro francez. - ---No o tinha visto bem, Domingos, disse Carlos. O patamar um pouco -escuro... Lembro-me perfeitamente... E ento voss agora aqui, hein? E -est contente? - ---Eu parece-me que estou muito contente, meu senhor... O snr. Cruges -tambem mora c por cima... - ---Bem sei, bem sei... - ---Tenha v. exc.^a a paciencia de esperar um instantinho que eu vou dar -parte snr.^a D. Maria Eduarda... - -Maria Eduarda! Era a primeira vez que Carlos ouvia o nome d'ella; e -pareceu-lhe perfeito, condizendo bem com a sua belleza serena. Maria -Eduarda, Carlos Eduardo... Havia uma similitude nos seus nomes. Quem -sabe se no presagiava a concordancia dos seus destinos! - -Domingos, no entanto, j porta da sala, com a mo no reposteiro, parou -ainda, para dizer n'um tom de confidencia e sorrindo: - --- a governante ingleza que est doente... - ---Ah! a governante? - ---Sim, meu senhor, tem uma febresita desde hontem, peso no peito... - ---Ah!... - -O Domingos deu outro movimento lento ao reposteiro, sem se apressar, -contemplando Carlos com admirao: - ---E o avsinho de v. exc.^a passa bem? - ---Obrigado, Domingos, passa bem. - ---Aquillo que um grande senhor!... No ha, no ha outro assim em -Lisboa! - ---Obrigado, Domingos, obrigado... - -Quando elle finalmente sahiu, Carlos, tirando as luvas, deu uma volta -curiosa e lenta pela sala. O soalho fra esteirado de novo. Ao p da -porta havia um piano antigo de cauda, coberto com um pano alvadio; sobre -uma estante ao lado, cheia de partituras, de musicas, de jornaes -illustrados, pousava um vaso do Japo onde murchavam tres bellos lirios -brancos; todas as cadeiras eram forradas de reps vermelho; e aos ps do -sof estirava-se uma velha pelle de tigre. Como no Hotel Central, esta -intallao summaria de casa alugada recebera retoques de conforto e de -gosto: cortinas novas de cretone, combinando com o papel azul da parede, -tinham substituido as classicas bambinellas de cassa: um pequeno -contador arabe, que Carlos se lembrava de ter visto havia dias no tio -Abraho, viera encher um lado mais desguarnecido da parede: o tapete de -pellucia d'uma mesa oval, collocada ao centro, desapparecia sob lindas -encadernaes de livros, albuns, duas taas japonezas de bronze, um -cesto para flres de porcelana de Dresde, objectos delicados d'arte que -no pertenciam decerto mi Cruges. E parecia errar alli, acariciando a -ordem das coisas e marcando-as com um encanto particular, aquelle -indefinido perfume que Carlos j sentira nos quartos do Hotel Central, e -em que dominava o jasmim. - -Mas o que attrahiu Carlos foi um bonito biombo de linho cr, com -ramalhetes bordados, desdobrado ao p da janella, fazendo um recanto -mais resguardado e mais intimo. Havia l uma cadeirinha baixa de setim -escarlate, uma grande almofada para os ps, uma mesa de costura com todo -um trabalho de mulher interrompido, numeros de jornaes de modas, um -bordado enrolado, mlhos de l de cres transbordando de um aafate. E, -confortavelmente enroscada no macio da cadeira, achava-se ahi, n'esse -momento, a famosa cadellinha escosseza, que tantas vezes passra nos -sonhos de Carlos, trotando ligeiramente atraz de uma radiante figura -pelo Aterro fra, ou aninhada e adormecida n'um doce regao... - ---Bonjour, Mademoiselle, disse-lhe elle, baixinho, querendo captar-lhe -as sympathias. - -A cadellinha erguera-se logo bruscamente na cadeira, d'orelhas fitas, -dardejando para aquelle estranho, por entre as repas esguedelhadas, dois -bellos olhos de azeviche, desconfiados, d'uma penetrao quasi humana. -Um instante Carlos receou que ella rompesse a ladrar. Mas a cadellinha -de repente namorra-se d'elle, deitada j na cadeira, de patas ao ar, -descomposta, abandonando o ventresinho s suas caricias. Carlos ia -coal-a e amimal-a, quando um passo leve pizou a esteira. Voltou-se, viu -Maria Eduarda diante de si. - -Foi como uma inesperada appario--e vergou profundamente os hombros, -menos a saudal-a, que a esconder a tumultuosa onda de sangue que sentia -abrazar-lhe o rosto. Ella, com um vestido simples e justo de sarja -preta, um collarinho direito de homem, um boto de rosa e duas folhas -verdes no peito, alta e branca, sentou-se logo junto da mesa oval, -acabando de desdobrar um pequeno leno de renda. Obedecendo ao seu gesto -risonho, Carlos pousou-se embaraadamente borda do sof de reps. E -depois d'um instante de silencio, que lhe pareceu profundo, quasi -solemne, a voz de Maria Eduarda ergueu-se, uma voz rica e lenta, d'um -tom d'ouro que acariciava. - -Atravs do seu enleio, Carlos percebia vagamente que ella lhe agradecia -os cuidados que elle tivera com Rosa: e, de cada vez que o seu olhar se -demorava n'ella um instante mais, descobria logo um encanto novo e outra -frma da sua perfeio. Os cabellos no eram louros, como julgra de -longe claridade do sol, mas de dois tons, castanho-claro e -castanho-escuro, espessos e ondeando ligeiramente sobre a testa. Na -grande luz escura dos seus olhos havia ao mesmo tempo alguma coisa de -muito grave e de muito dce. Por um geito familiar cruzava s vezes, ao -fallar, as mos sobre os joelhos. E atravs da manga justa de sarja, -terminando n'um punho branco, elle sentia a belleza, a brancura, o -macio, quasi o calor dos seus braos. - -Ella calra-se. Carlos, ao levantar a voz, sentiu outra vez o sangue -abrazar-lhe o rosto. E, apesar de saber j pelo Domingos que a doente -era a governante, s achou, na sua perturbao, esta pergunta timida: - ---No sua filha que est doente, minha senhora? - ---Oh no! graas a Deus! - -E Maria Eduarda contou-lhe, justamente como o Domingos, que a governante -ingleza havia dois dias se achava incommodada, com difficuldade de -respirar, tosse, uma ponta de febre... - ---Imaginmos ao principio que era uma constipao passageira; mas hontem - tarde estava peor, e estou agora impaciente que a veja... - -Ergueu-se, foi puxar um enorme cordo de campainha que pendia ao lado do -piano. O seu cabello por traz, repuxado para o alto da cabea, deixava -uma pennugem d'ouro frisar-se delicadamente sobre a brancura lactea do -pescoo. Entre aquelles moveis de reps, sob o tecto banal d'estuque -enxovalhado, toda a sua pessoa parecia a Carlos mais radiante, d'uma -belleza mais nobre, e quasi inaccessivel; e pensava que nunca alli -ousaria olhal-a to francamente, com uma to clara adorao, como quando -a encontrava na rua. - ---Que linda cadellinha v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, quando -Maria Eduarda se tornou a sentar, e pondo j n'estas palavras simples, -ditas a sorrir, um accento de ternura. - -Ella sorriu tambem com um lindo sorriso, que lhe fazia uma covinha no -queixo, dava uma doura mais mimosa s suas feies srias. E -alegremente, batendo as palmas, chamando para dentro do biombo: - ---_Niniche!_ esto-te a fazer elogios, vem agradecer! - -_Niniche_ appareceu a bocejar. Carlos achava lindo este nome de -_Niniche_. E era curioso, tinha tido tambem uma galguinha italiana que -se chamava _Niniche_... - -N'esse instante a criada entrou--a rapariga magra e sardenta, d'olhar -petulante, que Carlos vira j no Hotel Central. - ---Melanie vai-lhe ensinar o quarto de miss Sarah, disse Maria Eduarda. -Eu no o acompanho, porque ella to timida, tem tanto escrupulo em -incommodar, que diante de mim capaz de negar tudo, dizer que no tem -nada... - ---Perfeitamente, perfeitamente, murmurava Carlos, sorrindo, n'um encanto -de tudo. - -E pareceu-lhe ento que no olhar d'ella alguma coisa brilhra, fugira -para elle, de mais vivo, de mais dce. - -Com o seu chapo na mo, pisando familiarmente aquelle corredor intimo, -surprehendendo detalhes de vida domestica, Carlos sentia como a alegria -d'uma posse. Por uma porta meio aberta pde entrevr uma banheira, e ao -lado dependurados grandes roupes turcos de banho. Adiante, sobre uma -mesa, estavam alinhadas, e como desencaixotadas recentemente, garrafas -d'aguas mineraes de Saint-Galmier e de Vals. Elle deduzia logo d'estas -coisas to simples, to banaes, evidencias de vida delicada. - -Melanie correu um reposteiro de linho cr, fl-o entrar n'um quarto -claro e fresco: e ahi foi encontrar a pobre miss Sarah n'um leitosinho -de ferro, sentada, com um lao de sda azul ao pescoo, e os bands to -lisos, to acamados pela escova, como se fosse sahir n'um domingo para a -capella presbyteriana. Na mesinha de cabeceira os seus jornaes inglezes -estavam escrupulosamente dobrados, junto d'um copo com duas bellas -rosas; e tudo no quarto resplandecia de severo arranjo, desde os -retratos da familia real d'Inglaterra, expostos sobre a toalha de renda -que cobria a commoda, at s suas botinas bem engraxadas, classificadas, -perfiladas n'uma prateleira de pinho. - -Apenas Carlos se sentou, ella immediatamente, com duas rosetas de -vergonha na face, entre frouxos de tosse, declarou que no tinha nada. -Era a senhora, to boa, to cautelosa, que a forra a metter-se na -cama... E para ella era um desgosto vr-se alli ociosa, inutil, agora -que Madame estava to s, n'uma casa sem jardim. Onde havia a menina de -brincar? Quem havia de sahir com ella? Ah! Era uma priso para -Madame!... - -Carlos consolava-a, tomando-lhe o pulso. Depois, quando elle se ergueu -para a auscultar, a pobre miss cobriu-se toda d'um rubor afflicto, -apertando mais a roupa contra o peito, querendo saber se era -_absolutamente_ necessario... Sim, decerto, era necessario... Achou-lhe -o pulmo direito um pouco tomado; e, em quanto a agasalhava, fez-lhe -algumas perguntas sobre a sua familia. Ella contou que era de York, -filha de um _clergyman_, e tinha quatorze irmos: os rapazes estavam na -Nova Zelandia, e todos eram d'uma robustez de athletas. Ella sahira a -mais fraca; tanto que o pai, vendo que ella aos dezesete annos pesava s -oito arrobas, ensinou-lhe logo latim, destinando-a para governante. - -Em todo o caso, dizia Carlos, nunca houvera na sua familia doenas de -peito? Ella sorriu. Oh! nunca! A mam ainda vivia. O pap, j muito -velho, morrera do couce de uma egua. - -Carlos, no entanto, j de p, com o chapo na mo, continuava a -observal-a, reflectindo. Ento, de repente, sem motivo, ella -enterneceu-se, os seus olhos pequeninos ennevoaram-se de agua. E quando -ouviu que eram precisos tantos agasalhos, que teria de estar alli no -quarto ainda quinze dias, perturbou-se mais, duas lagrimasinhas timidas -quasi lhe fugiram das pestanas. Carlos terminou por lhe afagar -paternalmente a mo. - ---_Oh! Thank you sir!_ murmurou ella, commovida de todo. - -Na sala, Carlos veio encontrar Maria Eduarda sentada junto da mesa, -arranjando ramos, com uma grande cesta de flres pousada ao lado d'uma -cadeira, e o regao cheio de cravos. Uma bella restea de sol, estendida -na esteira, vinha morrer-lhe aos ps; e _Niniche_, deitada alli, reluzia -como se fosse feita de fios de prata. Na rua, sob as janellas, um -realejo ia tocando, na alegria da linda manh de sol, a walsa da _Madame -Angot_. Pelo andar de cima tinham recomeado as correrias de crianas -brincando. - ---Ento? exclamou ella, voltando-se logo, com um mlho de cravos na mo. - -Carlos tranquillisou-a. A pobre miss Sarah tinha uma bronchite ligeira, -com pouca febre. Em todo o caso necessitava resguardo, toda a cautela... - ---Certamente! E ha de tomar algum remedio, no verdade? - -Atirou logo o resto dos cravos do regao para o cesto, foi abrir uma -secretariasinha de pau preto collocada entre as janellas. Ella mesmo -arranjou o papel para elle receitar, metteu um bico novo na penna. E -estes cuidados perturbavam Carlos como caricias. - ---Oh minha senhora... murmurava elle, um lapis basta... - -Quando se sentou, os seus olhos demoraram-se com uma curiosidade -enternecida n'esses objectos familiares onde pousava a doura das mos -d'ella--um sinete d'agatha sobre um velho livro de contas, uma faca de -marfim com monogramma de prata ao lado d'uma taasinha de Saxe cheia -d'estampilhas; e em tudo havia a ordem clara que to bem condizia com o -seu puro perfil. Na rua o realejo calra-se, por cima do tecto j no -cavallavam as crianas. E, em quanto escrevia devagar, Carlos sentia-a -abafar sobre a esteira o som dos seus passos, mover os seus vasos mais -de leve. - ---Que bonitas flres v. exc.^a tem, minha senhora! disse elle, voltando -a cabea, em quanto ia seccando distrahida e lentamente a receita. - -De p, junto do contador arabe, onde pousava um vaso amarello da India, -ella arranjava folhas em volta de duas rosas. - ---Do frescura, disse ella. Mas imaginei que em Lisboa havia mais -bonitas flres. No ha nada que se compare s flres de Frana... Pois -no verdade? - -Elle no respondeu logo, esquecido a olhar para ella, pensando na doura -de ficar alli eternamente n'aquella sala de reps vermelho, cheia de -claridade e cheia de silencio, a vl-a pr folhas verdes em torno de ps -de rosa! - ---Em Cintra ha lindas flres, murmurou por fim. - ---Oh, Cintra um encanto! disse ella, sem erguer os olhos do seu ramo. -Vale a pena vir a Portugal s por causa de Cintra. - -N'esse momento, o reposteiro de reps esvoaou, e Rosa entrou de dentro, -correndo, vestida de branco, com meiasinhas de sda preta, uma onda -negra de cabello a bater-lhe as costas, e trazendo ao collo a sua grande -boneca. Ao vr Carlos parou bruscamente, com os bellos olhos muito -abertos para elle, toda encantada, e apertando mais nos braos Cri-cri -que vinha em camisa. - ---No conheces? perguntou-lhe a mi, indo sentar-se outra vez diante do -seu cesto de flres. - -Rosa comeava j a sorrir, o seu rostosinho cobria-se d'uma linda cr. E -assim, toda d'alvo e negro como uma andorinha, tinha um encanto raro, -com o seu dce mimo de frma, a sua graa ligeira, os seus grandes olhos -cheios d'azul, e um ruborzinho de mulher na face. Quando Carlos se -adiantou com a mo estendida para renovar o antigo conhecimento--ella -ergueu-se na ponta dos ps, estendeu-lhe vivamente a boquinha, fresca -como um boto de rosa. Carlos ousou apenas tocar-lhe de leve na testa. - -Depois quiz apertar a mo sua velha amiga Cri-cri. E ento, de -repente, Rosa recordou-se do que a trouxera alli a correr. - --- o robe-de-chambre, mam! No posso achar o robe-de-chambre de -Cri-cri... Ainda a no pude vestir... Dize, sabes onde que est o -robe-de-chambre? - ---Vejam esta desarranjada! murmurava a mi olhando-a com um sorriso -lento e terno. Se Cri-cri tem uma commoda particular, o seu -guarda-vestidos, no se lhe deviam perder as coisas... Pois no -verdade, snr. Carlos da Maia? - -Elle, ainda com a sua receita na mo, sorria tambem, sem dizer nada, -todo no enternecimento d'aquella intimidade em que se sentia penetrar -dcemente. - -A pequena ento veio encostar-se mi, roando-se pelo seu brao, com -uma vozinha languida, lenta, e de mimo: - ---Anda, dize... No sejas m... Anda... Onde est o robe-de-chambre? -Dize... - -Levemente, com a ponta dos dedos, Maria Eduarda arranjou-lhe o pequenino -lao de sda branca que lhe prendia no alto o cabello. Depois ficou mais -sria: - ---Est bem, est quieta... Tu sabes que no sou eu que trato dos -arranjos da Cri-cri. Devias ter mais ordem... Vai perguntar a Melanie. - -E Rosa obedeceu logo, sria tambem, comprimentando agora Carlos ao -passar, com um arzinho senhoril: - ---Bonjour, Monsieur... - --- encantadora! murmurou elle. - -A mi sorriu. Tinha acabado de compr o seu ramo de cravos;--e -immediatamente attendeu a Carlos, que pousra a receita sobre a mesa, e -sem se apressar, installando-se n'uma poltrona, lhe foi fallando da -dieta que devia ter miss Sarah, das colheres de xarope de codeina que se -lhe deviam dar de tres em tres horas... - ---Pobre Sarah! dizia ella. E curioso, no verdade? Veio com o -presentimento, quasi com a certeza, que havia de adoecer em Portugal... - ---Ento vem a detestar Portugal! - ---Oh! tem-lhe j horror! Acha muito calor, por toda a parte maus -cheiros, a gente hedionda... Tem medo de ser insultada na rua... Emfim -infelicissima, est ardendo por se ir embora... - -Carlos ria d'aquellas antipathias saxonias. De resto em muitas coisas a -boa miss Sarah tinha talvez razo... - ---E v. exc.^a tem-se dado bem em Portugal, minha senhora? - -Ella encolheu os hombros, indecisa. - ---Sim... Devo dar-me bem... o meu paiz - -O _seu_ paiz!... E elle que a julgava brazileira! - ---No, sou portugueza. - -E, durante um momento, houve um silencio. Ella tomra de sobre a mesa, -abria lentamente um grande leque negro pintado de flres vermelhas. E -Carlos sentia, sem saber porque, uma doura nova penetrar-lhe no -corao. Depois ella fallou da sua viagem que fra muito agradavel; -adorava andar no mar; tinha sido um encanto a manh da chegada a Lisboa, -com um co azul-ferrete, o mar todo azul tambem, e j um calorzinho do -clima dce... Mas depois, apenas desembarcados, tudo correra -desagradavelmente. Tinham ficado mal alojados no Central. _Niniche_, uma -noite, assustra-os muito com uma indigesto. Em seguida no Porto viera -aquelle desastre... - ---Sim, disse Carlos, o marido de v. exc.^a, na Praa Nova... - -Ella pareceu surprehendida. Como sabia elle? Ah! sim, sabia de certo -pelo Damaso... - ---So muito amigos, creio eu. - -Depois d'uma leve hesitao, que ella comprehendeu, Carlos murmurou: - ---Sim... O Damaso vai bastante ao Ramalhete... de resto um rapaz que -eu conheo apenas ha mezes... - -Ella abriu os olhos, pasmada. - ---O Damaso? Mas elle disse-me que se conheciam desde pequeninos, que -eram at parentes... - -Carlos encolheu simplesmente os hombros, sorrindo. - --- uma bella illuso... E se isso o faz feliz!... - -Ella sorriu tambem, encolhendo tambem ligeiramente os hombros. - ---E v. exc.^a, minha senhora, continuou logo Carlos no querendo fallar -mais do Damaso, como acha Lisboa? - -Gostava bastante, achava muito bonito este tom azul e branco de cidade -meridional... Mas, havia to poucos confortos!... A vida tinha aqui um -ar que ella no pudera perceber ainda--se era de simplicidade ou de -pobreza. - ---Simplicidade, minha senhora. Temos a simplicidade dos selvagens... - -Ella riu. - ---No direi isso. Mas supponho que so como os gregos: contentam-se em -comer uma azeitona, olhando o co que bonito... - -Isto pareceu adoravel a Carlos, todo o seu corao fugiu para ella. - -Maria Eduarda queixava-se sobretudo das casas, to faltas de -commodidade, to despidas de gosto, to desleixadas. Aquella em que -vivia fazia a sua desgraa. A cozinha era atroz, as portas no fechavam. -Na sala de jantar havia sobre a parede umas pinturas de barquinhos e -collinas que lhe tiravam o appetite... - ---Alm d'isso, acrescentou, um horror no ter um quintal, um jardim, -onde a pequena possa correr, ir brincar... - ---No facil encontrar assim uma casa nas condies d'esta e com -jardim, disse Carlos. - -Deu um olhar s paredes, ao estuque enxovalhado do tecto--e lembrou-lhe -de repente a quinta do Craft, com a sua vista de rio, o ar largo, as -frescas ruas de acacias. - -Felizmente, Maria Eduarda tomra a casa apenas ao mez, e estava pensando -em ir passar beira-mar o tempo que tivesse de ficar ainda em Portugal. - ---De resto, disse ella, foi o que me aconselhou o meu medico em Paris, o -dr. Chaplain. - -O dr. Chaplain? Justamente, Carlos conhecia muito o dr. Chaplain. -Ouvira-lhe as lies, visitra-o at intimamente na sua propriedade de -Maisonnettes, ao p de Saint-Germain. Era um grande mestre, era um -espirito bem superior! - ---E to bom corao! disse ella com um claro sorriso, um olhar que -brilhou. - -E este sentimento commum pareceu de repente aproximal-os mais dcemente: -cada um n'esse instante adorou o dr. Chaplain: e continuaram ainda -fallando d'elle prolongadamente, gozando, atravs d'essa trivial -sympathia por um velho clinico, a nascente concordancia dos seus -coraes. - -O bom dr. Chaplain! Que physionomia to amavel, to fina!... Sempre com -o seu barretinho de sda... E sempre com a sua grande flr na casaca... -De resto, o pratico maior que sahira da gerao de Trousseau. - ---E Madame Chaplain, acrescentou Carlos, uma pessoa encantadora... No - verdade? - -Mas Maria Eduarda no conhecia Madame Chaplain. - -Dentro o relogio ronceiro comera a bater onze horas. E Carlos ento -ergueu-se, findando a sua fugitiva, inolvidavel, deliciosa visita... - -Quando ella lhe estendeu a mo, um pouco de sangue subiu-lhe de novo -face ao tocar aquella palma to macia e to fresca. Pediu os seus -comprimentos para Mademoiselle Rosa. Depois, porta, j com o -reposteiro na mo, voltou-se ainda, uma vez mais, n'uma ultima saudao, -a receber o olhar suave com que ella o seguia... - ---At manh, est claro! exclamou ella de repente, com o seu lindo -sorriso. - ---At manh, decerto! - -O Domingos estava j no patamar, de casaca, risonho e bem penteado. - --- coisa de cuidado, meu senhor? - ---No nada, Domingos... Estimei vl-o por aqui. - ---E eu muito a v. exc.^a. At manh, meu senhor. - ---At manh. - -_Niniche_ appareceu tambem no patamar. Elle abaixou-se ternamente a -afagal-a, e disse-lhe tambem, radiante: - ---At manh, _Niniche_! - - -At manh! Voltando para o Ramalhete, era esta a unica ida que elle -sentia distinctamente atravs da nevoa luminosa que lhe afogava a alma. -Agora o seu dia estava findo:--mas, passadas as longas horas, terminada -a longa noite, elle penetraria outra vez n'aquella sala de reps -vermelho, onde ella o esperava, com o mesmo vestido de sarja, enrolando -ainda folhas verdes em torno de ps de rosa... - -Pelo Aterro, por entre a poeira de vero e o ruido das carroas, o que -elle via era essa sala, esteirada de novo, fresca, silenciosa e clara: -por vezes uma phrase que ella dissera cantava-lhe na memoria, com o tom -d'ouro da sua voz; ou luziam-lhe diante dos olhos as pedras dos seus -anneis entremettidos pelos pllos de _Niniche_. Parecia-lhe mais linda, -agora que conhecia o seu sorriso d'uma graa to delicada; era cheia de -inteligencia, era cheia de gosto; e a pobre velha porta, esse doente a -quem ella mandava vinho do Porto, revelavam a sua bondade... E o que o -encantava que no tornaria mais a farejar a cidade como um rafeiro -perdido, busca dos seus olhos negros; agora bastava-lhe subir alguns -degraus, abria-se diante d'elle a porta da sua casa; e tudo de repente -na vida parecia tornar-se facil, equilibrado, sem duvidas e sem -impaciencias. - -No seu quarto, no Ramalhete, Baptista entregou-lhe uma carta. - ---Trouxe-a a escosseza, j v. exc.^a tinha sahido. - -Era da Gouvarinho! Meia folha de papel, tendo simplesmente escripto a -lapis--_all rigth_. Carlos amarrotou-a, furioso. A Gouvarinho!... No se -tornra quasi a lembrar d'ella, desde a vespera, no radiante tumulto em -que andra o seu corao. E era no comboio d'essa noite, d'ahi a horas, -que deviam ambos partir para Santarem, a amarem-se, escondidos n'uma -estalagem! Elle promettera-lh'o, a srio; j ella se preparra decerto, -com a atroz cabelleira postia, com o _water-proof_ de grande roda; tudo -estava _all rigth_... Achou-a n'esse instante ridicula, reles, -estupida... Oh, era claro como a luz que no ia, que nunca iria, jmais! -Mas tinha d'apparecer na estao de Santa Apolonia, balbuciar uma -desculpa tosca, assistir sua desconsolao, vr-lhe os olhos marejados -de lagrimas. Que massada!... Teve-lhe odio. - -Quando chegou mesa do almoo Craft e Affonso, j sentados, fallavam -justamente do Gouvarinho, e dos artigos que elle continuava gravemente a -publicar no _Jornal do Commercio_. - ---Que besta essa! exclamou Carlos n'uma voz que sibilava, desabafando -sobre a litteratura politica do marido a colera que lhe davam as -importunidades amorosas da mulher. - -Affonso e Craft olharam-n'o, pasmados de tanta violencia. E Craft -censurou-lhe a ingratido. Porque, realmente, no havia em toda a terra -um enthusiasmo como o que aquelle desventuroso homem d'estado tinha por -Carlos... - ---V. exc.^a no faz ida, snr. Affonso da Maia. um culto. uma -idolatria! - -Carlos encolhia os hombros, impaciente. E Affonso, j bem disposto para -com o homem que assim admirava to prodigamente o seu neto, murmurou com -bondade: - ---Coitado, supponho que inoffensivo... - -Craft fez uma ovao ao velho: - ---_Inoffensivo!_ Admiravel, snr. Affonso da Maia! _Inoffensivo_, -applicado a um homem d'estado, a um par, a um ministro, a um legislador, - um achado! E com effeito o que elle , _inoffensivo_... E o que -elles so... - ---Chablis? murmurou o escudeiro. - ---No, tomo ch. - -E acrescentou: - ---Aquelle champagne que hontem bebemos nas corridas, por patriotismo, -arrasou-me... Tenho de me pr uma semana a regimen de leite. - -Ento fallou-se ainda das corridas, dos ganhos de Carlos, do Clifford, e -do vo azul do Damaso. - ---Ora quem estava hontem muito bem vestida era a Gouvarinho, disse Craft -remexendo o seu ch. Ficava-lhe admiravelmente aquelle branco creme, -tocado de tons negros. Uma verdadeira toilette de corridas... _C'tait -un [oe]illet blanc panach de noir_... Voss no achou, Carlos? - ---Sim, rosnou Carlos, estava bem. - -Outra vez a Gouvarinho! Parecia-lhe agora que no haveria na sua vida -conversa em que no surgisse a Gouvarinho, e que no haveria caminho na -sua vida que o no atravancasse a Gouvarinho! E alli mesmo, mesa, -decidiu comsigo no a tornar a vr, escrever-lhe um bilhete curto, -polido, recusando-se a ir a Santarem, sem razes... - -Mas no seu quarto, diante da folha de papel, fumou uma longa cigarrette, -sem achar phrase que no fosse pueril ou brutal. Nem tinha a sympathia -precisa para lhe dar o banal tratamento de _querida_. Vinha-lhe at por -ella uma indefinida repulso physica: devia ser intoleravel toda uma -noite o seu cheiro exagerado de verbena;--e lembrava-se que aquella -pelle do seu pescoo, que se lhe afigurava outr'ora um setim, tinha um -tom pegajoso, um tom amarellado, para alm da linha de ps d'arroz. -Decidiu no lhe escrever. Iria noite a Santa Apolonia, e no momento do -comboio partir correria portinhola, a balbuciar fugitivamente uma -desculpa; no lhe daria tempo de choramigar, nem de recriminar; um -rapido aperto de mo, e adeus, para nunca mais... - - noite, porm, hora de ir estao, que sacrificio em se arrancar -aos confortos da sua poltrona, e do seu charuto!... Atirou-se para o -coup desesperado, maldizendo essa tarde no boudoir azul em que, por -causa d'uma rosa e d'um certo vestido cr de folha morta que lhe ficava -bem, elle se'achra cahido com ella n'um sof... - -Ao chegar a Santa Apolonia faltavam, para a partida do expresso, dois -minutos. Precipitou-se para a extremidade da sala, j quasi vazia -quella hora, a comprar uma _admisso_; e ainda ahi esperou uma -eternidade, vendo dentro do postigo duas mos lentas e molles arranjar -laboriosamente os patacos d'um troco. - -Penetrava emfim na sala d'espera--quando esbarrou com o Damaso, de -chapo desabado e saccola de viagem a tiracollo. Damaso agarrou-lhe as -mos, enternecido: - --- menino! pois tiveste o incommodo?... E como soubeste tu que eu -partia? - -Carlos no o desilludiu, balbuciando que lh'o dissera o Taveira, que -encontrra o Taveira... - ---Pois eu estava mais longe d'uma d'estas! exclamou o Damaso. Esta -manh, muito regalado na cama, quando me vem o telegramma... Fiquei -furioso! Isto , imagina tu como eu fiquei, um desgosto assim!... - -Foi ento que Carlos reparou que elle estava carregado de luto, com fumo -no chapo, luvas pretas, polainas pretas, barra preta no leno... -Murmurou, embaraado: - ---O Taveira disse-me que ias, mas no me disse mais nada... Morreu-te -alguem? - ---Meu tio Guimares. - ---O communista? o de Paris? - ---No, o irmo d'elle, o mais velho, o de Penafiel... Espera ahi que eu -volto j, vou alli ao caf encher o frasco de cognac. Com a afflico -esquecia-me o cognac... - -Ainda estavam chegando passageiros, esbaforidos, de guarda-p, com -chapeleiras na mo. Os guardas rolavam pachorrentamente as bagagens. -D'uma portinhola, onde se exhibia um cavalheiro barrigudo, com um bonet -bordado a retroz, pendia todo um cacho d'amigos politicos, -respeitosamente e em silencio. A um canto uma senhora soluava por baixo -do vo. - -Carlos, vendo um wagon com a papeleta de _reservado_, imaginou l a -condessa. Um guarda precipitou-se, furioso, como se visse a profanao -d'um santuario. Que queria elle, que queria elle d'alli? No sabia que -era o _reservado_ do snr. Carneiro? - ---No sabia. - ---Perguntasse, devia saber! ficou o outro a resmungar, ainda tremulo. - -Carlos correu ainda outros wagons, onde a gente se apinhava, -atabafadamente, na amontoao dos embrulhos; n'um, dois sujeitos, a -proposito de lugares, tratavam-se de _malcriados_; adiante, uma criana -esperneava no collo da ama, aos gritos. - --- menino, quem diabo andas tu a procurar? exclamou Damaso alegremente, -surgindo por traz d'elle, e passando-lhe o brao pela cinta. - ---Ninguem... Imaginei que tinha visto o marquez. - -Immediatamente Damaso queixou-se d'aquella lgubre massada de ter d'ir a -Penafiel! - ---E ento agora que eu precisava tanto estar em Lisboa! Que tenho andado -com uma sorte para mulheres, menino!... Uma sorte damnada! - -Uma sineta badalou. Damaso deu logo um abrao terno a Carlos, saltou -para o seu wagon, enterrou na cabea um barretinho de sda--e depois -debruado da portinhola continuou ainda as confidencias. O que mais o -contrariava era deixar aquelle arranjinho da rua de S. Francisco. Que -ferro! agora que aquillo ia to bem, o gajo no Brazil, e ella alli, -mo, a dois passos do Gremio!... - -Carlos mal o escutava, distrahido, olhando o grande relogio -transparente. De repente Damaso, portinhola, deu um salto de surpreza: - ---Olha os Gouvarinhos! - -Carlos deu um salto tambem. O conde, de cco de viagem, de paletot -alvadio, sem se apressar, como competia a um director da Companhia, -vinha conversando com um empregado superior da estao, agaloado de -ouro, que se encarregra da chapeleira de papelo de s. exc.^a E a -condessa, com um rico guarda-p de foulard cr de castanho, um vo -cinzento que lhe cobria a face e o chapo, seguia atraz, com a criada -escosseza, trazendo na mo um ramo de rosas. - -Carlos correu para elles, foi todo um assombro. - ---Por aqui, Maia? - ---De viagem, conde? - - verdade. Decidira acompanhar a condessa ao Porto, aos annos do pap... -Resoluo da ultima hora, quasi iam perdendo o comboio. - ---Ento temol-o por companheiro, Maia? Teremos esse grande prazer, Maia? - -Carlos contou rapidamente que viera apenas apertar a mo ao pobre -Damaso, de jornada para Penafiel, por causa da morte do tio. - -Debruado da portinhola, com as mos de fra caladas de negro, o pobre -Damaso estava saudando a senhora condessa, gravemente, funebremente. E o -bom Gouvarinho no quiz deixar de lhe ir dar logo o seu _shake-hands_ e -o seu pezame. - -Ssinho n'esse curto instante com a condessa, Carlos murmurou apenas: - ---Que ferro! - ---Este maldito homem! exclamou ella, entre dentes, com um olhar que -fuzilou atravs do vo. Tudo to bem arranjado, e ultima hora teima em -vir!... - -Carlos acompanhou-os at ao _reservado_, n'um outro wagon que se -estivera mettendo de novo para s. exc.^a A condessa tomou o lugar do -canto junto da portinhola. E como o conde, n'um tom de polidez acida, a -aconselhava a que se sentasse antes com o rosto para a machina, ella -teve um gesto de aborrecimento, atirou o ramo para o lado -desabridamente, enterrou-se com mais fora na almofada; e um duro olhar -de colera passou entre ambos. Carlos, embaraado, perguntava: - ---Ento vo com demora? - -O conde respondeu, sorrindo, disfarando o seu mau humor: - ---Sim, talvez duas semanas, umas pequeninas ferias. - ---Tres dias, o mais, replicou ella n'uma voz fria e afiada como uma -navalha. - -O conde no respondeu, livido. - -Todas as portinholas agora estavam fechadas, um silencio cahira sobre a -plataforma. O apito da machina varou o ar; e o comprido trem, n'um ruido -secco de freios retesados, comeou a rolar, com gente s portinholas, -que ainda se debruava, estendendo a mo para um ultimo aperto. Aqui e -alm esvoaava um leno branco. O olhar da condessa para o lado de -Carlos teve a doura de um beijo, o Damaso gritou saudades para o -Ramalhete. O compartimento do correio resvalou, alumiado; e com outro -dilacerante silvo o comboio mergulhou na noite... - -Carlos, s, dentro do coup, voltando Baixa, sentia uma alegria -triumphante com aquella partida da condessa, e a inesperada jornada do -Damaso. Era como uma disperso providencial de todos os importunos: e -assim se fazia em torno da rua de S. Francisco uma solido--com todos os -seus encantos, e todas as suas cumplicidades. - -No caes do Sodr deixou a carruagem, subiu a p pelo Ferregial, veio -passar diante das janellas na rua de S. Francisco. S pde vr uma vaga -tira de claridade entre as portadas meio cerradas. Mas isto bastava-lhe. -Podia agora imaginar com preciso o sero calmo que ella estava passando -na larga sala de reps vermelho. Sabia o nome dos livros que ella lia, e -as partituras que tinha sobre o piano; e as flres que espalhavam alli o -seu aroma vira-as elle arranjar n'essa manh. Poria ella um instante o -seu pensamento n'elle? Decerto; a doena em casa forava-a a lembrar as -horas do remedio, as explicaes que elle dera, e o som da sua voz; e -fallando com miss Sarah pronunciaria decerto o seu nome. Duas vezes -percorreu a rua de S. Francisco; e recolheu para casa, sob a noite -estrellada, devagar, ruminando a doura d'aquelle grande amor. - - -Ento todos os dias, durante semanas, teve essa hora deliciosa, -esplendida, perfeita, a visita ingleza. - -Saltava do leito, cantando como um canario, e penetrava no seu dia como -n'uma aco triumphal. O correio chegava; e invariavelmente lhe trazia -uma carta da Gouvarinho, tres folhas de papel d'onde cahia sempre alguma -pequena flr meio murcha. Elle deixava ficar a flr no tapete: e mal -podia dizer o que havia n'aquellas longas linhas cruzadas. Sabia apenas -vagamente que, tres dias depois d'ella chegar ao Porto, o pai, o velho -Thompson, tivera uma apoplexia. Ella l estava, d'enfermeira. Depois, -levando duas ou tres bellas flres do jardim embrulhadas n'um papel de -sda, partia para a rua de S. Francisco, sempre no seu coup--porque o -tempo mudra, e os dias seguiam-se, tristonhos, cheios de sudoeste e de -chuva. - - porta o Domingos acolhia-o com um sorriso cada vez mais enternecido. -_Niniche_ corria de dentro, a pular d'amizade; elle erguia-a nos braos -para a beijar. Esperava um instante na sala, de p, saudando com o olhar -os moveis, os ramos, a clara ordem das coisas; ia examinar no piano a -musica que ella tocra essa manh, ou o livro que deixra interrompido, -com a faca de marfim entre as folhas. - -Ella entrava. O seu sorriso ao dar-lhe os bons dias, a sua voz d'ouro -tinham cada dia para Carlos um encanto novo e mais penetrante. Trazia -ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas s vezes uma gravata -de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivella era cravejada de pedras, -avivavam este traje sobrio, quasi severo, que parecia a Carlos o mais -bello, e como uma expresso do seu espirito. - -Comeavam por fallar de miss Sarah, d'aquelle tempo agreste e humido que -lhe era to desfavoravel. Conversando, ainda de p, ella dava aqui e -alm um arranjo melhor a um livro, ou ia mover uma cadeira que no -estava no seu alinho; tinha o habito inquieto de recompr constantemente -a symetria das coisas;--e, machinalmente, ao passar, sacudia a -superficie de moveis j perfeitamente espanejados com as magnificas -rendas do seu leno. - -Agora acompanhava-o sempre ao quarto de miss Sarah. Pelo corredor -amarello, caminhando ao seu lado, Carlos perturbava-se sentindo a -caricia d'esse intimo perfume em que havia jasmim, e que parecia sahir -do movimento das suas saias. Ella s vezes abria familiarmente a porta -de um quarto, apenas mobilado com um velho sof: era alli que Rosa -brincava, e que tinha os arranjos de Cri-cri, as carruagens de Cri-cri, -a cozinha de Cri-cri. Encontravam-na vestindo e conversando -profundamente com a boneca; ou ento, ao canto do sof, com os psinhos -cruzados, immovel, perdida na admirao d'algum livro d'estampas aberto -sobre os joelhos. Ella corria, estendia a boquinha a Carlos; e toda a -sua pessoa tinha a frescura de uma linda flr. - -No quarto da governante, Maria Eduarda sentava-se aos ps do leito -branco; e logo a pobre miss Sarah, ainda cheia de tosse, confusa, -verificando a cada instante se o leno de sda lhe cobria correctamente -o pescoo, affirmava que estava boa. Carlos gracejava com ella, -provando-lhe que n'esse feio tempo d'inverno, a felicidade era estar -alli na cama, com bons cuidados em redor, alguns romances patheticos, e -appetitosa dieta portugueza. Ella voltava os olhos gratos para Madame, -com um suspiro. Depois murmurava: - ---_Oh yes, I am very comfortable!_ - -E enternecia-se. - -Logo nos primeiros dias, ao voltar sala, Maria Eduarda tinha-se -sentado na sua cadeira escarlate, e, conversando com Carlos, retomra -muito naturalmente o seu bordado como na presena familiar de um velho -amigo. Com que felicidade profunda elle viu desdobrar-se essa talagara! -Devia ser um faiso de plumagens rutilantes: mas por ora s estava -bordado o galho de macieira em que elle pousava, galho fresco de -primavera, coberto de florzinhas brancas, como n'um pomar da Normandia. - -Carlos, junto da linda secretariasinha de pau preto, occupava a mais -velha, a mais commoda das poltronas de reps vermelho, cujas molas -rangiam de leve. Entre elles ficava a mesa de costura com as -_Illustraes_ ou algum jornal de modas; s vezes, um instante calado, -elle folheava as gravuras, em quanto as lindas mos de Maria, com -brilhos de joias, iam puxando os fios de l. Aos ps d'ella _Niniche_ -dormitava, espreitando-os a espaos, atravs das repas do focinho, com o -seu bello olho grave e negro. E n'esses escuros dias de chuva, cheios de -friagem l fra e do rumor das goteiras, aquelle canto da janella, com a -paz do vagaroso trabalho na talagara, as vozes lentas e amigas, e s -vezes um dce silencio, tinha um ar intimo e carinhoso... - -Mas no que diziam no havia intimidades. Fallavam de Paris e do seu -encanto, de Londres onde ella estivera durante quatro lugubres mezes de -inverno, da Italia que era o seu sonho vr, de livros, de coisas d'arte. -Os romances que preferia eram os de Dickens; e agradava-lhe menos -Feuillet, por cobrir tudo de p d'arroz, mesmo as feridas do corao. -Apesar de educada n'um convento severo d'Orleans, lra Michelet e lra -Renan. De resto no era catholica praticante; as igrejas apenas a -attrahiam pelos lados graciosos e artisticos do culto, a musica, as -luzes, ou os lindos mezes de Maria, em Frana, na doura das flres de -maio. Tinha um pensar muito recto e muito so--com um fundo de ternura -que a inclinava para tudo o que soffre e fraco. Assim gostava da -Republica por lhe parecer o regimen em que ha mais solicitude pelos -humildes. Carlos provava-lhe rindo que ella era socialista. - ---Socialista, legitimista, orleanista, dizia ella, qualquer coisa, -comtanto que no haja gente que tenha fome! - -Mas era isso possivel? J Jesus, mesmo, que tinha to dces illuses, -declarra que pobres sempre os haveria... - ---Jesus viveu ha muito tempo, Jesus no sabia tudo... Hoje sabe-se mais, -os senhores sabem muito mais... necessario arranjar-se outra -sociedade, e depressa, em que no haja miseria. Em Londres, s vezes, -por aquellas grandes neves, ha criancinhas pelos portaes a tiritar, a -gemer de fome... um horror! E em Paris ento! que se no v seno o -boulevard; mas quanta pobreza, quanta necessidade... - -Os seus bellos olhos quasi se enchiam de lagrimas. E cada uma d'estas -palavras trazia todas as complexas bondades da sua alma--como n'um s -sopro podem vir todos os aromas esparsos de um jardim. - -Foi um encanto para Carlos quando Maria o associou s suas caridades, -pedindo-lhe para ir vr a irm da sua engommadeira que tinha -rheumatismo, e o filho da snr.^a Augusta, a velha do patamar, que estava -tisico. Carlos cumpria esses encargos com o fervor de aces religiosas. -E n'estas piedades achava-lhe semelhanas com o av. Como Affonso, todo -o soffrimento dos animaes a consternava. Um dia viera indignada da Praa -da Figueira, quasi com idas de vingana, por ter visto nas tendas dos -gallinheiros aves e coelhos apinhados em cestos, soffrendo durante dias -as torturas da immobilidade e a anciedade da fome. Carlos levava estes -bellas coleras para o Ramalhete, increpava violentamente o marquez, que -era membro da _Sociedade protectora dos animaes_. O marquez, indignado -tambem, jurava justia, fallava em cadas, em costa d'Africa... E -Carlos, commovido, ficava a pensar quanta larga e distante influencia -pde ter, mesmo isolado de tudo, um corao que justo. - -Uma tarde fallaram do Damaso. Ella achava-o insupportavel, com a sua -petulancia, os olhos bugalhudos, as perguntas nescias. V. exc.^a acha -Nice elegante? V. exc.^a prefere a capella de S. Joo Baptista a -_Notre-Dame_?... - ---E ento a insistencia de fallar de pessoas que eu no conheo! A -snr.^a condessa de Gouvarinho, e os chs da snr.^a condessa de -Gouvarinho, e a frisa da snr.^a condessa de Gouvarinho, e a preferencia -que a snr.^a condessa de Gouvarinho tem por elle... E isto horas! Eu s -vezes tinha medo de adormecer... - -Carlos fez-se escarlate. Porque trouxera ella, entre todos, o nome da -Gouvarinho? Tranquillisou-se, vendo-a rir simples e limpidamente. -Decerto no sabia quem era Gouvarinho. Mas, para sacudir logo d'entre -elles esse nome, comeou a fallar de Mr. Guimares, o famoso tio do -Damaso, o amigo de Gambetta, o influente da Republica... - ---O Damaso tem-me dito que v. exc.^a o conhece muito... - -Ella erguera os olhos, com um fugitivo rubor no rosto. - ---Mr. Guimares?... Sim, conheo muito... Ultimamente viamo-nos menos, -mas elle era muito amigo da mam. - -E depois d'um silencio, d'um curto sorriso, recomeando a puxar o seu -longo fio de l: - ---Pobre Guimares, coitado! A sua influencia na Republica traduzir -noticias dos jornaes hespanhoes e italianos para o _Rappel_, que d'isso - que vive... Se amigo de Gambetta, no sei, Gambetta tem amigos to -extraordinarios... Mas o Guimares, alis bom homem e homem honrado, -um grutesco, uma especie de Calino republicano. E to pobre, coitado! O -Damaso, que rico, se tivesse decencia, ou o menor sentimento, no o -deixava viver assim to miseravelmente. - ---Mas ento essas carruagens do tio, esse luxo do tio, de que falla o -Damaso...? - -Ella encolheu mudamente os hombros; e Carlos sentiu pelo Damaso um asco -intoleravel. - -Pouco a pouco nas suas conversas foi havendo uma intimidade mais -penetrante. Ella quiz saber a idade de Carlos, elle fallou-lhe do av. E -durante essas horas suaves em que ella, silenciosa, ia picando a -talagara, elle contou-lhe a sua vida passada, os planos de carreira, os -amigos, e as viagens... Agora ella conhecia a paizagem de Santa Olavia, -o reverendo Bonifacio, as excentricidades do Ega. Um dia quiz que Carlos -lhe explicasse longamente a ida do seu livro _A medicina antiga e -moderna_. Approvou, com sympathia, que elle pintasse as figuras dos -grandes medicos, bemfeitores da humanidade. Porque se glorificariam s -guerreiros e fortes? A vida salva a uma criana parecia-lhe coisa bem -mais bella que a batalha de Austerlitz. E estas palavras que dizia com -simplicidade, sem mesmo erguer os olhos do seu bordado, cahiam no -corao de Carlos e ficavam l muito tempo, palpitando e brilhando... - -Elle tinha-lhe feito assim largamente todas as confisses;--e ainda no -sabia nada do seu passado, nem mesmo a terra em que nascera, nem sequer -a rua que habitava em Paris. No lhe ouvira murmurar jmais o nome do -marido, nem fallar d'um amigo ou d'uma alegria da sua casa. Parecia no -ter em Frana, onde vivia, nem interesses, nem lar;--e era realmente -como a deusa que elle idera, sem contactos anteriores com a terra, -descida da sua nuvem d'oiro para vir ter alli, n'aquelle andar alugado -da rua de S. Francisco, o seu primeiro estremecimento humano. - -Logo na primeira semana das visitas de Carlos tinham faltado -d'affeies. Ella acreditava candidamente que podesse haver, entre uma -mulher e um homem, uma amizade pura, immaterial, feita da concordancia -amavel de dois espiritos delicados. Carlos jurou que tambem tinha f -n'essas bellas unies, todas d'estima, todas de razo--comtanto que se -lhes misturasse, ao de leve que fosse, uma ponta de ternura... Isso -perfumava-as d'um grande encanto--e no lhes diminuia a sinceridade. E, -sob estas palavras um pouco diffusas, murmuradas por entre as malhas do -bordado e com lentos sorrisos, ficra subtilmente estabelecido que entre -elles s deveria haver um sentimento assim, casto, legitimo, cheio de -suavidade e sem tormentos. - -Que importava a Carlos? Comtanto que podesse passar aquella hora na -poltrona de cretone, contemplando-a a bordar, e conversando em coisas -interessantes, ou tornadas interessantes pela graa da sua pessoa; -comtanto que visse o seu rosto, ligeiramente crado, baixar-se, com a -lenta attraco d'uma caricia, sobre as flres que lhe trazia; comtanto -que lhe afagasse a alma a certeza de que o pensamento d'ella o ficava -seguindo sympathicamente atravs do seu dia, mal elle deixava aquella -adorada sala de reps vermelho--o seu corao estava satisfeito, -esplendidamente. - -No pensava mesmo que aquella ideal amizade, d'inteno casta, era o -caminho mais seguro para a trazer, brandamente enganada, aos seus braos -ardentes d'homem. No deslumbramento que o tomra ao vr-se de repente -admittido a uma intimidade que julgra impenetravel,--os seus desejos -desappareciam: longe d'ella, s vezes, ainda ousavam ir temerariamente -at esperana d'um beijo, ou d'uma fugitiva caricia com a ponta dos -dedos; mas apenas transpunha a sua porta, e recebia o calmo raio do seu -olhar negro, cahia em devoo, e julgaria um ultraje bestial roar -sequer as prgas do seu vestido. - -Foi aquelle decerto o periodo mais delicado da sua vida. Sentia em si -mil coisas finas, novas, d'uma tocante frescura. Nunca imaginra que -houvesse tanta felicidade em olhar para as estrellas quando o co est -limpo; ou em descer de manh ao jardim para escolher uma rosa mais -aberta. Tinha na alma um constante sorriso--que os seus labios repetiam. -O marquez achava-lhe o ar baboso e abenoador... - -s vezes, passeando s no seu quarto, perguntava a si mesmo onde o -levaria aquelle grande amor. No sabia. Tinha diante de si os tres mezes -em que ella estaria em Lisboa, e em que ninguem mais seno elle -occuparia a velha cadeira ao lado do seu bordado. O marido andava longe, -separado por legoas de mar incerto. Depois elle era rico, e o mundo era -largo... - -Conservava sempre as suas grandes idas do trabalho, querendo que no seu -dia s houvesse horas nobres,--e que aquellas que no pertenciam s -puras felicidades do amor, pertencessem s alegrias fortes do estudo. Ia -ao laboratorio, ajuntava algumas linhas ao seu manuscripto. Mas antes da -visita rua de S. Francisco no podia disciplinar o espirito, inquieto, -n'um tumulto d'esperanas; e depois de voltar de l, passava o dia a -recapitular o que ella dissera, o que elle respondera, os seus gestos, a -graa de certo sorriso... Fumava ento cigarrettes, lia os poetas. - -Todas as noites no escriptorio d'Affonso se formava a partida de -_whist_. O marquez batia-se ao domin com o Taveira, enfronhados ambos -n'aquelle vicio, com um rancor crescente que os levava a injurias. -Depois das corridas, o secretario de Steinbroken comera a vir ao -Ramalhete; mas era um inutil, nem cantava sequer como o seu chefe as -balladas da Filandia; cahido no fundo d'uma poltrona, de casaca, de -vidro no olho, bamboleando a perna, cofiava silenciosamente os seus -longos bigodes tristes. - -O amigo que Carlos gostava de vr entrar era o Cruges--que vinha da rua -de S. Francisco, trazia alguma coisa do ar que Maria Eduarda respirava. -O maestro sabia que Carlos ia todas as manhs ao predio vr a miss -ingleza; e muitas vezes, innocentemente, ignorando o interesse de -corao com que Carlos o escutava, dava-lhe as ultimas noticias da -visinha... - ---A visinha l ficou agora a tocar Mendelhson... Tem execuo, tem -expresso, a visinha... Ha alli estofo... E entende o seu Choppin. - -Se elle no apparecia no Ramalhete, Carlos ia a casa buscal-o: entravam -no Gremio, fumavam um charuto n'alguma sala isolada, fallando da -visinha; Cruges achava-lhe um verdadeiro typo de _grande dame_. - -Quasi sempre encontravam o conde de Gouvarinho, que vinha ver (como elle -dizia a faiscar d'ironia) o que se passava no paiz do snr. Gambetta. -Parecera remoar ultimamente, mais ligeiro nos modos, com uma claridade -d'esperana nas lunetas, na fronte erguida. Carlos perguntava-lhe pela -condessa. L estava no Porto, nos seus deveres de filha... - ---E seu sogro? - -O conde baixava a face radiante, para murmurar cava e resignadamente: - ---Mal. - - -Uma tarde, Carlos conversava com Maria Eduarda, acariciando _Niniche_ -que se lhe viera sentar nos joelhos, quando Romo entreabriu -discretamente o reposteiro, e baixando a voz, com um ar embaraado, um -ar de cumplicidade, murmurou: - --- o snr. Damaso!... - -Ella olhou o Romo, surprehendida d'aquelles modos, e quasi -escandalisada. - ---Pois bem, mande entrar! - -E Damaso rompeu pela sala, carregado de luto, de flr ao peito, -gorducho, risonho, familiar, com o chapeu na mo, trazendo dependurado -por um barbante um grande embrulho de papel pardo... Mas ao vr Carlos -alli, intimamente, de cadellinha no collo, estacou assombrado, com o -olho esbugalhado, como tonto. Emfim desembaraou as mos, veio -comprimentar Maria Eduarda quasi de leve,--e voltando-se logo para -Carlos, de braos abertos, todo o seu espanto trasbordou ruidosamente: - ---Ento tu aqui, homem? Isto que uma surpreza! Ora quem me diria!... -Eu estava mais longe... - -Maria Eduarda, incommodada com aquelle alarido, indicou-lhe vivamente -uma cadeira, interrompeu um instante o bordado, quiz saber como elle -tinha chegado. - ---Perfeitamente, minha senhora... Um bocado canado, como natural... -Venho direitinho de Penafiel... Como v. exc.^a v--e mostrou o seu luto -pesado--acabo de passar por um grande desgosto. - -Maria Eduarda murmurou uma palavra de sentimento, vaga e fria. Damaso -pousra os olhos no tapete. Vinha da provincia cheio de cr, cheio de -sangue; e como cortra a barba (que havia mezes deixra crescer para -imitar Carlos) parecia agora mais bochechudo e mais nedio. As cxas -rolias estalavam-lhe de gordura dentro da cala de casimira preta. - ---E ento, perguntou Maria Eduarda, temol-o por c algum tempo? - -Elle deu um puxosinho cadeira, mais para junto d'ella, e outra vez -risonho: - ---Agora, minha senhora, ninguem me arranca de Lisboa! Podem-me morrer... -Isto , credo! teria grande ferro se me morresse alguem. O que quero -dizer que ha de custar a arrancar-me d'aqui! - -Carlos continuava muito socegadamente a acariciar os pllos da -_Niniche_. E houve ento um pequeno silencio. Maria Eduarda retomra o -bordado. E Damaso, depois de sorrir, de tossir, de dar um geito ao -bigode, estendeu a mo para acariciar tambem _Niniche_ sobre os joelhos -de Carlos. Mas a cadellinha, que havia momentos o espreitava com o olho -desconfiado, ergueu-se, rompeu a ladrar furiosa. - ---_C'est moi, Niniche!_ dizia Damaso, recuando a cadeira. _C'est moi, -ami... Alors, Niniche_... - -Foi necessario que Maria Eduarda reprehendesse severamente _Niniche_. E, -aninhada de novo no collo de Carlos, ella continuou a espreitar Damaso, -rosnando, e com rancor. - ---J me no conhece, dizia elle embaado, curioso... - ---Conhece-o perfeitamente, acudiu Maria Eduarda muito sria. Mas no sei -o que o snr. Damaso lhe fez, que ella tem-lhe odio. sempre este -escandalo. - -Damaso balbuciava, escarlate: - ---Ora essa, minha senhora! O que lhe fiz?... Caricias, sempre -caricias... - -E ento no se conteve, fallou com ironia, amargamente, das amizades -novas de Mademoiselle _Niniche_. Alli estava nos braos d'outro, -emquanto que elle, o amigo velho, era deitado ao canto... - -Carlos ria. - --- Damaso, no a accuses de ingratido... Pois se a snr.^a D. Maria -Eduarda est a dizer que ella sempre te teve odio... - ---Sempre! exclamou Maria. - -Damaso sorria tambem, lividamente. Depois, tirando um leno de barra -negra, limpando os beios e mesmo o suor do pescoo, lembrou a Maria -Eduarda como ella o tinha desapontado no dia das corridas... Elle toda a -tarde espera... - ---Eram vesperas de partida, disse ella. - ---Sim, bem sei, o marido de v. exc.^a... E como vai o snr. Castro Gomes? -V. exc.^a j recebeu noticias? - ---No, respondeu ella com o rosto sobre o bordado. - -Damaso cumpriu ainda outros deveres. Perguntou por Mademoiselle Rosa. -Depois por Cri-cri. Era necessario no esquecer Cri-cri... - ---Pois v. exc.^a--continuou elle, cheio subitamente de -loquacidade--perdeu, que as corridas estiveram esplendidas... Ns ainda -no nos vimos depois das corridas, Carlos. Ah, sim, vimo-nos na -estao... Pois no verdade que estiveram muito _chics_? Olhe, minha -senhora, d'uma coisa pde v. exc.^a estar certa, que hippodromo mais -bonito no ha l fra. Uma vista at barra, que d'appetite... At se -vem entrar os navios... Pois no assim, Carlos? - ---Sim, disse Carlos, sorrindo. No propriamente um campo de -corridas... verdade que no ha tambem propriamente cavallos de -corridas... Verdade seja que no ha jockeys... Ora verdade que no ha -apostas... Mas verdade tambem que no ha publico... - -Maria Eduarda ria, alegremente. - ---Mas ento? - ---Vem-se entrar os navios, minha senhora... - -Damaso protestava, com as orelhas vermelhas. Era realmente querer dizer -mal fora... No senhor, no senhor!... Eram muito boas corridas. Tal -qual como l fra, as mesmas regras, tudo... - ---At na pesagem, acrescentou elle muito srio, fallamos sempre inglez! - -Repetiu ainda que as corridas eram _chics_. Depois no achou mais -nada:--e fallou de Penafiel, onde chovera sempre tanto que elle vira-se -forado a ficar em casa, estupidamente, a lr... - ---Uma massada! Ainda se houvesse alli umas mulheres para ir dar um -bocado de cavaco... Mas qual! Uns monstros. E eu, lavradeiras, raparigas -de p descalo, no tolero... Ha gente que gosta... Mas eu, acredite v. -exc.^a, no tolero... - -Carlos corra: mas Maria Eduarda parecia no ter ouvido, occupada a -contar attentamente as malhas do seu bordado. - -De repente Damaso recordou-se que tinha alli um presentinho para a -snr.^a D. Maria Eduarda. Mas no imaginasse que era alguma -preciosidade... Verdadeiramente at o presente era para Mademoiselle -Rosa. - ---Olhe, para no estar com mysterios, sabe o que ? Tenho-o alli no -embrulhosinho de papel pardo... So seis barrilinhos d'ovos molles -d'Aveiro. um dce muito clebre, mesmo l fra. S o de Aveiro que -tem _chic_... Pergunte v. exc.^a ao Carlos. Pois no verdade, Carlos, -que uma delicia, at conhecido l fra? - ---Ah, certamente, murmurou Carlos, certamente... - -Pousra _Niniche_ no cho, erguera-se, fra buscar o seu chapo. - ---J?... perguntou-lhe Maria Eduarda, com um sorriso que era s para -elle. At manh, ento! - -E voltou-se logo para o Damaso, esperando vl-o erguer-se tambem. Elle -conservou-se installado, com um ar de demora, familiar, e bamboleando a -perna. Carlos estendeu-lhe dois dedos. - ---_Au revoir_, disse o outro. Recados l no Ramalhete; hei de -apparecer!... - -Carlos desceu as escadas, furioso. - -Alli ficava pois aquelle imbecil impondo a sua pessoa, grosseiramente, -to obtuso que no percebia o enfado d'ella, a sua regelada seccura! E -para que ficava? Que outras crassas banalidades tinha ainda a soltar, em -calo, e de perna traada? E de repente lembrou-lhe o que elle lhe -dissera na noite do jantar do Ega, porta do Hotel Central, a respeito -da propria Maria Eduarda, e do seu systema com mulheres que era o -_atraco_. Se aquelle idiota, de repente, abrazado e bestial, ousasse -um ultraje? A supposio era insensata, talvez--mas reteve-o no pateo, -applicando o ouvido para cima, com idas ferozes de esperar alli o -Damaso, prohibir-lhe de tornar a subir aquella escada, e, menor -reflexo d'elle, esmagar-lhe o craneo nas lages... - -Mas sentiu em cima a porta abrir-se, e sahiu vivamente, no receio de ser -assim surprehendido escuta. O coup do Damaso estacionava na rua. -Ento veio-lhe uma curiosidade mordente de saber quanto tempo elle -ficaria alli com Maria Eduarda. Correu ao Gremio; e apenas abrira uma -vidraa--viu logo o Damaso sahir do porto, saltar para o coup, bater -com fora a portinhola. Pareceu-lhe que trazia o ar escorraado, e -subitamente teve d d'aquelle grutesco... - -N'essa noite, depois de jantar, Carlos s no seu quarto fumava, -enterrado n'uma poltrona, relendo uma carta do Ega recebida n'essa -manh,--quando appareceu o Damaso. E, sem pousar mesmo o chapo, logo da -porta, exclamou, com o mesmo espanto da manh: - ---Ento dize-me c! Como diabo te vou eu encontrar hoje com a -brazileira?... Como a conheceste tu? Como foi isso? - -Sem mover a cabea do espaldar da poltrona, cruzando as mos sobre os -joelhos em cima da carta do Ega, Carlos, agora cheio de bom humor, -disse, com uma dce reprehenso paternal: - ---Pois ento tu vaes expr a uma senhora as tuas opinies lubricas sobre -as lavradeiras de Penafiel! - ---No se trata d'isso, sei muito bem o que hei de expr! exclamou o -outro, vermelho. Conta l, anda... Que diabo! Parece-me que tenho -direito a saber... Como a conheceste tu? - -Carlos, imperturbavel, cerrando os olhos como para se recordar, comeou, -n'um tom lento e solemne de recitativo: - ---Por uma tepida tarde de primavera, quando o sol se afundava em nuvens -d'oiro, um mensageiro esfalfado pendurava-se da campainha do Ramalhete. -Via-se-lhe na mo uma carta, lacrada com sello heraldico; e a expresso -do seu semblante... - -Damaso, j zangado, atirou com o chapo para cima da mesa. - ---Parece-me que era mais decente deixar-te d'esses mysterios! - ---Mysterios? Tu vens obtuso, Damaso. Pois tu entras n'uma casa onde -existe ha quasi um mez uma pessoa gravemente doente, e ficas assombrado, -petrificado, ao encontrar l o medico! Quem esperavas tu vr l? Um -photographo? - ---Ento quem est doente? - -Carlos, em poucas palavras, disse-lhe a bronchite da ingleza--emquanto o -Damaso, sentado beira do sof, mordendo o charuto sem lume, olhava -para elle desconfiado. - ---E como soube ella onde tu moravas? - ---Como se sabe onde mora o rei; onde a alfandega; de que lado luz a -estrella da tarde; os campos onde foi Troia... Estas coisas que se -aprendem nas aulas de instruco primaria... - -O pobre Damaso deu alguns passos pela sala, embezerrado, com as mos nos -bolsos. - ---Ella tem agora l o Romo, o que foi meu criado, murmurou depois d'um -silencio. Eu tinha-lh'o recommendado... Ella leva-se muito pelo que eu -lhe digo... - ---Sim, tem, por uns dias, emquanto o Domingos foi terra. Vai mandal-o -embora, um imbecil, e tu tinhas-lhe ensinado ms maneiras... - -Ento Damaso atirou-se para o canto do sof e confessou que ao entrar na -sala, quando dera com os olhos em Carlos, de cadellinha no collo, ficra -furioso... Emfim, agora que sabia que era por doena, bem, tudo se -explicava... Mas primeiro parecera-lhe que andava alli tramoia... S com -ella, ainda pensou em lhe perguntar: depois receou que no fosse -delicado; e alm d'isso ella estava de mau humor... - -E acrescentou logo, accendendo o charuto: - ---Que apenas tu sahiste, pz-se melhor, mais vontade... Rimos muito... -Eu fiquei ainda at tarde, quasi duas horas mais; era perto das cinco -quando sahi. Outra coisa, ella fallou-te alguma vez de mim? - ---No. uma pessoa de bom gosto; e sabendo que nos conhecemos, no se -atreveria a dizer-me mal de ti. - -Damaso olhou-o, esgazeado: - ---Ora essa!... Mas podia ter dito bem! - ---No; uma pessoa de bom senso, no se atreveria tambem. - -E erguendo-se vivamente, Carlos abraou Damaso pela cinta, -acariciando-o, perguntando-lhe pela herana do titi, e em que amores, em -que viagens, em que cavallos de luxo ia gastar os milhes... - -Damaso, sob aquellas festas alegres, permanecia frio, amuado, olhando-o -de revez. - ---Olha que tu, disse elle, parece-me que me vaes sahindo tambem um -traste... No ha a gente fiar-se em ninguem! - ---Tudo na terra, meu Damaso, apparencia e engano! - -Seguiram d'alli sala do bilhar fazer a partida de reconciliao. E -pouco a pouco, sob a influencia que exercia sempre sobre elle o -Ramalhete, Damaso foi socegando, risonho j, gozando de novo a sua -intimidade com Carlos no meio d'aquelle luxo srio, e tratando-o outra -vez por menino. Perguntou pelo snr. Affonso da Maia. Quiz saber se o -bello marquez tinha apparecido. E o Ega, o grande Ega?... - ---Recebi carta d'elle, disse Carlos. Vem ahi, temol-o talvez c no -sabbado. - -Foi um espanto para o Damaso. - ---Homem! essa curiosa! E eu encontrei os Cohens, hoje!... Vieram ha -dois dias de Southampton... Jgo eu? - -Jogou, falhou a carambola. - ---Pois verdade, encontrei-os hoje, fallei-lhes um instante... E a -Rachel vem melhor, vem mais gorda... Trazia uma _toilette_ ingleza com -coisas brancas, coisas cr de rosa... _Chic_ a valer, parecia um -moranguinho! E ento o Ega de volta?... Pois, menino, ainda temos -escandalo! - - - - -II - - -No sabbado, com effeito, Carlos, recolhendo ao Ramalhete de volta da rua -de S. Francisco, encontrou o Ega no seu quarto, mettido n'um fato de -cheviotte claro, e com o cabello muito crescido. - ---No faas espalhafato, gritou-lhe elle, que eu estou em Lisboa -_incognito_! - -E em seguida aos primeiros abraos declarou que vinha a Lisboa, s por -alguns dias, unicamente para comer bem e para conversar bem. E contava -com Carlos para lhe fornecer esses requintes, alli, no Ramalhete... - ---Ha c um quarto para mim? Eu por ora estou no _Hotel Hespanhol_, mas -ainda nem mesmo abri a mala... Basta-me uma alcova, com uma mesa de -pinho, larga bastante para se escrever uma obra sublime. - -Decerto! Havia o quarto em cima, onde elle estivera depois de deixar a -Villa Balzac. E mais sumptuoso agora, com um bello leito da Renascena, -e uma cpia dos _Borrachos_ de Velasquez. - ---Optimo covil para a arte! Velasquez um dos Santos Padres do -naturalismo... A proposito, sabes com quem eu vim? Com a Gouvarinho. O -pai Tompson esteve morte, arribou, depois o conde foi buscal-a. -Achei-a magra; mas com um ar ardente; e fallou-me constantemente de ti. - ---Ah! murmurou Carlos. - -Ega, de monoculo no olho e mos nos bolsos, contemplava Carlos. - --- verdade. Fallou de ti constantemente, irresistivelmente, -immoderadamente! No me tinhas mandado contar isso... Sempre seguiste o -meu conselho, hein? Muito bem feita de corpo, no verdade? E que tal, -no acto d'amor? - -Carlos crou, chamou-lhe grosseiro, jurou que nunca tivera com a -Gouvarinho seno relaes superficiaes. Ia l s vezes tomar uma chavena -de ch; e hora do Chiado acontecia-lhe, como a todo o mundo, conversar -com o conde sobre as miserias publicas, esquina do Loreto. Nada mais. - ---Tu ests-me a mentir, devasso! dizia o Ega. Mas no importa. Eu hei de -descobrir tudo isso com o meu olho de Balzac, na segunda-feira.... -Porque ns vamos l jantar na segunda-feira. - ---Ns... Ns, quem? - ---Ns. Eu e tu, tu e eu. A condessa convidou-me no comboio. E o -Gouvarinho, como compete ao individuo d'aquella especie, acrescentou -logo que haviamos de ter tambem o nosso Maia. O Maia d'elle, e o Maia -d'ella... Santo accordo! Suavissimo arranjo! - -Carlos olhou-o com severidade. - ---Tu vens obsceno de Celorico, Ega. - --- o que se aprende no seio da Santa Madre Igreja. - -Mas tambem Carlos tinha uma novidade que o devia fazer estremecer. O Ega -porm j sabia. A chegada dos Cohens, no verdade? Lra-o logo n'essa -manh, na _Gazeta Illustrada_, no _high-life_. L se dizia -respeitosamente que s. exc.^{as} tinham regressado do seu passeio pelo -estrangeiro. - ---E que impresso te fez? perguntou Carlos rindo. - -O outro encolheu brutalmente os hombros: - ---Fez-me o effeito de haver um cabro mais na cidade. - -E, como Carlos o accusava outra vez de trazer de Celorico uma lingua -immunda, o Ega, um pouco crado, arrependido talvez, lanou-se em -consideraes criticas, clamando pela necessidade social de dar s -coisas o nome exacto. Para que servia ento o grande movimento -naturalista do seculo? Se o vicio se perpetuava, porque a sociedade, -indulgente e romanesca, lhe dava nomes que o embellezavam, que o -idealisavam... Que escrupulo pde ter uma mulher em beijocar um terceiro -entre os lenoes conjugaes, se o mundo chama a isso sentimentalmente um -romance, e os poetas o cantam em estrophes d'ouro? - ---E a proposito, a tua comedia, o _Lodaal_? perguntou Carlos, que -entrra um instante para a alcova de banho. - ---Abandonei-a, disse o Ega. Era feroz de mais... E alm d'isso fazia-me -remexer na podrido lisboeta, mergulhar outra vez na sargeta humana... -Affligia-me... - -Parou diante do grande espelho, deu um olhar descontente ao seu jaqueto -claro e s botas com mau verniz. - ---Preciso enfardelar-me de novo, Carlinhos... O Poole naturalmente -mandou-te fato de vero, hei de querer examinar esses crtes da alta -civilisao... No ha negal-o, diabo, esta minha linha est chinfrim! - -Passou uma escova pelo bigode, e continuou fallando para dentro, para a -alcova de banho: - ---Pois, menino, eu agora o que necessito o regimen da Chimera. Vou-me -atirar outra vez s _Memorias_. Ha de se fazer ahi uma quantidade d'arte -colossal n'esse quarto que me destinas, diante de Velasquez... E a -proposito, necessario ir comprimentar o velho Affonso, uma vez que -elle me vai dar o po, o tecto, e a enxerga... - -Foram encontrar Affonso da Maia no escriptorio, na sua velha poltrona, -com um antigo volume da _Illustrao franceza_ aberto sobre os joelhos, -mostrando as estampas a um pequeno bonito, muito moreno, d'olho vivo, e -cabello encarapinhado. O velho ficou contentissimo ao saber que o Ega -vinha por algum tempo alegrar o Ramalhete com a sua bella phantasia. - ---J no tenho phantasia, snr. Affonso da Maia! - ---Ento esclarecl-o com a tua clara razo, disse o velho rindo. Estamos -c precisando d'ambas as coisas, John. - -Depois apresentou-lhe aquelle pequeno cavalheiro, o snr. Manoelinho, -rapazinho amavel da visinhana, filho do Vicente, mestre d'obras; o -Manoelinho vinha s vezes animar a solido d'Affonso--e alli folheavam -ambos livros d'estampas e tinham conversas philosophicas. Agora, -justamente, estava elle muito embaraado por no lhe saber explicar como - que o general Canrobert (de quem estavam admirando o garbo sobre o seu -cavallo empinado) tendo mandado matar gente, muita gente, em batalhas, -no era mettido na cada... - ---Est visto! exclamou o pequeno, esperto e desembaraado, com as mos -cruzadas atraz das costas. Se mandou matar gente deviam-no ferrar na -cada! - ---Hein, amigo Ega! dizia Affonso rindo. Que se ha de responder a esta -bella logica? Olha, filho, agora que esto aqui estes dois senhores que -so formados em Coimbra, eu vou estudar esse caso... Vai tu vr os -bonecos alli para cima da mesa... E depois vo sendo horas d'ires l -dentro Joanna, para merendares. - -Carlos, ajudando o pequeno a accommodar-se mesa com o seu grande -volume d'estampas, pensava quanto o av, com aquelle seu amor por -crianas, gostaria de conhecer Rosa! - -Affonso no emtanto perguntava tambem ao Ega pela comedia. O qu! J -abandonada? Quando acabaria ento o bravo John de fazer bocados -incompletos d'obras-primas?...--Ega queixou-se do paiz, da sua -indifferena pela arte. Que espirito original no esmoreceria, vendo em -torno de si esta espessa massa de burguezes, amodorrada e crassa, -desdenhando a intelligencia, incapaz de se interessar por uma ida -nobre, por uma phrase bem feita? - ---No vale a pena, snr. Affonso da Maia. N'este paiz, no meio d'esta -prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve -limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano... - ---Pois ento, acudiu o velho, planta os teus legumes. um servio -alimentao publica. Mas tu nem isso fazes! - -Carlos, muito srio, apoiava o Ega. - ---A unica coisa a fazer em Portugal, dizia elle, plantar legumes, -emquanto no ha uma revoluo que faa subir superficie alguns dos -elementos originaes, fortes, vivos, que isto ainda encerre l no fundo. -E se se vir ento que no encerra nada, demittamo-nos logo -voluntariamente da nossa posio de paiz para que no temos elementos, -passemos a ser uma fertil e estupida provincia hespanhola, e plantemos -mais legumes! - -O velho escutava com melancolia estas palavras do neto em que sentia -como uma decomposio da vontade, e que lhe pareciam ser apenas a -glorificao da sua inercia. Terminou por dizer: - ---Pois ento faam vocs essa revoluo. Mas pelo amor de Deus, faam -alguma coisa! - ---O Carlos j no faz pouco, exclamou Ega, rindo. Passeia a sua pessoa, -a sua toilette e o seu phaeton, e por esse facto educa o gosto! - -O relogio Luiz XV interrompeu-os--lembrando ao Ega que devia ainda, -antes de jantar, ir buscar a sua mala ao Hotel Hespanhol. Depois no -corredor confessou a Carlos que, antes d'ir ao Hespanhol, queria correr -ao Fillon, ao photographo, vr se podia tirar um bonito retrato. - ---Um retrato? - ---Uma surpreza que tem d'ir d'aqui a tres dias para Celorico, para o dia -d'annos d'uma creaturinha que me adoou o exilio. - ---Oh Ega! - --- horroroso, mas ento? a filha do padre Corra, filha conhecida -como tal; alm d'isso casada com um proprietario rico da visinhana, -reaccionario odioso... De modo que, bem vs, esta dupla pea a pregar -Religio e Propriedade... - ---Ah! n'esse caso... - ---Ninguem se deve eximir, amigo, aos seus grandes deveres democraticos! - - -Na segunda-feira seguinte choviscava quando Carlos e Ega, no coup -fechado, partiram para o jantar dos Gouvarinhos. Desde a chegada da -condessa Carlos vira-a s uma vez, em casa d'ella; e fra uma meia hora -desagradavel, cheia de malestar, com um ou outro beijo frio, e -recriminaes infindaveis. Ella queixra-se das cartas d'elle, to -raras, to seccas. No se puderam entender sobre os planos d'esse vero, -ella devendo ir para Cintra onde j alugra casa, Carlos fallando no -dever de acompanhar o av a Santa Olavia. A condessa achava-o -distrahido: elle achou-a exigente. Depois ella sentou-se um instante -sobre os seus joelhos e aquelle leve e delicado corpo pareceu a Carlos -de um fastidioso peso de bronze. - -Por fim a condessa arrancra-lhe a promessa de a ir encontrar, -justamente n'essa segunda-feira de manh, a casa da titi, que estava em -Santarem;--porque tinha sempre o appetite perverso e requintado de o -apertar nos braos ns, em dias que o devesse receber na sua sala, mais -tarde, e com ceremonia. Mas Carlos faltra,--e agora, rodando para casa -d'ella, impacientavam-n'o j as queixas que teria de ouvir nos vos de -janella, e as mentiras chchas que teria de balbuciar... - -De repente o Ega, que fumava em silencio, abotoado no seu paletot de -vero, bateu no joelho de Carlos, e entre risonho e srio: - ---Dize-me uma coisa, se no um segredo sacrosanto... Quem essa -brazileira com quem tu agora passas todas as tuas manhs? - -Carlos ficou um instante aturdido, com os olhos no Ega. - ---Quem te fallou n'isso? - ---Foi o Damaso que m'o disse. Isto , o Damaso que m'o rugiu... Porque -foi de dentes rilhados, a dar murros surdos n'um sof do Gremio, e com -uma cr d'apoplexia, que elle me contou tudo... - ---Tudo o qu? - ---Tudo. Que te apresentra a uma brazileira a quem se atirava, e que tu, -aproveitando a sua ausencia, te metteras l, no sahias de l... - ---Tudo isso mentira! exclamou o outro, j impaciente. - -E Ega, sempre risonho: - ---Ento que a verdade, como perguntava o velho Pilatus ao chamado -Jesus Christo? - --- que ha uma senhora a quem o Damaso suppunha ter inspirado uma -paixo, como suppe sempre, e que, tendo-lhe adoecido a governante -ingleza com uma bronchite, me mandou chamar para eu a tratar. Ainda no -est melhor, eu vou vl-a todos os dias. E Madame Gomes, que o nome da -senhora, que nem brazileira , no podendo tolerar o Damaso, como -ninguem o tolera, tem-lhe fechado a sua porta. Esta a verdade; mas -talvez eu arranque as orelhas ao Damaso! - -Ega contentou-se em murmurar: - ---E ahi est como se escreve a historia... v-se l a gente fiar em -Guizot! - -Em silencio, at casa da Gouvarinho, Carlos foi ruminando a sua clera -contra o Damaso. Ahi estava pois rasgada por aquelle imbecil a penumbra -suave e favoravel em que se abrigra o seu amor! Agora j se pronunciava -o nome de Maria Eduarda no Gremio: o que o Damaso dissera ao Ega, -repetil-o-hia a outros, na Casa Havaneza, no restaurante Silva, talvez -nos lupanares: e assim o interesse supremo da sua vida seria d'ahi por -diante constantemente perturbado, estragado, sujo pela tagarellice reles -do Damaso! - ---Parece-me que temos c mais gente, disse o Ega, ao penetrarem na -ante-camara dos Gouvarinhos, vendo sobre o canap um paletot cinzento e -capas de sonhem. - -A condessa esperava-os na salinha ao fundo, chamada do busto, vestida -de preto, com uma tira de velludo em volta do pescoo picada de tres -estrellas de diamantes. Uma cesta de esplendidas flres quasi enchia a -mesa, onde se accumulavam tambem romances inglezes, e uma Revista dos -Dois Mundos em evidencia, com a faca de marfim entre as folhas. Alm da -boa D. Maria da Cunha e da baroneza d'Alvim, havia uma outra senhora, -que nem Carlos nem Ega conheciam, gorda e vestida d'escarlate; e de p, -conversando baixo com o conde, de mos atraz das costas, um cavalheiro -alto, escaveirado, grave, com uma barba rala, e a commenda da Conceio. - -A condessa, um pouco crada, estendeu a Carlos a mo amuada e frouxa: -todos os seus sorrisos foram para o Ega. E o conde apoderou-se logo do -querido Maia, para o apresentar ao seu amigo o snr. Sousa Netto. O snr. -Sousa Netto j tinha o prazer de conhecer muito Carlos da Maia, como um -medico distincto, uma honra da Universidade... E era esta a vantagem de -Lisboa, disse logo o conde, o conhecerem-se todos de reputao, o -poder-se ter assim uma apreciao mais justa dos caracteres. Em Paris, -por exemplo, era impossivel; por isso havia tanta immoralidade, tanta -relaxao... - ---Nunca sabe a gente quem mette em casa. - -O Ega, entre a condessa e D. Maria, enterrado no divan, mostrando as -estrellinhas bordadas das meias, fazia-as rir com a historia do seu -exilio em Celorico, onde se distrahia compondo sermes para o abbade: o -abbade recitava-os; e os sermes, sob uma frma mystica, eram de facto -affirmaes revolucionarias que o santo varo lanava com fervor, -esmurrando o pulpito... A senhora de vermelho, sentada defronte, de mos -no regao, escutava o Ega, com o olhar espantado. - ---Imaginei que v. exc.^a tinha ido j para Cintra, veio dizer Carlos -senhora baroneza, sentando-se junto d'ella. V. exc.^a sempre a -primeira... - ---Como quer o senhor que se v para Cintra com um tempo d'estes? - ---Com effeito, est infernal... - ---E que conta de novo? perguntou ella, abrindo lentamente o seu grande -leque preto. - ---Creio que no ha nada de novo em Lisboa, minha senhora, desde a morte -do snr. D. Joo VI. - ---Agora ha o seu amigo Ega, por exemplo. - --- verdade, ha o Ega... Como o acha v. exc.^a, senhora baroneza? - -Ella nem baixou a voz para dizer: - ---Olhe, eu como o achei sempre um grande presumido e no gosto d'elle, -no posso dizer nada... - ---Oh senhora baroneza, que falta de caridade! - -O escudeiro annuncira o jantar. A condessa tomou o brao de Carlos,--e, -ao atravessar o salo, entre o frouxo murmurio de vozes e o rumor lento -das caudas de sda, pde dizer-lhe asperamente: - ---Esperei meia hora; mas comprehendi logo que estaria entretido com a -brazileira... - -Na sala de jantar, um pouco sombria, forrada de papel cr de vinho, -escurecida ainda por dois antigos paineis de paizagem tristonha, a mesa -oval, cercada de cadeiras de carvalho lavrado, resaltava alva e fresca, -com um esplendido cesto de rosas entre duas serpentinas douradas. Carlos -ficou direita da condessa, tendo ao lado D. Maria da Cunha, que n'esse -dia parecia um pouco mais velha, e sorria com um ar cansado. - ---Que tem feito todo este tempo, que ninguem o tem visto? perguntou-lhe -ella, desdobrando o guardanapo. - ---Por esse mundo, minha senhora, vagamente... - -Defronte de Carlos, o snr. Sousa Netto, que tinha tres enormes coraes no -peitilho da camisa, estava j observando, emquanto remexia a sopa, que a -senhora condessa, na sua viagem ao Porto, devia ter encontrado nas ruas -e nos edificios grandes mudanas... A condessa, infelizmente, mal tinha -sahido durante o tempo que estivera no Porto. O conde, esse, que -admirara os progressos da cidade. E especificou-os: elogiou a vista do -Palacio de Crystal; lembrou o fecundo antagonismo que existe entre -Lisboa e Porto; mais uma vez o comparou ao dualismo da Austria e da -Hungria. E atravs d'estas coisas graves, lanadas d'alto, com -superioridade e com peso, a baroneza e a senhora d'escarlate, aos dois -lados d'elle, fallavam do convento das Selesias. - -Carlos, no emtanto, comendo em silencio a sua sopa, ruminava as palavras -da condessa. Tambem ella conhecia j a sua intimidade com a -brazileira. Era evidente pois que j andava alli, diffamante e torpe, -a tagarellice do Damaso. E quando o criado lhe offereceu Sauterne, -estava decidido a bater no Damaso. - -De repente ouviu o seu nome. Do fim da mesa uma voz dizia, pachorrenta e -cantada: - ---O snr. Maia que deve saber... O snr. Maia j l esteve. - -Carlos pousou vivamente o copo. Era a senhora d'escarlate que lhe -fallava, sorrindo, mostrando uns bonitos dentes sob o buo forte de -quarentona pallida. Ninguem lh'a apresentra, elle no sabia quem era. -Sorriu tambem, perguntou: - ---Onde, minha senhora? - ---Na Russia. - ---Na Russia?... No, minha senhora, nunca estive na Russia. - -Ella pareceu um pouco desapontada. - ---Ah, que me tinham dito... No sei j quem me disse, mas era pessoa -que sabia... - -O conde ao fundo explicava-lhe amavelmente que o amigo Maia estivera -apenas na Hollanda. - ---Paiz de grande prosperidade, a Hollanda!... Em nada inferior ao -nosso... J conheci mesmo um hollandez que era excessivamente -instruido... - -A condessa baixra os olhos, partindo vagamente um bocadinho de po, -mais sria de repente, mais secca, como se a voz de Carlos, erguendo-se -to tranquilla ao seu lado, tivesse avivado os seus despeitos. Elle, -ento, depois de provar devagar o seu Sauterne, voltou-se para ella, -muito naturalmente e risonho: - ---Veja a senhora condessa! Eu nem tive mesmo ida d'ir Russia. Ha -assim uma infinidade de coisas que se dizem e que no so exactas... E -se se faz uma alluso ironica a ellas, ninguem comprehende a alluso nem -a ironia... - -A condessa no respondeu logo, dando com o olhar uma ordem muda ao -escudeiro. Depois, com um sorriso pallido: - ---No fundo de tudo que se diz ha sempre um facto, ou um bocado de facto -que verdadeiro. E isso basta... Pelo menos a mim basta-me... - ---A senhora condessa tem ento uma credulidade infantil. Estou vendo que -acredita que era uma vez uma filha d'um rei que tinha uma estrella na -testa... - -Mas o conde interpellava-o, o conde queria a opinio do seu amigo Maia. -Tratava-se do livro de um inglez, o major Bratt, que atravessra a -Africa, e dizia coisas perfidamente desagradaveis para Portugal. O conde -via alli s inveja--a inveja que nos tm todas as naes por causa da -importancia das nossas colonias, e da nossa vasta influencia na -Africa... - ---Est claro, dizia o conde, que no temos nem os milhes, nem a marinha -dos inglezes. Mas temos grandes glorias; o infante D. Henrique de -primeira ordem; e a tomada d'Ormuz um primor... E eu que conheo -alguma coisa de systemas coloniaes, posso affirmar que no ha hoje -colonias nem mais susceptiveis de riqueza, nem mais crentes no -progresso, nem mais liberaes que as nossas! No lhe parece, Maia? - ---Sim, talvez, possivel... Ha muita verdade n'isso... - -Mas Ega, que estivera um pouco silencioso, entalando de vez em quando o -monoculo no olho e sorrindo para a baroneza, pronunciou-se alegremente -contra todas essas exploraes da Africa, e essas longas misses -geographicas... Porque no se deixaria o preto socegado, na calma posse -dos seus manipansos? Que mal fazia ordem das coisas que houvesse -selvagens? Pelo contrario, davam ao Universo uma deliciosa quantidade de -pittoresco! Com a mania franceza e burgueza de reduzir todas as regies -e todas as raas ao mesmo typo de civilisao, o mundo ia tornar-se -d'uma monotonia abominavel. Dentro em breve um touriste faria enormes -sacrificios, despezas sem fim, para ir a Tombuctu--para qu? Para -encontrar l pretos de chapo alto, a lr o _Jornal dos Debates_! - -O conde sorria com superioridade. E a boa D. Maria, sahindo do seu vago -abatimento, movia o leque, dizia a Carlos, deleitada: - ---Este Ega! Este Ega! Que graa! Que _chic_! - -Ento Sousa Netto, pousando gravemente o talher, fez ao Ega esta -pergunta grave: - ---V. exc.^a pois em favor da escravatura? - -Ega declarou muito decididamente ao snr. Sousa Netto que era pela -escravatura. Os desconfortos da vida, segundo elle, tinham comeado com -a libertao dos negros. S podia ser sriamente obedecido, quem era -sriamente temido... Por isso ninguem agora lograva ter os seus sapatos -bem envernizados, o seu arroz bem cozido, a sua escada bem lavada, desde -que no tinha criados pretos em quem fosse licito dar vergastadas... S -houvera duas civilisaes em que o homem conseguira viver com razoavel -commodidade: a civilisao romana, e a civilisao especial dos -plantadores da Nova Orleans. Porque? porque n'uma e n'outra existira a -escravatura absoluta, a srio, com o direito de morte!... - -Durante um momento o snr. Sousa Netto ficou como desorganisado. Depois -passou o guardanapo sobre os beios, preparou-se, encarou o Ega: - ---Ento v. exc.^a n'essa idade, com a sua intelligencia, no acredita no -Progresso? - ---Eu no senhor. - -O conde interveio, affavel e risonho: - ---O nosso Ega quer fazer simplesmente um paradoxo. E tem razo, tem -realmente razo, porque os faz brilhantes... - -Estava-se servindo _Jambon aux pinards_. Durante um momento fallou-se -de paradoxos. Segundo o conde, quem os fazia tambem brilhantes e -difficeis de sustentar, excessivamente difficeis, era o Barros, o -ministro do reino... - ---Talento robusto, murmurou respeitosamente Sousa Netto. - ---Sim, pujante, disse o conde. - -Mas elle agora no fallava tanto do talento do Barros como parlamentar, -como homem d'estado. Fallava do seu espirito de sociedade, do seu -_esprit_... - ---Ainda este inverno ns lhe ouvimos um paradoxo brilhante! At foi em -casa da snr.^a D. Maria da Cunha... V. exc.^a no se lembra, snr.^a D. -Maria? Esta minha desgraada memoria! Thereza, lembras-te d'aquelle -paradoxo do Barros? Ora sobre que era, meu Deus?... Emfim, um paradoxo -muito difficil de sustentar... Esta minha memoria!... Pois no te -lembras, Thereza? - -A condessa no se lembrava. E emquanto o conde ficava remexendo -anciosamente, com a mo na testa, as suas recordaes,--a senhora -d'escarlate voltou a fallar de pretos, e de escudeiros pretos, e d'uma -cozinheira preta que tivera uma tia d'ella, a tia Villar... Depois -queixou-se amargamente dos criados modernos: desde que lhe morrera a -Joanna, que estava em casa havia quinze annos, no sabia que fazer, -andava como tonta, tinha s desgostos. Em seis mezes j vira quatro -caras novas. E umas desleixadas, umas pretenciosas, uma immoralidade!... -Quasi lhe fugiu um suspiro do peito, e trincando desconsoladamente uma -migalhinha de po: - --- baroneza, ainda tens a Vicenta? - ---Pois ento no havia de ter a Vicenta?... Sempre a Vicenta... A snr.^a -D. Vicenta, se faz favor. - -A outra contemplou-a um instante, com inveja d'aquella felicidade. - ---E a Vicenta que te penteia? - -Sim, era a Vicenta que a penteava. Ia-se fazendo velha, coitada... Mas -sempre caturra. Agora andava com a mania de aprender francez. J sabia -verbos. Era de morrer, a Vicenta a dizer _j'aime_, _tu aimes_... - ---E a senhora baroneza, acudiu o Ega, comeou por lhe mandar ensinar os -verbos mais necessarios. - -Est claro, dizia a baroneza, que aquelle era o mais necessario. Mas na -idade da Vicenta j de pouco lhe poderia servir! - ---Ah! gritou de repente o conde, deixando quasi cahir o talher. Agora me -lembro! - -Tinha-se lembrado emfim do soberbo paradoxo do Barros. Dizia o Barros -que os ces, quanto mais ensinados... Pois, no, no era isto! - ---Esta minha desgraada memoria!... E era sobre ces. Uma coisa -brilhante, philosophica at! - -E, por se fallar de ces, a baroneza lembrou-se do _Tommy_, o galgo da -condessa; perguntou por _Tommy_. J o no via ha que tempos, esse bravo -_Tommy_! A condessa nem queria que se fallasse no _Tommy_, coitado! -Tinham-lhe nascido umas coisas nos ouvidos, um horror... Mandra-o para -o Instituto, l morrera. - ---Est deliciosa esta galantine, disse D. Maria da Cunha, inclinando-se -para Carlos. - ---Deliciosa. - -E a baroneza, do lado, declarou tambem a galantine uma perfeio. Com um -olhar ao escudeiro, a condessa fez servir de novo a galantine: e -apressou-se a responder ao snr. Sousa Netto, que, a proposito de ces, -lhe estava fallando da _Sociedade protectora dos animaes_. O snr. Sousa -Netto approvava-a, considerava-a como um progresso... E, segundo elle, -no seria mesmo de mais que o governo lhe dsse um subsidio. - ---Que eu creio que ella vai prosperando... E merece-o, acredite a -senhora condessa que o merece... Estudei essa questo, e de todas as -sociedades que ultimamente se tm fundado entre ns, imitao do que -se faz l fra, como a _Sociedade de Geographia_ e outras, a _Protectora -dos animaes_ parece-me decerto uma das mais uteis. - -Voltou-se para o lado, para o Ega: - ---V. exc.^a pertence? - --- _Sociedade protectora dos animaes_?... No senhor, perteno a outra, - de _Geographia_. Sou dos protegidos. - -A baroneza teve uma das suas alegres risadas. E o conde fez-se -extremamente srio: pertencia _Sociedade de Geographia_, considerava-a -um pilar do Estado, acreditava na sua misso civilisadora, detestava -aquellas irreverencias. Mas a condessa e Carlos tinham rido tambem:--e -de repente a frialdade que at ahi os conservra ao lado um do outro -reservados, n'uma ceremonia affectada, pareceu dissipar-se ao calor -d'esse riso trocado, no brilho dos dois olhares encontrando-se -irresistivelmente. Servira-se o Champagne, ella tinha uma crzinha no -rosto. O seu p, sem ella saber como, roou pelo p de Carlos; sorriram -ainda outra vez;--e, como no resto da mesa se conversava sobre uns -concertos classicos que ia haver no Price, Carlos perguntou-lhe, baixo, -com uma reprehenso amavel: - ---Que tolice foi essa da _brazileira_?... Quem lhe disse isso? - -Ella confessou-lhe logo que fra o Damaso... O Damaso viera contar-lhe o -enthusiasmo de Carlos por essa senhora, e as manhs inteiras que l -passava, todos os dias, mesma hora... Emfim o Damaso fizera-lhe -claramente entrevr uma _liaison_. - -Carlos encolheu os hombros. Como podia ella acreditar no Damaso? Devia -conhecer-lhe bem a tagarellice, a imbecilidade... - --- perfeitamente verdade que eu vou a casa d'essa senhora, que nem -brazileira , que to portugueza como eu; mas porque ella tem a -governante muito doente com uma bronchite, e eu sou o medico da casa. -Foi at o Damaso, elle proprio, que l me levou como medico! - -No rosto da condessa espalhava-se um riso, uma claridade vinda do dce -allivio que se fazia no seu corao. - ---Mas o Damaso disse-me que era to linda!... - -Sim, era muito linda. E ento? Um medico, por fidelidade s suas -affeies, e para as no inquietar, no podia realmente, antes de -penetrar na casa d'uma doente, exigir-lhe um certificado de hediondez! - ---Mas que est ella c a fazer?... - ---Est espera do marido que foi a negocios ao Brazil, e vem ahi... -uma gente muito distincta, e creio que muito rica... Vo-se brevemente -embora, de resto, e eu pouco sei d'elles. As minhas visitas so de -medico; tenho apenas conversado com ella sobre Paris, sobre Londres, -sobre as suas impresses de Portugal... - -A condessa bebia estas palavras, deliciosamente, dominada pelo bello -olhar com que elle lh'as murmurava: e o seu p apertava o de Carlos -n'uma reconciliao apaixonada, com a fora que desejaria pr n'um -abrao--se alli lh'o podesse dar. - -A senhora d'escarlate, no emtanto, recomera a fallar da Russia. O que -a assustava que o paiz era to caro, corriam-se tantos perigos por -causa da dynamite, e uma constituio fraca devia soffrer muito com a -neve nas ruas. E foi ento que Carlos percebeu que ella era a esposa de -Sousa Netto, e que se tratava d'um filho d'elles, filho unico, -despachado segundo secretario para a legao de S. Petersburgo. - ---O menino conhece-o? perguntou D. Maria ao ouvido de Carlos, por traz -do leque. um horror d'estupidez... Nem francez sabe! De resto no -peor que os outros... Que a quantidade de mnos, de semsabores e de -tolos que nos representam l fra at faz chorar... Pois o menino no -acha? Isto um paiz desgraado. - ---Peor, minha cara senhora, muito peor. Isto um paiz _cursi_. - -Tinha findado a sobremesa. D. Maria olhou para a condessa com o seu -sorriso cansado; a senhora de escarlate calra-se, j preparada, tendo -mesmo afastado um pouco a cadeira; e as senhoras ergueram-se, no momento -em que o Ega, ainda cerca da Russia, acabava de contar uma historia -ouvida a um polaco, e em que se provava que o Czar era um estupido... - ---Liberal todavia, gostando bastante do progresso! murmurou ainda o -conde, j de p. - -Os homens, ss, accenderam os seus charutos; o escudeiro serviu o caf. -Ento o snr. Sousa Netto, com a sua chavena na mo, aproximou-se de -Carlos para lhe exprimir de novo o prazer que tivera em fazer o seu -conhecimento... - ---Eu tive tambem em tempos o prazer de conhecer o pai de v. exc.^a... -Pedro, creio que era justamente o snr. Pedro da Maia. Comeava eu ento -a minha carreira publica... E o av de v. exc.^a, bom? - ---Muito agradecido a v. exc.^a - ---Pessoa muito respeitavel... O pai de v. exc.^a era... Emfim, era o que -se chama um elegante. Tive tambem o prazer de conhecer a mi de v. -exc.^a... - -E de repente calou-se, embaraado, levando a chavena aos labios. Depois, -lentamente, voltou-se para escutar melhor o Ega, que ao lado discutia -com o Gouvarinho sobre mulheres. Era a proposito da secretria da -legao da Russia, com quem elle encontrra n'essa manh o conde -conversando ao Calhariz. O Ega achava-a deliciosa, com o seu corpinho -nervoso e ondeado, os seus grandes olhos garos... E o conde, que a -admirava tambem, gabava-lhe sobretudo o espirito, a instruco. Isso, -segundo o Ega, prejudicava-a: porque o dever da mulher era primeiro ser -bella, e depois ser estupida... O conde affirmou logo com exuberancia -que no gostava tambem de litteratas: sim, decerto o lugar da mulher era -junto do bero, no na bibliotheca... - ---No emtanto agradavel que uma senhora possa conversar sobre coisas -amenas, sobre o artigo d'uma Revista, sobre... Por exemplo, quando se -publica um livro... Emfim, no direi quando se trata d'um Guizot, ou -d'um Jules Simon... Mas, por exemplo, quando se trata d'um Feuillet, -d'um... Emfim, uma senhora deve ser prendada. No lhe parece, Netto? - -Netto, grave, murmurou: - ---Uma senhora, sobretudo quando ainda nova, deve ter algumas -prendas... - -Ega protestou, com calor. Uma mulher com prendas, sobretudo com prendas -litterarias, sabendo dizer coisas sobre o snr. Thiers, ou sobre o snr. -Zola, um monstro, um phenomeno que cumpria recolher a uma companhia de -cavallinhos, como se soubesse trabalhar nas argolas. A mulher s devia -ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem. - ---V. exc.^a decerto, snr. Sousa Netto, sabe o que diz Proudhon? - ---No me recordo textualmente, mas... - ---Em todo o caso v. exc.^a conhece perfeitamente o seu Proudhon? - -O outro, muito seccamente, no gostando decerto d'aquelle -interrogatorio, murmurou que Proudhon era um author de muita nomeada. - -Mas o Ega insistia, com uma impertinencia perfida: - ---V. exc.^a leu evidentemente, como ns todos, as grandes paginas de -Proudhon sobre o amor? - -O snr. Netto, j vermelho, pousou a chavena sobre a mesa. E quiz ser -sarcastico, esmagar aquelle moo, to litterario, to audaz. - ---No sabia, disse elle com um sorriso infinitamente superior, que esse -philosopho tivesse escripto sobre assumptos escabrosos! - -Ega atirou os braos ao ar, consternado: - ---Oh snr. Sousa Netto! Ento v. exc.^a, um chefe de familia, acha o amor -um assumpto escabroso?! - -O snr. Netto encordoou. E muito direito, muito digno, fallando do alto -da sua consideravel posio burocratica: - --- meu costume, snr. Ega, no entrar nunca em discusses, e acatar -todas as opinies alheias, mesmo quando ellas sejam absurdas... - -E quasi voltou as costas ao Ega, dirigindo-se outra vez a Carlos, -desejando saber, n'uma voz ainda um pouco alterada, se elle agora se -fixava algum tempo mais em Portugal. Ento, durante um momento, acabando -os charutos, os dois fallaram de viagens. O snr. Netto lamentava que os -seus muitos deveres no lhe permitissem percorrer a Europa. Em pequeno -fra esse o seu ideal; mas agora, com tantas occupaes publicas, via-se -forado a no deixar a carteira. E alli estava, sem ter visto sequer -Badajoz... - ---E v. exc.^a de que gostou mais, de Paris ou de Londres? - -Carlos realmente no sabia, nem se podia comparar... Duas cidades to -differentes, duas civilisaes to originaes... - ---Em Londres, observou o conselheiro, tudo carvo... - -Sim, dizia Carlos sorrindo, bastante carvo, sobretudo nos foges, -quando havia frio... - -O snr. Sousa Netto murmurou: - ---E o frio alli deve ser sempre consideravel... Clima to ao norte!... - -Esteve um momento mamando o charuto, de palpebra cerrada. Depois, fez -esta observao sagaz e profunda: - ---Povo pratico, povo essencialmente pratico. - ---Sim, bastante pratico, disse vagamente Carlos, dando um passo para a -sala, onde se sentiam as risadas cantantes da baroneza. - ---E diga-me outra coisa, proseguiu o snr. Sousa Netto, com interesse, -cheio de curiosidade intelligente. Encontra-se por l, em Inglaterra, -d'esta litteratura amena, como entre ns, folhetinistas, poetas de -pulso?... - -Carlos deitou a ponta do charuto para o cinzeiro, e respondeu, com -descaro: - ---No, no ha d'isso. - ---Logo vi, murmurou Sousa Netto. Tudo gente de negocio. - -E penetraram na sala. Era o Ega que assim fazia rir a baroneza, sentado -defronte d'ella, fallando outra vez de Celorico, contando-lhe uma soire -de Celorico, com detalhes picarescos sobre as authoridades, e sobre um -abbade que tinha morto um homem e cantava fados sentimentaes ao piano. A -senhora d'escarlate, no sof ao lado, com os braos cahidos no regao, -pasmava para aquella veia do Ega como para as destrezas d'um palhao. D. -Maria, junto da mesa, folheava com o seu ar cansado uma _Illustrao_; e -vendo que Carlos ao entrar procurra com o olhar a condessa, chamou-o, -disse-lhe baixo que ella fra dentro vr Charlie, o pequeno... - --- verdade, perguntou Carlos, sentando-se ao lado d'ella, que feito -d'elle, d'esse lindo Charlie? - ---Diz que tem estado hoje constipado, e um pouco murcho... - ---A snr.^a D. Maria tambem me parece hoje um pouco murcha. - --- do tempo. Eu j estou na idade em que o bom humor ou o aborrecimento -vm s das influencias do tempo... Na sua idade vem d'outras coisas. E a -proposito d'outras coisas: ento a Cohen tambem chegou? - ---Chegou, disse Carlos, mas no _tambem_. O _tambem_ implica -combinao... E a Cohen e o Ega chegaram realmente ambos por acaso... De -resto isso historia antiga, como os amores de Helena e de Pris. - -N'esse instante a condessa voltava de dentro, um pouco afogueada, e -trazendo aberto um grande leque negro. Sem se sentar, fallando sobretudo -para a mulher do snr. Sousa Netto, queixou-se logo de no ter achado -Charlie bem... Estava to quente, to inquieto... Tinha quasi medo que -fosse sarampo.--E voltando-se vivamente para Carlos, com um sorriso: - ---Eu estou com vergonha... Mas se o snr. Carlos da Maia quizesse ter o -incommodo de o vir vr um instante... odioso, realmente, pedir-lhe -logo depois de jantar para examinar um doente... - ---Oh senhora condessa! exclamou elle, j de p. - -Seguiu-a. N'uma saleta, ao lado, o conde e o snr. Sousa Netto, -enterrados n'um sof, conversavam fumando. - ---Levo o snr. Carlos da Maia para vr o pequeno... - -O conde erguera-se um pouco do sof, sem comprehender bem. J ella -passra. Carlos seguiu em silencio a sua longa cauda de sda preta -atravs do bilhar, deserto, com o gaz acceso, ornado de quatro retratos -de damas, da familia dos Gouvarinhos, empoadas e sorumbaticas. Ao lado, -por traz de um pesado reposteiro de fazenda verde, era um gabinete, com -uma velha poltrona, alguns livros n'uma estante envidraada, e uma -escrevaninha onde pousava um candieiro sob o abat-jour de renda cr de -rosa. E ahi, bruscamente, ella parou, atirou os braos ao pescoo de -Carlos, os seus labios prenderam-se aos d'elle n'um beijo sfrego, -penetrante, completo, findando n'um soluo de desmaio... Elle sentia -aquelle lindo corpo estremecer, escorregar-lhe entre os braos, sobre os -joelhos sem fora. - ---manh, em casa da titi, s onze, murmurou ella quando pde fallar. - ---Pois sim. - -Desprendida d'elle, a condessa ficou um momento com as mos sobre os -olhos, deixando desvanecer aquella languida vertigem, que a fizera cr -de cra. Depois, cansada e sorrindo: - ---Que doida que eu sou... Vamos vr Charlie. - -O quarto do pequeno era ao fundo do corredor. E ahi, n'uma caminha de -ferro, junto do leito maior da criada, Charlie dormia, sereno, fresco, -com um bracinho cahido para o lado, os seus lindos caracoes loiros -espalhados no travesseiro como uma aureola d'anjo. Carlos tocou-lhe -apenas no pulso; e a criada escosseza, que trouxera uma luz de sobre a -commoda, disse, sorrindo tranquillamente: - ---O menino n'estes ultimos dias tem andado muitissimo bem... - -Voltaram. No gabinete, antes de penetrar no bilhar, a condessa, j com a -mo no reposteiro, estendeu ainda a Carlos os seus labios insaciaveis. -Elle colheu um rapido beijo. E, ao passar na antecamara, onde Sousa -Netto e o conde continuavam enfronhados n'uma conversa grave, ella disse -ao marido: - ---O pequeno est a dormir... O snr. Carlos da Maia achou-o bem. - -O conde de Gouvarinho bateu no hombro de Carlos, carinhosamente. E -durante um momento a condessa ficou alli conversando, de p, a deixar-se -serenar, pouco a pouco, n'aquella penumbra favoravel, antes de affrontar -a luz forte da sala. Depois, por se fallar em hygiene, convidou o snr. -Sousa Netto para uma partida de bilhar; mas o snr. Netto, desde Coimbra, -desde a Universidade, no pegra n'um taco. E ia-se chamar o Ega quando -appareceu Telles da Gama, que chegava do Price. Logo atraz d'elle entrou -o conde de Steinbroken. Ento o resto da noite passou-se no salo, em -redor do piano. O ministro cantou melodias da Filandia. Telles da Gama -tocou _fados_. - -Carlos e Ega foram os derradeiros a sahir, depois de um _brandy and -soda_, de que a condessa partilhou, como ingleza forte. E em baixo, no -pateo, acabando de abotoar o paletot, Carlos pde emfim soltar a -pergunta que lhe faiscra nos labios toda a noite: - --- Ega, quem aquelle homem, aquelle Sousa Netto, que quiz saber se em -Inglaterra havia tambem litteratura? - -Ega olhou-o com espanto: - ---Pois no adivinhaste? No deduziste logo? No viste immediatamente -quem n'este paiz capaz de fazer essa pergunta? - ---No sei... Ha tanta gente capaz... - -E o Ega radiante: - ---Official superior d'uma grande repartio do Estado! - ---De qual? - ---Ora de qual! De qual ha de ser?... Da Instruco publica! - - -Na tarde seguinte, s cinco horas, Carlos, que se demorra de mais em -casa da titi com a condessa, retido pelos seus beijos interminaveis, fez -voar o coup at rua de S. Francisco, olhando a cada momento o -relogio, n'um receio de que Maria Eduarda tivesse sahido por aquelle -lindo dia de vero, luminoso e sem calor. Com effeito porta d'ella -estava a carruagem da Companhia; e Carlos galgou as escadas, desesperado -com a condessa, sobretudo comsigo mesmo, to fraco, to passivo, que -assim se deixra retomar por aquelles braos exigentes, cada vez mais -pesados, e j incapazes de o commover... - ---A senhora chegou agora mesmo, disse-lhe o Domingos, que voltra da -terra havia tres dias, e ainda no cessra de lhe sorrir. - -Sentada no sof, de chapo, tirando as luvas, ella acolheu-o com uma -dce cr no rosto, e uma carinhosa reprehenso: - ---Estive espera mais de meia hora antes de sahir... uma ingratido! -Imaginei que nos tinha abandonado! - ---Porqu? Est peor, miss Sarah? - -Ella olhou-o, risonhamente escandalisada. Ora, miss Sarah! Miss Sarah ia -seguindo perfeitamente na sua convalescena... Mas agora j no eram as -visitas de medico que se esperavam, eram as de amigo; e essa tinha-lhe -faltado. - -Carlos, sem responder, perturbado, voltou-se para Rosa, que folheava -junto da mesa um livro novo d'estampas; e a ternura, a gratido infinita -do seu corao, que no ousava mostrar me, pl-a toda na longa -caricia em que envolveu a filha. - ---So historias que a mam agora comprou, dizia Rosa, sria e presa ao -seu livro. Hei de t'as contar depois... So historias de bichos. - -Maria Eduarda erguera-se, desapertando lentamente as fitas do chapo. - ---Quer tomar uma chavena de ch comnosco, snr. Carlos da Maia? Eu vinha -morrendo por uma chavena de ch... Que lindo dia, no verdade? Rosa, -fica tu a contar o nosso passeio emquanto eu vou tirar o chapo... - -Carlos, s com Rosa, sentou-se junto d'ella, desviando-a do livro, -tomando-lhe ambas as mos. - ---Fomos ao Passeio da Estrella, dizia a pequena. Mas a mam no se -queria demorar, porque tu podias ter vindo! - -Carlos beijou, uma depois da outra, as duas mosinhas de Rosa. - ---E ento que fizeste no Passeio? perguntou elle, depois d'um leve -suspiro de felicidade que lhe fugira do peito. - ---Andei a correr, havia uns patinhos novos... - ---Bonitos?... - -A pequena encolheu os hombros: - ---Chinfrinzitos. - -Chinfrinzitos! Quem lhe tinha ensinado a dizer uma coisa to feia? - -Rosa sorriu. Fra o Domingos. E o Domingos dizia ainda outras coisas -assim, engraadas... Dizia que a Melanie era uma _gaja_... O Domingos -tinha muita graa. - -Ento Carlos advertiu-a que uma menina bonita, com to bonitos vestidos, -no devia dizer aquellas palavras... Assim fallava a gente rta. - ---O Domingos no anda rto, disse Rosa muito sria. - -E subitamente, com outra ida, bateu as palmas, pulou-lhe entre os -joelhos, radiante: - ---E trouxe-me uns grillos da Praa! O Domingos trouxe-me uns grillos... -Se tu soubesses! _Niniche_ tem medo dos grillos! Parece incrivel, hein? -Eu nunca vi ninguem mais medrosa... - -Esteve um momento a olhar Carlos, e acrescentou, com um ar grave: - --- a mam que lhe d tanto mimo. uma pena! - -Maria Eduarda entrava, ageitando ainda de leve o ondeado do cabello: e, -ouvindo assim fallar de mimo, quiz saber quem que ella estragava com -mimo... _Niniche_? Pobre _Niniche_, coitada, ainda essa manh fra -castigada! - -Ento Rosa rompeu a rir, batendo outra vez as mos: - ---Sabes como a mam a castiga? exclamava ella, puxando a manga de -Carlos. Sabes?... Faz-lhe voz grossa... Diz-lhe em inglez: _Bad dog! -dreadful dog!_ - -Era encantadora assim, imitando a voz severa da mam, com o dedinho -erguido, a ameaar _Niniche_. A pobre _Niniche_, imaginando com effeito -que a estavam a reprehender, arrastou-se, vexada, para debaixo do sof. -E foi necessario que Rosa a tranquillisasse, de joelhos sobre a pelle de -tigre, jurando-lhe, por entre abraos, que ella nem era mau co, nem -feio co; fra s para contar como fazia a mam... - ---Vai-lhe dar agua, que ella deve estar com sde, disse ento Maria -Eduarda, indo sentar-se na sua cadeira escarlate. E dize ao Domingos que -nos traga o ch. - -Rosa e _Niniche_ partiram correndo. Carlos veio occupar, junto da -janella, a costumada poltrona de reps. Mas pela primeira vez, desde a -sua intimidade, houve entre elles um silencio difficil. Depois ella -queixou-se de calor, desenrolando distrahidamente o bordado; e Carlos -permanecia mudo, como se para elle, n'esse dia, apenas houvesse encanto, -apenas houvesse significao n'uma certa palavra de que os seus labios -estavam cheios e que no ousavam murmurar, que quasi receava que fosse -adivinhada apesar d'ella suffocar o seu corao. - ---Parece que nunca se acaba, esse bordado! disse elle por fim, -impaciente de a vr, to serena, a occupar-se das suas ls. - -Com a talagara desdobrada sobre os joelhos, ella respondeu, sem erguer -os olhos: - ---E para que se ha de acabar? O grande prazer andal-o a fazer, pois -no acha? Uma malha hoje, outra malha manh, torna-se assim uma -companhia... Para que se ha de querer chegar logo ao fim das coisas? - -Uma sombra passou no rosto de Carlos. N'estas palavras, ditas de leve -cerca do bordado, elle sentia uma desanimadora alluso ao seu -amor,--esse amor que lhe fra enchendo o corao maneira que a l -cobria aquella talagara, e que era obra simultanea das mesmas brancas -mos. Queria ella pois conserval-o alli, arrastado como o bordado, -sempre acrescentado e sempre incompleto, guardado tambem no cesto da -costura, para ser o desafogo da sua solido? - -Disse-lhe ento, commovido: - ---No assim. Ha coisas que s existem quando se completam, e que s -ento do a felicidade que se procurava n'ellas. - --- muito complicado isso, murmurou ella, crando. muito subtil... - ---Quer que lh'o diga mais claramente? - -N'esse instante Domingos, erguendo o reposteiro, annunciou que estava -alli o snr. Damaso... - -Maria Eduarda teve um movimento brusco de impaciencia: - ---Diga que no recebo! - -Fra, no silencio, sentiram bater a porta. E Carlos ficou inquieto, -lembrando-se que o Damaso devia ter visto em baixo, passeando na rua, o -seu coup. Santo Deus! O que elle iria tagarellar agora, com os seus -pequeninos rancores, assim humilhado! Quasi lhe pareceu n'esse instante -a existencia do Damaso incompativel com a tranquillidade do seu amor. - ---Ahi est outro inconveniente d'esta casa, dizia no emtanto Maria -Eduarda. Aqui ao lado d'esse Gremio, a dois passos do Chiado, -demasiadamente accessivel aos importunos. Tenho agora de repellir quasi -todos os dias este assalto minha porta! intoleravel. - -E com uma subita ida, atirando o bordado para o aafate, cruzando as -mos sobre os joelhos: - ---Diga-me uma coisa que lhe tenho querido perguntar... No me seria -possivel arranjar por ahi uma casinhola, um cottage, onde eu fosse -passar os mezes de vero?... Era to bom para a pequena! Mas no conheo -ninguem, no sei a quem me hei de dirigir... - -Carlos lembrou-se logo da bonita casa do Craft, nos Olivaes--como j -n'outra occasio em que ella mostrra desejos d'ir para o campo. -Justamente, n'esses ultimos tempos, Craft voltra a fallar, e mais -decidido, no antigo plano de vender a quinta, e desfazer-se das suas -colleces. Que deliciosa vivenda para ella, artistica e campestre, -condizendo to bem com os seus gostos! Uma tentao atravessou-o, -irresistivel. - ---Eu sei com effeito d'uma casa... E to bem situada, que lhe convinha -tanto!... - ---Que se aluga? - -Carlos no hesitou: - ---Sim, possivel arranjar-se... - ---Isso era um encanto! - -Ella tinha dito--era um encanto. E isto decidiu-o logo, parecendo-lhe -desamoravel e mesquinho o ter-lhe suggerido uma esperana, e no lh'a -realisar com fervor. - -O Domingos entrra com o taboleiro do ch. E emquanto o collocava sobre -uma pequena mesa, defronte de Maria Eduarda, ao p da janella, Carlos, -erguendo-se, dando alguns passos pela sala, pensava em comear -immediatamente negociaes com o Craft, comprar-lhe as colleces, -alugar-lhe a casa por um anno, e offerecel-a a Maria Eduarda para os -mezes de vero. E no considerava, n'esse instante, nem as -difficuldades, nem o dinheiro. Via s a alegria d'ella passeando com a -pequena, entre as bellas arvores do jardim. E como Maria Eduarda deveria -ser mais grandemente formosa no meio d'esses moveis da Renascena, -severos e nobres! - ---Muito assucar? perguntou ella. - ---No... Perfeitamente, basta. - -Viera sentar-se na sua velha poltrona; e, recebendo a chavena de -porcelana ordinaria com um filetesinho azul, recordava o magnifico -servio que tinha o Craft, de velho Wedgewood, oiro e cr de fogo. Pobre -senhora! to delicada, e alli enterrada entre aquelles reps, maculando a -graa das suas mos nas coisas reles da mi Cruges! - ---E onde essa casa? perguntou Maria Eduarda. - ---Nos Olivaes, muito perto d'aqui, vai-se l n'uma hora de carruagem... - -Explicou-lhe detalhadamente o sitio,--acrescentando, com os olhos -n'ella, e com um sorriso inquieto: - ---Estou aqui a preparar lenha para me queimar!... Porque se fr para l -installar-se, e depois vier o calor, quem que a torna a vr? - -Ella pareceu surprehendida: - ---Mas que lhe custa, a si, que tem cavallos, que tem carruagens, que no -tem quasi nada que fazer?... - -Assim ella achava natural que elle continuasse nos Olivaes as suas -visitas de Lisboa! E pareceu-lhe logo impossivel renunciar ao encanto -d'esta intimidade, to largamente offerecida, e decerto mais dce na -solido d'alda. Quando acabou a sua chavena de ch--era como se a casa, -os moveis, as arvores fossem j seus, fossem j d'ella. E teve alli um -momento delicioso, descrevendo-lhe a quietao da quinta, a entrada por -uma rua d'acacias, e a belleza da sala de jantar com duas janellas -abrindo sobre o rio... - -Ella escutava-o, encantada: - ---Oh! isso era o meu sonho! Vou ficar agora toda alterada, cheia -d'esperanas... Quando poderei ter uma resposta? - -Carlos olhou o relogio. Era j tarde para ir aos Olivaes. Mas logo na -manh seguinte cedo, ia fallar com o dono da casa, seu amigo... - ---Quanto incommodo por minha causa! disse ella. Realmente! como lhe hei -de eu agradecer?... - -Calou-se; mas os seus bellos olhos ficaram um instante pousados nos de -Carlos, como esquecidos, e deixando fugir irresistivelmente um pouco do -segredo que ella retinha no seu corao. - -Elle murmurou: - ---Por mais que eu fizesse, ficaria bem pago de tudo se me olhasse outra -vez assim. - -Uma onda de sangue cobriu toda a face de Maria Eduarda. - ---No diga isso... - ---E que necessidade ha que eu lh'o diga? Pois no sabe perfeitamente que -a adoro, que a adoro, que a adoro! - -Ella ergueu-se bruscamente, elle tambem:--e assim ficaram, mudos, cheios -d'anciedade, trespassando-se com os olhos, como se se tivesse feito uma -grande alterao no Universo, e elles esperassem, suspensos, o desfecho -supremo dos seus destinos... E foi ella que fallou, a custo, quasi -desfallecida, estendendo para elle, como se o quizesse afastar, as mos -inquietas e tremulas: - ---Escute! Sabe bem o que eu sinto por si, mas escute... Antes que seja -tarde ha uma coisa que lhe quero dizer... - -Carlos via-a assim tremer, via-a toda pallida... E nem a escutra, nem a -comprehendera. Sentia apenas, n'um deslumbramento, que o amor comprimido -at ahi no seu corao irrompera por fim, triumphante, e embatendo no -corao d'ella, atravs do apparente marmore do seu peito, fizera de l -resaltar uma chamma igual... S via que ella tremia, s via que ella o -amava... E, com a gravidade forte d'um acto de posse, tomou-lhe -lentamente as mos, que ella lhe abandonou, submissa de repente, j sem -fora, e vencida. E beijava-lh'as ora uma ora outra, e as palmas, e os -dedos, devagar, murmurando apenas: - ---Meu amor! meu amor! meu amor! - -Maria Eduarda cahira pouco a pouco sobre a cadeira; e, sem retirar as -mos, erguendo para elle os olhos cheios de paixo, ennevoados de -lagrimas, balbuciou ainda, debilmente, n'uma derradeira supplicao: - ---Ha uma coisa que eu lhe queria dizer!... - -Carlos estava j ajoelhado aos seus ps. - ---Eu sei o que ! exclamou, ardentemente, junto do rosto d'ella, sem a -deixar fallar mais, certo de que adivinhra o seu pensamento. Escusa de -dizer, sei perfeitamente. o que eu tenho pensado tantas vezes! que -um amor como o nosso no pde viver nas condies em que vivem outros -amores vulgares... que desde que eu lhe digo que a amo, como se lhe -pedisse para ser minha esposa diante de Deus... - -Ella recuava o rosto, olhando-o angustiosamente, e como se no -comprehendesse. E Carlos continuava mais baixo, com as mos d'ella -presas, penetrando-a toda da emoo que o fazia tremer: - ---Sempre que pensava em si, era j com esta esperana d'uma existencia -toda nossa, longe d'aqui, longe de todos, tendo quebrado todos os laos -presentes, pondo a nossa paixo acima de todas as fices humanas, indo -ser felizes para algum canto do mundo, solitariamente e para sempre... -Levamos Rosa, est claro, sei que no se pde separar d'ella... E assim -viveriamos ss, todos tres, n'um encanto! - ---Meu Deus! Fugirmos? murmurou ella, assombrada. - -Carlos erguera-se. - ---E que podemos fazer? Que outra coisa podemos ns fazer, digna do nosso -amor? - -Maria no respondeu, immovel, a face erguida para elle, branca de cera. -E pouco a pouco uma ida parecia surgir n'ella, inesperada e -perturbadora, revolvendo todo o seu sr. Os seus olhos alargavam-se, -anciosos e refulgentes. - -Carlos ia fallar-lhe... Um leve rumor de passos na esteira da sala -deteve-o. Era o Domingos que vinha recolher a bandeja do ch: e durante -um momento, quasi interminavel, houve entre aquelles dois sres, -sacudidos por um ardente vendaval de paixo, a caseira passagem d'um -criado arrumando chavenas vazias. Maria Eduarda, bruscamente, -refugiou-se detraz das bambinellas de cretone com o rosto contra a -vidraa. Carlos foi sentar-se no sof, a folhear ao acaso uma -_Illustrao_, que lhe tremia nas mos. E no pensava em nada, nem sabia -onde estava... Ainda na vespera, havia ainda instantes, conversando com -ella, dizia ceremoniosamente minha cara senhora: depois houvera um -olhar; e agora deviam fugir ambos, e ella tornra-se o cuidado supremo -da sua vida, e a esposa secreta do seu corao. - ---V. exc.^a quer mais alguma coisa? perguntou o Domingos. - -Maria Eduarda respondeu sem se voltar: - ---No. - -O Domingos sahiu, a porta ficou cerrada. Ella ento atravessou a sala, -veio para Carlos, que a esperava no sof, com os braos estendidos. E -era como se obedecesse s ao impulso da sua ternura, calmadas j todas -as incertezas. Mas hesitou de novo diante d'aquella paixo, to prompta -a apoderar-se de todo o seu sr, e murmurou, quasi triste: - ---Mas conhece-me to pouco!... Conhece-me to pouco, para irmos assim -ambos, quebrando por tudo, crear um destino que irreparavel... - -Carlos tomou-lhe as mos, fazendo-a sentar ao seu lado, brandamente: - ---O bastante para a adorar acima de tudo, e sem querer mais nada na -vida! - -Um instante Maria Eduarda ficou pensativa, como recolhida no fundo do -seu corao, escutando-lhe as derradeiras agitaes. Depois soltou um -longo suspiro. - ---Pois seja assim! Seja assim... Havia uma coisa que eu lhe queria -dizer, mas no importa... melhor assim!... - -E que outra coisa podiam fazer? perguntava Carlos radiante. Era a unica -soluo digna, sria... E nada os podia embaraar; amavam-se, confiavam -absolutamente um no outro; elle era rico, o mundo era largo... - -E ella repetia, mais firme agora, j decidida, e como se aquella -resoluo a cada momento se cravasse mais fundo na sua alma, -penetrando-a toda e para sempre: - ---Pois seja assim! melhor assim! - -Um momento ficaram calados, olhando-se arrebatadamente. - ---Dize-me ao menos que s feliz, murmurou Carlos. - -Ella lanou-lhe os braos ao pescoo: e os seus labios uniram-se n'um -beijo profundo, infinito, quasi immaterial pelo seu extasi. Depois Maria -Eduarda descerrou lentamente as palpebras, e disse-lhe, muito baixo: - ---Adeus, deixa-me s, vai. - -Elle tomou o chapo, e sahiu. - - -No dia seguinte Craft, que havia uma semana no ia ao Ramalhete, -passeava na quinta antes d'almoo--quando appareceu Carlos. Apertaram as -mos, fallaram um instante do Ega, da chegada dos Cohens. Depois, -Carlos, fazendo um gesto largo que abrangia a quinta, a casa, todo o -horisonte, perguntou rindo: - ---Voc quer-me vender tudo isto, Craft? - -O outro respondeu, sem pestanejar, e com as mos nas algibeiras: - ---A la disposicion de ustd... - -E alli mesmo concluiram a negociao, passeando n'uma ruasinha de buxo -por entre os geranios em flr. - -Craft cedia a Carlos todos os seus moveis antigos e modernos por duas -mil e quinhentas libras, pagas em prestaes: s reservava algumas raras -peas do tempo de Luiz XV, que deviam fazer parte d'essa nova colleco -que planeava, homogenea, e toda do seculo XVIII. E como Carlos no tinha -no Ramalhete lugar para este vasto _bric--brac_, Craft alugava-lhe por -um anno a casa dos Olivaes, com a quinta. - -Depois foram almoar. Carlos nem por um momento pensou na larga despeza -que fazia, s para offerecer uma residencia de vero, por dois curtos -mezes--a quem se contentaria com um simples cottage, entre arvores de -quintal. Pelo contrario! quando repercorreu as salas do Craft, j com -olhos de dono, achou tudo mesquinho, pensou em obras, em retoques de -gosto. - -Com que alegria, ao deixar os Olivaes, correu rua de S. Francisco, a -annunciar a Maria Eduarda que lhe arranjra emfim definitivamente uma -linda casa no campo! Rosa, que da varanda o vira apear-se, veio ao seu -encontro ao patamar: elle ergueu-a nos braos, entrou assim na sala, com -ella ao collo, em triumpho. E no se conteve; foi pequena que deu logo -a grande novidade, annunciando-lhe que ia ter duas vaccas, e uma -cabra, e flres, e arvores para se balouar... - ---Onde ? Dize, onde ? exclamava Rosa, com os lindos olhos -resplandecentes, e a facesinha cheia de riso. - ---D'aqui muito longe... Vai-se n'uma carruagem... Vem-se passar os -barcos no rio... E entra-se por um grande porto onde ha um co de fila. - -Maria Eduarda appareceu, com _Niniche_ ao collo. - ---Mam, mam! gritou Rosa correndo para ella, dependurando-se-lhe do -vestido. Diz que vou ter duas cabrinhas, e um balouo... verdade? -Dize, deixa vr, onde ? Dize... E vamos j para l? - -Maria e Carlos apertaram a mo, com um longo olhar, sem uma palavra. E -logo junto da mesa, com Rosa encostada aos seus joelhos, Carlos contou a -sua ida aos Olivaes... O dono da casa estava prompto a alugar, j, n'uma -semana... E assim se achava ella de repente com uma vivenda pittoresca, -mobilada n'um bello estylo, deliciosamente saudavel... - -Maria Eduarda parecia surprehendida, quasi desconfiada. - ---Ha de ser necessario levar roupas de cama, roupas de mesa... - ---Mas ha tudo! exclamou Carlos alegremente, ha quasi tudo! tal qual -como n'um conto de fadas... As luzes esto accsas, as jarras esto -cheias de flres... s tomar uma carruagem e chegar. - ---Smente, necessario saber o que esse paraiso me vae custar... - -Carlos fez-se vermelho. No previra que se fallasse em dinheiro--e que -ella quereria decerto pagar a casa que habitasse... Ento preferiu -confessar-lhe tudo. Disse-lhe como o Craft, havia quasi um anno, andava -desejando desfazer-se das suas colleces, e alugar a quinta: o av e -elle tinham repetidamente pensado em adquirir grande parte dos moveis e -das faienas, para acabar de mobilar o Ramalhete, e ornamentar mais -Santa Olavia; e elle emfim decidira-se a fazer essa compra desde que -entrevira a felicidade de lhe poder offerecer, por alguns mezes de -vero, uma residencia to graciosa, e to confortavel... - ---Rosa, vai l para dentro, disse Maria Eduarda, depois de um momento de -silencio... Miss Sarah est tua espera. - -Depois, olhando para Carlos, muito sria: - ---De sorte que, se eu no mostrasse desejos de ir para o campo, no -tinha feito essa despeza... - ---Tinha feito a mesma despeza... Tinha tambem alugado a casa por seis -mezes ou por um anno... Onde possuia eu agora de repente um sitio para -metter as coisas do Craft? O que no fazia talvez era comprar -conjuntamente roupas de cama, roupas de mesa, mobilias dos quartos dos -criados, etc.... - -E acrescentou, rindo: - ---Ora se me quizer indemnisar d'isso podemos debater esse negocio... - -Ella baixou os olhos, reflectindo, lentamente. - ---Em todo o caso seu av e os seus amigos devem saber d'aqui a dias que -me vou installar n'essa casa... E devem comprehender que a comprou para -que eu l me installasse... - -Carlos procurou o seu olhar que permanecia pensativo, desviado d'elle. E -isto inquietou-o--o vl-a assim retrahir-se quella absoluta communho -d'interesses em que a queria envolver, como esposa do seu corao. - ---No approva ento o que fiz? Seja franca... - ---Decerto... Como no hei de eu approvar tudo quanto faz, tudo quanto -vem de si? Mas... - -Elle acudiu, apoderando-se das suas mos, sentindo-se triumphar: - ---No ha _mas_! O av e os meus amigos sabem que eu tenho uma casa no -campo, inutil por algum tempo, e que a aluguei a uma senhora. De resto, -se quizer, metteremos n'isto tudo o meu procurador... Minha cara amiga, -se fosse possivel que a nossa affeio se passasse fra do mundo, -distante de todos os olhares, ao abrigo de todas as suspeitas, seria -delicioso... Mas no pde ser!... Alguem tem de saber sempre alguma -coisa; quando no seja seno o cocheiro que me leva todos os dias a sua -casa, quando no seja seno o criado que me abre todos os dias a sua -porta... Ha sempre alguem que surprehende o encontro de dois olhares; ha -sempre alguem que adivinha d'onde se vem a certas horas... Os deuses -antigamente arranjavam essas coisas melhor, tinham uma nuvem que os -tornava invisiveis. Ns no somos deuses, felizmente... - -Ella sorriu. - ---Quantas palavras para converter uma convertida! - -E tudo ficou harmonisado n'um grande beijo. - - -Affonso da Maia approvou plenamente a compra das colleces do Craft. -um valor, disse elle ao Villaa, e acabamos d'encher com boa arte -Santa-Olavia e o Ramalhete. - -Mas o Ega indignou-se, chegou a fallar em desvario,--despeitado por -essa transaco secreta para que no fra consultado. O que o irritava -sobretudo era vr, n'esta acquisio inesperada de uma casa de campo, -outro symptoma do grave e do fundo segredo que presentia na vida de -Carlos: e havia j duas semanas que elle habitava o Ramalhete e Carlos -ainda no lhe fizera uma confidencia!... Desde a sua ligao de rapazes -em Coimbra, nos Paos de Cella, fra elle o confessor secular de Carlos: -mesmo em viagem, Carlos no tinha uma aventura banal d'hotel, de que no -mandasse ao Ega um relatorio. O romance com a Gouvarinho, de que -Carlos ao principio tentra, frouxamente, guardar um mysterio delicado, -j o conhecia todo, j lra as cartas da Gouvarinho, j passra pela -casa da titi... - -Mas do outro segredo no sabia nada--e considerava-se ultrajado. Via -todas as manhs Carlos partir para a rua de S. Francisco, levando -flres; via-o chegar de l, como elle dizia, besuntado d'extasi; -via-lhe os silencios repassados de felicidade, e esse indefinido ar, ao -mesmo tempo srio e ligeiro, risonho e superior, do homem profundamente -amado... E no sabia nada. - -Justamente alguns dias depois, estando ambos ss, a fallar de planos de -vero, Carlos alludiu aos Olivaes, com enthusiasmo, relembrando algumas -das preciosidades do Craft, o dce socego da casa, a clara vista do -Tejo... Aquillo realmente fra obter por uma mo cheia de libras um -pedao do paraiso... - -Era noite, no quarto de Carlos, j tarde. E o Ega, que passeava com as -mos nas algibeiras do robe-de-chambre, encolheu os hombros, impaciente, -farto d'aquelles louvores eternos casinhola do Craft. - ---Essa concepo do paraiso, exclamou elle, parece-me d'um estofador da -rua Augusta! Como natureza, couves gallegas; como decorao, os velhos -cretones do gabinete, desbotados j por tres barrelas... Um quarto de -dormir lugubre como uma capella de santuario... Um salo confuso como o -armazem d'um cara-de-pau, e onde no possivel conversar... A no ser o -armario hollandez, e um ou outro prato, tudo aquillo um lixo -archeologico... Jesus! o que eu odeio _bric--brac_! - -Carlos, no fundo da sua poltrona, disse tranquillamente, e como -reflectindo: - ---Com effeito esses cretones so medonhos... Mas eu vou mandar -remobilar, tornar aquillo mais habitavel. - -Ega estacou no meio do quarto, com o monoculo a faiscar sobre Carlos. - ---Habitavel? Vaes ter hospedes? - ---Vou alugar. - ---Vaes alugar! A quem? - -E o silencio de Carlos, que soprava o fumo da cigarrette com os olhos no -tecto, enfureceu Ega. Comprimentou quasi at ao cho, disse -sarcasticamente: - ---Peo perdo. A pergunta foi brutal. Tive agora o ar de querer arrombar -uma gaveta fechada... O aluguel d'um predio sempre um d'esses -delicados segredos de sentimento e de honra em que no deve roar nem a -aza da imaginao... Fui rude... Irra! Fui bestialmente rude! - -Carlos continuava calado. Comprehendia bem o Ega--e quasi sentia um -remorso d'aquella sua rigida reserva. Mas era como um pudor que o -enleava, lhe impedia de pronunciar sequer o nome de Maria Eduarda. Todas -as suas outras aventuras as contra ao Ega; e essas confidencias -constituiam talvez mesmo o prazer mais solido que ellas lhe davam. Isto, -porm, no era uma aventura. Ao seu amor misturava-se alguma coisa de -religioso; e, como os verdadeiros devotos, repugnava-lhe conversar sobre -a sua f... Todavia, ao mesmo tempo, sentia uma tentao de fallar -d'_ella_ ao Ega, e de tornar vivas, e como visiveis aos seus proprios -olhos, dando-lhes o contorno das palavras e o seu relevo, as coisas -divinas e confusas que lhe enchiam o corao. Alm d'isso, Ega no -saberia tudo, mais tarde ou mais cedo, pela tagarellice alheia? Antes -lh'o dissesse elle, fraternalmente. Mas hesitou ainda, accendeu outra -cigarrette. Justamente o Ega tomra o seu castial, e comeava a -accendel-o a uma serpentina, devagar e com um ar amuado. - ---No sejas tolo, no te vs deitar, senta-te ahi, disse Carlos. - -E contou-lhe tudo miudamente, diffusamente, desde o primeiro encontro, -entrada do Hotel Central, no dia do jantar ao Cohen. - -Ega escutava-o, sem uma palavra, enterrado no fundo do sof. Suppuzera -um romancesinho, d'esses que nascem e morrem entre um beijo e um bocejo: -e agora, s pelo modo como Carlos fallava d'aquelle grande amor, elle -sentia-o profundo, absorvente, eterno, e para bem ou para mal -tornando-se d'ahi por diante, e para sempre, o seu irreparavel destino. -Imaginra uma brazileira polida por Paris, bonita e futil, que tendo o -marido longe, no Brazil, e um formoso rapaz ao lado, no sof, obedecia -simplesmente e alegremente disposio das coisas: e sahia-lhe uma -creatura cheia de caracter, cheia de paixo, capaz de sacrificios, capaz -de heroismos. Como sempre, diante d'estas coisas patheticas, -murchava-lhe a veia, faltava-lhe a phrase; e quando Carlos se calou, o -bom Ega teve esta pergunta chcha: - ---Ento ests decidido a safar-te com ella? - ---A _safar-me_, no; a ir viver com ella longe d'aqui, decididissimo! - -Ega ficou um momento a olhar para Carlos como para um phenomeno -prodigioso, e murmurou: - --- d'arromba! - -Mas que outra coisa podiam elles fazer? D'ahi a tres mezes talvez, -Castro Gomes chegava do Brazil. Ora nem Carlos, nem ella, aceitariam -nunca uma d'essas situaes atrozes e reles em que a mulher do amante -e do marido, a horas diversas... S lhes restava uma soluo digna, -decente, sria--fugir. - -Ega, depois de um silencio, disse pensativamente: - ---Para o marido que no talvez divertido perder assim, de uma vez, a -mulher, a filha, e a cadellinha... - -Carlos ergueu-se, deu alguns passos pelo quarto. Sim, tambem elle j -pensra n'isso... E no sentia remorsos--mesmo quando os podesse haver -no absoluto egoismo da paixo... Elle no conhecia intimamente Castro -Gomes: mas tinha podido adivinhar o typo, reconstruil-o, pelo que lhe -dissera o Damaso, e por algumas conversas com miss Sarah. Castro Gomes -no era um esposo a srio: era um dandy, um futil, um _gommeux_, um -homem de sport e de cocottes... Casra com uma mulher bella, sacira a -paixo, e recomera a sua vida de club e de bastidores... Bastava olhar -para elle, para a sua toilette, para os seus modos--e comprehendia-se -logo a trivialidade d'aquelle caracter... - ---Que tal , como homem? perguntou Ega. - ---Um brazileirito trigueiro, com um ar espartilhado... Um -_rastaquoure_, o verdadeiro typosinho do _Caf de la Paix_... -possivel que sinta, quando isto vier a succeder, um certo ardor na -vaidade ferida... Mas um corao que se ha de consolar facilmente nas -_Folies Bergres_. - -Ega no dizia nada. Mas pensava que um homem de club, e mesmo consolavel -nas _Folies Bergres_, pde no se importar muito com sua mulher, mas -pde todavia amar muito sua filha... Depois, atravessado por uma outra -ida, acrescentou: - ---E teu av? - -Carlos encolheu os hombros: - ---O av tem de se affligir um pouco para eu poder ser profundamente -feliz; como eu teria de ser desgraado toda a minha vida se quizesse -poupar ao av essa contrariedade... O mundo assim, Ega... E eu, n'esse -ponto, no estou decidido a fazer sacrificios. - -Ega esfregou lentamente as mos, com os olhos no cho, repetindo a mesma -palavra, a unica que lhe suggeria todo o seu espirito perante aquellas -coisas vehementes: - --- d'arromba! - - - - -III - - -Carlos, que almora cedo, estava para sahir no coup, e j de -chapo--quando Baptista veio dizer que o snr. Ega, desejando fallar-lhe -n'uma coisa grave, lhe pedia para esperar um instante. O snr. Ega ficra -a fazer a barba. - -Carlos pensou logo que se tratava da Cohen. Havia duas semanas que ella -chegra a Lisboa, Ega ainda a no vira, e fallava d'ella raramente. Mas -Carlos sentia-o nervoso e desassocegado. Todas as manhs o pobre Ega -mostrava um desapontamento ao receber o correio, que s lhe trazia algum -jornal cintado, ou cartas de Celorico. noite percorria dois, tres -theatros, j quasi vazios n'aquelle comeo de vero; e ao recolher era -outra desconsolao, quando os criados lhe affirmavam, com certeza, que -no viera carta alguma para s. exc.^a Decerto Ega no se resignava a -perder Rachel, anciava por a encontrar; e roa-o o despeito de que ella, -de qualquer modo, lhe no tivesse mostrado que no seu corao permanecia -ao menos a saudade das antigas felicidades... Justamente na vespera Ega -apparecera hora do jantar, transtornado: cruzra-se com o Cohen na rua -do Ouro, e parecera-lhe que esse canalha lhe atirra de lado um olhar -atrevido, sacudindo a bengala; o Ega jurava que se esse canalha -ousasse outra vez fital-o, espedaava-o, sem piedade, publicamente, a -uma esquina da Baixa. - -Na ante-camara o relogio bateu dez horas, Carlos impaciente ia a subir -ao quarto do Ega. Mas n'esse instante o correio chegava, com a _Revista -dos Dois Mundos_, e uma carta para Carlos. Era da Gouvarinho. Carlos -acabava de a lr--quando o Ega appareceu, de jaqueto, e em chinelas. - ---Tenho a fallar-te n'uma coisa grave, menino. - ---L isto primeiro, disse o outro, passando-lhe a carta da Gouvarinho. - -A Gouvarinho, n'um tom amargo, queixava-se que, j por duas vezes, -Carlos faltra ao _rendez-vous_ em casa da titi, sem lhe ter sequer -escripto uma palavra; ella vira n'isto uma offensa, uma brutalidade; e -vinha agora intimal-o, em nome de todos os sacrificios que por elle -fizera, a que apparecesse na rua de S. Maral, domingo ao meio dia, -para terem uma explicao definitiva antes d'ella partir para Cintra. - ---Excellente occasio d'acabar! exclamou Ega, entregando a carta a -Carlos, depois de respirar o perfume do papel. No vs, nem respondas... -Ella parte para Cintra, tu para Santa Olavia, no vos vdes mais, e -assim finda o romance. Finda como todas as coisas grandes, como o -Imperio Romano, e como o Rheno, por disperso, insensivelmente... - --- o que eu vou fazer, disse Carlos, comeando a calar as luvas. -Jesus! Que mulher massadora! - ---E que desavergonhada! Chamar a essas coisas sacrificios!... -Arrasta-te duas vezes por semana a casa da titi, regala-se l de -extravagancias, bebe champagne, fuma cigarrettes, sobe ao setimo co, -delira, e depois pe dolorosamente os olhos no cho, e chama a isso -sacrificios... S com um chicote!... - -Carlos encolheu os hombros, com resignao, como se nas condessas de -Gouvarinho, e no mundo, s houvesse incoherencia e dlo. - ---E que isso que tu me tinhas a dizer? - -Ega ento tomou um ar grave. Escolheu lentamente na caixa uma -cigarrette, abotoou devagar o jaqueto. - ---Tu no tens visto o Damaso? - ---Nunca mais me appareceu, disse Carlos. Creio que est amuado... Eu -sempre que o encontro, aceno-lhe de longe amigavelmente com dois -dedos... - ---Devia ser antes com a bengala. O Damaso anda ahi, por toda a parte, -fallando de ti e d'essa senhora, tua amiga... A ti chama-te _pulha_, a -ella peor ainda. a velha historia; diz que te apresentou, que te -metteste de dentro, e como para essa senhora uma questo de dinheiro, -e tu s o mais rico, ella lhe passou o p... Vs d'ahi a infamiasinha. E -isto tagarellado pelo Gremio, pela Casa Havaneza, com detalhes torpes, -envolvendo sempre a questo de dinheiro. Tudo isto atroz. Trata de lhe -pr cobro. - -Carlos, muito pallido, disse simplesmente: - ---Ha de se fazer justia. - -Desceu, indignado. Aquella torpe insinuao sobre dinheiro parecia-lhe -poder ser castigada s com a morte. E um instante mesmo, com a mo no -fecho da portinhola do coup, pensou em correr a casa do Damaso, tomar -um desforo brutal. - -Mas eram quasi onze horas, e elle tinha d'ir aos Olivaes. No dia -seguinte, sabbado, dia bello entre todos e solemne para o seu corao, -Maria Eduarda devia emfim visitar a quinta do Craft: e ficra combinado, -na vespera, que passariam l as horas do calor, at tarde, ss, -n'aquella casa solitaria e sem criados, escondida entre as arvores. Elle -pedira-lh'o assim, hesitante e a tremer: ella consentira logo, sorrindo -e naturalmente. N'essa manh elle mandra aos Olivaes dois criados para -arejar as salas, espanejar, encher tudo de flres. Agora ia l, como um -devoto, vr se estava bem enfeitado o sacrario da sua deusa... E era -atravs d'estes deliciosos cuidados, em plena ventura, que lhe apparecia -outra vez, suja e empanando o brilho do seu amor, a tagarellice do -Damaso! - -At aos Olivaes, no cessou de ruminar coisas vagas e violentas que -faria para aniquilar o Damaso. No seu amor no haveria paz, emquanto -aquelle villo o andasse commentando sordidamente pelas esquinas das -ruas. Era necessario enxovalhal-o de tal modo, com tal publicidade, que -elle no ousasse mais mostrar em Lisboa a face bochechuda, a face vil... -Quando o coup parou porta da quinta, Carlos decidira dar bengaladas -no Damaso, uma tarde, no Chiado, com apparato... - -Mas depois, ao regressar da quinta, vinha j mais calmo. Pisra a linda -rua d'acacias que os ps d'ella pisariam na manh seguinte: dera um -longo olhar ao leito que seria o leito d'ella, rico, alado sobre um -estrado, envolto em cortinados de brocatel cr d'ouro, com um esplendor -srio d'altar profano... D'ahi a poucas horas, encontrar-se-hiam ss -n'aquella casa muda e ignorada do mundo; depois, todo o vero os seus -amores viveriam escondidos n'esse fresco retiro d'alda; e d'ahi a tres -mezes estariam longe, na Italia, beira d'um claro lago, entre as -flres d'Isola Bella... No meio d'estas voluptuosidades magnificas, que -lhe podia importar o Damaso, gorducho e reles, palrando em calo nos -bilhares do Gremio! Quando chegou rua de S. Francisco resolvera, se -visse o Damaso, continuar a acenar-lhe, de leve, com a ponta dos dedos. - -Maria Eduarda fra passear a Belem com Rosa deixando-lhe um bilhete, em -que lhe pedia para vir noite _faire un bout de causerie_. Carlos -desceu as escadas, devagar, guardando esse bocadinho de papel na -carteira como uma dce reliquia; e sahia o porto, no momento em que o -Alencar desembocava defronte, da travessa da Parreirinha, todo de preto, -moroso e pensativo. Ao avistar Carlos, parou de braos abertos; depois -vivamente, como recordando-se, ergueu os olhos para o primeiro andar. - -No se tinham visto desde as corridas, o poeta abraou com effuso o seu -Carlos. E fallou logo de si, copiosamente. Estivera outra vez em Cintra, -em Collares com o seu velho Carvalhosa: e o que se lembrra do rico dia -passado com Carlos e com o maestro em Sitiaes!... Cintra uma belleza. -Elle, um pouco constipado. E apesar da companhia do Carvalhosa, to -erudito e to profundo, apesar da excellente musica da mulher, da -Julinha (que para elle era como uma irm), tinha-se aborrecido. Questo -de velhice... - ---Com effeito, disse Carlos, pareces-me um pouco murcho... Falta-te o -teu ar aureolado. - -O poeta encolheu os hombros. - ---O Evangelho l o diz bem claro... Ou a Biblia que o diz...? No; -S. Paulo... S. Paulo ou Santo Agostinho?... Emfim a authoridade no faz -ao caso. N'um d'esses santos livros se affirma que este mundo um valle -de lagrimas... - ---Em que a gente se ri bastante, disse Carlos alegremente. - -O poeta tornou a encolher os hombros. Lagrimas ou risos, que -importava?... Tudo era sentir, tudo era viver! Ainda na vespera elle -dissera isso mesmo em casa dos Cohens... - -E de repente, estacando no meio da rua, tocando no brao de Carlos: - ---E agora por fallar nos Cohens, dize-me uma coisa com franqueza, meu -rapaz. Eu sei que tu s intimo do Ega, e, que diabo, ninguem lhe admira -mais o talento do que eu!... Mas, realmente, tu approvas que elle, -apenas soube da chegada dos Cohens, se viesse metter em Lisboa? Depois -do que houve!... - -Carlos afianou ao poeta que o Ega s no dia mesmo da chegada, horas -depois, soubera pela _Gazeta Illustrada_ a vinda dos Cohens... E de -resto se no podessem habitar, conjuntas na mesma cidade, as pessoas -entre as quaes tivesse havido attritos desagradaveis, as sociedades -humanas tinham de se desfazer... - -Alencar no respondeu, caminhando ao lado de Carlos, com a cabea baixa. -Depois parou de novo, franzindo a testa: - ---Outra coisa em que te quero fallar. Houve entre ti e o Damaso alguma -pga? Eu pergunto-te isto porque n'outro dia, l em casa dos Cohens, -elle veio com uns ditos, umas insinuaes... Eu declarei-lhe logo: -Damaso, Carlos da Maia, filho de Pedro da Maia, como se fosse meu -irmo. E o Damaso calou-se... Calou-se, porque me conhece, e sabe que -eu n'estas coisas de lealdade e de corao sou uma fera! - -Carlos disse simplesmente: - ---No, no ha nada, no sei nada... Nem sequer tenho visto o Damaso. - ---Pois verdade, continuou Alencar tomando o brao de Carlos, -lembrei-me muito de ti em Cintra. At fiz l um coisita que me no sahiu -m, e que te dediquei... Um simples soneto, uma paizagem, um quadrosinho -de Cintra ao pr do sol. Quiz provar ahi a esses da Ida Nova, que, -sendo necessario, tambem por c se sabe cinzelar o verso moderno e dar o -trao realista. Ora espera ahi, eu te digo, se me lembrar. A coisa -chama-se--_Na estrada dos Capuchos_... - -Tinham parado esquina do Seixas; e o poeta tossira j de leve, antes -de recitar,--quando justamente lhes appareceu o Ega, vindo de baixo, -vestido de campo, com uma bella rosa branca no jaqueto de flanella -azul. - -Alencar e elle no se encontravam desde a fatal soire dos Cohens. E ao -passo que o Ega conservava um resentimento feroz contra o poeta vendo -n'elle o inventor d'essa perfida lenda da carta obscena--Alencar -odiava-o pela certeza secreta de que elle fra o amante amado da sua -divina Rachel. Ambos se fizeram pallidos; o aperto de mo que deram foi -incerto e regelado; e ficaram calados, todos tres, emquanto Ega nervoso -levava uma eternidade a accender o charuto no lume de Carlos. Mas foi -elle que fallou, por entre uma fumaa, affectando uma superioridade -amavel: - ---Acho-te com boa cr, Alencar! - -O poeta foi amavel tambem, um pouco d'alto, passando os dedos no bigode: - ---Vai-se andando. E tu que fazes? Quando nos ds essas _Memorias_, -homem? - ---Estou espera que o paiz aprenda a lr. - ---Tens que esperar! Pede ao teu amigo Gouvarinho que apresse isso, elle -occupa-se da Instruco publica... Olha, alli o tens tu, grave e co -como uma columna do _Diario do Governo_... - -O poeta apontava com a bengala para o outro lado da rua, por onde o -Gouvarinho descia, muito devagar, a conversar com o Cohen; e ao lado -d'elles, de chapo branco, de collete branco, o Damaso deitava olhares -pelo Chiado, risonho, ovante, barrigudo, como um conquistador nos seus -dominios. J aquelle arzinho gordo de tranquillo triumpho irritou -Carlos. Mas quando o Damaso parou defronte, no outro passeio, todo de -costas para elle, ostentando rir alto com o Gouvarinho, no se conteve, -atravessou a rua. - -Foi breve, e foi cruel: sacudiu a mo do Gouvarinho, saudou de leve o -Cohen: e sem baixar a voz, disse ao Damaso friamente: - ---Ouve l. Se continas a fallar de mim e de pessoas das minhas -relaes, do modo como tens fallado, e que no me convm, arranco-te as -orelhas. - -O conde acudiu, mettendo-se entre elles: - ---Maia, por quem ! Aqui no Chiado... - ---No nada, Gouvarinho, disse Carlos detendo-o, muito srio e muito -sereno. apenas um aviso a este imbecil. - ---Eu no quero questes, eu no quero questes!... balbuciou o Damaso, -livido, enfiando para dentro d'uma tabacaria. - -E Carlos voltou, com socego, para junto dos seus amigos, depois de ter -saudado o Cohen e sacudir a mo ao Gouvarinho. - -Vinha apenas um pouco pallido: mais perturbado estava o Ega, que julgra -vr de novo, n'um olhar do Cohen, uma provocao intoleravel. S o -Alencar no reparra em nada: continuava a discursar sobre coisas -litterarias, explicando ao Ega as concesses que se podiam fazer ao -naturalismo... - ---Fiquei aqui a dizer ao Ega... evidente que quando se trata de -paizagem necessario copiar a realidade... No se pode descrever um -castanheiro _a priori_, como se descreveria uma alma... E l isso fao -eu... Ahi est esse soneto de Cintra que eu te dediquei, Carlos. -realista, est claro que realista... Pudra, se paizagem! Ora eu -vol-o digo... Ia justamente dizel-o, quando tu appareceste, Ega... Mas -vejam l vocs se isto os massa... - -Qual massava! E at, para o escutarem melhor, penetraram na rua de S. -Francisco, mais silenciosa. Ahi, dando um passo lento, depois outro, o -poeta murmurou a sua ecloga. Era em Cintra, ao pr do sol: uma ingleza, -de cabellos soltos, toda de branco, desce n'um burrinho por uma vereda -que domina um valle; as aves cantam de leve, ha borboletas em torno das -madresilvas; ento a ingleza pra, deixa o burrinho, olha enlevada o -co, os arvoredos, a paz das casas;--e ahi, no ultimo terceto, vinha a -nota realista de que se ufanava o Alencar: - - - Ella olha a flr dormente, a nuvem casta, - Emquanto o fumo dos casaes se eleva - E ao lado o burro, pensativo, pasta. - - ---Ahi tm vocs o trao, a nota naturalista... _Ao lado o burro, -pensativo, pasta_... Eis ahi a realidade, est-se a vr o burro -pensativo... No ha nada mais pensativo que um burro... E so estas -pequeninas coisas da natureza que necessario observar... J vem vocs -que se pde fazer realismo, e do bom, sem vir logo com obscenidades... -Vocs que lhes parece o sonetito? - -Ambos o elogiaram profundamente--Carlos arrependido de no ter -completado a humilhao do Damaso, dando-lhe bengaladas; Ega pensando -que decerto, n'uma d'essas tardes, no Chiado, teria de esbofetear o -Cohen. Como elles recolhiam ao Ramalhete, Alencar, j desanuviado, foi -acompanhal-os pelo Aterro. E fallou sempre, contando o plano de um -romance historico, em que elle queria pintar a grande figura d'Affonso -d'Albuquerque, mas por um lado mais humano, mais intimo: Affonso -d'Albuquerque namorado: Affonso d'Albuquerque, s, de noite, na ppa do -seu galeo, diante d'Ormuz incendiada, beijando uma flr secca, entre -soluos. Alencar achava isto sublime. - -Depois de jantar, Carlos vestia-se para ir rua de S. Francisco--quando -o Baptista veio dizer que o snr. Telles da Gama lhe desejava fallar com -urgencia. No o querendo receber, alli, em mangas de camisa, mandou-o -entrar para o gabinete escarlate e preto. E veio d'ahi a um instante -encontrar Telles da Gama admirando as bellas faianas hollandezas. - ---Voc, Maia, tem isto lindissimo, exclamou elle logo. Eu pello-me por -porcelanas... Hei de voltar um dia d'estes, com mais vagar, vr tudo -isto, de dia... Mas hoje venho com pressa, venho com uma misso... Voc -no adivinha? - -Carlos no adivinhava. - -E o outro, recuando um passo, com uma gravidade em que transparecia um -sorriso: - ---Eu venho aqui perguntar-lhe da parte do Damaso, se voc hoje, -n'aquillo que lhe disse, tinha teno de o offender. s isto... A -minha misso apenas esta: perguntar-lhe se voc tinha inteno de o -offender. - -Carlos olhou-o, muito srio: - ---O qu!? Se tinha inteno de offender o Damaso quando o ameacei de lhe -arrancar as orelhas? De modo nenhum: tinha s inteno de lhe arrancar -as orelhas! - -Telles da Gama saudou, rasgadamente: - ---Foi isso mesmo o que eu respondi ao Damaso: que voc no tinha seno -essa inteno. Em todo o caso, desde este momento, a minha misso est -finda... Como voc tem isto bonito!... O que aquelle prato grande, -majolica? - ---No, um velho Nevers. Veja voc ao p... Thetis conduzindo as armas -d'Achilles... esplendido; e muito raro... Veja voc esse Deft, com -as duas tulipas amarellas... um encanto! - -Telles da Gama dava um olhar lento a todas estas preciosidades, tomando -o chapo de sobre o sof. - ---Lindissimo tudo isto!... Ento s inteno de lhe arrancar as orelhas? -nenhuma de o offender?... - ---Nenhuma de o offender, toda de lhe arrancar as orelhas... Fume voc um -charuto. - ---No, obrigado... - ---Calice de cognac? - ---No! absteno total de bebidas e aguas ardentes... Pois adeus, meu -bom Maia! - ---Adeus, meu bom Telles... - - -Ao outro dia, por uma radiante manh de julho, Carlos saltava do coup, -com um mlho de chaves, diante do porto da quinta do Craft. Maria -Eduarda devia chegar s dez horas, s, na sua carruagem da Companhia. O -hortelo, dispensado por dois dias, fra a Villa Franca; no havia ainda -criados na casa; as janellas estavam fechadas. E pesava alli, envolvendo -a estrada e a vivenda, um d'esses altos e graves silencios d'alda, em -que se sente, dormente no ar, o zumbir dos moscardos. - -Logo depois do porto, penetrava-se n'uma fresca rua d'acacias, onde -cheirava bem. A um lado, por entre a ramagem, apparecia o kiosque, com -tecto de madeira, pintado de vermelho, que fra o capricho de Craft, e -que elle mobilra japoneza. E ao fundo era a casa, caiada de novo, com -janellas de peitoril, persianas verdes, e a portinha ao centro sobre -tres degraus, flanqueados por vasos de loua azul cheios de cravos. - -S o metter a chave devagar e com uma inutil cautela na fechadura -d'aquella morada discreta foi para Carlos um prazer. Abriu as janellas: -e a larga luz que entrava pareceu-lhe trazer uma doura rara, e uma -alegria maior que a dos outros dias, como preparada especialmente pelo -bom Deus para alumiar a festa do seu corao. Correu logo sala de -jantar, a verificar se, na mesa posta para o _lunch_, se conservavam -ainda viosas as flres que l deixra na vespera. Depois voltou ao -coup a tirar o caixote de gelo, que trouxera de Lisboa, embrulhado em -flanella, entre serradura. Na estrada, silenciosa por ora, ia s -passando uma saloia montada na sua egua. - -Mas apenas accommodra o gelo--sentiu fra o ruido lento da carruagem. -Veio para o gabinete forrado de cretones, que abria sobre o corredor; e -ficou alli, espreitando da porta, mas escondido, por causa do cocheiro -da Companhia. D'ahi a um instante viu-a emfim chegar, pela rua de -acacias, alta e bella, vestida de preto, e com um meio-vo espesso como -uma mascara. Os seus psinhos subiram os tres degraus de pedra. Elle -sentiu a sua voz inquieta perguntar de leve: - ---_tes-vous l?_ - -Appareceu--e ficaram um instante, porta do gabinete, apertando -sofregamente as mos, sem fallar, commovidos, deslumbrados. - ---Que linda manh! disse ella por fim, rindo e toda vermelha. - ---Linda manh, linda! repetia Carlos, contemplando-a, enlevado. - -Maria Eduarda resvalra sobre uma cadeira, junto da porta, n'um cansao -delicioso, deixando calmar o alvoroo do seu corao. - --- muito confortavel, encantador tudo isto, dizia ella olhando -lentamente em redor os cretones do gabinete, o divan turco coberto com -um tapete de Brousse, a estante envidraada cheia de livros. Vou ficar -aqui adoravelmente... - ---Mas ainda nem lhe agradeci o ter vindo, murmurou Carlos, esquecido, a -olhar para ella. Ainda nem lhe beijei a mo... - -Maria Eduarda comeou a tirar o vo, depois as luvas, fallando da -estrada. Achra-a longa, fatigante. Mas que lhe importava? Apenas se -accommodasse n'aquelle fresco ninho nunca mais voltava a Lisboa! - -Atirou o chapo para cima do divan--ergueu-se, toda alegre e luminosa. - ---Vamos vr a casa, estou morta por vr essas maravilhas do seu amigo -Craft!... Craft que se chama? _Craft_ quer dizer industria! - ---Mas ainda nem sequer lhe beijei a mo! tornou Carlos, sorrindo e -supplicante. - -Ella estendeu-lhe os labios, e ficou presa nos seus braos. - -E Carlos, beijando-lhe devagar os olhos, o cabello, dizia-lhe quanto era -feliz e quanto a sentia agora mais sua entre estes velhos muros de -quinta que a separavam do resto do mundo... - -Ella deixava-se beijar, sria e grave: - ---E verdade isso? realmente verdade?... - -Se era verdade! Carlos teve um suspiro quasi triste: - ---Que lhe hei de eu responder? Tenho de lhe repetir essa coisa antiga -que j Hamlet disse: que duvide de tudo, que duvide do sol, mas que no -duvide de mim... - -Maria Eduarda desprendeu-se, lentamente e perturbada. - ---Vamos vr a casa, disse ella. - -Comearam pelo segundo andar. A escada era escura e feia: mas os quartos -em cima, alegres, esteirados de novo, forrados de papeis claros, abriam -sobre o rio e sobre os campos. - ---Os seus aposentos, disse Carlos, ho de ser em baixo, est visto, -entre as coisas ricas... Mas Rosa e miss Sarah ficam aqui -esplendidamente. No lhe parece? - -E ella percorria os quartos, devagar, examinando a accommodao dos -armarios, palpando a elasticidade dos colxes, attenta, cuidadosa, toda -no desvelo de alojar bem a sua gente. Por vezes mesmo exigia uma -alterao. E era realmente como se aquelle homem que a seguia, -enternecido e radiante, fosse apenas um velho senhorio. - ---O quarto com as duas janellas, ao fundo do corredor, seria o melhor -para Rosa. Mas a pequena no pde dormir n'aquelle enorme leito de pau -preto... - ---Muda-se! - ---Sim, pde mudar-se... E falta uma sala larga para ella brincar, s -horas do calor... Se no houvesse o tabique entre os dois quartos -pequenos... - ---Deita-se abaixo! - -Elle esfregava as mos, encantado, prompto a refundir toda a casa; e -ella no recusava nada, para conforto mais perfeito dos seus. - -Desceram sala de jantar. E ahi, diante da famosa chamin de carvalho -lavrado, flanqueada maneira de cariatides pelas duas negras figuras de -Nubios, com olhos rutilantes de crystal, Maria Eduarda comeou a achar o -gosto do Craft excentrico, quasi exotico... Tambem Carlos no lhe dizia -que Craft tivesse o gosto correcto d'um atheniense. Era um saxonio -batido d'um raio de sol meridional: mas havia muito talento na sua -excentricidade... - ---Oh, a vista que deliciosa! exclamou ella chegando-se janella. - -Junto do peitoril crescia um p de margaridas, e ao lado outro de -baunilha que perfumava o ar. Adiante estendia-se um tapete de relva, mal -aparada, um pouco amarellada j pelo calor de julho; e entre duas -grandes arvores que lhe faziam sombra, havia alli, para os vagares da -ssta, um largo banco de cortia. Um renque de arbustos cerrados parecia -fechar a quinta d'aquelle lado como uma sebe. Depois a collina descia, -com outras quintarolas, casas que se no viam, e uma chamin de fabrica; -e l no fundo o rio rebrilhava, vidrado de azul, mudo e cheio de sol, -at s montanhas d'alm-Tejo, azuladas tambem na faiscao clara do co -de vero. - ---Isto encantador! repetia ella. - --- um paraiso! Pois no lhe dizia eu? necessario pr um nome a esta -casa... Como se ha de chamar? _Villa-Marie?_ No. _Chteau-Rose_... -Tambem no, crdo! Parece o nome d'um vinho. O melhor baptisal-a -definitivamente com o nome que ns lhe davamos. Ns chamavamos-lhe a -_Tca_. - -Maria Eduarda achou originalissimo o nome de _Tca_. Devia-se at pintar -em letras vermelhas sobre o porto. - ---Justamente, e com uma divisa de bicho, disse Carlos rindo. Uma divisa -de bicho egoista na sua felicidade e no seu buraco: _No me mexam!_ - -Mas ella parra, com um lindo riso de surpreza, diante da mesa posta, -cheia de fruta, com as duas cadeiras j chegadas, e os crystaes -brilhando entre as flres. - ---So as bodas de Cann! - -Os olhos de Carlos resplandeceram. - ---So as nossas! - -Maria Eduarda fez-se muito vermelha; e baixou o rosto a escolher um -morango, depois a escolher uma rosa. - ---Quer uma gota de champagne? exclamou Carlos. Com um pouco de gelo? Ns -temos gelo, temos tudo! No nos falta nada, nem a beno de Deus... Uma -gotinha de champagne, v! - -Ella aceitou: beberam pelo mesmo copo; outra vez os seus labios se -encontraram, apaixonadamente. - -Carlos accendeu uma cigarrette, continuaram a percorrer a casa. A -cozinha agradou-lhe muito, arranjada ingleza, toda em azulejos. No -corredor Maria Eduarda demorou-se diante de uma panoplia de tourada, com -uma cabea negra de touro, espadas e garrochas, mantos de sda vermelha, -conservando nas suas pregas uma graa ligeira, e ao lado o cartaz -amarello _de la corrida_, com o nome de Lagartijo. Isto encantou-a como -um quente lampejo de festa e de sol peninsular... - -Mas depois o quarto que devia ser o seu, quando Carlos lh'o foi mostrar, -desagradou-lhe com o seu luxo estridente e sensual. Era uma alcova, -recebendo a claridade d'uma sala forrada de tapearias, onde desmaiavam -na trama de l os amores de Venus e Marte: da porta de communicao, -arredondada em arco de capella, pendia uma pesada lampada da Renascena, -de ferro forjado: e, quella hora, batida por uma larga facha de sol, a -alcova resplandecia como o interior de um tabernaculo profanado, -convertido em retiro lascivo de serralho... Era toda forrada, paredes e -tectos, de um brocado amarello, cr de boto d'ouro; um tapete de -velludo do mesmo tom rico fazia um pavimento d'ouro vivo sobre que -poderiam correr ns os ps ardentes d'uma deusa amorosa--e o leito de -docel, alado sobre um estrado, coberto com uma colcha de setim amarello -bordada a flres d'ouro, envolto em solemnes cortinas tambem amarellas -de velho brocatel,--enchia a alcova, esplendido e severo, e como erguido -para as voluptuosidades grandiosas de uma paixo tragica do tempo de -Lucrecia ou de Romeu. E era alli que o bom Craft, com um leno de sda -da India amarrado na cabea, resonava as suas sete horas, pacata e -solitariamente. - -Mas Maria Eduarda no gostou d'estes amarellos excessivos. Depois -impressionou-se, ao reparar n'um painel antigo, defumado, resaltando em -negro do fundo de todo aquelle ouro--onde apenas se distinguia uma -cabea degolada, livida, gelada no seu sangue, dentro d'um prato de -cobre. E para maior excentricidade, a um canto, de cima de uma columna -de carvalho, uma enorme coruja empalhada fixava no leito d'amor, com um -ar de meditao sinistra, os seus dois olhos redondos e agourentos... -Maria Eduarda achava impossivel ter alli sonhos suaves. - -Carlos agarrou logo na columna e no mocho, atirou-os para um canto do -corredor; e propoz-lhe mudar aquelles brocados, forrar a alcova de um -setim cr de rosa e risonho. - ---No, venho-me a acostumar a todos esses ouros... Smente aquelle -quadro, com a cabea, e com o sangue... Jesus, que horror! - ---Reparando bem, disse Carlos, creio que o nosso velho amigo S. Joo -Baptista. - -Para desfazer essa impresso desconsolada levou-a ao salo nobre, onde -Craft concentrra as suas preciosidades. Maria Eduarda, porm, ainda -descontente, achou-lhe um ar atulhado e frio de museu. - --- para vr de p, e de passagem... No se pde ficar aqui sentado, a -conversar. - ---Mas esta materia-prima! exclamou Carlos. Com isto depois faz-se uma -sala adoravel... Para que serve o nosso genio decorativo?... Olhe o -armario, veja que centro! Que belleza! - -Enchendo quasi a parede do fundo, o famoso armario, o movel divino do -Craft, obra de talha do tempo da Liga Hanseatica, luxuoso e sombrio, -tinha uma magestade architectural: na base quatro guerreiros, armados -como Marte, flanqueavam as portas, mostrando cada uma em baixo-relevo o -assalto de uma cidade ou as tendas de um acampamento; a pea superior -era guardada aos quatro cantos pelos quatro evangelistas, Joo, Marcos, -Lucas e Matheus, imagens rigidas, envolvidas n'essas roupagens violentas -que um vento de prophecia parece agitar: depois na cornija erguia-se um -tropho agricola com mlhos d'espigas, fouces, cachos d'uvas e rabias -d'arados; e, sombra d'estas coisas de labor e fartura, dois Faunos, -recostados em symetria, indifferentes aos heroes e aos santos, tocavam -n'um desafio bucolico a frauta de quatro tubos. - ---Ento, hein? dizia Carlos. Que movel! todo um poema da Renascena, -Faunos e Apostolos, guerras e georgicas... Que se pde metter dentro -d'este armario? Eu se tivesse cartas suas era aqui que as depositava, -como n'um altar-mr. - -Ella no respondeu, sorrindo, caminhando devagar entre essas coisas do -passado, d'uma belleza fria, e exhalando a indefinida tristeza de um -luxo morto: finos moveis da Renascena italiana, exilados dos seus -palacios de marmore, com embutidos de cornalina e agatha que punham um -brilho suave de joia sobre a negrura dos ebanos ou setim das madeiras -cr de rosa; cofres nupciaes, longos como bahs, onde se guardavam os -presentes dos Papas e dos Principes, pintados a purpura e ouro, com -graas de miniatura; contadores hespanhoes impertigados, revestidos de -ferro brunido e de velludo vermelho, e com interiores mysteriosos, em -frma de capella, cheios de nichos, de claustros de tartaruga... Aqui e -alm, sobre a pintura verde-escura das paredes, resplandecia uma colcha -de setim toda recamada de flres e d'aves d'ouro; ou sobre um bocado de -tapete do Oriente de tons severos, com versiculos do Alcoro, -desdobrava-se a pastoral gentil d'um minuete em Cythera sobre a sda de -um leque aberto... - -Maria Eduarda terminou por se sentar, cansada, n'uma poltrona Luiz XV, -ampla e nobre, feita para a magestade das anquinhas, recoberta de -tapearia de Beauvais, d'onde parecia exhalar-se ainda um vago aroma -d'empoado. - -Carlos triumphava, vendo a admirao de Maria. Ento, ainda considerava -uma extravagancia aquella compra, feita n'um rasgo de enthusiasmo? - ---No, ha aqui coisas adoraveis... Nem eu sei se me atreverei a viver -uma vida pacata de alda no meio de todas estas raridades... - ---No diga isso, exclamava Carlos rindo, que eu pgo fogo a tudo! - -Mas o que lhe agradou mais foram as bellas faianas, toda uma arte -immortal e fragil espalhada por sobre o marmore das consolas. Uma -sobretudo attrahiu-a, uma esplendida taa persa, d'um desenho raro, com -um renque de negros cyprestes, cada um abrigando uma flr de cr viva: e -aquillo fazia lembrar breves sorrisos reapparecendo entre longas -tristezas. Depois eram as apparatosas majolicas, de tons estridentes e -desencontrados, cheias de grandes personagens, Carlos V passando o Elba, -Alexandre coroando Roxane; os lindos Nevers, ingenuos e srios; os -Marselhas, onde se abre voluptuosamente, como uma nudez que se mostra, -uma grossa rosa vermelha; os Derby, com as suas rendas de ouro sobre o -azul-ferrete de co tropical; os Wedgewood, cr de leite e cr de rosa, -com transparencias fugitivas de concha na agua... - ---S um instante mais, exclamou Carlos vendo-a outra vez sentar-se, -necessario saudar o genio tutelar da casa! - -Era ao centro, sobre uma larga peanha, um idolo japonez de bronze, um -deus bestial, n, pelado, obeso, de papeira, faceto e banhado de riso, -com o ventre vante, distendido na indigesto de todo um universo--e as -duas perninhas bambas, molles e flaccidas como as pelles mortas d'um -feto. E este monstro triumphava, encanchado sobre um animal fabuloso, de -ps humanos, que dobrava para a terra o pescoo submisso, mostrando no -focinho e no olho obliquo todo o surdo resentimento da sua humilhao... - ---E pensarmos, dizia Carlos, que geraes inteiras vieram ajoelhar-se -diante d'este rato, rezar-lhe, beijar-lhe o embigo, offerecer-lhe -riquezas, morrer por elle... - ---O amor que se tem por um monstro, disse Maria, mais meritorio, no -verdade? - ---Por isso no acha talvez meritorio o amor que se tem por si... - -Sentaram-se ao p da janella, n'um divan baixo e largo, cheio de -almofadas, cercado por um biombo de sda branca, que fazia entre aquelle -luxo do passado um ffo recanto de conforto moderno: e como ella se -queixava um pouco de calor, Carlos abriu a janella. Junto do peitoril -crescia tambem um grande p de margaridas; adiante, n'um velho vaso de -pedra, pousado sobre a relva, vermelhejava a flr d'um cacto; e dos -ramos de uma nogueira cahia uma fina frescura. - -Maria Eduarda veio encostar-se janella, Carlos seguiu-a; e ficaram -alli juntos, calados, profundamente felizes, penetrados pela doura -d'aquella solido. Um passaro cantou de leve no ramo da arvore; depois -calou-se. Ella quiz saber o nome de uma povoao que branquejava ao -longe ao sol na collina azulada. Carlos no se lembrava. Depois -brincando, colheu uma margarida, para a interrogar: _Elle m'aime, un -peu, beaucoup_... Ella arrancou-lh'a das mos. - ---Para que precisa perguntar s flres? - ---Porque ainda m'o no disse claramente, absolutamente, como eu quero -que m'o diga... - -Abraou-a pela cinta, sorriam um ao outro. Ento Carlos, com os olhos -mergulhados nos d'ella, disse-lhe baixnho e implorando: - ---Ainda no vimos a saleta de banho... - -Maria Eduarda deixou-se levar assim enlaada pelo salo, depois atravs -da sala de tapearias onde Marte e Venus se amavam entre os bosques. Os -banhos eram ao lado, com um pavimento de azulejo, avivado por um velho -tapete vermelho da Caramania. Elle, tendo-a sempre abraada, pousou-lhe -no pescoo um beijo longo e lento. Ella abandonou-se mais, os seus olhos -cerraram-se, pesados e vencidos. Penetraram na alcova quente e cr -d'ouro: Carlos ao passar desprendeu as cortinas do arco de capella, -feitas de uma sda leve que coava para dentro uma claridade loura: e um -instante ficaram immoveis, ss emfim, desatado o abrao, sem se tocarem, -como suspensos e suffocados pela abundancia da sua felicidade. - ---Aquella horrivel cabea! murmurou ella. - -Carlos arrancou a coberta do leito, escondeu a tela sinistra. E ento -todo o rumor se extinguiu, a solitaria casa ficou adormecida entre as -arvores, n'uma demorada ssta, sob a calma de julho... - - -Os annos de Affonso da Maia foram justamente no dia seguinte, domingo. -Quasi todos os amigos da casa tinham jantado no Ramalhete; e tomra-se o -caf no escriptorio d'Affonso, onde as janellas se conservavam abertas. -A noite estava tepida, estrellada e serenissima. Craft, Sequeira e o -Taveira passeavam fumando no terrao. Ao canto d'um sof Cruges escutava -religiosamente Steinbroken que lhe contava, com gravidade, os progressos -da musica na Filandia. E em redor de Affonso, estendido na sua velha -poltrona, de cachimbo na mo, fallava-se do campo. - -Ao jantar Affonso annuncira a inteno de ir visitar, para o meado do -mez, as velhas arvores de Santa Olavia; e combinra-se logo uma grande -romaria de amizade s margens do Douro. Craft e Sequeira acompanhavam -Affonso. O marquez promettera uma visita para agosto na companhia -melodiosa, dizia elle, do amigo Steinbroken. D. Diogo hesitava, com -receio da longa jornada, da humidade da alda. E agora tratava-se de -persuadir Ega a ir tambem, com Carlos--quando Carlos acabasse emfim de -reunir esses materiaes do seu livro que o retinham em Lisboa banca do -labor... Mas o Ega resistia. O campo, dizia elle, era bom para os -selvagens. O homem, maneira que se civilisa, afasta-se da natureza; e -a realisao do progresso, o paraiso na Terra, que presagiam os -Idealistas, concebia-o elle como uma vasta cidade occupando totalmente o -Globo, toda de casas, toda de pedra, e tendo apenas aqui e alm um -bosquesinho sagrado de roseiras, onde se fossem colher os ramalhetes -para perfumar o altar da Justia... - ---E o milho? A bella fruta? A hortaliasinha? perguntava Villaa, rindo -com malicia. - -Imaginava ento Villaa, replicava o outro, que d'aqui a seculos ainda -se comeriam hortalias? O habito dos vegetaes era um resto da rude -animalidade do homem. Com os tempos o sr civilisado e completo vinha a -alimentar-se unicamente de productos artificiaes, em frasquinhos e em -pilulas, feitos nos laboratorios do Estado... - ---O campo, disse ento D. Diogo, passando gravemente os dedos pelos -bigodes, tem certa vantagem para a sociedade, para se fazer um bonito -_pic-nic_, para uma burricada, para uma partida de croquet... Sem campo -no ha sociedade. - ---Sim, rosnou o Ega, como uma sala em que tambem ha arvores ainda se -admitte... - -Enterrado n'uma poltrona, fumando languidamente, Carlos sorria em -silencio. Todo o jantar estivera assim calado, sorrindo esparsamente a -tudo, com um ar luminoso e de deliciosa lassido. E ento o marquez, que -j duas vezes, dirigindo-se a elle, encontrra a mesma abstraco -radiosa, impacientou-se: - ---Homem, falle, diga alguma coisa!... Voc est hoje com um ar -extraordinario, um arzinho de beato que se regalou de papar o -Santissimo! - -Todos em redor, com sympathia, se affirmaram em Carlos: Villaa -achava-lhe agora melhor cara, cr d'alegria: D. Diogo, com um ar -entendido, sentindo mulher, invejou-lhe os annos, invejou-lhe o vigor. E -Affonso reenchendo o cachimbo olhava o neto, enternecido. - -Carlos ergueu-se immediatamente, fugindo quelle exame affectuoso. - ---Com effeito, disse elle, espreguiando-se de leve, tenho estado hoje -languido e mono... o comeo do vero... Mas necessario sacudir-me... -Quer voc fazer uma partida de bilhar, marquez? - ---V l, homem. Se isso o resuscita... - -Foram, Ega seguiu-os. E apenas no corredor o marquez parando, e como -recordando-se, perguntou sem rebuo ao Ega noticias dos Cohens. -Tinham-se encontrado? Estava tudo acabado? Para o marquez, uma flr de -lealdade, no havia segredos: Ega contou-lhe que o romance findra, e -agora o Cohen, quando o cruzava, baixava prudentemente os olhos... - ---Eu perguntei isto, disse o marquez, porque j vi a Cohen duas vezes... - ---Onde? foi a exclamao sfrega do Ega. - ---No Price, e sempre com o Damaso. A ultima vez foi j esta semana. E l -estava o Damaso, muito chegadinho, palrando muito... Depois veio -sentar-se um bocado ao p de mim, e sempre d'olho n'ella... E ella de -l, com aquelle ar de lambisgoia, de luneta n'elle... No havia que -duvidar, era um namoro... Aquelle Cohen um predestinado. - -Ega fez-se livido, torceu nervosamente o bigode, terminou por dizer: - ---O Damaso muito intimo d'elles... Mas talvez se atire, no duvido... -So dignos um do outro. - -No bilhar, emquanto os dois carambolavam preguiosamente, elle no -cessou de passear, n'uma agitao, trincando o charuto apagado. De -repente estacou em frente do marquez, com os olhos chammejantes: - ---Quando que voc a viu ultimamente no Price, essa torpe filha -d'Israel? - ---Tera-feira, creio eu. - -O Ega recomeou a passear, sombrio. - -N'esse instante Baptista, apparecendo porta do bilhar, chamou Carlos -em silencio, com um leve olhar. Carlos veio, surprehendido. - --- um cocheiro de praa, murmurou Baptista. Diz que est alli uma -senhora dentro d'uma carruagem que lhe quer fallar. - ---Que senhora? - -Baptista encolheu os hombros. Carlos, de taco na mo, olhava para elle, -aterrado. Uma senhora! Era decerto Maria... Que teria succedido, santo -Deus, para ella vir n'uma tipoia, s nove da noite, ao Ramalhete! - -Mandou Baptista, a correr, buscar-lhe um chapo baixo; e assim mesmo, de -casaca, sem paletot, desceu n'uma grande anciedade. No peristyllo topou -com Eusebiosinho que chegava, e sacudia cuidadosamente com o leno a -poeira dos botins. Nem fallou ao Eusebiosinho. Correu ao coup, parado -porta particular dos seus quartos, mudo, fechado, mysterioso, -aterrador... - -Abriu a portinhola. Do canto da velha traquitana, um vulto negro, -abafado n'uma mantilha de renda, debruou-se, perturbado, balbuciou: - --- s um instante! Quero-lhe fallar! - -Que allivio! Era a Gouvarinho! Ento, na sua indignao, Carlos foi -brutal. - ---Que diabo de tolice esta? Que quer? - -Ia bater com a portinhola; ella empurrou-a para fra, desesperada; e no -se conteve, desabafou logo alli, diante do cocheiro, que mexia -tranquillamente na fivela d'um tirante. - ---De quem a culpa? Para que me trata d'este modo?... s um instante, -entre, tenho de lhe fallar!... - -Carlos saltou para dentro, furioso: - ---D uma volta pelo Aterro, gritou ao cocheiro. Devagar! - -O velho calhambeque desceu a calada; e durante um momento, na -escurido, recuando um do outro no assento estreito, tiveram as mesmas -palavras, bruscas e colericas, atravs do barulho das vidraas. - ---Que imprudencia! que tolice!... - ---E de quem a culpa? De quem a culpa? - -Depois, na rampa de Santos, o coup rolou mais silenciosamente no -macadam. Carlos ento, arrependido da sua dureza, voltou-se para ella, e -com brandura, quasi no tom carinhoso d'outr'ora, reprehendeu-a por -aquella imprudencia... Pois no era melhor ter-lhe escripto? - ---Para qu? exclamou ella. Para no me responder? Para no fazer caso -das minhas cartas, como se fossem as de um importuno a pedir-lhe uma -esmola!... - -Suffocava, arrancou a mantilha da cabea. No vagaroso rolar do coup, -sem ruido, ao longo do rio, Carlos sentia a respirao d'ella, -tumultuosa e cheia d'angustia. E no dizia nada, immovel, n'um infinito -mal-estar, entrevendo confusamente, atravs do vidro embaciado, na -sombra triste do rio adormecido, as mastreaes vagas de falas. A -parelha parecia ir adormecendo; e as queixas d'ella desenrolavam-se, -profundas, mordentes, repassadas d'amargura. - ---Peo-lhe que venha a Santa Isabel, no vem... Escrevo-lhe, no me -responde... Quero ter uma explicao franca comsigo, no apparece... -Nada, nem um bilhete, nem uma palavra, nem um aceno... Um desprezo -brutal, um desprezo grosseiro... Eu nem devia ter vindo... Mas no pude, -no pude!... Quiz saber o que lhe tinha feito. O que isto? Que lhe fiz -eu? - -Carlos percebia os olhos d'ella, faiscantes sob a nevoa de lagrimas -retidas, supplicando e procurando os seus. E sem coragem sequer de a -fitar, murmurou, torturado: - ---Realmente, minha amiga... As coisas fallam bem por si, no so -necessarias explicaes. - ---So! necessario saber se isto uma coisa passageira, um amuo, ou se - uma coisa definitiva, um rompimento! - -Elle agitava-se no seu canto, sem achar uma maneira suave, affectuosa -ainda, de lhe dizer que todo o seu desejo d'ella findra. Terminou por -affirmar que no era um amuo. Os seus sentimentos tinham sido sempre -elevados, no cahiria agora na pieguice de ter um amuo... - ---Ento um rompimento?... - ---No, tambem no... Um rompimento absoluto, para sempre, no... - ---Ento um amuo? Porqu? - -Carlos no respondeu. Ella, perdida, sacudiu-o pelo brao. - ---Mas falle! Diga alguma coisa, santo Deus! No seja cobarde, tenha a -coragem de dizer o que ! - -Sim, ella tinha razo... Era uma cobardia, era uma indignidade, -continuar alli, gchemente, dissimulado na sombra, a balbuciar coisas -mesquinhas. Quiz ser claro, quiz ser forte. - ---Pois bem, ahi est. Eu entendi que as nossas relaes deviam ser -alteradas... - -E outra vez hesitou, a verdade amolleceu-lhe nos labios, sentindo -aquella mulher ao seu lado a tremer d'agonia. - ---Alteradas, quero dizer... Podiamos transformar um capricho apaixonado, -que no podia durar, n'uma amizade agradavel, e mais nobre... - -E pouco a pouco as palavras voltavam-lhe faceis, habeis, persuasivas, -atravs do rumor lento das rodas. Onde os podia levar aquella ligao? -Ao resultado costumado. A que a um dia se descobrisse tudo, e o seu -bello romance acabasse no escandalo e na vergonha; ou a que, -envolvendo-os por muito tempo o segredo, elle viesse a descahir na -banalidade d'uma unio quasi conjugal, sem interesse e sem requinte. De -resto era certo que, continuando a encontrarem-se, aqui, em Cintra, -n'outros sitios, a sociedadesinha curiosa e mexeriqueira viria a -perceber a sua affeio. E havia por acaso nada mais horroroso, para -quem tem orgulho e delicadeza d'alma, do que uns amores que todo o -publico conhece, at os cocheiros de praa? No... O bom senso, o bom -gosto mesmo, tudo indicava a necessidade d'uma separao. Ella mesmo -mais tarde lhe seria grata... Decerto, esta primeira interrupo d'um -habito dce era desagradavel, e elle estava bem longe de se sentir -feliz. Fra por isso que no tivera a coragem de lhe escrever... Emfim -deviam ser fortes, e no se vrem pelo menos durante alguns mezes... -Depois, pouco a pouco, o que era capricho fragil, cheio de inquietao, -tornar-se-hia uma boa amizade, bem segura e bem duradoura. - -Calou-se; e ento, no silencio, sentiu que ella, cahida para o canto do -coup, como uma coisa miseravel e meio morta, encolhida no seu vo, -estava chorando baixo. - -Foi um momento intoleravel. Ella chorava sem violencia, mansamente, com -um chro lento, que parecia no dever findar. E Carlos s achava esta -palavra banal e desenxabida: - ---Que tolice, que tolice! - -Vinham rodando ao comprido das casas, por diante da fabrica do gaz. Um -americano passou alumiado, com senhoras vestidas de claro. N'aquella -noite de vero e d'estrellas, havia gente vagueando tranquillamente -entre as arvores. Ella continuava a chorar. - -Aquelle pranto triste, lento, correndo a seu lado, comeou a commovel-o; -e ao mesmo tempo quasi lhe queria mal por ella no reter essas lagrimas -infindaveis que laceravam o seu corao... E elle que estava to -tranquillo, no Ramalhete, na sua poltrona, sorrindo a tudo, n'uma -deliciosa lassido! - -Tomou-lhe a mo, querendo calmal-a, apiedado, e j impaciente. - ---Realmente no tem razo. absurdo... Tudo isto para seu bem... - -Ella teve emfim um movimento, enxugou os olhos, assoou-se doloridamente -por entre os seus longos soluos... E de repente, n'um arranque de -paixo, atirou-lhe os braos ao pescoo, prendendo-se a elle com -desespero, esmagando-o contra o seu seio. - ---Oh meu amor, no me deixes, no me deixes! Se tu soubesses! s a unica -felicidade que eu tenho na vida... Eu morro, eu mato-me!... Que te fiz -eu? Ninguem sabe do nosso amor... E que soubesse! Por ti sacrifico tudo, -vida, honra, tudo! tudo!... - -Molhava-lhe a face com o resto das suas lagrimas; e elle abandonava-se, -sentindo aquelle corpo sem collete, quente e como n, subir-lhe para os -joelhos, collar-se ao seu, n'um furor de o repossuir, com beijos -sfregos, furiosos, que o suffocavam... Subitamente a tipoia parou. E um -momento ficaram assim--Carlos immovel, ella cahida sobre elle e -arquejando. - -Mas a tipoia no continuava. Ento Carlos desprendeu um brao, desceu o -vidro; e viu que estavam defronte do Ramalhete. O homem, obedecendo -ordem, dera a volta pelo Aterro, devagar, subira a rampa, retrocedera -porta da casa. Durante um instante Carlos teve a tentao de descer, -acabar alli bruscamente aquelle longo tormento. Mas pareceu-lhe uma -brutalidade. E desesperado, detestando-a, berrou ao cocheiro: - ---Outra vez ao Aterro, anda sempre!... - -A tipoia deu na rua estreita uma volta resignada, tornou a rolar; de -novo as pedras da calada fizeram tilintir os vidros; de novo, mais -suavemente, desceram a rampa de Santos. - -Ella recomera os seus beijos. Mas tinham perdido a chamma que um -instante os fizera quasi irresistiveis. Agora Carlos sentia s uma -fadiga, um desejo infinito de voltar ao seu quarto, ao repouso de que -ella o arrancra para o torturar com estas recriminaes, estes ardores -entre lagrimas... E de repente, emquanto a condessa balbuciava, como -tonta, pendurada do seu pescoo,--elle viu surgir n'alma, viva e -resplandecente, a imagem de Maria Eduarda, tranquilla quella hora na -sua sala de reps vermelho, fazendo sero, confiando n'elle, pensando -n'elle, relembrando as felicidades da vespera, quando a _Toca_, cheia de -seus amores, dormia, branca entre as arvores... Teve ento horror -Gouvarinho; brutalmente, sem piedade, repelliu-a para o canto do coup. - ---Basta! Tudo isto absurdo... As nossas relaes esto acabadas, no -temos mais nada que nos dizer! - -Ella ficou um instante como atordoada. Depois estremeceu, teve um riso -nervoso, reppelliu-o tambem, phreneticamente, pisando-lhe o brao. - ---Pois bem! Vai, deixa-me! Vai para a outra, para a brazileira! Eu -conheo-a, uma aventureira que tem o marido arruinado, e precisa quem -lhe pague as modistas!... - -Elle voltou-se, com os punhos fechados, como para a espancar; e na -tipoia escura, onde j havia um vago cheiro de verbena, os olhos -d'ambos, sem se vrem, dardejavam o odio que os enchia... Carlos bateu -raivosamente no vidro. A tipoia no parou. E a Gouvarinho, do outro -lado, furiosa, magoando os dedos, procurava descer a vidraa. - --- melhor que sia! dizia ella suffocada. Tenho horror de me achar -aqui, ao seu lado! Tenho horror! Cocheiro! cocheiro! - -O calhambeque parou. Carlos pulou para fra, fechou d'estalo a -portinhola; e sem uma palavra, sem erguer o chapo, virou costas, abalou -a grandes passadas para o Ramalhete, tremulo ainda, cheio d'idas de -rancor, sob a paz da noite estrellada. - - - - -IV - - -Foi n'um sabbado que Affonso da Maia partiu para Santa Olavia. Cedo -n'esse mesmo dia, Maria Eduarda, que o escolhera por ser de boa estreia, -installra-se nos Olivaes. E Carlos, voltando de Santa Apolonia, onde -fra acompanhar o av, com o Ega, dizia-lhe alegremente: - ---Ento aqui ficamos ns ss a torrar, _na cidade de marmore_ e de -lixo... - ---Antes isso, respondeu o Ega, que andar de sapatos brancos, a scismar, -por entre a poeirada de Cintra! - -Mas no domingo, quando Carlos recolheu ao Ramalhete ao -anoitecer--Baptista annunciou que o snr. Ega tinha partido n'esse -momento para Cintra, levando apenas livros e umas escovas embrulhadas -n'um jornal... O snr. Ega tinha deixado uma carta. E tinha dito: -Baptista, vou pastar. - -A carta, a lapis, n'uma larga folha d'almasso, dizia: Assaltou-me de -repente, amigo, juntamente com um horror calia de Lisboa, uma saudade -infinita da natureza e do verde. A poro d'animalidade que ainda resta -no meu sr civilisado e recivilisado precisa urgentemente -d'espolinhar-se na relva, beber no fio dos regatos, e dormir balanada -n'um ramo de castanheiro. O solcito Baptista que me remetta manh pelo -omnibus a mala com que eu no quiz sobrecarregar a tipoia do _Mulato_. -Eu demoro-me apenas tres ou quatro dias. O tempo de cavaquear um bocado -com o Absoluto no alto dos _Capuchos_, e vr o que esto fazendo os -myosotis junto meiga _fonte dos Amores_... - ---Pedante! rosnou Carlos, indignado com o abandono ingrato em que o -deixava o Ega. - -E atirando a carta: - ---Baptista! O snr. Ega diz ahi que lhe mandem uma caixa de charutos, dos -_Imperiales_. Manda-lhe antes dos _Flr de Cuba_. Os _Imperiales_ so um -veneno. Esse animal nem fumar sabe! - -Depois de jantar Carlos percorreu o _Figaro_, folheou um volume de -Byron, bateu carambolas solitarias no bilhar, assobiou _malagueas_ no -terrasso--e terminou por sahir, sem destino, para os lados do Aterro. O -Ramalhete entristecia-o, assim mudo, apagado, todo aberto ao calor da -noite. Mas insensivelmente, fumando, achou-se na rua de S. Francisco. As -janellas de Maria Eduarda estavam tambem abertas e negras. Subiu ao -andar do Cruges. O menino Victorino no estava em casa... - -Amaldioando o Ega, entrou no Gremio. Encontrou o Taveira, de paletot ao -hombro, lendo os telegrammas. No havia nada novo por essa velha Europa; -apenas mais uns Nihilistas enforcados; e elle Taveira ia ao Price... - ---Vem tu tambem d'ahi, Carlinhos! Tens l uma mulher bonita que se mette -na agua com cobras e crocodilos... Eu pello-me por estas mulheres de -bichos!... Que esta difficil, traz um _chulo_... Mas eu j lhe -escrevi: e ella faz-me um bocado d'olho de dentro da tina. - -Arrastou Carlos: e pelo Chiado abaixo fallou-lhe logo do Damaso. No -tornra a ver essa flr? Pois essa flr andava apregoando por toda a -parte que o Maia, depois do caso do Chiado, lhe dera por um amigo -explicaes humildes, covardes... Terrivel, aquelle Damaso! Tinha -figura, interior, e natureza de plla! Com quanto mais fora se atirava -ao cho, mais elle resaltava para o ar, triumphante!... - ---Em todo o caso uma rez traioeira, e deves ter cautela com elle... - -Carlos encolheu os hombros, rindo. - -No, no, dizia o Taveira muito srio, eu conheo o meu Damaso. Quando -foi da nossa pga, em casa da Lola Gorda, elle portou-se como um -poltro, mas depois ia-me atrapalhando a vida... capaz de tudo... -Antes d'hontem estava eu a cear no Silva, elle veio sentar-se um bocado -ao p de mim, e comeou logo com umas coisas a teu respeito, umas -ameaas... - ---Ameaas! Que disse elle? - ---Diz que te ds ares de espadachim e de valento, mas has de encontrar -dentro em pouco quem te ensine... Que se est ahi preparando um -escandalo monumental... Que se no admirar de te vr brevemente com uma -boa bala na cabea... - ---Uma bala? - ---Assim o disse. Tu ris, mas eu que sei... Eu, se fosse a ti, ia-me ao -Damaso e dizia-lhe: Damasosinho, flr, fique avisado que, d'ora em -diante, cada vez que me succeder uma coisa desagradavel, venho aqui e -parto-lhe uma costella; tome as suas medidas... - -Tinham chegado ao Price. Uma multido de domingo, alegre e pasmada, -apinhava-se at s ultimas bancadas onde havia rapazes, em mangas de -camisa, com litros de vinho; e eram grossas, fartas risadas, com os -requebros do palhao, rebocado de cio e vermelho, que tocava nos -psinhos d'uma _voltigeuse_ e lambia os dedos, d'olhos em alvo, n'um -gosto de mel... Descanando na sella larga de xairel dourado, a -creatura, magrinha e sria, com flres nas tranas, dava a volta -devagar, ao passo d'um cavallo branco, que mordia o freio, levado mo -por um estribeiro; e pela arena o palhao lambo e nescio acompanhava-a, -com as mos ambas apertadas ao corao, n'uma supplica babosa, rebolando -languidamente os quadris dentro das vastas pantalonas, picadas de -lantejoulas. Um dos escudeiros, de cala listrada d'ouro, empurrava-o, -n'um arremedo de ciumes; e o palhao cahia, estatelado, com um estoiro -de nadegas, entre os risos das crianas e os rantantans da charanga. O -calor suffocava; e as fumaraas de charuto, subindo sem cessar, faziam -uma neva onde tremiam as chammas largas do gaz. Carlos, incommodado, -abalou. - ---Espera ao menos para vr a mulher dos crocodilos! gritou ainda o -Taveira. - ---No posso, cheira mal, morro! - -Mas porta, de repente, foi detido pelos braos abertos do Alencar, que -chegava--com outro sujeito, velho e alto, de barbas brancas, todo -vestido de luto. O poeta ficou pasmado de vr alli o de seu Carlos. -Fazia-o no seu solar Santa de Olavia! Vira at nos papeis publicos... - ---No, disse Carlos, o av que foi hontem... Eu no me sinto ainda em -disposio do ir communicar com a natureza... - -Alencar riu, levemente afogueado, com um brilho de genebra no olho cavo. -Ao lado, grave, o ancio de barbas calava as suas luvas pretas. - ---Pois eu o contrario! exclamava o poeta. - -Estou precisado d'um banho de pantheismo! A bella natureza! O prado! O -bosque!... De modo que talvez me mimoseie com Cintra, para a semana. -Esto l os Cohens, alugaram uma casita muito bonita, logo adiante do -Victor... - -Os Cohens! Carlos comprehendeu ento a fuga do Ega e a sua saudade do -verde. - ---Ouve l, dizia-lhe o poeta baixo, e puxando-o pela manga, para o lado. -Tu no conheces este meu amigo? Pois foi muito de teu pai, fizemos muita -troa juntos... No era nenhum personagem, era apenas um alquilador de -cavallos... Mas tu sabes, c em Portugal, sobretudo n'esses tempos, -havia muita bonhomia, o fidalgo dava-se com o arrieiro... Mas, que -diabo, tu deves conhecel-o! o tio do Damaso! - -Carlos no se recordava. - ---O Guimares, o que est em Paris! - ---Ah, o communista! - ---Sim, muito republicano, homem de idas humanitarias, amigo do -Gambetta, escreve no _Rappel_... Homem interessante!... Veio ahi por -causa d'umas terras que herdou do irmo, d'esse outro tio do Damaso que -morreu ha mezes... E demora-se, creio eu... Pois jantamos hoje juntos, -beberam-se uns liquidos, e at estivemos a fallar de teu pai... Queres -tu que eu t'o apresente? - -Carlos hesitou. Seria melhor n'outra occasio mais intima, quando -podessem fumar um charuto tranquillo, e conversar do passado... - ---Valeu! Has de gostar d'elle. Conhece muito Victor Hugo, detesta a -padraria... Espirito largo, espirito muito largo! - -O poeta sacudiu ardentemente as duas mos de Carlos. O snr. Guimares -ergueu de leve o seu chapo, carregado de crepe. - -Todo o caminho, at ao Ramalhete, Carlos foi pensando em seu pai e -n'esse passado, assim rememorado e estranhamente resurgido pela presena -d'aquelle patriarcha, antigo alquilador, que fizera com elle tantas -troas! E isto trazia conjuntamente outra ida, que n'esses ultimos dias -j o atravessra, pertinaz e torturante, dando-lhe, no meio da sua -radiante felicidade, um sombrio arripio de dr... Carlos pensava no av. - -Estava agora decidido que Maria Eduarda e elle partiriam para Italia, -nos fins de outubro. Castro Gomes, na sua ultima carta do Brazil, scca -e pretenciosa, fallava em apparecer por Lisboa, com as elegancias do -frio, l para meado de novembro; e era necessario antes d'isso que -estivessem j longe, entre as verduras d'Isola Bella, escondidos no seu -amor e separados por elle do mundo como pelos muros d'um claustro. Tudo -isto era facil, considerado quasi legtimo pelo seu corao, e enchia a -sua vida d'esplendor... Smente havia n'isto um espinho--o av! - -Sim, o av! Elle partia com Maria, elle entrava na ventura absoluta; mas -ia destruir de uma vez e para sempre a alegria d'Affonso, e a nobre paz -que lhe tornava to bella a velhice. Homem de outras eras, austero e -puro, como uma d'essas fortes almas que nunca desfalleceram--o av, -n'esta franca, viril, rasgada soluo d'um amor indominavel, s veria -libertinagem! Para elle nada significava o esponsal natural das almas, -acima e fra das fices civis; e nunca comprehenderia essa subtil -ideologia sentimental, com que elles, como todos os transviados, -procuravam azular o seu erro. Para Affonso haveria apenas um homem que -leva a mulher d'outro, leva a filha d'outro, dispersa uma familia, apaga -um lar, e se atola para sempre na concubinagem: todas as subtilezas da -paixo, por mais finas, por mais fortes, quebrar-se-hiam, como bolas de -sabo, contra as tres ou quatro idas fundamentaes de Dever, de Justia, -de Sociedade, de Familia, duras como blocos de marmore, sobre que -assentra a sua vida quasi durante um seculo... E seria para elle como o -horror d'uma fatalidade! J a mulher de seu filho fugira com um homem, -deixando atraz de si um cadaver; seu neto agora fugia tambem, -arrebatando a familia d'outro:--e a historia da sua casa tornava-se -assim uma repetio d'adulterios, de fugas, de disperses, sob o bruto -aguilho da carne!... Depois as esperanas que Affonso fundra -n'elle--consideral-as-hia tombadas, mortas no lodo! Elle passava a ser -para sempre, na imaginao angustiada do av, um foragido, um -inutilisado, tendo partido todas as raizes que o prendiam ao seu slo, -tendo abdicado toda a aco que o elevaria no seu paiz, vivendo por -hoteis de refugio, fallando linguas estranhas, entre uma familia -equivoca crescida em torno d'elle como as plantas de uma ruina... -Sombrio tormento, implacavel e sempre presente, que consumiria os -derradeiros annos do pobre av!... Mas, que podia elle fazer? J o -dissera ao Ega. A vida assim! Elle no tinha o heroismo nem a -santidade que tornam facil o sacrificio... E depois os dissabores do -av, de que provinham? De preconceitos. E a sua felicidade, justo Deus, -tinha direitos mais largos, fundados na natureza!... - -Chegra ao fim do Aterro. O rio silencioso fundia-se na escurido. Por -alli entraria em breve do Brazil, o _outro_--que nas suas cartas se -esquecia de mandar um beijo a sua filha! Ah, se elle no voltasse! Uma -onda providencial podia leval-o... Tudo se tornaria to facil, perfeito -e limpido! De que servia na vida esse resequido? Era como um sacco vazio -que cahisse ao mar! Ah, se _elle_ morresse!... E esquecia-se, enlevado -n'uma viso em que a imagem de Maria o chamava, o esperava, livre, -serena, sorrindo e coberta de luto... - -No seu quarto, Baptista, vendo-o atirar-se para uma poltrona com um -suspiro de fadiga, de desconsolao,--disse, depois de tossir -risonhamente, e dando mais luz ao candieiro: - ---Isto agora, sem o snr. Ega, parece um bocadinho mais s... - ---Est s, est triste, murmurou Carlos. necessario sacudirmo-nos... -Eu j te disse que talvez fossemos viajar este inverno... - -O menino no lhe tinha dito nada. - ---Pois talvez vamos a Italia... Appetece-te voltar a Italia? - -Baptista reflectiu. - ---Eu, da outra vez no vi o Papa... E antes de morrer no se me dava de -vr o Papa... - ---Pois sim, ha de se arranjar isso, has de vr o Papa. - -Baptista, depois d'um silencio, perguntou, lanando um olhar ao espelho: - ---Para vr o Papa vai-se de casaca, creio eu? - ---Sim, recommendo-te a casaca... O que tu devias ter, para esses casos, -era um habito de Christo... Hei de vr se te arranjo um habito de -Christo. - -Baptista ficou um instante assombrado. Depois fez-se escarlate, -d'emoo: - ---Muito agradecido a v. exc.^a Ha por ahi gente que o tem, ainda talvez -com menos merecimentos que eu... Dizem que at ha barbeiros... - ---Tens razo, replicou Carlos muito srio. Era uma vergonha. O que hei -de vr se te arranjo com effeito a commenda da Conceio. - - -Todas as manhs, agora, Carlos percorria o poeirento caminho dos -Olivaes. Para poupar aos seus cavallos a soalheira ia na tipoia do -_Mulato_, o batedor favorito do Ega--que recolhia a parelha na velha -cavalharia da _Toca_, e, at hora em que Carlos voltava ao Ramalhete, -vadiava pelas tabernas. - -Ordinariamente ao meio dia, ao acabar de almoar, Maria Eduarda, ouvindo -rodar o trem na estrada silenciosa, vinha esperar Carlos porta da -casa, no topo dos degraus ornados de vasos e resguardados por um fresco -toldo de fazenda cr de rosa. Na quinta usava sempre vestidos claros; s -vezes trazia, antiga moda hespanhola, uma flr entre os cabellos; o -forte e fresco ar do campo avivava com um brilho mais quente o mate -eburneo do seu rosto;--e assim, simples e radiante, entre sol e verdura, -ella deslumbrava Carlos cada dia com um encanto inesperado e maior. -Cerrando o porto d'entrada, que rangia nos gonzos, Carlos sentia-se -logo envolvido n'um extraordinario conforto moral, como elle dizia, em -que todo o seu sr se movia mais facilmente, fluidamente, n'uma -permanente impresso de harmonia e doura... Mas o seu primeiro beijo -era para Rosa, que corria pela rua de acacias ao seu encontro, com uma -onda de cabello negro a bater-lhe os hombros, e _Niniche_ ao lado, -pulando e ladrando de alegria. Elle erguia Rosa ao collo. Maria de longe -sorria-lhes, sob o toldo cr de rosa. Em redor tudo era luminoso, -familiar e cheio de paz. - -A casa dentro resplandecia com um arranjo mais delicado. J se podia -usar o salo nobre, que perdera o seu ar rigido de museu, exhalando a -tristeza d'um luxo morto: as flres que Maria punha nos vasos, um jornal -esquecido, as ls de um bordado, o simples roar dos seus frescos -vestidos, tinham communicado j um subtil calor de vida e de conchego -aos mais impertigados contadores do tempo de Carlos V, revestidos de -ferro brunido:--e era alli que elles ficavam conversando emquanto no -chegava a hora das lies de Rosa. - -A essa hora apparecia miss Sarah, sria e recolhida--sempre de preto, -com uma ferradura de prata em broche sobre o collarinho direito de -homem. Recuperra as suas cres fortes de boneca, e as pestanas baixas -tinham uma timidez mais virginal sob o liso dos bands puritanos. -Gordinha, com o peito de pomba farta estalando dentro do corpete severo, -mostrava-se toda contente da vida calma e lenta de alda. Mas aquellas -terras trigueiras d'olivedo no lhe pareciam campo: muito scco, -muito duro, dizia ella, com uma indefinida saudade dos verdes molhados -da sua Inglaterra, e dos cos de nevoa, cinzentos e vagos. - -Davam duas horas; e comeavam logo nos quartos de cima as longas lies -de Rosa. Carlos e Maria iam ento refugiar-se n'uma intimidade mais -livre, no kiosque japonez, que uma phantasia de Craft, o seu amor do -Japo, construira ao p da rua d'acacias, aproveitando a sombra e o -retiro bucolico de dois velhos castanheiros. Maria affeioara-se quelle -recanto, chamava-lhe o seu _pensadoiro_. Era todo de madeira, com uma s -janellinha redonda, e um telhado agudo japoneza, onde roavam os -ramos--to leve que atravs d'elle nos momentos de silencio se sentiam -piar as aves. Craft forrra-o todo de esteiras finas da India; uma mesa -de xaro, algumas faianas do Japo, ornavam-no sobriamente; o tecto no -se via, occulto por uma colcha de sda amarella, suspensa pelos quatro -cantos, em laos, como o rico docel de uma tenda;--e todo o ligeiro -kiosque parceia ter sido armado s com o fim d'abrigar um divan baixo e -ffo, d'uma languidez de serralho, profundo para todos os sonhos, amplo -para todas as preguias... - -Elles entravam, Carlos com algum livro que escolhera na presena de miss -Sarah, Maria Eduarda com um bordado ou uma costura. Mas bordado e livro -cahiam logo no cho--e os seus labios, os seus braos uniam-se -arrebatadamente. Ella escorregava sobre o divan: Carlos ajoelhava n'uma -almofada, tremulo, impaciente depois da forada reserva diante de Rosa e -diante de Sarah--e alli ficava, abraado sua cintura, balbuciando mil -coisas pueris e ardentes, por entre longos beijos que os deixavam -frouxos, com os olhos cerrados, n'uma doura de desmaio. Ella queria -saber o que elle tinha feito durante a longa, longa noite de separao. -E Carlos nada tinha a contar seno que pensra n'ella, que sonhra com -ella... Depois era um silencio: os pardaes piaram, as pombas arrulhavam -por cima do leve telhado: e _Niniche_, que os acompanhava sempre, seguia -os seus murmurios, os seus silencios, enroscada a um canto, com um olho -negro, reluzindo desconfiadamente por entre as repas prateadas. - -Fra, por aquelles dias de calma, sem aragem, a quinta scca, d'um verde -empoeirado, dormia com as folhagens immoveis, sob o peso do sol. Da casa -branca, atravs das persianas fechadas, vinha apenas o som amodorrado -das escalas que Rosa fazia no piano. E no kiosque hava tambem um -silencio satisfeito e pleno--smente quebrado por algum dce suspiro de -lassido que sahia do divan, d'entre as almofadas de sda, ou algum -beijo mais longo e d'um remate mais profundo... Era _Niniche_ que os -tirava d'aquelle suave entorpecimento, farta de estar alli quieta, -encerrada entre as madeiras quentes, n'um ar molle j repassado d'esse -aroma indefinido em que havia jasmim. - -Lenta, e passando as mos no rosto Maria erguia-se--mas para cahir logo -aos ps de Carlos, no seu reconhecimento infinito... Meu Deus, o que lhe -custava ento esse momento de separao! Para que havia de ser assim? -Parecia to pouco natural, esposos como eram, que ella ficasse alli toda -a noite, ssinha, com o seu desejo d'elle, e elle fosse, sem as suas -carcias, dormir solitariamente ao Ramalhete!... E ainda se demoravam -muito tempo, n'uma mudez d'extasi, em que os olhos humidos, -trespassando-se, continuavam o beijo insaciado que morrera nos seus -labios canados. Era _Niniche_ que os fazia sahir por fim trotando -impacientemente da porta para o divan, rosnando, ameaando ladrar. - -Muitas vezes ao recolherem Maria tinha uma inquietao. Que pensaria -miss Sarah d'esta ssta assim enclausurada, sem um rumor, com a janella -do pavilho cerrada? Melanie, desde pequena ao servio de Maria, era uma -confidente: o bom Domingos, um imbecil, no contava: mas miss Sarah?... -Maria confessava sorrindo que se sentia um pouco humilhada, ao encontrar -depois mesa os candidos olhos da ingleza sob os seus bands -virginaes... Est claro! se a boa miss tivesse a ousadia de resmungar ou -franzir de leve a testa, recebia logo seccamente a sua passagem no -_Royal Mail_ para Southampton! Rosa no a lamentaria, Rosa no lhe tinha -affeio. Mas, emfim, era to sria, admirava tanto a senhora! Ella no -gostava de perder a admirao d'uma rapariga to sria. E assim -decidiram despedir miss Sarah, rgiamente paga, e substituil-a, mais -tarde, em Italia, por uma governante allem, para quem elles fossem como -casados, Monsieur et Madame... - -Mas pouco a pouco o desejo d'uma felicidade mais intima, mais completa, -foi crescendo n'elles. No lhes bastava j essa curta manh no divan com -os passaros cantando por cima, a quinta cheia de sol, tudo acordado em -redor: appeteciam o longo contentamento d'uma longa noite, quando os -seus braos se podessem enlaar sem encontrar o estofo dos vestidos, e -tudo dormisse em torno, os campos, a gente e a luz... De resto era bem -facil! A sala de tapearias, communicando com a alcova de Maria, abria -sobre o jardim por uma porta envidraada; a governante, os criados, -subiam s dez horas para os seus quartos no andar alto; a casa adormecia -profundamente; Carlos tinha uma chave do porto; e o unico co, -_Niniche_, era o confidente fiel dos seus beijos... - -Maria desejava essa noite to ardentemente como elle. Uma tarde ao -escurecer, voltando d'um fresco passeio nos campos, experimentaram ambos -essa dupla chave--que Carlos j promettia mandar dourar: e elle ficou -surprehendido ao vr que o velho porto, que ouvira sempre ranger -abominavelmente, rolava agora nos gonzos com um silencio oleoso. - -Veio n'essa mesma noite--tendo deixado na villa para o levar ao -amanhecer a caleche do _Mulato_, um batedor discreto, que elle cevava de -gorgetas. O co, molle e abafado, no tinha uma estrella; e sobre o mar -lampejava a espaos, mudamente, a lividez d'um relampago. Caminhando com -inuteis cautelas rente do muro Carlos sentia, n'esta proximidade d'uma -posse to desejada, uma melancolia, cortada de anciedade, que vagamente -o acobardava. Abriu quasi a tremer o porto: e mal dra alguns passos -estacou, ouvindo ao fundo _Niniche_ ladrar furiosamente. Mas tudo -emmudeceu; e da janella do canto, sobre o jardim, surgiu uma claridade -que o socegou. Foi encontrar Maria, com um roupo de rendas, junto da -porta envidraada, suffocando quasi entre os braos _Niniche_ que ainda -rosnava. Estava toda medrosa, n'uma impaciencia de o sentir ao seu lado: -e no quiz recolher logo: um momento ficaram alli, sentados nos degraus, -com _Niniche_ que aquietra e lambia Carlos. Tudo em redor era como uma -infinita mancha de tinta; s l em baixo, perdida e mortia, surdia da -treva alguma luzinha vacillando no alto d'um mastro. Maria, conchegada a -Carlos, refugiada n'elle, deu um longo suspiro: e os seus olhos -mergulhavam inquietos n'aquella mudez negra, onde os arbustos familiares -do jardim, toda a quinta, parecia perder a realidade, sumida, diluida na -sombra. - ---Porque no havemos de partir j para a Italia? perguntou ella de -repente, procurando a mo de Carlos. Se tem de ser, porque no ha de ser -j?... Escusavamos de ter estes segredos, estes sustos! - ---Sustos de que, meu amor? Estamos aqui to seguros como na Italia, como -na China... De resto podemos partir mais depressa, se quizeres... Dize -tu um dia, marca um dia! - -Ella no respondeu, deixando cahir dcemente a cabea sobre o hombro de -Carlos. Elle acrescentou, devagar: - ---Em todo o caso, comprehendes bem, preciso primeiro ir a Santa Olavia, -vr o av... - -Os olhos de Maria perdiam-se outra vez na escurido--como recebendo -d'ella o presagio d'um futuro, onde tudo seria confuso e escuro tambem. - ---Tu tens Santa Olavia, tens teu av, tens os teus amigos... Eu no -tenho ninguem! - -Carlos estreitou-a a si, enternecido. - ---No tens ninguem! Isso dito a mim! Nem chega a ser injustia, nem -chega a ser ingratido! nervoso; e tambem o que os inglezes chamam a -impudente adulterao d'um facto. - -Ella ficra aninhada no peito de Carlos, como desfallecida. - ---No sei porque, queria morrer... - -Um largo brilho de relampago alumiou o rio. Maria teve medo, entraram na -alcova. Os mlhos de velas de duas serpentinas, batendo os damascos e os -setins amarellos, embebiam o ar tepido, onde errava um perfume, n'uma -refulgencia ardente de sacrario: e as bretanhas, as rendas do leito j -aberto punham uma casta alvura de neve fresca n'esse luxo amoroso e cr -de chamma. Fra, para os lados do mar, um trovo rolou lento e surdo. -Mas Maria j o no ouviu, cahida nos braos de Carlos. Nunca o desejra, -nunca o adorra tanto! Os seus beijos anciosos pareciam tender mais -longe que a carne, trespassal-o, querer sorver-lhe a vontade e a -alma:--e toda a noite, entre esses brocados radiantes, com os cabellos -soltos, divina na sua nudez, ella lhe appareceu realmente como a Deusa -que elle sempre imaginra, que o arrebatava emfim, apertado ao seu seio -immortal, e com elle pairava n'uma celebrao d'amor, muito alto, sobre -nuvens de ouro... - -Quando sahiu, ao amanhecer, chovia. Foi encontrar o _Mulato_ a dormir -n'uma taberna, bebedo. Teve de o metter dentro do carro; e foi elle que -governou at ao Ramalhete, embrulhado n'uma manta do taberneiro, -encharcado, cantarolando, esplendidamente feliz. - -Passados dias, passeando com Maria nos arredores da _Toca_, Carlos -reparou n'uma casita, beira da estrada, com escriptos: e veio-lhe logo -a ida de a alugar, para evitar aquella desagradavel partida de -madrugada com o _Mulato_ estremunhado, borracho, despedaando o trem -pelas caladas. Visitaram-na: havia um quarto largo, que com tapete e -cortinas podia dar um refugio confortavel. Tomou-a logo--e Baptista veio -ao outro dia, com moveis n'uma carroa, arranjar este novo ninho. Maria -disse, quasi triste: - ---Mais outra casa! - ---Esta, exclamou Carlos rindo, a ultima! No, a penultima... Temos -ainda a outra, a nossa, a verdadeira, l longe, no sei onde... - -Comearam a encontrar-se todas as noites. s nove e meia, pontualmente, -Carlos deixava a _Toca_, com o seu charuto accso: e Domingos, adiante, -de lanterna, vinha fechar o porto, tirar a chave. Elle recolhia devagar - sua choupana onde o servia um criadito, filho do jardineiro do -Ramalhete. Sobre um tapete solto, deitado no velho soalho, havia apenas, -alm do leito, uma mesa, um sof de riscadinho, duas cadeiras de palha; -e Carlos entretinha as horas que o separavam ainda de Maria, escrevendo -para Santa Olavia e sobretudo ao Ega, que se eternisava em Cintra. - -Recebera duas cartas d'elle, fallando quasi smente do Damaso. O Damaso -apparecia em toda a parte com a Cohen; o Damaso tornra-se grutesco em -Cintra, n'uma corrida de burros; o Damaso arvorra capacete e vo em -Sitiaes; o Damaso era uma besta immunda; o Damaso, no pateo do Victor, -de perna traada, dizia familiarmente a Rachel; era um dever de -moralidade publica dar bengaladas no Damaso!... Carlos encolhia os -hombros, achando estes ciumes indignos do corao do Ega. E ento por -quem! Por aquella lambisgoia d'Israel, melada e mollenga, sovada a -bengala! Se com effeito, escrevera elle ao Ega, ella desceu de ti at -ao Damaso, tens s a fazer como se fosse um charuto que te cahisse -lama: no o pdes naturalmente levantar: deves deixar fumal-o em paz ao -garoto que o apanhou: enfurecer-te com o garoto ou com o charuto, -d'imbecil. Mas ordinariamente, quando respondia, fallava s ao Ega dos -Olivaes, dos seus passeios com Maria, das conversas d'ella, do encanto -d'ella, da superioridade d'ella... Ao av no achava que dizer; nas dez -linhas que lhe destinava, descrevia o calor, recommendava-lhe que no se -fatigasse, mandava saudades para os hospedes, e dava-lhe recados do -Manoelzinho--que elle nunca via. - -Quando no tinha que escrever, estirava-se no sof, com um livro aberto, -os olhos no ponteiro do relogio. meia noite sahia, encafuado n'um -gabo d'Aveiro, e de varapau. Os seus passos resoavam, solitarios na -mudez dos campos, com uma indefinida melancolia de segredo e de culpa... - -N'uma d'essas noites, de grande calor, Carlos canado adormeceu no sof: -e s despertou, em sobresalto, quando o relogio na parede dava -tristemente duas horas. Que desespero! Ahi ficava perdida a sua noite de -amor! E Maria decerto espera, angustiada, imaginando desastres!... -Agarrou o cajado, abalou, correndo pela estrada. Depois, ao abrir -subtilmente o porto da quinta, pensou que Maria teria adormecido: -_Niniche_ podia ladrar: os seus passos, entre as acacias, abafaram-se, -mais cautelosos. E de repente sentiu ao lado, sob as ramagens, vindo do -cho, d'entre a herva, um resfolgar ardente d'homem, a que se misturavam -beijos. Parou, varado: e o seu impeto logo foi esmagar a cacete aquelles -dois animaes, enroscados na relva, sujando brutamente o poetico retiro -dos seus amores. Uma alvura de saia moveu-se no escuro: uma voz -soluava, desfalecida--_oh yes, oh yes_... Era a ingleza! - -Oh santo Deus, era a ingleza, era miss Sarah! Apagando os passos, -atordoado, Carlos escoou-se pelo porto, cerrou-o mansamente, foi -esperar adiante, n'um recanto do muro, sob as ramarias d'uma faia, -sumido na sombra. E tremia de indignao. Era preciso contar -immediatamente a Maria aquelle grande _horror_! No queria que ella -consentisse um momento mais essa impura fmea, junto de Rosa, roando a -candidez do seu anjo... Oh, era pavorosa uma tal hypocrisia, assim -astuta e methodica, sem se desconcertar jmais! Havia dias apenas, vira -a creatura desviar os olhos d'uma gravura d'_Illustrao_, onde dois -castos pastores se beijavam n'um arvoredo bucolico! E agora rugia, -estirada na herva! - -Na estrada escura, do lado do porto, brilhou um lume de cigarro. Um -homem passou, forte e pesado, com uma manta aos hombros. Parecia um -jornaleiro. A boa miss Sarah no escolhera! Bem lavada, toda correcta, -com os seus bands puritanos, aceitava _um qualquer_, rude e sujo, desde -que era um macho! E assim os embara, mezes, com aquellas suas duas -existencias, to separadas, to completas! De dia virginal, severa, -crando sempre, com a Biblia no cesto da costura: noite a pequena -adormecia, todos os seus deveres srios acabavam, a santa -transformava-se em cabra, chale aos hombros, e l ia para a relva, com -qualquer!... Que bello romance para o Ega! - -Voltou; tornou a abrir devagarinho o porto: de novo subiu, amollecendo -os passos, a sombria rua d'acacias. Mas agora ia sentindo uma hesitao -em contar a Maria _aquelle horror_. A seu pezar pensava que tambem Maria -o esperava, com o leito aberto, no silencio da casa adormecida; e que -tambem elle penetrava alli, s escondidas, como o homem da manta... De -certo era bem differente! Toda a immensuravel differena que vai do -divino ao bestial... E todavia receava despertar os melindrosos -escrupulos de Maria, mostrando-lhe, parallelo ao seu amor cheio de -requintes e passado entre brocados cr d'ouro, aquelle outro rude amor, -secreto e illegitimo como o d'ella, e arrastado brutamente na relva... -Era como mostrar-lhe um reflexo da sua propria culpa, um pouco esfumada, -mais grosseira, mas parecida nos seus contornos, lamentavelmente -parecida... No, no diria nada. E a pequena?... Oh, nas suas relaes -com Rosa a creatura continuaria a ser, como sempre, a puritana -laboriosa, grave e cheia d'ordem. - -A porta envidraada sobre o jardim tinha ainda luz: elle atirou aos -vidros uma pouca de terra solta, depois bateu de leve. Maria appareceu, -mal embrulhada n'um roupo, juntando os cabellos que se tinham -desenrolado, e meia adormecida. - ---Porque vieste to tarde? - -Carlos beijou longamente os seus bellos olhos pesados, quasi cerrados. - ---Adormeci estupidamente, a lr... Depois, quando entrei pareceu-me -ouvir passos na quinta, andei a rebuscar... Era imaginao, tudo -deserto. - ---Precisavamos ter um co de fila, murmurou ella, espreguiando-se. - -Sentada beira do leito, com os braos cahidos e adormentados, sorria -da sua preguia. - ---Ests to fatigada, filha! queres tu que me v embora ?... - -Ella puxou-o para o seu seio perfumado e quente. - ---Je veux que tu m'aimes beaucoup, beaucoup, et longtemps... - -Ao outro dia Carlos no fra a Lisboa, e appareceu cedo na _Toca_. -Melanie, que andava espanejando o kiosque, disse-lhe que Madame, um -pouco canada, tinha justamente tomado o seu chocolate na cama. Elle -entrou no salo: defronte da janella aberta, sentada no banco de -cortia, miss Sarah costurava, sombra das arvores. - ---_Good morning_, disse-lhe Carlos, chegando-se ao peitoril, todo -curioso de a observar. - ---_Good morning, sir_, respondeu ella com o seu ar modesto e tmido. - -Carlos fallou do calor. Miss Sarah j quella hora o achava intoleravel. -Felizmente a vista do rio, l em baixo, refrescava... - -Sobretudo a noite passada, insistiu Carlos accendendo a cigarrette, fra -to abafada! Elle mal pudera dormir. E ella? - -Oh, ella dormira d'um somno s. Carlos quiz saber se tivera bonitos -sonhos. - ---_Oh yes, sir_. - -_Oh yes!_ mas agora um yes pudico, sem gemidos, com os olhos baixos. E -to correcta, to pregada, fresca como se nunca tivesse servido!... -Positivamente era extraordinaria! E Carlos, torcendo o bigode, pensava -que ella devia ter um seiosinho bem alvo e bem redondinho! - - - -Assim ia passando o vero nos Olivaes. No comeo de setembro, Carlos -soube por uma carta do av que Craft devia chegar a Lisboa, n'um -sabbado, ao Hotel Central: e correu l cedo, logo n'essa manh, a ouvir -as novidades de Santa Olavia. Achou Craft j a p, diante do espelho, -fazendo a barba. A um canto do sof, Eusebiosinho, que viera na vespera - noite de Cintra e estava tambem no Hotel, limpava as unhas com um -canivete, em silencio, coberto de negro. - -Craft vinha encantado com Santa Olavia. Nem comprehendia como Affonso, -beiro forte, tolerava a rua de S. Francisco, e o quintalejo abafado do -Ramalhete. Tinha-se passado rgiamente! O av, cheio de saude, d'uma -hospitalidade que lembrava Abraho e a Biblia. O Sequeira optimo comendo -tanto que ficava inutil depois de jantar, a estoirar e a gemer no fundo -d'uma poltrona. L conhecera o velho Travassos, que fallava sempre com -os olhos cheios de lagrimas do talento do seu caro collega Carlos. E o -marquez esplendido, com abraos de primo a todos os fidalgotes de -Lamego, e apaixonado por uma barqueira... De resto soberbos jantares, -alguns tiros aos coelhos, uma romaria, danas de raparigas no adro, -guitarradas, esfolhadas, todo o dce idyllio portuguez... - ---Mas a respeito de Santa Olavia temos a fallar mais sriamente, disse -por fim Craft, entrando na alcova, a ensaboar a cabea. - ---E tu, perguntou ento Carlos, voltando-se para o Eusebiosinho. Tens -estado em Cintra, hein? Que se faz l?... O Ega? - -O outro ergueu-se guardando o canivete, ageitando as lunetas. - ---L est no Victor, muito engraado, comprou um burro... L est o -Damaso tambem... Mas esse pouco se v, no larga os Cohens... Emfim -tem-se passado menos mal, com bastante calor... - ---Tu estavas outra vez com a mesma prostituta, a Lola? - -Eusebiosinho fez-se escarlate. Credo! estava no Victor, muito srio! O -Palma que l tinha apparecido com uma rapariga portugueza... Tinha -agora um jornal, _A Corneta do Diabo_. - ---_A Corneta...?_ - ---Sim, _do Diabo_, disse o Eusebiosinho. um jornal de pilherias, de -picuinhas... Elle j existia, chamava-se o _Apito_; mas agora passou -para o Palma; elle vae-lhe augmentar o formato, e metter-lhe mais -chalaa... - ---Emfim, disse Carlos, qualquer coisa sebacea e immunda como elle... - -Craft reappareceu, enxugando a cabea. E emquanto se vestia, fallou de -uma viagem que agora o tentava, que estivera planeando em Santa Olavia. -Como j no tinha a _Toca_, e a sua casa ao p do Porto necessitava -longas obras, ia passar o inverno ao Egypto, subindo o Nilo, em -communicao espiritual com a antiguidade Pharaonica. Depois talvez se -adiantasse at Bagdad, a vr o Euphrates, e os sitios de Babylonia... - ---Por isso eu lhe vi alli, na mesa, exclamou Carlos, um livro, _Ninive e -Babylonia_... Que diabo, voc gosta d'isso? Eu tenho horror a raas e a -civilisaes defuntas... No me interessa seno a Vida. - --- que voc um sensual, disse Craft. E a proposito de sensualidade e -de Babylonia, quer vir voc almoar ao Bragana? Eu tenho de l -encontrar um inglez, o meu homem das minas... Mas havemos d'ir pela rua -do Ouro, que quero trepar um instante caverna do meu procurador... E a -caminho, que meio dia! - -Deixaram o Eusebiosinho, em baixo na sala, ageitando as suas lugubres -lunetas negras diante dos telegrammas. E apenas sahira o pateo, Craft -travou do brao de Carlos, e disse-lhe que as coisas srias a respeito -de Santa Olavia--era o visivel, profundo desgosto do av por elle no -ter l apparecido. - ---Seu av no me disse nada, mas eu sei que elle est muitissimo magoado -com voc. No ha desculpa, so umas horas de viagem... Voc sabe como -elle o adora... Que diabo! _Est modus in rebus_. - ---Com effeito, murmurou Carlos. Eu devia ter l ido... Que quer voc, -amigo?... Emfim acabou-se, necessario fazer um esforo!... Talvez -parta para a semana com o Ega. - ---Sim, homem, d-lhe esse alegro... Esteja l umas semanas... - ---_Est modus in rebus_. Hei de vr se l estou uns dias. - -A caverna do procurador era defronte do Monte-Pio. Carlos esperava, -havia momentos, dando por diante das lojas uma volta lenta--quando de -repente avistou Melanie, a sahir o porto do Monte-Pio, com uma matrona -gorda, de chapo rxo. Surprehendido, atravessou a rua. Ella estacou -como apanhada, fazendo-se toda vermelha; e nem deixou vir a pergunta; -balbuciou logo que Madame lhe dra licena para vir a Lisboa, e ella -andava acompanhando aquella amiga... Uma velha caleche, de parelha -branca, estava encalhada alli, contra o passeio. Melanie saltou para -dentro, pressa. A traquitana rodou aos solavancos para o Terreiro do -Pao. - -Carlos via-a desapparecer, pasmado. E Craft, que voltra, olhando -tambem, reconheceu no lamentavel calhambeque a caleche do _Torto_, dos -Olivaes, onde elle s vezes costumava vir janotar a Lisboa. - ---Era alguem l da _Toca_? perguntou. - -Uma criada, disse Carlos, ainda espantado d'aquelle estranho embarao de -Melanie. - -E mal tinham dado alguns passos, Carlos, parando, baixando a voz no -rumor da rua: - ---Oua l! O Eusebiosinho disse-lhe alguma coisa a meu respeito, Craft? - -O outro confessou que Eusebiosinho, apenas lhe apparecera no quarto, -rompera logo, mascando as palavras, a informal-o da mysteriosa vida de -Carlos nos Olivaes... - ---Mas eu fil-o calar, acrescentou Craft, declarando-lhe que era to -pouco curioso que nem mesmo quizera lr nunca a _Historia Romana_... Em -todo o caso voc deve ir a Santa Olavia. - -Carlos, com effeito, logo n'essa noite fallou a Maria da visita que -devia ao av. Ella, muito sria, aconselhou-lh'a tambem, arrependida de -o ter retido assim, egoisticamente e tanto tempo, longe dos outros que o -amavam. - ---Mas ouve, querido, no por muito tempo, no? - ---Por dois ou tres dias, quando muito. E naturalmente, trago at o av. -No est l a fazer nada, e eu no estou para a massada de voltar l... - -Maria ento lanou-lhe os braos ao pescoo, e baixo, timidamente, -confessou-lhe um grande desejo que tinha... Era vr o Ramalhete! Queria -visitar os quartos d'elle, o jardim, todos esses recantos, onde tantas -vezes elle pensara n'ella, e se desesperra, sentindo-a distante e -inaccessivel... - ---Dize, queres? Mas necessario que seja antes de vir teu av. Queres? - ---Acho um encanto! Ha s um perigo. eu no te deixar sahir mais e -ficar a devorar-te na minha caverna. - ---Prouvera a Deus! - -Combinaram ento que ella fosse jantar ao Ramalhete, no dia da partida -de Carlos para Santa Olavia. noitinha levava-o no coup a Santa -Apolonia; depois seguia para os Olivaes. - -Foi no sabbado. Carlos veio muito cedo para o Ramalhete: e o seu corao -batia com a deliciosa perturbao d'um primeiro encontro, quando sentiu -parar a carruagem de Maria e os seus vestidos escuros roarem o velludo -cr de cereja que forrava a escada discreta dos seus quartos. O beijo -que trocaram, na ante-camara, teve a profunda doura d'um primeiro -beijo! - -Ella foi logo ao toucador tirar o chapo, dar um geito ao cabello. Elle -no cessava de a beijar; abraava-a pela cinta; e com os rostos juntos -sorriam para o espelho, enlevados no brilho da sua mocidade. Depois, -impaciente, curiosa, ella percorreu os quartos, miudamente, at alcova -de banho; leu os titulos dos livros, respirou o perfume dos frascos, -abriu os cortinados de sda do leito... Sobre uma commoda Luiz XV havia -uma salva de prata, transbordando de retratos que Carlos se esquecera de -esconder, a coronella d'hussards d'amazona, madame Rughel decotada, -outras ainda. Ella mergulhou as mos, com um sorriso triste, na profuso -d'aquellas recordaes... Carlos, rindo, pediu-lhe que no olhasse -esses enganos do seu corao. - -Porque no? dizia Maria, sria. Sabia bem que elle no descera das -nuvens, puro como um seraphim. Havia sempre photographias no passado -d'um homem. De resto tinha a certeza que nunca amra as outras como a -sabia amar a ella. - ---At uma profanao fallar em _amor_ quando se trata d'essas coisas -d'acaso, murmurou Carlos. So quartos de estalagem onde se dorme uma -vez... - -No emtanto Maria considerava longamente a photographia da coronella -d'hussards. Parecia-lhe bem linda! Quem era? Uma franceza? - ---No, de Vienna. Mulher d'um correspondente meu, homem de negocios... -Gente tranquilla, que vivia no campo... - ---Ah, Viennense... Dizem que tem um grande encanto as mulheres de -Vienna! - -Carlos tirou-lhe a photographia da mo. Para que haviam de fallar -d'outras mulheres? Existia em todo o vasto mundo uma mulher unica, e -elle tinha-a alli abraada sobre o seu corao. - -Foram ento percorrer todo o Ramalhete, at ao terrao. Ella gostou -sobretudo do escriptorio d'Affonso, com os seus damascos de camara de -prelado, a sua feio severa de paz estudiosa. - ---No sei porque, murmurou dando um olhar lento s estantes pesadas e ao -Christo na cruz, no sei porque, mas teu av faz-me medo! - -Carlos riu. Que tonteria! O av se a conhecesse, fazia-lhe logo a crte -rasgadamente... O av era um santo! E um lindo velho! - ---Teve paixes? - ---No sei, talvez... Mas creio que o av foi sempre um puritano. - -Desceram ao jardim, que lhe agradou tambem, quieto e burguez, com a sua -cascatasinha chorando n'um rythmo dce. Sentaram-se um instante sob o -velho cedro, junto a uma mesa rustica de pedra, onde estavam entalhadas -letras mal distinctas e uma data antiga; o chalrar das aves nos ramos -pareceu a Maria mais dce que o de todas as outras aves que ouvira; -depois arranjou um ramo para levar como reliquia. - -Mesmo em cabello foram vr defronte as cocheiras: o guarda-porto ficou -de bon na mo, embasbacado para aquella senhora to linda, to loira, a -primeira que via entrar no Ramalhete! Maria acariciou os cavallos, e fez -uma festa grata e mais longa _Tunante_, que tantas vezes levra Carlos - rua de S. Francisco. Elle via n'estas simples coisas as graas -incomparaveis d'uma esposa perfeita. - -Recolheram pela escada particular de Carlos--que Maria achava -mysteriosa com aquelles velludos grossos cr de cereja, forrando-a -como um cofre, e abafando todo o rumor de saias. Carlos jurou que nunca -alli passra outro vestido--a no ser o do Ega, uma vez, mascarado de -varina. - -Depois deixou-a no quarto, um momento para ir dar ordens ao Baptista: -mas quando voltou encontrou-a a um canto do sof, to descahida, to -desanimada, que lhe arrebatou as mos, cheio d'inquietao. - ---Que tens, amor? Ests doente? - -Ella ergueu lentamente os olhos que brilhavam n'uma nevoa de lagrimas. - -Pensar que tu vaes deixar por mim esta linda casa, o teu conforto, a tua -paz, os teus amigos... uma tristeza, tenho remorsos! - -Carlos ajoelhra ao seu lado, sorrindo dos seus escrupulos, chamando-lhe -tonta, seccando-lhe n'um beijo as lagrimas que rolavam... Considerava-se -ella ento valendo menos que a cascata do jardim e alguns tapetes -usados?... - ---O que eu tenho pena de te sacrificar to pouco, minha querida Maria, -quando tu sacrificas tanto! - -Ella encolheu os hombros, amargamente. - ---Eu! - -Passou-lhe as mos entre os cabellos, puxou-o brandamente para o seu -seio--e dizia, baixo, como fallando ao seu proprio corao, calmando-lhe -as incertezas e as duvidas: - ---No, com effeito, nada vale no mundo seno o nosso amor! Nada mais -vale! Se elle verdadeiro, se profundo, tudo mais vo, nada mais -importa... - -A sua voz morreu entre os beijos de Carlos, que a levava abraada para o -leito--onde tentas vezes desesperava d'ella como d'uma deusa intangivel. - -s cinco horas pensaram em jantar. A mesa fra posta n'uma saleta que -Carlos quizera em tempo revestir de colxas de setim cr de perola e -boto d'ouro. Mas no estava ainda arranjada; as paredes conservavam o -seu papel verde-escuro; e Carlos puzera alli ultimamente o retrato de -seu pai--uma teia banal, representando um moo pallido, de grandes -olhos, com luvas de camura amarella e um chicote na mo. - -Era Baptista que os servia, j com um fato claro de viagem. A mesa, -redonda e pequena, parecia uma cesta de flres; o champagne gelava -dentro dos baldes de prata; no aparador a travessa d'arroz dce tinha as -iniciaes de Maria. - -Aquelles lindos cuidados fizeram-na sorrir, enternecida. Depois reparou -no retrato de Pedro da Maia: e interressou-se, ficou a contemplar -aquella face descrada, que o tempo fizera livida, e onde pareciam mais -tristes os grandes olhos d'arabe, negros e languidos. - ---Quem ? perguntou. - --- meu pai. - -Ella examinou-o mais de perto, erguendo uma vela. No achava que Carlos -se parecesse com elle. E voltando-se muito sria, emquanto Carlos -desarrolhava com venerao uma garrafa de velho Chambertin: - ---Sabes tu com quem te pareces s vezes?... extraordinario, mas -verdade. Pareces-te com minha mi! - -Carlos riu, encantado d'uma parecena que os aproximava mais, e que o -lisonjeava. - ---Tens razo, disse ella, que a mam era formosa... Pois verdade, ha -um no sei qu na testa, no nariz... Mas sobretudo certos geitos, uma -maneira de sorrir... Outra maneira que tu tens de ficar assim um pouco -vago, esquecido... Tenho pensado n'isto muitas vezes... - -Baptista entrava com uma terrina de loua do Japo. E Carlos, -alegremente, annunciou um jantar portugueza. Mr. Antoine, o _chef -francez_, fra com o av. Ficra a Michaela, outra cozinheira de casa, -que elle achava magnifica, e que conservava a tradio da antiga cozinha -freiratica do tempo do snr. D. Joo V. - ---Assim, para comear, minha querida Maria, ahi tens tu um caldo de -gallinha, como s se comia em Odivellas, na cella da madre Paula, em -noites de noivado mystico... - -E o jantar foi encantador. Quando Baptista se retirava, elles -apertavam-se rapidamente a mo por cima das flres. Nunca Carlos a -achra to linda, to perfeita: os seus olhos pareciam- lhe irradiar uma -ternura maior: na singela rosa que lhe ornava o peito via a -superioridade do seu gosto. E o mesmo desejo invadiu-os a ambos, de -ficarem alli eternamente, n'aquelle quarto de rapaz, com jantarinhos -portuguezes moda de D. Joo V, servidos pelo Baptista de jaqueto. - ---Estou com uma vontade de perder o comboio! disse Carlos como -implorando a sua approvao. - ---No, deves ir... necessario no sermos egoistas... Smente no te -descuides, manda-me todos os dias um grande telegramma... Que os -telegraphos foram unicamente inventados para quem se ama e est longe, -como dizia a mam. - -Ento Carlos gracejou de novo sobre a sua parecena com a mi d'ella. E -baixando-se a remexer a garrafa de champagne dentro do gelo: - --- curioso no m'o teres dito antes... Tambem tu nunca me fallaste de -tua mi... - -Um pouco de sangue roseou a face de Maria Eduarda. Oh, nunca fallra da -mam, porque nunca viera a proposito... - ---De resto no havia coisas muito interessantes a contar, acrescentou. A -mam era uma senhora da ilha da Madeira, no tinha fortuna, casou... - ---Casou em Paris? - ---No, casou na Madeira com um austriaco que fra l acompanhar um irmo -tisico... Era um homem muito distincto, viu a mam, que era lindssima, -gostaram um do outro, _et voil_... - -Dissera isto sem erguer os olhos do prato, lentamente, cortando uma aza -de frango. - ---Mas ento, exclamou Carlos, se teu pai era austriaco, meu amor, tu s -tambem austriaca... s talvez uma d'essas viennenses que tu dizes que -tem um to grande encanto... - -Sim, talvez, segundo essas coisas dos codigos, era austriaca. Mas nunca -conhecera o pai, vivera sempre com a mam, fallra sempre portuguez, -considerava-se portugueza. Nunca estivera na Austria, nem sabia mesmo -allemo... - ---No tiveste irmos? - ---Sim, tive, uma irmsinha que morreu em pequena... Mas no me lembra. -Tenho em Paris o retrato d'ella... Bem linda! - -N'esse momento em baixo, na calada, uma carruagem, a trote largo, -estacou. Carlos, surprehendido, correu janella com o guardanapo na -mo. - --- o Ega! exclamou. aquelle velhaco que chega de Cintra! - -Maria erguera-se, inquieta. E um momento, de p, ambos se olharam, -hesitando... Mas o Ega era como um irmo de Carlos. Elle esperava s que -o Ega recolhesse de Cintra para o levar _Toca_. Melhor seria que o -encontro se dsse alli, natural, franco e simples... - ---Baptista! gritou Carlos, sem vacillar mais. Dize ao snr. Ega que estou -a jantar, que entre para aqui. - -Maria sentra-se, vermelha, dando um geito rapido aos ganchos do -cabello, arranjado pressa, um pouco desmanchado. - -A porta abriu-se,--e o Ega parou, assombrado, intimidado, de chapo -branco, de guarda-sol branco, e com um embrulho de papel pardo na mo. - ---Maria, disse Carlos, aqui tens emfim o meu grande amigo Ega. - -E ao Ega disse simplesmente: - ---Maria Eduarda. - -Ega ia largar atarantadamente o embrulho para apertar a mo que Maria -Eduarda lhe estendia, crada e sorrindo. Mas o papel pardo, mal atado, -desfez-se; e uma proviso fresca de queijadas de Cintra rolou, -esmagando-se, sobre as flres do tapete. Ento todo o embarao findou -atravs d'uma risada alegre--emquanto o Ega, desolado, abria os braos -sobre as ruinas do seu dce. - ---Tu j jantaste? perguntou Carlos. - -No, no tinha jantado. E via j alli uns ovos molles nacionaes, que o -encantavam, enfastiado como vinha da horrivel cozinha do Victor. Oh, que -cozinha! Pratos lugubres, traduzidos do francez em calo, como as -comedias do Gymnasio! - ---Ento avana! exclamou Carlos. Depressa, Baptista!... Traze o caldo de -gallinha! Oh, ainda temos tempo!... Tu sabes que vou hoje para Santa -Olavia? - -Est claro que sabia, recebera a carta d'elle, e por isso viera... Mas -no podia jantar ainda, assim coberto do p da estrada, e com um -jaqueto de bucolica... - ---Dize que me guardem o caldo, Baptista! Olha, dize que me guardem tudo, -que eu trago uma fome de pastor da Arcadia!... - -O Baptista servira o caf. E a carruagem da senhora, que os devia levar -a Santa Apolonia, esperava j porta com a maleta. Mas Ega agora queria -conversar, affirmou que tinham tempo, tirou o relogio. Estava parado. E -elle declarou logo que no campo se regulava pelo sol, como as flres e -como as aves... - ---Fica agora em Lisboa? perguntou-lhe Maria Eduarda. - ---No, minha senhora, s o tempo de cumprir o meu dever de cidado, -subindo duas ou tres vezes o Chiado... Depois volto para a relva. Cintra -comea a ser interessante para mim, agora que no est ninguem... -Cintra, de vero, com burguezes, parece-me um idyllio com nodoas de -sebo. - -Mas Baptista offerecia a Carlos a _chartreuse_--dizendo que s. exc.^a -no se devia demorar se no tencionava perder o comboio, de proposito. -Maria ergueu-se logo para ir dentro pr o chapo. E os dois amigos, ss, -ficaram um momento calados, emquanto Carlos accendia devagar o charuto. - ---Tu quanto tempo te demoras? perguntou por fim o Ega. - ---Tres ou quatro dias. E tu no voltes para Cintra antes que eu chegue, -precisamos communicar... Que diabo tens tu feito l? - -O outro encolheu os hombros. - ---Tenho sorvido ar puro, colhido florinhas, murmurado de vez em quando -que lindo que isto ! etc. - -Depois, debruado sobre a mesa, picando com um palito uma azeitona: - ---De resto, nada... O Damaso l est! Sempre com a Cohen, como te mandei -dizer... Est claro que no ha nada entre elles, aquillo s para mim, -para me irritar... um canalha aquelle Damaso! Eu s quero um pretexto. -Esgano-o! - -Deu um puxo forte aos punhos, com uma cr de clera no rosto queimado: - ---Eu, est claro, fallo-lhe, aperto-lhe a mo, chamo-lhe amigo Damaso, -etc. Mas s quero um pretexto! necessario aniquilar aquelle animal. -um dever de moralidade, d'aceio publico, de gosto varrer aquella bola de -lama humana! - ---Quem esteve por l mais? perguntou Carlos. - ---Que te interesse?... A Gouvarinho. Mas vi-a uma s vez. Apparecia -pouco, coitada, agora que andava de luto. - ---De luto? - ---Por ti. - -Calou-se. Maria entrava, com o vu descido, acabando de apertar as -luvas. Ento Carlos, suspirando, resignado, estendeu os braos ao -Baptista para elle lhe vestir um casaco leve de jornada. Ega ajudava, -pedindo um abrao filial para Affonso, e recados para o gordo Sequeira. - -Foi acompanhal-os a baixo, em cabello: e fechou elle a portinhola, -promettendo a Maria Eduarda uma visita _Toca_, apenas Carlos voltasse -d'esses penhascos do Douro... - ---No vs para Cintra antes de eu voltar! gritou-lhe ainda Carlos. E a -Michaela que tome conta em ti! - ---_All right, all right_, dizia o Ega. Boa jornada! Criado de v. exc.^a, -minha senhora... At _Toca_! - -O coup partiu. Ega subiu ao seu quarto, onde outro criado lhe estava -preparando o banho. Na saleta deserta, entre as flres e os restos do -jantar, as velas continuavam a arder solitarias, fazendo resaltar no -painel escuro a pallidez de Pedro da Maia, e a melancolia dos seus -olhos. - - - -No sabbado seguinte, perto das duas horas, Carlos e Ega, ainda mesa do -almoo, acabavam os seus charutos, fallando de Santa Olavia. Carlos -chegra de l essa madrugada, s. O av decidira ficar entre as suas -velhas arvores at ao fim do outono que ia to luminoso e to macio... - -Carlos fra-o encontrar muito alegre, muito forte--apesar de ter sido -obrigado, por causa d'um toque de rheumatismo, a abandonar emfim o seu -culto da agua fria. E esta macissa, resplandecente saude do velho fra -um allivio para o corao de Carlos: parecia-lhe assim mais facil, menos -ingrata, a sua partida com Maria para Italia, em outubro. Alm d'isso -achra um _truc_, como elle dizia ao Ega, para realisar o supremo desejo -da sua vida sem magoar o av, sem lhe turbar a paz da velhice. Era um -_truc_, simples. Consistia em partir elle s para Madrid, no comeo -d'uma certa viagem d'estudo, para que j preparra o av em Santa -Olavia. Maria ficava na _Toca_, durante um mez. Depois tomava o paquete -para Bordeus: e era ahi que Carlos se reunia com ella, a comearem essa -existencia de felicidade e romance que as flres da Italia deviam -perfumar... Na primavera elle voltava a Lisboa, deixando Maria -installada no seu ninho: e ento, pouco a pouco, ia revelando ao av -aquella ligao, a que o prendia a honra, e que o foraria agora a viver -regularmente longos mezes n'uma outra terra que se tornra a patria do -seu corao. E que havia de dizer o av? Aceitar esse romance, a que no -veria os lados desagradaveis, esbatido assim pela distancia e pela nevoa -da paixo. Seria para Affonso uma vaga e mal sabida coisa d'amor que se -passava em Italia... Poderia lamental-a apenas por lhe levar -pontualmente todos os annos o neto para longe; e cada anno se consolaria -pensando na curta durao dos idyllios humanos. De resto Carlos contava -com essa larga benevolencia que amollece as almas mais rigidas quando -apenas alguns passos as separam do tumulo... Emfim o seu _truc_ -parecia-lhe bom. Ega, em resumo, approvou o _truc_. - -Depois, mais alegremente, fallaram da installao d'esse amor. Carlos -permanecia na sua ida romantica--um cottage beira d'um lago. Mas Ega -no approvava o lago. Ter todos os dias diante dos olhos uma agua sempre -mansa e sempre azul, parecia-lhe perigoso para a durabilidade da paixo. -Na quietao continua d'uma paizagem igual, dois amantes solitarios, -dizia elle, no sendo botanicos nem pescando linha, vem-se forados a -viver exclusivamente do desejo um do outro, e a tirar d'ahi todas as -suas idas, sensaes, occupaes, gracejos e silencios... E, que diabo, -o mais forte sentimento no pde dar para tanto! Dois amantes, cuja -unica profisso amarem-se, deviam procurar uma cidade, uma vasta -cidade, tumultuosa e creadora, onde o homem tenha durante o dia os -clubs, o cavaco, os museus, as idas, o sorriso d'outras mulheres--e a -mulher tenha as ruas, as compras, os theatros, a atteno d'outros -homens; de sorte que noite, quando se reunam, no tendo passado o -infindavel dia a observarem-se um no outro e a si proprios, trazendo -cada um a vibrao da vida forte que atravessaram--achem um encanto novo -e verdadeiro no conchego da sua solido, e um sabor sempre renovado na -repetio dos seus beijos... - ---Eu, continuava Ega, erguendo-se, se levasse para longe uma mulher, no -era para um lago, nem para a Suissa, nem para os montes da Sicilia; era -para Paris, para o boulevard dos Italianos, alli esquina do -Vaudeville, com janellas deitando para a grande vida, a um passo do -_Figaro_, do Louvre, da Philosophia e da _blague_... Aqui tens tu a -minha doutrina!... E ahi temos ns o amigo Baptista com o correio. - -No era o correio. Era apenas um bilhete que o Baptista trazia n'uma -salva: e vinha to perturbado que annunciou um sujeito, alli fra, na -antecamara, n'uma carruagem, espera... - -Carlos olhou o bilhete, empallideceu terrivelmente. E ficou a reviral-o, -lento e como atordoado, entre os dedos que tremiam... Depois, em -silencio, atirou-o ao Ega por cima da mesa. - ---Caramba! murmurou Ega, assombrado. - -Era Castro Gomes! - -Bruscamente Carlos erguera-se, decidido. - ---Manda entrar... Para o salo grande! - -Baptista apontou para o jaqueto de flanella com que Carlos tinha -almoado, e perguntou baixo se s. exc.^a queria uma sobrecasaca. - ---Traze. - -Ss, Ega e Carlos olharam-se um instante, anciosamente. - ---No um desafio, est claro, balbuciou Ega. - -Carlos no respondeu. Examinava outra vez o bilhete: o homem chamava-se -Joaquim Alvares de Castro Gomes: por baixo tinha escripto a lapis Hotel -Bragana... Baptista voltra com a sobrecasaca: e Carlos, abotoando-a -devagar, sahiu sem outra mais palavra ao Ega, que ficra de p junto da -mesa, limpando estupidamente as mos ao guardanapo. - -No salo nobre, forrado de brocados cr de musgo d'outono, Castro Gomes -examinava curiosamente, com um joelho apoiado borda do sof, a -esplendida tela de Constable, o retrato da condessa de Runa, bella e -forte no seu vestido de velludo escarlate de caadora ingleza. Ao rumor -dos passos de Carlos sobre o tapete, voltou-se, de chapo branco na mo, -sorrindo, pedindo perdo de estar assim a pasmar familiarmente para -aquelle soberbo Constable... Com um gesto rigido, Carlos, muito pallido, -indicou-lhe o sof. Saudando e risonho Castro Gomes sentou-se -vagarosamente. No peito da sobrecasaca muito justa trazia um boto de -rosas, os seus sapatos de verniz resplandeciam sob as polainas de linho; -no rosto chupado, queimado, a barba negra, terminava em bico; os -cabellos rareavam-lhe na risca; e mesmo a sorrir tinha um ar de seccura, -de fadiga. - ---Eu possuo tambem em Paris um Constable muito _chic_, disse elle, sem -embarao, n'um tom arrastado, cheio de _rr_, que o _sutaque_ brazileiro -adocicava. Mas apenas uma pequena paizagem, com duas figurinhas. um -pintor que no me diverte, a dizer a verdade... Todavia d muito tom a -uma galeria. necessario tel-o. - -Carlos, defronte n'uma cadeira, com os punhos fortemente fechados sobre -os joelhos, conservava a immobilidade d'um marmore. E, perante aquelle -modo affavel, uma ida ia-o atravessando, lacerante, angustiosa, -pondo-lhe j nos olhos largos que no tirava de sobre o outro, uma -irreprimivel chamma de clera. Carlos Gomes decerto _no sabia nada_! -Chegra, desembarcra, correra aos Olivaes, dormira nos Olivaes! Era o -marido, era novo, tivera-a j nos braos--a ella! E agora alli estava, -tranquillo, de flr ao peito, fallando de Constable! O unico desejo de -Carlos, n'esse instante, era que aquelle homem o insultasse. - -No emtanto Castro Gomes, amavelmente, desculpava-se de se apresentar -assim, sem o conhecer, sem ao menos ter pedido por um bilhete uma -entrevista... - ---O motivo porm que me traz to urgente, que cheguei esta manh s -dez horas do Rio de Janeiro, ou antes do Lazareto, e estou aqui!... E -esta mesma noite, se puder, parto para Madrid. - -Fez-se um allivio infinito no corao de Carlos. Ainda no vira ento -Maria Eduarda, aquelles seccos labios no a tinham tocado! E sahiu emfim -da sua rigidez de marmore, teve um movimento attento, aproximando de -leve a cadeira. - -Castro Gomes no emtanto, tendo pousado o chapo, tirra do bolso -interior da sobrecasaca uma carteira com um largo monogramma de ouro; e, -vagaroso, procurava entre os papeis uma carta... Depois, com ella na -mo, muito tranquillamente: - ---Eu recebi no Rio de Janeiro, antes de partir, este escripto anonymo... -Mas no creia v. exc.^a que foi elle que me levou a atravessar pressa -o Atlantico. Seria o maior dos ridiculos... E desejo tambem affirmar-lhe -que todo o conteudo d'elle me deixou perfeitamente indifferente... Aqui -o tem. Quer v. exc.^a ll-o, ou quer que eu leia? - -Carlos murmurou com um esforo: - ---Leia v. exc.^a - -Castro Gomes desdobrou o papel, e revirou-o um instante entre os dedos. - ---Como v. exc.^a v, a carta anonyma em todo o seu horror: papel de -mercearia, pautadinho de azul; calligraphia reles; tinta reles; cheiro -reles. Um documento odioso. E aqui est como elle se exprime: Um homem -que teve a honra de apertar a mo de v. exc.^a Eu dispensava a -honra... que teve a hora de apertar a mo de v. exc.^a e d'apreciar o -seu cavalheirismo, julga dever prevenil-o que sua mulher , vista de -toda a Lisboa, a amante d'um rapaz muito conhecido aqui, Carlos Eduardo -da Maia, que vive n'uma casa s Janelas Verdes, chamada o Ramalhete. -Este heroe, que muito rico, comprou expressamente uma quinta nos -Olivaes, onde installou a mulher de v. exc.^a e onde a vai vr todos os -dias, ficando s vezes, com escandalo da visinhana, at de madrugada. -Assim o nome honrado de v. exc.^a anda pelas lamas da capital. tudo o -que diz a carta; e eu s devo acrescentar, porque o sei, que tudo quanto -ella diz incontestavelmente exacto... O snr. Carlos da Maia pois -publicamente, com conhecimento de toda a Lisboa, o amante d'essa -senhora. - -Carlos ergueu-se, muito sereno. E abrindo de leve os braos, n'uma -aceitao inteira de todas as responsabilidades: - ---No tenho ento nada a dizer a v. exc.^a seno que estou s suas -ordens!... - -Uma fugitiva onda de sangue avivou a pallidez morena de Castro Gomes. -Dobrou a carta, guardou-a com todo o vagar na carteira. Depois, sorrindo -friamente: - ---Perdo... O snr. Carlos da Maia sabe, to bem como eu, que se isto -tivesse de ter uma soluo, violenta, eu no viria aqui pessoalmente, a -sua casa, lr-lhe este papel... A coisa inteiramente outra. - -Carlos recahira na cadeira, assombrado. E agora a lentido adocicada -d'aquella voz ia-se-lhe tornando intoleravel. Um confuso terror do que -viria d'esses labios, que sorriam com uma pallidez impertinente, quasi -fazia estalar o seu pobre corao. E era um desejo brutal de lhe gritar -que acabasse, que o matasse, ou que sahisse d'aquella sala, onde a sua -presena era uma inutilidade ou uma torpeza!... - -O outro passou os dedos no bigode, e proseguiu, devagar, arranjando as -suas palavras com cuidado e com preciso: - ---O meu caso este, snr. Carlos da Maia. Ha pessoas em Lisboa que me -no conhecem decerto, mas que sabem a esta hora que existe algures, em -Paris, no Brazil ou no inferno, um certo Castro Gomes, que tem uma -mulher bonita, e que a mulher d'esse Castro Gomes tem em Lisboa um -amante. Isto desagradavel, sobretudo por ser falso. E v. exc.^a -comprehende que eu no devo continuar a arrastar por mais tempo a fama -de _marido infeliz_, visto que a no mereo, e que a no posso -_legalmente_ ter... por isso que aqui venho, muito francamente, de -_gentleman_ para _gentleman_, dizer-lhe, como tenho teno de dizer a -outros, que aquella senhora no minha mulher. - -Durante um momento Castro Gomes esperou a voz de Carlos da Maia. Mas -elle conservava uma face muda, impenetravel, onde apenas os olhos -brilhavam angustiosamente na lividez que a cobrira. Por fim, com um -esforo, baixou de leve a cabea, como acolhendo placidamente aquella -revelao, que tornava outra qualquer palavra entre elles desnecessaria -e v. - -Mas Castro Gomes encolhera de leve os hombros, com uma languida -resignao, como quem attribue tudo malicia dos Destinos. - ---So as ridiculas scenas da vida... O snr. Carlos da Maia est d'ahi a -vr as coisas. a velha, a classica historia... Ha tres annos que eu -vivo com essa senhora; quando tive o inverno passado d'ir ao Brazil, -trouxe-a a Lisboa para no vir ssinho. Fmos para o hotel Central. V. -exc.^a comprehende perfeitamente que eu no fui fazer confidencias ao -gerente do estabelecimento. Aquella senhora vinha commigo, dormia -commigo, portanto, para todos os effeitos do hotel, era minha mulher. -Como mulher de Castro Gomes ficou no Central; como mulher de Castro -Gomes alugou depois uma casa na rua de S. Francisco; como mulher de -Castro Gomes tomou emfim um amante... Deu-se sempre como mulher de -Castro Gomes, mesmo nas circumstancias mais particularmente -desagradaveis para Castro Gomes... E, meu Deus! no podemos realmente -condemnal-a muito... Achava-se por acaso revestida d'uma excellente -posio social e d'um nome puro, seria mais que humano que o seu amor da -verdade a levasse, apenas conhecia alguem, a declarar que posio e nome -eram de emprestimo e ella era apenas Fulana de tal, amigada... De -resto, sejamos justos, ella no era moralmente obrigada a dar -semelhantes explicaes ao tendeiro que lhe vendia a manteiga, ou -matrona que lhe alugava a casa: nem mesmo, penso eu, a ninguem, a no -ser a um pai que lhe quizesse apresentar sua filha, sahida do -convento... Demais a mais sou eu que tenho um pouco a culpa; muitas -vezes, em coisas relativamente delicadas lhe deixei usar o meu nome. -Foi, por exemplo, com o nome de Castro Gomes que ella tomou a governante -ingleza. As inglezas so to exigentes!... Aquella, sobretudo, uma -rapariga to sria... Emfim tudo isso passou... O que importa agora -que eu lhe retiro solemnemente o nome que lhe emprestra; e ella fica -apenas com o seu, que Madame Mac-Gren. - -Carlos ergueu-se, livido. E com as mos fincadas nas costas da cadeira -to fortemente, que quasi lhe esgaava o estofo: - ---Mais nada, creio eu? - -Castro Gomes mordeu de leve os beios perante este remate brutal que o -despediu. - ---Mais nada, disse elle tomando o chapo e levantando-se muito -vagarosamente. Devo apenas acrescentar, para evitar a v. exc.^a -suspeitas injustas, que aquella senhora no uma menina que eu tivesse -seduzido, e a quem recuse uma reparao. A pequerruchinha que alli anda -no minha filha... Eu conheo a mi smente ha tres annos... Vinha dos -braos d'um qualquer, passou para os meus... Posso pois dizer, sem -injuria, que era uma mulher que eu pagava. - -Completra com esta palavra a humilhao do outro. Estava deliciosamente -desforrado. Carlos, mudo, abrira o reposteiro da sala, n'uma sacudidella -brusca. E, diante d'esta nova rudeza que revelava s mortificao, -Castro Gomes foi perfeito: saudou, sorriu, murmurou: - ---Parto esta noite mesmo para Madrid, e levo o pezar de ter feito o -conhecimento de v. exc.^a por um motivo to desagradavel... To -desagradavel para mim. - -Os seus passos desafogados e leves perderam-se na ante-camara, entre as -tapearias. Depois em baixo uma portinhola bateu, uma carruagem rodou na -calada... - -Carlos ficra cahido n'uma cadeira, junto da porta, com a cabea entre -as mos. E de todas aquellas palavras de Castro Gomes, que ainda lhe -resoavam em redor, adocicadas e lentas, s lhe restava o sentimento -atordoado de uma coisa muito bella, resplandecendo muito alto, e que -cahia de repente, se fazia em pedaos na lama, salpicando-o todo de -nodoas intoleraveis... No soffria: era simplesmente um assombro de todo -o seu sr perante este fim immundo d'um sonho divino... Unira a sua alma -arrebatadamente a outra alma nobre e perfeita, longe nas alturas, entre -nuvens d'ouro; de repente uma voz passava, cheia de _rr_; as duas almas -rolavam, batiam n'um charco; e elle achava-se tendo nos braos uma -mulher que no conhecia, e que se chamava Mac-Gren! - -Mac-Gren! era a Mac-Gren! - -Ergueu-se, com os punhos fechados; e veio-lhe uma revolta furiosa de -todo o seu orgulho contra essa ingenuidade que o trouxera mezes timido, -tremulo, ancioso, seguindo maneira d'uma estrella aquella mulher, que -qualquer em Paris, com mil francos no bolso, poderia ter sobre um sof, -facil e na! Era horrivel! E recordava agora, afogueado de vergonha, a -emoo religiosa com que entrava na sala de reps vermelho da rua de S. -Francisco: o encanto enternecido com que via aquellas mos, que elle -julgava as mais castas da terra, puxarem os fios de l no bordado, n'um -constante trabalho de mi laboriosa e recolhida; a venerao espiritual -com que se afastava da orla do seu vestido, igual para elle tunica -d'uma Virgem cujas pregas rigidas nem a mais rude bestialidade ousaria -desmanchar de leve! Oh imbecil, imbecil!... E todo esse tempo ella -sorria comsigo d'aquella simpleza de provinciano do Douro! Oh! tinha -vergonha agora das flres apaixonadas que lhe trouxera! Tinha vergonha -das excellencias que lhe dra! - -E seria to facil, desde o primeiro dia no Aterro, ter percebido que -aquella deusa, descida das nuvens, estava amigada com um brazileiro! Mas -qu! a sua paixo absurda de romantico puzera-lhe logo, entre os olhos e -as coisas flagrantes e reveladoras, uma d'essas nevoas douradas que do -s montanhas mais rugosas e negras um brilho polido de pedra preciosa! -Porque escolhera ella precisamente para seu medico, na sua casa e na sua -intimidade, o homem que na rua a fitra com um fulgor de desejo na face? -Porque que nas suas longas conversas, nas manhs da rua de S. -Francisco, no fallra jmais de Paris, dos seus amigos e das coisas da -sua casa? Porque que ao fim de dois mezes, sem preparao, sem todas -essas progressivas evidencias do amor que cresce e desabrocha como uma -flr, se lhe abandonra de chofre, toda prompta, apenas elle lhe disse o -primeiro amo-te?... Porque lhe aceitra uma casa j mobilada, com a -facilidade com que lhe aceitava os ramos? E outras coisas ainda, -pequeninas, mas que no teriam escapado ao mais simples: joias brutaes, -d'um luxo grosseiro de _cocotte_: o livro da _Explicao de sonhos_, -cabeceira da cama; a sua familiaridade com Melanie... E agora at o -ardor dos seus beijos lhe parecia vir menos da sinceridade da -paixo--que da sciencia da voluptuosidade!... Mas tudo acabra, -providencialmente! A mulher que elle amra e as suas seduces -esvaam-se de repente no ar como um sonho, radiante e impuro, de que -aquelle brazileiro o viera acordar por caridade! Esta mulher era apenas -a Mac-Gren... O seu amor fra, desde que a vira, como o proprio sangue -das suas veias; e escoava-se agora todo atravs da ferida incuravel e -que nunca mais fecharia, feita no seu orgulho! - -Ega appareceu porta do salo, ainda pallido: - ---Ento? - -Toda a clera de Carlos fez exploso: - ---Extraordinario, Ega, extraordinario! A coisa mais abjecta, a coisa -mais immunda! - ---O homem pediu-te dinheiro? - ---Peor! - -E, passeando arrebatadamente, Carlos desabafou, contou tudo, sem -reticencias, com as mesmas palavras cruas do outro,--que assim repetidas -e avivadas pelos seus labios, lhe descobriam motivos novos de humilhao -e de nojo. - ---J por acaso sucedeu a alguem coisa mais horrivel? exclamou por fim, -cruzando violentamente os braos diante do Ega, que se abatera no sof, -assombrado. Pdes tu conceber um caso mais sordido? E tambem mais -burlesco? para estalar o corao. E para rebentar a rir. Estupendo! -Ahi, n'esse sof, ahi onde tu ests, o homemzinho, muito amavel, de flr -ao peito, a dizer: Olhe que aquella creatura no minha mulher, uma -creatura que eu pago... Comprehendes isto bem! Aquelle sujeito -paga-a... Quanto o beijo? Cem francos. Ahi esto cem francos... de -morrer! - -E recomeou no seu passeio, desvairado, desabafando mais, recontando -tudo, sempre com as palavras do Castro Gomes, que elle deformava ainda -n'uma brutalidade maior... - ---Que te parece, Ega? Dize l. Que fazias tu? horrivel, heim? - -Ega, que limpava pensativamente o vidro do monoculo, hesitou, terminou -por dizer que, considerando as coisas com superioridade, como homens do -seu tempo e do seu mundo, ellas no offereciam nem motivos de clera, -nem motivos de dr... - ---Ento no comprehendes nada! gritou Carlos, no percebes o meu caso! - -Sim, sim, Ega comprehendia claramente que era horrivel para um homem, no -momento em que ia ligar com adorao o seu destino ao d'uma mulher, -saber que outros a tinham tido a tanto por noite... Mas isso mesmo -simplificava e amenisava as coisas. O que fra um drama complicado -tornava-se uma distraco bonanosa. Ficava Carlos, desde logo, -alliviado do remorso de ter desorganisado uma familia: j no tinha de -se exilar, a esconder o seu erro, n'um buraco florido da Italia; j o -no prendia a honra para sempre a uma mulher a quem talvez no o -prenderia para sempre o amor. Tudo isto, que diabo! eram vantagens. - ---E a dignidade d'ella! exclamou Carlos. - -Sim, mas a diminuio de dignidade e pureza no era na verdade grande, -porque antes da visita de Castro Gomes j ella era uma mulher que foge -do seu marido--o que, sem mesmo usar termos austeros, nem muito puro -nem muito digno... Decerto, tudo isso era uma humilhao irritante--no -superior todavia d'um homem que tem uma _Madona_ que contempla com -religio, suppondo-a de Raphael, e que descobre um dia que a tela divina -foi fabricada na Bahia por um sujeito chamado Castro Gomes! Mas o -resultado intimo e social parecia-lhe ser este: Carlos at ahi tivera -uma bella amante com inconvenientes, e agora tinha sem inconvenientes -uma bella amante... - ---O que tu deves fazer, meu caro Carlos... - ---O que eu vou fazer escrever-lhe uma carta, remettendo-lhe o preo de -dois mezes que dormi com ella... - ---Brutalidade romantica!... Isso j vem na _Dama das Camelias_... -Sobretudo no vr com boa philosophia as _nuances_. - -O outro atalhou, impaciente: - ---Bem, Ega, no fallemos mais n'isso... Eu estou horrivelmente -nervoso!... At logo. Tu jantas em casa, no verdade? Bem, at logo. - -Sahia atirando a porta, quando Ega, agora tranquillo, disse, erguendo-se -muito lentamente do sof: - ---O homemzinho foi para l. - -Carlos voltou-se, com os olhos chammejantes: - ---Foi para os Olivaes? Foi ter com ella? - -Sim, pelo menos mandra a tipoia quinta do Craft. Ega, para conhecer -esse snr. Castro Gomes, fra metter-se no cubiculo do guarda-porto. E -vira-o descer, accender um charuto... Era com effeito um d'esses -_rastaquouros_ que, n'esse infeliz Paris que tudo tolera, veem ao _Caf -de la Paix_ s duas horas para tomar a sua groseille, tesos e -embrutecidos... E fra o guarda-porto que lhe dissera que o sujeito -parecia muito alegre e mandra o cocheiro bater para os Olivaes... - -Carlos parecia aniquilado: - ---Tudo isso nojento!... No fim talvez at se entendam ambos... Estou -como tu dizias aqui h tempos: Cahiu-me a alma a uma latrina, preciso -um banho por dentro! - -Ega murmurou melancolicamente: - ---Essa necessidade de banhos moraes est-se tornando com effeito to -frequente!... Devia haver na cidade um estabelecimento para elles. - - - -Carlos, no seu quarto, passeava diante da mesa onde a folha branca de -papel, em que ia escrever a Maria Eduarda, j tinha a data d'esse dia, -depois--_Minha senhora_, n'uma letra que elle se esforra por traar -firme e serena:--e no achava outra palavra. Estava bem decidido a -mandar-lhe um cheque de duzentas libras, paga esplendidamente ultrajante -das semanas que passra no seu leito. Mas queria juntar duas linhas -regeladas, impassiveis, que a ferissem mais que o dinheiro: no -encontrava seno phrases de grande clera, revelando um grande amor. - -Olhava a folha branca: e a banal expresso _Minha senhora_ dava-lhe uma -saudade dilacerante por aquella a quem na vespera ainda dizia _minha -adorada_, pela mulher que se no chamava ainda Mac-Gren, que era -perfeita, e que uma paixo indomavel, superior razo, entontecera e -vencera. E o seu amor por essa Maria Eduarda, nobre e amante, que se -transformra na Mac-Gren, amigada e falsa, era agora maior -infinitamente, desesperado por ser irrealisavel--como o que se tem por -uma morta e que palpita mais ardente junto da frialdade da cova. Oh! se -ella pudesse resurgir outra vez, limpa, clara, do lodo em que afundra, -outra vez Maria Eduarda, com o seu casto bordado!... De que amor mais -delicado a cercaria, para a compensar das affeies domesticas que ella -deixasse de merecer! Que venerao maior lhe consagraria--para supprir o -respeito que o mundo superficial e affectado lhe retirasse! E ella tinha -tudo para reter amor e respeito--tinha a belleza, a graa, a -intelligencia, a alegria, a maternidade, a bondade, um incomparavel -gosto... E com todas estas qualidades dces e fortes--era apenas uma -intrujona! - -Mas porque? porque? Porque entrra ella n'esta longa fraude, tramada dia -a dia, mentindo em tudo, desde o pudor que fingia at ao nome que usava! - -Apertava a cabea entre as mos, achava a vida intoleravel. Se ella -mentia--onde havia ento a verdade? Se ella o trahia assim, com aquelles -olhos claros, o universo podia bem ser todo uma immensa traio muda. -Punha-se um mlho de rosas n'um vaso, exhalava-se d'elle a peste! -Caminhava-se para uma relva fresca, ella escondia um lamaal! E para -que, para que mentira ella? Se, desde o primeiro dia em que o vira, -tremulo e rendido, a contemplar o seu bordado como se contempla uma -aco de santidade--lhe tivesse dito que no era esposa do snr. Castro -Gomes, mas s amante do snr. Castro Gomes--teria a sua paixo sido menos -viva, menos profunda? No era a estola do padre que dava belleza ao seu -corpo e valor s suas caricias... Para que fra ento essa mentira -tenebrosa e descarada--que lhe fazia suppr agora que eram imposturas os -seus mesmos beijos, imposturas os seus mesmos suspiros!... E com este -longo embuste o levava a expatriar-se, dando a sua vida inteira por um -corpo por que outros davam apenas um punhado de libras! E por esta -mulher, tarifada s horas como as caleches da Companhia, elle ia -amarguarar a velhice do av, estragar irreparavelmente o seu destino, -cortar a sua livre aco de homem! - -Mas porque? Porque fra esta fara banal, arrastada por todos os palcos -de opera comica, da _cocotte que se finge senhora_? Porque o fizera -ella, com aquelle fallar honesto, o puro perfil e a doura de mi? Por -interesse? No. Castro Gomes era mais rico do que elle, mais largamente -lhe podia satisfazer o appetite mundano de toilettes, de carruagens... -Sentia ella que Castro Gomes a ia abandonar, e queria ter ao lado aberta -e prompta outra bolsa rica? Ento mais simples teria sido dizer-lhe: eu -sou livre, gsto de ti, toma-me livremente, como eu me dou. No! Havia -alli alguma coisa secreta, tortuosa, impenetravel... O que daria por a -conhecer! - -E ento pouco a pouco foi surgindo n'elle o desejo de ir aos Olivaes... -Sim, no lhe bastaria desforrar-se arrogantemente, atirando-lhe ao -regao um cheque embrulhado n'uma insolencia! O que precisava, para sua -plena tranquillidade, era arrancar do fundo d'aquella turva alma o -segredo d'aquella torpe fara... S isso amansaria o seu incomparavel -tormento. Queria entrar outra vez na _Tca_, vr como era aquella outra -mulher que se chamava Mac-Gren, e ouvir as suas palavras. Oh! iria sem -violencia, sem recriminaes, muito calmo, sorrindo! S para que ella -lhe dissesse qual fra a razo d'aquella mentira to laboriosa, to -v... S para lhe perguntar serenamente: Minha rica senhora para quer -foi toda esta intrujice? E depois vl-a chorar... Sim, tinha esta -anciedade cheia d'amor de a vr chorar. A agonia que elle sentira no -salo cr de musgo do outono, emquanto o outro arrastava os _rr_, queria -vl-a repetida n'esse seio, onde elle at ahi dormira to dcemente, -esquecido de tudo, e que era bello, to divinamente bello!... - -Bruscamente, decidido, deu um puxo campainha. Baptista appareceu todo -abotoado na sua sobrecasaca, com um ar resoluto, como armado e prompto a -ser util n'aquella crise que adivinhava... - ---Baptista, corre ao hotel Central e pergunta se j entrou o snr. Castro -Gomes!... No, escuta... Pe-te porta do Central, e espera at que -entre aquelle sujeito que aqui esteve... No, melhor perguntar!... -Emfim, certifica-te de que o sujeito ou voltou ou est no hotel. E -apenas estejas bem certo d'isso, volta aqui, desfilada, n'uma -tipoia... Um batedor seguro, que para me levar depois aos Olivaes!... - -Immediatamente, dada esta ordem, serenou. Era j um allivio immenso no -ter de escrever a carta, e achar palavras acerbas que a deviam -dilacerar. Rasgou o papel devagar. Depois fez o cheque de duzentas -libras, ao _portador_. Elle mesmo lh'o levaria... Oh, decerto, no lh'o -atirava romanticamente ao regao... Deixal-o-hia sobre uma mesa, -sobrescriptado a Madame Mac-Gren... E de repente sentiu uma compaixo -por ella. Via-a j, abrindo o enveloppe com duas grandes lagrimas, -lentas, caladas, a rolarem-lhe na face... E os seus proprios olhos se -humedeceram. - -N'esse momento Ega, de fra, perguntou se era importuno. - ---Entra! gritou. - -E continuou passeando, calado, com as mos nos bolsos: o outro, em -silencio tambem, foi encostar-se janella sobre o jardim. - ---Preciso escrever ao av a dizer-lhe que cheguei, murmurou Carlos por -fim, parando junto da mesa. - ---D-lhe recados meus. - -Carlos sentra-se, tomra languidamente a penna: mas bem depressa a -arremessou: cruzou as mos por detraz da cabea no espaldar da cadeira, -cerrou os olhos, como exhausto. - ---Sabes uma coisa que me parece certa? disse de repente o Ega da -janella. Quem escreveu a carta anonyma ao Castro Gomes foi o Damaso! - -Carlos olhou para elle: - ---Achas?... Sim, talvez... Com effeito quem havia de ser? - ---No foi mais ninguem, menino. foi o Damaso! - -Carlos ento recordou o que lhe contra o Taveira--as alluses -mysteriosas do Damaso a um escandalo que se estava armando, uma bala que -elle devia receber na cabea... O Damaso, portanto, tinha como certa a -vinda do brazileiro, depois um duello... - --- necessario esmagar esse infame! exclamou Ega, subitamente furioso. -No ha segurana, no ha paz na nossa vida emquanto esse bandido -viver!... - -Carlos no respondeu. E o outro proseguia, transtornado, j todo -pallido, deixando transbordar odios cada dia accumulados: - ---Eu no o mato porque no tenho um pretexto!... Se tivesse um pretexto, -uma insolencia d'elle, um olhar atrevido, era meu, esborrachava-o!... -Mas tu precisas fazer alguma coisa, isto no pde ficar assim! No pde! - necessario sangue... V tu que infamia, uma carta anonyma!... Temos a -nossa paz, a nossa felicidade, tudo exposto constantemente aos ataques -do snr. Damaso. No pde ser. Eu o que tenho pena de no ter um -pretexto! Mas tenl-o tu, aproveita, e esmaga-o! - -Carlos encolheu vagamente os hombros: - ---Merecia chicotadas, com effeito... Mas elle realmente s tem sido -velhaco commigo por causa das minhas relaes com essa senhora; e como -isso um caso acabado, tudo o que se prende com elle finda tambem. -_Parce sepultis_... E no fim era elle que tinha razo, quando dizia que -ella era uma intrujona... - -Atirou uma punhada mesa, ergueu-se, e com um sorriso amargo, n'um -tedio infinito de tudo: - ---Era elle, era o snr. Damaso Salcede que tinha razo!... - -Toda a sua clera revivera, mais aspera, a esta ida. Olhou o relogio. -Tinha pressa de a vr, tinha pressa de a injuriar!... - ---Escreveste-lhe? perguntou o Ega. - ---No, vou l eu mesmo. - -Ega pareceu espantado. Depois recomeou a passear, calado, com os olhos -no tapete. - -Ia escurecendo quando Baptista voltou. Vira o snr. Castro Gomes apear-se -no hotel e mandar descer as suas bagagens:--e a tipoia, para levar o -menino aos Olivaes, esperava em baixo. - ---Bem, adeus! disse Carlos procurando atarantadamente um par de luvas. - ---No jantas? - ---No. - -D'ahi a pouco rodava pela estrada dos Olivaes. J se accendera o gaz. E -inquieto, no estreito assento, accendendo nervosamente _cigarettes_ que -no fumava, soffria j a perturbao d'aquelle encontro difficil e -doloroso... Nem sabia mesmo como a havia de tratar, se por minha -senhora, se por minha boa amiga, com uma superior indifferena. E ao -mesmo tempo sentia por ella uma compaixo indefinida, que o amollecia. -Diante d'estes seus modos regelados, via-a j toda pallida, a tremer, -com os olhos cheios d'agua. E estas lagrimas que appetecera, agora que -estava to perto de as vr correr, enchiam-no s de commoo e de d... -Durante um momento mesmo pensou em retroceder. Por fim seria muito mais -digno escrever-lhe duas linhas altivas, sacudindo-a de si para sempre e -seccamente! Poderia no lhe mandar o cheque,--affronta brutal d'homem -rico. Apesar d'embusteira era mulher, cheia de nervos, cheia de -phantasia, e amra-o talvez com desinteresse... Mas uma carta era mais -digno. E agora acudiam-lhe as palavras que lhe deveria ter dirigido, -incisivas e precisas. Sim, devia-lhe ter dito--que se estava prompto a -dar a sua vida a uma mulher que se lhe abandonra _por paixo_, estava -decidido a no sacrificar nem os seus vagares a uma mulher que lhe -cedera _por profisso_. Era mais simples, era terminante... E depois no -a via, no teria de supportar a tortura das explicaes e das lagrimas. - -Ento veio-lhe uma fraqueza. Bateu nos vidros para fazer parar, -reflectir um instante, mais calmamente, no silencio das rodas. O -cocheiro no ouviu: o trote largo da parelha continuou batendo a estrada -escura. E Carlos deixou seguir, outra vez hesitante. Depois, maneira -que reconhecia, esbatidos na sombra, aquelles sitios onde tantas vezes -passra com o corao em festa, quando a sua paixo estava em flr, uma -clera nova voltava--menos contra a pessoa de Maria Eduarda, que contra -essa _mentira_ que fra obra d'ella, e que vinha estragar -irremediavelmente o encanto divino da sua vida. Era essa _mentira_ que -agora odiava--vendo-a como uma coisa material e tangivel, de um peso -enorme, feia e cr de ferro, esmagando-lhe o corao. Oh! Se no fosse -_essa coisa_ pequenina e inolvidavel que estava entre elles, como um -indestructivel bloco de granito, poderia abrir-lhe novamente os seus -braos, seno com a mesma crena pelo menos com o mesmo ardor! Esposa do -outro ou amante do outro--no fim que importava? No era por faltar aos -beijos que lhe dera esse a consagrao d'um padre, rosnada em latim--que -a sua pelle estava mais polluida por elles, ou tinha a menos frescura? -Mas havia a _mentira_, a _mentira_ inicial, dita no primeiro dia em que -fra rua de S. Francisco, e que como um fermento podre ficava -estragando tudo d'ahi por diante, dces conversas, silencios, passeios, -sestas no calor da quinta, murmurios de beijos morrendo entre os -cortinados cr d'ouro... Tudo manchado, tudo contaminado por aquella -_mentira_ primeira que ella dissera sorrindo, com os seus tranquillos -olhos limpidos... - -Abafava. Ia a descer a vidraa que faltava a correia--quando a tipoia -parou de repente, na estrada solitaria... Abriu a portinhola. Uma mulher -com um chale pela cabea fallava ao cocheiro. - ---Melanie! - ---Ah, monsieur! - -Carlos saltou precipitadamente. Era j proximo da quinta, na volta -d'estrada, onde o muro fazia um recanto sob uma faia, defronte de sebes -de piteiras resguardando campos d'olivedo. Carlos gritou ao cocheiro que -seguisse e esperasse no porto da quinta. E ficou alli, no escuro, com -Melanie encolhida no seu chale. - -Que estava ella alli a fazer? Melanie parecia transtornada: contou que -vinha procurar villa uma carruagem, porque a senhora queria ir a -Lisboa, ao Ramalhete... Ella julgra a tipoia vazia. - -E apertava as mos, dando as graas, com um immenso allivio. Ah! que -felicidade, que felicidade ter elle vindo!... A senhora estava afflicta, -nem jantra, perdida de chro. O snr. Castro Gomes apparecera l -inesperadamente... A senhora, coitadinha, queria morrer! - -Ento Carlos, caminhando rente ao muro, interrogou Melanie. Como viera o -outro? que dissera? como se despedira?... Melanie no ouvira nada. O -Snr. Castro Gomes e a senhora tinham conversado ss no pavilho japonez. - sahida que vira o snr. Castro Gomes dizer adeus a madame, muito -socegado, muito amavel, rindo, fallando de _Niniche_... A senhora, essa, -parecia como morta, to pallida! Quando o outro partiu, ia tendo um -desmaio. - -Estavam proximo do porto da _Toca_. Carlos retrocedeu, respirando -fortemente, com o chapo na mo. E agora todo o seu orgulho se ia -sumindo sob a violencia da sua anciedade. Queria saber! E perguntava, -deixava Melanie nas coisas dolorosas da sua paixo... Dites toujours, -Melanie, dites! Sabia a senhora que Castro Gomes estivera com elle no -Ramalhete, lhe confessra tudo?... - -Claramente que sabia, por isso chorava--dizia Melanie. Ah, ella bem -repetira senhora que era melhor contar a verdade! Era muito amiga -d'ella, servia-a desde pequena, vira nascer a menina... E tinha-lh'o -dito, at j nos Olivaes! - -Carlos curvava a cabea na escurido do muro. Melanie _tinha-lh'o dito_! -Assim ella e a criada discutiam ambas, acamaradadas, o embuste em que -andava presa a sua vida! E aquellas revelaes de Melanie, que suspirava -com o chale sobre o rosto, abatiam os ultimos pedaos d'esse sonho, que -elle erguera to alto, entre nuvens d'ouro. Nada restava. Tudo jazia em -estilhaos, no lodo immundo. - -Um momento, com o corao cheio de fadiga, pensou em voltar a Lisboa. -Mas para alm d'aquelle negro muro estava _ella_, perdida de chro, -querendo morrer... E lentamente recomeou a caminhar para o porto. - -E agora, sem resistencia nenhuma do orgulho, fazia perguntas mais -intimas a Melanie. Porque que Maria Eduarda no lhe dissera a verdade? - -Melanie encolheu os hombros. No sabia: nem a senhora sabia! Estivera no -Central como madame Gomes; alugra a casa da rua de S. Francisco como -madame Gomes; recebera-o como madame Gomes... E assim se deixra ir, -insensivelmente, conversando com elle, gostando d'elle, vindo para os -Olivaes... E depois era tarde, j no se atrevera a confessar, toda -enterrada assim na _mentira_, com medo do desgosto... - -Mas, exclamava Carlos, nunca imaginra ella que fatalmente tudo se -descobriria um dia? - ---Je ne sais pas, monsieur, je ne sais pas, murmurou Melanie quasi a -chorar. - -Depois eram outras curiosidades. Ella no esperava Castro Gomes? no -suppunha que elle voltasse? no costumava fallar d'elle?... - ---Oh non, monsieur, oh non! - -Madame, desde que o senhor comera a ir todos os dias rua de S. -Francisco, considerra-se para sempre desligada do snr. Castro Gomes, -nem fallava n'elle, nem queria que se fallasse... Antes d'isso a menina -chamava sempre ao snr. Castro Gomes _petit ami_. Agora no lhe chamava -nada. Tinham-lhe dito que j no havia _petit ami_... - ---Ella escrevia-lhe ainda, dizia Carlos, eu sei que ella lhe escrevia... - -Sim, Melanie julgava que sim... Mas cartas indifferentes. A senhora -levra o seu escrupulo a ponto de que, desde que viera para os Olivaes, -nunca mais gastra um ceitil das quantias que lhe mandava o snr. Castro -Gomes. As letras para receber dinheiro conservava-as intactas, -entregara-lh'as n'essa tarde... No se lembrava elle de a ter encontrado -uma manh porta do Monte-Pio? Pois bem! Fra l, com uma amiga -franceza, empenhar uma pulseira de brilhantes da senhora. A senhora -vivia agora das suas joias; tinha j outras no prgo. - -Carlos parra, commovido. Mas ento para que tinha ella mentido? - ---Je ne sais pas, dizia Melanie, je ne sais pas... Mais elle vous aime -bien, allez! - -Estavam defronte do porto. A tipoia esperava. E, ao fundo da rua -d'acacias, a porta da casa aberta deixava passar a luz do corredor, -frouxa e triste. Carlos julgou vr mesmo a figura de Maria Eduarda, -embrulhada n'uma capa escura, de chapo, atravessar n'essa claridade... -Ouvira decerto rodar a carruagem. Que afflicta paciencia seria a sua! - ---Vai-lhe dizer que vim, Melanie, vai! murmurou Carlos. - -A rapariga correu. E elle, caminhando devagar sob as acacias, sentia no -sombrio silencio as pancadas desordenandas do seu corao. Subiu os tres -degraus de pedra--que lhe pareciam j d'uma casa estranha. Dentro, o -corredor estava deserto, com a sua lampada mourisca alumiando as -panoplias de touros... Alli ficou. Melanie, com o chale na mo, veio -dizer-lhe que a senhora estava na sala das tapearias... - -Carlos entrou. - -L estava, ainda de capa, esperando de p, palida, com toda a alma -concentrada nos olhos que refulgiam entre as lagrimas. E correu para -elle, arrebatou-lhe as mos, sem poder fallar, soluando, tremendo toda. - -Na sua terrivel perturbao, Carlos achava s esta palavra, -melancolicamente estupida: - ---No sei porque chora, no sei, no h razo para chorar... - -Ella pde emfim balbuciar: - ---Escuta-me, pelo amor de Deus! no digas nada, deixa contar-te... Eu ia -l, tinha mandado Melanie por uma carruagem. Ia vr-te... Nunca tive a -coragem de te dizer! Fiz mal, foi horrivel... Mas escuta, no digas nada -ainda, perda, que eu no tenho culpa! - -De novo os soluos a suffocaram. E cahiu ao canto do sof, n'um chro -brusco e nervoso, que a sacudiu toda, lhe fazia rolar sobre os hombros -os cabellos mal atados. - -Carlos ficra diante d'ella, immovel. O seu corao parecia parado de -surpreza e de duvida, sem fora para desafogar. Apenas agora sentia -quanto baixo e brutal deixar-lhe o cheque--que tinha alli na carteira e -que o enchia de vergonha... Ella ergueu o rosto, todo molhado, murmurou -com um grande esforo: - ---Escuta-me!... Nem sei como hei de dizer... Oh, so tantas coisas, so -tantas coisas!... Tu no te vaes j embora, senta-te, escuta... - -Carlos puxou uma cadeira, lentamente. - ---No, aqui ao p de mim... Para eu ter mais coragem... Por quem s, tem -pena, faze-me isso! - -Elle cedeu supplicao humilde e enternecedora dos seus olhos -arrazados d'agua: e sentou-se ao outro canto do sof, afastado d'ella, -n'uma desconsolao infinita. Ento, muito baixo, enrouquecida pelo -chro, sem o olhar, e como n'um confessionario--Maria comeou a fallar -do seu passado, desmanchadamente, hesitando, balbuciando, entre grandes -soluos que a afogavam, e pudores amargos que lhe faziam enterrar nas -mos a face afflicta. - -A culpa no fra d'ella! no fra d'ella! Elle devia ter perguntado -quelle homem que sabia toda a sua vida... Fra sua mi... Era horroroso -dizel-o, mas fra por causa d'ella que conhecera e que fugira com o -primeiro homem, o outro, um irlandez... E tinha vivido com elle quatro -annos, como sua esposa, to fiel, to retirada de tudo e s occupada da -sua casa, que elle ia casar com ella! Mas morrera na guerra com os -allemes, na batalha de Saint-Privat. E ella ficra com Rosa, com a mi -j doente, sem recursos, depois de vender tudo... Ao principio -trabalhra... Em Londres tinha procurado dar lies de piano... Tudo -falhra, dois dias vivera sem lume, de peixe salgado, vendo Rosa com -fome! com fome! Ah, elle no podia perceber o que isto era!... Quasi -fra por caridade que as tinha repatriado para Paris... E ahi conhecera -Castro Gomes. Era horrivel, mas que havia d'ella fazer! Estava -perdida... - -Lentamente escorregra do sof, cahira aos ps de Carlos. E elle -permanecia immovel, mudo, com o corao rasgado por angustias -differentes: era uma compaixo tremula por todas aquellas miserias -soffridas, dr de mi, trabalho procurado, fome, que lh'a tornavam -confusamente mais querida; e era o horror d'esse outro homem, o -irlandez, que surgia agora, e que lh'a tornava de repente mais -maculada... - -Ella continuava fallando de Castro Gomes. Vivera tres annos com elle, -honestamente, sem um desvio, sem um pensamento mau. O seu desejo era -estar quieta em casa. Elle que a forava a andar em ceias, em -noitadas... - -E Carlos no podia ouvir mais, torturado. Repeliu-lhe as mos, que -procuravam as suas. Queria fugir, queria findar!... - ---Oh no, no me mandes embora! gritou ella prendendo-se a elle -anciosamente. Eu sei que no mereo nada! Sou uma desgraada... Mas no -tive coragem, meu amor! Tu s homem, no comprehendes estas coisas... -Olha para mim! porque no olhas para mim? Um instante s, no voltes o -rosto, tem pena de mim... - -No! elle no queria olhar. Temia aquellas lagrimas, o rosto cheio -d'agonia. Ao calor do seio que arquejava sobre os seus joelhos, j tudo -n'elle comeava a oscillar, orgulhos, despeitos, dignidade, ciume... E -ento, sem saber, a seu pezar, as suas mos apertaram as d'ella. Ella -cobriu-lhe logo de beijos os dedos, as mangas, arrebatadamente: e -anciosa implorava do fundo da sua miseria um instante de misericordia. - ---Oh, dize que me perdas! Tu s to bom! Uma palavra s... Dize s que -no me odeias, e depois deixo-te ir... Mas dize primeiro... Olha ao -menos para mim como d'antes, uma s vez!... - -E eram agora os seus labios que procuravam os d'elle. Ento a fraqueza -em que sentia afundar-se todo o seu sr encheu Carlos de clera, contra -si e contra ella. Sacudiu-a brutalmente, gritou: - ---Mas porque no me disseste, porque no me disseste? Para que foi essa -longa mentira? Eu tinha-te amado do mesmo modo! Para que mentiste, tu? - -Largra-a, prostrada no cho. E de p, deixava cahir sobre ella a sua -queixa desesperada: - --- a tua mentira que nos separa, a tua horrivel mentira, a tua mentira -smente! - -Ella ergueu-se pouco a pouco, mal se sustendo, e com uma pallidez de -desmaio. - ---Mas eu queria dizer-t'o, murmurou muito baixo, muito quebrado diante -d'elle, deixando cahir os braos. Eu queria dizer-t'o... No te lembras, -n'aquelle dia em que vieste tarde, quando eu fallei da casa de campo, e -que tu pela primeira vez declaraste que gostavas de mim? Eu disse-te -logo: ha uma coisa que te quero contar... Tu nem me deixaste acabar. -Imaginavas o que era, que eu queria ser s tua, longe de tudo... E -disseste ento que haviamos d'ir, com Rosa, ser felizes para algum canto -do mundo... No te lembras?... Foi ento que me veio uma tentao! Era -no dizer nada, deixar-me levar, e depois, mais tarde, annos depois, -quando te tivesse provado bem que boa mulher eu era, digna da tua -estima, confessar-te tudo e dizer-te: agora, se queres, manda-me -embora. Oh! foi mal feito, bem sei... Mas foi uma tentao, no -resisti... Se tu no fallasses em fugirmos, tinha-te dito tudo... Mas -mal fallaste em fugirmos, vi uma outra vida, uma grande esperana, nem -sei que! E alm d'isso adiava aquella horrivel confisso! Emfim, nem -posso explicar, era como o co que se abria, via-me comtigo n'uma casa -nossa... Foi uma tentao!... E depois era horrivel, no momento em que -tu me querias tanto, ir dizer-te no faas tudo isso por mim, olha que -eu sou uma desgraada, nem marido tenho... Que te hei de explicar mais? -No me resignava a perder o teu respeito. Era to bom ser assim -estimada... Emfim foi um mal, foi um grande mal... E agora ahi est, -vejo-me perdida, tudo acabou! - -Atirou-se para o cho, como uma creatura vencida e finda, escondendo a -face no sof. E Carlos, indo lentamente ao fundo da sala, voltando -bruscamente at junto d'ella, tinha s a mesma recriminao, a -_mentira_, a _mentira_, pertinaz e de cada dia... S os soluos d'ella -lhe respondiam. - ---Porque no me disseste ao menos depois, aqui nos Olivaes, quando -sabias que tu eras tudo para mim?... - -Ella ergueu a cabea fatigada: - ---Que queres tu? Tive medo que o teu amor mudasse, que fosse d'outro -modo... Via-te j a tratar-me sem respeito. Via-te a entrar por ahi -dentro de chapo na cabea, a perder a affeio pequena, a querer -pagar as despezas da casa... Depois tinha remorsos, ia adiando. Dizia -hoje no, um dia s mais de felicidade, manh ser... E assim ia -indo! Emfim, nem eu sei, um horror! - -Houve um silencio. E ento Carlos sentiu porta _Niniche_ que queria -entrar e que gania baixinho e doloridamente. Abriu. A cadellinha correu, -pulou para o sof, onde Maria permanecia soluando, enrodilhando a um -canto: procurava lamber-lhe as mos, inquieta: depois ficou plantada -junto d'ella, como a guarda-l'a, desconfiada, seguindo, com os seus -vivos olhos d'azeviche, Carlos que recomera a passear sombriamente. - -Um ai mais longo e mais triste de Maria fel-o parar. Esteve um momento -olhando para aquella dr humilhada... Todo abalado, com os labios a -tremer, murmurou: - ---Mesmo que te pudesse perdoar, como te poderia acreditar agora nunca -mais? Ha esta mentira horrivel sempre entre ns a separar-nos! No teria -um unico dia de confiana e de paz... - ---Nunca te menti seno n'uma coisa, e por amor de ti! disse ella -gravemente do fundo da sua prostrao. - ---No, mentiste em tudo! Tudo era falso, falso o teu casamento, falso o -teu nome, falsa a tua vida toda... Nunca mais te poderia acreditar... -Como havia de ser, se agora mesmo quasi que nem acredito no motivo das -tuas lagrimas? - -Uma indignao ergueu-a, direita e soberba. Os seus olhos de repente -seccos rebrilharam, revoltados e largos, no marmore da sua pallidez. - ---Que queres tu dizer? Que estas lagrimas tem outro motivo, estas -supplicas so fingidas? Que finjo tudo para te reter, para no te -perder, ter outro homem, agora que estou abandonada?... - -Elle balbuciou: - ---No, no! No isso! - ---E eu? exclamou ella, caminhando para elle, dominando-o, magnifica e -com um esplendor de verdade na face. E eu? porque hei de eu acreditar -n'essa grande paixo que me juravas? O que que tu amavas ento em mim? -Dize l! Era a mulher d'outro, o nome, o requinte do adulterio, as -_toilletes_?... Ou era eu propria, o meu corpo, a minha alma e o meu -amor por ti?... Eu sou a mesma, olha bem para mim!... Estes braos so -os mesmos, este peito o mesmo... S uma coisa differente: a minha -paixo! Essa maior, desgraadamente, infinitamente maior. - ---Oh! se isso fosse verdade! gritou Carlos, apertando as mos. - -N'um instante Maria estava cahida a seus ps, com os braos abertos para -elle. - ---Juro-t'o por alma de minha filha, por alma de Rosa! Amo-te, adoro-te -doidamente, absurdamente, at morte! - -Carlos tremia. Todo o seu sr pendia para ella; e era um impulso -irresistivel de se deixar cahir sobre aquelle seio que arfava a seus -ps, ainda que elle fosse o abysmo da sua vida inteira... Mas outra vez -a idia da _mentira_ passou, regeladora. E afastou-se d'ella, levando os -punhos cabea, n'um desespero, revoltado contra aquella coisa -pequenina e indestructivel que no queria sumir-se, e que se interpunha -como uma barra de ferro entre elle e a sua felicidade divina! - -Ella ficra ajoelhada, immovel, com os olhos esgazeados para o tapete. -Depois, no silencio estofado da sala, a sua voz ergueu-se dolente e -tremula: - ---Tens razo, acabou-se! Tu no me acreditas, tudo se acabou!... -melhor que te vs embora... Ninguem me torna a acreditar... Acabou tudo -para mim, no tenho ninguem mais no mundo... manh sio d'aqui, -deixo-te tudo... Has de me dar tempo para arranjar... Depois, que hei de -fazer, vou-me embora! - -E no pde mais, tombou para o cho, com os braos estirados, perdida de -chro. - -Carlos voltou-se, ferido no corao. Com o seu vestido escuro, para alli -cahida e abandonada, parecia j uma pobre creatura, arremessada para -fra de todo o lar, ssinha a um canto, entre a inclemencia do mundo... -Ento respeitos humanos, orgulho, dignidade humana, tudo n'elle foi -levado como por um grande vento de piedade. Viu s, offuscando todas as -fragilidades, a sua belleza, a sua dr, a sua alma sublimemente amante. -Um delirio generoso, de grandiosa bondade, misturou-se sua paixo. E, -debruando-se, disse-lhe baixo, com os braos abertos: - ---Maria, queres casar commigo? - -Ella ergueu a cabea, sem comprehender, com os olhos desvairados. Mas -Carlos tinha os braos abertos; e estava esperando para a fechar dentro -d'elles outra vez, como sua e para sempre... Ento levantou-se, -tropeando nos vestidos, veio cahir sobre o peito d'elle, cobrindo-o de -beijos, entre soluos e risos, tonta, n'um deslumbramento: - ---Casar comtigo, comtigo? Oh Carlos... E viver sempre, sempre -comtigo?... Oh meu amor, meu amor! E tratar de ti, e servir-te, e -adorar-te, e ser s tua? E a pobre Rosa tambem... No, no cases -commigo, no possivel, no valho nada! Mas se tu queres, porque -no?... Vamos para longe, juntos, e Rosa e eu sobre o teu corao! E has -de ser nosso amigo, meu e d'ella, que no temos ninguem no mundo... Oh! -meu Deus, meu Deus!... - -Empallideceu, escorregando pesadamente entre os braos d'elle, -desmaiada: e os seus longos cabellos desprendido rojavam o cho, tocados -pela luz de tons d'ouro. - - - - -V - - -Maria Eduarda e Carlos, que ficra essa noite nos Olivaes na sua -casinhola, acabavam de almoar. O Domingos servira o caf, e antes de -sahir deixra ao lado de Carlos a caixa de cigarettes e o _Figaro_. As -duas janellas estavam abertas. Nem uma folha se movia no ar pesado da -manh encoberta, entristecida ainda por um dobre lento de sinos que -morria ao longe nos campos. No banco de cortia, sob as arvores, miss -Sarah costurava preguiosamente; Rosa ao lado brincava na relva. E -Carlos, que viera n'uma intimidade conjugal, com uma simples camisa de -sda e um jaqueto de flanella, chegou ento a cadeira para junto de -Maria, tomou-lhe a mo, brincando-lhe com os anneis, n'uma lenta -caricia: - ---Vamos a saber, meu amor... Decidiste, por fim? Quando queres partir? - -N'essa noite, entre os seus primeiros beijos de noiva, ella mostrra o -desejo enternecido de no alterar o plano da Italia e d'um ninho -romantico entre as flres d'Isola-bella: smente agora no iam esconder -a inquietao d'uma felicidade culpada, mas gozar o repouso d'uma -felicidade legitima. E, depois de todas as incertezas e tormentos que o -tinham agitado desde o dia em que cruzra Maria Eduarda no Aterro, -Carlos anhelava tambem pelo momento de se installar emfim no conforto -d'um amor sem duvidas e sem sobresaltos: - ---Eu por mim abalava manh. Estou sfrego de paz. Estou at sfrego de -preguia... Mas tu, dize, quando queres? - -Maria no respondeu; apenas o seu olhar sorriu, reconhecido e -apaixonado. Depois, sem retirar a mo que a longa caricia de Carlos -ainda prendia, chamou Rosa atravs da janella. - ---Mam, espera, j vou! Passa-me umas migalhas... Andam aqui uns pardaes -que ainda no almoaram... - ---No, vem c. - -Quando ella appareceu porta, toda de branco, crada, com uma das -ultimas rosas de vero mettida no cinto--Maria quil-a mais perto, entre -elles, encostada aos seus joelhos. E, arranjando-lhe a fita solta do -cabello, perguntou, muito sria, muito commovida, se ella gostaria que -Carlos viesse viver com ellas de todo e ficar alli na _Toca_... Os olhos -da pequena encheram-se de surpreza e de riso: - ---O qu! estar sempre, sempre aqui, mesmo de noite, toda a noite?... E -ter aqui as suas malas, as suas coisas?... - -Ambos murmuraram--sim. - -Rosa ento pulou, bateu as palmas, radiante, querendo que Carlos fosse -j, j, buscar as suas malas e as suas coisas... - ---Escuta, disse-lhe ainda Maria gravemente, retendo-a sobre os joelhos. -E gostavas que elle fosse como o pap, e que andasse sempre comnosco, e -que lhe obedecessemos ambas, e que gostassemos muito d'elle ? - -Rosa ergueu para a me uma facesinha compenetrada, onde todo o sorriso -se apagra. - ---Mas eu no posso gostar mais d'elle do que gsto!... - -Ambos a beijaram, n'um enternecimento que lhes humedecia os olhos. E -Maria Eduarda, pela primeira vez diante de Rosa debruando-se sobre -ella, beijou de leve a testa de Carlos. A pequena ficou pasmada para o -seu amigo, depois para a mi. E pareceu comprehender tudo; escorregou -dos joelhos de Maria, veio encostar-se a Carlos com uma meiguice -humilde: - ---Queres que te chame pap, s a ti? - ---S a mim, disse elle, fechando-a toda nos braos. - -E assim obtiveram o consentimento de Rosa--que fugiu, atirando a porta, -com as mos cheias de bolos para os pardaes. - -Carlos levantou-se, tomou a cabea de Maria entre as mos, e -contemplando-a profundamente, at alma, murmurou n'um enlevo: - ---s perfeita! - -Ella desprendeu-se, com melancolia, d'aquella adorao que a perturbava. - ---Escuta... Tenho ainda muito, muito que te dizer, infelizmente. Vamos -para o nosso kiosque... Tu no tens nada que fazer, no? E que tenhas, -hoje s meu... Vou j ter comtigo. Leva as tuas cigarettes. - -Nos degraus do jardim, Carlos parou a olhar, a sentir a doura velada do -co cinzento... E a vida pareceu-lhe adoravel, d'uma poesia fina e -triste,assim envolta n'aquella nevoa macia onde nada resplandecia e nada -cantava, e que to favoravel era para que dois coraes, desinteressados -do mundo e em desharmonia com elle, se abandonassem juntos ao contnuo -encanto de estremecerem juntos na mudez e na sombra. - ---Vamos ter chuva, tio Andr, disse elle, passando junto do velho -jardineiro que aparava o buxo. - -O tio Andr, atarantado, arrancou o chapo. Ah! uma gota d'agua era bem -necessaria, depois da estiagem! O torrosinho j estava com sde! E em -casa todos bons? A senhora? A menina? - ---Tudo bom, tio Andr, obrigado. - -E no seu desejo de vr todos em torno de si felizes como elle e como a -terra sequiosa que ia ser consolada--Carlos metteu uma libra na mo do -tio Andr, que ficou deslumbrado, sem ousar fechar os dedos sobre aquelle -ouro extraordinario que reluziu. - -Quando Maria entrou no kiosque trazia um cofre de sandalo. Atirou-o para -o divan: fez sentar Carlos ao lado, bem confortavel, entre almofadas: -accendeu-lhe uma cigarrete. Depois agachou-se aos seus ps, sobre o -tapete, como na humildade de uma confisso. - ---Ests bem assim? Queres que o Domingos te traga agua e cognac?... No? -Ento ouve agora, quero-te contar tudo... - -Era toda a sua existencia que ella desejava contar. Pensra mesmo em -lh'a escrever n'uma carta interminavel, como nos romances. Mas decidira -antes tagarellar alli uma manh inteira, aninhada aos seus ps. - ---Ests bem, no ests? - -Carlos esperava, commovido. Sabia que aquelles labios amados iam fazer -revelaes pungentes para o seu corao--e amargas para o seu orgulho. -Mas a confidencia da sua vida completava a posse da sua pessoa: quando a -conhecesse toda no seu passado sentil-a-hia mais sua inteiramente. E no -fundo tinha uma curiosidade insaciavel d'essas coisas que o deviam -pungir e que o deviam humilhar. - ---Sim, conta... Depois esquecemos tudo e para sempre. Mas agora dize, -conta... Onde nasceste tu por fim? - -Nascera em Vienna: mas pouco se recordava dos tempos de criana, quasi -nada sabia do pap, a no ser a sua grande nobreza e a sua grande -belleza. Tivera uma irmsinha que morrera de dois annos e que se chamava -Heloisa. A mam, mais tarde, quando ella era j rapariga, no tolerava -que lhe perguntassem pelo passado; e dizia sempre que remexer a memoria -das coisas antigas prejudicava tanto como sacudir uma garrafa de vinho -velho... De Vienna apenas recordava confusamente largos passeios -d'arvores, militares vestidos de branco, e uma casa espelhada e dourada -onde se danava: s vezes durante tempos ella ficava l s com o av, um -velhinho triste e timido, mettido pelos cantos, que lhe contara -historias de navios. Depois tinham ido a Inglaterra: mas lembrava-se -smente de ter atravessado um grande rumor de ruas, n'um dia de chuva, -embrulhada em pelles, sobre os joelhos d'um escudeiro. As suas primeiras -memorias mais nitidas datavam de Paris; a mam, j viuva, andava de luto -pelo av; e ella tinha uma aia italiana que a levava todas as manhs, -com um arco e com uma plla, brincar aos Campos Elyseos. A noite -costumava vr a mam decotada, n'um quarto cheio de setins e de luzes; e -um homem louro, um pouco brusco, que fumava sempre estirado pelos sofs, -trazia-lhe de vez em quando uma boneca, e chamava-lhe mademoiselle -_Triste-c[oe]ur_ por causa do seu arzinho sisudo. Emfim a mam mettera-a -n'um convento ao p de Tours--porque n'essa idade, apesar de cantar j -ao piano as walsas da _Belle Helne_, ainda no sabia soletrar. Fra nos -jardins do convento, onde havia lindos lilazes, que a mam se separra -d'ella n'uma paixo de lagrimas; e ao lado esperava, para a consolar -decerto, um sujeito muito grave, de bigodes encerados, a quem a Madre -Superiora fallara com venerao. - -A mam ao principio vinha vl-a todos os mezes, demorando-se em Tours -dois, tres dias; trazia-lhe uma profuso de presentes, bonecas, bonbons, -lenos bordados, vestidos ricos, que lhe no permittia usar a regra -severa do convento. Davam ento passeios de carruagem pelos arredores de -Tours: e havia sempre officiaes a cavallo, que escoltavam a caleche--e -tratavam a mam por _tu_. No convento as mestras, a Madre Superiora no -gostavam d'estas sahidas--nem mesmo que a mam viesse acordar os -corredores devotos com as suas risadas e o ruido das suas sdas; ao -mesmo tempo pareciam temel-a; chamavam-lhe _Madame la Comtesse_. A mam -era muito amiga do general que commandava em Tours, e visitava o bispo. -Monsenhor, quando vinha ao convento, fazia-lhe uma festinha especial na -face e alludia risonhamente a _son excellente mre_. Depois a mam -comeou a apparecer menos em Tours. Esteve um anno longe, quasi sem -escrever, viajando na Allemanha; voltou um dia, magra e coberta de luto, -e ficou toda a manh abraada a ella a chorar. - -Mas na visita seguinte vinha mais moa, mais brilhante, mais ligeira, -com dois grandes galgos brancos, annunciando uma romagem poetica Terra -Santa e a todo o remoto Oriente. Ella tinha ento quasi dezeseis annos: -pela sua applicao, os seus modos dces e graves, ganhra a affeio da -Madre Superiora--que s vezes, olhando-a com tristeza, acariciando-lhe o -cabello cahido em duas tranas segundo a regra, lhe mostrava o desejo de -a conservar sempre ao seu lado. _Le monde_, dizia ella, _ne vous sera -bon rien, mon enfant!_... Um dia, porm, appareceu para a levar para -Paris, para a mam, uma Madame de Chavigny, fidalga pobre, de caracoes -brancos, que era como uma estampa de severidade e de virtude. - -O que ella chorra ao deixar o convento! Mais choraria se soubesse o que -ia encontrar em Paris! - -A casa da mam, no Parc Monceaux, era na realidade uma casa de jogo--mas -recoberta de um luxo srio e fino. Os escudeiros tinham meias de sda; -os convidados, com grandes nomes no Nobiliario de Frana, conversavam de -corridas, das Tulherias, dos discursos do Senado; e as mesas de jogo -armavam-se depois como uma distraco mais picante. Ella recolhia sempre -ao seu quarto s dez horas: Madame de Chavigny, que ficra como sua dama -de companhia, ia com ella cedo ao Bois n'um coup estufo de -_douairire_. Pouco a pouco, porm, este grande verniz comeou a -estalar. A pobre mam cahira sob o jugo d'um Mr. de Trevernnes, homem -perigoso pela sua seduco pessoal e por uma desoladora falta de honra e -de senso. A casa descahiu rapidamente n'uma bohemia mal dourada e -ruidosa. Quando ella madrugava, com os seus habitos saudaveis do -convento, encontrava paletots d'homens por cima dos sofs: no marmore -das consoles restavam pontas de charuto entre nodoas de champagne; e -n'algum quarto mais retirado ainda tinia o dinheiro d'um _baccarat_ -talhado claridade do sol. Depois uma noite, estando deitada, sentira -de repente gritos, uma debandada brusca na escada; veio encontrar a mam -estirada no tapete, desmaiada; ella dissera-lhe apenas mais tarde, -alagada em lagrimas, que tinha havido uma desgraa... - -Mudaram ento para um terceiro andar da Chausse-d'Antin. Ahi comeou a -apparecer uma gente desconhecida e suspeita. Eram Valachos de grandes -bigodes, Peruanos com diamantes falsos, e condes romanos que escondiam -para dentro das mangas os punhos enxovalhados... Por vezes entre esta -malta vinha algum _gentleman_--que no tirava o paletot, como n'um -caf-concerto. Um d'esses foi um irlandez, muito moo, Mac-Gren... -Madame de Champigny deixra-as desde que faltra o coup severo, -acolchoado de setim; e ella, s com a mi, insensivelmente, fatalmente, -fra-se misturando a essa vida tresnoitada de grogs e de _baccarat_. - -A mam chamava a Mac-Gren o bb. Era com effeito uma criana -estouvada e feliz. Namorra-se d'ella logo com o ardor, a effuso, o -impeto d'um irlandez; e prometteu-lhe fazel-a sua esposa apenas se -emancipasse--porque Mac-Gren, menor ainda, vivia sobretudo das -liberalidades de uma av excentrica e rica que o adorava, e que habitava -a Provena n'uma vasta quinta onde tinha feras em jaulas... E no entanto -induzia-a sem cessar a fugir com elle, desesperado de a vr entre -aquelles Valachos que cheiravam a genebra. O seu desejo era leval-a para -Fontainebleau, para um _cottage_ com trepadeiras de que fallava sempre, -e esperar ahi tranquillamente a maioridade que lhe traria duas mil -libras de renda. Decerto, era uma situao falsa: mas preferivel a -permanecer n'aquelle meio depravado e brutal onde ella a cada instante -crava... A esse tempo a mam parcela ir perdendo todo o senso, -desarranjada de nervos, quasi irresponsavel. As difficuldades crescentes -estonteavam-n'a; brigava com as criadas; bebia champagne _pour -s'tourdir_. Para satisfazer as exigencias de Mr. de Trevernnes -empenhra as suas joias, e quasi todos os dias chorava com ciumes -d'elle. Por fim houve uma penhora: uma noite tiveram d'enfardelar -pressa roupa n'um sacco, e ir dormir a um hotel. E, peor, peor que tudo! -Mr. de Trevernnes comeava a olhar para ella d'um modo que a -assustava... - ---Minha pobre Maria! murmurou Carlos, pallido, agarrando-lhe as mos. - -Ella permaneceu um momento suffocada, com o rosto cahido nos joelhos -d'elle. Depois limpando as lagrimas que a ennevoavam: - ---Ahi esto as cartas de Mac-Gren, n'esse cofre... Tenho-as guardado -sempre para me justificar a mim mesma, se me possivel... Pede-me em -todas que v para Fontainebleau; chama-me sua esposa; jura que apenas -juntos iremos ajoelhar-nos diante da av, obter a sua indulgencia... Mil -promessas! E era sincero... Que queres que te diga? A mam uma manh -partiu com uma sucia para Baden. Fiquei em Paris s, n'um hotel... Tinha -um palpite, um terror que Trevernnes apparecia... E eu s! Estava to -transtornada que pensei em comprar um rewolver... Mas quem veio foi -Mac-Gren. - -E partira com elle, sem precipitao, como sua esposa, levando todas as -suas malas. A mam de volta de Baden correu a Fontainebleau, desvairada -e tragica, amaldioando Mac-Gren, ameaando-o com a priso de Mazas, -querendo esbofeteal-o; depois rompeu a chorar. Mac-Gren, como um bb, -agarrou-se a ella aos beijos, chorando tambem. A mam terminou por os -apertar a ambos contra o corao, j rendida, perdoando tudo, -chamando-lhes filhos da sua alma. Passou o dia em Fontainebleau, -radiante, contando a patuscada de Baden, j com o plano de vir -installar-se no _cottage_, viver junto d'elles n'uma felicidade calma e -nobre de avsinha... Era em maio; Mac-Gren, noite, deitou um fogo -preso no jardim. - -Comeou um anno quieto e facil. O seu unico desejo era que a mam -vivesse com elles socegadamente. Diante das suas supplicas ella ficava -pensativa, dizia: Tens razo, veremos! Depois remergulhava no -torvelinho de Paris, d'onde resurgia uma manh, n'um _fiacre_, -estremunhada e afflicta, com uma rica pellia sobre uma velha saia, a -pedir-lhe cem francos... Por fim nascera Rosa. Toda a sua anciedade -desde ento fra legitimar a sua unio. Mas Mac-Gren adiava, -levianamente, com um medo pueril da av. Era um perfeito bb! -Entretinha as manhs a caar passaros com visco! E ao mesmo tempo -terrivelmente teimoso: ella pouco a pouco perdera-lhe todo o respeito. -No comeo da primavera a mam um dia appareceu em Fontainebleau com as -suas malas, succumbida, enojada da vida. Rompera emfim com Trevernnes. -Mas quasi immediatamente se consolou: e comeou d'ahi a adorar Mac-Gren -com uma to larga effuso de caricias, e achando-o to lindo, que era s -vezes embaraadora. Os dois passavam o dia, com copinhos de cognac, -jogando o _bezigue_. - -De repente rebentou a guerra com a Prussia. Mac-Gren enthusiasmado, e -apesar das supplicas d'ellas, corrra a alistar-se no batalho de Zuavos -de Charette; a av de resto approvra este rasgo d'amor pela Frana, e -fizera-lhe n'uma carta em verso, em que celebrava Jeanne d'Arc, uma -larga remessa de dinheiro. Por esse tempo Rosa teve o garrotilho. Ella, -sem lhe largar o leito, mal attendia s noticias da guerra. Sabia apenas -confusamente das primeiras batalhas perdidas na fronteira. Uma manh a -mam rompeu-lhe no quarto, estonteada, em camisa: o exercito capitulra -em Sdan, o imperador estava prisioneiro! o fim de tudo, o fim de -tudo! dizia a mam espavorida. Ella veio a Paris procurar noticias de -Mac-Gren: na rua Royale teve de se refugiar n'um porto, diante do -tumulto d'um povo em delirio, acclamando, cantando a Marselheza, em -torno de uma caleche onde ia um homem, pallido como cera, com um -cache-nez escarlate ao pescoo. E um sujeito ao lado, aterrado, -disse-lhe que o povo fra buscar Rochefort priso e que estava, -proclamada a Republica. - -Nada soubera de Mac-Gren. Comearam ento dias d'infinito sobresalto. -Felizmente Rosa convalescia. Mas a pobre mam causava d, envelhecida de -repente, sombria, prostrada n'uma cadeira, murmurando apenas: o fim -de tudo, o fim de tudo! E parecia na verdade o fim da Frana. Cada -dia uma batalha perdida; regimentos presos, apinhados em wagons de gado, -internados a todo o vapor para os presidios d'Allemanha; os prussianos -marchando sobre Paris... No podiam permanecer em Fontainebleau; o duro -inverno comeava; e com o que venderam pressa, com o dinheiro que -Mac-Gren deixra, partiram para Londres. - -Fra uma exigencia da mam. E em Londres ella, desorientada na enorme e -estranha cidade, doente tambem, deixra-se levar pelas tontas idas da -me. Tomaram uma casa mobilada, muito cara, nos bairros de luxo, ao p -de Mayfair. A mam fallava em organisar alli o centro de resistencia dos -bonapartistas refugiados; no fundo, a desgraada pensava em crear uma -casa de jogo em Londres. Mas ai! eram outros tempos... Os imperialistas, -sem imperio, no jogavam j o _baccarat_. E ellas em breve, sem -rendimentos, gastando sempre, tinham-se achado com aquella dispendiosa -casa, tres criados, contas colossaes e uma nota de cinco libras no fundo -d'uma gaveta. E Mac-Gren mettido dentro de Paris, com meio milho de -prussianos em redor. Foi necessario vender todas as joias, vestidos, at -as pellias. Alugaram ento, no bairro pobre de Soho, tres quartos mal -mobilados. Era o _lodging_ de Londres em toda a sua suja, solitaria -tristeza; uma criadita unica, enfarruscada como um trapo; alguns carves -humidos fumegando mal na chamin; e para jantar um pouco de carneiro -frio e cerveja da esquina. Por fim faltra mesmo o escasso shilling para -pagar o _lodging_. A mam no sahia do catre, doente, succumbida, -chorando. Ella s vezes ao anoitecer, escondida n'um water-proof, levava -ao _prgo_ embrulhos de roupa (at roupa branca, at camisas!) para que -ao menos no faltasse a Rosa a sua chicara de leite. As cartas que a -mam escrevia a alguns antigos companheiros de ceias na _Maison d'Or_ -ficavam sem resposta: outras traziam, embrulhada n'um bocado de papel, -alguma meia-libra que tinha o pavoroso sabor d'uma esmola. Uma noite, um -sabbado de grande nevoeiro, indo empenhar um chambre de rendas da mam, -perdera-se, errra na vasta Londres n'uma treva amarellada, a tiritar de -frio, quasi com fome, perseguida por dois brutos que empestavam a -alcool. Para lhes fugir atirou-se para dentro d'um _cab_ que a levou a -casa. Mas no tinha um penny para pagar ao cocheiro; e a patra roncava -no seu cacifro, bebeda. O homem resmungou; ella, succumbida, alli mesmo -na porta rompeu a chorar. Ento o cocheiro desceu da almofada, -commovido, offereceu-se para a levar de graa ao _prgo_, onde -ajustariam as suas contas. Foi; o pobre homem s aceitou um _schilling_; -at mesmo suppondo-a franceza grunhiu blasphemias contra os prussianos, -e teimou em lhe offerecer uma bebida. - -Ella no emtanto procurava uma occupao qualquer costura, bordados, -traduces, cpias de manuscriptos... No achava nada. N'aquelle duro -inverno o trabalho escasseava em Londres; surgira uma multido de -francezes, pobres como ella, luctando pelo po... A mam no cessava de -chorar; e havia alguma coisa mais terrivel que as suas lagrimas--eram as -suas alluses constantes facilidade de se ter em Londres dinheiro, -conforto e luxo, quando se nova e se bonita... - ---Que te parece esta vida, meu amor? exclamou ella, apertando as mos -amargamente. - -Carlos beijou-a em silencio, com os olhos humedecidos. - ---Emfim tudo passou, continuou Maria Eduarda. Fez-se a paz, o crco -acabou. Paris estava de novo aberto... Smente a difficuldade era -voltar. - ---Como voltaste? - -Um dia por acaso, em Regent-Street, encontrra um amigo de Mac-Gren, -outro irlandez, que muitas vezes jantra com elles em Fontainebleau. -Veio vl-as a Soho; diante d'aquella miseria, do bule de ch aguado, dos -ossos de carneiro requentando sobre tres brazas mortas, comeou, como -bom irlandez, por accusar o governo d'Inglaterra e jurar uma desforra de -sangue. Depois offereceu, com os beios j a tremer, toda a sua -dedicao. O pobre rapaz batia tambem o lagedo n'uma lucta tormentosa -pela vida. Mas era irlandez; e partiu logo generosamente, armado de -todos os seus ardis, a conquistar atravs de Londres o pouco que ellas -necessitavam para recolher a Frana. Com effeito appareceu n'essa mesma -noite, derreado e triumphante, brandindo tres notas de banco e uma -garrafa de _champagne_. A mam ao vr, depois de tantos mezes de ch -preto, a garrafa de _Clicquot_ encarapuada de ouro--quasi desmaiou, de -enternecimento. Enfardelaram os trapos. Ao partirem, na estao de -_Charing-Cross_, o irlandez levou-a para um canto, e engasgado, torcendo -os bigodes, disse-lhe que Mac-Gren tinha morrido na batalha de -Saint-Privat... - ---Para que te hei de eu contar o resto? Em Paris recomecei a procurar -trabalho. Mas tudo estava ainda em confuso... Quasi immediatamente veio -a Communa... Pdes acreditar que muitas vezes tivemos fome. Mas emfim j -no era Londres, nem o inverno, nem o exilio. Estavamos em Paris, -soffriamos de companhia com amigos d'outros tempos. J no parecia to -terrivel... Com todas estas privaes a pobre Rosa comeava a -definhar... Era um supplicio vl-a perder as cres, tristinha, mal -vestida, mettida n'uma trapeira... A mam j se queixava da doena de -corao que a matou... O trabalho que eu encontrava, mal pago, dava-nos -apenas para a renda da casa, e para no morrer absolutamente de -necessidade... Principiei a adoecer de anciedade, de desespero. Luctei -ainda. A mam fazia d. E Rosa morria se no tivesse outro regimen, bom -ar, algum conforto... Conheci ento Castro Gomes em casa d'uma antiga -amiga da mam, que no perdera nada com a guerra, nem com os prussianos, -e que me dava trabalhos de costura... E o resto sbel-o... Nem eu me -lembro... Fui levada... Via s vezes Rosa, coitadinha, embrulhada n'um -chale, muito quietinha ao seu canto, depois de rapada a sua magra tigela -de sopas, e ainda com fome... - -No pde continuar; rompeu a chorar, cahida sobre os joelhos de Carlos. -E elle na sua emoo s lhe podia dizer, passando-lhe as mos tremulas -pelos cabellos, que a havia de desforrar bem de todas as miserias -passadas... - ---Escuta ainda, murmurou ella, limpando as lagrimas. Ha s uma coisa -mais que te quero dizer. E a santa verdade, juro-te pela alma de Rosa! - que n'estas duas relaes que tive o meu corao conservou-se -adormecido... Dormiu sempre, sempre, sem sentir nada, sem desejar nada, -at que te vi... E ainda te quero dizer outra coisa... - -Um momento hesitou, coberta de rubor. Passra os braos em torno de -Carlos, pendurada toda d'elle, com os olhos mergulhados nos seus. E foi -mais baixo que balbuciou na derradeira, na absoluta confisso de todo o -seu sr: - ---Alm de ter o corao adormecido, o meu corpo permaneceu sempre frio, -frio como um marmore... - -Elle estreitou-a a si arrebatadamente: e os seus labios ficaram collados -muito tempo, em silencio, completando, n'uma emoo nova e quasi -virginal, a communho perfeita das suas almas. - - - -D'ahi a dias Carlos e Ega vinham n'uma victoria, pela estrada dos -Olivaes, em caminho da _Toca_. - -Toda essa manh, no Ramalhete, Carlos estivera emfim contando ao Ega o -impulso de paixo que o lanra de novo e para sempre, como esposo, nos -braos de Maria; e, na confiana absoluta que o prendia ao Ega, -revelra-lhe mesmo miudamente a historia d'ella, dolorosa e -justificadora. Depois, ao acalmar o calor, propoz que fossem comer as -sopas _Toca_. Ega deu uma volta pelo quarto, hesitando. Por fim -comeou a passar devagar a escova pelo paletot, murmurando, como durante -as longas confidencias de Carlos: prodigioso!... Que estranha coisa, -a vida! - -E agora pela estrada, na aragem dce do rio, Carlos fallava ainda de -Maria, da vida na _Toca_, deixando escapar do corao muito cheio o -interminavel cantico da sua felicidade. - --- facto, Egasinho, conheo quasi a felicidade perfeita! - ---E c na _Toca_ ainda ninguem sabe nada? - -Ninguem--a no ser Melanie, a confidente--suspeitava a profunda -alterao que se fizera nas suas relaes: e tinham assentado que miss -Sarah e o Domingos, primeiras testemunhas da sua amizade, seriam -rgiamente recompensados e despedidos quando em fins de outubro elles -partissem para Italia. - ---E ides ento casar a Roma?... - ---Sim... Em qualquer logar onde haja um altar e uma estola. Isso no -falta em Italia... E ento, Ega, que reapparece o espinho de toda esta -felicidade. por isso que eu disse quasi. O terrivel espinho, o av! - --- verdade, o velho Affonso. Tu no tens ida como lhe has de fazer -conhecer esse caso?... - -Carlos no tinha ida nenhuma. Sentia s que lhe faltava absolutamente a -coragem de dizer ao av: esta mulher, com quem vou casar, teve na sua -vida estes erros... E alm d'isso, j reflectira, era inutil. O av -nunca comprehenderia os motivos complicados, fataes, inilludiveis que -tinham arrastado Maria. Se lh'os contasse miudamente--o av veria alli -um romance confuso e fragil, antipathico sua natureza forte e candida. -A fealdade das culpas feril-o-hia, exclusivamente; e no lhe deixaria -apreciar, com serenidade, a irresistibilidade das causas. Para perceber -este caso d'um caracter nobre apanhado dentro d'uma implacavel rede de -fatalidades, seria necessario um espirito mais ductil, mais mundano que -o do av... O velho Affonso era um bloco de granito: no se podiam -esperar d'elle as subtis discriminaes d'um casuista moderno. Da -existencia de Maria s veria o facto tangivel:--cahira successivamente -nos braos de dois homens. E d'ahi decorreria toda a sua attitude de -chefe de familia. Para que havia elle pois de fazer ao velho uma -confisso, que necessariamente originaria um conflicto de sentimentos e -uma irreparavel separao domestica?... - ---Pois no te parece, Ega? - ---Falla mais baixo, olha o cocheiro. - ---No percebe bem o portuguez, sobretudo o nosso estylo... Pois no te -parece? - -Ega raspava phosphoros na sola para accender o charuto. E resmungava: - ---Sim, o velho Affonso granitico... - -Por isso Carlos concebera outro plano, mais sagaz: consistia em esconder -ao av o passado de Maria--e fazer-lhe conhecer a pessoa de Maria. -Casavam secretamente em Italia. Regressavam: ella para a rua de S. -Francisco, elle filialmente para o Ramalhete. Depois Carlos levava o av -a casa da sua boa amiga, que conhecera em Italia, M.^{me} de Mac-Gren. -Para o prender logo l estavam os encantos de Maria, todas as graas -d'um interior delicado e srio, jantarinhos perfeitos, idas justas, -Chopin, Beethoven, etc. E, para completar a conquista de quem to -enternecidamente adorava crianas, l estava Rosa... Emfim, quando o av -estivesse namorado de Maria, da pequena, de tudo--elle, uma manh, -dizia-lhe francamente: Esta creatura superior e adoravel teve uma quda -no seu passado; mas eu casei com ella; e, sendo tal como , no fiz bem, -apesar de tudo, em a escolher para minha esposa? E o av, perante esta -terrivel irremediabilidade do facto consummado, com toda a sua -indulgencia de velho enternecido a defender Maria--seria o primeiro a -pensar que, se esse casamento no era o melhor segundo as regras do -mundo, era decerto o melhor segundo os interesses do corao... - ---Pois no te parece, Ega? - -Ega, absorvido, sacudia a cinza do charuto. E pensava que Carlos, em -resumo, adoptra para com o av a complicada combinao que Maria -Eduarda tentra para com elle--e imitava sem o sentir os subtis -raciocinios d'ella. - ---E acabou-se, continuava Carlos. Se elle na sua indulgencia aceitar -tudo, bravo! d-se uma grande festa no Ramalhete... Seno, foi-se! -passaremos a viver cada um para seu lado, fazendo ambos prevalecer a -superioridade de duas coisas excellentes: o av as tradies do sangue, -eu os direitos do corao. - -E, vendo o Ega ainda silencioso: - ---Que te parece? Dize l. Tu andas to falto de idas, homem! - -O outro sacudiu a cabea, como despertando. - ---Queres que te diga o que me parece, com franqueza? Que diabo, ns -somos dois homens fallando como homens!... Ento aqui est: teu av tem -quasi oitenta annos, tu tens vinte e sete ou o quer que seja... -doloroso dizel-o, ninguem o diz com mais dr que eu, mas teu av ha de -morrer... Pois bem, espera at l. No cases. Suppe que ella tem um pae -muito velho, teimoso e caturra, que detesta o snr. Carlos da Maia e a -sua barba em bico. Espera; contina a vir _Toca_, na tipoia do Mulato; -e deixa teu av acabar a sua velhice calma, sem desilluses e sem -desgostos... - -Carlos torcia o bigode, mudo, enterrado no fundo da victoria. Nunca, -n'esses dias de inquietao, lhe acudira ida to sensata, to facil! -Sim, era isso, esperar! Que melhor dever do que poupar ao pobre av toda -a dr?... Maria de certo, como mulher, estava desejando anciosamente a -converso do amante no marido pelo lao d'estola que tudo purifica e -nenhuma fora desata. Mas ella mesma preferiria uma consagrao -legal--que no fosse assim precipitada, dissimulada... Depois, to recta -e generosa, comprehenderia bem a obrigao suprema de no mortificar -aquelle santo velho. De resto, no conhecia ella a sua lealdade solida e -pura como um diamante? Recebera a sua palavra: desde esse momento -estavam casados, no diante do sacrario e nos registos da sacristia--mas -diante da honra e na inabalavel communho dos seus coraes... - ---Tens razo! gritou por fim, batendo no joelho do Ega. Tens -immensamente razo! Essa ida genial! Devo esperar... E emquanto -espero?... - ---Como, emquanto esperas? acudiu Ega, rindo. Que diabo! Isso no -commigo! - -E mais srio: - ---Emquanto esperas tens esse metal vil que faz a existencia nobre. -Installas tua mulher, porque desde hoje tua mulher, aqui nos Olivaes -ou n'outro sitio, com o gosto, o conforto e a dignidade que competem a -tua mulher... E deixas-te ir! Nada impede que faaes essa viagem nupcial - Italia... Voltas, continas a fumar a tua _cigarette_ e a deixar-te -ir. Este o bom senso: assim que pensaria o grande Sancho Pansa... -Que diabo tens tu n'aquelle embrulho que cheira to bem? - ---Um ananaz... Pois isso, querido: esperar, deixar-me ir. uma ida! - -Uma ida! e a mais grata ao temperamento de Carlos. Para que iria com -effeito enredar-se n'uma meada de amarguras domesticas, por um excesso -de cavalheirismo romantico? Maria confiava n'elle; era rico, era moo; o -mundo abria-se ante elles facil e cheio de indulgencias. No tinha seno -a deixar-se ir. - ---Tens razo, Ega! E Maria a primeira a achar isto cheio de senso e -d'_opportunismo_. Eu tenho uma certa pena em adiar a installao da -minha vida e do meu _home_. Mas, acabou-se! Antes de tudo que o av seja -feliz... E para celebrar o advento d'esta ida, Deus queira que Maria -nos tenha um bom jantar! - -Agora, ao aproximar-se da _Toca_, Ega ia receando o primeiro encontro -com Maria Eduarda. Incommodava-o esse enleio, esse rubor que ella no -poderia occultar--certa que, como confidente de Carlos, elle conhecia a -sua vida, as suas miserias, as suas relaes com Castro Gomes. Por isso -hesitra em vir _Toca_. Mas tambem, no apparecer mais a Maria Eduarda -seria marcar com um relevo quasi offensivo o desejo caridoso de no -molestar o seu pudor... Por isso decidira dar o mergulho d'uma vez. -Quem, seno elle, deveria ser o mais apressado em estender a mo noiva -de Carlos?... Alm d'isso tinha uma infinita curiosidade de vr no seu -interior, sua mesa, essa creatura to bella, com a sua graa nobre de -Deusa moderna! Mas saltou da victoria muito embaraado. - -Por fim tudo se passou com uma facilidade risonha. Maria bordava, -sentada nos degraus do jardim. Teve um sobresalto, crou toda, com -effeito, ao avistar o Ega que procurava atarantadamente o monoculo: o -aperto de mo que trocaram foi mudo e timido: mas Carlos, alegremente, -desembrulhra o ananaz--e na admirao d'elle todo o constrangimento se -dissipou. - ---Oh! magnifico! - ---Que cr, que luxo de tons! - ---E que aroma! Veio perfumando toda a estrada. - -Ega no voltra _Toca_ desde a noite fatal da _soire_ dos Cohens em -que elle alli tanto bebera e delirra tanto. E lembrou logo a Carlos a -jornada na velha traquitana, debaixo d'um temporal, o _grog_ do Craft, a -ceia de per... - ---J aqui soffri muito, minha senhora, vestido de Mephistopheles!... - ---Por causa de Margarida? - ---Por quem se ha de soffrer n'este apaixonado mundo, minha senhora, -seno por Margarida ou por Fausto? - -Mas Carlos quiz que elle admirasse os esplendores novos da _Toca_. E foi -j com familiaridade que Maria o levou pelas salas, lamentando que s -viesse assim _Toca_ no fim do vero e no fim das flres. Ega -extasiou-se ruidosamente. Emfim, perdera a _Toca_ o seu ar regelado e -triste de museu! J alli se podia palrar livremente! - ---Isto um barbaro, Maria! exclamava Carlos radiante. Tem horror -arte! um Ibero, um Semita... - -Semita? Ega prezava-se de ser um luminoso Aryano! E por isso mesmo no -podia viver n'uma casa, em que cada cadeira tinha a solemnidade -sorumbatica de antepassados com cabelleira... - ---Mas, dizia Maria rindo, rodas estas lindas coisas do seculo dezoito -lembram antes a ligeireza, o espirito, a graa de maneiras... - ---V. exc.^a acha? acudiu Ega. A mim todos esses dourados, esses -enramalhetados, esses rococs lembram-me uma vivacidade estouvada e -sirigaita... Nada! ns vivemos n'uma Democracia! E no ha para exprimir -a alegria simples, slida e bonacheirona da Democracia, como largas -poltronas de marroquim, e o mogno envernizado!... - -Assim n'uma risonha, ligeira discusso sobre bric--brac, desceram ao -jardim. - -Miss Sarah passeava entre o buxo, de olhos baixos, com um livro fechado -na mo. Ega, que conhecia j os seus ardores nocturnos, cravou-lhe -sfregamente o monoculo; e emquanto Maria se abaixra a cortar um -geranio, exprimiu a Carlos n'um gesto mudo a sua admirao por aquelle -beicinho escarlate, aquelle seiosinho redondo de rola farta... Depois, -ao fundo, junto do caramancho, encontraram Rosa que se balouava. Ega -pareceu deslumbrado com a sua belleza, a sua frescura mate de camelia -branca. Pediu-lhe um beijo. Ella exigiu primeiro, muito sria, que elle -tirasse o vidro do olho. - ---Mas para te vr melhor! para te vr melhor!... - ---Ento porque no trazes um em cada olho? Assim s me vs metade... - -Encantadora! encantadora! murmurava Ega. No fundo achava a pequena -espevitada e impudente. Maria resplandecia. - -E o jantar alargou mais esta intimidade risonha. Carlos, logo sopa, -fallando-se de campo e d'um _chalet_ que elle desejava construir em -Cintra, nos Capuchos, dissera--quando nos casarmos. E Ega alludiu a -esse futuro do modo mais grato ao corao de Maria. Agora que Carlos se -installava para sempre n'uma felicidade estavel (dizia elle) era -necessario trabalhar! E relembrou ento a sua velha ida do Cenaculo, -representado por uma _Revista_ que dirigisse a litteratura, educasse o -gosto, elevasse a politica, fizesse a civilisao, remoasse o -carunchoso Portugal... Carlos, pelo seu espirito, pela sua fortuna (at -pela sua figura, ajuntava o Ega rindo) devia tomar a direco d'este -movimento. E que profunda alegria para o velho Affonso da Maia! - -Maria escutava, presa e sria. Sentia bem quanto Carlos, com uma vida -toda de intelligencia e de actividade, rehabilitaria supremamente -aquella unio mostrando-lhe a influencia fecunda e purificadora. - ---Tem razo, tem bem razo! exclamava ella com ardor. - ---Sem contar, acrescentava o Ega, que o paiz precisa de ns! Como muito -bem diz o nosso querido e imbecilissimo Gouvarinho, o paiz no tem -pessoal... Como ha de tel-o, se ns, que possuimos as aptides, nos -contentamos em governar os nossos dog-carts e escrever a vida intima dos -atomos? Sou eu, minha senhora, sou eu que ando a escrever essa -biographia d'um atomo!... No fim, este dilettantismo absurdo. Clamamos -por ahi, em botequins e livros, que o paiz uma choldra. Mas que -diabo! Porque que no trabalhamos para o refundir, o refazer ao nosso -gosto e pelo molde perfeito das nossas idas?... V. exc.^a no conhece -este paiz, minha senhora. admiravel! uma pouca de cera inerte de -primeira qualidade. A questo toda est em quem a trabalha. At aqui a -cera tem estado em mos brutas, banaes, toscas, reles, rotineiras... -necessario pl-a em mos d'artistas, nas nossas. Vamos fazer d'isto um -_bijou_!... - -Carlos ria, preparando n'uma travessa o ananaz com sumo de laranja e -vinho da Madeira. Mas Maria no queria que elle risse. A ida do Ega -parecia-lhe superior, inspirada n'um alto dever. Quasi tinha remorsos, -dizia ella, d'aquella preguia de Carlos. E agora, que ia ser cercado de -affeio serena, queria-o vr trabalhar, mostrar-se, dominar... - ---Com effeito, disse o Ega recostado e sorrindo, a era do romance -findou. E agora... - -Mas o Domingos servia o ananaz. E o Ega provou e rompeu em clamores de -enthusiasmo. Oh que maravilha! Oh que delicia! - ---Como fazes tu isto? Com Madeira... - ---E genio! exclamou Carlos. Delicioso, no verdade? Ora digam-me se -tudo o que eu pudesse fazer pela civilisao valeria este prato de -ananaz! para estas coisas que eu vivo! Eu no nasci para fazer -civilisao... - ---Nasceste, acudiu o Ega, para colher as flres d'essa planta da -civilisao que a multido rega com o seu suor! No fundo tambem eu, -menino! - -No, no! Maria no queria que fallassem assim! - ---Esses ditos estragam tudo. E o snr. Ega, em logar de corromper Carlos, -devia inspiral-o... - -Ega protestou requebrando o olho, j languido. Se Carlos necessitava uma -musa inspiradora e benefica--no podia ser elle, bicho com barbas e -bacharel em leis... A musa estava _toute trouve_! - ---Ah, com effeito!... Quantas paginas bellas, quantas nobres idas se -no podem produzir n'um paraiso d'estes!... - -E o seu gesto molle e acariciador indicava a _Toca_, a quietao dos -arvoredos, a belleza de Maria. Depois na sala, emquanto Maria tocava um -nocturno de Chopin e Carlos e elle acabavam os charutos porta do -jardim vendo nascer a lua--Ega declarou que, desde o comeo do jantar, -estava com idas de casar!... Realmente no havia nada como o casamento, -o interior, o ninho... - ---Quando penso, menino, murmurou elle mordendo sombriamente o charuto, -que quasi todo um anno da minha vida foi dado quella israelita devassa -que gosta de levar bordoada... - ---Que faz ella em Cintra? perguntou Carlos. - ---Ensopa-se na crapula. No ha a menor duvida que d todo o seu corao -ao Damaso... Tu sabes o que n'estes casos significa o termo _corao_... -Viste j immundicie igual? simplesmente obscena! - ---E tu adral-a, disse Carlos. - -O outro no respondeu. Depois, dentro, n'um odio repentino da bohemia e -do romantismo, entoou louvores sonoros familia, ao trabalho, aos altos -deveres humanos--bebendo copinhos de cognac. meia noite, ao sahir, -tropeou duas vezes na rua d'acacias, j vago, citando Proudhon. E -quando Carlos o ajudou a subir para a victoria, que elle quiz descoberta -para ir communicando com a lua, Ega ainda lhe agarrou o brao para lhe -fallar da _Revista_, d'um forte vento de espiritualidade e de virtude -viril que se devia fazer soprar sobre o paiz... Por fim, j estirado no -assento, tirando o chapo aragem da noite: - ---E outra coisa, Carlinhos. V se me arranjas a ingleza... Ha vicios -deliciosos n'aquellas pestanas baixas... V se m'a arranjas... V l, -bate l, cocheiro! Caramba, que belleza de noite! - - - -Carlos ficra encantado com este primeiro jantar d'amizade na _Toca_. -Elle tencionava no apresentar Maria aos seus intimos seno depois de -casado e volta de Italia. Mas agora a unio legal estava j no seu -pensamento adiada, remota, quasi dispersa no vago. Como dizia o Ega, -devia esperar, deixar-se ir... E no emtanto, Maria e elle no poderiam -isolar-se alli todo um longo inverno, sem o calor sociavel d'alguns -amigos em redor. Por isso uma manh, encontrando o Cruges, que fra o -visinho de Maria e outr'ora lhe dava noticias da lady ingleza, -pediu-lhe para vir jantar _Toca_ no domingo. - -O maestro appareceu n'uma tipoia, tardinha, de lao branco e de -casaca: e os fatos claros de campo com que encontrou Carlos e Ega -comearam logo a enchel-o de mal-estar. Toda a mulher, alm das Lolas e -Conchas, o atarantava, o emmudecia: Maria, com o seu porte de -_grande-dame_, como elle dizia, intimidou-o a tal ponto que ficou -diante d'ella, sem uma palavra, escarlate, torcendo o forro das -algibeiras. Antes de jantar, por lembrana de Carlos, foram-lhe mostrar -a quinta. O pobre maestro, roando a casaca mal feita pela folhagem dos -arbustos, fazia esforos anciosos por murmurar algum elogio belleza -do sitio; mas escapavam-lhe ento inexplicavelmente coisas reles, em -calo: vista catita! pitada! Depois ficava furioso, coberto de -suor, sem comprehender como se lhe babavam dos labios esses ditos -abominaveis, to contrarios ao seu gosto fino d'artista. Quando se -sentou mesa soffria um negrissimo accesso de _spleen_ e mudez! Nem uma -controversia que Maria arranjra caridosamente para elle sobre Wagner e -Verdi pde descerrar-lhe os labios empedernidos. Carlos ainda tentou -envolvel-o na alegria da mesa--contando a ida a Cintra, quando elle -procurava Maria na Lawrence, e em vez d'ella achra uma matrona obesa, -de bigode, de cosinho ao collo, ralhando com o homem em hespanhol. Mas -a cada exclamao de Carlos--Lembras-te, Cruges?, No verdade, -Cruges?--o maestro, rubro, grunhia apenas um _sim_ avaro. Terminou por -estar alli, ao lado de Maria, como um trambolho funebre. Estragou o -jantar. - -Combinra-se para depois do caf um passeio pelos arredores, n'um break. -E Carlos j tomra as guias, Maria na almofada acabava de abotoar as -luvas--quando Ega, que receava a friagem da tarde, saltou do break, -correu a buscar o paletot. N'esse mesmo momento sentiram um trote de -cavallo na estrada--e appareceu o marquez. - -Foi uma surpreza para Carlos, que o no vira durante esse vero. O -marquez parou logo, tirando profundamente, ao vr Maria, o seu largo -chapo desabado. - ---Imaginava-o pela Golleg! exclamou Carlos. Foi at o Cruges que me -disse... Quando chegou voss? - -Chegra na vespera. L fra ao Ramalhete; tudo deserto. Agora vinha aos -Olivaes vr um dos Vargas que tinha casado, se installra alli perto, a -passar o noivado... - ---Quem, o gordo, o das corridas? - ---No, o magro, o das regatas. - -Carlos, debruado da almofada, examinava a egoasita do marquez, pequena, -bem estampada, d'um baio escuro e bonito. - ---Isso novo? - ---Uma facasita do Darque... Quer-m'a voss comprar? Sou j um pouco -pesado para ella, e isto mette-se a um dog-cart... - ---D l uma volta. - -O marquez deu a volta, bem posto na sella, avantajando a egoa. Carlos -achou-lhe boas aces. Maria murmurou--Muito bonita, uma cabea -fina... Ento Carlos apresentou o marquez de Souzella a madame -Mac-Gren. Elle chegou a egoa roda, descoberto, para apertar a mo a -Maria: e espera do Ega que se eternisava l dentro, ficaram fallando -do vero, de Santa Olavia, dos Olivaes, da _Toca_... Ha que tempos o -marquez alli no passava! A ultima vez fra victima da excentricidade do -Craft... - ---Imagine v. exc.^a, disse elle a Maria Eduarda, que esse Craft me -convida a almoar. Venho, e o hortelo diz-me que o snr. Craft, criado e -cozinheiro, tudo partira para o Porto; mas que o snr. Craft deixra um -cartaz na sala... Vou sala, e vejo dependurado ao pescoo d'um idolo -japonez uma folha de papel com estas palavras pouco mais ou menos: O -deus Tchi tem a honra de convidar o snr. marquez, em nome de seu amo -ausente, a passar sala de jantar onde encontrar, n'um aparador, -queijo e vinho, que o almoo que basta ao homem forte. E foi com -effeito o meu almoo... Para no estar s, partilhei-o com o hortelo. - ---Espero que se tivesse vingado! exclamou Maria rindo. - ---Pde crr, minha senhora... Convidei-o a jantar, e quando elle -appareceu, vindo d'aqui da _Toca_, o meu guarda-porto disse-lhe que o -snr. marquez fra para longe, e que no havia nem po nem queijo... -Resultado: o Craft mandou-me uma duzia de magnificas garrafas de -Chambertin. Esse deus Tchi nunca mais o tornei a vr... - -O deus Tchi l estava, obeso e medonho. E, muito naturalmente, Carlos -convidou o marquez a revisitar n'essa noite, volta da casa do Vargas, -o seu velho amigo Tchi. - -O marquez veio, s dez horas--e foi um sero encantador. Conseguiu -sacudir logo a melancolia do Cruges, arrastando-o com mo de ferro para -o piano; Maria cantou; palrou-se com graa; e aquelle escondrijo d'amor -ficou alumiado at tarde, na sua primeira festa de amizade. - -Estas reunies alegres foram ao principio, como dizia o Ega, -_dominicaes_: mas o outono arrefecia, bem depressa se despiriam as -arvores da _Toca_, e Carlos accumulou-as duas vezes por semana, nos -velhos dias feriados da Universidade, domingos e quintas. Tinha -descoberto uma admiravel cozinheira alsaciana, educada nas grandes -tradies, que servira o bispo de Strasburgo, e a quem as extravagancias -d'um filho e outras desgraas tinham arrojado a Lisboa. Maria, de resto, -punha na composio dos seus jantares uma sciencia delicada: o dia de -vir _Toca_ era considerado pelo marquez dia de civilisao. - -A mesa resplandecia; e as tapearias representando massas d'arvoredos -punham em redor como a sombra escura d'um retiro silvestre onde por um -capricho se tivessem accendido candelabros de prata. Os vinhos sahiam da -frasqueira preciosa do Ramalhete. De todas as coisas da terra e do co -se grulhava com phantasia--menos de politica portugueza, considerada -conversa indecorosa entre pessoas de gosto. - -Rosa apparecia ao caf, exhalando do seu sorriso, dos bracinhos ns, dos -vestidos brancos tufados sobre as meias de sda preta, um bom aroma de -flr. O marquez adorava-a, disputando-a ao Ega, que a pedira a Maria em -casamento e lhe andava compondo havia tempo um soneto. Ella preferia o -marquez: achava o Ega muito...--e completava o seu pensamento com um -gestosinho do dedo ondeado no ar, como a exprimir que o Ega era muito -retorcido. - ---Ahi est! exclamava elle. Porque eu sou mais civilisado que o outro! -a simplicidade no comprehendendo o requinte. - ---No, desgraado! exclamavam do lado. porque s impresso!... a -natureza repellindo a conveno!... - -Bebia-se saude de Maria: ella sorria, feliz entre os seus novos -amigos, divinamente bella, quasi sempre de escuro, com um curto decote -onde resplandecia o incomparavel esplendor do seu collo. - -Depois organisaram-se solemnidades. N'um domingo, em que os sinos -repicavam e a distancia foguetes esfuziavam no ar--Ega lamentou que os -seus austeros principios philosophicos o impedissem de festejar tambem -aquelle santo d'aldeia, que fra decerto em vida um caturra encantador, -cheio d'illuses e doura... Mas de resto, acrescentou, no teria sido -n'um dia assim, fino e secco, sob um grande co cheio de sol, que se -feriu a batalha das Thermopylas? Porque no se atiraria uma girandola de -foguetes em honra de Leonidas e dos trezentos? E atirou-se a girandola -pela eterna gloria de Sparta. - -Depois celebraram-se outras datas historicas. O anniversario da -descoberta da Venus de Milo foi commemorado com um balo que ardeu. -N'outra occasio o marquez trouxe de Lisboa, apinhados n'uma tipoia, -fadistas famosos, o _Pintado_, o _Vira-vira_ e o _Gago_: e depois de -jantar, at tarde, com o luar sobre o rio, cinco guitarras choraram os -ais mais tristes dos fados de Portugal. - -Quando estavam ss, Carlos e Maria passavam as suas manhs no kiosque -japonez--affeioados quelle primeiro retiro dos seus amores, pequeno e -apertado, onde os seus coraes batiam mais perto um do outro. Em logar -das esteiras de palha Carlos revestira-o com as suas formosas colchas da -India, cr de palha e cr de perola. Um dos maiores cuidados d'elle, -agora, era embellezar a _Toca_: nunca voltava de Lisboa sem trazer -alguma figurinha de Saxe, um marfim, uma faiana, como noivo feliz que -aperfeia o seu ninho. - -Maria no emtanto no cessava de lembrar os planos intellectuaes do Ega: -queria que elle trabalhasse, ganhasse um nome: seria isso o orgulho -intimo d'ella, e sobretudo a alegria suprema do av. Para a contentar -(mais que para satisfazer as suas necessidades de espirito) Carlos -recomera a compr alguns dos seus artigos de medicina litteraria para -a _Gazeta Medica_. Trabalhava no kiosque, de manh. Trouxera para l -rascunhos, livros, o seu famoso manuscripto da _Medicina antiga e -moderna_. E por fim achra um grande encanto em estar alli, com um leve -casaco de sda, as suas cigarettes ao lado, um fresco murmurio de -arvoredo em redor--cinzelando as suas phrases, emquanto ella ao lado -bordava silenciosa. As suas idas surgiam com mais originalidade, a sua -frma ganhava em colorido, n'aquelle estreito kiosque assetinado que -ella perfumava com a sua presena. Maria respeitava este trabalho como -coisa nobre e sagrada. De manh, ella mesma espanejava os livros do leve -p que a aragem soprava pela janella; dispunha o papel branco, punha -cuidadosamente pennas novas; e andava bordando uma almofada de pennas e -setim para que o trabalhador estivesse mais confortavel na sua vasta -cadeira de couro lavrado. - -Um dia offerecera-se a passar a limpo um artigo. Carlos, enthusiasmado -com a letra d'ella, quasi comparavel lendaria letra do Damaso, -occupava-a agora incessantemente como copista, sentindo mais amor por um -trabalho a que ella se associava. Quantos cuidados se dava a dce -creatura! Tinha para isso um papel especial, d'um tom macio de marfim: -e, com o dedinho no ar, ia desenrolando as pesadas consideraes de -Carlos sobre o Vitalismo e o Transformismo na graa delicada d'uma -renda... Um beijo pagava-a de tudo. - -s vezes Carlos dava lies a Rosa--ora de historia, contando-lh'a -familiarmente como um conto de fadas; ora de geographia, interessando-a -pelas terras onde vivem gentes negras, e pelos velhos rios que correm -entre as ruinas dos santuarios. Isto era o prazer mais alto de Maria. -Sria, muda, cheia de religio, escutava aquelle sr bem-amado ensinando -sua filha. Deixava escapar das mos o trabalho--e o interesse de Carlos, -a enlevada atteno de Rosa sentada aos ps d'elle, bebendo aquellas -bellas historias de Joanna d'Arc ou das caravellas que foram India, -fazia resplandecer nos seus olhos uma nevoa de lagrimas felizes... - - - -Desde o meado d'outubro Affonso da Maia fallava da sua partida de Santa -Olavia, retardada apenas por algumas obras que comera na parte velha -da casa e nas cocheiras: porque ultimamente invadira-o a paixo de -edificar--sentindo-se remoar, como elle dizia, no contacto das madeiras -novas e no cheiro vivo das tintas. Carlos e Maria pensavam tambem em -abandonar os Olivaes. Carlos no poderia por dever domestico permanecer -alli installado desde que o av recolhesse ao Ramalhete. Alm d'isso -aquelle fim d'outono ia escuro e agreste; e a _Toca_ era agora pouco -bucolica, com a quinta desfolhada e alagada, uma nevoa sobre o rio, e um -fogo unico no gabinete de cretones--alm da sumptuosa chamin da sala -de jantar, que, por entre os seus Nubios d'olhos de crystal, soltava uma -fumaraa odiosa quando o Domingos a tentava accender. - -N'uma d'essas manhs, Carlos, que ficra at tarde com Maria, e depois -no seu delgado casebre mal pudera dormir com um temporal de vento e agua -desencadeado de madrugada--ergueu-se s nove horas, veio _Toca_. As -janellas do quarto de Maria conservavam-se ainda cerradas; a manh -clarera; a quinta lavada, meio despida, no ar fino e azul, tinha uma -linda e silenciosa graa d'inverno. Carlos passeava, olhando os vasos -onde os chrysanthemos floriam, quando retiniu a sineta do porto. Era o -toque do carteiro. Justamente elle escrevera dias antes ao Cruges, -perguntando se estaria desoccupado para os primeiros frios de dezembro o -andar da rua de S. Francisco: e, esperando carta do maestro, foi abrir, -acompanhado por _Niniche_. Mas o correio, n'essa manh, consistia apenas -n'uma carta do Ega e dois numeros de jornal cintados--um para elle, -outro para Madame Castro Gomes, na quinta do snr. Craft, aos Olivaes. - -Caminhando sob as acacias, Carlos abriu a carta do Ega. Era da vespera, -com a data noite, pressa. E dizia: --L, n'esse trapo que te -mando, esse superior pedao de prosa que lembra Tacito. Mas no te -assustes; eu supprimi, mediante pecunia, toda a tiragem, com excepo de -dois numeros mais que foram, um para a _Toca_, outro (oh logica suprema -dos habitos constitucionaes!) para o Pao, para o chefe do Estado!... -Mas esse mesmo no chegar ao seu destino. Em todo o caso desconfio de -que esgto sahiu esse enxurro e precisamos providenciar! Vem j! -Espero-te at s duas. E, como Iago dizia a Cassio--_mette dinheiro na -bolsa_. - -Inquieto, Carlos descintou o jornal. Chamava-se a _Corneta do Diabo_: e -na impresso, no papel, na abundancia dos _italicos_, no typo gasto, -todo elle revelava immundicie e malandrice. Logo na primeira pagina duas -cruzes a lapis marcavam um artigo que Carlos, n'um relance, viu -salpicado com o seu nome. E leu isto: --Ora viva, _s_ Maia! Ento j -se no vai ao consultorio, nem se vem os doentes do bairro, _s_ -janota?--Esta piada era botada no Chiado, porta da Havaneza, ao Maia, -ao Maia dos cavallos inglezes, um tal Maia do Ramalhete, que abarrota -por ahi de _catita_; e o pai Paulino _que tem olho_ e que passava n'essa -occasio ouviu a seguinte _cornetada_:-- que o _s_ Maia acha _que -mais quente_ viver nas fraldas d'uma _brazileira casada_, que nem -brazileira nem casada, e a quem o papalvo poz casa, ahi para o lado -dos Olivaes, para _estar ao fresco_! Sempre os ha n'este mundo!... Pensa -o homem que botou conquista; e c a rapaziada de gosto ri-se, porque o -que a gaja lhe quer no so os lindos olhos, so as lindas _louras_... O -simplorio, que bate ahi pilecas _bifes_, que nem que fosse o _marquez_, -o verdadeiro Marquez, imaginava que se estava abiscoitando com uma -senhora do _chic_, e do boulevard de Paris, e casada, e titular!... E no -fim (no, esta para a gente deixar estoirar o bandulho a rir!) no fim -descobre-se que a typa era uma _cocotte_ safada, que trouxe para ahi um -brazileiro _j farto d'ella_ para a passar c aos bellos lusitanos... E -cahiu a espiga ao Maia! Pobre palerma! Ainda assim o _s_ Maia s -apanhou os restos d'outro, porque a _typa_, j antes d'elle se enfeitar, -tinha _pandegado larga_, ahi para a rua de S. Francisco, com um rapaz -da fina, que se safou tambem, porque c como ns s _aprecia a bella -hespanhola_. Mas no obsta a que o _s_ Maia seja traste!--Pois se assim -, dissemos ns, cautelinha, porque o diabo c tem a sua _Corneta_ -preparada para cornetear por esse mundo as faanhas do _Maia das -conquistas_. Ora viva, _s_ Maia! - -Carlos ficou immovel entre as acacias, com o jornal na mo, no espanto -furioso e mudo d'um homem que subitamente recebe na face uma grossa -chapada de ldo! No era a clera de vr o seu amor assim aviltado na -publicidade chula d'um jornal sordido: era o horror de sentir aquellas -phrases em calo, pandilhas, afadistadas, como s Lisboa as pde crear, -pingando fetidamente, maneira de sebo, sobre si, sobre Maria, sobre o -esplendor da sua paixo... Sentia-se todo emporcalhado. E uma unica ida -surgia atravs da sua confuso--matar o bruto que escrevera aquillo. - -Matal-o! Ega sustra a tiragem da folha, Ega pois conhecia o -folliculario. Nada importava que aquelles numeros, que tinha na mo, -fossem os unicos impressos. Recebera lama na face. Que a injuria fosse -espalhada nas praas n'uma profusa publicidade ou lhe fosse atirada s a -elle escondidamente n'um papel unico, era igual... Quem tanto ousra -tinha de cahir, esmagado! - -Decidiu ir logo ao Ramalhete. O Domingos janella da cozinha areava -pratas, assobiando. Mas quando Carlos lhe fallou de ir buscar um -calhambeque aos Olivaes, o bom Domingos consultou o relogio: - ---V. exc.^a tem s onze horas a caleche do _Torto_ que a senhora mandou -c estar para ir a Lisboa... - -Carlos, com effeito, recordou-se que Maria na vespera planera ir -Aline e aos livreiros. Uma contrariedade, justamente n'esse dia em que -elle precisava ficar livre--elle e a sua bengala! Mas Melanie, passando -ento com um jarro d'agua quente, disse que a senhora ainda se no -vestira, que talvez nem fosse a Lisboa... E Carlos recomeou a passear, -no tapete de relva, entre as nogueiras. - -Sentou-se por fim no banco de cortia, descintou a _Corneta_ -sobrescriptada para Maria, releu lentamente a prosa immunda: e, n'esse -numero que lhe fra destinado a ella, todo aquelle calo lhe pareceu -mais ultrajante, intoleravel, punivel s com sangue. Era monstruoso, na -verdade, que sobre uma mulher, quieta, innoffensiva no silencio da sua -casa, alguem ousasse to brutalmente arremessar esse ldo s mos -cheias! E a sua indignao alargava-se do folliculario que babra -aquillo--at sociedade que, na sua decomposio, produzira o -folliculario. Decerto toda a cidade soffria a sua vermina... Mas s -Lisboa, s a horrivel Lisboa, com o seu apodrecimento moral, o seu -rebaixamento social, a perda inteira do bom-senso, o desvio profundo do -bom gosto, a sua pulhice e o seu calo, podia produzir uma _Corneta do -Diabo_. - -E, no meio d'esta alta clera de moralista, uma dr perpassava, precisa -e dilacerante. Sim, toda a sociedade de Lisboa fazia um monturo sordido -n'este canto do mundo--mas, em summa, havia no artigo da _Corneta_ uma -calumnia? No. Era o passado de Maria, que ella arrancra de si como um -vestido rto e sujo, que elle mesmo enterrra muito fundo, deitando-lhe -por cima o seu amor e o seu nome--e que alguem desenterrava para o -mostrar bem alto ao sol, com as suas manchas e os seus rasges... E isto -agora ameaava para sempre a sua vida como um terror sobre ella -suspenso. Debalde elle perdora, debalde elle esquecera. O mundo em -redor sabia. E a todo o tempo o interesse ou a perversidade poderiam -refazer o artigo da _Corneta_. - -Ergueu-se, abalado. E ento alli, sob essas arvores desfolhadas, onde -durante o vero, quando ellas se enchiam de sombra e de murmurio, elle -passera com Maria, esposa eleita da sua vida--Carlos perguntou pela vez -primeira a si mesmo se a honra domestica, a honra social, a pureza dos -homens de quem descendia, a dignidade dos homens que d'elle descendessem -lhe permittiam em verdade casar com ella... - -Dedicar-lhe toda a sua affeio, toda a sua fortuna, certamente! Mas -casar... E se tivesse um filho? O seu filho, j homem, altivo e puro, -poderia um dia lr n'uma _Corneta do Diabo_ que sua mi fra amante d'um -brazileiro, depois de ser amante d'um irlandez. E se seu filho lhe -viesse gritar, n'uma bella indignao, uma calumnia?--elle teria de -baixar a cabea, murmurar-- uma verdade! E seu filho veria para -sempre collada a si aquella mi de quem o mundo ignorava os martyrios e -os encantos--mas de quem conhecia cruelmente os erros. - -E ella mesma! Se elle appellasse para a sua razo, alta e to recta, -mostrando-lhe as zombarias e as affrontas de que uma vil _Corneta do -Diabo_ poderia um dia trespassar o filho que d'elles nascesse--ella -mesma o desligaria alegremente do seu voto, contente em entrar no -Ramalhete pela escadinha secreta forrada de velludo cr de cereja, -comtanto que em cima a esperasse um amor constante e forte... Nunca ella -tornra, em todo o vero, a alludir a uma unio differente d'essa em que -os seus coraes viviam to lealmente, to confortavelmente. No, Maria -no era uma devota, preoccupada do peccado mortal! Que lhe podia -importar a estola banal do padre?... - -Sim; mas elle que lhe pedira essa consagrao na hora mais commovida do -seu longo amor, iria dizer-lhe agora--foi uma criancice, no pensemos -mais n'isso, desculpa? No; nem o seu corao o desejava! Antes pendia -todo para ella... Pendia todo para ella, n'um enternecimento mais -generoso e mais quente--emquanto a sua razo assim arengava, cautelosa e -austera. Elle tinha n'aquella alma o seu culto perfeito, n'aquelles -braos a sua voluptuosidade magnifica; fra d'alli no havia felicidade; -a unica sabedoria era prender-se a ella pelo derradeiro elo, o mais -forte, o seu nome, embora as _Cornetas do Diabo_ atroassem todo o ar. E -assim affrontaria o mundo n'uma soberba revolta, affirmando a -omnipotencia, o reino unico da Paixo... Mas primeiro mataria o -folliculario!--Passeava, esmagava a relva. E todos os seus pensamentos -se resolviam por fim em furia contra o infame que babra sobre o seu -amor, e durante um instante introduzia na sua vida tanta incerteza e -tanto tormento! - -Maria ao lado abriu a janella. Estava vestida d'escuro para sahir; e -bastou o brilho terno do seu sorriso, aquelles hombros a que o estofo -justo modelava a belleza cheia e quente--para que Carlos detestasse logo -as duvidas desleaes e covardes, a que se abandonra um momento sob as -arvores desfolhadas... Correu para ella. O beijo que lhe deu, lento e -mudo, teve a humildade d'um perdo que se implora. - ---Que tens tu, que ests to srio? - -Elle sorriu. Srio, no sentido de solemne, no estava. Talvez seccado. -Recebera uma carta do Ega, uma das eternas complicaes do Ega. E -precisava ir a Lisboa, ficar l naturalmente toda a noite... - ---Toda a noite? exclamou ella com um desapontamento, pousando-lhe as -mos sobre os hombros. - ---Sim, bem possivel, um horror! Nos negocios do Ega ha fatalmente o -inesperado... Tu com effeito vaes a Lisboa? - ---Agora, com mais razo... Se me queres. - ---O dia est bonito... Mas ha de fazer frio na estrada. - -Maria justamente gostava d'esses dias d'inverno, cheios de sol, com um -arzinho vivo e arripiado. Tornavam-n'a mais leve, mais esperta. - ---Bem, bem, disse Carlos atirando o cigarro. Vamos ao almoo, minha -filha... O pobre Ega deve estar a uivar de impaciencia. - -Emquanto Maria correra a apressar o Domingos--Carlos, atravs da relva -humida, foi ainda lentamente at ao renque baixo d'arbustos que -d'aquelle lado fechava a _Toca_ como uma sebe. Ahi a collina descia, com -quintarolas, muros brancos, olivedos, uma grande chamin de fabrica que -fumegava: para alm era o azul fino e frio do rio: depois os montes, -d'um azul mais carregado, com a casaria branca da povoao aninhada -beira da agua, nitida e suave na transparencia do ar macio. Parou um -momento, olhando. E aquella aldeia de que nunca soubera o nome, to -quieta e feliz na luz, deu a Carlos um desejo repentino de socego e de -obscuridade, n'um canto assim do mundo, beira d'agua, onde ninguem o -conhecesse nem houvesse _Cornetas do Diabo_, e elle pudesse ter a paz -d'um simples e d'um pobre debaixo de quatro telhas, no seio de quem -amava... - -Maria gritou por elle da janella da sala de jantar, onde se debrura a -apanhar uma das ultimas rosas trepadeiras que ainda floriam. - ---Que lindo tempo para viajar, Maria!--disse Carlos chegando, atravs da -relva. - ---Lisboa tambem muito linda, agora, havendo sol... - ---Pois sim, mas o Chiado, a coscovilhice, os politiquetes, as gazetas, -todos os horrores... A mim est-me positivamente a appetecer uma cubata -na Africa! - -O almoo, por fim, foi demorado. Ia bater uma hora quando a caleche do -_Torto_ comeou a rolar na estrada, ainda encharcada da chuva da noite. -Logo adiante da villa, na descida, cruzaram um coup que trepava n'um -trote esfalfado. Maria julgou avistar n'elle de relance o chapo branco -e o monoculo do Ega... Pararam. E era com effeito o Ega, que reconhecera -tambem a caleche da _Toca_, vinha j saltitando as lamas com longas -pernadas de cegonha, chamando por Carlos. - -Ao vr Maria ficou atrapalhado: - ---Que bella surpreza! Eu ia para l... Vi o dia to bonito, disse -commigo... - ---Bem, paga a tua tipoia, vem comnosco! atalhou Carlos que trespassava o -Ega, com os olhos inquietos, querendo adivinhar o motivo d'aquella -brusca chegada aos Olivaes. - -Quando entrou para a caleche, tendo pago o batedor, Ega, embaraado, sem -poder desabafar diante de Maria sobre o caso da _Corneta_, comeou, sob -os olhos de Carlos que o no deixavam, a fallar do inverno, das -inundaes do Riba-Tejo... Maria lra. Uma desgraa, duas crianas -afogadas nos beros, gados perdidos, uma grande miseria! Por fim Carlos -no se conteve: - ---Eu l recebi a tua carta... - -Ega acudiu: - ---Arranja-se tudo! Est tudo combinado! E com effeito eu no vim seno -por um sentimento bucolico... - -Muito discretamente Maria olhra para o rio. Ega fez ento um gesto -rapido com os dedos significando dinheiro, s questo de dinheiro. -Carlos socegou: e Ega voltou a fallar dos inundados do Riba-Tejo e do -sarau litterario e artistico que em beneficio d'elles se ia commetter -no salo da Trindade... Era uma vasta solemnidade official. Tenores do -parlamento, rouxinoes da litteratura, pianistas ornados com o habito de -S. Thiago, todo o pessoal canoro e sentimental do constitucionalismo _ia -entrar em fogo_. Os reis assistiam, j se teciam grinaldas de camelias -para pendurar na sala. Elle, apesar de demagogo, fra convidado para lr -um episodio das _Memorias d'um Atomo_: recusra-se, por modestia, por -no encontrar nas _Memorias_ nada to sufficientemente palerma que -agradasse capital. Mas lembrra o Cruges; e o _maestro_ ia ribombar ou -arrulhar uma das suas _Meditaes_. Alm d'isso havia uma poesia social -pelo Alencar. Emfim, tudo prenunciava uma immensa orgia... - ---E a snr.^a D. Maria, acrescentou elle, devia ir!... summamente -pittoresco. Tinha v. exc.^a occasio de vr todo o Portugal romantico e -liberal, _ la besogne_, engravatado de branco, dando tudo que tem -n'alma! - ---Com effeito devias ir, disse Carlos, rindo. Demais a mais se o Cruges -toca, se o Alencar recita, uma festa nossa... - ---Pois est claro! gritou Ega, procurando o monoculo, j excitado. Ha -duas coisas que necessario vr em Lisboa... Uma procisso do Senhor -dos Passos e um sarau poetico! - -Rolavam ento pelo largo do Pelourinho. Carlos gritou ao cocheiro que -parasse no comeo da rua do Alecrim: elles apeavam-se e tomavam de l o -americano para o Ramalhete. - -Mas a tipoia estacou antes da calada, rente ao passeio, em frente d'uma -loja de alfaiate. E n'esse instante achava-se ahi parado, calando as -suas luvas pretas, um velho alto, de longas barbas d'apostolo, todo -vestido de luto. Ao vr Maria, que se inclinra portinhola, o homem -pareceu assombrado; depois, com uma leve cr na face larga e pallida, -tirou gravemente o chapo, um immenso chapo de abas recurvas, moda de -1830, carregado de crepe. - ---Quem ? perguntou Carlos. - --- o tio do Damaso, o Guimares, disse Maria, que crra tambem. -curioso, elle aqui! - -Ah, sim! o famoso Mr. Guimares, o do _Rappel_, o intimo de Gambetta! -Carlos recordava-se de ter j encontrado aquelle patriarcha no Price com -o Alencar. Comprimentou-o tambem; o outro ergueu de novo com uma -gravidade maior o seu sombrio chapo de carbonario. Ega entalra -vivamente o monoculo para examinar esse lendario tio do Damaso, que -ajudava a governar a Frana: e depois de se despedirem de Maria, quando -a caleche j subia a rua do Alecrim e elles atravessavam para o Hotel -Central, ainda se voltou seduzido por aquelles modos, aquellas barbas -austeras de revolucionario... - ---Bom typo! E que magnifico chapo, hein! D'onde diabo o conhece a -snr.^a D. Maria? - ---De Paris... Este Mr. Guimares era muito da mi d'ella. A Maria j me -tinha fallado n'elle. um pobre diabo. Nem amigo de Gambetta, nem coisa -nenhuma... Traduz noticias dos jornaes hespanhoes para o _Rappel_, e -morre de fome... - ---Mas ento, o Damaso? - ---O Damaso um trapalho. Vamos ns ao nosso caso... Essa immundicie -que me mandaste, a _Corneta_? Dize l. - -Seguindo devagar pelo Aterro, Ega contou a historia da immundicie. Fra -na vespera tarde que recebera no Ramalhete a _Corneta_. Elle j -conhecia o papelucho, j privra mesmo com o proprietario e redactor--o -Palma, chamado Palma _Cavallo_ para se distinguir d'outro benemerito -chamado Palma _Cavallinho_. Comprehendeu logo que se a prosa era do -Palma a inspirao era alheia. O Palma nada sabia de Carlos, nem de -Maria, nem da casa da rua de S. Francisco, nem da _Toca_... No era -natural que escrevesse por deleite intellectual um documento que s lhe -podia render desgostos e bengaladas. O artigo, pois, fra-lhe -simplesmente encommendado e pago. No terreno do dinheiro vence sempre -quem tem mais dinheiro. Por este solido principio correra a procurar o -Palma _Cavallo_ no seu antro. - ---Tambem lhe conheces o antro? perguntou Carlos, com horror. - ---Tanto no... Fui perguntar secretaria da Justia a um sujeito que -esteve associado com elle n'um negocio de _Almanachs religiosos_... - -Fra pois ao antro. E encontrra as coisas dispostas pelas mos habeis -d'uma Providencia amiga. Primeiramente, depois de imprimir cinco ou seis -numeros, a machina, esfalfada na pratica d'aquellas maroteiras, -desmanchra-se. Alm d'isso o bom Palma estava furioso com o cavalheiro -que lhe encommendra o artigo, por divergencia na seriissima questo de -pecunia. De sorte que apenas elle propz comprar a tiragem do jornal--o -jornalista estendeu logo a mo larga, d'unhas rodas, tremendo de -reconhecimento e de esperana. Dera-lhe cinco libras que tinha, e a -promessa de mais dez... - --- caro, mas que queres? continuou o Ega. Deixei-me atarantar, no -regateei bastante... E emquanto a dizer quem o cavalheiro que -encommendou o artigo, o Palma, coitado, affirma que tem uma rapariga -hespanhola a sustentar, que o senhorio lhe levantou o aluguer da casa, -que Lisboa est carissima, que a litteratura n'este desgraado paiz... - ---Quanto quer elle? - ---Cem mil reis. Mas, ameaando-o com a policia, talvez desa a quarenta. - ---Promette os cem, promette tudo, comtanto que eu tenha o nome... Quem -te parece que seja? - -Ega encolheu os hombros, deu um risco lento no cho com a bengala. E -mais lentamente ainda foi considerando que o inspirador da _Corneta_ -devia ser alguem familiar com Castro Gomes; alguem frequentador da rua -de S. Francisco; alguem conhecedor da _Toca_; alguem que tinha, por -ciume ou vingana, um desejo ferrenho de magoar Carlos; alguem que sabia -a historia de Maria; e emfim alguem que era um covarde... - ---Ests a descrever o Damaso! exclamou Carlos, pallido e parando. - -Ega encolheu de novo os hombros, tornou a riscar o cho: - ---Talvez no... Quem sabe! Emfim, ns vamos averigual-o com certeza, -porque, para terminar a negociao, fiquei de me ir encontrar com o -Palma s tres horas no _Lisbonense_... E o melhor vires tambem. Trazes -tu dinheiro? - ---Se fr o Damaso, mato-o! murmurou Carlos. - -E no trazia sufficiente dinheiro. Tomaram uma tipoia para correr ao -escriptorio do Villaa. O procurador fra a Mafra, a um baptisado. -Carlos teve de ir pedir cem mil reis ao velho Cortez, alfaiate do av. -Quando perto das quatro horas se apearam entrada do _Lisbonense_, no -largo de Santa Justa, o Palma no portal, com um jaqueto de velludo -coado e cala de casimira clara collada cxa, accendia um cigarro. -Estendeu logo rasgadamente a mo a Carlos--que lhe no tocou. E Palma -_Cavallo_, sem se offender, com a mo abandonada no ar, declarou que ia -justamente sahir, canado j de esperar em cima diante d'um _grog_ frio. -De resto sentia que o snr. Maia se incommodasse em vir alli... - ---Eu arranjava c o negociosinho com o amigo Ega... Em todo o caso, se -os senhores querem, vamos l p'ra cima para um gabinete, que se est -mais vontade, e toma-se outra bebida. - -Subindo a escada lobrega, Carlos recordava-se de ter j visto aquella -luneta de vidros grossos, aquella cara balofa cr de cidra... Sim, fra -em Cintra, com o Eusebiosinho e duas hespanholas, n'esse dia em que elle -farejra pelas estradas silenciosas, como um co abandonado, procurando -Maria!... Isto tornou-lhe mais odioso o snr. Palma. Em cima entraram -n'um cubiculo, com uma janella gradeada por onde resvalava uma luz suja -de saguo. Na toalha da mesa, salpicada de gordura e vinho, alguns -pratos rodeavam um galheteiro que tinha moscas no azeite. O snr. Palma -bateu as palmas, mandou vir genebra. Depois dando um grande puxo s -calas: - ---Pois eu espero que me acho aqui entre cavalheiros. Como eu j disse c -ao amigo Ega, em todo este negocio... - -Carlos atalhou-o, tocando muito significativamente com a ponteira da -bengala na borda da mesa. - ---Vamos ao ponto essencial... Quanto quer o snr. Palma por me dizer quem -lhe encommendou o artigo da _Corneta_? - ---Dizer quem o encommendou, e proval-o! acudiu o Ega, que examinava na -parede uma gravura onde havia mulheres nas beira d'agua. No nos -basta o nome... O amigo Palma, est claro, de toda a confiana... Mas -emfim, que diabo, no natural que ns acreditassemos se o amigo nos -dissesse que tinha sido o snr. D. Luiz de Bragana! - -Palma encolheu os hombros. Est visto que havia de dar provas. Elle -podia ter outros defeitos, trapalho no! Em negocios era todo franqueza -e lisura... E, se se entendessem, alli as entregava logo, essas provas -que lhe estavam enchendo o bolsinho, pimponas e d'escachar! Tinha a -carta do amigo que lhe encommendra a piada: a lista das pessoas a quem -se devia mandar a _Corneta_: o rascunho do artigo a lapis... - ---Quer cem mil reis por tudo isso? perguntou Carlos. - -O Palma ficou um momento indeciso, ageitando as lunetas com os dedos -molles. Mas o criado veio trazer a garrafa da genebra: e ento o -redactor da _Corneta_ offereceu a bebida rasgadamente, puxou mesmo -cadeiras para aquelles cavalheiros abancarem. Ambos recusaram--Carlos de -p junto da mesa onde terminra por pousar a bengala, Ega passando a -outra gravura onde dois frades se emborrachavam. Depois, quando o criado -sahiu, Ega acercou-se, tocou com bonhomia no hombro do jornalista: - ---Cem mil reis so uma linda somma, Palma amigo! E olhe que se lhe -offerecem por delicadeza comsigo. Porque artiguinhos como este da -_Corneta_, apresentados na Boa-Hora, levam grilheta!... Est claro, -este caso outro, voss no teve inteno d'offender; mas levam -grilheta!... Foi assim que o Severino marchou para a Africa. Alli no -porosinho d'um navio, com rao de marujo e chibatadas. Desagradavel, -muito desagradavel. Por isso eu quiz que tratassemos isto aqui, entre -cavalheiros, e em amizade. - -Palma, com a cabea baixa, desfazia torres de assucar dentro do copo de -genebra. E suspirou, findou por dizer, um pouco murcho, que era por ser -entre cavalheiros, e com amizade, que aceitava os cem mil reis... - -Immediatamente Carlos tirou da algibeira das calas um punhado de -libras, que comeou a deixar cahir em silencio uma a uma dentro d'um -prato. E Palma _Cavallo_, agitado com o tinir do ouro, desabotoou logo -o jaqueto, sacou uma carteira onde reluzia um pesado monogramma de -prata sob uma enorme cora de visconde. Os dedos tremiam-lhe; por fim -desdobrou, estendeu tres papeis sobre a mesa. Ega, que esperava, com o -monoculo sfrego, teve um brado de triumpho. Reconhecera a letra do -Damaso! - -Carlos examinou os papeis lentamente. Era uma carta do Damaso ao Palma, -curta e em calo, remettendo o artigo, recommendando-lhe que o -apimentasse. Era o rascunho do artigo, laboriosamente trabalhado pelo -Damaso, com entrelinhas. Era a lista, escripta pelo Damaso, das pessoas -que deviam receber a _Corneta_: vinha l a Gouvarinho, o ministro do -Brazil, D. Maria da Cunha, El-Rei, todos os amigos do Ramalhete, o -Cohen, varias authoridades, e a Fancelli prima-donna... - -Palma no emtanto, nervoso, rufava com os dedos sobre a toalha, junto ao -prato onde reluziam as libras. E foi o Ega que o animou, depois de -relancear os olhos aos documentos por cima do hombro de Carlos: - ---Recolha o bago, amigo Palma! Negocios so negocios, e o baguinho est -ahi a arrefecer! - -Ento, ao palpar o ouro, Palma _Cavallo_ commoveu-se. Palavra, caramba, -se soubesse que se tratava d'um cavalheiro como o snr. Maia no tinha -aceitado o artigo! Mas ento!... Fra o Eusebio Silveira, rapaz amigo, -que lhe viera fallar. Depois o Salcede. E ambos com muitas lrias, e que -era uma brincadeira, e que o Maia no se importava, e isto e aquillo, e -muita promessa... Emfim deixra-se tentar. E tanto o Salcede como o -Silveira se tinham portado pulhamente. - ---Foi uma sorte que se escangalhasse a machina! Seno estava agora -entalado, irra! E tinha desgosto, palavra, caramba, tinha desgosto! Mas -acabou-se! O mal no foi grande, e sempre se fez alguma coisa pela porca -da vida. - -Vivamente, com um olhar, recontra o dinheiro na palma da mo: depois -esvaziou a genebra, d'um trago consolado e ruidoso. Carlos guardra as -cartas do Damaso, levantava j o fecho da porta. Mas voltou-se ainda, -n'uma derradeira averiguao: - ---Ento esse meu amigo Eusebio Silveira tambem se metteu no negocio?... - -O snr. Palma, muito lealmente, afianou que o Eusebio lhe fallra apenas -em nome do Damaso! - ---O Eusebio, coitado, veio s como embaixador... Que o Damaso e eu no -vamos muito na mesma bola. Ficmos exquisitos, desde uma pga em casa da -Biscainha. Aqui p'ra ns, eu prometti-lhe dois estalos na cara, e elle -embuchou. Passados tempos tornmos a fallar, quando eu fazia o -_High-life_ na _Verdade_. Elle veio-me pedir com bons modos, em nome do -conde de Landim, para eu dar umas piadas catitas sobre um baile -d'annos... Depois, quando o Damaso fez tambem annos, eu dei outra -piadita. Elle pagou a ceia, ficmos mais calhados... Mas traste... E -l o Eusebiosinho, coitado, veio s d'embaixador. - -Sem uma palavra, sem um aceno ao Palma, Carlos virou as costas, deixou o -cubiculo. O redactor da _Corneta_ ainda baixou a cabea para a porta; -depois, sem se offender, voltou alegremente genebra, dando outro puxo -s calas. Ega no emtanto accendia devagar o charuto. - ---Voss agora que redige o jornal todo, Palma? - ---O Silvestre, tambem... - ---Que Silvestre? - ---O que est com a _Pingada_. Voss no conhece, creio eu. Um rapazola -magro, que no feio... Semsaboro, escreve uma palhada... Mas sabe -coisas da sociedade. Esteve um tempo com a viscondessa de Cabellas, que -elle chama a sua _cabelluda_... Que o Silvestre s vezes tem graa! E -sabe, sabe coisas da sociedade, assim maroteiras de fidalgos, amigaes, -pulhices... Voss nunca leu nada d'elle? Chcho. Tenho sempre de lhe -arranjar o estylo... N'este numero que havia um folhetimzito meu, -catita, c moderna, como eu gsto, alli com a piadinha realista a -bater... Emfim fica para outra vez. E outra coisa, Ega, olhe que lhe -agradeo. Quando quizer, eu e a _Corneta_ s ordens! - -Ega estendeu-lhe a mo: - ---Obrigado, digno Palma! E _adis_! - ---Pues vaya usted con Dios, Don Juanito! exclamou logo o benemerito -homem com infinito _salero_. - -Em baixo Carlos esperava, dentro do coup. - ---E agora? perguntou Ega, portinhola. - ---Agora salta para dentro e vamos liquidar com o Damaso... - -Carlos j esbora summariamente o plano d'essa liquidao. Queria -mandar desafiar o Damaso como author comprovado d'um artigo de jornal -que o injuriava. O duello devia ser espada ou ao florete, um d'esses -ferros cujo lampejo, na sala d'armas do Ramalhete, fazia empallidecer o -Damaso. Se contra toda a verosimilhana elle se batesse, Carlos -fazia-lhe algures, entre a bochecha e o ventre, um furo que o cravasse -mezes na cama. Seno a unica explicao que Carlos aceitaria do snr. -Salcede seria um documento em que elle escrevesse esta coisa simples: -Eu abaixo assignado declaro que sou um infame. E para estes servios -Carlos contava com o Ega. - ---Agradeo! agradeo! Vamos a isso! exclamava o Ega esfregando as mos, -faiscando de jubilo. - -No emtanto, dizia elle, a etiqueta funebre reclamava outro padrinho; e -lembrou o Cruges, moo passivo e malleavel. Mas era impossivel encontrar -o _maestro_, porque invariavelmente a criada affirmava que o menino -Victorino no estava em casa... Decidiram ir ao Gremio, mandar de l um -bilhete chamando o Cruges--para um caso urgente d'amizade e d'arte. - ---Com qu, dizia o Ega continuando a esfregar as mos emquanto a tipoia -trotava para a rua de S. Francisco, com qu, demolir o nosso Damaso? - ---Sim, necessario acabar com esta perseguio. Chega a ser ridiculo... -E com uma estocada, ou com a carta, temos esse biltre aniquilado por -algum tempo. Eu preferia a estocada. Seno deixo-te a ti arranjar os -termos d'uma carta forte... - ---Has de ter uma boa carta! disse o Ega com um sorriso de ferocidade. - -No Gremio, depois de redigirem o bilhete ao Cruges, vieram esperar por -elle na sala das _Illustraes_. O conde de Gouvarinho e Steinbroken -conversavam de p, no vo d'uma janella. E foi uma surpreza. O ministro -da Filandia abriu os braos para o _cher Maia_, que elle no vira desde -a partida d'Affonso para Santa Olavia. Gouvarinho acolheu o Ega -risonhamente, reatando uma certa camaradagem que entre elles se formra -n'esse vero, em Cintra: mas o aperto de mo a Carlos foi scco e curto. -J dias antes, tendo-se encontrado no Loreto, o Gouvarinho murmurra de -leve e de passagem um como est, Maia? em que se sentia arrefecimento. -Ah! j no eram essas effuses, essas palmadas enternecidas pelos -hombros, dos tempos em que Carlos e a condessa fumavam cigarettes na -cama da titi em Santa Isabel. Agora que Carlos abandonra a snr.^a -condessa de Gouvarinho, a rua de S. Maral e o commodo sof em que ella -cahia com um rumor de saias amarrotadas--o marido amuava, como -abandonado tambem. - ---Tenho tido saudade das nossas bellas discusses em Cintra! disse elle, -dando ao Ega a palmada carinhosa nas costas que outr'ora pertencia ao -Maia. Tivemol-as de primeira ordem! - -Eram realmente pgas tremendas no pateo do Victor sobre litteratura, -sobre religio, sobre moral... Uma noite mesmo tinham-se zangado por -causa da divindade de Jesus. - --- verdade! acudiu o Ega. Voss n'essa noite parecia ter s costas uma -opa de irmo do Senhor dos Passos! - -O conde sorriu. Irmo do Senhor dos Passos no, graas a Deus! Ninguem -melhor do que elle sabia que n'esses sublimes episodios do Evangelho -reinava bastante lenda... Mas emfim eram lendas que serviam para -consolar a alma humana. o que elle objectra n'essa noite ao amigo -Ega... Sentiam-se a philosophia e o racionalismo capazes de consolar a -mi que chora? No. Ento... - ---Em todo o caso, tivemol-as brilhantes! concluiu elle olhando o -relogio. E, eu confesso, uma discusso elevada sobre religio, sobre -metaphysica, encanta-me... Se a politica me deixasse vagares dedicava-me - philosophia... Nasci para isso, para aprofundar problemas. - -Steinbroken no emtanto, esticado na sua sobrecasaca azul, com um raminho -d'alecrim ao peito, tomra as mos de Carlos: - ---Mais vous tes encore devenu plus fort!... Et Affonso da Maia, -toujours dans ses terres?... Est-ce qu'on ne va pas le voir un peu cet -hiver? - -E immediatamente lamentou no ter visitado Santa Olavia. Mas qu! a -familia real installra-se em Cintra; elle fra forado a acompanhal-a, -fazer a sua crte... Depois necessitra ir de fugida a Inglaterra d'onde -acabava de chegar, havia dias. - -Sim, Carlos sabia, vira na _Gazeta Illustrada_... - ---Vous avez lu a? Oh oui, on a t trs aimable, trs aimable pour moi - la _Gazette_... - -Tinham-lhe annunciado a partida, depois a chegada, com palavras de -amizade particularmente bem escolhidas. Nem podia deixar de ser, dada -esta affeio sincera que liga Portugal e a Filandia... Mais enfin on -avait t charmant, charmant!... - ---Seulement--ajuntou elle, sorrindo com finura e voltando-se tambem para -o Gouvarinho--on a fait une petite erreur... On a dit que j'tais venu -de Southampton par le _Royal Mail_... Ce n'est pas vrai, non! Je me suis -embarqu Bordeaux dans les _Messageries_. J'ai mme pens crire -Mr. Pinto, redacteur de la _Gazette_, qui est un charmant garon... -Puis, j'ai reflechi, je me suis dit: Mon Dieu, on va croire que je veux -donner une leon d'exactitude la _Gazette_, c'est trs grave... -Alors, voil, trs prudemment, j'ai gard le silence... Mais enfin c'est -une erreur: je me suis embarqu Bordeaux. - -Ega murmurou que a Historia se encarregaria um dia de rectificar esse -facto. O ministro sorria modestamente, fazendo um gesto em que parecia -desejar, por polidez, que a Historia se no incommodasse. E ento o -Gouvarinho, que accendra o charuto, espreitra outra vez o relogio, -perguntou se os amigos tinham ouvido alguma coisa do ministerio e da -crise. - -Foi uma surpreza para ambos, que no tinham lido os jornaes... Mas, -exclamou logo o Ega, crise porqu, assim em pleno remanso, com as -camaras fechadas, tudo contente, um to lindo tempo d'outono? - -O Gouvarinho encolheu os hombros com reserva. Houvera na vespera, -noitinha, uma reunio de ministros; n'essa manh o presidente do -conselho fra ao pao, fardado, determinado a largar o poder... No -sabia mais. No conferencira com os seus amigos, nem mesmo fra ao seu -Centro. Como n'outras occasies de crise, conservra-se retirado, -calado, esperando... Alli estivera toda a manh, com o seu charuto, e a -_Revista dos Dois Mundos_. - -Isto parecia a Carlos uma absteno pouco patriotica... - ---Porque emfim, Gouvarinho, se os seus amigos subirem... - ---Exactamente por isso, acudiu o conde com uma cr viva na face, no -desejo pr-me em evidencia... Tenho o meu orgulho, talvez motivos para o -ter... Se a minha experiencia, a minha palavra, o meu nome so -necessarios, os meus correligionarios sabem onde eu estou, venham -pedir-m'os... - -Calou-se, trincando nervosamente o charuto. E Steinbroken, perante estas -coisas politicas, comeou logo a retrahir-se para o fundo da janella, -limpando os vidros da luneta, recolhido, j impenetravel, no grande -recato neutral que competia Filandia. Ega no emtanto no sahia do seu -espanto. Mas porque cahia, porque cahia assim um governo com maioria nas -camaras, socego no paiz, o apoio do exercito, a beno da Igreja, a -proteco do _Comptoir d'Escompte_?... - -O Gouvarinho correu devagar os dedos pela pera, e murmurou esta razo: - ---O ministerio estava gasto. - ---Como uma vela de sebo? exclamou Ega, rindo. - -O conde hesitou. Como uma vela de sebo no diria... Sebo subentendia -obtusidade... Ora n'este ministerio sobrava o talento. -Incontestavelmente havia l talentos pujantes... - ---Essa outra! gritou Ega atirando os braos ao ar. extraordinario! -N'este abenoado paiz todos os politicos tm _immenso talento_. A -opposio confessa sempre que os ministros, que ella cobre d'injurias, -tm, parte os disparates que fazem, um _talento de primeira ordem_! -Por outro lado a maioria admitte que a opposio, a quem ella -constantemente recrimina pelos disparates que fez, est cheia de -_robustissimos talentos_! De resto todo o mundo concorda que o paiz -uma choldra. E resulta portanto este facto supra-comico: um paiz -governado _com immenso talento_, que de todos na Europa, segundo o -consenso unanime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a -vr: que como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os -imbecis! - -O conde sorria com bonhomia e superioridade a estes exageros de -phantasista. E Carlos, ancioso por ser amavel, atalhou, accendendo o -charuto no d'elle: - ---Que pasta preferiria voc, Gouvarinho, se os seus amigos subissem? A -dos Estrangeiros, est claro... - -O conde fez um largo gesto d'abnegao. Era pouco natural que os seus -amigos necessitassem da sua experiencia politica. Elle tornra-se -sobretudo um homem d'estudo e de theoria. Alm d'isso no sabia bem se -as occupaes da sua casa, a sua saude, os seus habitos lhe permittiriam -tomar o fardo do governo. Em todo o caso, decerto, a pasta dos -Estrangeiros no o tentava... - ---Essa, nunca! proseguiu elle, muito compenetrado. Para se poder fallar -d'alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, necessario ter por -traz um exercito de duzentos mil homens e uma esquadra com torpedos. -Ns, infelizmente, somos fracos... E eu, para papeis subalternos, para -que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me ha de ser assim, no -estou!... Pois no acha, Steinbroken? - -O ministro tossiu, balbuciou: - ---Certainement... C'est trs grave... C'est excessivement grave... - -Ega ento affirmou que o amigo Gouvarinho, com o seu interresse -geographico pela Africa, faria um ministro da Marinha iniciador, -original, rasgado... - -Toda a face do conde reluzia, escarlate de prazer. - ---Sim, talvez... Mas eu lhe digo, meu querido Ega, nas colonias todas as -coisas bellas, todas as coisas grandes esto feitas. Libertaram-se j os -escravos; deu-se-lhes j uma sufficiente noo da moral christ; -organisaram-se j os servios aduaneiros... Emfim o melhor est feito. -Em todo o caso ha ainda detalhes interessantes a terminar... Por -exemplo, em Loanda... Menciono isto apenas como um pormenor, um retoque -mais de progresso a dar. Em Loanda precisava-se bem um theatro normal -como elemento civilisador! - -N'esse momento um criado veio annunciar a Carlos--que o snr. Cruges -estava em baixo, no portal, espera. Immediatamente os dois amigos -desceram. - ---Extraordinario, este Gouvarinho! dizia o Ega na escada. - ---E este, observou Carlos com um immenso desdem de mundano, um dos -melhores que ha na politica. Pensando mesmo bem, e mettendo a roupa -branca em linha de conta, este talvez o melhor! - -Acharam o Cruges porta, de jaqueto claro, embrulhando um cigarro. E -Carlos pediu-lhe logo que voltasse a casa vestir uma sobrecasaca preta. -O maestro arregalava os olhos. - --- jantar? - --- enterro. - -E rapidamente, sem alludir a Maria, contaram ao maestro que o Damaso -publicra n'um jornal, a _Corneta do Diabo_ (cuja tiragem elles tinham -supprimido, no sendo possivel por isso mostrar o numero immundo) um -artigo em que a coisa mais dce que se chamava a Carlos era _pulha_. -Portanto Ega e elle Cruges iam a casa do Damaso pedir-lhe a honra ou a -vida. - ---Bem, rosnou o maestro. Que tenho eu a fazer?... Que eu d'essas coisas -no entendo. - ---Tens, explicou Ega, d'ir vestir uma sobrecasaca preta e franzir o -sobr'olho. Depois vir commigo; no dizer nada; tratar o Damaso por v. -exc.^a; assentar em tudo o que eu propuzer; e nunca desfranzir o -sobr'olho nem despir a sobrecasaca... - -Sem outra observao, Cruges partiu a cobrir-se de ceremonia e de negro. -Mas no meio da rua retrocedeu: - --- Carlos, olha que eu fallei l em casa. Os quartos do primeiro andar -esto livres, e forrados de papel novo... - ---Obrigado. Vai-te fazer sombrio, depressa!... - -O maestro abalra, quando diante do Gremio estacou a todo o trote uma -caleche. De dentro saltou o Telles da Gama que, ainda com a mo no fecho -da portinhola, gritou aos dois amigos: - ---O Gouvarinho? est l em cima? - ---Est... Novidade fresca? - ---Os homens cahiram. Foi chamado o S Nunes! - -E enfiou pelo pateo, correndo. Carlos e Ega continuaram devagar at ao -porto do Cruges. As janellas do primeiro andar estavam abertas, sem -cortinas. Carlos, erguendo para l os olhos, pensava n'essa tarde das -corridas em que elle viera no phaeton, de Belem, para vr aquellas -janellas: ia ento escurecendo, por traz dos _stores_ fechados surgira -uma luz, elle contemplra-a como uma estrella inaccessivel... Como tudo -passa! - -Retrocederam para o Gremio. Justamente o Gouvarinho e Telles atiravam-se - pressa para dentro da caleche que esperra. Ega parou, deixou cahir os -braos: - ---L vae o Gouvarinho batendo para o Poder, a mandar representar a _Dama -das Camelias_ no serto! Deus se amerceie de ns! - -Mas o Cruges appareceu emfim de chapo alto, entalado n'uma sobrecasaca -solemne, com botins novos de verniz. Apilharam-se logo na tipoia -estreita e dura. Carlos ia leval-os a casa do Damaso. E como queria -ainda jantar nos Olivaes, esperaria por elles, para saber o resultado -do chinfrin, no jardim da Estrella, junto ao coreto. - ---Sde rapidos e medonhos! - - - -A casa do Damaso, velha e d'um andar s, tinha um enorme porto verde, -com um arame pendente que fez resoar dentro uma sineta triste de -convento: e os dois amigos esperaram muito antes que apparecesse, -arrastando as chinelas, o gallego achavascado que o Damaso (agora livre -de Carlos e das suas pompas) j no trazia torturado em botins crueis de -verniz. A um canto do pateo uma portinha abria sobre a luz d'um quintal, -que parecia ser um deposito de caixotes, de garrafas vazias e de lixo. - -O gallego, que reconhecera o snr. Ega, conduziu-os logo, por uma -escadinha esteirada, a um corredor largo, escuro, com cheiro a mfo. -Depois, batendo o chinelo, correu ao fundo, onde alvejava a claridade -d'uma porta entreaberta. Quasi immediatamente Damaso gritou de l: - --- Ega, voc? Entre para aqui, homem! Que diabo!... Eu estou-me a -vestir... - -Embaraado com estes brados de intimidade e tanta effuso, Ega ergueu a -voz da sombra do corredor, gravemente: - ---No tem duvida, ns esperamos... - -O Damaso insistia, porta, em mangas de camisa, cruzando os -suspensorios: - ---Venha voc, homem! Que diabo, eu no tenho vergonha, j estou de -calas! - ---Ha aqui uma pessoa de ceremonia, gritou o Ega para findar. - -A porta ao fundo cerrou-se, o gallego veio abrir a sala. O tapete era -exactamente igual aos dos quartos de Carlos no Ramalhete. E em redor -abundavam os vestigios da antiga amizade com o Maia: o retrato de Carlos -a cavallo, n'um vistoso caixilho de flres em faiana: uma das colchas -da India das senhoras Medeiros, branca e verde, enroupando o piano, -arranjada por Carlos com alfinetes: e sobre um contador hespanhol, -debaixo de redoma, um sapatinho de setim de mulher, novo, que o Damaso -comprra no Serra, por ter ouvido um dia a Carlos que em todo o quarto -de rapaz deve apparecer, discretamente disposta, alguma reliquia -d'amor... - -Sob estes retoques de _chic_, dados pressa sob a influencia do Maia, -impertigava-se a slida mobilia do pai Salcede, de mogno e velludo azul; -a console de marmore, com um relogio de bronze dourado, onde Diana -acariciava um galgo; o grande e dispendioso espelho, tendo entalado no -caixilho uma fila de bilhetes de visita, de retratos de cantoras, de -convites para _soires_. E Cruges ia examinar estes documentos, quando -os passos alegres do Damaso soaram no corredor. O maestro correu logo a -perfilar-se ao lado do Ega, diante do canap de velludo, teso, commodo, -com o seu chapo alto na mo. - -Ao vl-o, o bom Damaso, que se abotora todo n'uma sobrecasaca azul, -florida por um boto de camelia, atirou risonhamente os braos ao ar: - ---Ento esta que a pessoa de ceremonia? Sempre vocs tm coisas! E -eu a pr sobrecasaca... Por pouco que no lhe afinfo com o habito de -Christo!... - -Ega atalhou, muito srio: - ---O Cruges no de ceremonia, mas o motivo que aqui nos traz delicado -e grave, Damaso. - -Damaso arregalou os olhos, reparando emfim n'aquelle estranho modo dos -seus amigos, ambos de negro, seccos, to solemnes. E recuou, todo o -sorriso se lhe apagou na face. - ---Que diabo isso? Sentem-se, sentem-se vocs... - -A voz apagava-se-lhe tambem. Pousado borda d'uma poltrona baixa, junto -d'uma mesa coberta d'encadernaes ricas, com as mos nos joelhos, ficou -esperando, n'uma anciedade. - ---Ns vimos aqui, comeou Ega, em nome do nosso amigo Carlos da Maia... - -Uma brusca onda de sangue cobriu a face rechonchuda do Damaso at -risca do cabello encaracolado a ferro. E no achou uma palavra, -attonito, suffocado, esfregando estupidamente os joelhos. - -Ega proseguiu, lento, direito no canap: - ---O nosso amigo Carlos da Maia queixa-se de que o Damaso publicou, ou -fez publicar, um artigo extremamente injurioso para elle e para uma -senhora das relaes d'elle na _Corneta do Diabo_... - ---Na _Corneta_, eu? acudiu o Damaso, balbuciando. Que _Corneta_? Nunca -escrevi em jornaes, graas a Deus! Ora essa, a _Corneta_!... - -Ega, muito friamente, tirou do bolso um masso de papeis. E veio -collocal-os um por um, ao lado do Damaso, na mesa, sobre um magnifico -volume da _Biblia_ de Dor. - ---Aqui est a sua carta remettendo ao Palma Cavallo o rascunho do -artigo... Aqui est, pela sua letra igualmente, a lista das pessoas a -quem se devia mandar a _Corneta_, desde o Rei at Fancelli... Alm -d'isso ns temos as declaraes do Palma. O Damaso no s o -inspirador, mas materialmente o auctor do artigo... O nosso amigo Carlos -da Maia exige, pois, como injuriado, uma reparao pelas armas... - -Damaso deu um salto da poltrona, to arrebatado--que involuntariamente -Ega recuou, no receio d'uma brutalidade. Mas j o Damaso estava no meio -da sala, esgazeado, com os braos tremulos no ar: - ---Ento o Carlos manda-me desafiar? A mim?... Que lhe fiz eu? Elle a mim - que me pregou uma partida!... Foi elle, vocs sabem perfeitamente que -foi elle!... - -E desabafou, n'um prodigioso fluxo de loquacidade, atirando palmadas ao -peito, com os olhos marejados de lagrimas. Fra Carlos, Carlos, que o -desfeitira a elle, mortalmente! Durante todo o inverno tinha-o -perseguido para que elle o apresentasse a uma senhora brazileira muito -_chic_, que vivia em Paris, e que lhe fazia olho... E elle, bondoso como -era, promettia, dizia: Deixa estar, eu te apresento! Pois, senhores, -que faz Carlos? Aproveita uma occasio sagrada, um momento de luto, -quando elle Damaso fra ao Norte por causa da morte do tio, e mette-se -dentro da casa da brazileira... E tanto intriga, que leva a pobre -senhora a fechar-lhe a sua porta, a elle, Damaso, que era intimo do -marido, intimo de _tu_! Caramba, elle que devia mandar desafiar -Carlos! Mas no! fra prudente, evitra o escandalo por causa do snr. -Affonso da Maia... Queixra-se de Carlos, verdade... Mas no Gremio, na -Casa Havaneza, entre rapaziada amiga... E no fim Carlos prga-lhe uma -d'estas! - ---Mandar-me desafiar, a mim! A mim, que todo o mundo conhece!... - -Calou-se, engasgado. E Ega, estendendo a mo, observou placidamente que -se desviavam do ponto vivo da questo. O Damaso concebera, rascunhra, -pagra o artigo da _Corneta_. Isso no o negava, nem o podia negar: as -provas estavam alli, abertas sobre a mesa: elles tinham alm d'isso a -declarao do Palma... - ---Esse desavergonhado! gritou o Damaso, levado n'outra rajada -d'indignao que o fez redemoinhar, estonteado, tropeando nos moveis. -Esse descarado do Palma! Com esse que eu me quero vr!... L a questo -com o Carlos no vale nada, arranja-se, somos todos rapazes finos... Com -o Palma que ! Esse traidor que eu quero rachar! Um homem a quem eu -tenho dado s meias libras, aos sete mil reis! E ceias, e tipoias! Um -ladro que pediu o relogio ao Zeferino para figurar n'um baptisado, e -pl-o no prgo!... E faz-me uma d'estas!... Mas hei de escavacal-o! Onde - que voc o viu, Ega? Diga l, homem! Que quero ir procural-o, hoje -mesmo, correl-o a chicotadas... Traies no, no admitto a ninguem! - -Ega, com a tranquillidade paciente de quem sente a prsa certa, lembrou -de novo a inutilidade d'aquellas divagaes: - ---Assim nunca acabamos, Damaso... O nosso ponto este: o Damaso -injuriou Carlos da Maia: ou se retracta publicamente d'essa injuria, ou -d uma reparao pelas armas... - -Mas o Damaso, sem escutar, appellava desesperadamente para o Cruges, que -se no movera do sof de velludo, esfregando, um contra o outro, com um -ar arripiado e de dr, os dois sapatos novos de verniz. - ---Aquelle Carlos! Um homem que se dizia meu amigo intimo! Um homem que -fazia de mim tudo! At lhe copiava coisas... Voc bem viu, Cruges. Diga! -Falle, homem! No sejam vocs todos contra mim!... At s vezes ia -alfandega despachar-lhe caixotes... - -O maestro baixava os olhos, vermelho, n'um infinito mal-estar. E Ega, -por fim, j farto, lanou uma intimao derradeira: - ---Em resumo, Damaso, desdiz-se ou bate-se? - ---Desdizer-me? tartamudeou o outro, impertigando-se, n'um penoso esforo -de dignidade, a tremer todo. E de qu? Ora essa! boa! Eu sou l homem -que me desdiga! - ---Perfeitamente, ento bate-se... - -Damaso cambaleou para traz, desvairado: - ---Qual bater-me! Eu sou l homem que me bata! Eu c a scco. Que venha -para c, no tenho medo d'elle, arrombo-o... - -Dava pulinhos curtos de gordo, atravs do tapete, com os punhos fechados -e em riste. E queria Carlos alli para o escavacar! No lhe faltava mais -seno bater-se... E ento duellos em Portugal, que acabavam sempre por -troa! - -Ega no emtanto, como se a sua misso estivesse finda, abotora a -sobrecasaca e recolhia os papeis espalhados sobre a _Biblia_. Depois, -serenamente, fez a ultima declarao de que fra incumbido. Como o snr. -Damaso Salcede recusava retractar-se e rejeitava tambem uma reparao -pelas armas, Carlos da Maia prevenia-o de que em qualquer parte que o -encontrasse d'ahi por diante, fosse uma rua, fosse um theatro, lhe -escarraria na face... - ---Escarrar-me! berrou o outro, livido, recuando, como se o escarro j -viesse no ar. - -E de repente, espavorido, coberto de bagas de suor, precipitou-se sobre -o Ega, agarrando-lhe as mos, n'uma agonia: - --- Joo, Joo, tu, que s meu amigo, por quem s, livra-me d'esta -entaladella! - -Ega foi generoso. Desprendeu-se d'elle, empurrou-o brandamente para a -poltrona, calmando-o com palmadinhas fraternaes pelo hombro. E declarou -que, desde que Damaso appellava para a sua amizade, desapparecia o -enviado de Carlos necessariamente exigente, ficava s o camarada, como -no tempo dos Cohens e da _villa_ Balzac. Queria pois o amigo Damaso um -conselho? Era assignar uma carta affirmando que tudo o que fizera -publicar na _Corneta_ sobre o snr. Carlos da Maia e certa senhora fra -inveno falsa e gratuita. S isto o salvava. D'outro modo, Carlos um -dia, no Chiado, em S. Carlos, escarrava-lhe na cara. E, dado esse -desastre, Damasosinho, a no querer ser apontado em Lisboa como um -incomparavel cobarde, tinha de se bater espada ou pistola... - ---Ora, em qualquer d'esses casos, voc era um homem morto. - -O outro escutava, esbarrondado no fundo do assento de velludo, com a -face emparvecida para o Ega. Alargou mollemente os braos, murmurou da -profundidade do seu terror: - ---Pois sim, eu assigno, Joo, eu assigno... - --- o que lhe convm... Arranje ento papel. Voc est perturbado, eu -mesmo redijo. - -Damaso ergueu-se, com as pernas frouxas, atirando um olhar tonto e vago -por sobre os moveis: - ---Papel de carta? para carta? - ---Sim, est claro, uma carta ao Carlos! - -Os passos do desgraado perderam-se emfim no corredor, pesados e -succumbidos. - ---Coitado! suspirou o Cruges levando de novo, com um ar de arripio, a -mo aos sapatos. - -Ega lanou-lhe um _chut_ severo. Damaso voltava com o seu sumptuoso -papel de monogramma e cora. Para envolver em silencio e segredo aquelle -transe amargo, cerrou o reposteiro; e o vasto pano de velludo, -desdobrando-se, mostrou o brazo de Salcede, onde havia um leo, uma -torre, um brao armado, e por baixo, a letras d'ouro, a sua formidavel -divisa: Sou forte! Immediatamente Ega afastou os livros na mesa, -abancou, atirou largamente ao papel a data e a adresse do Damaso... - ---Eu fao o rascunho, voc depois copa... - ---Pois sim! gemeu o outro, de novo, aluido na poltrona, passando o leno -pelo pescoo e pela face. - -Ega no emtanto escrevia muito lentamente, com amor. E n'aquelle -silencio, que o embaraava, Cruges terminou por se erguer, foi coxeando -at ao espelho onde se desenrolavam, entalados na frincha do caixilho, -bilhetes e photographias. Eram as glorias sociaes do Damaso, os -documentos do _chic a valer_ que era a paixo da sua vida: bilhetes com -titulos, retratos de cantoras, convites para bailes, cartas de entrada -no Hippodromo, diplomas de membro do Club Naval, de membro do Jockey -Club, de membro do Tiro aos Pombos:--at pedaos cortados de jornaes -annunciando os annos, as partidas, as chegadas do snr. Salcede, um dos -nossos mais distinctos _sportmen_. - -Desventuroso _sportman_! Aquella folha de papel, onde o Ega rascunhava, -ia-o enchendo pouco a pouco d'um terror angustioso. Santo Deus! Para que -eram tantos apuros n'uma carta ao Carlos, um rapaz intimo? Uma linha -bastaria:--Meu querido Carlos, no te zangues, desculpa, foi -brincadeira. Mas no! Toda uma pagina de letra miuda com entrelinhas! -J mesmo Ega voltava a folha, molhava a penna, como se d'ella devessem -escorrer sem cessar coisas humilhadoras! No se conteve, estendeu a face -por sobre a mesa, at o papel: - --- Ega, isso no para publicar, pois no verdade? - -Ega reflectiu, com a penna no ar: - ---Talvez no... Estou certo que no. Naturalmente Carlos, vendo o seu -arrependimento, deixa isto esquecido no fundo d'uma gaveta. - -Damaso respirou com allivio. Ah, bem! Isso parecia-lhe mais decente -entre amigos! Que l isso, mostrar o seu arrependimento, at elle -desejava! Com effeito o artigo fra uma tolice... Mas ento! Em questes -de mulheres era assim, assomado, um leo... - -Abanou-se com o leno, desanuviado, recomeando a achar sabr vida. -Findou mesmo por accender um charuto, levantar-se sem rumor, acercar-se -do Cruges--que, coxeando atravs das curiosidades da sala, encalhra -sobre o piano e sobre os livros de musica, com o p dorido no ar. - ---Ento tem-se feito alguma coisa de novo, Cruges? - -Cruges, muito vermelho, resmungou que no tinha feito nada. - -Damaso ficou alli um momento, a mascar o charuto. Depois, atirando um -olhar inquieto mesa onde o Ega rascunhava interminavelmente, murmurou, -sobre o hombro do maestro: - ---Uma entaladella assim! Eu por causa da gente conhecida... Seno no -me importava! Mas veja voc tambem se arranja as coisas e se o Carlos -deixa aquillo na gaveta... - -Justamente Ega erguera-se com o papel na mo e caminhava para o piano, -devagar, relendo baixo. - ---Ficou optimo, salva tudo! exclamou por fim. Vai em frma de carta ao -Carlos, mais correcto. Voc depois copa e assigna. Oua l: -Exc.^{mo} snr.... Est claro, voc d-lhe excellencia, porque um -documento d'honra... Exc.^{mo} snr.--Tendo-me v. exc.^a, por intermdio -dos seus amigos Joo da Ega e Victorino Cruges, manifestado a indignao -que lhe causra um certo artigo da _Corneta do Diabo_ de que eu escrevi -o rascunho e de que promovi a publicao, venho declarar francamente a -v. exc.^a que esse artigo, como agora reconheo, no continha seno -falsidades e incoherencias: e a minha desculpa unica est em que o -compuz e enviei redaco da _Corneta_ no momento de me achar no mais -completo estado d'embriaguez... - -Parou. E nem se voltou para o Damaso, que deixra pender os braos, -rolar o charuto no tapete, varado. Foi ao Cruges que se dirigiu, -entalando o monoculo: - ---Achas talvez forte?... Pois eu redigi assim por ser justamente a unica -maneira de resalvar a dignidade do nosso Damaso. - -E desenvolveu a sua ida, mostrando quanto era generosa e -habil--emquanto o Damaso, aparvalhado, apanhava o charuto. Nem Carlos -nem elle queriam que o Damaso n'uma carta (que se podia tornar publica) -declarasse que calumnira por ser calumniador. Era necessario, pois, -dar calumnia uma d'essas causas fortuitas e ingovernaveis que tiram a -responsabilidade s aces. E que melhor, tratando-se d'um rapaz mundano -e femeeiro, do que estar bebedo?... No era vergonha para ninguem -embebedar-se... O proprio Carlos, todos elles alli, homens de gosto e de -honra, se tinham embebedado. Sem remontar aos romanos, onde isso era uma -hygiene e um luxo, muitos grandes homens na Historia bebiam de mais. Em -Inglaterra era to _chic_, que Pitt, Fox e outros nunca fallavam na -Camara dos communs seno aos bordos. Musset, por exemplo, que bebedo! -Emfim a Historia, a Litteratura, a Politica, tudo fervilhava de -piteiras... Ora, desde que o Damaso se declarava borracho, a sua honra -ficava salva. Era um homem de bem que apanhra uma carraspana e que -commettera uma indiscrio... Nada mais! - ---Pois no te parece, Cruges? - ---Sim, talvez, que estava bebedo, murmurou o maestro timidamente. - ---Pois no lhe parece a voc, francamente, Damaso? - ---Sim, que estava bebedo, balbuciou o desgraado. - -Immediatamente Ega retomou a leitura: Agora que voltei a mim reconheo, -como sempre reconheci e proclamei, que v. exc.^a um caracter -absolutamente nobre; e as outras pessoas, que n'esse momento -d'embriaguez ousei salpicar de lama, so-me s merecedoras de venerao -e louvor. Mais declaro que se por acaso tornasse a succeder soltar eu -alguma palavra offensiva para v. exc.^a, no lhe devia dar v. exc.^a, ou -aquelles que a escutassem, mais importancia do que a que se d a uma -involuntaria baforada d'alcool--pois que, por um habito hereditario que -reapparece frequentemente na minha familia, me acho repetidas vezes em -estado de embriaguez... De v. exc.^a, com toda a estima etc.... Rodou -sobre os taces, pousou o rascunho na mesa--e accendendo o charuto ao -lume do Damaso, explicou com amizade, com bonhomia, o que o determinra -quella confisso de bebedeira incorrigivel e palreira. Fra ainda o -desejo de garantir a tranquillidade do nosso Damaso. Attribuindo todas -as imprudencias em que pudesse cahir a um habito d'intemperana -hereditaria, de que tinha to pouca culpa como de ser baixo e gordo, o -Damaso punha-se _para sempre_ ao abrigo das provocaes de Carlos... - ---Voc, Damaso, tem genio, tem lingua... Um dia esquece-se, e no Gremio, -sem querer, na cavaqueira depois do theatro, l lhe escapa uma palavra -contra Carlos... Sem esta precauo, ahi recomea a questo, o escarro, -o duello... Assim j Carlos no se pde queixar. L tem a explicao que -tudo cobre, uma gotta de mais, a gotta tomada por impulso de borrachice -hereditaria... Voc alcana d'este modo a coisa que mais se appetece -n'este nosso seculo XIX--a irresponsabilidade!... E depois para a sua -familia no vergonha, porque voc no tem familia. Em resumo, -convem-lhe? - -O pobre Damaso escutava-o, esmagado, enervado, sem comprehender aquellas -roncantes phrases sobre a hereditariedade, sobre o seculo XIX. E um -unico sentimento vivo o dominava, acabar, reentrar na sua paz -pachorrenta, livre de floretes e de escarros. Encolheu os hombros, sem -fora: - ---Que lhe hei de eu fazer?... Para evitar fallatorios. - -E abancou, metteu um bico novo na penna, escolheu uma folha de papel em -que o monogramma luzia mais largo, comeou a copiar a carta na sua -maravilhosa letra, com finos e grossos, d'uma nitidez de gravura em ao. - -Ega no emtanto, de sobrecasaca desabotoada e charuto fumegante, rondava -em torno da mesa, seguindo sfregamente as linhas que traava a mo -applicada do Damaso, ornada d'um grosso annel d'armas. E durante um -momento atravessou-o um susto... Damaso parra, com a penna indecisa. -Diabo! Acordaria emfim, no fundo de toda aquella gordura balofa, um -resto escondido de dignidade, de revolta?... Damaso alou para elle os -olhos embaciados: - ---Embriaguez com _n_ ou com _m_? - ---Com um _m_, um _m_ s, Damaso! acudiu Ega affectuosamente. Vai muito -bem... Que linda letra voc tem, caramba! - -E o infeliz sorriu sua propria letra--pondo a cabea de lado, no -orgulho sincero d'aquella soberba prenda. - -Quando findou a cpia foi Ega que conferiu, pz a pontuao. Era -necessario que o documento fosse _chic_ e perfeito. - ---Quem o seu tabellio, Damaso? - ---O Nunes, na rua do Ouro... Porque? - ---Oh! nada. um detalhe que n'estes casos se pergunta sempre. Mera -ceremonia... Pois amigos, como papel, como letra, como estylo, est -d'appetite a cartinha! - -Metteu-a logo n'um enveloppe onde rebrilhava a divisa Sou Forte, -sepultou-a preciosamente no interior da sobrecasaca. Depois, agarrando o -chapo, batendo no hombro do Damaso com uma familiaridade folgaz e -leve: - ---Pois, Damaso, felicitemo-nos todos! Isto podia acabar fra de portas, -n'uma poa de sangue! Assim uma delicia. E adeus... No se incommode -voc. Ento o grande sarau sempre na segunda-feira? Vai l tudo, hein! -No venha c, homem... Adeus! - -Mas o Damaso acompanhou-os pelo corredor, mudo, murcho, cabisbaixo. E no -patamar reteve o Ega, desafogou outra inquietao que o assaltra: - ---Isso no se mostra a ninguem, no verdade, Ega? - -Ega encolheu os hombros. O documento pertencia a Carlos... Mas emfim -Carlos era to bom rapaz, to generoso! - -Esta incerteza, que o ficava minando, arrancou um suspiro ao Damaso: - ---E chamei eu quelle homem _meu amigo_! - ---Tudo na vida so desapontamentos, meu Damaso! foi a observao do Ega, -saltando alegremente os degraus. - -Quando o calhambeque parou no Jardim da Estrella, Carlos j esperava ao -porto de ferro, n'uma impaciencia, por causa do jantar na _Toca_. -Enfiou logo para dentro atropellando o maestro, bradou ao cocheiro que -voasse ao Loreto. - ---E ento, meus senhores, temos sangue? - ---Temos melhor! exclamou Ega no barulho das rodas, floreando o -enveloppe. - -Carlos leu a carta do Damaso. E foi um immenso assombro: - ---Isto incrivel!... Chega a ser humilhante para a natureza humana! - ---O Damaso no o genero humano, acudiu Ega. Que diabo esperavas tu? -Que elle se batesse? - ---No sei, corta o corao... Que se ha de fazer a isto? - -Segundo o Ega no se devia publicar; seria crear curiosidade e escandalo -em torno do artigo da _Corneta_ que custra trinta libras a suffocar. -Mas convinha conservar aquillo como uma ameaa pairando sobre o Damaso, -tornando-o para longos annos nullo e inoffensivo. - ---Eu estou mais que vingado, concluiu Carlos. Guarda o papel: obra -tua, usa-o como quizeres... - -Ega guardou-o com prazer, emquanto Carlos, batendo no joelho do maestro, -queria saber como elle se portra n'aquelle lance d'honra... - ---Pessimamente! gritou Ega. Com expresses de compaixo; sem linha -nenhuma; estendido por cima do piano; agarrando com a mo no sapato... - ---Pudera! exclamou Cruges desafogando emfim. Vocs dizem-me que me ponha -de ceremonia, calo uns sapatos novos de verniz, estive toda a tarde -n'um tormento! - -E no se conteve mais, arrancou o sapato, pallido, com um medonho -suspiro de consolao. - - -No dia seguinte, depois do almoo, emquanto uma chuva grossa alagava os -vidros sob as lufadas de sudoeste, Ega, no _fumoir_, enterrado n'uma -poltrona, com os ps para o lume, relia a carta do Damaso: e pouco a -pouco subia n'elle a mgoa de que esse colossal documento de cobardia -humana, to interessante para a physiologia e para a arte, ficasse para -sempre inaproveitado no escuro d'uma gaveta!... Que effeito, que soberbo -effeito se aquella confisso do nosso distincto _sportman_ surgisse um -dia na _Gazeta Illustrada_ ou no novo jornal _A Tarde_, nas columnas do -_High-life_, sob este titulo--Pendencia d'honra! E que lio, que -meritorio acto de justia social! - -Todo esse vero, Ega detestra o Damaso, certo, desde Cintra, de que -elle era o amante da Cohen--e de que, por esse imbecil de grossas -nadegas, esquecera ella para sempre a _villa_ Balzac, as manhs na -colcha de setim preto, os seus beijos delicados, os versos de Musset que -lhe lia, os lunchesinhos de perdiz, tantos encantos poeticos. Mas o que -lhe tornra o Damaso intoleravel--fra a sua farofia radiante de homem -preferido; o ar de posse com que passeava ao lado de Rachel pelas -estradas de Cintra, vestido de flanella branca; os segredinhos que tinha -sempre a cochichar-lhe sobre o hombro; e o acnosinho desdenhoso, com um -dedo, que lhe atirava de lado, ao passar, a elle proprio, Ega... Era -odioso! Odiava-o: e atravs d'esse odio ruminra sempre o desejo d'uma -vingana--pancada, deshonra ou ridiculo que tornasse o snr. Salcede, aos -olhos de Rachel, desprezivel, grutesco, chato como um balo furado... - -E agora alli tinha essa carta providencial, em que o homem solemnemente -se declarava bebedo. Sou um bebedo, estou sempre bebedo! Assim o -dizia, no seu papel de monogramma d'ouro, o snr. Salcede, n'um medo vil -de co gso, rastejando com o rabo entre as pernas diante de qualquer -pau!... Nenhuma mulher resistiria a isto... E havia d'encafuar to -decisivo documento no fundo d'um gaveto? - -Publical-o na _Gazeta Illustrada_ ou na _Tarde_ no podia, infelizmente, -por interesse de Carlos. Mas porque o no mostraria em segredo, como -uma curiosidade psychologica, ao Craft, ao marquez, ao Telles, ao -Gouvarinho, ao primo do Cohen? Podia mesmo confiar uma cpia ao Taveira -que, resentido eternamente da questo com o Damaso em casa da Lola -Gorda, correria a ll-a _em segredo_ na Casa Havaneza, no bilhar do -Gremio, no Silva, nos camarins de cantoras... E ao fim de uma semana a -snr.^a D. Rachel saberia inevitavelmente que o escolhido do seu corao -era por confisso propria um calumniador e um bebedo!... Delicioso! - -To delicioso que no hesitou mais, subiu ao quarto para copiar a carta -do Damaso. Mas quasi immediatamente um criado trouxe-lhe um telegramma -de Affonso da Maia annunciando que chegava no dia seguinte ao Ramalhete. -Ega teve de sahir, telegraphar para os Olivaes, avisar Carlos. - -Carlos appareceu n'essa noite, j tarde, transido de frio, com um monte -de bagagens--porque abandonra definitivamente os Olivaes. Maria Eduarda -regressava tambem a Lisboa, para o primeiro andar da rua de S. -Francisco, tomado agora por seis mezes, tapetado de novo pela mi -Cruges. E Carlos vinha muito impressionado, com profundas saudades da -_Toca_. Depois de cear, ao fogo, acabando o charuto, relembrou -infindavelmente esses dias alegres, a sua casinhola, o banho da manh -tomado dentro d'uma dorna, a festa do deus Tchi, as guitarradas do -marquez, as longas cavaqueiras ao caf com as janellas abertas e as -borboletas voando em torno aos candieiros... Fra as cordas d'agua, sob -o vento d'inverno, batiam os vidros na mudez da noite negra. Ambos -terminaram por ficar calados, pensativos, com os olhos no lume. - ---Quando esta tarde dei pela ultima vez uma volta na quinta, disse por -fim Carlos, j no havia uma unica folha nas arvores... Tu no sentes -sempre uma grande melancolia n'estes fins de outono?... - ---Immensa! murmurou Ega lugubremente. - -Ao outro dia a manh clareava, limpa e branca, quando Ega e Carlos, -ainda estremunhados e tiritando, se apearam em Santa Apolonia. O comboio -acabava justamente de chegar; e viram logo, entre o rumor de gente que -se escoava das portinholas abertas, Affonso, com o seu velho capote de -gola de velludo, apegado a uma bengala, debatendo-se entre homens de -bon agaloado que lhe offereciam o _Hotel Terreirense_ e a _Pomba -d'Ouro_. Atraz Mr. Antoine, o chefe francez, grave, de chapo alto, -trazia o cesto em que viajra o reverendo Bonifacio. - -Carlos e Ega acharam Affonso mais acabado, mais pesado. Todavia -gabaram-lhe muito, entre os primeiros abraos, a sua robustez de -patriarcha. Elle encolheu os hombros, queixando-se de ter sentido desde -o fim do vero vertigens, um cansao vago... - ---Vocs que esto excellentes, acrescentou abraando outra vez Carlos -e sorrindo ao Ega. E que ingratido foi essa tua, John, mettido aqui -todo um vero sem me ir visitar?... Que tens tu feito? Que tm vocs -feito? - ---Mil coisas! acudiu Ega alegremente. Planos, ideias, titulos... Temos -sobretudo o projecto d'uma _Revista_, um apparelho d'educao superior -que vamos montar com uma fora de mil cavallos!... Emfim logo se lhe -conta tudo ao almoo. - -E ao almoo, com effeito, para justificarem as suas occupaes em -Lisboa, fallaram da _Revista_ como se ella j estivesse organisada e os -artigos a imprimir na officina--tanta foi a preciso com que lhe -descreveram as tendencias, a feio critica, as linhas de pensamento -sobre que ella devia rolar... Ega j preparra um trabalho para o -primeiro numero--_A capital dos portuguezes_. Carlos meditava uma srie -d'_ensaios_ ingleza, sob este titulo--_Porque falhou entre ns o -systema constitucional_. E Affonso escutava, encantado com aquellas -bellas ambies de lucta, querendo partilhar da grande obra como socio -capitalista... Mas Ega entendia que o snr. Affonso da Maia devia descer - arena, lanar tambem a palavra do seu saber e da sua experiencia. -Ento o velho riu. O qu! compr prosa, elle, que hesitava para traar -uma carta ao feitor? De resto o que teria a dizer ao seu paiz, como -fructo da sua experiencia, reduzia-se pobremente a tres conselhos em -tres phrases: aos politicos--menos liberalismo e mais caracter; aos -homens de letras--menos eloquencia e mais ideia; aos cidados em -geral--menos progresso e mais moral. - -Isto enthusiasmou o Ega! Justamente, ahi estavam as verdadeiras feies -da reforma espiritual que a _Revista_ devia prgar! Era necessario -tomal-as como moto symbolico, inscrevel-as em letras gothicas no -frontispicio--porque Ega queria que a _Revista_ fosse original logo na -capa. E ento a conversao desviou para o exterior da _Revista_--Carlos -pretendendo que fosse azul-claro com typo Renascena, Ega exigindo uma -cpia exacta da _Revista dos Dois Mundos_, n'uma nuance mais cr de -canario. E, levados pela sua imaginao de meridionaes, j no era s -para agradar a Affonso da Maia que iam levantando e dando frma quelle -confuso plano. - -Carlos exclamava para o Ega, com os olhos j apaixonados: - ---Isto agora srio. Precisamos arranjar immediatamente a casa para a -redaco! - -Ega bracejava: - ---Pudera! E moveis! E machinas! - -Toda a manh, no escriptorio d'Affonso, azafamados, com papel e lapis, -se occuparam em fixar uma lista de collaboradores. Mas j as -difficuldades surgiam. Quasi todos os escriptores suggeridos -desagradavam ao Ega, por lhes faltar no estylo aquelle requinte plastico -e parnasiano de que elle desejava que a _Revista_ fosse o impeccavel -modelo. E a Carlos alguns homens de letras pareciam _impossiveis_--sem -querer confessar que n'elles lhe repugnava exclusivamente a falta de -linha e o fato mal feito... - -Uma coisa porm ficou decidida: a casa da redaco. Devia ser mobilada -luxuosamente, com sofs do consultorio de Carlos e algum _bric--brac_ -da _Toca_: e sobre a porta (ornada d'um guarda-porto de libr) a -taboleta de verniz preto, com _Revista de Portugal_ em altas letras a -ouro. Carlos sorria, esfregava as mos, pensando na alegria de Maria ao -saber esta deciso que o lanava, como era o desejo d'ella, na -actividade, n'uma lucta interessante d'ideias. Ega, esse, via j a -brochura cr de canario aos montes nas vitrines dos livreiros, -discutida nas _soires_ do Gouvarinho, folheada na camara com espanto -pelos politicos... - ---Vai-se remexer Lisboa este inverno, snr. Affonso da Maia! gritou elle -atirando um gesto immenso at ao tecto. - -E o mais contente era o velho. - -Depois de jantar, Carlos pediu ao Ega para ir com elle rua de S. -Francisco (onde Maria se installra n'essa manh) levarem a nova da -grande obra. Mas encontraram porta uma carroa descarregando malas; e -a senhora, contou o Domingos que ajudava os carroceiros, estava ainda -jantando a um canto da mesa e sem toalha. Com tanta confuso na casa, -Ega no quiz subir. - ---At logo, disse elle. Vou talvez procurar o Simo Craveiro e -fallar-lhe da _Revista_. - -Subiu lentamente o Chiado, leu os telegrammas na Casa Havaneza. Depois -esquina da rua Nova da Trindade, um homem rouco, sumido n'um paletot, -offereceu-lhe uma senhasinha. Outros, em volta, gritavam na sombra do -_Hotel Alliana_: - ---Bilhete para o Gymnasio! Mais barato... Bilhete para o Gymnasio! Quem -vende?... - -Havia um cruzar animado de carruagens com librs. Os bicos de gaz do -Gymnasio tinham um fulgor de festa. E Ega deu de rosto com o Craft que -atravessava do lado do Loreto, de gravata branca e flr no paletot. - ---Que isto? - ---Festa de beneficencia, no sei, disse o Craft. Uma coisa promovida por -senhoras, a baroneza d'Alvim mandou-me um bilhete... Venha voc d'ahi -ajudar-me a levar esta caridade ao Calvario. - -E na esperana de flirtar com a Alvim, Ega comprou logo uma senha. No -perystilo do Gymnasio encontraram Taveira passeando e fumando -solitariamente, espera que findasse a primeira comedia, o _Fructo -prohibido_. Ento Craft propz botequim e genebra. - ---E que ha do ministerio? perguntou elle, apenas abancaram a um canto. - -O Taveira no sabia. Todos esses dois longos dias se intrigra -desesperadamente. O Gouvarinho queria as Obras Publicas: o Videira -tambem. E fallava-se d'uma scena terrivel por causa de syndicatos, em -casa do presidente do conselho, o S Nunes, que terminra por dar um -murro na mesa, gritar: Irra! que isto no o pinhal d'Azambuja! - ---Canalha! rosnou Ega com odio. - -Depois fallaram do Ramalhete, da volta d'Affonso, da reappario de -Carlos. Craft louvou Deus por haver outra vez n'esse inverno uma casa -com foges, onde se passasse uma hora civilisada e intelligente. - -Taveira acudiu com o olho brilhante: - ---Diz que vamos ter um centrosinho muito mais interessante ainda, na rua -de S. Francisco! Foi o marquez que me disse. Madame Mac-Gren vai -receber. - -Craft no sabia mesmo que ella j tivesse recolhido da _Toca_. - ---Voltou hoje, disse o Ega. Voc ainda no a conhece?... Encantadora. - ---Creio que sim. - -O Taveira vira-a de relance no Chiado. Parecera-lhe uma belleza. E um ar -to sympathico! - ---Encantadora! repetiu Ega. - -Mas o _Fructo prohibido_ findra, os homens enchiam o peristylo, n'um -rumor lento, accendendo os cigarros. E Ega, deixando o Craft e Taveira -com a genebra, correu plateia para descobrir o camarote da Alvim. - -Mal erguera porm a cortina e assestra o monoculo--avistou defronte, na -primeira ordem, a Cohen, toda de preto, com um grande leque de rendas -brancas; por traz negrejavam as suissas fortes do marido; e em face -d'ella, recostado no velludo da grade, de casaca, com a bochecha -risonha, uma grossa perola no peitilho da camisa, o Damaso, o bebedo! - -Ega cahiu mollemente, ao acaso, na borda d'uma cadeira: e perturbado, j -esquecido da Alvim, alli ficou a olhar o panno coberto d'annuncios, -correndo os dedos tremulos pelo bigode. - -No emtanto a campainha retinia, a gente vagarosamente reentrava na -plateia. Um cavalheiro gordo e carrancudo tropeou no joelho do Ega: -outro, de luvas claras, com uma polidez adocicada, pediu permisso a s. -exc.^a Elle no escutava, no percebia: os seus olhos, um momento -errantes, tinham-se emfim cravado no camarote da Cohen e no se -desviaram de l, n'uma emoo que o empallidecia. - -No a tornra a encontrar desde Cintra, onde s a via de longe, com -vestidos claros sob o verde das arvores; e agora alli, toda de preto, em -cabello, com um decote curto onde brilhava a perfeita brancura do seu -collo, ella era outra vez a _sua_ Rachel, dos tempos divinos da _villa_ -Balzac. Era assim que elle, todas as noites em S. Carlos, a contemplava -do fundo da frisa de Carlos, com a cabea encostada ao tabique, saturado -de felicidade. L tinha a sua luneta d'ouro, presa por um fio d'ouro. -Parecia mais pallida, mais delicada, com o longo quebranto dos olhos -pisados, o seu ar de romance e de lirio meio murcho: e como ento os -seus cabellos magnificos e pesados cahiam habilmente n'uma massa meia -solta sobre as costas, n'um desalinho de nudez. Pouco a pouco, entre o -afinar de rebecas e o rumor das cadeiras Ega revia, n'uma onda de -recordaes que o suffocava, o grande leito da _villa_ Balzac, certos -beijos e certos risos, as perdizes comidas em camisa borda do sof, e -a melancolia deliciosa das tardes, quando ella sahia furtivamente, -coberta de vos, e elle ficava, cansado, no crepusculo poetico do -quarto, cantarolando a _Traviata_... - ---V. exc.^a d licena, snr. Ega? - -Era um sujeito escaveirado, de barba rala, que reclamava a sua cadeira. -Ega ergueu-se, confusamente, sem reconhecer o snr. Sousa Netto. O panno -subira. borda da rampa um lacaio, piscando o olho Plateia, fazia -confidencias sobre a patra, de espanejador debaixo do brao. E Cohen, -agora de p, enchia o meio do camarote, cofiando as suissas com um -correr lento da mo bem tratada, onde reluzia um diamante. - -Ega ento, n'um soberbo alarde d'indifferena, cravou o monoculo no -palco. O lacaio abalra espavorido, a um repique furioso de sineta; e -uma megera azeda, de roupo verde e touca banda, rompera de dentro, -meneando desesperadamente o leque, ralhando com uma mocinha delambida -que batia o taco, se esganiava: Pois hei de amal-o sempre! hei de -amal-o sempre! - -Irresistivelmente Ega revirou o canto do olho para o camarote: Rachel e -o Damaso, com as cabeas chegadas como em Cintra, cochichavam n'um -sorriso. E tudo logo dentro do Ega se resumiu n'um immenso odio ao -Damaso! Collado umbreira da porta, rilhava os dentes, n'um desejo de -subir, escarrar-lhe na bochecha gorda. - -E no desviava d'elle os olhos, que dardejavam. Na scena, um velho -general, gottoso e resmungo, sacudia um jornal, gritava pela sua -tapioca. A Plateia ria, o Cohen ria. E n'esse momento Damaso, que se -debrura no camarote com as mos de fra, caladas de _gris-perle_, -descobriu o Ega, sorriu, atirou-lhe como em Cintra um acenosinho -petulante, muito d'alto, na ponta dos dedos. Isto feriu o Ega como um -insulto. E ainda na vespera aquelle covarde se lhe agarrra s mos, -tremendo todo, a gritar que o salvasse!... - -Subitamente, com uma ida, palpou por sobre o bolso a carteira onde na -vespera guardra a carta do Damaso... Eu t'arranjo! murmurou elle. E -abalou, desceu a rua da Trindade, cortou pelo Loreto como uma pedra que -rola, enfiou, ao fundo da praa de Cames, n'um grande porto que uma -lanterna alumiava. Era a redaco da _Tarde_. - -Dentro do pateo d'esse jornal elegante fedia. Na escadaria de pedra, sem -luz, cruzou um sujeito encatarrhoado que lhe disse que o Neves estava em -cima ao cavaco. O Neves, deputado, politico, director da _Tarde_, fra, -havia annos, n'umas ferias, seu companheiro de casa no largo do Carmo; e -desde esse vero alegre em que o Neves lhe ficra sempre devendo tres -moedas, os dois tratavam-se por _tu_. - -Foi encontral-o n'uma vasta sala alumiada por bicos de gaz sem globo, -sentado na borda d'uma mesa atulhada de jornaes, com o chapo para a -nuca, discursando a alguns cavalheiros de provincia que o escutavam de -p, n'um respeito de crentes. N'um vo de janella, com dois homens -d'idade, um rapaz esgalgado, de jaqueto de cheviote claro e uma -cabelleira crespa que parecia erguida n'uma rajada de vento, bracejava -como um moinho na crista d'um monte. E, abancado, outro sujeito j calvo -rascunhava laboriosamente uma tira de papel. - -Ao vr o Ega (um intimo do Gouvarinho) alli na redaco, n'aquella noite -de intriga e de crise, Neves cravou n'elle os olhos to curiosos, to -inquietos, que o Ega apressou-se a dizer: - ---Nada de politica, negocio particular... No te interrompas. Depois -fallaremos. - -O outro findou a injuria que estava lanando ao Jos Bento, essa grande -besta que fra metter tudo no bico da amiga do Sousa e S, o par do -reino--e na sua impaciencia saltou da mesa, travou do brao do Ega -arrastando-o para um canto: - ---Ento que ? - --- isto, em quatro palavras. O Carlos da Maia foi offendido ahi por um -sujeito muito conhecido. Nada d'interessante. Um paragrapho immundo na -_Corneta do Diabo_, por uma questo de cavallos... O Maia pediu-lhe -explicaes. O outro deu-as, chatas, medonhas, n'uma carta que quero que -vocs publiquem. - -A curiosidade do Neves flammejou: - ---Quem ? - ---O Damaso. - -O Neves recuou d'assombro: - ---O Damaso!? Ora essa! Isso extraordinario! Ainda esta tarde jantei -com elle! Que diz a carta? - ---Tudo. Pede perdo, declara que estava bebedo, que de profisso um -bebedo... - -O Neves agitou as mos com indignao: - ---E tu querias que eu publicasse isso, homem? O Damaso, nosso amigo -politico!... E que no fosse, no questo de partido, de decencia! -Eu fao l isso!... Se fosse uma acta de duello, uma coisa honrosa, -explicaes dignas... Mas uma carta em que um homem se declara bebedo! -Tu ests a mangar! - -Ega, j furioso, franzia a testa. Mas o Neves, com todo o sangue na -face, teve ainda uma revolta quella ida do Damaso se declarar bebedo! - ---Isso no pde ser! absurdo! Ahi ha historia... Deixa vr a carta. - -E, mal relancera os olhos ao papel, larga assignatura floreada, -rompeu n'um alarido: - ---Isto no o Damaso nem letra do Damaso!... Salcede! Quem diabo -Salcede? Nunca foi o _meu_ Damaso! - --- o _meu_ Damaso, disse o Ega. O Damaso Salcede, um gordo... - -O outro atirou os braos ao ar: - ---O meu o Guedes, homem, o Damaso Guedes! No ha outro! Que diabo, -quando se diz o Damaso o Guedes!... - -Respirou com grande allivio: - ---Irra, que me assustaste! Olha agora n'este momento, com estas coisas -de ministerio, uma carta d'essas escripta pelo Guedes... Se o Salcede, -bem, acabou-se! Espera l... No um gordalhufo, um janota que tem uma -propriedade em Cintra? Isso! Um magano que nos entalou na eleio -passada, fez gastar ao Silverio mais de trezentos mil reis... -Perfeitamente, s ordens... Pereirinha, olhe aqui o snr. Ega. Tem ahi -uma carta para sahir manh, na primeira pagina, typo largo... - -O snr. Pereirinha lembrou o artigo do snr. Vieira da Costa sobre a -Reforma das Pautas. - ---Vai depois! gritou o Neves. As questes de honra antes de tudo! - -E voltou ao seu grupo onde agora se fallava do conde de Gouvarinho, -saltou para a borda da mesa, lanou logo o seu vozeiro de chefe, -affirmando no Gouvarinho enormes dotes de parlamentar! - -Ega accendeu o charuto, ficou um momento considerando aquelles sujeitos -que pasmavam para o verbo do Neves. Eram decerto deputados que a crise -arrastra a Lisboa, arrancra quietao das villas e das quintas. O -mais novo parecia um pote, vestido de casimira fina, com uma enorme face -a estourar de sangue, jocundo, crasso, lembrando ares sadios e lombo de -porco. Outro, esguio, com o paletot solto sobre as costas em arco, tinha -um queixo duro e macisso de cavallo: e dois padres muito rapados, muito -morenos, fumavam pontas de cigarro. Em todos havia esse ar, -conjunctamente apagado e desconfiado, que marca os homens de provincia, -perdidos entre as tipoias e as intrigas da Capital. Vinham alli s -noites, quelle jornal do partido, saber as novas, _beber do fino_, uns -com esperanas de empregos, outros por interesses de terriola, alguns -por ociosidade. Para todos o Neves era um robusto talento; -admiravam-lhe a verbosidade e a tactica; decerto gostavam de citar nas -lojas das suas villas o amigo Neves, o jornalista, o da _Tarde_... Mas, -atravs d'essa admirao e do prazer de roar por elle, percebia-se-lhes -um vago medo que aquelle robusto talento lhes pedisse, n'um vo de -janella, duas ou tres moedas. O Neves no emtanto celebrava o Gouvarinho -como orador. No que tivesse os rasgos, a pureza, as bellas syntheses -historicas do Jos Clemente! Nem a poesia do Rufino! Mas no havia outro -para as piadas que ferem e que ficam cravadas, alli a arder, na pelle do -touro! E era a grande coisa na Camara--ter a farpa, sabl-a ferrar! - --- Gonalo, tu lembras-te da piada do Gouvarinho, a do trapezio? gritou -elle virando-se para a janella, para o rapaz de jaqueto claro. - -O Gonalo, cujos olhos pretos refulgiram de agudeza e malicia, estendeu -o pescoo magro n'um collarinho muito decotado, lanou de l: - ---A do trapezio? Divina! Conta rapaziada! - -A rapaziada arregalou os olhos para o Neves, espera da do trapezio. -Fra na Camara dos Pares, na reforma da instruco. Estava fallando o -Torres Valente, esse maluco que defendia a gymnastica dos collegios e -queria as meninas a fazerem a prancha. Gouvarinho ergue-se e atira-lhe -esta: - -Snr. presidente, direi uma palavra s. Portugal sahir para sempre da -senda do progresso, em que tanto se tem illustrado, no dia em que ns -frmos ao ensino, com mo impia, substituir a cruz pelo trapezio! - ---Muito bem! rosnou um dos padres profundamente satisfeito. - -E no murmurio de admirao que se ergueu destacou um ganido--o do rapaz -mais grosso que um pote, que mexia os hombros, chasqueava com uma risota -na bochecha cr de tomate: - ---Pois, senhores, o que esse conde de Gouvarinho me sae um grandissimo -carola! - -E em redor correram sorrisos entre os cavalheiros de provincia, liberaes -e finorios, que achavam aquelle fidalgo excessivamente apegado cruz. -Mas j o Neves, de p, bravejava: - ---Carola! Vem-nos agora o menino gordo com carola!... O Gouvarinho -carola! Est claro que tem toda a orientao mental do seculo, um -racionalista, um positivista... Mas a questo aqui a rplica, a -tactica parlamentar! Desde que o typo da maioria vem de l com a -descoberta do trapezio, Gouvarinho amigo, ainda que fosse to atheu como -Renan, zs! atira-lhe logo para cima com a cruz!... Isto que a -estrategia parlamentar! Pois no assim, Ega? - -Ega murmurou, atravs do fumo do charuto: - ---Sim, com effeito a cruz para isso ainda serve... - -Mas n'esse momento o sujeito calvo, que repellira a tira de papel e se -espreguiava, cahido para as costas da cadeira, exhausto, pediu ao snr. -Joo da Ega--que fallasse gente e guardasse o seu dinheiro... - -Ega acercou-se logo d'aquelle sympathico homem, to engraado, to -querido de todos: - ---Ento, na grande faina, Melchior? - ---Estou aqui a vr se fao uma coisa sobre o livro do Craveiro, os -_Cantos da Serra_, e no me sae nada em termos... No sei o que hei de -dizer! - -Ega gracejou, de mos nos bolsos, muito risonho, muito camarada com o -Melchior: - ---Nada! Vocs aqui so simples localistas, noticiaristas, annunciadores. -D'um livro como o do Craveiro tm s respeitosamente a dizer onde se -vende e quanto custa. - -O outro considerou o Ega ironicamente, com os dedos cruzados por traz da -nuca: - ---Ento onde queria voc que se fallasse dos livros?... Nos reportorios? - -No, nas Revistas Criticas: ou ento nos jornaes--que fossem jornaes, -no papeluchos volantes, tendo em cima uma cataplasma de politica em -estylo mazorro ou em estylo fadista, um romance mal traduzido do francez -por baixo e o resto cheio com annos, despachos, parte de policia e -loteria da Misericordia. E como em Portugal no havia nem jornaes srios -nem Revistas Criticas--que se no fallasse em parte nenhuma. - ---Com effeito, murmurou Melchior, ninguem falla de nada, ninguem parece -pensar em nada... - -E com toda a razo, affirmou Ega. Certamente muito d'esse silencio -provinha do natural desejo que tm os que so mediocres de que se no -alluda muito aos que so grandes. a invejasinha reles e rastejante! -Mas em geral o silencio dos jornaes para com os livros provm sobretudo -d'elles terem abdicado todas as funces elevadas d'estudo e de critica, -de se terem tornado folhas rasteiras d'informao caseira, e de sentirem -por isso a sua incompetencia... - ---Est claro, no fallo por voc, Melchior, que dos nossos e de -primeira ordem! Mas os seus collegas, menino, calam-se por se saberem -incompetentes... - -O Melchior ergueu os hombros com um ar canado e descrente: - ---Calam-se tambem porque o publico no se importa, ninguem se importa... - -Ega protestou, j excitado. O Publico no se importava!? Essa era -curiosa! O Publico ento no se importa que lhe fallem de livros que -elle compra aos tres mil, aos seis mil exemplares? E isto, dada a -populao de Portugal, caramba, igual aos grandes successos de Paris e -de Londres... No, Melchiorzinho amigo, no! Esse silencio diz ainda -mais claramente e retumbantemente que as palavras: Ns somos -incompetentes. Ns estamos bestialisados pela noticia do snr. -conselheiro que chegou ou do snr. conselheiro que partiu, pelos -_High-lifes_, pela amabilidade dos donos da casa, pelo artigo de fundo -em descompostura e calo, por toda esta prosa chula em que nos -atolamos... Ns no sabemos, no podemos j fallar d'uma obra d'arte ou -d'uma obra de historia, d'este bello livro de versos ou d'este bello -livro de viagens. No temos nem phrases nem idas. No somos talvez -cretinos--mas estamos cretinisados. A obra de litteratura passa muito -alto--ns chafurdamos aqui muito em baixo... - ---E aqui tem voc, Melchior, o que diz, atravs do silencio dos jornaes, -o cro dos jornalistas! - -Melchior sorria, enlevado, com a cabea deitada para traz, como quem -goza uma bella ria. Depois com uma palmada na mesa: - ---Caramba, Ega, muito bem falla voc!... Voc nunca pensou em ser -deputado? Eu ainda outro dia dizia ao Neves: O Ega! O Ega que era, -para atirar alli na camara a piadinha Rochefort. Ardia Troia! - -E immediatamente, emquanto Ega ria, contente, tornando a accender o -charuto--Melchior arrebatou a penna: - ---Voc est em veia! Diga l, dicte l... Que hei de eu aqui pr sobre o -livro do Craveiro? - -Ega quiz saber o que escrevera j o amigo Melchior. Apenas tres linhas: -Recebemos o novo livro do nosso glorioso poeta Simo Craveiro. O -precioso volume, onde scintillam em caprichosos relevos todas as joias -d'este prestigioso escriptor, publicado pelos activos editores... E -aqui o Melchior emperrra. Melchior no gostava d'aquelle frouxo -termo--_activos_. Ega ento suggeriu--_emprehendedores_. Melchior -emendou, leu: - ---...publicado pelos emprehendedores editores... Ora sbo, rima! - -Arrojou a penna, descoroado. Acabou-se! No estava em _verve_. E alm -d'isso era tarde, tinha a rapariga espera... - ---Fica para manh... O peor que j ando n'isto ha cinco dias! Irra! -Voc tem razo, a gente bestialisa-se. E faz-me raiva! No l pelo -livro, no me importa o livro... pelo Craveiro, que bom rapaz, e -demais a mais pertence c ao partido! - -Abriu um gaveto, sacou uma escova, rompeu a escovar-se com desespero. E -Ega ia ajudal-o, limpar-lhe as costas cheias de cal--quando entre elles -surgiu a face chupada e nervosa do Gonalo, com a sua gaforinha -perpetuamente erguida como por uma rajada de vento. - ---Que est o Egasinho a fazer n'este covil da noticia? - ---Aqui a escovar o Sampaio... Estive tambem a ouvir o Neves, a grande -phrase do Gouvarinho... - -O Gonalo pulou, com uma faisca de malicia nos olhos negros de algarvio -esperto. - ---A da cruz? Espantosa! Mas ha melhor, ha melhor! - -Travou do brao do Ega, puxou-o para um canto da janella: - --- necessario fallar baixo por causa da rapaziada de provincia... Ha -outra deliciosa. Eu no me lembro bem, o Neves que sabe! uma coisa -da Liberdade conduzindo mo o corcel do Progresso... O quer que seja -assim, uma imagem equestre! A Liberdade com cales de jockey, o -Progresso com um grande freio... Espantoso! Que besta, aquelle -Gouvarinho! E os outros, menino, os outros! Voc no foi camara quando -se discutiu a questo de Tondella? Extraordinario! O que se disse! Foi -de morrer! E eu morro! Esta politica, este S. Bento, esta eloquencia, -estes bachareis matam-me. Querem dizer agora ahi que isto por fim no -peor que a Bulgaria. Historias! Nunca houve uma choldra assim no -universo! - ---Choldra em que voc chafurda! observou o Ega rindo. - -O outro recuou com um grande gesto: - ---Distingamos! Chafurdo por necessidade, como politico: e tro por -gosto, como artista! - -Mas Ega justamente achava uma desgraa incomparavel para o paiz--esse -immoral desaccordo entre a intelligencia e o caracter. Assim, alli -estava o amigo Gonalo, como homem de intelligencia, considerando o -Gouvarinho um imbecil... - ---Uma cavalgadura, corrigiu o outro. - ---Perfeitamente! E todavia, como politico, voc quer essa cavalgadura -para ministro, e vai apoial-a com votos e com discursos sempre que ella -rinche ou escoucinhe. - -Gonalo correu lentamente a mo pela gaforinha, com a face franzida: - --- necessario, homem! Razes de disciplina e de solidariedade -partidaria... Ha uns compromissos... O pao quer, gosta d'elle... - -Espreitou em roda, murmurou, collado ao Ega: - ---Ha ahi umas questes de syndicatos, de banqueiros, de concesses em -Moambique... Dinheiro, menino, o omnipotente dinheiro! - -E como Ega se curvava, vencido, cheio s de respeito--o outro, faiscando -todo de finura e cynismo, atirou-lhe uma palmada ao hombro: - ---Meu caro, a politica hoje uma coisa muito differente! Ns fizemos -como vocs os litteratos. Antigamente a litteratura era a imaginao, a -phantasia, o ideal... Hoje a realidade, a experiencia, o facto -positivo, o documento. Pois c a politica em Portugal tambem se lanou -na corrente realista. No tempo da Regenerao e dos Historicos a -politica era o progresso, a viao, a liberdade, o palavrorio... Ns -mudamos tudo isso. Hoje o facto positivo,--o dinheiro, o dinheiro! o -bago! a _massa_! A rica _massinha_ da nossa alma, menino! O divino -dinheiro! - -E de repente emmudeceu, sentindo na sala um silencio--onde o seu grito -de dinheiro! dinheiro! parecera ficar vibrando, no ar quente do gaz, -com a prolongao de um toque de rebate acordando as cubias, chamando -ao longe e ao largo todos os habeis para o saque da Patria inerte!... - -O Neves desapparecera. Os cavalheiros de provincia dispersavam, uns -enfiando o paletot, outros sem pressa dando um olhar amortecido aos -jornaes sobre a mesa. E o Gonalo bruscamente disse adeus ao Ega, rodou -nos taces, desappareceu tambem, abraando ao passar um dos padres a -quem tratou de malandro! - -Era meia noite, Ega sahiu. E na tipoia que o levava ao Ramalhete, j -mais calmo, comeou logo a reflectir que o resultado da publicao da -carta seria despertar em toda Lisboa uma curiosidade voraz. A questo -de cavallos com que o Neves se contentra promptamente, distrahido e -absorvido n'essa noite pela crise,--ninguem mais a acreditaria... O -Damaso decerto, interrogado, para se desculpar, contaria horrores de -Maria e de Carlos: e uma intoleravel luz d'escandalo ia bater coisas que -deviam permanecer na sombra. Eram talvez apoquentaes, desesperos que -elle assim estivera preparando a Carlos--por causa d'um odiosinho ao -Damaso. Nada mais egoista e pequeno!... E subindo para o quarto Ega -decidia correr depois d'almoo redaco da _Tarde_, suster a -publicao da carta. - -Mas toda essa noite sonhou com Rachel e com Damaso. Via-os rolando por -uma estrada sem fim, entre pomares e vinhedos, deitados n'uma carroa de -bois, sobre um enxergo onde se desdobrava, lasciva e rica, a sua colcha -de setim preto da _villa_ Balzac: os dois beijavam-se, enroscados, sem -pudor, sob a fresca sombra que cahia dos ramos, ao chiar lento das -rodas. E por um requinte do sonho cruel, elle Ega, sem perder a -consciencia e o orgulho d'homem, era um dos bois que puxava ao carro! Os -moscardos picavam-no, a canga pesava-lhe; e, a cada beijo mais cantado -que atraz soava no carro, elle erguia o focinho a escorrer de baba, -sacudia os cornos, mugia lamentavelmente para os cos! - -Acordou n'estes urros d'agonia: e a sua clera contra o Damaso resurgiu, -mais nutrida pelas incoherencias do sonho. Alm d'isso chovia. E decidiu -no voltar _Tarde_, deixar imprimir a carta. Que importava, de resto, -o que dissesse o Damaso? O artigo da _Corneta_ estava extincto, o Palma -bem pago.--E quem jmais acreditaria n'um homem que nos jornaes se -declara calumniador e bebedo? - -E Carlos assim pensou tambem--quando, depois d'almoo, Ega lhe contou a -sua resoluo da vespera ao vr o Damaso no camarote, d'olho trocista -posto n'elle, a segredar com os Cohens... - ---Percebi claramente, sem erro possivel, que estava a fallar de ti, da -snr.^a D. Maria, de ns todos, contando horrores... E ento acabou-se, -no hesitei mais. Era necessario deixar passar a justia de Deus! No -tinhamos paz emquanto o no aniquilassemos! - -Sim, concordou Carlos, talvez. Smente receava que o av, sabendo o -escandalo, se desgostasse de vr o seu nome misturado a toda aquella -sordidez de _Corneta_ e de bebedeira... - ---Elle no l a _Tarde_, acudiu Ega. O rumor, se lhe chegar, j vago e -desfigurado. - -Com effeito Affonso soube apenas confusamente que o Damaso soltra no -Gremio algumas palavras desagradaveis para Carlos, e declarra depois -n'um jornal que, n'esse momento, estava bebedo. E a opinio do velho -foi--que se o Damaso estava embriagado (e d'outro modo como teria -injuriado Carlos, seu antigo amigo?) a sua declarao revelava extrema -lealdade e um amor quasi heroico da verdade! - ---Por esta no esperavamos ns! exclamou depois Ega no quarto de Carlos. -O Damaso torna-se um justo! - -De resto os amigos da casa, sem conhecer o artigo da _Corneta_, -approvavam a aniquilao do Damaso. S o Craft sustentou que Carlos lhe -devia ter antes dado bengaladas secretas; e o Taveira achou cruel que -se dissesse ao desgraado, com um florete ao peito--ou a dignidade ou a -vida! - -Mas dias depois no se fallava mais n'esse escandalo. Outras coisas -interessavam o Chiado e a Casa Havaneza. O ministerio fra formado, -finalmente! Gouvarinho entrava na Marinha--Neves no Tribunal de Contas. -J os jornaes do governo cahido comeavam, segundo a pratica -constitucional, a achar o paiz irremediavelmente perdido, e a alludir ao -rei com azedume... E o derradeiro, esvado echo da carta do Damaso foi, -na vespera do sarau da Trindade, um paragrapho da propria _Tarde_ onde -ella fra publicada, n'estas amaveis palavras: - ---O nosso amigo e distincto _sportman_ Damaso Salcede parte brevemente -para uma viagem de recreio a Italia. Desejamos ao elegante _touriste_ -todas as prosperidades na sua bella excurso ao paiz do canto e das -artes. - - - - -VI - - -Ao fim do jantar, na rua de S. Francisco, Ega que se demorra no -corredor a procurar a charuteira pelos bolsos do paletot, entrou na -sala, perguntando a Maria, j sentada ao piano: - ---Ento, definitivamente, v. exc.^a no vem ao sarau da Trindade?... - -Ella voltou-se para dizer, preguiosamente, por entre a walsa lenta que -lhe cantava entre os dedos: - ---No me interessa, estou muito canada... - --- uma scca, murmurou Carlos do lado, da vasta poltrona onde se -estirra consoladamente, fumando, d'olhos cerrados. - -Ega protestou. Tambem era uma massada subir s Pyramides no Egypto. E no -emtanto soffria-se invariavelmente, porque nem todos os dias pde um -christo trepar a um monumento que tem cinco mil annos de existencia... -Ora a snr.^a D. Maria, n'este sarau, ia vr por dez tostes uma coisa -tambem rara,--a alma sentimental d'um povo exhibindo-se n'um palco, ao -mesmo tempo nua e de casaca. - ---V, coragem! um chapo, um par de luvas, e a caminho! - -Ella sorria, queixando-se de fadiga e preguia. - ---Bem, exclamou Ega, eu que no quero perder o Rufino... Vamos l, -Carlos, mexe-te! - -Mas Carlos implorou clemencia: - ---Mais um bocadinho, homem! Deixa a Maria tocar umas notas do _Hamlet_. -Temos tempo... Esse Rufino, e o Alencar, e os bons, s gorgeiam mais -tarde... - -Ento Ega, cedendo tambem a todo aquelle conchego tepido e amavel, -enterrou-se no sof com o charuto, para escutar a cano d'_Ophelia_, de -que Maria j murmurava baixo as palavras scismadoras e tristes: - - - Ple et blonde, - Dort sous l'eau profonde... - - -Ega adorava esta velha ballada escandinavia. Mais porm o encantava -Maria que nunca lhe parecera to bella: o vestido claro que tinha n'essa -noite modelava-a com a perfeio d'um marmore: e entre as velas do -piano, que lhe punham um trao de luz no perfil puro e tons d'ouro -esfiado no cabello--o incomparavel eburneo da sua pelle ganhava em -esplendor e mimo... Tudo n'ella era harmonioso, so, perfeito... E -quanto aquella serenidade da sua frma devia tornar delicioso o ardor da -sua paixo! Carlos era positivamente o homem mais feliz d'estes reinos! -Em torno d'elle s havia facilidades, douras. Era rico, intelligente, -d'uma saude de pinheiro novo; passava a vida adorando e adorado; s -tinha o numero d'inimigos que necessario para confirmar uma -superioridade; nunca soffrera de dyspepsia; jogava as armas bastante -para ser temido; e na sua complacencia de forte nem a tolice publica o -irritava. Sr verdadeiramente ditoso! - ---Quem por fim esse Rufino? perguntou Carlos, alongando mais os ps -pelo tapete, quando Maria findou a cano d'_Ophelia_. - -Ega no sabia. Ouvira que era um deputado, um bacharel, um inspirado... - -Maria, que procurava os nocturnos de Chopin, voltou-se: - --- esse grande orador de que fallavam na _Toca_? - -No, no! Esse era outro, a srio, um amigo de Coimbra, o Jos Clemente, -homem d'eloquencia e de pensamento... Este Rufino era um rato de pera -grande, deputado por Mono, e sublime n'essa arte, antigamente nacional -e hoje mais particularmente provinciana, de arranjar, n'uma voz de -theatro e de papo, combinaes sonoras de palavras... - ---Detesto isso! rosnou Carlos. - -Maria tambem achava intoleravel um sujeito a chilrear, sem idas, como -um passaro n'um galho d'arvore... - --- conforme a occasio, observou Ega, olhando o relogio. Uma walsa de -Strauss tambem no tem idas, e noite, com mulheres n'uma sala, -deliciosa... - -No, no! Maria entendia que essa rhetorica amesquinhava sempre a -palavra humana, que, pela sua natureza mesma, s pde servir para dar -frma s idas. A musica, essa, falla aos nervos. Se se cantar uma -marcha a uma criana, ella ri-se e salta no collo... - ---E se lhe lres uma pagina de Michelet, concluiu Carlos, o anjinho -secca-se e berra! - ---Sim, talvez, considerou o Ega. Tudo isso depende da latitude e dos -costumes que ella cria. No ha inglez, por mais culto e espiritualista, -que no tenha um fraco pela fora, pelos athletas, pelo _sport_, pelos -musculos de ferro. E ns, os meridionaes, por mais criticos, gostamos do -palavriadinho mavioso. Eu c pelo menos, noite, com mulheres, luzes, -um piano e gente de casaca, pello-me por um bocado de rhetorica. - -E, com o appetite assim desperto, ergueu-se logo para enfiar o paletot, -voar _Trindade_, n'um receio de perder o Rufino. - -Carlos deteve-o ainda, com uma grande ida: - ---Espera. Descobri melhor, fazemos o sarau aqui! Maria toca Beethoven; -ns declamamos Mussuet, Hugo, os parnasianos; temos padre Lacordaire se -te appetece a eloquencia; e passa-se a noite n'uma medonha orgia -d'ideal!... - ---E ha melhores cadeiras, acudiu Maria. - ---Melhores poetas, affirmou Carlos. - ---Bons charutos! - ---Bom cognac! - -Ega alou os braos ao ar, desolado. Ahi est como se pervertia um -cidado, impedindo-o de proteger as letras patrias--com promessas -perfidas de tabaco e de bebidas!... Mas de resto elle no tinha s uma -razo litteraria para ir ao sarau. O Cruges tocava uma das suas -_Meditaes d'Outono_, e era necessario dar palmas ao Cruges. - ---No digas mais! gritou Carlos, dando um pulo da poltrona. Esquecia-me -o Cruges!... um dever d'honra! Abalemos. - -E d'ahi a pouco, tendo beijado a mo de Maria que ficava ao piano, os -dois, surprehendidos com a belleza d'essa noite d'inverno, to clara e -dce, seguiam devagar pela rua--onde Carlos ainda duas vezes se voltou -para olhar as janellas alumiadas. - ---Estou bem contente, exclamou elle travando do brao do Ega, em ter -deixado os Olivaes!... Aqui ao menos podemos reunir-nos para um bocado -de cavaco e de litteratura... - -Tencionava arranjar a sala com mais gosto e conforto, converter o quarto -ao lado n'um _fumoir_ forrado com as suas colchas da India, depois ter -um dia certo em que viessem os amigos cear... Assim se realisava o velho -sonho, o cenaculo de dilettantismo e d'arte... Alm d'isso havia a -lanar a _Revista_, que era a suprema pandega intellectual. Tudo isto -annunciava um inverno _chic a valer_, como dizia o defunto Damaso. - ---E tudo isto, resumiu o Ega, dar civilisao ao paiz. Positivamente, -menino, vamo-nos tornar grandes cidados!... - ---Se me quizerem erguer uma estatua, disse Carlos alegremente, que seja -aqui na rua de S. Francisco... Que belleza de noite! - - - -Pararam porta do theatro da Trindade no momento em que, d'uma tipoia -de praa, se apeava um sujeito de barbas de apostolo, todo de luto, com -um chapo de largas abas recurvas moda de 1830. Passou junto dos dois -amigos sem os vr, recolhendo um troco bolsa. Mas Ega reconheceu-o. - --- o tio do Damaso, o demagogo! Bello typo! - ---E segundo o Damaso, um dos bebedos da familia, lembrou Carlos rindo. - -Por cima, de repente, no salo, estalaram grandes palmas. Carlos, que -dava o paletot ao porteiro, receou que j fosse o Cruges... - ---Qual! disse o Ega. Aquillo applaudir de rhetorica! - -E com effeito, quando pela escada ornada de plantas chegaram ao -ante-salo, onde dois sujeitos de casaca passeavam em bicos de ps, -segredando--sentiram logo um vozeiro tumido, garganteado, provinciano, -de vogaes arrastadas em canto, invocando l do fundo, do estrado, a -alma religiosa de Lamartine!... - --- o Rufino, tem estado soberbo! murmurou o Telles da Gama que no -passra da porta, com o charuto escondido atraz das costas. - -Carlos, sem curiosidade, ficou junto do Telles. Mas Ega, esguio e magro, -foi rompendo pela coxia tapetada de vermelho. D'ambos os lados se -cerravam filas de cabeas, embebidas, enlevadas, atulhando os bancos de -palhinha at junto ao tablado, onde dominavam os chapos de senhoras -picados por manchas claras de plumas ou flres. Em volta, de p, -encostados aos pilares ligeiros que sustm a galeria, reflectidos pelos -espelhos, estavam os homens, a gente do Gremio, da Casa Havaneza, das -Secretarias, uns de gravata branca, outros de jaquetes. Ega avistou o -snr. Sousa Netto, pensativo, sustentando entre dois dedos a face -escaveirada, de barba rala; adiante o Gonalo, com a sua gaforinha ao -vento; depois o marquez atabafado n'um cache-nez de sda branca; e, n'um -grupo, mais longe, rapazes do Jockey Club, os dois Vargas, o Mendona, o -Pinheiro, assistindo quelle _sport_ da eloquencia com uma mistura -d'assombro e tedio. Por cima, no parapeito de velludo da galeria, corria -outra linha de senhoras com vestidos claros, abanando-se mollemente; por -traz alava-se ainda uma fila de cavalheiros onde destacava o Neves, o -novo Conselheiro, grave, de braos cruzados, com um boto de camelia na -casaca mal feita. - -O gaz suffocava, vibrando cruamente n'aquella sala clara, d'um tom -desmaiado de canario, raiada de reflexos de espelhos. Aqui e alm uma -tosse timida de catarrho desmanchava o silencio, logo abafada no leno. -E na extremidade da galeria, n'um camarote feito de tabiques, com -sanefas de velludo cr de cereja, duas cadeiras de espaldar dourado -permaneciam vazias, na solemnidade real do seu damasco escarlate. - -No emtanto, no estrado, o Rufino, um bacharel transmontano, muito -trigueiro, de pera, alargava os braos, celebrava um anjo, o _Anjo da -Esmola_ que elle entrevira, alm no azul, batendo as azas de setim... -Ega no comprehendia bem--entalado entre um padre muito gordo que -pingava de suor, e um alferes de lunetas escuras. Por fim no se -conteve:--Sobre que est elle a fallar? E foi o padre que o informou, -com a face luzidia, inflammada de enthusiasmo: - ---Tudo sobre a caridade, sobre o progresso! Tem estado sublime... -Infelizmente est a acabar! - -Parecia ser, com effeito, a perorao. O Rufino arrebatra o leno, -limpava a testa lentamente; depois arremetteu para a borda do tablado, -voltando-se para as cadeiras reaes com um to ardente gesto -d'inspirao--que o collete repuxado descobriu o comeo da ceroula. Foi -ento que Ega comprehendeu. Rufino estava exaltando uma princeza que -dera seiscentos mil reis para os inundados do Ribatejo, e ia a beneficio -d'elles organisar um bazar na Tapada. Mas no era s essa soberba esmola -que deslumbrava o Rufino--porque elle, como todos os homens educados -pela philosophia e que tm a verdadeira orientao mental do seu tempo, -via nos grandes factos da historia no s a sua belleza poetica, mas a -sua influencia social. A multido, essa, sorria simplesmente, enlevada, -para a incomparavel poesia da mo calada de fina luva que se estende -para o pobre. Elle porm, philosopho, antevia j, sahindo d'esses -delicados dedos de princeza, um resultado bem profundo e formoso... O -qu, meus senhores? O renascimento da F! - -De repente, um leque que escorregra da galeria, arrancando em baixo um -berro a uma senhora gorda, creou um susurro, uma curta emoo. Um -commissario do sarau, D. Jos Sequeira, ergueu-se logo nos degraus do -tablado, com o seu laarote de sda vermelha na casaca, dardejando -severamente os olhos vesgos para o recanto indisciplinado onde curtos -risos esfusiavam. Outros cavalheiros, indignados, gritavam _chut, -silencio,_ _fra!_ E das cadeiras da frente surgiu a face ministerial -do Gouvarinho, inquieta pela Ordem, com as lunetas brilhando -duramente... Ento Ega procurou ao lado a condessa: e avistou-a emfim -mais longe, com um chapo azul, entre a Alvim toda de preto e umas -vastas espdoas cobertas de setim malva que eram as da baroneza de -Craben. Todo o rumor findava--e o Rufino, que molhra lentamente os -labios no copo, avanou um passo, sorrindo, com o leno branco na mo: - ---Dizia eu, meus senhores, que dada a orientao mental d'este seculo... - -Mas o Ega suffocava, esmagado, farto do Rufino, com a impresso de que o -padre ao lado cheirava mal. E no aturou mais, furou para traz, para -desabafar com Carlos. - ---Tu imaginavas uma besta assim? - ---Horroroso! murmurou Carlos. Quando tocar o Cruges? - -Ega no sabia, todo o programma fra alterado. - ---E tens c a Gouvarinho! Est l adiante, d'azul... Hei de querer vr -logo esse encontro! - -Mas ambos se voltaram sentindo por traz alguem ciciar discretamente -_bonsoir, messieurs_... Era Steinbroken e o seu secretario, graves, de -casaca, em pontas de ps, com as claques fechadas. E immediatamente -Steinbroken queixou-se da ausencia da familia real... - ---Mr. de Cantanhede, qui est de service, m'avait cependant assur que la -reine viendrait... C'est bien sous sa protection, n'est-ce pas, toute -cette musique, ces vers?... Voil pourquoi je suis venu. C'est trs -ennuyeux... Et Alphonse de Maia, toujours en sant? - ---Merci... - -Na sala o silencio impressionava. Rufino, com gestos de quem traa n'uma -tela linhas lentas e nobres, descrevia a doura d'uma aldeia, a aldeia -em que elle nascera, ao pr do sol. E o seu vozeiro velava-se, -enternecido, morrendo n'um rumor de crepusculo. Ento Steinbroken, -subtilmente, tocou no hombro do Ega. Queria saber se era esse o grande -orador de que lhe tinham fallado... - -Ega affirmou com patriotismo que era um dos maiores oradores da Europa! - ---Em qual gnerro?... - ---Genero sublime, genero de Demosthenes! - -Steinbroken alou as sobrancelhas com admirao, fallou em filandez ao -seu secretario que entalou languidamente o monoculo: e com as claques -debaixo do brao, cerrados os olhos, recolhidos como n'um templo, os -dois enviados da Filandia ficaram escutando, espera do sublime. - -Ruffino, no entanto, com as mos descahidas, confessava uma fragilidade -de sua alma! Apesar da poesia ambiente d'essa sua aldeia natal, onde a -violeta em cada prado, o rouxinol em cada balseira provavam Deus -irrefutavelmente,--elle fra dilacerado pelo espinho da descrena! Sim, -quantas vezes, ao cahir da tarde, quando os sinos da velha torre -choravam no ar a Ave-Maria e no valle cantavam as ceifeiras, elle -passra junto da cruz do adro e da cruz do cemiterio, atirando-lhes de -lado, cruelmente, o sorriso frio de Voltaire!... - -Um largo fremito d'emoo passou. Vozes suffocadas de gozo mal podiam -murmurar _muito bem, muito bem_... - -Pois fra n'esse estado, devorado pela duvida, que Rufino ouvira um -grito d'horror resoar por sobre o nosso Portugal... Que succedera? Era a -Natureza que atacava seus filhos!--E lanando os braos, como quem se -debate n'uma catastrophe, Rufino pintou a inundao... Aqui aluia um -casal, ninho florido d'amores; alm, na quebrada, passava o balar -choroso dos gados; mais longe as negras aguas iam juntamente arrastando -um boto de rosa e um bero!... - -Os _bravos_ partiram profundos e roucos de peitos que arfavam. E em -torno de Carlos e do Ega sujeitos voltavam-se apaixonadamente uns para -os outros, com um brilho na face, commungando no mesmo enthusiasmo: Que -rajadas!... Caramba!... Sublime!... - -Rufino sorria, bebendo esta commoo, que era a obra do seu verbo. -Depois, respeitosamente, voltou-se para as cadeiras reaes, solemnes e -vazias... - -Vendo que a clera da Natureza rugia implacavel, elle erguera os olhos -para o natural abrigo, para o exaltado logar d'onde desce a salvao, -para o Throno de Portugal! E de repente, deslumbrado, vira por sobre -elle estenderem-se as azas brancas d'um anjo! Era o anjo da esmola, meus -senhores! E d'onde vinha? d'onde recebera a inspirao da caridade? -d'onde sahia assim, com os seus cabellos d'ouro? Dos livros da sciencia? -dos laboratorios chimicos? d'esses amphitheatros d'anatomia onde se nega -covardemente a alma? das sccas esclas de philosophia que fazem de -Jesus um precursor de Robespierre? No! Elle ousra interrogar o anjo, -submisso, com o joelho em terra. E o anjo da esmola, apontando o espao -divino, murmurra: Venho d'alm! - -Ento pelos bancos apinhados correu um susurro d'enlevo. Era como se os -estuques do tecto se abrissem, os anjos cantassem no alto. Um -estremecimento devoto e poetico arrepiava as cuias das senhoras. - -E Rufino findava, com uma altiva certeza na alma! Sim, meus senhores! -Desde esse momento, a duvida fra n'elle como a nevoa que o sol, este -radiante sol portuguez, desfaz nos ares... E agora, apesar de todas as -ironias da sciencia, apesar dos escarneos orgulhosos d'um Renan, d'um -Littr e d'um Spencer, elle, que recebera a confidencia divina, podia -alli, com a mo sobre o corao, affirmar a todos bem alto--havia um -co! - ---Apoiado! mugiu na coxia o padre sebento. - -E por todo o salo, no aperto e no calor do gaz, os cavalheiros das -Secretarias, da Arcada, da Casa Havaneza, berrando, batendo as mos, -affirmaram soberbamente o co! - -O Ega que ria, divertido, sentiu ao lado um som rouco de clera. Era o -Alencar, de paletot, de gravata branca, cofiando sombriamente os -bigodes. - ---Que te parece, Thomaz? - ---Faz nojo! rugiu surdamente o poeta. - -Tremia, revoltado! N'uma noite d'aquellas, toda de poesia, quando os -homens de letras se deviam mostrar como so, filhos da democracia e da -liberdade, vir aquelle pulha pr-se alli a lamber os ps familia -real... Era simplesmente ascoroso! - -L ao fundo, junto aos degraus do tablado, ia um tumulto d'abraos, de -comprimentos, em torno do Rufino, que reluzia todo de orgulho e suor. E -pela porta os homens escoavam-se, afogueados, commovidos ainda, puxando -das charuteiras. Ento o poeta travou do brao do Ega: - ---Ouve l, eu vinha justamente procurar-te. o Guimares, o tio do -Damaso, que me pediu para te ser apresentado... Diz que uma coisa -sria, muito sria... Est l em baixo no botequim, com um _grog_. - -Ega pareceu surprehendido... Coisa sria!? - ---Bem, vamos ns l baixo tomar tambem um _grog_! E que recitas tu logo, -Alencar? - ---_A Democracia_, foi dizendo o poeta pela escada, com certa reserva. -Uma coisita nova, tu vers... So algumas verdades duras a toda essa -burguezia... - -Estavam porta do botequim--e precisamente o snr. Guimares sahia, com -o chapo sobre o olho, de charuto accso, abotoando a sobrecasaca. -Alencar lanou a apresentao, com immensa gravidade: - ---O meu amigo Joo da Ega... O meu velho amigo Guimares, um bravo c -dos nossos, um veterano da Democracia. - -Ega acercou-se d'uma mesa, puxou cortezmente um banco para o veterano da -Democracia, quiz saber se elle preferia cognac ou cerveja. - ---Tomei agora o meu _grog_ de guerra, disse o snr. Guimares com -seccura, tenho para toda a noite. - -Um criado dava uma limpadella lenta sobre o marmore da mesa. Ega ordenou -cerveja. E directamente, largando o charuto, passando a mo pelas barbas -a retocar a magestade da face, o snr. Guimares comeou com lentido e -solemnidade: - ---Eu sou tio do Damaso Salcede, e pedi aqui ao meu velho amigo Alencar -para me apresentar a v. exc.^a, com o fim de o intimar a que olhe bem -para mim e que diga se me acha cara de bebedo... - -Ega comprehendeu, atalhou logo, cheio de franqueza e bonhomia: - ---V. exc.^a refere-se a uma carta que seu sobrinho me escreveu... - ---Carta que v. exc.^a dictou! Carta que v. exc.^a o forou a assignar! - ---Eu?... - ---Affirmou-m'o elle, senhor! - -Alencar interveio: - ---Fallem vocs baixo, que diabo!... Isto terra de curiosos... - -O snr. Guimares tossiu, chegou a cadeira mais para a mesa. Tinha -estado, contou elle, havia semanas fra de Lisboa por negocios da -herana de seu irmo. No vira o sobrinho, porque s por necessidade se -encontrava com esse imbecil. Na vespera, em casa d'um antigo amigo, o -Vaz Forte, deitra por acaso os olhos ao _Futuro_, um jornal -republicano, bem escripto, mas frouxo de idas. E avistra logo na -primeira pagina, em typo enorme, sob esta rubrica alis justa _Coisas do -high-life_, a carta do sobrinho... Imagine o snr. Ega o seu furor! Alli -mesmo, em casa do Forte, escrevera ao Damaso pouco mais ou menos n'estes -termos: Li a tua infame declarao. Se manh no fazes outra, em todos -os jornaes, dizendo que no tinhas inteno de me incluir entre os -bebedos da tua familia, vou ahi e quebro-te os ossos um por um. Treme! -Assim lhe escrevera. E sabia o snr. Joo da Ega qual fra a resposta do -snr. Damaso? - ---Tenho-a aqui, um _documento humano_, como diz o amigo Zola! Aqui -est... Grande papel, monogramma d'ouro, cora de conde. Aquelle asno! -Quer v. exc.^a que eu leia? - -A um gesto risonho do Ega, elle mesmo leu, lentamente, e sublinhando: - ---Meu caro tio! A carta de que falla foi escripta pelo snr. Joo da -Ega. Eu era incapaz de tal desacato nossa querida familia. Foi elle -que me agarrou na mo, fora, para eu assignar: e eu, n'aquella -atrapalhao, sem saber o que fazia, assignei para evitar fallatorios. -Foi um lao que me armaram os meus inimigos. O meu querido tio, que sabe -como eu gsto de si, que at estava o anno passado com teno, se -soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de -Collares, no fique pois zangado commigo. Bem infeliz j eu sou! E se -quizer procure esse Joo da Ega que me perdeu! Mas acredite que hei de -tirar uma vingana que ha de ser fallada! Ainda no decidi qual, n'esta -atarantao; mas em todo o caso a nossa familia ha de ficar -desenxovalhada, porque eu nunca admitti que ninguem brincasse com a -minha dignidade... E se o no fiz j antes de partir para Italia, se -ainda no pugnei pela minha honra, porque ha dias, com todos estes -abalos, veio-me uma tremenda dysenteria, que estou que me no tenho nas -pernas. Isto por cima dos meus males moraes!... V. exc.^a ri-se, snr. -Ega? - ---Pois que quer v. exc.^a que eu faa? balbuciou o Ega por fim, -suffocado, com os olhos em lagrimas. Rio-me eu, ri-se o Alencar, ri-se -v. exc.^a Isso extraordinario! Essa dignidade, essa dysenteria... - -O snr. Guimares, embaado, olhou o Ega, olhou o poeta que fungava sob -os longos bigodes, e terminou por dizer: - ---Com effeito, a carta d'uma cavalgadura... Mas o facto permanece... - -Ento Ega appellou para o bom senso do snr. Guimares, para a sua -experiencia das coisas d'honra. Comprehendia elle que dois cavalheiros, -indo desafiar um homem a sua casa, lhe agarrem no pulso, o forcem -violentamente a assignar uma carta em que elle se declara bebedo?... - -O snr. Guimares, agradado com aquella deferencia pelo seu tacto e pela -sua experiencia, confessou que o caso, pelo menos em Paris, seria pouco -natural. - ---E em Lisboa, senhor! Que diabo, isto no a Cafraria! E diga-me o -snr. Guimares outra coisa, de gentleman para gentleman: como considera -seu sobrinho? um homem irreprehensivelmente veridico? - -O snr. Guimares cofiou as barbas, declarou lealmente: - ---Um refinado mentiroso. - ---Ento! gritou Ega em triumpho, atirando os braos ao ar. - -De novo Alencar interveio. A questo parecia-lhe satisfactoriamente -finda. E no restava seno os dois apertarem-se a mo fraternalmente, -como bons democratas... - -J de p, atirou a genebra s guelas. Ega sorria, estendia a mo ao snr. -Guimares. Mas o velho demagogo, ainda com uma sombra na face enrugada, -desejou que o snr. Joo da Ega (se n'isso no tinha duvida) declarasse, -alli diante do amigo Alencar, que no lhe achava a elle, Guimares, cara -de bebedo... - ---Oh meu caro senhor! exclamou Ega, batendo com o dinheiro na mesa para -chamar o criado. Pelo contrario! O maior prazer em proclamar diante do -Alencar, e aos quatro ventos, que lhe acho a cara d'um perfeito -cavalheiro e d'um patriota! - -Ento trocaram um rasgado aperto de mos--emquanto o snr. Guimares -affirmava a sua satisfao por conhecer o snr. Joo da Ega, moo de -tantos dotes e to liberal. E quando s. exc.^a quizesse qualquer coisa, -politica ou litteraria, era escrever este endereo bem conhecido no -mundo:--_Redaction du_ Rappel, _Paris!_ - -Alencar abalra. E os dois deixaram o botequim, trocando impresses do -sarau. O snr. Guimares estava enojado com a carolice, a sabujice d'esse -Rufino. Quando o ouvira palrar das azas da princeza e da cruz do adro, -quasi lhe gritra c do fundo: Quanto te pagam para isso, miseravel? - -Mas de repente Ega estacou na escada, tirando o chapo: - ---Oh snr.^a baroneza, ento j nos abandona? - -Era a Alvim que descia devagar, com a Joanninha Villar, atando as largas -fitas d'uma capa de pellucia verde. Queixou-se d'uma dr de cabea que a -torturava, apesar de ter gostado loucamente do Rufino... Mas uma noite -toda de litteratura, que estafa! E agora, para mais, ficra l um -homemzinho a fazer musica classica... - --- o meu amigo Cruges! - ---Ah! seu amigo? Pois olhe, devia-lhe ter dito que tocasse antes o -_Pirolito_. - ---V. exc.^a afflige-me com esse desdem pelos grandes mestres... No quer -que a v acompanhar carruagem? Paciencia... Muito boa noite, snr.^a D. -Joanna!... Um servo seu, snr.^a baroneza! E Deus lhe tire a sua dr de -cabea! - -Ella voltou-se ainda no degrau, para o ameaar risonhamente com o leque: - ---No seja impostor! O snr. Ega no acredita em Deus. - ---Perdo... Que o Diabo lhe tire a sua dr de cabea, snr.^a baroneza! - -O velho democrata desapparecera discretamente. E da ante-sala Ega -avistou logo ao fundo, no tablado, sobre um mcho muito baixo que lhe -fazia roar pelo cho as longas abas da casaca--o Cruges, com o nariz -bicudo contra o caderno da Sonata, martellando sabiamente o teclado. Foi -ento subindo em pontas de ps pela coxia tapetada de vermelho, agora -desafogada, quasi vazia: um ar mais fresco circulava: as senhoras, -canadas, bocejavam por traz dos leques. - -Parou junto de D. Maria da Cunha, apertada na mesma fila com todo um -rancho intimo, a marqueza de Soutal, as duas Pedrosos, a Thereza Darque. -E a boa D. Maria tocou-lhe logo no brao para saber quem era aquelle -musico de cabelleira. - ---Um amigo meu, murmurou Ega. Um grande maestro, o Cruges. - -O Cruges... O nome correu entre as senhoras, que o no conheciam. E era -composio d'elle, aquella coisa triste? - --- de Beethoven, snr.^a D. Maria da Cunha, a _Sonata pathetica_. - -Uma das Pedrosos no percebera bem o nome da Sonata. E a marqueza de -Soutal, muito sria, muito bella, cheirando devagar um frasquinho de -saes, disse que era a _Sonata pateta_. Por toda a bancada foi um -rastilho de risos suffocados. A _Sonata pateta_! Aquillo parecia divino! -Da extremidade o Vargas gordo, o das corridas, estendeu a face enorme, -imberbe e cr de papoula: - ---Muito bem, snr.^a marqueza, muito catita! - -E passou o gracejo a outras senhoras, que se voltavam, sorriam -marqueza, entre o _frou-frou_ dos leques. Ella triumphava, bella e -sria, com um velho vestido de velludo preto, respirando os -saes--emquanto adiante um amador de barba grisalha cravava n'aquelle -rancho ruidoso dois grandes oculos d'ouro que faiscavam de clera. - -No emtanto, por toda a sala, o susurro crescia. Os encatarrhoados -tossiam livremente. Dois cavalheiros tinham aberto a _Tarde_. E cahido -sobre o teclado, com a gola da casaca fugida para a nuca, o pobre -Cruges, suando, estonteado por aquella desatteno rumorosa, atabalhoava -as notas, n'uma debandada. - ---Fiasco completo, declarou Carlos que se aproximra do Ega e do rancho. - -Foi para D. Maria da Cunha uma alegria, uma surpreza! At que emfim se -via o snr. Carlos da Maia, o Principe Tenebroso! Que fizera elle durante -esse vero? Todo o mundo a esperal-o em Cintra, alguem mesmo com -anciedade... Um _chut_ furioso do amador de barbas grisalhas -emmudeceu-a. E justamente Cruges, depois de bater dois accordes bruscos, -arredra o mcho, esgueirava-se do estrado, enxugando as mos ao leno. -Aqui e alm algumas palmas resoaram, molles e de cortezia, entre um -grande murmurio d'allivio. E o Ega e Carlos correram porta, onde j -esperavam o marquez, o Craft, o Taveira--para abraar, consolar o pobre -Cruges que tremia todo, com os olhos esgazeados. - -E immediatamente, no silencio attento que redominava, um sujeito muito -magro, muito alto, surgiu no tablado, com um manuscripto na mo. Alguem -ao lado do Ega disse que era o Prata, que ia fallar sobre o _Estado -agricola da provincia do Minho_. Atraz, um criado veio collocar sobre a -mesa um candelabro de duas velas: o Prata, d'ilharga para a luz, -mergulhou no caderno: e d'entre o perfil triste e as folhas largas um -rumor lento foi escorrendo, rumor de reza n'uma somnolencia de novena, -onde por vezes destacavam como gemidos--riqueza dos gados..., -esphacelamento da propriedade..., fertil e desprotegida regio... - -Comeou ento uma debandada sorrateira e formigueira, que nem os _chuts_ -do commissario do sarau, vigilante e de p sobre um degrau do estrado, -podiam conter. S as senhoras ficavam; e um ou outro burocrata idoso, -que se inclinava zelosamente para o murmurio de reza, com a mo em -concha sobre a orelha. - -Ega, que fugia tambem ao vecejante paraiso do Minho, achou-se em -frente do snr. Guimares. - ---Que massada, hein? - -O democrata concordou que aquelle preopinante no lhe parecia -divertido... Depois, mais srio, com outra ida, segurando um boto da -casaca do Ega: - ----Eu espero que v. exc.^a ha pouco no ficasse com a impresso de que -eu sou solidario ou me importo com meu sobrinho... - -Oh! decerto que no! Ega vira bem que o snr. Guimares no tinha pelo -Damaso nenhum enthusiasmo de familia. - ---Asco, senhor, s asco! Quando elle foi a primeira vez a Paris, e soube -que eu morava n'uma trapeira, nunca me procurou! Porque aquelle imbecil -d-se ares d'aristocrata... E como v. exc.^a sabe, filho d'um agiota! - -Puxou a charuteira, ajuntou gravemente: - ---A mi, sim! Minha irm era d'uma boa familia. Fez aquelle desgraado -casamento, mas era d'uma boa familia! Que, com os meus principios, j v. -exc.^a v que tudo isso de fidalguia, pergaminhos, brazes, so para mim -_blague_ e mais _blague_! Mas emfim os factos so os factos, a historia -de Portugal ahi est... Os Guimares da Bairrada eram de sangue azul. - -Ega sorriu, n'um assentimento cortez: - ---E v. exc.^a ento parte brevemente para Paris? - ---manh mesmo, por Bordeus... Agora que toda essa cambada do marechal -de Mac-Mahon, e do duque de Broglie, e do Descazes foi pelos ares, j se -pde l respirar... - -N'esse instante Telles e o Taveira, passando de brao dado, voltaram-se, -a observar curiosamente aquelle velho austero, todo de preto, que -fallava alto com o Ega de marechaes e de duques. Ega reparou: o -democrata, de resto, tinha uma sobrecasaca de casimira nova; o seu -altivo chapo reluzia; e Ega ficou de bom grado a conversar com aquelle -gentleman correcto e venerando que impressionava os seus amigos. - ---A republica com effeito, observou elle, dando alguns passos ao lado do -snr. Guimares, esteve alli um momento compromettida! - ---Perdida! E eu, meu caro senhor, aqui onde me v, para ser expulso por -causa d'umas verdadesinhas que soltei n'uma reunio anarchista. At me -affirmaram que n'um conselho de ministros o marechal de Mac-Mahon, que -um tarimbeiro, batera um murro na mesa e dissera: _Ce sacr Guimaran, il -nous embte, faut lui donner du pied dans le derrire!_ Eu no estava -l, no sei, mas affirmaram-me... Em Paris, como os francezes no sabem -pronunciar Guimares, e eu embirro que me estropiem o nome, assigno _Mr. -Guimaran_. Ha dois annos, quando fui Italia, era _Mr. Guimarini_. E se -fr agora Russia, c por coisas, hei de ser _Mr. Guimaroff_... Embirro -que me estropiem o nome! - -Tinham voltado porta do salo. Longas bancadas vazias punham dentro, -no brilho pesado do gaz, uma tristeza de abandono e tedio; e no estrado -o Prata continuava, de mo no bolso, com o nariz sobre o manuscripto, -sem que se sentisse agora surdir um som d'aquelle espantalho esguio. Mas -o marquez, que descia do fundo, atabafando-se no seu cache-nez de sda, -disse ao Ega ao passar que o homemzinho era muito pratico, sabia da -pda, e l tinha ficado s voltas com Proudhon. - -Ega e o democrata recomearam ento os seus passos lentos na ante-sala -onde o susurro de conversas mal abafadas crescia, como n'um pateo, entre -fumaas furtivas de cigarro. E o snr. Guimares chasqueava, achando uma -boa _btise_ que se citasse Proudhon, alli n'aquelle theatreco, a -proposito d'estrumes do Minho... - ---Oh, Proudhon entre ns, acudiu Ega rindo, cita-se muito, j um -monstro classico. At os conselheiros d'Estado j sabem que para elle a -propriedade era um roubo, e Deus era o mal... - -O democrata encolheu os hombros: - ---Grande homem, senhor! Homem immenso! So os tres grandes pimpes -d'este seculo: Proudhon, Garibaldi, e o compadre! - ---O compadre! exclamou Ega, attonito. - -Era o nome d'amizade que o snr. Guimares dava em Paris a Gambetta. -Gambetta nunca o via, que no lhe gritasse de longe, em hespanhol: -_Hombre, compadre!_ E elle tambem, logo: _Compadre, caramba!_ D'ahi -ficra a alcunha, e Gambetta ria. Porque l isso, bom rapaz, e amigo -d'esta franqueza do sul, e patriota, at alli! - ---Immenso, meu caro senhor! O maior de todos! - -Pois Ega imaginaria que o snr. Guimares, com as suas relaes do -_Rappel_, devia ter sobretudo o culto de Victor Hugo... - ---Esse, meu caro senhor, no um homem, um mundo! - -E o snr. Guimares ergueu mais a face, ajuntou infinitamente grave: - --- um mundo! .. E aqui onde me v, ainda no ha tres mezes que elle me -disse uma coisa que me foi direita ao corao! - -Vendo com deleite o interesse e a curiosidade do Ega, o democrata contou -largamente esse glorioso lance que ainda o commovia: - ---Foi uma noite no _Rappel_. Eu estava a escrever, elle appareceu, j um -pouco trpego, mas com o olho a luzir, e aquella bondade, aquella -magestade!... Eu ergui-me, como se entrasse um rei... Isto , no! que -se fosse um rei tinha-lhe dado com a bota no rabiosque. Levantei-me como -se elle fosse um Deus! Qual Deus! no ha Deus que me fizesse -levantar!... Emfim, acabou-se, levantei-me! Elle olhou para mim, fez -assim um gesto com a mo, e disse, a sorrir, com aquelle ar de genio que -tinha sempre: _Bonsoir, mon ami!_ - -E o snr. Guimares deu alguns passos dignos, em silencio, como se -aquelle _bonsoir_, aquelle _mon ami_, assim recordados, lhe fizessem -mais vivamente sentir a sua importancia no mundo. - -De repente Alencar, que bracejava n'um grupo, rompeu para elles, -pallido, d'olhos chammejantes: - ---Que me dizem vocs a esta pouca vergonha? Aquelle infame alli ha meia -hora, com o in-folio, a rosnar, a rosnar... E toda a gente a sahir, no -fica ninguem! Tenho de recitar aos bancos de palhinha!... - -E abalou, rilhando os dentes, a exhalar mais longe o seu furor. - -Mas algumas palmas canadas, dentro, fizeram voltar o Ega. O estrado -ficra novamente vazio, com as duas velas ardendo no candelabro. Um -carto em grossas letras, que um criado collocra no piano, annunciava -um intervallo de dez minutos como n'um circo. E n'esse instante a -snr.^a condessa de Gouvarinho sahira pelo brao do marido, deixando -atraz um sulco largo de comprimentos, d'espinhas que se vergavam, de -chapos de burocratas rasgadamente erguidos. O commissario do sarau -azafamava-se procurando duas cadeiras para ss. exc.^{as} A condessa -porm foi reunir-se a D. Maria da Cunha, que ella vira, com as Pedrosos -e a marqueza de Soutal, refugiada n'um vo de janella. Ega -immediatamente acercou-se do rancho intimo, esperando que as senhoras se -beijocassem. - ---Ento, snr.^a condessa, ainda muito commovida com a eloquencia do -Rufino? - ---Muito canada... E que calor, hein? - ---Horrivel. A snr.^a baroneza d'Alvim sahiu ha pouco, com uma dor de -cabea... - -A condessa, que tinha os olhos pisados e uma prega de velhice aos cantos -da boca, murmurou: - ---No admira, isto no divertido... Emfim, j agora necessario levar -a cruz ao Calvario. - ---Se fosse uma cruz, minha senhora! exclamou o Ega. Infelizmente uma -lyra! - -Ella riu. E D. Maria da Cunha, n'essa noite mais remoada e viva, ficou -logo toda banhada n'um sorriso, com aquella carinhosa admirao pelo -Ega, que era um dos seus sentimentos. - ---Este Ega!... No ha mal que lhe chegue!... E diga-me outra coisa, que - feito do seu amigo Maia? - -Ega vira-a momentos antes, no salo, puxar pela manga de Carlos, -cochichar com Carlos. Mas conservou um ar innocente: - ---Est ahi, anda por ahi, assistindo a toda essa litteratura. - -De repente os olhos sempre bonitos e languidos de D. Maria da Cunha -rebrilharam com uma faisca de malicia: - ---Fallai no mau... N'este caso seria fallar do bom. Emfim ahi nos vem o -Principe Tenebroso! - -E era com effeito Carlos que passava, se encontrra diante dos braos do -conde de Gouvarinho, estendidos para elle com uma effuso em que parecia -renascer o antigo affecto. Pela primeira vez Carlos via a condessa, -desde a noite em que no Aterro, abandonando-a para sempre, fechra com -odio a portinhola da tipoia onde ella ficava chorando. Ambos baixaram os -olhos, ao adiantar a mo um para o outro, lentamente. E foi ella que -findou o embarao, abrindo o seu grande leque de pennas de avestruz: - ---Que calor, no verdade? - ---Atroz! disse Carlos. No v v. exc.^a apanhar ar d'essa janella. - -Ella forou os labios brancos a um sorriso: - --- conselho de medico? - ---Oh, minha senhora, no so as horas da minha consulta! apenas -caridade de christo. - -Mas de repente a condessa chamou o Taveira, que ria, derretido, com a -marqueza de Soutal, para o reprehender por elle no ter apparecido -tera-feira na rua de S. Maral. Surprehendido com tanto interesse, -tanta familiaridade, o Taveira, muito vermelho, balbuciou que nem sabia, -fra o seu infortunio, tinham-se mettido umas coisas... - ---Alm d'isso no imaginei que v. exc.^a comeasse a receber to cedo... -V. exc.^a antigamente era s depois da Cerrao da Velha. At me lembro -que o anno passado... - -Mas emmudeceu. O conde de Gouvarinho voltra-se, pousando a mo -carinhosa no hombro de Carlos, desejando a sua impresso sobre o nosso -Rufino. Elle conde estava encantado! Encantado sobretudo com a -_variedade d'escala_, aquella arte to difficil de passar do solemne -para o ameno, de descer das grandes rajadas para os brincados de -linguagem. Extraordinario! - ---Tenho ouvido grandes parlamentares, o Rouher, o Gladstone, o Canovas, -outros muitos. Mas no so estes vos, esta opulencia... tudo muito -scco, idas e factos. No entra n'alma! Vejam os amigos aquella imagem -to pujante, to respeitosa, do Anjo da Esmola, descendo devagar, com as -azas de setim... de primeira ordem. - -Ega no se conteve: - ---Eu acho esse genio um imbecil. - -O conde sorriu, como tonteria d'uma criana: - ---So opinies... - -E estendeu em redor as mos ao Sousa Netto, ao Darque, ao Telles da -Gama, a outros que se juntavam ao rancho intimo--emquanto os seus -correligionarios, os seus collegas do Centro e da Camara, o Gonalo, o -Neves, o Vieira da Costa rondavam de longe, sem poder roar pelo -ministro que tinham creado, agora que elle conversava e ria com rapazes -e senhoras da sociedade. O Darque, que era parente do Gouvarinho, quiz -saber como o amigo Gasto se ia dando com os encargos do Poder... O -conde declarou para os lados que no fizera mais por ora do que passar -em revista os elementos com que contava para atacar os problemas... De -resto, em questes de trabalho, o ministerio fra infelicissimo! O -presidente do conselho de cama com uma catarrheira, inutil para uma -semana. Agora o collega da fazenda com as febres do Aterro... - ---Est melhor? J sae? foi em torno a pergunta cheia de cuidado. - ---Est na mesma, vai manh para o Dfundo. Mas realmente esse no se -acha de todo inutilisado. Ainda hontem eu lhe dizia: Voc parte para o -Dfundo, leva os seus papeis, os seus documentos... Pela manh d os -seus passeios, respira o bom ar... E noite, depois de jantar, luz do -candieiro, entretem-se a resolver a questo de fazenda! - -Uma campainha retiniu. D. Jos Sequeira, escarlate d'azafama, veio, -furando, annunciar a s. exc.^a o fim do intervallo--offerecer o brao -snr.^a condessa. Ao passar, ella lembrou a Carlos as suas -teras-feiras, com a delicada simplicidade d'um dever. Elle curvou-se -em silencio. Era como se todo o passado, o sof que rolava, a casa da -titi em Santa Isabel, as tipoias em que ella deixava o seu cheiro de -verbena--fossem coisas lidas por ambos n'um livro e por ambos -esquecidas. Atraz, o marido seguia, erguendo alto a cabea e as lunetas, -como representante do Poder n'aquella festa da Intelligencia. - ---Pois senhores, disse o Ega afastando-se com Carlos, a mulherzinha tem -topete! - ---Que diabo queres tu? Atravessou a sua hora de tolice e de paixo, e -agora contina tranquillamente na rotina da vida. - ---E na rotina da vida, concluiu Ega, encontra-se a cada passo comtigo, -que a viste em camisa!... Bonito mundo! - -Mas o Alencar appareceu no alto da escada, voltando do botequim e da -genebra, com um brilho maior no olho cavo, de paletot no brao, j -preparado para gorgear. E o marquez juntou-se a elles, abafado no -cache-nez de sda branca, mais rouco, queixando-se de que a cada minuto -a garganta se lhe punha peor... Aquella canalha d'aquella garganta ainda -lhe vinha a pregar uma!... - -Depois, muito srio, considerando o Alencar: - ---Ouve l, isso que tu vaes recitar, a _Democracia_, politica ou -sentimento? Se politica, raspo-me. Mas se sentimento, e a -humanidade, e o santo operario, e a fraternidade, ento fico, que d'isso -gsto e at talvez me faa bem. - -Os outros affirmaram que era sentimento. O poeta tirou o chapo, passou -os dedos pelos anneis ffos da grenha inspirada: - ---Eu vos digo, rapazes... Uma coisa no vai sem a outra, vejam vocs -Danton!... Mas j no fallo emfim d'esses lees da Revoluo. Vejam -vocs o Passos Manoel! Est claro, necessario logica... Mas, tambem, -caramba, sbo para uma politica sem entranhas e sem um bocado de -infinito! - -Subitamente, por sobre o novo silencio da sala, um vozeiro mais forte -que o do Rufino fez retumbar os grandes nomes de D. Joo de Castro e de -Affonso d'Albuquerque... Todos se acercaram da porta, curiosamente. Era -um magano gordo, de barba em bico e camelia na casaca, que, de mo -fechada no ar como se agitasse o pendo das Quinas, lamentava aos berros -que ns portuguezes, possuindo este nobre estuario do Tejo e to -formosas tradies de gloria, deixassemos esbanjar, ao vento do -indifferentismo, a sublime herana dos avs!... - --- patriotismo, disse o Ega. Fujamos! - -Mas o marquez reteve-os, gostando tambem de um bocado de Quinas. E foi o -pobre marquez que o patriota pareceu interpellar, alando na ponta dos -botins o corpanzil rotundo, aos urros. Quem havia agora ahi, que, -agarrando n'uma das mos a espada e na outra a cruz, saltasse para o -convs d'uma caravella a ir levar o nome portuguez atravs dos mares -desconhecidos? Quem havia ahi, heroico bastante, para imitar o grande -Joo de Castro, que na sua quinta de Cintra arrancra todas as arvores -de fructo, tal a era a iseno da sua alma de poeta?... - ---Aquelle miseravel quer-nos privar da sobremesa! exclamou Ega. - -Em torno correram risos alegres. O marquez virou costas, enojado com -aquella patriotice reles. Outros bocejavam por traz da mo, n'um tedio -completo de todas as nossas glorias. E Carlos, enervado, preso alli -pelo dever de applaudir o Alencar, chamava o Ega para irem abaixo ao -botequim espairecer a impaciencia--quando viu o Eusebiosinho que descia -a escada, enfiando pressa um paletot alvadio. No o encontrra mais -desde a infamia da _Corneta_, em que elle fra embaixador. E a clera -que tivera contra elle n'esse dia reviveu logo n'um desejo irresistivel -de o espancar. Disse ao Ega: - ---Vou aproveitar o tempo, emquanto esperamos pelo Alencar, a arrancar as -orelhas quelle maroto! - ---Deixa l, acudiu Ega, um irresponsavel! - -Mas j Carlos corria pelas escadas: Ega seguiu atraz, inquieto, temendo -uma violencia. Quando chegaram porta, Eusebio mettera para os lados do -Carmo. E alcanaram-no no largo da Abegoaria, quella hora deserto, -mudo, com dois bicos de gaz mortios. Ao vr Carlos fender assim sobre -elle, sem paletot, de peitilho claro na noite escura, o Eusebio, -encolhido, balbuciou atarantadamente: Ol, por aqui... - ---Ouve c, estupr! rugiu Carlos, baixo. Ento tambem andaste mettido -n'essa maroteira da _Corneta_? Eu devia rachar-te os ossos um a um! - -Agarrra-lhe o brao, ainda sem odio. Mas, apenas sentiu na sua mo de -forte aquella carne mollenga e tremula, resurgiu n'elle essa averso -nunca apagada--que j em pequeno o fazia saltar sobre o Eusebiosinho, -esfrangalhal-o, sempre que as Silveiras o traziam quinta. E ento -abanou-o, como outr'ora, furiosamente, gozando o seu furor. O pobre -viuvo, no meio das lunetas negras que lhe voavam, do chapo coberto de -luto que lhe rolra nas lages, danava, escanifrado e desengonado. Por -fim Carlos atirou-o contra a porta d'uma cocheira. - ---Acudam! Aqui d'el-rei, policia! rouquejou o desgraado. - -J a mo de Carlos lhe empolgra as guelas. Mas Ega interveio: - ---Alto! Basta! O nosso querido amigo j recebeu a sua dse... - -Elle mesmo lhe apanhou o chapo. Tremendo, arquejando, de bruos, -Eusebiosinho procurava ainda o guarda-chuva. E, para findar, a bota de -Carlos, atirada com nojo, estatelou-o nas pedras, para cima d'uma -sargeta onde restavam immundicies e humidade de cavallo. - -O largo permanecia deserto, com o gaz adormecendo nos candieiros baos. -Tranquillamente os dois recolheram ao sarau. No peristylo, cheio de luz -e plantas, cruzaram-se com o patriota de barbas em bico, rodeado -d'amigos, em caminho para o botequim, limpando ao leno o pescoo e a -face, exclamando com o cansao radiante d'um triumphador: - ---Irra! custou, mas sempre lhes fiz vibrar a corda! - -J o Alencar estaria gorgeando! Os dois amigos galgaram a escada. E com -effeito Alencar apparecera no estrado, onde ardia ainda o candelabro de -duas velas. - -Esguio, mais sombrio n'aquelle fundo cr de canario, o poeta derramou -pensativamente pelas cadeiras, pela galeria, um olhar encovado e lento: -e um silencio pesou, mais enlevado, diante de tanta melancolia e de -tanta solemnidade. - ---_A Democracia!_ annunciou o auctor d'_Elvira_, com a pompa d'uma -revelao. - -Duas vezes passou pelos bigodes o leno branco, que depois atirou para a -mesa. E levantando a mo n'um gesto demorado e largo: - - - Era n'um parque. O luar - Sobre os vastos arvoredos, - Cheios de amor e segredos... - - ---Que lhe disse eu? exclamou o Ega, tocando no cotovlo do marquez. -sentimento... Aposto que o festim! - -E era com effeito o festim, j cantado na _Flr de Martyrio_, festim -romantico, n'um vago jardim onde vinhos de Chypre circulam, caudas de -brocado rojam entre macissos de magnolias, e das aguas do lago sobem -cantos ao gemer dos violoncellos... Mas bem depressa transpareceu a -severa ida social da Poesia. Emquanto, sob as arvores radiantes de -luar, tudo so risos, brindes, lascivos murmurios--fra, junto s -grades douradas do parque, assustada com o latir dos molossos, uma -mulher macilenta, em farrapos, chora, aconchegando ao seio magro o filho -que pede po... E o poeta, sacudindo os cabellos para traz, perguntava -porque havia ainda esfomeados n'este orgulhoso seculo XIX? De que -servira ento, desde Spartacus, o esforo desesperado dos homens para a -Justia e para a Igualdade? De que servira ento a cruz do grande -Martyr, erguida alm na collina, onde, por entre os abetos - - - Os raios do sol se somem, - O vento triste se cala... - E as aguias revolteando - D'entre as nuvens esto olhando - Morrer o filho do Homem! - - -A sala permanecia muda e desconfiada. E o Alencar, com as mos tremendo -no ar, desolava-se de que todo o Genio das geraes fosse impotente para -esta coisa simples--dar po criana que chora! - - - Martyrio do corao! - Espanto da consciencia! - Que toda a humana sciencia - No solva a negra questo! - Que os tempos passem e rolem - E nenhuma luz assome, - E eu veja d'um lado a fome - E do outro a indigesto! - - -Ega torcia-se, fungando dentro do leno, jurando que rebentava. _E do -outro a indigesto!_ Nunca, nas alturas lyricas, se gritra nada to -extraordinario! E sujeitos graves, em redor, sorriam d'aquelle -_realismo_ sujo. Um jocoso lembrou que para indigestes j havia o -bi-carbonato de potassa. - ---Quando no so das minhas! rosnou um cavalheiro esverdinhado, que -alargava a fivela do collete. - -Mas tudo emmudeceu ante um _chut_ terrivel do marquez, que desapertra o -cache-nez, j excitado, no enternecimento que sempre lhe davam estes -humanitarismos poeticos. E entretanto, no estrado, o Alencar achra a -soluo do soffrimento humano! Fra uma Voz que lh'a ensinra! Uma Voz -sahida do fundo dos seculos, e que atravs d'elles, sempre suffocada, -viera crescendo todavia irresistivelmente desde o Golgotha at -Bastilha! E ento, mais solemne por traz da mesa, com um arranque de -Precursor e uma firmeza de Soldado, como se aquelle honesto movel de -mogno fosse um pulpito e uma barricada--o Alencar, alando a fronte -n'uma grande audacia Danton, soltou o brado temeroso. Alencar queria a -Republica! - -Sim, a Republica! No a do Terror e a do odio, mas a da mansido e do -Amor. Aquella em que o Millionario sorrindo abre os braos ao Operario! -Aquella que Aurora, Consolao, Refugio, Estrella mystica e Pomba... - - - Pomba da Fraternidade, - Que estendendo as brancas azas - Por sobre os humanos lodos, - Envolve os seus filhos todos - Na mesma santa Igualdade!... - - -Em cima, na galeria, resoou um _bravo_ ardente. E immediatamente, para o -suffocar, sujeitos srios lanaram, aqui e alm: Chut, silencio! Ento -Ega ergueu as mos magras, bem alto, berrou com um destaque atrevido: - ---Bravo! Muito bem! Bravo! - -E todo pallido da sua audacia, entalando o monoculo, declarou para os -lados: - ---Aquella democracia absurda... Mas que os burguezes se dem ares -intolerantes, isso no! Ento applaudo eu! - -E as suas mos magras de novo se ergueram, bem alto, junto das do -marquez que retumbavam como malhos. Outros em volta, immediatamente, no -se querendo mostrar menos democratas que o Ega e aquelle fidalgo de to -grande linhagem, reforaram os _bravos_ com calor. J pela sala se -voltavam olhares inquietos para aquelle grupo cheio de revoluo. Mas um -silencio cahiu, mais commovido e grave, quando o Alencar (que -inspiradamente previra a intolerancia burgueza) perguntou em estrophes -iradas o que detestavam, o que receavam elles, no advento sublime da -Republica? Era o po carinhoso dado criana? Era a mo justa estendida -ao proletario? Era a esperana? Era a aurora? - - - Receaes a grande luz? - Tendes medo do Abec?... - Ento castigai quem l, - Voltai plebe soez! - Recuai sempre na Historia, - Apagai o gaz nas ruas, - Deixai as crianas nuas, - E venha a forca outra vez! - - -Palmas, mais numerosas, j sinceras, estalaram pela sala, que cedia -emfim ao repetido encanto d'aquelle lyrismo humanitario e sonoro. J no -importava a Republica, os seus perigos. Os versos rolavam, cantantes e -claros; e a sua onda larga arrastava os espiritos mais positivos. Sob -aquelle bafo de sympathia Alencar sorria, com os braos abertos, -annunciando uma a uma, como perolas que se desfiam, todas as dadivas que -traria a Republica. Debaixo da sua bandeira, no vermelha mas branca, -elle via a terra coberta de searas, todas as fomes satisfeitas, as -naes cantando nos valles sob o olhar risonho de Deus. Sim, porque -Alencar no queria uma Republica sem Deus! A Democracia e o -Christianismo, como um lirio que se abraa a uma espiga, completavam-se, -estreitando os seios! A rocha do Golgotha tornava-se a tribuna da -Conveno! E para to dce ideal no se necessitavam cardeaes, nem -missaes, nem novenas, nem igrejas. A Republica, feita s de pureza e de -f, reza nos campos; a lua cheia hostia; os rouxinoes entoam o _tantum -ergo_ nos ramos dos loureiraes. E tudo prospra, tudo refulge--ao mundo -do Conflicto substitue-se o mundo do Amor... - - - espada succede o arado, - A Justia ri da Morte, - A escla est livre e forte, - E a Bastilha derrocada. - Rla a tira no lodo, - Brota o lirio da Igualdade, - E uma nova Humanidade - Planta a cruz na barricada! - - -Uma rajada farta e franca de _bravos_ fez oscillar as chammas do gaz! -Era a paixo meridional do verso, da sonoridade, do Liberalismo -romantico, da imagem que esfuzia no ar com um brilho crepitante de -foguete, conquistando emfim tudo, pondo uma palpitao em cada peito, -levando chefes de repartio a berrarem, estirados por cima das damas, -no enthusiasmo d'aquella republica onde havia rouxinoes! E quando -Alencar, alando os braos ao tecto, com modulaes de _preghiera_ na -voz roufenha, chamou para a terra essa pomba da Democracia, que erguera -o vo do Calvario, e vinha com largos sulcos de luz--foi um -enternecimento banhando as almas, um fundo arrepio d'extasi. As senhoras -amolleciam nas cadeiras, com a face meia voltada ao co. No salo -abrazado perpassavam frescuras de capella. As rimas fundiam-se n'um -murmurio de ladainha, como evoladas para uma Imagem que pregas de setim -cobrissem, estrellas d'ouro coroassem. E mal se sabia j se Essa, que se -invocava e se esperava, era a deusa da Liberdade--ou Nossa Senhora das -Dres. - -Alencar no emtanto via-a descer, espalhando um perfume. J Ella tocava -com os seus ps divinos os valles humanos. J do seu seio fecundo -trasbordava a universal abundancia. Tudo reflorescia, tudo rejuvenescia: - - - As rosas tm mais aroma! - Os fructos tm mais doura! - Brilha a alma clara e pura, - Solta de sombras e vos... - Foge a dr espavorida, - Foi-se a fome, foi-se a guerra, - O homem canta na terra, - E Christo sorri nos cos!... - - -Uma acclamao rompeu, immensa e rouca, abalando os muros cr de -canario. Moos exaltados treparam s cadeiras, dois lenos brancos -fluctuavam. E o poeta, tremulo, exhausto, rolou pela escada at aos -braos que se lhe estendiam frementes. Elle suffocava, murmurava: -filhos! rapazes!... Quando Ega correu do fundo, com Carlos, -gritando--Fste extraordinario, Thomaz!--as lagrimas saltaram dos -olhos do Alencar, quebrado todo d'emoo. - -E ao longo da coxia a ovao continuou, feita de palmadinhas pelo -hombro, de _shake-hands_ da gente sria, de muitos parabens a v. -exc.^a! Pouco a pouco elle erguia a cabea, n'um altivo sorriso que lhe -mostrava os dentes maus, sentindo-se o poeta da Democracia, consagrado, -ungido pelo triumpho, com a inesperada misso de libertar almas! D. -Maria da Cunha puxou-lhe pela manga quando elle passou, para murmurar, -encantada, que achra--lindissimo, lindissimo. E o poeta, estonteado, -exclamou: Maria, necessario luz! Telles da Gama veio bater-lhe nas -costas affirmando-lhe que pira esplendidamente. E Alencar, -inteiramente perdido, balbuciou: _Sursum corda_, meu Telles, _sursum -corda_! - -Ega no emtanto, atravs do tumulto, farejava buscando Carlos que -desapparecera depois dos abraos ao Alencar. Taveira assegurou-lhe que -Carlos passra para o botequim. Depois em baixo um garoto jurou que o -snr. D. Carlos tomra uma tipoia e ia j virando o Chiado... - -Ega ficou porta hesitando se aturaria o resto do sarau. N'esse momento -o Gouvarinho, trazendo a condessa pelo brao, descia rapidamente, com a -face toda contrariada e sombria. O trintanario de ss. exc.^{as} correu a -chamar o coup. E quando o Ega se acercou, sorrindo, para saber que -impresso lhes deixra o grande triumpho democratico do Alencar--a -profunda clera do Gouvarinho escapou-se-lhe, mal contida, por entre os -dentes cerrados: - ---Versos admiraveis, mas indecentes! - -O coup avanou. Elle teve apenas tempo de rosnar ainda, surdamente, -apertando a mo ao Ega: - ---N'uma festa de sociedade, sob a proteco da rainha, diante d'um -ministro da cora, fallar de barricadas, prometter mundos e fundos s -classes proletarias... perfeitamente indecente! - -J a condessa enfira a portinhola, apanhando a larga cauda de sda. O -ministro mergulhou tambem furiosamente na sombra do coup. Junto s -rodas passou choutando, n'uma pileca branca, o correio agaloado. - -Ega ia subir. Mas o marquez appareceu, abafado n'um gabo d'Aveiro, -fugindo a um poeta de grandes bigodes que ficra em cima a recitar -quadrinhas miudinhas a uns olhinhos galantinhos: e o marquez detestava -versos feitos a partes do corpo humano. Depois foi o Cruges que surgiu -do botequim, abotoando o paletot. Ento, perante essa debandada de todos -os amigos, Ega decidiu abalar tambem, ir tomar o seu _grog_ ao Gremio -com o maestro. - -Metteram o marquez n'uma tipoia--e elle e Cruges desceram a rua Nova da -Trindade, devagar, no encanto estranho d'aquella noite d'inverno, sem -estrellas, mas to macia que n'ella parecia andar perdido um bafo de -maio. - -Passavam porta do _Hotel Alliana_ quando Ega sentiu alguem, que se -apressava, chamar atraz: snr. Ega! V. exc.^a faz favor, snr. -Ega?...--Parou, reconheceu o chapo recurvo, as barbas brancas do snr. -Guimares. - ---V. exc.^a desculpe! exclamou o demagogo esbaforido. Mas vi-o descer, -queria-lhe dar duas palavras, e como me vou embora manh... - ---Perfeitamente... Cruges, vai andando, j te apanho! - -O maestro estacionou esquina do Chiado. O snr. Guimares pedia de novo -desculpa. De resto eram duas curtas palavras... - ---V. exc.^a, segundo me disseram, o grande amigo do snr. Carlos da -Maia... So como irmos... - ---Sim, muito amigos... - -A rua estava deserta, com alguns garotos apenas porta alumiada da -Trindade. Na noite escura a alta fachada do _Alliana_ lanava sobre -elles uma sombra maior. Todavia o snr. Guimares baixou a voz cautelosa: - ---Aqui est o que ... V. exc.^a sabe, ou talvez no saiba, que eu fui -em Paris intimo da mi do snr. Carlos da Maia... V. exc.^a tem pressa, e -no vem agora a proposito essa historia. Basta dizer que aqui ha annos -ella entregou-me, para eu guardar, um cofre que, segundo dizia, continha -papeis importantes... Depois naturalmente, ambos tivemos muitas outras -coisas em que pensar, os annos correram, ella morreu. N'uma palavra, -porque v. exc.^a est com pressa: eu conservo ainda em meu poder esse -deposito, e trouxe-o por acaso quando vim agora a Portugal por negocios -da herana de meu irmo... Ora hoje justamente, alli no theatro, comecei -a reflectir que o melhor era entregal-o familia... - -O Cruges mexeu-se impaciente: - ---Ainda te demoras? - ---Um instante! gritou Ega, j interessado por aquelles papeis e pelo -cofre. Vai andando. - -Ento o snr. Guimares, pressa, resumiu o pedido. Como sabia a -intimidade do snr. Joo da Ega e de Carlos da Maia, lembrra-se de lhe -entregar o cofresinho para que elle o restituisse familia... - ---Perfeitamente! acudiu Ega. Eu estou mesmo em casa dos Maias, no -Ramalhete. - ---Ah, muito bem! Ento v. exc.^a manda um criado de confiana manh -buscal-o... Eu estou no _Hotel de Paris_, no Pelourinho. Ou melhor -ainda: levo-lh'o eu, no me d incommodo nenhum, apesar de ser dia de -partida... - ---No, no, eu mando um criado! insistiu o Ega estendendo a mo ao -democrata. - -Elle estreitou-lh'a com calor. - ---Muito agradecido a v. exc.^a! Eu junto-lhe ento um bilhete e v. -exc.^a entrega-o da minha parte ao Carlos da Maia, ou irm. - -Ega teve um movimento d'espanto: - --- irm!... A que irm? - -O snr. Guimares considerou Ega tambem com assombro. E abandonando-lhe -lentamente a mo: - ---A que irm!? irm d'elle, unica que tem, Maria! - -Cruges, que batia as solas no lagedo, enfastiado gritou da esquina: - ---Bem, eu vou andando para o Gremio. - ---At logo! - -O snr. Guimares, no emtanto, passava os dedos calados de pellica preta -pelos longos fios da barba, fitando o Ega, n'um esforo de penetrao. E -quando Ega lhe travou do brao, pedindo-lhe para conversarem um pouco -at ao Loreto, o democrata deu os primeiros passos com uma lentido -desconfiada. - ---Eu parece-me, dizia o Ega sorrindo, mas nervoso, que ns estamos aqui -a enrodilhar-nos n'um equivoco... Eu conheo o Maia desde pequeno, vivo -at agora em casa d'elle, posso afianar-lhe que no tem irm nenhuma... - -Ento o snr. Guimares comeou a rosnar umas desculpas embrulhadas que -mais enervavam, torturavam o Ega. O snr. Guimares imaginava que no era -segredo, que todas essas coisas da irm estavam esquecidas, desde que -houvera reconciliao... - ---Como vi, ainda no ha muitos dias, o snr. Carlos da Maia com a irm e -com v. exc.^a, na mesma carruagem, no caes do Sodr... - ---O qu! Aquella senhora! A que ia na carruagem? - ---Sim! exclamou o snr. Guimares irritado, farto emfim d'essa confuso -em que se debatiam. Aquella mesma, a Maria Eduarda Monforte, ou a Maria -Eduarda Maia, como quizer, que eu conheci de pequena, com quem andei -muitas vezes ao collo, que fugiu com o Mac-Gren, que esteve depois com a -besta do Castro Gomes... Essa mesma! - -Era ao meio do Loreto sob o lampeo de gaz. E o snr. Guimares de -repente estacou, vendo os olhos do Ega esgazearem-se de horror, uma -terrivel pallidez cobrir-lhe a face. - ---V. exc.^a no sabia nada d'isto? - -Ega respirou fortemente, arredando o chapo da testa sem responder. -Ento o outro, embaado, terminou por encolher os hombros. Bem, via que -tinha feito uma tolice! A gente nunca se devia intrometter nos negocios -alheios! Mas acabou-se! Imaginasse o snr. Ega que aquillo fra um -pesadlo, depois da versalhada do sarau! Pedia desculpa sinceramente--e -desejava ao snr. Joo da Ega muitissimo boas noites. - -Ega, como a um claro de relampago, entrevira toda a catastrophe: e -agarrou avidamente o brao do snr. Guimares, n'um terror que elle -abalasse, desapparecesse, levando para sempre o seu testemunho, esses -papeis, o cofre da Monforte, e com elles a certeza--a certeza por que -agora anciava. E atravs do Loreto, vagamente, foi balbuciando, -justificando a sua emoo, para tranquillisar o homem, poder lentamente -arrancar-lhe as coisas que soubesse, as provas, a verdade inteira. - ---O snr. Guimares comprehende... Isto so coisas muito delicadas, que -eu suppunha absolutamente ignoradas de todos... De modo que fiquei -embatucado, fiquei tonto, quando o ouvi assim de repente fallar d'ellas -com essa simplicidade... Porque emfim, aqui para ns, essa senhora no -passa em Lisboa por irm de Carlos. - -O snr. Guimares atirou logo a mo n'um grande gesto. Ah, bem! Ento era -jogo com elle? Pois tinha feito o snr. Ega perfeitamente... Com certeza -eram coisas muito srias, que necessitavam toda a sorte de vos... Elle -comprehendia, comprehendia muito bem!... E realmente, dada a posio dos -Maias em Lisboa, na sociedade, aquella senhora no era irm que se -apresentasse. - ---Mas a culpa no a teve ella, meu caro senhor! Foi a mi, foi aquella -extraordinaria mi que o Diabo lhe deu!... - -Desciam o Chiado. Ega parou um momento, devorando o velho com olhos de -febre: - ---O snr. Guimares conheceu muito essa senhora, a Monforte? - -Intimamente! J a conhecera em Lisboa--mas de longe, como mulher de -Pedro da Maia. Depois viera essa tragedia, ella fugira com o italiano. -Elle abalra tambem para Paris n'esse anno, com uma Clemence, uma -costureira da Levaillant: e, umas coisas enfiando n'outras, negocios e -desgraas, por l ficra para sempre! Emfim, no era a sua vida que lhe -ia contar... S mais tarde encontrra a Monforte, uma noite, no baile -Laborde: e d'ahi datavam as suas relaes. A esse tempo j o italiano -morrera n'um duello, e o velho Monforte espichra da bexiga. Ella estava -ento com um rapaz chamado Trevernnes--n'uma casa bonita, no Parc -Monceaux, em grande chic... Mulher extraordinaria! E no se envergonhava -de confessar que lhe devia obrigaes! Quando essa rapariga, a Clemence, -que era um encanto, adoecera do peito, a Monforte trazia-lhe flres, -frutas, vinhos, fazia-lhe companhia, velava-a como um anjo... Porque l -isso corao largo e generoso at alli! Esta, a filha, a D. Maria, tinha -ento sete ou oito annos, linda como os amores... E houvera uma outra -pequena do italiano, muito galantinha tambem. Oh! muito galantinha -tambem! Mas morrera em Londres, essa... - ---E com esta Maria andei muitas vezes ao collo, meu caro senhor... No -sei se ella ainda se lembra d'uma boneca que eu lhe dei, que fallava, -dizia _Napolon_... Era no bello tempo do Imperio, at as -desavergonhadas das bonecas eram imperialistas! Depois, quando ella -estava em Tours, no convento, fui l duas vezes com a mi. J ento os -meus principios me no permittiam entrar n'esses covis religiosos: mas -emfim fui acompanhar a mi... E quando ella fugiu com o irlandez, o -Mac-Gren, foi commigo que a mi veio ter, furiosa, a querer que eu -chamasse o commissario de policia para se prender o irlandez. Por fim -metteu-se n'um _fiacre_, foi para Fontainebleau, l fez as pazes, viviam -at juntos... Emfim uma srie de trapalhadas. - -Um suspiro cansado escapou-se do peito do Ega, que arrastava os passos, -succumbido: - ---E esta senhora, est claro, no sabia ento de quem era filha... - -O snr. Guimares encolheu os hombros: - ---Nem suspeitava que existissem Maias sobre a face da terra! A Monforte -dissera-lhe sempre que o pai era um fidalgo austriaco com quem ella -casra na Madeira... Uma mixordia, meu caro senhor, uma mixordia! - --- horrivel! murmurou Ega. - -Mas, dizia o snr. Guimares, que podia tambem fazer a Monforte? Que -diabo, era duro confessar filha: Olha que eu fugi a teu pai, e elle -por causa d'isso matou-se! No tanto pela questo de pudor; a rapariga -devia perceber que a mi tinha amantes, ella mesma aos dezoito annos, -coitadinha, j tinha um; mas por causa do tiro, do cadaver, do sangue... - ---A mim mesmo! exclamou o snr. Guimares, parando, alargando os braos -na rua deserta. A mim mesmo nunca ella fallou do marido, nem de Lisboa, -nem de Portugal. Lembra-me at uma occasio em casa da Clemence, que eu -alludi a um cavallo lazo, um cavallo de Pedro da Maia, em que ella -costumava montar. Animal soberbo! Mas nem mencionei o marido, fallei s -do cavallo. Pois senhores, bate com o leque em cima da mesa, grita como -uma bicha:--_Dites donc, mon cher, vous m'embtez avec ces histoires de -l'autre monde_!... Com effeito, bem o podia dizer, eram historias do -outro mundo! Para encurtar: estou convencido que nos ultimos tempos ella -mesmo julgava que Pedro da Maia nunca existira. Uma insensata! Por fim -at bebia... Mas acabou-se! Tinha grande corao, e portou-se muito bem -com a Clemence. _Parce sepultis!_ - --- horrivel! murmurou outra vez o Ega, tirando o chapo, correndo a mo -tremula pela testa. - -E agora o seu unico desejo era a accumulao incessante de provas, de -detalhes. Fallou ento d'esses papeis, d'esse cofre da Monforte. O snr. -Guimares no sabia o que elles continham; e no se admiraria se fossem -apenas contas de modista, ou pedaos velhos do _Figaro_ em que se -fallava d'ella... - --- uma caixita pequena que a Monforte me deu, na vespera de partir para -Londres com a filha. Era no tempo da guerra... J a Maria vivia com o -irlandez, tinha mesmo uma pequena, a Rosa. Depois veio a Communa, todos -aquelles desastres. Quando a Monforte voltou de Londres eu estava em -Marselha. Foi ento que a pobre Maria se metteu com o Castro Gomes, -creio que para no morrer de fome... Eu recolhi a Paris, mas no vi mais -a Monforte, que j estava muito doente... Maria, collada ento a essa -besta do Castro Gomes, um pedante, um _rastaquoure_ mesmo a calhar para -a guilhotina, no tornei tambem a fallar. Se a encontrava era um -comprimento de longe, como n'outro dia, quando a vi na carruagem com v. -exc.^a e com o irmo... De sorte que fui ficando com os papeis. Nem a -fallar a verdade, com estas coisas todas de politica, me lembrei mais -d'elles. E agora ahi esto, s ordens da familia. - ---Se isso no fosse incommodo para v. exc.^a, acudiu Ega, eu passava -agora pelo seu hotel e levava-os logo commigo... - ---Incommodo nenhum! Estamos em caminho, negocio que fica feito! - -Algum tempo seguiram calados. O sarau decerto acabra. Um bater de -carruagens atroava as descidas do Chiado. Junto d'elles passaram duas -senhoras, com um rapaz que bracejava, fallando alto do Alencar. O snr. -Guimares tirra lentamente do bolso a charuteira: depois parando, para -raspar um phosphoro: - ---Ento a D. Maria passa simplesmente por parenta?... E como soube ella? -Como foi isso? - -Ega, que caminhava com a cabea cahida, estremeceu como se acordasse. E -comeou a tartamudear uma historia confusa, de que elle mesmo crava na -sombra. Sim, Maria Eduarda passava por parenta. Fra o procurador que -descobrira. Ella rompera com o Castro Gomes, com todo o passado. Os -Maias davam-lhe uma mezada; e vivia nos Olivaes, muito retirada, como -filha d'um Maia que morrera na Italia. Todos gostavam muito d'ella, -Affonso da Maia tinha grande ternura pela pequena... - -E de repente indignou-se com estas invenes por onde arrastava j o -nome do nobre velho, exclamou como se abafasse: - ---Emfim, nem eu sei, um horror! - ---Um drama! resumiu gravemente o snr. Guimares. - -E como estavam no Pelourinho rogou ao Ega que esperasse um momento -emquanto elle corria acima buscar os papeis da Monforte. - -S, no largo, Ega ergueu as mos ao co n'um desabafo mudo d'aquella -angustia em que caminhava, como um somnambulo, desde o Loreto. E a sua -unica sensao, bem clara--era a indestructivel certeza da historia do -Guimares, to compacta, sem uma lacuna, sem uma falha por onde rachasse -e se fizesse cahir aos pedaos. O homem conhecera Maria Monforte em -Lisboa, ainda mulher de Pedro da Maia, brilhando no seu cavallo lazo; -encontrra-a em Paris j fugida, depois da morte do primeiro amante, -vivendo com outros; andra ento ao collo com Maria Eduarda a quem se -davam bonecas... E desde ento no deixra mais de vr Maria Eduarda, de -a seguir: em Paris; no convento de Tours; em Fontainebleau com o -irlandez; nos braos de Castro Gomes; n'uma tipoia de praa emfim com -elle e com Carlos da Maia, havia dias, no caes do Sodr! Tudo isto se -encadeava, concordando com a historia contada por Maria Eduarda. E de -tudo resaltava esta certeza monstruosa:--Carlos amante da irm! - -Guimares no descia. No segundo andar surgira uma luz viva, n'uma -janella aberta. Ega recomeou a passear lentamente pelo meio do largo. E -agora, pouco a pouco, subia n'elle uma incredulidade contra esta -catastrophe de dramalho. Era acaso verosimil que tal se passasse, com -um amigo seu, n'uma rua de Lisboa, n'uma casa alugada mi Cruges?... -No podia ser! Esses horrores s se produziam na confuso social, no -tumulto da Meia-Idade! Mas n'uma sociedade burgueza, bem policiada, bem -escripturada, garantida por tantas leis, documentada por tantos papeis, -com tanto registro de baptismo, com tanta certido de casamento, no -podia ser! No! No estava no feitio da vida contemporanea que duas -crianas separadas por uma loucura da mi, depois de dormirem um -instante no mesmo bero, cresam em terras distantes, se eduquem, -descrevam as parabolas remotas dos seus destinos--para qu? Para virem -tornar a dormir juntas no mesmo ponto, n'um leito de concubinagem! No -era possivel. Taes coisas pertencem s aos livros, onde vm, como -invenes subtis da arte, para dar alma humana um terror novo... -Depois levantava os olhos para a janella alumiada--onde o snr. Guimares -decerto rebuscava os papeis na mala. Alli estava porm esse homem com a -sua historia--em que no havia uma discordancia por onde ella pudesse -ser abalada!... E pouco a pouco aquella luz viva, sahida do alto, -parecia ao Ega penetrar n'essa intrincada desgraa, aclaral-a toda, -mostrar-lhe bem a lenta evoluo. Sim, tudo isso era provavel no fundo! -Essa criana, filha d'uma senhora que a levra comsigo, cresce, amante -d'um brazileiro, vem a Lisboa, habita Lisboa. N'um bairro visinho vive -outro filho d'essa mulher, por ella deixado, que cresceu, um homem. -Pela sua figura, o seu luxo, elle destaca n'esta cidade provinciana e -pelintra. Ella por seu lado, loura, alta, esplendida, vestida pela -Laferrire, flr d'uma civilisao superior, faz relvo n'esta multido -de mulheres miudinhas e morenas. Na pequenez da Baixa e do Aterro, onde -todos se acotovelavam, os dois fatalmente se cruzam: e com o seu brilho -pessoal, muito fatalmente se attrahem! Ha nada mais natural? Se ella -fosse feia e trouxesse aos hombros uma confeco barata da loja da -America, se elle fosse um mocinho encolhido de chapo cco, nunca se -notariam e seguiriam diversamente nos seus destinos diversos. Assim, o -conhecerem-se era certo, o amarem-se era provavel... E um dia o snr. -Guimares passa, a verdade terrivel estala! - -A porta do hotel rangeu no escuro, o snr. Guimares adiantou-se, de bon -de sda na cabea, com o embrulho na mo. - ---No podia dar com a chave da mala, desculpe v. exc.^a sempre assim -quando ha pressa... E aqui temos o famoso cofre! - ---Perfeitamente, perfeitamente... - -Era uma caixa que parecia de charutos e que o democrata embrulhra n'um -velho numero do _Rappel_. Ega metteu-a no bolso largo do seu paletot: e -immediatamente, como se qualquer outra palavra entre elles fosse v, -estendeu a mo ao snr. Guimares. Mas o outro insistiu em o acompanhar -at esquina da rua do Arsenal, apesar de estar de bon. A noite, para -quem vinha de Paris, tinha uma doura oriental--e elle, com os seus -habitos de jornalista, nunca se deitava seno tarde, s duas, tres horas -da madrugada... - -E ento, caminhando devagar, com as mos nos bolsos e o charuto entre os -dentes, o snr. Guimares voltou politica e ao sarau. A poesia do -Alencar (de que esperra muito por causa do titulo, _A Democracia_) -sahira-lhe consideravelmente chcha. - ---Muita flr, muita farofia, muita liberdade, mas no havia alli um -ataque em frma, duas ou tres boas estocadas n'esta choldra da monarchia -e da crte... Pois no verdade? - ---Sim, com effeito...--murmurou Ega, olhando ao longe, na esperana -d'uma tipoia. - --- como os jornaes republicanos que por ahi ha... Tudo uma palhada, -senhores, tudo uma balofice!... o que eu lhes digo a elles:-- almas -do diabo, atacai as questes sociaes! - -Felizmente um trem avanava, rolando devagar, do lado do Terreiro do -Pao. Ega, precipitadamente, deu um aperto de mo ao democrata, -desejou-lhe uma boa viagem, atirou ao cocheiro a adresse do Ramalhete. -Mas o snr. Guimares ainda se apoderou da portinhola--para aconselhar ao -Ega que fosse a Paris. Agora, que tinham feito amizade, havia de o -apresentar a toda aquella gente... E o snr. Ega veria! No era c a -grande _pose_ portugueza, d'estes imbecis, d'estes pelintras a darem-se -ares, torcendo os bigodes. L, na primeira nao do mundo, tudo era -alegria e fraternidade e espirito a rodos... - ---E a minha adresse, na redaco do _Rappel_! Bem conhecida no mundo! -Emquanto ao embrulhosinho fico descanado... - ---Pde v. exc.^a ficar descanado! - ---Criado de v. exc.^a... Os meus comprimentos snr.^a D. Maria! - -Na carruagem, atravs do Aterro, a anciosa interrogao do Ega a si -mesmo foi--que hei de fazer? Que faria, santo Deus, com aquelle -segredo terrivel que possuia, de que s elle era senhor, agora que o -Guimares partia, desapparecia para sempre? E antevendo com terror todas -as angustias em que essa revelao ia lanar o homem que mais estimava -no mundo--a sua instinctiva ida foi guardar para sempre o segredo, -deixal-o morrer dentro em si. No diria nada; o Guimares sumia-se em -Paris; e quem se amava continuava a amar-se!... No crearia assim uma -crise atroz na vida de Carlos--nem soffreria elle, como companheiro, a -sua parte d'essas afflices. Que coisa mais impiedosa, de resto, que -estragar a vida de duas innocentes e adoraveis creaturas, atirando-lhes - face uma prova de incesto!... - -Mas, a esta ida de _incesto_, todas as consequencias d'esse silencio -lhe appareceram, como coisas vivas e pavorosas, flammejando no escuro -diante dos seus olhos. Poderia elle tranquillamente testemunhar a vida -dos dois--desde que a sabia _incestuosa_? Ir rua de S. Francisco, -sentar-se-lhes alegremente mesa, entrevr atravs do reposteiro a cama -em que ambos dormiam--e saber que esta sordidez de peccado era obra do -seu silencio? No podia ser... Mas teria tambem coragem de entrar ao -outro dia no quarto de Carlos, e dizer-lhe em face--Olha que tu s -amante de tua irm? - -A carruagem parra no Ramalhete. Ega subiu, como costumava, pela escada -particular de Carlos. Tudo estava apagado e mudo. Accendeu a sua -palmatoria; entreabriu o reposteiro dos aposentos de Carlos; deu alguns -passos timidos no tapete, que pareceram j soar tristemente. Um reflexo -d'espelho alvejou ao fundo na sombra da alcova. E a luz cahiu sobre o -leito intacto, com a sua longa colcha lisa, entre os cortinados de sda. -Ento a ida que Carlos estava quella hora na rua de S. Francisco, -dormindo com uma mulher que era sua irm, atravessou-o com uma cruel -nitidez, n'uma imagem material, to viva e real, que elle viu-os -claramente, de braos enlaados, e em camisa... Toda a belleza de Maria, -todo o requinte de Carlos desappareciam. Ficavam s dois animaes, -nascidos do mesmo ventre, juntando-se a um canto como ces, sob o -impulso bruto do cio! - -Correu para o seu quarto, fugindo quella viso a que o escuro do -corredor, mal dissipado pela luz tremula, accentuava mais o relvo. -Aferrolhou a porta; accendeu pressa sobre o toucador, uma depois da -outra, com a mo agitada, as seis velas dos candelabros. E agora -apparecia-lhe mais urgente, inevitavel, a necessidade de contar _tudo_ a -Carlos. Mas ao mesmo tempo sentia em si, a cada instante, menos animo -para chegar, encarar Carlos, e destruir-lhe a felicidade e a vida com -uma revelao d'incesto. No podia! Outro que lh'o dissesse! Elle l -estava depois para o consolar, tomar metade da sua dr, carinhoso e -fiel. Mas o desgosto supremo da vida de Carlos no viria de palavras -cahidas da sua boca!... Outro que lh'o dissesse! Mas quem? Mil idas -passavam na sua pobre cabea, incoherentes e tontas. Pedir a Maria que -fugisse, desapparecesse... Escrever uma carta anonyma a Carlos, com a -detalhada historia do Guimares... E esta confuso, esta anciedade ia-se -resolvendo lentamente em odio ao snr. Guimares. Para que fallra -quelle imbecil? Para que insistira em lhe confiar papeis alheios? Para -que lh'o apresentra o Alencar? Ah! se no fosse a carta do Damaso... -Tudo provinha do maldito Damaso! - -Agitando-se pelo quarto, ainda de chapo, os seus olhos cahiram n'um -sobrescripto pousado sobre a mesa de cabeceira. Reconheceu a letra do -Villaa. E nem a abriu... Uma ida sulcra-o de repente. Contar tudo ao -Villaa!... Porque no? Era o procurador dos Maias. Nunca para elle -houvera segredos n'aquella casa. E esta complicao singular d'uma -senhora da familia, considerada morta e que surge inesperadamente--a -quem a pertencia aclarar seno ao fiel procurador, ao velho confidente, -ao homem que, por herana e por destino, recebera sempre todos os -segredos e partilhra todos os interesses domesticos?... E sem pensar, -sem aprofundar mais, fixou-se logo n'esta deciso salvadora,--que ao -menos o socegava, lhe tirava j do corao um peso de ferro, suffocante -e intoleravel... - -Devia acordar cedo, procurar Villaa em casa. Escreveu n'uma folha de -papel--Acorda-me s sete. E desceu abaixo, ao longo corredor de pedra -onde dormiam os criados, dependurou este recado na chave do quarto do -escudeiro. - -Quando subiu, mais calmo,--abriu ento a carta do Villaa. Era uma curta -linha lembrando ao amigo Ega que a letrinha de duzentos mil reis, no -Banco Popular, se vencia d'ahi a dois dias... - ---Sbo, tudo se junta! exclamou Ega furioso, atirando a carta amarrotada -para o cho. - - - - -VII - - -Pontual, s sete horas, o escudeiro acordou Ega. Ao rumor da porta elle -sentou-se na cama com um salto--e logo todos os negros cuidados da -vespera, Carlos, a irm, a felicidade d'aquella casa acabada para -sempre, se lhe ergueram n'alma em sobresalto, como despertando tambem. A -portada da varanda ficra aberta; um ar silencioso e livido de madrugada -clareava atravs do transparente de fazenda branca. Durante um momento -Ega ficou olhando em redor, arrepiado; depois, sem coragem, remergulhou -nos lenoes, gozando aquelle bocado de calor e de conchgo antes d'ir -affrontar fra as amarguras do dia. - -E pouco a pouco, sob o tepido conchgo dos cobertores em que se -atabafra, comeou a afigurar-se-lhe menos urgente, e menos util, essa -correria estremunhada a casa do Villaa... De que servia procurar o -Villaa? No se tratava alli de dinheiro, nem de demandas, nem de -legalidade--de nada que reclamasse a experiencia d'um procurador. Era -apenas introduzir um burguez mais n'um segredo to terrivelmente -delicado que elle mesmo se assustava de o saber. E acochado mais sob a -roupa, apenas com o nariz ao frio, murmurava comsigo: uma tolice ir -ao Villaa! - -De resto no poderia elle ajuntar em si bastante coragem para contar -tudo a Carlos, logo, n'essa manh, claramente, virilmente? Era por fim -aquelle caso to pavoroso como lhe parecera na vespera--um irreparavel -desabamento d'uma vida de homem?... Ao p da quinta da me, em Celorico, -no logar de Vouzeias, houvera um successo parecido, dois irmos que -innocentemente iam casar. Tudo se aclarou ao reunirem-se os papeis para -os _banhos_. Os noivos ficaram uns dias embatucados, como dizia o -padre Seraphim; mas por fim j riam, muito amigos, muito divertidos, -quando se tratavam de manos. O noivo, um rapago bonito, contava -depois que ia havendo uma mixordia na familia. Aqui o engano seguira -mais longe, as sensibilidades eram mais requintadas; mas os seus -coraes permaneciam livres de toda a culpa, innocentes absolutamente. -Porque ficaria pois a existencia de Carlos para sempre estragada? A -inconsciencia impedia-lhe o remorso: e passado o primeiro horror, de que -lhe podia, na realidade, vir a definitiva dr? Smente do prazer ter -findado. Era ento como outro qualquer desgosto d'amor. Bem menos atroz -do que se Maria o tivesse trahido com o Damaso! - -De repente a porta abriu-se, Carlos appareceu exclamando: - ---Ento que madrugada foi esta? Disse-me agora l em baixo o Baptista... - aventura? duello? - -Trazia o paletot todo abotoado, com a gola erguida, escondendo ainda a -gravata branca da vespera; e decerto chegra da rua de S. Francisco na -tipoia que havia instantes Ega sentira parar na calada. - -Elle sentra-se bruscamente na cama; e estendendo a mo para os -cigarros, sobre a mesa ao lado, murmurou, bocejando, que na vspera -combinra uma ida a Cintra com o Taveira... Por precauo mandra-se -chamar... Mas no sabia, acordra cansado... - ---Que tal est o dia? - -Justamente Carlos fra correr o transparente da janella. Ahi, na mesa de -trabalho, collocada em plena luz, ficra a caixa da Monforte embrulhada -no _Rappel_. E Ega pensou n'um relance:--Se elle repara, se pergunta, -digo tudo!--O seu pobre corao pz-se a bater anciosamente no terror -d'aquella deciso. Mas o transparente um pouco prro subiu, uma facha de -sol banhou a mesa--e Carlos voltou sem reparar no cofre. Foi um immenso -allivio para o Ega. - ---Ento, Cintra? disse Carlos, sentando-se aos ps da cama. Com effeito -no m ida... A Maria ainda hontem esteve tambem a fallar d'ir a -Cintra... Espera! Podiamos fazer a patuscada juntos... Iamos no break, a -quatro! - -E olhava j o relogio, calculando o tempo para atrellar, avisar Maria. - ---O peor, acudiu o Ega atrapalhado, tomando de sobre a mesa o monoculo, - que o Taveira fallou em irmos com umas raparigas... - -Carlos encolheu os hombros com horror. Que sordidez, ir com mulheres -para Cintra, de dia!... De noite, nas trevas, por bebedeira, v... Mas -luz do Senhor! Talvez com a Lola gorda, hein?... - -Ega embrulhou-se n'uma complicada historia, limpando o monoculo ponta -do lenol. No eram hespanholas... Pelo contrario, umas costureiras, -raparigas srias... Elle tinha um compromisso antigo d'ir a Cintra com -uma d'ellas, filha d'um Simes, um estofador que fallira... Gente muito -sria!... - -Perante estes compromissos, tanta seriedade, Carlos desistiu logo da -ida de Cintra. - ---Bem, acabou-se!... Vou ento tomar banho e depois a negocios... E tu, -se fres, traze-me umas queijadas para a Rosa, que ella gosta!... - -Apenas Carlos sahiu, Ega cruzou os braos desanimado, descoroado, -sentindo bem que no teria coragem nunca de dizer tudo. Que havia de -fazer?... E de novo, insensivelmente, se refugiou na ida de procurar o -Villaa, entregar-lhe o cofre da Monforte. No havia homem mais honesto, -nem mais pratico; e, pela mesma mediocridade do seu espirito burguez, -quem melhor para encarar aquella catastrophe sem paixo e sem nervos?... -E esta _falta de nervos_ do Villaa fixou-o definitivamente. - -Saltou ento da cama, n'uma impaciencia, repicou a campainha. E emquanto -o criado no entrava, foi, com o robe-de-chambre aos hombros, examinar o -cofre da Monforte. Parecia com effeito uma velha caixa de charutos, -embrulhada n'um papel de dobras j sujas e gastas, com marcas de lacre -onde se distinguia uma divisa que seria decerto a da Monforte--_Pro -amore_. Na tampa tinha escripto n'uma letra de mulher -mal-ensinada--_Monsieur Guimaran, Paris_. Ao sentir os passos do -criado deitou-lhe por cima uma toalha, que pendia ao lado, n'uma -cadeira. E d'ahi a meia hora rolava pelo Aterro n'uma tipoia descoberta, -mais animado, respirando largamente aquelle bello ar da manh, fino e -fresco, que elle to raras vezes gozava. - -Comeou por uma contrariedade. Villaa j sahira: e a criada no sabia -bem se elle fra para o escriptorio, se a uma vistoria ao Alfeite... Ega -largou para o escriptorio, na rua da Prata. O snr. Villaa ainda no -viera... - ---E a que horas vir? - -O escrevente, um rapaz macilento que torcia nervosamente sobre o collete -uma corrente de coral, balbuciou que o snr. Villaa no devia tardar, se -no tivesse atravessado, no vapor das nove, para o Alfeite... Ega desceu -desesperado. - ---Bem, gritou ao cocheiro, vai ao caf Tavares... - -No Tavares, ainda solitario quella hora, um moo areava o sobrado. E -emquanto esperava o almoo Ega percorreu os jornaes. Todos fallavam do -sarau, em linhas curtas, promettendo detalhes criticos, mais tarde, -sobre esse brilhante torneio artistico. S a _Gazeta Illustrada_ se -alargava, com phrases srias, tratando o Rufino de _grandioso_ o Cruges -de _esperanoso:_ no Alencar a _Gazeta_ separava o philosopho do poeta; -ao philosopho a _Gazeta_ lembrava com respeito que nem todas as -aspiraes ideaes da philosophia, bellas como miragens de deserto, so -realisaveis na pratica social; mas ao poeta, ao creador de to formosas -imagens, de to inspiradas estancias, a _Gazeta_ desafogadamente -bradava--bravo! bravo! Havia ainda outras abominaveis sandices. Depois -seguia-se a lista das pessoas que a _Gazeta_ se recordava de ter visto, -entre as quaes destacava com o seu monoculo o fino perfil de Joo da -Ega, sempre brilhante de _verve_. Ega sorriu, cofiando o bigode. -Justamente o bife chegava, fumegante, chiando na frigideirinha de barro. -Ega pousou a _Gazeta_ ao lado, dizendo comsigo: No nada mal feito, -este jornal! - -O bife era excellente:--e depois d'uma perdiz fria, d'um pouco de dce -de ananaz, d'um caf forte, Ega sentiu adelgaar-se emfim aquelle -negrume que desde a vespera lhe pesava n'alma. No fim, pensava elle, -accendendo o charuto e lanando os olhos ao relogio, n'aquelle desastre -praticamente encarado s havia para Carlos a perda d'uma bella amante. E -essa perda, que agora o angustiava, no traria depois compensaes? O -futuro de Carlos at ahi tinha uma sombra--aquella promessa de casamento -que irreparavelmente o collava pela honra a uma mulher muito -interessante, mas com um passado cheio de brazileiros e de irlandezes... -A sua belleza poetisava tudo: mas quanto tempo mais duraria esse -encanto, o seu brilho de deusa pisando a terra?... No seria por fim -aquella descoberta do Guimares uma libertao providencial? D'ahi a -annos Carlos estaria consolado, sereno como se nunca tivesse sofrido--e -livre, e rico, com o largo mundo diante de si! - -O relogio do caf deu dez horas. Bem, vamos a isto, pensou Ega. - -De novo a tipoia bateu para a rua da Prata. O snr. Villaa ainda no -viera, o escrevente estava realmente pensando que o snr. Villaa fra ao -Alfeite. E diante d'esta incerteza, de repente, Ega ficou de novo -descoroado, sem coragem. Despediu a tipoia: com o embrulho do cofre na -mo foi andando pela rua do Ouro, depois at ao Rocio, parando -distrahidamente diante d'um ourives, lendo aqui e alm a capa d'um livro -na vitrine dos livreiros. Pouco a pouco o negrume da vespera, um momento -adelgaado, recahia-lhe n'alma mais denso. J no via as libertaes -nem as compensaes. S sentia em torno de si, como fluctuando no ar, -aquelle horror--Carlos a dormir com a irm. - -Voltou pela rua da Prata, de novo subiu a suja escadaria de pedra; e -logo no patamar, diante da porta de baeta verde, deu com o Villaa que -sahia, atarefado, calando as luvas. - ---Homem, at que emfim! - ---Ah! Era o amigo que me tinha procurado?... Pois tenha paciencia, que -est o visconde do Torral minha espera... - -Ega quasi o empurrou. Qual visconde!... Tratava-se d'uma coisa muito -urgente, muito sria! Mas o outro no se arredava da porta, acabando de -calar a luva, com o mesmo ar vivo de negocio e de pressa. - ---O amigo bem v... Est o homem espera! um _rendez-vous_ para as -onze! - -Ega, j furioso, agarrou-lhe a manga, murmurou-lhe junto face, -tragicamente, que se tratava de Carlos, d'um caso de vida ou de morte! -Ento o Villaa, n'um grande espanto, atravessou bruscamente o -escriptorio, fez entrar Ega n'um cubiculo ao lado, estreito como um -corredor, com um canap de palhinha, uma mesa onde os livros tinham p, -e um armario ao fundo. Fechou a porta, atirou o chapo para a nuca: - ---Ento que ? - -Ega, com um gesto, indicou fra o escrevente que podia escutar. O -procurador abriu a porta, gritou ao rapazola que voasse ao Hotel -Pelicano pedir ao snr. visconde do Torral a fineza de esperar meia -hora... Depois, fechada a porta no ferrolho, foi a mesma exclamao -anciosa: - ---Ento que ? - --- um horror, Villaa, um grande horror... Nem eu sei por onde hei de -comear. - -Villaa, j muito pallido, pousou lentamente o guardachuva sobre a mesa. - --- duello? - ---No... isto... Voc sabia que o Carlos tinha relaes com uma snr.^a -Mac-Gren que veio o inverno passado a Portugal, ficou ahi?... - -Uma senhora brazileira, mulher d'um brazileiro, que passra o vero nos -Olivaes?... Sim, Villaa sabia. Fallra at n'isso com o Eusebiosinho. - ---Ah, com o Eusebio?... Pois no brazileira! portugueza, e irm -d'elle! - -Villaa cahiu para o canap, batendo as mos n'um assombro. - ---Irm do Eusebio! - ---Qual do Eusebio, homem!... Irm de Carlos! - -Villaa ficra mudo, sem comprehender, com os olhos terrivelmente -arregalados para o outro, que se movia pelo cubiculo, repetindo: irm! -irm legtima! Ega por fim sentou-se no canap de palhinha; e baixo, -muito baixo, apesar da solido do escriptorio, contou o seu encontro com -o Guimares no sarau, e como a verdade terrivel estalra casualmente, -n'uma palavra, esquina do _Alliana_... Mas quando fallou dos papeis, -entregues pela Monforte ao Guimares, ha tantos annos guardados, nunca -reclamados, e que o democrata agora, to de repente, to urgentemente, -queria restituir familia--Villaa, at ahi esmagado e como -emparvecido, despertou, teve uma exploso: - ---Ahi ha marosca! Tudo isso para apanhar dinheiro!... - ---Apanhar dinheiro! Quem? - ---Quem!? exclamou Villaa de p, arrebatadamente. Essa senhora, esse -Guimares, essa tropa!... que o amigo no percebe! Se apparecer uma -irm do Maia, legitima e authentica, so quatrocentos contos e pico que -cabem irm do Maia!... - -Ento os dois ficaram-se devorando com os olhos, na forte impresso -d'aquella ida inesperada que a seu pezar abalava o Ega. Mas como o -procurador, tremulo, voltava grande somma de quatrocentos contos, -lembrava a _Companhia do Olho Vivo_, Ega terminou por encolher os -hombros: - ---Isso no tem verosimilhana nenhuma! Ella incapaz, absolutamente -incapaz, de semelhante intriga. Alm d'isso, se uma questo de -dinheiro, que necessidade tinha de se fazer passar como irm desde que -Carlos lhe promettera casar com ella? - -Casar com ella! Villaa erguia as mos, no queria acreditar. O qu! o -snr. Carlos da Maia dar a sua mo, o seu nome, a essa creatura amigada -com um brazileiro!?... Santissimo nome de Deus! E atravs do assombro -recrescia-lhe a desconfiana, via ahi um novo feito do _Olho Vivo_. - ---No senhor, Villaa, no senhor! insistiu Ega, j impaciente. Se a -questo de documentos e se ella os tinha, verdadeiros ou falsificados, -apresentava-os logo, no ia primeiro dormir com o irmo! - -Villaa baixou lentamente os olhos para o sobrado. Um terror invadia-o -diante d'aquella grande casa, que era o seu orgulho, partida em metade, -empolgada por uma aventureira... Mas como o Ega, muito nervoso, lembrava -que de resto a questo no era de documentos, nem de legalidade, nem de -fortuna--o procurador teve outro grito, com a face de novo alumiada: - ---Espere, homem, ha outra coisa!... Talvez ella seja filha do italiano! - ---E ento?... Vem a dar na mesma. - ---Alto l! berrou o procurador, batendo com o punho na mesa. No tem -direito legitima do pai, e no apanha um real d'esta casa!... Irra, -ahi que est o ponto! - -Ega teve um gesto desolado. No, nem isso, desgraadamente! Esta era a -filha do Pedro da Maia. O Guimares conhecia-a de a trazer ao collo, de -lhe dar bonecas quando ella tinha sete annos, e quando apenas havia -quatro ou cinco annos que o italiano estivera em Arroios, de cama, com -uma chumbada... A filha d'esse morrera em Londres, pequenina. - -Villaa recahiu no canap, succumbido. - ---Quatrocentos contos, que bolada! - -Ento Ega resumiu. Se no existia ainda uma certeza legal, havia j uma -forte suspeita. E desde logo no se podia deixar o pobre Carlos, -innocentemente, a chafurdar n'aquella sordidez. Era pois indispensavel -revelar tudo a Carlos n'essa noite... - ---E voc, Villaa, que tem de lh'o dizer. - -Villaa deu um salto que fez bater o canap contra a parede. - ---Eu!? - ---Voc, que o procurador da casa! - -Que havia alli, seno uma questo de filiao, portanto de legitima? A -quem pertenciam esses detalhes legaes seno ao procurador? - -Villaa murmurou com todo o sangue na face: - ---Homem, o amigo mette-me n'uma!... - -No. Ega mettia-o apenas n'aquillo em que o Villaa, como procurador, -logicamente e profissionalmente devia estar. - -O outro protestou, to perturbado que gaguejava. Que diabo! No era -esquivar-se aos seus deveres! Mas que elle no sabia nada! Que podia -dizer ao snr. Carlos da Maia? O amigo Ega veio-me contar isto, que lhe -contou um tal Guimares hontem noite no Loreto... No tinha a dizer -mais nada... - ---Pois diga isso. - -O outro encarou Ega com olhos que chammejavam: - ---Diga isso, diga isso... Que diabo, senhor, necessario ter topete! - -Deu um puxo desesperado ao collete, foi bufando at ao fundo do -cubiculo, onde esbarrou com o armario. Voltou, tornou a encarar o Ega: - ---No se vai a um homem com uma coisa d'essas sem provas... Onde esto -as provas?... - --- Villaa, desculpe, voc est obtuso!... A que vim eu aqui seno -trazer-lhe as provas, as que ha, boas ou ms, a historia do Guimares, -essa caixa com os papeis da Monforte?... - -Villaa, que resmungava, foi examinar a caixa, virando-a nas mos, -decifrando o mote do sinete _Pro amore_. - ---Ento, abrimol-a? - -J Ega puxra uma cadeira para a mesa. Villaa cortou o papel, gasto nos -cantos, que envolvia o cofre. E appareceu effectivamente uma velha caixa -de charutos pregada com duas taxas, cheia de papeis, alguns em maos -apertados por fitas, outros soltos dentro de sobrescriptos abertos que -tinham o monogramma da Monforte sob uma cora de marquez. Ega -desembrulhou o primeiro mao. Eram cartas em allemo, que elle no -percebia, datadas de Buda-Pesth e de Carlsruhe. - ---Bem, isto no nos diz nada... Adiante! - -Outro embrulho, a que Villaa cuidadosamente desapertou o n cr de -rosa, resguardava uma caixa oval com a miniatura d'um homem de bigodes e -suissas ruivas, entalado na alta gola dourada d'uma farda branca. -Villaa achou a pintura linda. - ---Algum official austriaco, rosnou Ega. Outro amante... _a marche_. - -Iam tirando os papeis por ordem, com a ponta dos dedos, como tocando em -reliquias. Um largo enveloppe atulhado de contas de modistas, algumas -pagas, outras sem recibo, interessou profundamente o Villaa--que -percorria os _items_, espantado dos preos, das infinitas invenes do -luxo. Contas de seis mil francos! Um s vestido, dois mil francos!... -Outro mao trouxe uma surpreza. Eram cartas de Maria Eduarda mi, -escriptas do convento, n'uma letra redonda e trabalhada como um desenho, -com phrasesinhas cheias de gravidade devota, dictadas decerto pelas boas -Irms; e n'estas composies, virtuosas e frias como themas, o sincero -corao da rapariga s transparecia n'alguma florzinha, agora scca, -pregada no alto do papel com um alfinete. - ---Isto pe-se de parte, murmurou Villaa. - -Ento Ega, j impaciente, esvaziou toda a caixa sobre a mesa, alastrou -os papeis. E entre cartas, outras contas, bilhetes de visita, um grande -sobrescripto destacou com esta linha a tinta azul:--_Pertence a minha -filha Maria Eduarda_. Foi Villaa que lanou os olhos rapidamente -enorme folha de papel que elle continha, luxuosa e documental, com o -monogramma d'ouro sob a cora de marquez. Quando o passou em silencio -para a mo do Ega parecia suffocado, com todo o sangue nas orelhas. - -Ega leu-o alto, devagar. Dizia:--Como a Maria teve a pequena e anda -muito fraca, e eu tambem me no sinto nada boa com umas pontadas, -parece-me prudente, para o que possa vir a succeder, fazer aqui uma -declarao que te pertence a ti, minha querida filha, e que s sabe o -padre Talloux (_Mr. l'abb Talloux, coadjuteur Saint-Roch_) porque -lh'o disse ha dois annos quando tive a pneumonia. E o seguinte: -Declaro que minha filha Maria Eduarda, que costuma assignar Maria -Calzaski, por suppr ser esse o nome de seu pai, portugueza e filha de -meu marido Pedro da Maia, de quem me separei voluntariamente, trazendo-a -commigo para Vienna, depois para Paris, e que agora vive em companhia de -Patrick Mac-Gren, em Fontainebleau, com quem vai casar. E o pai de meu -marido era meu sogro Affonso da Maia, viuvo, que vivia em Bemfica e -tambem em Santa Olavia ao p do rio Douro. O que tudo se pde verificar -em Lisboa pois devem l estar os papeis; e os meus erros de que vejo -agora as consequencias no devem impedir que tu, minha querida filha, -tenhas a posio e fortuna que te pertencem. E por isso aqui declaro -tudo isto que assigno, no caso que o no possa fazer diante d'um -tabellio, o que tenciono logo que esteja melhor. E de tudo, se eu vier -a morrer, o que Deus no permitta, peo perdo a minha filha. E assigno -com o meu nome de casada--_Maria Monforte da Maia_. - -Ega ficou a olhar para o Villaa. O procurador s pde murmurar, com as -mos cruzadas sobre a mesa: - ---Que bolada! Que bolada! - -Ento Ega ergueu-se. Bem! Agora tudo se simplificava. Havia unicamente a -entregar aquelle documento a Carlos, sem commentarios. Mas o Villaa -coava a cabea, retomado por uma duvida: - ---Eu no sei se este papelinho faria f em juizo... - ---Qual f, qual juizo! exclamou Ega violentamente. o bastante para que -elle no torne a dormir com ella!... - -Uma pancada timida na porta do cubiculo fl-o estacar, inquieto. -Desandou a chave. Era o escrevente, que segredou atravs da frincha: - ---O snr. Carlos da Maia ficou agora l em baixo no carrinho quando eu -entrei, perguntou pelo snr. Villaa. - -Houve um pnico! Ega, atarantado, agarrra o chapo do Villaa. O -procurador atirava s mos ambas, para dentro d'uma gaveta, os papeis da -Monforte. - --- talvez melhor dizer que no est, lembrou o escrevente. - ---Sim, que no est! foi o grito abafado de ambos. - -Ficaram escuta, ainda pallidos. O dog-cart de Carlos rolou na calada; -os dois amigos respiraram. Mas agora Ega arrependia-se de no terem -mandado subir Carlos--e alli mesmo, sem outras vacillaes nem -pieguices, corajosamente, contarem-lhe tudo, diante d'aquelles papeis -bem abertos. E estava saltado o barranco! - ---Homem, dizia o Villaa passando o leno pela testa, as coisas -querem-se devagar, com methodo. necessario preparar-se a gente, -respirar para dar bem o mergulho... - -Em todo o caso, concluiu o Ega, eram ociosas mais conversas. Os outros -papeis da caixa perdiam o interesse depois d'aquella confisso da -Monforte. S restava que Villaa apparecesse noite no Ramalhete s -oito e meia, ou nove horas, antes de Carlos sahir para a rua de S. -Francisco. - ---Mas o amigo ha de l estar! exclamou o procurador, j aterrado. - -Ega prometteu. Villaa teve um pequeno suspiro. Depois, no patamar, onde -viera acompanhar o outro: - ---Uma d'estas, uma d'estas!... E eu ainda, to contente, a jantar no -Ramalhete... - ---E eu, com elles, na rua de S. Francisco!... - ---Emfim, at noite! - ---At noite. - -Ega no se atreveu n'esse dia a voltar ao Ramalhete, a jantar diante de -Carlos, a vr-lhe a alegria e a paz--sentindo aquella negra desgraa que -descia sobre elle maneira que a noite descia. Foi pedir as sopas ao -marquez, que desde o sarau se conservava em casa, de garganta entrapada. -Depois, s oito e meia, quando calculou que Villaa devia estar j no -Ramalhete, deixou o marquez que se enfronhra com o capello n'uma -partida de damas. - -Aquelle lindo dia, toldado de tarde, findra n'uma chuvinha miuda que -transia as ruas. Ega tomou uma tipoia. E parava no Ramalhete, j -terrivelmente nervoso, quando avistou Villaa no portal, de guardachuva -sob o brao, arregaando as calas para sahir. - ---Ento? gritou-lhe o Ega. - -Villaa abriu o guardachuva, para murmurar debaixo, mas em segredo: - ---No foi possivel... Disse que tinha muita pressa, que no me podia -ouvir. - -Ega bateu o p, desesperado: - ---Oh homem! - ---Que quer o amigo? Havia de o agarrar fora? Ficou para manh... -Tenho de c estar manh s onze horas. - -Ega galgou as escadas, rosnando entre dentes: Irra! no sahimos -d'esta! Foi at ao escriptorio de Affonso. Mas no entrou. Atravs -d'uma fenda larga do reposteiro meio franzido, um canto da sala -apparecia, quente e cheio de conchgo, no dce tom cr de rosa da luz -cahindo sobre os damascos: as cartas esperavam na mesa do whist: no sof -bordado a matiz D. Diogo, murcho e molle, olhava o lume, cofiando os -bigodes. E, travadas n'alguma questo, a voz do Craft, que perpassou de -cachimbo na mo, e a voz mais lenta de Affonso, tranquillo na sua -poltrona, misturavam-se, abafadas pela do Sequeira, que berrava -furiosamente:--Mas se manh houvesse uma bernarda, esse exercito com -que os senhores querem acabar por ser uma escla de vadiagem que lhes -havia de guardar as costas... bom fallar, ter muita philosophia! Mas -quando ellas chegam, se no ha meia duzia de baionetas promptas, ento -so as clicas!... - -Ega foi d'alli aos quartos de Carlos. As velas ardiam ainda nas -serpentinas: um aroma errava de agua de Lubin e charuto: e o Baptista -disse-lhe que o snr. D. Carlos sahira havia dez minutos. Fra para a -rua de S. Francisco! Ia l dormir! Ento enervado, com a longa e triste -noite diante de si, Ega teve um appetite de se atordoar, dissipar n'uma -excitao forte as idas que o torturavam. No despedira a tipoia, -abalou para S. Carlos. E findou por ir cear ao Augusto com o Taveira e -duas raparigas, a Paca e a Carmen Philosopha, prodigalisando o -champagne. s quatro da manh estava bebedo, estatelado sobre o sof, -gemendo sentimentalmente, s para si, as estrophes de Musset -Malibran... O Taveira e a Paca, juntinhos na mesma cadeira, elle com o -seu ar terno de chulo, ella _muy caliente_ tambem, debicavam copinhos de -gelatina. E a Carmen Philosopha, empanturrada, desapertada, com o -collete embrulhado j n'um _Diario de Noticias_, repicava a faca na -borda do prato, cantarolando d'olhos perdidos nos bicos de gaz: - - - Seor Alcalde mayor, - No prenda usted los ladrones... - - - - -Acordou ao outro dia s nove horas, ao lado da Carmen Philosopha, n'um -quarto de grandes janellas rasgadas por onde entrava toda a melancolia -da escura manh de chuva. E, emquanto no vinha a tipoia fechada que a -servente correra a chamar, o pobre Ega enojado, vexado, com a lingua -pastosa, os ps ns sobre o tapete, reunindo o fato espalhado, tinha s -uma ida clara--fugir d'alli para um grande banho, bem perfumado e bem -fresco, onde se purificasse d'uma sensao viscosa de Carmen e d'orgia -que o arrepiava. - -Esse banho lustral foi tomal-o ao _Hotel Braganza_, para se encontrar -com Carlos e com Villaa s onze horas j lavado e preparado. Mas -precisou esperar pela roupa branca que o cocheiro, com um bilhete para o -Baptista, vora a buscar ao Ramalhete: depois almoou: e j batera meio -dia quando se apeou porta particular dos quartos de Carlos, com a -roupa suja n'uma trouxa. - -Justamente Baptista atravessava o patamar com camelias n'um aafate. - ---O Villaa j veio? perguntou-lhe Ega baixo, andando em pontas de ps. - ---O snr. Villaa j l est dentro ha bocado. V. exc.^a recebeu a roupa -branca?... Eu tambem mandei um fato, porque n'esses casos sempre d mais -frescura... - ---Obrigado, Baptista, obrigado! - -E Ega pensava:--Bem, Carlos j sabe tudo, o barranco est passado! Mas -demorou-se ainda, tirando as luvas e o paletot com uma lentido cobarde. -Por fim, sentindo bater alto o corao, puxou o reposteiro de velludo. -Na ante-camara pesava um silencio; a chuva grossa fustigava a porta -envidraada, por onde se viam as arvores do jardim esfumadas na nevoa. -Ega levantou o outro reposteiro que tinha bordadas as armas dos Maias. - ---Ah! s tu? exclamou Carlos, erguendo-se da mesa de trabalho com uns -papeis na mo. - -Parecia ter conservado um animo viril e firme: apenas os olhos lhe -rebrilhavam, com um fulgor scco, anciosos e mais largos na pallidez que -o cobria. Villaa, sentado defronte, passava vagarosamente pela testa, -n'um movimento cansado, o leno de sda da India. Sobre a mesa -alastravam-se os papeis da Monforte. - ---Que diabo de embrulhada esta que me vem contar o Villaa? rompeu -Carlos, cruzando os braos diante do Ega, n'uma voz que apenas de leve -tremia. - -Ega balbuciou: - ---Eu no tive coragem de te dizer... - ---Mas tenho eu para ouvir!... Que diabo te contou esse homem? - -Villaa ergueu-se immediatamente. Ergueu-se com a pressa d'um galucho -timido que rendido n'um posto arriscado, pediu licena, se no -precisavam d'elle, para voltar ao escriptorio. Os amigos decerto -preferiam conversar mais livremente. De resto, alli ficavam os papeis da -snr.^a D. Maria Monforte. E se elle fosse necessario um recado -encontrava-o na rua da Prata ou em casa... - ---E v. exc.^a comprehende, acrescentou elle enrolando nas mos o leno -de sda, eu tomei a iniciativa de vir fallar, por ser o meu dever, como -amigo confidencial da casa... Foi essa tambem a opinio do nosso Ega... - ---Perfeitamente, Villaa, obrigado! acudiu Carlos. Se fr necessario l -mando... - -O procurador, com o leno na mo, lanou em redor um olhar lento. Depois -espreitou debaixo da mesa. Parecia muito surprehendido. E Carlos seguia -com impaciencia os passos timidos que elle dava pelo quarto, -procurando... - ---Que , homem? - ---O meu chapo. Imaginei que o tinha posto aqui... Naturalmente ficou l -fra... Bem, se fr necessario alguma coisa... - -Mal elle sahiu, atirando ainda os olhos inquietos pelos cantos, Carlos -fechou violentamente o reposteiro. E voltando para o Ega, cahindo -pesadamente n'uma cadeira: - ---Dize l! - -Ega, sentado no sof, comeou por contar o encontro com o snr. -Guimares, em baixo no botequim da Trindade, depois de ter fallado o -Rufino. O homem queria explicaes sobre a carta do Damaso, sobre a -bebedeira hereditaria... Tudo se aclarra, ficando d'ahi entre elles um -comeo de familiaridade... - -Mas o reposteiro mexeu de leve--e surdiu de novo a face do Villaa: - ---Peo desculpa, mas o meu chapo... No o acho, havia de jurar que o -deixei aqui... - -Carlos conteve uma praga. Ento Ega procurou tambem, por traz do sof, -no vo da janella. Carlos, desesperado, para findar, foi vr entre os -cortinados da cama. E Villaa, escarlate, afflicto, esquadrinhava at a -alcova do banho... - ---Um sumio assim! Emfim, talvez me esquecesse na ante-camara!... Vou -vr outra vez... O que peo desculpa. - -Os dois ficaram ss. E Ega recomeou, detalhando como Guimares, duas ou -tres vezes nos intervallos, lhe viera fallar de coisas indifferentes, do -sarau, de politica, do pap Hugo, etc. Depois elle procurra Carlos para -irem um bocado ao Gremio. Terminra por sahir com o Cruges. E passavam -defronte do Alliana... - -Novamente o reposteiro franziu, Baptista pediu perdo a suas -excellencias: - --- o snr. Villaa que no acha o chapo, diz que o deixou aqui... - -Carlos ergueu-se furioso, agarrando a cadeira pelas costas como para -despedaar o Baptista. - ---Vai para o diabo tu e o snr. Villaa!... Que sia sem chapo! D-lhe -um chapo meu! Irra! - -Baptista recuou, muito grave. - ---V, acaba l! exclamou Carlos, recahindo no assento, mais pallido. - -E Ega, miudamente, contou a sua longa, terrivel conversa com o -Guimares, desde o momento em que o homem por acaso, j ao despedir-se, -j ao estender-lhe a mo, fallra da irm do Maia. Depois -entregra-lhe os papeis da Monforte porta do _Hotel de Paris_, no -Pelourinho... - ---E aqui est, no sei mais nada. Imagina tu que noite eu passei! Mas -no tive coragem de te dizer. Fui ao Villaa... Fui ao Villaa com a -esperana sobretudo de elle saber algum facto, ter algum documento que -atirasse por terra toda esta historia do Guimares... No tinha nada, -no sabia nada. Ficou to aniquilado como eu! - -No curto silencio que cahiu, um chuveiro mais largo, alagando o arvoredo -do jardim, cantou nas vidraas. Carlos ergueu-se arrebatadamente, n'uma -revolta de todo o sr: - ---E tu acreditas que isso seja possivel? Acreditas que succeda a um -homem como eu, como tu, n'uma rua de Lisboa? Encontro uma mulher, lho -para ella, conheo-a, durmo com ella e, entre todas as mulheres do -mundo, essa justamente ha de ser minha irm! impossivel... No ha -Guimares, no ha papeis, no ha documentos que me convenam! - -E como Ega permanecia mudo, a um canto do sof, com os olhos no cho: - ---Dize alguma coisa, gritou-lhe Carlos. Duvda tambem, homem, duvda -commigo!... extraordinario! Todos vocs acreditam, como se isto fosse -a coisa mais natural do mundo, e no houvesse por essa cidade fra seno -irmos a dormir juntos! - -Ega murmurou: - ---J ia succedendo um caso assim, l ao p da quinta, em Celorico... - -E n'esse momento, sem que um rumor os prevenisse, Affonso da Maia -appareceu n'uma abertura do reposteiro, encostado bengala, sorrindo -todo com alguma ida que decerto o divertia. Era ainda o chapo do -Villaa. - ---Que diabo fizeram vocs ao chapo do Villaa? O pobre homem andou por -ahi afflicto... Teve de levar um chapo meu. Cahia-lhe pela cabea -abaixo, enchumaaram-lh'o com lenos... - -Mas subitamente reparou na face transtornada do neto. Reparou na -atarantao do Ega cujos olhos mal se fixavam, fugindo anciosamente -d'elle para Carlos. Todo o sorriso se lhe apagou, deu no quarto um passo -lento: - ---Que isso, que tm vocs?... Ha alguma coisa? - -Ento Carlos, no ardente egoismo da sua paixo, sem pensar no abalo -cruel que ia dar ao pobre velho, cheio s de esperana que elle, seu -av, testemunha do passado, soubesse algum facto, possuisse alguma -certeza contraria a toda essa historia do Guimares, a todos esses -papeis da Monforte--veio para elle, desabafou: - ---Ha uma coisa extraordinaria, av! O av talvez saiba... O av deve -saber alguma coisa que nos tire d'esta afflico!... Aqui est, em duas -palavras. Eu conheo ahi uma senhora que chegou ha tempos a Lisboa, mora -na rua de S. Francisco. Agora de repente descobre-se que minha irm -legitima!... Passou ahi um homem que a conhecia, que tinha uns papeis... -Os papeis ahi esto. So cartas, uma declarao de minha me... Emfim -uma trapalhada, um monto de provas... Que significa tudo isto? Essa -minha irm, a que foi levada em pequena, no morreu?... O av deve -saber! - -Affonso da Maia, que um tremor tomra, agarrou-se um momento com fora -bengala, cahiu por fim pesadamente n'uma poltrona, junto do reposteiro. -E ficou devorando o neto, o Ega, com um olhar esgazeado e mudo. - ---Esse homem, exclamou Carlos, um Guimares, um tio do Damaso... -Fallou com o Ega, foi ao Ega que entregou os papeis... Conta tu ao av, -Ega, conta tu do comeo! - -Ega, com um suspiro, resumiu a sua longa historia. E findou por dizer -que o importante, o decisivo alli era este homem, o Guimares, que no -tinha interesse em mentir e s por acaso, puramente por acaso, fallra -em taes coisas--conhecia essa senhora, desde pequenina, como filha de -Pedro da Maia e de Maria Monforte. E nunca a perdera de vista. Vira-a -crescer em Paris, andra com ella ao collo, dera-lhe bonecas. Visitra-a -com a mi no convento. Frequentra a casa que ella habitava em -Fontainebleau, como casada... - ---Emfim, interrompeu Carlos, viu-a ainda ha dias, n'uma carruagem, -commigo e com o Ega... Que lhe parece, av? - -O velho murmurou, n'um grande esforo, como se as palavras sahindo lhe -rasgassem o corao: - ---Essa senhora, est claro, no sabe nada... - -Ega e Carlos, a um tempo, gritaram:--No sabe nada! Segundo affirmava -o Guimares, a mi escondera-lhe sempre a verdade. Ella julgava-se filha -d'um austriaco. Assignava-se ao principio Calzaski... - -Carlos, que remexera sobre a mesa, adiantou-se com um papel na mo: - ---Aqui tem o av a declarao de minha mi. - -O velho levou muito tempo a procurar, a tirar a luneta d'entre o collete -com os seus pobres dedos que tremiam; leu o papel devagar, -empallidecendo mais a cada linha, respirando penosamente; ao findar -deixou cahir sobre os joelhos as mos, que ainda agarravam o papel, -ficou como esmagado e sem fora. As palavras por fim vieram-lhe -apagadas, morosas. Elle nada sabia... O que a Monforte alli assegurava, -elle no o podia destruir... Essa senhora da rua de S. Francisco era -talvez na verdade sua neta... No sabia mais... - -E Carlos diante d'elle vergava os hombros, esmagado tambem sob a certeza -da sua desgraa. O av, testemunha do passado, nada sabia! Aquella -declarao, toda a historia do Guimares ahi permaneciam inteiras, -irrefutaveis. Nada havia, nem memoria de homem, nem documento escripto, -que as pudesse abalar. Maria Eduarda era, pois, sua irm!... E um -defronte do outro, o velho e o neto pareciam dobrados por uma mesma -dr--nascida da mesma ida. - -Por fim Affonso ergueu-se, fortemente encostado bengala, foi pousar -sobre a mesa o papel da Monforte. Deu um olhar, sem lhes tocar, s -cartas espalhadas em volta da caixa de charutos. Depois, lentamente, -passando a mo pela testa: - ---Nada mais sei... Sempre pensamos que essa criana tinha morrido... -Fizeram-se todas as pesquizas... Ella mesma disse que lhe tinha morrido -a filha, mostrou j no sei a quem um retrato... - ---Era outra mais nova, a filha do italiano, disse o Ega. O Guimares -fallou-me n'isso... Foi esta que viveu. Esta, que tinha j sete a oito -annos, quando havia apenas quatro ou cinco que esse sujeito italiano -apparecera em Lisboa... Foi esta. - ---Foi esta, murmurou o velho. - -Teve um gesto vago de resignao, acrescentou, depois de respirar -fortemente: - ---Bem! Tudo isto tem de ser mais pensado... Parece-me bom tornar a -chamar o Villaa... Talvez seja necessario que elle v a Paris... E -antes de tudo precisamos socegar... De resto no ha aqui morte -d'homem... No ha aqui morte d'homem! - -A voz sumia-se-lhe, toda tremula. Estendeu a mo a Carlos que lh'a -beijou, suffocado; e o velho, puxando o neto para si, pousou-lhe os -labios na testa. Depois deu dois passos para a porta, to lentos e -incertos que Ega correu para elle: - ---Tome v. exc.^a o meu brao... - -Affonso apoiou-se n'elle, pesadamente. Atravessaram a ante-camara -silenciosa onde a chuva contnua batia os vidros. Por traz d'elles cahiu -o grande reposteiro com as armas dos Maias. E ento Affonso, de repente, -soltando o brao do Ega, murmurou-lhe, junto face, no desabafo de toda -a sua dr: - ---Eu sabia d'essa mulher!... Vive na rua de S. Francisco, passou todo o -vero nos Olivaes... a amante d'elle! - -Ega ainda balbuciou: No, no, snr. Affonso da Maia! Mas o velho pz o -dedo nos labios, indicou Carlos dentro que podia ouvir... E afastou-se, -todo dobrado sobre a bengala, vencido emfim por aquelle implacavel -destino que depois de o ter ferido na idade de fora com a desgraa do -filho--o esmagava ao fim da velhice com a desgraa do neto. - -Ega enervado, exhausto, voltou para o quarto--onde Carlos recomera -n'aquelle agitado passeio que abalava o soalho, fazia tilintar finamente -os frascos de crystal sobre o marmore da console. Calado, junto da mesa, -Ega ficou percorrendo outros papeis da Monforte--cartas, um livrinho de -marroquim com adresses, bilhetes de visita de membros do Jockey Club e -de senadores do imperio. Subitamente Carlos parou diante d'elle, -apertando desesperadamente as mos: - ---Estarem duas creaturas em pleno co, passar um quidam, um idiota, um -Guimares, dizer duas palavras, entregar uns papeis e quebrar para -sempre duas existencias!... Olha que isto horrivel, Ega! - -Ega arriscou uma consolao banal: - ---Era peor se ella morresse... - ---Peor porque? exclamou Carlos. Se ella morresse, ou eu, acabava o -motivo d'esta paixo, restava a dr e a saudade, era outra coisa... -Assim estamos vivos, mas mortos um para o outro, e viva a paixo que nos -unia!... Pois tu imaginas que por me virem provar que ella minha irm, -eu gsto menos d'ella do que gostava hontem, ou gsto d'um modo -differente? Est claro que no! O meu amor no se vai d'uma hora para a -outra accommodar a novas circumstancias, e transformar-se em amizade... -Nunca! Nem eu quero! - -Era uma brutal revolta--o seu amor defendendo-se, no querendo morrer, -s porque as revelaes d'um Guimares e uma caixa de charutos cheia de -papeis velhos o declaravam impossivel, e lhe ordenavam que morresse! - -Houve outro melancolico silencio. Ega accendeu uma cigarette, foi-se -enterrar ao canto do sof. Uma fadiga ia-o vencendo, feita de toda -aquella emoo, da noitada no Augusto, da estremunhada manh na alcova -da Carmen. Todo o quarto ia entristecendo, luz mais triste da tarde -d'inverno que descia. Ega terminou por cerrar os olhos. Mas bem depressa -o sacudiu outra exclamao de Carlos, que de novo, diante d'elle, -apertava as mos com desespero: - ---E o peor ainda no isto, Ega! O peor que temos de lhe dizer tudo, -de lhe contar tudo, a ella!... - -Ega j pensra n'isso... E era necessario que se lhe dissesse -immediatamente, sem hesitaes. - ---Vou-lhe eu mesmo contar tudo, murmurou Carlos. - ---Tu!? - ---Pois quem, ento? Querias que fosse o Villaa?... - -Ega franzia a testa: - ---O que tu devias fazer era metter-te esta noite no comboio, e partir -para Santa Olavia. De l contavas-lhe tudo. Estavas assim mais seguro. - -Carlos atirou-se para uma poltrona, com um grande suspiro de fadiga: - ---Sim, talvez, manh, no comboio da noite... J pensei n'isso, era o -melhor... Agora o que estou muito cansado! - ---Tambem eu, disse o Ega espreguiando-se. E j no adiantamos nada, -atolamo-nos mais na confuso. O melhor serenar... Eu vou-me estirar um -bocado na cama. - ---At logo! - -Ega subiu ao quarto, deitou-se por cima da roupa; e no seu immenso -cansao bem depressa adormeceu. Acordou tarde a um rumor da porta. Era -Carlos que entrava, raspando um phosphoro. Anoitecera, em baixo tocava a -campainha para o jantar. - ---Demais a mais esta massada do jantar! dizia Carlos accendendo as velas -no toucador. No termos um pretexto para irmos fra, a uma taverna, -conversar em socego! Ainda por cima convidei hontem o Steinbroken. - -Depois voltando-se: - --- Ega, tu achas que o av sabe tudo? - -O outro saltra da cama, e diante do lavatorio arregaava as mangas: - ---Eu te digo... Parece-me que teu av desconfia... O caso fez-lhe a -impresso d'uma catastrophe... E, se no suspeitasse o que ha, devia-lhe -causar simplesmente a surpreza de quem descobre uma neta perdida. - -Carlos teve um lento suspiro. D'ahi a um instante desciam para o jantar. - -Em baixo encontraram, alm de Steinbroken e de D. Diogo--o Craft, que -viera pedir as sopas. E em trno quella mesa, sempre alegre, coberta -de flres e de luzes, uma melancolia fluctuava n'essa tarde atravs -d'uma conversa dormente sobre doenas,--o Sequeira que tinha -rheumatismo, o pobre marquez peorra. - -De resto Affonso, no escriptorio, queixra-se d'uma forte dr de cabea, -que justificava o seu ar consumido e _pallido_. Carlos, a quem -Steinbroken achra m cara, explicou tambem que passra uma noite -abominavel. Ento Ega, para desanuviar o jantar, pediu ao amigo -Steinbroken as suas impresses sobre o grande orador do sarau da -Trindade, o Rufino. O diplomata hesitou. Surprehendera-o bastante saber -que o Rufino era um politico, um parlamentar... Aquelles gestos, o -bocado da camisa a vr-se-lhe no estomago, a pera, a grenha, as botas, -no lhe pareciam realmente d'um Homem d'Estado: - ---Mais cependant, cependant... Dans ce genre l, dans le genre sublime, -dans le genre de Demosthnes, il m'a paru trs fort... Oh, il m'a paru -excessivement fort! - ---E voc, Craft? - -Craft, no sarau, s gostra do Alencar. Ega encolheu violentamente os -hombros. Ora historias! Nada podia haver mais comico que a Democracia -romantica do Alencar, aquella Republica meiga e loura, vestida de branco -como Ophelia, orando no prado, sob o olhar de Deus... Mas Craft -justamente achava tudo isso excellente por ser sincero. O que feria -sempre nas exhibies da litteratura portugueza? A escandalosa falta de -sinceridade. Ninguem, em verso ou prosa, parecia jmais acreditar -n'aquillo que declamava com ardor, esmurrando o peito. E assim fra na -vespera. Nem o Rufino parecia acreditar na influencia da religio; nem o -homem da barba bicuda no heroismo dos Castros e dos Albuquerques; nem -mesmo o poeta dos olhinhos bonitos na bonitice dos olhinhos... Tudo -contrafeito e postio! Com o Alencar, que differena! Esse tinha uma f -real no que cantava, na Fraternidade dos povos, no Christo republicano, -na Democracia devota e coroada d'estrellas... - ---J deve ser bem velho esse Alencar, observou D. Diogo que rolava -bolinhas de po entre os longos dedos pallidos. - -Carlos, ao lado, emergiu emfim do seu silencio: - ---O Alencar deve ter bons cincoenta annos. - -Ega jurou pelo menos sessenta. J em 1836 o Alencar publicava coisas -delirantes, e chamava pela morte, no remorso de tantas virgens que -seduzira... - ---Ha que annos, com effeito, murmurou lentamente Affonso, eu ouvi fallar -d'esse homem! - -D. Diogo, que levra os labios ao copo, voltou-se para Carlos: - ---O Alencar tem a idade que havia de ter teu pai... Eram intimos, d'essa -roda _distingue_ d'ento. O Alencar ia muito a Arroios com o pobre D. -Joo da Cunha, que Deus haja, e com os outros. Era tudo uma fina flr, e -regulavam pela mesma idade... J nada resta, j nada resta! - -Carlos baixra os olhos: todos por acaso emmudeceram: um ar de tristeza -passou entre as flres e as luzes como vinda do fundo d'esse passado, -cheio de sepulturas e dres. - ---E o pobre Cruges, coitado, que fiasco! exclamou Ega, para sacudir -aquella nevoa. - -Craft achava o fiasco justo. Para que fra elle dar Beethoven a uma -gente educada pela chulice de Offenbach? Mas Ega no admittia esse -desdem por Offenbach, uma das mais finas manifestaes modernas do -scepticismo e da ironia! Steinbroken accusou Offenbach de no saber -contra-ponto. Durante um momento discutiu-se musica. Ega acabou por -sustentar que nada havia em arte to bello como o _fado_. E appellou -para Affonso, para o despertar. - ---Pois no verdade, snr. Affonso da Maia? V. exc.^a tambem como eu, -um dos fieis ao fado, nossa grande creao nacional. - ---Sim, com effeito, murmurou o velho, levando a mo testa, como a -justificar o seu modo desinteressado e murcho. Ha muita poesia no -fado... - -Craft porm atacava o fado, as _malagueas_, as _peteneras_--toda essa -musica meridional, que lhe parecia apenas um garganteado gemebundo, -prolongado infinitamente, em _ais_ de esterilidade e de preguia. Elle, -por exemplo, ouvira uma noite uma _malaguea_, uma d'essas famosas -_malagueas_, cantada em perfeito estylo por uma senhora de Malaga. Era -em Madrid, em casa dos Villa-Rubia. A senhora pe-se ao piano, rosna uma -coisa sobre _piedra_ e _sepultura_, e rompe a gemer n'um gemido que no -findava--_-----ah_... Pois senhores, elle aborrece-se, passa para -outra sala, v jogar todo um robber de whist, folheia um immenso album, -discute a guerra carlista com o general Jovellos, e quando volta, l -estava ainda a senhora, de cravos na trana e olhos no tecto, a gemer o -mesmo--_-----ah!_... - -Todos riram. Ega protestou com impeto, j excitado. O Craft era um scco -inglez, educado sobre o chato seio da Economia Politica, incapaz de -comprehender todo o mundo de poesia que podia conter um ai! Mas elle no -fallava das _malagueas_. No estava encarregado de defender a Hespanha. -Ella possuia, para convencer o Craft e outros britannicos, bastante -pilheria e bastante navalha... A questo era o _fado_! - ---Onde que voc tem ouvido o fado? Ahi pelas salas, ao piano... Com -effeito assim, concordo, chcho. Mas oua-o voc por tres ou quatro -guitarristas, uma noite, no campo, com uma bella lua no co... Como nos -Olivaes este vero, quando o marquez l levou o _Vira-vira_! Lembras-te, -Carlos?... - -E estacou, como entalado, no arrependimento d'aquella memoria da _Toca_ -que levianamente evocra. Carlos permanecera silencioso, com uma sombra -na face. Craft ainda rosnou que, n'uma linda noite de luar, todos os -sons no campo eram bonitos, mesmo o chiar dos sapos. E de novo uma -estranha desanimao amolleceu a sala; os escudeiros serviam os dces. - -Ento, no silencio, D. Diogo disse pensativamente, com a sua magestade -de leo saudoso que relembra um grande passado: - ---Uma musica tambem muito _distingue_ antigamente eram os _Sinos do -mosteiro_. Parecia mesmo que se estavam ouvindo os sinos... J no ha -d'isso! - -O jantar terminava friamente. Steinbroken voltra quella falta da -familia real no sarau, que desde a vespera o inquietava. Ninguem alli se -interessava pelo Pao. Depois D. Diogo surdiu com uma velha e fastidiosa -historia sobre a infanta D. Isabel. Foi um allivio quando o escudeiro -trouxe em volta a larga bacia de prata e o jarro d'agua perfumada. - -Ao fim do caf, servido no bilhar, Steinbroken e Craft comearam uma -partida s cincoenta e a quinze tostes para interessar. Affonso e D. -Diogo tinham recolhido ao escriptorio. Ega enterrra-se no fundo d'uma -poltrona, com o _Figaro_. Mas bem depressa deixou escorregar a folha no -tapete, cerrou os olhos. Ento Carlos, que passeava pensativamente -fumando, olhou um momento o Ega adormecido, e sumiu-se por traz do -reposteiro. - - - -Ia rua de S. Francisco. - -Mas no se apressava, a p pelo Aterro, abafado n'um paletot de pelles, -acabando o charuto. A noite clarera, com um crescente de lua entre -farrapos de nuvens brancas, que fugiam sob um norte fino. - -Fra n'essa tarde, s no seu quarto, que Carlos decidira ir fallar a -Maria Eduarda--por um motivo supremo de dignidade e de razo, que elle -descobrira e que repetia a si mesmo incessantemente para se justificar. -Nem ella nem elle eram duas crianas frouxas, necessitando que a crise -mais temerosa da sua vida lhes fosse resolvida e arranjada pelo Ega ou -pelo Villaa: mas duas pessoas fortes, com o animo bastante resoluto, e -o juizo bastante seguro, para elles mesmos acharem o caminho da -dignidade e da razo n'aquella catastrophe que lhes desmantelava a -existencia. Por isso elle, s elle, devia ir rua de S. Francisco. - -Decerto era terrivel tornar a vl-a n'aquella sala, quente ainda do seu -amor, agora que a sabia sua irm... Mas porque no? Havia acaso alli -dois devotos, possuidos da preoccupao do demonio, espavoridos pelo -peccado em que se tinham atolado ainda que inconscientemente, anciosos -por irem esconder no fundo de mosteiros distantes o horror carnal um do -outro? No! Necessitavam elles acaso pr immediatamente entre si as -compridas legoas que vo de Lisboa a Santa Olavia, com receio de cahir -na antiga fragilidade, se de novo os seus olhos se encontrassem -brilhando com a antiga chamma? No! Ambos tinham em si bastante fora -para enterrar o corao sob a razo, como sob uma fria e dura pedra, to -completamente que no lhe sentissem mais nem a revolta nem o chro. E -elle podia desafogadamente voltar quella sala, toda quente ainda do seu -amor... - -De resto, que precisavam appellar para a razo, para a sua coragem de -fortes?... Elle no ia revelar bruscamente _toda_ a verdade a Maria -Eduarda, dizer-lhe um adeus! pathetico, um adeus de theatro, affrontar -uma crise de paixo e dr. Pelo contrario! Toda essa tarde, atravs do -seu proprio tormento, procurra anciosamente um meio de adoar e graduar -quella pobre creatura o horror da revelao que lhe devia. E achra um -por fim, bem complicado, bem cobarde! Mas que! Era o unico, o unico que -por uma preparao lenta, caridosa, lhe pouparia uma dr fulminante e -brutal. E esse meio justamente s era praticavel indo elle, com toda a -frieza, com todo o animo, rua de S. Francisco. - -Por isso ia--e ao longo do Aterro, retardando os passos, resumia, -retocava esse plano, ensaiando mesmo comsigo, baixo, palavras que lhe -diria. Entraria na sala, com um grande ar de pressa--e contava-lhe que -um negocio de casa, uma complicao de feitores o obrigava a partir para -Santa Olavia d'ahi a dias. E immediatamente sahia, com o pretexto de -correr a casa do procurador. Podia mesmo ajuntar-- um momento, no -tardo, at j. Uma coisa o inquietava. Se ella lhe dsse um beijo?... -Decidia ento exagerar a sua pressa, conservando o charuto na bca, sem -mesmo pousar o chapo... E sahia. No voltava. Pobre d'ella, coitada, -que ia esperar at tarde, escutando cada rumor de carruagem na rua!... -Na noite seguinte abalava para Santa Olavia com o Ega, deixando-lhe a -ella uma carta a annunciar que infelizmente, por causa d'um telegramma, -se vira forado a partir n'esse comboio. Podia mesmo ajuntar--volto -d'aqui a dois ou tres dias... E ahi estava longe d'ella para sempre. De -Santa Olavia escrevia-lhe logo, d'um modo incerto e confuso, fallando de -documentos de familia, inesperadamente descobertos, provando entre elles -um parentesco chegado. Tudo isto atrapalhado, curto, pressa. Por fim -n'outra carta deixava escapar _toda_ a verdade, mandava-lhe a declarao -da me; e mostrando a necessidade d'uma separao, emquanto se no -esclarecessem todas as duvidas, pedia-lhe que partisse para Paris. -Villaa ficava encarregado da questo de dinheiro, entregando-lhe logo -para a viagem trezentas ou quatrocentas libras... Ah! tudo isto era bem -complicado, bem covarde! Mas s havia esse meio. E quem, seno elle, o -podia tentar com caridade e com tacto? - -E, entre o tumulto d'estes pensamentos, de repente achou-se na travessa -da Parreirinha, defronte da casa de Maria. Na sala, atravs das -cortinas, transparecia uma luz dormente. Todo o resto estava apagado--a -janella do gabinete estreito onde ella se vestia, a varanda do quarto -d'ella com os vasos de chrysantemos. - -E pouco a pouco aquella fachada muda d'onde apenas sahia, a um canto, -uma claridade languida d'alcova adormecida, foi-o estranhamente -penetrando da inquietao e desconfiana. Era um medo d'essa penumbra -molle que sentia l dentro, toda cheia de calor e do perfume em que -havia jasmim. No entrou; seguiu devagar pelo passeio fronteiro, -pensando em certos detalhes da casa--o sof largo e profundo com -almofadas de sda, as rendas do toucador, o cortinado branco da cama -d'ella... Depois parou diante da larga barra de claridade que sahia do -porto do Gremio; e foi para l, machinalmente attrahido pela -simplicidade e segurana d'aquella entrada, lageada de pedra, com -grossos bicos de gaz, sem penumbras e sem perfumes. - -Na sala, em baixo, ficou percorrendo, sem os comprehender, os -telegrammas soltos sobre a mesa. Um criado passou, elle pediu cognac. -Telles da Gama, que vinha de dentro assobiando, com as mos nos bolsos -do paletot, deteve-se um momento para lhe perguntar se ia na tera-feira -aos Gouvarinhos. - ---Talvez, murmurou Carlos. - ---Ento venha!... Eu ando a arrebanhar gente... So os annos do Charlie, -de mais a mais. Cae l o peso do mundo, e ha ceia!... - -O criado entrou com a bandeja--e Carlos, de p junto da mesa, remexendo -o assucar no copo, recordava, sem saber porque, aquella tarde em que a -condessa, pondo-lhe uma rosa no casaco, lhe dera o primeiro beijo; revia -o sof onde ella cahira com um rumor de sdas amarrotadas... Como tudo -isto era j vago e remoto! - -Apenas acabou o cognac sahiu. Agora, caminhando rente das casas, no via -aquella fachada que o perturbava com a sua claridade d'alcova morrendo -nos vidros. O porto ficra cerrado, o gaz ardia no patamar. E subiu, -sentindo mais pela escada de pedra as pancadas do corao que o pousar -dos seus passos. Melanie, que veio abrir, disse-lhe que a senhora, um -pouco cansada, se fra encostar sobre a roupa;--e a sala, com effeito, -parecia abandonada por essa noite, com as serpentinas apagadas, o -bordado ocioso e enrolado no seu cesto, os livros n'um frio arranjo -orlando a mesa onde o candieiro espalhava uma luz tenue sob o abat-jour -de renda amarella. - -Carlos tirava as luvas, lentamente, retomado de novo por uma inquietao -ante aquelle recolhimento adormecido. E de repente Rosa correu de -dentro, rindo, pulando, com os cabellos soltos nos hombros, os braos -abertos para elle. Carlos levantou-a ao ar, dizendo como costumava: L -vem a cabrita!... - -Mas ento, quando a tinha assim suspensa, batendo os -psinhos--atravessou-o a ida de que aquella criana era sua sobrinha e -tinha o seu nome!... Largou-a, quasi a deixou cahir--assombrado para -ella, como se pela vez primeira visse essa facesinha eburnea e fina onde -corria o seu sangue... - ---Que ests tu a olhar para mim? murmurou ella, recuando e sorrindo, com -as mosinhas cruzadas atraz das saias que tufavam. - -Elle no sabia, parecia-lhe outra Rosa: e sua perturbao misturava-se -uma saudade pela antiga Rosa, a outra, a que era filha de Madame -Mac-Gren, a quem elle contava historias de Joanna d'Arc, a quem -balouava na _Toca_ sob as acacias em flr. Ella no emtanto sorria mais, -com um brilho nos dentinhos miudos, uma ternura nos bellos olhos azues, -vendo-o assim to grave e to mudo, pensando que elle ia brincar, fazer -voz de Carlos Magno. Tinha o mesmo sorriso da mi, com a mesma covinha -no queixo. Carlos viu n'ella de repente toda a graa de Maria, todo o -encanto de Maria. E arrebatou-a de novo nos braos, to violentamente, -com beijos to bruscos no cabello e nas faces, que Rosa estrebuchou, -assustada e com um grito. Soltou-a logo, n'um receio de no ter sido -casto... Depois, muito srio: - ---Onde est a mam? - -Rosa coava o brao, com a testasinha franzida: - ---Apre!... Magoaste-me. - -Carlos passou-lhe pelos cabellos a mo que ainda tremia. - ---V, no sejas piegas, a mam no gosta. Onde est ella? - -A pequena, aplacada, j contente, pulava em redor, agarrando nos pulsos -de Carlos para que elle saltasse tambem... - ---A mam foi deitar-se... Diz que est muito cansada, depois chama-me a -mim preguiosa... V, salta tambem. No sejas mono!... - -N'esse instante, do corredor, miss Sarah chamou: - ---Mademoiselle!... - -Rosa pz o dedinho na bca cheia de riso: - ---Dize-lhe que no estou aqui! A vr... Para a fazer zangar!... Dize! - -Miss Sarah erguera o reposteiro; e descobriu-a logo escondida, sumida -por traz de Carlos, na pontinha dos ps, fazendo-se pequenina. Teve um -sorriso benevolo, murmurou good night, sir. Depois lembrou que eram -quasi nove e meia, mademoiselle tinha estado um pouco constipada e devia -recolher-se. Ento Carlos puxou brandamente pelo brao de Rosa, -acariciou-a ainda para que ella obedecesse a miss Sarah. - -Mas Rosa sacudia-o, indignada d'aquella traio. - ---Tambem nunca fazes nada!... Semsaboro! Pois olha, nem te digo adeus! - -Atravessou a sala, amuada, esquivou-se com um repello governante que -sorria e lhe estendia a mo--e pelo corredor rompeu n'um chro -despeitado e prro. Miss Sarah risonhamente desculpou mademoiselle. Era -a constipao que a tornava impertinente. Mas se fosse diante da mam -no fazia aquillo, no! - ---Good night, sir. - ---Good night, miss Sarah... - -S, Carlos errou alguns momentos pela sala. Por fim ergueu o pedao de -tapearia que cerrava o estreito gabinete onde Maria se vestia. Ahi, na -escurido, um brilho pallido d'espelho tremia, batido por um longo raio -do candieiro da rua. Muito de leve empurrou a porta do quarto. - ---Maria!... Ests a dormir? - -No havia luz; mas o mesmo candieiro da rua, atravs do transparente -erguido, tirava das trevas a brancura vaga do cortinado que envolvia o -leito. E foi d'ahi que ella murmurou, mal acordada: - ---Entra! Vim-me deitar, estava muito cansada... Que horas so? - -Carlos no se movera, ainda com a mo na porta: - --- tarde, e eu preciso sahir j a procurar o Villaa ... Vinha dizer-te -que tenho talvez de ir a Santa Olavia, alm d'manh, por dois ou tres -dias... - -Um movimento, entre os cortinados, fez ranger o leito. - ---Para Santa Olavia?... Ora essa, porque? E assim de repente... -Entra!... Vem c! - -Ento Carlos deu um passo no tapete, sem rumor. Ainda sentia o ranger -molle do leito. E j todo aquelle aroma d'ella que to bem conhecia, -esparso na sombra tepida, o envolvia, lhe entrava n'alma com uma -seduco inesperada de caricia nova, que o perturbava estranhamente. Mas -ia balbuciando, insistindo na sua pressa de encontrar essa noite o -Villaa. - --- uma massada, por causa d'uns feitores, d'umas aguas... - -Tocou no leito; e sentou-se muito beira, n'uma fadiga que de repente o -enlera, lhe tirava a fora para continuar essas invenes d'aguas e de -feitores, como se ellas fossem montanhas de ferro a mover. - -O grande e bello corpo de Maria, embrulhado n'um roupo branco de sda, -movia-se, espreguiava-se languidamente sobre o leito brando. - ---Achei-me to cansada, depois de jantar, veio-me uma preguia... Mas -ento partires assim de repente!... Que scca! D c a mo! - -Elle tenteava, procurando na brancura da roupa: encontrou um joelho a -que percebia a frma e o calor suave, atravs da sda leve: e alli -esqueceu a mo, aberta e frouxa, como morta, n'um entorpecimento onde -toda a vontade e toda a consciencia se lhe fundiam, deixando-lhe apenas -a sensao d'aquella pelle quente e macia onde a sua palma pousava. Um -suspiro, um pequenino suspiro de criana, fugiu dos labios de Maria, -morreu na sombra. Carlos sentiu a quentura de desejo que vinha d'ella, -que o entontecia, terrivel como o bafo ardente d'um abysmo, escancarado -na terra a seus ps. Ainda balbuciou: no, no... Mas ella estendeu os -braos, envolveu-lhe o pescoo, puxando-o para si, n'um murmurio que era -como a continuao do suspiro, e em que o nome de _querido_ susurrava e -tremia. Sem resistencia, como um corpo morto que um sopro impelle, elle -cahiu-lhe sobre o seio. Os seus labios seccos acharam-se collados n'um -beijo aberto que os humedecia. E de repente, Carlos enlaou-a -furiosamente, esmagando-a e sugando-a, n'uma paixo e n'um desespero que -fez tremer todo o leito. - - - -A essa hora Ega acordava no bilhar, ainda estirado na poltrona onde o -cansao o prostrra. Bocejando, estremunhado, arrastou os passos at ao -escriptorio de Affonso. - -Ahi ardia um lume alegre, a que o reverendo Bonifacio se deixava torrar, -enrolado sobre a pelle d'urso. Affonso fazia a partida de whist com -Steinbroken e com o Villaa: mas to distrahido, to confuso, que j -duas vezes D. Diogo, infeliz e irritado, rosnra que se a dr de cabea -assim o estonteava melhor seria findarem! Quando Ega appareceu, o velho -levantou os olhos inquietos: - ---O Carlos? Sahiu?... - ---Sim, creio que sahiu com o Craft, disse o Ega. Tinham fallado em ir -vr o marquez. - -Villaa, que baralhava com a sua lentido meticulosa, deitou tambem para -o Ega um olhar curioso e vivo. Mas j D. Diogo batia com os dedos no -pano da mesa, resmungando:--Vamos l, vamos l... No se ganha nada em -saber dos outros! Ento Ega ficou alli um momento, com bocejos vagos, -seguindo o cahir lento das cartas. Por fim, molle e seccado, decidiu ir -lr para a cama, hesitou por diante das estantes, sahiu com um velho -numero do _Panorama_. - -Ao outro dia, hora do almoo, entrou no quarto de Carlos. E ficou -pasmado quando o Baptista--tristonho desde a vespera, farejando -desgosto--lhe disse que Carlos fra para a Tapada, muito cedo, a -cavallo... - ---Ora essa!... E no deixou ordens nenhumas, no fallou em ir para Santa -Olavia?... - -Baptista olhou Ega, espantado: - ---Para Santa Olavia!... No senhor, no fallou em semelhante coisa. Mas -deixou uma carta para v. exc.^a vr. Creio que do snr. marquez. E diz -que l apparecia depois, s seis... Acho que jantar. - -N'um bilhete de visita, o marquez, com effeito, lembrava que esse dia -era o seu fausto natalicio, e esperava Carlos e o Ega s seis, para -lhe ajudarem a comer a gallinha de dieta. - ---Bem, l nos encontraremos, murmurou Ega, descendo para o jardim. - -Aquillo parecia-lhe extraordinario! Carlos passeando a cavallo, Carlos -jantando com o marquez, como se nada houvesse perturbado a sua vida -facil de rapaz feliz!... Estava agora certo de que elle na vespera fra - rua de S. Francisco. Justos cos! Que se teria l passado? Subiu, -ouvindo a sineta do almoo. O escudeiro annunciou-lhe que o snr. Affonso -da Maia tomra uma chavena de ch no quarto e ainda estava recolhido. -Todos sumidos! Pela primeira vez no Ramalhete Ega almoou solitariamente -na larga mesa, lendo a _Gazeta Illustrada_. - -De tarde, s seis, no quarto do marquez (que tinha o pescoo enrolado -n'uma _boa_ de senhora de pelle de marta), encontrou Carlos, o Darque, o -Craft, em torno d'um rapaz gordo que tocava guitarra--emquanto ao lado o -procurador do marquez, um bello homem de barba preta, se batia com o -Telles n'uma partida de damas. - ---Viste o av? perguntou Carlos, quando o Ega lhe estendeu a mo. - ---No, almocei s. - -O jantar, d'ahi a pouco, foi muito divertido, largamente regado com os -soberbos vinhos da casa. E ninguem decerto bebeu mais, ninguem riu mais -do que Carlos, resurgido quasi de repente d'uma desanimao sombria a -uma alegria nervosa--que incommodava o Ega, sentindo n'ella um timbre -falso e como um som de crystal rachado. O proprio Ega por fim -sobremesa se excitou consideravelmente com um esplendido Porto de 1815. -Depois houve um _baccarat_ em que Carlos, outra vez sombrio, deitando a -cada instante os olhos ao relogio, teve uma sorte triumphante, uma -sorte de cabro, como a classificou o Darque, indignado, ao trocar a -sua ultima nota de vinte mil reis. meia noite porm, inexoravelmente, -o procurador do marquez lembrou as ordens do medico que marcra esse -limite ao natalicio. Foi ento um enfiar de paletots, em debandada, -por entre os queixumes do Darque e do Craft, que sahiam escorridos, sem -sequer um troco para o americano. Fez-se-lhes uma subscripo de -caridade, que elles recolheram nos chapos, rosnando bnos aos -bemfeitores. - -Na tipoia que os levava ao Ramalhete, Carlos e Ega permaneceram muito -tempo em silencio, cada um enterrado ao seu canto, fumando. Foi j ao -meio do Aterro que Ega pareceu despertar: - ---E ento por fim?... Sempre vaes para Santa Olavia, ou que fazes? - -Carlos mexeu-se no escuro da tipoia. Depois, lentamente, como cheio de -cansao: - ---Talvez v manh... Ainda no disse nada, ainda no fiz nada... Decidi -dar-me quarenta e oito horas para acalmar, para reflectir... No se pde -agora fallar com este barulho das rodas. - -De novo cada um recahiu na sua mudez, ao seu canto. - -Em casa, subindo a escadinha forrada de velludo, Carlos declarou-se -exhausto e com uma intoleravel dr de cabea: - ---manh fallamos, Ega... Boa noite, sim? - ---At manh. - -Alta noite Ega acordou com uma grande sde. Saltra da cama, esvazira a -garrafa no toucador, quando julgou sentir por baixo, no quarto de -Carlos, uma porta bater. Escutou. Depois, arrepiado, remergulhou nos -lenoes. Mas espertra inteiramente, com uma ida estranha, insensata, -que o assaltra sem motivo, o agitava, lhe fazia palpitar o corao no -grande silencio da noite. Ouviu assim dar tres horas. A porta de novo -batera, depois uma janella: era decerto vento que se erguera. No podia -porm readormecer, s voltas, n'um terrivel mal-estar, com aquella ida -cravada na imaginao que o torturava. Ento, desesperado, pulou da -cama, enfiou um paletot, e em pontas de chinelas, com a mo diante da -luz, desceu surdamente ao quarto de Carlos. Na ante-sala parou, -tremendo, com o ouvido contra o reposteiro, na esperana de perceber -algum calmo rumor de respirao. O silencio era pesado e pleno. Ousou -entrar... A cama estava feita e vazia, Carlos sahira. - -Elle ficou a olhar estupidamente para aquella colcha lisa, com a dobra -do lenol de renda cuidadosamente entreaberta pelo Baptista. E agora no -duvidava. Carlos fra findar a noite rua de S. Francisco!... Estava -l, dormia l! E s uma ida surgia atravs do seu horror--fugir, -safar-se para Celorico, no ser testemunha d'aquella incomparavel -infamia!... - -E o dia seguinte, tera-feira, foi desolador para o pobre Ega. Vexado, -n'um terror de encontrar Carlos ou Affonso, levantou-se cedo, -esgueirou-se pelas escadas com cautelas de ladro, foi almoar ao -Tavares. De tarde, na rua do Ouro, viu passar Carlos, que levava no -break o Cruges e o Taveira--arrebanhados certamente para elle se no -encontrar s mesa com o av. Ega jantou melancolicamente no Universal. -S entrou no Ramalhete s nove horas, vestir-se para a _soire_ da -Gouvarinho, que pela manh no Loreto parra a carruagem para lhe lembrar -que era a festa do Charlie. E foi j de paletot, de _claque_ na mo, -que appareceu emfim na salinha Luiz xv onde Cruges tocava Chopin, e -Carlos se installra n'uma partida de bezigue com o Craft. Vinha saber -se os amigos queriam alguma coisa para os nobres condes de Gouvarinho... - ---Diverte-te! - ---S faiscante! - ---Eu l appareo para a ceia! prometteu Taveira, estirado n'uma poltrona -com o _Figaro_. - -Eram duas horas da manh quando Ega recolheu da _soire_--onde por fim -se divertira n'uma desesperada flirtao com a baroneza d'Alvim, que -ceia, depois do champagne, vencida por tanta graa e tanta audacia, lhe -tinha dado duas rosas. Diante do quarto de Carlos, accendendo a vela, -Ega hesitou, mordido por uma curiosidade... Estaria l? Mas teve -vergonha d'aquella espionagem, e subiu, bem decidido como na vespera a -fugir para Celorico. No seu quarto, diante do espelho, pz -cuidadosamente n'um copo as rosas da Alvim. E comeava a despir-se, -quando ouviu passos no negro corredor, passos muito lentos, muito -pesados, que se adiantavam, findaram sua porta em suspenso e -silencio. Assustado, gritou: Que l? A porta rangeu. E appareceu -Afonso da Maia, pallido, com um jaqueto sobre a camisa de dormir, e um -castial onde a vela ia morrendo. No entrou. N'uma voz enrouquecida, -que tremia: - ---O Carlos? esteve l? - -Ega balbuciou, atarantado, em mangas de camisa. No sabia... Estivera -apenas um momento nos Gouvarinhos... Era provavel que Carlos tivesse ido -mais tarde com o Taveira, para a ceia. - -O velho cerrra os olhos, como se desfallecesse, estendendo a mo para -se apoiar. Ega correu para elle: - ---No se afflija, snr. Affonso da Maia! - ---Que queres ento que faa? Onde est elle? L mettido, com essa -mulher... Escusas de dizer, eu sei, mandei espreitar... Desci a isso, -mas quiz acabar esta angustia... E esteve l hontem at de manh, est -l a dormir n'este instante... E foi para este horror que Deus me deixou -viver at agora! - -Teve um grande gesto de revolta e de dr. De novo os seus passos, mais -pesados, mais lentos, se sumiram no corredor. - -Ega ficou junto da porta, um momento, estarrecido. Depois foi-se -despindo devagar, decidido a dizer a Carlos muito simplesmente, ao outro -dia, antes de partir para Celorico, que a sua infamia estava matando o -av, e o forava a elle, seu melhor amigo, a fugir para a no -testemunhar por mais tempo. - -Mal acordou, puxou a mala para o meio do quarto, atirou para cima da -cama, s braadas, a roupa que ia emmalar. E durante meia hora, em -mangas de camisa, lidou n'esta tarefa, misturando aos seus pensamentos -de clera lembranas da _sire_ da vespera, certos olhares da Alvim, -certas esperanas que lhe tornavam saudosa a partida. Um alegre sol -dourava a varanda. Terminou por abrir a vidraa, respirar, olhar o bello -azul d'inverno. Lisboa ganhava tanto com aquelle tempo! E j Celorico, a -quinta, o padre Seraphim, lhe estendiam de longe a sua sombra n'alma. Ao -baixar os olhos viu o dog-cart de Carlos atrellado com a _Tunante_, que -escarvava a calada animada pelo ar vivo. Era Carlos decerto que ia -sahir cedo--para no se encontrar com elle e com o av! - -N'um receio de o no apanhar n'esse dia, desceu correndo. Carlos -aferrolhra-se na alcova de banho. Ega chamou, o outro no tugiu. Por -fim Ega bateu, gritou atravs da porta, sem esconder a sua irritao: - ---Tem a bondade d'escutar!... Ento partes para Santa Olavia, ou qu? - -Depois d'um instante, Carlos lanou de l, entre um rumor d'agua que -cahia: - ---No sei... Talvez... Logo te digo... - -O outro no se conteve mais: - --- que se no pde ficar assim eternamente... Recebi uma carta de minha -mi... E se no partes para Santa Olavia, eu vou para Celorico... -absurdo! J estamos n'isto ha tres dias! - -E quasi se arrependia j da sua violencia, quando a voz de Carlos se -arrastou de dentro, humilde e cansada, n'uma supplica: - ---Por quem s, Ega! Tem um bocado de paciencia commigo. Eu logo te -digo... - -N'uma d'aquellas subitas emoes de nervoso, que o sacudiam--os olhos do -Ega humedeceram. Balbuciou logo: - ---Bem, bem! Eu fallei alto por ser atravs da porta... No ha pressa! - -E fugiu para o quarto, cheio s de compaixo e ternura, com uma grossa -lagrima nas pestanas. Sentia agora bem a tortura em que o pobre Carlos -se debatera, sob o despotismo d'uma paixo at ahi legitima, e que n'uma -hora amarga se tornava de repente monstruosa, sem nada perder de seu -encanto e da sua intensidade... Humano e fragil, elle no pudera estacar -n'aquelle violento impulso de amor e de desejo que o levava como n'um -vendaval! Cedera, cedera, continura a rolar quelles braos, que -innocentemente o continuavam a chamar. E ahi andava agora, aterrado, -escorraado, fugindo occultamente de casa, passando o dia longe dos -seus, n'uma vadiagem tragica, como um excommungado que receia encontrar -olhos puros onde sinta o horror do seu peccado... E ao lado, o pobre -Affonso, sabendo tudo, morrendo d'aquella dr! Podia elle, hospede -querido dos tempos alegres, partir, agora que uma onda de desgraa -quebrra sobre essa casa, onde o acolhiam affeies mais largas que na -sua propria? Seria ignobil! Tornou logo a desfazer a mala; e, furioso no -seu egoismo com todas aquellas amarguras que o abalavam, arranjava outra -vez a roupa dentro da commoda, com a mesma clera com que a desmanchra, -rosnando: - ---Diabo levem as mulheres, e a vida, e tudo!... - -Quando desceu, j vestido, Carlos desapparecera! Mas Baptista, -tristonho, carrancudo, certo agora de que havia um grande desgosto, -deteve-o para lhe murmurar: - ---Tinha v. exc.^a razo... Partimos manh para Santa Olavia e levamos -roupa para muito tempo... Este inverno comea mal! - - - -N'essa madrugada, s quatro horas, em plena escurido, Carlos cerrra de -manso o porto da rua de S. Francisco. E, mais pungente, apoderava-se -d'elle, na frialdade da rua, o medo que j o rora, ao vestir-se na -penumbra do quarto, ao lado de Maria adormecida--o medo de voltar ao -Ramalhete! Era esse medo que j na vespera o trouxera todo o dia por -fra no dog-cart, findando por jantar lugubremente com o Cruges, -escondido n'um gabinete do Augusto. Era medo do av, medo do Ega, medo -do Villaa; medo d'aquella sineta do jantar que os chamava, os juntava; -medo do seu quarto, onde a cada momento qualquer d'elles podia erguer o -reposteiro, entrar, cravar os olhos na sua alma e no seu segredo... -Tinha agora a certeza _que elles sabiam tudo_. E mesmo que n'essa noite -fugisse para Santa Olavia, pondo entre si e Maria uma separao to alta -como o muro d'um claustro, nunca mais do espirito d'aquelles homens, que -eram os seus amigos melhores, sahiria a memoria e a dr da infamia em -que elle se despenhra. A sua vida moral estava estragada... Ento, para -que partiria--abandonando a paixo, sem que por isso encontrasse a paz? -No seria mais logico calcar desesperadamente todas as leis humanas e -divinas, arrebatar para longe Maria na sua innocencia, e para todo o -sempre abysmar-se n'esse crime que se tornra a sua sombria partilha na -terra? - -J assim pensra na vespera. J assim pensra... Mas antevira ento um -outro horror, um supremo castigo, a esperal-o na solido onde se -sepultasse. J lhe percebera mesmo a aproximao; j n'outra noite -recebera d'elle um arrepio; j n'essa noite, deitado junto de Maria, que -adormecera cansada, o presentira, apoderando-se d'elle, com um primeiro -frio d'agonia. - -Era, surgindo do fundo do seu sr, ainda tenue mas j perceptivel, uma -saciedade, uma repugnancia por ella desde que a sabia do seu sangue!... -Uma repugnancia material, carnal, flr da pelle, que passava como um -arrepio. Fra primeiramente aquelle aroma que a envolvia, fluctuava -entre os cortinados, lhe ficava a elle na pelle e no fato, o excitava -tanto outr'ora, o impacientava tanto agora--que ainda na vespera se -encharcra em agua de Colonia para o dissipar. Fra depois aquelle corpo -d'ella, adorado sempre como um marmore ideal, que de repente lhe -apparecera, como era na sua realidade, forte de mais, musculoso, de -grossos membros de Amazona barbara, com todas as bellezas copiosas do -animal de prazer. Nos seus cabellos d'um lustre to macio, sentia agora -inesperadamente uma rudeza de juba. Os seus movimentos na cama, ainda -n'essa noite, o tinham assustado como se fossem os de uma fera, lenta e -ciosa, que se estirava para o devorar... Quando os seus braos o -enlaavam, o esmagavam contra os seus rijos peitos tumidos de seiva, -ainda decerto lhe punham nas veias uma chamma que era toda bestial. Mas, -apenas o ultimo suspiro lhe morria nos labios, ahi comeava -insensivelmente a recuar para a borda do colcho, com um susto estranho: -e immovel, encolhido na roupa, perdido no fundo d'uma infinita tristeza, -esquecia-se pensando n'uma outra vida que podia ter, longe d'alli, n'uma -casa simples, toda aberta ao sol, com sua mulher, legitimamente sua, -flr de graa domestica, pequenina, timida, pudica, que no soltasse -aquelles gritos lascivos, e no usasse esse aroma to quente! E -desgraadamente agora j no duvidava... Se partisse com ella, seria -para bem cedo se debater no indizivel horror de um nojo physico. E que -lhe restaria ento, morta a paixo que fra a desculpa do crime, ligado -para sempre a uma mulher que o enojava--e que era... S lhe restava -matar-se! - -Mas, tendo por um s dia dormido com ella, na plena consciencia da -consanguinidade que os separava, poderia recomear a vida -tranquillamente? Ainda que possuisse frieza e fora para apagar dentro -em si essa memoria--ella no morreria no corao do av, e do seu amigo. -Aquelle ascoroso segredo ficaria entre elles, estragando, maculando -tudo. A existencia d'ora vante s lhe offerecia intoleravel amargr... -Que fazer, santo Deus, que fazer! Ah, se alguem o podesse aconselhar, o -podesse consolar! Quando chegou porta de casa o seu desejo unico era -atirar-se aos ps d'um padre, aos ps d'um santo, abrir-lhe as miserias -do seu corao, implorar-lhe a doura da sua misericordia! Mas ai! onde -havia um santo? - -Defronte do Ramalhete os candieiros ainda ardiam. Abriu de leve a porta. -P ante p, subiu as escadas ensurdecidas pelo velludo cr de cereja. No -patamar tacteava, procurava a vela--quando, atravs do reposteiro -entreaberto, avistou uma claridade que se movia no fundo do quarto. -Nervoso, recuou, parou no recanto. O claro chegava, crescendo: passos -lentos, pesados, pisavam surdamente o tapete: a luz surgiu--e com ella o -av em mangas de camisa, livido, mudo, grande, espectral. Carlos no se -moveu, suffocado; e os dois olhos do velho, vermelhos, esgazeados, -cheios de horror, cahiram sobre elle, ficaram sobre elle, varando-o at -s profundidades d'alma, lendo l o seu segredo. Depois, sem uma -palavra, com a cabea branca a tremer, Affonso atravessou o patamar, -onde a luz sobre o velludo espalhava um tom de sangue:--e os seus passos -perderam-se no interior da casa, lentos, abafados, cada vez mais -sumidos, como se fossem os derradeiros que devesse dar na vida! - -Carlos entrou no quarto s escuras, tropeou n'um sof. E alli se deixou -cahir, com a cabea enterrada nos braos, sem pensar, sem sentir, vendo -o velho livido passar, repassar diante d'elle como um longo phantasma, -com a luz avermelhada na mo. Pouco a pouco foi-o tomando um cansao, -uma inercia, uma infinita lassido da vontade, onde um desejo apenas -transparecia, se alongava--o desejo de interminavelmente repousar -algures n'uma grande mudez e n'uma grande treva... Assim escorregou ao -pensamento da morte. Ella seria a perfeita cura, o asylo seguro. Porque -no iria ao seu encontro? Alguns gros de laudano n'essa noite e -penetrava na absoluta paz... - -Ficou muito tempo, embebendo-se n'esta ida que lhe dava allivio e -consolo, como se, escorraado por uma tormenta ruidosa, visse diante dos -seus passos abrir-se uma porta d'onde sahisse calor e silencio. Um -rumor, o chilrear d'um passaro na janella, fez-lhe sentir o sol e o dia. -Ergueu-se, despiu-se muito devagar, n'uma immensa molleza. E mergulhou -na cama, enterrou a cabea no travesseiro para recahir na doura -d'aquella inercia, que era um antegosto da morte, e no sentir mais nas -horas que lhe restavam nenhuma luz, nenhuma coisa da terra. - - - -O sol ia alto, um barulho passou, o Baptista rompeu pelo quarto: - --- snr. D. Carlos, meu menino! O av achou-se mal no jardim, no d -accordo!... - -Carlos pulou do leito, enfiando um paletot que agarrra. Na ante-camara -a governante, debruada no corrimo, gritava, afflicta:--Adiante, homem -de Deus, ao p da padaria, o snr. dr. Azevedo! E um moo que corria, -com que esbarrou no corredor, atirou, sem parar: - ---Ao fundo, ao p da cascata, snr. D. Carlos, na mesa de pedra!... - -Affonso da Maia l estava, n'esse recanto do quintal, sob os ramos do -cedro, sentado no banco de cortia, tombado por sobre a tosca mesa, com -a face cahida entre os braos. O chapo desabado rolra para o cho; nas -costas, com a gola erguida, conservava o seu velho capote azul. Em -volta, nas folhas das camelias, nas aleas areadas, refulgia, cr d'ouro, -o sol fino d'inverno. Por entre as conchas da cascata o fio d'agua punha -o seu choro lento. - -Arrebatadamente, Carlos levantra-lhe a face, j rigida, cr de cera, -com os olhos cerrados, e um fio de sangue aos cantos da longa barba de -neve. Depois cahiu de joelhos no cho humido, sacudia-lhe as mos, -murmurando:-- av! av!--Correu ao tanque, borrifou-o d'agua: - ---Chamem alguem! chamem alguem! - -Outra vez lhe palpava o corao... Mas estava morto. Estava morto, j -frio, aquelle corpo que, mais velho que o seculo, resistira to -formidavelmente, como um grande roble, aos annos e aos vendavaes. Alli -morrera solitariamente, j o sol ia alto, n'aquella tosca mesa de pedra -onde deixra pender a cabea cansada. - -Quando Carlos se ergueu, Ega apparecia, esguedelhado, embrulhado no -robe-de-chambre. Carlos abraou-se n'elle, tremendo todo, n'um chro -despedaado. Os criados em redor olhavam, aterrados. E a governante, -como tonta, entre as ruas de roseiras, gemia com as mos na cabea:--Ai -o meu rico senhor, ai o meu rico senhor! - -Mas o porteiro, esbaforido, chegava com o medico, o dr. Azevedo, que -felizmente encontrra na rua. Era um rapaz, apenas sahido da Escla, -magrinho e nervoso, com as pontas do bigode muito frisadas. Deu em -redor, atarantadamente, um comprimento aos criados, ao Ega, e a Carlos, -que procurava serenar com a face lavada de lagrimas. Depois, tendo -descalado a luva, estudou todo o corpo de Affonso com uma lentido, uma -minuciosidade que exagerava, medida que sentia em volta, mais anciosos -e attentos n'elle, todos aquelles olhos humedecidos. Por fim, diante de -Carlos, passando nervosamente os dedos no bigode, murmurou termos -technicos... De resto, dizia, j o collega se teria compenetrado de que -tudo infelizmente findra. Elle sentia das vras da alma o desgosto... -Se para alguma coisa fosse necessario, com o maximo prazer... - ---Muito agradecido a v. exc.^a, balbuciou Carlos. - -Ega, em chinelas, deu alguns passos com o snr. dr. Azevedo, para lhe -indicar a porta do jardim. - -Carlos no emtanto ficra defronte do velho, sem chorar, perdido apenas -no espanto d'aquelle brusco fim! Imagens do av, do av vivo e forte, -cachimbando ao canto do fogo, regando de manh as roseiras, -passavam-lhe n'alma, em tropel, deixando-lh'a cada vez mais dorida e -negra... E era ento um desejo de findar tambem, encostar-se como elle -quella mesa de pedra, e sem outro esforo, nenhuma outra dr da vida, -cahir como elle na sempiterna paz. Uma restea de sol, entre os ramos -grossos do cedro, batia a face morta de Affonso. No silencio os -passaros, um momento espantados, tinham recomeado a chalrar. Ega veio a -Carlos, tocou-lhe no brao: - --- necessario leval-o para cima. - -Carlos beijou a mo fria que pendia. E, devagar, com os beios a tremer, -levantou o av pelos hombros carinhosamente. Baptista correra a ajudar; -Ega, embaraado no seu largo roupo, segurava os ps do velho. Atravs -do jardim, do terrao cheio de sol, do escriptorio onde a sua poltrona -esperava diante do lume accso, foram-o transportando n'um silencio s -quebrado pelos passos dos criados, que corriam a abrir as portas, -acudiam quando Carlos, na sua perturbao, ou o Ega fraquejavam sob o -peso do grande corpo. A governante j estava no quarto d'Affonso com uma -colcha de sda para estender na singela cama de ferro, sem cortinado. E -alli o depuzeram emfim sobre as ramagens claras bordadas na sda azul. - -Ega accendera dois castiaes de prata: a governante, de joelhos beira -do leito, esfiava o rosario: e Mr. Antoine, com o seu barrete branco de -cozinheiro na mo, ficra porta, junto d'um cesto que trouxera, cheio -de camelias e palmas de estufa. Carlos, no emtanto, movendo-se pelo -quarto, com longos soluos que o sacudiam, voltava a cada instante, -n'uma derradeira e absurda esperana, palpar as mos ou o corao do -velho. Com o jaqueto de velludilho, os seus grossos sapatos brancos, -Affonso parecia mais forte e maior, na sua rigidez, sobre o leito -estreito: entre o cabello de neve cortado escovinha e a longa barba -desleixada, a pelle ganhra um tom de marfim velho, onde as rugas -tomavam a dureza d'entalhaduras a cinzel: as palpebras engelhadas, de -pestanas brancas, pousavam com a consolada serenidade de quem emfim -descana; e ao deitarem-no uma das mos ficra-lhe aberta e posta sobre -o corao, na simples e natural attitude de quem tanto pelo corao -vivra! - -Carlos perdia-se n'esta contemplao dolorosa. E o seu desespero era que -o av assim tivesse partido para sempre, sem que entre elles houvesse um -adeus, uma dce palavra trocada. Nada! Apenas aquelle olhar angustiado, -quando passra com a vela accsa na mo. J ento elle ia andando para a -morte. O av sabia tudo, d'isso morrera! E esta certeza sem cessar lhe -batia n'alma, com uma longa pancada repetida e lugubre. O av sabia -tudo, d'isso morrera! - -Ega veio com um gesto indicar-lhe o estado em que estavam--elle de -robe-de-chambre, Carlos com o paletot sobre a camisa de dormir: - --- necessario descer, necessario vestir-nos. - -Carlos balbuciou: - ---Sim, vamo-nos vestir... - -Mas no se arredava. Ega levou-o brandamente pelo brao. Elle caminhava -como um somnambulo, passando o leno devagar pela testa e pela barba. E -de repente no corredor, apertando desesperadamente as mos, outra vez -coberto de lagrimas, n'um agoniado desabafo de toda a sua culpa: - ---Ega, meu querido Ega! O av viu-me esta manh quando entrei! E passou, -no me disse nada... Sabia tudo, foi isso que o matou!... - -Ega arrastou-o, consolou-o, repellindo tal ida. Que tolice! O av tinha -quasi oitenta annos, e uma doena de corao... Desde a volta de Santa -Olavia, quantas vezes elles tinham fallado n'isso, aterrados! Era -absurdo ir agora fazer-se mais desgraado com semelhante imaginao! - -Carlos murmurou, devagar, como para si mesmo, com os olhos postos no -cho: - ---No! estranho, no me fao mais desgraado! Aceito isto como um -castigo... Quero que seja um castigo... E sinto-me s muito pequeno, -muito humilde diante de quem assim me castiga. Esta manh pensava em -matar-me. E agora no! o meu castigo viver, esmagado para sempre... O -que me custa que elle no me tivesse dito _adeus_!! - -De novo as lagrimas lhe correram, mas lentas, mansamente, sem desespero. -Ega levou-o para o quarto, como uma criana. E assim o deixou a um canto -do sof, com o leno sobre a face, n'um chro contnuo e quieto, que lhe -ia lavando, alliviando o corao de todas as angustias confusas e sem -nome que n'esses dias derradeiros o traziam suffocado. - -Ao meio dia, em cima, Ega acabava de vestir-se quando Villaa lhe rompeu -pelo quarto de braos abertos. - ---Ento como foi isto, como foi isto? - -Baptista mandra-o chamar pelo trintanario, mas o rapazola pouco lhe -soubera contar. Agora em baixo o pobre Carlos abrara-o, coitadinho, -lavado em lagrimas, sem poder dizer nada, pedindo-lhe s para se -entender em tudo com o Ega... E alli estava. - ---Mas como foi, como foi, assim de repente?... - -Ega contou, brevemente, como tinham encontrado Affonso de manh no -jardim, tombado para cima da mesa de pedra. Viera o dr. Azevedo, mas -tudo acabra! - -Villaa levou as mos cabea: - ---Uma coisa assim! Creia o amigo! Foi essa mulher, essa mulher que ahi -appareceu, que o matou! Nunca foi o mesmo depois d'aquelle abalo! No -foi mais nada! Foi isso! - -Ega murmurava, deitando machinalmente agua de Colonia no leno: - ---Sim, talvez, esse abalo, e oitenta annos, e poucas cautelas, e uma -doena de corao. - -Fallaram ento do enterro, que devia ser simples como convinha quelle -homem simples. Para depositar o corpo, emquanto no fosse trasladado -para Santa Olavia, Ega lembrra-se do jazigo do marquez. - -Villaa coava o queixo, hesitando: - ---Eu tambem tenho um jazigo. Foi o proprio snr. Affonso da Maia que o -mandou erguer para meu pai, que Deus haja... Ora parece-me que por uns -dias ficava l perfeitamente. Assim no se pedia a ninguem, e eu tinha -n'isso muita honra... - -Ega concordou. Depois fixaram outros detalhes de convite, de hora, de -chave do caixo. Por fim Villaa, olhando o relogio, ergueu-se com um -grande suspiro: - ---Bem, vou dar esses tristes passos! E c appareo logo, que o quero vr -pela ultima vez, quando o tiverem vestido. Quem me havia de dizer! Ainda -antes de hontem a jogar com elle... At lhe ganhei tres mil reis, -coitadinho! - -Uma onda de saudade suffocou-o, fugiu com o leno nos olhos. - -Quando Ega desceu, Carlos, todo de luto, estava sentado escrivaninha, -diante d'uma folha de papel. Immediatamente ergueu-se, arrojou a penna. - ---No posso!... Escreve-lhe tu ahi, a ella, duas palavras. - -Em silencio, Ega tomou a penna, redigiu um bilhete muito curto. Dizia: -Minha senhora. O snr. Affonso da Maia morreu esta madrugada, de -repente, com uma apoplexia. V. exc.^a comprehende que, n'este momento, -Carlos nada mais pde do que pedir-me para eu transmittir a v. exc.^a -esta desgraada noticia. Creia-me, etc. No o leu a Carlos. E como -Baptista entrava n'esse momento, todo de preto, com o almoo n'uma -bandeja, Ega pediu-lhe para mandar o trintanario com aquelle bilhete -rua de S. Francisco. Baptista segredou sobre o hombro do Ega: - --- bom no esquecer as fardas de luto para os criados... - ---O snr. Villaa j sabe. - -Tomaram ch pressa em cima do taboleiro. Depois Ega escreveu bilhetes -a D. Diogo e ao Sequeira, os mais velhos amigos d'Affonso: e davam duas -horas quando chegaram os homens com o caixo para amortalhar o corpo. -Mas Carlos no permittiu que mos mercenarias tocassem no av. Foi elle -e o Ega, ajudados pelo Baptista, que, corajosamente, recalcando a emoo -sob o dever, o lavaram, o vestiram, o depuzeram dentro do grande cofre -de carvalho, forrado de setim claro, onde Carlos collocou uma miniatura -de sua av Runa. tarde, com auxilio de Villaa, que voltra para dar -o ultimo olhar ao patro, desceram-no ao escriptorio, que Ega no -quizera alterar nem ornar, e que, com os damascos escarlates, as -estantes lavradas, os livros juncando a carteira de pau preto, -conservava a sua feio austera de paz estudiosa. Smente, para depr o -caixo, tinham juntado duas largas mesas, recobertas por um panno de -velludo negro que havia na casa, com as armas bordadas a ouro. Por cima -o Christo de Rubens abria os braos sobre a vermelhido do poente. Aos -lados ardiam doze castiaes de prata. Largas palmas d'estufa cruzavam-se - cabeceira do esquife, entre ramos de camelias. E Ega accendeu um pouco -de incenso em dois perfumadores de bronze. - - noite o primeiro dos velhos amigos a apparecer foi D. Diogo, solemne, -de casaca. Encostado ao Ega, aterrado diante do caixo, s pde -murmurar:--E tinha menos sete mezes que eu! O marquez veio j tarde, -abafado em mantas, trazendo um grande cesto de flres. Craft e o Cruges -nada sabiam, tinham-se encontrado na rampa de Santos;--e receberam a -primeira surpreza ao vr fechado o porto do Ramalhete. O ultimo a -chegar foi o Sequeira, que passra o dia na quinta, e se abraou em -Carlos, depois no Craft ao acaso, entontecido, com uma lagrima nos olhos -injectados, balbuciando:--Foi-se o companheiro de muitos annos. Tambem -no tardo!... - -E a noite de vigilia e pezames comeou, lenta e silenciosa. As doze -chammas das velas ardiam, muito altas, n'uma solemnidade funeraria. Os -amigos trocavam algum murmurio abafado, com as cadeiras chegadas. Pouco -a pouco, o calor, o aroma do incenso, a exhalao das flres foraram o -Baptista a abrir uma das janellas do terrao. O co estava cheio -d'estrellas. Um vento fino susurrava nas ramagens do jardim. - -J tarde Sequeira, que no se movera d'uma poltrona, com os braos -cruzados, teve uma tontura. Ega levou-o sala de jantar, a -reconfortal-o com um calice de cognac. Havia l uma ceia fria, com -vinhos e dces. E Craft veio tambem--com o Taveira, que soubera a -desgraa na redaco da _Tarde_, e correra quasi sem jantar. Tomando um -pouco de Bordeus, uma _sandwich_, Sequeira reanimava-se, lembrava o -passado, os tempos brilhantes, quando Affonso e elle eram novos. Mas -emmudeceu vendo apparecer Carlos, pallido e vagaroso como um somnambulo, -que balbuciou: Tomem alguma coisa, sim, tomem alguma coisa... - -Mexeu n'um prato, deu uma volta mesa, sahiu. Assim vagamente foi at -ante-camara, onde todos os candelabros ardiam. Uma figura esguia e negra -surgiu da escada. Dois braos enlaaram-no. Era o Alencar. - ---Nunca vim c nos dias felizes, aqui estou na hora triste! - -E o poeta seguiu pelo corredor, em pontas de ps, como pela nave d'um -templo. - -Carlos no emtanto deu ainda alguns passos pela ante-camara. Ao canto -d'um divan ficra um grande cesto com uma cora de flres, sobre que -pousava uma carta. Reconheceu a letra de Maria. No lhe tocou, recolheu -ao escriptorio. Alencar, diante do caixo, com a mo pousada no hombro -do Ega, murmurava: Foi-se uma alma de heroe! - -As velas iam-se consumindo. Um cansao pesava. Baptista fez servir caf -no bilhar. E ahi, apenas recebeu a sua chavena, Alencar, cercado do -Cruges, do Taveira, do Villaa, rompeu a fallar tambem do passado, dos -tempos brilhantes d'Arroios, dos rapazes ardentes d'ento: - ---Vejam vocs, filhos, se se encontra ainda uma gente como estes Maias, -almas de lees, generosos, valentes!... Tudo parece ir morrendo n'este -desgraado paiz!... Foi-se a faisca, foi-se a paixo... Affonso da Maia! -Parece que o estou a vr, janella do palacio em Bemfica, com a sua -grande gravata de setim, aquella cara nobre de portuguez d'outr'ora... E -l vai! E o meu pobre Pedro tambem... Caramba, at se me faz a alma -negra! - -Os olhos ennevoavam-se-lhe, deu um immenso sorvo ao cognac. - -Ega, depois de beber um gole de caf, voltra ao escriptorio, onde o -cheiro d'incenso espalhava uma melancolia de capella. D. Diogo, estirado -no sof, resonava; Sequeira defronte dormitava tambem, descahido sobre -os braos cruzados, com todo o sangue na face. Ega despertou-os de leve. -Os dois velhos amigos, depois d'um abrao a Carlos, partiram na mesma -carruagem, com os charutos accsos. Os outros, pouco a pouco, iam tambem -abraar Carlos, enfiavam os paletots. O ultimo a sahir foi Alencar, que, -no pateo, beijou o Ega, n'um impulso d'emoo, lamentando ainda o -passado, os companheiros desapparecidos: - ---O que me vale agora so vocs, rapazes, a gente nova. No me deitem -margem! Seno, caramba, quando quizer fazer uma visita tenho d'ir ao -cemiterio. Adeus, no apanhes frio! - -O enterro foi ao outro dia, uma hora. O Ega, o marquez, o Craft, o -Sequeira levaram o caixo at porta, seguidos pelo grupo d'amigos, -onde destacava o conde de Gouvarinho, solemnissimo, de gran-cruz. O -conde de Steinbroken, com o seu secretario, trazia na mo uma cora de -violetas. Na calada estreita os trens apertavam-se, n'uma longa fila -que subia, se perdia pelas outras ruas, pelas travessas: em todas as -janellas do bairro se apinhava gente: os policias berravam com os -cocheiros. Por fim o carro, muito simples, rodou, seguido por duas -carruagens da casa, vazias, com as lanternas recobertas de longos vos -de crepe que pendiam. Atraz, um a um, desfilaram os trens da Companhia -com os convidados, que abotoavam os casacos, corriam os vidros contra a -friagem do dia ennevoado. O Darque e o Vargas iam no mesmo coup. O -correio do Gouvarinho passou choutando na sua pileca branca. E, sobre a -rua deserta, cerrou-se finalmente para um grande luto o porto do -Ramalhete. - -Quando Ega voltou do cemiterio encontrou Carlos no quarto, rasgando -papeis, emquanto o Baptista, atarefado, de joelhos no tapete, fechava -uma mala de couro. E como Ega, pallido e arrepiado de frio, esfregava as -mos, Carlos fechou a gaveta cheia de cartas, lembrou que fossem para o -_fumoir_ onde havia lume. - -Apenas l entraram, Carlos correu o reposteiro, olhou para o Ega: - ---Tens duvida em lhe ir fallar, a ella? - ---No. Para que?... Para lhe dizer o que? - ---Tudo. - -Ega rolou uma poltrona para junto da chamin, despertou as brazas. E -Carlos, ao lado, proseguiu devagar, olhando o lume: - ---Alm d'isso, desejo que ella parta, que parta j para Paris... Seria -absurdo ficar em Lisboa... Emquanto se no liquidar o que lhe pertence, -ha-de-se-lhe estabelecer uma mezada, uma larga mezada... Villaa vem -d'aqui a bocado para fallar d'esses detalhes... Em todo o caso, manh, -para ella partir, levas-lhe quinhentas libras. - -Ega murmurou: - ---Talvez para essas questes de dinheiro fosse melhor ir l o Villaa... - ---No, pelo amor de Deus! Para que se ha de fazer crar a pobre creatura -diante do Villaa?... - -Houve um silencio. Ambos olhavam a chamma clara que bailava. - ---Custa-te muito, no verdade, meu pobre Ega?... - ---No... Comeo a estar embotado. fechar os olhos, tragar mais essa m -hora, e depois descansar. Quando voltas tu de Santa Olavia? - -Carlos no sabia. Contava que Ega, terminada essa misso rua de S. -Francisco, fosse aborrecer-se uns dias com elle a Santa Olavia. Mais -tarde era necessario trasladar para l o corpo do av... - ---E passado isso, vou viajar... Vou America, vou ao Japo, vou fazer -esta coisa estupida e sempre efficaz que se chama _distrahir_... - -Encolheu os hombros, foi devagar at janella, onde morria pallidamente -um raio de sol na tarde que clarera. Depois voltando para o Ega, que de -novo remexia os carves: - ---Eu, est claro, no me atrevo a dizer-te que venhas, Ega... Desejava -bem, mas no me atrevo! - -Ega pousou devagar as tenazes, ergueu-se, abriu os braos para Carlos, -commovido: - ---Atreve, que diabo... Porque no? - ---Ento vem! - -Carlos puzera n'isto toda a sua alma. E ao abraar o Ega corriam-lhe na -face duas grandes lagrimas. - -Ento Ega reflectiu. Antes de ir a Santa Olavia precisava fazer uma -romagem quinta de Celorico. O Oriente era caro. Urgia pois arrancar -mi algumas letras de credito... E como Carlos pretendia ter bastante -para o luxo d'ambos, Ega atalhou muito srio: - ---No, no! Minha mi tambem rica. Uma viagem America e ao Japo so -frmas de educao. E a mam tem o dever de completar a minha educao. -O que acceito, sim, uma das tuas malas de couro... - -Quando n'essa noite, acompanhados pelo Villaa, Carlos e Ega chegaram -estao de Santa Apolonia, o comboio ia partir. Carlos mal teve tempo de -saltar para o seu compartimento reservado--emquanto o Baptista, abraado -s mantas de viagem, empurrado pelo guarda, se iava desesperadamente -para outra carruagem, entre os protestos dos sujeitos que a atulhavam. O -trem immediatamente rolou. Carlos debruou-se portinhola, gritando ao -Ega:--Manda um telegramma manh a dizer o que houve! - -Recolhendo ao Ramalhete com o Villaa, que ia n'essa noite colligir e -sellar os papeis de Affonso da Maia, Ega fallou logo nas quinhentas -libras que elle devia entregar na manh seguinte a Maria Eduarda. -Villaa recebera com effeito essa ordem de Carlos. Mas francamente, -entre amigos, no lhe parecia excessiva a somma, para uma jornada? Alm -d'isso Carlos fallra em estabelecer a essa senhora uma mezada de quatro -mil francos, cento e sessenta libras! No achava tambem exagerado? Para -uma mulher, uma simples mulher... - -Ega lembrou que essa simples mulher tinha direito legal a muito mais... - ---Sim, sim, resmungou o procurador. Mas tudo isso de legalidade tem -ainda de ser muito estudado. No fallemos n'isso. Eu nem gsto de fallar -d'isso!... - -Depois como Ega alludia fortuna que deixava Affonso da Maia--Villaa -deu detalhes. Era decerto uma das boas casas de Portugal. S o que viera -da herana de Sebastio da Maia, representava bem quinze contos de -renda. As propriedades do Alemtejo, com os trabalhos que l fizera o pai -d'elle Villaa, tinham triplicado de valor. Santa Olavia era uma -despeza. Mas as quintas ao p de Lamego, um condado. - ---Ha muito dinheiro! exclamou elle com satisfao, batendo no joelho do -Ega. E isto, amigo, digam l o que disserem, sempre consola de tudo. - ---Consola de muito, com effeito. - -Ao entrar no Ramalhete, Ega sentia uma longa saudade pensando no lar -feliz e amavel que alli houvera e que para sempre se apagra. Na -ante-camara, os seus passos j lhe pareceram soar tristemente como os -que se do n'uma casa abandonada. Ainda errava um vago cheiro de incenso -e de phenol. No lustre do corredor havia uma luz s e dormente. - ---J anda aqui um ar de ruina, Villaa. - ---Ruinasinha bem confortavel, todavia! murmurou o procurador dando um -olhar s tapearias e aos divans, e esfregando as mos, arrepiado da -friagem da noite. - -Entraram no escriptorio de Affonso, onde durante um momento se ficaram -aquecendo ao lume. O relogio Luiz XV bateu finalmente as nove -horas--depois a toada argentina do seu minuete vibrou um instante e -morreu. Villaa preparou-se para comear a sua tarefa. Ega declarou que -ia para o quarto arranjar tambem a sua papelada, fazer a limpeza final -de dois annos de mocidade... - -Subiu. E pousra apenas a luz sobre a commoda, quando sentiu ao fundo, -no silencio do corredor, um gemido longo, desolado, d'uma tristeza -infinita. Um terror arrepiou-lhe os cabellos. Aquillo arrastava-se, -gemia no escuro, para o lado dos aposentos d'Affonso da Maia. Por fim, -reflectindo que toda a casa estava acordada, cheia de criados e de -luzes, Ega ousou dar alguns passos no corredor, com o castial na mo -tremula. - -Era o gato! Era o reverendo Bonifacio, que, diante do quarto d'Affonso, -arranhando a porta fechada, miava doloridamente. Ega escorraou-o, -furioso. O pobre Bonifacio fugiu, obeso e lento, com a cauda ffa a -roar o cho: mas voltou logo, e esgatanhando a porta, roando-se pelas -pernas do Ega, recomeou a miar, n'um lamento agudo, saudoso como o -d'uma dr humana, chorando o dono perdido que o acariciava no collo e -que no tornra a apparecer. - -Ega correu ao escriptorio a pedir ao Villaa que dormisse essa noite no -Ramalhete. O procurador accedeu, impressionado com aquelle horror do -gato a chorar. Deixra o monto de papeis sobre a mesa, voltra a -aquecer os ps ao lume dormente. E voltando-se para o Ega, que se -sentra, ainda todo pallido, no sof bordado a matiz, antigo logar de D. -Diogo, murmurou devagar, gravemente: - ---Ha tres annos, quando o snr. Affonso me encommendou aqui as primeiras -obras, lembrei-lhe eu que, segundo uma antiga lenda, eram sempre fataes -aos Maias as paredes do Ramalhete. O snr. Affonso da Maia riu d'agouros -e lendas... Pois fataes foram! - - - -No dia seguinte, levando os papeis da Monforte e o dinheiro em letras e -libras que Villaa lhe entregra porta do Banco de Portugal, Ega, com -o corao aos pulos, mas decidido a ser forte, a affrontar a crise -serenamente, subia ao primeiro andar da rua de S. Francisco. O Domingos, -de gravata preta, movendo-se em pontas de ps, abriu o reposteiro da -sala. E Ega pousra apenas sobre o sof a velha caixa de charutos da -Monforte--quando Maria Eduarda entrou, pallida, toda coberta de negro, -estendendo-lhe as mos ambas. - ---Ento Carlos? - -Ega balbuciou: - ---Como v. exc.^a pde imaginar, n'um momento d'estes... Foi horrivel, -assim de surpreza... - -Uma lagrima tremeu nos olhos pisados de Maria. Ella no conhecia o snr. -Affonso da Maia, nem sequer o vira nunca. Mas soffria realmente por -sentir bem o soffrimento de Carlos... O que aquelle rapaz estremecia o -av! - ---Foi de repente, no? - -Ega retardou-se em longos detalhes. Agradeceu a cora que ella mandra. -Contou os gemidos, a afflico do pobre Bonifacio... - ---E Carlos? repetiu ella. - ---Carlos foi para Santa Olavia, minha senhora. - -Ella apertou as mos, n'uma surpreza que a acabrunhava. Para Santa -Olavia! E sem um bilhete, sem uma palavra?... Um terror empallidecia-a -mais, diante d'aquella partida to arrebatada, quasi parecida com um -abandono. Terminou por murmurar, com um ar de resignao e de confiana -que no sentia: - ---Sim, com effeito, n'este momento no se pensa nos outros... - -Duas lagrimas corriam-lhe devagar pela face. E diante d'esta dr, to -humilde e to muda, Ega ficou desconcertado. Durante um instante, com os -dedos tremulos no bigode, viu Maria chorar em silencio. Por fim -ergueu-se, foi janella, voltou, abriu os braos diante d'ella n'uma -afflico: - ---No, no isso, minha querida senhora! Ha outra coisa, ha ainda outra -coisa! Tem sido para ns dias terriveis! Tem sido dias d'angustia... - -Outra coisa!?... Ella esperava, com os olhos largos sobre o Ega, a alma -toda suspensa. - -Ega respirou fortemente: - ---V. exc.^a lembra-se d'um Guimares, que vive em Paris, um tio do -Damaso? - -Maria, espantada, moveu lentamente a cabea. - ---Esse Guimares era muito conhecido da mi de v. exc.^a, no verdade? - -Ella teve o mesmo movimento breve e mudo. Mas o pobre Ega hesitava -ainda, com a face arrepanhada e branca, n'um embarao que o dilacerava: - ---Eu fallo em tudo isto, minha senhora, porque Carlos assim me pediu... -Deus sabe o que me custa!... E horrivel, nem sei por onde hei de -comear... - -Ella juntou as mos, n'uma supplica, n'uma angustia: - ---Pelo amor de Deus! - -E n'esse instante, muito socegadamente, Rosa erguia uma ponta do -reposteiro, com _Niniche_ ao lado e a sua boneca nos braos. A mi teve -um grito impaciente: - ---Vai l p'ra dentro! deixa-me! - -Assustada, a pequena no se moveu mais, com os lindos olhos de repente -cheios de agua. O reposteiro cahiu, do fundo do corredor veio um grande -chro magoado. - -Ento Ega teve s um desejo, o desesperado desejo de findar. - ---V. exc.^a conhece a letra de sua mi, no verdade?... Pois bem! Eu -trago aqui uma declarao d'ella a seu respeito... Esse Guimares que -tinha este documento, com outros papeis que ella lhe entregou em 71, nas -vesperas da guerra... Elle conservou-os at agora, e queria -restituir-lh'os, mas no sabia onde v. exc.^a vivia. Viu-a ha dias n'uma -carruagem, commigo, e com o Carlos... Foi ao p do Aterro, v. exc.^a -deve lembrar-se, defronte do alfaiate, quando vinhamos da _Toca_... Pois -bem! o Guimares veio immediatamente ao procurador dos Maias, deu-lhe -esses papeis, para que os entregasse a v. exc.^a... E nas primeiras -palavras que disse, imagine o assombro de todos, quando se entreviu que -v. exc.^a era parenta de Carlos, e parenta muito chegada... - -Atabalhora esta historia de p, quasi d'um flego, com bruscos gestos -de nervoso. Ella mal comprehendia, livida, n'um indefinido terror. S -pde murmurar muito debilmente: Mas... E de novo emmudeceu, -assombrada, devorando os movimentos do Ega que, debruado sobre o sof, -desembrulhava a tremer a caixa de charutos da Monforte. Por fim voltou -para ella com um papel na mo, atropellando as palavras n'uma debandada: - ---A mi de v. exc.^a nunca lh'o disse... Havia um motivo muito grave... -Ella tinha fugido de Lisboa, fugido ao marido... Digo isto assim -brutalmente, perde-me v. exc.^a, mas no o momento de attenuar as -coisas... Aqui est! V. exc.^a conhece a letra de sua mi. d'ella esta -letra, no verdade? - ---! exclamou Maria, indo arrebatar o papel. - ---Perdo! gritou Ega, retirando-lh'o violentamente. Eu sou um estranho! -E v. exc.^a no se pde inteirar de tudo isto emquanto eu no sahir -d'aqui. - -Fra uma inspirao providencial, que o salvava de testemunhar o choque -terrivel, o horror das coisas que ella ia saber. E insistiu. Deixava-lhe -alli todos os papeis que eram de sua mi. Ella lera, quando elle -sahisse, comprehenderia a realidade atroz... Depois, tirando do bolso os -dois pesados rlos de libras, o sobrescripto que continha a letra sobre -Paris, pz tudo em cima da mesa, com a declarao da Monforte. - ---Agora s mais duas palavras. Carlos pensa que o que v. exc.^a deve -fazer j partir para Paris. V. exc.^a tem direito, como sua filha ha -de ter, a uma parte da fortuna d'esta familia dos Maias, que agora a -sua... N'este masso que lhe deixo est uma letra sobre Paris para as -despezas immediatas... O procurador de Carlos tomou j um wagon-salo. -Quando v. exc.^a decidir partir, peo-lhe que mande um recado ao -Ramalhete para eu estar na _gare_... Creio que tudo. E agora devo -deixal-a... - -Agarrra rapidamente o chapo, veio tomar-lhe a mo inerte e fria: - ---Tudo uma fatalidade! V. exc.^a nova, ainda lhe resta muita coisa -na vida, tem a sua filha a consolal-a de tudo... Nem lhe sei dizer mais -nada! - -Suffocado, beijou-lhe a mo que ella lhe abandonou, sem consciencia e -sem voz, de p, direita no seu negro luto, com a lividez parada d'um -marmore. E fugiu. - ---Ao telegrapho! gritou em baixo ao cocheiro. - -Foi s na rua do Ouro que comeou a serenar, tirando o chapo, -respirando largamente. E ia ento repetindo a si mesmo todas as -consolaes que se poderiam dar a Maria Eduarda: era nova e formosa; o -seu peccado fra inconsciente; o tempo acalma toda a dr; e em breve, j -resignada, encontrar-se-hia com uma familia sria, uma larga fortuna, -n'esse amavel Paris, onde uns lindos olhos, com algumas notas de mil -francos, tm sempre um reinado seguro... - --- uma situao de viuva bonita e rica, terminou elle por dizer alto no -coup. Ha peor na vida. - -Ao sahir do telegrapho despediu a tipoia. Por aquella luz consoladora do -dia de inverno, recolheu a p para o Ramalhete, a escrever a longa carta -que promettera a Carlos. Villaa j l estava installado, com um bon de -velludilho na cabea, emmassando ainda os papeis de Affonso, liquidando -as contas dos criados. Jantaram tarde. E fumavam junto do lume, na sala -Luiz XV, quando o escudeiro veio dizer que uma senhora, em baixo, n'uma -carruagem, procurava o snr. Ega. Foi um terror. Imaginaram logo Maria, -alguma resoluo desesperada. Villaa ainda teve a esperana d'ella -trazer alguma nova revelao, que tudo mudasse, salvasse da bolada... -Ega desceu a tremer. Era Melanie n'uma tipoia de praa, abafada n'uma -grande _ulster_, com uma carta de Madame. - - luz da lanterna Ega abriu o enveloppe, que trazia apenas um carto -branco, com estas palavras a lapis: Decidi partir manh para Paris. - -Ega recalcou a curiosidade de saber como estava a senhora. Galgou logo -as escadas: e seguido de Villaa, que ficra na ante-camara espreita, -correu ao escriptorio d'Affonso, a escrever a Maria. N'um papel tarjado -de luto dizia-lhe (alm de detalhes sobre bagagens)--que o wagon-salo -estava tomado at Paris, e que elle teria a honra de a vr em Santa -Apolonia. Depois, ao fazer o sobrescripto, ficou com a penna no ar, n'um -embarao. Devia pr Madame Mac-Gren ou D. Maria Eduarda da Maia? -Villaa achava preferivel o antigo nome, porque ella legalmente ainda -no era Maia. Mas, dizia o Ega atrapalhado, tambem j no era -Mac-Gren... - ---Acabou-se! Vae sem nome. Imagina-se que foi esquecimento... - -Levou assim a carta, dentro do sobrescripto em branco. Melanie guardou-a -no regalo. E, debruada portinhola, entristecendo a voz, desejou -saber, da parte de Madame, onde estava enterrado o av do senhor... - -Ega ficou com o monoculo sobre ella, sem sentir bem se aquella -curiosidade de Maria era indiscreta ou tocante. Por fim deu uma -indicao. Era nos Prazeres, direita, ao fundo, onde havia um anjo com -uma tocha. O melhor seria perguntar ao guarda pelo jazigo dos snrs. -Villaas. - ---Merci, monsieur, bien le bonsoir. - ---Bonsoir, Melanie! - -No dia seguinte, na estao de Santa Apolonia, Ega, que viera cedo com o -Villaa, acabava de despachar a sua bagagem para o Douro, quando avistou -Maria que entrava trazendo Rosa pela mo. Vinha toda envolta n'uma -grande pellia escura, com um vo dobrado, espesso como uma mascara: e a -mesma gaze de luto escondia o rostosinho da pequena, fazendo-lhe um lao -sobre a touca. Miss Sarah, n'uma _ulster_ clara de quadrados, sobraava -um masso de livros. Atraz o Domingos, com os olhos muito vermelhos, -segurava um rlo de mantas, ao lado de Melanie carregada de preto que -levava _Niniche_ ao collo. Ega correu para Maria Eduarda, conduziu-a -pelo brao, em silencio, ao wagon-salo que tinha todas as cortinas -cerradas. Junto do estribo ella tirou devagar a luva. E muda, -estendeu-lhe a mo. - ---Ainda nos vemos no Entroncamento, murmurou Ega. Eu sigo tambem para o -Norte. - -Alguns sujeitos pararam, com curiosidade, ao vr sumir-se n'aquella -carruagem de luxo, fechada, mysteriosa, uma senhora que parecia to -bella, d'ar to triste, coberta de negro. E apenas Ega fechou a -portinhola, o Neves, o da _Tarde_ e do Tribunal de Contas, rompeu -d'entre um rancho, arrebatou-lhe o brao com sofreguido: - ---Quem ? - -Ega arrastou-o pela plataforma, para lhe deixar cahir no ouvido, j -muito adiante, tragicamente: - ---Cleopatra! - -O politico, furioso, ficou rosnando: Que asno!... Ega abalra. Junto -do seu compartimento Villaa esperava, ainda deslumbrado com aquella -figura de Maria Eduarda, to melancolica e nobre. Nunca a vira antes. E -parecia-lhe uma rainha de romance. - ---Acredite o amigo, fez-me impresso! Caramba, bella mulher! D-nos uma -bolada, mas uma soberba praa! - -O comboio partiu. O Domingos ficava choramingando com um leno de cres -sobre a face. E o Neves, o conselheiro do Tribunal de Contas, ainda -furioso, vendo o Ega portinhola, atirou-lhe de lado, disfaradamente, -um gesto obsceno. - -No Entroncamento Ega veio bater nos vidros do salo que se conservava -fechado e mudo. Foi Maria que abriu. Rosa dormia. Miss Sarah lia a um -canto, com a cabea n'uma almofada. E _Niniche_ assustada ladrou. - ---Quer tomar alguma coisa, minha senhora? - ---No, obrigada... - -Ficaram calados, emquanto Ega com o p no estribo tirava lentamente a -charuteira. Na estao mal alumiada passavam saloios, devagar, abafados -em mantas. Um guarda rolava uma carreta de fardos. Adiante a machina -resfolegava na sombra. E dois sujeitos rondavam em frente do salo, com -olhares curiosos e j languidos para aquella magnifica mulher, to grave -e sombria, envolta na sua pellia negra. - ---Vai para o Porto? murmurou ella. - ---Para Santa Olavia... - ---Ah! - -Ento Ega balbuciou com os beios a tremer: - ---Adeus! - -Ella apertou-lhe a mo com muita fora, em silencio, suffocada. - -Ega atravessou, devagar, por entre soldados de capote enrolado a -tiracollo que corriam a beber cantina. porta do buffete voltou-se -ainda, ergueu o chapo. Ella, de p, moveu de leve o brao n'um lento -adeus. E foi assim que elle pela derradeira vez na vida viu Maria -Eduarda, grande, muda, toda negra na claridade, portinhola d'aquelle -wagon que para sempre a levava. - - - - -VIII - - -Semanas depois, nos primeiros dias d'anno novo, a _Gazeta Illustrada_ -trazia na sua columna do _High-life_ esta noticia: O distincto e -brilhante _sportman_, o snr. Carlos da Maia, e o nosso amigo e -collaborador Joo da Ega, partiram hontem para Londres, d'onde seguiro -em breve para a America do Norte, devendo d'ahi prolongar a sua -interessante viagem at ao Japo. Numerosos amigos foram a bordo do -_Tamar_ despedir-se dos sympathicos _touristes_. Vimos entre outros os -snrs, ministro da Filandia e seu secretario, o marquez de Souzella, -conde de Gouvarinho, visconde de Darque, Guilherme Craft, Telles da -Gama, Cruges, Taveira, Villaa, general Sequeira, o glorioso poeta -Thomaz d'Alencar, etc. etc. O nosso amigo e collaborador Joo da Ega -fez-nos, no ultimo _shake-hands_, a promessa de nos mandar algumas -cartas com as suas impresses do Japo, esse delicioso paiz d'onde nos -vem o sol e a moda! uma boa nova para todos os que prezam a observao -e o espirito. _Au revoir!_ - -Depois d'estas linhas affectuosas (em que o Alencar collaborra) as -primeiras noticias dos viajantes vieram, n'uma carta do Ega para o -Villaa, de New-York. Era curta, toda de negocios. Mas elle ajuntava um -_post-scriptum_ com o titulo de _Informaes geraes para os amigos_. -Contava ahi a medonha travessia desde Liverpool, a persistente tristeza -de Carlos, e New-York coberta de neve sob um sol rutilante. E -acrescentava ainda: Est-se apossando de ns a embriaguez das viagens, -decididos a trilhar este estreito Universo at que _cancem as nossas -tristezas_. Planeamos ir a Pekin, passar a Grande Muralha, atravessar a -Asia Central, o oasis de Merv, Khiva, e penetrar na Russia; d'ahi, pela -Armenia e pela Syria, descer ao Egypto a retemperar-nos no sagrado Nilo; -subir depois a Athenas, lanar sobre a Acropole uma saudao a Minerva; -passar a Napoles; dar um olhar a Argelia e a Marrocos; e cahir emfim ao -comprido em Santa Olavia l para os meados de 79 a descanar os membros -fatigados. No escrevinho mais porque tarde, e vamos Opera vr a -Patti no _Barbeiro_. Larga distribuio d'abraos a todos os amigos -queridos - -Villaa copiou este paragrapho, e trazia-o na carteira para mostrar aos -fieis amigos do Ramalhete. Todos approvaram, com admirao, to bellas, -aventurosas jornadas. S Cruges, aterrado com aquella vastido do -Universo, murmurou tristemente: No voltam c! - -Mas, passado anno e meio, n'um lindo dia de maro, Ega reappareceu no -Chiado. E foi uma sensao! Vinha esplendido, mais forte, mais -trigueiro, soberbo de _verve_, n'um alto apuro de toilette, cheio de -historias e de aventuras do Oriente, no tolerando nada em arte ou -poesia que no fosse do Japo ou da China, e annunciando um grande -livro, o seu livro, sob este titulo grave de chronica -heroica--_Jornadas da Asia_. - ---E Carlos?... - ---Magnifico! Installado em Paris, n'um delicioso appartamento dos -Campos-Elyseos, fazendo a vida larga d'um principe artista da -Renascena... - -Ao Villaa porm, que sabia os segredos, Ega confessou que Carlos ficra -ainda _abalado_. Vivia, ria, governava o seu phaeton no Bois--mas l no -fundo do seu corao permanecia, pesada e negra, a memoria da semana -terrivel. - ---Todavia os annos vo passando, Villaa, acrescentou elle. E com os -annos, a no ser a China, tudo na terra passa... - -E esse anno passou. Gente nasceu, gente morreu. Searas amadureceram, -arvoredos murcharam. Outros annos passaram. - - - -Nos fins de 1886, Carlos veio fazer o Natal perto de Sevilha, a casa -d'um amigo seu de Paris, o marquez de Villa-Medina. E d'essa propriedade -dos Villa-Medina, chamada _La Soledad_, escreveu para Lisboa ao Ega -annunciando que--depois d'um exilio de quasi dez annos, resolvera vir ao -velho Portugal vr as arvores de Santa Olavia e as maravilhas da -Avenida. De resto tinha uma formidavel nova, que assombraria o bom Ega: -e se elle j ardia em curiosidade, que viesse ao seu encontro com o -Villaa, comer o porco a Santa Olavia. - ---Vae casar! pensou Ega. - -Havia tres annos (desde a sua ultima estada em Paris) que elle no via -Carlos. Infelizmente no pde correr a Santa Olavia, retido n'um quarto -do _Braganza_ com uma angina, desde uma ceia prodigiosamente divertida -com que celebrra no Silva a noite de Reis. Villaa, porm, levou a -Carlos para Santa Olavia uma carta em que o Ega, contando a sua angina, -lhe supplicava que se no retardasse com o porco n'esses penhascos do -Douro, e que voasse grande Capital a trazer a grande nova. - -Com effeito, Carlos pouco se demorou em Rezende. E n'uma luminosa e -macia manh de janeiro de 1887, os dois amigos emfim juntos almoavam -n'um salo do _Hotel Braganza_, com as duas janellas abertas para o rio. - -Ega, j curado, radiante, n'uma excitao que no se calmava, -alagando-se de caf, entalava a cada instante o monoculo para admirar -Carlos e a sua immutabilidade. - ---Nem uma branca, nem uma ruga, nem uma sombra de fadiga!... Tudo isso -Paris, menino!... Lisboa arraza. Olha para mim, olha para isto! - -Com o dedo magro apontava os dois vincos fundos ao lado do nariz, na -face chupada. E o que o aterrava sobretudo era a calva, uma calva que -comera havia dois annos, alastrra, j reluzia no alto. - ---Olha este horror! A sciencia para tudo acha um remedio, menos para a -calva! Transformam-se as civilisaes, a calva fica!... J tem tons de -bola de bilhar, no verdade?... De que ser? - --- a ociosidade, lembrou Carlos rindo. - ---A ociosidade!... E tu, ento? - -De resto, que podia elle fazer n'este paiz?... Quando voltra de Frana, -ultimamente, pensra em entrar na diplomacia. Para isso sempre tivera a -_blague_: e agora que a mam, coitada, l estava no seu grande jazigo em -Celorico, tinha a _massa_. Mas depois reflectira. Por fim, em que -consistia a diplomacia portugueza? N'uma outra frma da ociosidade, -passada no estrangeiro, com o sentimento constante da propria -insignificancia. Antes o Chiado! - -E como Carlos lembrava a Politica, occupao dos inuteis, Ega trovejou. -A politica! Isso tornra-se moralmente e physicamente nojento, desde que -o negocio atacra o constitucionalismo como uma phylloxera! Os politicos -hoje eram bonecos de engonos, que faziam gestos e tomavam attitudes -porque dois ou tres financeiros por traz lhes puxavam pelos cordeis... -Ainda assim podiam ser bonecos bem recortados, bem envernizados. Mas -qual! Ahi que estava o horror. No tinham feitio, no tinham maneiras, -no se lavavam, no limpavam as unhas... Coisa extraordinaria, que em -paiz algum succedia, nem na Romelia, nem na Bulgaria! Os tres ou quatro -sales que em Lisboa recebem todo o mundo, seja quem fr, largamente, -excluem a maioria dos politicos. E porque? Porque as _senhoras tm -njo_! - ---Olha o Gouvarinho! V l se elle recebe s teras-feiras os seus -correligionarios... - -Carlos que sorria, encantado com aquella veia acerba do Ega, saltou na -cadeira: - --- verdade, e a Gouvarinho, a nossa boa Gouvarinho? - -Ega, passeando pela sala, deu as novas dos Gouvarinhos. A condessa -herdra uns sessenta contos de uma tia excentrica que vivia a Santa -Isabel, tinha agora melhores carruagens, recebia sempre s -teras-feiras. Mas soffria uma doena qualquer, grave, no figado ou no -pulmo. Ainda elegante todavia, muito sria, uma terrivel flr de -_pruderie_... Elle, o Gouvarinho, ahi continuava, palrador, -escrevinhador, politicote, impertigadote, j grisalho, duas vezes -ministro, e coberto de gran-cruzes... - ---Tu no os viste em Paris, ultimamente? - ---No. Quando soube fui-lhes deixar bilhetes, mas tinham partido na -vespera para Vichy... - -A porta abriu-se, um brado cavo resoou: - ---At que emfim, meu rapaz! - ---Oh Alencar! gritou Carlos, atirando o charuto. - -E foi um infinito abrao, com palmadas arrebatadas pelos hombros, e um -beijo ruidoso--o beijo paternal do Alencar, que tremia, commovido. Ega -arrastra uma cadeira, berrava pelo escudeiro: - ---Que tomas tu, Thomaz? Cognac? Curao? Em todo o caso caf! Mais caf! -Muito forte, para o snr. Alencar! - -O poeta, no emtanto, abysmado na contemplao de Carlos, agarrra-o -pelas mos, com um sorriso largo, que lhe descobria os dentes mais -estragados. Achava-o magnifico, varo soberbo, honra da raa... Ah! -Paris, com o seu espirito, a sua vida ardente, conserva... - ---E Lisboa arraza! acudiu Ega. J c tive essa phrase. V, abanca, ahi -tens o cafsinho e a bebida! - -Mas Carlos agora tambem contemplava o Alencar. E parecia-lhe mais -bonito, mais poetico, com a sua grenha inspirada e toda branca, e -aquellas rugas fundas na face morena, cavadas como sulcos de carros pela -tumultuosa passagem das emoes... - ---Ests typico, Alencar! Ests a preceito para a gravura e para a -estatua!... - -O poeta sorria, passando os dedos com complacencia pelos longos bigodes -romanticos, que a idade embranquecera e o cigarro amarellra. Que diabo, -algumas compensaes havia de ter a velhice!... Em todo o caso o -estomago no era mau, e conservava-se, caramba, filhos, um bocado de -corao. - ---O que no impede, meu Carlos, que isto por c esteja cada vez peor! -Mas acabou-se... A gente queixa-se sempre do seu paiz, habito humano. -J Horacio se queixava. E vocs, intelligencias superiores, sabeis bem, -filhos, que no tempo de Augusto... Sem fallar, claro, na quda da -republica, n'aquelle desabamento das velhas instituies... Emfim -deixemos l os Romanos! Que est alli n'aquella garrafa? Chablis... No -desgosto, no outono, com as ostras. Pois v l o Chablis. E tua -chegada, meu Carlos! e tua, meu Joo, e que Deus vos d as glorias que -mereceis, meus rapazes!... - -Bebeu. Rosnou: bom Chablis, _bouquet_ fino. E acabou por abancar, -ruidosamente, sacudindo para traz a juba branca. - ---Este Thomaz! exclamava Ega, pousando-lhe a mo no hombro com carinho. -No ha outro, unico! O bom Deus fel-o n'um dia de grande _verve_, e -depois quebrou a frma. - -Ora, historias! murmurava o poeta radiante. Havia-os to bons como elle. -A humanidade viera toda do mesmo barro como pretendia a Biblia--ou do -mesmo macaco como affirmava o Darwin... - ---Que, l essas coisas d'evoluo, origem das especies, desenvolvimento -da cellula, c para mim... Est claro, o Darwin, o Lamarck, o Spencer, o -Claudio Bernard, o Littr, tudo isso, gente de primeira ordem. Mas -acabou-se, irra! Ha uns poucos de mil annos que o homem prova -sublimemente que tem alma! - ---Toma o cafsinho, Thomaz! aconselhou o Ega, empurrando-lhe a chavena. -Toma o cafsinho! - ---Obrigado!... E verdade, Joo, l dei a tua boneca pequena. Comeou -logo a beijal-a, a embalal-a, com aquelle profundo instincto de mi, -aquelle _quid_ divino... uma sobrinhita minha, meu Carlos. Ficou sem -mi, coitadinha, l a tenho, l vou tratando de fazer d'ella uma -mulher... Has de vl-a. Quero que vocs l vo jantar um dia, para vos -dar umas perdizes hespanhola... Tu demoras-te, Carlos? - ---Sim, uma ou duas semanas, para tomar um bom sorvo de ar da patria. - ---Tens razo, meu rapaz! exclamou o poeta, puxando a garrafa do cognac. -Isto ainda no to mau como se diz... Olha tu para isso, para esse -co, para esse rio, homem! - ---Com effeito encantador! - -Todos tres, durante um momento, pasmaram para a incomparavel belleza do -rio, vasto, lustroso, sereno, to azul como o co, esplendidamente -coberto de sol. - ---E versos? exclamou de repente Carlos, voltando-se para o poeta. -Abandonaste a lingua divina? - -Alencar fez um gesto de desalento. Quem entendia j a lingua divina? O -novo Portugal s comprehendia a lingua da libra, da massa. Agora, -filho, tudo eram syndicatos! - ---Mas ainda s vezes me passa uma coisa c por dentro, o velho homem -estremece... Tu no viste nos jornaes?... Est claro, no ls c esses -trapos que por ahi chamam gazetas... Pois veio ahi uma coisita, dedicada -aqui ao Joo. Ora eu t'a digo se me lembrar... - -Correu a mo aberta pela face escaveirada, lanou a estrophe n'um tom de -lamento: - - - Luz d'esperana, luz d'amor, - Que vento vos desfolhou? - Que a alma que vos seguia - Nunca mais vos encontrou! - - -Carlos murmurou: Lindo! Ega murmurou: Muito fino! E o poeta, -aquecendo, j commovido, esboou um movimento d'aza que foge: - - - Minh'alma em tempos d'outr'ora, - Quando nascia o luar, - Como um rouxinol que acorda - Punha-se logo a cantar. - - Pensamentos eram flres, - Que a aragem lenta de Maio... - - ---O snr. Cruges! annunciou o criado, entreabrindo a porta. - -Carlos ergueu os braos. E o maestro, todo abotoado n'um paletot claro, -abandonou-se effuso de Carlos, balbuciando: - ---Eu s hontem que soube. Queria-te ir esperar, mas no me -acordaram... - ---Ento contina o mesmo desleixo? exclamava Carlos, alegremente. Nunca -te acordam? - -Cruges encolhia os hombros, muito vermelho, acanhado, depois d'aquella -longa separao. E foi Carlos que o obrigou a sentar-se ao lado, -enternecido com o seu velho maestro, sempre esguio, com o nariz mais -agudo, a grenha cahindo mais crespa sobre a gola do paletot. - ---E deixa-me dar-te os parabens! L soube pelos jornaes, o triumpho, a -linda opera-comica, a _Flr de Sevilha_... - ---_De Granada_! acudiu o maestro. Sim, uma coisita para ahi, no -desgostaram. - ---Uma belleza! gritou Alencar, enchendo outro copo de cognac. Uma musica -toda do sul, cheia de luz, cheirando a laranjeira... Mas j lhe tenho -dito: Deixa l a opereta, rapaz, va mais alto, faze uma grande -symphonia historica! Ainda ha dias lhe dei uma ida. A partida de D. -Sebastio para a Africa. Cantos de marinheiros, atabales, o chro do -povo, as ondas batendo... Sublime! Qual, pe-se-me l com castanholas... -Emfim, acabou-se, tem muito talento, e como se fosse meu filho porque -me sujou muita cala!... - -Mas o maestro, inquieto, passava os dedos pela grenha. Por fim confessou -a Carlos que no se podia demorar, tinha um _rendez-vous_... - ---D'amor? - ---No... o Barradas que me anda a tirar o retrato a oleo. - ---Com a lyra na mo? - ---No, respondeu o maestro, muito srio. Com a batuta... E estou de -casaca. - -E desabotoou o paletot, mostrou-se em todo o seu esplendor, com dois -coraes no peitilho da camisa, e a batuta de marfim mettida na abertura -do collete. - ---Ests magnifico! affirmou Carlos. Ento outra coisa, vem c jantar -logo. Alencar, tu tambem, hein? Quero ouvir esses bellos versos com -socego... s seis, em ponto, sem falhar. Tenho um jantarinho -portugueza que encommendei de manh, com cozido, arroz de forno, gro de -bico, etc., para matar saudades... - -Alencar lanou um gesto immenso de desdem. Nunca o cozinheiro do -_Braganza_, francelhote miseravel, estaria altura d'esses nobres -petiscos do velho Portugal. Emfim acabou-se. Seria pontual s seis para -uma grande saude ao seu Carlos! - ---Vocs vo sahir, rapazes? - -Carlos e Ega iam ao Ramalhete visitar o casaro. - -O poeta declarou logo que isso era romagem sagrada. Ento elle partia -com o maestro. O seu caminho ficava tambem para o lado do Barradas... -Moo de talento, esse Barradas!... Um pouco pardo de cr, tudo por -acabar, esborratado, mas uma bella ponta de faisca. - ---E teve uma tia, filhos, a Leonor Barradas! Que olhos, que corpo! E no -era s o corpo! Era a alma, a poesia, o sacrificio!... J no ha d'isso, -j l vai tudo. Emfim, acabou-se, s seis! - ---s seis, em ponto, sem falhar! - -Alencar e o maestro partiram, depois de se munirem de charutos. E d'ahi -a pouco Carlos e Ega seguiam tambem pela rua do Thesouro Velho, de brao -dado, muito lentamente. - -Iam conversando de Paris, de rapazes e de mulheres que o Ega conhecra, -havia quatro annos, quando l passra um to alegre inverno nos -appartamentos de Carlos. E a surpreza do Ega, a cada nome evocado, era o -curto brilho, o fim brusco de toda essa mocidade estouvada. A Lucy Gray, -morta. A Conrad, morta... E a Maria Blond? Gorda, emburguezada, casada -com um fabricante de velas de estearina. O polaco, o louro? Fugido, -desapparecido. Mr. de Menant, esse D. Juan? Sub-prefeito no departamento -do Doubs. E o rapaz que morava ao lado, o belga? Arruinado na Bolsa... E -outros ainda, mortos, sumidos, afundados no lodo de Paris! - ---Pois tudo sommado, menino, observou Ega, esta nossa vidinha de Lisboa, -simples, pacata, corredia, infinitamente preferivel. - -Estavam no Loreto; e Carlos parra, olhando, reentrando na intimidade -d'aquelle velho corao da capital. Nada mudra. A mesma sentinella -somnolenta rondava em torno estatua triste de Cames. Os mesmos -reposteiros vermelhos, com brazes ecclesiasticos, pendiam nas portas -das duas igrejas. O _Hotel Alliance_ conservava o mesmo ar mudo e -deserto. Um lindo sol dourava o lagedo; batedores de chapo faia -fustigavam as pilecas; tres varinas, de canastra cabea, meneavam os -quadris, fortes e ageis na plena luz. A uma esquina, vadios em farrapos -fumavam; e na esquina defronte na Havaneza, fumavam tambem outros -vadios, de sobrecasaca, politicando. - ---Isto horrivel quando se vem de fra! exclamou Carlos. No a -cidade, a gente. Uma gente feiissima, encardida, mollenga, reles, -amarellada, acabrunhada!... - ---Todavia Lisboa faz differena, affirmou Ega, muito srio. Oh, faz -muita differena! Has de vr a Avenida... Antes do Ramalhete vamos dar -uma volta Avenida. - -Foram descendo o Chiado. Do outro lado os toldos das lojas estendiam no -cho uma sombra forte e dentada. E Carlos reconhecia, encostados s -mesmas portas, sujeitos que l deixra havia dez annos, j assim -encostados, j assim melancolicos. Tinham rugas, tinham brancas. Mas l -estacionavam ainda, apagados e murchos, rente das mesmas humbreiras, com -collarinhos moda. Depois, diante da livraria Bertrand, Ega, rindo, -tocou no brao de Carlos: - ---Olha quem alli est, porta do Baltresqui! - -Era o Damaso. O Damaso, barrigudo, nedio, mais pesado, de flr ao peito, -mamando um grande charuto, e pasmaceando, com o ar regaladamente -embrutecido d'um ruminante farto e feliz. Ao avistar tambem os seus dois -velhos amigos que desciam, teve um movimento para se esquivar, -refugiar-se na confeitaria. Mas, insensivelmente, irresistivelmente, -achou-se em frente de Carlos, com a mo aberta e um sorriso na bochecha, -que se lhe esbrazera. - ---Ol, por c!... Que grande surpreza! - -Carlos abandonou-lhe dois dedos, sorrindo tambem, indifferente e -esquecido. - --- verdade, Damaso... Como vai isso? - ---Por aqui, n'esta semsaboria... E ento com demora? - ---Umas semanas. - ---Ests no Ramalhete? - ---No _Braganza_. Mas no te incommodes, eu ando sempre por fra. - ---Pois sim senhor!... Eu tambem estive em Paris, ha tres mezes, no -_Continental_... - ---Ah!... Bem, estimei vr-te, at sempre! - ---Adeus, rapazes. Tu ests bom, Carlos, ests com boa cara! - --- dos teus olhos, Damaso. - -E nos olhos do Damaso, com effeito, parecia reviver a antiga admirao, -arregalados, acompanhando Carlos, estudando-lhe por traz a sobrecasaca, -o chapo, o andar, como no tempo em que o Maia era para elle o typo -supremo do seu querido _chic_, uma d'essas coisas que s se vem l -fra... - ---Sabes que o nosso Damaso casou? disse o Ega um pouco adiante, travando -outra vez do brao de Carlos. - -E foi um espanto para Carlos. O qu! O nosso Damaso! Casado!?... Sim, -casado com uma filha dos condes d'Agueda, uma gente arruinada, com um -rancho de raparigas. Tinham-lhe impingido a mais nova. E o optimo -Damaso, verdadeira sorte grande para aquella distincta familia, pagava -agora os vestidos, das mais velhas. - --- bonita? - ---Sim, bonitinha... Faz ahi a felicidade d'um rapazote sympathico, -chamado Barroso. - ---O qu, o Damaso, coitado!... - ---Sim, coitado, coitadinho, coitadissimo... Mas como vs, immensamente -ditoso, at tem engordado com a perfidia! - -Carlos parra. Olhava, pasmado para as varandas extraordinarias d'um -primeiro andar, recobertas, como em dia de procisso, de sanefas de pano -vermelho onde se entrelaavam monogrammas. E ia indagar--quando, d'entre -um grupo que estacionava ao portal d'esse predio festivo, um rapaz d'ar -estouvado, com a face imberbe cheia d'espinhas carnaes, atravessou -rapidamente a rua para gritar ao Ega, suffocado de riso: - ---Se voc for depressa ainda a encontra ahi abaixo! Corra! - ---Quem? - ---A Adosinda!... De vestido azul, com plumas brancas no chapo... V -depressa... O Joo Elyseu metteu-lhe a bengala entre as pernas, ia-a -fazendo estatelar no cho, foi uma scena... V depressa, homem! - -Com duas pernadas esguias o rapaz recolheu ao seu rancho--onde todos, j -calados, com uma curiosidade de provincia, examinavam aquelle homem de -to alta elegancia que acompanhava o Ega, e que nenhum conhecia. E Ega, -no emtanto, explicava a Carlos as varandas e o grupo: - ---So rapazes do _Turf_. um club novo, o antigo Jockey da travessa da -Palha. Faz-se l uma batotinha barata, tudo gente muito sympathica... E -como vs esto sempre assim preparados, com sanefas e tudo, para se -acaso passar por ahi o Senhor dos Passos. - -Depois, descendo para a rua Nova do Almada, contou o caso da Adosinda. -Fra no Silva, havia duas semanas, estando elle a cear com rapazes -depois de S. Carlos, que lhes apparecera essa mulher inverosimil, -vestida de vermelho, carregando insensatamente nos _rr_, mettendo _rr_ -em todas as palavras, e perguntando pelo snr. _virrsconde_... Qual -_virrsconde_? Ella no sabia bem. _Erra um virrsconde que encontrrrra -no Crrolyseu_. Senta-se, offerecem-lhe champagne, e D. Adosinda comea a -revelar-se um sr prodigioso. Fallavam de politica, do ministerio e do -_deficit_. D. Adosinda declara logo que conhece muito bem o _deficit_, e -que um bello rapaz... O _deficit_ bello rapaz--immensa gargalhada! D. -Adosinda zanga-se, exclama que j fra com elle a Cintra, que um -perfeito cavalheiro, e empregado no Banco Inglez... O _deficit_ -empregado no Banco Inglez--gritos, uivos, urros! E no cessou esta -gargalhada contnua, estrondosa, phrenetica, at s cinco da manh em -que D. Adosinda fra rifada e sahira ao Telles!... Noite soberba! - ---Com effeito, disse Carlos rindo, uma orgia grandiosa, lembra -Heliogabalo e o Conde d'Orsay... - -Ento Ega defendeu calorosamente a sua orgia. Onde havia melhor, na -Europa, em qualquer civilisao? Sempre queria vr que se passasse uma -noite mais alegre em Paris, na desoladora banalidade do _Grand-Treize_, -ou em Londres, n'aquella correcta e massuda semsaboria do _Bristol_! O -que ainda tornava a vida toleravel era de vez em quando uma boa risada. -Ora na Europa o homem requintado j no ri,--sorri regeladamente, -lividamente. S ns aqui, n'este canto do mundo barbaro, conservamos -ainda esse dom supremo, essa coisa bemdita e consoladora--a barrigada de -riso!... - ---Que diabo ests tu a olhar? - -Era o consultorio, o antigo consultorio de Carlos--onde agora, pela -taboleta, parecia existir um pequeno _atelier_ de modista. Ento -bruscamente os dois amigos recahiram nas recordaes do passado. Que -estupidas horas Carlos alli arrastra, com a _Revista dos Dois Mundos_, -na espera v dos doentes, cheio ainda de f nas alegrias do trabalho!... -E a manh em que o Ega l apparecera com a sua esplendida pellia, -preparando-se para transformar, n'um s inverno, todo o velho e -rotineiro Portugal! - ---Em que tudo ficou! - ---Em que tudo ficou! Mas rimos bastante! Lembras-te d'aquella noite em -que o pobre marquez queria levar ao consultorio a Paca, para utilisar -emfim o divan, movel de serralho?... - -Carlos teve uma exclamao de saudade. Pobre marquez! Fra uma das suas -fortes impresses, n'esses ultimos annos--aquella morte do marquez, -sabida de repente ao almoo, n'uma banal noticia de jornal!... E atravs -do Rocio, andando mais devagar, recordavam outros desapparecimentos: a -D. Maria da Cunha, coitada, que acabara hydropica; o D. Diogo, casado -por fim com a cozinheira; o bom Sequeira, morto uma noite n'uma tipoia -ao sahir dos cavallinhos... - ---E outra coisa, perguntou Ega. Tens visto o Craft em Londres? - ---Tenho, disse Carlos. Arranjou uma casa muito bonita ao p de -Richmond... Mas est muito avelhado, queixa-se muito do figado. E, -desgraadamente, carrega de mais nos alcools. uma pena! - -Depois perguntou pelo Taveira. Esse lindo moo, contou o Ega, tinha -agora por cima mais dez annos de Secretaria e de Chiado. Mas sempre -apurado, j um bocado grisalho, mettido continuamente com alguma -hespanhola, dando bastante a lei em S. Carlos, e murmurando todas as -tardes na Havaneza, com um ar dce e contente--isto um paiz perdido! -Enfim um bom typosinho de lisboeta fino. - ---E a besta do Steinbroken? - ---Ministro em Athenas, exclamou Carlos, entre as ruinas classicas! - -E esta ida do Steinbroken, na velha Grecia, divertiu-os infinitamente. -Ega imaginava j o bom Steinbroken, tso nos seus altos collarinhos, -affirmando a respeito de Socrates, com prudencia: Oh, il est trs fort, -il est excessivement fort! Ou ainda, a proposito da batalha das -Thermopylas, rosnando, com medo de se comprometter: C'est trs grave, -c'est excessivement grave! Valia a pena ir Grecia para vr! - -Subitamente Ega parou: - ---Ora ahi tens tu essa Avenida! Hein?... J no mau! - -N'um claro espao rasgado, onde Carlos deixra o Passeio Publico pacato -e frondoso--um obelisco, com borres de bronze no pedestal, erguia um -trao cr d'assucar na vibrao fina da luz de inverno: e os largos -globos dos candieiros que o cercavam, batidos do sol, brilhavam, -transparentes e rutilantes, como grandes bolas de sabo suspensas no ar. -Dos dois lados seguiam, em alturas desiguaes, os pesados predios, lisos -e aprumados, repintados de fresco, com vasos nas cornijas onde -negrejavam piteiras de zinco, e pateos de pedra, quadrilhados a branco e -preto, onde guarda-portes chupavam o cigarro: e aquelles dois hirtos -renques de casas ajanotadas lembravam a Carlos as familias que outr'ora -se immobilisavam em filas, dos dois lados do Passeio, depois da missa -da uma, ouvindo a Banda, com casimiras e sdas, no catitismo -domingueiro. Todo o lagedo reluzia como cal nova. Aqui e alm um arbusto -encolhia na aragem a sua folhagem pallida e rara. E ao fundo a collina -verde, salpicada d'arvores, os terrenos de Valle de Pereiro, punham um -brusco remate campestre quelle curto rompante de luxo barato--que -partira para transformar a velha cidade, e estacra logo, com o flego -curto, entre montes de cascalho. - -Mas um ar lavado e largo circulava; o sol dourava a calia; a divina -serenidade do azul sem igual tudo cobria e adoava. E os dois amigos -sentaram-se n'um banco, junto de uma verdura que orlava a agua d'um -tanque esverdinhada e molle. - -Pela sombra passeavam rapazes, aos pares, devagar, com flres na -lapella, a cala apurada, luvas claras fortemente pespontadas de negro. -Era toda uma gerao nova e miuda que Carlos no conhecia. Por vezes Ega -murmurava um _l!_, acenava com a bengala. E elles iam, repassavam, com -um arzinho timido e contrafeito, como mal acostumados quelle vasto -espao, a tanta luz, ao seu proprio _chic_. Carlos pasmava. Que faziam -alli, s horas de trabalho, aquelles moos tristes, de cala esguia? No -havia mulheres. Apenas n'um banco adiante uma creatura adoentada, de -leno e chale, tomava o sol; e duas matronas, com vidrilhos no -mantelete, donas de casa de hospedes, arejavam um cosinho felpudo. O -que attrahia pois alli aquella mocidade pallida? E o que sobretudo o -espantava eram as botas d'esses cavalheiros, botas despropositadamente -compridas, rompendo para fra da cala collante com pontas aguadas e -reviradas como pras de barcos varinos... - ---Isto phantastico, Ega! - -Ega esfregava as mos. Sim, mas precioso! Porque essa simples frma de -botas explicava todo o Portugal contemporaneo. Via-se por alli como a -coisa era. Tendo abandonado o seu feitio antigo, D. Joo VI, que to -bem lhe ficava, este desgraado Portugal decidira arranjar-se moderna: -mas sem originalidade, sem fora, sem caracter para crear um feitio seu, -um feitio proprio, manda vir modelos do estrangeiro--modelos d'idas, de -calas, de costumes, de leis, d'arte, de cozinha... Smente, como lhe -falta o sentimento da proporo, e ao mesmo tempo o domina a impaciencia -de parecer muito moderno e muito civilisado--exagera o modelo, -deforma-o, estraga-o at caricatura. O figurino da bota que veio de -fra era levemente estreito na ponta;--immediatamente o janota estica-o -e agua-o at ao bico d'alfinete. Por seu lado o escriptor l uma pagina -de Goncourt ou de Verlaine em estylo precioso e -cinzelado;--immediatamente retorce, emmaranha, desengona a sua pobre -phrase at descambar no delirante e no burlesco. Por sua vez o -legislador ouve dizer que l fra se levanta o nivel da -instruco;--immediatamente pe no programma dos exames de primeiras -letras a metaphysica, a astronomia, a philologia, a egyptologia, a -chresmatica, a critica das religies comparadas, e outros infinitos -terrores. E tudo por ahi adiante assim, em todas as classes e -profisses, desde o orador at ao photographo, desde o jurisconsulto at -ao _sportman_... o que succede com os pretos j corrompidos de S. -Thom, que vem os europeus de lunetas--e imaginam que n'isso consiste -ser civilisado e ser branco. Que fazem ento? Na sua sofreguido de -progresso e de brancura acavallam no nariz tres ou quatro lunetas, -claras, defumadas, at de cr. E assim andam pela cidade, de tanga, de -nariz no ar, aos tropees, no desesperado e angustioso esforo de -equilibrarem todos estes vidros--para serem immensamente civilisados e -immensamente brancos... - -Carlos ria: - ---De modo que isto est cada vez peor... - ---Medonho! d'um reles, d'um postio! Sobretudo postio! J no ha nada -genuino n'este miseravel paiz, nem mesmo o po que comemos! - -Carlos, recostado no banco, apontou com a bengala, n'um gesto lento: - ---Resta aquillo, que genuino... - -E mostrava os altos da cidade, os velhos outeiros da Graa e da Penha, -com o seu casario escorregando pelas encostas resequidas e tisnadas do -sol. No cimo assentavam pesadamente os conventos, as igrejas, as -atarracadas vivendas ecclesiasticas, lembrando o frade pingue e -pachorrento, beatas de mantilha, tardes de procisso, irmandades d'opa -atulhando os adros, herva dce juncando as ruas, tremoo e fava-rica -apregoada s esquinas, e foguetes no ar em louvor de Jesus. Mais alto -ainda, recortando no radiante azul a miseria da sua muralha, era o -castello, sordido e tarimbeiro, d'onde outr'ora, ao som do hymno tocado -em fagotes, descia a tropa de cala branca a fazer a _bernarda_! E -abrigados por elle, no escuro bairro de S. Vicente e da S, os palacetes -decrepitos, com vistas saudosas para a barra, enormes brazes nas -paredes rachadas, onde entre a maledicencia, a devoo e a bisca, -arrasta os seus derradeiros dias, cachetica e caturra, a velha Lisboa -fidalga! - -Ega olhou um momento, pensativo: - ---Sim, com effeito, talvez mais genuino. Mas to estupido, to -sebento! No sabe a gente para onde se ha de voltar... E se nos voltamos -para ns mesmos, ainda peor! - -E de repente bateu no joelho de Carlos, com um brilho na face: - ---Espera... Olha quem ahi vem! - -Era uma vittoria, bem posta e correcta, avanando com lentido e estylo, -ao trote esteppado de duas egoas inglezas. Mas foi um desapontamento. -Vinha l smente um rapaz muito louro, d'uma brancura de camelia, com -uma pennugem no beio, languidamente recostado. Fez um aceno ao Ega, com -um lindo sorriso de virgem. A vittoria passou. - ---No conheces? - -Carlos procurava, com uma recordao. - ---O teu antigo doente! O Charlie! - -O outro bateu as mos. O Charlie! O seu Charlie! Como aquillo o fazia -velho!... E era bonitinho! - ---Sim, muito bonitinho. Tem ahi uma amizade com um velho, anda sempre -com um velho... Mas elle vinha decerto com a mi, estou convencido que -ella ficou por ahi a passear a p. Vamos ns vr? - -Subiram ao comprido da Avenida, procurando. E quem avistaram logo foi o -Eusebiosinho. Parecia mais funebre, mais tisico, dando o brao a uma -senhora muito forte, muito crada, que estalava n'um vestido de sda cor -de pinho. Iam devagar, tomando o sol. E o Eusebio nem os viu, descahido -e mollengo, seguindo com as grossas lunetas pretas o marchar lento da -sua sombra. - ---Aquella aventesma a mulher, contou Ega. Depois de varias paixes em -lupanares, o nosso Eusebio teve este namoro. O pai da creatura, que -dono d'um prego, apanhou-o uma noite na escada com ella a surripiar-lhe -uns prazeres... Foi o diabo, obrigaram-no a casar. E desappareceu, no o -tornei a vr... Diz que a mulher que o derreia pancada. - ---Deus a conserve! - ---Amen! - -E ento Carlos, que recordava a coa no Eusebio, o caso da _Corneta_, -quiz saber do Palma Cavallo. Ainda deshonrava o Universo com a sua -presena, esse benemerito? Ainda o deshonrava, disse o Ega. Smente -deixra a litteratura, e tornra-se _factotum_ do Carneiro, o que fra -ministro; levava-lhe a hespanhola ao theatro pelo brao; e era um bom -empenho em politica. - ---Ainda ha de ser deputado, acrescentou Ega. E, da frma que as coisas -vo, ainda ha de ser ministro... E isto est-se fazendo tarde, -Carlinhos. Vamos ns tomar esta tipoia e abalar para o Ramalhete? - -Eram quatro horas, o sol curto de inverno tinha j um tom pallido. - -Tomaram a tipoia. No Rocio, Alencar que passava, que os viu--parou, -sacudiu ardentemente a mo no ar. E ento Carlos exclamou, com uma -surpreza que j o assaltra essa manh no _Braganza_: - ---Ouve c, Ega! Tu agora pareces intimo do Alencar! Que transformao -foi essa? - -Ega confessou que realmente agora apreciava immensamente o Alencar. Em -primeiro logar no meio d'esta Lisboa toda postia, Alencar permanecia o -unico portuguez genuino. Depois, atravs da contagiosa intrujice, -conservava uma honestidade resistente. Alm d'isso havia n'elle -lealdade, bondade, generosidade. O seu comportamento com a sobrinhita -era tocante. Tinha mais cortezia, melhores maneiras que os novos. Um -bocado de piteirice no lhe ia mal ao seu feitio lyrico. E por fim, no -estado a que descambra a litteratura, a versalhada do Alencar tomava -relevo pela correco, pela simplicidade, por um resto de sincera -emoo. Em resumo, um bardo infinitamente estimavel. - ---E aqui tens tu, Carlinhos, a que ns chegamos! No ha nada com efeito -que caracterise melhor a pavorosa decadencia de Portugal, nos ultimos -trinta annos, do que este simples facto: to profundamente tem baixado o -caracter e o talento, que de repente o nosso velho Thomaz, o homem da -_Flr de Martyrio_, o Alencar d'Alemquer, apparece com as propores -d'um Genio e d'um Justo! - -Ainda fallavam de Portugal e dos seus males quando a tipoia parou. Com -que commoo Carlos avistou a fachada severa do Ramalhete, as -janellinhas abrigadas beira do telhado, o grande ramo de girasoes -fazendo painel no logar do escudo d'armas! Ao ruido da carruagem, -Villaa appareceu porta, calando luvas amarellas. Estava mais gordo o -Villaa--e tudo na sua pessoa, desde o chapo novo at ao casto de -prata da bengala, revelava a sua importancia como administrador, quasi -directo senhor durante o longo desterro de Carlos, d'aquella vasta casa -dos Maias. Apresentou logo o jardineiro, um velho, que alli vivia com a -mulher e o filho, guardando o casaro deserto. Depois felicitou-se de -vr emfim os dois amigos juntos. E ajuntou, batendo com carinho familiar -no hombro de Carlos: - ---Pois eu, depois de nos separarmos em Santa Apolonia, fui tomar um -banho ao Central e no me deitei. Olhe que uma grande commodidade o -tal _sleeping-car_! Ah l isso, em progresso, o nosso Portugal j no -est atraz de ninguem!... E v. exc.^a agora precisa de mim? - ---No, obrigado, Villaa. Vamos dar uma volta pelas salas... V jantar -comnosco. s seis! Mas s seis em ponto, que ha petiscos especiaes. - -E os dois amigos atravessaram o perystillo. Ainda l se conservavam os -bancos feudaes de carvalho lavrado, solemnes como coros de cathedral. Em -cima porm a ante-camara entristecia, toda despida, sem um movel, sem um -estofo, mostrando a cal lascada dos muros. Tapearias orientaes que -pendiam como n'uma tenda, pratos mouriscos de reflexos de cobre, a -estatua da _Friorenta_ rindo e arrepiando-se, na sua nudez de marmore, -ao metter o psinho na agua--tudo ornava agora os aposentos de Carlos em -Paris: e outros caixes apilhavam-se a um canto, promptos a embarcar, -levando as melhores faianas da _Toca_. Depois no amplo corredor, sem -tapete, os seus passos soaram como n'um claustro abandonado. Nos quadros -devotos, d'um tom mais negro, destacava aqui e alm, sob a luz escassa, -um hombro descarnado de eremita, a mancha livida d'uma caveira. Uma -friagem regelava. Ega levantra a gola do paletot. - -No salo nobre os moveis de brocado cr de musgo estavam embrulhados em -lenoes d'algodo, como amortalhados, exhalando um cheiro de mumia a -terebinthina e camphora. E no cho, na tela de Constable, encostada -parede, a condessa de Runa, erguendo o seu vestido escarlate de caadora -ingleza, parecia ir dar um passo, sahir do caixilho dourado, para partir -tambem, consummar a disperso da sua raa... - ---Vamos embora, exclamou Ega. Isto est lugubre!... - -Mas Carlos, pallido e calado, abriu adiante a porta do bilhar. Ahi, que -era a maior sala do Ramalhete, tinham sido recentemente accumulados na -confuso das artes e dos seculos, como n'um armazem de _bric--brac_, -todos os moveis ricos da _Toca_. Ao fundo, tapando o fogo, dominando -tudo na sua magestade architectural, erguia-se o famoso armario do tempo -da Liga Hanseatica, com os seus Martes armados, as portas lavradas, os -quatro Evangelistas prgando aos cantos, envoltos n'essas roupagens -violentas que um vento de prophecia parece agitar. E Carlos -immediatamente descobriu um desastre na cornija, nos dois faunos que -entre trophos agricolas tocavam ao desafio. Um partira o seu p de -cabra, outro perdera a sua frauta bucolica... - ---Que brutos! exclamou elle furioso, ferido no seu amor da coisa d'arte. -Um movel d'estes!... - -Trepou a uma cadeira para examinar os estragos. E Ega, no emtanto, -errava entre os outros moveis, cofres nupciaes, contadores hespanhoes, -bufetes da Renascena italiana, recordando a alegre casa dos Olivaes que -tinham ornado, as bellas noites de cavaco, os jantares, os foguetes -atirados em honra de Leonidas... Como tudo passra! De repente deu com o -p n'uma caixa de chapo sem tampa, atulhada de coisas velhas--um vo, -luvas desirmanadas, uma meia de sda, fitas, flres artificiaes. Eram -objectos de Maria, achados n'algum canto da _Toca_, para alli atirados, -no momento de se esvaziar a casa! E, coisa lamentavel, entre estes -restos d'ella, misturados como na promiscuidade d'um lixo, apparecia uma -chinela de velludo bordada a matiz, uma velha chinela de Affonso da -Maia! Ega escondeu a caixa rapidamente debaixo d'um pedao solto de -tapearia. Depois, como Carlos saltava da cadeira, sacudindo as mos, -ainda indignado, Ega apressou aquella peregrinao, que lhe estragava a -alegria do dia. - ---Vamos ao terrao! D-se um olhar ao jardim, e abalamos! - -Mas deviam atravessar ainda a memoria mais triste, o escriptorio de -Affonso da Maia. A fechadura estava prra. No esforo de abrir a mo de -Carlos tremia. E Ega, commovido tambem, revia toda a sala tal como -outr'ora, com os seus candieiros Carcel dando um tom cr de rosa, o lume -crepitando, o reverendo Bonifacio sobre a pelle d'urso, e Affonso na sua -velha poltrona, de casaco de velludo, sacudindo a cinza do cachimbo -contra a palma da mo. A porta cedeu: e toda a emoo de repente findou, -na grutesca, absurda surpreza de romperem ambos a espirrar, -desesperadamente, suffocados pelo cheiro acre d'um p vago que lhes -picava os olhos, os estonteava. Fra o Villaa, que, seguindo uma -receita d'almanach, fizera espalhar s mos cheias, sobre os moveis, -sobre os lenoes que os resguardavam, camadas espessas de pimenta -branca! E estrangulados, sem vr, sob uma nevoa de lagrimas, os dois -continuavam, um defronte do outro, em espirros afflictivos que os -desengonavam. - -Carlos por fim conseguiu abrir largamente as duas portadas d'uma -janella. No terrao morria um resto de sol. E, revivendo um pouco ao ar -puro, alli ficaram de p, calados, limpando os olhos, sacudidos ainda -por um ou outro espirro retardado. - ---Que infernal inveno! exclamou Carlos, indignado. - -Ega, ao fugir com o leno na face, tropera, batera contra um sof, -coava a canella: - ---Estupida coisa! E que bordoada que eu dei!... - -Voltou a olhar para a sala, onde todos os moveis desappareciam sob os -largos sudarios brancos. E reconheceu que tropera na antiga almofada -de velludo do velho Bonifacio. Pobre Bonifacio! Que fra feito d'elle? - -Carlos, que se sentra no parapeito baixo do terrao, entre os vasos sem -flr, contou o fim do reverendo Bonifacio. Morrera em Santa Olavia, -resignado, e to obeso que se no movia. E o Villaa, com uma ida -poetica, a unica da sua vida de procurador, mandra-lhe fazer um -mausolo, uma simples pedra de marmore branco, sob uma roseira, debaixo -das janellas do quarto do av. - -Ega sentra-se tambem no parapeito, ambos se esqueceram n'um silencio. -Em baixo o jardim, bem areado, limpo e frio na sua nudez d'inverno, -tinha a melancolia de um retiro esquecido que j ninguem ama: uma -ferrugem verde de humidade cobria os grossos membros da Venus Citherea; -o cypreste e o cedro envelheciam juntos como dois amigos n'um ermo; e -mais lento corria o prantosinho da cascata, esfiado saudosamente gotta a -gotta na bacia de marmore. Depois ao fundo, encaixilhada como uma tela -marinha nas cantarias dos dois altos predios, a curta paizagem do -Ramalhete, um pedao de Tejo e monte, tomava n'aquelle fim de tarde um -tom mais pensativo e triste: na tira de rio um paquete fechado, -preparado para a vaga, ia descendo, desapparecendo logo, como j -devorado pelo mar incerto; no alto da collina o moinho parra, transido -na larga friagem do ar; e nas janellas das casas beira d'agua um raio -de sol morria, lentamente sumido, esvado na primeira cinza do -crepusculo, como um resto d'esperana n'uma face que se anuvia. - -Ento, n'aquella mudez de soledade e d'abandono, Ega, com os olhos para -o longe, murmurou devagar: - ---Mas tu d'esse casamento no tinhas a menor indicao, a menor -suspeita? - ---Nenhuma... Soube-o de repente pela carta d'ella em Sevilha. - -E era esta a formidavel nova annunciada por Carlos, a nova que elle logo -contra de madrugada ao Ega, depois dos primeiros abraos, em Santa -Apolonia. Maria Eduarda ia casar. - -Assim o annuncira ella a Carlos n'uma carta muito simples, que elle -recebera na quinta dos Villa-Medina. Ia casar. E no parecia ser uma -resoluo tomada arrebatadamente sob um impulso do corao; mas antes um -proposito lento, longamente amadurecido. Ella alludia n'essa carta a ter -pensado muito, reflectido muito... De resto o noivo devia ir perto dos -cincoenta annos. E Carlos portanto via alli a unio de dois sres -desilludidos da vida, maltratados por ella, cansados ou assustados do -seu isolamento, que, sentindo um no outro qualidades srias de corao e -de espirito, punham em commum o seu resto de calor, d'alegria e de -coragem para affrontar juntos a velhice... - ---Que idade tem ella? - -Carlos pensava que ella devia ter quarenta e um ou quarenta e dois -annos. Ella dizia na carta sou apenas mais nova que o meu noivo seis -annos e tres mezes. Elle chamava-se Mr. de Trelain. E era evidentemente -um homem d'espirito largo, desembaraado de prejuizos, d'uma -benevolencia quasi misericordiosa, porque quizera Maria, conhecendo bem -os seus erros. - ---Sabe tudo? exclamou Ega, que saltra do parapeito. - ---Tudo no. Ella diz que Mr. de Trelain conhecia do seu passado todos -aquelles erros em que ella cahira inconscientemente. Isto d a entender -que no sabe tudo... Vamos andando, que se faz tarde, e quero ainda vr -os meus quartos. - -Desceram ao jardim. Um momento seguiram calados pela alea onde cresciam -outr'ora as roseiras de Affonso. Sob as duas olaias ainda existia o -banco de cortia; Maria sentra-se alli, na sua visita ao Ramalhete, a -atar n'um ramo flres que ia levar como reliquia. Ao passar Ega cortou -uma pequenina margarida que ainda floria solitariamente. - ---Ella contina a viver em Orlans, no verdade? - -Sim, disse Carlos, vivia ao p d'Orlans, n'uma quinta que l comprra, -chamada _Les Rosires_. O noivo devia habitar nos arredores algum -pequeno _chteau_. Ella chamava-lhe visinho. E era naturalmente um -_gentilhomme campagnard_, de familia sria, com fortuna... - ---Ella s tem o que tu lhe ds, est claro. - ---Creio que te mandei contar tudo isso, murmurou Carlos. Emfim ella -recusou-se a receber parte alguma da sua herana... E o Villaa arranjou -as coisas por meio d'uma doao que lhe fiz, correspondente a doze -contos de reis de renda... - --- bonito. Ella fallava de Rosa na carta? - ---Sim, de passagem, que ia bem... Deve estar uma mulher. - ---E bem linda! - -Iam subindo a escadinha de ferro torneada que levava do jardim aos -quartos de Carlos. Com a mo na porta da vidraa, Ega parou ainda, n'uma -derradeira curiosidade: - ---E que effeito te fez isso? - -Carlos accendia o charuto. Depois atirando o phosphoro por cima da -varandinha de ferro onde uma trepadeira se enlaava: - ---Um effeito de concluso, de absoluto remate. como se ella morresse, -morrendo com ella todo o passado, e agora renascesse sob outra frma. J -no Maria Eduarda. Madame de Trelain, uma senhora franceza. Sob este -nome, tudo o que houve fica sumido, enterrado a mil braas, findo para -sempre, sem mesmo deixar memoria... Foi o effeito que me fez. - ---Tu nunca encontraste em Paris o snr. Guimares? - ---Nunca. Naturalmente morreu. - -Entraram no quarto. Villaa, na supposio de Carlos vir para o -Ramalhete, mandra-o preparar; e todo elle regelava--com o marmore das -commodas espanejado e vazio, uma vela intacta n'um castial solitario, a -colcha de fusto vincada de dobras sobre o leito sem cortinados. Carlos -pousou o chapo e a bengala em cima da sua antiga mesa de trabalho. -Depois, como dando um resumo: - ---E aqui tens tu a vida, meu Ega! N'este quarto, durante noites, soffri -a certeza de que tudo no mundo acabra para mim... Pensei em me matar. -Pensei em ir para a Trappa. E tudo isto friamente, com uma concluso -logica. Por fim dez annos passaram, e aqui estou outra vez... - -Parou diante do alto espelho suspenso entre as duas columnas de carvalho -lavrado, deu um geito ao bigode, concluiu, sorrindo melancolicamente: - ---E mais gordo! - -Ega espalhava tambem pelo quarto um olhar pensativo: - ---Lembras-te quando appareci aqui uma noite, n'uma agonia, vestido de -Mephistopheles? - -Ento Carlos teve um grito. E a Rachel, verdade! A Rachel? Que era -feito da Rachel, esse lirio d'Israel? - -Ega encolheu os hombros: - ---Para ahi anda, estuporada... - -Carlos murmurou--coitada! E foi tudo o que disseram sobre a grande -paixo romantica do Ega. - -Carlos no emtanto fra examinar, junto da janella, um quadro que pousava -no cho, para alli esquecido e voltado para a parede. Era o retrato do -pai, de Pedro da Maia, com as suas luvas de camura na mo, os grandes -olhos arabes na face triste e pallida que o tempo amarellra mais. -Collocou-o em cima d'uma commoda. E atirando-lhe uma leve sacudidella -com o leno: - ---No ha nada que me faa mais pena do que no ter um retrato do av!... -Em todo o caso este sempre o vou levar para Paris. - -Ento Ega perguntou, do fundo do sof onde se enterrra, se, n'esses -ultimos annos, elle no tivera a ida, o vago desejo de voltar para -Portugal... - -Carlos considerou Ega com espanto. Para que? Para arrastar os passos -tristes desde o Gremio at Casa Havaneza? No! Paris era o unico logar -da terra congenere com o typo definitivo em que elle se fixra:--o -homem rico que vive bem. Passeio a cavallo no Bois; almo no Bignon; -uma volta pelo _boulevard_; uma hora no club com os jornaes; um bocado -de florete na sala d'armas; noite a _Comdie Franaise_ ou uma -_soire_; Trouville no vero, alguns tiros s lebres no inverno; e -atravs do anno as mulheres, as corridas, certo interesse pela sciencia, -o _bric--brac_, e uma pouca de _blague_. Nada mais inoffensivo, mais -nullo, e mais agradavel. - ---E aqui tens tu uma existencia d'homem! Em dez annos no me tem -succedido nada, a no ser quando se me quebrou o phaeton na estrada de -Saint-Cloud... Vim no _Figaro_. - -Ega ergueu-se, atirou um gesto desolado: - ---Falhmos a vida, menino! - ---Creio que sim... Mas todo o mundo mais ou menos a falha. Isto , -falha-se sempre na realidade aquella vida que se planeou com a -imaginao. Diz-se: vou ser assim, porque a belleza est em ser assim. -E nunca se assim, -se invariavelmente _assado_, como dizia o pobre -marquez. s vezes melhor, mas sempre differente. - -Ega concordou, com um suspiro mudo, comeando a calar as luvas. - -O quarto escurecia no crepusculo frio e melancolico d'inverno. Carlos -pz tambem o chapo: e desceram pelas escadas forradas de velludo cr de -cereja, onde ainda pendia, com um ar bao de ferrugem, a panoplia de -velhas armas. Depois na rua Carlos parou, deu um longo olhar ao sombrio -casaro, que n'aquella primeira penumbra tomava um aspecto mais -carregado de residencia ecclesiastica, com as suas paredes severas, a -sua fila de janellinhas fechadas, as grades dos postigos terreos cheias -de treva, mudo, para sempre deshabitado, cobrindo-se j de tons de -ruina. - -Uma commoo passou-lhe n'alma, murmurou, travando do brao do Ega: - --- curioso! S vivi dois annos n'esta casa, e n'ella que me parece -estar mettida a minha vida inteira! - -Ega no se admirava. S alli no Ramalhete elle vivera realmente -d'aquillo que d sabr e relevo vida--a paixo. - ---Muitas outras coisas do valor vida... Isso uma velha ida de -romantico, meu Ega! - ---E que somos ns? exclamou Ega. Que temos ns sido desde o collegio, -desde o exame de latim? Romanticos: isto , individuos inferiores que se -governam na vida pelo sentimento e no pela razo... - -Mas Carlos queria realmente saber se, no fundo, eram mais felizes esses -que se dirigiam s pela razo, no se desviando nunca d'ella, -torturando-se para se manter na sua linha inflexivel, sccos, hirtos, -logicos, sem emoo at ao fim... - ---Creio que no, disse o Ega. Por fra, vista, so desconsoladores. E -por dentro, para elles mesmos, so talvez desconsolados. O que prova que -n'este lindo mundo ou tem de se ser insensato ou semsabor... - ---Resumo: no vale a pena viver... - ---Depende inteiramente do estomago! atalhou Ega. - -Riram ambos. Depois Carlos, outra vez srio, deu a sua theoria da vida, -a theoria definitiva que elle deduzira da experiencia e que agora o -governava. Era o fatalismo musulmano. Nada desejar e nada recear... No -se abandonar a uma esperana--nem a um desapontamento. Tudo aceitar, o -que vem e o que foge, com a tranquillidade com que se acolhem as -naturaes mudanas de dias agrestes e de dias suaves. E, n'esta placidez, -deixar esse pedao de materia organisada, que se chama o Eu, ir-se -deteriorando e decompondo at reentrar e se perder no infinito -Universo... Sobretudo no ter appetites. E, mais que tudo, no ter -contrariedades. - -Ega, em summa, concordava. Do que elle principalmente se convencera, -n'esses estreitos annos de vida, era da inutilidade de todo o esforo. -No valia a pena dar um passo para alcanar coisa alguma na -terra--porque tudo se resolve, como j ensinra o sabio do -_Ecclesiastes_, em desilluso e poeira. - ---Se me dissessem que alli em baixo estava uma fortuna como a dos -Rothschilds ou a cora imperial de Carlos V, minha espera, para serem -minhas se eu para l corresse, eu no apressava o passo... No! No -sahia d'este passinho lento, prudente, correcto, seguro, que o unico -que se deve ter na vida. - ---Nem eu! acudiu Carlos com uma convico decisiva. - -E ambos retardaram o passo, descendo para a rampa de Santos, como se -aquelle fosse em verdade o caminho da vida, onde elles, certos de s -encontrar ao fim desilluso e poeira, no devessem jmais avanar seno -com lentido e desdem. J avistavam o Aterro, a sua longa fila de luzes. -De repente Carlos teve um largo gesto de contrariedade: - ---Que ferro! E eu que vinha desde Paris com este appetite! Esqueci-me de -mandar fazer hoje para o jantar um grande prato de paio com ervilhas. - -E agora j era tarde, lembrou Ega. Ento Carlos, at ahi esquecido em -memorias do passado e syntheses da existencia, pareceu ter -inesperadamente consciencia da noite que cahira, dos candieiros accsos. -A um bico de gaz tirou o relogio. Eram seis e um quarto! - ---Oh, diabo!... E eu que disse ao Villaa e aos rapazes para estarem no -_Braganza_ pontualmente s seis! No apparecer por ahi uma tipoia!... - ---Espera! exclamou Ega. L vem um americano, ainda o apanhamos. - ---Ainda o apanhamos! - -Os dois amigos lanaram o passo, largamente. E Carlos, que arrojra o -charuto, ia dizendo na aragem fina e fria que lhes cortava a face: - ---Que raiva ter esquecido o paiosinho! Emfim, acabou-se. Ao menos -assentamos a theoria definitiva da existencia. Com effeito, no vale a -pena fazer um esforo, correr com ancia para coisa alguma... - -Ega, ao lado, ajuntava, offegante, atirando as pernas magras: - ---Nem para o amor, nem para a gloria, nem para o dinheiro, nem para o -poder... - -A lanterna vermelha do americano, ao longe, no escuro, parra. E foi -em Carlos e em Joo da Ega uma esperana, outro esforo: - ---Ainda o apanhamos! - ---Ainda o apanhamos! - -De novo a lanterna deslisou e fugiu. Ento, para apanhar o americano, -os dois amigos romperam a correr desesperadamente pela rampa de Santos e -pelo Aterro, sob a primeira claridade do luar que subia. - -FIM DO SEGUNDO VOLUME - - - - -Lista de erros corrigidos - - -Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos: - -+-----------+-------------------------+---------------------------+ -| | Original | Correco | -+-----------+-------------------------+---------------------------+ -| Vol I. | | | -| | | | -| #pg. 11 | d'um planta | d'uma planta | -| #pg. 25 | n'eses | n'esse | -| #pg. 64 | dehruando-se | debruando-se | -| #pg. 71 | mesmo olhos | mesmos olhos | -| #pg. 82 | o o que | o que | -| #pg. 151 | appproximava | approximava | -| #pg. 220 | ningnem | ninguem | -| #pg. 222 | pararello | paralello | -| #pg. 290 | quas? | quasi | -| #pg. 326 | pohre | pobre | -| #pg. 345 | extraordinrio | extraordinario | -| #pg. 416 | luvar | luvas | -| #pg. 423 | hespanhla | hespanhola | -| #pg. 428 | o os deus | e os seus | -| | | | -| Vol II. | | | -| | | | -| #pg. 84 | ?uvas | luvas | -| #pg. 276 | o o monoculo | o monoculo | -| #pg. 324 | a? suissas | as suissas | -| #pg. 343 | n'um voz | n'uma voz | -| #pg. 432 | moresse | morresse | -| #pg. 456 | Celerico | Celorico | -| #pg. 475 | n'um longa | n'uma longa | -+-----------+-------------------------+---------------------------+ - -As variaes de vv (vvo ou vov) foram mantidas de acordo com o -original. As variaes de nomes prprios foram mantidas de acordo -com o original. - -No original esto presentes dois captulos VII (no volume I), -rectificados nesta verso. - -No volume II verificamos que se passa do captulo IV para o VII e -a numerao dos captulos fica alterada a partir desse momento. -Uma vez que no h pginas em falta, rectificmos nesta verso. - - - - - -End of the Project Gutenberg EBook of Os Maias, by Jos Maria Ea de Queirs - -*** END OF THIS PROJECT GUTENBERG EBOOK OS MAIAS *** - -***** This file should be named 40409-8.txt or 40409-8.zip ***** -This and all associated files of various formats will be found in: - http://www.gutenberg.org/4/0/4/0/40409/ - -Produced by Rita Farinha, Alberto Manuel Brando Simes, -Graa Horta and the Online Distributed Proofreading Team -at http://www.pgdp.net (This file was produced from images -generously made available by National Library of Portugal -(Biblioteca Nacional de Portugal) and Biblioteca Dulce -Ferro -- Biblioteca-Museu Repblica e Resistncia.) - - -Updated editions will replace the previous one--the old editions -will be renamed. - -Creating the works from public domain print editions means that no -one owns a United States copyright in these works, so the Foundation -(and you!) can copy and distribute it in the United States without -permission and without paying copyright royalties. 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Newby - Chief Executive and Director - gbnewby@pglaf.org - -Section 4. Information about Donations to the Project Gutenberg -Literary Archive Foundation - -Project Gutenberg-tm depends upon and cannot survive without wide -spread public support and donations to carry out its mission of -increasing the number of public domain and licensed works that can be -freely distributed in machine readable form accessible by the widest -array of equipment including outdated equipment. Many small donations -($1 to $5,000) are particularly important to maintaining tax exempt -status with the IRS. - -The Foundation is committed to complying with the laws regulating -charities and charitable donations in all 50 states of the United -States. Compliance requirements are not uniform and it takes a -considerable effort, much paperwork and many fees to meet and keep up -with these requirements. We do not solicit donations in locations -where we have not received written confirmation of compliance. 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Hart was the originator of the Project Gutenberg-tm -concept of a library of electronic works that could be freely shared -with anyone. For forty years, he produced and distributed Project -Gutenberg-tm eBooks with only a loose network of volunteer support. - -Project Gutenberg-tm eBooks are often created from several printed -editions, all of which are confirmed as Public Domain in the U.S. -unless a copyright notice is included. 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